Desconsideração de Fundos Imobiliários
Desconsideração de Fundos Imobiliários
2430
MINISTÉRIO DA ECONOMIA
8
Conselho Administrativo de Recursos Fiscais
1-6
S2-C 3T1
02
/2
Processo nº 10580.731272/2021-68
2 72
Recurso Voluntário
3 1
Acórdão nº
8 0.7 / 1ª Turma Ordinária
2301-011.267 – 2ª Seção de Julgamento / 3ª Câmara
5
Sessão de 07 de maio de 2024
10
Recorrente EDUARDO DE SOUZA RAMOS
S SO
Interessado FAZENDA NACIONAL
C E
R O
P
ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO
F 2018, 2019
R
Ano-calendário: 2016, 2017,
FATOS PASSADOS.- CA REPERCUSSÃO EM EXERCÍCIOS FUTUROS.
D POSSIBILIDADE. DECADÊNCIA. NÃO APLICÁVEL.
FISCALIZAÇÃO.
G
P está sujeito à fiscalização de fatos ocorridos em períodos
O contribuinte
O
N ainda que não seja mais possível efetuar exigência tributária, em face
passados,
D O decadência, quando eles repercutam em exercícios futuros, pois o
da
GE
à O ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA (IRPF)
Original
DF CARF MF Fl. 2431
Fl. 2 do Acórdão n.º 2301-011.267 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária
Processo nº 10580.731272/2021-68
Relatório
Original
DF CARF MF Fl. 2432
Fl. 3 do Acórdão n.º 2301-011.267 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária
Processo nº 10580.731272/2021-68
3.1. Compete à CVM regular os fundos de investimento (Código Civil, art. 1.368-C, §
2º) e que, no caso, a formação do FII BRISA e as suas características se enquadram nas
regras editadas pela autarquia.
3.1.1 Foi constituído por FIM previamente existente, com recursos recebidos do
IMPUGNANTE, por ser veículo consolidador de investimentos em diferentes classes de
ativos, nos termos da IN CVM 555/14.
3.1.2 Adquiriu empresas imobiliárias que eram investidas por CERFCO PART. - detida
pelo IMPUGNANTE -, em linha com a IN CVM 472/08, que é expressa em autorizar
negócio com o cotista ou com empresa por ele controlada.
3.1.4 Admite e define como “fundo exclusivo” o veículo de investimento que tenha
único cotista (IN CVM 472/08).
3.1.5 Autoriza que a carteira seja composta por imóveis que eram de investidas indiretas
do cotista (IN CVM 472/08).
3.2 O FII BRISA foi formado para atender diferentes objetivos simultâneos e que se
buscava separar a operação com lajes corporativas das demais locações comerciais e
residenciais para melhor controlar o retorno do investimento, contar com administrador
independente e preservar o patrimônio para a sucessão entre os herdeiros. Tudo isso sem
descuidar da avaliação do regime fiscal aplicável.
Tais propósitos explicariam também porque o FII BRISA foi constituído tendo como
cotista único um fundo multimercado (FIM ARACATI e depois FIM BRISA), que
detém as suas cotas e as cotas de outros fundos que aplicam em diferentes ativos
(“fundo consolidador”).
3.3. A legislação fiscal (Lei 9.779/99, arts. 1' e 2') enumera os tipos de fundos
imobiliários para os quais se nega o tratamento tributário próprio da figura por
considerá-los abusivos. O caso concreto não se insere dentre eles.
3.4. Há normas tributárias que garantem: (a) a isenção dos rendimentos de fundo
multimercado que investem em outros fundos, incluindo o fundo imobiliário (IN RFB
1.585/15, art. 14); e (b) que o cotista de fundo fechado (como o multimercado do
IMPUGNANTE) só será tributado quando os rendimentos lhe forem disponibilizados
(IN RFB 1.585/15, art. 16).
Não por acaso o Fisco em pelo menos duas oportunidades (MP 806/17 e PL 2.337/21)
já procurou o Legislativo para mudar tal regramento legal sem sucesso até o momento.
Sendo assim, era vedado à fiscalização afastar unilateralmente as regras vigentes para
adotar a sistemática perseguida com a mudança legislativa e de modo unilateral e
retroativo como feito.
Original
DF CARF MF Fl. 2433
Fl. 4 do Acórdão n.º 2301-011.267 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária
Processo nº 10580.731272/2021-68
3.5. Caso fosse possível a desconsideração do FII BRISA ao argumento de que teria
sido formado para diferir a tributação de rendas de aluguel dos imóveis que passaram
para a sua titularidade, a requalificação necessária levaria à atribuição de tais valores à
CERFCO PART., por ter sido quem transmitiu tais propriedades ao fundo.
3.6. Se o quanto acima pudesse ser superado, o que se admite para argumentar, ainda
assim o trabalho fiscal se mostra equivocado. Isso porque se limitou a desconsiderar
para fins fiscais o FII BRISA, não procedendo do mesmo modo em relação ao fundo
multimercado que detinha as suas cotas (FIMs ARACATI e BRISA que o sucedeu).
Como o cotista era o fundo fechado multimercado, isso significava que os alugueis
deveriam ter sido tratados como isentos - regramento cabível ao FIM ARACATI e ao
FIM BRISA, cf. IN RFB 1.585/15, art. 14 - e só poderiam ser tributados no seu
investidor (IMPUGNANTE) caso tivesse promovido a sua distribuição (cf. IN RFB
1.585/15, art. 16), o que não ocorreu.
3.7. A insurgência fiscal foi dirigida aos eventos de formação do FII BRISA. Estes se
deram em 2014, período já alcançado pela decadência. Por isso era vedado à
fiscalização em 2021 objetar os atos de formação do FII BRISA, ainda que visando com
isso impor exigências relacionadas aos resultados de 2016 a 2019, sob o pretexto de que
os últimos ainda não teriam sido alcançados pelo lustro decadencial.
3.9. Em todo caso, deve ser afastada a multa de 150% por inexistir instrumento
fraudulento que autorize a sua qualificação. Os atos praticados se deram com a
publicidade própria, mediante registro em diferentes órgãos públicos, seguindo as regras
do regulador da matéria (CVM).
Assim, ainda que se aceite terem proporcionado vantagem fiscal, quando muito, se
qualificam como elisão, jamais como evasão, única hipótese em que caberia a
duplicação da penalidade.
O Acórdão apreciou a impugnação (e-fls. 2327 a 2339) e decidiu por não acolher
os argumentos.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Nos lançamentos por homologação, o prazo decadencial começa a fluir a partir do fato
gerador.
Original
DF CARF MF Fl. 2434
Fl. 5 do Acórdão n.º 2301-011.267 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária
Processo nº 10580.731272/2021-68
Impugnação Improcedente
É o relatório.
Voto
Admissão do Recurso
Original
DF CARF MF Fl. 2435
Fl. 6 do Acórdão n.º 2301-011.267 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária
Processo nº 10580.731272/2021-68
Preliminar
O recorrente requer a anulação da decisão de piso sob o argumento que não teria
se pronunciado sobre todos os argumentos trazidos na impugnação, principalmente sobre a
regularidade de formação e características dos Fundos de Investimento. Cita julgados do CARF
que reconhecendo omissão da decisão, anulam a decisão.
Não é o caso.
(...)
O Tribunal de origem não precisaria refutar, um a um, todos os argumentos
elencados pela parte ora agravante, mas apenas decidir as questões postas.
Portanto, ainda que não tenha se referido expressamente a todas as teses de defesa, as
matérias que foram devolvidas à apreciação da Corte a quo estão devidamente
apreciadas.
É cediço, no STJ, que o juiz não fica obrigado a manifestar-se sobre todas as
alegações das partes, nem a ater-se aos fundamentos indicados por elas ou a
responder, um a um, a todos os seus argumentos, quando já encontrou motivo
suficiente para fundamentar a decisão, o que de fato ocorreu.
Ressalte-se, ainda, que cabe ao magistrado decidir a questão de acordo com o seu livre
convencimento, utilizando-se dos fatos, das provas, da jurisprudência, dos aspectos
pertinentes ao tema e da legislação que entender aplicável ao caso concreto.
Nessa linha de raciocínio, o disposto no art. 131 do Código de Processo Civil: "Art. 131.
Original
DF CARF MF Fl. 2436
Fl. 7 do Acórdão n.º 2301-011.267 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária
Processo nº 10580.731272/2021-68
(...)
O julgador não é obrigado a se manifestar sobre todas as alegações das partes, nem a se
ater-se aos fundamentos indicados por elas ou a se manifestar acerca de todos os
argumentos presentes na lide, quando já encontrou motivo suficiente para fundamentar a
decisão
Decadência
Original
DF CARF MF Fl. 2437
Fl. 8 do Acórdão n.º 2301-011.267 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária
Processo nº 10580.731272/2021-68
Ano-calendário: 2002
A verificação pode e deve alcançar todo o período que participou para a formação
do indébito. O mesmo raciocínio se aplica na compensação de Saldo Negativo de IRPJ.
ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA (IRPJ)
Exercício: 2003
Original
DF CARF MF Fl. 2438
Fl. 9 do Acórdão n.º 2301-011.267 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária
Processo nº 10580.731272/2021-68
(...)
Demais preliminares
Mérito
O CTN prevê no art. 149 prevê as hipóteses de lançamento de oficio, entre eles,
quando comprovado o uso de dolo, fraude ou simulação.
Original
DF CARF MF Fl. 2439
Fl. 10 do Acórdão n.º 2301-011.267 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária
Processo nº 10580.731272/2021-68
tem aparência de legalidade, todavia, em uma analise mais apurada se verifica a atipicidade do
negócio jurídico, o uso de grande dose de artificialidade e a clara distorção das finalidades da
norma tributária. Essa prática pode ser denominada de elusão ou elisão ineficaz.
Nosso Código Civil prevê formas de se lidar com a “infração a lei” e disciplina a
nulidade absoluta do negócio jurídico nas hipótese do art. 166 e na ocorrência da simulação, de
acordo com o conceito do art. 167. Também trata da nulidade relativa, nos termos do art.
[Link], a declaração dessa nulidades só se realiza pela intervenção de um juiz (art. 168) e
tem como efeito excluir todo o ato posterior e restabelecer a situação anterior a nulidade.
A norma tributária conta com diversas regras que visam fechar brechas legais de
planejamento tributário abusivo, todavia, não é factível acreditar que o direito positivo é capaz
de prever todas as formas de simulação e dissimulação possíveis e positivar em regras
específicas, aí surge a necessidade de uma norma geral, a servir de norte ao combate da elusão.
Até a 2001, o sistema tributário brasileiro não contava com essa norma geral
todavia, a alteração da LC nº 104, adicionou o parágrafo único no art. 116 do CTN:
Art. 116. Salvo disposição de lei em contrário, considera-se ocorrido o fato gerador e
existentes os seus efeitos:
Houve inúmeras críticas a alteração legislativa, que foi inclusive objeto de Ação
Direta de Inconstitucionalidade, ADI nº 2446 DF, questionando que violaria, entre outros, o
princípio da legalidade, da tipicidade segurança nas relações jurídicas. O julgamento no Supremo
Original
DF CARF MF Fl. 2440
Fl. 11 do Acórdão n.º 2301-011.267 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária
Processo nº 10580.731272/2021-68
Faz-se necessária, assim, a configuração de fato gerador que, por óbvio, além de estar
devidamente previsto em lei, já tenha efetivamente se materializado, fazendo surgir a
obrigação tributária
O parágrafo único do art. 116 do Código não autoriza, ao contrário do que argumenta a
autora, “a tributação com base na intenção do que poderia estar sendo supostamente
encoberto por um forma jurídica, totalmente legal, mas que estaria ensejando
pagamento de imposto menor, tributando mesmo que não haja lei para caracterizar tal
fato gerador” (fl. 3, e-doc. 2, grifos originais).
Tem-se, pois, que a norma impugnada visa conferir máxima efetividade não apenas
ao princípio da legalidade tributária mas também ao princípio da lealdade
tributária.
Original
DF CARF MF Fl. 2441
Fl. 12 do Acórdão n.º 2301-011.267 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária
Processo nº 10580.731272/2021-68
MULTA QUALIFICADA.
Não restando comprovada nos autos a conduta dolosa, com evidente intuito de fraude,
do contribuinte, é aplicável a multa no percentual de 75%, nos termos do § 1º, do artigo
44, da Lei nº 9.430/96.
Original
DF CARF MF Fl. 2442
Fl. 13 do Acórdão n.º 2301-011.267 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária
Processo nº 10580.731272/2021-68
A IN SRF nº 1585, de 2015 estabelece como deve ser feita a distribuição dos
lucros dos fundos:
“Art. 35. Os fundos de investimento imobiliário, instituídos pela Lei n° 8.668, de 25 de
junho de 1993, deverão distribuir a seus cotistas, no mínimo, 95% (noventa e cinco
por cento) dos lucros auferidos, apurados segundo o regime de caixa, com base em
balanço ou balancete semestral encerrado em 30 de junho e 31 de dezembro de cada
ano.
§1° Os lucros de que trata este artigo, quando distribuídos a qualquer beneficiário,
inclusive pessoa jurídica isenta, sujeitam-se à incidência do imposto sobre a renda na
fonte à alíquota de 20% (vinte por cento), ressalvado o disposto no §2°. §2° Os lucros
acumulados até 31 de dezembro de 1998 sujeitam-se à incidência do imposto sobre a
renda na fonte à alíquota de 25% (vinte e cinco por cento).
§3° O imposto de que trata este artigo será recolhido até o último dia útil do mês
subsequente ao do encerramento do período de apuração.”
Fundo exclusivo
§ 2º O disposto no § 1º não se aplica caso o fundo exclusivo tenha como cotista outro
fundo de investimento que não esteja autorizado a utilizar a faculdade prevista no § 1º
do art. 16.
O art. 2º da Lei nº 9.779, de 1999, prevê uma regra antielusiva específica para
fundo de investimento imobiliário, aplicável a cotista único de fundo que também for o
controlador de empresa participante do empreendimento imobiliário:
Original
DF CARF MF Fl. 2443
Fl. 14 do Acórdão n.º 2301-011.267 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária
Processo nº 10580.731272/2021-68
Parágrafo único. Para efeito do disposto neste artigo, considera-se pessoa ligada ao
quotista:
I-pessoa física:
b)a empresa sob seu controle ou de qualquer de seus parentes até o segundo grau;
II-pessoa jurídica, a pessoa que seja sua controladora, controlada ou coligada, conforme
definido nos§§ 1oe 2odo art. 243 da Lei no6.404, de 15 de dezembro de 1976.
Ocorre que, como já dito, a legislação positiva não tem como abranger a
totalidade de situações de “potencial” planejamento tributário abusivo.
Interessante citar que o recurso traz a notícia de duas alterações legislativas que
não foram levadas a diante: o Projeto de Lei nº 2.237, de 2021 e a MP 806, de 2017. Os projetos
criavam figura do “come-cotas, que nada mais é que a tributação pelo IRRF de forma periódica
dos fundos de investimento, independentemente da distribuição de valores:
Com efeito, em 2017, a MP 806 previu que os rendimentos de fundos fechados - a
exemplo do FIM ARACATI e do FIM BRISA - passariam a ser tributados como
distribuídos aos cotistas regularmente pelo “come-cotas”, independentemente de
distribuição dos valores que auferissem. Conforme constou da Exposição de Motivos, o
propósito era “reduzir as distorções existentes entre as aplicações em fundos de
investimento e aumentar a arrecadação federal por meio da tributação dos rendimentos
acumulados pelas carteiras de fundos de investimento constituídos sob a forma de
condomínio fechado, os quais se caracterizam pelo pequeno número de cotistas e forte
planejamento tributário”. A medida, porém, sequer chegou a ser aplicada, já que não
convertida em lei em tempo hábil para tanto.
Em 2021, foi apresentado pelo Poder Executivo o Projeto de Lei 2.337 (Reforma do IR)
com previsão (arts. 35 a 37) e justificativa semelhantes: “no caso dos fundos de
investimento constituídos sob a forma de condomínio fechado (arts. 35 a 37),
estabelece-se regra de tributação periódica (come-cotas), inclusive sobre os
rendimentos acumulados pelas carteiras, equiparando-se a forma de tributação com os
fundos de varejo já que aqueles se caracterizam pelo pequeno número de cotistas,
patrimônio geralmente acima de dez milhões de reais além de ser utilizado como
instrumento de planejamento tributário”, de modo que os “Fundos exclusivos
(utilizados por pessoas com mais recursos) passam a pagar como os demais”. O texto
segue em discussão no Congresso Nacional. (grifos originais)
Original
DF CARF MF Fl. 2444
Fl. 15 do Acórdão n.º 2301-011.267 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária
Processo nº 10580.731272/2021-68
Nos caso em que não há essa regra específica, mas se vislumbra que o
planejamento que passou de “forte” para “abusivo”, é justamente o campo de aplicação da norma
geral antielusiva. Aqui o ônus probatório da Fiscalização é muito maior. É necessário demonstrar
a falta de proposito negocial, a atipicidade da operação, o uso de artificialismo, o desvio de
finalidade, para justificar a desconsideração do modelo simulado.
Original
DF CARF MF Fl. 2445
Fl. 16 do Acórdão n.º 2301-011.267 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária
Processo nº 10580.731272/2021-68
Original
DF CARF MF Fl. 2446
Fl. 17 do Acórdão n.º 2301-011.267 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária
Processo nº 10580.731272/2021-68
Original
DF CARF MF Fl. 2447
Fl. 18 do Acórdão n.º 2301-011.267 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária
Processo nº 10580.731272/2021-68
FII BRISA -> CERFCO Participações -> EDUARDO -> FUNDO ARACANTI -> FII BRISA.
O resultado final foi uma redução do capital social da pessoa jurídica CERFCO
Participações e aumento do valor do FII BRISA, com a transferência de imóvel de propriedade
da pessoa jurídica para o Fundo constituído.
FII BRISA para Eduardo de 734 mil reais pela compra da pessoa jurídica
IVOTURUCAIA (0,18% das cotas)
Original
DF CARF MF Fl. 2448
Fl. 19 do Acórdão n.º 2301-011.267 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária
Processo nº 10580.731272/2021-68
Original
DF CARF MF Fl. 2449
Fl. 20 do Acórdão n.º 2301-011.267 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária
Processo nº 10580.731272/2021-68
Enquanto não realizada a distribuição dos lucros, novamente em tese, o valor dos
alugueis recebidos pelo FII BRISA, não estariam sujeito à tributação do imposto de renda.
Enquadramento da Fiscalização
Original
DF CARF MF Fl. 2450
Fl. 21 do Acórdão n.º 2301-011.267 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária
Processo nº 10580.731272/2021-68
recebimento de todos os rendimentos com a apuração do “lucro”, ainda que presumido, bem
como oferecer a renda obtida, à tributação. Assim, os rendimentos obtidos com os alugueis eram
tributados de acordo com o regime de tributação da empresa, mas eram periodicamente
tributados.
o O FII BRISA não teve comunhão de recursos captados pois foi constituído
por um único cotista (FUNDO ARACATI). Não houve oferta publica de
cotas. Os recursos aportados foram direcionados, em sua maioria, para
aquisição dos imóveis de propriedade de Eduardo Ramos.
o O movimento circular dos valores (FII BRISA -> CERFCO part ->
Eduardo -> Fundo ARACATI -> FII BRISA). A transação só se sustenta
no fato que tudo teria ocorrido de “forma simultânea”. Se partir de
qualquer ponto inicial, sua validade é perdida. A FII BRISA, por exemplo,
não tinha a liquidez para pagar a CERFCO Participações, que não tinha
liquidez ,para fazer a redução do capital, assim sucessivamente.
o Antes das operações de criação do Fundo FII BRISA, foi revista a cláusula
contrato firmado com o BTG Pactual e FUNDO ARACANTI, para dar
isenção da taxa de administração. Uma preparação para as operações que
ocorreriam na sequencia, criação do FII BRISA e cisão para o FIMCP
BRISA.
Original
DF CARF MF Fl. 2451
Fl. 22 do Acórdão n.º 2301-011.267 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária
Processo nº 10580.731272/2021-68
Como não houve resgate, não houve a incidência do imposto de Renda na fonte
sobre os rendimentos obtidos com os aluguéis dos imóveis, e o valor foi utilizado para aquisição
de outros imóveis-alvos (propriedade de Eduardo Ramos)
(...)
Original
DF CARF MF Fl. 2452
Fl. 23 do Acórdão n.º 2301-011.267 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária
Processo nº 10580.731272/2021-68
Original
DF CARF MF Fl. 2453
Fl. 24 do Acórdão n.º 2301-011.267 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária
Processo nº 10580.731272/2021-68
Original
DF CARF MF Fl. 2454
Fl. 25 do Acórdão n.º 2301-011.267 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária
Processo nº 10580.731272/2021-68
poderiam ser destinados a quaisquer fins. A capitalização do FIM ARACATI podia ser
feita com outras disponibilidades do próprio RECORRENTE, a tomada de
financiamento (inclusive dando em garantia investimentos de sua titularidade) etc.,
assim como também poderia ter dado como acabou por ser implementado no caso
concreto. Tanto o caminho adotado, quanto os outros que poderiam ser utilizados,
levam a um mesmo resultado. O que se identifica é que o caminho escolhido não é
inusual, quanto menos abusivo ou ilegal. Tanto é assim que diferentes fundos
imobiliários têm previsões semelhantes em seus atos, permitindo a compra de imóveis
de seus cotistas ou de empresas a eles relacionadas6 . Na verdade, sequer era necessário
que o FII BRISA recebesse recursos e comprasse as empresas para que os investimentos
nas pessoas jurídicas imobiliárias de CERFCO PART. passassem a ser de sua
propriedade. Isso porque a legislação prevê, ao lado da capitalização, a possibilidade de
o fundo ser formado mediante “a integralização em imóveis, bem como em direitos
relativos a imóveis” (IN CVM 472/08, art. 11)
Por fim afirma que todo a operação tinha um proposito negocial, e alega
genericamente que os principais objetivos eram organizar o patrimônio, facilitar o processo
sucessório e obter gestão mais eficiente e profissional:
Aliás, a razão para a constituição do FII BRISA não se resumiu à obtenção de
vantagem fiscal, como afirmou a peça de acusação e o acórdão recorrido (fl. 2.336)
repetiu (apesar de ambos não terem indicado como e qual teria sido o ganho imaginado
obtido – o que evidencia a carência de motivação). Os objetivos eram variados. Visava-
se, dentre outros propósitos, organizar o patrimônio correspondente aos imóveis que
fossem lajes corporativas, o que seria passível de ser transmitido por sucessão e passar
por diferentes gerações sob gestão profissional e independente, viabilizando tanto a
administração eficiente, quanto a redução dos riscos de conflito entre os herdeiros.
No tocante à sucessão, era importante a formação de veículo como o fundo de
investimento com administrador e gestor profissional, reduzindo a interação entre
cotistas para a condução dos negócios (mais presente em pessoa jurídica empresária),
dado envolver 4 (quatro) filhos (herdeiros necessários) de diferentes relacionamentos,
com formações e aptidões diversas, sem interação contínua, até por terem domicílio em
diferentes países. Acrescente-se ainda nesse aspecto que, como o valor das cotas é
divulgado periodicamente pelo administrador, é mais fácil quantificar o ativo para fins
de partilha entre os herdeiros do que na transmissão de participação no capital de pessoa
jurídica (tal, aliás, deverá servir ao interesse do próprio Fisco nas eventuais incidências
aplicáveis por ocasião da referida sucessão)
A perseguição de objetivos diversos fica ainda mais evidente ao se identificar que o FII
BRISA tem as suas cotas detidas por fundo multimercado (FIM ARACATI e depois
FIM BRISA), o que é natural no planejamento que se presta tanto a preservar o
patrimônio construído, quanto a organizá-lo para poder ser futuramente sucedido
pelos herdeiros, sem se resumir a imóveis, mas compreendendo também outras classes
de ativos concentrados no “fundo consolidador” (FIM). Aliás, face aos objetivos
perseguidos, ilógico seria que o fundo imobiliário não fosse de titularidade do fundo
multimercado. Não por acaso, o caminho adotado não foi escolhido somente pelo
RECORRENTE. Há outros que, ao formarem patrimônio imobiliário, optam por colocá-
los em fundo de investimento, inclusive com cotas detidas por FIM, visando melhor
eficiência na gestão e harmonia entre herdeiros.
Original
DF CARF MF Fl. 2455
Fl. 26 do Acórdão n.º 2301-011.267 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária
Processo nº 10580.731272/2021-68
Quanto as características descritas para um fundo tipo FII, a defesa argumenta que
as normas da CVM permitem que o fundo tenha um único cotista e que se adquira
exclusivamente imóveis de propriedade direta ou indireta do cotista. Isso também é fato.
A outra norma (IN CVM 472, de 2008 – art. 34) afirma que a aquisição de
imóveis nessa qualidade se considera conflito de interesse então demandará aprovação da
Assembleia. O contexto da norma é justamente a pluralidade de cotistas e os demais são um
mecanismo de freio a eventual abuso. Contudo, neste caso é inócuo, posto que, com um único
cotista, jamais haverá oposição na Assembleia.
Neste caminho, o dinheiro teria partido da CERFCO Part para o sócio majoritário
(Sr. Eduardo), dele para o FUNDO ARACATI, e então para o FII BRISA, que usou o valor para
comprar imóveis da CERFCO, retornando assim o valor para a controladora.
Original
DF CARF MF Fl. 2456
Fl. 27 do Acórdão n.º 2301-011.267 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária
Processo nº 10580.731272/2021-68
Não tem como analisar tal argumento em tese. Tivesse seguido outro caminho,
teria a Fiscalização que analisar, no caso concreto, os passos seguidos. Neste caso a analise não é
do fim perseguido, mas se o caminho percorrido ser logico, congruente, possível de acontecer no
mundo real (sem artificialidade).
Original
DF CARF MF Fl. 2457
Fl. 28 do Acórdão n.º 2301-011.267 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária
Processo nº 10580.731272/2021-68
O Acordão abaixo trata de uma situação similar, mas não idêntica, de afastamento
do modelo FI, e tributação na pessoa física. A situação descrita é perfeitamente aplicável ao caso
concreto e conclui pela não retroação para as estruturas anteriores ao Fato Gerador e tributação
na pessoa física do cotista:
ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA - IRPF
A incidência do IRPF sobre ganhos de capital ocorre sob o regime de caixa, pelo que
não se encontra decaído o lançamento fiscal cientificado ao contribuinte antes do prazo
quinquenal, com termo de início na data do efetivo recebimento dos recursos alusivos à
alienação.
Original
DF CARF MF Fl. 2458
Fl. 29 do Acórdão n.º 2301-011.267 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária
Processo nº 10580.731272/2021-68
Original
DF CARF MF Fl. 2459
Fl. 30 do Acórdão n.º 2301-011.267 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária
Processo nº 10580.731272/2021-68
Multa qualificada
O art. 44 da Lei n. 9.430/96 foi alterado pelo art. 8º da Lei n. 14.689/23, passando
a ter a seguinte redação:
Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I - de
75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou
contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e
nos de declaração inexata; (...)
§ 1º O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será majorado
nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964,
independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis, e
passará a ser de:
VII – 150% (cento e cinquenta por cento) sobre a totalidade ou a diferença de imposto
ou de contribuição objeto do lançamento de ofício, nos casos em que verificada a
reincidência do sujeito passivo. (Incluído pela Lei nº 14.689, de 2023)
Nos termos do art. 106, II, “c”, do CTN a lei nova aplica-se a ato ou fato pretérito,
no caso de ato não definitivamente julgado, quando lhe comine penalidade menos severa que a
prevista na lei vigente à época da prática da infração.
Portanto, deve-se aplicar a retroação disposta na Lei n. 9.430/96, art. 44, § 1º, VI,
reduzindo o percentual da multa de ofício para 100%.
Conclusão
Por todo o exposto, voto por rejeitar as preliminares e, no mérito DAR PARCIAL
PROVIMENTO para reduzir a multa de ofício qualificada de 150% para 100%, mantendo os
demais itens do lançamento.
Original
DF CARF MF Fl. 2460
Fl. 31 do Acórdão n.º 2301-011.267 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária
Processo nº 10580.731272/2021-68
Original