Uma outra forma ainda de evitar o jogo seria a total honestidade e franqueza, visto que uma
das principais técnicas dos que buscam o poder é a fraude e o sigilo. Mas a total honestidade
acaba inevitavelmente por magoar e ofender um grande número de pessoas, e algumas vão
querer pagar na mesma moeda. Ninguém verá a sua declaração honesta como totalmente
objetiva e livre de alguma motivação pessoal. E estarão certos: na verdade, a honestidade é
uma estratégia de poder, cuja intenção é convencer os outros de que se tem um caráter nobre,
bom e altruísta. E uma forma de persuasão, até uma forma sutil de coagir as pessoas.
Finalmente, os que alegam não serem jogadores afetam um ar de ingenuidade para se
protegerem da acusação de que estão atrás do poder. Mais uma vez, cuidado, pois a aparência
de ingenuidade pode ser um meio eficaz de enganar os outros (ver Lei 21, Pareça mais bobo
do que o normal). E até a ingenuidade autêntica não está livre das armadilhas de poder. As
crianças podem ser muito ingênuas, mas com freqüência agem por uma necessidade básica de
controlar os que estão ao seu redor. Elas sofrem muito sentindo-se impotentes no mundo
adulto, e usam os meios disponíveis para conseguir o que querem. Pessoas genuinamente
inocentes também podem estar no jogo do poder, e costumam ser terrivelmente eficazes nisso,
visto que a reflexão não é
um obstáculo para elas. De novo, aqueles que fazem alarde ou dão demonstrações de
inocência são os menos inocentes de todos.
Você pode reconhecer estes supostos não-jogadores pela maneira como ostentam suas
qualidades morais, sua piedade, o seu raro senso de justiça. Mas como todos nós queremos o
poder, e quase todas as nossas ações visam a obtê-lo, os não-jogadores estão simplesmente
jogando areia nos nossos olhos, nos distraindo de suas cartadas com seu ar de superioridade
moral. Observando bem, você verá de fato que são eles os mais hábeis na manipulação
dissimulada, mesmo que alguns a pratiquem sem ter consciência disso. E se ressentem muito
de qualquer publicidade que se dê às táticas que usam todos os dias. Se o mundo é como uma
gigantesca corte fraudulenta e estamos presos nela, não adianta optar por ficar fora do jogo.
Isso só vai deixar você impotente, e a impotência vai deixá-lo infeliz. Em vez de lutar contra o
inevitável, em vez de ficar discutindo, se lamentando e cheio de culpa, é muito melhor
sobressair no poder. De fato, quanto melhor você lidar com o poder, melhor você será como
pessoa, amigo ou amiga, amante, marido ou esposa. Seguindo os passos do perfeito cortesão
(ver Lei 24) você aprende a fazer os outros se sentirem melhor a respeito deles mesmos,
tornando-se uma fonte de prazer para eles. Eles se tornarão dependentes de suas habilidades e
desejarão a sua presença. Dominando as 48 leis deste livro, você poupa aos outros a dor de
não saber lidar com o poder — de brincar com o fogo sem saber que ele queima. Se o jogo de
poder é inevitável, melhor ser um artista do que negar ou agir desastradamente.
Para aprender o jogo do poder é preciso ver o mundo de uma certa maneira, mudar de
perspectiva. É
preciso esforço e anos de prática, pois grande parte do jogo talvez não surja naturalmente. São
necessárias certas habilidades básicas, e uma vez dominando-as você será capaz de aplicar as
leis do poder com mais facilidade.
A mais importante, e fundamento crucial do poder, é a habilidade de dominar as suas
emoções. Reagir emocionalmente a uma situação é a maior barreira ao poder, um erro que
custará a você muito mais do que qualquer satisfação temporária que possa obter expressando
o que sente. As emoções embotam a razão, e se você não consegue ver com clareza não pode
estar preparado e reagir com um certo controle da situação. A raiva é a reação emocional
mais destrutiva, pois é a que mais turva sua visão. Também tem um efeito cascata que
invariavelmente torna as situações menos controláveis e acentua a decisão do seu inimigo. Se
você
está tentando destruir um inimigo que o magoou, é bem melhor desarmá-lo fingindo amizade
do que mostrando que está com raiva.
Amor e afeto também são potencialmente destruidores, quando não permitem que você
enxergue os interesses quase sempre egoístas daqueles de quem você menos desconfia de estar
fazendo o jogo do poder. Você não pode reprimir a raiva ou o amor, ou evitar sentir raiva ou
amor, e nem deve tentar. Mas cuidado com a This document has been created with a DEMO
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maneira como você expressa esses sentimentos, e o que é mais importante, eles não devem
jamais influenciar seus planos e estratégias.
Relacionada com o controle das suas emoções está a habilidade para se distanciar do
momento presente e pensar de forma objetiva no passado e no futuro. Como Janus, a divindade
da mitologia romana com duas faces e guardiã de todos os portões e entradas, você deve ser
capaz de olhar em ambas as direções ao mesmo tempo, para saber lidar melhor com o perigo,
seja lá de onde ele vier. E esse o rosto que você deve criar para si próprio — um que olha
sempre para o futuro e o outro, para o passado. Para o futuro, o lema é “Sempre alerta, todos
os dias”. Nada deve apanhá-lo de surpresa, porque você está constantemente imaginando
problemas antes que eles surjam. Em vez de perder tempo sonhando com o final o feliz para o
seu plano, você deve calcular todas as possíveis combinações e armadilhas que possam
surgir. Quanto melhor a sua visão, quanto mais você
planejar etapas com antecedência, mais poderoso se tornará.
A outra face de Janus olha constantemente para o passado — mas não te para lembrar de
mágoas passadas ou guardar rancores. Isso só limitaria o seu poder. A parte mais importante
do jogo é aprender a esquecer essas coisas que aconteceram no passado e que vão
consumindo as suas energias e turvando o seu raciocínio. O verdadeiro propósito do olho que
espia para trás é ode constantemente se educar — você olha para o passado para aprender
com quem viveu antes de você.
Depois, tendo visto o passado, você olha mais perto as suas próprias ações e as dos seus