PSICOLOGIA
APLICADA
AO CUIDADO
Fernanda Egger Barbosa
O adoecimento e a morte
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
Analisar o papel dos profissionais de saúde em relação ao processo
de adoecimento do paciente.
Explicar a morte a partir dos estudos de Edgar Morin.
Refletir sobre a vida e a morte no cotidiano de trabalho dos profis-
sionais de saúde.
Introdução
O adoecimento e a morte são temas abordados tanto pelas ciências
naturais quanto pelas humanas. No entanto, o estudo desses temas é feito
da forma mais distanciada possível, já que para falar da morte enquanto
objeto científico é preciso fazê-lo a um certo distanciamento. O trabalho
cotidiano em um ambiente hospitalar, por exemplo, produz efeito con-
trário, retirando esses temas da obscuridade e trazendo-os para o centro
das práticas. Assim, eles se revelam processos naturais e reais, exigindo
propostas de estratégias mais concretas para o seu enfrentamento.
Neste capítulo, você estudará sobre o processo de adoecimento, bem
como sobre o papel dos profissionais de saúde frente às condições do
paciente. Além disso, conhecerá o conceito de morte proposto por Morin
a partir da concepção bioantropológica. Por fim, conhecerá o cotidiano
de trabalho dos profissionais de saúde e seus posicionamentos frente à
vida, o adoecer e à morte.
2 O adoecimento e a morte
1 Os profissionais de saúde e o processo
do adoecimento
Adoecer não é uma experiência agradável, pelo menos se considerarmos o
senso comum. O processo do adoecimento traz estigmas sociais, sofrimento e
uma fantasia sempre marcante que norteia o risco de vida ou, em alguns casos
mais graves, desvela a realidade da morte, nossa condição de transitoriedade.
Saúde e doença são processos que se entrecruzam. Hoje, não só o indivíduo,
mas também a população e o Estado, sempre estão atentos a todos os assuntos
que se referem à saúde. Na definição ampliada de saúde da Organização
Mundial de Saúde (OMS) — de completo bem-estar físico e social —, cada
pessoa passa a ter uma impressão pessoal sobre quando não está se sentindo
bem e em que condições se sente bem. É a valorização do depoimento do
doente, das suas condições de vida enquanto sujeito e cidadão (OMS, 1946).
Vale lembrar que, para o Estado (o poder público), o bem-estar se refere às
condições que a pessoa tem para o trabalho.
Na modernidade, a saúde, para o discurso hegemônico, está atrelada,
desde o início da medicina higienista, ao trabalho, concepção que se perpetua
até hoje. Segundo Luz (1986), a contenção da doença e a expansão da saúde
como bem-estar é uma exigência das classes com poder junto ao Estado.
As epidemias, por exemplo, são um entrave ao desenvolvimento econômico.
Por isso, com a industrialização, a saúde dos trabalhadores passou a ser tarefa
do Estado, e a questão do adoecimento passou a ter vários significados, depen-
dendo de quem os define — se é a pessoa do doente, o médico, as instituições
e os profissionais de saúde, a coletividade ou o poder público.
Helman (2006) descreve os aspectos relacionados à doença e ao adoecimento
na perspectiva do médico, comparando-o diretamente com a perspectiva do
paciente. O autor descreve que a perspectiva do médico passa por um processo
de “enculturação” durante sua formação, visto que ele é formado para pensar
a doença em uma certa concepção particular e para atender a um status social
elevado.
Assim, nesse processo de aculturação, a perspectiva particular do saber
médico tradicional é a da racionalidade científica, que pressupõe o dualismo
mente-corpo, bem como um reducionismo na visão das doenças como entida-
des, com determinados sintomas e uma única causa e prognóstico (HELMAN,
2006). O saber médico dá ênfase à mensuração objetiva e empírica e aos
dados psicoquímicos, além de considerar como foco do tratamento apenas o
indivíduo-paciente.
O adoecimento e a morte 3
Assim, Helman (2006, p. 109) afirma que: “[...] a tarefa do médico clínico
é descobrir a cadeia lógica das influências causais que resultam num fato
[...]” (enfermidade). O saber médico tradicional prioriza os fatos fisiológicos e
tenta relacionar os sintomas a algum processo físico, de modo que os sintomas
assumem um sentido. A interpretação desse sentido, à luz dos referenciais
biológicos do médico, amparados pelos exames laboratoriais e tecnológicos
de imagens, definirá os conceitos e as causas da doença, a fim de traçar o
diagnóstico e o tratamento mais adequados.
O autor aponta que, para o médico, a doença é o desvio da norma, dos
valores conceituados como normais. E cada vez mais os especialistas tratam
de uma pequena porção ou parte do corpo do paciente, melhorando mais
ainda o status social dos médicos especializados, visto que esses são os mais
procurados, sendo considerados aqueles que “curam”. A lógica médica tam-
bém funciona por incentivo dos princípios higienistas, como um sistema de
moralidade, pois condena o estilo de vida fora dos parâmetros de saúde, de
forma a aplicar punição aos que não levam uma vida considerada saudável.
Em contrapartida, na perspectiva do paciente, utilizando o termo “pertur-
bação”, de Cassel, Helman (2006) caracteriza aquilo que o paciente diz sentir
quando vai ao médico, oposto ao conceito de patologia, na concepção dele.
Assim, “[...] a perturbação é a resposta subjetiva ao mal-estar por parte do
paciente e de todos os que o cercam [...]” (HELMAN, 2006, p. 114). O autor
completa, ainda, dizendo que o significado que uma pessoa atribui a seu
desconforto e a seus sintomas é diferente de acordo com diferentes culturas,
classes sociais, gêneros e idades.
Segundo Luz (1986), as representações da doença podem variar segundo
classes, mas os hábitos de saúde, embora diferenciados, devem, em princípio,
enquadrar todas as classes. Por isso, as atitudes que os profissionais de saúde
e cidadãos devem ter frente ao adoecimento envolvem a valorização de todos
os aspectos da vida responsáveis pelo bem-estar, que, por sua vez, devem ser
pensados em sua relação com o sistema econômico (trabalho, consumo de
medicamento, etc.) e político (apelo às instituições médicas para recuperar
a saúde, reivindicando melhorias efetivas na situação da área da saúde). Por
isso, divulga-se e discute-se tanto a importância da participação comunitária
nos fóruns de gestão em saúde, promulgados pela OMS e articulados pelo
SUS. A autora defende, ainda, que a saúde é uma situação vital para o sujeito e
a coletividade, ultrapassando o conceito de medicalização.
4 O adoecimento e a morte
Para Helman (2006), o adoecimento, em algumas culturas, está ligado ao
equilíbrio das relações entre as pessoas, a natureza e o mundo sobrenatural.
Às vezes, ele está baseado nas necessidades econômicas e na baixa expectativa
em relação à assistência. No nível individual, há uma série de experiências
subjetivas que podem dizer ao sujeito que ele está doente, como percepção de
mudanças na aparência corporal ou nas funções orgânicas regulares, presença
de sangue ou catarro na urina ou nas fezes, mudança de funcionamento de
um membro, prejuízo aos sentidos, dor ou sensações físicas desagradáveis,
estados emocionais que variam exageradamente ou comportamento alterado
em relação a outras pessoas.
No entanto, alguns desses sintomas podem não ser suficientes para que o
saber médico considere o sujeito doente. A percepção das pessoas à sua volta
pode deflagar um sinal de doença. Para Helman (2006), o adoecer é sempre um
processo social, pois envolve outras pessoas além do doente. A confirmação
de uma doença ocorre por meio de todos os envolvidos, geralmente a pessoa,
a família, os médicos e os demais profissionais responsáveis pelo cuidado.
Assim, fica claro por que a lógica médica tradicional, que se atém ao
reducionismo do binômio saúde-doença, fica tão distante dos problemas reais
de saúde da população de um país. Se, de um lado, o tratamento tem o foco
exclusivo no paciente, do outro, todos os aspectos que influenciam a qualidade
de vida e o adoecimento têm características biológicas, psicológicas e sociais.
A equipe de enfermagem tem um papel fundamental no tratamento dos
pacientes, tão importante quanto o do médico. O processo de trabalho é sis-
temático, baseado no cuidado com o paciente e na promoção do bem-estar,
buscando o conceito integral de saúde. Segundo Taylor et al. (2014), o processo
de enfermagem busca investigar a condição de saúde, o que requer alguma
intervenção para prevenir ou solucionar uma doença ou enfermidade, com
finalidade de diagnóstico, a fim de esclarecer a natureza exata dos problemas
de saúde e dos fatores de risco. A equipe de enfermagem oferece apoio ao
bem-estar do paciente, da família e da comunidade. Assim como os demais
profissionais que trabalham com o adoecimento nas unidades de saúde, a equipe
de enfermagem tem de ser valorizada tanto na concepção diagnóstica quanto
prognóstica e no restabelecimento da saúde, funcionando em um sistema de
rede no cuidado integrado.
O adoecimento e a morte 5
O papel do psicólogo também é essencial para que todos os envolvidos
tenham o suporte técnico e metodológico para lidar com os problemas trazi-
dos com o adoecimento e, principalmente, com a questão da transitoriedade.
Segundo Simonetti (2004 apud MEDEIROS; LUSTOSA, 2011), o foco da
psicologia hospitalar é o aspecto psicológico em torno do adoecimento. Assim,
o objeto de trabalho do psicólogo não é apenas a dor do paciente, mas também
a angústia da família, da equipe e dos médicos frente à impotência diante
de um buraco instaurado pela incompletude de seus saberes. Para o autor,
o psicólogo hospitalar faz uma espécie de ponto de ligação para facilitar os
relacionamentos e a produtividade no trabalho.
Contudo, não existe apenas esse posicionamento do psicólogo no hospital.
Feitosa, Mattos e Valentim (1990) afirmam que o trabalho do psicólogo em
um hospital geral é o de investigar a articulação entre a dimensão psíquica
do sujeito com algo que se inscreve em seu corpo (a doença), oferecendo um
trabalho de escuta, para que o paciente (e, por extensão, a família e os demais
profissionais) possa se reposicionar subjetivamente a essa nova situação.
Toda a equipe de saúde, incluindo nutricionistas, fisioterapeutas, técnicos
de enfermagem, coleta, imagem e administração, deve ter como finalidade
acolher e restaurar a saúde do doente, porém tendo em mente que não pode
controlar tudo, pois o adoecimento, como processo, é um fenômeno natural.
Voltando à questão das enfermidades, Helman (2006) afirma que as do-
enças graves, difíceis de tratar, assomam não só o bem-estar físico e mental,
mas também criam uma metáfora de terror na vida cotidiana, podendo causar
consequências sérias na maneira como a pessoa percebe sua própria condição
de doente. Além disso, as explicações do problema de saúde advêm em formas
de narrativas, em que as explicações são externalizadas. As narrativas de
sofrimentos pessoais não são apenas pessoais, visto que se baseiam em um
repertório de metáforas, linguagens míticas e lendas provenientes da cultura
na qual o sofrimento aconteceu. Assim, talvez o médico devesse buscar não
só um olhar biológico da doença, mas também um olhar antropológico sobre
o adoecer, a fim de tentar romper com a lógica dualista mente-corpo, uma vez
que um dos polos sempre atua e interfere no outro, simultaneamente.
Segundo Helman (2006), a forma de apresentação da doença também pode
ser mal interpretada pelo médico se ele for incapaz de decodificar a linguagem
utilizada pelo paciente, e isso pode até mesmo incorrer em um diagnóstico
errado. Ferreira et al. (2014) falam sobre o adoecimento e a questão difícil
do atendimento médico ao paciente e sua enfermidade. Citando Camargo-
-Júnior (2003 apud FERREIRA et al., 2014), descrevem que a relação entre
6 O adoecimento e a morte
o saber e a prática médica nem sempre é harmoniosa, devido à inadequação
desse conhecimento à realidade, ou seja, é um conhecimento baseado em
muitas abstrações, que nem sempre são compreensíveis pelos clientes, pois
eles estruturaram sua linguagem em contextos dessemelhantes ao do saber
científico. Assim, as rotinas diagnósticas do médico tornam-se marcadas pela
mecanização na caracterização de doenças, com a terapêutica utilizando o
método do “ensaio e erro” e com prescrição de sintomáticos — por vezes mal
empregados, devido aos códigos linguísticos afiançados pelo bulário (bula) e
incentivados pelas propagandas da indústria farmacêutica.
Em relação à representação do adoecimento, vale confirmar que o papel
do médico, assim como de todos os profissionais de saúde, torna-se complexo,
já que as pessoas trazem em suas bagagens epistemológicas referências e re-
presentações sobre a doença e a morte que, por vezes, não são compartilhadas
por outros, ou seja, não são universais. Além disso, a pessoa do profissional
também pode ter dificuldades particulares em lidar com essas questões, como
o fato de que a doença e a morte do outro (no caso do paciente) podem trazer
lembranças traumáticas e difíceis de se lidar na prática do dia a dia.
Para Brotto e Dalbello-Araújo (2012), o trabalho dos profissionais de saúde
está mais focado em tecnologias relacionais, como o acolhimento dos usu-
ários e de suas queixas e o estabelecimento de vínculo com estes, a fim de
facilitar, entre outros pontos, a anamnese, a real compreensão do problema
e a construção de um projeto terapêutico que lhes confira respostas viáveis
e resolutivas. Quando a relação entre médico e paciente não é boa, isso pode
trazer problemas tanto para os pacientes quanto para os profissionais de saúde.
Os autores defendem que os profissionais de saúde também podem adoecer
devido às condições de trabalho e aos vínculos formados tanto com os outros
profissionais quanto com a família e o doente.
Doenças como Aids, hepatites, diabetes, doenças coronarianas, diversas
mutações cancerígenas, entre outras, colocam em foco tanto os estigmas do
adoecimento quanto a proximidade da morte. Por isso, não basta os profis-
sionais confiarem nas dimensões fisiológicas do adoecimento, eles têm de
ficar atentos às representações sobre o adoecer e a finitude que os pacientes
e suas famílias trazem em suas crenças e nas formas de lidar com o próprio
corpo e seus hábitos cotidianos. Às vezes, uma questão de fé pode interferir
na forma como o paciente encara a sua condição de doente e a sua finitude.
Para Rodrigues (1983, p. 11), “[...] falar cientificamente da morte é considerá-
-la como objeto, e assim, pô-la a distância [...]”. Ou seja, morte não pode ser
apreendida, podemos apenas pensá-la dentro da sociedade, mas fora de nós
O adoecimento e a morte 7
mesmos. Para o autor, a representação da morte é sempre a do outro, por isso
os ritos, principalmente os funerários, são tão importantes para o homem e
a sociedade.
Ariès (1982) afirma que o médico busca, na morte, iluminar a vida e
a doença. Na mesma perspectiva, Zaidhaft (1990) aponta que a morte funda a
clínica e a clínica busca adiar a morte. Assim, doença e a morte, na perspectiva
bioantropológica, são vistas como algo natural e que está inscrito no destino
da humanidade.
2 Edgar Morin: o homem e a morte
O homem, ao longo da história, não pôde dissociar-se da ideia de morte, uma
vez que esta faz parte de sua realidade, de sua condição enquanto ser vivo.
Partindo dessa perspectiva, Edgar Morin, em 1948, realizou um estudo amplo
sobre o assunto. Nascido em 1921, graduado em história, geografia e direito,
Edgar Morin desenvolveu estudos na área das ciências políticas, sociologia,
filosofia e economia. Entre os diversos livros que escreveu, pode-se destacar
o Homem e a Morte (1948-1950), seu segundo livro publicado, que propõe
uma ampla discussão sobre a concepção de morte para os indivíduos, suas
reações e os ritos simbólicos envolvidos. Os rituais relacionados à morte
estão presentes em praticamente todas as culturas. O autor, por meio de suas
pesquisas, aponta para dois tipos de olhares que se pode ter sobre o homem e
como este encara a morte: biológico e antropológico.
Segundo Souza (2003), o livro de Morin traz conceitos próprios, como o
estudo de caráter antropobiológico, o duplo e a morte-renascimento, além da
questão sobre os ritos funerários. Para a autora, Morin afirma que as sepulturas
são como dados fundamentais da morte humana. Morin (1979), na introdução
da segunda edição de O Enigma do Homem, afirmou que, em o Homem e
a Morte, procurou estabelecer o ponto de união e ruptura entre o homem
enquanto espécie (biologia) e a ciência do homem (antropologia). Além disso,
criticou algumas afirmações que fez antes da revolução genética, concluindo
que o homem não pode ser considerado uma entidade fechada, alheia à natu-
reza. Ele define a antropocosmologia como a forma de estudar o que significa
o homem no mundo. Nesse intercâmbio entre as ciências biológicas e humanas,
o homem não pode ser considerado uma matéria viva, mas sistemas vivos,
ou seja, o homem, enquanto espécie, é pensado aqui como uma organização
específica da matéria físico-química.
8 O adoecimento e a morte
Ainda nesse debate sobre a biologia e a antropologia, Morin levanta o
questionamento sobre se o homem está adaptado para a morte. Ele afirma
que a morte é um processo em que os indivíduos que sobrevivem tentam se
adaptar à perda de alguém (MORIN, 1977 apud SOUZA, 2003). Pensando
na morte como um processo ao qual os sobreviventes têm de se adaptar, vale
a pena destacar a definição de luto para Freud (1996), considerado de forma
semelhante ao que Morin afirma sobre a morte. Para Freud (1996), O luto
é um processo de trabalho interno, inconsciente, em que o indivíduo, após
a perda de um objeto investido de afeto (p. ex., pessoa da família), retira as
“catexias libidinais” desse objeto perdido para o ego (eu), temporariamente,
enquanto o processo do luto acontece. Ele afirma que esse trabalho do luto é
a via normal da perda para o sujeito.
Na vertente antropológica dos estudos de Morin (1948 apud SOUZA,
2003) sobre o ser humano e a morte, esta representa para o indivíduo a perda
da sua individualidade, por isso, quanto mais próxima a pessoa é do morto,
mais intensa será a dor de sua perda, o que ele denomina “traumatismo da
morte”. Segundo Morin, o homem tem consciência de sua morte desde cedo
e sente horror de pensar sobre ela. Além disso, geralmente se acredita na so-
brevivência após a morte, em uma vida post mortem, crenças e religiosidades
presentes em quase todas as culturas, e os rituais que envolvem essa questão
são as provas disso. A esses conceitos de consciência da morte, traumatismo
da morte e crença na imortalidade, Morin denominará, em 1950, de triplo
antropológico da morte (SOUZA, 2003).
Assim, o homem sabe que vai morrer e repudia a ideia de sua própria morte.
É o que Morin chama de horror da morte. Segundo Earp (1999), um dos
maiores temores, dos mais intensamente sentidos e generalizantes entre os seres
humanos, é o medo da morte. Pensar na morte significa confrontar o vazio da
sua inexorabilidade, e vir a perder o que a vida oferece representa a verdadeira
castração. Por isso, o homem cria mecanismos simbólicos para dar conta de
representar a morte, presente nas crenças de superação, na imortalidade.
Em relação à crença na imortalidade, Morin (1977 apud SOUZA, 2003)
explica o sentido atribuído às crenças e aos ritos funerários sobre dois aspectos:
o duplo (que o homem volta após a morte, reencarnação) e a morte-renascimento
(renasce em outra vida, paraíso). Morin afirma que praticamente todas as socie-
dades antigas acreditavam na ideia de morte-renascimento, morte-fecundidade
(retorno à terra-mãe), como se a analogia da morte demarcasse o ciclo da
vida, atribuindo-lhe um caráter de purificação. A prova dessa “cultuação” da
morte se apresenta por meio dos ritos funerários presentes na Antiguidade e
remanescente até os dias de hoje.
O adoecimento e a morte 9
É a crença na morte-renascimento que abre espaço para a crença no du-
plo. Segundo Souza (2003), o luto e os ritos funerários servem para garantir
a sobrevivência do duplo. Mas o que é o duplo? O duplo é uma espécie de
alter ego que acompanha a pessoa como uma entidade real ao longo da vida.
Nas sociedades arcaicas, ele velava o sono, ou era visto como uma sombra ou
um reflexo no espelho. São como almas penadas, mortos que moram em suas
antigas casas ou em cemitérios, podem ir ao céu ou ao inferno e provocam
medo, a ponto de se serem feitos culto a eles.
Segundo Morin (1988 apud SOUZA, 2003), o surgimento do espiritismo
enquanto doutrina é uma manifestação da crença no duplo. Sobre a crença
espiritual do duplo, ele afirma que:
Para alcançar a sua morada, o duplo tem de efetuar uma viagem. [...] a ideia
de viagem é anterior à ideia de reino dos mortos. Está ligada às noções de
passagem, nas águas, através das águas, ou sob a própria terra, que caracte-
rizam o conceito de morte-renascimento (MORIN, 1988 apud GUERREIRO,
2014, p. 178).
Para Morin, a poesia também é uma forma de expressar o conceito do
duplo. Segundo Souza (2003, p. 44): “Livre e espontânea a poesia exprime as
possibilidades infinitas da indeterminação humana [...]”. Nas artes, também
se veem presentes frequentemente o duplo e as representações de morte, que
servem, segundo Morin, para liberar a angústia da morte.
Não foi apenas Morin quem inaugurou os estudos antropológicos sobre a morte.
Phillipe Ariès, por exemplo, publicou dois volumes de seus estudos antropológicos e
históricos de como as diferentes sociedades, desde as primitivas, encaravam a morte e
produziam rituais para representar a morte, sob o título de “O homem diante da morte”,
publicados na década de 70. Antes disso, Sigmund Freud também descreveu diversos
tipos de rituais em sociedades primitivas, baseado em pesquisas antropológicas de
seu tempo, o que chamou de tabu da morte em Totem e Tabu (1913). Norbert Elias,
sociólogo alemão, discute também a questão em relação à dificuldade do homem em
enfrentar a finitude da vida em A solidão dos moribundos e Envelhecer e morrer: alguns
problemas sociológicos (ELIAS, 2001).
10 O adoecimento e a morte
Segundo Morin (1988 apud GUERREIRO, 2014), a ideia da morte propria-
mente dita é sem conteúdo, ou melhor, seu conteúdo é impensável, por isso
mesmo a morte é traumática por excelência. A vivência, a experiência que o
homem tem em relação à morte, é sempre a morte do outro. Por isso, Morin
afirma que a inadaptação do homem é íntima, no nível individual.
Morin afirma que é o homem, enquanto espécie (reino animal), que conhece a
morte, o indivíduo, não. Ele a sente em um paradoxo: tem horror à morte, mas se
expõe a ela, como no caso das guerras, do canibalismo, da busca por adrenalina
nos esportes radicais. Em termos biológicos, a morte só pode ser definida a partir
do conceito de vida. A biologia considera o ser vivo como possuidor de uma or-
ganização celular complexa. É aquele que nasce, cresce, se degrada (envelhece) e
morre. Segundo Morin, a vida humana é uma constante experiência que conduz à
decadência do organismo, pelo esgotamento de sua força vital, pela impossibilidade
de se ajustar às agressões do meio (princípio de degradação do vivo).
Nesse sentido, o homem está destinado à morte. Segundo Guerreiro (2014),
Morin descreve o processo da morte no corpo humano, considerando que se
morre a cada instante, é um processo em que, apesar de as células vivas serem
potencialmente imortais, as células nervosas perdem a aptidão para se reprodu-
zir. O envelhecimento traz a perda do poder de regeneração. A morte, então, é
uma conclusão de uma decadência, em que a informação genética esgota-se e
deteriora-se. Ela ocorre quando essa informação não é mais capaz de assegurar
as características fundamentais dos seres vivos (GUERREIRO, 2014).
Segundo Souza (2003), na vertente biológica da morte, Morin considera o
homem como um feto, um verme, pois é a criatura com menos especialização
fisiológica para sobreviver, não possuindo nenhum hábito hereditário, nenhum
apoio natural, o que é uma fragilidade se comparada às demais espécies
vivas. O autor vê o homem como um ser indeterminado biologicamente, e,
por essa indeterminação natural, ele imita a natureza, tendo a seu favor a mão
e o cérebro. Sem especialização nata, o homem adapta a natureza às suas
condições. Assim, para Morin, o homem evolui tecnicamente, abrindo-se
ilimitadamente para o mundo. Por meio da linguagem, do símbolo, da palavra,
o homem antropomorfiza o mundo, atribuindo-lhe características humanas.
A conceituação de Morin a respeito da morte é muito didática, visto que
tenta abranger a concepção da morte em relação ao homem e à sua cultura.
Como ele articula os fatores tanto biológicos quanto antropológicos nos seus
estudos, acaba criando uma proposta para tentar compreender o que significa
a morte para o paciente, a família e os processos de trabalho no cuidado na
área de saúde, na qual os profissionais se deparam constantemente, por meio
do processo de adoecimento, com o risco de vida e o fantasma da morte.
O adoecimento e a morte 11
Confira, a seguir, um trecho da bibliografia de Edgar Morin com referência ao seu livro
o Homem e a Morte:
Filósofo e sociólogo francês, nascido em 1921, foi membro, durante a
Resistência e no pós-guerra, do Partido Comunista Francês, do qual
foi expulso por discordar da orientação oficial. Morin acredita que é
necessário efetuar uma “revolução”, mas que esta deve ter presente a
ideia de totalidade e complexidade do real. Propõe, como alternativa,
o conceito de “totalidade aberta” e de “um pensamento planetário”,
assentes na permanente revisão e crítica dos princípios orientadores,
evitando os dogmas e o pensamento único. Também no domínio da
pesquisa epistemológica, a perspectiva de Morin traduz uma inovação.
A sua reflexão nesta área incide sobre o panorama da ciência contem-
porânea que se apresenta como um “mosaico” de disciplinas isoladas
e separadas entre si. Esta fragmentação remete para a necessidade de
encontrar um novo método, que repense a tradição científica ocidental.
Partindo do desenvolvimento das diversas ciências, especialmente da
física, da biologia, da cibernética e da ecologia, Morin transmite a ideia
de “complexidade”, que caracteriza todas as esferas da atividade humana,
desde o mundo físico e natural até ao universo das sociedades humanas.
Estas realidades (física e social), têm de ser pensadas de uma forma
dinâmica e intercomunicativa: o natural não ser entendido desligado
do social e vice-versa, e o todo das partes que o compõem, também
perspectivados numa lógica de reciprocidade. Em síntese, Morin tem
como objetivo ultrapassar a visão reducionista e simplista do Homem
e do Mundo, que domina o pensamento ocidental há trezentos anos.
Assim, pensando cientificamente, o profissional de saúde deve considerar
as características biológicas citadas por Morin em seu cotidiano de trabalho,
levando em consideração que todos — pacientes, familiares, profissionais —
compartilham essa desadaptação biológica diante do enfrentamento da morte.
No viés antropológico defendido pelo autor, há crenças e conceitos com relação
à transitoriedade e a fantasias de imortalidade. Assim, como seres humanos,
os profissionais da saúde têm de buscar constantemente formas de enfrentar
essas condições no dia a dia de suas vidas particulares e, principalmente, na
rotina de trabalho em saúde. Essa proposta também destaca a importância do
cuidado e da humanização das práticas.
12 O adoecimento e a morte
3 Vida, morte e trabalho em saúde
Segundo Espíndola e Macedo (1994), nos moldes científicos e capitalistas da
modernidade, a doença e a vida são medidas de acordo com a capacidade do
ser humano de ser produtivo. Os autores firmam que, hoje, a partir do instante
em que o homem adoece e perde sua capacidade de produzir, passa a ser um
personagem indesejável, sendo necessário o seu confinamento em algum local.
O hospital apresenta-se, então, como o lugar ideal para realizar esse cuidado,
antes vivido na intimidade do lar, junto aos familiares e amigos. Assim, surgem
os profissionais qualificados para o desempenho dessas funções, ou seja, cuidar
do doente para que ele recupere seu equilíbrio e retorne às suas atividades.
Segundo Foucault (2006, p. 71), “As doenças e as mortes oferecem grandes
lições nos hospitais [...]”. O profissional que trabalha na área da saúde, seja
o médico, o enfermeiro, o psicólogo, o assistente social, o fisioterapeuta, os
técnicos ou o pessoal de apoio, ao inserir-se no meio hospitalar como local de
trabalho, sabe que terá de lidar diariamente com a questão do adoecimento e,
consequentemente, com a morte, tendo consciência de que essas experiências
podem modificar suas concepções sobre a vida e a morte tanto no nível pessoal
quanto no profissional.
Ferreira et al. (2014) afirmam que, para o profissional de saúde, a morte se
apresenta, muitas vezes, de forma corriqueira, já que a experiência da perda
sucessiva de pacientes no hospital pode fazer com que ele construa uma espécie
de armadura, como um mecanismo de defesa, para manter-se afastado dela.
No entanto, esse comportamento pode estar alicerçado por um tabu socialmente
compartilhado. Muitos pesquisadores que abordam o tabu e as formas de o
humano lidar com a morte (ARIÈS, 1982; FREUD, 1996) defendem que pode
ser motivo de desconforto para o ser humano e a sociedade falar sobre esse
tema. Às vezes, as equipes profissionais têm dificuldade de abordá-lo com
o paciente e os familiares quando a evolução de uma doença coloca a morte
em perspectiva, além do fato de que a lógica presente na ordem médica é de
afastá-la, para evitar uma sensação de impotência.
Ferreira et al. (2014) defendem que a sensação de impotência da equipe
quando a doença impossibilita ou dificulta o caminho da cura é sentida como
abandono do paciente. Negar a possibilidade da morte para o paciente traz
apenas a ilusão do amparo, por não expor a verdade abertamente. Segundo
os autores, é um direito do paciente conhecer a verdade e seu prognóstico.
Ele tem de ter ao seu dispor a compreensão, para poder ressignificar-se e fazer
suas próprias escolhas no fim de sua vida.
O adoecimento e a morte 13
Para Kovács (2005 apud MEDEIROS; LUSTOSA, 2011) existe uma cons-
piração do silêncio, um grave distúrbio na comunicação, quando o tema é a
morte. Segundo Azeredo et al. (2011 apud MEDEIROS; LUSTOSA, 2011),
o sofrimento no fim da vida é um desafio que se apresenta à medicina nesta
era tecnológica, mas não basta a aceitação e uma boa morte: a ideia de viver
deveria estar ligada à de bem-estar, de bem-querer. Apesar do escudo elabo-
rado pelo saber médico para privar-lhe de suas emoções, colocando-se dentro
de uma suposta neutralidade científica, o paciente precisa ter condições de
se sentir fora do lugar de objeto, de ser considerado enquanto sujeito de sua
vida e de sua morte.
Spindola e Macedo (1994 apud MEDEIROS; LUSTOSA, 2011) consideram
que o enfermeiro e os demais profissionais de enfermagem desempenham
um papel importante no cuidado junto aos pacientes hospitalizados, pois são
os profissionais que estão mais diretamente em contato com o paciente e a
família. Contudo, com frequência, são colhidos depoimentos das pessoas
reclamando de que esses profissionais se apresentam de forma fria e distan-
ciada na problemática. Os autores exemplificam, em um estudo recente em
um CTI de um hospital público do Rio de Janeiro, que esse comportamento foi
revelado porque os profissionais empregavam um mecanismo de defesa para
suportarem o seu cotidiano de trabalho penoso. Assim, a morte dos pacientes
passa a ser percebida pelos profissionais de saúde como um momento difícil,
gerando impotência e estresse, não deixando margem para que o profissional
se valha desses mecanismos de defesa para poder permanecer trabalhando.
Doenças como câncer despertam um duplo incômodo na situação de in-
ternação, tanto para o paciente e sua família quanto para os trabalhadores da
saúde: além dos estigmas da doença, do sofrimento que o tratamento engendra,
a aproximação da morte dentro de uma lógica em que ela deve ser afastada,
como a do tratamento clínico, pode trazer uma situação que desestruture
todos os envolvidos.
Para Reis et al. (2018), o câncer é uma doença que evoca inúmeras reper-
cussões, como o adoecimento, o tratamento (invasivo) e a hospitalização, e
estes geralmente afetam gravemente o funcionamento físico e psíquico do
sujeito, que costuma encarar a doença como uma interrupção de sua vida
habitual. A hospitalização rompe com sua rotina diária e pode fazer com que
o sujeito ressignifique diversas questões do dia a dia. Com relação ao risco de
vida, é essencial que a equipe, os familiares e os pacientes possam realizar o
processo de luto, ou seja, o trabalho feito por cada um com relação às questões
da transitoriedade.
14 O adoecimento e a morte
As doenças de difícil tratamento abrem uma brecha no discurso médico, fazendo
esses profissionais da saúde confrontarem-se com o papel da finitude. O Ministério
da Saúde disponibiliza informações sobre essas doenças e seus polos de referência
na sua página oficial.
Earp (1999) ressalta a importância do estudo de Kübler-Ross, 1969, Sobre
a morte e o Morrer, para pensar o papel dos profissionais de saúde em equipe
interdisciplinar frente ao adoecimento e ao risco de vida nos pacientes interna-
dos em hospital. A pergunta que Klüber-Ross faz em sua pesquisa é a seguinte:
como o paciente vive a fase crítica, os momentos finais de seu adoecimento e
doença? A equipe de saúde, nessa pesquisa, percebeu que falar sobre a morte,
apesar de trazer ansiedade, diminuía a tensão geral, uma vez que, na nossa
cultura, é costume falar o menos possível sobre ela, negá-la, o que, segundo
Earp (1999), é sinônimo de silêncio e de medicalização.
Kübler-Ross (1969 apud EARP, 1999) descreveu cinco fases pelas quais o
paciente passa sucessivamente após receber a notícia de que se encontra diante
da morte, os cinco estágios do luto: (1) negação, (2) raiva, (3) barganha, (4)
depressão e (5) aceitação. Esse processo, anterior à morte propriamente dita,
é o que realmente causa o sofrimento.
Na primeira fase, o sujeito nega psicologicamente o problema e evita
falar sobre ele. Na segunda, ele se revolta com o mundo, sente-se injustiçado,
inconformado. Na terceira, tenta reconciliar-se consigo mesmo, com Deus,
prometendo tornar-se uma pessoa melhor, como se alguma troca ou pagamento
fosse impedir a realidade. Na quarta fase, a pessoa se retira, se recolhe, parece
melancólica, impotente diante da situação. Na última fase, ela parece pronta,
não se desespera, aceita a situação real.
Obviamente, dependendo do paciente, de sua estrutura, ele não necessaria-
mente passará por todas as fases, nem seguirá uma sequência fixa no processo,
visto que cada um tem uma forma própria de fazer o trabalho de luto.
O adoecimento e a morte 15
O psiquiatra Sergio Vasconcelos de Souza tem uma coluna em um jornal local em
Nova Friburgo, na serra fluminense, na qual ele destacou, de modo sucinto e de forma
didática, os cinco estágios de luto da psiquiatra norte-americana Elisabeth Kübler-Ross,
descritos no seu livro Sobre a Morte e o Morrer (KÜBLER-ROSS, 2006). Os estágios são:
Negação: “Isso não pode estar acontecendo!”.
Raiva: “Por que eu? Não é justo”.
Negociação/barganha: “Me deixe viver apenas até meus filhos crescerem”.
Depressão: “Estou tão triste. Por que me preocupar com qualquer coisa?”.
Aceitação: “Tudo vai acabar bem”.
Segundo Earp (1999), na atualidade, a negação da morte tomou tantas
proporções que o hospital tornou-se o lugar para morrer. Medeiros e Lustosa
(2011) corroboram afirmando que a sociedade ocidental compreende a morte
como um tabu, um tema que sofreu uma interdição social e tornou-se sinô-
nimo de fracasso profissional para o trabalho em saúde. As autoras afirmam,
ainda, que a morte está cada vez mais ausente do mundo familiar, visto que é
geralmente transferida para os hospitais, além do fato de que as crianças são
impedidas de participar de despedidas cerimoniais.
Assim, é possível afirmar que é consenso entre os pesquisadores e profis-
sionais de saúde que a questão de uma doença que se agrava para uma situação
em que a medicina nada mais pode fazer para evitar a morte é que todos se
preparem para o processo de luto. Dessa forma, Reis et al. (2018) destacam
doenças como o câncer, em que o tratamento, a exclusão social e a quebra de
rotina desencadeiam uma desestruturação psíquica em função das inúmeras
perdas que a doença provoca. Os autores ressaltam, ainda, a importância do
trabalho de luto, trabalho psíquico que possibilita o processamento das perdas
causadas pela doença e pelo processo de tratamento. Isso é fundamental para
que o sujeito possa ressignificar seus investimentos, sua vida e a si mesmo.
16 O adoecimento e a morte
Autores ressaltam que a família merece um cuidado especial desde o
instante da comunicação do diagnóstico, por causar um forte impacto em
sua organização, o que, em muitas circunstâncias, em virtude das intensas
cargas emocionais desencadeadas, torna-se a situação de mais difícil manejo.
Segundo Mendes, Lustosa e Andrade (2009 apud MEDEIROS; LUSTOSA,
2011) o trabalho do psicólogo hospitalar tem como foco auxiliar na reorgani-
zação egoica frente ao sofrimento, facilitando e trabalhando angústias, medos,
dúvidas, incentivando, assim, o vínculo com a equipe de saúde. Facilitar a
comunicação da família com o paciente é outro foco das autoras, resolvendo
junto à família situações emocionais difíceis com o advento da doença ter-
minal. Assim, nessa concepção, “A preparação de um luto antecipatório,
sempre facilita e minimiza dores naturais da perda de entes emocionalmente
importantes [...]” (MEDEIROS; LUSTOSA, 2011, p. 213–214). Esses processos
de trabalho podem evitar o incremento de sofrimento doentio e repetitivo no
cuidado ao enfrentar a finitude tanto para o paciente como para a família, ou
mesmo para a equipe médica.
A saúde dos trabalhadores também é tema constante de artigos e pesquisas
abordando as práticas dos profissionais de saúde. Afinal, como tratar pacientes
se não se consegue permanecer saudável? Brotto e Dalbello-Araújo (2012)
debatem a importância da saúde do trabalhador e as massivas ocorrências de
adoecimento no trabalho nos ambientes de saúde e hospitalares, que trazem
consequências graves não só para esses profissionais, mas também para a
vida dos usuários. Os autores apontam que, além das dificuldades pessoais de
enfrentamento dos dilemas de adoecimento e morte dos pacientes, os profis-
sionais também adoecem por questões relativas aos processos de trabalho, as
quais devem ser revistas pelo Governo e pelos gestores de saúde e do trabalho,
para que se possa oferecer pelo menos nos serviços públicos um serviço de
qualidade nos moldes que defendem o SUS e a OMS.
Diante do exposto, é preciso pensar que, ao enfrentar o adoecimento e
a perspectiva de morte no cotidiano de trabalho, faz-se necessário que os
profissionais de saúde tenham condições de compreender como a doença e a
morte se configuram como tabu para o sujeito e para a sociedade e que seu
enfrentamento por uma via normal, ou o menos dolorosa possível, significa
passar por um processo de elaboração, de trabalho subjetivo, o processo
denominado luto.
O adoecimento e a morte 17
Brotto e Dalbello-Araújo (2012) realizaram um estudo para a avaliação da questão
da saúde do trabalhador para os profissionais de saúde, colocando ênfase no seu
adoecimento e nas formas de pensar os seus cotidianos de trabalho. Confirma, a
seguir, o resumo do trabalho de pesquisa:
INTRODUÇÃO: A Organização Mundial de Saúde (OMS) elegeu o decênio
2006-2016 como a década de valorização do trabalho e dos trabalhado-
res da saúde. Dentre os motivos está o fato desses estarem adoecendo
sistematicamente. Este artigo discute se este processo de adoecimento
é inerente ao trabalho em saúde. OBJETIVOS: 1) apresentar a concepção
de gestores municipais de saúde sobre a relação saúde do trabalhador-
-trabalho em saúde e 2) analisar como estes gestores explicam este
fenômeno de adoecimento dos trabalhadores de saúde. METODOLO-
GIA: Foi utilizada a técnica do Discurso do Sujeito Coletivo. Os dados
foram coletados entre maio e julho de 2011 em um município do estado
do Espírito Santo. RESULTADOS: Os gestores municipais afirmam não
ter dados numéricos que justifiquem a situação estudada e apresentam
dois tipos de explicação: questões ligadas à organização do trabalho e
questões pessoais dos trabalhadores. Sugerem haver um processo de
naturalização do adoecimento dos trabalhadores deste setor. CONCLU-
SÕES: Várias particularidades do trabalho em saúde ligadas a estratégias
de gestão ou a características dos trabalhadores parecem impedir o
aspecto socioafetivo do trabalho, propiciando adoecimento (BROTTO;
DALBELLO-ARAÚJO, 2012, p. 290).
Reis et al. (2018) afirmam que é preciso frisar a relevância de poder se
apropriar daquilo que é genuinamente seu, tal como o sofrimento, para que
se possa expressá-lo, vivenciá-lo e, enfim, ressignificá-lo. Isso vale tanto
para o paciente quanto para a família, os amigos e os profissionais de saúde.
A doença e a morte devem ser pensadas em seu caráter natural e inescapável,
mas nem por isso menos belo. A finitude deve ser trabalhada com os sujeitos
que não conseguem percebê-la como algo gerador de oportunidades, para
aproveitar tudo que é transitório, para descobrir o valor da vida para cada um.
Portanto, descobrir o valor da vida também significa se reposicionar diante
dela e do trabalho possível de se desempenhar no hospital, lugar consensual
onde a morte se apresenta de forma contundente.
18 O adoecimento e a morte
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