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O Lamento do Farol e a Saudade de Cecília

Sal - Leticia Wierzchowski

Enviado por

damareslima84
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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O Lamento do Farol e a Saudade de Cecília

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© 2013 by Leticia Wierzchowski Gomes

PREPARAÇÃO
Taís Monteiro

REVISÃO
Flora Pinheiro
Clarissa Peixoto
PROJETO GRÁFICO
Roberto & Fearn de Vicq de Cumptich
REVISÃO DE EPUB
Rodrigo Rosa
GERAÇÃO DE EPUB
Intrínseca
E-ISBN
978-85-8057-379-4

Edição digital: 2013

Todos os direitos desta edição reservados à


Editora Intrínseca Ltda.
Rua Marquês de São Vicente, 99, 3º andar
22451-041 – Gávea
Rio de Janeiro – RJ
Tel./Fax: (21) 3206-7400
[Link]
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“A imaginação é uma força da Natureza.
Não será isto suficiente para encher uma pessoa de êxtase?”
SAUL BELLOW – Henderson, o rei da chuva

“Desfaço durante a noite o meu caminho


Tudo quanto teci não é verdade,
Mas tempo, para ocupar o tempo morto,
e cada dia me afasto e cada noite me aproximo.”
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN – “Penélope”

“Espero sempre por ti o dia inteiro,


Quando na praia sobe, de cinza e oiro, o nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.”
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN – “Espero”
Para Carin,
porque o amor tem muitos nomes.
PARTE UM
O farol andava louco desde que Ivan morrera. Outrora emitia a sua luz a cada dois
segundos, essa era a sua identidade. Um lampejo certeiro e brevíssimo a cada dois
segundos e então os marinheiros sabiam exatamente em que ponto da costa se encontravam, os
barcos manobravam para longe das traiçoeiras rochas do litoral próximo a Oedivetnom e
seguiam viagem até o seu destino final.
Mas isso fora antes. Cecília achava que o farol sentia falta de Ivan; sentia-o como uma pessoa,
sentia-o com a mesma agudeza que ela quando a noite caía e vagava pela casa, trilhando os
velhos e amplos cômodos vazios, sem que nem mesmo um único eco do passado pudesse vencer a
barreira do tempo, atravessando o espaço para lhe fazer alguma companhia.
O farol pusera-se triste, meio demente de saudades. Afundava barcos por capricho,
enlouquecendo nas noites de tormenta, assim como Cecília quase enlouquecia na sua cama,
ouvindo os gemidos do vento e a reclamação contínua das ondas lá na praia como se fossem os
seus filhos chorando quando eram crianças (e isso fazia muito tempo).
A dor do farol era também a dor de Cecília. Ela sentia falta de Ivan como se lhe faltasse um
braço ou a palavra certa para completar uma frase, deixava cair as coisas de repente ou calava-
se no meio de um raciocínio.
Então era possível dizer que Cecília entendia o farol. Que ela aceitava que o farol, a despeito de
ser coisa, tivesse as suas particularidades e até um gênio, e com ele uma saudade – a saudade de
Ivan. Porque aquele velho e robusto farol tinha sido como um filho para Ivan. O farol era uma
espécie de âncora para a família Godoy: eles tinham atravessado o mundo num navio – tinham
atravessado o mundo várias vezes em vários navios –, mas fixaram-se ali naquela praia pequena
e rochosa, numa curva do continente, e ali procriaram e labutaram durante décadas, tendo
construído a casa que ganhara o mesmo nome da ilha, La Duiva, muito antes que Ivan viesse a
dar nesta vida. Quando ele nasceu, quando abriu os olhos para o mundo, os olhos virgens e a
alma ainda sem entendimento nem capacidade de juízo, a primeira coisa que viu – isso dizia
Ivan – foi o majestoso farol.
Ivan amara mais o farol do que amara Tiberius, amara-o mais do que amara Julieta, e Ivan
nunca se decepcionara com o farol como se havia decepcionado com Orfeu ou com Lucas.
Apesar de compreender o sofrimento do farol, Cecília achava que era necessário dar-lhe um
basta. Havia coisas demais em jogo, e um farol, mesmo ferido de morte, ou cumpre o seu destino
de farol ou se apaga. De fato, tal loucura tinha que acabar. Cecília não queria mais despertar
com restos de um naufrágio coalhando a brancura da areia, com os gritos dos marinheiros, no
escuro da noite, salvando sua preciosa carga com aquela coragem cega que ela conhecia tão bem,
típica dos homens do mar. Não... Os anos de naufrágios e salvamentos, de madrugadas insones,
de vozes confabulando planos à beira do fogão a lenha, de homens molhados, exaustos e famintos
vagando pela sua cozinha, bem, tudo isso tinha se acabado. Tudo isso tinha se acabado junto
com o próprio Ivan, e o pouco que Cecília lograra sustentar, enquanto Tiberius ainda estava ao
seu lado, até esse pouco hoje era demais, era absolutamente demais para ela.
Então, um dia Cecília despertou decidida. O sol brilhava lá fora no jardim, evocando todos os
tons de verde e de azul e de vermelho. Jasmins do céu e rosas e as flores na laranjeira, tudo estava
vivo e parecia luzir. Impulsionada por toda aquela luz, Cecília sentou-se à mesa e, com bloco e
caneta, escreveu à Capitania dos Portos, devolvendo-lhes a administração do problemático farol
que estivera aos cuidados da família por gerações. Teve que escrever a carta duas vezes, porque as
lágrimas molharam o papel até que ele se tornasse ininteligível, mas ela resistiu à dor daquela
amputação, pois já comprovara que um farol enlouquecido era carga demais. Ela não trazia no
sangue aquela sina – filha que era de um quase desconhecido que se deitara com a mãe. Ademais,
estava sozinha ali: tinha posto no mundo três filhos homens, e todos os três tinham partido por
um motivo ou outro.
O farol precisava de alguém à sua altura, um homem forte e jovem que pudesse domar-lhe o
selvagem coração de luz, o ventre de concreto, as vísceras brancas e vermelhas. Cecília seguiria
vivendo na casa no alto do penhasco, a casa que fora erguida pelo bisavô de Ivan, e, lá do alto,
esperaria a sua última madrugada, avançando pelos anos de solidão que se estendiam à sua
frente ancorada nas suas agulhas, tricotando em vermelhos e azuis, em amarelo-ouro e verde-
floresta toda a história de uma gente que tinha nascido das suas próprias entranhas. Era esse o
seu plano, e nem o farol haveria de demovê-la disso. Se o farol teimasse, se apagasse a sua luz no
meio de uma tormenta, se cambiasse os seus clarões, jogando às rochas os barcos inocentes, então
haveria de novo um homem para cuidar das coisas, para juntar os pedaços, amarrar e
encaminhar a carga salva, acionar a autoridade marítima competente e informar se havia
mortos, quantos feridos, quem precisava de socorro, acionar o seguro e chamar os funcionários
em Oedivetnom para listar os estragos e assinar os formulários pendentes.
Quanto a Cecília, cuidaria das suas lãs e das suas recordações. Também não descartava que,
um dia, Tiberius voltasse. Ainda havia alguma coisa pulsando entre eles. De qualquer modo,
enquanto ela não desse o último ponto, haveria tempo de estar com o filho. Trezentos e sessenta e
cinco degraus para cobrir com o seu tapete de tricô, da porta até o topo, lá no alto, e quando
chegasse lá em cima com as suas agulhas, seu tempo estaria findo. Era um plano quase literário,
pensava, digno de Flora.
É claro que o novo administrador teria que conceder na sua entrada, ajudando-a a estender o
longuíssimo tapete das suas memórias até o luminoso coração do farol. Mas Cecília tencionava
ficar amiga do novo administrador – não tinha se esquecido de pedir ao capitão do porto que lhe
mandasse um bom homem, um bom vizinho. Um faroleiro de bom coração, era só isso que Cecília
pedia. Um faroleiro que aceitasse o seu tapete tecido ao longo dos meses, dos anos. E então,
quando o último dos degraus ganhasse a última carreira... bastaria apenas um instante. Um
descuido do faroleiro e ela se jogaria no mar. Lá do alto, como um pássaro. Um último sopro do
vento salgado no seu rosto... Seria uma boa morte, Cecília achava que sim.
Viver mais para quê? Agora já não passava de um peão do tempo. A memória girando, girando
como uma agulha tecendo a sua lã. A memória estava em todos os cantos daquela vasta casa,
brotava das gavetas, pulava de dentro dos armários, dormia envolta nas colchas, debruçava-se
das janelas como uma criança travessa. Porque quando Cecília tricotava, tec, tec, tec, as agulhas
dançando a sua dança – quando Cecília tricotava, ela só fazia lembrar e lembrar e lembrar.
Tudo voltava outra vez, erguendo-se do nada ao seu redor, adquirindo cor e som e cheiro.
Tec, tec, tec... Ivan ao seu lado na cama. O calor do peito de Ivan. Ela andando na praia com
Lucas no colo. Azul para tricotá-los juntos à beira-mar. Julieta na sua cadeira olhando a
tormenta. Tec, tec, tec. Mais um degrau... E Orfeu vagando pelo ancoradouro com o seu bloco de
desenho. Os amores de Orfeu, vermelhos. E Eva e Flora, que choravam juntas, e dormiam juntas
de mãos dadas, e depois se separaram para sempre como uma única linha partida ao meio. Tec,
tec, tec, tec. Tiberius no seu colo, os loiros cabelos cacheados. Amarelo para o seu adorado
Tiberius. E verde para Ivan. E para ela? Que cor para mim?, perguntou-se Cecília. O branco. A
sobreposição de todas as cores. Tec, tec, tec, tec.
O sol entrou pela janela da cozinha, deixando um rastro de luz no chão. Cecília levantou a
cabeça, sequer olhou o relógio na parede. Sabia que já era tarde, a manhã ia pelo meio. Selou a
carta com cuidado. Quando o barqueiro chegasse com os mantimentos da semana, entregar-lhe-
ia o envelope. Ainda naquela mesma tarde, a carta estaria sobre a mesa do capitão. Ele logo
mandaria um bom homem, um homem de pulso, alguém para acalentar e controlar a alma
daquele pobre farol ensandecido.
Passava das dez e um verdilhão cantava lá fora, tentando atrair a sua fêmea. Cecília olhou a
paisagem da janela. As rosas que vibravam sob o sol matinal. O verdilhão estava certo, era um
bom lugar para romance. Uma manhã de primavera cheia de sol, e toda aquela luz incendiando
o jardim, esmeraldando o mar, avermelhando ainda mais as rosas vermelhas. Ela já estava
atrasada, o barqueiro devia estar ancorando.
Cecília abriu a porta da cozinha e saiu para o quintal. Ao deixar a casa, o sol a cegou por um
momento. Tinha um rosto bonito e já meio apagado pelos anos. Ela cobriu os olhos com a mão
em concha e seguiu por entre os canteiros estufados de flores no caminho que serpenteava até a
praia. Descia rapidamente, seu corpo seco e esguio acostumado a cada pedra. A cada degrau
cavado na encosta, os pés pisavam o chão com segurança.
O barqueiro descarregava o último pacote quando Cecília chegou ao ancoradouro. Trocaram
um breve sorriso. Havia quantos anos que se conheciam? Ela ainda era uma menina, e ele tinha
os cabelos negros e bastos. O tempo tinha passado por eles, de fato.
O barqueiro, que se chamava Tobias, indicou os pacotes empilhados na areia a uma distância
segura do mar.
“Já vou subir isso pra senhora”, disse ele, tirando o chapéu.
“Deixe”, respondeu Cecília com um sorriso. “Eu mesma faço isso, Tobias. Tenho tempo de
sobra pra subir esses pacotes, todo o tempo do mundo.”
O barqueiro olhou-a com preocupação. Era um povoado pequeno e, excetuando-se os turistas
que vinham em levas no verão, todos se conheciam. Tinham orgulho daquela intimidade que
comparavam com a vida agitada de Oedivetnom.
“Não quer ir até a cidade dar um passeio?”, perguntou Tobias gentilmente. “Voltamos antes de
a maré subir. Comer um bolo gostoso na confeitaria, o que acha?”
Cecília estendeu-lhe o braço. Tinha uma carta na mão firme e um sorriso complacente no
rosto.
“Eu não vou à cidade, Tobias. Mas queria que você levasse esta carta para mim. Para a
Capitania dos Portos.”
O barqueiro pegou o envelope e guardou-o com cuidado no bolso da camisa listrada.
“O velho farol louco de novo?”
Ela aquiesceu.
“Precisa de um homem por perto antes que cheguem as tormentas de inverno.”
O barqueiro correu os olhos pela praia como se buscasse a prova das estrepolias do farol. Mas
estava tudo limpo e calmo por ali. Seus olhos subiram pelo morro, contornando as pedras
cinzentas e pontiagudas, os tufos de capim, as sarças e os promontórios de areia, até pousarem lá
em cima, na casa branca e azul debruçada sobre a praia, em cujo jardim as flores borbulhavam
em esfuziante euforia.
Tobias tornou a fitá-la.
“A senhora vai partir?”
“Eu?” Cecília riu. “Não tenho para onde ir, Tobias. Eu fico aqui. Ainda tenho trabalho a fazer.
Muito verde e muito azul, sépia e amarelo... Você vai ter que trazer comida para mim ainda por
um bom tempo.”
“A senhora está mesmo precisando”, ele disse com um ar sério, fitando-lhe a cintura fina.
Cecília tirou do bolso o dinheiro já contado anteriormente e entregou-o ao barqueiro. Eles
trocaram um olhar de adeus.
“A carta eu entrego ainda hoje”, garantiu Tobias.
Cecília ficou na praia vendo o barco partir, cortando as ondas mansas. Nenhum vento
soprava, o que era raro nas primaveras daquela costa. Apesar disso, o ar estava salgado e fresco.
Ela acenou uma vez para o barco que se afastava, embora Tobias estivesse ocupado com alguma
coisa e não notasse a mão branca bem erguida acima da cabeça da mulher parada na areia. Ela
acenou porque sentia falta de acenos. Apenas as suas próprias mãos haviam sobrado por ali.
“Adeus”, ela falou, experimentando aquela palavra já meio esquecida.
Adeus, adeus, adeus.
E então lá estava Cecília de novo, tudo de volta como antes, o tempo mordendo o próprio rabo
como um cachorro maluco, e a sua boca de trinta anos atrás, cheia e rubra outra vez, chamando
por Ivan. Não um adeus, mas um sim. Aqueles tinham sido tempos de sins. E os acenos eram
sempre acenos de chegada.
F LORA

E
screver é uma espécie de poder sobrenatural. Como ver os mortos ou fazer levitar os móveis
da sala. Tenho pensado muito nisso. Tenho pensado nisso depois que as coisas começaram a
acontecer fora do meu livro do mesmo modo que ocorriam lá dentro.
Como? Como exatamente a invenção que eu desfiei por dias e noites de verdadeiro furor,
trancada no meu quarto, exausta e feliz de descobrir, após tantos livros lidos, que eu também podia
fazer aquilo, como é que a invenção extrapolou as páginas e ganhou a realidade?
Não sei, mamãe. Juro que não sei... Eu queria muito contar uma história, queria muito brincar
com a vida, e brinquei com ela como uma criança com a sua bonequinha preferida, balançando-me
nos ferros da pracinha da ficção como uma dessas menininhas de meias frouxas que dão saltos
temerários, subindo e descendo no seu balanço com as pernas lá no alto, como se quisessem sair
voando sobre a cidade. Bem, a minha história saiu mesmo voando, não é? Foi ruim para você. Para
mim foi pior, nem preciso lhe dizer, mamãe... Porque é claro que nem tudo estava no papel, nem
tudo.
Houve um tempo em que, com o coração aos saltos, eu pude perceber as semelhanças, a
princípio bastante sutis, entre fatos que estavam acontecendo aqui fora e as cenas ficcionais que eu
tinha escrito lá dentro. Eu sentia as mãos úmidas, mamãe, mas também sentia uma coisa boa
borbulhando dentro de mim, como se eu fosse um vulcão prestes a entrar em erupção, mais ou
menos isso... Você não tem ideia do que é experimentar este poder, o poder da criação, as coisas
erguendo-se de um mundo totalmente imaginário, erguendo-se com tamanha força e ímpeto que,
um dia, extrapolam a imaginação, vazando por todos os lados feito uma inundação impossível de
ser contida, cujo resultado é simplesmente uma enchente de ficção na sua vida real.
Eu devo ter me sentido um pouco bêbada de tudo isso, e foi assim meio embriagada que eu vivi
por alguns meses, você sabe. Coisas aconteciam, iguaizinhas àquelas que eu tinha escrito, mas eu me
punha a pensar – enquanto amava, enquanto bebia dos olhos de Julius, daqueles seus olhos de um
azul-pálido como o das hortênsias que florescem aos montes por aqui em janeiro –, eu me punha a
pensar: e se as coisas simplesmente continuarem acontecendo? Acontecendo tal e qual eu escrevi?
Ou pior: e se elas mudarem de repente, ganhando vida própria, um passo a mais na autonomia
além deste que elas já deram, esse passo para fora do papel? Até onde as coisas terão de fato coragem
de ir?
Agora sabemos, mamãe. O que eu não pude contar e o que eu contei lá, tudo aquilo que estava
impresso e que alcançou Oedivetnom e seguiu além (o original que chegou a Cambridge, às mãos
de algum excêntrico professor de literatura, se é que as promessas de Julius ao menos nesse quesito
tenham sido reais), tudo se misturou finalmente. Formou-se uma terceira coisa, amálgama de ficção
e de realidade, de paixão e de tragédia, de palavra e de lã, não é mesmo, mamãe?
Mas foi bom enquanto durou. Cada um representando o seu papel direitinho. Enquanto houve
um roteiro.
É estranho dizer isso, mas, embora a minha história verdadeira já tenha o seu ponto final, eu
acabei de criar você no papel. Quero dizer, neste momento, no livro, você acaba de nascer. Já
adulta – a ficção tem as suas vantagens... Eu posso fazer o que quiser com o meu personagem. Ou
com o narrador. Eu vou e venho ao meu gosto, porque aqui nestas páginas a lógica é minha. Vim lá
do final de todas as coisas – e que final! – apenas para lhe dizer isto: eu recriei você. Inverti a jogada.
É delicioso e assustador ao mesmo tempo, porque não deixa de ser uma transposição absurdamente
maluca do processo natural da vida. Mas aqui dentro não há um processo natural. Ou há – sou eu
quem decide isso... Teci a sua história como se fosse um tricô. E, quando tudo acabou, um capítulo
antes do ponto final, você correu às agulhas. Nosso trabalho em equipe, mamãe...
Uma cor para cada um, exatamente como você fez a vida inteira com os seus novelos. Mas eu
usei o fio das palavras. Tudo lá fora andava tão igual a sempre, a vida se movendo no seu compasso
peculiar. Nesta parte meridional do mundo o ritmo era muito suave, macio. Um gato caminhando
num jardim ensolarado. Não havia pressa para nada. Eu agilizei um pouco as coisas na minha
história... Aqui fora, você circulava pela casa do mesmo modo que sempre fez todos os dias, pousava
sua mão esguia no espaldar da poltrona perto da lareira, arrumava as flores naquele vaso que papai
comprou em Oedivetnom num dos seus aniversários, o mar sussurrando lá na praia, papai perdido
nas entranhas de um barco, Lucas na oficina, Orfeu vagando por ali com o seu caderno de desenho
sob o braço, Eva (onde estaria Eva?) rolando nas dunas com algum marinheiro bonitinho, Julieta
em seu quarto, Tiberius desvendando Ptolomeu em algum desvão da casa... Mas, nas minhas
páginas, cada um de vocês era matéria maleável sob os meus dedos, pude fundi-los e separá-los, pude
reinventá-los, reunindo-os em pedaços menores, em pequenos detalhes decantados que distribuí
segundo a minha vontade absoluta.
Inventá-la foi incrível, mamãe. Não fiz de você a mãe ideal, isso seria tão ridiculamente óbvio e
fugiria ao meu projeto. Fiz de você uma outra, apenas uma mulher. Os mesmos olhos, o corpo
anguloso, essa mania de tricotar por horas. Mas outra... A sombra de uma mulher voluptuosa. Um
vulcão extinto cheio da memória de antigas erupções.
Anotações para um personagem:
Aos quinze, um jovem solitário
aos vinte, apaixonado
tez morena
olhos verdes
era quieto
um pouco sisudo, mas nunca com ela.

Tiveram seis filhos.

Quando nasceram os filhos,


ele começou a ficar igualzinho ao pai,
como se voltasse no tempo.
Tão quieto, justo, honesto e um pouco seco —
eram dois homens que amavam um farol.

Aos quarenta, ele ainda era bonito


mas quase intocável.
Às vezes eles se encontravam
no escuro do quarto.

Cor verde. As marés. O vento no rosto. Varonil.


A morte herdada.
Seu nome era Ivan.
VERDE

O farol estava lá desde que eu nasci. Encarapitado na ponta pedregosa da praia


onde o mar fazia uma curva suave. As pedras se espalhavam ao seu redor como
oferendas que alguém tivesse depositado ali num ontem qualquer. Oferendas cobertas de algas,
abrigando colônias de mexilhões e minúsculas conchas rosadas que eu juntava, secava ao sol e
guardava numa caixa apenas por guardar. Coisa de criança.
O meu pai trabalhava no farol com mais um ajudante. O Ernest. Ele era quase parte da
família, pelo menos eu pensava assim. Era alto, muito magro, observador e perspicaz ao modo
dos pescadores. Meu pai ria muito dele e ralhava muito com ele também. Tinham uma relação
masculina, de trabalho, mas dava para dizer que, do jeito deles, os dois eram amigos. “Ernest,
vocêé um bicho preguiçoso”, meu pai gritava-lhe às vezes com uma voz alegre, que não me
punha medo. Aquela era a voz que o velho usava para tudo. Atrás dele e daquele vozeirão estava
sempre eu. O filho único do faroleiro e da sua mulher.
Antes de ajudar o meu pai, Ernest trabalhara num barco-farol e perdera um dedo mexendo
com algum material explosivo que eles costumavam usar por lá. Ele era um preto enxuto, com
uma pele tão escura que podia desaparecer na noite se estivesse com as pálpebras fechadas,
porque o branco dos seus olhos brilhava na escuridão como uma espécie de luz de outro mundo.
Era como se ele não fosse completamente humano à noite. Ernest então parecia um bicho grande
da selva, domesticado pelo convívio com os homens, já velho demais para caçadas e perigos e o
sangue escorrendo da boca, um bicho muito sábio que resolvera se aposentar ali na nossa praia,
cuidando daquele farol grandalhão que sempre fora o centro da vida do meu pai e que, sem que
eu soubesse ainda, estava destinado a ocupar o mesmo lugar de honra na minha própria
existência.
Lá estava eu, ao lado do Ernest, segurando o balde para os peixes. Tenho um nome comum:
Ivan. Foi a minha mãe quem o escolheu, parece que era o nome do pai dela. Minha mãe contou-
me que teve um pai e uma mãe também, dois irmãos e uma casa com sótão, mas eu nunca vi
nada disso e não sei se acredito muito. Quando eu a conheci, ela já vivia aqui, na casa grande de
dois andares cujas janelas pintadas de azul deixam vazar a luz do sol de verão e o vento cortante
do inverno. E ninguém da família da minha mãe jamais apareceu por estas bandas. Mas eu sou
Ivan, o neto do pai que ela alega ter – duas criaturas com o mesmo nome que nunca se viram na
vida.
Já é bem tarde e eu deveria estar na cama. Minha mãe não gosta de me ver acordado a uma
hora dessas, mas acontece que a janela do meu quarto abre facilmente e tenho certeza de que o
pai não se importa que eu pesque alguns peixes com o Ernest. Andamos à beira-mar, não faz
mais frio agora, mas venta um pouco. As estrelas nos espiam lá de cima, e o Ernest me conta da
Constelação de Órion. Gosto de ouvir Ernest falar, embora eu não entenda algumas coisas que ele
diz. Não faz mal, a voz dele é boa, macia.
Sempre ventou por aqui. No inverno e no verão. Ventar é uma mania deste lugar. Tardes e
noites com o vento soprando, e as manhãs silenciosas, as gordas nuvens pairando quietas no céu
feito vacas num pasto azul. Começa a ventar lá pelas onze horas, eu nem preciso olhar o relógio...
No inverno, o vento sopra por três dias, e eu fico triste e cansado, preso em casa por causa das
doenças de pulmão. A minha mãe tem muito medo das doenças de pulmão, alguém na família
dela morreu disso quando era criança.
Mas durante parte do ano, fazia calor. E então eu fugia do quarto para pescar com o Ernest.
“Doña não ia deixar por nada neste mundo, não é, menino?”, brincava o Ernest sempre que
escapávamos para a pescaria. “Ela nunca ia deixar que o menino dela pegasse uma pneumonia
por causa dum preto como eu.”
A Doña era minha mãe. Ela tinha um nome: Alba. Mas todos a chamavam “Doña”. Ela
gostava mesmo de possuir as coisas. Quando olhava a casa, grande e bonita, seus olhos
brilhavam. Era o mais perto da felicidade que ela conseguia chegar, ficar olhando as coisas
inanimadas, bonitas e caras que ela tinha acumulado na vida. E não eram muitas: um par de
brincos de pérola, um colar de ouro, alguns vestidos de seda que o pai comprara de um
marinheiro, a casa, o farol, os tapetes da Pérsia. Ela não gostava de gente, não gostava mesmo.
Gente lhe inspirava desconfiança. Tinha medo que a roubassem, que lhe mentissem, que a
enganassem. Afora o pai e eu, claro. Ela gostava de nós, gostava de mim como de uma coisa
bonita e cara que tinha o inconveniente de andar, de ter ideias próprias, de desobedecê-la, ao
invés de ficar trancada numa gaveta.
Bem, ela era assim. Doña Alba. Mas Ernest a chamava sem o complemento de um nome
próprio, acho que por vingança mesmo, uma vingança forjada no desprezo, vingançazinha que
um menino como eu ainda não podia entender de todo, apenas intuir, e quando o menino
finalmente cresce para entender melhor as coisas, a sua mãe já está morta, Ernest já está morto,
e o passado inteiro, enterrado sob sete palmos de areia. Acontece que minha mãe era uma mulher
rígida. E entre as suas regras, bem... Ela não era de falar com pretos. Com o Ernest ela não falava
nunca. Lavava a sua roupa e cozinhava a sua comida, usando não sei quais artifícios para
cumprir essas tarefas, mas falar com ele, isso não.
Não sei por que enveredei a falar da minha mãe. Ela não era importante na minha vida. Eu
tinha dez anos e vivia fugindo dela, como fugira há pouco pela janela do quarto para pescar com
o Ernest. Pois ele sim era importante pra mim.
Enquanto eu andava à beira d’água ao lado de Ernest, carregando o velho balde de lata e
ouvindo-o contar de Aimé Argand e sua lâmpada, e do físico Augustin Fresnel, eu era feliz.
Embora fosse preto e pobre e indigno das palavras da minha mãe, Ernest não era nem um pouco
tolo, era um autodidata que enchera o seu quartinho ao lado do galpão com os livros de toda
uma vida. Ah, lembro-me de andar ao lado dele na praia silenciosa e prateada, enfiando os pés
na areia fria, o balde balançando ao lado do meu corpo, fazendo aquele barulhinho enjoado, iuú,
iaá, porque a alça estava começando a enferrujar. Eu tinha dez anos, creio que já disse isso. E
admirava o Ernest. Foi uma noite feliz, digna da memória detalhada que eu guardo dela.
Andando ao lado daquele faroleiro queimado de sol, o menino que eu era jamais poderia
imaginar o que o esperava numa curva do tempo. Morrer daquela forma, feito um cão, caindo de
cara nas pedras que eu costumava escalar naquele tempo, ferido de morte pela mágoa do Lucas.
Eu tinha dez anos então... Ter dez anos é uma espécie de glória. Quem pensa no seu coração aos
dez anos? Quem pensa naquela pequena bomba oculta no mediastino médio, impulsionando
sangue para o corpo todo? Ah, eu queria o meu balde cheio de peixes, queria as histórias do
Ernest, e teria tudo isso antes de voltar para casa, sorrateiro, e me esgueirar pelas paredes,
pulando a janela para dentro do meu quarto.
Mas, de fato, um coração, qualquer coração, deixa de bater um dia. Eu preciso realmente
aceitar essa ideia. Antes de uma xícara de café, depois de uma sessão de cinema, na estação de
trem, sempre haverá uma hora, um instante último para um coração. Calhou que o meu tivesse
escolhido aquela briga com o Lucas para sair de cena, um grand finale. Ou teria sido apenas
uma coincidência? Ernest, pelo que eu me lembro, acreditava em coincidências, no
encadeamento completamente aleatório das coisas, na mágica do imprevisto. Por que eu não
consigo apenas me conformar com as boas certezas do velho Ernest? Bem, a vida para ele
também não terminou com muita glória... Não teve um fim dos mais espetaculares, mas não
creio que ele acalentasse alguma ilusão a esse respeito.
Mas isso dói tanto... Pular da praia enluarada para aquela tarde, a dor lancinante, as pedras
furando meus olhos. Talvez seja melhor ir mais devagar com as coisas. Lucas e o meu coração
terão a sua vez. Mas agora não...
Ainda não.
Afinal, a água era tão boa, e a maré estava para peixe.
A gente pescava bastante por ali. E embora o Ernest me ensinasse tantas coisas, o silêncio era
uma terceira companhia. Ouvir o mar cantando, e o ruído da areia quando a água descia para o
lugar de onde tinha vindo, aquele barulhinho bom... E depois, quando parecia ser o momento
adequado, o Ernest abria a boca e eu via aqueles seus dentes brancos luzindo na noite, e então ele
me contava coisas, tantas coisas, reais e inventadas, que eu poderia ainda hoje fazer um
compêndio delas.
Mas nem sempre eu podia aprender com o Ernest. Havia um colégio na vila, e obrigavam-me
a frequentá-lo todas as manhãs. A professora se chamava Olenka e nunca tinha lido Dostoiévski
como o Ernest. Eu não queria aprender o que ela ensinava, não queria mesmo. Eu só sabia pensar
em barcos, correntes, rotas, faróis. Eu não queria os cadernos e os lápis, queria a areia e os
rochedos, queria o vento, as lições mundanas do Ernest e a liberdade da praia. Ernest era o meu
professor de verdade, muito embora minha mãe fosse ficar horrorizada com uma ideia dessas.
Ah, aquela praia... Eu era o seu dono, ela era minha. E mais minha ainda naquelas noites
furtivas. O mar escuro, a brisa fria e úmida, Ernest e a sua tarrafa que brilhava ao luar,
capturando luzes misteriosas, fazendo desenhos no céu quando pulava das suas mãos escuras e ia
se entranhar nas funduras da água.
Ainda me vejo lá, os pés semienterrados na areia molhada, agachado ao lado do Ernest
naquela noite de primavera. No alto do morro, para além da areia, dava para ver o vulto da
nossa casa, a sombra da varanda vazia, quieta. Uma luzinha amarela, minúscula, podia ser a
brasa do cigarro do meu pai. Ele às vezes andava em frente à casa, fumando e espiando o mar
antes de dormir. Minha mãe já se recolhera. Ela não gostava do silêncio das noites à beira-mar.
Aquela voluptuosidade muda tinha algo de profano para ela, e ia cedo para a cama.
Tínhamos pescado uma meia dúzia de bons peixes, e o Ernest limpava-os com maestria, a faca
dançando no ar como um pequeno farol só nosso. Eu estava agachado ao lado dele, insistindo em
alguma coisa. Ele era uma espécie de ídolo para mim, eu já disse isso. Toda aquela liberdade que
ele tinha, as histórias que contava. Acho que eu estava insistindo naquela coisa da escola, e devo
ter lhe dito: “Mas por que você não pode ser meu professor? Eu não entendo isso... Você sabe tudo
de faróis, do mar, sabe pescar e lê muitos livros. Quando eu crescer, vou cuidar desse farol, para
que então eu preciso de mais?”
Ernest ameaçou largar a faca na areia para me explicar alguma coisa usando as duas mãos.
Tinha umas mãos nodosas, bicolores, o dorso preto e aquelas palmas de um branco amarelado,
riscadas de marcas profundas como um pergaminho que tivesse vida própria. Bem, só de olhar
aquelas mãos alguma coisa acontecia em mim... Quero dizer, você podia confiar num homem
que tivesse mãos como as do Ernest. E, numa delas, como eu disse, faltava um dedo. A carne
terminava de repente num emaranhado cor-de-rosa, como se a própria mão tivesse engolido
aquele dedo num surto de autofagia.
“Menino, você não pode entender...”, disse ele, fazendo um belo trabalho naquela garoupa –
acho que era uma garoupa. “Não importa quanto um preto como eu saiba dos livros e da vida,
um menino como você precisa de uma professora branca, e de notas escritas a caneta num
boletim escolar.” Ele riu, e seu riso, curto e sábio, se perdeu na noite ventosa. “As coisas são como
são, Ivan.”
Aquilo era mágica para mim. Estar com ele ali, e ouvi-lo falar daquele jeito. Era uma lógica
simples e compreensível, e eu podia ver, como ele via, a tolice que sustentava as regras do mundo,
e quanta injustiça havia por todos os lados. Principalmente na minha casa, eu pensava.
Principalmente lá. Ernest tinha as suas próprias ideias socialistas, que ele guardava a sete
chaves para que não lhe trouxessem mais problemas. Vivia bem conosco, e tinha o farol para
cuidar. Era um homem que precisava de um farol e, de qualquer modo, meu pai era um patrão
razoavelmente justo, e ele tinha tempo para ler e dinheiro para ir até Oedivetnom umas duas
vezes por ano para comprar seus livros de segunda mão. Isso lhe bastava.
Mas então o filho do patrão, aquele menino magro e curioso que eu fora, encantara-se por ele,
seguindo-o como uma sombra por todos os lados. Ernest afeiçoara-se a mim, levando-me em
suas pescarias, e vez por outra me dava um livro de Dickens ou Melville para ler, e depois
ficávamos falando da história por meses, e Ernest partia da narrativa para me ensinar as regras
da vida real.
Ele acabou de limpar os peixes e passou a faca na areia. Enfiou-a então no bolso da calça de
sarja, que usava dobrada pelo meio da canela.
“Terminamos por aqui”, ele disse.
Ventava bastante, mas não fazia frio. Era um vento vivo e limpo, que cheirava a algas e fazia
a gente ter ganas de correr e de gritar. Uma bela noite no litoral de La Duiva em outubro, dava
para adivinhar o verão chegando na ponta dos pés com a glória dos seus entardeceres e o cheiro
das damas-da-noite impregnando os jardins.
Eu não queria ir embora. Mas Ernest recolheu o balde, que pesava com os peixes limpos.
Recomeçamos a caminhar, agora no sentido da casa.
“Mas você podia falar com o meu pai”, insisti.
“Olha, menino, eu posso ensinar você a trabalhar com o cabo da âncora e a usar as luzes de
navegação, posso falar de constelações, de marés... Eu já faço isso nos nossos passeios, não é
mesmo? Mas não posso ser seu professor de verdade. Sou um amigo que divide seus
conhecimentos com você. Se o menino fala alguma coisa dessas com a Doña, eles me demitem...”
Então ele me mostrou pela centésima vez a sua mão direita, aquela onde faltava um dedo. “E
quem vai me dar trabalho numa fábrica? Um homem com nove dedos? Além disso, eu só entendo
de faróis.”
Fiquei pensando no que ele disse. A subida era íngreme e meus pés escorregavam na areia fria.
Dava para sentir o vento aumentando, o vento era muito pontual nessas coisas, aumentava pela
madrugada e soprava até o sol ir alto, pelas dez da manhã, quando então ia ventar noutras
paragens. Surgiram as primeiras pedras bloqueando a passagem e obrigando-nos a contornar o
enorme vulto do farol. Como uma cabra, eu escalava os molhes atrás do Ernest. Íamos em
silêncio, porque eu não tinha mais nada a dizer. Não queria que ele fosse embora, preferia
aguentar a escola e a minha professora. A noite tinha acabado para mim – eu precisava ir para a
cama antes que a minha mãe descobrisse a minha ausência.
“Vamos, menino.” A voz do Ernest cortou o silêncio.
“Estou indo, Ernest. Não se preocupe, eu já escovei os dentes. Pulo a janela e me enfio na
cama.”
Ele riu baixinho, e seu riso me encheu de uma coisa boa. Afinal de contas, eu tinha aquelas
noites roubadas, e a gente pegava uns peixes grandes, pegava mesmo...
Para desgosto da minha mãe, Ernest foi o meu grande professor. Li a maioria dos livros
pensando em outra coisa, e acho que ele se decepcionava um pouco com a minha desatenção, mas
para as coisas práticas eu era como uma esponja. Aprendi com ele a desmembrar um motor de
lancha, a dar um nó oito e um nó frade como ninguém, e sempre que vejo Órion no céu, penso em
Ernest, que conhecia todas as constelações, até mesmo as que não eram visíveis no nosso
hemisfério, e desenhava-as na areia para mim com um graveto. Acho que ele foi a única pessoa
que eu amei de verdade, até que Cecília chegou na nossa casa.
F LORA

A
cho que sempre gostei de escrever. Mas houve um tempo em que eu não sabia disso.
Palavras. Eu colecionava palavras. Varanda, faiança, ametista, ventríloquo, rubéola,
amapola, cripta, madeixa, cintilância, amêndoa. Eu as saboreava como se elas tivessem gosto,
e o sumo das palavras preferidas escorria pela minha boca.
Mas, claro, Eva sempre achou isso ridículo. Sempre fomos opostas, nós duas, embora Cecília,
minha mãe, contasse que dormíamos de mãos dadas no berço. As gêmeas, sempre detestei quando
nos chamavam assim. Eva não gostava de palavras e achava que ler era simplesmente a coisa mais
chata que alguém poderia fazer com o seu tempo livre. Ela preferia caminhar, nadar na água gelada
por horas. Eva era boa nos esportes – corria como um guepardo e nadava como um peixe. Tinha
um corpo bom e delgado, que dobrava nos lugares certos e se avolumava nos lugares certos
também. Bem, dá para imaginá-la... Os cabelos ruivos – e Eva era uma das poucas ruivas cuja
melanina trabalhava de verdade. Ela deixava os homens loucos. Falavam dela na cidade, a filha ruiva
de Ivan... Eva se envaidecia muito com isso.
Eu nunca fui feia, não mesmo. Era até bonita, bastante agradável de se ver. Mas alguma coisa de
Eva não se reproduzira em mim... Ela tinha um fogo interno, e esse queimor misterioso lhe dava
uma espécie de brilho. Eva acendia os lugares onde entrava e os homens corriam para ela como as
mariposas burras são atraídas para uma lâmpada no meio da noite mais escura. Eu ia atrás desse fogo
nos livros, ardia mentalmente e me incendiava em terríveis labaredas cada vez que começava um
romance novo. Pelas mãos de Tolstói, eu era a própria Anna Karenina; guiada por Jane Austen,
padecia os sofrimentos da pobre Emma – e isso, sim, era a vida para mim, isso era o que valia
quando eu me deitava à noite, a cabeça no travesseiro de penas, o ritual silencioso de dar adeus ao
mundo real e mergulhar numa noite de sono, e sonhar, sonhar com os meus livros.
Então tínhamos essa dicotomia. Eva bronzeada, correndo de um lado para outro, seduzindo
rapazinhos, e eu à sombra, com um livro aberto, escondida no sofá da varanda tardes inteiras.
“Flora vive sonhando”, era isso que meu pai dizia ao me ver encarapitada no meu canto da
varanda.
Eu lhe mostrava o meu livro, sempre um livro novo. Ivan fingia ler o título impresso enquanto
pensava no rombo do casco daquele último barco que chegara e depois desaparecia para resolver os
seus assuntos. Ele estava sempre atrasado para algum trabalho – uma cerca tinha sido despedaçada
na última tempestade, era preciso mandar que um dos funcionários plantasse as flores da mamãe, ou
o pessoal da Marinha estava por vistoriar o farol, ou um naufrágio, ou uma carga para embalar...
Era um homem prático e limpo, confiável e sem imaginação.
Tantas tardes na varanda e eu logo li todos os livros deixados por Ernest. Encontrei-os no
depósito perto do antigo dormitório dele, no fundo do terreno, lá para os lados do farol. Estavam
empacotados em duas enormes caixas soterradas por latas com resto de tinta, apetrechos de pintura
e de jardinagem e refugos de antigas reformas feitas na casa. Sob uma pilha de lajotas azuis e um
velho berço desmembrado, as duas caixas esperavam pacientemente. Entre as coisas esquecidas
estavam os livros.
Isso pode dizer alguma coisa sobre uma gente, foi o que pensei naquele dia, quando, tomando
cuidado para não machucar o conteúdo daquelas velhas caixas recobertas pela poeira dos anos, dei
de cara com a fileira de lombadas de encadernações gastas nas quais se liam os nomes de Flaubert,
Eça de Queiroz, Tolstói, Homero. Isso pode dizer alguma coisa sobre uma gente: soterrar os livros
sob anos de entulhos de uma vida prática. A literatura, o sonho e a fantasia escondidos sob latas de
tinta e pedaços de linóleo.
Não vou negar que isso foi uma grande decepção para mim. Foi fácil identificar aqueles que
não tinham culpa daquele degredo. Julieta era inocente, coitada... Orfeu, apenas dois anos mais
velho do que eu, calhou que nunca se metera naquele galpão. Eva, bem, dessa vez ela não tinha
culpa. E Tiberius, o caçula... Ele só pensava nas estrelas. Eu poderia culpar Lucas, o mais velho, mas
só um pouquinho... Ele era meu irmão fio terra.
Quem realmente renegara aquele tesouro ao esquecimento e às traças tinha sido meus pais. A
doce Cecília e o atarefado Ivan. Sim, dava para confiar bastante no papai, desde que o seu assunto
fosse palpável e prático. Ele não podia mensurar os anos gastos para que cada um daqueles livros
ganhasse forma, os homens suando sobre as suas páginas, quanta energia vital tinha se derramado
ali... Ele não podia imaginar a cadeia. Os séculos passando, e milhares e milhares de pessoas
folheando aqueles livros, bebendo deles. Tudo isso enfiado numa caixa de madeira ordinária – em
uma não, em duas – e condenado a mofar naquele galpão de coisas esquecidas.
Bem, eu me recuperei dessa decepção. Um casal de pais práticos e terrenais – o máximo que
minha mãe conseguia em termos de delírio era tecer um suéter. Eles estavam preocupados com
aquilo que se podia ver e tocar, ocupavam-se da chuva e do sol, das marés, da temperatura do forno
e dos achaques do fígado. Meu pai, um cara tão bom (porque ele era realmente bom) deixara a
única herança de Ernest, seu melhor amigo – seu mentor, como ele gostava de dizer –, apodrecendo
naquele depósito úmido. Mas dê um disco para um surdo e ele vai usá-lo como bandeja.
Enfim, eles eram meus pais e me amaram mesmo sem compreender essa minha tendência ao
que chamavam de “derivação fantasiosa”. Quando Julius finalmente chegou aqui, atravessando o
mar na esteira das palavras que eu escrevera, vi nos olhos de Cecília que ela compreendia todas as
coisas, as coisas e os seus desdobramentos... Sim, ela estava do meu lado, torcendo por mim,
torcendo que eu realizasse aquele meu desejo doido de virar uma escritora, uma escritora lida e
adorada, cujas obras mal tocassem as estantes das livrarias, disputadas por leitores ávidos.
Mas voltemos aos livros, aos livros dos outros. Eu desencaixotei todos aqueles volumes, limpei o
pó de cada lombada, livrei-os das traças, um a um, e meus olhos lhes insuflaram vida outra vez.
Hemingway, Nabokov, Dostoiévski, Henry James, Homero, Virginia Woolf. Uma boa lista. E,
depois disso, quando eu lhes mostrei o meu butim limpo e organizado, ninguém lá em casa fez
muito caso – papai talvez tenha ficado um pouco emocionado ao rever aquele pedaço de Ernest e
gastou uns quinze minutos relembrando as velhas noites de pescaria. Depois disso, voltou aos seus
afazeres e eu organizei os livros numa estante do quarto que dividia com Eva. Escolhi a minha
primeira leitura e tratei de me meter sob a fascinante pele de Humbert Humbert.
Cecília estava ali. Remexia o tacho de doce, vira pra cá, vira pra lá, a colher de pau
dançando por entre a massa vermelho-escura. Ela sentia as mãos arderem, o calor
subindo do tacho como um pequeno incêndio só dela, enquanto lá fora a tarde seguia na sua
esteira azul, as ondas estourando na praia. Mas a praia não era para ela. Doña sempre dizia isso.
Dezoito anos era a idade de Cecília. E ela tinha aqueles olhos castanho-esverdeados que Ernest
chamava de “duas azeitonas de luz”. Tinha uma cabeça cheia de sonhos. E uma vontade atroz de
escapar pela porta entreaberta, saindo pelo jardim ressecado de sol, e descer pela encosta até a
praia. Como fazia quando era menina e a sua mãe pilotava o fogão da casa. Ah, a areia branca e
infinita convidava a seguir até o outro lado do mundo. E o mar azul e verde e às vezes negro
sobre as grandes pedras onde os peixes se escondiam. O velho farol dormia na tarde e ela sabia
que lá, perto dele, como uma ama que não deixa o seu menino sozinho, estava Ivan, ocupando-se
com algum trabalho: lixar, serrar, pintar o casco de alguma embarcação, regular as lentes do
farol com a ajuda de Ernest – aquelas tarefas masculinas e infindáveis que os mantinham
ocupados dia após dia, enquanto a ela cabia servir à mesa, lavar a louça e arrumar as camas.
Pensou em Ivan como sempre pensava. Como uma coisa maravilhosa que não estava ao seu
alcance. Certas coisas eram imutáveis como a encosta. Aquela parede de pedra escura e poderosa
que descia até a praia, desfazendo-se em rochas espalhadas pela areia branca. Mas ela gostava
de pensar em Ivan mesmo assim. No sorriso que lhe dava quando se cruzavam por acaso entre
uma tarefa e outra. Quando ele lhe mostrava alguma coisa, uma muda que rompera em botões
ou os restos de um naufrágio coalhando a praia lá perto do farol. Cecília servia-lhe a sopa e ele
lhe dizia: “Boa...” E aquele elogio simples ficava dentro dela por horas, como um peixe nadando
num aquário.
Cecília vivia dias inteiros por coisas assim, pequenas. Um sorriso. Uma palavrinha qualquer.
Dias inteiros: hora empilhada sobre hora, ela aguentava aquele serviço maçante, o pinicar da
água sanitária nos seus dedos de moça, o polir dos talheres, os pratos, a massa sovada, a roupa no
varal, arear o piso de joelhos. Aguentava. E era dolorido como um buraco feito a bala na sua
juventude. Mas o remédio para essa ferida era Ivan.
Nem sempre era possível. Passavam dias longe um do outro. Às vezes, uma semana inteira.
Nas tormentas de inverno, na época da feira em Oedivetnom, quando ele se ausentava com o pai.
Suportava com custo, a garganta arranhava de engolir aqueles dias áridos. As noites eram ainda
mais difíceis. Sozinha no quarto que outrora dividira com a mãe antes que aquela dor aguda a
fizesse gritar pelo corredor, e finalmente morrer no hospital público de Oedivetnom, sem que o
doutor Miles pudesse ajudar em nada. Às vezes, ia até o quarto de Ernest e ficava lá conversando
com ele. Ernest ensinava-lhe coisas. Geografia e história principalmente, e eles olhavam com
atenção um velho atlas que Ernest abria sobre os joelhos. Cecília estudava apenas para ocupar a
cabeça com outra coisa que não fosse o lindo filho da sua patroa, mas parecia que havia espaço
para tudo ali, e ela aprendeu que a linha do Equador passava ao norte da América do Sul, e que
as guerras napoleônicas duraram dezesseis anos, sem deixar de ansiar um único minuto que
fosse por Ivan.
Mas era uma vida esquisita. Ernest dizia que ela devia ir embora.
“Apostei com a sua mãe que você ia dar no pé daqui, garota.” Ele dizia. “Bem, perdi a aposta.
Pode escolher qualquer coisa, uma prenda bonita que as moças gostam. Eu compro para você
quando for de novo a Oedivetnom ou à vila. Sua mãe morreu, não posso mais pagar para ela...”
Cecília dava de ombros. Querido Ernest. Com aquela mão estragada e a cabeça cheia de
leituras. Cuidava dela de longe.
E assim Cecília gastava suas noites na companhia de Ernest. Nenhum dos dois tinha mais do
que uma trouxa de roupas. Mas ela não se importava muito com isso. Desde que chegara ali, aos
doze anos, só se importava com Ivan. Então enrolava o tempo, pulando de tarefa em tarefa, até
que ele voltasse outra vez e ela pudesse começar a colecionar seus olás, seus sorrisos, os pequenos
ditos que ele lhe soprava quando a mãe não estava vigiando os dois.
Qualquer um que quisesse podia ver. Ernest tinha visto desde o começo, desde antes ainda. Era
como nos livros, ele costumava dizer. O problema, o xis da questão, era o final. Ele não podia
adivinhar se a coisa ali teria um final do tipo Jane Austen ou Dostoiévski. Então achava que
Cecília deveria dar no pé. Bem, Ernest tinha um nariz bastante confiável...
“Vocês dois, um de cada lado do rio. Por enquanto, não há perigo. Mas assim que um de vocês
se atirar na água e der a primeira braçada, Doña vai lá e toma uma atitude. E não vai ser coisa
boa... Não vai mesmo. Basta olhar nos olhos dela, fundos como um poço vazio.”
Ele falava coisas desse tipo para Cecília, mas ela não ligava. De qualquer modo, não tinha
para onde ir. Houvera uma vez um tio, ela se lembrava de uma carta ou duas. Mas isso já fazia
muito tempo, e o carteiro nunca mais viera.
“Não se apoquente, Ernest”, dizia Cecília. “Ele não olha para mim, não de verdade. Não o
suficiente.”
Ernest sorria.
“Você está perto demais dos olhos dele para que ele não veja... E ele é um menino que sabe ver.”
Mas Ernest aparentemente não falava dessas coisas com Ivan. Conversavam sobre as frentes
frias que vinham da Patagônia, o preço do óleo diesel, a força das ondas nas ressacas de inverno,
motores de popa e luzes de navegação. Seus assuntos masculinos eram impermeáveis às sutilezas
sentimentais. Ivan crescera e se tornara um homem reservado. Em todo caso, Ernest nunca fora
muito bom para dar conselhos amorosos.
Enquanto Ernest tentava ajeitar as coisas sem conseguir vislumbrar o caminho que o futuro
apontaria para aqueles dois, embora fosse óbvio que se adoravam, Doña tratava de resolver as
coisas do seu jeito. Quando a mãe de Cecília morrera de repente, Doña tinha batido pé com o
marido, don Evandro, dizendo que precisavam mandar a garota embora o quanto antes, que era
bonita demais para não causar algum estrago por ali. Ela devia ter alguém no mundo. Mas don
Evandro não consentira, gostava de Cecília e lhe tinha pena, e ela poderia ser útil nas tarefas
domésticas. Então Cecília ficara. Tentando evitar problemas, Doña a mantinha ocupada e longe
do seu filho, areando panelas e cerzindo lençóis velhos, como se o moroso trabalho da casa
pudesse retardar o que já estava escrito. A moça trabalhava demais e não observava os feriados,
mas Doña achava um arranjo justo e, na cidade, proclamava a menina como “sendo da família”.
Mas uma casa, por maior que seja, pode ser pequena demais. Encontros fortuitos em sótãos e
corredores, um leve roçar de braços à hora do jantar, o olor de uma camiseta largada no cesto de
roupas, um olhar trocado sob o batente da porta, a vista de uma janela para o jardim... As
oportunidades multiplicavam-se para eles, e nem toda a diligência de Doña poderia evitar a
aproximação do inevitável. Quando Ernest e Ivan trabalhavam no farol ou no estaleiro e a
silenciosa Cecília aparecia, ao entardecer, com a bandeja do lanche, deixando-a sobre um canto
qualquer, sem palavras, apenas existindo com aqueles seus olhos lânguidos, e Ivan
desconcentrava-se por um instante, deixando cair uma ferramenta ou mesmo sorrindo de leve
ao fitá-la, o velho Ernest ria com seus botões. Uma dança, uma espécie de dança. E eles não
erravam o passo.
Em dois anos, Ivan e Cecília já estavam loucos um pelo outro. Como uma febre, como um
exército imperialista que ia fincando bandeiras mais e mais fundo em terra continental, os dois
se renderam sem muita resistência.
E agora Cecília estava ali. Mexendo o tacho de doce. Quantos anos tinham se passado desde
que a sua mãe morrera? Seis, sete... Ela nem tinha mais muita certeza. Do tacho, o calor subia e
queimava-lhe o rosto, o seu pequeno verão particular, borbulhante e vermelho. Lá fora, o
mundo dourado e silencioso se enchia com os sussurros do mar, o ar parado e leve rebrilhava com
o calor, condensando-se numa leve bruma que pairava acima do chão, como um fantasma
sonolento.
Em algum lugar para os lados da praia estava Ivan. Ernest lhe dissera que iriam começar a
pintura do farol. Todos os anos, em dezembro, o farol ganhava nova camada de tinta. As latas
chegavam com o carimbo oficial da Capitania dos Portos, e então Ernest e Ivan ficavam duas
semanas naquilo. Branco e vermelho. As listras na base, tudo sempre igual, pois cada farol tinha
a sua identidade visual e luminosa. Talvez Ivan estivesse com um pincel agora, descendo as
cerdas suavemente pela pele do concreto, indo e vindo, as mãos imersas no trabalho assim como
as dela. Fechou os olhos. Talvez ele cantasse. De forma um pouco desafinada, a voz subindo para
o céu azul até virar silêncio, a voz engolida pelas ondas. A voz de Ivan... “Biafra estaba muerta,
nadie allí quiso llegar, por unos negros que mueran, a quién les puede importar?” Talvez
Ernest cantasse com ele as velhas músicas que os marinheiros passavam adiante de geração em
geração. Talvez.
Ali dentro era só silêncio. A sua mão na colher de pau e o doce criando consistência, cuspindo
pequenas bolhas de ar. E, nesse momento, ela ouviu um ruído leve atrás de si, um roçar de panos.
Era Doña que entrava na cozinha usando o seu vestido de sair e sapatos forrados que não faziam
barulho no chão de linóleo.
“Tem um cheiro de queimado aqui”, disse a mulher, olhando-a com aqueles seus olhos ruins.
“Você queimou o doce?”
“Eu, não”, retrucou Cecília. “Não parei de mexer nem um minutinho.”
A mulher mais velha sorriu. Tinha um jeito de sorrir sem mexer os lábios, como se travasse
um constante duelo com a alegria e cada sorriso seu fosse um floreio de espada. Ela costumava
aparecer na cozinha para atormentar Cecília. O tacho queimando-lhe as mãos, isso tudo bem,
mas Doña com aqueles olhos maus, aí era demais.
Felizmente, passava das quatro da tarde e era dia de missa. Dia de um santo qualquer, Cecília
não sabia dizer qual. Pelo vestido de Doña, haveria festa no vilarejo. A mulher mais velha andou
um pouco pela cozinha, farejando o ar, e depois se deu por satisfeita, parando à porta e olhando a
tarde que brilhava lá fora como uma joia.
Doña ajeitou o chapéu na sua cabeça pequena. A contragosto, Cecília notou um pouco da
beleza de Ivan espalhada naquele rosto severo, rígido. Migalhas de Ivan davam alguma graça à
mulher parada à sua frente, mas o seu olhar cheio de rancor tentava a todo custo neutralizar o
sutil encanto daquela face. Doña tinha tudo – aquela casa, um bom marido, um filho. “Tem
gente que é assim”, dizia a sua mãe, “simplesmente não sabe ser feliz”. Decerto que Doña não
sabia. Até o seu nome, Alba, um nome que Cecília achava tão bonito, tinha sido obliterado por
aquele apelido triste, aquele indicativo indefinido de posse.
A mulher amarrou a fita do chapéu de palha e olhou-a como se pudesse adivinhar os seus
pensamentos. Então falou: “Depois que o doce ficar pronto, arrume os quartos. Voltamos na hora
do jantar. Eu gostaria que você deixasse a manteiga batida e fizesse um pão de ovos, entendeu?”
Cecília aquiesceu, sempre mexendo o tacho.
Então a outra saiu da cozinha. O barco já deveria estar pronto, e don Evandro esperava-a.
Usando um vestido de renda, Doña seguiu pela trilhazinha que cortava o jardim com as suas
murtas e os seus arbustos floridos. Caminhava a passos medidos e parecia uma velha dama
antiquada. Cecília ainda olhou-a por um instante, depois a sua figura meio etérea desapareceu
para os lados da praia e ela voltou a concentrar-se no trabalho.
O doce demorou a ficar pronto. Quando a tarde lá fora adquiriu a mesma cor avermelhada do
fundo do tacho, a coisa finalmente acabou. Pela janela, entrava a magnificência do pôr do sol, e
as gaivotas gritavam lá na praia avisando que algum barco tinha voltado com peixes.
Ela estava colocando a mesa quando ele chegou. Ouviu um ruído, mas dessa vez foi diferente.
O ruído aconteceu dentro dela, não fora. Como um pequeno relógio que soasse o alarme. Ernest
teria dito “a última braçada”.
Cecília virou-se e viu Ivan se aproximando. E ele se aproximou mais e mais, até seus peitos se
tocarem, agarrando-lhe os cabelos com as duas mãos que ainda cheiravam a tinta. Ela segurava
dois copos de cristal, e teve que concentrar seus pensamentos nessas duas coisas inanimadas cuja
existência era de grande importância para Doña. Ivan, percebendo a sua confusão, afastou-se
um pouco e, rindo, resgatou os copos de cristal nos quais uma fímbria de luz se refletia, tingindo
o vidro de dourado, e depositou-os sobre a mesa.
“Melhor aqui”, disse ele.
“Doña me mataria se quebrassem”, balbuciou Cecília, arrependendo-se em seguida, agora que
finalmente estavam os dois na mesma margem.
Ivan entregou-lhe um sorriso sem mágoa.
“Acho que ela vai matá-la de qualquer maneira, Ceci.”
E então a beijou.
Na vila, Doña pagava duas moedas por um algodão-doce grande e colorido sem desconfiar
que, no chão da cozinha, enquanto a carne assava no forno e Ernest dava os últimos retoques na
faixa vermelha da base do farol, o destino se cumpria.
F LORA

T
alvez isso tenha ficado meio aguado. Não é qualquer um que pode escrever uma cena
romântica e sair dela de mãos limpas... Mas, pensando bem, fazer ficção é se sujar um
pouquinho na vida. Quer dizer, você tem que entrar lá, no âmago da coisa. Enquanto a
maioria das pessoas olha a flor e diz “que cores lindas”, o escritor está enfiando a mão
discretamente no vaso para poder tocar as nervuras da raiz.
Mas vamos falar da velha moura. Você sempre disse, mamãe, que ela era uma espécie de víbora.
Uma coisa pequena e escorregadia, silenciosa e vil. Andando pela casa como uma sombra, pescando
evidências. A vida para ela era uma espécie de complô.
Como seria viver sob a pele dela? Aquela criatura amarga, com seu apelido apócrifo. Vi umas
fotografias antigas em alguma gaveta da casa, e lá estava a mulherzinha com aquele olhar fixo um
tanto desbotado, como se dissesse ainda hoje “você não perde por esperar”. Imagino-a andando pela
casa, anos e anos a fio, contemplando o passar do tempo, a sua própria velhice chegando, enquanto
a vida enchia você de benesses, você, a inimiga íntima – porque é inegável que você foi muito
bonita, mamãe... Os longos cabelos que mais tarde você teimava em levar presos num coque, mas
que naquele tempo andavam soltos, lisos como um manto, a pele queimada de sol, as pernas longas
e fortes, mal encobertas pelo seu vestido de trabalho. Ver a juventude florescendo dentro de casa,
como a primavera que chega, inelutável, transformadora. E a velha deve ter sabido desde sempre,
assim como don Evandro, mas talvez ele até quisesse. Quem não haveria de querê-la, mamãe? E
dizem que os filhos são uma segunda chance de realização, e que se encontra aí no cerne desse amor
paternal essa coisa maluca, essa transferência que, um dia, começa a acontecer entre pais e filhos, a
força migrando, o poder migrando, a beleza trocando de lado... Don Evandro queria, e a velha
sabia que ele queria. Por isso ela detestava tanto a possibilidade.
Dizem que Julieta sonha com a avó, mamãe. Foi Orfeu quem me contou. Que Julieta grita à
noite, com aquele fio de voz estrangulada, que gritava desde muito pequenina, olhando sempre para
um ponto fixo do quarto. Até que um dia Orfeu resolveu tentar. E começou a mostrar coisas para
Julieta. Coisas... Um par de botas de borracha, uma faca, uma aquarela representando uma
tempestade no mar (aquela que papai tinha na parede do escritório), um anúncio de jornal em que
um monstro atacava um velhinho indefeso, casacos antigos de inverno, coisas malucas que Orfeu
criativamente elegia e, com toda a paciência, exibia para Julieta. Mas ela nunca demonstrou a
menor emoção. Então Orfeu começou a fazer sons. Ruídos de bichos – uivos, latidos, gemidos...
Gritos – gritou de muitos modos. Depois gemeu como um fantasma; gemeu alto, gemeu baixo,
chorou. E Julieta lá, impávida.
Até que um dia, procurando seus lápis aquareláveis que ele sempre deixava pelos cantos mais
remotos da casa, Orfeu deu de cara com uma foto da velha Alba. Acho que naquele tempo ele já
tinha desistido dessa brincadeirinha estranha e deixado Julieta entregue aos seus terrores noturnos.
Mas aquela foto... Bem, nós todos conhecemos Orfeu. Ele deixou os lápis para lá e correu até a
varanda, onde Julieta olhava para o nada mansamente, bovinamente, mamãe (e imagino a sua cara
agora, o cenho franzido de leve, toda aquela sua imensa retidão em relação à coitada da Julieta...).
Mas então aconteceu o inesperado: ao pôr os olhos no antigo retrato da avó, a garota começou a
emitir grunhidos de pavor, esquivando o rosto. Orfeu aproximava o retrato e Julieta se encolhia
como um molusco tentando voltar à sua concha. Pobre Julieta... Orfeu, você deve imaginar, ficou
radiante com a descoberta. Julieta e a avó eram velhas amigas noturnas, ou seria melhor dizer
inimigas? Vil, você dizia. Vil, miserável, mesquinha. Somos muitos aqui, mas a velha resolveu
atazanar logo a mais fraca de nós – ou será que eu estaria errada?
Bem, Orfeu tratou de acalmar a menina, enchendo-a de beijos e de abraços, explicando-lhe que
a avó já tinha morrido havia anos, muitos anos... Apesar disso, os pesadelos continuaram, mamãe,
porque Julieta gritou até morrer, madrugadas a fio, até que nenhum de nós se espantava mais. Fazia
parte da síndrome, era isso que dizia o médico. Alucinações noturnas. Mas Orfeu preferia chamar
de “a maldição da velha Alba”. Ele falava assim sempre, baixinho, para que o papai não ouvisse. E os
anos foram passando de qualquer modo, até que um dia Julieta parou de gritar.
Anotações para um personagem:
Todo mundo diz que ela é louca
a louca da casa
boca sem voz
mão sem movimento

Usa o mesmo vestido azul


e não sabe que é azul

Mas tem um momento dentro do mundo


que ela sabe, ela manda,
ela conta a sua história.
Ela fica igual aos outros.

Seu nome é trágico, ou não.

Shakespeare: “O que é que há, pois, num nome? Aquilo a que chamamos
rosa, mesmo com outro nome, cheiraria igualmente bem.”

Ela não lê
mas sabe ouvir
e ouvebr
muito — tudo —
ouve até a velha

nós é que não ouvimos o que ela diz


era uma vez
ela começou assim
SÉPIA

Era uma vez uma casa.


Antes só tinha o Lucas. Mas aí eu cheguei. Eu sou a Julieta. Minha mãe diz,
Julieta. Essa sou eu.
O pai me chama de Juni. Mas ele não chama muito. Ele não gosta de coisas paradas. O mar vai
e vem o tempo inteiro, por isso ele gosta do mar.
Ele gosta do Lucas também.
O Lucas corre pra lá e pra cá. Uma perna na frente da outra, e os pés pisam o chão. Deve ser
divertido, porque o Lucas ri muito. E o pai ri com ele.
Minha mãe diz, Julieta.
Essa sou eu. A minha comida é diferente da comida dos outros, porque eu sou diferente dos
outros.
Antes só havia o Lucas. E então eu cheguei.
Depois chegou o Orfeu. Ele chegou bem pequeno mesmo. A minha mãe ficou feliz, o meu pai
ficou feliz. O Lucas não ficou feliz.
“Mais um”, disse ele.
Quando o Orfeu chegou, a mãe me esqueceu um pouco. A Lilia dizia: “Criança pequena dá
muito trabalho, Julieta.” Mas eu dou muito trabalho também. E é muito trabalhoso ser eu.
– Nunca juntar as pernas sobre o chão. Um pé na frente do outro.
– Nunca o mar. Nunca a areia.
– Nunca uma fatia de bolo.
– Nunca um abraço.
– Nunca sair, nem nunca voltar.
O Orfeu cresceu rápido e logo caminhava pela casa. Eu parada, olhando pra ele. E o Orfeu
rindo pra mim. “Juuu”, dizia ele. Juuu. Foi a primeira coisa que ele disse.
O Orfeu cresceu, e a mamãe também cresceu. Ela está crescendo. Ao contrário do Orfeu, ela
anda cada vez mais devagar pela casa. Eu queria que um dia ela parasse de andar e, sentada
numa cadeira, ficasse do meu lado para sempre.
Mas, então, chegaram os outros.
Dois dessa vez.
Pequeninos, tão pequenos como o Orfeu já foi um dia. Pois é, eles sempre chegam pequenos. E
eu ouço a mamãe chamá-los. Eva. Flora. São iguais, mas cada um tem um nome. Meu pai parece
feliz outra vez, mas nunca sabe quem é um e quem é o outro.
“Meninas de verdade”, disse ele. “E parecidas com você, Cecília.”
Cecília é a minha mãe. Ela não sorriu quando o pai disse isso. Não... Olhou para mim. Eu olhei
para ela. O Orfeu veio correndo pela sala, e a Lilia gritava pelo Lucas porque era hora do banho.
Eva e Flora choravam alto. A mãe disse que estavam com fome. E o Orfeu atravessou a sala e
saiu para a rua.
“Foi para a praia”, disse a mamãe.
Porque chegou um barco e todos foram para lá. Lucas escapou do banho. Eu fiquei com Lilia.
Porque é Lilia quem cuida de mim. Ela me pega no colo e me leva para dentro de uma coisa
macia e morna, e a mamãe chega e diz: “Ah, você já colocou a Julieta no banho...”
Então a mamãe canta para mim. Ela tem mãos macias, tem a voz macia. Eu gosto, gosto da
minha mãe. Não gosto do meu pai. A voz dele é grossa. Eu me encolho toda. A mamãe diz: “Fala
mais baixo, Ivan.” E sorrindo para mim, sussurra: “Voz de homem venta pela casa.”
Mas o Orfeu não grita. Comigo, nunca.
Eu sou a Julieta. Depois chegou o Orfeu. Ele chegou pequeno. Mas agora já cresceu. Depois
chegaram aqueles dois. Meninas de verdade. Eva e Flora. Tudo igual, eles fazem. Choram juntos.
Comem juntos. Dormem juntos. São um repartido pelo meio.
Eu vejo tudo.
Eu ouço a mamãe chamá-los, e então eles se arrastam pelo chão. A Lilia diz: “Que bonitinho.”
Eles passam por mim e não me olham. Só o Orfeu me olha.
“O Orfeu adora a Julieta”, fala a mamãe.
E o Orfeu responde: “Juuu...”
Eu não troco de lugar, mas a minha cadeira troca. Então eu vou junto. Pela manhã, na
cozinha. À tarde, na varanda. Passo as noites no meu quarto. Fico lá olhando o farol. Eu não
durmo. Nunca durmo. Fecho os olhos só um pouquinho, depois abro.
O farol brilha, brilha, brilha. É uma luz que se mexe sem sair do lugar. A mamãe disse que é o
papai quem faz o farol funcionar. Que antes isso era trabalho do pai do meu pai.
“Era um bom homem”, ela disse.
Mas a minha avó era má, má, má. Muito má.
Eu tenho medo da minha avó. Ela vem à noite e fica parada ao lado da minha cama, só me
olhando com aqueles olhos. Eu tenho vontade de gritar: “Você morreu!” Mas eu não sei gritar.
Nem caminhar. Nem pentear os cabelos. Nem tomar suco no copo.
Então a minha avó fica ali. Ela engole a luz do farol, e a sua língua brilha no escuro. Como a
língua de um gato, só que de fogo.
Ninguém nunca vê a minha avó, só eu. O Orfeu nunca a viu. O Lucas nunca a viu. Os dois
nunca a viram. Noite após noite, ela vem aqui. A morte deve ser longa demais e escura demais.
Então ela vem brilhar no meu quarto com aquela língua comprida. Ela só fica me olhando e
nunca diz nada. Ela não gostava da minha mãe, e agora não gosta de mim. Eu entendo isso. A
língua é que diz com as suas palavras em chamas. Malvada.
“Sangue ruim”, diz ela.
“A fruta não cai longe do pé”, diz ela também.
Mas ninguém nunca a vê. Ninguém nunca a ouve.
Só eu.
PRETO

À beira-mar, o silêncio é diferente. Como se a gente pudesse caminhar por ele. E


respirá-lo. O silêncio entra nos nossos pulmões como uma espécie de remédio, purga
o nosso corpo de todas as impurezas. Limpa as más recordações da nossa alma. E a minha alma
carrega algumas lembranças ruins, difíceis de apagar.
Como aquela noite.
A noite na qual descobriu. Porque, claro, tudo na vida é apenas uma questão de tempo. Até
mesmo a própria vida.
Eu tinha avisado o Ivan. Ela vai saber. Não demora muito, ela vai saber. Mas o menino dizia
que eles eram muito cuidadosos. Que quase nunca. Que só quando dava. E que cada um cuidava
direitinho das suas tarefas. Porque Doña acompanhava o desenrolar dos dias pelas tarefas que
eram cumpridas por cada um de nós. Até viver era uma tarefa para ela. Então eu dei de ombros.
Vai ver o menino estava certo. Não tinha por que se preocupar muito com o inevitável. Um dia
ele vem e bum!
Então, bum!
Acho que ela pegou os dois na praia naquela noite. Era janeiro. Preciso evocar uma noite de
janeiro aqui para que seja possível entender a coisa. Quer dizer, se você ama alguém, se você ama
alguém em janeiro aqui, e tem vinte e poucos anos... Bem, é inevitável... As estrelas no céu e o
mar lambendo a praia. Um cheiro adocicado no ar, um cheiro de frutas e flores cozidas pelo sol
de verão, cujo desaparecimento, dando vez ao luar, ao enorme luar prateado que vai se
espreguiçando sobre a água, deixa as plantas suspirando, exaustas do longo dia, liberando no ar
calmo aquele cheiro de paraíso. O vento, quando sopra, é quente. Um pouco salobro. E ninguém
na praia, nesse canto de praia.
Bem, imaginem a cena. A belíssima noite. Eu estava no mar, pescando. No verão, eu pesco
todas as noites. As ondas são boas para um homem assentar as ideias, arrematar os
pensamentos. E depois limpar os peixes, jogar as tripas na água... Essas coisas pequenas aliviam
o peso dos dias.
Acho que Doña ouviu um ruído quando a moça saiu da casa. Geralmente ela era muito
discreta. Mas o cheiro do ar era doce, e fazia calor na cozinha. Ela devia estar ansiosa. Deve ter
tropeçado numa cadeira, feito um barulho qualquer. Ou não. Talvez Doña estivesse acordada só
esperando a sua chance. Vai ver já sabia de tudo havia tempo.
De qualquer modo, a chance chegou. Cecília saiu na frente, caminhava rápido pela areia, os
pés descalços, os cabelos soltos capturando a luz das estrelas.
Ela, eu vi passar.
Eu estava na areia preparando a tarrafa para o nosso bailezinho noturno. A tarrafa tem que
estar perfeitamente desenleada para dançar como uma boa bailarina, girando no ar. Cecília
acenou-me de longe. Depois ela correu pela praia na direção do farol, porque o tempo deles era
escasso. E o amor, claro, é um bicho esfaimado. Ela correu e sumiu entre as pedras do molhe, e
acho que o Ivan já estava lá sentado, esperando por ela. Tinha um lugar ali, uma espécie de
gruta rasa. Era o lugar dos dois.
Eu entrei mais fundo no mar com a minha tarrafa. Os peixes esperavam. Afinal, ninguém
dança sozinho. Com a água pela cintura, não vi mais Cecília, só o farol piscando, piscando,
piscando.
Acho que Doña correu pela praia logo depois disso. Enchendo a boca de ar, afundando as
pernas na areia fria. Implacável. Decidida. Correu como uma assombração. Porque houve um
momento em que eu senti um frio na barriga, um fisgão gelado no ventre. E não era o mar, o mar
estava quente.
Eu ainda fiquei um pouco na água, embora soubesse que não pegaria nenhum peixe. Certas
coisas desequilibram a ordem de tudo. Doña e sua raiva eram como um ponteiro de relógio
estragado. Os peixes tinham ido embora. Uma ponta de nuvem cruzou a silhueta prateada da
lua.
Saí do mar devagarzinho. Estava com pena porque aquele silêncio estava para se quebrar. E
Ivan e Cecília lá no seu esconderijo de pedra. Não, eu não podia fazer nada. Quando abri a
tarrafa na areia, um único peixe, gordo e trágico, tentava se soltar da rede. Eu o ajudei com todo
o cuidado, depois atirei-o de volta ao mar. Ele saiu rabaneando, zupt! – até o peixe mais idiota
sabe que uma segunda chance é rara nesta vida.
Às vezes, a gente precisa fazer uma oferenda aos deuses. Os deuses sempre podem ajudar, mas
quase nunca querem... Porém, de maneira bastante arrevesada, acho que eles ajudaram aqueles
dois. Primeiro houve muita confusão. O silêncio se quebrando como vidro, e todos aqueles gritos,
e o pobre do don Evandro – mas ninguém pode acusar os eternos de não atuarem a favor daqueles
dois meninos.
Eu fiquei vendo o peixe desaparecer sob uma onda clara, pontilhada pela areia que
revolteava, dourada. Ele tomou seu rumo rapidinho.
E foi então que Doña gritou: “Cadela! Sua puta! Sua cobra!”
Foi isso que ela gritou, exatamente nessa ordem. Sem tirar nem pôr. Mas como alguém podia
conspurcar assim aquela praia, aquela noite, aquele amor? Bem, Doña podia. Ela era mesmo
imune à beleza da vida. Tinha um coração petrificado pelo rancor. Porque o pai de Ivan tinha
encontrado uma tal moça em Oedivetnom havia muito tempo. E então a mulher descobriu tudo,
não sei os detalhes, nunca ninguém soube. Don Evandro acabou com a moça e voltou para casa
com o rabo entre as pernas, era um bom homem, valha-me Deus. Fez o que devia ser feito. Mas
não foi o suficiente, porque Doña nunca mais amoleceu o coração. Nunca mais deu paz a don
Evandro, nem a ninguém.
É claro que um dia haveria uma moça para o filho também. Deveria saber disso muito bem.
Nem a mãe mais empedernida do mundo pode vencer o destino. Pode debater-se, pode gritar,
ofender e espernear. Mas, no final, a luta é perdida.
De qualquer modo, Doña esperneou bastante naquela noite. Por um bom tempo, foi possível
ouvi-la gritar. Cadela, puta, cobra, vagabunda. Um vocabulário bem chulo... Até que Cecília
voltou correndo pela praia, tropeçando na areia, o vestido mal abotoado e os olhos injetados de
vergonha e de lágrimas. Depois o próprio Ivan passou voando por mim sem ao menos me ver, um
jovem homem ferido e cego.
Por fim, é claro, veio ela. Parecia a própria Medusa. Não olhei nos seus olhos porque eu não
queria virar pedra. Ela passou por mim com o peito enfunado, as costas erguidas. Afundava os
seus pés na areia, aqueles pés brancos, finos, parecendo dois passarinhos mortos. Alguns passos
adiante, ela parou de repente. Virou-se para mim e pude ver o fundo dos seus olhos opacos, como
quem vê a borra de café numa xícara recém-usada. E ela disse: “Ernest, você sabia.”
Foi a única vez que falou comigo. A primeira e a última. E como foi estranho ouvi-la dizendo o
meu nome! O meu nome inteirinho, escandindo letra por letra, como se cuspisse.
Eu não respondi assim na hora. Pensei no peixe que devolvera ao mar, pensei nos deuses. Ela
esperou um instante, depois teve um pequeno sobressalto e tratou de seguir andando. Ela já
estava a uns seis metros quando eu respondi: “Eu sabia, sim. Eu sempre soube. Deus é capaz de
ser mau, mas também é capaz de ser bom.”
Doña nem olhou para trás. Nem sei se me ouviu.
Então eu recolhi a minha rede, dei uma última olhada na noite, lavei o balde e segui para o
meu quartinho como se nada tivesse acontecido.
Dentro da casa, não sei como eles se arranjaram.
Mas, no dia seguinte, as coisas continuaram acontecendo. Continuaram mesmo. E não
pararam mais de acontecer.
F LORA

E
u lia e lia e lia.
Lia durante o dia inteiro para esquecer tudo à noite, na esperança de que os livros nunca
acabassem para mim. O que aconteceu naqueles meses nos quais me pus a desvendar as duas
caixas de livros de Ernest, bem, nem sei dizer...
Às vezes, entre uma página e outra, eu levantava os olhos para a vida ao meu redor. Quase
sempre eu via mamãe atarefada com a rotina da casa, cuidando de Julieta com aquele seu jeito
diligente e conformado – Julieta, cuja eterna infância se assemelhava a um deserto. Parece que,
naquele tempo, Julieta começou a ter os seus primeiros achaques, diagnosticados pelo médico como
um tipo bastante raro de epilepsia. Bem, era apenas mais uma má notícia a respeito da garota, e
mamãe a acolheu ao seu modo. Ela, que antes era tão luminosamente bonita, mostrava os primeiros
sinais de cansaço, um certo estiramento da pele, pequenas olheiras cinzentas como nuvens de
inverno. Não tinha tempo para muita coisa, a pobre mamãe, e ler um livro parecia-lhe uma coisa
vaga e talvez impossível. A vida dessa minha irmã era um penhasco do qual minha mãe vinha
rolando desde o parto, e lá embaixo esperavam-na as ondas e os peixes famintos.
Acho que foi então que eu decidi dar-lhe uma nova chance. Uma outra vida acontecendo em
algum outro lugar. Um lugar onde ela pudesse ser jovem e bonita outra vez, por algum tempo.
Quando você enfia o nariz nos livros por semanas a fio, as ideias brotam como esporos, florescendo
rapidamente. Ao olhar mamãe andando pela casa com a bandeja de Julieta, os restos do mingau de
aveia, a colher dosadora do remédio e aquela inquietante sentença que nenhum cuidado extra
poderia mudar, decidi escrever a minha história. Um pouco de vida nova para Cecília, e também
para mim... Já que mamãe não podia ler, eu escreveria para ela.
Mas havia outros na casa, claro. Éramos muitos então.
Havia Lucas, meu irmão mais velho. Ele trabalhava com papai. Eram muito parecidos – os
mesmos olhos verdes, a mesma disposição cartesiana para a vida. Nunca lia um livro que não fosse
técnico.
Orfeu era o oposto, um garoto alegre que gostava de cantar e que às vezes desaparecia por tardes
inteiras, desenhando algum pequeno tesouro que encontrava nas suas andanças pela praia. Eu
gostava de Orfeu, ele pedia-me livros, alguma coisa trágica, dizia, alguma coisa de amor.
“Que tenha muitas lágrimas, Flora”, dizia ele com aquele seu jeito dramático e debochado.
Dei-lhe Madame Bovary, um dos meus preferidos da caixa de Ernest, e Orfeu indignou-se com
o destino de Emma. Romeu e Julieta encheu-o de fastio. Tristão e Isolda chegou a adoentá-lo. Ao
devolver-me o pequeno Shakespeare com a capa gasta e embolorada, Orfeu me falou: “Com um
nome como o meu, sinto que estou fadado a uma história de amor igual a esta.”
“Tão terrível?”, perguntei, rindo.
“Ainda mais terrível”, respondeu ele, muito sério, os grandes olhos negros e ardentes.
Ah, pobre Orfeu. Lágrimas, muitas lágrimas, ele pressentia isso.
Fico pensando como foi que meus pais escolheram o nome desse meu irmão, um nome tão
literário, afinal de contas. E talvez uma espécie de sina também. Mas é claro que eles não sabiam,
não poderiam jamais ter imaginado que eu – com este nome, Flora – inventaria um mundo novo,
jogando todos eles numa dimensão à parte, e tudo girando, girando, girando sempre, de maneira
incontrolável, até explodir de encontro à parede do real.
Havia outro irmão. Tiberius, o caçula.
Desde pequeno, Tiberius queria ser astrônomo. Andava com os olhos postos no céu, e muitos
tombos levou por causa disso. Era, sem dúvida nenhuma, o filho preferido da minha mãe. E
Tiberius era mesmo um menino encantador – não, não se podia culpar a pobre Cecília. Loiro e
silencioso, gentil e desatento, Tiberius sabia dizer quais eram as estrelas da constelação de Órion,
Taurus e Gemini, e também a magnitude de cada uma delas. Inofensivo e doce como uma flor de
hibisco, era inteligente e parcimonioso – um belo contraponto aos altos e baixos da relação filial
com Julieta.
Mas Tiberius tinha uma peculiaridade. Esta, juro, eu não a inventei... Pois Tiberius às vezes
proferia pequenos vaticínios sobre a vida cotidiana. No começo, nenhum de nós prestou atenção
quando ele disse “Amanhã o leite vai azedar no tacho”, ou “Julieta vai ter febre esta madrugada”.
Foi só mais tarde, quando ele começou a avisar papai que um barco imprudente encalharia nos
rochedos, ou que sonhara com um naufrágio para os lados de Datitla, que olhos se arregalaram e
discretos comentários foram trocados à meia-voz quando o garoto não estava por perto. Coisas
sobre premonição e futuro, sobre dons e mistério. Estavam todos assustados, menos eu. Acabava de
encontrar um personagem novinho em folha, absolutamente real.
Mas depois eu voltarei ao Tiberius, porque quero falar sobre Eva.
PRETO

No dia seguinte àquele terrível encontro na praia, enquanto eu terminava a


pintura do farol – o último metro de pele lá em cima, perto do coração luminoso,
pendurado no céu como um pássaro desajeitado, eu pequeno naquele andaime que o vento de
verão balançava suavemente –, ouvi uns gritos vindos de longe. Achei que fosse a memória da
noite anterior que ainda estava em mim, latejando. Eu sonhara com a voz de Doña – “puta,
cadela, vagabunda!” –, aqueles horríveis berros moribundos dando voltas no ar e me
perseguindo no sono. Então não dei muita atenção a princípio, pois estava decidido a me ater ao
trabalho, enquanto lá na casa dos patrões as coisas deveriam estar acontecendo.
Mergulhei o pincel por engano na tinta vermelho-sangue quando deveria usar a branca, e
aquilo já era um aviso. E quando olhei o pincel embebido na tinta errada foi que vi o vulto de
Cecília correndo pela praia em direção ao farol.
E ela gritava, gritava de verdade: “Acuda, acuda, Ernest!”
Eu perguntei o que tinha acontecido, mas a minha voz morreu lá em cima. De qualquer modo,
a moça berrou: “O pai de Ivan teve um ataque!”
Maldita tinta vermelha... Eu gostava muito de don Evandro.
E então comecei a baixar o andaime. Fiz isso com pressa e a tábua desceu desequilibrando-se,
ora para um lado, ora para outro. Foi difícil conter aquele maldito andaime, que parecia um
cavalo que tinha visto cobra. Lá embaixo, Cecília olhava a minha desajeitada descida com
pavor.
“Calma, calma, velho amigo, sshhh”, eu gritava sozinho. “Sou de carne e osso e o chão é duro!”
De defunto bastava um naquele dia.
Baixei aos trambolhões, segurando a lata de tinta vermelha para que ela não virasse sobre o
farol, e Cecília lá embaixo, me esperando, muito aflita, retorcendo as mãos, e parecia cansada
como se tivesse passado mil noites sem cerrar as pestanas uma única vez.
“O que houve, menina?”, perguntei a ela, já no chão.
Ela me olhou com aqueles olhos grandes e, obedecendo ao meu sinal, desandou a falar: “Uma
briga horrível ontem, Ernest! Doña me mandou embora, e Ivan disse que então ia junto comigo...
Don Evandro tentou acalmar a mulher, falou que Ivan era um bom rapaz, que eu era uma boa
moça. Que eu tinha quebrado a confiança deles, mas que as coisas se resolveriam com um pouco
de tempo e paciência... Mas Doña só gritava e gritava, e de novo me chamou de coisas horríveis e
me mandou embora. Então eu fui arrumar as minhas coisas...” Ela teve um estremecimento e
acrescentou: “Ah, Ernest... Ah, Ernest...”
Chorava então. Não tinha explicado muita coisa, é claro.
“Tenha calma”, pedi. “Cadê don Evandro?”
“Está lá no chão da sala... Caído, sem respirar... Doña está arrancando os cabelos e gritando
que a culpa é minha... Minha e do Ivan.”
Como já disse antes, eu gostava muito de don Evandro. Ele nunca se importara com o fato de
eu ser preto e ter um dedo a menos. Não se incomodava com os meus livros, nem com as minhas
sentenças, nem com o meu passado, que eu preferia calar.
Bem, era uma notícia assustadora. E eu precisava ir até lá fazer alguma coisa. Então peguei
Cecília pela mão, para que ela se apoiasse em mim, ou eu me apoiasse nela, e saímos trôpegos
pela praia.
“Culpa minha...”, resmungava ela do meu lado. “Tudo culpa minha, não é, Ernest? Doña tem
razão...”
Eu já era velho o suficiente para não conseguir correr direito na maldita areia fofa, e a moça
meio que me levava de arrasto. Dei um pequeno puxão e ela parou, virando-se para mim. Então
eu disse: “Ninguém tem culpa de nada. Eu soltei meu peixe no mar ontem. Para os deuses.”
Ela parou de chorar como se tivesse entendido que tudo acabaria bem. E estava mais calma
quando finalmente entramos na casa.
Logo vi don Evandro caído no chão. Ele era um homem grande, maciço. Parecia maior ainda
estirado ali no meio da sala, como um móvel para o qual ninguém conseguisse achar o lugar
adequado. As botas de borracha que ele usava para o trabalho erguiam-se uma ao lado da outra,
como dois barcos gêmeos encalhados na areia.
À nossa chegada, Ivan se aproximou. Vi então que ele, de repente, tinha se transformado num
homem. Mais esbelto que o pai, mas com a mesma firmeza. Ele me olhou cheio de pesar.
“O velho morreu”, disse. “Hoje, logo hoje. Como se tudo isso fosse demais para ele.”
Abracei-o. Dentro dele, ainda morava o mesmo menino daquelas pescarias noturnas.
“Sim, Ivan, eu sei. Mas don Evandro era um homem forte. Uma alma e tanto. Chegou a hora
dele, calhou que fosse agora. Ninguém escapa ao próprio fado.”
Senti que ele estremeceu levemente, como se segurasse o choro. Depois se recompôs e,
separando-se de mim, olhou-me com carinho. Nos entendíamos como dois homens que tinham
pescado juntos por incontáveis noites.
“Um peixe na sua rede...”, falou ele baixinho.
“Prateado e gordo como um pedaço de lua”, completei.
Do outro lado da sala, sentada numa cadeira, estava Doña. Tinha os braços caídos ao lado do
corpo e a cara fixa numa apoplexia ridícula. Ela odiara don Evandro durante anos, mas ele
tinha sido o seu único apoio contra as intempéries do mundo. Um molhe alto e firme entre ela e o
mundo. Agora que Doña estava sozinha, as ondas não demorariam a lhe molhar os pés, foi o que
eu pensei.
E então ela ergueu os olhos e me viu. Mas não pensou em falar comigo. E depois, quando fitou
Cecília, seus olhos arderam, soltando chispas. Dei um passo para trás por causa daquele ódio. E a
velha, como que revigorada pela própria ira, pôs-se de pé, ajeitou o vestido e, numa voz
perfeitamente controlada, que não parecia vir daquele rosto congestionado de fúria e de medo,
disse simplesmente: “Agora quem manda aqui sou eu.”
Seguiu-se um silêncio que pareceu durar anos. E então, quando eu já não podia mais aguentar
aquilo, Ivan deu um passo à frente e sua voz ecoou pela sala: “Então vou embora, mãe. E levo
Cecília comigo.”
Doña deu um pulo, como se tivesse levado uma bofetada no rosto. O filho nunca a enfrentara,
mas as coisas estavam mesmo mudando depressa.
“Vai embora e deixa tudo aqui?”, perguntou ela, quase gritando. “A casa, o farol, a herança do
seu pai? Deixa a sua mãe sozinha por causa dessa menina?”
Os olhos de Doña estavam tão arregalados que pareciam querer sair das órbitas, como um
desses ídolos pagãos para os quais se faziam oferendas sangrentas. Um Tlaloc esculpido na pedra.
Ivan não pareceu nervoso quando disse: “Vamos dividir o comando das coisas por aqui, mãe.
Assim, eu fico. E Cecília fica também, é claro, pois vamos casar.”
“Você...”, gemeu a mulher, e então não disse mais nada.
Doña mediu o filho de alto a baixo, como se o tivesse conhecido naquele momento. E não
houvera fúria ou revolta na voz do menino. Não, sempre tinha sido um menino bom, paciente.
Tirava os peixes com cuidado, sem lhes rasgar a boca.
Deitado no chão, esquecido por todos, don Evandro parecia acompanhar a conversa com
curiosidade. Cecília tremia ao meu lado, e tanto que eu podia sentir a barra do seu vestido de
algodão roçando ritmadamente contra a minha panturrilha.
Doña então falou: “Eu nunca pensei, nunca. Este dia nunca deveria ter acontecido.” E,
suspirando, subitamente cansada, vazia de raiva ou de revolta, ela olhou-nos a todos com os seus
olhos duros, e a voz que lhe saiu da boca soou entregue, gasta: “Está bem, Ivan. Não tenho outra
escolha, será como você diz.”
E foi assim que as coisas por aqui se assentaram sobre outras regras. Don Evandro tinha ido, o
menino tomara-lhe o lugar. E Cecília... Bem, Cecília estava de casamento marcado. Não sei o que
a sua mãe teria dito se estivesse viva para ver.
VERMELHO

Nós somos uma estirpe de trágicos.


Sei que pode parecer estranho alguém dizer isso... Mas é absolutamente verdade.
Basta olhar para trás. Desde o tempo de don Evandro, meu avô. E antes, até. Cada criatura
desta família levou para o túmulo a sua dose de tragédias. Sófocles não teria feito melhor.
E basta ver o caso de Flora. A jovem heroína que, na intenção de salvar-se, acaba criando as
condições ideais para o próprio aniquilamento. Uma característica absolutamente fundamental
da tragédia – mas a própria Flora ria de mim sempre que eu lhe falava do assunto.
Por isso, eu digo: não me culpem. Não me culpem pelo que já existia, pelos rios que corriam
dentro de mim antes mesmo que eu nascesse.
O velho Ernest, aquele leitor maluco, gostava muito de falar em fado. Talvez ele, lá do alto da
sua biblioteca, soubesse desde sempre o que viria a acontecer por aqui. Enfim, deixo o fado para
Ernest. Eu, Orfeu, prefiro chamar isso de herança.
Talvez tenha sido o sangue da avó, essa personagem execrada. Não consigo sequer dizer o
nome dela. Sempre assustando a coitada da Julieta. Cresci com a velha sendo um fantasma
bastante odiado... Doña Alba... A mãe persignava-se quando falavam dela. A mãe – um caso à
parte. Com todos aqueles silêncios. A bela mulher. O pai encolhia-se todo quando o assunto era a
velha, nunca conseguiu se decidir a respeito dos seus sentimentos por ela.
De qualquer modo, a velha para mim não passou de uma palavra. Eu nunca a vi
pessoalmente. Só numa fotografia, certa vez. Olhá-la no papel, triste e desbotada como um
sonho ruim, não me deixou marcas. Não era uma criatura bonita, não era mesmo. O pai saiu ao
avô Evandro, e a mãe, com aqueles cabelos helênicos, trouxe a sua aparência de um passado
perdido – do qual, talvez, tenha ficado esse fogo que me queima.
O que sei é que somos trágicos. Os deuses escolheram assim. Somos todos uma brincadeira
deles, marionetes que envelhecem rápido demais, uma experienciazinha carnal – de modo que
não lhes interessa a parcimônia: criam uns num caldo de fúria e outros na doçura total.
Eu sou fruto da fúria. Sou o filho da árvore de sangue que Lorca cantou. Eu tenho o coração
oprimido. Ou melhor, tinha. Até o dia em que as coisas todas se encaixaram.
Primeiro, eu fiz essa busca. Fiz sozinho. Flora não ajudou muito no começo. Foi só depois,
quando tudo estava já claro o bastante, que ela (essa criatura que é fruto do caldo da
imaginação) colocou aquele homem no meu caminho.
Quando comecei, não sabia exatamente o que estava buscando. Não era pedra e não era água.
Procurei no alto e não encontrei nada. Procurei no chão e para além dele. Para além de tudo.
Dissequei as coisas. Eu entendia a morte, entendia sim, mas não a buscava. Eu queria a vida, e
nesse paradoxo eu andei alguns anos perdido. Eu e meus lápis de cor. Desenhando, desenhando.
Para além das pessoas, desenhando. Passei a adolescência nisso.
Devia ser estranho para o meu pai, devia mesmo. Ainda posso me lembrar dele me mirando,
aqueles olhos fundos. Era um homem de ação num mundo de machezas. Pau, pau, pedra, pedra.
A noite caía, ele acendia o farol. Conhecia cada barco e cada trecho da costa. Ondas e recifes. Era
amigo dos temporais, Poseidon. Era disso que vivia, e isso ele ensinou ao Lucas, o primogênito.
Comigo, o pai não conseguiu muito. As coisas não foram tão claras a princípio. Ele tentou e
tentou. Acho que isso fez com que doesse ainda mais... Todos os planos. “Meus meninos.” Planos...
Naufragaram todos. Pobre papai. Ele sabia salvar embarcações, mas planos são sonhos, e sonhos
são tecidos de uma matéria por demais volátil, o velho não podia colocar os seus dedos nela. Não
havia mapas, cartas, combustível. Ele era um homem de realidades.
As coisas começaram a mudar numa determinada tarde.
Era verão...
Peço que evoquem os verões por aqui. Azuis. Amplos. Aquele mar sem fim. A praia é estreita e
recoberta de areia muito branca, fina. Seres divinos passeiam, invisíveis, quando o sol vai alto,
pelas quinze horas. Posso vê-los, posso mesmo. Titãs divagando à beira-mar; ocasionalmente,
uma sereia. Esse é o nosso verão, como o verão de um poema.
Talvez um deles tenha me ajudado naquela tarde.
Ou estava apenas me provocando...
Não importa, alguma coisa aconteceu. Uma mudança. Um clarão.
O pai trabalhava com Lucas e um ajudante novo num barco, consertavam um furo no casco.
Eu estava lá desenhando a paisagem. Claro, tinha sido chamado para aprender, mas logo
desviara os olhos daquela pele rígida de madeira encarquilhada, com o seu buraco enorme, as
entranhas de metal aparecendo como um ferimento fatal. Eu não podia ajudar. Então peguei
meu caderno e meus lápis.
E me sentei num canto.
Havia uma luz toda especial. Descia do céu como um manto. Azul e dourada era a tarde
quando ele veio caminhando pela beira-mar. Tinha umas pernas longas e delgadas, e a barriga,
lisa, nascia das calças castanhas de sarja, arregaçadas nos tornozelos. Ele vinha chutando
conchas pela areia, como se brincasse com elas, intimamente.
Não era velho. Vinte anos, ele me disse. E, no entanto, os seus olhos sabiam tudo. Sabiam,
quando me olhou e sorriu, pedindo que eu o desenhasse. Trabalhava no barco cuja cirurgia meu
pai executava lá dentro da sua miraculosa oficina. E vivia em Datitla com a mãe viúva.
A sua voz era a voz do vento, e os seus braços eram como quartos de amplas sacadas abertas
para o mar.
Quantos anos eu tinha? Dezesseis... Tudo em mim crescia e mudava todos os dias. Mas aquela
tarde com ele foi como um ano inteiro na minha vida.
Guardo o seu nome dentro de um búzio.
Nunca mais nos falamos depois disso. O barco ficou pronto no dia seguinte, e ele partiu para
Datitla, sentado na coberta, acenando-me com aquela mão de dedos cujo gosto eu ainda podia
sentir na minha língua.
Talvez fosse apenas um deles... Um dos deuses.
Andavam então por aqui naquelas tardes de sol, as andorinhas circulavam na areia ao redor
deles, domesticadas como pequenos cães alados.
Os deuses costumavam fazer travessuras conosco – queimavam o doce que mamãe cozinhava,
sopravam ideias malucas aos ouvidos de Flora para que ela as colocasse no papel. Depois
partiam.
O mesmo devem ter feito comigo.
F LORA

U
m gêmeo seu é uma coisa estranha. Injusta. A simbiose entre duas criaturas que dividiram o
mesmo ventre é tão profunda que pode facilmente descambar para o ódio. O meu caso e o
de Eva, por exemplo...
Ninguém pode precisar jamais qual de nós duas foi a primeira a nascer. Minha mãe, que
nos teve em casa, estava maluca de dor, exausta demais para recordar com clareza algum pequeno
detalhe que pudesse identificar qual das duas veio dar neste mundo primeiro. E a parteira que
ajudou na faina desse duplo nascimento já se perdeu na poeira dos dias. De fato, éramos iguais,
absolutamente iguais em tudo, iguais como duas metades de uma mesma coisa, antes que nossos
cabelos começassem a crescer – os meus, castanhos; os de Eva, aquela massa ruiva que parece ter
vida própria. Os seus cabelos de fogo.
Com o tempo, as diferenças entre nós começaram a surgir e a se intensificar até que se tornaram
brutais. Por fim, viramos criaturas opostas, inimigas que dividiam o mesmo quarto e o mesmo
passado. Sempre apertadas uma contra a outra. Uma convivência quase promíscua.
Mas a mamãe achava bonito. Dizia que dormíamos de mãos dadas durante a primeira infância,
que ríamos juntas e juntas chorávamos. Bem, se isso de fato aconteceu ou se foi apenas uma
invenção de mamãe (será que eu sou a única a inventar coisas nesta família?), deve ter sido há muito
tempo. Porque Eva e eu, desde que me recordo, somos opostas.
Se ela não existisse de verdade, com aquele seu petulante jeito de me olhar meio de lado, os
olhos brilhando de esguelha, com os seus sorrisos inesperados, misteriosos, como se sempre estivesse
de posse de algum segredo vergonhoso sobre mim – bem, se Eva não existisse, eu jamais a teria
inventado... Ela é, na minha vida, como um pequeno demônio de estimação. Não posso me livrar
dela, está sempre por perto. Gosto de chamá-la de Lilith. Com os seus olhos híbridos, iguais aos de
mamãe, mas ao mesmo tempo tão diferentes. Chamuscam ao meio-dia. Ela vive de sol como uma
pequena serpente do deserto, a minha irmãzinha gêmea.
Talvez por isso eu tenha descambado para a ficção. Para fugir de Eva. Sempre que ela está por
perto, sinto-me fraca, feia e pouca. A sua altivez me dói. Ela é bonita e orgulhosa e rasa como um
pires. E também pode ser má.
Por isso, creio, a ficção tornou-se um bom refúgio. Uma espécie de espaço sagrado, atemporal,
um castelo erguido no ar, mas com grossas paredes eternas. Nem óleo quente, nem fogo, nem
chumbo. Nada destrói o meu castelo inventado. O lugar onde me escondo de Eva.
Eu e Eva... Uma equação sem resposta.
Orfeu disse que a soma de nós duas equivalia a um nada. Porque éramos partes opostas de uma
mesma coisa e que, juntas, nos anulávamos. Engraçado que foi mais ou menos isso que aconteceu.
Mas não vamos pular as coisas.
Anotações para um personagem:
a força física
a perfeição de Apolo

ele busca a beleza


pelos olhos
pela boca
com as mãos

sabe desenhar e lê poemas

trágico como um grego


mas nunca se deu em sacrifício

Orfeu
por isso o nome

ele desceu ao reino dos mortos

e foi uma longa jornada.


Cecília não sabia precisar quando começara a fazer tricô. Tanto silêncio naquela
casa à beira-mar, e os invernos sabiam ser intermináveis, escondendo-se nas
gavetas das cômodas, surgindo, inteiros, numa tarde de primavera. As lãs faziam-lhe
companhia de algum jeito meio vago, mas reconfortante.
Ela tinha a memória de algumas noites de inverno, o vento soprando nas janelas, encrespando
o mar e as árvores, quando se sentava junto ao fogão a lenha, Lucas ainda crescendo na sua
barriga como uma planta numa boa estufa e o barulho das agulhas, plac, plac, plac, plac.
Ivan passava por ali, servia-se de café e, depois de vestir o casaco forrado de lã, a touca
enfiada até as orelhas, saía para a noite e para o trabalho. Sempre havia um casco avariado,
uma tempestade marinha, o farol. Naquele tempo, logo após a morte de don Evandro, Ivan e
Ernest trabalhavam duro para manter as coisas em ordem. Os negócios iam bem às custas das
tragédias alheias, e isso era uma coisa que incomodava Cecília – os naufrágios, pobres homens
tiritando sob a chuva, arrastando caixas e bagagens pela areia.
Sim, aquele primeiro inverno do seu casamento tinha sido uma provação. Havia alguma coisa
lúgubre no ar. Ventava havia cinco dias, um vento teimoso e acre, e o mar enfurecido parecia
querer engolir os rochedos. Toda semana, um naufrágio na costa de Oedivetnom. E lá ia Ivan,
porque Ernest ficava no farol. Ia por vários dias, deixando Cecília às voltas com a sogra. As duas
mal se falavam. Suas conversas reduziam-se a pequenas combinações rotineiras sobre a comida
ou a limpeza da casa. Mas Doña tinha os olhos sempre postos nela, duas brasas ardentes. Às
vezes, Cecília fugia para o quarto de Ernest e, como antigamente, os dois ficavam lá conversando
por horas. Mas a velha estava sempre vigiando, sempre arranjando uma desculpa para manter
Cecília longe de Ernest, dentro da casa.
Houve uma noite terrível. Ventava mais do que era costumeiro. O ar frio e vigoroso forçava as
janelas, infiltrando-se por qualquer vão, despejando o inverno nos rins de Cecília, que então
tinha dores noturnas, um peso nas pernas. Lá na praia, o mar cuspia os últimos destroços de um
acidente ocorrido havia uma semana. E foi naquela noite, antes da hora do jantar, que o corpo de
um menino veio dar na costa. Era um garoto branco, de uns sete anos, com o torso inchado e
rígido. Ela estava lendo um livro quando Ernest a chamou, e parecia muito angustiado. Com
uma lanterna guiando o caminho no escuro, silenciosos na noite cheia de raiva, os dois
chegaram perto da criança, o vento lamentando sem parar. E Cecília pôde ver os seus cabelos
castanhos espalhados pela areia, como os filamentos de uma pequena medusa assustada. Ernest
segurou-lhe a mão com força, como um pai teria feito com a sua filha.
A polícia veio e recolheu o corpo. Cecília, enrolada num xale de lã, suportava o vento nos seus
ouvidos. Acompanhou todo o trabalho dos policiais e deu as poucas informações que podia. Não
havia muito a dizer. O policial dispensou-a logo, olhando com simpatia para o ventre que se
desenhava sob o vestido largo.
Cecília sonhou com o menino afogado durante muitas noites. Acordava com a boca seca,
sozinha naquela cama para dois. Tinham ganhado um quarto maior, ela e Ivan. Ou tinham
lutado por ele. Mas a proximidade da sogra, cujos aposentos ficavam ao lado, incomodava-a. No
entanto, Doña mal se deitava na cama. Pela madrugada, quando Cecília ia até a cozinha em
busca de um copo de água, os rins doloridos, lá estava Doña sentada na sua cadeira de balanço
perto do fogão a lenha. Os olhos abertos, alertas. Fitando as brasas do fogão de ferro. Olhava
para Cecília sempre de soslaio, rapidamente. Media-lhe o ventre com atenção, depois desviava o
rosto. Cecília temia pela sua criança, embora não soubesse por quê. E o afogado não lhe dava
trégua. Noite após noite, ancorava nos seus sonhos.
E foi somente quando Ivan voltou que ela recuperou alguma paz. A presença do marido na
casa parecia neutralizar Doña, e Cecília já não temia mais encontrá-la às madrugadas, de
vigília perto do fogão. Ivan desmistificava as agruras do inverno, fazendo troça do vento e da
chuva, e consolou-a sobre o episódio do pequeno afogado.
“Tudo vai ficar bem”, dizia ele, acarinhando-a com as suas mãos fortes. “E o nosso filho vai
nascer no verão. Numa bela manhã de sol, tenho certeza.”
Ela então sorria, apaziguada. As coisas pareceram se ajeitar. Os dois ficavam largas horas na
cama, fechados no quarto, conversando sob as cobertas de lã. Cecília sabia que a sogra estava na
cozinha, insone, noite após noite. Se afinasse os ouvidos, podia escutar até mesmo o ranger da
cadeira de balanço. Schiss, schass. Schiss, schass. Era também o barulho de Doña mastigando os
próprios ódios e arrependimentos.
Um dia, no meio da noite, Cecília acordou com um barulho diferente. Ivan estava sentado na
cama, atento.
“O que foi?”, quis saber ela, pois acordara-se e então tudo parecia estar silencioso e calmo. Só o
vento lá fora.
“A mamãe está tossindo lá na cozinha”, disse Ivan.
E então, sobre o silêncio, ergueu-se o ruído rouco da tosse da velha, como uma máquina
enguiçada.
Sugeriu que o marido deitasse de novo, aquilo não passava de uma gripe, pois Doña ficava lá,
enrolada no xale, hora em cima de hora, pegando frio, com os pés calçados nas velhas chinelas
que tinham sido de don Evandro.
“Com umas aspirinas, ela logo fica boa”, falou para Ivan. “Agora volte a dormir aqui do meu
lado.”
Eles dormiram. Mas, na manhã seguinte, a velha ainda estava lá tossindo. E, quando outro
naufrágio para os lados de La Malopa roubou Ivan novamente de casa, a velha ainda tossia
como uma chaleira entupida.
Dois dias depois da partida do filho, Doña começou a cuspir sangue. Cecília ficou apavorada
com as possibilidades daquela doença. Manteve-se o mais longe possível da velha, e elas mal se
falavam. Desde que viu o sangue na pia da cozinha, Cecília deixou de comer qualquer coisa
preparada por ela – fazia as suas próprias refeições e as comia no quarto.
Doña nunca lhe pedia ajuda para nada – ficava lá tossindo pacientemente, dia após dia. Os
olhos ainda fulgurando de ódio. Se lhe perguntassem o que a incomodava tanto, Cecília diria:
“São aqueles olhos.” Porque Doña, mesmo doente, queimava-a com o olhar. Cecília tinha certeza
de que a velha tampouco gostava do neto que crescia na sua barriga. Nunca perguntava nada,
apenas aquela mirada raivosa.
E deve ter sido mesmo por causa dos olhares de Doña e da solidão daquele inverno estranho
que Cecília começou a tricotar. O tecido tramado descia das agulhas por sobre a sua barriga
intumescida, protegendo-a do mundo. Era também um atalho para a divagação: como seria a
sua criança? Seria loira, morena, alegre ou tímida, um menino ou uma menina? Ela pensava e
tricotava, e o tricô era ao mesmo tempo o seu muro e a sua ponte.
E a velha lá, tossindo a sua raiva.
Foi um inverno ruim...
Quando a primavera finalmente chegou, insegura no começo, espalhando uma flor aqui,
outra acolá, verdejante e fresca e rosada depois, a velha já tinha deixado a cadeira de balanço na
cozinha e se transferido para a cama, no quarto que nunca mais deixou. Não cozinhava mais
para os homens, nem queria olhar as primeiras flores de jasmim no quintal. Mas alguma coisa
Doña tinha feito. Algum anzol envenenado fora jogado ao mar, porque o bom Ernest também
começara a tossir e, quando cuspia, seu catarro era rajado de sangue.
Se o farol pudesse falar.

De dia, eu durmo.
Mas à noite eu vejo tudo. A cada dois segundos, abro os meus
olhos.
Acendo, apago, acendo, apago, acendo, apago, acendo, apago,
acendo, apago.
Eu estava aceso quando ela fez aquilo.
Pelas frestas da janela, entrou a minha luz. Ela cuspiu na sopa.
Cuspiu ódio e sangue naquela sopa. A sopa que os homens comem
antes do trabalho, quando eles vêm até mim. É preciso comer. Não é
uma rotina fácil. Trezentos e sessenta e cinco degraus, exatamente.
Os homens tomam a sopa e três ovos. Então vêm pro serviço. Por
isso ela cuspiu. Por isso. Acho que queria que ela provasse a sopa
também.
Mas ela não provou.
No começo, ela tomava a sopa sim. Depois, não. Porque acordava
enjoada e ia dormir com medo.
Mas o Ernest tomou.
Ele sempre tomava a sopa, tomou naquele dia também. E o bicho
que corroía a velha por dentro lançou-se às entranhas do Ernest.
Eu não vi isso, estava apagado.
Mas depois eu acendi, apaguei, acendi, apaguei. Milhares de vezes.
Até a noite em que o Ernest vomitou sangue. Então a coisa estava
feita.
Sentada na sua cama, eu podia ver a velha rindo sozinha com o
que lhe sobrava de vontade. Rindo. Ela sempre tinha odiado o Ernest.
Ela odiava até mesmo a mim. Uma coisa. Porque os homens dela se
refugiavam aqui. Em mim.
Eu me lembro de quando don Evandro gostava mesmo dela. Ela foi
bonita. Mas o tempo passou, acendendo-se, apagando-se, acendendo-
se, apagando-se,
e um dia,
num ano qualquer,
ela tinha virado uma velha.
E má.
Muito má.
Isso de cuspir sangue na sopa eu já esperava dela. Quando ela
morreu, o Ernest foi atrás. Creio que atravessaram as portas quase
juntos. Apagaram-se.
Eu senti falta do Ernest como já senti de muitos outros, como
ainda vou sentir daqueles que sequer conheci. Todos eles, um por um,
hão de vir e de ir, cavarão meus degraus com os seus pés, deixarão as
suas digitais em mim, pintarão as minhas paredes, trocarão as minhas
lentes, desenharão as minhas janelas com o hálito das suas bocas.
Mas eu estarei aqui para sempre. Até que o próprio mar me devore. É
uma lei como tantas outras. E, quando o mar finalmente me engolir,
Ernest não será mais nem mesmo uma lembrança.
VERDE

Você me pergunta como foram as coisas quando eu voltei de viagem naquele tempo.
Você me pergunta como se eu pudesse responder, Cecília.
Você não me pergunta com a voz, mas com essas agulhas, plac, plac, plac. Desenhando com
linha o passado, e eu sempre verde, verde, verde. Como uma espécie de árvore plantada no
parque da sua memória.
Você me pergunta com as agulhas e eu respondo com o silêncio. Porque eu não tenho mais voz.
Não tenho mais rosto, nem desejo, nem nada. Mas algumas coisas eu posso fazer... Posso mexer as
folhas no jardim, posso fazer a brisa soprar com mais força, e então você para com essas agulhas
por um instante. Para e olha as folhas da laranjeira que eu plantei aí perto da cozinha, plantei
porque você gostava do cheiro das flores e fazia geleia de laranja no inverno. Quando você olha
esses galhos mexendo na tarde, você então parece me ouvir... A mim, à minha voz sem som. Este
vento. Huhhh.
As folhas roçando umas nas outras por um punhado de segundos, e isso basta para que eu lhe
conte tudo o que há.
Tudo o que há para ser contado.
Huhhh, Cecília...
Vou ter que clarear as suas ideias a respeito. Eu, que um dia fui o homem que dormia ao seu
lado, que entrava na sua boca e na sua vagina, agora não passo dessa lã verde entre os seus
dedos.
Pois a velha, minha mãe, morreu. Depois de meses cuspindo sangue, ela morreu. Não queria
morrer, como antes não quisera viver. Digo isso porque ela teimou, teimou até o final com a
morte, a sua última interlocutora. Mas ela ainda tinha uma última carta escondida: sem que
ninguém soubesse, ela tinha Ernest. Acho que considerava fazer um escambo, sua própria vida,
já por um fio, no lugar da vida de Ernest. Ora, Átropos nunca foi dada a trocas. E a parca acabou
levando os dois, afinal de contas.
Naquela mesma semana, nasceu nosso filhinho.
Então, apesar de tudo o que aconteceu, guardo uma memória boa daquele tempo – você não?
Quando tudo se acabou finalmente, tínhamos nosso menino, e como ele era liso e morno, e como
não nos cansávamos de olhá-lo por horas, um pequeno milagre de fraldas, uma maquininha de
pequenos ruídos que parecia quase perdida no berço que eu trouxera de Oedivetnom. E como ele
agarrava o seu peito, igual a um desses bezerros que a gente vê pelo campo!
Preciso lhe dizer isto, Cecília: quando Lucas nasceu, eu nunca mais olhei para trás. Deixei o
passado correr, escorrer de mim como água. Claro, às vezes eu penso em meu pai, e penso nela
também. Você não gostava de evocá-la... Bem, nunca a culpei por isso, nunca mesmo. Quanto a
Ernest, sempre esteve perto de mim, de um modo ou de outro, quando eu estava lá no farol. Era
quase possível senti-lo ao meu lado lá em cima, como se a sua respiração viesse com as ondas, os
seus antigos passos soando, às vezes, no meio da tarde, libertos das amarras do tempo, ecoando
na velha escada de pedra, rápidos e leves. Ernest sempre se locomoveu como um fantasma, tão
silenciosamente como um deles.
E, um dia, Flora apareceu-me com os livros dele. Você lembra? Foi como desenterrar um pouco
de Ernest. Aquelas capas empoeiradas, manchadas pelos anos e pelo uso. A menina saiu a ele
como a um avô, sempre com o nariz enfiado atrás de uma lombada...
Mas, apesar da volta dos velhos livros, apesar das lembranças todas, eu nunca mais olhei para
trás, Cecília. Deixei que o meu pai partisse, e que depois a velha partisse. Não chorei sequer por
Ernest. Eu nunca quis ficar igual à esposa de Lot... O mar já está bastante cheio de sal.
Eu segui olhando para a frente. Esquadrinhar o horizonte faz parte da minha profissão, afinal
de contas. E o futuro foi agitado o bastante para me manter ocupado, ah se foi... Um filho após o
outro. Esse seu ventre milagroso, uma cria por ano, e de novo fraldas, e de novo mamadeiras.
Sempre uma mãozinha aberta, estendida para mim. Papai, papai, papai. Eu me diverti, ao meu
modo, Cecília... Talvez nada disso esteja na história de Flora, mas eu lhe garanto: pode tricotar
essas coisas aí.
Agora? Agora eu olho para trás... Mas isso não faz mais muita diferença depois que você está
morto. Esses detalhes. Passado ou futuro, nada mais existe. Apenas este imenso presente branco e
anódino. Posso vê-la sentada lá no farol, desdobrando aos seus pés essa imensa colcha de
passado, invocando-o como se ele fosse o seu deus. O passado.
Para que relembrar tudo isso, Cecília? Por favor, largue essas agulhas. Eu a liberto dessa
viuvez. Vá. Vá! Viva o que ainda tem direito de viver.
Eu ainda estarei aqui quando você voltar... Huhhh. Soprando as folhas da laranjeira, um
fantasma obediente.
Tenho as minhas mágoas, é claro... Mesmo que elas agora já não importem. Você nem me
pergunta como é estar morto. Apenas evoca o passado, esse quebra-cabeça de memórias. Nunca
eu, eu inteiro, eu apenas. Nunca. O farol chora de saudades minhas, derrama as lágrimas que
você guardou, Cecília... Enquanto os barcos se chocam contra os rochedos por causa da loucura
do farol, você tricota, tricota, tricota. Tricota enquanto os seus cabelos embranquecem,
enquanto as folhas caem das árvores, tricota os seus próprios cabelos, e o vento sopra na encosta,
e você tricota quando vêm as flores e os pássaros voltam a cantar.
Tricota como tricotou Penélope.
E você espera por Tiberius, eu sei. Ele pode voltar, um dia.
Eu nunca mais voltarei. Não passo dessa brisa incomodando os seus cabelos. Sou as folhas
roçando umas nas outras por um punhado de segundos,
as folhas verdes tocando-se levemente,
e, depois,
nada.
Anotações para um personagem:
Tiberius

ele gostava das constelações

Taurus
Andrômeda
Órion
Aquarius

ele gostava de estrelas

Aldebaran
Sirius
Pollux

ele gostava de pessoas

Cecília
Orfeu
Flora

era um menino loiro


e lindo
que um dia
cresceu

carregava o mundo
nas costas
tinha joelhos fortes
e um coração
honesto
Então a mão que segurava os cabelos de Cecília enquanto ela amamentava, a mão
que segurava os seus cabelos como hoje ela segura o fio de linha entre os seus dedos,
essa mão logo estava segurando um martelo de brinquedo e correndo atrás de Ivan pela casa e
pelo jardim – o menino descendo aos pulos a encosta pedregosa, o menino pela areia, olhando
para o pai como quem olha para um herói, seguindo-o pela praia até o farol.
Lucas cresceu rápido. Era uma espécie de cópia de Ivan. Tinha o mesmo caminhar, o mesmo
perfil, os mesmos olhos bonitos. E era faminto como o pai. Cecília achava graça no modo como,
por vezes ainda vacilante, o menino caminhava pela casa, atravessando a cozinha para pegar a
fatia de pão que ela lhe estendia.
“Coma, Lucas. Mastigue devagar...”, dizia Cecília.
E Lucas mastigava a sua comida com uma concentração que dava vontade de rir. Era um
garoto miúdo, de cabelos castanhos, atarracado e com dois olhinhos verdes encravados sobre as
bochechas. Cecília se divertia com o filho, e era a primeira vez que se sentia livre para ser
absolutamente feliz, sem estratagemas, sem segredos, sem riscos. Ela e o filho, para cima e para
baixo, dia e noite.
Quando Lucas dormia, às vezes examinava-o. Nem para si mesma poderia admitir que
procurava na criança algo da velha. Um jeito de mexer a mão, o desenho das orelhas, o suspirar.
Alguma coisa da velha – ela tinha muito medo disso. Daquele veneno perseverando no tempo,
misturando-se ao seu próprio sangue para renascer, um dia, em algum dos seus filhos.
Mas Lucas parecia imune àquela herança. Era igual ao pai em tudo o que Ivan tinha de justo,
de bom e de silencioso. Cecília amava o menino com o mesmo amor com que amara o marido
desde que o vira pela primeira vez, um amor humilde e maravilhado que agora vinha acrescido
da sensação um pouco angustiante da responsabilidade, da vontade desesperada de proteger
aquela criança de todos os males do mundo, até dos males já mortos e enterrados. Ivan ria dela,
dizendo que tinha se saído uma mãezinha bastante nervosa.
“Ora”, ela retrucava, apertando o menino contra si. “O penhasco é alto, as pedras são
perigosas, aqui venta muito. O menino pode pegar uma pneumonia.”
“Cecília, ele é saudável como um pardal. Deixe que voe um pouquinho por aí.”
Ela então refreava os seus medos. Olhava o menino correr pelo terreno acidentado e torcia as
mãos, mas não se interpunha entre ele e a vida. Ele caiu, levantou, caiu, cortou-se, e correu de
novo. Uma vez, muitas vezes.
Um dia, Cecília despertou mareada. Antes de chegar ao banheiro, vomitou nos próprios pés.
Em Oedivetnom, recebeu do médico a notícia de que estava grávida novamente. O medo palpitou
dentro dela como um segundo coração.
“Vai ser bom pra você”, foi o que disse Ivan quando chegaram em casa. “Vai deixar Lucas mais
livre, não é, meu filho?”
O menino, que cavalgava um pangaré de madeira no meio da sala, parou de corcovear no
instante em que o pai o chamou e, com o braço lá no alto porque estava para esfaquear um
inimigo imaginário, sorriu para Ivan com os seus olhinhos verdes úmidos de adoração.
E até mesmo Cecília achou que aquilo estava certo. Com a chegada de outro filho, talvez
aquela angústia entremeada de amor amainasse dentro de si e ela conseguisse esquecer aquele
medo ridículo de a velha vir lá do outro lado para causar algum estrago por ali.
Cecília não teve pesadelos na segunda gestação. Não sonhou com a sogra na sua cadeira de
balanço, não acordou suando frio, comeu a comida em todas as refeições. Não havia ninguém
cuspindo sangue pela boca, nem destilando raiva pelos olhos. A casa estava serena. O mar
lambia as pedras lá na praia. O farol fazia o seu trabalho a cada dois segundos, e os barcos iam e
vinham. Houve um naufrágio para os lados de La Malopa, e Ivan viajou com um empregado que
tinha ido substituir Ernest e don Evandro. Cecília ficou em casa. Tinham contratado um
segundo ajudante que cuidava do farol na ausência de Ivan, e trouxeram do povoado uma
menina para ajudar com Lucas. Chamava-se Lilia. Ela cozinhava e lavava a roupa, e Cecília
comia sem medo a comida que ela preparava. Era verão e os pássaros cantavam nas árvores, a
praia lá embaixo convidava a longos passeios e ela ficava na areia com Lucas por horas seguidas,
os dois mergulhando na água fria, gritando e rindo alto, depois corriam juntos para a toalha
estendida na areia e ali deitavam-se, mãe e filho, esperando que o sol os aquecesse.
E foi nesses serões vespertinos que Cecília encontrou no seu menino um pouco de si mesma.
Lucas ria como ela, e, como ela, apreciava ficar no promontório olhando o horizonte e
procurando figuras imaginárias nas nuvens. Ele também tinha um jeito de olhar tão parecido
com o da mãe de Cecília, sua avó, que era como se olhasse apenas uma parte do todo,
concentrando-se nisso silenciosamente. Lucas não olhava para ela; olhava os seus cabelos, a sua
boca, as suas mãos. Vasculhava-a aos poucos. E Cecília se enternecia, tomava-o nos braços,
enchendo-o de beijos.
“Para com isso, mamãe”, ele dizia. “Eu sou um menino. Um menino grande.”
Tinha três anos, mas falava como um adulto. Lucas, o seu pequeno menino grande. Quando
pensava nele, ainda hoje, pensava naquelas tardes azuis. Havia alguma coisa azul em Lucas,
uma coisa fresca e fugidia. Um pardal, dissera Ivan. Um pardal livre e limpo e ordeiro, que por
vezes vinha pousar no seu ombro.
Nas noites calmas de verão, Cecília sentava-se na varanda com o seu menino-pássaro no colo.
Ele gostava de pousar ali até que o sono viesse, enquanto o farol, na ponta da praia, fazia o seu
trabalho. Riscava a praia com a sua luz, depois vinha o escuro. Muitas vezes isso, até que Lucas
dormia, cansado de construir casas imaginárias, de correr pela areia, de subir a extensa
escadaria do farol atrás de Ivan. Lucas dormia e Cecília ficava observando os pequenos milagres
do seu menino – as longas pestanas, tão longas como as cerdas de uma escovinha de cabelos que
certa vez ela quis comprar num passeio na cidade e que a sua mãe não lhe deu, porque tinha cabo
de prata e custava mais do que ela poderia pagar por uma escova ou qualquer outra coisa.
Gostava do desenho do nariz, arrebitado, parafusadinho no rosto. Tudo nele parecia perfeito e
imune ao que era ruim, ao que maculava e feria. Toda aquela pureza enchia os olhos de Cecília
de lágrimas, e Ivan, que a certa altura sentava-se na varanda ao lado dela, perguntava sempre:
“Por que está chorando?”
E Cecília dava de ombros, com o menino adormecido em seu colo.
“Ah... estou chorando por ser tão feliz.”
Ivan ria. Era uma criatura terrenal, cartesiana, e se espantava com as delicadezas e agonias
da mulher. Então afagava os seus cabelos e, em voz baixa, respondia: “Se a minha mãe ouvisse
isso, diria que você é maluca. Já Ernest, bem, ele mandaria você escrever poemas.”
“Estou fazendo filhos...”, dizia Cecília.
“Talvez seja a mesma coisa, de outro modo”, retrucava Ivan, acendendo o seu cachimbo.
E assim, nessa calmaria, foi que se passou aquele verão. Dentro da sua barriga, crescia a
semente de Julieta.
Era o ano de 1963. Sei disso porque Cecília escreveu essa data no álbum de fotografias sob uma
foto de Lucas, de calção amarelo, sentadinho sobre as pedras do molhe, com aqueles seus olhos de
alga sorridentes, congelados no tempo.
AMARELO

Uma família é como uma constelação...


Numa noite escura, andando pela praia, uma pessoa pode enxergar entre mil e
mil e quinhentas estrelas. Existem muito mais delas lá no céu brilhando através do tempo, mas
são invisíveis a olho nu. Aqui embaixo, não podemos vê-las com os nossos olhos. Mas elas estão
lá.
Com as pessoas, as coisas acontecem do mesmo jeito. Alguns indivíduos se destacam mais do
que os outros. Falam mais alto, fazem mais coisas, são mais rememorados pelos que vêm depois,
ganham medalhas, estátuas, epitáfios. Eles vão e vêm, atravessam oceanos, fundam colônias,
constroem impérios, derrubam pontes, ganham guerras e erguem países. Enquanto outros se
contentam em passar uma vida nebulosa em frente a uma escrivaninha fazendo versos ou
gastam as pestanas sobre um microscópio desvendando fungos. Há aqueles que fecham os olhos e
meditam por anos sem fim, e outros que deixam a própria casa para cuidar de crianças órfãs na
África. É a primeira categoria de pessoas que move o mundo, que o empurra para a frente no
rumo desse precipício que chamam de progresso. Mas eu sempre me identifiquei com o segundo
tipo de gente – os tímidos, os poetas, os estudiosos, os sonhadores, os abnegados. Aqueles que
confortam o mundo, que o embalam no escuro da noite e curam as suas feridas. As estrelas que
brilham em segredo.
A minha mãe, por exemplo. Nunca foi uma mulher forte. Altiva. De grandes gestos. Mas
alguma coisa nela, alguma coisa sempre esteve ao nosso alcance, todos os dias. Como num ônibus
a toda a velocidade, e de repente você encontra um apoio para o braço, uma daquelas alças
insignificantes, esquisitas e feiosas que caem, penduradas do teto, providencialmente sobre as
nossas cabeças. E então uma dessas alças lhe dá o suporte necessário para a viagem.
A minha mãe, eu posso vê-la agora mesmo. Claro, ela não me vê... Pensa em mim como tem
pensado nesses últimos meses, anseia por mim, pelo meu retorno. Creio que sou o único de todos
nós que ainda pode voltar... Não que Lucas esteja impossibilitado fisicamente de retornar a La
Duiva. Mas ele sempre foi muito teimoso, gente da primeira categoria, que vai, que faz, que
funda – jamais voltará. Ou Eva. Com toda a sua beleza egoísta e insaciável, e seu pequeno
menino cumulado de mimos no Natal daquela fotografia que enviou à mamãe. Mas eu? Eu sou
do tipo que poderia passar cinquenta anos olhando por uma luneta ou desvendando um livro em
sânscrito. Não almejo grandes conquistas, nada disso. Gostaria mesmo é de ser diferente do que
sou, de acordar, um dia, vendo apenas o que os meus olhos podem ver, o fisicamente palpável. De
ter um pouco de silêncio dentro desta minha cabeça.
Mas não...
Agora mesmo, como eu disse, eu posso ver a mamãe. Ela me chama baixinho: “Tiberius...”
Estou muito longe, longe demais, mas posso vê-la sentada em frente à lareira com uma xícara de
chá entre as mãos. Ela mira o conteúdo da sua xícara como se estivesse olhando uma espécie de
bola de cristal, e o vapor suave e oloroso sobe para o seu rosto, turvando um pouco os seus olhos
bonitos. Ela sempre fez isso, contemplava o chá dentro da xícara como se houvesse segredos a
serem contados.
Está com um vestido velho, de listras azuis, e a alça direita cai sobre o seu ombro, revelando a
marca clara da roupa de praia. Ela envelheceu um pouco, tem o rosto abatido, embora o
bronzeado da pele disfarce isso. Mas posso ver as marcas ao redor dos olhos, marcas que antes
não estavam lá, e os próprios olhos pisados, riscados de minúsculas veias, olhos de choro. Da
barra do vestido surgem as suas pernas. Compridas e bem-feitas, terminando nos pés finos, de
dedos pequenos. Esses pés nos quais as veias já começam a crescer, minúsculos rios arroxeados
que contornam o calcanhar e sobem, quase invisíveis, pelas panturrilhas. Esses pés inquietos.
Toda ela está parada, atenta aos suspiros do chá, mas os pés se movem sobre o tapete da sala, os
pés são ainda os de uma menina, ágeis e inconformados.
Ela pensa em mim, cogita a minha volta. Gostaria de poder acalmá-la, de ter uma resposta
para o seu desespero, mas ainda não tenho. Pobre mamãe.
O caso é que eu sempre pude ver aquilo que os outros não viam. Não sei se isso é herança – eu
prefiro chamar de sina. Sempre avisando alguém de alguma coisa, até que aprendi a calar.
Durante anos, avisei papai dos temporais que se aproximavam, e ele ria e ria de mim.
Demorou a perceber que a maioria dos meus avisos tinha fundamento, e então os risos
finalmente cessaram. Avisei Flora também, quando ela começou a escrever. E avisei Orfeu, mas
ele fez pouco-caso de mim porque queria amar.
Uma espécie de Cassandra, é isso que eu sou.
Restou-me ver o fim de Troia, e o fim doeu em mim quase tanto quanto doeu na mamãe,
sentada lá na sala com a sua xícara de chá quente. Então, até hoje fico pensando: se Orfeu tivesse
me ouvido, teriam as coisas sido diferentes?
Agora eu estou pelo mundo. Pelo mundo, atrás de Orfeu. Como eu disse, sou daquela classe de
pessoas que tanto pode gastar uma vida ao microscópio quanto atravessar o mundo num navio
para cuidar de um punhado de órfãos. As coisas que eu vejo me levam em frente. Pequenos
vislumbres, clarões entre períodos de escuridão total – como o farol em La Duiva. A verdade
nunca me chega inteira, é mais parecido com as peças de um quebra-cabeça, peças soltas que eu
vou juntando.
Cada dia num lugar, essa é a minha vida.
Eu o vejo à noite... Vejo-o nos meus sonhos, andando numa ruela de pedras gastas pelo tempo,
magro e abatido, úmido de sereno, a ferida entre o nariz e o lábio superior, cheio daquele rancor
que lhe escorre pelos olhos. Então acordo e rememoro o meu sonho em cada insignificante
detalhe. Vejo o que ele vê: as pedras redondas do calçamento, a cor das fachadas, a roupa num
varal, as janelas abertas, o gato miando num telhado imundo. Eu vasculho o horizonte do meu
sonho e posso ver a sombra das muralhas lá no fundo, como um halo úmido. Então toco nessas
pedras e sinto a sua antiguidade. Eu farejo o ar... Provo da brisa salgada que passa pelo rosto de
Orfeu e sinto o arrepio que lhe percorre a pele. Então, depois de gastar horas inteiras nessa
viagem pictórica de reconhecimento, e nisso a noite já se foi, os pássaros já cantam lá fora na luz
rosada – mais uma das noites insones da minha vida –, eu simplesmente concluo,
Ragusa.
E então pulo da cama fria neste quartinho de aluguel e recolho o que restou das minhas
economias, do dinheiro que venho amealhando lendo futuros por aí pelas ruas de incontáveis
cidades – a que ponto eu cheguei! –, e guardo as minhas poucas coisas na mochila, tomo um trem
para a Itália, depois um barco para Palermo, e de lá vou para Ragusa, e ando e ando, e pergunto
e pergunto, até que um jovem numa praça finalmente dá sinal de reconhecer a pessoa cuja
fotografia eu acabei de lhe mostrar e me diz: “Sì, questo ragazzo è stato qui... Ma credo che
sia partito.”
E assim, mais uma vez, cheguei tarde demais. Tarde demais para Orfeu. Tarde demais para
fazer alguma coisa.
E, com esse peso na minha alma, procuro uma pensão barata onde eu possa dormir por
algumas horas e esperar o próximo sonho, as próximas pistas, a próxima cidade, a próxima
chance.
F LORA

O
s livros de Ernest me ocuparam por muitos meses. Quando fechei o último volume, Eva era
uma sereia e eu estava da cor de uma folha de papel. Não apenas branca como uma folha de
papel, mas vazia também.
Quanto mais eu lia, mais oca me sentia. Todas aquelas histórias se misturando dentro de
mim como num velho caldeirão cozinhando em fogo brando, e eu fazendo as primeiras bolhas,
entrando em ponto de fervura sem perceber. A soma de todas as vidas inventadas que eu tragara em
incontáveis tardes, tudo isso tinha se amalgamado, formando uma terceira coisa, um híbrido de
histórias, algo vivo e pulsante e com vontade própria.
Aquela coisa dentro de mim, latejando...
E enquanto Eva se bronzeava ou caçava garotos de férias no centro do vilarejo lotado de turistas
de verão, eu me sentia cada vez mais inquieta. Eva voltou para casa com um diafragma, que me
mostrou muito exultante, com pedidos de sigilo. Ela passava os dias na casa de umas amigas no
vilarejo, e papai andava pela sala ao entardecer, furioso, xingando a liberdade dos jovens de hoje em
dia, as calças boca de sino (que já tinham saído de moda havia muito e ele nem sabia), os umbigos
de fora, os velhos hippies, a teimosia sempre renovada de Eva. Era fácil para ele gostar de mim.
Quando ia a Oedivetnom, trazia alguns livros na sacola e eu ficava mais uma semana lá na varanda,
lendo. Meu paradeiro era conhecido por todos. Mas ninguém sabia daquela coisa, do que pulsava
em mim. Ninguém prestava atenção em mim. Havia Eva e a sua independência, todos aqueles
hormônios. Havia o farol, os barcos, os salvamentos. Orfeu também estava mostrando as suas
peculiaridades, embora creio que o pai ainda não se tivesse dado conta disso, já que Eva era mais
arisca, mais exibida também. Mas mamãe, creio que ela já tinha certeza...
Fiquei lá, à deriva da família. Eu e a minha estranheza. Dócil, eu era. Mas, por dentro, havia
todo aquele fogo, aquela vontade. Então, um dia, para quebrar aquele marasmo e aquela ânsia, eu
peguei um bloco em branco e uma caneta, e comecei a escrever...
Anotações para um personagem:

uma cor para Cecília?

a cor da luz

a ausência de cor

branco.

o prefixo grego para branco é

Leuko.

na cultura oriental, o branco representa

o luto.
BRANCO

Primeiro veio Lucas. Em seguida, Julieta. E então Orfeu.


Dois anos depois, nasceram Eva e Flora.
E então veio Tiberius. O menor de todos... Com aqueles olhos de olhar por dentro das pessoas.
Cinco anos de barriga, cinco gritos no meio da noite, e depois aquela poça morna entre as
pernas, aquele tremor nas entranhas, aquele medo. Aquele medo que esvaziava de mim e voltava
a me ocupar outra vez. Cinco vezes. As dores. As contrações. O inferno, e depois o céu.
Com as gêmeas foi mais difícil... Houve um longo inferno. Mas depois veio o céu, eu estava
aérea e um pouco anêmica, e aquelas duas larvinhas tão brancas dividindo o meu leite e o meu
colo, eu cambaleando pela casa, pulverizada pelo cansaço.
Orfeu também pagou o seu quinhão com a chegada de Eva e Flora. Pobre Orfeu, entre Julieta e
elas, sempre teve que lutar pelo seu lugar. Mas ele sempre foi um menino tão diferente... Como
dizer? Brilhante. A gente podia clarear as ideias perto dele, ouvindo as coisas que ele dizia, cheias
de um sentido muito próprio. Mas eu tive pouco tempo para ele. Mesmo com Lilia cuidando de
Julieta, tive pouco tempo para Orfeu. E ele parecia florescer sozinho, alimentando-se desse
vácuo.
No meio de tudo isso, eu tentava amar Ivan. Porque o amor precisa de tempo, gasta-se tempo
em adorar alguém. E o tempo era a minha moeda. Nos víamos tão pouco naqueles anos! Ivan
com o farol e os barcos e eu com as crianças – fraldas, mamadeiras, remédios, fisioterapia para
Julieta, mingaus, sestas. Enquanto eu criava os filhos, sempre havia um barco em más condições,
uma carta náutica incompreensível para um jovem aspirante a navegador, e então uma
tempestade, e as rochas sempre à espera neste litoral enganoso que é como uma boca linda e
faminta que engole tudo. A empresa de salvamentos crescia... Ivan contratou ajudantes, colocou
dinheiro no banco.
Eu tinha tanto do que eu queria, eu tinha demais. A velha estava rindo de mim em algum
lugar... Eu era como uma criança obrigada a comer o seu bolo preferido inteirinho. Eu andava
pela casa com engulhos. E engulhos eram o sinal de que mais um estava por vir. O doutor Max,
lá em Oedivetnom, ria e balançava a cabeça com comiseração.
“Doutor, experimente dar o jantar para cinco crianças, uma delas doente. Depois troque as
fraldas daquelas que ainda usam fraldas. É preciso colocá-las em seu berços e camas, quase uma
hora inteira até que peguem no sono, e os livros de história embaralhando as suas rimas diante
dos seus olhos. Depois disso vá jantar a sua comida fria, tome um banho... Quando eu vejo, estou
dormindo sem nem ao menos vestir a camisola...”
O velho Max ria.
“Dormindo sem camisola, Cecília...” Ele dava de ombros. “Aí vem o seu marido e faz o
trabalho sujo.”
Essas conversas me faziam corar. Ao longo dos anos, tivemos algumas do tipo. Mas aquela foi a
última.
Voltei para casa com a notícia. Mais um. Não lembro se comemoramos, não havia tempo para
isso... Houve uma fotografia, eu com as crianças, o ventre começando a aparecer, Tiberius
crescendo dentro de mim silenciosamente. Ivan fez questão de bater esse retrato. Eu ainda era
bonita naquele tempo, o rosto liso como uma toalha perfeitamente passada. O álbum tem uma
anotação do ano: 1966. Estou ali parada, cercada pelos meus filhos. Tenho um sorriso meio
assustado no rosto, a noite de verão cheia de presságios entra pelas janelas abertas e ainda posso
sentir o clarão do flash estourando dentro de mim, acordando o peixe que nadava nas minhas
águas. Nunca mais eu tinha olhado essa foto. E fazer isso agora, depois de tudo, quase dói.
F LORA

A
s coisas começaram a mudar. As palavras reunidas ano após ano, livro após livro, de repente
se alinharam, assumindo uma inexplicável dimensão. Ao sabor dos seus sortilégios eu deixava
esta vida, este mundo, e penetrava num outro lugar. Um lugar onde não existia o tempo,
nem os outros. Um lugar onde eu exercia um papel fundamental, uma espécie de deus
eufórico e afoito: ao sabor das minhas palavras as coisas aconteciam, gentes nasciam e morriam feito
flores, vinha a água e cobria tudo, cresciam as trepadeiras, erguiam-se sonhos, havia o amor e havia a
vingança, e tudo era segundo a minha vontade. Não que isso fosse isento de trabalho e de esforço,
até mesmo de uma intensa dose de angústia, mas era de um egoísmo maravilhoso.
Eu, Flora, guiava as palavras. Ao mesmo tempo, as palavras me guiavam. Uma espécie de dança
intuitiva, fluida e sutil, porém uma coisa faminta e ansiosa, ciumenta na sua necessidade de atenção
absoluta. Às vezes eu não comia por um dia inteiro. Costumava passar algumas noites insones
também, debruçada sobre o meu caderno, sempre um novo caderno, a pilha crescendo em cima da
mesa, enquanto na cama do outro lado do quarto Eva sonhava placidamente. Sim, os cadernos se
foram multiplicando, eu escrevia com furor.
Certa tarde, minha mãe veio perguntar se eu tinha algum problema, se estava doente. Não havia
nada que eu pudesse dizer para satisfazê-la. Eu escrevia, respondi. Ela olhou-me a princípio sem
entender, depois uma luz de compreensão brilhou lá no fundo daqueles seus olhos.
“Escrevendo o quê?”, ela quis saber.
“Uma história...”, respondi. “Ficção.”
Mamãe não disse nada. Saiu de fininho, preocupada com a minha nova esquisitice. Ler, afinal
de contas, já não me bastava. Mas, com o passar dos dias, Cecília entendeu e até mesmo me apoiou.
Eu queria, queria muito. Acho que ela se enterneceu com isso.
Mas a história espalhou-se pela casa. Orfeu apareceu logo depois, querendo ler os meus escritos.
Quanto a Julieta, bem... Acho que Julieta me soprava algumas coisas à noite. Ideias, quando eu
estava vazia feito um copo rachado. Quando soube do que se tratavam os meus cadernos, Eva riu
uma vez mais – passar as noites em claro era coisa que ela fazia em Oedivetnom e sempre
acompanhada de algo mais estimulante do que um caderno. Lucas não deu atenção às conversas.
Ele sempre tinha muito trabalho com o pai, desejou-me boa sorte e voltou à sua vida. E o pai? Mais
uma vez ele achou aquilo fácil: em comparação com as maluquices de Eva, escrever um livro era
coisa perfeitamente administrável e não iria macular a minha honra quando chegasse a hora de
encontrar um bom marido para mim.
Tiberius foi o último. Era final de fevereiro, chovia, e os outros jantavam lá na sala. Ele entrou
no meu quarto sem fazer ruído, tinha um jeito muito seu, silencioso como uma sombra.
Aproximou-se da minha mesa e, pedindo licença, correu os dedos pela capa de papelão azul do meu
caderno. Não leu nada, não o abriu. Sua boca de lábios finos abriu-se num sorriso quando ele disse:
“Você escreve bem e sabe disso, não é?”
“Não tenho muita certeza, Tiberius...”
Ele segurou a minha mão entre as suas e percebi como estava crescido. Ele, o caçula, tinha umas
mãos de palmas largas, angulosas, muito masculinas para um garoto de quinze anos.
“Veja bem...”, continuou. “Tome cuidado com aquilo que você escreve para que não se torne
realidade. Certas coisas têm vida própria...”
Achei graça de Tiberius. Sempre tão enigmático... Ele não se ofendeu com a minha risada, mas
não disse mais nada. A sua comida estava esfriando no prato, e a mãe o chamou de volta à mesa.
Quanto a mim, já tinha comido um sanduíche, e eles estavam perfeitamente acostumados com a
minha ausência.
Tiberius saiu do quarto e eu segui escrevendo. Alguém, algum dia, já levou a sério as palavras do
seu irmão caçula? Eu queria criar uma história, e ela estava brotando de mim como água de uma
fonte. Eu queria escrever uma história, e era uma história de amor e de tragédia, na qual um garoto
muito lindo e loiro falava para ouvidos moucos.
AZUL

La Duiva sempre foi um lugar pacato. A casa sobre o promontório verde, as rochas
na praia, o farol subindo para o céu em listras vermelhas e brancas. Como se
segurasse o céu.
O farol estava lá desde sempre, desde que o primeiro de nós chegou, vindo da Espanha, para
recomeçar a vida aqui. O avô do meu avô saiu de Almeria, tomou um barco, atravessou o oceano
e caiu de amores pelo farol. Vivia em Enix, um povoado minúsculo na encosta pedregosa da
Almeria, cercado de amendoeiras em flor, com uma fonte tão antiga quanto a história do
homem, respirando os ares da montanha, o Mediterrâneo lá embaixo como uma mancha azul
tão distante quanto um sonho. Encontrou aqui esse arremedo pedregoso de montanha, a pequena
encosta, e fez ali no alto a sua casa branca, tão branca como as antigas casas de Enix, mas maior,
muito maior, de modo que abrigasse com folga os seus sonhos e descendentes.
La Duiva passou a ser, então, a casa dos Godoy. E o farol se transformou no centro da sua vida.
Essa história me foi contada por Ivan, meu pai.
Contou-a a mim tantas vezes que a sei de cor, inteirinha, no seu tempo, na entonação que ele
usava, e quando a repito para mim mesmo, numa forma de estar mais perto dele, mais perto de
La Duiva, ainda posso ver o seu sorriso. Um meio sorriso – ele sorria de lado. Foi um homem
bonito. Sou parecido com ele.
Mas não gosto de falar dessas coisas. Isso ainda dói demais. Eu estava lá, e brigávamos. Por
dinheiro. Eu tinha conhecido Laura e queria ir para Oedivetnom, queria o meu próprio negócio.
Anos cuidando do pequeno estaleiro, do farol, dos barcos. Mas aquele era o negócio de Ivan.
Engraçado que ele teve tantos filhos, mas agarrou-se a mim como a uma tábua de salvação.
Eu estava sempre lá. Fazendo as contas, conferindo o material, mandando informes para
seguradoras sobre perdas, ferimentos, danos. Aprendi com ele desde pequeno, e fazia melhor.
Muito melhor. As pequenas coisas, quero dizer. Cotidianamente, eu era melhor. Mas nunca pude
entender o mar como Ivan o entendia. Ele sentia no ar o cheiro das tempestades, o suspiro das
calmarias. O talento era dele, eu era o prático. O braço direito.
Mas, um dia, numa viagem de trabalho, conheci Laura.
E Laura não queria viver num lugar pequeno, perdido, como La Duiva. Ela morava em
Oedivetnom, mas queria ir mais longe. Sonhava com as grandes cidades e suas ruas fervilhantes,
com os guarda-chuvas se chocando sob a garoa invernal, com a fila nos teatros, as vitrines
iluminadas, os metrôs.
Espere. Estou me explicando de maneira equivocada outra vez. Ivan não me entendeu aquele
dia, muito depois, quando tudo aconteceu. Tolices, ele disse... Mas não importa o que Laura
queria, e sim o que ela era.
Quando a vi pela primeira vez? Era uma terça-feira de outono em Oedivetnom, e o céu tinha
uma aparência vítrea, de um azul cristalino e apagado que se encaminhava para o cinza.
Lembro-me das folhas secas estalando sob a sola dos meus sapatos quando saí do escritório da
seguradora – qual era mesmo? De qual barco se tratava então? – e segui pela calçada vazia.
Soprava um vento frio, vindo da praia. E a água estava cinzenta e lisa como um prato. Era um
dia prateado, bizantino. Alguma coisa dos meus antepassados se mexeu dentro de mim,
palpitando como um coração esquecido, cheio de saudade de coisas que eu desconhecia. Era um
aviso, talvez.
Faltava ainda mais de uma hora para me encontrar com Ivan na esquina do bulevar Pasñea
com a avenida do Mar. Então caminhei até um café. Fazia um pouco de frio e o vento úmido
entrava pela gola da minha camisa num abraço gélido. Queria me esquentar. Estava triste, de
repente. As memórias dos antepassados, eu acho. Sempre fui um cara quieto e cartesiano, mas às
vezes sou dado a esses rompantes, completamente estranhos à minha personalidade, de fantasia
e saudosismo. Aquele era um desses dias, melhor dizendo, um desses momentos.
Entrei no café e sentei numa cadeira em frente ao balcão. Estava acolhedor lá dentro, e pedi
um cortado. Acho que havia pouca gente por ali ainda, não passava das quatro. O vento cantava
numa quina da janela, então o garçom fechou-a com cuidado e, com um sorriso distraído, me
disse: “Amanhã a chuva chega.” Outro homem da categoria de Ivan, que rege a vida pelas
manifestações climáticas, pensei. Sorri de volta, entristecido. Talvez eu precisasse de umas
férias. Levar mamãe a algum lugar por uns dias, ou mesmo Eva.
Pensava nisso quando ela entrou. O vento tinha desfeito os seus cabelos cacheados, negros, e
todos aqueles fios em torno do seu rosto pareciam um halo. Ela usava uns brincos de um dourado
fosco, enormes. Eles chamaram a minha atenção. Sentou-se do meu lado, sem nem sequer me
ver, e abriu uma agenda na qual fez umas marcações a caneta. Tinha uma mão dourada e
esguia, e os seus dedos sem anéis eram finos e longos. Eu a observava como uma criança que,
numa vitrine, vê um brinquedo novo, maravilhoso. Ela soltou um suspiro, e inclinou a cabeça.
Aqueles cabelos suntuosos pareciam vivos. Como uma floresta que respirasse sozinha numa noite
de estrelas.
Então ela me olhou. Tinha uns olhos redondos e negros, pintados com uma sombra escura.
Parecia estranha ao lugar, ao dia. Imaginei-a andando por uma ruazinha de pedras, o casario
branco, descalça. Mas ela usava botas pesadas e um sobretudo com uma mancha escura na
lapela. Lembro que sorriu para mim e, quando o garçom voltou com o meu cortado, pediu um
para si mesma. Duplo. E, dando de ombros, me disse: “Tive um dia ruim. Devia mais era tomar
um uísque. Mas ainda não são cinco horas.”
Atrasei-me para o encontro com o pai. Ele estava parado na esquina do bulevar Pasñea, o
vento fazia os seus olhos arderem. Acenava para mim, como se eu não pudesse vê-lo. “Lucas,
Lucas...”, ele me chamava. Era mais alto do que todos os outros homens que passavam por ali. Eu
o tinha visto desde que saíra do café, e ainda antes, lá dentro, como um aviso de uma vida que eu
já não queria mais, de repente.
Encontramo-nos com um sorriso silencioso e perguntei-lhe por que não me esperava no carro,
mas ali, na esquina movimentada e ventosa. Ele riu. O carro estava estacionado perto dali, mas
ele gostava do vento, e de certa forma se alimentava dele. Mesmo aquele vento da cidade, com os
seus odores, o seu cheiro de combustível queimado, de frituras e de gente. Dentro do meu bolso, eu
tinha o telefone dela. Laura. E uma promessa de um encontro. Aquele meu outro coração recém-
descoberto já não estava inquieto, mas serenado, satisfeito, apaziguado. Isso foi no começo do
outono de 1983.
F LORA

S
e eu tivesse que explicar a sensação daqueles meses escrevendo à deriva do mundo... Era como
estar mergulhada num mar de acontecimentos, pessoas, vidas. Como se a própria água que eu
bebesse me contasse coisas enquanto descia em mim, fresca de ideias novas. Tudo me dizia.
Tudo me contava. A árvore que eu vislumbrava da minha janela tinha um plano para o
personagem B, e esse caminho se desenhava na sinuosidade dos seus galhos. Quanto ao A, dele me
falava o mar. O vento me trazia as angústias de C, depositando-as sobre a minha mesa como uma
oferenda ao som das folhas que dançavam nos galhos dos pinheiros lá fora. Tudo me acendia. Eu
era mais viva do que a própria vida naqueles dias. Meus neurotransmissores pulavam, telodendros e
dendritos trabalhavam sem parar – a cada parágrafo eu me renovava, experimentando a vida sob a
pele de cada um dos meus personagens, sofrendo, rindo e amando por eles. Foi uma aventura
pessoal e maravilhosa, incompreensível para quem estava do lado de fora.
Orfeu se divertia com os meus acessos de lágrimas e as minhas efusões de alegria. Às vezes ele
vinha me espiar e ficava sob o batente da porta com aquele seu meio sorriso no rosto, os cachos
negros lhe caindo sobre a testa.
“Talvez eu devesse escrever um livro também”, ele disse certa vez. “Você parece estar
consumindo algum alucinógeno. Deve ser bom.”
Ele aparecia algumas vezes por dia e ficava ali, fazendo perguntas que eu respondia
distraidamente. Quem eram os meus personagens? A quais torturas eu os submetia com aquela
minha caneta furiosa? Eu lhe dizia que as coisas estavam tomando o seu rumo com uma autonomia
assustadora, e as páginas se enchiam de palavras, de parágrafos, desse arremedo de vida que é a
ficção, essa outra esfera existencial, numa velocidade que até me assustava.
“Eu escrevo o que eles me pedem, Orfeu.”
“Eles quem?”
Eu ri.
“Os personagens. Eles estão aqui agora, em algum lugar, escrevendo-se a si mesmos. Mas a mão
é minha. E a caneta é esta.”
“Espero que você não se inspire em nós, Flora”, pediu ele. “Todos os livros que você leu...
Espero que essa sua caneta esteja longe daqui agora. Além do mais, não temos nada de realmente
especial, hein?”
Levantei o rosto do caderno e fitei o meu irmão. Era um rapaz bonito e esguio, talvez um
pouco magro demais. Tinha um rosto anguloso e aqueles olhos escuros e ardentes que pareciam
quase imorais. Como se ele sempre estivesse pensando em coisas perigosas, impudicas e secretas.
Aqueles olhos vivos às vezes se escondiam sob os seus cabelos escuros cacheados, que sempre estavam
fora do lugar. Bem, eu tinha um personagem assim, romântico e arguto ao mesmo tempo. Os
mesmos cabelos bastos e crespos, lábios iguais aos dele. Como um daqueles jovens romanos que
caíam nas graças do imperador e depois tinham suas faces cunhadas em moedas, seus rostos
eternizados no mármore. Uma espécie de Antínoo.
Orfeu ainda me olhava, esperando uma confirmação de que eu não tinha me dado ao trabalho
de repetir nenhum traço da vida real nas minhas páginas. Eu não soube o que lhe responder, dei de
ombros e sorri. Acho que ele compreendeu direitinho. Pareceu amuado por alguns segundos, quase
decepcionado mesmo. Depois soprou-me um beijo e saiu do quarto. Naquele tempo, ele já tinha
entendido bastante de si mesmo e da vida... Andava à solta pela praia, passava horas no molhe
trabalhando nas suas aquarelas e nos seus desenhos e esperando que algum marinheiro mordiscasse a
sua isca. Os deuses, era como se referia a eles.
Fiquei sozinha pensando na nossa conversinha. Eu lera muitos livros, mas isso não me impedira
de roubar pequenos detalhes da vida ao meu redor. Coisas por vezes insignificantes, uma conversa
ao entardecer, um suspiro, uns olhos como os de Orfeu, redondos e negros como aquelas frutinhas,
como elas se chamam mesmo? – jabuticabas –, fiapos de memórias... Meu mundo de ficção se
alicerçava neste outro, o real, o mundo para além da página, onde eu respirava. Aquela casa, a nossa,
transmutada, estava ali também. Era tão fácil fazer isso como erguer o meu braço e arrancar uma
fruta do pé. O gosto dessa fruta, o seu sumo, bem, eu o conhecia... Mas não pude confessar isso a
Orfeu. Eu gostava das suas visitinhas bem-humoradas, do jeito desconfiado com o qual ele mirava a
crescente pilha de papéis sobre a minha mesa. E se ele não voltasse mais para me ver? Ao contrário
de Eva e de Lucas, Orfeu se interessava por mim.
Claro, quando Orfeu sumia pela praia nas suas aventuras sensuais ou pictóricas, sempre havia
Tiberius...
Tiberius não andava muito longe de mim naquele tempo. Ao contrário, vigiava-me
discretamente. Era como se ele adivinhasse que eu era uma espécie de Pandora e que as palavras que
eu deitava no papel desvelavam alguma coisa perigosa e proibida, uma porta, uma passagem para
um lado ainda escuro e secreto das nossas vidas.
Ele não podia fazer nada a respeito. Sabia, apenas, que alguma coisa estava por vir. Que
daquelas páginas que eu escrevia de forma vertiginosa se evolavam segredos, o destino talvez. Vinha
ao meu quarto eventualmente e perguntava o que eu andava inventando para o livro. Eu lhe dizia
coisas, que B estava apaixonado por A, e que C queria estar com B. Eu tramava a história do mesmo
jeito que a minha mãe tecia o seu tricô. Os fios se unindo e se separando, indo de um lado a outro
na agulha... Mas eu estava fadada a me enforcar na malha da minha própria ficção – Tiberius,
suponho, pressentia isso. Havia alguma coisa nos seus olhos, um brilho de piedade, de inquietação.
Ele temia por mim.
Pobre irmão meu... Não creio que Tiberius pudesse ter certezas, apenas o sopro frio dos
pressentimentos que o atormentavam desde sempre, desde muito menino. Ele tinha sonhos e
acordava no meio da noite, exausto, o vento brincalhão de fevereiro cantando nas venezianas
abertas, no inverno a chuva tamborilando nos vidros, a luz do farol dançando na esteira de noites
incontáveis o seu eterno balé. As coisas caíam sobre ele de repente. Imagens nos sonhos, palavras
escritas no céu. Tiberius ouvia vozes durante a noite. Passava horas acordado, sentado na cama, à
espreita dessas estranhas visitas. Acordava cansado, a sombra cinzenta da insônia desenhava-se sob os
seus olhos mansos.
O meu livro lhe causava algumas estranhezas que ele não podia compreender de todo. Por isso
Tiberius ia me ver tantas vezes, tentando decifrar o que lhe ia pela alma. Não creio que tenha tido
certeza até quase o final, mas então era já tarde demais: a vida passou a acontecer aos trambolhões,
engolfando tudo e todos numa descida descontrolada como um desses carros que perdem o freio e
rolam por uma encosta abaixo até sumirem no fundo do mar.
Ah, querido Tiberius, eu via você com os seus mapas e livros, com os seus cabelos loiros de
prata, você compenetrado nas suas contas e premonições, traçando intrincáveis linhas nas suas
folhas quadriculadas, perseguindo o futuro no curso das estrelas. Eu via os seus olhos fundos, o seu
perfil de menino, o nariz pequeno, eu ouvia o seu silêncio... Não resisti a colocar você na minha
história, você e os seus livros de astronomia, as suas amadas constelações, as suas perguntas estranhas,
os seus cabelos de Ícaro.
Sim, eu seguia escrevendo. As palavras me enfeitiçavam como a Tiberius enfeitiçavam os
sonhos. E a boca do futuro ia arreganhando os seus lábios, deixando à mostra os seus dentes afiados.
Ainda bem longe de nós, enquanto eu tecia palavras, do outro lado do Atlântico, numa sala em
Cambridge, um jovem doutor em Letras terminava a sua aula sobre a segunda geração dos poetas
românticos ingleses.
Lá fora caía uma chuva fina e cinzenta, quando ele fechou o seu caderno e despediu-se dos
alunos, que também se preparavam para sair. Ele atravessou os corredores de tijolos, navegando
naquele calor artificial, sentindo-se incomodado dentro do colete de lã, enquanto cruzava com
jovens alunos de QI acima da média, eles também nos seus próprios coletes, e cumprimentava um
ou outro velho professor maniático, e contornava os grupos de moças que riam os seus risos de
sexta-feira, os seus risos primaveris alimentados de biscoitos e de leite, enquanto o inverno fazia das
suas lá fora no campus, acumulando uma neve já pisada e negra, amalgamada pela garoa. O jovem
professor estava feliz, embora ninguém pudesse di zê-lo ao ver o seu semblante fechado. Ele tinha
uns olhos azuis que o iluminavam, adoçando as linhas do seu rosto quase juvenil, e por isso ele
andava sempre assim, tão sisudo, para contrabalançar o céu que lhe ia sob as pálpebras. Mas estava
muito satisfeito, o jovem professor: decidira-se ainda naquele dia a iniciar o seu pós-doutorado
olhando a nova produção literária latino-americana.
Seu nome era Julius Templeman, e ele tinha herdado os olhos maternos. O mesmo azul que se
apagara quando ele ainda não tinha aprendido a falar direito. Tinha completado trinta e quatro
anos no último outono. Filho de um professor universitário argentino com uma jovem virtuose do
piano que morrera aos trinta anos de um raro acidente cardiovascular, Julius falava espanhol com
perfeita fluência e adorava Borges, era fascinado por Cortázar e Ernesto Sábato, cujo livro Sobre
heróis e tumbas o inspirara para um ensaio publicado na revista Granta. Ele lera tudo o que deveria
ser lido em espanhol, e as obras recentes, assinadas por jovens promissores, eram-lhe enviadas pelo
correio por um tio que tinha uma livraria em Oedivetnom e boas conexões com o mundo literário
local.
Não creio que Tiberius tenha visto nada disso nos seus sonhos, não naquele tempo. Talvez uma
voz tivesse-lhe sussurrado aquele nome. Julius. Talvez...
De qualquer modo, Julius Templeman ainda estava muito longe com os seus cadernos de
estudos e o seu pulôver cinzento, que ele escondera sob o capote forrado de pele ao deixar o prédio
da universidade. As aulas daquele dia tinham terminado finalmente, e ele voltava para casa sob a luz
amarelada dos postes de rua. Caminhando através da gélida garoa londrina, Julius sequer imaginava
que eu existia.
Aqui, do outro lado do mundo, na nossa praia, na nossa casa vigiada pelo farol, Tiberius
esperava. As vozes iam e vinham, mas ele ainda não tinha conseguido desvendar o que elas queriam
lhe dizer.
VERMELHO

Eu vago por aí. Pelo mundo.


Nada do que me importou tem sentido para mim hoje em dia. Eu acordo
dormindo e durmo acordado. E tudo é sempre o mesmo pesadelo repetido. Tudo. E todos. Cansa
muito levar o inferno para onde eu vou. Mas continuarei indo enquanto as minhas pernas não
me abandonarem.
Eu fujo de mim e me persigo ao mesmo tempo. E, ainda que eu ande em círculos eternos,
andarei sempre adiante, sem nunca parar no meu começo. Se eu penso nela, naquela casa? Os
únicos sonhos que valem são aqueles em que ela aparece, e sinto a sua mão tocando-me a fronte,
fresca como o mar, e eu ainda sou o mesmo menininho que fui antigamente, quando a febre me
queimava e ela vinha, linda e doce, silenciosa como um anjo, com a bandeja nas mãos e a água
fresca para a minha boca. Ela, sim, era uma deusa.
A única.
Cecília... Minha mãe.
Mas eu não volto mais. Nunca mais. O que seriam dos seus olhos se ela visse as minhas
chagas? Meus cabelos rarearam, e cem anos atravessaram as estradas do meu corpo. Trava-se
uma guerra dentro de mim diariamente. Meus exércitos lutam e meus soldados morrem com
bravura, e as cicatrizes das suas tumbas se desenham na minha pele. Sou um velho de vinte e
cinco anos, e arrasto o meu passado como um grilhão. O meu coração é um poço de sangue e de
pus.
Infeccionado de saudades dele.
Desde que ele morreu.
E morreu por culpa minha, eu tão inocentemente amando e matando ao mesmo tempo. E
morrendo.
No final de tudo, Ernest tinha razão.
O fado.
Não desconfiei ao vê-lo. Creio que alguns séculos se passaram desde aquela primeira tarde. Era
verão – tudo sempre aconteceu num verão. Era azul e branca e dourada a tarde em que ele
surgiu, subindo pelo caminho, depois de vencer os degraus entre as pedras. Tinha pago o bom
Tobias para levá-lo até nós. O verde do mar e o azul do céu se misturavam nos seus olhos, isso eu
lembro.
Eu me lembro dele parado na varanda lá de casa, suando sob o sol de dezembro. Era
estrangeiro em cada detalhe, dentro do seu casaco de verão de quatro botões. Tinha uns modos
antiquados, os cabelos penteados com zelo, cuja risca ele queria manter intacta apesar do vento
que vinha do mar. Ele ajeitava os cabelos quando me viu e sorriu. Parecia um pequeno lorde
expulso da sua propriedade campestre, um exilado cheio de brios, ao mesmo tempo ansioso por
agradar. Todo ele ali, escapando de si mesmo, ainda sem sabê-lo, como um vulcão extinto há
tanto tempo que até se esqueceu da própria lava, desconheceu-se.
Mas eu já tinha aprendido a saber.
E nunca tive tanta certeza como naquele dia.
Creio que o amamos ao mesmo tempo: Flora e eu. Como uma doença que nos contaminasse aos
três. Mas ele ainda não sabia. Nunca tinha jogado o jogo. Nunca.
Eu estava preparado para ele. Muitos barcos tinham chegado antes. E os deuses tinham sido
generosos comigo. Ah, os festins... As danças, o vinho, a lua. Eu tinha vivido louca e
discretamente até então. Nunca precisei ir mais longe do que até as dunas... Pena que o amor
tenha trazido consigo tudo de ruim também. Eu não queria, não queria mesmo. Mas certas
coisas são. Estão escritas. Não é mesmo, Flora?
Anotações para um personagem:
o dono da livraria

cercado de histórias

à sombra das estantes

caminhava no porto

respirando o ar salobro

e o alento dos personagens

um dia, leu o livro

e o colocou num navio

como uma garrafa

com um bilhete dentro

a terrível inocência

seu nome era

Fabian Barrios

o dono de La Palar,

a livraria.
F LORA

J
ulieta começou a piorar no outono de 1983. Lembro-me daquelas tardes que se estendiam de
maneira interminável, o vento inquietando as árvores, cantando pelas quinas da casa, e depois a
noite que vinha, num espasmo dourado, numa contração luminosa que terminava naquele
breu cheio de estrelas.
Foi numa noite assim que Julieta teve a sua pior crise. Eu escrevia na minha mesa. A janela
estava fechada, mas o frio da noite latejava nos vidros, vinha até mim com os seus passos ágeis,
contaminando-me de uma tristeza meio sem explicação.
Era uma noite daquelas nas quais as ideias saíam duras, cheias de arestas inaparáveis. Você
precisa ter muita presença de espírito para velejar contra o vento, e eu estava tentando. Uma
batalhazinha inglória... Aconteciam certos dias em que nada assentava bem, e os personagens,
revoltados, desobedeciam-me por todos os lados. Eu tentava terminar um parágrafo havia mais de
meia hora quando olhei pela janela e vi Tiberius na varanda lá fora, enfiado no seu casaco de
inverno, investigando as estrelas. Não havia vento, porque os cabelos dele estavam perfeitamente
quietos, descendo pela testa e pela nuca como um rio de ouro, cujo brilho era realçado pela luz que
ficava pendurada no teto da varanda. Vi meu irmão abotoar o casaco até o último botão e então
descer os degraus que levavam ao caminho da encosta que ia dar na praia. Sorri, pensando que
talvez ele tivesse mais sorte do que eu.
Tudo estava muito silencioso na casa quando a mãe começou a gritar por ajuda. Saí correndo e
encontrei Eva e Orfeu no caminho. Nós chegamos e vimos que Julieta se contorcia na cama em
espasmos epilépticos. Apertados sob o batente da porta, olhávamos a azáfama da mãe e de Lilia, e o
pai também estava lá com os seus olhos nublados de angústia, acho que de culpa também.
Pensei no meu texto que não fluía. A boca aberta de Julieta parecia querer engolfar tudo ao seu
redor – a luminária, as cortinas azuis, o rosto de mamãe, o ar abafado do quarto superaquecido pela
estufa. Tudo. Até as minhas palavras, a minha história. Julieta estava rígida, os olhos esbugalhados.
Como um bicho, disse Eva. E ela tinha razão. Havia algo animal naquele rosto agoniado, algo
muito real e pungente e malévolo no seu sofrimento tão atroz. Por uns instantes, pensei que nunca
conseguiria colocar aquilo em palavras. Aquele rosto triste e sofrido, aqueles olhos vagos.
Julieta fez um barulho alto, uma espécie de engulho. A mãe jogou-se contra ela, esforçando-se
por segurar-lhe a língua como se tentasse tirar de dentro da sua boca uma coisa preciosa. Como se
ambas lutassem por aquela língua. Havia uma poça sobre o colchão, e depois Lilia nos explicou que
era urina. Que os ataques faziam aquilo.
A luta pela posse da língua de Julieta terminou abruptamente quando ela caiu na cama inerte,
como se lhe tivessem roubado toda a vida. Apenas o seu peito arquejava. Os olhos escuros fitavam o
teto sem nenhuma expressão. A mãe sentou-se no colchão, transfigurada.
“La Duiva é longe de tudo”, disse ela.
Acho que falava para o pai, ainda parado num canto do quarto. Aquele não tinha sido o
primeiro ataque, mas o pior de todos.
“Vamos para o hospital de Oedivetnom”, ouvi o pai dizer, e pareceu-me satisfeito por enfim
fazer alguma coisa. Uma ajuda física, masculina, eficaz. Ele olhou ainda uma vez para as mãos de
mamãe, as mãos de sovar a massa e tricotar, aquelas mãos bonitas. Tinham segurado a língua de
Julieta, aquele peixe rosado e repugnante.
Ao meu lado, Orfeu estava preso ao chão como uma estátua. Ele era o mais amigo dela, de
Julieta.
“Oedivetnom é longe”, retrucou a mãe por fim, cobrindo Julieta com uma colcha e tomando-a
com amor nos braços, as duas cansadas, como se tivessem travado a mesma batalha.
“Na vila só tem um médico. Para uma dor de dentes serviria”, respondeu o pai. “Vamos a
Oedivetnom.”
Olhei para os lados. Tiberius ainda não tinha voltado do seu passeio pela praia. Pensei: talvez ele
saiba. Talvez tenha saído de casa exatamente por isso... Alguma coisa me dizia que a morte tinha
estado por ali. Um bater de negras asas. Julieta agora estava inerte, um filete de saliva lhe escorria
pelo canto da boca, descendo pelo seu queixo.
O pai a pegou no colo. Um pacote mal-ajambrado. Quando passou por mim, vi que ela tinha
uns pezinhos infantis e brancos, feios como moluscos. Ouvi uns ruídos no quarto – Lilia e Lucas
juntavam coisas numa mala, uma camisola e remédios, um casaco, a bolsa de mamãe.
“Vão de carro ou de barco?”, perguntou Orfeu.
Papai respondeu: “De carro é mais longe e temos que usar a balsa, mas é mais seguro. Com
Julieta neste estado...”
Eles saíram do quarto e se foram. A casa ficou quieta, expectante, como uma criança que acorda
de um pesadelo no meio da madrugada. Sentei na sala e fiquei por ali, sem vontade de escrever.
Nem sinal de Tiberius. Quando ele voltou, não perguntou nada. Acho que já sabia de qualquer
forma. Ele sempre sabia das coisas... Fomos dormir tarde, e não toquei mais naquele parágrafo até o
dia seguinte. Eu falava por Julieta. Ela era a minha voz naquele trecho do livro. A minha voz
engasgada, ausente, cambaleante.
Ao acordar, a manhã fria, limpa, azul, eu voltei ao caderno. Recomecei a escrever. Julieta
ergueu-se para mim por entre as linhas, sussurrando com aquela língua pequena e áspera, feia e
bonita. Eu sabia, então, que ela tinha sobrevivido. Que voltaria para casa, nem que fosse pela última
vez. Eu sabia. As palavras eram os meus signos. As cartas do meu tarô.
SÉPIA

Eu não tiro os olho dela, teimoso fantasma.


Desde que fiquei doente, ela voltou. Tenho medo, medo, medo. Mas ela não vai
embora, não vai embora nunca. Fica ao lado da cadeira quando estou na cadeira, ao lado da
cama quando me levam para o quarto. Juuuu. Ela passa o dia me chamando. Desse jeito.
Soprando o meu nome. Como o vento sopra nos pinheiros. Juuuuu. Julietaaaaa.
Ficamos horas e horas nos olhando. Juuuu, ela diz. Eu olhando pra ela, eu só sei olhar. Parece
uma brincadeira, mas não é. É ruim, e eu tenho medo, medo, medo. Juuu. Juuuu. Soprando nos
meus cabelos. Julietaaaa.
Então eu grito.
Mamãe vem me ver a toda hora. Os olhos dela estão pesados. Molhados. Ela fala baixinho
comigo. Docemente. Não vê a velha aqui, sorrindo. Achando graça de nós duas. Juuuu. Juuu...
Mamãe se esqueceu da velha. Da velha maldita.
Então mamãe sai e ela recomeça. A brincadeira, ela diz. A nossa partida, ela diz. “Você morre
no final, Julieta. É assim que eu ganho.”
Eu quero gritar, mas não posso. A minha garganta é um buraco vazio. Eu tenho medo, medo,
medo. E a velha ri, ri, ri. Seus olhos em cima de mim, meus olhos em cima dela. Horas e horas
disso.
“Mas você morre no final”, repete a velha.
F LORA

E
u fui escrupulosa com o tempo. Marquei tudo em calendários, toda a gestação daquela
história. Portanto, posso afirmar aqui sem sombra de dúvida que terminei meu livro no
inverno de 1983. Julho, mais precisamente. Dia 28. Minha primeira lembrança desse dia é a
chuva caindo. Chovia copiosamente desde a tarde do dia anterior, como se o céu chorasse. A
chuva, como tudo o mais, era uma sensação vaga, realidade facilmente esquecível enquanto eu
estava envolvida no transe da minha narrativa. Assim, quando coloquei um ponto final no livro, foi
como se me tivessem roubado o guarda-chuva.
Atrás daquelas páginas eu tinha me escondido de tudo, um ontem nebuloso e inofensivo ainda
mantinha o seu cheiro nas minhas narinas – alguma coisa de verbena e de madeira, o chá da mamãe
soltando no ar os seus eflúvios, o cachimbo que o pai às vezes fumava. Enquanto todos dormiam os
seus sonos, enquanto Tiberius esmiuçava sonhos com a parte alerta da sua mente e Julieta travava a
sua batalha contra o espectro da velha, eu refocilava, feliz, na minha ficção.
Mas o final tinha chegado como uma morte, uma partida. Coisas haviam sucedido tão
espontaneamente enquanto eu as escrevia que era como se não tivessem, em si, o meu engenho.
Agora que tudo estava acabado – a maciez dos adjetivos, a doçura das conjunções aditivas, a ousadia
dos advérbios de negação e a simpatia fútil dos superlativos –, bem, sobrava-me apenas o real. Os
fatos, duros como pedra. Incapazes de serem refeitos, ou ao menos corrigidos. A vida bruta na qual
um encontro era apenas um encontro e, se terminasse errado, tanto pior, e todos os erros, todos os
deslizes, todos os julgamentos já nasciam imutáveis e incorrigíveis na maioria das vezes.
Os personagens tinham se escapado feito um bando de pardais depois de um tiro de espingarda
e eu estava sozinha de novo no meu velho quarto (Eva, em sua cama, nunca contava, é claro), eu e
o inverno lá fora, cinzento e furioso e radiante na sua gélida severidade. Eu e a minha família. Eu e
aquela casa encarapitada no morro, o jardim, a praia varrida pelo vento, o esguio farol silencioso
sobre o mar. Terminar um livro é morrer um pouquinho, eu posso garantir. Naquela leitosa manhã
de inverno, eu juntava as páginas todas num único tomo, sem saber ao certo se estava feliz ou triste,
recompensada ou vazia, enquanto lá fora o vento açoitava as murtas e as sarças, e fazia os pinheiros
dançarem como se quisesse arrancá-los do chão, a fúria do tempo levantando espuma do mar como
uma cozinheira destrambelhada mexendo a sua panela de sopa.
Havia outra coisa também. Como no conto de Borges – o conto que, meses mais tarde, Julius
leria para mim na varanda da nossa casa –, eu estava no meio do caminho entre a ficção e a vida
real. E o conto tinha um nome que era uma estranha coincidência: Vinte e cinco de agosto, 1983.
O mesmo ano, menos de um mês de diferença daquele dia, da data em que terminei o meu livro.
Julius não sabia disso, não quando leu aquele conto para mim. Mas depois eu disse tudo. Disse tudo
a Julius... Contei-lhe do vento açoitando as árvores, irritando as venezianas exaustas. Falei da chuva,
de Eva dormindo, noite após noite, na cama ao lado da minha. Aquela manhã em que terminei o
meu livro tinha uma tristeza toda peculiar, a névoa subia do mar, densa, e, ao recobrir os molhes e a
praia, escondia boa parte da base do farol.
Ah, o custoso inverno. A solidão crescendo pelos cantos da casa feito mofo... Nesses dias, nos
sentíamos longe demais de tudo – Orfeu e Eva eram os mais sensíveis à fúria invernal, e ainda posso
ouvi-los cantando na sala numa das noites daquele mês de julho: o disco de Bob Dylan tocava alto,
abafando, sem muito sucesso, a bagunça do vento lá fora. “Yes, here’s the story of the Hurricane, the
man the authorities came to blame for something that he never done...” Orfeu cantava com a sua voz
bonita, remexendo-se com aquela sensualidade que ele tinha. Eva dançava ao seu lado, os cabelos
ruivos flutuando como uma nuvem de poeira vermelha ao redor da sua cabeça.
Aqueles dois.
Nós três...
Era o começo de uma coisa para nós. Três peças no tabuleiro, e o começo do jogo era o ponto
final do meu livro.
MAGENTA

Não me foram dadas muitas oportunidades de falar até agora. Parece lógico, numa
história escrita por Flora... A boa menina. E eu? A mulherzinha má. Devoradora de
homens. Sedutora. Vil.
Lilith.
E vocês conhecem a história?
Lilith, a primeira mulher de Adão, queria igualdade em relação ao seu marido (até aí, não
vejo nada de mais). Quando descobriu que nunca alcançaria o mesmo status de Adão, Lilith
cometeu o pecado de pronunciar o nome de Deus (coisa impensável para os judeus) e voou até o
mar Vermelho. Adão queixou-se então a Deus (filhinho de papai!), e Ele enviou três anjos até lá
numa tentativa de trazer de volta a teimosa Lilith. Depois disso, Lilith ficou noiva de Samael,
senhor das forças malignas. E então passou a aprontar coisas horríveis contra os humanos,
comendo criancinhas e atacando pobres homens dormidos, indefesos, para ter filhos demônios
com eles por meio das suas poluções noturnas.
Lilith, a dos longos cabelos.
Ha ha.
Posso encontrar algumas semelhanças. O resto fica por conta da imaginaçãozinha heroica de
Flora. Ademais, nem como carne. Sou quase uma vegetariana.
Mas... Homens sozinhos. Encontros noturnos proibidos.
E, no final, filhos demônios.
Não deixa de ser uma boa história. Voltarei a falar sobre ela em algum momento mais
adiante. Parece-me que ainda não é hora. Que Julius ainda não chegou por aqui. Estamos
todavia distantes daquela noite de inverno em que certas coisas nunca ditas aconteceram
(provocadas por mim, tudo bem, mas não me lembro de ter ouvido nenhuma reclamação a
respeito...). Sim, ainda estamos bem longe disso.
E disto também: eu andando pelo centro do vilarejo, alguns turistas reticentes perdidos por
ali, a primavera dando os seus primeiros sinais, as tardes mornas e claras, e aquela luz mais
intensa se derramando nas ruas e nos telhados de ardósia. Eu com aquele segredo, carregando-o
como um fardo, e de repente Leon surge diante de mim. A salvação. Pareceu-me lógico,
absolutamente lógico. Uma pequena chance da vida, e eu agarrei-a com unhas e dentes. As coisas
já estavam bastante deterioradas por aqui, e era hora de dar no pé.
Motivos? Vários.
Então me fui.
Eu sempre quis conhecer o Brasil, e confesso que não me decepcionei. Boa comida, boa praia, e
estou suficientemente perto da linha do Equador para aproveitar o sol e o calor durante a maior
parte do ano. Sempre detestei os invernos em La Duiva. Sempre.
F LORA

E
sperei o dia inteiro com o livro pronto sobre a mesa. Não disse uma palavra a ninguém.
Tiberius sabia, tenho certeza. No almoço, olhou-me longamente, com tristeza até, e não disse
uma palavra.
Era noite, e papai estava em casa lendo os jornais do dia anterior, porque o mar estava
sem condições de navegação e Tobias não tinha passado por La Duiva. Mas a vida por aqui anda
devagar o suficiente para que a gente possa ler os jornais dormidos sem grande culpa. É preciso
atualizá-los a cada semana, e já está bom demais.
Bem, papai estava na sua poltrona quando eu entrei na sala com os meus originais debaixo do
braço. Bem atadas pelo barbante, quatrocentas e oitenta e nove páginas. Dei uma olhada geral, não
estavam todos ali. Tiberius faltava, e Lilia deveria estar lá para dentro preparando Julieta para
dormir. Lucas estava num canto com o livro-caixa da empresa. Levantou o rosto, sorriu para mim,
perguntou alguma coisa sobre rebites para o papai e voltou a se concentrar nas suas anotações.
Orfeu estava com o rosto enfiado atrás da capa de um livrinho grosso, gasto, lindo, O bom soldado.
Engraçado é que, se recordo isso agora – as intrigas e os amores escusos de Ford Madox Ford, e o
coitado do personagem John Dowell –, fica claro que, na nossa história, eu teria sido ele. E Orfeu
teria sido Florence ou o bonzinho, volátil e curiosamente honrado Edward?
Mas voltemos: eu parada à porta da sala. Eva no sofá, desfiando uma meada de lã para mamãe –
as duas tinham uma relação meio esquiva, mas às vezes pareciam se encontrar, reconhecendo-se
como mãe e filha, e então o que faziam juntas era tricotar. Mamãe estava ao lado de Eva, servindo
um pouco de chá numa xícara amarela.
Um calor bom espalhava-se pela sala, vindo da lareira junto com o agradável aroma do cedro.
Depois de alguns segundos sem ser notada, papai abaixou o jornal e depôs os seus olhos em mim.
Ele tinha uns olhos verdes, felinos. Das antigas fotografias guardadas por mamãe, pouco restara
daquele jovem alto e magro, de ombros largos e bastos cabelos negros. Papai tinha ganhado carnes e
seus cabelos estavam começando a branquear nas têmporas, mas os olhos eram os mesmos.
“Pai, terminei o meu livro”, disse eu.
Os olhos dele pareceram sorrir para mim. No seu lugar, mamãe depôs a sua xícara e sorriu
também. Era um sorriso contente, mas também um pouco piedoso. Como a mãe que sorri para a
sua menininha que dança, de camisola, no meio da sala.
“Terminou, Flora?” Foi a mamãe quem falou.
Acho que ela tinha contado os meses, os dias. Aquiesci, sentindo-me inevitavelmente meio tola.
Não era para ser um evento familiar, e de fato não estava sendo, mas havia uma estranheza em dizer
aquilo ali, no meio da sala, todos eles imersos nas suas próprias atividades, todos eles autônomos, e
só eu precisada de um leitor, de leitores. Afinal, o que é um livro sem leitor? Nada.
Papai pareceu entender o meu olhar. A angústia. Então deixou o jornal de lado e chamou-me
para perto, estendendo a mão para o calhamaço de páginas que eu trazia. Ele olhou a folha de rosto
e perguntou, pensativo: “O livro? Esse é o título?”
Sim, era o título. Eu estava um pouco nervosa, e a minha voz ecoou pela sala. Atrás de mim, a
risadinha tola de Eva soou. Nem sequer me virei, não tinha coragem. Entre nós duas, sempre
aquela tensão, aquele jogo. Procurei o olhar de Orfeu, que me sorriu calmamente lá da sua
poltrona. Parecia saborear a cena, mas com educação, como um convidado que, antes de comer,
dispõe no colo o guardanapo, segura os talheres com elegância. Até mesmo Lucas deixara de lado as
suas contas e mirava-nos, subitamente interessado.
O pai depositou o livro entre as pernas. Preciso dizer que era ainda um homem grande, os
braços fortes, queimado de sol. Parecia meio sem jeito com aquelas páginas, como se elas pudessem
virar pó no minuto seguinte.
“Flora”, disse ele, “eu não entendo de livros... Acho que você precisa de uma opinião. Uma
opinião de um leitor experimentado.”
“Eu posso ler”, retrucou Orfeu sorrindo.
Dei um pulo.
“Oh, não! Ainda não...”
Orfeu ergueu os braços num gesto defensivo. Eu era um poço de autocomiseração. Quase podia
me ver, parada ali no meio daquela sala, as chamas da lareira dançando, e eu como uma ré num
julgamento. Oh, meu rosto ardia a vergonha da minha alma.
O pai adiantou-se então: “Alguém desconhecido... Hein, Flora? Alguém que dê uma opinião
idônea, embasada, confiável...” Ele pensou um pouco. “Eu tenho um amigo em Oedivetnom.
Creio que leria o seu livro. Nos conhecemos há anos. Acho que você sabe quem é...”
“Quem?”
“O dono da livraria La Palar. O sr. Barrios.”
Sim, eu conhecia o sr. Barrios. Sempre cercado de livros. Os olhos bondosos atrás das lentes
cheias de pó. O modo orgulhoso como caminhava entre as estantes como um jardineiro entre as
suas rosas, puxando um livro ou outro num gesto certeiro. Era uma boa escolha. Eu respirei
aliviada. Como se a tensão tivesse subitamente acabado, Eva voltou aos tratos com a sua lã e Lucas
retomou o seu trabalho.
Papai então ergueu-se da cadeira, disse que ia guardar o livro por ora. E que, logo que possível,
o levaria para Barrios, um homem entendido, professor universitário aposentado, com vários
amigos no meio literário em Oedivetnom.
E o que foi que aconteceu depois disso? Papai sumiu-se pelo corredor, Orfeu piscou para mim,
dizendo baixinho “Não pense que não vou ler isso aí...”, e eu voltei ao meu quarto, lívida e exausta.
Apesar da risadinha besta de Eva, apesar do meu vexame pessoal, apesar da descrença velada do meu
irmão mais velho, papai levou mesmo o meu original para Oedivetnom e, numa visita à La Palar,
deixou-o aos cuidados de Fabian Barrios. E o que foi que ele fez, o gordinho, míope, gentil e
poliglota sr. Barrios? Ele leu o meu livro pela noite afora enquanto os óculos afundavam na base do
seu nariz tuberoso. Leu o meu livro com alguma preguiça no começo (quantos originais chatíssimos
ele já tivera que destrinchar?), dividindo-se entre as minhas páginas e um pedaço de entrecôte, e
depois, quase sem perceber a mudança sutil das suas vontades, leu o meu livro com prazer, e por fim
com obstinação. E logo estava aflito, virando páginas, eufórico, engolindo palavras. E tanto de tudo
isso que, na manhã seguinte, ainda exausto da noite passada na poltrona em frente à lareira, Fabian
Barrios tirou cópia de cada uma das minhas páginas, escreveu uma carta breve e entusiasmada de
punho próprio e despachou o livro pelo correio marítimo para Londres.
Para a casa de Julius Templeman.
Ele podia ouvir o ruído ritmado atravessando a parede. A vizinha devia estar
costurando para as crianças. Havia risos também, fracos, abafados pelos tijolos.
Brincadeiras de meninos – ele ainda lembrava como era, não em casa, mas na escola.
A vida de Julius Templeman tinha sido sempre muito solitária. O pai e ele no pequeno
apartamento, a ausência materna materializada pelo piano silencioso plantado no meio da sala.
Como um mausoléu. Ocupava muito espaço, mas o pai nunca ousou livrar-se dele. Durante
muito tempo após a morte da mãe, pareceu ao pequeno Julius que rir era sempre a coisa errada a
fazer, e ele quase nunca ria, nem mesmo quando tinha vontade. Portanto, por um momento,
saboreou a alegria infantil que se infiltrava pelas paredes antes de deitar os olhos no pacote
sobre a mesa.
Sim, havia um pacote sobre a mesa. Cheio de carimbos, descomposto e exangue como um
viajante que tivesse atravessado o mundo. Não era para tanto, mas Julius sabia que a viagem
não tinha sido curta. Contou o número de selos, reconheceu a assinatura do tio. Recebia muitos
livros de Fabian, era uma correspondência profícua e deliciosa para Julius, além de econômica:
os livros publicados lá no sul da América chegavam-lhe por preços irrisórios, preços que o tio
Fabian anotava diligentemente num caderno, sem nunca cobrá-los. Às vezes, por elegância,
Julius insistia em pagar, fazendo um depósito direto na conta bancária do tio. O que sempre
gerava um ou dois telefonemas intercontinentais, e a voz do tio, fanha, ofendida, evanescente.
De fato, Fabian Barrios gostava de dar presentes ao sobrinho, filho único da irmã falecida.
Muitas caixas de livros chegavam, enchendo as estantes de Julius com a prosa de Bioy Casares e a
poesia de Mario Benedetti e Alfonsina Storni. Afora essa profícua correspondência literária –
Julius também enviava pequenos presentes ao tio: volumes antigos de Henry James, uma
encadernação em couro de Mrs. Dalloway comprada num sebo em Covent Garden com a
deliciosa e borrada dedicatória “For Vichy, my chubby” –, tio e sobrinho tinham se visto uma
única vez, alguns dias após o enterro da mãe de Julius. Mas a combinação do desespero infantil
de Julius com a desolação adulta do tio Fabian não lhes havia rendido uma grande aproximação
naquela época. Fora por carta que se transformaram em amigos, Fabian acompanhando o
crescimento do sobrinho pelas suas frases, o uso que fazia dos verbos, dos adjetivos, as leituras
que citava. Viraram quase confidentes quando o assunto era a paixão de ambos: a literatura.
As crianças pararam de rir no apartamento contíguo, e Julius Templeman correu os dedos
pelo pacote, saboreando sem pressa a antecipação do presente. O dia tinha sido pesado e úmido,
de um calor raro, e ele deu uma olhada pela janela. Lá fora, o céu vagamente cinzento prometia
chuva, Julius quase podia cheirá-la no ar, sentir a sua presença levemente adocicada. Lembrou
então que deixara seu capote na lavanderia, e que o guarda-chuva tinha uma haste quebrada.
Se realmente chovesse no dia seguinte, dia da última aula do seu curso de verão, chegaria
molhado à universidade. Era ridículo, pensou. Devia tomar um táxi. Embora custassem caro, ele
gostava dos táxis, gostava de afundar nos bancos de couro e pensar nas histórias de outros que,
como ele, tinham estado ali antes.
Mas o tio tinha lhe enviado o pacote e seus pensamentos voltaram às suas mãos. Não parecia
um livro impresso. Julius recostou-se na cadeira e sopesou o envelope pardo, lacrado com fita
grossa. A máquina de costura silenciara, mas ele podia ouvir o sopro de uma voz feminina, doce e
firme, admoestando alguém. E então uma vozinha assexuada, límpida como uma flauta, disse
alguma coisa – que ele não conseguiu ouvir – e a mulher do outro lado deixou escapar uma
risadinha. Julius sorriu também, sem saber do que se tratava.
Olhou a letra do tio no envelope, os “o” redondos, os longos “l”. Gostava muito dele. A não ser
pelo tempo em que Gina estivera com ele, Julius vivia sozinho no apartamento desde que o pai
morrera. Havia os colegas de Cambridge, claro, mas não eram amizades totalmente límpidas –
as escassas vagas de professor-assistente, as teses sobre Virginia Woolf ou George Orwell ou
Tolstói, as briguinhas acadêmicas... E, claro, houvera Gina, fazia alguns anos. Ela enchera o
apartamento com a sua voz rouca e as suas saias de batique. Gina cheirava a patchuli e parecia
ser muito diferente dele. Mas tudo isso não passava de encenação, no fundo eram iguaizinhos.
Livros, livros, livros, um baseado vez que outra, vinho branco. Tímidos demais para viver a vida
de verdade, os dois, bichos de zoológico.
Julius sentia uma saudade vagamente sexual do calor de Gina na cama estreita, dos seus
apetrechos de maquiagem atulhando a pia do banheiro. Ele ainda se lembrava das discussões
que tinham sobre estilo e realismo literário, horas e horas rebatendo um ao outro como numa
maldita partida de tênis. Na verdade, nunca tiveram nada de verdadeiramente bom. Talvez por
isso se agarrassem à literatura como duas crianças brigando por um pedaço de chocolate. E, um
dia, Gina fora embora. O banheiro ficara mais vazio, a cama mais fria, e o resto da sua vida
seguiu do mesmo jeito.
Julius rasgou o pacote com um tirão das suas mãos brancas. Leu o título. O livro. Gostou da
estranheza dessa generalidade. Mas o original, um pouco amassado, desanimou-o. Lia tantos
trabalhos de alunos... Porém, num canto da página de rosto, um pequeno bilhete do tio: “Lea
esto, Julius. A mi me pareció muy especial, y pensé en pedir tu opinión. Fue escrito por
una chica que vive cerca de Oedivetnom y que aún no habia escrito nada. Pero me
pareció fresco como una manzana... F. Barrios.”
Então, como tinha feito desde sempre, Julius Templeman recostou-se mais na cadeira e
meteu-se para dentro das páginas como um desbravador numa floresta. Pisando com cuidado,
sem deixar de maravilhar-se, permitiu-se ir com a voz da narradora. Uma moça no alto de um
farol, cercada de nuvens, ela não queria baixar ao mundo, mas apenas vê-lo de longe, do alto, do
azul onde tudo lhe parecia mais real. E assim Julius conheceu uma mulher e um homem, e seus
filhos e seus amores, e foi virando página por página, agarrando-se a palavras, por vezes apenas
sendo levado por elas. Dançavam juntos, girando e girando e girando, subindo até alturas
inauditas para descer vertiginosamente, perigosamente; às vezes ele precisava descansar entre
parágrafos, respirando num trecho da página em branco como um velho que se deixa despencar
no primeiro banco desocupado que encontra no parque.
E assim, ansioso e palpitante e faminto, Julius percorreu página por página, cena por cena,
subiu e desceu e viveu aquela história sem tecer juízos de elaboração estilística. Engolido por ela,
deixou-se ser mastigado, sugado e lambido, enquanto o silêncio se fez no apartamento contíguo e
depois na rua lá embaixo, e depois no bairro e em toda a cidade. Tudo e todos se calaram. Mas a
voz da narradora seguia levando-o pela mão. Todos dormiam, menos ele. As crianças do
apartamento ao lado dormiam, dormia a mãe, dormiam as velhas senhoras de touca nas suas
camas, os porteiros dormiam nas portarias impessoais, dormiam os entregadores de jornal e
aqueles que eram notícia nas manchetes. Apenas Julius estava acordado em todo o bairro, em
toda Londres. Acordado como nunca estivera, nem com o pai, nem com a mãe, da qual mal se
lembrava, nem na sala de aula, nem com Gina. Alguma coisa corria dentro dele como uma
descarga elétrica, como um viçoso rio de hormônios acordando seus instintos, despenteando-lhe
os cabelos e as ideias, e Julius Templeman terminou O livro rindo e chorando.
Nem olhou que horas eram. Viu que estava chovendo. Uma tempestade de verão que varria as
calçadas vazias, limpando tudo. Julius não sentia sono, embora tivesse passado a maior parte da
noite em claro.
“Fresco como una manzana”, disse ele baixinho.
E começou a rir. O livro tinha-lhe provocado uma miríade de emoções, mas ele agora estava
feliz, afoito. Queria um pouco daquilo para si. Olhou as paredes do seu apartamento, tudo tão
limpo e tão organizado, pobremente óbvio: os livros em ordem alfabética por autor, a mesa
lustrada, as duas cadeiras de antiquário, o sofá de couro marrom, a cozinha com as suas latas de
mantimento quase vazias, o fogãozinho de duas bocas. Aquela era a sua vida, a sua experiência
de vida. De fato, tinha agora certeza de que queria mais do que aquilo. Não apenas a capa para os
dias de chuva, o olá cordato dos alunos. E então o tio Fabian lhe mandara aquele pacote. A moça
que nunca tinha escrito um único parágrafo de ficção. Perto de Oedivetnom.
Perto de Oedivetnom... Ele ficou pensando nisso. Nunca tinha saído da Europa. Como seria a
moça que escrevera aquela história? Aquela moça... O que ela tinha escrito... Era como tocar um
nervo com a ponta do próprio dedo. Não era o artifício quase perfeito de alguma coisa. Era a
coisa. A vida presa dentro da página como uma borboleta segura por alfinetes.
Julius andou pela sala, sentindo-se inquieto. Pensou no tio, do outro lado do oceano. Pensou
na moça. Seria loira, ruiva? Escreveria perto de uma janela, no canto de um jardim? Sonhava e
punha os seus sonhos no papel ou encadeava, conscientemente, cada uma das suas ideias? Longe
daqui, pensou ele. Longe daqui, ela escreve em algum lugar. E porque escrevia daquele jeito,
porque tinha feito aquilo com ele, aquele temporal dentro dele, Julius sentiu uma vontade louca
de conhecê-la, de ouvir a sua voz, tocar as suas mãos.
Talvez fosse apenas a falta de sono. Talvez. E a chuva lá fora, de novo. Chovera durante boa
parte da sua vida. Mas aquele livro guardava um verão nas suas páginas. E Julius pensou: vou.
Longe daqui. Bem longe daqui... Umas semanas, que mal haverá? Claro, não poderia partir
imediatamente. Tinha que terminar o curso, cumprir as suas obrigações, duas ou três reuniões
na reitoria. Uma palestra. E depois, quem sabe uma licença sabática? Estranhariam, os outros
professores estranhariam. Ele, logo ele? O metódico Julius.
Ele tinha uma tese a escrever. Uma tese, que palavra ridícula. Mas um período sabático não
seria bom para os seus estudos? Pegou uma caneta sobre a mesa, puxou o bloco de notas e
começou a escrever: “Tío querido, fresco como una manzana, y ahora yo la he mordido y
me envenené. Qué le parece se me voy de vacaciones a verlo en un mes o dos? Saludos de
tu sobrino, Julio.”
O barulho de um trovão sacudiu as vidraças. As primeiras luzes da aurora lutavam para
vencer a densa camada de nuvens que recobria o céu lá fora. Julius espreguiçou-se, exausto.
Talvez ainda conseguisse dormir um pouco antes da aula. Agora que tinha se decidido, sentia-se
bem. Olhou ao redor. Seria fácil fechar o pequeno apartamento por um mês ou dois. Enquanto
seguia para o quarto, agradeceu silenciosamente por não ter cedido aos encantos do gatinho
marrom que a proprietária lhe oferecera havia ainda alguns dias. Quase. Lembrava-se dos
olhinhos do bichano, olhos dourados feito melaço. Quase. Ainda bem que não. Gatos
arranhavam coisas. E Oedivetnom era longe o bastante para que ele não pudesse levar um bicho
de estimação na bagagem.
BRANCO

Como o tempo pode provocar tamanho estrago? Ando pela minha casa e já não a
reconheço totalmente. Parece a casca vazia de alguma coisa. Percorro os corredores
sem vida, silenciosos. O sal dos anos parece se acumular por sobre as coisas todas. Se me esforço
um pouquinho, fechando os olhos – apoiada num sofá, num canto de parede, na estante com
todos os livros que Flora resgatou do esquecimento lá no depósito –, posso ouvir alguma coisa.
Como o som dos mortos, as suas vozes tênues, queixosas. Às vezes, escuto algum riso... O eco de
um riso perdido nos anos, e a mera lembrança da boca que riu esse riso provoca em mim um
pequeno colapso. O coração batendo mais forte, querendo saltar para fora do peito. Outra já teria
tomado um vidro desses comprimidos para dormir. Outra já teria procurado um médico, uma
faca, um amante. Outra que não eu. Eu tento agarrar o tempo, tocar as fímbrias do tempo com
os meus dedos. Tento transpor a barreira dos anos e reexperimentar esse riso, a limpidez de
cascata desse riso que um dia passou por aqui.
Eu faço um inventário da felicidade perdida.
Parece que cem anos passaram por aqui.
Ou uma guerra.
O tempo pode ter o mesmo efeito de uma guerra. Avassalador. Miúdo e invisível, ele nos pega
de surpresa. De repente, bum. O tempo passou como um rio tormentoso carregando tudo consigo.
Só eu fiquei aqui, à margem. Contabilizando os estragos. Relembrando, em cada detalhe, as
alegrias antigas. Antes, quando eu contava meus filhos, uma mão não me bastava. Tinha que
chamá-los para a mesa duas vezes ao dia. Chamá-los, a todos eles. Eu fazia isso de muitas
formas: em ordem alfabética, as meninas primeiro, os meninos depois, os pequenos por último, os
mais velhos por último. Eram tantos que eu podia brincar com isso... Ah, a confusão que faziam!
As brigas, as risadas, a euforia das suas presenças, vibrantes de juventude, famintos de vida,
curiosos de tudo. Até mesmo Julieta, coitadinha, tinha o seu jeito de sentir alegria, de
experimentar a sua limitada curiosidade de tudo o que não conhecia...
Mas hoje? Para onde foram todos?
E por quê?
Hoje a mesa está vazia. Mesas vazias são como cadáveres enormes. Três vezes ao dia estou aqui
nesta mesa. Por hábito. Não como muito, nunca comi. Mas todos eles comiam tanto, falavam
tanto, brigavam tanto! Ivan na cabeceira, e eu distribuindo panquecas, medialunas, leite,
geleia, ovos, sopa, espaguete. E agora esta mesa enorme como um continente perdido.
Outro dia, busquei no depósito um machado. Quando a gente fica sozinha por muito tempo
como eu, certas cogitações malucas ganham vulto, tornam-se possíveis. Aqui, eu só tenho o farol.
Sei que ele me vê nas madrugadas, chorando pela casa. Mas quando eu busquei o machado era
dia. Uma bela tarde azul. O farol dormia embalado pelas ondas lá na praia. Eu pensei, vou
derrubar essa mesa. Fazer lenha para o fogo. A mesa ao redor da qual os meus filhos cresceram,
vou quebrá-la em pedaços. É um bom exercício para os músculos e para a alma. Cheguei a erguer
o machado bem no alto, sobre a cabeça. Era pesado. Ivan trabalhava com ele como se fosse tão
leve... O machado lá no alto, eu arfando. E não tive coragem. Quando a mesa fosse para o fogo,
ficaria um vazio. O vazio da mesa. E então, ao entrar aqui na cozinha, eu sentiria falta deles,
deles todos, do barulho que faziam ao redor da mesa no café da manhã, e sentiria falta da
própria mesa desaparecida – uma falta a mais.
Agora tricoto na sala, perto da janela. Ou na varanda, por causa do mar. Ainda estou
tentando assimilar tudo o que aconteceu, porque foi rápido demais. Uma casa – não paredes,
camas, utensílios–, uma casa com tudo o que ela representa: conforto, segurança, um passado de
histórias em comum, ansiedades, pequenas vitórias – uma casa de verdade leva-se muitos anos
para construir. O trabalho de uma vida. Quando você anda por ela e cada pequeno detalhe,
mesmo incidental, tem a sua história, guarda um significado próprio. E depois tudo se desfaz
subitamente, rápido demais até para os seus olhos.
Hoje eu vivo num apanhado de ruínas... Quem olha de fora não vê. Mas eu ando pelos
corredores vazios como quem anda pelos séculos.
Tudo começou naquele mês de dezembro.
Não houve qualquer aviso. Pistas, talvez. Mas eu nunca fui muito boa com pedaços de nada,
talvez por isso não tenha destroçado a mesa. Tiberius poderia saber... Mas não existem
perguntas quando não existem dúvidas.
E então – que dia era mesmo? – ele chegou por aqui.
Aquele rapaz... Julius.
Parecia um desses meninos tímidos cujas mães são orgulhosas deles até quando já estão noivos,
e os tratam como bebês crescidos demais. Ele era tão elegantemente desajeitado que me fazia rir.
Eu estava nesta sala, lembro-me bem... Fazia um dia lindo como hoje. O mesmo céu, exatamente
o mesmo céu. E uma nuvem parada à direita do farol, como se tivesse se ancorado nele por pura
preguiça de seguir em frente. As janelas estavam abertas.
Não creio que eu apreciasse a beleza daquela tarde porque Julieta estava piorando a olhos
vistos. O médico não tinha me dado muitas esperanças, ela já havia vivido mais do que o
previsto, ele me dissera. Uma filha com prazo de validade, alguém pode imaginar isso? Mas
naquela tarde, àquela hora, Julieta dormia em seu quarto. Na cama com proteção que
mandamos fazer para ela. Lilia tinha ido à vila. Acho que Lilia já preparava a sua partida, como
de fato partiu quando Julieta nos deixou. Pobre Lilia...
Eu estava sentada num sofá, creio que era este mesmo em que estou agora. E tricotava.
Tricotar sempre foi para mim um jeito de pensar com as mãos. O sol das três da tarde deixava
uma esteira de luz no chão, a linha corria entre os meus dedos, dançando, bailarina das agulhas.
E então eu ouvi aquela voz, uma voz diferente das vozes que eu ouvia sempre. Flora estava
lendo na varanda como costumava fazer. A voz se dirigia a ela. Se dirigia a ela com aquele
sotaque que fazia as palavras saírem aos pedaços, meio quebradas, no entanto perfeitamente
compreensíveis.
E a voz, que era masculina porém suave, disse: “Eu procurava a srta. Flora Godoy...”
Do meu lugar, escutei Flora, desassossegada, surpresa, responder: “Sou eu.”
Lembro-me disso como se fosse ontem... Havia um levíssimo tremor na voz da minha filha.
Não costumávamos receber desconhecidos por aqui, eles iam direto para os lados do atracadouro,
onde estavam os galpões de Ivan. Era gente do mar, gente de Oedivetnom, Dactitla, La Malopa.
Aquela voz vinha de longe, dava para perceber.
Eu deixei de lado as agulhas e me ergui. Vinda da janela aberta, a claridade ofuscante da rua
machucou os meus olhos. Mas lá estava ele. Com aquela camisa, o blazer pesado demais. Seu
rosto era pálido, avermelhado de calor. E não parecia perigoso, não parecia mesmo. Mas creio
que com as guerras acontece do mesmo jeito: você nunca ouve o primeiro disparo, até que um
belo dia o exército inimigo marcha vitorioso sobre a cidade que você ama.
Anotações para um personagem:
30 anos, professor de literatura

olhos azuis, Julius

encurvado de carregar livros

e pálido como um herói romântico

se emociona com Borges

se espanta com Cortázar

chora com Verlaine

um mestrado, um doutorado

um pós-doutorado

palavras

um prato, uma xícara

uma cama fria

National Portrait Gallery

ele gosta de pintura

tantas noites acordado lendo livros


ele sabe o que é ler

escrever, o que seria?

[Um dia, ele recebe o livro. Pelo correio. Enviado pelo tio (livreiro). O
LIVRO. Ele passa uma noite inteira lendo, devorando e tornando a devorar
aquelas páginas. Dois meses depois, toma um avião. E depois outro. Quando
ele entra no barco em Oedivetnom faz sol. Estamos nos primórdios de
dezembro, o começo do verão no hemisfério sul. Ele gostava de chuva, daquela
chuva inglesa. Aquele sol o assusta.]
Sentado no barquinho a motor, Julius Templeman olhava os sulcos espumosos que o
casco da embarcação abria na água azul. Aliás, azul era o que predominava por
todos os lados que seus olhos alcançavam. O céu, enorme, e até mesmo as rochas que
despontavam aqui e ali, amontoadas nas margens lá da praia – enquanto o barqueiro girava o
pequeno leme, assoviando alguma canção que o vento mastigava até torná-la inteligível –, até
mesmo as rochas brilhavam como coisas pontudas e robustas, azuis também.
Ele tinha saído de Oedivetnom após o desayuno. Tinha se despedido do tio com a ideia de
jantarem juntos, depois que o tio fizera o telefonema para La Duiva. O objetivo da chamada era
avisar o sr. Ivan Godoy da visita do sobrinho. Por causa do livro da menina Flora. Mas a ligação,
tantas vezes refeita, caía num limbo cheio de estática e, depois de o sr. Barrios desistir e rabiscar
o bilhete de apresentação que Julius tinha dobrado em dois no seu bolso, ele tomara um carro de
praça até a pequena cidade costeira de Dactitla e, depois, o barco para La Duiva.
Era uma chegada peculiar. Tanto mar, tanto céu, e a fímbria branca da areia que os seguira
durante todo o trajeto acalmando a ansiedade que Julius sentia. Seu primeiro passeio de barco, e
o barqueiro (como se chamava mesmo?) sem se importar em conversar com ele, presenteando-o
com todo aquele silêncio novo em folha, cortado de quando em quando pelos estalos da água
batendo no casco do barco ou pelo grito agudo de alguma gaivota no céu.
Julius contou no relógio vinte minutos, e ele já estava meio bêbado de azul e de maresia, e
tonto por conta do sol quando Tobias, o barqueiro, fez uma volta com o barquinho a motor e,
navegando à bolina por alguns minutos, aportou num pequeno píer pedregoso. Tobias então
saltou do barco como um coelho, caindo muito ereto e risonho entre as pedras do píer, e
estendeu-lhe uma mão calejada, queimada de sol: “Vamos lá, senhor”, disse ele. Tinha o intuito
de ajudá-lo a descer do barco com alguma dignidade, mas Julius Templeman de repente se sentiu
ofendido com aquilo e, num gesto de coragem, pulou para fora desajeitadamente, trancando um
dos pés no pequeno estribo no qual uma corda se enrolava e prendia uma espécie de boia salva-
vidas. Ele caiu na água rasa como uma panqueca crua demais, raspando a canela numa pedra e
molhando seus mocassins e boa parte das calças de linho. Mas ergueu a cabeça e, com toda a
integridade que lhe foi possível no momento, subiu o molhe sem olhar o risinho disfarçado do
barqueiro atrás de si.
Separaram-se depois que Tobias lhe indicou o caminho até a casa cujos contornos, lambidos
pelo sol, ele podia ver no alto de um pequeno promontório, uma elevação de terra cercada de
pinheiros que, no canto oeste da praia, subia para o céu azul como uma espécie de oratório.
E então Julius Templeman seguiu pela areia branca, ardente e teimosa, os grãos minúsculos
enfiando-se para dentro dos seus sapatos como pequenos insetos violentos e famintos,
queimando-lhe a pele como se o mordessem. Nunca pensou que a areia podia chegar a tais
temperaturas, mas, de fato, nunca tinha pensado muito sobre a areia. Soprava um vento
discreto e fresco, mas o sol era forte e já queimava-lhe a testa. Abriu o blazer escuro, sentindo-se
um tanto ridículo com aquela roupa de cidade ali, no meio da praia azul e branca e dourada
como uma aquarela, e, respirando fundo, seguiu pelo caminho indicado com o bilhete do tio no
bolso e o coração pesado de uma ansiedade que ele nem sabia, nem queria explicar.
Tinha feito aquela viagem tomado de um surto de angústia. Por causa do livro. Porque era
lindo e era emocionante e era verdadeiro. Era também agudo como uma flecha que tivesse lhe
entrado pelo peito adentro. Mas teria havido alguma outra coisa? Julius não sabia dizer.
Durante o tempo que antecedera a viagem, ele pensara e pensara, e a falta de conclusões não lhe
diminuíra a vontade de ir. Encontraria o tio em Oedivetnom e conheceria a autora. Era uma
meta, um objetivo, e ele se iludia dizendo que era pela literatura, que a sua tese se engrandeceria
naquela viagem ao cerne da coisa.
Agora estava ali. O calor lhe subia pelo pescoço como fogo. Era tudo muito bonito e ele sentia-
se mais estrangeiro do que nunca. Passou a mão pelo rosto úmido, ajeitou os cabelos
desgrenhados. Viu, a cerca de duzentos metros de onde estava, a escada que subia pela encosta, os
degraus de madeira encravados na vegetação. Saiu da beira-mar e cortou a areia fervente até o
morro. Passarinhos cantavam nas árvores. Ao longe, viu o farol, exatamente como no livro.
Sentiu-se dentro do livro e isso encheu-o de alegria. Começou a subir a escada íngreme – os
mocassins arruinados pela água faziam um barulho esquisito, ele arfava um pouco e o suor lhe
escorria pelo pescoço, desaparecendo pela gola da camisa.
Lá em cima, o ruído dos pinheiros tocados pela brisa soava como uma espécie de música de
flauta. Era mais fresco ali, e um caminho florido e cheio de sarças levava à casa, uma construção
grande, de dois andares, branca e azul. Uma varanda comprida e ampla voltava-se para o
promontório e para o mar, e parecia ressonar na tarde ao som das árvores cantantes. Julius
respirou fundo e seguiu no rumo da casa, ajeitando mais uma vez os seus cabelos, como uma
espécie de tique nervoso do qual nunca conseguia livrar-se.
Ele seguiu com passos rápidos. Estava angustiado sem nem mesmo saber por que, então era
melhor acabar rápido com aquilo. Parou em frente à casa, que parecia tão quieta sob o sol.
Ergueu as mãos em concha para chamar por alguém, e foi então que viu a moça num canto da
varanda. Enrodilhada sobre um sofá florido, o rosto semiencoberto por uma cascata de cabelos
castanho-dourados. Tinha um corpo esbelto e claro, pernas longas e um livro nas mãos.
Julius pigarreou. Ainda estava parado sob o sol, o calor brotando de cada poro, descendo-lhe
peito abaixo por sob a camisa. Mas não teve coragem de subir à varanda.
Disse então: “Eu procurava a srta. Flora Godoy...”
E a sua voz, na tarde silenciosa, soou aguda e estranha aos seus ouvidos. A moça deu um
pulinho assustado, roubada da leitura por aquela voz estrangeira, e ergueu os olhos para ele. Era
bonita. Sorriu um pouco, mostrando os dentes pequenos e brancos. Depois jogou o livro para o
lado e, pondo-se de pé num pulo, respondeu, surpresa: “Sou eu. Me chamo Flora...” Ela deu de
ombros. “Flora Godoy.”
AMARELO

Eu sabia.
Eu tinha sonhado com aquela tarde, podia ver o céu azul como uma folha de
papel encerado, o céu puro, sem nuvens. Podia sentir a brisa salgada que vinha do mar e que
brincava de leve com os pinheiros do nosso jardim. Tinha visto aquele rosto, nem viril nem belo,
mas interessante – o pequeno nariz com a ponta arredondada, a boca de lábios finos, os olhos
claros, graúdos como moedas, a testa alta e a linha em que nascia o cabelo, castanho-claro e um
pouco rebelde, o cabelo que ele domava com algum tipo de pomada inglesa e que, aos poucos,
depois que chegou aqui, Julius foi deixando mais e mais à vontade, até que os fios se
transformaram numa massa encaracolada e ele ganhou uns ares de poeta romântico, de
náufrago.
Eu estava numa pedra, longe, quando o barquinho de Tobias atracou. Estava ali pescando. Os
longos dias de férias se estendiam à minha frente – dois meses e meio de liberdade total, de
madrugadas ao ar livre, passeios, regatas, silêncios.
Naquele verão, eu tinha quinze anos, quase dezesseis. Um menino ainda, o pai dizia. Mas não
um menino comum, um menino qualquer. Havia aquilo... Eu era possuído pelos meus sonhos.
Escravo deles. Eu via e via e via... Mesmo de olhos fechados, dormindo, eu seguia vendo. Esse peso
todo vergava meus ombros, e eu já era um homem velho aos quinze anos. De certo modo, eu era.
Mas nem todos podiam perceber isso.
Então eu estava lá pescando. Não porque quisesse pescar. Mas porque sentia em mim, como
sentia o sol quente e como sentia a sede das três horas da tarde, que alguma coisa viria pelo mar.
E veio mesmo.
Eu acabara de pegar um peixe gordo. Ele rabaneou um pouco antes que eu o soltasse do anzol e
então, luzindo como uma joia, deu um salto no ar azul e desapareceu no mar por entre as algas.
Nunca comi um único peixe. Mas eu gostava de olhar pra eles, vivos, olhá-los por um momento,
sentir-lhes a vida na palma da minha mão, e depois devolvê-los ao mar outra vez.
Quando o peixe seguiu o seu rumo foi que eu ouvi o ruído do motor.
Julius chegou aqui depois de pagar cem pesos de transporte a Tobias. Ainda posso vê-lo
descendo do barco, quão desajeitado ele era! Tobias atracou, desceu, estendeu-lhe a mão como se
ele fosse uma senhora idosa que precisasse de auxílio. Mas ele negou a ajuda, saindo do barco aos
trambolhões, e, como se tivesse enrolado uma perna na outra, escorregou nas pedras cheias de
limo e molhou as calças até a altura dos joelhos. Vinha sem bagagem, para uma visita. E, depois
de ouvir as indicações de Tobias, tomou o rumo da praia que levava à senda na encosta, por onde
subiria até a casa. Usava um blazer escuro e calças leves de verão, parecendo um desses bonecos
de bolo de noiva que a gente vê nos filmes. Uma coisinha magra, cheia de si e um tanto risível,
andando sob aquele sol, afundando na areia os pés calçados em mocassins. A princípio, não pude
acreditar que, naquela figura, estava a interseção de três destinos.
Mas estava escrito, estava mesmo – Flora tratou de cuidar disso direitinho. E depois, quando o
conheci pessoalmente, já banhado na luz do sorriso apaixonado de Flora, vi que ele era um
sujeito simpático, até mesmo bonito à sua maneira, e que tinha vindo dar em La Duiva
empurrado pela mesma força que me fazia sonhar à noite.
Julius estava ali por causa do livro. Ou, pelo menos, ele achava isso.
Tinha sido o livro de Flora que o instigara a atravessar meio mundo apenas para conhecê-la e,
talvez, estudá-la. O que ele fez, digamos, muito intimamente. Até que outra matéria chamou-
lhe a atenção de repente.
Ele veio porque foi chamado, portanto nunca o culpei... Como um búzio ecoa o mar do qual ele
um dia já fez parte, alguma coisa em Julius – quando ele ainda andava atrás de Flora de um lado
para outro, passando as tardes a folhear os seus originais, fazendo anotações, confundindo a sua
paixão pela história que ela escrevera com uma possível paixão por ela –, havia alguma coisa em
Julius que evocava ardor, uma febre irracional, uma certa loucura, alguma coisa – digamos –
imoral e pungente... Claro, tudo isso ainda estava sob o cadeado da sua aparência
milimetricamente controlada, os seus óculos de grau com armação de tartaruga, os cabelos
domados com pomada e pente, os modos de professor universitário e aquele seu sorrisinho
absolutamente cordial.
Mas, no fundo dos olhos de Julius Templeman, palpitava uma fogueira. Orfeu, que a princípio
se manteve distante do estrangeiro, quase alheio à sua visita que se alongava mais e mais, em
algum momento finalmente viu o que eu via. Orfeu sempre tinha sido um bom espectador da
vida, e a sua condição sexual, o caminho tortuoso que ele tivera que seguir para encontrar a si
próprio, tinha-lhe dotado de uma capacidade sensitiva bastante refinada. Orfeu viu-o e viu-se,
percebendo que ambos eram uma coisa só – entendeu então que os estudos literários, que a
galante corte que o inglês fazia a Flora, tudo isso não passava de enrolação, uma desculpa furada
que Julius usava para enganar os outros e, principalmente, a si próprio.
Logo os seus olhares começaram a se cruzar, eles se esbarravam pelos corredores, diziam coisas
de sentido duplo... Quase sem perceber, Julius caminhava para Orfeu espontaneamente, como se
estivesse apenas esperando um chamado seu.
E Orfeu... Bem, depois de anos e anos nos quais não conseguia inserir-se na tradição familiar,
um apátrida de si mesmo, Orfeu finalmente se igualou. Aos outros. Aos Godoy que vieram antes.
Como um farol guiando um barco numa noite tempestuosa, ele ficou ali. Brilhando,
simplesmente. Ele brilhava e brilhava para Julius. Brilhava como quem respira.
E então, para espanto de todos, Julius começou a interessar-se pelos desenhos de Orfeu, pelo
seu gosto na mitologia greco-romana, por sua paixão pela poesia de Lorca e por Rilke, pelos seus
passeios na praia...
Ainda passava boas horas com Flora, mas de repente inventava um pretexto qualquer e
tratava de sumir-se. Esses desaparecimentos nunca eram mencionados, mas, com o tempo, todos
começaram a notar que, quando Julius não estava, Orfeu também não estava.
Pobre Flora. Isso foi demais para ela.
Quanto a Eva... Bem, ela correu por fora.
MAGENTA

Parece que estou me explicando. De novo e de novo. Moça má causa dano emocional
e moral à moça boa. Como se tudo não passasse de uma grande dicotomia. E todas
essas cores no livro, no tapete da mamãe?
(Tão fácil derrubar a maioria dos argumentos alheios...)
Ele chegou aqui. Julius Templeman.
No começo,não achei nada de mais. Meio babaca. Aquelas roupas esquisitas. Citações.
Flaubert e Borges pra lá e pra cá. Elogiando Flora e aquele livro que ela tinha escrito (ha ha).
Eu preferia corpos bronzeados e alguns músculos. Homens de poucas palavras. Eu preferia o
tato. Olho no olho. Calores.
Nada disso emanava de Julius Templeman (não no começo). Um verdadeiro almofadinha.
Andando com seus passinhos curtos e nervosos atrás de Flora. E Flora? Simplesmente deliciada!
Julieta teve sua crise e morreu, e Flora espremeu-se até a espinha dorsal para verter algumas
lágrimas. Acho que chorou sorrindo. Julius Templeman atrás dela feito um poodle.
Lucas e eu rindo pelos cantos. Que cara mais esquisito! O pai dizia, um intelectual. Vai
publicar o livro da irmã de vocês (eu pensava: mas quem quer publicar um livro?).
Isso foi no começo.
Havia também aquele desdém de Orfeu. Estava no ar, palpável feito um pássaro. Mas Orfeu
gostava de fazer tipo. Ele não ria conosco, comigo e com Lucas. Tiberius também não ria (mas
quando foi que ele riu na vida, pobre menino da mamãe?).
Então os dias passaram.
Não sei exatamente como a coisa aconteceu. Mas o certo é que Julius Templemam foi
mudando. Como o inverno se transforma em primavera. Eu estava de olho. Orfeu também (mas
eu não sabia).
Ele deixou as camisas de lado, cortou as calças. Todas as calças. Jogou fora os mocassins.
Instalou-se lá no depósito onde antes dormia Ernest. Pediu ao papai que o aceitasse no estaleiro.
Pequenos serviços. Por um tempo. (Período sabático, ele disse.)
Julius Templeman foi ganhando uma cor dourada. Trabalhava sob o sol. Com um livro
sempre à mão. Com Flora por perto. Agora ela era a poodle dele. Acho que Flora estava
preocupada: mudanças pra quê? Ela queria o professorzinho de colarinho duro, de óculos. Ela
queria. Mas o verão... Ah, o verão tem os seus poderes. Atua sobre a natureza e sobre todos os
animais. Ai dos humanos se se consideram imunes ao verão.
Os cabelos de Julius Templeman eram crespos, ondulados. Encorparam com a maresia. Ele
todo encorpou, ganhou peso, alguns músculos nos braços. Tinha os olhos azuis.
De repente, numa tarde qualquer, vi-o com outros olhos. As coisas estavam confusas para
Flora, e acho que Orfeu já estava dando as cartas (gosto de jogos de azar). Então eu peguei a mão
e fiz a minha jogada. A aposta foi mais alta do que eu esperava. Mas não posso dizer que perdi.
Anotações para um personagem:

Leon

32 anos

os ventos o sopraram para a praia

como um barco

que desconhece o seu destino

a praia, La Duiva

o destino, Eva

um menino que ganhou

outro menino

o barco, o vento, o mar

nunca mais o trouxeram

de volta.
PARTE DOIS
S
angue de marinheiro nas veias. Gerações e gerações de marinheiros. Gerações de homens
correndo atrás ou fugindo de alguma coisa através dos rios e dos oceanos deste mundo.
Içando velas mestras e traquetes. Tripulando escunas por mares e rios com vento a favor ou
vento contra, sob o sol ou sob tempestade, anos e anos a fio.
Até que, um dia, um deles resolveu descer do seu barco e fincou pé numa praia, e então a
descendência deixou subitamente de navegar. Proliferaram em terra, com vistas para o mar.
Esperavam agora, não sabiam bem o quê. Sob a luz de um farol e outro e outro e outro, lá estavam
eles, vendo os anos correrem. Nasceram e morreram em terra, nem todos foram registrados ou
deixaram histórias para contar. Na sua maioria, eram homens de pouco estudo, não escreviam, não
liam... Tudo na memória.
Foi de memória que o meu pai me contou tudo isso, um pouquinho de cada vez, nas nossas
muitas caminhadas pela praia. Ele era a ponta de um fio que vinha de longe, muito longe. Parecia
ter um grande orgulho disso, e tentava imprimir em mim um pouco desse orgulho.
Pobre papai, boa parte da história que ele me contou, eu esqueci. Mas o que eu sei bem, o
começo que eu guardei na memória, vem lá de Enix. Almeria, Espanha. O tataravô (ou seria
bisavô?) Godoy. Um homem baixo e atarracado com uma esposa bonita de olhos verdes. O homem
que um dia atravessou o mundo uma única vez num navio cargueiro e recomeçou a vida do outro
lado. E o verde dos olhos da sua esposa veio dar nos olhos do meu pai.
E então estamos em La Duiva. O nosso ramo da família Godoy vivendo aos pés deste farol há
cerca de sessenta anos. E um dia nasceu Ivan, meu pai, e, num outro dia, Cecília, minha mãe, tão
ou mais bonita do que a esposa do tataravô, veio dar nestas paragens, e o resto creio que já foi
contado. A casa branca e enorme estava lá, e meus pais trataram de enchê-la de filhos, enquanto o
passado da família se perdia nas brumas do tempo. Ficaram na memória os tempos das navegações,
das viagens longínquas, quando os homens diziam adeus às esposas e partiam por meses sem fim
rumo a terras desconhecidas, cheiros novos, condimentos, furacões, tempestades, mulheres nuas,
pedras preciosas, peste.
Uma grande mudança de paradigma: a acomodação. Meu pai já a herdara do seu próprio pai
como se herda a cor dos cabelos ou o jeito de sorrir. Creio que deva ter acontecido alguma coisa,
uma tragédia secreta, sífilis, naufrágio, assassinato, traição... Teria sido com quem partiu ou com
quem ficou? A dileta esposa de vestido rendado ou o capitão corajoso do outro lado do mundo?
Ninguém nunca nos contou nada a respeito – a acomodação da família foi aceita como parte do
jogo, uma parte inquestionável. Papai nunca disse uma única palavra sobre isso, e isso eu não posso
ver. Uma pena: o passado teria sido mais divertido...
Mas o fato é que mudamos. Os Godoy mudaram. Nada de longas viagens, nunca mais... Um
farol para guiar os corajosos, os insensatos, os aventureiros, os ambiciosos. E o barco de salvamento
para resgatar os malditos, os sofredores, os moribundos. Saímos da água para ficar à margem, e por
quê?
A pergunta correta talvez não seja “por quê”, e sim “por quanto tempo”. Por quanto tempo
procriaríamos em La Duiva, uma família honesta da região, com história e antepassados respeitáveis,
com memória coletiva e impostos em dia, e conta no banco, e promissórias pagas, e casamentos
decentes, e filhos saudáveis, e mesa posta, e brigas a portas fechadas?
Papai foi o último deles. O último de uma longa dinastia de homens à beira-mar. Algemados
aos seus faróis, aqui e lá na Espanha. Não sei se ele pensava sobre isso, sobre a possibilidade de
quebrar a tradição, de voltar ao mar e às aventuras de outros tempos – dragões marinhos e dobrões
de ouro e piratas –, de sair de La Duiva e levar uma escuna através dos oceanos uma outra vez,
respirando o eterno vento salgado que os seus antepassados respiraram.
Mas papai morreu antes. Morreu sem saber que, de forma arrevesada, um dos seus filhos haveria
de jogar a família Godoy no mundo uma outra vez.
E para quem coube essa tarefa?
Orfeu.
Foi ele quem deixou o farol – Lucas já tinha ido para Oedivetnom, mas Orfeu foi mais longe,
abandonando o país que o bisavô escolheu para viver. Não partiu em busca de nada. Partiu fugido.
Não queria o novo, mas repudiava o velho. Sem escunas, bujarronas, planos de navegação,
sotavento, quilhas... Nada disso.
Meu irmão Orfeu partiu tarde da noite, tendo contado uma história qualquer ao bondoso
Tobias, que o levou juntamente com Julius – sem acreditar numa única palavra que os dois lhe
disseram – até o porto em Oedivetnom, onde ambos descontaram um cheque de viagem, tomaram
um avião (outros tempos) e se sumiram na costa italiana por meses que se transformaram em anos,
anos difíceis aqui em La Duiva.
Eu sonhava com Orfeu havia muito. Sonhos nebulosos em que monstros rondavam em meio à
bruma. Sonhos vermelhos de sangue e molhados de lágrimas. Sonhei com ele quando Eva foi
embora de braço dado com Leon, e tornei a sonhar quando a pobre Flora tomou veneno naquela
noite de temporal. Eram sonhos difíceis. Sonhos em que anjos revoltados sobrevoavam La Duiva.
Eu os contava a Cecília, e ela olhava-me com os seus belos olhos cansados pela dor e pelos anos, e
então chorava baixinho, chorava com aquela sua incrível capacidade de chorar por todos, e foi
quando ela começou a tricotar aquele seu tapete enorme que me resolvi a partir – se mamãe era
Penélope, se Orfeu era o seu Odisseu, o que mais eu deveria ser senão a nau que ajudaria o herói
desaparecido a vencer o mar revolto, ludibriar a ira dos deuses e tornar à casa?
Eu tinha sido desde sempre um meio, a possibilidade – eu era o espaço dos meus sonhos. Jurei a
mamãe que traria Orfeu de volta a La Duiva.
Não havia muita gente para me dar adeus quando Tobias veio me buscar no seu barquinho ali
na praia silenciosa e pálida. A crônica das partidas recentes era triste: Lucas tinha ido embora viver
com Laura, não sem antes cortar relações com a família; Julieta, depois de fenecer como uma
plantinha sem água, finalmente morrera naquele verão de 1984; papai fora traído pelo seu coração;
Eva estava no Brasil com Leon; Flora escolhera para si mesma um final bastante literário,
consagrado pela prosa do grande bardo. No píer ventoso e amarelo-dourado, restava apenas
mamãe, enrolada num xale como uma fada tristonha, acenando para mim, a mão branca e angulosa
recortando-se contra o céu pelo qual avançavam, céleres feito naus, pesadas e cinzentas nuvens que
prometiam chuva.
E então, depois da cerimônia de adeus, quando mamãe começou a subir a ladeira que levava até
a casa no alto do morro, fiz um sinal para Tobias e ele, desviando os olhos de La Duiva por pudor
ou por tristeza, ganhou o mar no rumo de Oedivetnom. Apesar do entardecer pesado, um raio de
luz trespassava as nuvens, cortando o céu a sudeste como uma espécie de promessa de melhores
tempos, como um sortilégio – a água estava parada e lisa feita um prato, e alguns peixes pularam ao
redor do barco como se também quisessem despedir-se de mim.

***

Em Oedivetnom, tomei meu lugar no grande navio. O porto já era um outro país, tantas eram as
línguas que meus ouvidos ouviam. Subi pelo portaló com a minha pouca bagagem. Gentes riam e
faziam brindes, enquanto eu me dirigia à cabine pequena de segunda classe e, deixando minhas
coisas num canto, jogava-me no catre cheirando a sabão e amaciante.
A memória corre nas veias junto com o sangue, a memória secular dos nossos antepassados.
Durante aquela travessia do Atlântico, meus sonhos viraram seus profundos olhos para trás – sonhei
amores, pérolas, mulheres nuas... Sonhei com a peste, com velas enfunadas, com hospedarias, ruelas
escuras e o pálido e mudo horror da noite. Tudo outra vez, como num ciclo – pela primeira vez na
vida, eu sonhava os meus sonhos pelos olhos dos meus antepassados. Descobri, então, que não era
aquela a primeira oportunidade que a tragédia escolhera para se derramar sobre a família Godoy –
essa estirpe de marinheiros cansados –, e nem seria a última.
Em 1680, Alexandra Léa de Godoy tinha sido acusada de bruxaria na Alsácia. Morrera
queimada numa fogueira e seus filhos foram apedrejados. Godofredo de Godoy morrera em 1765
de peste bubônica, deixando mulher e cinco filhos desassistidos mendigando pelas ruas de
Monterrey. Nathaniel de Godoy morrera aos dezessete anos num duelo em Málaga. Zíngara Vilhes
de Godoy morrera queimada com os seus dois filhos gêmeos num incêndio em Salamanca, no ano
de 1807. Em 1900, o comandante Leonel de Godoy naufragara à altura do cabo Santa Maria e fora
para o fundo do mar aos trinta anos. Em 1920, depois da morte do noivo numa tocaia de origens
obscuras, Leonora Godoy, moça de luzidios vinte anos, virara monja carmelita de clausura e nunca
mais emitira um único som.
Eu poderia continuar essa lista com os acontecimentos recentes em La Duiva. Seriam três
mortes a mais no intervalo de um ano e meio, de modo que nos mantivemos à altura dos
antepassados mais dramáticos da nossa pródiga árvore genealógica. Mas as coisas ainda não estavam
terminadas... Eu ia em pleno mar em busca de Orfeu. Eu, de porto em porto, farejando sonhos
feito um cão dos deuses. Eu, Tiberius, procurando meu irmão Orfeu – não em busca de tesouros ou
títulos de nobreza, belas virgens ou perigosas aventuras. Procurava apenas o sangue do meu sangue,
esse fauno doente e devastado, que fugiu de nós para morrer sozinho com todo o seu amor e a sua
vergonha.
Mas vou contar a história para vocês de maneira clara e compreensível. Sou um Godoy que leu
livros, que sabe escrever. A mãe obrigou-me a ir à escola do vilarejo por mais de dez longos anos,
muito embora desde cedo eu mostrasse claras tendências autodidatas. Nada de memória oral por
aqui. Tenho cadernos e trouxe uma boa reserva de canetas, e as noites – mesmo com tantos sonhos
– são longuíssimas no exílio. Vou colocar tudo no papel, como antes fez a querida Flora, mas sem o
suave amparo da ficção. Vou colocar no papel os fatos, os enganos, os amores, as estradas. Vou
contar tudinho, absolutamente tudo, desde o dia em que aqueles dois finalmente se entenderam...
Vocês sabem quem:
Orfeu e Julius.

***

Julius... Julius Templeman, o professor. Nenhum cometa riscou o céu anunciando catástrofes
quando ele chegou em La Duiva no final do ano de 1983. Desceu do mesmo barco que me levou
embora depois. Um homem normal, nem bonito nem feio, altura mediana, belos olhos. Passa,
passa, passa, vocês já sabem disso. Flora se apaixonou terrivelmente, uma coordenada importante
para a nossa história. Julius, creio, imaginou-se apaixonado por Flora também... Coisa fácil: Flora
era bonita, doce, inteligente. Escrevera aquela história, uma ótima história. Era talentosa e tinha um
jeito de rir que era como os sinos da igreja dominical repicando nas claras manhãs de verão. O riso
dela se espalhava pelo ar. Li tudinho o que Flora escreveu depois que ela fez aquilo. Li tudinho com
o coração frenético, a sensação de medo apertando a minha garganta feito a garra pétrea de uma
gárgula – eu já sabia, eu tinha avisado, eu podia intuir frases inteiras, parágrafos.
Mas voltemos.
Flora e Julius... Esses dois brincavam de amar à moda antiga, era um jogo divertido e
aparentemente indolor. Flora acreditava-se dentro de um dos livros de Jane Austen. Realizada como
nunca, corada, cantava pelos corredores de La Duiva, escrevia poemas de amor, sonhava com um
vestido branco e uma manhã florida de setembro ao pé do altar. Um pouco cega, também. O
confuso Julius sempre oscilando entre um comportamento do tipo Mr. Bingley e algo do gênero
Darcy. Doce e prestativo nos primeiros tempos, tropeçando pelos corredores de La Duiva enquanto
recitava Rilke, estudando os ventos e esforçando-se em compreender quantas partes tinha mesmo
um motor de popa, ele era todo gentilezas com mamãe e com Eva, a quem tratava com um
distanciamento que beirava o temor. Demonstrava um espírito sensível, suspirando alto diante da
situação cada vez mais grave da pobre Julieta, e subia aos trancos os trezentos e sessenta e cinco
degraus do farol enquanto escutava as explicações náuticas e as rememorações afetivas de papai.
Aos poucos, Julius foi mudando, cansado de ser o que era. Esqueceu as camisas compradas na
Bond Street que provocavam o deboche de Eva e foi até a vila atrás de umas camisetas leves e
praianas. Com uma tesoura que Lilia lhe emprestou, ele cortou as próprias calças vincadas com a
mesma gana com que deixou de lado o tio livreiro – via-o, no começo daquele verão, a cada dois ou
três dias, mas tão logo foi se transformando em outro, Julius esqueceu-se completamente do velho
Barrios e das suas longas explanações sobre a obra de Borges ou Sábato ou, ainda, Woolf, deixando-
o em Oedivetnom à mercê das suas estantes empoeiradas, cercado de livros como outrora, e sem a
bênção de um pouco de viço e de juventude.
Creio que Flora notava as transformações de Julius Templeman, mas tratava de relativizá-las. A
uma altura daquelas, o espírito de professor de Julius já o havia incitado a encher alguns cadernos de
anotações literárias. Flora sentiu-se agraciada pela sua sublime curiosidade e, depois, quando nada
mais de literário ou filosófico ou criativo parecia interessar-lhe, e Julius Templeman andava
apaixonado não por letras ou parágrafos ou hipérboles ou figuras de linguagem, mas pela
simplicidade e pela realidade da praia e do mar, pelo capricho dos ventos ao entardecer e pela
matemática confiável das marés, Flora tratou de pensar que o bom Julius mudava por ela, mudava
com esforço apenas para adaptar-se à sua vida e aos seus. É claro que Flora estava terrivelmente
enganada.
Silenciosa e furiosamente, Julius Templeman a esquecia. Era tão fácil como respirar, e a cada dia
ele acordava mais longe de Flora. Esticava o braço para tocá-la, mas então a sua mão tomava rumos
inesperados, afastando-se daquele rosto sorridente – a sua mão queria o mar, a areia, a praia deserta.
Julius demorou um pouco para se conscientizar de que houvera um engano. Mas então chegou à
conclusão de que nunca a amara, não a bela moça cheia de ideias, a escritora – ele amara a sua
ficção, e amara mais ainda toda a realidade que estava por trás da ficção: aquela praia, o farol branco
e vermelho que se elevava para o céu azul, o silêncio dourado das tardes e o silêncio palidescente das
noites, a liberdade, as estrelas e os personagens reais que se erguiam por detrás daqueles outros,
codificados, pelos quais eles chorara e torcera durante aquelas longínquas noites londrinas.
Não demorou muito para que Julius realmente entendesse que, entre todos esses personagens
que encontrava em carne, osso, músculos, suspiros e silêncios, o que ele mais amava era Orfeu.
Amava os seus longos braços morenos e lânguidos quando ele os erguia para dar asas a um verso nos
saraus da varanda. Amava o jeito como ele sorria meio de lado, formando uma deliciosa covinha
infantil na bochecha esquerda. Amava a voz morna e o jeito de rir com um suave movimento dos
lábios. Amava os cachos dos seus cabelos negros e o seu elegante perfil de Antínoo. Amava o seu
peito liso e bem torneado, a sombra do seu corpo na areia, a volumetria da sua letra, o jeito íntimo
como ele falava ao ouvido de Flora. Amava o seu gosto por figos, a esteira do seu perfume, o modo
como ele nadava e como ele se jogava sobre a areia quente e se deixava ficar.
E então chegamos a Orfeu.
Fauno. Poeta. Bêbado. Tarado. Doce. Virulento. Ansioso. Orfeu era tudo isso e muito mais.
Era um menino que se negava a crescer, e nisso se definiria a sua graça. Orfeu era como uma flor.
Totalmente espontâneo e inocente de si. Mas ele tinha muita perspicácia em relação aos outros – eu
diria que a verdadeira intuição da família sempre esteve em Orfeu. Ele vivera vinte anos esperando a
hora. E a hora chegou na pessoa de Julius Templeman.
Orfeu não tivera tanta certeza assim logo no começo. Nunca tinha sido realmente imune à
pessoa de Julius Templeman, mas chegara a confundir aquela agitação interior com desprezo. Julius
parecera-lhe muito blasé com aqueles óculos e todas aquelas falas literárias e o seu sotaque, como um
ator interpretando um personagem. Não foi uma coisa súbita, não mesmo. Foi algo que começou a
crescer dentro dele a princípio timidamente, mas depois com tanta ânsia, tanta gana, tanta clareza,
que Orfeu não pôde mais negar as evidências de que o tímido Julius Templeman era o amor da sua
vida. Logo a vibração erótica se fez muito clara – Orfeu conhecia os sinais, a aceleração cardíaca,
aquele fogo no ventre, a umidade que subia aos seus olhos como se alguma coisa dentro dele tivesse
entrado em ebulição. Sentira coisas assim desde muito jovem, mas nunca, nunca mesmo, em tal
intensidade. Com o passar dos dias e aquela agitação interior crescente, Orfeu concluiu que todo o
resto tinha sido apenas como um rascunho: os beijos roubados, o sexo sobre a areia quente de sol, os
passeios de barco ao luar, os versos soprados no calor da paixão, os muitos marinheiros com quem
tinha cruzado olhares e se entendido silenciosamente – tudo isso não passara de preâmbulo.
Julius Templeman era a sua história, era a deixa de Orfeu. E Orfeu queria, queria muito, ser
feliz – nunca tinha sido uma pessoa dada à serenidade. Ele queria sempre o superlativo da coisa.
Arrisco-me a dizer que Orfeu não tinha medo, como a maioria das pessoas. Ele não temia a
felicidade e até mesmo apreciava a doçura daquela dor. Entregou-se a ela, portanto, com a paciência
e a perseverança dos intuitivos. Julius viria até ele na hora certa, Orfeu tinha certeza disso. E ficou
esperando.
Então, quando os olhos de Orfeu se abriram completamente para a verdade, tudo não passou de
uma questão de tempo.

***

Mas o tempo, em La Duiva, sempre foi muito peculiar.


Eles foram dançando os dias. A certeza de Orfeu, como um sol radiante, começou a lançar os
seus raios sobre Julius. Eram pequenas coisas. Um olhar, um sorriso dividido, um toque de mãos ao
jantar enquanto um passava para o outro a travessa de ervilhas ou o cesto de pães, o choque elétrico,
o encontro inesperado num dos caminhos da praia ao entardecer, essas coisas começavam a afetar
profundamente o professor Julius Templeman, e ele principiou a mudar. Já não lia tanto por tantas
horas, mas entregava-se à vontade de desvendar La Duiva, os rochedos, o farol, a longa extensão de
praia branca e azul, os barcos no atracadouro e os barcos abertos ao meio como homens doentes
numa mesa cirúrgica – Julius tinha curiosidade de tudo, e fazia perguntas a Ivan e a Lucas. Ele
andava e andava, e nessas andanças foi-se desfazendo dos velhos modos ingleses, das roupas
impecáveis, dos mocassins macios, dos cabelos alisados com cera.
Um outro Julius foi brotando de dentro dele: a pele ganhou um bronzeado saudável que
realçava os seus olhos azuis; os cabelos soltos, crespos, libertos, contornavam o seu rosto como uma
espécie de halo. Ganhou alguns músculos no trabalho do jardim e auxiliando no serviço com os
barcos. Aprendeu peculiaridades do farol, e contava a Ivan sobre belos romances em que faróis
faziam a sua parte, ancorando a narrativa. Pela primeira vez vi o meu pai com um livro embaixo do
braço, um romance de Virginia Woolf que saiu da mala de Templeman numa bela edição em
espanhol.
Era engraçado ver como o professor inglês cambiava. Caminhava comigo às vezes, e juntos
víamos as estrelas. Era companhia afável, falava baixo como se não quisesse incomodar as coisas com
a sua voz.
Lembro-me de uma noite em especial – a tarde havia sido nevoenta e abafada, com cara de
chuva, mas ao anoitecer um vento fresco soprara do mar levando as nuvens embora e
descortinando um céu límpido, perfeito. Era uma noite quente, um leve cheiro de peixe e de algas
pairava no ar. Seguíamos pela linha da água, quietos, os dois. Então Julius sorriu e estendeu o braço
para o céu. Parecia feliz como um menino.
“Veja lá”, indicou ele. “Órion.”
“O velho caçador”, disse eu.
Julius sorriu para mim, afundando os pés na areia. Soprava uma brisa mansa. Imaginem uma
noite pura, de luz perolada. O mar estava quieto como se esperasse algum acontecimento especial.
Julius parecia entender o privilégio de estar ali, e saboreava-o, como dizer?, com humildade. Depois
que abandonara a sua fantasia de lorde inglês, tinha se tornado mais bonito. Era um homem frágil,
de estatura delicada como um jovenzinho em eterna puberdade. Mas os seus olhos eram agradáveis
e serenos, adultos.
“Engraçado como até o céu aqui parece diferente...”, comentou ele. Então sorriu, dando de
ombros. Uma mecha de cabelos caiu sobre o seu rosto e ele afastou-a com um gesto rápido. “Quero
dizer, parece óbvio, está nos livros, não é mesmo? Hemisfério sul, hemisfério norte... Mas agora eu
caminho sob a luz de outras estrelas.”
“Órion não estava lá...”
“Não mesmo, nas noites do verão inglês. Muita coisa não estava lá... Hoje entendo que vim até
aqui em busca dessas coisas desconhecidas, Tiberius... Eu sentia falta delas, sem ao menos saber...”
“É o que o meu pai diz: viver é uma busca.”
“Creio que a maioria das pessoas espera que as coisas lhe cheguem, que vão ao seu encontro, não
é mesmo? Aí está o erro... Às vezes, as coisas não vêm.”
“E, para outros”, continuei, pensando em Orfeu e Flora, “é apenas uma questão de sorte...”
Seguimos pela areia molhada e fria. Um peixe rabaneou entre as ondas mansas, um fulgor de
prata que não passou despercebido aos olhos de Julius, que sorriu.
“E agora, Julius...”, quis saber eu. “Você encontrou aqui aquilo que procurava?”
Parecia que falávamos de Flora, e me senti corar porque eu o estava induzindo a uma espécie de
confissão sentimental. Mas Julius me olhou tão fundo e tão angustiadamente que percebi, nos seus
olhos, a confusão que lhe reinava na alma. Não havia o que confessar, ao menos não o que os
outros esperavam ouvir dele. Julius ficou em silêncio. Creio que não tinha ainda as devidas
respostas. Seguimos pela praia, o farol luzia atrás de nós, sinalizando as pedras e os perigos para os
barcos em alto-mar, e então o rosto de Julius pareceu se acender de repente, e ele apontou as
estrelas, dizendo: “Mintaka, Alnilan e Alnitaka... As estrelas do cinturão, não é mesmo? Meu tio
Fabian teve um cãozinho há muitos anos... Não o conheci, falávamos por carta e um dia ele me
mandou o retrato do animal. Era gordo e pequenino, amei-o como um menino solitário de dez
anos pode amar um cachorro que jamais viu de perto... Ele se chamava Mintaka.”
Rimos, os dois. Respondi-lhe que era um bom nome para um cão. Três nomes ótimos para uma
pequena ninhada. Julius retrucou que ainda sonhava em ter alguns cachorros em casa, mas que em
Londres vivia num apartamento pequeno.
“Aqui, sim”, disse ele. “Aqui, sim, é um lugar para se criar muitos cães... Um belo lugar.” De
repente se entristeceu: “Estou aqui há dois meses, vai ser duro partir...”
“A casa é grande e não há pressa”, respondi.
Julius me sorriu, agradecido. E então, apontando para o céu novamente, falou: “A noite está tão
clara... Aquelas duas estrelas, você as vê, com certeza... Flora me disse que você quer ser astrônomo.
Que vai para Oedivetnom fazer a universidade... Olhe comigo, Tiberius... Betelgeuse e Rigel. A
estrela vermelha e a estrela azul, o ombro direito do caçador e o seu pé esquerdo... Não parecem
complementares? Não parecem amantes?”
Foi essa a conversa que tivemos naquela noite. Não recordo o resto. Voltamos para casa e, no
meu quarto, sob os lençóis que cheiravam a lavanda, a palavra ficou dançando na minha cabeça.
Uma bela palavra. Amantes. Amantes. Amantes. Duas estrelas presas num amor eterno. Eu sabia,
então, do que Julius Templeman estava falando.
***

Houve uma noite na varanda, acho que as coisas começaram então – eram muitas as noites na
varanda, quando Orfeu e Flora liam poemas, e às vezes Lucas tocava o seu violão. Tínhamos
deixado de lado essas práticas com a morte de Julieta. Não falarei muito sobre isso. Basta dizer que
foi numa tarde em princípio de janeiro, e que ela se apagou como uma vela soprada pelo vento.
Mamãe sofreu muito, devo dizer.
Aquela noite na varanda era uma despedida para Lilia, que estava de partida, e ao mesmo tempo
era um jeito de levantar o moral de mamãe.
Todos nos preparamos de um modo ou outro. Um poema, uma música, uma pequena história.
Não se podia falar da morte, era uma comemoração da vida – isso nos tinha dito Orfeu. Flora tinha
grandes expectativas nesse sarau familiar – o clima de tristeza havia engolfado a casa, e ela punha
nessa conta a estranheza de Julius, a sua veleidade.
Flora vivia uma grande dúvida. Ela podia sentir a devassidão nascendo nos olhos de Julius, um
brilho novo, original... Mas curiosamente esses olhares não brilhavam para ela. Julius Templeman
continuava sendo um perfeito cavalheiro, as mãos atrás das costas seguindo-a pela casa, os sorrisos, o
modo como a ouvia – cada vez mais desatento, mas sempre gentil, esforçando-se por parecer
interessado e incentivando-a, de modo mais e mais vago, a escrever o seu novo livro. Julius
prometera ajudá-la com uma editora, e de fato tinha escrito a alguns amigos do tio e até mesmo a
certos colegas influentes. Mas as respostas tardavam.
Flora, ah, Flora... Coloco-me no seu lugar por alguns instantes... Embora sentisse que queria se
deitar com aquele homem, que ele era o certo, o provável pai dos seus filhos (porque Flora era uma
moça muito cartesiana e extravasava toda a sua luxúria na ficção), ela podia perceber que não havia
mais aquela energia sexual entre eles, aquele magnetismo que outrora culminara em beijos pelos
corredores, na praia, no farol. Julius parecia quase fugir dela, esquivava-se, e quando conseguiu
beijá-lo depois de uma semana de estranhas evasivas, seu beijo parecia cansado e sem gosto como
um pedaço de pão dormido. A tristeza cresceu dentro de Flora, enrodilhando-se por todos os cantos
do seu ser, e, quando ela se separou de Julius, os seus olhos eram úmidos de lágrimas contidas.
Se Julius reparou naquela dor súbita, não disse nada. Devia estar vivendo um embate emocional
sério demais para sentir o leve sopro do sofrimento de Flora. Afinal, Julius Templeman era um
homenzinho determinado, infeliz no amor até as raias da loucura, porém ele nunca tivera a
sagacidade de olhar para dentro de si mesmo com a sinceridade com que vinha fazendo nos últimos
tempos em La Duiva. Creio que doeu em Julius a descoberta de que era um veado. Que gostava de
homens. Que um olhar de esguelha de Orfeu equivalia, em termos de excitação, a vários beijos de
Flora. Não que fosse um cego para as belezas e doçuras do mundo feminino – seios, bocas,
reentrâncias, a maciez da pele, a voz... Oh, ele admirava a beleza limpa e vigorosa de Flora,
admirava-lhe os sorrisos e a sinceridade de lírios, e sentia um leve ardor nos testículos sempre que
via Eva andando pela casa em sumários trajes de banho, a sua vestimenta predileta – as longas
pernas douradas, a cabeleira ruiva, leonina, os olhares sardônicos, quase maldosos que ela lhe dava
sempre que Julius estava com Flora falando de livros. Aquela coisa meio tirânica, meio sexual que se
esvaía de Eva causava-lhe um doce incômodo.
Em suma, Julius não era imune às delícias femininas, mas Orfeu era demais para ele. Avassalava-
o por dentro, cortava-o ao meio como uma flecha venenosa, fazendo arder nele a certeza de que
nunca tinha visto ninguém nem de longe como aquele jovem moreno e esguio, de modos
helênicos, parecendo mais um personagem mitológico que houvesse dado por ali, naquele canto de
mundo, naquela praia deserta. Orfeu era o destino personificado. Quando ele dizia poemas à noite,
nas tertúlias familiares na varanda, quando a voz clara e vibrante e apaixonada de Orfeu varava o ar
perfumado de jasmins e de maresia, Julius sentia os olhos úmidos de emoção. Fosse Shakespeare,
Donne ou Rimbaud, Julius sentia os pelos do seu corpo se eriçarem, e vinha-lhe uma vontade louca
de mergulhar naquela boca, de seguir no rio morno e verde daquela voz primaveril como uma
jangada sem dono, como uma folha ao sopro do vento. Ele segurava-se na própria cadeira,
sentindo-se corar, e a vergonha de tal abandono deixava as palmas das suas mãos molhadas de suor.
Ninguém parecia notar. A não ser Orfeu, é claro. Como um bom pescador, ele não tinha pressa
em puxar a linha. Gostava de ver o peixe nadando e nadando, pulando na água, depois engolindo a
isca, sentindo o gosto da isca no fundo da garganta. Ele dava linha, deixava o peixe seguir adiante
na vã ilusão do alimento, da liberdade, da autonomia. Ninguém via a angústia e o amor que
inundavam o professor Julius Templeman – ou talvez toda aquela angústia amorosa fosse vista e os
outros confundissem apenas o objeto do seu desejo, pois parecia claro que Julius e Flora tinham
engatado um relacionamento sério e que o inglesinho não apenas a ajudaria a publicar com louvor
o seu primeiro romance, como casaria com ela ou coisa do gênero.
Ah, quão confusos podem ser os sinais, mesmo aqueles emitidos com prodigalidade, como
acontecia então com Julius. Até Cecília, minha mãe, podia sentir o sopro de alguma coisa libidinosa
se evolando do visitante inglês. Ela aumentou as suas atenções em relação a Flora – Cecília estava
ainda muito abalada pela morte de Julieta, uma morte natural que tinha sido exaustivamente
prevista pelos médicos, mas quem pode administrar a dor pela perda de um filho? –, e o medo de
que Flora se metesse em apuros com Julius ganhou um peso desnecessário para mamãe. Ela levava
Flora para o quarto à noite, entretendo-a com seus próprios queixumes, e saía da cama uma ou duas
vezes durante a madrugada a fim de verificar se as duas filhas dormiam tranquilas, e sozinhas, em
seu quarto. Cecília deixava assim, sem saber, o caminho livre para que Orfeu e Julius se
encontrassem e, juntos, tateassem por aquele corredor cheio de mistério e sinuosidade, o caminho
ainda inexplorado para o verdadeiro amor.
Mas voltemos ao nosso sarau. Foram ditos poemas. Eva ajeitou a sua cabeleira ruiva e fez uma
imitação graciosa de Shirley Temple. Lucas e papai cantaram ao violão uma música de Jaime Roos.
“El último tren pasaba, un martes de madrugada, y yo la pasé durmiendo, pues nadie me dijo nada...”
Flora leu um trecho do seu livro, um dos prediletos de Julius. Sentado na sua cadeira, ele sentiu a
emoção fluindo junto com o seu sangue, mas então respirou aquele ar do verão com o seu cheiro de
flores e pôde compreender que classe de sensação o dominava, uma emoção estética, cerebral, muito
diferente daquele influxo orgânico, a maré hormonal que o inundava cada vez que simplesmente
mirava o perfil de Orfeu contra a luz amarelada da varanda.
Tive que dar a minha contribuição à noite. Junto com mamãe, atacamos um trecho de
Shakespeare. Ela não pôde escapar de uma leve alusão à filha, e sem citar o título, leu um parágrafo
daquele amor em Verona. E assim seguimos, corria o vinho branco gelado e uma alegria boa, que
tinha a ver com a noite de verão, os seus cheiros e sons e a onipresença do mar, cujos sussurros
cresciam na noite serena.
E então Orfeu disse o seu poema – ele era muito bom nisso, um verdadeiro ator. Teria sido esse
o seu caminho, imagino-o num palco fazendo um belíssimo monólogo se aquele amor e tudo o que
veio com ele não lhe tivessem atravessado a vida pelo meio. Era um poema português. Orfeu tinha
amigos do outro lado do mar, e entre eles um marinheiro que o presenteara com dois volumes
daquela escritora quase desconhecida por aqui. Lembro que Orfeu se pôs de pé e, caminhando para
o meio da varanda, no centro do semicírculo que formávamos, abriu de leve os braços e, com a voz
embargada pela emoção que sempre sentia diante da poesia maior, falou: “Para atravessar contigo o
deserto do mundo/ Para enfrentarmos juntos o terror da morte/ Para ver a verdade para perder o
medo/ Ao lado dos teus passos caminhei// Por ti deixei meu reino meu segredo/ Minha rápida noite
meu silêncio/ Minha pérola redonda e seu oriente/ Meu espelho minha vida minha imagem/ E
abandonei os jardins do paraíso (...)”
Ele abaixou o rosto teatralmente e então, ao erguer os olhos, mirou por um único instante os
olhos de Julius e anunciou a autora: “Sophia de Mello Breyner.”
Orfeu fez uma reverência graciosa e todos aplaudimos.
Não era um poema, era uma sentença. Uma declaração. Houve um certo incômodo
emocionado entre nós. Mais uma vez confundiram-se a beleza e os seus efeitos – Orfeu era muito
emotivo quando declamava. Flora disse baixinho que queria, um dia, escrever como Sophia. Creio
que, no fundo, ansiava mais ser como o irmão do que como a poeta, mas tudo se misturava naquele
seu coraçãozinho desinquieto. No seu lugar, Julius Templeman parecia fulminado por uma
revelação. As palavras de Orfeu materializavam, marcavam uma profunda mudança na sua vida.
Apesar disso, Julius manteve-se discreto e só exagerou no vinho.
Passava da meia-noite quando fomos dormir. Todos se dispersaram e Orfeu despediu-se e seguiu
a vereda que descia pela encosta até a praia. Não tinha sono. Por vezes, quando eu saía a ver as
estrelas, encontrava-o na praia, deitado na areia fria em perfeita simbiose com a noite.
Acho que Julius foi logo atrás dele. Dormia num quarto nos fundos da casa naquilo que
chamávamos de depósito, mas mudou de ideia antes de tocar no trinco da porta e voltou sobre seus
passos até a varanda, seguindo adiante pelo atalho que levava à areia. Eu já disse que a noite era
linda. Fevereiro estava por terminar; às vezes, ao cair da tarde uma brisa fria soprava do mar como
um delicado aviso outonal. Mas aquela noite era quente e parada. As folhas das árvores não se
moviam – apenas o mar, lá embaixo, cantava a sua eterna cantiga. Julius pensou que sentia uma
verdadeira ternura por aquele lugar e que seria difícil partir quando chegasse a hora. Ele sabia que
estava por tomar uma atitude definitiva quanto a La Duiva e ao seu próprio futuro, mas o vinho
que lhe tinha subido à cabeça provocou nele apenas um sorriso cético. Será que teria coragem? Ficar
significaria muita coisa, muita coisa mesmo.
Ele olhou ao redor e apenas os ruídos da noite – o mar, o ciciar dos grilos, o leve farfalhar do
topo dos pinheiros acarinhados pela brisa – vieram ao seu socorro como um alento infantil. Então
ele começou a descer a escada cavada na pedra – àquela altura já conhecia o caminho, e a noite era
terrivelmente clara. A vegetação ao seu redor parecia exalar um cheiro morno e quente, um pouco
amargo e levemente embriagador. Ele seguiu por ali, apreciando as estrelas no firmamento e o
brilho azulado do mar lá embaixo, enchendo os pulmões com o puro cheiro da noite. Estava
descalço. Nos últimos tempos, vinha abandonando coisas, hábitos, objetos, símbolos de uma vida
que já não lhe dizia nada. Mantinha, porém, sempre um livro por perto – as novas dúvidas e
certezas não haviam sequer arranhado o seu amor pela literatura, mas ele pensava em nunca mais
pisar numa sala de aula. Sapatos, cera para os cabelos, pente, gravatas, botões, tudo isso tinha
perdido o significado para Julius.
Ele parecia mais leve a cada degrau e, quando finalmente chegou à areia, provou uma felicidade
totalmente nova. Buscando na sua memória, nenhuma lembrança passada se igualava em prazer
àquele momento: a areia fria sob os seus pés, as estrelas cintilando no céu, o mar cinzento e cálido,
enorme e afável. Em algum lugar daquela praia, estava Orfeu.
Julius seguiu até a beira-mar, molhou os pés na água e começou a caminhar em direção ao farol.
Para os marinheiros de antigamente, o farol era o final de uma jornada árdua e cheia de sofrimentos
e perigos. Ele pensou nas longas travessias de outrora, nas terras estranhas, nas aventuras pungentes
de perigo. Sabia que a família de Orfeu tinha sido, desde sempre, uma família de navegadores.
Sabia, do mesmo jeito, que Orfeu estava por ali, perto do farol, esperando silenciosamente por ele.
Olhou o céu e viu que fiapos de nuvens começavam a subir para a lua, formando um halo no seu
entorno. A noite estava bonita demais, quieta demais. Talvez chovesse no dia seguinte.
E assim ele se ocupou desses pensamentos desconexos até chegar ao farol. Sentiu o clarão de luz.
O farol acendeu e apagou como se reconhecesse a sua presença, e Julius sorriu. Foi sob o mesmo
clarão que viu, num canto perto da pedras, o vulto de Orfeu – seus cabelos negros, crespos, as
pernas dobradas, os pés mergulhados numa piscina entre as pedras. Julius sentiu então que o
nervosismo tomava conta dele. Por que estou assim, afinal de contas? Uma caminhada na praia, só
isso. Ele respirou fundo e seguiu na direção de Orfeu, enganando-se com tamanha insistência que,
ao chegar, seu coração já batia calmamente.
Orfeu parecia esperar por ele e, ao vê-lo, sorriu como sorria quando, em menino, fisgava um
peixe gordo.
“Não consegue dormir?”, Orfeu perguntou, simpático.
A voz dele ecoou na noite, sobre as ondas. Era uma voz macia e quente. Pobre Julius, a vida não
é como um livro que a gente simplesmente vai virando as páginas. Ele queria fechar os olhos e
deixar que as coisas acontecessem, as coisas que estavam escritas. Mas, de fato, a mão do destino
precisava da ajuda dele, então Julius respirou fundo e respondeu: “Está uma noite tão bonita... Vim
ver o mar...”
“Amanhã chove”, garantiu Orfeu com leveza. E então, sorrindo, acrescentou: “Mas amanhã
ainda não importa, não é mesmo? Eu também vim ver o mar, depois resolvi sentar aqui e esperar
que você aparecesse...”
Ele parecia um menino que tinha fugido da babá e que agora saboreava o prazer disso. Seus
olhos brilhavam.
Julius sentiu o nervosismo chegando outra vez.
“Como sabe...”, ele começou, mas Orfeu não deixou que Julius continuasse: “Ora, vi os seus
olhos... O jeito como me olhava hoje.”
Julius sentia-se trêmulo, então desceu pelas pedras com extremo cuidado, vadeando a pequena
piscina de água salgada, e sentou-se ao lado de Orfeu, mas não perto o suficiente para que pudessem
se tocar com facilidade. Orfeu achou graça daqueles cuidados tão desnecessários, tão inúteis. Ficou
quieto, esperando que Julius puxasse a linha para longe. Era uma dança, era preciso paciência, a
dose exata de paciência.
“Você diz muito bem um poema, Orfeu”, falou Julius.
“Obrigado”, retrucou Orfeu. Sorrindo por dentro, ele pensou: a fisgada, a linha está puxando!
E repetiu em voz alta: “Vi os seus olhos hoje, Julius... E vi os seus olhos ontem, e anteontem
também...”
“Meus olhos como?”, indagou o outro, pensando com urgência que deveria ter bebido mais
antes de descer à praia, porque bêbado ele era temerário, bêbado ele tinha levado Gina para a cama
pela primeira vez, e bêbado ele a havia dispensado numa noite após uma discussão sobre Orwell.
“Meus olhos como?”, repetiu.
E então Orfeu fez o seu trabalho. (Aquele era o seu chão, a sua casa. Naquela praia, tinha amado
pela primeira vez e tinha aprendido os segredos silenciosos, tinha percorrido os caminhos secretos e
provado uma parte daquela miríade de sensações indescritíveis...)
Orfeu levantou-se da pedra em que estava sentado e, aproximando-se suavemente de Julius,
disse baixinho: “Sim, eu vi os seus olhos... Como eles eram? Como duas bocas cheias de fome...
Como um espelho dos meus.”
Julius estava apavorado.
“Você se engana”, balbuciou ele feito uma criança.
Mas Orfeu tinha certeza e seguia avançando. Lentamente, milimetricamente, definitivamente.
E antes de abraçá-lo, antes que Julius pudesse sentir o calor e o gosto de Orfeu, ele ainda falou,
rindo: “Ora, Julius, deixe disso...”
E então, a um passo de tocá-lo, Orfeu perguntou: “Você não quer?”
Não havia volta. De olhos fechados, Julius fez a sua parte. Ele disse: “Quero.”
E os dois seguiram juntos rumo ao mar aberto, contornaram a primeira boia, e a segunda boia,
e foram em frente contra as ondas. E não tiveram medo de se afogar,
eles não precisavam de um barco,
eles não precisavam de velas,
eles não precisavam do vento,
nunca mais.

***

Talvez “nunca mais” não seja a expressão correta, embora ela dê a verdadeira conotação da
intensidade do amor daqueles dois. A coisa começou naquela noite e não parou. Era como uma
música tocando mais e mais rápido, e eles giravam, giravam, giravam até ficarem tontos.
No começo, ninguém percebeu. Tantas coisas aconteceram naquele outono, coisas bizarras,
coisas inesperadas. A cada nova coisa acontecida, outras tantas se sucediam, e La Duiva mergulhou,
enfim, no fundo e escuro rio do seu ocaso. Não falarei dessas tristezas aqui – quero apenas contar
que, em meio ao furacão dos acontecimentos todos, o amor de Orfeu e Julius foi ficando mais e
mais claro, foi ficando evidente como o dia, tal e qual uma dessas dançarinas orientais que vai
tirando os seus véus, um a um, descortinando o seu belo rosto diante de olhos pasmos. Orfeu e
Julius revelavam-se dia a dia, e as reações em La Duiva foram as mais diversas, do ciúme ao puro
horror, mas não hei de entrar nesta seara.
Vamos ao que interessa. Julius lutou bravamente contra aquela paixão, mas, ao reconhecê-la,
finalmente serenou. Quanto a Orfeu, ele sabia desde o princípio. Os anos gastos esperando na praia
não tinham sido em vão – depois de tantos marinheiros de passagem, o futuro lhe chegara pelo mar,
conforme os seus instintos lhe tinham soprado. Eles pretendiam ficar para sempre em La Duiva – a
casa de Orfeu, o lugar que Julius aprendera a amar como nenhum outro –, mas havia Flora, e havia
Eva, e havia o papai e toda a sua revolta.
As coisas ficaram difíceis demais. E pioraram quando papai morreu subitamente naquela manhã
no ancoradouro. Por incrível que possa parecer, sua morte – uma morte herdada, como uma
bomba-relógio que estivesse escondida sob o seu peito desde o seu nascimento – acabou piorando a
situação. Papai pesava mais na consciência de Orfeu como um fantasma silencioso do que antes,
quando estava vivo e blasfemando pelos corredores, ferido até o cerne da sua própria virilidade por
causa do absurdo que era ter um filho veado, e a ofensa de haver recebido um hóspede de braços
abertos para que, na primeira oportunidade, esse hóspede resvalasse para a cama do seu filho
(quando poderia ter escolhido qualquer uma das duas filhas).
Orfeu e Julius resolveram que seria preciso fugir de tudo aquilo. Era uma ideia que vinha se
avolumando. O mundo era grande, dizia Orfeu. Estranhamente, parecia ser Julius quem mais
receava deixar La Duiva. Mas então, numa noite, Eva resolveu acertar as suas contas com o
inglesinho e tomou-o de surpresa num ataque calculado com mestria, pois Eva sempre tinha sido
uma grande estrategista, ganhava nas cartas desde menina e tinha o curioso hábito da perseverança,
conseguindo assim tudo o que queria. O pavor de Julius depois da coisa feita foi realmente enorme:
ele não queria perder Orfeu por nada neste mundo. Eva tinha sido um resvalo em meio ao sono, e
ele jurou a Orfeu isso e muito mais naquela noite em que entrou no seu quarto no meio da
tempestade invernal (sim, ambos mantinham a discrição em respeito a mamãe, e seguiam dormindo
em quartos separados). Julius contou a Orfeu sobre a investida de Eva. Não contou as coisas
totalmente para evitar mais tragédias, mas disse o bastante para que Orfeu concluísse que ambos
deviam deixar La Duiva imediatamente.
“O que está ruim sempre pode ficar pior”, sentenciou Orfeu, sentado na cama, os belos olhos
pesados de sono. Lá fora, os trovões faziam o seu espetáculo. Julius ficou olhando para Orfeu – a
fúria da tempestade batia no seu peito como um outro coração – e percebeu que, agora sim, a sua
vida tinha encontrado um sentido, uma função. Orfeu era a intensidade e tudo ao redor dele
parecia ter mais cor, mais peso, mais drama.
“Está bem”, capitulou Julius. “Sentirei falta deste lugar, mas concordo com a nossa partida. Não
seremos felizes aqui.”
Os dois se abraçaram na cama estreita de Orfeu, a situação toda decidida.
Não podemos tomá-los como dois levianos, não mesmo. As coisas estavam estranhas naquele
tempo, até mesmo o farol enlouquecera. Acendia e apagava nas horas mais impróprias, e
amanhecíamos com destroços na praia, restos de pequenas embarcações que tinham se perdido por
causa da confusão do farol. Mamãe andava pela casa como uma autômata, fazendo as coisas
simplesmente porque sempre as fizera outrora: a comida às vezes ia para a mesa temperada com
açúcar em vez de sal, ela trilhava pela casa descabelada depois de passar meia hora olhando para o
seu pente de cabelos, cortava as flores e as punha num vaso, depois esquecia a água, chorando por
horas quando as flores murchavam. E havia Flora. A rejeição de Julius jogara-a num desespero
furioso e ela passava as tardes no quarto tentando escrever, mas não vencia um único parágrafo,
como se Julius tivesse lhe roubado, além do coração, o fogo do talento. Parecia mesmo uma
contagem regressiva para o fim. E Orfeu queria viver, queria muito.
Orfeu e Julius fugiram no final daquele inverno, e o inverno deve ter pesado na fuga. Como
explicar o inverno em La Duiva? As águas furiosas do mar lançando suas línguas pela areia, lutando
com os molhes, a teimosia das pedras encravadas no chão. O vento escabelando os pinheiros dia e
noite e o som lamurioso dos galhos e folhas davam ao mundo uma aparência para além da
melancolia. O frio que nem o fogo na lareira podia debelar, o frio escondido dentro dos armários,
na banheira, pulando nos tornozelos da gente como um cachorro faminto. Foi um inverno difícil,
aquele. Dentro de casa as coisas não estavam mais fáceis: Lucas tinha ido embora para Oedivetnom,
mamãe mergulhara no seu luto, Flora tentava se esconder nos seus escritos. Tudo fantasmagórico,
agonizante. O verão e os seus perfumes pareciam um sonho bom que se esfumaçara para sempre.
Julius estava assustado com a violência dos temporais, com a tristeza que reinava na casa, com toda
aquela pungente insatisfação. A má sorte parecia espreitá-los de cada umbral, voando no vento que
soprava por três dias.
Esperaram uma previsão de tempo ameno, porque as furiosas tormentas invernais enchiam
Julius de mau agouro. Na primeira noite de trégua da chuva, os dois fizeram as trouxas e se foram.
Orfeu ficou algum tempo parado em frente à porta do quarto de mamãe, a cabeça repousando na
madeira como se pudesse deixar vestígios dos seus pensamentos impressos ali, mas dizer adeus a
Cecília era demais para ele, e então ele partiu calado no silêncio da noite, rumo ao futuro que
sempre sonhara. Quanto a Flora, eles sempre tinham sido grandes amigos, mas Orfeu se vira
obrigado a fazer a sua escolha.

***

Aqueles dois não queriam Oedivetnom, nem a Inglaterra. Queriam um lugar novo que fosse só
deles, onde pudessem criar as próprias e conjuntas memórias, longe da dor, da culpa, do inverno ou
da tristeza. Eles atravessaram o mar revolto – Julius dessa vez não sentiu medo das ondas, o mar
tinha entrado nele para sempre – e foram para Oedivetnom a fim de fazer os preparativos para a
viagem. Lá, Julius pleiteou junto ao tio para que recebesse um adiantamento pela parte da herança
que lhe caberia e, com esse dinheiro e com o derradeiro olhar de adeus do sr. Julian Barrios, os dois
ganharam o mundo. Fiquei sabendo disso muito depois, é claro. Os meios com os quais Orfeu e
Julius pretendiam viver nos eram completamente desconhecidos, e um dos motivos de angústia para
Cecília. Mas eles tiveram uma vida bastante boa, tiveram mesmo. Pelo menos durante algum
tempo.

***
De Oedivetnom, Orfeu e Julius seguiram de avião para a Europa. Pela primeira vez, um de nós
atravessou o mundo pelo ar e não pela água. Os antepassados devem ter chorado de vergonha nas
suas tumbas.
Eles haviam decidido evitar as grandes cidades e viver costeando a orla, sempre perto do mar,
sempre perto dos ventos salgados, dos barcos, dos ancoradouros, atrás de um perene verão.
Começaram na costa da Espanha por causa do idioma, mas Orfeu era inteligente e tinha uma
língua vivaz – logo aprendeu frases em italiano e francês, e o inglês lhe vinha sendo ensinado pelo
próprio Julius em lições vespertinas regadas a vinho rosé e boas risadas. A vida marítima aprazia a
Julius e acalmava-lhe o espírito. Dado a elocubrações e angústias, a herança familiar de Orfeu
parecia manifestar-se em Julius como o reflexo de um espelho perfeito. Viviam de pequenas coisas:
traduções, aulas particulares que Julius apregoava nas saídas dos colégios cercado pelas mamães que
reconheciam nele os seus talentos professorais. Quanto a Orfeu, trabalhava alguns dias no porto
onde quer que estivessem. Entendia de barcos, de velas, de alísios e de correntes, dizia poemas e
piadas sujas sempre com a mesma inefável graça e fazia amigos como quem respira. Era uma vida
maravilhosamente mundana, e os dois tinham o suficiente para bons quartos em pequenas
estalagens, gastando as longas noites estreladas do verão europeu em bebedeiras e jogos amorosos,
vagando sem destino por ruas iluminadas pela lua, amigos dos boêmios, vagabundos e bêbados,
enquanto os pequenos alunos de Julius dormiam em suas caminhas perfumadas sob o zelo de suas
mamãs.
Um mapa teria sido melhor para que eu pudesse mostrar o trajeto daqueles dois. Mas posso
contar o que trilharam de memória, porque desenhei o seu derradeiro caminho como uma espécie
de constelação.
Em Blanes, viviam numa pequena pensão cuja janela do quarto dava vista para a praia, e às
vezes levantavam no meio da madrugada para caminhar à beira-mar e declamar Donne ou Lorca
sob a luz láctea das estrelas. Julius estava então completamente fascinado pelo temperamento dual
de Orfeu: como aquele jovem podia ser ao mesmo tempo tão viril e tão doce, tão fleumático e tão
angustiado, tão poético e simultaneamente tão brutal nos seus julgamentos? Viviam uma felicidade
só deles, descolada de todo o passado, de todo o arrependimento e de toda a saudade. Orfeu se
pegava pensando em Cecília ou em Flora; por vezes, recordava a última e dura conversa com o pai,
mas logo a algaravia da praia – Orfeu arranjara um emprego temporário de instrutor de vela e vivia
cercado de menininhos gritões e felizes – afastava a dor dessas rememorações. Quando se
encontravam no final do dia, Orfeu sujo de areia e queimado de sol, e Julius ainda molhado de
mar, porque deixava seus alunos particulares de inglês e corria à praia todas as tardes, a vida parecia
tão boa e tão fácil que os dois se punham a rir sem motivo aparente.
Depois de algumas semanas em Blanes, seguiram para Palamós, onde Orfeu trabalhou num
barco pesqueiro e Julius arranjou emprego como tradutor junto a um grupo de velhas senhoras
inglesas em férias no balneário. Era um trabalho maçante e ele engordou um pouquinho depois de
incontáveis chás das cinco repletos de biscoitos e bolos, mas, à noite, ele e Orfeu se banhavam numa
pequena enseada escondida, e ficavam nus sob as estrelas até que Julius se considerasse recuperado
de todas aquelas intermináveis conversações sobre biscoitos e rendas e passamanarias, e então os dois
se amavam ao alvorecer na cama macia que dividiam na estalagem e, no dia seguinte, Julius ia ao
encontro do seu grupo de senhoras com olheiras tão escuras que uma delas, certa tarde, presenteou-
lhe com um pote de creme para o rosto.
Em Roses, Orfeu arranjou emprego como comandante de uma pequena escuna que fazia
passeios turísticos pela região e Julius trabalhou como seu ajudante, recolhendo tíquetes e vendendo
água e biscoitos para os passageiros. Passavam o dia sob o sol, enchendo os seus olhos de verde e de
azul, e, na hora do almoço, enquanto os turistas aproveitavam os restaurantes ou a praia, eles
pescavam sob a velha coberta do barco e dormiam a siesta ao sabor do mar. A rotina catedrática
agora parecia a Julius tão distante como um sonho ruim, e às vezes ele fitava Orfeu e dizia: “Eu não
tinha vida antes de conhecer você”, ou: “E pensar que eu andava sempre com um guarda-chuva na
maleta”, e ainda: “Eu costumava tomar antiácidos!” Orfeu ria dos comentários disparatados de
Julius, e enchia-o de beijos quando estavam a sós. Na frente dos passageiros, ambos tinham um
comportamento extremamente discreto, e várias jovenzinhas inventavam desculpas para se enfiar na
pequena cabine do Neptuno, atrás de puxar assunto com o belo Orfeu, que ria delas discretamente
ao dispensá-las com uma artimanha qualquer.
Quando se cansaram de Roses, os dois foram para Banyuls-sur-Mer. Em verdade, Orfeu não
queria partir e deixar o Neptuno – havia se apegado ao pequeno barco desconjuntado como outrora
os velhos marinheiros da nossa família tinham amado as suas próprias embarcações –, mas Julius se
cansara da pequena Roses, e ambos fizeram as malas. Em Banyuls-sur-Mer, descobriram os
primeiros sinais do outono, que soprava as folhas das árvores ao longo das calçadas à beira-mar.
Com a chegada do Mistral, os turistas começavam a rarear, e Julius, exibindo as suas excelentes
credenciais, logo arranjou um rentável trabalho de professor substituto num pequeno liceu,
enquanto Orfeu passava os dias a vadear pela cidade, tomando o rumo da praia, bebendo rum e
dividindo anedotas com os marinheiros no porto, gastando as horas em longas caminhadas à beira-
mar, novamente assombrado pelas lembranças de La Duiva. Quando começou a ser necessário
vestir um agasalho mais pesado para sair à rua, Orfeu fez lembrar a Julius as promessas que ambos
tinham feito a respeito de perseguir o sol e um verão eterno. Julius demitiu-se do liceu, eles
atravessaram o mar e seguiram para o Marrocos.
Em Tânger, beberam vinho demais e brigaram na rua. Recuperados da briga e da ressaca,
vagaram pela antiga cidade fenícia fundada por cartagineses, desvendando suas sinuosas ruelas, suas
mil portas e os segredos e cheiros e gostos. Orfeu arranjou trabalho como instrutor de natação num
pequeno resort de segunda linha, e ali passaram dois longos meses de relativa tranquilidade. Julius
adorou Tânger – fazia excursões diárias pelas mesquitas e pelos mercados –, mas alguma coisa na
água da cidade começou a lhe fazer mal. Tinha crises de vômito e sentia certa fraqueza, porém
manteve o seu incômodo em segredo para não preocupar Orfeu. Vagava pelo labirinto da medina,
entrando e saindo dos seus veneráveis palácios e mesquitas seculares como se estivesse em um outro
e maravilhoso mundo. Aprendeu a falar um pouco de árabe e arriscou-se a ler o Alcorão quando
estava sozinho no seu quarto. Sentia-se tocado pela religiosidade que pairava sobre tudo, descendo
da antiga medina como um véu. Emagreceu. Embora estivesse outra vez feliz, Orfeu notou as
mudanças físicas e emocionais do seu companheiro – Julius era mais frágil e mais inseguro, parecia
abalado pela atmosfera religiosa e pela comida exótica – e propôs-lhe que se mudassem novamente.
“Novos ares farão bem a você”, disse Orfeu, abraçando Julius e notando, pela primeira vez, as
costelas salientes sob a pele das suas costas. “Somos livres como pássaros, não é mesmo?”
Partiram outra vez uma semana mais tarde. Julius sempre sonhara em conhecer Casablanca,
então eles rumaram alegremente para lá. Na belíssima medina fundada pelo sultão Mohammed ben
Abdallah em 1770, fizeram novas juras de amor eterno, e Julius arranjou um emprego como
tradutor num pequeno hotel muito frequentado por turistas ingleses. Foi a vez de Orfeu viver a
liberdade e vagar pelas ruas de Casablanca experimentando o seu francês aprendido com Julius. A
língua árabe seguia sendo para ele uma coisa incompreensível e gutural. Assim se passaram alguns
meses, e o inverno finalmente instalou-se com as suas noites ventosas e frias. Uma certa tristeza
tomava conta dos dois quando as janelas do quarto, velhas e frouxas, batiam feito dentes por causa
do vento.
“Nem o Marrocos escapa do inverno”, disse Julius certa noite, sob as cobertas, e parecia triste.
Os enjoos diminuíram, mas Julius tinha começado a tossir. Andava mais pálido, e às vezes saía
para o trabalho com uma aparência tão desgastada que Orfeu lhe guardava pena. Visitaram um
médico indicado pela dona da pensão, e Julius recebeu um xarope de aparência duvidosa para tomar
três vezes ao dia. Foi a primeira vez que ele sentiu falta da Inglaterra e do seu impecável sistema de
saúde, mas consolou-se pensando na sua própria juventude e olhando para o belíssimo perfil de
Orfeu. Talhado pela dieta inconstante e pelo trabalho braçal, bronzeado pelo sol, Orfeu estava
ainda mais bonito. Era o seu Antínoo e, por ele, Julius seria capaz de qualquer sacrifício. Naquele
dia, dormiu após um longo acesso de tosse. Foi uma noite difícil. No dia seguinte, ambos decidiram
que estava na hora de seguir adiante.
Foram para El Jadila. Rever o Atlântico depois de um ano inteiro tocou profundamente a alma
de Orfeu: era como voltar à própria matriz. Ele podia sentir no ar os cheiros, mesmo que vagos –
alguma coisa acre, morna e picante –, da sua praia natal, como se pálidos sopros de La Duiva
tivessem atravessado o oceano inteiro para encontrá-lo. Ainda fazia frio, mas Orfeu se banhou por
um longo tempo no mar cinzento, como se matasse as saudades de um amigo muito querido,
enquanto Julius o esperava ao abrigo do vento sob um quiosque desativado por causa da baixa
estação. Em El Jadila, não trabalharam. Julius melhorou um pouco, ganhou alguma cor no rosto e
recuperou parte do apetite. Passeavam por tardes inteiras, fazendo planos de seguir para a França e
esperar o verão lá. Visitaram a Cité Portugaise. Era uma tardezinha esplêndida e amena do começo
da primavera, e o ar cheirava fantasticamente a flores e a maresia. Mas, a certa altura, Julius sentiu-se
mal e desmaiou. Orfeu cuidou dele com muito zelo por toda a noite em que ele ardeu em febre e,
na manhã seguinte, chamou outro médico para examiná-lo. Pouco entendeu do árabe do velho;
terminada a consulta, Julius fez um gesto de aquiescência e pagou-o, dispensando-o sem muitas
delongas.
“Vamos embora daqui”, Julius disse, jogando-se na cama assim que o médico saiu. “A África não
é um bom lugar para uma pessoa ficar doente. Estou ficando louco, acho que estou...”
Orfeu abraçou-o, prometendo que logo tudo se restabeleceria, e os dois seguiriam rumo a um
verão azul e doce na costa francesa. Mariscos, vinho e banhos de mar, brincou Orfeu. Haveria vida
melhor? Julius pareceu animar-se um pouco.
“Vamos amanhã mesmo”, pediu Julius, sorrindo. “Ficarei curado lá. Devo estar com uma
bactéria qualquer... Não dê ouvidos a esse médico, Orfeu.”
Orfeu, na verdade, não tinha entendido nada do que o médico falara. Disse isso ao amante, e
ele olhou-o de soslaio de um modo tão estranho e pungente que Orfeu sentiu um estranho arrepio
percorrer as suas vértebras. Abraçando-se a Julius, tentou decifrar esse olhar, mas as retinas azuis do
outro pareciam turvas e tristonhas.
“O que ele disse?”, perguntou Orfeu. “Eu não entendo esses árabes, você sabe... O que falou o
médico mesmo?”
Julius virou o rosto para o lado e resmungou baixinho: “Nada que valha a pena, meu Antínoo.
Vamos fazer as malas e seguir para a França. Terminou-se a nossa temporada marroquina.”
Orfeu achou melhor não insistir, e assim eles fizeram. Dois dias mais tarde, estavam em
Marselha.
Ah, o porto de Marselha... Orfeu sentiu-se em casa imediatamente. Todos aqueles homens,
aquela euforia viril e mundana. Arranjou trabalho no porto e fez amigos entre os marinheiros
argelinos; ia ao mercado do bairro africano e bebia pastis como um nativo. Julius passava boa parte
do dia na pensão onde alugaram um quarto, lendo livros e recuperando-se do seu mal-estar. Parecia
melhor, mas Orfeu notava alguma coisa nele, uma fímbria de desespero, uma tristeza persistente
que Julius se esforçava por disfarçar. O sexo entre os dois apagou-se um pouco, pois Julius era
esquivo, dormia cedo, alegava estar com febre ou com dor de cabeça. A euforia do começo se
diluíra. Orfeu atribuía isso à doença ainda não curada de Julius, mas não conseguia decifrar o seu
novo e misterioso estado de espírito. Julius tornara-se arredio e acabrunhado, e, às vezes, ao voltar
do porto no final de um dia de trabalho, um pouco bêbado de pastis e queimado de sol, Orfeu
encontrava Julius mergulhado em um torpor curioso, olhando o teto.
Um dia, estando no mercado dos argelinos, chamou a atenção de Orfeu uma plaqueta ordinária
de madeira na qual se lia, pintado à mão: Je lis le tarot. Tinha passado dezenas de vezes por aquela
mesma portinhola e jamais prestara atenção ao dizeres da placa, mas, naquele dia, Orfeu entrou e
pagou as dez liras da leitura.
Uma velha dama de cabelos tingidos de vermelho, que talvez tivesse vivido dias de beldade,
piscou-lhe um olho pintado de azul e com uma voz rouca de tabagista pediu-lhe que escolhesse
quatro cartas do bolo sobre a mesa. Orfeu obedeceu-a e viu-a colocar as cartas em cruz sobre o
tampo encerado. Com muito cuidado e atenção, a senhora virou as cartas uma a uma com as suas
mãos finas e rugosas, estalando a boca como um bichinho fazendo graça. Orfeu observou aquele
rosto fino e flácido, cujos olhos luziam como os de uma menina. Foram esses olhos vívidos que o
fitaram então, e pareciam estranhamente pesarosos. Para espanto de Orfeu, ela falou-lhe em perfeito
espanhol: “Elegistes El Ermitaño, niño...”
Dito isso, ficou um longo tempo quieta. Recolheu as outras três cartas, cuja ilustração Orfeu
não pôde reconhecer, e então, recostando-se na cadeira de couro gasto, pegou O Eremita com
ambas as mãos, como quem segura uma pedra preciosa, e afirmou: “A tua vida vai mudar.”
Parecia incomodada com o que via naquela carta. Balançando a cabeça, analisou Orfeu por
alguns instantes. Então, num gesto que o tomou de surpresa, procurou a sua mão e segurou-a como
uma boa avó.
“Menino bonito... Menino bonito... Fuerza, fuerza... Eu vejo o recolhimento no teu caminho.
Mira, eu vejo o celibato...”
Orfeu se assustou com aquilo. A pequena sala abafada parecia cheia de sortilégios. Entrara ali
num impulso, por brincadeira, mas agora sentia-se incomodado e com um pouco de medo.
Solitário no alto de um penhasco. Olhou a velha e o pesar em seu rosto era genuíno.
Orfeu remexeu-se na cadeira. Disse, sentindo-se meio tolo já antes de terminar a frase: “Meu
companheiro está doente... Pegou uma bactéria no Marrocos.”
A velha balançou a cabeça, aquiescendo como se já soubesse de tudo. Recolheu o arcano e,
dando por terminada a leitura, vaticinou: “Tome cuidado. Y no te culpes, no... Tu eres fuerte como un
toro, niño bonito.”
Orfeu voltou para a pensão bastante abalado. Embora soubesse que não devia dar qualquer
crédito às palavras loucas daquela velha, sentia um grilhão aferroando o seu peito e, quando entrou
no quarto que dividia com Julius, encontrou-o jogado sobre a cama. O ar do aposento estava
pesado e rescendia a ervas; sobre o criado-mudo, um bule de chá esfriava, intocado. Julius vestia o
seu velho robe de seda e olhava o teto do mesmo jeito que estava quando Orfeu o deixara, quase
oito horas antes.
Subia do andar térreo um cheiro de pão assado, e Orfeu descobriu que tinha fome. Abriu as
janelas para arejar o quarto, experimentando uma vaga vontade de voltar à rua e se perder por lá. A
velha e as suas visões, e agora Julius e a sua apatia... Orfeu sentia-se abatido e estranhamente
angustiado. Sentou-se na cama e esperou que Julius falasse alguma coisa. Julius demorou até dar-se
conta de que Orfeu tinha voltado para casa. Então, forçou-se a sorrir-lhe, mas quando fixou os seus
olhos no belo rosto do amigo, percebeu que ali também alguma coisa estava errada, terrivelmente
errada. Sempre tivera medo dessa hora e, embora estivesse equivocado no seu julgamento, a sua
angústia serviu para aproximá-lo de Orfeu.
“O que houve?”, perguntou Julius, subitamente desperto do seu transe, sentando-se na cama e
segurando uma das mãos de Orfeu entre as suas.
As últimas semanas de prostração e tristeza tinham-no afastado da vida ao ar livre, dos exercícios
e do sol. Julius estava agora mais parecido com o espécime urbano de outrora, o professor estudioso
e inseguro que fora dar em La Duiva em busca de uma jovem escritora inédita que vivia aos pés de
um farol. Quando Orfeu o olhou de frente, deu-se conta disso: Julius se assemelhava àquele outro,
era como se o tempo estivesse mordendo o próprio rabo. Mas a luz dourado-avermelhada que
entrava pela janela não era a mesma de La Duiva, não tinha a mesma inclinação nem o mesmo
brilho. Estavam na França, longe, muito longe, e alguma coisa no seu peito – ferido, preocupado –
dizia-lhe que nunca mais, nunca mais mesmo, ele haveria de ver a linda luz que La Duiva exibia em
novembro.
Julius repetiu a sua pergunta: tinha havido alguma coisa? E acrescentou, temeroso: “Você está
doente? Se sente mal, Orfeu?”
Orfeu negou, balançando a cabeça de cachos negros. Sentia-se perfeitamente bem. Cansado do
trabalho, precisando de um banho, mas perfeitamente bem.
“É que hoje no mercado eu consultei uma vidente”, ele sussurrou, quase envergonhado.
“Vidente?”
“Ela tirou o tarô para mim.”
Julius sorriu com tristeza. Pensou que antes havia a poesia, o mar e o vinho, e agora ambos
estavam fragilizados, ele com o seu Alcorão e Orfeu atrás de videntes fajutas do mercado africano.
Mas deu de ombros e respondeu: “Estamos em Marselha... Entendo...” Abaixou a cabeça e
perguntou então: “E o que ela viu, meu querido? Você não parece feliz. Não foi divertido?”
Orfeu suspirou.
“Ela não disse coisa com coisa... Mas não era nada bom. Vi pelos olhos dela. Eu pude sentir...”
Então Julius aproximou-se dele, aproximou-se até quase tomá-lo em seu colo, muito embora a
relação deles preconizasse o contrário. Não tinha planejado aquilo. Fazia dias, semanas, que
procurava uma maneira. Nunca tinha encontrado nada. Nem uma pista. Nem um caminho. Mas as
coisas aconteciam e eram como um barco seguindo os ventos propícios. Ele içou as velas e, sem
tristeza, sem rancor, mas com uma ponta de medo, de piedade pelos dois, disse: “É que estou
doente, muito doente, Orfeu...”
“Você pegou uma bactéria”, esclareceu o outro.
Julius negou: “Não é uma bactéria, Orfeu. É um vírus.”
Orfeu temia o fim daquele amor no qual apostara a vida. Mas um vírus não parecia assim tão
grave, e Julius era jovem. Ele deu de ombros e disse: “Isso se cura, Julius. Como uma gripe.”
“É um vírus perigoso.”
Julius não passara os últimos tempos apenas na cama. Ele tinha pesquisado, ido a bibliotecas –
ainda era um estudioso. Tinha lido os artigos de Robert Gallo na Science, e podia comparar os
sintomas e identificá-los com os seus próprios. Havia indícios também, e ele explicou-os a Orfeu
como pôde, de que a doença que ele tinha era contagiosa.
“Tenho medo por você, Orfeu...” Ele abaixou o rosto, envergonhado. “Sabe, não era isso que
eu queria pra nós...”
Orfeu estava confuso. Tinha ido longe, muito longe, mas a tragédia seguira com ele. Maldita
herança! Fugira num avião, crente de que a tragédia tinha medo das nuvens, que só navegava pelos
mares, como tinha feito com todos os seus ancestrais por centenas de anos a fio através dos oceanos.
Mas ali estavam eles dois. Embora o verão se insinuasse lá fora, e risos e gritos infantis subissem
alegremente da rua, a tragédia estava com eles ali naquela cama. Era uma terceira presença, a mais
poderosa de todas. Orfeu tinha muitas perguntas, mas não queria fazê-las. Achava que Julius se
recuperaria. Disse-lhe que iriam em busca de um bom médico. Talvez em Paris.
“Você tem dinheiro”, falou Orfeu. “Vamos pagar o melhor.”
Julius não ousou contestá-lo. Concordou que seguiriam para Paris, mas antes fez Orfeu
prometer-lhe que passariam alguns dias em Saint-Tropez.
“Seria uma pena desperdiçar o verão num hospital”, falou ele. “Vamos para Saint-Tropez. Lá eu
vou melhorar, tenho certeza. Depois procuramos um bom médico...”
Orfeu concordou de imediato. Estava um pouco assustado, porque sempre tivera medo de que a
tragédia o seguisse pelo mundo. Mas talvez esse medo não passasse de um exagero seu. Respirou
fundo e, esboçando um sorriso no rosto cansado e bonito, disse que faria o que Julius quisesse.
“Você é quem sabe, meu querido.” Esforçou-se então por parecer alegre com a ideia, sentado na
cama de molas, sentindo o cheiro do suor de Julius evolar-se dos lençóis como uma espécie de sinal
profético. Às vezes, quando se empenhava muito, Orfeu conseguia convencer-se de alguma coisa.
Fez isso, fechando os olhos com força por um longo momento, enquanto o outro permanecia
quieto e ansioso ao seu lado. Nas praias de Saint-Tropez eles seriam felizes, Julius melhoraria. E
depois, bem, sempre poderiam seguir para Paris.
Viajaram para Saint-Tropez em meados de junho sob o sol dourado do verão da Côte d’Azur.
Tinham dinheiro guardado e se deram ao luxo de alugar um pequeno estúdio na aldeia costeira de
Grimaud, a alguns quilômetros de Saint-Tropez, perto das montanhas Maures. Era um lugarzinho
pequeno e aconchegante, com vista para a baía e grandes janelas pelas quais lhes chegavam o vento
perfumado de flores e o canto dos pássaros, das cigarras e dos grilos. Faziam longas caminhadas
pelas sinuosas trilhas que subiam a colina, colhiam braçadas de lavandas, passavam longas e douradas
tardes à beira-mar.
Julius recuperou o bom humor e o bronzeado e, embora andasse ainda um pouco fraco e tivesse
uma tendência a desarranjos intestinais, eles tiveram grandes momentos por lá. O amor voltou, e
com ele as bebedeiras, as risadas, a esperança infantil e inconsequente na eternidade daquela boa
vida. Orfeu achou que Julius estava se curando, mas eles não falavam muito sobre a doença. Viviam
cada dia de uma vez, e Julius cumulou Orfeu de pequenos carinhos, preparando-lhe lautos cafés na
cama e pequenas surpresas cotidianas. Deu-lhe uma bicicleta, e Orfeu às vezes saía em excursão pelas
redondezas, testando o seu francês e o seu fôlego. Julius ficava acenando da varanda, alegando que a
sua leitura estava atrasadíssima. Orfeu voltava ao anoitecer junto com as cigarras que cantavam em
coro, e então encontrava Julius acabrunhado num canto da varanda tomada pelo perfume das
flores, os olhos pisados, o livro largado num canto qualquer, esquecido como um fantasma mal-
amado. Mas bastava Orfeu aparecer que Julius tratava de reanimar-se, era como uma lâmpada que
se acendia de repente. Eles bebiam vinho gelado e comiam do maravilhoso pão da região, depois
saíam a caminhar pelas trilhas olorosas sob a luz branca da lua. Aos sábados, iam à Place des Lices e
faziam compras no mercado. Julius mostrava o seu francês impecável, para orgulho de Orfeu, e eles
voltavam para casa carregados de sacolas de queijo chèvre, pães e flores, alegres como dois meninos
que cabulam aula.
Esse idílio durou pouco mais de um mês. Certa tarde, no princípio de agosto, Julius disse que
iria até a cidade para comprar provisões, e Orfeu decidiu-se por fazer um dos seus passeios de
bicicleta pela região. Era um dia pálido de verão, um pouco pesado, com nuvens finas e estriadas
cobrindo o céu e apagando o sol. O mar estava quieto e acinzentado, e um cheiro de chuva exalava
das plantas como uma espécie de aviso. Orfeu levou uma capa plástica e uma sacola com água e
comida, Julius colocou o seu chapéu de palha, vestiu uma camisa limpa e os dois se despediram na
encruzilhada, tomando rumos opostos e combinando um jantarzinho especial para a noite.
Orfeu passou a tarde inteira embrenhado pelos caminhos de um vinhedo, conversando com o
pessoal da região e provando as uvas maduras que pendiam dos parreirais feito gotas olorosas. Estava
muito queimado de sol, os cabelos mais compridos. A sua beleza chamava a atenção das pessoas, e a
sua simpatia também. Na feira, uma jovem de nome Dominique presenteou-o com uma grossa
fatia de melon de Cavaillon, e Orfeu deliciou-se com a fruta enquanto se esquivava das frívolas
investidas românticas da vendeira. Comprou um pedaço de queijo e geleia de amoras numa vivenda
à beira do caminho, parou numa lojinha de suvenires e adquiriu uma pequena cigarra de madeira
que emitia um som igualzinho ao das famosas cigarras da região. Nunca voltava para casa sem um
agrado para Julius, e seus pequenos e curiosos presentes – uma edição de bolso de Liturgies intimes,
de Verlaine, um par de corujinhas de porcelana, um lenço Hermés de segunda mão, um minúsculo
canivete de prata Opinel – enchiam uma gaveta do criado-mudo ao lado da cama.
Voltou para casa ao anoitecer, cansado e feliz, esperando encontrar Julius na cozinha, atarefado
com um pedaço de cordeiro ou um peixe ao azeite, ouvindo Aznavour a todo o volume como ele
gostava de fazer nos seus bons momentos. Mas ao descer o caminho montado sobre a bicicleta,
enquanto os pneus cantavam no cascalho, respirando o ar doce e impregnado pela maresia e pela
chuva que ainda não caíra, Orfeu notou com estranheza que o estúdio estava às escuras, silencioso
como uma criança dormindo. Guardou a bicicleta no lugar de sempre e subiu a pequena escada
externa que levava à varanda e à sala, pisando entre os vasos de lavanda com uma angústia
totalmente nova latejando dentro do peito.
Abriu a porta com a própria chave e não encontrou nem sinal de Julius por ali. Teria ele se
atrasado tanto na cidade? Talvez tivesse tomado um táxi até Saint-Tropez, encontrado algum amigo
por lá e perdido a hora num café. Então Orfeu achou a casinha melancólica e triste pela primeira
vez e acendeu algumas velas para dar um clima mais feliz ao lugar. Tomaria um banho e esperaria
por Julius – não era muito bom com as panelas mas talvez arriscasse uma massa com tomates e
manjericão, a única receita que lograra aprender em todo aquele tempo de convivência marital.
Deixou as suas coisas sobre a mesa da cozinha, serviu-se de uma taça de vinho branco e foi para o
banheiro preparar o seu banho. Não tinham chuveiro, mas uma belíssima banheira de porcelana
verde-topázio tão pequena que precisavam banhar-se de joelhos. Orfeu ligou as torneiras e,
enquanto a banheira enchia ao ritmo cantante da água que jorrava, foi até o quarto em busca de
roupas limpas.
A carta estava sobre a cama. Ao ver o seu nome desenhado pela mão de Julius no envelope,
Orfeu sentiu as pernas frouxas e deixou-se cair de joelhos no chão do quarto. Desde sempre
soubera. Mas uma parte dele, uma parte brejeira e pícara como o duende Puck, jogava-o de
encontro às escarpas da vida, e ele queria muito subir até o topo e provar do ar rarefeito e azul.
Orfeu respirou fundo e abriu o envelope. Não era exatamente uma carta, era mais um bilhete.
Sob a luz do castiçal, leu as poucas linhas que Julius lhe tinha escrito. Diziam que tudo era difícil,
que doía tanto ir quanto ficar, mas que ele não queria mais fenecer a olhos vistos, como uma flor
que murcha. “Não vou morrer ao seu lado, e sei que vou morrer”, dizia. “Vai ser melhor pra nós
dois, porque pode ser contagioso.”
Não havia muito mais do que isso. Julius deixara claro que Orfeu tinha sido o grande amor da
sua vida, e que tudo tinha valido a pena, mas uma parte do bilhete fora riscada quase com fúria, e
Orfeu não podia decifrar o que estava embaixo do enorme borrão de caneta. Julius tinha partido
para sempre. Ele segurou a carta e levou-a ao rosto com carinho, e, ao fazer isso, viu sob uma dobra
da coberta da cama um outro envelope com o seu nome. Dentro havia três mil dólares em dinheiro
e nada mais.
Orfeu começou a chorar, sentado no quarto cheirando a lavanda e maresia, sob a luz das velas.
E chorou e chorou e chorou. No banheiro, as torneiras abertas foram esquecidas e seguiram
jorrando água morna até que a banheira verde transbordou e a água do banho de Orfeu misturou-se
às suas lágrimas, formando uma coisa só enquanto a noite caía lá fora, e a chuva cuspia os seus
primeiros e gordos pingos sobre a encosta das montanhas Maures.

***

Depois que Julius partiu, Orfeu decidiu deixar Grimaud e embrenhar-se pela Europa novamente.
Ainda passou alguns dias no estúdio, mas a solidão era insuportável e a visão do mar azul e
majestoso parecia-lhe quase ofensiva diante da sua tristeza tão profunda. Foi até a imobiliária para
pagar o aluguel e entregar as chaves do lugar, e lá descobriu que Julius tinha deixado tudo acertado.
“Você pode ficar no imóvel até o final de setembro”, disse um solícito funcionário. “O sr. Julius
pagou por todo o verão e um gostinho de outono, como ele falou.”
Orfeu respirou fundo e recostou-se na cadeira. Precisava entender melhor as coisas. Julius
pensara em tudo – a partida não fora um impulso, mas um plano. Orfeu, emocionado e revoltado
ao mesmo tempo com a fria e meticulosa organização de Julius, sentia vontade de chorar na frente
do senhor calvo e bondoso que o olhava com um certo ar de incompreensão. Mas não, ficar ali era
duro demais. Ele não se submeteria aos desejos de Julius. Então devolveu a chave ao homem da
imobiliária e disse: “Vamos, convide alguém por minha conta. É um belo lugar... E o locatário não
precisa nem saber.”
Depois partiu cabisbaixo sob o sol quente do começo da tarde, cruzou com um grupo de
turistas que seguia pela rua aos risos, batendo fotografias, e embrenhou-se numa viela secundária,
onde vendeu a sua bicicleta e outros pertences que não poderia levar consigo. Partiu no dia seguinte
para o interior da França, em direção às antigas cidades muradas, ao passado de pedra, buscando
fantasmas de um outro tempo tão infelizes e esquecidos quanto ele.
Conforme os sonhos que tive e o mapa que tracei, posso assegurar que, depois da França, Orfeu
seguiu para a Itália. No começo, viajou em vários ônibus de linha. Depois atravessou o
Mediterrâneo em um barco, mas então a imensidão do mar que sempre lhe fora tão benéfica
acabou por causar-lhe uma estranha crise de nervos, e Orfeu chorou no convés em meio aos turistas
extasiados pela beleza. Quando a alma de alguém seca e fenece, nada mais, nem a maior das
maravilhas, tem o poder de lhe insuflar vida outra vez. Orfeu sentia-se meio morto, a sua tristeza era
um luto. Sobreveio-lhe um mal-estar constante, e ele criou certa aversão às multidões.
Chegou à Sicília, mas logo deixou a costa. Afastou-se caminhando dia e noite: tinha virado um
andarilho, e a sua simpatia foi secando como uma árvore cortada. Agora os outros lhe causavam
medo – confiara cegamente em Julius e ele lhe deixara sem um adeus. Sobre a doença, não pensava
muito. Na verdade, Orfeu pensava muito pouco em todo o resto do seu passado. Apesar da mágoa e
da extrema solidão que sentia, não cogitava voltar a La Duiva, isso parecia-lhe simplesmente uma
coisa proibida. Apenas seguia em frente. Levava numa bolsa os seus pertences indispensáveis e um
saco com o dinheiro, ainda quase intocado, que Julius lhe deixara – levava, também, a carta de
despedida que nunca teve coragem de reler.
Logo na chegada à Sicília, em Pozzallo, surgiu-lhe uma ferida no rosto, uma ferida vermelha e
tão triste, abrindo-se como uma minúscula flor sobre o lábio e abaixo do nariz, que se parecia com
o seu próprio coração machucado. E então Orfeu soube que Julius partira em vão, porque
acabariam por morrer ambos, separados, quando poderiam seguir juntos até o final.
Agora ficava apenas alguns dias em cada lugar, fazendo pequenos serviços, e era como se fugisse
de si mesmo. Colhia olivas e flores e fotografava turistas, mas a maior parte do tempo seguia
vagando de cidade em cidade, estudando a sua história e as guerras e as ocupações, perscrutando as
suas ruínas e os seus templos, saboreando os vestígios do passado como forma de escapar do
presente.
Eu já farejava os seus passos então – como Orfeu, eu me lançara ao mundo, vivendo de ler
futuros e de fazer pequenas previsões aqui e ali, seguindo os meus sonhos como se eles fossem sinais
de fumaça.
Não o encontrei em Ragusa. Quase nos cruzamos, mas, na noite anterior à minha chegada,
Orfeu tomara a estrada outra vez. Tinha um medo horrível de criar raízes ou de fazer um amigo,
pois a solidão lhe parecia o único consolo possível.
A febre acometeu-o em Santa Croce Camerina, e ele prostrou-se numa cama por três dias
seguidos, suando em bicas e provando de alucinações, apenas tomando o caldo que a dona da
pensão lhe levava duas vezes ao dia. Logo correu pelo bairro a história do ragazzo que estava
morrendo. Um estrangeiro do outro lado do mar. Em Ragusa, sonhei com ele sobre essa cama
estreita à luz de uma vela, magro e com manchas arroxeadas sob os olhos, tão sozinho como uma
criança perdida em meio a um temporal. Juntei as peças do meu sonho, as ruínas, as escavações
arqueológicas – Camerina, Calcana – e então rumei para lá.
Mas, outra vez (eu estava havia meses perseguindo as pegadas daqueles dois – Palamós,
Casablanca, El Jadida, Marselha...), não encontrei o meu irmão. Ele não queria a piedade alheia:
quando a dona da pensão entrou no quarto dele com um médico pelo braço, Orfeu deu um pulo
da cama, subitamente recuperado, e pagou a hospedagem e a consulta sem regatear, mas sem deixar
que o doutor sequer lhe medisse a febre ou contasse os seus batimentos cardíacos. Então fez a mala e
embrenhou-se na estrada ao cair da mesma tarde.
Embora estivesse febril, Orfeu era um homem forte. Andou os quarenta quilômetros até
Chiaramonte Gulfi. Gastou quatro dias nessa jornada, parando em pequenas estalagens ou pedindo
acolhida nas casas da região. Sempre pagava pela comida e pelo teto que recebia, fosse qual fosse, e
às vezes se emanava dele um resto da sua antiga simpatia e joie de vivre, quando se emocionava com
a hospitalidade de algumas pessoas humildes. Essa jornada recuperou-o um pouco, e ele chegou a
Chiaramonte livre da febre, embora magro e com estranhas manchas vermelhas pelo corpo. Era a
doença, a mesma de Julius.
Esse último laço entre os dois parecia-lhe quase risível: separados, distantes, solitários, cada um
deles vagava pelo mundo a seu modo, rumo à morte. Ah, Orfeu sempre fora romântico, sempre
fora fatalista e dramático, mas perambular pelos sítios arqueológicos que visitava, as pequenas
cidades muradas, imunes ao tempo, às guerras, aos terremotos e pestes, tudo isso deixava nele um
curioso verniz de eternidade. Era como se ele estivesse numa queda de braço com a morte.
Vira pequenas cidades que tinham sobrevivido aos gregos, aos romanos, aos bizantinos, aos
cartagineses, à Idade Média, aos séculos sem fim, e ainda estavam vivas, pulsantes entre as suas
pedras eternas, recebendo-o como velhas amigas cheias de rememorações e histórias secretas. Orfeu
desejava seguir caminho idêntico: morrendo, ainda haveria de viver, e andava de cidade em cidade,
correndo os seus magros dedos pelas superfícies das pedras milenares, provando do pó espectral das
ruínas gregas, saboreando o silêncio infinito das escavações de Kaucana, das ruínas de Kamarina,
porque acreditava que encontraria uma pista, um alento. Orfeu não queria morrer. Queria seguir
adiante pelo tempo, para além de La Duiva, da sua própria doença e do seu amor por Julius.
Encontrei-o sob o Arco dell’Annunziata no começo de outubro. Um sino soava na manhã,
distante e vago como uma lembrança, e a luz amarelada de um sol fraco derramava-se sobre o lugar
com uma clareza que dava a tudo um ar de cena, de palco. Ventava bastante, um vento frio que
trazia o inverno na sua cauda. Orfeu estava parado sob o arco folheando um livro fino. Usava um
casaco velho mas impecavelmente limpo, calças largas demais e presas por uma espécie de corda de
pano, e sapatos de lona. Os belos cabelos de outrora, crespos e cheios como cachos de uva, haviam
sido cortados, e a linha onde nasciam subira mais para o topo da cabeça, aumentando-lhe a testa
aristocrática. Estava muito magro, e os ossos do seu rosto pareciam querer romper a pele fina e
bronzeada, o nariz outrora pequeno estava maior, e a boca que não sabia mais sorrir era dura, uma
linha fina cortando o seu rosto emaciado. Mas era Orfeu (tão diferente e tão igual!). Reconheci os
seus olhos, aquelas duas fogueiras.
Depois de tantos meses – linhas da vida, sortilégios, trens lotados, pratos de sopa, hospedarias
úmidas e sonhos intrincados –, encontrá-lo foi como correr para a chuva numa tarde de verão: eu
queria jogar-me nos seus braços, queria socorrê-lo e ser para ele o irmão mais velho uma única vez,
queria inverter o tempo, calar as tristezas todas, aconchegá-lo como a um bebê. Mas éramos já dois
homens adultos, e Orfeu, ao ver-me (ele também me reconheceu imediatamente, apesar dos anos de
silêncio e da distância), deixou claro num único olhar que nós dois estávamos em lados opostos da
mesma ponte. Ele já a atravessara, estava por terminar o percurso, e não queria intercorrências. Não
queria interrupções, nem ajuda de qualquer espécie.
“Orfeu!”, gritei, minha voz dançando na manhã fria.
Ele retesou-se. Dobrou seu pequeno livro, enfiou-o em algum bolso do casaco e então me fitou.
Seus olhos brilharam por um momento, mas ele demonstrou apreensão. Não se moveu de sua
posição, como se o arco dell’Annunziata pudesse socorrê-lo de alguma forma. Orfeu estava com o
tempo, eu era uma visita passageira, pedra e ar.
Caminhei até que quase pude tocá-lo, mas ele não quis me abraçar. Vi a ferida sobre o lábio, a
crosta que secava e depois tornava a abrir e a sangrar, vi a pele amarelo-dourada, fina, esticada sobre
os ossos, tudo igual ao meu sonho: as olheiras, o sorriso duro, um meio sorriso.
“Você me achou”, disse ele. “Deve ter sido difícil, Tiberius... Mesmo para você. Eu já andei
tanto que nem saberia voltar sobre os meus passos.”
Eu fiz um gesto vago, tínhamos andado muito. Minhas roupas estavam gastas e meu cabelo,
comprido.
“Estamos ambos mudados”, falei sorrindo.
“De minha parte, você não sabe quanto”, respondeu Orfeu, levando instintivamente a mão ao
rosto. “Vi muitos lugares... E coisas aconteceram comigo.”
Não perguntou de ninguém. O vento aumentava ao redor de nós. Orfeu farejou o ar.
“O inverno vem chegando... Vai ser o meu primeiro inverno em anos. Vou ficar aqui em
Chiaramonte e esperar as longas noites...”
Eu sentia frio. Tinha encontrado um quarto barato num hotelzinho, e deixara a minha
bagagem por lá. Orfeu puxou a gola do casaco, encolhendo-se, acomodando-se.
“Sentir frio é estranho... Depois de tanto tempo. Nos últimos meses, eu...”, ele titubeou, “nós
seguimos por um eterno verão”.
Orfeu abaixou a cabeça por um instante. Quando voltou a me olhar, eu perguntei: “E Julius?”
Os belos olhos de Orfeu, ainda mais intensos por causa da magreza, se derramaram em mim.
“Julius foi embora. Para o outro lado... Ele morreu, Tiberius.”
Senti um frio correr pela minha espinha ao ouvir a sentença de Orfeu. Ele parecia tão solitário e
descolado da vida, parado ali sob o arco com as suas roupas surradas e a sua pose de pirata cansado...
Ah, o nosso fauno, o nosso ator, o nosso amante, por que noites ele passara, por quão profunda
escuridão tinha vagado sozinho, qual seria o seu pior medo, a sua alegria mais pungente, o que os
seus olhos negros teriam realmente visto? Orfeu estava muito mudado, mas eu ainda podia vê-lo
correndo pela praia em La Duiva, o apito de um barco no atracadouro chamando-o como o sol
convoca os pássaros para a manhã. Ele era ágil, formoso como um deus grego que tivesse baixado
dos céus para viver conosco, mas toda a sua bela imortalidade agora parecia perdida: senti que Orfeu
tremia de leve, de frio ou de tristeza. Toquei-o e ele afastou-se de mim. Sem mágoas, apenas
instintivamente.
“Por favor, não me toque”, pediu num fio de voz. “Não me traga de volta, Tiberius... Eu não
suportaria. Foi uma longa viagem até aqui. Volte para La Duiva e viva a sua própria vida.”
“A mamãe... Eu vim por ela. Você partiu sem dizer adeus, Orfeu.”
“Pobre mamãe”, falou ele. “Esse Orfeu que ela quer já não existe mais, ele nunca voltará. Ou
você acha que ela espera a mim?” Ele fez um gesto mostrando a própria figura, os cabelos cortados,
a magreza, as manchas vermelhas que lhe subiam pelo pescoço. “Você acha? Deixe que ela fique
com aquele outro, com as suas memórias... As boas memórias.”
“Volte comigo”, pedi. “Nós o ajudaremos, Orfeu.”
Ele deu de ombros.
“Meu irmão, meu bom irmão, vá embora e trate de cuidar da sua vida. Das estrelas... Você faz
bem em gostar das estrelas. Eu vou morrer em breve, e vou morrer aqui.” Ele suspirou, como se
estivesse subitamente muito cansado, e então repetiu: “Aqui, Tiberius... Em Chiaramonte Gulfi.
Você conhece a história deste lugar? Os gregos viveram neste mesmo chão, em seguida os romanos
conquistaram a cidade, e após eles, os bizantinos. Chiaramonte foi destruída pelos cartagineses, e
depois tornou a ser erguida pelos romanos. Em 1693, um terremoto acabou com tudo. Mas a
cidade tornou a reconstruir-se. É praticamente imortal...” Ele me olhou, sorrindo: “Você entende?
Quero ficar sob este chão e viver com ele, para sempre. Quanto a você, volte para La Duiva. E
cuide da mamãe. Sem mágoas, mas você sempre foi o preferido dela, as coisas são como têm de
ser...”
“Orfeu...”, falei, estendendo a mão.
Ele tocou-me de leve, apertando os meus dedos entre os seus. Era uma despedida, eu sabia. Eu
sempre soubera, por causa dos sonhos. Mas eu tinha ido, desfiando cidades até ali, até aquela manhã
fria e pálida com as suas pedras imortais, como ele dizia. Assim nos despedimos.
“A Sicília é um belo lugar”, disse Orfeu. “Não perca a sua viagem, irmão. Divirta-se um pouco e
dê um beijo na mamãe quando chegar em casa... em La Duiva.”
Ele virou-se de costas e começou a caminhar. Vi que mancava de uma perna, mas mesmo o seu
claudicar era elegante ao seu próprio modo. Assim Orfeu seguiu pelo caminho até desaparecer
numa esquina sob o fraco sol da manhã, como uma dessas figuras de sonho, cuja imagem ainda está
em nós quando acordamos, descolorindo-se com o passar dos dias até virar apenas um sopro ou um
pressentimento, pura vagueza para a qual não existem palavras.
Voltei à hospedaria depois do almoço. A minha peregrinação estava terminando. Era estranho,
e eu me sentia abatido e triste. Lá fora, a luz dourada tinha dado lugar a nuvens escuras de chuva, e
vozes vinham dos vestíbulos, subindo pelo poço de luz até o meu quarto acanhado. Guardei os
meus poucos pertences na mochila, decidido a seguir viagem através da Itália até a Espanha, a terra
dos nossos ancestrais, os marinheiros corajosos que tinham começado tudo aquilo. De lá, eu voltaria
para casa. Eu não podia, não queria pernoitar em Chiaramonte Gulfi – seria como trair Orfeu.
Havia o mundo inteiro e ele tinha pedido apenas aquele refúgio para si, aquelas pedras e ruas e
praças e olivais. A cidade toda parecia-me agora um belo e gigantesco túmulo, a morte subia do piso
frio como se quisesse me segurar pelos pés.
Eu calçava as botas de viagem quando bateram à porta. Era a mocinha da recepção, que
segurava uma carta.
“Scusi... Per lei”, disse ela.
Depositei uma moeda na sua mão rosada e fechei a porta depois que ela sumiu pelo corredor
penumbroso.
Eu sabia, durante todo o tempo eu soubera. Ele nunca fora de se abrir com os outros assim,
diretamente. O envelope branco e robusto tinha a letra de Orfeu. A letra era ainda a mesma que eu
conhecia, e senti os meus olhos arderem por causa das lágrimas que me vieram.
Fiquei algum tempo acariciando as folhas, depois guardei-as outra vez no envelope, como quem
devolve uma pérola à sua concha. A tarde caía lá fora sob a garoa que molhava as ruas de pedra
quando eu paguei a hospedagem e deixei a pensão. “A Sicília é um belo lugar”, ele me tinha dito.
Tomei uma condução até o litoral e lá fiquei por alguns dias, até que a minha alma serenasse
completamente. Trazia a carta de Orfeu junto de mim, mas só tive coragem de lê-la muito mais
tarde, no barco que tomei em Messina, navegando pelo estreito até o continente.
PARTE TRÊS
"T enteDesde
se colocar no meu lugar, Tiberius...
o começo, tente.
A sua primeira recordação é um facho de luz entre duas nuvens lá em cima. O céu azul. O
oceano. Sal. Resplendor. Cavalos de água corcoveando nas pedras do molhe. O calor dos braços da
mãe. A voz do pai ecoando pela sala à noite. Rostos iluminados pelo fogo. Ele conta histórias. Ele
quer insuflar em você a chama. O sopro. Poseidon cheio de vontades. Era uma vez há muito tempo
uma ilha e o seu nome era Faros, lá construíram o primeiro farol, o Farol de Alexandria, uma das sete
maravilhas do mundo. Você ouve tudo e sonha. Cabeça de menino nunca tem dono. Pode ver a
paixão do pai, mas não pode senti-la.
Você sobe no farol. Deve ter ido lá muitas vezes. Mas essa é a sua primeira lembrança. Degraus
de pedra. Paredes úmidas. O roçar dos pés. Respirando fundo para chegar ao topo. É bonito lá em
cima. A sala sem ângulos. Água, água, água. Você tem vertigens. Coisas aladas passam diante dos
seus olhos. Fiapos de nuvens no céu ganham vida. A mãe se preocupa, beijos, não chore. O pai se
enfurece. Deixe o menino, Cecília. Ele precisa aprender. Este é o lugar dele. Decepção nos olhos verdes
do pai, olhos de fundo do mar. Os deuses riram lá em cima. As histórias ao pé do fogo viram
espuma e se desfazem. Os mortais e as suas tolas expectativas.
Você finalmente desce do farol, deixando para trás o pai e o irmão. A mão da sua mãe é morna
e firme, esteio. O seu lugar é a praia lá embaixo. Na areia. Olhando o mar cara a cara. Como num
jogo, o mar chama você. Você mergulha nas ondas e medusas se enroscam nos seus cabelos. A mãe
na beira da praia, só mirando, sorrindo. Hoje você se pergunta: desde quando ela sabia?
O sexo oposto era divertido. As irmãs, a maciez, a alvura escondida. A mãe era misteriosa e doce
como um cacho de uvas, mais calava do que dizia. A mãe se revelando aos poucos. Instigante. As
camisolas de renda faziam cócegas na sua barriga. Você gostava de ouvir os risos, olhar as mãos
estendendo a roupa branca no varal. Cabelos de seda, brilhantes como pérolas, caindo sobre um
rosto à meia-luz. Você sempre entendeu a beleza. A mãe lia Neruda. Talvez ser poeta. Uma noite,
você diz: Quero ser poeta. O pai ri. Os homens da nossa família sempre tiveram o vento nos cabelos,
Orfeu. Você quer o vento. Você ama o vento. O pai não entende. Fala alto, diz de barcos,
correntes, rotas comerciais. Você foge para o seu quarto. Rodeado de monstros, você dorme.
Você sonha. Anjos revoltados gemem na noite lá fora. Você no meio da sua herança, todo
aquele sangue, o passado, os erros antigos e os feitos empoeirados. O pai másculo, ganhando
dinheiro, dorme com as botas ao lado da cama. Aqueles homens todos, velhos e novos. Cheiro de
tabaco e de maresia. As tempestades. Capas de lona amarela. O pai enorme, corajoso. Atravessava a
noite e os ventos. Poseidon. Mar adentro, o pai. Ele salvava. Cargas. Coisas preciosas. Gentes.
Aquelas caixas que depois os homens de chapéu vinham buscar, preenchendo formulários. A moça
chorando na praia. Um morto ou outro de vez em quando. Terríveis invernos. Os verões dourados.
Sua infância se perde nos sonhos. Poseidon reinando na sua sala sem ângulos sobre o oceano
tormentoso. Você observa de longe. Nunca, nunca de perto. Passa a ser uma sombra na vida do pai.
Você e o seu caderno. Palavras e traços. Lucas nunca desenhou nada, diz o pai, orgulhoso. Lucas, o
primogênito, é parecido com o pai. As gêmeas crescendo. Nasce outro irmão. Tão loiro... O pai
finalmente esquece os seus planos em relação a você. Dois filhos homens, uma boa conta. Você
livre de repente. Pescando poemas no mar, lambendo o vento. Seus dedos voam no papel.
Desenhar é um jeito de pensar. A essa altura você já se entende. Intuição. Alguma coisa selvagem
nasce nos seus gestos, os hormônios sopram os seus desígnios. Sangue e músculos. Você não é igual
a elas, nem a eles. O medo às vezes vem sentar ao seu lado na praia, mas você aguenta. Alguma
coisa. Algum aviso. Um deus. Você pressente, quando disser o sim, o Universo há de ser todo
ouvidos. Coragem. Mas ninguém nunca lhe pergunta. Nunca.
Ah, a praia eterna, as mãos do tempo tocando a sua fronte. O mar é um convite. Silêncio cheio
de palavras. Você prefere Lorca a Neruda. Você lê Rilke antes de dormir. Roupas antigas já não
servem mais, você cresceu. Pelos nas pernas. Músculos. Hormônios. A mãe diz que você é bonito,
na aldeia algumas meninas lhe sorriem. Mas você está lá, alto e solitário como uma cordilheira, e
espera. Cabelos negros no espelho da sala. Cacheados. Ao menor motivo, a praia. Tardes inteiras,
você espera. O mar é o seu confidente. Os livros. O amor lhe soa como a maior das aventuras, mas
qual barco o levará ao mar aberto?
Tente se colocar no meu lugar, Tiberius... Você sempre soube ver o que ninguém via. Seja eu
apenas agora, enquanto lê estas linhas. Sinta os meus pés pisando a areia molhada. Eu crescendo
inteiro e enlouquecidamente. O fogo que me queimava, sinta-o na sua carne. Feche os olhos e vá
por esta praia. Você andando até os molhes, as gaivotas gritando no céu. O mar nos seus pés,
lambendo feito um cão. Os deuses soprando uma adivinha nos seus ouvidos.
Você lá, e todos eles, sempre. Homens, homens, homens. Marinheiros. Seus olhos se
arregalavam para eles. O cheiro de maresia, a pele queimada de sol. Riam alto. Coisas libidinosas
passavam por aqueles olhos. Você vendo tudo, sempre. Sentindo. Poseidon nem desconfia.
Os marinheiros vêm e vão nos seus barcos. O mundo parece se sustentar nestes ombros. Um
deles uma vez fica olhando você e diz: Posso lhe ensinar umas coisinhas. Você tem dezesseis anos e
muita coragem. Você vai. Você aprende. O coração aos pulos, você se desnuda. Areia, vento, sol,
saliva. E dói, e é bom. Você lá em cima sem precisar subir os trezentos e sessenta e cinco degraus de
pedra. Alto, alto. Nas nuvens como uma gaivota. Seu próprio farol.
Você volta para casa pela porta dos fundos. É mais do que a areia nas suas costas, são os seus
olhos que ardem. A mãe estranha a sua pressa. Noites inteiras sem dormir. Pecado. Inferno.
Poseidon pairando sobre tudo e todos. O pai olha você como se soubesse, mas ele não sabe. Você
sofrendo e invocando os deuses: por quê, por quê? Você emagrece, fica doente. A mãe olhando com
aqueles olhos lindos. Não diz uma palavra. As mãos aplicam compressas para aliviar a febre. A mãe
vê a marca dos dentes nas suas costas, nem uma palavra. Silêncio. Orfeu precisa dormir, a mãe diz lá
na sala. Não o molestem. Você fecha os olhos e agradece, Obrigado,mãe.
Então um dia o medo passa. Transformação, autocompreensão, muitos são os nomes. Não é
mais febre, nem vergonha, nem fogo nas tripas. É vontade. Você sabe, você quer a praia, o mar, as
mãos rijas do trabalho duro, os dentes. Você à proa da sua vida outra vez. Se o pai sabe, há de matá-
lo. Poseidon é orgulhoso e vingativo – vagas, tormentas, raios. Mesmo assim, você experimenta.
Você tem o direito.
Eu me lembro disso como se fosse ontem, Tiberius...
O primeiro homem me pôs no inferno. O segundo me libertou. Descalcei os meus medos e fui
em frente. Eu tinha a ilusão de que era diferente. Longe do barro, eu era nuvem, água, vela.
Comecei a ler. Muitos livros. Shakespeare. Ó, Beleza! Onde está a tua verdade? Tardes na praia, o
sol. As cartas de Rilke. O vento nos cabelos, as vozes nos meus ouvidos. Os deuses falavam comigo.
Prometiam. Todo o passado, as histórias, Poseidon, o farol, eu podia tê-los sem compromisso. Eram
parte de mim, mas eu não era deles. Foi bom. Tudo de trágico, os antepassados – don Evandro,
Doña, os velhos fantasmas navegadores –, eu podia rir deles. Renegava. Uma porta se abriria para
mim, eu sabia. Velha história: desde o começo dos tempos houve alguém como eu. Sempre. Rebelde,
dizia o pai. Poeta, suspirava a mãe. Hoje eu sei. Ha ha. Inocência. Não passava disso. Transmutação?
Ha ha. Autonomia? Ha ha. Ao fugir da minha sina, da nossa sina, eu estava caminhando para ela
sem saber. Um grande funil, isso sim. Velha história, gasta nas fábulas. Muitos caminhos levam a
um mesmo destino. Ha ha.
Siga comigo, Tiberius. Você é eu, lembre-se. É preciso viver a coisa até a última célula. Respire
com os meus pulmões, prove o sal com a minha língua, Tiberius. Ajoelhe-se na areia e se entregue.
Você é feliz por um tempo. Aquela praia (vento + areia + azul + água + silêncio) é parte de você.
Marinheiros passam como passam as estações. Nunca o mesmo, nunca. Sentia saudade às vezes.
Mirava o mar, e ao mirá-lo parecia entender a verdade. Um agoiro. Ele vindo, vindo. Você
esperava esse dia. Destino, sopram os deuses nos seus ouvidos. E então você já é um homem, o
menino lá no fundo, rindo, rindo. Miragem. Você alto, grande. Filho de Poseidon. Mas, por
dentro, outra coisa. Órion cravado no céu. Um coração diferente. Pequeno, frágil. Você gosta.
Cala. Desenhos são palavras para quem sabe vê-los. Sempre a mãe a folhear os seus cadernos. Um
dia você diz, diz bem alto. Julieta lhe sorri. Nunca vai saber se ela entendeu ou não, nunca. Julieta,
sua confidente. Ela também não era como os outros.
O tempo passa. Brumas, ventos, estiagem. Um verão e outro e outro. Você caminha entre as
rochas, pela areia branca, como faz todos os dias. O sol lá em cima, no azul. Depois de tantas bocas,
você se cansou. Acredita nos deuses: alguém vindo, vindo. Você não sabe, mas ele estava no alto,
passou sobre a sua cabeça, pássaro, e depois caminhou, tomou aquele barco, enjoou com a maré. Ele
vindo. Você não sabe, você não leu. Mas Flora escreveu no seu livro. Estava tudo lá. Tudo. O
homem inglês. Óculos e camisa, uma pilha de cadernos. Desceu na praia, desajeitado. Vindo de
outro mundo. Você vê tudo do alto das pedras. Seu coração sente o baque. Como um tropeço. Não
pode ser, você pensa. Mas a verdade está lá, palpitando. Então você se levanta, limpa a areia das
pernas e segue lentamente para a casa. Se a sua vida vai começar de verdade, você precisa estar lá.
Você sabe disso, não sabe, Tiberius? Você sabia, antes mesmo do que eu. Estava escrito em
algum lugar, como escritas estão todas as coisas. Brincavam conosco, os deuses. Talvez Hermes
tenha soprado tudo nos ouvidos de Flora, e ela lá, copiando, copiando, sem saber que colocava o
destino nas folhas do seu caderno. Se eu tenho pena de Flora? Tenho, sim, pobre irmãzinha
querida. Não foi justo que tivéssemos que estar em lados opostos, mas eu queria muito viver, queria
mesmo. E quando Julius chegou, as coisas ficaram absolutamente claras para mim.
Mas não quero que você entenda, Tiberius. Quero que você sinta. O que eu buscava. O que eu
encontrei. O que eu deixei.
Seja eu pelo tempo destas páginas como um leitor imerso num bom romance. Seja eu,
exaltação, fulgor e medo. Entregue o seu coração a mim como se fôssemos uma coisa só, irmão.
Você em mim, na areia, seguindo de longe o desconhecido de blazer escuro.
Tão impróprio, meias e gola engomada... A maresia nos óculos, desafeito a andar na areia. Ele
tropeça a todo momento. Você vê o branco do riso de Tobias, o barqueiro. Pena e medo se
misturam em você, mas o outro segue sem o ver. Parece ridículo sob o sol de verão em La Duiva,
mas ainda assim... Difícil explicar. Uma luz dentro dos olhos. Um fulgor. Ele tropeça nas pedras,
mas você o vê doce, lânguido, frágil. Você quer estender o braço e ajudar. Não... Fica onde está.
Não sabe o nome, nada. Você vigia de longe. Subindo a encosta que conhece de cor.
E então a casa. Grande, branca. As janelas azuis. Flora lendo na varanda. Outro jeito de esperar,
você sabe. O recém-chegado abre a boca e fala. Eu procurava a srta. Flora Godoy... Você arfando.
Quer gritar: é um engano! Ele não sabe o que procura, não sabe. Não Flora! Mas você não diz
nada. Você lá entre as sarças. Do fundo do jardim, perto das pedras da encosta, você vê a sua irmã
estender a sua pequena mão. Tão branca. Branco no branco, eles se tocam. O recém-chegado sorri.
Você de longe. Escondido. Lágrimas nos olhos. Revolta.
Mas então o deus sopra no vento. Deixe. Deixe. Você respira fundo. Ar salgado nos pulmões.
Encontrará o que nunca ousou procurar. A voz do deus balança os galhos do pinheiral. Você ri. Pensa
em Shakespeare. Um fogo devora outro fogo. Romeu e Julieta, a maior das histórias de amor. Mas
Shakespeare também é um deus, e o seu peito se inunda de felicidade.
Então a coisa começa. Um jogo. Você tem certeza, você sente. Um dia depois do outro, vai
olhando de longe. Julius era o nome dele. Deitado na cama, à noite, você saboreia o nome. Doce
como um pêssego. Julius. Na casa, todos aceitam. Seu pai, sua mãe, bom dia, boa noite, coma
conosco, veja o farol. Até mesmo Lucas. Quer aprender a pescar? Julius faz carinho em Julieta, lê Rilke
para Flora, conta de Londres para Eva. Risinho bobo no rosto de Eva, como se ela intuísse alguma
coisa. A solidão é como uma chuva, ergue-se do mar ao encontro das noites. (Rilke.) A voz dele dizendo
o poeta entra pelos seus ouvidos como areia. Flora completamente apaixonada. Julius, ela diz com
ardor. Julius, você repete baixinho. Foi fácil prender Flora. Precisou de três dias apenas. Julius é
galante. Conhece livros e línguas. Usa meias de algodão egípcio. Tem mãos finas. Não consegue
olhar pra você. Você ri. Anda de pés descalços e sem camisa. Braços de carregar lenha. Pele salgada
de tardes na praia. Você no espelho, carne e brilho e os dentes brancos. Ele não consegue. É
educado, diz olá de olhos baixos. Se espanta quando vê os seus livros. Gosta de ler? Você cheio de
paciência, declama Shakespeare e Sophia de Mello. Os olhos de Julius se arregalam. Insondáveis.
Flora surge correndo, vamos passear no jardim? Você deixa que ele vá. Os deuses aconselham
paciência. Você respira fundo e vai para a praia.
Você naquela praia. Não há palavras para o amor. A tarde caindo, o mar arfando, aquela luz.
Suave é a brisa. O cheiro daquela praia ainda invade as suas narinas. Você é aquilo, todas aquelas
coisas – areia, água, sol e ar. Sereias cantando na linha d’água, você se consola nesse idílio. E os dias
passam... Julius descalça os sapatos, tira as meias. Pouco a pouco vai se transformando. Você vê. E
aqueles olhos azuis, que antes temiam, um dia pousam no seu rosto. Perguntam de peixes, poemas,
medusas, nevoeiros. Você diz em versos decassílabos do mar, dos deuses, do farol. Você faz soar a
lira das palavras. Mas não se tocam, nem mãos nem pernas, não ainda. E a sua voz amansa a fera do
medo no coração de Julius. Caminham juntos à beira-mar. Falam de livros, de deuses gregos. Os
deuses moram aqui, você diz. Julius acredita. Essa praia poderia ser grega. Aqui passou Eurídice e aqui
Teseu matou o Minotauro. Todos os lugares amados são um só. Estranha lucidez. Vocês entram no
mar e nadam até o fundo. Na varanda, Flora espera.
As coisas começam a mudar porque assim é a vida. Todos os rios convergem para o mar.
Queimam as horas no ardor dos seus olhos. Fogueira. Impetuosidade. Versos na noite. E vinho.
Das árvores, sopra a música divina. O verão no seu auge. Ouro e rubi. Morre Julieta. Triste tarde.
Você chora sozinho nas pedras. Doña levou a menina. Maldito fantasma. Cecília deitada na cama,
batatas frias nos olhos. Enxaqueca terrível. A dor tem que sair por algum lugar, diz Poseidon. Todos
sussurram, a tristeza é em silêncio. Julius sai da casa e vai para a praia. Você o vê chegando. Vê seus
olhos. Ante seus pés se deitam mansas feras, diz o deus. Você não chora mais.
Julieta se foi, mas Julius chegou de verdade. Insondável viagem. Agora descalço, agora sem
camisa. Aprende de velas e bujarronas. Aprende de marés e de estrelas. Quer ficar, quer ser igual.
Londres era triste, ele diz. Poseidon se enche de orgulho. Flora suspirando pelos cantos da casa. Eva
aprova o torso bronzeado de Julius, as novas palavras, o riso. Eva tramando coisas, você pensa:
Lilith. Como um passarinho, Julius agora come na sua mão. Migalhas, lhe diz Flora uma tarde. Ele
era meu. Ninguém é de ninguém, você responde. Adorava aquela menina linda. A vida é injusta. Os
animais sobrevivem, os homens querem amar. Destino insondável.
Flora se tranca no quarto, Cecília se tranca no quarto. Julius está na praia chamando pelo seu
nome. Conchas, estrelas do mar, algas. Pequenos tesouros. Os dois luminosos ao entardecer.
Caminham. Você esperou, esperou. Não espera mais.
É de noite e faz calor. A tempestade se esconde nas folhas dos pinheiros. Vem do mar um
sussurro, você sabe. Poseidon na varanda, grande e prateado. Mamãe fez vinho com frutas, mamãe
quer viver de novo. Depois de Julieta, quem vai embora é Lilia. Danitrid, interior, longe do mar.
Casa dos pais. Impossível ficar aqui depois da menina morta. Gostamos de Lilia, é duro dizer adeus.
Façamos um sarau, diz alguém. Os livros surgem. Poseidon canta. Até Eva faz a sua imitação,
Shirley Temple. Agora é você. Olhos azuis nos seus. Penumbra fina pontilhada de estrelas. Mintaka,
Alnilan e Alnitaka. Tudo brilha. Por ti deixei meu reino meu segredo/ Minha rápida noite meu
silêncio. Julius respira fundo, você ouve o seu arfar. E aprendi a viver em pleno vento. Você faz uma
mesura, todos aplaudem. Mamãe serve o vinho com frutas. Julius bebe com gosto. Você sorrindo.
Os olhos de Flora são duas nuvens de chuva. Você evita olhar pra ela, o que importa é Julius. Um
céu azul naquele rosto. Farol em meio ao nevoeiro. Você não estende os braços, não ainda.
Você foi até o seu quarto, mas não entrou. O mar chamando lá fora. Seu palco. Seu porto.
Você vai até a praia porque sabe. É lá. Você caminha de olhos fechados. Noite densa. Conhece cada
coisa, cada sarça, pedra e atalho. Na praia, a areia fria. Você segue pela linha da água. Uma pedra.
Você se senta e espera. Pela última vez.
E então Julius chega. Demorou semanas até que tirasse o casaco, mas agora ele é um igual. O
cheiro do mar o envolve. Fino papel de presente. Vocês dois, lado a lado. Sob as estrelas. A chuva
como um agouro pairando em silêncio. Você diz: Vi os seus olhos hoje, Julius. O medo de Julius
lateja. Pobre pássaro acossado. Você se lembra de uma tarde antiga. A areia nos dentes. Meus olhos
como?, ele pergunta. Como um espelho dos meus, você responde. Foi um marinheiro bruto que o
levou, o sol a pino. Você não é bruto. É macio e doce e está apaixonado. Você não quer? A sua voz
ecoa na noite silenciosa e insondável. Tudo espera. Então a outra boca finalmente se abre como
uma rosa. Quero.
Foi uma longa viagem. Feras e tempestades e portos desconhecidos. Houve vento, viração e
calmaria. Nunca a terra firme, nunca. Nem os antepassados navegaram tanto. Perigos. Exílio.
Terror. E então finalmente estes braços, este beijo. Você pensa num poema. Ó grande noite
alucinada e pura, a sua boca diz. O que é isso?, Julius pergunta, rindo. São os deuses, você responde.
Todos os deuses que me guiaram até aqui, pelas ondas, pelos versos, até esta noite, os seus braços . Julius ri
alto, bradando: Por fim, chegamos. Afogados, os dois, para sempre salvos de quaisquer tempestades.
Juntos.
Tudo isso, Tiberius. Tudo isso. Você sou eu, um pouco ainda. Para que entenda. Na carne,
Tiberius, no âmago da carne, no peito. Mas você sabe que valeu a pena, cada segundo. Tudo na
vida é brilho e ocaso. Tanta gente não teve nem um único fulgor, nada. Você teve a caverna inteira
e os seus tesouros. Sob o céu de La Duiva, você foi feliz.
Como um espasmo, o mundo à sua volta se abriu. Tão simples, fácil como nascer. A luz nos
olhos, todos os dias. E aquelas noites cheias de estrelas. Órion sobre as suas cabeças. A beleza do
mundo aumentada, tudo ardendo mais, vibrando alto. Cor, luz, gosto. O mundo novo em folha só
pra vocês.
Alguém vê um beijo. Talvez Lucas. Cecília chama, fala em voz baixa, aconselha prudência. Você
acha que Cecília sempre soube. Ela tricotando tramava a vida. Divina Penélope. Mãe, eu amo, você
diz. E dessa vez não é Shakespeare nem Lorca nem Rilke. Tudo é tão difícil, ela responde. Você não
enxerga dificuldade alguma. Mas as coisas não param. Poseidon fica sabendo. Faz erguer as vagas
contra o seu reino. Grandes violências, raios, temporais. Você sai chamuscado, mas é a ruína de
Flora.
A vida desmorona. Um castelo de cartas. Poseidon fulminado por um raio. Lágrimas caem do
céu. La Duiva é uma ilha cercada de sangue verde. Lucas vai embora. Cecília chorando pelos cantos.
As agulhas se enchem de pó sobre o aparador. Viuvez.
Vem o inverno. O vento nos pinheiros. A lareira não aquece. Numa noite, Eva. Oh, Lilith,
Lilith! O gosto por obrar às madrugadas. Ela pisa leve como o sonho. Sempre quis. Conhece o
quarto. Você não sabe o que se passa lá. Amanhece quando Julius entra com o vento frio. Ele chora.
História terrível. O mais perdido entre os perdidos. Ah, a pedra do mundo! Partir é uma certeza.
Única saída. Nunca mais um inverno, nunca mais. Você não tem coragem de dizer adeus, não era
para ser assim. O amor... Abram espaço para o amor. Mas a vida aperta, mais e mais. Pesado
torniquete. E então o exílio.
Você sabe, Tiberius, você esteve lá: a noite fria, o mar bravio, os olhos reprovadores de Tobias.
E depois Oedivetnom, o tio Fabian. Cinco, seis, dez mil dólares. Sussurros. E então, distâncias.
O mundo.
Onde o sol estiver, vocês estarão. Como um poema. E é lindo. Todos os começos são lindos.
Errância, vinho, entardeceres. Seus olhos veem coisas. Barcos, gritos de crianças. Céus. Camas
diferentes em quartos diferentes. O mesmo abraço. Julius. Êxtase.
França, Marrocos, Itália. Você e ele, livres como o vento. De verão em verão como andorinhas.
Às vezes, sonhos. La Duiva sob a chuva, Cecília na varanda. Como um Odisseu enfeitiçado. Nunca
mais voltar. Julius vê os seus olhos tristes. Estamos juntos. Para sempre. Você acredita.
Mesquitas, histórias de sultões. Doença, tosse, tempo do não. Você estende o braço, mas não
consegue tocá-lo. Julius como uma concha. Você vagando pelas cidades. Os deuses riem às suas
costas. Pragas divinas. Herança. Sangue maldito. Não há distância suficiente. Intolerável. O horror.
O Atlântico outra vez aos seus pés. Provence. Saint-Tropez. Pães e flores. O estúdio. Lavandas,
braçadas de lavandas. Cigarras. O medo como uma sombra. Silêncios. Arremedo de felicidade,
teatro. Feira de rua aos sábados. Areia escapando entre os seus dedos, o tempo.
E então, um dia. Tudo planejado. O fim. Uma carta. Nem um único beijo. Poseidon teria rido.
Ou não. Você sozinho. Sozinho. Sozinho.
Sozinho.
Sozinho, Tiberius. No mundo. Não há mais volta para La Duiva. Você vai em frente. Manda
um telegrama a cada nova chegada. Posta o restante em Saint-Tropez. Esperança vã. Cidades são
túmulos. Camadas de passado. Medo. Uma noite eterna. O mar agora nos seus pesadelos.
Você avança. Continente adentro. Como uma adaga entrando na carne. Um telegrama, e
outro e outro. Ragusa, Santa Croce Camerina. Você magro. Com febre. Julius se foi, mas deixou a
doença. Você faz duas viagens. Por dentro e por fora. Casas, masmorras, olivais, romanos,
bizantinos. Dor, vômito, sangue, espasmos. Você e a doença. Para sempre. O seu casamento.
Chiaramonte Gulfi, última parada. Você não sabe ainda. Pensão. Telegrama. Frio no rosto,
caminhadas, ruínas. Sua memória vívida. Ouve vozes. Trechos de livros já lidos. As coisas estão longe
de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos
acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Rilke. Você
lembra, uma tarde. Na varanda em La Duiva, a voz de Julius. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar
– ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo.
Você imerso na sua própria goela sem fundo. Virado do avesso. Escavações em Caucana fazem
você chorar. Guerras, cercos, terremotos. Mas ainda ali. Vozes nunca calam. Utilize, para o
exprimir, as coisas que o rodeiam. E as imagens que povoam os seus sonhos. E tudo quanto vive na sua
memória. E se o seu quotidiano lhe parecer pobre e sem interesse, culpe-se a si mesmo, por não ser
suficientemente poeta para conseguir descobrir e desvelar as suas riquezas. Você chorando. Vento nos
olhos. Culpa. As fúrias voando ao seu redor. Memórias ardentes. Sob a lua, uma noite. Pedras frias,
nuas, milenares. Tudo acaba. Você grita. Tudo acaba.
Na pensão, um prato de sopa. Enjoos. Batem à porta. Seu coração aos pulos. Você sabe.
Intuição. Recebe o envelope sujo que já deu tantas voltas. Correio aéreo. Você não reconhece a
letra, feminina. Você lê, engolindo as linhas. E então um hospital, o cheiro de éter, o silêncio.
Últimas palavras. Pediu a uma enfermeira. Aqui faz frio e Sonho contigo. São insondáveis os mistérios.
Você tremendo, de febre e tristeza. Adeus, amor. E depois uma data, 27 de outubro de 1986. Um
papel timbrado, carimbos.
Na realidade, sobretudo nas coisas mais importantes e profundas, encontramo-nos no meio de uma
solidão inominada. A voz outra vez. Você quer calar o poeta, e então abre o papel timbrado.
Realidades. Registros. Documentos. Certifica que ao 28/10/1986, no livro e folha supra, foi registrado
o assento de Julius Templeman, falecido ao 27 de outubro de 1986, às 22:00, neste subdistrito.
Você não lê o resto. Não lê mais nada, nunca mais.”
VERDE

Depois de morto, calhei de narrar coisas... Estranho, isso, para um homem que,
quando tinha mãos, obrava dia e noite. Mas eu já disse, a morte é um nada tão
tedioso que você se vê rememorando pela eternidade.
Depois de mim, quem chegou aqui foi Flora... A minha menina. Eu a adorava. Quando tinha
um coração, era por ela que ele batia mais forte. Tão corajosa, Flora lutou com as palavras e
escreveu aquele livro. Dizem que foi o livro que precipitou tudo, mas as pessoas sempre estão
procurando alguma coisa na qual botar a culpa. Sempre.
Depois que Julius e Orfeu... Bem, vocês sabem... Aquilo foi demais para Flora. Acho que ela não
tinha muito fôlego para a vida, embora pudesse engolir trezentas páginas numa noite.
Então eles partiram. Flora ficou com Cecília e Eva. E depois Eva tratou de bater asas. Se fosse
um palco, a cena estava armada. [Noite de inverno, casa silenciosa, venta lá fora.] Acho que
Cecília se encontrava lá no nosso quarto, deitada na cama de olhos pisados, e o farol aprontava
das suas.
Sob a luz maluca do farol, Flora saiu para a noite com o seu livro sob o braço – todos aqueles
cadernos, as centenas de páginas que ela escrevera e copiara tantas e tantas vezes (Julius tinha
mandado algumas dessas cópias para Londres). Flora arrancara as páginas dos cadernos uma a
uma, tinha passado o dia inteiro no quarto, arrancando páginas. Era mais um ato simbólico,
mas Flora era uma simbolista... E o farol lá, cinco segundos, depois dois, e oito e vinte, e então
um longo apagão – e foi quando Flora tropeçou numa pedra e caiu, e das suas mãos as páginas
soltas saltaram para o penhasco, batendo asas na noite, embaladas pelo vento frio como
fantasmas de um outro tempo, como fantasmas de uma vida que ela, Flora, achava ter pedido
para sempre.
Dez segundos, dois, dois, cinco, nove segundos, um apagão, seis segundos, e então algum ritmo
– dois, dois, dois, dois – e Flora ergueu-se, o joelho ferido pelos seixos. Flora viu as folhas voando
na noite, havia lua, e amaldiçoou-as uma por uma. Acho que ela amaldiçoou tudo – o farol, a
ilha, a casa, tudo. Ela gritou com o vento. Ofendeu os deuses. Renegou a família.
Assim como as folhas, as suas palavras voaram na noite...
E então – dois segundos, cinco, oito, quatro, quatro – Flora voltou à casa e... Bem, de fato tenho
vergonha de continuar daqui... Vergonha não, pudor. Morrer é íntimo, morrer por eleição
pessoal talvez seja a coisa mais íntima que alguém possa realmente fazer. Flora não tinha fôlego
para a vida, mas tinha coragem.
Mas... Vou em frente como posso.
Dentro do quarto, Flora abriu uma gaveta. Lá fora, dois, dois, oito segundos, e dez, e vinte, e
um apagão. Ela esperou pacientemente. A luz veio de novo, dois, dois, dois, o farol cooperando
com ela, guiando-a para o fim. Ela encontrou o frasco. Tinha sido fácil comprá-lo em
Oedivetnom, quando fora visitar o tio Fabian Barrios. Como boa romancista, Flora planejava
bem os capítulos.
O vidro nos lábios... Mas o que veio depois, não... Entendam como quiserem, usem a própria
imaginação... É pedir demais de um pai... Lá fora, o farol apagou-se longamente. Despedia-se de
Flora. No nosso quarto, que ficava no final do corredor, Cecília sentou-se na cama, pensou em
tomar um chá antes de dormir.
Cecília encontrou logo a menina. As folhas, ela só encontrou no dia seguinte, e estavam
espalhadas por quase toda a ilha como as cinzas de uma erupção. Faltavam algumas, mas isso
não importava a Cecília. Ela encadernou tudo com uma bela capa de couro negro, e lá dentro as
páginas, sujas de terra, molhadas de lágrimas, manchadas de sal, ficaram para sempre caladas
como a moça que, um dia, as escrevera.
BRANCO

Tudo na vida são histórias. A vida de uma pessoa é uma história também. Assim, o
que aconteceu com Tiberius depois que ele deixou Chiaramonte Gulfi e Orfeu
moribundo, no rumo do que ele dizia ser “a sua eternidade”, o que aconteceu depois disso
também é uma história. Não é fácil para mim contá-la, não é mesmo... Aqui estou eu, esbaforida
pelos anos. Cabe a mim narrar esta parte da história, e vou fazer isto. Do meu jeito. Do único
jeito que eu sei contar alguma coisa. As palavras seriam demais – eu nunca suportei o peso delas
–, e por isso venho contando tudo com fios e agulhas. Tive a ideia numa noite, depois que
Tiberius partiu, embora esse artifício seja tão antigo quanto Troia...
Sempre usei a lã e as agulhas para acalentar e proteger. Os filhos pequenos com os seus
pulôveres, as camas com as colchas de lã nas frias noites deste inverno meridional. Mas depois,
quando fiquei sozinha aqui em La Duiva, a amargura alcançando o céu tão alto, a amargura
dando voltas em torno de mim como uma gaivota dá voltas ao redor de um barco carregado de
peixes, decidi tecer esta história toda – cores para cada um, vocês já sabem disso, e depois muito,
muito amarelo, para contar a estranha viagem de Tiberius rumo ao começo da família e,
também, sem que ele soubesse pela primeira vez na sua vida, rumo ao recomeço da nossa família.
Quase um último suspiro para os Godoy de La Duiva, e então, como um velho corpo que recobra o
seu alento, a vida brotou de novo.
Foi assim que cheguei à ultima parte do meu tapete, à ultima parte desta história que Flora
iniciou com palavras, e que eu termino com lã e agulhas. Um tapete também conta uma
história, que pode ser lida de muitos modos. A história de Tiberius – a cor amarela desta minha
trama.

***

Depois de Chiaramonte Gulfi, Tiberius de Godoy, a sexta criatura que eu dei à luz, viajou pela
Sicília por duas semanas. Levava no bolso a carta intocada do irmão, as páginas palpitando sob
o casaco como um outro coração, sem ter coragem suficiente para abri-la. Pensou que as belezas
da Sicília haveriam de serenar o seu espírito sofrido, mas o pobre Tiberius parecia incapaz de se
emocionar com o azul ou com o verde, ou ainda com a espuma do mar sob um promontório, ou
um caminho dourado entre olivais e roseiras, ou as luzes do sol ou a beleza pálida, sempre tão
tocante para ele, das distantes estrelas. Então, um dia acordou e decidiu partir.
Até esse momento, Tiberius tinha lido futuros para sobreviver, mas essa ocupação
vilipendiava-o cada dia mais, pois, entre os futuros alheios, meu pobre menino costumava ver o
rosto emaciado do seu irmão Orfeu, tão lívido como um fantasma perdido na névoa do tempo, e
essas visões vinham deixando-o meio louco de angústia e desilusão. Ele temia, mais do que tudo,
ver o terrível momento da morte de Orfeu.
Assim, Tiberius tomou um barco para o continente e, na coberta varrida pelo vento invernal,
finalmente achou coragem para abrir a carta de Orfeu, grossa de páginas. Tinha as orelhas frias
e o coração quente, e a voz do irmão parecia vir com o vento. Claro que Tiberius já sabia de
muitas das coisas que estavam escritas naquela triste carta, mas lê-la era como olhar o mundo
de uma nova perspectiva, era estar subitamente dentro de Orfeu – e isso então aguçou a ferida já
aberta no seu piedoso coração. Uma vida inteira naquelas páginas, Tiberius pensou, e para
Orfeu não faltava muito mais do que umas poucas palavras – então o frio lhe escorreu das
orelhas e, de repente, já mordia todo o seu corpo como um cão. Tiberius achou que estava ficando
doente, e pensando em mim, que o esperava aqui em La Duiva, esse mal-estar intensificou-se:
como contar a mim, a mãe de Orfeu, que meu lindo filho estava em Chiaramonte Gulfi à beira da
morte?
Tiberius sabia muitas coisas, sempre as soube, mas nem lhe passava pela cabeça que um
coração de mãe é como uma espécie de antena, e que eu podia intuir, pelos dias, pelo tempo e pelo
silêncio das cartas que nunca chegavam, que o resgate de Orfeu tinha sido em vão... Tiberius
pensava em mim naquele navio, e o peso das notícias era tamanho que ele acabou por decidir que
não voltaria para La Duiva, não ainda. Tinha falhado na sua busca, acreditava ele. Estava
errado, o meu pobre menino, pois viajara e atravessara o mundo, e conseguira encontrar Orfeu.
Porém, era sina de Orfeu descer aos infernos – e, mais uma vez, aqui se comprova o estranho
feitiço das palavras... Ivan e os seus sonhos navegadores... Um dia, quando eu estava na terceira
gestação, Ivan acordou no meio da noite e, no escuro do quarto, disse que queria chamar aquela
criança pelo nome de um dos Argonautas. “Nem sabemos se é um menino”, retruquei, sonolenta.
Mas era um menino, e veio à luz tão moreno e encantador que Ivan disse que os ventos haveriam
de curvar-se para ele, e assim o nosso segundo varão recebeu o nome de Orfeu. Nem Jasão, nem
Ascáfalo, nem Hilas, nem Argos. Mas Orfeu, o filho de Apolo e Calíope...
Voltemos à história, é claro. As palavras são como pássaros que voam, desobedientes,
enquanto a linha é tão sensata, por isso eu teço...
Após deixar a Sicília, Tiberius escreveu-me assim que chegou a terra, e disse que Orfeu estava
cumprindo os seus planos à risca. Quanto a ele, viajaria para a Espanha por um tempo, e foi o
que fez. Eu fiquei aqui, esperando, esperando, mas isso vocês já sabem... Meu tapete encheu-se de
amarelo: eu seguia Tiberius com as minhas agulhas... Com ele andei por Nápoles, pelas
ruazinhas turbulentas e alegres, e Tiberius enfiou-se numa pensão barata, a única que podia
pagar, e saiu à rua para ler futuros. Mas estava tão triste pela perfídia da vida, da qual ele
subitamente fazia parte – pois sentia que mentira para mim em sua carta –, e então deixou os
futuros alheios para o dia seguinte, não resistindo a uma estranha e totalmente nova tentação, e
meteu-se num bar não muito limpo, no qual bebeu todo o dinheiro que levava no bolso.
No dia seguinte à bebedeira, Tiberius não sabia nem mesmo como conseguira retornar à
pensão. Para além do barulho da chuva tamborilando nas vidraças sujas, ele encontrou-se na
sua cama com uma enorme dor de cabeça, e depois vomitou um líquido amarelo e malcheiroso.
Mas, no banheiro coletivo do corredor, enquanto lavava o rosto com água fria, deu-se conta de
que não tivera um único sonho a noite inteira e que nenhum sopro de futuro aparecera para
espicaçar a sua alma angustiada. O álcool parecia ter afastado os presságios todos. Ele saiu pela
rua sentindo-se livre e frágil como não se sentia havia muito tempo, e gastou alguns trocados
para saciar a fome com um sanduíche enorme. Perder as visões foi estranho – era como livrar-se
de um dedo inflamado: você pensa no dedo com rancor e então, de repente, o dedo não está mais
lá, nada de dor, no seu lugar apenas um vazio, e você precisa aprender a segurar todas as coisas
novamente.
A única casa de Tiberius fora, desde sempre, esta ilha chamada La Duiva, e como ele não
conseguia voltar atrás, retornando pelo caminho de onde tinha vindo, pareceu-lhe lógico seguir
em frente até a casa anterior – não a sua, mas a dos seus antepassados navegadores. Talvez lá,
Tiberius cogitou, pudesse achar algum consolo para as suas dores... Mas em Enix, Almeria, o que
ele encontrou foi Zoe e o seu futuro – não o amor reconfortante com o qual sonhara na sua
adolescência distraída entre constelações, mas uma paixão aguda e cruel, que descambava
rapidamente para gritos e culpas, uma paixão fadada ao fracasso.
Tiberius partiu de Nápoles naquele mesmo dia, mas, antes de entrar no trem, bebeu dois copos
de grapa numa espelunca perto da Piazza Garibaldi e subiu ao vagão flutuando numa nuvem de
arruda. A viagem foi longuíssima e muito confusa, e ele gastou parte da noite cogitando como
poderia sobreviver agora que pensava em abdicar dos seus funestos, mas bastante úteis, dons
premonitórios. Tinha encontrado o conforto do álcool e estava decidido a pagar o preço. Depois
lembrou-se de Orfeu e da sua peregrinação pela Europa trabalhando em pequenos hotéis e
portos, e concluiu que ele também seria capaz disso – todos os três irmãos homens tinham
aprendido com Ivan tudo o que o pai sabia sobre barcos e sobre o mar, de modo que os
conhecimentos que os Godoy haviam adquirido ao longo de séculos de viagem estavam agora
guardados dentro do próprio Tiberius. Depois disso, ele sentiu-se mais leve e dormiu o resto da
viagem, confiante.
Dois dias mais tarde, Tiberius de Godoy estava na Almeria, a província andaluza sobre o
Mediterrâneo. Aquela terra vira vândalos, visigodos, bizantinos, muçulmanos, romanos e
cristãos, e Tiberius não pôde deixar de pensar que Orfeu teria gostado de estar ali sobre o chão
onde tinham caminhado tantos povos extintos e onde estavam tantos parentes mortos e
enterrados. Tudo pó, pensou Tiberius, e esse pensamento, embora triste, era também aliviante.
Ele passou alguns dias na capital, bebendo de bar em bar, até que cruzou com um caixeiro-
viajante que tinha uma irmã que vivia aqui perto, em Oedivetnom, de modo que, encantado pela
coincidência, o homem ofereceu-lhe carona até Enix, e os dois subiram a costa pela autovia até
entrar na pequena e antiga cidade branca.
A primeira coisa que Tiberius notou foi a luz especial daquele lugar – sob a claridade de ouro
do entardecer primaveril, a cidadezinha de Enix brilhava como uma joia, devolvendo ao céu a
beleza dos seus raios oblíquos. Enix era um pequeno intrincado de ruas estreitas e seculares que
serpenteavam pela montanha contornando grossos muros de pedra branca. Tudo era branco, e
todas as janelas exibiam floreiras coloridas. O ar cheirava a uvas e, lá embaixo, na costa, o mar
estendia-se azul como uma ampla toalha sem pregas.
Tiberius comemorou a sua chegada com uma bela bebedeira e depois, trôpego, despediu-se
para sempre do caixeiro-viajante. Passou alguns dias sem paradeiro, dormindo num albergue e
procurando emprego quando estava de cara limpa. Mas os seus períodos de abstinência eram
curtos – o medo, sempre o medo, de que em sonhos ele visse a morte do irmão querido – e Tiberius
logo se cansava de bater em portas alheias, entrando no primeiro bar que conseguisse encontrar.
Tinha virado um bom bêbado em apenas duas semanas, o que prova que, apesar de equivocado,
Tiberius sempre foi um menino bastante aplicado nos seus objetivos.
Embora perdido e embriagado, ele era um rapaz de sorte, e certa tarde andava a esmo pelas
ruas quando uma velha senhora, carregada de compras, cruzou-lhe o caminho, e então uma
moedeira de couro saltou de uma das sacolas e veio pousar aos pés de Tiberius. Ele precisava
imensamente de dinheiro, precisava mesmo, mas uma vida de ensinamentos em casa fê-lo correr
atrás da senhora, entregando-lhe a moedeira com um dos seus belos sorrisos, os olhos ainda
vermelhos do último porre. A mulher achou engraçado ver aquele rapaz tão bonito e tão
descomposto: ele estava um pouco sujo e a roupa, bastante amassada, mas a velha senhora
enxergou alguma coisa em Tiberius (talvez o menino que ele fora aqui em La Duiva, anotando
constelações num caderno de pauta simples) e então lhe disse numa voz simpática: “Imagino que
você não tenha comido nada hoje, hein? Ainda assim está me devolvendo o meu dinheiro, o que é
louvável.”
Tiberius respondeu orgulhosamente que comera alguma coisa com ovos no almoço e, talvez,
um copo de leite.
A velha riu alto.
“Tenho certeza de que você tomou um copo, mas duvido que tenha sido de leite.”
Ela convidou-o para acompanhá-la até a pensão – viúva, ela transformara a própria casa em
pensão e abrigava turistas para sobreviver. Levando a pesada sacola de compras, Tiberius
seguiu a mulher pelas serpenteantes ruazinhas de Enix. Chamava-se Eulália Lope, e o seu
falecido marido tinha perdido todas as economias no “jogo lá embaixo”. Lá embaixo era o mar e
as praias que, nos anos setenta, tinham virado moda e se enchido de afoitos turistas europeus em
busca de costas ainda agrestes. A boa Eulália gostou de Tiberius, disse-lhe que tivera um irmão
com aqueles mesmos belíssimos cabelos loiros, e esse irmão tão querido e tão lindo havia morrido
nas mãos da gente do general Franco. Falou também que não gostava de turistas, só daqueles que
se hospedavam com ela, mas Tiberius era parecido com o seu finado irmão, e ela convidou-o
para trabalhar ali. Precisava de ajuda: o jardim estava abandonado e havia muito o que fazer.
“Trabalho não falta”, disse ela, “para alguém sóbrio”.
Tiberius argumentou que era um viajante diferente: a sua família tinha saído de Enix havia
duzentos anos, e depois disso prometeu vivamente que não beberia em serviço.
E assim, meu filho foi ficando na pensão... Fazia de tudo, desde limpar os jardins até os
pequenos serviços elétricos e a organização do livro-caixa, e os ensinamentos de Ivan e as tardes
passadas ao lado de Lucas fazendo as contas da empresa brotavam-lhe da memória como folhas
na primavera. A velha gostava de Tiberius cada dia mais, o que – acrescento – era de esperar.
Mas havia a questão dos sonhos cheios de presságios, e Tiberius logo voltou a beber. Beber era
aliviante. Ele às vezes tinha sonhos vagos, e em pesadelos via uma tumba perdida no meio de
alguns arbustos, e via Orfeu vagando pela praia em La Duiva, e então Tiberius fazia as suas
visitas diárias aos bares, sempre depois do expediente, porque sem o alívio da bebida faltava-lhe
coragem para entrar no seu quartinho no fundo do pátio da pensão e tentar conciliar o sono na
estreita cama de armar.
Tinha virado um alcoólatra, meu querido Tiberius... Mas a sua juventude extrema apagava
os rastros das bebedeiras noturnas e, no dia seguinte, lá estava ele, fresco como uma rosa de
verão e absolutamente disposto para os trabalhos cotidianos. Era como se tivesse Tiberius duas
vidas, uma diurna e organizada e a outra, noturna e tétrica, cheia de medos e espectros e, por
fim, copos de bebida. Com o passar dos meses, a segunda dessas vidas foi crescendo como uma
espécie de câncer e abocanhou a outra, a vida diária e organizada.
Um dia, Tiberius pediu licença para almoçar fora e voltou à pensão no meio da tarde com os
olhos injetados e a pegajosa fala sinuosa dos bêbados. Eulália Lope não disse uma palavra sequer,
mas entregou-lhe o livro de contabilidade e esperou fazendo bolos na cozinha. Ao anoitecer,
Tiberius tinha o trabalho feito. Eulália passou a noite conferindo as contas, e não havia um
único erro. Na manhã seguinte, quando se viram, ela falou: “Tiberius, eu já vi um homem bom
se perder nesta vida por causa do vício, e não quero ver outro.”
Ele pediu desculpas, alegando que nunca mais beberia à tarde. Tinha cometido um erro que
não se repetiria, falou.
Eulália deu de ombros.
“Seus olhos tristes estão me deixando nervosa”, comentou ela.
Tiberius nunca lhe contara absolutamente nada sobre a história de Orfeu, ou mesmo sobre
Flora, mas a velha olhava-o como se soubesse que ele carregava peso demais. Então ela se ergueu
da cadeira em que estivera escolhendo ervilhas e disse baixinho: “Vá até o cemitério e veja...
Dou-lhe o dia de folga hoje.”
Tiberius achou aquilo estranho, mas foi até o cemitério e andou por entre as velhas lápides
apagadas pela chuva e pelos anos. Na parte mais antiga do lugar, em meio a ruínas de velhos
mausoléus outrora imponentes, achou inegáveis registros do passado familiar. Alphonsus de
Godoy 1900-1914, Katrina de Godoy 1915-1944, Natanael de Godoy 1920-1943. Teriam sido
parentes seus? Ficou muito tempo ali examinando as lápides gastas, depois voltou à pensão e
resolveu capinar o jardim até tarde da noite para adiantar o trabalho do dia seguinte.
Eulália penteava os cabelos no seu quarto quando ouviu o ruído da enxada cavando a terra lá
embaixo, então vestiu o robe e as chinelas e desceu.
“Você viu que lugar triste é aquele?”, perguntou ela.
Tiberius largou a enxada e, secando o suor da testa, respondeu simplesmente: “Vi, sim
senhora.”
E então a velha Eulália disse: “Faz mais de quarenta anos que um Godoy não vai parar lá. Não
venha me fazer essa traição, que eu não suportaria.”
Tiberius olhou-a sem entender. Ela conhecera algum deles, dos Godoy lá do cemitério? Eulália
ficou um largo tempo em silêncio, as mariposas voando em torno da lâmpada do jardim, e então,
depois de um longo suspiro cansado, finalmente falou. Na sua juventude, tinha sido apaixonada
por Natanael de Godoy, “tão bonito quanto você”, ela contou. E eles iam casar.
“Mas ele gostava de um copo”, sussurrou a pobre velha. “Gostava de um copo, como você...”
Então, uma noite, Natanael simplesmente bebera tanto que armou uma briga terrível com
dois irmãos de sangue quente e surgiram facas no meio da coisa. Natanael, um contra dois,
morreu no meio da rua, com as tripas para fora.
“Vi tudo”, disse ela. “Eu estava lá...”
Depois disso, Eulália casara com o seu marido. Tinha sido uma escolha errada, porque no
lugar do amor só havia dor e solidão, e ela fora infeliz. Tinha achado que gostara de Tiberius por
causa dos cabelos iguais ao do seu irmão morto pela gente do Franco, mas não... Entendera tudo
ao vê-lo bêbado naquela maldita tarde. Tiberius a fazia se lembrar de Natanael de Godoy...
Sangue do mesmo sangue. E ela tinha sido louca por ele.
Depois disso, Eulália se arrastou para dentro da casa e foi dormir. Tiberius, espantado com a
história, resistiu por dois dias longe do bar, mas na terceira noite finalmente voltou ao seu
quartinho ao alvorecer, trocando as pernas e fazendo barulho com as portas. Em sua cama,
Eulália Lope abriu os olhos e aquiesceu. No dia seguinte, com os olhos vermelhos de chorar, a
velha dispensou Tiberius do serviço. “Maldita herança”, disse ela. “Não posso aguentar tudo de
novo.” (Bege para Eulália Lope.)

***

Tiberius não lhe guardou mágoa, e partiu da pensão naquela mesma tarde, carregando numa
mochila as poucas coisas que possuía. Posso tricotá-lo andando pela rua, cabisbaixo e infeliz...
Não era um rapaz fraco, era frágil como todas as coisas que nascem da delicadeza. A vida, a sua e
a dos outros, tinha sido demais para o meu pobre Tiberius... Ele andava pelas ruas cheias de
turistas de verão que tinham passado o dia em cavernas olhando relíquias históricas e sentia-se
perdido e desconsolado, culpado de tudo o que sucedera e daquilo que ainda estava por vir.
E então, no meio desse furacão de acontecimentos,
apareceu Zoe...

***

Zoe. Dei-lhe a cor cinza, e sei que não foi muito gentil da minha parte. Mas ela sempre me foi tão
esquiva... Nunca consegui imaginá-la com exatidão, muito embora Tiberius a tivesse descrito
para mim em várias das suas cartas. Quando eu, aqui em casa, tentava evocá-la, parecia que a
névoa do inverno baixava sobre mim como um manto triste, e então, mergulhada nessa nuvem
de chuva, dei-lhe a cor do céu invernal. Cinza. A cor do que se apaga, tudo o que já não queima. A
cor da água turva. Daquilo que é intermediário.
Zoe trabalhava num bar. Foi assim que eles se conheceram... Eu tricotei isso no meu tapete.
Depois do terceiro copo, Zoe foi à mesa de Tiberius. Ele era bonito e era loiro e estava triste, e Zoe
tinha um fraco por belos homens desamparados. Ela era alta e esguia e tinha olhos de mel –
assim me escreveu Tiberius, e é isso que eu transcrevo, em pontos, para vocês.
Tiberius agarrou-se a Zoe como um náufrago a uma ilha no meio do oceano furioso. Em dois
dias, viviam juntos. No começo, foi um idílio: havia aqueles corpos jovens e as suas súbitas
vontades imperiosas, e havia histórias para contar e personagens familiares para descrever e
descrever, e os dois passavam horas e horas na cama trocando confidências e reminiscências
infantis... Ficavam assim, juntos entre os lençóis, até o momento que Zoe seguia para o trabalho
– era gerente de um bar muito frequentado por turistas em Enix – e Tiberius ficava sozinho no
primeiro andar de uma casa pequena, uma meia-água alugada de uma velha senhora que vivia
no piso térreo. Tiberius ficava lá, sozinho com os seus pensamentos e os seus sonhos, e logo
sonhava com Orfeu, acordando sôfrego e angustiado, com o ar a faltar-lhe, e então descia aos
tropeções a escada, e chegava à rua e aspirava o ar como um louco, e seguia até o primeiro bar
aberto, quando então comprava uma cerveja, e depois outra e mais outra... E quando Zoe
chegava, ao alvorecer, exausta do trabalho e com os pés doendo, lá estava o meu Tiberius atirado
no sofá, apagado.
No começo, Zoe lhe dava um chá forte e depois consolava-o das suas incuráveis angústias...
Disso, era um estalar de dedos para que se entregassem às premências do amor. Tiberius
procurou trabalho, e encontrou-o meia dúzia de vezes, mas logo a bebida fazia os seus estragos, e
embora ele fosse um menino absolutamente inofensivo, a fama de bom de copo não ajudava
muito numa cidade pequena como Enix.
Em poucos meses de pequenos trabalhos alternados, Tiberius estava de novo em casa quase de
forma definitiva, e sentia-se como um bicho numa jaula. Então Zoe descia para atender os
clientes no bar, e ia toda linda, porque Zoe era linda (palavras de Tiberius).
Tiberius, infeliz, voltava a beber, e assim eles mergulharam num círculo vicioso de brigas,
bebedeiras, demissões e ardorosas noites de trégua, quando se entregavam às juras de amor
eterno e viam o sol nascer abraçados na cama.
Mas certa noite Zoe desceu para o bar mais desconsolada do que de costume, e logo surgiu-lhe,
entre os clientes, um outro rapaz com grandes olhos vagos e braços fortes, e Zoe atendeu-o
pessoalmente, e eles riram e conversaram bastante, até que Zoe fechou os olhos e entregou-se às
delícias daquela novidade. Então ela voltou para casa muito mais tarde do que o habitual, e
dessa vez Tiberius também tivera tempo de beber muito mais do que sempre, de modo que estava
na sala, alterado e ciumento, gritando com alguém pela primeira vez na sua vida.
“Onde você estava?”, ele quis saber.
Zoe se assustou a princípio, mas depois arvorou-se e respondeu: “Eu estava com outro. Você
bebe, não é? Nem sempre tenho vontade de voltar pra casa e curar a sua bebedeira. Sou jovem e
quero me divertir, será que você entende?”
Tiberius sentiu como se tivesse levado um tapa. Ele tinha contado a Zoe de Orfeu, de Lucas, de
Flora e de Ivan. Tinha contado da sua casa em La Duiva e dos sonhos de morte que o perseguiam
e da peregrinação através da Europa, guiado pelas estrelas, tentando encontrar Orfeu. Mas a
vida real também podia ser bastante dura, Zoe lhe tinha dito certa vez, de modo que ambos
travavam um embate entre motivos e consequências, e ninguém tinha como sair vencedor
daquela triste peleja.
“Vou embora”, disse Tiberius, lá pelas tantas da noite e muitos gritos mais tarde.
Zoe eriçou-se e respondeu simplesmente: “Pode ir.”
Então Tiberius começou a juntar as suas poucas coisas na mesma hora, mas aí foi Zoe que se
atirou no sofá e desatou a chorar. Quando ele se virou para olhá-la, ela falou subitamente: “Pode
ir embora se quiser, Tiberius... Mas estou grávida, e o filho é seu.”
Tiberius não tinha pensado em ter um filho, acho mesmo que essa possibilidade jamais lhe
passara pela cabeça... Havia vivido toda a sua existência sob a perspectiva da vida alheia, e de
repente era o protagonista da sua própria história – eu tricotando em amarelo por aqui. Ele
ficou alguns minutos parado no meio da sala, tremendo como quem leva um belo banho de água
fria. Depois alguma coisa se acendeu dentro dele, assim como Rigel se acende no céu quando
chega o verão. A confissão de Zoe arrancou Tiberius de uma bruma, e foi como se a escuridão na
qual ele andava extraviado subitamente se acabasse.
“Um filho?”, perguntou ele.
“Sim”, confirmou Zoe baixinho. “Para fevereiro.”
De repente, Tiberius tinha outra vez alguém para cuidar. Ele sentiu-se subitamente
revigorado, abaixou a voz, deixou de lado a mala feita e, recolhendo as armas, atravessou a sala
minúscula e abraçou Zoe. Choraram juntos. Haveriam de chorar muitas outras vezes depois
dessa noite, mas por algum tempo viveram em paz.
Enquanto a barriga de Zoe crescia, Tiberius tentava controlar a bebida. Uma ou outra vez,
escorregou e voltou para casa cambaleante, ao alvorecer. Havia gritos, mas logo a coisa serenava
e a senhoria suspirava aliviada no andar de baixo. Nos primeiros tempos, Zoe também cometeu
uma ou outra infidelidade discreta, mas com a gestação aparente, ela teve de aquietar-se,
recolhendo-se aos braços de Tiberius.
Zoe era uma moça carente e solitária, que tinha tomado muitos revezes da vida e que não
conseguia se entregar verdadeiramente a ninguém. Já Tiberius era como uma fruta aberta ao
meio, e tanta exposição era o que o estava apodrecendo. Zoe não conseguia se entregar à própria
gravidez, vivia grandes amarguras e provava muitos medos. Ela amava e temia o filho dentro do
seu ventre, mas essas coisas – assim como os sonhos de Tiberius – deixaram de ser faladas na
água-furtada.
Fevereiro chegou depressa, e a criança nasceu. Foi um parto fácil e rápido, e depois de tudo,
Zoe ficou deitada na cama do hospital como um balão vazio. Perto dela, um exultante Tiberius
segurava o seu filho. Deitada no leito hospitalar, Zoe olhava-os e sentia-se cansada demais para
experimentar qualquer laivo de felicidade. “Amanhã estarei feliz”, pensou. Mas, no dia seguinte,
ao ver o menino, o mesmo bicho inquieto mordiscou-lhe as tripas, e Zoe sentiu um tremendo
desgosto. Por outro lado, Tiberius parecia estar ainda mais feliz, e tão feliz que nem sequer
notava o visível abatimento de Zoe – ainda não tinha perdido os seus dons premonitórios, mas a
paternidade e as suas alegrias, tão óbvias para ele, não deixavam que percebesse essa súbita
mudança interior.
Registraram o menino com o nome de Santiago (por aqui, eu dei-lhe a cor violeta). Quando
voltaram para casa, dois dias depois do parto, acomodada na própria cama Zoe mergulhou num
sono inquieto, enquanto Tiberius ficou ao lado do berço do seu filho, examinando-o,
completamente alerta, sem sono nem medo, e foi a primeira noite em mais de um ano que ele não
pensou em beber.
Santiago era a cara da mãe, mas Tiberius reconheceu nele pequenos e inegáveis sinais dos
Godoy – os longos e finos dedos de Orfeu, a placidez de Lucas, as orelhas de Flora, e reconciliou-se
com tudo o que tinha visto até então; por fim a vida devolvia-lhe o fruto de tantas tragédias no
corpo doce e morno daquele menino minúsculo que Tiberius amou com todas as forças desde o
primeiro instante em que o viu.
Então Tiberius deu-se finalmente conta daquela coisa surpreendente: tinha deixado de ter
premonições, as visões não lhe vinham mais à traição. Era como se uma voz interna, antiga
como um vulcão, finalmente se extinguisse dentro dele. Estava quite com a vida, e sentiu-se
livre. Assim, por obra e graça daquele bebezinho enrolado em fraldas, meu filho Tiberius
também deixou de beber.
Zoe amamentou a criança por alguns meses, mas a responsabilidade de cuidar de uma
coisinha tão frágil desesperava-a. Gostava de meninos perdidos, desde que fossem grandes e altos
e tivessem braços para envolvê-la. Com o pequeno Santiago, Zoe tinha uma relação estranha de
amor fortuito – às vezes, pegava-se fitando o menino em seu berço e os seus olhos enchiam-se de
lágrimas. Então, repreendia-se furiosamente e tratava de sair de casa com alguma desculpa,
deixando o bebê aos cuidados de Tiberius.
Tiberius levou o seu menino para que Eulália Lope o conhecesse e, nos primeiros tempos da
vida de Santiago, a velha senhora funcionou para ele como uma avó postiça. Era amorosa, até
mesmo orgulhosa da criança. Ao ver o pequeno bebê perfeito, Eulália abraçou Tiberius e disse:
“Não pensei que você fosse conseguir alguma coisa, meu amigo. Estava se afundando
incrivelmente rápido. Cuide bem dessa criança, mantendo-se longe de encrencas.”
“Eu deixei de beber”, respondeu Tiberius, orgulhoso.
Eulália Lope ficou feliz, e provou isso devolvendo-lhe o emprego na pensão. Foi um grande
alívio na vida dele, trabalhar para poder comprar aquilo que o filho necessitava.
Mas a encrenca com Zoe não apenas continuava, como logo começou a aumentar. Depois que
desmamou o menino, ela passou a andar abertamente com outros homens, e a cidade falava.
Tiberius voltou a trabalhar todos os dias na pensão, e a sra. Lope cuidava de Santiago durante
as manhãs e as tardes, deixando-o num chiqueirinho no canto da cozinha enquanto fazia o
almoço e o jantar dos hóspedes, e Tiberius plantava e capinava e trocava lâmpadas e pagava
fornecedores. Era um bom arranjo para todos. E assim o tempo passou. Santiago completou o seu
primeiro ano, e depois o segundo. Era um garotinho de cabelos castanhos e belos olhos de âmbar,
e andava sempre atrás do pai, como um dia Lucas seguira Ivan pelos caminhos da ilha. Não
falava quase nada.
Enquanto o menino crescia, a união de Zoe e Tiberius fazia água. Zoe saía ao anoitecer, e às
vezes voltava no começo da tarde do dia seguinte. Um dia, à hora do almoço, era domingo e dia
de folga de Tiberius na pensão, a mesa estava posta para três e Tiberius terminava de preparar a
sopa. Então Santiago ergueu-se na ponta dos seus pezinhos e recolheu um dos pratos, dizendo:
“Acho que a mamãe não vem...”
Tiberius espantou-se com o menino e, com efeito, Zoe não voltou para o almoço. Mas aquilo
não era premonição, não era mesmo. Acontece que Santiago aprendia, com os pais, o oposto
daquilo que ensinei aqui. Para ele, as famílias se apartavam e se dividiam naturalmente. Era
uma lição dura, mas talvez tenha sido útil para o menino, porque logo depois ele veio a precisar
dela.
Tiberius trabalhava de dia, e Zoe durante a noite. Quando os dois se encontravam, a coisa
sempre terminava em gritos. A senhoria chamou Zoe uma tarde e alertou-a de que eles deveriam
entregar a água-furtada em um mês. “Meus ouvidos não são latrina”, foi o que ela disse.
“Coitado do menino.”
Coitado do menino, eu repito aqui. Zoe passava dias sem ver o filho, mas às vezes despertava-o
no meio da noite e, arrependida, enchia a criança de beijos. Depois punha-se a chorar, fazendo
com que Santiago, insone e assustado, procurasse o consolo do pai. Tiberius tentava imaginar
onde as coisas iriam parar daquele jeito, mas, como tinha perdido toda a sua clarividência,
respirava fundo e conformava-se em ninar o menino choroso, e depois ia acalmar Zoe, que
também estava às lágrimas. Não entendia o desespero da mulher, e nem se dava conta de como o
desamor os fazia, aos três, infelizes.
A velha Eulália Lope observava tudo de longe. Um dia, estando Tiberius a capinar, ela deixou
Santiago chupando laranjas na cozinha e foi ter com ele.
“A sua mulher está na boca de todo mundo”, disse ela. “Você nadou tanto, Tiberius, não vá
morrer na praia, pelo amor de Deus.”
Tiberius baixou a enxada e, secando o suor do rosto, respondeu: “Tenho um filho para criar,
não posso me preocupar com essas coisas, dona Eulália...”
Eulália suspirou fundo.
“Tiberius, o mundo é grande. Seus antepassados deram o fora daqui há duzentos anos. Você
deve fazer o mesmo agora. Pegue o menino e volte pra casa. Como é mesmo o nome? La Duiva...
Eu ajudo vocês com as passagens.”
Tiberius rechaçou a oferta, mas a ideia de voltar para casa com o filho ficou dentro dele como
uma semente e, no calor da sua saudade, essa semente inchou, estourou e finalmente brotou.
No bar, a insatisfação de Zoe acabou por ganhar um belo nome: Milan. Era um turista
italiano alto e engraçado, cuja cama Zoe vinha frequentando alegremente desde as últimas
semanas da primavera. Quando o terceiro verão de Santiago estava para findar, Milan
calmamente disse a Zoe que estava se mandando de Enix e que, se ela quisesse sair dali, tinha
lugar no carro e na vida dele. Era pegar ou largar. Zoe derramou um mar de lágrimas numa
noite na qual não conseguiu pregar os olhos, mas, no dia seguinte, sem despedidas nem avisos, fez
as malas enquanto pai e filho estavam na pensão de Eulália Lope e partiu com Milan, os cabelos
voando no carro conversível e o coração cheio de esperança de felicidade. Nunca mais tricotei
aquela lã cinza, e a joguei ao mar do alto do penhasco.
Quando Eulália soube do acontecido, no dia seguinte à hora do trabalho, ela deu um longo
abraço em Tiberius, depois tirou do bolso um pirulito e ofereceu-o a Santiago.
“Ah, sinto muito, meu rapaz. Mas acho que ela fez o certo”, foi o que disse. “Vivi cinquenta
anos infeliz com o meu marido, e é um bom jeito de jogar a vida fora. Agora é a sua vez de ir
embora daqui... Aproveite a deixa e vá.”
Tiberius respirou fundo e respondeu então, meio envergonhado: “Para isso, dona Eulália, eu
vou ter que aceitar a sua oferta financeira.”
Eulália Lope abriu um belo sorriso.
“Você e Santiago são o mais perto de uma família que eu tive em muitos anos, talvez em toda a
vida depois da morte de Natanael... Vamos ao banco amanhã e resolvemos isso, e talvez eu vá
passar umas férias com vocês lá no próximo inverno.”
E assim, depois de quatro longos anos, de quatro intermináveis anos em que tudo o que fiz foi
gastar os meus dedos com lãs e agulhas, finalmente o meu filho Tiberius começou a preparar o
seu retorno a La Duiva, esta ilha no sul do sul do mundo. Dessa vez, ao menos ele tinha certeza
de que não voltaria só. Tiberius e Santiago empacotaram a vida e, duas semanas mais tarde,
depois de se despedirem de Eulália Lope na pequena rodoviária em Almeria, seguiram de lá para
Barcelona e depois até Lisboa, onde passariam dois dias antes de prosseguir o seu caminho até
Oedivetnom, tudo pago com as economias da sra. Lope.
Sentada aqui no sofá da sala, bordei-os em amarelo e violeta contra um céu azul de verão, dois
pássaros batendo asas para mim.
AZUL

Eu sou a cor que Cecília subitamente abandonou. Eu estava lá no meio da trama,


entre verdes e amarelos e vermelhos, e então – de repente – a grande tesoura de cabo
de madrepérola que a mamãe usava fez o seu trabalho e eu desapareci do tapete... Isso foi quando
o velho morreu.
Estávamos lá, eu e Ivan, no píer ventoso naquele final de tarde. Falávamos de dinheiro, e o
velho, que nunca foi pão-duro, mas também não era perdulário, não queria me dar a grana que
eu precisava para abrir o meu negócio com Laura em Oedivetnom. Bem, ele também não queria
que eu fosse viver em Oedivetnom... Ivan tinha se queixado de dor de cabeça quando estávamos
no mar. E depois, no píer, fitou-me com os seus grandes olhos verdes e, de um momento para o
outro, eles se apagaram, todo ele pareceu exaurir-se como se apagassem a chama da sua vida, e
então caiu no chão como um boneco. Tinha havido gritos e palavras duras, mas o que nós
dividíamos era fundo e era forte, e eu sempre tivera orgulho de ser filho de Ivan de Godoy...
Nem sei como contar tudo o que aconteceu depois, os meus gritos, o meu horror, e o pai caído
no chão, apagado, já uma casca do que fora antes, e então chegaram Orfeu e Julius, e depois Flora
e mamãe, e depois Tiberius e Eva. E depois deles, muito depois deles, vieram a polícia e o pessoal
da funerária, e então entramos todos num vórtice, que grande pesadelo!, e até hoje sonho com
isso, com aquela tarde, o sol no mar, os olhos do pai, verdes feito as folhas das laranjeiras do
quintal, e então aquele instante, um estalar de dedos dos deuses, esses eternos debochados, e o
velho já não estava mais ali, tinha ido embora justo quando brigávamos.
“Você não teve culpa”, disse-me a mãe naquela noite quando entrou no meu quarto com o seu
vestido preto. “Don Evandro morreu do mesmo jeito, e outros Godoy antes dele.”
Mas nada disso apagou o incêndio dentro de mim. Fui embora de La Duiva depois do enterro.
Creio que mamãe achou que fosse uma ausência temporária – e talvez eu considerasse as coisas
sob essa perspectiva também –, mas às vezes a gente vai botando um pé na frente do outro, e
assim sucessivamente, e, quando vê, já não dá mais para voltar atrás. Foi mais ou menos isso que
aconteceu comigo.
No meio dessa caminhada, Laura e eu nos separamos. No final das contas, tinha sido uma
paixão infeliz. Quando a coisa deu para trás, eu segui em frente: deixei Oedivetnom e fui
adiante, para o Brasil e, depois, como tinham feito outros tantos navegadores antes de mim,
singrei para Portugal. Tanto mar, tanto mar, mas levei comigo a cicatriz daquela tarde. Os
olhos de Ivan desbotando-se num sopro.
No começo, troquei cartas com a mãe. Depois até mesmo isso foi rareando, rareando...
Simplesmente eu não sabia o que escrever. Ficava horas ali, depois amassava a folha, duas ou
três frases, e ia dormir. Do que eu mais sentia falta? Do farol. Aquele farol tinha sido a minha
casa. Acho que trilhei tanto chão em busca daquelas antigas cintilações douradas que me
acordavam no meio da noite, que me explicavam a ordem eterna das coisas... O velho, de algum
modo – e isso é estranho – seguiu comigo: quanto mais o tempo passa, mais venho ficando
parecido com Ivan. Os mesmos olhos, os mesmos silêncios, os cabelos negros caindo sobre a testa,
o sorriso esquivo. As mulheres gostam, gostam mesmo. Mas eu sou um cara solitário... Fiz a
minha vida aqui em Lisboa. No começo foi difícil, mas depois arranjei um trabalho num barco
turístico, o Auguste, e subo e desço o Tejo com os turistas se acotovelando na coberta, tirando
fotos. É um bom trabalho, e o Tejo virou o meu mar. Então eu sou o velho, mas sem todo aquele
sal, sem o vento da tarde, sem as medusas que vinham dar na areia ao final do dia de labuta.
Aqui, no final do dia, saio com as mãos nos bolsos caminhando por Belém, atravesso a praça em
frente ao mosteiro, entro num dos bares da esplanada e fico tomando umas cervejas. Às vezes,
alguma turista bonita sorri para mim e posso esquecer os meus velhos planos de comer umas
sardinhas com massa e ler um livro na cama. Ah, o velho e bom Ivan me deixou mais do que o
seu amor pela água – ele também era muito requisitado pelas mulheres, e eu ainda me lembro
das feiras em Oedivetnom e do modo como algumas senhoras casadas sorriam para o pai e se
roçavam nele. Mas o velho sempre voltou para casa comigo, para os braços da esposa. Quanto a
mim, não tenho casa ou mulher. Sigo me arranjando bastante bem com as turistas que vêm
comer pastéis de nata aqui por perto.
E foi numa dessas tardes – meu trabalho no Auguste termina às 17h – que aconteceu o que eu
vou lhes contar agora. Engraçado, não foi o primeiro encontro inusitado que eu tive por aqui –
talvez mamãe, lá em La Duiva com as suas agulhas, tenha alguma coisa a ver com isto, pois
alguém trama e junta os pontos desta vida louca, disso eu tenho certeza.
Eu estava sentado numa mesa à esplanada quando vi aquele homem caminhando de mão com
um menino. Nem em mil anos eu esqueceria os cabelos de Tiberius, aquele Thor sulista, com as
suas melenas cor de prata que lhe desciam em cachos pela nuca. De pequeno, era um menino
lindo de se ver, lindo mesmo. Na vila, todos diziam “a rapa do tacho sempre é melhor”, e a mãe
sorria meio sem jeito por causa dos outros cinco filhos. Lá vinha ele, vinte anos depois,
caminhando pela calçada com aquela mesma auréola ao redor da cabeça, e com ele vinha um
pirralho de uns quatro, cinco anos, e os dois riam e falavam, e os olhos de Tiberius vagavam do
céu para o rio ao fundo, e depois para o rosto do menino que o fitava com amor.
Que um raio me partisse ao meio se eu estivesse enganado, foi o que eu falei, pondo-me de pé
como um boneco de molas. Eu só tinha bebido uma cerveja, e não estava ficando maluco.
Quando Tiberius me viu, parado com todo o meu tamanho na calçada a poucos metros dele,
também o seu rosto pareceu transfigurar-se, espantado, emocionado, incrédulo. Ele olhou para o
menino cuja mão segurava e, sem saber o que dizer, não disse nada mesmo, ficou ali no meio da
calçada como o primeiro holandês que viu a primeira praia brasileira. Então eu corri até ele,
cheguei perto, perto mesmo, e senti o seu alento e vi os seus olhos – ainda os mesmos – e notei as
marcas na sua face, marcas novas de tristezas e aventuras, e abaixei o rosto para o menino que
me olhava com aquela calma das crianças, e então tive certeza de tudo, nem sei como, e falei:
“Oi, garoto. Sou o seu tio Lucas.”
Tiberius saltou no meu pescoço, e foi como se o tempo voltasse todo para trás, e ainda
estivéssemos em La Duiva, e ele, o menorzinho, com aquela mania de estrelas e aqueles sonhos
malucos que ele tinha.
Eu estava chorando quando nos separamos, e Tiberius disse apenas: “Quando eu vi você,
Lucas, achei que tinha visto o papai.”
Eu ri alto.
“Por isso aquela cara de quem tinha visto assombração?”
“Juro por Deus”, falou Tiberius. “Você é a cara escarrada do velho.”
“Por dentro também sou igualzinho. Mas não tenho um farol, nem La Duiva e nem filhos...
Isso muda tudo.”
Tiberius puxou o menino para que eu o visse.
“Pois eu tenho um filho. Este é o Santiago.” E, suspirando, anunciou: “Estamos voltando para
casa amanhã, para La Duiva. Depois de quase cinco anos, Lucas... Cinco anos...”, ele repetiu,
como se não acreditasse em si mesmo.
Ficamos um tempo no bar, e o menino tomou um sorvete enorme. Depois – havia tanto a ser
dito! – levei Tiberius para a minha casa, e Santiago tirou os sapatos e dormiu no sofá enquanto
conversávamos pela noite adentro.
Contei da minha vida, das minhas andanças e do velho e bom Auguste. Tiberius falou da sua
peregrinação atrás de Orfeu. E depois Enix, e Zoe, e então Santiago e a volta para a casa.
“Finalmente”, disse ele.
Não era o meu primeiro reencontro. Eu vivera outro, mais inusitado, alguns anos antes. E
falei de Julius, que um dia entrou no Auguste, pagou a passagem e navegou por duas horas,
sentado num canto do convés sob a coberta, tão magro e pálido que não pude reconhecê-lo no
meio das pessoas. No final da viagem, quando aportei em Santa Maria dos Olivais e preparava-
me para descer e tomar um café antes da volta, foi que dei de cara com aquele homem apagado,
parado à porta da cabine como se esperasse por mim, usando um sobretudo grosso – era inverno.
Alguma coisa nele soou-me familiar, talvez os olhos, de um vago azul outonal, mas eu não podia
ter certeza de nada, de modo que lhe sorri – sou sempre simpático com os meus passageiros – e
disse que iria descer um pouquinho para tomar um café quente.
“O barco para por vinte minutos aqui”, falei. “E depois volta para Belém.”
O outro aquiesceu sem sorrir, parecia mesmo abalado de me ver, e então, antes que eu passasse
por ele, perguntou: “Não está me reconhecendo, Lucas?”
Olhei-o com espanto. Sabe, não encontro muitos amigos por aqui. A minha vida é uma
existência partida ao meio. Mas a voz dele também ecoou em mim, vinda de alguma esquina do
tempo, e então subitamente dei-me conta de quem ele era, e recordei-o com o seu blazer escuro,
seguindo Flora como um cãozinho – como Eva e eu ríamos disso na época! –, e depois me lembrei
dele com Orfeu, e de como eram unidos, tanta simbiose, e a vergonha que eu mesmo sentira
daqueles dois e do seu amor escandaloso, e ele andando pela praia, o torso já nu e bronzeado, e o
pai fuzilando-os com os olhos.
“Julius...”, falei baixinho.
Julius sorriu tristemente. Sim, ele disse. Era ele mesmo, ainda era ele. Mas estava muito
doente. Muitíssimo doente.
“Tenho pouco tempo, sabe...”, continuou. “Estou morrendo.”
Eu tinha ido embora de La Duiva antes daqueles dois, mas Eva e eu mantivéramos contato – e
ainda trocávamos cartas –, de modo que era do meu conhecimento que ele tinha fugido com
Orfeu, e então, somente então, ocorreu-me perguntar-lhe: “E cadê o meu irmão?”
Os olhos de Julius se turvaram.
“Nos separamos”, falou. “Para sempre.” E depois, com o olhar perdido no rio cinzento e
silencioso, repetiu: “Para sempre, para todo o sempre...”
Parecia um fantasma. Não soube o que lhe dizer, de modo que fui andando no rumo do portaló
onde os últimos turistas desciam, e Julius veio atrás de mim, pisando tão leve como uma
lembrança, fluido e apagado e exausto, e então, quando eu ia descer, segurou-me pelo ombro, e
por um momento toda a sua força, as últimas fímbrias da sua força, animaram-lhe a mão,
porque senti o meu ombro doer quando ele me puxou. Então, tirando uma folha dobrada em
quatro de um bolso interno do sobretudo que usava, estendeu-a para mim e falou: “Tome...
Guarde isto, Lucas. Se um dia você e Orfeu estiverem juntos, entregue a ele.” Devo ter feito uma
cara estranha, porque ele sorriu. “Não é um testamento nem nada parecido... É apenas um
poema... Um poema de amor.”
Depois que contei isso, Tiberius ficou muito quieto por um longo tempo. E então, fazendo as
contas nos dedos, enquanto o menino ressonava no sofá do meu apartamento minúsculo, ele quis
saber: “Quando foi isso, Lucas?”
“No outono do ano em que comecei no Auguste... Acho que era 1986...”
E então Tiberius contou a sua história. Chiaramonte Gulfi, as ruínas, o vento gelado, Orfeu...
Segundo a história de Tiberius, de algum modo, logo depois que nos vimos Julius deve ter
conseguido localizar o paradeiro de Orfeu.
“Se você o encontrou no outono, Lucas, então Julius morreu pouco depois. Porque quando eu
finalmente achei Orfeu, era inverno, final do inverno de 1986”, disse Tiberius.
“Me senti como Caronte, o barqueiro...”, falei. “E, antes dele, tinha havido Ivan.”
Tiberius quis falar sobre o papai, mas eu pedi que se calasse. Nada mais havia a ser dito a
respeito. Os anos passariam como o vento. Talvez eu mesmo, brinquei, um dia, viesse a apagar-
me feito uma vela.
“A morte herdada”, falei, lembrando-me do que me dissera mamãe. “Mas, espere... Eu ainda
tenho o poema de Julius... Vou buscá-lo para você.”
Tiberius parecia cansado, os últimos tempos não deviam ter sido fáceis. Ele e o filho partiriam
no dia seguinte. Prometi levá-los ao aeroporto, e ele aquiesceu.
“Então vou procurar o poema, deve estar lá no meu quarto. Espere um pouquinho aqui com o
menino.”
Depois de vasculhar algumas gavetas, voltei à sala com a folha de papel ainda dobrada em
quatro, amarelada. Tiberius olhou-a sem abrir.
“Guarde com você”, pedi. “Leve o poema para mamãe. Como uma última lembrança.”
E então Tiberius falou, subitamente: “Volte comigo, Lucas. Podemos retomar o controle do
farol, cuidar de La Duiva como antes... Quero dar uma família ao Santiago. E mamãe, ela
ficaria tão feliz!”
Não vou dizer-lhes que não me senti tentado. Claro que sim. A praia, os rochedos, a casa no
alto da colina pedregosa, os velhos corredores e quartos. Dentro de nós, como nessas casas velhas,
há um quartinho intocado pelos anos, onde guardamos nossas lembranças felizes. O convite de
Tiberius foi como uma lufada de vento a abrir as janelas desse quarto de guardados... Porém,
creio que já vivi o suficiente para saber que certas coisas não têm mais volta... Tiberius e eu
sempre fomos muito diferentes. Para mim, vale aquela coisa, um passo na frente do outro. E
assim sucessivamente. Não sou de pisar as minhas próprias pegadas. Então, eu não disse nada.
Nem sim nem não. Fiquei calado, olhando os estragos do tempo no rosto ainda tão bonito do meu
irmão, deixando simplesmente que o momento passasse e a cortina voltasse a encobrir o passado.
Acho que Tiberius entendeu e não voltou ao assunto. Era muito tarde quando nos despedimos,
e ele tomou o seu menino no colo – era leve como uma pluma – e entrou no táxi que os esperava
lá embaixo.
Olhei-os da janela, de longe, como olhava o mar do alto do farol. A neblina estava baixa e
rebrilhava na luz amarelada dos postes de iluminação pública. “Nadamos muito para chegar
até aqui, e alguns de nós se afogaram no meio do caminho”, foi o que pensei, enquanto o táxi
arrancava lá na rua, fazendo barulho na noite silenciosa.
E então, no dia seguinte, não apareci no hotel para levar Tiberius e o menino até o aeroporto.
Não tive coragem, não tive mesmo. Liguei, um pouco antes do horário combinado, com uma
desculpa esfarrapada na ponta da língua. Não queria que eles perdessem o voo, mas seria muito
fácil tomar um táxi para o Aeroporto da Portela.
Na recepção do hotel, atendeu-me uma vozinha feminina e afetuosa, treinada para agradar.
Pedi que ela me passasse, por favor, para o quarto 902.
“Só um segundo, senhor”, foi o que ela disse.
E eu fiquei ali, sentado na sala da minha casa, o coração batendo forte no peito, e o mar de La
Duiva lambendo os meus pés. E então, depois de um clique, a vozinha voltou ao fone e falou:
“Sinto muito, senhor, mas o hóspede do quarto 902 já foi embora há mais de quarenta minutos.
Ele tinha um voo, senhor.”
Agradeci e desliguei com um sorrisinho nos lábios... Então, não é que a vida tinha ensinado ao
nosso sonhador e doce Tiberius uma meia dúzia de coisas? Foi o que pensei naquele momento. E,
depois disso, me arrumei e fui trabalhar um pouco mais cedo do que de costume, e quando
cheguei ao porto e vi o Auguste ancorado, eu me senti realmente em casa como fazia muito
tempo não acontecia.
Confesso a vocês que, depois desse dia, passei muitos meses sem pensar em La Duiva, ou nos
meus irmãos, na mamãe, que ainda deve estar lá tecendo o seu tricô. Quanto ao papai, o meu
fantasma predileto, bem, sobre ele não há o que fazer... O velho é persistente: me visita no
espelho do banheiro todos os dias pela manhã quando faço a barba ou escovo os dentes.
Poema de Julius para Orfeu:
Tua mão na minha
desde a primeira vez
tão quente
como um verão
a perder de vista.

Fomos unidos
repartidos, feitos
de barro igual,
mas de peculiar geografia.
Tu começas onde eu termino
e eu nunca soube
ser tão generoso
como tu.

Talvez desde sempre


eu te trouxesse em mim
uma promessa
a voz macia
com que eu disse
o meu único sim.

Orfeu, Antínoo dos meus olhos,


teu altar é todos os dias
e a oferenda que te deixo
é a minha juventude.
MAGENTA

Voltei a La Duiva algumas vezes nos últimos anos (Lilith, a única que sobrou,
hein?). Não que eu quisesse muito, preciso confessar. Mas o Leon insistia. Claro, eu
me preocupo com a mamãe. A casa velha e tão, tão grande, o vento, a solidão, as tempestades, o
inverno com as suas noites gélidas – como mamãe consegue acender a lareira sozinha? Quem lhe
fornece lenha e todo o resto? Como ela consegue resistir emocionalmente às tempestades, quando
tudo gira e zune lá fora? Eu me lembro das noites de tempestade, a gente tinha que acender velas
e tirar os lampiões a querosene do depósito. Está bem, reconheço que eu gostava disso quando era
menina e a família toda estava lá... A casa às escuras, ficávamos na sala, o pai contando
histórias ao pé do fogo. Hoje isso tudo me parece quase pré-histórico. Me pego pensando se Robbie
gostaria de uma noite assim, e acho que ele armaria uma bela choradeira (eu também choraria
se tivesse que passar por isso hoje).
Mas eu falava da mamãe...
Mamãe já não é nenhuma mocinha, deve andar arranhando os sessenta anos. Imaginem: ela
sentada naquela sala enorme tricotando um troço esquisito (plac plac plac o tempo todo). Eu na
sua frente, um pouco modificada pelo tempo e pela conta bancária do Leon, mas eu, ainda eu. A
mesma Eva que corria naquelas praias atrás dos marinheirinhos (eu me divertia então, cá entre
nós). E, afinal de contas, fui a única que ficou por perto para segurar a barra da mamãe. Lucas
deu no pé e sumiu no mundo – a última carta que eu recebi dele já faz dois anos, e ele estava
trocando de mulher e de país ao mesmo tempo (Lucas sempre foi radical nas suas ideias) – e,
depois que o papai morreu daquele jeito, foi a vez de Orfeu pegar o seu amiguinho (os mesmos
olhos de Robbie, portanto nunca me esqueço de Mr. Templeman) e se mandar para a Europa. A
Orfeu se seguiu Tiberius (mandado pela mamãe, como sempre). Parece que Tiberius, ao sair de
baixo das asas maternas, criou coragem para ciscar sozinho e também desapareceu em alguma
parte da costa espanhola. Mesmo assim, mamãe está sempre suspirando pelos cantos por ele (o
rebento preferido). Qual foi mesmo o filósofo grego que disse que “o prestígio aumenta com a
distância”?
Retomando, vejam que eu sou a única que sobrou, e era uma prole considerável. Não quero
falar de Julieta e de Flora, que morreram (tenho gasto uma pequena fortuna no psicanalista por
causa da morte de Flora), mas os homens da casa simplesmente deram no pé e atravessaram o
mar. Mamãe deveria guardar mais consideração por mim; ao invés disso, quando chego a La
Duiva, ela se arvora no seu papel de viúva de Tiberius, tricotando (plac plac plaaac). Desta
última vez, foi mais ou menos assim...
Eu: “Mamãe, eu trouxe uns doces e livros para você.”
E ela: “Obrigada, filhinha.” (plac plac.) “Tenho lido poesia. Você trouxe poesia, Eva?”
E eu: “Mamãe, eu trouxe Neruda e também Garcia Márquez. Acho que você vai gostar de
Garcia Márquez... Mamãe, Leon e Robbie mandam beijos. Convidam você pra ir ficar uns meses
conosco lá no Rio.”
E ela: “Ah, não posso, Eva... Estou esperando Tiberius voltar pra casa.” (plac plac plac.)
E eu: “Mamãe, ele não vai voltar.”
E ela: “Vai sim, Eva, ele me escreveu.” (plac plac plac.) “E, quando ele finalmente voltar” (ela
olhou para o tricô imenso quase com mágoa), “nunca mais tricoto um único ponto. Tenho
pensado muito sobre isso, sabe...”
Imaginem: duas horas de avião, metade da tarde em Oedivetnom, e depois aquela gente da
vila e mais o maldito barco do velho Tobias, o fofoqueiro de sempre. E a mamãe lá no seu plac
plac, sempre obcecada pelo seu menino loiro. Ela estava magra, com umas olheiras que
deixariam a minha esteticista de joelhos. A pele ressecada, os olhos tristes, o rosto gasto. Um
mundo inteiro lá fora aguardando para ser experimentado e ela ali, empalada em La Duiva,
esperando sabe-se lá o quê.
E eu: “Mamãe, vamos pro Brasil por uns dias... Você vai gostar de lá. Temos uma casa em
Angra dos Reis. É parecido com La Duiva, mas lá temos um píer e uma piscina e empregados,
mamãe. Você não vai precisar cozinhar por uns tempos. E não existe inverno, não como aqui.”
E ela: “Meu lugar é em La Duiva, Eva... Não posso deixar este lugar. Don Pablo me faz
companhia depois do jantar.” (plac plac plac.) “Jogamos pontinho e contamos velhas histórias...
Às vezes escutamos música.” (plac plac).
E eu: “Mamãe, don Pablo é um velho chato e sem dentes que nunca leu um livro na vida. Você
precisa se divertir um pouco. Você ainda é bonita, mamãe. Não vá se apaixonar por don Pablo.”
E ela, rindo: “Imagina, Eva” (plac plac), “eu ainda amo o seu pai.”
E eu: “Mamãe, papai morreu. E Flora. E Orfeu, foi o que me disseram.”
E ela ofendida: “Não fale isso.” (plac plac.)
Ora, ninguém aguentaria. Eu não aguentei. Por que os velhos são tão teimosos? Mamãe virou
uma estátua de sal, parada ali na fronteira entre o passado e o futuro. Plac plac plac. Certas
coisas a gente deve deixar como estão, de modo que por fim respondi: “Sim, mamãe, me avise
quando Tiberius voltar, mamãe.” E a nossa noite transcorreu amena, ridiculamente inútil, e eu
me senti cada vez mais tristonha naquela casa cujo passar do tempo é tão visível, está em tudo,
nas venezianas, nas gelosias, nas paredes desbotadas, nos móveis pesados e exaustos... É claro que
a casa mexe comigo, e todas aquelas fotografias de papai e da nossa infância, e o livro de Flora
que, afinal, não foi publicado por nenhuma editora depois que ela morreu, o livro que mamãe
guarda ao lado da cama, e os quartos vazios, intocados, quartos que mamãe mantém como se
fossem altares dos seus santos pessoais. No entanto, mamãe é lúcida, estranhamente lúcida sobre
qualquer assunto que não seja La Duiva e os meus irmãos. Teria arranjado pretendentes por
aqui, com aquele seu ainda belo sorriso, e o perfil delicado, e as pernas fortes de caminhar na
areia fofa. Corajosa, eu diria, mas coragem também é um tipo de loucura.
Dois dias depois dessa visita, eu voltei ao Brasil e disse a Leon: “Mamãe está ficando doida com
o velho papo de esperar por Tiberius, essas viagens me deprimem.” E Leon me fitou com uns
olhos de censura. Se ele soubesse... A família de Leon sempre foi bastante equilibrada e sempre
resolveu tudo em presença de advogados, e acho que todos costumam morrer de velhos e
acreditam que o amor não passa de um capricho literário. De qualquer modo, Leon tem pena da
mamãe. Perder dois filhos é uma coisa muito triste, ele diz sempre. E eu corrijo: três. Pois havia a
coitadinha da Julieta... Perder três filhos é impensável, diz Leon (sempre temos esse diálogo nessa
ordem exatamente).
Depois de repetirmos essa conversa ontem, Leon foi se vestir porque tínhamos um
compromisso. Então corri à saleta e dei um beijo em Robbie (meu adorado suvenir), e avisei à
babá que colocasse o menino às dez horas na cama, porque iríamos a uma recepção na casa dos
Ferraz de Almeida e já estávamos um pouco atrasados. Eu me sentia bastante cansada da
viagem, e um pouco triste por causa da mamãe (afinal de contas, não sou tão durona quanto
faço parecer), mas acabei dando a volta por cima depois de três dry martínis, e contei algumas
velhas e boas histórias sobre os naufrágios em La Duiva, e os grandes temporais que faziam a
nossa casa flutuar na noite, e a vez em que vimos um morto enterrado na areia em frente à nossa
casa, histórias que deixaram os meus interlocutores absolutamente encantados. Sempre conto
uma ou duas histórias de La Duiva nessas festas... Afinal de contas, é como eu sempre digo: a
gente tem que mostrar a rosa e esconder os espinhos.
BRANCO

Colocar um filho no mundo, entregar um filho inocente para a vida, essa teia de
felicidade e de terror, misteriosa trama de luz e de sombras, com suas indescritíveis
maravilhas e suas violentas tragédias.
Fiz isso seis vezes, e posso garantir que eu não estava mais preparada na sexta vez do que na
primeira... Certas coisas ficam mais fáceis, porém outras, mais complicadas. No começo, eu
acreditava que o mais dificultoso era o ato de dar à luz, parir aquela criança enredada em
minhas carnes, toda aquela dor e o sangue e a força, a urgência das contrações e o medo e o grito
e a lâmina no cordão umbilical. Ah, quanta ingenuidade... Pois o cordão foi cortado e seis vezes
eu vi o sangue e provei do êxtase, mas a ligação invisível, a corrente misteriosa nunca se desfez;
talvez apenas tenha se invertido em um determinado momento, pois no começo era eu quem
provia, e depois dos filhos foi que veio o meu alimento.
Claro, houve um longo tempo à mingua, quando apenas Eva esteve por perto (e não muito).
No entanto, Eva foi a única que se separou de mim, primeiro a lâmina e o sangue, e depois
efetivamente, quando deixei de perceber os seus desejos ou de ouvir, soprando em mim como o
vento na praia, a voz dos seus pensamentos. Eva, que nunca foi minha... No começo, na primeira
infância, Eva e Flora eram uma coisa só. Depois até mesmo esse elo se rompeu, e Eva seguiu
sozinha pelo mar afora. Quanto aos outros, de um modo ou outro, estiveram perto de mim
durante todo o tempo... Foram mel e foram sal, vento e sol, inverno e verão da minha vida.
Seis vezes eu fiz essa viagem, da terra firme da razão à deriva do mar, o amor.
Lucas, Julieta, Orfeu, Flora, Eva e Tiberius.
Todos os horrores, todas as alegrias, tudo multiplicado por seis. Por anos e anos e anos eles
cresceram aqui, à beira deste farol. Gastei muitas noites em vigília, e a febre, os vírus e as
bactérias foram os meus primeiros inimigos. Havia também o alto, o fundo, o afiado. Eu tinha
bastante com o que me ocupar. Seis pratos, seis mamadeiras, seis pijamas sob seis travesseiros.
Histórias para os seis dormirem, e doze braços que me abraçavam. Embora nunca tenha
acreditado de verdade em Deus (creio que Ernest tenha enfiado esse vazio em mim), eu dizia
palavras por eles antes de dormir, por todos os seis. Porque eu sei que as palavras emanam
energia – e depois Flora, de um modo arrevesado, provou-me que eu estava certa.
Os anos passaram velozes como os lampejos do farol. E então a vida entrou aqui por todas as
portas e janelas, uma tormenta de amores, talentos, agonias, ambições e disputas. A vida fez
realmente uma jogada impressionante: com um único peão, Julius, derrubou três das minhas
peças – ou talvez quatro, porque depois Tiberius saiu atrás de Orfeu e do professor inglês, e mais
uma das minhas crianças se perdeu neste mundo.
Fiquei aqui em La Duiva, pareceu-me o mais lógico. A casa onde eles cresceram e onde vivi
com o meu Ivan. Como uma árvore velha, se eu fosse replantada em outro chão, tenho certeza de
que secaria até a morte. Comecei então a tecer, vocês sabem... Colocar a história da minha gente
em pontos, cores, carreiras. Eu queria encher o farol com as vidas que ele iluminou. Ah, a longa
escadaria, trezentos e sessenta e cinco degraus... Depois eu haveria de jogar-me lá de cima –
coitado do faroleiro, as explicações seriam muitas, a polícia, a Marinha, e então os avisos
fúnebres, e Eva vindo do Brasil, bela e pálida, alquebrada pela notícia, com o seu marido rico e o
menino que vi apenas uma vez, mas cujos olhos eu nunca esquecerei. Era um bom plano, era
mesmo... Morrer aqui, de cara nas pedras, nesta praia que eu amei. Morrer quase como Ivan
morreu naquela manhã lá no píer com Lucas.
Mas então, ontem, depois de cinco anos – mil oitocentas e trinta noites, trezentos bilhões de
pontos, oitocentas mil laçadas, mil e setecentos novelos tecidos –, eu recebi a carta de Tiberius,
não a primeira, mas “a carta”, aquela que finalmente anunciava a data do seu retorno a La
Duiva... Confesso que fiz uma pequena festa particular, eu, uma garrafa de vinho e a constelação
de Órion, a preferida de Tiberius. E pude, então, nessa noite, reconciliar-me com o tempo e com a
vida, que tanto me levou, que tanto sal despejou nestas minhas feridas. Sob a luz do farol, outra
vez brilhando no seu tempo certo, dois segundos, acende, apaga, eu fiz as pazes com o destino.
Vocês sabem, eu teci isto: Tiberius teve um filho na Espanha, e dei-lhe a cor violeta neste meu
tapete de memórias. Agora, Tiberius está voltando para casa, e vamos criar Santiago por aqui...
Ainda posso, ainda tenho força nestes meus braços. Meu coração alquebrado não esqueceu como
se ama, de modo que vou começar uma sétima jornada, lá vou eu mais uma vez, tapando o nariz
e mergulhando fundo na vida até tocar a areia das coisas.
E então finalmente tomei a decisão: estou aqui desfazendo o meu tricô, mortalha destes meus
últimos anos. Foi um jeito de viver, mas agora tudo aquilo que eu teci ficou para trás.
A partir de hoje, retiro os pontos da agulha um a um, e esvazio o meu coração das antigas
dores. Como as árvores do quintal deixam que a primavera cumpra os seus milagres, também eu
estou brotando novamente... Me aproximei do fim, isso é verdade, mas aceito e brindo ao refluxo
da vida, essa maré incessante, e encho os meus pulmões de ar para vir à tona ainda uma vez. Não
vou mais cobrir os trezentos e sessenta e cinco degraus com o meu tapete; guardarei esta
interminável linha de fios e de cores unidas, quilômetros, milhares de quilômetros de fios e de
histórias que poderiam dar a volta ao mundo, mas que nunca saíram desta ilha, guardarei-a
como um novelo imenso e precioso do meu passado eterno.
Hoje, eu, Cecília de Godoy, sou como Teseu, que entrou no labirinto e matou o Minotauro.
APÊNDICE

ELES POR ELES


IVAN, POR CECÍLIA

Uma mulher pode amar um único homem durante a vida inteira, amá-lo do começo ao fim dos
seus dias e, no entanto, perdê-lo na esteira dos anos; perder-se dele, lenta e silenciosamente como a
areia escoa num daqueles relógios antigos. Homem e mulher na mesma casa, anos a fio, entre
fraldas e mamadeiras, risos e choros, tombos e arrependimentos, noites de tormenta, naufrágios,
sopa quente em tigelas de porcelana, achas de lenha ardendo no fogão, o pó acumulando-se
traiçoeiramente entre os livros na estante, o vento lá fora… Bem, essas são as armadilhas de um
casamento. Na maioria das vezes, não há sangue, nem gritos, nem feridas. Apenas o tempo
gotejando como uma velha torneira com o reparo gasto, e um dia você está assim de água até o
pescoço.
Isso aconteceu aqui em La Duiva, com Ivan e comigo… Nossas misérias cotidianas e nossas
pequenas alegrias, tudo junto, misturando-se num amálgama de memórias. Eu, às vezes, quase nem
sabia mais amá-lo. Mas não há nada como a morte para nos chamar à razão — quando Ivan se foi
repentinamente naquela manhã lá no píer, um vazio se abriu dentro de mim. Como se alguma
coisa me comesse por dentro, de repente me vi roída, rota, vazia. O amor sabe ser silencioso, ora se
sabe.
Claro, houve um tempo em que eu ardia por Ivan. Éramos jovens e sempre parecia verão,
porque não ficou em minha memória nada que não as nossas tardes sob o sol, os beijos entre as
pedras do molhe, noites apinhadas de estrelas… Doña vigiava-nos de perto, tão de perto que nos
encontrou aos beijos, e as coisas se precipitaram então. Não creio que deva reclamar daquele tempo,
já que Ivan e eu nos casamos exatamente como queríamos. Ah, as primeiras noites no nosso quarto,
o calor de Ivan junto a mim…
No entanto, os anos passaram. Os anos passaram sobre nós como as ondas do Atlântico lá na
praia. Enchemos esta casa de filhos, fomos felizes e infelizes, um pouco de cada. Ivan, aquele rapaz
alto e circunspecto de olhos verdes, cujos sorrisos embalavam meu sono, foi ficando parecido com o
pai, don Evandro. Ah, que medo eu tinha ao acordar pela manhã com Ivan deitado ao meu lado,
exausto da última tormenta, e ver que o tempo avançara nas trincheiras do rosto do meu marido,
transformando uma coisa em outra, a boca rosada do rapaz que eu adorava, a boca como um
morango em dezembro, suculenta e linda, transmutando-se naquela outra boca, rasgada, dura, a
amarga boca do meu sogro — o tempo é como uma criança travessa que desbasta os canteiros de
um jardim quando apenas nos afastamos um pouco em busca de mais gelo para a limonada.
É claro, não foi apenas Ivan quem mudou. Um dia, dei por mim na frente do espelho do
corredor, vasculhando meus próprios traços, e não encontrei mais ali a menina loira que
cantarolava pelos corredores de La Duiva… Mas a vida é assim, ela joga conosco. Casamos com o
homem x ou a moça y mas, na verdade, o nosso matrimônio verdadeiro, o único do qual não nos
podemos apartar de maneira nenhuma, é com o tempo.
Está certo, eu estou fugindo do assunto — não estou? Como era Ivan realmente? Ah, ele era
lindo, inóspito e dourado como um verão aqui na costa. Ele deixava um rastro de verde em todas as
coisas, era como uma gema preciosa, uma planta, um poço muito fundo — tinha um silêncio cheio
de segredos. Eu pulei naquele poço e fui até o fundo das coisas, até o âmago. Às vezes, podia ser
extenuante, mas valia a pena. Agora que Ivan se foi, nada mais será como antes. Até a casa vem
perdendo o viço, enquanto eu fico aqui na sala tecendo o meu interminável tapete de lembranças.
ORFEU, POR IVAN

O passado resolveu-se para mim com o nascimento de Lucas. De repente, eu estava quite com a
vida. Lucas era tão parecido comigo — mesmo quando pequeno, semente do homem no qual se
transformaria, eu podia perceber a semelhança entre nós. Lucas pensava como eu, e era fácil para
mim entendê-lo e aceitá-lo.
Mas Orfeu? De que lira nasceu a inquebrantável voz de Orfeu? De que palheta as cores do seu
rosto? Andando por La Duiva como um elfo, uma criatura mágica e misteriosa iluminada por um
sol particular, Orfeu parecia saído das páginas de um livro. Orfeu e seu caderno de desenhos, ele
mesmo tão irreal como uma aquarela. Orfeu e seus sorrisos, os poemas que deixava escapar dos seus
lábios suspirantes.
Sempre tive um certo temor de Orfeu. Não dele, do meu filho… Mas medo do que Orfeu seria
capaz de fazer para estar à altura daquela coisa toda que se adensava ao seu redor. Como um ator na
coxia esperando para entrar no palco, capaz de qualquer coisa para ouvir os aplausos da plateia.
E foi assim que a vida me mostrou que nada viria a ser tão fácil como parecia… Não estava
tudo resolvido para os Godoy de La Duiva. Talvez Lucas tivesse mesmo nascido para o farol, como
sucedera comigo: eu tinha assumido com alegria as responsabilidades que outrora cabiam ao meu
pai. Mas Orfeu – e em outra medida Flora, Eva e Tiberius — bem, eles eram as variantes
insondáveis do amanhã.
Desde o primeiro momento, eu soube que seria Orfeu quem abriria a caixa de Pandora do
futuro. Havia alguma coisa nele, dentro dos seus olhos, uma vontade insaciável, uma curiosidade
em tudo, coisas grandes e pequenas — o jeito como Orfeu olhava as pessoas, vasculhando-as sem
pudor: gestos, palavras, silêncios — ele estava sempre atento. Não era tão óbvio, é claro. Apenas
alguns podiam notar essa fome de Orfeu. Atrás do seu caderno de desenhos, andando pela praia
como um náufrago sozinho num mundo perdido, ele disfarçava bem. Parecia aluado, um rapazinho
bonito e distraído, um pouco exótico. Orfeu era viril ao seu modo, com aquele corpo rijo e esguio e
flexível que ele tinha. As garotas da vila o queriam, mas ele parecia desinteressado demais de tudo
que fosse simples ou fácil. Talvez uma moça da cidade, eu pensava, de Oedivetnom ou da Europa.
Nesse tempo, ninguém ouvira falar ainda no professor Julius Templeman…
Orfeu, Orfeu… Eu gostaria de ter conversado com você, conversado honestamente. Ao menos
uma única vez. Mas foi mais fácil para mim fechar os olhos àquilo que eu não podia compreender
ou mensurar. Assim, o tempo passou à deriva de nós dois. O tempo, esse fio que Cecília trama com
as suas agulhas. E agora que me pedem para descrevê-lo, eu gasto todas essas linhas dando voltas em
torno dessa minha dor tão grande… Desse meu arrependimento.
Como você era, Orfeu? Era bonito, bonito demais. Era corajoso, era gentil. As árvores se
curvavam à sua passagem. Desde sempre, eu soube que La Duiva seria pequena demais para você.
Orfeu, o terceiro filho da minha carne, aquele que ganhou o nome do argonauta que, com a
sua voz, apaziguava os mares e neutralizava o temível canto enfeitiçado das sereias.
JULIUS TEMPLEMAN, POR ORFEU

Eu esperei.
Solenemente, por meses a fio, anos inteiros, eu esperei. De peito aberto, jovem e ansioso,
deixei-me ficar lá na praia, olhando o mar. Sentado na areia, o sol quente mordendo a minha pele,
todo aquele verde, o azul e o branco, a praia dentro de mim como uma música — ficava lá,
esperando. De modo que não é estranho que eu realmente estivesse lá quando ele chegou.
Seu nome era Julius Templeman. Chegara de muito longe e não trazia muita coisa consigo,
apenas um livro lido e relido, cuja autora — que vinha a ser Flora, minha irmã — ele procurava.
Eu estava no morro, sentado entre as sarças fazendo rabiscos no meu caderno de desenho e
lembro como se fosse hoje, posso sentir no vento o cheiro amargo das algas e posso provar o
contato da areia e dos pedregulhos sob meus pés descalços. Foi mesmo sem preâmbulos, uma coisa
crua e aguda. Mas não doeu, foi mais como uma epifania. Como uma criança sedenta que, ao ver
um copo de água, pega do copo e bebe seu conteúdo até a última gota. Água se bebe, pensa a
criança, ou o instinto lhe sopra isso nos ouvidos? Não me lembro de uma voz, não me lembro de
nada: apenas a revelação, franca e serena, de que era por ele — por Julius Templeman — que eu
esperara durante todo aquele tempo.
Eu o amei.
Amei-o com todo o meu espírito e com cada gota do meu sangue. Amei-o no instante em que,
lá na praia, ele desceu do barco de Tobias, usando um casaco pesado demais e aqueles mocassins de
pelica que não venceram a caminhada na areia até a nossa casa. Amei-o no seu espanto e na sua
tímida deselegância, amei-o na sua palidez e na sua corajosa solidão. Amei-o, e logo o quis, mas
havia chão e havia pedras, e noites se estendiam à nossa frente como um tapete de espinhos, até que
ele pudesse ser mesmo meu como eu já era dele desde o princípio.
Julius... Tinha os olhos azuis iguais ao mar de La Duiva em fevereiro, e todo ele parecia tão
expectante como uma criança numa dessas quermesses interioranas, crente na promessa de que seus
desejos seriam todos satisfeitos. Julius não imaginava como a sua vida estava por mudar. E assim,
inocente do próprio fado, ele caminhou desajeitadamente pela praia sem nunca erguer os olhos para
as pedras, para a face do morro verde e cinzento onde eu estava sentado. Eu, Orfeu, o destino final
daquela sua tresloucada viagem.
FLORA, POR JULIUS

Sou sua personagem, de certa forma. Inventando-me em seu livro, Flora alinhava nossas vidas, a
realidade da sua vida e da minha naquele outro espaço, naquele outro plano, a ficção.
O que eu nunca saberei é de que modo uma coisa se derramou na outra... O fato é que
atravessei meio mundo, de Londres até Oedivetnom e depois até La Duiva para conhecê-la. Flora
Godoy, a escritora inédita, a moça que escrevera O livro. Ela sabia usar as palavras, sabia mesmo.
Como era Flora? Era alta, tinha belos olhos, a tez dourada. A boca larga, de lábios finos, abria-se
num belo sorriso. Quando estava amuada, seu narizinho se arrebitava. Flora tinha lindos peitos,
longas pernas. Falava pouco, lia muito. Seria uma excelente aluna, e eu teria me apaixonado se a
tivesse conhecido em Cambridge, entregando-me a ela com docilidade: quase posso vê-la jogada no
sofá de veludo do meu apartamento, os cabelos soltos caindo-lhe pelas costas, descalça (depois da
infância em La Duiva, Flora nunca aprenderia a gostar de sapatos), mastigando uma maçã sem
importar-se com o sumo que lhe escorria pelo canto da boca, lendo Dickens enquanto me espera
voltar das aulas na universidade.
Mas as coisas aconteceram de maneira bem diferente. E aconteceram em La Duiva... La Duiva
foi como um antídoto — ou terá sido o próprio veneno? É claro que eu me angustiei, andei
suspirando pelos dias, bebendo espanto e mastigando medo enquanto fazia tudo de um outro jeito,
de um modo absolutamente novo, sentindo tudo de modo diverso e, sendo eu mesmo, já era
completamente outro. Aquele eu cujos passos apressados ecoavam diariamente pelos corredores da
universidade teria amado Flora com loucura, mas tudo isso deixou de existir para todo sempre.
Sobrou apenas este Julius: bronzeado de sol, trajando camisetas e se embebedando de vinho e de
poemas, cruzando o mundo atrás do sonho de Orfeu: um verão eterno.
Flora ficou em La Duiva. Não sei o que foi feito dela, mas merecia coisas grandes: era amável e
inteligente e uma narradora genial. Para além do ponto final do livro que ela escreveu, no entanto,
a vida tinha curiosos planos para todos nós.
TIBERIUS, POR FLORA

A mamãe bordou-o em amarelo. Quando eu penso nele, penso em estrelas. Aldebaran, Sirius,
Pollux, Nintaka. Talvez amarelo seja mesmo bom para uma estrela — não é dessa cor que as
crianças as pintam nos desenhos?
Tiberius. Um nome curioso — meus pais pareciam gostar disso, de escolher nomes exóticos.
Não era bem uma tendência, pois temos Lucas e temos Eva, que vem a ser o nome mais clássico do
mundo, mas era como um vento que soprava às vezes e sacudia tudo: Julieta, a jovem apaixonada de
Shakespeare, e Orfeu, o argonauta. Assim tivemos também Tiberius, o imperador romano. Dizem
os livros que ele foi um grande general, um estrategista. Tristissimus Hominum , assim chamou-o
Plínio, o Velho. O mais triste dos homens.
Engraçado isso, porque sempre achei o meu irmão caçula meio triste. Creio que o peso de todos
os pressentimentos vergou-o como um desses pinheiros da costa que, de tanto serem assolados pelo
vento, já crescem tortos. Porém, têm grande resistência, apesar do caule fino, e talvez por isso
mesmo dançam conforme as tempestades, cedem espaço ao vento e suas raízes seguem firmemente
entranhadas no chão.
Então é isso, Tiberius é o nosso pinheiro. Ele era aprazível como uma sombra numa tarde de
verão, aquele menino calado e atencioso. Carregava seus livros de astronomia para a escola local, e
os garotos mais velhos se riam dele. Tiberius nunca lhes fez caso. Era tão pálido quanto um lírio, e
tão bonito também — saiu mais à mamãe. Sim, sim, sim, todos sabiam que era o seu filho
preferido... Os olhares açucarados que ela lhe deitava! Mas acho que Tiberius merecia todo aquele
amor, ele que era o melhor de nós. No meu romance, dei-lhe o dom da premonição. A vida deu-lhe
ainda mais coisas do que eu, mas cobrou caro por elas.
LUCAS, POR TIBERIUS

Meu irmão mais velho. Sempre ao lado do papai. Entendia de barcos, de ventos e de tormentas. Às
vezes, era como se o pai falasse pela boca do Lucas. Os dois eram tão parecidos que tinham o
mesmo riso.
Lucas deixou a infância cedo e drasticamente, crescendo com uma faina que espantava mamãe,
sempre às voltas com as bainhas das suas calças. Tinha um tipo de beleza máscula, um tantinho mal-
acabada, que fazia com que as mulheres se inquietassem nas cadeiras quando começavam as danças
na quermesse e meu irmão Lucas escolhia seu par.
Mas lá em casa não achávamos ele tão interessante, os irmãos e eu, pois era um cara quieto,
reservado. Acho que quase não dava por mim em La Duiva, e não recordo de uma única
brincadeira, um jogo que tenha feito comigo, um passeio, nada.
Lucas... Ele partiu numa noite, isso foi depois que conheceu Laura. Depois daquela briga com o
pai e de tudo o que veio em seguida. Não gosto de lembrar essas coisas. Eu pressenti algo, um sopro
de tragédia, como quando o pai parava lá no ancoradouro e, sorvendo o ar na tarde quieta, podia
assegurar-nos que uma tormenta estava chegando, escondida no azul do céu, na brisa quente vinda
do mar.
Sobre Lucas, eu sempre soube muito pouco. Cheguei a ver uma mulher num sonho certa vez,
acho que era Laura. Como uma cigana, os longos cabelos escuros, o riso alegre como o chacoalhar
de suas pulseiras. Ela veio feito um temporal, e Lucas esteve à deriva por muito tempo por sua causa.
Não que lhe faltassem moças na vila ou até mesmo em Oedivetnom, e havia ainda as turistas que
vinham no verão conhecer La Duiva — Lucas às vezes se divertia com uma ou outra. Mas Laura
marcou-o. No dia em que a conheceu num café em Oedivetnom, ele voltou para casa mais calado
— tinha ido com o pai visitar uma seguradora dessas que cuidam de cargas marítimas. Naquela
noite, sentado à mesa com um cálice de vinho, enquanto o vento do inverno soprava lá fora a sua
cantilena, Lucas errou as contas e blasfemou baixinho. Era sempre tão contido, mas o surgimento
de Laura pareceu arrefecer os contornos do meu irmão mais velho, e depois disso Lucas fez coisas
que eu não o imaginaria fazendo nem nos meus sonhos mais malucos.
EVA, POR LUCAS

Às vezes, quando estou no Auguste, aparece alguma passageira como Eva. Não parecida com Eva,
mas como ela... Falo desse tipo de mulheres que emana uma vibração, uma energia — é quase como
se tivessem um cheiro próprio, um odor que despertasse certos instintos e glândulas. Portanto, às
vezes, alguma dessas fêmeas entra no Auguste para um passeio, e então a recordação dela bate em
cheio em mim, como um tapa na cara.
Como Eva, todas essas mulheres têm aquele olhar lânguido e, onde passam, uma esteira de
homens põe-se a suspirar. É claro que alguns, os mais afoitos, vão atrás em busca de uma chance.
Mulheres-sereia, assim eu as chamo. Se um marinheiro distraído deixar-se enganar por seu canto
melodioso de promessas, é tragédia certa. Naufrágios incontáveis aconteceram por causa das sereias
e, se você não acredita nelas, vá ler um pouquinho de mitologia. Se você não acredita mesmo nelas,
gostaria de levá-lo, não pelo Tejo até Belém como faço hoje em dia pilotando o Auguste, mas pelo
tempo até a distante e perdida La Duiva da minha juventude. Sete, oito anos atrás, cortemos a maré
dos anos rumo ao sul das minhas lembranças...
O mar e o céu azul e todo aquele silêncio novo em folha, o dourado da tarde multiplicando-se
na areia marcada pelas gaivotas e pelo vento. Assim era La Duiva, com o velho farol para além dos
molhes, onde as medusas vinham morrer sob o sol, e as dunas lisas, o morro recortado pelas pedras,
verde aqui e ali de sarças, o vulto da casa lá no alto a espiar o mar como um grande bicho
dorminhoco. Em algum lugar disso tudo, em algum metro quadrado daquela praia, estaria Eva...
Seus longos cabelos vermelhos gritando sob o sol do verão, o belo corpo esguio, bronzeado, liso e
lento. Sobre uma toalha, Eva de biquíni. Ela não lia nenhum livro, não era esse tipo de garota —
passava as tardes em comunhão com o céu e o mar. Linda, tão linda quanto aquela praia, e ainda
mais agreste.
Eu ficava com o pai lá na oficina ou no ancoradouro, trabalhando duro por horas a fio. Havia
sempre outros homens por lá, marinheiros jovens e velhos, e homens de terno anotando cifras em
planilhas complicadas — era a gente das seguradoras. Havia sempre um motor aberto ou uma carga
a ser conferida, salva de alguma das muitas tormentas que açoitavam a nossa costa, pois era assim
que papai ganhava o seu dinheiro: salvando coisas do mar.
No meio disso, volta e meia um dos marinheiros jovens saía para dar um passeio pela praia.
Depois de uma desculpa qualquer, o rapaz corria para ter com Eva. Ela era farta e generosa em seus
favores e, quando escolhia alguém, as suas impronunciáveis promessas eram muitas... A sua beleza
tornara-se famosa em toda a região. Eva trocava rapidamente de amores, mas, de qualquer modo, o
ancoradouro e as oficinas do papai forneciam-lhe um constante e fácil fluxo de vítimas.
Ah, ela era uma sereia caprichosa... Queria sempre mais e mais. Houve um afogamento certa
vez, tinha morrido um rapaz de La Malopa que estivera em La Duiva com Eva por três ou quatro
tardes ardentes. Depois chegou-lhe um bilhete, o último bilhete que o coitado escrevera antes do
suicídio, um textinho desesperado de amor. Foi Tobias, o barqueiro, quem trouxe o envelope para
Eva. Lembro-me dela lendo aquelas linhas aos suspiros, depois passou-me a folha de papel em que a
letra disforme se esparramava em declarações desesperadas, e disse:
"Leia, Lucas. E depois me explique como alguém pode ser tão tolo. Será que ele não sabia que
tudo não passava de uma brincadeira entre nós?"
Parecia triste, a bela Eva, mas não chorou uma lágrima — acho que nunca a vi chorando. Mas,
saibam, eu gostava dela. Era sincera e mordaz, uma boa companhia quando a gente não estava
apaixonado por ela. Paixão é uma espécie de fraqueza, e minha irmã sempre detestou os fracos.
Às vezes vejo uma mulher ou outra como Eva aqui no Auguste, eu já disse, e trato de manter
uma boa distância. Um navegador que se preze aprende rápido a fechar os ouvidos aos perigos do
outro mundo.
JULIETA, POR EVA

Calhou que eu tenho de apresentar-lhes Julieta, a minha irmã doente. Estaria Flora manipulando,
uma vez mais, as coisas por aqui? Eu, a bruxa malvada, a garota insolente e insaciável que tentou
roubar o professor inglês dos braços do seu amor — eu, a sereia de La Duiva, a Lilith de Flora. Mas
cumprirei com o meu papel — vou contar-lhes um pouco de Julieta.
Julieta Godoy, morta aos vinte e um anos. Um acidente no parto e a segunda criança de Cecília
teve uma existência triste, eterna vítima daqueles segundos sem oxigenação que danificaram seu
pequeno cérebro, estraçalhando seu futuro. Não mentirei por aqui — quando vocês lerem o livro,
saberão que sou implacável, mas eu diria que sempre fui apenas sincera. O mundo desaprendeu a
sinceridade, e todos andam por aí aos salamaleques e sorrisos, uns bobos da corte que pelas costas
alheias fazem as mesmas intrigas shakespearianas de sempre. Eu não. Eu dou o tapa e mostro a mão
— esta mão onde Leon colocou uma grossa aliança de ouro quando me levou embora de La Duiva
para sempre.
Portanto, digo-lhes: Julieta foi uma coitadinha, enfiada em suas fraldas, babando pelos cantos,
com aqueles seus tristes olhos ausentes. Diziam coisas sobre ela, é claro... Que enxergava o fantasma
da avó, Doña, a malvada. Que este fantasma espicaçava-lhe as madrugadas, e que era por isso que
ela gritava e gritava e gritava até deixar-nos a todos exaustos.
Experimentem, meus queridos, dormir com uma ladainha daquelas... Os gritos roucos de
Julieta pareciam vir do além — Julieta era o nosso fantasma, a nossa quase-presença, o motivo dos
eternos olhos úmidos de mamãe e do constrangimento seco de papai. Ela era como uma dessas
massas de bolo que não crescem direito: a princípio, no calor do forno, incham e sobem e brilham,
depois caem para dentro de si mesmas, deixando atrás de si apenas a superfície das suas promessas
não cumpridas. Havia no seu rosto arruinado a sombra da beleza de mamãe, os traços delicados de
mamãe misturados num amálgama, como se ela não fosse o quadro, mas a paleta de um pintor
talentoso. Se Doña vinha do outro mundo para incomodá-la, vinha por causa daquele espanto
eterno que saltava dos seus olhos.
Bem, era maçante estar com Julieta. Chega um tempo em que você cansa de ter pena e
simplesmente segue em frente. Ela foi um bom brinquedo na nossa infância, era a nossa boneca
desengonçada e quieta — depois a esquecemos, e mamãe seguiu escrava da rotina de amá-la e
alimentá-la. Pobre mamãe, eu lhe tinha pena, mas ela parecia até mesmo apreciar aquela filha
doente e a sua eterna infância.
Então Julieta morreu; morreu sem gritos numa noite, depois de passar duas décadas ganindo
pelas madrugadas. O seu quarto foi esvaziado, e a cama e todas aquelas coisas de que ela necessitava
para viver foram doadas para um lar de doentes em Oedivetnom. Quando ela morreu, Lilia
também partiu. A casa começou a esvaziar até que restou apenas mamãe. Mas acho que Julieta
nunca foi embora realmente, seu espiritozinho confuso e assustado permaneceu lá em cima, no
promontório, gritando com o vento nas noites de inverno, como ela sempre gostara.
DOÑA, POR JULIETA

"Você morre no final, Julieta. É assim que eu ganho." A velha falava sempre isso. Parada ao lado da
minha cama à noite, a velha falava. Tínhamos tempo, ela e eu, todo o tempo do mundo. A doença
e a morte são duas eternidades. "Você morre no final, Julieta. É assim que eu ganho." A velha repetia e
eu gritava.
Tarde da noite, eu gritava, gritava. No escuro. Sozinha. Demorava muito até que acendessem a
luz, e era sempre mamãe. "Não grite, Julieta", ela pedia. Mamãe não sabia, nunca soube, que, junto
com o desenho da sua boca, eu herdei o seu medo da velha. Doña. Foi ela quem apertou o cordão.
Aquele cordão de sangue e de seiva que me unia a mamãe, foi a mão dela que fez aquilo. Foi culpa
dela, da velha que era minha avó e que jurou se vingar da mamãe. Lucas escapou, mas eu não. E,
depois de mim, Doña deixou os outros em paz.
Doña. Ela tinha um nome: Alba. A mãe do meu pai. O meu fantasma. Cada grito que eu dei, a
culpa foi dela. Saía das reentrâncias entre os tijolos das paredes, saía de dentro do copo de suco, da
banheira, do armário do quarto. "Buu!", ela fazia. "Juuu", ela chamava. Ficávamos horas nos
olhando, eu olhando pra ela, ela olhando pra mim. "A nossa brincadeira", ela dizia. "O nosso pequeno
jogo, meu e seu, menina maluca... E você morre no final."
Ela era má, muito má. Nem bonita, nem feia. Mas triste, de uma tristeza de caruncho. Triste
como um campo incendiado, como uma árvore caída com as raízes secando ao sol. Doña. Mas o
nome dela era Alba, embora nunca ninguém mais se lembre disso por aqui.
ERNEST, POR DOÑA

Preto safado. Desde o começo, eu sempre soube. Não queria o Ernest lá. Sempre atrás do Evandro
para cima e para baixo, era sim senhor, não senhor, mas ele tinha um jeito de olhar, um jeito! Tinha
uns olhos desrespeitosos, escrutinadores, brilhantes. Era como se o Ernest levasse o farol dentro dos
olhos!
Depois que o meu filho cresceu, vivia atrás daquele preto. Não sei o que o Ivan via nele. Eu
reclamava, mas o marido dizia, Deixa eles. Ernest foi uma má influência para o meu Ivan, foi ele
quem meteu na cabeça do menino aquela história de amar a Cecília. Lá na praia, eles falavam por
horas e horas. Decerto o Ernest contava histórias de amor pro meu filho, aquelas histórias que ele lia
nos livros — porque o Ernest lia, lia muito! Passava pela varanda aos domingos com um livro
embaixo do braço, e então me olhava de esguelha, muito metido, muito airoso. Que diacho de
homem aquele! E olha que deve ter tido um único par de sapatos na vida, era mais pobre do que
Jesus na manjedoura.
Eu sempre detestei o Ernest, sempre. Depois que o Evandro morreu, deixando tudo de pernas
pro ar, e o meu filho casou com a Cecília, aquele maldito preto continuou por lá, se espalhando
feito água, dando conselhos para o Ivan, emprestando livros para a Cecília. Se eu não tomasse
cuidado, o Ernest acabaria sentado à nossa mesa fatiando o pão dos domingos.
E então, quando as coisas pareciam ter chegado ao fundo do poço e a Cecília empinava aquela
barriga de grávida pelos corredores de La Duiva, eu fiquei doente, muito doente. Foi praga do
Ernest, Deus me valha. Foi praga daquele preto comedor de papel. Mas eu dei um jeito, ah se dei...
Eu morri, mas acabei levando o Ernest comigo.
TOBIAS, POR ERNEST

Ele era um barqueiro, diria Ivan, que sempre foi tão pragmático. Para Flora, Tobias era um
personagem como todos nós. Eu, que sempre gostei de histórias, que nunca tive dinheiro no banco
ou moradia própria, mas que podia declamar Shakespeare e Donne e conhecia Plínio e deliciava-me
com Homero — eu, a cada vez que penso no Tobias, penso no barqueiro de Hades, o velho
Caronte.
Tiberius, apaixonado por astronomia, diria que Caronte era o satélite natural de Plutão. Eu
digo que Tobias era o nosso Caronte. Já estava aqui quando eu cheguei, atravessando incontáveis
vezes o mar do vilarejo até La Duiva. Levava os vivos e os mortos, quando alguém morria nas
bandas do lado de cá. Quando Don Evandro faleceu naquela manhã fatídica, sem que ninguém
visse meti-lhe uma moeda na boca, sob a língua: a paga de Caronte. Porque eu não queria que o
patrão andasse pela praia feito uma alma penada pelos próximos cem anos. E Tobias levou Don
Evandro, e ele ganhou sua cova no pequeno cemitério da vila, onde viria a se encontrar com Ivan
muitos anos depois. Quando Doña morreu, nada de moedas. Tobias levou-a também, sem
perguntas. Mas uma parte de Doña ficou por aqui, assombrando os vivos. Tobias me disse, certa
vez, que a viu numa noite de tormenta lá no alto do morro, magra e luminosa, um fantasma
soprado pelo vento, os olhos de um vermelho feito brasa.
Tobias, o nosso barqueiro. Indo e vindo pelos anos e através das marés, levando e trazendo
mantimentos, notícias e visitantes. Ah, ele viu e ouviu muita coisa. Levou Lucas para o seu exílio, e
Orfeu e seu amor partiram no seu barco naquele fatídico alvorecer de inverno. Tobias viu Flora na
sua última noite, jogando ao vento as folhas do seu único e inédito romance. Um dia depois, levou-
a também para o outro lado. Tobias, o nosso Caronte... Velho como o tempo e silencioso como a
lua.
CECÍLIA, POR TOBIAS

Cecília, era o seu nome. Ela chegou em La Duiva ainda usando meias grossas de menina e os
cabelos atados numa trança. Cresceu rápido e virou uma mulher bonita. Eu não me surpreendi
quando meu contaram que Ivan, o filho de don Evandro, estava apaixonado por ela, a empregada
da casa. Não porque os Godoy vivessem naquela ilha, meio retirados do mundo, mas porque a
beleza da moça era de chamar a atenção mesmo em cidade grande. Imagina os dois lá, tão jovens e
todo aquele sangue correndo nas veias... Foi dito e feito. Logo, estavam juntos, e o velho enterrado
sob sete palmos de terra. Mas ele teria gostado de ver os filhos que aqueles dois fizeram, teria
mesmo! Encheram La Duiva de risos e alegria. Claro, teve a menina doente, mas até nisso dava
gosto de ver a Cecília: nas fainas com a filha. Que boa mãe que aquela rapariga saiu!
Depois os filhos cresceram, chegou aquele estrangeiro, o professor que falava enrolado, e as
coisas mudaram por lá. Um a um, os filhos foram deixando a grande casa no alto do morro, e Ivan
morreu tão de repente quanto o pai. Cecília ficou lá. Ainda era muito bonita, dava pena aquela
solidão... Sempre com o seu tricô, eu ia e vinha todas as semanas, e ela lá, no ancoradouro, com
uma fome de verdes e azuis, de amarelo-canário e violeta. Vivia de tecer — cada ponto, uma
memória costurada, materializada. Eu insistia com ela que saísse, que passeasse na vila, uma prosa
com os velhos conhecidos, essas coisas que alargam a alma da gente. Mas ela? Nunca. Parecia uma
âncora enfiada na terra, segurando La Duiva para que até mesmo a ilha não inventasse de tomar
outro rumo.
Na vila, começaram a falar. Uns diziam que estava ficando louca, matusquela; outros, que tinha
um amante, que andava pela praia à noite esperando seu homem sob o luar. As gentes sempre
inventando... Veneno puro! Eu negava: "Pobre Cecília, fica lá sozinha com suas agulhas e o farol."
Eu podia provar, podia mesmo. Mas deixei pra lá. Enquanto falavam dela, Cecília parecia mais
viva, mais real. Porque mesmo pessoalmente ela estava se apagando, igual a uma pintura sob a
chuva. Borrava-se, evaporava. Comecei a achar que não duraria muito. Tocava o barco para La
Duiva com o coração pesado, aquele medo de não encontrá-la no ancoradouro, de ter de subir pelo
caminho entre as sarças até a varanda, e adentrar a casa, pisar as lajotas que o velho don Evandro
mandou vir de Oedivetnom, cruzar a sala ampla com seus móveis antigos e entrar naquele quarto
nunca visto, apenas imaginado. Já carreguei muito morto nesta vida, neste barco aqui — mas
Cecília... Eu não queria, não queria mesmo. Preferia aposentar meu barco e passar o resto da vida
no café lá da praça, jogando cartas com os outros velhos. Mas, como é mesmo que se diz? Em
qualquer poça d'água Deus pode fazer um peixe.
Então, um dia, quando Cecília já estava desbotada feito memória de infância, Deus estalou os
dedos para ela. Eu estava lá, eu vi. Sou testemunha, e o mar também.
Sobre a autora

LETICIA WIERZCHOWSKI nasceu em Porto Alegre em 1972 e estreou na literatura aos 26


anos. Publicou onze romances e novelas, uma antologia de crônicas, além de cinco livros
infantis e infantojuvenis. É autora de A casa das sete mulheres, romance que inspirou a
série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em trinta países. Com obras
publicadas no exterior, a escritora recebeu o Prêmio Açorianos de Literatura, em 2012,
por Neptuno.

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