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Recurso sobre caducidade da marca Rolapipas

Sentença relativa a direitos de propriedade industrial

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Assinado em 22-01-2024, por

Daniela Pinheiro da Silva, Juiz de Direito


Processo: 129/23.7YHLSB
Referência: 558620

Lisboa - Tribunal da Propriedade Intelectual


Juízo da Propriedade Intelectual - Juiz 3
Rua Marquês da Fronteira - Palácio da Justiça
1098-001 Lisboa
Telef: 213846400 Fax: 211373576 Mail: [Link]@[Link]

Recurso de Propriedade Industrial

***
SENTENÇA

I. RELATÓRIO

ADRIANA MACEDO AFONSO MOREIRA veio, ao abrigo do artigo 38.º, alínea b), do Código
da Propriedade Industrial, recorrer do despacho do Exmo. Senhor Diretor da Direção de Extinção de
Direitos do INPI, por subdelegação de competências do Conselho Diretivo, publicada no BPI N.º
2022/04/28, que deferiu o pedido de declaração de caducidade da marca nacional n.º 546.579
“ROLAPIPAS”, para assinalar vinhos, registada no INPI desde 22 de julho de 2015.

Alegou, em síntese, que:


1. A requerente adquiriu a marca “Rolapipas ”por contrato celebrado com a anterior titular,
TECAGEST - GESTÃO E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS IMOBILIÁRIOS S.A., em 11 de Maio
de 2021.
2. A transmissão foi registada no Instituto Nacional de Propriedade Intelectual em 15 de junho
de 2021 tendo o mesmo sido deferido por despacho, com averbamento em 29 de junho de
2021.
3. Adquirindo a aqui A. direito pleno de uso e fruição da marca “ROLAPIPAS” em 29 de junho de
2021, por averbamento no BPI n.º 125/2021, a obrigação de utilização da marca no período
de cinco anos ainda não se esgotou, pelo que não existe fundamento para a declaração de
caducidade.
4. Caso assim não se entenda, houve, efetivamente, uso comercial da marca, não só pela
Tecagest como pela atual titular do direito de uso e fruição da marca “ROLAPIPAS”.
5. Tal facto é notório, pela utilização da marca “ROLAPIPAS” nas garrafas de vinho dos anos de
2019, 2020, 2021 e 2022. (Cfr. Documentos 3 e 4 que se protestam juntar no prazo máximo
de 10 dias).
6. Igualmente junto do IVDP foi efetuado o competente registo para utilização da marca
“ROLAPIPAS” nas garrafas. (Cfr. Documento 5 que se protestam juntar no prazo máximo de
10 dias).

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7. Apesar de nas garrafas se fazer menção à produção e engarrafamento por João Brito e
Cunha Lda., na realidade a produção sempre foi detida pela Tecagest e desde 2021 é
pertença da aqui A. e da sociedade de que esta é sócia e que por esta foi constituída
designada por Rolapipas Lda., conforme facilmente se comprovará pela prova testemunhal
arrolada.
8. Acresce que o produto representado pela marca “ROLAPIPAS” é frequentemente
disponibilizado e comercializado no alojamento detido pela sociedade Comercial Rolapipas
Lda. designado por Casa do Rolapipas sito no apeadeiro de Merouço, conforme se
comprovará pela prova testemunhal arrolada. Cfr. Documento 6 que se protestam juntar no
prazo máximo de 10 dias
9. Dito isto, afigura-se que a Recorrente utiliza com frequência a marca em crise levando a
concluir que existe justificação comercial para o uso da marca uma vez que a Recorrente a
utiliza na comercialização do seu alojamento.
10. Afigura-se-nos, igualmente que, o mercado em que ocorreu esse uso foi Portugal, que é o
mercado relevante para a marca nacional em crise.
11. O uso da marca teve uma justificação comercial objetiva e teve por fim conservar um
mercado.
12. Finalmente o âmbito temporal do uso da marca é inequívoco.
13. A A. e o anterior titular do direito utilizaram a marca pelo que a alegação de não uso sério é
manifestamente injustificada.
14. A A. fez um uso comercial da marca aqui em crise com intenção de conservar o respetivo
mercado nacional, através da venda no seu alojamento.
15. Do que vem exposto resulta que, a A. logrou provar o uso sério da marca com o âmbito
territorial e temporal exigido para impedir a caducidade.
16. Face ao exposto, denota-se uma utilização regular e continua da marca, caindo por terra o
argumentário utilizado no pedido de caducidade da marca por uso não sério.
17. Pelo que, a decisão proferida pelo INPI sobre a caducidade do uso da marca “ROLAPIPAS”
deve ser revogada.

***
A Recorrida apresentou contra-alegações, sustentando, em síntese, que as “provas” de uso
apresentadas pelo Recorrente:
1. Não provam qualquer efetiva colocação no mercado (documentos 5, 7, 8 e 9);
2. Não se referem ao período legalmente relevante (documentos 3, 4, 6 e 11);

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3. Não se pode inferir de forma credível qualquer relação das mesmas com a Recorrente
(documentos 3, 4, 5, 6, 7 e 10 – este último apenas quanto à fatura 2022/22183 de 2022-07-
06).
4. No seu conjunto as provas apresentadas não provam um uso consistente e intenso no tempo
(todas elas)
5. Igualmente as mesmas não provam um uso estável nem um uso quantitativamente relevante
(todas elas).

***

O Tribunal é competente em razão da nacionalidade, da matéria e da hierarquia. O processo


é o próprio e não enferma de nulidades que invalidem todo o processado. As partes têm
personalidade e capacidade judiciárias, estão regularmente representadas. Não existem outras
nulidades, exceções ou quaisquer questões prévias que obstem ao conhecimento do mérito da causa
e que cumpra agora conhecer.

***

II. FUNDAMENTAÇÃO DE FACTO

Considerando a posição das partes e o processo tramitado no INPI, encontram-se


provados os seguintes factos, com interesse para a decisão da causa:

1. Em 24.04.2015, TECAGEST - GESTÃO E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS IMOBILIÁRIOS, S.A.


requereu a titularidade da marca nominativa nacional nº 546579, ROLAPIPAS, abrangendo os
produtos da classe 33 “vinhos”.

2. O INPI proferiu despacho de concessão da marca em 22.07.2015.

3. Em 15.06.2021 foi requerido o averbamento da transmissão da marca a favor da Recorrente


ADRIANA MACEDO AFONSO MOREIRA, o que foi deferido pelo INPI.

4. Em 27/06/2022, a aqui recorrida apresentou no INPI um pedido de declaração de caducidade da


marca nominativa nacional nº 546579, ROLAPIPAS, alegando a falta de uso sério do referido
sinal nos últimos 5 anos consecutivos e justificando o seu interesse e a sua legitimidade na
formulação do pedido de declaração de caducidade pelo facto de ser titular de diversas marcas

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contendo a designação “ROLA” para assinalar produtos idênticos aos compreendidos pelo
presente registo.

5. Em 29.08.2022, a Recorrente ADRIANA MACEDO AFONSO MOREIRA deduziu resposta,


apresentando provas de uso.

6. Em 03.10.2022, a Recorrida apresentou uma exposição suplementar.

7. Por decisão do Diretor da Direção de Extinção de Direitos do INPI, proferida em 20.02.2023, foi
deferido o pedido de declaração de caducidade.

***
8. A recorrente apresentou no INPI as seguintes provas de uso:
a. Certidão permanente do registo comercial relativa à constituição da sociedade ROLAPIPAS,
LDA, com sede em Apeadeiro de Merouços, freguesia de Castedo e Cotas, Alijó, Vila Real, e
capital social de € 5.000,00, tendo como sócios Adriana Macedo Afonso Moreira
(Recorrente), João Macedo Afonso Moreira, Ana Cristina Da Cunha Macedo Moreira e Nuno
Paulo Correia e Afonso Moreira e objeto social a) A compra, venda e revenda de imóveis
adquiridos para esse fim. b) a actividade de hospedagem em casas particulares que,
servindo ou não de residência aos donos, satisfaçam, pelas suas características especificas,
os requisitos legais para fins turísticos com carácter familiar. Pode revestir a forma de
turismo de habitação, turismo rural, agro- turismo e turismo de aldeia. c) as actividades de
consultoria, orientação e assistência operacional às empresas ou a organismos (inclui
públicos) em matérias muito diversas, tais como: planeamento, organização, controlo,
informação e gestão; reorganização de empresas; gestão financeira; estratégias de
compensação pela cessação de vínculo laboral; consultoria sobre segurança e higiene no
trabalho concepcão de programas contabilísticos e de processos de controlo orçamental;
objectivos e políticas de marketing; gestão de recursos humanos. d) o aluguer de
embarcações de recreio e instalações associadas, cavalos de sela, bicicletas, esquis,
cadeiras e chapéus de sol e outro equipamento recreativo e desportivo.
b. Declaração, assinada em 15.06.2021 através da qual a Recorrente Adriana Afonso Moreira,
na qualidade de proprietária da marca Rolapipas registada no INPI sob o nº 546579, autoriza
a utilização desta marca para o pedido de forma a constituir Rolapipas, Lda.
c. Fotografia de garrafa de vinho branco Douro, 2020, com o rótulo alusivo à marca
“Rolapipas”.

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9. No âmbito do presente Recurso, a Recorrente apresentou as seguintes provas de uso:
a. Contrato de transmissão de marca celebrado com a anterior titular TECAGEST (documento nº
1);
b. Registo da transmissão no INPI; (documento nº 2)
c. Fotografia de três garrafas de vinho da marca “ROLAPIPAS”, com referência aos anos de
2016, 2020 e 2021. (documento nº 3)
d. Fotografia de uma garrafa de vinho com a marca “Rolapipas” (documento nº 4)
e. Ficha de aprovação do rótulo no IVDP, I. P. para utilização da marca “ROLAPIPAS”
(documento nº 5);
f. Fotografia de guardanapo de pano com bordado “Rolapipas”, “Douro” (documento nº 6);

***

III. FUNDAMENTAÇÃO DE DIREITO

DOS FUNDAMENTOS DO RECURSO

3.1. Enquadramento jurídico

3.1.1. O artigo 5.º C, nº 1 e 2, da Convenção para a Proteção da Propriedade Industrial,


assinada em Paris, em 20 de março de 1883, revista pela última vez em Estocolmo, em 14 de julho
de 1967, e alterada em 28 de setembro de 1979 dispõe que «1) Se num país o uso da marca
registada for obrigatório, o registo só poderá ser anulado depois de decorrido um prazo razoável e se
o interesse não justificar a sua inação. 2) O uso, pelo proprietário, de uma marca de fábrica ou de
comércio, por forma que difira, quanto a elementos que não alteram o caráter distintivo da marca, da
forma por que esta foi registada num dos países da União [para a proteção da propriedade
intelectual, instituída nos termos do artigo 1.° da Convenção de Paris], não implicará a anulação do
registo nem diminuirá a proteção que lhe foi concedida.»
Na ordem jurídica comunitária, o Considerando 10 do Regulamento nº 207/2009 refere que
«Apenas se justificará proteger as marcas comunitárias e, contra elas, as marcas registadas
anteriores[...] na medida em que essas marcas sejam efetivamente utilizadas.
O artigo 7.° deste Regulamento, sob a epígrafe «Direito conferido pela marca comunitária»
dispõe que «A marca comunitária confere ao seu titular um direito exclusivo. O titular fica habilitado a
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proibir um terceiro de utilizar, sem o seu consentimento, na vida comercial: [...] b) Um sinal que,
pela sua identidade ou semelhança com a marca comunitária e pela identidade ou semelhança dos
produtos ou serviços abrangidos pela marca comunitária e pelo sinal, provoque o risco de confusão
no espírito do público; o risco de confusão compreende o risco de associação entre o sinal e a marca;
c) Um sinal idêntico ou similar à marca comunitária, para produtos ou serviços que não sejam
similares àqueles para os quais a marca comunitária foi registada, sempre que esta goze de prestígio
na [União] e que o uso do sinal sem justo motivo tire partido indevido do caráter distintivo ou do
prestígio da marca comunitária ou lhe cause prejuízo.»
Por outro lado, o artigo 15.°, nº 1, do mesmo regulamento, sob a epígrafe «Utilização da marca
comunitária», tem a seguinte redação: «Se, num prazo de cinco anos a contar do registo, o titular não
tiver utilizado seriamente a marca comunitária na [União], para os produtos ou serviços para que foi
registada, ou se essa utilização tiver sido suspensa por um período ininterrupto de cinco anos, a
marca comunitária será sujeita às sanções previstas no presente regulamento, exceto se houver
motivos que justifiquem a sua não utilização.
São consideradas como ‘utilização’, na aceção do primeiro parágrafo: A utilização da marca
comunitária sob uma forma que difira em elementos que não alterem o caráter distintivo da marca na
forma sob a qual foi registada; [...]»
O artigo 51.º, n.° 1, do Regulamento nº 207/2009, sob a epígrafe «Causas de extinção»,
estipula que «Será declarada a perda dos direitos do titular da marca comunitária, na sequência de
pedido apresentado ao [Instituto de Harmonização do Mercado Interno (marcas, desenhos e
modelos)] ou de pedido reconvencional em ação de contrafação: a) Quando, durante um período
ininterrupto de cinco anos, a marca não seja objeto de utilização séria na [União] em relação aos
produtos ou serviços para que foi registada e se não existirem motivos justos para a sua não
utilização; todavia, ninguém poderá alegar a extinção dos direitos do titular se, entre o termo desse
período e a apresentação do pedido ou do pedido reconvencional, a marca tiver sido objeto de um
início ou reinício de utilização séria; no entanto, o início ou reinício da utilização durante o período de
três meses anterior à apresentação do pedido ou do pedido reconvencional, desde que esse período
não tenha sido iniciado antes do termo do período ininterrupto de cinco anos de não utilização, não
será tido em consideração se os preparativos para o início ou reinício da utilização apenas
começarem depois de o titular ter tido conhecimento da possibilidade de vir a ser apresentado o
pedido ou o pedido reconvencional.
Finalmente, os artigos 42.º, n.º 2, e 57.º, n.º 2, do Regulamento n.º 207/2009 prevêm
expressamente que a prova da utilização séria ou de motivos justos de não utilização incumbe ao
titular da marca em causa, sob pena de rejeição da oposição ou do pedido de anulação. Como se
refere no Acórdão do TJUE de 26.09.2013, “(…) é pacífico que o referido titular é quem está em

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melhores condições, ou, em certos casos, é mesmo o único em condições de fazer a prova de atos
concretos que permitam fundamentar a afirmação segundo a qual fez uma utilização séria da sua
marca ou de expor as razões que justificam a sua não utilização. Assim acontece, nomeadamente,
quanto aos documentos justificativos destinados a demonstrar essa utilização, cuja enumeração
exemplificativa, como embalagens, rótulos, tabelas de preços, catálogos, faturas, fotografias ou
anúncios de jornais, está contida na regra 22, n.° 4, do Regulamento n.° 2868/95.”
[Link]
8?text=&docid=142205&pageIndex=0&doclang=PT&mode=lst&dir=&occ=first&part=1&cid=15290869

3.1.2. Similarmente, na ordem jurídica interna, o titular do registo de uma marca adquire o
direito de propriedade e do exclusivo da marca para os produtos e serviços a que se destina (art.
210.º do CPI), conferindo-lhe o direito de impedir terceiros, sem o seu consentimento, de usar, no
exercício de atividades económicas, qualquer sinal se: a) Esse sinal for idêntico à marca e for usado
em relação a produtos ou serviços idênticos aos produtos ou serviços abrangidos pelo registo; b)
Esse sinal for idêntico à marca e for usado em relação a produtos ou serviços afins aos produtos ou
serviços abrangidos pelo registo ou se esse sinal for semelhante à marca e for usado em relação a
produtos ou serviços idênticos ou afins aos produtos ou serviços abrangidos pelo registo, caso exista
um risco de confusão ou associação no espírito do consumidor; c) Esse sinal for idêntico ou
semelhante à marca e for usado em relação a produtos ou serviços abrangidos ou não pelo registo,
caso a marca goze de prestígio em Portugal ou na União Europeia, se for uma marca da União
Europeia, e o uso do sinal tire partido indevido do caráter distintivo ou do prestígio da marca ou possa
prejudicá-los.
Porém, o titular da marca tem não só o direito de a usar, mas também o dever de a usar, sob
pena de violação do princípio geral da lealdade de concorrência (LUÍS COUTO GONÇALVES,
“Manual de Direito Industrial: patentes, marcas, concorrência desleal”, Almedina, 2005, pág. 320).

3.1.3. Daí que o Código da Propriedade Industrial preveja que os direitos de propriedade
industrial se possam extingam por efeito de caducidade – cf. arts. 32.º, 33.º, 36.º e 37.º do C. da
Propriedade Industrial.
Para além da expiração do prazo de duração e do não pagamento de taxas a que se refere o
artigo 36º do Código da Propriedade Industrial, o artigo 268º, n.º 1, do mesmo Código, prevê que o
registo de marca caduca se a marca não tiver sido objeto de uso sério durante cinco anos
consecutivos, salvo motivo justificado e sem prejuízo do disposto no n.º 4 do artigo 267.º, definindo
este último artigo no seu n.º 1 o que se considera uso sério da marca.

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Assim, de acordo com as disposições conjugadas dos arts. 267.º, nº 4, e 268.º do CPI, o
registo da marca pode caducar se a marca não tiver sido objeto de uso sério pelo seu titular ou por
terceiro autorizado num prazo de cinco anos a contar da data da concessão do registo (art. 268.º do
CPI) ou se, antes de ser requerida a declaração de caducidade, esse uso não tiver sido iniciado ou
reatado (art. 267.º, nº 4, do CPI). Exceciona-se, porém, a possibilidade de o início ou reatamento do
uso sério ocorrer nos três meses imediatamente anteriores à apresentação do pedido de declaração
de caducidade (contados a partir do fim do período ininterrupto de cinco anos de não uso) e as
diligências para o início ou reatamento do uso apenas ocorrerem depois de o titular tomar
conhecimento de que pode vir a ser efetuado esse pedido de declaração de caducidade. Nesse caso,
o início ou reatamento do uso sério não é tomado em consideração.

Como salienta JOSÉ MOTA MAIA, Propriedade Industrial, vol. II, «Código da Propriedade
Industrial Anotado», pág. 487, a obrigação do uso efetivo e sério da marca registada, e a necessária
consequência de sancionar o seu incumprimento pela caducidade do respetivo registo, fundamenta-
se na própria essência da marca, enquanto instrumento no qual se apoia a atividade comercial e a
competitividade; «essas funções específicas da marca não se compadecem com uma atitude
monopolista dos sinais constitutivos da marca que não exerça, de forma efetiva e séria, essas
funções concorrenciais no mercado».
Conforme defende LUÍS COUTO GONÇALVES, Manual de Direito Industrial, págs. 321-322,
o uso sério pressupõe necessariamente dois requisitos essenciais: o uso comercial e o uso típico da
marca, ou seja, por um lado, a utilização efetiva da marca, de um modo quantitativamente
suficiente, no mercado dos produtos ou serviços a que se destina e, por outro, a capacidade de
identificar e distinguir uma origem.
Conforme decorre do Ac. do TJUE De 11/03/2003, P. nº C-40/01, nº 43, disponível em
htpp://[Link] “(…) uma marca é objeto de uso sério quando é utilizada, em conformidade
com a sua função essencial que é garantir a identidade de origem dos produtos e serviços para os
quais foi registada, a fim de criar ou conservar um mercado para estes produtos ou serviços, com
exclusão de usos de carácter simbólico que tenham como único objectivo a manutenção dos
direitos conferidos pela marca. A apreciação do carácter sério do uso da marca deve assentar na
totalidade dos factos e das circunstâncias adequados para provar a existência da exploração
comercial da mesma”.
Também nos termos do nº 2 do art. 268º também deverá ser declarada a caducidade do
registo se: a) A marca se tiver transformado na designação usual no comércio do produto ou
serviço para que foi registada, como consequência da atividade, ou inatividade, do titular; b) A marca
se tornar suscetível de induzir o público em erro, nomeadamente acerca da natureza, qualidade

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e origem geográfica desses produtos ou serviços, no seguimento do uso feito pelo titular da marca,
ou por terceiro com o seu consentimento, para os produtos ou serviços para que foi registada.
Decorre do n.º 5 do artigo 269.º que cumpre ao titular do registo ou a seu licenciado (se o
houver) provar o uso da marca, sem o que esta se presume não usada.
Por outro lado, o prazo previsto no nº 1 do art. 268.º do C. da Propriedade Industrial inicia-se
com o registo da marca – art. 268.º, nº 5, do C. da Propriedade Industrial.

3.2. Da jurisprudência comunitária e nacional

No Acórdão do Tribunal de Justiça da União Europeia proferido no processo nº C-720/18


(Ferrari), em 22.10.2020, sintetizaram-se alguns princípios a observar em sede de apreciação do
pedido de caducidade de uma marca, por referência ao Acórdão Ansul de 11.01.2003, tendo sido
referido:

«32O Tribunal de Justiça declarou que o artigo 12.o, n.o 1, da Diretiva 2008/95 deve ser
interpretado no sentido de que uma marca é objeto de «utilização séria» quando é utilizada em
conformidade com a sua função essencial, que é garantir a identidade de origem dos produtos ou
serviços para os quais foi registada, a fim de criar ou manter um escoamento para esses produtos
e serviços, com exclusão de utilizações de caráter simbólico que tenham como único objetivo a
manutenção dos direitos conferidos pela marca (Acórdão de 11 de março de 2003,
Ansul, C-40/01, EU:C:2003:145, n.o 43).

33A apreciação do caráter sério da utilização da marca deve assentar na totalidade dos factos e das
circunstâncias adequados a demonstrar que a exploração comercial da mesma é real, em especial
as utilizações consideradas justificadas no setor económico em questão para manter ou criar
quotas de mercado em benefício dos produtos ou dos serviços protegidos pela marca, a natureza
desses produtos ou desses serviços, as características do mercado, a extensão e a frequência da
utilização da marca (Acórdão de 11 de março de 2003, Ansul, C-40/01, EU:C:2003:145, n.o 43).

34A circunstância de a utilização da marca não incidir sobre produtos novos oferecidos no mercado,
mas sobre produtos já comercializados, não é suscetível de privar esta utilização do seu caráter
sério, se a mesma marca for efetivamente utilizada pelo seu titular para peças sobresselentes que
entram na composição ou na estrutura desses produtos ou para produtos ou serviços relacionados
diretamente com os produtos já comercializados e que visam satisfazer as necessidades da
clientela destes (Acórdão de 11 de março de 2003, Ansul, C-40/01, EU:C:2003:145, n.o 43). (…)

36(…) resulta do artigo 13.o da Diretiva 2008/95 que, quando existam motivos para a extinção, como

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o previsto no artigo 12.o, n.o 1, desta diretiva, apenas no que respeita a alguns dos produtos ou
serviços para que o registo da marca foi pedido ou efetuado, a sua extinção abrangerá apenas
esses produtos ou serviços.
Cf. [Link]
*
Os princípios descritos vêm sendo enunciados pelo TJUE ao longos dos últimos anos, em
diversos Acórdãos, dos quais se podem destacar:

Acórdão do TJUE de 25 de outubro de 2012, no processo C-553/11 (Bernhard Rintisch vs


Klaus Eder: O artigo 10.o , n.o 2, alínea a), da Diretiva 89/104/CEE do Conselho, de 21 de dezembro
de 1988, que harmoniza as legislações dos Estados-Membros em matéria de marcas, deve ser
interpretado no sentido de que não se opõe a que o titular de uma marca registada possa, para
provar o uso desta na aceção da referida disposição, invocar o seu uso sob uma forma que difere
daquela sob a qual essa marca foi registada, sem que as diferenças entre essas duas formas alterem
o caráter distintivo dessa marca e não obstante o facto de essa forma diferente estar ela própria
registada como marca.

Acórdão do TJUE de 27 de janeiro de 2004 Processo C-259/02 La Mer Technology Inc.


contra Laboratoires Goemar SA): «(…) resulta do n.° 39 do acórdão Ansul, já referido, que um uso da
marca pode, em certos casos, mesmo se este uso não é quantitativamente importante, apresentar
carácter sério na acepção da directiva. Por conseguinte, um uso, mesmo mínimo, pode ser suficiente
para ser qualificado de sério, desde que seja considerado justificado, no sector económico em causa,
para manter ou criar quotas de mercado para os produtos ou serviços protegidos pela marca. A
questão de saber se um uso é quantitativamente suficiente para manter ou criar quotas de
mercado para os referidos produtos ou serviços depende de vários factores e de uma
apreciação do caso vertente que compete, em cada caso, ao órgão jurisdicional nacional. As
características desses produtos ou serviços, a frequência ou a regularidade do uso da marca, o facto
de a marca ser utilizada para comercializar a totalidade dos produtos ou serviços idênticos da
empresa titular ou simplesmente alguns deles, ou ainda as provas que o titular tem de apresentar
relativas ao uso da marca, são, alguns dos factores que podem ser tomados em consideração. Do
mesmo modo, como resulta dos [Link] 35 a 39, já referidos do acórdão Ansul, as características do
mercado em questão, que têm influência direta na estratégia comercial do titular da marca, podem
igualmente ser tomadas em consideração para apreciar o carácter sério do uso. Assim, a utilização
da marca por um só cliente, importador dos produtos para os quais está registada, pode bastar para
demonstrar que tal uso é sério, se se revelar que essa operação de importação tem uma justificação
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comercial real para o titular da marca. Nestas condições, não é possível determinar a priori, de forma
abstracta, qual o limite quantitativo que deve ser considerado para determinar se o uso tem ou não
carácter sério. Uma regra de minimis que não permita ao órgão jurisdicional nacional apreciar a
totalidade das circunstâncias do litígio que lhe é submetido, não pode, por conseguinte, ser fixado.
Por último, pode ser claramente deduzido do n.° 36 do acórdão Ansul, já referido, que um uso da
marca que não tenha, essencialmente, por objectivo manter ou criar quotas de mercado para
os produtos ou serviços que protege deve ser apreciado como tendo, na realidade, por objecto,
evitar a apresentação de um possível pedido de caducidade. Tal uso não pode ser qualificado de
«sério» na aceção da diretiva.

Acórdão do Tribunal Geral de 8 de julho de 2004, no processo nº T-334/01 (MFE


Marienfelde GmbH, vs Instituto de Harmonização do Mercado Interno): A apreciação do carácter da
utilização séria da marca deve assentar em todos os factos e circunstâncias destinados a estabelecer
a realidade da exploração comercial da marca, em especial, as utilizações consideradas justificadas
num dado sector económico para manter ou criar partes de mercado em benefício dos produtos ou
dos serviços protegidos pela marca, a natureza desses produtos ou desses serviços, as
características do mercado, o alcance e a frequência da utilização da marca (acórdão Ansul, já
referido, n.° 43). 35 Quanto à importância da utilização que foi feita da marca anterior, há que ter em
conta, designadamente, o volume comercial de todos os actos de utilização, por um lado, e a
duração do período durante o qual os actos de utilização foram efectuados, bem como a frequência
desses actos, por outro. 36 Para examinar, num caso concreto, o carácter sério da utilização da
marca anterior, há que proceder a uma apreciação global, tendo em conta todos os factores
pertinentes no caso em apreço. Essa apreciação implica uma certa interdependência entre os
factores tomados em conta. Assim, o baixo volume de produtos comercializados sob a referida marca
pode ser compensado pela forte intensidade ou pela grande constância no tempo da utilização dessa
marca e inversamente. Além disso, o volume de negócios realizado bem como a quantidade de
vendas de produtos sob a marca anterior não podem ser apreciados de modo absoluto, mas sim em
relação a outros factores pertinentes, tais como o volume da actividade comercial, as capacidades de
produção ou de comercialização ou o grau de diversificação da empresa que explora a marca, bem
como as características dos produtos ou serviços no mercado em causa. Por esse facto, o Tribunal
de Justiça precisou que não é necessário que a utilização da marca anterior seja sempre
quantitativamente importante para ser qualificada de séria (acórdão Ansul, já referido, n.° 39).

Na ordem jurídica interna, os critérios de aferição do uso sério da marca têm vindo a ser
enunciados de forma similar pelos tribunais superiores, conforme se pode verificar do teor dos

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Acórdãos do Tribunal da Relação de Lisboa de 12 de setembro de 2019 a de 17 de janeiro de 2019
e de 7 de setembro de 2022 (in [Link]).
Neste último Acórdão é referido que “o uso sério da marca é um conceito uniforme que
pressupõe a verificação de dois requisitos: 1) O uso comercial da marca, que consiste na sua
utilização efetiva de modo quantitativamente suficiente; 2) E o uso típico da marca, que consiste em
usar a marca de acordo com a sua capacidade distintiva para identificar a origem dos produtos.(…)
“(…) para saber se existe uso sério da marca devem ser levados em conta os seguintes parâmetros: -
O uso da marca deve ter por fim criar ou conservar um mercado para os produtos ou serviços que
visa assinalar; - São de excluir da noção de uso sério os usos de carácter simbólico que tenham
como único objectivo a manutenção dos direitos conferidos pela marca; - A apreciação do carácter
sério do uso deve levar em conta a totalidade dos factos e circunstâncias adequados a provar a
exploração comercial da marca, nomeadamente, as características do mercado em causa, a natureza
dos produtos ou serviços assinalados, o âmbito territorial e quantitativo da utilização, bem como a sua
frequência e a sua regularidade; - A utilização da marca, ainda que mínima, que corresponda a uma
justificação comercial efetiva, pode ser suficiente para comprovar o carácter sério desse uso.

3.3. Da decisão recorrida

No caso em apreço, em sede de análise do período relevante, a decisão recorrida expendeu


a seguinte argumentação:

Da prova do uso sério da marca caducanda


Na apreciação do uso sério da marca devem ser tomadas em consideração, sobretudo,
as circunstâncias que ocorreram durante o período pertinente, ou seja, no quinquénio anterior à
apresentação do pedido de declaração de caducidade, in casu, o período compreendido entre 27.06.2017 e
27.06.2022.
A titular argumentou que: (1) pelo facto de a marca caducanda se encontrar em sua posse há
menos de cinco anos – recorda-se que a transmissão da mesma a seu favor ocorreu em 15.06.2021 –
ainda não tinha passado o período necessário para que se pudesse alegar a [sua] caducidade [pontos 3
e 5 da resposta]; (2) a marca foi utilizada, designadamente para a constituição da empresa Rolapipas,
Lda, de que é sócia, e na produção e engarrafamento de vinho, do qual é proprietária, e, para o provar,

juntou cinco documentos18, dos quais estima o INPI relevantes os documentos 3, 4 e 5 –


correspondentes à declaração de autorização da titular para a constituição da referida empresa, a certidão
permanente da mesma e aos registos fotográficos e, respetivamente – sobre os quais
debruçar-se-á de seguida.

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(1) Do período necessário para alegar a caducidade da marca caducanda
No que concerne este argumento, reconhece o INPI que o artigo 268.º, n.ºs 1 a 5 do CPI estipula
um prazo de cinco anos, referenciado por período de graça, para um titular iniciar o uso da marca; no caso
marca em apreço, o referido período decorreu entre 24.04.2015 e 24.04.2020. Acresce que o INPI não pode
desconsiderar que o quinquénio pertinente para provar de uso da marca se inicia, no presente caso, em
27.06.2017 e não quando a marca foi transmitida a favor da titular. Contudo, tendo presente que a referida
transmissão apenas ocorreu em 15.06.2021, estima este Instituto que sempre seria exigida à titular a
apresentação de provas de uso, pelo menos, no período compreendido entre a transmissão da marca
caducanda a seu favor – 15.06.2021 – e a data de apresentação do respetivo pedido de declaração de
caducidade – 27.06.2022 – pelo que não pode este Instituto estar em posição de subscrever o seu
argumento, sobretudo, para a totalidade do quinquénio pertinente.
(2) Da utilização da marca e análise dos documentos carreados pela titular para o
demonstrar
Relativamente aos documentos 3 e 4 – correspondentes à declaração de autorização para a
constituição da empresa Rolapipas, Lda., da qual a titular é sócia, e a certidão permanente da referida
empresa, respetivamente -esclarece o INPI que uma denominação social não se destina, per se,

a distinguir produtos ou serviços19. Com efeito, a denominação social destina-se a identificar uma sociedade
e, por conseguinte, não se pode considerar que esse uso seja feito «para produtos ou serviços» que
uma marca assinala; contudo, pode verificar-se, em certas circunstâncias, este uso em produtos ou serviços
quando for possível concluir, dos elementos de prova apresentados, que o sinal que corresponde à

denominação social foi usado no comércio desses produtos ou serviços20, o que se entende não acontecer
in casu.
No que diz respeito ao documento 5, embora se observe a exibição verbalmente estilizada da
marca caducanda – e – e seja possível compreendê-lo no quinquénio relevante –
atendendo à referência «vinho branco 2020» apresentada no respetivo rótulo – não passou
despercebido ao INPI o facto – também observado no referido rótulo – de o vinho ter sido «produzido
e engarrafado por: João Brito e Cunha, Lda.» – entidade que não corresponde à anterior ou atual
titular da marca em apreço.
Embora no processo relativo à marca em apreço não conste o consentimento, pela

anterior ou atual titular, da utilização da marca caducanda por um terceiro21 - neste caso, a entidade João
Brito e Cunha, Lda. - importa, ainda assim, assinalar que o uso por terceiros é aceitável, assumindo-
se tacitamente a autorização para o efeito, sobretudo atendendo ao entendimento jurisprudencial, que nos diz
que seria pouco provável que o titular de uma marca pudesse apresentar a prova da utilização da

mesma feita por um terceiro contra a sua vontade22. Neste sentido, por se considerar a existência tácita

da autorização para o uso da marca caducanda por um terceiro 23, entende o INPI estar em posição
de aceitar este documento no contexto da análise do uso sério da marca em apreço.
Contudo, não obstante este enquadramento, não pode o INPI abster-se de referir que o
documento 5, à semelhança dos demais documentos carreados pela titular, é omisso na informação

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pertinente sobre o uso mercantil e reiterado da marca, o qual deve ser privilegiado por
documentos, nomeadamente faturas, que exibam o sinal da marca caducanda, o produto que assinala, a
data compreendida no quinquénio pertinente e a referência ao respetivo titular.
Em suma, conclui o INPI que dos elementos que lhe foram apresentados não foi feita prova de esta
marca ter sido objeto de um uso sério, reiterado, público e efetivo em território nacional no período
pertinente, em conformidade com a sua função essencial, para os produtos - «vinhos» - que assinala na
classe 33 da referida Classificação Internacional e com vista a criar ou conservar um mercado para
esses mesmos produtos.
Por fim, importa salientar que não passaram despercebidos ao INPI os argumentos da requerente
sobre a manutenção abusiva em vigor de um direito que não foi objeto de uso sério, situação que, na sua
perspetiva, constitui um ato de concorrência desleal previsto no artigo 311.º do CPI [ponto 28 da exposição
suplementar] e o facto não ter encontrado qualquer licença de exploração a favor de terceiros.
Relativamente à concorrência desleal, por entender que este argumento não integra o rol de
fundamentos que sustêm o pedido de declaração de caducidade em apreço, abstêm-se este Instituto de o
tomar em consideração.
Quanto à necessidade de uma licença de exploração da marca caducanda por terceiros
[ponto 6 do pedido] para que o seu uso, por estes, seja aceitável, importa recordar à requerente, e nos
termos já expostos, que o INPI se abstém de repetir, a alínea c) do n.º 1 do artigo 267.º do CPI, no sentido de
se considerar sério, o uso da marca por um terceiro, desde que seja com o consentimento do titular e para
efeitos da manutenção do registo.

3.4. Dos factos relevantes para a apreciação do mérito do recurso

O objeto do recurso prende-se com a questão de saber o recorrente fez prova do uso sério
da marca no referido quinquénio ou se, não o tendo feito, existe justo motivo para tal ter ocorrido (art.
268.º, nº 1, do CPI).
O período pertinente, corresponde ao quinquénio anterior à apresentação do pedido de
declaração de caducidade, in casu o período compreendido entre 27.06.2017 e 27.06.2022, sendo
irrelevantes as transmissões do registo ocorridas neste período (cf. nº 5 do art. 268.º do CPI). Note-se
que, para salvaguarda da posição do adquirente da marca em caso de uma transmissão recente,
existe sempre a possibilidade de invocar o reatamento do uso sério nos termos do disposto no nº 4 do
art. 268.º do CPI.

Para aferição do uso sério, impõe-se considerar a seguinte prova documental junta:

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a. Certidão permanente do registo comercial relativa à constituição da sociedade
ROLAPIPAS, LDA, com sede em Apeadeiro de Merouços, freguesia de Castedo e
Cotas, Alijó, Vila Real, e capital social de € 5.000,00, tendo como sócios Adriana Macedo
Afonso Moreira (Recorrente), João Macedo Afonso Moreira, Ana Cristina Da Cunha
Macedo Moreira e Nuno Paulo Correia e Afonso Moreira e objeto social a) A compra,
venda e revenda de imóveis adquiridos para esse fim. b) a actividade de hospedagem
em casas particulares que, servindo ou não de residência aos donos, satisfaçam, pelas
suas características especificas, os requisitos legais para fins turísticos com carácter
familiar. Pode revestir a forma de turismo de habitação, turismo rural, agro- turismo e
turismo de aldeia. c) as actividades de consultoria, orientação e assistência operacional
às empresas ou a organismos (inclui públicos) em matérias muito diversas, tais como:
planeamento, organização, controlo, informação e gestão; reorganização de empresas;
gestão financeira; estratégias de compensação pela cessação de vínculo laboral;
consultoria sobre segurança e higiene no trabalho concepcão de programas
contabilísticos e de processos de controlo orçamental; objectivos e políticas de
marketing; gestão de recursos humanos. d) o aluguer de embarcações de recreio e
instalações associadas, cavalos de sela, bicicletas, esquis, cadeiras e chapéus de sol e
outro equipamento recreativo e desportivo.
b. Declaração, assinada em 15.06.2021 através da qual a Recorrente Adriana Afonso
Moreira, na qualidade de proprietária da marca Rolapipas registada no INPI sob o nº
546579, autoriza a utilização desta marca para o pedido de forma a constituir Rolapipas,
Lda.
c. Fotografia de garrafa de vinho branco Douro, 2020, com o rótulo alusivo à marca
“Rolapipas”.
d. Contrato de transmissão de marca celebrado com a anterior titular TECAGEST;
e. Registo da transmissão no INPI;
f. Fotografia de três garrafas de vinho da marca “ROLAPIPAS”, com referência aos anos
de 2016, 2020 e 2021;
g. Fotografia de uma garrafa de vinho com a marca “Rolapipas”;
h. Ficha de aprovação do rótulo no IVDP, I. P. para utilização da marca “ROLAPIPAS”;
i. Fotografia de guardanapo de pano com bordado “Rolapipas”, “Douro”;

Sustenta a recorrente que, dos documentos juntos, é possível concluir-se que:

«39. (…) de facto, houve uso comercial da marca.


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40. Não só pela Tecagest como pela actual titular do direito de uso e fruição da marca
“ROLAPIPAS”.
41. Tal facto é notório, pela utilização da marca “ROLAPIPAS” nas garrafas de vinho dos
anos de 2019, 2020, 2021 e 2022. (Cfr. Documentos 3 e 4 que se protestam juntar no prazo máximo
de 10 dias).
42. Igualmente junto do IVDP foi efetuado o competente registo para utilização da marca
“ROLAPIPAS” nas garrafas. (Cfr. Documento 5 que se protestam juntar no prazo máximo de 10 dias).
43. Apesar de nas garrafas se fazer menção à produção e engarrafamento por João Brito e
Cunha Lda., na realidade a produção sempre foi detida pela Tecagest e desde 2021 é pertença da
aqui A. e da sociedade de que esta é sócia e que por esta foi constituída designada por Rolapipas
Lda., conforme facilmente se comprovará pela prova testemunhal arrolada.
44. Acresce que o produto representado pela marca “ROLAPIPAS” é frequentemente
disponibilizado e comercializado no alojamento detido pela sociedade Comercial Rolapipas Lda.
designado por Casa do Rolapipas sito no apeadeiro de Merouço, conforme se comprovará pela prova
testemunhal arrolada.
45. Dito isto, afigura-se que a A. utiliza com frequência a marca em crise levando a concluir
que existe justificação comercial para o uso da marca uma vez que a A. a utiliza na comercialização
do seu alojamento.
46. Afigura-se-nos, igualmente que, o mercado em que ocorreu esse uso foi Portugal, que é o
mercado relevante para a marca nacional em crise.
47. O uso da marca teve uma justificação comercial objetiva e teve por fim conservar um
mercado.»

Do ponto de vista quantitativo, o INPI considerou que não foi produzida prova de que a
Recorrente produziu e vendeu, sob a marca Rolapipa, no quinquénio anterior à data da apresentação
do pedido de caducidade, o produto que a marca se destinava a assinalar (vinhos). Conforme referido
na decisão, «(…) o documento 5, à semelhança dos demais documentos carreados pela
titular, é omisso na informação pertinente sobre o uso mercantil e reiterado da marca, o qual
deve ser privilegiado por documentos, nomeadamente faturas, que exibam o sinal da
marca caducanda, o produto que assinala, a data compreendida no quinquénio pertinente e a
referência ao respetivo titular. Em suma, conclui o INPI que dos elementos que lhe foram
apresentados não foi feita prova de esta marca ter sido objeto de um uso sério, reiterado,
público e efetivo em território nacional no período pertinente, em conformidade com a sua função

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essencial, para os produtos - «vinhos» - que assinala na classe 33 da referida Classificação
Internacional e com vista a criar ou conservar um mercado para esses mesmos produtos.»

Concordamos com a conclusão expendida na decisão recorrida.


Na documentação junta para o efeito de prova do uso sério, quer na fase administrativa, quer
judicial, não foi junta qualquer fatura a atestar a comercialização do vinho sob a referida marca. Se o
vinho se destinava a ser comercializado no Alojamento Local gerido pela Recorrente, forçosamente
teria que haver suporte contabilístico das vendas, o que não foi demonstrado.
Na ausência de qualquer tipo de documentação de vendas do produto sob a marca
“Rolapipas” no quinquénio relevante (apesar de terem sido exibidas garrafas com o rótulo Rolapipas),
ignora-se se foi feito um uso comercial da marca ou meramente privado, sendo certo que o Código da
Propriedade Industrial não tutela o uso da marca que não se coadune com a função essencial, que é
a de permitir distinguir a origem dos produtos num mercado concorrencial (função distintiva).
A falta de demonstração de qualquer venda ao longo do período de cinco anos, ou nos meses
que antecedem o pedido de caducidade (com exceção dos últimos três), coloca em crise a invocação
do uso sério pela Recorrente. De facto, todos os demais documentos juntos – registo comercial da
sociedade “Rolapipas, Lda”, contrato de transmissão de marca celebrado com a anterior titular
TECAGEST, fotografia de garrafas de vinho da marca “ROLAPIPAS”, ficha de aprovação do rótulo no
IVDP, I. P. para utilização da marca “ROLAPIPAS” e fotografia de guardanapo de pano com bordado
“Rolapipas”, “Douro” não atestam um uso sério da marca, no sentido de demonstrar que o seu titular
logrou desenvolver a comercialização dos seus produtos sob a marca em apreço.

*
Por tudo o exposto, ponderando, por um lado, a inexistência de demonstração de quaisquer
vendas do produto “vinho” sob a marca «Rolapipas», o setor de mercado a que se destina (vinho), a
inexistência de uma estratégia de exploração comercial da marca, devidamente delineada e posta em
prática (a qual não foi alegada nem demonstrada por qualquer meio de prova), não podemos concluir
pela demonstração de um uso sério da marca no sentido pressuposto pelo Código da Propriedade
Industrial. Não apenas do ponto de vista quantitativo não foi feita qualquer prova da exploração
comercial da marca, como não se vislumbram atos concretos significativos de exploração comercial
da marca. Com efeito, não foram atingidos os patamares mínimos de exploração da marca que
justifiquem que se continue a reservar o direito de exclusivo desta a favor da Recorrente.

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Concluímos, pois, pelo acerto da decisão impugnada, devendo julgar-se improcedente o
recurso e manter-se a declaração de caducidade da marca «Rolapipas» registada a favor da
Recorrente.
***

DECISÃO

Termos em que, vistas as normas jurídicas e os princípios enunciados, se decide julgar


improcedente o presente recurso interposto por ADRIANA MACEDO AFONSO MOREIRA e, em
consequência, manter a decisão do INPI de declaração de caducidade total do registo da
marca nacional n.º 546.579 “ROLAPIPAS”.
Custas pela recorrente— artigo 527.º, 1 e 2, do Código de Processo Civil.
Valor da causa: €30.000,01 (trinta mil Euros e um cêntimo)
Notifique.
Cumpra-se igualmente o estabelecido no n.º 5 do artigo 34.º do NCPI (artigo 46.º do mesmo
código).
Lisboa, 22.01.2024.

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