Estado e Sociedade Civil.
A família patriarcal e o modelo de relações
políticas derivado da família estão no cerne dessa questão. Ao poder
absoluto do rei, argumentam os adversários do patriarcado que todo
sujeito adulto não mais necessita ser governado por uma autoridade
que se assemelha à do pai de família. Se mesmo nas sociedades que
separam o contexto privado do sistema de governo, e o primeiro se
sobrepõe ao último, discute-se a noção das relações arbitrárias, como
se dá, no contexto privado, a relação entre família e burocracia estatal
quando o governo prepondera sobre o privado e o sistema jurídico não
está constitucionalmente instituído?
Para Faoro parece que o contraste entre a família como institui-
ção privada e o poder estatal exercido pelo soberano apenas se coloca
a partir da transformação do feudalismo em capitalismo. Porém, se o
patriarcado é o princípio sob o qual o patrimonialismo se forma, é
necessário incluir na análise a relação do patrimonialismo com a família,
a não ser que a centralização governamental seja de tal forma idealizada
que nada existe fora do domínio público. Nesse caso, as instituições
externas ao governo centralizador deixam de ser objeto de interesse
analítico e desaparecem.
Uma Outra Leitura sobre Patriarcado e Estado
Patrimonial: Florestan Fernandes e a Escola Paulista
Florestan Fernandes adota um modelo interpretativo assentado em
duas tradições analíticas quando estuda os processos de transformação
da sociedade patriarcal no Brasil, elaborando uma fusão dos enfoques
marxista e weberiano, o que lhe valeria a caracterização por Barbara
Freitag de adepto da teoria crítica, a exemplo dos protagonistas da
escola de Frankfurt. Assim, Fernandes discute a colonização portuguesa no contexto do
desenvolvimento de um complexo Estado
Patriarcado, sociedade e patrimonialismo 319
Patrimonial. A dominação se exerce no Brasil mediante as concessões
de sesmarias, o que se traduziria nas doações efetuadas pela coroa a
um estamento administrativo. Isto representa a concentração da
propriedade ou posse da terra nas mãos de alguns, e a exclusão
da massa da população que não tinha acesso aos postos burocráticos.
A escravidão representa o esteio dessa sociedade, pois ela é a
semente da acumulação capitalista. A sociedade senhorial não se perpetua nem sufoca as atividades
privadas, pois o excedente econômico
é extraído pela coroa, permanecendo, assim, com a parte do leão.
Florestan Fernandes concorda com a tese de Faoro segundo a
qual Vianna, Freyre e Holanda vêem o setor doméstico como dominante, porém, em lugar de
atribuir-lhes uma concepção de feudalismo,
mais claramente enunciada por Vianna, aponta que as análises
elaboradas por aqueles autores da organização patriarcal da sociedade
carecem de um contexto sócio-histórico. Florestan Fernandes,
Fernando Henrique Cardoso, Otávio Ianni e Heleieth Saffiotti, traçam,
então, um eixo de interpretação da sociedade brasileira com grande
impacto, tomando a sociedade escravista do tempo do Império, como
ponto de partida histórico, classificando-a simultaneamente como
escravocrata e senhorial. Eles não cometem o mesmo equívoco de
Faoro que consiste em considerar a sociedade civil como estando a
reboque do Estado, embora advirtam que isto até ocorre para uma das
parcelas da burguesia nascente que se diferencia da camada senhorial.
Por outro lado, eles observam que o Estamento burocrático no estado
Patrimonial possui uma relação distinta da escravidão clássica para
com a coroa. Algumas das funções estamentais são efetuadas pela
escravidão que se superpõe, na visão de Fernandes, à sociedade
senhorial. A escravidão é distinta da que serviu de base para que
Weber analisasse as suas bases jurídicas. Os escravos não são um
botim de guerra, mas constituem uma mercadoria. Portanto, ao Estado
Patrimonial se sobrepõe a sociedade de classes.
Florestan utiliza, então, três conceitos de estratificação: classe,
estamento e casta, pois os negros na sociedade brasileira, para o autor,
constituem uma casta. Os escravos, segundo Fernandes, não são uma
classe, mas os agentes sociais responsáveis pela produção
e acumulação primitivas, sob o capitalismo mercantil. Por outro lado,
eles assumem funções que deveriam ser exercidas pela esfera
320 Neuma Aguiar
estamental, sob o Estado Patrimonial. Os escravos, todavia, são alienados do sistema de benefícios
patrimoniais, como seriam subseqüentemente marginalizados pela ordem competitiva da sociedade
de classes.
Florestan utiliza aqui o conceito weberiano de casta, transplantando-o
culturalmente, para indicar a condição dos negros, diferenciando-a do
estamento ou da classe. Saffioti adota esse mesmo conceito, não sem
uma certa desconfiança, pois a autora aponta que o processo de
miscigenação racial indica a existência de um intercurso social entre
brancos e negros, o que seria interditado numa sociedade de castas.
A miscigenação consiste em uma possibilidade de ascensão social,
afirma Saffioti seguindo os passos de Antônio Cândido, na medida em
que o arbítrio da camada senhorial o viabilize, indiferenciando filhos e
filhas legítimos dos ilegítimos. Essa capacidade de arbítrio nas relações
de poder é objeto do interesse de Fernando Henrique Cardoso que
retrata a violência no sistema de mando do Rio Grande do Sul (Cardoso,
1962, p.83-84; 102-119). O arbítrio ocorre pelo processo de regressão
do patrimonialismo estatal ao patrimonialismo patriarcal. Cardoso
observa que os cargos são distribuídos como prebendas típicas, porém
como os direitos e deveres dos cargos numa sociedade em formação
ainda não tinham sido estabelecidos, preponderam os costumes
patriarcais sem os limites estipulados pela tradição. Isto porque,
questiona Cardoso, como é possível falar-se em tradição em um país
novo como o Brasil? Portanto, em lugar de regras codificadas na
punição de crimes, no âmbito jurídico, predomina a impunidade. Heleith
Saffioti endossa a visão de Cardoso ao observar que a vastidão da
colônia e as dificuldades de comunicação dificultam a fiscalização dos
funcionários patrimoniais que esbarram na existência de uma
dominação patriarcal de origem local. A partir do século XIX, indica
Saffioti, estaria consolidado o poder dos chefes de parentela, levando
o Estado patrimonial a se assentar muito mais num tipo de
patrimonialismo patriarcal do que em um patrimonialismo estamental.
Essa forma de organização de poder, em visão totalmente oposta à de
Faoro, se apresenta com alto grau de compatibilidade com o
desenvolvimento do capitalismo, uma vez que a exploração lucrativa
da propriedade territorial levaria a um processo de acumulação que se
tornaria incompatível com a estrutura da sociedade colonial de caráter
estamental. Florestan todavia aponta que as várias burguesias que se
formam em torno da plantação e das cidades já nascem débeis. Em
Patriarcado, sociedade e patrimonialismo 321
lugar de forjarem instituições próprias, elas procuram exercer pressão
e influência sobre o Estado, formando o que o autor denomina de
consolidação conservadora. Esta é o resultado da moldagem da
mentalidade burguesa pelas oligarquias tradicionais. Dessa forma, as
velhas estruturas se vêem restauradas.
Saffioti ao desenvolver o tema do patrimonialismo patriarcal, toma
dois eixos de análise: (1) a situação das mulheres brancas e das negras,
no sistema senhorial, bem como a transformação que ocorre em sua
posição decorrente da abolição da escravatura; (2) o processo de
diferenciação, segundo os eixos: urbano/industrial e nordeste/sul,
quando aquela autora atenta para o lugar que o sistema de educação
nele detém. A reclusão doméstica se abranda com o ambiente das
cidades, embora as mulheres brancas fiquem à margem do movimento
abolicionista. No meio rural, persistem os códigos de comportamento da
sociedade patriarcal com a reclusão das mulheres no âmbito doméstico.
Porém, entre a desorganização da família estendida e o predomínio da
família nuclear encontra-se ampla gama de experiências. A prepotência
do pai-de-família vai dando lugar à função econômica de provedor.
Saffioti mais recentemente aponta para um grande conjunto de
contribuições na literatura feminista internacional que retoma a relação
entre capitalismo e patriarcado, quando reafirma sua visão, tal como a
defendida por Florestan Fernandes, que existe uma simbiose entre
patriarcado, racismo e capitalismo (Saffioti, 1992, p.194-195). A autora
advoga a importância de se lidar simultaneamente com as noções de
dominação e exploração, na análise da dimensão de gênero nos
fenômenos sociais. As questões debatidas na análise de Saffioti, no
entanto, remetem-se bem mais à exploração do que à dominação. Várias
discussões sobre este ponto foram detalhadas na literatura, dizendo
respeito à associação entre a situação doméstica (no casamento ou
derivada de emprego neste âmbito) e a de exército industrial de reserva.
Em lugar de situar as mulheres casadas como uma reserva para o sistema
capitalista, caberia observar como no espaço doméstico, pela dominação patriarcal, as mulheres
prestam serviços aos homens, pois o
ingresso em atividades capitalistas não elimina o trabalho doméstico.
Os dois âmbitos, portanto, se condicionam. Outras discussões do
trabalho de Saffioti, bastante revistas na literatura, dizem respeito ao
impacto das crises econômicas na condição de trabalho das mulheres
e à marginalização das mulheres pela introdução de tecnologias
322 Neuma Aguiar
avançadas no processo de desenvolvimento socioeconômico, questões
às quais não retornarei, restringindo-me à discussão do patriarcado.
Embora Saffioti reafirme a importância do processo de urbanização
na diluição do patriarcado, sua análise apresenta uma grande novidade.
A industrialização que emerge com a ordem capitalista resulta no
aumento das disparidades sociais entre homens e mulheres. Maria
Valéria Junho Pena aponta que Saffioti neste caso sofre a influência
de Engels. Quando a propriedade privada se sobrepõe, a monogamia
e o direito paterno também passam a predominar, aumentando as
disparidades sociais entre homens e mulheres.
Castro e Lavinas (1992, p.236-238) colocam o conceito de patriarcado como paradigmático nos
estudos sobre mulheres e trabalho, porém
não indicam outras contribuições brasileiras além das efetuadas por
Saffioti. Em textos mais recentes, esta última autora passa a apontar
a importância da dimensão de gênero como nova proposta teórica
para os estudos de mulheres e, em seu trabalho sobre violência contra
as mulheres, a autora nesse particular estudo não faz referência à
matriz do patriarcado, embora seja essa uma das perspectivas que
constituem palco das discussões feministas sobre a questão da violência
(Walby, 1990). Recentemente, todavia, Saffioti retorna ao tema. A
escola de Florestan Fernandes, na qual incluímos Heleieth Saffioti, faz
uso de uma combinação da teoria do patriarcado com a de classes
sociais. A fusão dessas duas vertentes analíticas, no entanto, é revista
pela literatura feminista internacional. Quando o patriarcado é
compreendido como uma dimensão do sistema capitalista, diz-se que
o enfoque é dual. Saffioti, da mesma forma que Fernandes, situa o
patriarcado como um antecedente do capitalismo, procurando efetuar
um enfoque histórico e assim evitar o dualismo. Fernandes, no entanto,
aponta para o caráter dúbio do desenrolar histórico do processo
brasileiro, quando a burguesia nacional apresenta um desenvolvimento
limitado pelo capitalismo global, agindo freqüentemente como estamento
e não como classe. O conceito de patriarcado tem sido usado na
literatura feminista internacional para significar as relações de poder
entre homens e mulheres. As mulheres são subordinadas aos homens
no sistema patriarcal. A combinação com a teoria marxista ocorre
para construir uma base material para essas relações de poder. Nesse
ponto, Hartmann (1981, p.1-42) fala da parceria entre o sistema
capitalista e o patriarcado, observando, no entanto, que a incorporação
Patriarcado, sociedade e patrimonialismo 323
das relações de dominação patriarcais no sistema capitalista tem
resultado em um casamento infeliz entre feminismo e marxismo, pois
as relações econômicas sempre constituem o fator principal de
explicação. O objetivo da autora, contudo, é o de explicar as diferenças
salariais entre homens e mulheres, observando que os salários
masculinos são maiores do que os femininos porque incorporam a
subsistência familiar, isto é, a manutenção dos filhos, inclusive a das
esposas. Já dos salários femininos são subtraídos esses recursos.
Capitalistas-patriarcas adotam essa norma estabelecendo um sistema
diferencial de remuneração do trabalho para homens e mulheres. Este
sistema de dominação garante o exercício das atividades domésticas
pelas mulheres. Silvia Walby (1990) também procura explicar tanto as
relações domésticas no casamento quanto as de trabalho remunerado
na esfera capitalista com o conceito de patriarcado. Para esta, é o
sistema capitalista que produz a cisão entre a residência e as atividades
remuneradas originando uma nova situação de dependência para as
mulheres. Essa nova forma de arranjo social, aponta Walby (1990),
propicia o surgimento de uma também nova modalidade de patriarcado.
Porém, a tese da criação do patriarcado pelo sistema capitalista é
uma visão que torna obscura as análises desenvolvidas no Brasil sobre
a emergência de um patriarcalismo agrário e escravista. As formas
de dominação patriarcal, no entanto, se alteram no decorrer da história
aponta Walby (1990). Cabe portanto analisar como o patriarcado
agrário e escravista se transforma, resultando em novas formas de
dominação patriarcal ante a presença de um capitalismo privado, em
sua forma econômica clássica, sob a dominância estatal. Em qualquer
dessas modalidades, ocorre um processo de diferenciação que
hipoteticamente resulta na criação de um estamento que se interporia
entre a autoridade do mandatário e a posição dos demais membros da
sociedade. Observe-se, outrossim, que a proposição de que o capitalismo gera uma nova forma de
patriarcado não deve ser contrastada
apenas com a produção brasileira sobre o tema, analisada mais acima,
e que prevê a erosão do patriarcado com o desenvolvimento urbanoindustrial, ou com a emergência
de um estamento burocrático, mas
também com a própria perspectiva de Max Weber, uma vez que este