Relação compreensiva e a
relação com o real
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
Apresentar os registros do imaginário, do simbólico e do real do
campo da psicanálise.
Relacionar os três paradigmas da imagem com os registros da
psicanálise.
Interpretar a imagem como representação ou aproximação do
real.
Introdução
A imagem é uma forma de expressão humana cuja percepção e
interpretação está para além dos sentidos. Ela constitui também um
olhar sobre o sujeito, o mundo e o real. Esse olhar, como você deve
imaginar, é variável ao longo do tempo e também muda de acordo
com espaço, sociedade, contexto, etc. Além disso, a imagem é ainda
marcada pelo olhar do sujeito que a observa e a contempla, pois esse
mesmo olhar é produtor de sentidos sobre ela e sobre o real que ela
representa. A esse respeito, a caracterização da imagem ao longo do
tempo, por meio dos três paradigmas da fotografia – pré-fotográfico,
fotográfico e pós-fotográfico –, permite refletir sobre como as
relações entre o sujeito e a imagem foram se estabelecendo. Para
essa reflexão, é fundamental ainda evocar o campo da psicanálise e
os três registros que elabora, os quais você vai ver neste texto.
Neste capítulo, você vai conhecer um pouco sobre o imaginário, o
simbólico e o real, que são os três registros da psicanálise. Também
vai refletir sobre a relação entre os paradigmas da fotografia e os seus
três registros. Além disso, vai compreender a interpretação da
imagem como um processo contextual, cuja relação com o real é
variável conforme o social e o cultural, por exemplo.
O imaginário, o simbólico e o real da imagem
O cenário do final do século XIX e início do século XX é comumente
caracterizado por eventos sociais, políticos e históricos de magnitude global.
A Grande Depressão (anos 1930), a I e a II Guerras Mundiais (1914–1918 e
1939–1945, respectivamente), o aparecimento da primeira bomba nuclear (o
cientista alemão Otto Hahn foi quem descobriu a fissão nuclear em 1938), a
Guerra Fria (1947–1991) entre a ex-URSS e os países vencedores da II
Guerra Mundial e a viagem do homem à Lua (a missão Apollo 8 foi a primeira
a alcançar a órbita lunar), entre muitos outros eventos, fazem parte da sua
memória, não é? Ora, os meios de comunicação de massa tiveram papel
fundamental na constituição dessas lembranças na sua mente, mesmo que
você estivesse em estados temporais e físicos bem distantes. A entrada nessa
nova era, contudo, é também associada à revolução científica trazida pelo
físico alemão Albert Einstein (1879–1955). A respeito desse último
acontecimento, é importante enfatizar o seguinte: com a Teoria da
Relatividade proposta pelo físico, passou-se a perceber o tempo e o espaço
de forma diversa. Desse modo, o universo deixa de ser concebido como
propunha o matemático e físico inglês Isaac Newton (1643–1727).
Publicada no mês de junho de 1905, a Teoria Especial da Relatividade,
a qual buscava reconciliar as leis da mecânica com as do eletromagnetismo,
substituiu a antiga concepção linear sobre o tempo. Ora, o modelo temporal
era bem mais complexo do que o que havia se proposto no século XVII.
Conforme Furtado (2009), Einstein afirmava que, se a velocidade da luz era
a mesma para os observadores, isso significava que as dimensões de tempo e
espaço não poderiam ser absolutas, mas variáveis, porque mudavam
conforme o movimento do observador e dos objetos observados. Apesar das
várias implicações trazidas pelo desenvolvimento teórico de Einstein – tais
como a de que matéria e energia são intercambiáveis –, a reflexão elaborada
pelo físico sobre as dimensões do tempo e do espaço trouxe um impacto
significativo para a forma de se conceber o real. Essa noção passa a ganhar
outra dimensão, ainda mais fundamental, para a vida na sociedade ocidental.
É por essa razão que a breve contextualização apresentada (fins do século
XIX e início do século XX) é importante: ela permite que você compreenda
a sua relação com o real – e, por conseguinte, a forma de você se expressar e
2 Relação compreensiva. Relação com o real
construir a imagem, que é um tipo de expressão – a partir de um outro olhar
sobre a temporalidade e a espacialidade.
A famosa Teoria da Relatividade, de Albert Einstein, proposta antes da I Guerra
Mundial, foi desenvolvida enquanto o físico trabalhava no Escritório de Patentes
da Suíça. Ele só passou a ganhar fama a partir de 1916, quando tomou posse de
cargos em Praga e Berlim. Essa teoria ficou pouco conhecida até o astrofísico e
astrônomo inglês Arthur Stanley Eddington (1882–1944) tê-la comprovado, em
1919, por meio de fotografias tiradas das estrelas ao redor do Sol. Durante um
eclipse desse astro, o astrofísico conseguiu comprovar que as estrelas em torno do
Sol modificavam-se sutilmente enquanto a luz desse astro era curvada pelo seu
campo gravitacional – o que só poderia ser notado durante um eclipse, momento
em que o brilho do Sol deixa de ofuscar as estrelas ao seu redor.
Fonte: Furtado (2009).
Para compreender a noção do real – e suas articulações com as noções de
imaginário e simbólico – é importante fazer referência, primeiramente, ao
campo da psicanálise, o qual influenciou a caracterização de paradigmas
sobre a imagem. É importante você saber, de antemão, que Jacques Marie
Émile Lacan (1901–1981) foi um psiquiatra e psicanalista francês que trouxe
contribuições significativas para a psicanálise. Além das numerosas reflexões
que trouxe para temas de âmbito comum, como o amor e a política, Lacan
reforçou a necessidade de retornar ao fundador desse campo, isto é, ao
neurologista e psicanalista austríaco Sigmund Freud (1856–1939),
preconizando a importância da (re)leitura da sua obra. Aliás, foi a partir do
legado freudiano que o francês elaborou os seguintes registros: imaginário,
simbólico e real.
Os três registros da psicanálise: o imaginário, o simbólico
e o real
Segundo Roudinesco e Plon (1998a, 1998b, 1998c), a palavra imaginário
deriva do termo latino imago. Ela é comumente empregada nos campos da
filosofia e da psicologia em referência à imaginação, isto é, “[...] à faculdade
de representar coisas em pensamento, independentemente da realidade. ”
Relação compreensiva. Relação com o real 3
(ROUDINESCO; PLON, 1998a, p. 371). Já a expressão simbólico vem da
antropologia, a qual atribui um valor e uma função simbólica aos elementos
da cultura. Destacam-se nesse campo de estudo os trabalhos do sociólogo
francês Marcel Mauss (1872–1950) e do antropólogo francês Claude Lévi-
Strauss (1908–2009). Este último, inclusive, desenvolve noções trazidas por
aquele, como a de função simbólica. Faz isso a partir da articulação com o
estruturalismo trazido pela contribuição da linguística, em especial pela obra
do linguista suíço Ferdinand de Saussure (1857–1913). Ainda, o termo real
surge do vocabulário da filosofia.
Embora seja bem difícil sintetizar essas três noções e as relações
estabelecidas entre elas sem comprometer a complexidade e a densidade
dessa elaboração teórica – elaboração esta que apresenta diferentes “fases”
ou desenvolvimentos –, você pode considerar, de forma bem geral, o
seguinte: o imaginário, que passou a ser usado por Lacan a partir de 1936, diz
respeito a uma relação dual com a imagem do semelhante. Essa noção está
relacionada ao estádio do espelho (como você vai ver mais adiante), que é
uma reflexão importantíssima para a psicanálise no tocante à construção do
eu, da relação entre o eu e o outro e da imagem e (in)completude dos homens.
Empregado em associação com as categorias do real e do simbólico, a partir
do ano de 1953, o imaginário passa a ser definido, na reflexão trazida por
Lacan, “[...] como o lugar do eu por excelência [...]”, o espaço dos “[...]
fenômenos de ilusão, captação e engodo [...]” (ROUDINESCO; PLON,
1998a, p. 371).
Conforme Roudinesco e Plon (1998c), também a partir de 1936, Lacan faz
uso do termo simbólico para se referir a um sistema de representação que se
baseia na linguagem. A partir de 1953, essa noção torna-se inseparável das
do imaginário e do real, constituindo uma estrutura. Na categoria do
simbólico, Lacan fez uso da teorização de Lévi-Strauss. Desse modo, o
inconsciente elaborado por Freud passa a ser retomado como o “[...] lugar de
uma mediação comparável à do significante no registro da língua [...]”
(ROUDINESCO; PLON, 1998c, p. 714-715). Além da referência ao conceito
de significante – que é o motor da função simbólica –, o simbólico também
inclui a foraclusão – processo psicótico pelo qual o simbólico some – e o
Nome-do-Pai, o qual se liga à função paterna – tal função pode ser observada
na sua integração a uma lei que proíbe o incesto.
Quanto ao termo real, este passou a ser introduzido a partir de 1953, sendo
comumente associado ao que é impossível de ser simbolizado e representado.
É importante não confundir o real da psicanálise com a noção de uso comum
de realidade. Para a elaboração dessa categoria, Lacan recorreu tanto ao
campo da filosofia como ao conceito de Freud de realidade psíquica
(ROUDINESCO; PLON, 1998b). Ainda se valeu das reflexões elaboradas
4 Relação compreensiva. Relação com o real
pelo cientista social francês-polonês Émile Meyerson (1859–1933) sobre a
ciência do real e das considerações do pensador francês Georges Bataille
(1897–1962) sobre a ciência do irrecuperável (heterologia). Essas três
conceituações foram fundamentais para a elaboração do real por Lacan,
noção esta que é associada a um “resto” que escapa ao discurso (matema) e
que é impossível de ser transmitido (ROUDINESCO; PLON, 1998b).
A propósito, a primeira “teoria” do imaginário de Lacan sofreu influência
dos trabalhos do filósofo e psicólogo francês Henri Wallon (1879–1962), do
filósofo e matemático inglês Bertrand Russel (1872–1970), do biólogo
alemão Jakob von Uexküll (1864–1944), entre outros. Em 1938, o
psicanalista constrói o imaginário não mais como um fato psíquico “simples”,
mas como uma imago, ou seja, como um “[...] conjunto de representações
inconscientes [...]” (ROUDINESCO; PLON, 1998a, p. 371). Em 1953, Lacan
define essa noção como uma espécie de engano que se relaciona à experiência
de uma clivagem do sujeito, da alienação e das “[...] ilusões do eu [...]”
(ROUDINESCO; PLON, 1998a, p. 371). Nesse momento, o simbólico surge
como o espaço do significante, e o real como o impossível, que não pode ser
simbolizado (ROUDINESCO; PLON, 1998a).
Os três paradigmas da imagem
Os registros do imaginário, do simbólico e do real, sistematizados por Lacan
a partir das reflexões freudianas para caracterizar o funcionamento estrutural
psíquico, são retomados na construção dos três paradigmas da imagem. Estes
podem ser resumidos, de maneira bem geral, da seguinte forma
(SANTAELLA; NÖTH, 1998):
Paradigma pré-fotográfico: abarca as imagens artesanais, tais como o
desenho, a pintura e a gravura.
Paradigma fotográfico: refere-se às imagens que têm uma relação
dinâmica com o objeto que retomam, trazendo de alguma forma um
rastro ou uma pista do objeto indicado.
Paradigma pós-fotográfico: engloba as imagens sintéticas ou
infográficas, as quais são realizadas por meio da computação.
Conforme Santaella e Nöth (1998), há quatro níveis de que depende o
processo de signos/linguagem. São eles: (1) meios de produção, (2) meios
de conservação, (3) meios de exposição e difusão e (4) meios de recepção.
No caso da linguagem imagística, esses níveis se referem à percepção, à
contemplação, à observação e à fruição, respectivamente. Pensar sobre
Relação compreensiva. Relação com o real 5
esses “níveis” é importante porque, ao observar como eles se manifestam
em cada paradigma apontado, você pode compreender as mudanças que
foram ocorrendo de um paradigma a outro até se chegar a uma ruptura e,
assim, ao surgimento do paradigma subsequente. Dentro desse panorama,
esses autores apontam que há semelhanças entre os três registros
psicanalíticos e os três paradigmas da imagem. Observe:
Pré-fotográfico: está para o imaginário.
Fotográfico: está para o real.
Pós-fotográfico: está para o simbólico.
Após essa explanação, você está pronto para aprender sobre a relação entre
os três registros trazidos pelo campo da psicanálise e os paradigmas de
imagem. Conforme explicam Santaella e Nöth (1998), há semelhanças tão
significativas entre os registros e os paradigmas que uma correlação entre eles
já parece se impor, isto é, se colocar “por si mesma”, sem a necessidade de
algum “esforço”.
Os (três) paradigmas da imagem e os três registros
da psicanálise
É importante você saber, de antemão, que deve ter cuidado ao se referir a
distintos campos de estudo, como o da psicanálise, o qual trata de um sujeito
de outra ordem, que é a do inconsciente, do desejo. No processo de retomadas
teóricas, o estudioso/pesquisador pode “escorregar” na tendência à
“pasteurização” ou homogeneização de diferentes perspectivas teóricas em
torno da tentativa de se definir um objeto teórico específico (CORDEIRO,
2017). Você precisa, portanto, estar atento à generalização que realiza dos
discursos teóricos para além dos seus campos iniciais de atuação. Isso
também é discutido por Santaella e Nöth (1998, p. 188). Para eles, como o
discurso psicanalítico adquiriu uma espécie de “especificidade própria”,
frequentemente transpõe-se suas questões teóricas para outros campos. No
entanto, a ressalva que esses dois autores supracitados fazem a respeito da
relação entre os três registros com os três paradigmas da imagem é
fundamental para você compreender tal reflexão numa perspectiva dialogal e
relacional, e não de uma “adaptação” sem sentido de uma disciplina sobre
outra: ao fazer uma apresentação dos três registros, Lacan literalmente
afirmou que esses três registros bem distintos do Imaginário, Real e
Simbólico são os registros essenciais da realidade humana, chamando-os
6 Relação compreensiva. Relação com o real
também de categorias conceituais (SANTAELLA; NÖTH, 1998). Desse
modo, esses três registros, também nomeados de categorias conceituais, são
caracterizados como universais. Além disso, Santaella também aponta uma
analogia entre os três registros e o modelo lógico triádico do filósofo norte-
americano Charles Sanders Peirce (1839–1914), constituído pelas categorias
primeiridade, secundidade e terceiridade.
Nos estudos empreendidos sobre o signo, Peirce (2005 apud MELO; MELO, 2014)
propôs a classificação de todo fenômeno – entendido como qualquer coisa que
surge na mente – a partir de três categorias, chamadas de primeiridade,
secundidade e terceiridade. Essas noções referem-se ainda a três fases do
processo de percepção de qualquer signo. De maneira geral, elas se caracterizam
como (MELO; MELO, 2014):
Na primeira, ou primeiridade, destaca-se o sentir, isto é, o sentimento. Como
percepção primeira, o signo é percebido por elementos referentes à qualidade.
Esses elementos suscitam uma sensação ou um sentimento, tais como cor,
forma, volume, textura, som, etc. (é o quali-signo, o qual faz parte do input
visual). O universo dessa categoria é o do sonho, o da imaginação (GHIZZI, 2009
apud MELO; MELO, 2014) e o de quando você experiencia algo pela primeira
vez, como um cheiro ou um sabor.
Na segunda, ou secundidade, destaca-se o reagir, isto é, a reação. Como
percepção secundária, o signo é decomposto em relações/associações e é
notado como “mensagem” (é o sin-signo, o qual faz parte do insight
representacional). Essa categoria se dá no conflito entre a consciência e o signo
que busca ser entendido, como quando você percebe uma qualidade de alguma
coisa como propriedade de um signo.
Na terceira, ou terceiridade, destaca-se o pensar, isto é, o pensamento. Como
percepção última, o signo é compreendido num contexto geral de significações
(é o legi-signo, o qual faz parte do output comunicacional). Nessa categoria se
dá o próprio processo de mediação entre a primeiridade e a secundidade; e
ainda o de representação e interpretação do mundo.
De acordo com Santaella e Nöth (1998), o imaginário é o registro que mais
se relaciona aos problemas da imagem. Tal registro corresponde ao ego, ao
eu do sujeito. É aqui que se encontra o narcisismo como um investimento
libidinal. A definição freudiana sobre o narcisismo remete ao mito grego de
Narciso. Ovídio (43 a.C–18 d.C.) conta que esse personagem mitológico
Relação compreensiva. Relação com o real 7
grego era conhecido pela sua beleza. Filho do deus do rio Cefiso e da ninfa
Liríope, Narciso é punido com uma maldição imputada por Afrodite porque
ele havia desprezado o amor da bela ninfa Eco, a qual seleciona uma
montanha como “seu leito de morte”. Assim, Narciso é punido da seguinte
forma: ele poderia amar, mas não lhe seria possível ter o objeto amado. Um
dia, observa o seu reflexo em um lago e admira a forma bela que contempla.
Uma das questões que essa história coloca diz respeito à constituição dos
seres humanos como sujeitos, que passa inevitavelmente pelo outro, pelo
olhar do outro, pelo crivo de outrem, porém esse outro aparece como reduzido
a uma imagem de si mesmo. Em Narciso, sujeito e objeto são colocados em
confluência, sendo um reflexo do outro (AZEVEDO, 2004).
Essa história auxilia Freud na teorização que elabora sobre o narcisismo,
a qual é retomada por Lacan posteriormente no famoso estádio do espelho:
aqui se coloca, além da constituição do eu, da completude, a relação especular
com o outro (SANTAELLA; NÖTH, 1998). A “identidade” é construída – a
partir da analogia que o psicanalista francês faz entre o bebê (dos seis aos 18
meses) e a sua imagem projetada no espelho – por meio de um jogo que se dá
entre o eu e o outro; jogo esse, é importante você perceber, que ocorre ao
longo de toda a vida, nas relações sociais. “Senhor e servo do imaginário, o
eu se projeta nas imagens em que se espelha: imaginário da natureza,
imaginário do corpo, da mente, e das relações sociais” (SANTAELLA;
NÖTH, 1998, p. 190). As relações passam, desse modo, a se dar conforme
essa imagem que é constantemente repetida porque é por meio dessa imago
que a subjetividade é fundada.
A relação que o paradigma pré-fotográfico mantém com o registro do
imaginário é ora idílica, ora conflituosa, da mesma forma que a relação que o
desenho e/ou a pintura, isto é, a imagem artesanal, mantém com o corpo, o
objeto, a natureza, etc. Como essa produção implica a presença do corpo –
seja da mão, seja do olhar – e do objeto representado, a imaginação do artista
é a responsável por expressar essa imagem. Esta é, assim, ilusória, porque
incompleta, mesmo que pretenda uma completude, e mítica, porque suspensa
na temporalidade após realizada (SANTAELLA; NÖTH, 1998). Ademais,
ela é uma imagem singular, um olhar específico, um ponto de vista que é
levado para o espectador com ela se identificar.
A respeito do real, Santaella e Nöth (1998) retomam que ele, sendo o
impossível, o impossível de ser simbolizado, ou seja, o que não é possível de
ser capturado pelo simbólico, está para o paradigma fotográfico. Ora, entre o
objeto e a sua imagem, há a falta. Dito de outro modo, não há uma adequação
entre as partes do seu corpo e a “matriz imaginária” que você pode ter dele.
Assim, como se articula o mundo do imaginário com o mundo do real em
cada um? O paradigma fotográfico se deu nesse choque entre o imaginário e
8 Relação compreensiva. Relação com o real
o real. Foi nesse encontro conflituoso que a fotografia e os seguintes
desdobramentos surgiram. Há nesses gêneros um corte, um recorte, um
fragmento apenas que é capturado no tempo-espaço. Com o modelo
fotográfico, a utopia da completude entre o mundo e a imagem cai por terra.
Sobre essa relação, veja o enunciado de Santaella (1996, p. 180 apud
SANTAELLA; NÖTH, 1998, p. 192):
Quanto mais um aparelho ou máquina se aperfeiçoa no registro mimético dos
objetos e situações, mais evidente se torna sua impossibilidade de ser igual
àquilo que registra. Há um descompasso entre o ritmo do mundo, matéria
vertente do vivido, e a capacidade do registro. A febre da vida não cabe em
imagens. Sob as vestes da imagem, algo cai. Esse algo é o real, que insiste na
sua irredutibilidade.
Santaella e Nöth (1998) discorrem sobre o simbólico, que é o espaço da
linguagem, da estrutura, da lei e da cultura, do grande Outro – o qual inclui a
lei paterna, a mediação, o significante que falta, entre outros. Conforme
expõem os autores, o simbólico e a sua relação com a imagem, o paradigma
pós-fotográfico, são marcados pela dimensão externa desse olhar do grande
Outro. Esse paradigma inclui as imagens numéricas, computadorizadas, as
quais são criadas por meio de um cálculo aritmético. Não é mais necessária a
presença no tempo e no espaço do sujeito espectador e do objeto que
representa. O olhar do sujeito se reduz “[...] a um ponto geométrico [...]”
(MARTINHOL, 1993, p. 99 apud SANTAELLA; NÖTH, 1998, p. 193).
É importante você notar que, embora seja “redutor” dividir a história da imagem e
os seus desdobramentos em três grandes momentos, os paradigmas citados e
discutidos pelos autores devem ser observados como pontos de partida. Eles
podem levar você a refletir sobre como a relação dos seres humanos com a imagem
tem se modificado ao longo da história.
Relação compreensiva. Relação com o real 9
A interpretação da imagem como mais ou menos
real
Nas sociedades ocidentais de maneira geral, as imagens se apresentam como
formas de expressão típicas. Aliás, elas vêm constituindo novamente –
novamente porque o uso das imagens é anterior ao das letras – um protótipo
básico da comunicação. O uso excessivo das redes sociais pelas pessoas tem
trazido uma questão antiga, mas muito cara aos estudos que envolvem
campos como os da filosofia, da linguagem e do discurso, que é a seguinte: o
que torna uma imagem “real” ou mais ou menos “real”? É importante destacar
que esse real está entre aspas porque é empregado aqui no sentido de
“realidade”, e não no da psicanálise discutido anteriormente. Logo, por que
uma imagem de um corpo excessivamente magro parece real para muitos,
enquanto uma dissimulação para outros? Por que há tanta controvérsia a
respeito das imagens fake veiculadas pela mídia? Ora, a imagem é, como você
sabe, experimentada por meio dos sentidos. No entanto, alguns a percebem
como parte constitutiva que é socialmente representada pelas pessoas a
respeito do mundo; outros, como o próprio mundo, como se este existisse, já
de antemão, “pronto” para ser observado.
Naturalmente, você não precisa responder a essas questões. Elas servem
para que você possa pensar o seguinte: a imagem é uma das formas utilizadas
para expressar a realidade e a sua relação com ela. Conforme explicam
Beccari e Portugal (2013), “[...] há muitas formas de olhar para o mundo [...]”.
E isso não diz respeito apenas a uma categorização social, herdada a partir
das experiências com os pares, desde a infância, e dos contatos com as
numerosas instituições sociais e políticas ao longo da vida; mas também pela
própria forma como o olhar se projeta. O ato de ver é, portanto, fundamental
nesse processo e dialoga com os filtros, os julgamentos coletivamente
construídos, aos quais poucas vezes as pessoas têm acesso e compreensão
consciente. Sem querer entrar numa discussão de cunho tautológico, essa
reflexão pontua que a forma de olhar, isto é, de projetar a visão, interfere
também na constituição das pessoas como seres humanos. Além disso, ela
permite dizer que o como “se habita” já é parte de um olhar que não só
observa e contempla, mas que, ao ver, produz sentido. Isso é, inclusive, parte
crucial do debate levantado na obra cinematográfica de produção nacional e
internacional chamada A janela da alma (MIRÁ FILMES, 2014).
O documentário A janela da alma (MIRÁ FILMES,
2014), produzido e dirigido pelos brasileiros João
Jardim e Walter Carvalho, apresenta uma
1 Relação compreensiva. Relação com o real
0
interessante discussão sobre o ato de ver, ato esse
profundamente social e subjetivo. Nessa obra
cinematográfica, 19 pessoas, entre elas o escritor
português José Saramago, o escritor e
neurologista inglês Oliver Sacks, o compositor
musical brasileiro Hermeto Pascoal, o fotógrafo
franco-esloveno Evgen Bavcar e a cineasta
finlandesa Marjut Rimminen, além de muitos
outros convidados, discutem as diversas formas
de se relacionar com o mundo por meio do olhar.
Seja a partir de uma leve miopia, seja de uma
completa cegueira, cada um dos entrevistados
apresenta a sua perspectiva sobre si mesmo, o
mundo e os outros ao seu redor por meio das
diversas “deficiências” visuais ou, melhor, das
diversas formas de enxergar. Esse filme é parada
obrigatória para quem deseja se aprofundar no
estudo sobre o homem, o olhar e a visão dentro
de um mundo permeado por imagens. Você pode
assistir ao documentário no seguinte link ou
código (MIRÁ FILMES, 2014):
[Link]
A imagem como construção do real
É importante que você pense de forma “mais concreta” essa relação entre a
imagem e o suposto real, dentro de uma concepção social da realidade. Isto
é, você deve considerar a realidade como um processo em construção pelos
sujeitos – e não como algo já dado, como geralmente é tomada pelas ciências
naturais, embora esse movimento tenha se modificado ao longo dos anos. Isso
leva à reflexão levantada por Mota-Ribeiro e Coelho (2011) sobre a
modalidade da imagem. Segundo esses autores, a modalidade da imagem é
um aspecto da dimensão interacional, o qual se relaciona com a credibilidade
das imagens, no sentido de como a mensagem é construída. Baseando-se em
Kress e van Leeuwen (2006 apud MOTA-RIBEIRO; COELHO, 2011), os
marcadores visuais das imagens permitem que elas sejam interpretadas como
mais ou menos reais, ou seja, como mais ou menos “credíveis”. É interessante
você notar que, na perspectiva desses autores, uma modalidade elevada
remete para o real e uma baixa, para a possibilidade. No entanto, isso não diz
Relação compreensiva. Relação com o real 1
1
respeito necessariamente ao fato de a cena ser representada de forma
fantasiosa, pois uma imagem com fantasmas, por exemplo, pode ter uma
modalidade elevada caso seja representada como “real”. Para isso, o
autor/produtor da imagem deve usar elementos visuais que possam atribuir
credibilidade a ela.
A credibilidade faz parte de uma construção social, coletiva. Dito de
outro modo, os elementos usados para construir uma mensagem visual como
real podem ser interpretados de forma diferente por outro grupo social.
Assim, enquanto um confere uma modalidade alta àquela mensagem, outros
podem atribuir uma baixa. Nesse sentido, “[...] a credibilidade varia de
sociedade para sociedade, uma vez que é culturalmente marcada [...]”
(KRESS; VAN LEEUWEN, 1996 apud MOTA-RIBEIRO; COELHO,
2011). Além disso, dentro de uma mesma cultura, o próprio padrão de
credibilidade pode variar. Essa variação também é histórica, pois se dá ao
longo do tempo. Logo, é importante você ter como ponto de partida essa
reflexão sobre a relação entre a imagem e o real como uma dinâmica de
representação, e não como uma correspondência objetiva.
Portanto, dentro de cada cultura, é possível encontrar diferentes formas de
observar uma mesma imagem. Assim, os padrões que caracterizam uma
imagem mais “real” são contextuais, relacionais e variam conforme o tempo,
o espaço, o sujeito que a vê, a situação de interação entre os sujeitos, entre
outros elementos. Por fim, refletir sobre a relação entre imagem e real é
importante para evitar prévios julgamentos e atitudes, bem como o uso da
violência pela violência. Essa reflexão também é essencial para trabalhar a
relação entre o eu e o outro – o meu olhar e o outro olhar – de forma mais
ética e democrática diante do que está sendo veiculado na mídia.
1 Relação compreensiva. Relação com o real
2
Dependendo do contexto em que é usada esta imagem, ela pode apresentar
o paradigma pós-fotográfico
para o simbólico e o paradigma
o paradigma pós-fotográfico
imaginário e o paradigma pós-
os paradigmas da imagem?
Relação compreensiva. Relação com o real 1
3
a) A relação da imagem e) A relação da imagem préfotográfica
préfotográfica com o imaginário é com o simbólico é marcada pela
idílica e conflituosa; a relação da dimensão do olhar da lei, da cultura,
imagem fotográfica com o da estrutura, da linguagem; a relação
simbólico é marcada pela da imagem fotográfica com o real é de
dimensão do olhar da lei, da captura de um fragmento no tempo-
cultura, da estrutura, da espaço; e a relação da imagem pós-
linguagem; e a relação da imagem fotográfica com o imaginário é idílica e
pós-fotográfica com o real é de conflituosa.
captura de um fragmento no 3. Em qual paradigma se encontra a
tempo-espaço. imagem a seguir? Marque a alternativa
b) A relação da imagem pré- com a justificativa correta.
fotográfica com o simbólico é
marcada pela dimensão do olhar
da lei, da cultura, da estrutura, da
linguagem; a relação da imagem
fotográfica com o real é de captura
de um fragmento no tempo-
espaço; e a relação da imagem
pós-fotográfica com o imaginário é
idílica e conflituosa.
c) A relação da imagem
préfotográfica com o imaginário é Fonte: one line man/[Link].
idílica e conflituosa; a relação da a) A imagem se encontra no
imagem fotográfica com o real é de paradigma fotográfico, uma vez que
captura de um fragmento no nela se observa o recorte da
tempo-espaço; e a relação da realidade e a sua captura no tempo
imagem pósfotográfica com o e no espaço durante a
simbólico é marcada pela representação visual da lâmpada.
dimensão do olhar da lei, da b) A imagem se encontra no
cultura, da estrutura, da paradigma pré-fotográfico, uma vez
linguagem. que nela se observa a presença do
d) A relação da imagem corpo do sujeito – com a mão e o
préfotográfica com o real é de seu olhar – durante a
captura de um fragmento no representação visual da lâmpada.
tempoespaço; a relação da imagem c) A imagem se encontra no
fotográfica com o imaginário é paradigma pós-fotográfico, uma vez
idílica e conflituosa; e a relação da que nela se observa o recorte da
imagem pós-fotográfica com o realidade e a sua captura no tempo
simbólico é marcada pela e no espaço durante a
dimensão do olhar da lei, da representação visual da lâmpada.
cultura, da estrutura, da d) A imagem se encontra no
linguagem. paradigma fotográfico, uma vez que
nela se observa a presença
1 Relação compreensiva. Relação com o real
4
do corpo do sujeito – com a
mão e o seu olhar – durante a
representação visual da
lâmpada.
e) A imagem se encontra no
paradigma pré-fotográfico, uma
vez que nela se observa o
recorte da realidade e a sua
captura no tempo e no espaço
durante a representação visual
da lâmpada.
4. Acerca da
interpretação da imagem
como mais ou menos real,
qual das alternativas citadas a
seguir apresenta a categoria
conceitual fundamental para
se interpretar a imagem? a)
Realidade.
b) Paradigmas.
c) Registros.
d) Contexto.
e) Estrutura.
5. A respeito da relação entre imagem
e “real”, marque a alternativa
correta.
a) A credibilidade da imagem diz
respeito à fonte que produz a
representação visual.
b) Os marcadores visuais das
imagens permitem que elas
sejam interpretadas como
autênticas.
c) Uma representação visual
fantasiosa apresenta uma
modalidade baixa quanto à
modalidade do “real”.
d) A credibilidade é um aspecto
que diz respeito ao sujeito
singular produtor da imagem.
e) A modalidade da imagem é um
aspecto que se relaciona com a
credibilidade da representação.
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Leitura recomendada
RIVERA, T. Cinema, imagem e psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.