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Equações Diferenciais Parciais: Introdução

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Introdução às

Equações Diferenciais Parciais

João Palhoto Matos

3 de Dezembro de 2003
2
Índice

Índice

1 Introdução 1
1.1 Nomenclatura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1
1.2 Objectivos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1

2 Equações reais de primeira ordem 3


2.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3
2.2 Equações quase-lineares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3
2.3 Caso geral . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9
2.4 Comentários . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
2.5 Exercı́cios suplementares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13

3 O Laplaciano 15
3.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15
3.2 Soluções radiais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16
3.3 Fórmula de Green e Solução Fundamental . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17
3.4 Função de Green — casos elementares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18
3.5 Núcleo de Poisson — solução do problema de Dirichlet numa bola . . . . . . . . 21
3.6 Teorema do valor médio para funções harmónicas . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21
3.7 O princı́pio de máximo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22
3.8 Ainda o teorema do valor médio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 24
3.9 O método de Perron . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26
3.10 A equação de Poisson . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30
3.11 Soluções fracas da equação de Laplace . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33
3.12 Exercı́cios suplementares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34

4 Classificação das equações lineares de 1a ordem no plano 37


4.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37

5 Resultados gerais e contra-exemplos 39


5.1 O Problema de Cauchy geral . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39
5.2 O Teorema de Cauchy-Kowalewska . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40
5.3 O Teorema de Holmgren . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40
5.4 O Contra-exemplo de Lewy . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41

6 Operadores Elı́pticos Lineares de 2a ordem 43


6.1 Hipóteses adicionais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43
6.2 O princı́pio de máximo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 44
6.3 Uma estimativa pontual . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45
6.4 O método de continuidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46

3
Índice

7 Métodos Variacionais 47
7.1 Os Teoremas de Stampacchia e Lax-Milgram . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47
7.2 Introdução aos espaços de Sobolev . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50
7.2.1 Definições e propriedades elementares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50
7.2.2 Os teoremas de Sobolev e Morrey . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50
7.2.3 O teorema de Rellich . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50
7.2.4 Outros resultados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50
7.3 Aplicações a problemas elı́pticos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 51
7.3.1 O método do quociente de Nirenberg . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 51

8 A equação do calor 53
8.1 O núcleo de Gauss . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53
8.2 Princı́pio de Máximo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53

9 A equação das ondas 55


9.1 O problema de Cauchy . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55
9.2 O método das médias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55
9.3 O método de descida . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55

A Mecânica dos Meios Contı́nuos 57


A.1 Formulação dos modelos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 57
A.1.1 Cinemática . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 57
A.1.2 Massa, Força, Momento Linear e Momento Angular . . . . . . . . . . . . 58
A.1.3 Equações de Navier-Stokes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60
A.2 Equações de Cauchy-Riemann . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60
A.3 Equações de Euler-Lagrange . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60
A.4 Electromagnetismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60
A.5 Equações de Hamilton-Jacobi . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60
A.6 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60

B Convolução e regularização 61
B.1 Sucessões de molificadores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61

C Problemas Adicionais 65

Bibliografia 73

Lista de Figuras 75

Índice remissivo 76

4
Índice

Nota

As páginas seguintes são uma versão mais cuidada das minhas notas para dois cursos introdutórios
sobre equações diferenciais parciais leccionados a partir de 1989/90 no Instituto Superior Técnico.
Estes cursos têm a duração de um semestre e têm como objectivos por um lado a introdução
do aluno aos resultados clássicos sobre equações diferenciais parciais e por outro a ligação com
métodos e problemas contemporâneos. Um dos cursos é destinado aos alunos do quarto ou quinto
ano do curso de licenciatura em Matemática Aplicada e o outro aos alunos do primeiro ano do
Mestrado em Matemática Aplicada.
É justo referir aqui que fui influenciado por todos os professores que me ensinaram Matemá-
tica, em particular por aqueles que me ensinaram Equações Diferenciais por escrito e ao vivo.
Destes últimos devo salientar o Prof. Manuel Ricou que foi quem leccionou pela primeira vez
este curso. No entanto o ordenamento do material, a ênfase relativa dada aos diversos tópicos
e todos os erros matemáticos, linguı́sticos e tipográficos são da minha inteira responsabilidade.
Desde já agradeço a quem mos comunicar.

5
Índice

6
Capı́tulo 1

Introdução

1.1 Nomenclatura
A expressão
F (x, u, (Dα u)1≤|α|≤l ) = 0 (1.1)

em que1 F : Rn ×Rm ×Rk → RN é uma aplicação dada e k ≡ k(l, m, n, N ) designa-se por sistema
de N equações diferenciais parciais em m incógnitas uj , 1 ≤ j ≤ m em que u = (uj )1≤j≤m . Em
geral os únicos sistemas que consideraremos serão determinados, i.e. m = N . Se m = 1 dizemos
que temos uma equação diferencial parcial. Se, fixado um qualquer x, o funcional definido por
u 7→ F (x, u(x), (Dα u(x))1≤|α|≤l ) é afim diz-se que a equação ou sistema é linear. Finalmente se
X
F (x, u, (Dα u)1≤|α|≤l ) = aα (x, (Dβ u)|β|<k )Dα u − b(x, (Dβ u)|β|<k )
|α|=k

diz-se que o sistema ou equação é quase-linear.

1.2 Objectivos
A secção de texto anterior prima por ser, propositadamente, sintética. Dizer que uma equação
diferencial parcial é uma expressão do tipo (1.1) é algo que não tem significado matemático
preciso. O que é que de facto significa estudar uma equação diferencial parcial? Normalmente o
leitor deste texto já terá sido exposto ao estudo de equações diferenciais ordinárias e de algumas
equações diferenciais parciais2. Isto poderá ter levado a um conjunto de expectativas desajustadas
do que se irá encontrar a seguir. O que iremos de facto encontrar será, espero, um vislumbre de
resposta às seguintes questões:

• Existe uma teoria geral para equações diferenciais parciais?

• Caso a resposta à primeira pergunta seja não, existe um processo de classificação que reduza
este estudo a um número finito e pequeno de teorias especiais?

• Quais são os métodos a utilizar? Trata-se de um campo da Matemática definido pelos


métodos técnicos a utilizar ou pelos objectivos que se têm em vista?

• Há um espaço de funções natural para procurar soluções de uma equação?


1 Não havendo menção expressa do contrário convenciona-se que notação da forma f : D → E significa que f

está definida num subconjunto de D com valores em E. Por outro lado a notação f : C ⊂ D → E significa que f
está definida em todo o subconjunto C de D com valores em E.
l
Claro que k(l, m, n) = nm( 1−n
1−n
).
2 Provavelmente já usou separação de variáveis e séries de funções para obter soluções de algumas equações

diferenciais parciais lineares de segunda ordem em domı́nios particulares. Isto não será pressuposto no texto.

1
Capı́tulo 1. Introdução

• O que é que as equações lineares têm de especial? Em que medida é que a teoria é mais
rica nesta situação?
• O que é um problema bem posto?
• Em que medida a Fı́sica-Matemática clássica influencia e é influenciada pelo estudo das
equações diferenciais parciais? Que soluções são interessantes deste ponto de vista?
• Há classes de equações diferenciais parciais cujo estudo possa beneficiar dos métodos de-
senvolvidos para equações diferenciais ordinárias?
A resposta a estas questões não vai ser fácil. Espero, pelo menos, que no final da leitura deste
texto se pecebam melhor as perguntas e a dificuldade em formular a sua resposta.

2
Capı́tulo 2

Equações reais de primeira ordem

2.1 Introdução
Pretendem-se estudar equações da forma

F (x, u, (Di u)1≤i≤n ) = 0. (2.1)

em que F : Rn × R × Rn → R é uma aplicação dada.


Note-se que o problema anterior não está enunciado em termos rigorosos e que introduziremos
hipóteses precisas progressivamente. O leitor começará com certeza por pensar que se tivéssemos
n = 1 estarı́amos a estudar uma equação diferencial ordinária de primeira ordem e que nesse
caso procurar-se-ia estudar:
• a existência (local ou global) de u;
• condições adicionais que garantam a unicidade de u;
• regularidade de u;
• outras propriedades de u tais como dependência contı́nua em relação a um parâmetro ou
propriedades assimptóticas.
São essencialmente os mesmos problemas que nos interessarão no estudo das equações diferenciais
parciais. No entanto, excepto no caso de equações diferenciais parciais reais de primeira ordem
em que a análise reduz-se no essencial ao estudo dum sistema de equações diferenciais ordinárias,
os métodos a utilizar irão para além do que é conhecido das equações ordinárias.

2.2 Equações quase-lineares


A equação diferencial parcial real quase-linear de primeira ordem tem a forma
n
X ∂u
ai (x, u) = b(x, u) (2.2)
i=1
∂xi

com a ≡ (ai )1≤i≤n e b funções dadas. Procuraremos fixar uma solução considerando a condição
de Cauchy
u = u0 , em S, (2.3)
onde S é uma hipersuperfı́cie C 1 . O problema assim formulado designa-se por problema de
Cauchy. Note-se que podemos escrever a equação na forma

Da(x,u(x)) u(x) = b(x, u(x))

em que Dh designa derivada dirigida segundo o vector h. Isto é, conhecido o valor de u num
ponto x existe uma direcção, dependente de x e u(x), em que o “crescimento” de u é conhecido.

3
Capı́tulo 2. Equações reais de primeira ordem

Essa direcção é a do campo Ω 3 x 7→ a(x, u(x)). Uma primeira observação é que poderá não
existir solução do problema de Cauchy se existir um ponto de S em que a(x, u(x)) é tangente a
S. Esta e outas observações importantes podem ser feitas mesmo num exemplo muito simples.
Pode-se dizer que o método de resolução das equações quase-lineares de primeira ordem reduz-se
no essencial ao exemplo seguinte por “mudança de variáveis”.
∂u
Exemplo. Considere-se ∂x = 0 em R2 . Para toda a função g : R → R temos que u : R2 → R
definida por
u(x, y) = g(y)
será uma solução. Note-se por exemplo que se S for uma linha C 1 cuja tangente nunca seja
paralela ao eixo dos xx o problema de Cauchy correspondente terá uma e uma só solução numa
vizinhança de S. Por outro lado não existe por exemplo solução do problema de Cauchy se
fixarmos u(x, 0) = h(x) com h não constante. Se h for constante existirão soluções mas não se
verificará unicidade local. Note-se que a derivada dirigida de u está neste caso fixada na direcção
do eixo dos xx. N
Voltando à equação quase-linear geral vamos como primeiro passo da sua resolução tentar
determinar as linhas integrais do campo de direcções definido por (x, u) 7→ (a(x, u(x)), b(x, u(x)))
em Rn+1 . Para tal basta considerar o sistema de equações diferenciais ordinárias:
dX
= a(X(λ), U (λ))

dU
= b(X(λ), U (λ)).

Escolhemos condições iniciais correspondentes a fixar o valor de u sobre a hipersuperfı́cie S.
Supomos, se necessário usando cartas locais, que S é descrita por x = ϕ(s), s ∈ ω ⊂ R n−1 ,
ω aberto e que o valor de u em S é descrito por u = ψ(s). Consequentemente passamos a
considerar o problema de Cauchy para um sistema de equações diferenciais ordinárias, o sistema
caracterı́stico
∂X
= a(X(λ, s), U (λ, s)), X(0, s) = ϕ(s)
∂λ (2.4)
∂U
= b(X(λ, s), U (λ, s)), U (0, s) = ψ(s)
∂λ
Este sistema, se a e b forem suficientemente regulares, digamos C 1 , terá, de acordo com o teorema
fundamental de existência, unicidade e dependência contı́nua em relação a um parâmetro para
equações diferenciais ordinárias, uma solução única numa vizinhança de {0} × ω. Essa solução
será uma função de classe C 1 em (λ, s). As respectivas linhas integrais, i.e., as linhas descritas
em Rn+1 por λ 7→ (X(λ, s), U (λ, s)) para cada s são designadas por caracterı́sticas. As linhas
descritas em Rn por λ 7→ X(λ, s) para cada s são por vezes também designadas nalguma literatura
por caracterı́sticas mas nós optamos por utilizar para estas a designação de traços caracterı́sticos
ou projecções caracterı́sticos.
Para obtermos u em termos de x será natural tentar decidir se a aplicação
(λ, s) 7→ X(λ, s)
é um difeomorfismo. Para isso a ferramenta natural é o teorema da função inversa para garantir
esse facto numa vizinhança de um ponto ϕ(s) ∈ S. Tal estará garantido se
det ∂X ∂X
 
∂λ ∂s
(0, s) =
= det a(X(0, s), U (0, s)) ∂X
 
∂s (0, s)
∂ϕ
= det[ a(ϕ(s), ψ(s)) ∂s
] 6= 0.
Esta condição é exactamente a não tangência de S ao campo a(·, u(·)) no ponto ϕ(s). Diz-se que
uma hipersuperfı́cie verificando esta condição em todos os seus pontos é não-caracterı́stica.

4
2.2. Equações quase-lineares

característica

x2

traço característico

x1
Figura 2.1: O problema de Cauchy para equações diferenciais parciais quase-lineares reais de 1 a ordem.

Podemos então estabelecer um teorema de existência e unicidade de solução para a equação


diferencial parcial quase-linear real de primeira ordem.
Teorema 2.2.1. O problema de Cauchy
 Pn
i=1 ai (x, u(x))Di u = b(x, u(x)) numa vizinhança de S
(2.5)
u = u0 , em S

em que S é uma hipersuperfı́cie C 1 não caracterı́stica e a, b, u0 são C 1 tem uma solução C 1 única
numa vizinhança de S.
Demonstração. Sejam u1 e u2 duas soluções de (2.5) numa vizinhança dum ponto de S. Fixe-se
k = 1 ou 2 e seja X uma solução de
∂X
= a(X(λ, s), uk (X(λ, s))).
∂λ
Seja V definida por
V (λ, s) = uk (X(λ, s)).
Temos então
n
∂V X ∂uk ∂Xi
=
∂λ i=1
∂xi ∂λ
n
X ∂uk
= ai (X(λ, s), uk (X(λ, s)))
i=1
∂xi
= b(X(λ, s), uk (X(λ, s)))
= b(X(λ, s), V (λ, s))

Assim tanto (X, U ) como (X, V ) são soluções do sistema (2.4) verificando as mesmas condições
iniciais. Daı́ que U = V . Note-se que esta conclusão é independente de k. Como X é um
difeomorfismo pode-se concluir que u1 = u2 . Estabelecemos assim unicidade da solução.

5
Capı́tulo 2. Equações reais de primeira ordem

Para demonstrar a existência de solução de (2.5) usamos o método sugerido antes do enunciado
do teorema. Consideramos uma solução (X, U ) do sistema caracterı́stico (2.4) e define-se u(x) =
U (θ(x)) em que θ é a aplicação inversa do difeomorfismo (λ, s) 7→ X(λ, s) numa vizinhança
conveniente dum ponto de S. As propriedades de regularidade de u seguem do que já foi exposto
tal como a satisfação das condições de Cauchy. Resta verificar que u é uma solução. Calculamos
então
n−1
∂u ∂U ∂λ X ∂U ∂sj
= +
∂xi ∂λ ∂xi j=1 ∂sj ∂xi
pelo que
n n
X ∂u X ∂u ∂Xi
ai (x, u(x)) =
i=1
∂xi i=1
∂x i ∂λ
 
n n−1
X ∂U ∂λ ∂X i
X ∂U ∂sj ∂Xi
=  + 
i=1
∂λ ∂x i ∂λ j=1
∂s j ∂x i ∂λ
∂U
=
∂λ
= b(x, u(x))
verificando que u é efectivamente uma solução de (2.5). 

Exercı́cio 2.1. Resolva os seguintes problemas de Cauchy:


a) uy = xuux , u(x, 0) = x;
b) xuy − yux = u, u(x, 0) = h(x).
Exercı́cio 2.2. Suponha que a solução do problema 2.5 está definida numa vizinhança U da
hipersuperfı́cie não-caracterı́stica S. Considere topologias para as funções C 1 em U e em S
definidas por seminormas correspondentes ao supremo do módulo da função e das suas derivadas
parciais (tangenciais para funções definidas em S) em subconjuntos compactos (para a topologia
induzida em S). Enuncie e demonstre um resultado sobre dependência contı́nua da solução em
relação aos valores iniciais.
Acabámos de estabelecer um resultado de existência local para as equações diferenciais par-
ciais reais de primeira ordem. Convirá agora verificar, através de um exemplo simples, que a
existência global de solução só será de esperar em situações muito particulares.
Exemplo. Comecemos por algumas considererações básicas sobre Mecânica dos Meios Contı́-
nuos1 destinadas a permitir uma interpretação fı́sica do modelo a considerar.
Pretendemos descrever a evolução no tempo dum corpo Ω, um aberto de R n , através duma
aplicação x : R×Ω → Rn em que supomos x(0, p) = p, ou seja a configuração de referência supõe-
se idêntica à do corpo no instante t = 0. O desenvolvimento da teoria obrigará a fazer suposições
do tipo x ∈ C k (R × Ω) para algum k ∈ N e que as aplicações x(t, ·) são difeomorfismos C k ,
i.e., exclui-se a interpenetração da matéria. No entanto existirão situações em que tais hipóteses
técnicas não serão adequadas. Por exemplo se se pretende estudar cavitação (formação de buracos
no material).
As coordenadas p dizem-se coordenadas materiais ou lagrangianas e as coordenadas x =
x(t, p) dizem-se coordenadas espaciais ou eulerianas. Em particular cada ponto p ∈ Ω diz-se
uma partı́cula e x(·, p) dir-se-á a sua trajectória. Dada uma grandeza g descrita em coordenadas
materiais a sua descrição em coordenadas espaciais2 far-se-á através de
g(t, x(t, p)) = g(t, p)
1 Consideraçõesmais extensas sobre Mecânica dos Meios Contı́nuos são objecto do Apêndice A.
2 Usar-se-á
a, b, c, . . . , α, . . . para representações de grandezas em coordenadas materiais e a, b, c, . . . , α, . . . para
as respectivas representações em coordenadas espaciais.

6
2.2. Equações quase-lineares

o que é possı́vel graças a supormos que as aplicações x(t, ·) são difeomorfismos.


Definem-se os campos de velocidade e aceleração em coordenadas materiais através de
∂x
v(t, p) = (t, p)
∂t
∂v
a(t, p) = (t, p).
∂t
Claro que

v(t, x(t, p)) = v(t, p)


a(t, x(t, p)) = a(t, p).
Note-se que
∂v
a(t, p) = (t, p)
∂t
n
∂v X ∂v ∂xi
= (t, x(t, p)) + (t, x(t, p)) (t, p)
∂t i=1
∂x i ∂t
n
∂v X ∂v
= (t, x(t, p)) + (t, x(t, p))v i (t, p)
∂t i=1
∂xi

em que v = (vi )1≤i≤n , etc. . Em coordenadas espaciais


n
∂v X ∂v
a(t, x) = + vi .
∂t i=1 ∂xi

Se a aceleração de cada partı́cula for nula devemos ter


n
∂v X ∂v
+ vi = 0.
∂t i=1 ∂xi

Em particular em dimensão n = 1 esta equação reduz-se a


∂v ∂v
+ v = 0. (2.6)
∂t ∂x
É esta a equação que pretendemos considerar tendo em mente a interpretação fı́sica que aca-
bámos de sugerir. Considere-se então (2.6) com condição inicial v(0, x) = v0 (x). Esta função
corresponderá a uma distribuição de velocidades no instante t = 0. O sistema caracterı́stico para
esta equação será
∂T
= 1, T (0, s) = 0
∂λ
∂X
= V, X(0, s) = s
∂λ
∂V
= 0, V (0, s) = v0 (s)
∂λ
que tem por solução
T (λ, s) = λ
X(λ, s) = λv0 (s) + s
V (λ, s) = v0 (s)
pelo que v estará definida implicitamente por v = v0 (x − tv). Note-se que:

7
Capı́tulo 2. Equações reais de primeira ordem

PSfrag replacements
t

t vt + vvx = 0

Figura 2.2: A formação de um choque e blow-up em tempo finito para a equação de Burger v t + vx v = 0.

• ao longo duma caracterı́stica a velocidade v é constante o que era de esperar do modelo


fı́sico (segue-se uma partı́cula ao longo duma caracterı́stica);

• se v0 não for crescente existirão s1 < s2 tais que v0 (s1 ) > v0 (s2 ) e consequentemente t > 0
tal que
tv0 (s1 ) + s1 = tv0 (s2 ) + s2
i.e., para t = (s2 − s1 )/(v0 (s1 ) − v0 (s2 )) as caracterı́sticas intersectar-se-ão, ou seja, uma
partı́cula ultrapassará outra; diz-se que ocorre um choque.

Conjuntamente estas duas observações estabelecem a não existência de solução para t ≥ 0 se v 0


não for crescente e não existência de solução global se v0 não for constante.
É sugerido pela Figura 2.2 e fácil de verificar analiticamente que para v0 de suporte compacto
e diferente de 0, vx tenderá para ∞ em tempo finito. Tal acontecerá para t = −1/ min v00 . N
Acabámos de verificar que será em geral impossı́vel definir soluções globais de uma equação
diferencial parcial real de primeira ordem. Por outro lado também ficou claro da interpretação
fı́sica da equação que nas aplicações será de grande interesse estender o conceito de solução para
além do que é feito classicamente. Para tal poderemos definir soluções fracas de uma equação
diferencial parcial. Vamos exemplificar uma via possı́vel ressalvando desde já que voltaremos a
este assunto.
Considere-se uma equação diferencial parcial da forma

div F (u) = g (2.7)

em que F : R → Rn é uma função C 1 , g : Rn → R é uma função de L1loc (Rn ) e div designa o


operador divergência. Se u for uma solução clássica num aberto Ω ⊂ R n de (2.7) então, para
toda a função ϕ ∈ Cc∞ (Ω), temos que
Z Z
ϕ(x) div(F (u))(x) dx = ϕ(x)g(x) dx.
Ω Ω

8
2.3. Caso geral

Mas então integrando por partes, ou usando uma das fórmulas de Green, obtemos
Z
∇ϕ(x) · F (u(x)) + ϕ(x)g(x) dx = 0. (2.8)

Note-se que (2.8) não envolve o cálculo de derivadas parciais de u ou F o que permite
Definição 2.2.2. Para F ∈ C 0 (R) diz-se que u ∈ L1loc (Ω) é uma solução fraca de (2.7) se para
toda a função ϕ ∈ Cc∞ (Ω) se verificar (2.8).

Mais geralmente o leitor familiar com a teoria das distribuições certamente recordará que a
definição anterior pode ser interpretada como definindo u ∈ L1loc como uma solução fraca de (2.7)
se a divergência no sentido das distribuições de F ◦ u for nula.

Exercı́cio 2.3. Considere uma solução fraca de uma equação diferencial parcial da forma
∂ ∂
f (u) + g(u) = 0.
∂x ∂y

em que f, g são continuamente diferenciáveis e f 0 (p) = pg 0 (p). Suponha que u ∈ C 1 (Ω \ S) em


que Ω = [0, 1] × [0, 1] e S é uma linha C 1 de equação y = ζ(x), x ∈ [0, 1], e que se P ∈ S então
existem os limites para P de u quando restrito a y > ζ(x) ou a y < ζ(x). Estabeleça uma equação
diferencial ordinária satisfeita por ζ.

2.3 Caso geral


Considere-se agora o caso geral (2.1). Mais uma vezes vamos recorrer ao estabelecimento dum
sistema de equações diferenciais ordinárias. No entanto necessitaremos dum maior número de
equações: 2n + 1. A razão para tal deve-se a que no caso da equação quase-linear podemos obter,
lendo a equação, uma direcção segundo a qual a derivada dirigida de u é conhecida desde que
se conheça o valor de u no ponto x e independentemente do plano tangente ao gráfico de u, i.e.
independemente de Du. Em geral a equação continuará a dar-nos informação sobre o crescimento
de u numa direcção “privilegiada” mas tal direcção dependerá em geral não só de x e u(x) como
também de Du(x). Daı́ que seja necessário juntar mais n equações ao sistema caracterı́stico,
uma para cada uma das componentes de Du.
Vamos tentar então dar um sentido mais preciso às observações anteriores. Comecemos por
substituir Du(x) por p(x) em (2.1) com p = (pi )1≤i≤n e escrevemos

F (x, u, p) = 0. (2.9)

Interpretamos esta equação como significando que, dados x e u temos uma restrição aos valores
de p. Por exemplo, sejam dados adicionalmente p1 , . . . , pn−1 . Poderemos tentar então resolver
(2.9) em ordem a pn . No caso quase-linear, desde que an (x, u) 6= 0, tal poderia ser feito3 . Dada a
não-linearidade da equação teremos em geral uma situação mais complicada. Poderá não-existir
solução, ou existir uma ou mais soluções. No entanto se supusermos que F ∈ C 1

F (x0 , u0 , p0 ) = 0 (2.10)

e que
∂F
(x0 , u0 , p0 ) 6= 0
∂pn
então podemos obter usando o teorema da função implı́cita que para uma certa função g ∈ C 1

pn = g(x0 , u0 , (pi )1≤i≤n−1 )


3 Dir-se-á, ver §5.1, que en é uma direcção não-caracterı́stica.

9
Capı́tulo 2. Equações reais de primeira ordem

para (pi )1≤i≤n−1 numa vizinhança de ((p0 )i )1≤i≤n−1 . Mais geralmente, não dando um papel
privilegiado a nenhuma coordenada podemos supôr que “genericamente” se (2.10) for satisfeita
então devemos ter p = p(ξ) com ξ ∈ V ⊂ Rn−1 , V uma vizinhança de 0 e p(0) = p0 , i.e. temos
razão para supor que “genérica” e localmente os possı́veis valores de p definem uma variedade C 1
n − 1 dimensional.
Tentaremos agora determinar, à semelhança do que foi feito para a equação quase-linear, uma
direcção priveligiada segundo a qual a equação nos dê informação sobre a derivada dirigida de
u tanto quanto possı́vel “independentemente”4 de ξ ∈ V. Isto corresponde a procurar h tal que
para todo o j
∂ ∂p
(h · p) ≡ h · = 0.
∂ξj ∂ξj
Por outro lado devemos ter
F (x0 , u0 , p(ξ)) = 0
pelo que para cada j
∂F ∂p
· = 0,
∂p ∂ξj
o que sugere utilizar h = ∂F∂p . Consequentemente haverá alguma esperança de atingir os nossos
objectivos através do sistema de equações diferenciais ordinárias
dX ∂F
= (2.11)
dλ ∂p
dU ∂F
=p· . (2.12)
dλ ∂p
No caso quase-linear pode-se eliminar p dos segundos membros mas em geral precisamos de
equações suplementares que sejam satisfeitas por p. Suponha-se então que u é uma solução C 2
de (2.1). Derivando ambos os membros de (2.1) em ordem a xi obtém-se
n
∂F ∂F ∂u X ∂F ∂pj
+ + = 0.
∂xi ∂u ∂xi j=1 ∂pj ∂xi

∂pj ∂pi
Note-se que devido a u ser suposto C 2 deveremos ter necessariamente ∂xi = ∂xj . Como também
queremos satisfazer (2.11) obtemos
n
∂F ∂F ∂u X ∂Xj ∂pi
+ + =0
∂xi ∂u ∂xi j=1 ∂λ ∂xj

pelo que o sistema de equações diferenciais ordinárias passa a ser determinado quando completado
pelas n equações diferenciais ordinárias
dP ∂F ∂F
=− − p.
dλ ∂x ∂u
Iremos provar mais à frente que sob condições adequadas este sistema permite resolver o pro-
blema. Uma dessas condições será com certeza F ∈ C 2 para podermos usar o mesmo teorema
sobre sistemas de equações diferenciais ordinárias que usámos no caso quase-linear. Outra con-
dição será possivelmente supormos os dados C 2 pois ao estabelecermos o sistema supusemos
u ∈ C 2.
Também neste caso vamos estar interessados em isolar uma solução considerando o problema
de Cauchy e proceder como no caso quase-linear. No entanto teremos dificuldades adicionais
4 O leitor é referido a [15, 8, 3] para uma interpretação geométrica, aqui omitida, deste argumento heurı́stico

baseado em considerações analı́ticas.

10
2.4. Comentários

devido ao carácter não linear do problema e devido a termos que fornecer condições iniciais para
P no sistema caracterı́stico. Com efeito se supusermos dada uma hipersuperfı́cie S ∈ C 2 e uma
função u0 suficientemente regular definida em S automaticamente as derivadas parciais de u0
estão definidas nas direcções tangenciais a S. Isto não determina imediatamente os valores de
todas as derivadas parciais de u sobre S de modo a poder ter as condições iniciais para P no
sistema caracterı́stico. Portanto precisa-se de conhecer a derivada normal de u sobre S o que
terá que ser feito à custa da equação. Mais precisamente se x = ϕ(s) com s ∈ ω for uma
parametrização de S devemos ter
u(ϕ(s)) = u0 (ϕ(s))
para todo o s ∈ ω pelo que queremos determinar as condições iniciais do sistema caracterı́stico
a partir de

X(0, s) = ϕ(s) (2.13)


U (0, s) = u0 (ϕ(s)) (2.14)

e da resolução do sistema

∂ϕ ∂
P (0, s) · = (u0 (ϕ(s))) (2.15)
∂sj ∂sj
F (X(0, s), U (0, s), P (0, s)) = 0. (2.16)

Como já afirmámos o carácter não-linear poderá causar que este sistema não tenha soluções, tenha
mais que uma solução ou que não tenha soluções sob pequenas perturbações. Para evitarmos
tais questões supomos5 que existe uma função u0 ∈ C 2 definida numa vizinhança de S tal que

F (ϕ(s), u0 (ϕ(s)), Du0 (ϕ(s))) = 0 para s ∈ ω (2.17)

e tal que possamos garantir que a aplicação (λ, s) 7→ X(λ, s) é um difeomorfismo. Para tal, mais
uma vez aplicando o teorema da função inversa, exigimos que

det ∂X ∂X
 
∂λ ∂s
(0, s) =
h i
∂ϕ
det ∂F∂p (ϕ(s), u 0 (ϕ(s)), Du 0 (ϕ(s))) ∂s (s) 6= 0. (2.18)

Diremos se (2.17) e (2.18) forem satisfeitas que S é não caracterı́stica (relativamente a F e a u 0 ).


Podemos então proceder de maneira análoga ao caso quase-linear para obter

Teorema 2.3.1. Considere-se o problema de Cauchy

F (x, u(x), Du(x)) = 0


u = u0 , em S

em que u0 ∈ C 2 está definida numa vizinhança de S, S é uma hipersuperfı́cie C 2 em Rn , F ∈


C 2 (U ) em que U é uma vizinhança de {(x, u0 (x), Du0 (x)) : x ∈ S} e S é não caracterı́stica
relativamente a F e a u0 . Então o problema tem uma solução C 2 única numa vizinhança de S.

2.4 Comentários
Estudámos o problema de Cauchy para equações diferenciais parciais reais de primeira ordem e
pudémos concluir que localmente este é um problema bem posto sob condições de regularidade
5 Claro que há a questão de como justificar esta suposição. A ideia que ocorre imediatamente é através de uma

mudança de variáveis reduzir o problema ao caso em que S é um subconjunto dum hiperplano com um dos eixos
coordenados normal a S. Será este o ponto de vista a adoptar no Capı́tulo 5.1.

11
Capı́tulo 2. Equações reais de primeira ordem

adequadas da equação e das condições iniciais e desde que uma condição de não-caracteristicidade
da hipersuperfı́cie onde estão definidos os valores iniciais seja satisfeita6 .
Convém reparar desde já que outro grande tipo de problemas que nos aparecerá no estudo
das equações diferenciais parciais, os problemas de valores na fronteira, são “mal postos” para as
equações diferenciais parciais reais de primeira ordem. Esta observação é facilmente estabelecida
no caso do exemplo elementar no princı́pio deste capı́tulo ou no exercı́cio seguinte.
Exercı́cio 2.4. Seja u uma solução de

a(x, y)ux + b(x, y)uy = −u

de classe C 1 em B1 (0) ⊂ R2 . Supondo que a(x, y)x + b(x, y)y > 0 na fronteira de B1 (0) prove
que u é identicamente 0.
A referência mais completa sobre o tema deste capı́tulo continua a ser [3]. Um ponto de
vista geométrico mais moderno é fornecido por [1]. Para uma segunda leitura sobre equações de
primeira ordem o leitor é aconselhado a consultar [15].

6 Em geral não se verifica unicidade de solução do problema de Cauchy no caso não linear e portanto a unicidade

de solução deverá ser interpretada dum modo adequado. Por outro lado os resultados enunciados não incluem
explicitamente a dependência contı́nua em relação às condições iniciais embora tal seja fácil de estabelecer.

12
2.5. Exercı́cios suplementares

2.5 Exercı́cios suplementares


Estes exercı́cios, tal como alguns dos inseridos ao longo do texto deste capı́tulo, podem encontrar-
se em forma mais ou menos modificada em [15].

Exercı́cio 2.5. Decida se u definida em {(x, y) : y ≥ 0} por


 2 p
− 3 (y + 3x + y 2 ), para 3x + y 2 > 0
u(x, y) =
0, para 3x + y 2 ≤ 0

é uma solução fraca de


∂ ∂ 2
u+ (u /2) = 0.
∂y ∂x
Exercı́cio 2.6. Para a equação
uy = u3x
a) determine a solução com u(x, 0) = 2x3/2 ;

b) mostre que toda a solução regular para todo o x, y é linear.


[Sugestão: Considere ux , uy ao longo duma caracterı́stica.]
Exercı́cio 2.7. Para a equação
1
u = xux + yuy + (u2x + u2y )
2
determine uma solução com u(x, 0) = 21 (1 − x2 ).
Exercı́cio 2.8. Considere uma função dada H(x, t, p) com x = (xi )1≤i≤n e p = (pi )1≤i≤n e a
equação diferencial parcial em u (equação de Hamilton-Jacobi)

∂u
F ≡ + H(x, t, Du) = 0.
∂t
Obtenha o sistema caracterı́stico na forma
dX dH
=
dt dp
dU dH
= p· −H
dt dp
dP dH
= − .
dt dx
Definindo dX dU
dt = v, dt = L, use as primeiras n + 1 equações para exprimir L como uma função
de x, t, v. Mostre então que
∂L
= p
∂v
∂L dH
= −
∂x dx
o que implica
d ∂L ∂L
− = 0.
dt ∂v ∂x
∂ ∂
Exercı́cio 2.9. Considere os operadores diferenciais lineares de primeira ordem L 1 ≡ ∂t + t ∂x ,
∂ ∂
L2 ≡ x ∂t − ∂x que actuam sobre funções em C 1 (Ω), com Ω ⊂ R2 um aberto.

13
Capı́tulo 2. Equações reais de primeira ordem

a) Estabeleça existência e unicidade de solução do problema de Cauchy



L 1 L 2 u
 =1
u(x, −x) = ϕ(x)
 ∂u
 ∂u
∂t (x, −x) + ∂x (x, −x) = ψ(x)

em C 2 (U ) com U uma vizinhança suficientemente pequena de (0, 0) com ϕ, ψ funções C 2


numa vizinhança de 0.
b) Explicite tanto quanto possı́vel a solução tomando ϕ(x) = 1, ψ(x) = 0.

14
Capı́tulo 3

O Laplaciano

3.1 Introdução
Este capı́tulo pretende oferecer desde já um contraste com o tipo de problemas estudados no
Capı́tulo 2 de modo a convencer o leitor que o estudo das equações diferenciais tem uma neces-
sidade intrı́nseca de utilizar métodos variados que dependem do “tipo” da equação em estudo e
que posteriormente, no Capı́tulo 4, levará a um necessário esforço de classificação. Com efeito, as
equações diferenciais parciais reais de primeira ordem caem, como vimos, na classe dos problemas
de valores iniciais, isto é, “genericamente” o problema
(
F (x, u, Du) = 0 numa vizinhança duma hipersuperfı́cie S,
u=ϕ sobre S,

está bem posto1 . Vamos agora estudar um operador de segunda ordem cujas propriedades serão
em larga medida exemplificativas do que se passa com os operadores de segunda ordem que no
Pn ∂ 2
Capı́tulo 4 classificaremos como elı́pticos. Esse operador é o laplaciano ∆ ≡ i=1 ∂x 2 e teremos
i
como objectivo essencial mostrar que problemas de valores na fronteira tais como o problema de
Dirichlet (
∆u = f num aberto Ω,
(3.1)
u=ϕ sobre ∂Ω,
ou o problema de Neumann (
∆u = f num aberto Ω,
∂u
(3.2)
∂ν = g sobre ∂Ω,

em que ∂ν designa derivação normal exterior e f, g, ϕ são funções dadas, estão essencialmente
bem postos2 , contrastando com o que aconteceria com o problema de valores iniciais relativo ao
mesmo operador

∆u = f numa vizinhança duma hipersuperfı́cie S

u=ϕ sobre S (3.3)
 ∂u

∂ν = g sobre S.

Exemplo. (Hadamard) Considere (3.3) em dimensão n = 2 com f = 0, S = {(x1 , 0) : x1 ∈ R},


1/2
ϕ = 0, ∂u∂ν = ke
−k
sen kx1 . Usando separação de variáveis é possı́vel determinar uma solução
(única) para este problema. Tal solução é
1/2
u(x1 , x2 ) = e−k sen(kx1 ) sh(kx2 )
1 Ver condições suficientes para existência de solução local no Teorema 2.3.1 e comentários no final do Capı́tulo
2.
2 Esta afirmação é verdadeira se f e g forem compatı́veis num sentido a precisar no Exercı́cio 3.1.

15
Capı́tulo 3. O Laplaciano

Quando k → ∞, os dados e todas as suas derivadas de todas as ordens convergem uniformemente


para 0. Mas se x2 6= 0 temos limk→∞ u(x1 , x2 ) = ∞. É assim impossı́vel, pelo menos no quadro
de topologias definidas por seminormas de supremos de módulos de funções e das suas derivadas,
dizer que existe dependência contı́nua dos dados. N

Exercı́cio 3.1. Suponha que Ω ⊂ Rn é um aberto com fronteira regular e que u ∈ C 2 (Ω) satisfaz
(3.2). Mostre que Z Z
f dx = g dS
Ω ∂Ω

As soluções de ∆u = 0 num aberto Ω dir-se-ão funções harmónicas em Ω.

3.2 Soluções radiais


Comecemos por observar a seguinte propriedade notável do laplaciano
Exercı́cio 3.2. Seja Q : Rn → Rn uma matriz n × n verificando QQT = QT Q = Id em que Id
designa a matriz identidade e T designa transposição3 . Mostre que se u é uma solução de

∆u(x) = f (x)

e v(x) = u(Qx) então


∆v(x) = f (Qx).

Considere-se em SO(n) a topologia induzida pela topologia usual em Mn×n ∼


2
= Rn , o espaço
vectorial das matrizes reais n × n. Suponha-se agora que é possı́vel definir uma medida regular
positiva µ sobre SO(n) com µ(SO(n)) = 1 e que se R ∈ SO(n) e A ⊂ SO(n) é mensurável
então RA e AR são mensuráveis e µ(RA) = µ(AR) = µ(A). Por outras palavras supomos que
se pode definir uma probabilidade, σ, regular e invariante à esquerda e à direita em SO(n) 4 .
Uma construção elementar desta medida na situação particular aqui considerada é efectuada no
Exercı́cio 3.4. Considere-se, dada uma função harmónica u : Rn → R, uma outra função u]
definida por Z
u] (x) = u(Qx) dσ(Q).
SO(n)

É possı́vel provar que a construção anterior define efectivamente u ] como uma função que só
depende de |x|. Note-se que se u(x) = x teremos u] = 0 pelo que os resultados desta construção
podem ser triviais. Não é nosso objectivo aprofundar5 esta ideia mas tão somente fazer notar
que a invariância de ∆ relativamente a SO(n) pode sugerir uma investigação da existência de
funções harmónicas com simetria radial. Com efeito verifica-se que
Exercı́cio 3.3. Seja w(x) = ψ(|x|) uma função harmónica em Rn \ {0}. Então teremos para
certas constantes C, K (
C
r2−n + K, se n > 2,
ψ(r) = (2−n) (3.4)
C log r + K, se n = 2.

Estas funções vão desempenhar um papel fundamental em tudo o que faremos neste capı́-
tulo. Note-se que a passagem a coordenadas esféricas e o teorema da convergência dominada de
Lebesgue permitem estabelecer facilmente que w ∈ L1loc (Rn ).
3 Diz-se que uma matriz que verifica esta propriedadade é ortogonal ou que pertence ao grupo ortogonal, O(n).

Se adicionalmente det Q = 1 diz-se que Q pertence ao grupo especial ortonormal, SO(n), ou mais prosaicamente
que é uma rotação.
4 Pode provar-se que num grupo localmente compacto separável e metrizável pode definir-se uma única medida

positiva com estas caracterı́siticas que é designada como medida de Haar. O estudo desta questão está para além
dos objectivos deste curso.
5 Para um tratamento rigoroso e não elementar desta ideia consultar [30].

16
3.3. Fórmula de Green e Solução Fundamental

Exercı́cio 3.4. Este exercı́cio esboça como construir a medida de Haar em SO(n) (ou em O(n)
com pequenas modificações).
Considere-se SO(n) ⊂ Mn×n ∼
2
= Rn . Seja U uma vizinhança limitada de SO(n) tal que
U ⊂ {A ∈ M : det A > 0}.

a) Prove que aplicação P : U → M definida por


√ −1
P (A) = A AT A ,

em que designa a raiz definida positiva duma matriz simétrica definida positiva, tem
por contradomı́nio SO(n).
2
b) Verifique que se µ é a medida de Lebesgue em Rn e E ⊂ SO(n) é tal que P −1 (E) ∩ U é
2
Lebesgue mensurável em Rn então

Σ(E) = µ(P −1 (E) ∩ U )

define uma medida positiva regular sobre SO(n).

c) Para cada E Σ-mensurável em SO(n) defina

1
Z Z
σ(E) = 2 Σ(QER) dΣ(Q) dΣ(R).
Σ(SO(n)) SO(n) SO(n)

Prove que σ é uma probabilidade regular positiva e invariante à esquerda e à direita em


SO(n).

3.3 Fórmula de Green e Solução Fundamental


Seja Ω ⊂ Rn um aberto limitado cuja fronteira ∂Ω é suficientemente regular (por exemplo,
mas não necessariamente, C 2 de maneira a permitir a aplicação do teorema de Gauss). Sejam
u, v : Ω → R duas funções em C 2 (Ω) ∩ C 1 (Ω). Então, se ν designar a normal exterior a ∂Ω,
temos
∂v
Z Z
div(u∇v) dx = u dS(x). (3.5)
Ω ∂Ω ∂ν
Daı́ que, trocando u com v e subtraindo a nova igualdade da anterior, se obtenha a fórmula de
Green
∂v ∂u
Z Z
u∆v − v∆u dx = u −v dS(x). (3.6)
Ω ∂Ω ∂ν ∂ν
Esta igualdade vai ter consequências importantes em tudo o que se segue neste capı́tulo. Em
particular considerando v = ϕ ∈ Cc∞ (Rn ) e Ω um aberto contendo supp ϕ ∪ B (0) ou Ω = B (0)
obtém-se
∂ϕ ∂u
Z Z
u∆ϕ − ϕ∆u dx = − u −ϕ dS(x)
Ω\B (0) ∂B (0) ∂ν ∂ν
em que ν é a normal exterior a B (0). Considerando u = w definido por (3.4) obtém-se

∂ϕ ∂w
Z Z
w∆ϕ dx = − w −ϕ dS(x). (3.7)
Ω\B (0) ∂B (0) ∂ν ∂ν

Faça-se agora  ↓ 0. Obtém-se que o lado esquerdo da igualdade anterior converge para o integral
da mesma função em Ω. Quanto ao lado direito nota-se que para todo o n

∂w −n
= Cxi |x|
∂xi

17
Capı́tulo 3. O Laplaciano

pelo que
∂w
= C1−n .
∂ν |x|=

Por outro lado


C 2−n

w = 2−n  +K se n > 2,
|x|= C log  + K se n = 2.
R
Defina-se ωn = ∂B n (0) 1 dS, obtendo-se, para a área da superfı́cie da esfera n − 1 dimensional
1
de raio , ∂B n (0) 1 dS = ωn n−1 . Tomando os limites quando  ↓ 0 dos integrais do segundo
R

membro de (3.7), obtém-se Z
w∆ϕ dx = Cωn ϕ(0). (3.8)

Definimos
Definição 3.3.1. As funções Γ : Rn → R definidas por
(
1 2−n
Γ(x) = ωn (2−n) |x| se n > 2,
1
2π log |x| se n = 2.

designam-se por soluções fundamentais radiais n-dimensionais da equação de Laplace.


Note que temos6 Z
Γ∆ϕ dx = ωn ϕ(0).

Convir-nos-á utilizar as translacções das soluções fundamentais. Para tal introduz-se a nota-
ção Γy (x) = Γ(y − x).

3.4 Função de Green — casos elementares


Estamos ainda longe de ter esgotado as potencialidades da fórmula de Green (3.6). Suponha-se
que y ∈ Ω e  > 0 tal que B (y) ⊂ Ω. Substitua-se em (3.6) Ω por Ω\B (y) e v por Γy . Obtém-se,
de forma análoga ao que se fez para obter (3.8), para cada y ∈ Ω, a fórmula de representação
integral
∂Γy ∂u
Z Z
u(y) = Γy ∆u dx + u − Γy dS(x). (3.9)
Ω ∂Ω ∂ν ∂ν
Em particular note-se que, se u fôr uma função harmónica, fica perfeitamente determinada pelos
valores de u e de ∂u
∂ν sobre ∂Ω. Se por outro lado tomarmos tanto u como v em (3.6) harmónicas
obtemos
∂v ∂u
Z
0= u −v dS(x).
∂Ω ∂ν ∂ν
Se adicionarmos membro a membro esta igualdade à fórmula de representação integral (3.9),
supondo que v = −Γy sobre ∂Ω, obtém-se
Teorema 3.4.1. Seja Ω ⊂ Rn é um aberto com fronteira regular tal que a famı́lia de problemas

∆vy = 0 em Ω,
(3.10)
vy = −Γy sobre ∂Ω,

tem solução em C 2 (Ω) ∩ C 1 (Ω) para todo y ∈ Ω. Então, se a solução do problema de Dirichlet

∆u = 0 em Ω,
(3.11)
u=ϕ sobre ∂Ω,
6 À luz de algumas noções elementares de teoria das distribuições (3.8) pode ser interpretada como mostrando

que se C = ω1 então w é uma solução fundamental para o operador ∆.


n

18
3.4. Função de Green — casos elementares

xn = 0

y y'

Figura 3.1: O método de simetria para a determinação da função de Green num semi-espaço.

existir em C 2 (Ω) ∩ C 1 (Ω), é necessariamente dada por


∂Gy
Z
u(y) = ϕ dS(x) (3.12)
∂Ω ∂ν
em que Gy é a função de Green de Ω.
No enunciado anterior pressupõe-se
Definição 3.4.2. Se a famı́lia de problemas ((3.10)) tiver soluções, a famı́lia de funções definida
por Gy (x) ≡ Γy (x) + vy (x), y ∈ Ω, x ∈ Ω \ {y} designa-se por função de Green de Ω.
Garantir a existência duma função de Green para um certo aberto Ω é uma tarefa em geral não
trivial e, por enquanto, a análise de tal questão está para além das possibilidades das ferramentas
técnicas ao nosso dispôr. O mesmo se poderá dizer, ainda com mais pertinência, quanto à
determinação explı́cita da função de Green para um aberto dado. Vamos limitarmo-nos de
momento à construção da função de Green em dois casos particulares em que a geometria simples
do aberto em questão permite usar argumentos geométricos elementares.
Considere-se então o caso em que Ω é um semi-espaço. Claro que por translação e rotação
podemos supôr que Ω = {x ∈ Rn : x = (xi )i=1,...,n , xn > 0}. Defina-se então, veja-se a figura
3.1, y = (y1 , . . . , yn−1 , −yn ). É fácil verificar que Γy − Γy é efectivamente uma função de Green
no semi-espaço Ω.
Se Ω é a bola unitária centrada em 0 recorremos a uma ideia semelhante em que a simetria
−2
y 7→ y é substituı́da pela inversão y 7→ y ∗ ≡ |y| y, ver Figura 3.2. Com efeito seja x ∈ Rn tal
que |x| = 1. Então observamos que

|x − y ∗ |2 = 1 − 2x · y ∗ + |y ∗ |2
1  2 
= 2 |y| − 2x · y + 1
|y|
1 2
= 2 |x − y|
|y|
o que permite estabelecer para |x| = 1 a identidade
n−2
Γy∗ (x) = |y| Γy (x). (3.13)

19
Capı́tulo 3. O Laplaciano

y* y 0

Figura 3.2: O método de simetria para a determinação da função de Green numa bola. A fronteira da
bola de raio 1 centrada em 0 é o lugar geométrico dos pontos x tais que o quociente das distâncias a y e
a y ∗ é constante.

Assim concluı́mos que a função de Green para a bola B1 (0) é dada por
Gy (x) = Γy (x) − |y|2−n Γy∗ (x).
Como


x−y 2−n x − y

1
∇x Gy (x) = n − |y|
ωn |x − y| |x − y ∗ |n
x
e a normal exterior à fronteira da bola unitária centrada em 0 é dada por ν(x) = |x| obtemos
∂Gy
para ∂νx sobre ∂B1 (0)

 
∂Gy 1 1−x·y 2−n 1 − x · y
(x) = n − |y| n
∂νx |x|=1 ωn |x − y| |x − y ∗ |
1 1 − |y|2
=
ωn |x − y|n
em que se usou (3.13). Obteve-se portanto a fórmula integral de Poisson
Z
u(y) = u(x)K(x, y) dS(x) (3.14)
∂B1 (0)

válida para funções u ∈ C 2 (B1 (0)) e em que


2
1 1 − |y|
K(x, y) ≡ Ky (x) ≡
ωn |x − y|n
é designado por núcleo de Poisson.
Exercı́cio 3.5. Obtenha a função de Green e a fórmula de representação de Poisson para uma
bola de raio r centrada em x0 .
A respeito da inversão é interessante reflectir sobre o resultado seguinte:
Exercı́cio 3.6. Mostre que se u é uma função harmónica então a inversão, ou transformação
de Kelvin, que a u associa !
2−n x
v(x) = |x| u
|x|2
fornece outra função harmónica.

20
3.5. Núcleo de Poisson — solução do problema de Dirichlet numa bola

3.5 Núcleo de Poisson — solução do problema de Dirichlet numa bola


Um dos nossos objectivos essenciais é a resolução do problema de Dirichlet (3.1). A fórmula
integral de Poisson vai permitir essa resolução para uma bola. Com efeito
Teorema 3.5.1. Seja ϕ : ∂B1 (0) → R uma função contı́nua. Se definirmos
(R
∂B1 (0)
ϕ(x)K(x, y) dS(x) se |y| < 1,
u(y) =
ϕ(y) se |y| = 1,

então u ∈ C 0 (B1 (0)) e u é harmónica e analı́tica em B1 (0).


Demonstração. Que u é harmónica segue facilmente de podermos comutar ∆ y com o integral e
com ∂ν∂x e das soluções fundamentais Γy (x) e Γy∗ (x) serem funções harmónicas de y o que no
caso de Γy é trivial e no caso de Γy∗ se pode comprovar por cálculo ou usando o Exercı́cio 3.6.
A analiticidade de u segue também facilmente se observarmos que a função integranda é
analı́tica em y e dos resultados sobre integração de séries de potências.
Resta provar a continuidade de u sobre ∂B1 (0). Sejam x0 ∈ ∂B1 (0), y ∈ B1 (0) e  > 0.
Começamos por notar que que para as funções constantes vale (3.14) pelo que

1 1 − |y|2
Z
u(x0 ) − u(y) = (ϕ(x0 ) − ϕ(x)) n dS(x)
ωn ∂B1 (0) |x − y|

Sejam M > 0 tal que |ϕ| ≤ M sobre ∂B1 (0) e δ > 0 tal que para |x − x0 | < δ e x ∈ ∂B1 (0)
tenhamos |ϕ(x) − ϕ(x0 )| < /2. Temos então
2 2
1 − |y|  1 − |y| 
Z Z
(ϕ(x0 ) − ϕ(x)) n dS(x) < n dS(x) = .
∂B1 (0)∩Bδ (x0 ) |x − y| 2 ∂B1 (0) |x − y| 2

Por outro lado


2 2
1 − |y| 1 − |y|
Z Z
(ϕ(x0 ) − ϕ(x)) dS(x) < 2M dS(x).
∂B1 (0)\Bδ (x0 ) |x − y|n ∂B1 (0)\Bδ (x0 ) |x − y|n
2 2 2
Escolhamos γ > 0 tal que γ < δ/2 e, se y fôr tal que |x0 − y| < γ, temos 1 − |y| = |x0 | − |y| <
δ n /(2n+2 M ). Podemos assim estabelecer que se |x0 − y| < γ então |u(x0 ) − u(y)| < . Provou-se
a continuidade de u sobre ∂Ω. 
Exercı́cio 3.7. Estabeleça o resultado análogo para um semi-espaço. Suponha que os valores na
fronteira além de contı́nuos têm um crescimento para ∞ suficientemente lento.

3.6 Teorema do valor médio para funções harmónicas


Uma consequência imediata da fórmula integral de Poisson é o teorema do valor médio:
Teorema 3.6.1. Seja u : Ω ⊂ Rn → R uma função harmónica no aberto Ω. Então para cada
bola Br (x0 ) ⊂ Ω vale
1
Z
u(x0 ) = u(x) dx (3.15)
ωn rn−1 ∂Br (x0 )
Demonstração. Considere y = 0 na fórmula integral de Poisson e use translacções e homotetias
para obter o caso geral. 
Uma forma equivalente do teorema do valor médio envolve médias em bolas e não em esferas.
É de notar que para obter a equivalência entre as duas formulações não é necessário a hipótese
de harmonicidade.

21
Capı́tulo 3. O Laplaciano

Exercı́cio 3.8. Seja u : BR (x) ⊂ Rn → R uma função contı́nua. Mostre que u verifica para
0<r<R
1
Z
u(x) = u(y) dS(y) para 0 < r < R,
ωn rn−1 ∂Br (x)
se e só se
n
Z
u(x) = u(y) dy para 0 < r < R.
ωn r n Br (x)

A demonstração do teorema do valor médio não necessita da obtenção prévia da fórmula


integral de Poisson bastando utilizar um argumento bastante mais simples descrito no exercı́cio
seguinte.

Exercı́cio 3.9. Seja Ω ⊂ Rn um conjunto aberto e u : Ω → R uma função de classe C 2 (Ω) e


Br (x) uma bola contida em Ω. Se ∆ = (≥, ≤) 0 em Ω então

1
Z
u(x) = (≤, ≥) u(y) dS(y). (3.16)
ωn rn−1 ∂Br (x)

Para tal considere a função

1
Z
]0, dist(x, ∂Ω)[ 3 r 7→ φ(r) = u(y) dy
ωn rn−1 ∂Br (x)

e prove que

a) limr↓0 φ(r) = u(x);


1 y−x
b) φ é diferenciável e φ0 (r) =
R
ωn r n−1 ∂Br (x) ∇u(y) · r dS(y).

c) Use o teorema da divergência para exprimir φ0 em termos dum integral de ∆u e obtenha o


resultado.

Às funções u ∈ C 2 (Ω) satisfazendo ∆u ≥ (≤) 0 chamaremos subharmónicas (superharmóni-


cas)7 .

3.7 O princı́pio de máximo


A consequência mais importante do teorema do valor médio é provavelmente o princı́pio de
máximo. A versão do teorema seguinte é conhecida por princı́pio de máximo forte .

Teorema 3.7.1. Seja Ω ⊂ Rn um aberto conexo e u : Ω → Rn uma função contı́nua tal que
para cada x ∈ Ω existe Rx > 0 satisfazendo
1
Z
u(x) ≤ u(y) dy (3.17)
ωn rn−1 ∂Br (x)

sempre que 0 < r < Rx . Então se u tem um máximo absoluto então u é constante em Ω. Em
particular se u é uma função harmónica e tem máximo ou mı́nimo absoluto então u é constante.

Demonstração. Seja u uma função contı́nua em Ω que satisfaz (3.17) e M o valor do máximo de u.
Considere-se o conjunto A = {x ∈ Ω : u(x) = M }. A continuidade de u assegura que A é fechado.
Por outro lado se x ∈ A a desigualdade (3.16) mostra que para y numa bola centrada em x, de
raio suficientemente pequeno para que essa bola esteja contida em Ω, devemos ter u(y) = u(x)
pelo que A é formado exclusivamente por pontos interiores. Assim A é simultâneamente aberto
e fechado em Ω. Como A é não vazio e Ω é conexo temos A = Ω. 
7 As definições de função subharmónica e função superharmónica serão generalizadas na Secção 3.9.

22
3.7. O princı́pio de máximo

Usando a analiticidade das funções harmónicas (Teorema 3.5.1) pode remover-se a restrição
dos extremos serem absolutos no resultado anterior generalizando-o para extremos locais.
O princı́pio de máximo forte tem como consequência imediata o seguinte resultado em que
são comparados valores na fronteira e no interior e que é conhecido como princı́pio de máximo
fraco :

Proposição 3.7.2. Seja Ω ⊂ Rn um aberto limitado e u ∈ C 0 (Ω) verificando (3.17). Então

máx u(x) = máx u(x). (3.18)


x∈Ω x∈∂Ω

Em particular isto é válido se u é harmónica em Ω e contı́nua em Ω.

Podemos agora verificar que:

Proposição 3.7.3. Todas as funções contı́nuas verificando a igualdade do teorema do valor


médio num aberto são necessariamente harmónicas.

Demonstração. Com efeito seja Ω ⊂ Rn um aberto e u : Ω → R uma função contı́nua satisfazendo

1
Z
u(x) = u(y) dy
ωn rn−1 ∂Br (x)

para toda a bola Br (x) ⊂ Ω. Então, se B fôr uma dessas bolas, consideremos a função harmónica
h que tem os mesmos valores que u sobre ∂B e é contı́nua na bola fechada (resolvendo portanto o
problema de Dirichlet nessa bola via a fórmula integral de Poisson). Podemos aplicar a Proposição
anterior a u − h em B para concluir que u = h em B. 

Exemplo. O exercı́cio seguinte descreve um método elementar para resolver a seguinte questão:
Seja c ∈ R. Determinar para que abertos Ω ⊂ Rn existe uma solução do problema

∆u + 1 = 0, em Ω,

u = 0, em ∂Ω, (3.19)
 ∂u

∂ν = c, em ∂Ω.

A resolução deste problema deve-se a Hans Weinberger [33] e James Serrin [25]. O método
de Weinberger é totalmente elementar e é descrito a seguir.

Exercı́cio 3.10. Seja u : Ω → R tal que u ∈ C 3 (Ω) ∩ C 1 (Ω), em que


PnΩ ⊂ Rn é um aberto
∂ xi ∂
limitado e conexo com fronteira regular. Definem-se r = |x|, ∂r = i=1 r ∂xi , ν a normal
exterior a ∂Ω. Mostre que:

a) Se u = 0 em ∂Ω então
   2
∂u ∂u ∂r ∂u
Z Z
r ∆u − u ∆ r dx = r dS.
Ω ∂r ∂r ∂Ω ∂ν ∂ν

∂u
b) Se u = 0 e ∂ν = c ∈ R em ∂Ω então
 2
∂r ∂u
Z
r dS = nc2 |Ω|.
∂Ω ∂ν ∂ν

c) Se ∆u + 1 = 0 em Ω então u é analı́tica em Ω.

d) Se ∆u + 1 = 0 em Ω então ∆ r ∂u

∂r = −2.

23
Capı́tulo 3. O Laplaciano

e) As soluções de (3.19) satisfazem


Z  
∂u
2u − r dx = nc2 |Ω|.
Ω ∂r

f ) As soluções de (3.19) satisfazem

∂u
Z Z Z
1 2
r dx = ∇( 2 r ) · ∇u dx = −n u dx.
Ω ∂r Ω Ω

g) As soluções de (3.19) satisfazem


Z
(n + 2) u dx = nc2 |Ω|.

h) Se u é uma solução de (3.19) então ou

2 2
|∇u| + u < c2 em Ω
n
ou
2
|∇u|2 + u = c2 em Ω.
n
i) Usando (f ) e (g) obtemos que
2 2
|∇u| + u
n
é constante em Ω se u é uma solução de (3.19).

j) Temos
∂2u 1
= − δij
∂xi ∂xj n
em que δij é o sı́mbolo de Kronecker.

k) O aberto Ω é necessariamente uma bola. Calcule todas as soluções clássicas de (3.19).

3.8 Ainda o teorema do valor médio


O teorema do valor médio é um resultado central no estudo clássico da equação de Laplace e
da equação de Poisson. Para além do princı́pio de máximo convém destacar desde já outras
aplicações. A primeira deverá ser familiar ao leitor que conhece alguma análise complexa 8 .

Teorema 3.8.1 (Liouville). Seja u : Rn → R uma função harmónica limitada. Então u é


constante.

Demonstração. A ideia base da demonstração é usar o teorema do valor médio para mostrar que
existe uma constante C > 0 tal que para todo o R > 0 devemos ter |u(x) − u(−x)| ≤ C/R o
que implicará que u é constante por translacção. Para tal usa-se o teorema do valor médio para
exprimir u(x) e u(−x) como médias em bolas de raio R centradas em x e −x e mostra-se que a
diferença entre essas médias é da ordem de V (R)/R n em que V (R) é o volume da região sugerida
8 Seja Ω ⊂ C um aberto e f : Ω → C uma função diferenciável. Então f é analı́tica em Ω e, se f (x + iy) =

u(x, y) + iv(x, y) com u e v funções com valores em R, u e v satisfazem as condições de Cauchy-Riemann ∂u


∂x
∂v
= ∂y ,
∂v
∂x
= − ∂u
∂y
pelo que as funções u e v são funções harmónicas em Ω.

24
3.8. Ainda o teorema do valor médio

|x|
| x|
R−

+
R
−x 0 x
PSfrag replacements

Figura 3.3: As estimativas na demonstração do teorema de Liouville.

a cinzento na Figura 3.3 e que este por sua vez é da ordem de Rn−1 . Seja M um majorante de
|u|. O cálculo detalhado é

n
Z Z
|u(x) − u(−x)| = u(y) dy − u(y) dy
ωn R n BR (x) BR (−x)

Mn
Z
≤ dy
ωn R n R−|x|<|y|<R+|x|
n−1
M n(R + |x|)
≤ .
Rn


Outro tipo de aplicação é a obtenção das desigualdades de Harnack e de teoremas relativos à


convergência de sucessões de funções harmónicas.

Proposição 3.8.2. Seja (uk )k∈N uma sucessão de funções harmónicas definidas num aberto
Ω ⊂ Rn uniformemente convergentes nos subconjuntos compactos de Ω para uma função u.
Então u é uma função harmónica.

Demonstração. Da convergência uniforme segue com facilidade que o limite é uma função contı́-
nua satisfazendo a igualdade do valor médio e daı́ que u é harmónica. 

As chamadas desigualdades de Harnack permitem obter outros resultados deste tipo.

Teorema 3.8.3 (Desigualdades de Harnack). Seja Ω ⊂ Rn um aberto. Para cada aberto


conexo ω b Ω existe C > 0 tal que para toda a função harmónica positiva u : Ω → R

sup u(x) ≤ C inf u(x)


x∈ω x∈ω

Demonstração. Começamos por estabelecer a desigualdade para bolas de raio suficientemente


pequeno e contidas em Ω. Seja x0 ∈ Ω e r > 0 tal que B4r (x0 ) ⊂ Ω. Sejam x1 , x2 ∈ Br (x0 ).
Usando a igualdade do valor médio em bolas obtemos

n n
Z Z
u(x1 ) = u ≤ u,
ωn rn Br (x1 ) ωn rn B2r (x0 )

25
Capı́tulo 3. O Laplaciano

n n
Z Z
u(x2 ) = u≥ u.
ωn 3r n B3r (x2 ) ω n 3r
n
B2r (x0 )

pelo que
sup u(x) ≤ 3n inf u(x). (3.20)
x∈Br (x0 ) x∈Br (x0 )

Sejam agora y, z ∈ ω tais que

u(y) = min u(x),


x∈ω
u(z) = máx u(x).
x∈ω

Como ω é conexo existe um arco L unindo y a z e contido em ω. Seja 0 < 4r < dist(ω, ∂Ω).
Existe um número finito, N , de bolas de raio r que cobrem ω e consequentemente cobrem L.
Aplicando a desigualdade (3.20) sucessivamente à subfamı́lia de tais bolas que cobre L obtém-se

u(z) ≤ 3nN u(y).

A desigualdade de Harnack tem como consequência imediata podermos, nalgumas circuns-


tâncias, passar de convergência pontual a convergência uniforme em compactos. Por exemplo:

Teorema 3.8.4. Seja (uk )k∈N uma sucessão monótona de funções harmónicas definidas num
aberto Ω ⊂ Rn que converge num ponto x ∈ Ω. Então uk converge uniformemente para uma
função harmónica em cada aberto conexo ω tal que x ∈ ω b Ω.

Demonstração. O princı́pio do máximo forte 3.7.1 permite supôr que a sucessão é estritamente
crescente na componente conexa que contém x. Dado  > 0 existe j0 ∈ N tal que para k > j > j0
temos 0 < uk (x) − uj (x) < . Mas então pela desigualdade de Harnack também 0 < uk (y) −
uj (y) < C para todo o y ∈ ω mostrando que existe convergência em ω, que esta é uniforme e o
limite uma função harmónica graças à proposição 3.8.2. 

3.9 O método de Perron


O método de Perron aplica-se à resolução do problema de Dirichlet clássico para a equação de
Laplace: 
∆u = 0, em Ω,
(3.21)
u = ϕ, sobre ∂Ω,
em que Ω ⊂ Rn é um conjunto aberto limitado e ϕ : ∂Ω → R é uma aplicação contı́nua.
Nem sempre conseguiremos obter a existência duma solução, veja-se o exemplo a seguir ao
Teorema 3.9.5, mas obteremos condições suficientes muito gerais relativas à geometria local de
∂Ω.
Antes de descrever o método de Perron precisaremos de estabelecer alguns resultados preli-
minares e definir (ou redifinir) alguns conceitos.

Definição 3.9.1. Seja Ω ⊂ Rn um aberto e w : Ω → R uma função contı́nua. Diz-se que w


é subharmónica (superharmónica) em Ω se para toda a bola B ⊂ Ω e toda a função contı́nua
h : B → R harmónica em B e tal que h ≥ (≤)w sobre ∂B temos h ≥ (≤)w em B.

Exercı́cio 3.11. Verifique que a definição anterior é uma extensão da definição feita na Sec-
ção 3.6 para funções C 2 .

Às funções w subharmónicas em Ω, definidas e contı́nuas em Ω, e tais que w ≤ ϕ sobre ∂Ω


chamaremos subfunções relativas ao Problema 3.21. Definem-se superfunções da forma óbvia.

26
3.9. O método de Perron

w
h
w

B
B' Ω

Figura 3.4: Levantamento harmónico.

A solução do problema 3.21 vai ser obtida9 tomando o supremo de todas as subfunções.
Para se verificar que esse supremo é de facto uma função harmónica recorreremos à técnica do
levantamento harmónico.

Proposição 3.9.2 (Levantamento Harmónico). Seja w : Ω → R uma função subharmónica.


Dada uma bola B ⊂ Ω defina-se uma função w : Ω → R como sendo igual a w em Ω \ B e igual
à solução do problema de Dirichlet para a equação de Laplace em B com valores sobre ∂Ω iguais
aos de w em B. Então w é uma função subharmónica em Ω.

Demonstração. Claro que w está bem definida graças a termos resolvido o problema de Dirichlet
numa bola e é uma função contı́nua satisfazendo w ≥ w. Basta então demonstrar que dando
uma bola B 0 ⊂ Ω e uma função h harmónica em B 0 , contı́nua em B 0 e satisfazendo h ≥ w sobre
∂B 0 temos necessariamente h ≥ w em B 0 .
Note-se primeiro que em ∂B 0 temos h ≥ w ≥ w donde h ≥ w em B 0 . Como em B 0 \ B temos
w = w podemos afirmar que h ≥ w em B 0 \ B.
Por outro lado em B 0 ∩ B temos que tanto h como w são harmónicas. Em ∂B 0 ∩ B temos
h ≥ w por definição de h. O mesmo acontece em ∂B ∩ B 0 como já tı́nhamos visto. Pode assim
aplicar-se o princı́pio de máximo a h − w em B 0 ∩ B para concluir que h ≥ w. 

Observe-se também as seguintes consequências quase imediatas das definições:

Proposição 3.9.3. O supremo de um número finito de subfunções é uma subfunção.

Proposição 3.9.4. O princı́pio de máximo forte é válido para funções subharmónicas.

Teorema 3.9.5 (Perron). O supremo de todas as subfunções é uma função harmónica em Ω.


9 O método de Perron permite sempre obter uma subfunção harmónica. Se esta verifica ou não os valores

pretendidos sobre ∂Ω vai depender da geometria de ∂Ω. De facto obtemos uma solução do problema 3.21 para
uma classe suficiente geral de domı́nios com fronteira regular num sentido a precisar.

27
Capı́tulo 3. O Laplaciano

Demonstração. Designamos por Sϕ o conjunto de todas as subfunções. Notamos que a função


constante e igual a min ϕ está em Sϕ pelo que o supremo está bem definido. Tomamos

w = sup v.
v∈Sϕ

Pelo princı́pio de máximo w(x) ≤ máx ϕ para todo o x ∈ Ω.


Seja agora x ∈ Ω. Existirá então uma sucessão (uj )j∈N ⊂ Sϕ tal que uj (x) → w(x) quando
j → ∞. Se tomarmos wk = máx1≤j≤k uj verificamos que cada wk é uma subfunção, wk+1 ≥ wk
para todo o k ∈ N, e ainda wk (x) → w(x) quando k → ∞. Seja agora B b Ω uma bola centrada
em x e designe-se por w k o levantamento harmónico de wk relativo a B. O princı́pio de máximo
implica que w k+1 ≥ w k ≥ wk para todo o k ∈ N. Como cada w k ainda é uma subfunção
temos wk (x) → w(x) quando k → ∞. Do Teorema 3.8.4 segue que (w k )k∈N é uma sucessão
uniformemente convergente para uma função harmónica w em B.
Bastará agora provar que w = w em B. Como w é o supremo de uma subfamı́lia de S ϕ
devemos ter w ≤ w. Se existisse um ponto x onde w(x) > w(x) deverı́amos ter, para algum
v ∈ Sϕ , v(x) > w(x). Defina-se, para todo o k ∈ N, vk = máx{wk , v} e v k como sendo o
levantamento harmónico de vk em B. Como atrás temos que v k converge para uma função
harmónica em B que satisfaz v ≥ w e v(x) = w(x). Pelo princı́pio do máximo forte podemos
concluir que v = w em B e consequentemente w = w em B. 

A função harmónica cuja existência é assegurada pelo teorema anterior é designada como
solução de Perron. Não é necessariamente uma função cujos limites relativos a pontos de ∂Ω
coincidam com os valores de ϕ. Uma condição necessária e suficiente para que tal aconteça para
toda a função ϕ ∈ C 0 (∂Ω) envolve o conceito de barreira.

Definição 3.9.6. Seja x ∈ ∂Ω. Diz-se que existe uma barreira em x se existir uma função
contı́nua em Ω, superharmónica em Ω, positiva em Ω \ {x} e nula em x. Diremos que um ponto
x ∈ ∂Ω é regular10 se existir uma barreira em x.

Teorema 3.9.7. O problema de Dirichlet (3.21) tem solução para toda a função contı́nua ϕ :
∂Ω → R se e só se cada ponto de ∂Ω fôr regular.

Demonstração. Seja x ∈ ∂Ω um ponto regular. Seja u a função harmónica cuja existência


estabelecemos no Teorema de Perron (3.9.5) e seja z uma barreira em x. Bastará provar que
para cada  > 0 temos
lim |u(y) − ϕ(x)| ≤ .
y→x
y∈Ω

Isto será obtido se provarmos que para cada  > 0 existem uma subfunção s  e uma sobrefunção
S tais que
lim S (y) − s (y) ≤ .
y→x
y∈Ω

Para construir S e s usamos a barreira z. Fixemos então  > 0. Bastará agora provar que para
k > 0 suficientemente grande podemos tomar

S (y) = kz(y) +  + ϕ(x),


s (y) = −kz(y) −  + ϕ(x).

Não há dúvida que tais funções são respectivamente superharmónica e subharmónica. Seja δ > 0
tal que |ϕ(y) − ϕ(x)| <  se y ∈ Bδ (x) ∩ ∂Ω e seja M = máxy∈∂Ω |ϕ(y)|. Escolha-se k > 0 de
maneira a
k min z(y) > 2M.
y∈∂Ω\Bδ (x)

10 Não confundir com o uso de “regular” na expressão fronteira regular.

28
3.9. O método de Perron

Podemos então obter as seguintes estimativas:


kz(y) +  + ϕ(x) ≥  + ϕ(x) > ϕ(y) para y ∈ ∂Ω ∩ Bδ (x),
kz(y) +  + ϕ(x) > 2M + ϕ(x) ≥ ϕ(y) + M − M = ϕ(y) para y ∈ ∂Ω \ Bδ (x).
Assim provou-se que com k suficientemente grande kz(y) +  + ϕ(x) é uma superfunção, logo um
majorante de u, e analogamente −kz(y) −  + ϕ(x) é uma subfunção, logo um minorante de u.
Para demonstrar o recı́proco basta notar que se existe solução do Problema 3.21 para qualquer
função contı́nua ϕ podemos considerar para ϕ uma função que é 0 num ponto x ∈ ∂Ω e positiva
em ∂Ω \ {x}, por exemplo ϕ(y) = |x − y|. A respectiva solução do problema de Dirichlet é uma
barreira. 
Torna-se então necessário identificar condições suficientes simples que permitam garantir a
existência de uma barreira. Provavelmente a mais simples é
Proposição 3.9.8 (Condição da esfera exterior). Se x ∈ ∂Ω é tal que existe uma bola
fechada B tal que B ∩ Ω = {x} então x é um ponto regular.
Demonstração. Suponha-se que B = Br (x0 ). Tome-se w(y) = −Γx0 (y) + Γx0 (x). Então w é uma
barreira em x. 
Exercı́cio 3.12. Prove que se ∂Ω é C 2 numa vizinhança de x então verifica-se a condição da
esfera exterior e x é regular. Mostre que tal não é necessariamente verdade se ∂Ω fôr C 1 .
A condição da esfera exterior pode ser melhorada facilmente. Por exemplo:
n
pPn 3.13. Seja n > 2 e considere-se a função w : R → R definida por w(xn1 , . . . , xn ) =
Exercı́cio
x1 − x 2 . Verifique que w é uma função superharmónica. Prove que se Ω ⊂ R é um aberto
i=2 i
com n > 2, x ∈ ∂Ω e existe um cone11 fechado C com interior não vazio tal que C ∩ Ω = {x}
então x é um ponto regular. Esta condição designa-se por condição do cone exterior.
Em dimensão 2 o uso de resultados elementares de Análise Complexa permite obter condições
ainda mais finas. Considere-se a aplicação C \ S 3 z 7→ w(z) = log1 z em que S é um arco simples
unindo 0 a ∞ e log z está definido de maneira a ser uma função analı́tica em C\S. Se escrevermos
w = u+iv com u e v reais estas funções são harmónicas. Se usarmos coordenadas polares z = re iθ ,
com θ definido de forma adequada, obtemos
1 log r − iθ
w(z) = =
log r + iθ log2 r + θ2
Note-se que u < 0 e harmónica em B1 (0) \ S e limr↓0 u = 0. Estes factos podem ser usados para
provar
Exercı́cio 3.14. Seja Ω ⊂ R2 um aberto limitado, x ∈ ∂Ω tal que existe um arco simples L
unindo x a ∞ e tal que L \ {x} ⊂ R2 \ Ω. Então x é um ponto regular.
Os resultados anteriores ainda podem ser melhorados usando o facto de poder provar-se que
o conceito de barreira tem carácter local.
Proposição 3.9.9. Seja Ω ⊂ Rn um aberto limitado e x ∈ ∂Ω. Se existe r > 0 tal que x é
regular relativamente a Br (x) ∩ Ω então x é regular relativamente a Ω.
Demonstração. Seja w uma barreira em x relativamente a Br (x)∩Ω e defina-se m = min∂Br (x)∩Ω w.
Temos m > 0. Se definirmos

min{w(x), m} se x ∈ Br (x) ∩ Ω
w(x) =
m se x ∈ Ω \ Br (x)
então w é uma barreira em x relativamente a Ω. 
11 C ⊂ E, com E um espaço vectorial, diz-se um cone se existir um ponto v ∈ E tal que para todo o α > 0 e
x ∈ C temos v + α(x − v) ∈ C.

29
Capı́tulo 3. O Laplaciano

Exercı́cio 3.15. Use a Proposição 3.9.9 para melhorar os resultados dos Exercı́cios 3.13 e 3.14.
Exercı́cio 3.16. Seja Ω = B2 (0) \ {(x1 , 0) ∈ R2 : −1 ≤ x1 ≤ 1} e considerem-se funções
contı́nuas f, g : [−1, 1] → R tais que f (0) = g(0), f (1) = g(1) e ϕ : ∂B2 (0) ⊂ R2 → R.
Considere o problema

 ∆u = 0,
 em Ω
 u = ϕ,
 para |x| = 2
lim (x1 ,x2 )→(x0 ,0) u(x 1 , x 2 ) = f (x 0 ), para |x0 | ≤ 1

 x2 >0
 lim (x1 ,x2 )→(x0 ,0) u(x1 , x2 ) = g(x0 ), para |x0 | ≤ 1

x2 <0

a) Justifique que existe uma solução única do problema.


b) Suponha que as funções ϕ, f, g satisfazem as relações de simetria ϕ(x 1 , x2 ) = −ϕ(−x1 , x2 ),
f (x1 ) = −f (−x1 ), g(x1 ) = −g(−x1 ). Poderá garantir que u(0, x2 ) = 0 para todo o (0, x2 )
em Ω?
Em dimensão 2 um exemplo de ponto não regular será necessariamente um ponto isolado da
fronteira. Que tal é o caso verifica-se no exercı́cio 3.18. Discutimos agora um exemplo de um
ponto não regular em dimensão n = 3.
Exemplo. (Lebesgue) Em R3 considere o potencial de tipo coulombiano criado por uma carga
concentrada sobre o segmento [0, 1] do eixo dos xx com densidade d(x) = x. Tal potencial pode
exprimir-se como um integral
Z 1
t dt
V (x, y, z) = p em que r2 = y 2 + z 2 .
0 (t − x)2 + r2
Se avaliar o integral verificará que V (x, y, z) = A(x, r) − 2x log r em que A verifica A(x, r) →
0 quando (x, r) → 0. Pode verificar com facilidade que todas as equipotenciais da forma
V (x, y, z) = 1 + c, c > 0 têm a origem como ponto de acumulação. Tal observação permite
verificar que o problema de Dirichlet clássico para a equação de Laplace no complementar do
aberto limitado por uma tal equipotencial não é um problema bem posto. É fácil, à custa duma
inversão (ver Problema 3.6), transformar este exemplo de maneira a obter o exemplo desejado
para um aberto limitado com um ponto não regular na fronteira. Observe que a fronteira numa
vizinhança do ponto não regular é uma superfı́cie tipo cúspide. N

3.10 A equação de Poisson


Analisamos agora o problema

∆u = f num aberto limitado Ω,
(3.22)
u=ϕ sobre ∂Ω,
em que ϕ ∈ C 0 (∂Ω), todos os pontos de ∂Ω são regulares e em que f será “suficientemente
regular”. Estaremos interessados em estabelecer qual a regularidade mı́nima a exigir a f .
Comecemos por observar na fórmula de representação integral (3.9) que se u é uma solução
da equação de Poisson em C 1 (Ω) ∩ C 2 (Ω) nula e com derivada normal nula sobre ∂Ω então vale
a representação Z
u(x) = Γx ∆u dy

Tal sugere procurar uma solução particular da equação de Poisson através de
Z
w(x) = Γx f dy. (3.23)

A função w assim definida é designada por potencial de Newton de f . Se justificarmos esta ideia
obteremos

30
3.10. A equação de Poisson

Teorema 3.10.1. Se o potencial de Newton fôr uma solução da equação de Poisson prolongável
continuamente a ∂Ω e todos os pontos de ∂Ω fôrem regulares então a solução do problema (3.22)
é dada por
u(x) = v(x) + w(x)
em que w designa o potencial de Newton de f e v a solução do problema
(
∆v = 0 em Ω,
(3.24)
v = ϕ − w sobre ∂Ω.

Antes de enunciar o resultado que temos em mente convirá convencer o leitor de que, de uma
forma algo surpreendente, não basta que f seja contı́nua para existir uma solução C 2 da equação
de Poisson.
Exercı́cio 3.17. Seja P : R2 → R o polinómio P (x1 , x2 ) = x1 x2 e η ∈ Cc∞ (RP
2
) tal que η ≡ 1 se
|x| < 1 e considere-se uma sucessão (ck )k∈N tal que ck → 0 quando k → ∞ e ck é divergente.
Defina

X
f (x) = ck ∆(ηP )(2k x).
0

Prove que f é contı́nua mas que a equação de Poisson ∆u = f não tem nenhuma solução que
seja C 2 numa vizinhança de 0.
Para enunciarmos um resultado de existência razoavelmente lato para a equação de Poisson
necessitaremos do conceito de função Hölderiana com expoente .
Definição 3.10.2. Seja U ⊂ Rn , k ∈ N, 0 <  < 1. Dizemos que f : U → Rm é de classe
C 0, (U ) em U , ou uniformemente contı́nua à Hölder em U com expoente  > 0, se existir M > 0
tal que para todos os x, y ∈ U temos

|f (x) − f (y)| ≤ M |x − y| . (3.25)

Diremos que f é de classe C k, (U ) se fôr k vezes diferenciável em U e para cada multi-ı́ndice
α com |α| = k tivermos D α f ∈ C 0, .
0,
Diremos que f ∈ Cloc (U ) ou que é localmente contı́nua à Hölder em U se fôr uniformemente
k,
contı́nua à Hölder em cada limitado K ⊂ U . De forma similar define-se Cloc (U ).
Para  = 1 as mesmas definições conduzem ao conceito de funções Lipschitzianas.
Passamos a estabelecer resultados de diferenciabilidade para o potencial newtoniano. Note
2
que a regra de Leibniz não é aplicável para cálculo das segundas derivadas devido a ∂∂xΓ2 não ser
i
integrável numa vizinhança de 0.
Lema 3.10.3. Seja Ω ⊂ Rn um aberto limitado, f : Ω → R uma função limitada e localmente
Hölderiana em Ω prolongada trivialmente a Rn e seja w o potencial newtoniano de f . Então
w ∈ C 2 (Ω) e para todo o x ∈ Ω temos

∂2w ∂2Γ ∂Γ
Z Z
(x) = (x − y)(f (y) − f (x)) dy + f (x) (x − y)νj (y) dS(y) (3.26)
∂xi ∂xj A ∂x x
i j A ∂x i

para i, j = 1, . . . , n, em que A é uma região limitada contendo Ω para a qual é aplicável o teorema
da divergência.
Demonstração. Deixamos ao cuidado do leitor estabelecer através da aplicação duma versão
conveniente da regra de Leibniz ou por um processo ad hoc do tipo do que irá utilizar-se a seguir
que w ∈ C 1 (Rn ) e
∂w ∂Γ
Z
= (x − y)f (y) dy
∂xi Ω ∂x i

31
Capı́tulo 3. O Laplaciano

Designemos então por u(x) o segundo membro de (3.26). Notamos que está bem definido graças
a Γ verificar a estimativa
∂2Γ −n
(x) ≤ C|x − y|
∂xi ∂xj
∂w
em que C > 0 e f é hölderiana. Por outro lado seja v(x) = ∂xi e defina-se

∂Γ
Z
vk (x) = (x − y)ηk (x − y)f (y) dy
Ω ∂xi

em que ηk (y) = η(k|y|) com η ∈ C 1 (R) uma função fixa que satisfaz 0 ≤ η ≤ 1, 0 ≤ η 0 ≤ 2,
η(t) = 0 para t ≤ 1, η(t) = 1 para t ≥ 2. Claro que não existe qualquer problema em diferenciar
vk sob o sinal de integral obtendo-se
 
∂vk ∂ ∂Γ
Z
= ηk (x − y)f (y) dy
∂xj Ω ∂xj ∂xi
 
∂ ∂Γ
Z
= ηk (x − y)(f (y) − f (x)) dy
A ∂xj ∂xi
 
∂ ∂Γ
Z
+ f (x) ηk (x − y) dy (3.27)
A ∂xj ∂xi
 
∂ ∂Γ
Z
= ηk (x − y)(f (y) − f (x)) dy
A ∂xj ∂xi
 
∂Γ
Z
+ f (x) ηk (x − y)νj dS(y)
∂A ∂xi

desde que k seja suficientemente grande, em particular dist(x, ∂Ω) > 2/k. Subtraindo termo a
termo (3.27) de (3.26) e estimando obtém-se
 
∂vk ∂ ∂Γ
Z
u(x) − (x) = (1 − ηk ) (f (y) − f (x)) dy
∂xj |x−y|≤2/k ∂xj ∂xi
∂2Γ
 
∂Γ
Z

≤C + 2k |x − y| dy
|x−y|≤2/k ∂xj ∂xi ∂xi
n 

≤C + 4 (2/k)


em que C designa a constante da desigualdade (3.25) relativa a um compacto K b Ω e k ∈ N é


suficientemente grande de maneira a {x ∈ Ω : dist(x, ∂Ω) > 2/k} ⊃ K. Verificamos então que
temos convergência uniforme de ∂v
∂xi para u e de vk para v nos subconjuntos compactos de Ω.
k

∂v
Isto implica que u = ∂xi . 

É uma consequência quase imediata deste resultado e do método de Perron:

Teorema 3.10.4. Seja f : Ω ⊂ Rn → R com Ω um aberto limitado cujos pontos fronteiros são
regulares no sentido de (3.9.6). Suponha-se que f é limitada e localmente hölderiana em Ω. Seja
ϕ : ∂Ω → R uma função contı́nua. Então o problema
(
∆u = f em Ω,
(3.28)
u=ϕ sobre ∂Ω

tem uma solução única u ∈ C 2 (Ω) ∩ C 0 (Ω).

32
3.11. Soluções fracas da equação de Laplace

3.11 Soluções fracas da equação de Laplace


Para contrastar ainda mais as propriedades do Laplaciano com as dos operadores diferenciais
parciais de primeira ordem analisados no Capı́tulo 2 consideramos agora o que se passa quanto
a soluções fracas da equação de Laplace no quadro das funções localmente integráveis 12.
Definição 3.11.1. Seja Ω ⊂ Rn um aberto e v : Ω → R uma função localmente integrável em
Ω, i.e. , v ∈ L1loc (Ω). Diz-se que v é uma solução fraca da equação de Laplace em Ω se para toda
a função ϕ ∈ Cc∞ (Ω) temos Z
∆ϕ(x)v(x) dx = 0.

Facilmente se verifica usando, por exemplo, as fórmulas de Green que toda a função harmónica
no sentido clássico é também uma solução fraca. Que não existem outras é a conclusão do
Proposição 3.11.2 (Lema de Weyl). As soluções fracas localmente somáveis da equação de
Laplace são soluções clássicas.
Demonstração. Seja u uma solução fraca localmente integrável da equação de Laplace num aberto
Ω. Basta provar o resultado localmente logo vamos considerar que u é integrável e prolongamos
trivialmente u ao complementar de Ω.
Considere-se uma sucessão de molificadores13 (ρ )>0 e as funções regularizadas u definidas
por u ≡ u∗ρ . É fácil verificar que dado ω b Ω existe 0 tal que para  < 0 cada u é harmónica
no sentido clássico em ω e portanto verifica a igualdade do valor médio em ω. Tal igualdade
permite obter a convergência uniforme de u para u em ω1 b ω a partir da convergência em
L1 (ω). Logo u é uma função contı́nua e a conclusão segue do recı́proco do teorema do valor
médio. 

12 O leitor familiar com teoria das distribuições e com o conceito de hipo-elipticidade sabe provavelmente que os

resultados desta secção são extremamente generalizáveis.


13 Ver o Apêndice B.

33
Capı́tulo 3. O Laplaciano

3.12 Exercı́cios suplementares


Exercı́cio 3.18. Em dimensão n ≥ 3, seja B 0 = B1 (0)\{0} e u : B 0 → R uma função harmónica
n−2
tal que a função x 7→ |x| u(x) é limitada.
a) Mostre que existe uma função harmónica v definida em B1 (0) e uma constante c ∈ R tais
c
que u − v = |x|n−2 .

b) Enuncie e demonstre o resultado análogo em dimensão 2.


c) Por inversão obtenha resultados relativos a funções harmónicas em certas regiões ilimita-
das. Enuncie e demonstre tais resultados.
Exercı́cio 3.19. Seja Ω ⊂ BR (0) ⊂ Rn um domı́nio regular . Para n ≥ 3, k > R designamos
por uk a solução do problema de Dirichlet

∆uk = 0, em Bk (0) \ Ω

uk = 1, sobre ∂Ω

uk = 0, sobre ∂Bk (0)

a) Justifique que os uk ’s estão bem definidos.


b) Mostre que existe
lim uk (x)
k>R,k→∞

para cada x ∈ Rn \ Ω.
c) Mostre que existe uma solução única do problema

∆u = 0,
 em Rn \ Ω
u = 1, sobre ∂Ω

limx→∞ u(x) = 0.

Exercı́cio 3.20. Seja Ω ⊂ Rn , aberto, limitado, e com fronteira seccionalmente regular. Supo-
nha-se que existe uma função de Green GΩ : Ω × Ω \ {(x, x) : x ∈ Ω} → R relativa ao operador
laplaciano, ∆, isto é, GΩ (x, y) = hΩ (x, y) + Γ(x, y) em que hΩ é uma solução do problema

∆x hΩ (x, y) = 0, para todos os x, y ∈ Ω,
(3.29)
hΩ (x, y) = −Γ(x, y), para todo o x ∈ ∂Ω e todo o y ∈ Ω.

em que Γ designa a solução fundamental da equação de Laplace que como se sabe é dada por
(
1 2−n
Γ(x, y) = (2−n)ωn |x − y| , n > 2,
(3.30)
1
2π log |x − y|, n = 2.

para todos os y ∈ Ω, x ∈ Ω \ {y}.


Prove que:
a) GΩ (x, y) < 0 para todos os x, y ∈ Ω,
b) GΩ (x, y) = GΩ (y, x) para todos os x, y ∈ Ω,
c) Para toda a bola B tal que B ⊃ Ω temos

GB (x, y) ≤ GΩ (x, y) < 0

para todos os y ∈ Ω, x ∈ Ω \ {y}.

34
3.12. Exercı́cios suplementares

d) Existe uma bola aberta B tal que as funções GB (·, y), y ∈ Ω são uniformemente integráveis
em Ω, isto é, dado  > 0 existe δ > 0 tal que se A ⊂ Ω é mensurável, |A| < δ então
Z
|GB (x, y)| dx <  para todo o y ∈ Ω (3.31)
A

e) Podemos substituir B por Ω em (3.31).


f ) Para todo o γ > 0 temos Z
GΩ (x, y) dx → 0
Ω\Bγ (y0 )

se y → y0 ∈ ∂Ω.
g) As conclusões de (c) e (d) implicam que se y → y0 ∈ ∂Ω então
Z
GΩ (x, y) dx → 0.

35
Capı́tulo 3. O Laplaciano

36
Capı́tulo 4

Classificação das equações lineares de 1a ordem no


plano

4.1 Introdução
Antes de nos debruçarmos sobre problemas relativamente gerais convém convencer o leitor que
aquilo que foi realizado nos dois capı́tulos anteriores contém as sementes de algo bastante mais
geral. O objecto deste capı́tulo, de qualquer forma ainda modesto, será o estudo com alguma
generalidade de certas equações lineares Lu = f em que L é um operador linear de segunda
ordem da forma
X ∂ 2u X ∂u
Lu(x1 , x2 ) = ai,j (x1 , x2 ) + bi (x1 , x2 ) + c(x1 , x2 )u(x1 , x2 ).
i=1,2
∂xi ∂xj i=1,2 ∂xi

A base do que se vai seguir consiste na observação elementar de que se pudermos decompor
L = L1 L2 com L1 , L2 operadores lineares reais de primeira ordem o problema de existência local
de soluções poderia ser abordado pelo estudo sucessivo de duas equações lineares de primeira
ordem. Veja-se por exemplo o exercı́cio 2.9. Mais geralmente podemos com certeza obter um
resultado de existência e unicidade local para um problema da forma

L1 L2 u(x) = f (x), numa vizinhança de uma hipersuperfı́cie S

u|S (x) = v0 (x), (4.1)

L2 u|S (x) = v1 (x).

Para tal será natural impor L1 , L2 suficientemente regulares e condições de não caracteristicidade
relativas a cada um dos problemas de primeira ordem. Para compreendermos o papel de tais
condições começamos por notar que prescrever os valores de L 2 u sobre S pode com certeza
ser feito se prescrevermos os valores da derivada normal ∂u ∂ν sobre S já que todas as derivadas
tangenciais são prescritas por v0 .

37
Capı́tulo 4. Classificação das equações lineares de 1a ordem no plano

38
Capı́tulo 5

Resultados gerais e contra-exemplos

5.1 O Problema de Cauchy geral


Se o leitor tem alguma familiaridade com equações diferenciais ordinárias mas não com equações
diferenciais parciais poderá ter algumas expectivas que rapidamente se mostrarão infundadas.
Por exemplo o resultado essencial sobre existência e unicidade de equações diferenciais ordinárias,
o teorema de Picard-Lindelöf, não impõe restrições de regularidade fortes ao segundo membro
duma equação diferencial ordinária na forma y 0 = f (t, y). No entanto não existe um resultado
análogo para equações diferenciais parciais gerais. Dos resultados de que disporemos dentro
em pouco sobre existência de solução de equações diferenciais parciais o único com um âmbito
comparável é o teorema de Cauchy-Kowalewska. Grosso modo garante a existência local de
solução desde que a equação e os dados sejam analı́ticos (5.2.1). Não existem resultados similares
mesmo quando a equação é linear e os coeficientes C ∞ . De facto existem exemplos, só obtidos
há menos de cinquenta anos e com um carácter não trivial, de equações lineares com coeficientes
C ∞ para as quais não existe solução (5.4).
Não é de surpreender então que o estudo das equações diferenciais parciais envolva um es-
forço de classificação dos problemas a estudar. Tal classificação nunca poderá ser interpretado
como um esquema rı́gido dado a priori mas algo que resulta naturalmente dos resultados que
formos obtendo. Para iniciar tal estudo começaremos por tecer algumas considerações relativas
a operadores diferenciais lineares e ao conceito de caracterı́sticas.
Seja Lu(x) ≡ |α|≤k aα (x)Dα u(x) um operador diferencial linear actuando sobre funções C k
P
definidas num aberto U ⊂ Rn . Para cada x ∈ U define-se a partePprincipal ou sı́mbolo deste
operador como sendo o polinómio homogéneo de grau k σx L(ξ) ≡ |α|=k aα (x)ξ α . Os ξ ∈ Rn
tais que σx L(ξ) = 0 designem-se por vectores caracterı́sticos de L no ponto x. O conjunto de
todos os vectores caracterı́sticos de L num ponto x designa-se por variedade caracterı́stica de L
em x.
Exemplo. Considerem-se os seguintes operadores diferenciais lineares de segunda ordem e
coeficientes constantes actuando sobre funções definidas em Rn+1 :
Pn ∂ 2 u
∆u = i=0 ∂x2i
∂2u Pn 2
u = ∂x2 − i=1 ∂∂xu2 .
0 i

Temos
Pn 2
σx ∆(ξ) = i=0 ξi
2
Pn 2
σx (ξ) = ξ0 − i=1 ξi

pelo que para ∆ a variedade caracterı́stica reduz-se à origem e para  é um cone n − 1 dimensi-
onal1 . N
1 Estes operadores serão estudados em detalhe nos Capı́tulos 3 e 9.

39
Capı́tulo 5. Resultados gerais e contra-exemplos

Definição 5.1.1 (Operador Elı́ptico). Um operador diferencial linear diz-se elı́ptico num
ponto x se o seu sı́mbolo σx L(ξ) só se anular para ξ = 0.

5.2 O Teorema de Cauchy-Kowalewska


Esta secção tem como objectivo a demonstração do :
Teorema 5.2.1 (Cauchy-Kowalewska). Considere-se o problema de Cauchy relativo a uma
equação diferencial parcial de ordem k e uma hipersuperfı́cie S com normal unitária ν

F x, (Dα u0≤|α|≤k ) = 0

(5.1)
Dνj u = ϕj , para j = 0, . . . , k − 1 (5.2)
S

e em que S se supõe não caracterı́stica num sentido a precisar. Se F , S e ϕ j são analı́ticas existe
uma solução analı́tica única de (5.1–5.2).
S ser uma hipersuperfı́cie analı́tica siginifica que para cada ponto x ∈ S existe uma vizinhança
Ux de x e um difeomorfismo analı́tico θx : Ux → Rn tal que θx (S ∩ Ux ) é um subconjunto aberto
de um hiperplano de Rn . Este recurso a cartas locais permite então reduzir de imediato a
demontração ao estabelecer a existência de uma solução analı́tica única numa vizinhança de 0

no caso em que S é o hiperplano xn = 0 e a derivação ∂ν é substituı́da por ∂x∂ n .
A não caracteristicidade de S corresponde então, após a mudança de coordenadas descrita
atrás, a que (COMPLETAR)
Bastará então demonstrar
Teorema 5.2.2. Considere-se o problema de valores iniciais
n
∂u X ∂u
= Ai (x, u) + B(x, u) (5.3)
∂t i=1
∂xi
u(x, 0) = 0 (5.4)

em que as funções Ai , i = 1, . . . , n, e B são analı́ticas numa vizinhança da origem. Então existe


uma solução analı́tica única deste problema numa vizinhança da origem.
Demonstração. Os desenvolvimentos de Taylor para os Ai ’s e para B serão válidos num intervalo
de Rn+N definido por |xi | < R e |uj | < R para todos os i’s e j’s. COMPLETAR 

5.3 O Teorema de Holmgren


O teorema de unicidade de Holmgren é no essencial um corolário do teorema de Cauchy-Kowalewska
obtido por “dualidade”. Tal argumento de dualidade pode lembrar ao leitor resultados que
conhece da Álgebra Linear ou talvez resultados de Análise Funcional como a alternativa de
Fredholm.
Começamos por considerar uma versão local do teorema para sistemas de primeira ordem.
Considere-se o sistema n
X
Lu ≡ ai (x)Di u + b(x)u = 0
i=1

em que os ai e b têm como valores matrizes reais N × N e as incógnitas u são funções definidas
em ΩRn com valores em RN em que Ω é um aberto da forma

Ω = {x = (xi )i=1,...,n ∈ Rn : 0 < xn < h(x1 , . . . , xn−1 )}

sendo as hipersuperfı́cies {x ∈ Rn : xn = 0} e {x ∈ Rn : xn = h(x1 , . . . , xn−1 )} não caracterı́sti-


cas.

40
5.4. O Contra-exemplo de Lewy

5.4 O Contra-exemplo de Lewy


Durante muito tempo considerou-se que uma equação diferencial parcial “razoável” deveria pos-
suir soluções localmente, com hipóteses ligeiramente mais fracas de regularidade do que a hipótese
de analiticidade do teorema de Cauchy-Kowalewska. No entanto o exemplo seguinte, devido a
Lewy [18], destruiu totalmente esse preconceito e inaugurou uma área de investigação importante.
Precisaremos de alguns resultados prévios sobre séries que se apresentam como exercı́cios.
Exercı́cio 5.1. Considere a série
+∞
X cos(k!x)
(k!)k
k=1

a) Mostre que a série define um função C ∞ (R) periódica.


b) Mostre que essa função não é analı́tica em 0.
c) Mostre que essa função não é analı́tica em qualquer ponto de R.

Exemplo. [Lewy] Considere-se o operador diferencial linear L que actua sobre funções definidas
em subconjuntos de R3 com valores em C através de
∂u ∂u ∂u
Lu(x) = +i − 2i(x + iy) .
∂x ∂y ∂t
e uma função ψ : R → R de classe C ∞ . Suponha-se que

Lu(x, y, t) = ψ 0 (t).

para (x, y, t) numa vizinhança de (0, 0, t0 ).


Como primeiro passo deste exemplo vamos mostrar que ψ é necessariamente analı́tica em t 0
se u ∈ C 1 . Defina-se √ √ √
v(r, θ, t) = eiθ ru( r cos θ, r sen θ, t).
Então
∂v i ∂v ∂v
Lu = 2 + − 2i
∂r r ∂θ ∂t
Defina-se Z 2π
V (t, r) = v(r, θ, t) dθ
0

Tal função V é C 1 num conjunto da forma {t + ir ∈ C : 0 < r < δ, |t − t0 | < δ}, V (t, 0) = 0 e é
contı́nua para {t + ir ∈ C : 0 ≤ r < δ, |t − t0 | < δ}. Usando a periodicidade em θ de v obtém-se
facilmente que
∂V ∂V
+i = πiψ 0 (t)
∂t ∂r
donde se considerarmos W (t+ir) = V (t, r)−iπψ(t) trata-se de uma função holomorfa prolongável
por simetria relativamente a r < 0 via W (t−ir) = −W (t + ir) sendo o prolongamento holomorfo.
Em particular a sua parte imaginária é analı́tica o que em particular significa que ψ é analı́tica
em t = t0 .
A conclusão do primeiro passo já seria, por si, interessante, mas se exisgirmos um pouco
mais das soluções (terem derivadas holderianas) podemos usá-lo como ponto de partida de um
exemplo de uma equação diferencial parcial para o qual não existe solução C 1,α num qualquer
aberto de R3 . N

41
Capı́tulo 5. Resultados gerais e contra-exemplos

42
Capı́tulo 6

Operadores Elı́pticos Lineares de 2a ordem

Este capı́tulo é uma introdução ao estudo de equações da forma


n n
X ∂ 2u X ∂u
Lu ≡ aij (x) + bi (x) + c(x)u = f (6.1)
i,j=1
∂xi ∂xj i=1
∂x i

em que o operador diferencial linear do primeiro membro, L, é elı́ptico no sentido da definição


5.1.1 e satisfaz algumas condições adicionais. O nosso principal interesse é mostrar como alguns
dos resultados relativos ao Laplaciano podem ser generalizados a esta situação, nomeadamente
o princı́pio de máximo, e como usar os resultados obtidos para a equação de Poisson para,
por “perturbação”, obter resultados de existência, unicidade ou regularidade para problemas de
valores na fronteira relativos a (6.1).
Suporemos que L actua sobre funções C 2 (Ω) ∩ C 0 (Ω) com Ω ⊂ Rn um aberto. Não faremos
hipóteses especiais sobre a regularidade dos coeficientes.

6.1 Hipóteses adicionais

Dado o carácter introdutório deste capı́tulo consideraremos a priori hipóteses adicionais que não
serão estritamente necessárias em todos os resultados mas que simplificarão o seu enunciado.
Geralmente remeteremos as extensões para exercı́cios ou para as referências [9].
Assim limitar-nos-emos a considerar operadores uniformemente elı́pticos, isto é, supomos que
existe λ > 0 tal que para todo o ξ = (ξi )i=1,...,n ∈ Rn e todo o x ∈ Ω temos

n
X
aij (x)ξi ξj ≥ λ|ξ|2 . (6.2)
i,j=1

Suporemos limitações uniformes dos coeficientes, isto é, que existe Λ > 0 tal que para todo
os i, j = 1, . . . , n e x ∈ Ω temos

|aij (x)|, |bi (x)|, |c(x)| ≤ Λ. (6.3)

Também a maior parte dos resultados que temos em mente generalizar, por exemplo o prin-
cı́pio de máximo, são trivialmente falsos se não supusermos

c≤0 (6.4)

d2
devido à possı́vel existência de valores próprios positivos de L como é bem ilustrado por dx2 (sen x)+
sen x = 0.

43
Capı́tulo 6. Operadores Elı́pticos Lineares de 2a ordem

6.2 O princı́pio de máximo


Começamos por estabelecer um princı́pio de máximo forte sob hipóteses ainda não tão apuradas
como desejável. Suporemos em todos os resultados que se verificam as hipóteses enumeradas na
secção anterior.
Lema 6.2.1. Suponha-se que L verifica (6.1–6.4) e Lu > 0. Então L não pode ter um máximo
local positivo num ponto interior de Ω.
Demonstração. Suponha-se que u tem um máximo local positivo em x0 ∈ Ω. Então D2 u(x0 )
define uma forma quadrática semidefinida negativa. Daı́, e da hipótese de elipticidade, decorre
Pn 2
que devemos ter i,j=1 aij (x) ∂x∂i ∂x
u
j
∂u
(x0 ) ≤ 0. Como ∂x i
(x0 ) = 0 para todo o i obtemos

Lu(x0 ) ≤ c(x0 )u(x0 ) ≤ 0


o que contradiria Lu > 0. 

Proposição 6.2.2 (Princı́pio de máximo fraco). Suponha-se que L verifica (6.1–6.4) e


Lu > 0 num aberto limitado. Então
máx{u(x)} ≤ máx {u+ (x)}
x∈Ω x∈∂Ω

em que u+ designa a parte positiva1 de u.


Demonstração. Seja v(x) = eαx1 em que α > 0 será escolhido posteriormente. Temos
Lv(x) = (α2 a11 (x) + αb1 (x) + c(x))eαx1
A condição de elipticidade garante que a11 (x) > λ > 0. Assim, para α suficientemente grande,
temos
Lv > (α2 λ − αΛ − Λ)eαx1 > 0
o que permite escrever, para um qualquer  > 0,
L(u + v) > 0.
A função u + v está nas condições do lema pelo que não tem um máximo positivo num ponto
interior. Assim sendo
máx u ≤ máx u + v ≤ máx (u + v)+ ≤ máx u+ +  máx v
x∈Ω x∈Ω x∈∂Ω x∈∂Ω x∈∂Ω

obtendo-se a conclusão fazendo  ↓ 0. 

Lema 6.2.3 (Lema do ponto fronteiro de Hopf ). Suponha-se que u ∈ C 1 (Ω), L verifica
(6.1–6.4), Lu > 0 num aberto, B ≡ BR (y) ⊂ Ω, B ∩ ∂Ω = {x0 } e u(x0 ) > u(x) para todo o
x ∈ B. Então, se ν = |xx00 −y|
−y
, temos
∂u
(x0 ) > 0.
∂ν
2 2
Demonstração. Sejam 0 < r < R, ρ = |x − y| e v(x) = e−αρ − e−αR . Temos para α > 0
suficientemente grande
Lv =
n n
X X 2
=[4α2 aij (x)(xi − yi )(xj − yj ) − 2α (aii (x) + bi (x))(xi − yi ) + c(x)]e−αρ −
i,j=1 i=1
−αR2 2 2 1/2 2
− c(x)e > (4α λr − 4n αΛR − Λ)e−αr > 0.
1 Convencionamos u+ (x) = máx{0, u(x)}, u− = (−u)+ .

44
6.3. Uma estimativa pontual

ν
x0
B
y

Figura 6.1: O lema do ponto fronteiro de Hopf.

Como sobre ∂Br (y) temos u − u(x0 ) < 0 existe  > 0 tal que u − u(x0 ) + v ≤ 0 sobre ∂Br (y).
Como v ≡ 0 sobre ∂B também temos u − u(x0 ) + v ≤ 0 sobre ∂B. Assim se A = B \ Br (y)
podemos aplicar o princı́pio de máximo fraco em A para obter

máx(u − u(x0 ) + v) ≤ máx(u − u(x0 ) + v)+ = 0.


A ∂A

∂(u−u(x0 )+v) ∂v
Isto implica que ∂ν > 0. Como ∂ν (x0 ) < 0 isto prova o resultado. 

Teorema 6.2.4 (Princı́pio de máximo forte). Suponha-se que L verifica (6.1–6.4), Lu ≥ 0


num aberto conexo e u tem um máximo positivo num ponto interior. Então u é constante.

6.3 Uma estimativa pontual


O princı́pio de máximo vai permitir obter uma estimativa pontual.
Teorema 6.3.1. Suponha-se que L verifica (6.1–6.4) com Ω um aberto limitado. Então existe
C > 0 tal que se Lu ≥ f vale a estimativa pontual

f−
máx u ≤ máx u+ + C sup .
Ω ∂Ω Ω λ

Demonstração. Suponha-se que

Ω ⊂ {x ∈ Rn : 0 < x1 < d}

e seja
f−
v(x) ≡ máx u+ + (eαd − eαx1 ) sup .
∂Ω Ω λ
Temos
f−
Lv(x) = −(α2 a11 (x) + αb1 (x))eαx1 sup + c(x)v(x)
Ω λ
donde
f−
   
Λ2 αx1 2 Λ
Lv(x) ≤ − α λ − αλ e sup ≤− α −α sup f − .
λ Ω λ λ Ω

Se escolhermos α de maneira a α2 − α Λλ > 1 obtemos

L(u − v) ≥ sup(f − + f ) ≥ 0.

45
Capı́tulo 6. Operadores Elı́pticos Lineares de 2a ordem

Por outro lado temos sobre ∂Ω


f−
u − v = u − u+ − (eαd − eαx1 ) sup ≤0
Ω λ
pelo que, do princı́pio de máximo fraco, obtemos que u ≤ v em Ω. 

6.4 O método de continuidade


Esta secção destina-se a mostrar como podemos passar de resultados relativos à equação de Pois-
son para par resultados relativos a uma equação elı́ptica através de um argumento de perturbação.
O resultado básico é enunciado a seguir usando uma formulação abstracta.
Teorema 6.4.1. Sejam E um espaço de Banach, F um espaço normado e L 0 , L1 : E → F
operadores lineares contı́nuos. Para t ∈ [0, 1] seja Lt ≡ (1 − t)L0 + tL1 . Suponha-se que L0 é
sobrejectivo e que existe C > 0 tal que para todo o x ∈ E e todo o t ∈ [0, 1] temos
CkLt xkF ≥ kxkE . (6.5)
Então L1 é sobrejectivo.
Demonstração. Suponha-se que Lt é sobrejectivo para um certo t ∈ [0, 1[ e que queremos
provar que Lτ é sobrejectivo para |t − τ | pequeno. A desigualdade (6.5) garante que qualquer
Lt sobrejectivo tem um inverso contı́nuo L−1 t e que kL−1
t kL(F,E) ≤ C independentemente de t.
Assim a equação
Lτ x = y
é equivalente a
x = L−1
t ((Lt − Lτ )x + y)
que tem a forma de um problema de ponto fixo x = Ty (x). Temos, para x1 , x2 ∈ E
kTy (x1 ) − Ty (x2 )kE = kL−1
t (Lt − Lτ )(x1 − x2 )kE
≤ CkLt − Lτ kL(E,F ) kx1 − x2 kE
≤ C|t − τ | máx{kL0 kL(E,F ) , kL1 kL(E,F ) }kx1 − x2 kE .
Assim, usando o teorema do ponto fixo de Banach, existe c > 0 tal que se Lt é sobrejectivo Lτ
é sobrejectivo se |t − τ | < c. Isto garante que podemos cobrir [0, 1] com um número finito de
intervalos de comprimento c donde a sobrejectividade de L0 implica a sobrejectividade de L1 . 
A seguir ilustramos como utilizar o resultado anterior para obter resultados para operadores
elı́pticos gerais à custa de resultados relativos à equação de Poisson.
Teorema 6.4.2. Seja L um operador diferencial verificando (6.1–6.4). Admita-se2 que Ω é tal
que todas as soluções u ∈ C 2,α (Ω) de uma equação de Poisson Lu = f ∈ C 0,α com valor 0 sobre
∂Ω satisfazem uma estimativa
|u|2,α ≤ C(|u|0,α + |f |0,α ) (6.6)
em que a constante C só depende de Ω, λ e Λ.
Seja ϕ ∈ C 2,α (Ω).
Então, se o problema de Dirichlet
(
Lu = f, em Ω
u=ϕ sobre ∂Ω
Demonstração. Seja 
2 Pode provar-se que se a fronteira de Ω fôr suficientemente regular, em particular de classe C 2,α , podemos

prescindir desta hipótese.

46
Capı́tulo 7

Métodos Variacionais

7.1 Os Teoremas de Stampacchia e Lax-Milgram


A solução por métodos variacionais de equações elı́pticas lineares de 2 a ordem baseia-se, no
que diz respeito a resultados de existência, em resultados abstractos em espaços de Hilbert que
generalizam observações geometricamente intuitivas em Rn . O resultado central deste tipo que
iremos usar é o teorema de Stampacchia e o seu corolário o teorema de Lax-Milgram.
No que se segue suporemos que o leitor tem presente a teoria básica sobre espaços de Hilbert.
Designaremos por H um espaço de Hilbert sobre os reais em que está definido um produto
interno (·, ·) cuja norma associada k · k torna H um espaço de Banach. O dual topológico de H é
designado H 0 , usaremos a notação h·, ·iH 0 ×H para o produto de dualidade e supomos conhecido
o importante teorema de representação de Riesz:

Teorema 7.1.1. Seja H um espaço de Hilbert e um φ ∈ H 0 um funcional linear contı́nuo. Então


existe z ∈ H único tal que hφ, xiH 0 ×H = (z, x) para todo o x ∈ H.

A ideia base de carácter geométrico que usaremos na demonstração do teorema de Stampac-


chia pode ser motivada pela observação de que se x ∈ H, K ⊂ H for um convexo não vazio e
existir em K um ponto y a distância mı́nima de x, isto é,

kx − yk = inf kx − wk (7.1)
w∈K

então dado um qualquer outro ponto v ∈ K a função

[0, 1] 3 t 7→ kx − (y + t(v − y))k

tem necessariamente um mı́nimo para t = 0 pois qualquer ponto x − (y + t(v − y)) ∈ K se


t ∈ [0, 1]. Se considerarmos então
2
[0, 1] 3 t 7→ kx − (y + t(v − y))k = kx − yk − 2t(x − y, v − y) + t2 kv − yk

verificamos que 0 ser mı́nimo implica

(x − y, v − y) ≤ 0, ∀v∈K . (7.2)

Reciprocamente se se verificar (7.2) então y é o único ponto de K que verifica (7.1).


Nada no argumento anterior garante que existe um ponto de K a distância mı́nima de x. No
entanto se supusermos adicionalmente que K é fechado é possı́vel provar:

Proposição 7.1.2. Seja H um espaço de Hilbert, x ∈ H e K ⊂ H um convexo fechado e não


vazio. Então existe um único y ∈ K a distancia mı́nima de x, isto é verificando as condições
equivalentes (7.1) e (7.2).

47
Capı́tulo 7. Métodos Variacionais

v
PSfrag replacements y K

Figura 7.1: Projecção num convexo fechado e não vazio

Demonstração. Considere-se uma sucessão (yk )k∈N ⊂ K tal que kyk − xk → inf y∈K ky − xk ≡ d.
O ponto essencial a estabelecer é que esta sucessão é uma sucessão de Cauchy para podermos
usar a completude dos espaços de Hilbert, o facto de K ser fechado e a continuidade da norma
para garantir que a sucessão é convergente.
y +y
Dados dois termos da sucessão yj , yk o ponto médio j 2 k ∈ K verificará

yj + y k
− x ≥ d.
2
Aplicando a identidade do paralogramo (de “lados” x − yj e x − yk ) obtém-se
  2
2 2 yj + y k
2kx − yj k + 2kx − yk k = 2 x − + kyj − yk k2
2
donde
  2
2 2 2 yj + y k
kyj − yk k = 2kx − yj k + 2kx − yk k − 2 x − ≤ 2kx − yj k2 + 2kx − yk k2 − 4d2 → 0,
2
quando j, k → ∞ pelo que se trata efectivamente de uma sucessão de Cauchy. 
Dados x e K como na proposição anterior passaremos a designar o ponto de K a distância
mı́nima de x por PK (x). A aplicação PK não é em geral linear mas é contı́nua, mais precisamente
lipschitziana, e a sua constante de Lipschitz é facilmente estimada.
Proposição 7.1.3. Se K tem as mesmas propriedades da proposição anterior então

kPK (x1 ) − PK (x2 )k ≤ kx1 − x2 k, ∀x1 ,x2 ∈H .

Demonstração. Sejam yi = PK (xi ) para i = 1, 2 e considere-se (7.2) com x = x1 , y = y1 , v = y2


e com x = x2 , y = y2 , v = y1 . Obtemos então

(x1 − y1 , y2 − y1 ) ≤ 0,
0 ≤ (x2 − y2 , y2 − y1 ).

pelo que
(x1 − y1 , y2 − y1 ) ≤ (x2 − y2 , y2 − y1 ).
e daı́
((x1 − x2 ) − (y1 − y2 ), y2 − y1 ) ≤ 0,

48
7.1. Os Teoremas de Stampacchia e Lax-Milgram

ou seja
(x1 − x2 , y1 − y2 ) ≥ ky1 − y2 k2
donde o resultado segue via desigualdade de Cauchy-Schwarz. 
Uma aplicação a : H × H → R com H um espaço vectorial real diz-se bilinear se para todos
os x, y, z ∈ H e α ∈ R tivermos a(αx, y) = a(x, αy) = αa(x, y), a(x + y, z) = a(x, z) + a(y, z)
e a(x, y + z) = a(x, y) + a(x, z). Se adicionalmente H for normado a forma bilinear a diz-se
contı́nua se existir C ≥ 0 tal que |a(x, y)| ≤ Ckxkkyk para todos os x, y ∈ H e coerciva se existir
c > 0 tal que |a(x, x)| ≥ ckxk2 para todo o x ∈ H
Teorema 7.1.4 (Stampacchia). Seja H um espaço de Hilbert real e K ⊂ H um subconjunto
convexo fechado. Considerem-se em H uma forma bilinear contı́nua e coerciva a : H × H → R
e um funcional linear contı́nuo λ : H → R. Então existe um e um só u ∈ K tal que

a(u, v − u) ≥ λ(v − u), ∀v ∈ K. (7.3)

Adicionalmente se a fôr uma forma simétrica u é uma solução do problema


1 1
a(u, u) − λ(u) = inf a(v, v) − λ(v). (7.4)
2 v∈K 2

Demonstração. Pelo teorema de Riesz existe um z ∈ H único tal que λ(v) = (z, v) para todo o
v ∈ H. De forma análoga, como para u ∈ H fixado a aplicação H 3 v 7→ a(u, v) é um funcional
linear contı́nuo, existe um elemento único de H dependente de u, que designamos por Au, tal
que a(u, v) = (Au, v) para todo o v ∈ H. É fácil de verificar que A : H → H é um operador
linear contı́nuo e adicionalmente a hipótese de coercividade de a implica que existe c > 0 tal que
(Au, u) ≥ ckuk2 para todos u ∈ H. Assim (7.3) pode ser reformulada como

(Au, v − u) ≥ (z, v − u), ∀v∈K . (7.5)

ou de forma equivalente
(Au − z, v − u) ≥ 0, ∀v∈K .
ou ainda, se ρ for um número positivo a escolher posteriormente,

(−ρ(Au − z) + u − u, v − u) ≤ 0, ∀v∈K .

A proposição 7.1.2 permite interpretar este problema na forma

u = PK (u − ρ(Au − z)),

isto é, se S : K → K for definida por Su = PK (ρ(Au − z) + u) então u é um ponto fixo da


aplicação S. Vamos usar o teorema do ponto fixo de Banach para garantir que S possui um ponto
fixo único desde que ρ > 0 seja escolhido suficientemente pequeno. Para tal temos que estimar
kSu1 − Su2 k em termos de ku1 − u2 k para u1 , u2 ∈ K. Usando a proposição 7.1.3 obtém-se e as
propriedades de continuidade e coercividade de A estima-se

kSu1 − Su2 k2 = ku1 − ρ(Au1 − z) − u2 + ρ(Au2 − z) − k2 = ku1 − u2 − ρ(A(u1 − u2 ))k2


= ku1 − u2 k2 − 2ρ(u1 − u2 , A(u1 − u2 )) + ρ2 kA(u1 − u2 )k2
≤ (1 − 2cρ + kAk2 ρ2 )ku1 − u2 k2

Assim S é uma aplicação de contracção se kAkρ − 2c < 0 o que estabelece a existência de uma
solução de (7.3).
Para estabelecer (7.4) basta notar que a(·, ·) define um produto interno em H que é topolo-
gicamente equivalente ao produto interno original graças à hipótese de coercividade e aplicar a
proposição 7.1.2. 

49
Capı́tulo 7. Métodos Variacionais

Um corolário quase imediato é o

Teorema 7.1.5 (Lax-Milgram). Suponha-se que K é um subespaço fechado dum espaço de


Hilbert H, a é uma forma bilinear contı́nua e coerciva em H e λ um funcional linear contı́nuo
em H. Então existe um e um só u ∈ K tal que

a(u, v) = λ(v)∀v∈K

Demonstração. Note-se que sendo K um subespaço de H para todo o v ∈ K temos v + u, −v +


u ∈ K em que u ∈ K é a solução obtida por aplicação do teorema de Stampacchia. Daı́
que na desigualdade variacional podemos substituir v por v + u e −v + u obtendo a igualdade
pretendida. 

7.2 Introdução aos espaços de Sobolev


7.2.1 Definições e propriedades elementares
7.2.2 Os teoremas de Sobolev e Morrey
7.2.3 O teorema de Rellich
7.2.4 Outros resultados
Proposição 7.2.1. Sejam 1 < p ≤ ∞, Ω ⊂ Rn um aberto e (uk )k∈N ⊂ W 1,p (Ω). Se uk → u em
Lp (Ω)
1,∞
Teorema 7.2.2. Wloc (Ω) é o espaço das funções localmente lipschitzianas em Ω.

Demonstração. Seja f uma função localmente lipschitziana em Ω, ω b Ω, e δ > 0. Definamos


para x ∈ ωδ ≡ {x ∈ Ω : dist(x, ∂Ω) > δ} e |t| < δ

f (x + tei ) − f (x)
gi,t (x) =
t
Temos gi,t ∈ L∞ (ωδ ) para todo o t tal que |t| < δ e além disso todas estas funções satisfazem
para uma constante C independente de t

kgi,t kL∞ (ωδ ) ≤ Lip(f, ω).

Então a famı́lia de funções {gi,t }0<t<δ está contida numa bola de L∞ (ωδ ) logo podemos afirmar
que é relativamente compacta para a topologia fraca-∗.
Seja agora ϕ ∈ Cc∞ (ωδ ). Podemos então garantir que existe uma sucessão (tk )k∈N , com
tk → 0, e uma função gi ∈ L∞ (ωδ ) tal que

ϕ(x − tk ei ) − ϕ(x)
Z Z Z
f (x) dx = gi,tk (x)ϕ(x) dx → gi (x)ϕ(x) dx
Ω tk Ω Ω

Por outro lado o teorema da convergência dominada garante que

ϕ(x − tk ei ) − ϕ(x) ∂ϕ
Z Z
f (x) dx → − f (x) dx
Ω t k Ω ∂x i

e portanto gi é a derivada fraca de f em ordem a xi relativamente a ωδ . Como raciocinámos


1,∞
para um qualquer ω b Ω podemos estabelecer que efectivamente f ∈ Wloc (Ω).
1,∞
Reciprocamente suponha-se f ∈ Wloc (Ω). Sem perda de generalidade podemos supor que
f tem suporte compacto em Ω. Seja (ρ )>0 a usual famı́lia de molificadores e considere-se
para  suficientemente pequeno f = ρ ∗ f . Verifica-se com facilidade que a famı́lia de funções

50
7.3. Aplicações a problemas elı́pticos

regularizadas (f )>0 converge uniformemente para o representante contı́nuo de f e que o supremo
das derivadas parciais dos f s pode ser estimado uniformemente. Notando então que
1
d
Z
|f (x) − f (y)| = (f (tx + (1 − t)y)) dt
0 dt
Z 1
= Df (tx + (1 − t)y)) · (x − y) dt ≤ C|x − y|.
0

Passando ao limite quando  → 0 obtém-se que o representante contı́nuo de f é efectivamente


lipschitziano. 

7.3 Aplicações a problemas elı́pticos


Considere-se o problema 
−∆u + u = f, , em Ω
u = 0, , sobre ∂Ω
em que Ω ⊂ Rn é um aberto limitado com fronteira suficientemente regular, e f : Ω → R
é uma função suficientemente regular, e procuramos uma solução clássica do problema, mais
precisamente, pretendemos estabelecer existência e unicidade de solução para u ∈ C 2 (Ω).
Vamos estudar este problema através do estudo duma versão fraca do mesmo problema em
espaços de Sobolev adequados. Para tal considera-se o problema que consiste em determinar
u ∈ W01,2 (Ω) tal que
Z Z
∇u(x) · ∇v(x) + u(x)v(x) dx = f (x)v(x)
Ω Ω

para todo o v ∈ W01,2 (Ω). Este problema

7.3.1 O método do quociente de Nirenberg


Exercı́cio 7.1. Seja Ω ⊂ Rn um aberto limitado e α > 0.
Considere o problema que consiste em determinar a existência de uma solução de

p
∆v + αv = 0, num aberto limitado Ω,

v > 0, em Ω, (7.6)

v = 0, sobre ∂Ω,

sendo v ∈ C 2 (Ω) ∩ C 1 (Ω) e o expoente p > 1 é “suficientemente” pequeno. Considere também o


problema que consiste na minimização do funcional
Z
F(w) = |∇w(x)|2 dx (7.7)

com w ∈ W01,2 (Ω) sujeito à restrição


Z
|w|p+1 = 1. (7.8)

a) Mostre que basta resolver o problema (7.6) para um valor de α para o resolver para todos
os valores de α.

b) Mostre que a equação de Euler-Lagrange satisfeita por eventuais minimizantes de (7.7) é


da forma ∆w + βw p = 0 com β > 0. [Ideia: Está a lidar com um problema de extremos
condicionados.]

51
Capı́tulo 7. Métodos Variacionais

c) Seja λ = inf F(w) sujeito à restrição (7.8) e seja (wk )k∈N uma sucessão minimizante, isto
é, F(wk ) → λ. Justifique que a sucessão (wk )k∈N é limitada em W 1,2 (Ω).
d) Utilize um teorema sobre compacidade na topologia fraca para mostrar que (w k )k∈N tem
uma subsucessão fracamente convergente em W 1,2 (Ω).
e) Mostre que a subsucessão da alı́nea anterior possui uma subsucessão convergente em L q (Ω)
para q suficientemente pequeno só dependente de n.
f) Se w̃ designar o limite nas duas alı́neas anteriores mostre que w̃ satisfaz a restrição (7.8)
para p suficientemente pequeno só dependente de n.
g) Mostre que num espaço de Hilbert H a norma é fracamente inferiormente semicontı́nua,
isto é, se xk * x em H então kxkH ≤ lim inf k→∞ kxk kH .
h) Mostre que w̃ é uma solução do problema (7.7).
i) Mostre que se u ∈ W 1,2 (Ω) então |u| ∈ W 1,2 (Ω). Relacione as respectivas derivadas no
sentido das distribuições. Conclua que |w̃| é uma solução de (7.7) e que |w̃| é uma solução
fraca de (7.6).
2n
j) Mostre que |w̃|p ∈ L p(n−2) (Ω) para p suficientemente pequeno.
k) Admita o seguinte resultado de teoria de regularidade de problemas elı́pticos (conhece um
caso particular): “Se ∆z ∈ Lp então z ∈ W 2,p ”. Mostre que |w̃| ∈ W 2,s(p,n) (Ω) em que
s(p, n) é um expoente adequado.
l) Como é que tentaria acabar a demonstração?

52
Capı́tulo 8

A equação do calor

8.1 O núcleo de Gauss


8.2 Princı́pio de Máximo

53
Capı́tulo 8. A equação do calor

54
Capı́tulo 9

A equação das ondas

9.1 O problema de Cauchy


9.2 O método das médias
9.3 O método de descida

55
Capı́tulo 9. A equação das ondas

56
Apêndice A

Mecânica dos Meios Contı́nuos

Neste apêndice de carácter introdutório pretende-se dar uma panorâmica, necessariamente breve e
incompleta, dos fundamentos da Mecânica dos Meios Contı́nuos como fonte essencial de exemplos
e problemas no estudo de equações diferenciais parciais.

A.1 Formulação dos modelos


A.1.1 Cinemática
Seja Ω0 ⊂ Rn , (n = 1, 2 ou 3) um aberto. Ω0 será a configuração de referência de um corpo.
A evolução do corpo ao longo do tempo é descrita por uma aplicação x : I × Ω 0 → Rn onde o
intervalo I ⊂ R representa o intervalo de tempo que estamos a considerar para o movimento. O
corpo ocupará no instante t a configuração x(t, Ω0 ) ≡ Ωt . Para a notação ser coerente supômos
0 ∈ I, x(0, p) = p para todo o p ∈ Ω0 1 .
Será conveniente impôr alguma regularidade a x. Por exemplo a não interpenetração da
matéria sugere que as aplicações x(·, t) sejam homeomorfismos para cada t ∈ I. De facto seremos
muito mais restritivos supondo que são difeomorfismos de classe C k com k conveniente. Tal não
impedirá que em problemas especı́ficos, tal como o estudo de cavitação, estas hipóteses se mostrem
totalmente inadequadas.

x (t ; ⋅ )

p
x (t ; p)
Ωt
Ω0

Figura A.1: Cinemática.

As coordenadas p dizem-se coordenadas materiais ou lagrangianas e as coordenadas x =


x(t, p) dizem-se coordenadas espaciais ou eulerianas. Em particular cada ponto p ∈ Ω diz-se
uma partı́cula e x(·, p) dir-se-á a sua trajectória. Dada uma grandeza g descrita em coordenadas
materiais a sua descrição em coordenadas espaciais2 far-se-á através de

g(t, x(t, p)) = g(t, p)


1 Claro que se pode supôr que a configuração de referência é distinta de qualquer configuração do corpo e esse

ponto de vista é adoptado por vários autores. No presente contexto não há vantagem especial em fazê-lo.
2 Usar-se-á a, b, c, . . . , α, . . . para representações de grandezas em coordenadas materiais e a, b, c, . . . , α, . . . para

as respectivas representações em coordenadas espaciais.

57
APÊNDICE A. MECÂNICA DOS MEIOS CONTÍNUOS

o que é possı́vel graças a supormos que as aplicações x(t, ·) são difeomorfismos.


Definem-se os campos de velocidade e aceleração em coordenadas materiais através de
∂x
v(t, p) = (t, p)
∂t
∂v
a(t, p) = (t, p).
∂t
Claro que

v(t, x(t, p)) = v(t, p)


a(t, x(t, p)) = a(t, p).

Note-se que
∂v
a(t, p) = (t, p)
∂t
n
∂v X ∂v ∂xi
= (t, x(t, p)) + (t, x(t, p)) (t, p)
∂t i=1
∂xi ∂t
n
∂v X ∂v
= (t, x(t, p)) + (t, x(t, p))v i (t, p)
∂t i=1
∂xi

em que v = (vi )1≤i≤n , etc. . Em coordenadas espaciais


n
∂v X ∂v
a(t, x) = + vi .
∂t i=1 ∂xi

A.1.2 Massa, Força, Momento Linear e Momento Angular


Consideram-se definidos campos

ρ : R × Ω → [0, ∞[
f : R × Ω → Rn
τ : R × Ω × S n−1 → Rn

correspondendo ρ à densidade de massa, f à densidade de forças em volume e τ à densidade


de forças superficiais. Todos estes campos supõem-se pelo menos C 1 nos seus domı́nios. Estas
grandezas, de acordo com a convenção que foi introduzida implicitamente atrás e que daqui
em diante será utilizada sem mais comentários, serão designadas em coordenadas espaciais por
ρ, f, τ , designando ρ a densidade, f uma densidade de força em volume e τ uma densidade de
força superficial. Note-se que S n−1 = ∂B1n (0) com B1n (0) a bola unitária em Rn . Portanto
τ (t, x, ν) é interpretado como uma força superficial actuando no ponto x no instante t sobre uma
hipersuperfı́cie cuja normal em x é ν.
Juntamos ao modelo as seguintes leis de conservação:
• a lei de conservação de massa
d
Z
ρ dx = 0;
dt ωt

• a equação de movimento ou lei da conservação do momento linear


d
Z Z Z
ρv dx = ρf dx + τ (t, x, ν) dS;
dt ωt ωt ∂ωt

58
A.1. Formulação dos modelos

• a lei da conservação do momento angular

d
Z Z Z
ρ x ∧ v dx = ρ x ∧ f dx + x ∧ τ dS
dt ωt ωt ∂ωt

em que ∧ designa produto externo, ν é a normal a ∂ωt onde aquela estiver definida, sendo
ωt = x(t, ω) com ω ⊂ Ω um qualquer aberto com fronteira seccionalmente regular.

Exercı́cio A.1. Prove que:

a) as formas local e diferencial da lei da da conservação da massa, i.e., ρ satisfaz

 −1
∂x ∂ρ
ρ(t, p) = ρ0 (p) det , + divx (ρv) = 0
∂p ∂t

para uma certa densidade ρ0 ;

b) para toda a função g ∈ C 1 , g : R × Ω → R temos

d ∂g
Z Z
g(t, x) dx = + divx (g(t, x)v(t, x)) dx
dt ωt ωt ∂t

c) τ (t, x, ·) é a restrição a S n−1 duma aplicação linear em Rn .

d) para cada t e cada x a matriz T (t, x) representando τ (t, x, ·) é simétrica.

Exercı́cio A.2. Provou no problema anterior que

τ (t, x, ν) = T (t, x)(ν)

para todo o ν ∈ S n−1 em que os T (t, x)(·) são aplicações lineares e designam-se por tensor das
tensões. Para um fluido perfeito

T (t, x) = −p(t, x) Id

com p uma função escalar (pressão). Interprete o modelo formulado até ao momento de maneira
a obter o familiar princı́pio de Arquimedes para um fluido perfeito em repouso.

59
APÊNDICE A. MECÂNICA DOS MEIOS CONTÍNUOS

A.1.3 Equações de Navier-Stokes


Let

A.2 Equações de Cauchy-Riemann


Let

A.3 Equações de Euler-Lagrange


A.4 Electromagnetismo
A.5 Equações de Hamilton-Jacobi
A completar.

A.6 Exercı́cios
s

60
Apêndice B

Convolução e regularização

B.1 Sucessões de molificadores


O exercı́cio seguinte será o ponto de partida para estabelecer uma ferramenta elementar mas
indispensável para o estudo das equações diferenciais parciais.

Exercı́cio B.1. Construa uma função ϕ : R → R de classe C ∞ , com suporte compacto contido
em [−1, 1], verificando ϕ ≥ 0, ϕ(x) = ϕ(−x) para todo x ∈ R e ϕ ≡ 1 numa vizinhança de 0.

A classe das funções C ∞ de suporte compacto num aberto Ω ⊂ Rn é abreviada por Cc∞ (Ω)
e tais funções designam-se por funções teste1 . É óbvio que se definirmos ρ : Rn → R via

ϕ(|x|)
ρ(x) =
c
em que c > 0 é tal que Rn ρ = 1 e ϕ é a função do exercı́cio anterior então ρ ∈ Cc∞ (Rn ).
R

Defina-se também para  > 0


1 x
ρ (x) = n ρ .
 
Ora ρ dx define uma probabilidade para cada  > 0. Se f ∈ L1loc (Rn ) cada função f : Rn → R
definida por Z
f (y) ≡ f (y − x)ρ (x) dx (B.1)
Rn

é obtida tomando uma média ponderada dos valores de f numa vizinhança do ponto y.
O integral usado em (B.1) é um caso particular dum integral de convolução. Dadas duas
funções mensuráveis h, g : Rn → R define-se a sua convolução (ou produto de convolução), g ∗ h,
via Z
g ∗ h(y) = g(y − x)h(x) dx
Rn

sempre que o integral do segundo membro existir e fôr finito para quase todo o y ∈ R n . Em
particular tal acontece se g, h ∈ L1 (Rn ) sendo nesse caso g ∗ h ∈ L1 (Rn ).

Exercı́cio B.2. Verifique que se g, h ∈ L1 (Rn ) então

a) g ∗ h está definida quase por toda a parte em Rn .

b) kg ∗ hkL1 = khkL1 kgkL1 .

c) g ∗ h = h ∗ g ∈ L1 (Rn ).
1 A notação C ∞ (Ω) é por vezes utilizada para o mesmo fim. Reservá-la-emos para as funções C ∞ com limite
0
0 no infinito.

61
Apêndice B. Convolução e regularização

Facilmente se prova que as funções f são de classe C ∞ . Por esse motivo, a famı́lia (f )>0
definida por (B.1) designa-se por famı́lia de regularizadas de f através da famı́lia de molificadores
(ρ )>0 . Vamos estabelecer alguns resultados que serão do seguinte tipo: f → f no sentido do
espaço normado a que pertencer f . De forma precisa temos, por exemplo,
Proposição B.1.1. Seja f ∈ L1 (Rn ). Então f → f em L1 (Rn ).
Demonstração. Do critério de Tonelli-Hobson e do teorema de Fubini segue
Z Z Z
|f (x) − f (x)| dx = ρ (y)(f (x) − f (x − y)) dy dx
Rn Rn Rn
Z Z
≤ ρ (y)|f (x) − f (x − y)| dx dy
n n
ZR ZR
= ρ (y)|f (x) − f (x − y)| dy dx.
Rn Rn

Além disso o integral precedente pode escrever-se como


Z Z 
ρ(y) |f (x) − f (x − y)| dx dy
Rn Rn

aonde o integral mais interior converge


R para 0 quando  → R0 pelo teorema da convergência
dominada. Graças à estimativa Rn |f (x) − f (x − y)| dy ≤ 2 Rn |f | uma segunda aplicação do
teorema da convergência dominada permite estabelecer o resultado. 
Os resultados análogos para Lp , 1 < p < ∞, necessitam de um lema preliminar cujo interesse,
para além deste contexto, é de salientar. Fazemos notar que uma função ϕ : S ⊂ E → R, em
que S é convexo e E designa um espaço vectorial real, diz-se convexa se para todo o x, y ∈ E e
todo o t ∈ [0, 1] temos ϕ(tx + (1 − t)y) ≤ tϕ(x) + (1 − t)ϕ(y).
Lema B.1.2 (Desigualdade de Jensen). Sejam ϕ : ]a, b[ → R uma função convexa, µ uma
probabilidade num espaço com medida X, f ∈ L1 (X, µ) e a < f (x) < b para quase todo o x ∈ X.
Então Z  Z
ϕ f (x) dµ(x) ≤ ϕ(f (x)) dµ(x).
X X

Exercı́cio B.3. Demonstre a desigualdade de Jensen.


Proposição B.1.3. Seja f ∈ Lp (Rn ), 1 < p < ∞. Então f → f em Lp (Rn ).
Demonstração. A desigualdade de Jensen é aplicável com µ = ρ dx, ϕ(λ) = λp
Z Z p
kf − f kpLp = ρ (y)(f (x) − f (x − y)) dy dx
Rn Rn
Z Z
≤ ρ (y)|f (x) − f (x − y)|p dy dx
Rn Rn

e podemos prosseguir como na Proposição B.1.1. 


Note-se que para p = ∞ o resultado anterior é falso. No entanto temos
Proposição B.1.4. Seja f ∈ C 0 (Rn ). Então f → f uniformemente em cada compacto de Rn .
Demonstração. Seja K um compacto de Rn , e x ∈ K. Temos
Z
|f (x) − f (x)| = (f (x − y) − f (x))ρ (y) dy ≤ sup |f (x − y) − f (x)|.
B (0) y∈B (0)

O resultado segue da continuidade uniforme de f numa vizinhança fechada de ordem 0 >  de


K, isto é, em K0 ≡ {x ∈ Rn : dist(x, K) ≤ 0 }. 

62
B.1. Sucessões de molificadores

Outra aplicação das mesmas ideias consiste no estabelecimento da existência de funções de


corte. Por exemplo

Proposição B.1.5. Seja E ⊂ Rn e χE a respectiva função caracterı́stica. Dado  > 0 existe


uma função η ≡ ηE, que é identicamente 1 em E, 0 no complementar da vizinhança de ordem
 de E, isto é η(x) = 0 se dist(x, E) > , e 0 ≤ η ≤ 1 em Rn .

Demonstração. Seja E/2 a vizinhança de ordem /2 de E, isto é,

E = {x ∈ Rn : dist(x, E) < /2}.

Como E/2 é aberto a respectiva função caracterı́stica, χE/2 , é localmente somável e pode
considerar-se, para 0 < δ < /2, a convolução ρδ ∗ χE/2 . 
Dos resultados anteriores segue com relativa facilidade o teorema de existência das partições
da unidade. As partições da unidade constituem uma ferramenta indispensável para a extensão
de resultados locais a resultados globais.

Teorema B.1.6 (Partições da unidade). Seja S ⊂ Rn e O = {Uα }α∈A uma cobertura


aberta de S. Existe uma famı́lia contável de funções reais definidas em R n com valores em [0, 1],
{ϕj }j∈N , tais que

i) para cada j ∈ N temos ϕj ∈ Cc∞ (Rn );

ii) para cada x ∈ S temos ∞


P
j=1 ϕj (x) = 1;

iii) para cada j ∈ N existe αj ∈ A tal que supp ϕj ⊂ Uα ;

iv) para cada x ∈ S existe uma vizinhança de x, Vx , que só intersecta um número finito de
suportes de funções ϕj .

Tal famı́lia de funções designa-se por uma partição da unidade localmente finita 2 subordinada à
cobertura O de S.

Demonstração. Começamos por observar que se η é uma função de corte relativa a S e {ϕ j }j∈N
é uma partição da unidade subordinada a uma cobertura aberta de S então {ηϕ j }j∈N continua
a ser uma partição da unidade subordinada à mesma cobertura. Outra observação elementar
consiste em verificar que se S 0 ⊃ S e O é uma cobertura aberta de S 0 então uma partição
da unidade relativa a S 0 e subordinada a uma cobertura aberta O é também uma partição da
unidade relativa a S e subordinada a O. Da segunda observação segue que podemos supor sem
perda de generalidade que S = ∪α∈A Uα e consequentemente que S é um aberto.
Suponhamos assim que S é um aberto e que o resultado se encontra demonstrado no caso em
que S é um compacto. Note-se que para compactos podemos supôr que a partição da unidade
está subordinada a uma subcobertura finita. Escrevemos S como uma união numerável de
compactos3 , isto é, S = ∪+∞
i=1 Ki em que cada Ki é compacto e está contido no interior de Ki+1 ,
0
Ki+1 . Convencionamos K0 = K−1 = ∅. Para cada i ∈ N seja ηi uma função de corte relativa a
0
Ki \ Ki−1 tal que supp ηi ⊂ Ki+1 \ Ki−2 . Seja {ϕij }j uma partição da unidade subordinada a
0
uma subcobertura finita de Ki+1 \ Ki−1 por O. Definimos

Pηi (x)ϕij (x)


(
se ϕij (x) 6= 0
ψij (x) = ij ηi (x)ϕij (x)

0 se ϕij (x) = 0

notando que a construção efectuada garante que a soma no denominador é finita e positiva para
cada x ∈ S. A famı́lia {ψij }ij é a partição da unidade desejada.
2A expressão localmente finita refere-se à propriedade iv.
3 Uma fórmula explı́cita para tais conjuntos Ki é Ki = {x ∈ S : |x| ≤ i, dist(x, ∂S) ≥ 1/i}.

63
Apêndice B. Convolução e regularização

Resta demonstrar o teorema para o caso em que S é compacto. Como já observámos podemos
supôr estar a lidar com uma cobertura finita. A ideia da demonstração neste caso baseia-se na
construção de uma outra cobertura de {Vα }α∈A tal que para cada α temos Vα b Uα . Para
demonstrar que tal é possı́vel suponha-se que escrevemos a cobertura original na forma

{Uα } ∪ {Uα : α ∈ A, α 6= α}

Se {Uα : α ∈ A, α 6= α} ainda fôr uma cobertura de S definimos Vα = ∅. Caso contrário notamos


que dist(∂Uα , S \ ∪α∈A,α6=α Uα ) > 0 pelo que podemos tomar Vα como sendo uma vizinhança
conveniente de S \ ∪α∈A,α6=α Uα . Continuando este argumento indutivamente, e notando que
estamos a lidar com uma subcobertura finita, verificamos que efectivamente podemos construir
uma tal cobertura {Vα }α∈A . Definimos então funções de corte φα relativas a Vα e com supp φα ⊂
Uα . A partição da unidade desejada será {ψα }α∈A em que

P φα (x)
(
se φα (x) 6= 0,
ψα (x) = β∈A φβ (x)

0 se φα (x) = 0.

64
Apêndice C

Problemas Adicionais

Exercı́cio C.1. Considere o problema de Cauchy


 2 2
 ∂∂tu2 − (x2 + 1) ∂∂xu2 = x + t2 ,
u(x, 0) = x + 1,
 ∂u 2
∂t (x, 0) = x − 1.

a) Justifique que existe uma vizinhança da origem tal que a solução u do problema existe e é
única nessa vizinhança.

b) Determine um polinómio de segundo grau p em x e t tal que u − p = o(x2 + t2 ).

Exercı́cio C.2. Seja Ω ⊂ Rn um aberto, u ∈ L1loc (Ω), e K um conjunto aberto convexo tal que
K ⊂ Ω. Convenciona-se que {ei }1≤i≤n designa a base ortonormal usual de Rn .

a) Justifique que se existe i tal que para todo o h verificando |h| ≤ ρ temos
Z
(u(x + hei ) − u(x))ϕ(x) dx = 0

para todo o ϕ ∈ Cc∞ (K) então u é só função de x1 , . . . , xi−1 , xi+1 , . . . , xn em quase todo o
K.

b) Mostre que a conclusão anterior é verdadeira se para todo o ϕ ∈ C c∞ (K) temos

∂ϕ
Z
u(x) dx = 0.
Ω ∂xi

c) Suponha agora que v ∈ L1loc (Ω) é tal que a aplicação


Z

Cc (K) 3 ϕ 7→ vDϕ dx ∈ R

tem como contradomı́nio um subespaço de dimensão k de Rn . Generalize o resultado de


(b) a esta situação.

d) Como deverá adaptar o resultado de (c) ao caso em que K não é necessariamente convexo?

Exercı́cio C.3. Seja Ω, um aberto limitado de Rn , f : Ω → R uma função tal que f (x) ≥ 0
para todo o x ∈ Ω, e u ∈ C 2 (Ω) ∩ C 0 (Ω) tal que ∆u = f em Ω.

a) Prove que se M = máxx∈∂Ω {u(x)} então u ≤ M em Ω. [Sugestão: Comece por considerar


f > 0. Para o caso geral considere v (x) = u(x) + |x|2 .]

65
Apêndice C. Problemas Adicionais

b) Prove que a solução de 


∆u = f em Ω
u=g em ∂Ω

se existir é única em C 2 (Ω) ∩ C 0 (Ω).

Exercı́cio C.4 (Equação bi-harmónica). Considere o problema

 ∆∆u = f, em Ω ⊂ Rn

u = 0, sobre ∂Ω
 ∂u
∂ν = 0, sobre ∂Ω

em que Ω é limitado e tem fronteira regular (no sentido de aplicabilidade do teorema de Gauss).

a) Demonstre a relação Z Z
(∆u)2 dx = uf dx
Ω Ω

válida para u ∈ C 4 (Ω).

b) Prove a unicidade de solução do problema em C 4 (Ω).

c) Formule o que significa Λ : Rn → R, Λ ∈ L1loc (Rn ), ser uma solução fundamental da


equação bi-harmónica.

d) Determine uma solução fundamental1 da equação bi-harmónica quando n = 2.

Exercı́cio C.5. Considere a equação diferencial parcial linear de quarta ordem


 2  2 
∂ 2 ∂ 2
Lu ≡ − c 1 ∆ − c 2 ∆ u(x, t) = 0 (C.1)
∂t2 ∂t2

em que c1 , c2 são constantes não nulas e u : R3 × R → R. Esta equação é conhecida por equação
das ondas elásticas.
Define-se
1
Z
M (u)(x, r, t) = u(y, t) dS(y).
ω2 r2 ∂Br (x)

a) Verifique que para u suficientemente regular M (u)(x, ·, ·) satisfaz a equação diferencial


parcial  2 2
 2 2

∂ 2 ∂ ∂ 2 ∂
Lu ≡ − c 1 − c 2 rM (u)(x, r, t) = 0.
∂t2 ∂r2 ∂t2 ∂r2

b) Use (a) para resolver o problema de valores iniciais geral clássico para a equação (C.1).

Exercı́cio C.6 (Equação de Burger). Considere que v : R×]0, +∞[→ R é uma solução
positiva e regular da equação diferencial parcial

∂v ∂2v
=µ 2
∂t ∂x
para t > 0, sendo µ um parâmetro positivo.
1 Recorda-se que se n = 2 uma solução fundamental da equação de Laplace é dada por
1
Γ(x) = log |x|.

66
a) Verifique que w definida por w ≡ − 2µ ∂v
v ∂x é uma solução da equação de Burger

∂w ∂w ∂2w
+w =µ 2 (C.2)
∂t ∂x ∂x

b) Mostre que, ao contrário do que aconteceria se µ = 0, existem funções não nulas ϕ ∈ C c2 (R)
tais que existe uma solução regular de (C.2) satisfazendo w(x, 0) = ϕ(x) e tal que

lim w(x, t) = 0.
t→∞

Exercı́cio C.7. Seja S um semi-espaço em R2 e u uma função harmónica em C 0 (S). Prove que
se u é limitada então
sup u ≤ sup u.
S ∂S
n+1
Exercı́cio C.8. Dada uma função w : R → R “suficientemente regular”, e com suporte
contido em Rn × [0, +∞[, considere o problema
 2
 ∂∂t2u − ∆u = w(x, t), para t ∈ R e x ∈ Rn ,
u(x, 0) = 0, para x ∈ Rn , (C.3)
 ∂u n
∂t (x, 0) = 0, para x ∈ R .

a) Verifique que a solução u do problema (C.3) é dada por


Z t
u(x, t) = v(x, t − s; s) ds (C.4)
0

em que v(·, ·; s) com s ∈ R é a solução de


 2
 ∂∂t2v − ∆v = 0, para t ∈ R e x ∈ Rn ,
v(x, 0; s) = 0, para x ∈ Rn ,
 ∂v
∂t (x, 0; s) = w(x, s), para x ∈ Rn .

b) Determine para cada (x0 , t0 ) a menor região de Rn+1 em que w influencia o valor de
u(x0 , t0 ).
c) No caso da dimensão espacial ser n = 1, explicite o segundo membro de (C.4) em termos
de w e dê-lhe a forma w ∗ E com E uma certa função em L∞ (R2 ) e ∗ a convolução em R2 .
d) Use (c) para “adivinhar” uma solução fundamental da equação das ondas quando n = 1 e
verifique que o seu palpite está correcto.
Exercı́cio C.9 (Equações de primeira ordem). Considere a equação diferencial parcial real
de primeira ordem
∂u ∂u
+u =1 (C.5)
∂x ∂y
em que u = u(x, y). Determine para que valores de k a condição inicial u(x, x) = k implica a
existência e unicidade de solução de (C.5) em C 1 (U ) com U uma vizinhança da recta x = y.
Determine u nesses casos. Comente o que se passa para o(s) outro(s) valores de k.
Exercı́cio C.10 (Soluções fundamentais). a) Seja f ∈ C ∞ (Rn ) \ {0}, com n ≥ 3, e tal
2−n 1−n
que f (h) = O(|h| ), Df (h) = O(|h| ), quando h → 0. Justifique que para toda a
função ϕ ∈ Cc∞ (Rn ) temos
∂ϕ ∂f
Z Z
f dx = − ϕ dx.
R n ∂x i R n ∂x i

67
Apêndice C. Problemas Adicionais

b) Diga o que significa uma função g ∈ L1loc ser uma solução fundamental2 do operador div.
c) A partir duma solução fundamental do laplaciano, ∆, determine uma solução fundamental
do operador div.
Exercı́cio C.11. Sejam T : Rn → Rn uma aplicação linear invertı́vel, e L um operador diferen-
cial linear de segunda ordem com coeficientes constantes. Designe por LT o operador L após a
mudança de coordenadas y = T x. Relacione as soluções fundamentais de L e L T . [Admita se
desejar que as soluções fundamentais de T estão em L1loc .]
Exercı́cio C.12 (Um princı́pio de reflexão). Seja Ω ⊂ Rn , n ≥ 2, um conjunto aberto.
Convenciona-se escrever, para todo o a ∈ Rn , a = (â, an ) com â ∈ Rn−1 , an ∈ R. Supõe-
se que Ω é tal que se (x̂, xn ) ∈ Ω então (x̂, −xn ) ∈ Ω e que existe (x̂, 0) ∈ Ω. Define-se
Ω+ = {(x̂, xn ) ∈ Ω : xn > 0}. Supõe-se que u ∈ C 1 (Ω+ ) ∩ C 2 (Ω+ ) verifica

∆u = 0, em Ω+ ,

∂u
∂ν = 0, sobre ∂Ω+ \ ∂Ω,

em que ν é a normal exterior a ∂Ω+ \ ∂Ω, isto é, ν = en .


a) Verifique que v : Ω → R definida por

u(x̂, xn ), se xn ≥ 0,
v(x̂, xn ) =
u(x̂, −xn ), se xn ≤ 0,

é harmónica com a possı́vel excepção dos pontos de Ω sobre o hiperplano x n = 0.


b) Seja (x̂0 , 0) ∈ ∂Ω+ \ ∂Ω, e B uma bola centrada em (x̂0 , 0) e contida em Ω. Exprima, em
termos do núcleo de Poisson3 e dos valores de v sobre ∂B, a solução do problema

∆w = 0, em B
w = v, sobre ∂B

c) Mostre que w(x̂, xn ) = w(x̂, −xn ) para todo o (x̂, xn ) ∈ B.


d) Seja z + = w − v definida em Ω+ ∩ B. Mostre que se z + 6= 0 então existe (x̂1 , 0) ∈ B tal
que
∂z + 1
(x̂ , 0) 6= 0.
∂xn
e) Justifique que (d) contradiz (c) e consequentemente w = v em B e portanto v é harmónica
em Ω.
Exercı́cio C.13 (Unicidade em problemas eliptı́cos). Seja Ω ⊂ Rn um aberto limitado e
L um operador diferencial de segunda ordem actuando em funções de C 2 (Ω) através de
n
X ∂2u
Lu = aij (x)
i,j=1
∂xi ∂xj

em que os coeficientes aij são uniformemente limitados em Ω e satisfazem para um certo λ > 0
X
aij (x)ηi ηj ≥ λ|η|2
i,j=1

para todo o η ∈ Rn e todo o x ∈ Ω.


2 Se n ≥ 3 uma solução fundamental para o Laplaciano, ∆, é dada por Γ(x) = 1
ωn (2−n)
|x|2−n .
3O 1−|x|2
núcleo de Poisson é dado por K(x, y) = ωn |x−y|n
no caso da bola unitária B1 (0).

68
a) Suponha Ω conexo. Seja ∂Ω = S1 ∪ S2 com S1 não vazio e suponha-se que para cada
ponto de S2 existe uma bola contida em Ω e tangente a ∂Ω nesse ponto. Suponha-se que
u ∈ C 2 (Ω) ∩ C 1 (Ω ∪ S2 ) ∩ C 0 (Ω) satisfaz

 Lu = 0, em Ω,
u = 0, em S1 ,
 P
βi Di u = 0, em S2 ,

em que o vector β(x) = (βi )i=1,...,n tem uma componente normal relativamente a ∂Ω não
nula em cada ponto de S2 . Mostre que u = 0.

b) Suponha-se que para cada ponto de ∂Ω existe uma bola contida em Ω e tangente a ∂Ω
nesse ponto. Suponha-se que u ∈ C 2 (Ω) ∩ C 1 (Ω) satisfaz

Lu = 0, P em Ω,
α(x)u + βi Di u = 0, em ∂Ω,

em que o vector β(x) = (βi )i=1,...,n e o campo escalar α satisfazem α(β · ν) > 0 com ν a
normal exterior a ∂Ω. Mostre que u = 0.

Exercı́cio C.14 (Funções harmónicas). Considere o problema



∆u = 0, em Ω,
u = ϕ, sobre ∂Ω,

em que Ω ⊂ R2 está definido por

Ω = {(x, y) ∈ R2 : (x − 1)2 + (y − 1)2 > 1, (x + 1)2 + (y + 1)2 > 1,


(x − 1)2 + (y + 1)2 > 1, (x + 1)2 + (y − 1)2 > 1, |x| < 1, |y| < 1}

e ϕ é uma função contı́nua em ∂Ω.

a) Decida se pode garantir a existência de solução deste problema. Justifique.

b) Estime, tão bem quanto puder, um intervalo I ⊂ R tal que possa garantir u(0, 0) ∈ I.
Justifique.

c) Prove que

u(x, y) = u(−y, x) = u(−x, y) = u(−x, −y) = u(−x, y) =


= u(y, x) = u(x, −y) = u(−y, −x)

para todo o (x, y) ∈ Ω.

d) Proponha uma generalização do resultado anterior para funções harmónicas num aberto
de Rn verificando certas propriedades de simetria com valores na fronteira invariantes
relativamente a essa simetria.

e) Prove as afirmações sobre invariância de ∆ que eventualmente usou em (c) e (d).

Exercı́cio C.15. Considere o problema de valore iniciais para a equação de Schrödinger linear
para funções u : R × Rn → C

∂u
i − ∆u = 0, u(0, x) = u0 (x).
∂t
Obtenha as estimativas

69
Apêndice C. Problemas Adicionais

a)
ku(·, t)k2 = ku0 k2 .
b)
ku(·, t)k∞ ≤ (4πt)−n/2 ku0 k1 .

Exercı́cio C.16 (Desigualdade de Harnack). Considere uma função g : B1 (0) ⊂ Rn → R


harmónica positiva. Mostre que
1 − |x| 1 + |x|
n−1
g(0) ≤ g(x) ≤ g(0)
(1 + |x|) (1 − |x|)n−1
para todo o x ∈ B1 (0).
Exercı́cio C.17 (Princı́pios de máximo). Seja Ω um aberto limitado de Rn . Considere uma
função contı́nua v : Ω → R tal que:
Para todo o x0 ∈ Ω existe r = r(x0 ) < dist(x0 , ∂Ω) tal que
R
∂B (x )
v(x)dS(x)
v(x0 ) = R r 0 . (C.6)
∂Br (x0 )
dS(x)
Suponha que em Ω existe sempre solução do problema de Dirichlet para a equação de Laplace
com valores na fronteira contı́nuos.
a) Prove que v satisfaz o princı́pio de máximo fraco.
b) Prove que v é harmónica.
c) Mostre que todas as funções contı́nuas no fecho dum aberto limitado de R 2 , com fronteira
localmente lipschitziana, que verifiquem a condição (C.6) são harmónicas.
Exercı́cio C.18 (Métodos de energia). Considere a equação de Hopf
∂u ∂u
+u =0
∂t ∂x
e a equação de Burger
∂u ∂u ∂2u
+u =  2.
∂t ∂x ∂x
em que  > 0.
a) Mostre que uma solução regular u da equação de Hopf com suporte limitado na direcção x
verifica

Z
u2 (t, x) dx = 0.
∂t R
b) Mostre que uma solução regular u da equação de Burger de decrescimento rápido na direc-
ção x verifica
Z +∞  2
∂ ∂u
Z
u2 (t, x) dx = − dx ≤ 0.
∂t R −∞ ∂x
Exercı́cio C.19 (Equação do calor, método da energia e unicidade). Seja U ⊂ R n um
domı́nio regular, T > 0 e considere o problema que consiste em determinar v ∈ C 2 (]0, T [×U ) ∩
C 0 (]0, T ] × U ) tal que

∂v
 ∂t − ∆v = f
 em ]0, T [×U ,
v(T, x) = ϕ(x) para x ∈ U ,

v(t, x) = g(t, x) para (t, x) ∈ [0, T ] × ∂U .

Pretende-se estabelecer unicidade de solução para este problema.


Seja w a diferença entre duas soluções deste problema e considere E(t) = U w2 (t, x) dx.
R

70
a) Mostre que w satisfaz
dE
Z
= −2 |∇w|2 dx ≤ 0.
dt U

b) Mostre que basta demonstrar o resultado supondo E(T ) = 0 e E(t) > 0 para 0 ≤ t ≤ T .
c) Mostre que w satisfaz
d2 E
Z
=4 (∆w)2 dx ≥ 0.
dt2 U

2
d) Mostre que E satisfaz a desigualdade diferencial ( dE 2 d E
dt ) ≤ E(t) dt2 .

e) Mostre que F (t) ≡ log E(t) é uma função convexa.


f) Conclua que w é identicamente nula.

71
Apêndice C. Problemas Adicionais

72
Bibliografia

Bibliografia

[1] V. I. Arnold. Chapitres Supplémentaires de la Théorie des Équations Différentielles Ordi-


naires, capı́tulo Équations aux dérivées partielles du premier ordre. Mir, Moscow, 1985.
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73
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[33] H. F. Weinberger. Introduction to Partial Differential Equations. Blaisdell. 3.7
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[35] Hans F. Weinberger e M. H. Protter. Maximum Principles in Differential Equations.
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74
Lista de Figuras

Lista de Figuras

2.1 Problema de Cauchy para EDPs de 1a ordem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5


2.2 Choque e blow-up de vt + vx v = 0 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8

3.1 Função de Green num semi-espaço . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19


3.2 Função de Green numa bola . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20
3.3 As estimativas na demonstração do teorema de Liouville. . . . . . . . . . . . . . 25
3.4 Levantamento harmónico. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27

6.1 O lema do ponto fronteiro de Hopf. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45

7.1 Projecção num convexo fechado e não vazio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48

A.1 Cinemática. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 57

75
Índice remissivo

alternativa de Fredholm, 40 hipersuperfı́cie


não caracterı́stica, 5, 11
barreira, 28
inversão, 20
caracterı́sticas, 4
caracterı́stica, 8, 13 lagrangianas, 57
Cauchy-Kowalewska, 39 leis de conservação, 58
condição de Cauchy, 3 lema de Weyl, 33
condição do cone exterior, 29 levantamento harmónico, 27
conservação de massa, 58 localmente finita, 63
conservação do momento angular, 59
conservação do momento linear, 58 método de Perron, 26
convolução, 61 medida de Haar, 16
coordenadas
espaciais, 6 núcleo de Poisson, 20
eulerianas, 6 não-caracterı́stica, 9
lagrangianas, 6
materiais, 6 operadores uniformemente elı́pticos, 43
coordenadas espaciais, 57 ou produto de convolução, 61
coordenadas materiais, 57
parte principal, 39
desigualdade de Jensen, 62 partições da unidade, 63
desigualdades de Harnack, 25 Picard-Lindelöf, 39
ponto regular, 28
elı́ptico, 40 potencial de Newton, 30
equação de movimento, 58 princı́pio de máximo, 22, 43
equação forte, 22
diferencial fraco, 23
parcial, 1 problema
linear, 1 de Cauchy, 3
quase-linear, 1 de Dirichlet, 15, 21
eulerianas, 57 de Neumann, 15
de valores na fronteira, 15
fórmula de Green, 17 problema de Dirichlet para a equação de Pois-
fórmula integral de Poisson, 20 son, 30
forma bilinear problema de Neumann, 15, 16
contı́nua, 49 problema de valores iniciais, 15
função convexa, 62 projecções caracterı́sticos, 4
função de Green, 19
função Hölderiana, 31 sı́mbolo, 39
funções de corte, 63 sistema
funções harmónicas, 16 caracterı́stico, 6, 7, 9, 11, 13
funções Lipschitzianas, 31 caracterı́stico, 4

76
Índice remissivo

caracterıstico, 11
de equações diferenciais parciais, 1
determinado, 1
linear, 1
quase-linear, 1
solução de Perron, 28
soluções fundamentais radiais n-dimensionais da
equação de Laplace, 18
soluções
fracas, 8
subfunções, 26
subharmónicas, 22
superfunções, 26
superharmónicas, 22

teorema
de Cauchy-Kowalewska, 40
teorema de unicidade de Holmgren, 40
teorema do valor médio, 21
traços caracterı́sticos, 4
transformação de Kelvin, 20

variedade caracterı́stica, 39
vectores caracterı́sticos, 39

77

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