Equações Diferenciais Parciais: Introdução
Equações Diferenciais Parciais: Introdução
3 de Dezembro de 2003
2
Índice
Índice
1 Introdução 1
1.1 Nomenclatura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1
1.2 Objectivos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1
3 O Laplaciano 15
3.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15
3.2 Soluções radiais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16
3.3 Fórmula de Green e Solução Fundamental . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17
3.4 Função de Green — casos elementares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18
3.5 Núcleo de Poisson — solução do problema de Dirichlet numa bola . . . . . . . . 21
3.6 Teorema do valor médio para funções harmónicas . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21
3.7 O princı́pio de máximo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22
3.8 Ainda o teorema do valor médio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 24
3.9 O método de Perron . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26
3.10 A equação de Poisson . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30
3.11 Soluções fracas da equação de Laplace . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33
3.12 Exercı́cios suplementares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34
3
Índice
7 Métodos Variacionais 47
7.1 Os Teoremas de Stampacchia e Lax-Milgram . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47
7.2 Introdução aos espaços de Sobolev . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50
7.2.1 Definições e propriedades elementares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50
7.2.2 Os teoremas de Sobolev e Morrey . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50
7.2.3 O teorema de Rellich . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50
7.2.4 Outros resultados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50
7.3 Aplicações a problemas elı́pticos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 51
7.3.1 O método do quociente de Nirenberg . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 51
8 A equação do calor 53
8.1 O núcleo de Gauss . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53
8.2 Princı́pio de Máximo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53
B Convolução e regularização 61
B.1 Sucessões de molificadores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61
C Problemas Adicionais 65
Bibliografia 73
Lista de Figuras 75
Índice remissivo 76
4
Índice
Nota
As páginas seguintes são uma versão mais cuidada das minhas notas para dois cursos introdutórios
sobre equações diferenciais parciais leccionados a partir de 1989/90 no Instituto Superior Técnico.
Estes cursos têm a duração de um semestre e têm como objectivos por um lado a introdução
do aluno aos resultados clássicos sobre equações diferenciais parciais e por outro a ligação com
métodos e problemas contemporâneos. Um dos cursos é destinado aos alunos do quarto ou quinto
ano do curso de licenciatura em Matemática Aplicada e o outro aos alunos do primeiro ano do
Mestrado em Matemática Aplicada.
É justo referir aqui que fui influenciado por todos os professores que me ensinaram Matemá-
tica, em particular por aqueles que me ensinaram Equações Diferenciais por escrito e ao vivo.
Destes últimos devo salientar o Prof. Manuel Ricou que foi quem leccionou pela primeira vez
este curso. No entanto o ordenamento do material, a ênfase relativa dada aos diversos tópicos
e todos os erros matemáticos, linguı́sticos e tipográficos são da minha inteira responsabilidade.
Desde já agradeço a quem mos comunicar.
5
Índice
6
Capı́tulo 1
Introdução
1.1 Nomenclatura
A expressão
F (x, u, (Dα u)1≤|α|≤l ) = 0 (1.1)
em que1 F : Rn ×Rm ×Rk → RN é uma aplicação dada e k ≡ k(l, m, n, N ) designa-se por sistema
de N equações diferenciais parciais em m incógnitas uj , 1 ≤ j ≤ m em que u = (uj )1≤j≤m . Em
geral os únicos sistemas que consideraremos serão determinados, i.e. m = N . Se m = 1 dizemos
que temos uma equação diferencial parcial. Se, fixado um qualquer x, o funcional definido por
u 7→ F (x, u(x), (Dα u(x))1≤|α|≤l ) é afim diz-se que a equação ou sistema é linear. Finalmente se
X
F (x, u, (Dα u)1≤|α|≤l ) = aα (x, (Dβ u)|β|<k )Dα u − b(x, (Dβ u)|β|<k )
|α|=k
1.2 Objectivos
A secção de texto anterior prima por ser, propositadamente, sintética. Dizer que uma equação
diferencial parcial é uma expressão do tipo (1.1) é algo que não tem significado matemático
preciso. O que é que de facto significa estudar uma equação diferencial parcial? Normalmente o
leitor deste texto já terá sido exposto ao estudo de equações diferenciais ordinárias e de algumas
equações diferenciais parciais2. Isto poderá ter levado a um conjunto de expectativas desajustadas
do que se irá encontrar a seguir. O que iremos de facto encontrar será, espero, um vislumbre de
resposta às seguintes questões:
• Caso a resposta à primeira pergunta seja não, existe um processo de classificação que reduza
este estudo a um número finito e pequeno de teorias especiais?
está definida num subconjunto de D com valores em E. Por outro lado a notação f : C ⊂ D → E significa que f
está definida em todo o subconjunto C de D com valores em E.
l
Claro que k(l, m, n) = nm( 1−n
1−n
).
2 Provavelmente já usou separação de variáveis e séries de funções para obter soluções de algumas equações
diferenciais parciais lineares de segunda ordem em domı́nios particulares. Isto não será pressuposto no texto.
1
Capı́tulo 1. Introdução
• O que é que as equações lineares têm de especial? Em que medida é que a teoria é mais
rica nesta situação?
• O que é um problema bem posto?
• Em que medida a Fı́sica-Matemática clássica influencia e é influenciada pelo estudo das
equações diferenciais parciais? Que soluções são interessantes deste ponto de vista?
• Há classes de equações diferenciais parciais cujo estudo possa beneficiar dos métodos de-
senvolvidos para equações diferenciais ordinárias?
A resposta a estas questões não vai ser fácil. Espero, pelo menos, que no final da leitura deste
texto se pecebam melhor as perguntas e a dificuldade em formular a sua resposta.
2
Capı́tulo 2
2.1 Introdução
Pretendem-se estudar equações da forma
com a ≡ (ai )1≤i≤n e b funções dadas. Procuraremos fixar uma solução considerando a condição
de Cauchy
u = u0 , em S, (2.3)
onde S é uma hipersuperfı́cie C 1 . O problema assim formulado designa-se por problema de
Cauchy. Note-se que podemos escrever a equação na forma
em que Dh designa derivada dirigida segundo o vector h. Isto é, conhecido o valor de u num
ponto x existe uma direcção, dependente de x e u(x), em que o “crescimento” de u é conhecido.
3
Capı́tulo 2. Equações reais de primeira ordem
Essa direcção é a do campo Ω 3 x 7→ a(x, u(x)). Uma primeira observação é que poderá não
existir solução do problema de Cauchy se existir um ponto de S em que a(x, u(x)) é tangente a
S. Esta e outas observações importantes podem ser feitas mesmo num exemplo muito simples.
Pode-se dizer que o método de resolução das equações quase-lineares de primeira ordem reduz-se
no essencial ao exemplo seguinte por “mudança de variáveis”.
∂u
Exemplo. Considere-se ∂x = 0 em R2 . Para toda a função g : R → R temos que u : R2 → R
definida por
u(x, y) = g(y)
será uma solução. Note-se por exemplo que se S for uma linha C 1 cuja tangente nunca seja
paralela ao eixo dos xx o problema de Cauchy correspondente terá uma e uma só solução numa
vizinhança de S. Por outro lado não existe por exemplo solução do problema de Cauchy se
fixarmos u(x, 0) = h(x) com h não constante. Se h for constante existirão soluções mas não se
verificará unicidade local. Note-se que a derivada dirigida de u está neste caso fixada na direcção
do eixo dos xx. N
Voltando à equação quase-linear geral vamos como primeiro passo da sua resolução tentar
determinar as linhas integrais do campo de direcções definido por (x, u) 7→ (a(x, u(x)), b(x, u(x)))
em Rn+1 . Para tal basta considerar o sistema de equações diferenciais ordinárias:
dX
= a(X(λ), U (λ))
dλ
dU
= b(X(λ), U (λ)).
dλ
Escolhemos condições iniciais correspondentes a fixar o valor de u sobre a hipersuperfı́cie S.
Supomos, se necessário usando cartas locais, que S é descrita por x = ϕ(s), s ∈ ω ⊂ R n−1 ,
ω aberto e que o valor de u em S é descrito por u = ψ(s). Consequentemente passamos a
considerar o problema de Cauchy para um sistema de equações diferenciais ordinárias, o sistema
caracterı́stico
∂X
= a(X(λ, s), U (λ, s)), X(0, s) = ϕ(s)
∂λ (2.4)
∂U
= b(X(λ, s), U (λ, s)), U (0, s) = ψ(s)
∂λ
Este sistema, se a e b forem suficientemente regulares, digamos C 1 , terá, de acordo com o teorema
fundamental de existência, unicidade e dependência contı́nua em relação a um parâmetro para
equações diferenciais ordinárias, uma solução única numa vizinhança de {0} × ω. Essa solução
será uma função de classe C 1 em (λ, s). As respectivas linhas integrais, i.e., as linhas descritas
em Rn+1 por λ 7→ (X(λ, s), U (λ, s)) para cada s são designadas por caracterı́sticas. As linhas
descritas em Rn por λ 7→ X(λ, s) para cada s são por vezes também designadas nalguma literatura
por caracterı́sticas mas nós optamos por utilizar para estas a designação de traços caracterı́sticos
ou projecções caracterı́sticos.
Para obtermos u em termos de x será natural tentar decidir se a aplicação
(λ, s) 7→ X(λ, s)
é um difeomorfismo. Para isso a ferramenta natural é o teorema da função inversa para garantir
esse facto numa vizinhança de um ponto ϕ(s) ∈ S. Tal estará garantido se
det ∂X ∂X
∂λ ∂s
(0, s) =
= det a(X(0, s), U (0, s)) ∂X
∂s (0, s)
∂ϕ
= det[ a(ϕ(s), ψ(s)) ∂s
] 6= 0.
Esta condição é exactamente a não tangência de S ao campo a(·, u(·)) no ponto ϕ(s). Diz-se que
uma hipersuperfı́cie verificando esta condição em todos os seus pontos é não-caracterı́stica.
4
2.2. Equações quase-lineares
característica
x2
traço característico
x1
Figura 2.1: O problema de Cauchy para equações diferenciais parciais quase-lineares reais de 1 a ordem.
em que S é uma hipersuperfı́cie C 1 não caracterı́stica e a, b, u0 são C 1 tem uma solução C 1 única
numa vizinhança de S.
Demonstração. Sejam u1 e u2 duas soluções de (2.5) numa vizinhança dum ponto de S. Fixe-se
k = 1 ou 2 e seja X uma solução de
∂X
= a(X(λ, s), uk (X(λ, s))).
∂λ
Seja V definida por
V (λ, s) = uk (X(λ, s)).
Temos então
n
∂V X ∂uk ∂Xi
=
∂λ i=1
∂xi ∂λ
n
X ∂uk
= ai (X(λ, s), uk (X(λ, s)))
i=1
∂xi
= b(X(λ, s), uk (X(λ, s)))
= b(X(λ, s), V (λ, s))
Assim tanto (X, U ) como (X, V ) são soluções do sistema (2.4) verificando as mesmas condições
iniciais. Daı́ que U = V . Note-se que esta conclusão é independente de k. Como X é um
difeomorfismo pode-se concluir que u1 = u2 . Estabelecemos assim unicidade da solução.
5
Capı́tulo 2. Equações reais de primeira ordem
Para demonstrar a existência de solução de (2.5) usamos o método sugerido antes do enunciado
do teorema. Consideramos uma solução (X, U ) do sistema caracterı́stico (2.4) e define-se u(x) =
U (θ(x)) em que θ é a aplicação inversa do difeomorfismo (λ, s) 7→ X(λ, s) numa vizinhança
conveniente dum ponto de S. As propriedades de regularidade de u seguem do que já foi exposto
tal como a satisfação das condições de Cauchy. Resta verificar que u é uma solução. Calculamos
então
n−1
∂u ∂U ∂λ X ∂U ∂sj
= +
∂xi ∂λ ∂xi j=1 ∂sj ∂xi
pelo que
n n
X ∂u X ∂u ∂Xi
ai (x, u(x)) =
i=1
∂xi i=1
∂x i ∂λ
n n−1
X ∂U ∂λ ∂X i
X ∂U ∂sj ∂Xi
= +
i=1
∂λ ∂x i ∂λ j=1
∂s j ∂x i ∂λ
∂U
=
∂λ
= b(x, u(x))
verificando que u é efectivamente uma solução de (2.5).
6
2.2. Equações quase-lineares
7
Capı́tulo 2. Equações reais de primeira ordem
PSfrag replacements
t
t vt + vvx = 0
Figura 2.2: A formação de um choque e blow-up em tempo finito para a equação de Burger v t + vx v = 0.
• se v0 não for crescente existirão s1 < s2 tais que v0 (s1 ) > v0 (s2 ) e consequentemente t > 0
tal que
tv0 (s1 ) + s1 = tv0 (s2 ) + s2
i.e., para t = (s2 − s1 )/(v0 (s1 ) − v0 (s2 )) as caracterı́sticas intersectar-se-ão, ou seja, uma
partı́cula ultrapassará outra; diz-se que ocorre um choque.
8
2.3. Caso geral
Mas então integrando por partes, ou usando uma das fórmulas de Green, obtemos
Z
∇ϕ(x) · F (u(x)) + ϕ(x)g(x) dx = 0. (2.8)
Ω
Note-se que (2.8) não envolve o cálculo de derivadas parciais de u ou F o que permite
Definição 2.2.2. Para F ∈ C 0 (R) diz-se que u ∈ L1loc (Ω) é uma solução fraca de (2.7) se para
toda a função ϕ ∈ Cc∞ (Ω) se verificar (2.8).
Mais geralmente o leitor familiar com a teoria das distribuições certamente recordará que a
definição anterior pode ser interpretada como definindo u ∈ L1loc como uma solução fraca de (2.7)
se a divergência no sentido das distribuições de F ◦ u for nula.
Exercı́cio 2.3. Considere uma solução fraca de uma equação diferencial parcial da forma
∂ ∂
f (u) + g(u) = 0.
∂x ∂y
F (x, u, p) = 0. (2.9)
Interpretamos esta equação como significando que, dados x e u temos uma restrição aos valores
de p. Por exemplo, sejam dados adicionalmente p1 , . . . , pn−1 . Poderemos tentar então resolver
(2.9) em ordem a pn . No caso quase-linear, desde que an (x, u) 6= 0, tal poderia ser feito3 . Dada a
não-linearidade da equação teremos em geral uma situação mais complicada. Poderá não-existir
solução, ou existir uma ou mais soluções. No entanto se supusermos que F ∈ C 1
F (x0 , u0 , p0 ) = 0 (2.10)
e que
∂F
(x0 , u0 , p0 ) 6= 0
∂pn
então podemos obter usando o teorema da função implı́cita que para uma certa função g ∈ C 1
9
Capı́tulo 2. Equações reais de primeira ordem
para (pi )1≤i≤n−1 numa vizinhança de ((p0 )i )1≤i≤n−1 . Mais geralmente, não dando um papel
privilegiado a nenhuma coordenada podemos supôr que “genericamente” se (2.10) for satisfeita
então devemos ter p = p(ξ) com ξ ∈ V ⊂ Rn−1 , V uma vizinhança de 0 e p(0) = p0 , i.e. temos
razão para supor que “genérica” e localmente os possı́veis valores de p definem uma variedade C 1
n − 1 dimensional.
Tentaremos agora determinar, à semelhança do que foi feito para a equação quase-linear, uma
direcção priveligiada segundo a qual a equação nos dê informação sobre a derivada dirigida de
u tanto quanto possı́vel “independentemente”4 de ξ ∈ V. Isto corresponde a procurar h tal que
para todo o j
∂ ∂p
(h · p) ≡ h · = 0.
∂ξj ∂ξj
Por outro lado devemos ter
F (x0 , u0 , p(ξ)) = 0
pelo que para cada j
∂F ∂p
· = 0,
∂p ∂ξj
o que sugere utilizar h = ∂F∂p . Consequentemente haverá alguma esperança de atingir os nossos
objectivos através do sistema de equações diferenciais ordinárias
dX ∂F
= (2.11)
dλ ∂p
dU ∂F
=p· . (2.12)
dλ ∂p
No caso quase-linear pode-se eliminar p dos segundos membros mas em geral precisamos de
equações suplementares que sejam satisfeitas por p. Suponha-se então que u é uma solução C 2
de (2.1). Derivando ambos os membros de (2.1) em ordem a xi obtém-se
n
∂F ∂F ∂u X ∂F ∂pj
+ + = 0.
∂xi ∂u ∂xi j=1 ∂pj ∂xi
∂pj ∂pi
Note-se que devido a u ser suposto C 2 deveremos ter necessariamente ∂xi = ∂xj . Como também
queremos satisfazer (2.11) obtemos
n
∂F ∂F ∂u X ∂Xj ∂pi
+ + =0
∂xi ∂u ∂xi j=1 ∂λ ∂xj
pelo que o sistema de equações diferenciais ordinárias passa a ser determinado quando completado
pelas n equações diferenciais ordinárias
dP ∂F ∂F
=− − p.
dλ ∂x ∂u
Iremos provar mais à frente que sob condições adequadas este sistema permite resolver o pro-
blema. Uma dessas condições será com certeza F ∈ C 2 para podermos usar o mesmo teorema
sobre sistemas de equações diferenciais ordinárias que usámos no caso quase-linear. Outra con-
dição será possivelmente supormos os dados C 2 pois ao estabelecermos o sistema supusemos
u ∈ C 2.
Também neste caso vamos estar interessados em isolar uma solução considerando o problema
de Cauchy e proceder como no caso quase-linear. No entanto teremos dificuldades adicionais
4 O leitor é referido a [15, 8, 3] para uma interpretação geométrica, aqui omitida, deste argumento heurı́stico
10
2.4. Comentários
devido ao carácter não linear do problema e devido a termos que fornecer condições iniciais para
P no sistema caracterı́stico. Com efeito se supusermos dada uma hipersuperfı́cie S ∈ C 2 e uma
função u0 suficientemente regular definida em S automaticamente as derivadas parciais de u0
estão definidas nas direcções tangenciais a S. Isto não determina imediatamente os valores de
todas as derivadas parciais de u sobre S de modo a poder ter as condições iniciais para P no
sistema caracterı́stico. Portanto precisa-se de conhecer a derivada normal de u sobre S o que
terá que ser feito à custa da equação. Mais precisamente se x = ϕ(s) com s ∈ ω for uma
parametrização de S devemos ter
u(ϕ(s)) = u0 (ϕ(s))
para todo o s ∈ ω pelo que queremos determinar as condições iniciais do sistema caracterı́stico
a partir de
e da resolução do sistema
∂ϕ ∂
P (0, s) · = (u0 (ϕ(s))) (2.15)
∂sj ∂sj
F (X(0, s), U (0, s), P (0, s)) = 0. (2.16)
Como já afirmámos o carácter não-linear poderá causar que este sistema não tenha soluções, tenha
mais que uma solução ou que não tenha soluções sob pequenas perturbações. Para evitarmos
tais questões supomos5 que existe uma função u0 ∈ C 2 definida numa vizinhança de S tal que
e tal que possamos garantir que a aplicação (λ, s) 7→ X(λ, s) é um difeomorfismo. Para tal, mais
uma vez aplicando o teorema da função inversa, exigimos que
det ∂X ∂X
∂λ ∂s
(0, s) =
h i
∂ϕ
det ∂F∂p (ϕ(s), u 0 (ϕ(s)), Du 0 (ϕ(s))) ∂s (s) 6= 0. (2.18)
2.4 Comentários
Estudámos o problema de Cauchy para equações diferenciais parciais reais de primeira ordem e
pudémos concluir que localmente este é um problema bem posto sob condições de regularidade
5 Claro que há a questão de como justificar esta suposição. A ideia que ocorre imediatamente é através de uma
mudança de variáveis reduzir o problema ao caso em que S é um subconjunto dum hiperplano com um dos eixos
coordenados normal a S. Será este o ponto de vista a adoptar no Capı́tulo 5.1.
11
Capı́tulo 2. Equações reais de primeira ordem
adequadas da equação e das condições iniciais e desde que uma condição de não-caracteristicidade
da hipersuperfı́cie onde estão definidos os valores iniciais seja satisfeita6 .
Convém reparar desde já que outro grande tipo de problemas que nos aparecerá no estudo
das equações diferenciais parciais, os problemas de valores na fronteira, são “mal postos” para as
equações diferenciais parciais reais de primeira ordem. Esta observação é facilmente estabelecida
no caso do exemplo elementar no princı́pio deste capı́tulo ou no exercı́cio seguinte.
Exercı́cio 2.4. Seja u uma solução de
de classe C 1 em B1 (0) ⊂ R2 . Supondo que a(x, y)x + b(x, y)y > 0 na fronteira de B1 (0) prove
que u é identicamente 0.
A referência mais completa sobre o tema deste capı́tulo continua a ser [3]. Um ponto de
vista geométrico mais moderno é fornecido por [1]. Para uma segunda leitura sobre equações de
primeira ordem o leitor é aconselhado a consultar [15].
6 Em geral não se verifica unicidade de solução do problema de Cauchy no caso não linear e portanto a unicidade
de solução deverá ser interpretada dum modo adequado. Por outro lado os resultados enunciados não incluem
explicitamente a dependência contı́nua em relação às condições iniciais embora tal seja fácil de estabelecer.
12
2.5. Exercı́cios suplementares
∂u
F ≡ + H(x, t, Du) = 0.
∂t
Obtenha o sistema caracterı́stico na forma
dX dH
=
dt dp
dU dH
= p· −H
dt dp
dP dH
= − .
dt dx
Definindo dX dU
dt = v, dt = L, use as primeiras n + 1 equações para exprimir L como uma função
de x, t, v. Mostre então que
∂L
= p
∂v
∂L dH
= −
∂x dx
o que implica
d ∂L ∂L
− = 0.
dt ∂v ∂x
∂ ∂
Exercı́cio 2.9. Considere os operadores diferenciais lineares de primeira ordem L 1 ≡ ∂t + t ∂x ,
∂ ∂
L2 ≡ x ∂t − ∂x que actuam sobre funções em C 1 (Ω), com Ω ⊂ R2 um aberto.
13
Capı́tulo 2. Equações reais de primeira ordem
14
Capı́tulo 3
O Laplaciano
3.1 Introdução
Este capı́tulo pretende oferecer desde já um contraste com o tipo de problemas estudados no
Capı́tulo 2 de modo a convencer o leitor que o estudo das equações diferenciais tem uma neces-
sidade intrı́nseca de utilizar métodos variados que dependem do “tipo” da equação em estudo e
que posteriormente, no Capı́tulo 4, levará a um necessário esforço de classificação. Com efeito, as
equações diferenciais parciais reais de primeira ordem caem, como vimos, na classe dos problemas
de valores iniciais, isto é, “genericamente” o problema
(
F (x, u, Du) = 0 numa vizinhança duma hipersuperfı́cie S,
u=ϕ sobre S,
está bem posto1 . Vamos agora estudar um operador de segunda ordem cujas propriedades serão
em larga medida exemplificativas do que se passa com os operadores de segunda ordem que no
Pn ∂ 2
Capı́tulo 4 classificaremos como elı́pticos. Esse operador é o laplaciano ∆ ≡ i=1 ∂x 2 e teremos
i
como objectivo essencial mostrar que problemas de valores na fronteira tais como o problema de
Dirichlet (
∆u = f num aberto Ω,
(3.1)
u=ϕ sobre ∂Ω,
ou o problema de Neumann (
∆u = f num aberto Ω,
∂u
(3.2)
∂ν = g sobre ∂Ω,
∂
em que ∂ν designa derivação normal exterior e f, g, ϕ são funções dadas, estão essencialmente
bem postos2 , contrastando com o que aconteceria com o problema de valores iniciais relativo ao
mesmo operador
∆u = f numa vizinhança duma hipersuperfı́cie S
u=ϕ sobre S (3.3)
∂u
∂ν = g sobre S.
15
Capı́tulo 3. O Laplaciano
Exercı́cio 3.1. Suponha que Ω ⊂ Rn é um aberto com fronteira regular e que u ∈ C 2 (Ω) satisfaz
(3.2). Mostre que Z Z
f dx = g dS
Ω ∂Ω
∆u(x) = f (x)
É possı́vel provar que a construção anterior define efectivamente u ] como uma função que só
depende de |x|. Note-se que se u(x) = x teremos u] = 0 pelo que os resultados desta construção
podem ser triviais. Não é nosso objectivo aprofundar5 esta ideia mas tão somente fazer notar
que a invariância de ∆ relativamente a SO(n) pode sugerir uma investigação da existência de
funções harmónicas com simetria radial. Com efeito verifica-se que
Exercı́cio 3.3. Seja w(x) = ψ(|x|) uma função harmónica em Rn \ {0}. Então teremos para
certas constantes C, K (
C
r2−n + K, se n > 2,
ψ(r) = (2−n) (3.4)
C log r + K, se n = 2.
Estas funções vão desempenhar um papel fundamental em tudo o que faremos neste capı́-
tulo. Note-se que a passagem a coordenadas esféricas e o teorema da convergência dominada de
Lebesgue permitem estabelecer facilmente que w ∈ L1loc (Rn ).
3 Diz-se que uma matriz que verifica esta propriedadade é ortogonal ou que pertence ao grupo ortogonal, O(n).
Se adicionalmente det Q = 1 diz-se que Q pertence ao grupo especial ortonormal, SO(n), ou mais prosaicamente
que é uma rotação.
4 Pode provar-se que num grupo localmente compacto separável e metrizável pode definir-se uma única medida
positiva com estas caracterı́siticas que é designada como medida de Haar. O estudo desta questão está para além
dos objectivos deste curso.
5 Para um tratamento rigoroso e não elementar desta ideia consultar [30].
16
3.3. Fórmula de Green e Solução Fundamental
Exercı́cio 3.4. Este exercı́cio esboça como construir a medida de Haar em SO(n) (ou em O(n)
com pequenas modificações).
Considere-se SO(n) ⊂ Mn×n ∼
2
= Rn . Seja U uma vizinhança limitada de SO(n) tal que
U ⊂ {A ∈ M : det A > 0}.
1
Z Z
σ(E) = 2 Σ(QER) dΣ(Q) dΣ(R).
Σ(SO(n)) SO(n) SO(n)
∂ϕ ∂w
Z Z
w∆ϕ dx = − w −ϕ dS(x). (3.7)
Ω\B (0) ∂B (0) ∂ν ∂ν
Faça-se agora ↓ 0. Obtém-se que o lado esquerdo da igualdade anterior converge para o integral
da mesma função em Ω. Quanto ao lado direito nota-se que para todo o n
∂w −n
= Cxi |x|
∂xi
17
Capı́tulo 3. O Laplaciano
pelo que
∂w
= C1−n .
∂ν |x|=
tem solução em C 2 (Ω) ∩ C 1 (Ω) para todo y ∈ Ω. Então, se a solução do problema de Dirichlet
∆u = 0 em Ω,
(3.11)
u=ϕ sobre ∂Ω,
6 À luz de algumas noções elementares de teoria das distribuições (3.8) pode ser interpretada como mostrando
18
3.4. Função de Green — casos elementares
xn = 0
y y'
Figura 3.1: O método de simetria para a determinação da função de Green num semi-espaço.
|x − y ∗ |2 = 1 − 2x · y ∗ + |y ∗ |2
1 2
= 2 |y| − 2x · y + 1
|y|
1 2
= 2 |x − y|
|y|
o que permite estabelecer para |x| = 1 a identidade
n−2
Γy∗ (x) = |y| Γy (x). (3.13)
19
Capı́tulo 3. O Laplaciano
y* y 0
Figura 3.2: O método de simetria para a determinação da função de Green numa bola. A fronteira da
bola de raio 1 centrada em 0 é o lugar geométrico dos pontos x tais que o quociente das distâncias a y e
a y ∗ é constante.
Assim concluı́mos que a função de Green para a bola B1 (0) é dada por
Gy (x) = Γy (x) − |y|2−n Γy∗ (x).
Como
∗
x−y 2−n x − y
1
∇x Gy (x) = n − |y|
ωn |x − y| |x − y ∗ |n
x
e a normal exterior à fronteira da bola unitária centrada em 0 é dada por ν(x) = |x| obtemos
∂Gy
para ∂νx sobre ∂B1 (0)
∗
∂Gy 1 1−x·y 2−n 1 − x · y
(x) = n − |y| n
∂νx |x|=1 ωn |x − y| |x − y ∗ |
1 1 − |y|2
=
ωn |x − y|n
em que se usou (3.13). Obteve-se portanto a fórmula integral de Poisson
Z
u(y) = u(x)K(x, y) dS(x) (3.14)
∂B1 (0)
20
3.5. Núcleo de Poisson — solução do problema de Dirichlet numa bola
1 1 − |y|2
Z
u(x0 ) − u(y) = (ϕ(x0 ) − ϕ(x)) n dS(x)
ωn ∂B1 (0) |x − y|
Sejam M > 0 tal que |ϕ| ≤ M sobre ∂B1 (0) e δ > 0 tal que para |x − x0 | < δ e x ∈ ∂B1 (0)
tenhamos |ϕ(x) − ϕ(x0 )| < /2. Temos então
2 2
1 − |y| 1 − |y|
Z Z
(ϕ(x0 ) − ϕ(x)) n dS(x) < n dS(x) = .
∂B1 (0)∩Bδ (x0 ) |x − y| 2 ∂B1 (0) |x − y| 2
21
Capı́tulo 3. O Laplaciano
Exercı́cio 3.8. Seja u : BR (x) ⊂ Rn → R uma função contı́nua. Mostre que u verifica para
0<r<R
1
Z
u(x) = u(y) dS(y) para 0 < r < R,
ωn rn−1 ∂Br (x)
se e só se
n
Z
u(x) = u(y) dy para 0 < r < R.
ωn r n Br (x)
1
Z
u(x) = (≤, ≥) u(y) dS(y). (3.16)
ωn rn−1 ∂Br (x)
1
Z
]0, dist(x, ∂Ω)[ 3 r 7→ φ(r) = u(y) dy
ωn rn−1 ∂Br (x)
e prove que
Teorema 3.7.1. Seja Ω ⊂ Rn um aberto conexo e u : Ω → Rn uma função contı́nua tal que
para cada x ∈ Ω existe Rx > 0 satisfazendo
1
Z
u(x) ≤ u(y) dy (3.17)
ωn rn−1 ∂Br (x)
sempre que 0 < r < Rx . Então se u tem um máximo absoluto então u é constante em Ω. Em
particular se u é uma função harmónica e tem máximo ou mı́nimo absoluto então u é constante.
Demonstração. Seja u uma função contı́nua em Ω que satisfaz (3.17) e M o valor do máximo de u.
Considere-se o conjunto A = {x ∈ Ω : u(x) = M }. A continuidade de u assegura que A é fechado.
Por outro lado se x ∈ A a desigualdade (3.16) mostra que para y numa bola centrada em x, de
raio suficientemente pequeno para que essa bola esteja contida em Ω, devemos ter u(y) = u(x)
pelo que A é formado exclusivamente por pontos interiores. Assim A é simultâneamente aberto
e fechado em Ω. Como A é não vazio e Ω é conexo temos A = Ω.
7 As definições de função subharmónica e função superharmónica serão generalizadas na Secção 3.9.
22
3.7. O princı́pio de máximo
Usando a analiticidade das funções harmónicas (Teorema 3.5.1) pode remover-se a restrição
dos extremos serem absolutos no resultado anterior generalizando-o para extremos locais.
O princı́pio de máximo forte tem como consequência imediata o seguinte resultado em que
são comparados valores na fronteira e no interior e que é conhecido como princı́pio de máximo
fraco :
1
Z
u(x) = u(y) dy
ωn rn−1 ∂Br (x)
para toda a bola Br (x) ⊂ Ω. Então, se B fôr uma dessas bolas, consideremos a função harmónica
h que tem os mesmos valores que u sobre ∂B e é contı́nua na bola fechada (resolvendo portanto o
problema de Dirichlet nessa bola via a fórmula integral de Poisson). Podemos aplicar a Proposição
anterior a u − h em B para concluir que u = h em B.
Exemplo. O exercı́cio seguinte descreve um método elementar para resolver a seguinte questão:
Seja c ∈ R. Determinar para que abertos Ω ⊂ Rn existe uma solução do problema
∆u + 1 = 0, em Ω,
u = 0, em ∂Ω, (3.19)
∂u
∂ν = c, em ∂Ω.
A resolução deste problema deve-se a Hans Weinberger [33] e James Serrin [25]. O método
de Weinberger é totalmente elementar e é descrito a seguir.
a) Se u = 0 em ∂Ω então
2
∂u ∂u ∂r ∂u
Z Z
r ∆u − u ∆ r dx = r dS.
Ω ∂r ∂r ∂Ω ∂ν ∂ν
∂u
b) Se u = 0 e ∂ν = c ∈ R em ∂Ω então
2
∂r ∂u
Z
r dS = nc2 |Ω|.
∂Ω ∂ν ∂ν
c) Se ∆u + 1 = 0 em Ω então u é analı́tica em Ω.
d) Se ∆u + 1 = 0 em Ω então ∆ r ∂u
∂r = −2.
23
Capı́tulo 3. O Laplaciano
∂u
Z Z Z
1 2
r dx = ∇( 2 r ) · ∇u dx = −n u dx.
Ω ∂r Ω Ω
2 2
|∇u| + u < c2 em Ω
n
ou
2
|∇u|2 + u = c2 em Ω.
n
i) Usando (f ) e (g) obtemos que
2 2
|∇u| + u
n
é constante em Ω se u é uma solução de (3.19).
j) Temos
∂2u 1
= − δij
∂xi ∂xj n
em que δij é o sı́mbolo de Kronecker.
Demonstração. A ideia base da demonstração é usar o teorema do valor médio para mostrar que
existe uma constante C > 0 tal que para todo o R > 0 devemos ter |u(x) − u(−x)| ≤ C/R o
que implicará que u é constante por translacção. Para tal usa-se o teorema do valor médio para
exprimir u(x) e u(−x) como médias em bolas de raio R centradas em x e −x e mostra-se que a
diferença entre essas médias é da ordem de V (R)/R n em que V (R) é o volume da região sugerida
8 Seja Ω ⊂ C um aberto e f : Ω → C uma função diferenciável. Então f é analı́tica em Ω e, se f (x + iy) =
24
3.8. Ainda o teorema do valor médio
|x|
| x|
R−
+
R
−x 0 x
PSfrag replacements
a cinzento na Figura 3.3 e que este por sua vez é da ordem de Rn−1 . Seja M um majorante de
|u|. O cálculo detalhado é
n
Z Z
|u(x) − u(−x)| = u(y) dy − u(y) dy
ωn R n BR (x) BR (−x)
Mn
Z
≤ dy
ωn R n R−|x|<|y|<R+|x|
n−1
M n(R + |x|)
≤ .
Rn
Proposição 3.8.2. Seja (uk )k∈N uma sucessão de funções harmónicas definidas num aberto
Ω ⊂ Rn uniformemente convergentes nos subconjuntos compactos de Ω para uma função u.
Então u é uma função harmónica.
Demonstração. Da convergência uniforme segue com facilidade que o limite é uma função contı́-
nua satisfazendo a igualdade do valor médio e daı́ que u é harmónica.
n n
Z Z
u(x1 ) = u ≤ u,
ωn rn Br (x1 ) ωn rn B2r (x0 )
25
Capı́tulo 3. O Laplaciano
n n
Z Z
u(x2 ) = u≥ u.
ωn 3r n B3r (x2 ) ω n 3r
n
B2r (x0 )
pelo que
sup u(x) ≤ 3n inf u(x). (3.20)
x∈Br (x0 ) x∈Br (x0 )
Como ω é conexo existe um arco L unindo y a z e contido em ω. Seja 0 < 4r < dist(ω, ∂Ω).
Existe um número finito, N , de bolas de raio r que cobrem ω e consequentemente cobrem L.
Aplicando a desigualdade (3.20) sucessivamente à subfamı́lia de tais bolas que cobre L obtém-se
Teorema 3.8.4. Seja (uk )k∈N uma sucessão monótona de funções harmónicas definidas num
aberto Ω ⊂ Rn que converge num ponto x ∈ Ω. Então uk converge uniformemente para uma
função harmónica em cada aberto conexo ω tal que x ∈ ω b Ω.
Demonstração. O princı́pio do máximo forte 3.7.1 permite supôr que a sucessão é estritamente
crescente na componente conexa que contém x. Dado > 0 existe j0 ∈ N tal que para k > j > j0
temos 0 < uk (x) − uj (x) < . Mas então pela desigualdade de Harnack também 0 < uk (y) −
uj (y) < C para todo o y ∈ ω mostrando que existe convergência em ω, que esta é uniforme e o
limite uma função harmónica graças à proposição 3.8.2.
Exercı́cio 3.11. Verifique que a definição anterior é uma extensão da definição feita na Sec-
ção 3.6 para funções C 2 .
26
3.9. O método de Perron
w
h
w
B
B' Ω
A solução do problema 3.21 vai ser obtida9 tomando o supremo de todas as subfunções.
Para se verificar que esse supremo é de facto uma função harmónica recorreremos à técnica do
levantamento harmónico.
Demonstração. Claro que w está bem definida graças a termos resolvido o problema de Dirichlet
numa bola e é uma função contı́nua satisfazendo w ≥ w. Basta então demonstrar que dando
uma bola B 0 ⊂ Ω e uma função h harmónica em B 0 , contı́nua em B 0 e satisfazendo h ≥ w sobre
∂B 0 temos necessariamente h ≥ w em B 0 .
Note-se primeiro que em ∂B 0 temos h ≥ w ≥ w donde h ≥ w em B 0 . Como em B 0 \ B temos
w = w podemos afirmar que h ≥ w em B 0 \ B.
Por outro lado em B 0 ∩ B temos que tanto h como w são harmónicas. Em ∂B 0 ∩ B temos
h ≥ w por definição de h. O mesmo acontece em ∂B ∩ B 0 como já tı́nhamos visto. Pode assim
aplicar-se o princı́pio de máximo a h − w em B 0 ∩ B para concluir que h ≥ w.
pretendidos sobre ∂Ω vai depender da geometria de ∂Ω. De facto obtemos uma solução do problema 3.21 para
uma classe suficiente geral de domı́nios com fronteira regular num sentido a precisar.
27
Capı́tulo 3. O Laplaciano
w = sup v.
v∈Sϕ
A função harmónica cuja existência é assegurada pelo teorema anterior é designada como
solução de Perron. Não é necessariamente uma função cujos limites relativos a pontos de ∂Ω
coincidam com os valores de ϕ. Uma condição necessária e suficiente para que tal aconteça para
toda a função ϕ ∈ C 0 (∂Ω) envolve o conceito de barreira.
Definição 3.9.6. Seja x ∈ ∂Ω. Diz-se que existe uma barreira em x se existir uma função
contı́nua em Ω, superharmónica em Ω, positiva em Ω \ {x} e nula em x. Diremos que um ponto
x ∈ ∂Ω é regular10 se existir uma barreira em x.
Teorema 3.9.7. O problema de Dirichlet (3.21) tem solução para toda a função contı́nua ϕ :
∂Ω → R se e só se cada ponto de ∂Ω fôr regular.
Isto será obtido se provarmos que para cada > 0 existem uma subfunção s e uma sobrefunção
S tais que
lim S (y) − s (y) ≤ .
y→x
y∈Ω
Para construir S e s usamos a barreira z. Fixemos então > 0. Bastará agora provar que para
k > 0 suficientemente grande podemos tomar
Não há dúvida que tais funções são respectivamente superharmónica e subharmónica. Seja δ > 0
tal que |ϕ(y) − ϕ(x)| < se y ∈ Bδ (x) ∩ ∂Ω e seja M = máxy∈∂Ω |ϕ(y)|. Escolha-se k > 0 de
maneira a
k min z(y) > 2M.
y∈∂Ω\Bδ (x)
28
3.9. O método de Perron
29
Capı́tulo 3. O Laplaciano
Exercı́cio 3.15. Use a Proposição 3.9.9 para melhorar os resultados dos Exercı́cios 3.13 e 3.14.
Exercı́cio 3.16. Seja Ω = B2 (0) \ {(x1 , 0) ∈ R2 : −1 ≤ x1 ≤ 1} e considerem-se funções
contı́nuas f, g : [−1, 1] → R tais que f (0) = g(0), f (1) = g(1) e ϕ : ∂B2 (0) ⊂ R2 → R.
Considere o problema
∆u = 0,
em Ω
u = ϕ,
para |x| = 2
lim (x1 ,x2 )→(x0 ,0) u(x 1 , x 2 ) = f (x 0 ), para |x0 | ≤ 1
x2 >0
lim (x1 ,x2 )→(x0 ,0) u(x1 , x2 ) = g(x0 ), para |x0 | ≤ 1
x2 <0
A função w assim definida é designada por potencial de Newton de f . Se justificarmos esta ideia
obteremos
30
3.10. A equação de Poisson
Teorema 3.10.1. Se o potencial de Newton fôr uma solução da equação de Poisson prolongável
continuamente a ∂Ω e todos os pontos de ∂Ω fôrem regulares então a solução do problema (3.22)
é dada por
u(x) = v(x) + w(x)
em que w designa o potencial de Newton de f e v a solução do problema
(
∆v = 0 em Ω,
(3.24)
v = ϕ − w sobre ∂Ω.
Antes de enunciar o resultado que temos em mente convirá convencer o leitor de que, de uma
forma algo surpreendente, não basta que f seja contı́nua para existir uma solução C 2 da equação
de Poisson.
Exercı́cio 3.17. Seja P : R2 → R o polinómio P (x1 , x2 ) = x1 x2 e η ∈ Cc∞ (RP
2
) tal que η ≡ 1 se
|x| < 1 e considere-se uma sucessão (ck )k∈N tal que ck → 0 quando k → ∞ e ck é divergente.
Defina
∞
X
f (x) = ck ∆(ηP )(2k x).
0
Prove que f é contı́nua mas que a equação de Poisson ∆u = f não tem nenhuma solução que
seja C 2 numa vizinhança de 0.
Para enunciarmos um resultado de existência razoavelmente lato para a equação de Poisson
necessitaremos do conceito de função Hölderiana com expoente .
Definição 3.10.2. Seja U ⊂ Rn , k ∈ N, 0 < < 1. Dizemos que f : U → Rm é de classe
C 0, (U ) em U , ou uniformemente contı́nua à Hölder em U com expoente > 0, se existir M > 0
tal que para todos os x, y ∈ U temos
|f (x) − f (y)| ≤ M |x − y| . (3.25)
Diremos que f é de classe C k, (U ) se fôr k vezes diferenciável em U e para cada multi-ı́ndice
α com |α| = k tivermos D α f ∈ C 0, .
0,
Diremos que f ∈ Cloc (U ) ou que é localmente contı́nua à Hölder em U se fôr uniformemente
k,
contı́nua à Hölder em cada limitado K ⊂ U . De forma similar define-se Cloc (U ).
Para = 1 as mesmas definições conduzem ao conceito de funções Lipschitzianas.
Passamos a estabelecer resultados de diferenciabilidade para o potencial newtoniano. Note
2
que a regra de Leibniz não é aplicável para cálculo das segundas derivadas devido a ∂∂xΓ2 não ser
i
integrável numa vizinhança de 0.
Lema 3.10.3. Seja Ω ⊂ Rn um aberto limitado, f : Ω → R uma função limitada e localmente
Hölderiana em Ω prolongada trivialmente a Rn e seja w o potencial newtoniano de f . Então
w ∈ C 2 (Ω) e para todo o x ∈ Ω temos
∂2w ∂2Γ ∂Γ
Z Z
(x) = (x − y)(f (y) − f (x)) dy + f (x) (x − y)νj (y) dS(y) (3.26)
∂xi ∂xj A ∂x x
i j A ∂x i
para i, j = 1, . . . , n, em que A é uma região limitada contendo Ω para a qual é aplicável o teorema
da divergência.
Demonstração. Deixamos ao cuidado do leitor estabelecer através da aplicação duma versão
conveniente da regra de Leibniz ou por um processo ad hoc do tipo do que irá utilizar-se a seguir
que w ∈ C 1 (Rn ) e
∂w ∂Γ
Z
= (x − y)f (y) dy
∂xi Ω ∂x i
31
Capı́tulo 3. O Laplaciano
Designemos então por u(x) o segundo membro de (3.26). Notamos que está bem definido graças
a Γ verificar a estimativa
∂2Γ −n
(x) ≤ C|x − y|
∂xi ∂xj
∂w
em que C > 0 e f é hölderiana. Por outro lado seja v(x) = ∂xi e defina-se
∂Γ
Z
vk (x) = (x − y)ηk (x − y)f (y) dy
Ω ∂xi
em que ηk (y) = η(k|y|) com η ∈ C 1 (R) uma função fixa que satisfaz 0 ≤ η ≤ 1, 0 ≤ η 0 ≤ 2,
η(t) = 0 para t ≤ 1, η(t) = 1 para t ≥ 2. Claro que não existe qualquer problema em diferenciar
vk sob o sinal de integral obtendo-se
∂vk ∂ ∂Γ
Z
= ηk (x − y)f (y) dy
∂xj Ω ∂xj ∂xi
∂ ∂Γ
Z
= ηk (x − y)(f (y) − f (x)) dy
A ∂xj ∂xi
∂ ∂Γ
Z
+ f (x) ηk (x − y) dy (3.27)
A ∂xj ∂xi
∂ ∂Γ
Z
= ηk (x − y)(f (y) − f (x)) dy
A ∂xj ∂xi
∂Γ
Z
+ f (x) ηk (x − y)νj dS(y)
∂A ∂xi
desde que k seja suficientemente grande, em particular dist(x, ∂Ω) > 2/k. Subtraindo termo a
termo (3.27) de (3.26) e estimando obtém-se
∂vk ∂ ∂Γ
Z
u(x) − (x) = (1 − ηk ) (f (y) − f (x)) dy
∂xj |x−y|≤2/k ∂xj ∂xi
∂2Γ
∂Γ
Z
≤C + 2k |x − y| dy
|x−y|≤2/k ∂xj ∂xi ∂xi
n
≤C + 4 (2/k)
∂v
Isto implica que u = ∂xi .
Teorema 3.10.4. Seja f : Ω ⊂ Rn → R com Ω um aberto limitado cujos pontos fronteiros são
regulares no sentido de (3.9.6). Suponha-se que f é limitada e localmente hölderiana em Ω. Seja
ϕ : ∂Ω → R uma função contı́nua. Então o problema
(
∆u = f em Ω,
(3.28)
u=ϕ sobre ∂Ω
32
3.11. Soluções fracas da equação de Laplace
Facilmente se verifica usando, por exemplo, as fórmulas de Green que toda a função harmónica
no sentido clássico é também uma solução fraca. Que não existem outras é a conclusão do
Proposição 3.11.2 (Lema de Weyl). As soluções fracas localmente somáveis da equação de
Laplace são soluções clássicas.
Demonstração. Seja u uma solução fraca localmente integrável da equação de Laplace num aberto
Ω. Basta provar o resultado localmente logo vamos considerar que u é integrável e prolongamos
trivialmente u ao complementar de Ω.
Considere-se uma sucessão de molificadores13 (ρ )>0 e as funções regularizadas u definidas
por u ≡ u∗ρ . É fácil verificar que dado ω b Ω existe 0 tal que para < 0 cada u é harmónica
no sentido clássico em ω e portanto verifica a igualdade do valor médio em ω. Tal igualdade
permite obter a convergência uniforme de u para u em ω1 b ω a partir da convergência em
L1 (ω). Logo u é uma função contı́nua e a conclusão segue do recı́proco do teorema do valor
médio.
12 O leitor familiar com teoria das distribuições e com o conceito de hipo-elipticidade sabe provavelmente que os
33
Capı́tulo 3. O Laplaciano
para cada x ∈ Rn \ Ω.
c) Mostre que existe uma solução única do problema
∆u = 0,
em Rn \ Ω
u = 1, sobre ∂Ω
limx→∞ u(x) = 0.
Exercı́cio 3.20. Seja Ω ⊂ Rn , aberto, limitado, e com fronteira seccionalmente regular. Supo-
nha-se que existe uma função de Green GΩ : Ω × Ω \ {(x, x) : x ∈ Ω} → R relativa ao operador
laplaciano, ∆, isto é, GΩ (x, y) = hΩ (x, y) + Γ(x, y) em que hΩ é uma solução do problema
∆x hΩ (x, y) = 0, para todos os x, y ∈ Ω,
(3.29)
hΩ (x, y) = −Γ(x, y), para todo o x ∈ ∂Ω e todo o y ∈ Ω.
em que Γ designa a solução fundamental da equação de Laplace que como se sabe é dada por
(
1 2−n
Γ(x, y) = (2−n)ωn |x − y| , n > 2,
(3.30)
1
2π log |x − y|, n = 2.
34
3.12. Exercı́cios suplementares
d) Existe uma bola aberta B tal que as funções GB (·, y), y ∈ Ω são uniformemente integráveis
em Ω, isto é, dado > 0 existe δ > 0 tal que se A ⊂ Ω é mensurável, |A| < δ então
Z
|GB (x, y)| dx < para todo o y ∈ Ω (3.31)
A
se y → y0 ∈ ∂Ω.
g) As conclusões de (c) e (d) implicam que se y → y0 ∈ ∂Ω então
Z
GΩ (x, y) dx → 0.
Ω
35
Capı́tulo 3. O Laplaciano
36
Capı́tulo 4
4.1 Introdução
Antes de nos debruçarmos sobre problemas relativamente gerais convém convencer o leitor que
aquilo que foi realizado nos dois capı́tulos anteriores contém as sementes de algo bastante mais
geral. O objecto deste capı́tulo, de qualquer forma ainda modesto, será o estudo com alguma
generalidade de certas equações lineares Lu = f em que L é um operador linear de segunda
ordem da forma
X ∂ 2u X ∂u
Lu(x1 , x2 ) = ai,j (x1 , x2 ) + bi (x1 , x2 ) + c(x1 , x2 )u(x1 , x2 ).
i=1,2
∂xi ∂xj i=1,2 ∂xi
A base do que se vai seguir consiste na observação elementar de que se pudermos decompor
L = L1 L2 com L1 , L2 operadores lineares reais de primeira ordem o problema de existência local
de soluções poderia ser abordado pelo estudo sucessivo de duas equações lineares de primeira
ordem. Veja-se por exemplo o exercı́cio 2.9. Mais geralmente podemos com certeza obter um
resultado de existência e unicidade local para um problema da forma
L1 L2 u(x) = f (x), numa vizinhança de uma hipersuperfı́cie S
u|S (x) = v0 (x), (4.1)
L2 u|S (x) = v1 (x).
Para tal será natural impor L1 , L2 suficientemente regulares e condições de não caracteristicidade
relativas a cada um dos problemas de primeira ordem. Para compreendermos o papel de tais
condições começamos por notar que prescrever os valores de L 2 u sobre S pode com certeza
ser feito se prescrevermos os valores da derivada normal ∂u ∂ν sobre S já que todas as derivadas
tangenciais são prescritas por v0 .
37
Capı́tulo 4. Classificação das equações lineares de 1a ordem no plano
38
Capı́tulo 5
Temos
Pn 2
σx ∆(ξ) = i=0 ξi
2
Pn 2
σx (ξ) = ξ0 − i=1 ξi
pelo que para ∆ a variedade caracterı́stica reduz-se à origem e para é um cone n − 1 dimensi-
onal1 . N
1 Estes operadores serão estudados em detalhe nos Capı́tulos 3 e 9.
39
Capı́tulo 5. Resultados gerais e contra-exemplos
Definição 5.1.1 (Operador Elı́ptico). Um operador diferencial linear diz-se elı́ptico num
ponto x se o seu sı́mbolo σx L(ξ) só se anular para ξ = 0.
F x, (Dα u0≤|α|≤k ) = 0
(5.1)
Dνj u = ϕj , para j = 0, . . . , k − 1 (5.2)
S
e em que S se supõe não caracterı́stica num sentido a precisar. Se F , S e ϕ j são analı́ticas existe
uma solução analı́tica única de (5.1–5.2).
S ser uma hipersuperfı́cie analı́tica siginifica que para cada ponto x ∈ S existe uma vizinhança
Ux de x e um difeomorfismo analı́tico θx : Ux → Rn tal que θx (S ∩ Ux ) é um subconjunto aberto
de um hiperplano de Rn . Este recurso a cartas locais permite então reduzir de imediato a
demontração ao estabelecer a existência de uma solução analı́tica única numa vizinhança de 0
∂
no caso em que S é o hiperplano xn = 0 e a derivação ∂ν é substituı́da por ∂x∂ n .
A não caracteristicidade de S corresponde então, após a mudança de coordenadas descrita
atrás, a que (COMPLETAR)
Bastará então demonstrar
Teorema 5.2.2. Considere-se o problema de valores iniciais
n
∂u X ∂u
= Ai (x, u) + B(x, u) (5.3)
∂t i=1
∂xi
u(x, 0) = 0 (5.4)
em que os ai e b têm como valores matrizes reais N × N e as incógnitas u são funções definidas
em ΩRn com valores em RN em que Ω é um aberto da forma
40
5.4. O Contra-exemplo de Lewy
Exemplo. [Lewy] Considere-se o operador diferencial linear L que actua sobre funções definidas
em subconjuntos de R3 com valores em C através de
∂u ∂u ∂u
Lu(x) = +i − 2i(x + iy) .
∂x ∂y ∂t
e uma função ψ : R → R de classe C ∞ . Suponha-se que
Lu(x, y, t) = ψ 0 (t).
Tal função V é C 1 num conjunto da forma {t + ir ∈ C : 0 < r < δ, |t − t0 | < δ}, V (t, 0) = 0 e é
contı́nua para {t + ir ∈ C : 0 ≤ r < δ, |t − t0 | < δ}. Usando a periodicidade em θ de v obtém-se
facilmente que
∂V ∂V
+i = πiψ 0 (t)
∂t ∂r
donde se considerarmos W (t+ir) = V (t, r)−iπψ(t) trata-se de uma função holomorfa prolongável
por simetria relativamente a r < 0 via W (t−ir) = −W (t + ir) sendo o prolongamento holomorfo.
Em particular a sua parte imaginária é analı́tica o que em particular significa que ψ é analı́tica
em t = t0 .
A conclusão do primeiro passo já seria, por si, interessante, mas se exisgirmos um pouco
mais das soluções (terem derivadas holderianas) podemos usá-lo como ponto de partida de um
exemplo de uma equação diferencial parcial para o qual não existe solução C 1,α num qualquer
aberto de R3 . N
41
Capı́tulo 5. Resultados gerais e contra-exemplos
42
Capı́tulo 6
Dado o carácter introdutório deste capı́tulo consideraremos a priori hipóteses adicionais que não
serão estritamente necessárias em todos os resultados mas que simplificarão o seu enunciado.
Geralmente remeteremos as extensões para exercı́cios ou para as referências [9].
Assim limitar-nos-emos a considerar operadores uniformemente elı́pticos, isto é, supomos que
existe λ > 0 tal que para todo o ξ = (ξi )i=1,...,n ∈ Rn e todo o x ∈ Ω temos
n
X
aij (x)ξi ξj ≥ λ|ξ|2 . (6.2)
i,j=1
Suporemos limitações uniformes dos coeficientes, isto é, que existe Λ > 0 tal que para todo
os i, j = 1, . . . , n e x ∈ Ω temos
Também a maior parte dos resultados que temos em mente generalizar, por exemplo o prin-
cı́pio de máximo, são trivialmente falsos se não supusermos
c≤0 (6.4)
d2
devido à possı́vel existência de valores próprios positivos de L como é bem ilustrado por dx2 (sen x)+
sen x = 0.
43
Capı́tulo 6. Operadores Elı́pticos Lineares de 2a ordem
Lema 6.2.3 (Lema do ponto fronteiro de Hopf ). Suponha-se que u ∈ C 1 (Ω), L verifica
(6.1–6.4), Lu > 0 num aberto, B ≡ BR (y) ⊂ Ω, B ∩ ∂Ω = {x0 } e u(x0 ) > u(x) para todo o
x ∈ B. Então, se ν = |xx00 −y|
−y
, temos
∂u
(x0 ) > 0.
∂ν
2 2
Demonstração. Sejam 0 < r < R, ρ = |x − y| e v(x) = e−αρ − e−αR . Temos para α > 0
suficientemente grande
Lv =
n n
X X 2
=[4α2 aij (x)(xi − yi )(xj − yj ) − 2α (aii (x) + bi (x))(xi − yi ) + c(x)]e−αρ −
i,j=1 i=1
−αR2 2 2 1/2 2
− c(x)e > (4α λr − 4n αΛR − Λ)e−αr > 0.
1 Convencionamos u+ (x) = máx{0, u(x)}, u− = (−u)+ .
44
6.3. Uma estimativa pontual
ν
x0
B
y
Como sobre ∂Br (y) temos u − u(x0 ) < 0 existe > 0 tal que u − u(x0 ) + v ≤ 0 sobre ∂Br (y).
Como v ≡ 0 sobre ∂B também temos u − u(x0 ) + v ≤ 0 sobre ∂B. Assim se A = B \ Br (y)
podemos aplicar o princı́pio de máximo fraco em A para obter
∂(u−u(x0 )+v) ∂v
Isto implica que ∂ν > 0. Como ∂ν (x0 ) < 0 isto prova o resultado.
f−
máx u ≤ máx u+ + C sup .
Ω ∂Ω Ω λ
Ω ⊂ {x ∈ Rn : 0 < x1 < d}
e seja
f−
v(x) ≡ máx u+ + (eαd − eαx1 ) sup .
∂Ω Ω λ
Temos
f−
Lv(x) = −(α2 a11 (x) + αb1 (x))eαx1 sup + c(x)v(x)
Ω λ
donde
f−
Λ2 αx1 2 Λ
Lv(x) ≤ − α λ − αλ e sup ≤− α −α sup f − .
λ Ω λ λ Ω
L(u − v) ≥ sup(f − + f ) ≥ 0.
Ω
45
Capı́tulo 6. Operadores Elı́pticos Lineares de 2a ordem
46
Capı́tulo 7
Métodos Variacionais
kx − yk = inf kx − wk (7.1)
w∈K
(x − y, v − y) ≤ 0, ∀v∈K . (7.2)
47
Capı́tulo 7. Métodos Variacionais
v
PSfrag replacements y K
Demonstração. Considere-se uma sucessão (yk )k∈N ⊂ K tal que kyk − xk → inf y∈K ky − xk ≡ d.
O ponto essencial a estabelecer é que esta sucessão é uma sucessão de Cauchy para podermos
usar a completude dos espaços de Hilbert, o facto de K ser fechado e a continuidade da norma
para garantir que a sucessão é convergente.
y +y
Dados dois termos da sucessão yj , yk o ponto médio j 2 k ∈ K verificará
yj + y k
− x ≥ d.
2
Aplicando a identidade do paralogramo (de “lados” x − yj e x − yk ) obtém-se
2
2 2 yj + y k
2kx − yj k + 2kx − yk k = 2 x − + kyj − yk k2
2
donde
2
2 2 2 yj + y k
kyj − yk k = 2kx − yj k + 2kx − yk k − 2 x − ≤ 2kx − yj k2 + 2kx − yk k2 − 4d2 → 0,
2
quando j, k → ∞ pelo que se trata efectivamente de uma sucessão de Cauchy.
Dados x e K como na proposição anterior passaremos a designar o ponto de K a distância
mı́nima de x por PK (x). A aplicação PK não é em geral linear mas é contı́nua, mais precisamente
lipschitziana, e a sua constante de Lipschitz é facilmente estimada.
Proposição 7.1.3. Se K tem as mesmas propriedades da proposição anterior então
(x1 − y1 , y2 − y1 ) ≤ 0,
0 ≤ (x2 − y2 , y2 − y1 ).
pelo que
(x1 − y1 , y2 − y1 ) ≤ (x2 − y2 , y2 − y1 ).
e daı́
((x1 − x2 ) − (y1 − y2 ), y2 − y1 ) ≤ 0,
48
7.1. Os Teoremas de Stampacchia e Lax-Milgram
ou seja
(x1 − x2 , y1 − y2 ) ≥ ky1 − y2 k2
donde o resultado segue via desigualdade de Cauchy-Schwarz.
Uma aplicação a : H × H → R com H um espaço vectorial real diz-se bilinear se para todos
os x, y, z ∈ H e α ∈ R tivermos a(αx, y) = a(x, αy) = αa(x, y), a(x + y, z) = a(x, z) + a(y, z)
e a(x, y + z) = a(x, y) + a(x, z). Se adicionalmente H for normado a forma bilinear a diz-se
contı́nua se existir C ≥ 0 tal que |a(x, y)| ≤ Ckxkkyk para todos os x, y ∈ H e coerciva se existir
c > 0 tal que |a(x, x)| ≥ ckxk2 para todo o x ∈ H
Teorema 7.1.4 (Stampacchia). Seja H um espaço de Hilbert real e K ⊂ H um subconjunto
convexo fechado. Considerem-se em H uma forma bilinear contı́nua e coerciva a : H × H → R
e um funcional linear contı́nuo λ : H → R. Então existe um e um só u ∈ K tal que
Demonstração. Pelo teorema de Riesz existe um z ∈ H único tal que λ(v) = (z, v) para todo o
v ∈ H. De forma análoga, como para u ∈ H fixado a aplicação H 3 v 7→ a(u, v) é um funcional
linear contı́nuo, existe um elemento único de H dependente de u, que designamos por Au, tal
que a(u, v) = (Au, v) para todo o v ∈ H. É fácil de verificar que A : H → H é um operador
linear contı́nuo e adicionalmente a hipótese de coercividade de a implica que existe c > 0 tal que
(Au, u) ≥ ckuk2 para todos u ∈ H. Assim (7.3) pode ser reformulada como
ou de forma equivalente
(Au − z, v − u) ≥ 0, ∀v∈K .
ou ainda, se ρ for um número positivo a escolher posteriormente,
(−ρ(Au − z) + u − u, v − u) ≤ 0, ∀v∈K .
u = PK (u − ρ(Au − z)),
Assim S é uma aplicação de contracção se kAkρ − 2c < 0 o que estabelece a existência de uma
solução de (7.3).
Para estabelecer (7.4) basta notar que a(·, ·) define um produto interno em H que é topolo-
gicamente equivalente ao produto interno original graças à hipótese de coercividade e aplicar a
proposição 7.1.2.
49
Capı́tulo 7. Métodos Variacionais
a(u, v) = λ(v)∀v∈K
f (x + tei ) − f (x)
gi,t (x) =
t
Temos gi,t ∈ L∞ (ωδ ) para todo o t tal que |t| < δ e além disso todas estas funções satisfazem
para uma constante C independente de t
Então a famı́lia de funções {gi,t }0<t<δ está contida numa bola de L∞ (ωδ ) logo podemos afirmar
que é relativamente compacta para a topologia fraca-∗.
Seja agora ϕ ∈ Cc∞ (ωδ ). Podemos então garantir que existe uma sucessão (tk )k∈N , com
tk → 0, e uma função gi ∈ L∞ (ωδ ) tal que
ϕ(x − tk ei ) − ϕ(x)
Z Z Z
f (x) dx = gi,tk (x)ϕ(x) dx → gi (x)ϕ(x) dx
Ω tk Ω Ω
ϕ(x − tk ei ) − ϕ(x) ∂ϕ
Z Z
f (x) dx → − f (x) dx
Ω t k Ω ∂x i
50
7.3. Aplicações a problemas elı́pticos
regularizadas (f )>0 converge uniformemente para o representante contı́nuo de f e que o supremo
das derivadas parciais dos f s pode ser estimado uniformemente. Notando então que
1
d
Z
|f (x) − f (y)| = (f (tx + (1 − t)y)) dt
0 dt
Z 1
= Df (tx + (1 − t)y)) · (x − y) dt ≤ C|x − y|.
0
a) Mostre que basta resolver o problema (7.6) para um valor de α para o resolver para todos
os valores de α.
51
Capı́tulo 7. Métodos Variacionais
c) Seja λ = inf F(w) sujeito à restrição (7.8) e seja (wk )k∈N uma sucessão minimizante, isto
é, F(wk ) → λ. Justifique que a sucessão (wk )k∈N é limitada em W 1,2 (Ω).
d) Utilize um teorema sobre compacidade na topologia fraca para mostrar que (w k )k∈N tem
uma subsucessão fracamente convergente em W 1,2 (Ω).
e) Mostre que a subsucessão da alı́nea anterior possui uma subsucessão convergente em L q (Ω)
para q suficientemente pequeno só dependente de n.
f) Se w̃ designar o limite nas duas alı́neas anteriores mostre que w̃ satisfaz a restrição (7.8)
para p suficientemente pequeno só dependente de n.
g) Mostre que num espaço de Hilbert H a norma é fracamente inferiormente semicontı́nua,
isto é, se xk * x em H então kxkH ≤ lim inf k→∞ kxk kH .
h) Mostre que w̃ é uma solução do problema (7.7).
i) Mostre que se u ∈ W 1,2 (Ω) então |u| ∈ W 1,2 (Ω). Relacione as respectivas derivadas no
sentido das distribuições. Conclua que |w̃| é uma solução de (7.7) e que |w̃| é uma solução
fraca de (7.6).
2n
j) Mostre que |w̃|p ∈ L p(n−2) (Ω) para p suficientemente pequeno.
k) Admita o seguinte resultado de teoria de regularidade de problemas elı́pticos (conhece um
caso particular): “Se ∆z ∈ Lp então z ∈ W 2,p ”. Mostre que |w̃| ∈ W 2,s(p,n) (Ω) em que
s(p, n) é um expoente adequado.
l) Como é que tentaria acabar a demonstração?
52
Capı́tulo 8
A equação do calor
53
Capı́tulo 8. A equação do calor
54
Capı́tulo 9
55
Capı́tulo 9. A equação das ondas
56
Apêndice A
Neste apêndice de carácter introdutório pretende-se dar uma panorâmica, necessariamente breve e
incompleta, dos fundamentos da Mecânica dos Meios Contı́nuos como fonte essencial de exemplos
e problemas no estudo de equações diferenciais parciais.
x (t ; ⋅ )
p
x (t ; p)
Ωt
Ω0
ponto de vista é adoptado por vários autores. No presente contexto não há vantagem especial em fazê-lo.
2 Usar-se-á a, b, c, . . . , α, . . . para representações de grandezas em coordenadas materiais e a, b, c, . . . , α, . . . para
57
APÊNDICE A. MECÂNICA DOS MEIOS CONTÍNUOS
Note-se que
∂v
a(t, p) = (t, p)
∂t
n
∂v X ∂v ∂xi
= (t, x(t, p)) + (t, x(t, p)) (t, p)
∂t i=1
∂xi ∂t
n
∂v X ∂v
= (t, x(t, p)) + (t, x(t, p))v i (t, p)
∂t i=1
∂xi
ρ : R × Ω → [0, ∞[
f : R × Ω → Rn
τ : R × Ω × S n−1 → Rn
58
A.1. Formulação dos modelos
d
Z Z Z
ρ x ∧ v dx = ρ x ∧ f dx + x ∧ τ dS
dt ωt ωt ∂ωt
em que ∧ designa produto externo, ν é a normal a ∂ωt onde aquela estiver definida, sendo
ωt = x(t, ω) com ω ⊂ Ω um qualquer aberto com fronteira seccionalmente regular.
−1
∂x ∂ρ
ρ(t, p) = ρ0 (p) det , + divx (ρv) = 0
∂p ∂t
d ∂g
Z Z
g(t, x) dx = + divx (g(t, x)v(t, x)) dx
dt ωt ωt ∂t
para todo o ν ∈ S n−1 em que os T (t, x)(·) são aplicações lineares e designam-se por tensor das
tensões. Para um fluido perfeito
T (t, x) = −p(t, x) Id
com p uma função escalar (pressão). Interprete o modelo formulado até ao momento de maneira
a obter o familiar princı́pio de Arquimedes para um fluido perfeito em repouso.
59
APÊNDICE A. MECÂNICA DOS MEIOS CONTÍNUOS
A.6 Exercı́cios
s
60
Apêndice B
Convolução e regularização
Exercı́cio B.1. Construa uma função ϕ : R → R de classe C ∞ , com suporte compacto contido
em [−1, 1], verificando ϕ ≥ 0, ϕ(x) = ϕ(−x) para todo x ∈ R e ϕ ≡ 1 numa vizinhança de 0.
A classe das funções C ∞ de suporte compacto num aberto Ω ⊂ Rn é abreviada por Cc∞ (Ω)
e tais funções designam-se por funções teste1 . É óbvio que se definirmos ρ : Rn → R via
ϕ(|x|)
ρ(x) =
c
em que c > 0 é tal que Rn ρ = 1 e ϕ é a função do exercı́cio anterior então ρ ∈ Cc∞ (Rn ).
R
é obtida tomando uma média ponderada dos valores de f numa vizinhança do ponto y.
O integral usado em (B.1) é um caso particular dum integral de convolução. Dadas duas
funções mensuráveis h, g : Rn → R define-se a sua convolução (ou produto de convolução), g ∗ h,
via Z
g ∗ h(y) = g(y − x)h(x) dx
Rn
sempre que o integral do segundo membro existir e fôr finito para quase todo o y ∈ R n . Em
particular tal acontece se g, h ∈ L1 (Rn ) sendo nesse caso g ∗ h ∈ L1 (Rn ).
c) g ∗ h = h ∗ g ∈ L1 (Rn ).
1 A notação C ∞ (Ω) é por vezes utilizada para o mesmo fim. Reservá-la-emos para as funções C ∞ com limite
0
0 no infinito.
61
Apêndice B. Convolução e regularização
Facilmente se prova que as funções f são de classe C ∞ . Por esse motivo, a famı́lia (f )>0
definida por (B.1) designa-se por famı́lia de regularizadas de f através da famı́lia de molificadores
(ρ )>0 . Vamos estabelecer alguns resultados que serão do seguinte tipo: f → f no sentido do
espaço normado a que pertencer f . De forma precisa temos, por exemplo,
Proposição B.1.1. Seja f ∈ L1 (Rn ). Então f → f em L1 (Rn ).
Demonstração. Do critério de Tonelli-Hobson e do teorema de Fubini segue
Z Z Z
|f (x) − f (x)| dx = ρ (y)(f (x) − f (x − y)) dy dx
Rn Rn Rn
Z Z
≤ ρ (y)|f (x) − f (x − y)| dx dy
n n
ZR ZR
= ρ (y)|f (x) − f (x − y)| dy dx.
Rn Rn
62
B.1. Sucessões de molificadores
Como E/2 é aberto a respectiva função caracterı́stica, χE/2 , é localmente somável e pode
considerar-se, para 0 < δ < /2, a convolução ρδ ∗ χE/2 .
Dos resultados anteriores segue com relativa facilidade o teorema de existência das partições
da unidade. As partições da unidade constituem uma ferramenta indispensável para a extensão
de resultados locais a resultados globais.
iv) para cada x ∈ S existe uma vizinhança de x, Vx , que só intersecta um número finito de
suportes de funções ϕj .
Tal famı́lia de funções designa-se por uma partição da unidade localmente finita 2 subordinada à
cobertura O de S.
Demonstração. Começamos por observar que se η é uma função de corte relativa a S e {ϕ j }j∈N
é uma partição da unidade subordinada a uma cobertura aberta de S então {ηϕ j }j∈N continua
a ser uma partição da unidade subordinada à mesma cobertura. Outra observação elementar
consiste em verificar que se S 0 ⊃ S e O é uma cobertura aberta de S 0 então uma partição
da unidade relativa a S 0 e subordinada a uma cobertura aberta O é também uma partição da
unidade relativa a S e subordinada a O. Da segunda observação segue que podemos supor sem
perda de generalidade que S = ∪α∈A Uα e consequentemente que S é um aberto.
Suponhamos assim que S é um aberto e que o resultado se encontra demonstrado no caso em
que S é um compacto. Note-se que para compactos podemos supôr que a partição da unidade
está subordinada a uma subcobertura finita. Escrevemos S como uma união numerável de
compactos3 , isto é, S = ∪+∞
i=1 Ki em que cada Ki é compacto e está contido no interior de Ki+1 ,
0
Ki+1 . Convencionamos K0 = K−1 = ∅. Para cada i ∈ N seja ηi uma função de corte relativa a
0
Ki \ Ki−1 tal que supp ηi ⊂ Ki+1 \ Ki−2 . Seja {ϕij }j uma partição da unidade subordinada a
0
uma subcobertura finita de Ki+1 \ Ki−1 por O. Definimos
0 se ϕij (x) = 0
notando que a construção efectuada garante que a soma no denominador é finita e positiva para
cada x ∈ S. A famı́lia {ψij }ij é a partição da unidade desejada.
2A expressão localmente finita refere-se à propriedade iv.
3 Uma fórmula explı́cita para tais conjuntos Ki é Ki = {x ∈ S : |x| ≤ i, dist(x, ∂S) ≥ 1/i}.
63
Apêndice B. Convolução e regularização
Resta demonstrar o teorema para o caso em que S é compacto. Como já observámos podemos
supôr estar a lidar com uma cobertura finita. A ideia da demonstração neste caso baseia-se na
construção de uma outra cobertura de {Vα }α∈A tal que para cada α temos Vα b Uα . Para
demonstrar que tal é possı́vel suponha-se que escrevemos a cobertura original na forma
{Uα } ∪ {Uα : α ∈ A, α 6= α}
P φα (x)
(
se φα (x) 6= 0,
ψα (x) = β∈A φβ (x)
0 se φα (x) = 0.
64
Apêndice C
Problemas Adicionais
a) Justifique que existe uma vizinhança da origem tal que a solução u do problema existe e é
única nessa vizinhança.
Exercı́cio C.2. Seja Ω ⊂ Rn um aberto, u ∈ L1loc (Ω), e K um conjunto aberto convexo tal que
K ⊂ Ω. Convenciona-se que {ei }1≤i≤n designa a base ortonormal usual de Rn .
a) Justifique que se existe i tal que para todo o h verificando |h| ≤ ρ temos
Z
(u(x + hei ) − u(x))ϕ(x) dx = 0
Ω
para todo o ϕ ∈ Cc∞ (K) então u é só função de x1 , . . . , xi−1 , xi+1 , . . . , xn em quase todo o
K.
∂ϕ
Z
u(x) dx = 0.
Ω ∂xi
d) Como deverá adaptar o resultado de (c) ao caso em que K não é necessariamente convexo?
Exercı́cio C.3. Seja Ω, um aberto limitado de Rn , f : Ω → R uma função tal que f (x) ≥ 0
para todo o x ∈ Ω, e u ∈ C 2 (Ω) ∩ C 0 (Ω) tal que ∆u = f em Ω.
65
Apêndice C. Problemas Adicionais
∆∆u = f, em Ω ⊂ Rn
u = 0, sobre ∂Ω
∂u
∂ν = 0, sobre ∂Ω
em que Ω é limitado e tem fronteira regular (no sentido de aplicabilidade do teorema de Gauss).
a) Demonstre a relação Z Z
(∆u)2 dx = uf dx
Ω Ω
em que c1 , c2 são constantes não nulas e u : R3 × R → R. Esta equação é conhecida por equação
das ondas elásticas.
Define-se
1
Z
M (u)(x, r, t) = u(y, t) dS(y).
ω2 r2 ∂Br (x)
b) Use (a) para resolver o problema de valores iniciais geral clássico para a equação (C.1).
Exercı́cio C.6 (Equação de Burger). Considere que v : R×]0, +∞[→ R é uma solução
positiva e regular da equação diferencial parcial
∂v ∂2v
=µ 2
∂t ∂x
para t > 0, sendo µ um parâmetro positivo.
1 Recorda-se que se n = 2 uma solução fundamental da equação de Laplace é dada por
1
Γ(x) = log |x|.
2Π
66
a) Verifique que w definida por w ≡ − 2µ ∂v
v ∂x é uma solução da equação de Burger
∂w ∂w ∂2w
+w =µ 2 (C.2)
∂t ∂x ∂x
b) Mostre que, ao contrário do que aconteceria se µ = 0, existem funções não nulas ϕ ∈ C c2 (R)
tais que existe uma solução regular de (C.2) satisfazendo w(x, 0) = ϕ(x) e tal que
lim w(x, t) = 0.
t→∞
Exercı́cio C.7. Seja S um semi-espaço em R2 e u uma função harmónica em C 0 (S). Prove que
se u é limitada então
sup u ≤ sup u.
S ∂S
n+1
Exercı́cio C.8. Dada uma função w : R → R “suficientemente regular”, e com suporte
contido em Rn × [0, +∞[, considere o problema
2
∂∂t2u − ∆u = w(x, t), para t ∈ R e x ∈ Rn ,
u(x, 0) = 0, para x ∈ Rn , (C.3)
∂u n
∂t (x, 0) = 0, para x ∈ R .
b) Determine para cada (x0 , t0 ) a menor região de Rn+1 em que w influencia o valor de
u(x0 , t0 ).
c) No caso da dimensão espacial ser n = 1, explicite o segundo membro de (C.4) em termos
de w e dê-lhe a forma w ∗ E com E uma certa função em L∞ (R2 ) e ∗ a convolução em R2 .
d) Use (c) para “adivinhar” uma solução fundamental da equação das ondas quando n = 1 e
verifique que o seu palpite está correcto.
Exercı́cio C.9 (Equações de primeira ordem). Considere a equação diferencial parcial real
de primeira ordem
∂u ∂u
+u =1 (C.5)
∂x ∂y
em que u = u(x, y). Determine para que valores de k a condição inicial u(x, x) = k implica a
existência e unicidade de solução de (C.5) em C 1 (U ) com U uma vizinhança da recta x = y.
Determine u nesses casos. Comente o que se passa para o(s) outro(s) valores de k.
Exercı́cio C.10 (Soluções fundamentais). a) Seja f ∈ C ∞ (Rn ) \ {0}, com n ≥ 3, e tal
2−n 1−n
que f (h) = O(|h| ), Df (h) = O(|h| ), quando h → 0. Justifique que para toda a
função ϕ ∈ Cc∞ (Rn ) temos
∂ϕ ∂f
Z Z
f dx = − ϕ dx.
R n ∂x i R n ∂x i
67
Apêndice C. Problemas Adicionais
b) Diga o que significa uma função g ∈ L1loc ser uma solução fundamental2 do operador div.
c) A partir duma solução fundamental do laplaciano, ∆, determine uma solução fundamental
do operador div.
Exercı́cio C.11. Sejam T : Rn → Rn uma aplicação linear invertı́vel, e L um operador diferen-
cial linear de segunda ordem com coeficientes constantes. Designe por LT o operador L após a
mudança de coordenadas y = T x. Relacione as soluções fundamentais de L e L T . [Admita se
desejar que as soluções fundamentais de T estão em L1loc .]
Exercı́cio C.12 (Um princı́pio de reflexão). Seja Ω ⊂ Rn , n ≥ 2, um conjunto aberto.
Convenciona-se escrever, para todo o a ∈ Rn , a = (â, an ) com â ∈ Rn−1 , an ∈ R. Supõe-
se que Ω é tal que se (x̂, xn ) ∈ Ω então (x̂, −xn ) ∈ Ω e que existe (x̂, 0) ∈ Ω. Define-se
Ω+ = {(x̂, xn ) ∈ Ω : xn > 0}. Supõe-se que u ∈ C 1 (Ω+ ) ∩ C 2 (Ω+ ) verifica
∆u = 0, em Ω+ ,
∂u
∂ν = 0, sobre ∂Ω+ \ ∂Ω,
em que os coeficientes aij são uniformemente limitados em Ω e satisfazem para um certo λ > 0
X
aij (x)ηi ηj ≥ λ|η|2
i,j=1
68
a) Suponha Ω conexo. Seja ∂Ω = S1 ∪ S2 com S1 não vazio e suponha-se que para cada
ponto de S2 existe uma bola contida em Ω e tangente a ∂Ω nesse ponto. Suponha-se que
u ∈ C 2 (Ω) ∩ C 1 (Ω ∪ S2 ) ∩ C 0 (Ω) satisfaz
Lu = 0, em Ω,
u = 0, em S1 ,
P
βi Di u = 0, em S2 ,
em que o vector β(x) = (βi )i=1,...,n tem uma componente normal relativamente a ∂Ω não
nula em cada ponto de S2 . Mostre que u = 0.
b) Suponha-se que para cada ponto de ∂Ω existe uma bola contida em Ω e tangente a ∂Ω
nesse ponto. Suponha-se que u ∈ C 2 (Ω) ∩ C 1 (Ω) satisfaz
Lu = 0, P em Ω,
α(x)u + βi Di u = 0, em ∂Ω,
em que o vector β(x) = (βi )i=1,...,n e o campo escalar α satisfazem α(β · ν) > 0 com ν a
normal exterior a ∂Ω. Mostre que u = 0.
b) Estime, tão bem quanto puder, um intervalo I ⊂ R tal que possa garantir u(0, 0) ∈ I.
Justifique.
c) Prove que
d) Proponha uma generalização do resultado anterior para funções harmónicas num aberto
de Rn verificando certas propriedades de simetria com valores na fronteira invariantes
relativamente a essa simetria.
Exercı́cio C.15. Considere o problema de valore iniciais para a equação de Schrödinger linear
para funções u : R × Rn → C
∂u
i − ∆u = 0, u(0, x) = u0 (x).
∂t
Obtenha as estimativas
69
Apêndice C. Problemas Adicionais
a)
ku(·, t)k2 = ku0 k2 .
b)
ku(·, t)k∞ ≤ (4πt)−n/2 ku0 k1 .
70
a) Mostre que w satisfaz
dE
Z
= −2 |∇w|2 dx ≤ 0.
dt U
b) Mostre que basta demonstrar o resultado supondo E(T ) = 0 e E(t) > 0 para 0 ≤ t ≤ T .
c) Mostre que w satisfaz
d2 E
Z
=4 (∆w)2 dx ≥ 0.
dt2 U
2
d) Mostre que E satisfaz a desigualdade diferencial ( dE 2 d E
dt ) ≤ E(t) dt2 .
71
Apêndice C. Problemas Adicionais
72
Bibliografia
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74
Lista de Figuras
Lista de Figuras
A.1 Cinemática. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 57
75
Índice remissivo
76
Índice remissivo
caracterıstico, 11
de equações diferenciais parciais, 1
determinado, 1
linear, 1
quase-linear, 1
solução de Perron, 28
soluções fundamentais radiais n-dimensionais da
equação de Laplace, 18
soluções
fracas, 8
subfunções, 26
subharmónicas, 22
superfunções, 26
superharmónicas, 22
teorema
de Cauchy-Kowalewska, 40
teorema de unicidade de Holmgren, 40
teorema do valor médio, 21
traços caracterı́sticos, 4
transformação de Kelvin, 20
variedade caracterı́stica, 39
vectores caracterı́sticos, 39
77