Unidade 2 – Ciência como forma
especial do conhecimento
A visão comum de ciência constitui uma crença generalizada que o
conhecimento fornecido distingue-se por um grau de certeza alto,
desfrutando assim de uma posição privilegiada com relação aos demais
tipos de conhecimento. Teorias, métodos, técnicas, produtos, contam
com aprovação geral quando considerados científicos. A autoridade da
ciência é evocada amplamente. A unidade dois faz um enquadramento
sobre o 1) a definição de ciência, 2) as características, tarefas e
componentes da ciência, 3) a classificação da ciência e as 4) Revoluções
cientificas.
2.1. Definição de Ciência
O ser humano procura compreender e dominar o meio, ou o mundo, em
benefício próprio e da sociedade da qual faz parte, acumula
conhecimentos racionais sobre seu próprio meio e sobre as acções
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capazes de transformá-lo. A essa sequência permanente de acréscimos
de conhecimentos racionais e verificáveis da realidade denominamos
ciência.
A natureza da ciência tem sido objecto de um vigoroso debate ao longo
dos séculos – conduzido por cientistas, filósofos, historiadores e outras
partes interessadas. Nunca se chegou a um consenso sobre a definição
de ciência, e mesmo sobre a necessidade e a possibilidade de definir
ciência.
De modo geral, pode-se dividir as tentativas de definição de ciência em
duas grandes classes de ideia: as primeiras são aquelas para as quais a
definição de ciência não pode deixar de lado as relações da ciência com
a sociedade, com os meios de produção e com o meio ambiente; e a
segunda classe são aquelas que se interessam apenas pela parte
conceitual e metodológica da ciência, sem se preocupar com o contexto
e as condições em que ela ocorre ou se desenvolve. Pode-se tentar
expressar essas duas visões antagónicas sobre ciência da seguinte
maneira.
A ciência é encarada como algo que faz com que os seres humanos
ganhem controlo sobre seu ambiente, fortemente associada com as
tradições artesanais e a tecnologia, originado na pré-história quando os
seres humanos descobriram como trabalhar os metais e a agricultura.
Existem duas coisas distintas: ciência e tecnologia. Enquanto a ciência é
constituída por um corpo de conhecimentos teóricos a tecnologia se
preocupa em aplicar esses conhecimentos teóricos à solução de
problemas práticos. Deve-se distinguir, por exemplo, a tecnologia
envolvida na construção de aviões, navios e automóveis da ciência da
mecânica, da fluido dinâmica e das outras disciplinas teóricas usadas
para fundamentar essas construções.
Etimologicamente, o termo ciência provém do verbo em latim scire que
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significa aprender, conhecer. Essa definição etimológica, não é suficiente
para diferenciar ciência de outras actividades também envolvidas com o
aprendizado e o conhecimento.
A delimitação mais acurada do que é ciência, bem como do seu
significado formal não é uma tarefa fácil. Isto é dificultado por razões
como a complexidade e variedade dos assuntos que englobam os
campos de conhecimento científico e a falta de sintonia entre diversas
definições. Considera-se aqui que a ciência é apenas uma forma de
conhecer o mundo/universo de forma mais sistemática e organizada.
Vejamos algumas definições:
Conhecimentos racionais, certos ou prováveis, obtidos
metodicamente sistematizados e verificáveis, que fazem
referência a objectos de uma mesma natureza.
Sistematização de conhecimentos, um conjunto de preposições
logicamente correlacionadas sobre o comportamento de certos
fenómenos que se deseja estudar.
Conjunto de atitudes e actividades racionais, dirigidas a busca
do conhecimento sistemático com objectivo limitado, capaz de
ser submetido à verificação.
Combinado de proposições logicamente correlacionadas sobre
o comportamento de certos fenómenos que se deseja estudar.
Embora não haja uma definição única de ciência, ela pode ser definida
genericamente a partir de sua característica mais comum: o processo de
produção de conhecimento. Pode ser entendida, nesse sentido, como um
conjunto de métodos lógicos e empíricos que permitem a observação
sistemática de fenómenos, a fim de compreendê-los e estabelecer
padrões regulares que seguem. A ciência é uma forma de proceder que
busca: a) responder questionamentos; b) solucionar problemas; c)
desenvolver de modo mais efectivo os procedimentos para responder as
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questões e de solucionar problemas.
A ciência se desenvolveu, parcialmente, pela necessidade de um método
mais seguro, confiável e controlado de compreensão e conhecimento
dos fenómenos naturais. No mundo de hoje, tem várias tarefas a cumprir,
tais como:
a. Aumento, melhoria do conhecimento e descoberta de novos
factos ou fenómenos;
b. Aproveitamento espiritual do conhecimento na supressão de
falsos milagres, mistérios e superstições;
c. Aproveitamento material do conhecimento visando a melhoria
da condição de vida humana;
d. Estabelecimento de certo tipo de controlo sobre a natureza.
A origem da ciência está nos procedimentos de verificação baseados na
metodologia científica. Muitos autores julgam a ciência como uma
tentativa de descrever, interpretar e generalizar uma realidade
observada, isenta de questões ideológicas e éticas ou juízos de valor. O
rigor na expressão das ideias e a lógica impecável, constantemente
utilizados como critérios de demarcação entre ciência e não-ciência, não
são, na verdade, suficientes para sua caracterização, ainda que
imprescindíveis.
Apesar das diversas definições de ciência, seu conceito fica mais claro
quando se analisa suas características, denominadas, critérios de
cientificidade, normalmente citados na literatura científica são:
a. Objecto definido e de natureza empírica: delimitação e descrição
objectiva de realidade empiricamente observável;
b. Objectivação: tentativa de conhecer a realidade tal como é,
evitando contaminá-la com ideologia, valores, opiniões ou
preconceitos do pesquisador;
c. Observação controlada dos fenómenos: preocupação em controlar
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a qualidade do dado e o processo utilizado para sua obtenção;
d. Coerência: argumentação lógica, bem estruturada, sem
contradições;
e. Consistência: base sólida, resistente a argumentações contrárias;
f. Linguagem precisa: sentido exacto das palavras, restringindo ao
máximo o uso de adjectivos;
g. Intersubjetividade: opinião dominante da comunidade científica de
determinada época e lugar como um critério externo à ciência.
Desses critérios decorrem outros, como a comunicação, a comparação
crítica, o reconhecimento dos pares, o encadeamento de pesquisas em
um mesmo tema etc., os quais possibilitam à ciência cumprir sua função
de aperfeiçoamento, a partir do crescente acervo de conhecimentos da
relação do homem com a natureza.
2.2. Característica, tarefas e componentes da ciência
A ciência distingue-se do senso comum, porque este ultima é uma
opinião baseada em hábitos, preconceitos, tradições cristalizadas,
enquanto a ciência baseia-se em pesquisas, investigações metódicas e
sistemáticas e na exigência de que as teorias sejam internamente
coerentes e digam a verdade sobre a realidade. Neste sentido e
fundamental conhecer algumas das características da ciência:
Conhecimento pelas causas – a ciência se caracteriza por
demonstrar as razões dos enunciados, relacionando as suas causas.
Profundidade e generalidade das conclusões – a ciência exprimem
suas conclusões em enunciados gerais que traduzem a relação
constante do binómio causa/efeito; generalizando o porquê, atinge
a constituição íntima e a causa comum a todos os fenómenos da
mesma espécie, conferindo à ciência a prerrogativa de fazer
prognósticos seguros;
Finalidade prática e teórica – da pesquisa fundamental e da
descoberta da verdade decorrem inúmeras consequências práticas;
Objecto formal – é, de maneira particular, o aspecto e o ângulo sob
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os quais a ciência atinge seu objecto material (realidades físicas),
com o controle experimental das causas reais próximas (evidências
dos fatos, e não das ideias);
Método e controlo – é uma investigação rigorosamente metódica e
controlada, derivando-se daí a razão da confiança nas conclusões
científicas;
Exactidão – a ciência pode demonstrar, por via de experimentação
ou evidência dos factos objectivos, observáveis e controláveis, o
mérito dos seus enunciados;
Aspecto social – a ciência é uma instituição social, com os cientistas
membros de uma sociedade universal para a procura da verdade e
melhoria das condições de vida da humanidade.
Além das características da ciência, destaca-se, ainda, as tarefas básicas
para se fazer ciência
• Definir os termos com precisão, para não dar margem à ambiguidade.
Cada conceito deve ter um conteúdo específico e delimitado, não
pode virar durante a análise embora a dose de imprecisão seja normal.
O ideal é reduzi-la ao mínimo possível, produzindo o fenómeno
desejável da clareza da exposição;
• Descrever e explicar com transparência, não incorrendo em
complicações. Ou seja, em linguagem hermética, dura, inteligível, para
bem explicar. É mister simplificar, mas é preciso buscar o meio-termo
entre excessiva simplificação e excessiva complicação.
• Distinguir com rigor as facetas diversas, não emaranhar termos, clarear
superposições possíveis, fugir da mistura de planos da realidade. Não
cair na confusão, no sentido de confundir uma coisa com a outra, de
obscurecer regiões distintas no mesmo objecto, de trocar termos
destacáveis;
• Procurar classificações nítidas, bem sistemáticas, de tal sorte que
objecto apareça recortado sem perder muito a sua riqueza. Impor
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certa ordem no tratamento do tema, de tal modo que seja claro o
começa ou o ponto de partida, a constituição do corpo do trabalho e
a sequência inconsútil das conclusões.
Mesmo com as mais variadas conceituações de ciência, das suas
características e das tarefas básicas para se construí-la, vale destacar que,
para fazer ciência, é necessário preocupar se com a formação do
cientista/pesquisador. Nada vale um instrumental sofisticado e métodos
aceitáveis, se o pesquisador não estiver fundamentado de um espírito
científico, ou seja, o de buscar soluções sérias com métodos aceitos
pelos pares. Acima de tudo, o pesquisador/cientista deve estar apto a
enfrentar críticas e sustentar o seu parecer sobre o fenómeno que
estuda.
O espírito científico traduz-se na prática em consciência crítica, objectiva
e racional. A consciência crítica não se refere a um sentido negativo, mas
ao sentido de impedir aceitação do fácil e superficial. A consciência
crítica só deve admitir o que é susceptível à prova. A objectividade
implica romper com posições subjectivas, mal formuladas e susceptíveis
a enganos ou expressões, como “acho que”, pois, para a ciência, não vale
o que o cientista pensa ou imagina, mas o que de fato é. [...] o espírito
científico age racionalmente.
As únicas razões explicativas de uma questão só podem ser intelectuais
ou racionais. As razões que a razão desconhece, as razões da
arbitrariedade, do sentimento e do coração nada explica nem justificam
no campo da ciência. As ciências possuem componentes como:
a. Objectivo - preocupação em distinguir a característica comum ou
as leis gerais que regem determinados eventos.
b. Função\Aperfeiçoamento - através do crescente acervo de
conhecimentos, da relação do homem com o seu mundo.
c. Objecto - subdividido em: material (aquilo que se pretende estudar,
analisar, interpretar ou verificar, de modo geral) e formal (enfoque
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especial, em face das diversas ciências que possuem o mesmo
objecto material.
A mentalidade científica ou atitude científica é um estado de espírito, é
uma disposição subjectiva adequada à nobreza e à seriedade do trabalho
científico. Esse estado subjectivo resulta do cultivo de uma constelação
de virtudes morais e intelectuais; não bastará, pois, conhecê-las, é preciso
vivê-las, reduzi-las à prática, cultivá-las. Muitas são as posições sobre as
componentes que a ciência deve ter, mas isso depende de época para
época, de autor para autor e dos instrumentos investigativos disponíveis
que são usados pelos cientistas de um determinado contexto.
2.3. Classificação da Ciência
Ciência é uma actividade que busca, de forma lógica, coerente,
consistente e controlada, o conhecimento de fenómenos da natureza,
por meio de métodos de observação e análise das evidências disponíveis
ao pesquisador. É finalidade da pesquisa científica reduzir a área de
incerteza e desconhecimento sobre determinado fenómeno ou evento,
estabelecendo inferências, teorias e distinguindo características comuns
ou leis gerais que o regem.
Conforme abordado na unidade anterior, o conhecimento científico “não
é considerado como algo pronto, acabado ou definitivo”, mas como
busca e revisão constantes dos conhecimentos existentes. Aquele que se
dedica a esse estudo sistematizado da realidade e da ciência é
denominado de pesquisador, tornando-se produtor e não apenas
consumidor do conhecimento, deixando de aceitar passivamente as
ideias dos outros. Um estudo é científico quando responde aos requisitos
como:
• Dizer do objecto algo que ainda não foi dito ou rever sob uma óptica
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diferente do que foi dito. Como exemplo, um trabalho
matematicamente exacto visando demonstrar com métodos
tradicionais o teorema de Pitágoras não seria científico, uma vez que
nada acrescentaria ao já sabido.
• Ser útil aos demais. A importância de um trabalho acrescentar algo
àquilo que a comunidade já sabia reflecte a função social da pesquisa
em melhorar as condições de vida, a libertação moral e política de
povo, o domínio de uma tecnologia e sua aplicação prática.
• Fornecer elementos para verificação e contestação das hipóteses
apresentadas e, portanto, para uma continuidade pública. Este
requisito é fundamental para o progresso da ciência e validação dos
resultados, questionando procedimentos e a própria ética da
verificação dos dados.
• Debruça-se sobre um objecto reconhecível e definido de tal maneira
que seja igualmente reconhecível pelos outros. Destaca-se que o
termo objecto não tem necessariamente um significado físico.
Estabelecer o objecto significa definir as condições sobre as quais
trataremos com base em que regras que estabelecemos ou outros
estabeleceram anteriormente.
Um dos grandes pilares científicos é a busca de neutralidade e
imparcialidade. É sabido que, para se fazer uma análise desapaixonada
de qualquer tema, é necessário que o pesquisador mantenha certa
distância emocional do assunto abordado. A complexidade do universo e
a diversidade de fenómenos que nele se manifestam, aliadas à
necessidade do homem de estudá-los para poder entendi-os e explicá-
los, levaram ao surgimento de diversos ramos de estudo e ciências
específicas.
Estas necessitam de uma classificação, quer de acordo com sua ordem de
complexidade, quer de acordo com seu conteúdo: objecto ou temas,
diferença de enunciados e metodologia empregada. As ciências são
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classificadas em ciências formais, tais como a lógica e a matemática, e
em ciências factuais, estas subdivididas em ciências naturais e ciências
sociais.
As ciências formais lidam com objectos abstractos, concebidos de
forma independente da realidade e utilizam um conjunto de
procedimentos metodológicos dedutivos (a priori), baseados na
lógica formal (silogismos etc.) e na lógica matemática (dedução
de axiomas). Pretendem propor regras gerais sem a finalidade
última de explicar ou propor soluções para os fenómenos
empíricos.
As ciências factuais, integram as naturais tratam de objectos e
fenómenos da natureza, com o objectivo de estabelecer, leis gerais,
teorias e explicações e as ciências sociais que estudam os
indivíduos e grupos sociais, seus comportamentos individuais ou
colectivos, tais como as empresas, a sociedade a economia ou
países.
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As ciências também podem ser classificadas de acordo com os seus fins.
Ciências básicas, também chamadas de ciências puras ou ciências
duras, são aquelas que estudam os fenómenos empíricos básicos,
os seus princípios e as suas relações. As ciências básicas têm como
intuito identificar e explicar as regularidades entre os fenómenos,
expressas em teorias, leis e modelos. Encontramos exemplos nos
estudos da física (primeira lei da termodinâmica), da química (teoria
dos orbitais moleculares) e da biologia (leis da hereditariedade, de
Mendel).
Ciências aplicadas, por sua vez, também chamadas de ciências
práticas, são aquelas nas quais o conhecimento científico,
previamente consolidado por meio das ciências básicas, é aplicado
a determinadas áreas, com o objectivo de ampliar o conhecimento
empírico* de certos fenómenos. Para exemplificar: a engenharia
utiliza conhecimentos da física e da matemática para propor
mecanismos e soluções práticas (uma bomba d’água para a
irrigação de culturas agrícolas, por exemplo); a medicina, apoia-se
nos conhecimentos da química e da biologia, para compreender os
benefícios do uso de determinadas proteínas para o metabolismo
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humano.
Ciências sociais aplicadas - nas quais a ciência da administração
está incluída – estudam os fenómenos socias, tais como as
organizações públicas e privadas, a cultura organizacional, as
técnicas de liderança organizacional etc. Tais estudos valem-se de
teorias consolidadas em disciplinas nas áreas de sociologia e de
psicologia, dentre outras.
A ciência é utilizada para satisfazer às necessidades humanas e como
instrumento para estabelecer um controlo prático sobre a natureza.
Somam-se os benefícios auferidos pelo homem em todos os campos,
produzidos pela aplicação prática da descoberta científica.
A electricidade, a telefonia, a informática, o rádio, a televisão, a aviação,
as aplicações tecnológicas no campo da medicina, das engenharias e das
viagens espaciais, o uso da genética na agricultura e na agro-pecuária e
tantos outros relacionados à psicologia, sociologia, e aos mais diferentes
campos do conhecimento mostram a evolução crescente do uso do
conhecimento científico na vida diária do homem, a tal ponto que
dificilmente se desvincula a produção do conhecimento do seu benefício
tecnológico e pragmático.
Os próprios cientistas, ao justificarem seus pedidos de recursos
financeiros para custear as despesas de suas investigações, junto aos
grupos de interesses económicos e políticos, tendem a dar demasiada
ênfase à relevância dos resultados práticos auferidos pelas suas
pesquisas.
O processo de mudança dá destaque à ética e epistemologia para as
reflexões e estabelecimento de parâmetros das práticas científicas.
Sempre que limites são rompidos ou ameaçados em qualquer disciplina
científica, a ética é trazida ao debate para chamar a atenção da
Página12 – Introdução a Pesquisa Científica
consciência dos cientistas e das instituições para a necessidade de
diálogo, meio de equilibrar os anseios da comunidade académica e os
valores da sociedade. Por seu lado, a epistemologia ganha importância à
medida que o debate passa a vasculhar os critérios de verdade dos
discursos sobre natureza e suas transformações.
É preciso recusar a ideia sedutora de que a ciência busca a verdade e a
descrição da realidade em seus aspectos universais. Sendo assim, seria
muito mais simples a discussão sobre as implicações da pesquisa
científica. Em outras palavras, a ciência lida com fenómenos complexos,
realidades caóticas e com incertezas. De certa forma, por meio da ciência,
procuramos ordenar esses fenómenos e explicá-los racionalmente.
A ciência é todo um conjunto de atitudes e actividades racionais,
dirigidas ao sistemático conhecimento com objecto limitado, capaz de
ser submetido à verificação.” A exposição dos conceitos de ciência põe
em relevo a forma pela qual a pesquisa científica dá valor à evidência dos
fatos ou objectos, mostrando como cada área das ciências geralmente se
inicia com os dados oriundos da observação e da verificação, seguindo
parâmetros da metodologia científica.
2.4. Revoluções científicas
Thomas S. Kuhn foi um dos autores que mais influenciou a concepção de
ciência nos últimos anos com o seu livro The Structure of Scientific
Revolutions. O autor utilizou de conceitos das áreas sociais para explicar
como ocorrem as mudanças científicas. Neste livro ele argumenta que a
ciência não progride de forma linear ou sequencial pela acumulação de
novos conhecimentos, mas é submetida a periódicas revoluções por
novas teorias que forçam uma mudança de paradigmas.
A mudança de paradigmas faz com que a natureza da investigação
científica em um campo de conhecimento seja abruptamente
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transformada. Para ele a ciência distingue-se por três diferentes estágios:
a pré-ciência, a ciência normal e a ciência revolucionária.
i. Pré-ciência ocorre a falta de um paradigma central em um
determinado campo de conhecimento.
ii. Ciência normal é aquela em que uma comunidade científica aceita
um paradigma, teoria ou conjunto de teorias como resposta às
questões teóricas e experimentais de uma determinada área. Os
avanços ocorrem com trabalhos que ampliam as teorias já
existentes.
iii. Ciência revolucionária aparece com a utilização de novos
paradigmas, pela rivalidade entre pesquisadores ou pela rejeição
do paradigma anterior pela comunidade científica. Ocorre uma
transformação na produção dos problemas existentes, nas
metáforas utilizadas e nos valores da comunidade, gerando
mudanças no pensamento científico.
Com a consolidação dos paradigmas da ciência revolucionária, esta passa
a ser ciência normal. Kuhn enfatiza a dimensão social e as raízes
históricas da ciência, estabelecendo uma interdisciplinaridade que
aproxima as diferentes especialidades académicas. Portanto, a análise
racionalista da ciência é incompleta, pois como a ciência é produzida por
seres humanos, para entendê-la é, então necessário, considerar a
dimensão social da ciência. Desta forma, se pode explicar a produção, a
manutenção e a mudança das teorias científicas.
Outro crítico do método científico clássico foi Paul Feyerabend que não
considera possível uma teoria da ciência ou um método científico
monolítico. Assim, ideias novas e ousadas não seriam inibidas para
resolver questões não respondidas pelos procedimentos científicos
oficiais. Para o autor, os problemas científicos devem ser abordados e
resolvidos nas próprias circunstâncias em que surgem. Dependem dos
Página14 – Introdução a Pesquisa Científica
meios disponíveis naquele instante e dos próprios desejos daqueles que
com eles trabalham, não existindo condições que possam limitar
indefinidamente a pesquisa e a investigação científica.
Entretanto, se de um lado Feyerabend aponta para uma postura frente à
ciência mais ética do que metodológica, por outro lado, é necessário se
levar em conta que, de facto, o desenvolvimento do método científico
intencionou, na sua forma mais justa, resguardar os indivíduos e a
sociedade de afirmações descabidas ou mesmo de charlatanismo.
Conforme, a metodologia deve ser tomada como um conjunto em
aberto de procedimentos que visam a assegurar mais propriamente uma
certa objectividade de alguma determinada conclusão, do que,
exactamente, de um padrão que exclui de maneira dogmática quaisquer
intuições ou procedimentos que não se adaptem exactamente a ela.
A partir do século XX a ciência tem tomado parte activa na definição de
políticas públicas, surgindo então actividades científicas com
características particulares. Estes tipos de actividade têm sido
denominados de ciência reguladora, transigência ou ciência pós-normal.
Assim, por exemplo, quando uma administração pública define uma
política social específica, baseia-se nas formulações científicas da
sociologia e economia, por exemplo. Também, para a avaliação da
eficiência de tal política se baseará nesse conhecimento científico
conforme sua metodologia.
Deste modo, o conhecimento científico passou a ser relevante para o
âmbito das políticas públicas e, pode-se acrescentar, para a legitimação
de suas acções e de sua aceitação frente à sociedade. O conhecimento
científico passa a influenciar decisões políticas e controlar os resultados
dessas decisões. Também, o controlo dos efeitos indesejados do
desenvolvimento tecnológico, prejudiciais às pessoas e ao meio
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ambiente, passa a contar com o conhecimento científico como maior
aliado para sua solução.
A transciência se relaciona com a responsabilidade dos cientistas na
solução das dificuldades surgidas ou que podem surgir devido aos
efeitos da ciência e da tecnologia na sociedade. Por exemplo, a decisão
política de se construir uma usina nuclear em determinada área. Tal
decisão se baseará em cálculos de custo, disponibilidade de combustível,
segurança, impacto ambiental e social, dentre outros.
Porém, a precisão e a confiabilidade de tais estimativas sempre
apresentam uma margem de erros e riscos. Situações inesperadas
podem ocorrer e seria difícil prever as consequências.
O que se considera que é um fim político ou social termina por ter
numerosas repercussões nas análises do que deveria estar sob a
jurisdição da ciência, e cada uma dessas repercussões têm de ser
avaliadas em termos políticos e morais. Portanto, a transciência é uma
área que trata de temas complexos em que a ética, os valores morais e a
legislação têm que ser considerados conjuntamente com as questões
científicas e tecnológicas.
A ciência reguladora actuaria num contexto onde os fatos são incertos,
os paradigmas teóricos estão pouco desenvolvidos, os métodos de
estudos são bastante inconsistentes e muito discutidos, e onde os
resultados estão submetidos a consideráveis incertezas. Nestes
contextos, a participação dos cientistas e agentes sociais nos processos
de decisão política possibilitaria uma qualidade e objectividade maior da
actuação da própria ciência no entendimento e na solução de problemas
reais da sociedade.
Devido à constante busca da verdade científica, a evolução da ciência
tornou-se presente, ampliando, aprofundando, detalhando e, por vezes,
invadindo conhecimentos anteriores. Dessa maneira, pode-se colocar
Página16 – Introdução a Pesquisa Científica
que a ciência é exacta por tempo determinado, até que ela passe por
novas transformações, sendo, portanto, falível. Indústrias, por exemplo,
frequentemente rotulam de “estudos científicos” processos por meio dos
quais fabricam seus produtos, bem como os testes aos quais os
submetem.
Com a ciência recorre-se a busca constante de explicações e de soluções,
de revisão e de reavaliação de seus resultados, apesar de sua falibilidade
e de seus limites. Do ponto de vista científico, o conhecimento é tanto o
reflexo quanto a produção de determinado objecto em nossa mente.
Deste processo de conhecimento participam tanto a razão quanto os
sentidos e a intuição. O conhecimento científico pode ser compreendido
como conhecimento racional e sistemático da realidade.
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