Neuropsicologia e Avaliação Neuropsicológica
A neuropsicologia é a ciência que estuda a relação entre o cérebro e o comportamento
humano. Como área específica de estudo, tem um desenvolvimento relativamente recente,
embora sua fundamentação científica seja resultante de várias décadas de conhecimento e
investigação.
Segundo Cunha, inicialmente, a avaliação neuropsicológica pretendia chegar à
identificação e localização de lesões cerebrais focais. Atualmente, baseia-se na localização
dinâmica de funções, tendo por objetivo a investigação das funções corticais superiores, como,
por exemplo, a atenção, a memória, a linguagem, entre outras. A neuropsicologia entende a
participação do cérebro como um todo no qual as áreas são interdependentes e inter-relacionadas,
funcionando comparativamente a uma orquestra, que depende da integração de seus componentes
para realizar um concerto. Isso se denomina sistema funcional.
O principal enfoque da neuropsicologia é o desenvolvimento de uma ciência do
comportamento humano baseada no funcionamento do cérebro. Dessa maneira, sabe-se que, a
partir do conhecimento do desenvolvimento e funcionamento normal do cérebro, pode-se
compreender alterações cerebrais, como no caso de disfunções cognitivas e do comportamento
resultante de lesões, doenças ou desenvolvimento anormal do cérebro. A neuropsicologia ocupa-
se do estudo da correlação entre os modelos neurais e os modelos cognitivos, sendo seu objeto de
estudo, as lesões cerebrais e o método utilizado, o anátomo-clínico. As lesões no Sistema
Nervoso Central (SNC) podem ser naturais ou provocadas, focais ou generalizadas, temporárias
ou permanentes, hipo ou hiperfuncionantes.
Se utilizarmos a definição de neuropsicologia proposta por Lezak (1995) onde ela é vista
como a análise sistemática dos distúrbios de comportamento, que se seguem a alterações da
atividade cerebral normal, causadas por doenças, lesões ou malformações. E a partir do
entendimento de que os dois principais objetivos da neuropsicologia são: localizar as lesões
cerebrais, responsáveis pelos distúrbios específicos de comportamento, e permitir uma melhor
compreensão das funções psicológicas complexas (Lefréve, 1998), podemos supor que uma das
principais atividades da neuropsicologia é a avaliação neuropsicológica, que tem como objetivo
verificar mudanças no padrão de desempenho dos sujeitos em relação às funções cognitivas e
comportamentais, suspeitando-se de algum tipo de alteração ou disfunção cerebral (Antunha,
2002). Portanto, a Avaliação Neuropsicológica é um exame que tem por finalidade diagnosticar
os efeitos cognitivos e comportamentais de uma desordem neurológica. Através de entrevista
técnicas e testes neuropsicológicos padronizados, o psicólogo poderá estabelecer as habilidades e
as dificuldades específicas de uma pessoa para planejar a intervenção mais indicada.
Em geral, a avaliação neuropsicológica é feita por uma série de testes psicológicos, que
inclui além dos testes psicométricos, provas que visam analisar funcionalmente a atividade do
córtex cerebral. No entanto, vale alertar, que a neuropsicologia não se resume a simples aplicação
de testes e sim pressupõe uma análise global e sistemática dos resultados obtidos pela avaliação
neuropsicológica, sejam eles resultados quantitativos obtidos através dos testes psicológicos ou
qualitativos advindos das provas informais, observação direta e informações adicionais obtidas
em entrevistas com os familiares e profissionais que atendem o paciente. Desta forma, os testes
psicológicos têm apenas um caráter de instrumento auxiliar na avaliação neuropsicológica
ajudando a traçar um perfil neuropsicológico do paciente.
Ainda quanto aos testes psicológicos, Cunha (1993) e Anastasi & Urbina (2000)
recomendam buscar a intervalidação dos resultados obtidos com a aplicação de uma série de
testes, especialmente devido ao fato de que existem poucos testes psicológicos com normas
brasileiras. Portanto, organiza-se a avaliação neuropsicológica a partir de baterias de testes por
duas razões básicas: considera-se que a aplicação de apenas um teste não é suficiente para
proporcionar uma avaliação completa do indivíduo, e a aplicação de uma série de testes
possibilita uma validação intertestes dos dados obtidos a partir de cada instrumento, diminuindo a
margem de erro e fornecendo melhor fundamentação clínica e teórica (Cunha, 1993). A escolha
dos instrumentos da avaliação deve levar em conta o objetivo do exame neuropsicológico, idade,
sexo, nível sócio-cultural, grau de comprometimento e fatores situacionais, como hospitalização
ou medicação. Neste sentido, o estabelecimento de um plano de avaliação é de extrema
importância, pois através dele o psicólogo poderá alcançar seus objetivos sem perder tempo e
estressar o paciente com testes que não tem uma funcionalidade prática. Em sua essência, o plano
de avaliação permite o estabelecimento de recursos que possibilitarão um diagnóstico confiável,
porque consiste na seleção de testes e técnicas que é delimitada por determinadas hipóteses
diagnósticas. Sendo assim, o desenvolvimento de baterias de testes e protocolos específicos de
avaliação é imprescindível para aqueles que pretendem atuar com responsabilidade e qualidade
em qualquer avaliação neuropsicológica.
A avaliação neuropsicológica consiste num exame complementar importante para a
neurologia. Ela estabelece a existência e avalia a magnitude de alterações cognitivas secundárias
a lesão cerebral, proporcionando análise quantitativa e qualitativa que permite a comparação com
indivíduos da mesma idade, sexo e escolaridade.
A avaliação neuropsicológica é indicada nas seguintes situações:
1. Para detectar uma desordem neurológica (por exemplo, lesões por anoxia, quadros de
demência, depressão, etc.).
2. Para realizar um diagnóstico diferencial entre uma síndrome psicológica e uma síndrome
neurológica.
3. Para determinar as habilidades cognitivas que podem ajudar a pessoa a atingir seu maior nível
de independência e realização.
4. Para monitorar a recuperação cognitiva após uma desordem neurológica.
5. Avaliar o funcionamento cognitivo de uma pessoa para propor um trabalho de reabilitação ou o
desenvolvimento de estratégias para lidar com as dificuldades vividas por esta pessoa.
6. Para orientar os familiares do paciente sobre a melhor forma de ajudá-lo.
7. Para responder questões acerca das possibilidades do paciente como dirigir, cuidar do seu
dinheiro, retornar ao trabalho ou à escola, viver independentemente, tipo de terapia mais
indicada, etc.
As funções avaliadas na avaliação neuropsicológica incluem geralmente as seguintes
áreas, mas não se limitam exclusivamente a estas:
Atenção, Memória e Aprendizagem.
Planejamento e organização (Funções executivas).
Habilidades perceptivas e motoras.
Habilidades visuo-espaciais.
Habilidades acadêmicas.
Resolução de problemas.
Capacidade de raciocínio e julgamento.
Linguagem.
Comportamento e personalidade.
A Avaliação Neuropsicológica de crianças
A neuropsicologia infantil, que tem por objetivo identificar precocemente alterações no
desenvolvimento cognitivo e comportamental, tornou-se um dos componentes essenciais das
consultas periódicas de saúde infantil, sendo necessária a utilização de instrumentos adequados a
esta finalidade (testes neuropsicológicos e escalas para a avaliação do desenvolvimento).
Os resultados dessas escalas e testes refletem os principais ganhos ao longo do
desenvolvimento e têm o objetivo de determinar o nível evolutivo específico da criança. A
importância desses instrumentos reside principalmente na prevenção e detecção precoce de
distúrbios do desenvolvimento/aprendizado, indicando de forma minuciosa o ritmo e a qualidade
do processo e possibilitando um "mapeamento" qualitativo e quantitativo das áreas cerebrais e
suas interligações (sistema funcional), visando intervenções terapêuticas precoces e precisas.
A avaliação neuropsicológica é recomendada em qualquer caso onde exista suspeita de
uma dificuldade cognitiva ou comportamental de origem neurológica. Ela pode auxiliar no
diagnóstico e tratamento de diversas enfermidades neurológicas, problemas de desenvolvimento
infantil, comprometimentos psiquiátricos, alterações de conduta, entre outros.
A contribuição deste exame na criança é extensiva ao processo de ensino-aprendizagem,
pois nos permite estabelecer algumas relações entre as funções corticais superiores, como a
linguagem, a atenção e a memória, e a aprendizagem simbólica (conceitos, escrita, leitura, etc.).
O modelo neuropsicológico das dificuldades da aprendizagem busca reunir uma amostra de
funções mentais superiores envolvidas na aprendizagem simbólica, as quais estão, obviamente,
correlacionadas com a organização funcional do cérebro. Sem essa condição, a aprendizagem não
se processa normalmente, e, neste caso, podemos nos deparar com uma disfunção ou lesão
cerebral.
O conjunto dos instrumentos utilizados nos possibilita uma avaliação global das
capacidades da criança, bem como das dificuldades encontradas por ela em seu desempenho dia a
dia. Não se trata de "rotular" ou "enquadrar" a criança como integrante de grupos problemáticos,
e sim de evitar que tais dificuldades possam impedir o desenvolvimento saudável da criança.
Ainda quanto à avaliação em crianças, torna-se importante salientar algumas questões,
entre elas o fato de o desenvolvimento cerebral ter características próprias a cada faixa etária.
Portanto, dentro desse padrão de funcionamento cerebral, é importante a elaboração de provas de
acordo com o processo maturacional do cérebro. Diferentemente do adulto, o cérebro da criança
está ainda em desenvolvimento, tendo características próprias que garantem uma diferenciação e
especificidade de funções.
Segundo Antunha, as baterias de testes neuropsicológicos adaptados para crianças são em
número bastante reduzido. Devem contemplar:
a organização e o desenvolvimento do sistema nervoso da criança;
a variabilidade dos parâmetros de desenvolvimento entre crianças da mesma idade;
a estreita ligação entre o desenvolvimento físico, neurológico e a emergência progressiva
de funções corticais superiores.
A Avaliação Neuropsicológica e os Distúrbios de Aprendizagem
O cérebro infantil, em constante evolução através da inter-relação com o meio, permite
que criança perceba o mundo pelos sentidos e atue sobre ele. Esta interação que se modifica
durante a evolução, promove melhoria na compreensão desse mundo, o pensar de modo mais
complexo, o comportamento mais adaptado, com maior precisão, à medida que domina o corpo e
elabora mais corretamente as idéias. Entender o processo evolutivo e etapas da conquista, assim
como, os desvios subseqüentes as intercorrências internas e externas, são propostas da
investigação neuropsicológica.
Os testes clássicos de desenvolvimento global medem o rendimento e não o processo de
raciocínio, pois compara-se a criança a uma escala cronológica, de acordo com a soma de acertos
e fracassos. Os acertos são sempre relativos a uma determinada cultura, não levando em conta a
transformação e o dinamismo interno do desenvolvimento mental (Luria, 1973; Gil, 2002).
A abordagem das correlações cérebro-comportamento na criança, tentando localizar funções, são
proposições diferentes do estudo no adulto, pois ela possui um cérebro em desenvolvimento e o
fato de existir a plasticidade que modifica a recuperação, torna mais difícil a análise. A idade da
criança é importante para a compreensão das conseqüências de uma lesão, assim como a
localização, a extensão, a etiologia e a patologia. Todos estes fatores dificultam a elucidação e
investigação de um caso. Existem ainda disfunções cerebrais que não são localizadas e nem
associadas a doenças conhecidas, mas que perturbam a aprendizagem.
As disfunções cerebrais se apresentam nas crianças como um comportamento anormal
num cérebro normal. Isto se verifica em exames de imagem, como a tomografia e a ressonância
magnética cujos resultados são normais, mas as dificuldades são evidentes, podendo ocasionar
distúrbios do aprendizado. A atenção e a concentração não são adequadas, a escrita e a leitura
revelam problemas de mais a menos graves, há incoordenação motora, fala expressiva com atraso
evidente. Assim, os distúrbios do desenvolvimento se caracterizam por variadas disfunções, às
vezes com a escolaridade prejudicada e problemas emocionais, que por sua vez, agravam as
dificuldades na família e na escola. Nestes casos em que não há lesões, mas sim disfunções, a
avaliação se torna mais difícil. Formas atenuadas de alterações com possível substrato
neurológico, que podem persistir até por toda a vida, necessitam ser diagnosticadas, pois, com a
orientação neuropsicológica adequada, muitos problemas de aprendizagem podem ser tratados
(Morais, 1986).
Num exame neuropsicológico deve ser considerado a evolução dos mecanismos cerebrais
em funcionamento no complexo sistema cerebral da criança. O psicólogo está ligado intimamente
ao trabalho do neurologista quando investiga o desenvolvimento psíquico. Os distúrbios, mesmo
os mais sutis e elementares, devem ser percebidos em tarefas que exigem um canal de entrada,
um processo intermediário e a execução. Se há falha na atenção, por exemplo, o exame pode dar
um resultado com baixo rendimento na memória, que pode influir nos cálculos ou nas
construções pedidas.
A atividade nervosa superior se faz à custa de estruturas hierárquicas e constituem cada
uma das três zonas corticais: primárias (projeção) que recebem os impulsos ou mandam impulsos
para a periferia; secundárias (projeção e associação), onde a informação recebida é processada, e
terciárias (zonas de “overlapping”) responsáveis pela conjugação de várias áreas corticais (Luria,
1973).
Na criança pequena, os processos existem em condições elementares. Uma lesão nessa
época pode acarretar o desenvolvimento imperfeito das estruturas corticais superiores, que ainda
não estavam formadas. O psicólogo precisa entender o cérebro em ação, pois o sistema funcional
que envolve a conjugação de estruturas é complexo e a participação mais ou menos distante das
diversas áreas, precisa ser analisada cuidadosamente. Uma investigação sobre a memória
imediata da criança, por exemplo, não pode se ater somente neste único aspecto; é preciso
examinar outras vertentes das funções cognitivas, além da memória (Luria, 1973; Guardiola et
al., 1998; Damasceno, 2004).
Como a neuropsicologia envolve o domínio das relações e interrelações das funções
cerebrais e do comportamento, a avaliação é fundamental para documentar o grau de evolução,
obter dados que possibilitem desenvolver técnicas de intervenção e produção científica. Além
disso, a avaliação neuropsicológica deve promover e aprofundar o conhecimento do
funcionamento cerebral, permitindo avaliar como se desenvolvem os processos psicológicos,
lingüísticos e perceptuais, comparando-os e revelando interdependência dos mesmos.
Os exames topográficos cada vez mais avançados tem favorecido a compreensão dos
achados; no entanto, existem casos em que os dados neuropsicológicos têm papel e significado
superior ao das técnicas de neuroimagem (Peña-Casanova, 1987; Damasceno, 2004). Deve-se
considerar também que, quando se fala em imaturidade na infância, esta não deve ser entendida
unicamente como deficiência. Efetivamente ocorre quando há debilidade numérica dos neurônios
ativáveis, que são sempre menos numerosos que no adulto; quando da lentidão de condução de
sinais; da debilidade de impulsos neuronais relacionadas a uma transmissão sináptica pobre; e da
sensibilidade particular dos neurônicos ao ambiente, por ocasião de determinadas fases do
desenvolvimento (sensibilidade plástica eletiva).
A imaturidade do sistema nervoso e a contínua evolução neurológica pela qual a criança
atinge a maturação acarreta sérios problemas ligados à interpretação dos achados, pois não raras
vezes aspectos claramente patológicos são subestimados, enquanto que desempenhos normais
para a idade são diagnosticados como anormais. Um exemplo muito comum dessa subestima de
sintomas verifica-se na criança em idade escolar e que apresentam distúrbios da aprendizagem.
Muitos profissionais consideram que o sintoma desapareça com a maturação, o que nem sempre
ocorre, e até na maioria dos casos, além de não desaparecerem, intensificam-se trazendo sérios
problemas escolares, quer cognitivos e/ou emocionais (Gerber, 1996; Tabaquim, 2002).
Estudos realizados com crianças com problemas de aprendizagem e com atraso mental
(Ciasca, 1994; Guardiola et al, 1998; Tabaquim & Ciasca, 2001), mostraram que as dificuldades
residem precisamente na falta de capacidade para elaborar a informação que lhes foi dada e que é
necessária para resolver um problema, bem como a incapacidade de generalizar o aprendido. No
caso das crianças com dificuldades na aprendizagem, parece que seus problemas de atenção e
memória devem-se à falta de conscientização em relação às exigências da tarefa, às estratégias
que devem ser colocadas em prática para resolvê-la, isto é, ao uso e não tanto a um problema de
ausência das estratégias concretas. Já as crianças com atraso mental são menos eficientes em seus
processos cognitivos básicos, pois tem a base de conhecimentos mais limitada, sendo este o
sintoma de alterações subjacentes de ordem neurológica. Em função disto, não somente não
produzem a estratégia necessária para resolver uma tarefa, mas também, mesmo quando tal
estratégia lhes é dada, não se mostram capazes de utilizá-la plenamente. É necessário ensinar-lhes
também, e explicitamente, todos os passos no uso dessa estratégia (Tabaquim, 1996).
A neuropsicologia tem sido eficiente na definição de diagnósticos, no sentido de
compreender, de forma mais realista e científica, as condições de crianças com alterações no seu
desenvolvimento, suas dificuldades e possibilidades. Os estudos neste campo mudaram bastante a
maneira de entender determinados problemas de aprendizagem e de contribuir nesta
compreensão, com procedimentos avaliativos, sobretudo no campo das dislexias, dispraxias,
afasias, agnosias e demais dificuldades neuropsicológicas (Morais, 1986; Ciasca, 1994;
Tabaquim, 1996; 2002).
No entendimento dos processos de aprendizagem, o diagnóstico neuropsicológico é
empregado como um meio efetivo de prevenção para a criança que apresenta problemas
acadêmicos em decorrência de algum déficit físico, sensorial, mental, psicossocial, escolar, ou
ainda em razão da interação desses vários aspectos.
As capacidades mentais relacionadas à cognição como a atenção, percepção, memória,
emoção e linguagem, são elementos básicos e essenciais à aprendizagem. A criança com
distúrbio de aprendizagem apresenta nível intelectual normal; no entanto, o seu perfil cognitivo
intra-individual surge discrepante e heterogêneo, isto é, entre desempenhos verbais e não verbais
subsiste um desnível.
Os resultados da Escala Weschler de Inteligência para crianças – WISC oferece
informações que ilustram discrepâncias entre o quociente verbal (QIV) e quociente de execução
(QIE), com discrepância mínima de dez pontos. Desta forma, a maioria das crianças com
distúrbio de aprendizagem apresentam diferenças entre escores verbais e execução. Na categoria
espacial, com provas de cubos, completar figuras e armar objetos, crianças com distúrbios de
aprendizagem obtêm bons resultados, sendo os mais inferiores na categoria seqüencial, com
provas de aritmética, números, arranjo de figuras e código.
No exame neuropsicológico a área motora envolve a investigação das funções motoras
das mãos, tendo em vista que, no desempenho das atividades escolares, o desenvolvimento
braquial é fundamental para a eficiência de tarefas relacionadas ao ato final da escrita. Outro
aspecto importante a ser considerado é a organização somatotópica do córtex motor primário, que
contém a topografia motora do corpo e sua extensão cortical, corresponde diretamente à
determinada parte corporal. Assim, partes do corpo usadas em tarefas que exigem precisão e
controle motor fino como as mãos, tem representação proporcionalmente maior. Atividades
motoras que necessitam de refinamento e praxia do movimento, mostram-se mais dificultosas
para a criança com distúrbio de aprendizagem, por envolver construção alternada e rítmica das
mãos.
A ocorrência de lesões ou disfunções na zona temporal esquerda produz o distúrbio das
formas complexas da audição fonêmica. Este sintoma primário, por sua vez, prejudica as formas
de atividade verbal, razão pela qual a criança não percebe com clareza a fala que lhe é dirigida,
de nomear objetos corretamente, ou ainda, escrever. Os processos mnêmicos audio-verbais
também ficam prejudicados, assim como a resolução de problemas aritméticos, cujos enunciados
são apresentados oralmente. A linguagem e a aprendizagem como funções, estão relacionadas ao
desenvolvimento de unidades cerebrais que interferem especificamente no comportamento.
Disfunções nestas unidades acarretam alterações perceptomotoras, resultando comprometimento
associado à manutenção da atenção sustentada, na aprendizagem básica de leitura, escrita e
aritmética e baixo rendimento intelectual (Tabaquim, 2002).
A compreensão dos fatores básicos de que dependem os transtornos da memória, é
essencial do ponto de vista neuropsicológico. As provas de retenção e recuperação utilizando
recursos de palavras, seguido de símbolos ideográficos, são atividades que a criança com
distúrbio de aprendizagem mostra prejudicada. Alterações decorrentes de lesões e/ou disfunções
no lobo temporal medial, hipocampo e córtex, refletem a correspondência próxima da memória e
aprendizado, que depende da atenção, linguagem e percepção, além das experiências vividas. As
perturbações no lobo parietal ou occípto-parietal esquerdo resultam em dificuldades na realização
de sínteses simultâneas, sendo que a perturbação dos processos de memória é uma continuação
dessas desordens gnósicas (Luria, 1981).
A aquisição de competências necessárias ao desenvolvimento está relacionada à condição
e fase da criança. A avaliação neuropsicológica é conduzida para determinar se as dificuldades da
criança são o resultado de disfunção neuropsicológica ou justificável por aspectos outros, como
questões experienciais, psicológicas e sociais.
Admitindo-se ainda, o emprego de inventários sobre o comportamento psicossocial e os
indicadores e emocionais decorrentes das experiências vividas pela criança, torna-se
imprescindível considerar os níveis de motivação que, com certeza, repercutem na produção de
atividades fundamentais ao desenvolvimento e à aprendizagem.
O psicólogo que atua nesta área, necessariamente tem a obrigação de conhecer aspectos
da teoria e prática neurológica, ou seja, buscar conhecimento suficiente na área conjugada, capaz
de permitir o entendimento do fenômeno, e principalmente da criança em sua globalidade.
Além disso é preciso também, na avaliação neuropsicológica da criança com distúrbio de
aprendizagem, existir um significativo grau de convergência entre as avaliações especializadas de
psicologia, pedagogia, fonoaudiologia e neurologia. Nesta relação com a criança com
necessidades de aprendizagem diferenciadas, fica evidente a extrema importância da colaboração
interdisciplinar, partilhando do interesse acerca de avaliações.
A Avaliação pela Escala Wechsler – WISC III
O objetivo da Escala Wechsler é a avaliação da inteligência geral. O pressuposto do teste
é que a inteligência não é a soma de muitas capacidades, mas sim uma característica global
inerente às diversas manifestações do pensamento, e que esta capacidade geral é possível de ser
avaliada através de uma variedade de tarefas e perguntas.
A estrutura geral é composta de 13 subtestes que, individualmente, predizem várias
dimensões de habilidade cognitiva e, quando agrupados de forma específica, oferecem as escalas
de QI e os índices fatoriais que estimam diferentes construtos subjacentes ao teste.
A organização dos subtestes é a seguinte:
Compreensão Verbal: Informação, Semelhanças, Vocabulário, Compreensão;
Organização Perceptual: Completar Figuras, Arranjo de Figuras, Cubos, Armar Objetos;
Resistência à Distração: Aritmética, Dígitos;
Velocidade de Processamento: Código, Procurar Símbolos. (CUNHA, 2000).
Usualmente o WISC é utilizado em conjunto com outras técnicas e observações do sujeito,
para que seja possível uma compreensão mais ampla de sua problemática e dos fatores que
poderiam estar alterando a produção intelectual.
Essa escala tem sido um dos principais instrumentos utilizados para investigação dos
problemas de aprendizagem, tanto nas áreas clínica quanto na área escolar. Destaques têm sido
feitos ao WISC como instrumento de alta qualidade psicométrica, que permite que se avalie
importantes segmentos do funcionamento intelectual da criança (Kehle e cols.,1993).
Linhares e cols. (1996) discutem amplamente sua utilização, ressaltando e demonstrando sua
eficiência como instrumento preditor de desempenho acadêmico e como auxiliar na identificação
de problemas de escolaridade. A composição da Escala WISC em 12 subtestes que permitem a
avaliação dos desempenhos verbais (6 subtestes), que são mais suscetíveis às influências
socioculturais, e de execução (6 subtestes) menos influenciados pela educação formal possuem
grande utilidade como medida do desempenho cognitivo que pode ser examinado sob inúmeros
aspectos.
Caso Clínico de Avaliação pela Escala Wechsler – WISC III
Os pais de L. procuraram atendimento psicológico com a queixa de que seu filho não está
tendo um bom aproveitamento escolar. Não tem o desempenho esperado nas provas, não
consegue aprender corretamente, está desatento e com inúmeras dificuldades na maioria das
matérias dadas em sala de aula. O paciente foi submetido então à uma avaliação psicológica.
Feita a anamnese, verificou-se que o desenvolvimento foi dentro da normalidade, houve uma
reprovação na escola, é filho único, família de classe média baixa, o pai é policial militar, muito
crítico, exigente e censura o filho em diversas situações e a mãe é doméstica, sem nenhuma
escolarização. Foi aplicado, entre outros, o WISC III, e o paciente ainda está sendo avaliado pela
bateria de testes de avaliação neuropsicológica.
Paciente: L.S.D.
Idade: 11 anos completos
Escola: Particular – da Polícia Militar
Série: 5ª série
Relatório de Avaliação Cognitiva pelo teste WISC III
- Avaliação quantitativa
QI Verbal = 108; QI de Execução = 114, o que corresponde a um QI Total de 112 pontos,
indicando que ele, nesse momento, apresenta uma inteligência média superior.
- Avaliação qualitativa
A maior pontuação feita pelo paciente foi no subteste Arranjo de figuras e esse bom desempenho
significa que o paciente possui raciocínio sequencialmente ordenado sobre material visual,
capacidade de antecipação/previsão das conseqüências, estabelece relações entre eventos, define
prioridades e ordena atividades cronologicamente, ou seja, tem a habilidade de planejamento.
(funções perceptivas preservadas)
Nos subtestes de Compreensão e Completar figuras o paciente obteve também excelentes
resultados, revelando que ele tem a capacidade de utilizar experiências passadas para resolver
situações propostas de forma socialmente adequadas, ou seja, tem a função de julgamento/juízo
preservada. Conserva memória remota (longo prazo), habilidade de abstração e flexibilidade
cognitiva. Consegue diferenciar detalhes relevantes dos não relevantes.
As pontuações nos subtestes Cubos, Aritmética e Informação apontam que L. tem organização
perceptual e visual e consegue fazer uma análise do todo em suas partes componentes. Confirma
a conservação de memória remota e semântica. É capaz de analisar, sintetizar e reproduzir através
da ação motora.
A pontuação abaixo da média no subteste Código revela que a memória visual de curto prazo, a
atenção seletiva e a atenção sustentada estão prejudicadas.
O resultado insatisfatório do subteste Dígitos indica que as capacidades de armazenamento de
curto prazo, de recordação e repetição imediatas também estão danificadas.
A baixa pontuação no subteste Semelhanças revela que as funções executivas do paciente ainda
não estão presentes ou estão prejudicadas.
Índices importantes a serem considerados analisando os resultados.
* crianças com dificuldade de aprendizagem apresentam:
QIV < QIE
ICV < IOP
IRD e IVP rebaixados
O paciente apresentou esses três itens.
* crianças com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade apresentam:
QIV e QIE dentro da média
IVP E IRD são médios baixos
Subtestes Código e Dígitos abaixo da média
Novamente apresentou as três considerações.
CONCLUSÃO: O paciente apresentou na presente avaliação um nível geral de
funcionamento intelectual classificado como “média superior” quando comparado com outras
crianças de sua idade, mas quando comparado com ele mesmo, apesar de ter apresentado valores
acima da média em todas as escalas, demonstrou nesse momento dificuldade em relação à
memória de curto prazo, atenção e concentração, e dificuldade de resistir à distração. Esse
resultado sugere, segundo os critérios do DSM-IV, Transtorno de Déficit de
Atenção/Hiperatividade do Tipo Desatento. A avaliação neuropsicológica pela qual o paciente
ainda está sendo submetido poderá confirmar essas disfunções e assim será necessário o
encaminhamento para um atendimento psicopedagógico.
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