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TEORIA DA JUSTIÇA

DE JOHN R AWLS
Luís Couto Gonçalves1
[Link]

Introdução

Na filosofia política contemporânea, a questão da justiça assumiu uma


relevância assinalável a partir do contributo de John Rawls2 (1921­‑2002) de‑
vido, sobretudo, à sua obra, mais marcante, «Uma Teoria da Justiça»3, na
qual defende uma conceção liberal igualitária, apoiada na primazia da virtude
social da justiça e no respeito por direitos individuais.
«O paradigma liberal igualitário de justiça pode ser definido como
a perspetiva que defende a igualdade das liberdades fundamentais – dos
direitos­‑liberdades, civis e políticos –, juntamente com a importância da
igualdade de oportunidades e de uma distribuição equitativa em termos
económicos»4.

1
Professor da Escola de Direito da Universidade do Minho.
2
Professor estadunidense, considerado um dos maiores filósofos políticos do século XX.
3
rawls, Uma Teoria da Justiça (tradução de Carlos Pinto Correia), 3ª ed., Lisboa, Presença, 2013 (título original de
1971) e ainda, rawls, Justice as Fairness – A Restatement (ed. Erin Kelly), London, The Belknap Press of Harvard
University Press, 2001. A obra, como se alcança, teve a sua primeira edição em 1971, sofreu uma 2ª revisão na edição
alemã de 1975 e ainda uma reformulação em 2001.
4
joão cardoso rosas, Concepções da Justiça, Lisboa, Edições 70, 2012, p. 21 e joão cardoso rosas,
«Liberalismo igualitário», em [Link]., Manual de Filosofia Política (org. João Cardoso Rosas), 2.ª ed., Coimbra,

37
TEORIA DA JUSTIÇA DE JOHN RAWLS

Rawls teve como objetivo, expresso, desenvolver uma teoria neocon‑


tratualista elevada a «uma ordem superior de abstração à teoria tradicional
do contrato social», representada por Locke5, Rousseau6 e Kant7, e procurar
uma conceção liberal deontológica como alternativa, em especial, ao utili‑
tarismo dominante8, apoiado em autores como Hume9, Bentham10 e Mill11.
Para Rawls «a justiça é a primeira virtude das instituições sociais,
como a verdade o é para os sistemas de pensamento»12 .
O autor afirma a primazia da justiça e do respeito por direitos indivi‑
duais. «Para o liberalismo igualitário estes valores não são negociáveis em
função de quaisquer consequências antecipáveis que permitam a maximização
do bem­‑ estar agregado»13.
Numa proposta dissonante com o paradigma utilitarista14 afirma que
«cada pessoa beneficia de uma individualidade que decorre da justiça, a qual

Almedina, 2021, pp. 35­‑36.


5
Sobre o pensamento deste autor cfr. david lloyd thomas, Locke on Government, Routeledge, Londres, 1995,
no qual aborda o II Tratado da principal obra política de John Locke, Two Treatises on Civil Government, de 1689,
dedicado à origem, extensão e fim do poder político.
6
Para uma perspetiva do contributo do autor, vide, por todos, robert derathé, Jean-Jacques Rousseau e la Science
Politique de son Temps, J. Vrin ed., Paris, 1979. A obra de Rosseau, Du Contrat Social, de 1762, é a mais emblemática
e controversa. A ele se deve o legado da ideia de contrato social, que ainda hoje perdura no pensamento político
ocidental, e a tensão entre os princípios estruturantes da liberdade e da igualdade na sua proposta do modelo de
regime político.
7
Por todos, ver raymond vancourt, Kant (trad. de António Pinto Ribeiro), Edições 70, Lisboa, 1995. Entre
as suas obras, destacamos Metaphysik der Sitten, de 1797, pela abordagem de matérias com maior aproximação
jurídica, de um modo especial na Parte I, relativa à «Teoria do Direito». Esta obra está disponível em português, A
Metafísica dos Costumes (tradução de José Lamego), 3.ª ed., Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa 2017. Immanuel
Kant, apesar de aceitar a ideia de contrato social, defendia que este entendimento resultava de ato devido (imperativo
categórico) e não, como Locke e Rousseau, do interesse individual de cada pessoa na passagem do «estado natureza»
ao «estado de sociedade».
8
rawls, Uma Teoria da Justiça cit. «Prefácio», p. 19.
9
David Hume foi um autor utilitarista empirista e não normativista, como Jeremy Bentham ou John Stuart Mill.
Sobre Hume, cfr. michell malherbe, La Philosophie Empiriste de David Hume, J. Vrin ed., Paris, 1976.
10
Jeremy Bentham é considerado o fundador do utilitarismo. A sua máxima é a de que «todas as ações humanas
devem ser orientadas para alcançar a maior felicidade do maior número». A sua principal obra é A Fragment on
Government (1776), Cambridge University Press, UK, 1990.
11
John Stuart Mill foi um seguidor da corrente utilitarista de Bentham, sendo a sua publicação mais reputada
Principles of Political Economy (1848), Oxford University Press, New York, 1994. Para uma visão do pensamento
do autor, josé garcia añón, John Stuart Mill: Justicia y Derecho, McGraw­‑Hill, Madrid, 1997.
12
rawls, Uma Teoria da Justiça cit., p. 27.
13
joão cardoso rosas, «Liberalismo igualitário», em [Link]., Manual de Filosofia Política cit., p. 35.
14
O utilitarismo, na formulação mais simples, sustenta que o ato ou a política moralmente correta é aquela que
gera a maior felicidade entre os membros de uma sociedade. Sobre utilitarismo, ver, entre outros, jeremy bentham,
A Fragment on Government cit.; john stuart mill, Utilitarismo (1863), 1.ª ed. Lisboa, Gradiva, 2005 (trad. Pedro

38
AS PALAVRAS NECESSÁRIAS – ESTUDOS EM COMEMORAÇÃO DOS 30 ANOS...

nem sequer em benefício do bem­‑ estar da sociedade como um todo poderá


ser eliminada. Por esta razão, a justiça impede que a perda da liberdade para
alguns seja justificada pelo facto de outros passarem a partilhar um bem
maior. Não permite que os sacrifícios impostos a uns poucos sejam com‑
pensados pelas vantagens usufruídas por um maior número. Assim sendo,
numa sociedade justa a igualdade de liberdades e direitos entre os cidadãos
é considerada como definitiva; os direitos garantidos pela justiça não estão
dependentes da negociação política ou do cálculo dos interesses sociais»15.
Rawls designa a sua conceção política liberal igualitária de «justiça
como equidade»16. Esta conceção parte de uma intuição básica ‑­ a sociedade
como um sistema de cooperação ­‑ para a formulação dos princípios da justiça
defendendo­‑os de duas formas distintas. Primeiro, pelo estabelecimento de
um equilíbrio refletido provisório entre as intuições morais e os próprios
princípios da justiça. Segundo, através do recurso à noção da posição origi‑
nal, uma formulação mais abstrata e hipotética da ideia de contrato social17.
Na referida reformulação da sua obra, na sequência dos estudos so‑
bre o liberalismo político18 , o autor redefine a sua posição inicial da justiça
como equidade, apresentando­‑a já não como parte de uma doutrina moral
compreensiva, mas como uma conceção política de justiça. A justiça como
equidade é considerada a forma mais razoável do liberalismo político, o
que implicou a necessidade de reestruturar alguns aspetos do seu modelo
teórico originário.
Os tópicos essenciais da sua obra, que abordaremos neste trabalho, são
os seguintes: i) a sociedade como um sistema equitativo de cooperação; ii) a
sociedade bem ordenada; iii) a sociedade como estrutura básica; iv) a posição
original; v) os cidadãos como pessoas livres e iguais; vi) a justificação pública;
vii) os princípios da justiça.
De seguida, vamos efetuar a referida abordagem tripartida de sociedade.

Madeira); pedro galvão, «Utilitarismo», em [Link]., Manual de Filosofia Política cit., pp. 15­‑33 (e bibliografia
citada no final).
15
rawls, Uma Teoria da Justiça cit., p. 27.
16
rawls, Justice as Fairness – A Restatement cit., «Prefácio», pp. xvi­‑xvii, quis deixar claro que a justiça como
equidade tem na sua base uma conceção política e não moral.
17
joão cardoso rosas , «Liberalismo igualitário» em Manual de Filosofia Política cit., p. 37.
18
rawls, Liberalismo Político (tradução de João Sedas Nunes), Lisboa, Presença, 1997 (título original, de 1993).

39
TEORIA DA JUSTIÇA DE JOHN RAWLS

1. A sociedade como um sistema equitativo de cooperação

Rawls parte do princípio que os cidadãos de uma sociedade democrá‑


tica têm um conjunto de ideias intuitivas e familiares, adquiridas ao longo
de tempo, entre as quais a de que uma sociedade é um sistema de cooperação
social19.
A ideia de cooperação social tem três características essenciais20:

a) resulta de regras reconhecidas e aceites pelos cidadãos para


regular a sua conduta e não de regras ditadas ou impostas
por uma autoridade central;
b) pressupõe uma ideia de equidade e reciprocidade entre os
membros da comunidade, que aceitam participar segundo
um mesmo sentido público de justiça;
c) traduz a expressão da vantagem racional de cada participante
na prossecução do seu interesse, embora num quadro de
razoabilidade.

O papel dos princípios da justiça consiste em especificar os termos


equitativos da cooperação social 21. «Estes princípios definem os direitos e
deveres básicos que devem ter as principais instituições políticas e sociais,
regulam a distribuição dos benefícios (…) e distribuem os encargos necessários
para a sua sustentação»22 .

2. A sociedade bem ordenada

A sociedade está bem ordenada quando for uma sociedade efetivamente


regulada por uma conceção pública de justiça 23.

19
rawls, Uma Teoria da Justiça cit, pp. 28 e ss.
20
rawls, Justice as Fairness – A Restatement cit., pp. 5 e ss.
21
Idem, p. 7 e Uma Teoria da Justiça cit., pp. 28 e ss.
22
rawls, Justice as Fairness – A Restatement cit., pp. 5 e ss.
23
rawls, Uma Teoria da Justiça cit., cap. I, nºs 1 e 2.

40
AS PALAVRAS NECESSÁRIAS – ESTUDOS EM COMEMORAÇÃO DOS 30 ANOS...

Isto significa três condições24:

1ª – uma sociedade em que cada um aceita, e sabe que todos os


demais aceitam, a mesma conceção política da justiça;
2ª – uma sociedade em que as suas principais instituições políticas
e sociais, e o modo como se interligam para formar um sistema
de cooperação, satisfazem os princípios da justiça;
3ª – uma sociedade na qual os cidadãos têm um sentido normal‑
mente efetivo de justiça, quer dizer, um sentido que os capacita
para entender e aplicar os princípios publicamente reconhecidos
da justiça e, a sua grande maioria, para atuar de acordo com a
sua posição na sociedade, com os seus deveres e obrigações.

«É impossível uma sociedade bem ordenada na qual todos os membros


aceitem a mesma doutrina compreensiva. Mas os cidadãos democráticos que
pratiquem doutrinas compreensivas diferentes podem coincidir em conceções
políticas da justiça». «O liberalismo político é uma conceção que permite
uma base suficiente e mais razoável de unidade social disponível para os (…)
cidadãos de uma sociedade democrática»25.

3. A sociedade como estrutura básica

«O objeto primário da justiça é a estrutura básica da sociedade ou,


mais exatamente, a forma pela qual as instituições sociais mais importantes
distribuem os direitos e deveres fundamentais e determinam a divisão dos
benefícios da cooperação em sociedade»26. A estrutura básica constitui, por‑
tanto, a parte institucional e legal que compõe a vida social.
As instituições mais importantes são a constituição política, bem como
as principais estruturas económicas e sociais. Assim, a proteção jurídica da
liberdade de pensamento e de consciência, da concorrência de mercado, da

24
rawls, Justice as Fairness – A Restatement cit., pp. 8­‑9.
25
Idem, p. 9.
26
rawls, Uma Teoria da Justiça cit., p. 30.

41
TEORIA DA JUSTIÇA DE JOHN RAWLS

propriedade privada dos meios de produção e da família monogâmica são


exemplos de instituições desse tipo27.
A justiça como equidade faz da estrutura básica o objeto principal da
justiça política. Esta posição constitui um limite objetivo intencional ao âm‑
bito da teoria. Esta é aplicável ao nível da «justiça doméstica» (a da estrutura
básica), mas já não, necessariamente, ao nível da «justiça local» (referente a
princípios que se aplicam diretamente a instituições e associações), nem ao
nível da «justiça global» (relativa aos princípios aplicáveis ao direito inter‑
nacional, o chamado «direito das gentes»)28.

4. A posição original

A posição original é a resposta de Rawls ao problema de saber como se jus‑


tifica a existência de uma sociedade como um sistema equitativo de cooperação.
Para o autor essa justificação resulta de um acordo adotado por
«pessoas» (rectius, partes ou representantes de pessoas) livres e iguais que
participam na cooperação por a considerarem a melhor forma de defesa dos
seus interesses29.
Este acordo, alcançado sob condições equitativas de todos os cida‑
dãos, é a melhor solução no âmbito de uma sociedade democrática plural e
das respetivas instituições livres. Este acordo não pode resultar de qualquer
intervenção exterior à esfera dos destinatários que o integram.
Este acordo, para ser válido, do ponto de vista da justiça política, deve
pressupor a participação de «pessoas» livres e iguais e não deve permitir que
alguns possam negociar em posições não equitativas.
O acordo equitativo para atingir a estrutura básica da sociedade tem
de abstrair­‑se de aspetos e circunstâncias particulares dessa estrutura e não
pode ser distorcido por ela.

27
Ibidem.
28
Ibidem e rawls, Justice as Fairness – A Restatement cit., p. 11. O «direito das gentes» é desenvolvido na sua
obra, The law of peoples – with the idea of public reason revisited, Cambridge, Mass., Harvard University Press, 2000.
29
rawls, Uma Teoria da Justiça cit., cap. I, nºs 3 e 4, pp. 33 e ss.

42
AS PALAVRAS NECESSÁRIAS – ESTUDOS EM COMEMORAÇÃO DOS 30 ANOS...

Na posição original não se permite às partes conhecer as posições


sociais ou as doutrinas compreensivas particulares das «pessoas» que as re‑
presentam. Tão pouco conhecem a raça, o grupo étnico, o sexo e as qualidades
inatas como a força ou a inteligência.
Rawls, metaforicamente, expressa esta ideia afirmando que as «partes»
estão sob um «véu de ignorância»30.
Só deste modo se pode garantir um acordo em condições de equidade,
eliminando as posições vantajosas ou de supremacia que surgem, inevitavel‑
mente, com o fluir social.
A posição original, por um lado, alarga a ideia do contrato social, não
o limitando a uma forma particular de Estado ou governo, como em Locke
ou Rousseau, e, por outro, torna o conceito de contrato social mais abstrato,
considerando­‑o como hipotético e presente e não como histórico ou resultante
de um estado cultural primitivo31.
Rawls não ignora que esta posição coloca uma objeção séria: se
os acordos são hipotéticos e não históricos a posição original não perde
toda a relevância?
O autor contrapõe dizendo que a relevância da posição original
«radica no facto de que é um mecanismo de representação ou, alternati‑
vamente, um instrumento mental pensado para a clarificação pública e a
auto clarificação»32 .
A posição original serve para modelar as convicções de «pessoas»
consideradas razoáveis, colocando «as partes» numa situação equitativa a
partir da qual chegam a um acordo sujeito a restrições adequadas baseadas
nas razões que respaldam os princípios de justiça política33.

30
rawls, Uma Teoria da Justiça cit, cap. III, nº 24, pp. 121 e ss.
31
Idem, cap. I, nº 3 e rawls, Justice as Fairness – A Restatement cit., pp. 16­‑17.
32
rawls, Justice as Fairness – A Restatement cit., p. 17.
33
Idem, p. 18.

43
TEORIA DA JUSTIÇA DE JOHN RAWLS

5. Os cidadãos como pessoas livres e iguais

A justiça como equidade concebe os cidadãos como pessoas livres e


iguais por terem duas «faculdades morais»34:

a) a capacidade de terem um sentido da justiça, entendendo,


aplicando e trabalhando segundo os princípios da justiça po‑
lítica que definem os termos equitativos da cooperação social;
b) a capacidade de terem uma conceção axiológica, prosseguindo
racionalmente aquilo que tem valor na vida humana.

Estas duas faculdades morais definem o que é a «pessoa moral» e a


«personalidade moral».
Mas o que significa afirmar que as pessoas são livres e iguais?
A resposta tem de ser dada de um modo contextualizado. Estamos a
falar de pessoas livres e iguais numa perspetiva estritamente política (justiça
como equidade destinada à estrutura básica de sociedade), sem qualquer
conotação moral abrangente, metafísica ou psicológica.
«A conceção da pessoa livre e igual resulta do modo como a cultura
política pública de uma sociedade democrática concebe os cidadãos, que se
encontra plasmada nos seus textos políticos fundamentais (constituições e
declarações dos direitos humanos) e na tradição histórica da interpretação
desses textos»35. Nesta medida, corresponde a uma visão político­‑normativa36.

6. A justificação pública

A justificação pública acompanha a ideia de uma sociedade bem orde‑


nada, porquanto, como vimos, esta sociedade encontra­‑se regulada por uma
conceção de justiça publicamente reconhecida.

34
Idem, p. 19.
35
Idem, p. 19.
36
Para mais desenvolvimentos sobre a ideia de liberdade e igualdade, ver rawls, Justice as Fairness – A Restatement
cit., p. 20 e ss e rawls, Uma Teoria da Justiça cit., cap. VIII, pp. 346 e ss.

44
AS PALAVRAS NECESSÁRIAS – ESTUDOS EM COMEMORAÇÃO DOS 30 ANOS...

O aspeto essencial da sociedade bem ordenada é que a sua conceção


pública da justiça política estabelece uma base partilhada que permite aos
cidadãos justificar reciprocamente os seus juízos políticos: cada um coopera,
política e socialmente, com os restantes em condições que todos podem avaliar
como justas. É este o significado de justificação pública.
Falar em justificação pública pressupõe, necessariamente, a possibili‑
dade de haver discrepâncias e divergências. Só assim faz sentido a necessidade
de justificação.
A justificação pública pretende alcançar um consenso, mas não um
acordo completo. O objetivo praticável é limitar o desacordo, ao menos no que
respeita às controvérsias mais decisivas e, em particular, às controvérsias que
afetam os aspetos essenciais da Constituição e as questões de justiça básica37.
Estes aspetos essenciais da Constituição são, por exemplo:

a) os princípios fundamentais que definem a estrutura geral


do governo e do processo político; os poderes legislativo,
executivo e judicial; os limites da regra das maiorias;
b) os direitos e liberdades básicas de cidadania que toda a maio‑
ria legislativa deve respeitar, tais como o direito de voto e o
direito a participar na política, a liberdade de pensamento e
de associação, a liberdade de consciência, e também as pro‑
teções do império da lei38.

Um dos principais objetivos da justificação pública é o de preservar


as condições de uma cooperação social, efetiva e democrática, baseada no
respeito mútuo entre cidadãos que se concebem como pessoas livres e iguais.
Em caso de conflito a ideia de justificação pública é a de procurar obter um
consenso entrecruzado ou sobreposto de doutrinas razoáveis e, com ele, uma
conceção política resultante de um equilíbrio refletido, de que falamos no
ponto seguinte.

37
rawls, Justice as Fairness – A Restatement cit., p. 28.
38
Ibidem.

45
TEORIA DA JUSTIÇA DE JOHN RAWLS

6.1. Equilíbrio refletido


A ideia de sociedade como um sistema de cooperação pressupõe que
os seus participantes são pessoas livres e iguais dotados de racionalidade e
razoabilidade. A racionalidade é a base do exercício da liberdade de cada
um. A razoabilidade permite que cada cidadão esteja disposto a chegar a
entendimento com os outros tornando possível a vida social.
O uso da razão é determinante para a manutenção do sistema de coo‑
peração, de um modo especial quando se confrontam diferentes conceções
alternativas de justiça política.
É nestas situações, em que se tem de encontrar um equilíbrio refletido
entre as intuições morais e os princípios de justiça mais favorecidos. Assim,
o método do equilíbrio refletido afigura­‑se como um caminho paralelo ou
complementar face ao argumento da posição original para a construção dos
princípios da «justiça como equidade»39.

6.2. Consenso entrecruzado ou de sobreposição


Para Rawls é indubitável que os cidadãos, numa sociedade bem or‑
denada, quando afirmam a mesma conceção política de justiça o façam por
diferentes razões e apesar de terem visões opostas a diferentes níveis (religioso,
filosófico e moral).
De todo o modo, estas mundividências (ou doutrinas compreensivas)
diferenciadas não são impeditivas da existência de uma sociedade democrá‑
tica bem ordenada e, consequentemente, de uma conceção política de justiça
comum, pelo menos na esfera dos «aspetos essenciais da Constituição» e das
«questões de justiça básica».
Esta sociedade afirma­‑se através de um consenso entrecruzado de po‑
lítica de justiça, obtido apesar do pluralismo razoável (e desejável) de uma
sociedade democrática, histórica e culturalmente situada40.

39
Para mais desenvolvimentos, rawls, Uma Teoria da Justiça cit., cap. I, nº 9 e rawls, Justice as Fairness –
A Restatement cit., pp. 29 e ss.
40
rawls, ob. ult. cit., pp. 32 e ss.

46
AS PALAVRAS NECESSÁRIAS – ESTUDOS EM COMEMORAÇÃO DOS 30 ANOS...

6.3. Razão pública


A justificação de uma sociedade bem ordenada é acompanhada da ideia
de uma sociedade regulada por uma razão pública de justiça reconhecida.
A razão pública exprime a vontade de cidadãos iguais, como corpo
coletivo, e traduz­‑se no poder normativo do Estado.
«A razão pública é característica de um povo democrático: é a razão
dos seus cidadãos, daqueles que partilham o estatuto da igual cidadania»41.
A razão é pública em três sentidos: como expressão da razão típica dos
cidadãos; enquanto bem do domínio público; pela sua natureza e o seu con‑
teúdo serem resultantes da conceção de justiça política eleita pela sociedade42 .
A razão pública apoia­‑se numa legitimidade própria e só ela pode jus‑
tificar a justiça como equidade, na sua dimensão política.
A razão pública distingue­‑se, pois, da razão não pública (isto é, não
dirigida à sociedade política e aos cidadãos em geral) que corresponde à razão
própria dos indivíduos ou de instituições ou entidades, como associações,
sociedades, sindicatos, universidades e igrejas43.

7. Os princípios da justiça

Entendendo a sociedade como um sistema equitativo de cooperação


entre cidadãos, considerados como livres e iguais, quais são os princípios
da justiça mais indicados para definir os direitos e liberdades básicos e para
regular as desigualdades sociais e económicas?
A resposta de Rawls é a enunciação de um princípio geral da justiça e
de dois princípios especiais da justiça.

41
rawls, Liberalismo Político cit. p. 209.
42
rawls, ibidem.
43
rawls, Justice as Fairness – A Restatement cit., pp. 89 e ss.

47
TEORIA DA JUSTIÇA DE JOHN RAWLS

O princípio geral é o seguinte: «Todos os valores sociais44 – liberdade


e oportunidade, rendimento e riqueza, e as bases sociais do respeito próprio
– devem ser distribuídos igualmente, salvo se uma distribuição desigual de
algum desses valores, ou de todos eles, redunde em benefício de todos»45.
Os dois princípios especiais, na sua versão definitiva46, são assim enunciados:
1º Cada pessoa deve ter um direito igual ao mais extenso sistema
de liberdades básicas que seja compatível com um sistema de
liberdades idêntico para as outras;
2º As desigualdades económicas e sociais devem satisfazer duas
condições: em primeiro lugar, ser a consequência do exercí‑
cio de cargos e funções abertos a todos em circunstâncias de
igualdade equitativa de oportunidades; e, em segundo lugar,
ser para o maior benefício dos membros menos favorecidos
da sociedade (o princípio da diferença)47.
O primeiro princípio (das liberdades) é prioritário em relação ao segun‑
do e, neste, o princípio da igualdade equitativa de oportunidades é prioritário
em relação ao princípio da diferença. Esta prioridade significa que, ao aplicar
um princípio (ou ao colocá­‑lo à prova em casos difíceis), os princípios prévios
estejam plenamente cumpridos48.
Para um melhor entendimento destes princípios especiais tem de se
concretizar a ideia do significado de pessoas menos beneficiadas. Para tanto
é necessário introduzir a ideia de bens sociais primários.
Estes bens, numa perspetiva não moral, mas política e social, são as diver‑
sas condições e meios necessários à vida de uma pessoa, concebida como livre e
igual, dotada das duas faculdades morais (já referidas no ponto 5) e capaz de ser
um membro de uma sociedade como um sistema cooperativo de cooperação.

44
Equivalentes a bens primários.
45
rawls, Uma Teoria da Justiça cit., cap. II, p. 69.
46
rawls, Justice as Fairness – A Restatement cit., pp. 42 e ss.
47
rawls, Uma Teoria da Justiça cit., cap. II, pp. 67 e ss e rawls, Justice as Fairness – A Restatement cit., pp. 42­‑43. O
princípio da diferença tem subjacente o chamado «critério maximin», pelo qual é sempre preferível escolher a opção mais
segura que implique o menor risco para todos. A «regra maximin» pretende maximizar o mínimo, isto é, entre as alternativas
possíveis deve escolher­‑se aquela que tenha o melhor pior resultado possível. Para mais desenvolvimentos acerca deste (con‑
troverso) critério, cfr eduardo rivera lópez, Presupuestos Morales del Liberalismo, Madrid, BOE, 1997, pp. 252­‑257.
48
rawls, Justice as Fairness – A Restatement cit., p. 43.

48
AS PALAVRAS NECESSÁRIAS – ESTUDOS EM COMEMORAÇÃO DOS 30 ANOS...

Os bens sociais primários são as liberdades e imunidades, as oportu‑


nidades e poderes, a riqueza e o rendimento e as bases sociais do respeito
próprio. De uma forma mais sucinta, podem reconduzir­‑se a três categorias:
liberdades, oportunidades e riqueza49.
«Todos e cada um de nós necessitamos de liberdades básicas (que in‑
cluem as imunidades legais) que protegem as muitas escolhas que fazemos
ao longo da vida. As oportunidades dão­‑nos o poder efetivo de realizar essas
escolhas. A riqueza (juntamente com os rendimentos) permite dar maior valor
às nossas escolhas. As bases sociais do respeito próprio são um bem primário
de tipo diferente. O respeito que cada um tem por si mesmo e pela vida que
escolheu depende da possibilidade real de desenvolver as suas escolhas e do
facto de elas serem reconhecidas pelos outros (o respeito próprio também
depende do respeito que os outros nos prestam). Assim, o respeito próprio
é uma espécie de subproduto de uma sociedade na qual os bens sociais pri‑
mários estão corretamente distribuídos. Embora o respeito próprio não seja
diretamente distribuído pelas instituições sociais, ele decorre de uma socie‑
dade organizada de modo a distribuir com justiça os restantes bens sociais»50.
De acordo com os princípios enunciados, o primeiro não admite a
possibilidade de desigualdade quanto à distribuição do valor da liberdade,
enquanto o segundo e o terceiro admitem essa possibilidade quanto aos as‑
petos económicos e sociais.
A desigualdade económica e social não tem uma carga tão negativa,
pois é potenciadora de um sistema de incentivos51.
O papel da justiça visa definir a distribuição mais adequada dos be‑
nefícios e encargos ou, se se preferir, dos direitos e deveres, que decorrem da
cooperação social.
O objetivo de uma teoria da justiça (que é distinto do seu objeto, a
estrutura básica da sociedade) restringe­‑se à definição da distribuição correta
dos bens materiais e imateriais essenciais, os bens primários, a qual permite
que a sociedade seja bem ordenada52 .

49
joão cardoso rosas, «Liberalismo igualitário» em [Link]., Manual de Filosofia Política cit., p. 40.
50
joão cardoso rosas, ibidem.
51
joão cardoso rosas, Concepções da Justiça cit., p. 26.
52
Para mais desenvolvimentos, rawls, Uma Teoria da Justiça cit., cap. II, pp. 63­‑107; rawls, Justice as Fairness –
A Restatement cit., pp. 39­‑79; joão cardoso rosas, «Liberalismo igualitário» em [Link]., Manual de Filosofia

49
TEORIA DA JUSTIÇA DE JOHN RAWLS

8. Considerações finais

É consensual que a proposta de Rawls, no seu conjunto, configura um


pensamento filosófico com sensibilidade para uma ideia política relevante de
procura da justiça social, um mérito que deve ser sublinhado e reconhecido53.
Uma das principais motivações da teoria da justiça foi encontrar uma
alternativa ao utilitarismo que, de há muito, orientava grande parte da teoria
política. Rawls considera que o utilitarismo contraria as nossas intuições sobre
a justiça, dado que não exclui o sacrifício de alguns em prol da maximização
do bem­‑ estar geral. Mais precisamente, o utilitarismo contraria a intuição
de que, se queremos ser justos, devemos tratar todas as pessoas como iguais.
Ora, pensa Rawls, a proteção de certos direitos e liberdades é o que garante
um tratamento igual de todas as pessoas.
Em grande parte, a teoria da justiça visa mostrar quais são esses direitos
e liberdades, evitando cair no habitual extremo oposto ao utilitarismo, isto
é, evitando caucionar a pluralidade de intuições desconexas e incompatíveis
entre si e a que dava o nome de «intuicionismo».
A ideia de Rawls foi precisamente desenvolver uma teoria política capaz
de articular de forma sistemática e coerente algumas dessas intuições, identi‑
ficando os direitos e liberdades em que deve assentar qualquer sociedade que
se queira justa. E esta passou a ser a direção que quase toda a filosofia política
acabou por seguir. Mas, não estando, naturalmente, em causa o seu inegável
mérito, há alguns aspetos da sua teoria que suscitam alguma controvérsia.
Na verdade, ela tem enfrentado críticas de muitos setores, incluindo os
liberais do qual Rawls faz parte. Limitando­‑nos aos principais críticos, com
origem no próprio liberalismo, salientamos o economista Amartya Sen54, o

Política cit., pp. 35­‑66; joão cardoso rosas, Concepções da Justiça cit., pp. 21­‑54; will kymlicka, Contemporary
Political Philosophy: an Introduction, NY, Oxford University Press, 2002, pp. 53­‑101.
53
Como escreve will kymlicka, ob. ult. cit., p. 55, a teoria de Rawls «domina o âmbito da discussão, não no
sentido de proporcionar um acordo, já que muitas poucas pessoas estão totalmente de acordo com ela, mas no
sentido de que os teóricos posteriores se têm posicionado por oposição a Rawls». E acrescenta que «não seremos
capazes de entender os trabalhos posteriores sobre a justiça sem antes entendermos Rawls». Isto significa que a
obra de Rawls representou um marco indelével na evolução da filosofia política e, curiosamente, causou uma forte
efervescência doutrinária, em especial, entre os autores da família liberal, centrada, em grande medida, no alcance
rawlsiano dos princípios da justiça.
54
amartya sen, A Ideia de Justiça (trad. Nuno Castello­‑Branco Bastos), Coimbra, Almedina, 2010 e Amartya
sen, Inequality Reexamined, Oxford, UK, Clarendon Press, 1992. O autor entende que há uma insuficiência na
abordagem de Rawls aos princípios jurídicos da liberdade e da igualdade a partir da ideia de bens sociais primários.

50
AS PALAVRAS NECESSÁRIAS – ESTUDOS EM COMEMORAÇÃO DOS 30 ANOS...

filósofo igualitarista Ronald Dworkin55, o filósofo libertário Robert Nozick56


e o filósofo comunitarista57 Michael Sandel58.
Um dos pontos que suscita alguma perplexidade é construir uma dou‑
trina racional com base numa proposta intuitiva da «posição original», uma

Para A. Sen o mais importante é dar conteúdo a esses princípios. Para tanto propõe o conceito de «capacidades».
Assim, a questão fundamental é a capacidade para transformar os bens sociais primários em efetiva liberdade de
escolha. A noção de capacidade indica essa transformação. «Muito embora os bens primários sejam, no máximo,
meios para se poder atingir os fins da vida humana que se tenham por valiosos, na formulação rawlsiana dos prin‑
cípios da justiça eles tornam­‑se o elemento central da apreciação da equidade distributiva». «E isso é um erro (…)».
«A perspetiva da capacidade dedica­‑se especialmente a vir corrigir este foco de atenção (…) sobre os meios em vez
de concentrar­‑se sobre a oportunidade de cumprir os fins e sobre a liberdade substantiva para se atingir esses fins
argumentativamente delineados». (Cfr amartya sen, A Ideia de Justiça cit., p. 322 e amartya sen, Inequality
Reexamined cit., pp.112­‑119, em especial).
55
ronald dworkin, Sovereign Virtue: The Theory and Practice of Equality, 4.ª ed., Cambridge, Mass., London,
Harvard University Press, 2002. Dworkin critica Rawls por não dar relevância à ideia de igualdade de recursos e da
responsabilidade individual. Baseia­‑se em dois tópicos fundamentais: primeiro, a importância objetiva igual de que
todas as vidas humanas floresçam; segundo, cada pessoa é responsável por definir e alcançar o florescimento de sua
própria vida. Assim, considera que a verdadeira igualdade significa igualdade no valor dos recursos que cada pessoa
comanda e não no sucesso que ela alcança. Estas objeções levam Dworkin a defender uma igualdade centrada na
ideia de recursos e não, como em Rawls, numa igualdade distributiva de alguns bens sociais primários.
56
robert nozick, Anarchy, State and Utopia, NY, Basic Books, 2014 (ed. original de 1974). Em resposta à Teoria
da Justiça de Rawls, esta obra tornou­‑se um dos textos que define o pensamento libertário e a defesa do Estado
(muito) mínimo. Em relação a Rawls, o autor considera que não é possível garantir a integridade dos indivíduos
quando a estrutura básica da sociedade revela preocupações de ordem igualitária. Uma palavra ainda para salientar
o argumento (radical) da «propriedade de si mesmo», como justificação de liberdade individual, um princípio cujo
único limite é o respeito da «propriedade dos outros». Para mais desenvolvimentos, will kimlicka, Contemporary
Political Philosophy: an Introduction cit., pp. 10­‑52; chandran kukathas / philip pettit, Rawls – Uma Teoria
da Justiça e os seus Críticos (trad. Maria Carvalho), Lisboa, Gradiva, 1995, pp. 92­‑110; eduardo rivera lópez,
Presupuestos Morales del Liberalismo cit., pp. 31­‑136; rui fonseca, «Libertarismo», em [Link]., Manual de
Filosofia Política cit., pp. 67­‑85; alexandra abranches, «Robert Nozick: Direitos Individuais», em [Link].,
Pensamento Político Contemporâneo – Uma Introdução (Organizadores João Carlos Espada / João Cardoso Rosas),
Lisboa, Bertrand Ed., 2004, pp. 104­‑133.
57
No pressuposto de que o comunitarismo moderno (não confundível com o comunitarismo marxista) não
pretende substituir o pensamento liberal, mas, com um espírito construtivo, corrigi­‑lo. Para os comunitaristas,
o principal problema do liberalismo está na matriz individualista excessiva de algumas das suas propostas, com a
consequente desvalorização do eu­‑social, na sua dimensão social e política (cfr. will kimlicka, Contemporary
Political Philosophy: an Introduction cit., pp. 208­‑283; carlos amaral, «Comunitarismo», em [Link]., Manual
de Filosofia Política cit., pp. 87­‑116).
58
michel sandel, Liberalism and the Limits of Justice, Cambridge, Cambridge University Press, 1996 (reimpressão
do original de 1982). Nesta obra o autor faz uma apreciação aprofundada e discordante dos elementos essenciais da
estrutura teórica e argumentativa da Teoria da Justiça de Rawls. O autor, de um modo frontal, assume que o seu
objetivo é «desafiar» o liberalismo contemporâneo (de raíz kantiana) colocando limites concetuais à primazia da
ideia da justiça deontológica que resulta da proposta rawlsiana (pp. 1­‑14). A proposta de teoria da justiça de Rawls
não é aceitável por assentar numa conceção abstrata de pessoa. A justiça não nos pode considerar coerentemente
como o tipo de seres (artificiais) que a sua proposta de posição original exige que sejamos. A perspetiva rawlsiana,
devidamente redefinida, remete necessariamente para uma conceção de comunidade que marca os limites da justiça
(pp. 14 e 65). A comunidade é um bem comum que não podemos conhecer sozinhos (p. 183).

51
TEORIA DA JUSTIÇA DE JOHN RAWLS

ideia meramente hipotética, na qual não cabem pessoas reais, e contra factual
devido ao caráter espesso do «véu de ignorância»59.
Os contratualistas clássicos, como Locke e Rousseau, procuravam jus‑
tificar a questão sobre a origem ou a legitimidade do poder político60
Rawls vai mais longe e pretende justificar uma conceção de justiça
dirigida a uma sociedade política específica.
A teoria da justiça de Rawls é uma teoria filosófico­‑política61 sobre
o modo de alcançar a justiça numa sociedade de matriz liberal, na qual os
cidadãos são considerados como pessoas livres e iguais62 .
Neste ponto, em que pretende uma visão mais ampla, que inclui a
justiça, afigura­‑se contraditório sustentar uma perspetiva independente de
outros valores e doutrinas para se restringir unicamente à estrutura básica
da sociedade.
O que se pretende afirmar é que há falta de uma perspetiva eticamente
mais substantiva da pessoa e da sociedade, a qual nos parece crucial para
fundar adequadamente a conceção deontológica do autor.

Não será surreal partir da posição original de «pessoas» irreais para


sustentar uma ideia de justiça social feita de pessoas reais?

Num comentário crítico à ideia do «véu de ignorância», por ser demasiado artificial e fictícia, cfr. diogo freitas
59

do amaral, História do Pensamento Político Ocidental, Coimbra, Almedina, 2016 (Reimpressão), pp. 728­‑729.
O contrato social, para estes autores, não assentava numa mera experiência mental, como em Rawls na sua for‑
60

mulação de posição original, mas antes em acordos (implícitos) entre os membros da sociedade civil.
61
Embora o título da obra («Uma Teoria da Justiça») seja indiciador de uma teoria do Direito, dado o papel central
e indeclinável que a justiça representa para a ciência jurídica. O autor deste escrito, como é sabido, nem é especialista
em teoria do Direito, nem em filosofia política. Mas a abertura de um jurista à filosofia não se afigura um risco
desmedido, antes um risco mitigado e até justificado. Apoiando­‑nos em Condorcet, «As obras filosóficas visam,
algumas o progresso, outras o esclarecimento». E mais adiante «(…) toda a sociedade que não seja esclarecida por
filósofos é enganada por charlatães» (Journal d´ Instruction Sociale – Prospectus, 1793, editado com Sieyes e
Duhamel, pp. 7, 9­‑10, respetivamente).
62
Para rawls, Justice as Fairness – A Restatement cit., § 1 (pp. 1­‑5) é possível atribuir quatro papéis fundamentais
à filosofia política: um papel prático de resolução de divisões sociais; um papel de orientação, concebendo os fins
da sociedade; um papel de reconciliação a partir da compreensão das instituições sociais constituídas ao longo do
tempo; um papel de formulação de uma «utopia realista» que permita a realização de uma sociedade o mais justa
possível, nos limites da viabilidade política praticável.

52

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