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A Dança dos Dragões: Rivalidade Targaryen

Game of thrones

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Ruan Gomes
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A Dança dos Dragões: Rivalidade Targaryen

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GEORGE R.R.

MARTIN

G anhador dos prêmios Hugo, Nebula e World Fantasy, sucesso de vendas do New York Times e
autor da série de fantasia “As crônicas de gelo e fogo”, que virou referência, George R.R.
Martin tem sido chamado de “o Tolkien americano”.
Nascido em Bayonne, Nova Jersey, lançou seu primeiro livro em 1971 e rapidamente se
consolidou como um dos mais populares autores de ficção científica da década. Logo se tornou
constante da Analog de Ben Bova com contos como “With Morning Comes Mistfall”, “And Seven
Times Never Kill Man”, “The Second Kind of Loneliness”, “The Storms of Windhaven” (em
colaboração com Lisa Tuttle, depois ampliado por eles para se tornar o romance Windhaven),
“Override” e outros, embora também tivesse vendido contos para as revistas Amazing, Fantastic,
Galaxy, Orbit e outras. Um dos seus contos para Analog, a impressionante novela “A Song for Lya”,
deu a ele seu primeiro prêmio Hugo em 1974.
No final dos anos 1970, ele tinha chegado ao ápice de sua influência como autor de ficção
científica e produzia seus melhores trabalhos do gênero, com contos como o famoso “Sandkings”,
seu mais conhecido, que ganhou o Nebula e o Hugo em 1980 (ele receberia outro Nebula em 1985
pelo conto “Portraits of His Children”); “The Way of Cross and Dragon”, que ganhou o Hugo no
mesmo ano (fazendo de Martin o primeiro autor a receber dois prêmios Hugo de ficção no mesmo
ano); “Bitterblooms”; “The Stone City”; “Starlady” e outros. Esses contos seriam reunidos em
Sandkings, uma das melhores antologias da época. A essa altura, ele havia se afastado da Analog,
embora ainda fosse ter uma longa sequência de contos sobre as aventuras interestelares cômicas de
Haviland Tuf (depois reunidas em Tuf Voyaging) nos anos 1980 publicada na Analog de Stanley
Schmidt, bem como alguns trabalhos isolados, como a novela Nightflyers. Contudo, a maior parte do
seu trabalho do final dos anos 1970 e começo dos 1980 seria publicada em Omni. O período também
contou com a publicação de sua memorável obra Dying of the Light, romance de ficção científica em
volume único, enquanto os contos foram reunidos em A Song for Lya, Sandkings, Songs of Stars and
Shadows, Songs the Dead Men Sing, Nightflyers e Portraits of His Children. No começo dos anos
1980, ele trocou a ficção científica pelo terror, publicando o grande romance de horror Sonho febril
e recebendo o prêmio Bram Stoker pelo conto de horror “The Pear-Shaped Man” e o World Fantasy
pela novela de lobisomem “The Skin Trade”. Mas, no final da década, a queda das ficções de terror e
o fracasso comercial de seu ambicioso romance do gênero, The Armageddon Rag, o levaram a
passar do mercado editorial para uma carreira de sucesso na televisão, onde trabalhou por mais de
uma década como editor de roteiro ou produtor de programas como o novo Twilight Zone e Beauty
and the Beast.
Após anos afastado, retornou ao mundo dos livros de modo triunfante em 1996 com a publicação
do romance fantástico de imenso sucesso Guerra dos tronos, o começo de sua sequência de “As
crônicas de gelo e fogo”. Uma novela extraída dessa obra, Blood of the Dragon, deu a Martin outro
prêmio Hugo em 1997. Outros livros de “As crônicas de gelo e fogo” – A fúria dos reis, A tormenta
de espadas, O festim dos corvos e A dança dos dragões – tornaram a série uma das mais populares,
aclamadas e vendidas de toda a fantasia moderna. Os livros se transformaram em uma série de TV
da HBO, Game of Thrones, que se tornou um dos programas mais vistos e elogiados da televisão e
fez de Martin alguém conhecido fora dos limites habituais do gênero, chegando até a inspirar uma
sátira dele no programa Saturday Night Live. Os livros mais recentes de Martin são A dança dos
dragões, romance da série “As crônicas de gelo e fogo”; uma enorme coletânea retrospectiva de toda
a sua carreira, GRRM: A RRetrospective; uma antologia de novelas, Starlady and Fast-Friend; um
romance escrito em parceria com Gardner Dozois e Daniel Abraham, Hunter’s Run; e, como editor,
diversas coletâneas editadas em parceria com Gardner Dozois, entre elas: Warriors, Songs of the
Dying Earth, Songs of Love and Death e Ruas estranhas, além de vários volumes de sua longa
antologia “Wild Cards”, como Busted Flush e Inside Straight. Em 2012, Martin recebeu o Life
Achievement Award na World Fantasy Convention.
Aqui, ele nos leva à terra turbulenta de Westeros, lar da série de gelo e fogo, para a história
sangrenta de um choque entre duas mulheres muito perigosas cuja amarga rivalidade e ambição
lançam toda Westeros em uma guerra desastrosa.
A PRINCESA E A RAINHA
OU OS “NEGROS” E OS “VERDES”

Sendo esta a história das causas, origens, batalhas e traições do mais trágico banho de sangue
conhecido como A Dança dos Dragões, segundo o registro de arquimeistre Gyldayn, da
Cidadela de Vilavelha (Aqui transcrita por GEORGE R.R. MARTIN)

A Dança dos Dragões é o nome romântico dado à selvagem disputa interna pelo Trono de Ferro de
Westeros, travada entre dois ramos rivais da Casa Targaryen entre os anos de 129 e 131 d.C.
Caracterizar os acontecimentos sinistros, turbulentos e sangrentos desse período como uma “dança”
nos soa grotescamente inadequado. Sem dúvida, a frase é de autoria de algum cantor. “A Morte dos
Dragões” seria muito mais adequado, mas a tradição e o tempo gravaram a versão mais poética nas
páginas da história, então temos de dançar com o restante.
Havia dois principais pretendentes ao Trono de Ferro depois da morte do Rei Viserys I Targaryen:
sua filha Rhaenyra, a única sobrevivente do primeiro casamento, e Aegon, o filho mais velho com
sua segunda esposa. Em meio ao caos e à carnificina produzidos por essa rivalidade, outros
pretensos reis também se apresentariam, exibindo-se tal qual atores num cenário por uma quinzena
ou uma lua, apenas para cair tão rapidamente quanto tinham surgido.
A Dança dividiu os Sete Reinos em dois, com lordes, cavaleiros e pessoas comuns escolhendo um
lado ou outro e armando-se uns contra os outros. Até mesmo a própria Casa Targaryen ficou dividida
quando amigos, parentes e filhos de cada um dos pretendentes se envolveram na luta. Ao longo dos
dois anos de conflito, um preço terrível foi cobrado dos grandes senhores de Westeros, e também de
seus soldados, cavaleiros e homens do povo. Embora a dinastia tivesse sobrevivido, o fim da luta viu
o poder dos Targaryen muito diminuído e os últimos dragões do mundo enormemente reduzidos em
número.
A Dança foi uma guerra diferente de todas as outras travadas na longa história dos Sete Reinos.
Embora exércitos marchassem e entrassem em confronto em batalhas selvagens, grande parte do
massacre teve lugar na água e especialmente... no ar, dragão combatendo dragão com presas,
garras e chamas. Foi uma guerra marcada também por dissimulação, assassinato e traição, uma
guerra travada nas sombras e escadarias, câmaras de conselho e jardins de castelos, com facas,
mentiras e venenos.
Fermentando havia muito, o conflito se tornou explícito no terceiro dia da terceira lua de 129
D.C., quando o adoentado Rei Viserys I Targaryen, preso ao leito, fechou os olhos para um cochilo na
Fortaleza Vermelha de Porto Real e morreu antes de despertar. Seu corpo foi descoberto por um
servo na hora do morcego, quando o rei costumava tomar uma taça de hipocraz. O servo correu
para informar a Rainha Alicent, cujos aposentos ficavam no andar abaixo daqueles do rei.
O servo deu a terrível notícia diretamente à rainha, e apenas a ela, sem produzir alarido geral; a
morte do rei era esperada havia algum tempo, e a Rainha Alicent e seu grupo, os chamados
“verdes”, tomaram o cuidado de instruir todos os guardas e servos de Viserys sobre o que fazer
quando chegasse o dia.
A Rainha Alicent foi imediatamente aos aposentos do rei, acompanhada de Sor Criston Cole,
Senhor Comandante da Guarda Real. Assim que confirmaram que Viserys estava morto, Sua Graça
ordenou que o quarto fosse lacrado e colocado sob vigilância. O servo que havia descoberto o corpo
do rei foi colocado sob custódia, para garantir que não espalhasse a história. Sor Criston retornou à
Torre da Espada Branca e enviou seus irmãos da Guarda Real para convocar os integrantes do
pequeno conselho do rei. Era a hora da coruja.
Desde então, a Irmandade Juramentada da Guarda Real consistia de sete cavaleiros, homens de
lealdade comprovada e bravura incontestável que fizeram juramentos solenes de dedicar suas vidas
a defender a pessoa do rei e os seus. Apenas cinco dos mantos brancos estavam em Porto Real no
momento da morte de Viserys: o próprio Sor Criston, Sor Arryk Cargyll, Sor Rickard Thorne, Sor
Steffon Darklyn e Sor Willis Fell. Sor Erryk Cargyll (gêmeo de Sor Arryk) e Sor Lorent Marbrand,
em Pedra do Dragão com a Princesa Rhaenyra, permaneceram ignorantes e distantes enquanto seus
irmãos de armas avançavam pela noite para despertar de suas camas os membros do pequeno
conselho.
Reunidos nos aposentos da rainha enquanto o corpo do senhor seu marido esfriava acima dela,
estavam a própria Rainha Alicent; seu pai Sor Otto Hightower, Mão do Rei; Sor Criston Cole, Senhor
Comandante da Guarda Real; Grande Meistre Orwyle; Lorde Lyman Beesbury, mestre da moeda, um
homem de 80 anos; Sor Tyland Lannister, mestre dos navios, irmão do Senhor de Rochedo Casterly;
Larys Strong, chamado de Larys Pé-Torto, Senhor de Harrenhal, mestre dos sussurros; e Lorde
Jasper Wylde, chamado Barra de Ferro, mestre das leis.
O Grande Meistre Orwyle abriu a reunião repassando as tarefas e os procedimentos habituais
que deveriam ser tomados com a morte de um rei.
– O Septão Eustace deve ser convocado para realizar os ritos finais e rezar pela alma do rei. Um
corvo precisa ser enviado imediatamente à Pedra do Dragão para informar a Princesa Rhaenyra
sobre o falecimento do pai. Talvez Sua Graça a Rainha pudesse escrever a mensagem, de modo a
suavizar a notícia triste com algumas palavras de condolências? Os sinos sempre tocam para
anunciar a morte de um rei; alguém deve cuidar disso, e, claro, devemos começar nossos
preparativos para a coroação da Rainha Rhaenyra...
– Tudo isso precisa esperar até a questão da sucessão ter sido esclarecida – declarou Sor Otto
Hightower, interrompendo-o. Como Mão do Rei, ele tinha o poder de falar com a voz do rei, e até se
sentar no Trono de Ferro na ausência dele. Viserys dera a ele autoridade para governar os Sete
Reinos e, “até chegar o momento em que nosso novo rei seja coroado”, sua autoridade
permaneceria.
– Até que nossa nova rainha seja coroada – disse Lorde Beesbury num tom irritado.
– Rei – insistiu a Rainha Alicent. – O Trono de Ferro deve por direito ser transmitido ao
verdadeiro filho mais velho de Sua Graça.
A discussão que se seguiu durou até o alvorecer. Lorde Beesbury falou em nome da Princesa
Rhaenyra. O antigo mestre da moeda, que servira ao Rei Viserys durante todo o seu reinado, e antes
dele a seu pai Jaehaerys, o Velho Rei, lembrou ao conselho que Rhaenyra era mais velha que seus
irmãos e tinha mais sangue Targaryen, que o falecido rei a escolhera como sua sucessora, que ele
repetidamente se recusara a alterar a sucessão a despeito dos pedidos da Rainha Alicent e seus
“verdes”, que centenas de senhores e cavaleiros com terras haviam prometido obediência à princesa
em 105 D.C. e feito um juramento solene de defender seus direitos.
Mas essas palavras acabaram em ouvidos de pedra. Sor Tyland destacou que muitos dos
senhores que prometeram defender a sucessão da Princesa Rhaenyra estavam mortos.
– Isso aconteceu há 24 anos – alegou ele. – Eu mesmo não fiz tal juramento. Eu era uma criança à
época.
Barra de Ferro, o mestre das leis, citou o Grande Conselho de 101 e a escolha do Velho Rei por
Baelon em vez de Rhaenys em 92, depois discursou longamente sobre Aegon, o Conquistador, e suas
irmãs e a consagrada tradição segundo a qual os direitos de um filho legítimo sempre se
sobrepunham aos direitos de uma mera filha. Sor Otto lembrou a eles que o marido de Rhaenyra não
era ninguém menos que o Príncipe Daemon.
– E todos conhecemos a natureza dele. Não nos enganemos, se Rhaenyra um dia se sentar no
Trono de Ferro será Daemon quem irá nos governar, um rei consorte tão cruel e implacável quanto
Maegor foi. Minha cabeça será a primeira cortada, não duvido, mas sua rainha, minha filha, logo me
seguirá.
– Tampouco irão poupar meus filhos – continuou a Rainha Alicent. – Aegon e seus irmãos são os
filhos legítimos do Rei, com muito mais direito ao trono que a ninhada de bastardos dela. Daemon
encontrará algum pretexto para condená-los à morte. Até mesmo Helaena e seus pequeninos. Um
desses Strong furou o olho de Aemond, nunca se esqueçam. Ele era um menino, sim, mas o menino
é o pai do homem, e bastardos são monstruosos por natureza.
Sor Criston Cole se pronunciou. Se a princesa reinasse, lembrou a eles, Jacaerys Velaryon
governaria depois dela.
– Que os Sete salvem este reino se colocarmos um bastardo no Trono de Ferro – disse, e contou
sobre os modos dissolutos de Rhaenyra e a infâmia de seu marido. – Eles transformarão a Fortaleza
Vermelha num bordel. Nem filha nem esposa de nenhum homem estarão a salvo. Nem mesmo os
meninos... Sabemos o que Laenor era.
Não há registro de que Lorde Larys Strong tenha dito uma palavra durante esse debate, mas isso
não era incomum. Embora falante quando necessário, o mestre dos sussurros guardava suas
palavras como um sovina guardava suas moedas, preferindo ouvir a falar.
– Se fizermos isso, certamente causará uma guerra – o Grande Meistre Orwyle alertou o
conselho. – A princesa não se colocará de lado humildemente, e ela tem dragões.
– E amigos, homens honrados, que não se esquecerão dos juramentos que fizeram a ela e seu pai
– declarou Lorde Beesbury. – Eu sou um homem velho, mas não tão velho a ponto de ficar sentado
aqui submisso enquanto tipos como vocês conspiram para roubar sua coroa.
E, tendo dito isso, levantou-se para partir.
Mas Sor Criston Cole forçou Lorde Beesbury a se sentar novamente e cortou sua garganta com
um punhal.
E assim, o primeiro sangue derramado na Dança dos Dragões pertencia a Lorde Lyman Beesbury,
mestre da moeda e senhor tesoureiro dos Sete Reinos.
Não houve mais divergências depois da morte de Lorde Beesbury. O restante da noite foi gasto
em planos para a coroação do novo rei (isso precisava ser feito rapidamente, todos concordavam) e
na elaboração de listas de possíveis aliados e potenciais inimigos caso a Princesa Rhaenyra se
recusasse a aceitar a coroação do Rei Aegon. Com a princesa confinada em Pedra do Dragão,
prestes a dar à luz, os “verdes” da Rainha Alicent tinham uma vantagem; quanto mais tempo
Rhaenyra ignorasse a morte do rei, mais lentamente poderia se mover.
– Talvez a piranha morra no parto – falou a Rainha Alicent.
Nenhum corvo voou naquela noite. Nenhum sino tocou. Os servos que sabiam do falecimento do
Rei foram mandados para as masmorras. Sor Criston Cole recebeu a missão de colocar sob custódia
os “negros” que restavam na corte, aqueles senhores e cavaleiros que poderiam estar inclinados a
favor da Princesa Rhaenyra.
– Não cometam violência contra eles, a não ser que resistam – ordenou Sor Otto Hightower. –
Esses homens, desde que se coloquem de joelhos e jurem lealdade ao Rei Aegon, não sofrerão
nenhum mal em nossas mãos.
– E aqueles que não o fizerem? – perguntou o Grande Meistre Orwyle.
– São traidores e devem ter a morte de traidores – respondeu Barra de Ferro.
Lorde Larys Strong, mestre dos sussurros, falou pela primeira e única vez.
– Que sejamos os primeiros a jurar, a não ser que haja traidores entre nós – disse. Puxando seu
punhal, Pé-Torto o deslizou sobre a palma da mão, conclamando. – Um juramento de sangue para
nos unir a todos, irmãos até a morte.
E assim, cada um dos conspiradores cortou as palmas e deu as mãos uns aos outros, num voto de
fraternidade. Dentre eles, apenas a Rainha Alicent foi dispensada do juramento, por causa de sua
feminilidade.
O dia nascia sobre a cidade antes que a Rainha Alicent despachasse a Guarda Real para buscar
seus filhos e levá-los ao conselho. O Príncipe Daeron, o mais gentil dos filhos, chorou pelo
falecimento do pai. O caolho Príncipe Aemond, de 19 anos, foi encontrado no arsenal, vestindo
armadura e cota de malha para seu treinamento matinal no pátio do castelo.
– Aegon é rei? – indagou ele a Sor Willis Fell. – Ou devemos ajoelhar e beijar a boceta daquela
piranha velha?
A Princesa Helaena estava tomando café com os filhos quando a Guarda Real chegou a ela...
– Não está em minha cama, pode ter certeza – respondeu quando o guarda perguntou sobre o
paradeiro do Príncipe Aegon, seu irmão e marido. – Sinta-se à vontade para procurar sob os
cobertores.
O Príncipe Aegon estava com uma amante quando foi encontrado. Inicialmente, o Príncipe se
recusou a participar dos planos da mãe.
– Minha irmã é a herdeira, não eu. Que tipo de irmão rouba o que é da irmã por direito de
nascença?
Apenas quando Sor Criston o convenceu de que a Princesa iria executá-lo e aos irmãos caso
recebesse a coroa, Aegon vacilou.
– Enquanto um Targaryen legítimo viver, nenhum Strong poderá ter esperanças de se sentar no
Trono de Ferro – explicou Cole. – Rhaenyra não tem escolha a não ser cortar suas cabeças caso
deseje que seus bastardos governem depois dela.
Foi isso, e apenas isso, que convenceu Aegon a aceitar a coroa que o pequeno conselho lhe
oferecia.
Sor Tyland Lannister foi nomeado mestre da moeda no lugar do falecido Lorde Beesbury e agiu
imediatamente, confiscando o tesouro real. O ouro da coroa foi dividido em quatro partes. Uma
parte foi confiada aos cuidados do Banco de Ferro de Braavos para ser guardada, outra enviada sob
grande escolta para Rochedo Casterly, uma terceira para Vilavelha. A riqueza restante seria usada
para subornos e presentes, e para contratar mercenários caso necessário. Para assumir o lugar de
Sor Tyland como mestre dos navios, Sor Otto se voltou para as Ilhas de Ferro, enviando um corvo a
Dalton Greyjoy, a Lula-Gigante, o ousado e sanguinolento Senhor Ceifeiro de Pyke, de 16 anos,
oferecendo a ele o almirantado e um lugar no conselho por sua lealdade.
Um dia se passou, depois outro. Nem septões nem irmãs silenciosas foram convocados aos
aposentos onde o Rei Viserys estava, inchado e apodrecendo. Sinos não tocaram. Corvos voaram,
mas não para Pedra do Dragão. Em vez disso, seguiram para Vilavelha, Rochedo Casterly, Correrrio,
Jardim de Cima e para muitos outros senhores e cavaleiros que a Rainha Alicent tinha motivos para
crer que poderiam ser solidários ao seu filho.
Os anais do Grande Conselho de 101 foram trazidos e estudados, e registrou-se quais senhores
tinham falado a favor de Viserys, quais a favor de Rhaenys, Laena ou Laenor. Os senhores reunidos
decidiram pelo pretendente masculino em oposição ao feminino por vinte contra um, mas houve
dissidências, e essas mesmas casas mais provavelmente dariam apoio à Princesa Rhaenyra caso
houvesse guerra. A Princesa teria a Serpente do Mar e suas frotas, avaliou Sor Otto, e também os
outros senhores do litoral leste: Lordes Bar Emmon, Massey, Celtigar e Crabb, talvez até mesmo a
Estrela da Tarde de Tarth. Todas eram potências menores, a não ser pelos Velaryon. Os homens do
norte eram uma preocupação maior: Winterfell falara em favor de Rhaenys em Harrenhal, assim
como os súditos de Lorde Stark, Duntin de Vila Acidentada e Manderly de Porto Branco. Nem era
possível confiar na Casa Arryn, pois o Ninho da Águia era governado por uma mulher, a Senhora
Jeyne, do Vale, cujos direitos poderiam ser questionados caso a Princesa Rhaenyra fosse colocada de
lado.
O maior perigo era considerado Ponta Tempestade, pois a Casa Baratheon sempre fora firme em
defesa da reivindicação ao trono da Princesa Rhaenys e de seus filhos. Embora o velho Lorde
Boremund tivesse morrido, seu filho Borros era ainda mais beligerante que o pai, e os senhores da
tempestade menores o seguiram.
– Então, devemos garantir que ele os lidere na direção de nosso rei – declarou a Rainha Alicent, e
mandou buscar seu segundo filho.
Assim, não foi um corvo que voou para Ponta Tempestade naquele dia, mas Vhagar, a maior e
mais antiga dos dragões de Westeros. Em suas costas, estava o Príncipe Aemond Targaryen, com
uma safira no lugar do olho que faltava.
– Seu objetivo é conquistar a mão de uma das filhas de Lorde Baratheon – explicou seu avô Otto
antes que partisse. – Qualquer uma das quatro servirá. Corteje-a e despose-a, e Lorde Borros dará
as terras da tempestade para seu irmão. Fracasse...
– Eu não vou fracassar – vangloriou-se o Príncipe Aemond. – Aegon terá Ponta Tempestade, e eu
terei a garota.
Quando o Príncipe Aemond partiu, o fedor dos aposentos do rei morto tomava toda a Fortaleza de
Maegor, e muitas histórias fantásticas e boatos se espalhavam pela corte e pelo castelo. As
masmorras sob a Fortaleza Vermelha tinham engolido tantos homens suspeitos de deslealdade que
mesmo o Alto Septão começara a refletir sobre esses desaparecimentos, e desde o Septo Estrelado
de Vilavelha mandou perguntar sobre alguns dos desaparecidos. Sor Otto Hightower, como o
homem metódico que sempre fora como Mão, queria mais tempo para os preparativos, mas a Rainha
Alicent sabia que não poderiam postergar mais. O Príncipe Aegon se cansara do segredo.
– Eu sou rei ou não? – cobrou ele da mãe. – Se sou rei, então me coroe.
Os sinos começaram a tocar no décimo dia da terceira lua de 129 D.C., indicando o fim de um
reinado. O Grande Meistre Orwyle foi autorizado a enviar seus corvos, e os pássaros pretos subiram
ao céu às centenas, levando a todos os cantos do reino a notícia da ascensão de Aegon. As Irmãs
Silenciosas foram enviadas para preparar o cadáver para cremação, e cavaleiros avançaram em
cavalos brancos para dar a notícia ao povo de Porto Real, gritando: “O Rei Viserys morreu, vida
longa ao Rei Aegon.” Ao ouvir os gritos, alguns choraram enquanto outros aplaudiram, mas a
maioria das pessoas comuns permaneceu em silêncio, confusa e desconfiada, e de tempos em
tempos uma voz gritava: “Vida longa à nossa Rainha.”
Enquanto isso, foram feitos às pressas os preparativos para a coroação. O local escolhido foi o
Fosso dos Dragões. Sob seu domo grandioso, havia bancos de pedra em número suficiente para
receber oitenta mil pessoas, e as paredes grossas do poço, assim como seu teto sólido e suas
enormes portas de bronze, o tornavam defensável, caso traidores tentassem impedir a cerimônia.
No dia escolhido, Sor Criston Cole colocou a coroa de ferro e rubi de Aegon, o Conquistador, na
cabeça do filho mais velho do Rei Viserys e da Rainha Alicent, proclamando-o Aegon da Casa
Targaryen, Segundo de Seu nome, Rei dos Ândalos, dos Roinares e dos Primeiros Homens, Senhor
dos Sete Reinos e Protetor do Território. Sua mãe, Rainha Alicent, amada pelas pessoas comuns,
colocou a própria coroa na cabeça de sua filha Helaena, esposa e irmã de Aegon.
– Minha Rainha – disse a mãe que, após beijar suas faces, se ajoelhou diante da filha, baixando a
cabeça.
Como o Alto Septão estava em Vilavelha, velho e frágil demais para viajar até Porto Real, coube
ao septão Eustace ungir a testa do Rei Aegon com os santos óleos e abençoá-lo nos sete nomes de
deus. Alguns poucos na plateia, com olhar mais atento que a maioria, podem ter notado que havia
apenas quatro mantos brancos diante do novo Rei, não cinco como antes. Aegon II sofrera a
primeira deserção na noite anterior, quando Sor Steffon Darklyn da Guarda Real escapara da cidade
com seu escudeiro, dois ajudantes e quatro guardas. Protegidos pela escuridão, eles saíram por um
pequeno portão dos fundos até onde um esquife de pescador esperava para levá-los a Pedra do
Dragão. Eles levavam uma coroa roubada: uma fita de ouro amarela ornamentada com sete pedras
de diferentes cores. Era a coroa que o Rei Viserys usara, e o Velho Rei Jaehaerys antes dele. Quando
o Príncipe Aegon decidira usar a coroa de ferro e rubi de seu homônimo, o Conquistador, a Rainha
Alicent ordenara que a coroa de Viserys fosse trancada, mas em vez disso o intendente encarregado
da tarefa fugira com ela.
Depois da coroação, os guardas reais remanescentes escoltaram Aegon até sua montaria, uma
criatura esplêndida com escamas douradas reluzentes e asas com membranas rosa-claro. Sunfyre
era o nome dado a esse dragão do amanhecer dourado. Munkun nos conta que o rei voou ao redor
da cidade três vezes antes de pousar dentro das muralhas da Fortaleza Vermelha. Sor Arryk Cargyll
conduziu Sua Graça até a sala do trono iluminada por archotes, onde Aegon II subiu os degraus no
Trono de Ferro perante mil senhores e cavaleiros. Gritos ecoaram pelo salão.
Em Pedra do Dragão não foram ouvidas saudações. Em vez disso, gritos ecoaram pelos salões e
pelas escadarias de Ponta do Dragão Marinho, vindos dos aposentos da rainha, onde Rhaenyra
Targaryen forçava e estremecia em seu terceiro dia de trabalho de parto. A criança não deveria
nascer antes de outra lua, mas as notícias vindas de Porto Real lançaram a princesa numa fúria
incontrolável, e seu ódio pareceu antecipar o nascimento, como se o bebê dentro dela também
estivesse com raiva e lutando para sair. A princesa berrou maldições durante todo o trabalho de
parto, invocando a fúria dos deuses sobre seus meio-irmãos e a mãe deles, a rainha, e detalhando os
tormentos que infligiria a eles antes que os deixasse morrer. Ela também amaldiçoou o filho dentro
dela.
– Saia! – berrou, cravando as garras em sua barriga inchada enquanto seu meistre e sua parteira
tentavam contê-la. – Monstro, monstro, saia, saia, SAIA!
Quando o bebê saiu, provou ser realmente um monstro: uma menina nascida morta, distorcida e
malformada, com um buraco no peito onde deveria estar um coração e um rabo curto com escamas.
A menina morta recebeu o nome de Visenya, a Princesa Rhaenyra anunciou no dia seguinte, quando
o leite de papoula tinha reduzido o pior da dor.
– Ela era minha única filha, e eles a mataram. Eles roubaram minha coroa e assassinaram minha
filha, e vão responder por isso.
E assim começou a Dança, com a princesa convocando seu próprio conselho. O “Conselho
Negro”, em oposição ao “Conselho Verde” de Porto Real. A própria Rhaenyra presidiu, com seu tio e
marido Príncipe Daemon. Seus três filhos estavam presentes também, embora nenhum fosse ainda
adulto (Jace tinha 15, Luke, 14 e Joffrey, 12). Dois homens da Guarda Real estavam com eles: Sor
Erryk Cargyll, irmão gêmeo de Sor Arryk, e o homem do Oeste Sor Lorent Marbrand. Trinta
cavaleiros, cem besteiros e trezentos homens de armas compunham o resto da guarnição de Pedra
do Dragão. Isso sempre fora considerado suficiente para uma fortaleza tão poderosa.
– Como um instrumento de conquista, porém, nosso exército deixa um tanto a desejar – observou
o Príncipe Daemon com amargura.
Uma dúzia de senhores menores, súditos e vassalos de Pedra do Dragão também tinha assento no
Conselho Negro: Celtigar de Ilha da Garra, Staunton de Pouso de Gralhas, Massey de Bailepedra,
Bar Emmon de Ponta Afiada e Darklyn de Valdocaso entre eles. Mas o maior senhor a comprometer
sua força à Princesa foi Corlys Velaryon de Derivamarca. Embora a Serpente do Mar tivesse ficado
velha, ele gostava de dizer que estava se aferrando à vida “como um marinheiro se afogando se
aferrava aos restos de um navio afundado. Talvez os Sete tenham me preservado para esta última
luta”. Com Lorde Corlys foi sua esposa, a Princesa Rhaenys, de 55 anos, o rosto magro e enrugado,
o cabelo prateado com mechas brancas, mas feroz e destemida como havia sido aos 22 – uma
mulher às vezes conhecida pelas pessoas comuns como “a Rainha que Nunca Foi”.
Aqueles com assentos no Conselho Negro se consideravam legalistas, mas sabiam muito bem que
o Rei Aegon II os chamaria de traidores. Cada um deles já havia recebido uma convocação de Porto
Real, exigindo que se apresentassem à Fortaleza Vermelha para fazer juramentos de lealdade ao
novo rei. Todas as suas tropas somadas não se comparavam ao poder que os Hightower podiam
empregar sozinhos. Os “verdes” de Aegon também tinham algumas outras vantagens. Vilavelha,
Porto Real e Lannisporto eram as maiores e mais ricas cidades do reino; todas as três eram
controladas pelos “verdes”. Todos os símbolos visíveis de legitimidade pertenciam a Aegon. Ele se
sentava no Trono de Ferro. Ele vivia na Fortaleza Vermelha. Ele usava a coroa do Conquistador,
brandia a espada do Conquistador e fora ungido por um Septão da Fé diante dos olhos de dezenas
de milhares. O Grande Meistre Orwyle tinha lugar em seu conselho e o Senhor Comandante da
Guarda Real colocara a coroa em sua cabeça real. E ele era homem, o que aos olhos de muitos fazia
dele o rei por direito, e de sua meia-irmã, a usurpadora.
Contra tudo isso, as vantagens de Rhaenyra eram poucas. Alguns senhores mais velhos poderiam
se lembrar ainda do juramento que proferiram quando ela foi feita Princesa de Pedra do Dragão e
nomeada herdeira do pai. Houvera um tempo em que ela era bastante amada tanto por bem-
nascidos quanto plebeus, quando eles a saudavam como o Encanto do Reino. Muitos jovens senhores
e cavaleiros nobres buscaram seus favores na época... embora ninguém soubesse quantos ainda
fossem lutar por ela agora que era uma mulher casada com o corpo envelhecido e engrossado por
seis partos. Apesar de seu meio-irmão ter saqueado o tesouro do pai, a princesa tinha à sua
disposição a riqueza da Casa Velaryon, e as frotas da Serpente do Mar lhe davam superioridade
marítima. E seu consorte, o Príncipe Daemon, testado e experimentado nos Degraus, tivesse mais
experiência de batalha que todos os seus inimigos somados. Finalmente, mas não menos importante,
Rhaenyra tinha os seus dragões.
– Assim como Aegon – chamou a atenção Lorde Staunton.
– Nós temos mais – disse a Princesa Rhaenys, a Rainha que Nunca Foi, que cavalgava dragões
havia mais tempo que todos eles. – E os nossos são maiores e mais fortes, com exceção de Vhagar.
Eles vivem melhor aqui em Pedra do Dragão.
Ela enumerou para o conselho. O Rei Aegon tinha seu Sunfyre. Um animal esplêndido, embora
jovem. Aemond Um-Olho montava Vhagar, e o perigo representado pela montaria da Rainha Visenya
não podia ser negado. A montaria da Rainha Helaena era Dreamfyre, a dragoa que um dia levara a
irmã do Velho Rei pelas nuvens. A dragoa do Príncipe Daeron era Tessarion, com suas asas escuras
como cobalto e garras, crista e escamas da barriga brilhantes como cobre batido.
– Isso dá quatro dragões com tamanho de combate – falou Rhaenys.
Os gêmeos da Rainha Helaena também tinham seus dragões, mas não passavam de filhotes. O
filho mais novo do usurpador, Maelor, tinha apenas um ovo.
Contra isso, o Príncipe Daemon tinha Caraxes e a Princesa Rhaenyra, Syrax, ambos animais
enormes e formidáveis. Caraxes era especialmente assustador e estava acostumado a sangue e fogo
depois dos Degraus. Os três filhos de Rhaenyra com Laenor Velaryon eram todos cavaleiros de
dragões: Vermax, Arrax e Tyraxes cresciam mais a cada ano. Aegon, o Jovem, o mais velho dos dois
filhos de Rhaenyra com o Príncipe Daemon, comandava o jovem dragão Stormcloud, embora ainda
não o tivesse montado; seu irmão menor Viserys andava por toda parte com seu ovo. A dragoa da
própria Rhaenys, Meleys, a Rainha Vermelha, ficara preguiçosa, mas continuava a ser assustadora
quando provocada. Os gêmeos do Príncipe Daemon com Laena Velaryon também podiam montar
dragões. A dragoa de Baela, a esguia Moondancer verde-clara, logo seria grande o bastante para
levar a garota nas costas... E embora o ovo de sua irmã Rhaena tivesse originado uma coisa frágil
que morrera horas depois de sair, Syrax recentemente gerara outra ninhada. Um dos ovos dela foi
dado a Rhaena, e dizia-se que a menina dormia com ele toda noite e rezava por um dragão
comparável ao da irmã.
Ademais, seis outros dragões viviam nas cavernas enfumaçadas do Monte Dragão, acima do
castelo. Havia Silverwing, antiga montaria da Boa Rainha Alysanne; Seasmoke, o animal cinza-claro
que fora o orgulho e a paixão de Sor Laenor Velaryon; o velho grisalho Vermithor, que não era
montado desde a morte do Rei Jaehaerys. E atrás das montanhas moravam três dragões selvagens,
nunca possuídos nem montados por homem algum, vivo ou morto. As pessoas comuns os chamavam
de Sheepstealer, Grey Ghost e Cannibal.
– Encontrem cavaleiros para controlar Silverwing, Vermithor e Seasmoke e teremos nove dragões
contra os quatro de Aegon. Montem e voem seus parentes selvagens e seremos doze, mesmo sem
Stormcloud – comentou a Princesa Rhaenys. – É como iremos vencer esta guerra.
Os lordes Celtigar e Staunton concordaram. Aegon, o Conquistador, e suas irmãs haviam provado
que cavaleiros e exércitos não resistiam ao fogo dos dragões. Celtigar conclamou a princesa a voar
imediatamente contra Porto Real e reduzir a cidade a cinzas e ossos.
– E de qual valia isso nos será, senhor? – indagou ele à Serpente do Mar. – Queremos governar a
cidade, não arrasá-la.
– Nunca chegará a isso – insistiu Celtigar. – O usurpador não terá escolha a não ser nos enfrentar
com os próprios dragões. Nossos nove superarão os quatro dele.
– A que custo? – perguntou a Princesa Rhaenyra. – Meus filhos estarão montando três desses
dragões, eu lhe recordo. E não serão nove contra quatro. Eu não estarei forte o bastante para voar
por mais algum tempo. E quem irá montar Silverwing, Vermithor e Seasmoke? O senhor? Não. Serão
cinco contra quatro, e um dos quatro deles será Vhagar. Não há vantagem.
Surpreendentemente, o Príncipe Daemon concordou com sua esposa.
– Em Passopedra, meus inimigos aprenderam a correr e se esconder quando viam as asas de
Caraxes ou ouviam seu rugido... Mas eles não tinham seus próprios dragões. Não é fácil para um
homem ser matador de dragões. Mas dragões podem matar dragões, e o fazem. Qualquer meistre
que tenha estudado a história de Valíria pode lhes dizer isso. Eu não lançarei nossos dragões contra
os do usurpador a não ser que não tenha alternativa. Há outras formas melhores de utilizá-los.
O príncipe apresentou suas estratégias ao Conselho Negro. Rhaenyra devia ter a própria
coroação, para responder à de Aegon. Depois, eles enviariam corvos convocando os senhores dos
Sete Reinos a declarar sua lealdade à verdadeira rainha.
– Temos de travar esta guerra com palavras antes de entrarmos em batalha – declarou o Príncipe.
Os senhores das Grandes Casas eram a chave para a vitória, insistiu Daemon; seus súditos e
vassalos os seguiriam. Aegon, o Usurpador, conquistara a lealdade dos Lannister, de Rochedo
Casterly, e Lorde Tyrell, de Jardim de Cima era um menino chorão de fraldas cuja mãe, atuando
como regente, ocuparia a Campina com seus vassalos poderosos, os Hightower... Mas o restante dos
grandes senhores do reino ainda não se declarara.
– Ponta Tempestade ficará conosco – declarou a Princesa Rhaenys. Ela mesma tinha esse sangue
pelo lado materno, e o falecido Lorde Boremund sempre fora o amigo mais fiel.
O Príncipe Daemon tinha bons motivos para esperar que a Senhora do Vale também levasse o
Ninho da Águia para seu lado. Aegon buscaria o apoio de Pyke, ele avaliava; apenas as Ilhas de
Ferro podiam rivalizar a força da Casa Velaryon no mar. Mas os homens de ferro eram
reconhecidamente instáveis, e Dalton Greyjoy amava sangue e batalha; podia muito bem ser
persuadido a apoiar a princesa.
O norte era remoto demais para ser de muita importância para a luta, avaliou o conselho; quando
os Stark reunissem seus estandartes e marchassem rumo ao sul, a guerra poderia já ter terminado.
O que deixava apenas os senhores do rio, um grupo reconhecidamente belicoso comandado, pelo
menos em nome, pela Casa Tully de Correrrio.
– Temos amigos nas terras fluviais – começou o príncipe –, embora até agora nem todos ousem
revelar suas cores. Precisamos de um lugar onde possam se reunir, uma cabeça de ponte no
continente que seja grande o bastante para abrigar uma tropa considerável, e forte o bastante para
resistir a quaisquer forças que o usurpador possa lançar contra nós – falou, e mostrou aos senhores
um mapa. – Aqui. Harrenhal.
E assim foi decidido. O Príncipe Daemon lideraria o ataque a Harrenhal montando Caraxes. A
Princesa Rhaenyra permaneceria em Pedra do Dragão até recuperar suas forças. A frota de Velaryon
fecharia a Goela, partindo de Pedra do Dragão e Derivamarca para impedir que qualquer navio
entrasse ou saísse da Baía da Água Negra.
– Não temos força para tomar Porto Real num ataque – confessou o Príncipe Daemon –, não mais
do que nossos inimigos para capturar Pedra do Dragão. Mas Aegon é um garoto “verde”, e garotos
“verdes” são facilmente provocados. Talvez possamos atraí-lo para um ataque ousado.
A Serpente do Mar comandaria a frota, enquanto a Princesa Rhaenys sobrevoaria para impedir
que os inimigos atacassem seus navios com dragões. Enquanto isso, corvos poderiam seguir para
Correrrio, Ninho da Águia, Pyke e Ponta Tempestade para conseguir a lealdade de seus senhores.
– Nós deveríamos levar essas mensagens – falou o filho mais velho da rainha, Jacaerys. – Dragões
vão conquistar os senhores mais rapidamente que corvos.
Seu irmão Lucerys concordou, insistindo que ele e Jace eram homens feitos, ou tão perto disso
que não faria diferença.
– Nosso tio nos chama Strongs e alega que somos bastardos, mas quando os senhores nos virem
sobre os dragões saberão que isso é mentira. Apenas Targaryen montam dragões.
Até mesmo o jovem Joffrey se pronunciou, se oferecendo para montar seu próprio dragão Tyraxes
e acompanhar os irmãos.
A Princesa Rhaenyra proibiu; Joff tinha apenas 12 anos. Mas Jacaerys tinha 15 e Lucerys, 14;
jovens fortes e altos, habilidosos com armas, havia muito serviam como escudeiros.
– Se forem, irão como mensageiros, não como cavaleiros – avisou a eles. – Vocês não podem
tomar parte em qualquer luta.
Até os dois meninos terem feito juramentos solenes sobre um exemplar de Estrela de Sete
Pontas, Sua Graça não permitiria usá-los como enviados. Foi decidido que Jace, sendo o mais velho
dos dois, teria a missão mais longa e perigosa, voando primeiramente para o Ninho da Águia para
tratar com a Senhora do Vale, depois para Porto Branco para conquistar Lorde Manderly, e
Winterfell para encontrar Lorde Stark. A missão de Luke seria mais curta e segura. Ele voaria até
Ponta Tempestade, onde se esperava que Borros Baratheon lhe desse uma recepção calorosa.
Uma coroação apressada aconteceu naquele dia. A chegada de Sor Steffon Darklyn, antes da
Guarda Real de Aegon, foi uma ocasião de muita alegria em Pedra do Dragão, especialmente quando
se soube que ele e seus colegas legalistas (“vira-casacas”, como Sor Otto os chamaria ao oferecer
uma recompensa por sua captura) trouxeram a coroa roubada do Rei Jaehaerys, o Conciliador.
Trezentos pares de olhos viram quando o Príncipe Daemon Targaryen colocou a coroa do Velho Rei
na cabeça de sua esposa, proclamando-a Rhaenyra da Casa Targaryen, Primeira de Seu Nome,
Rainha dos Ândalos, dos Roinares e dos Primeiros Homens. O Príncipe reivindicou para si o título de
Protetor do Território, e Rhaenyra nomeou o filho mais velho, Jacaerys, Príncipe de Pedra do Dragão
e herdeiro do Trono de Ferro.
Seu primeiro ato como rainha foi declarar Sor Otto Hightower e a Rainha Alicent traidores e
rebeldes.
– Quanto a meus meio-irmãos e minha doce irmã Helaena, eles foram desencaminhados pelos
conselhos de homens malvados – anunciou. – Se vierem a Pedra do Dragão, se ajoelharem e pedirem
meu perdão, eu alegremente pouparei suas vidas e os receberei de volta em meu coração, pois eles
são meu próprio sangue, e nenhum homem ou mulher é mais amaldiçoado que aquele que mata os
seus.
A notícia da coroação de Rhaenyra chegou à Fortaleza Vermelha no dia seguinte, para grande
desgosto de Aegon II.
– Minha meia-irmã e meu tio são culpados de alta traição – declarou o jovem rei. – Eu os quero
condenados, eu os quero presos, e eu os quero mortos.
Cabeças mais frias no Conselho Verde queriam dobrar a aposta.
– A princesa deve ser obrigada a ver que sua causa é vã – disse o Grande Meistre Orwyle. – Irmão
não deve ir à guerra contra irmã. Envie-me a ela, e poderemos conversar e chegar a um acordo
amigável.
Aegon não quis saber disso. O Septão Eustace nos diz que Sua Graça acusou o Grande Meistre de
deslealdade e ameaçou jogá-lo numa cela escura “com seus amigos ‘negros’”. Mas quando as duas
rainhas – sua mãe Rainha Alicent e sua esposa Rainha Helaena – falaram a favor da proposta de
Orwyle, o rei cedeu, relutantemente. Assim, o Grande Meistre Orwyle foi enviado para o outro lado
da Baía da Água Negra com um estandarte de paz, liderando uma comitiva que incluía Sor Arryk
Cargyll, da Guarda Real, e Sor Gwayne Hightower, dos mantos dourados, juntamente com um grupo
de escribas e septões.
Os termos oferecidos pelo rei eram generosos. Se a princesa o reconhecesse como rei e jurasse
obediência diante do Trono de Ferro, Aegon II a confirmaria na posse de Pedra do Dragão e
permitiria que ilha e castelo fossem transferidos para seu filho Jacaerys quando ela morresse. Seu
segundo filho, Lucerys, seria reconhecido como herdeiro por direito de Derivamarca e das terras e
bens da Casa Velaryon; seus filhos com o Príncipe Daemon, Aegon, o Jovem, e Viserys, teriam lugar
de honra na corte, o primeiro como escudeiro do rei, o segundo como seu intendente pessoal. Seria
concedido perdão aos senhores e cavaleiros que conspiraram traiçoeiramente com ela contra seu
verdadeiro rei.
Rhaenyra ouviu esses termos num silêncio pétreo, depois perguntou a Orwyle se ele se lembrava
de seu pai, o Rei Viserys.
– Claro, Sua Graça – respondeu o Meistre.
– Talvez possa nos dizer quem ele nomeou seu herdeiro e sucessor – disse a rainha, com a coroa
na cabeça.
– Você, Sua Graça – respondeu Orwyle.
– Você admite com sua própria língua que eu sou sua rainha por direito. Por que então serve a
meu meio-irmão, o pretendente? Diga a meu meio-irmão que terei meu trono ou a cabeça dele –
falou, mandando os enviados embora.
Aegon II tinha 22 anos, era rápido para sentir raiva e lento para esquecer. A recusa de Rhaenyra
a aceitar seu governo o enfureceu.
– Eu ofereci a ela uma paz honrada, e a piranha cuspiu no meu rosto – declarou. – O que
acontecer agora é responsabilidade dela.
Enquanto ele falava, a Dança começou. Em Derivamarca, os navios da Serpente do Mar zarparam
de Casco e Vila das Especiarias para fechar a Goela, asfixiando o comércio que ia e vinha de Porto
Real. Pouco depois, Jacaerys Velaryon estava voando rumo norte em seu dragão Vermax, seu irmão
Lucerys rumo sul em Arrax, enquanto o Príncipe Daemon montava Caraxes rumo ao Tridente.
Harrenhal já se mostrara vulnerável ao céu uma vez, quando Aegon, o Dragão, o conquistara. Seu
castelão idoso, Sor Simon Strong, foi rápido em baixar seus estandartes quando Caraxes pousou no
alto da Pira do Rei. Além do castelo, com um só golpe o Príncipe Daemon havia capturado a
considerável riqueza da Casa Strong e uma dúzia de reféns valiosos, entre eles Sor Simon e seus
netos.
Enquanto isso, o Príncipe Jacaerys voava rumo ao norte em seu dragão, visitando a Senhora
Arryn do Vale, Lorde Manderly de Porto Branco, Lorde Borrel e Lorde Sunderland de Vilirmã e
Cregan Stark, de Winterfell. Tão carismático era o príncipe e tão assustador seu dragão que todos
os senhores que ele visitou juraram apoio à sua mãe.
Se a viagem “mais curta e segura” de seu irmão tivesse sido tão boa, muito derramamento de
sangue e muito sofrimento poderiam ter sido evitados.
A tragédia que se abateu sobre Lucerys Velaryon em Ponta Tempestade nunca foi planejada,
nisso todas as nossas fontes concordam. As primeiras batalhas da Dança dos Dragões foram
travadas com penas e corvos, com ameaças e promessas, com decretos e bajulações. O assassinato
de Lorde Beesbury no Conselho Verde ainda não era de amplo conhecimento; a maioria acreditava
que sua senhoria estaria trancada em alguma masmorra. Embora vários rostos conhecidos não
fossem mais vistos na corte, não apareceram cabeças acima dos portões do castelo, e muitos ainda
esperavam que a questão da sucessão pudesse ser solucionada pacificamente.
O Estranho tinha outros planos. Pois com certeza foi sua mão terrível por trás do acaso infeliz
que juntou os dois principezinhos em Ponta Tempestade, quando o dragão Arrax se apressou antes
de uma tempestade para levar Lucerys Velaryon até a segurança do pátio do castelo, só para
descobrir que Aemond Targaryen chegara lá antes dele.
A poderosa dragoa de Aemond, Vhagar, sentiu sua chegada primeiro. Guardas marchando pelo
parapeito das grandiosas muralhas do castelo agarraram suas lanças num repentino terror quando
despertaram com um rugido que abalou as fundações do Desafio de Durran. Diziam que até mesmo
Arrax se acovardou diante daquele som, e Luke usou seu chicote sem hesitação enquanto o forçava
a descer.
Raios caíam a leste e uma chuva pesada jorrava quando Lucerys saltou de seu dragão, com a
mensagem de sua mãe apertada na mão. Ele devia saber o que significava a presença de Vhagar,
então não deve ter se surpreendido quando Aemond Targaryen o confrontou no Salão Redondo,
diante dos olhos de Lorde Borros, suas quatro filhas, septão, meistre e duas vintenas de cavaleiros,
guardas e servos.
– Veja esta triste criatura, senhor. O pequeno Luke Strong, o bastardo – falou, e se virou para
Luke. – Você está molhado, bastardo. Está chovendo ou você se mijou de medo?
Lucerys Velaryon se dirigiu unicamente a Lorde Borros.
– Lorde Borros, eu lhe trouxe uma mensagem de minha mãe, a rainha.
– A piranha de Pedra do Dragão, é o que ele quer dizer.
O Príncipe Aemond se adiantou e tentou arrancar a carta da mão de Lucerys, mas Lorde Borros
rugiu uma ordem e seus cavaleiros interferiram, afastando os principezinhos. Um deles levou a carta
de Rhaenyra ao estrado, onde sua senhoria estava sentada no trono dos antigos reis da tempestade.
Nenhum homem pode saber o que Borros Baratheon estava sentindo naquele momento. Os
relatos daqueles que estavam lá diferem muito entre si. Alguns dizem que sua senhoria tinha o rosto
vermelho e estava desconfortável, como um homem ficaria se sua legítima esposa o flagrasse na
cama com outra mulher. Outros declaram que Borros parecia desfrutar do momento, pois era bom
para sua vaidade ter rei e rainha buscando o seu apoio.
Mas todas as testemunhas concordam quanto ao que Lorde Borros disse e fez. Não sendo um
homem de letras, ele deu a carta da rainha a seu meistre, que rompeu o lacre e sussurrou a
mensagem ao ouvido de sua senhoria. O cenho de Lorde Borros franziu. Ele coçou a barba e olhou
com raiva para Lucerys Velaryon.
– E se eu fizer como sua mãe quer, qual de minhas filhas você irá desposar, rapaz? – perguntou
Borros, fazendo um gesto na direção das quatro garotas. – Escolha uma.
O Príncipe Lucerys só conseguiu corar.
– Senhor, não sou livre para me casar – respondeu. – Estou prometido à minha prima, Rhaena.
– Como eu pensei – comentou Lorde Borros. – Vá para casa, criança, e diga à piranha sua mãe
que o Senhor de Ponta Tempestade não é um cachorro para quem ela possa assoviar quando
necessário para lançar contra seus inimigos.
E o Príncipe Lucerys se virou para deixar o Salão Redondo.
Mas o Príncipe Aemond desembainhou sua espada.
– Espere, Strong! – ordenou o Príncipe Aemond.
O Príncipe Lucerys se lembrou da promessa feita à mãe.
– Eu não lutarei com você. Vim aqui como um enviado, não como um cavaleiro.
– Você veio aqui como um covarde e um traidor – retrucou o Príncipe Aemond. – Eu vou tirar sua
vida, Strong.
Com isso, Lorde Borros ficou desconfortável.
– Não aqui – grunhiu. – Ele veio como um enviado. Não quero sangue derramado sob o meu teto.
Então, seus guardas se colocaram entre os principezinhos e escoltaram Lucerys Velaryon para
fora do Salão Redondo, de volta ao pátio do castelo onde seu dragão Arrax estava encolhido sob a
chuva, esperando sua volta.
A boca de Aemond Targaryen retorceu de fúria, e ele se voltou para Lorde Borros, pedindo para
ser dispensado. O Senhor de Ponta Tempestade deu de ombros.
– Não cabe a mim lhe dizer o que fazer quando não está sob o meu teto.
E seus cavaleiros se colocaram de lado enquanto o Príncipe Aemond corria na direção das portas.
Do lado de fora, a tempestade desabava. Trovões ecoavam pelo castelo, a chuva caía em cortinas
densas e, de tempos em tempos, grandes descargas de raios brancos azulados iluminavam o mundo
como se fosse dia. Era um clima ruim para voar, mesmo para um dragão, e Arrax estava se
esforçando quando o Príncipe Aemon montou em Vhagar e foi atrás dele. Se o céu estivesse calmo, o
Príncipe Lucerys teria conseguido deixar para trás seu perseguidor, pois Arrax era mais jovem e
ágil... Mas o dia estava escuro, de modo que os dragões se encontraram acima da Baía dos
Naufrágios. Espectadores nas muralhas do castelo viram jatos de fogo distantes e ouviram um
guincho superar um trovão. Então, os dois animais estavam travados um sobre o outro, raios
estalando ao redor. Vhagar era cinco vezes maior que seu adversário e uma calejada sobrevivente de
cem batalhas. Se chegou a haver uma luta, não pode ter durado muito.
Arrax caiu, partido, para ser engolido pelas águas da baía agitadas pela tempestade. Sua cabeça
e seu pescoço encalharam sob o penhasco abaixo de Ponta Tempestade três dias depois, se tornando
um banquete para caranguejos e gaivotas. O cadáver do Príncipe Lucerys também chegou à
margem.
E com sua morte a guerra de corvos, mensageiros e pactos de casamento chegou ao fim, dando
início à verdadeira guerra de fogo e sangue.
Em Pedra do Dragão, a Rainha Rhaenyra desmaiou ao ser informada da morte de Luke. O irmão
mais jovem de Luke, Joffrey (Jace ainda estava fora em sua missão no Norte) fez um terrível
juramento de vingança contra o Príncipe Aemond e Lorde Borros. Apenas as intervenções da
Serpente do Mar e da Princesa Rhaenys impediram o jovem de montar imediatamente. Quando o
Conselho Negro se sentou para avaliar como reagir, chegou um corvo de Harrenhal.
– Olho por olho, um filho por um filho – escreveu o Príncipe Daemon. – Lucerys será vingado.
Quando jovem, o rosto e o riso de Daemon Targaryen eram conhecidos por todos os ladrões,
prostitutas e jogadores da Baixada das Pulgas. O príncipe ainda tinha amigos nos lugares mais
baixos de Porto Real e possuía aliados também na corte, até mesmo no Conselho Verde... E outro
intermediário, um amigo especial em quem ele confiava, que conhecia as adegas e os buracos que
floresciam nas sombras da Fortaleza Vermelha tão bem quanto o próprio Daemon um dia conhecera,
e se movia com facilidade pelas sombras da cidade. Ele apelou a esse sujeito pálido, por vias
secretas, para colocar em ação uma terrível vingança.
Em meio aos bordéis da Baixada das Pulgas, o intermediário do Príncipe Daemon encontrou
instrumentos adequados. Um havia sido sargento da Patrulha da Cidade; grande e brutal, perdera
seu manto dourado por espancar uma prostituta até a morte numa fúria ébria; o outro era um
caçador de ratos na Fortaleza Vermelha. Seus verdadeiros nomes se perderam na história. Eles são
lembrados como Sangue e Queijo.
As portas escondidas e os túneis secretos que Maegor, o Cruel, construíra eram tão conhecidos
do caçador de ratos quanto dos ratos que ele caçava. Usando uma passagem esquecida, Queijo
levou Sangue para o coração do castelo, sem ser visto por guarda algum. Alguns dizem que sua
presa era o próprio rei, mas Aegon era acompanhado por guardas reais aonde quer que fosse, e até
mesmo Queijo sabia que não havia como entrar e sair da Fortaleza de Maegor a não ser passando
pela ponte levadiça que cobria o fosso seco e suas formidáveis varas de ferro.
A Torre da Mão era menos segura. Os dois homens se esgueiraram pelas muralhas, evitando os
lanceiros colocados junto às portas da torre. Os aposentos de Sor Otto não lhes interessavam. Em
vez disso, eles penetraram nos aposentos de sua filha, um andar abaixo. A Rainha Alicent se
instalara ali depois da morte do Rei Viserys, quando seu filho Aegon se mudou para a Fortaleza de
Maegor com sua própria rainha. Uma vez do lado de dentro, Queijo amarrou e amordaçou a Rainha
Viúva, enquanto Sangue estrangulava sua serva. Depois eles se acomodaram para esperar, pois
sabiam que era costume da Rainha Helaena levar os filhos para ver a avó toda noite antes de dormir.
Ignorando o perigo, a rainha apareceu quando o crepúsculo tomava conta do castelo,
acompanhada dos três filhos. Jaehaerys e Jaehaera tinham 6 anos, Maelor, 2. Quando entraram nos
aposentos, Helaena estava segurando a mãozinha dele e chamando o nome da mãe. Sangue
bloqueou a porta e matou o guarda da Rainha, enquanto Queijo surgiu para pegar Maelor.
– Grite e todos vocês morrem – ameaçou Sangue à Sua Graça.
Dizem que a Rainha Helaena manteve a calma.
– Quem são vocês? – ela exigiu saber.
– Cobradores de dívidas – respondeu Queijo. – Olho por olho, um filho por um filho. Só queremos
um, para ficarmos quites. Não iremos machucar o resto de vocês, pessoas finas, nem um fio de
cabelo. Qual deles quer perder, Sua Graça?
Assim que se deu conta do que ele queria dizer, a Rainha Helaena suplicou aos homens que em
vez disso a matassem.
– Uma esposa não é um filho – retrucou Sangue. – Tem de ser um menino.
Queijo alertou a Rainha para escolher logo, antes que Sangue ficasse entediado e estuprasse sua
menininha.
– Escolha, ou mataremos todos.
De joelhos, chorando, Helaena deu o nome do mais jovem, Maelor. Talvez achasse que o garoto
era pequeno demais para entender, ou talvez fosse porque o menino mais velho, Jaehaerys, fosse o
primogênito do Rei Aegon, o segundo na linha sucessória ao Trono de Ferro.
– Ouviu isso, garotinho? – sussurrou Queijo para Maelor. – Sua mãe quer você morto.
Então, ele sorriu para Sangue, e o grande espadachim matou o Príncipe Jaehaerys, cortando a
cabeça do garoto com um só golpe. A rainha começou a berrar.
Por estranho que pareça, o caçador de ratos e o açougueiro mantiveram sua palavra. Eles não
fizeram mais nada à Rainha Helaena ou aos seus filhos sobreviventes, mas fugiram com a cabeça do
Príncipe nas mãos.
Embora Sangue e Queijo tivessem poupado sua vida, não se pode dizer que a Rainha Helaena
tivesse sobrevivido àquele crepúsculo fatídico. Depois disso, ela não comeu, não se banhou, não
deixou seus aposentos e não suportava mais olhar para o filho Maelor, sabendo que o escolhera para
morrer. O rei foi obrigado a tomar o menino dela e dá-lo à mãe, a Rainha Viúva Alicent, para ser
criado como se fosse dela. Aegon e sua esposa dormiram separados depois disso, e a Rainha
Helaena mergulhou cada vez mais na loucura, enquanto o rei se enfurecia, bebia e se enfurecia.
Então, o banho de sangue começou realmente.
A queda de Harrenhal pelo Príncipe Daemon foi um grande choque para Sua Graça. Até aquele
momento, Aegon II acreditara que a causa de sua meio-irmã era vã. Harrenhal fez Sua Graça se
sentir vulnerável pela primeira vez. Posteriores derrotas rápidas em Moinho Flamejante e Barreira
de Pedra foram novos golpes e fizeram o rei se dar conta de que a situação era mais perigosa do que
parecera. Esses medos aumentaram quando corvos retornaram da Campina, onde os “verdes” se
consideravam mais fortes. As casas Hightower e Vilavelha apoiavam solidamente o Rei Aegon, e Sua
Graça também tinha a Árvore... Mas nos demais pontos do sul outros senhores estavam declarando
apoio a Rhaenyra, entre eles Lorde Costayne de Três Torres, Lorde Mullendore de Terraltas, Lorde
Tarly de Monte Chifre, Lorde Rowan de Bosquedouro e Lorde Grimm de Escudogris.
Outros golpes se seguiram: Vale, Porto Branco, Winterfell. Os Blackwood e outros senhores do rio
seguiram na direção dos estandartes de Harrenhal e do Príncipe Daemon. As frotas da Serpente do
Mar fecharam a Baía da Água Negra, e toda manhã o Rei Aegon tinha mercadores choramingando
para ele. Sua Graça não tinha respostas para suas queixas além de outra taça de vinho-forte.
– Faça alguma coisa – cobrou ele de Sor Otto.
A Mão garantiu a ele que algo estava sendo feito; ele concebera um plano para romper o bloqueio
dos Velaryon. Um dos principais pilares de apoio à candidatura de Rhaenyra era seu consorte, mas o
Príncipe Daemon também era uma de suas maiores fraquezas. O príncipe fizera mais inimigos do
que amigos durante suas aventuras. Sor Otto Hightower, que tinha estado entre os primeiros
inimigos, buscava do outro lado do Mar Estreito outro dos inimigos do príncipe, o Reino das Três
Filhas, esperando convencê-las a agir contra a Serpente do Mar.
A demora não agradou ao jovem rei. Aegon II perdera a paciência com as indecisões do avô.
Embora sua mãe, a Rainha Viúva Alicent, falasse em defesa de Sor Otto, Sua Graça não deu ouvidos
aos seus apelos. Convocando Sor Otto à sala do trono, ele arrancou a corrente de seu cargo do
pescoço e a jogou para Sor Criston Cole.
– Minha nova Mão tem um punho de aço – vangloriou-se. – Chega de escrever cartas.
Sor Criston não perdeu tempo em provar sua determinação.
– Não cabe a você suplicar apoio dos outros senhores, como um mendigo pedindo esmolas – falou
ele para Aegon. – Você é o rei legítimo de Westeros, e aqueles que negam isso são traidores. Já
passou o tempo de aprenderem o preço da traição.
O mestre dos sussurros do Rei Aegon, Larys Strong, o Pé-Torto, fizera uma lista de todos os
senhores que compareceram à Pedra do Dragão para a coroação da Rainha Rhaenyra e tiveram
assento em seu Conselho Negro. Os lordes Celtigar e Velaryon comandavam ilhas; como Aegon II
não tinha força no mar, eles estavam fora do alcance de sua ira. Mas aqueles senhores “negros”
cujas terras ficavam no continente não desfrutavam de tal proteção.
Valdocaso caiu facilmente. Apanhada de surpresa pelas forças do rei, a cidade foi saqueada, os
navios no porto, incendiados, Lorde Darklyn, decapitado. Pouso de Gralhas era o alvo seguinte de
Sor Criston. Alertado antecipadamente de sua vinda, Lorde Staunton fechou os portões e desafiou os
atacantes. Atrás de suas muralhas, Sua Senhoria só pôde assistir enquanto seus campos, suas
florestas e suas aldeias eram incendiados, suas ovelhas, seu gado e seu povo comum passado na
espada. Quando as provisões dentro do castelo começaram a se esgotar, ele enviou um corvo a
Pedra do Dragão suplicando socorro.
Nove dias após Lorde Staunton ter enviado seu pedido de ajuda, o som de asas de couro foi
ouvido do outro lado do mar, e a dragoa Meleys surgiu acima de Pouso de Gralhas. A Rainha
Vermelha, como era chamada por causa das escamas escarlate que a cobriam. As membranas de
suas asas eram cor-de-rosa, crista, chifres e garras brilhantes como cobre. E nas suas costas, em
armadura de aço e cobre que refletia o sol, montava Rhaenys Targaryen, a Rainha que Nunca Foi.
Sor Criston Cole não ficou desalentado. A Mão de Aegon esperava isso, contava com isso.
Tambores rufaram a um comando e arqueiros se adiantaram, tanto com arcos longos quanto com
bestas, enchendo o ar com flechas e setas. Catapultas foram tensionadas para lançar pregos de
ferro do tipo que um dia derrubaram Meraxes em Dorne. Meleys foi atingida algumas vezes, mas as
flechas serviram apenas para deixá-la com raiva. Ela mergulhou, cuspindo fogo por todos os lados.
Cavaleiros queimaram em suas selas quando o pelo, o couro e os arreios de seus cavalos pegaram
fogo. Homens de armas largaram suas lanças e debandaram. Alguns tentaram se esconder atrás dos
escudos, mas nem carvalho nem ferro resistem ao sopro de dragão. Sor Criston estava sentado em
seu cavalo, gritando: “Mirem no cavaleiro”, em meio a fumaça e fogo. Meleys rugiu, rolos de fumaça
saindo de suas narinas, um garanhão esperneando em sua boca enquanto línguas de chama o
envolviam.
Então, houve um rugido em resposta. Mais formas aladas apareceram: o rei montando Sunfyre, o
Dourado, e seu irmão Aemond em Vhagar. Criston Cole montara sua armadilha, e Rhaenys fora
morder a isca. Naquele momento, os dentes se fecharam ao redor dela.
A Princesa Rhaenys não tentou fugir. Com um grito animado e estalando o chicote, ela virou
Meleys na direção do inimigo. Contra Vhagar sozinha, ela poderia ter uma chance, pois a Rainha
Vermelha era velha e ardilosa, e habituada à batalha. Contra Vhagar e Sunfyre juntos, a derrota era
certa. Os dragões se encontraram violentamente a trezentos metros de altura acima do campo de
batalha, as bolas de fogo explodindo e se abrindo, tão brilhantes que mais tarde os homens juraram
que o céu estava cheio de sóis. As mandíbulas carmim de Meleys se fecharam sobre o pescoço
dourado de Sunfyre por um momento, até Vhagar se lançar sobre eles de cima. Os três animais
desceram rodopiando na direção do solo. Eles caíram com tanta força que pedras desprenderam-se
das muralhas de Pouso de Gralhas, a meia légua de distância.
Aqueles que estavam mais perto dos dragões não sobreviveram para contar a história. Aqueles
mais distantes não conseguiam ver, por causa de chama e fumaça; apenas horas depois o fogo se
extinguiu. Mas daquelas cinzas apenas Vhagar saiu incólume. Meleys estava morta, quebrada pela
queda e feita em pedaços no chão. E Sunfyre, aquele esplêndido animal dourado, tivera uma asa
quase arrancada do corpo, enquanto seu cavaleiro real tivera costelas quebradas, quadril fraturado
e queimaduras cobrindo metade do corpo. O braço esquerdo era o pior. A chama de dragão
queimara intensamente e a armadura do rei derretera sobre sua carne.
Um corpo que se acreditou ser o de Rhaenys Targaryen foi encontrado mais tarde ao lado da
carcaça de seu dragão, mas tão queimado que ninguém podia dizer com certeza que era o dela.
Filha amada da Senhora Jocelyn Baratheon e do Príncipe Aemon Targaryen, esposa fiel de Lorde
Corlys Velaryon, mãe e avó, a Rainha que Nunca Foi vivera com destemor e morrera em meio a
sangue e fogo. Ela tinha 55 anos.
Oitocentos cavaleiros, escudeiros e homens comuns também perderam a vida naquele dia. Outros
cem pereceram pouco depois, quando o Príncipe Aemon e Sor Criston Cole tomaram Pouso de
Gralhas e mataram sua guarnição. A cabeça de Lorde Staunton foi levada de volta a Porto Real e
colocada sobre o Velho Portão... Mas foi a cabeça da dragoa Meleys, levada pela cidade numa
carroça, que deixou multidões de pessoas comuns caladas de assombro. Milhares fugiram de Porto
Real depois disso, até que a Rainha Viúva Alicent ordenasse que os portões da cidade fossem
fechados e trancados.
O Rei Aegon II não morreu, embora suas queimaduras causassem tanta dor que alguns dizem que
ele rezou pela morte. Carregado de volta para Porto Real numa liteira fechada para esconder a
extensão de seus ferimentos, Sua Graça não se levantou da cama pelo resto do ano. Septões
rezaram por ele, meistres cuidaram dele com poções e leite de papoula, mas Aegon dormia nove
horas a cada dez, permanecendo acordado apenas o tempo de ingerir algum alimento antes de
voltar a dormir. Ninguém podia perturbar seu repouso, a não ser sua mãe, a Rainha Viúva, e sua
Mão, Sor Criston Cole. Sua esposa sequer tentou, tão perdida Helaena estava em sua própria dor e
loucura.
O dragão do rei, Sunfyre, enorme e pesado demais para ser deslocado, e incapaz de voar por
causa da asa ferida, permaneceu nos campos além de Pouso de Gralhas, rastejando entre as cinzas
como um grande monstro dourado. Nos primeiros dias, ele se alimentou das carcaças calcinadas do
massacre. Quando isso acabou, os homens que Sor Criston tinham deixado para trás para protegê-lo
levaram bezerros e ovelhas.
– Você agora tem de comandar o reino até seu irmão estar forte o bastante para assumir
novamente a coroa – disse a Mão do Rei ao Príncipe Aemond.
E Sor Criston não precisou repetir. Assim, o caolho Aemond, o Assassino de Familiares, assumiu a
coroa de ferro e rubi de Aegon, o Conquistador.
– Fica melhor em mim do que jamais ficou nele – proclamou o Príncipe. Aemon não assumiu o
título de rei, nomeando-se apenas Protetor do Território e Príncipe Regente. Sor Criston continuou
como Mão do Rei.
Enquanto isso, as sementes que Jacaerys Velaryon havia plantado em seu voo para o norte
começaram a dar frutos, e homens se reuniam em Porto Branco, Winterfell, Vila Acidentada, Vilirmã,
Vila Gaivota e Portões da Lua. Sor Criston alertou o novo Príncipe Regente que, se eles somassem
sua força à que os senhores do rio agregavam em Harrenhal com o Príncipe Daemon, nem mesmo as
sólidas muralhas de Porto Real conseguiriam resistir.
Absolutamente confiante na própria força como guerreiro e no poder de sua dragoa Vhagar,
Aemond estava ansioso para combater o inimigo.
– A piranha em Pedra do Dragão não é a ameaça – disse Aemond. – Não mais que Rowan e esses
traidores da Campina. O perigo é meu tio. Assim que Daemon estiver morto, todos esses idiotas que
agitam os estandartes de nossa irmã voltarão correndo para seus castelos e não nos darão mais
problemas.
A leste da Baía da Água Negra, a Rainha Rhaenyra também estava mal. A morte de seu filho
Lucerys fora um golpe devastador numa mulher já abalada por gravidez, parto e bebê natimorto.
Quando chegou a Pedra do Dragão a notícia de que a Princesa Rhaenys tombara, palavras raivosas
foram trocadas entre a Rainha e Lorde Velaryon, que a culpava pela morte da esposa.
– Deveria ter sido você! – gritou a Serpente do Mar com Sua Graça. – Staunton foi ao seu apelo,
mas você deixou a cargo de minha esposa responder e proibiu seus filhos de se juntar a ela!
Como todos sabiam, os príncipes Jace e Joff estavam ansiosos para voar rumo a Pouso de Gralhas
em seus próprios dragões, com a Princesa Rhaenys.
Então foi Jace quem se adiantou, no final do ano de 129 D.C. Primeiramente, ele trouxe o Senhor
das Marés de volta ao grupo, nomeando-o Mão da Rainha. Juntos, ele e Lorde Corlys começaram a
planejar um ataque a Porto Real.
Consciente da promessa que fizera à Donzela do Vale, Jace ordenou que o Príncipe Joffrey voasse
até Vila Gaivota com Tyraxes. Munkun sugere que o desejo de Jace de manter o irmão longe da luta
foi o que determinou essa decisão. Isso não caiu bem com Joffrey, que estava determinado a provar
seu valor em batalha. Apenas quando lhe foi dito que estava sendo enviado para defender o Vale
contra os dragões do Rei Aegon, ele concordou de má vontade em ir. Rhaena, a filha de 13 anos do
Príncipe Daemon com Laena Velaryon, foi escolhida para acompanhá-lo. Conhecida como Rhaena de
Pentos, em função da cidade em que nascera, ela não montava dragões, tendo o seu filhote morrido
alguns anos antes, mas levou consigo ao Vale três ovos de dragão, e todas as noites rezou pelo
nascimento. O príncipe de Pedra do Dragão também se preocupou com a segurança de seus meio-
irmãos, Aegon, o Jovem, e Viserys, de 9 e 7 anos. O pai deles, Príncipe Daemon, fizera muitos
amigos na Cidade Livre de Pentos durante suas visitas, então Jacaerys procurou o príncipe do local,
do outro lado do Mar Estreito, e este concordou em criar os dois meninos até Rhaenyra ter
assegurado o Trono de Ferro. Nos últimos dias de 129 D.C., os jovens príncipes embarcaram na coca
Feliz Abandono – Aegon com Stormcloud, Viserys segurando seu ovo – para navegar até Essos. A
Serpente do Mar mandou sete de seus navios de guerra para escoltá-los e garantir que chegassem
em segurança a Pentos.
Com Sunfyre ferido e incapaz de voar, perto de Pouso de Gralhas, e Tessarion com o Príncipe
Daeron em Vilavelha, restavam apenas dois dragões maduros para defender Porto Real... E a
cavaleira de Dreamfyre, a Rainha Helaena, passava os dias na escuridão, chorando, e não podia ser
considerada uma ameaça. Isso deixava apenas Vhagar. Nenhum dragão vivo se comparava a Vhagar
em tamanho ou ferocidade, mas Jace raciocinou que, se Vermax, Syrax e Caraxes se lançassem
sobre Porto Real simultaneamente, nem mesmo aquela “velha piranha grisalha” seria capaz de
resistir a eles. Mas a fama de Vhagar era tão grande que o príncipe hesitou, pensando em como
poderia acrescentar mais dragões ao seu ataque.
A Casa Targaryen governara Pedra do Dragão por mais de duzentos anos, desde que Lorde Aenar
Targaryen chegara de Valíria com seus dragões. Embora sempre tivesse sido costume casar irmão
com irmã e primo com prima, o sangue jovem é quente e não era segredo que homens da Casa
buscassem prazeres entre as filhas (e mesmo as esposas) de seus súditos, as pessoas comuns que
moravam nas aldeias abaixo do Monte Dragão, que cultivavam a terra e pescavam no mar. De fato,
até o reinado do Rei Jaehaerys e da Boa Rainha Alysanne, a antiga lei da primeira noite estava em
vigor em Pedra do Dragão, como acontecia por todo Westeros, segundo a qual era direito de um
senhor levar para cama qualquer donzela de seus domínios na noite do casamento dela.
Embora esse costume causasse grande ressentimento em outras regiões dos Sete Reinos, de
homens com temperamento ciumento que não compreendiam a honra que era conferida a eles, tais
sentimentos eram abafados em Pedra do Dragão, onde os Targaryen eram vistos como mais
próximos dos deuses que os homens comuns. Ali, noivas que recebiam essa bênção na noite do seu
casamento eram invejadas, e os filhos nascidos dessas uniões eram estimados acima dos outros, pois
os senhores de Pedra do Dragão costumavam celebrar o nascimento deles com presentes suntuosos
de ouro, seda e terras para as mães. Dizia-se que esses felizes bastardos “nasciam da semente do
dragão”, e com o tempo passaram a ser conhecidos como “sementes”. Mesmo com o fim do direito à
primeira noite, certos Targaryen continuaram a lidar com as filhas de estalajadeiros e esposas de
pescadores, de modo que havia muitas sementes e filhos de sementes em Pedra do Dragão.
O Príncipe Jacaerys precisava de mais cavaleiros de dragões e mais dragões, e foi às sementes
que ele apelou, prometendo que qualquer homem que conseguisse dominar a criatura receberia
terras e riquezas, além do título de cavaleiro. Seus filhos seriam nobres, suas filhas se casariam com
senhores, e ele mesmo teria a honra de lutar ao lado do Príncipe de Pedra do Dragão contra o
usurpador Aegon II Targaryen e seus aliados traidores.
Nem todos os que atenderam ao chamado do príncipe eram sementes, ou sequer filhos ou netos
de sementes. Diversos cavaleiros da própria corte da rainha se ofereceram como cavaleiros de
dragões, entre eles o Senhor Comandante da Guarda Real, Sor Steffon Darklyn, com escudeiros,
empregados, marinheiros, homens de armas, atores e duas empregadas.
Dragões não são cavalos. Eles não aceitam facilmente homens em suas costas e, quando
enraivecidos ou ameaçados, atacam. Dezesseis homens perderam a vida tentando se tornar
cavaleiros de dragões. O triplo desse número ficou queimado ou aleijado. Steffon Darklyn morreu
queimado ao tentar montar o dragão Seasmoke. Lorde Gormon Massey teve o mesmo destino ao se
aproximar de Vermithor. Um homem chamado Denys, o Prateado, cujos cabelos e olhos davam
credibilidade à sua alegação de ser filho bastardo do Rei Maegor, o Cruel, teve um braço arrancado
por Sheepstealer. Enquanto seus filhos tentavam cuidar do ferimento, Cannibal se lançou sobre eles,
espantou Sheepstealer e devorou pai e filhos.
Mas Seasmoke, Vermithor e Silverwing estavam acostumados a homens e toleravam sua
presença. Já tendo sido montados, aceitavam melhor novos cavaleiros. Vermithor, o dragão do
próprio Velho Rei, curvou o pescoço ao filho bastardo de um ferreiro, um homem enorme chamado
Hugh, o Martelo, ou Hugh Durão, enquanto um homem de armas de cabelo claro chamado Ulf, o
Branco (por causa de seus cabelos) ou Ulf, o Bêbado (pelo quanto bebia), montou Silverwing, o
amado dragão da Boa Rainha Alysanne.
E Seasmoke, que um dia levara Laenor Velaryon, aceitou em suas costas um rapaz de 15 anos
conhecido como Addam do Casco, cujas origens continuam sendo motivo de polêmica entre os
historiadores até hoje. Pouco depois de Addam do Casco ter provado seu valor voando em
Seasmoke, Lorde Corlys chegou ao ponto de pedir à Rainha Rhaenyra para retirar a mácula de
bastardia dele e do irmão. Quando o Príncipe Jacaerys somou sua voz ao pedido, a rainha concordou.
Addam do Casco, semente de dragão e bastardo, se tornou Addam Velaryon, herdeiro de
Derivamarca.
Os três dragões selvagens de Pedra do Dragão eram montados menos facilmente que aqueles que
já conheciam cavaleiros, mas mesmo assim foram feitas tentativas. Sheepstealer, um dragão
marcadamente feio cor de “marrom-lama” que nascera quando o Velho Rei ainda era jovem, gostava
de ovelhas, se lançando sobre rebanhos desde Derivamarca até o Guaquevai. Ele quase nunca feria
os pastores, a não ser que tentassem interferir, mas sabia-se que ele devorava cães de pastoreio.
Grey Ghost vivia numa torre de exaustão de fumaça no lado leste do Monte Dragão, preferia peixe e
na maioria das vezes era vislumbrado voando baixo sobre o Mar Estreito, arrancando presas da
água. Um animal cinza esbranquiçado da cor da névoa matinal, ele era um dragão tímido, que
evitava homens e suas ações por períodos de anos.
O maior e mais velho dos dragões selvagens era o Cannibal, assim chamado por se alimentar das
carcaças de dragões mortos e se lançar sobre os viveiros de Pedra do Dragão para se deliciar com
filhotes recém-nascidos e ovos. Candidatos a domadores de dragões tentaram montá-lo uma dúzia
de vezes; seu esconderijo era coberto pelos ossos deles.
Nenhuma das sementes de dragão foi tola o bastante para perturbá-lo (qualquer uma que tenha
sido não voltou para contar a história). Alguns buscaram o Grey Ghost, mas não conseguiram
encontrá-lo, pois era uma criatura isolada. Sheepstealer se provou mais fácil de encontrar, mas
continuou a ser uma fera maldosa e ranzinza, que matou mais sementes que os três “dragões do
castelo” juntos. Um dos que tentou domá-lo (depois de sua busca por Grey Ghost se revelar
infrutífera) foi Alyn do Casco. Sheepstealer não quis saber dele. Quando saiu cambaleando do
esconderijo do dragão com a capa em chamas, apenas a ação rápida do irmão salvou sua vida.
Seasmoke manteve o dragão selvagem à distância enquanto Addam usava a própria capa para
apagar as chamas. Alyn Velaryon ficou com as cicatrizes do encontro nas costas e pernas pelo resto
da sua longa vida. Mas se considerava com sorte, pois tinha sobrevivido. Muitas sementes e outros
ousados que aspiraram a montar nas costas de Sheepstealer acabaram na barriga dele.
No final, o dragão castanho foi submetido pela malícia e a persistência de uma “garotinha
marrom” de 16 anos chamada Netty, que toda manhã levou a ele uma ovelha recém-abatida, até
Sheepstealer aprender a aceitá-la e esperar por ela. Tinha cabelo preto, olhos castanhos, pele
morena, era magra, dizia obscenidades, era imunda e destemida... A primeira e a última a montar o
dragão Sheepstealer.
Assim, o Príncipe Jacaerys atingiu seu objetivo. A despeito de todas as mortes e toda dor que isso
causou, das viúvas deixadas para trás, dos homens queimados que carregariam suas cicatrizes até o
dia em que morressem, quatro novos cavaleiros de dragões foram encontrados. Com 129 D.C.
chegando ao fim, o príncipe se preparou para voar contra Porto Real. A data que escolheu para o
ataque foi a primeira lua cheia do novo ano.
Mas os planos dos homens não passam de brincadeira para os deuses. Pois enquanto Jace traçava
sua trama, uma nova ameaça chegava do leste. As ideias de Otto Hightower tinham dado frutos;
reunido em Tyrosh, o Alto Conselho de Triarcas aceitara sua oferta de uma aliança. Noventa navios
de guerra zarparam dos Degraus sob os estandartes das Três Filhas, remando para a Goela... E,
como determinado pelo acaso e os deuses, a coca pentoshi Feliz Abandono, carregando dois
príncipes Targaryen, navegou direto para seus alvos. A escolta enviada para proteger a coca foi
afundada ou tomada, e o Abandono Feliz, capturado.
A história só alcançou Pedra do Dragão quando o Príncipe Aegon chegou, agarrado
desesperadamente ao pescoço de seu dragão, Stormcloud. O garoto estava pálido de terror,
tremendo como uma folha e fedendo a mijo. Tendo apenas 9 anos, ele nunca havia voado... E nunca
voaria de novo, pois Stormcloud fora terrivelmente ferido ao fugir, tendo chegado com restos de
inúmeras flechas cravadas na barriga e uma seta de catapulta atravessada na garganta. Morreu em
uma hora, sibilando enquanto o sangue quente esguichava escuro e enfumaçado de seus ferimentos.
O irmão menor de Aegon, o Príncipe Viserys, não conseguira escapar da coca. Inteligente, o garoto
escondera seu ovo de dragão e vestira roupas esfarrapadas e sujas de sal, fingindo ser um mero
grumete, mas um dos verdadeiros grumetes do navio o traiu, e ele foi feito prisioneiro. Foi um
capitão tyroshi quem primeiro se deu conta de quem era, mas o almirante da frota, Sharako Lohar
de Lys, logo o aliviou de seu prêmio.
Quando o Príncipe Jacaerys se lançou sobre uma fila de galeras de Lysene em Vermax, uma chuva
de lanças e flechas subiu para recebê-lo. Os marinheiros dos Triarcas já tinham encarado dragões
antes ao lutar contra o Príncipe Daemon nos Degraus. Nenhum homem podia duvidar de sua
coragem; estavam preparados para enfrentar chama de dragão com as armas que tinham. “Matem o
cavaleiro e o dragão partirá”, seus capitães e comandantes disseram. Um navio pegou fogo, depois
outro. Mas os homens das Cidades Livres continuaram a lutar... Até um grito ecoar e eles erguerem
os olhos para ver mais formas aladas contornando o Monte Dragão e indo na sua direção.
Uma coisa é encarar um dragão, outra é encarar cinco. Quando Silverwing, Sheepstealer,
Seasmoke e Vermithor se lançaram sobre eles, os homens dos Triarcas perderam a coragem. A linha
de belonaves se desfez, e uma galera após a outra se virou. Os dragões desceram como raios,
cuspindo bolas de fogo, azuis e laranja, vermelhas e douradas, cada uma mais brilhante que a outra.
Navio após navio explodiu em pedaços ou foi consumido pelas chamas. Homens saltaram na água
aos gritos, envoltos pelo fogo. Altas colunas de fumaça preta se erguiam da água. Tudo parecia
perdido... Tudo estava perdido...
... Até Vermax voar baixo demais e mergulhar no mar.
Diversas histórias diferentes foram contadas depois sobre como e por que o dragão caiu. Alguns
alegaram que um homem com uma besta perfurou seu olho com uma seta de ferro, mas essa versão
parece suspeitamente semelhante ao modo como Meraxes encontrou seu fim muito tempo antes em
Dorne. Outro relato nos informa que um marinheiro no cesto da gávea de uma galera de Myr lançou
um gancho quando Vermax sobrevoava a frota. Uma das garras se prendeu entre duas escamas e foi
cravada profundamente devido à velocidade considerável do grande dragão. O marinheiro tinha
enrolado o final da corrente no mastro, e o peso do navio e o poder das asas de Vermax abriram um
comprido talho na barriga do dragão. O guincho de raiva do dragão foi ouvido até a Vila das
Especiarias, mesmo em meio ao clamor da batalha. Seu voo chegou a um fim violento, e Vermax
desceu entre fumaça e gritos, agarrando a água. Sobreviventes disseram que ele se esforçou para
subir, apenas para bater de cabeça numa galera em chamas. Madeira se partiu, o mastro despencou
e o dragão, agitado, ficou preso no cordame. Quando o navio tombou e afundou, Vermax afundou
com ele.
Dizem que Jacaerys Velaryon saltou e se agarrou a um destroço fumegante por alguns instantes
até besteiros no navio myrano mais próximo começarem a disparar contra ele. O príncipe foi
atingido mais de uma vez. Cada vez mais homens de Myr usaram suas bestas. Finalmente, uma seta
o acertou no pescoço, e Jace foi engolido pelo mar.
A Batalha da Goela entrou pela noite ao norte e ao sul de Pedra do Dragão e ainda é uma das
mais sangrentas batalhas marinhas da história. O almirante Sharako Lohar, dos Triarcas, levara uma
frota de noventa navios de guerra de Myr, Lys e Tyr desde os Degraus; apenas 28 sobreviveram para
se arrastar de volta para casa.
Embora os atacantes tivessem deixado de lado Pedra do Dragão, sem dúvida acreditando que a
antiga fortaleza Targaryen era forte demais para ser atacada, causaram danos terríveis em
Derivamarca. Vila das Especiarias foi brutalmente saqueada, homens, mulheres e crianças,
chacinados nas ruas, e seus corpos, deixados como alimento para gaivotas, ratos e corvos, seus
prédios, incendiados. A cidade nunca seria reconstruída. Maré Alta também foi incendiada. Todos os
tesouros que a Serpente do Mar trouxera do oriente foram consumidos pelo fogo, e seus servos,
abatidos enquanto tentavam fugir das chamas. A frota Velaryon perdeu quase um terço de seu
poderio. Milhares morreram. Mas nenhuma dessas perdas foi sentida mais profundamente do que a
de Jacaerys Velaryon, Príncipe de Pedra do Dragão e herdeiro do Trono de Ferro.
Uma quinzena depois, na Campina, Ormund Hightower se viu apanhado entre dois exércitos.
Thaddeus Rowan, Senhor de Bosquedouro, e Tom Flowers, bastardo de Ponteamarga, estavam se
lançando sobre ele a partir do nordeste com uma grande legião de cavaleiros, enquanto Sor Alan
Beesbury, Lorde Alan Tarly e Lorde Owen Costayne haviam unido forças para impedir sua retirada
para Vilavelha. Quando suas legiões o cercaram às margens do rio Vinhomel, atacando dianteira e
retaguarda ao mesmo tempo, Lorde Hightower viu suas linhas desmoronando. A derrota parecia
iminente... Até uma sombra se lançar sobre o campo de batalha e um rugido terrível ecoar acima,
penetrando o som de aço contra aço. Um dragão chegava.
Era Tessarion, a Rainha Azul, em cobalto e cobre. Em suas costas, estava o mais jovem dos três
filhos da Rainha Alicent, Daeron Targaryen, 15 anos, escudeiro de Lorde Ormund.
A chegada do Príncipe Daeron e seu dragão inverteu a maré da batalha. Eram então os homens
de Lorde Ormund atacando, berrando xingamentos contra seus inimigos, enquanto os homens da
rainha fugiam. Ao final do dia, Lorde Rowan se retirou para o norte com o resto de sua legião, Tom
Flowers estava morto e queimado entre os juncos, os dois Alan eram cativos e Lorde Costayne
morreriam lentamente de um ferimento causado pela lâmina escura de Jon Roxton, a Fazedora de
Órfãos. Enquanto lobos e corvos se alimentavam dos corpos dos mortos, Lorde Hightower festejou o
Príncipe Daeron com au-roque e vinho-forte e o nomeou cavaleiro com a famosa espada longa
valiriana Vigilância, chamando-o de “Sor Daeron, o Ousado”. O príncipe retrucou com modéstia.
– Meu senhor é gentil de dizê-lo, mas a vitória pertence a Tessarion.
Em Pedra do Dragão, um ar de desalento e derrota pairou sobre a corte “negra” quando a
tragédia de Vinhomel ficou conhecida. Lorde Bar Emmon chegou ao ponto de sugerir que talvez
tivesse chegado o momento de se ajoelhar perante Aegon II. Mas a rainha não aceitaria isso. Apenas
os deuses conhecem de verdade o coração dos homens, e as mulheres são prenhes de estranheza.
Abalada pela morte de um filho, Rhaenyra Targaryen pareceu encontrar novas forças depois da
perda do segundo. O assassinato de Jace a endureceu, eliminando seus temores, deixando apenas
sua raiva e seu ódio. Ainda possuindo mais dragões que seu meio-irmão, Sua Graça resolveu usá-los,
não importando qual fosse o preço. Disse ao Conselho Negro que lançaria fogo e morte sobre Aegon
e todos aqueles que o apoiavam. Ou o arrancaria do trono, ou morreria tentando.
Do outro lado da baía, disposição semelhante deitara raízes no peito de Aemond Targaryen, que
governava em nome do irmão enquanto Aegon permanecia de cama. Desprezando a meio-irmã
Rhaenyra, Aemond Um-Olho considerava maior a ameaça representada pelo tio, Príncipe Daemon, e
a grande legião que ele reunira em Harrenhal. Convocando seus súditos e o conselho, o príncipe
anunciou sua intenção de mover guerra contra o tio e punir os senhores traidores do rio.
Nem todos os membros do Conselho Verde defendiam a ação ousada do príncipe. Aemond teve o
apoio de Sor Criston Cole, a Mão, e de Sor Tyland Lannister, mas o Grande Meistre Orwyle o
conclamou a mandar notícias a Ponta Tempestade e somar o poder da Casa Baratheon antes de
prosseguir, e Barra de Ferro, Lorde Jasper Wylde, declarou que deveria convocar Lorde Hightower e
o Príncipe Daeron do sul, alegando que “dois dragões são melhores que um”. A Rainha Viúva
também recomendou cautela, conclamando o filho a esperar até seu irmão, o rei, e seu dragão
Sunfyre, o Dourado, estarem curados, para que pudessem se juntar ao ataque.
Contudo, o Príncipe Aemond não estava disposto a tais demoras. Ele declarou que não tinha
necessidade de seus irmãos ou seus dragões. Aegon estava ferido demais, Daeron era jovem demais.
Sim, Caraxes era um animal assustador, selvagem, malicioso e experiente em batalha... Mas Vhagar
era mais velha, mais feroz, e tinha o dobro do tamanho. O Septão Eustace nos conta que o Assassino
de Familiares queria aquela vitória; ele não desejava partilhar a glória com seus irmãos nem mais
ninguém.
Nem era possível contradizê-lo, pois, até que Aegon II se erguesse de seu leito para pegar sua
espada de novo, a regência e o governo estavam com Aemond. Seguindo sua determinação, ele
partiu do Portão dos Deuses duas semanas depois à frente de uma legião de quatro mil combatentes.
Daemon Targaryen era um combatente velho e experiente demais para se permitir ser confinado
dentro das muralhas, mesmo muralhas tão imponentes quanto as de Harrenhal. O príncipe ainda
tinha amigos em Porto Real, e os planos do sobrinho chegaram ao seu conhecimento antes mesmo
que Aemond partisse. Dizem que, ao saber que Aemond e Sor Criston Cole tinham deixado Porto
Real, o Príncipe Daemon teria rido e dito “Já era hora”, pois havia muito previra esse momento. Uma
revoada de corvos decolou das torres retorcidas de Harrenhal.
Em outro ponto do reino, Lorde Walys Mooton liderava cem cavaleiros de Lagoa da Donzela para
se reunir aos semisselvagens Crabbs e Brunes de Ponta da Garra Rachada e os Celtigar de Ilha da
Garra. Eles se apressaram por entre florestas de pinheiros e colinas envoltas em névoa até Pouso de
Gralhas, onde sua chegada repentina pegou de surpresa a guarnição. Após retomar o castelo, Lorde
Mooton liderou seus homens mais corajosos até o campo de cinzas a oeste do castelo, para abater o
dragão Sunfyre.
Os candidatos a matadores de dragões superaram com facilidade o cordão de guardas que fora
deixado ali para alimentar, servir e proteger o dragão, mas o próprio Sunfyre provou ser mais
formidável que o esperado. Dragões são criaturas desajeitadas em terra, e sua asa arrancada
deixava o grande animal dourado incapaz de decolar. Os atacantes esperavam encontrar a fera
quase à morte. Em vez disso, a encontraram dormindo, mas o choque de espadas e o galope dos
cavalos logo a despertaram, e a primeira lança a acertá-la deixou-a furiosa. Coberto de lama e
escorregadio, se retorcendo em meio aos ossos de inúmeras ovelhas, Sunfyre se contorceu e
encolheu como uma serpente, golpeando com o rabo, lançando jorros de chamas douradas sobre
seus agressores enquanto lutava para voar. Ele se ergueu três vezes, e três vezes tombou de volta
na terra. Os homens de Mooton o cercaram com espadas, lanças e machados, produzindo muitos
ferimentos terríveis... Mas cada golpe parecia apenas enfurecê-lo ainda mais. O número de mortes
chegou a três vintenas antes que os sobreviventes fugissem.
Entre os mortos estava Walys Moonton, Senhor de Lagoa da Donzela. Quando seu corpo foi
encontrado quinze dias depois por seu irmão Manfyrd, não restava nada além de carne queimada
numa armadura derretida, coberta de vermes. Mas em nenhum lugar no campo de cinzas, coberto
com os corpos de homens corajosos e as carcaças queimadas e inchadas de centenas de cavalos,
Lorde Manfyrd encontrou o dragão do Rei Aegon. Sunfyre sumira. Nem havia trilhas, como haveria
caso o dragão tivesse se arrastado. Sunfyre, o Dourado, aparentemente alçara voo... Mas nenhum
homem vivo sabia dizer para onde.
Enquanto isso, o Príncipe Daemon Targaryen se apressava rumo ao sul nas asas de seu dragão
Caraxes. Voando acima do litoral ocidental de Olho de Deus, bem distante da linha de avanço de Sor
Criston, ele evitou a legião inimiga, cruzou a Água Negra e virou rumo ao leste, seguindo rio abaixo
até Porto Real. E, em Pedra do Dragão, Rhaenyra Targaryen vestiu um traje de escamas pretas
reluzentes, montou em Syrax e levantou voo enquanto uma tempestade açoitava as águas da Baía da
Água Negra. Bem acima da cidade, a rainha e seu príncipe consorte se juntaram, circulando acima
da Colina de Aegon.
A visão deles provocou terror nas ruas da cidade abaixo, pois as pessoas comuns não demoraram
a se dar conta de que o ataque que temiam chegara. O Príncipe Aemond e Sor Criston privaram
Porto Real de defensores ao avançar para retomar Harrenhal... E o Assassino de Familiares levara
Vhagar, aquela fera temível, deixando apenas Dreamfyre e um punhado de filhotes pequenos para
enfrentar os dragões da Rainha. Os jovens dragões nunca haviam sido montados, e a cavaleira de
Dreamfyre, a Rainha Helaena, era uma mulher arrasada; era como se a cidade estivesse sem
dragões.
Milhares de pessoas comuns escorreram pelos portões da cidade, carregando filhos e bens nas
costas, buscando segurança no interior. Outros cavaram poços e túneis sob suas choupanas, buracos
escuros e úmidos onde esperavam se esconder enquanto a cidade queimava. Eclodiram tumultos na
Baixada das Pulgas. Quando as velas dos navios da Serpente do Mar foram vistas a leste na Baía da
Água Negra, seguindo para o rio, os sinos de todos os septos da cidade começaram a badalar e
bandos tomaram as ruas, saqueando tudo pela frente. Dezenas morreram até que os mantos
dourados conseguissem restaurar a ordem.
Com o Senhor Protetor e a Mão do Rei ausentes e o próprio Rei Aegon, queimado, preso ao leito
e perdido em seus sonhos de papoula, coube à Rainha Viúva cuidar da defesa da cidade. A Rainha
Alicent se mostrou à altura do desafio, fechando os portões do castelo e da cidade, enviando os
mantos dourados para as muralhas e mandando cavaleiros e cavalos ligeiros para encontrar o
Príncipe Aemond e trazê-lo de volta.
Também ordenou ao Grande Meistre Orwyle que enviasse corvos a “todos os nossos senhores
leais”, convocando-os para defender seu verdadeiro rei. Mas, quando Orwyle retornou aos seus
aposentos, encontrou quatro mantos dourados esperando por ele. Um homem abafou seus gritos
enquanto os outros o espancavam e amarravam. Com um saco colocado sobre a cabeça, o Grande
Meistre foi escoltado até as celas escuras abaixo.
Os cavaleiros da Rainha Alicent não foram além dos portões, onde outros mantos dourados os
colocaram sob custódia. Sem que Sua Graça soubesse, os sete capitães que comandavam os portões,
escolhidos por sua lealdade ao Rei Aegon, foram presos ou assassinados no momento em que
Caraxes aparecera no céu acima da Fortaleza Vermelha... Pois os soldados da Patrulha da Cidade
ainda amavam Daemon Targaryen, que os comandara havia muito.
O irmão da rainha, Sor Gwayne Hightower, segundo em comando dos mantos dourados, correu
até o estábulo para soar o alarme. No entanto, ele foi detido, desarmado e arrastado até seu
comandante, Luthor Largent. Quando Hightower o denunciou como vira-casacas, Sor Luthor riu:
– Daemon nos deu esses mantos, e eles são dourados não importa como os vire – disse. Depois
enfiou sua espada na barriga de Sor Gwayne e ordenou que os portões da cidade fossem abertos
para os homens que desembarcavam dos navios da Serpente do Mar.
Apesar da louvada força de suas muralhas, Porto Real caiu em menos de um dia. Uma breve luta
sangrenta foi travada no Portão do Rio, onde treze cavaleiros de Hightower e cem homens de armas
repeliram os mantos dourados e resistiram por quase oito horas aos ataques de dentro e de fora da
cidade. Porém, seu heroísmo foi em vão, pois os soldados de Rhaenyra entraram pelos outros seis
portões sem enfrentar resistência. A visão dos dragões da rainha no céu desanimou a oposição, e os
aliados remanescentes do Rei Aegon se esconderam, fugiram ou se ajoelharam.
Os dragões desceram um a um. Sheepstealer pousou no alto da Colina de Visenya, Silverwing e
Vermithor na Colina de Rhaenys, fora do Fosso dos Dragões. O Príncipe Daemon circulou as torres
da Fortaleza Vermelha antes de pousar Caraxes no pátio externo. Apenas quando teve certeza de
que os defensores não ofereceriam perigo, ele sinalizou para que a rainha descesse em Syrax.
Addam Velaryon permaneceu no alto, contornando as muralhas da cidade em Seasmoke, o bater das
grandes asas coriáceas de seu dragão servindo de alerta para aqueles abaixo de que qualquer
desafio seria respondido com fogo.
Ao ver que resistir era inútil, a Rainha Viúva Alicent saiu da Fortaleza de Maegor com seu pai,
Otto Hightower, Sor Tyland Lannister e Lorde Jasper Wylde, o Barra de Ferro (Lorde Larys Strong
não estava com eles – o mestre dos sussurros de algum modo conseguira desaparecer). A rainha
tentou negociar com a enteada.
– Vamos convocar juntas um grande conselho, como o Velho Rei fez nos velhos tempos, e
apresentar a questão da sucessão aos senhores do reino – sugeriu a Rainha Viúva.
Mas a Rainha Rhaenyra rejeitou a proposta com desprezo.
– Ambas sabemos o que esse conselho iria decidir.
E então deu uma escolha à madrasta: renda-se ou queime.
Baixando a cabeça, derrotada, a Rainha Alicent entregou as chaves do castelo e ordenou que
seus cavaleiros e homens de armas baixassem as espadas.
– A cidade é sua, princesa, mas você não a terá por muito tempo – teria dito ela. – Os ratos
brincam quando o gato parte, mas meu filho Aemond voltará com fogo e sangue.
Mas o triunfo de Rhaenyra não foi de modo algum completo. Seus homens encontraram a esposa
do rival, a rainha louca Helaena, trancada em seus aposentos... Mas, quando derrubaram as portas
dos aposentos do Rei, encontraram apenas “sua cama, vazia, e seu urinol, cheio”. O Rei Aegon II
fugira. Da mesma forma, seus filhos, a Princesa Jaehaera, de 6 anos, e o Príncipe Maelor, de 2, com
os cavaleiros Willis Fell e Rickard Thorne, da Guarda Real. Nem mesmo a Rainha Viúva parecia
saber para onde tinham ido, e Luthor Largent jurou que ninguém passara pelos portões da cidade.
Mas não havia como levar embora o Trono de Ferro. Nem a Rainha Rhaenyra dormiria até tomar
posse do trono do pai. Então, os archotes foram acesos na sala do trono, e a rainha subiu os degraus
de ferro e se sentou onde o Rei Viserys se sentara antes dele, e o Velho Rei antes dele, e Maegor, e
Aenys, e Aegon, o Dragão, nos velhos tempos. De rosto duro, ainda em sua armadura, ela se sentou
no alto enquanto todos os homens e mulheres da Fortaleza Vermelha eram levados e forçados a se
ajoelhar diante dela, para suplicar seu perdão e prometer suas vidas, espadas e honra a ela como
sua rainha.
A cerimônia durou toda a noite. Já amanhecera havia muito quando Rhaenyra Targaryen se
levantou e começou a descer. “E enquanto o senhor seu marido Príncipe Daemon a escoltava para
fora do salão, cortes foram vistos nas pernas de Sua Graça e na palma de sua mão esquerda. Gotas
de sangue caíram no chão quando ela passou, e homens sábios trocaram olhares, embora nenhum
ousasse dizer a verdade em voz alta: o Trono de Ferro a rejeitara, e seus dias nele seriam breves.”
Tudo isso aconteceu enquanto o Príncipe Aemond e Sor Criston Cole avançavam sobre as terras
fluviais. Após dezenove dias de marcha, eles chegaram a Harrenhal... E encontraram os portões do
castelo abertos, depois da partida de Príncipe Daemon e todo o seu povo.
O Príncipe Aemond mantivera Vhagar com a coluna principal durante toda a marcha, pensando
que seu tio poderia tentar atacá-los montado em Caraxes. Chegou a Harrenhal um dia depois de
Cole e, naquela noite, celebrou uma grande vitória. Daemon e seu “lixo do rio” fugiram em vez de
enfrentar sua ira, proclamou Aemond. Não espanta que quando a notícia da queda de Porto Real
chegou a ele o príncipe tenha se sentido triplamente tolo. Sua fúria foi algo assustador de ver.
A oeste de Harrenhal, a luta continuava nas terras fluviais enquanto a legião de Lannister se
arrastava à frente. A idade e a doença de seu comandante, Lorde Leffod, reduziram muito o ritmo de
seu avanço, mas, à medida que se aproximaram do litoral oeste de Olho de Deus, eles encontraram
um enorme exército novo bloqueando seu caminho.
Roddy, a Ruína e seus Lobos do Inverno tinham se unido a Forrest Frey, Senhor da Travessia, e
Robb Rivers, o Ruivo e também conhecido como Arqueiro de Corvarbor. Os homens do Norte eram
dois mil, Frey comandava duzentos cavaleiros e o triplo de soldados a pé, Rivers levara trezentos
arqueiros para a batalha. E mal Lorde Leffort tinha parado para enfrentar o inimigo à sua frente,
mais inimigos surgiram ao sul, onde Longleaf, o Matador de Leões, e um bando esfarrapado de
sobreviventes das batalhas anteriores recebera os lordes Bigglestone, Chambers e Perryn.
Apanhado entre os dois inimigos, Lefford hesitou enfrentar qualquer um deles, por temer que o
outro se lançasse sobre sua retaguarda. Em vez disso, se colocou de costas para o lago, se instalou e
enviou corvos para o Príncipe Aemond em Harrenhal, suplicando ajuda. Embora doze pássaros
tivessem alçado voo, nenhum chegou ao Príncipe; Robb Rivers, o Ruivo, considerado o melhor
arqueiro de todo Westeros, abateu-os em voo.
Mais homens do rio chegaram no dia seguinte, liderados por Sor Garibald Grey, Lorde Jon
Charlton e o novo Senhor de Corvarbor, Benjicot Blackwood, de 11 anos. Com seu número
aumentado com os novos guerreiros, os homens da rainha concordaram em que chegara a hora de
atacar.
– Melhor acabar com esses leões antes que os dragões cheguem – sugeriu Roddy, a Ruína.
A mais sangrenta batalha terrestre da Dança dos Dragões começou no dia seguinte, ao nascer do
sol. Nos anais da Cidadela, ela é conhecida como a Batalha Junto ao Lago, mas, para os homens que
sobreviveram para contar a história, ela sempre foi a Comida de Peixes.
Atacados por três lados, os homens do oeste foram empurrados pé após pé para dentro das águas
de Olho de Deus. Centenas morreram lá, cortados enquanto lutavam em meio aos juncos; centenas
mais se afogaram tentando fugir. Ao cair da noite, dois mil homens estavam mortos, entre eles
muitos notáveis, incluindo Lorde Frey, Lorde Lefford, Lorde Bigglestone, Lorde Charlton, Lorde
Swyft, Lorde Reyne, Sor Clarent Crackehall e Sor Tyler Hill, o Bastardo de Lannisporto. A legião de
Lannister foi estraçalhada e massacrada, mas a tal custo que o jovem Ben Blackwood, o menino
senhor de Corvarbor, chorou ao ver as pilhas de mortos. As perdas mais terríveis foram sofridas
pelos homens do Norte, já que os Lobos do Inverno pediram a honra de liderar o ataque e investiram
cinco vezes contra as fileiras de lanças dos Lannister. Mais de dois terços dos homens que
cavalgaram rumo ao sul com Lorde Dustin estavam mortos ou feridos.
Em Harrenhal, Aemond Targaryen e Criston Cole debatiam a melhor forma de responder aos
ataques da rainha. Embora a sede de Harren Negro fosse forte demais para ser tomado em um
ataque, e os senhores do rio não ousassem montar um cerco por medo de Vhagar, os homens do rei
estavam ficando sem comida e suprimentos e perdendo homens e cavalos para a fome e a doença.
Restavam apenas campos escuros e aldeias queimadas ao redor das enormes muralhas do castelo, e
os grupos de coletores que se aventuraram mais além não retornaram. Sor Criston insistiu numa
retirada rumo ao sul, onde o apoio a Aegon era mais forte, mas o príncipe se recusou.
– Apenas um covarde foge de traidores.
A perda de Porto Real e do Trono de Ferro o enfureceu e, quando a notícia da batalha Comida de
Peixe chegou a Harrenhal, o Senhor Protetor quase estrangulou o escudeiro que dera a notícia.
Apenas a interferência de sua parceira Alys Rivers salvara a vida do rapaz. O Príncipe Aemond
defendeu um ataque imediato a Porto Real. Ele insistiu que nenhum dos dragões da rainha era páreo
para Vhagar.
Sor Criston classificou isso como loucura.
– Um contra seis é uma luta para tolos, meu príncipe – declarou.
Vamos marchar para o sul, pediu ele mais uma vez, e unir as forças com Lorde Hightower. O
Príncipe Aemond poderia se juntar ao irmão Daeron e seu dragão. O Rei Aegon escapara de
Rhaenyra, isso eles sabiam, então ele poderia pegar Sunfyre e se unir aos irmãos. E talvez seus
amigos dentro da cidade pudessem descobrir como libertar também a Rainha Helaena, para que
esta pudesse levar Dreamfyre para a batalha. Quatro dragões talvez pudessem derrotar seis se um
deles fosse Vhagar.
O Príncipe Aemond se recusou a considerar esse “plano covarde”.
Sor Criston e o Príncipe Aemond decidiram se separar. Cole assumiria o comando da legião e a
lideraria rumo ao sul para se juntar a Ormund Hightower e ao Príncipe Daeron, mas o príncipe
regente não os acompanharia. Em vez disso, ele pretendia travar sua própria guerra, lançando fogo
desde o ar sobre os traidores. Mais cedo ou mais tarde, “a rainha piranha” mandaria um ou dois
dragões para detê-lo, e Vhagar os destruiria.
– Ela não ousaria mandar todos os seus dragões – insistiu Aemond. – Isso deixaria Porto Real
desprovida e vulnerável. Ela também não arriscaria Syrax, ou seu último filhinho. Rhaenyra pode se
dizer rainha, mas tem as partes de uma mulher, o coração fraco de uma mulher e os medos de uma
mãe.
E assim o Fazedor de Reis e o Assassino de Familiares se separaram, cada um seguindo o próprio
destino, enquanto, na Fortaleza Vermelha, a Rainha Rhaenyra Targaryen começava a recompensar
seus amigos e a infligir punições cruéis aos que haviam servido ao seu meio-irmão.
Enormes recompensas foram oferecidas por informações que levassem à captura do “usurpador
que se apresenta como Aegon II”, sua filha Jaehaera, seu filho Maelor, os “falsos cavaleiros” Willis
Fell e Rickard Thorne, e Larys Strong, o Pé-Torto. Quando isso não produziu os resultados
desejados, Sua Graça enviou grupos de caça de “cavaleiros inquisidores” para procurar os
“traidores e vilões” que escaparam dela e punir qualquer homem que os tivesse ajudado.
A Rainha Alicent foi presa pelo pulso e pelo tornozelo com correntes de ouro, embora sua
enteada tivesse poupado sua vida “por causa de nosso pai, que um dia a amou”. O pai dela teve
menos sorte. Sor Otto Hightower, que fora Mão de três reis, foi o primeiro traidor a ser decapitado.
Barra de Ferro o seguiu no cepo, ainda insistindo que pela lei o filho de um rei tem precedência
sobre sua filha. Sor Tyland Lannister foi entregue aos torturadores, na esperança de conseguirem
recuperar parte do tesouro da coroa.
Nem Aegon nem seu irmão Aemond foram muito amados pelo povo da cidade, e muitos súditos se
regozijaram com o retorno da rainha... Mas amor e ódio são duas faces da mesma moeda, e à
medida que novas cabeças começaram a aparecer diariamente nas varas acima dos portões da
cidade, acompanhadas de impostos cada vez maiores, o jogo mudou. A garota que eles um dia
tinham chamado de Encanto do Reino se transformara em uma mulher gananciosa e vingativa,
diziam os homens, uma rainha tão cruel quanto qualquer rei antes dela. Um debochado chamou
Rhaenyra de “Rei Maegor com tetas”, e pelos cem anos seguintes “Tetas de Maegor” foi um
xingamento comum entre os súditos.
De posse da cidade, do castelo e do trono, defendida por não menos que seis dragões, Rhaenyra
se sentiu segura o bastante para mandar buscar os filhos. Uma dúzia de navios zarpou de Pedra do
Dragão levando as damas de companhia da rainha e seu filho Aegon, o Jovem. Rhaenyra fez do rapaz
seu intendente, de modo que nunca pudesse sair de perto dela. Outra frota zarpou de Vila Gaivota
com o Príncipe Joffrey, o último dos três filhos da rainha com Laenor Velaryon e seu dragão Tyraxes.
Sua Graça começou a planejar uma grandiosa celebração para marcar a nomeação formal de Joffrey
como Príncipe de Pedra do Dragão e herdeiro do Trono de Ferro.
Na plenitude de sua vitória, Rhaenyra Targaryen não desconfiava de que lhe restavam poucos
dias. Mas sempre que ela se sentava no Trono de Ferro suas lâminas cruéis faziam correr sangue
fresco de mãos, braços e pernas, um sinal que todos podiam interpretar.
Além das muralhas da cidade, a luta continuava ao longo dos Sete Reinos. Nas terras fluviais, Sor
Criston Cole abandonou Harrenhal, seguindo rumo ao sul pela margem oeste de Olho de Deus, com
3.500 homens (morte, doença e deserções reduziram o número que avançara desde Porto Real). O
Príncipe Aemon já partira, montado em Vhagar. Não mais preso a castelo ou legião, o príncipe
caolho estava livre para voar para onde quisesse. Era guerra como Aegon, o Conquistador, e suas
irmãs haviam tramado um dia, com chama de dragão, e Vhagar descia do céu de outono para
arrasar repetidas vezes terras, aldeias e castelos dos senhores do rio. A Casa Darry foi a primeira a
conhecer a ira do príncipe. Os homens que levavam a colheita se queimaram ou fugiram quando as
plantações arderam em chamas, e o Castelo Darry foi consumido numa tempestade de fogo. A
Senhora Darry e seus filhos menores sobreviveram se abrigando em salões sob a fortaleza, mas o
senhor seu marido e seu herdeiro morreram no parapeito, com duas vintenas de fiéis espadas e
arqueiros. Três dias depois, Vila de Lorde Harroway foi deixada fumegante. Moinho do Senhor,
Fivelanegra, Fivela, Lagoa de Barro, Swynford, Spiderwood... A fúria de Vhagar se abateu sobre
cada cidade consecutivamente, até que metade das terras fluviais parecia em chamas.
Sor Criston Cole também enfrentou incêndios. À medida que levava seus homens rumo ao sul
pelas terras fluviais, fumaça se erguia à frente e atrás. Cada cidade que ele encontrava fora
queimada e abandonada. Sua coluna se movia por florestas de árvores mortas onde madeira viva
tinha existido poucos dias antes, à medida que os senhores do rio ateavam fogo ao longo de sua
linha de marcha. Em cada riacho, lago e poço de aldeia ele encontrava morte: cavalos mortos, vacas
mortas, homens mortos, inchados e fedorentos, contaminando as águas. Por toda parte, seus
batedores se deparavam com cenas horrendas em que cadáveres em armaduras se sentavam sob as
árvores com roupas apodrecidas, num deboche grotesco de um banquete. O banquete era composto
por homens que tombaram em batalha, crânios sorridentes sob elmos enferrujados, com a carne
verde e apodrecida descolando dos ossos.
Quatro dias após deixar Harrenhal, os ataques começaram. Arqueiros escondidos entre as
árvores acertaram batedores e retardatários com seus arcos longos. Homens morreram. Outros
ficaram para trás na retaguarda e nunca mais foram vistos. Alguns fugiram, abandonando escudos e
lanças para desaparecer na mata. Outros mais se entregaram ao inimigo. Na área comum da aldeia
de Olmos Cruzados, foi encontrado outro dos banquetes medonhos. Já acostumados com essas
visões, os batedores de Sor Criston fizeram caretas e seguiram, sem dar atenção aos mortos
pútridos... Até que os cadáveres saltaram e se jogaram sobre eles. Doze morreram antes que se
dessem conta de que tudo fora uma armadilha.
Tudo isso foi apenas um prelúdio, pois os senhores do Tridente estavam reunindo suas forças.
Quando Sor Criston deixou o lago para trás, seguindo por terra até a Água Negra, encontrou-os
esperando no alto de um cume de pedra; trezentos cavaleiros montados em armaduras, o mesmo
número de homens com arcos longos, três mil arqueiros, três mil homens dos rios desmazelados
com lanças, centenas de homens do Norte brandindo machados, marretas, maças de espigões e
antigas espadas de ferro. Acima de suas cabeças tremulavam os estandartes da Rainha Rhaenyra.
A batalha que se seguiu foi tão desigual quanto todas na Dança. Lorde Roderick Dustin levou uma
trombeta aos lábios e soou o toque de carga, e os homens da rainha desceram o cume aos gritos,
liderados pelos Lobos do Inverno em seus cavalos peludos do Norte e os cavaleiros em seus cavalos
de batalha com armadura. Quando Sor Criston foi atingido e caiu morto no chão, os homens que o
seguiram desde Harrenhal perderam a coragem. Romperam a formação e fugiram, jogando de lado
escudos enquanto corriam. Seus inimigos foram atrás, abatendo-os às centenas.
No Dia da Donzela do ano de 130 D.C., a cidadela de Vilavelha enviou trezentos corvos brancos
para marcar a chegada do inverno, mas era alto verão para a Rainha Rhaenyra Targaryen. A
despeito da antipatia dos súditos, a cidade e a coroa eram dela. Do outro lado do Mar Estreito, os
Triarcas haviam começado a se desmantelar. As ondas pertenciam à Casa Velaryon. Embora a neve
tivesse fechado as passagens pelas Montanhas da Lua, a Donzela do Vale cumprira sua palavra,
enviando homens pelo mar para lutarem ao lado das legiões da rainha. Outras frotas levaram
guerreiros de Porto Branco, liderados pelos próprios filhos de Lorde Manderly, Medrick e Torrhen.
Em tudo o poder da Rainha Rhaenyra crescia, enquanto o do Rei Aegon murchava.
Mas nenhuma guerra podia ser considerada ganha enquanto houvesse inimigos a conquistar. O
Fazedor de Reis, Sor Criston Cole, fora abatido, mas, em algum lugar do reino, Aegon II, o rei que
ele havia feito, continuava vivo e livre. A filha de Aegon, Jaehaera, estava também à solta. Larys
Strong, o Pé-Torto, o mais enigmático e astuto integrante do Conselho Verde, desaparecera. Ponta
Tempestade ainda era controlada por Lorde Borros Baratheon, que não era amigo da rainha. Os
Lannister também tinham de ser considerados inimigos de Rhaenyra, embora, com Lorde Jason
morto e a maior parte dos cavaleiros do oeste morta ou dispersa, Rochedo Casterly estivesse
abalada.
O Príncipe Aemond se tornara o terror do Tridente, descendo do céu para lançar fogo e morte
sobre as terras fluviais, depois desaparecendo, para atacar novamente no dia seguinte a cinquenta
léguas de distância. As chamas de Vhagar reduziram a cinzas Salgueiro Velho e Salgueiro Branco,
além de transformar o Salão da Porca em pedras pretas. Em Merrydown Dell, trinta homens e
trezentas ovelhas morreram sob a chama da dragoa. O Assassino de Familiares retornou
inexplicavelmente a Harrenhal, onde queimou todas as estruturas de madeira do castelo. Seis
cavaleiros e duas vintenas de homens de armas morreram tentando matar seu dragão. Com as
notícias desses ataques se espalhando, outros senhores começaram a olhar para o céu com medo,
imaginando quem poderia ser o próximo. Lorde Mooton de Lagoa da Donzela, a Senhora Darklyn de
Valdocaso e Lorde Blackwood de Corvarbor enviaram mensagens urgentes à rainha, suplicando que
mandasse dragões para defender suas terras.
Mas a maior ameaça ao reinado de Rhaenyra não era Aemond Um-Olho, mas seu irmão mais
jovem, o Príncipe Daeron, o Ousado, e o grande exército sulista liderado por Lorde Ormund
Hightower.
A legião de Hightower cruzara o Vago e estava avançando devagar para Porto Real, esmagando
os aliados da rainha onde e sempre que tentavam detê-los e obrigando todo senhor que se ajoelhara
a somar sua força à dele. Montado em Tessarion à frente da coluna principal, o Príncipe Daeron se
mostrara um batedor inestimável, alertando Lorde Ormond de movimentos inimigos e trincheiras.
Com grande frequência, os homens da rainha desapareciam à primeira visão das asas da Rainha
Azul para não encarar a chama de dragão em batalha.
Conhecendo todas essas ameaças, Lorde Corlys Velaryon, Mão da Rainha Rhaenyra, sugeriu à
Sua Graça que chegara a hora de conversar. Ele conclamou a rainha a oferecer perdão aos lordes
Baratheon, Hightower e Lannister se eles se ajoelhassem, jurassem lealdade e oferecessem reféns
ao Trono de Ferro. A Serpente do Mar sugeriu deixar que a Fé se encarregasse das rainhas Alicent e
Helaena, para que passassem o resto de suas vidas em prece e contemplação. A filha de Helaena,
Jaehaera, poderia se tornar sua protegida e no momento certo desposar o Príncipe Aegon, o Jovem,
unindo as duas metades da Casa Targaryen novamente.
– E quanto aos meus meio-irmãos? – indagou Rhaenyra quando a Serpente do Mar lhe apresentou
seu plano. – E quanto a esse falso Rei Aegon e o Assassino de Familiares Aemond? Quer que eu
também os perdoe, aqueles que roubaram meu trono e mataram meus filhos?
– Poupe-os e mande-os para a Muralha – respondeu Lorde Corlys. – Que eles vistam o preto e
levem suas vidas como homens da Patrulha da Noite, determinadas por votos sagrados.
– O que são votos para quem rompe juramentos? – exigiu saber a Rainha Rhaenyra. – Seus votos
não os incomodaram quando tomaram meu trono.
O Príncipe Daemon compartilhou a desconfiança da Rainha. Perdoar rebeldes e traidores era
lançar as sementes de novas rebeliões, insistiu ele.
– A guerra irá terminar quando as cabeças dos traidores estiverem no alto de estacas acima do
Portão do Rei, e não antes.
Aegon II seria encontrado com o tempo, “escondido embaixo de alguma pedra”, mas eles podiam
e deveriam levar a guerra a Aemond e Daeron. Os Lannister e Baratheon deveriam ser destruídos,
para que suas terras e seus castelos pudessem ser dados a homens que provaram ser mais leais.
Conceder Ponta Tempestade a Ulf, o Branco, e Rochedo Casterly a Hugh Durão, o Martelo, sugeriu o
príncipe... Para horror da Serpente do Mar.
– Metade dos senhores de Westeros se voltará contra nós se formos cruéis a ponto de destruir
casas tão antigas e nobres – comentou Lorde Corlys.
Cabia à própria rainha escolher entre seu consorte e sua Mão. Rhaenyra se decidiu por um meio-
termo. Ela mandaria enviados a Ponta Tempestade e Rochedo Casterly, oferecendo “termos justos” e
perdões... Depois que tivesse dado um fim aos irmãos do usurpador, que estavam em campo contra
ela.
– Assim que eles estiverem mortos o resto se colocará de joelhos. Matem seus dragões para que
eu possa colocar suas cabeças nas paredes da minha sala do trono. Deixe que os homens olhem para
elas nos anos por vir, para que saibam o preço da traição.
Porto Real não podia ser deixada sem defesa. A Rainha Rhaenyra permaneceria na cidade com
Syrax e seus filhos Aegon e Joffrey, que não podiam ser colocados em risco. Joffrey, sem ter
completado ainda 13 anos, estava ansioso para se provar um guerreiro, mas, quando soube que
Tyraxes era necessário para ajudar sua mãe a manter a Fortaleza Vermelha no caso de um ataque, o
jovem jurou solenemente fazer isso. Addam Velaryon, o herdeiro da Serpente do Mar, também
permaneceria na cidade com Seasmoke. Três dragões deveriam bastar para defender Porto Real; o
restante iria para a batalha.
O próprio Príncipe Daemon levaria Caraxes ao Tridente, com a menina Nettles e Sheepstealer,
para encontrar o Príncipe Aemond e Vhagar e acabar com eles. Ulf, o Branco, e Hugh, o Martelo,
voariam para Tumbleton, a cerca de cinquenta léguas a sudoeste de Porto Real, a última fortaleza
leal entre Lorde Hightower e a cidade, para ajudar na defesa da cidade e do castelo e destruir o
Príncipe Daeron e Tessarion.
O Príncipe Daemon Targaryen e a pequena garota escura chamada Nettles caçaram Aemond Um-
Olho por muito tempo sem sucesso. Haviam se instalado em Lagoa da Donzela a convite de Lorde
Manfryd Mooton, que vivia aterrorizado com a possibilidade de Vhagar se lançar sobre a sua cidade.
Em vez disso, o Príncipe Aemond atacou Cabeça de Pedra, no sopé das Montanhas da Lua; em
Salgueiro Doce, Ramo Verde e Brotadança, no Ramo Vermelho; reduziu Ponte do Arqueiro a cinzas,
queimou Velha Balsa e Moinho da Velha, destruiu o convento em Bechester, sempre desaparecendo
no céu antes que os caçadores conseguissem chegar. Vhagar nunca se demorava, nem os
sobreviventes costumavam concordar quanto à direção para a qual a dragoa voara.
Todo amanhecer Caraxes e Sheepstealer alçavam voo de Lagoa da Donzela, subindo bem acima
das terras fluviais em círculos cada vez mais largos na esperança de ver Vhagar abaixo... apenas
para retornar derrotados ao crepúsculo. Lorde Mooton ousou sugerir que os cavaleiros dividissem a
busca, para cobrir o dobro de terreno. O Príncipe Daemon se recusou. Vhagar era a última dos três
dragões que tinham ido para Westeros com Aegon, o Conquistador, e suas irmãs, ele lembrou a Sua
Senhoria. Embora mais lenta do que tinha sido um século antes, se tornara quase tão grande quanto
o antigo Terror Negro. Seu fogo era quente o bastante para derreter pedra, e nem Caraxes nem
Sheepstealer a igualavam em ferocidade. Apenas juntos eles podiam esperar enfrentá-la. Então, ele
manteve a menina Nettles ao seu lado dia e noite, no céu e no castelo.
Enquanto isso, ao sul, a batalha chegara a Tumbleton, uma próspera cidade mercantil no Vago. O
castelo debruçado sobre a cidade era sólido mas pequeno, protegido por não mais de quarenta
homens, só que milhares mais tinham subido o rio desde Ponteamarga, Mesalonga e mais ao sul. A
chegada de uma grande força de senhores do rio inchara ainda mais o número e fortalecera sua
disposição. No total, as forças reunidas sob os estandartes da rainha Rhaenyra em Tumbleton
chegavam perto de nove mil. Os homens da rainha estavam em muito menor número que os de
Lorde Hightower. Sem dúvida, a chegada dos dragões Vermithor e Silverwing com seus cavaleiros
foi muito bem recebida pelos defensores de Tumbleton. Eles pouco sabiam dos horrores que os
aguardavam.
O como, o quando e o porquê do acontecimento que passou a ser conhecido como as Traições de
Tumbleton continuam a ser muito polêmicos, e a verdade sobre tudo o que ocorreu talvez nunca seja
conhecida. Aparentemente, alguns daqueles que incharam a cidade, fugindo do exército de Lorde
Hightower, na verdade faziam parte desse exército, enviados na frente para infiltrar as fileiras dos
defensores. Mas a traição deles teria pouca valia se Sor Ulf, o Branco, e Sor Hugh, o Martelo, não
tivessem também escolhido aquele momento para trocar de lealdade.
Como nenhum dos homens sabia ler ou escrever, nunca saberemos o que levou os Dois Traidores
(como a história os batizou) a fazer o que fizeram. Contudo, sobre a Batalha de Tumbleton nós
sabemos muito mais. Seis mil dos homens da rainha entraram em formação para enfrentar Lorde
Hightower no campo e lutaram com bravura por algum tempo, mas uma devastadora chuva de
flechas dos arqueiros de Lorde Ormund reduziu seu número, e uma carga estrepitosa dos pesados
cavalos os dispersou, fazendo com que os sobreviventes voltassem correndo para as muralhas da
cidade. Quando a maioria dos sobreviventes estava em segurança do lado de dentro dos portões,
Roddy, a Ruína, e seus Lobos do Inverno avançaram por um portão nos fundos, lançando seus
aterrorizantes gritos de guerra do Norte enquanto cercavam o flanco esquerdo dos atacantes. No
caos que se seguiu, os nortenhos avançaram contra inimigos em número dez vezes maior até onde
Lorde Ormund Hightower estava sentado em seu cavalo de batalha, abaixo do dragão dourado do
Rei Aegon e dos estandartes de Vilavelha e Hightower. Como contam os menestréis, Lorde Roderick
estava coberto de sangue dos pés à cabeça quando chegou, escudo partido e elmo rachado, mas tão
ébrio da batalha que parecia sequer sentir seus ferimentos. Sor Bryndon Hightower, primo de Lorde
Ormund, se colocou entre o homem do Norte e seu senhor, decepando no ombro o braço de Ruína
que segurava o escudo com um golpe terrível de seu machado... Mas o selvagem Senhor de Vila
Acidentada continuou lutando, matando Sor Bryndon e Lorde Ormund antes de morrer. Os
estandartes de Lorde Hightower foram derrubados, e o povo da cidade festejou, pensando que os
rumos da batalha mudaram. Nem mesmo o surgimento de Tessarion do outro lado do campo os
desanimou, pois sabiam que tinham dois dragões do seu lado... Mas, quando Vermithor e Silverwing
subiram ao céu e lançaram seu fogo sobre Tumbleton, os aplausos se transformaram em gritos.
Tumbleton ardeu em chamas: lojas, casas, septos, pessoas, tudo. Homens caíram ardentes da
guarita do portão e dos passadiços, ou cambalearam aos gritos pelas ruas como archotes vivos. Os
Dois Traidores assolaram a cidade com açoites de fogo de uma ponta a outra. O saque que se seguiu
foi tão selvagem quanto qualquer outro na história de Westeros. Tumbleton, uma próspera cidade
mercantil, foi reduzida a cinzas e brasas, para nunca ser reconstruída. Milhares queimaram, e
número equivalente se afogou tentando atravessar o rio a nado. Alguns diriam mais tarde que esses
foram os sortudos, pois não houve misericórdia para com os sobreviventes. Os homens de Lorde
Footly largaram espadas e escudos, apenas para serem amarrados e decapitados. As mulheres da
cidade que sobreviveram aos incêndios foram repetidamente estupradas, até mesmo meninas de 8 e
10 anos. Velhos e meninos foram passados na espada, enquanto os dragões se alimentavam das
carcaças deformadas e fumegantes de suas vítimas.
Foi mais ou menos nesse momento que uma desgastada coca comercial chamada Nessaria
chegou se arrastando ao porto abaixo de Pedra do Dragão para fazer reparos e receber provisões.
Ela estava voltando de Pentos para Antiga Volantis quando uma tempestade a tirou de curso,
informou a tripulação... Mas a essa história comum de perigo no mar os habitantes de Volantis
acrescentaram uma nota bizarra. Enquanto a Nessaria seguia para oeste, o Monte Dragão se ergueu
diante dela, enorme contra o sol que se punha... E os marinheiros viram dois dragões lutando, seus
rugidos ecoando no penhasco escuro e liso da face leste da montanha fumegante. Em todas as
tavernas, estalagens e prostíbulos do litoral a história foi contada, recontada e aumentada, até que
todos os homens em Pedra do Dragão tivessem ouvido.
Dragões eram um assombro para os homens de Antiga Volantis; a visão de dois em batalha era
algo que os homens da Nessaria nunca esqueceriam. Aqueles nascidos e criados em Pedra do
Dragão cresceram com aquelas feras... Mas ainda assim a história dos marinheiros despertou
interesse. Na manhã seguinte, pescadores locais contornaram o Monte Dragão com seus barcos e
voltaram para contar que tinham visto os restos queimados e partidos de um dragão morto no sopé
da montanha. Pela cor de suas asas e escamas, a carcaça era de Grey Ghost. O dragão estava em
dois pedaços e havia sido rasgado e parcialmente devorado.
Ao receber a notícia, Sor Robert Quince, o amistoso e obeso cavaleiro, nomeado castelão de
Pedra do Dragão pela rainha antes de partir, foi rápido em identificar Cannibal como o assassino. A
maioria concordou, pois Cannibal era conhecido por atacar dragões menores no passado, embora
raramente com tamanha selvageria. Alguns entre os pescadores, temendo que o assassino se
voltasse contra eles em seguida, conclamaram Quince a enviar cavaleiros ao esconderijo da fera
para acabar com ela, mas o castelão se recusou.
– Se não o incomodarmos, Cannibal não nos incomodará – declarou.
Para garantir isso, proibiu a pesca nas águas abaixo da face leste do Monte Dragão, onde o corpo
de Grey Ghost apodrecia.
Enquanto isso, no litoral oeste da Baía da Água Negra, notícias da batalha e da traição em
Tumbleton chegaram a Porto Real. Foi dito que a Rainha Viúva Alicent riu ao tomar conhecimento.
– Tudo o que eles semearam irão agora colher – prometeu.
No Trono de Ferro, a Rainha Rhaenyra ficou pálida e fraca e ordenou que os portões da cidade
fossem fechados e trancados; a partir de então ninguém poderia entrar ou sair de Porto Real.
– Não terei vira-casacas penetrando em minha cidade para abrir os portões a rebeldes –
proclamou.
A legião de Lorde Ormund poderia estar diante de seus portões pela manhã, ou no dia seguinte;
os traidores, montados em dragões, poderiam chegar ainda mais cedo que isso.
Essa perspectiva animou o Príncipe Joffrey.
– Que venham – anunciou o garoto. – Eu os receberei montado em Tyraxes.
A conversa alarmou sua mãe.
– Você não fará isso. É jovem demais para a batalha.
Ainda assim, ela permitiu que o menino permanecesse enquanto o Conselho Negro discutia como
lidar com o inimigo que se aproximava.
Seis dragões permaneciam em Porto Real, mas apenas um do lado de dentro das muralhas da
Fortaleza Vermelha: a dragoa da própria rainha, Syrax. Um estábulo no pátio externo foi esvaziado
de cavalos e reservado para seu uso. Correntes pesadas a prendiam ao chão. Embora longas o
bastante para permitir que se deslocasse do estábulo para o pátio, as correntes impediam que
voasse sem cavaleiro. Syrax estava acostumada havia muito com correntes; muito bem alimentada,
ela não caçava por anos.
Todos os outros dragões eram mantidos no Fosso dos Dragões, a estrutura colossal que o Rei
Maegor, o Cruel, construíra exatamente para esse propósito. Sob sua grande cúpula, quarenta
câmaras enormes foram cavadas dos ossos da Colina de Rhaenys num grande círculo. Grossas
portas de ferro fechavam essas cavernas feitas pelo homem em cada extremidade, as internas
voltadas para as areias do fosso, as externas dando para a encosta da colina. Restavam cinco
dragões: a Tyraxes do Príncipe Joffrey, a cinza-claro Seasmoke de Addam Velaryon, os jovens
dragões Morghul e Shrykos dados à Princesa Jaehaera (fugida) e seu gêmeo Príncipe Jaehaerys
(morto)... e Dreamfyre, a amada da Rainha Helaena. Havia muito era costume que pelo menos um
cavaleiro de dragão morasse no fosso, para ser capaz de alçar voo a fim de defender a cidade em
caso de necessidade. Como a Rainha Rhaenyra preferia manter os filhos ao seu lado, esse dever
coube a Addam Velaryon.
Mas naquele momento vozes no Conselho Negro se erguiam para questionar a lealdade de Sor
Addam. As sementes de dragão Ulf, o Branco, e Hugh, o Martelo, tinham passado para o lado do
inimigo... Mas seriam os únicos traidores entre eles? E quanto a Addam do Casco e a garota
Nettles? Eles também nasceram bastardos. Seria possível confiar neles?
Lorde Bartimos Celtigar achava que não.
– Bastardos são traiçoeiros por natureza – acusou ele. – Está no sangue deles. A traição é tão fácil
para um bastardo quanto a lealdade para um homem legítimo.
Ele conclamou Sua Graça a mandar prender imediatamente os dois cavaleiros de dragões de
nascimento inferior, antes que também pudessem se juntar ao inimigo com suas bestas. Outros
concordaram com esse ponto de vista, entre eles Sor Luthor Largent, comandante da Patrulha da
Cidade, e Sor Lorent Marbrand, Senhor Comandante da Guarda Real. Até mesmo os dois homens de
Porto Branco, o assustador cavaleiro Sor Medrick Manderly e seu inteligente e corpulento irmão,
Sor Torrhen, conclamaram a Rainha a desconfiar.
– Melhor não correr riscos – sugeriu Sor Thorren. – Se o inimigo ganhar mais dois dragões,
estaremos perdidos.
Apenas Lorde Corlys falou em defesa das sementes de dragão, declarando que Sor Addam e seu
irmão Alyn eram verdadeiros Velaryon – merecidos herdeiros de Derivamarca.
Quanto à garota, embora pudesse ser suja e feiosa, lutara bravamente na Batalha da Goela.
– Assim como os dois traidores – retrucou Lorde Celtigar.
Os protestos apaixonados da Mão foram inúteis. Todos os medos e as desconfianças da rainha
foram despertados. Ela via traição com tanta frequência, e de tantos, que acreditava rapidamente no
pior de todos os homens. A traição já não tinha o poder de surpreendê-la. Ela passara a esperar por
isso, mesmo daqueles que mais amava.
A Rainha Rhaenyra ordenou que Sor Luthor Largent levasse vinte mantos dourados ao Fosso dos
Dragões e prendesse Sor Addam Velaryon. E assim, traição gerou mais traição, para a ruína da
rainha. Enquanto Sor Luthor Largent e seus mantos dourados subiam a cavalo a Colina de Rhaenys
com o mandado da rainha, as portas do Fosso dos Dragões se abriram acima deles, e Seasmoke
abriu suas asas cinza-claras e alçou voo, soltando fumaça das narinas. Sor Addam Velaryon fora
alertado a tempo de fugir. Frustrado e com raiva, Sor Luthor retornou à Fortaleza Vermelha, onde
entrou na Torre da Mão e colocou mãos ríspidas no envelhecido Lorde Corlys, acusando-o de
traição. O idoso não negou. Amarrado e espancado, mas ainda calado, ele foi levado para as
masmorras abaixo e jogado numa cela escura para aguardar julgamento e execução.
Enquanto isso, histórias do massacre em Tumbleton se espalhavam pela cidade... E com elas o
terror. Porto Real seria a seguinte, os homens diziam uns aos outros. Dragão combateria dragão, e
dessa vez a cidade certamente queimaria. Com medo do inimigo que chegaria, centenas tentaram
fugir, apenas para ser contidos nos portões pelos mantos dourados. Presos dentro das muralhas da
cidade, alguns buscaram abrigo em adegas fundas contra a tempestade cuja chegada temiam,
enquanto outros se voltavam para a prece, a bebida e os prazeres encontrados entre as coxas de
uma mulher. Ao cair da noite, as tavernas, os bordéis e os septos da cidade estavam cheios de
homens e mulheres buscando consolo ou fuga, e trocando histórias de terror.
Um tipo diferente de caos reinava em Tumbleton, sessenta léguas a sudoeste. Enquanto Porto
Real se encolhia de terror, os inimigos que eles temiam ainda não tinham dado um passo na direção
da cidade, pois os seguidores do Rei Aegon se viram sem líder, atormentados por dissolução, conflito
e dúvida. Ormund Hightower estava morto, assim como seu primo Sor Bryndon, o principal
cavaleiro de Vilavelha. Seus filhos continuavam em Torralta, a mil léguas de distância, e ainda eram
meninos inexperientes. E, embora Lorde Ormund tivesse apelidado Daeron Targaryen de “Daeron, o
Ousado” e louvado sua coragem em batalha, o príncipe ainda era um menino. Sendo o mais jovem
dos filhos do Rei Aegon, ele crescera à sombra de seus irmãos mais velhos e estava mais
acostumado a seguir ordens do que a dá-las. O Hightower mais velho ainda com a legião era Sor
Hobert, outro dos primos de Lorde Ormund, até então responsável apenas pela tropa de carga. Um
homem “tão corpulento quanto era lento”, Hobert Hightower passara sessenta anos sem se
destacar, mas esperava-se que assumisse o comando da legião devido ao seu parentesco com a
Rainha Alicent.
Raras vezes uma aldeia ou cidade na história dos Sete Reinos foi submetida a um saque tão
longo, cruel ou selvagem quanto Tumbleton depois das traições. O Príncipe Daeron ficou nauseado
com o que viu e ordenou que Sor Hobert Hightower desse um fim àquilo, mas os esforços de
Hightower se revelaram tão ineficientes quanto o próprio homem.
Os piores crimes foram cometidos pelos Dois Traidores, os cavaleiros de dragão de origem
inferior Hugh, o Martelo, e Ulf, o Branco. Sor Ulf se entregou à bebedeira, se afogando em vinho e
carne. Aqueles que não o satisfaziam eram dados como comida ao seu dragão. O título de cavaleiro
que a Rainha Rhaenyra lhe concedera não era suficiente. Nem ficou satisfeito quando o Príncipe
Daemon o nomeou Senhor de Ponteamarga. O Branco tinha um prêmio maior em mente: ele
desejava nada menos que Jardim de Cima, declarando que os Tyrell não tiveram qualquer
participação na Dança e, portanto, deveriam ser tratados como traidores.
As ambições de Sor Ulf podiam ser consideradas modestas se comparadas às do outro vira-
casaca, Hugh, o Martelo. Filho de um ferreiro comum, Martelo era um homem enorme, com mãos
tão fortes que se dizia ser capaz de torcer barras de ferro em gargantilhas. Embora bem
inexperiente nas artes da guerra, tornava-se um inimigo temível em função de seu tamanho e sua
força. Sua arma preferida era o martelo de guerra, com o qual desferia golpes esmagadores e
mortais. Em batalha, ele montava Vermithor, uma das montarias do próprio Velho Rei; de todos os
dragões de Westeros, apenas Vhagar era mais velha ou maior. Por todas essas razões, Lorde
Hammer (como ele passara a se apresentar) começou a sonhar com coroas.
– Por que ser um senhor quando você pode ser rei? – perguntou aos homens que começaram a se
reunir ao redor dele.
Nenhum dos Dois Traidores parecia ansioso para ajudar o Príncipe Daeron a atacar Porto Real.
Eles tinham uma grande legião e também três dragões, mas a Rainha também tinha três dragões
(pelo que sabiam), e teriam cinco assim que o Príncipe Daemon retornasse com Nettles. Lorde
Peake preferia postergar qualquer avanço até que Lorde Baratheon pudesse trazer sua força de
Ponta Tempestade para juntar-se a eles, enquanto Sor Hobert desejava retornar à Campina para
repor seus suprimentos, que acabavam rapidamente. Ninguém parecia preocupado que seu exército
estivesse encolhendo a cada dia, derretendo como o orvalho da manhã à medida que cada vez mais
homens desertavam, roubando e levando para casa tudo que conseguissem carregar.
Muitas léguas ao norte, num castelo debruçado sobre a Baía dos Caranguejos, outro senhor se
viu deslizando pelo fio de uma espada. Chegou um corvo de Porto Real com uma mensagem da
rainha para Manfryd Moonton, Senhor de Lagoa da Donzela: ele deveria enviar a ela a cabeça da
garota bastarda Nettles, que teria se tornado amante do Príncipe Daemon, e que a rainha, portanto,
julgara culpada de alta traição.
– Nenhum mal deve ser feito ao senhor meu marido, Príncipe Daemon da Casa Targaryen –
ordenou Sua Graça. – Mande-o de volta para mim quando isso estiver feito, pois precisamos
urgentemente dele.
O Meistre Norren, guardião das Crônicas de Lagoa da Donzela, diz que quando Sua Senhoria leu
a carta da rainha ficou tão abalada que perdeu a voz. Só a recuperou após tomar três taças de vinho.
Lorde Mooton mandou chamar o capitão de sua guarda, seu irmão e principal homem, Sor Florian
Greysteel. Também ordenou que seu Meistre permanecesse. Quando todos estavam reunidos, leu
para eles a carta e pediu seus conselhos.
– Isso pode ser feito facilmente – disse o capitão da guarda. – O príncipe dorme ao lado dela, mas
ficou velho. Três homens devem ser suficientes para contê-lo caso tente interferir, mas levarei seis
por garantia. Meu senhor deseja que seja feito esta noite?
– Seis homens ou sessenta, ele ainda é Daemon Targaryen – protestou o irmão de Lorde Mooton.
– Uma infusão para dormir no vinho da noite seria o caminho mais sábio. Que ele acorde para
encontrá-la morta.
– A garota é apenas uma criança, por piores que sejam suas traições – lembrou Sor Florian,
aquele velho cavaleiro, grisalho e sisudo. – O Velho Rei nunca teria pedido isso, nem qualquer
homem honrado.
– Estes são tempos terríveis – comentou Lorde Mooton –, e é uma escolha terrível que esta rainha
me deu. A garota é uma convidada sob o meu teto. Se obedecer, Lagoa da Donzela será para sempre
amaldiçoada. Se me recusar, seremos estigmatizados e destruídos.
– Podemos ser destruídos qualquer que seja a nossa escolha – respondeu seu irmão. – O príncipe
é mais que carinhoso com essa criança marrom, e seu dragão está à mão. Um senhor sábio mataria
a ambos, para que o príncipe não queime Lagoa da Donzela em sua ira.
– A rainha proibiu que qualquer mal seja feito a ele – lembrou Lorde Mooton. – E assassinar dois
convidados em suas camas é duas vezes mais terrível que assassinar um. Eu seria duplamente
amaldiçoado – falou, depois suspirou. – Eu gostaria de nunca ter lido esta carta.
– Talvez nunca tenha – sugeriu Meistre Norren.
O que foi dito depois disso não se sabe. Tudo o que sabemos é que o meistre, um jovem de 22
anos, encontrou o Príncipe Daemon e a garota Nettles no jantar daquela noite e mostrou a eles a
carta da rainha.
– Palavras de uma rainha, obra de uma rameira – acusou o Príncipe Daemon depois de ler a carta.
Depois, desembainhou sua espada e perguntou se os homens de Lorde Mooton estavam
esperando do lado de fora da porta para fazê-los prisioneiros. Quando ouviu que o meistre fora até
lá sozinho e em segredo, o Príncipe Daemon guardou sua espada.
– Você é um meistre ruim, mas um bom homem – falou, depois mandou que partisse, ordenando
que “não dissesse uma palavra disso ao senhor ou à amante até a manhã seguinte”.
Não foi registrado como o príncipe e sua garota bastarda passaram sua última noite sob o teto de
Lorde Mooton, mas, quando o dia nasceu, eles apareceram juntos no pátio e o Príncipe Daemon
ajudou Nettles a selar Sheepstealer uma última vez. Era hábito dela alimentá-lo todo dia antes de
alçar voo; os dragões se curvavam mais facilmente à vontade do cavaleiro quando de barriga cheia.
Suas rédeas estavam sujas de sangue quando ela montou no dragão, registrou Meistre Norren, e
“suas faces estavam sujas de lágrimas”. Nenhuma palavra de despedida foi trocada entre homem e
menina, mas quando Sheepstealer bateu suas asas coriáceas marrons e subiu para o céu matinal,
Caraxes ergueu a cabeça e soltou um berro que partiu todas as janelas da Torre de Jonquil. Bem
acima da cidade, Nettles virou seu dragão na direção da Baía dos Caranguejos e desapareceu na
névoa da manhã, para nunca mais ser vista em corte ou castelo.
Daemon Targaryen retornou ao castelo bem a tempo de ter o desjejum com Lorde Mooton.
– Esta é a última vez que você me verá – avisou ele a Sua Senhoria. – Agradeço por sua
hospitalidade. Que seja sabido em todas as suas terras que eu voo rumo a Harrenhal. Se meu
sobrinho Aemond ousar me encarar, irá me encontrar lá, sozinho.
E assim o Príncipe Daemon partiu de Lagoa da Donzela pela última vez. Depois de sua retirada,
Meistre Norren foi até seu senhor.
– Tire a corrente de meu pescoço e amarre minhas mãos com ela – falou o Meistre. – Você precisa
me entregar à rainha. Quando alertei uma traidora e permiti que escapasse também me tornei um
traidor.
Lorde Mooton se recusou.
– Fique com sua corrente. Somos todos traidores aqui – confessou Sua Senhoria.
E naquela noite os estandartes da Rainha Rhaenyra foram baixados de onde adejavam acima dos
portões de Lagoa da Donzela, e os de dragões dourados do Rei Aegon II subiram em seu lugar.
Não havia estandartes adejando acima das torres escurecidas e da fortaleza arruinada de
Harrenhal quando o Príncipe Daemon desceu do céu para tomar o castelo para si. Alguns ocupantes
encontraram abrigo nas amplas câmaras do castelo e nas adegas, mas o som das asas de Caraxes os
colocou em fuga. Quando o último deles partiu, Daemon caminhou sozinho pelos salões cavernosos
da sede de Harren, sem companhia alguma a não ser seu dragão. Toda noite ao anoitecer ele
marcava a árvore-coração no bosque sagrado para registrar a passagem de outro dia. Treze marcas
ainda podem ser vistas naquela madeira; velhas feridas, fundas e escuras, mas os senhores que
governaram Harrenhal desde os dias de Daemon dizem que elas sangram novamente toda
primavera.
No 14o dia da vigília do príncipe, uma sombra passou pelo castelo, mais escura que qualquer
nuvem passageira. Todos os pássaros no bosque sagrado subiram ao céu assustador, e um vento
quente açoitou as folhas caídas no pátio. Vhagar chegara, e em suas costas estava o príncipe caolho
Aemond Targaryen, vestindo uma armadura preta como a noite, gravada em ouro.
Ele não fora sozinho. Alys Rivers voara com ele, seu cabelo preto comprido se estendendo atrás
dela, a barriga inchada levando um filho. O Príncipe Aemond deu duas voltas ao redor das torres de
Harrenhal, depois pousou Vhagar no pátio externo, com Caraxes a noventa metros de distância. Os
dragões olharam feio um para o outro, e Caraxes abriu as asas e sibilou, chamas dançando sobre
seus dentes.
O príncipe ajudou sua mulher a descer das costas de Vhagar depois se virou para encarar o tio.
– Tio, ouvi dizer que tem nos procurado.
– Apenas você – retrucou Daemon. – Quem lhe disse onde me encontrar?
– Senhora – respondeu Aemond. – Ela o viu em uma nuvem de tempestade, no lago de uma
montanha ao anoitecer, no fogo que acendemos para preparar nossas refeições. Ela vê muito e mais,
minha Alys. Você foi um tolo de vir sozinho.
– Se eu não estivesse só, você não teria vindo – disse Daemon.
– Mas aí está você e aqui estou eu. Você viveu demais, tio.
– Nisso nós concordamos – retrucou Daemon.
Então, o velho príncipe pediu a Caraxes que curvasse o pescoço e subiu rigidamente em suas
costas, enquanto o jovem príncipe beijava sua mulher e saltava levemente sobre Vhagar, tomando o
cuidado de prender as quatro correntes curtas entre cinto e sela. Daemon deixou as próprias
correntes penduradas. Caraxes sibilou novamente, enchendo o ar de chamas, e Vhagar respondeu
com um rugido. A um só tempo, os dois dragões se lançaram ao céu.
Príncipe Daemon subiu rapidamente com Caraxes, açoitando-o com um chicote de ponta de aço
até que desaparecessem em uma massa de nuvens. Vhagar, mais velha e muito maior, também era
mais lenta, pesada por conta de seu tamanho, e subiu mais devagar, em círculos que se abriam
constantemente e a levavam junto com seu cavaleiro para acima das águas de Olho de Deus. Era
tarde, o sol estava prestes a se pôr, e o lago estava calmo, a superfície reluzindo como uma folha de
cobre batido. Ela subiu cada vez mais alto, procurando por Caraxes, enquanto abaixo Alys Rivers
observava do alto da Pira do Rei em Harrenhal.
O ataque foi repentino como um raio. Caraxes mergulhou sobre Vhagar com um guincho
penetrante que foi ouvido a vinte quilômetros de distância, oculto pelo brilho do sol que se punha
sobre o lado cego do Príncipe Aemond. O Dragão de Sangue se chocou contra o dragão mais velho
com uma força terrível. Seus rugidos ecoaram por Olho de Deus quando os dois se engalfinharam e
atacaram um ao outro, escuros sob um céu vermelho-sangue. Suas chamas queimaram com tanto
brilho que pescadores abaixo temeram que as próprias nuvens estivessem pegando fogo. Presos um
no outro, os dragões despencaram na direção do lago. As presas do Dragão de Sangue se fecharam
no pescoço de Vhagar, seus dentes pretos cravando fundo na carne do dragão maior. Mesmo com as
garras de Vhagar rasgando sua barriga e os dentes arrancando uma asa, Caraxes mordeu mais
fundo, torcendo a ferida enquanto o lago crescia na direção deles com velocidade terrível.
E foi então, nos contam as histórias, que o Príncipe Daemon Targaryen passou uma perna por
sobre a sela e saltou de um dragão para o outro. Em sua mão estava a Irmã Escura, a espada da
Rainha Visenya. Enquanto Aemond Um-Olho erguia o olhar aterrorizado, se atrapalhando com as
correntes que o prendiam à sela, Daemon arrancou o elmo do sobrinho e enfiou a espada no olho
cego com tanta força que a ponta saiu por trás da garganta do jovem príncipe. No instante seguinte,
os dragões caíram no lago, levantando um jorro de água tão alto que disseram ter chegado à altura
da Pira do Rei.
Nem homem nem dragão poderiam ter sobrevivido a tal impacto, disseram os pescadores que
testemunharam. Caraxes viveu o suficiente para nadar de volta para terra. Com a barriga aberta,
uma asa arrancada do corpo e as águas do lago fumegando ao redor, o Dragão de Sangue encontrou
forças para subir para a margem do lago, expirando abaixo das muralhas de Harrenhal. A carcaça
de Vhagar afundou até o leito do lago, o sangue quente do grande talho em seu pescoço fazendo a
água ferver em seu local de descanso final. Quando ela foi encontrada, anos depois, após o fim da
Dança dos Dragões, os ossos em armadura do Príncipe Aemond permaneciam acorrentados à sela,
com a Irmã Escura enfiada até o cabo na órbita do olho.
Que o Príncipe Daemon também morreu não podemos ter dúvida. Seus restos nunca foram
encontrados, mas há correntezas estranhas naquele lago, além de peixes famintos. Os cantores nos
dizem que o velho príncipe sobreviveu à queda e depois voltou para a garota Nettles para passar o
resto dos seus dias ao lado dela. Esses casos inspiram canções encantadoras, mas uma história
ruim.
Foi no 22o dia da quinta lua do ano 130 D.C. que os dragões dançaram e morreram acima de Olho
de Deus. Daemon Targaryen tinha 49 anos quando morreu; o Príncipe Aemond acabara de fazer
apenas 20. Vhagar, a maior dos dragões dos Targaryen desde o falecimento de Balerion, o Terror
Negro, tinha 181 anos sobre a Terra. Assim morreu a última criatura viva dos tempos da Conquista
de Aegon, com o crepúsculo e a escuridão engolindo a sede amaldiçoada de Harren, o Negro. Mas
tão poucos estavam ali para testemunhar que levaria algum tempo até que a história da última
batalha do Príncipe Daemon fosse amplamente conhecida.
De volta a Porto Real, a Rainha Rhaenyra estava se vendo cada vez mais isolada a cada nova
traição. O suposto vira-casaca Addam Velaryon fugira antes de poder ser interrogado. Ao ordenar a
prisão de Addam Velaryon, ela perdera não apenas um dragão e seu cavaleiro, mas também a Mão
da Rainha... E mais de metade do exército que navegara de Pedra do Dragão para tomar o Trono de
Ferro era composto de homens fiéis à Casa Velaryon. Quando se soube que Lorde Corlys estava em
uma masmorra sob a Fortaleza Vermelha, eles começaram a abandonar sua causa às centenas.
Alguns foram para a Praça dos Sapateiros se juntar à multidão reunida lá, enquanto outros saíram
por portões dos fundos ou pulando as muralhas, pretendendo voltar para Derivamarca. E não era
possível confiar naqueles que permaneciam.
Naquele mesmo dia, não muito depois do pôr do sol, outro horror se abateu sobre a corte da
Rainha. Helaena Targaryen, irmã, esposa e rainha do Rei Aegon II e mãe de seus filhos, se jogou da
janela da Fortaleza de Maegor para morrer empalada nas varas de ferro que cobriam o fosso seco
abaixo. Tinha apenas 21 anos.
Ao cair da noite, uma história mais sombria estava sendo contada nas ruas e nos becos de Porto
Real, em estalagens, bordéis e casas de pasto, e em até mesmo abençoados septos. A Rainha
Helaena fora assassinada, diziam os sussurros, assim como aconteceu com seus filhos. O Príncipe
Daeron e seus dragões logo estariam junto aos portões, e com eles o fim do reinado de Rhaenyra. A
velha rainha estava determinada a que sua meio-irmã não vivesse para se deliciar com sua
derrocada, então mandara Sor Luthor Largent pegar Helaena com suas enormes mãos grossas e
lançá-la pela janela para as varas abaixo.
O boato do “assassinato” da Rainha Helaena logo estava nos lábios de metade de Porto Real. Que
ele tenha tido credibilidade tão rapidamente mostra como a cidade se virara por completo contra
sua rainha antes amada. Rhaenyra era odiada; Helaena havia sido amada. E as pessoas comuns da
cidade não se esqueciam do assassinato cruel do Príncipe Jaehaerys por Sangue e Queijo. O fim de
Helaena fora misericordiosamente rápido; uma das varas a pegou no pescoço e ela morreu sem
emitir um som. No momento de sua morte, do outro lado da Colina de Rhaenys, seu dragão
Dreamfyre se ergueu de repente com um rugido que sacudiu o Fosso dos Dragões, partindo duas
das correntes que a prendiam. Quando a Rainha Alicent foi informada do falecimento da filha, fez
suas roupas em pedaços e lançou uma maldição terrível sobre a rival.
Naquela noite, Porto Real se ergueu numa revolta sangrenta.
O conflito teve início nos becos e nas travessas da Baixada das Pulgas, com homens e mulheres
saindo às centenas das tabernas, ringues de ratos e casas de pasto, raivosos, bêbados e com medo.
De lá, os revoltosos se espalharam pela cidade, cobrando aos gritos justiça para os príncipes mortos
e sua mãe assassinada. Carrinhos e carroças foram virados, lojas saqueadas, casas pilhadas e
incendiadas. Mantos dourados tentando sufocar os distúrbios foram apanhados e espancados.
Ninguém foi poupado, de alto ou baixo nascimento. Senhores foram cobertos de lixo, cavaleiros,
arrancados de suas selas. Senhora Darla Deddings viu seu irmão Davos levar uma facada no olho ao
tentar defendê-la de três cavalariços bêbados que queriam estuprá-la. Marinheiros impossibilitados
de retornar a seus navios atacaram o Portão do Rio e travaram uma batalha retumbante contra a
Patrulha da Cidade. Foram necessários Sor Luthor Largent e quatrocentas lanças para dispersá-los.
A essa altura, metade do portão foi feita em pedaços e cem homens estavam mortos ou morrendo,
dos quais um quarto era de mantos dourados.
Na Praça dos Sapateiros, os sons do conflito podiam ser ouvidos em todos os cantos. A Patrulha
da Cidade chegara com força, quinhentos homens vestindo cotas de malha pretas, capacetes de aço
e compridas capas douradas, armados com espadas curtas, lanças e porretes com pregos. Eles
entraram em formação no lado sul da praça, atrás de uma parede de escudos e lanças. À frente,
cavalgava Sor Luthor Largent em um cavalo de batalha, com armadura e espada comprida na mão.
A simples visão foi suficiente para mandar centenas para becos, travessas e ruas secundárias.
Outras centenas fugiram quando Sor Luthor ordenou que os mantos dourados avançassem.
Contudo, dez mil permaneceram. A pressão era tão grande que muitos que gostariam de ter
fugido se viram incapazes de se mover, empurrados, jogados e pisoteados. Outros avançaram,
braços dados, e começaram a gritar e xingar, enquanto as lanças avançavam ao ritmo lento de um
tambor.
– Abram caminho, malditos idiotas – rugiu Sor Luthor. – Vão para casa. Nenhum mal lhes será
feito. Vão para casa!
Alguns dizem que o primeiro homem a morrer foi um padeiro, que grunhiu de surpresa quando a
ponta de uma lança furou sua carne e ele viu o avental ficar vermelho. Outros alegam que foi uma
garotinha, pisoteada pelo cavalo de batalha de Sor Luthor. Uma pedra foi arremessada da multidão,
acertando um lanceiro na testa. Gritos e xingamentos foram ouvidos, paus, pedras e urinóis
choveram dos telhados, um arqueiro do outro lado da praça começou a disparar. Um archote foi
empurrado sobre um patrulheiro, e logo sua capa dourada estava queimando.
Os mantos dourados eram homens grandes, jovens, fortes, disciplinados, bem armados e com
boas armaduras. Durante vinte metros ou mais, sua parede de escudos resistiu, e eles abriram um
caminho sangrento por entre a multidão, deixando mortos e moribundos ao redor. Mas eram apenas
quinhentos, e dezenas de milhares de revoltados haviam se reunido. Um vigilante tombou, depois
outro. De repente, pessoas comuns estavam escapando pelas aberturas da formação, atacando com
facas e pedras, até mesmo dentes, se lançando sobre a Patrulha da Cidade e seus flancos, atacando
por trás, arremessando telhas de tetos e varandas.
A batalha se transformou em revolta, que se transformou em massacre. Cercados por todos os
lados, os mantos dourados se viram envolvidos e engolidos, sem espaço para brandir suas armas.
Muitos morreram na ponta da própria espada. Outros foram feitos em pedaços, chutados até a
morte, pisoteados, rasgados com enxadas e cutelos. Nem mesmo o temido Sor Luthor Largent
escapou da carnificina. Sua espada foi arrancada de seu punho, ele foi derrubado da sela,
esfaqueado na barriga e espancado até a morte com um paralelepípedo; seu elmo e sua cabeça
ficaram tão esmagados que seu corpo só pôde ser reconhecido pelo tamanho quando as carroças de
cadáveres chegaram no dia seguinte.
Durante aquela longa noite, o caos tomou conta de metade da cidade, enquanto estranhos
senhores e reis desgovernados brigavam pelo resto. Um cavaleiro andante chamado Sor Perkin, a
Pulga, coroou o próprio escudeiro Trystane, um adolescente de 16 anos, declarando ser ele filho
natural do falecido Rei Viserys. Qualquer cavaleiro podia fazer um cavaleiro, e quando Sor Perkin
começou a elevar todo mercenário, ladrão e bandidinho que se juntasse ao estandarte esfarrapado
de Trystane, surgiram centenas de homens e meninos jurando lealdade à sua causa.
Ao alvorecer, incêndios ardiam por toda a cidade, a Praça dos Sapateiros estava coberta de
cadáveres, e bandos de fora da lei circulavam pela Baixada das Pulgas, invadindo lojas e casas e
agredindo todas as pessoas honestas que encontravam. Os mantos dourados sobreviventes se
recolheram aos seus alojamentos, enquanto cavaleiros de sarjeta, reis de fantasia e profetas loucos
comandavam as ruas. Como as baratas que eles lembravam, os piores entre eles fugiram antes da
luz, se retirando para esconderijos e adegas para dormir o sono dos ébrios, dividir o saque e lavar o
sangue das mãos. Os mantos dourados no Velho Portão e no Portão do Dragão avançaram sob o
comando de seus capitães, Sor Balon Byrch e Sor Garth, o Leporino, e ao meio-dia tinham
conseguido restaurar algo semelhante a ordem nas ruas ao norte e a leste da Colina de Rhaenys.
Sor Medrick Manderly, liderando cem homens de Porto Branco, fez o mesmo na área a nordeste da
Colina de Aegon, até o Portão de Ferro.
O resto de Porto Real permaneceu um caos. Quando Sor Torrhen Manderly liderou seus homens
do Norte descendo o Gancho Gancho, encontraram a Praça dos Peixeiros e a Rua do Rio tomadas
pelos cavaleiros de sarjeta de Sor Perkin. No Portão do Rio, o estandarte esfarrapado do “Rei”
Trystane tremulava acima da amurada, enquanto os corpos do capitão e três de seus sargentos
pendiam da guarita do portão. O resto da guarnição da “Lama” tinha se rendido a Sor Perkin. Sor
Torrhen perdeu um quarto de seus homens abrindo caminho de volta à Fortaleza Vermelha... Mas se
saiu bem se comparado a Sor Lorent Marbrand, que liderou cem cavaleiros e homens de armas até a
Baixada das Pulgas. Dezesseis retornaram. Sor Lorent, Senhor Comandante da Guarda Real, não
estava entre eles.
No final do dia, Rhaenyra Targaryen se viu terrivelmente atacada por todos os lados, seu reino
em ruínas. A rainha ficou furiosa ao saber que Lagoa da Donzela tinha passado para o lado do
inimigo, que a garota Nettles escapara, que seu próprio amado consorte a traíra, e tremeu quando a
Senhora Mysaria a alertou para a escuridão que chegava, que aquela noite podia ser pior que a
anterior. Ao amanhecer, cem homens estavam com ela na sala do trono, mas partiram um a um.
Sua Graça passou da fúria ao desespero e novamente à fúria, agarrando tão desesperadamente o
Trono de Ferro que suas mãos estavam ensanguentadas quando o sol se pôs. Ela deu o comando dos
mantos dourados a Sor Balon Byrch, capitão do Portão de Ferro, enviou corvos a Winterfell e Ninho
da Águia suplicando mais ajuda e ordenou que um decreto de confisco fosse redigido contra os
Mooton de Lagoa da Donzela e nomeou o jovem Sor Glendon Goode como Senhor Comandante da
Guarda Real. (Embora tivesse apenas 20 anos e fosse membro das Espadas Brancas havia menos de
uma lua, Goode se distinguira durante a luta na Baixada das Pulgas mais cedo naquele dia. Foi ele
quem levou de volta o corpo de Sor Lorent, para impedir que os rebelados o profanassem.)
Aegon, o Jovem, permaneceu sempre ao lado da mãe, mas mal disse uma palavra. O Príncipe
Joffrey, de 13 anos, vestiu armadura de cavaleiro e suplicou à rainha que o deixasse ir ao Fosso dos
Dragões e montar Tyraxes.
– Eu quero lutar por você, mãe, como meus irmãos fizeram. Deixe-me provar que sou corajoso
como eles foram.
Suas palavras, porém, apenas fortaleceram a determinação de Rhaenyra.
– Corajosos eles foram, e mortos eles estão, ambos. Meus meninos queridos.
E mais uma vez Sua Graça proibiu o príncipe de deixar o castelo.
Com o pôr do sol, a escória de Porto Real mais uma vez emergiu de suas rinhas de ratos,
esconderijos e adegas, em número ainda maior que na noite anterior.
No Portão do Rio, Sor Perkin ofereceu a seus cavaleiros de sarjeta um banquete com comida
roubada e os liderou pela margem do rio, saqueando cais, armazéns e qualquer navio que não
tivesse zarpado. Embora Porto Real tivesse muralhas enormes e torres sólidas, elas foram
projetadas para repelir ataques de fora da cidade, não de dentro das muralhas. A guarnição no
Portão dos Deuses era fraca, já que seu capitão e um terço dos integrantes morreram com Sor
Luthor Largent na Praça dos Sapateiros. Aqueles que restaram, muitos deles feridos, foram
dominados com facilidade pelas hordas de Sor Perkin.
Em menos de uma hora, o Portão do Rei e o Portão do Leão também estavam abertos. Os mantos
dourados fugiram pelo primeiro, enquanto os “leões” se juntaram à turba pelo segundo. Três dos
sete portões de Porto Real estavam abertos aos inimigos de Rhaenyra.
Porém, a ameaça mais grave ao governo da rainha estava dentro da cidade. Ao cair da noite,
outra multidão havia se reunido na Praça dos Sapateiros, duas vezes maior e três vezes mais
temerosa que na noite anterior. Assim como a rainha que tanto desprezavam, a turba estava olhando
para o céu com medo, temendo que os dragões do Rei Aegon chegassem antes do final da noite, com
um exército logo atrás. Eles já não acreditavam que a rainha poderia protegê-los.
Quando um louco profeta maneta chamado Pastor começou a vociferar contra dragões, não
apenas aqueles que estavam indo atacá-los, mas todos os dragões em toda parte, a multidão, ela
mesma meio enlouquecida, escutou-o guinchar.
– Quando os dragões vierem, sua carne irá queimar, ganhar bolhas e se transformar em cinzas.
Suas esposas dançarão em túnicas de fogo, berrando enquanto queimam, lascivas e nuas sob as
chamas. E verão sua pele rosada queimar e rachar em seus ossos. O Estranho vem, ele vem, ele
vem, para nos flagelar pelos nossos pecados. Preces não conseguem deter sua ira, não mais que
lágrimas podem apagar a chama dos dragões. Apenas o sangue pode fazer isso. Seu sangue, meu
sangue, o sangue deles – disse, e ergueu o coto do braço direito e apontou para a Colina de Rhaenys
atrás, e o Fosso dos Dragões escuro em contraste com as estrelas. – Lá vivem os demônios, lá em
cima. Esta cidade é deles. Se vocês querem que ela seja sua, precisam primeiro destruí-los! Se
querem se limpar do pecado, precisam primeiro se banhar em sangue de dragão! Pois apenas
sangue pode apagar os fogos do inferno!
Um grito se ergueu de dez mil gargantas.
– Matá-los! Matá-los!
E como uma fera enorme com dez mil pernas, as ovelhas do Pastor começaram a se mover,
empurrando e avançando, agitando seus archotes, brandindo espadas, facas e outras armas mais
grosseiras, caminhando e correndo pelas ruas e becos na direção do Fosso dos Dragões. Alguns
pensaram melhor e foram para casa, mas, para cada homem que partiu, três outros apareceram
para se juntar aos matadores de dragões. No momento em que chegaram à Colina de Rhaenys, o
número deles havia duplicado.
No cume da Colina de Aegon, do outro lado da cidade, a Rainha viu o ataque se desenvolver do
telhado da Fortaleza de Maegor, com seus filhos e membros da corte. A noite estava escura e
nublada, os archotes tão numerosos que era como se todas as estrelas tivessem descido do céu para
atacar o Fosso dos Dragões. Assim que chegou a ela a notícia de que a multidão enfurecida estava
em marcha, Rhaenyra enviou cavaleiros a Sor Balon, no Velho Portão e a Sor Garth, no Portão do
Dragão, ordenando que dispersassem a multidão e defendessem os dragões reais... Mas, com a
cidade mergulhada em tal tumulto não havia certeza alguma de que os cavaleiros teriam chegado.
Mesmo se chegassem, os mantos dourados leais que restavam eram poucos demais para acalentar
qualquer esperança de sucesso. Quando o Príncipe Joffrey suplicou à mãe que o deixasse avançar
com seus próprios cavaleiros e aqueles de Porto Branco, a rainha recusou.
– Se eles tomarem aquela colina, esta será a seguinte – falou ela. – Precisaremos de todas as
espadas aqui para defender o castelo.
– Eles vão matar os dragões – argumentou o Príncipe Joffrey, angustiado.
– Ou os dragões irão matá-los – replicou a mãe, sem se abalar. – Que eles queimem. O reino não
sentirá falta deles.
– Mãe, e se eles matarem Tyraxes? – perguntou o jovem príncipe.
A Rainha não acreditou nisso.
– Eles são a ralé. Bêbados, idiotas e ratos de esgoto. Uma prova da chama de dragão e sairão
correndo.
– Bêbados eles podem ser, mas um homem bêbado não conhece o medo – completou o bobo da
corte, Cogumelo. – Idiotas, sim, mas um idiota pode matar um rei. Ratos, isso também, mas mil ratos
podem derrubar um urso. Eu vi isso acontecer uma vez, lá embaixo na Baixada das Pulgas.
Sua Graça se virou para o parapeito.
Foi só quando os espectadores no telhado ouviram Syrax rugir que notaram que o príncipe se
afastara, ressentido.
– Não – ouviu-se a rainha dizer. – Eu proíbo isso, eu proíbo.
Mas, ao mesmo tempo que ela falava, sua dragoa bateu as asas no pátio, se acomodou por um
instante na murada do castelo, depois se lançou ao céu com o filho da rainha agarrado às costas,
com uma espada em punho.
– Atrás dele! – gritou Rhaenyra. – Todos vocês, todo homem, todo menino, aos cavalos, aos
cavalos, vão atrás dele. Tragam-no de volta, tragam-no de volta, ele não sabe. Meu filho, meu
querido, meu filho...
Mas era tarde demais.
Não vamos fingir compreender a ligação entre dragão e cavaleiro de dragão; cabeças mais sábias
refletiram sobre esse mistério por séculos. Contudo, sabemos que dragões não são cavalos, para
serem montados por qualquer homem que jogue uma sela em suas costas. Syrax era a dragoa da
rainha. Nunca conhecera outro cavaleiro. Embora o Príncipe Joffrey fosse conhecido dela por visão e
olfato, uma presença familiar que não a alarmara ao mexer em suas correntes, a grande dragoa
amarela não o queria montado nela. Em sua pressa de partir antes que pudesse ser detido, o
Príncipe saltara sobre Syrax sem o benefício de sela ou chicote. Sua intenção, devemos supor, era
colocar Syrax em batalha ou, mais provavelmente, atravessar a cidade até o Fosso dos Dragões e
seu próprio Tyraxes. Ele talvez também pretendesse soltar os outros dragões do fosso.
Joffrey nunca chegou à Colina de Rhaenys. Uma vez no ar, Syrax se sacudiu abaixo dele, lutando
para se livrar do cavaleiro incomum. E de baixo, pedras, lanças e flechas subiram na sua direção,
disparadas pelas mãos dos rebelados, enlouquecendo a dragoa ainda mais. A sessenta metros acima
da Baixada das Pulgas, o Príncipe Joffrey escorregou das costas da dragoa e despencou para a terra.
Foi perto de um ponto em que cinco becos se juntavam que a queda do Príncipe chegou a seu fim
sangrento. Ele bateu num teto muito inclinado antes de rolar e despencar mais doze metros em meio
a uma chuva de telhas quebradas. Foi dito que a queda partiu suas costas, que cacos de ardósia
choveram sobre ele como facas, que sua própria espada se soltou da mão e o furou na barriga. Na
Baixada das Pulgas, os homens ainda falam da filha de um fabricante de velas que embalou o
príncipe quebrado nos braços e o consolou enquanto morria, mas essa história parece mais lenda
que fato.
– Mãe, me perdoe – teria dito Joffrey em seu último suspiro... Embora os homens ainda discutam
se ele falava de sua mãe, a rainha, ou se rezava para a Mãe no Céu.
Assim pereceu Joffrey Velaryon, Príncipe de Pedra do Dragão e herdeiro do Trono de Ferro,
último dos filhos da Rainha Rhaenyra com Laenor Velaryon... Ou o último de seus bastardos com Sor
Harwin Strong, dependendo da verdade na qual a pessoa escolhe acreditar.
E ao mesmo tempo que o sangue corria nos becos da Baixada das Pulgas, outra batalha era
travada acima do Fosso dos Dragões, no alto da Colina de Rhaenys.
Cogumelo não estava errado: enxames de ratos famintos de fato derrubam touros, ursos e leões,
quando há um número suficiente deles. Não importa quantos o touro ou o urso possa matar, sempre
há mais mordendo as pernas do grande animal, se aferrando à sua barriga, correndo pelas suas
costas. Foi assim naquela noite. Esses ratos humanos estavam armados com lanças, machados,
maças e meia centena de outros tipos de armas, incluindo arcos e bestas.
Mantos dourados do Portão do Dragão, obedecendo à ordem da rainha, saíram de seus
alojamentos para defender a colina, mas se viram incapazes de penetrar na multidão e deram as
costas, e o mensageiro enviado ao Velho Portão nunca chegou. O Fosso dos Dragões tinha seu
próprio contingente de guardas, mas eles eram em pequeno número e logo foram dominados e
massacrados quando a turba passou pelas portas (os imponentes portões principais, revestidos de
bronze e ferro, eram resistentes demais para ser derrubados, mas o prédio tinha diversas entradas
secundárias) e penetrou por janelas.
Talvez os invasores esperassem pegar os dragões dormindo do lado de dentro, mas o barulho do
ataque tornou isso impossível. Aqueles que sobreviveram para contar histórias depois falam em
gritos e berros, no cheiro de sangue no ar, na destruição de portas de carvalho e ferro a golpes de
aríetes improvisados e inúmeros machados. “Raras vezes tantos homens correram com tanta
ansiedade para suas piras funerárias, mas eles estavam tomados pela loucura”, escreveu mais tarde
o Grande Meistre Munkun. Havia quatro dragões vivendo no Fosso dos Dragões. Quando o primeiro
dos atacantes chegou à areia, todos os quatro estavam atentos, despertos e furiosos.
Não há dois cronistas que concordem em quantos homens e mulheres morreram naquela noite na
grande cúpula do Fosso dos Dragões: duzentos ou dois mil, como queira. Para cada homem que
pereceu, dez sofreram queimaduras, mas ainda assim sobreviveram. Confinados no fosso, contidos
por muralhas e cúpula, e presos por correntes pesadas, os dragões não podiam fugir voando ou usar
as asas para evitar ataques e se lançar sobre os inimigos. Em vez disso, lutaram com chifres, garras
e dentes, virando de um lado para o outro como touros numa rinha de ratos da Baixada das Pulgas...
Mas esses touros conseguiam lançar fogo. O Fosso dos Dragões foi transformado em um inferno
selvagem onde homens em chamas cambaleavam gritando em meio à fumaça, a carne descolando de
ossos escurecidos, mas para cada homem que morria dez outros surgiam, gritando que os dragões
precisavam morrer. E um a um eles morreram.
Shrykos foi o primeiro dragão a sucumbir, abatido por um homem da floresta conhecido como
Hobb, o Lenhador, que saltou em seu pescoço, cravando o machado no crânio da fera enquanto a
criatura rugia e se contorcia, tentando derrubá-lo. Hobb desferiu sete golpes, mantendo as pernas
travadas ao redor do pescoço do dragão, e a cada vez que baixava o machado ele rugia o nome de
um dos Sete. Foi o sétimo golpe, o golpe do Estranho, que matou o dragão, atravessando escamas e
ossos até o cérebro da fera.
Morghul, está escrito, foi morto pelo Cavaleiro Ardente, um enorme homem selvagem numa
armadura pesada que se atirou de cabeça na chama do dragão com lança em punho, cravando a
ponta no olho da fera repetidamente, mesmo com a chama de dragão derretendo a placa de metal
que o envolvia e devorando sua carne.
Tyraxes, do Príncipe Joffrey, recuou para seu abrigo, nos é dito, tostando tantos candidatos a
matador de dragão que correram atrás dele que a entrada logo foi bloqueada pelos seus cadáveres.
Mas é preciso lembrar que cada uma dessas cavernas feitas pelo homem tinha duas entradas, uma
voltada para a areia do fosso, a outra dando para a encosta da colina, e logo os revoltados invadiram
pela “porta dos fundos”, uivando em meio à fumaça com espadas, lanças e machados. Quando
Tyraxes se virou suas correntes se enrolaram, prendendo-o numa teia de aço que limitou seus
movimentos de modo fatal. Mais tarde, meia dúzia de homens (e uma mulher) alegariam ter dado o
golpe fatal no dragão.
O último dos quatro dragões no fosso não morreu tão facilmente. Diz a lenda que Dreamfyre
havia rompido duas de suas correntes quando a Rainha Helaena morrera. Então, naquele momento,
ela rompeu os grilhões restantes, arrancando as travas das paredes quando a turba a atacou, depois
se lançando sobre ela com dentes e garras, rasgando homens e arrancando seus membros enquanto
soltava seu fogo terrível. Enquanto outros se aproximavam, ela alçou voo, circulando pelo interior
cavernoso do Fosso dos Dragões e se lançando para atacar os homens abaixo. Tyraxes, Shrykos e
Morghul mataram muitos, não há dúvida, mas Dreamfyre abateu mais que todos os três juntos.
Centenas fugiram, aterrorizados, de suas chamas... Mas outras centenas, bêbadas, enlouquecidas
ou possuídas pela coragem do próprio Guerreiro, prosseguiram com o ataque. Mesmo no ponto mais
alto da cúpula a dragoa estava ao alcance fácil de arqueiros e besteiros, e flechas e setas eram
disparados sobre Dreamfyre sempre que se virava, a distância tão pequena que algumas até
penetraram em suas escamas. Sempre que ela pousava, os homens se lançavam ao ataque,
obrigando-a a voar de novo. Por duas vezes, a fera voou sobre os grandes portões de bronze do
Fosso dos Dragões, apenas para encontrá-los fechados e travados, e defendidos por fileiras de
lanças.
Incapaz de voar, Dreamfyre voltou ao combate, atacando seus agressores até que a areia do fosso
estivesse coberta de cadáveres calcinados e o próprio ar estivesse denso com fumaça e cheiro de
carne queimada, mas ainda assim as lanças e flechas voavam. O final chegou quando uma seta de
besta furou um dos olhos da dragoa. Parcialmente cega e enlouquecida por uma dúzia de ferimentos
menores, Dreamfyre abriu as asas e voou diretamente para a grande cúpula acima, numa última
tentativa desesperada de chegar ao céu aberto. Já enfraquecida por rajadas de fogo de dragão, a
cúpula se partiu com a força do impacto e um momento depois despencou, esmagando dragoa e
matadores de dragão sob toneladas de pedra partida e entulho.
A Invasão do Fosso dos Dragões terminara. Quatro dos dragões Targaryen estavam mortos,
embora a um custo hediondo. Mas a dragoa da própria Rainha estava viva e livre... E, quando os
sobreviventes queimados e ensanguentados da carnificina no fosso saíam cambaleando das ruínas
fumegantes, Syrax se lançou do alto sobre eles.
Mil guinchos e gritos ecoaram pela cidade, se fundindo ao rugido da dragoa. No alto da Colina de
Rhaenys, o Fosso dos Dragões tinha uma coroa de fogo amarelo, queimando tão brilhante que
parecia o sol nascendo. Até mesmo a rainha tremeu ao ver, as lágrimas reluzindo em sua face.
Muitos dos acompanhantes da rainha no teto fugiram, temendo que o fogo logo engolisse a cidade
inteira, até mesmo a Fortaleza Vermelha no cume da Colina de Aegon. Outros foram ao septo do
castelo para rezar por salvação. A própria Rhaenyra passou os braços ao redor do último filho vivo,
Aegon, o Jovem, apertando-o com toda força sobre o colo. E ela não o soltaria... até aquele momento
terrível quando Syrax tombou.
Sem correntes ou cavaleiro, Syrax poderia ter voado para longe da loucura. O céu era dela.
Poderia ter retornado para a Fortaleza Vermelha, abandonado a cidade, voado rumo a Pedra do
Dragão. Teria sido o barulho e o fogo que a atraíram para a Colina de Rhaenys, os rugidos e gritos
de dragões morrendo, o cheiro de carne queimada? Não podemos saber, não mais do que podemos
saber por que Syrax escolheu se lançar sobre a multidão, fazendo-a em pedaços com dentes e
garras, devorando dezenas, quando poderia ter lançado fogo sobre eles do alto, pois no céu nenhum
homem conseguiria machucá-la. Só podemos relatar o que aconteceu.
São contadas muitas histórias conflitantes sobre a morte da dragoa da rainha. Alguns dão o
crédito a Hobb, o Lenhador, e seu machado, embora isso quase seja um equívoco. O mesmo homem
poderia ter matado dois dragões na mesma noite e da mesma forma? Alguns falam de um lanceiro
anônimo, “um gigante encharcado de sangue” que saltou da cúpula quebrada do Fosso dos Dragões
sobre as costas da dragoa. Outros contam como um cavaleiro chamado Sor Warrick Wheaton cortou
uma asa de Syrax com uma espada de aço valiriano. Mais tarde, um besteiro chamado Bean
reivindicaria a morte, vangloriando-se disso em muitas tavernas, até um dos aliados da rainha se
cansar de sua língua solta e cortá-la. A verdade ninguém nunca saberá – exceto que Syrax morreu
naquela noite.
A perda de sua dragoa e seu filho deixou Rhaenyra Targaryen pálida e inconsolável. Ela se retirou
para seus aposentos enquanto os conselheiros debatiam. Porto Real estava perdida, todos
concordavam; eles precisavam abandonar a cidade. Relutante, Sua Graça foi persuadida a partir no
dia seguinte, ao amanhecer. Com o Portão da Lama tomado por seus inimigos e todos os navios ao
longo do rio queimados ou afundados, Rhaenyra e um pequeno grupo de seguidores escaparam pelo
Portão do Dragão, com a intenção de subir o litoral até Valdocaso. Com ela, cavalgavam os irmãos
Manderly, quatro guardas reais sobreviventes, Sor Balon Byrch e vinte mantos dourados, quatro das
damas de companhia da rainha e seu último filho vivo, Aegon, o Jovem.

Muito e mais estava acontecendo também em Tumbleton, e é para lá que devemos voltar os olhos.
Quando a notícia da agitação em Porto Real chegou à legião do Príncipe Daeron, muitos jovens
senhores ficaram ansiosos para avançar sobre a cidade. Os principais entre eles eram Sor Jon
Roxton, Sor Roger Corne e Lorde Unwin Peake... Mas Sor Hobert Hightower recomendou cautela, e
os Dois Traidores se recusaram a participar de qualquer ataque a não ser que suas exigências
fossem atendidas. Ulf, o Branco, como deve ser lembrado, desejava receber o grandioso castelo de
Jardim de Cima com todas as terras e rendas, enquanto Hugh, o Martelo, desejava ele mesmo nada
menos que a coroa.
Esses conflitos chegaram ao ápice quando Tumbleton soube tardiamente da morte de Aemond
Targaryen em Harrenhal. O Rei Aegon II não era visto nem se sabia dele desde a queda de Porto
Real para sua meio-irmã Rhaenyra, e muitos temiam que a Rainha o tivesse assassinado em segredo,
escondendo o cadáver para não ser condenada por ter matado um dos seus. Com o irmão Aemond
também morto, os verdes se viram sem rei e sem líder. O Príncipe Daeron era o seguinte na linha
sucessória. Lorde Peake declarou que o garoto devia ser proclamado Príncipe de Pedra do Dragão
imediatamente; outros, acreditando que Aegon II estava morto, desejavam que ele fosse coroado rei.
Os Dois Traidores também sentiam a necessidade de um rei... Mas Daeron Targaryen não era o
rei que desejavam.
– Precisamos de um homem forte que nos lidere, não um garoto – declarou Hugh Hammer. – O
trono deveria ser meu.
Quando Jon Roxton, o Audaz, exigiu saber segundo qual direito ele pretendia se fazer rei, Lorde
Hammer respondeu:
– O mesmo direito do Conquistador. Um dragão.
E de fato, com Vhagar morta, o mais antigo e maior dragão vivo em todo Westeros era Vermithor,
antiga montaria do Velho Rei, e naquele momento de Hugh Durão, o bastardo. Vermithor tinha o
triplo do tamanho da dragoa Tessarion, do Príncipe Daemon. Nenhum homem que os visse juntos
deixaria de perceber que Vermithor era uma fera muito mais perigosa.
Embora a ambição de Hammer fosse inadequada em alguém com nascimento tão inferior, o
bastardo tinha algum sangue Targaryen e se provara feroz em batalha e liberal com aqueles que o
seguiam, exibindo o tipo de generosidade que atrai homens a líderes como um cadáver atrai moscas.
Esses eram os piores tipos de homem, sem dúvida: mercenários, cavaleiros ladrões e ralé similar,
homens de sangue impuro e nascimento incerto que adoravam a batalha em si e viviam para rapinar
e saquear.
Contudo, os senhores e cavaleiros de Vilavelha e da Campina ficaram ofendidos com a arrogância
do Traidor – e ninguém mais que o próprio Príncipe Daeron Targaryen, que ficou tão irado que jogou
uma taça de vinho no rosto de Hugh Durão.
– Garotinhos deveriam ter melhores modos quando os homens estão falando – disse Lorde
Martelo, enquanto Lorde Branco lamentava o desperdício de um bom vinho. – Acho que seu pai não
bateu o suficiente em você. Cuidado para que eu não compense essa carência.
Os Dois Traidores saíram juntos e começaram a planejar a coroação de Hammer. Quando foi visto
no dia seguinte, Hugh Durão usava uma coroa de ferro preta, para fúria do Príncipe Daeron e seus
senhores e cavaleiros de nascimento elevado.
Um deles, Sor Roger Corne, foi ousado a ponto de derrubar a coroa da cabeça de Hammer.
– Uma coroa não faz de um homem um rei – falou Corne. – Você deveria usar uma ferradura na
cabeça, ferreiro.
Foi uma coisa tola a fazer. Lorde Hugh não achou graça. A um comando, seus homens prenderam
Sor Roger no chão, enquanto o ferreiro bastardo pregava não uma, mas três ferraduras no crânio do
cavaleiro. Quando os amigos de Corne tentaram intervir, punhais e espadas foram desembainhados,
deixando três homens mortos e uma dúzia ferida.
Isso era mais do que os senhores aliados do Príncipe Daeron estavam dispostos a suportar. Lorde
Unwin Peake e um Hobert Hightower ligeiramente relutante convocaram outros onze senhores e
cavaleiros com terras a um conselho secreto na adega de uma estalagem de Tumbleton, para
debater o que poderia ser feito para acabar com a arrogância dos cavaleiros de dragões de
nascimento baixo. Os conspiradores concordaram em que seria simples eliminar o Branco, que
estava bêbado a maior parte do tempo e nunca demonstrara qualquer habilidade notável com
armas. O Martelo era um perigo maior, pois nos últimos tempos vivia cercado dia e noite por
bajuladores, seguidores de acampamento e mercenários ansiosos para ter suas graças. Adiantaria
pouco a eles matar o Branco e deixar o Martelo vivo, destacou Lorde Peake; Hugh Durão precisava
morrer primeiro. Foram demoradas e ruidosas as discussões na estalagem sob a placa de Estrepe
Sangrento enquanto os senhores debatiam como isso poderia ser realizado.
– Qualquer homem pode ser morto, mas e quanto aos dragões? – perguntou Sor Hobert
Hightower.
Considerando o tumulto em Porto Real, disse Sor Tyler Norcross, apenas Tessarion deveria ser
suficiente para permitir que retomassem o Trono de Ferro. Lorde Peake retrucou que a vitória seria
muito mais certa com Vermithor e Silverwing. Marq Ambrose sugeriu que eles tomassem primeiro a
cidade e que se livrassem do Branco e do Martelo depois, quando a vitória estivesse garantida, mas
Richard Rodden insistiu que isso seria desonroso.
– Não podemos pedir que esses homens derramem sangue conosco para depois matá-los.
– Nós matamos os bastardos agora – resolveu a polêmica John Roxton, o Audaz. – Depois, que os
mais corajosos de nós tomem seus dragões e os montem para a batalha.
Nenhum homem naquela adega duvidou que Roxton falava de si mesmo.
Embora o Príncipe Daeron não estivesse presente no conselho, as Estrepes (como os
conspiradores ficaram conhecidos) relutavam em prosseguir sem seu consentimento e sua bênção.
Owen Fossoway, Senhor de Solar de Sidra, foi enviado sob a proteção da escuridão a fim de
despertar o príncipe e levá-lo à adega para que os conspiradores pudessem informá-lo de seus
planos. E o príncipe antes delicado não hesitou quando Lorde Unwin Peake apresentou a ele
mandados para a execução de Hugh Durão, o Martelo, e Ulf, o Branco, tendo colocado seu selo
ansiosamente.
Os homens podem planejar e conspirar, mas também devem rezar, pois nenhum plano já
concebido pelos homens jamais resistiu aos caprichos dos deuses lá em cima. Dois dias depois,
exatamente quando as Estrepes pretendiam atacar, Tumbleton despertou no meio da noite com
berros e gritos. Do lado de fora das muralhas da cidade, os campos queimavam. Colunas de
cavaleiros em armaduras desciam de norte e oeste trazendo a morte, choviam flechas e um dragão
se lançava sobre eles, terrível e feroz.
Assim começou a Segunda Batalha de Tumbleton.
O dragão era Seasmoke, seu cavaleiro, Sor Addam Velaryon, determinado a provar que nem
todos os bastardos precisavam ser vira-casacas. Como fazer isso melhor se não retomando
Tumbleton dos Dois Traidores, cuja traição o desonrara? Os cantores dizem que Sor Addam voara de
Porto Real até Olho de Deus, pousara na sagrada Ilha das Caras e se aconselhara com os Homens
Verdes. O acadêmico deve se limitar aos fatos conhecidos, e o que sabemos é que Sor Addam voou
rápido para longe, pousando em castelos grandes e pequenos cujos senhores eram leais à rainha,
para reunir um exército.
Muitas batalhas e escaramuças já foram travadas nas terras irrigadas pelo Tridente, e poucas
aldeias não haviam pagado sua cota de sangue... Mas Addam Velaryon era incansável, determinado
e eloquente, e os senhores do rio sabiam muito sobre os horrores cometidos em Tumbleton. Quando
Sor Addam estava pronto para se lançar sobre Tumbleton, ele tinha quase mil homens às suas
costas.
A grande legião acampada junto às muralhas de Tumbleton superava em número os atacantes,
mas eles estavam havia tempo demais no mesmo lugar. Sua disciplina relaxara e doenças também se
instalaram; a morte de Lorde Ormund Hightower os deixara sem um líder, e os senhores que
desejavam comandar no lugar dele estavam em conflito uns com os outros. Estavam tão
concentrados em seus próprios conflitos e rivalidades que se esqueceram dos verdadeiros inimigos.
O ataque noturno de Sor Addam os pegou desprevenidos. Antes mesmo que os homens do exército
do Príncipe Daeron soubessem que estavam em batalha, o inimigo já se achava entre eles, abatendo-
os quando saíam cambaleando de suas barracas, enquanto selavam seus cavalos, se esforçavam
para vestir armaduras e afivelaram os cintos das espadas.
Ainda mais devastador foi o dragão. Seasmoke se lançava repetidamente, soltando fogo. Logo,
cem barracas estavam em chamas, até mesmo os esplêndidos pavilhões de seda de Sor Hobert
Hightower, Lorde Unwin Peake e do próprio Príncipe Daeron. Nem a cidade de Tumbleton foi
poupada. Aquelas lojas, casas e septos poupados na primeira vez foram engolidos pelas chamas de
dragão.
Daeron Targaryen dormia em sua barraca quando o ataque teve início. Ulf, o Branco, estava
dentro de Tumbleton, dormindo depois de uma noite de bebedeira numa estalagem chamada Texugo
Obsceno que ele tomara para si. Hugh Durão, o Martelo, também estava dentro das muralhas da
cidade, na cama com a viúva de um cavaleiro morto na primeira batalha. Todos os três dragões
encontravam-se fora da cidade, em pastos além do acampamento.
Embora fossem feitas tentativas de despertar Ulf, o Branco, de seu sono ébrio, isso se provou
impossível. Lamentavelmente, ele rolou para baixo de uma mesa e roncou durante toda a batalha.
Mas Hugh Durão, o Martelo, reagiu mais rápido. Seminu, ele desceu correndo os degraus até o
pátio, pedindo seu martelo, sua armadura e um cavalo para que pudesse cavalgar até Vermithor e
montá-lo. Seus homens correram para obedecer, ao mesmo tempo que Seasmoke ateava fogo nos
estábulos. Mas Lorde Jon Roxton já estava no pátio.
Quando notou Hugh Durão, Roxton identificou sua chance.
– Lorde Hammer, minhas condolências – falou Roxton.
Hammer se virou, olhando feio.
– Pelo quê?
– Você morreu na batalha – retrucou Jon, o Audaz, desembainhando a Fazedora de Órfãos e
enfiando-a fundo na barriga do Martelo, antes de abrir o bastardo da virilha à garganta.
Uma dúzia dos homens de Hugh Durão chegou correndo a tempo de vê-lo morrer. Até mesmo
uma lâmina de aço valiriano como a Fazedora de Órfãos era de pouca valia a um homem quando se
tratava de um contra dez. Jon Roxton, o Audaz matou três antes de ser morto. Dizem que morreu
quando o pé escorregou nas tripas enroladas de Hugh, o Martelo, mas talvez o detalhe seja
demasiadamente irônico para ser verdade.
Há três relatos conflitantes sobre como morreu o Príncipe Daeron Targaryen. O mais conhecido
alega que o Príncipe saiu cambaleando de seu pavilhão com os trajes de dormir em chamas, para ser
abatido pelo mercenário de Myr, Trombo, o Negro, que esmagou seu rosto com um golpe de sua
maça de espigões. Essa versão é a preferida de Trombo, que a contou longamente. A segunda versão
é mais ou menos a mesma, com a diferença de que o Príncipe foi morto com uma espada, não uma
maça, e seu matador não foi Trombo, o Negro, mas um homem de armas desconhecido que nem
mesmo se deu conta de quem havia matado. Na terceira alternativa, o corajoso garoto chamado
Daeron, o Ousado, sequer saiu, tendo morrido quando seu pavilhão em chamas desabou sobre ele.
No céu acima, Addam Velaryon podia ver a batalha abaixo se transformando em uma retirada
apressada. Dois dos cavaleiros de dragão inimigos estavam mortos, mas ele não tinha como saber
disso. Contudo, ele sem dúvida podia ver os dragões inimigos. Desacorrentados, eram mantidos fora
das muralhas da cidade, livres para voar e caçar à vontade; Silverwing e Vermithor se enrolavam um
no outro nos campos ao sul de Tumbleton, enquanto Tessarion dormia e comia no acampamento do
Príncipe Daeron a oeste da cidade, a menos de cem metros de seu pavilhão.
Dragões são criaturas de fogo e sangue, e todos os três despertaram à medida que a batalha era
travada ao redor. Um besteiro disparou uma seta em Silverwing, nos contam, e duas vintenas de
cavaleiros montados cercaram Vermithor com espada, lança e machado, esperando eliminar a fera
enquanto ainda estava semiadormecida no chão. Pagaram com a vida por essa tolice. Em outro
ponto do campo, Tessarion levantou voo, guinchando e cuspindo chamas, e Addam Velaryon virou
Seasmoke para ir até ela.
As escamas dos dragões são em grande medida (embora não totalmente) imunes a chamas; elas
protegem a carne e a musculatura mais vulnerável abaixo. À medida que um dragão envelhece, as
escamas engrossam e ficam mais duras, oferecendo ainda mais proteção, e suas chamas se tornam
mais quentes e ferozes (enquanto as chamas de um filhote conseguem incendiar palha, as chamas
de Balerion ou Vhagar na plenitude de seu poder podiam derreter aço e pedra). Quando dois
dragões se enfrentam num combate mortal, portanto, eles com frequência usarão outras armas que
não suas chamas: garras pretas como aço, compridas como espadas e afiadas como navalhas,
mandíbulas tão poderosas que conseguem esmagar até mesmo a placa de aço de um cavaleiro,
caudas como chicotes cujos golpes são capazes de fazer carroças em pedaços, partir a coluna de
cavalos de batalha pesados e lançar homens quinze metros no ar.
A batalha entre Tessarion e Seasmoke foi diferente.
A história chama a luta entre o Rei Aegon II e sua irmã Rhaenyra de Dança dos Dragões, mas
apenas em Tumbleton os dragões verdadeiramente dançaram. Tessarion e Seasmoke eram dragões
jovens, mais ágeis no céu do que seus irmãos mais velhos. Eles se lançavam um contra o outro, até
que um ou outro desviasse no último instante. Planando como águias, mergulhando como falcões,
eles circulavam, batendo mandíbulas e rugindo, lançando fogo, mas nunca se aproximando. Em
certo momento, a Rainha Azul desapareceu em uma massa de nuvens para reaparecer um instante
depois, mergulhando sobre Seasmoke por trás para chamuscar seu rabo com um jorro de chama
cobalto. Enquanto isso, Seasmoke rolava, se inclinava e dava a volta. Num instante, ele estava
abaixo da inimiga, e de repente se contorcia no céu e aparecia atrás dela. Os dois dragões voaram
cada vez mais alto, enquanto centenas observavam dos telhados de Tumbleton. Um deles contou
depois que o voo de Tessarion e Seasmoke parecia mais uma dança de acasalamento do que uma
batalha. Talvez fosse.
A dança terminou quando Vermithor se ergueu no céu rugindo.
Com quase 100 anos e grande como os dois dragões jovens somados, o dragão de bronze com as
grandes asas bronzeadas estava furioso ao alçar voo, com sangue fumegando de doze ferimentos.
Sem cavaleiro, ele não distinguia amigo de inimigo, portanto lançou sua ira contra todos, cuspindo
chamas por todos os lados, se virando furiosamente contra qualquer homem que ousasse
arremessar uma lança em sua direção. Um cavaleiro tentou fugir diante dele, e Vermithor o pegou
com suas presas enquanto o cavalo do homem continuava galopando. Os lordes Piper e Deddings,
sentados juntos numa pequena elevação, queimaram com seus escudeiros, servos e guerreiros fiéis
quando a Fúria de Bronze os notou por acaso. Um instante depois, Seasmoke se lançou sobre ele.
Dos quatro dragões no campo naquele dia, Seasmoke era o único a ter um cavaleiro. Sor Addam
Velaryon fora provar sua lealdade destruindo os Dois Traidores e seus dragões, e ali estava um,
atacando os homens que se juntaram a ele para aquela batalha. Deve ter se sentido compelido a
protegê-los, embora soubesse no fundo do coração que Seasmoke não era páreo para o dragão mais
velho.
Essa não foi uma dança, mas uma luta até a morte. Vermithor estava voando a não mais de seis
metros acima da batalha quando Seasmoke se chocou com ele vindo do alto, jogando-o na lama aos
guinchos. Homens e meninos correram aterrorizados ou foram esmagados quando os dois dragões
rolaram e feriram um ao outro. Caudas estalaram e asas bateram no ar, mas as feras estavam tão
entrelaçadas que nenhuma conseguiu se soltar. Benjicot Blackwood viu a luta montado em seu
cavalo a cinquenta metros de distância. O tamanho e o peso de Vermithor eram demais para
Seasmoke suportar, contou Lorde Blackwood muitos anos depois, e ele teria feito o dragão prata
acinzentado em pedaços se Tessarion não tivesse caído do céu nesse mesmo instante para se juntar
à luta.
Quem conhece o coração de um dragão? Teria sido sede de sangue o que levou a Rainha Azul a
atacar? Será que a dragoa foi ajudar um dos combatentes? Se sim, qual? Alguns alegarão que o laço
entre um dragão e um cavaleiro de dragão é tão profundo que as feras partilham os amores e ódios
de seus mestres. Mas quem era o aliado ali, e quem era o inimigo? Um dragão sem cavaleiro
distingue amigo de inimigo?
Nunca teremos as respostas a essas perguntas. Tudo o que a história nos conta é que três
dragões lutaram em meio a lama, sangue e fumaça na Segunda Tumbleton. Seasmoke foi o primeiro
a morrer, quando Vermithor cravou os dentes em seu pescoço e arrancou sua cabeça. Depois o
dragão de bronze tentou voar com seu prêmio ainda nas mandíbulas, mas suas asas esfarrapadas
não conseguiram erguer seu peso. Depois de um momento, ele desabou e morreu. Tessarion, a
Rainha Azul, sobreviveu até o pôr do sol. Tentou três vezes subir ao céu, e três vezes fracassou. No
final da tarde, ela parecia sentir dor, então Lorde Blackwood convocou seu melhor arqueiro, um
especialista em arco longo conhecido como Billy Burley, que assumiu posição a cem metros de
distância (fora do alcance do fogo do dragão moribundo) e enfiou três flechas em seu olho enquanto
ela permanecia deitada e indefesa no chão.
Ao anoitecer, a luta estava encerrada. Embora os senhores do rio tivessem perdido menos de cem
homens enquanto abatiam mais de mil dos homens de Vilavelha e da Campina, a Segunda
Tumbleton não podia ser considerada uma vitória completa para os atacantes, pois não conseguiram
tomar a cidade. As muralhas de Tumbleton ainda estavam intactas, e, assim que os homens do rei
voltaram para dentro e fecharam os portões, as forças da rainha não tiveram como penetrar,
carecendo de equipamento de cerco e dragões. Ainda assim, produziram um grande massacre em
seus inimigos confusos e desorganizados, incendiaram suas barracas, eliminaram três quartos de
seus cavalos de batalha, mataram seu príncipe e abateram dois dos dragões do rei.
Na manhã seguinte à batalha, os conquistadores de Tumbleton olharam para fora das muralhas
da cidade e descobriram que seus inimigos haviam partido. Os mortos estavam espalhados por toda
parte ao redor da cidade, e entre eles as carcaças dos três dragões. Restava um: Silverwing, a
montaria da Boa Rainha Alysanne nos velhos tempos, subira aos céus no começo da carnificina e
circulara sobre o campo de batalha durante horas, planando nas correntes ascendentes dos
incêndios abaixo. Só depois que escureceu ela desceu, pousando ao lado de seus primos mortos.
Mais tarde, cantores nos contariam sobre como ela três vezes ergueu a asa de Vermithor com o
nariz, como se para fazê-lo voar de novo, mas isso é uma fábula. O sol nascente a encontraria
batendo as asas preguiçosamente no campo, se alimentando dos restos queimados de cavalos,
homens e gado.
Oito das treze Estrepes estavam mortos, entre eles Lorde Owen Fossoway, Marq Ambrose e Jon
Roxton, o Audaz. Richard Rodden levara uma flechada no pescoço e morreria no dia seguinte.
Restavam quatro dos conspiradores, entre eles Sor Hobert Hightower e Lorde Unwin Peak. Ulf, o
Branco, despertara de seu sono ébrio para descobrir que era o último cavaleiro de dragões e dono
do último dragão.
– O Martelo está morto, e seu menino também – teria dito ele a Lorde Peake. – Tudo o que lhe
resta sou eu.
– Nós marchamos, como você queria – respondeu o Branco quando Lorde Peake perguntou a ele
suas intenções. – Você toma a cidade, eu tomo o maldito trono. Que tal isso?
Na manhã seguinte, Sor Hobert Hightower o visitou para definir os detalhes de seu ataque a
Porto Real. Ele levou duas barricas de vinho como presente, um tinto de Dorne e um dourado da
Árvore. Embora Ulf, o Bêbado, nunca tivesse tomado um vinho de que não gostasse, era conhecido
por preferir os envelhecidos mais doces. Sem dúvida, Sor Hobert esperava tomar o tinto amargo
enquanto Lorde Ulf virava o dourado de Árvore. Mas algo nos modos de Hightower – ele suava,
gaguejava e estava animado demais, testemunhou mais tarde o escudeiro que os serviu – deixou o
Branco desconfiado. Assim, ele determinou que o tinto de Dorne fosse deixado para mais tarde e
insistiu em que Sor Hobert dividisse o dourado da Árvore com ele.
A história tem pouco a dizer de bom sobre Sor Hobert Hightower, mas nenhum homem pôde
questionar a honra de sua morte. Em vez de trair seus colegas Estrepes, ele permitiu que o
escudeiro enchesse sua taça, bebeu tudo e pediu mais. Assim que viu Hightower beber, Ulf, o
Bêbado, honrou seu nome, virando três taças antes de começar a bocejar. O veneno no vinho era
suave. Quando Lorde Ulf foi dormir, para não mais acordar, Sor Hobert se colocou de pé e tentou
vomitar, mas era tarde demais. Seu coração parou de bater em uma hora.
Depois, Lorde Unwin Peake ofereceu mil dragões de ouro a qualquer cavaleiro de nascimento
elevado que conseguisse domar Silverwing. Três homens se adiantaram. Quando o primeiro teve o
braço arrancado e o segundo queimou até a morte, o terceiro homem reconsiderou. A essa altura o
exército de Peake, remanescente da grande legião que o Príncipe Daeron e Lorde Ormund
Hightower haviam liderado desde Vilavelha, estava caindo aos pedaços à medida que desertores
fugiam de Tumbleton aos montes com todo o butim que conseguiam carregar. Reconhecendo a
derrota, Lorde Unwin convocou seus senhores e sargentos e ordenou uma retirada. O acusado de
vira-casaca, Addam Velaryon, nascido Addam do Casco, salvara Porto Real dos inimigos da Rainha...
Ao custo de sua própria vida.
Mas a rainha não sabia nada sobre sua origem. A fuga de Rhaenyra de Porto Real fora cheia de
dificuldades. Em Rosby, ela descobriu que os portões do castelo foram trancados à sua chegada. O
jovem castelão de Lorde Stokeworth lhe concedeu hospitalidade, mas apenas por uma noite. Metade
de seus mantos dourados desertara na estrada, e certa noite seu acampamento foi atacado por um
grupo de homens. Embora os cavaleiros tivessem expulsado os atacantes, Sor Balon Byrch foi
derrubado por uma flecha, e Sor Lyonel Bentley, um jovem cavaleiro da Guarda Real, recebeu um
golpe na cabeça que rachou seu elmo. Morreu delirando no dia seguinte. A rainha se apressou rumo
a Valdocaso.
A Casa Darklyn estivera entre os mais fiéis aliados de Rhaenyra, mas o custo dessa lealdade foi
alto. Apenas com a intercessão de Sor Harrold Darke a Senhora Meredyth Darklyn aceitara receber
a rainha dentro de suas muralhas (os Darke eram parentes distantes dos Darklyn, e Sor Harrold um
dia fora escudeiro do falecido Sor Steffon), e mesmo assim com a condição de que ela não
permanecesse muito tempo ali.
A Rainha Rhaenyra não tinha nem ouro nem navios. Ao mandar Lorde Corlys para as masmorras,
ela perdera sua frota e fugira de Porto Real temendo por sua vida, sem levar sequer uma moeda.
Desesperada e temerosa, Sua Graça ficou cada vez mais grisalha e perturbada. Não conseguia
dormir e não comia. Nem suportava ficar longe do Príncipe Aegon, seu último filho vivo; o menino
permanecia ao seu lado dia e noite, “como uma pequena sombra pálida”.
Rhaenyra foi obrigada a vender sua coroa para levantar os recursos para comprar uma passagem
num navio mercante de Braavos, o Violande. Sor Harrold Darke a conclamou a buscar refúgio com a
Senhora Arryn no Vale, enquanto Sor Medrick Manderly tentou convencê-la a acompanhá-lo e a seu
irmão, Sor Torrhen, de volta a Porto Branco, mas Sua Graça recusou as duas sugestões. Estava
determinada a retornar para Pedra do Dragão. Lá, ela encontraria ovos de dragões, contou aos seus
aliados; ela precisava ter outro dragão, ou tudo estaria perdido.
Ventos fortes empurraram o Violande para mais perto do litoral de Derivamarca do que a rainha
teria gostado, e três vezes passou a pouca distância dos navios de guerra da Serpente do Mar, mas
Rhaenyra tomou o cuidado de permanecer fora de vista. Finalmente o braavosi entrou no porto
abaixo de Monte Dragão à tarde. A rainha mandara um corvo para anunciar sua chegada e
encontrou uma escolta esperando ao desembarcar com o filho Aegon, suas damas e três cavaleiros
da Guarda Real, tudo o que restava de seu séquito.
Chovia quando o grupo da rainha pisou em terra, e não havia um rosto à vista no porto. Mesmo
os bordéis de beira de cais pareciam escuros e desertos, mas Sua Graça não reparou. Doente de
corpo e espírito, abalada pela traição, Rhaenyra Targaryen queria apenas retornar à própria casa,
onde imaginava que ela e o filho estariam em segurança. A rainha mal sabia que estava prestes a
sofrer a última e mais dolorosa traição.
Sua escolta, de quarenta homens, era comandada por Sor Alfred Broome, um dos homens
deixados para trás quando Rhaenyra lançara seu ataque a Porto Real. Broome era o mais antigo dos
cavaleiros em Pedra do Dragão, tendo ingressado na guarnição durante o reinado do Velho Rei.
Assim, ele esperara ser escolhido castelão quando Rhaenyra partiu para tomar o Trono de Ferro...
Mas a expressão sombria e os modos ásperos de Sor Alfred não inspiravam nem afeto nem
confiança, de modo que a rainha o colocara de lado em benefício do mais afável Sor Robert Quince.
Quando Rhaenyra perguntou por que Sor Robert não fora recebê-la pessoalmente, Sor Alfred
respondeu que a rainha iria ver “nosso gordo amigo” no castelo. E assim foi... Embora o corpo
calcinado de Quince estivesse queimado e irreconhecível quando chegaram lá, pendurado no
parapeito da guarita do portão ao lado do intendente, do mestre de armas e do capitão da guarda de
Pedra do Dragão. Apenas pelo tamanho eles o identificaram, pois Sor Robert fora imensamente
gordo.
Foi dito que o sangue desapareceu do rosto da Rainha quando viu os corpos, mas o jovem
Príncipe Aegon foi o primeiro a se dar conta do que aquilo significava.
– Mãe, fuja – gritou ele, porém tarde demais.
Os homens de Sor Alfred se lançaram sobre os protetores da rainha. Um machado partiu a
cabeça de Sor Harrold Darke antes que sua espada saísse da bainha, e Sor Adrian Redfort foi
atingido pelas costas com uma lança. Apenas Sor Loreth Lansdale se moveu rápido o bastante para
desferir um golpe em defesa da rainha, abatendo os dois primeiros homens que foram na direção
dela antes de ser ele mesmo morto. Com ele, morreu o resto da Guarda Real. Quando o Príncipe
Aegon pegou a espada de Sor Harrold, Sor Alfred jogou a lâmina de lado com desprezo.
O menino, a rainha e suas damas foram levados a ponta de lança pelos portões de Pedra do
Dragão até o pátio do castelo. Lá se viram cara a cara com um homem morto e um dragão
moribundo.
As escamas de Sunfyre ainda brilhavam como ouro batido à luz do sol, mas enquanto ele se
esticava sobre as pedras pretas valirianas do pátio era evidente que era uma coisa derrotada, ele
que fora o mais magnífico dragão a voar nos céus de Westeros. A asa quase arrancada do seu corpo
por Meleys se projetava num ângulo bizarro, enquanto cicatrizes ainda frescas ao longo das costas
continuavam a soltar fumaça e sangrar quando se movia. Sunfyre estava encolhido quando a rainha
e seu grupo o viram pela primeira vez. Quando ele se moveu e ergueu a cabeça, ficaram claros
enormes ferimentos ao longo do pescoço, onde outro dragão arrancara pedaços de sua carne. Na
barriga, havia pontos em que cascas substituíam escamas, e onde deveria estar seu olho esquerdo
havia apenas um buraco vazio, coberto de sangue preto seco.
É de pensar, como Rhaenyra certamente fez, como aquilo podia ter acontecido.
Hoje sabemos muito mais do que a rainha. Fora Lorde Larys Strong, o Pé-Torto, quem tirara o rei
e seus filhos da cidade quando os dragões da rainha surgiram no céu acima de Porto Real. De modo
a não passar por nenhum dos portões da cidade, onde poderiam ser vistos e depois lembrados,
Lorde Larys os conduzira por uma passagem secreta de Maegor, o Cruel, que apenas ele conhecia.
Também foi Lorde Larys quem determinou que os fugitivos deveriam se separar, para que,
mesmo se um deles fosse detido, os outros pudessem escapar. Sor Rickard Thorne recebeu a missão
de entregar o Príncipe Maelor, de 2 anos, a Lorde Hightower. A Princesa Jaehaera, a doce e simples
menina de 6 anos, foi colocada aos cuidados de Sor Willis Fell, que jurou que a levaria em segurança
até Ponta Tempestade. Um não sabia para onde o outro iria, de modo que não poderiam se trair caso
um deles fosse capturado.
E apenas o próprio Larys sabia que o rei, despido de seus trajes finos e vestindo uma capa de
pescador suja de sal, se escondera numa carga de bacalhau em um barco de pesca aos cuidados de
um cavaleiro bastardo com parentes em Pedra do Dragão. O Pé-Torto raciocinara que assim que
soubesse que o rei sumira, Rhaenyra mandaria homens caçá-lo... Mas um barco não deixa uma trilha
nas águas, e alguns caçadores nunca pensariam em procurar Aegon na ilha da própria irmã, às
sombras de sua fortaleza.
E ali Aegon poderia ter permanecido, escondido mas intocado, anestesiando sua dor com vinho e
escondendo suas cicatrizes de queimadura sob uma pesada capa, se Sunfyre não tivesse ido para
Pedra do Dragão. Poderíamos nos perguntar o que o levou de volta a Monte Dragão, pois muitos
perguntaram. Será que o dragão ferido, com sua asa quebrada parcialmente curada, seria movido
por um instinto básico de retornar ao seu local de nascimento, à montanha fumegante onde ele saíra
do ovo? Ou ele de algum modo sentiu a presença do Rei Aegon na ilha, além de muitas léguas e
mares agitados, e voou até lá para se reunir ao cavaleiro? Alguns chegam a sugerir que Sunfyre
sentiu uma necessidade desesperada de Aegon. Mas quem pode supor conhecer o coração de um
dragão?
Depois que o funesto ataque de Lorde Walys Mooton o expulsou do campo de cinza e ossos do
lado de fora de Pouso de Gralhas, a história perdeu Sunfyre de vista por meio ano. (Certas histórias
contadas nos salões de Crabbs e Brunes sugerem que o dragão poderia ter se abrigado nas matas
escuras de pinheiros e nas cavernas de Ponta da Garra Rachada durante parte desse período.)
Embora sua asa ferida tivesse se curado o suficiente para que voasse, sarara num ângulo feio e
permanecera fraca. Sunfyre já não podia planar, nem permanecer no ar por muito tempo, tinha de
lutar para voar mesmo distâncias curtas. Contudo, de algum modo, cruzara as águas da Baía da
Água Negra... Pois fora Sunfyre que os marinheiros no Nessaria viram atacando Grey Ghost. Sor
Robert Quince culpara Cannibal... Mas Tom Língua-Presa, um gago que ouvia mais do que falava,
continuara a oferecer cerveja aos volantinos, registrando todas as vezes em que falavam das
escamas douradas do atacante. Cannibal, como todos sabiam, era preto como carvão. E assim, os
Dois Tom e seus “primos” (uma meia-verdade, já que apenas Sor Marston partilhava seu sangue,
sendo filho bastardo da irmã de Tom Barba-Presa, resultado da primeira vez dela com um cavaleiro)
zarparam em seu pequeno barco para buscar o assassino de Grey Ghost.
O rei queimado e seu dragão aleijado encontraram novo sentido um no outro. A partir de um
abrigo escondido nas encostas orientais desoladas de Monte Dragão, Aegon se aventurava todos os
dias ao alvorecer, subindo ao céu pela primeira vez desde Pouso de Gralhas, enquanto os Dois Tom e
seu primo Marston Waters retornavam ao outro lado da ilha para buscar homens dispostos a ajudá-
los a tomar o castelo. Mesmo em Pedra do Dragão, que fora por muito tempo sede e fortaleza da
Rainha Rhaenyra, eles encontraram muitos que desgostavam da rainha por motivos bons e ruins.
Alguns tinham rancor por causa de irmãos, filhos e pais mortos durante a Semeadura ou durante a
Batalha da Goela, alguns esperavam butim ou promoções, enquanto outros acreditavam que um
filho tinha precedência sobre uma filha, considerando Aegon com mais direitos.
A rainha levara seus melhores homens consigo para Porto Real. Numa ilha, protegida pelos
navios da Serpente do Mar e com suas altas muralhas valirianas, Pedra do Dragão parecia
inatacável, então a guarnição que Sua Graça deixara para defendê-la era pequena, composta em
grande medida de homens considerados de pouca utilidade, grisalhos e meninos inexperientes, os
mancos, lentos e aleijados, homens se recuperando de ferimentos, homens de lealdade questionável,
homens suspeitos de covardia. Acima deles, Rhaenyra colocou Sor Robert Quince, um homem hábil
que se tornara velho e gordo.
Quince era um firme aliado da rainha, todos concordam, mas alguns dos homens abaixo dele
eram menos leais, acalentando ressentimentos e mágoas por antigos erros, reais ou imaginários.
Entre eles se destacava Sor Alfred Broome. Broome se mostrou mais que disposto a trair sua rainha
em troca de uma promessa de senhoria, terras e ouro caso Aegon II recuperasse o trono. Seu longo
tempo de serviço na guarnição lhe permitia aconselhar os homens do rei sobre as forças e as
fraquezas de Pedra do Dragão, quais guardas podiam ser subornados ou conquistados, e quais
precisavam ser mortos ou aprisionados.
Quando chegou o momento, a queda de Pedra do Dragão demorou menos de uma hora. Homens
enganados por Broome abriram um portão dos fundos durante a hora dos fantasmas para permitir
que Sor Marston Waters, Tom Língua-Presa e seus homens penetrassem no castelo sem ser vistos.
Enquanto um grupo tomava o arsenal e outro colocava sob custódia os leais guardas e o mestre de
armas de Pedra do Dragão, Sor Marston surpreendeu Meistre Hunnimore em seu viveiro, para que
nenhuma informação sobre o ataque pudesse vazar por intermédio de um corvo. O próprio Sor
Alfred liderou os homens que invadiram os aposentos do castelão e surpreenderam Sor Robert
Quince. Enquanto este lutava para se levantar da cama, Broome enfiou uma lança em sua enorme
barriga branca, num golpe desferido com tanta força que a lança saiu pelas costas de Sor Robert,
através do colchão de penas e palha, se cravando no piso abaixo.
O plano falhou em apenas um ponto. Enquanto Tom Língua-Presa e seus rufiões arrombavam a
porta dos aposentos da Senhora Baela para fazê-la prisioneira, a garota deslizou para fora da janela,
se esgueirou por telhados e desceu por paredes até chegar ao pátio. Os homens do rei tinham
tomado o cuidado de enviar guardas para proteger o estábulo onde os dragões do castelo eram
mantidos, mas Baela crescera em Pedra do Dragão e conhecia entradas e saídas que eles ignoravam.
Quando seus perseguidores a alcançaram, ela já havia soltado as correntes de Moondancer e
colocado uma sela sobre ela.
Então, quando o Rei Aegon II voou em Sunfyre sobre o pico fumegante de Monte Dragão e
começou a descer, esperando fazer uma entrada triunfal num castelo que estava seguro nas mãos de
seus homens, com os seguidores da rainha mortos ou capturados, subiu para ser recebido por Baela
Targaryen, filha do Príncipe Daemon com a Senhora Laena, destemida como o pai.
Moondancer era uma dragoa jovem, verde-clara, com chifres, crista e ossos das asas perolados.
Fora suas asas grandiosas, ela não era maior que um cavalo de batalha, e pesava menos. Contudo,
era muito rápida, e Sunfyre, embora muito maior, ainda lutava com uma asa malformada e recebera
novos ferimentos de Grey Ghost.
Eles se encontraram na escuridão antes do amanhecer, sombras no céu clareando a noite com
seus fogos. Moondancer evitou as chamas e as mandíbulas de Sunfyre, disparou por entre garras
que se fechavam, depois deu a volta e atacou o dragão maior por cima, abrindo um comprido
ferimento fumegante em suas costas e rasgando sua asa machucada. Observadores abaixo disseram
que Sunfyre se inclinou ebriamente no ar, lutando para permanecer planando, enquanto
Moondancer dava a volta e retornava na sua direção, cuspindo fogo. Sunfyre respondeu com um
jorro abrasador de uma chama dourada tão brilhante que iluminou o pátio abaixo como um segundo
sol, um jorro que acertou Moondancer bem nos olhos. Muito provavelmente a jovem dragoa ficou
cega naquele instante, mas ainda assim voou em frente, se chocando com Sunfyre num emaranhado
de asas e garras. Enquanto caíam, Moondancer atacou várias vezes o pescoço de Sunfyre,
arrancando nacos de carne, enquanto o dragão mais velho enfiava as garras em sua barriga. Envolta
em fogo e fumaça, cega e sangrando, Moondancer bateu as asas desesperadamente enquanto
tentava se soltar, mas todos os seus esforços apenas desaceleraram a queda deles.
Os observadores no pátio saíram correndo em busca de segurança enquanto os dragões se
chocavam contra a pedra dura, ainda lutando. No chão, a rapidez de Moondancer provou ser de
pouca valia contra o tamanho e o peso de Sunfyre. A dragoa verde logo tombou imóvel. O dragão
dourado gritou vitória e tentou subir ao céu mais uma vez, apenas para desabar no chão, com
sangue quente escorrendo dos ferimentos.
O Rei Aegon saltara da sela quando os dragões ainda estavam a seis metros do chão, quebrando
as duas pernas. A Senhora Baela permaneceu com Moondancer durante toda a descida. Queimada e
ferida, a garota ainda encontrou forças para soltar as correntes da sela e engatinhar para longe
enquanto sua dragoa se encolhia em seus últimos esgares de morte. Quando Alfred Broome
desembainhou a espada para matá-la, Marston Waters arrancou a lâmina de sua mão. Tom Língua-
Presa a carregou até o meistre.
Assim o Rei Aegon II conquistou a sede ancestral da Casa Targaryen, mas o preço que pagou por
isso foi terrível. Sunfyre nunca mais voltaria a voar. Ele permaneceu no pátio onde caíra, se
alimentando da carcaça de Moondancer, e depois de ovelhas abatidas para ele pela guarnição. E
Aegon II passou o resto da vida com muita dor... Embora, honra seja feita, dessa vez Sua Graça
tenha recusado o leite de papoula.
– Não seguirei esse caminho novamente – falou.
Pouco tempo depois, com o rei deitado no grande salão do Tambor de Pedra, as pernas quebradas
amarradas com talas, o primeiro dos corvos da rainha chegou de Valdocaso. Quando Aegon soube
que sua meia-irmã estaria retornando no Violande, ordenou que Sor Alfred Broome preparasse uma
“recepção adequada” de boas-vindas.
Tudo isso nós sabemos agora. Nada disso sabia a rainha quando desembarcou na armadilha do
irmão.
Rhaenyra riu ao ver a ruína de Sunfyre, o Dourado.
– De quem é essa obra? – perguntou. – Temos de agradecer a ele.
– Irmã – chamou o rei de uma varanda. Incapaz de andar, ou mesmo ficar de pé, ele fora
carregado para lá numa cadeira. O quadril fraturado em Pouso de Gralhas deixara Aegon curvado e
torto, seus traços um dia bonitos ficaram inchados por causa do leite de papoula, e cicatrizes de
queimaduras cobriam metade de seu corpo. Ainda assim, Rhaenyra o reconheceu imediatamente.
– Querido irmão. Eu esperava que estivesse morto.
– Depois de você – respondeu Aegon. – Você é a mais velha.
– Fico contente de saber que você se lembra disso – retrucou Rhaenyra. – Pareceria que somos
seus prisioneiros... Mas não pense que ficará muito tempo conosco. Meus leais senhores me
encontrarão.
– Se eles vasculharem os sete infernos, talvez – replicou o rei, enquanto seus homens arrancavam
Rhaenyra dos braços do filho. Segundo alguns relatos, foi Sor Alfred Broome quem segurou seu
braço, enquanto outros identificam os Dois Tom, Barba-Presa, o pai, e Língua-Presa, o filho. Sor
Marston Waters também testemunhou, vestindo uma capa branca, pois o Rei Aegon o nomeara seu
guarda real por sua bravura.
Mas nem Walters nem qualquer um dos outros cavaleiros e senhores presentes no pátio disseram
uma palavra de protesto enquanto o Rei Aegon II dava sua meia-irmã ao seu dragão. Sunfyre, foi
dito, não pareceu demonstrar interesse pela oferenda, até Broome furar a garganta da Rainha com
seu punhal. O cheiro de sangue despertou o dragão, que farejou Sua Graça, depois a envolveu num
jorro de fogo, tão de repente que a capa de Sor Alfred incendiou enquanto ele saltava para longe.
Rhaenyra Targaryen teve tempo de erguer a cabeça para o céu e berrar uma última maldição contra
o meio-irmão antes que as mandíbulas de Sunfyre se fechassem sobre ela, arrancando braço e
ombro.
O dragão dourado devorou a rainha em seis mordidas, deixando apenas a perna esquerda abaixo
da canela “para o Estranho”. O filho da Rainha assistiu horrorizado, incapaz de se mover. Rhaenyra
Targaryen, o Encanto do Reino e rainha por meio ano, passou deste véu de lágrimas no 22o dia da
décima lua do 130o ano depois da Conquista de Aegon. Tinha 33 anos de idade.
Sor Alfred Broome defendeu matar também o Príncipe Aegon, mas o Rei Aegon proibiu. Com
apenas 10 anos, o menino ainda poderia ter algum valor como refém, declarou. Embora sua meia-
irmã estivesse morta, ela ainda tinha aliados em campo com os quais seria preciso lidar antes que
Sua Graça pudesse se sentar no Trono de Ferro novamente. Então, o Príncipe Aegon foi acorrentado
por pescoço, pulso e tornozelo e levado para a masmorra abaixo de Pedra do Dragão. As damas de
companhia da falecida rainha, sendo de nascimento elevado, receberam celas na Torre do Dragão
Marinho, onde esperariam pelo resgate.
– O tempo de se esconder terminou – declarou o Rei Aegon II. – Que voem os corvos para que o
reino saiba que a pretendente está morta e que seu verdadeiro rei está indo para casa retomar o
trono de seu pai.
Mas mesmo reis de verdade podem descobrir que é mais fácil proclamar certas coisas do que
concretizá-las.
Nos dias seguintes à morte de sua meia-irmã, o rei ainda se aferrou à esperança de que Sunfyre
poderia se recuperar o suficiente para voar novamente. Em vez disso, o dragão apenas pareceu
enfraquecer ainda mais, e logo o ferimento em seu pescoço começou a feder. Até mesmo a fumaça
que ele exalava tinha um cheiro ruim e no final não mais comia. No nono dia da 12o lua de 130 D.C.,
o magnífico dragão dourado que havia sido a glória do Rei Aegon morreu no pátio de Pedra do
Dragão onde tombara. Sua Graça chorou.
Quando a dor passou, o Rei Aegon II convocou seus seguidores e fez planos para seu retorno a
Porto Real a fim de retomar o Trono de Ferro e se reunir novamente à senhora sua mãe, a Rainha
Viúva, que triunfara sobre sua grande rival, no mínimo por sobreviver a ela.
– Rhaenyra nunca foi uma rainha – declarou o rei, insistindo em que a partir de então, em todas
as crônicas e em todos os registros da corte, sua meia-irmã fosse identificada apenas como
“princesa”, com o título de rainha sendo reservado à sua mãe Alicent e sua falecida esposa e irmã
Helaena, as “verdadeiras rainhas”. E assim foi decretado.
Mas o triunfo de Aegon acabaria sendo breve. Rhaenyra estava morta, mas sua causa não
morrera com ela, e novos exércitos “negros” estavam em marcha ao mesmo tempo que o rei
retornava à Fortaleza Vermelha. Aegon II se sentaria novamente no Trono de Ferro, mas nunca se
recuperaria dos ferimentos, não conheceria alegria ou paz. Sua restauração iria durar apenas meio
ano.
Mas o relato de como o Segundo Aegon caiu e foi sucedido pelo Terceiro é uma história para
outro tempo. A guerra pelo trono prosseguiria, mas a rivalidade que começara em um baile da corte
quando uma princesa se vestira de preto e uma rainha de verde chegara ao seu final vermelho, e
com isso termina esta parte de nossa história.
***
GEORGE R.R. MARTIN
nasceu em 1948 em Nova Jersey e é formado em jornalismo pela North Western University, em
Chicago. Publicou sua primeira história de ficção científica, The Hero, em 1971, e logo se firmou
como escritor de rara qualidade, ganhando três Hugos, dois Nebulas e o Prêmio Bram Stoker.
Passou dez anos em Hollywood como roteirista e editor de histórias nos seriados de TV The Twilight
Zone (no Brasil, Além da Imaginação) e Beauty and the Beast – neste último como roteirista e
produtor. Depois, iniciou sua fantástica série “As Crônicas de Gelo e Fogo”, que deu origem ao
sucesso da HBO – Game of Thrones. A série conta até agora com os títulos A guerra dos tronos, A
fúria dos reis, A tormenta de espadas, O festim dos corvos e A dança dos dragões, todos publicados
pela LeYa. Outros livros do autor lançados pela LeYa são: A morte da luz, A filosofia de Tyrion
Lannister, Ocavaleiro dos Sete Reinos, O dragão de gelo, Sonho febril, a série “Wild Cards” e as
graphic novels O cavaleiro andante, A espada juramentada e A guerra dos tronos (vol. I, II, III e IV).

GARDNER DOZOIS
nasceu em 1947, é autor de ficção científica. Foi agraciado diversas vezes com os prêmios Hugo,
Locus e Nebula, e tem seu nome no Science Fiction Hall of Fame, graças às antologias e revistas
que editou sobre o tema. Publicou vários livros em parceria com George R.R. Martin, entre eles o
livro Hunter’s Run.
HISTÓRIAS INÉDITAS DE MULHERES PERIGOSAS
DO PASSADO, PRESENTE E FUTURO E DE ALGUNS
DOS MAIORES ESCRITORES DA ATUALIDADE

N esta antologia organizada por George R.R. Martin e Gardner Dozois, quem entra na briga são
as mulheres. Nem totalmente boas nem completamente más, as personagens femininas destes
contos vão além dos estereótipos da donzela em perigo ou da bruxa má. Prepare-se para se envolver
em todos os tipos de perigo criados e enfrentados por elas – incluindo uma guerra civil Targaryen
travada 200 anos antes dos eventos de A guerra dos tronos, de George R.R. Martin, numa novela
inédita que retrata a primeira “Dança dos Dragões”.

“Aqui você não encontrará vítimas desamparadas que choramingam de medo enquanto o mocinho
combate o monstro ou luta contra o vilão, e, se quiser amarrar essas mulheres a trilhos de trem,
terá pela frente uma boa luta. Em vez disso, você encontrará guerreiras brandindo espadas;
intrépidas pilotos de caça e espaçonautas de longo curso; assassinas em série letais; super-heroínas
formidáveis; mulheres fatais maliciosas e sedutoras; senhoras da magia; meninas más criadas na
dureza; bandoleiras e rebeldes; sobreviventes endurecidas em futuros pós-apocalípticos;
investigadoras particulares; duras juízas de pena capital; rainhas orgulhosas que comandam nações
e cujos ciúme e ambições mandam milhares para mortes horrendas; cavaleiras de dragões ousadas e
muito mais.”

– Extraído da “Apresentação” do livro

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