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Neuroimagem e a Voz Cantada: Revisão

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Marconi Andrade
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Rev. CEFAC. 2017 Jul-Ago; 19(4):556-564 doi: 10.

1590/1982-021620171942317

Artigos de revisão

Contribuições da neuroimagem no estudo da voz cantada:


revisão sistemática
Contributions of neuroimaging in singing voice studies: a systematic review
Geová Oliveira de Amorim(1)
Lucas Carvalho Aragão Albuquerque(2)
Leandro de Araujo Pernambuco(3)
Patricia Maria Mendes Balata(4)
Brunna Thaís Luckwü-Lucena(3)
Hilton Justino da Silva(2)

(1)
Escola Técnica de Artes -ETA, RESUMO
Universidade Federal de Alagoas-UFAL,
Maceió, Alagoas, Brasil. Admite-se que o canto seja uma atividade de alta complexidade pois requer ativação e interconexão de
(2)
Departamento de Fonoaudiologia, áreas sensório-motoras. Esta pesquisa teve como objetivo apresentar as evidências originadas por estu-
Universidade Federal de Pernambuco, dos de neuroimagem sobre a atuação do sistema motor e sensitivo na produção do canto. Na construção
Recife, Pernambuco, Brasil. da revisão sistemática, foram premissas o período de publicação entre 1990 e 2016, artigos publicados
(3)
Departamento de Fonoaudiologia, em periódicos indexados e constantes nas bases de dados PubMed, BIREME, Lilacs, Web of Science,
Universidade Federal da Paraíba, João Scopus ou EBSCO, referentes a estudos sobre características do canto humano analisadas por neuroi-
Pessoa, Paraíba, Brasil. magem. Os nove artigos analisados, com emprego de magnetoencefalografia, imagem por ressonância
(4)
Hospital do Servidores do Estado magnética funcional, tomografia por emissão de pósitrons ou eletrocorticografia, possibilitaram compro-
de Pernambuco (HSE), Recife, var existência de uma rede neuronal interligada entre a modalidade falada e cantada para identificação,
Pernambuco, Brasil. modulação e correção de violações de pitch, que podem ser alteradas com o treinamento do cantor, bem
Fonte de auxílio: MCTI/CNPQ/Universal como alteração da estrutura melódica e harmonização do canto, amusia, relação entre áreas cerebrais
14/2014 - Faixa A responsáveis pela fala, canto e persistência da musicalidade. Assim, o conhecimento das áreas cerebrais
e das interconexões necessárias ao canto ainda é escasso e deve ser um tema de pesquisas no futuro,
Conflito de interesses: inexistente empregando métodos de neuroimagem.
Descritores: Voz; Neuroimagem; Música

ABSTRACT
It is assumed that singing is a highly complex activity, which requires the activation and interconnection of
sensorimotor areas. The aim of the current research was to present the evidence from neuroimaging stu-
dies in the performance of the motor and sensory system in the process of singing. Research articles on
the characteristics of human singing analyzed by neuroimaging, which were published between 1990 and
2016, and indexed and listed in databases such as PubMed, BIREME, Lilacs, Web of Science, Scopus,
Recebido em: 06/03/2017 and EBSCO were chosen for this systematic review. A total of 9 articles, employing magnetoencephalo-
Aceito em: 08/07/2017 graphy, functional magnetic resonance imaging, positron emission tomography, and electrocorticography
were chosen. These neuroimaging approaches enabled the identification of a neural network interconnec-
Endereço para correspondência:
Geová de Oliveira Amorim
ting the spoken and singing voice, to identify, modulate, and correct pitch. This network changed with the
Escola Técnica de Artes -ETA, singer’s training, variations in melodic structure and harmonized singing, amusia, and the relationship
Universidade Federal de Alagoas - UFAL among the brain areas that are responsible for speech, singing, and the persistence of musicality. Since
Av. Dr. Maria Nunes Vieira, 126, apto 204 knowledge of the neural networks that control singing is still scarce, the use of neuroimaging methods to
Maceió, Alagoas, Brasil elucidate these pathways should be a focus of future research.
CEP: 57035-553
E-mail: geovafono@[Link] Keywords: Voice; Neuroimaging; Music
Neuroimagem no estudo da voz cantada | 557

INTRODUÇÃO a função do canto na coesão social, na motivação e na


O canto é um comportamento vocal muito especia- constituição de identidade de um grupo.
lizado presente em uma gama muito pequena de A fim de contribuir com esta área do conhecimento
animais, dentre os quais estão o homem e as diversas este estudo tem por objetivo apresentar as evidências
espécies de pássaros. A produção da voz cantada é originadas por estudos de neuroimagem sobre a
mediada por um sistema especializado cerebral, consti- ativação do sistema motor e sensitivo na produção do
tuído por áreas cerebrais específicas e interconexões1. canto.
O aprendizado do canto diferencia os animais
cantantes em dois grupos: uns que aprendem apenas MÉTODOS
por um período da vida e outros que o fazem durante
toda a vida1. Da comparação entre esses dois grupos Procedeu-se a uma revisão sistemática, separa-
de animais cantantes, bem como entre eles e pássaros damente, por pesquisadores treinados (GOA, HJS e
que não cantam, emergiu o conhecimento de que o PMMB), admitindo como critérios de inclusão serem
aprendizado do canto é uma característica evolutiva, artigos que contivessem um ou mais dos seguintes
nova, que depende da constituição de novos centros descritores: <neuroimagem>, <voz>, <treinamento
de controle neural2. vocal> e <cantores>, nos idiomas português, inglês,
e espanhol, publicados no período de 1990 a 2016, em
Comparando o comportamento vocal de homens
periódicos indexados e constantes em uma das bases
com o de seus semelhantes genéticos mais próximos
de dados PubMed, BIREME, Lilacs, Web of Science,
(chimpanzés e babuínos), as dessemelhanças apontam
Scopus ou EBSCO.
que a capacidade de canto dos humanos não pode ter
provindo de um aprendizado ancestral das espécies No tocante aos critérios de exclusão, não foram
de homonídeos. A hipótese mais provável é que o incluídos nessa revisão trabalhos publicados em
sistema de canto humano seja uma especialização congressos, capítulos de livros, teses de mestrado e
neural nova, análoga ao sistema dos pássaros1,2. O doutorado, além de artigos quem envolvam questões
sentido de especialização deriva, dentre outros fatores, relativas apenas a voz falada.
de o homem poder exercer controle volicional da frequ- Tendo sido identificados os artigos nas referidas
ência vocal fundamental, especialmente no canto sem base de dados procedeu-se a análise dos títulos dos
palavras como o arpejo, crucialmente dependente dos 21 artigos localizados. Na fase de triagem, dois artigos
movimentos das pregas vocais3. foram excluídos: um devido aos sujeitos de pesquisa
São escassos os estudos que abordam os serem aves do tipo pombo4 e outro artigo porque se
aspectos neurológicos da produção do canto, visto referia à análise exclusiva de aspectos da voz falada5.
que pesquisadores habitualmente não investigam a A partir da leitura dos resumos, foram descartados: um
capacidade musical de sujeitos não cantores para fins artigo que apresentava abordagem exclusiva da voz
de comparação. falada6e um referente à ativação dopaminérgica do
Nas últimas duas décadas, estudos de neuroi- canto de pássaros7. Na fase final de leitura dos artigos
magem têm objetivado identificar a ativação de áreas na versão original e integral, os pesquisadores, de forma
sensório-motoras cerebrais durante o canto de uma independente, excluíram ainda: um artigo específico
nota repetida ou sustentada, a emissão de palavra para mapeamento auditivo-motor de controle de pitch8
cantada em diferentes ritmos, trechos de músicas ; outro com análise da atuação do córtex cerebral após
populares ou de árias italianas, bem como canto estimulação transcraniana na leitura e na execução de
harmônico, ou seja, a produção de dois ou mais tarefas musicais9; um estudo com foco no emprego da
sons simultaneamente. Os achados apontam para terapia de entonação melódica para melhoria de casos
a compreensão do processamento de percepção e graves de afasia não fluente10 e dois outros por serem
produção do canto, que pode ajudar no treinamento revisões sistemáticas11,12 . Nas etapas de pesquisa,
de cantores e profissionais da voz, bem como de avaliação dos estudos e análise dos dados os pesqui-
sujeitos com distúrbio de voz falada ou cantada, já que sadores estabeleceram o confronto das respectivas
as redes neurais são comuns às duas tarefas 2,4. Esse análises, compararam os resultados e, por consenso,
contexto é socialmente relevante quando se considera dirimiram as discordâncias (Figura 1).

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Estudos identificados nas bases de dados


Identificação

(PubMed = 5, EBSCO = 2, SCOPUS = 2,


Web of Science = 9)
(n = 18)

Artigos removidos
Artigos analisados a partir da leitura dos 01 – sujeitos da pesquisa serem pombos4
títulos 01 – análise exclusiva da produção da voz
(n = 18) falada5
Triagem

Exclusão de dois artigos


Artigos selecionados para leitura de 01 – abordagem exclusiva de aspectos da voz
resumos falada6
(n = 16) 01 – ativação dopaminérgica do canto de
pássaros e da voz humana7

Cinco artigos excluídos


01 – mapeamento auditivo-motor do controle de pitch8
Elegibilidade

01 – análise da atuação do córtex cerebral após


Artigos completos para avaliar
estimulação transcraniana na leitura e na execução de
elegibilidade tarefas musicais9
(n = 14) 01 – emprego da terapia de entonação melódica para
melhoria da produção da fala na afasia grave não
fluente10
02 – Revisões sistemáticas11,12
Inclusão

Artigos incluídos síntese qualitativa


(n = 09)

Figura 1. Fluxograma da seleção de artigos para a revisão sistemática

REVISÃO DA LITERATURA al.14, de Zarate, Wood e Zatorre4, de Rosslau et al.15, de


Integram esta revisão 9 artigos, os quais foram Callan et al.16, Roux et al.17, e Jungblut et al.18 que inves-
agrupados segundo a contribuição da neuroimagem tigaram áreas cerebrais responsáveis pela produção e
na análise dos temas centrais: alteração da estrutura percepção de ritmo durante o canto (Figura 2).
melódica do canto, harmonização do canto, amusia, Os estudos de neuroimagem demonstram que
relação entre áreas cerebrais responsáveis pela fala e o aprendizado e a produção do canto (song control
pelo canto e persistência da musicalidade.
system) dependem da ação de diversas áreas
Perry et al.3 publicaram um dos primeiros estudos
cerebrais, atuando em uma rede neural específica,
abordando a identificação de regiões cerebrais envol-
para conferir o sentido da musicalidade, conceituada
vidas no canto simples (de uma nota apenas ou com
como a capacidade de geração de sentido através
manutenção de pitch, entendido como a frequência
fundamental da voz). Brown et al.1 analisaram a do fazer musical expressivo14. A produção do canto
alteração da estrutura melódica e a harmonização do tem sido estudada pela alteração da sua estrutura
canto. Ao estudo da amusia se dedicaram Terao et melódica, pela harmonização, pela amusia e persis-
al.13. A relação entre as áreas cerebrais responsáveis tência do canto e da musicalidade em pacientes com
pela fala e pelo canto foi tema dos estudos de Wilson et afasia de Broca1.

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Neuroimagem no estudo da voz cantada | 559

Desenho de
Autor(es) Ano Objetivo Achados Conclusões
estudo
Investigar o fluxo O fluxo sanguíneo cerebral
O canto e a emissão de uma
sanguíneo cerebral aumenta nas áreas cerebrais
vogal em um único pitch
durante o canto simples Estudo relacionadas ao controle
parecem ativar as mesmas
em contraste com a primário, motor, como na fala, porém
Perry et al.3 1999 áreas cerebrais da fala,
escuta passiva de tons transversal, as alterações no giro
porém em algumas regiões
complexos utilizando observacional direito de Heslch estiveram
houve ativação assimétrica
tomografia de emissão relacionadas à percepção de
exclusivamente no canto
de pósitrons (PET) frequência fundamental
Investigar o sistema
vocal multifatorial
empregando tomografia No geral, o maior aumento do As três tarefas de escuta a
de emissão de pósitrons fluxo sanguíneo ocorreu nos resposta ativam o opérculo
(PET) para investiar o Estudo córtices auditivos primário frontal (área de Broca)
sistema de escuta e primário, e secundário, córtex motor envolvida na sequência
Brown et al. 1 2004
resposta de cantores não transversal, primário, opérculo frontal, de produção e imitação
profissionais cantando observacional ínsula, cerebelo posterior cognitiva motora, implicada
repetidamente ou e área posterior 22 de na imitação musical e no
harmonizando melodias Brodmann aprendizado vocal
novas e cantando
monotonicamente.
Descrever aspectos
psicofísicos de amusia
vocal em uma cantora Imagem por ressonância O dano no córtex do
profissional de tango magnética demonstrou que o hemisfério cerebral direito
Terao et al.13 2006 Relato de caso
após acidente vascular dano no córtex parietal direito produz perda perceptiva e
encefálico envolvendo afetou a percepção do pitch expressiva na música
córtex temporal superior
do hemisfério direito
Eletrocorticografia por
estimulação durante cirurgia A identificação de
Identificar as áreas
para retirada de tumor dissociação aponta que
cerebrais envolvidas no
Roux et al.17 2009 Relato de casos demonstrou dissociação essas duas funções
canto, adicionalmente às
entre fala e canto fora da área empregam caminhos neurais
áreas de linguagem
cerebral sensório-motora distintos
primária
Por imagem de ressonância A especialização de cantores
Investigar a relação entre magnética funcional foi líricos promove menor
Estudo
as funções musicais comprovado que o canto interdependência das áreas
primário,
Wilson et al.14 2011 e de linguagem e sua e a fala ocupam áreas cerebrais de canto e fala,
transversal,
interação com as tarefas cerebrais contíguas, cuja demonstrando um processo
observacional
de canto lírico interrelação se reduz com a mais refinado e menos
especialização do cantor dependente da fala
Durante as correções de
Por imagem de ressonância pitch, o sulco temporal
Analisar a regulação Estudo magnética funcional foi posterior superior interage
Zarate, Wood, voluntária e involuntária primário, comprovado que as menores com a porção anterior da
2010
Zatorre4 do pitch e sua correlação transversal, adequações do pitch estão zona rostral cingulada e a
com as vias neurais observacional sob menor controle voluntário porção anterior da ínsula,
que as grandes variações antes da correção voluntária
do pitch ocorrer.

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Desenho de
Autor(es) Ano Objetivo Achados Conclusões
estudo
Comparar dois grupos Por magnetoencefalografia,
As alterações de pitch na
profissionalmente comprovaram haver uma
Estudo voz falada ativaram a região
treinados para canto rede neuronal interligada
primário, temporal esquerda, mas
Rosslau et al.15 2016 ou fala, cantores e entre a modalidade falada e
transversal, aquelas da voz cantada, o
atores, para avaliar a cantada para identificação
observacional fizeram na região temporal
ativação evocada por e correção de variações de
direita.
magnetoencefalografia pitch
Por imagem por ressonância
magnética funcional, foi
identificado que estiveram
Houve um padrão diferencial
envolvidas na escuta e
Investigar regiões entre fala e canto. A fala
na produção da fala e do
cerebrais similarmente Estudo empregou mais o lobo
canto, as regiões do plano
ou diferentemente primário, temporal esquerdo, quando
Callan et al.16 2006 temporal esquerdo e a região
envolvidas na escuta e transversal, comparada ao canto, tanto na
parietotemporal superior, o
na produção do canto, observacional escuta quanto na produção,
córtex pré-motor bilateral,
comparado à fala porém no lobo temporal
região lateral do VI lóbulo
direito predominou o canto
do cerebelo, o giro superior
anterior temporal e o planum
polare.
Por imagem por ressonância
magnética funcional, foi
identificado que a ativação
Investigar áreas cerebrais Estudo da área motora suplementar A estrutura rítmica é um fator
Jungblut responsáveis pela primário, bilateral, do córtex pré-motor decisivo para a lateralização
2012
et al.18 percepção do ritmo na transversal, no hemisfério esquerdo foram e para ativação de áreas
música observacional comuns ao canto e à fala e específicas durante o canto
outras áreas tiveram maior
ativação em expressões
rítmicas mais complexas
Figura 2. Características dos artigos incluídos na revisão sistemática

Um dos primeiros estudos empregando neuroi- autores identificaram também interações entre o córtex
magem foi de Perry et al.3, que empregaram tomografia cingulado anterior e o auditivo, o que pode indicar
de emissão de pósitrons (TEP/PET) para determinação que as áreas corticais auditivas podem exercer função
do fluxo sanguíneo de 13 voluntários enquanto vocali- de decodificação para oferecer feedback para vocali-
zavam repetidamente um único pitch ou escutavam zações desejadas, tanto ignorando eventos acústicos
tons complexos de variação de frequência similar à como concentrando atenção no canto propriamente
do canto com o objetivo de comparar a ativação de dito, o que se caracteriza como figura-fundo3.
áreas cerebrais durante as duas tarefas. Os autores Esses achados desencadearam outros estudos,
tomaram por base do estudo os resultados de estimu- para detalhamento das áreas cerebrais envolvidas no
lações elétricas cerebrais diretas, caracterizadas canto. Assim, a harmonização do canto foi estudada
pela produção de sons. Admitiram que tais emissões por Brown et al.1 que realizaram estudo transversal,
poderiam derivar do aumento do fluxo sanguíneo em observacional, de intervenção submetendo cinco
regiões corticais como giros pré-centrais, área motora cantores e cinco cantoras, todos amadores, à TEP/
suplementar e córtex cingulado anterior. PET, As tarefas foram repetição de melodias, canto
A localização da área motora suplementar no canto harmônico, vocalização de sequências isocrônicas
repetido foi fundamentalmente idêntica à da fala no monotônicas e repouso com os olhos fechados.
sulco cingulado e no cerebelo, porém com pico corres- Os autores identificaram que a harmonização do
pondente ao menor nível de controle motor vocal. Os canto, onde o indivíduo produz dois ou mais sons

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simultaneamente se assemelha ao canto monofônico, paciente estavam relacionados ao desempenho motor


em que a melodia da voz é desprovida de qualquer para vocalização mais do que ao feedback auditivo.
acompanhamento como ocorre no canto grego- Com isso confirmaram a possibilidade de a amusia
riano, porque ambos envolvem a criação de uma decorrer do comprometimento do processamento do
linha melódica única, dificultando a caracterização da pitch envolvendo conexões específicas entre as áreas
área cerebral predominante em uma ou outra tarefa. corticais motoras e auditivas, desestabilizando a trans-
No entanto puderam comprovar que houve maior formação efetiva da maquinaria auditiva ou de memória
bilateralidade nas áreas de alto nível elétrico (Área em emissão vocal intencional19.
de Brodmann – BA 22 e 38) para a harmonização, Análogo ao estudo de Terao et al.13, esteve
comparada ao canto monofônico. Todavia essa a descrição de casos clínicos de cinco cantores
bilateralidade não pode ser atribuída exclusivamente amadores submetidos a cirurgia para retirada de tumor
à harmonização do canto. Os autores explicaram seu encefálico e a testes de fala e canto, na hipótese de que
achado admitindo como hipóteses haver uma especia- as áreas de fala e canto poderiam manter conexões
lização da área auditiva no hemisfério esquerdo para comuns. Ao analisar os dados eletrocortigráficos
harmonia ou ainda se tratar de um efeito acústico gerados por estimulação cerebral durante a neuroci-
consequente à presença de um número maior de notas rurgia de retirada dos tumores, os autores constataram
e da textura musical da condição harmônica1. que o canto sempre ficava comprometido quando
Estendendo seu estudo, Brown et al.1 ainda compro- da estimulação do giro pré-central, independente da
varam que o sistema de canto humano envolvido na dominância manual do paciente. A estimulação das
imitação, na repetição e nos processos de adequação áreas faciais, da língua e das pregas vocais alterou o
do pitch dependem de áreas cerebrais que podem canto, já que essa função requer bilateralidade para ser
ser hierarquicamente agrupadas em áreas vocais e realizada. Todavia a estimulação do giro frontal médio e
auditivas primárias, secundárias e áreas cognitivas de inferior direito só promoveram interferência no canto de
alto nível. As primárias do córtex auditivo (BA 41) e do um paciente. Os autores concluíram que as alterações
córtex motor na região da boca (BA 4) são elicitadas distintas no canto e na fala indicaram, pioneiramente,
em todas as tarefas do estudo. No córtex auditivo, que essas funções elicitam áreas cerebrais distintas,
essas mesmas tarefas dependem das áreas BA 42 pelo menos em alguns estágios, possibilitando melhor
e BA 22, da área motora (BA 6), do opérculo frontal compreensão dos casos de amusia em pacientes sem
(BA 44/6) e da ínsula esquerda. A convergência dos comprometimento de fala.
resultados permitiu lançar a hipótese de que a parte A hipótese da existência de áreas distintas para o
superior do lobo temporal bilateralmente pode ainda processamento da fala e do canto, de tal forma que
se constituir em um terceiro nível auditivo especia- para este as áreas auditivas secundárias e terciárias
lizado para processamento de melodias com pitch de seriam mais recrutadas quanto maior a complexidade
alto nível. do pitch, da musicalidade e do, num sistema crescente
Outro aspecto que vem sendo estudado por com o canto monofônico, a vocalização melódica e o
neuroimagem é a amusia, que consiste na dificuldade canto harmônico, o que diferencia da voz falada1 e que
parcial ou total de perceber os sons melódicos ou foram investigadas também por Wilson et al.14, porém
rítmicos, devido à disfunção do processamento submetendo cantores líricos de alto desempenho à
neuronal da música14. Terão et al.9 relataram um caso imagem por ressonância magnética funcional.
de amusia em uma cantora profissional de tango, Wilson et al.14 puderam identificar que cantores sem
após acidente vascular cerebral. À imagem por resso- alto desempenho utilizavam mais as áreas de fala para o
nância magnética, identificou lesão no córtex temporal canto, já que há uma rede neural de interconexão entre
superior do hemisfério direito e consideraram que essas áreas. Esse comportamento diferenciou cantores
deveria haver alterações na percepção e reconheci- segundo a complexidade do desempenho, de tal forma
mento musical da paciente, envolvendo pitch, timbre e que cantores de alto desempenho recrutam em menor
musicalidade, porém com processamento de tempo e intensidade a BA 6. Significa dizer que esse estudo
ritmo preservados, porque o hemisfério esquerdo havia demonstrou que os treinos de cantores profissionais
sido poupado. Ao identificarem também a presença de não incluem apenas o desempenho vocal e o ajuste de
lesão na porção posterior direita da ínsula, os autores pitch, mas modificam a solicitação de áreas cerebrais,
alertaram que os déficits na habilidade de canto da tornando canto e fala cada vez mais independentes um

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do outro. Logo, em processos de treinamento direcio- suplementar, córtex cingulado anterior), regiões
nados ao desenvolvimento de habilidades vocais no subcorticais (como ganglia basal e tálamo), bem como
canto, faz-se necessário o trabalho de atividades que estruturas do tronco, incluindo a substância cinzenta
explorem vários mecanismos neurais. periaqueductal, a substância nigra, a formação reticular
Analisando também regiões cerebrais envolvidas e o conjunto de motoneurônios. Toda essa rede de
na percepção e na produção da fala e do canto esteve estruturas e suas interconexões são empregadas para
o estudo de Callan et al.16, empregando imagem por as adequações de pitch, como se verifica na fala em
ressonância magnética funcional. Partiram os autores ambientes ruidosos em que os interlocutores aumentam
da premissa que para o canto há necessidade de uso ou reduzem a intensidade para facilitar a comunicação,
mais intenso do sistema auditivo-motor e da maquinaria sem omitir a emoção na mensagem. Os autores4
de memória, portanto admitiram que essa atividade é compararam 11 sujeitos saudáveis, com audição
mais complexa que a fala. O estudo incluiu 16 sujeitos normal, não cantores, a 13 cantores profissionais,
(cinco do sexo feminino), com idade variando entre 19 igualmente saudáveis e sem alterações auditivas,
e 47 anos, destros, sem experiência ou treinamento submetendo-os à audição de suas vocalizações com
musical prévio. O estímulo consistiu na ausculta do alteração de pitch, indicando-lhes as tarefas em que
canto de seis canções japonesas e concomitante o pitch deveria ser corrigido e outras em que deveria
apresentação da letra da música. Em seguida, cada ser mantido. Empregando imagem por ressonância
participante devia ler e cantar a música apresentada magnética funcional, puderam comprovar que para
em tela, com registro da imagem por ressonância as correções discretas de pitch, houve a ativação da
magnética funcional. Dentre os achados mais impor- porção anterior da zona rostral do cíngulo, todavia nas
tantes estiveram a constatação de haver coincidência tarefas em que a correção do pitch devia ser ignorada
de regiões cerebrais envolvidas na percepção e na a ativação deu-se no sulco temporal superior posterior.
produção do canto e da fala, denotando a existência No entanto para os cantores líricos, essa adequação
de uma identidade essencial entre o canto lírico e a não esteve presente, sugerindo que grandes correções
fala, o que sugeriu um sistema especular neuronal, de pitch são coordenadas pelo mecanismo voluntário,
capaz de ser ativado na escuta silenciosa da música e ao passo que as correções menos acentuadas são
na produção do canto. Para os autores, o achado mais involuntárias e tendem a ocorrer com interação entre
importante foi constatar maior atividade do planum as duas áreas cerebrais antecedendo o mecanismo
temporale direito para o canto, comparado à fala, voluntário de correção. Estes dados revelam o quanto
tanto para a percepção auditiva passiva, como para a o processo de modulação da frequência é sofisticado
produção do voz cantada, indicando que essa região e que diversas apartes cérebro estão envolvidas nessa
cerebral responde pela transformação representativa complexa atividade vocal.
entre os domínios auditivo e motor. Outro achado Em decorrência dos artigos do grupo de pesquisa
importante dessa pesquisa se referiu à lateralidade, liderado por Zarate2,4, demonstrando a existência de
empregando análise estatística de voxels ativos, o que uma organização de redes neurais para percepção
conferiu maior fidedignidade à conclusão. Identificaram de música e da fala, sugerindo a presença de uma
maior atividade no lobo temporal esquerdo na fala do modulação das habilidades musicais e de fala, emergiu
que no canto, tanto na ausculta como na produção, uma linha de pesquisa tendo por sujeitos cantores e
ficando o lobo direito mais ativado no canto que na atores. O pressuposto para estudo desses grupos de
fala. profissionais é o uso da voz após intenso treinamento,
Zarate, Wood e Zatorre4 prosseguem o estudo porém com ênfase em diferentes contextos de proces-
empregando imagem por ressonância magnética samento semântico, sintático e emocional. Assim é que
funcional em cantores líricos profissionais, no intuito Rosslau et al.15 objetivaram, pioneiramente, analisar
de detalhar as áreas recrutadas para correção volun- as modificações neurais do processamento da fala e
tária e involuntária do pitch por meio da integração do canto, induzidas pelo treinamento. Para avaliar a
vocal motora. Inicialmente os autores ressaltam a atividade cerebral, empregaram magnetoencefalo-
importância de considerar a constelação de estru- grafia, devido a sua alta sensibilidade de avaliação de
turas neurais envolvidas no ajuste do pitch no canto. tempos e média a alta acurácia em determinar as fontes
Essa rede complexa inclui rede motora/pré-motora de atividade do cérebro durante as tarefas. Avaliaram
cortical (incluindo córtex motor primário, área motora 15 cantores com média de idade de 29,2 anos, sendo

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Neuroimagem no estudo da voz cantada | 563

oito mulheres, e 15 atores, com média de idade de 32,4 vozes e controle de frequência fundamental. É consi-
anos, dos quais nove eram do sexo feminino, todos derado uma atividade cerebral complexa por combinar
com tempo de atuação profissional maior que quatro a emissão da fala com musicalidade; componentes
anos e prática diária mínima de quatro horas. linguísticos e componentes acústicos mesclados de
Cada participante devia julgar a acurácia da várias maneiras.
congruência semântica e do pitch da última palavra A análise das áreas cerebrais envolvidas no canto é
de uma canção ou de um estímulo falado, pressio- desafiadora porque há interconexão de áreas cerebrais
nando um botão para indicar correção ou inadequação e superposição no exercício das funções de fala e
do estímulo, enquanto a magnetoencefalgorafia era canto. Por esse motivo o emprego da neuroimagem foi
registrada. Ao final do experimento, cada participante de fundamental importância para possibilitar a identi-
respondeu a uma entrevista semiestruturada para ficação de áreas e lateralização hemisférica ativadas
avaliação da fadiga para julgamento de palavras e pelo canto. Embora nas últimas duas décadas muito
de pitch. Os autores identificaram a existência de um se tenha avançado nesse conhecimento, ainda há
sistema sintático global, regendo a aspecto melódico e uma grande lacuna no conhecimento que poderá ser
prosódico, com dominância no hemisfério direito, se os exaurida na medida em que os métodos de neuroi-
fatores envolvem violação do pitch. Comparativamente, magem são aperfeiçoados.
foi identificada dominância da área temporal direita
na presença de alterações musicais que exigiam
REFERÊNCIAS
atenção concentrada para a análise de frequência.
Embora esses achados fossem comuns a cantores 1. Brown S, Martinez MJ, Hodges DA, Fox PT,
e atores, exclusivamente para os cantores foi identi- Parsons LM. The song system of the human brain.
ficada atividade maior nas áreas parietal esquerda e Cogn. Brain Res. 2004;20(3):363-75.
temporal direita atribuídas a uma maquinaria mental 2. Zarate JM. The neural control of singing. Front.
mais intensa e uma cognição musical de alta ordem, as Hum. Neurosci. 2013;7:237.
quais podem ser efeito do treinamento ou mesmo um 3. Perry DW, Zatorre RJ, Petrides M, Alivisatos B,
pré-requisito para essa atividade profissional. Meyer E, Evans AC. Localization of cerebral
Não apenas as características de pitch e harmo- activity during simple singing. Neuroreport.
nização foram tema de pesquisas, mas também o 1999;10(18):3979-84.
ritmo, investigado por Jungblut et al.18, em 30 sujeitos 4. Zarate JM, Wood S, Zatorre RJ. Neural
não músicos, saudáveis, submetidos a imagem por networks involved in voluntary and involuntary
ressonância magnética funcional, enquanto repetiam vocal pitch regulation in experienced singers.
ritmicamente vogais cantadas monotônicas. Os Neuropsychologia. 2010;48(2):607-18.
autores identificaram que as mesmas áreas envolvidas 5. Watson R, Latinus M, Charest I, Crabbe F, Belin
na fala foram ativadas na emissão rítmica de vogais P. People-selectivity, audiovisual integration and
(área motora suplementar bilateral, giro cingulado e heteromodality in the superior temporal sulcus.
córtex pré-motor no hemisfério esquerdo). No entanto Cortex. 2014;50(100):125-36.
comprovaram igualmente que a pars orbitalis bilateral 6. Ozdemir E, Norton A, Schlaug G. Shared and
e o giro cingulado esquerdo são responsáveis pela distinct neural correlates of singing and speaking.
complexidade rítmica. Neuroimage. 2006;33(2):628-35.
Alguns estudos também tem buscado inves- 7. Simonyan K, Horwitz B, Jarvis ED. Dopamine
tigar, funcionalmente, os aspectos e respectivas regulation of human speech and bird song: A
áreas cerebrais relacionados às emoções na voz critical review. Brain Lang. 2012;122(3):142-50.
para acessar intenções e sentimentos impressos na
8. Jones JA, Keough D. Auditory-motor mapping for
dinâmica da comunicação 20,21 que pode diferir da
pitch control in singers and nonsingers. Exp. Brain
emoção eliciada pelo canto, porém esses temas ainda
Res. 2008;190(3):279-87.
requerem muita pesquisa.
9. Lo YL, Zhang HH, Wang CC, Chin ZY, Fook-Chong
S, Gabriel C et al. Correlation of near-infrared
CONCLUSÃO spectroscopy and transcranial magnetic stimulation
O canto é uma habilidade única humana, quando of the motor cortex in overt reading and musical
se trata de conferir ritmo variável, harmonização de tasks. Motor Control. 2009;13(1):84-99.

Rev. CEFAC. 2017 Jul-Ago; 19(4):556-564


564 | Amorim GO, Albuquerque LCA, Pernambuco LA, Balata PMM, Luckwü-Lucena BT, Silva HJ

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