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Calamandra: Vidas e Mortes em 2120

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Calamandra

Roteiro de Clodoaldo Turcato, Salomão Roberto Turcato e Maria CECHILIA Turcato

TELA PRETA
Recife, ano de 2120.
FADE IN:
1 - EXT. RUA – DIA
Câmera panorâmica inicia longe e vai se aproximando da rua cercada por
prédios de vidro, com carros voadores num constante vai e vem sobre
as cabeças de milhares de habitantes que transitam, vestindo-se com
roupas de tecido plástico, todos do mesmo modelo, sendo saias curtas
paras as mulheres jovens, vestidos longos para mulheres mais velhas,
calça e camiseta para homens jovens e camisa manga longa para homens
velhos. Os calçados das mulheres são todas iguais e dos homens também.
As ruas são pavimentadas com asfalto e os letreiros gozam de alta
tecnologia.

2 – EXT. RUA – DIA


Caracteres com os créditos iniciais do filme.
A câmera passeia pela cidade mostrando o ambiente do ano 2120 até
chegar em duas Senhoras que vem de encontro à Câmera e se ouve a
conversa enquanto se aproximam.
PRIMEIRA SENHORA
Querida, poderíamos ir jantar naquele restaurante novo que inaugura
hoje na Rua Aurora.
SEGUNDA SENHORA
Meu bem, eu adoraria. Mas hoje vai falecer a minha tia as 16:31 h.
PRIMEIRA SENHORA
É mesmo. E vai ter o ritual, certo? De qualquer maneira podemos ir
depois do ritual.

SEGUNDA SENHORA
(sorrindo)
Uma pena. Mas minha tia vai falecer às 21:00 h. e a família fará um único
ritual.
As senhoras cruzam a câmera que as acompanha, seguindo até se
distanciarem aos poucos

3 – EXT. RUA – DIA


Caracteres: Calamandra
PRIMEIRA SENHORA
Nossa! Que maravilha! Que felicidade deve ser para a família. Apenas
cinco horas de diferença.
SEGUNDA SENHORA
Sim. Estamos muito felizes.
PRIMEIRA SENHORA
Daqui a três meses será o meu. Não pode faltar.
SEGUNDA SENHORA
Claro, querida! Pena que o meu será daqui a cinco anos, apenas.
PRIMEIRA SENHORA
Verdade. Senão iríamos juntas.
As duas senhoras se abraçam se somem no meio da multidão.

FADE OUT:

FADE IN:

4 – INT. CASA – Noite


Uma família está reunida para o jantar. Estão o pai, a mãe e uma menina
de aproximadamente 14 anos.

MÃE
Imagina querido que a Natália, filha dos Souzas, disse que quer namorar
um menino que vai morrer dez anos depois dela.
PAI
(espantando)
É sério!
A menina ergue os olhos
MÃE
Sim. Veja que má influência para nossa Nati.
PAI
(olha diretamente para a menina)
Câmera fecha no rosto carrancudo do pai.
Está vendo, minha filha? Quando dissemos que aquela menina é má
influência? Imagine, viúva!
MENINA
Câmera fecha no rosto da menina
Eu sei, meu pai. Jamais daria este desgosto para vocês.
MÃE
Câmera volta a visão da sala.
(Mãe acaricia a cabeça da filha.)
Sabemos disso meu amor. De agora em diante é melhor se afastar
daquela gente.
MENINA
Sim mamãe. Pode deixar.
FADE OUT:

FADE IN:
5 – INT. FACULDADE – DIA
Num auditório de faculdade um professor com mais de 60 anos está
ministrando uma aula de história para 20 alunos, todos equipados com
tablets ultramodernos e equipamentos em 3D que vão passando vídeos,
gráficos e estatísticas conforme o professor fala.
PROFESSOR
No tempo em que não sabíamos o dia de nossa morte, as pessoas viviam
o caos da incerteza...
Câmera passeia pela sala e encontra ROBERTO, branco, cabelos longos,
roupas escuras, de cabeça baixa lendo um livro, onde na capa se lê
Elogio da Loucura, autor Erasmo de Roterdã.
PROFESSOR (VO) Cont.
... da barbárie e da desorganização. Um homem sem organização é um
louco....
6 – INT- FACULDADE – DIA
A câmera pousa sobre o livro onde se lê “EMBORA os homens costumem
ferir a minha reputação e eu saiba muito bem quanto o meu nome soa mal
aos ouvidos dos mais tolos, orgulho-me de vos dizer que esta Loucura,
sim, esta Loucura que estais vendo é a única capaz de alegrar os deuses
e os mortais”
Ao fundo o professor segue.
PROFESSOR (VO) Cont.
Um mundo onde as pessoas viúvas, vejam vocês, eram comuns como
hoje são os carros espaciais... Que naquele tempo não existiam. Não
existiam!
(Professor interrompe)
7 – INT- FACULDADE – DIA
Câmera fecha no professor
PROFESSOR
Senhor Roberto...
Todos da sala olham para Roberto que está concentrado em seus livros.
PROFESSOR
(repete aumentando o tom de voz)
Senhor Roberto!
Câmera fecha em Roberto que ergue a cabeça e percebe que está sendo
observado por todos.
ROBERTO (levanta-se todo atabalhoado)
Senhor professor!
Câmera volta para o professor
PROFESSOR
Parece-me que estás desatento novamente. Não usa os óculos e insistem
em aparecer nas minhas aulas vestindo estas roupas que mais parecem
sacos de dormir.
Ouve-se os risinhos na sala de aula e toma os dois personagens.
ROBERTO
Se, agora, fazeis questão de saber por que motivo me agrada aparecer
diante de vós com uma roupa tão extravagante, eu vô-lo direi em
seguida, se tiverdes a gentileza de me prestar atenção; não a atenção que
costumais prestar aos oradores sacros, mas a que prestais aos
charlatães, aos intrujões e aos bobos das ruas, numa palavra, a que o
nosso Midas prestava ao canto do deus Pã. E isso porque me agrada ser
convosco um tanto sofista: não da espécie dos que hoje não fazem senão
imbuir as mentes juvenis de inúteis e difíceis bagatelas, ensinando-os a
discutir com uma pertinácia mais do que feminina. Ao contrário, pretendo
imitar os antigos, que, evitando o infame nome de filósofos, preferiram
chamar-se sofistas, cuja principal cogitação consistia em elogiar os
deuses e os heróis. Ireis, pois, ouvir o elogio, não de um Hércules ou de
um Solon, mas de mim mesma, isto é, da Loucura.
Todos da sala ficam espantado com a resposta.
Câmera fecha em CECHILIA, morena, 23 anos, cabelos cacheados, olhos
grandes que ri sem conter-se.
PROFESSOR
(irritado)
Senhorita. Qual a graça?
CECHILIA
(contendo-se)
Me perdoe, mestre. Mas não tive...

PROFESSOR (cortando)
Não teve! Sei. E o Senhor, de onde tirou estas asneiras todas?

ROBERTO (erguendo o livro)


Deste livro, Senhor professor.

PROFESSOR
Livros em papel. Tão antigos quanto as suas roupas. Aliás, onde você
encontra estas bugigangas?

ROBERTO
Em museus, lojas de antiguidades, sebos...

PROFESSOR
Por certo são coisas caras e de valor, como os tais quadros.

ROBERTO
Sim. Deveras, não são para qualquer um.

PROFESSOR
(irônico)
Concordo. É para milionários, como o filho do dono da escola.

ROBERTO
(sorrindo)
Exato!

PROFESSOR
Pois saiba o Senhor que em menos de dois anos eu irei morrer. E por
isso não pretendo aceitar sua luxuria, mesmo sendo o futuro dono da
escola. Aliás, quantos anos têm seus pais?

ROBERTO
Não sei.

PROFESSOR
Como não sabe?
ROBERTO
Nunca perguntei e nem discuto isso com eles. Mas acredito que viverão
mais que o Senhor e assim não terá o prazer de me ver dono desta
escola.

CECHILIA olha para Roberto e sorri

PROFESSOR
Vejam os senhores. Como o dinheiro dignifica nossas loucuras

ROBERTO
De fato, que mais poderia convir à Loucura do que ser o arauto do
próprio mérito e fazer ecoar por toda parte os seus próprios louvores?

PROFESSOR
O livro...

ROBERTO
Exato!

PROFESSOR
Preferes o livro à minha aula.

ROBERTO
Perfeitamente, Senhor.

PROFESSOR
Caso queira, retire-se. Não darei falta.

Roberto recolhe seus materiais e sai em direção a porta de saída.


CECHILIA o segue.

PROFESSOR (VO)
(gritando)
Senhorita, eu não te dispensei!
FADE OUT:

FADE IN:

8 – EXT - FACULDADE – DIA


Roberto cruza a porta de entrada da Faculdade, esta descendo as
escadas ouve a voz de CECHILIA:
CECHILIA (VO)
Ei! Espere!
Roberto se vira e vê CECHILIA.
Câmera fecha em CECHILIA
CECHILIA
Espere um pouco.
Roberto para.
CECHILIA se aproxima
CECHILIA
Ei! Queria ver esse livro. Me empresta!
ROBERTO
Não posso!
Roberto dá as costas e segue em direção ao portão de saída em passos
rápidos.
CECHILIA tenta acompanha-lo.
CECHILIA
Ei! Espera! Não anda tão rápido.
Roberto diminui o passo e CECHILIA segura seu braço.
Câmera fecha no rosto perturbado de Roberto.
ROBERTO
Não posso.
Câmera enquadra o casal novamente.
ROBERTO
Mas por quê?
Roberto sai visivelmente perturbado
CECHILIA o segue e segura seu braço
Câmera enquadra o rosto dos dois

ROBERTO
Não faça isso! Por favor, preciso ler este seu livro.
Roberto respira fundo
ROBERTO
Sabe o que isso significaria?
CECHILIA
O que?
ROBERTO
Falariam de você como se fosse uma mulher de baixa classe. Uma
mulher vulgar. Uma putinha.
CECHILIA
Putinha? O que é isso?
ROBERTO
Alguém menor?
CECHILIA
Como alguém com menos de dez anos de vida?
Roberto respira fundo.
ROBERTO
Pior. Muito pior.
CECHILIA
Pior quanto?
ROBERTO
Melhor ficar na sua, garota. Eu não sei quem é você nem onde vive e sua
classe social...
CECHILIA
(corta)
Isso importa?

ROBERTO
Evidente. Eu sou rico. Meu pai ajuda esse governo sempre e por isso
fazem vista grossa comigo.
CECHILIA
E daí
ROBERTO
Você é pobre. Talvez seja de uma classe superior, mas não tem como se
defender da Calamandra. Eles te pegariam e te condenariam.
CECHILIA
Pois eu corro o risco.
ROBERTO
E se te pegarem?
CECHILIA
(desafiadora)
Bom, Com certeza seu pai daria um jeito, não daria?
ROBERTO
Eu nem te conheço...
CECHILIA (estende a mão)
CECHILIA. Maria CECHILIA.
ROBERTO (estende a mão)
Salomão. Salomão Roberto.

O casal fica incomodado com o toque das mãos.


CECHILIA
Por que não saímos uma noite dessas, comemos algo e fazemos sexo?
ROBERTO
E qual dia da sua morte?

CECHILIA
Ano de 2160
ROBERTO
Tá vendo! Não dá. Eu terei vinte anos a menos.
CECHILIA
Eu já fiz com diversas pessoas. Alguns que vão daqui a cinco anos.
ROBERTO
Sério?
CECHILIA
Acho que sou uma dessas putinhas que você falou ai.

ROBERTO olha para CECHILIA como um meio sorriso.


ROBERTO
Se não se importa podemos marcar para amanhã depois da aula. Agora
preciso correr, tenho uma partida de futebol.
CECHILIA
Qual seu time?

ROBERTO Sai em direção a um cabine.


ROBERTO
Amanhã te explico.
CECHILIA
Cadê seu carro?
ROBERTO
Uso transporte público.
CECHILIA
Não tem carro?

Câmera Fecha no rosto de ROBERTO


ROBERTO
Temos muitos. Mas prefiro o transporte

Câmera fecha no rosto de CECHILIA que sorri


CECHILIA
Esse sujeito é maluco mesmo.
FADE OUT:

FADE IN:

9 – INT – CABINE DE ÔNIBUS – DIA

ROBERTO está numa cabine de ônibus ultramoderna, um pequeno


elevador o conduz para plataforma de embarque.
Câmera fecha num leitor e a mão de ROBERTO aparece.

VOZ DA MÁQUINA
Para onde senhor Salomão ROBERTO Turcato?

ROBERTO (VO)
Imbiribeira, Estação Imbiribeira.
Câmera fecha para a porta da plataforma que abre.

ROBERTO entra na plataforma e espera pelo embarque com apenas duas


outras pessoas jovens com tablete altamente tecnológico não mão e não
dão atenção nenhuma, concentradas em seus aparelhos.
Câmera fecha no rosto de ROBERTO que enche a boca de ar e solta,
incomodado.
FADE OUT:

FADE IN:

10 – INT – SALA DIRETORIA DA FACULDADE – ANOITECENDO

Na sala da Diretoria estão o PROFESSOR de Roberto o DIRETOR e um


AGENTE DO GOVERNO.

Câmera fecha no Diretor um homem velho, taciturno e de compleição


dura que olha para o Agente do Governo, um rapaz com 30 anos que
também se mantém de forma ereta e séria.
DIRETOR
(olhando para o Agente do Governo)
Senhor Agente. Chamamos aqui para te colocar a par de fatos que andam
ocorrendo nesta instituição.
Silêncio.
O Professor se remexe na cadeira em tom grave acena com a cabeça.
DIRETOR (cont.)
Esta instituição não concorda e muito menos aceita as maneiras e os
modos que fujam do correto, da forma tradicional ou o politicamente
correto, que tanto esta sociedade lutou para estabelecer.

AGENTE (cortando)
Vamos direto ao assunto, Senhor Diretor. Conheço esta Faculdade e não
tenho dúvidas da retidão de todos os alunos e professores...

PROFESSOR (Interrompendo)
Nem todos.

AGENTE
Como?
DIRETOR (Constrangido)
Bem. Temos o filho do dono da Faculdade, o Senhor Turcato. Ele tem se
comportado de maneira ofensiva e até debochada...

Novo silêncio.

AGENTE
Prossiga, por favor.

DIRETOR
Bem. Ele tem usado roupas antigas, do século passado, artefatos que a
mais de cinquenta anos não se usam. Desde o decreto das roupas iguais...

PROFESSOR
Escandaloso, realmente.

AGENTE
Hum!

DIRETOR
Além disso, lê livros antigos. Aqueles impressos... de papel.

AGENTE
Hum!

DIRETOR
Não usa óculos virtuais. Prefere anotar com aquelas canetas velhas,
esferográficas...
AGENTE
Senhores. Ao que me parece são extravagâncias da juventude. Conheço o
pai dele, sempre esteve com nosso Governo...

PROFESSOR (interrompendo)
Não é somente isso...

AGENTE
Não!

PROFESSOR
Não.

DIRETOR (Cortando)
Não. Ele tem algumas ideias absolutamente impróprias.

AGENTE
Me digam logo, por favor.

DIRETOR
Bem. Numa de suas dissertações sobre o modelo ideal ele critica
diretamente a ideia de Calamandra.

AGENTE
E que parte do modelo?

DIRETOR
Todos. Principalmente no que trata do fim da vida.

Câmera fecha em cada cenho e todos ficam muito pensativos.


AGENTE
E o que ele sugere?

Diretor toma um tablete e aperta uma tecla


Câmera fecha no aparelho que mostra um arquivo sendo transferido.

DIRETOR
Bem. Mandei o arquivo para que o Senhor mesmo leia. Em resumo ele
sugere que se desligue a Calamandra e que a humanidade viva aos
moldes de 2050.

O Agente se levanta e soca a mesa.

AGENTE
Que absurdo!

PROFESSOR
Concordo

AGENTE
Sem organização. Fome, tragédias, pessoas nascendo e morrendo sem
planejamento algum, sem controle de natalidade, absolutamente
desconstruindo uma sociedade perfeita.

O Diretor se levanta, seguido pelo Professor.

DIRETOR
Bem. Este é o caso. Agora sugiro que investigue o caso e leve às
autoridades.

AGENTE
Se este pivete não fosse filho de quem é...

PROFESSOR (enfurecido)
A lei á para todos...

O Agente se coloca na frente do Professor

AGENTE
Concordo. Seria para todos. Porém sabes que a minoria da oposição
discorda de algumas coisas da Calamandra. Sabes que algumas ideias do
Comuna são Similares.

PROFESSOR
Andei lendo estes subversivos. Acatam apenas o que tangem a economia.
Pensam que o Estado não deve se envolver na vida privada... Imaginem!

AGENTE
E parece que estão selecionando jovens estudantes para suas frentes.

DIRETOR
Preocupante. Muito preocupante.

AGENTE
(Olha para o relógio e se levanta)
Tenho que ir. Mas fique tranquilo. Esse espertinho está na minha lista.

O Agente aperta a mão de seus dois conhecidos e sai da sala.


Câmera acompanha a saída do Agente.
Câmera volta para o Diretor e o Professor
DIRETOR
Agora é com eles. Fizemos a nossa parte.

PROFESSOR
Ainda não, Senhor Diretor...

DIRETOR (firme)
Esquece esse garoto. Esquece! Fizemos nossa parte... Ou prefere ficar
sem seu emprego?
Diretor sai da sala. Câmera o acompanha.

Câmera volta ao professor.

PROFESSOR
Isso ainda não acabou.

FADE OUT:

FADE IN:
11 – INT – LANCHONETE – NOITE
CECHILIA está numa lanchonete moderna, muitas luzes, a maioria com
equipamentos plugados em aparelhos eletrônicos. Junto com ela está
ALICE, loira, dezoito anos, olhos claros. Alice está plugada, ouvindo
música eletrônica enquanto CECHILIA olha a cidade.
CECHILIA se volta para Alice
CECHILIA
Por que não larga essa música e conversa comigo?

ALICE
Que chata. Eu estava ouvindo a nova música de Credo.
Alice tira os fones e dele se ouve a música, batidas eletrônicas
inaudíveis.

CECHILIA
Uau! Sou fã desses caras. Poesia mesmo.

ALICE
Hoje vou fazer sexo ouvindo essa.

CECHILIA
Com quem?

ALICE
Com um menino que vai morrer dez dias depois de mim. Um tipão que me
casaria.

CECHILIA
E por que não!

ALICE
Ele quer alguém do mesmo dia.

CECHILIA
Sério!

ALICE
E eu querendo ser todinha dele.

CECHILIA
Chatooooo!

ALICE
Né! E você vai para onde?

CECHILIA
Acho que tô gostando de um cara aí.

ALICE
Você! Logo você que tem o maior fogo no rabo que conheço.

CECHILIA
Me respeita!

Ambas riem.

ALICE
E a morte dele será quando?

CECHILIA
Quinze anos antes.

ALICE (espantada)
Não acredito. Você é louca!

CECHILIA
Por quê?
ALICE
Gente! Ele é de uma classe inferior a nossa...

CECHILIA (irônica)
E você só dá para gente de sua classe... eu sei.

ALICE
Uma vez que outra eu nem pergunto. Mas nesse caso seu parece paixão,
coisa para namoro, que nunca vai acontecer.

CECHILIA (respira fundo)


Pois é. O que é uma pena. Ele é tão diferente.

ALICE
Me conta.

CECHILIA
Contar o que?

ALICE
O que ele tem de mais?

CECHILIA
Ele pensa diferente. Faz as coisas de um jeito...

ALICE
Diz aí. Ele chupa bem?

CECHILIA
Não transamos.
ALICE
Que chato.

CECHILIA
Não é isso. Ele usa as roupas antigas, pensa como há cem anos mais ou
menos...

ALICE
Eca!

CECHILIA
Lê livros impressos... imagina

ALICE (ironizando)
Um imoral.

CECHILIA
Não sei. Um cara diferente de todos que vi...

ALICE
Melhor não se meter com essa gente.

CECHILIA
Seria possível viver como ele?

ALICE
Menina. Você tem tudo. Tá reclamando do que? Para que arriscar. Não se
envolve emocionalmente. Curte.
CECHILIA
Que vida essa. Tudo sempre tão igual. Certinho, organizado. Sem
surpresas.

ALICE
Que ideias são essas? Tudo certinho, com classes divididas, com gente
que sabe o dia de tudo e a Calamandra informa até sobre nossos
nascimentos.

CECHILIA
Você nunca pensou como viviam nossos antepassados?

ALICE
No caos. É isso que aprendemos...

CECHILIA
Aprendemos? Não sei... Tenho dúvidas.

ALICE
Ainda existem pessoas que não sabem.... bem...

CECHILIA
Sério?

ALICE
Sim. Mamãe me falou de um asilo com dez pessoas, todas velhas que
estão fora da cidade esperando morrer.

CECHILIA
Nossa! Que coisa!
ALICE
É, mas parece que o Governo não permite a visita a não ser dos médicos.

CECHILIA
Eu queria tanto saber como era.

ALICE
Hum! Perigoso. Sabe o que acontece com quem tenta burlar a
Calamandra.

CECHILIA ( chateada)
Sei! Perpétua até a morte.
ALICE
Isso! Então te acalme e vamos curtir aqui fora que tem muito pau para
brincar.

CECHILIA (rindo)
E bucetas para chupar.

ALICE
Eca!
FADE OUT:

FADE IN:
12 – INT – CASA – NOITE
A família de ROBERTO está reunida numa sala grande e espaçosa, toda
branca, jatando.
À mesa estão OSVALDO, 50 anos, calvo, bigode bem cuidado usando as
roupas tradicionais. MADALENA 50 anos, cabelos longos, olhar tristonho,
muito bem cuidada e ROBERTO.
OSVALDO
Recebi uma visita em meu escritório hoje, ROBERTO.

ROBERTO ergue os olhos do prato.

OSVALDO (cont)
Era um Agente do Governo.

Madalena leva a mão à boca.

MADALENA
E o que ele queria?

OSVALDO (olha severamente para ROBERTO)


Coisas de seu filho

MADALENA
O que foi que você andou aprontando?

ROBERTO
Não sei!

OSVALDO (socando a mesa)


Como não sabe? Essas roupas. Os livros! As ideias! Seu comportamento!

ROBERTO
Sinto pai. Mas o Senhor sabe o que penso e tenho certeza que pensa
como eu.
OSVALDO
Pensar! Pensar demais é perigoso. Não se foge às regras do projeto!
Entenda isso!

ROBERTO
Pai. Se não pensasse como eu não manteria o que tem no porão!

OSVALDO (irritado)
Passado! Aquilo é um museu! O tempo passou.

MADALENA
Meu filho...

OSVALDO
Daqui a dez anos sabe que vamos morrer e tudo que tenho será seu.
Cuidado! O Governo pode tomar o que é nosso e nos colocar em
perpétua.

ROBERTO
Eu não quero nada! Não quero esse dinheiro...

OSVALDO
E como será?

ROBERTO
Não sei!

OSVALDO
Eu bem que queria outro filho. Mas...
ROBERTO
Mas o maldito programa Calamandra impediu! Não é isso? Natalidade.
Controle. Como vestir-se, como andar, como estudar... Tudo! Tudo
Calamandra. Tudo!

MADALENA
ROBERTO...te acalma. Te acalma.

ROBERTO faz menção de se levantar.


OSVALDO
Senta! Vamos conversar.

ROBERTO volta para a mesa.

OSVALDO
Olhe. Mesmo sendo o maior apoiador do partido, tendo o respeito de
todos, precisa te acalmar senão vai complicar para todos nos. Seja mais
discreto, por favor! Tente manter tudo que pensa para aqui dentro de
casa. Pense na gente. Em sua mãe, em sua irmã!

Silêncio.

ROBERTO
Mãe?

MADALENA
Sim, filho.

ROBERTO
Quantos abortos a Senhora fez?
OSVALDO
Não é este o nome.

MADALENA
Isso. Não se trata de aborto. Apenas não queríamos filho que fosse antes
que nós.

ROBERTO
Vocês mataram quantos?

OSVALDO (irritado)
Cale-se!

ROBERTO deixa a mesa sob o olhar desaprovador dos pais.


FADE OUT:

FADE IN:
14– INT – DISCOTECA – NOITE
Câmera foca para uma entrada grande e vai seguindo onde existem
vários ambientes. Cada qual com inscrições menos de “5 anos”, “mais de
5 anos”, “10 anos”, “Acima de 10 anos”, “Acima de 15 anos” e “Acima
de 20 anos”. Em cada placa em letras grandes está escrito “Proibido
Trocar de Ambiente”.
Na entrada da casa noturna estão dois porteiros com um aparelho
especial que verifica o dia da morte e indica o destino de cada qual.
Cehilia e Alice estão numa casa noturna no ambiente acima de 20 anos. O
ambiente está lotado. As duas estão bebendo, cercado de jovens de
mesma idade e ouvindo um som baseado em pequenos batuques e muitas
luzes.
Uma outra menina chamada MARGARETE chega no meio das duas. Ela é
loira, alta e aparenta estar muito bêbada.
MARGARETE
Oiiiiiiiiiiii! Amigaaaaaaaaaaas!
ALICE
Como você conseguiu passar para este ambiente?

MARGARETE
Eu chupei o chefe se segurança e ele me deixou ficar aqui por dez
minutos.

CECHILIA
Queria tanto ir nos outros ambientes!

ALICE
Você é louca? Vai se rebaixar em público? Todo mundo sabe que você é
mais que vinte.

CECHILIA
Dizem que no menos cinco rola bacanal direto

ALICE
Deve ser. Eles não têm nada a perder.

CECHILIA
Vamos para a mesa.

As três saem da pista de dança e vão para uma mesa que fica no andar
de cima.
CECHILIA
(fala para Margarete)
Me conta. Como é no seu ambiente.

MARGARETE (no ouvido de CECHILIA)


É maior festa. Você já entra nua. Se não for os caras vão tirando sua
roupa na hora.

CECHILIA
Jura!

MARAGERETE
Sim, menina.

CECHILIA
Nossa! Deve ser... parece tão...

ALICE
Amiga. Não estou te reconhecendo. Margarete, você devia voltar pra tua
gente, sabe.

MARGARETE
Que menina mais cu doce. Por que tem uns aninhos a mais se acha. Eu tô
curtindo meus últimos três anos.

ALICE
Deve ser triste saber que logo se vai, né amor!

MARGARETE ( se levanta)
Vou voltar para meu ambiente. Isso aqui tá um tédio.

CECHILIA
Fica e me conta

MARGARETE
Ei. Por que não vai lá pra ver

CECHILIA
Eu não passaria na portaria.

MARGARETE
Se quiser tenho amigos que podem dar um jeito. Mas sabe como é né?

ALICE (nterrompe).
Não! CECHILIA você perdeu a noção das coisas? Deixa essa maluca
voltar para os seus. Somos elite. Temos mais de vinte. Lá tem dois ou
três gatos pingados. Esses doidos que tem cara de aparecer num lugar
igual a este.

Margarete se vira e saí para fora do ambiente.

ALICE
Francamente amiga. Se continuar com essas suas loucuras eu terei que
me afastar de você.

CECHILIA
(se levanta brava)
Pois que seja! Pega sua elite e enfia no teu rabo. Eu não suporto gente
metida.

CECHILIA sai da mesa e em direção à rua, seguida por Margarete.


FADE OUT:

FADE IN:

15– EXT – RUA – NOITE


CECHILIA está na rua ainda xingando, muito brava, anda depressa,
batendo no transeuntes, profundamente irritada.
Atrás dela está Margarete que a chama.
MARGARETE
Ei, menina! Espera um pouco. Pra onde vai?

CECHILIA se vira e para.


Câmera fecha no rosto de CECHILIA

CECHILIA
Eu tô cansada. Cansa disso. Dessa gentinha. De tudo. Tá tudo errado...

Margarete se aproxima, abraça CECHILIA passa mão em seu rosto.

MARGARETE
Ei! Calma amiga. Não adianta. É assim mesmo. Você precisa de uma
noitada e alguns copos de cachaça barata.

CECHILIA sorri.
CECHILIA
Tem razão. Me leva para o seu ambiente. Quero conhecer aquele lugar

MARAGARETE
Tem certeza? Olha que se te pegarem lá te levam direto para Delegacia e
a coisa fica feia.

CECHILIA
Que se foda. O que tenho que fazer?

Margarete ergue os olhos, toma a mão da amiga e as duas seguem para


portaria do ambiente “5 anos”.
FADE OUT:

FADE IN:

16– INT – DISCOTECA – NOITE


CECHILIA e Margarete chegam no ambiente para até cinco anos. A
portaria é guardada por dois homens altos vestindo ternos pretos.
Quando Margarete tenta passar com CECHILIA um dos homens barra as
duas.

HOMEM 1
Ei. Ela não pode entrar.

MARGARETE ( sorrindo maliciosamente)


Ei, querido. Você me conhece... não vai brecar a gente agora, vai?

HOMEM 1
Eu sei que é você. Mas ela é maios de vinte. Não pode e fim.

Margarete passa a mão no terno e desce até o meio das pernas do


homem.
MARGARETE
Ei! Veja ai. O que eu posso fazer?

Homem olha para CECHILIA.


Câmera passa lentamente pelas pernas de CECHILIA.
Câmera torna ao homem.

HOMEM 1
Ela vem comigo. Eu coloco ela pra dentro.
Margarete vai até CECHILIA

MARGARETE
Vá com ele... ele vai te colocar pelos fundos.

CECHILIA vai sem demora e segue o homem que sinaliza ao segundo


homem para cobrir sua saída.
FADE OUT:

FADE IN:

17– INT – FUNDOS DISCOTECA – NOITE


O homem e CECHILIA estão num ambiente com pouca luz, com fios e um
corredor que leva ao centro da discoteca.
Ao chegarem no meio do corredor o Homem empurra CECHILIA
bruscamente contra a parede.
Ela se assusta.

CECHILIA
Ei! O que é isso?

HOMEM 1
Tem que pagar.

Homem tenta colocar a mão nos seios de CECHILIA que afasta. Mas o
homem segura sem que ela posso reagir.

HOMEM 1
Ei, vagabunda. Você não queria entrar na orgia? Pois vamos começar
aqui...

CECHILIA tenta reagir em vão.


CECHILIA
Não!

O homem esbofeteai a cara de CECHILIA que começa a chorar.

HOMEM 1
Seguinte, menina: Você vai abrir essas perninhas para mim ou eu chamo
a Calamandra e você vai para perpétua...

CECHILIA
Não quero mais.

HOMEM 1
Não tem querer. Abre essas pernas ou vamos agora para Calamandra.

O homem abre as pernas de CECHILIA que cede e é estuprada contra


parede.
Câmera se afasta.

FADE OUT:

FADE IN:

18– INT – DISCOTECA – NOITE


CECHILIA entra na discoteca toda descabelada e chorando. Alguns
homens se aproximam, ela rechaça. Por todos os lados cenas de sexo,
das mais bizarras acontecem. Gritos e sussurros. O ambiente é uma
orgia. Alguns comentários sobre atitude dela ressoam,
COMENTÁRIO MASCULINO 1 (VO)
Te solta, Vem pra cá.

COMENTÁRIO FEMININO 1 (VO)


Uau. Que corpo! Vem, quero chupar você toda.

CECHILIA anda pelo meio das pessoas tonta.


Câmera mostra a sala escura da discoteca. A visão de CECHILIA embasa.
CECHILIA procura por Margarete. Anda se esquivando das pessoas que
querem pegá-la.
Margarete está ao fundo no meio de dois homens que a desnudaram e
pratica DP.
Ao ver CECHILIA Margarete a chama. CECHILIA se aproxima com
lágrimas no rosto. Margarete se assusta ao ver as lágrimas. Sai do meio
dos homens e vai até CECHILIA
MARGARETE
O que foi, menina?
CECHILIA
Eu... fui...

MARGARETE
Meu Deus! Eu te falei.

CECHILIA grita
CECHILIA
Não me falou que ele ia me estuprar...

Margarete fecha a boca de CECHILIA


MARGARETE
Fica calada! Você está maluca!

CECHILIA
Ele fez. Vou a polícia.

MARGARETE
Quer se foder por toda a vida? Você tem muitos anos ainda.

CECHILIA
Ele me estuprou, Margarete

MARGARETE
Eu te falei que ele iria cobrar algo. Eu te falei!

CECHILIA
Eu imaginei que fosse grana.

MARGARETE
Sonsa! Claro que não né!

CECHILIA
Mas ele me paga. Vou até a Delegacia.

CECHILIA se volta e faz menção de sair. Margarete segura ela pelo


ombro e de forma firma fala.

MARGARETE
Se fizer isso eu vou passar o resto de meus dias na perpétua. Você
também. Eles são todos da Calamandra. Fazem isso direto. É o preço.
Todos sabem. Quer me ver o resto de minha pouca vida encarcerada?

CECHILIA
Merda!

CECHILIA deixa o ambiente e cruza a porta de entrada. Ao passar pelo


segurança que a estuprou para e cospe na cara dele.
O segurança sorri.
CECHILIA vai para rua.
Câmera acompanha até ela sumir no meio da multidão.

FADE OUT:

FADE IN:
19– INT – QUADRA DE ESPORTES – NOITE

ROBERTO está sentado à beira de uma quadra moderna com muitas luzes
e pessoas batendo uma espécie de bola que relembra ao futebol. O jogo é
dinâmico e quando alguém se bater um sinal luminosos ascende e a bola
trava indicando alguma irregularidade. ROBERTO não dá atenção, fica
olhando para um livro, quando um dos jogadores chama sua atenção.
JOGADOR
Ei, você não quer entrar?

ROBERTO (ergue os olhos)


Não. Esse jogo é para maricas. Gosto do futebol à moda antiga.

JOGADOR
Aquela selvageria?
ROBERTO ergue os olhos, toma sua bolsa e sai do local tomando a
direção da rua.
FADE OUT:

FADE IN:
20– EXT – RUA – NOITE
CECHILIA caminha sem direção pela noite movimentada. Passa sem olhar
para ninguém e chega a uma esquina onde senta no canto e começa a
chorar.
Surge do outro lado da rua o Agente do Governo que esteve com o
Diretor e o Professor. Ele vê CECHILIA sentada na rua. Resolve se
aproximar.
Câmera fecha no Agente do Governo a partir da perspectiva de
CECHILIA, aumentando o tamanho conforme ele se aproxima até chega a
quase encostar.
AGENTE DO GOVERNO
Você está sozinha?

CECHILIA ergue os olhos rapidamente e vê o rosto do Agente Governo


que a olha com um cigarro no canto da boca. Assustada ela se levanta,
limpa o rosto e se afasta.

CECHILIA
Sim... sim estou.

AGENTE DO GOVERNO
Algum problema?
CECHILIA
Não...

AGENTE DO GOVERNO
Não! Não parece estar bem. Alguém te machucou. Sou Agente do
Governo. Se alguém te machucou é só me falar.
CECHILIA engole seco. Fica ainda mais assustada. O homem parece
varrer seu corpo com os olhos.

CECHILIA
Não foi nada...

O Agente do Governo toca o rosto de CECHILIA de leve, coloca a franja


no lugar vasculhando em busca da verdade.

AGENTE DO GOVERNO
Você está mentido. Quem está protegendo? Namorado?

CECHILIA
Não! Não foi nada importante. Com licença.

CECHILIA faz menção de sair mas é barrada pelo braço do AGENTE DO


GOVERNO

AGENTE DO GOVERNO
Ei! Eu sei que mente. Me conta quem foi. Eu prometo que ele não passa
dessa noite.
CECHILIA tenta se desvencilhar. O AGENTE DO GOVERNO mantém ela
presa por alguns minutos e depois recolhe seu braço. CECHILIA sai
correndo sem olhar para traz e dobra a primeira esquina que encontra.
O AGENTE DO GOVERNO traga o cigarro
AGENTE DO GOVERNO
Ai tem coisa...

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