DOI: 10.
14393/DLv17a2023-18
e1718
Artigo
“Autismo” e “autista”: um estudo lexicográfico
‘Autismo’ (‘autism’) and ‘autista’ (‘autist’): a lexicographical study
Aneilza de Carvalho FERREIRA*
Bruno MARONEZE**
RESUMO: O presente artigo tem por objetivo apresentar uma análise da microestrutura dos
verbetes “autismo” e “autista” em dicionários da Língua Portuguesa. Para tanto, foram
utilizados cinco dicionários disponíveis online. A microestrutura das palavras-entrada
“autismo” e “autista” foi analisada de forma descritiva e quantitativa, por meio de quadros
comparativos, nos quais distribuímos as informações conforme registro nos dicionários.
Pautamo-nos nos pressupostos teóricos de Biderman (2001), Garriga Escribano (2003), Medina
Guerra (2003), Porto Dapena (2002), Welker (2004); bem como consideramos as contribuições
advindas das produções científicas existentes no tocante ao Transtorno do Espectro Autista
(TEA). Foi possível constatar que os verbetes “autismo” e “autista” em geral não apresentam
suas definições conforme os conhecimentos mais recentes sobre o transtorno, bem como nem
sempre mencionam a nomenclatura vigente “TEA”.
PALAVRAS-CHAVE: Microestrutura. Autismo. Autista. Lexicografia.
ABSTRACT: This article aims to present an analysis of the microstructure of the entries
‘autismo’ (‘autism’) and ‘autista’ (‘autist’) in Portuguese language dictionaries. For that, five
online dictionaries were used. The microstructure of the entries ‘autismo’ and ‘autista’ were
analyzed descriptively and quantitatively, using a comparative table, in which we distributed
the information as recorded in the dictionaries. We are based on the theoretical assumptions
of Biderman (2001), Garriga Escribano (2003), Medina Guerra (2003), Porto Dapena (2002),
Welker (2004); as well as considering the contributions arising from existing scientific
productions regarding Autism Spectrum Disorder (ASD – ‘TEA’ in Portuguese). It was
possible to verify that the entries ‘autismo’ and ‘autista’ do not present their definitions
according to the most recent knowledge about the disorder, as well as not always mentioning
the current nomenclature ‘TEA’ (‘ASD’).
KEYWORDS: Microstructure. Autism. Autist. Lexicography.
Artigo recebido em: 07.12.2022
Artigo aprovado em: 16.03.2023
* Mestranda, UFMS. aneilzacarvalho@[Link]
** Doutor, UFGD/UFMS. brunomaroneze@[Link]
Ferreira, Maroneze “Autismo” e “autista”: um estudo lexicográfico
1 Introdução
No intuito de compreender a relação estabelecida entre léxico e lexicografia,
deparamo-nos, primeiro, com a ciência da Lexicologia, que diz:
O léxico, saber partilhado que existe na consciência dos falantes de
uma língua, constitui-se no acervo do saber vocabular de um grupo
sócio-linguístico-cultural. Na medida em que o léxico configura-se
como a primeira via de acesso a um texto, representa a janela através
da qual uma comunidade pode ver o mundo, uma vez que esse nível
da língua é o que mais deixa transparecer os valores, as crenças, os
hábitos e costumes de uma comunidade, como também, as inovações
tecnológicas, transformações socioeconômicas e políticas ocorridas
numa sociedade. Em vista disso, o léxico de uma língua conserva uma
estreita relação com a história cultural da comunidade. Desse modo, o
universo lexical de um grupo sintetiza a sua maneira de ver a realidade
e a forma como seus membros estruturam o mundo que os rodeia e
designam as diferentes esferas do conhecimento. Assim, na medida em
que o léxico recorta realidades de mundo, define, também, fatos de
cultura. (OLIVEIRA; ISQUERDO, 1998, p. 07)
Sabe-se que, para entender a si mesmo, o mundo que o cerca e estabelecer a
comunicação, o ser humano faz uso de unidades lexicais pertencentes ao léxico da
própria língua. Conforme se dá essa utilização das unidades lexicais nos contextos
reais de fala, novas acepções vão surgindo e se incorporando ao sistema funcional
linguístico, uma vez que, de acordo com Biderman (1996, 2001, p. 13), “(...) O léxico é
o lugar da estocagem da significação e dos conteúdos significantes da linguagem
humana” e “o léxico se relaciona com o processo de nomeação e com a cognição da
realidade”.
Dessa forma, para que se registrem as ditas mudanças linguísticas em relação
ao léxico, e que se tenha registro das novas acepções das unidades lexicais, a ação da
lexicografia se faz imprescindível.
Nessa perspectiva, o estudo apresentado tem por objetivo maior analisar a
microestrutura das entradas “autismo” e “autista” em dicionários de língua geral
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online. Os referidos verbetes, que servem como amostra para a análise, foram
integralmente transcritos das obras lexicográficas previamente selecionadas.
Para atingir esse propósito, estabelecemos objetivos específicos, sendo: i)
apresentar como estão estruturados os verbetes “autismo” e “autista” nos dicionários
analisados; ii) descrever os aspectos encontrados na microestrutura dos verbetes
“autismo” e “autista”, tais como etimologia, marcas de uso, definições, exemplos; iii)
realizar a comparação dos verbetes nos dicionários analisados; iv) constatar se há ou
não adequação das definições apresentadas, conforme nomenclatura oficial para o
autismo; v) evidenciar a importância de registro adequado de verbetes que designam
transtornos e/ou deficiências.
Quanto à fundamentação teórica deste artigo, tomamos como base os
pressupostos teóricos e metodológicos da Lexicografia e postulados dos estudiosos:
Biderman (2001), Garriga Escribano (2003), Medina Guerra (2003), Porto Dapena
(2002), Welker (2004). Consideramos também as contribuições advindas das
produções científicas existentes no tocante ao tema do Transtorno do Espectro Autista,
doravante TEA.
Apresentamos, na sequência, nosso embasamento teórico, contextualização do
TEA, os procedimentos metodológicos e a análise descritiva e quantitativa dos
dicionários analisados em relação à temática proposta. Por fim, as considerações finais
e as referências utilizadas neste trabalho.
2 Estudos do léxico: Lexicologia e Lexicografia
Ao longo da história, a língua sofreu transformações influenciadas pelas
mudanças oriundas dos movimentos dos povos, por meio dos processos de
colonização ou de dominação; com isso, surge também a necessidade de se registrarem
as palavras da língua.
À medida que as comunidades humanas desenvolveram progressivamente seu
conhecimento da realidade e tomaram posse do mundo circundante, o homem criou
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as técnicas e depois as ciências (BIDERMAN, 2001, p. 15).
No âmbito dos estudos do léxico, pressupostos teóricos, conforme Porto
Dapena (2002), apontam que “(...) a Lexicografia viria a ser, literalmente, ‘a descrição
do léxico’, frente à Lexicologia, que, por outra parte, representaria ‘o estudo do
léxico’”1. Porto Dapena acrescenta que “ambas disciplinas possuiriam um objeto
comum, o léxico, mas com foco em diferentes perspectivas”2 (PORTO DAPENA, 2002,
p. 16, tradução nossa).
Vendo por este ângulo, compreende-se que a Lexicologia assume uma
perspectiva teórica em relação ao estudo do léxico, enquanto a Lexicografia assume
uma perspectiva prática e aplicada. Segundo Pereira (2018, p. 30-32), essa concepção
foi questionada por estudiosos da área, que por meados da década de 70 já
preconizavam em seus postulados a Lexicografia como disciplina científica e a
definem não somente pelo fazer dicionarístico, como também por seu componente
teórico específico. Citamos a título de exemplo: Rey-Debove (1969), Fernandez-Sevilla
(1974), Werner (1982), Biderman (1984), Wiegand (1984), entre outros.
Em conformidade com os estudiosos da lexicografia acima citados, constatamos
que a Lexicologia se ocupa dos estudos quanto à descrição das unidades léxicas de
uma língua, e a Lexicografia tem por objetivo estudar e registrar toda a vasta gama
lexical que o homem produziu e produz ao longo de sua trajetória. Utilizam-se
métodos e técnicas, compilam-se e organizam-se sistematicamente as unidades léxicas
para a elaboração de um dicionário, vocabulário ou glossário. Em suma, teoricamente,
a Lexicografia é definida como sendo a ciência responsável por estudar aspectos
relativos ao modo como se organizam e se elaboram os dicionários, é a arte e a técnica
de elaborar dicionários.
1 (…) la lexicografía vendría a ser, literalmente, ‘la descripción del léxico’, frente a la lexicología, que,
por otra parte, representaría ‘el tratado del léxico’” (PORTO DAPENA, 2002, p. 16).
2 Ambas disciplinas poseerían un objeto común, el léxico, pero enfocado desde perspectivas diferentes
(PORTO DAPENA, 2002, p. 16).
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2.1 Do dicionário e de sua organização interna
O dicionário é produto de uma investigação lexicográfica ou terminográfica. Em
se tratando do léxico geral, é uma prática bastante antiga. Os dicionários, segundo
Biderman (1998, p. 129), “constituem uma organização sistemática do léxico, uma
espécie de tentativa de descrição do léxico de uma língua”.
O dicionário de língua faz uma descrição do vocabulário da língua em questão,
buscando registrar e definir os signos lexicais. Em Biderman (2001, p. 17), “(...) o
dicionário é um objeto cultural de suma importância nas sociedades contemporâneas,
sendo uma das mais relevantes instituições da civilização moderna”.
Porto Dapena (2002) assinala uma distinção tipológica, em que se apresentam
os “diccionarios lingüísticos y diccionarios no lingüísticos”, ou seja,
(...) os primeiros são os dicionários propriamente ditos, se ocupam do
léxico de uma ou várias línguas, enquanto os segundos se interessam
mais pelo estudo da realidade em si. Dito de outra forma, enquanto
um dicionário linguístico estuda as palavras, um não linguístico se
ocupa da realidade representada por estas3. (PORTO DAPENA, 2002,
p. 43, tradução nossa)
Dessa forma, o dicionário linguístico deve trazer informações sobre o
significado e o uso linguístico das palavras; cabe ao dicionário não-linguístico (por
exemplo, dicionários enciclopédicos) trazer informações sobre os objetos da realidade
propriamente dita.
Dentre a classificação tipológica dos dicionários, atentemo-nos para o dicionário
geral, fonte do nosso corpus de pesquisa. Os dicionários monolíngues, ou gerais da
língua, são aqueles escritos somente em uma língua, os quais possuem um grande
número de palavras e que podem ser estendidos ou adaptados ao uso escolar.
3(…) los primeros que son los diccionarios propiamente dichos, se preocupan por el léxico de una o
varias lenguas, en tanto que los segundos se interesan más bien por él estudio de la realidad misma.
Dicho de otra manera, mientras un diccionario lingüístico estudia las palabras, un no lingüístico se
ocupa de la realidad representada por estas (PORTO DAPENA, 2002, p. 43).
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É importante salientar que, para categorizar a variada tipologia de dicionários,
três critérios fundamentais são levados em conta: o total de palavras-entradas, a
finalidade e o público consulente para o qual se destina. Como afirma Biderman (1998,
p. 129), um dicionário padrão, por exemplo, apresenta 50.000 palavras-entradas
aproximadamente, podendo estender-se até 70.000 verbetes. Já um escolar tem em
torno de 25.000 palavras-entrada, aproximadamente.
Para Welker (2004), “um dicionário geral é aquele que apresenta o tesouro
lexical, ou seja, a totalidade dos lexemas de uma língua”. Os dicionários monolíngues
tratam das unidades lexicais de uma língua, definindo-as, mostrando sinônimos e
dando informações sobre a língua (fonéticas, gramaticais, sintáticas). As definições,
nesse tipo de dicionário, são apresentadas na mesma língua da entrada e têm como
proposta principal explicar aos falantes nativos diferentes significados. São
considerados obras de referência.
2.2 Estrutura textual do dicionário
Os dicionários podem seguir um princípio lexicográfico ou terminográfico. No
princípio lexicográfico, nosso foco, o dicionário é guiado sob a perspectiva geral da
língua; por esse motivo, as unidades lexicais são chamadas palavras e apresentadas
em ordem alfabética.
Conforme Biderman (2001, p. 18), “um dicionário é constituído de entradas
lexicais, ou lemas que ora se reportam a um termo da língua, ora a um referente do
universo extralinguístico”.
De acordo com Welker (2004), em relação à estrutura, o dicionário pode
apresentar diversos elementos, como prefácio, introdução, lista de abreviaturas etc.
(denominadas genericamente pelo autor como textos externos – WELKER, 2004, p. 78-
9), para além de seus dois eixos essenciais nos quais se organiza: o da macroestrutura
e o da microestrutura.
O conjunto dos textos externos (tanto iniciais – apresentação, prólogo,
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introdução, instruções de uso do dicionário, listas e abreviaturas etc. – como finais –
anexos, tabelas, bibliografia etc.), juntamente com o “corpo” do dicionário
propriamente dito, podem receber o nome de megaestrutura (WELKER, 2004, p. 79) ou
também hiperestrutura (RODRIGUES-PEREIRA, 2020, p. 143), entre outros nomes,
conforme os autores. A disposição dos elementos tende a variar de dicionário para
dicionário.
A macroestrutura, por sua vez, é entendida como um conjunto de entradas
organizadas verticalmente (WELKER, 2004, pp. 80-1). É dentro da macroestrutura que
se apresentam as microestruturas, denominadas de verbetes. Tendo por objetivo
primordial a análise da microestrutura das palavras-entrada “autismo” e “autista”,
ilustramos, por meio da Figura 1, a estrutura lexicográfica, onde esta se encontra.
Figura 1 – Estrutura lexicográfica.
Fonte: Rodrigues-Pereira (2020, p. 143).
Destarte, conforme Rodrigues-Pereira (2020, p. 146), “essa parte da estrutura
lexicográfica resulta no verbete como unidade de estruturação do conteúdo léxico e na
descrição linguística, na disposição e na separação das acepções (...).” Em síntese, a
microestrutura se refere à organização interna dos verbetes, é o conjunto das
informações ordenadas de cada verbete após a entrada, estrutura horizontal que pode
conter diversos tipos de informações.
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Sobre o verbete, Garriga Escribano (2003, p. 105) nos diz que: “O verbete, pois,
define-se como a ‘menor unidade autônoma em que se organiza o dicionário’”.4 E essa
unidade pode oferecer informações sobre variados aspectos, segundo o tipo de
dicionário.
Em relação aos tipos de informações, Zavaglia (2012) apresenta que essas são:
(i) grafia, pronúncia, acentuação, classe gramatical, flexão, etimologia,
marcas de uso; (ii) informações explicativas, ou seja, a definição do
lema; (iii) uso do lema, ou seja, a sua contextualização ou ilustração,
construção e colocação, expressões idiomáticas, provérbios; (iv)
sinônimos, antônimos, parônimos; (v) informações semânticas sobre
metáforas; (vi) informações sobre remissivas. Pode conter ainda,
dependendo do objetivo do dicionário: ilustrações, gráficos, símbolos.
O fato é que o lexicógrafo pode inserir qualquer tipo de informação em
sua microestrutura, (...). (ZAVAGLIA, 2020, p. 253).
Em relação aos variados aspectos, conforme nosso objeto de pesquisa para o
presente artigo, explicitamos, de forma sucinta e com respaldo nos pressupostos de
Garriga Escribano (2003), a etimologia, as marcas de uso, a definição e os exemplos.
No tocante à informação etimológica que costuma aparecer nos dicionários,
nem todas as palavras-entradas apresentam essa informação. Garriga Escribano (2003,
p. 109) sugere que este tipo de informação não deve ser registrado em um dicionário
de uso quando de sua incerteza de origem ou informações não tão claras. Contudo, o
conhecimento da etimologia de uma palavra estabelece uma relação mais íntima entre
o usuário e a palavra pesquisada.
Com base em Garriga Escribano (2003, p. 116), entendemos as marcas de uso
como sendo um meio pelo qual o consulente passa a conhecer as possíveis restrições
de uso de uma palavra. As marcas são classificadas em diacrônicas (também chamadas
de cronológicas, por sinalizar a vigência de uso de uma palavra), diatópicas (que
sinalizam o local onde se faz uso de determinado termo), diafásicas e diastráticas (que
4El artículo lexicográfico, pues, se define como «la unidad mínima autónoma en que se organiza el
diccionario». (GARRIGA ESCRIBANO, 2003, p. 105)
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se referem à restrição do uso quanto ao estilo, níveis sociais e de língua) e diatécnicas
(utilizadas para identificar os tecnicismos próprios das ciências, artes e técnicas frente
ao léxico geral).
Outro componente da microestrutura, que corresponde à parte essencial do
verbete, é a definição. É na definição onde se engloba toda informação sobre o
conteúdo da palavra-entrada. Nessa, são apresentadas informações sobre o significado
do signo. Para Medina Guerra (2003, p. 129), a definição é considerada a parte mais
importante: “el principio y el fin del diccionario”. A autora também define como “a
expressão do significado da unidade lexical que forma a entrada com a ajuda de
palavras, locuções ou sintagmas conhecidos”5 (tradução nossa).
Medina Guerra (2003, p. 133) formulou normas que as definições devem
cumprir: “1) A unidade léxica definida não deve aparecer na definição. 2) A definição
não deve transparecer nenhuma ideologia. 3) A definição tem que apresentar
características da língua de sua época e a palavras usadas para a codificação devem
ser simples, claras e precisas ao mesmo tempo”6 (tradução nossa).
No tocante aos exemplos, estes objetivam facilitar a compreensão da definição,
e podem ser reais ou inventados. No entanto, segundo Garriga Escribano (2003, p. 120-
122) ambas as opções têm suas vantagens e desvantagens:
(...) os exemplos reais são mais objetivos, sinalizam melhor o uso culto
da língua e, por fim, podem resultar incompreensíveis para o usuário
e também pouco didáticos. [...] A função dos exemplos, além de
intermediar a informação gramatical, semântica ou pragmática, é
“servir de veículo para a transmissão indireta de dados culturais e
sociais”. Os exemplos costumam aparecer ao final do verbete,
geralmente escritos em itálico para se diferenciar das demais
informações. Podem ser frases completas ou estruturas menores que a
5 la expresión del significado de la unidad léxica que forma la entrada con la ayuda de voces, locuciones
o sintagmas conocidos (MEDINA GUERRA, 2003, p. 129)
6 1) La unidad léxica definida no debe figurar en la definición. 2) La definición no debe traslucir ninguna
ideología. 3) La definición debe participar de las características de la lengua de su época y las palabras
con que se codifique han de ser sencillas a la vez que claras y precisas.
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Ferreira, Maroneze “Autismo” e “autista”: um estudo lexicográfico
frase7. (GARRIGA ESCRIBANO, 2003, p.120 -122)
Portanto, entendemos a microestrutura como um conjunto de informações
indispensável para uma obra lexicográfica.
Assim sendo, a partir dos postulados dos estudiosos dos estudos do léxico,
compreendemos a importância da iniciativa do homem em registrar, cada vez mais,
de forma coerente, concisa e completa, o tesouro de sua língua.
Vemos também que, embora existam inúmeras fontes de informações sobre o
autismo com publicações variadas (de artigos a teses, livros, revistas e sites
especializados, páginas nas redes sociais, tanto pessoais como das instituições que
atendem a esse público), este estudo se atenta na necessidade de se ter a informação
mais precisa e de forma clara nos registros dos dicionários quanto ao significado e
demais dados sobre as lexias “autismo” e “autista”.
O dicionário, por se configurar, por natureza, fonte indubitável e segura de
informação, assume, indiretamente, papel como agente defensor e promotor da pessoa
com deficiência junto à sociedade. Dessa forma, apresentamos a seguir algumas
considerações sobre o Transtorno do Espectro Autista.
3 Contextualizando o TEA
O autismo ao longo dos anos tem sido permeado por polêmicas quanto a sua
etiologia. Alertamos que não nos ateremos no assunto para além de sua definição e
conceito, que são de suma importância para compreensão do TEA e suas
peculiaridades.
7 Mientras tanto, los ejemplos reales salen más objetivos, más bien señalan el uso culto de la lengua y,
en fin, pueden resultar incomprensibles para el usuario y resultan poco didácticos. La función de
ejemplos, al lado de intermediar la información gramatical, semántica o pragmática, es «servir de
vehículo para la transmisión indirecta de datos culturales y sociales». Los ejemplos suelen aparecer al
final del artículo lexicográfico, generalmente escritos en cursiva para diferenciarse del resto de las
informaciones aportadas. Pueden ser frases completas o también estructuras inferiores a la frase
(GARRIGA ESCRIBANO, 2003, p. 120-122).
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Ferreira, Maroneze “Autismo” e “autista”: um estudo lexicográfico
O termo “autismo”, segundo Cunha (1982) e Evans (2013), foi empregado pela
primeira vez no idioma alemão (Autismus), em 1911, criado pelo psiquiatra suíço
Eugen Bleuler, para designar um sintoma da esquizofrenia (conceito também criado
por Bleuler). Desde então, o conceito de “autismo” vem sendo transformado ao longo
do tempo, à medida que aumenta a compreensão sobre as doenças e condições
mentais.
De acordo com Tamanaha, Perissinoto e Chiari (2008), o psiquiatra austríaco
Leo Kanner, radicado nos Estados Unidos, denominou o Autismo Infantil, em 1943,
como sendo Distúrbio Autístico do Contato Afetivo, como uma condição com
características comportamentais bastante específicas, tais como: perturbações das
relações afetivas com o meio, solidão autística extrema, inabilidade no uso da
linguagem para comunicação, presença de boas potencialidades cognitivas, aspecto
físico aparentemente normal, comportamentos ritualísticos, início precoce e incidência
predominante no sexo masculino.
As descrições de Kanner foram rapidamente absorvidas pela comunidade
científica. Entretanto, as definições, ao longo do tempo, não foram, de todo,
esclarecedoras. Ressaltamos que informações precisas sobre o autismo, mesmo que
parciais, fazem com que muitas famílias encarem o diagnóstico com mais positividade.
Dessa forma, o dicionário, por ser visto como obra de referência, surge como uma fonte
de consulta para familiares e pessoas no TEA. Ainda que não seja a função do
dicionário de língua trazer informações sobre o fenômeno do autismo em si mesmo
(essa seria a função das enciclopédias e dos dicionários enciclopédicos), é muito
importante que não incorra em inverdades nas suas definições.
Servimo-nos, a título de exemplificação, de um conceito sobre o autismo,
apresentado por Francisco Paiva Junior, editor chefe da Revista Autismo, primeira
revista da América Latina, em língua portuguesa, especializada nos assuntos do
Transtorno do Espectro Autista:
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Ferreira, Maroneze “Autismo” e “autista”: um estudo lexicográfico
O autismo — nome técnico oficial: Transtorno do Espectro Autista
(TEA) — é uma condição de saúde caracterizada por déficit na
comunicação social (socialização e comunicação verbal e não verbal) e
comportamento (interesse restrito e movimentos repetitivos). Não há
só um, mas muitos subtipos do transtorno. Tão abrangente que se usa
o termo “espectro”, pelos vários níveis de comprometimento — há
desde pessoas com outras doenças e condições associadas
(comorbidades), como deficiência intelectual e epilepsia, até pessoas
independentes, com vida comum, algumas nem sabem que são
autistas, pois jamais tiveram diagnóstico. (PAIVA JUNIOR, 2019)
Para contrastar, convém observar a definição a seguir, registrada em um
dicionário da língua portuguesa, disponível online, em que as informações não estão
apresentadas de forma clara a um consulente leigo.
substantivo masculino PSIQ. polarização privilegiada do mundo dos
pensamentos, das representações e sentimentos pessoais, com perda, em
maior ou menor grau, da relação com os dados e exigências do mundo
circundante. (HOUAISS; VILLAR, s/d, acesso em 2021)
É no dicionário geral da língua que fica clara a necessidade do consulente de
procurar as palavras pouco frequentes, pois as mais usadas são identificadas pelo
contexto e reconhecidas com facilidade.
Atualmente, a nomenclatura e definição mais aceita e difundida no âmbito
acadêmico e científico é a de “Transtornos do Espectro Autista” (TEA), definição
encontrada no manual de doenças DSM-V de 20138, que trouxe muitas modificações
na organização do diagnóstico do autismo.
De acordo com Coutinho et al. (2013), a principal dessas modificações foi a
eliminação das categorias “Autismo”, “síndrome de Asperger”, “Transtorno
Desintegrativo” e “Transtorno Global do Desenvolvimento Sem Outra Especificação”,
8De acordo com a publicação de 2013 do Manual de Diagnóstico e Estatístico de Doenças Mentais (DSM-
V), coordenado pela American Psychiatric Association (APA), com tradução para a Língua Portuguesa em
2014, os grupos de estudos optaram pela utilização da nomenclatura de Transtorno do Espectro Autista,
definida sigla TEA. Atualmente o DSM conta com 300 (trezentas) categorias de diagnósticos, três vezes
mais do que em sua primeira publicação em 1952.
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passando a existir apenas uma denominação: “Transtornos do Espectro Autista”.
Segundo o DSM-V, o Transtorno do Espectro Autista é um transtorno do
desenvolvimento neurológico.
Como o foco desta pesquisa envolve o tema do autismo, as observações recaem
para as características apontadas no DSM para este transtorno em específico. Elas
foram enumeradas como forma de observação de alguns sinais de alerta: o
comprometimento qualitativo da interação social, o comprometimento qualitativo na
comunicação, padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses e
atividades com extrema rotina, linguagem idiossincrática e ausência de jogos
imaginativos.
Conforme divulgação oficial do relatório de estudos do Centro de Controle e
Prevenção de Doenças (CDC9) do governo dos Estados Unidos, em 04 de dezembro de
2021, e matéria publicada na revista Autismo e Realidade10 , redigida pela médica
pesquisadora na área do TEA, pediatra Bárbara Bertaglia, em 04 de fevereiro de 2022,
os dados referentes a 2018 mostram que 1 a cada 44 crianças, aos 8 anos de idade, é
diagnosticada autista.
Entretanto, estimativa recente com base nos dados da National Health Interview
Survey (pesquisa realizada anualmente pelo CDC), divulgada pelo JAMA NetWork/
Jama Pediatric e difundida no Brasil pelo Canal Autismo/ Revista Autismo, em 12 de
Julho de 2022, matéria do redator chefe Francisco Paiva Junior, estatísticas apontam
que a incidência do transtorno é maior em sujeitos do sexo masculino, e que a
proporção atual é de 3,5 meninos afetados para cada menina. Esses dados recentes
informam que a cada 34 pessoas, na faixa etária de 3 a 17 anos, nos Estados Unidos, 1
9 O Centro de Controle e Prevenção de Doenças, é uma agência do Departamento de Saúde e Serviços
Humanos dos Estados Unidos, sediada na Geórgia, conduz pesquisas e fornece informações de saúde
em diversas áreas. O CDC tem rastreado o número e as características de crianças autistas há mais de
duas décadas. As pesquisas são divulgadas a cada dois anos.
10 Instituição formada em 2010 como uma associação de pais e profissionais de saúde, o site Autismo e
Realidade tem como propósito difundir conhecimento sobre os Transtornos do Espectro Autista (TEA).
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Ferreira, Maroneze “Autismo” e “autista”: um estudo lexicográfico
apresenta autismo. O Brasil usa os estudos do centro como base por não ter pesquisas
ainda concretas sobre a prevalência do transtorno no país.
Visto que evoluímos enquanto sociedade civilizada, apesar de serem
necessários, ainda, muitos esforços para a concretização de determinados princípios
orientadores, as variadas questões relativas ao autismo, como o estudo da sua
etiologia, da psicopatologia, das terapias, do processo de ensino e aprendizagem, dos
direitos, entre outros, nem sempre foram vistas de um mesmo modo ao longo do
desenvolvimento das diversas ciências. Na área da Linguística, são ainda poucos os
estudos – e de certa forma recentes – que se destinam à temática do autismo.
No entanto, mesmo que lentamente, nota-se uma humanização significativa das
atitudes da sociedade face à pessoa com deficiência. E estudos sobre essa temática, em
diversas áreas do conhecimento, começam a surgir como promissores e profícuos.
4 Metodologia
Para atingir o objetivo do presente estudo, selecionamos obras lexicográficas da
Língua Portuguesa em plataforma virtual e de acesso online, visto que, no mundo
contemporâneo, o advento da internet e de novas tecnologias propicia a busca, a
aquisição e a troca de informações em questões de segundos, bem como disponibiliza
os recursos abrangentes para a busca de informações, por meio de consulta facilitada
e imediato acesso aos verbetes alvos da pesquisa.
Procedemos primeiramente com a seleção do corpus nos dicionários de uso geral
da Língua Portuguesa, disponíveis gratuitamente online ou por assinatura. Elencamos:
Dicionário Caldas Aulete (doravante Aulete); Dicionário [Link] ([Link]);
Dicionário Houaiss (Houaiss); Dicionário Michaelis (Michaelis); e, Dicionário
Priberam da Língua Portuguesa (Priberam).
Após seleção do corpus foi feita a compilação dos verbetes e a sua organização
em quadro comparativo, sendo analisadas as informações: etimologia, marcas de uso,
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Ferreira, Maroneze “Autismo” e “autista”: um estudo lexicográfico
definição e exemplos. Na sequência, passamos à análise descritiva das informações
encontradas na microestrutura, fundamentada nos referenciais teóricos.
5 Apresentação e análise dos dados obtidos
A discussão dos dados tem início pela análise descritiva e, em seguida,
quantitativa. Foram analisadas, de sua forma original, as informações obtidas nos
cinco dicionários online.
Apresentamos agora os quadros comparativos com base nas informações
constantes em cada uma das entradas, conforme os respectivos dicionários de onde
foram retiradas e de acordo com o propósito de análise.
Quadro 1 – Comparativo do verbete “autismo” nos dicionários analisados.
Dicionário Etimologia Marcas de uso Definição Exemplo
Aulete --- Psiq. Estado mental ---
patológico que leva
a pessoa a fechar-se
em seu próprio
mundo, alheando-
se, em grande
medida, do mundo
exterior
[Link] Do francês autisme --- 1. Transtorno global 1. Segundo
do especialistas, os
desenvolvimento, meninos correm de
caracterizado por três a quatro vezes
alterações no mais riscos de sofrer
desenvolvimento de autismo do que as
neurológico, pela meninas. Folha de
dificuldade de [Link], 03/10/2011
socialização, de 2. Um artigo do
comunicação verbal grupo de trabalho
e/ou do uso da de autismo do DSM-
linguagem. 5 mostrou que, na
verdade, essa
constatação não tinha
amparo. Folha de
[Link], 07/01/2013
3. Seus advogados
lembram que a
síndrome de
Asperger é uma
forma
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Ferreira, Maroneze “Autismo” e “autista”: um estudo lexicográfico
de autismo que, em
algumas ocasiões,
deriva em
comportamento
obsessivo. Folha de
[Link], 03/07/2009
Houaiss fr. autisme (1923); (1935 cf. O Globo polarização ---
emprt. ao al. 28 jan.) privilegiada do
Autismus (1911); der. psiq mundo dos
do gr. autós no pensamentos, das
sentido de 'de si representações e
mesmo'; cf. ing. sentimentos
autism (1912) pessoais, com
perda, em maior ou
menor grau, da
relação com os
dados e exigências
do mundo
circundante
Michaelis der do gr autós+ismo, MED, PSICOL Psicopatologia ---
como fr autisme caracterizada pelo
recolhimento e
absorção do
indivíduo em seu
universo
privilegiado de
pensamentos,
sentimentos e
devaneios
subjetivos, com o
consequente
alheamento do
mundo exterior e a
perda do contato
com a realidade a
seu redor.
Priberam (auto- + -ismo) [Medicina]; 1. Perturbação do
desenvolvimento
do sistema nervoso,
que se manifesta na
infância geralmente
por dificuldades de
interação social e de
comunicação e por
padrões repetitivos,
estereotipados ou
restritos de
comportamento e
de pensamento.
[Depreciativo]
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Ferreira, Maroneze “Autismo” e “autista”: um estudo lexicográfico
2. Ausência de (ex.: autismo
interesse pelo que é governamental)
exterior
Fonte: elaborado pelos autores.
Quadro 2 – Comparativo do verbete “autista” nos dicionários analisados.
Dicionário Etimologia Marcas de uso Definição Exemplo
Aulete --- --- 1. Que sofre de ---
autismo
2. Pessoa que sofre
de autismo
[Link] A palavra autista --- 1. Pessoa que está 1. Um novo concerto
deriva da junção de no espectro autista, escrito especialmente
autismo, do francês que demonstra para um pianista
"autisme”, e do várias e distintas cego e autista estreia
sufixo -ista síndromes nesta semana em
associadas ao Londres. Folha de
autismo, ao [Link], 29/09/2011
transtorno do 2. Travolta contou à
Espectro Autista Suprema Corte das
(TEA), relacionadas Bahamas que seu
com perturbações filho era autista e
ou alterações do sofria de crises
desenvolvimento convulsivas, que o
neurológico, acometiam a cada
dificuldade de cinco ou dez dias e
comunicação ou de duravam entre 45
socialização. segundos e alguns
2. Que está no minutos. Folha de
espectro autista: [Link], 23/09/2009
pessoa autista, 3. Jett era autista e
criança autista. sofria frequentes
convulsões, disse
Travolta no
depoimento anterior.
Folha de [Link],
01/10/2009
Houaiss autismo + -ista (1942 cf. PD3) que ou quem sofre ---
psiq de autismo
Michaelis der do gr autós+ista, MED, PSICOL Que ou aquele que ---
como fr autiste. Psicologia apresenta sintomas
de autismo
Priberam (auto-, automóvel + - --- 1. [Pouco usado]
ista); Pessoa que guia um
(auto-, próprio + - automóvel. =
ista) MOTORISTA
2. Relativo a (ex.: perturbação
autismo adjetivo de autista; transtornos
dois gêneros e do espectro autista).
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Ferreira, Maroneze “Autismo” e “autista”: um estudo lexicográfico
substantivo de dois
gêneros
3. Que ou quem
manifesta
perturbações ou
alterações
associadas ao
autismo.
Fonte: elaborado pelos autores.
Discorreremos, a partir de agora, sobre as constatações.
Entre os cinco dicionários analisados e com base nas informações dispostas nos
quadros comparativos, quatro apresentaram informações quanto à etimologia dos
verbetes “autismo” e “autista”: [Link], Houaiss, Michaelis e Priberam. Nestes são
feitas referências ao grego (autós - no sentido de ‘de si mesmo’ + ismo), ao alemão
(Autismus), ao francês (autisme), ao inglês (autism) e à língua portuguesa (auto- + -ismo)
como fontes de origem da palavra “autismo”. Da entrada “autista” temos: junção de
autismo, do francês autisme e do sufixo -ista, bem como autiste; autismo + -ista;
derivação do grego autós+ista; derivação da língua portuguesa auto-, automóvel + -ista
e auto- no sentido de próprio + -ista. Observamos que não há total concordância entre
os dicionários em relação à apresentação da etimologia.
Quanto às marcas de uso, quatro apresentaram marca no verbete “autismo” e
dois no “autista”. As marcas apresentadas são diatécnicas (fazendo referência a áreas
de especialidades ao identificar os tecnicismos em meio ao léxico geral) e uma delas é
diastrática (indicando que uma das acepções é depreciativa), além da indicação de
datação (presente no Houaiss), que consideramos aqui uma marca de uso de natureza
diacrônica. Na palavra-entrada “autismo”, diacronicamente, foi registrado o ano de
1935, e para “autista” a datação de 1942, ambas informações no dicionário Houaiss. As
marcas diatécnicas para os verbetes foram apresentadas em quatro dicionários para
“autismo” e em dois para “autista”. Constatou-se que são da área da medicina —
grafada [Medicina] e (MED) —, da psiquiatria — (Psiq.) e psiq. —, e da psicologia —
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Ferreira, Maroneze “Autismo” e “autista”: um estudo lexicográfico
PSICOL —; por economia, muitas vezes as marcas aparecem abreviadas e sua inclusão
no verbete é decisão do autor do dicionário.
A respeito da definição, está presente em todos os verbetes dos cinco dicionários
analisados. No entanto, é possível perceber que algumas definições apresentam
inadequações em relação ao conceito atual de “autismo”. Observem-se as seguintes
definições: “Estado mental patológico que leva a pessoa a fechar-se em seu próprio
mundo, alheando-se, em grande medida, do mundo exterior.” e “Ausência de
interesse pelo que é exterior.” (Dicionários Aulete e Priberam, grifos nossos).
Essas definições apresentam um dos mitos comuns sobre o autismo, que é o de
que pessoas autistas vivem em “seu mundo próprio”, interagindo com o ambiente que
“criam”. Na verdade, se, por exemplo, uma criança autista fica isolada em seu canto
observando as outras brincarem, não é porque ela necessariamente tem “ausência de
interesse” no ato de brincar ou porque “vive em seu mundo”, mas por ter dificuldade
em iniciar, manter e terminar adequadamente uma interação, haja vista os
comprometimentos cognitivos, comportamentais e de comunicação das pessoas com
TEA, já mencionados na seção 3 deste artigo.
Na definição do [Link], verificamos a presença de termos que estão
diretamente relacionados ao prejuízo cognitivo, da comunicação e do comportamento
do autista: “perturbações ou alterações do desenvolvimento neurológico, dificuldade
de comunicação ou de socialização” ([Link]). Novamente, trata-se de uma
inadequação, visto que o aspecto comportamental e de comunicação do autista é
variável, conforme também é, em menor ou maior grau, o comprometimento
cognitivo.
Também nos chama a atenção a acepção apresentada para a unidade léxica
“autista” no dicionário Priberam da Língua Portuguesa, em que autista é “[Pouco
usado] Pessoa que guia um automóvel. = MOTORISTA”. Notamos que não há
nenhuma referência de datação e ou exemplo que ilustram o uso da palavra “autista”
como “motorista”. A indicação “[Pouco usado]” na entrada do verbete nos faz indagar
sobre a questão do desuso, bem como se o termo é pertencente a um grupo específico,
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Ferreira, Maroneze “Autismo” e “autista”: um estudo lexicográfico
o que nos leva à necessidade de um estudo mais aprofundado quanto à diacronia de
“autismo” e “autista”.
Por outro lado, um aspecto relevante é o registro da nomenclatura do transtorno
— TEA — no dicionário [Link], o único a apresentá-la: “Pessoa que está no
espectro autista, que demonstra várias e distintas síndromes associadas ao autismo, ao
transtorno do Espectro Autista (TEA)”; esse é um dado que evidencia a atenção que se
deve ter com a atualização dos dicionários. Conforme já apresentamos, atualmente, a
nomenclatura e a definição mais aceita e difundida no âmbito acadêmico e científico é
a do TEA. A referida definição se encontra no Manual de Doenças e Transtornos
Mentais (DSM-V) desde 2013.
Em relação aos exemplos, dos cinco dicionários analisados, somente dois
exemplificam as respectivas palavras-entrada: o [Link] (que traz exemplos
extraídos de corpus autêntico para ambas as unidades lexicais) e o Priberam (que
exemplifica apenas com sintagmas).
Em um dicionário, os exemplos, tanto autênticos quanto adaptados, assumem
caráter esclarecedor e são valiosos para a compreensão. Muitas vezes, o que aparece
de uma forma abstrata num dicionário é caracterizado pelos exemplos, que servem
também para mostrar como uma palavra pode ser usada. Sabe-se que, por razões
econômicas, faltam exemplos na maioria dos dicionários.
O dicionário Priberam registra os sintagmas “perturbação autista; transtornos
do espectro autista” como exemplos do verbete “autista”, além da expressão “autismo
governamental” para a acepção “ausência de interesse pelo que é exterior” no verbete
“autismo”. Esse dicionário é o único que registra essa acepção, que é de fato existente
na língua, e a marca corretamente como depreciativa.
Essa acepção decorre da falta de esclarecimento sobre o TEA, visto que
características erroneamente atribuídas ao transtorno são extrapoladas para outras
esferas e grupos sociais. É possível que esse uso seja relativamente antigo e decorrente
de concepções defasadas em relação ao TEA, mas as pessoas envolvidas com a causa
autista (em especial os familiares) consideram-no pejorativo e que deve ser combatido.
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Ferreira, Maroneze “Autismo” e “autista”: um estudo lexicográfico
Para Tomasini (2012, p. 111) “as normas sociais são produto da ação dos seres
humanos em situações construídas historicamente”. Nesse sentido a norma também
regula e define os indivíduos pelas semelhanças, e segundo a referida autora “tudo e
todos que não se encaixam no padrão social estabelecido são diferenciados (...)”
(TOMASINI, 2012, p. 114).
A autora contribui para as reflexões no sentido de alertar-nos sobre os nossos
olhares frente às diferenças. Cada pessoa deve ser vista na sua singularidade e não
pelas definições que lhe são atribuídas da sua condição física e/ou biológica. Hoje,
pessoas com autismo transitam por vários contextos socioculturais; dessa forma, é
fundamental tomar contato com esta realidade tão peculiar que caracteriza o TEA.
Dessa forma, vemos que os dicionários de língua, por serem considerados obras de
referência, precisam buscar sempre a contínua atualização, para que propaguem
informações autênticas e adequadas.
6 Considerações finais
Partimos da seguinte indagação: Qual o significado de “autismo” e “autista” no
dicionário? Com a observação dos dados, pudemos perceber que, apesar de haver
muitos estudos recentes sobre o TEA, algumas definições presentes nos dicionários
não estão claras e ainda perpetuam concepções ultrapassadas.
É importante deixar claro que não se espera de um dicionário de língua que
traga informações detalhadas sobre o TEA, sua sintomatologia, seu tratamento etc. Isso
seria esperado de dicionários enciclopédicos, enciclopédias, tratados médicos. O que
se espera de um dicionário de língua é que descreva o significado da unidade lexical
de forma clara e sem inadequações. No caso específico dos verbetes “autismo” e
“autista”, as inadequações que apontamos estão diretamente relacionadas a
concepções ultrapassadas, evidenciando a necessidade de contínua atualização.
Assim, ficou evidente a dificuldade com que muitas vezes se deparam os
familiares e as pessoas com TEA (bem como os consulentes em geral) em encontrar
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Ferreira, Maroneze “Autismo” e “autista”: um estudo lexicográfico
fontes de informações confiáveis a respeito dos conceitos de “autismo” e “autista”. É
mister evidenciar a importância das adequações nas definições dos verbetes que
designam transtornos e/ou deficiências, para, assim, promover uma maior
compreensão delas por parte da sociedade e evitar estereótipos e estigmatização dos
indivíduos.
Pesquisas futuras, a ser realizadas em dicionários impressos e em córpus
diacrônicos (inclusive terminológicos), poderão evidenciar as mudanças pelas quais
passou o entendimento do conceito de “autismo” em português e, assim, auxiliar a
entender também o surgimento dos empregos depreciativos e pejorativos dessas
unidades lexicais. Acreditamos que os dicionários de língua não devem se furtar a
registrar as acepções pejorativas, mas devem marcá-las com as rubricas adequadas e,
se possível, deixar claro que esses empregos devem ser evitados.
Por fim, esperamos que esta pesquisa e os dados obtidos possam se somar a
outras já realizadas e até mesmo incitar tantas outras mais sobre a temática, e que
contribua para os estudos lexicográficos, em específico com olhar mais atento às
acepções de lemas designativos de transtornos e/ou deficiências e tudo o que possa
abranger as informações acerca deles no dicionário.
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