Chamaram-me de Demiurgo quando nasci, mas esse era o nome da minha casta.
Houve
outros como eu, e ao todo éramos cinco, e todos os outros tinham nomes, mas nunca tive a
necessidade de ter um. Hoje o meu nome é Azazel, eu sou um celestial, um dos mais
antigos. Estive presente nas primeiras batalhas pelo espaço vazio que era o universo, vi o
Altíssimo dar forma ao nada e estive presente quando as crianças arcanjo nasceram. Vivi
mais vidas humanas do que poderiam contar. E vi quando o primeiro caído arrastou consigo
a terça parte do céu, e vi o Pai se compadecer do mesmo e nunca feri-lo de morte, pois por
pior que seja o filho, este ainda será o filho, assim como a macieira jamais poderia rejeitar
uma maçã podre que estiver em seus galhos, pois é seu fruto. Às vezes eu me pergunto
como deve ter sido para o Pai, exilar seu filho mais bem quisto.
A cidade está mergulhada em escuridão e eu caminho pela rua com meu objetivo em
mente, sei o que tenho que fazer e onde tenho que estar, o lugar não é muito longe, mas
ainda tenho tempo, então posso ir com calma. É estranho saber que longe de mim está
acontecendo uma batalha que será decisiva, não é o apocalipse, é claro, mas se perdermos
essa batalha nem mesmo haverá um. Mas o mais estranho nisso é saber que a mulher que
amo está no meio dessa briga, e ela vai morrer, acho que agora você me perguntaria por
que não estou lá com ela para impedir que isso aconteça, não é? A resposta é simples:
porque eu também vou morrer.
Fico pasmo com a reação de todos ante a morte, muitos tem medo e outros não, alguns
tentam barganhar e tem quem trema de medo, mas a encare de frente. Mesmo sendo um
celestial, eu não tenho ideia do que acontece após Uriel abraçar uma alma humana, mas
sei que ele a leva para um lugar bem distante, além da ilha da morte, porém, estes
segredos apenas ele pode revelar, pois mesmo à beira da morte, eu não seguirei como os
humanos para o Mundo dos Mortos, só não me perguntem o porquê, pois não faço ideia de
qual seja a resposta.
- Como está se sentindo? - Eulália perguntou se materializando ao meu lado.
Eu não quis responder de imediato, deixei a pergunta fazer efeito em minha mente. O
problema em ser um celestial é o fato de não termos os mesmos sentimentos que os
humanos têm, possuímos fé, somos esperançosos, nutrimos raiva contra os nossos
inimigos e um amor incondicional pelo nosso Pai e por Sua criação, mas no fim, não
sentimos realmente, nós temos essa... Essa programação e nunca devemos fugir a esse
padrão de existência. Mas como não sentir? Sendo guardiões, guerreiros e mensageiros,
estamos sujeitos a tudo, toda uma gama de sentimentos que nos invade e devemos apenas
ignorar, mas precisamos ser fortes, e mesmo expostos temos que ficar livres, puros e
intocados. No fim das contas, o que há em nós, que os mortais chamam de sentimentos, é
parte do molde da perfeição que fomos criados, não é real, mas nos apegamos a isso de tal
maneira que quase acreditamos que seja.
Eulália me observava, eu sabia que ela não estava contente com a minha decisão, afinal,
ela havia descoberto que em sua vida mortal fomos amantes, e ainda alimentava a
esperança de que pudéssemos voltar a nos amar em nossa existência imortal, mas o meu
coração pertencia a outra, e ela sabia disso.
- Pela primeira vez desde o momento em que fui criado, eu sinto felicidade... Estou prestes
a morrer, mas não me preocupo, não tenho medo e a única sensação que se apodera do
meu espírito é a paz - respondi quando alcancei a porta do prédio onde eu deveria estar.
Entrei primeiro e ela me seguiu, o saguão era bonito, o piso e o lustre continuavam os
mesmos desde a década de cinquenta, quando entrei naquele edifício pela primeira vez. Os
detalhes em preto e verde limão no papel de parede tornavam aquela visão mais agradável,
e fez com que eu me lembrasse das pessoas que conheci ao longo da minha existência.
Parado no saguão eu absorvia tudo o que estava ao alcance dos meus olhos e me
alegrava, logo eu sentiria tudo como os mortais.
Minha paz durou pouco, pois naquele momento uma luz muito forte inundou o saguão com
uma onda de pureza infinitamente maior que qualquer outra, e então reconheci meus
visitantes, Eulália se ajoelhou em reverência e depois se levantou, mas manteve a cabeça
abaixada.
Boa noite meu amigo... - disse o arcanjo abrindo um largo sorriso de felicidade. Faz muitas -
eras desde a última vez em que nós nos encontramos, mas o tempo só fez acentuar ainda
mais a sua beleza...
Rafael era alto, assim como seus outros irmãos, seu corpo era resplandecente, os cabelos
eram dourados e bem alinhados, os olhos eram cor de âmbar e ele vestia um terno negro
muito elegante.
Por que veio? - perguntei sem tentar disfarçar o meu tom de voz ríspido, e pude percebeu a
expressão de tristeza dominar o rosto do arcanjo. Você não pode me impedir, já foi
previsto... Eu vou morrer!
- E não seria este o motivo da minha tristeza? - o arcanjo perguntou com os olhos em
prantos. - Queria estar com você, meu amigo, no derradeiro momento em que você nos
deixar.
- E porque trouxe Cassiel dos Bene Elohim? perguntei indicando o homem parado a vários
passos atrás do arcanjo.
Um humano confundiria como seu igual, mas isso porque é da prática dos celestiais da
casta dos Bene Elohim se ocultar tão bem de modo que passem despercebidos em
qualquer lugar. Cassiel não fugia a regra, vestido de negro dos pés a cabeça, ele parecia o
mais comum dos mortais. Os outros celestiais nomearam os da casta dos Bene Elohim
como Os Ocultos, pois a eles cabia o dever de manter distante dos olhos mortais todos os
segredos que o Altíssimo queria ocultar, seus dons de encobrir os olhos da mente e do
espírito eram os mais poderosos de todos os celestiais, podendo-se manter escondidos dos
próprios arcanjos, o que certa vez gerou uma grande briga com os celestiais da casta dos
Erelim, eu me lembrava muito bem dessa batalha, pois estive de armas em punho pelos
Erelim, chamados de Os Verdadeiros. Vencemos a batalha e os Bene Elohim nunca mais se
esqueceram desse acontecimento, nublando seus corações como se fosse apenas um, e
nutrindo um ódio extremo pela casta vencedora, consequentemente, por mim também. e
- Não estou aqui para impedir, meu dever neste local é zelar pela segurança do Arcanjo
Puro, mas saiba Azazel, que sua escolha causará uma reviravolta na abóbada celeste,
entretanto, você não estará por perto para testemunhar os futuros acontecimentos... - disse
Cassiel com um sorriso vingativo nos lábios.
- O que quer dizer...? - perguntei diretamente ao celestial, mas não obtive resposta e o seu
sorriso nem mesmo vacilou, então me virei para Rafael. - O que ele quer dizer?
- Acaso não conhece o livro da palavra, demiurgo? disse Cassiel em um tom de voz
debochado. Está no livro de Jó... "Porque se dá luz ao homem, cujo caminho é oculto e a
quem Deus o encobriu?".
- Não estou a amaldiçoar o meu nascimento para ter de ouvir tais palavras de você!
- Não, não está, mas logo mudará a forma como nasceu para ser como esse tipo de
gente... - ele respondeu sua desaprovação era evidente.
Fitei Cassiel por um longo segundo, calculando quanto tempo eu levaria para matá-lo, mas
Rafael iluminou meu pensamento e a raiva dissipou-se por completo. Seu olhar era gentil,
mas ainda triste, e o seu semblante era sereno, eu sempre gostei da companhia do Arcanjo
Puro, embora ele tenha se retirado do convívio dos seus iguais para estar sozinho em
comunhão com o Altíssimo, em nada ele havia mudado, e isso me fazia acreditar que não
mais que breves horas, e não longas eras estiveram entre a nossa amizade.
- Azazel, você não pode se atrasar... - disse o arcanjo dando um passo para o lado para que
eu pudesse seguir o meu caminho, sua voz soava muito calma e tranquilizadora, se eu
fosse humano tenho certeza de que isso teria me causado um arrepio dos pés a cabeça. -
Este caso em especial requer um perfeito sincronismo, caso contrário suas almas irão se
perder para sempre...
Assenti e continuei o meu caminho, com Eulália sempre atrás de mim, fomos em direção a
escada e comecei a subir de dois em dois degraus.
- Essa parte eu não entendi... - disse ela. - Azazel deve deixar de viver no mesmo instante
em que ela... As duas almas deveriam se dirigir para o Reino dos Mortos e ponto final,
acabou aí, mas como ela vai voltar à vida?
A pergunta pairou no ar durante um tempo, eu não sabia a resposta, tudo o que me
interessava era que no final, eu estaria ao lado da mulher que eu amava e teríamos uma
vida mortal inteira para desfrutarmos um ao lado do outro, os detalhes desse processo não
eram do meu interesse, eu sabia apenas o necessário, daria um salto e quando a queda
terminasse, eu seria humano.
- Quando Azazel morrer como um celestial, a graça que pertence a ele deveria retornar ao
Criador, mas nosso amigo já não está mais ligado ao Pai, sua ligação agora é com a mortal
por quem ele irá se sacrificar, e é ela quem mantém Azazel vivo. Sendo assim, quando
deixar de ser um celestial, a graça de Azazel automaticamente se dividirá em duas, uma
para ele e a outra seguirá para o reino dos mortos no lugar da alma desta garota.
- Mas tantos outros anjos morreram ao mesmo tempo em que mortais, por que nenhum
deles sobreviveu? Eulália perguntou ainda mais confusa. - Mas eu não queria saber de mais
nada daquilo, não me interessava, então não consegui me conter.
- Eu não tenho ligação com mais ninguém... Só tenho uma conexão e isso é tudo o que
preciso saber...
- Ok, todos entendemos! - Rafael exclamou com um tom de voz forçosamente alegre.
Eulália, o anjo em questão está ligado a uma mortal, mas isso não quer dizer que outros
anjos nunca tenham feito isso... Eu mesmo já ouvi muitas histórias de anjos que desistiram
de suas graças para viverem como humanos, e também ouvi um ou dois relatos de anjos
que caíram para viver ao lado de quem amavam. Mas no caso de Azazel, sua condição
celestial concede a ele tamanho poder para que um ato desses, em que sua graça se
dividiria em duas para substituir a alma da moça no mundo dos mortos, seja possível... E
arrisco dizer que será infalível.
Não falei mais nada enquanto subia as escadas. Minha mente estava ocupada com outras
coisas mais importantes, a rua, por exemplo, na pintura que vi, a rua estava margeada de
demônios, todos esperando que aquele momento acontecesse, e havia também aquele
demônio negro, que assassinaria minha amada, e ela se entregaria de livre e espontânea
vontade, apenas com uma fé inabalável de que tudo daria certo. Aquilo tudo parecia loucura
aos meus olhos, mas ela sabia o que estava fazendo, alias, ela sempre soube. Venci mais
alguns lances de escada e finalmente me vi diante da porta do terraço, e sem hesitar a abri
dando de cara com a escuridão em que nova York estava mergulhada, e um imenso pavor
se abateu sobre meu coração, naquele momento fiquei pasmo, nunca antes havia tido
aquela sensação, e mesmo como um celestial, eu percebia que os sentimentos estavam
fluindo por mim com mais facilidade.
- Você não está sozinho, meu amigo... - disse Rafael agora de pé ao meu lado, ele
abraçava o meu ombro e olhava para uma direção diferente.
Segui o seu olhar e fiquei sem palavras, no céu escuro havia um clarão mais reluzente que
o próprio sol, uma corte de anjos estava presente e todos me observavam, havia
representantes de todas as castas, todos emanando um brilho tão poderoso que precisei
piscar duas vezes para distinguir uns dos outros, então percebi uma coisa, eu estava
chorando.
- Tem certeza de que vai fazer isso Azazel? - Eulália perguntou e somente suspirou quando
assenti em resposta.
Tirei minha camisa e pude sentir o ar frio contra o meu corpo, abri as asas para senti-las
uma última vez e então Rafael as amarrou, o sangue começou a escorrer e sujar de
vermelho as minhas asas. Eulália tapou a boca com as duas mãos e chorou, e pude ver
pelo canto do olho muitos outros anjos fazendo o mesmo, ou então fechando os olhos,
alguns apoiavam suas testas no ombro de quem estava ao lado, mas uma coisa todos
faziam em comum, e eu sentia a força de suas preces me ajudando a resistir aquele
momento. O arame farpado que Rafael usou para amarrar as minhas asas estava
afiadissimo, mas a dor era suportável, os meus pensamentos estavam nela, no futuro que
eu teria ao seu lado, as minhas lembranças se concentravam em nosso primeiro beijo; dei
um passo a frente e subi a amurada do terraço, as preces dos anjos se intensificaram, e
eles pediam que eu fosse feliz em minha nova vida.
- Adeus - disse Rafael ao meu lado.
Antes que eu pudesse responder, eu senti que aquela era a hora, o corpo dela fora
trespassado pela espada do demônio, abri os meus braços e deixei meu corpo cair no
vazio, as minhas asas instintivamente tentavam se abrir, mas o arame as rasgava e as
mantinham amarradas. Eu sabia que ela estava de joelhos, pude vê-la deitar-se no chão e
logo senti o meu corpo se chocar contra o asfalto. Podia vê-la, era como se ela estivesse
deitada bem diante de mim, ela sorriu também me vendo, escorria sangue dos seus lábios,
e logo a luz deixou seus olhos cor de mel. Fechei meus olhos e senti, pela primeira vez ao
longo da minha existência, eu estava sentindo o frio da morte.
- Brooki... murmurei. - Eu te amo….