Ponto de Articulação na Libras
Ponto de Articulação na Libras
PROFESSORAS
NEAD
Núcleo de Educação a Distância
Av. Guedner, 1610, Bloco 4
Jd. Aclimação - Cep 87050-900 Maringá - Paraná
[Link] | 0800 600 6360
DIREÇÃO UNICESUMAR
Reitor Wilson de Matos Silva, Vice-Reitor Wilson de Matos Silva Filho, Pró-Reitor de Administração
Wilson de Matos Silva Filho, Pró-Reitor de EAD Willian Victor Kendrick de Matos Silva, Presidente
da Mantenedora Cláudio Ferdinandi.
Diretoria Operacional de Ensino Kátia Coelho, Diretoria de Planejamento de Ensino Fabrício Lazilha,
Direção de Operações Chrystiano Mincoff, Direção de Mercado Hilton Pereira, Direção de Polos
Próprios James Prestes, Direção de Desenvolvimento Dayane Almeida, Direção de Relacionamento
Alessandra Baron, Head de Produção de Conteúdos Rodolfo Encinas de Encarnação Pinelli, Supervisão
do Núcleo de Produção de Materiais Nádila de Almeida Toledo, Coordenador(a) de Contéudo Marcia
Maria Previato Souza, Projeto Gráfico José Jhonny Coelho, Editoração Humberto Garcia da Silva,
Designer Educacional Isabela Agulhon, Lideranças de área Daniel Fuverki Hey e Hellyery Agda,
Revisão Textual Pedro Afonso Barth, Kaio Vinicius Cardoso Gomes, Ilustração Bruno Pardinho,
Fotos Shutterstock.
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Wilson Matos da Silva
Reitor da Unicesumar
Viver e trabalhar em uma sociedade global é um grande as demandas institucionais e sociais; a realização
desafio para todos os cidadãos. A busca por tecnologia, de uma prática acadêmica que contribua para o
informação, conhecimento de qualidade, novas desenvolvimento da consciência social e política e, por
habilidades para liderança e solução de problemas fim, a democratização do conhecimento acadêmico
com eficiência tornou-se uma questão de sobrevivência com a articulação e a integração com a sociedade.
no mundo do trabalho. Diante disso, o Centro Universitário Cesumar almeja
Cada um de nós tem uma grande responsabilidade: ser reconhecida como uma instituição universitária
as escolhas que fizermos por nós e pelos nossos fará de referência regional e nacional pela qualidade
grande diferença no futuro. e compromisso do corpo docente; aquisição de
Com essa visão, o Centro Universitário Cesumar assume competências institucionais para o desenvolvimento
o compromisso de democratizar o conhecimento por de linhas de pesquisa; consolidação da extensão
meio de alta tecnologia e contribuir para o futuro dos universitária; qualidade da oferta dos ensinos
brasileiros. presencial e a distância; bem-estar e satisfação da
No cumprimento de sua missão – “promover a comunidade interna; qualidade da gestão acadêmica
educação de qualidade nas diferentes áreas do e administrativa; compromisso social de inclusão;
conhecimento, formando profissionais cidadãos que processos de cooperação e parceria com o mundo
contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade do trabalho, como também pelo compromisso
justa e solidária” –, o Centro Universitário Cesumar e relacionamento permanente com os egressos,
busca a integração do ensino-pesquisa-extensão com incentivando a educação continuada.
boas-vindas
Fabrício Lazilha
Diretoria de Planejamento de Ensino
Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está de maneira a inseri-lo no mercado de trabalho. Ou seja,
iniciando um processo de transformação, pois quando estes materiais têm como principal objetivo “provocar
investimos em nossa formação, seja ela pessoal ou uma aproximação entre você e o conteúdo”, desta
profissional, nos transformamos e, consequentemente, forma possibilita o desenvolvimento da autonomia
transformamos também a sociedade na qual estamos em busca dos conhecimentos necessários para a sua
inseridos. De que forma o fazemos? Criando formação pessoal e profissional.
oportunidades e/ou estabelecendo mudanças capazes Portanto, nossa distância nesse processo de
de alcançar um nível de desenvolvimento compatível crescimento e construção do conhecimento deve
com os desafios que surgem no mundo contemporâneo. ser apenas geográfica. Utilize os diversos recursos
O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de pedagógicos que o Centro Universitário Cesumar
Educação a Distância, o(a) acompanhará durante todo lhe possibilita. Ou seja, acesse regularmente o AVA
este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens – Ambiente Virtual de Aprendizagem, interaja nos
se educam juntos, na transformação do mundo”. fóruns e enquetes, assista às aulas ao vivo e participe
Os materiais produzidos oferecem linguagem das discussões. Além disso, lembre-se que existe
dialógica e encontram-se integrados à proposta uma equipe de professores e tutores que se encontra
pedagógica, contribuindo no processo educacional, disponível para sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em
complementando sua formação profissional, seu processo de aprendizagem, possibilitando-lhe
desenvolvendo competências e habilidades, e trilhar com tranquilidade e segurança sua trajetória
aplicando conceitos teóricos em situação de realidade, acadêmica.
Professora Doutora
Clélia Maria Ignatius Nogueira
Doutora em Educação pela UNESP – Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho.
Mestra em Matemática pela USP – Universidade de São Paulo. Licenciada em Matemática
pela FAFIT – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Tupã, SP. Professora de Libras da
Unicesumar desde 2010. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Surdez e Ensino
de Matemática, da Universidade Estadual Paranaense – UNESPAR; do Projeto de Apoio a
Difusão da Libras do Departamento de Língua Portuguesa da UEM e do Projeto de Apoio a
Difusão da Libras – Palotina – UFPR.
Para maiores informações, acesse o link disponível em: <[Link]
Professora Mestre
Marília Ignatius Nogueira Carneiro
Mestra em Educação pela UEM. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Surdez e
Ensino de Matemática, da Universidade Estadual Paranaense – UNESPAR, Campus de Campo
Mourão. Licenciada em Letras Libras pela UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina.
Bacharel em Gastronomia pela Unicesumar – Maringá. Professora de Libras do Departamento
de Língua Portuguesa da Universidade Estadual de Maringá e Coordenadora do Projeto de
Apoio a Difusão da Libras – UEM.
Para maiores informações, acesse o link disponível em: <[Link]
Professora Especialista
Beatriz Ignatius Nogueira Soares
Especialista em Educação Especial – Instituto Paranaense de Ensino e Faculdade Maringá.
Licenciada em Artes Visuais pela Unicesumar e Licenciada em Letras Libras pela UFSC – Uni-
versidade Federal de Santa Catarina. Professora de Libras da UFPR – Universidade Federal
do Paraná – Campus de Palotina. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Surdez e
Ensino de Matemática, da Universidade Estadual Paranaense – UNESPAR e Coordenadora
do Projeto de Apoio a Difusão da Libras – Palotina - UFPR.
Para maiores informações, acesse o link disponível em: <[Link]
apresentação do material
Libras
Olá caro(a) aluno(a)! Você certamente deve estar se Ao elaborar este livro texto, procuramos atender prio-
perguntando por que estudar a Língua Brasileira de ritariamente a três grandes objetivos: proporcionar a
Sinais, a Libras. Afinal, essa é a língua dos surdos bra- constituição de uma imagem positiva da surdez e dos
sileiros e provavelmente você nem conhece ninguém surdos; favorecer a inclusão educacional e social do
surdo! surdo e promover a difusão da Libras.
Algo que você provavelmente não sabe é que atualmen- Pelo nosso sobrenome, você já deve ter percebido
te existem no Brasil cerca de 5.7 milhões de pessoas que nós três somos parentes! É verdade. Somos mãe
surdas e que, segundo dados do MEC - Ministério da (Clélia) e filhas. A mãe é ouvinte e as filhas são surdas
Educação, em 2001, existiam 50 mil estudantes surdos e nós vivenciamos um período muito difícil na edu-
matriculados no Ensino Fundamental, a maioria deles cação do surdo brasileiro, no qual os professores não
em classes comuns, em escolas inclusivas, vivencian- aprendiam a se comunicar com seus alunos e mais,
do uma situação de fracasso escolar, principalmente os próprios surdos eram proibidos de usar a Libras!
porque a metodologia mais utilizada ainda é a expli- Esse período foi muito difícil e isso acontecia por-
cação oral. que as pessoas, incluídas aí os professores e a família,
Este dado de 2001 é importante porque deu origem a acreditavam que aprender falar oralmente era a única
diversas ações do Ministério da Educação do Brasil, forma do surdo - que naquela época era designado por
mudando, radicalmente e para melhor, a educação do deficiente auditivo - se integrar à sociedade.
surdo brasileiro. Dentre elas, destacamos o Decreto Atualmente, muita coisa mudou. Até a maneira de se
Federal 5626 de 22 de dezembro de 2005, que tornou referir aos surdos, e na Introdução da Unidade I, nós
obrigatório o ensino de Libras - Língua Brasileira de vamos discutir isso melhor. Vamos mostrar porque
Sinais - em todos os cursos de formação de professo- hoje os surdos não querem mais ser chamados de
res e também de fonoaudiologia do Brasil, além de se deficientes auditivos e mais, vamos mostrar porque a
constituir como disciplina optativa dos demais cursos. maneira como nós utilizamos as palavras é importante!
É por isso que você está tendo esta disciplina! Sem uma boa discussão parece implicância querer
A surdez pode ser caracterizada de duas maneiras que se utilizem algumas palavras. A tal da história do
distintas: seguindo o modelo médico, em que ela é “politicamente correto”, afinal, o que isso importa, se
vista como uma deficiência, uma limitação de natureza as pessoas entendem do que estamos falando, inde-
patológica, com o surdo sendo rotulado por aquilo pendente da palavra usada? Esta resposta está lá, na
que não é capaz de fazer, ou seguindo a concepção Introdução da Unidade I.
sócio-antropológica da surdez, como uma diferença Com a Unidade I - O surdo, a surdez, a educação, a cul-
linguística, encarando o surdo a partir de suas possibi- tura e identidades surdas - nosso objetivo é introduzir
lidades, que poderão ser mais ou menos aproveitadas você no mundo surdo, mostrando, por exemplo, que
em função da educação que lhe for ofertada. nem sempre os surdos tiveram direito à educação, que
começou somente por volta do século XV, quando os de palavras relacionadas entre si por um grande tema.
surdos começam a ser educados e que, desde seu início, Esta construção de vocabulário também está presente
a grande discussão sempre foi se esta educação deveria nas Unidades IV e V. Em função da limitação de espaço
ser feita sustentada essencialmente na oralização ou em um texto como este, nos limitamos ao vocabulário
se poderia ser apoiada em gestos. mais básico para a sala de aula. Para o estudo dessas
Em seguida, o objetivo é discutir como se efetiva a três unidades, os vídeos são fundamentais, assim como
educação do surdo no Brasil atual. Quais são as polí- a consulta aos sites indicados.
ticas, as leis e os programas públicos de atendimento Na Unidade IV - Aspectos Morfológicos da Libras - o
educacional ao surdo, além dos recursos tecnológicos objetivo principal é discutir as regras que determinam
para a sua inclusão social e educacional. Estes temas a formação de sinais abordandos, também, os Classi-
são abordados na Unidade II, que trata, como o pró- ficadores, poderosos auxiliares da Libras.
prio título indica, de maneira direta, de Legislação, Na Unidade V - Aspectos Sintáticos da Libras -, o ob-
Políticas Públicas e Recursos Tecnológicos para a Edu- jetivo é apresentar a sintaxe espacial, ou seja, como se
cação de Surdos. caracteriza o “espaço gramatical” em Libras; discutindo
Na terceira unidade - Aspectos Gerais e Fonológicos da as regras para a formação de frases em Libras, por
Libras -, começamos a apresentar a Libras, em seus as- exemplo. Tratamos também da modulação de sinais
pectos gerais e fonológicos e, já a partir da introdução em Libras omo processo análogo ao da entonação na
da Unidade III, você vai ficar sabendo que a Libras Língua Portuguesa.
é uma língua com gramática própria e proporciona Sabemos que aprender Libras é uma tarefa difícil e
para os surdos tudo que a língua oral proporciona aos quase impossível de acontecer só com esta disciplina.
ouvintes. E ainda, que cada país tem a sua língua de Nós esperamos que você se interesse pelos surdos, pela
sinais. A Libras é a Língua Brasileira de Sinais, falada sua língua e procure estudar mais e mais!
pelos surdos brasileiros. Finalizamos a parte teórica da Finalizamos esta apresentação com esta frase que nos
Unidade III discutindo as restrições para a criação de faz refletir: “O que importa a surdez da orelha, quando
sinais em Libras. Nesta unidade também iniciamos a a mente ouve? A verdadeira surdez, a incurável sur-
construção do seu vocabulário em Libras, com o Léxico dez é a da mente” (FERDINAND BERTHIER, surdo
de Categorias Semânticas, isto é, sinais para um grupo francês, 1854).
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta
unidade:
• História da educação de surdos
• Abordagens educacionais para surdos: oralismo,
comunicação total e bilinguismo
• Cultura e identidades surdas
Objetivos de Aprendizagem
• Refletir sobre o percurso histórico da Educação de Surdos.
• Cotejar as principais abordagens pedagógicas na Educação
de Surdos.
• Refletir sobre cultura e processo de construção de
identidades surdas.
unidade
I
INTRODUÇÃO
A
pesar de, aparentemente, não ter importância a denomina-
ção escolhida para designar uma pessoa ou um grupo de
indivíduos, ela revela nossa concepção, a maneira como
consideramos a pessoa, o grupo ou o fenômeno a que nos
referimos. É comum entre as pessoas, por exemplo, a utilização da ex-
pressão surda-muda para designar a pessoa surda.
A palavra mudo não corresponde à realidade do surdo, pois ele não
é mudo, no sentido de possuir comprometimentos no sistema fonoarti-
culatório, mas, a maioria das vezes, a pessoa surda não fala porque não
consegue aprender, pois não possui o feedback auditivo. Há casos de pes-
soas que ouvem (portanto, não são surdas), mas têm um distúrbio da fala
e, em decorrência disso, não falam, são mudas.
A expressão deficiente auditivo está ligada ao período que refletia a
concepção do Modelo Médico, que entendia o surdo como deficiente e,
para torná-lo eficiente, a ênfase no trabalho era a de reabilitação (traba-
lho de reabilitar a audição e a fala, na tentativa de minimizar os efeitos
provocados pela alteração auditiva).
Atualmente, dentro da concepção defendida por diversos auto-
res como Carlos Skliar (1998), Ronice Quadros (1997), Lucinda Brito
(1995), Paula Botelho (2002), Gladys Perlin (2004) entre outros, a surdez
é entendida muito mais como uma “diferença” do que como deficiência.
Segundo esses estudiosos, a surdez é uma experiência visual “e isso
significa que todos os mecanismos de processamento da informação e to-
das as formas de compreender o universo em seu entorno, se constroem
como experiência visual” (SKLIAR, 1998, p. 28).
Nesta primeira unidade, vamos estudar a história da educação de
surdos, para compreendermos melhor a evolução dessa educação e das
diferentes abordagens ou filosofias educacionais; o oralismo, a comuni-
cação total e o bilinguismo, bem como suas consequências para a forma-
ção da identidade da pessoa surda.
LIBRAS
História da
Educação de Surdos
A
principal questão da educação dos sur- Durante muito tempo, os surdos eram conside-
dos, desde seu início, sempre foi se os rados incapazes de ser ensinados, por isso, eles não
surdos deveriam desenvolver a aprendi- frequentavam escolas. As pessoas surdas, principal-
zagem utilizando a língua de sinais ou a mente as que não falavam, eram excluídas da socie-
língua oral. E essa decisão, durante muito tempo, foi dade, sendo proibidas de casar, possuir ou herdar
tomada pelos ouvintes. Só recentemente, os surdos bens e viver como as demais pessoas.
podem dizer como preferem ser educados, e a maio- Até o final do século XV não havia escolas
ria decidiu que o melhor para eles é a língua de sinais. com ensino especializado para surdos, mas, na
Como não é possível viver no mundo dos ouvin- verdade, a figura do preceptor (professor particu-
tes sem o conhecimento da língua pátria, os surdos lar) era muito comum para todas as crianças e jo-
defendem que a língua de sinais (no caso do Brasil, vens, principalmente das famílias ricas. Famílias
a Libras) deve ser considerada sua primeira língua e nobres e influentes que tinham um filho surdo
depois devem aprender o português, de preferência contratavam os serviços de professores particula-
na modalidade escrita. res para que ele aprendesse a falar, pois a apren-
Mas, para os surdos poderem conquistar o direito dizagem de uma língua era essencial para que os
de se expressarem em Libras, que hoje é língua oficial surdos pudessem herdar os títulos e as proprieda-
brasileira desde 2002, eles lutaram muito e por séculos! des de suas famílias.
Os poucos relatos encontrados sobre a educação É apenas no início do século XVI que se começa
dos surdos durante a Antiguidade e por quase toda a acreditar que os surdos podiam aprender median-
a Idade Média falavam de curas milagrosas dizendo te a educação e aparecem relatos de educadores que
que qualquer sucesso dos surdos era devido à “inter- apresentam resultados obtidos com seus trabalhos
ferência divina”. utilizando diferentes métodos.
14
EDUCAÇÃO FÍSICA
Uma pessoa importante para a educação dos sur- os surdos a falarem, o método de Bonet pode ser
dos no século XVI é o médico, matemático e astrólo- considerado a base para a Comunicação Total, que
go italiano Gerolamo Cardano (1501-1576), que ti- é utilizada até os dias de hoje e que estudaremos no
nha um filho surdo. Ele é considerado um educador próximo tópico.
de surdos, mas seus estudos eram mais relacionados No século XVIII, a educação dos surdos avança
à medicina. Cardano afirmou que a escrita poderia bastante, principalmente com os trabalhos do Aba-
representar os sons da fala e as ideias do pensamento de Charles Michel De L’Epée, na França; de Thomas
e, por isso, o fato de não falar não era impedimento Braidwood, na Inglaterra e de Samuel Heinicke, na
para que o surdo adquirisse conhecimento. Assim, Alemanha. Apesar de utilizarem metodologias dife-
Cardano já recomendava o uso de sinais e o ensino rentes, o que os aproxima é o fato de terem criado as
da linguagem escrita. primeiras escolas coletivas para
O espanhol Pedro Ponce de surdos em seus países.
Leon (1520-1584) é considerado Thomas Braidwood fun-
o primeiro professor de surdos dou, em 1760, em Edimburgo,
por ter ensinado crianças surdas a primeira escola para surdos
da nobreza espanhola. Frei Ponce de toda Grã-Bretanha. Brai-
de Léon usava na educação dos dwood utilizava um alfabeto
surdos, sinais, treinamento de digital envolvendo ambas as
voz e leitura labial. mãos para apoiar o ensino da
Quarenta anos após a mor- escrita e da fala. Este alfabeto
te de Frei Ponce de Leon, já no ainda é utilizado na Inglaterra.
século XVII, Juan Pablo Bonet Samuel Heinicke criou, em
publicou o que seria o primei- 1778, uma escola em Liepzig,
ro livro do mundo para ensinar na Alemanha. A sua metodo-
língua de sinais a surdos, con- Fonte: Bonet (1680, on-line)1
. logia defendia que a coisa mais
tendo o alfabeto manual. Bonet importante no ensino da crian-
dava grande importância à expressão e ao treino ça surda seria a linguagem falada e que a linguagem
oral nos primeiros anos de vida da pessoa e sempre por meio de gestos poderia prejudicar esta aprendi-
utilizava a comunicação gestual. A primeira inter- zagem. Heinicke é considerado o fundador do ora-
venção pedagógica de Bonet com seus alunos era lismo (que vamos estudar melhor na seção seguinte)
ensinar o alfabeto gestual e as letras corresponden- e de uma metodologia que ficou conhecida como o
tes na forma escrita. “método alemão”.
Posteriormente, Bonet ensinava a articulação Na época era comum manter em segredo o modo
das letras para, finalmente, apresentar as estruturas como se conduzia a educação dos surdos. Cada pro-
gramaticais. Os gestos eram considerados impor- fessor trabalhava sozinho e não era comum trocar ex-
tantes para os surdos entenderem o significado das periências, por isso, conhecemos pouco do “método
palavras e como ele adotava os gestos para ajudar alemão” de Heinicke. Ele mesmo escreveu que seu
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LIBRAS
método de educação não era conhecido por ninguém, Nesse período, alguns surdos se destacaram e
exceto por seu filho, pois ele dizia ter passado por ocuparam posições importantes na sociedade de
muitas dificuldades para criar seu método e por isso seu tempo. Alguns deles, como por exemplo, Fer-
não pretendia dividir suas conquistas com ninguém. dinand Berthier, escreveram vários livros falando
Considerando que os estudos linguísticos obje- de suas dificuldades de comunicação e dos proble-
tivam conhecer os princípios de funcionamento das mas causados pela surdez. Ainda no século XVIII,
línguas, suas semelhanças e diferenças, podemos di- o abade Roch Sicard (1742-1822), que havia estu-
zer que os estudos linguísticos acerca das línguas de dado com De L’Epée, objetivando ser professor de
sinais tiveram início com o abade francês Charles surdos, criou uma escola em 1782, na cidade de
De L’Epée, no final do século XVIII. O abade, a par- Bordéus, na França. Escreveu o livro A Teoria dos
tir da observação de grupos de surdos, verificou que Signos, acerca dos sinais metódicos e também pu-
estes desenvolviam um tipo de comunicação apoia- blicou um dicionário.
da no canal viso-gestual, que era muito satisfatória. A partir do século XVIII, dois grupos foram
Partindo dessa linguagem gestual, ele desenvolveu criados na educação de surdos: um grupo que de-
um método educacional, apoiado na linguagem de fendia o oralismo puro, não permitindo o recurso
sinais da comunidade de surdos franceses, acrescen- gestual e outro que buscava a aquisição da língua
tou alguns sinais que tornavam a estrutura da língua oral, tendo como suporte a linguagem gestual (me-
dos surdos mais parecida com o francês e denomi- todologia combinada).
nou esse sistema de “sinais metódicos”. No início do século XIX, Thomas Hopkins
Em 1775, De L’Epée fundou uma escola para sur- Gallaudet criou a primeira escola para surdos dos
dos, a primeira em seu gênero, com aulas coletivas, Estados Unidos da América usando sinais. Em 1835,
na qual professores e alunos usavam os chamados a língua americana de sinais (ASL) foi reconhecida
sinais metódicos. A proposta educativa da escola como língua dos surdos dos Estados Unidos e ofi-
era que os professores deveriam aprender tais sinais cializada como língua americana, feito que os surdos
para se comunicar com os surdos. Os professores brasileiros só conseguiram em 2002, com a oficiali-
aprendiam com os surdos e, utilizando os “sinais zação da Libras.
metódicos”, ensinavam o francês falado e escrito. As duas abordagens metodológicas avançaram,
Diferente de Heinecke, que escondia seu méto- surgindo, então, encontros mundiais de educadores
do, De L’Epée divulgava seus trabalhos em reuniões de surdos, para divulgação das práticas pedagógicas.
periódicas e propunha-se a discutir seus resultados. O primeiro desses encontros foi o I Congresso In-
Em 1776, publicou um livro no qual divulgava suas ternacional sobre a Instrução de Surdos, realizado
técnicas. Seus alunos usavam bem a escrita, e muitos em 1878, em Paris. Nesse congresso, apesar de todos
deles ocuparam mais tarde o lugar de professores de os participantes entenderem que era melhor usar
outros surdos. sinais, vários grupos defendiam que o oralismo era
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EDUCAÇÃO FÍSICA
muito importante para a criança poder se comuni- desenvolver uma linguagem oral que lhe permitisse
car com os ouvintes. É somente a partir deste con- conviver em sociedade, além de apresentarem mui-
gresso em Paris que os surdos adquiriram o direito tas dificuldades para aprender ler e escrever.
de assinar documentos. Apesar desse fracasso evidente, o oralismo ga-
Os debates sobre qual metodologia era mais nhou nova força na década de 50 do século XX
adequada para a educação dos surdos continu- quando, com o avanço da tecnologia, surgem os pri-
aram, e, em 1880, foi realizado o II Congresso meiros aparelhos de audição para crianças surdas
Internacional, em Milão, que provocou uma re- muito pequenas, os AASI - Aparelhos de Amplifica-
viravolta nas práticas pedagógicas para o ensino ção Sonora Individual. Os oralistas acreditavam que,
dos surdos. Organizado praticamente apenas por com a protetização (uso dos aparelhos) desde muito
oralistas, o objetivo velado do Congresso de Mi- cedo, os surdos poderiam “ouvir” e, então, aprender
lão era tornar o oralismo obrigatório na educação a falar. Todavia, isso também não se concretizou, na
de surdos. Nesse congresso, o inventor do telefone prática, para todas as crianças.
Graham Bell exerceu enorme influência a favor do Com o passar do tempo, a garantia do direito de
oralismo. todos à educação e o avanço da tecnologia dos apa-
Para conseguirem seus objetivos, os oralistas relhos auditivos fizeram com que as crianças surdas
apresentaram diversos surdos que falavam bem e, na de diversos países passassem a ser encaminhadas
assembleia de encerramento, realizada no dia 11 de para as escolas regulares comuns. No Brasil, as Se-
setembro de 1880, com exceção dos cinco membros cretarias Estaduais e Municipais de Educação passa-
americanos e de um professor britânico, todos os ram a coordenar o ensino das crianças com necessi-
participantes, em sua maioria europeus e ouvintes, dades educacionais especiais e surgiram as Salas de
votaram por aclamação a aprovação do uso exclusi- Recursos e Classes Especiais para surdos, além de
vo e absoluto da metodologia oralista, proibindo, a algumas Escolas Especiais, com recursos públicos
partir de então, a utilização da linguagem de sinais ou privados.
na educação de surdos. Na década de 1960 surgiu, no Brasil, o primeiro
Assim, a partir do Congresso de Milão, no mun- estudo linguístico sobre línguas de sinais, não con-
do todo, com exceção do Instituto Gallaudet nos siderada até então uma língua verdadeira. Realiza-
Estados Unidos, o oralismo foi o referencial assumi- do por William Stokoe, Klima e Bellugi, nos Estados
do e suas práticas educacionais foram amplamente Unidos, este estudo demonstrou as características
desenvolvidas e divulgadas, não sendo questionadas que fazem da linguagem de sinais uma língua equi-
por quase um século. valente à oral.
Todavia, o trabalho educacional realizado na Entre 1960 e 1970, chega ao Brasil a Comuni-
abordagem oralista não mostrou bons resultados, cação Total, que basicamente tirava a língua oral
pois a maioria dos surdos profundos não conseguiu como o grande e principal objetivo da educação
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LIBRAS
de surdos, considerando mais importante a comu- te e se chama Bilinguismo. Para que os surdos brasi-
nicação. Para isso, todos os recursos eram usados, leiros pudessem ter direito a uma educação bilíngue,
como gestos convencionados no próprio grupo, muitas lutas aconteceram.
língua de sinais, leitura orofacial, alfabeto manual, Um acontecimento importante foi a criação
leitura e escrita etc. da FENEIS (Federação Nacional de Educação e
Em 1969, temos a primeira tentativa de registrar Integração dos Surdos), em 1987, que é uma enti-
a Língua de Sinais falada no Brasil, por meio de um dade sem fins lucrativos, a máxima representati-
pequeno dicionário, Linguagem das Mãos - orga- va dos surdos, que trabalha em prol da sociedade
nizado pelo missionário americano Eugênio Oates surda garantindo, entre outras coisas: a inclusão
-, que apresentou um bom índice de aceitação por do surdo no mercado de trabalho, pesquisas para
parte dos surdos. a sistematização e padronização do ensino de Li-
Somente em 1980 iniciaram os Estudos Linguís- bras (Língua Brasileira de Sinais) para ouvintes
ticos no Brasil sobre a Língua de Sinais, saindo o pri- e a defesa dos direitos linguísticos e culturais da
meiro boletim do GELES - Grupo de Estudos sobre comunidade surda.
Linguagem, Educação e Surdez -, da Universidade Em 2001, foi lançado em São Paulo, o Dicioná-
Federal de Pernambuco, no Recife. rio Enciclopédico Ilustrado de Libras, em projeto da
Em 1986, a Língua de Sinais passou a ser defen- USP – Universidade de São Paulo, e em 2002 o Di-
dida no Brasil por profissionais influenciados pelos cionário LIBRAS/Português em CD-ROM, trabalho
estudos divulgados pela Gallaudet University. Nessa realizado pelo INES/MEC, com apoio da FENEIS.
mesma época, a língua de sinais utilizada pelos sur- Nacionalmente, a Libras foi recentemente oficia-
dos das capitais do Brasil foi denominada pela sigla lizada através da Lei 10.436/2002, enquanto língua
LSCB - Língua de Sinais dos Centros Urbanos Brasi- dos surdos brasileiros, marcando o início de uma
leiros. Também foi descoberta a existência de outra nova e promissora era no que diz respeito à pessoa
língua de sinais no Brasil, a LSUK - Língua de Sinais surda, sua capacidade, identidade e formação. Essa
dos índios Urubus-Kaapor. lei reconhece não somente a Libras como uma Lín-
Os avanços nas pesquisas sobre as línguas de si- gua e que como tal deve ser respeitada, mas que a
nais recomendam que a criança surda tenha acesso comunidade surda, sua cultura e sua identidade de-
o mais cedo possível à língua de sinais e que, poste- vem ser respeitadas.
riormente, aprenda a língua de seu país, se necessá- Com tantos avanços, a discussão da educação
rio, apenas na modalidade escrita. Essa filosofia de dos surdos agora se prende a Inclusão ou Escolas Es-
educação dos surdos é a que está valendo atualmen- peciais. Mas essa é outra história.
18
EDUCAÇÃO FÍSICA
Abordagens Educacionais
para Surdos:
Oralismo, Comunicação Total
e Bilinguismo
C
onforme vimos no texto anterior, até o pela leitura e escrita e, com este apoio, utilizavam di-
Congresso de Milão, as duas principais ferentes técnicas para desenvolver outras habilidades,
correntes metodológicas da educação de tais como leitura labial e articulação das palavras.
surdos, o oralismo e o gestualismo (con- Apesar desses aspectos em comum, já no come-
forme era denominada na época) conviviam “pacifi- ço do século XVIII, começa a surgir uma brecha que
camente” e o objetivo maior dessa educação era que “[...] se alargaria com o passar do tempo e que sepa-
o surdo aprendesse a língua que falavam os ouvintes raria irreconciliavelmente oralistas de gestualistas”
da sociedade na qual viviam. (LACERDA, 1998, p. 70).
Em seu início, a educação de surdos além da De maneira ampla, o que diferencia oralistas de
atenção dada à fala, enfatizava também a língua gestualistas é que os primeiros exigiam que os surdos
escrita e, por isso, os alfabetos digitais eram muito falassem e se comportassem como se não fossem sur-
utilizados. Esses alfabetos digitais eram inventados dos. Os gestualistas entendiam melhor as dificuldades
pelos próprios professores, que defendiam a ideia de do surdo com a língua falada e perceberam que os
que se o surdo não podia ouvir e nem se expressar surdos desenvolviam uma linguagem que permitia a
na língua falada, ele podia comunicar-se pela escrita. comunicação e “[...] lhes abria as portas para o conhe-
Mesmo os professores de surdos que defendiam cimento da cultura, incluindo aquele dirigido para a
o oralismo iniciavam o ensinamento de seus alunos língua oral” (LACERDA, 1998, p. 70).
19
LIBRAS
O que é importante destacar dessa divergência Segundo Goldfeld (1997), objetivo do oralismo,
entre os defensores do oralismo e do gestualismo é ou filosofia oralista, é a integração da criança surda
o fato de que existem diferentes maneiras de se en- na comunidade de ouvintes, mediante o desenvolvi-
frentar as consequências da surdez e que ainda não mento da língua oral, o português, no caso do Brasil.
existem estudos que permitam determinar com cer- Mesmo com o avanço das pesquisas linguísticas
teza, se uma única abordagem metodológica seria a sobre as línguas de sinais, alguns oralistas continu-
mais indicada para a educação de todos os surdos. am defendendo que para a criança surda se comu-
O ideal seria que a família, juntamente com os pro- nicar com o mundo ela precisa ser oralizada, isto é,
fissionais, conhecendo as particularidades de cada precisa saber falar. Assim, a abordagem de enfoque
criança, pudessem escolher qual abordagem ou oralista é contra o uso da Língua de Sinais ou de
mesmo uma combinação delas seria mais indicada. qualquer código gestual, porque acredita que com
De maneira geral, costuma ser indicado para as a utilização de “gestos” os surdos se acomodariam e
crianças que possuem resíduos auditivos, isto é, as não iriam se esforçar para aprender a língua oral. Os
que conseguem ouvir alguma coisa, uma educação oralistas vão além, e afirmam que o uso da língua de
que favoreça a aquisição da fala, ou seja, uma abor- sinais torna impossível o desenvolvimento de hábi-
dagem oral e; para aquelas que não possuem um tos orais corretos.
resíduo auditivo suficiente ou que possuem muita Nessa abordagem, a educação do surdo deve co-
dificuldade para desenvolver a oralidade, o indicado meçar com os bebês e deve aproveitar todos os re-
é uma abordagem que privilegia a Língua de Sinais. cursos disponíveis para se desenvolver a linguagem
Atualmente, são três as principais abordagens que interior, da mesma forma como acontece aos ouvin-
fundamentam diferentes metodologias na educação de tes, isto é, utilizando apoios sonoros de forma que
surdos: Oralismo, Comunicação Total e Bilinguismo. os resíduos auditivos e a amplificação sonora sejam
explorados ao máximo. Também são incentivados e
ORALISMO treinados à exaustão, a leitura labial, a percepção das
vibrações vocais e demais recursos que favoreçam a
O alemão Heinicke, que viveu no século XVIII, é con- emissão e a recepção da língua oral.
siderado o fundador do oralismo por ter criado uma Ensinar e aprender a falar não são tarefas fáceis e
metodologia que ficou conhecida como o “método exigem muita dedicação da família e da escola, além
alemão”. Para Heinecke, o pensamento dependeria da de muito esforço por parte da criança, sem que, con-
língua oral para existir e assim, a língua escrita deve- tudo, se possa garantir sucesso.
ria ser aprendida somente após a língua oral. Dentro da filosofia oralista existem correntes que
O oralismo entende a surdez como uma defici- se diferem, tanto na teoria quanto na prática, origi-
ência que precisa ser direcionada para a normalida- nando diversas metodologias de oralização: método
de, mediante à estimulação auditiva e à reabilitação acupédico, método Perdoncini, Método Verbotonal,
da fala da criança surda, buscando assemelhá-la o entre outros. Porém, qualquer que seja a metodolo-
máximo possível à criança ouvinte e assim integrá-la gia adotada, um programa oralista se fundamenta
na comunidade (GOLDFELD, 1997). nos seguintes pressupostos:
20
EDUCAÇÃO FÍSICA
• O único meio de comunicação aceito é a lín- sário ensiná-la a ouvir. E de novo, precisa-se de re-
gua oral. cursos, métodos e profissionais especializados para
• O trabalho para a aquisição da fala deve ser realizar o treinamento auditivo.
iniciado assim que se descobre a surdez da Um aparelho auditivo que é colocado, mesmo
criança, atualmente, com o “teste da orelhi- que esteja conforme as necessidades da criança, sem
nha”, seria desde o seu nascimento. o devido treinamento, pode inclusive prejudicar a
• A educação oral deve começar no lar, exigin- criança, pois esta passará a receber uma intensidade
do a dedicação de todas as pessoas que con- de estímulos sonoros simultâneos que precisam ser
vivem com a criança, especialmente a mãe,
inicialmente identificados para que em seguida ela
durante todas as horas de cada dia do ano.
selecione aqueles aos quais vai direcionar sua aten-
• O trabalho de aquisição da fala ou educação
ção auditiva. Portanto, nem sempre o uso do apare-
oral necessita de fonoaudiólogos e pedagogos
lho auditivo permite que a criança escute a voz hu-
especializados para atender o aluno e orien-
tar e acompanhar a ação da família mana, e mesmo que a escute que faça o uso correto
• A educação oral requer equipamentos espe- desta informação, pois
cializados como o aparelho de amplificação
sonora individual. “[...] os aparelhos não atuam na decodificação
instantânea da linguagem apenas ao serem
agregados ao ouvido, do mesmo modo que
Entretanto, as pesquisas apontam que crianças com uma pessoa completamente cega, por exemplo,
perda auditiva profunda, mesmo atendendo à risca não passa a enxergar utilizando óculos ou len-
as orientações para aprender a falar, realizando in- tes de grau” (GESSER, 2009, p. 75).
cansavelmente exercícios de voz e de articulação, em
sua grande maioria, não conseguem desenvolver a O implante coclear, muitas vezes apresentados
fala com fluência. pela mídia em matérias carregadas de emoção,
ainda é visto com muita desconfiança pelos sur-
Mesmo com treinamento para realizar leitura dos, familiares e profissionais, pois a recuperação
labial, o período crítico para a aquisição de lin-
da surdez não depende apenas do sucesso da in-
guagem (até os 4 anos, aproximadamente) se-
ria perdido, por causa da complexidade dessa tervenção cirúrgica, mas de inúmeras variáveis
aprendizagem, com prejuízos importantes para como idade do surdo, tempo de surdez, condições
o desenvolvimento cognitivo e o desempenho do nervo auditivo, época de instalação da surdez,
escolar da criança (REILY, 2004, p. 122). adaptação anterior ao AASI, trabalho com fono-
audiólogo etc.
Enfim, a aquisição da língua portuguesa oral depen- Mas, o que é preciso ficar claro é que os surdos,
de do grau e natureza da perda auditiva, do bom uso mesmo com surdez profunda, podem apresentar
dos resíduos auditivos proporcionados pelo AASI e uma comunicação oral funcional, desde que se sub-
do apoio de profissionais e família. No entanto, tam- metam aos procedimentos adequados e, principal-
bém os AASI não são “mágicos”, isto é, não basta mente, se assim o desejarem, pois de acordo com
protetizar a criança (colocar o aparelho). É neces- Gesser (2009, p. 56):
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LIBRAS
[...]o grande problema herdado da filosofia dor etc.; dificultando a compreensão do que foi dito
oralista é o efeito colateral que se instaurou na pelo mestre. Para poder se beneficiar da prótese au-
comunidade surda, ou seja, o sentimento de in-
ditiva, o surdo precisa passar por um longo processo
dignação, frustração, opressão e discriminação
entre usuários dos sinais, uma vez que, durante de “treinamento auditivo”, para desenvolver sua aten-
as sessões de fala e treinos repetitivos pregados ção auditiva e poder identificar os diferentes sons.
pelo oralismo do passado, a língua de sinais foi O predomínio do oralismo começou a diminuir
banida e rejeitada em prol do uso exclusivo da na década de 60 do século passado, a partir de for-
língua oral.
tes críticas a esta abordagem, principalmente pelos
educadores e pesquisadores dos Estados Unidos e
Como já dissemos anteriormente, ao final de várias pela realização de diversos estudos sobre as línguas
décadas, o trabalho educacional realizado na abor- de sinais que as comunidades de surdos desenvol-
dagem oralista não apresentou bons resultados, pois viam pesar da proibição de sua utilização no espaço
a maioria dos surdos profundos não conseguiu de- escolar. Desses estudos surgiram as abordagens ges-
senvolver uma linguagem oral satisfatória que lhe tualistas para a educação de surdos.
permitisse conviver em sociedade, além apresenta-
rem muitas dificuldades na aquisição das habilida- GESTUALISMO
des de leitura e escrita.
Vimos também que mesmo diante desse fracas- O principal criador do que se conhece como abor-
so visível, o oralismo ganhou nova força na década dagem gestualista foi abade francês Charles M. De
de 50 do século XX, quando, com o avanço da tec- L’Epée, que no século XVIII, na mesma época em que
nologia, surgem os primeiros aparelhos de audição Heinecke, criava o “método alemão”, criou o “mé-
para crianças surdas muito pequenas. Os oralistas todo francês” de educação de surdos, que ficou co-
acreditavam que com a protetização (uso dos apare- nhecido como “sinais metódicos”. Para De L’Epée, a
lhos) desde muito cedo, os surdos poderiam “ouvir” linguagem de sinais seria a língua natural dos surdos
e, então, aprender a falar. Contudo, isso também não e possibilitaria o desenvolvimento do pensamento e
se concretizou na prática, para todas as crianças. sua comunicação. Falamos aqui em “linguagem” de
Essa crença de que o aparelho de amplificação sinais e em abordagem “gestualista”, porque em seu
“resolve” o problema dos surdos persiste até hoje, início, os sinais eram confundidos com gestos e a co-
porém, não basta a colocação do aparelho para que municação por sinais ainda não possuía o status de
o surdo escute. O som que “entra” pelo aparelho é língua. Atualmente, já está comprovado que sinais
o som total do ambiente, como o som da gravação não são gestos e que as línguas de sinais possuem
que fazemos de uma aula, que, juntamente com a voz todos os requisitos para serem reconhecidas como
do professor, traz ruídos de folhas de caderno sendo “idiomas”. Esses aspectos são tratados com mais de-
viradas, cadeiras arrastadas, veículos passando pela talhes em nossa terceira unidade, mas adiantamos
rua, sussurros dos alunos, risadas e passos no corre- aqui, a distinção entre sinais e gestos.
22
EDUCAÇÃO FÍSICA
Em função de suas características, os sinais po- A filosofia da Comunicação Total tem como
dem parecer movimentos aleatórios de mãos e cor- principal preocupação os processos comuni-
cativos entre surdos e surdos, e entre surdos
po, acompanhados por expressões faciais variadas,
e ouvintes. Essa filosofia também se preocupa
ou seja, seriam apenas “gestos”. De acordo com Pe- com a aprendizagem da língua oral pela criança
reira et al. (2011, p. 18), esta descrição para sinais surda, mas acredita que os aspectos cognitivos,
seria equivalente a descrever uma língua oral como emocionais e sociais, não devem ser deixados
“ruídos” feitos com a boca. Além disso, os gestos são de lado em prol do aprendizado exclusivo da
língua oral. Por esse motivo, esta filosofia de-
traços das línguas orais, isto é, acompanham as lín- fende a utilização de recursos espaço-visuais
guas orais e favorecem a comunicação. Os sinais são como facilitadores da comunicação (GOLD-
produzidos combinando-se, simultaneamente, con- FELD, 1997, p. 35).
figuração de mãos, ponto de articulação ou localiza-
ção, movimento, orientação das palmas das mãos e A Comunicação Total foi adotada no Brasil, no final
componentes não manuais, que são os parâmetros da década de 1970, particularmente nos estados do
constituintes da língua de sinais, conforme você verá Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.
na Unidade III. Um dos aspectos considerados pelos defenso-
Assim, daqui em diante, não utilizaremos mais res da Comunicação Total é que crianças que foram
a palavra gestualismo. Duas são as principais abor- educadas segundo o oralismo, desde muito cedo,
dagens sustentadas na utilização de sinais a Comu- não tiveram desenvolvimento social e emocional
nicação Total, que ganhou impulso nos anos 1970, e satisfatório, mesmo quando conseguiam relativo su-
o Bilinguismo, que é a mais adotada atualmente no cesso na aprendizagem da língua oral.
mundo todo. A surdez é entendida pelos defensores da Comu-
nicação Total não como uma patologia (doença), nem
COMUNICAÇÃO TOTAL como uma deficiência que precisa ser normalizada,
como os oralistas entendem, mas como uma “marca”
Na Comunicação Total, como o próprio nome indi- com “significações sociais” (CICCONE, 1990, p. 7).
ca, todos os esforços são empregados no sentido de A família, da mesma forma que no oralismo,
uma comunicação mais efetiva entre surdos e entre desempenha papel fundamental na educação dos
surdos e ouvintes, utilizando, portanto, modelos au- surdos segundo a Comunicação Total, mas aqui,
ditivos, manuais e orais. Apesar da oralização não a família não desempenha o papel de profissional
ser o principal objetivo da educação de surdos nessa especializado na aquisição da linguagem, mas o de
abordagem, seus defensores entendem que tudo o compartilhar experiências, valores e significados,
que é falado pode ser expresso por gestos e mímica, contribuindo, assim, para o desenvolvimento social
ou seja, pode ser visualizado e, dessa forma, os sinais e emocional do surdo.
são utilizados como apoio para a aquisição da língua De acordo com Ciccone (1990), um programa de
oral e da escrita. Comunicação Total utiliza técnicas e recursos para:
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LIBRAS
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EDUCAÇÃO FÍSICA
E assim, os surdos constituiriam uma comunidade Ainda segundo Quadros (1997), a preocupação do
particular, com cultura e língua próprias, como ve- bilinguismo é respeitar a autonomia das línguas de
remos no último texto que compõe esta primeira sinais organizando-se um plano educacional que
unidade. respeite a experiência psicossocial e linguística da
Para os bilinguistas a “problemática global do criança com surdez.
surdo” é “[...] intimamente dependente de seu desen- Por essas razões atualmente se dá tanta impor-
volvimento lingüístico” e “[...] só mesmo o respeito tância ao fato do professor ouvinte conhecer e usar
à língua de sinais conduzirá a um maior sucesso a Língua de Sinais, no caso do Brasil, a Libras. A
educacional e social do surdo” (FERREIRA-BRITO, comunicação adequada entre professores ouvintes
1995, p. 16). e alunos surdos é a condição primeira para uma es-
cola realmente inclusiva.
O bilingüismo tem como pressuposto básico
que o surdo deve ser Bilíngüe, ou seja, deve ad-
quirir como língua materna a língua de sinais,
que é considerada a língua natural dos surdos
e, como segunda língua, a língua oficial de seu
país (GOLDFELD , 1997, p. 39).
25
LIBRAS
Cultura e
Identidades Surdas
Já vimos que a partir do Congresso de Milão e du- a partir da perspectiva do que ele não podia fazer,
rante quase todo o século XX, a Educação dos Sur- e toda tentativa de formação de identidade cultural
dos teve o oralismo como ideologia dominante, pen- era considerada como uma tentativa de formação de
sando no surdo como deficiente, não considerando guetos e segregação e, portanto, desprezada e mes-
sua diferença linguística. mo proibida.
A educação oferecida aos surdos dava muita im- Isso acontecia porque para o ouvinte a surdez
portância à oralização, e os educadores ficavam tão significa a perda de comunicação, e assim, o surdo
ocupados ensinando os surdos a falar, que não per- seria alguém que não pode fazer parte do mundo
cebiam a importância da formação da Identidade e ouvinte. É alguém que é menos do que aquele que
Cultura Surda para o Surdo. Assim, a educação não ouve e precisa ser sempre ajudado. Dessa forma,
formava os surdos como cidadãos críticos e muito as escolas e entidades de ouvintes para os surdos
pouco se discutia a importância de se buscar a igual- sempre basearam suas ações na filantropia e no as-
dade sem, entretanto, eliminar a diferença. sistencialismo.
Os surdos educados no oralismo não se reco- Quando se fala em identidade e em cultura
nheciam como surdos, mas sim como não ouvin- surda, estamos pensando na surdez como uma di-
tes, não normais. Ele era visto e obrigado a se ver ferença. Primeiro é preciso entender que diferen-
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EDUCAÇÃO FÍSICA
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LIBRAS
No oralismo é desenvolvido no surdo o dese- Para Perlin (1998, p. 52), a identidade é algo em
jo de ouvir. Tanto o processo de aquisição da fala, questão, em construção, uma construção móvel que
quanto o de treinamento auditivo são complexos, pode frequentemente ser transformada ou estar em
o surdo sofre muito e fica sempre se sentindo de- movimento. A construção da identidade depende de
ficiente e incapaz. Na educação oralista, também modelos e da forma como o outro enxerga o sujei-
se praticava a integração escolar, com os surdos to. Assim, é de fundamental importância defender a
estudando em salas comuns, sem apoio algum, cultura surda porque é dentro dela que se constrói a
gerando uma situação de não aprendizagem. O identidade surda.
surdo então, não apenas se sentia um fracassado, Mas, a existência da cultura surda depende da
mas também tinha a construção da sua identidade língua de sinais. A aquisição da Libras pelo surdo
prejudicada, pois o modelo ideal a ser seguido era é de extrema importância para o desenvolvimento
o do ouvinte. de uma identidade pessoal surda. Para acontecer a
Assim, o surdo construía sua identidade em um construção de nossa identidade, como somos seres
mundo no qual se via como diferente das outras sociais, precisamos identificar-nos com uma co-
pessoas, com o estigma de incapacidade e de defi- munidade social específica e, com ela, interagir de
ciência. O surdo ficava transitando em dois mundos modo pleno, ou seja, precisamos de uma identidade
e não se sentia parte de nenhum. Não fazia parte cultural, e, para isso, não basta uma língua e uma
do mundo ouvinte, porque não sabia se comunicar forma de alfabetização, mas, sim, um conjunto de
bem, e também não participava de um mundo sur- crenças, conhecimentos comuns a todos.
do, porque era proibido de usar a língua de sinais, Não podemos separar a noção de cultura da de
processo denominado pelo estudioso Carlos Skliar grupo e classes sociais, pois cultura é o espaço no
(1998) de identidade flutuante. qual se dá a luta pela manutenção ou superação das
Felizmente, alguns surdos conseguiram sobre- divisões sociais. Talvez seja por isso, por exemplo,
viver a toda essa relação de poder e lutaram muito que podemos falar de uma cultura surda. É den-
para estabelecer e defender a cultura surda, que é tro desse espaço que os sujeitos surdos passam a se
fundamental para a construção da identidade surda. identificar como sujeitos culturais.
Para isso, no mundo todo, o Movimento Surdo criou O estudo do mundo dos surdos mostra que as ca-
Associações de Surdos como uma resistência contra pacidades do homem - linguagem, pensamento, co-
a cultura dominante, contra a ideologia ouvintis- municação e cultura - não se desenvolvem de manei-
ta. Existe uma história de lutas na qual se procura ra automática, não se compõem apenas de funções
marcar, entre os próprios surdos e na sociedade em biológicas, mas também têm origem social e históri-
geral, discussões sobre a língua de sinais, a cultura ca. Essas capacidades são, como diz Sacks (1998), um
e as identidades surdas. Essa luta e as conquistas al- presente - o mais maravilhoso dos presentes - de uma
cançadas têm permitido que a cultura surda se for- geração para outra, reforçando a importância do gru-
taleça e, por causa disso, identidades surdas sejam po, da cultura surda para a construção da identidade
construídas. e desenvolvimento cognitivo do surdo.
28
EDUCAÇÃO FÍSICA
Para podermos compreender o que é “cultura língua a Língua de Sinais, uma língua visual, per-
surda”, é preciso estabelecer o que estamos conside- tencente à outra cultura que é também visual. A
rando como “cultura”. De acordo com o senso co- identidade surda se constrói dentro de uma cultura,
mum, existiria “A” cultura, no singular, se refere às visual. Essa é também a visão de Quadros e Karnopp
manifestações artísticas e às tradições de um povo, (2004, p. 10), para quem a cultura do povo surdo “é
representadas (e contadas) em lendas, festas, trajes visual, ela traduz-se de forma visual”.
típicos, ritos, comida e língua. Na história, constata-se que os surdos sofreram
Atualmente, os estudiosos admitem a existência perseguições pelas pessoas ouvintes, que não aceita-
de múltiplas culturas interagindo entre si, sendo pos- vam as diferenças e exigiam uma cultura única por
sível a multiplicidade de manifestações e grupos cul- meio do modelo ouvintista ou ouvintismo. São muitas
turais de naturezas diferentes, ampliando o conceito as lutas e histórias nas comunidades surdas, em que o
de cultura e permitindo falar de cultura no plural. povo surdo se une contra as práticas dos ouvintes que
De acordo com Strobel (2008, p.17): não respeitam a cultura surda (STROBEL, 2008).
Ainda hoje, muitos ouvintes tentam diminuir os
[...]a humanidade, ao longo do tempo, adquire surdos para que vivam isolados e assunam a cultura
conhecimento através da língua, crenças, hábi-
ouvinte, como se esta fosse uma cultura única; ser
tos, costumes, normas de comportamento den-
tre outras manifestações. Partindo do suposto “normal” para a sociedade significa ouvir e falar oral-
que cultura é a herança que o grupo cultural mente. Os ouvintes não prestam atenção aos surdos
transmite a seus membros através de aprendi- que se comunicam por meio da Libras. Consequen-
zagem e de convivência, percebe-se que cada temente, não acreditam que os surdos sejam capazes
geração e sujeito também contribuem para am-
de estudar em faculdade ou realizar mestrado e dou-
pliá-la e modificá-la.
torado, por exemplo. “Os sujeitos ouvintes veem os
Outro uso da palavra cultura está relacionado à agri- sujeitos surdos com curiosidade e, às vezes, zombam
cultura, ao cultivo da terra. Falamos em “cultura da por eles serem diferentes” (STROBEL, 2008, p. 22).
cana-de-açúcar”; “cultura de milho” etc. O termo cul- Ainda de acordo com Strobel (2008), os sur-
tura está tão relacionado à lavoura, que compõe lite- dos constituem uma comunidade que se caracteri-
ralmente o termo agriCULTURA. Considerando este za particularmente pela sua diferença linguística,
outro uso para a palavra cultura, Strobel (2008, p. 18) que gosta de interagir entre si, e “criam” espaços
afirma que “o cultivo da linguagem e da identidade para desenvolverem, em conjunto, diferentes ati-
são, então, elementos fundamentais de uma cultura”. vidades de educação, trabalho, esporte e lazer. Os
Mas não é fácil definir o que é cultura surda. espaços “dos surdos” são associações e clubes de
Para entender a cultura surda é necessário enxergar surdos, além de ambientes escolares e religiosos
o surdo como diferente e não deficiente. onde podem manifestar-se livremente em sua lín-
Segundo Perlin (2004), ser surdo é pertencer a gua e, constituindo, ao mesmo tempo, refúgio e
um mundo de experiência visual e não auditiva. E trincheira da língua de sinais, da identidade e da
viver uma experiência visual é ter como primeira cultura surda.
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LIBRAS
Se não é fácil definir o que é a cultura surda, po- Para Strobel (2008, p. 24) “Cultura surda é
demos mostrar que ela existe e a sua presença pode o jeito de o sujeito surdo entender o mundo e de
ser confirmada pelas transformações culturais e co- modificá-lo a fim de torná-lo acessível e habitável,
tidianas dos surdos. Percebe-se que o sujeito surdo ajustando-o com suas percepções visuais”, que con-
está descentrado da cultura dominante e possui ou- tribuem para a definição das identidades surdas e
tra cultura. das ‘almas’ das comunidades surdas.
Apesar da luta constante da comunidade surda
Diante da comunidade majoritariamente ouvinte, pelo respeito e aceitação como grupo cultural dis-
as comunidades surdas apresentam suas próprias
condutas linguísticas e seus valores culturais.
tinto, ainda há uma dificuldade muito grande de de-
A comunidade surda tem uma atitude diferen- senvolvimento, da inclusão dos surdos com base no
te diante do déficit auditivo, já que não leva em respeito a suas diferenças. Há que se considerar, por
conta o grau de perda auditiva de seus membros. exemplo, que a maioria das crianças surdas (mais de
Pertencer à comunidade surda pode ser definido
90%) possui pais ouvintes, o que causa maiores difi-
pelo domínio da língua de sinais e pelos senti-
mentos de identidade grupal, fatores que consi- culdades na construção das identidades, pois os mo-
deram a surdez como uma diferença, e não como delos não estão dentro de casa. Além disso, a dificul-
uma deficiência (PEREIRA et al., 2011, p. 34). dade de comunicação entre pais e filhos surdos causa,
às vezes, problemas de ordem social e cognitiva.
Em seus espaços, em sua língua, da mesma forma
que acontece em qualquer comunidade minoritária,
os surdos compartilham valores, crenças, compor- REFLITA
tamentos e, constroem, preservam e difundem sua
cultura. Para Perlin (2004) a língua de sinais é uma Durante muito tempo os próprios surdos não
das maiores produções culturais dos surdos. compreenderam a importância da Língua de
Para Perlin (2004), cultura surda é a diferença Sinais para o processo de construção de sua
identidade cultural. Em sua opinião, esta si-
que contém a prática social dos surdos e que comu- tuação está mudando?
nica um significado. É o caso de ser surdo homem,
de ser surdo mulher, deixando evidências de identi-
dade, o predomínio da ordem, como, por exemplo, o
jeito de usar sinais, o jeito de ensinar e de transmitir
cultura, a nostalgia por algo que é dos surdos, o cari-
nho para com os achados surdos do passado, o jeito
de discutir a política, a pedagogia etc.
30
EDUCAÇÃO FÍSICA
Esses problemas poderiam ser minimizados se gua, conhecendo as semelhanças e diferenças entre
houvesse, por parte dos familiares ouvintes, dispo- as duas línguas, para ensinar japonês aos brasilei-
sição em assumir formas de comunicação e inter- ros, ou um brasileiro que aprendeu japonês como
venção que considerem mais as particularidades segunda língua?
da surdez do que as dificuldades inerentes à ausên- Há, ainda, as novas tecnologias, como centrais
cia de audição. Partindo disso, é fundamental que telefônicas, celular digital, porteiros luminosos,
instituições escolares, os pais, enfim, todos que es- facilidades para a vida dos surdos. Em algumas
tão perto da criança surda, preocupem-se em en- cidades, raros lugares estão fora do alcance da
tender o modo pelo qual ela se comunica, para que cultura surda, inclusive o preconceito está dimi-
as trocas possam existir de forma satisfatória para nuindo. Os surdos não estão mais escondidos, es-
ambas as partes. tão surgindo novas maneiras de ser surdo, com
Assim, em função da existência de barreiras na seu modo de comprar, olhar, comunicar, escolher,
comunicação entre o mundo surdo e o mundo ou- socializar.
vinte, existem dificuldades para o desenvolvimento É preciso e necessário, para um adequado desen-
cultural; por isso, é necessário que se construam volvimento tanto físico quanto psíquico dos surdos,
meios especiais para a sua realização, como, por que os ouvintes deixem de se considerar modelo de
exemplo, que os ouvintes conheçam a Libras. normalidade e percebam que diferença não significa
Por isso o Decreto 5626, que vamos estudar inferioridade.
na próxima unidade e que, na prática, vai permitir
que muitos mais ouvintes aprendam porque Libras Importa salientar a diferença das pessoas. Res-
peitá-las como surdas, índias, nômades, negras,
é tão importante para os surdos. Ele representa um
brancas... Importa deixar os surdos construí-
grande avanço para o desenvolvimento pleno do rem sua identidade, assinalarem suas fronteiras
surdo, e traz de volta os professores surdos que de- em posição mais solidária do que crítica.
sapareceram depois do Congresso de Milão. Com
A educação, ainda que já esteja saindo do do-
professores surdos, as crianças surdas terão mode- mínio do oralismo, tem que desaprender um
los para se identificar! grande número de preconceitos, entre eles o de
É importante que os ouvintes entendam a im- querer fazer do surdo um ouvinte.
portância do professor surdo e respeite esse espa- Novas hipóteses podem ser levantadas, novos
ço. É como se fosse ensinar japonês, o que seria achados são necessários. Entre eles sobressai a
melhor? Um japonês que conhece seu idioma na urgência de dizer que o surdo é sujeito surdo
(PERLIN, 1998, p. 72).
forma correta e tem o português como segunda lín-
31
LIBRAS
SAIBA MAIS
32
considerações finais
C
omeçamos esta primeira unidade pela história da educação dos surdos,
destacando que a decisão sobre qual deveria ser a melhor maneira de
educar esses sujeitos, ou seja, se a educação de surdos deveria ser sus-
tentada na oralização ou no uso de sinais foi, durante séculos, tomada
pelos ouvintes.
Como, para o ouvinte, ouvir e falar são fundamentais na interação social, os
profissionais (ouvintes) envolvidos com a Educação de Surdos, durante séculos
estabeleceram que o melhor para os surdos seria a oralização e o oralismo, como
abordagem educacional, chegando ao abuso ocorrido no Congresso de Milão,
com a proibição da utilização de sinais nas escolas.
Só recentemente os surdos puderam opinar sobre sua própria educação e op-
taram pelo ensino em língua de sinais. No caso do Brasil, pela educação bilín-
gue: Libras e Língua Portuguesa, essa última, preferencialmente na modalidade
escrita. Conquistaram este direito, razão pela qual os futuros professores agora
precisam aprender Libras.
É certo que a Libras é um conhecimento necessário que visa uma melhor
qualificação para o exercício profissional na Educação Básica, uma vez que,
com a implementação das propostas inclusivistas, a escola já vem recebendo
muitos surdos, os quais muitas vezes não conseguem prosseguir na sua esco-
larização porque o contexto escolar não atende às suas especificidades linguís-
ticas. Porém, apenas ter uma comunicação funcional em Libras no contexto
escolar não é suficiente para a atuação pedagógica com os surdos.
É importante também ter conhecimento sobre a história da educação de sur-
dos e sobre as diferentes abordagens educacionais criadas para os alunos com
surdez, pois estes conhecimentos permitem a compreensão da forte relação exis-
tente entre a especificidade linguística dos surdos, suas interações sociais e a for-
mação de sua identidade.
Conhecer os aspectos legais e as políticas públicas da educação de surdos tam-
bém é fundamental, razão pela qual são abordados em nossa próxima unidade.
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atividades de estudo
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LEITURA
COMPLEMENTAR
O texto a seguir foi publicado na revista ETD – Educação Temática Digital. Escolhemos alguns fragmentos, pois este é
um relato importantíssimo para o futuro professor.
Investigo, em uma escola pública do Estado do Rio de pensar e o conhecer, no dia-a-dia da sala de aula, nessa
Janeiro, o processo alfabetizador experienciado por uma escola, como em tantas outras, são mediados pela ora-
turma formada por crianças ouvintes e uma criança sur- lidade, linguagem ainda privilegiada no processo de en-
da. sinar/aprender? Sua fala/pedido de socorro ecoava pela
A presença, nesta escola, de uma aluna surda tornou sala de reunião mediante o silêncio existente. A respon-
mais visível, para algumas professoras, a característica sabilidade pelo trabalho com essa aluna era, basicamen-
de toda sala de aula – a diferença. A surdez dessa aluna te, dela, professora de turma, pois as crianças que não
não pode ser ignorada e nem tão pouco facilmente apa- “acompanham a turma”, as que não aprendem e/ou não
gada como tantas outras diferenças constitutivas do es- se comportam de acordo com as expectativas da escola/
paço-tempo escolar. Seu modo de ser – alguém que não professoras, as que fogem dos padrões compreendidos
escuta e não se comunica através da linguagem oral – como “normais”, são selecionadas, destacadas e encami-
tem desafiado a escola a pensar e praticar outros modos nhadas para atendimentos “especiais” dentro e/ou fora
outros de se relacionar e compreender a alteridade. Nes- da escola. Com essa aluna não era diferente. A força da
se sentido, algumas questões têm surgido: como pensar armadilha que nos captura para a compreensão da dife-
uma escola que, de fato, reconheça as singularidades rença como deficiência é forte.
linguísticas e culturais, ao invés de apenas se propor a A professora que trabalha com a aluna surda, desde
incluir uma aluna surda? Como reconhecer politicamen- 2004, quando, juntas, começamos a investigar o proces-
te a surdez como diferença? so alfabetizador vivenciado por esta aluna e seus cole-
Em 2003, participando de um Conselho de Classe a fala, gas ouvintes, desenvolve uma ação alfabetizadora que
angustiada, de uma das professoras alfabetizadoras, investe na dialogicidade, na produção de textos escritos
chama minha atenção: “Eu não sei o que fazer [...] Há e orais, de modo que as crianças possam aprender a ler
quase dois anos estou com Carla. É muito difícil, para e a escrever usando, praticando e experienciando a lin-
mim, trabalhar com uma aluna surda! Como avaliar? Ela guagem escrita, procurando fugir de uma prática peda-
é uma criança alegre, se dá bem com todos os colegas, gógica que tem a memorização e a repetição como eixos
mas... A turma está lendo, menos ela”. do trabalho. Carla, provocada a participar das atividades
Como alfabetizar uma aluna que não ouve se o dizer, o realizadas, dentro e fora da sala de aula, foi evidenciando
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LEITURA
COMPLEMENTAR
a subordinação do currículo ao ensino da oralidade e, ao os lábios) e de frente para professora surda ou uma das
mesmo tempo, foi instigando-nos a pensar e a compre- professoras da escola, usuária da língua de sinais, rea-
ender a surdez como uma experiência visual, embora se lizar a “tradução” das discussões em andamento. Mes-
comportasse como se ouvinte fosse, pois praticamente mo sem perceber, a própria professora surda e a aluna
não convivia com surdos. Várias vezes, quando solicitada bolsista, (que atuava como intérprete) por várias vezes,
a ler, lia emitindo sons incompreensíveis e se posicionan- se colocavam em uma posição física na sala de reuniões
do (desde segurar o papel ou livro, até o movimento com mais afastadas do grupo e fora da roda de discussão. In-
o corpo) como seus colegas ouvintes faziam. Em casa e clusive a própria professora surda ao ser solicitada a fa-
na escola usava gestos mímicos, desenhava, dramatiza- lar, por mais de uma vez resistiu alegando não ter o que
va, recorria à datilologia (dizia as palavras utilizando o dizer. Eu e Ana Paula, professora de Carla, insistimos e a
alfabeto manual em Língua de Sinais), usava sinais. Ela e provocamos para que participe efetivamente das discus-
os que com ela conviviam usavam de todos os recursos sões e estudos realizados, embora a língua pela qual se
possíveis de modo a garantir a comunicação. expressa e constrói conhecimentos não seja a língua dos
A pressão exercida junto a Gerência de Inclusão e equipe professores e profissionais ouvintes da escola.
técnico-pedagógica da escola garantiu, quase no final do A investigação com o cotidiano, a partir de uma perspec-
1º semestre do ano de 2005 a contratação de uma pro- tiva complexa, possibilita a percepção e o aprendizado
fessora surda para atuar nesta turma. de que a mesmidade da escola proíbe e não proíbe a dife-
A surpresa vivenciada por Carla foi evidente. [...] Intera- rença, pois a permanente tensão entre os conhecimentos,
gir com a professora surda, mais do que qualquer outra regulação e emancipação, presente no cotidiano escolar,
experiência vivida no cotidiano da escola, foi crucial para revela o confronto entre ações que legitimam relações
que começasse a se perceber como surda, pois foi o en- com o outro que, a todo momento, demonstram: está
contro surdo/surdo. mal ser o que se está sendo ou está bem ser o que nunca
A presença na escola de uma professora surda tem poderá ser e, ações com a alteridade que nos desafiam
evidenciado a dificuldade encontrada, pelas próprias a experienciar uma educação, uma relação pedagógica
professoras, em lidar com essa questão. Era comum, inspirada em dois princípios radicalmente novos: “não
em 2005, nas reuniões pedagógicas, se a aluna bolsis- está mal ser o que se é e não está mal ser além daquilo
ta, usuária da língua de sinais não estivesse presente, a que já se é”.
exclusão da professora surda. Inexistia a preocupação
em falar mais devagar (essa professora é oralizada e “lê”
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EDUCAÇÃO FÍSICA
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referências
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gabarito
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LEGISLAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E
RECURSOS TECNOLÓGICOS PARA A
EDUCAÇÃO DE SURDOS
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta
unidade:
• Inclusão como princípio da Educação Especial
• A Legislação brasileira referente à educação de surdos
• A Educação de Surdos e as Políticas Públicas do Brasil
• Tecnologias de acessibilidade para a comunicação do
surdo
Objetivos de Aprendizagem
• Compreender a inclusão como princípio da Educação
Especial.
• Conhecer e refletir sobre a Legislação Educacional
brasileira referente aos surdos.
• Conhecer as Políticas Públicas para a educação dos surdos
brasileiros.
• Conhecer as novas tecnologias disponíveis para a
comunicação e educação dos surdos.
unidade
II
INTRODUÇÃO
E
m qualquer congresso, palestra, atividades de formação continu-
ada ou grupo de estudos destinados a professores da Educação
Básica, de maneira direta ou indireta, atualmente, se fala de es-
cola inclusiva. Embora a inclusão diga respeito a qualquer estu-
dante que encontra barreiras para aprender ou ter acesso ao que a escola
oferece - em qualquer momento da escolarização -, a maioria das pessoas
envolvidas ou não com a educação acredita que a escola inclusiva se destina
apenas àqueles com necessidades educativas especiais. A principal razão
para isso é que nessas crianças, as diferenças são mais específicas e exigem
ações pedagógicas igualmente específicas, para as quais os professores, em
geral, julgam estac cr despreparados.
Em uma escola inclusiva, todos são considerados iguais e têm o mesmo
valor. Assim, a escola que é inclusiva está em contínuo processo de mudan-
ça para se adaptar aos diferentes alunos que recebe, pois incluir significa
muito mais do que a simples presença física da criança na sala de aula. In-
felizmente, ainda não saímos do discurso para a prática, uma vez que nossa
escola pública continua excluindo os pobres, os culturalmente diferentes e,
principalmente, os que possuem necessidades educativas especiais.
Dentre os alunos com necessidades educativas especiais que encon-
tram maiores dificuldades nesse processo de inclusão estão os surdos, pois
o processo de ensinar e aprender ainda se sustenta quase que exclusivamen-
te na comunicação oral.
Como a comunicação oral é sensivelmente prejudicada, a educação de
surdos apresenta dificuldades e limitações, exigindo práticas pedagógicas
diferenciadas, que mudaram radicalmente ao longo dos anos.
Apresentamos nesta unidade a legislação e as Políticas Públicas brasi-
leiras para a Educação de Surdos, discutindo desde os princípios da educa-
ção especial que sustentam a proposta inclusiva até os principais recursos
tecnológicos que constituem parte da tecnologia assistiva para a educação
de surdos.
LIBRAS
A
tualmente, as agências governamentais conhecimentos oferecidos pela escola. As dife-
e os especialistas recomendam a inclu- renças ocorrem em função de altas habilidades,
condutas típicas, deficiência física motora, vi-
são como a principal estratégia educa-
sual, auditiva, mental, bem como condições de
cional para as pessoas com deficiência. vida material precária (SHIMAZAKI; MORI,
Da maneira como são apresentadas as propostas de 2012, p. 31, GRIFOS NOSSOS).
inclusão, temos a impressão de que elas são re-
sultados apenas dos estudos científicos Observe que a LDB estabelece que
ou são “bondade” dos governantes. a Educação Especial deva ser
Isso não é verdade. A proposta ofertada, preferencialmente,
de inclusão que hoje ocupa na rede regular de ensino,
o centro das discussões da ou seja, a Educação Espe-
Educação Especial é resul- cial não se opõe à escola
tado de longas e difíceis regular. Existe um equí-
batalhas das pessoas com voco muito grande neste
deficiência ao longo da sentido, pois as pessoas
história. consideram que a escola
A Educação Especial é que não é especial, seria a
uma modalidade de educa- escola regular. Uma escola
ção escolar integrante da edu- é regular quando oferece o
cação geral direcionada a indiví- ensino seriado, isto é, todos (ou
duos com necessidades especiais. alguns) anos referentes à Educa-
ção Básica (Ensino Fundamental e Mé-
Educação Especial, segundo a Lei de Diretrizes dio). Temos escolas especiais que são regulares,
e Bases da Educação Nacional – lei 9394/96, é a
modalidade de educação escolar, oferecida pre-
como o Instituto Nacional de Educação de Surdos
ferencialmente na rede regular de ensino para (INES), especializado na educação de surdos ofe-
educandos que por possuírem necessidades rencendo ensino regular desde a Educação Infan-
próprias e diferentes dos demais alunos no do- til até o Ensino Superior. A modalidade de edu-
mínio das aprendizagens curriculares corres-
cação que se opõe ao ensino regular é o ensino
pondentes a sua idade, requer recursos pedagó-
gicos e metodologias educacionais específicas e supletivo, que se caracteriza por não ser seriado e
adaptadas para que possam apropriar-se dos sim concretizado por meio de componentes cur-
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EDUCAÇÃO FÍSICA
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LIBRAS
Para se determinar o nível de escolaridade do tivos, quanto nos que se referem aos processos de
aluno surdo, era preciso submetê-lo a um exame ensino e de aprendizagem.
classificatório realizado pelas Secretarias Estaduais, Foi desses estudos e pesquisas que originou o
o que nem sempre acontecia. princípio da Inclusão, ou a proposta da escola inclu-
Quando isto acontecia, o surdo educado segun- siva que estamos vivenciando atualmente.
do o oralismo e sem acesso a tratamentos fonoau- De maneira bastante ampla, podemos dizer que
diológicos e a uma prótese adequada, dificilmente quando se trata de inclusão, o que se preconiza é que
conseguia certificação além dos anos iniciais do a sociedade, de maneira geral, e a escola, de manei-
Ensino Fundamental. A situação era tão desanima- ra particular, necessitam se modificar para receber a
dora que se dizia que uma criança surda entrava criança especial em seu meio.
na educação pela porta da classe especial e nunca No que se refere à surdez: garantia de currículo
mais saía. adaptado; critério diferenciado para a correção de
Entretanto, a prática da Integração, com todas as provas discursivas e de Língua Portuguesa; conhe-
suas dificuldades e problemas, foi importante para cimento de Libras para uma comunicação funcional
fazer surgir novos estudos e pesquisas no campo da por parte dos professores e a presença do intérprete
Educação Especial, tanto nos aspectos administra- de Libras.
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EDUCAÇÃO FÍSICA
A Legislação Brasileira
Referente à Educação de
Surdos
Veja que, cada vez mais, os estudos na área da Edu- ticipação da família é fundamental para o sucesso do
cação Especial apontam a relevância da parceria seu trabalho e, ainda mais, precisam entender qual é
família-profissional, não só do ponto de vista da o seu papel nesse processo.
promoção do desenvolvimento da pessoa com ne- A principal maneira de se conseguir a partici-
cessidades especiais, mas também como suporte so- pação da família na educação da criança especial é
cial para todos os envolvidos. Todavia, os mesmos firmando parceria entre esta, a escola e a sociedade.
estudos que apontam para a importância da parce- Essa não é uma tarefa fácil, e cabe ao professor inter-
ria família-escola, apontam para a dificuldade de se mediar para que a família se aproxime da escola e se
conseguir o envolvimento ideal, tendo como um dos sinta segura nessa aproximação.
principais motivos a “distância” dos profissionais da De fato, o professor é o agente principal dessa
Educação Especial em relação à família. Distancia- parceria e deve ser capaz de orientar os pais sobre a
mento este, na maioria das vezes, inconsciente. deficiência de seu filho, sobre os programas de aten-
Os profissionais, de maneira geral, e os professo- dimento disponíveis, sejam eles educacionais, de
res, em particular, precisam ter clareza de que a par- saúde, psicologia ou assistência social.
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LIBRAS
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EDUCAÇÃO FÍSICA
Esta lei define as diretrizes para educação nacional bra- exigências a ser cumprida são as condições de acesso
sileira e, no que se refere aos educandos com necessida- (concurso vestibular) e de permanência de pessoas
des especiais, estabelece que o estado brasileiro garanta: com deficiência nos cursos superiores.
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LIBRAS
A essência das disposições federais contidas nes- da, sua capacidade, identidade e formação. Essa lei
sa lei está distribuída em quatro artigos: reconhece não somente que a Libras é uma Língua
e que como tal deve ser respeitada, mas que a comu-
Art. 1º: É reconhecida como meio legal de co- nidade surda, sua cultura e sua identidade também
municação e expressão a Língua Brasileira de
devem ser respeitadas.
Sinais – Libras e outros recursos de expressão a
ela associados. As leis da acessibilidade, de 2000, e a da Libras,
de 2002 foram regulamentadas pelos Decretos 5296
Parágrafo único. Entende-se como Língua Bra-
de 2004 e pelo Decreto nº 5.626 de 2005.
sileira de Sinais - Libras a forma de comunica-
ção e expressão, em que o sistema linguístico de
natureza visual-motora, com estrutura grama- DECRETO FEDERAL Nº 5296 DE 2004
tical própria, constitui um sistema linguístico
de transmissão de ideias e fatos, oriundos de Apesar deste Decreto, que regulamenta a Lei 10.098,
comunidades de pessoas surdas do Brasil.
de 19 de dezembro de 2000, que estabelece normas
Art. 2º: Deve ser garantido, por parte do poder gerais e critérios básicos para a promoção da acessi-
público em geral e empresas, concessionárias
bilidade não se referir especificamente à educação,
de serviços públicos, formas institucionalizadas
de apoiar o uso e difusão da Língua Brasileira destacamos os artigos 5º e 6 º. No primeiro está esta-
de Sinais - Libras como meio de comunicação belecido quem são as pessoas com surdez, que nes-
objetiva e de utilização corrente das comunida- te Decreto voltam a ser denominadas de deficientes
des surdas do Brasil. auditivas e a ter sua caracterização estabelecida pelo
Art. 3º: As instituições públicas e empresas con- modelo médico, em contraposição aos avanços con-
cessionárias de serviços públicos de assistência à quistados com a Lei da Libras, de 2002, que caracte-
saúde devem garantir atendimento e tratamento riza a surdez como experiência visual. No artigo 6º
adequado aos portadores de deficiência auditi-
va, de acordo com as normas legais em vigor. determina-se como deve ser o atendimento priori-
tário para pessoas com deficiência (conforme esta-
Art. 4º: O sistema educacional federal e os sis-
belecido na Lei 10.048, de 8 de novembro de 2000):
temas educacionais estaduais, municipais e do
Distrito Federal devem garantir a inclusão nos
cursos de formação de educação Especial, de Art. 5o Os órgãos da administração pública di-
Fonoaudiologia e de Magistério, em seus níveis reta, indireta e fundacional, as empresas pres-
médio e superior, do ensino da Língua Brasi- tadoras de serviços públicos e as instituições
leira de Sinais - Libras, como parte integrante financeiras deverão dispensar atendimento
dos Parâmetros Curriculares Nacionais - PCNs, prioritário às pessoas portadoras de deficiência
conforme legislação vigente. ou com mobilidade reduzida.
Parágrafo único. A Língua Brasileira de Sinais §1o Considera-se, para os efeitos deste Decre-
(Libras) não poderá substituir a modalidade es- to: I - pessoa portadora de deficiência, além
crita da língua portuguesa. daquelas previstas na Lei no 10.690, de 16 de
junho de 2003, a que possui limitação ou in-
capacidade para o desempenho de ativida-
A Lei nº. 10.436/2002 marca o início de uma nova de e se enquadra nas seguintes categorias:
e promissora era no que diz respeito à pessoa sur-
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EDUCAÇÃO FÍSICA
[...] b) deficiência auditiva: perda bilateral, par- to que torna obrigatório o ensino de Libras para os
cial ou total, de quarenta e um decibéis (dB) ou futuros professores e para os fonoaudiólogos. Des-
mais, aferida por audiograma nas frequências
tacamos, a seguir, de forma resumida, a essência das
de 500Hz, 1.000Hz, 2.000Hz e 3.000Hz
disposições contidas no Decreto 5.626.
[...] Art. 6o O atendimento prioritário compre- • A Libras deve ser inserida como disciplina
ende tratamento diferenciado e atendimento
curricular obrigatória nos cursos de forma-
imediato às pessoas de que trata o art. 5o.
ção de professores para o exercício do magis-
§1o O tratamento diferenciado inclui, den- tério, em nível médio e superior, e nos cursos
tre outros: III - serviços de atendimento para de Fonoaudiologia, de instituições de ensino,
pessoas com deficiência auditiva, prestado por públicas e privadas, do sistema federal de en-
intérpretes ou pessoas capacitadas em Língua sino e dos sistemas de ensino dos Estados, do
Brasileira de Sinais - LIBRAS e no trato com
Distrito Federal e dos Municípios.
aquelas que não se comuniquem em LIBRAS,
e para pessoas surdocegas, prestado por guias- • Todos os cursos de licenciatura, nas diferen-
-intérpretes ou pessoas capacitadas neste tipo tes áreas do conhecimento, o curso normal de
de atendimento. nível médio, o curso normal superior, o curso
de Pedagogia e o curso de Educação Especial
Além de retroceder na denominação e definição das são considerados cursos de formação de pro-
pessoas com surdez, o Decreto 5296 de 2004, também fessores e profissionais da educação para o
continua utilizando a grafia da Libras, com maiús- exercício do magistério.
culas, como uma sigla, não considerando a substan- • A Libras constituir-se-á em disciplina curri-
cular optativa nos demais cursos de educação
tivação procedida pela Lei da Libras. Estes fatos de-
superior e na educação profissional, a partir
monstram que nem sempre os especialistas em surdez
de um ano da publicação deste Decreto.
participam da elaboração da legislação e das políticas
públicas destinadas a este segmento da população. O ensino da modalidade escrita da Língua Portu-
guesa, como segunda língua para pessoas surdas,
DECRETO FEDERAL Nº 5.626 DE 2005 deve ser incluído como disciplina curricular nos
cursos de formação de professores para a educação
Para os fins deste Decreto, considera-se pessoa sur- infantil e para os anos iniciais do ensino fundamen-
da aquela que, por ter perda auditiva, compreende e tal, de nível médio e superior, bem como nos cursos
interage com o mundo por meio de experiências vi- de licenciatura em Letras com habilitação em Lín-
suais, manifestando sua cultura principalmente pelo gua Portuguesa.
uso da Língua Brasileira de Sinais - Libras. O Decreto nº 5.626 estabelece ainda que as insti-
O Decreto 5.626 estabelece o que é preciso fazer tuições federais de ensino devam garantir, obrigato-
que a abordagem bilíngue seja adotada nas escolas riamente, às pessoas surdas, acesso à comunicação,
públicas e particulares do país. Define ainda que es- informação e educação nos processos seletivos, ati-
cola ou classe bilíngue são aquelas em que a Libras e vidades e conteúdos curriculares desenvolvidos em
a modalidade escrita da Língua Portuguesa sejam as todos os níveis, etapas e modalidades de educação,
línguas utilizadas no ensino. Também é este Decre- desde a educação infantil até à superior.
51
LIBRAS
A programação visual dos cursos de nível mé- físico, ao transporte, à informação e comunicação,
dio e superior, preferencialmente os de formação de inclusive aos sistemas e tecnologias da informação e
professores, na modalidade de educação a distân- comunicação, bem como a outros serviços e instala-
cia, deve dispor de sistemas de acesso à informação ções abertos ao público ou de uso público, tanto na
como janela com tradutor e intérprete de Libras - zona urbana como na rural.
Língua Portuguesa e subtitulação por meio do sis- No que se refere ao direito à informação temos
tema de legenda oculta, de modo a reproduzir as uma manifestação explícita de inclusão quando es-
mensagens veiculadas às pessoas surdas. tabelece que cabe ao Estado:
• Aceitar e facilitar, em trâmites oficiais, o uso
DECRETO 6.949 DE 2009 de línguas de sinais, Braille, comunicação au-
mentativa e alternativa, e de todos os demais
Quando o Brasil participa de algum evento interna- meios, modos e formatos acessíveis de comu-
nicação, à escolha das pessoas com deficiência.
cional e assina o documento resultante das discus-
• Garantia de que a educação de pessoas, em
sões, para que o compromisso assumido pelo país
particular crianças cegas, surdocegas e sur-
tenha força de Lei, é necessário de que o documento
das, seja ministrada nas línguas e nos modos e
seja aprovado pelo Congresso Nacional e seja san- meios de comunicação mais adequados ao in-
cionado pela Presidência da República. O Decreto divíduo e em ambientes que favoreçam ao má-
6.949 de 2009, da Presidência da República, promul- ximo seu desenvolvimento acadêmico e social.
ga a Convenção Internacional sobre os Direitos das
Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, A fim de contribuir para o exercício desse direito, os
assinados em Nova York, em 30 de março de 2007. Estados Partes tomarão medidas apropriadas para
O entendimento do que são pessoas com defi- empregar professores, inclusive professores com
ciência avançou muito com esta convenção, trans- deficiência, habilitados para o ensino da língua de
ferindo o foco das dificuldades do indivíduo para sinais e/ou do Braille, e para capacitar profissionais e
as condições do entorno em que ele vive, a saber: equipes atuantes em todos os níveis de ensino.
pessoas com deficiência são aquelas que têm impe- Apesar da Política Nacional de Educação, em
dimentos de longo prazo de natureza física, mental, especial na perspectiva inclusiva, ter sido estabele-
intelectual ou sensorial, os quais, em interação com cida em 2008, portanto um ano anterior ao Decreto
diversas barreiras, podem obstruir sua participa- 6949, que é de 2009, ela foi orientada pela Conven-
ção plena e efetiva na sociedade em igualdade de ção, que aconteceu em 2007.
condições com as demais pessoas.
A fim de possibilitar às pessoas com deficiência DECRETO 7.611, DE 2011
viver de forma independente e participar plena-
mente de todos os aspectos da vida, os Estados Par- A promulgação deste decreto contou com intensa
tes tomarão as medidas apropriadas para assegurar participação da comunidade surda, mediante a FE-
às pessoas com deficiência o acesso, em igualdade NEIS, seu órgão representativo. Este decreto estabe-
de oportunidades com as demais pessoas, ao meio lece as diretrizes que normatizam o dever do Estado
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EDUCAÇÃO FÍSICA
para com a população-alvo da educação especial, ga- crianças, adolescentes, adultos e idosos gostariam
rantindo a manutenção de apoio técnico e financei- de ter seus direitos garantidos da mesma forma
ro pelo Poder Público às escolas especializadas, que que os demais indivíduos. Assim, por exemplo,
estavam sob a iminência de extinção em função da no ECA deveriam estar estabelecidos os direitos
proposta inclusiva. O Decreto, no parágrafo 2º do da criança e do adolescente com deficiência, as-
artigo 1º garante todas as diretrizes e princípios dis- sim como em toda legislação e políticas públicas
postos no decreto 5.626 de 2005. brasileiras.
No que se refere especificamente à educação, a
LEI 13.146 DE 2015 Lei 13.146 de 2015, em seus artigos 27 e 28, preco-
niza o atendimento na perspectiva inclusiva, mas ga-
Esta Lei, que institui a Lei Brasileira de Inclusão da rante aos surdos, no inciso IV do art. 28, o direito
Pessoa com Deficiência (Estatuto das Pessoas com de estudar em escolas bilíngues, ou seja, as escolas
Deficiência), deixa claro quais são os direitos das especializadas. Destacamos, também, o que se refe-
pessoas com deficiência e quais os deveres que o re ao desenvolvimento de tecnologias assistivas, pela
Estado (aqui entendidos como os poderes públicos importância que elas assumem na educação de sur-
Federal, Estadual e Municipal) tem para com esta dos, razão pela qual, finalizamos esta unidade com
parcela da população. um texto sobre este tema.
Para se constituir em Lei, o projeto do Estatu-
to das Pessoas com Deficiência tramitou por mui- Art. 27. A educação constitui direito da pes-
soa com deficiência, assegurados sistema
tos anos, uma vez que não havia unanimidade nem
educacional inclusivo em todos os níveis e
mesmo entre as pessoas com deficiência sobre a aprendizado ao longo de toda a vida, de for-
pertinência deste documento. Para os defensores do ma a alcançar o máximo desenvolvimento
Estatuto, um documento específico que daria mais possível de seus talentos e habilidades físicas,
visibilidade às pessoas com deficiência, além de faci- sensoriais, intelectuais e sociais, segundo suas
características, interesses e necessidades de
litar ações reivindicatórias de seus direitos, pois es-
aprendizagem.
tariam todos condensados em um único documen-
to, sem necessidade de se recorrer ao conjunto de Parágrafo único. É dever do Estado, da famí-
lia, da comunidade escolar e da sociedade as-
leis estabelecidas. segurar educação de qualidade à pessoa com
Para outros, o Estatuto deixaria explícito a deficiência, colocando-a a salvo de toda forma
exclusão desse segmento do conjunto das demais de violência, negligência e discriminação.
pessoas da sociedade. Isto porque, enquanto o Art. 28. Incumbe ao poder público assegurar,
ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente e o criar, desenvolver, implementar, incentivar,
Estatuto do Idoso se remetem a cidadãos em fases acompanhar e avaliar:
específicas de sua vida, ou seja, os que ainda exer- [...] IV - oferta de educação bilíngue, em Libras
cerão plenamente seus direitos em sua fase adulta como primeira língua e na modalidade escrita
e os que buscam a extensão de seus direitos para da língua portuguesa como segunda língua, em
a velhice, as pessoas com deficiência, enquanto escolas e classes bilíngues e em escolas inclusivas;
53
LIBRAS
54
EDUCAÇÃO FÍSICA
I - subtitulação por meio de legenda oculta; Art. 71. Os congressos, os seminários, as ofici-
nas e os demais eventos de natureza científico-
II - janela com intérprete da Libras; -cultural promovidos ou financiados pelo poder
III - audiodescrição. público devem garantir as condições de acessi-
bilidade e os recursos de tecnologia assistiva.
Art. 68. O poder público deve adotar meca-
Art. 72. Os programas, as linhas de pesquisa e
nismos de incentivo à produção, à edição, à
os projetos a serem desenvolvidos com o apoio
difusão, à distribuição e à comercialização de
de agências de financiamento e de órgãos e enti-
livros em formatos acessíveis, inclusive em
dades integrantes da administração pública que
publicações da administração pública ou fi-
atuem no auxílio à pesquisa devem contemplar
nanciadas com recursos públicos, com vistas
temas voltados à tecnologia assistiva.
a garantir à pessoa com deficiência o direito
de acesso à leitura, à informação e à comuni- Art. 73. Caberá ao poder público, diretamente
cação. ou em parceria com organizações da socieda-
de civil, promover a capacitação de tradutores
§ 1o Nos editais de compras de livros, inclusive
e intérpretes da Libras, de guias intérpretes e de
para o abastecimento ou a atualização de
profissionais habilitados em Braille, audiodes-
acervos de bibliotecas em todos os níveis e
crição, estenotipia e legendagem.
modalidades de educação e de bibliotecas pú-
blicas, o poder público deverá adotar cláusulas
de impedimento à participação de editoras que
O capítulo III da Lei 13.146 de 2015 aborda a tec-
não ofertem sua produção também em forma-
tos acessíveis. nologia assistiva, estabelecendo a garantia de acesso
da pessoa com deficiência a produtos, recursos, es-
§ 2o Consideram-se formatos acessíveis os
arquivos digitais que possam ser reconhecidos
tratégias, práticas, processos, métodos e serviços de
e acessados por softwares leitores de telas tecnologia assistiva que maximizem sua autonomia,
ou outras tecnologias assistivas que vierem mobilidade pessoal e qualidade de vida, mediante,
a substituí-los, permitindo leitura com voz por exemplo, o acesso a crédito especializado sub-
sintetizada, ampliação de caracteres, diferentes
sidiado para a aquisição individual desses recursos.
contrastes e impressão em Braille.
Finalmente, o resumo da legislação aqui apre-
§ 3o O poder público deve estimular e apoiar sentado teve a intenção de informar o futuro pro-
a adaptação e a produção de artigos científicos
em formato acessível, inclusive em Libras.[...]
fessor e de destacar que, atualmente, são muitas as
ações governamentais que buscam melhorar a edu-
Art. 70. As instituições promotoras de con-
cação e a vida social dos surdos.
gressos, seminários, oficinas e demais eventos
de natureza científico-cultural devem oferecer Por isso, já podemos imaginar, em um futuro não
à pessoa com deficiência, no mínimo, os recur- muito distante, um mundo em que a diferença linguís-
sos de tecnologia assistiva previstos no art. 67 tica não seja mais considerada uma deficiência, mas
desta Lei. como particularidade que não diminui a pessoa surda.
55
LIBRAS
A Educação de Surdos
e as Políticas Públicas
do Brasil
U
m dos discursos educacionais atuais governo de D. Pedro II criou o Instituto Nacional
é o da inclusão, e uma das discussões de Surdos-Mudos no Rio de Janeiro, atual Instituto
mais presentes quando se fala de atitu- Nacional de Educação do Surdo (INES), que ado-
des “politicamente corretas” tava a língua de sinais.
são as que abordam a diversidade cultu- Essa escola foi fundada
ral e social de indivíduos e por Ernest Huet – profes-
grupos. Respeitar as di- sor surdo francês que
ferenças se tornou mais chegou ao Brasil com
do que um objetivo a ser o objetivo de aqui ini-
alcançado, passou a ser ciar a educação dos sur-
estratégia nas políticas dos. Porém, seguindo a
públicas educacionais tendência determina-
brasileiras. da pelo Congresso de
Se conhecer a Legis- Milão (1880), em 1911,
lação acerca da educação o INES estabeleceu o
de surdos no Brasil é funda- oralismo como método
mental para o professor orien- de educação dos surdos. Atu-
tar seus alunos e familiares, conhe- almente, a filosofia educacional
cer as políticas públicas educacionais adotada pelo INES é o bilinguismo.
para o surdo brasileiro cumpre tam- Com a promulgação da Consti-
bém esta função. Além disso, esse co- tuição Federal de 1988, na qual, em
nhecimento é importante para que o diferentes artigos, são garantidos os
professor possa reivindicar melhores direitos das pessoas com deficiên-
condições de trabalho. cia, foram propostas políticas para que a atuação
A primeira política pública para a educação dos dos diferentes órgãos governamentais pudesse es-
surdos em nosso país pode ser considerada a Deci- tar em conformidade com os dispositivos consti-
são Imperial de 26 de setembro de 1857, quando o tucionais.
56
EDUCAÇÃO FÍSICA
Nesse documento, aparecem, pela primeira vez de No cenário de reformas e propostas educacionais,
forma explícita, propostas de apoio à utilização da temos o Programa Nacional de Apoio à Educação
Língua Brasileira de Sinais (Libras), na educação de de Surdos, que foi o resultado de uma proposição
alunos surdos e incentivo à oficialização da Libras. da SEESP/MEC e Secretarias de Estado da Educação
e Secretarias Municipais de Educação (das capitais)
LEI Nº 10.172/01 – PLANO NACIONAL DE visando à melhoria da educação de alunos surdos
EDUCAÇÃO matriculados no Ensino Fundamental. Um de seus
focos de trabalho foi a formação de professores ou-
O Plano Nacional de Educação estabelece vinte e vintes para o uso da Libras.
sete objetivos e metas para a educação das pessoas O Programa Nacional de Apoio à Educação dos
com necessidades educativas especiais. Sintetica- Surdos buscava atender aos 50 mil estudantes sur-
mente, essas metas tratam: dos matriculados no Ensino Fundamental naquele
• Das ações preventivas na área visual e audi- momento e possuía três metas:
tiva, até a generalização do atendimento aos 1. Organizar cursos de capacitação para profis-
alunos na educação infantil e no ensino fun- sionais da educação - subdividida em 3 eta-
damental. pas; a primeira, a ser realizada em Brasília,
• Do atendimento extraordinário em classes e consistia no curso de instrutores surdos; a se-
escolas especiais ao atendimento preferencial gunda, a ser realizada nos estados, consistia
na rede regular de ensino. no curso de língua de sinais para professores
da rede pública e no curso de língua de sinais
• Da educação continuada dos professores que
para novos instrutores e a terceira, a ser re-
estão em exercício à formação em institui-
alizada no INES, em curso de intérprete de
ções de ensino superior.
línguas de sinais para professores da rede pú-
O Plano Nacional de Educação de 2001 indica como blica (a curto prazo).
meta, ainda, capacitar pessoas para dar atendimento 2. Implantar o centro de apoio à capacitação
dos profissionais e à educação de surdos CAP
aos educandos especiais e como meta nº 11: implan-
a ser cumprida em médio prazo.
tar, em cinco anos, e generalizar, em dez, o ensino
3. Modernizar as salas de recursos para atendi-
da Língua Brasileira de Sinais para alunos surdos e, mento dos surdos (a médio prazo).
sempre que possível, para seus familiares e para o
pessoal da unidade escola, mediante um programa Como resultado material deste Programa, foi pro-
de formação de monitores, em parcerias com orga- duzido pelo MEC, em conjunto com pesquisadores
nizações não governamentais. e com a FENEIS – Federação Nacional de Escolas e
57
LIBRAS
Instituições de Surdos, o material didático “Libras O documento é claro na orientação de que não
em Contexto”, composto de livro do aluno, livro do sejam mais criadas escolas especiais e orienta que as
professor e fitas de vídeo. Foi o primeiro material já existentes transformem-se em centros educacio-
de características oficiais para o ensino de Libras do nais especializados para ofertar AEE. As principais
Brasil, que, em 2009, teve publicada sua 9ª edição. justificativas para a “extinção” das escolas especiali-
zadas apresentadas na PNEE são:
POLÍTICA NACIONAL DE EDUCAÇÃO ES-
PECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA – A Educação Especial se organizou tradicional-
mente como atendimento educacional especia-
PNEE 2008
lizado substitutivo ao ensino comum, eviden-
ciando diferentes compreensões, terminologias
A Educação Especial, modalidade escolar que aten- e modalidades que levaram a criação de insti-
de, preferencialmente na rede regular de ensino, tuições especializadas, escolas especiais e clas-
educandos com “deficiência, transtornos globais do ses especiais.
58
EDUCAÇÃO FÍSICA
59
LIBRAS
O ideal é que o professor conheça Libras, mes- Considerando a importância dos recursos tec-
mo com a presença de intérpretes. Não é viável que nológicos para a inclusão social e educacional dos
a aula seja ministrada em Libras, mas deve existir surdos e que o acesso a tais recursos é garantido
comunicação, mesmo que funcional, entre o profes- pela Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com De-
sor e o aluno. Além disso, o intérprete geralmente ficiência - Lei 13.146 de 2015, que inclusive esta-
não domina todo conteúdo de todas as disciplinas e belece dispositivos para fomentar pesquisas nesta
é preciso ter certeza de que o que está sendo repas- área. Por isso, destinamos, a seguir, um texto espe-
sado aos alunos é o que está de fato sendo explicado cífico para analisar os avanços nesta área, no que se
pelo professor. refere aos surdos.
SAIBA MAIS
Para conhecer mais alguns decretos vinculados à questão dos direitos das pessoas com deficiência,
pesquise por:
Decreto Nº 186/2008 - Aprova o texto da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência.
Decreto Nº 6.215/07 - Institui o Comitê Gestor de Políticas de Inclusão das Pessoas com Deficiência.
Decreto Nº 6.571/08 - Dispõe sobre o atendimento educacional especializado.
Decreto nº 3.298/99 - Regulamenta a Lei no 7.853, de 24 de outubro de 1989, dispõe sobre a Política
Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência.
Decreto nº 3.952/01 - Conselho Nacional de Combate à Discriminação.
Decreto nº 5.296/04 - Regulamenta as Leis n° 10.048 e 10.098 com ênfase na Promoção de Acessibilidade.
Decreto nº 3.956/01 – (Convenção da Guatemala) Promulga a Convenção Interamericana para a Elimi-
nação de Todas as Formas de Discriminação contra as Pessoas Portadoras de Deficiência
Fonte: as autoras.
60
EDUCAÇÃO FÍSICA
Tecnologias de Acessibilidade
para a Comunicação do Surdo1
As tecnologias atuais permitiram um enorme au- Beatriz e Marília tiveram um deste, porque a mãe,
mento da boa qualidade de comunicação entre sur- Clélia, desejava mandar recados, por exemplo, quan-
dos e entre ouvintes e surdos, das quais, o principal do saiam à noite. Às vezes, a mãe queria saber se es-
exemplo é o celular, por permitir o envio de mensa- tava tudo bem, então mandava mensagens no Pager
gens escritas, dentre outras facilidades. e elas telefonavam de um orelhão para casa. Não era
O precursor do celular foi o PAGER ou BIP. Este possível conversar, mas apenas por receber a ligação,
equipamento não foi criado pensando nos surdos, a mãe sabia que estava tudo bem. Era um código
mas, por utilizar a escrita e possibilitar que o surdo combinado entre a família. Este exemplo ilustra bem
tivesse acesso à mensagem pela via visual, foi ado- as dificuldades de comunicação que os surdos viven-
tado por muitos integrantes da comunidade surda, ciaram ao longo dos tempos, de maneira que conside-
gerando muita esperança. Todavia, além de ser cara, ramos que é muito mais fácil ser surdo no momento
sua utilização não era prática. Como as mensagens atual, repleto de ferramentas tecnológicas!
escritas apenas podiam ser emitidas pelas telefonis- Em 1998, surgiu o TDD (Telecommunications
tas, não havia possibilidade de troca efetiva de co- Devices for the Deaf), que foi anunciado como um
municação. Os ouvintes ligavam para uma central grande avanço na comunicação dos surdos. Entre-
de comunicações do BIP, os telefonistas recebiam os tanto, esta tecnologia não foi muito utilizada por
recados e enviavam as mensagens para os aparelhos eles. Primeiro, porque era de difícil aquisição, de
dos surdos, que não tinham como responder. Infe- maneira que apenas associações, entidades governa-
lizmente, esses equipamentos tecnológicos foram mentais e algumas não governamentais possuíam os
falhos para a comunicação dos surdos, embora ser- aparelhos. Além disso, sua utilização não apresenta-
vissem para que esses recebessem recados. va praticidade. Para usufruir os serviços do TDD, o
surdo, quando queria ligar para um ouvinte, digitava
1
Texto resumido do Capítulo 2, de mesmo título, da dissertação de mes- o número e a mensagem, que era recebida por um
trado: O uso social das tecnologias de comunicação pelo surdo: limites
atendente e transmitida oralmente na ligação de te-
e possibilidades para o desenvolvimento da linguagem, de autoria de
Marília Ignatius Nogueira Carneiro, constante das referências. lefone comum para o ouvinte. O ouvinte respondia
61
LIBRAS
e esta mensagem era escrita pelo atendente e enca- vídeos, acessível apenas para smartphones e que não
minhada para o surdo via TDD e assim, o procedi- permite a criação de grupos. Oferece duas opções:
mento continuava. O processo demorado de troca público ou fechado. Se público, qualquer pessoa
de mensagens e seu custo alto inviabilizou a utiliza- pode ter acesso ao que for disponibilizado na página
ção deste recurso em larga escala. do usuário. Se fechado, só as pessoas adicionadas po-
A partir do TDD, outros recursos tecnológicos dem ver suas postagens. Os surdos costumam postar
sustentados no Português escrito foram disponibi- fotos e vídeos curtíssimos, de no máximo dois minu-
lizados para a comunidade surda. Muitos, inclusive, tos. Apesar de ser possível postar vídeos em Libras,
não necessitaram de nenhum tipo de adaptação e fo- a maioria dos surdos faz apenas postagem de fotos.
ram utilizados indistintamente por surdos e ouvintes. O Telegram é considerado um dos principais
Um exemplo desses recursos é o Facebook. Este concorrentes do WhatsApp, porque possui funções
aplicativo para redes sociais é o de maior acesso no semelhantes, como o envio e recebimento de con-
mundo. Com características individuais, permite teúdos em texto, vídeo, áudio e imagem por meio
também a formação de grupos de usuários que pos- de um pacote de dados ou de uma conexão Wi-Fi.
suem interesses em comum. Uma primeira vantagem deste aplicativo é o fato de
Atualmente, os smartphones estão bastante aces- não estar vinculado a nenhuma grande empresa da
síveis e os aplicativos de mensagens instantâne- internet. Como o Telegram utiliza a rede móvel para
as vêm sendo aperfeiçoados, fazendo parte do co- mandar e receber as mensagens, ele é gratuito.
tidiano das pessoas e facilitando ainda mais a vida O Telegram apresenta ainda suporte para GIFs
social dos surdos, como exemplo temos o ICQ, o (Graphics Interchange Format ou, em português:
WhatsApp, o Instangram e o Telegram. formato de intercâmbio de gráficos animados). Pos-
Constantemente novos recursos tecnológicos, sui dispositivos de busca para pesquisa de imagens
que favorecem a comunicação de pessoas surdas, (animadas ou estáticas) diretamente no aplicativo e
são apresentados à comunidade científica. Um apresenta um sistema de citação de outros usuários
exemplo disso é a pulseira Lepee, apresentada por durante uma conversa, ideal para ser utilizada em
alunos do curso de Engenharia Elétrica da Univer- um grupo.
sidade Tecnológica Federal do Paraná. O dispositivo Atualmente, um grupo de surdos brasileiros2
consiste em um aparelho vibratório que se conecta a utiliza o Telegram para uma pesquisa que tem por
qualquer celular e pisca e vibra quando o Smartpho- objetivo convencionar sinais em Libras para dife-
ne recebe notificação de mensagem, por exemplo, rentes áreas do conhecimento, como, por exemplo,
o alarme do carro ou uma campainha wireless. Se- a Matemática.
gundo o jornal “Gazeta do Povo” (2015, on-line)2.
2 O grupo de Lexicologia e terminologia em Libras desenvolve seus tra-
“O funcionamento de pulseira Lepee tem potencial
balhos por meio do Telegram. Muitos surdos, de diferentes estados bra-
para provocar uma minirrevolução na relação das sileiros, reúnem-se e discutem, para produzir um novo sinal. Aproxima-
pessoas surdas com a tecnologia”. damente 38 pessoas surdas da área de linguística e fluentes em Libras. O
Telegram permite que os usuários se comuniquem sem sair de casa, com a
O Instagram é semelhante ao Facebook e é uma vantagem de que este aplicativo permite o envio de vídeos de mais ou me-
rede social on-line de compartilhamento de fotos e nos 6 minutos de gravação, que podem ser compartilhados com o grupo.
62
EDUCAÇÃO FÍSICA
63
LIBRAS
64
EDUCAÇÃO FÍSICA
REFLITA
65
LIBRAS
Outro recurso educacional decorrente das ferra- rial é muito útil, pois além da simples tradução de
mentas tecnológicas são os dicionários virtuais em sinais para palavras escritas em português e vice-
Libras, muito importantes para alunos surdos e para -versa, apresenta também planejamento para aulas
aprendizes ouvintes. Como a Libras se sustenta no temáticas, que auxiliam muito o professor de Libras
movimento, os dicionários somente são possíveis para ouvintes.
em razão das tecnologias digitais. Esses dicionários Os dicionários virtuais já estão avançando, e é
poderiam ser explorados pelas escolas bilíngues para possível encontrar dicionários temáticos, por área
o ensino da Língua Portuguesa escrita para crianças de conhecimento, como o dicionário virtual em Li-
surdas, da mesma maneira que os dicionários tra- bras para termos filosóficos, elaborado pela Pontifí-
dicionais são explorados para a construção do vo- cia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC/
cabulário de crianças ouvintes. Assim, da mesma MG, finalizado em 2008. O material tem como ob-
forma que esses recursos favorecem o aprendizado jetivo auxiliar professores da graduação e do Ensino
da Libras para pessoas ouvintes, os surdos também Médio. A UTFPR de Londrina criou um dicionário
podem ver os sinais de Libras e aprender português virtual para termos científicos da área de (Biologia
escrito. 2017, online)4. A PUC/MG estuda atualmente a pos-
Outros dicionários virtuais de Libras estão dis- sibilidade de elaboração de dicionários para as disci-
poníveis, como o Dicionário de Libras. Este mate- plinas de Biologia e História.
66
considerações finais
A
adoção da língua de sinais constitui, sem dúvida, um avanço impor-
tante na medida em que se elimina um grande obstáculo à apren-
dizagem do surdo. Mas não é suficiente para garantir o desenvol-
vimento das operações formais sem a defasagem encontrada em
relação ao ouvinte. Existem outros fatores que precisam ser compreendidos no
desenvolvimento cognitivo do surdo.
Os surdos adultos não se diferenciam significativamente, em termos cog-
nitivos, dos adultos ouvintes. Isso significa que, de alguma forma, a defasagem
cognitiva encontrada na idade escolar não permanece para sempre no desenvol-
vimento do surdo. Mas, isso quer dizer também que a escola, no geral, não está
colaborando para a mudança dessa situação.
A língua de sinais possibilita aos surdos uma comunicação mais efetiva com
seus pares. Isso é uma condição fundamental para o desenvolvimento cognitivo,
não porque a linguagem seja a única responsável pelo desenvolvimento cognitivo
do surdo, mas porque permite a interação com o outro e, principalmente, a inte-
ração com seus iguais, no sentido dos interesses comuns próprios de cada fase de
desenvolvimento.
Qual o papel da escola nesse sentido? Dar cada vez mais qualidade a essa inte-
ração, sem impor à criança ideias prontas ou soluções baseadas na autoridade. O
professor deve ser, antes de tudo, aquele que coloca as perguntas certas, organiza
situações adequadas, e não aquele que oferece as respostas certas.
Apesar de ser imprescindível que os surdos aprendam, o mais cedo possível, a
língua de sinais, a sua educação necessita ainda de um cuidado especial.
A escola não deve se limitar apenas a “traduzir”, para a língua de sinais, me-
todologias, estratégias e procedimentos da escola comum, mas deve continuar a
se preocupar em organizar atividades que proporcionem o salto qualitativo no
pensamento dos surdos. O que não se pode deixar de considerar é que o surdo
não ficará livre das restrições impostas pela surdez apenas com a aceitação da sua
peculiaridade linguística e cultural.
67
atividades de estudo
Depois de uma primeira leitura, retome os textos e faça uma nova leitura, para
responder as seguintes questões:
2. O que você entende por inclusão? Por que este movimento está tão forte
atualmente, no que se refere às pessoas com deficiência?
68
LEITURA
COMPLEMENTAR
O texto a seguir foi extraído da Revista Arqueiro n. 13, publicada em novembro de 2006, pelo Instituto Nacional de
Educação de Surdos.
ENTREVISTA
Professor Surdo e Alunos Universitários (um surdo e um ouvinte)
João Lázaro (professor)
Marcus Vinicius Freitas Pinheiro (aluno surdo)
Rafael Lebra (aluno ouvinte)
Vanessa Bartolo (intérprete)
Com o Decreto nº 5.626, de 22/12/2005, a disciplina 2) Pelo que rege o Decreto, escolas e universidades
de Libras será obrigatória nos cursos de licenciatura, terão que contratar intérpretes e/ou monitores para
pedagogia, fonoaudiologia, e opcional nos demais. Após os alunos surdos. A difusão da Libras é agora uma
um ano de vigência, as instituições deverão ter em realidade a ser respeitada e mantida. Como você vê
seus quadros um tradutor e intérprete de Libras, para a preparação e capacitação de pessoal para este fim?
atuarem nos processos seletivos e nas salas de aula. Professor surdo: Vejo que ainda não estamos prepa-
Do mesmo modo, o Sistema Único de Saúde – SUS e rados devidamente para colocarmos intérpretes nas
os órgãos públicos federais terão que reservar 5% de instituições, pois há controvérsias nas interpretações
suas vagas para servidores e funcionários tradutores de alguns. Acredito que, com as universidades criando
ou intérpretes de Libras. cursos de graduação e pós-graduação para esta área,
Neste número da revista Arqueiro, convidamos um talvez futuramente tenhamos intérpretes fiéis ao que
professor surdo, um aluno surdo universitário e um os surdos dizem.
aluno ouvinte, colega de classe do segundo, para se 3) Sabemos que muitos universitários surdos con-
manifestarem a respeito desse acontecimento que, a tratam intérpretes para que tenham um maior
partir dessa data, reescreve a história da educação de entendimento do que lhes é transmitido nas uni-
surdos no país. versidades, visto que algumas delas ainda não
1) Queremos, primeiramente, parabenizá-los por esta contrataram esse tipo de profissional. Agora isso
grande conquista e saber que mudanças poderão vir deverá mudar. O que mais será necessário para
a ocorrer com este Decreto? que se efetive uma mudança significativa no que
diz respeito ao acesso pleno das pessoas surdas à
Professor surdo: São muitas as mudanças, a começar
educação universitária?
pelas vantagens e benefícios que os indivíduos surdos
receberão, tendo uma aceitação maior, por parte da Professor surdo: Esta questão é constantemente
sociedade, da Língua de Sinais, uma vez que a maioria discutida nos corredores universitários. Como profes-
dos surdos de nosso país se comunica por meio da sor da Universidade Salgado de Oliveira – UNIVERSO,
Libras. Além do mais, creio que haverá maior acessi- que contratava intérpretes, houve problemas devi-
bilidade para todos nós nos diversos serviços públicos do a alguns desses profissionais quererem escolher
oferecidos em nosso país. para quem interpretar e uns surdos brigarem com
69
LEITURA
COMPLEMENTAR
outros pelo intérprete que queriam. Por causa desta 5) Qual é a sua expectativa quanto ao cumprimento
discussão, a instituição resolveu parar de contratar do Decreto?
intérpretes, deixando a cargo de cada aluno a sua Aluno surdo: Infelizmente, acho que vai demorar para
contratação por conta própria. Também há outro que as pessoas cumpram o decreto, mas tenho espe-
problema: muitos tentam ganhar um salário maior ou rança de que isso possa acontecer logo.
igual ao de um professor universitário, o que grande
parte das instituições de ensino não aceita. Além do 6) Como você vê a inclusão da Libras no currículo uni-
mais, eles têm que compreender que não são con- versitário e como é assistir a aulas com um intérprete
tratados apenas para interpretar, mas para ajudar no de Libras na sala de aula ?
que for necessário e muitos não aceitam. Aí surge o Aluno ouvinte: Vejo a inclusão de Libras como uma
problema: se o aluno falta, o intérprete não faz nada; nova possibilidade de comunicação e avanço na con-
se o aluno mata a aula, o intérprete não faz nada; se o solidação da cidadania. O Intérprete é um auxiliar de
aluno não tiver aula naquele dia, o intérprete não vai comunicação do professor com o aluno e até mesmo
ou comparece apenas para ficar sentado sem fazer com outros alunos; é claro que não atrapalha a aula,
nada. Prefiro parar por aí, já que os questionamentos pois o interesse de comunicação é de ambos.
são muitos.
7) Você acredita que, com a regulamentação da Li-
Aluno surdo: O professor, em sala de aula precisa bras e sua obrigatoriedade nos Cursos Normais e
conhecer o universo do surdo, preparar aulas que inte- de Licenciatura, as barreiras de comunicação serão
grem surdos e ouvintes. Professores e alunos precisam eliminadas?
entender e respeitar a cultura dos surdos.
Professor surdo: Isso dependerá da aceitação por
4) Como você encara a proposta de provimento das parte de nossa sociedade. Gostaria que este decreto
escolas com professores e/ ou instrutores de Libras, fosse estendido também para os médicos otorrinola-
tradutor e intérprete – Libras / Língua Portuguesa e ringologistas, pois muitos aconselham as famílias de
professor regente de classe com conhecimento das surdos a não deixá-los aprender a Língua de Sinais, o
singularidades linguísticas dos surdos neste imenso que muitas famílias seguem à risca. Mas creio que já
território nacional? será um grande passo para as comunidades surdas,
Professor surdo: É uma boa proposta, desde que uma vez que pode ajudar a quebra de preconceitos
seja posta em prática, respeitando as identidades e também a nossa aceitação e respeito por parte da
de cada indivíduo e suas reais necessidades. No sociedade brasileira.
entanto, é preciso que os professores saibam que Aluno surdo: Depende de como serão as aulas. Se a
eles também precisam saber utilizar a Libras como Libras for ensinada de modo superficial, dificilmente
forma de comunicação e expressão, senão aquela essas barreiras acabarão. E também para que a barreira
relação professor-aluno nunca existirá na sala de da comunicação seja eliminada, é preciso que todos
aula. saibam Libras, não só alguns.
70
EDUCAÇÃO FÍSICA
Você pode obter gratuitamente a Série Atualidades Pedagógicas – Educação Especial: Defi-
ciência Auditiva, publicada pelo MEC e composta de cinco volumes, um dos quais destinado
especificamente à aprendizagem da Libras, acessando o link:
<[Link]/ines_livros/[Link]>. Acesso em: 20 jun. 2016.
Para saber mais sobre os surdos, sua educação, a proposta inclusiva e sobre educação e di-
versidade acesse <[Link]>. Acesso em 20 jun. 2016.
71
referências
72
referências
Referências on-line:
1
Em: <[Link] Acesso em: 20 jun. 2016.
2
Em: <[Link]
dos-ac1f3w4qb5ffti2psrz9bpw0j>. Acesso em: 20 jun. 2016.
3
Em: <[Link] Acesso em: 20 jun. 2016.
4
Em: <[Link] Acesso em: 20 jun. 2016.
5
Em: <[Link]
Acesso em: 20 jun. 2016.
6
Em: <[Link] Acesso em: 8 jul. 2016.
73
gabarito
74
UNIDADE
III
ASPECTOS GERAIS E
FONOLÓGICOS DA LIBRAS
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta
unidade:
• Paralelos entre Libras e a Língua Portuguesa
• Aspectos fonológicos da Libras
• Léxico de categorias semânticas I – Tempo e Elementos da
Natureza
Objetivos de Aprendizagem
• Compreender a Libras em seus aspectos gerais.
• Compreender a Libras em seus aspectos fonológicos.
• Instrumentalizar os licenciandos para o estabelecimento de
uma comunicação funcional com pessoas surdas.
unidade
III
INTRODUÇÃO
A
Libras é uma língua com gramática própria e com condições
de proporcionar não apenas a comunicação efetiva entre os
surdos, como, também, a expressão de sentimentos; a com-
posição de poesias; a discussão filosófica, enfim, um idioma
completo. Porém, principalmente devido às suas características icônicas,
é comum o pensamento de que as línguas de sinais são iguais em todo o
mundo.
Também é comum aos ouvintes pressupor que as línguas de sinais sejam
versões sinalizadas das línguas orais. No entanto, embora haja semelhanças
ou aspectos comuns entre as diferentes línguas de sinais, e entre as línguas
de sinais e as orais, os chamados “universais linguísticos”, as línguas de sinais
são autônomas, possuindo peculiaridades que as distinguem umas das outras
e das línguas orais.
Nesta unidade, vamos estabelecer paralelos entre Libras e Língua
Portuguesa e iniciar os estudos da Libras em seus aspectos linguísticos. Assim,
após você ter sido apresentado ao mundo surdo na Unidade I e conhecer a
realidade educacional do surdo brasileiro na Unidade II, nesta terceira uni-
dade você vai iniciar sua caminhada no aprendizado desta fascinante língua.
Como os sinais exigem movimento para serem executados, é impor-
tante que você observe atentamente as fotos, pois quando temos duas ou
mais fotos que não estão separadas por um espaço em branco, significa que
a primeira foto é como o sinal começa e a segunda indica com que configu-
ração de mão ele termina. As setas indicam a direção do movimento. Procure
estudar esta unidade acompanhada do seu vídeo, pois cada um dos sinais é
apresentado, na mesma ordem em que aparecem no texto.
Repita, atentamente, cada sinal e procure comunicar-se em Libras, com
seus colegas, familiares etc. Lembre-se, aqui, como na aprendizagem de qual-
quer outra língua, é fundamental praticar muito.
Bons estudos!
LIBRAS
Paralelos Entre
Libras e Lingua Portuguesa
N
ão ouvir faz o surdo criar uma ma- mens pré-históricos se comunicavam por meio
neira própria de se comunicar, mas de gestos e apenas quando começaram a utilizar
não o impede de adquirir uma lín- ferramentas, ocupando as mãos é que começa-
gua e nem de desenvolver sua ca- ram a utilizar a comunicação oral. Assim, antes
pacidade de representação. Isso provavelmente de utilizarem a palavra, os seres humanos usavam
envolve mecanismos mentais, diferentes dos da as mãos para interagir, demonstrando a naturali-
pessoa ouvinte. Todavia, a comunicação com as dade da comunicação por sinais. Podemos então
mãos não teve início com os surdos e nem é ex- dizer que o processo inverso, isto é, a passagem
clusividade deles. da língua oral para a manual foi reinventado pelo
De fato, a língua de sinais não começou com homem, sempre que necessário e não apenas no
os surdos, pois, de acordo com Vygotsky os ho- caso dos surdos.
80
EDUCAÇÃO FÍSICA
Você sabia que existem varias linguagens ma- mesmo atualmente, algumas comunidades de mon-
nuais criadas em diversos momentos da his- ges utilizam gestos em suas atividades cotidianas no
tória da humanidade, para uso em contextos
mosteiro.
variados, tendo em vista possibilitar a comuni-
cação e a interação em situações em que a fala Veja como se concebia a função do silencio no
era inviável, proibida ou impossível? período monástico, segundo regras, registradas por
São Basílio Magno, de que a palavra só poderia ser
Mergulhadores, por exemplo, criaram um sis-
tema de códigos gestuais para se comunicar utilizada em caso de necessidade e estando as mãos
debaixo d’ água, onde a fala não é possível. ocupadas com algum trabalho, o que permite infe-
Considerando os riscos de uma comunicação rir que a comunicação gestual por eles utilizada era
equivocada em circunstâncias perigosas, fica
bastante eficiente.
evidente o quanto essa comunicação deve ser
bem assimilada durante os cursos de mergu-
lho para garantir a segurança no meio líquido É bom para os noviços também a prática do
(REILY, 2004, p. 113). silêncio. Se dominam a língua, darão simul-
taneamente boa prova de temperança. Com o
silêncio aprenderão junto dos que sabem usar
No Brasil, Lucinda Ferreira Brito iniciou, em 1982, da palavra, com concisão e firmeza, como con-
os estudos linguísticos sobre a Língua de Sinais dos vém perguntar e responder a cada um. Há um
índios Urubu-Kaapor da floresta amazônica brasi- tom de voz, uma palavra comedida, um tempo
oportuno, uma propriedade no falar, peculia-
leira e, após um mês de convivência, documentando
res e adequados aos que praticam a piedade.
em filme sua experiência, constatou que se tratava de Não os aprende quem não tiver abandonado
uma legítima língua de sinais. O interessante de se aquilo a que estiver acostumado. O silêncio
observar, no caso dos Urubu-Kaapor, é que os ouvin- traz consigo o esquecimento da vida anterior,
em consequência da interrupção, e proporcio-
tes da aldeia “falam” a língua de sinais e a língua oral
na lazer para o aprendizado do bem. Assim, a
enquanto que os surdos se restringem à língua de não ser por questão especial atinente ao bem
sinais. Assim, os ouvintes da aldeia se tornam bilín- da própria alma, ou por inevitável necessidade
gues, enquanto os surdos se mantêm monolíngues. de um trabalho em mãos, ou por negócio ur-
gente, guarde-se o silêncio, excetuada, é claro,
De acordo com Reily (2004), os indígenas do
a salmodia. (Basílio Magno, apud REILY, 2004,
planalto americano também desenvolveram uma p. 114).
língua de sinais para estabelecer uma comunicação
entre tribos distintas, que não falavam a mesma lín- Assim, conforme já mencionamos anteriormente, a
gua, e precisavam de uma forma convencional de língua de sinais é um idioma completo. Porém, tal-
comunicação. Assim, desenvolveram, ao longo do vez, principalmente devido às suas características
tempo, um conjunto de sinais bastante eficiente, com icônicas (uma representação da realidade, por íco-
o qual conseguiam realizar alianças e comércios. nes) e, pela forte influência da língua oral - tanto na
Um sistema de sinais também foi desenvolvido estrutura gramatical, quanto lexical - são muitas as
no período medieval por monges nos mosteiros eu- interpretações equivocadas sobre as línguas de si-
ropeus, que faziam o voto do silêncio, sendo que, nais em geral e sobre a Libras em particular.
81
LIBRAS
(adaptado de Gesser).
82
EDUCAÇÃO FÍSICA
No Brasil, conforme afirmamos anteriormente, [...] é a parte da linguística que estuda a natu-
os primeiros estudos sobre a Libras foram realiza- reza do significado individual das palavras e do
agrupamento das palavras nas sentenças, que
dos na década de 1980, por Lucinda Ferreira-Brito
pode apresentar variações regionais e sociais
da Universidade Federal do Rio de Janeiro e Tanya nos diferentes dialetos de uma língua (QUA-
Mara Felipe, da Universidade Federal de Pernambu- DROS; KARNOPP, 2004, p. 163).
co e da FENEIS – Federação Nacional de Escolas e
Instituições de Surdos, entidade representativa má- Morfológico: estudo da estrutura interna das palavras,
xima dos surdos brasileiros. isto é, como os elementos se combinam entre si para
Para poderem chegar à conclusão de que as lín- formar as palavras. Sua unidade mínima é o morfema
guas de sinais constituem um idioma, foram feitos que é a unidade mínima significativa. Por exemplo:
muitos estudos. Também para poder estabelecer estud/ei; estud/amos e estud/ante. A identidade de sig-
uma comparação entre a Libras e a Língua Portu- nificado das três formas é devido ao morfema estud,
guesa, os linguistas realizaram diversos estudos. que é igual nas três palavras. A Morfologia (área da
Quadros e Karnopp (2004, p. 15) definem lin- Linguística) estuda, ainda, as “[...] diversas formas que
guística como “[...] o estudo científico das línguas apresentam tais palavras quanto à categoria de número,
naturais e humanas. As línguas naturais podem ser gênero, tempo e pessoa” e a “[...] origem das palavras,
entendidas como arbitrária e/ou como algo que nas- apresentando-se a seguinte questão: Como as palavras
ce com o homem”. são criadas?” (QUADROS, KARNOPP, 2004, p. 16-20).
A parte da linguística que faz a comparação entre Sintático: estuda como as palavras são organiza-
duas ou mais línguas chama-se linguística contrasti- das numa frase. De acordo com Quadros e Karnopp
va. A linguística contrastiva é uma parte da linguís- (2004, p. 20), Sintaxe é “[...] a parte da linguística que
tica geral, que estuda as similaridades (coisas pareci- estuda a estrutura interna das sentenças e a relação
das) e diferenças estruturais entre a língua materna interna entre as suas partes”. Para as mesmas autoras,
(de um grupo de alunos) e uma língua estrangeira.
Essa comparação é feita nos níveis de articulação da [...] o conhecimento linguístico dos seres hu-
manos caracteriza-se pela existência de uma
linguagem a saber: fonológico, semântico, morfoló-
gramática que apresenta um conjunto finito
gico e sintático. de princípios (regras) que possibilitam a com-
Fonológico: estuda os fonemas, que são a menor preensão e produção de um número infinito
unidade distintiva da palavra – por exemplo, na pa- de combinações em uma determinada língua
lavra fala a letra f representa o fonema fê -, se refere (QUADROS, KARNOPP, 2004, p. 21).
83
LIBRAS
84
EDUCAÇÃO FÍSICA
nas orais, mas a sua arbitrariedade conti- • Evolução e renovação: as línguas orais mo-
nua a ser dominante. Embora, nas línguas dificam-se, como no caso das palavras que
de sinais, alguns sinais sejam totalmente caem em desuso, outras que são adquiridas,
icônicos, é impossível, como nas línguas a fim de aumentar o vocabulário e ainda no
orais, depreender o significado da grande caso da mudança de significado das palavras.
maioria dos sinais, apenas pela sua repre- O mesmo acontece nas línguas de sinais, a
sentação. fim de responder às necessidades que a evo-
• Comunidade: as línguas orais têm uma co- lução socio-cultural impõe.
munidade que as adquirem, como língua ma- • Aquisição: a aquisição de qualquer língua
terna, cujo desenvolvimento se faz através de oral é natural, desde que haja um ambiente
uma comunidade de origem, passando pela propício desde nascença. Na língua de sinais
família, a escola e as associações. Todas as acontece da mesma forma, não tendo o sur-
línguas orais têm variações linguísticas. To- do que exercer esforço para aprender uma
das as línguas de sinais possuem estas mes- língua de sinais, ou necessidade de qualquer
mas características. preparação especial.
• Sistema linguístico: as línguas orais são sis- • Funções da linguagem: as línguas orais po-
temas regidos por regras. O mesmo acontece dem ser analisadas de acordo com as suas
com as línguas de sinais. funções. O mesmo acontece com as línguas
• Produtividade: as línguas orais possuem as de sinais. As funções são: a função referen-
características da produtividade e da recur- cial, a emotiva, a conotativa, a fática, a meta-
sividade, sendo possível aos seus falantes linguística, e a poética.
nativos produzirem e compreenderem um • Processamento: embora usando modalida-
número infinito de enunciados, mesmo que des de produção e percepção, as línguas orais
estes nunca tenham sido produzidos antes. e de sinais são processadas na mesma área
Acontece o mesmo com as línguas de sinais, cerebral.
sendo encontradas a criatividade e produtivi- • Dupla articulação: tanto as línguas orais pos-
dade nas produções, por exemplo, da Libras, suem um número finito de unidades (fone-
pelos seus sinalizadores nativos, parecendo mas para as primeiras e quiremas para as se-
não haver limite criativo. gundas) que não possuem significado quando
• Aspectos contrastivos: as línguas orais pos- consideradas isoladamente. Por exemplo, os
suem aspectos contrastivos, isto é, as unida- sons f, v, c, e a, não possuem significado por
des fonológicas do sistema de determinada si só, mas quando combinados, por exemplo,
língua estabelecem-se por oposições contras- como vaca, cava e faca, adquirem sentidos di-
tivas, ou seja, em pares de palavras, em que ferentes.
a substituição de uma unidade fonológica
No que se refere às especificidades das línguas de si-
(uma letra) por outra altera o significado da
palavra (por exemplo: jarra e barra). Aconte- nais em geral e da Libras em particular, destacamos:
ce o mesmo nas línguas de sinais, sendo que • Em função de suas características, os sinais
em vez de unidade fonológica, muda um pe- podem parecer movimentos aleatórios de
queno aspecto do sinal.
85
LIBRAS
mãos e corpo, acompanhados por expres- de sinais não seria arbitrária e resultante de
sões faciais variadas, ou seja, seriam apenas convenção, como as línguas orais, em que
“gestos”. De acordo com Pereira et al. (2001, não existe uma relação de semelhança en-
p. 18), esta descrição para sinais seria equiva- tre a palavra e o conceito que representa),
lente a descrever uma língua oral como “ruí- não podemos afirmar que a língua de sinais
dos” feitos com a boca. Além disso, os gestos seja icônica, pois apesar da relação direta,
são traços das línguas orais, isto é, acompa- quase transparente entre um sinal e o con-
nham as línguas orais e favorecem a comuni- ceito que este representa, as modificações
cação. Portanto, os sinais não são gestos. por eles sofridas ao longo do tempo e na
• A língua de sinais é tão natural e tão com- combinação com outros sinais resultam em
plexa quanto as línguas orais, dispondo de perda de iconicidade, se tornando, portan-
recursos expressivos suficientes para permi- to, arbitrários.
tir aos seus usuários expressar-se sobre qual- • A Libras é uma língua, com gramática pró-
quer assunto, em qualquer situação, domínio pria e com condições de proporcionar, não
do conhecimento e esfera de atividade. apenas a comunicação efetiva entre os sur-
• As línguas de sinais são línguas de modali- dos, como, também, a expressão de senti-
dade viso-motora ou espaço-visual ou, ainda, mentos; a composição de poesias; a discus-
visuoespacial, pois a informação linguística é são filosófica, enfim, um idoma completo,
produzida pelas mãos e recebida pelos olhos. não se tratando, absolutamente, de um con-
junto de gestos, mímica ou de Português
• A comunicação manual é algo inerente ao
sinalizado (reproduzir, utilizando sinais, a
ser humano e já existia entre os hominídeos
Língua Portuguesa, conservando suas regras
pré-históricos, sendo, portanto, natural. Di-
gramaticais).
zemos que uma língua é artificial, quando é
• As línguas de sinais não são iguais em todo
construída por um grupo de indivíduos com
o mundo, isto é, existe diferença entre as lín-
um objetivo específico, como o caso do Es-
guas de sinais utilizadas em países diferentes.
peranto, língua criada pelo russo Ludwik
No caso do Brasil, a língua brasileira de sinais
Zamenhof em 1887, com o objetivo de esta-
é denominada Libras e é, portanto, brasileira,
belecer uma comunicação internacional fácil.
não podendo ser considerada como uma lín-
De maneira semelhante, foi criado o Gestuno,
gua estrangeira. Dito de outra forma, língua
com a intenção de ser uma língua de sinais
de sinais é universal, mas, existe uma dife-
universal e que foi apresentado, pela primeira
rença importante entre as línguas de sinais e
vez em 1951, no Congresso Mundial da Fe-
as orais. Quando surdos de diferentes nacio-
deração Mundial dos Surdos, mas que não
nalidades se encontram, mesmo um não co-
conseguiu aceitação plena entre os surdos,
nhecendo a língua de sinais do outro, acabam
por ser inventada. Portanto, a língua de si-
se comunicando com mais facilidade que os
nais não é artificial!
ouvintes.
• A língua de sinais não é icônica, apesar de • As línguas de sinais, por comprovação
grande parte dos sinais serem icônicos, isto científica, cumprem todas as funções de
é, são parecidos com o que estão represen- uma língua natural, mesmo assim ainda
tando (o que poderia significar que a língua sofrem preconceito e são desvalorizadas
86
EDUCAÇÃO FÍSICA
87
LIBRAS
Aspectos Fonológicos
da Libras
No texto anterior estabelecemos semelhanças e dife- De acordo com Quadros e Karnopp (2004, p.
renças entre línguas de sinais e línguas orais. Neste 47), a “[...] primeira tarefa da fonologia para as
capítulo, destacamos mais uma e talvez a semelhan- línguas de sinais é determinar quais são as uni-
ça mais importante entre elas: dades mínimas que formam os sinais” e a segun-
da tarefa, ainda segundo as mesmas autoras “[...]
[...] ambas seguem os mesmos princípios pelo é estabelecer quais são os padrões possíveis de
fato de possuírem um léxico, isto é, um conjun-
combinação entre essas unidades” e as variações
to de símbolos convencionais e uma gramática,
ou seja, um sistema de regras que rege o uso possíveis.
desses símbolos (PEREIRA et al. 2011, p. 59). Um sinal não é holístico, isto é, não se constitui
em um “todo indivisível”, ao contrário, ele é consti-
Foi o linguista americano Stokoe, conforme vimos tuído pela combinação dos movimentos das mãos,
no texto anterior, o primeiro estudioso a constatar, com um determinado formato e orientação das pal-
na década de 1960, que a língua de sinais, no caso, a mas, em um determinado lugar, que pode ser um
Língua de Sinais Americana – LSA ou ASL – American ponto específico do corpo ou um espaço à frente do
Sign Language preenchia todos os requisitos linguísticos sujeito que sinaliza. Dito de outra forma, os sinais
de uma língua, isto é, possuía um léxico (vocabulário), são constituídos por unidades mínimas, também
uma sintaxe (regras gramaticais) e uma capacidade de chamadas de parâmetros, que se combinam me-
gerar uma quantidade infinita de sinais e sentenças. diante alguns padrões.
88
EDUCAÇÃO FÍSICA
89
LIBRAS
A Libras tem sua estrutura gramatical organizada dos sinais que podem ser as do alfabeto digital ou
a partir de cinco parâmetros que estruturam sua outras. Uma mesma configuração de mão possi-
formação nos diferentes níveis linguísticos: a Con- bilita a produção de vários sinais, por exemplo, a
figuração da(s) mão(s)-(CM), o Movimento - (M), configuração mão em “L” está presente nos sinais de
o Ponto de Articulação ou Locação - (PA) ou (L) e “televisão”, “trabalho”, “papel”, “educação”, entre ou-
a Orientação das mãos (O) e as Componentes não tros. Ferreira-Brito (1995) propõe 46 configurações
manuais ou Expressões não manuais (CNM) ou de mão. Atualmente, o dicionário digital de Língua
(ENM) que são as expressões faciais e corporais. Brasileira de Sinais organizado pela Acessibilidade
Configuração de mão (CM): a configuração de Brasil (disponível em: <[Link]>.
mão é o ponto de partida da articulação do sinal. Acesso em: 20 jun. 2016) apresenta 73 configura-
São as formas que as mãos assumem na produção ções, conforme quadro a seguir:
90
EDUCAÇÃO FÍSICA
Apresentamos a seguir, 38 configurações de mão sendo 28 que compõem o Alfabeto Digital, e 10 que se re-
ferem aos algarismos:
ALFABETO DIGITAL
A B C D
E F G H
I J K L
M N O P
Q R S T
91
LIBRAS
U V X W
Y Z
ALGARISMOS
1 2 3 4
5 6 7 8
9 0
92
EDUCAÇÃO FÍSICA
A Libras não se resume a escrever as palavras escrita datilológica na fala, em conversas. A datilolo-
utilizando o alfabeto digital. A escrita datilológica, gia é uma forma de comunicação em Libras funda-
que é como é denominada esse tipo de escrita, só é mentada essencialmente no alfabeto datilológico e é
utilizada para nomes próprios ou para palavras que diferente da soletração.
ainda não possuem um sinal ou que não pode ser A soletração é feita em Libras, letra por letra, da
facilmente representada por um classificador icôni- mesma forma que na Língua Portuguesa, por exem-
co. Outro aspecto a se destacar é que a escrita dati- plo, soletrando com a mão, o nome Maria (escrita
lológica não é a escrita de sinais, isto é, se utiliza a ou fala) – M-a-r-i-a (soletração).
M A R I A
É aconselhável soletrar devagar, formando as A datilologia difere da soletração porque não re-
palavras com nitidez. Entre as palavras soletradas, produz todas as letras da palavra, mas, dito de manei-
é melhor fazer uma pausa curta ou mover a mão di- ra simplificada, soletra um resumo da palavra, para
reita para o lado esquerdo, como se estivesse empur- agilizar a comunicação. Por exemplo, PAI, fica em da-
rando a palavra já soletrada para o lado. tilologia P-I, sem o A. observe os exemplos a seguir:
93
LIBRAS
Nesse exemplo, o que distingue a datilologia da zamos o símbolo @, isto é, o símbolo @ está sen-
palavra VAI (VI) da soletração da palavra VI é o do utilizado para representar sinais que, diferen-
contexto em que ocorre a conversação. temente do Português, não possuem marca para
gênero (masculino/feminino). Assim, o sinal tra-
Os nomes podem ser transmitidos por datilolo- duzido por fei@ pode tanto ser usado para feio
gia, quando o surdo está alfabetizado, mas a co-
ou feia.
munidade surda prefere a prática de atribuir um
sinal que identifica cada pessoa. Esse sinal ad- Observe as fotos. Para compor um sinal, a ex-
jetiva características físicas da pessoa. Por isso, pressão facial é importante, por exemplo, para o si-
dois meninos chamados Jonatas, por exemplo, nal feio, a expressão do rosto deve indicar isso.
podem ter sinais diferentes um do outro, porque
um tem uma covinha no queixo e o outro tem
o cabelo encaracolado. Também pode acontecer
de dois alunos de nomes diferentes terem o sinal
parecido (REILY, 2004, p. 132).
94
EDUCAÇÃO FÍSICA
MOVIMENTO (M)
95
LIBRAS
AJOELHAR EM PÉ
PROIBIR
PENSAR
96
EDUCAÇÃO FÍSICA
BRINCAR TRABALHAR
PESQUISAR
GRANDE
97
LIBRAS
TIPOS DE MOVIMENTOS
ALT@ IMPORTANTE
c. movimento circular:
VER MANDAR
BRINCAR BICICLETA
DEVER
98
EDUCAÇÃO FÍSICA
e. movimento sinuoso:
NADAR
d. movimento semicircular:
NAVIO
f. movimento angular:
SAÚDE SURD@
DIFÍCIL
99
LIBRAS
Língua Brasileira de Sinais: para cima, para baixo, para Além desses parâmetros, a Libras conta com uma série
o corpo, para frente, para a direita ou para a esquerda. de componentes não manuais, como a expressão facial
ou o movimento do corpo, que muitas vezes podem
definir ou diferenciar significados entre sinais. As ex-
pressões não-manuais envolvem movimento da face,
dos olhos, da cabeça e do tronco. A expressão facial e a
corporal podem traduzir alegria, tristeza, raiva, amor,
encantamento etc., dando mais sentido à Libras e, em
alguns casos, determinando o significado de um sinal.
Essa unidade mínima é também muito importante lin-
guisticamente, pois marca as sentenças interrogativas.
Ex.: o dedo indicador com a configuração de
mão da letra G do alfabeto digital [G] sobre a boca,
com a expressão facial calma e serena, significa si-
lêncio; o mesmo sinal usado com um movimento
mais rápido e com a expressão de zanga, significa
uma severa ordem: Cale a boca!
100
EDUCAÇÃO FÍSICA
IRONIA ALEGRIA
ATO SEXUAL
ESPANTO BRAVO
LADRÃO
101
LIBRAS
INTENSIDADE
TRISTEZA CANSADO
MILIONÁRIO MULTIMILIONÁRIO
TAMANHO
102
EDUCAÇÃO FÍSICA
103
LIBRAS
CALENDÁRIO
SEXTA-FEIRA
SEGUNDA-FEIRA TERÇA-FEIRA
SABADO
104
EDUCAÇÃO FÍSICA
D I A
DOMINGO
105
LIBRAS
106
EDUCAÇÃO FÍSICA
JANEIRO FEVEREIRO
M Ç O
107
LIBRAS
ABRIL
M I O
JUNHO JULHO
108
EDUCAÇÃO FÍSICA
AGOSTO SETEMBRO
OUTUBRO NOVEMBRO
109
LIBRAS
HOJE NOITE
110
EDUCAÇÃO FÍSICA
111
LIBRAS
TEMPO
PRIMAVERA
VERÃO
112
EDUCAÇÃO FÍSICA
FENÔMENOS METEREOLÓGICOS
ASTROS – NATUREZA
TROVÃO VENTO
113
LIBRAS
FURACÃO
TERREMOTO
ASTROS
LUA
114
EDUCAÇÃO FÍSICA
SOL ESTRELA
ELEMENTOS DA NATUREZA
FLORESTA
115
LIBRAS
JARDIM / GRAMA
LAGO
RIO
116
EDUCAÇÃO FÍSICA
TERRA (PLANETA)
PEDRA
TERRA MONTANHA
117
considerações finais
Essa unidade talvez seja a que contém maior número de informações desconhe-
cidas por você, dentre as quais, destacamos:
• A língua de sinais é tão natural e tão complexa quanto as línguas orais, dis-
pondo de recursos expressivos suficientes para permitir aos seus usuários
expressar-se sobre qualquer assunto, em qualquer situação, domínio do
conhecimento e esfera de atividade.
• A Libras é uma língua adaptada à capacidade de expressão dos surdos,
devendo, portanto ser conhecida, pelo menos em seus aspectos funda-
mentais pelos professores.
• A Libras é uma língua, com gramática própria e com condições de propor-
cionar, não apenas a comunicação efetiva entre os surdos, como, também,
a expressão de sentimentos; a composição de poesias; a discussão filosófi-
ca, enfim, um idoma completo.
• As línguas de sinais, por comprovação científica, cumprem todas as fun-
ções de uma língua natural, mesmo assim, ainda sofrem preconceito e são
desvalorizadas diante das línguas orais, sendo consideradas como uma
derivação da gestualidade espontânea, como uma mescla de pantomima
e sinais icônicos.
• A língua de sinais não é subordinada à língua oral majoritária do país. As
línguas de sinais são completamente independentes das línguas orais dos
países em que são produzidas.
• Na sua casa, com a ajuda de um espelho, treine a expressão facial e corpo-
ral, isso ajuda muito em Libras.
Também abordamos, nesta Unidade III, a organização fonológica dos sinais, des-
tacando, as unidades mínimas e, também, as restrições na formação de sinais,
além de estabelecer uma comparação entre as línguas de sinais e as línguas orais.
Falamos muito aqui em língua natural, razão pela qual recomendamos o estudo
atento do texto que trouxemos como Leitura Complementar, que aborda essa
questão. Outra novidade dessa nossa terceira unidade é o início da construção de
seu vocabulário em Libras, com a apresentação da categoria semântica Tempo e
Elementos da Natureza.
118
atividades de estudo
1. Estude o alfabeto manual. Faça cada configura- 4. A comunicação pelas mãos teve início apenas
ção de mãos de frente ao espelho. Lembre-se: com os surdos, ou seja, foram os surdos os pri-
o sinal deve ser feito “virado” para o seu inter- meiros seres humanos a se comunicar usando
locutor, e não para você. Assim, olhando no gestos. Esta informação pode ser considerada
espelho, você deve enxergar o sinal tal como verdadeira? Justifique sua resposta baseando-
se apresenta no texto. Soletre cada uma das -se nos conhecimentos adquiridos ao longo
seguintes palavras: CASA, PAULO, ÁRVORE, desta unidade.
CARRO, LIQUIDIFICADOR, SÃO PAULO, MARIA,
ANA MARIA, COMPORTAMENTO. 5. Cada parâmetro da Libras, de maneira isola-
da, não possui significado. Apenas quando se
2. Em sua opinião, existem mais semelhanças ou compõem é que passam a constituir sentido.
diferenças entre a Libras e a Língua Portugue- Entretanto, essa composição não é livre. Nesse
sa? Justifique. contexto, analise as afirmações a seguir e
assinale a alternativa correta.
3. Considerando que as restrições para a forma- I. Os sinais que utilizam apenas uma das mãos
ção de sinais podem ser exemplificadas em si- podem ser produzidos indistintamente pela
nais produzidos pelas duas mãos, analise as mão direita ou esquerda.
afirmações a seguir e assinale a alternativa
II. As condições de restrição se referem aos si-
correta:
nais produzidos por ambas as mãos e temos
I. Condição de simetria estabelece que se am-
duas possibilidades.
bas as mãos são ativas, a CM deve ser a mes-
ma para as duas. III. Quando as duas mãos se movem na produ-
ção de um sinal, então as condições de com-
II. As restrições diminuem a complexidade dos
posição dependem de a CM ser a mesma para
sinais facilitando sua produção e percepção.
ambas as mãos ou não.
III. Se apenas uma das mãos é ativa, a mão não
IV. A condição de simetria se refere tanto à per-
dominante serve de apoio para a mão domi-
cepção visual, quanto ao sistema articulatório.
nante.
a. ( ) Somente I, II e III são verdadeiras.
IV. No caso de ambas as mãos serem ativas, o
ponto de articulação deve ser o mesmo ou b. ( ) Somente I, II e IV são verdadeiras.
simétrico. c. ( ) Somente II, III e IV são verdadeiras.
a. ( ) Somente I, II e III são verdadeiras. d. ( ) Somente I, III e IV são verdadeiras.
b. ( ) Somente I, II e IV são verdadeiras. e. ( ) Todas são verdadeiras.
c. ( ) Somente II, III e IV são verdadeiras.
d. ( ) Somente I, III e IV são verdadeiras.
e. ( ) Todas são verdadeiras.
119
LEITURA
COMPLEMENTAR
Em outras palavras, significa que, embora as línguas de sinais sejam produzidas princi-
palmente por movimentos das mãos no espaço (o que em pessoas que ouvem e falam
é percebido pelo hemisfério direito do cérebro), esses movimentos são percebidos pelo
hemisfério esquerdo das pessoas surdas que usam língua de sinais, justamente porque
são entendidos como língua e não como gesticulação ou movimento corporal aleatório.
Para que esses e outros estudiosos das línguas de sinais pudessem chegar a essas
conclusões, houve um primeiro estudo, o estudo linguístico fundador, realizado pelo
linguista americano William Stokoe, em 1960. A partir de sua observação de surdos
120
LEITURA
COMPLEMENTAR
Além disso, propôs a decomposição dos sinais da ASL em três parâmetros formacio-
nais: configuração de mão (CM); locação da mão (L); e movimento da mão (M). O traba-
lho de Stokoe teve grande repercussão nos meios linguísticos ao redor do mundo e nos
movimentos de surdos, que a partir de então tinham em mãos uma evidência científica
de que sua comunicação sinalizada apresentava o estatuto de língua semelhante ao
das línguas orais e, portanto, merecedora de respeito.
A MODALIDADE VISUOESPACIAL
121
LEITURA
COMPLEMENTAR
As línguas de sinais, por outro lado, são produzidas por movimentos das mãos, do cor-
po e expressões faciais em um espaço à frente do corpo, chamado de espaço de sina-
lização. A pessoa “recebe” a sinalização pela visão, razão pela qual as línguas de sinais
são chamadas de visuoespaciais ou espaço-visuais. Dependendo do tipo de enunciado
produzido, dos sinais utilizados, do que se deseja expressar, se pode obter uma sina-
lização em que vários sinais podem ser feitos simultaneamente, pois, no caso dos mo-
vimentos envolvidos, não há impedimento anatômico. Em outros momentos, os sinais
são produzidos um após o outro, sequencialmente.
Os estudos linguísticos demonstram, além do mais, que as línguas de sinais, e aí está
inserida a Libras, possuem as mesmas características e qualidades de qualquer outra
língua, ou seja:
122
EDUCAÇÃO FÍSICA
Você encontra muitas informações acerca da Libras, referências bibliográficas, links importan-
tes, pesquisas atuais, e entre outros diversos conteúdos disponíveis em: <[Link]-
[Link]> e <[Link]>. Acesso em: 20 jun. 2016.
123
referências
Referências on-line
1 Em: < [Link] Acesso em: 27 jun. 2017. (Verificar
site – estava fora do ar).
124
gabarito
125
ASPECTOS MORFOLÓGICOS DA LIBRAS
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta
unidade:
• Aspectos Morfológicos da Libras
• Classificadores
• Léxico de categorias semânticas II
Objetivos de Aprendizagem
• Compreender a Libras em seus aspectos morfológicos.
• Apresentar os classificadores.
• Instrumentalizar os licenciandos para o estabelecimento de
uma comunicação funcional com pessoas surdas.
unidade
IV
INTRODUÇÃO
A
tualmente, são muitas as pesquisas sobre a Libras e sobre como
os surdos adquirem a língua de sinais como L1 (primeira lín-
gua - língua natural) e a Língua Portuguesa como L2 (segunda
língua – língua estrangeira). Existem estudos também sobre
o ensino de uma segunda língua de sinais (ASL – Língua Americana de
Sinais, por exemplo) como LE (Língua Estrangeira) para surdos, mas ainda
são poucos os estudos sobre como os ouvintes aprendem Libras como L2.
O que se faz, de maneira geral, é adaptar os métodos de ensino para
línguas estrangeiras, mas isso não é suficiente porque no caso do ensi-
no de LE, as duas línguas são auditivo-orais, isto é, utilizam as mesmas
informações sensoriais e no caso da Libras como L2, que é viso-motora,
isso não acontece, dificultando o processo.
No ensino de Libras para futuros professores, outra dificuldade que po-
demos observar, levando em conta os estudos sobre o ensino de LE, é que a
aprendizagem de outra língua acontece quando a pessoa quer aprender, quan-
do a nova língua faça sentido para ela, que ela sinta prazer em usar essa língua.
Como a Libras foi introduzida nos currículos pelo Decreto 5626/2005, nem
sempre os futuros professores entendem porque eles devem aprender uma lín-
gua estranha, falada por um grupo de pessoas que talvez ele nunca conheça.
Na ausência de uma metodologia específica para o ensino da Libras
como L2 para ouvintes, procuramos adaptar metodologias utilizadas
no ensino de uma LE. Essa metodologia é mais eficiente na modalidade
presencial, mas podemos obter bons resultados a distância. Para isso,
você precisa ficar atento e observar se as suas configurações de mão estão
corretas e não procure uma explicação lógica para o sinal, porque nem
sempre ela existe, em função da arbitrariedade da língua.
Finalizamos a terceira unidade apresentando as restrições para a for-
mação de sinais e nesta nossa quarta unidade o foco está nas regras para
a formação de sinais. Tratamos ainda dos classificadores e da construção
do seu vocabulário.
LIBRAS
Aspectos Morfológicos da
Libras
De acordo com Quadros e Karnopp (2004, p. 86), por Uma forma simples de criação de sinais, é o em-
Morfologia entendemos préstimo lexical. Empréstimos lexicais não são sinais
nativos da Libras e sim “inspirados em outras lín-
[...] o estudo da estrutura interna das palavras guas”. Destacamos aqui três tipos de Empréstimos
ou dos sinais, assim como das regras que deter-
Lexicais:
minam a formação de palavras
Empréstimos Lexicais de soletração manual
ou sinais. Como vimos na unidade anterior, os fone- completa ou de parte das palavras em Língua Por-
mas nas línguas orais e os parâmetros, nas de sinais, tuguesa como os sinais para B-A-R; MÇO; JN (JU-
não possuem significado isoladamente. O morfema é NHO); JL (JULHO).
a unidade mínima do significado. Empréstimos lexicais de inicialização: utiliza-
Ainda considerando o que estudamos na Unida- ção de uma CM que corresponde, no alfabeto manu-
de III, as línguas de sinais satisfazem todos os re- al, à primeira letra da palavra equivalente em Língua
quisitos linguísticos de uma língua, isto é, possuem Portuguesa.
um léxico (vocabulário), uma sintaxe (regras grama- Apesar da Libras ser independente da Língua
ticais) e uma capacidade de gerar uma quantidade Portuguesa, alguns sinais são originários das iniciais
infinita de sinais e sentenças. As regras que deter- da representação escrita de seus significados, de-
minam essa geração de sinais é o que estudaremos monstrando que, da mesma forma que nas línguas
nesta Unidade IV, enquanto que as regras gramati- orais em que uma língua influencia a criação de no-
cais, para a formação de sentenças e discursos, serão vas palavras (exemplo: deletar) a Libras é influencia-
estudadas na Unidade V. da pela Língua Portuguesa.
130
EDUCAÇÃO FÍSICA
Empréstimos de itens lexicais de outras línguas de si- que utiliza a CM em “O” “O”, referente à “Orange”, que
nais, isto é, sinais de outras línguas de sinais que foram é um possível empréstimo da Língua de Sinais Ameri-
agregadas ao léxico da Libras, como o sinal para laranja, cana – ASL ou da Língua de Sinais Francesa (LSF).
131
LIBRAS
REFLITA
SÁBADO
LARANJA – ALARANJADO
132
EDUCAÇÃO FÍSICA
133
LIBRAS
Exemplos:
Da composição de sinais para estabelecimento de gênero:
Outros exemplos:
134
EDUCAÇÃO FÍSICA
CARTEIRO = BICICLETA^CARTA^ENTREGA
135
LIBRAS
ZEBRA = CAVALO^LISTRADO
136
EDUCAÇÃO FÍSICA
137
LIBRAS
Ainda podemos ter, além da incorporação da São oito os processos de flexão descritos pelos lin-
negação nos sinais, a negação que incorpora so- guistas que estudaram a Língua de Sinais America-
mente a expressão facial, sem alteração de nenhum na, a ASL, entretanto, vamos considerar neste estu-
dos demais parâmetros. Entretanto, qualquer que do, referente à Libras, apenas as flexões de pessoa
seja a forma de negação utilizada, a expressão fa- (dêixis), de número, a de gênero e a de aspecto tem-
cial é importante, como sobrancelhas levemente poral, descritas a seguir, considerando Quadros e
franzidas. Karnopp (2004) e Pereira et al. (2011):
Negação sem alterar nenhum parâmetro: com Flexão de pessoa (dêixis): flexão que muda as re-
o rosto balançando ou o dedo (significando não), ferências pessoais no verbo.
por exemplo: conhecer e não conhecer; pensar e não Flexão de número: flexão que indica o singular,
pensar; casar e não casar. o dual, o trial e o múltiplo.
Flexão de gênero: quando necessária, é marcada
pelo sinal de masculino ou feminino antecedendo
o substantivo, conforme vimos quando estudamos a
composição de sinais.
Flexão de aspecto temporal: indica distinções
de tempo, tais como, regularmente, continuamente,
incessantemente, repetidamente etc.
A flexão de pessoa, se refere a dêixis, que é uma
palavra grega que significa apontar ou indicar. Des-
OU / E
creve uma “[...] forma particular de estabelecer no-
138
EDUCAÇÃO FÍSICA
Pronomes pessoais:
VOCÊ EU ELE
NÓS TODOS
139
LIBRAS
Pronomes demonstrativos: EST@ / AQUI - olhar indicar um ponto no espaço que represente o esta-
para o lugar apontado, perto da 1ª pessoa. do do Amazonas, será apontado um ponto no alto,
em referência ao Norte do Brasil, enquanto que para
o Rio Grande do Sul, o ponto estaria abaixo. Além
da apontação, a direção do olhar e a posição do cor-
po também servem para estabelecer referentes, por
exemplo, no sinal de “entregar para alguém”, o olhar
acompanha o movimento da mão ativa.
ESS@ / AÍ
AQUEL@ / LÁ
140
EDUCAÇÃO FÍSICA
141
LIBRAS
Segunda pessoa: A lógica aqui é a mesma do caso da O aspecto pontual se caracteriza por se referir
primeira pessoa, para o dual, trial etc. a uma ação ou evento que aconteceu e terminou
• Singular: VOCÊ - apontar para o interlocutor em algum momento bem definido no passado. Por
(a pessoa com quem se fala). exemplo, em português, quando dizemos que “Ele
• Dual: VOCÊ – 2 . falou com você ontem”, sabemos que a ação de fa-
• Trial: VOCÊ - 3. lar aconteceu no passado, no momento “ontem”.
• Quatrial: VOCÊ - 4. Em Libras também é parecido: “Ele falar você on-
• Plural: VOCÊ - GRUPO VOCÊ - TOD@. tem”.
O aspecto durativo ou continuativo se refere a
Terceira pessoa: mesmo forma das anteriores. uma ação que continua, que não para no tempo. Por
• Singular: EL@ - apontar para uma pessoa que exemplo: “Ele fala sem parar na aula” A Libras não
não está na conversa ou para um lugar con- usa o mesmo sinal que usou para a frase “Ele falar
vencional. você ontem”. A Libras tem um sinal diferente para
• Dual: EL@ - 2. “falar sem parar”. Então é um sinal para “falar” e um
• Trial: EL@ - 3. para “falar sem parar”. Mas são sinais parecidos, o
• Quatrial: EL@ - 4. que muda é a intensidade e as expressões faciais e
• Plural : EL@ - GRUPO EL@ - TOD@. corporais. “Falar sem parar” é derivado de “falar”
pela adjunção da mão esquerda e o alongamento dos
Quando se quer falar de uma terceira pessoa presen- movimentos.
te, mas deseja-se ser discreto, por educação, não se O aspecto iterativo é quando a ação ou even-
aponta para essa pessoa diretamente. Ou se faz um to acontece muitas vezes. Por exemplo: “Marcelo
sinal com os olhos e um leve movimento de cabeça viajar Curitiba ontem” é aspecto pontual e o sinal
em direção à pessoa mencionada ou aponta-se para é o de viajar. Para dizer que “Marcelo viajar mui-
a palma da mão (voltada para a direção onde se en- tas vezes” o sinal é modificado em alguns parâ-
contra a pessoa referida). metros.
A flexão de aspecto temporal nos verbos está A Libras usa também modulações de olhar e ex-
relacionada com as formas e a duração dos movi- pressões faciais e corporais para transmitir a inten-
mentos. A Libras, assim como outras línguas orais e sidade do verbo apresentado e sua significação no
de sinais, modula o movimento dos sinais para dis- contexto. Então, o verbo olhar, por exemplo, pode
tinguir entre os aspectos pontual, continuativo ou ser representado rapidamente para dizer que a pes-
durativo e iterativo, que são diferenciados, segun- soa apenas avistou ou longamente, significando que
do Ferreira-Brito (1995), por meio de alterações do a pessoa olhou com atenção.
movimento e/ou da configuração da mão.
142
EDUCAÇÃO FÍSICA
SAIBA MAIS
Fonte: as autoras
143
LIBRAS
Classificadores
CLASSIFICADORES - C L
Para as línguas de sinais a descrição, a reprodução lexicais (palavras – substantivos, adjetivos e verbos)
da forma, do movimento e da relação espacial do para especificar aquilo a que a palavra se refere,
que se quer enunciar são fundamentais, pois torna como a classe a que pertence; o gênero; a forma, ta-
mais claros e compreensíveis seu significado. Essa é manho etc.
a principal função dos classificadores em Libras. Na língua portuguesa, as classificações podem
Assim, o classificador é um poderoso auxiliar se manifestar de várias formas, como uma desinên-
da língua de sinais, para determinar as especifici- cia, para classificar os substantivos e adjetivos em
dades e “dar vida” a uma ideia ou a um conceito masculino e feminino; indicar tamanho, número,
ou signos visuais. Isto significa que o Classificador ou ainda, ou que se coloca no verbo para estabele-
representa forma e tamanho dos referentes, assim cer concordância, como, por exemplo, a letra a que
como características dos movimentos dos seres é afixada à palavra professor para indicar o gênero
em um evento, tendo, pois, a função de descrever feminino: professorA. Outros exemplos são os sufi-
o referente. xos inho, ão, que se referem ao tamanho etc. Para os
A nomeação Classificadores (CLs), para esses pesquisadores surdos, essa estrutura gramatical da
“auxiliares” importantíssimos para as línguas de Libras ainda está à procura de uma definição ade-
sinais, foi atribuída pela comunidade de linguistas quada para nomeá-la de acordo com as perspectivas
para comparar com as funções da língua falada ou visuoespaciais.
oral e suas estruturas gramaticais. Na Libras, os classificadores são formas repre-
Um classificador (Cl) é uma forma que estabe- sentadas por configurações de mão que podem vir
lece um tipo de concordância em uma língua. Nas junto de verbos de movimento e de localização para
línguas orais, os classificadores são morfemas gra- classificar o sujeito ou o objeto que está ligado à ação
maticais que são afixados (juntados) aos morfemas do verbo.
144
EDUCAÇÃO FÍSICA
Os classificadores permitem tornar mais compre- sificadores obedecem a regras de construção e são
ensível o significado do que se quer enunciar e de- representados sempre por configurações de mãos
sempenham uma função descritiva podendo detalhar específicas associadas a expressões faciais, corpo-
som, tamanho, textura, paladar, tato, cheiro, formas rais e à localização, isto é, aos parâmetros da Libras,
em geral de objetos inanimados e seres animados etc. apesar de serem icônicos, não podem ser conside-
Os classificadores são icônicos em seu sig- rados como mímica.
nificado pela semelhança entre a sua forma ou o Exemplos: árvore, forte, carro, telefone, borbole-
tamanho do objeto a ser referido. Como os clas- ta, mesa, revolver, sorriso, triste, pensar, beijo, vestir.
145
LIBRAS
Esses sinais são muito parecidos com as coisas que ponto de vista funcional – tipológico. Para alguns
estão representando, mas não é mímica porque usa estudiosos, que se baseiam principalmente em es-
configuração de mãos, movimento, orientação, pon- tudos feitos na ASL – American Sign Langage, os
to de articulação e expressões não-manuais. classificadores podem ser:
O fato da Libras utilizar classificadores icônicos • Classificador Descritivo: refere-se ao tama-
e mesmo de possuir um grau elevado de sinais icô- nho, forma e textura. É usado para descrever
nicos não significa dizer que a libras é mímica, pois aparência de um objeto.
“a iconicidade é utilizada de forma convencional e • Classificador que especifica o tamanho e a for-
sistemática” (FERREIRA- BRITO, 1995, p. 108). ma de uma parte do corpo: refere-se ao tama-
nho, forma e textura de uma parte do corpo
Além disso, nas línguas orais também estão pre-
de um animal ou pessoa.
sentes palavras com características icônicas. “Pode-
• Classificador de Parte do Corpo: retrata uma
mos verificá-la no clássico exemplo das onomato-
parte específica do corpo em uma posição
peias como pingue-pongue, tique-taque, zumzum,
determinada ou fazendo uma ação.
cujas formas representam, de acordo com cada lín-
• Classificador de Localização: retrata um obje-
gua, o significado” (GESSER, 2009, p. 24).
to em um determinado lugar em meio a ou-
Em uma interpretação ou aula existem algu- tros objetos.
mas palavras que não possuem um sinal próprio e • Classificador Instrumental: mostra como é
é aí que são usados sinais icônicos, ou que possuem usado algum objeto.
semelhança com o que estão descrevendo. No con- • Classificador do Corpo: a parte superior do
texto escolar os classificadores são importantes em corpo do sinalizador se torna o classificador
todas as disciplinas, principalmente na Física ou na que exprime o verbo da frase, especialmente
Matemática. Sabemos que para essas matérias muito os braços.
dos conteúdos não têm sinais correspondentes aos • Classificador Semântico: retrata um objeto
termos utilizados, mas a explicação pode ser com- em um lugar específico.
preendida se usarmos os classificadores corretamen- • Classificador do Plural: ele indica o movi-
te. A expressão facial e a corporal são muito impor- mento ou a posição de um número de obje-
tantes para os classificadores. tos, pessoas ou animais.
Dito de outra forma, classificador é uma repre- • Classificador de Elemento: retrata o movi-
sentação da Libras que mostra claramente detalhes mento de elementos ou coisas que não são só-
lidas como: ar, água, fumaça, chuva, fogo etc.
específicos, permitindo a descrição de pessoas, ani-
• Classificador de nome: utiliza as configura-
mais e objetos, bem como sua movimentação ou lo-
ções das mãos, do alfabeto manual ou dos
calização. Os classificadores são muito importantes,
números, mas é parte de uma descrição.
pois ajudam construir a estrutura sintática da Libras.
No geral, ainda existem poucos estudos exclu- De maneira geral os classificadores podem ser: pre-
sivamente sobre os classificadores na Libras, es- dicativos, descritivos ou de características sintáti-
pecialmente no que se refere a explicá-los de um cas e semânticas.
146
EDUCAÇÃO FÍSICA
PRATOS EMPILHADOS
Alguns autores chamam alguns classificadores outro objeto, animado ou inanimado. Por exemplo:
predicativos de descritivos locativos, para indicar carro bateu no poste, moto correndo na pista, árvore
uma ação que determina um objeto em relação a sendo cortada.
147
LIBRAS
148
EDUCAÇÃO FÍSICA
149
LIBRAS
BOMBA ATÔMICA
150
EDUCAÇÃO FÍSICA
VOLKSWAGEN CHEVROLET
MUITAS CASAS
151
LIBRAS
152
EDUCAÇÃO FÍSICA
153
LIBRAS
154
EDUCAÇÃO FÍSICA
Léxico de
Categorias Semâticas II
Continuamos, aqui, com a construção do seu vocabulário em Libras. Ressaltamos
a importância de você estudar esta parte, acompanhando os vídeos, para que os
movimentos fiquem evidentes. Depois, procure repetir os movimentos defronte a
um espelho, enfatizando suas expressões faciais.
IDENTIFICAÇAO PESSOAL
Os principais sinais utilizados na identificação pessoal são: eu, você, nome (para
o nome da pessoa em Língua Portuguesa) e sinal, para o sinal correspondente à
pessoa em Libras. Esse sinal, não é a tradução do nome para a Libras, é um novo
nome, e, geralmente, se relaciona à alguma característica física ou profissional
da pessoa, ou ainda, à inicial do seu nome. Observe as frases a seguir, prestando
muita atenção na expressão interrogativa.
155
LIBRAS
NOME (EXPRESSÃO
VOCÊ QUAL É O SEU NOME?
INTERROGATIVA)
SINAL (EXPRESSÃO
VOCÊ QUAL É O SEU SINAL?
INTERROGATIVA)>
156
EDUCAÇÃO FÍSICA
SAUDAÇÕES COTIDIANAS
OI SAUDADES TCHAU
TUDO BEM?
BEM VINDO
157
LIBRAS
BOM DIA
BOA TARDE
BOA NOITE
158
EDUCAÇÃO FÍSICA
OBRIGADA DE NADA
ABRAÇOS BEIJOS
159
LIBRAS
FAMÍLIA
PAQUERA CONHECER
FAMÍLIA
CONVERSAR
HOMEM / MACULINO
NAMORO
160
EDUCAÇÃO FÍSICA
NOIVADO GRÁVIDA
CASAR NASCER/(BEBÊ)
161
LIBRAS
FILHO
FILHA
PAI
MÃE
162
EDUCAÇÃO FÍSICA
PADRASTO
MADRASTA
IRMÃO
IRMÃ
163
LIBRAS
MEIO-IRMÃO
CUNHADO
CUNHADA
164
EDUCAÇÃO FÍSICA
SOGRO
SOGRA
TIO
TIA
165
LIBRAS
SOBRINHO
SOBRINHA
NETO
NETA
166
EDUCAÇÃO FÍSICA
PRIMO
PRIMA
VOVÔ
VOVÓ
167
LIBRAS
BISAVÔ
BISAVÓ
FILHO ADOTIVO
FILHA ADOTIVA
168
EDUCAÇÃO FÍSICA
SEPARAÇÃO VIÚV@
SOLTEIR@ AMIG@
169
LIBRAS
ESPAÇO FÍSICO
SALA DE TELEVISÃO
QUARTO DE CASAL
170
EDUCAÇÃO FÍSICA
QUARTO DE SOLTEIRO
CHURRASQUEIRA
ESCRITÓRIO
171
LIBRAS
MÓVEIS
PIA DO BANHEIRO
ARMÁRIO SOFÁ
172
EDUCAÇÃO FÍSICA
CADEIRA MESA
PRATELEIRA
GUARDA-ROUPA
173
LIBRAS
ELETRODOMÉSTICOS
IMPRESSORA CHUVEIRO
TELEVISÃO
174
EDUCAÇÃO FÍSICA
FAX
ABAJUR
ASPIRADOR
175
LIBRAS
GELADEIRA
FOGÃO
COMPUTADOR CELULAR
176
EDUCAÇÃO FÍSICA
TELEFONE DVD
FREEZER
BATEDEIRA LIQUIDIFICADOR
ELETRODOMÉSTICO/ELETRICIDADE
177
LIBRAS
OBJETOS
OBJETO COISAS
PANELA BANDEJA
BANDEJA
178
EDUCAÇÃO FÍSICA
ASSADEIRA JORNAL
ESPELHO FLOR
179
LIBRAS
VESTIMENTAS
TERNO
GRAVATA-BORBOLETA VESTIDO
GRAVATA SAPATO
180
EDUCAÇÃO FÍSICA
BIQUÍNI
SUNGA
MAIÔ
181
LIBRAS
182
EDUCAÇÃO FÍSICA
CACHECOL
BONÉ CHAPÉU
POLO LUVA
183
LIBRAS
JAQUETA
LÃ COTTON
CAMISETA
184
EDUCAÇÃO FÍSICA
CORES
CORES AMARELO
185
LIBRAS
PRETO VERMELHO
VERDE OU VERDE
LARANJADA
186
EDUCAÇÃO FÍSICA
ALIMENTOS E BEBIDAS
COMIDA/COMER
LANCHES
HOT-DOG (CACHORRÃO)
X-FRANGO
187
LIBRAS
ALMÔNDEGA OVO
188
EDUCAÇÃO FÍSICA
CARNE DE FRANGO
CARNE DE PEIXE
CHURRASCO
189
LIBRAS
MOLHO DE TOMATE
PIPOCA SOPA
PIZZA PASTEL
190
EDUCAÇÃO FÍSICA
PÃO MANTEIGA
BISCOITOS/BOLACHAS SALGADO
COZINHA
FRITAR COZINHAR
191
LIBRAS
DOCES
CHICLETE BALA
CHOCOLATE BOMBOM
192
EDUCAÇÃO FÍSICA
MEL
PICOLÉ SORVETE
193
LIBRAS
CEREAIS
ERVILHA MILHO
SOJA
194
EDUCAÇÃO FÍSICA
FEIJOADA
FEIJÃO ARROZ
LEGUMES/VERDURAS
PIMENTÃO VERDE
195
LIBRAS
PIMENTÃO AMARELO
PIMENTÃO VERMELHO
PIMENTA PEPINO
ABÓBORA CENOURA
196
EDUCAÇÃO FÍSICA
ALHO OU ALHO
BATATA-DOCE
BATATA MANDIOCA
TOMATE
197
LIBRAS
COUVE REPOLHO
CEBOLA
COUVE-FLOR
ALFACE FRUTAS
198
EDUCAÇÃO FÍSICA
MELÃO CANA-DE-AÇUCAR
JABUTICABA MARACUJÁ
GOIABA
MAMÃO
199
LIBRAS
UVA PÊRA
MANGA PINHÃO
MELANCIA LARANJA
LIMÃO ABACAXI
200
EDUCAÇÃO FÍSICA
TANGERINA
ABACATE
MORANGO
201
LIBRAS
ÁGUA LATA
BATIDA LEITE
GUARANÁ COCA-COLA
202
EDUCAÇÃO FÍSICA
CERVEJA IORGUTE
CAFÉ CHÁ
203
LIBRAS
SUCO
VACA
204
EDUCAÇÃO FÍSICA
BOI CAMELO
CARNEIRO/OVELHA
205
LIBRAS
RATO
COBRA JACARÉ
206
EDUCAÇÃO FÍSICA
URSO ALCE
ZEBRA
207
LIBRAS
PUMA
ONÇA-PINTADA
LEÃO TARTARUGA
TIGRE SAPO
208
EDUCAÇÃO FÍSICA
PASSAROS
209
LIBRAS
BEIJA-FLOR PAVÃO
TUCANO PATO
PAPAGAIO CORUJA
PERU GALINHA
210
EDUCAÇÃO FÍSICA
PINGUIM
SIRI FOCA
211
considerações finais
N
esta unidade, apresentamos as principais regras morfológicas da Li-
bras, isto é, mostramos a estrutura interna dos sinais. Esperamos
que, na medida em que nos aprofundamos mais na teoria, os aspec-
tos linguísticos da Libras vão se tornando mais evidentes e, qual-
quer dúvida que você ainda pudesse ter a respeito da Libras ser efetivamente uma
língua, esteja ficando cada vez mais elucidada.
Quarta unidade, a construção de seu vocabulário foi bastante ampliada. Tra-
balhamos aqui, no que se refere ao léxico, praticamente apenas com substantivos.
Estamos fazendo mais ou menos como quando uma criança adquire sua língua
natural: primeiro ela aprende palavras isoladas, particularmente os substantivos,
para depois aprender as ações (verbos) e a construir frases. Dentre os substanti-
vos, as crianças aprendem primeiro a designar os elementos da família, os móveis
de sua casa, os alimentos e os animais. Todavia, precisa ficar claro para você, que
neste curso, estamos apenas fazendo uma introdução ao ensino da Libras. Você
está adquirindo conhecimento para uma comunicação funcional em libras, que
pode auxiliar em seu fazer pedagógico. Ninguém se torna fluente em outra língua
com apenas algumas horas de estudo. São necessários anos.
Só pra você ter uma ideia do que estamos falando, nos Estados Unidos existe
uma escola que atende surdos desde a Educação Infantil até pós-graduação em
nível de doutorado, chamada Gallaudet. Lá, todos os professores e funcionários
são obrigados a conhecer a ASL – Língua Americana de Sinais e, apesar de já
terem noções básicas dessa língua, quando iniciam seu trabalho na Gallaudet, os
servidores ainda têm seis anos para ser tornarem fluentes. Se, neste prazo, eles
não conseguirem, então, são demitidos.
Veja bem, são seis anos!
Portanto, se você pretende conhecer um pouco de Libras, pratique o máximo
que você puder o que estamos lhe apresentando e procure manter contato com a
comunidade surda da sua cidade.
212
atividades de estudo
4. Ensine as cores para pelo menos duas pessoas da sua família, amigos ou
colegas de trabalho.
5. Em sua opinião, qual conjunto de sinais aprendidos nesta seção que são
mais icônicos? Por quê?
7. Escreva com suas próprias palavras o que você entendeu acerca dos clas-
sificadores.
• EU VI O AVIÃO.
213
LEITURA
COMPLEMENTAR
Apresentamos, a seguir, uma adaptação de um fragmen- comportamentalista, a aquisição de uma língua era con-
to do capítulo 4, intitulado Ensino da língua brasileira de siderada um processo mecânico de formação de hábi-
sinais do livro Libras: conhecimento além dos sinais. tos. Ao aluno não era permitido errar.
Nos últimos anos, observam-se tentativas de mudança na
METODOLOGIAS DE ENSINO DA LIBRAS concepção de língua no ensino de línguas estrangeiras.
Para tratar de metodologias de ensino da Libras, parece O foco no ensino passa a ser o uso da língua, o que deu
interessante conhecer antes um pouco sobre as meto- origem ao método comunicativo, cujo objetivo é ensinar
dologias geralmente usadas no ensino de línguas estran- o aluno a se comunicar (MARTINS-CESTARO, 1999). Saber
geiras. se comunicar significa, como lembra Martinez (2009), ser
Martins-Cestaro (1999) apresenta uma retrospectiva das capaz de produzir enunciados linguísticos de acordo com
metodologias comumente empregadas no ensino do a intenção de comunicação (pedir permissão, por exem-
francês como língua estrangeira. Nela fica evidente que, plo), e conforme a situação de comunicação (status, es-
até a década de 1980, dava-se ênfase ao código da lín- cala social do interlocutor etc.). Os exercícios formais e
gua. repetitivos deram lugar, na metodologia comunicativa,
A aprendizagem da língua estrangeira era vista como aos exercícios de comunicação real ou simulada, mais
uma atividade intelectual em que o aprendiz deveria interativos. As atividades gramaticais estão a serviço da
aprender e memorizar as regras e os exemplos, com o comunicação.
propósito de dominar a morfologia e a sintaxe. Os alu- Nesse sentido, a tarefa do professor não é corrigir o alu-
nos recebiam e elaboravam listas exaustivas de vocabu- no buscando à adequação morfossintática, mas inseri-lo
lário. As atividades propostas consistiam em exercícios em atividades discursivas nas quais ele seja exposto à
de aplicação das regras de gramática. Submetiam-se os língua e não a vocábulos isolados.
alunos ao ensino gradual de estruturas frasais por meio O professor deixa de ocupar o papel principal no proces-
de exercícios estruturais. Os alunos repetiam as estrutu- so ensino-aprendizagem, de detentor do conhecimento,
ras apresentadas na sala de aula, buscando à memoriza- para assumir o papel de “orientador”, “facilitador”, “orga-
ção e ao uso. nizador” das atividades de classe.
O professor controlava e dirigia o comportamento lin- Passando para as metodologias de ensino das línguas
guístico dos alunos. Com base nos princípios da teoria de sinais, os primeiros cursos para ensino da língua de
214
LEITURA
COMPLEMENTAR
sinais americana consistiam na apresentação de um vo- deiras. As cadeiras em semicírculo possibilitam aos alu-
cabulário básico de sinais, sendo a orientação relativa nos visualizar e interagir com os colegas, e todos com o
aos traços não manuais a de usar muita expressão facial, professor.
como relatam Wilcox e Wilcox (2005). Se, como sugere o Decreto n. 5.626, os professores fo-
Com relação ao ensino da Libras, a ênfase no vocabulário rem Surdos, os alunos terão a oportunidade de ter con-
ainda é bastante comum. Os aprendizes são expostos à tato com pessoas Surdas, podendo, assim familiarizar-se
listas de sinais; esses sinais são, depois, combinados em com aspectos culturais das comunidades de Surdos.
orações propostas pelo professor, as quais seguem uma Wilcox e Wilcox referem que as aulas do curso básico da
ordem de complexidade crescente, das mais simples língua de sinais Americana não oferecem espaço ade-
para as mais complexas. O objetivo é que os aprendizes quado para questões que os ouvintes frequentemente
memorizem as estruturas trabalhadas e as usem. Como têm em relação à comunidade Surda. Essas questões,
foi referido, essa forma de ensino predominou até re- segundo Wilcox e Wilcox, precisam ser levantadas e res-
centemente também nas aulas de línguas estrangeiras. pondidas provavelmente na língua nativa dos alunos. As-
Mais recentemente, observam-se propostas de ensino sim, os autores sugerem que sejam oferecidas aulas nas
da Libras que enfatizam o uso da língua de sinais em di- quais os alunos estejam livres para fazer perguntas em
álogos. O objetivo é que os aprendizes aprendam a se sua língua oral. Nesses cursos, os alunos poderão dis-
comunicar. Ao usar a Libras, os aprendizes terão a opor- cutir suas dúvidas sobre a surdez e as pessoas Surdas,
tunidade não só de entender e produzir os sinais, mas assim como sobre a língua de sinais.
também de combiná-los em estruturas frasais e em pe- Cabe ressaltar que um curso básico da Libras deve pos-
quenos relatos. sibilitar aos alunos não apenas o aprendizado da Libras,
Wilcox e Wilcox lembram que, enquanto ambientes mas também um panorama que contemple o percurso
naturais aceleram a aquisição de habilidades comuni- histórico das línguas de sinais na educação de Surdos,
cativas, os ambientes formais permitem o aprendizado aspectos culturais das comunidades Surdas e aspectos
de regras explícitas que o aluno pode aplicar adequa- linguísticos da Libras. Outros aspectos poderiam ser in-
damente em situações específicas. Eles destacam que cluídos, dependendo da carga horária destinada à disci-
a visibilidade é essencial nas aulas de língua de sinais plina.
— daí a necessidade de atenção para o arranjo das ca- Fonte: Pereira et al. (2011).
215
LIBRAS
Você pode obter gratuitamente a Série Atualidades Pedagógicas – Educação Especial: Defici-
ência Auditiva, publicada pelo MEC e composta de cinco volumes, um dos quais destinado es-
pecificamente à aprendizagem da Libras, disponível em: <[Link]/ines_livros/livro.
html>. Acesso em: 20 jun. 2016.
216
referências
Referências on-line:
1
Em: <[Link] Acesso em: 20 jun. 2016.
217
gabarito
218
UNIDADE
V
ASPECTOS SINTÁTICOS DA LIBRAS
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta
unidade:
• O espaço gramatical
• Verbos em Libras
• Léxico de Categorias Semânticas III
Objetivos de Aprendizagem
• Compreender a Libras em seus aspectos sintáticos.
• Estudar o comportamento dos verbos.
• Instrumentalizar os licenciandos para o estabelecimento de
uma comunicação funcional com pessoas surdas.
unidade
V
INTRODUÇÃO
A
té o momento você já foi apresentado ao mundo do surdo na
Unidade I; conheceu, na Unidade III, a legislação e as políti-
cas públicas brasileiras que orientam a educação dos surdos e
começou a estudar Libras a partir da Unidade III, que aborda
os aspectos gerais e fonológicos desta língua, enquanto que a Unidade IV
tratou dos aspectos morfológicos. Esta Unidade V, a última de nosso livro,
apresenta os aspectos sintáticos da Libras, ou seja, vamos estudar sua estru-
tura gramatical.
Na Unidade III você viu que a língua de sinais não é universal e ainda
mais, que a Libras não é a tradução da Língua Portuguesa em sinais, repe-
tindo a estrutura gramatical. Isto seria como já foi anteriormente explicita-
do, Português Sinalizado. De acordo com Góes e Campos (2013, p. 65), o
Português Sinalizado foi difundido na década de 1970 pela Comunicação
Total (também conhecida por bimodalismo), com o “[...] objetivo de utili-
zar os sinais como ferramentas para o aprendizado da língua majoritária e
recurso para o desenvolvimento da leitura e da escrita”. Desta forma, não se
considerava a estrutura gramatical própria da Libras que, repetimos, não é
uma adaptação da gramática da Língua Portuguesa.
A língua de sinais brasileira é organizada espacialmente de uma forma
bem complexa e apresenta possibilidades de estabelecimento de estruturas
gramaticais no espaço de diferentes formas.
É importante lembrar que a Libras não pode ser estudada tendo como
base a Língua Portuguesa, porque sua sintaxe é diferenciada, independente
da língua oral. A ordem dos sinais na construção de um enunciado obedece
regras próprias que refletem a forma de o surdo processar suas ideias, com
base em sua percepção visual-espacial da realidade, ou seja, a sintaxe da
Libras é espacial.
Nesta quinta unidade você vai conhecer, de maneira geral, a sintaxe
espacial da Libras. Também vai estudar sobre o comportamento dos verbos,
além de continuar construindo seu vocabulário.
LIBRAS
O Espaço Gramatical
O uso do espaço e a simultaneidade (usar mais de Há várias maneiras de estabelecer os pontos no
um fonema ou morfema ao mesmo tempo) são muito espaço, a mais comum é a apontação explícita envol-
importantes para a Libras, pois tornam o discurso vendo referentes presentes (apontação feita à fren-
compreensível. te do sinalizado direcionada para a posição real do
Falamos em espaço gramatical ou sintaxe espa- referente) e não-presentes (apontam-se pontos arbi-
cial porque as relações gramaticais são especificadas trários no espaço). Todos os referentes estabelecidos
pela manipulação dos sinais no espaço. As relações no espaço ficam à disposição do discurso para serem
ocorrem dentro de um espaço definido, na frente do referidos novamente.
corpo, em uma área limitada pelo topo da cabeça e Além da apontação, a direção do olhar e a po-
que se estende até os quadris, sendo que o final de sição do corpo também servem para estabelecer
uma sentença na Libras é indicado por uma pausa. referentes, por exemplo, no sinal de “entregar para
A Libras utiliza mecanismos espaciais que fa- alguém”, o olhar acompanha o movimento da mão
zem com que a informação gramatical se apresen- ativa.
te simultaneamente com o sinal. Esses mecanismos Qualquer referência usada em uma conversa ou
envolvem dois aspectos: a incorporação, que você discurso precisa de uma localização no espaço de si-
estudou na Unidade IV e é considerada um meca- nalização, que é o espaço na frente do sinalizador.
nismo produtivo na Libras e usada, por exemplo, Este local pode ser, de acordo com Quadros e Kar-
para expressar localização, número, pessoa e o uso nopp (2004, p. 127-128), indicado por vários meca-
de sinais não–manuais, como movimentos do cor- nismos espaciais:
po e expressões faciais. a. Fazer o sinal em um local particular (se a
As expressões faciais e corporais e outros me- forma do sinal permitir; por exemplo, o sinal
canismos espaciais usados junto com os sinais são casa pode acompanhar o local que o sinaliza-
fundamentais nas línguas de sinais, pois determi- dor quer indicar).
nam relações sintáticas e semânticas/pragmáticas.
224
EDUCAÇÃO FÍSICA
ESTE
225
LIBRAS
EU
226
EDUCAÇÃO FÍSICA
SAIBA MAIS
227
LIBRAS
SISTEMA PRONOMINAL
EU VOCÊ ELE/ELA
NÓS TODOS
228
EDUCAÇÃO FÍSICA
Primeira pessoa
• Singular: EU - apontar para o peito do enun-
ciador (a pessoa que fala).
• Plural: NÓS - GRUPO NÓS - TOD@S
229
LIBRAS
230
EDUCAÇÃO FÍSICA
d. Pronomes indefinidos:
ELE / ELA : SE@ (movimento em direção à pessoa
referida) • NINGUÉM/NADA (1) (mãos abertas esfre-
gando-se uma na outra): é usado para pesso-
as e coisas.
• QUALQUER
NOSSO/NOSSA SEUS/SUAS
DELES/DELAS
231
LIBRAS
232
EDUCAÇÃO FÍSICA
QUANDO
Exemplos:
CURSO COMEÇAR QUE-HORAS AQUI (interrogação)
Resposta: CURSO COMEÇAR HORAS DUAS.
Para se referir a tempo gasto na realização de uma atividade, sinaliza-se um
círculo ao redor do rosto, seguido da expressão facial adequada.
Ex.: VIAJAR RIO-DE-JANEIRO QUANTAS-HORAS (interrogação) POR
QUE / PORQUE
Como não há diferença entre ambos, o contexto é que sugere, por meio das
expressões faciais e corporais, quando estão sendo usados em frases interrogati-
vas ou explicativas.
QUANT@
233
LIBRAS
ONDE MAIS OU
TALVEZ SE
“[...] é um conceito básico relacionado com a es- 1. Os alunos usam uniformes > SVO
trutura da frase de uma língua. O fato de que as
2. Os alunos uniformes usam > SOV
línguas podem variar suas ordenações das pala-
vras apresenta um papel significante nas análises 3. Uniformes os alunos usam > OSV
linguísticas” 4. Uniformes usam os alunos > OVS
5. Usam uniformes os alunos > VOS
e acrescentam que existem seis combinações possí-
6. Usam os alunos uniformes > VSO
veis de sujeito (S), objeto (O) e verbo (V), sendo que
algumas são mais frequentes do que outras.
234
EDUCAÇÃO FÍSICA
Todas essas construções estão corretas, entretanto, a as diferenças entre frases afirmativas, exclamativas,
ordem SVO, da frase (1) é a mais comum, seguida da imperativas e interrogativas na Língua Portuguesa
ordem SOB (2) e VSO (6), embora esta última esteja (a modulação do som), são as expressões faciais e
presente mais na forma culta da língua. corporais que estabelecem os diferentes tipos de fra-
De acordo ainda com Quadros e Karnopp(2004, ses em Libras.
p. 135), a Libras “[...] apresenta certa flexibilidade Assim, as expressões faciais são essenciais para
na ordem das palavras”, não sendo portanto trivial o determinar o tipo de frase, isto é, se a frase é afir-
estabelecimento de uma ordem básica para as frases. mativa, a expressão facial é neutra. Para frases ex-
Com relação à ordem da frase na Língua Brasi- clamativas, as sobrancelhas devem ficar levantadas
leira de Sinais, de acordo com Quadros e Karnopp e acompanha um ligeiro movimento da cabeça incli-
(2004), a construção SVO (sujeito – verbo – objeto) nando-a para cima e para baixo.
é a mais comum, embora sejam encontradas também AFIRMATIVA – expressão facial é Neutra.
construções do tipo SOV e OSV. Entretanto, nossa
experiência pessoal nos permite afirmar que entre os
sujeitos surdos não letrados, a ordem OSV, em frases
como: CARRO VOCÊ TER é muito utilizada.
Outra observação importante em relação à or-
dem das frases é que os advérbios temporais e de fre-
quência não podem interromper uma relação entre
o verbo e o objeto. Os advérbios temporais podem
estar antes ou depois da oração (por exemplo: João
comprar carro amanhã ou Amanhã João comprar EXCLAMATIVA: sobrancelhas levantadas e um li-
carro). Os advérbios de frequência podem estar an- geiro movimento da cabeça inclinando-se para cima
tes ou depois do complemento (por exemplo: Eu e para baixo.
bebo leite algumas vezes ou Eu algumas vezes bebo
leite).
TIPOS DE FRASES
235
LIBRAS
E / OU
E / OU
236
EDUCAÇÃO FÍSICA
237
LIBRAS
As expressões faciais são essenciais também para A partir da análise desses parâmetros, pode-
mos perceber que as línguas orais e as línguas
pronomes pessoais, demonstrativos e advérbios de
de sinais são similares em seu nível estrutural,
lugar, mas são mais importantes ainda para os pro- os seja, são formadas a partir de unidades sim-
nomes interrogativos, que se caracterizam, essen- ples que, combinadas, formam unidades mais
cialmente, pela expressão facial interrogativa feita complexas. [...] Diferem quanto à forma como
simultaneamente ao pronome. as combinações das unidades são construídas.
Enquanto as línguas de sinais, de uma manei-
Para se referir a tempo gasto na realização de
ra geral (mas não exclusiva!), incorporam as
uma atividade, por exemplo, sinaliza-se um círculo unidades simultaneamente: as línguas orais
ao redor do rosto, seguido da expressão facial ade- tendem a organizá-las sequencialmente/linear-
quada. Ex.: VIAJAR RIO-DE-JANEIRO QUAN- mente (GESSER, 2009, p. 19).
TAS-HORAS (interrogação)
No caso dos pronomes POR QUE/PORQUE, Os sinais são classificados em categorias gramati-
como não há diferença entre ambos, o contexto é cais, entre outras, como substantivos, advérbios,
que sugere, por meio das expressões faciais e corpo- adjetivos, verbos, pronomes, com as três últimas
rais, quando estão sendo usados em frases interro- apresentando particularidades em relação ao uso do
gativas ou explicativas. espaço de sinalização.
238
EDUCAÇÃO FÍSICA
239
LIBRAS
Verbos em Libras
Os verbos na Libras dividem-se praticamente em três classes: verbos simples, ver-
bos com concordância ou direcionais e verbos espaciais.
Os verbos simples utilizam apenas o espaço para a elaboração do sinal, ou
seja, o ponto de articulação e movimento.
Os verbos simples não se flexionam em pessoa e número e não aceitam afixos
locativos, por exemplo, os verbos conhecer, amar, aprender.
CONHECER AMAR
240
EDUCAÇÃO FÍSICA
IR
241
LIBRAS
Exemplo: eu pintei no caderno com o lápis, fi- verbo apresentado e sua significação no contexto. O
caria assim em Libras: Caderno pintar- lápis. Pintar verbo olhar, por exemplo, pode ser representado ra-
com lápis é um verbo manual. pidamente para dizer que a pessoa apenas avistou ou
Flexão de número é realizada, normalmente, longamente, significando que a pessoa olhou com
pela repetição do movimento (exemplo: João entre- atenção.
gar livro para alguém, para duas pessoas, para três, A marcação dos tempos verbais em Libras se re-
para todos). sume a presente, passado e futuro, podendo ser enfa-
A flexão de aspecto está relacionada com as for- tizados, caso seja presente, os sinais de agora ou já e,
mas, movimento e velocidade (por exemplo: cuidar em seguida, o sinal do verbo que se deseja enunciar;
incessantemente, cuidar de forma ininterrupta, cui- caso seja passado, utiliza-se os sinais de ontem ou
dar de maneira habitual). Têm-se várias dimensões muito tempo atrás, seguido do sinal do verbo e, caso
descritas sobre a forma: direção/eu entregar você seja futuro, sinaliza-se amanhã ou um futuro mais
(uso do espaço), velocidade/diariamente. A Libras distante, seguido do sinal do verbo. A ordem pode
usa também modulações de olhar e expressões fa- ser invertida em qualquer dos casos, sinalizando-se
ciais-corporais para transmitir a intensidade do primeiro o verbo e depois o advérbio de tempo.
FUTURO PASSADO
AMANHÃ PRESENTE
242
EDUCAÇÃO FÍSICA
ONTEM JÁ
243
LIBRAS
Léxico de Categorias
Semânticas III
1. Corpo Humano, Higiene Corporal, Saúde,
Deficiências, Emoções e Religiões.
CÉREBRO OSSO
244
EDUCAÇÃO FÍSICA
SANGUE
BEXIGA FÍGADO
PULMÃO
CARAÇÃO RIM
245
LIBRAS
ESTÔMAGO
ESÔFAGO LARINGE
246
EDUCAÇÃO FÍSICA
ESPERMATOZÓIDE
PELOS VAGINA
247
LIBRAS
MEMBROS SUPERIORES
UNHA DEDO
248
EDUCAÇÃO FÍSICA
MEMBROS INFERIORES
PÉ PERNA
NADEGAS
QUADRIL COXA
249
LIBRAS
250
EDUCAÇÃO FÍSICA
HIGIENE
SHAMPOO
251
LIBRAS
DESODORANTE SABONETE
PERFUME OU PERFUME
BELEZA
252
EDUCAÇÃO FÍSICA
SAÚDE
VACINA REMÉDIO
DOR DEPRESSÃO
253
LIBRAS
RAIO-X ENJOO
FRATURA
DOR DE CABEÇA
254
EDUCAÇÃO FÍSICA
CÂNCER AIDS
CÓLICA VÔMITO
255
LIBRAS
256
EDUCAÇÃO FÍSICA
SENTIMENTOS E EMOÇÕES
EMOÇÃO SENTIR/SENTIMENTO
MATURIDADE/MADUR@ TEIMOSIA/TEIMOS@
SORTE/SORTUD@ COITAD@
257
LIBRAS
QUIET@ PREGUIÇA/PREGUIÇOS@
SEDENT@/SEDE
258
EDUCAÇÃO FÍSICA
MULHERENGO
CARINHO/CARINHOS@ LIMPEZA/LIMP@
INOCÊNCIA/INOCENTE LIBERDADE/INDEPENDENTE/LIVRE
JUSTO/HONESTIDADE/
HUMILDADE/HUMILDE
HONEST@
259
LIBRAS
FOFOCA EDUCAD@
METID@/ESNOBE CONFUSÃO/CONFUS@
EGOÍSTA CHORAR
260
EDUCAÇÃO FÍSICA
CRIANÇA
CORAGEM VERDADE
CALMA/ACALMAR BARULHO
261
LIBRAS
BRUTO CALM@
VINGANÇA/VINGATIV@ IDIOTA
RESPONSABILIDADE/
FINGIR / FINGIMENTO/FINGID@
RESPONSÁVEL
262
EDUCAÇÃO FÍSICA
SURPRESA/SURPRES@ MELHOR
SUSTO/ASSUSTAD@ CONFIANÇA/CONFIAR
263
LIBRAS
PREOCUPAÇÃO/
PROBLEMA ANSIEDADE
PREOCUPAD@
PACIÊNCIA ARREPENDIMENTO
MEDO GUERRA
CURIOSIDADE INTERESSANTE
264
EDUCAÇÃO FÍSICA
DÓ/PENA INVEJA
265
LIBRAS
MÁGOA TRISTE/TRISTEZA
GRATIDÃO MIMAD@
AMADO FELIZ
266
EDUCAÇÃO FÍSICA
RELIGIÃO
RELIGIÃO DEUS
267
LIBRAS
RESSURREIÇÃO FÉ
PECADO DIABO
ALTAR
268
EDUCAÇÃO FÍSICA
ALMA JESUS
MACUMBA ADVENTISTA
269
LIBRAS
ATEU
270
EDUCAÇÃO FÍSICA
SANT@
BUDA PADRE
PADRE
271
LIBRAS
COMUNGAR CRUZ
IGREJA
272
EDUCAÇÃO FÍSICA
273
LIBRAS
POBRE RIC@
VELH@ NOV@
POUCO MUITO
274
EDUCAÇÃO FÍSICA
MOLHAD@
SEC@
275
LIBRAS
PRIMEIR@ ULTIM@
SUJO LIMPO
PESAD@ LEVE
276
EDUCAÇÃO FÍSICA
SORTE AZAR
MAGR@ GORD@
FORTE OU FORTE
FRAC@
277
LIBRAS
FÁCIL FÁCIL
DIFÍCIL INTELIGENTE
COMPRID@ CURT@
278
EDUCAÇÃO FÍSICA
CLAR@ ESCUR@
BARAT@ CAR@
ERRAD@ CERT@
FEI@ BONIT@
279
LIBRAS
MACI@ ÁSPER@
280
EDUCAÇÃO FÍSICA
FACULDADE UNIVERSIDADE
281
LIBRAS
ANO/SÉRIE
282
EDUCAÇÃO FÍSICA
REUNIÃO CERTIFICADO
APROVAÇÃO REPROVAÇÃO
283
LIBRAS
FORMATURA CURSO
VESTIBULAR NOTA
REDAÇÃO PROVA
284
EDUCAÇÃO FÍSICA
ESPAÇO FÍSICO
COMPUTAÇÃO LABORATÓRIO
SALA DE AULA
BIBLIOTECA
285
LIBRAS
DISCIPLINAS
FILOSOFIA ESPANHOL
286
EDUCAÇÃO FÍSICA
HISTÓRIA SOCIOLOGIA
GEOGRAFIA OU GEOGRAFIA
BIOLOGIA
287
LIBRAS
ADIÇÃO DESCONTO
SOMA (CALCULAR)
288
EDUCAÇÃO FÍSICA
MATERIAL ESCOLAR
UNIFORME MOCHILA
APONTADOR TESOURA
COLA RÉGUA
CADERNO CANETA
289
LIBRAS
LIVRO / REVISTA
BORRACHA
290
EDUCAÇÃO FÍSICA
ESPORTE
291
LIBRAS
PROFISSÕES
FARMACÊUTIC@ ENFERMEIR@
292
EDUCAÇÃO FÍSICA
MOTORISTA
CANTOR/CANTORA CHEFE
293
LIBRAS
CONTABILIDADE ADMINISTRAÇÃO
INTÉRPRETE MÉDIC@
ENCANADOR
294
EDUCAÇÃO FÍSICA
MECÂNIC@
EMPREGAD@ DOMÉSTIC@
295
LIBRAS
AÇOUGUEIR@
CARTEIR@
GARÇOM / GARÇONETE
PADEIRO
296
EDUCAÇÃO FÍSICA
PEDREIR@ BOMBEIRO
ASSISTENTE SOCIAL
297
LIBRAS
MEIOS DE TRANSPORTES
FOGUETE TRATOR
ÔNIBUS TÁXI
298
EDUCAÇÃO FÍSICA
CINEMA TEATRO
299
LIBRAS
ASSOCIAÇÃO FENEIS
300
EDUCAÇÃO FÍSICA
BAR
ZOOLÓGICO
301
LIBRAS
GOVERNO PREFEITURA
PADARIA
302
EDUCAÇÃO FÍSICA
BANCO RESTAURANTE
BIBLIOTECA
RODOVIÁRIA CORREIO
HOSPITAL
303
LIBRAS
ENFERMARIA
FÓRUM AÇOUGUE
IGREJA FARMÁCIA
304
EDUCAÇÃO FÍSICA
BANCOS E ECONOMIA
ITAÚ SICREDI
SANTANDER BRADESCO
BANCO REAL
305
LIBRAS
PAGAR ALUGAR
LUCRO COMPRAR
306
EDUCAÇÃO FÍSICA
PARCELAR
APOSENTAR RECEBER
307
LIBRAS
CHEQUE CENTAVOS
REAL DÓLAR
DINHEIRO ECONOMIA
308
EDUCAÇÃO FÍSICA
PONTOS CARDEAIS
BRASIL BRASÍLIA
309
LIBRAS
REGIÃO NORTE
AMAPÁ PARÁ
ACRE
REGIÃO NORDESTE
310
EDUCAÇÃO FÍSICA
REGIÃO SUL
FLORIANOPÓLIS /SC
311
LIBRAS
REGIÃO SUDESTE
312
EDUCAÇÃO FÍSICA
REGIÃO CENTRO-OESTE
MATO GROSSO
GOIÂNIA / GOIÁS
313
LIBRAS
CONTINENTES
314
EDUCAÇÃO FÍSICA
PARAGUAI COLÔMBIA
CHILE BOLÍVIA
ARGENTINA
315
LIBRAS
AMÉRICA DO NORTE
SUÉCIA RÚSSIA
316
EDUCAÇÃO FÍSICA
NORUEGA
ESPANHA ESPANHA
HOLANDA ESCÓCIA
317
LIBRAS
ÁFRICA
ISRAEL EGITO
ÁSIA
CHINA ÍNDIA
JAPÃO
318
EDUCAÇÃO FÍSICA
ARÁBIA
319
LIBRAS
AJOELHAR ACORDAR
320
EDUCAÇÃO FÍSICA
ACOMPANHAR ENCONTRAR
ACONTECER OU ACONTECEU
321
LIBRAS
ADMIRAR AFASTAR
ACEITAR
322
EDUCAÇÃO FÍSICA
APROVEITAR COMPRAR
ACREDITAR CHUTAR
ACONSELHAR CAIR
323
LIBRAS
CHEIRAR / RESPIRAR
CHEGAR CANTAR
324
EDUCAÇÃO FÍSICA
325
LIBRAS
COMEÇAR COMEÇAR
CUIDAR CUIDADO
PROTEGER CANTAR
DANÇAR IR PRECISAR
326
EDUCAÇÃO FÍSICA
DAR FALAR
327
LIBRAS
328
EDUCAÇÃO FÍSICA
DUVIDAR ENSINAR
329
LIBRAS
FUGIR ESQUECER
330
EDUCAÇÃO FÍSICA
SENTAR PULAR
ESTAR FAZER
EXPLICAR
331
LIBRAS
PERGUNTAR PESQUISAR
332
EDUCAÇÃO FÍSICA
ESCONDER PAQUERAR
333
LIBRAS
OPINAR BUSCAR
NAMORAR INTERROMPER
334
EDUCAÇÃO FÍSICA
MORAR MORRER
335
LIBRAS
MENTIR INFLUENCIAR
SONHAR GRITAR
336
EDUCAÇÃO FÍSICA
GASTAR CONSEGUIR
RECEBER FOTOGRAFAR
INTEGRAR
REFLITA
Considerando tudo o que você estudou, nas cinco unidades de nosso livro texto, quais são, em sua
opinião, as principais justificativas para a inserção da Libras como componente curricular obrigatória
em seu curso?
337
considerações finais
N
esta quinta unidade você estudou a sintaxe dos verbos e a modulação
de sinais além do léxico relacionamendo à educação e outros temas
que talvez não seja parte integrante de sua conversação cotidiana, mas
que são essenciais para uma comunicação funcional eficiente em sala
de aula.
A Língua Brasileira de Sinais é uma língua que tem ganhado espaço na socie-
dade em função da contínua luta dos movimentos surdos em prol de seus direitos.
Uma luta que vem desde muito tempo, mas que se concretiza, no Brasil, particu-
larmente, depois da criação da Federação Nacional de Educação e Integração dos
Deficientes Auditivos - FENEIDA, em 1986, entidade que, já no ano seguinte, em
1987, adotando o modelo das suas congêneres em outros países, muda seu nome
para Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos – FENEIS.
Esta instituição foi criada com o objetivo de preencher a lacuna no contexto po-
lítico, social, cultural e educacional que se apresentava (e se apresenta, ainda), aqui
no Brasil, no campo da política dos Surdos.
Capitaneada pela FENEIS, há muitos anos o povo surdo luta contra os padrões
de cidadão impostos pela sociedade majoritária. É uma luta de muitos anos pelo
reconhecimento de que o povo surdo é um povo com cultura e língua própria, pos-
suidor de especificidades linguísticas, sociais e culturais.
Atualmente, o povo surdo conquistou o direito de usar sua língua que possibili-
ta não só a comunicação, mas também sua efetiva participação na sociedade.
Mas, para que esta mudança se efetive, é necessário que cada vez mais pessoas
conheçam e utilizem a Libras.
Faça a sua parte!
338
atividades de estudo
4. Ensine as profissões para pelo menos duas pessoas da sua família, amigos
ou colegas de trabalho.
6. Em sua opinião, qual conjunto de sinais aprendidos nesta seção que são
mais icônicos?
7. Escreva com suas próprias palavras o que você entendeu acerca dos ver-
bos.
339
LEITURA
COMPLEMENTAR
Neste livro texto, frisamos o tempo todo que a Libras é As publicações na escrita dos sinais (Sign Writing) têm
uma língua, capaz de cumprir todas as funções de uma sido uma inovação na tradição de contar e recontar his-
língua oral, inclusive, a de produções literárias. Por isso, tórias e, por outro lado, divulgam e imprimem materiais
apresentamos como leitura complementar, um frag- na Libras. No entanto, um dos problemas é a abrangên-
mento adaptado de uma apostila destinada aos alunos cia do público leitor nessa língua (Libras), já que poucos
do Curso de Licenciatura Letras/Libras, sobre Literatura são usuários desse sistema, mesmo nas comunidades de
Surda, e autoria da professora Lodenir Karnopp . 1
surdos.
Além da importância dos registros na Libras, encontra-
Literatura Surda mos uma vasta e diversificada literatura, presente em
Enquanto a Libras não era reconhecida ou enquanto era associações de surdos, em escolas, em pontos de en-
proibida de ser usada nas escolas, também não existiam contro da comunidade surda. Algumas dessas histórias
publicações ou o reconhecimento de uma cultura surda são contadas e resgatadas por surdos idosos e/ou por
ou de uma literatura surda. O ensino priorizava o apren- surdos contadores de histórias. Uma pequena parcela
dizado da fala e da língua portuguesa. Nas escolas, não dessas produções culturais tem sido registradas em fitas
havia espaço nem aceitação para as produções literárias de vídeo, na Libras ou, então, traduzidas para a língua
em sinais. No entanto, acreditamos que entre os surdos portuguesa. As narrativas, os poemas, as piadas e os
circulavam histórias sinalizadas, piadas, poemas, histó- mitos que são produzidos servem como evidências da
rias de vida, mas em espaços que ficavam longe do con- identidade e da cultura surda.
trole daqueles que desprestigiavam a língua de sinais. As produções culturais de pessoas surdas envolvem, em
Em geral, naqueles contextos escolares ou clínicos nos geral, o uso de uma língua de sinais, o pertencimento a
quais não se tolera a língua de sinais e/ou a cultura surda uma comunidade surda e o contato com pessoas ouvin-
há um completo desconhecimento dos processos e dos tes, sendo que esse contato linguístico e cultural pode
produtos que determinados grupos de surdos geram em proporcionar uma experiência bilíngue a essa comunida-
relação ao teatro, ao humor, à poesia visual, enfim, à lite- de. Neste sentido, além da escrita da língua de sinais, a es-
ratura produzida em língua de sinais. crita da língua portuguesa, também faz parte do mundo
A Língua de Sinais Brasileira é uma língua visual-gestual e surdo, indispensável aos surdos brasileiros para a escola-
recentemente seus usuários têm utilizado a escrita dessa rização, a defesa dos seus interesses e cidadania. Pode-se
língua em seu cotidiano. A escrita dos sinais (SignWriting) pensar que a escrita pode contribuir para a destruição da
é a forma de registro das línguas de sinais, mas raras são riqueza em sinais; mas a escrita, por si só, não é neces-
as obras literárias produzidas que utilizam essa escrita. sariamente um fator contrário, já que se pode pensar na
Além disso, também são poucas as escolas que incluem escrita como a busca por tradução das raízes culturais,
a escrita dos sinais em seus currículos. associada a outras formas de arte, como teatro e vídeo.
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LEITURA
COMPLEMENTAR
Além do registro das produções culturais de pessoas sur- espalhados em várias partes do mundo. Pessoas surdas
das através da escrita em língua de sinais (sign writing) e não trabalham em um mesmo local. Em alguns centros
de traduções para a escrita da língua portuguesa, outras urbanos, eles encontram seus pares surdos somente
formas de documentação, como filmagens, são funda- duas ou três vezes por semana e passam a maior par-
mentais para o registro de formas literárias que vão se te de seu tempo em um mundo ouvinte. Esse fato pro-
perdendo ou se transformando. Para uma comunidade duz um padrão de comunidade em que o tempo que os
de surdos manter o leque de possibilidades artísticas e surdos permanecem juntos é fragmentado; por outro
expressões da língua de sinais, os registros visuais são lado, são extremamente próximos uns dos outros. Essa
indispensáveis a criação de bibliotecas visuais e podem característica social faz com que pessoas surdas mante-
contribuir para uma escrita posterior, através da escrita nham suas vidas na comunidade surda, participando da
dos sinais e/ou através de traduções apropriadas para o associação de surdos, realizando atividades conjuntas,
português. estudando em uma mesma escola, empreendendo lutas
Contar histórias é um hábito tão antigo quanto a civili- e reivindicações conjuntas.
zação. Contar histórias é um ato que pertence a todas Essas considerações são importantes para entendermos
as comunidades: comunidades indígenas, comunida- a produção literária em sinais. Pessoas surdas, conviven-
des de surdos, entre outras. Contar histórias, piadas, do com ouvintes, em seu ambiente de trabalho ou com
episódios em línguas de sinais pelos próprios surdos é a família, se apropriam de meios visuais para entender
um hábito que acompanha a história das comunidades o mundo e se relacionar com as pessoas ouvintes. Essa
surdas. Cabe, então, coletar as narrativas que surgem experiência visual, além do uso da língua de sinais, im-
nessas comunidades, para que não desapareçam com plica dividir a comunicação e isto também caracteriza a
o tempo. cultura surda.
Surdos reúnem-se frequentemente para contar histórias Para escaparem da ridicularização da língua de sinais e
e, entre as preferidas, estão as histórias de vida, as pia- de seus bens culturais, de ações intolerantes e até proi-
das e aquelas que incluem elementos da cultura surda, bitivas, os surdos se organizam em comunidades, bus-
com personagens surdos, com tramas que, em geral, en- cando o fortalecimento da língua de sinais, da identidade
volvem as diferenças entre o mundo surdo e o ouvinte. e da cultura surda. Nessa perspectiva, a literatura surda
A comunidade surda é diferente de outras comunidades adquire também o papel de difusão da cultura surda,
linguísticas em muitos aspectos, já que eles não estão dando visibilidade às expressões linguísticas e artísticas
geograficamente em uma mesma localidade, mas estão advindas da experiência visual.
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LIBRAS
Se você quiser conhecer ainda mais sobre os surdos, sua educação, sua cultura e sua língua,
além de todos os endereços que já disponibilizamos, acesse o site disponível em: <www.
[Link]>. Acesso em: 20 jun. 2016.
342
conclusão geral
conclusão geral
343
referências
Referências on-line:
1- Em: <[Link] literatu
raVisual/assets/369/Literatura_Surda_Texto-[Link]> Acesso em: 25 jun. 2016.
344
gabarito
Questões: 1, 2, 3, 4, 5.
Questão 6: para essa questão, a resposta pode ser subjetiva, embora a res-
posta esperada seja “o conjunto de sinais que se referem ao corpo humano”.
Questão 7: para essa questão, você deve tratar dos verbos simples, com con-
cordância e os espaciais, além dos verbos “manuais”. É importante você abor-
dar também, a marcação dos tempos verbais.
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