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Ponto de Articulação na Libras

Enviado por

eduardo Plaisant
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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LIBRAS

PROFESSORAS

Dr.ª Clélia Maria Ignatius Nogueira


Me. Marília Ignatius Nogueira Carneiro
Esp. Beatriz Ignatius Nogueira Soares
LIBRAS

NEAD
Núcleo de Educação a Distância
Av. Guedner, 1610, Bloco 4
Jd. Aclimação - Cep 87050-900 Maringá - Paraná
[Link] | 0800 600 6360

C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância;


NOGUEIRA, Clélia Maria Ignatius; CARNEIRO, Marília Ignatius Nogueira;
SOARES, Beatriz Ignatius Nogueira.
Libras. Clélia Maria Ignatius Nogueira; Marília Ignatius Nogueira Car-
neiro; Beatriz Ignatius Nogueira Soares .

Maringá - PR.:UniCesumar, 2018. Reimpresso em 2022.


346 p.
“Graduação em Educação Física - EaD”.
1. Libras. 2. Surdez. 3. Educação. 4. Cultura 5. EaD. I. Título.
ISBN 978-85-459-0705-3
CDD - 22ª Ed. 701.1
CIP - NBR 12899 - AACR/2

DIREÇÃO UNICESUMAR

Reitor Wilson de Matos Silva, Vice-Reitor Wilson de Matos Silva Filho, Pró-Reitor de Administração
Wilson de Matos Silva Filho, Pró-Reitor de EAD Willian Victor Kendrick de Matos Silva, Presidente
da Mantenedora Cláudio Ferdinandi.

NEAD - NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA

Diretoria Operacional de Ensino Kátia Coelho, Diretoria de Planejamento de Ensino Fabrício Lazilha,
Direção de Operações Chrystiano Mincoff, Direção de Mercado Hilton Pereira, Direção de Polos
Próprios James Prestes, Direção de Desenvolvimento Dayane Almeida, Direção de Relacionamento
Alessandra Baron, Head de Produção de Conteúdos Rodolfo Encinas de Encarnação Pinelli, Supervisão
do Núcleo de Produção de Materiais Nádila de Almeida Toledo, Coordenador(a) de Contéudo Marcia
Maria Previato Souza, Projeto Gráfico José Jhonny Coelho, Editoração Humberto Garcia da Silva,
Designer Educacional Isabela Agulhon, Lideranças de área Daniel Fuverki Hey e Hellyery Agda,
Revisão Textual Pedro Afonso Barth, Kaio Vinicius Cardoso Gomes, Ilustração Bruno Pardinho,
Fotos Shutterstock.

2
Wilson Matos da Silva
Reitor da Unicesumar

Viver e trabalhar em uma sociedade global é um grande as demandas institucionais e sociais; a realização
desafio para todos os cidadãos. A busca por tecnologia, de uma prática acadêmica que contribua para o
informação, conhecimento de qualidade, novas desenvolvimento da consciência social e política e, por
habilidades para liderança e solução de problemas fim, a democratização do conhecimento acadêmico
com eficiência tornou-se uma questão de sobrevivência com a articulação e a integração com a sociedade.
no mundo do trabalho. Diante disso, o Centro Universitário Cesumar almeja
Cada um de nós tem uma grande responsabilidade: ser reconhecida como uma instituição universitária
as escolhas que fizermos por nós e pelos nossos fará de referência regional e nacional pela qualidade
grande diferença no futuro. e compromisso do corpo docente; aquisição de
Com essa visão, o Centro Universitário Cesumar assume competências institucionais para o desenvolvimento
o compromisso de democratizar o conhecimento por de linhas de pesquisa; consolidação da extensão
meio de alta tecnologia e contribuir para o futuro dos universitária; qualidade da oferta dos ensinos
brasileiros. presencial e a distância; bem-estar e satisfação da
No cumprimento de sua missão – “promover a comunidade interna; qualidade da gestão acadêmica
educação de qualidade nas diferentes áreas do e administrativa; compromisso social de inclusão;
conhecimento, formando profissionais cidadãos que processos de cooperação e parceria com o mundo
contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade do trabalho, como também pelo compromisso
justa e solidária” –, o Centro Universitário Cesumar e relacionamento permanente com os egressos,
busca a integração do ensino-pesquisa-extensão com incentivando a educação continuada.
boas-vindas

Willian V. K. de Matos Silva


Pró-Reitor da Unicesumar EaD

Prezado(a) Acadêmico(a), bem-vindo(a) à A apropriação dessa nova forma de conhecer


Comunidade do Conhecimento. transformou-se hoje em um dos principais fatores de
Essa é a característica principal pela qual a Unicesumar agregação de valor, de superação das desigualdades,
tem sido conhecida pelos nossos alunos, professores propagação de trabalho qualificado e de bem-estar.
e pela nossa sociedade. Porém, é importante Logo, como agente social, convido você a saber cada
destacar aqui que não estamos falando mais daquele vez mais, a conhecer, entender, selecionar e usar a
conhecimento estático, repetitivo, local e elitizado, mas tecnologia que temos e que está disponível.
de um conhecimento dinâmico, renovável em minutos, Da mesma forma que a imprensa de Gutenberg
atemporal, global, democratizado, transformado pelas modificou toda uma cultura e forma de conhecer,
tecnologias digitais e virtuais. as tecnologias atuais e suas novas ferramentas,
De fato, as tecnologias de informação e comunicação equipamentos e aplicações estão mudando a nossa
têm nos aproximado cada vez mais de pessoas, lugares, cultura e transformando a todos nós. Então, priorizar o
informações, da educação por meio da conectividade conhecimento hoje, por meio da Educação a Distância
via internet, do acesso wireless em diferentes lugares (EAD), significa possibilitar o contato com ambientes
e da mobilidade dos celulares. cativantes, ricos em informações e interatividade. É
As redes sociais, os sites, blogs e os tablets aceleraram um processo desafiador, que ao mesmo tempo abrirá
a informação e a produção do conhecimento, que não as portas para melhores oportunidades. Como já disse
reconhece mais fuso horário e atravessa oceanos em Sócrates, “a vida sem desafios não vale a pena ser vivida”.
segundos. É isso que a EAD da Unicesumar se propõe a fazer.
boas-vindas

Kátia Solange Coelho


Diretoria Operacional de Ensino

Fabrício Lazilha
Diretoria de Planejamento de Ensino

Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está de maneira a inseri-lo no mercado de trabalho. Ou seja,
iniciando um processo de transformação, pois quando estes materiais têm como principal objetivo “provocar
investimos em nossa formação, seja ela pessoal ou uma aproximação entre você e o conteúdo”, desta
profissional, nos transformamos e, consequentemente, forma possibilita o desenvolvimento da autonomia
transformamos também a sociedade na qual estamos em busca dos conhecimentos necessários para a sua
inseridos. De que forma o fazemos? Criando formação pessoal e profissional.
oportunidades e/ou estabelecendo mudanças capazes Portanto, nossa distância nesse processo de
de alcançar um nível de desenvolvimento compatível crescimento e construção do conhecimento deve
com os desafios que surgem no mundo contemporâneo. ser apenas geográfica. Utilize os diversos recursos
O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de pedagógicos que o Centro Universitário Cesumar
Educação a Distância, o(a) acompanhará durante todo lhe possibilita. Ou seja, acesse regularmente o AVA
este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens – Ambiente Virtual de Aprendizagem, interaja nos
se educam juntos, na transformação do mundo”. fóruns e enquetes, assista às aulas ao vivo e participe
Os materiais produzidos oferecem linguagem das discussões. Além disso, lembre-se que existe
dialógica e encontram-se integrados à proposta uma equipe de professores e tutores que se encontra
pedagógica, contribuindo no processo educacional, disponível para sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em
complementando sua formação profissional, seu processo de aprendizagem, possibilitando-lhe
desenvolvendo competências e habilidades, e trilhar com tranquilidade e segurança sua trajetória
aplicando conceitos teóricos em situação de realidade, acadêmica.
Professora Doutora
Clélia Maria Ignatius Nogueira
Doutora em Educação pela UNESP – Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho.
Mestra em Matemática pela USP – Universidade de São Paulo. Licenciada em Matemática
pela FAFIT – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Tupã, SP. Professora de Libras da
Unicesumar desde 2010. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Surdez e Ensino
de Matemática, da Universidade Estadual Paranaense – UNESPAR; do Projeto de Apoio a
Difusão da Libras do Departamento de Língua Portuguesa da UEM e do Projeto de Apoio a
Difusão da Libras – Palotina – UFPR.
Para maiores informações, acesse o link disponível em: <[Link]

Professora Mestre
Marília Ignatius Nogueira Carneiro
Mestra em Educação pela UEM. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Surdez e
Ensino de Matemática, da Universidade Estadual Paranaense – UNESPAR, Campus de Campo
Mourão. Licenciada em Letras Libras pela UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina.
Bacharel em Gastronomia pela Unicesumar – Maringá. Professora de Libras do Departamento
de Língua Portuguesa da Universidade Estadual de Maringá e Coordenadora do Projeto de
Apoio a Difusão da Libras – UEM.
Para maiores informações, acesse o link disponível em: <[Link]

Professora Especialista
Beatriz Ignatius Nogueira Soares
Especialista em Educação Especial – Instituto Paranaense de Ensino e Faculdade Maringá.
Licenciada em Artes Visuais pela Unicesumar e Licenciada em Letras Libras pela UFSC – Uni-
versidade Federal de Santa Catarina. Professora de Libras da UFPR – Universidade Federal
do Paraná – Campus de Palotina. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Surdez e
Ensino de Matemática, da Universidade Estadual Paranaense – UNESPAR e Coordenadora
do Projeto de Apoio a Difusão da Libras – Palotina - UFPR.
Para maiores informações, acesse o link disponível em: <[Link]
apresentação do material

Libras

Olá caro(a) aluno(a)! Você certamente deve estar se Ao elaborar este livro texto, procuramos atender prio-
perguntando por que estudar a Língua Brasileira de ritariamente a três grandes objetivos: proporcionar a
Sinais, a Libras. Afinal, essa é a língua dos surdos bra- constituição de uma imagem positiva da surdez e dos
sileiros e provavelmente você nem conhece ninguém surdos; favorecer a inclusão educacional e social do
surdo! surdo e promover a difusão da Libras.
Algo que você provavelmente não sabe é que atualmen- Pelo nosso sobrenome, você já deve ter percebido
te existem no Brasil cerca de 5.7 milhões de pessoas que nós três somos parentes! É verdade. Somos mãe
surdas e que, segundo dados do MEC - Ministério da (Clélia) e filhas. A mãe é ouvinte e as filhas são surdas
Educação, em 2001, existiam 50 mil estudantes surdos e nós vivenciamos um período muito difícil na edu-
matriculados no Ensino Fundamental, a maioria deles cação do surdo brasileiro, no qual os professores não
em classes comuns, em escolas inclusivas, vivencian- aprendiam a se comunicar com seus alunos e mais,
do uma situação de fracasso escolar, principalmente os próprios surdos eram proibidos de usar a Libras!
porque a metodologia mais utilizada ainda é a expli- Esse período foi muito difícil e isso acontecia por-
cação oral. que as pessoas, incluídas aí os professores e a família,
Este dado de 2001 é importante porque deu origem a acreditavam que aprender falar oralmente era a única
diversas ações do Ministério da Educação do Brasil, forma do surdo - que naquela época era designado por
mudando, radicalmente e para melhor, a educação do deficiente auditivo - se integrar à sociedade.
surdo brasileiro. Dentre elas, destacamos o Decreto Atualmente, muita coisa mudou. Até a maneira de se
Federal 5626 de 22 de dezembro de 2005, que tornou referir aos surdos, e na Introdução da Unidade I, nós
obrigatório o ensino de Libras - Língua Brasileira de vamos discutir isso melhor. Vamos mostrar porque
Sinais - em todos os cursos de formação de professo- hoje os surdos não querem mais ser chamados de
res e também de fonoaudiologia do Brasil, além de se deficientes auditivos e mais, vamos mostrar porque a
constituir como disciplina optativa dos demais cursos. maneira como nós utilizamos as palavras é importante!
É por isso que você está tendo esta disciplina! Sem uma boa discussão parece implicância querer
A surdez pode ser caracterizada de duas maneiras que se utilizem algumas palavras. A tal da história do
distintas: seguindo o modelo médico, em que ela é “politicamente correto”, afinal, o que isso importa, se
vista como uma deficiência, uma limitação de natureza as pessoas entendem do que estamos falando, inde-
patológica, com o surdo sendo rotulado por aquilo pendente da palavra usada? Esta resposta está lá, na
que não é capaz de fazer, ou seguindo a concepção Introdução da Unidade I.
sócio-antropológica da surdez, como uma diferença Com a Unidade I - O surdo, a surdez, a educação, a cul-
linguística, encarando o surdo a partir de suas possibi- tura e identidades surdas - nosso objetivo é introduzir
lidades, que poderão ser mais ou menos aproveitadas você no mundo surdo, mostrando, por exemplo, que
em função da educação que lhe for ofertada. nem sempre os surdos tiveram direito à educação, que
começou somente por volta do século XV, quando os de palavras relacionadas entre si por um grande tema.
surdos começam a ser educados e que, desde seu início, Esta construção de vocabulário também está presente
a grande discussão sempre foi se esta educação deveria nas Unidades IV e V. Em função da limitação de espaço
ser feita sustentada essencialmente na oralização ou em um texto como este, nos limitamos ao vocabulário
se poderia ser apoiada em gestos. mais básico para a sala de aula. Para o estudo dessas
Em seguida, o objetivo é discutir como se efetiva a três unidades, os vídeos são fundamentais, assim como
educação do surdo no Brasil atual. Quais são as polí- a consulta aos sites indicados.
ticas, as leis e os programas públicos de atendimento Na Unidade IV - Aspectos Morfológicos da Libras - o
educacional ao surdo, além dos recursos tecnológicos objetivo principal é discutir as regras que determinam
para a sua inclusão social e educacional. Estes temas a formação de sinais abordandos, também, os Classi-
são abordados na Unidade II, que trata, como o pró- ficadores, poderosos auxiliares da Libras.
prio título indica, de maneira direta, de Legislação, Na Unidade V - Aspectos Sintáticos da Libras -, o ob-
Políticas Públicas e Recursos Tecnológicos para a Edu- jetivo é apresentar a sintaxe espacial, ou seja, como se
cação de Surdos. caracteriza o “espaço gramatical” em Libras; discutindo
Na terceira unidade - Aspectos Gerais e Fonológicos da as regras para a formação de frases em Libras, por
Libras -, começamos a apresentar a Libras, em seus as- exemplo. Tratamos também da modulação de sinais
pectos gerais e fonológicos e, já a partir da introdução em Libras omo processo análogo ao da entonação na
da Unidade III, você vai ficar sabendo que a Libras Língua Portuguesa.
é uma língua com gramática própria e proporciona Sabemos que aprender Libras é uma tarefa difícil e
para os surdos tudo que a língua oral proporciona aos quase impossível de acontecer só com esta disciplina.
ouvintes. E ainda, que cada país tem a sua língua de Nós esperamos que você se interesse pelos surdos, pela
sinais. A Libras é a Língua Brasileira de Sinais, falada sua língua e procure estudar mais e mais!
pelos surdos brasileiros. Finalizamos a parte teórica da Finalizamos esta apresentação com esta frase que nos
Unidade III discutindo as restrições para a criação de faz refletir: “O que importa a surdez da orelha, quando
sinais em Libras. Nesta unidade também iniciamos a a mente ouve? A verdadeira surdez, a incurável sur-
construção do seu vocabulário em Libras, com o Léxico dez é a da mente” (FERDINAND BERTHIER, surdo
de Categorias Semânticas, isto é, sinais para um grupo francês, 1854).

Abram suas mentes e bons estudos!


sum ário

UNIDADE I UNIDADE III


O SURDO, A SURDEZ, A EDUCAÇÃO, ASPECTOS GERAIS E FONOLÓGICOS DA LIBRAS
A CULTURA E IDENTIDADES SURDAS 78 Introdução
12 Introdução 80 Paralelos Entre Libras e Língua Portuguesa
14 História da Educação de Surdos 88 Aspectos Fonológicos da Libras
19 Abordagens Educacionais para Surdos: 104 Léxico De Categorias Semânticas I –
Oralismo, Comunicação Total e Bilinguismo Tempo e Elementos da Natureza
26 Cultura e Identidades Surdas 118 Considerações Finais
33 Considerações Finais 124 Referências
38 Referências 125 Gabarito
39 Gabarito
UNIDADE IV
UNIDADE II ASPECTOS MORFOLÓGICOS DA LIBRAS
LEGISLAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E RECURSOS 128 Introdução
TECNOLÓGICOS PARA A EDUCAÇÃO DE SURDOS
130 Aspectos Morfológicos da Libras
42 Introdução
144 Classificadores
44 Inclusão como Princípio da Educação Especial
155 Léxico de Categorias Semâticas II
47 A Legislação Brasileira Referente à Educação
212 Considerações Finais
de Surdos
217 Referências
56 A Educação de Surdos e as Políticas Públicas
do Brasil 218 Gabarito
61 Tecnologias de Acessibilidade para a
Comunicação do Surdo UNIDADE V
67 Considerações Finais ASPECTOS SINTÁTICOS DA LIBRAS
72 Referências 222 Introdução
74 Gabarito 224 O Espaço Gramatical
240 Verbos em Libras
244 Léxico De Categorias Semânticas III
338 Considerações Finais
343 Conclusão Geral
344 Referências
345 Gabarito
O SURDO, A SURDEZ, A EDUCAÇÃO,
A CULTURA E IDENTIDADES SURDAS

Professora Dr.ª Clélia Maria Ignatius Nogueira


Professora Me. Marília Ignatius Nogueira Carneiro
Professora Esp. Beatriz Ignatius Nogueira Soares

Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta
unidade:
• História da educação de surdos
• Abordagens educacionais para surdos: oralismo,
comunicação total e bilinguismo
• Cultura e identidades surdas

Objetivos de Aprendizagem
• Refletir sobre o percurso histórico da Educação de Surdos.
• Cotejar as principais abordagens pedagógicas na Educação
de Surdos.
• Refletir sobre cultura e processo de construção de
identidades surdas.
unidade

I
INTRODUÇÃO

A
pesar de, aparentemente, não ter importância a denomina-
ção escolhida para designar uma pessoa ou um grupo de
indivíduos, ela revela nossa concepção, a maneira como
consideramos a pessoa, o grupo ou o fenômeno a que nos
referimos. É comum entre as pessoas, por exemplo, a utilização da ex-
pressão surda-muda para designar a pessoa surda.
A palavra mudo não corresponde à realidade do surdo, pois ele não
é mudo, no sentido de possuir comprometimentos no sistema fonoarti-
culatório, mas, a maioria das vezes, a pessoa surda não fala porque não
consegue aprender, pois não possui o feedback auditivo. Há casos de pes-
soas que ouvem (portanto, não são surdas), mas têm um distúrbio da fala
e, em decorrência disso, não falam, são mudas.
A expressão deficiente auditivo está ligada ao período que refletia a
concepção do Modelo Médico, que entendia o surdo como deficiente e,
para torná-lo eficiente, a ênfase no trabalho era a de reabilitação (traba-
lho de reabilitar a audição e a fala, na tentativa de minimizar os efeitos
provocados pela alteração auditiva).
Atualmente, dentro da concepção defendida por diversos auto-
res como Carlos Skliar (1998), Ronice Quadros (1997), Lucinda Brito
(1995), Paula Botelho (2002), Gladys Perlin (2004) entre outros, a surdez
é entendida muito mais como uma “diferença” do que como deficiência.
Segundo esses estudiosos, a surdez é uma experiência visual “e isso
significa que todos os mecanismos de processamento da informação e to-
das as formas de compreender o universo em seu entorno, se constroem
como experiência visual” (SKLIAR, 1998, p. 28).
Nesta primeira unidade, vamos estudar a história da educação de
surdos, para compreendermos melhor a evolução dessa educação e das
diferentes abordagens ou filosofias educacionais; o oralismo, a comuni-
cação total e o bilinguismo, bem como suas consequências para a forma-
ção da identidade da pessoa surda.
LIBRAS

História da
Educação de Surdos

A
principal questão da educação dos sur- Durante muito tempo, os surdos eram conside-
dos, desde seu início, sempre foi se os rados incapazes de ser ensinados, por isso, eles não
surdos deveriam desenvolver a aprendi- frequentavam escolas. As pessoas surdas, principal-
zagem utilizando a língua de sinais ou a mente as que não falavam, eram excluídas da socie-
língua oral. E essa decisão, durante muito tempo, foi dade, sendo proibidas de casar, possuir ou herdar
tomada pelos ouvintes. Só recentemente, os surdos bens e viver como as demais pessoas.
podem dizer como preferem ser educados, e a maio- Até o final do século XV não havia escolas
ria decidiu que o melhor para eles é a língua de sinais. com ensino especializado para surdos, mas, na
Como não é possível viver no mundo dos ouvin- verdade, a figura do preceptor (professor particu-
tes sem o conhecimento da língua pátria, os surdos lar) era muito comum para todas as crianças e jo-
defendem que a língua de sinais (no caso do Brasil, vens, principalmente das famílias ricas. Famílias
a Libras) deve ser considerada sua primeira língua e nobres e influentes que tinham um filho surdo
depois devem aprender o português, de preferência contratavam os serviços de professores particula-
na modalidade escrita. res para que ele aprendesse a falar, pois a apren-
Mas, para os surdos poderem conquistar o direito dizagem de uma língua era essencial para que os
de se expressarem em Libras, que hoje é língua oficial surdos pudessem herdar os títulos e as proprieda-
brasileira desde 2002, eles lutaram muito e por séculos! des de suas famílias.
Os poucos relatos encontrados sobre a educação É apenas no início do século XVI que se começa
dos surdos durante a Antiguidade e por quase toda a acreditar que os surdos podiam aprender median-
a Idade Média falavam de curas milagrosas dizendo te a educação e aparecem relatos de educadores que
que qualquer sucesso dos surdos era devido à “inter- apresentam resultados obtidos com seus trabalhos
ferência divina”. utilizando diferentes métodos.

14
EDUCAÇÃO FÍSICA

Uma pessoa importante para a educação dos sur- os surdos a falarem, o método de Bonet pode ser
dos no século XVI é o médico, matemático e astrólo- considerado a base para a Comunicação Total, que
go italiano Gerolamo Cardano (1501-1576), que ti- é utilizada até os dias de hoje e que estudaremos no
nha um filho surdo. Ele é considerado um educador próximo tópico.
de surdos, mas seus estudos eram mais relacionados No século XVIII, a educação dos surdos avança
à medicina. Cardano afirmou que a escrita poderia bastante, principalmente com os trabalhos do Aba-
representar os sons da fala e as ideias do pensamento de Charles Michel De L’Epée, na França; de Thomas
e, por isso, o fato de não falar não era impedimento Braidwood, na Inglaterra e de Samuel Heinicke, na
para que o surdo adquirisse conhecimento. Assim, Alemanha. Apesar de utilizarem metodologias dife-
Cardano já recomendava o uso de sinais e o ensino rentes, o que os aproxima é o fato de terem criado as
da linguagem escrita. primeiras escolas coletivas para
O espanhol Pedro Ponce de surdos em seus países.
Leon (1520-1584) é considerado Thomas Braidwood fun-
o primeiro professor de surdos dou, em 1760, em Edimburgo,
por ter ensinado crianças surdas a primeira escola para surdos
da nobreza espanhola. Frei Ponce de toda Grã-Bretanha. Brai-
de Léon usava na educação dos dwood utilizava um alfabeto
surdos, sinais, treinamento de digital envolvendo ambas as
voz e leitura labial. mãos para apoiar o ensino da
Quarenta anos após a mor- escrita e da fala. Este alfabeto
te de Frei Ponce de Leon, já no ainda é utilizado na Inglaterra.
século XVII, Juan Pablo Bonet Samuel Heinicke criou, em
publicou o que seria o primei- 1778, uma escola em Liepzig,
ro livro do mundo para ensinar na Alemanha. A sua metodo-
língua de sinais a surdos, con- Fonte: Bonet (1680, on-line)1
. logia defendia que a coisa mais
tendo o alfabeto manual. Bonet importante no ensino da crian-
dava grande importância à expressão e ao treino ça surda seria a linguagem falada e que a linguagem
oral nos primeiros anos de vida da pessoa e sempre por meio de gestos poderia prejudicar esta aprendi-
utilizava a comunicação gestual. A primeira inter- zagem. Heinicke é considerado o fundador do ora-
venção pedagógica de Bonet com seus alunos era lismo (que vamos estudar melhor na seção seguinte)
ensinar o alfabeto gestual e as letras corresponden- e de uma metodologia que ficou conhecida como o
tes na forma escrita. “método alemão”.
Posteriormente, Bonet ensinava a articulação Na época era comum manter em segredo o modo
das letras para, finalmente, apresentar as estruturas como se conduzia a educação dos surdos. Cada pro-
gramaticais. Os gestos eram considerados impor- fessor trabalhava sozinho e não era comum trocar ex-
tantes para os surdos entenderem o significado das periências, por isso, conhecemos pouco do “método
palavras e como ele adotava os gestos para ajudar alemão” de Heinicke. Ele mesmo escreveu que seu

15
LIBRAS

método de educação não era conhecido por ninguém, Nesse período, alguns surdos se destacaram e
exceto por seu filho, pois ele dizia ter passado por ocuparam posições importantes na sociedade de
muitas dificuldades para criar seu método e por isso seu tempo. Alguns deles, como por exemplo, Fer-
não pretendia dividir suas conquistas com ninguém. dinand Berthier, escreveram vários livros falando
Considerando que os estudos linguísticos obje- de suas dificuldades de comunicação e dos proble-
tivam conhecer os princípios de funcionamento das mas causados pela surdez. Ainda no século XVIII,
línguas, suas semelhanças e diferenças, podemos di- o abade Roch Sicard (1742-1822), que havia estu-
zer que os estudos linguísticos acerca das línguas de dado com De L’Epée, objetivando ser professor de
sinais tiveram início com o abade francês Charles surdos, criou uma escola em 1782, na cidade de
De L’Epée, no final do século XVIII. O abade, a par- Bordéus, na França. Escreveu o livro A Teoria dos
tir da observação de grupos de surdos, verificou que Signos, acerca dos sinais metódicos e também pu-
estes desenvolviam um tipo de comunicação apoia- blicou um dicionário.
da no canal viso-gestual, que era muito satisfatória. A partir do século XVIII, dois grupos foram
Partindo dessa linguagem gestual, ele desenvolveu criados na educação de surdos: um grupo que de-
um método educacional, apoiado na linguagem de fendia o oralismo puro, não permitindo o recurso
sinais da comunidade de surdos franceses, acrescen- gestual e outro que buscava a aquisição da língua
tou alguns sinais que tornavam a estrutura da língua oral, tendo como suporte a linguagem gestual (me-
dos surdos mais parecida com o francês e denomi- todologia combinada).
nou esse sistema de “sinais metódicos”. No início do século XIX, Thomas Hopkins
Em 1775, De L’Epée fundou uma escola para sur- Gallaudet criou a primeira escola para surdos dos
dos, a primeira em seu gênero, com aulas coletivas, Estados Unidos da América usando sinais. Em 1835,
na qual professores e alunos usavam os chamados a língua americana de sinais (ASL) foi reconhecida
sinais metódicos. A proposta educativa da escola como língua dos surdos dos Estados Unidos e ofi-
era que os professores deveriam aprender tais sinais cializada como língua americana, feito que os surdos
para se comunicar com os surdos. Os professores brasileiros só conseguiram em 2002, com a oficiali-
aprendiam com os surdos e, utilizando os “sinais zação da Libras.
metódicos”, ensinavam o francês falado e escrito. As duas abordagens metodológicas avançaram,
Diferente de Heinecke, que escondia seu méto- surgindo, então, encontros mundiais de educadores
do, De L’Epée divulgava seus trabalhos em reuniões de surdos, para divulgação das práticas pedagógicas.
periódicas e propunha-se a discutir seus resultados. O primeiro desses encontros foi o I Congresso In-
Em 1776, publicou um livro no qual divulgava suas ternacional sobre a Instrução de Surdos, realizado
técnicas. Seus alunos usavam bem a escrita, e muitos em 1878, em Paris. Nesse congresso, apesar de todos
deles ocuparam mais tarde o lugar de professores de os participantes entenderem que era melhor usar
outros surdos. sinais, vários grupos defendiam que o oralismo era

16
EDUCAÇÃO FÍSICA

muito importante para a criança poder se comuni- desenvolver uma linguagem oral que lhe permitisse
car com os ouvintes. É somente a partir deste con- conviver em sociedade, além de apresentarem mui-
gresso em Paris que os surdos adquiriram o direito tas dificuldades para aprender ler e escrever.
de assinar documentos. Apesar desse fracasso evidente, o oralismo ga-
Os debates sobre qual metodologia era mais nhou nova força na década de 50 do século XX
adequada para a educação dos surdos continu- quando, com o avanço da tecnologia, surgem os pri-
aram, e, em 1880, foi realizado o II Congresso meiros aparelhos de audição para crianças surdas
Internacional, em Milão, que provocou uma re- muito pequenas, os AASI - Aparelhos de Amplifica-
viravolta nas práticas pedagógicas para o ensino ção Sonora Individual. Os oralistas acreditavam que,
dos surdos. Organizado praticamente apenas por com a protetização (uso dos aparelhos) desde muito
oralistas, o objetivo velado do Congresso de Mi- cedo, os surdos poderiam “ouvir” e, então, aprender
lão era tornar o oralismo obrigatório na educação a falar. Todavia, isso também não se concretizou, na
de surdos. Nesse congresso, o inventor do telefone prática, para todas as crianças.
Graham Bell exerceu enorme influência a favor do Com o passar do tempo, a garantia do direito de
oralismo. todos à educação e o avanço da tecnologia dos apa-
Para conseguirem seus objetivos, os oralistas relhos auditivos fizeram com que as crianças surdas
apresentaram diversos surdos que falavam bem e, na de diversos países passassem a ser encaminhadas
assembleia de encerramento, realizada no dia 11 de para as escolas regulares comuns. No Brasil, as Se-
setembro de 1880, com exceção dos cinco membros cretarias Estaduais e Municipais de Educação passa-
americanos e de um professor britânico, todos os ram a coordenar o ensino das crianças com necessi-
participantes, em sua maioria europeus e ouvintes, dades educacionais especiais e surgiram as Salas de
votaram por aclamação a aprovação do uso exclusi- Recursos e Classes Especiais para surdos, além de
vo e absoluto da metodologia oralista, proibindo, a algumas Escolas Especiais, com recursos públicos
partir de então, a utilização da linguagem de sinais ou privados.
na educação de surdos. Na década de 1960 surgiu, no Brasil, o primeiro
Assim, a partir do Congresso de Milão, no mun- estudo linguístico sobre línguas de sinais, não con-
do todo, com exceção do Instituto Gallaudet nos siderada até então uma língua verdadeira. Realiza-
Estados Unidos, o oralismo foi o referencial assumi- do por William Stokoe, Klima e Bellugi, nos Estados
do e suas práticas educacionais foram amplamente Unidos, este estudo demonstrou as características
desenvolvidas e divulgadas, não sendo questionadas que fazem da linguagem de sinais uma língua equi-
por quase um século. valente à oral.
Todavia, o trabalho educacional realizado na Entre 1960 e 1970, chega ao Brasil a Comuni-
abordagem oralista não mostrou bons resultados, cação Total, que basicamente tirava a língua oral
pois a maioria dos surdos profundos não conseguiu como o grande e principal objetivo da educação

17
LIBRAS

de surdos, considerando mais importante a comu- te e se chama Bilinguismo. Para que os surdos brasi-
nicação. Para isso, todos os recursos eram usados, leiros pudessem ter direito a uma educação bilíngue,
como gestos convencionados no próprio grupo, muitas lutas aconteceram.
língua de sinais, leitura orofacial, alfabeto manual, Um acontecimento importante foi a criação
leitura e escrita etc. da FENEIS (Federação Nacional de Educação e
Em 1969, temos a primeira tentativa de registrar Integração dos Surdos), em 1987, que é uma enti-
a Língua de Sinais falada no Brasil, por meio de um dade sem fins lucrativos, a máxima representati-
pequeno dicionário, Linguagem das Mãos - orga- va dos surdos, que trabalha em prol da sociedade
nizado pelo missionário americano Eugênio Oates surda garantindo, entre outras coisas: a inclusão
-, que apresentou um bom índice de aceitação por do surdo no mercado de trabalho, pesquisas para
parte dos surdos. a sistematização e padronização do ensino de Li-
Somente em 1980 iniciaram os Estudos Linguís- bras (Língua Brasileira de Sinais) para ouvintes
ticos no Brasil sobre a Língua de Sinais, saindo o pri- e a defesa dos direitos linguísticos e culturais da
meiro boletim do GELES - Grupo de Estudos sobre comunidade surda.
Linguagem, Educação e Surdez -, da Universidade Em 2001, foi lançado em São Paulo, o Dicioná-
Federal de Pernambuco, no Recife. rio Enciclopédico Ilustrado de Libras, em projeto da
Em 1986, a Língua de Sinais passou a ser defen- USP – Universidade de São Paulo, e em 2002 o Di-
dida no Brasil por profissionais influenciados pelos cionário LIBRAS/Português em CD-ROM, trabalho
estudos divulgados pela Gallaudet University. Nessa realizado pelo INES/MEC, com apoio da FENEIS.
mesma época, a língua de sinais utilizada pelos sur- Nacionalmente, a Libras foi recentemente oficia-
dos das capitais do Brasil foi denominada pela sigla lizada através da Lei 10.436/2002, enquanto língua
LSCB - Língua de Sinais dos Centros Urbanos Brasi- dos surdos brasileiros, marcando o início de uma
leiros. Também foi descoberta a existência de outra nova e promissora era no que diz respeito à pessoa
língua de sinais no Brasil, a LSUK - Língua de Sinais surda, sua capacidade, identidade e formação. Essa
dos índios Urubus-Kaapor. lei reconhece não somente a Libras como uma Lín-
Os avanços nas pesquisas sobre as línguas de si- gua e que como tal deve ser respeitada, mas que a
nais recomendam que a criança surda tenha acesso comunidade surda, sua cultura e sua identidade de-
o mais cedo possível à língua de sinais e que, poste- vem ser respeitadas.
riormente, aprenda a língua de seu país, se necessá- Com tantos avanços, a discussão da educação
rio, apenas na modalidade escrita. Essa filosofia de dos surdos agora se prende a Inclusão ou Escolas Es-
educação dos surdos é a que está valendo atualmen- peciais. Mas essa é outra história.

18
EDUCAÇÃO FÍSICA

Abordagens Educacionais
para Surdos:
Oralismo, Comunicação Total
e Bilinguismo

C
onforme vimos no texto anterior, até o pela leitura e escrita e, com este apoio, utilizavam di-
Congresso de Milão, as duas principais ferentes técnicas para desenvolver outras habilidades,
correntes metodológicas da educação de tais como leitura labial e articulação das palavras.
surdos, o oralismo e o gestualismo (con- Apesar desses aspectos em comum, já no come-
forme era denominada na época) conviviam “pacifi- ço do século XVIII, começa a surgir uma brecha que
camente” e o objetivo maior dessa educação era que “[...] se alargaria com o passar do tempo e que sepa-
o surdo aprendesse a língua que falavam os ouvintes raria irreconciliavelmente oralistas de gestualistas”
da sociedade na qual viviam. (LACERDA, 1998, p. 70).
Em seu início, a educação de surdos além da De maneira ampla, o que diferencia oralistas de
atenção dada à fala, enfatizava também a língua gestualistas é que os primeiros exigiam que os surdos
escrita e, por isso, os alfabetos digitais eram muito falassem e se comportassem como se não fossem sur-
utilizados. Esses alfabetos digitais eram inventados dos. Os gestualistas entendiam melhor as dificuldades
pelos próprios professores, que defendiam a ideia de do surdo com a língua falada e perceberam que os
que se o surdo não podia ouvir e nem se expressar surdos desenvolviam uma linguagem que permitia a
na língua falada, ele podia comunicar-se pela escrita. comunicação e “[...] lhes abria as portas para o conhe-
Mesmo os professores de surdos que defendiam cimento da cultura, incluindo aquele dirigido para a
o oralismo iniciavam o ensinamento de seus alunos língua oral” (LACERDA, 1998, p. 70).

19
LIBRAS

O que é importante destacar dessa divergência Segundo Goldfeld (1997), objetivo do oralismo,
entre os defensores do oralismo e do gestualismo é ou filosofia oralista, é a integração da criança surda
o fato de que existem diferentes maneiras de se en- na comunidade de ouvintes, mediante o desenvolvi-
frentar as consequências da surdez e que ainda não mento da língua oral, o português, no caso do Brasil.
existem estudos que permitam determinar com cer- Mesmo com o avanço das pesquisas linguísticas
teza, se uma única abordagem metodológica seria a sobre as línguas de sinais, alguns oralistas continu-
mais indicada para a educação de todos os surdos. am defendendo que para a criança surda se comu-
O ideal seria que a família, juntamente com os pro- nicar com o mundo ela precisa ser oralizada, isto é,
fissionais, conhecendo as particularidades de cada precisa saber falar. Assim, a abordagem de enfoque
criança, pudessem escolher qual abordagem ou oralista é contra o uso da Língua de Sinais ou de
mesmo uma combinação delas seria mais indicada. qualquer código gestual, porque acredita que com
De maneira geral, costuma ser indicado para as a utilização de “gestos” os surdos se acomodariam e
crianças que possuem resíduos auditivos, isto é, as não iriam se esforçar para aprender a língua oral. Os
que conseguem ouvir alguma coisa, uma educação oralistas vão além, e afirmam que o uso da língua de
que favoreça a aquisição da fala, ou seja, uma abor- sinais torna impossível o desenvolvimento de hábi-
dagem oral e; para aquelas que não possuem um tos orais corretos.
resíduo auditivo suficiente ou que possuem muita Nessa abordagem, a educação do surdo deve co-
dificuldade para desenvolver a oralidade, o indicado meçar com os bebês e deve aproveitar todos os re-
é uma abordagem que privilegia a Língua de Sinais. cursos disponíveis para se desenvolver a linguagem
Atualmente, são três as principais abordagens que interior, da mesma forma como acontece aos ouvin-
fundamentam diferentes metodologias na educação de tes, isto é, utilizando apoios sonoros de forma que
surdos: Oralismo, Comunicação Total e Bilinguismo. os resíduos auditivos e a amplificação sonora sejam
explorados ao máximo. Também são incentivados e
ORALISMO treinados à exaustão, a leitura labial, a percepção das
vibrações vocais e demais recursos que favoreçam a
O alemão Heinicke, que viveu no século XVIII, é con- emissão e a recepção da língua oral.
siderado o fundador do oralismo por ter criado uma Ensinar e aprender a falar não são tarefas fáceis e
metodologia que ficou conhecida como o “método exigem muita dedicação da família e da escola, além
alemão”. Para Heinecke, o pensamento dependeria da de muito esforço por parte da criança, sem que, con-
língua oral para existir e assim, a língua escrita deve- tudo, se possa garantir sucesso.
ria ser aprendida somente após a língua oral. Dentro da filosofia oralista existem correntes que
O oralismo entende a surdez como uma defici- se diferem, tanto na teoria quanto na prática, origi-
ência que precisa ser direcionada para a normalida- nando diversas metodologias de oralização: método
de, mediante à estimulação auditiva e à reabilitação acupédico, método Perdoncini, Método Verbotonal,
da fala da criança surda, buscando assemelhá-la o entre outros. Porém, qualquer que seja a metodolo-
máximo possível à criança ouvinte e assim integrá-la gia adotada, um programa oralista se fundamenta
na comunidade (GOLDFELD, 1997). nos seguintes pressupostos:

20
EDUCAÇÃO FÍSICA

• O único meio de comunicação aceito é a lín- sário ensiná-la a ouvir. E de novo, precisa-se de re-
gua oral. cursos, métodos e profissionais especializados para
• O trabalho para a aquisição da fala deve ser realizar o treinamento auditivo.
iniciado assim que se descobre a surdez da Um aparelho auditivo que é colocado, mesmo
criança, atualmente, com o “teste da orelhi- que esteja conforme as necessidades da criança, sem
nha”, seria desde o seu nascimento. o devido treinamento, pode inclusive prejudicar a
• A educação oral deve começar no lar, exigin- criança, pois esta passará a receber uma intensidade
do a dedicação de todas as pessoas que con- de estímulos sonoros simultâneos que precisam ser
vivem com a criança, especialmente a mãe,
inicialmente identificados para que em seguida ela
durante todas as horas de cada dia do ano.
selecione aqueles aos quais vai direcionar sua aten-
• O trabalho de aquisição da fala ou educação
ção auditiva. Portanto, nem sempre o uso do apare-
oral necessita de fonoaudiólogos e pedagogos
lho auditivo permite que a criança escute a voz hu-
especializados para atender o aluno e orien-
tar e acompanhar a ação da família mana, e mesmo que a escute que faça o uso correto
• A educação oral requer equipamentos espe- desta informação, pois
cializados como o aparelho de amplificação
sonora individual. “[...] os aparelhos não atuam na decodificação
instantânea da linguagem apenas ao serem
agregados ao ouvido, do mesmo modo que
Entretanto, as pesquisas apontam que crianças com uma pessoa completamente cega, por exemplo,
perda auditiva profunda, mesmo atendendo à risca não passa a enxergar utilizando óculos ou len-
as orientações para aprender a falar, realizando in- tes de grau” (GESSER, 2009, p. 75).
cansavelmente exercícios de voz e de articulação, em
sua grande maioria, não conseguem desenvolver a O implante coclear, muitas vezes apresentados
fala com fluência. pela mídia em matérias carregadas de emoção,
ainda é visto com muita desconfiança pelos sur-
Mesmo com treinamento para realizar leitura dos, familiares e profissionais, pois a recuperação
labial, o período crítico para a aquisição de lin-
da surdez não depende apenas do sucesso da in-
guagem (até os 4 anos, aproximadamente) se-
ria perdido, por causa da complexidade dessa tervenção cirúrgica, mas de inúmeras variáveis
aprendizagem, com prejuízos importantes para como idade do surdo, tempo de surdez, condições
o desenvolvimento cognitivo e o desempenho do nervo auditivo, época de instalação da surdez,
escolar da criança (REILY, 2004, p. 122). adaptação anterior ao AASI, trabalho com fono-
audiólogo etc.
Enfim, a aquisição da língua portuguesa oral depen- Mas, o que é preciso ficar claro é que os surdos,
de do grau e natureza da perda auditiva, do bom uso mesmo com surdez profunda, podem apresentar
dos resíduos auditivos proporcionados pelo AASI e uma comunicação oral funcional, desde que se sub-
do apoio de profissionais e família. No entanto, tam- metam aos procedimentos adequados e, principal-
bém os AASI não são “mágicos”, isto é, não basta mente, se assim o desejarem, pois de acordo com
protetizar a criança (colocar o aparelho). É neces- Gesser (2009, p. 56):

21
LIBRAS

[...]o grande problema herdado da filosofia dor etc.; dificultando a compreensão do que foi dito
oralista é o efeito colateral que se instaurou na pelo mestre. Para poder se beneficiar da prótese au-
comunidade surda, ou seja, o sentimento de in-
ditiva, o surdo precisa passar por um longo processo
dignação, frustração, opressão e discriminação
entre usuários dos sinais, uma vez que, durante de “treinamento auditivo”, para desenvolver sua aten-
as sessões de fala e treinos repetitivos pregados ção auditiva e poder identificar os diferentes sons.
pelo oralismo do passado, a língua de sinais foi O predomínio do oralismo começou a diminuir
banida e rejeitada em prol do uso exclusivo da na década de 60 do século passado, a partir de for-
língua oral.
tes críticas a esta abordagem, principalmente pelos
educadores e pesquisadores dos Estados Unidos e
Como já dissemos anteriormente, ao final de várias pela realização de diversos estudos sobre as línguas
décadas, o trabalho educacional realizado na abor- de sinais que as comunidades de surdos desenvol-
dagem oralista não apresentou bons resultados, pois viam pesar da proibição de sua utilização no espaço
a maioria dos surdos profundos não conseguiu de- escolar. Desses estudos surgiram as abordagens ges-
senvolver uma linguagem oral satisfatória que lhe tualistas para a educação de surdos.
permitisse conviver em sociedade, além apresenta-
rem muitas dificuldades na aquisição das habilida- GESTUALISMO
des de leitura e escrita.
Vimos também que mesmo diante desse fracas- O principal criador do que se conhece como abor-
so visível, o oralismo ganhou nova força na década dagem gestualista foi abade francês Charles M. De
de 50 do século XX, quando, com o avanço da tec- L’Epée, que no século XVIII, na mesma época em que
nologia, surgem os primeiros aparelhos de audição Heinecke, criava o “método alemão”, criou o “mé-
para crianças surdas muito pequenas. Os oralistas todo francês” de educação de surdos, que ficou co-
acreditavam que com a protetização (uso dos apare- nhecido como “sinais metódicos”. Para De L’Epée, a
lhos) desde muito cedo, os surdos poderiam “ouvir” linguagem de sinais seria a língua natural dos surdos
e, então, aprender a falar. Contudo, isso também não e possibilitaria o desenvolvimento do pensamento e
se concretizou na prática, para todas as crianças. sua comunicação. Falamos aqui em “linguagem” de
Essa crença de que o aparelho de amplificação sinais e em abordagem “gestualista”, porque em seu
“resolve” o problema dos surdos persiste até hoje, início, os sinais eram confundidos com gestos e a co-
porém, não basta a colocação do aparelho para que municação por sinais ainda não possuía o status de
o surdo escute. O som que “entra” pelo aparelho é língua. Atualmente, já está comprovado que sinais
o som total do ambiente, como o som da gravação não são gestos e que as línguas de sinais possuem
que fazemos de uma aula, que, juntamente com a voz todos os requisitos para serem reconhecidas como
do professor, traz ruídos de folhas de caderno sendo “idiomas”. Esses aspectos são tratados com mais de-
viradas, cadeiras arrastadas, veículos passando pela talhes em nossa terceira unidade, mas adiantamos
rua, sussurros dos alunos, risadas e passos no corre- aqui, a distinção entre sinais e gestos.

22
EDUCAÇÃO FÍSICA

Em função de suas características, os sinais po- A filosofia da Comunicação Total tem como
dem parecer movimentos aleatórios de mãos e cor- principal preocupação os processos comuni-
cativos entre surdos e surdos, e entre surdos
po, acompanhados por expressões faciais variadas,
e ouvintes. Essa filosofia também se preocupa
ou seja, seriam apenas “gestos”. De acordo com Pe- com a aprendizagem da língua oral pela criança
reira et al. (2011, p. 18), esta descrição para sinais surda, mas acredita que os aspectos cognitivos,
seria equivalente a descrever uma língua oral como emocionais e sociais, não devem ser deixados
“ruídos” feitos com a boca. Além disso, os gestos são de lado em prol do aprendizado exclusivo da
língua oral. Por esse motivo, esta filosofia de-
traços das línguas orais, isto é, acompanham as lín- fende a utilização de recursos espaço-visuais
guas orais e favorecem a comunicação. Os sinais são como facilitadores da comunicação (GOLD-
produzidos combinando-se, simultaneamente, con- FELD, 1997, p. 35).
figuração de mãos, ponto de articulação ou localiza-
ção, movimento, orientação das palmas das mãos e A Comunicação Total foi adotada no Brasil, no final
componentes não manuais, que são os parâmetros da década de 1970, particularmente nos estados do
constituintes da língua de sinais, conforme você verá Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.
na Unidade III. Um dos aspectos considerados pelos defenso-
Assim, daqui em diante, não utilizaremos mais res da Comunicação Total é que crianças que foram
a palavra gestualismo. Duas são as principais abor- educadas segundo o oralismo, desde muito cedo,
dagens sustentadas na utilização de sinais a Comu- não tiveram desenvolvimento social e emocional
nicação Total, que ganhou impulso nos anos 1970, e satisfatório, mesmo quando conseguiam relativo su-
o Bilinguismo, que é a mais adotada atualmente no cesso na aprendizagem da língua oral.
mundo todo. A surdez é entendida pelos defensores da Comu-
nicação Total não como uma patologia (doença), nem
COMUNICAÇÃO TOTAL como uma deficiência que precisa ser normalizada,
como os oralistas entendem, mas como uma “marca”
Na Comunicação Total, como o próprio nome indi- com “significações sociais” (CICCONE, 1990, p. 7).
ca, todos os esforços são empregados no sentido de A família, da mesma forma que no oralismo,
uma comunicação mais efetiva entre surdos e entre desempenha papel fundamental na educação dos
surdos e ouvintes, utilizando, portanto, modelos au- surdos segundo a Comunicação Total, mas aqui,
ditivos, manuais e orais. Apesar da oralização não a família não desempenha o papel de profissional
ser o principal objetivo da educação de surdos nessa especializado na aquisição da linguagem, mas o de
abordagem, seus defensores entendem que tudo o compartilhar experiências, valores e significados,
que é falado pode ser expresso por gestos e mímica, contribuindo, assim, para o desenvolvimento social
ou seja, pode ser visualizado e, dessa forma, os sinais e emocional do surdo.
são utilizados como apoio para a aquisição da língua De acordo com Ciccone (1990), um programa de
oral e da escrita. Comunicação Total utiliza técnicas e recursos para:

23
LIBRAS

• Estimulação auditiva. O bilinguismo começou a ganhar força a partir


• Adaptação de aparelho de ampliação sonora da década de 1980 e, no Brasil, a partir de 1990. Na
individual (AASI - prótese auditiva). Suécia esta filosofia já é adotada há bastante tempo
• Leitura labial. e no Uruguai e na Venezuela o bilinguismo é adota-
• Oralização. do de maneira oficial, ou seja, nas instituições pú-
• Leitura e escrita. blicas, a exemplo do que está ocorrendo atualmente
no Brasil. Todavia, assim como a inclusão, a adoção
Além desses procedimentos, a Comunicação Total do bilinguismo nas escolas públicas brasileiras ainda
utiliza também a datilologia e a língua de sinais. Au- é incipiente, reduzida exclusivamente à presença de
tores como Sanches (1990) e Dorziat (1997), acre- intérpretes em sala de aula, e, eventualmente, a um
ditam que o maior problema desta metodologia ou Atendimento Educacional Especializado – AEE, no
filosofia, seria a mistura das duas línguas (Português contraturno, cuja proposta de funcionamento apre-
+ Língua de Sinais), que resultaria numa terceira sentarmos na Unidade II.
modalidade que é o Português Sinalizado. De acordo com essa filosofia, a criança surda
Os resultados obtidos com essa abordagem não deve adquirir, o mais cedo possível, primeiro a lín-
foram satisfatórios, nem para a aquisição da língua gua de sinais, considerada a sua língua natural. Essa
oral e nem para a escrita. Esses resultados e o apro- aquisição deve ser feita com a comunidade surda.
fundamento dos estudos realizados sobre línguas de Somente como segunda língua deveria ser ensinada,
sinais foram direcionando a educação dos surdos na escola, a língua oficial do país, mas de preferên-
para uma abordagem bilíngue. Porém, cia, na sua forma escrita. Apenas quando as condi-
[...]o que a comunicação total favoreceu de ma-
ções forem favoráveis deve ser ensinada a Língua
neira efetiva foi o contato com sinais, que era Portuguesa na modalidade oral.
proibido pelo oralismo, e esse contato propiciou Para alguns estudiosos do bilinguismo, a
que os surdos se dispusessem à aprendizagem criança surda deve adquirir a língua de sinais e
das línguas de sinais, externamente ao trabalho
escolar. Essas línguas são frequentemente usa- aprender a língua falada de maneira separada
das entre os alunos, enquanto na relação com o (com pessoas e locais diferentes), o mais cedo pos-
professor é usado um misto de língua oral com sível e, só depois, deve aprender a língua escrita.
sinais (LACERDA, 1998, p. 76).
Para outros, o que importa é o desenvolvimento
cognitivo, social e emocional do surdo, o que só
BILINGUISMO seria possível mediante a consolidação da língua
de sinais. Assim, nesse último caso, a criança pri-
A abordagem bilíngue tem como ponto de partida meiro deve adquirir a língua de sinais e depois,
que os surdos podem desenvolver uma língua que no momento adequado, ser alfabetizada e não se
permite uma comunicação eficiente. Essa língua, ensinar a língua falada.
apoiada na visão e utilizando as mãos, a Língua de O bilinguismo entende a surdez como diferença
Sinais, é, para os bilinguistas, a primeira língua dos linguística e não como uma deficiência a ser nor-
surdos, que a aprendem com naturalidade e rapidez. malizada por meio da reabilitação como o oralismo.

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EDUCAÇÃO FÍSICA

E assim, os surdos constituiriam uma comunidade Ainda segundo Quadros (1997), a preocupação do
particular, com cultura e língua próprias, como ve- bilinguismo é respeitar a autonomia das línguas de
remos no último texto que compõe esta primeira sinais organizando-se um plano educacional que
unidade. respeite a experiência psicossocial e linguística da
Para os bilinguistas a “problemática global do criança com surdez.
surdo” é “[...] intimamente dependente de seu desen- Por essas razões atualmente se dá tanta impor-
volvimento lingüístico” e “[...] só mesmo o respeito tância ao fato do professor ouvinte conhecer e usar
à língua de sinais conduzirá a um maior sucesso a Língua de Sinais, no caso do Brasil, a Libras. A
educacional e social do surdo” (FERREIRA-BRITO, comunicação adequada entre professores ouvintes
1995, p. 16). e alunos surdos é a condição primeira para uma es-
cola realmente inclusiva.
O bilingüismo tem como pressuposto básico
que o surdo deve ser Bilíngüe, ou seja, deve ad-
quirir como língua materna a língua de sinais,
que é considerada a língua natural dos surdos
e, como segunda língua, a língua oficial de seu
país (GOLDFELD , 1997, p. 39).

Tornar-se letrado numa abordagem bilíngüe


pressupõe a utilização de língua de sinais para
o ensino de todas as disciplinas. [...]. Faz tam-
bém parte do projeto bilíngüe que todo o corpo
de funcionários da escola, surdos e ouvintes, e
os pais, aprendam e utilizem a língua de sinais
(BOTELHO, 2002, p. 112).

O bilingüismo é uma proposta de ensino usada


por escolas que se propõem a tornar acessível
à criança duas línguas no contexto escolar. Os
estudos têm apontado para essa proposta como
sendo a mais adequada para o ensino das crian-
ças surdas, tendo em vista que considera a lín-
gua de sinais como língua natural e parte des-
se pressuposto para o ensino da língua escrita
(QUADROS, 1997, p. 27).

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LIBRAS

Cultura e
Identidades Surdas
Já vimos que a partir do Congresso de Milão e du- a partir da perspectiva do que ele não podia fazer,
rante quase todo o século XX, a Educação dos Sur- e toda tentativa de formação de identidade cultural
dos teve o oralismo como ideologia dominante, pen- era considerada como uma tentativa de formação de
sando no surdo como deficiente, não considerando guetos e segregação e, portanto, desprezada e mes-
sua diferença linguística. mo proibida.
A educação oferecida aos surdos dava muita im- Isso acontecia porque para o ouvinte a surdez
portância à oralização, e os educadores ficavam tão significa a perda de comunicação, e assim, o surdo
ocupados ensinando os surdos a falar, que não per- seria alguém que não pode fazer parte do mundo
cebiam a importância da formação da Identidade e ouvinte. É alguém que é menos do que aquele que
Cultura Surda para o Surdo. Assim, a educação não ouve e precisa ser sempre ajudado. Dessa forma,
formava os surdos como cidadãos críticos e muito as escolas e entidades de ouvintes para os surdos
pouco se discutia a importância de se buscar a igual- sempre basearam suas ações na filantropia e no as-
dade sem, entretanto, eliminar a diferença. sistencialismo.
Os surdos educados no oralismo não se reco- Quando se fala em identidade e em cultura
nheciam como surdos, mas sim como não ouvin- surda, estamos pensando na surdez como uma di-
tes, não normais. Ele era visto e obrigado a se ver ferença. Primeiro é preciso entender que diferen-

26
EDUCAÇÃO FÍSICA

ça não é o contrário de igualdade. O contrário de se processa a construção da identidade do sujeito sur-


igualdade é desigualdade. A diferença não deve ser do, ante a exposição a dois modelos culturais?
entendida como uma coisa que é contrária à nor- Partindo disso, entra em questão um novo fator,
malidade. Entender a surdez como diferença signi- pois, junto com uma língua distinta para os surdos,
fica a uma minoria linguística que faz uso de outra surge também uma nova cultura, ou seja, junto ao
língua - Língua de Sinais -, e constituem uma co- bilinguismo, veio o biculturalismo, revelando um
munidade específica. processo antes ignorado, que é o processo de cons-
Entender o surdo como deficiente auditivo, é trução da identidade cultural surda, uma vez que o
considerar que ele tem uma patologia e necessita surdo tem contato com dois grupos culturais distin-
de especialista para aprender a falar e ficar o mais tos, o ouvinte e o surdo.
parecido possível com o ouvinte. Assim, o que se Somente a partir da década de 1980 é que foi
faz é não reconhecer o direito do surdo de ser dife- entendida a necessidade de reconhecer o verdadeiro
rente, é não aceitar a Língua de Sinais, a Cultura e valor da cultura e da linguagem surda para o desen-
as Identidades Surdas. volvimento cognitivo e da identidade dos surdos.
Durante muito tempo se acreditou que a lingua- Existem muitas formas de definir identidade,
gem oral era a única responsável pelo funcionamen- mas o significado melhor para o caso dos surdos é o
to cognitivo humano, e a dificuldade encontrada da busca pelo direito de ser surdo.
pelos surdos para falar foi considerada como quase Gladis Perlin é uma pesquisadora surda que
impeditiva do desenvolvimento do pensamento. A escreve muito sobre cultura e identidades surdas e
língua de sinais durante muito tempo foi confun- diz que a influência do poder ouvintista prejudica a
dida com mímica e assim, estaria presa ao mundo construção da identidade surda. Ela também fala que
concreto, não permitindo a compreensão de concei- a oralização foi imposta aos surdos pelos ouvintes.
tos abstratos. Por isso, o oralismo dominou em todo Na educação oralista, as crianças surdas eram
o mundo, até a década de 1970. Porém, outros estu- proibidas de ter contato com surdos adultos que
dos sobre cognição e linguagem, como os de Piaget sinalizavam e, como a maioria das crianças surdas
e de Vygotski mostraram que o que é importante é a são filhas de pais ouvintes, por vontade da família
comunicação e não a língua que se usa. ou mesmo por vontade própria, os surdos tentavam
Assim, a surdez não torna a criança um ser que oralizar e mesmo surdos profundos falavam que ou-
tem possibilidades a menos, ou seja, ela tem possibili- viam. Não existia uma identidade definida.
dades diferentes e não menores. Ao reconhecer a lín- Com o bilinguismo e com o reconhecimento da
gua de sinais como língua natural dos surdos e admitir Libras como uma língua oficial do Brasil, há contato
sua condição bilíngue, emerge outra questão: a do bi- com os surdos adultos sinalizadores e todos come-
culturalismo, uma vez que o surdo vivencia dois gru- çam a se identificar como surdos. Ao sinalizarem e
pos culturais distintos, o dos surdos e o dos ouvintes. conviverem em um grupo no qual todos sinalizam,
Ora, esse trânsito entre dois “mundos” culturalmente ou seja, na comunidade surda, os surdos não mais
diferentes acaba por fazer emergir uma discussão que querem se parecer com os ouvintes, agora querem a
até antes da adoção do bilinguismo não existia: como interpretação das falas dos ouvintes em Libras.

27
LIBRAS

No oralismo é desenvolvido no surdo o dese- Para Perlin (1998, p. 52), a identidade é algo em
jo de ouvir. Tanto o processo de aquisição da fala, questão, em construção, uma construção móvel que
quanto o de treinamento auditivo são complexos, pode frequentemente ser transformada ou estar em
o surdo sofre muito e fica sempre se sentindo de- movimento. A construção da identidade depende de
ficiente e incapaz. Na educação oralista, também modelos e da forma como o outro enxerga o sujei-
se praticava a integração escolar, com os surdos to. Assim, é de fundamental importância defender a
estudando em salas comuns, sem apoio algum, cultura surda porque é dentro dela que se constrói a
gerando uma situação de não aprendizagem. O identidade surda.
surdo então, não apenas se sentia um fracassado, Mas, a existência da cultura surda depende da
mas também tinha a construção da sua identidade língua de sinais. A aquisição da Libras pelo surdo
prejudicada, pois o modelo ideal a ser seguido era é de extrema importância para o desenvolvimento
o do ouvinte. de uma identidade pessoal surda. Para acontecer a
Assim, o surdo construía sua identidade em um construção de nossa identidade, como somos seres
mundo no qual se via como diferente das outras sociais, precisamos identificar-nos com uma co-
pessoas, com o estigma de incapacidade e de defi- munidade social específica e, com ela, interagir de
ciência. O surdo ficava transitando em dois mundos modo pleno, ou seja, precisamos de uma identidade
e não se sentia parte de nenhum. Não fazia parte cultural, e, para isso, não basta uma língua e uma
do mundo ouvinte, porque não sabia se comunicar forma de alfabetização, mas, sim, um conjunto de
bem, e também não participava de um mundo sur- crenças, conhecimentos comuns a todos.
do, porque era proibido de usar a língua de sinais, Não podemos separar a noção de cultura da de
processo denominado pelo estudioso Carlos Skliar grupo e classes sociais, pois cultura é o espaço no
(1998) de identidade flutuante. qual se dá a luta pela manutenção ou superação das
Felizmente, alguns surdos conseguiram sobre- divisões sociais. Talvez seja por isso, por exemplo,
viver a toda essa relação de poder e lutaram muito que podemos falar de uma cultura surda. É den-
para estabelecer e defender a cultura surda, que é tro desse espaço que os sujeitos surdos passam a se
fundamental para a construção da identidade surda. identificar como sujeitos culturais.
Para isso, no mundo todo, o Movimento Surdo criou O estudo do mundo dos surdos mostra que as ca-
Associações de Surdos como uma resistência contra pacidades do homem - linguagem, pensamento, co-
a cultura dominante, contra a ideologia ouvintis- municação e cultura - não se desenvolvem de manei-
ta. Existe uma história de lutas na qual se procura ra automática, não se compõem apenas de funções
marcar, entre os próprios surdos e na sociedade em biológicas, mas também têm origem social e históri-
geral, discussões sobre a língua de sinais, a cultura ca. Essas capacidades são, como diz Sacks (1998), um
e as identidades surdas. Essa luta e as conquistas al- presente - o mais maravilhoso dos presentes - de uma
cançadas têm permitido que a cultura surda se for- geração para outra, reforçando a importância do gru-
taleça e, por causa disso, identidades surdas sejam po, da cultura surda para a construção da identidade
construídas. e desenvolvimento cognitivo do surdo.

28
EDUCAÇÃO FÍSICA

Para podermos compreender o que é “cultura língua a Língua de Sinais, uma língua visual, per-
surda”, é preciso estabelecer o que estamos conside- tencente à outra cultura que é também visual. A
rando como “cultura”. De acordo com o senso co- identidade surda se constrói dentro de uma cultura,
mum, existiria “A” cultura, no singular, se refere às visual. Essa é também a visão de Quadros e Karnopp
manifestações artísticas e às tradições de um povo, (2004, p. 10), para quem a cultura do povo surdo “é
representadas (e contadas) em lendas, festas, trajes visual, ela traduz-se de forma visual”.
típicos, ritos, comida e língua. Na história, constata-se que os surdos sofreram
Atualmente, os estudiosos admitem a existência perseguições pelas pessoas ouvintes, que não aceita-
de múltiplas culturas interagindo entre si, sendo pos- vam as diferenças e exigiam uma cultura única por
sível a multiplicidade de manifestações e grupos cul- meio do modelo ouvintista ou ouvintismo. São muitas
turais de naturezas diferentes, ampliando o conceito as lutas e histórias nas comunidades surdas, em que o
de cultura e permitindo falar de cultura no plural. povo surdo se une contra as práticas dos ouvintes que
De acordo com Strobel (2008, p.17): não respeitam a cultura surda (STROBEL, 2008).
Ainda hoje, muitos ouvintes tentam diminuir os
[...]a humanidade, ao longo do tempo, adquire surdos para que vivam isolados e assunam a cultura
conhecimento através da língua, crenças, hábi-
ouvinte, como se esta fosse uma cultura única; ser
tos, costumes, normas de comportamento den-
tre outras manifestações. Partindo do suposto “normal” para a sociedade significa ouvir e falar oral-
que cultura é a herança que o grupo cultural mente. Os ouvintes não prestam atenção aos surdos
transmite a seus membros através de aprendi- que se comunicam por meio da Libras. Consequen-
zagem e de convivência, percebe-se que cada temente, não acreditam que os surdos sejam capazes
geração e sujeito também contribuem para am-
de estudar em faculdade ou realizar mestrado e dou-
pliá-la e modificá-la.
torado, por exemplo. “Os sujeitos ouvintes veem os
Outro uso da palavra cultura está relacionado à agri- sujeitos surdos com curiosidade e, às vezes, zombam
cultura, ao cultivo da terra. Falamos em “cultura da por eles serem diferentes” (STROBEL, 2008, p. 22).
cana-de-açúcar”; “cultura de milho” etc. O termo cul- Ainda de acordo com Strobel (2008), os sur-
tura está tão relacionado à lavoura, que compõe lite- dos constituem uma comunidade que se caracteri-
ralmente o termo agriCULTURA. Considerando este za particularmente pela sua diferença linguística,
outro uso para a palavra cultura, Strobel (2008, p. 18) que gosta de interagir entre si, e “criam” espaços
afirma que “o cultivo da linguagem e da identidade para desenvolverem, em conjunto, diferentes ati-
são, então, elementos fundamentais de uma cultura”. vidades de educação, trabalho, esporte e lazer. Os
Mas não é fácil definir o que é cultura surda. espaços “dos surdos” são associações e clubes de
Para entender a cultura surda é necessário enxergar surdos, além de ambientes escolares e religiosos
o surdo como diferente e não deficiente. onde podem manifestar-se livremente em sua lín-
Segundo Perlin (2004), ser surdo é pertencer a gua e, constituindo, ao mesmo tempo, refúgio e
um mundo de experiência visual e não auditiva. E trincheira da língua de sinais, da identidade e da
viver uma experiência visual é ter como primeira cultura surda.

29
LIBRAS

Se não é fácil definir o que é a cultura surda, po- Para Strobel (2008, p. 24) “Cultura surda é
demos mostrar que ela existe e a sua presença pode o jeito de o sujeito surdo entender o mundo e de
ser confirmada pelas transformações culturais e co- modificá-lo a fim de torná-lo acessível e habitável,
tidianas dos surdos. Percebe-se que o sujeito surdo ajustando-o com suas percepções visuais”, que con-
está descentrado da cultura dominante e possui ou- tribuem para a definição das identidades surdas e
tra cultura. das ‘almas’ das comunidades surdas.
Apesar da luta constante da comunidade surda
Diante da comunidade majoritariamente ouvinte, pelo respeito e aceitação como grupo cultural dis-
as comunidades surdas apresentam suas próprias
condutas linguísticas e seus valores culturais.
tinto, ainda há uma dificuldade muito grande de de-
A comunidade surda tem uma atitude diferen- senvolvimento, da inclusão dos surdos com base no
te diante do déficit auditivo, já que não leva em respeito a suas diferenças. Há que se considerar, por
conta o grau de perda auditiva de seus membros. exemplo, que a maioria das crianças surdas (mais de
Pertencer à comunidade surda pode ser definido
90%) possui pais ouvintes, o que causa maiores difi-
pelo domínio da língua de sinais e pelos senti-
mentos de identidade grupal, fatores que consi- culdades na construção das identidades, pois os mo-
deram a surdez como uma diferença, e não como delos não estão dentro de casa. Além disso, a dificul-
uma deficiência (PEREIRA et al., 2011, p. 34). dade de comunicação entre pais e filhos surdos causa,
às vezes, problemas de ordem social e cognitiva.
Em seus espaços, em sua língua, da mesma forma
que acontece em qualquer comunidade minoritária,
os surdos compartilham valores, crenças, compor- REFLITA
tamentos e, constroem, preservam e difundem sua
cultura. Para Perlin (2004) a língua de sinais é uma Durante muito tempo os próprios surdos não
das maiores produções culturais dos surdos. compreenderam a importância da Língua de
Para Perlin (2004), cultura surda é a diferença Sinais para o processo de construção de sua
identidade cultural. Em sua opinião, esta si-
que contém a prática social dos surdos e que comu- tuação está mudando?
nica um significado. É o caso de ser surdo homem,
de ser surdo mulher, deixando evidências de identi-
dade, o predomínio da ordem, como, por exemplo, o
jeito de usar sinais, o jeito de ensinar e de transmitir
cultura, a nostalgia por algo que é dos surdos, o cari-
nho para com os achados surdos do passado, o jeito
de discutir a política, a pedagogia etc.

30
EDUCAÇÃO FÍSICA

Esses problemas poderiam ser minimizados se gua, conhecendo as semelhanças e diferenças entre
houvesse, por parte dos familiares ouvintes, dispo- as duas línguas, para ensinar japonês aos brasilei-
sição em assumir formas de comunicação e inter- ros, ou um brasileiro que aprendeu japonês como
venção que considerem mais as particularidades segunda língua?
da surdez do que as dificuldades inerentes à ausên- Há, ainda, as novas tecnologias, como centrais
cia de audição. Partindo disso, é fundamental que telefônicas, celular digital, porteiros luminosos,
instituições escolares, os pais, enfim, todos que es- facilidades para a vida dos surdos. Em algumas
tão perto da criança surda, preocupem-se em en- cidades, raros lugares estão fora do alcance da
tender o modo pelo qual ela se comunica, para que cultura surda, inclusive o preconceito está dimi-
as trocas possam existir de forma satisfatória para nuindo. Os surdos não estão mais escondidos, es-
ambas as partes. tão surgindo novas maneiras de ser surdo, com
Assim, em função da existência de barreiras na seu modo de comprar, olhar, comunicar, escolher,
comunicação entre o mundo surdo e o mundo ou- socializar.
vinte, existem dificuldades para o desenvolvimento É preciso e necessário, para um adequado desen-
cultural; por isso, é necessário que se construam volvimento tanto físico quanto psíquico dos surdos,
meios especiais para a sua realização, como, por que os ouvintes deixem de se considerar modelo de
exemplo, que os ouvintes conheçam a Libras. normalidade e percebam que diferença não significa
Por isso o Decreto 5626, que vamos estudar inferioridade.
na próxima unidade e que, na prática, vai permitir
que muitos mais ouvintes aprendam porque Libras Importa salientar a diferença das pessoas. Res-
peitá-las como surdas, índias, nômades, negras,
é tão importante para os surdos. Ele representa um
brancas... Importa deixar os surdos construí-
grande avanço para o desenvolvimento pleno do rem sua identidade, assinalarem suas fronteiras
surdo, e traz de volta os professores surdos que de- em posição mais solidária do que crítica.
sapareceram depois do Congresso de Milão. Com
A educação, ainda que já esteja saindo do do-
professores surdos, as crianças surdas terão mode- mínio do oralismo, tem que desaprender um
los para se identificar! grande número de preconceitos, entre eles o de
É importante que os ouvintes entendam a im- querer fazer do surdo um ouvinte.
portância do professor surdo e respeite esse espa- Novas hipóteses podem ser levantadas, novos
ço. É como se fosse ensinar japonês, o que seria achados são necessários. Entre eles sobressai a
melhor? Um japonês que conhece seu idioma na urgência de dizer que o surdo é sujeito surdo
(PERLIN, 1998, p. 72).
forma correta e tem o português como segunda lín-

31
LIBRAS

SAIBA MAIS

Para compreendermos melhor alguns concei-


tos abordados em nossa unidade:
Atualmente buscamos relacionar o processo educa-
Identidade surda: constitui-se no interior da
cional e as experiências culturais dos surdos, para
cultura surda. Está em situação de dependên-
que seu desenvolvimento alcance maior êxito. Como cia, de necessidade do outro surdo. As identida-
consequência, a discussão sobre as formas de aten- des surdas são multifacetadas, fragmentadas,
em constante mudança; jamais se encontra
ção às pessoas e aos grupos surdos tem sido deslo-
uma identidade mestra, um foco. Os surdos
cada do campo da educação especial para o campo passam a ser surdos por meio da experiência
antropológico, pois a educação deveria dar acesso visual, de adquirir certo jeito de ser surdo.
Diferença: por exemplo, se perguntarmos:
aos bens culturais de acordo com as características
porque os surdos querem escolas de Surdos? A
singulares decorrentes da surdez. resposta identifica a caminhada para a diferen-
Por isso, a inclusão escolar dos surdos precisa ça: “para tornarem-se sujeitos de sua história”,
saírem da exclusão, construírem sua identidade
ser bem discutida, pois a relação da surdez com em presença do outro surdo, para terem direito
as sociedades culturalmente ouvintes é constituí- à presença cultural própria.
da pelas barreiras de comunicação e participação. Língua de Sinais: uma das maiores produ-
ções culturais dos surdos refere-se a língua
Assim, o campo da surdez pode ser comparado de sinais. Os estudos mais recentes sobre ela
com uma situação de pobreza e, reclama da falta têm atestado a incomensurabilidade da sua
de acesso a uma educação de qualidade, condições riqueza linguística.
dignas de vida, informações adequadas e ao respei- Fonte: Perlin (1998, p. 53).
to a sua língua, cultura e identidade.

32
considerações finais

C
omeçamos esta primeira unidade pela história da educação dos surdos,
destacando que a decisão sobre qual deveria ser a melhor maneira de
educar esses sujeitos, ou seja, se a educação de surdos deveria ser sus-
tentada na oralização ou no uso de sinais foi, durante séculos, tomada
pelos ouvintes.
Como, para o ouvinte, ouvir e falar são fundamentais na interação social, os
profissionais (ouvintes) envolvidos com a Educação de Surdos, durante séculos
estabeleceram que o melhor para os surdos seria a oralização e o oralismo, como
abordagem educacional, chegando ao abuso ocorrido no Congresso de Milão,
com a proibição da utilização de sinais nas escolas.
Só recentemente os surdos puderam opinar sobre sua própria educação e op-
taram pelo ensino em língua de sinais. No caso do Brasil, pela educação bilín-
gue: Libras e Língua Portuguesa, essa última, preferencialmente na modalidade
escrita. Conquistaram este direito, razão pela qual os futuros professores agora
precisam aprender Libras.
É certo que a Libras é um conhecimento necessário que visa uma melhor
qualificação para o exercício profissional na Educação Básica, uma vez que,
com a implementação das propostas inclusivistas, a escola já vem recebendo
muitos surdos, os quais muitas vezes não conseguem prosseguir na sua esco-
larização porque o contexto escolar não atende às suas especificidades linguís-
ticas. Porém, apenas ter uma comunicação funcional em Libras no contexto
escolar não é suficiente para a atuação pedagógica com os surdos.
É importante também ter conhecimento sobre a história da educação de sur-
dos e sobre as diferentes abordagens educacionais criadas para os alunos com
surdez, pois estes conhecimentos permitem a compreensão da forte relação exis-
tente entre a especificidade linguística dos surdos, suas interações sociais e a for-
mação de sua identidade.
Conhecer os aspectos legais e as políticas públicas da educação de surdos tam-
bém é fundamental, razão pela qual são abordados em nossa próxima unidade.

33
atividades de estudo

1. Considerando a História da Educação dos Surdos, qual foi a conquista


mais importante para eles?

2. Estabeleça as diferenças entre as concepções de surdez dos defensores do


oralismo, da comunicação total e do bilinguismo.

3. Qual a importância da comunidade e da cultura surda para o desenvolvi-


mento das identidades surdas?

4. Em sua opinião, é importante para o professor de uma escola inclusiva


conhecer Libras? Por quê?

5. O século XVIII foi importantíssimo para a educação dos surdos graças à


atuação de três grandes educadores. Quais foram, qual sua nacionali-
dade, qual abordagem educacional seguiam e qual fato tinham em co-
mum, além de serem educadores de surdos?

34
LEITURA
COMPLEMENTAR

O texto a seguir foi publicado na revista ETD – Educação Temática Digital. Escolhemos alguns fragmentos, pois este é
um relato importantíssimo para o futuro professor.

A PRESENÇA DE UMA ALUNA SURDA EM UMA TURMA DE OUVINTES: POSSIBILIDADE DE (RE)PENSAR


A MESMIDADE E A DIFERENÇA NO COTIDIANO ESCOLAR
Carmen Sanches Sampaio

Investigo, em uma escola pública do Estado do Rio de pensar e o conhecer, no dia-a-dia da sala de aula, nessa
Janeiro, o processo alfabetizador experienciado por uma escola, como em tantas outras, são mediados pela ora-
turma formada por crianças ouvintes e uma criança sur- lidade, linguagem ainda privilegiada no processo de en-
da. sinar/aprender? Sua fala/pedido de socorro ecoava pela
A presença, nesta escola, de uma aluna surda tornou sala de reunião mediante o silêncio existente. A respon-
mais visível, para algumas professoras, a característica sabilidade pelo trabalho com essa aluna era, basicamen-
de toda sala de aula – a diferença. A surdez dessa aluna te, dela, professora de turma, pois as crianças que não
não pode ser ignorada e nem tão pouco facilmente apa- “acompanham a turma”, as que não aprendem e/ou não
gada como tantas outras diferenças constitutivas do es- se comportam de acordo com as expectativas da escola/
paço-tempo escolar. Seu modo de ser – alguém que não professoras, as que fogem dos padrões compreendidos
escuta e não se comunica através da linguagem oral – como “normais”, são selecionadas, destacadas e encami-
tem desafiado a escola a pensar e praticar outros modos nhadas para atendimentos “especiais” dentro e/ou fora
outros de se relacionar e compreender a alteridade. Nes- da escola. Com essa aluna não era diferente. A força da
se sentido, algumas questões têm surgido: como pensar armadilha que nos captura para a compreensão da dife-
uma escola que, de fato, reconheça as singularidades rença como deficiência é forte.
linguísticas e culturais, ao invés de apenas se propor a A professora que trabalha com a aluna surda, desde
incluir uma aluna surda? Como reconhecer politicamen- 2004, quando, juntas, começamos a investigar o proces-
te a surdez como diferença? so alfabetizador vivenciado por esta aluna e seus cole-
Em 2003, participando de um Conselho de Classe a fala, gas ouvintes, desenvolve uma ação alfabetizadora que
angustiada, de uma das professoras alfabetizadoras, investe na dialogicidade, na produção de textos escritos
chama minha atenção: “Eu não sei o que fazer [...] Há e orais, de modo que as crianças possam aprender a ler
quase dois anos estou com Carla. É muito difícil, para e a escrever usando, praticando e experienciando a lin-
mim, trabalhar com uma aluna surda! Como avaliar? Ela guagem escrita, procurando fugir de uma prática peda-
é uma criança alegre, se dá bem com todos os colegas, gógica que tem a memorização e a repetição como eixos
mas... A turma está lendo, menos ela”. do trabalho. Carla, provocada a participar das atividades
Como alfabetizar uma aluna que não ouve se o dizer, o realizadas, dentro e fora da sala de aula, foi evidenciando

35
LEITURA
COMPLEMENTAR

a subordinação do currículo ao ensino da oralidade e, ao os lábios) e de frente para professora surda ou uma das
mesmo tempo, foi instigando-nos a pensar e a compre- professoras da escola, usuária da língua de sinais, rea-
ender a surdez como uma experiência visual, embora se lizar a “tradução” das discussões em andamento. Mes-
comportasse como se ouvinte fosse, pois praticamente mo sem perceber, a própria professora surda e a aluna
não convivia com surdos. Várias vezes, quando solicitada bolsista, (que atuava como intérprete) por várias vezes,
a ler, lia emitindo sons incompreensíveis e se posicionan- se colocavam em uma posição física na sala de reuniões
do (desde segurar o papel ou livro, até o movimento com mais afastadas do grupo e fora da roda de discussão. In-
o corpo) como seus colegas ouvintes faziam. Em casa e clusive a própria professora surda ao ser solicitada a fa-
na escola usava gestos mímicos, desenhava, dramatiza- lar, por mais de uma vez resistiu alegando não ter o que
va, recorria à datilologia (dizia as palavras utilizando o dizer. Eu e Ana Paula, professora de Carla, insistimos e a
alfabeto manual em Língua de Sinais), usava sinais. Ela e provocamos para que participe efetivamente das discus-
os que com ela conviviam usavam de todos os recursos sões e estudos realizados, embora a língua pela qual se
possíveis de modo a garantir a comunicação. expressa e constrói conhecimentos não seja a língua dos
A pressão exercida junto a Gerência de Inclusão e equipe professores e profissionais ouvintes da escola.
técnico-pedagógica da escola garantiu, quase no final do A investigação com o cotidiano, a partir de uma perspec-
1º semestre do ano de 2005 a contratação de uma pro- tiva complexa, possibilita a percepção e o aprendizado
fessora surda para atuar nesta turma. de que a mesmidade da escola proíbe e não proíbe a dife-
A surpresa vivenciada por Carla foi evidente. [...] Intera- rença, pois a permanente tensão entre os conhecimentos,
gir com a professora surda, mais do que qualquer outra regulação e emancipação, presente no cotidiano escolar,
experiência vivida no cotidiano da escola, foi crucial para revela o confronto entre ações que legitimam relações
que começasse a se perceber como surda, pois foi o en- com o outro que, a todo momento, demonstram: está
contro surdo/surdo. mal ser o que se está sendo ou está bem ser o que nunca
A presença na escola de uma professora surda tem poderá ser e, ações com a alteridade que nos desafiam
evidenciado a dificuldade encontrada, pelas próprias a experienciar uma educação, uma relação pedagógica
professoras, em lidar com essa questão. Era comum, inspirada em dois princípios radicalmente novos: “não
em 2005, nas reuniões pedagógicas, se a aluna bolsis- está mal ser o que se é e não está mal ser além daquilo
ta, usuária da língua de sinais não estivesse presente, a que já se é”.
exclusão da professora surda. Inexistia a preocupação
em falar mais devagar (essa professora é oralizada e “lê”

36
EDUCAÇÃO FÍSICA

LIBRAS? Que língua é essa? Crenças e preconceitos em


torno da língua de sinais e da realidade surda
Audrei Gesser
Editora: Parábola, 2009
Sinopse: para complementar seus estudos sobre o tema, indicamos
o livro de autoria da doutora em linguística Audrei Gesser e profes-
sora da Unicamp. Esse livro é uma leitura obrigatória para quem
pretende conhecer um pouco do mundo surdo e dessa língua tão exótica, que é a Libras.
A própria autora insiste em dizer que muito do que ela traz aos leitores é o óbvio, mas que
ainda precisa ser dito. E, no prefácio do livro, Pedro Garcez complementa, “[...] precisa ser
dito para que mais ouvintes tenham conhecimento do rico universo humano que se faz nas
línguas de sinais, com as línguas de sinais, e particularmente com a Língua Brasileira de Si-
nais, essa LIBRAS que nos toca de perto, se soubermos escutar para vê-la”.

Biblioteca Virtual do INES – Instituto Nacional de Educação de Surdos


Ao acessar a Biblioteca Virtual do INES – Instituto Nacional de Educação de Surdos e clicar
em pesquisas bibliográficas, você encontrará muitas informações acerca de todo o conteúdo
dessa disciplina.
Acesse o link: <[Link]/Paginas/[Link]>. Acesso em: 19 jun. 2016.

37
referências

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Horizonte: Autêntica, 2002.
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FERREIRA-BRITO, L. Por uma gramática de Lín- da linguagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.
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QUADROS, R. M.; KARNOPP, L. B. Língua de si-
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GESSER, A. Libras? Que língua é essa?: crenças e Artes Médicas, 2004.
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REILY, L. Escola Inclusiva: Linguagem e mediação.
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GOLDFELD, M. A criança surda. São Paulo: Pexus,
1997. SACKS, O. Vendo vozes: uma viagem ao mundo dos
surdos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
LACERDA, C. B. F. Um pouco da história das dife-
rentes abordagens na educação dos surdos. Cad. CE- SÁNCHES, C. M. La increible y triste historia de la
DES, Campinas-SP, v.19, n. 46, set. 1998. sordera. Caracas: Editorial Ceprosord, 1990.

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surdo e agora? Introdução à Libras e educação de uma turma de ouvintes: possibilidade de (re)pensar
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– Educação Temática Digital, Campinas, v.7, n. 2, p.
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Referências On-Line

1
Em: <[Link] _de_Signos_
(Juan_Pablo_Bonet,_1620)_A.jpg>. Acesso em: 20 jun. 2016.

38
gabarito

1. A principal conquista dos surdos no que se refere à sua educação foi o


direito de ser educado em sua própria língua, a Libras.

2. Para os adeptos do oralismo, a surdez é uma deficiência, uma patologia


que precisa ser minimizada. Para os defensores da comunicação total, a
surdez é um estigma, uma marca com consequências sociais, e para os
que assumem o bilinguismo, a surdez é uma diferença linguística, uma
experiência visual.

3. A convivência com surdos adultos estabelece modelos para as crianças,


adolescentes e jovens surdos, colaborando para o desenvolvimento das
identidades surdas. A cultura surda, aqui entendida como a maneira do
surdo ver o mundo, também estabelece vínculos entre os iguais, favore-
cendo o desenvolvimento das identidades surdas.

4. Porque, em primeiro lugar, demonstra o respeito do professor pela identi-


dade do aluno surdo e, em segundo lugar, permite não apenas uma ação
pedagógica mais efetiva, mas também o estabelecimento de laços afetivos
essenciais para o sucesso da ação docente.

5. Foram os educadores: Samuel Heinecke, alemão e oralista; Charles Michell


de L’Epée, francês e precursor da adoção da Língua de Sinais; Thomas Brai-
dwood, inglês, adotava um método combinado, próximo à comunicação
total. Em comum, tinham o fato de que os três criaram, em seus países de
origem, escolas coletivas para surdos.

39
LEGISLAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E
RECURSOS TECNOLÓGICOS PARA A
EDUCAÇÃO DE SURDOS

Professora Dr.ª Clélia Maria Ignatius Nogueira


Professora Me. Marília Ignatius Nogueira Carneiro
Professora Esp. Beatriz Ignatius Nogueira Soares

Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta
unidade:
• Inclusão como princípio da Educação Especial
• A Legislação brasileira referente à educação de surdos
• A Educação de Surdos e as Políticas Públicas do Brasil
• Tecnologias de acessibilidade para a comunicação do
surdo

Objetivos de Aprendizagem
• Compreender a inclusão como princípio da Educação
Especial.
• Conhecer e refletir sobre a Legislação Educacional
brasileira referente aos surdos.
• Conhecer as Políticas Públicas para a educação dos surdos
brasileiros.
• Conhecer as novas tecnologias disponíveis para a
comunicação e educação dos surdos.
unidade

II
INTRODUÇÃO

E
m qualquer congresso, palestra, atividades de formação continu-
ada ou grupo de estudos destinados a professores da Educação
Básica, de maneira direta ou indireta, atualmente, se fala de es-
cola inclusiva. Embora a inclusão diga respeito a qualquer estu-
dante que encontra barreiras para aprender ou ter acesso ao que a escola
oferece - em qualquer momento da escolarização -, a maioria das pessoas
envolvidas ou não com a educação acredita que a escola inclusiva se destina
apenas àqueles com necessidades educativas especiais. A principal razão
para isso é que nessas crianças, as diferenças são mais específicas e exigem
ações pedagógicas igualmente específicas, para as quais os professores, em
geral, julgam estac cr despreparados.
Em uma escola inclusiva, todos são considerados iguais e têm o mesmo
valor. Assim, a escola que é inclusiva está em contínuo processo de mudan-
ça para se adaptar aos diferentes alunos que recebe, pois incluir significa
muito mais do que a simples presença física da criança na sala de aula. In-
felizmente, ainda não saímos do discurso para a prática, uma vez que nossa
escola pública continua excluindo os pobres, os culturalmente diferentes e,
principalmente, os que possuem necessidades educativas especiais.
Dentre os alunos com necessidades educativas especiais que encon-
tram maiores dificuldades nesse processo de inclusão estão os surdos, pois
o processo de ensinar e aprender ainda se sustenta quase que exclusivamen-
te na comunicação oral.
Como a comunicação oral é sensivelmente prejudicada, a educação de
surdos apresenta dificuldades e limitações, exigindo práticas pedagógicas
diferenciadas, que mudaram radicalmente ao longo dos anos.
Apresentamos nesta unidade a legislação e as Políticas Públicas brasi-
leiras para a Educação de Surdos, discutindo desde os princípios da educa-
ção especial que sustentam a proposta inclusiva até os principais recursos
tecnológicos que constituem parte da tecnologia assistiva para a educação
de surdos.
LIBRAS

Inclusão como Princípio


da Educação Especial

A
tualmente, as agências governamentais conhecimentos oferecidos pela escola. As dife-
e os especialistas recomendam a inclu- renças ocorrem em função de altas habilidades,
condutas típicas, deficiência física motora, vi-
são como a principal estratégia educa-
sual, auditiva, mental, bem como condições de
cional para as pessoas com deficiência. vida material precária (SHIMAZAKI; MORI,
Da maneira como são apresentadas as propostas de 2012, p. 31, GRIFOS NOSSOS).
inclusão, temos a impressão de que elas são re-
sultados apenas dos estudos científicos Observe que a LDB estabelece que
ou são “bondade” dos governantes. a Educação Especial deva ser
Isso não é verdade. A proposta ofertada, preferencialmente,
de inclusão que hoje ocupa na rede regular de ensino,
o centro das discussões da ou seja, a Educação Espe-
Educação Especial é resul- cial não se opõe à escola
tado de longas e difíceis regular. Existe um equí-
batalhas das pessoas com voco muito grande neste
deficiência ao longo da sentido, pois as pessoas
história. consideram que a escola
A Educação Especial é que não é especial, seria a
uma modalidade de educa- escola regular. Uma escola
ção escolar integrante da edu- é regular quando oferece o
cação geral direcionada a indiví- ensino seriado, isto é, todos (ou
duos com necessidades especiais. alguns) anos referentes à Educa-
ção Básica (Ensino Fundamental e Mé-
Educação Especial, segundo a Lei de Diretrizes dio). Temos escolas especiais que são regulares,
e Bases da Educação Nacional – lei 9394/96, é a
modalidade de educação escolar, oferecida pre-
como o Instituto Nacional de Educação de Surdos
ferencialmente na rede regular de ensino para (INES), especializado na educação de surdos ofe-
educandos que por possuírem necessidades rencendo ensino regular desde a Educação Infan-
próprias e diferentes dos demais alunos no do- til até o Ensino Superior. A modalidade de edu-
mínio das aprendizagens curriculares corres-
cação que se opõe ao ensino regular é o ensino
pondentes a sua idade, requer recursos pedagó-
gicos e metodologias educacionais específicas e supletivo, que se caracteriza por não ser seriado e
adaptadas para que possam apropriar-se dos sim concretizado por meio de componentes cur-

44
EDUCAÇÃO FÍSICA

riculares ou disciplinas isoladas. Assim, a educa- Apesar dessas interpretações equivocadas, o


ção de pessoas com deficiência pode ser realizada princípio da normalização foi muito importante
no Brasil em escolas regulares especiais, escolas para o desenvolvimento da Educação Especial.
comuns, escolas supletivas comuns, escolas suple- Novos estudos, realizados a partir do princípio da
tivas especializadas ou, como se pretende atual- Normalização, foram surgindo, fazendo com que
mente, em escolas inclusivas. as pessoas com deficiência, naquela época, cha-
Para compreender esta caminhada, iniciamos madas de excepcionais, fossem enxergadas com
pela caracterização da inclusão como princípio da direitos e deveres iguais, passando a “exigir” as
Educação Especial. Para isso, apresentamos, primei- mesmas condições de vida dos demais seres hu-
ramente, os princípios de Normalização e de Inte- manos.
gração, por serem os princípios dos quais teve ori- Na década de 1970, passou-se a falar em Integra-
gem a inclusão. ção como um novo princípio, o que foi questionado
O princípio de Normalização surgiu na Dina- pelos estudiosos. Para eles, Normalização era o obje-
marca, com uma lei de 1959 que estabelecia: “É ne- tivo e a Integração era o processo, ou seja, era como
cessário criar condições de vida para a pessoa re- se poderia alcançar a Normalização.
tardada mental semelhantes, tanto quanto possível, As crianças especiais passaram, a partir da
às condições normais da sociedade em que vive”. proposta de Integração, a frequentar, senão clas-
O espírito da lei se referia a criar condições ses comuns, pelo menos classes especiais em es-
normais da sociedade e não do indivíduo. Porém, colas comuns, embora, na maioria das vezes, com
a partir de diferentes interpretações, a maioria horários de entrada e de saída diferentes dos de-
equivocadas, passou-se a considerar que o prin- mais alunos.
cípio da normalização se aplicava à pessoa com As classes especiais não ofereciam escolariza-
deficiência e, assim, a Educação Especial buscava ção regular e era comum que estudantes, particu-
tornar a criança especial o mais normal possível. larmente os surdos, passassem anos em uma clas-
No caso específico da surdez, isso significava que se especial e quando deixavam a escola, depois de
o surdo deveria aprender a falar e, assim, o oralis- mais de dez anos de estudo, não recebiam nenhum
mo passou a ser a principal metodologia de traba- certificado, pois não se sabia qual “série” haviam
lho para com os surdos. concluído.

45
LIBRAS

Para se determinar o nível de escolaridade do tivos, quanto nos que se referem aos processos de
aluno surdo, era preciso submetê-lo a um exame ensino e de aprendizagem.
classificatório realizado pelas Secretarias Estaduais, Foi desses estudos e pesquisas que originou o
o que nem sempre acontecia. princípio da Inclusão, ou a proposta da escola inclu-
Quando isto acontecia, o surdo educado segun- siva que estamos vivenciando atualmente.
do o oralismo e sem acesso a tratamentos fonoau- De maneira bastante ampla, podemos dizer que
diológicos e a uma prótese adequada, dificilmente quando se trata de inclusão, o que se preconiza é que
conseguia certificação além dos anos iniciais do a sociedade, de maneira geral, e a escola, de manei-
Ensino Fundamental. A situação era tão desanima- ra particular, necessitam se modificar para receber a
dora que se dizia que uma criança surda entrava criança especial em seu meio.
na educação pela porta da classe especial e nunca No que se refere à surdez: garantia de currículo
mais saía. adaptado; critério diferenciado para a correção de
Entretanto, a prática da Integração, com todas as provas discursivas e de Língua Portuguesa; conhe-
suas dificuldades e problemas, foi importante para cimento de Libras para uma comunicação funcional
fazer surgir novos estudos e pesquisas no campo da por parte dos professores e a presença do intérprete
Educação Especial, tanto nos aspectos administra- de Libras.

46
EDUCAÇÃO FÍSICA

A Legislação Brasileira
Referente à Educação de
Surdos

Veja que, cada vez mais, os estudos na área da Edu- ticipação da família é fundamental para o sucesso do
cação Especial apontam a relevância da parceria seu trabalho e, ainda mais, precisam entender qual é
família-profissional, não só do ponto de vista da o seu papel nesse processo.
promoção do desenvolvimento da pessoa com ne- A principal maneira de se conseguir a partici-
cessidades especiais, mas também como suporte so- pação da família na educação da criança especial é
cial para todos os envolvidos. Todavia, os mesmos firmando parceria entre esta, a escola e a sociedade.
estudos que apontam para a importância da parce- Essa não é uma tarefa fácil, e cabe ao professor inter-
ria família-escola, apontam para a dificuldade de se mediar para que a família se aproxime da escola e se
conseguir o envolvimento ideal, tendo como um dos sinta segura nessa aproximação.
principais motivos a “distância” dos profissionais da De fato, o professor é o agente principal dessa
Educação Especial em relação à família. Distancia- parceria e deve ser capaz de orientar os pais sobre a
mento este, na maioria das vezes, inconsciente. deficiência de seu filho, sobre os programas de aten-
Os profissionais, de maneira geral, e os professo- dimento disponíveis, sejam eles educacionais, de
res, em particular, precisam ter clareza de que a par- saúde, psicologia ou assistência social.

47
LIBRAS

CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988

É de responsabilidade do professor, a orientação A Constituição Brasileira de 1988 é considerada


sobre a atuação da família em toda a vida do filho uma das mais avançadas do mundo no que se re-
com necessidades especiais, daí a necessidade do fere aos Direitos Humanos, e pode ser considerada
professor conhecer a legislação e as políticas públi- um instrumento eficaz na contemplação de espe-
cas que contemplam os surdos. cificidades referentes a gênero, raça, cor, idade e
Outro fator fundamental para que os professores deficiência, com o estabelecimento de garantias de
conheçam a legislação acerca dos direitos dos surdos direitos específicos e diferenciados. Os artigos da
é que, muitas vezes, são estes os únicos profissionais Constituição Federal que mais nos interessam são
aos quais a família tem acesso que, além de possuí- o 205 e 208.
rem o conhecimento teórico-prático, estão de posse
da serenidade emocional que as famílias demoram a Art. 205 – A educação, direito de todos e de-
ver do Estado e da família, será promovida e
conseguir quando se deparam com o imprevisto da
incentivada com a colaboração da sociedade,
chegada de uma criança com necessidades especiais visando o pleno desenvolvimento da pessoa,
na família. seu preparo para o exercício da cidadania e sua
Só recentemente passamos a ter legislação des- qualificação para o trabalho. [...]
tinada especificamente aos surdos. A maioria da Art. 208: III – Atendimento educacional espe-
legislação brasileira referente às garantias de direi- cializado aos portadores de deficiência, prefe-
tos à educação, saúde, trabalho, acessibilidade etc. rencialmente na rede regular de ensino;
não contemplam diretamente os surdos, mas sim IV – 1º - O acesso ao ensino obrigatório e gra-
a totalidade das pessoas com deficiência, indepen- tuito é direito público e subjetivo.
dentemente de suas particularidades, muitas vezes
V – Acesso aos níveis mais elevados de ensino,
gerando tensão entre os diferentes segmentos que da pesquisa e da criação artística, segundo a ca-
constituem esse conjunto de pessoas. pacidade de cada um.
Apresentamos, a seguir, trechos ou comentá-
rios acerca da legislação educacional brasileira que LEI Nº 7.853 DE 1989
contempla os direitos dos surdos, particularmen-
te aquelas referentes à Educação. Começamos pela Nesta lei, há previsão de matrícula compulsória
Constituição Federal de 1988, considerada um mar- (obrigatória) em cursos regulares de estabelecimen-
co no que se refere aos direitos humanos no Brasil, e tos públicos e particulares de pessoa com deficiência
terminamos com a apresentação da Lei 13.146/2015, capaz de se integrar no sistema regular de ensino.
a Lei Brasileira de Inclusão da pessoa com Deficiên- Estabelece, ainda, que é crime recusar, suspender,
cia ou Estatuto da Pessoa com Deficiência, passan- adiar, cancelar ou fazer cessar, sem justa causa, a
do pela discussão do Decreto 5.626, de 2005, res- inscrição de aluno em estabelecimento de ensino
ponsável pela inclusão da disciplina de Libras nos de qualquer curso ou grau, público ou privado, por
currículos dos cursos de licenciatura. motivos derivados da deficiência que este porte.

48
EDUCAÇÃO FÍSICA

LEI 9.394 DE 1996 – LEI DE DIRETRIZES E


BASES DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA

Esta lei define as diretrizes para educação nacional bra- exigências a ser cumprida são as condições de acesso
sileira e, no que se refere aos educandos com necessida- (concurso vestibular) e de permanência de pessoas
des especiais, estabelece que o estado brasileiro garanta: com deficiência nos cursos superiores.

Art. 4º - III – atendimento educacional espe- LEI FEDERAL Nº 10.098, DE 2000


cializado aos portadores de deficiência, prefe-
rencialmente na rede regular de ensino. [...]
Estabelece normas gerais e critérios básicos para a
Art. 58: Entende-se por educação especial, para promoção da acessibilidade das pessoas portadoras
efeitos desta Lei, a modalidade de educação es-
de deficiência ou com mobilidade reduzida, median-
colar oferecida preferencialmente na rede re-
gular de ensino, para educandos portadores de te a supressão de barreiras e de obstáculos nas vias e
necessidades especiais. [...] espaços públicos, no mobiliário urbano, na constru-
ção e reforma de edifícios e nos meios de transporte
Art. 60: Os órgãos normativos dos sistemas de
ensino estabelecerão critérios de caracteriza- e de comunicação.
ção das instituições privadas sem fins lucrati- Entende-se por acessibilidade, a possibilidade e
vos, especializadas e com atuação exclusiva em condição de alcance para utilização, com segurança
educação especial, para fins de apoio técnico e
e autonomia, dos espaços, mobiliários e equipamen-
financeiro pelo Poder Público.
tos urbanos, das edificações, dos transportes e dos
Parágrafo Único: O Poder Público adotará, sistemas e meios de comunicação, por pessoa por-
como alternativa preferencial, a ampliação do
tadora de deficiência ou com mobilidade reduzida.
atendimento aos educandos com necessidades
especiais na própria rede pública regular de en- É importante destacar o capítulo VII, artigos 17,
sino, independentemente do apoio às institui- 18 e 19, que tratam especificamente da acessibili-
ções previstas neste artigo. dade nos sistemas de comunicação e sinalização, e
abordam o direito à informação das pessoas surdas.
PORTARIA Nº 1.679 DE 2 DE DEZEMBRO
DE 1999 LEI FEDERAL Nº 10.436, DE 24 DE ABRIL
DE 2002
Dispõe sobre os requisitos de acessibilidade a pes-
soas portadoras de deficiência para instruir proces- Esta lei oficializou a Língua Brasileira de Sinais – Li-
sos de autorização e de reconhecimento de cursos e bras. A partir dessa lei, não mais se escreve a palavra
credenciamento de instituições de ensino superior. Libras com todas as letras maiúsculas como se fazia
A partir dessa portaria, para que uma Instituição anteriormente, quando ela representava uma sigla:
de Ensino Superior tenha autorização de funciona- LÍngua BRAsileira de Sinais – LIBRAS. Nessa lei,
mento para qualquer curso de graduação e mesmo também estão estabelecidas as condições que carac-
o reconhecimento de cursos já autorizados, uma das terizam uma escola inclusiva para surdos.

49
LIBRAS

A essência das disposições federais contidas nes- da, sua capacidade, identidade e formação. Essa lei
sa lei está distribuída em quatro artigos: reconhece não somente que a Libras é uma Língua
e que como tal deve ser respeitada, mas que a comu-
Art. 1º: É reconhecida como meio legal de co- nidade surda, sua cultura e sua identidade também
municação e expressão a Língua Brasileira de
devem ser respeitadas.
Sinais – Libras e outros recursos de expressão a
ela associados. As leis da acessibilidade, de 2000, e a da Libras,
de 2002 foram regulamentadas pelos Decretos 5296
Parágrafo único. Entende-se como Língua Bra-
de 2004 e pelo Decreto nº 5.626 de 2005.
sileira de Sinais - Libras a forma de comunica-
ção e expressão, em que o sistema linguístico de
natureza visual-motora, com estrutura grama- DECRETO FEDERAL Nº 5296 DE 2004
tical própria, constitui um sistema linguístico
de transmissão de ideias e fatos, oriundos de Apesar deste Decreto, que regulamenta a Lei 10.098,
comunidades de pessoas surdas do Brasil.
de 19 de dezembro de 2000, que estabelece normas
Art. 2º: Deve ser garantido, por parte do poder gerais e critérios básicos para a promoção da acessi-
público em geral e empresas, concessionárias
bilidade não se referir especificamente à educação,
de serviços públicos, formas institucionalizadas
de apoiar o uso e difusão da Língua Brasileira destacamos os artigos 5º e 6 º. No primeiro está esta-
de Sinais - Libras como meio de comunicação belecido quem são as pessoas com surdez, que nes-
objetiva e de utilização corrente das comunida- te Decreto voltam a ser denominadas de deficientes
des surdas do Brasil. auditivas e a ter sua caracterização estabelecida pelo
Art. 3º: As instituições públicas e empresas con- modelo médico, em contraposição aos avanços con-
cessionárias de serviços públicos de assistência à quistados com a Lei da Libras, de 2002, que caracte-
saúde devem garantir atendimento e tratamento riza a surdez como experiência visual. No artigo 6º
adequado aos portadores de deficiência auditi-
va, de acordo com as normas legais em vigor. determina-se como deve ser o atendimento priori-
tário para pessoas com deficiência (conforme esta-
Art. 4º: O sistema educacional federal e os sis-
belecido na Lei 10.048, de 8 de novembro de 2000):
temas educacionais estaduais, municipais e do
Distrito Federal devem garantir a inclusão nos
cursos de formação de educação Especial, de Art. 5o Os órgãos da administração pública di-
Fonoaudiologia e de Magistério, em seus níveis reta, indireta e fundacional, as empresas pres-
médio e superior, do ensino da Língua Brasi- tadoras de serviços públicos e as instituições
leira de Sinais - Libras, como parte integrante financeiras deverão dispensar atendimento
dos Parâmetros Curriculares Nacionais - PCNs, prioritário às pessoas portadoras de deficiência
conforme legislação vigente. ou com mobilidade reduzida.

Parágrafo único. A Língua Brasileira de Sinais §1o Considera-se, para os efeitos deste Decre-
(Libras) não poderá substituir a modalidade es- to: I - pessoa portadora de deficiência, além
crita da língua portuguesa. daquelas previstas na Lei no 10.690, de 16 de
junho de 2003, a que possui limitação ou in-
capacidade para o desempenho de ativida-
A Lei nº. 10.436/2002 marca o início de uma nova de e se enquadra nas seguintes categorias:
e promissora era no que diz respeito à pessoa sur-

50
EDUCAÇÃO FÍSICA

[...] b) deficiência auditiva: perda bilateral, par- to que torna obrigatório o ensino de Libras para os
cial ou total, de quarenta e um decibéis (dB) ou futuros professores e para os fonoaudiólogos. Des-
mais, aferida por audiograma nas frequências
tacamos, a seguir, de forma resumida, a essência das
de 500Hz, 1.000Hz, 2.000Hz e 3.000Hz
disposições contidas no Decreto 5.626.
[...] Art. 6o O atendimento prioritário compre- • A Libras deve ser inserida como disciplina
ende tratamento diferenciado e atendimento
curricular obrigatória nos cursos de forma-
imediato às pessoas de que trata o art. 5o.
ção de professores para o exercício do magis-
§1o O tratamento diferenciado inclui, den- tério, em nível médio e superior, e nos cursos
tre outros: III - serviços de atendimento para de Fonoaudiologia, de instituições de ensino,
pessoas com deficiência auditiva, prestado por públicas e privadas, do sistema federal de en-
intérpretes ou pessoas capacitadas em Língua sino e dos sistemas de ensino dos Estados, do
Brasileira de Sinais - LIBRAS e no trato com
Distrito Federal e dos Municípios.
aquelas que não se comuniquem em LIBRAS,
e para pessoas surdocegas, prestado por guias- • Todos os cursos de licenciatura, nas diferen-
-intérpretes ou pessoas capacitadas neste tipo tes áreas do conhecimento, o curso normal de
de atendimento. nível médio, o curso normal superior, o curso
de Pedagogia e o curso de Educação Especial
Além de retroceder na denominação e definição das são considerados cursos de formação de pro-
pessoas com surdez, o Decreto 5296 de 2004, também fessores e profissionais da educação para o
continua utilizando a grafia da Libras, com maiús- exercício do magistério.
culas, como uma sigla, não considerando a substan- • A Libras constituir-se-á em disciplina curri-
cular optativa nos demais cursos de educação
tivação procedida pela Lei da Libras. Estes fatos de-
superior e na educação profissional, a partir
monstram que nem sempre os especialistas em surdez
de um ano da publicação deste Decreto.
participam da elaboração da legislação e das políticas
públicas destinadas a este segmento da população. O ensino da modalidade escrita da Língua Portu-
guesa, como segunda língua para pessoas surdas,
DECRETO FEDERAL Nº 5.626 DE 2005 deve ser incluído como disciplina curricular nos
cursos de formação de professores para a educação
Para os fins deste Decreto, considera-se pessoa sur- infantil e para os anos iniciais do ensino fundamen-
da aquela que, por ter perda auditiva, compreende e tal, de nível médio e superior, bem como nos cursos
interage com o mundo por meio de experiências vi- de licenciatura em Letras com habilitação em Lín-
suais, manifestando sua cultura principalmente pelo gua Portuguesa.
uso da Língua Brasileira de Sinais - Libras. O Decreto nº 5.626 estabelece ainda que as insti-
O Decreto 5.626 estabelece o que é preciso fazer tuições federais de ensino devam garantir, obrigato-
que a abordagem bilíngue seja adotada nas escolas riamente, às pessoas surdas, acesso à comunicação,
públicas e particulares do país. Define ainda que es- informação e educação nos processos seletivos, ati-
cola ou classe bilíngue são aquelas em que a Libras e vidades e conteúdos curriculares desenvolvidos em
a modalidade escrita da Língua Portuguesa sejam as todos os níveis, etapas e modalidades de educação,
línguas utilizadas no ensino. Também é este Decre- desde a educação infantil até à superior.

51
LIBRAS

A programação visual dos cursos de nível mé- físico, ao transporte, à informação e comunicação,
dio e superior, preferencialmente os de formação de inclusive aos sistemas e tecnologias da informação e
professores, na modalidade de educação a distân- comunicação, bem como a outros serviços e instala-
cia, deve dispor de sistemas de acesso à informação ções abertos ao público ou de uso público, tanto na
como janela com tradutor e intérprete de Libras - zona urbana como na rural.
Língua Portuguesa e subtitulação por meio do sis- No que se refere ao direito à informação temos
tema de legenda oculta, de modo a reproduzir as uma manifestação explícita de inclusão quando es-
mensagens veiculadas às pessoas surdas. tabelece que cabe ao Estado:
• Aceitar e facilitar, em trâmites oficiais, o uso
DECRETO 6.949 DE 2009 de línguas de sinais, Braille, comunicação au-
mentativa e alternativa, e de todos os demais
Quando o Brasil participa de algum evento interna- meios, modos e formatos acessíveis de comu-
nicação, à escolha das pessoas com deficiência.
cional e assina o documento resultante das discus-
• Garantia de que a educação de pessoas, em
sões, para que o compromisso assumido pelo país
particular crianças cegas, surdocegas e sur-
tenha força de Lei, é necessário de que o documento
das, seja ministrada nas línguas e nos modos e
seja aprovado pelo Congresso Nacional e seja san- meios de comunicação mais adequados ao in-
cionado pela Presidência da República. O Decreto divíduo e em ambientes que favoreçam ao má-
6.949 de 2009, da Presidência da República, promul- ximo seu desenvolvimento acadêmico e social.
ga a Convenção Internacional sobre os Direitos das
Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, A fim de contribuir para o exercício desse direito, os
assinados em Nova York, em 30 de março de 2007. Estados Partes tomarão medidas apropriadas para
O entendimento do que são pessoas com defi- empregar professores, inclusive professores com
ciência avançou muito com esta convenção, trans- deficiência, habilitados para o ensino da língua de
ferindo o foco das dificuldades do indivíduo para sinais e/ou do Braille, e para capacitar profissionais e
as condições do entorno em que ele vive, a saber: equipes atuantes em todos os níveis de ensino.
pessoas com deficiência são aquelas que têm impe- Apesar da Política Nacional de Educação, em
dimentos de longo prazo de natureza física, mental, especial na perspectiva inclusiva, ter sido estabele-
intelectual ou sensorial, os quais, em interação com cida em 2008, portanto um ano anterior ao Decreto
diversas barreiras, podem obstruir sua participa- 6949, que é de 2009, ela foi orientada pela Conven-
ção plena e efetiva na sociedade em igualdade de ção, que aconteceu em 2007.
condições com as demais pessoas.
A fim de possibilitar às pessoas com deficiência DECRETO 7.611, DE 2011
viver de forma independente e participar plena-
mente de todos os aspectos da vida, os Estados Par- A promulgação deste decreto contou com intensa
tes tomarão as medidas apropriadas para assegurar participação da comunidade surda, mediante a FE-
às pessoas com deficiência o acesso, em igualdade NEIS, seu órgão representativo. Este decreto estabe-
de oportunidades com as demais pessoas, ao meio lece as diretrizes que normatizam o dever do Estado

52
EDUCAÇÃO FÍSICA

para com a população-alvo da educação especial, ga- crianças, adolescentes, adultos e idosos gostariam
rantindo a manutenção de apoio técnico e financei- de ter seus direitos garantidos da mesma forma
ro pelo Poder Público às escolas especializadas, que que os demais indivíduos. Assim, por exemplo,
estavam sob a iminência de extinção em função da no ECA deveriam estar estabelecidos os direitos
proposta inclusiva. O Decreto, no parágrafo 2º do da criança e do adolescente com deficiência, as-
artigo 1º garante todas as diretrizes e princípios dis- sim como em toda legislação e políticas públicas
postos no decreto 5.626 de 2005. brasileiras.
No que se refere especificamente à educação, a
LEI 13.146 DE 2015 Lei 13.146 de 2015, em seus artigos 27 e 28, preco-
niza o atendimento na perspectiva inclusiva, mas ga-
Esta Lei, que institui a Lei Brasileira de Inclusão da rante aos surdos, no inciso IV do art. 28, o direito
Pessoa com Deficiência (Estatuto das Pessoas com de estudar em escolas bilíngues, ou seja, as escolas
Deficiência), deixa claro quais são os direitos das especializadas. Destacamos, também, o que se refe-
pessoas com deficiência e quais os deveres que o re ao desenvolvimento de tecnologias assistivas, pela
Estado (aqui entendidos como os poderes públicos importância que elas assumem na educação de sur-
Federal, Estadual e Municipal) tem para com esta dos, razão pela qual, finalizamos esta unidade com
parcela da população. um texto sobre este tema.
Para se constituir em Lei, o projeto do Estatu-
to das Pessoas com Deficiência tramitou por mui- Art. 27. A educação constitui direito da pes-
soa com deficiência, assegurados sistema
tos anos, uma vez que não havia unanimidade nem
educacional inclusivo em todos os níveis e
mesmo entre as pessoas com deficiência sobre a aprendizado ao longo de toda a vida, de for-
pertinência deste documento. Para os defensores do ma a alcançar o máximo desenvolvimento
Estatuto, um documento específico que daria mais possível de seus talentos e habilidades físicas,
visibilidade às pessoas com deficiência, além de faci- sensoriais, intelectuais e sociais, segundo suas
características, interesses e necessidades de
litar ações reivindicatórias de seus direitos, pois es-
aprendizagem.
tariam todos condensados em um único documen-
to, sem necessidade de se recorrer ao conjunto de Parágrafo único. É dever do Estado, da famí-
lia, da comunidade escolar e da sociedade as-
leis estabelecidas. segurar educação de qualidade à pessoa com
Para outros, o Estatuto deixaria explícito a deficiência, colocando-a a salvo de toda forma
exclusão desse segmento do conjunto das demais de violência, negligência e discriminação.
pessoas da sociedade. Isto porque, enquanto o Art. 28. Incumbe ao poder público assegurar,
ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente e o criar, desenvolver, implementar, incentivar,
Estatuto do Idoso se remetem a cidadãos em fases acompanhar e avaliar:
específicas de sua vida, ou seja, os que ainda exer- [...] IV - oferta de educação bilíngue, em Libras
cerão plenamente seus direitos em sua fase adulta como primeira língua e na modalidade escrita
e os que buscam a extensão de seus direitos para da língua portuguesa como segunda língua, em
a velhice, as pessoas com deficiência, enquanto escolas e classes bilíngues e em escolas inclusivas;

53
LIBRAS

[...] VI - pesquisas voltadas para o desenvolvi- II - disponibilização de formulário de inscrição


mento de novos métodos e técnicas pedagógi- de exames com campos específicos para que o
cas, de materiais didáticos, de equipamentos e candidato com deficiência informe os recursos
de recursos de tecnologia assistiva; de acessibilidade e de tecnologia assistiva ne-
cessários para sua participação;
VII - planejamento de estudo de caso, de elabo-
ração de plano de atendimento educacional espe- III - disponibilização de provas em formatos
cializado, de organização de recursos e serviços de acessíveis para atendimento às necessidades es-
acessibilidade e de disponibilização e usabilidade pecíficas do candidato com deficiência;
pedagógica de recursos de tecnologia assistiva;
IV - disponibilização de recursos de acessibili-
[...] XI - formação e disponibilização de profes- dade e de tecnologia assistiva adequados, pre-
sores para o atendimento educacional especia- viamente solicitados e escolhidos pelo candida-
lizado, de tradutores e intérpretes da Libras, de to com deficiência;
guias intérpretes e de profissionais de apoio;
V - dilação de tempo, conforme demanda apre-
XII - oferta de ensino da Libras, do Sistema sentada pelo candidato com deficiência, tanto
Braille e de uso de recursos de tecnologia assis- na realização de exame para seleção quanto nas
tiva, de forma a ampliar habilidades funcionais atividades acadêmicas, mediante prévia solici-
dos estudantes, promovendo sua autonomia e tação e comprovação da necessidade;
participação;
VI - adoção de critérios de avaliação das provas
[...] § 2o Na disponibilização de tradutores e escritas, discursivas ou de redação que conside-
intérpretes da Libras a que se refere o inciso XI do rem a singularidade linguística da pessoa com
caput deste artigo, deve-se observar o seguinte: deficiência, no domínio da modalidade escrita
da língua portuguesa;
I - os tradutores e intérpretes da Libras atuantes
na educação básica devem, no mínimo, possuir VII - tradução completa do edital e de suas re-
ensino médio completo e certificado de profici- tificações em Libras.
ência na Libras;

II - os tradutores e intérpretes da Libras, quando O acesso à comunicação e informação, é estabeleci-


direcionados à tarefa de interpretar nas salas de do em um capítulo específico da Lei 13.146 de 2015,
aula dos cursos de graduação e pós-graduação,
destacamos os artigos que interessam diretamente
devem possuir nível superior, com habilitação,
prioritariamente, em Tradução e Interpretação ao surdo:
em Libras.[...]
Art. 66. Cabe ao poder público incentivar a
[...] Art. 30. Nos processos seletivos para in-
oferta de aparelhos de telefonia fixa e móvel ce-
gresso e permanência nos cursos oferecidos pe-
lular com acessibilidade que, entre outras tec-
las instituições de ensino superior e de educação
nologias assistivas, possuam possibilidade de
profissional e tecnológica, públicas e privadas,
indicação e de ampliação sonoras de todas as
devem ser adotadas as seguintes medidas:
operações e funções disponíveis.
I - atendimento preferencial à pessoa com de-
Art. 67. Os serviços de radiodifusão de sons
ficiência nas dependências das Instituições de
e imagens devem permitir o uso dos seguintes
Ensino Superior (IES) e nos serviços;
recursos, entre outros:

54
EDUCAÇÃO FÍSICA

I - subtitulação por meio de legenda oculta; Art. 71. Os congressos, os seminários, as ofici-
nas e os demais eventos de natureza científico-
II - janela com intérprete da Libras; -cultural promovidos ou financiados pelo poder
III - audiodescrição. público devem garantir as condições de acessi-
bilidade e os recursos de tecnologia assistiva.
Art. 68. O poder público deve adotar meca-
Art. 72. Os programas, as linhas de pesquisa e
nismos de incentivo à produção, à edição, à
os projetos a serem desenvolvidos com o apoio
difusão, à distribuição e à comercialização de
de agências de financiamento e de órgãos e enti-
livros em formatos acessíveis, inclusive em
dades integrantes da administração pública que
publicações da administração pública ou fi-
atuem no auxílio à pesquisa devem contemplar
nanciadas com recursos públicos, com vistas
temas voltados à tecnologia assistiva.
a garantir à pessoa com deficiência o direito
de acesso à leitura, à informação e à comuni- Art. 73. Caberá ao poder público, diretamente
cação. ou em parceria com organizações da socieda-
de civil, promover a capacitação de tradutores
§ 1o Nos editais de compras de livros, inclusive
e intérpretes da Libras, de guias intérpretes e de
para o abastecimento ou a atualização de
profissionais habilitados em Braille, audiodes-
acervos de bibliotecas em todos os níveis e
crição, estenotipia e legendagem.
modalidades de educação e de bibliotecas pú-
blicas, o poder público deverá adotar cláusulas
de impedimento à participação de editoras que
O capítulo III da Lei 13.146 de 2015 aborda a tec-
não ofertem sua produção também em forma-
tos acessíveis. nologia assistiva, estabelecendo a garantia de acesso
da pessoa com deficiência a produtos, recursos, es-
§ 2o Consideram-se formatos acessíveis os
arquivos digitais que possam ser reconhecidos
tratégias, práticas, processos, métodos e serviços de
e acessados por softwares leitores de telas tecnologia assistiva que maximizem sua autonomia,
ou outras tecnologias assistivas que vierem mobilidade pessoal e qualidade de vida, mediante,
a substituí-los, permitindo leitura com voz por exemplo, o acesso a crédito especializado sub-
sintetizada, ampliação de caracteres, diferentes
sidiado para a aquisição individual desses recursos.
contrastes e impressão em Braille.
Finalmente, o resumo da legislação aqui apre-
§ 3o O poder público deve estimular e apoiar sentado teve a intenção de informar o futuro pro-
a adaptação e a produção de artigos científicos
em formato acessível, inclusive em Libras.[...]
fessor e de destacar que, atualmente, são muitas as
ações governamentais que buscam melhorar a edu-
Art. 70. As instituições promotoras de con-
cação e a vida social dos surdos.
gressos, seminários, oficinas e demais eventos
de natureza científico-cultural devem oferecer Por isso, já podemos imaginar, em um futuro não
à pessoa com deficiência, no mínimo, os recur- muito distante, um mundo em que a diferença linguís-
sos de tecnologia assistiva previstos no art. 67 tica não seja mais considerada uma deficiência, mas
desta Lei. como particularidade que não diminui a pessoa surda.

55
LIBRAS

A Educação de Surdos
e as Políticas Públicas
do Brasil

U
m dos discursos educacionais atuais governo de D. Pedro II criou o Instituto Nacional
é o da inclusão, e uma das discussões de Surdos-Mudos no Rio de Janeiro, atual Instituto
mais presentes quando se fala de atitu- Nacional de Educação do Surdo (INES), que ado-
des “politicamente corretas” tava a língua de sinais.
são as que abordam a diversidade cultu- Essa escola foi fundada
ral e social de indivíduos e por Ernest Huet – profes-
grupos. Respeitar as di- sor surdo francês que
ferenças se tornou mais chegou ao Brasil com
do que um objetivo a ser o objetivo de aqui ini-
alcançado, passou a ser ciar a educação dos sur-
estratégia nas políticas dos. Porém, seguindo a
públicas educacionais tendência determina-
brasileiras. da pelo Congresso de
Se conhecer a Legis- Milão (1880), em 1911,
lação acerca da educação o INES estabeleceu o
de surdos no Brasil é funda- oralismo como método
mental para o professor orien- de educação dos surdos. Atu-
tar seus alunos e familiares, conhe- almente, a filosofia educacional
cer as políticas públicas educacionais adotada pelo INES é o bilinguismo.
para o surdo brasileiro cumpre tam- Com a promulgação da Consti-
bém esta função. Além disso, esse co- tuição Federal de 1988, na qual, em
nhecimento é importante para que o diferentes artigos, são garantidos os
professor possa reivindicar melhores direitos das pessoas com deficiên-
condições de trabalho. cia, foram propostas políticas para que a atuação
A primeira política pública para a educação dos dos diferentes órgãos governamentais pudesse es-
surdos em nosso país pode ser considerada a Deci- tar em conformidade com os dispositivos consti-
são Imperial de 26 de setembro de 1857, quando o tucionais.

56
EDUCAÇÃO FÍSICA

POLÍTICA NACIONAL DE EDUCAÇÃO ES- PROGRAMA NACIONAL DE APOIO À


PECIAL DE 1994 EDUCAÇÃO DE SURDOS - 2001

Nesse documento, aparecem, pela primeira vez de No cenário de reformas e propostas educacionais,
forma explícita, propostas de apoio à utilização da temos o Programa Nacional de Apoio à Educação
Língua Brasileira de Sinais (Libras), na educação de de Surdos, que foi o resultado de uma proposição
alunos surdos e incentivo à oficialização da Libras. da SEESP/MEC e Secretarias de Estado da Educação
e Secretarias Municipais de Educação (das capitais)
LEI Nº 10.172/01 – PLANO NACIONAL DE visando à melhoria da educação de alunos surdos
EDUCAÇÃO matriculados no Ensino Fundamental. Um de seus
focos de trabalho foi a formação de professores ou-
O Plano Nacional de Educação estabelece vinte e vintes para o uso da Libras.
sete objetivos e metas para a educação das pessoas O Programa Nacional de Apoio à Educação dos
com necessidades educativas especiais. Sintetica- Surdos buscava atender aos 50 mil estudantes sur-
mente, essas metas tratam: dos matriculados no Ensino Fundamental naquele
• Das ações preventivas na área visual e audi- momento e possuía três metas:
tiva, até a generalização do atendimento aos 1. Organizar cursos de capacitação para profis-
alunos na educação infantil e no ensino fun- sionais da educação - subdividida em 3 eta-
damental. pas; a primeira, a ser realizada em Brasília,
• Do atendimento extraordinário em classes e consistia no curso de instrutores surdos; a se-
escolas especiais ao atendimento preferencial gunda, a ser realizada nos estados, consistia
na rede regular de ensino. no curso de língua de sinais para professores
da rede pública e no curso de língua de sinais
• Da educação continuada dos professores que
para novos instrutores e a terceira, a ser re-
estão em exercício à formação em institui-
alizada no INES, em curso de intérprete de
ções de ensino superior.
línguas de sinais para professores da rede pú-
O Plano Nacional de Educação de 2001 indica como blica (a curto prazo).
meta, ainda, capacitar pessoas para dar atendimento 2. Implantar o centro de apoio à capacitação
dos profissionais e à educação de surdos CAP
aos educandos especiais e como meta nº 11: implan-
a ser cumprida em médio prazo.
tar, em cinco anos, e generalizar, em dez, o ensino
3. Modernizar as salas de recursos para atendi-
da Língua Brasileira de Sinais para alunos surdos e, mento dos surdos (a médio prazo).
sempre que possível, para seus familiares e para o
pessoal da unidade escola, mediante um programa Como resultado material deste Programa, foi pro-
de formação de monitores, em parcerias com orga- duzido pelo MEC, em conjunto com pesquisadores
nizações não governamentais. e com a FENEIS – Federação Nacional de Escolas e

57
LIBRAS

Instituições de Surdos, o material didático “Libras O documento é claro na orientação de que não
em Contexto”, composto de livro do aluno, livro do sejam mais criadas escolas especiais e orienta que as
professor e fitas de vídeo. Foi o primeiro material já existentes transformem-se em centros educacio-
de características oficiais para o ensino de Libras do nais especializados para ofertar AEE. As principais
Brasil, que, em 2009, teve publicada sua 9ª edição. justificativas para a “extinção” das escolas especiali-
zadas apresentadas na PNEE são:
POLÍTICA NACIONAL DE EDUCAÇÃO ES-
PECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA – A Educação Especial se organizou tradicional-
mente como atendimento educacional especia-
PNEE 2008
lizado substitutivo ao ensino comum, eviden-
ciando diferentes compreensões, terminologias
A Educação Especial, modalidade escolar que aten- e modalidades que levaram a criação de insti-
de, preferencialmente na rede regular de ensino, tuições especializadas, escolas especiais e clas-
educandos com “deficiência, transtornos globais do ses especiais.

desenvolvimento e altas habilidades ou superdota-


ção” é explicitamente considerada, atualmente no Essa organização, fundamentada no conceito
Brasil, na perspectiva inclusiva e regida pela Política de normalidade/anormalidade, determina for-
mas de atendimento clínico terapêuticos forte-
Nacional de Educação Especial – PNEE, de 2008. De
mente ancorados nos testes psicométricos que
acordo com a PNEE- 2008 a atuação da Educação definem, por meio de diagnósticos, as práticas
Especial deve ser articulada com o ensino comum e, escolares para os alunos com deficiência (BRA-
se efetiva mediante o atendimento às necessidades SIL, 2008, p. 06).
educacionais especiais dos educandos constituintes
de seu público alvo, com a oferta, em contraturno, De acordo com a PNEE – 2008 deve ser garantido
do Atendimento Educacional Especializado – AEE. “[...] direito de todos os alunos pertencerem a uma
Na Política Nacional de Educação Especial, na mesma escola, de estarem todos juntos aprendendo
perspectiva inclusiva, de 2008, o MEC reconhece que e participando sem nenhum tipo de discriminação”
as dificuldades enfrentadas nos sistemas de ensino e suas particularidades seriam atendidas mediante a
evidenciam a necessidade de confrontar as práticas oferta do AEE.
discriminatórias e criar alternativas para superá-las, Assim, o trabalho pedagógico com os alunos
e, assim, a educação inclusiva assume espaço central com surdez nas escolas comuns deve ser desen-
no debate acerca da sociedade contemporânea e do volvido em um ambiente bilíngue, ou seja, em um
papel da escola na superação da lógica da exclusão. espaço em que se utilize a Língua de Sinais e a Lín-
A partir dos referenciais para a construção de gua Portuguesa. Um período adicional de horas
sistemas educacionais inclusivos, a organização de diárias de estudo é indicado para a execução do
escolas e classes especiais passa a ser repensada, Atendimento Educacional Especializado (DÁMA-
implicando uma mudança estrutural e cultural da ZIO, 2007)1. Nele destacam-se três momentos di-
escola para que todos os alunos tenham suas especi- dático-pedagógicos: Momento do Atendimento
ficidades atendidas. Educacional Especializado em Libras; Momento

58
EDUCAÇÃO FÍSICA

do Atendimento Educacional Especializado para O professor surdo no ensino de Libras oferece


o ensino de Libras e Momento do Atendimento aos alunos com surdez melhores possibilidades do
Educacional Especializado para o ensino da Lín- que o professor ouvinte porque o contato de crian-
gua Portuguesa. ças e jovens surdos com adultos com surdez favorece
No Atendimento Educacional Especializado não apenas a aquisição dessa língua como também a
em Libras na escola comum, todos os conhecimen- construção de identidades surdas.
tos dos diferentes conteúdos curriculares são expli- No Atendimento Educacional Especializado
cados nessa língua por um professor, sendo ele pre- para o ensino da Língua Portuguesa são trabalha-
ferencialmente surdo. A organização didática desse das as especificidades dessa língua para pessoas com
espaço de ensino implica o uso de muitas imagens surdez. O ensino é desenvolvido por um professor,
visuais e de todo tipo de referências que possam co- preferencialmente, formado em Língua Portuguesa,
laborar para o aprendizado que conheça os pressupostos linguísticos teóricos
O Atendimento Educacional Especializado em que norteiam o trabalho, e que, sobretudo, acredite
Libras oferece ao aluno com surdez segurança e mo- nesta proposta, estando disposto a realizar as mu-
tivação para aprender, sendo, portanto, de extrema danças para o ensino do Português aos alunos com
importância para a inclusão do aluno na classe co- surdez.
mum. O que se pretende no Atendimento Educacional
Já no Atendimento Educacional Especializado Especializado é desenvolver a competência grama-
para o ensino de Libras na escola comum, os alunos tical ou linguística, bem como textual, nas pessoas
com surdez têm aulas de Libras, favorecendo o co- com surdez, para que sejam capazes de gerar se-
nhecimento e a aquisição, principalmente de termos quências linguísticas bem formadas. Além disso, o
científicos. Esse trabalho é realizado pelo professor AEE deve ser planejado a partir do diagnóstico do
e/ ou instrutor de Libras (preferencialmente surdo), conhecimento que o aluno tem a respeito da Língua
de acordo com o estágio de desenvolvimento da Lín- Portuguesa.
gua de Sinais em que o aluno se encontra. O atendi- Para completar a descrição do modelo atual de
mento deve ser planejado a partir do diagnóstico do inclusão dos surdos brasileiros, resta comentar a
conhecimento que o aluno tem a respeito da Língua presença de Intérprete de Libras na sala de aula, que
de Sinais. é fundamental para a inserção das pessoas com sur-
O professor e/ou instrutor de Libras organi- dez, que são usuárias da Língua de Sinais.
za o trabalho do Atendimento Educacional Es- O intérprete deve conhecer com profundidade,
pecializado, respeitando as especificidades des- cientificidade e criticidade sua profissão, a área em
sa língua, principalmente o estudo dos termos que atua, as implicações da surdez, as pessoas com
científicos a serem introduzidos pelo conteúdo surdez, a Libras, os diversos ambientes de sua atu-
curricular. Eles procuram os sinais em Libras, in- ação a fim de que, de posse desses conhecimentos,
vestigando em livros e dicionários especializados, seja capaz de atuar de maneira adequada em cada
internet ou mesmo entrevistando pessoas adultas uma das situações que envolvem a tradução, a inter-
com surdez. pretação e a ética profissional.

59
LIBRAS

O ideal é que o professor conheça Libras, mes- Considerando a importância dos recursos tec-
mo com a presença de intérpretes. Não é viável que nológicos para a inclusão social e educacional dos
a aula seja ministrada em Libras, mas deve existir surdos e que o acesso a tais recursos é garantido
comunicação, mesmo que funcional, entre o profes- pela Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com De-
sor e o aluno. Além disso, o intérprete geralmente ficiência - Lei 13.146 de 2015, que inclusive esta-
não domina todo conteúdo de todas as disciplinas e belece dispositivos para fomentar pesquisas nesta
é preciso ter certeza de que o que está sendo repas- área. Por isso, destinamos, a seguir, um texto espe-
sado aos alunos é o que está de fato sendo explicado cífico para analisar os avanços nesta área, no que se
pelo professor. refere aos surdos.

SAIBA MAIS

Para conhecer mais alguns decretos vinculados à questão dos direitos das pessoas com deficiência,
pesquise por:
Decreto Nº 186/2008 - Aprova o texto da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência.
Decreto Nº 6.215/07 - Institui o Comitê Gestor de Políticas de Inclusão das Pessoas com Deficiência.
Decreto Nº 6.571/08 - Dispõe sobre o atendimento educacional especializado.
Decreto nº 3.298/99 - Regulamenta a Lei no 7.853, de 24 de outubro de 1989, dispõe sobre a Política
Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência.
Decreto nº 3.952/01 - Conselho Nacional de Combate à Discriminação.
Decreto nº 5.296/04 - Regulamenta as Leis n° 10.048 e 10.098 com ênfase na Promoção de Acessibilidade.
Decreto nº 3.956/01 – (Convenção da Guatemala) Promulga a Convenção Interamericana para a Elimi-
nação de Todas as Formas de Discriminação contra as Pessoas Portadoras de Deficiência
Fonte: as autoras.

60
EDUCAÇÃO FÍSICA

Tecnologias de Acessibilidade
para a Comunicação do Surdo1
As tecnologias atuais permitiram um enorme au- Beatriz e Marília tiveram um deste, porque a mãe,
mento da boa qualidade de comunicação entre sur- Clélia, desejava mandar recados, por exemplo, quan-
dos e entre ouvintes e surdos, das quais, o principal do saiam à noite. Às vezes, a mãe queria saber se es-
exemplo é o celular, por permitir o envio de mensa- tava tudo bem, então mandava mensagens no Pager
gens escritas, dentre outras facilidades. e elas telefonavam de um orelhão para casa. Não era
O precursor do celular foi o PAGER ou BIP. Este possível conversar, mas apenas por receber a ligação,
equipamento não foi criado pensando nos surdos, a mãe sabia que estava tudo bem. Era um código
mas, por utilizar a escrita e possibilitar que o surdo combinado entre a família. Este exemplo ilustra bem
tivesse acesso à mensagem pela via visual, foi ado- as dificuldades de comunicação que os surdos viven-
tado por muitos integrantes da comunidade surda, ciaram ao longo dos tempos, de maneira que conside-
gerando muita esperança. Todavia, além de ser cara, ramos que é muito mais fácil ser surdo no momento
sua utilização não era prática. Como as mensagens atual, repleto de ferramentas tecnológicas!
escritas apenas podiam ser emitidas pelas telefonis- Em 1998, surgiu o TDD (Telecommunications
tas, não havia possibilidade de troca efetiva de co- Devices for the Deaf), que foi anunciado como um
municação. Os ouvintes ligavam para uma central grande avanço na comunicação dos surdos. Entre-
de comunicações do BIP, os telefonistas recebiam os tanto, esta tecnologia não foi muito utilizada por
recados e enviavam as mensagens para os aparelhos eles. Primeiro, porque era de difícil aquisição, de
dos surdos, que não tinham como responder. Infe- maneira que apenas associações, entidades governa-
lizmente, esses equipamentos tecnológicos foram mentais e algumas não governamentais possuíam os
falhos para a comunicação dos surdos, embora ser- aparelhos. Além disso, sua utilização não apresenta-
vissem para que esses recebessem recados. va praticidade. Para usufruir os serviços do TDD, o
surdo, quando queria ligar para um ouvinte, digitava
1
Texto resumido do Capítulo 2, de mesmo título, da dissertação de mes- o número e a mensagem, que era recebida por um
trado: O uso social das tecnologias de comunicação pelo surdo: limites
atendente e transmitida oralmente na ligação de te-
e possibilidades para o desenvolvimento da linguagem, de autoria de
Marília Ignatius Nogueira Carneiro, constante das referências. lefone comum para o ouvinte. O ouvinte respondia

61
LIBRAS

e esta mensagem era escrita pelo atendente e enca- vídeos, acessível apenas para smartphones e que não
minhada para o surdo via TDD e assim, o procedi- permite a criação de grupos. Oferece duas opções:
mento continuava. O processo demorado de troca público ou fechado. Se público, qualquer pessoa
de mensagens e seu custo alto inviabilizou a utiliza- pode ter acesso ao que for disponibilizado na página
ção deste recurso em larga escala. do usuário. Se fechado, só as pessoas adicionadas po-
A partir do TDD, outros recursos tecnológicos dem ver suas postagens. Os surdos costumam postar
sustentados no Português escrito foram disponibi- fotos e vídeos curtíssimos, de no máximo dois minu-
lizados para a comunidade surda. Muitos, inclusive, tos. Apesar de ser possível postar vídeos em Libras,
não necessitaram de nenhum tipo de adaptação e fo- a maioria dos surdos faz apenas postagem de fotos.
ram utilizados indistintamente por surdos e ouvintes. O Telegram é considerado um dos principais
Um exemplo desses recursos é o Facebook. Este concorrentes do WhatsApp, porque possui funções
aplicativo para redes sociais é o de maior acesso no semelhantes, como o envio e recebimento de con-
mundo. Com características individuais, permite teúdos em texto, vídeo, áudio e imagem por meio
também a formação de grupos de usuários que pos- de um pacote de dados ou de uma conexão Wi-Fi.
suem interesses em comum. Uma primeira vantagem deste aplicativo é o fato de
Atualmente, os smartphones estão bastante aces- não estar vinculado a nenhuma grande empresa da
síveis e os aplicativos de mensagens instantâne- internet. Como o Telegram utiliza a rede móvel para
as vêm sendo aperfeiçoados, fazendo parte do co- mandar e receber as mensagens, ele é gratuito.
tidiano das pessoas e facilitando ainda mais a vida O Telegram apresenta ainda suporte para GIFs
social dos surdos, como exemplo temos o ICQ, o (Graphics Interchange Format ou, em português:
WhatsApp, o Instangram e o Telegram. formato de intercâmbio de gráficos animados). Pos-
Constantemente novos recursos tecnológicos, sui dispositivos de busca para pesquisa de imagens
que favorecem a comunicação de pessoas surdas, (animadas ou estáticas) diretamente no aplicativo e
são apresentados à comunidade científica. Um apresenta um sistema de citação de outros usuários
exemplo disso é a pulseira Lepee, apresentada por durante uma conversa, ideal para ser utilizada em
alunos do curso de Engenharia Elétrica da Univer- um grupo.
sidade Tecnológica Federal do Paraná. O dispositivo Atualmente, um grupo de surdos brasileiros2
consiste em um aparelho vibratório que se conecta a utiliza o Telegram para uma pesquisa que tem por
qualquer celular e pisca e vibra quando o Smartpho- objetivo convencionar sinais em Libras para dife-
ne recebe notificação de mensagem, por exemplo, rentes áreas do conhecimento, como, por exemplo,
o alarme do carro ou uma campainha wireless. Se- a Matemática.
gundo o jornal “Gazeta do Povo” (2015, on-line)2.
2 O grupo de Lexicologia e terminologia em Libras desenvolve seus tra-
“O funcionamento de pulseira Lepee tem potencial
balhos por meio do Telegram. Muitos surdos, de diferentes estados bra-
para provocar uma minirrevolução na relação das sileiros, reúnem-se e discutem, para produzir um novo sinal. Aproxima-
pessoas surdas com a tecnologia”. damente 38 pessoas surdas da área de linguística e fluentes em Libras. O
Telegram permite que os usuários se comuniquem sem sair de casa, com a
O Instagram é semelhante ao Facebook e é uma vantagem de que este aplicativo permite o envio de vídeos de mais ou me-
rede social on-line de compartilhamento de fotos e nos 6 minutos de gravação, que podem ser compartilhados com o grupo.

62
EDUCAÇÃO FÍSICA

podem se valer de um poderoso recurso de comuni-


cação muito valorizado pela comunidade surda, que
são as expressões visuais.
A importância de poder se comunicar mediante
imagens, ou seja, por meio de vídeos, além de per-
mitir ao surdo se expressar em sua língua natural,
se adapta melhor ao desenvolvimento cognitivo e
afetivo dos surdos, pois, como já abordamos na Uni-
dade I, atualmente, surdez é entendida como uma
experiência visual. Dessa forma, a Libras é concebi-
da pelas experiências visuais dos surdos, os quais se
sentem confortáveis ao utilizar ferramentas tecno-
lógicas em que podem se expressar na sua língua.
Por exemplo, os ouvintes leem e escrevem, mas eles
falam ao telefone e se sentem bem em ouvir as vozes
de seus interlocutores, da mesma forma, os surdos,
para se sentirem próximos da pessoa com quem se
comunicam, precisam vê-la e observar suas expres-
sões faciais. Seria o equivalente para os ouvintes, a
ouvir a voz, e pela entonação, perceber as variações
de humor de seus interlocutores.
As novas tecnologias em Libras são importantes
para o uso social dos cidadãos surdos, pois a faci-
Os recursos descritos anteriormente são utili- lidade de acesso às informações pode incentivar a
zados pelos surdos letrados, entretanto, temos tam- busca pelo conhecimento científico e social pelos
bém os surdos que são analfabetos, que não sabem surdos.
ler e escrever mensagens, ou mesmo os que possuem Vários recursos tecnológicos, com uso da Libras,
um conhecimento insuficiente do Português, o que estão disponíveis para os surdos. A seguir, apresen-
inviabiliza a comunicação com ouvintes, desacostu- tamos os recursos tecnológicos com Libras que os
mados com a redação dos surdos. Assim, além das surdos mais utilizam.
ferramentas tecnológicas permitindo a exploração TV com Intérpretes. Seguramente esta foi a
de vídeos em geral, que permitem, portanto, a co- primeira ferramenta tecnológica a disponibilizar
municação em língua de sinais, algumas ferramen- o acesso dos surdos à informação em sua língua
tas tecnológicas foram adaptadas ou mesmo criadas natural, no caso do Brasil, a Libras. Para isto, al-
para os surdos. São as que utilizam ou a Libras ou o guns canais da TV, ou determinados programas,
SignWriting. As que permitem a utilização da Libras apresentam a tradução simultânea com o intér-
são as preferidas pelos surdos, pois, por meio delas, prete de Libras em destaque no canto da tela, em

63
LIBRAS

um espaço denominado “janela de interpretação” Dentre as ferramentas tecnológicas específicas


a WebCam e chats com vídeo. Não são ferramen- para utilização pelos surdos, destacamos o Viável
tas específicas para surdos. São recursos dos di- Brasil. O Viável é o nome comercial de uma tecnolo-
ferentes aplicativos e redes sociais, que permitem gia adaptada para os surdos, semelhante ao aplicativo
aos surdos visualizarem o diálogo sinalizado si- Skype. Esta ferramenta necessita de um equipamen-
multaneamente. to próprio, que precisa estar ligado à internet. Além
O software Skype. Muito utilizado atualmente do custo do aparelho e da internet, há a necessidade
para conferências, palestras e até mesmo realização de pagamento de uma taxa de serviços, que se desti-
de bancas de defesa de mestrado e doutorado, em na ao pagamento de intérpretes que permanecem em
que os participantes da banca não podem estar pre- uma central. É um telefone específico para clientes
sentes, pois permite a comunicação simultânea com surdos. Tem dois tipos: um oferece tecnologia para
imagens e sons. Para estabelecer contato, é necessá- videoconferência para dois ou três surdos conversa-
rio possuir uma conta de e-mail. Na tela aparecem rem, com webcam. O outro disponibiliza intérprete
duas imagens, uma pequena corresponde à primeira em língua de sinais. Para a utilização do sistema Vi-
pessoa, que vê sua própria imagem; a imagem maior ável, o surdo que deseja ligar para um ouvinte, pode
mostra a imagem do interlocutor, ou seja, daquele digitar normalmente o número de telefone, e o in-
com quem se está comunicando. O Skype possibilita térprete atua como mediador, interpretando em voz
ainda a comunicação escrita, na ausência de câme- para o ouvinte e sinalizando no vídeo para o surdo
ras. O programa é grátis e é acessível apenas para ver. Também tem bate papo em linguagem escrita.
computadores e tablets. Muitos surdos utilizam esta Outro recurso tecnológico atualmente disponí-
forma de comunicação. vel são os softwares de tradução simultânea de texto
A webcam do celular. Permite a utilização de al- e voz da Língua Portuguesa para Libras, disponíveis
guns aplicativos simples e efetivos, como, por exem- sob a denominação PRODEAF e HandTalk. Ambos
plo, o Imo Video Free. Este programa de download são aplicativos muito inovadores.
gratuito é um grande sucesso entre os usuários em Os novos softwares ajudam bastante a comunicação
geral, por permitir chamadas de voz e de vídeo com entre ouvintes e surdos, pois a pessoa fala ao celular e o
alta qualidade se estiver conectado à internet 3G, 4G programa traduz automaticamente em Libras, median-
ou Wi-Fi. Também permite mensagens escritas, bate te uma animação, para os surdos. Apesar do grande
papo em grupo e figuras para enriquecer as comuni- avanço, estes aplicativos ainda precisam ser refinados e
cações escritas. O aplicativo permite ainda a forma- enriquecidos, pois não permitem a tradução da Libras
ção de grupos para bate-papo e compartilhamento nem para o Português oral, nem para escrito, mas per-
de fotos e vídeos. mitem ao surdo responder por escrito. Assim, de um
Entretanto, é a possibilidade de se expressar em lado, representa um grande avanço, pois facilita a co-
Libras, pois a imagem é transmitida simultaneamen- municação quando o surdo é o receptor, ao traduzir o
te, que torna o IMO o aplicativo preferido dos sur- que o ouvinte diz ao surdo, mas, por outro lado, ainda
dos. É a telefonia móvel para a comunicação entre necessita que o surdo possua conhecimento do Portu-
usuários da Libras. guês escrito para poder ser o emissor da mensagem.

64
EDUCAÇÃO FÍSICA

O PRODEAF foi desenvolvido na Universida- Em outros países, em particular em alguns eu-


de Federal de Pernambuco por alunos do curso de ropeus, já está disponível um recurso tecnológico,
ciência da computação. O grupo envolvido fundou por meio do qual na sala de aula, por meio de um
a empresa Proativa Soluções e negócios, que conta monitor de televisão com um aplicativo semelhan-
com o apoio e parceria da Wayra Brasil - Telefônica, te ao PRODEAF, a língua oral seja traduzida para
Microsoft, Sebrae e CNPq. a língua de sinais. O professor fala sempre em um
O Hand talk foi apresentado em 2012. O apli- microfone específico e o software traduz para a lín-
cativo é parecido com o PRODEAF. Nele, o Hugo, gua de sinais, mediante a animação de um intérpre-
personagem 3D torna a comunicação interativa e de te. Esse sistema é mais efetivo do que a interpreta-
fácil compreensão. ção tradicional, pois a tradução é simultânea e evita
No que se refere à educação de surdos, as fer- conversas paralelas entre o surdo e o intérprete.
ramentas tecnológicas facilitam sua comunicação e No Brasil, ainda está sendo desenvolvido o proje-
aprendizagem. Um exemplo, são os livros didáticos to TLIBRAS buscando a implantação de recursos
traduzidos para a Libras, que permitem aos surdos semelhantes.
entenderem “rapidamente” os textos em Português, A imagem que segue demonstra o funcionamen-
com o auxílio da tradução para a Libras em um to desse recurso.
DVD que acompanha o livro. Um problema dessas
traduções é que, para serem fiéis aos textos escritos,
os intérpretes acabam realizando mais o Português
Sinalizado3 do que a Libras.

REFLITA

Possuindo inúmeras falhas quanto à estrutura e qua-


lidade no ensino, você acha que as escolas brasileiras
são capazes de atender satisfatoriamente os requisitos
de uma escola inclusiva para surdos?

Figura 1 – TLIBRAS - Interprete de Libras na TV


Fonte: adaptada de Alcântara (2015, on-line)3.
3
O português sinalizado corresponde a uma tentativa de tradução ter-
mo a termo, de Libras para Português, obedecendo à estrutura da língua
portuguesa, mas que não corresponde à sintaxe da Libras.

65
LIBRAS

Outro recurso educacional decorrente das ferra- rial é muito útil, pois além da simples tradução de
mentas tecnológicas são os dicionários virtuais em sinais para palavras escritas em português e vice-
Libras, muito importantes para alunos surdos e para -versa, apresenta também planejamento para aulas
aprendizes ouvintes. Como a Libras se sustenta no temáticas, que auxiliam muito o professor de Libras
movimento, os dicionários somente são possíveis para ouvintes.
em razão das tecnologias digitais. Esses dicionários Os dicionários virtuais já estão avançando, e é
poderiam ser explorados pelas escolas bilíngues para possível encontrar dicionários temáticos, por área
o ensino da Língua Portuguesa escrita para crianças de conhecimento, como o dicionário virtual em Li-
surdas, da mesma maneira que os dicionários tra- bras para termos filosóficos, elaborado pela Pontifí-
dicionais são explorados para a construção do vo- cia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC/
cabulário de crianças ouvintes. Assim, da mesma MG, finalizado em 2008. O material tem como ob-
forma que esses recursos favorecem o aprendizado jetivo auxiliar professores da graduação e do Ensino
da Libras para pessoas ouvintes, os surdos também Médio. A UTFPR de Londrina criou um dicionário
podem ver os sinais de Libras e aprender português virtual para termos científicos da área de (Biologia
escrito. 2017, online)4. A PUC/MG estuda atualmente a pos-
Outros dicionários virtuais de Libras estão dis- sibilidade de elaboração de dicionários para as disci-
poníveis, como o Dicionário de Libras. Este mate- plinas de Biologia e História.

66
considerações finais

A
adoção da língua de sinais constitui, sem dúvida, um avanço impor-
tante na medida em que se elimina um grande obstáculo à apren-
dizagem do surdo. Mas não é suficiente para garantir o desenvol-
vimento das operações formais sem a defasagem encontrada em
relação ao ouvinte. Existem outros fatores que precisam ser compreendidos no
desenvolvimento cognitivo do surdo.
Os surdos adultos não se diferenciam significativamente, em termos cog-
nitivos, dos adultos ouvintes. Isso significa que, de alguma forma, a defasagem
cognitiva encontrada na idade escolar não permanece para sempre no desenvol-
vimento do surdo. Mas, isso quer dizer também que a escola, no geral, não está
colaborando para a mudança dessa situação.
A língua de sinais possibilita aos surdos uma comunicação mais efetiva com
seus pares. Isso é uma condição fundamental para o desenvolvimento cognitivo,
não porque a linguagem seja a única responsável pelo desenvolvimento cognitivo
do surdo, mas porque permite a interação com o outro e, principalmente, a inte-
ração com seus iguais, no sentido dos interesses comuns próprios de cada fase de
desenvolvimento.
Qual o papel da escola nesse sentido? Dar cada vez mais qualidade a essa inte-
ração, sem impor à criança ideias prontas ou soluções baseadas na autoridade. O
professor deve ser, antes de tudo, aquele que coloca as perguntas certas, organiza
situações adequadas, e não aquele que oferece as respostas certas.
Apesar de ser imprescindível que os surdos aprendam, o mais cedo possível, a
língua de sinais, a sua educação necessita ainda de um cuidado especial.
A escola não deve se limitar apenas a “traduzir”, para a língua de sinais, me-
todologias, estratégias e procedimentos da escola comum, mas deve continuar a
se preocupar em organizar atividades que proporcionem o salto qualitativo no
pensamento dos surdos. O que não se pode deixar de considerar é que o surdo
não ficará livre das restrições impostas pela surdez apenas com a aceitação da sua
peculiaridade linguística e cultural.

67
atividades de estudo

Depois de uma primeira leitura, retome os textos e faça uma nova leitura, para
responder as seguintes questões:

1. No que se refere à educação de surdos, as ferramentas tecnológicas facili-


tam sua comunicação e aprendizagem. Neste contexto, analise as afirma-
ções a seguir e assinale a alternativa correta:
I. Um recurso educacional decorrente das ferramentas tecnológicas são os
dicionários virtuais em Libras, muito importantes para alunos surdos e
para aprendizes ouvintes.
II. Um recurso tecnológico atualmente disponível são os softwares de tradu-
ção simultânea de texto e voz da Língua Portuguesa para Libras.
III. O Brasil já produz tecnologias para surdos, como por exemplo, a pulseira
Lepee, criada por alunos da Universidade Tecnológica Federal do Paraná.
IV. Os recursos tecnológicos como o ICQ, o WhatsApp, o Instangram e o Te-
legram podem ser utilizados por qualquer surdo que a eles tenha acesso.
a. ( ) Somente I, II e III são verdadeiras.
b. ( ) Somente I, II e IV são verdadeiras.
c. ( ) Somente II, III e IV são verdadeiras.
d. ( ) Somente I, III e IV são verdadeiras.
e. ( ) Todas são verdadeiras.

2. O que você entende por inclusão? Por que este movimento está tão forte
atualmente, no que se refere às pessoas com deficiência?

3. Que fatores, além da Libras, devem ser considerados na educação de sur-


dos?

4. Qual seria, em sua opinião, a maior dificuldade do trabalho docente com


os surdos? Explique

5. Como a pessoa surda é considerada no Decreto 5.626 de 2005?

68
LEITURA
COMPLEMENTAR

O texto a seguir foi extraído da Revista Arqueiro n. 13, publicada em novembro de 2006, pelo Instituto Nacional de
Educação de Surdos.
ENTREVISTA
Professor Surdo e Alunos Universitários (um surdo e um ouvinte)
João Lázaro (professor)
Marcus Vinicius Freitas Pinheiro (aluno surdo)
Rafael Lebra (aluno ouvinte)
Vanessa Bartolo (intérprete)

Com o Decreto nº 5.626, de 22/12/2005, a disciplina 2) Pelo que rege o Decreto, escolas e universidades
de Libras será obrigatória nos cursos de licenciatura, terão que contratar intérpretes e/ou monitores para
pedagogia, fonoaudiologia, e opcional nos demais. Após os alunos surdos. A difusão da Libras é agora uma
um ano de vigência, as instituições deverão ter em realidade a ser respeitada e mantida. Como você vê
seus quadros um tradutor e intérprete de Libras, para a preparação e capacitação de pessoal para este fim?
atuarem nos processos seletivos e nas salas de aula. Professor surdo: Vejo que ainda não estamos prepa-
Do mesmo modo, o Sistema Único de Saúde – SUS e rados devidamente para colocarmos intérpretes nas
os órgãos públicos federais terão que reservar 5% de instituições, pois há controvérsias nas interpretações
suas vagas para servidores e funcionários tradutores de alguns. Acredito que, com as universidades criando
ou intérpretes de Libras. cursos de graduação e pós-graduação para esta área,
Neste número da revista Arqueiro, convidamos um talvez futuramente tenhamos intérpretes fiéis ao que
professor surdo, um aluno surdo universitário e um os surdos dizem.
aluno ouvinte, colega de classe do segundo, para se 3) Sabemos que muitos universitários surdos con-
manifestarem a respeito desse acontecimento que, a tratam intérpretes para que tenham um maior
partir dessa data, reescreve a história da educação de entendimento do que lhes é transmitido nas uni-
surdos no país. versidades, visto que algumas delas ainda não
1) Queremos, primeiramente, parabenizá-los por esta contrataram esse tipo de profissional. Agora isso
grande conquista e saber que mudanças poderão vir deverá mudar. O que mais será necessário para
a ocorrer com este Decreto? que se efetive uma mudança significativa no que
diz respeito ao acesso pleno das pessoas surdas à
Professor surdo: São muitas as mudanças, a começar
educação universitária?
pelas vantagens e benefícios que os indivíduos surdos
receberão, tendo uma aceitação maior, por parte da Professor surdo: Esta questão é constantemente
sociedade, da Língua de Sinais, uma vez que a maioria discutida nos corredores universitários. Como profes-
dos surdos de nosso país se comunica por meio da sor da Universidade Salgado de Oliveira – UNIVERSO,
Libras. Além do mais, creio que haverá maior acessi- que contratava intérpretes, houve problemas devi-
bilidade para todos nós nos diversos serviços públicos do a alguns desses profissionais quererem escolher
oferecidos em nosso país. para quem interpretar e uns surdos brigarem com

69
LEITURA
COMPLEMENTAR

outros pelo intérprete que queriam. Por causa desta 5) Qual é a sua expectativa quanto ao cumprimento
discussão, a instituição resolveu parar de contratar do Decreto?
intérpretes, deixando a cargo de cada aluno a sua Aluno surdo: Infelizmente, acho que vai demorar para
contratação por conta própria. Também há outro que as pessoas cumpram o decreto, mas tenho espe-
problema: muitos tentam ganhar um salário maior ou rança de que isso possa acontecer logo.
igual ao de um professor universitário, o que grande
parte das instituições de ensino não aceita. Além do 6) Como você vê a inclusão da Libras no currículo uni-
mais, eles têm que compreender que não são con- versitário e como é assistir a aulas com um intérprete
tratados apenas para interpretar, mas para ajudar no de Libras na sala de aula ?
que for necessário e muitos não aceitam. Aí surge o Aluno ouvinte: Vejo a inclusão de Libras como uma
problema: se o aluno falta, o intérprete não faz nada; nova possibilidade de comunicação e avanço na con-
se o aluno mata a aula, o intérprete não faz nada; se o solidação da cidadania. O Intérprete é um auxiliar de
aluno não tiver aula naquele dia, o intérprete não vai comunicação do professor com o aluno e até mesmo
ou comparece apenas para ficar sentado sem fazer com outros alunos; é claro que não atrapalha a aula,
nada. Prefiro parar por aí, já que os questionamentos pois o interesse de comunicação é de ambos.
são muitos.
7) Você acredita que, com a regulamentação da Li-
Aluno surdo: O professor, em sala de aula precisa bras e sua obrigatoriedade nos Cursos Normais e
conhecer o universo do surdo, preparar aulas que inte- de Licenciatura, as barreiras de comunicação serão
grem surdos e ouvintes. Professores e alunos precisam eliminadas?
entender e respeitar a cultura dos surdos.
Professor surdo: Isso dependerá da aceitação por
4) Como você encara a proposta de provimento das parte de nossa sociedade. Gostaria que este decreto
escolas com professores e/ ou instrutores de Libras, fosse estendido também para os médicos otorrinola-
tradutor e intérprete – Libras / Língua Portuguesa e ringologistas, pois muitos aconselham as famílias de
professor regente de classe com conhecimento das surdos a não deixá-los aprender a Língua de Sinais, o
singularidades linguísticas dos surdos neste imenso que muitas famílias seguem à risca. Mas creio que já
território nacional? será um grande passo para as comunidades surdas,
Professor surdo: É uma boa proposta, desde que uma vez que pode ajudar a quebra de preconceitos
seja posta em prática, respeitando as identidades e também a nossa aceitação e respeito por parte da
de cada indivíduo e suas reais necessidades. No sociedade brasileira.
entanto, é preciso que os professores saibam que Aluno surdo: Depende de como serão as aulas. Se a
eles também precisam saber utilizar a Libras como Libras for ensinada de modo superficial, dificilmente
forma de comunicação e expressão, senão aquela essas barreiras acabarão. E também para que a barreira
relação professor-aluno nunca existirá na sala de da comunicação seja eliminada, é preciso que todos
aula. saibam Libras, não só alguns.

Fonte: INES – Instituto Nacional de Educação para Surdos (2006, on-line)5.

70
EDUCAÇÃO FÍSICA

A política educacional de integração/inclusão: um olhar


do egresso surdo
Paulo Cesar Machado
Editora: EdUFSC, 2008
Sinopse: O autor do livro atua há mais de duas décadas na área
da Educação de Surdos, em diferentes cursos e níveis de ensino.
Neste texto, conforme consta da contracapa, em apresentação de
Vilmar Silva, “[...] caminha com os surdos no labirinto da política de
inclusão/integração” e nos faz acreditar que é possível criar espaços inclusivos em que a nor-
malização do surdo seja buscada, mediante o debate, a pesquisa, a ação e o compromisso
político, histórico e social de todos os envolvidos.

Você pode obter gratuitamente a Série Atualidades Pedagógicas – Educação Especial: Defi-
ciência Auditiva, publicada pelo MEC e composta de cinco volumes, um dos quais destinado
especificamente à aprendizagem da Libras, acessando o link:
<[Link]/ines_livros/[Link]>. Acesso em: 20 jun. 2016.

Para saber mais sobre os surdos, sua educação, a proposta inclusiva e sobre educação e di-
versidade acesse <[Link]>. Acesso em 20 jun. 2016.

71
referências

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado


Federal: Centro Gráfico, 1988.
______. Decreto n° 5.626. Regulamenta a Lei no 10.436, de 24 de abril de 2002,
que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – Libras – e o art. 18 da Lei no
10.098, de 19 de dezembro de 2000. Brasília, Diário Oficial da União, 22 dez.
2005.
______. Decreto nº 5.296, de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei no
10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais -
Libras, e o art. 18 da Lei no 10.098, de 19 de dezembro de 2000. Brasília, 2005.
Disponível em: <[Link]
creto/[Link]>. Acesso em: 23 jun. 2017.
______. Decreto n° 6949. Promulga a Convenção Internacional sobre os Direitos
das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, assinados em Nova
York, em 30 de março de 2007. Brasília, Diário Oficial da União, 25 ago. 2009.
______. Decreto nº 7.611, de 17 de novembro de 2011. Dispõe sobre a educa-
ção especial, o atendimento educacional especializado e dá outras providências.
Brasília, 2011. Disponível em: <[Link]
2014/2011/decreto/[Link]>. Acesso em: 23 jun. 2017.
______. Lei nº 7.853, de 24 de outubro de 1989. Dispõe sobre o apoio às pessoas
portadoras de deficiência, sua integração social, sobre a Coordenadoria Nacional
para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência - Corde, institui a tutela ju-
risdicional de interesses coletivos ou difusos dessas pessoas, disciplina a atuação
do Ministério Público, define crimes, e dá outras providências. Brasília, 1989.
Disponível em: <[Link] Acesso
em: 23 jun. 2017.
______. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases
da educação nacional. Brasília, 1996. Disponível em: <[Link]
br/ccivil_03/leis/[Link]>. Acesso em: 23 jun. 2017.
______. Lei nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000. Estabelece normas gerais e
critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de
deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras providências. Brasília, 2000.
Disponível em: <[Link] Acesso
em: 23 jun. 2017.
_____. Lei nº 10.172, de 9 de janeiro de 2001. Aprova o Plano Nacional de Edu-
cação e dá outras providências. Brasília, 2017. Disponível em: <[Link]
[Link]/ccivil_03/leis/leis_2001/[Link]>. Acesso em: 23 jun. 2017.
______. Lei nº13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão

72
referências

da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Brasília, 2015.


Disponível em: <[Link]
[Link]>. Acesso em: 23 jun. 2017.
______. Ministério da Educação – Secretaria de Educação Especial. Política
nacional de educação especial na perspectiva da educação inclusiva. Brasília:
MEC, 2008. Disponível em: <[Link]
[Link]>. Acesso em: 23 jun. 2017.
______. Portaria nº 1.679, de 2 de dezembro de 1999. Dispõe sobre requisitos de
acessibilidade de pessoas portadoras de deficiências, para instruir os processos
de autorização e de reconhecimento de cursos, e de credenciamento de institui-
ções. Brasília, 1999. Disponível em: <[Link]
c1_1679.pdf>. Acesso em: 23 jun. 2017.
CARNEIRO, M. I. N. O uso social das tecnologias de comunicação pelo sur-
do: limites e possibilidades para o desenvolvimento da linguagem. Dissertação.
(Mestrado em Educação). Universidade Estadual de Maringá, Pós-graduação em
Educação, 2016.
SHIMAZAKI, E. M.; MORI, N. N. R. Fundamentos da educação especial. In:
MORI, N. N. R. M.; CEREZUELA, C. (Org.). Fundamentos da educação espe-
cial. 1. ed. Maringá: EDUEM, 2012, v. 1, p. 31-41.

Referências on-line:

1
Em: <[Link] Acesso em: 20 jun. 2016.
2
Em: <[Link]
dos-ac1f3w4qb5ffti2psrz9bpw0j>. Acesso em: 20 jun. 2016.
3
Em: <[Link] Acesso em: 20 jun. 2016.
4
Em: <[Link] Acesso em: 20 jun. 2016.
5
Em: <[Link]
Acesso em: 20 jun. 2016.
6
Em: <[Link] Acesso em: 8 jul. 2016.

73
gabarito

1. Alternativa (a): apenas as afirmações I, II e III estão corretas. Os recursos


ICQ, WhatsApp, Instangram e Telegram só podem ser utilizados por sur-
dos letrados, que ainda não constituem a maioria.
As questões 2, 3 e 4 tem como propósito proporcionar sua reflexão sobre
os temas estudados. Aproveite para discutir suas respostas com seus co-
legas, nos espaços apropriados. Entretanto, algumas respostas são espe-
radas, como:

2. Inclusão se refere a proporcionar o acesso de QUALQUER estudante a tudo


que a escola oferece. Este movimento está tão forte, em relação às pessoas
com deficiência em função da luta deste segmento da população para ter
acesso a uma educação de qualidade, que culmina, no Brasil, com a PNEE
– Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva Inclusiva, de 2008.

3. A cultura surda; maior exploração de atividades visuais; a própria explora-


ção pedagógica da Libras etc...

4. Aqui, realmente é para você refletir e se colocar no lugar de um professor


que tem um aluno surdo em sala de aula e imaginar o que seria mais difícil
para você: a comunicação? Preparar atividades que explorem a percepção
visual? Aprender Libras? Interagir com o intérprete? Condicionar o tempo
de aula ao tempo do aluno surdo? Enfim, são muitas as possibilidades. Es-
tabeleça a sua e explique porque você a considera a maior dificuldade no
trabalho docente com surdos.

5. O Decreto Federal nº 5.626 de 2005 considera a pessoa surda como aque-


la que, por ter perda auditiva, compreende e interage com o mundo por
meio de experiências visuais, manifestando sua cultura principalmente
pelo uso da Língua Brasileira de Sinais - Libras.

74
UNIDADE
III
ASPECTOS GERAIS E
FONOLÓGICOS DA LIBRAS

Professora Dr.ª Clélia Maria Ignatius Nogueira


Professora Me. Marília Ignatius Nogueira Carneiro
Professora Esp. Beatriz Ignatius Nogueira Soares

Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta
unidade:
• Paralelos entre Libras e a Língua Portuguesa
• Aspectos fonológicos da Libras
• Léxico de categorias semânticas I – Tempo e Elementos da
Natureza

Objetivos de Aprendizagem
• Compreender a Libras em seus aspectos gerais.
• Compreender a Libras em seus aspectos fonológicos.
• Instrumentalizar os licenciandos para o estabelecimento de
uma comunicação funcional com pessoas surdas.
unidade

III
INTRODUÇÃO

A
Libras é uma língua com gramática própria e com condições
de proporcionar não apenas a comunicação efetiva entre os
surdos, como, também, a expressão de sentimentos; a com-
posição de poesias; a discussão filosófica, enfim, um idioma
completo. Porém, principalmente devido às suas características icônicas,
é comum o pensamento de que as línguas de sinais são iguais em todo o
mundo.
Também é comum aos ouvintes pressupor que as línguas de sinais sejam
versões sinalizadas das línguas orais. No entanto, embora haja semelhanças
ou aspectos comuns entre as diferentes línguas de sinais, e entre as línguas
de sinais e as orais, os chamados “universais linguísticos”, as línguas de sinais
são autônomas, possuindo peculiaridades que as distinguem umas das outras
e das línguas orais.
Nesta unidade, vamos estabelecer paralelos entre Libras e Língua
Portuguesa e iniciar os estudos da Libras em seus aspectos linguísticos. Assim,
após você ter sido apresentado ao mundo surdo na Unidade I e conhecer a
realidade educacional do surdo brasileiro na Unidade II, nesta terceira uni-
dade você vai iniciar sua caminhada no aprendizado desta fascinante língua.
Como os sinais exigem movimento para serem executados, é impor-
tante que você observe atentamente as fotos, pois quando temos duas ou
mais fotos que não estão separadas por um espaço em branco, significa que
a primeira foto é como o sinal começa e a segunda indica com que configu-
ração de mão ele termina. As setas indicam a direção do movimento. Procure
estudar esta unidade acompanhada do seu vídeo, pois cada um dos sinais é
apresentado, na mesma ordem em que aparecem no texto.
Repita, atentamente, cada sinal e procure comunicar-se em Libras, com
seus colegas, familiares etc. Lembre-se, aqui, como na aprendizagem de qual-
quer outra língua, é fundamental praticar muito.
Bons estudos!
LIBRAS

Paralelos Entre
Libras e Lingua Portuguesa

N
ão ouvir faz o surdo criar uma ma- mens pré-históricos se comunicavam por meio
neira própria de se comunicar, mas de gestos e apenas quando começaram a utilizar
não o impede de adquirir uma lín- ferramentas, ocupando as mãos é que começa-
gua e nem de desenvolver sua ca- ram a utilizar a comunicação oral. Assim, antes
pacidade de representação. Isso provavelmente de utilizarem a palavra, os seres humanos usavam
envolve mecanismos mentais, diferentes dos da as mãos para interagir, demonstrando a naturali-
pessoa ouvinte. Todavia, a comunicação com as dade da comunicação por sinais. Podemos então
mãos não teve início com os surdos e nem é ex- dizer que o processo inverso, isto é, a passagem
clusividade deles. da língua oral para a manual foi reinventado pelo
De fato, a língua de sinais não começou com homem, sempre que necessário e não apenas no
os surdos, pois, de acordo com Vygotsky os ho- caso dos surdos.

80
EDUCAÇÃO FÍSICA

Você sabia que existem varias linguagens ma- mesmo atualmente, algumas comunidades de mon-
nuais criadas em diversos momentos da his- ges utilizam gestos em suas atividades cotidianas no
tória da humanidade, para uso em contextos
mosteiro.
variados, tendo em vista possibilitar a comuni-
cação e a interação em situações em que a fala Veja como se concebia a função do silencio no
era inviável, proibida ou impossível? período monástico, segundo regras, registradas por
São Basílio Magno, de que a palavra só poderia ser
Mergulhadores, por exemplo, criaram um sis-
tema de códigos gestuais para se comunicar utilizada em caso de necessidade e estando as mãos
debaixo d’ água, onde a fala não é possível. ocupadas com algum trabalho, o que permite infe-
Considerando os riscos de uma comunicação rir que a comunicação gestual por eles utilizada era
equivocada em circunstâncias perigosas, fica
bastante eficiente.
evidente o quanto essa comunicação deve ser
bem assimilada durante os cursos de mergu-
lho para garantir a segurança no meio líquido É bom para os noviços também a prática do
(REILY, 2004, p. 113). silêncio. Se dominam a língua, darão simul-
taneamente boa prova de temperança. Com o
silêncio aprenderão junto dos que sabem usar
No Brasil, Lucinda Ferreira Brito iniciou, em 1982, da palavra, com concisão e firmeza, como con-
os estudos linguísticos sobre a Língua de Sinais dos vém perguntar e responder a cada um. Há um
índios Urubu-Kaapor da floresta amazônica brasi- tom de voz, uma palavra comedida, um tempo
oportuno, uma propriedade no falar, peculia-
leira e, após um mês de convivência, documentando
res e adequados aos que praticam a piedade.
em filme sua experiência, constatou que se tratava de Não os aprende quem não tiver abandonado
uma legítima língua de sinais. O interessante de se aquilo a que estiver acostumado. O silêncio
observar, no caso dos Urubu-Kaapor, é que os ouvin- traz consigo o esquecimento da vida anterior,
em consequência da interrupção, e proporcio-
tes da aldeia “falam” a língua de sinais e a língua oral
na lazer para o aprendizado do bem. Assim, a
enquanto que os surdos se restringem à língua de não ser por questão especial atinente ao bem
sinais. Assim, os ouvintes da aldeia se tornam bilín- da própria alma, ou por inevitável necessidade
gues, enquanto os surdos se mantêm monolíngues. de um trabalho em mãos, ou por negócio ur-
gente, guarde-se o silêncio, excetuada, é claro,
De acordo com Reily (2004), os indígenas do
a salmodia. (Basílio Magno, apud REILY, 2004,
planalto americano também desenvolveram uma p. 114).
língua de sinais para estabelecer uma comunicação
entre tribos distintas, que não falavam a mesma lín- Assim, conforme já mencionamos anteriormente, a
gua, e precisavam de uma forma convencional de língua de sinais é um idioma completo. Porém, tal-
comunicação. Assim, desenvolveram, ao longo do vez, principalmente devido às suas características
tempo, um conjunto de sinais bastante eficiente, com icônicas (uma representação da realidade, por íco-
o qual conseguiam realizar alianças e comércios. nes) e, pela forte influência da língua oral - tanto na
Um sistema de sinais também foi desenvolvido estrutura gramatical, quanto lexical - são muitas as
no período medieval por monges nos mosteiros eu- interpretações equivocadas sobre as línguas de si-
ropeus, que faziam o voto do silêncio, sendo que, nais em geral e sobre a Libras em particular.

81
LIBRAS

“LIBRAS É LÍNGUA”. Foi este o título esco- REFLITA


lhido para a palestra apresentada por uma lin-
guista em um evento cujo público alvo era o
estudante do curso de letras. Uma professora “LIBRAS É LÍNGUA”. Reafirmamos isso muitas
que trabalha na área da surdez, mencionando vezes nessa unidade. Para muitas pessoas
o título, fez o seguinte comentário: “De novo? que trabalham na área, esta questão já deve-
Achei que essa questão já estivesse resolvida!” ria estar resolvida. Para você, existe consenso
(GESSER, 2009, p. 9). acerca desta afirmação?

(adaptado de Gesser).

Embora mais de cinquenta anos tenham passado


desde que a língua de sinais é mundialmente reco-
nhecida, do ponto de vista linguístico, como uma De acordo com Bastos e Candiotto (2007, p. 15),
verdadeira língua, no Brasil, mesmo após a promul- a linguagem é a capacidade do ser humano de co-
gação da Lei Federal 10.436, de 24 de abril de 2002, municar-se com os semelhantes por meio de signos.
ainda é necessário afirmar e reafirmar esta legitimi- É ao mesmo tempo física, psicológica e social e é
dade. realizada sempre dentro do âmbito de uma língua,
Mas, por que insistir tanto nesta questão, de que “inseparável de um contexto cultural específico, par-
a Libras é uma língua? Afinal, o que isso significa? ticular, de uma comunidade linguística” .
Língua e linguagem é a mesma coisa? O surdo “fala” Considerando, então, só o que estabelecemos
em Libras? anteriormente, é possível admitir que a Libras é uma
Por linguagem, designamos o sistema abstra- língua, porque permite que uma comunidade lin-
to, articulado, fenômeno universal, independente guística particular, a comunidade surda, exerça sua
da situação cultural, que diferencia o ser humano capacidade de comunicação, e ainda mais, se a fala
das demais espécies. Chamamos de língua, o siste- é o modo de um elemento de uma comunidade lin-
ma abstrato, articulado utilizado por um grupo ou guística exercitar sua língua, o surdo fala em Libras.
uma comunidade específica, por exemplo, a Língua Mas, não foram considerações simplistas como as
Portuguesa. O modo particular e individualiza- que fizemos aqui que permitiram afirmar, em bases
do de exercitar a língua é o que denominamos de científicas, que a Libras é uma língua, sendo que este
fala. “A fala é o exercício material da língua levado reconhecimento linguístico tem início com os estudos
a cabo por este ou aquele indivíduo pertencente a descritivos do linguista americano William Stokoe em
uma comunidade linguística específica” (BASTOS; 1960. Antes disso, as línguas de sinais não eram vistas
CANDIOTTO, 2007, p. 15). como uma língua verdadeira, com gramática própria.

82
EDUCAÇÃO FÍSICA

No Brasil, conforme afirmamos anteriormente, [...] é a parte da linguística que estuda a natu-
os primeiros estudos sobre a Libras foram realiza- reza do significado individual das palavras e do
agrupamento das palavras nas sentenças, que
dos na década de 1980, por Lucinda Ferreira-Brito
pode apresentar variações regionais e sociais
da Universidade Federal do Rio de Janeiro e Tanya nos diferentes dialetos de uma língua (QUA-
Mara Felipe, da Universidade Federal de Pernambu- DROS; KARNOPP, 2004, p. 163).
co e da FENEIS – Federação Nacional de Escolas e
Instituições de Surdos, entidade representativa má- Morfológico: estudo da estrutura interna das palavras,
xima dos surdos brasileiros. isto é, como os elementos se combinam entre si para
Para poderem chegar à conclusão de que as lín- formar as palavras. Sua unidade mínima é o morfema
guas de sinais constituem um idioma, foram feitos que é a unidade mínima significativa. Por exemplo:
muitos estudos. Também para poder estabelecer estud/ei; estud/amos e estud/ante. A identidade de sig-
uma comparação entre a Libras e a Língua Portu- nificado das três formas é devido ao morfema estud,
guesa, os linguistas realizaram diversos estudos. que é igual nas três palavras. A Morfologia (área da
Quadros e Karnopp (2004, p. 15) definem lin- Linguística) estuda, ainda, as “[...] diversas formas que
guística como “[...] o estudo científico das línguas apresentam tais palavras quanto à categoria de número,
naturais e humanas. As línguas naturais podem ser gênero, tempo e pessoa” e a “[...] origem das palavras,
entendidas como arbitrária e/ou como algo que nas- apresentando-se a seguinte questão: Como as palavras
ce com o homem”. são criadas?” (QUADROS, KARNOPP, 2004, p. 16-20).
A parte da linguística que faz a comparação entre Sintático: estuda como as palavras são organiza-
duas ou mais línguas chama-se linguística contrasti- das numa frase. De acordo com Quadros e Karnopp
va. A linguística contrastiva é uma parte da linguís- (2004, p. 20), Sintaxe é “[...] a parte da linguística que
tica geral, que estuda as similaridades (coisas pareci- estuda a estrutura interna das sentenças e a relação
das) e diferenças estruturais entre a língua materna interna entre as suas partes”. Para as mesmas autoras,
(de um grupo de alunos) e uma língua estrangeira.
Essa comparação é feita nos níveis de articulação da [...] o conhecimento linguístico dos seres hu-
manos caracteriza-se pela existência de uma
linguagem a saber: fonológico, semântico, morfoló-
gramática que apresenta um conjunto finito
gico e sintático. de princípios (regras) que possibilitam a com-
Fonológico: estuda os fonemas, que são a menor preensão e produção de um número infinito
unidade distintiva da palavra – por exemplo, na pa- de combinações em uma determinada língua
lavra fala a letra f representa o fonema fê -, se refere (QUADROS, KARNOPP, 2004, p. 21).

aos sons numa língua oral.


Semântico: estuda o significado ou sentido das Ao se estabelecer comparações entre a Língua Por-
palavras e da sentença. A Semântica, além de estu- tuguesa e a Libras, percebem-se uma série de dife-
dar as ironias e metáforas, renças, das quais destacamos:

83
LIBRAS

• A língua de sinais é visual-espacial e a Língua se utiliza a expressão facial de elevação das


Portuguesa é oral-auditiva. sobrancelhas. A estrutura tópico-comentário
• A língua de sinais é baseada nas experiências evidencia a função gramatical das compo-
visuais das comunidades surdas mediante as nentes não manuais, no caso, da expressão
interações culturais surdas, enquanto a Lín- facial. Por exemplo, na frase DE FUTEBOL
gua Portuguesa constitui-se baseada nos sons. JOÃO GOSTA, que em Libras fica FUTEBOL
• A língua de sinais apresenta uma sintaxe es- JOÃO GOSTAR, o sinal para João vem acom-
pacial incluindo os chamados classificadores. panhado da elevação das sobrancelhas.
A Língua Portuguesa usa uma sintaxe linear • A língua de sinais utiliza a estrutura de foco
utilizando a descrição para captar o uso de que de acordo com Quadros e Karnopp
classificadores. (2004, p. 170) “[...] envolve construções du-
• A língua de sinais não tem marcação de gê- plas em que o elemento duplicado ocupa a
nero, isto é, não tem sinais diferentes para fe- posição final”, isto é, significa destacar a par-
minino e masculino, enquanto que na Língua te mais importante da conversa, por meio de
Portuguesa o gênero é marcado a ponto de repetições sistemáticas. Este processo não é
ser redundante, por exemplo, na frase A MU- comum na Língua Portuguesa. ex: eu ter dois
LHER é professorA, o feminino é utilizado cachorros dois. A ênfase está na quantidade
diversas vezes, o que não era necessário para de cachorros, portanto, ela se repete.
se entender. • A língua de sinais utiliza as referências ana-
• A língua de sinais atribui um valor gramati- fóricas, isto é, sobre quem se está falando,
cal às expressões faciais. As expressões faciais mostrando ou indicando pontos específicos
não são essenciais na Língua Portuguesa, no espaço, o que exclui ambiguidades que são
apesar de poderem ser substituídas pela pro- possíveis na Língua Portuguesa. A língua de
sódia, que significa a pronúncia correta das sinais usa apontamentos para indicar um re-
palavras com acentuação ou intensidade. ferente e isso não cria ambiguidades como na
Língua Portuguesa.
• Coisas que são ditas na língua de sinais não
são ditas usando o mesmo tipo de construção • A escrita da língua de sinais, denominada
gramatical na Língua Portuguesa. Assim, às Signwriting, não é alfabética.
vezes uma grande frase em Língua Portugue-
sa é necessária para dizer poucas palavras em Ao se observar as produções em línguas orais e de
Libras e vice-versa. sinais, no nosso caso particular, entre a Língua Por-
• A língua de sinais utiliza a estrutura tópi- tuguesa e a Libras, percebem-se uma série de seme-
co-comentário, associada ao mecanismo lhanças, das quais destacamos:
gramatical da topicalização. De acordo com • Arbitrariedade: as línguas orais são maio-
Quadros e Karnopp (2004, p. 146), tal “[...] ritariamente arbitrárias, não se depreende
mecanismo está associado à marcação não- a palavra simplesmente pela sua represen-
-manual com a elevação das sobrancelhas”, tatividade, mas é necessário conhecer o
isto é, para destacar o tópico (de que ou quem seu significado. A iconicidade encontra-se
se fala), do argumento (o que se está falando), presente nas línguas de sinais, mais do que

84
EDUCAÇÃO FÍSICA

nas orais, mas a sua arbitrariedade conti- • Evolução e renovação: as línguas orais mo-
nua a ser dominante. Embora, nas línguas dificam-se, como no caso das palavras que
de sinais, alguns sinais sejam totalmente caem em desuso, outras que são adquiridas,
icônicos, é impossível, como nas línguas a fim de aumentar o vocabulário e ainda no
orais, depreender o significado da grande caso da mudança de significado das palavras.
maioria dos sinais, apenas pela sua repre- O mesmo acontece nas línguas de sinais, a
sentação. fim de responder às necessidades que a evo-
• Comunidade: as línguas orais têm uma co- lução socio-cultural impõe.
munidade que as adquirem, como língua ma- • Aquisição: a aquisição de qualquer língua
terna, cujo desenvolvimento se faz através de oral é natural, desde que haja um ambiente
uma comunidade de origem, passando pela propício desde nascença. Na língua de sinais
família, a escola e as associações. Todas as acontece da mesma forma, não tendo o sur-
línguas orais têm variações linguísticas. To- do que exercer esforço para aprender uma
das as línguas de sinais possuem estas mes- língua de sinais, ou necessidade de qualquer
mas características. preparação especial.
• Sistema linguístico: as línguas orais são sis- • Funções da linguagem: as línguas orais po-
temas regidos por regras. O mesmo acontece dem ser analisadas de acordo com as suas
com as línguas de sinais. funções. O mesmo acontece com as línguas
• Produtividade: as línguas orais possuem as de sinais. As funções são: a função referen-
características da produtividade e da recur- cial, a emotiva, a conotativa, a fática, a meta-
sividade, sendo possível aos seus falantes linguística, e a poética.
nativos produzirem e compreenderem um • Processamento: embora usando modalida-
número infinito de enunciados, mesmo que des de produção e percepção, as línguas orais
estes nunca tenham sido produzidos antes. e de sinais são processadas na mesma área
Acontece o mesmo com as línguas de sinais, cerebral.
sendo encontradas a criatividade e produtivi- • Dupla articulação: tanto as línguas orais pos-
dade nas produções, por exemplo, da Libras, suem um número finito de unidades (fone-
pelos seus sinalizadores nativos, parecendo mas para as primeiras e quiremas para as se-
não haver limite criativo. gundas) que não possuem significado quando
• Aspectos contrastivos: as línguas orais pos- consideradas isoladamente. Por exemplo, os
suem aspectos contrastivos, isto é, as unida- sons f, v, c, e a, não possuem significado por
des fonológicas do sistema de determinada si só, mas quando combinados, por exemplo,
língua estabelecem-se por oposições contras- como vaca, cava e faca, adquirem sentidos di-
tivas, ou seja, em pares de palavras, em que ferentes.
a substituição de uma unidade fonológica
No que se refere às especificidades das línguas de si-
(uma letra) por outra altera o significado da
palavra (por exemplo: jarra e barra). Aconte- nais em geral e da Libras em particular, destacamos:
ce o mesmo nas línguas de sinais, sendo que • Em função de suas características, os sinais
em vez de unidade fonológica, muda um pe- podem parecer movimentos aleatórios de
queno aspecto do sinal.

85
LIBRAS

mãos e corpo, acompanhados por expres- de sinais não seria arbitrária e resultante de
sões faciais variadas, ou seja, seriam apenas convenção, como as línguas orais, em que
“gestos”. De acordo com Pereira et al. (2001, não existe uma relação de semelhança en-
p. 18), esta descrição para sinais seria equiva- tre a palavra e o conceito que representa),
lente a descrever uma língua oral como “ruí- não podemos afirmar que a língua de sinais
dos” feitos com a boca. Além disso, os gestos seja icônica, pois apesar da relação direta,
são traços das línguas orais, isto é, acompa- quase transparente entre um sinal e o con-
nham as línguas orais e favorecem a comuni- ceito que este representa, as modificações
cação. Portanto, os sinais não são gestos. por eles sofridas ao longo do tempo e na
• A língua de sinais é tão natural e tão com- combinação com outros sinais resultam em
plexa quanto as línguas orais, dispondo de perda de iconicidade, se tornando, portan-
recursos expressivos suficientes para permi- to, arbitrários.
tir aos seus usuários expressar-se sobre qual- • A Libras é uma língua, com gramática pró-
quer assunto, em qualquer situação, domínio pria e com condições de proporcionar, não
do conhecimento e esfera de atividade. apenas a comunicação efetiva entre os sur-
• As línguas de sinais são línguas de modali- dos, como, também, a expressão de senti-
dade viso-motora ou espaço-visual ou, ainda, mentos; a composição de poesias; a discus-
visuoespacial, pois a informação linguística é são filosófica, enfim, um idoma completo,
produzida pelas mãos e recebida pelos olhos. não se tratando, absolutamente, de um con-
junto de gestos, mímica ou de Português
• A comunicação manual é algo inerente ao
sinalizado (reproduzir, utilizando sinais, a
ser humano e já existia entre os hominídeos
Língua Portuguesa, conservando suas regras
pré-históricos, sendo, portanto, natural. Di-
gramaticais).
zemos que uma língua é artificial, quando é
• As línguas de sinais não são iguais em todo
construída por um grupo de indivíduos com
o mundo, isto é, existe diferença entre as lín-
um objetivo específico, como o caso do Es-
guas de sinais utilizadas em países diferentes.
peranto, língua criada pelo russo Ludwik
No caso do Brasil, a língua brasileira de sinais
Zamenhof em 1887, com o objetivo de esta-
é denominada Libras e é, portanto, brasileira,
belecer uma comunicação internacional fácil.
não podendo ser considerada como uma lín-
De maneira semelhante, foi criado o Gestuno,
gua estrangeira. Dito de outra forma, língua
com a intenção de ser uma língua de sinais
de sinais é universal, mas, existe uma dife-
universal e que foi apresentado, pela primeira
rença importante entre as línguas de sinais e
vez em 1951, no Congresso Mundial da Fe-
as orais. Quando surdos de diferentes nacio-
deração Mundial dos Surdos, mas que não
nalidades se encontram, mesmo um não co-
conseguiu aceitação plena entre os surdos,
nhecendo a língua de sinais do outro, acabam
por ser inventada. Portanto, a língua de si-
se comunicando com mais facilidade que os
nais não é artificial!
ouvintes.
• A língua de sinais não é icônica, apesar de • As línguas de sinais, por comprovação
grande parte dos sinais serem icônicos, isto científica, cumprem todas as funções de
é, são parecidos com o que estão represen- uma língua natural, mesmo assim ainda
tando (o que poderia significar que a língua sofrem preconceito e são desvalorizadas

86
EDUCAÇÃO FÍSICA

diante das línguas orais, sendo considera-


SAIBA MAIS
das como uma derivação da gestualidade
espontânea, como uma mescla de panto-
mima e sinais icônicos. Sempre que se comparam duas línguas, apa-
• A língua de sinais não é subordinada à lín- rece uma série de regularidades e, a partir
gua oral majoritária do país. As línguas de dessas regularidades foram estabelecidos
alguns descritores para a busca de similari-
sinais são completamente independentes das
dades e diferenças entre as línguas. São eles:
línguas orais dos países onde são produzidas.
Como exemplo, as línguas de sinais do Brasil a. Que existem alguns aspectos que estão
e dos Estados Unidos possuem uma raiz co- presentes na base de todas as línguas
naturais, consideradas similaridades
mum a língua de sinais francesa, embora o comportamentais que não precisam ser
Português e o Inglês não possuam as mesmas explicitados.
raízes, sendo o primeiro um idioma de ori- b. Que se duas línguas têm muitas simila-
gem latina e o segundo, anglo-saxão. ridades tipológicas, estas poderão servir
de base para as primeiras ideias sobre o
• A Libras é uma língua adaptada à capacidade significado das formas em língua estran-
de expressão dos surdos brasileiros, devendo, geira; como, por exemplo, o Português
portanto ser conhecida, pelo menos em seus e o Espanhol. Se você conhece bem o
aspectos fundamentais pelos professores. Português, possui um vasto vocabulário,
certamente você terá facilidades para
• A Libras é falada de boca fechada! As pessoas compreender o Espanhol.
ouvintes, que não são fluentes em Libras, cos- c. Quanto às diferenças, se elas acontecem
tumam misturar as duas línguas na comuni- sempre nas mesmas coisas – por exem-
cação com surdos e acabam por utilizar os si- plo, Inglês quase não tem masculino e
nais da língua de sinais, mas com a estrutura feminino e Português quase sempre tem.
Saber no que as línguas são diferentes
da Língua Portuguesa. Normalmente, o sur-
ajuda a entender melhor a língua estran-
do não compreende essa mistura de línguas, geira.
pois a construção de sentido depende da es-
Fonte: as autoras
trutura e, portanto, da fidelidade à gramática
da língua de sinais.

87
LIBRAS

Aspectos Fonológicos
da Libras
No texto anterior estabelecemos semelhanças e dife- De acordo com Quadros e Karnopp (2004, p.
renças entre línguas de sinais e línguas orais. Neste 47), a “[...] primeira tarefa da fonologia para as
capítulo, destacamos mais uma e talvez a semelhan- línguas de sinais é determinar quais são as uni-
ça mais importante entre elas: dades mínimas que formam os sinais” e a segun-
da tarefa, ainda segundo as mesmas autoras “[...]
[...] ambas seguem os mesmos princípios pelo é estabelecer quais são os padrões possíveis de
fato de possuírem um léxico, isto é, um conjun-
combinação entre essas unidades” e as variações
to de símbolos convencionais e uma gramática,
ou seja, um sistema de regras que rege o uso possíveis.
desses símbolos (PEREIRA et al. 2011, p. 59). Um sinal não é holístico, isto é, não se constitui
em um “todo indivisível”, ao contrário, ele é consti-
Foi o linguista americano Stokoe, conforme vimos tuído pela combinação dos movimentos das mãos,
no texto anterior, o primeiro estudioso a constatar, com um determinado formato e orientação das pal-
na década de 1960, que a língua de sinais, no caso, a mas, em um determinado lugar, que pode ser um
Língua de Sinais Americana – LSA ou ASL – American ponto específico do corpo ou um espaço à frente do
Sign Language preenchia todos os requisitos linguísticos sujeito que sinaliza. Dito de outra forma, os sinais
de uma língua, isto é, possuía um léxico (vocabulário), são constituídos por unidades mínimas, também
uma sintaxe (regras gramaticais) e uma capacidade de chamadas de parâmetros, que se combinam me-
gerar uma quantidade infinita de sinais e sentenças. diante alguns padrões.

88
EDUCAÇÃO FÍSICA

Em suas pesquisas Stokoe estabeleceu que • Os elementos mínimos constituintes da lín-


cada sinal é composto por três parâmetros bási- gua de sinais (parâmetros)são processados
simultaneamente e não linearmente como
cos: a configuração das mãos (CM); o movimen-
ocorre na língua oral.
to das mãos (M) e o ponto de articulação (PA)
• Os articuladores primários das línguas de
ou Locação (L), que é o lugar do espaço onde as
sinais são as mãos, que se movimentam no
mãos se movem. Parâmetro é um componente de
espaço em frente ao corpo e articulam sinais
um sinal, uma unidade mínima que, se for alte- em determinadas locações nesse espaço. En-
rado, altera o significado da palavra ou sinal. Os tretanto, os movimentos do corpo e da face
parâmetros, nas línguas de sinais, correspondem também desempenham funções.
aos fonemas nas línguas orais, e, em analogia, • Um sinal pode ser articulado com uma ou
Stokoe propôs inicialmente o termo quirema para duas mãos. No caso de uma mão, a articula-
tais parâmetros. ção ocorre pela mão dominante.
A partir da década de 1970 foram aprofundados • Um mesmo sinal pode ser produzido pela
os estudos fonológicos sobre a ASL dos quais resul- mão esquerda ou direita.
tou a descrição de um quarto parâmetro: a orienta-
ção (O) e, posteriormente, mais um parâmetro foi Assim, conforme vimos anteriormente, unidades mí-
acrescentado: os componentes não manuais ou ex- nimas (parâmetros) podem ser produzidas simultane-
pressões não manuais (ENM). amente e a variação de uma delas pode alterar o signi-
ficado do sinal. Elas não têm significado isoladamente.
Esse contraste de dois itens lexicais com base Um sinal pode ser constituído por mais de uma uni-
em um único componente recebe, em linguís-
dade mínima, por exemplo, o sinal de “televisão” en-
tica, o nome de “par mínimo”. Nas línguas
orais, por exemplo, pata e rata se diferenciam volve, simultaneamente, configuração de mão, ponto
significativamente pela alteração de um único de articulação, movimento e a orientação de mão.
fonema: a substituição do /p/ por /r/. No nível
lexical, temos em LIBRAS pares mínimos como
os sinais grátis e amarelo (que se opõem quanto
à CM), churrascaria e provocar (diferenciados
pelo M), ter e Alemanha (quanto à L) (GESSER,
2009, p. 15).

Quadros e Karnopp (2004) apresentam alguns dos as-


pectos fonológicos da Língua Brasileira de Sinais e são:
• As línguas de sinais são visuoespaciais (ou es-
paço-visuais), pois a informação linguística é
recebida pelos olhos e produzida pelas mãos.
TELEVISÃO

89
LIBRAS

A Libras tem sua estrutura gramatical organizada dos sinais que podem ser as do alfabeto digital ou
a partir de cinco parâmetros que estruturam sua outras. Uma mesma configuração de mão possi-
formação nos diferentes níveis linguísticos: a Con- bilita a produção de vários sinais, por exemplo, a
figuração da(s) mão(s)-(CM), o Movimento - (M), configuração mão em “L” está presente nos sinais de
o Ponto de Articulação ou Locação - (PA) ou (L) e “televisão”, “trabalho”, “papel”, “educação”, entre ou-
a Orientação das mãos (O) e as Componentes não tros. Ferreira-Brito (1995) propõe 46 configurações
manuais ou Expressões não manuais (CNM) ou de mão. Atualmente, o dicionário digital de Língua
(ENM) que são as expressões faciais e corporais. Brasileira de Sinais organizado pela Acessibilidade
Configuração de mão (CM): a configuração de Brasil (disponível em: <[Link]>.
mão é o ponto de partida da articulação do sinal. Acesso em: 20 jun. 2016) apresenta 73 configura-
São as formas que as mãos assumem na produção ções, conforme quadro a seguir:

90
EDUCAÇÃO FÍSICA

Apresentamos a seguir, 38 configurações de mão sendo 28 que compõem o Alfabeto Digital, e 10 que se re-
ferem aos algarismos:

ALFABETO DIGITAL

A B C D

E F G H

I J K L

M N O P

Q R S T

91
LIBRAS

U V X W

Acesse e veja o material que


preparamos especialmente
para você!

Y Z

ALGARISMOS

1 2 3 4

5 6 7 8

Acesse e veja o material que


preparamos especialmente
para você!
Fonte: as autoras.

9 0

92
EDUCAÇÃO FÍSICA

A Libras não se resume a escrever as palavras escrita datilológica na fala, em conversas. A datilolo-
utilizando o alfabeto digital. A escrita datilológica, gia é uma forma de comunicação em Libras funda-
que é como é denominada esse tipo de escrita, só é mentada essencialmente no alfabeto datilológico e é
utilizada para nomes próprios ou para palavras que diferente da soletração.
ainda não possuem um sinal ou que não pode ser A soletração é feita em Libras, letra por letra, da
facilmente representada por um classificador icôni- mesma forma que na Língua Portuguesa, por exem-
co. Outro aspecto a se destacar é que a escrita dati- plo, soletrando com a mão, o nome Maria (escrita
lológica não é a escrita de sinais, isto é, se utiliza a ou fala) – M-a-r-i-a (soletração).

M A R I A

É aconselhável soletrar devagar, formando as A datilologia difere da soletração porque não re-
palavras com nitidez. Entre as palavras soletradas, produz todas as letras da palavra, mas, dito de manei-
é melhor fazer uma pausa curta ou mover a mão di- ra simplificada, soletra um resumo da palavra, para
reita para o lado esquerdo, como se estivesse empur- agilizar a comunicação. Por exemplo, PAI, fica em da-
rando a palavra já soletrada para o lado. tilologia P-I, sem o A. observe os exemplos a seguir:

Soletração: PAI Datilologia: PI

Soletração: VAI Datilologia: VI

93
LIBRAS

Nesse exemplo, o que distingue a datilologia da zamos o símbolo @, isto é, o símbolo @ está sen-
palavra VAI (VI) da soletração da palavra VI é o do utilizado para representar sinais que, diferen-
contexto em que ocorre a conversação. temente do Português, não possuem marca para
gênero (masculino/feminino). Assim, o sinal tra-
Os nomes podem ser transmitidos por datilolo- duzido por fei@ pode tanto ser usado para feio
gia, quando o surdo está alfabetizado, mas a co-
ou feia.
munidade surda prefere a prática de atribuir um
sinal que identifica cada pessoa. Esse sinal ad- Observe as fotos. Para compor um sinal, a ex-
jetiva características físicas da pessoa. Por isso, pressão facial é importante, por exemplo, para o si-
dois meninos chamados Jonatas, por exemplo, nal feio, a expressão do rosto deve indicar isso.
podem ter sinais diferentes um do outro, porque
um tem uma covinha no queixo e o outro tem
o cabelo encaracolado. Também pode acontecer
de dois alunos de nomes diferentes terem o sinal
parecido (REILY, 2004, p. 132).

Ressaltamos que o alfabeto digital é um recurso


utilizado pelos surdos sinalizadores para soletrar
manualmente as palavras (soletração e datilologia).
Assim, apesar de possuir uma importante função na
interação entre sinalizadores, o alfabeto digital não é
uma língua e sim apenas um código para a represen- FEI@

tação manual das letras alfabéticas. Detalhe impor-


tante: a soletração só é possível entre interlocutores Ponto de Articulação (PA) ou Localização (L):
alfabetizados. O ponto de articulação é a segunda principal unida-
de mínima. É o lugar do corpo ou do espaço em que
É nesse sentido que as crianças surdas, ainda em é realizado o sinal. Os sinais podem ser produzidos
processo de alfabetização da escrita oral, pode-
envolvendo quatro pontos de articulação: tronco, ca-
rão ter também dificuldade com essa habilida-
de. Mais uma prova para desconstruir a crença beça, mão e espaço neutro. Muitos sinais envolvem
de que a língua de sinais pudesse ser o alfabeto um movimento, indo de um ponto de articulação
manual/datilologia, afinal, para ser compreen- para outro. Mesmo assim, considera-se que cada
dido e realizado o abecedário precisa ser ensina- sinal tem apenas um ponto de articulação, mesmo
do formalmente (GESSER, 2009, p. 33).
que ocorra um movimento de direção. Se dois sinais
possuem a mesma configuração de mão e mesmo
O alfabeto digital da Libras não é o mesmo que é movimento, mas pontos de articulação diferentes,
utilizado pelos surdos-cegos que precisam pegar na eles são diferentes, como por exemplo, os sinais
mão do interlocutor para nela produzir o sinal. para amar, ouvir, aprender e laranja, diferem entre
Uma observação: como a Libras não admite si apenas pelo ponto de articulação. Ex: LARANJA
flexão de gênero, na transcrição dos sinais utili- e APRENDER.

94
EDUCAÇÃO FÍSICA

MOVIMENTO (M)

De acordo com Nogueira, Carneiro e Nogueira


(2010, p. 104), “[...] movimento é uma importante
unidade mínima. Além de participar ativamente na
produção do sinal, ele dá graça, beleza e dinamismo
a essa língua”.

LARANJA Para que haja movimento, é preciso haver


objeto e espaço. Nas línguas de sinais, a(s)
mão(s) do enunciador representa(m) o objeto,
Mesmo movimento e Configuração da Mão, mas enquanto o espaço em que o movimento se re-
outro Ponto de Articulação. Observe: aliza (o espaço de enunciação) é a área em tor-
no do corpo do enunciador [...]. O movimento
é definido como um parâmetro complexo que
pode envolver uma vasta rede de formas e di-
reções, desde o movimento interno da mão, os
movimentos dos pulsos e os movimentos di-
recionais no espaço (QUADROS; KARNOPP,
2004, p. 54).

As pessoas ouvintes, ao usarem a língua de sinais, o


fazem, normalmente, de maneira mais estática. Isso
APRENDER
ocorre porque o movimento, embora seja uma parte
integrante da língua, é realizado com mais proprie-
Mesma CM, M com pouca diferença e PA é dife- dade pelos surdos, que são visuais, mais fluentes em
rente; CACHORR@ e CULPA. Observe: relação aos ouvintes e conhecem a língua profunda-
mente.
Sabe-se que associar à produção do sinal as-
pectos como o movimento e as expressões não-
-manuais não é algo simples, para os ouvintes. Essa
habilidade exige muita competência e fluência na
língua, além de uma boa coordenação motora, do-
mínio do movimento e orientação no espaço.
Ainda segundo Nogueira, Carneiro, Nogueira
(2010, p. 105), para os ouvintes, que são usuários de
CACHORR@ CULPA
língua oral-auditiva,

95
LIBRAS

[...] o domínio dessas habilidades é algo bem


complexo. Os surdos, por serem seres visuais, car variação em relação ao tempo dos verbos, como,
adquirem essas habilidades com muito mais na- por exemplo, olhe para, olhe fixo, observe, olhe por
turalidade e facilidade do que os ouvintes. um longo tempo, olhe várias vezes.
Os movimentos se diferenciam pela direciona-
Cabe destacar, então, que para que haja movimento, é lidade, tipo, maneira e frequência. Vamos abordar
preciso haver espaço. Portanto, o movimento é indis- aqui, apenas a direcionalidade e o tipo.
sociável do espaço, entretanto, um sinal também pode Quanto à direcionalidade um movimento
ser realizado sem movimento, exemplos: pode ser:

a. Unidirecional: movimento em uma única di-


reção no espaço, durante a realização de um
sinal. Ex.: PROIBID@, MANDAR. ( → )

AJOELHAR EM PÉ

PROIBIR

PENSAR

As variações do movimento servem para dife-


renciar itens lexicais, como, por exemplo, nome e
verbo, para indicar a direcionalidade do verbo, por
MANDAR
exemplo, o verbo “olhar” (e olhar para) e para indi-

96
EDUCAÇÃO FÍSICA

b. Bidirecional: movimento realizado por uma c. Multidirecional: movimentos que exploram


ou ambas as mãos, em duas direções diferen- várias direções no espaço, durante a realiza-
tes. Ex.: DISCUTIR, JULGAMENTO, TRA- ção de um sinal. Ex.: INCOMODAR, PES-
BALHAR, BRINCAR, GRANDE. ( ) QUISAR. ( ↔ ↘ )

DISCUTIR JULGAMENTO INCOMODAR

BRINCAR TRABALHAR

PESQUISAR

Você pode perceber esses movimentos com mais


clareza, consultando os vídeos.

GRANDE

97
LIBRAS

TIPOS DE MOVIMENTOS

Ferreira-Brito (1995) identificou seis tipos diferen- b. movimento helicoidal:


tes de movimento, a saber: de contorno ou forma ge-
ométrica; interação; contato, torcedura, dobramento
e interno das mãos. Vamos abordar aqui, apenas o
tipo que se refere ao contorno ou forma geométri-
ca, que é a forma do movimento no espaço. Nessa
categoria de contorno ou forma geométrica os mo-
vimentos podem ser:
a. movimento retilíneo:

ALT@ IMPORTANTE

c. movimento circular:

VER MANDAR

BRINCAR BICICLETA
DEVER

98
EDUCAÇÃO FÍSICA

e. movimento sinuoso:

NADAR

d. movimento semicircular:

NAVIO

f. movimento angular:

SAÚDE SURD@

DIFÍCIL

Observe esses movimentos nos seus vídeos.

Orientação das mãos: é a direção para a qual a


palma da mão aponta na produção do sinal. É possível
CORAGEM
identificar seis tipos de orientações da palma da mão na

99
LIBRAS

COMPONENTES OU EXPRESSÕES NÃO


MANUAIS (CNM OU ENM)

Língua Brasileira de Sinais: para cima, para baixo, para Além desses parâmetros, a Libras conta com uma série
o corpo, para frente, para a direita ou para a esquerda. de componentes não manuais, como a expressão facial
ou o movimento do corpo, que muitas vezes podem
definir ou diferenciar significados entre sinais. As ex-
pressões não-manuais envolvem movimento da face,
dos olhos, da cabeça e do tronco. A expressão facial e a
corporal podem traduzir alegria, tristeza, raiva, amor,
encantamento etc., dando mais sentido à Libras e, em
alguns casos, determinando o significado de um sinal.
Essa unidade mínima é também muito importante lin-
guisticamente, pois marca as sentenças interrogativas.
Ex.: o dedo indicador com a configuração de
mão da letra G do alfabeto digital [G] sobre a boca,
com a expressão facial calma e serena, significa si-
lêncio; o mesmo sinal usado com um movimento
mais rápido e com a expressão de zanga, significa
uma severa ordem: Cale a boca!

Também pode ocorrer a mudança de orientação


durante a execução de um sinal. Exemplo: MONTA-
NHA, BAIXA.

SILÊNCIO CALE A BOCA

Em outros casos, utilizamos a expressão facial e


corporal para negar, afirmar, duvidar, questionar etc.
Duas expressões podem ocorrer ao mesmo tem-
po, como, por exemplo, as marcas de interrogação e
negação, que podem envolver franzir de sobrance-
MONTANHA BAIXA
lhas e projeção da cabeça, por exemplo.

100
EDUCAÇÃO FÍSICA

As componentes não-manuais possuem duas • Olhos semifechados com o franzir da testa,


funções nas línguas de sinais: marcação de cons- ombros levantados e inclinação da cabeça
truções sintáticas (marcam sentenças interrogativas para frente, para coisas estreitas ou finas.
sim-não, interrogativas QU: que, quem, qual, quan- • Expressão facial normal para tamanhos médios.
do) e diferenciação de itens lexicais.
No caso de diferenciação de itens lexicais, o Observe a seguir, as diferentes emoções de expres-
sinal convencional é modificado, sendo realiza- sões faciais:
do na face, disfarçadamente. Exemplos: ROUBO,
ATO-SEXUAL.

IRONIA ALEGRIA

ATO SEXUAL

ESPANTO BRAVO

LADRÃO

As expressões faciais são muito importantes na


realização dos classificadores, pois intensificam seu
significado. Por exemplo:
• Bochechas infladas e olhos bem abertos para
RAIVA CUMPLICIDADE
coisas grandes ou grossas.

101
LIBRAS

INTENSIDADE

QUE COISA, HEIM! PENA


DINHEIRO RICO

TRISTEZA CANSADO
MILIONÁRIO MULTIMILIONÁRIO

TAMANHO

Até o momento você estudou as unidades mínimas


de um sinal e viu que, apesar de cada uma dessas
unidades mínimas (ou parâmetros), a saber, confi-
guração de mãos, ponto de articulação, movimento,
orientação das mãos e componentes não manuais
ENFADO, TÉDIO SUSTO
não possuírem significado isoladamente, quando se
compõem, passam a constituir sentido. Entretanto,
As expressões faciais também são utilizadas para essa composição não é livre. Ela deve seguir regras,
indicar advérbios de intensidade e tamanho. dentre as quais se encontram aquelas que restringem

102
EDUCAÇÃO FÍSICA

b. Condição de dominância: se as mãos apre-


ou limitam a formação de sinais, ou seja, a combina- sentam distintas CM, então a mão ativa produz
ção das unidades mínimas. “Algumas dessas restri- o movimento, e a mão passiva serve de apoio,
ções são impostas pelo sistema perceptual (visual) apresentando um conjunto restrito de CM (não
e outras pelo sistema articulatório (fisiologia das marcadas).

mãos)” (QUADROS; KARNOPP, 2004, p. 78). As restrições na formação de sinais, derivadas


Considerando que os sinais que utilizam ape- do sistema de percepção visual e da capacida-
nas uma das mãos podem ser produzidos indistin- de de produção manual restringem a comple-
xidade dos sinais para que eles sejam mais fa-
tamente pela mão direita ou esquerda, as condi-
cilmente produzidos e percebidos. O resultado
ções de restrição se referem aos sinais produzidos disso é uma maior previsibilidade na formação
por ambas as mãos. Para sinais produzidos com de sinais e um sistema com complexidade con-
as duas mãos, temos duas possibilidades: (a) as trolada.
duas mãos são ativas e (b) uma mão é ativa (mão
dominante) e a outra serve como locação. Assim, Destacamos que a condição de simetria se refere
as condições de restrição se referem a essas possi- tanto à percepção visual, pois as duas mãos sendo
bilidades de produção de sinais com as duas mãos ativas seria muito difícil a percepção dos movimen-
e são, de acordo com Quadros e Karnopp (2004, tos, se eles não fossem simétricos, quanto ao sistema
p. 79): articulatório visto ser extremamente difícil a produ-
ção simultânea de sinais distintos para cada uma das
a. Condição de simetria: caso as duas mãos mãos. Com o estudo das restrições na formação de
se movam na produção de um sinal, então de-
sinais, encerramos esta parte relacionada à fonolo-
terminadas restrições aparecem, a saber: a CM
deve ser a mesma para as duas mãos, a locação gia das línguas de sinais em geral e da Libras em par-
de ser a mesma ou simétrica, e o movimento ticular. Em nossa próxima unidade, abordaremos os
deve ser simultâneo ou alternado. aspectos morfológicos da Libras.

103
LIBRAS

Léxico de Categorias Semânticas I


Tempo e Elementos da Natureza
A partir desta terceira Unidade, iniciamos a cons-
trução do seu vocabulário (léxico) em Libras. Para
isso, apresentamos os sinais reunidos por temas
(categorias semânticas). Assim, começamos com a
categoria Tempo, na qual reunimos o calendário; as
horas; as estações do ano; clima, fenômenos climáti-
cos, astros e elementos da natureza. Procure estudar
esses sinais em conjunto com os vídeos para obser-
var o movimento.
QUARTA-FEIRA QUINTA-FEIRA

CALENDÁRIO
SEXTA-FEIRA

SEGUNDA-FEIRA TERÇA-FEIRA
SABADO

104
EDUCAÇÃO FÍSICA

D I A
DOMINGO

TODO DIA SEMANA DUAS SEMANAS

FAZ TEMPO TÊS SEMANAS QUATRO SEMANAS

105
LIBRAS

UM DIA TRÊS DIAS

DOIS DIAS QUATRO DIAS QUANTOS DIAS

UM DIA (QUEM SABE UM DIA)

106
EDUCAÇÃO FÍSICA

MÊS ANO (DATA) FEVEREIRO


OU

JANEIRO FEVEREIRO

M Ç O

107
LIBRAS

ABRIL

M I O

JUNHO JULHO

108
EDUCAÇÃO FÍSICA

AGOSTO SETEMBRO

OUTUBRO NOVEMBRO

DEZEMBRO (MÊS DIA ANO) DURAÇÃO

109
LIBRAS

ANO QUE VEM ANO PASSADO ONTEM

AMANHÃ MANHÃ TARDE

HOJE NOITE

110
EDUCAÇÃO FÍSICA

HORAS (RELÓGIO) HORAS (DURAÇÃO) ATRASO / DEPOIS

ANTES / ANTECIPAR DEMORA

Acesse e veja o material que


preparamos especialmente
para você!

111
LIBRAS

ESTAÇÕES DO ANO – ESTADOS DO TEMPO

TEMPO

PRIMAVERA

VERÃO

OUTONO FRIO / INVERNO OU FRIO / INVERNO

112
EDUCAÇÃO FÍSICA

FENÔMENOS METEREOLÓGICOS
ASTROS – NATUREZA

CHUVA ARCO-ÍRIS NUVEM

CHUVOSO RELÂMPAGO NUBLADO

TROVÃO VENTO

113
LIBRAS

FURACÃO

TERREMOTO

ASTROS

LUA

114
EDUCAÇÃO FÍSICA

SOL ESTRELA

ELEMENTOS DA NATUREZA

ÁRVORE FLOR CACHOEIRA

FLORESTA

115
LIBRAS

JARDIM / GRAMA

LAGO

RIO

116
EDUCAÇÃO FÍSICA

TERRA (PLANETA)

PEDRA

TERRA MONTANHA

117
considerações finais

Essa unidade talvez seja a que contém maior número de informações desconhe-
cidas por você, dentre as quais, destacamos:
• A língua de sinais é tão natural e tão complexa quanto as línguas orais, dis-
pondo de recursos expressivos suficientes para permitir aos seus usuários
expressar-se sobre qualquer assunto, em qualquer situação, domínio do
conhecimento e esfera de atividade.
• A Libras é uma língua adaptada à capacidade de expressão dos surdos,
devendo, portanto ser conhecida, pelo menos em seus aspectos funda-
mentais pelos professores.
• A Libras é uma língua, com gramática própria e com condições de propor-
cionar, não apenas a comunicação efetiva entre os surdos, como, também,
a expressão de sentimentos; a composição de poesias; a discussão filosófi-
ca, enfim, um idoma completo.
• As línguas de sinais, por comprovação científica, cumprem todas as fun-
ções de uma língua natural, mesmo assim, ainda sofrem preconceito e são
desvalorizadas diante das línguas orais, sendo consideradas como uma
derivação da gestualidade espontânea, como uma mescla de pantomima
e sinais icônicos.
• A língua de sinais não é subordinada à língua oral majoritária do país. As
línguas de sinais são completamente independentes das línguas orais dos
países em que são produzidas.
• Na sua casa, com a ajuda de um espelho, treine a expressão facial e corpo-
ral, isso ajuda muito em Libras.
Também abordamos, nesta Unidade III, a organização fonológica dos sinais, des-
tacando, as unidades mínimas e, também, as restrições na formação de sinais,
além de estabelecer uma comparação entre as línguas de sinais e as línguas orais.
Falamos muito aqui em língua natural, razão pela qual recomendamos o estudo
atento do texto que trouxemos como Leitura Complementar, que aborda essa
questão. Outra novidade dessa nossa terceira unidade é o início da construção de
seu vocabulário em Libras, com a apresentação da categoria semântica Tempo e
Elementos da Natureza.

118
atividades de estudo

1. Estude o alfabeto manual. Faça cada configura- 4. A comunicação pelas mãos teve início apenas
ção de mãos de frente ao espelho. Lembre-se: com os surdos, ou seja, foram os surdos os pri-
o sinal deve ser feito “virado” para o seu inter- meiros seres humanos a se comunicar usando
locutor, e não para você. Assim, olhando no gestos. Esta informação pode ser considerada
espelho, você deve enxergar o sinal tal como verdadeira? Justifique sua resposta baseando-
se apresenta no texto. Soletre cada uma das -se nos conhecimentos adquiridos ao longo
seguintes palavras: CASA, PAULO, ÁRVORE, desta unidade.
CARRO, LIQUIDIFICADOR, SÃO PAULO, MARIA,
ANA MARIA, COMPORTAMENTO. 5. Cada parâmetro da Libras, de maneira isola-
da, não possui significado. Apenas quando se
2. Em sua opinião, existem mais semelhanças ou compõem é que passam a constituir sentido.
diferenças entre a Libras e a Língua Portugue- Entretanto, essa composição não é livre. Nesse
sa? Justifique. contexto, analise as afirmações a seguir e
assinale a alternativa correta.
3. Considerando que as restrições para a forma- I. Os sinais que utilizam apenas uma das mãos
ção de sinais podem ser exemplificadas em si- podem ser produzidos indistintamente pela
nais produzidos pelas duas mãos, analise as mão direita ou esquerda.
afirmações a seguir e assinale a alternativa
II. As condições de restrição se referem aos si-
correta:
nais produzidos por ambas as mãos e temos
I. Condição de simetria estabelece que se am-
duas possibilidades.
bas as mãos são ativas, a CM deve ser a mes-
ma para as duas. III. Quando as duas mãos se movem na produ-
ção de um sinal, então as condições de com-
II. As restrições diminuem a complexidade dos
posição dependem de a CM ser a mesma para
sinais facilitando sua produção e percepção.
ambas as mãos ou não.
III. Se apenas uma das mãos é ativa, a mão não
IV. A condição de simetria se refere tanto à per-
dominante serve de apoio para a mão domi-
cepção visual, quanto ao sistema articulatório.
nante.
a. ( ) Somente I, II e III são verdadeiras.
IV. No caso de ambas as mãos serem ativas, o
ponto de articulação deve ser o mesmo ou b. ( ) Somente I, II e IV são verdadeiras.
simétrico. c. ( ) Somente II, III e IV são verdadeiras.
a. ( ) Somente I, II e III são verdadeiras. d. ( ) Somente I, III e IV são verdadeiras.
b. ( ) Somente I, II e IV são verdadeiras. e. ( ) Todas são verdadeiras.
c. ( ) Somente II, III e IV são verdadeiras.
d. ( ) Somente I, III e IV são verdadeiras.
e. ( ) Todas são verdadeiras.

119
LEITURA
COMPLEMENTAR

Apresentamos a seguir um fragmento do Capítulo 2 do livro: Tenho um aluno surdo e


agora?, que apresentamos como material complementar. O capítulo 2, cujo título é Li-
bras: apresentando a língua e suas características, é de autoria de Kathryn Marie Pache-
co Harrison. Essa parte selecionada estabelece com clareza, o significado , de “língua
natural”, além de caracterizar a modalidade visuoespacial.

ESTATUTO DA LIBRAS ENQUANTO LÍNGUA NATURAL


Kathryn Marie Pacheco Harrison
Ao ler o subtítulo acima, pode-se perguntar o que significa a palavra “natural”. Seria
legítimo pensar que é uma língua que surge espontaneamente quando a pessoa nasce
com uma perda auditiva, mas seria uma ideia errônea. Na verdade, o termo “natural”
designa a característica das línguas orais e sinalizadas utilizadas pelos seres humanos
em suas diversas interações sociais e, se diferencia do que se chama de “linguagem
formal”; isto é, linguagens construídas pelo ser humano, como as linguagens de progra-
mação de computador ou a linguagem matemática.
Outro fator que explicita a característica natural das línguas de sinais é a sua organi-
zação cerebral. Estudos desenvolvidos no Laboratório de Neurociências Cognitivas da
Universidade da Califórnia com surdos com

[...] lesões cerebrais estabeleceram que o hemisfério esquerdo subserve as fun-


ções linguísticas para língua de sinais, apesar de que a ASL utiliza distinções espa-
ciais e ser processada visualmente - domínio para os quais os hemisférios direitos
de pessoas ouvintes têm sido encontrados como dominantes (EMMOREY; BELLU-
GI; KLIMA, 1993, p. 19).

Em outras palavras, significa que, embora as línguas de sinais sejam produzidas princi-
palmente por movimentos das mãos no espaço (o que em pessoas que ouvem e falam
é percebido pelo hemisfério direito do cérebro), esses movimentos são percebidos pelo
hemisfério esquerdo das pessoas surdas que usam língua de sinais, justamente porque
são entendidos como língua e não como gesticulação ou movimento corporal aleatório.
Para que esses e outros estudiosos das línguas de sinais pudessem chegar a essas
conclusões, houve um primeiro estudo, o estudo linguístico fundador, realizado pelo
linguista americano William Stokoe, em 1960. A partir de sua observação de surdos

120
LEITURA
COMPLEMENTAR

sinalizando na universidade em que lecionava, ele, curioso, resolveu estudá-la. Seria


uma língua? Para obter a resposta a essa pergunta, aplicou os rigorosos métodos de
pesquisa da linguística estrutural. Os resultados de seus estudos demonstraram evi-
dências de que, ao contrário do que se pensava até então, a língua e sinais dos surdos
têm estrutura e função semelhante às demais línguas.
Para descrever uma língua antiga, produzida em uma modalidade tão diferente das
línguas faladas e nunca antes estudada, criou alguns termos próprios para definir os
elementos constituintes da ASL, como:

• Sinal: a menor unidade da língua de sinais com significado.


• Gesto: movimento comunicativo não analisável linguisticamente.
• Quirema (do grego: kiros = mãos): conjunto de posições, configurações ou movi-
mentos que tenham a mesma função na linguagem, o ponto de estrutura da língua
de sinais (análogo ao “fonema” nas línguas orais).
• Alocação: qualquer um do conjunto de configurações, movimentos ou posições, isto
é, quirema, que sinaliza identicamente na língua.

Além disso, propôs a decomposição dos sinais da ASL em três parâmetros formacio-
nais: configuração de mão (CM); locação da mão (L); e movimento da mão (M). O traba-
lho de Stokoe teve grande repercussão nos meios linguísticos ao redor do mundo e nos
movimentos de surdos, que a partir de então tinham em mãos uma evidência científica
de que sua comunicação sinalizada apresentava o estatuto de língua semelhante ao
das línguas orais e, portanto, merecedora de respeito.

A MODALIDADE VISUOESPACIAL

Quando falamos, um complexo sistema de órgãos e funções entra em ação, basica-


mente: lábios, língua, dentes, nariz (para articular as palavras), a laringe (para produ-
zir a voz) e os pulmões, que produzem o ar que passa pela laringe e depois pela boca
e, finalmente as palavras se deslocam pelo ar, para chegar aos nossos ouvidos, onde
as escutamos e compreendemos. Além disso, os sons da fala (os fonemas) são pro-
duzidos um depois do outro, pois é impossível anatomicamente produzir dois sons
ao mesmo tempo. Por essa razão, dizemos que a fala é produzida sequencialmente
no tempo.

121
LEITURA
COMPLEMENTAR

As línguas de sinais, por outro lado, são produzidas por movimentos das mãos, do cor-
po e expressões faciais em um espaço à frente do corpo, chamado de espaço de sina-
lização. A pessoa “recebe” a sinalização pela visão, razão pela qual as línguas de sinais
são chamadas de visuoespaciais ou espaço-visuais. Dependendo do tipo de enunciado
produzido, dos sinais utilizados, do que se deseja expressar, se pode obter uma sina-
lização em que vários sinais podem ser feitos simultaneamente, pois, no caso dos mo-
vimentos envolvidos, não há impedimento anatômico. Em outros momentos, os sinais
são produzidos um após o outro, sequencialmente.
Os estudos linguísticos demonstram, além do mais, que as línguas de sinais, e aí está
inserida a Libras, possuem as mesmas características e qualidades de qualquer outra
língua, ou seja:

1. Versatilidade e flexibilidade: são qualidades que as línguas possuem de poder ex-


pressar qualquer sentimento, emoção, fazer indagações, fazer referência ao pas-
sado, presente ou futuro, ou até mesmo à fatos e coisas que não existem.

2. Arbitrariedade: é a característica segundo a qual a forma da palavra (seja falada,


escrita ou sinalizada) não tem relação direta com seu significado. Se ouvirmos uma
palavra em língua estrangeira, o som dela não nos ajudará a saber seu significado.
Da mesma maneira, ver um sinal não ajudará a conhecer o que significa, a não ser
que conheçamos a língua.

3. Criatividade/produtividade: são possibilidades que as línguas possuem de produ-


zir infinitos enunciados a partir de um número finito de fonemas ou quiremas.

4. Dupla articulação: é a característica das línguas de possuir um número finito de


unidades (fonema ou quirema) que isoladamente não têm significado. Apenas se
forem combinadas a outros fonemas/quiremas adquirem significado. Por exem-
plo, os sons o, p, t, a, isolados, não têm significado, mas ao serem combinados,
como em pato ou topa ou opta, ganham diferentes sentidos. Pode-se compreen-
der, então, que há duas camadas nas palavras, uma de unidades menores e outra
de unidades maiores.

Fonte: Harrison (2013).

122
EDUCAÇÃO FÍSICA

Tenho um aluno surdo e agora? Introdução à Libras e


educação de Surdos.
Cristina Broglia Feitosa de Lacerda e Lara Ferreira dos Santos (Org.)
Editora: EdUFSCAR, 2013
Sinopse: ganhador do Prêmio Jabuti na categoria Educação, este
livro reúne texto de autores diversos que atuam na área da surdez,
com a intenção de possibilitar uma visão ampla a respeito da sur-
dez, da Libras e da educação de surdos. Conforme as organizadoras destacam, na contraca-
pa, o objetivo que as orientaram na produção deste livro foi “[...] oferecer um conhecimento
inicial acerca da educação de surdos e da Libras, bem como dar subsídios para a atuação do
professor da educação básica junto a alunos surdos”. Leitura fascinante, fácil e quase que
obrigatória aos futuros professores.

Você encontra muitas informações acerca da Libras, referências bibliográficas, links importan-
tes, pesquisas atuais, e entre outros diversos conteúdos disponíveis em: <[Link]-
[Link]> e <[Link]>. Acesso em: 20 jun. 2016.

123
referências

BASTOS, C. L.; CANDIOTTO, K. Filosofia da Linguagem. São Paulo: Vozes,


2007.
FERREIRA-BRITO, L. Por uma gramática de Línguas de Sinais. Rio de Janeiro:
Tempo Brasileiro, 1995.
GESSER, A. Libras? Que língua é essa?: crenças e preconceitos em torno da lín-
gua de sinais e da realidade surda. São Paulo: Parábola, 2009, p. 9.
HARRISON, K. M. P. Libras: apresentando a língua e suas características. In:
LACERDA, C. B. F. de L. ; SANTOS, L. F. dos S. (Org.) Tenho um aluno surdo
e agora? Introdução à Libras e educação de Surdos. São Carlos – SP: EduUFS-
CAR, 2013.
LACERDA, C. B. F. de; SANTOS, L. F. dos (Org.). Tenho um aluno surdo e
agora?: Introdução à Libras e educação de surdos. São Carlos - SP: EdUFSCAR,
2013.
NOGUEIRA, C. M. I.; CARNEIRO, M. I. N.; NOGUEIRA, B. I. Surdez, Libras e
educação de surdos: introdução à língua brasileira de sinais. Maringá: EDUEM,
2010.
PEREIRA, M. C. C.; CHOI, D.; VIEIRA, M. I.; GASPAR, P.; NAKASATO, R.
Libras: conhecimento além dos sinais. São Paulo: Pearsons Prentice Hall, 2011.
QUADROS, R. M.; KARNOPP, L. B. Língua de sinais brasileira: estudos linguís-
ticos. Porto Alegre: Artmed, 2004.
REILY, L. Escola Inclusiva: linguagem e mediação. 4. ed. Campinas, SP: Papirus,
2004.

Referências on-line
1 Em: < [Link] Acesso em: 27 jun. 2017. (Verificar
site – estava fora do ar).

124
gabarito

1. Atividade prática. Espero que tenha conseguido fazer, se teve dificuldade é


só treinar um pouco mais.

2. Questão subjetiva em que ambas as possibilidades são verdadeiras. No


texto, destacamos DEZ semelhanças entre as línguas de sinais e as línguas
orais e DEZ particularidades das línguas de sinais, de maneira que a res-
posta depende do que você considerou mais marcante, as semelhanças
ou as diferenças.

3. Alternativa (e): todas estão corretas.

4. A comunicação com as mãos não começou com os surdos, pois, de acor-


do com Vygotsky, os homens pré-históricos se comunicavam por meio de
gestos e apenas quando começaram a utilizar ferramentas, ocupando as
mãos, é que começaram a utilizar a comunicação oral.

5. Alternativa (e): todas estão corretas.

125
ASPECTOS MORFOLÓGICOS DA LIBRAS

Professora Dr.ª Clélia Maria Ignatius Nogueira


Professora Me. Marília Ignatius Nogueira Carneiro
Professora Esp. Beatriz Ignatius Nogueira Soares

Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta
unidade:
• Aspectos Morfológicos da Libras
• Classificadores
• Léxico de categorias semânticas II

Objetivos de Aprendizagem
• Compreender a Libras em seus aspectos morfológicos.
• Apresentar os classificadores.
• Instrumentalizar os licenciandos para o estabelecimento de
uma comunicação funcional com pessoas surdas.
unidade

IV
INTRODUÇÃO

A
tualmente, são muitas as pesquisas sobre a Libras e sobre como
os surdos adquirem a língua de sinais como L1 (primeira lín-
gua - língua natural) e a Língua Portuguesa como L2 (segunda
língua – língua estrangeira). Existem estudos também sobre
o ensino de uma segunda língua de sinais (ASL – Língua Americana de
Sinais, por exemplo) como LE (Língua Estrangeira) para surdos, mas ainda
são poucos os estudos sobre como os ouvintes aprendem Libras como L2.
O que se faz, de maneira geral, é adaptar os métodos de ensino para
línguas estrangeiras, mas isso não é suficiente porque no caso do ensi-
no de LE, as duas línguas são auditivo-orais, isto é, utilizam as mesmas
informações sensoriais e no caso da Libras como L2, que é viso-motora,
isso não acontece, dificultando o processo.
No ensino de Libras para futuros professores, outra dificuldade que po-
demos observar, levando em conta os estudos sobre o ensino de LE, é que a
aprendizagem de outra língua acontece quando a pessoa quer aprender, quan-
do a nova língua faça sentido para ela, que ela sinta prazer em usar essa língua.
Como a Libras foi introduzida nos currículos pelo Decreto 5626/2005, nem
sempre os futuros professores entendem porque eles devem aprender uma lín-
gua estranha, falada por um grupo de pessoas que talvez ele nunca conheça.
Na ausência de uma metodologia específica para o ensino da Libras
como L2 para ouvintes, procuramos adaptar metodologias utilizadas
no ensino de uma LE. Essa metodologia é mais eficiente na modalidade
presencial, mas podemos obter bons resultados a distância. Para isso,
você precisa ficar atento e observar se as suas configurações de mão estão
corretas e não procure uma explicação lógica para o sinal, porque nem
sempre ela existe, em função da arbitrariedade da língua.
Finalizamos a terceira unidade apresentando as restrições para a for-
mação de sinais e nesta nossa quarta unidade o foco está nas regras para
a formação de sinais. Tratamos ainda dos classificadores e da construção
do seu vocabulário.
LIBRAS

Aspectos Morfológicos da
Libras
De acordo com Quadros e Karnopp (2004, p. 86), por Uma forma simples de criação de sinais, é o em-
Morfologia entendemos préstimo lexical. Empréstimos lexicais não são sinais
nativos da Libras e sim “inspirados em outras lín-
[...] o estudo da estrutura interna das palavras guas”. Destacamos aqui três tipos de Empréstimos
ou dos sinais, assim como das regras que deter-
Lexicais:
minam a formação de palavras
Empréstimos Lexicais de soletração manual
ou sinais. Como vimos na unidade anterior, os fone- completa ou de parte das palavras em Língua Por-
mas nas línguas orais e os parâmetros, nas de sinais, tuguesa como os sinais para B-A-R; MÇO; JN (JU-
não possuem significado isoladamente. O morfema é NHO); JL (JULHO).
a unidade mínima do significado. Empréstimos lexicais de inicialização: utiliza-
Ainda considerando o que estudamos na Unida- ção de uma CM que corresponde, no alfabeto manu-
de III, as línguas de sinais satisfazem todos os re- al, à primeira letra da palavra equivalente em Língua
quisitos linguísticos de uma língua, isto é, possuem Portuguesa.
um léxico (vocabulário), uma sintaxe (regras grama- Apesar da Libras ser independente da Língua
ticais) e uma capacidade de gerar uma quantidade Portuguesa, alguns sinais são originários das iniciais
infinita de sinais e sentenças. As regras que deter- da representação escrita de seus significados, de-
minam essa geração de sinais é o que estudaremos monstrando que, da mesma forma que nas línguas
nesta Unidade IV, enquanto que as regras gramati- orais em que uma língua influencia a criação de no-
cais, para a formação de sentenças e discursos, serão vas palavras (exemplo: deletar) a Libras é influencia-
estudadas na Unidade V. da pela Língua Portuguesa.

130
EDUCAÇÃO FÍSICA

“F” FERRO FLOR FUTURO

“P” PRESIDENTE PROFESSOR PEDAGOGIA

Empréstimos de itens lexicais de outras línguas de si- que utiliza a CM em “O” “O”, referente à “Orange”, que
nais, isto é, sinais de outras línguas de sinais que foram é um possível empréstimo da Língua de Sinais Ameri-
agregadas ao léxico da Libras, como o sinal para laranja, cana – ASL ou da Língua de Sinais Francesa (LSF).

131
LIBRAS

REFLITA

Observando a figura a baixo, para você, qual a impor-


tância da língua de sinais e do bilinguismo para os sur-
dos? Quais as conclusões você consegue tirar sobre?
Figura 1 – A evolução do Surdo

SÁBADO

LARANJA – ALARANJADO

Um aspecto importante que reafirmamos aqui,


apesar de já termos tratado desse tema na Unidade
Fonte: Adaptado de ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE
III, é que sinais não são gestos! Os gestos são consi-
SURDOS (2017, on-line)1.
derados traços paralinguísticos ou extralinguísticos
das línguas orais, isto é, movimento ou expressão
que ou complementa a palavra falada (como no caso
Da mesma forma que nas línguas orais, em da linguagem corporal, os gestos que um professor
que uma palavra é polissêmica, isto é, admite di- utiliza para deixar mais claro o que deseja explicar
ferentes significados, existem sinais em Libras que para seu aluno) ou mesmo permite que se tenha
também admitem diferentes significados. O con- uma mínima comunicação, contextualizada e qua-
texto em que são usados que estabelece as diferen- se sempre referente a coisas concretas, como a que
ças. Exemplos: ocorre entre pessoas que não falam a mesma língua.

132
EDUCAÇÃO FÍSICA

Os processos ou recursos para a formação de sinais


em Libras são: derivação, composição e incorporação.
Na derivação um novo sinal é obtido pelo enri-
quecimento do radical (raiz) com vários movimen-
tos e contornos no espaço. A maneira mais comum
de criação de novos sinais em Libras é realizar mu-
danças no movimento para derivar verbos de subs-
tantivos e vice-versa. O movimento dos substantivos CADEIRA SENTAR
repete e encurta o movimento dos verbos.

Uma das principais funções da morfologia é a


mudança de classe, isto é, a utilização da ideia
de uma palavra em outra classe gramatical.
Forma-se um novo sinal para se utilizar o sig-
nificado de um sinal já existente num contexto
que requer uma classe gramatical diferente. Um
tipo de processo bastante comum na língua de
sinais brasileira é aquele que deriva nomes de
verbos (ou vice-versa). O português pode for- AVIÃO VOAR AEROPORTO
mar nomes de verbos pela adição de um sufixo,
por exemplo, programar – programador ou pela
mudança de acento (fabrica – fábrica) (QUA- Outra forma bastante usual para a criação de novos
DROS; KARNOPPP, 2004, p. 96).
sinais em Libras é a composição, em que, como o
próprio nome indica, dois ou mais sinais se combi-
Pereira et al. (2011, p. 70) apresentam como exem- nam para criar um novo sinal. Este é um processo
plo para este fato os sinais para sentar e cadeira, que comum na língua de sinais brasileira. O sinal @,
são constituídos pela mesma CM, mesmo PA e mes- conforme já foi explicitado na Unidade III é utili-
ma orientação de mãos. “O movimento, no entan- zado porque a marcação de gênero em Libras não
to é diferente: mais longo em sentar e mais curto e acontece naturalmente e sim mediante a composi-
repetido em cadeira”. Outros exemplos são: voar e ção de sinais e o sinal ^ indica exatamente a com-
aeroporto; ouvir e ouvinte etc. posição dos sinais.

133
LIBRAS

Exemplos:
Da composição de sinais para estabelecimento de gênero:

MASCULINO ^BENÇÃO = PAI

FEMININO ^BENÇÃO = MÃE

Outros exemplos:

DERMATOLOGIA= MÉDIC@^PELE OFTALMOLOGIA =MÉDIC@^OLHO

134
EDUCAÇÃO FÍSICA

CARDIOLOGIA = MÉDIC@^CORAÇÃO ESCOLA = CASA^ESTUDAR

VENDEDOR DE ROUPA = TRABALHA^VENDER^ROUPA

CARTEIRO = BICICLETA^CARTA^ENTREGA

135
LIBRAS

ZEBRA = CAVALO^LISTRADO

MECÂNIC@ PARA AUTOMÓVEL = TRABALHA^CONSERTA^CARRO

A criação de novos sinais em Libras também é


possível pela incorporação na raiz de um argumen-
to, um numeral ou de uma negação.
Devido às características visuais e espaciais da Li-
bras, é comum a incorporação de argumentos, como,
por exemplo, o sinal de escovar se modifica e se adap-
ta de acordo com o objeto que está sendo escovado.
AÇOUGUE = CASA^CARNE Isto é o que significa incorporação de argumento.

ESCOVAR CABELO ESCOVAR DENTES


IGREJA = CASA^CRUZ

136
EDUCAÇÃO FÍSICA

De acordo com Quadros e Karnopp (2004), quando a configuração de mão muda


para expressar a quantidade e o ponto de articulação, o movimento e a orientação
das mãos continuam os mesmos, temos uma incorporação de numeral. Por exemplo,
temos uma mudança na configuração de mãos para indicar uma, duas, três semanas.

SEMANA DUAS SEMANAS TRÊS SEMANAS

A incorporação de negação se dá, pela mudança na direção do movimento do


sinal, quase sempre para fora e com a palma das mãos também virada para fora.

QUER NÃO QUER

A incorporação de negação também pode se efetivar pela assimilação do movi-


mento de negação (oscilação), como acontece em ter e não ter, por exemplo.

TER NÃO TER

137
LIBRAS

FLEXÕES NOMINAL E VERBAL

Ainda podemos ter, além da incorporação da São oito os processos de flexão descritos pelos lin-
negação nos sinais, a negação que incorpora so- guistas que estudaram a Língua de Sinais America-
mente a expressão facial, sem alteração de nenhum na, a ASL, entretanto, vamos considerar neste estu-
dos demais parâmetros. Entretanto, qualquer que do, referente à Libras, apenas as flexões de pessoa
seja a forma de negação utilizada, a expressão fa- (dêixis), de número, a de gênero e a de aspecto tem-
cial é importante, como sobrancelhas levemente poral, descritas a seguir, considerando Quadros e
franzidas. Karnopp (2004) e Pereira et al. (2011):
Negação sem alterar nenhum parâmetro: com Flexão de pessoa (dêixis): flexão que muda as re-
o rosto balançando ou o dedo (significando não), ferências pessoais no verbo.
por exemplo: conhecer e não conhecer; pensar e não Flexão de número: flexão que indica o singular,
pensar; casar e não casar. o dual, o trial e o múltiplo.
Flexão de gênero: quando necessária, é marcada
pelo sinal de masculino ou feminino antecedendo
o substantivo, conforme vimos quando estudamos a
composição de sinais.
Flexão de aspecto temporal: indica distinções
de tempo, tais como, regularmente, continuamente,
incessantemente, repetidamente etc.
A flexão de pessoa, se refere a dêixis, que é uma
palavra grega que significa apontar ou indicar. Des-
OU / E
creve uma “[...] forma particular de estabelecer no-

138
EDUCAÇÃO FÍSICA

minais no espaço” (QUADROS; KARNOPP, 2004, p. 112), que denominamos de


apontação e é utilizada, entre outras funções, para estabelecer os pronomes, ou
referentes conforme segue:

Pronomes pessoais:

VOCÊ EU ELE

NÓS TODOS

VOCÊS ELES / ELAS

139
LIBRAS

Pronomes demonstrativos: EST@ / AQUI - olhar indicar um ponto no espaço que represente o esta-
para o lugar apontado, perto da 1ª pessoa. do do Amazonas, será apontado um ponto no alto,
em referência ao Norte do Brasil, enquanto que para
o Rio Grande do Sul, o ponto estaria abaixo. Além
da apontação, a direção do olhar e a posição do cor-
po também servem para estabelecer referentes, por
exemplo, no sinal de “entregar para alguém”, o olhar
acompanha o movimento da mão ativa.

ESS@ / AÍ

• ESS@ / AÍ - olhar para o lugar apontado, per-


to da 2ª pessoa.
• AQUEL@ / LÁ - olhar para o lugar distante
apontado.

AQUEL@ / LÁ

De acordo com Quadros e Karnopp (2004), a apon-


tação pode ser explícita,

[...] envolvendo referentes presentes e não pre-


sentes. Para os referentes presentes, a aponta-
De acordo com Pereira et al. (2011, p.87), a flexão
ção é feita à frente do sinalizador direcionada
para a posição real do referente. de plural nos substantivos é obtida, na maioria das
vezes, pela repetição dos sinais, pela sinalização an-
Quando os referentes não estão presentes, são estabe- terior ou posterior ao sinal do substantivo, de sinais
lecidos pontos arbitrários no espaço, respeitando-se, referentes às quantidades, ou pelo “movimento se-
por exemplo, no caso de localizações específicas, as micircular que deve abranger as pessoas ou os obje-
posições topográficas. Assim, por exemplo, para se tos envolvidos”.

140
EDUCAÇÃO FÍSICA

DUAL Trial Quatrial

• Dual: a mão ficará com o formato de dois.


• Trial: a mão assume o formato de três.
• Quatrial: o formato será de quatro.

A flexão de número quando se refere a pessoas, é feita utilizando-se a apontação,


porém a quantidade fica explícita pela quantidade de dedos (configuração de
mãos).

SINGULAR: EU DUAL: NÓS TRIAL: NÓS

QUATRIAL: NÓS PLURAL: NÓS

• Singular: EU - apontar para o peito do enunciador (a pessoa que fala).


• Dual: NÓS – 2.
• Trial: NÓS – 3.
• Quatrial: NÓS – 4.
• Plural: NÓS - GRUPO NÓS - TOD@.

141
LIBRAS

Segunda pessoa: A lógica aqui é a mesma do caso da O aspecto pontual se caracteriza por se referir
primeira pessoa, para o dual, trial etc. a uma ação ou evento que aconteceu e terminou
• Singular: VOCÊ - apontar para o interlocutor em algum momento bem definido no passado. Por
(a pessoa com quem se fala). exemplo, em português, quando dizemos que “Ele
• Dual: VOCÊ – 2 . falou com você ontem”, sabemos que a ação de fa-
• Trial: VOCÊ - 3. lar aconteceu no passado, no momento “ontem”.
• Quatrial: VOCÊ - 4. Em Libras também é parecido: “Ele falar você on-
• Plural: VOCÊ - GRUPO VOCÊ - TOD@. tem”.
O aspecto durativo ou continuativo se refere a
Terceira pessoa: mesmo forma das anteriores. uma ação que continua, que não para no tempo. Por
• Singular: EL@ - apontar para uma pessoa que exemplo: “Ele fala sem parar na aula” A Libras não
não está na conversa ou para um lugar con- usa o mesmo sinal que usou para a frase “Ele falar
vencional. você ontem”. A Libras tem um sinal diferente para
• Dual: EL@ - 2. “falar sem parar”. Então é um sinal para “falar” e um
• Trial: EL@ - 3. para “falar sem parar”. Mas são sinais parecidos, o
• Quatrial: EL@ - 4. que muda é a intensidade e as expressões faciais e
• Plural : EL@ - GRUPO EL@ - TOD@. corporais. “Falar sem parar” é derivado de “falar”
pela adjunção da mão esquerda e o alongamento dos
Quando se quer falar de uma terceira pessoa presen- movimentos.
te, mas deseja-se ser discreto, por educação, não se O aspecto iterativo é quando a ação ou even-
aponta para essa pessoa diretamente. Ou se faz um to acontece muitas vezes. Por exemplo: “Marcelo
sinal com os olhos e um leve movimento de cabeça viajar Curitiba ontem” é aspecto pontual e o sinal
em direção à pessoa mencionada ou aponta-se para é o de viajar. Para dizer que “Marcelo viajar mui-
a palma da mão (voltada para a direção onde se en- tas vezes” o sinal é modificado em alguns parâ-
contra a pessoa referida). metros.
A flexão de aspecto temporal nos verbos está A Libras usa também modulações de olhar e ex-
relacionada com as formas e a duração dos movi- pressões faciais e corporais para transmitir a inten-
mentos. A Libras, assim como outras línguas orais e sidade do verbo apresentado e sua significação no
de sinais, modula o movimento dos sinais para dis- contexto. Então, o verbo olhar, por exemplo, pode
tinguir entre os aspectos pontual, continuativo ou ser representado rapidamente para dizer que a pes-
durativo e iterativo, que são diferenciados, segun- soa apenas avistou ou longamente, significando que
do Ferreira-Brito (1995), por meio de alterações do a pessoa olhou com atenção.
movimento e/ou da configuração da mão.

142
EDUCAÇÃO FÍSICA

SAIBA MAIS

Os principais desafios para o ensino de libras


como L2 para ouvintes, em particular para
futuros professores são:
1. Falta de motivação para a aprendizagem.
2. Autocensura quanto ao uso do corpo.
3. Falta de uma metodologia específica fun-
damentada em pesquisas.
4. Dificuldade do aluno de organizar a pró-
pria aprendizagem, como fazer anota-
ções e estudar em casa.

Com relação às duas primeiras dessas dificul-


dades, entendemos que o fato do professor
de Libras ser surdo, de imediato o aluno vai
ver uma realidade que era desconhecida para
ele. Com discussões sobre a cultura e a comu-
nidade surda, é possível despertar a curiosida-
de por uma língua exótica e a conscientização
em relação aos direitos e possibilidades de
aprendizagem dos surdos, criando a motiva-
ção e favorecendo a compreensão de que o
próprio corpo é um importante elemento para
a comunicação, conscientizando o educando
da importância de suas expressões faciais
e corporais para a Libras e minimizando a
autocensura quanto ao uso do corpo.

Fonte: as autoras

143
LIBRAS

Classificadores

CLASSIFICADORES - C L

Para as línguas de sinais a descrição, a reprodução lexicais (palavras – substantivos, adjetivos e verbos)
da forma, do movimento e da relação espacial do para especificar aquilo a que a palavra se refere,
que se quer enunciar são fundamentais, pois torna como a classe a que pertence; o gênero; a forma, ta-
mais claros e compreensíveis seu significado. Essa é manho etc.
a principal função dos classificadores em Libras. Na língua portuguesa, as classificações podem
Assim, o classificador é um poderoso auxiliar se manifestar de várias formas, como uma desinên-
da língua de sinais, para determinar as especifici- cia, para classificar os substantivos e adjetivos em
dades e “dar vida” a uma ideia ou a um conceito masculino e feminino; indicar tamanho, número,
ou signos visuais. Isto significa que o Classificador ou ainda, ou que se coloca no verbo para estabele-
representa forma e tamanho dos referentes, assim cer concordância, como, por exemplo, a letra a que
como características dos movimentos dos seres é afixada à palavra professor para indicar o gênero
em um evento, tendo, pois, a função de descrever feminino: professorA. Outros exemplos são os sufi-
o referente. xos inho, ão, que se referem ao tamanho etc. Para os
A nomeação Classificadores (CLs), para esses pesquisadores surdos, essa estrutura gramatical da
“auxiliares” importantíssimos para as línguas de Libras ainda está à procura de uma definição ade-
sinais, foi atribuída pela comunidade de linguistas quada para nomeá-la de acordo com as perspectivas
para comparar com as funções da língua falada ou visuoespaciais.
oral e suas estruturas gramaticais. Na Libras, os classificadores são formas repre-
Um classificador (Cl) é uma forma que estabe- sentadas por configurações de mão que podem vir
lece um tipo de concordância em uma língua. Nas junto de verbos de movimento e de localização para
línguas orais, os classificadores são morfemas gra- classificar o sujeito ou o objeto que está ligado à ação
maticais que são afixados (juntados) aos morfemas do verbo.

144
EDUCAÇÃO FÍSICA

Os classificadores permitem tornar mais compre- sificadores obedecem a regras de construção e são
ensível o significado do que se quer enunciar e de- representados sempre por configurações de mãos
sempenham uma função descritiva podendo detalhar específicas associadas a expressões faciais, corpo-
som, tamanho, textura, paladar, tato, cheiro, formas rais e à localização, isto é, aos parâmetros da Libras,
em geral de objetos inanimados e seres animados etc. apesar de serem icônicos, não podem ser conside-
Os classificadores são icônicos em seu sig- rados como mímica.
nificado pela semelhança entre a sua forma ou o Exemplos: árvore, forte, carro, telefone, borbole-
tamanho do objeto a ser referido. Como os clas- ta, mesa, revolver, sorriso, triste, pensar, beijo, vestir.

ÁRVORE FORTE CARRO TELEFONE

BORBOLETA MESA REVÓLVER

PENSAR BEIJO VESTIR

145
LIBRAS

Esses sinais são muito parecidos com as coisas que ponto de vista funcional – tipológico. Para alguns
estão representando, mas não é mímica porque usa estudiosos, que se baseiam principalmente em es-
configuração de mãos, movimento, orientação, pon- tudos feitos na ASL – American Sign Langage, os
to de articulação e expressões não-manuais. classificadores podem ser:
O fato da Libras utilizar classificadores icônicos • Classificador Descritivo: refere-se ao tama-
e mesmo de possuir um grau elevado de sinais icô- nho, forma e textura. É usado para descrever
nicos não significa dizer que a libras é mímica, pois aparência de um objeto.
“a iconicidade é utilizada de forma convencional e • Classificador que especifica o tamanho e a for-
sistemática” (FERREIRA- BRITO, 1995, p. 108). ma de uma parte do corpo: refere-se ao tama-
nho, forma e textura de uma parte do corpo
Além disso, nas línguas orais também estão pre-
de um animal ou pessoa.
sentes palavras com características icônicas. “Pode-
• Classificador de Parte do Corpo: retrata uma
mos verificá-la no clássico exemplo das onomato-
parte específica do corpo em uma posição
peias como pingue-pongue, tique-taque, zumzum,
determinada ou fazendo uma ação.
cujas formas representam, de acordo com cada lín-
• Classificador de Localização: retrata um obje-
gua, o significado” (GESSER, 2009, p. 24).
to em um determinado lugar em meio a ou-
Em uma interpretação ou aula existem algu- tros objetos.
mas palavras que não possuem um sinal próprio e • Classificador Instrumental: mostra como é
é aí que são usados sinais icônicos, ou que possuem usado algum objeto.
semelhança com o que estão descrevendo. No con- • Classificador do Corpo: a parte superior do
texto escolar os classificadores são importantes em corpo do sinalizador se torna o classificador
todas as disciplinas, principalmente na Física ou na que exprime o verbo da frase, especialmente
Matemática. Sabemos que para essas matérias muito os braços.
dos conteúdos não têm sinais correspondentes aos • Classificador Semântico: retrata um objeto
termos utilizados, mas a explicação pode ser com- em um lugar específico.
preendida se usarmos os classificadores corretamen- • Classificador do Plural: ele indica o movi-
te. A expressão facial e a corporal são muito impor- mento ou a posição de um número de obje-
tantes para os classificadores. tos, pessoas ou animais.
Dito de outra forma, classificador é uma repre- • Classificador de Elemento: retrata o movi-
sentação da Libras que mostra claramente detalhes mento de elementos ou coisas que não são só-
lidas como: ar, água, fumaça, chuva, fogo etc.
específicos, permitindo a descrição de pessoas, ani-
• Classificador de nome: utiliza as configura-
mais e objetos, bem como sua movimentação ou lo-
ções das mãos, do alfabeto manual ou dos
calização. Os classificadores são muito importantes,
números, mas é parte de uma descrição.
pois ajudam construir a estrutura sintática da Libras.
No geral, ainda existem poucos estudos exclu- De maneira geral os classificadores podem ser: pre-
sivamente sobre os classificadores na Libras, es- dicativos, descritivos ou de características sintáti-
pecialmente no que se refere a explicá-los de um cas e semânticas.

146
EDUCAÇÃO FÍSICA

1) Predicativos: quando representam mais de


“uma palavra” ou sinal, quando representam ver-
bos que ocupam parte do predicado em uma frase.
Estes verbos são chamados verbos de movimento
ou de localização, indicando o objeto que se move
ou é localizado.

Exemplos: O CARRO BATEU NO POSTE

A frase em lingua portuguesa “O carro bateu no


poste” pode ser representada por um classificador Da mesma forma, a frase “Os pratos estão empilha-
predicativo, significando, em Libras: “Carro bater dos”, corresponde o classificador predicativo em Li-
poste”. Aqui, temos o verbo em movimento. bras: “Pratos Empilhados” e o verbo em localização.

PRATOS EMPILHADOS

O COPO FOI GUARDADO NO ARMARIO

Alguns autores chamam alguns classificadores outro objeto, animado ou inanimado. Por exemplo:
predicativos de descritivos locativos, para indicar carro bateu no poste, moto correndo na pista, árvore
uma ação que determina um objeto em relação a sendo cortada.

147
LIBRAS

2) Classificadores descritivos: as descrições textura, paladar, tato, cheiro, “olhar”, sentimentos


visuais podem ser captadas de acordo com as ou formas visuais, bem como a localização e a
imagens dos objetos animados ou inanimados. ação incorporada ao classificador. Veja os exem-
Observam-se aspectos tais como: som, tamanho, plos a seguir:

JANELA BANDEJA MESA COPO

VASO GROSSO SAPATOS SALTOS BOI

AVIÃO JARRA GOSTAS DE ÁGUA

148
EDUCAÇÃO FÍSICA

CANO FINO MOEDA BOTÕES

OPEROU O CORAÇÃO OPEROU OS OLHOS

COBRA MORDIDA DE COBRA

CACHORRO MORDIDA DE CACHORRO

149
LIBRAS

Alguns autores consideram que os classificadores descritivos podem ser


subdivididos em:
2.1) Classificadores instrumentais: furadeira, escova de cabelo, escova de dentes.

FURADEIRA ESCOVAR CABELO ESCOVAR DENTES

2.2) Classificadores especificadores: os classificadores especificadores, como


o próprio nome indica, especificam eventos, logomarcas e elementos, como por
exemplo, fumaça, telefone tocando, bomba atômica, Volkswagen, Chevrolet.

FUMAÇA TELEFONE TOCANDO

BOMBA ATÔMICA

150
EDUCAÇÃO FÍSICA

VOLKSWAGEN CHEVROLET

2.3) Classificadores de plural: livros, casas, car-


ros, árvores, pessoas.

FLORESTA (MUITAS ÁRVORES) MULTIDÃO ANDANDO

MUITAS CASAS

151
LIBRAS

2.4) Classificadores de corpo: andar de pessoas, andar do elefante, andar do


gato etc., podem também indicar características como cabelão, leão bravo.

PESSOA ANDANDO ANDAR (CRUZAR COM DUAS PESSOAS ANDAN-


PESSOA
SOZINHA OUTRA PESSOA) DO JUNTAS

ELEFANTE ELEFANTE ANDANDO GATO GATO ANDANDO

2.5) Classificadores de semântica: quando quer especificar como uma ação


foi realizada, por exemplo: dormir mal.

DORMIR DORMIR MAL

152
EDUCAÇÃO FÍSICA

2.6) Classificadores de sintaxe: esses classificadores podem incorporar al-


gum tipo de ação, por exemplo: verbo “escovar” e, devemos saber a qual objeto
será aplicado à ação: sapato, dente, cabelo, tapete; comer, beijar, voar etc.

ESCOVAR SAPATO ESCOVAR DENTES ESCOVAR CABELO

COMER (PRATO EXECUTIVO) COMER MACARRÃO

COMER MAÇÃ COMER (COXA DE FRANGO)

153
LIBRAS

BEIJAR NO PESCOÇO BEIJAR NA BOCHECHA BEIJAR NA BOCA BEIJAR NA MÃO

VOAR (PÁSSARO) VOAR (AVIÃO)

154
EDUCAÇÃO FÍSICA

Léxico de
Categorias Semâticas II
Continuamos, aqui, com a construção do seu vocabulário em Libras. Ressaltamos
a importância de você estudar esta parte, acompanhando os vídeos, para que os
movimentos fiquem evidentes. Depois, procure repetir os movimentos defronte a
um espelho, enfatizando suas expressões faciais.

IDENTIFICAÇAO PESSOAL

Os principais sinais utilizados na identificação pessoal são: eu, você, nome (para
o nome da pessoa em Língua Portuguesa) e sinal, para o sinal correspondente à
pessoa em Libras. Esse sinal, não é a tradução do nome para a Libras, é um novo
nome, e, geralmente, se relaciona à alguma característica física ou profissional
da pessoa, ou ainda, à inicial do seu nome. Observe as frases a seguir, prestando
muita atenção na expressão interrogativa.

155
LIBRAS

NOME (EXPRESSÃO
VOCÊ QUAL É O SEU NOME?
INTERROGATIVA)

IDADE (EXPRESSÃO IN-


VOCÊ QUAL É A SUA IDADE?
TERROGATIVA)>

SINAL (EXPRESSÃO
VOCÊ QUAL É O SEU SINAL?
INTERROGATIVA)>

156
EDUCAÇÃO FÍSICA

SAUDAÇÕES COTIDIANAS

OI SAUDADES TCHAU

TUDO BEM?

BEM VINDO

157
LIBRAS

BOM DIA

BOA TARDE

BOA NOITE

158
EDUCAÇÃO FÍSICA

CONHECER^GOSTAR PRAZER POR FAVOR / LICENÇA

OBRIGADA DE NADA

ABRAÇOS BEIJOS

159
LIBRAS

FAMÍLIA

Apresentamos a seguir, os componentes de uma fa-


mília e possíveis relações entre eles.
Lembre-se de que em Libras não temos gêne-
ro (masculino ou feminino). Assim, por exemplo,
em português sabemos que é tia - ti”A” é mulher, e
ti”O” é homem. Como fazemos em Libras? Utiliza- MULHER / FEMININO
mos dois sinais, um para a palavra e o outro para
indicar o gênero. Por exemplo, para TIO temos
Ti@ ^ homem; para Mamãe = Mulher ^ benção
(genitor).

Como se forma uma família?

PAQUERA CONHECER

FAMÍLIA

CONVERSAR

HOMEM / MACULINO

NAMORO

160
EDUCAÇÃO FÍSICA

NOIVADO GRÁVIDA

CASAR NASCER/(BEBÊ)

FAZER AMOR BEBÊ CRIANÇA

161
LIBRAS

FILHO

FILHA

PAI

MÃE

162
EDUCAÇÃO FÍSICA

PADRASTO

MADRASTA

IRMÃO

IRMÃ

163
LIBRAS

MEIO-IRMÃO

CUNHADO

CUNHADA

164
EDUCAÇÃO FÍSICA

SOGRO

SOGRA

TIO

TIA

165
LIBRAS

SOBRINHO

SOBRINHA

NETO

NETA

166
EDUCAÇÃO FÍSICA

PRIMO

PRIMA

VOVÔ

VOVÓ

167
LIBRAS

BISAVÔ

BISAVÓ

FILHO ADOTIVO

FILHA ADOTIVA

168
EDUCAÇÃO FÍSICA

AMANTE CASAL SEPARADO

SEPARAÇÃO VIÚV@

SOLTEIR@ AMIG@

Acesse e veja o material que


preparamos especialmente
para você!

169
LIBRAS

LAR: ESPAÇO FÍSICO - MÓVEIS E ELETRODOMÉSTICOS – OBJETOS –


VESTIMENTAS – CORES.

ESPAÇO FÍSICO

LAVANDERIA BANHEIRO COZINHA

SALA DE TELEVISÃO

QUARTO DE CASAL

170
EDUCAÇÃO FÍSICA

QUARTO DE SOLTEIRO

CHURRASQUEIRA

ESCRITÓRIO

171
LIBRAS

MÓVEIS

PIA DO BANHEIRO

BERÇO CAMA ESTANTE/RACK

ARMÁRIO SOFÁ

172
EDUCAÇÃO FÍSICA

CADEIRA MESA

PRATELEIRA

GUARDA-ROUPA

173
LIBRAS

ELETRODOMÉSTICOS

APARELHO DE SOM LÂMPADA / LUZ

IMPRESSORA CHUVEIRO

TELEVISÃO

174
EDUCAÇÃO FÍSICA

FAX

ABAJUR

ASPIRADOR

175
LIBRAS

MÁQUINA DE LAVAR ROUPA

GELADEIRA

FOGÃO

COMPUTADOR CELULAR

176
EDUCAÇÃO FÍSICA

TELEFONE DVD

FREEZER

BATEDEIRA LIQUIDIFICADOR

ELETRODOMÉSTICO/ELETRICIDADE

177
LIBRAS

OBJETOS

OBJETO COISAS

COLHER GARFO FACA

PANELA BANDEJA

BANDEJA

178
EDUCAÇÃO FÍSICA

XÍCARA/CAFÉ PRATO COPO

ASSADEIRA JORNAL

ESPELHO FLOR

FOTO PORTA-RETRATO QUADRO

179
LIBRAS

VESTIMENTAS

TERNO

GRAVATA-BORBOLETA VESTIDO

GRAVATA SAPATO

180
EDUCAÇÃO FÍSICA

TÊNIS SAPATO SALTO CHINELO

BIQUÍNI

SUNGA

MAIÔ

181
LIBRAS

CALCINHA MULHER / FEMININO

CUECA HOMEM / MACULINO

SUTIÃ SAIA BERMUDA

MACAÇÃO MEIA CALÇA

182
EDUCAÇÃO FÍSICA

ROUPA SOCIAL JEANS

CACHECOL

BONÉ CHAPÉU

POLO LUVA

183
LIBRAS

JAQUETA

CASACO CAMISA CINTO

LÃ COTTON

CAMISETA

184
EDUCAÇÃO FÍSICA

MANGA COMPRIDA MANGA TRÊS QUARTOS MANGA CURTA

CORES

CORES AMARELO

AZUL BEGE BRANCO

185
LIBRAS

PRETO VERMELHO

CINZA MARROM ROXO

VERDE OU VERDE

LARANJADA

186
EDUCAÇÃO FÍSICA

ALIMENTOS E BEBIDAS

COMIDA/COMER

LANCHES

HOT-DOG (CACHORRÃO)

X-FRANGO

187
LIBRAS

MISTO QUENTE X-SALADA

AZEITONA VERDE AZEITONA ROXA

ALMÔNDEGA OVO

CARNE CARNE DE PORCO

188
EDUCAÇÃO FÍSICA

CARNE DE FRANGO

CARNE DE PEIXE

CHURRASCO

QUEIJO RALADO MACARRÃO

189
LIBRAS

MOLHO DE TOMATE

PIPOCA SOPA

PIZZA PASTEL

VINAGRE ÓLEO/AZEITE PRESUNTO QUEIJO

190
EDUCAÇÃO FÍSICA

PÃO MANTEIGA

BISCOITOS/BOLACHAS SALGADO

COZINHA

FRITAR COZINHAR

191
LIBRAS

DOCES

CHICLETE BALA

CHOCOLATE BOMBOM

OVO DE PÁSCOA (CHOCOLATE)

192
EDUCAÇÃO FÍSICA

BOLO ^ ANIVERSÁRIO > BOLO DE ANIVERSARIO

MEL

PICOLÉ SORVETE

DOCE/AÇUCAR PIRULITO PUDIM/GELATINA

193
LIBRAS

CEREAIS

FARINHA DE TRIGO AMENDOIM

ERVILHA MILHO

SOJA

194
EDUCAÇÃO FÍSICA

FEIJOADA

FEIJÃO ARROZ

LEGUMES/VERDURAS

PIMENTÃO VERDE

195
LIBRAS

PIMENTÃO AMARELO

PIMENTÃO VERMELHO

PIMENTA PEPINO

ABÓBORA CENOURA

196
EDUCAÇÃO FÍSICA

ALHO OU ALHO

BATATA-DOCE

BATATA MANDIOCA

TOMATE

197
LIBRAS

COUVE REPOLHO

CEBOLA

COUVE-FLOR

ALFACE FRUTAS

198
EDUCAÇÃO FÍSICA

MELÃO CANA-DE-AÇUCAR

JABUTICABA MARACUJÁ

GOIABA

MAMÃO

199
LIBRAS

UVA PÊRA

MANGA PINHÃO

MELANCIA LARANJA

LIMÃO ABACAXI

200
EDUCAÇÃO FÍSICA

CAJU CAQUI COCO BANANA

TANGERINA

ABACATE

MORANGO

201
LIBRAS

ÁGUA LATA

GELO GARRAFA (REFRIGERANTE)

BATIDA LEITE

GUARANÁ COCA-COLA

202
EDUCAÇÃO FÍSICA

BEBER (COPO) BEBER (GARRAFA) CACHAÇA/PINGA ÁLCOOL

UÍSQUE VINHO CHAMPANHE

CERVEJA IORGUTE

CAFÉ CHÁ

203
LIBRAS

SUCO

ANIMAIS DOMÉSTICOS E SILVESTRES


AVES – INSETOS – ANIMAIS MARINHOS E PEIXES.

VACA

204
EDUCAÇÃO FÍSICA

BOI CAMELO

BODE PORCO BURRO

CAVALO GATO CACHORRO

CARNEIRO/OVELHA

205
LIBRAS

COELHO CARACOL BÚFALO

RATO

COBRA JACARÉ

CANGURU HIPOPÓTAMO RINOCERONTE

206
EDUCAÇÃO FÍSICA

MACACO GORILA LOBO

GIRAFA ELEFANTE VEADO

URSO ALCE

ZEBRA

207
LIBRAS

PUMA

ONÇA-PINTADA

LEÃO TARTARUGA

TIGRE SAPO

208
EDUCAÇÃO FÍSICA

FORMIGA ARANHA AVESTRUZ

MOSQUITO BARATA POMBA

ABELHA BORBOLETA PICA-PAU

PASSAROS

209
LIBRAS

BEIJA-FLOR PAVÃO

TUCANO PATO

PAPAGAIO CORUJA

PERU GALINHA

210
EDUCAÇÃO FÍSICA

PINGUIM

SIRI FOCA

CARANGUEJO CAMARÃO OSTRA

GOLFINHO TUBARÃO PEIXE

211
considerações finais

N
esta unidade, apresentamos as principais regras morfológicas da Li-
bras, isto é, mostramos a estrutura interna dos sinais. Esperamos
que, na medida em que nos aprofundamos mais na teoria, os aspec-
tos linguísticos da Libras vão se tornando mais evidentes e, qual-
quer dúvida que você ainda pudesse ter a respeito da Libras ser efetivamente uma
língua, esteja ficando cada vez mais elucidada.
Quarta unidade, a construção de seu vocabulário foi bastante ampliada. Tra-
balhamos aqui, no que se refere ao léxico, praticamente apenas com substantivos.
Estamos fazendo mais ou menos como quando uma criança adquire sua língua
natural: primeiro ela aprende palavras isoladas, particularmente os substantivos,
para depois aprender as ações (verbos) e a construir frases. Dentre os substanti-
vos, as crianças aprendem primeiro a designar os elementos da família, os móveis
de sua casa, os alimentos e os animais. Todavia, precisa ficar claro para você, que
neste curso, estamos apenas fazendo uma introdução ao ensino da Libras. Você
está adquirindo conhecimento para uma comunicação funcional em libras, que
pode auxiliar em seu fazer pedagógico. Ninguém se torna fluente em outra língua
com apenas algumas horas de estudo. São necessários anos.
Só pra você ter uma ideia do que estamos falando, nos Estados Unidos existe
uma escola que atende surdos desde a Educação Infantil até pós-graduação em
nível de doutorado, chamada Gallaudet. Lá, todos os professores e funcionários
são obrigados a conhecer a ASL – Língua Americana de Sinais e, apesar de já
terem noções básicas dessa língua, quando iniciam seu trabalho na Gallaudet, os
servidores ainda têm seis anos para ser tornarem fluentes. Se, neste prazo, eles
não conseguirem, então, são demitidos.
Veja bem, são seis anos!
Portanto, se você pretende conhecer um pouco de Libras, pratique o máximo
que você puder o que estamos lhe apresentando e procure manter contato com a
comunidade surda da sua cidade.

212
atividades de estudo

1. Na sua casa, com a ajuda de um espelho, treine a expressão facial e corpo-


ral, isso ajuda muito em Libras.

2. Estude cada conjunto de palavras apresentado: Família, Lar, Alimentos e


Animais. Reproduza cada sinal ou frase sempre em frente a um espelho.
Lembre-se: o sinal deve ser feito “virado” para o seu interlocutor e não para
você. Assim, olhando no espelho você deve enxergar o sinal ou a frase tal
como se apresenta no texto.

3. Ensine os sinais para os membros de uma família e para seus familiares.

4. Ensine as cores para pelo menos duas pessoas da sua família, amigos ou
colegas de trabalho.

5. Em sua opinião, qual conjunto de sinais aprendidos nesta seção que são
mais icônicos? Por quê?

6. Descreva, usando sinais, algumas receitas de alimentos, por exemplo, para


um bolo, para uma feijoada etc.

7. Escreva com suas próprias palavras o que você entendeu acerca dos clas-
sificadores.

8. Reproduza para alguns amigos, os sinais de cinco animais e de cinco frutas


que você mais gosta.

9. Tente “criar” alguns classificadores. Imagine a situação como realmente


aconteceria e faça sinais icônicos. Mostre para alguém e veja se a pessoa
consegue entender o que você está tentando comunicar. Compare suas
“criações” com os classificadores adequados.

• GATO MORDEU X CACHORRO MORDEU.

• COMI COXA DE FRANGO X COMI MACARRÃO.

• MATEI (REVÓLVER) X MATEI (FACA).

• OPEREI OLHO X OPEREI JOELHO.

• BEIJO NA MÃO X BEIJO NA BOCHECHA.

• O LEÃO CORRE X ELEFANTE CORRE.

• CARRO BATEU NO POSTE .

• OSSO (OMBRO) FRATUROU.

• EU VI O AVIÃO.

213
LEITURA
COMPLEMENTAR

Apresentamos, a seguir, uma adaptação de um fragmen- comportamentalista, a aquisição de uma língua era con-
to do capítulo 4, intitulado Ensino da língua brasileira de siderada um processo mecânico de formação de hábi-
sinais do livro Libras: conhecimento além dos sinais. tos. Ao aluno não era permitido errar.
Nos últimos anos, observam-se tentativas de mudança na
METODOLOGIAS DE ENSINO DA LIBRAS concepção de língua no ensino de línguas estrangeiras.
Para tratar de metodologias de ensino da Libras, parece O foco no ensino passa a ser o uso da língua, o que deu
interessante conhecer antes um pouco sobre as meto- origem ao método comunicativo, cujo objetivo é ensinar
dologias geralmente usadas no ensino de línguas estran- o aluno a se comunicar (MARTINS-CESTARO, 1999). Saber
geiras. se comunicar significa, como lembra Martinez (2009), ser
Martins-Cestaro (1999) apresenta uma retrospectiva das capaz de produzir enunciados linguísticos de acordo com
metodologias comumente empregadas no ensino do a intenção de comunicação (pedir permissão, por exem-
francês como língua estrangeira. Nela fica evidente que, plo), e conforme a situação de comunicação (status, es-
até a década de 1980, dava-se ênfase ao código da lín- cala social do interlocutor etc.). Os exercícios formais e
gua. repetitivos deram lugar, na metodologia comunicativa,
A aprendizagem da língua estrangeira era vista como aos exercícios de comunicação real ou simulada, mais
uma atividade intelectual em que o aprendiz deveria interativos. As atividades gramaticais estão a serviço da
aprender e memorizar as regras e os exemplos, com o comunicação.
propósito de dominar a morfologia e a sintaxe. Os alu- Nesse sentido, a tarefa do professor não é corrigir o alu-
nos recebiam e elaboravam listas exaustivas de vocabu- no buscando à adequação morfossintática, mas inseri-lo
lário. As atividades propostas consistiam em exercícios em atividades discursivas nas quais ele seja exposto à
de aplicação das regras de gramática. Submetiam-se os língua e não a vocábulos isolados.
alunos ao ensino gradual de estruturas frasais por meio O professor deixa de ocupar o papel principal no proces-
de exercícios estruturais. Os alunos repetiam as estrutu- so ensino-aprendizagem, de detentor do conhecimento,
ras apresentadas na sala de aula, buscando à memoriza- para assumir o papel de “orientador”, “facilitador”, “orga-
ção e ao uso. nizador” das atividades de classe.
O professor controlava e dirigia o comportamento lin- Passando para as metodologias de ensino das línguas
guístico dos alunos. Com base nos princípios da teoria de sinais, os primeiros cursos para ensino da língua de

214
LEITURA
COMPLEMENTAR

sinais americana consistiam na apresentação de um vo- deiras. As cadeiras em semicírculo possibilitam aos alu-
cabulário básico de sinais, sendo a orientação relativa nos visualizar e interagir com os colegas, e todos com o
aos traços não manuais a de usar muita expressão facial, professor.
como relatam Wilcox e Wilcox (2005). Se, como sugere o Decreto n. 5.626, os professores fo-
Com relação ao ensino da Libras, a ênfase no vocabulário rem Surdos, os alunos terão a oportunidade de ter con-
ainda é bastante comum. Os aprendizes são expostos à tato com pessoas Surdas, podendo, assim familiarizar-se
listas de sinais; esses sinais são, depois, combinados em com aspectos culturais das comunidades de Surdos.
orações propostas pelo professor, as quais seguem uma Wilcox e Wilcox referem que as aulas do curso básico da
ordem de complexidade crescente, das mais simples língua de sinais Americana não oferecem espaço ade-
para as mais complexas. O objetivo é que os aprendizes quado para questões que os ouvintes frequentemente
memorizem as estruturas trabalhadas e as usem. Como têm em relação à comunidade Surda. Essas questões,
foi referido, essa forma de ensino predominou até re- segundo Wilcox e Wilcox, precisam ser levantadas e res-
centemente também nas aulas de línguas estrangeiras. pondidas provavelmente na língua nativa dos alunos. As-
Mais recentemente, observam-se propostas de ensino sim, os autores sugerem que sejam oferecidas aulas nas
da Libras que enfatizam o uso da língua de sinais em di- quais os alunos estejam livres para fazer perguntas em
álogos. O objetivo é que os aprendizes aprendam a se sua língua oral. Nesses cursos, os alunos poderão dis-
comunicar. Ao usar a Libras, os aprendizes terão a opor- cutir suas dúvidas sobre a surdez e as pessoas Surdas,
tunidade não só de entender e produzir os sinais, mas assim como sobre a língua de sinais.
também de combiná-los em estruturas frasais e em pe- Cabe ressaltar que um curso básico da Libras deve pos-
quenos relatos. sibilitar aos alunos não apenas o aprendizado da Libras,
Wilcox e Wilcox lembram que, enquanto ambientes mas também um panorama que contemple o percurso
naturais aceleram a aquisição de habilidades comuni- histórico das línguas de sinais na educação de Surdos,
cativas, os ambientes formais permitem o aprendizado aspectos culturais das comunidades Surdas e aspectos
de regras explícitas que o aluno pode aplicar adequa- linguísticos da Libras. Outros aspectos poderiam ser in-
damente em situações específicas. Eles destacam que cluídos, dependendo da carga horária destinada à disci-
a visibilidade é essencial nas aulas de língua de sinais plina.
— daí a necessidade de atenção para o arranjo das ca- Fonte: Pereira et al. (2011).

215
LIBRAS

Libras: conhecimento além dos sinais


Maria Cristina da Cunha Pereira; Daniel Choi; Maria Inês Vieira; Pris-
cilla Gaspar; Ricardo Nakasato
Editora: Pearson
Sinopse: o livro apresenta a Libras em seus aspectos gerais e lin-
guísticos, mas, seguindo a concepção socioantropológica da surdez,
aborda de maneira clara, porém sucinta, a história da educação dos
surdos, sua cultura e sua comunidade, destacando a importância da língua de sinais para a
constituição das identidades surdas. Repleto de ilustrações e com texto claro e dinâmico é
especialmente indicado para alunos ouvintes que estão em busca de um conhecimento geral
do mundo surdo e da Libras.

Você pode obter gratuitamente a Série Atualidades Pedagógicas – Educação Especial: Defici-
ência Auditiva, publicada pelo MEC e composta de cinco volumes, um dos quais destinado es-
pecificamente à aprendizagem da Libras, disponível em: <[Link]/ines_livros/livro.
html>. Acesso em: 20 jun. 2016.

216
referências

FERREIRA-BRITO, L. Por uma gramática de Línguas de Sinais. Rio de Janeiro:


Tempo Brasileiro, 1995.
GESSER, A. Libras? Que língua é essa?: crenças e preconceitos em torno da lín-
gua de sinais e da realidade surda. São Paulo: Parábola, 2009.2009, p. 9).
MARTINEZ, P. Didática de línguas estrangeiras. São Paulo: Parábola, 2009.
MARTINS-CESTARO, S. O ensino da língua estrangeira – história e metodolo-
gia. VidetuR, USP, v.6, p. 45-56,1999.
PEREIRA, M. C. C.; CHOI, D.; VIEIRA, M. I.; GASPAR, P.: NAKASATO, R.
Libras: conhecimento além dos sinais. São Paulo: Pearsons Prentice Hall, 2011.
QUADROS, R. M. de; KARNOPP, L. B. Língua de sinais brasileira: estudos lin-
guísticos. Porto Alegre: Artmed, 2004.
WILCOX,S.; WILCOX, P.P. Aprendendo a ver: o ensino da ASL como segunda
língua. Rio de Janeiro: Arara Azul, 2005

Referências on-line:
1
Em: <[Link] Acesso em: 20 jun. 2016.

217
gabarito

As atividades de autoestudo propostas nessa unidade são práticas ou pesso-


ais, razão pela qual não apresentamos gabarito pronto. Todavia, não deixe de
fazê-las, pois ajudarão a compreender melhor a Libras.

218
UNIDADE
V
ASPECTOS SINTÁTICOS DA LIBRAS

Professora Dr.ª Clélia Maria Ignatius Nogueira


Professora Me. Marília Ignatius Nogueira Carneiro
Professora Esp. Beatriz Ignatius Nogueira Soares

Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta
unidade:
• O espaço gramatical
• Verbos em Libras
• Léxico de Categorias Semânticas III

Objetivos de Aprendizagem
• Compreender a Libras em seus aspectos sintáticos.
• Estudar o comportamento dos verbos.
• Instrumentalizar os licenciandos para o estabelecimento de
uma comunicação funcional com pessoas surdas.
unidade

V
INTRODUÇÃO

A
té o momento você já foi apresentado ao mundo do surdo na
Unidade I; conheceu, na Unidade III, a legislação e as políti-
cas públicas brasileiras que orientam a educação dos surdos e
começou a estudar Libras a partir da Unidade III, que aborda
os aspectos gerais e fonológicos desta língua, enquanto que a Unidade IV
tratou dos aspectos morfológicos. Esta Unidade V, a última de nosso livro,
apresenta os aspectos sintáticos da Libras, ou seja, vamos estudar sua estru-
tura gramatical.
Na Unidade III você viu que a língua de sinais não é universal e ainda
mais, que a Libras não é a tradução da Língua Portuguesa em sinais, repe-
tindo a estrutura gramatical. Isto seria como já foi anteriormente explicita-
do, Português Sinalizado. De acordo com Góes e Campos (2013, p. 65), o
Português Sinalizado foi difundido na década de 1970 pela Comunicação
Total (também conhecida por bimodalismo), com o “[...] objetivo de utili-
zar os sinais como ferramentas para o aprendizado da língua majoritária e
recurso para o desenvolvimento da leitura e da escrita”. Desta forma, não se
considerava a estrutura gramatical própria da Libras que, repetimos, não é
uma adaptação da gramática da Língua Portuguesa.
A língua de sinais brasileira é organizada espacialmente de uma forma
bem complexa e apresenta possibilidades de estabelecimento de estruturas
gramaticais no espaço de diferentes formas.
É importante lembrar que a Libras não pode ser estudada tendo como
base a Língua Portuguesa, porque sua sintaxe é diferenciada, independente
da língua oral. A ordem dos sinais na construção de um enunciado obedece
regras próprias que refletem a forma de o surdo processar suas ideias, com
base em sua percepção visual-espacial da realidade, ou seja, a sintaxe da
Libras é espacial.
Nesta quinta unidade você vai conhecer, de maneira geral, a sintaxe
espacial da Libras. Também vai estudar sobre o comportamento dos verbos,
além de continuar construindo seu vocabulário.
LIBRAS

O Espaço Gramatical
O uso do espaço e a simultaneidade (usar mais de Há várias maneiras de estabelecer os pontos no
um fonema ou morfema ao mesmo tempo) são muito espaço, a mais comum é a apontação explícita envol-
importantes para a Libras, pois tornam o discurso vendo referentes presentes (apontação feita à fren-
compreensível. te do sinalizado direcionada para a posição real do
Falamos em espaço gramatical ou sintaxe espa- referente) e não-presentes (apontam-se pontos arbi-
cial porque as relações gramaticais são especificadas trários no espaço). Todos os referentes estabelecidos
pela manipulação dos sinais no espaço. As relações no espaço ficam à disposição do discurso para serem
ocorrem dentro de um espaço definido, na frente do referidos novamente.
corpo, em uma área limitada pelo topo da cabeça e Além da apontação, a direção do olhar e a po-
que se estende até os quadris, sendo que o final de sição do corpo também servem para estabelecer
uma sentença na Libras é indicado por uma pausa. referentes, por exemplo, no sinal de “entregar para
A Libras utiliza mecanismos espaciais que fa- alguém”, o olhar acompanha o movimento da mão
zem com que a informação gramatical se apresen- ativa.
te simultaneamente com o sinal. Esses mecanismos Qualquer referência usada em uma conversa ou
envolvem dois aspectos: a incorporação, que você discurso precisa de uma localização no espaço de si-
estudou na Unidade IV e é considerada um meca- nalização, que é o espaço na frente do sinalizador.
nismo produtivo na Libras e usada, por exemplo, Este local pode ser, de acordo com Quadros e Kar-
para expressar localização, número, pessoa e o uso nopp (2004, p. 127-128), indicado por vários meca-
de sinais não–manuais, como movimentos do cor- nismos espaciais:
po e expressões faciais. a. Fazer o sinal em um local particular (se a
As expressões faciais e corporais e outros me- forma do sinal permitir; por exemplo, o sinal
canismos espaciais usados junto com os sinais são casa pode acompanhar o local que o sinaliza-
fundamentais nas línguas de sinais, pois determi- dor quer indicar).
nam relações sintáticas e semânticas/pragmáticas.

224
EDUCAÇÃO FÍSICA

b. Direcionar a cabeça e os olhos (e talvez o d. Usar um pronome demonstrativo (a apon-


corpo) em direção a uma localização particu- tação ostensiva) numa localização particular
lar simultaneamente com o sinal de um subs- quando a referência for óbvia; por exemplo,
tantivo com a apontação para o substantivo. mostrar a casa e sinalizar apenas NOVA.

AQUI ALI (LÁ)

ESTE

e. Usar um classificador (que representa aque-


le referente) em uma localização particular,
como, por exemplo, na frase “os carros se cru-
zaram”.
f. Usar um verbo direcional (com concordân-
c. Usar a apontação ostensiva antes do sinal de cia) incorporando os referentes previamente
um referente específico (por exemplo, apon- introduzidos no espaço. Veremos esse tema
tar para o ponto ‘A’ associando esta apontação em detalhes um pouco mais adiante, porém,
com o sinal CASA; assim o ponto ‘A’ passa a de maneira geral, segundo Quadros e Kar-
referir CASA). nopp (2004, p. 130), esses verbos concordam

225
LIBRAS

“[...] com o sujeito e/ou com o objeto indire-


to/direto da frase”. Além disso, “[...] há uma
relação entre os pontos estabelecidos no espa-
ço e os argumentos que estão incorporados ao
verbo”. Como exemplo, citamos o verbo dar.

EU

Como a informação linguística é recebida pelos


olhos, os sinais são construídos de acordo com as
DAR (EU D@ VOCÊ) possibilidades perceptuais do sistema visual huma-
no. Logo, as relações espaciais nas línguas de sinais
são muito complexas.

Usuários de sinais da comunidade surda são


ótimos contadores de história. A expressivida-
de da face e dos movimentos corporais, aliada
às configurações de mão, cria a dinâmica do
relato que o ouvinte produz com a cadência da
voz. Quem domina a Libras é capaz de mate-
DAR (VOCÊ D@ PARA MIM) rializar a imagem do pensamento diante dos
olhos do seu interlocutor. Diferentemente do
ouvinte, que usa a modulação da voz e a gra-
No que se refere ao uso do sistema pronominal, os mática, as modalidades para produzir senti-
sinalizadores estabelecem os referentes associados a dos em sinais são visuais, espaciais e rítmicas
localização no espaço, sendo que tais referentes po- (REILY, 2004, p. 132).
dem estar fisicamente presentes ou não.
Com relação à sintaxe, o uso do espaço tem papel
Depois de serem introduzidos no espaço, os
pontos específicos podem ser referidos poste- importante, pois dentro do “espaço sinalizado” (a
riormente no discurso. Quando os referentes área em que os sinais são feitos), os sinais podem ser
estão presentes, os pontos no espaço são estabe- movidos de uma localização para outra, indicando
lecidos baseados na posição real ocupada pelo
referente. Por exemplo, o sinalizador aponta para
diferenças no sujeito e no objeto. Isto significa que é
si, indicando a primeira pessoa, aponta para o possível estabelecer localizações no espaço para dois
interlocutor, indicando a segunda pessoa e para personagens. Por exemplo, mover a mão relaciona-
os outros, indicando a terceira pessoa. Quando
da a um destes personagens para o outro, indicando
os referentes estão ausentes da situação de enun-
ciação, são estabelecidos pontos abstratos no algo, ou seja, uma relação de receptor e transmissor
espaço (QUADROS; KARNOPP, 2004, p. 130). da mensagem.

226
EDUCAÇÃO FÍSICA

SAIBA MAIS

A ideia de representar graficamente as línguas


de sinais teve origem num sistema para escre-
ver passos de dança, criado pela coreógrafa
americana Valerie Sutton, que acabou des-
pertando, em 1974, o interesse de pesquisa-
dores da Língua de Sinais dinamarquesa que
estavam procurando uma forma de escrever
os sinais. Embora não tenha sido o primei-
ro sistema de escrita para línguas gestuais,
o SignWriting foi o primeiro que conseguiu
representar adequadamente as expressões
faciais e as nuances de postura do sinalizador.
O SignWriting pode registrar qualquer língua
de sinais do mundo sem passar pela tradu-
ção da língua falada. Cada língua de sinais
vai adaptá-lo a sua própria ortografia. Além
disso, o SignWriting possui um alfabeto que
pode ser comparado com o alfabeto usado
para escrever qualquer língua verbal que seja
expressa no alfabeto romano. Existe um apli-
cativo denominado EditSW gratuito para esta
escrita. Exemplo:

Fonte: Nogueira, Carneiro e Nogueira (2012).

227
LIBRAS

SISTEMA PRONOMINAL

Alguns aspectos do sistema pronominal da Li- te no que se refere à incorporação de número.


bras, como os pronomes pessoais, por exemplo, Entretanto, optamos por reapresentá-los neste
foram apresentados anteriormente, quando estu- momento, como forma de dar unidade ao estudo
damos a morfologia desta língua, particularmen- dos pronomes.

a. Pronomes pessoais: a Libras possui um sistema pronominal para repre-


sentar as seguintes pessoas do discurso:

EU VOCÊ ELE/ELA

VOCÊS ELES ELAS

NÓS TODOS

228
EDUCAÇÃO FÍSICA

No singular, o sinal para todas as pessoas é o • Quatrial: NÓS – 4


mesmo; o que difere é a orientação da mão.
No plural, o formato do numeral – dois, três,
quatro, até nove – apontando para pessoas ou
lugares a quem se fez referência é interpretado
como nós, vocês ou eles, dois, três, quatro, até
nove (PEREIRA et al, 2011, p. 80).

Primeira pessoa
• Singular: EU - apontar para o peito do enun-
ciador (a pessoa que fala).
• Plural: NÓS - GRUPO NÓS - TOD@S

• Dual: NÓS – 2 Segunda pessoa:


A lógica aqui é a mesma do caso da primeira
pessoa, para o dual, trial etc.
• Singular: VOCÊ - apontar para o interlocutor
(a pessoa com quem se fala).
• Dual: VOCÊS – 2
• Trial: VOCÊS - 3
• Quatrial: VOCÊS - 4
• Plural: VOCÊS - GRUPO VOCÊS - TOD@S
• Trial: NÓS – 3
Terceira pessoa:
Mesma forma das anteriores.
• Singular: EL@ - apontar para uma pessoa que
não está na conversa ou para um lugar con-
vencional.
• Dual: EL@S - 2
• Trial: EL@S - 3
• Quatrial: EL@S - 4
• Plural: EL@S - GRUPO EL@S - TOD@S

229
LIBRAS

Quando se quer falar de uma terceira pessoa presen- Tipos de referentes:


te, mas deseja-se ser discreto, por educação, não se • Referentes presentes. Ex.: EU, VOCÊ, EL@
aponta para essa pessoa diretamente: ou se faz um etc.
sinal com os olhos e um leve movimento de cabeça • Referentes ausentes com localizações reais.
em direção à pessoa mencionada ou aponta-se para Ex.: MARINGÁ, PREFEITURA, EUROPA
a palma da mão (voltada para a direção onde se en- etc.
contra a pessoa referida).
Referentes ausentes sem localização.
b. Pronomes demonstrativos: na Libras os pro-
nomes demonstrativos e os advérbios de lu- c. Pronomes possessivos: também não pos-
gar tem o mesmo sinal, sendo diferenciados suem marca para gênero e estão relacionados
no contexto. Configuração de mão [G]. às pessoas do discurso e não à coisa possuída,
como acontece em Português.
• EST@/AQUI - olhar para o lugar apontado,
perto da 1ª pessoa. Exemplos:
EU: ME@ (batendo no peito do emissor)

• ESS@/AÍ - olhar para o lugar apontado, perto


da 2ª pessoa.
VOCÊ : TE@ (movimento em direção à pessoa
• AQUEL@/LÁ - olhar para o lugar distante
apontado. referida)

230
EDUCAÇÃO FÍSICA

d. Pronomes indefinidos:
ELE / ELA : SE@ (movimento em direção à pessoa
referida) • NINGUÉM/NADA (1) (mãos abertas esfre-
gando-se uma na outra): é usado para pesso-
as e coisas.

Observação: para os possessivos no dual, trial, qua-


drial e plural (grupo) são usados os pronomes pes- • ALGUM, ALGUÉM
soais correspondentes.

• QUALQUER
NOSSO/NOSSA SEUS/SUAS

DELES/DELAS

231
LIBRAS

Pronomes interrogativos: os pronomes interrogativos QUE, QUEM, ONDE etc.


se caracterizam, essencialmente, pela expressão facial interrogativa feita simulta-
neamente ao pronome.

• O QUÊ? • QUAL? • POR QUÊ?

• COMO? • QUE / QUEM? (Usados no início da frase.)

• QUEM – QUAL PESSOA? DE QUEM? (Usados no final da frase)

232
EDUCAÇÃO FÍSICA

• QUANDO: a pergunta com quando está relacionada a um advérbio de


tempo (hoje, amanhã, ontem) ou a um dia de semana específico.

Exemplos: EL@ VIAJAR RIO QUANDO-PASSADO (interrogação)


EL@ VIAJAR RIO QUANDO-FUTURO (interrogação)
EU CONVIDAR VOCÊ VIR MINH@ ESCOLA. VOCÊ PODER D-I-A (inter-
rogação)

QUANDO

QUE-HORAS? / QUANTAS-HORAS? Para se referir às horas aponta-se para o


pulso e relaciona-se o numeral para a quantidade desejada.

Exemplos:
CURSO COMEÇAR QUE-HORAS AQUI (interrogação)
Resposta: CURSO COMEÇAR HORAS DUAS.
Para se referir a tempo gasto na realização de uma atividade, sinaliza-se um
círculo ao redor do rosto, seguido da expressão facial adequada.
Ex.: VIAJAR RIO-DE-JANEIRO QUANTAS-HORAS (interrogação) POR
QUE / PORQUE
Como não há diferença entre ambos, o contexto é que sugere, por meio das
expressões faciais e corporais, quando estão sendo usados em frases interrogati-
vas ou explicativas.

QUANT@

233
LIBRAS

• ONDE? EM QUE LUGAR?

ONDE MAIS OU

TALVEZ SE

ORDEM DOS SINAIS EM UMA FRASE

Quadros e Karnopp (2004, p.1 333) estabelecem que


a ordem das palavras Veja os exemplos:

“[...] é um conceito básico relacionado com a es- 1. Os alunos usam uniformes > SVO
trutura da frase de uma língua. O fato de que as
2. Os alunos uniformes usam > SOV
línguas podem variar suas ordenações das pala-
vras apresenta um papel significante nas análises 3. Uniformes os alunos usam > OSV
linguísticas” 4. Uniformes usam os alunos > OVS
5. Usam uniformes os alunos > VOS
e acrescentam que existem seis combinações possí-
6. Usam os alunos uniformes > VSO
veis de sujeito (S), objeto (O) e verbo (V), sendo que
algumas são mais frequentes do que outras.

234
EDUCAÇÃO FÍSICA

Todas essas construções estão corretas, entretanto, a as diferenças entre frases afirmativas, exclamativas,
ordem SVO, da frase (1) é a mais comum, seguida da imperativas e interrogativas na Língua Portuguesa
ordem SOB (2) e VSO (6), embora esta última esteja (a modulação do som), são as expressões faciais e
presente mais na forma culta da língua. corporais que estabelecem os diferentes tipos de fra-
De acordo ainda com Quadros e Karnopp(2004, ses em Libras.
p. 135), a Libras “[...] apresenta certa flexibilidade Assim, as expressões faciais são essenciais para
na ordem das palavras”, não sendo portanto trivial o determinar o tipo de frase, isto é, se a frase é afir-
estabelecimento de uma ordem básica para as frases. mativa, a expressão facial é neutra. Para frases ex-
Com relação à ordem da frase na Língua Brasi- clamativas, as sobrancelhas devem ficar levantadas
leira de Sinais, de acordo com Quadros e Karnopp e acompanha um ligeiro movimento da cabeça incli-
(2004), a construção SVO (sujeito – verbo – objeto) nando-a para cima e para baixo.
é a mais comum, embora sejam encontradas também AFIRMATIVA – expressão facial é Neutra.
construções do tipo SOV e OSV. Entretanto, nossa
experiência pessoal nos permite afirmar que entre os
sujeitos surdos não letrados, a ordem OSV, em frases
como: CARRO VOCÊ TER é muito utilizada.
Outra observação importante em relação à or-
dem das frases é que os advérbios temporais e de fre-
quência não podem interromper uma relação entre
o verbo e o objeto. Os advérbios temporais podem
estar antes ou depois da oração (por exemplo: João
comprar carro amanhã ou Amanhã João comprar EXCLAMATIVA: sobrancelhas levantadas e um li-
carro). Os advérbios de frequência podem estar an- geiro movimento da cabeça inclinando-se para cima
tes ou depois do complemento (por exemplo: Eu e para baixo.
bebo leite algumas vezes ou Eu algumas vezes bebo
leite).

TIPOS DE FRASES

As frases em Libras, a exemplo da Língua Portu-


guesa, podem ser afirmativas, exclamativas, inter-
rogativas e negativas. Como não existe entonação
(ou modulação) em Libras, que é o que especifica

235
LIBRAS

INTERROGATIVA: sobrancelhas franzidas e um


ligeiro movimento da cabeça inclinando-se para
cima.

E / OU

E / OU

Alterando parâmetros: o sinal já tem a negação,


como por exemplo: ter e não ter; gostar e não gos-
tar; querer e não querer. Não precisamos falar NÃO
Frase interrogativa – a cabeça que se movimenta VER porque o sinal é diferente. Observe.
para cima. As estruturas interrogativas são constitu-
ídas a partir das seguintes propriedades:
• Os elementos interrogativos (o que, quem,
como, onde etc...) podem ser movidos para
o final da sentença ou serem mantidos na po-
sição original. Exemplo: João gosta de quem?
ou Quem gosta de Maria?
• “O que?” com a boca como “U” com a cabeça
movimenta cima também.
VER
NEGATIVA: ela pode ocorrer por meio de duas
maneiras: alterando o parâmetro movimento (por
exemplo: ter e não ter) e incorporando a expressão
facial ao sinal sem alterar nenhum parâmetro, mas
em qualquer tipo de negativa, a expressão facial é
importante, como sobrancelhas levemente franzidas.
Negação sem alterar nenhum parâmetro: com
o rosto balançando ou o dedo (significando não),
por exemplo: conhecer e não conhecer; pensar e não
NÃO VER
pensar; casar e não casar

236
EDUCAÇÃO FÍSICA

SABER NÃO SABER

QUER NÃO QUER

TER NÃO TER

PODE NÃO PODE

237
LIBRAS

• IMPERATIVA: a ordem é dada pelo sinal


As expressões faciais e corporais são também
convencional acompanhado de expressão sé-
ria ou zangada: Saia! Cala a boca! Vá embora! responsáveis pela modulação de intensidade e ad-
vérbios de modo, muitas vezes acompanhadas da
repetição exagerada do sinal. O advérbio muito
pode ser expresso por meio das expressões fa-
ciais (inflar as bochechas) e corporal, pelo sinal
de muito, ou por uma modificação no movimento
do sinal.
Enfim, esses são alguns exemplos das modula-
ções de sinais pelas expressões faciais na Libras.

As expressões faciais são essenciais também para A partir da análise desses parâmetros, pode-
mos perceber que as línguas orais e as línguas
pronomes pessoais, demonstrativos e advérbios de
de sinais são similares em seu nível estrutural,
lugar, mas são mais importantes ainda para os pro- os seja, são formadas a partir de unidades sim-
nomes interrogativos, que se caracterizam, essen- ples que, combinadas, formam unidades mais
cialmente, pela expressão facial interrogativa feita complexas. [...] Diferem quanto à forma como
simultaneamente ao pronome. as combinações das unidades são construídas.
Enquanto as línguas de sinais, de uma manei-
Para se referir a tempo gasto na realização de
ra geral (mas não exclusiva!), incorporam as
uma atividade, por exemplo, sinaliza-se um círculo unidades simultaneamente: as línguas orais
ao redor do rosto, seguido da expressão facial ade- tendem a organizá-las sequencialmente/linear-
quada. Ex.: VIAJAR RIO-DE-JANEIRO QUAN- mente (GESSER, 2009, p. 19).
TAS-HORAS (interrogação)
No caso dos pronomes POR QUE/PORQUE, Os sinais são classificados em categorias gramati-
como não há diferença entre ambos, o contexto é cais, entre outras, como substantivos, advérbios,
que sugere, por meio das expressões faciais e corpo- adjetivos, verbos, pronomes, com as três últimas
rais, quando estão sendo usados em frases interro- apresentando particularidades em relação ao uso do
gativas ou explicativas. espaço de sinalização.

238
EDUCAÇÃO FÍSICA

Os adjetivos não recebem marcação de gênero nem de número, mas podem


variar em intensidade, com a utilização de componentes não manuais, como no
exemplo a seguir, para rico, muito rico, milionário, em que o sinal é o mesmo e o
que muda são as expressões faciais.

RICO RIQUÍSSIMO MILIONÁRIO

Os adjetivos são, em sua maioria, descritivos e, por expressarem características


do objeto, em geral, reproduzem a qualidade descrita, “desenhando-a no ar ou
mostrando-a no objeto ou no corpo do emissor”. Assim, para dizer que alguém
está vestindo uma camisa listrada, o emissor desenhará listras no próprio corpo
(PEREIRA et al., p. 78).

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239
LIBRAS

Verbos em Libras
Os verbos na Libras dividem-se praticamente em três classes: verbos simples, ver-
bos com concordância ou direcionais e verbos espaciais.
Os verbos simples utilizam apenas o espaço para a elaboração do sinal, ou
seja, o ponto de articulação e movimento.
Os verbos simples não se flexionam em pessoa e número e não aceitam afixos
locativos, por exemplo, os verbos conhecer, amar, aprender.

CONHECER AMAR

240
EDUCAÇÃO FÍSICA

Os verbos com concordância flexionam-se em pes-


soa, número e aspecto, mas não incorporam afixos
locativos, por exemplo, os verbos responder, per-
guntar e dar.

RESPONDER (VOCÊ RESPOND@ PARA MIM)

Os verbos espaciais são os que têm afixos locativos,


por exemplo, colocar, ir e chegar e utilizam o espaço
DAR (EU D@ VOCÊ) para isso. Isso significa que ao sinal do verbo é acres-
centado, por exemplo, o que foi colocado; ou para
onde se vai. Exemplos; viajar, ir e chegar.

DAR (VOCÊ D@ PARA MIM)

IR

Quadros e Karnopp (2004, p. 205) acrescentam ain-


da, os verbos “manuais” como aqueles que envolvem
uma configuração de mão em que se representa es-
tar segurando um objeto na mão. Esses verbos sem-
pre finalizam a frase. “Primeiro situa-se sobre o que
se está falando e, em seguida, define-se que tipo de
RESPONDER (EU RESPOND@) verbo manual será usado, como nas construções tó-
pico-comentário”.

241
LIBRAS

Exemplo: eu pintei no caderno com o lápis, fi- verbo apresentado e sua significação no contexto. O
caria assim em Libras: Caderno pintar- lápis. Pintar verbo olhar, por exemplo, pode ser representado ra-
com lápis é um verbo manual. pidamente para dizer que a pessoa apenas avistou ou
Flexão de número é realizada, normalmente, longamente, significando que a pessoa olhou com
pela repetição do movimento (exemplo: João entre- atenção.
gar livro para alguém, para duas pessoas, para três, A marcação dos tempos verbais em Libras se re-
para todos). sume a presente, passado e futuro, podendo ser enfa-
A flexão de aspecto está relacionada com as for- tizados, caso seja presente, os sinais de agora ou já e,
mas, movimento e velocidade (por exemplo: cuidar em seguida, o sinal do verbo que se deseja enunciar;
incessantemente, cuidar de forma ininterrupta, cui- caso seja passado, utiliza-se os sinais de ontem ou
dar de maneira habitual). Têm-se várias dimensões muito tempo atrás, seguido do sinal do verbo e, caso
descritas sobre a forma: direção/eu entregar você seja futuro, sinaliza-se amanhã ou um futuro mais
(uso do espaço), velocidade/diariamente. A Libras distante, seguido do sinal do verbo. A ordem pode
usa também modulações de olhar e expressões fa- ser invertida em qualquer dos casos, sinalizando-se
ciais-corporais para transmitir a intensidade do primeiro o verbo e depois o advérbio de tempo.

FUTURO PASSADO

AMANHÃ PRESENTE

242
EDUCAÇÃO FÍSICA

HOJE/AGORA FAZ TEMPO

ONTEM JÁ

Existe também em Libras o gerúndio, que é sempre um sinal composto do sinal


do verbo, acrescido do sinal para “presente” ou “vivo”, para indicar que a ação
está acontecendo naquele momento.
Também temos as modulações de grau e de intensidade, por meio das ex-
pressões faciais, que podem ser consideradas gramaticais. Essas marcações são
chamadas de marcações não-manuais. A sinalização é sempre acompanhada pela
posição da cabeça, por movimentos da cabeça, pela postura do corpo e, princi-
palmente, pela expressão facial.
Muitos sinais apresentam como traço diferenciador a expressão facial e a cor-
poral em sua configuração, como por exemplo, os sinais de ALEGRE e de TRIS-
TE. Há sinais feitos somente com a bochecha, como LADRÃO e ATO SEXUAL.
A expressão facial e corporal pode indicar alegria, tristeza, raiva, amor, en-
cantamento entre outros sentimentos, dando mais sentido à Libras e, até mesmo
determinando o significado de um sinal. Por exemplo: o dedo indicador em [G]
sobre a boca, com a expressão facial calma e serena significa silêncio. O mesmo
sinal usado com o movimento mais rápido e com a expressão zangada significa
uma ordem severa: Cale a boca! Outro exemplo: a mão aberta, com o movimen-
to lento e a expressão serena, significa calma; o mesmo sinal com movimento
brusco e com expressão séria significa para.

243
LIBRAS

Léxico de Categorias
Semânticas III
1. Corpo Humano, Higiene Corporal, Saúde,
Deficiências, Emoções e Religiões.

A maioria dos sinais referentes ao corpo humano são icônicos e classificadores,


portanto, são de fácil compreensão.

CORPO HUMANNO VEIA / ARTÉRIA

CÉREBRO OSSO

244
EDUCAÇÃO FÍSICA

SANGUE

BEXIGA FÍGADO

PULMÃO

CARAÇÃO RIM

245
LIBRAS

INTESTINO DELGADO ÂNUS

ESTÔMAGO

ESÔFAGO LARINGE

EREÇÃO PÊNIS TESTÍCULOS

246
EDUCAÇÃO FÍSICA

ESPERMATOZÓIDE

PELOS VAGINA

GRÁVIDA MENSTRUAÇÃO ÚTERO

SEIO TROMPAS OVÁRIOS

247
LIBRAS

MEMBROS SUPERIORES

OMBRO BRAÇO COTOVELO

MÃO PULSO DORSO

UNHA DEDO

248
EDUCAÇÃO FÍSICA

MEMBROS INFERIORES

PÉ PERNA

NADEGAS

QUADRIL COXA

249
LIBRAS

PESCOÇO CABEÇA QUEIXO

BOCHECHA ORELHA LÍNGUA

DENTE NARIZ BOCA

SOBRANCELHA CABELO OLHO

250
EDUCAÇÃO FÍSICA

HIGIENE

HIGIENE ESCOVA DE DENTES PASTA

ESCOVA DE CABELO TOALHA

SHAMPOO

251
LIBRAS

DESODORANTE SABONETE

PERFUME OU PERFUME

BELEZA

PÓ DE ARROZ BATOM RÍMEL

252
EDUCAÇÃO FÍSICA

SAÚDE

SAÚDE DOENTE - DOENÇA

VACINA REMÉDIO

DOR DEPRESSÃO

253
LIBRAS

RAIO-X ENJOO

FRATURA

DOR DE BARRIGA POMADA

DOR DE CABEÇA

254
EDUCAÇÃO FÍSICA

CÂNCER AIDS

TOSSE GRIPE FEBRE

CÓLICA VÔMITO

255
LIBRAS

DEFICIÊNCIA/PESSOA COM DEFICIÊNCIA

DEFICIENTE CEG@ SURDEZ/SURD@

CEGUEIRA/CEG@ DOWN MENTAL

CADEIRA DE RODAS AUTISTA APAE

256
EDUCAÇÃO FÍSICA

SENTIMENTOS E EMOÇÕES

EMOÇÃO SENTIR/SENTIMENTO

MATURIDADE/MADUR@ TEIMOSIA/TEIMOS@

SORTE/SORTUD@ COITAD@

257
LIBRAS

SORRIDENTE REBELDIA (REBELDE)

QUIET@ PREGUIÇA/PREGUIÇOS@

FAMINTO /FOME SONOLENT@

SEDENT@/SEDE

258
EDUCAÇÃO FÍSICA

MULHERENGO

CARINHO/CARINHOS@ LIMPEZA/LIMP@

INOCÊNCIA/INOCENTE LIBERDADE/INDEPENDENTE/LIVRE

JUSTO/HONESTIDADE/
HUMILDADE/HUMILDE
HONEST@

259
LIBRAS

FOFOCA EDUCAD@

FOFOCA / FOFOQUEIR@ CHAT@

METID@/ESNOBE CONFUSÃO/CONFUS@

EGOÍSTA CHORAR

260
EDUCAÇÃO FÍSICA

ENGRAÇAD@ / PIADA BOB@

CRIANÇA

CORAGEM VERDADE

CALMA/ACALMAR BARULHO

261
LIBRAS

BRUTO CALM@

VINGANÇA/VINGATIV@ IDIOTA

RESPONSABILIDADE/
FINGIR / FINGIMENTO/FINGID@
RESPONSÁVEL

FALS@ / TRAIÇÃO PIOR

262
EDUCAÇÃO FÍSICA

SURPRESA/SURPRES@ MELHOR

SUSTO/ASSUSTAD@ CONFIANÇA/CONFIAR

SÓ / SOZINH@ / APENAS SOLIDÃO

DESPREZAR / DEIXA PRA LÁ / DESPREZAD@ PAZ

263
LIBRAS

PREOCUPAÇÃO/
PROBLEMA ANSIEDADE
PREOCUPAD@

PACIÊNCIA ARREPENDIMENTO

MEDO GUERRA

CURIOSIDADE INTERESSANTE

264
EDUCAÇÃO FÍSICA

CONFIAR / ACREDITAR CULPA

TIMID@ TIMID@/VERGONHA BRAV@

RAIVA ZANGAD@/BRAV@ CIÚMES

DÓ/PENA INVEJA

265
LIBRAS

MÁGOA TRISTE/TRISTEZA

NERVOS@ ORGULHOS@ / VAIDOS@

GRATIDÃO MIMAD@

AMADO FELIZ

266
EDUCAÇÃO FÍSICA

DESEJO / VONTADE PRAZER / ORGULHO ALEGRE

IRA (MUITA RAIVA) EXCITANTE

RELIGIÃO

RELIGIÃO DEUS

267
LIBRAS

ORAR ORAÇÃO / REZAR PROFETA

RESSURREIÇÃO FÉ

PECADO DIABO

ALTAR

268
EDUCAÇÃO FÍSICA

ALMA JESUS

BÍBLIA (PALAVRA DE DEUS)

JUDEUS / HEBREUS BATISTA LUTERANA

MACUMBA ADVENTISTA

269
LIBRAS

TESTEMUNHA DE JEOVÁ PROTESTANTE/CRENTE

PASTOR BATISMO (CRENTE)

ATEU

FREIRA PAPA ANJO

270
EDUCAÇÃO FÍSICA

ESPIRITO SANTO ÍDOLOS

SANT@

BUDA PADRE

PADRE

271
LIBRAS

MARIA BATISMO (CATÓLICA)

COMUNGAR CRUZ

IGREJA

272
EDUCAÇÃO FÍSICA

ADJETIVOS E ADVÉRBIOS USADOS NO COTIDIANO

VAZI@ CHEI@ (SATISFEIT@)

PRES@ DEIXAR OU LIBERDADE

APERTAD@ PEQUEN@ GRANDE

273
LIBRAS

QUENTE GELAD@ / FRI@ NOV@ / JOVEM / ADOLESCENTE

POBRE RIC@

VELH@ NOV@

POUCO MUITO

274
EDUCAÇÃO FÍSICA

PERTINHO / PERTÍSSIMO PERTO

MUITO LONGE / LONGE DEMAIS LONGE

MOLHAD@

SEC@

275
LIBRAS

PRIMEIR@ ULTIM@

SUJO LIMPO

PESAD@ LEVE

DIFERENTE IGUAL OU IGUAL

276
EDUCAÇÃO FÍSICA

SORTE AZAR

MAGR@ GORD@

FORTE OU FORTE

FRAC@

277
LIBRAS

MOLE DUR@ DEPRESSA / RAPID@ DEVAGAR

FÁCIL FÁCIL

DIFÍCIL INTELIGENTE

COMPRID@ CURT@

278
EDUCAÇÃO FÍSICA

CLAR@ ESCUR@

BARAT@ CAR@

ERRAD@ CERT@

FEI@ BONIT@

279
LIBRAS

BOM / BOA INIMIG@

MACI@ ÁSPER@

BAIX@ ALT@ OU ALT@

280
EDUCAÇÃO FÍSICA

EDUCAÇÃO: ESCOLA – NÍVEIS DE ENSINO - ESPAÇO FÍSICO –


DISCIPLINAS – MATERIAL ECOLAR

ESCOLA ALUN@ ESTUDAR

FACULDADE UNIVERSIDADE

DOUTORADO MESTRADO PÓS-GRADUAÇÃO

281
LIBRAS

1º GRAU 2º GRAU 3º GRAU


OU

1º GRAU 2º GRAU 3º GRAU

ANO/SÉRIE

1º ANO 2º ANO 3º ANO

282
EDUCAÇÃO FÍSICA

4º ANO 5º ANO 6º ANO

7º ANO 8º ANO 9º ANO

REUNIÃO CERTIFICADO

APROVAÇÃO REPROVAÇÃO

283
LIBRAS

FORMATURA CURSO

VESTIBULAR NOTA

REDAÇÃO PROVA

284
EDUCAÇÃO FÍSICA

ESPAÇO FÍSICO

COMPUTAÇÃO LABORATÓRIO

SALA DE AULA

BIBLIOTECA

285
LIBRAS

DISCIPLINAS

DISCIPLINA ESTUDOS RELIGIOSOS

FILOSOFIA ESPANHOL

INGLÊS FRANCÊS QUÍMICA

286
EDUCAÇÃO FÍSICA

EDUCAÇÃO ARTÍSTICA EDUCAÇÃO FÍSICA

HISTÓRIA SOCIOLOGIA

GEOGRAFIA OU GEOGRAFIA

BIOLOGIA

287
LIBRAS

CIÊNCIAS PORTUGUÊS MATEMÁTICA

MULTIPLICAÇÃO DIVISÃO SUBTRAÇÃO

ADIÇÃO DESCONTO

SOMA (CALCULAR)

288
EDUCAÇÃO FÍSICA

MATERIAL ESCOLAR

UNIFORME MOCHILA

APONTADOR TESOURA

COLA RÉGUA

CADERNO CANETA

289
LIBRAS

LIVRO / REVISTA

BORRACHA

LÁPIS LÁPIS DE COR

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290
EDUCAÇÃO FÍSICA

ATIVIDADES HUMANAS: ESPORTE E PROFISSÕES

ESPORTE

CAMPO SALÃO CAMPO

FUTEBOL CAMPEONATOS CORRER

NATAÇÃO BASQUETE VÔLEI

291
LIBRAS

PROFISSÕES

FARMACÊUTIC@ ENFERMEIR@

BANCÁRI@ ENGENHEIR@ JORNALIST@

FOTÓGRAF@ ATOR/ATRIZ MONITOR@

292
EDUCAÇÃO FÍSICA

INSTRUTOR DE LIBRAS DENTISTA

MOTORISTA

CANTOR/CANTORA CHEFE

INFORMÁTICA AEROMOÇA JUIZ ADVOGAD@

293
LIBRAS

CONTABILIDADE ADMINISTRAÇÃO

INTÉRPRETE MÉDIC@

ENCANADOR

294
EDUCAÇÃO FÍSICA

MECÂNIC@

EMPREGAD@ DOMÉSTIC@

PINTOR DE PAREDES COMPRADOR

VENDEDOR FAXINEIR@ SECRETÁRI@

295
LIBRAS

AÇOUGUEIR@

CARTEIR@

GARÇOM / GARÇONETE

PADEIRO

296
EDUCAÇÃO FÍSICA

PEDREIR@ BOMBEIRO

POLICIAL FONOAUDIÓLOG@ DIRETORIA

ASSISTENTE SOCIAL

PSICOLOGIA PROFESSOR TRABALHO

297
LIBRAS

MEIOS DE TRANSPORTES, ATIVIDADES E LOCAIS PÚBLICOS

MEIOS DE TRANSPORTES

FOGUETE TRATOR

ÔNIBUS ARTICULADO CARROÇA

ÔNIBUS TÁXI

298
EDUCAÇÃO FÍSICA

HELICÓPTERO TREM METRÔ

BARCO NAVIO CAMINHÃO

CARRO BICICLETA MOTO AVIÃO

CINEMA TEATRO

299
LIBRAS

PRÉDIO OU PRÉDIO ACADEMIA

ASSOCIAÇÃO FENEIS

SEED (SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO)

DEE (DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO ESPECIAL)

300
EDUCAÇÃO FÍSICA

BAR

PARQUE DE EXPOSIÇÃO CEMITÉRIO

SHOPPING LOJA EMPRESA

ZOOLÓGICO

301
LIBRAS

GOVERNO PREFEITURA

FÁBRICA CIRCO FEIRA

AEROPORTO SORVETERIA LANCHONETE

PADARIA

302
EDUCAÇÃO FÍSICA

BANCO RESTAURANTE

BIBLIOTECA

RODOVIÁRIA CORREIO

HOSPITAL

303
LIBRAS

ENFERMARIA

FÓRUM AÇOUGUE

SUPERMERCADO HOTEL CADEIA

IGREJA FARMÁCIA

304
EDUCAÇÃO FÍSICA

BANCOS E ECONOMIA

ITAÚ SICREDI

SANTANDER BRADESCO

BANCO REAL

305
LIBRAS

CAIXA BANCO DO BRASIL

PORCENTAGEM JUROS BANCO

PAGAR ALUGAR

LUCRO COMPRAR

306
EDUCAÇÃO FÍSICA

PARCELAR

PARCELA SALÁRIO APOSENTADO

APOSENTAR RECEBER

CÉDULAS CARTÃO MAGNÉTICO

307
LIBRAS

CHEQUE CENTAVOS

REAL DÓLAR

DINHEIRO ECONOMIA

308
EDUCAÇÃO FÍSICA

LOCALIZAÇÃO: PONTOS CARDEAIS - ESTADOS BRASILEIROS E


SUAS CAPITAIS

PONTOS CARDEAIS

OESTE LESTE NORTE SUL

ESTADOS BRASILEIROS E CAPITAIS

BRASIL BRASÍLIA

ESTADO CAPITAL CIDADE

309
LIBRAS

REGIÃO NORTE

RORAIMA RONDONIA MANAUS / AMAZONAS

AMAPÁ PARÁ

ACRE

REGIÃO NORDESTE

PIAUÍ PARAÍBA MARANHÃO

310
EDUCAÇÃO FÍSICA

RIO GRANDE DO NORTE SERGIPE / ARACAJU FORTALEZA / CEARÁ SALVADOR / BAHIA

ALAGOAS PERNAMBUCO / RECIFE

REGIÃO SUL

CURITIBA PARANÁ PORTO ALEGRE RIO GRANDE DO SUL

FLORIANOPÓLIS /SC

311
LIBRAS

REGIÃO SUDESTE

RIO DE JANEIRO / RIO DE JANEIRO

RIO DE JANEIRO / RIO DE JANEIRO

MINAS GERAIS BELO HORIZONTE

SÃO PAULO / SÃO PAULO ESPIRITO SANTO VITÓRIA

312
EDUCAÇÃO FÍSICA

REGIÃO CENTRO-OESTE

MATO GROSSO DO SUL

MATO GROSSO

GOIÂNIA / GOIÁS

313
LIBRAS

MUNDO: CONTINENTES, PAÍSES E CAPITAIS

CONTINENTES

ÁSIA EUROPA AMÉRICA

AMÉRICA CENTRAL AMÉRICA DO SUL AMÉRICA DO NORTE

AUSTRÁLIA/OCEANIA ÁFRICA PAÍS/NAÇÃO

314
EDUCAÇÃO FÍSICA

ALGUNS PAÍSES SUL-AMERICANOS

PARAGUAI COLÔMBIA

CHILE BOLÍVIA

VENEZUELA URUGUAI PERU

ARGENTINA

315
LIBRAS

AMÉRICA DO NORTE

CANADÁ ESTADOS UNIDOS MÉXICO

ALGUNS PAÍSES EUROPEUS

SUIÇA ITÁLIA PORTUGAL INGLATERRA

SUÉCIA RÚSSIA

316
EDUCAÇÃO FÍSICA

NORUEGA

ESPANHA ESPANHA

HOLANDA ESCÓCIA

DINAMARCA ALEMANHA FRANÇA

317
LIBRAS

ÁFRICA

ISRAEL EGITO

ÁSIA

CHINA ÍNDIA

JAPÃO

318
EDUCAÇÃO FÍSICA

ARÁBIA

PRINCIPAIS VERBOS USADOS NO COTI-


DIANO

ABRIR (JANELA) APRENDER

FECHAR (JANELA) ACHAR

319
LIBRAS

ATRASAR ANTECIPAR APAGAR

ANDAR / APROVEITAR ANDAR (ANIMAL) ACENDER

AJUDAR AJUDAR AGRADECER

AJOELHAR ACORDAR

320
EDUCAÇÃO FÍSICA

ACOMPANHAR ENCONTRAR

ABRIR (CONSERVA) ABRIR (PORTA)

ACUSAR FECHAR (PORTA)

ACONTECER OU ACONTECEU

321
LIBRAS

ADMIRAR AFASTAR

ACEITAR

ACOSTUMAR BRIGAR (DISCUSSÃO)

BRINCAR BRIGAR (BATER)

322
EDUCAÇÃO FÍSICA

APROVEITAR COMPRAR

AGUENTAR CONVERSAR COMER

ACREDITAR CHUTAR

ACONSELHAR CAIR

323
LIBRAS

CHEIRAR / RESPIRAR

CHEGAR CANTAR

ABANDONAR / DESISTIR CANSAR

BEIJAR (BOCHECHA) BEIJAR (BOCA) APRESENTAR / CONVIDAR MOSTRAR / APRESENTAR

324
EDUCAÇÃO FÍSICA

AGRUPAR CORRER BEBER (ÁGUA)

BEBER (PINGA) BEBER (BEBIDA)

COMEMORAR (FESTA) PARABENIZAR

COMBINAR (ROUPAS) CONFUNDIR

325
LIBRAS

COMEÇAR COMEÇAR

CUIDAR CUIDADO

PROTEGER CANTAR

DANÇAR IR PRECISAR

326
EDUCAÇÃO FÍSICA

ENTENDER PRENDER (CADEIA) CURAR / SUMIR

COMBINAR (MARCAR) FALAR

DAR FALAR

DAR FUNDAR / PLANTAR

327
LIBRAS

INVENTAR (TER IDEIAS) ERRAR

DESCULPAR FICAR CONTINUAR FICAR EM PÉ / LEVANTAR

COPIAR DIMINUIR / DECRESCER

DESCANSAR DESENVOLVER / CRESCER

328
EDUCAÇÃO FÍSICA

COSTUREIRA/MÁQUINA COSTURAR (BORDAR)

COZINHAR PINTAR QUADRO / PAPEL

DUVIDAR ENSINAR

VIGIAR PEDIR / POR FAVOR DECORAR DISTRAIR

329
LIBRAS

DORMIR FALTAR (ESTAR AUSENTE-PESSOA)

DORMIR FALTAR (FALTAR ALGUMA COISA)

SEGUIR / GUIA DISCUTIR ESTUDAR

FUGIR ESQUECER

330
EDUCAÇÃO FÍSICA

DÍVIDA DEVER (DE TER DÍVIDA) DEVER (PRECISAR)

SENTAR PULAR

ESTAR FAZER

EXPLICAR

331
LIBRAS

TENTAR / EXPERIMENTAR EVITAR

VIVER ESPIAR / TRAIR

PERGUNTAR PESQUISAR

PEDIR POR FAVOR - PEDIR LICENÇA - PEDIR

332
EDUCAÇÃO FÍSICA

ESPERAR PENSAR PENDURAR

ESCONDER PAQUERAR

ESCREVER MANDAR PASSEAR

PRECISAR PARAR OU PARAR

333
LIBRAS

OPINAR BUSCAR

NASCER TRAZER LEVAR

NADAR ESMOLAR MATAR (FACA)

NAMORAR INTERROMPER

334
EDUCAÇÃO FÍSICA

NÃO OUVIR OUVIR

VER OLHAR OBEDECER

MORAR MORRER

DESCONFIAR ASSAR LIMPAR

335
LIBRAS

LER LÁBIOS LER CASAR

MENTIR INFLUENCIAR

SONHAR GRITAR

GOSTAR NÃO GOSTAR

336
EDUCAÇÃO FÍSICA

GASTAR CONSEGUIR

RECEBER FOTOGRAFAR

INTEGRAR

REFLITA

Considerando tudo o que você estudou, nas cinco unidades de nosso livro texto, quais são, em sua
opinião, as principais justificativas para a inserção da Libras como componente curricular obrigatória
em seu curso?

337
considerações finais

N
esta quinta unidade você estudou a sintaxe dos verbos e a modulação
de sinais além do léxico relacionamendo à educação e outros temas
que talvez não seja parte integrante de sua conversação cotidiana, mas
que são essenciais para uma comunicação funcional eficiente em sala
de aula.
A Língua Brasileira de Sinais é uma língua que tem ganhado espaço na socie-
dade em função da contínua luta dos movimentos surdos em prol de seus direitos.
Uma luta que vem desde muito tempo, mas que se concretiza, no Brasil, particu-
larmente, depois da criação da Federação Nacional de Educação e Integração dos
Deficientes Auditivos - FENEIDA, em 1986, entidade que, já no ano seguinte, em
1987, adotando o modelo das suas congêneres em outros países, muda seu nome
para Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos – FENEIS.
Esta instituição foi criada com o objetivo de preencher a lacuna no contexto po-
lítico, social, cultural e educacional que se apresentava (e se apresenta, ainda), aqui
no Brasil, no campo da política dos Surdos.
Capitaneada pela FENEIS, há muitos anos o povo surdo luta contra os padrões
de cidadão impostos pela sociedade majoritária. É uma luta de muitos anos pelo
reconhecimento de que o povo surdo é um povo com cultura e língua própria, pos-
suidor de especificidades linguísticas, sociais e culturais.
Atualmente, o povo surdo conquistou o direito de usar sua língua que possibili-
ta não só a comunicação, mas também sua efetiva participação na sociedade.
Mas, para que esta mudança se efetive, é necessário que cada vez mais pessoas
conheçam e utilizem a Libras.
Faça a sua parte!

338
atividades de estudo

1. Repetiremos aqui, algumas das atividades anteriores: na sua casa, com a


ajuda de um espelho, treine a expressão facial e corporal, isso ajuda muito
em Libras.

2. Estude cada conjunto de palavras apresentado: Pessoa, Adjetivos e Advér-


bios, Educação, Atividades Humanas, Meios de Transportes, Atividades e
Locais Públicos, Localização: pontos cardeais - estados brasileiros e suas
capitais. Mundo: continentes, países e capitais; e Verbos. Reproduza cada
sinal ou frase sempre em frente a um espelho. Lembre-se: o sinal deve ser
feito “virado” para o seu interlocutor e não para você. Assim, olhando no
espelho você deve enxergar o sinal ou a frase tal como se apresenta no
texto.

3. Ensine os sinais para os membros de sua família, para seus familiares.

4. Ensine as profissões para pelo menos duas pessoas da sua família, amigos
ou colegas de trabalho.

5. Ensine os sinais dos estados e as capitais brasileiras a seus familiares, ami-


gos e colegas de trabalho.

6. Em sua opinião, qual conjunto de sinais aprendidos nesta seção que são
mais icônicos?

7. Escreva com suas próprias palavras o que você entendeu acerca dos ver-
bos.

339
LEITURA
COMPLEMENTAR

Neste livro texto, frisamos o tempo todo que a Libras é As publicações na escrita dos sinais (Sign Writing) têm
uma língua, capaz de cumprir todas as funções de uma sido uma inovação na tradição de contar e recontar his-
língua oral, inclusive, a de produções literárias. Por isso, tórias e, por outro lado, divulgam e imprimem materiais
apresentamos como leitura complementar, um frag- na Libras. No entanto, um dos problemas é a abrangên-
mento adaptado de uma apostila destinada aos alunos cia do público leitor nessa língua (Libras), já que poucos
do Curso de Licenciatura Letras/Libras, sobre Literatura são usuários desse sistema, mesmo nas comunidades de
Surda, e autoria da professora Lodenir Karnopp . 1
surdos.
Além da importância dos registros na Libras, encontra-
Literatura Surda mos uma vasta e diversificada literatura, presente em
Enquanto a Libras não era reconhecida ou enquanto era associações de surdos, em escolas, em pontos de en-
proibida de ser usada nas escolas, também não existiam contro da comunidade surda. Algumas dessas histórias
publicações ou o reconhecimento de uma cultura surda são contadas e resgatadas por surdos idosos e/ou por
ou de uma literatura surda. O ensino priorizava o apren- surdos contadores de histórias. Uma pequena parcela
dizado da fala e da língua portuguesa. Nas escolas, não dessas produções culturais tem sido registradas em fitas
havia espaço nem aceitação para as produções literárias de vídeo, na Libras ou, então, traduzidas para a língua
em sinais. No entanto, acreditamos que entre os surdos portuguesa. As narrativas, os poemas, as piadas e os
circulavam histórias sinalizadas, piadas, poemas, histó- mitos que são produzidos servem como evidências da
rias de vida, mas em espaços que ficavam longe do con- identidade e da cultura surda.
trole daqueles que desprestigiavam a língua de sinais. As produções culturais de pessoas surdas envolvem, em
Em geral, naqueles contextos escolares ou clínicos nos geral, o uso de uma língua de sinais, o pertencimento a
quais não se tolera a língua de sinais e/ou a cultura surda uma comunidade surda e o contato com pessoas ouvin-
há um completo desconhecimento dos processos e dos tes, sendo que esse contato linguístico e cultural pode
produtos que determinados grupos de surdos geram em proporcionar uma experiência bilíngue a essa comunida-
relação ao teatro, ao humor, à poesia visual, enfim, à lite- de. Neste sentido, além da escrita da língua de sinais, a es-
ratura produzida em língua de sinais. crita da língua portuguesa, também faz parte do mundo
A Língua de Sinais Brasileira é uma língua visual-gestual e surdo, indispensável aos surdos brasileiros para a escola-
recentemente seus usuários têm utilizado a escrita dessa rização, a defesa dos seus interesses e cidadania. Pode-se
língua em seu cotidiano. A escrita dos sinais (SignWriting) pensar que a escrita pode contribuir para a destruição da
é a forma de registro das línguas de sinais, mas raras são riqueza em sinais; mas a escrita, por si só, não é neces-
as obras literárias produzidas que utilizam essa escrita. sariamente um fator contrário, já que se pode pensar na
Além disso, também são poucas as escolas que incluem escrita como a busca por tradução das raízes culturais,
a escrita dos sinais em seus currículos. associada a outras formas de arte, como teatro e vídeo.

340
LEITURA
COMPLEMENTAR

Além do registro das produções culturais de pessoas sur- espalhados em várias partes do mundo. Pessoas surdas
das através da escrita em língua de sinais (sign writing) e não trabalham em um mesmo local. Em alguns centros
de traduções para a escrita da língua portuguesa, outras urbanos, eles encontram seus pares surdos somente
formas de documentação, como filmagens, são funda- duas ou três vezes por semana e passam a maior par-
mentais para o registro de formas literárias que vão se te de seu tempo em um mundo ouvinte. Esse fato pro-
perdendo ou se transformando. Para uma comunidade duz um padrão de comunidade em que o tempo que os
de surdos manter o leque de possibilidades artísticas e surdos permanecem juntos é fragmentado; por outro
expressões da língua de sinais, os registros visuais são lado, são extremamente próximos uns dos outros. Essa
indispensáveis a criação de bibliotecas visuais e podem característica social faz com que pessoas surdas mante-
contribuir para uma escrita posterior, através da escrita nham suas vidas na comunidade surda, participando da
dos sinais e/ou através de traduções apropriadas para o associação de surdos, realizando atividades conjuntas,
português. estudando em uma mesma escola, empreendendo lutas
Contar histórias é um hábito tão antigo quanto a civili- e reivindicações conjuntas.
zação. Contar histórias é um ato que pertence a todas Essas considerações são importantes para entendermos
as comunidades: comunidades indígenas, comunida- a produção literária em sinais. Pessoas surdas, conviven-
des de surdos, entre outras. Contar histórias, piadas, do com ouvintes, em seu ambiente de trabalho ou com
episódios em línguas de sinais pelos próprios surdos é a família, se apropriam de meios visuais para entender
um hábito que acompanha a história das comunidades o mundo e se relacionar com as pessoas ouvintes. Essa
surdas. Cabe, então, coletar as narrativas que surgem experiência visual, além do uso da língua de sinais, im-
nessas comunidades, para que não desapareçam com plica dividir a comunicação e isto também caracteriza a
o tempo. cultura surda.
Surdos reúnem-se frequentemente para contar histórias Para escaparem da ridicularização da língua de sinais e
e, entre as preferidas, estão as histórias de vida, as pia- de seus bens culturais, de ações intolerantes e até proi-
das e aquelas que incluem elementos da cultura surda, bitivas, os surdos se organizam em comunidades, bus-
com personagens surdos, com tramas que, em geral, en- cando o fortalecimento da língua de sinais, da identidade
volvem as diferenças entre o mundo surdo e o ouvinte. e da cultura surda. Nessa perspectiva, a literatura surda
A comunidade surda é diferente de outras comunidades adquire também o papel de difusão da cultura surda,
linguísticas em muitos aspectos, já que eles não estão dando visibilidade às expressões linguísticas e artísticas
geograficamente em uma mesma localidade, mas estão advindas da experiência visual.

Fonte: adaptado de Karnopp (2008, on-line)1

341
LIBRAS

Língua de sinais brasileira: estudos linguísticos


Ronice Müller de Quadros e Lodenir Becker Karnopp
Editora: Artmed, 2004.
Sinopse: este livro foi a principal referência para a produção des-
te texto, no que se refere aos aspectos linguísticos da Libras. Suas
autoras, linguistas e fluentes em Libras descrevem e analisam a Li-
bras, em seus aspectos fonológicos, morfológicos e sintáticos, pro-
porcionando uma fonte importante para aprendizagem, compreensão, análise e uso desta
língua. Com uma redação clara e repleto de exemplos, o livro ainda é ricamente ilustrado
com fotos realizadas com rigoroso cuidado técnico, com a intenção de dar ao leitor uma ideia
dos movimentos envolvidos no sinal.

Se você quiser conhecer ainda mais sobre os surdos, sua educação, sua cultura e sua língua,
além de todos os endereços que já disponibilizamos, acesse o site disponível em: <www.
[Link]>. Acesso em: 20 jun. 2016.

342
conclusão geral

conclusão geral

Prezado(a) aluno(a)! Finalizamos a nossa discipli- Em função da complexidade da Libras, certa-


na. Muito haveria ainda para ser estudado acerca da mente, não será apenas com esta disciplina que você
Libras, dos surdos e da sua educação, todavia, para estará apto a ser um sinalizador. Afinal, este não é
isso, existem cursos específicos, como a Licenciatura um curso de Especialização em Libras, é apenas uma
em Letras/Libras, com quatro anos de duração ou a disciplina em um curso de graduação para que você
Graduação em Educação Especial – área da surdez, conheça, ao menos um pouco, sobre quão ela é im-
também com quatro anos de duração. portante.
Nosso objetivo nas duas primeiras unidades des- Enfim, esperamos ter convencido você de como
te livro foi introduzir você no mundo surdo, o que a língua de sinais é imprescindível para o desenvolvi-
foi feito na primeira Unidade e apresentar a legisla- mento cognitivo e social do surdo, sendo importan-
ção e as políticas públicas brasileiras para a educação tíssimo que a criança aprenda a língua de sinais bem
de surdos, bem como a importância dos recursos cedo, para que seu desempenho escolar seja equiva-
tecnológicos para a inclusão social e educacional dos lente ao de crianças ouvintes.
surdos. Afinal, atualmente, o povo surdo conquistou o
A partir da terceira unidade, o objetivo princi- direito de usar sua língua, o que possibilita não só
pal foi instrumentalizar o futuro professor para uma a comunicação, mas também sua efetiva participa-
comunicação funcional em Libras de maneira a faci- ção na sociedade. Entretanto, muito ainda necessita
litar sua atuação profissional, bem como favorecer a ser feito para que essa mudança se efetive. Faça a sua
aprendizagem dos educandos surdos inclusos. Desta parte!
forma, as três últimas unidades de nosso texto abor- As autoras.
dam os aspectos gerais e linguísticos da Libras, além
da construção de vocabulário mediante categorias
semânticas.

343
referências

GESSER, A. Libras? Que língua é essa?: crenças e preconceitos em torno da lín-


gua de sinais e da realidade surda. São Paulo: Parábola, 2009.
GÓES, A. M.; CAMPOS, M. de L. I. L. Aspectos da gramática da Libras. In: LA-
CERDA, C.; SANTOS, L. F. (Org.). Tenho um aluno surdo, e agora? Introdução
à Libras e educação de surdos. São Carlos: EdUFSCar, 2013.
NOGUEIRA, C. M. Ignatius; CARNEIRO, M. I. N.; NOGUEIRA, B. I. Surdez,
Libras e Educação de Surdos: Uma introdução à Língua Brasileira de Sinais. Ma-
ringá, EDUEM, 2012.
PEREIRA, M. C. C.; CHOI, D.; VIEIRA, M. I.; GASPAR, P.; NAKASATO, R.
Libras: conhecimento além dos sinais. São Paulo: Pearsons Prentice Hall, 2011.
QUADROS, R. M.; KARNOPP, L. B. Língua de sinais brasileira: estudos linguís-
ticos. Porto Alegre: Artmed, 2004.
REILY, L. Escola Inclusiva: Linguagem e mediação. 4. ed. Campinas, SP: Papirus,
2004

Referências on-line:
1- Em: <[Link] literatu
raVisual/assets/369/Literatura_Surda_Texto-[Link]> Acesso em: 25 jun. 2016.

344
gabarito

Questões: 1, 2, 3, 4, 5.

As questões 1, 2, 3, 4 e 5 foram pensadas com o intuito de fazer você praticar


a Libras. Por isso é importante que as faça. Lembre-se: Libras necessita de
muita prática, portanto, procure alguém para conversar! Desta forma, as cinco
primeiras questões são destinadas a favorecer a sua prática.

Questão 6: para essa questão, a resposta pode ser subjetiva, embora a res-
posta esperada seja “o conjunto de sinais que se referem ao corpo humano”.

Questão 7: para essa questão, você deve tratar dos verbos simples, com con-
cordância e os espaciais, além dos verbos “manuais”. É importante você abor-
dar também, a marcação dos tempos verbais.

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