Evolução Histórica da Mastite Bovina
Evolução Histórica da Mastite Bovina
Na presente revisão estudou-se a evolução histórica da mastite dos bovinos e sua classificação em
diferentes formas clínicas. O levantamento das informações só foi possível por meio de um estudo
retrospectivo na biblioteca da Escola Superior de Veterinária de Hannover, onde se conseguiu dados
do século XVIIl até hoje.
A
o final do século XVIlI, considerava-se que as organizou e publicou, para orientação dos fazendeiros, o
enfermidades da glândula mamária dos bovinos mencionado autor descreveu diferentes tipos de masti-
eram causadas por picadas de alguns insetos ou tes, definindo-as como variadas formas de inflamações
_ pelo contato com sangue ou com secreções de fe- da glândula mamária. Em seguida, na evolução do tem-
ridas supuradas. Também atribuía-se, nessa época, como po, originou-se um período que se caracterizaria pela ob-
uma das causas determinantes das moléstias que aco- servação das lesões e apreciação dos órgãos acometi-
metiam a glândula mamária, a influência de ocorrências dos; assim, iniciaram-se as pesquisas e os estudos para o
fantasmagóricas ou maus espíritos; por essa razão, os conhecimento da natureza intrínseca dos males que po-
assim denominados "mal do espírito" eram tratados e deriam acometer a glândula mamária, que prejudicando
curados com "relíquias, água benta ou desinfetantes na- a produção leiteira e alterando a qualidade do leite e dos
turais". produtos lácteos.
Com Von WILLBURG, iniciaram-se, em 1787, O interesse demonstrado por veterinários e cria-
estudos com bases científicas das doenças da mama, to- dores de gado leiteiro determinou o início de uma nova
davia, o empenho dos especialistas estava voltado ape- era no estudo da patologia da glândula mamária, pela
nas para a nosologia das moléstias da glândula mamária, necessidade prática e científica das classificações das
não abordando aspectos relacionados à etiopatogenia mastites. RYCHNER (1835) classificou as mastites em:
dessas enfermidades, já que, naquela época, desconhe- ativas, passivas e reumáticas. Porém, HAUBNER (1867)
cia-se a existência dos microrganismos. No manual que classificou-as em outras diferentes formas clínicas, ou
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GREGORY, L.; BIRGEL, E. H.; Hü[Link], M.; GRUNERT, E. Mastite dos bovinos: hist6rko de suas fonnas clínicas I Hislory oI mastitis clinicai classification I Rev. educo
contin. CRMV-SP I Continuous Education Journal CRMV-SP, São Paulo, volume 4, fascículo 3, p. 31 - 38, 200\.
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GREGORY, L.; BLRGEL, E. H.; HüEDEMAKER, M.; GRUNERT, E. Mastite dos bovinos: histórico de suas formas clínicas I History oj mastitis clinicai classification I Rev. educo
contin. CRMV ·SP I Continuous Education Journal CRMV ·SP, São Paulo, volume 4, fascículo 3, p. 31 - 38, 200 J.
terinária de Hannover, classificaram as mastites segun- da função, além de o estado geral do animal estar altera-
do as características clínicas e de evolução da doença, do pela ocorrência da síndrome febre. Na mastite aguda
as qualidades físicas da secreção láctea, as alterações os mesmos sinais de inflamação permaneciam evidentes,
anatômicas e funcionais da glândula mamária e os re- apesar de atenuados, podendo também observar-se fe-
sultados bacteriológicos do leite, caracterizando 8 for- bre e apatia do animal. Assim sendo, as duas formas de
mas clínicas de mastite, a saber: galactoforite e mastite mastites não se diferiam pela sintomatologia, mas apenas
catarral aguda; 'galactoforite e mastite catarral crônica, pelo tempo de evolução. Quando, num caso de mastite
mastite aguda grave, mastite apostematosa crônica, mas- hiperaguda ou aguda, desaparecessem os sinais eviden-
tite intersticial não purulenta, mastite tuberculosa, mas- tes do processo inflamatório, permanecendo apenas a
tite actinomicótica e mastite blastomicótica. Observa- perda de função, a mastite seria classificada como suba-
se que tal classificação não distinguiu claramente os cri- guda. Nos casos em que houvesse permanência do au-
térios adotados, e os tipos resultantes, não foram deta- mento da celularidade no leite, ocorreria uma mastite de-
lhados de forma rigorosamente lógica, pois algumas for- nominada como subclínica. Ressalte-se, entretanto, que,
mas caracterizavam-se pelos aspectos clínicos; outras, com essa última denominação, não poderia representar
pela evolução da enfermidade, e, muitas, pela etiologia um dos itens de uma classificação de formas clínicas de
infecciosa. uma doença. Além do mais, nos casos reais de infecção
SCHALM et ai. (1971) classificaram as mastites sempre existiriam sinais clínicos evidentes, que poderiam
segundo as suas formas clínicas em quatro tipos: hipera- ser detectados no exame clínico, como: diminuição da
guda; aguda; subaguda e subclínica. Todavia os critérios produção leiteira, pH alcalino do leite, aumento dos teo-
mencionados como básicos para a classificação não se res de cloreto e do número de células somáticas, predo-
referiam à forma clínica, mas ao tipo de evolução da doen- [Link] neutrófilos.
ça. Na mastite hiperaguda distinguir-se-iam os seguintes WEIGT (1973) enfocou as mastites segundo as
sintomas: hiperemia, rubor, calor; dor, edema, alteração diferentes formas clínicas e, tendo em vista tal crité-
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contin. CRMV·SP I Conlinuous Education Journal CRMV·SP, São Paulo, volume 4, fascículo 3. p. 31 ·38,2001.
rio, apontou as três formas mais comuns de mastites: modalidade de mastite "gangrenosa" faz referência a uma
a catarral, a apostematosa e a flegmonosa. Esses três manifestação clinica, bem caracterizada pela lesão ana-
tipos, por sua vez, poderiam apresentar diferentes for- tomopatológica, mas essa mastite poderia ser determina-
mas de evolução, aguda ou crônica. Ressaltou, entre- da por um agente etiológico considerado causador das mas-
tanto, a referida pesquisadora, que as formas catar- tites "contagiosas". Essa condição de ser uma forma con-
rais poderiam apresentar evolução aguda ou crônica; tagiosa de mastite relacioná-la-ia diretamente com a epide-
as flegmonosas seriam sempre agudas e as apostema- miologia da doença, (pois os referidos germes são ubiqüi-
tosas, crônicas. A forma catarral considerada incipi- tários) e não com as manifestações clínicas da doença.
ente ou resultante de uma infecção latente, que muitos Atualmente, o desenvolvimento de várias técnicas
consideraram uma variante subclínica, foi conceitua- di agnósticas permitiu aos pesquisadores maior capacida-
da como sendo um distúrbio da secreção ou uma for- de para isolar e identificar corretamente um grande nú-
ma clínica de mastite, resultante de um processo infla- mero de bactérias, leveduras, algas e vírus, agentes etio-
matório inespecífico. lógicos causadores das mastites. Todavia, a inexatidão
WELBORN (1994) caracterizou as mastites se- no diagnóstico clínico dessas enfermidades da glândula
gundo a etiologia do processo infeccioso da glândula mamária não se deveria atribuir apenas às deficiências
mamária, definindo assim: mastite causada por colifor- tecnológicas e às metodologias do exame clínico, mas à
mes (formas agudas e hiperagudas); mastite gangrenosa precariedade de formação técnico-metodológica do pes-
(causada por Staphylococcus aureus, Clostridium per- soal responsável pela produção leiteira ou dos sistemas
frigens e Pasteurella multocida ou [Link]); de ordenha. Tal conceito poderia também ser aplicado
caracterizou ainda, esse autor, uma forma de mastite con- aos clínicos veterinários que não assimilaram e nem me-
tagiosa que poderia ser determinada por Streptococcus ditaram sobre os fatos observados nas pesqui as relata-
agalactiae, Streptococcus uberis ou Staphylococcus das anteriormente, evidenciando, às vezes, claros equí-
aureus. Observou-se, entretanto, a imperfeição do crité- vocos lógico-formais, para a perfeita conceituação de sa-
rio inicialmente proposto para essa classificação, pois a nidade da glândula mamária.
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FIgura 4. Inspeção do leite durante a ordenha, prova do fundo preto. Figura S. Exame do leite, prova do CMT.
WENDT et ai. (1994) classificaram as mastites rá-las como um modelo para as classificações dessas en-
de acordo com a forma clínica e o agente etiológico fermidades em formas clínicas para se fazer o diagnóstico
que as poderiam causar. A avaliação histopatológica clínico, pois, para tanto, dever-se-ia exigir que todos os ani-
de sua casuística permitiu ao referido autor identificar mais examinados fossem submetidos a uma biopsia, fato
cinco formas inespecíficas de mastites e cinco formas muito invasivo, nos conceitos modernos da Semiologia.
granulomatosas. Às formas, nas quais não foi possível WENDT et ai. (1994), ainda no relatado estudo,
estabelecer uma relação direta entre a ação do agente afirmaram que as diferentes classificações das formas
etiológico e os principais sintomas da mastite, o autor de mastite teriam mais um caráter meramente didático,
denominou-as de formas inespecíficas e recomendou contrapondo-se, assim, às opiniões de outros estudiosos
que sua classificação obedecesse os critérios clínicos. do assunto, que consideraram ser a classificação a base
Nesse grupo, figuraram: a mastite catarral aguda, a para a elaboração de diagnósticos nosológicos e etioló-
mastite catarral crônica, a mastite necrótico hemorrá- gicos exatos e precisos, quando possíveis e, dessa for-
gica, a mastite apostematosa e a mastite intersticial ma, poder-se-ia contribuir com recomendações de me-
não purulenta. As formas denominadas mastites gra- didas terapêuticas e profiláticas adequadas para com-
nulomatosas foram aquelas que apresentavam relação bater e controlar a doença.
direta e evidente entre a atuação do patógeno e as No período de 1971-1987, a INTERNATIONAL
lesões, ou seja, uma relação direta entre a etiologia e o DAIRY FEDERATION (Federação Internacional de
sintoma. Para esse estudo e classificação, WENDT Produtores de Leite) apresentou e recomendou uma de-
et ai. (1994) procederam ao isolamento e identifica- finição das inflamações da glândula mamária baseada em
ção do agente etiológico da mastite, bem como esta- dois conceitos: avaliação do número de células somáti-
beleceram a caracterização histopatológica das lesões. Ó1S e isolamento de patógenos de amostras de leite. Es-
A esse grupo de mastites granulomatosas, com pro- ses conceitos são detalhados no Quadro 1.
cessos infecciosos específicos, pertenceriam a masti- Em 1987, na publicação "Animal Pharm-Bovine
te tuberculosa e outras causadas por micobactérias atí- Mastitis", foram apresentados e avaliados os métodos de
picas, pela Nocardia asteróides e pelas de origem diagnóstico de mastites recomendados pela Federação
micótica, bem como por aquelas acompanhadas por Internacional de Produtores de Leite - IDF, consideran-
formação de abscessos. Neste caso, ressalte-se que do insatisfatórios os critérios anteriormente aceitos e re-
o referido autor não obedeceu ao critério etiológico de comendados e, até então, tidos como fundamentais para
classificação, como foi anteriormente mencionado, mas a perfeita definição e conceituação dos processos infla-
seguiram-se conceitos histopatológicos. matórios da glândula mamária. Tal desconsideração dos
Na avaliação das classificações que se baseiam nas princípios definidores da inflamação da glândulã mamá-
lesões histopatológicas, não haveria condição de conside- ria alicerçou-se em dois fatos: primeiro, os testes exis-
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contin. CRMV-SP I Continuous Education Journal CRMV-SP, São Paulo, volume 4, fascículo 3, p. 31 - 38, 200 I.
Quadro 1. Conceitos para caracterização das inflamações da mama, segundo o IOF, 1971/1987.
tentes e recomendados falhavam no isolamento e identi- Estas foram as classificações definidas, pelos cri-
ficação das bactérias, agentes etiológicos determinantes térios a seguir detalhados:
das mastites; segundo, o número de células somáticas
variavam de maneira significante, em diferentes condi- I. Anatomopatológico - por lesões detectadas
ções fisiológicas. por exames histopatológicos, que não são de uso roti-
Por isso, a referida Federação deu destaque às neiro em clínica, das doenças da glândula mamária, clas-
formas de mastites, inoportunamente designadas mas- sificando-as em mastites parenquimatosas, intersticiais
tites subclínicas, afirmando, categoricamente: "A mai- e mistas;
oria das mastites são subclínicas e, muito embora as 2. Microbiológico - segundo o isolamento do
bactérias estejam presentes, as manifestações obser- agente etiológico determinante das mastites, porém a es-
vadas na glândula mamária não são detectadas pelos pecificidade e sensibilidade da metodologia é pequena,
pecuaristas; estas mastites, entretanto, reduzem o vo- pois segundo o IDF os testes bacteriológicos freqüente-
lume de leite produzido no quarto afetado e modificam mente falham no isolamento dos agentes etiológicos de-
a composição do leite". A partir de então difundiu-se, terminantes e o exame microbiológico do leite não é roti-
sem obediência aos princípios da Patologia Médica Ve- na generalizada na avaliação das condições da glândula
terinária e de Semiologia, o conceito de mastites subclí- mamária (SCHALM et al., 1971; INTERNATIüNAL
nicas que, seguramente, não tem propiciado condições DAIRY FEDERATIüN, 1987);
de diferenciar leites higienicamente produzidos daqueles 3. Microbiológico/Epidemiológico, caracterizan-
oriundos de mamas acometidas por mastites. Recomen- do mastites contagiosas e ambientais - a definição des-
dação de significativa importância para a pecuária leitei- ses tipos de mastites dependeria do isolamento do agente
ra seria a de avaliar se o conceito de mastite subclíni- etiológico e da real conceituação dos "habitats" desses
ca demonstrou eficiência para o controle das mastites, agentes, pois freqüentemente eles são ubiqüitários
com reais benefícios ao exercício da clínica veteriná- (CULLüR et al., 1990);
ria, ao bem estar animal ou à evolução do estudo da 4. Patogenicidade dos agentes etiológicos, ca-
etiopatogenia das inflamações da glândula mamária. racterizando-os em patógenos maiores e menores - a
Em resumo, finalmente, pode-se afirmar que, na definição dessas mastites exige, além do isolamento e
evolução dos estudos relacionados à patogênese e etio- identificação do agente etiológico, a necessidade de
logia das mastites, no último quarto do século XX, surgi- conceituar definitivamente o significado de patógeno
ram inúmeras classificações de mastites e que foram maior ou menor e também de deixar claro se a avalia-
referidas em compêndios de Medicina Veterinária; al- ção seria, realmente, pela prevalência ou pela patoge-
gumas são verdadeiras reminiscências de outras referi- nicidade do agente patogênico (RADüSTITIS et aI.,
das na evolução histórica do assunto, baseando-se em 1994);
princípios anatomopatológicos, microbiológicos ou epi- 5. Pela evolução da doença - classificar-se-
demiológicos e não, como seria de esperar, baseadas iam as mastites em: superagudas, agudas, subagudas,
nos clássicos padrões da Propedêutica Médico Veteri- crônicas e subclínicas. A perfeita caracterização da
nária, que permitiriam, pelas manifestações clínicas (si- doença dependeria de duas condições fundamentais:
nais e sintomas), presentes nas inflamações dos tecidos identificação das manifestações clínicas e do momen-
da mama, perfeita orientação diagnóstica e real condu- to da instalação da enfermidade, para, então, avaliar a
ção da terapia indicada. evolução.
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GREGORY. L.; STRGEL. E. H.; HOEDEMAKER, M.; GRUNERT. E. Mastite dos bovinos: histórico de suas foonas clínicas I Hislory of maslilis clinicai ciassificalion I Rev. educo
contin. CRMV-SP I Continuous Education Journal CRMV·SP, São Paulo. volume 4, fascículo 3, p. 31 ·38,2001.
This review will expose an account of the history of mastitis ranging from the 18 th century until
present. The bibliography was found in the library of the Tierfutzliche Hochschule (School of Veteri-
nary Medicine) of Hannover, Germany.
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GREGORY, L.; BJRGEL. E. H.; HOEDEMAKER, M.; GRUNERT, E. Mastite dos bovinos: histórico de suas fonuas clínicas I Hislory of maslitis clinicai classificalion I Rev. educo
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