O AMOR NA SUMA TEOLÓGICA DE SANTO TOMÁS DE AQUINO
LOVE IN THE THEOLOGICAL SUM OF SAINT THOMAS AQUINAS
Adilson Teixeira Sobral1
Resumo: O presente artigo busca apresentar as questões com relação ao amor, discorrendo sobre
seus artigos e destacando de um modo especial as respostas às objeções levantadas em cada caso,
presentes na obra magna de Santo Tomás de Aquino, a Suma Teológica. Após uma breve
exposição sobre a vida do pensador italiano, seguem-se três capítulos que ponderam sobre qual
seria a natureza, as possíveis causas e os efeitos consequentes do amor na vida humana. Como se
pode com facilidade perceber durante esta explanação, se teve a todo o momento a intenção de
incentivar que os leitores desse texto busquem conhecer e se aprofundar com toda a diligência
necessária em tão importante obra de densidade filosófica e teológica ímpar.
Palavras-chave: Santo Tomás de Aquino. Amor. Suma Teológica. Filosofia.
Abstract: This article seeks to present the questions regarding love, discussing its articles and
highlighting in a special way the answers to the objections raised in each case, present in the great
work of Saint Thomas Aquinas, the Theological Sum. After a brief presentation on the life of the
Italian thinker, there are three chapters that reflect on what nature would be the possible causes
and the consequent effects of love on human life. As you can easily see during this explanation,
it was intended at all times to encourage readers of this text to seek to know and delve into all the
necessary diligence in such an important work of unique philosophical and theological density.
Keywords: Saint Thomas Aquinas. Love. Theological Sum. Philosophy.
Introdução
O amor significa, segundo o dicionário Priberam, entre outras coisas, um
“sentimento que induz a aproximar, a proteger ou a conservar a pessoa pela qual se sent
e afeição ou atração; grande afeição ou afinidade forte por outra pessoa”2.
Sobre o amor encontramos diversas significações em dicionários, poemas,
ensaios, escritos antigos e recentes. Muitos pensadores já discorreram a respeito da
temática e buscaram chegar a conceituações aceitáveis. Desde os gregos, passando então
por Platão e Aristóteles, Plotino, Santo Agostinho e chegando aos contemporâneos, o
amor é, seja enquanto tratado como Eros, Philia ou Ágape, um assunto que desperta
muitas discussões.
1
Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Caruaru – FAFICA.
teixeirasobral@[Link]
2
“amor”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020,
[Link] [consultado em 24-11-2020].
O amor na Suma Teológica
Embora Santo Tomás de Aquino não tenha escrito nenhuma espécie de tratado
que viesse a tratar objetivamente sobre a doutrina do amor, ele fez diversas referências ao
tema que estão espalhadas por sua monumental obra e foi especialmente na Suma
Teológica que ele mais longamente desenvolveu a temática.
E é partir desta obra magna do grande Aquinate que buscaremos apresentar neste
presente texto algumas questões referentes ao amor, mas, especificamente sobre a sua
natureza, sua origem e seus efeitos.
1. Santo Tomás de Aquino
Em 1225 nascia Tomás, filho de Landolfo e Teodora, no Condado de Aquino,
Reino da Sicília, especificamente no Castelo de Roccasecca. Sendo de uma nobre família
da Lombardia, ele foi enviado ainda criança para estudar e seguir a vida monástica no
famoso Mosteiro de Montecassino.
Mas, aos 14 anos, precisou ir estudar em Nápoles e lá conheceu a Ordem dos
Pregadores, descobrindo então sua vocação, vindo a receber o hábito dominicano em
1244. Mesmo com toda a oposição da família que o queria ver abade no futuro, foi
enviado para estudar primeiramente em Paris e depois em Colônia sob a tutoria de Alberto
Magno. “Foi deste período o apelido ‘boi mudo da Sicília’, não só em razão do seu caráter
taciturno, mas também por causa da sua corpulência. Foi ordenado sacerdote neste
período em que esteve em Colônia”3.
Aos 27 anos foi nomeado bacharel, passando a lecionar em Paris e também se
preparando nesse tempo para ser Mestre em Sagrada Escritura. Nesse tempo escreveu De
ente et essentia e alguns anos depois a Summa Contra Gentilles, a Catena Aurea e o ofício
litúrgico para a Solenidade de Corpus Christi.
E entre 1265 e 1268 iniciou a sua obra magna que não conseguiu concluir – da
qual algumas questões servem de base para esse artigo – a Summa Theologiae. Falecendo
com fama de santidade nas primeiras horas do dia 7 de Março de 1274, aos 49 anos.
Santo Tomás de Aquino foi canonizado por João XXII em 1323, proclamado
‘Doutor da Igreja’ por São Pio V em 1567, Guia dos estudantes por pio XI em 1923 e
colocado por São João Paulo II como modelo para reconciliação entre fé e razão em 1998.
Enfim,
3
FAITANIN, Paulo. Introdução ao Tomismo, p. 12.
19 Revista Contemplação, 2021 (24), p.18-27
O amor na Suma Teológica
Tomás revela-nos um perfil intelectual e moral inigualável. Podemos
dizer que Tomás coerentemente viveu o que pensou e pensou o que
viveu: está inteiro em sua doutrina. Entrelaçam-se nele a santidade e a
sabedoria, de tal maneira que se removêssemos uma prejudicar-se-ia a
outra.4
2. A natureza do amor para Santo Tomás
Nas questões 26, 27 e 28 da Prima Secundae, Santo Tomás discorre sobre o amor
quando está começando a tratar das características inerentes às onze paixões da alma, a
saber: amor, desejo, alegria, ódio, fuga, tristeza, esperança, desespero, audácia, temor e
ira.
Considerando-se inicialmente a respeito do amor em si mesmo, o Aquinate reflete
sobre quatro problemáticas: Se o amor pertence ao concupiscível? Se o amor é paixão?
Se o amor é o mesmo que a dileção? E se o amor se divide convenientemente em amor
de amizade e amor de concupiscência?
No primeiro artigo discute-se que aparentemente o amor não pertenceria ao
concupiscível, ou seja, ao apetite. Todavia, Santo Tomás sustenta que apesar das posições
existentes nas Escrituras, em Santo Agostinho e em Dionísio Aeropagita que sustentariam
esse não pertencimento, o Filósofo – que é como o Aquinate se refere a Aristóteles –
assegura que o amor pertence sim ao concupiscível.
Na solução, Santo Tomás diz que “o amor é algo próprio ao apetite, pois ambos
tem por obejto o bem; por onde, qual a diferença do apetite, tal a do amor”5. E segue
fazendo referência à tríplice divisão do apetite que redunda na tríade do amor:
Amor natural que é designado por connaturalitas e que é o princípio de
movimento do apetite natural, i. e., do apetite que segue por necessidade
a inclinação da sua natureza tal qual determinada pela Inteligência
divina. Amor sensitivo que é designado por coaptio e/ou complacentia,
e que é o apetite que segue por necessidade instintiva a sua própria
apreensão sensível (de um bem particular). Amor intelectivo que é
designado também por coaptio e/ou complacentia, e que consiste no
apetite que segue à apreensão intelectual (de algo considerado como
bem sob a noção universal de bem), não por necessidade, mas segundo
um juízo livre.6
4
FAITANIN, Paulo. Introdução ao Tomismo, p. 18.
5
ST, I-II, Q. 26, a.1.
6
Amor, desejo e amizade, p. 45.
20 Revista Contemplação, 2021 (24), p.18-27
O amor na Suma Teológica
Onde percebemos que o princípio do movimento que tende para o fim amado, seja
em qual for dos apetites, denomina-se amor. Desta feita, temos que o amor pertence sim
ao concupiscível, compreendido como o apetite, diferente do que objetavam alguns.
No artigo seguinte, se discute se o amor é ou não paixão. Apresenta-se que para
Dionísio Aeropagita, o amor sendo virtude não poderia ser paixão; Santo Agostinho
objeta que o amor não é paixão por ser relação; e ainda São João Damasceno diz que o
amor não é paixão, pois esta é um movimento e não um princípio.
Ao passo que o Dominicano, partindo mais uma vez de Aristóteles, defende que
o amor é sim, se contrapondo ao dito pelos citados anteriormente, uma paixão. “A paixão
é um efeito do agente no paciente”7, isto é, é uma consequência daquele ou daquilo que
age no que recebe a ação. “Por onde, a primeira imutação do apetite pelo apetível se
chama amor, que não é senão a complacência no apetível, da qual resulta o movimento
para este, que é o desejo; e por último vem o repouso, que se chama alegria”8. Amor,
nesse caso, é uma forma de inclinação natural para uma ação determinada. Desejo se
traduz como a movimentação realizada para obter o bem amado que ainda não está
presente de maneira real. E alegria, tem então a ver com o gozo produzido como resultado
da união real com o bem amado.
“Assim pois o amor, consistindo numa quase imutação do apetite pelo apetível, é
manifesto que é paixão: propriamente, enquanto tem a sua sede no concupiscível;
comumente e em geral, enquanto está na vontade”9.
O terceiro artigo busca responder se o amor é sinômino de dileção e após
apresentar as opiniões de Santo Agostinho e Dionísio Aeropagita que endossariam essa
similaridade, ressalva que também segundo este último, certos Santos tem o termo dileção
como menos divino que amor. E então soluciona o Aquinate:
Há quatro nomes que se empregam para significarem de certo modo o
mesmo: amor, dileção, caridade e amizade, que contudo diferem no
seguinte. A amizade, segundo o Filósofo, é um quase hábito; o amor,
porém, e a dileção empregam-se parasignificar ato ou paixão; ao passo
que caridade é usada em ambos esses sentidos.10
E os três vocábulos (dileção, caridade e amor) expressam basicamente o mesmo
ato, apenas de modo diverso: o amor é o mais universal dos três, visto que tanto a caridade
7
ST, I-II, Q. 26, a.2.
8
Idem.
9
Idem.
10
ST, I-II, Q. 26, a. 3.
21 Revista Contemplação, 2021 (24), p.18-27
O amor na Suma Teológica
quanto a dileção a ele se reduzem, nunca o contrário; a caridade acresce ao amor certa
perfeição e apreço pelo que se ama; e a dileção que concerne à vontade, adiciona ao amor
de uma prévia eleição pelo que é amado.
E finalmente nos deparamos com a conveniência de se distinguir entre amor de
concupiscência e amor de amizade sendo discutida e encontramos a solução dada pelo
Dominicano no último artigo dessa questão sobre a essência do amor.
Ao longo da Idade Média, o pensamento cristão cunhou uma
nomenclatura própria para designar uma distinção no interior da noção
de amor, a saber: amor amicitiae (amor de amizade) e amor
concupiscentiae (amor de concupiscência). No pensamento de Tomás
de Aquino sobre a natureza do amor, essa distinção encontra-se presente
desde a redação do seu comentário às Sentenças de Pedro Lombardo,
em 1252 na sua primeira estada em Paris, até a produção de sua própria
Suma de Teologia (ST), redigida quase vinte anos depois, por volta de
1271, na fase final de sua vida.11
Santo Tomás se apoiando mais uma vez em Aristóteles diz que o amor tem um
movimento que tende para duas finalidades: o bem que almejamos a alguém, seja a
outrem seja a si mesmo; e a pessoa a quem esse bem desejamos. Sendo o primeiro fim
relacionado ao amor de concupiscência e o segundo, ao amor de amizade. E tão somente
o que amamos em si mesmo e absolutamente é amor de amizade, o que assim não amamos
é amor de concupiscência.
Assim sendo, “o amor não se divide em amizade e concupiscência, mas em amor
de amizade e de concupiscência”12. E não se deve confudir essa distinção, sob pena de se
acabar por se embaraçar em toda uma confusão a respeito da natureza do amor.
3. Os elementos que causam o amor
A questão seguinte discute por sua vez, a partir de quatro artigos qual viria a ser a
causa do amor. No caso, se investiga se seria o bem a única origem do amor, ou se seria
o conhecimento, a semelhança ou as outras paixões.
O primeiro artigo da questão 27 arrazoa que aparenta não ser o bem a única causa
do amor, já que a partir das Escrituras e do Filósofo se poderia apreender que o mal
também seria origem do amor; e segundo Dionísio, o belo também lhe daria causa.
11
COUTO, Antônio. Amor Amictae e Amor Concupscentiae, p. 50.
12
ST, I-II, Q. 26, a. 4.
22 Revista Contemplação, 2021 (24), p.18-27
O amor na Suma Teológica
Ao passo que partindo de Santo Agostinho que diz que seguramente não é amado
a não ser o bem, Santo Tomás, garante que o bem é, impreterivelmente, a causa do amor.
“Ora, o objeto próprio do amor é o bem, pois, como já dissemos, o amor implica uma
certa conaturalidade ou complacência do amante em relação ao amado; pois, o bem de
cada qual é o que lhe é conatural e proporcionado”13.
Ainda que se pareça amar o mal, na verdade se o faz por confundir-lhe com o bem.
Por isso, ama-se os que erram e pecam, mas, não os seus erros e pecados. E o belo,
diferente do bem, agrada a partir da apreensão cognocistiva.
No artigo segundo encontramos a discussão relativa ao amor ter ou não origem no
conhecimento. E as seguintes objeções: se por amor é que buscamos algo que por vezes
não conhecemos, então, seguindo uma lógica agostiniana, não buscaríamos mais o que
fosse conhecido; demais, Deus, por exemplo, é amado muito mais do que é conhecido; e
sendo o conhecimento causa do amor, não existiriam em separado, entretando, existe
amor em todos os seres e conhecimento, não.
Todavia, ninguém pode amar o que desconhece, segundo Santo Agostinho.
“Assim pois, o conhecimento é a causa do amor, e a razão por que só o bem conhecido
pode ser amado”14.
Se a semelhança é ou não causa do amor, é o que se discute no terceiro artigo da
referida questão. E a resposta seria negativa por esses motivos: não poderiam ter os
contrários a mesma origem, e a semelhança por vezes tem levado ao ódio; não amamos
em outrem tão somente o que aspiramos ser; a dissemelhança seria também causa do
amor, já que o doente ama a saúde, por exemplo; e também temos que nem todos os
homens amam da mesma maneira.
Para responder a essas ressalvas o Aquinate parte das Escrituras onde se afirma
que todo animal ama ao seu semelhante.
A semelhança propriamente falando é causa do amor. Devemos
ponderar porém, que a semelhança entre várias coisas pode ser
considerada sob dois pontos de vista. Ou dois seres têm a mesma
qualidade em ato, e por ex., dizem-se semelhantes se ambos são
brancos; ou um tem potencialmente e por uma certa inclinação o que o
outro tem em ato, como se dissermos que o corpo grave que está fora
do seu lugar tem semelhança com outro, que está no seu; ou ainda, no
sentido em que a potência tem semelhança com o ato mesmo, pois este
de certo modo está naquela.15
13
ST, I-II, Q. 27, a. 1.
14
ST, I-II, Q. 27, a. 2.
15
ST, I-II, Q. 27, a. 3.
23 Revista Contemplação, 2021 (24), p.18-27
O amor na Suma Teológica
É certo, que deve-se deixar claro que o amor de benevolência ou de amizade é
originado pelo primeiro modo de semelhança, já que dois seres similares são quase que
unificados por seu afeto em comum. E o segundo modo de semelhança, por sua vez, gera
a amizade útil e deleitável ou amor de concupiscência, pois já se deleita em desejo na
potência do que se está para conseguir, isto é, por em ato. Ressaltando-se ainda que nos
amamos propriamente a nós pelo amor de concupiscência, amamos mais a nós que aos
outros.
E por fim, no último artigo dessa questão, investiga-se se outras paixões também
podem ser a causa do amor. Segundo Aristóteles, o prazer e o desejo – que são paixões –
também originam o amor e para Santo Agostinho, todos os afetos da alma são causados
pelo amor.
Santo Tomás a partir disso diz que:
Não há nenhuma paixão que não pressuponha o amor, porque todas as
paixões da alma implicam movimento ou repouso relativamente a
algum objeto. Ora, todo movimento ou repouso procede de alguma
conaturalidade ou coaptação, consoantes à essência do amor. Por onde,
é impossível qualquer outra paixão da alma ser em universal causa de
todo amor. Pode dar-se porém que alguma paixão seja causa de um
determinado amor, assim como um bem é causa de outro.16
Ou seja, algum afeto ou paixão da alma pode, de maneira particular e específica,
dar causa a determinada espécie de amor, todavia, em sentido universal e geral, é o amor
que na verdade origina todas as demais paixões.
4. O amor e suas consequências
E finalmente a questão 28 trata se a união, a mútua inerência, o êxtase, o zelo, a
paixão lesiva e a disposição de fazer tudo podem ser considerados como efeitos
consequentes ao amor.
Aparenta-se que a união não é efeito do amor, já que o Apóstolo (São Paulo) diz
ser o amor compatível com a ausência; demais, o amor não causa nem a união essencial
nem por semelhança genérica; outra que a união parece ser mais uma consequência do
conhecimento que do amor. Embora, Dionísio diz ser o amor uma virtude unitiva.
Segundo o Aquinate há na verdade uma dupla união do amante com o amado:
16
ST, I-II, Q. 27, a. 4.
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O amor na Suma Teológica
Por onde, a primeira união o amor a causa efetivamente, porque leva a
desejar e buscar a presença do amado, como algo que lhe convém e lhe
pertence. A segunda união ele a causa formalmente, pois que o amor
em si mesmo consiste nessa união ou nexo. Por isso Agostinho diz, que
o amor é um quase laço que une ou tende a unir dois seres ― o amante
e o amado, ― referindo-se une à união do afeto, sem a qual não há
amor; e tende a unir, à união real.17
Sendo assim, temos como respostas às objeções iniciais que: o objeto do amor
pode estar ou não presente; os amantes buscam a união conveniente e própria; e o amor é
mais unitivo que o conhecimento.
Sobre parecer que o amor não causa a mútua inerência, isto é, não faz com que o
amante esteja no amado e reciprocamente, diz-se que o continente não se identifica com
o conteúdo, a inerência recíproca seria efeito da razão e temos como evidência comum
que nem sempre o amante é amado por quem o ama. Todavia, a partir da Escritura se
pode concluir que qualquer amor faz com que o amado esteja no amante. Disso diz Santo
Tomás:
O efeito em questão da mútua inerência, pode ser entendido
relativamente à virtude apreensiva e à apetitiva. Assim quanto à
primeira, dizemos que o amado está no amante na medida em que este
é assimilado pela apreensão daquele [...] Relativamente à virtude
apetitiva porém, dizemos que o amado está no amante por provocar-lhe
uma certa complacência do afeto, de modo que se deleite com o amado,
ou com os seus bens, ou com a sua presença; ou ainda, quando o amado
está ausente, busque-o por amor de concupiscência, ou os bens que, por
amor de amizade, lhe quereria; [...] Pode-se ainda entender a mútua
inerência de um terceiro modo, relativamente ao amor de amizade, por
via do amor mútuo, enquanto os amigos mutuamente se amam e
mutuamente se querem bem e se beneficiam.18
E em relação ao êxtase aparentar não ser uma consequência do amor por implicar
uma certa alienação e por dar a ideia de que o amante sairia fora de si para unir-se ao
amante, temos em contrapartida, Dionísio dizendo que o amor divino produz êxtase e que
todo amor sendo semelhante ao divino, logo êxtase também deve causar. Produzindo-se
o amor, êxtase de duas espécies, em relação às potências apreensiva e apetitiva, segundo
o Aquinate.
Quanto ao zelo ser efeito do amor, coisa discutida no artigo seguinte, Santo Tomás
pontua que:
17
ST, I-II, Q. 28, a. 1.
18
ST, I-II, Q. 28, a. 2.
25 Revista Contemplação, 2021 (24), p.18-27
O amor na Suma Teológica
O zelo, qualquer que seja o sentido que lhe dê, provém da intensidade
do amor. Ora, é manifesto que quanto mais intensamente uma potência
tende para um objeto, tanto mais fortemente repele tudo o contrário e
repugnante. Ora, sendo o amor um certo movimento para o amado com
diz Agostinho, o amor intenso procura excluir tudo o a que repugna.19
E o quinto artigo discute se o amor é uma paixão lesiva, fato aparentemente
confirmado pelas Escrituras, porém, segundo Dionísio, o amor seria na verdade uma
paixão conservadora e perfectiva. E disso o Doutor Angélico, lembra que já fora dito que
o amor significa uma certa coaptação da virtude apetitiva para algum bem e contanto que
seja para algo conveniente tão somente lhe aperfeiçoará e melhorará.
Ainda como resposta às objeções em contrário, ele diz que “ao amor podem-se
atribuir quatro efeitos próximos: derretimento, fruição, langor e fervor.”20 Ao passo que
o derretimento é oposto ao congelamento ou dureza de coração, a fruição é o prazer do
possuir, o langor é a tristeza da ausência e o fervor o desejo intenso pela presença do
amado.
E por fim, no último artigo dessa questão, encontramos a discussão em torno de o
amante fazer ou não tudo por amor. Onde inicialmente temos fundamentada em
Aristóteles a ideia de que nem tudo se faz por amor, visto que também motivam ações
humanas: a eleição, a ignorância, o ódio e outras paixões do apetite. E contrariando isso,
se tem a opinião do Aeropagita de que tudo é feito por amor.
E a partir disso, soluciona Santo Tomás que “todo agente age em vista de um fim,
como já dissemos. Ora, o fim é o bem de cada um desejado e amado. Por onde, é manifesto
que todo e qualquer agente pratica todas suas ações por amor”21. E até mesmo o próprio
ódio é causado pelo, caso a ser tratado na sequência da Suma.
Considerações finais
Ante o proposto no início deste trabalho, procuramos expor de uma forma simples
as resoluções das três questões que versam sobre o amor na obra magna do gigantesco
pensador italiano, o maior nome da escolástica medieval.
19
ST, I-II, Q. 28, a. 4.
20
ST, I-II, Q. 28, a. 5.
21
ST, I-II, Q. 28, a. 6.
26 Revista Contemplação, 2021 (24), p.18-27
O amor na Suma Teológica
A Suma Teológica é uma obra de uma grandeza inestimável, onde encontramos a
discussão sobre praticamente todos as grandes temáticas existentes então, segue
atualíssimo mesmo após quase oito séculos.
Santo Tomás de Aquino e sua filosofia perene tem muito a dizer à
contemporaneidade e a ensinar aos intelectuais hodiernos seja sobre o amor – que
buscamos apresentar sinteticamente nesse texto – seja sobre outros conceitos também de
relevância ímpar.
Por isso tudo, terminamos o presente artigo ressaltando o valor do estudo tomista
para a recuperação do bom senso intelectual em nossa época, pois como bem diz o escritor
britânico G. K. Chesterton em sua biografia do Aquinate: “que o Tomismo seja a filosofia
do bom senso, proclama-o o mesmo bom senso”22.
Referências
“AMOR”. In: Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020,
[Link] [consultado em 24-11-2020].
CHESTERTON, G. K. Santo Tomás de Aquino: biografia. Tradução e notas de Carlos
Ancêde Nougué. São Paulo: Ltr, 2003.
COUTO, A. A. C. Amor, desejo e amizade: Um estudo sobre a natureza do amor na
Suma Teológica de Sto. Tomás de Aquino. 2012. 166 páginas. Tese (Doutorado em
Filosofia) – Faculdade de Filosofia – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto
Alegre-RS, 2012.
COUTO, A. A. Caldasso. Amor amicitiae Amor concupiscentiae: Um estudo sobre as
noções de amor, desejo e amizade na Suma Teológica de Tomás de Aquino. Dissertatio,
UFPel, p. 40-72, verão de 2014.
FAITANIN, P. Introdução ao Tomismo: Tomás, o Tomismo & os Tomistas: uma breve
apresentação. Cadernos da Aquinate, n. 11, Niterói-RJ: Instituto Aquinate, 2011.
SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. (Vol. 2) 4ª ed. Trad. Alexandre Correia.
Campinas-SP: Ecclesiae, 2016.
Recebido em: 30/11/2020
Aprovado em: 16/02/2021
22
CHESTERTON, G. K. Santo Tomás de Aquino, pág. 125.
27 Revista Contemplação, 2021 (24), p.18-27