Ebook Invisiveis
Ebook Invisiveis
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Livro financiado com recursos do
Instituto Federal de Rondônia - IFRO
2
Fábio Santos de Andrade
Silvana Viana Andrade
Gisely Storch do Nascimento Santos
Maria Aparecida Costa Oliveira
(Organizadores)
INVISÍVEIS:
pessoas em situação de rua no Brasil
significantes e significados
3
Copyright © Autoras e autores
Todos os direitos garantidos. Qualquer parte desta obra pode ser reproduzida,
transmitida ou arquivada desde que levados em conta os direitos das autoras e
dos autores.
CDD – 410
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SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO 9
Fábio Santos de Andrade
Silvana Viana Andrade
Gisely Storch do Nascimento Santos
Maria Aparecida Costa Oliveira
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COTIDIANO E TÁTICAS DE SOBREVIVÊNCIA
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Estratégias de defesa da população em situação 173
de rua em matéria penal: o caso da ocupação
Babilônia, em Aracaju-Sergipe
Ilzver de Matos Oliveira
Alberto Hora Mendonça Filho
Rafael Leão Nogueira Torres
Pedro Meneses Feitosa
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APRESENTAÇÃO
9
nos espaços públicos urbanos. Na rua perdem a condição de humanas e
passam a ser tratadas como parte da cena urbana, como se a rua fosse
seu lugar de direito. Perdem suas histórias e passam a ser identificadas
não pelos nomes, mas pelas táticas de sobrevivência que desenvolvem ou
pelos locais onde estão. Passam a ser o Zé da esquina, a mulher que fica
sentada em frente à casa lotérica, o malabarista do semáforo, o “noia” do
largo. Tornam-se invisíveis enquanto seres humanos possuidores de
direitos, deveres e saberes.
No atual contexto político e econômico onde o desemprego e a
fome têm atingido grande parte da população brasileira, a rua tem se
tornado cada dia mais atrativa. Com o aumento do número de pessoas
em situação de rua também aumentam as violências sofridas por ação
ou omissão da sociedade ou do poder público. A negação de direitos,
a falta de políticas públicas de qualidade e o descaso por parte do
Estado se misturam à violência gratuita que mata pelo frio, pela fome,
pela arma de fogo, pela intolerância e pelo preconceito.
Nessa trilha, o Grupo Humanize (Grupo de Pesquisa sobre
História, Educação Social e Vida Cotidiana), vinculado ao
Departamento Acadêmico de Ciências da Educação (Vilhena/RO) e ao
Programa de Pós-Graduação em Educação Escolar da Universidade
Federal de Rondônia (UNIR), tem se dedicado ao estudo dos
fenômenos que envolvem as pessoas em situação de rua e suas lutas
pela sobrevivência nos espaços públicos urbanos.
Em parceria com a Rede Situação de Rua (@situacaoderua), o
Humanize ampliou o olhar sobre a vida cotidiana de pessoas em
situação de rua de diversas cidades brasileiras, identificando situações
de negação e violação de direitos, falta de políticas públicas específicas
e de qualidade, violências gratuitas que se manifestam tanto por parte
da sociedade quanto do poder público, dentre diversas outras
situações de violação de direitos humanos. No entanto, também foi
possível identificar pessoas e grupos sociais que se dedicam
cotidianamente à luta por justiça social, garantido a vida às pessoas em
situação de rua e acenado para um futuro em que a rua deixa de ser o
não-lugar para os que dela e nela sobrevivem. Essa rica experiência de
diálogo entre o Grupo Humanize e a Rede Situação de Rua foi
denominada de Projeto Invisíveis.
Durante os anos de 2020 e 2021, pessoas de diversos locais do
Brasil aceitaram o desafio de escrever sobre temas que envolvem o
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estar em situação de rua. Temas que lhes inquietam e que marcam seus
lugares de fala e suas regionalidades. Como resultado, o Projeto
Invisíveis organiza o primeiro livro, que tem como tema central as
pessoas em situação de rua no Brasil, seus significantes e significados,
publicado com financiamento do Instituto Federal de Rondônia (IFRO)
e que traz vivências, experiências e pesquisas de pessoas que estão
ligadas, direta ou indiretamente, com a temática situação de rua.
Nessa trilha, este livro invade a amplitude do estar em situação
de rua, buscando seus significantes e significados, revelados pelos
olhares de profissionais que atuam com pessoas em situação de rua e
de pesquisadores(as) que se dedicam à temática. Cada capítulo traz
experiências que falam de dores, de lutas, de vitórias e de esperança,
acendendo o desejo de um mundo onde a justiça social e a garantia de
direitos possibilitem a humanização e o direito à vida dos que não
estarão mais em situação de rua.
Boa leitura!
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PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA:
QUEM SÃO? COMO VIVEM?
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QUANTO VALE UMA VIDA?
O massacre de pessoas em situação de rua no Brasil
As pessoas e a rua
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sexuais, da pobreza extrema, da dependência química, dentre outros
problemas, buscando acolhimento e sobrevivência nos espaços
públicos urbanos. Dessa forma, “devemos compreender a história dos
que estão em situação de rua a partir do lugar de fala de quem vivencia
as dores da pobreza. Estar em situação de rua não é uma questão de
escolha, é uma necessidade de sobrevivência e luta contra a injustiça
social.” (ANDRADE, 2019, p 21).
Nas ruas, essas pessoas criam laços de afetividade, erguendo
paredes em um mundo invisível que as acolhe e as alimenta. Elas não
são um grupo homogêneo, mas sim indivíduos partícipes de diversos
grupos formados por crianças, adolescentes, adultos e idosos que
lutam, principalmente, contra a pobreza. É impossível criar uma única
categoria de identificação, pois a rua é um mundo de diversidade,
realidades, causas e motivos de ser/estar. Cada pessoa em situação de
rua é um ser único, que possui história e significantes provocadores
dessa forma de ser/estar. Nessa trilha, apresentamos cinco grupos de
pessoas em situação de rua, considerando que estes não exaurem a
totalidade compósita referida, mas pode ajudar a compreender um
pouco a dinâmica da rua:
1. Trabalhadores na rua – Pessoas que vão à rua sozinhas ou em
família e retornam para casa ao fim do dia. Suas táticas de
sobrevivência são desenvolvidas individualmente ou em grupo,
destacando principalmente a mendicância, a prostituição e a coleta de
materiais recicláveis;
2. Mantendo os vínculos familiares – Pessoas que passaram a
residir na rua, mas ainda mantém vínculos com as famílias que
possuem residência fixa, visitando-as regularmente. Em muitos casos
as famílias residem em cidades diferentes das que as pessoas em
situação de rua estão, o que torna menos frequente a visita;
3. A rua como moradia – Pessoas que perderam os vínculos
familiares que foram rompidos por fatores diversos (distância, brigas,
exploração, abusos, falta de comida e/ou uso de álcool e drogas). Na
rua, vivem em grupos que delimitam espaços, regras de convivência e
funções. Desenvolvem táticas de sobrevivência diversas: roubo,
mendicância, malabares, consumo e venda de drogas, relações sexuais
consentidas ou pagas. Muitos formam famílias e gestam filhos, mesmo
estando em situação de rua. Há casos em que bebês são alugados para
outros membros do grupo, para que estes, fazendo-se passar por
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família da criança, a use como sensibilizador na mendicância. Assim,
para eles, a rua se torna um lugar de dinâmicas variadas;
4. Usuários e passadores – Pessoas que além de estarem em
situação de rua também fazem uso constante ou comercializam
drogas. A maior parte do dinheiro que ganham é destinado à compra
de drogas ilícitas como crack, thinner, cola e outras. São pessoas que
necessitam de políticas públicas de saúde e estão mais vulneráveis às
violências e à morte;
5. Trecheiros – São as pessoas em situação de rua que não tem
residência fixa e circulam entre as cidades, “correm trecho”. A
permanência em cada cidade normalmente é curta e está vinculada ao
ganho de dinheiro. Quando o ganho reduz, mudam para outra. A
escolha de cada cidade também segue um calendário de festas locais,
onde o ganho é mais significativo.
Nesse mundo de tantos significantes, as pessoas em situação de rua
delimitam espaços, criam normas de convivência e formulam táticas de
sobrevivência. “Os que vivem na rua, nela constroem as relações
definidoras de suas existências. Redefinem o espaço, erguem paredes
invisíveis, numa partilha minuciosa dos locais.” (CRIADY, 1998, p. 21). Elas
criam um mundo que é invisível para a maioria da população, tornando
imperceptíveis algumas experiências vivenciadas nesse espaço:
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A vida na rua está repleta de perigos. No entanto, esses perigos
tornam-se pequenos quando comparados às manifestações de violência
que se apresentam no universo familiar e nos bairros onde residem. Como
resultado, o abandono desses espaços torna-se inevitável. Para Michaud
(1989, p. 10), a violência acontece quando,
[...] onde a face cruel do ser humano é liberada. Rua é espaço de vida, mas
também é espaço de morte, principalmente dos mais pobres, dos que estão em
situação de rua que morrem pelo frio, pela fome, pela violência gratuita e pelo
fogo que queima a carne, a vida e a esperança. (ANDRADE, 2019, p. 19).
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sistema de extermínio que sobrevive e se renova no país. Tal realidade
nos fez apresentar, neste texto, uma discussão sobre casos de
violência envolvendo pessoas em situação de rua que foram noticiados
pela imprensa brasileira.
[...] obrigado a entrar num carro, dentro do qual foi baleado quatro vezes junto a
outros dois rapazes que dormiam próximo à Candelária. Os três foram abandonados
próximo ao Museu de Arte Moderna, o MAM, no Aterro do Flamengo. Dos três,
somente ele sobreviveu.
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2015. s/p). Wagner também enfrenta problemas de saúde decorrentes
dos quatro tiros contra ele desferidos.
Uma das hipótese apontou que o crime havia sido cometido por
um grupo de extermínio, também composto por policiais, contratado
para “limpar” o local a mando de comerciantes e de empresários da
região. Os policiais estariam envolvidos no crime em resposta a
queixas de atos considerados “delinquentes”, praticados pelas
crianças e adolescentes em situação de rua, que, no episódio, foram
denominados como “menores de rua”.
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pelos jovens. Em matéria publicada pelo Portal Terra, no ano de 2018
(CANDELÁRIA, 2018, s/p), Yvonne revela que esteve com os jovens
horas antes da chacina. Ao pressentir que algo de ruim aconteceria à
noite, deu a três deles uma ficha telefônica para que ligassem caso
“acontecesse alguma coisa”. À noite ela recebeu uma ligação. Os
garotos gritavam: “Eles estão matando a gente!”. Quando Yvonne
chegou ao local, os corpos já estavam em frente à igreja.
Yvonne estava convencida de que houve um acerto de contas pela
ausência de pagamento de dívidas relativas à venda de drogas, pois, no
local, havia policiais que traficavam cocaína e alguns garotos da
Candelária ajudavam nas vendas. Tal afirmação apresenta-se como
uma nova hipótese para o caso.
A terceira hipótese aponta como motivação o fato de que, na
noite anterior ao crime, uma viatura da polícia fora apedrejada por
crianças e adolescentes em situação de rua e esse fato pode ter sido o
motivador do crime. De toda sorte, as várias hipóteses revelaram a
constante violência sofrida pelas crianças e adolescentes em situação
de rua, cometida, principalmente, por membros da polícia.
É importante destacar que o massacre da Candelária aconteceu
num período em que luta pela defesa e pela garantia dos direitos das
crianças e dos adolescentes se acentuava. Quatro anos antes era
promulgado o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que, dentre
seus artigos, destaca-se o 4º:
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Sede e fome que matam
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Santos e Carolina Giacola e pelo jornalista Bruno Tavares, no dia 22 de
julho de 2020 (SANTOS et al, 2020, s/p). A matéria relatava que a polícia
da cidade de Itapevi, região da grande São Paulo, estaria investigando
a morte de duas pessoas em situação de rua, sob suspeita de
envenenamento por comida. De acordo com a matéria, duas pessoas
em situação de rua e um cachorro morreram após ingerir alimentos
envenenados. Além desses, outro homem em situação de rua também
recebeu a comida e a levou para a casa onde residia com uma criança
de 11 anos e uma adolescente de 17 anos. Após ingerirem o alimento,
eles passaram mal e foram encaminhados ao hospital da cidade, a que
chegaram em estado grave. Sobreviveram, mas as sequelas do
envenenamento permaneceram. Os responsáveis pelo crime não
foram identificados.
Ambos os casos supracitados revelam tentativas de extermínio
de pessoas em situação de rua por envenenamento. Essa violência, na
visão de seus executores, não objetiva exterminar seres humanos, mas
sim limpar aquilo que os incomodava. Cabe destacar que esses não são
casos isolados; acontecem em todo o Brasil, somados aos casos de
bebidas envenenadas. É o extermínio disfarçado de solidariedade.
A necessidade de sobrevivência das pessoas em situação de rua
leva à mendicância e doação (esmola), ao passo que alimenta, pode
também provocar a morte.
O corpo em chamas
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sequelas terríveis. Com isso, a incineração se torna outra prática
comum de extermínio de pessoas em situação de rua, fazendo da noite
uma inimiga cruel.
O caso mais famoso de incineração ocorrido no Brasil foi o
assassinato do líder indígena Galdino Jesus dos Santos, conhecido
nacionalmente como “índio Galdino”, pertencente à etnia Pataxó-hã-hã-
hãe da Bahia. No mês de Abril de 1997, Galdino estava em Brasília, junto
com outras lideranças indígenas, participando de negociações com a
Fundação Nacional do Índio (FUNAI) relativas à demarcação de terras e à
promulgação de atividades comemorativas ao “Dia do Índio”.
As atividades de que Galdino participava, no dia 19, se estenderam
até tarde da noite, fazendo com ele só pudesse chegar à pensão em
que estava hospedado às 3h do dia 20. Por causa do horário avançado,
ele foi impedido de entrar, tendo de se abrigar em uma parada de
ônibus localizada na Asa Sul de Brasília.
Consta no processo judicial que, enquanto Galdino dormia, cinco
jovens de classe média alta o viram, atearam fogo em seu corpo e
fugiram. De acordo com a matéria publicada por Pedro Alves e Ana
Helena Paixão no site Metrópoles, no dia 20 de Abril de 2017, os jovens
voltava de uma festa, quando
[...] avistaram o que disseram (no processo) pensar ser um mendigo naquele
ponto de ônibus e tiveram a cruel ideia de atear fogo ao corpo inerte, por
diversão. Os cinco foram até um posto de gasolina próximo, compraram álcool
e fósforos e retornaram à parada. Encharcaram o corpo de álcool, acenderam o
fósforo e lançaram sobre “o mendigo”. Entraram no carro e deram a
partida enquanto Galdino se levantava desesperado, gritando de dor. (ALVES;
PAIXÃO, 2017, s/p, grifo nosso)
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a um, ao acatar a tese do Ministério Público do Distrito Federal. Segundo o MP,
os jovens cometeram homicídio triplamente qualificado e não lesão corporal
seguida de morte. (CASO PATAXÓ, 1999, s/p).
Galdino não foi assassinado por ser um indígena, mas por ter sido
confundido com uma pessoa em situação de rua – com um “mendigo”.
Tal fato no faz retomar a reflexão sobre a condição não-humana de
quem está em situação de rua. Trata-se de um ser “coisa”, que pode
ser exterminando tal como se fosse “coisa sem valor”. Analogamente
à maioria dos casos em que impera a impunidade, os assassinos de
classe média alta receberam diversas regalias durante o período em
que estiveram presos, além de não cumprirem toda a pena estipulada
inicialmente pela justiça.
O caso Galdino, morto por ter sido confundido com um
“mendigo”, não é um caso isolado. A impressa brasileira tem noticiado
com frequência os atos de violência praticados por grupos de
extermínio, ou por pessoas comuns.
Outro crime de incineração de pessoas em situação de rua
aconteceu no dia 27 de Fevereiro de 2019, na zona Oeste da cidade do
Recife. Em matéria publicada pelo site Rádio Jornal Pernambuco, a
jornalista Priscila Miranda (2019, s/p) relata que uma mulher grávida,
que estava em situação de rua, havia dado entrada no Hospital da
Restauração, depois de ter sido queimada enquanto dormia debaixo
do viaduto da Caxangá, Zona Oeste da cidade do Recife.
A vítima, Karla Braz, de vinte e sete anos, dormia quando dois
homens se aproximaram e atearam fogo em seu corpo. Karla foi
socorrida por um homem, que também estava em situação de rua, e
foi levada ao Hospital Barão de Lucena, que fica próximo ao local do
crime. Como o hospital não possuía atendimento especializado, Karla
não foi socorrida.
O homem que a socorreu relatou:
"Quando ela chegou perto de mim eu tava dormindo, toda queimada. Tocaram
fogo nela dormindo. Eu socorri ela pro Barão de Lucena, mas não atenderam.
Aí fui ver se pegava um ônibus para levar ela, mas os ônibus não quiseram
parar. Aí fomos andando e quando chegou perto dos taxistas, eles socorreram
ela." (MIRANDA, 2019, s/p).
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correlaciona-se com diversos outros casos de mulheres em situação de
rua que foram queimadas enquanto dormiam. No entanto, o maior
número vítimas é do sexo masculino. Como exemplo, citamos casos
recentes ocorridos em: São José do Rio Preto (SP), no dia 20 de Janeiro
de 2021; Salvador (BA), no dia 03 de Fevereiro de 2021; São José dos
Campos (SP), no dia 22 de Março de 2021; Nova Iguaçu (RJ), no dia 03 de
Outubro de 2021; bairro da Mooca em São Paulo (SP), no dia 05 de Janeiro
de 2022; Buri (SP), no dia 13 de Fevereiro de 2022, dentre muitos outros.
Na maioria absoluta dos casos, os criminosos não são identificados.
[...] o governo de São Paulo anunciou que vai distribuir 25 mil cobertores e 25 mil
sacos térmicos de dormir para moradores de rua da capital graças a uma doação
da iniciativa privada de R$ 2,5 milhões. O anúncio foi feito pelo governador João
Doria (PSDB) em coletiva de imprensa. (MORADORES DE RUA, 2021, s/p)
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Ao não se efetivarem políticas públicas de qualidade, que
humanizem e garantam direitos às pessoas em situação de rua, o
Estado torna-se corresponsável pelas mortes causadas por
hipotermia. Somente no mês de Junho de 2021, entre os dias 29 e 30,
quando os termômetros chegaram a 6º C , sete pessoas morreram na
cidade de São Paulo por causa do frio.
A morte dolorosa por hipotermia é causada quando o corpo humano
fica sob longa exposição ao frio intenso. Nessa situação, o corpo libera
mais calor do que consegue reter, fazendo com que a temperatura
corporal caia e com que as pessoas percam o controle total
[...] dos membros inferiores e superiores, a perda dos sentidos, as pupilas ficam
dilatadas, e a pessoa que se encontra nessa situação tem a respiração
seriamente comprometida com risco sério de parada cardíaca-respiratória, além
de perder, na maioria das vezes, a consciência. (HIPOTERMIA, 2021, s/p).
Uma das cenas mais cruéis de morte pelo frio aconteceu também
em São Paulo, no mês de Junho de 2019. Na ocorrência, Gabriel, de 22
anos, foi visto deitado em uma escada da estação Barra Funda, Zona
Oeste da capital, por uma passageira do metrô que logo acionou um
segurança da estação. No entanto, quando este chegou ao local,
Gabriel já estava morto sobre em um colchonete, sem sinais de
violência física e sem qualquer proteção contra o frio. Sua morte for
registrada como hipotermia.
Violência gratuita
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As filmagens, que ainda estão disponíveis na Internet, mostram Zilda
Henrique, conhecida na região como Néia, circulando pelas ruas da cidade
de Niterói (RJ). Ao avistar um homem na rua, Néia se aproxima e o aborda
pedindo dinheiro. Rapidamente, ele saca um revólver de calibre 38 e o
dispara contra ela. O assassino sai andando normalmente, enquanto Néia
agoniza no chão.
Uma testemunha do crime pediu ajuda aos motoristas que
passavam pelo local, mas Néia só foi socorrida quando o Corpo de
Bombeiros chegou. Ela não resistiu ao ferimento e morreu.
O suspeito foi preso temporariamente e em seu depoimento alegou
que Néia tentou roubá-lo – dado não confirmado pelas imagens das
câmeras e pelo relato das testemunhas. O caso figura dentre os mais
cruéis praticados contra pessoas em situação de rua.
No dia 17 de Maio de 2020, outro vídeo registrado por câmeras de
segurança ganhou destaque nacional. Nas imagens, um homem em
situação de rua aparece sendo arrastado pelas ruas do centro da cidade
de São Luís (MA), amarrado a uma caminhonete. O caso ganhou
notoriedade nacional e logo virou notícia do programa Fantástico, da
Rede Globo de Televisão.
A matéria divulgada no site do programa, com o título: “Homem é
preso acusado de arrastar um homem sem teto até a morte em São Luís,
no Maranhão”, descreve o crime a partir de relatos de testemunhas e de
imagens obtidas por câmeras de segurança:
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família chegou a fazer o reconhecimento do corpo. O assassino fugiu,
mas foi encontrado dentro de uma oficina mecânica, justamente com
o mesmo veículo que praticou o crime.” (APÓS TORTURAR, 2020, s/p).
À época, o empresário confessou o crime informalmente à polícia.
No entanto, manteve-se em silêncio no inquérito, quando
questionado. Com base nas imagens das câmeras e no relato de
testemunhas, ele responde pelos crimes de tortura e homicídio.
Números e violências
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profundamente o cotidiano dessas pessoas, verificamos que suas
táticas de sobrevivência são reflexos combativos às ações do Estado.
Sem poder contar com um sistema efetivo de proteção e garantia de
direitos, elas colocam em prática seu poder de reação e resiliência,
superando obstáculos e criando novas táticas para resistir às violências
e sobreviver nos espaços públicos urbanos.
As pessoas em situação de rua criam um Estado paralelo em seu
mundo invisível. Refletindo sobre o pensamento de Foucault (2005, p.
30), entendemos surgir, aqui, uma nova forma de poder local,
considerado periférico ou molecular, que ainda não fora absorvido
pelo Estado.
Referências
30
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13 de julho de 1990. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil.
Brasília, 14 de julho de 1990.
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N. 14, Jun. 2019.
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31
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tem pesadelos, diz irmã. G1, 27 jul. 2015. Disponível em: <[Link]
[Link]/rio-de-janeiro/noticia/2015/07/chacina-da-candelaria-sobre
[Link]>. Acesso em: 30 mar. 2016.
32
INVISIBILIDADE SOCIAL:
experiência de trabalho com pessoas em situação de rua
Introdução
E-mail: cleivisoncarvalho@[Link]
3 Município situado na Região Metropolitana do Estado do Rio de Janeiro, com
33
Figura 1: Mundo monstro. Adão, 2012.
4Fonte: [Link]
Acesso em: 19/01/2021.
34
mencionado, passou a ser oferecido no Centro de Especializado de Assistência
Social (CREAS) [...] (SANTI, 2013, p.10/11).
35
Da experiência citada anteriormente, um dos públicos alvos desse
serviço que não só chamou a atenção, mas também despertou o olhar
de pesquisadores acerca, foram as Pessoas em Situação de Rua (PSR).
Instituído a partir do Decreto Federal nº 7.053, de 23 de dezembro de
2009, a Política Nacional para a População em Situação de Rua define
tal grupo como:
36
se que 48,4% não concluíram o primeiro grau e 17,8% não souberam
responder/não lembram/não responderam o seu nível de escolaridade. Apenas
3,2% concluíram o segundo grau. Os principais motivos pelos quais essas pessoas
passaram a viver e morar na rua se referem aos problemas de alcoolismo e/ou
drogas (35,5); desemprego (29,8%) e desavenças com pai/mãe/irmãos (29,1%).
Dos entrevistados no censo, 71,3% citaram pelo menos um desses três motivos
(que podem estar correlacionados entre si ou ser consequência do outro).
(BRASIL, 2008, p. 10-11).
37
um Centro Pop6, uma casa de passagem etc., deturpa a noção de
estrutura básica de acolhimento, fazendo com que o atendimento seja
precarizado e, algumas vezes, ineficaz.
Na perspectiva do acolhimento, o respeito à subjetividade da
pessoa em situação de rua e o enfoque à humanização são fatores
importantes para a prática. Essencial ao trabalho social, o acolhimento
deve ser observado pelos profissionais que atuam com a demanda da
PSR sob duas perspectivas, de acordo com as Orientações Técnicas do
Centro de Referência Especializado para População em Situação de
Rua (2011), a saber: “a acolhida inicial dos usuários no Serviço e a
postura receptiva e acolhedora necessária durante todo o
desenvolvimento do trabalho”, com objetivo de compreender as
situações vividas por esse público, de auxiliar na identificação das
demandas e de construir um vínculo para melhor desenvolvimento do
trabalho, equiparado às expectativas dos envolvidos. O olhar técnico
constitui responsabilidade dos profissionais da equipe. O acolhimento
faz toda diferença para a abordagem inicial, seja ela feita pelo
orientador social7 ou pelo próprio técnico.
Na experiência local, a equipe não contava com o orientador
social. Por um momento, o equipamento contou com esse
profissional; porém, ele não permaneceu por questões contratuais,
dificultando em alguns aspectos a abordagem social e até mesmo a
busca ativa. Criava-se um contexto para intervenções mais paliativas
do que funcionais, propriamente resolutivas, deixando que a demanda
chegasse de forma espontânea, sem uma previa identificação no
território, dificultando ainda mais as intervenções.
Tendo em vista as dificuldades para a construção de uma análise
mais crítica, respaldada por estudos dentro da perspectiva territorial
para as pessoas em situação de rua que acessavam o serviço, não
tínhamos propriedade, dados ou referências dos asistidos. Com uma
38
equipe aquém {a normativa que rege a NOB / RH – SUAS8, e em um
espaço físico sem condições para atender à demanda, as intervenções
buscavam suprir as demandas emergenciais.
Os casos eram, em sua maioria, trazidos de forma espontânea,
destacando os principais que eram “trecheiros”, que, de acordo com a
Política Nacional para Inclusão Social da População em Situação de Rua
(2008), designa o grupo “composto por pessoas que transitam de uma
cidade à outra, caminhando pelas estradas, pedindo carona ou se
deslocando com passes de viagem concedidos por entidades
assistenciais”. Os mesmos acessavam o equipamento em busca de
ajuda para alcançar seu destino, que na maioria dos casos, eram em
direção à capital.
A população em situação de rua é bastante complexa e
heterogênea, constituída por diversos subgrupos. Com suas
especificidades e experiências, suas demandas atraem o olhar para as
vivências mais peculiares. O relato de cada pessoa abordada é único,
não podendo levar em conta uma lógica e/ou molde de atendimento,
pois cada um a ser acolhido tem suas referências socioculturais, bem
como suas necessidades. Independentemente de terem a rua como
moradia, seus direitos devem ser resguardados.
É preocupante a falta de estrutura e de conhecimento técnico das
equipes acerca da temática. O pouco investimento do poder público
tem sua parcela de irresponsabilidade. Por vezes, sentimo-nos
frustrados e até mesmo culpados, sem que a ineficiência decorra de
nossas atitudes práticas, as quais mobilizam diversos esforços.
Entender o papel de cada um dentro desse protagonismo de ações
é fundamental. Tal protagonismo, por ora, pode até ser da Assistência
Social, mas o decorrer do processo, assim como sua finalidade, é de todo
o sistema. A base para que o papel desses protagonistas sejam de
relevância está nas políticas públicas que garantam o direito à educação,
à saúde, ao trabalho, à moradia, ao lazer e à segurança, todos muito bem
pontuados na nossa Carta Magna.
39
Uma perspectiva sobre a eficácia dos equipamentos e das políticas
públicas
40
atitude legitima ainda mais o estereótipo de invisibilidade que essas
pessoas possuem. Nesse sentido, a articulação junto à sociedade para
esclarecimento e entendimento das questões é fundamental. Não
basta retirar os sujeitos das ruas; deve-se, além disso, identificar cada
necessidade existente, estabelecer vínculos e criar metodologias de
trabalho. Vale lembrar que isso requer tempo, didática e uma dinâmica
de trabalho parcimoniosa.
Ainda sobre a eficácia da equipe, é muito importante ressaltar o
processo de educação permanente. Pautada dentro do processo de
trabalho no âmbito do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), a
educação permanente é uma conquista e se faz ferramenta
fundamental para os trabalhadores do SUAS. Ela engendra a qualidade
dos serviços sócio-assistenciais, visando à emancipação dos
trabalhadores e dos usuários do sistema. Neste sentido, a Política
Nacional de Educação Permanente do SUAS afirma que:
Intersetorialidade
41
Dezembro de em 20099, a partir de uma composição múltipla entre
Ministérios, há dados que corroboram a produtividade da
intersetorialidade nos casos de atendimento às pessoas em situação
de rua. O direcionamento precipitado de atendimentos cujas
necessidades são de atuação da saúde, por exemplo, mas os levam
como responsabilidade da Assistência Social, pode tornar a resolução
do caso mais longa e, por vezes, ineficaz.
Entende-se por intersetorialidade a ação de um ou mais setores,
tanto públicos, quanto privados e da sociedade civil, em que as
necessidades específicas de cada caso são solucionadas a partir do
trabalho coletivo. A articulação intersetorial promove levantamentos
de reflexões no que dizem respeito à sociedade civil participativa,
ajudando a identificar a vulnerabilidade social.. Como afirmam Pereira
e Teixeira (2013):
9[Link]
Acesso em: 18/02/2021
42
sentido de promover ações concretas para sua promoção, prevenção
e resgate social. Atuar no campo de visão de um trabalho
multifacetado com esse tipo de demanda é também pensar em um
atendimento humanizado, interdisciplinar, com a proposta de
contribuir na elaboração de um atendimento que observe o indivíduo
na sua totalidade, identificando suas vulnerabilidades com a primazia
de exaltar suas potencialidades. Desse modo, a Política Nacional de
Assistência Social (2004), menciona que:
43
Considerações finais
44
nomenclatura PSR toda vez que queremos citá-las. Esse termo pode
enviesar-nos a achar que são as mesmas pessoas e a verdade é
completamente diferente. Existem Joãos, Jorges, Elenas, Márcias,
Fabianas... uma diversidade de identidades, com nomes, sobrenomes
e faixas etária distintas. Portanto, falar de forma generalizada também
requer empatia, pois cada um tem sua história de vida, sendo a
responsabilidade dos profissionais, do governo e da sociedade civil
como um todo tirar a capa da invisibilidade e aprender as
especificidades que cada um desses seres humanos carrega consigo.
Referências
45
BRASIL. Conselho Nacional de Assistência Social. Tipificação Nacional
de Serviço Socioassistenciais. Resolução nº 109, 11 de novembro de
2009. Brasília, 2009.
GUERRA, Viviane Nogueira de Azevedo. Violência de Pais Contra
Filhos: a tragédia revisitada, 6ª edição. São Paulo: Cortez, 2008.
LUCIMERI SANTI. Programa Sentinela x CREAS: um estudo
comparativo. 2013 Disponível em: [Link]
wp-content/uploads/2017/02/[Link] Acesso
em: 22/10/20.
PEREIRA, Karine Yanne de Lima; TEIXEIRA, Solange Maria. Redes e
intersetorialidade nas políticas sociais: reflexões sobre sua
concepção na política de assistência social. Textos & Contextos: Porto
Alegre, RS, v. 12, n. 1, p. 114 - 127, jan./jun. 2013. Disponível em:
[Link]
[Link] Acesso em: 20/03/21.
SILVA, Maria Lucia Lopes da. Mudanças Recentes no Mundo do Trabalho
e o Fenômeno População em Situação de Rua no Brasil 1995-2005;
Universidade de Brasília – UNB, Brasília, 2006 p.81. Disponível em:
[Link] Acesso em: 10/01/2021
46
SÃO PAULO É SELVA DE PEDRAS ONDE O LAR É A RUA:
a história de Esão entre a precariedade e a luta por cidadania
47
pesquisador(a) na posição de testemunha (BOSI, 2003). Como aponta
GAGNEBIN (2006), também implica a inserção do pesquisador no mundo
do entrevistado, gerando o compromisso ético do primeiro com o
segundo. Alinhada às especificidades do relato oral, utilizamos uma
pergunta disparadora: Como foi a experiência de estar em situação de
rua? Por meio desse questionamento, pudemos ter acesso à narrativa
testemunhal de Esão.
No decorrer dos enunciados expostos, encontraremos na voz de
Esão o testemunho fiel da violência de Estado diante da experiência de
6 anos em sua vida como pessoa em situação de rua. Alguns cuidados
éticos procedimentais foram tomados em relação à entrevista oral
realizada com duração de 3 horas como: 1) considerando a
legitimidade da voz de Esão na transcrição da entrevista, não houve a
retextualização dos conteúdos, por isso, mesmo em desuso, há
trechos em que a expressão morador de rua permanece; 2) o percurso
da sua memória foi respeitado durante a entrevista; 3) por se tratar de
uma pessoa que atualmente é reconhecida como figura pública na
cidade de São Paulo, seu nome foi alterado para Esão, à fim de garantir
o sigilo e o anonimato do ponto de vista ético, não fomentando
qualquer tipo de perseguição às colocações feitas por nosso narrador.
Como instrumento orientador do entendimento da fala de Esão,
seguimos as diretrizes da análise de discurso, sendo caracterizada pela
identificação de núcleos de sentido e de “eixos-temáticos”
representam a relação linguagem-situação (ORLANDI, 2020). A análise
do testemunho de Esão considerou enquanto enunciado discursivo as
suas valorações, seu pertencimento, os juízos de valor e suas
formações ideológicas (PÊCHEUX, 1990). Diante dos enunciados de
Esão, encontramos três eixos temáticos: primeiro, a questão da
violência de Estado e da ingerência de políticas públicas; segundo, a
visão preconceituosa e o estereótipo negativo atribuído culturalmente
à PSR; por fim, o terceiro: o sentimento de comunidade como algo
propositivo para superar as mazelas atuais.
Interpretamos os enunciados do nosso narrador, especialmente,
à luz dos aforismas sobre vulnerabilidade proposto por Butler (2015;
2020) em que pesa a inteligibilidade dos corpos a serviço de uma ética
do ordenamento das vidas pela estrutura social. Por abordar a
gramática moral dos conflitos sociais na luta por reconhecimento e a
categoria do sofrimento de indeterminação apoiada nos aforismas da
48
fenomenologia do espírito de Hegel, recorremos aos escritos de
Honneth (2007; 2011). Não obstante, lançamos mão dos conceitos de
memória política, discutidos por Gagnebin (2010) como necessidade
de resgate dos processos de violência histórica enquanto denuncia da
realidade passível de elaboração.
Entende-se a pertinência e a relevância deste estudo a partir da
relação do saber psicológico em interface com os constructos sociais
de cidadania enquanto instituição que assegura o reconhecimento de
nossa humanidade. Além disso, a psicologia quando se debruça a
dialogar com a cidadania, versa sobre a reivindicação das múltiplas
possibilidades de alterização. Assim, estar com o Outro implica
responsabilizar-se por seu sofrimento e por sua angústia (FREIRE,
2003). Implica oferecer-lhe morada, termo que Butler (2019) irá
empregar apoiando-se em Lévinas, que, em sua tradução, significa ter
um ethos 3em que o Outro possa se debruçar e erguer-se no mundo.
É em nome de proposições éticas que Butler (2019) irá pensar em
um estatuto político transpassado pela premissa de que, enquanto
sujeitos, somos vulneráveis – o entendimento disso nos permite
pensar em formas relacionais propositivas para a não violência dos
corpos. O pensamento butleriano busca entender, por meio da
corporeidade, a dimensão ético-política a partir da qual algumas vidas
são inteligíveis dentro da matriz cultural.
No pensamento de Butler (2015; 2019),todas as vidas são
vulneráveis. Todavia, quanto menos inteligível um corpo é, mais
precário ele poderá se tornar, pela ausência atos de cuidado
demandados pelo tornar-se humano. Essa precariedade no
reconhecimento de corpos não inteligíveis consistirá, especialmente,
nas formas discursivas com que o Estado e as relações sociais
expressarão a negligência a essas vidas – seja pela violência, pela
racionalidade de guerra para poder proteger um grupo, ou,
simplesmente, pela ausência de políticas públicas.
A questão ético-política relativa a como algumas vidas são
niveladas pela precariedade recaí discursivamente nos processos de
identificação e não identificação – que irão definir o quê será
3Na concepção de Lévinas, autor que Butler irá se apoiar, o Ethos tem um sentido
comunitário, em seu constructo está posto o apelo que é feito a mim mesmo no
encontro com o outro implicando na capacidade de se responsabilizar pelo outro de
cada ente.
49
publicamente aceito ou não para o que sujeito seja um falante viável
(BUTLER, 2019). Se a defesa argumentativa da pessoa vai contra o que
é defendido normativamente, automaticamente, ela irá carecer de
credibilidade (BUTLER, 2019). Posto isso, qualquer processo que possa
gerar identificação em um sujeito ao entendimento dos corpos
excedentes no projeto neoliberal de sociedade passa a ser censurado.
Vemos essa premissa na violência de Estado, assim como em
outros processos que passam a dizimar a vida vivível de PSRs,
resultando na invisibilização de pessoas, e não as ações contra elas.
Assim, a não identificação com as pessoas em situação de rua ocorre
no sentido de remeter aqueles que de, algum modo, se adaptaram à
lógica e ao sistema neoliberal à vulnerabilidade que todas as pessoas
têm caso sejam um excedente, condição necessária para que seus
direitos sociais sejam suspensos.
Nesse cenário, os processos de identificação e de não
identificação podem ser constituídos por meio das disputas em torno
da memória política transmitida pela cultura, sendo o silenciamento ou
o medo os elementos que irão regular a visão sobre determinado
grupo enquadrado como o excedente do capital. No caso de PSR, o
enquadramento vem pela adjetivação negativa a partir dos
estereótipos de que esse grupo é “vagabundo, violento e rebelde”
(PAIVA et al., 2016), e, portanto, as ações violentas contra essas
pessoas são justificadas em nome da segurança de indivíduos que se
sujeitaram à ordem vigente.
A questão da memória nos remete às políticas de memória
discutidas por Jean Marie Gagnebin (2010) ao abordar o preço de uma
reconciliação extorquida em um país como o Brasil, que não superou a
lógica da colonização e convive, ainda hoje, com os pensamentos e as
ações segregacionistas, que não superaram a herança do período
escravocrata. Não obstante, as formas de governança compartilham
várias maneiras de violência justificada por ações do Estado, pois não
elaboraram o passado totalitário e o período militar.
Vemos, nesses casos, o quanto que a aparência do esquecimento
pode silenciar o passado. Pois, do ponto de vista das políticas de memória,
a necessidade de não se elaborar algum episódio na história de modo
unilateral, ou seja, de modo a engendrar uma verdade estática e aceita
por todos – condição essa que nega ao recordar todo o processo reflexivo
e as contradições presentes nele (GAGNEBIN, 2010).
50
Em consonância, para Ricoeur (2007), as formas de lembrar-
esquecer associadas à questão do dever de memória ou de outros
problemas cruciais que apelam a uma política da memória – anistia vs.
crimes imprescritíveis - podem ser colocados sob o título da
reapropriação do passado por uma memória instruída pela história
unilateral. Desse modo, entre a totalidade dos fatos pela visão parcial
da história e as lembranças de quem viveu os acontecimentos, a
memória e seu sentido político, tem imensurável importância.
Cabe considerar também, que esse esquecimento não é
entendido como a reconciliação das partes envolvidas, mas como
formas de não falar mais desse acontecimento e do dano que ela possa
ter causado na realidade das pessoas – no pensamento mágico de que,
ao não falar, a questão será superada. (GAGNEBIN, 2010, p. 178). Essas
ideias se apoiam nas concepções de Freud, que afirma que “o
esquecimento não é somente uma não-memória, o apagar dos rastros
, ou uma página em branco, [...] mas um manancial de lembranças
inconscientes que pode se transformar num poderoso aliado de
recordação por meio de um processo elaborativo”.
Não obstante, o tempo da memória é o tempo vivido; é pela soma
de experiências que o narrador irá compor vários campos de sentido,
formando o tecido da lembrança – a presentificação do passado
mediada por significados socialmente aceitos. Quanto à memória
individual, esta “[...] nos permite o acesso à História por uma via
alternativa àquela da versão oficial e institucionalizada dos fatos,
conduzindo-nos àquilo de que, em última análise, a História é feita: a
vida cotidiana de sujeitos concretos” (REIS; SCHUCMAN, 2010, p. 390).
É no sentido de pensar a história e como o cotidiano irá conduzi-la que
a memória social manifesta a sua emergência, pois permite que a voz
outrora suprimida pela heteronormatividade e o que foi aceito como
oficial pela cultura se sobreponha, evidenciando a necessidade de se
contar uma história à contrapelo (BENJAMIN, 1994), no qual aqueles
que foram silenciados possam ter suas vozes ecoadas em busca de
uma vida mais digna.
Com base neste prólogo, as exposições a seguir se justificam e
ganham relevo por trazer, de maneira desnuda, a discriminação sofrida
pela PSR e a necessidade urgente de estratégias que garantam a
efetividade das políticas públicas para a garantia de direitos para essa
população. Posto isso, passemos agora à voz de nosso Narrador, Esão.
51
A voz de Esão, uma voz que vem das ruas
[...] chegava final de ano eu olhava na rua, ás vezes, pegava um marmitex com
comida azeda. Pensava, esses filha da puta comendo bem e vem dá comida azeda
para a gente. Eu ficava revoltado. Ficava revoltado, ás vezes, quando eu ia no viaduto
do chá. Às vezes, eles fazem. Todos os domingos, eles fazem isso aí. Eles dão um
pouco de leite com pão. Oh! Mas, pão seco aqui com leite. Mas, nenhuma manteiga
para passar no pão. Aí, eu comecei a ver eu estou querendo assistencialismo
também. Estou querendo que os outros me ajudem. Então...você começa a
observar, você começa a sentir na pele, a ser chutado, acordado pelo guarda e
receber um spray de pimenta. Isso vai te dando uma revolta. Chegar em um bar pedir
uma água e os caras te negar, pedir para usar o banheiro e dizer que está quebrado
que é só para clientes. Tudo isso aí vai te dando uma visão da realidade do mundo,
uma visão que muitas vezes as pessoas não sentem porque você vai chegar em um
bar e vai comer e vai pedir para ir no banheiro e vai direto. Você não é acordado com
um jato de água, nem com spray e nem com chute. Mas, quem está na rua é. Eu já vi
policiais tirar marmitex da mão do morador de rua e atirar no lixo, assim, só para ele
não comer. Sendo que era outra pessoa que tinha dado o marmitex. São coisas que
dificilmente a sociedade consegue ver. Como eu digo, é mais fácil você abraçar um
cachorro sarnoso do que sentar ao lado do morador de rua, para ouvir o problema
que ele tem.
52
por aqueles que não são dignos dela. Vemos essa questão posta quando
nosso narrador, após nos apresentar a série de violências que ele e outras
pessoas na mesma condição viveram, estabelece uma linha de
comparação entre o cão com sarna e as pessoas em situação de rua.
Podemos aproximar esse trecho à questão da inteligibilidade dos corpos,
isto é, existem critérios históricos e sociais que realizam o ordenamento
de nossa corporeidade de modo a estabelecer hierarquias de poder e de
reconhecimento entre aqueles que irão ser enquadrados enquanto seres
viventes, tendo seu estatuto de humanidade garantido (BUTLER,2020).
A ontologia do corpo proposta por Butler (2018; 2020) pode nos
auxiliar a entender o modo como se organiza os processos de
racionalização de uma sociedade estruturalmente movida pelas
relações de produção e de exploração. Pode, sobretudo, desvelar as
contradições implícitas a quem não cumpre o projeto político do
Capital – a saber, de se submeter ao mundo do trabalho e de ter a
propriedade privada. Mesmo a autora tratando a categoria de corpo
inicialmente associada ao contexto de gênero e sexualidade, as
questões sobre as formas com que os corpos assumem em seus
escritos podem ser facilmente transportadas para contextos em que
as pessoas são enquadradas como excedentes do capital. Nesse
sentido, o corpo da PSR pode convergir com essas premissas teóricas
Na visão de Butler (2020), o corpo ocupa dimensões para além
dos pressupostos anatomofisiológicos, Em outras palavras, ter um
corpo implica estar submetido ao modo como a cultura irá concebê-lo,
em relação indissolúvel com a sociedade. Posto isso, o corpo em
situação de rua se manifesta, inicialmente, por tudo aquilo que
descaracteriza o que é valorado como humano na sociedade moderna
neoliberal. Ele carrega em si as marcas de alguns tabus e receios
contemporâneos, como a perda de bens materiais e dos laços afetivos
que as pessoas podem estabelecer, se assemelhando muito ao que
Butler (2018) irá chamar de corpo abjeto.
Os corpos sempre apresentam uma dimensão política,
especialmente, aqueles que desencadeiam estranhamento ou tabus
dos mecanismos de adequação da realidade – por se afastarem das
normas instituídas socialmente. À tudo aquilo que é culturalmente
insustentável para as pessoas administrarem, como as doenças, a
morte, as perdas e os medos, pode causar uma desorganização
emocional. Essas condições inadministráveis, uma vezsignificadas para
53
as pessoas, tem como reação a execração, a rejeição entre outras
formas negativas de adjetivar esses indivíduos que exponham isso.
Esta reação Butler (2018) irá conceituar como abjeção do corpo.
Posto isso, o corpo da pessoa em situação de rua enquadrado
como abjeto é apenas o aspecto inicial quanto aos motivo que levam
os segregados a PSR a sustentarem um discurso de ódio. Uma vez que
a PSR carrega em seu corpo e no seu modo de vida algo mais profundo,
nega-se a estrutura social que a nega. Nessa condição, a PSR não se
deixa escravizar para girar a economia e contribuir para transformar o
capital em sujeito. Não estar nesse projeto é evidenciar que quem se
adaptou é falho.
O testemunho de Esão nos é revela um segundo incidente, aa
ultima passagem para o rompimento do mundo que o reconhecia
como cidadão - a fatalidade de perder a esposa e seus dois filhos em
um acidente de carro, no momento em que sua família vinha para São
Paulo. Isso ocorre quando, em um dia, Esão para em um bar e, ao ver
o noticiário de TV, toma conhecimento da ocorrência de que sua
esposa e filhos sofrem um acidente na viagem para São Paulo e
morrem. Diante disso, nosso narrador se depara com o preconceito e
com o descaso do poder público:
Foi o que me deixou mais desnorteado, porque fui a câmara municipal para
saber o que de fato estava acontecendo [acidente que perdeu a esposa e filhos]
e fui proibido de entrar por ser morador de rua... Quando eu virei morador de
rua eu ouvi que eu era um drogado e não servia para nada, que eu não presto
para nada também. Então, eu comecei a mudar o meu conceito; senti na própria
pele o que é a discriminação do morador de rua. E como os políticos só fazem
projetos politiqueiros, por exemplo. (sic).
54
luto, porque elas e seus entes queridos não são enquadrados como
vidas, havendo assim uma “regulação da comoção”, de forma que
certas vidas são invisibilizadas e desconsideradas.
Ao perceber-se como alguém que pertence ao grupo de pessoas
em situação de rua, Esão vivencia aquilo que Butler (2017), baseada em
Adorno, denomina como violência ética, que se configura como o não-
reconhecimento do outro como humano de direitos. Isso estabelece
a prerrogativa de alguns exercerem julgamento moral sobre aqueles
que consideram o “outro”, seguindo padrões normativos que os alijam
das tomadas de decisão sobre seus destinos. A violência ética ocorre
todas as vezes que, em nome da defesa dos direitos de alguns, ignora-
se e violam-se os direitos básicos de outros, considerando-os
“bárbaros” e “incivilizados” (idem, ibidem). No caso de Esão e de
pessoas em situação de rua, enquadrados como drogados e perigosos,
há a visão de que devem ser afastados e mesmo eliminados.
Na esteira de discussão sobre as falhas ética nas relações,
podemos aproximar esse trecho também ao que Honneth (2011)
chama de sofrimento de indeterminação, conceito que versa sobre as
formas insuficientes de liberdade e garantia de uma vida plena no
autorreconhecimento do sujeito. Essa categoria de análise rompe com
todo o idealismo de Hegel, ao entender os rituais de passagem na
sociedade moderna como algo necessário para amadurecimento do
espírito, chamado anteriormente como sofrimento determinado.
No âmbito do reconhecimento social, o sofrimento de
indeterminação está ligado ao esvaziamento dos conteúdos racionais
para a práxis da vida de alguns grupos e pessoas. Ainda quanto à
conceituação do termo, Honneth (2007), ao buscar suas bases em
Wittgenstein, explora o fato de que o sofrimento se dá por meio de
concepções equivocadas no modo como as pessoas são reconhecidas,
ou seja, trata-se de imagens que, deturpadas, as mantêm presas.
Vemos essa categoria posta quando Esão não pode sequer dar um
telefonema para ter mais informações sobre a morte de sua esposa e
de seu filho por ser enquadrado como PSR.
Nessa cena narrada por Esão, podemos entender que a experiência
do luto é algo previsto na existência humana e que pode ser equacionada
enquanto condição de sofrimento determinado. Todavia, não poder velar
os corpos, ou até mesmo não poder ter acesso à informação para saber o
que houve, pode ser entendido como uma situação de sofrimento
55
indeterminado, pois foge àquilo que racionalmente é previsto enquanto
reconhecimento do constructo humano.
Assim, a situação de ser barrado de entrar na Câmara para saber
o que aconteceu com a sua família é o estopim para que nosso
narrador tome consciência da necessidade de lutar por dignidade para
a população em situação de rua:
designado a levar as pessoas mortas até a terra dos mortos. A pessoa falecia era
sepultada com moedas nos olhos para pagar Caronte e garantir a travessia.
56
pode ser indício de algo que lhe cause muita dor; por isso, esquecer
talvez seja a tentativa adaptativa de lidar com a vida que não foi
possível de ter continuidade.
Ricoeur pontua (2007) que há pessoas que precisa lembrar-se de
fatos tão marcantes com esse, para elaborar; quem sabe, um dia o
esquecimento venha com o sentido de algo que foi trabalhado,
refletido. O lembrar-se, no caso de Esão, possivelmente está traduzido
no gesto de colocar “300 moradores de rua na Câmera” (sic) para que
ninguém mais seja expulso daquele lugar. Nesse caso, pode ter
também a conotação, em termos de consciência, de evitar a repetição
de um acontecimento tão carregado de desumanização. Trata-se de
um processo reflexivo e de uma forma de responder as atrocidades.
O segundo enunciado é a tomada de consciência política da
situação que lhe negou a sua cidadania – ser enquadrado como pessoa
em situação de rua. Diante disso, Esão cria o Movimento das pessoas
em situação de rua, para, junto a seus pares, reivindicar o acesso à
Câmara dos Vereadores. Passa, com isso, a participar da Comissão dos
direitos humanos, ganhando espaço para trazer a pauta das
necessidades e direitos dessa população. Todavia, nosso narrador
percebe como as relações de poder funcionam nesses lugares e chama
algumas ações de “politicagem”(sic.), por não proporem algo efetivo,
que erradique as mazelas sociais de seu grupo.
A atitude de Esão, ao criar o Movimento acima citado, acena à
importância do exercício daquilo que Butler (2018) denomina como
“Direito de aparecer”, configurado como o direito de participar da esfera
pública, operando um campo de possibilidade que visa tensionar os
quadros de reconhecimento. Também, pode ser entendido como uma
forma elaborativa de reivindicar a sua cidadania pela luta por
reconhecimento social, motor para promover a solidariedade entre seus
iguais. Tendo em vista, assim, a busca por formas particulares de
liberdade, a luta por reconhecimento é motivada pela inclusão das
identidades de grupos e pessoas, tanto na sociedade, quanto no direito,
frente às condições de falha ética das vidas.
Em continuidade, mesmo com todo o jogo político,
especialmente, do poder público em negar denuncias como a violência
policial, ações higienistas, dentre outros atos de violência, Esão
consegue articular algumas estratégias para alargar a participação das
pessoas em situação de rua na comissão dos direitos humanos e
57
propor um debate para que fosse discutido o perfil dessa população.
Embora essas discussões promovessem maior visibilidade às questões
dessas pessoas, ainda assim, de acordo com o nosso narrador, alguns
não eram aceitos para frequentar o espaço e discutir seus direitos,
mesmo estando na “casa do povo”(sic).
A fala de Esão, ao mencionar que nem todas as pessoas em
situação de rua têm acesso à “casa do povo” (sic.), nos faz pensar
sobre o significado da palavra “povo”. Butler (2018) reflete que o
conceito de povo estabelece limites implícitos ou explícitos, isto é,
mesmo quando alguém deseja garantir um discurso de inclusão, trata-
se de um conceito demarcador. Quando se estabelece a ideia de que
“nós somos o povo”, implicitamente há aqueles que não são o povo,
e, portanto, serão excluídos. Como podemos constatar na fala de Esão,
mesmo o direito a lutar por suas garantias e de participar da tomada
de decisão é limitado, dando continuidade ao jogo de exclusão de
algumas pessoas. Concordamos com Butler (2018) que a luta tem que
ser permanente.
Ao falar sobre a sua participação e engajamento político quanto à
luta por direitos e reconhecimento da PSR, Esão elege em seu discurso
o incômodo com as ações figurativas feitas em algumas ocasiões,
como, por exemplo, um vereador que queria criar o dia nacional da
pessoa em situação de rua, sem citar nenhuma estratégia para atender
às necessidades dessa população. Ao invés disso, nosso narrador
acredita que poderia haver outras formas de pensar na cidadania das
pessoas em situação de rua e relembra, com isso, o massacre da Sé. Na
época, o narrador acaba por sugerir que houvesse um ato para que as
mortes das vidas que foram ceifadas fossem lembradas:
58
nomes das vítimas que estavam ali foi tudo borrado. Tiveram que tirar o quadro
e fazer de novo. “Então coisas assim, eu ainda concordo” (sic.).
59
vagas e de maus-tratos de alguns funcionários que não tinham
qualificação para lidar com essa população.
Um ponto que é mencionado ao falar dos albergues é quanto o
próprio sistema não auxilia as pessoas a efetivar sua autonomia, o que
é demonstrado pelos horários e rotinas rígidas:
Era uma maneira de prender o camarada, por quê? As fichas do almoço eram das
9 às 10hs, então se eu sair lá do Brás para vir almoçar aqui, eu tinha que chegar
vir correndo para cá para pegar uma ficha e almoçar. Aí, eu não podia sair para
garantir o meu almoço. Aí meu almoço vinha, terminava 13:30/14:00hs tinha que
dar a volta para garantir a minha outra vaga lá. Então, não tinha tempo de fazer
o meu corre para arrumar um trabalho ou outra coisa. Porque a indústria da
miséria não permite que o camarada se ressocialize. Que ele crie um mecanismo,
para andar com as próprias pernas. Nós vamos engessar ele, é este mecanismo
ele vai e volta, é esse caminho que a população de rua ficasse naquela
rotatividade, saindo de um albergue indo para o outro, o outro, o outro, o outro
e assim consecutivamente não abrindo vagas para os novos que estão vindo
para a rua” (sic).
Não vou dizer que sejam todas, mas 70% das entidades que trabalham com
população de rua, ela não trabalha para tirar da miséria, ela trabalha para que
fique na miséria. Porque senão vão perder o seu emprego, vão perder a sua
fonte de renda. O governo não tem interesse de acabar com a miséria, senão
como é que vai pedir para a UNICEF pedir para os Americanos, para investir em
7Esão se refere à lei municipal aprovada na cidade de São Paulo em 1997, que visa
prestar atendimento qualificado às pessoas em situação de rua Fonte:
[Link]
portal/cao_civel/aa_ppdeficiencia/aa_ppd_legislacao/aa_ppd_legislacao_municipal.
60
um país subdesenvolvido, não precisa de dinheiro para investir. Que ele é
subdesenvolvido, ele não tem mais a miséria.”
O morador de rua ele não é contra a polícia, ele não é contra a guarda. Ele é
contra a farda da instituição que faz repressão a ele. Quando ele vê um policial
fardado vindo a direção dele ele já fica revoltado, por quê? Porque ele sabe que
vai sofrer alguma opressão de uma maneira ou de outra. Então essas coisas você
vai tendo uma visão.
61
reduzidas à simplificação. O preconceito associado às ações de
violência, posto na obra de Butler (2020), pode estar no fato de que se
alguém se sensibilizar à PSR. Pelo olhar da norma, estará se
identificando com todos os estereótipos negativos atribuídos a essa
população, tornando-se tão vulnerável quanto.
Outro elemento que Esão realça é o estereótipo da pessoa em
situação de rua como “marginal” (sic):
Agora, há muitas coisas atribuídas ao morador de rua que não é do morador de rua.
Porque, por exemplo, quem é os megas traficantes da Cracolândia? Policiais
armados. Eles prendem a trocas e depois vão vender lá na cracolândia. Isso já é
matéria de jornais, e muitos jornais já abordaram isso. Mas, se algum morador de rua
conhecer aqueles policiais que está vendendo a droga deles está lascado, ele vai ser
morto; para não denunciar. Então são as coisas que acontecem nos bastidores que a
sociedade não conhece, mas marginaliza a população de rua. E a coisa não é dessa
maneira, acontece. Só quem viveu esta realidade é que sabe (sic).
62
práticas e crenças em relação a objetivos políticos específicos”. Assim,
podemos entender que a gestão das vidas atua no ordenamento de
quais mortes deverão, de fato, ser sentidas, passíveis de luto. Assim, o
Estado, enquanto poder soberano, produz com naturalidade essas
políticas de morte e de extermínio. No que se refere às pessoas em
situação de rua, observamos que essas vidas são constituídas na
negligência e no abandono do poder público, que, mais tarde, os
elimina como violentos e perigosos, justificando-se assim as ações
truculentas do Estado policial e de civis, constituindo-se uma política
baseada na “eliminação do outro” (BENTO, 2018).
Ainda no sentido das violências que o poder público pratica contra a
população de rua, Esão narra cenas de manipulações midiáticas, como ir
“um carro da prefeitura dando cobertor e vinte minutos depois vai
alguém tirando o cobertor e metendo o aço” (sic). Nosso narrador
também abordou o fato de não haver banheiros para que a população em
situação de rua pudesse usar – a proibição de entrar em banheiros
consiste na ideia de que eles irão “sujar” (sic) esse espaço:
Pessoal fala: Eh, morador de rua caga e mija nas ruas nas calçadas e está tudo
fedendo. Onde é que está o banheiro público? Não tem! Ele vai fazer na roupa,
não! Não sou contra, eu digo assim: cada um tem o que merece, o que plantou
para si. Agora eu fico indignado, quando tem dois pesos e duas medidas. Se o
morador de rua, está mijando aqui na rua vem a polícia e advoga dizendo que é
atentado ao pudor. Agora se é os boyzinhos da faculdade de direito, fazendo
aqui no Largo, aí só falta o policial mostrar o bilau dele porque ele pode.
63
abraço e um beijo; bate fotos. Depois daquele momento, nego passa e vê o
morador de rua e desconhece. Então esta experiência que você vai pegando,
você começa a notar esta questão da sociedade ser podre. Porque quando eu
falo da sociedade, eu falo de uma conjuntura geral, assim religiosa e tudo mais,
né. Mostra esse lado, quem está na rua vê este lado negativo (sic).
64
direito quando, por exemplo, esse acesso é barrado por falta de
documentação, de endereço fixo etc., haja vista que para ter acesso à
saúde, a pessoa precisa apresentar um comprovante de residência (no
caso da PSR’s, o equipamento social de atendimento à população de
rua e, na prática, esses equipamentos não atendem toda a demanda
da população). Como apresentado por Esão quando se referiu à lei
municipal que impunha a existência do Albergue na cidade de São
Paulo: “[...] Tá na lei [...] só que isso não tem” (sic).
Vimos anteriormente que, ao saber da morte da esposa e do filho
e de ter o acesso negado às informações, em função de se achar em
situação de rua, Eseu se articulou e se tornou um dos iniciadores do
Movimento de Pessoas em Situação de Rua em São Paulo. A partir da
união com seus pares, nosso narrador, obteve alguns avanços, dando
um exemplo concreto de que as alianças fortalecem as pessoas e
acenam, minimamente, a possíveis rompimentos nos quadros de
precariedade a que estão impostos (BUTLER, 2018).
Note-se que como resultado de movimentos semelhantes em
várias cidades do Brasil e por ocasião da ascensão de um partido
progressista que tinha como pauta central a defesa dos direitos
humanos, em 2009, foi aprovada a PNPSR, já mencionada. A referida
política, instituída pelo Decreto n. 7.053/2009 traz entre seus princípios
o respeito à dignidade, à vida e à cidadania da pessoa humana (BRASIL,
2009). Contudo, observamos que, a despeito da lei, a situação de
nosso narrador continua se perpetuando rotineiramente, quando nos
deparamos com notícias nos jornais que, cotidianamente, trazem as
violações dos direitos humanos e cidadania dessas pessoas, como no
exemplo recente da mulher que deu à luz na calçada de uma
maternidade no Estado do Acre (DIA A DIA NOTÍCIA, 2022). Situações
como essa nos fazem perceber claramente, que nem todas as vidas são
tidas como humanas e, portanto, acabam não existindo efetivamente
para as políticas públicas, embora, supostamente, tenham sido
elaboradas em seu favor.
Para além da possibilidade de articulação política, pertencer ao
grupo tem outra importância para pessoas em situação de rua: podem
significar proteção, cuidado, união e sentimento de pertença. É
comum que essas pessoas formem grupos, nos quais simulam uma
família com mãe pai e irmãos e se protegem uns aos outros. Andar e
65
dormir em bando pode significar a defesa contra as violências
circundantes (SILVA, 2020).
Podemos perceber que há também nessa formação a busca por
reconhecimento tão caro aos sujeitos (HONNETH, 2003) e o
sentimento de pertencer a uma comunidade. Conforme Honneth
(2013), a participação em grupos faz parte do processo de socialização
das pessoas, se mantendo ao longo de sua vida como importante, por
gerar a sensação de pertencer a uma comunidade de valores. Embora
as pessoas em situação de rua sejam percebidas como formas de vida
anômalas, arrestadas das possibilidades de uma vida considerada
“vivível” por estarem fora dos padrões normativos vigentes, ao
escutá-los e vê-los sob a perspectiva de um outro olhar, percebemos
as táticas que eles desenvolvem para continuar existindo.
Da fala de Esão no final do encontro, percebemos certo orgulho
de si e de seus pares quando diz reconhecer o “morador de rua” (sic)
como ambientalista. O narrador nos conta que, embora isso não
apareça pela norma da sociedade, a população em situação de rua
contribui significativamente para a preservação do meio ambiente
associado ao ofício da reciclagem:
Morador de rua ele,....eh.... é ambientalista, ele luta pelo meio ambiente, porque
ele que faz a coleta do material reciclável, ele não coleta lixo, ele coleta o
material reciclável. Não é pegar o lixo. Ele é o camarada que mais cria, porque
pela necessidade que ele passa tanto na rua, ele é obrigado a criar alguma coisa
para a sobrevivência dele. É uma comunidade que mais se organiza e mais lutam
em conjunto em grupo. É o contrário da sociedade. Você tem em uma casa oito
filhos, o mais velho vai cuidar do mais novo. Na rua não, o mais novo cuida do
mais velho.
66
Após o gravador ser desligado, Esão diz que tem tudo aquilo de que
precisa para viver. Olho ao redor e vejo um computador, ele me mostra as
fotos dos filhos e netos que a experiência de ter passado pela situação rua
lhe deu. Há estantes com livros velhos de que nosso narrador se orgulha,
pois fazem parte dos projetos que desenvolveu posteriormente para que
todas as pessoas tivessem acesso aos livros. E, do ponto de vista afetivo
da sua história, há o cachorro que o acompanha sempre pelo
escritório/casa. Tudo de seu mundo é impregnado de biografia e memória
da nova história que escreveu na selva de pedras como costuma chamar.
Os objetos a nós mostrados rompem com a lógica de que tudo é
descartável: por exemplo, o livro usado que empresta para outras
pessoas, tem as marcas de quem já leu.
Embora em seu testemunho haja muito de sofrimento pela perda da
dignidade, Esão se considera um vencedor, pois, em um pequeno espaço,
vive em comunidade, tem uma família que construiu por laços afetivos e
consegue, mesmo com duros golpes, lutar por reconhecimento social.
Venceu, porque, já idoso, tem a quem contar suas histórias, suas lutas –
ou, como diria Bosi (2003, p.206): “O velho, na comunidade, quer
aprender os novos cantos e ensinas os antigos cantos de outrora. Sua
identidade precisa ser reconhecida; sua memória, preservada”. Seus
relatos estão gravados em entrevistas, livros e poemas. Apesar de tudo o
que viveu, Esão venceu pela coletividade!
Sínteses possíveis
67
interrompida. Sobretudo, há alguém que foi desumanizado. De
próspero fazendeiro à morador de rua, há um processo de perda de
liberdade, de dignidade. Também, há um processo de mudanças do/no
corpo, da/na sua subjetividade e objetividade, o que se evidencia na
extorsão de uma história de vida. Para Bosi (2003, p.163) “não há
memória para aqueles que a nada pertence[m]”.
Vemos esse cenário no quanto os únicos objetos biográficos
encontrados na casa coletiva/escritório de Esão são apenas algumas fotos
com pessoas em situação de rua, tornados seus filhos e suas filhas. Não
há nada para se guardar do Esão fazendeiro. Encontramos na narrativa de
Esão o resgate da lembrança de processos de violência ética, de abjeção
do corpo e de ausência de políticas efetivas do Estado.
Nosso narrador carrega em seu relato o desejo de denúncia. Em
muitos momentos, quando fala da violência policial e do massacre da
Sé, ao mesmo tempo em que carrega em seu discurso a necessidade
de não resignação e desejo de mudança, concentra-se em seus pares
para construir um movimento social de PSR, passando a ocupar o
conselho de Direitos Humanos na Câmara Municipal.
Assim como as tramas que entrelaçam fios diversos de um
trabalho artesanal, a memória individual de Esão é colada à memória
coletiva. Percebe-se isso em momentos da sua narrativa em que, por
exemplo, irá falar da condição dos albergues e das suas limitações,
traçando um paralelo com o momento em que passou por eles. Ou,
então, quando se vale do pronome “nós”. A noção de individuo
deformada por uma cultura com imperativos neoliberais não o
atravessa, pois, em sua casa, que é o escritório onde vive e trabalha
para o movimento social, nada é individual, mas sim pensado a partir
da noção de comunidade.
Nesse sentido, se a rua é o lar inevitável para algumas pessoas,
logo é necessário que se limpe seus resíduos. Além disso, a reciclagem
ao mesmo tempo tem o sentido de responsabilidade com a sociedade,
por ter como elemento a preservação do meio ambiente,
configurando-se como uma atividade que devolve um pouco da
dignidade perdida à noção de sujeito para a pessoa em situação de rua.
Por fim, como síntese, Esão nos apresenta outra perspectiva de
viver no coletivo – o sentimento de comunidade. Movido pela
solidariedade nas relações, é, possível, ao seu ver, garantir com que
todas as pessoas tenham a dignidade que valora o constructo de
68
humanidade. Sendo a sua segunda síntese, a ideia dinâmica de que se
“vai vencendo”(sic)., isto é, mesmo com todas as ações que ferem e
ceifam os direitos da PSR, não é possível se resignar, afinal como
postula Butler (2015) o reconhecimento não é uma questão de
retórica, mas uma emergência a ser tratada.
Entendemos que, na estrutura social, temos muitos Esãos que
lutam para transformar a realidade do outro e, com isso, transformar
a si mesmo. Diante das exposições feitas, esperamos que este breve
relato seja objeto de reflexão para inspirar outras formas ainda não
mensuradas de reconhecimento da população em situação de rua,
assim como para promover mais políticas públicas factíveis de serem
cumpridas, visando à erradicação de políticas de morte associadas a
essa população.
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69
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71
72
VIVÊNCIA EM PESQUISA JUNTO À POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE
RUA: relato de experiência
Introdução
73
Compreende-se aqui que esses e outros fatores contribuem para
consolidação da invisibilidade do indivíduo em situação de rua, o qual
acaba sendo definido como um ser sem histórias, sem aspectos
individuais e inerentes à sua trajetória. Sua condição de
vulnerabilidade social acaba redobrada, concretizando-se por meio de
elementos como dificuldade de acesso a serviços de saúde, educação,
trabalho e renda (SILVA JUNIOR & BELLOC, 2018)
As políticas e ações de auxílio a essa população, ainda que
importantes e de grande ajuda, não são soluções concretas para
muitas dessas necessidades não observadas. É preciso, ainda, destacar
e reivindicar os princípios que estão especificados na definição do
Sistema Único Saúde (SUS), a saber, universalidade, integração e
equidade (PAIVA et al., 2016).
Pesquisas a nível nacional evidenciam o aumento da
vulnerabilidade entre os sujeitos que se encontram em situação de rua,
mostrando que as condições de saúde afetadas por patologias
presentes entre aqueles em condição de rua e idosos os impediam de
trabalhar e de conseguir recursos financeiros para a subsistência,
contribuindo para a permanência crônica e prolongada destes nas ruas
(DE MATTOS et al., 2016).
Entretanto, não se pode culpar um ou dois fatores como se todo
o problema da situação de rua se originasse de forma linear e
unilateral, visto a incidência de vários fatores políticos, econômicos,
culturais e sociais, multidimensionais, complexos e de causalidades
distintas e diversificadas (FIORATI et al., 2016). É necessário pensar
nessa multidimensão de fatores causais ao se analisar a decorrência da
situação daqueles em condição de rua.
Entende-se nesse documento a necessidade de intervenções
inovadoras que possibilitem a mobilização social e a necessidade de
inserção dessa população que se encontra completamente excluída.
Essa exclusão ocorre, talvez, em decorrência da negligência para com
as condições gerais autorrelatadas por aqueles que vivem esse
contexto todos os dias de suas vidas (DE OLIVEIRA PEREZ et al., 2014).
A luz das evidências apresentadas, torna-se extremamente
necessário entender as condições de vida e saúde dessa população,
como se dá o seu viver nas ruas a partir dos relatos e descrições
daqueles envoltos nesse contexto, perceber a sua vivência para além
74
dos estigmas. Para isso, é preciso privilegiar as percepções dos que
estão ou estiveram em contato direto com tais relatos.
Este capítulo trata de um estudo descritivo, reflexivo-teórico, na
modalidade relato de experiência, originado a partir da vivência com
um macroprojeto de pesquisa desenvolvido junto a essa população,
desde Outubro de 2019, em uma capital nordestina do Brasil. O projeto
se intitula Uso de álcool e outras drogas, transtorno mental comum e
violência entre a população em situação de Rua, sob coordenação
acadêmica da docente orientadora. A pesquisa está devidamente
cadastrada na CPESI-PROPESQI da Universidade Federal do Piauí-
UFPI, contando com a autorização da Secretaria Municipal de
Cidadania, Assistência Social e Políticas integradas- SEMCASPI de
Teresina-Piauí. Igualmente, a pesquisa fora aprovada pelo Comitê de
Ética em Pesquisa- CEP da UFPI, parecer nº. 3.152.268, em 18 de
Fevereiro de 2019.
A aplicação dos questionários para pessoas em situação de rua foi
realizada por estudantes de Enfermagem envolvidos no projeto. O
instrumento de pesquisa abordava os aspectos sociodemográficos, as
condições de vida e saúde, o sofrimento mental, a violência e o uso de
substâncias psicoativas da PSR. Em seguida, os estudantes
participantes responderam a um questionário acerca das suas
experiências e percepções frente à participação no projeto.
Doravante, será descrita a vivência de um deles, coautor desse escrito.
Juntamente, realizou-se uma revisão da literatura científica, por
meio de duas buscas avançadas feitas através da Biblioteca Virtual em
Saúde (BVS), para maior compreensão do que outros estudos dizem
acerca do tema, comparando percepções e resultados com as
vivências do estudante supramencionado. A bibliografia erigida fora
também relevante para a fundamentação teórica dos resultados e
discussão aqui apresentados.
Os descritores utilizados foram selecionados a partir de consulta
aos indexados nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS). A
primeira busca foi feita usando os descritores “Pessoas em Situação
de Rua”; “Abuso de Substâncias” e “Fatores de Risco”, utilizando o
operador booleano AND entre cada um dos três termos. Os estudos
foram incluídos a partir do idioma em que estavam escritos
(Português, Inglês e Espanhol), ano de publicação (foram utilizados
artigos publicados nos últimos cinco anos para maior atualidade de
75
dados a serem aprofundados na discussão). Houve a focalização da
população e das problemáticas de interesse para o presente estudo.
Foram excluídos os estudos que não permitiram uma compressão das
situações de vida da população em situação de rua, assim como
aqueles que não focavam nessa parcela da população.
A segunda busca utilizou os descritores “Pessoas em situação de
rua” AND “Abuso de substâncias” AND “Prevalência”, com os mesmos
critérios de inclusão e exclusão. Artigos encontrados aleatoriamente à
busca foram utilizados para maior quantitativo e precisão de dados
comparativos.
Resultados e discussão
76
A participação no macroprojeto foi uma experiência de magnitude
tão grande, que toda essa percepção mudou. Apesar dos questionários
de caráter objetivo e abordagem quantitativa da pesquisa, muitos dos
entrevistados conseguiam se abrir completamente em relação às suas
vivências e experiências, relatando situação e histórias de vida por vezes
chocantes. Alguns chegavam a chorar, após certa relutância inicial em
aderir à participação; outros se sentiam muito tocados pelo conteúdo
dos instrumentos utilizados, como se o falar os permitissem
momentânea catarse de toda a sua vivência.
Os relatos que foram expostos pela amostra da pesquisa levaram
a compreender essas pessoas como seres humanos envoltos,
diariamente, num ambiente sem esperanças, sem grandes
possibilidades, com condições de vida horríveis, com descaso por
parte das autoridades e com a prevalência da fome e da miséria. A falta
de oportunidades dessa população é bem documentada. Por exemplo,
diversos estudos, embora com algumas divergências entre os achados,
apontam como nível de escolaridade majoritário o ensino fundamental
ou médio completo ou incompleto (BARROS et al., 2018; LEE et al.,
2017; BROWN et al., 2016; DUNEE et al., 2015; BARMAN-ADHIKARI et al.,
2019; SKYERS et al., 2017), com prevalências de até 64% para
analfabetismo/ensino fundamental incompleto em amostras
brasileiras com 128 mulheres (VILLA et al., 2017).
A falta de oportunidades também se apresentou, assim como a
miséria inerente, às condições ocupacionais da população de rua.
Nenhum dos entrevistados com os quais o acadêmico de enfermagem
teve contato possuía emprego formal, com muitos relatos de
condições socioeconômicas precárias. Na verdade, os altos índices de
desemprego não são novidade entre a população em situação de rua.
Prevalências recentes e assustadoras de 90,1% de desemprego entre
aqueles que habitam as ruas já haviam sido documentadas na Jamaica,
por meio de um estudo transversal com 566 participantes conduzido
em 2015 (SKYERS et al., 2017).
A vivência com o macroprojeto, por meio da aplicação dos
questionários, permitiu conhecer mais acerca das problemáticas que
se concretizam como parte integral do dia-a-dia nas ruas, como os
vícios e as condições de saúde por vezes ruins.
Uma verdadeira minoria dos entrevistados reportava não utilizar
substâncias psicoativas, de qualquer natureza. A maioria dos
77
entrevistados apresentava vícios e uso frequente de variadas SPA, a
qual, pela percepção do participante entrevistador, eram
principalmente tabaco, álcool, cocaína e crack. Isso vai ao encontro dos
achados de diversos autores, os quais incluem ainda exacerbados níveis
de uso da cannabis, metanfetamina e opiáceos (MILLER-ARCHIE et al.,
2019; BRUNINI et al., 2018; LAPORTE et al., 2018; SPINELLI et al., 2017;
BARROS et al., 2017; BROWN et al., 2019; SKYERS et al., 2017; GOZDZIK et
al., 2015; BARMAN-ADHIKARI et al., 2019; FLETCHER & REBACK, 2017).
Essas percepções não diferem muito do que se documenta acerca
dessa população. Existe clara relação entre o morar emalbergues e o
risco de consumo e dependência de substâncias psicoativas, com
percentuais assustadoramente altos de abuso de drogas sendo
evidenciados por diferentes autores, com comparações
estatisticamente significativas (VARGAS et al., 2018; BARROS et al.,
2017; HALPERN et al., 2017; BROWN et al., 2016; RILEY et al, 2015).
O status em contexto de rua, juntamente ao problemático status
de usuário de substâncias psicoativas, leva o indivíduo a adquirir marcas
sociais, sendo estigmatizado a esses status (SOUZA et al., 2016).
Em estudo de coorte retrospectivo com dados de 411 prontuários
de mulheres que buscaram tratamento especializado para uso de
substâncias psicoativas, de um serviço de tratamento especializado
para transtornos por uso de SPA da cidade de São Paulo, estado de São
Paulo, Brasil, coletados durante o ano de 2011, referentes a 2002-2010,
o uso de múltiplas drogas incluindo cocaína e I demonstrou associação
com o morar nas ruas e em albergues (VARGAS et al., 2018). Relações
de significância também são apresentadas por Halpern et al., 2017, em
seu estudo com 564 usuários de crack que buscaram tratamento em
Centros de Atenção Psicossocial para Álcool e Drogas (CAPSad) de seis
capitais brasileiras, dentre os quais a parcela da amostra que, em
algum momento, morou nas ruas ou em abrigos, mostrou médias mais
elevadas e estatisticamente significativas em relação ao consumo de
álcool (HALPERN et al., 2017).
Semelhantemente, Barros et al., 2017 documentou, por meio de
delineamento transversal, prevalências de 74.9%, 37.9%, 53.1%, 38.1% e
17.8% para o uso de álcool, maconha, crack, cocaína intranasal e outras
substâncias, respectivamente, entre uma amostra de 481 homens
adultos em situação de rua em Goiânia, Brasil, (97.7% dos quais já
utilizaram alguma SPA durante a vida) tudo isso apenas nos 30 dias
78
anteriores à sua pesquisa, conduzida entre agosto e novembro de 2015
(BARROS et al., 2018).
A presença do álcool enquanto SPA mais prevalente entre a
população em situação de rua é outro fator de semelhança com a
literatura consultada (MILLER-ARCHIE et al., 2019; BRUNINI et al.,
2018; LAPORTE et al., 2018; SPINELLI et al., 2017; BARROS et al., 2017),
assim como do tabaco (BROWN et al., 2019; GOZDZIK et al., 2015;
SKYERS et al., 2017).
As condições de saúde ruins e regulares também são descritas em
outros estudos (SPINELLI et al., 2017). A exemplo, relatos de saúde
considerada ruim ou regular foram registradas entre 156 usuários de 7
abrigos situados no estado de Kansas, EUA, enfrentando a falta de
moradia após a recessão econômica de 2008, com prevalência de
42,6% (LEE et al., 2017).
As motivações foram o que mais marcaram o entrevistador.
Grande parte das pessoas entrevistadas relatou estar em situação
de rua por decorrência de conflitos familiares. Então, eles não
tinham pra onde ir, estavam sem renda, sem emprego, sem apoio
familiar e, muitas vezes, viciados em uma ou mais SPA, com o estado
de saúde debilitado...
Um homem expressou não querer que os filhos o vissem em tão
complicado estado. Outros falavam da mãe, o único apoio no mundo;
em decorrência do falecimento da mãe, muitos não encontravam
apoio nos demais membros da família e, igualmente, passaram a não
ver saída que não as ruas. Outro citou uma experiência de conflito com
o pai dele por conta da orientação sexual. O pai o expulsou de casa e
sua morada passou a ser a rua. Em verdade, o entrevistado falou dessa
situação como um exemplo hipotético; entretanto, a forma detalhada
e específica como ele discorreu sobre exemplo levou-nos a pensar se
aquela não seria a história de vida dele, e de alguma forma, ele não
tivera conseguido falar abertamente sobre, valendo-se da
exemplificação como forma de desabafo.
A ajuda que é recebida por algumas dessas pessoas, embora
extremamente importante e altamente necessária, acaba se tornando
insuficiente. Eles não estão ali por desejo próprio, nenhum está. Foram
motivados por circunstâncias, principalmente conflitos familiares, o
que se correlaciona ao uso abusivo de álcool e ao sofrimento mental
(VILLA et al., 2017).
79
As experiências com a pesquisa permitiram identificar, através das
falas dos entrevistados, altos níveis de sofrimento mental entre eles. A
grande maioria atingia a pontuação do instrumento utilizado para aferir
níveis de sofrimento mental. Era raro tal pontuação não ser alcançada, e
alguns afirmavam, por meio da entrevista, sofrer com todos os problemas
psicossomáticos em relação aos quais eram questionados.
A saúde mental da PSR é um ponto de bastante destaque em se
tratando da saúde dessa população. Diversos autores mostram serem
alarmantes as prevalências de transtornos mentais e psiquiátricos
nessa população, como a depressão, o estresse percebido, o estresse
pós-traumático, os transtornos psicóticos como esquizofrenia,
ansiedade, fobias específicas e transtorno de personalidade antissocial
(GOZDZIK et al., 2015; BARMAN-ADHIKARI et al., 2019; BROWN et al.,
2019; LAPORTE et al., 2018; FLETCHER & REBACK, 2017).
No aspecto social, a experiência com o macroprojeto aumentou a
compreensão sobre a situação dessas pessoas e , por conseguinte, a
empatia, especialmente após ouvir tantas histórias de vida, a maioria
marcada por muitos dilemas, vícios dentre outros.
Consequentemente, a experiência nos levou à reflexão do quanto
esses indivíduos sofreme do quão difícil, degradante, competitiva e
violenta é a situação da rua. Esses sujeitos dependem de instituições
para se alimentar, alguns tomavam banho no Centro de Atenção
Psicossocial, alguns apresentam claras patologias psiquiátricas. Alguns
compareciam todos os dias; outros, apenas alguns dias e outros
compareceram uma única vez e não mais voltaram.
No aspecto acadêmico, a experiência permitiu ao estudante de
Enfermagem grande evolução, desde as habilidades de conversação e
de escuta, até às de pesquisa, pela utilização dos instrumentos
componentes dos questionários e demais aspectos.
Considerações finais
80
substâncias psicoativas, as quais apresentam taxas alarmantes entre
essa população.
Trata-se de uma parcela da população completamente
negligenciada, carente de atenção e de auxílio por parte da sociedade
e das instituições governamentais e/ou filantrópicas. São carentes,
também, de serem devidamente ouvidos e compreendidos enquanto
indivíduos com necessidades plurais e singulares, com experiências de
vida e personalidades completamente únicas. Existem programas e
intervenções, porém muito mais precisa ainda ser feito.
Em relação às estratégias de intervenção que podem ser aderidas
em prol do manejo das condições gerais desses indivíduos, citam-se,
principalmente, as intervenções em saúde mental e a reabilitação por
uso de SPA. A maioria das pessoas com quem tivemos contato durante
as entrevistas, como discutido, relatava histórico de muito sofrimento
mental, de uso constante de álcool e outras drogas, principalmente o
crack. Isso ressalta a importância de ações urgentes em resposta a
essas condições.
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83
84
COTIDIANO E TÁTICAS DE
SOBREVIVÊNCIA
85
86
O PRAZER DE COMER POR MULHERES EM SITUAÇÃO DE RUA E O
DIREITO HUMANO À ALIMENTAÇÃO ADEQUADA:
obstáculos e estratégias
Fernanda Sabatini
Ramiro Fernandez Unsain
Priscila de Morais Sato
Fernanda Baeza Scagliusi
Introdução
87
registro exaustivo em diário de campo e conversas informais com
mulheres em situação de rua ou mesmo com outros autores sociais
que permeiam a vida destas. Tais observações ocorreram em
audiências públicas, oficinas ou eventos junto a cooperativas,
coletivos e movimentos ligados aos direitos das pessoas em situação
de rua que atuam na região central da cidade de São Paulo, construídos
também com a participação de mulheres em situação de rua. Os nomes
que trazemos neste capítulo são fictícios e não há nenhuma menção a
características pessoais únicas que venham a ferir o anonimato delas.
88
(CÂMARA, 1987, p. 110), atrelada às forças de produção material e
intelectual de uma dada sociedade, que produzem classes sociais,
perspectivas ideológicas e relações sociais (CÂMARA, 1987; MARX
1975). Sob a perspectiva que Câmara (1987) nos traz, é importante
notarmos que a estrutura social do Brasil é forjada em forças de
produção e relações sociais coloniais escravagistas, que se pautaram,
primeiramente, na racialização negativa da pessoa negra e,
posteriormente, nos modos de produção e nas relações sociais
capitalistas, cujas classes sociais trazem as marcas desta racialização
histórica e cujas dinâmicas produzem e reforçam as desigualdades
sociais, política e econômica - não apenas a partir das dimensões da
raça e classe, mas também pela intersecção de sistemas de opressão2
pautados nessas dimensões e em outras, como a de gênero
(AKOTIRENE, 2019; COLLINS, 2016; hooks, 1984).
As pessoas em situação de rua são um grupo heterogêneo em
termos de histórias de vida e de características pessoais. Por isso, são
acometidas de maneira também heterogênea pelos sistemas de
opressão. Falar das mulheres em situação de rua no Brasil,
especialmente em São Paulo, é falar sobre os diferentes sistemas de
opressão de uma sociedade que ainda é estruturada politicamente e
culturalmente nas desigualdades interseccionais de gênero, de raça e
de classe (LEÃO et al., 2017). A situação de rua é tanto uma
consequência dessas desigualdades, quanto uma potencializadora de
sistemas de opressões. Isso se reflete, por exemplo, nos números que
apontam serem pretas ou pardas a maior parte das mulheres em
situação de rua na cidade de São Paulo (SMADS, 2019).
As mulheres em situação de rua vivenciam o extremo desse
sistema de opressão (ONU, 2020; RAMOS, 2018; BRASIL, 2009).
2 A ideia de “sistemas de opressão” é refletida por intelectuais negras, como Patrícia Hill
Collins (2016), bell hooks (1984) e Carla Akotirene (2019), para transmitir a reflexão
epistemológica de interseccionalidade. Quando citamos “sistemas de opressão”
estamos nos remetendo à noção de interseccionalidade cunhada por intelectuais
negras. Raça, gênero e classe, dentro da perspectiva de interseccionalidade, são
exemplos de sistemas estruturais de opressão e de dominação que necessariamente
interagem entre si para atuarem nas identidades de coletivos e indivíduos. Para maior
compreensão do conceito de interseccionalidade, recomendamos, além das autoras
citadas, a leitura de “Demarginalizing the Intersection of Race and Sex: A Black
Feminist Critique of Antidiscrimination Doctrine, Feminist Theory and Antiracist
Politics.” (CRENSHAW, 1989).
89
Segundo boletim epidemiológico do Ministério da Saúde de 2019, entre
2015 e 2017, 17.386 das notificações individuais de violência
interpessoal/autoprovocada registradas no Sistema de Informação de
Agravos de Notificação (Sinan)3 no Brasil tiveram como motivo a vítima
estar em situação de rua. Destas, 50,8% das notificações referiam-se a
violências destinadas a mulheres, sendo 54,8% a pessoas pretas ou
pardas. Quanto à identidade de gênero, as mulheres trans constituíram
1,7% das notificações de violência motivada pela situação de rua (BRASIL,
2019). Algumas das razões para as mulheres se verem na situação de rua
são a tentativa de escapar de violências domésticas, o desemprego ou a
falta de autonomia financeira inscritas à falta de emprego de parceiros
conjugais em relações heteronormativas (SMADS, 2019). Ainda,
interferem nessas razões as dificuldades sociais e familiares impostas à
vivência de identidades de gênero de mulheres trans. O cuidado integral
dessas mulheres e a promoção de seus direitos perpassam, portanto, a
desconstrução de negligências históricas.
Por isso, pensar em DHAA para as mulheres em situação de rua é
pensar políticas que abranjam os problemas estruturais do Brasil,
como a falta de acesso aos meios de produção e à aquisição do
alimento (ex.: falta de moradia); a falta de acesso à renda permanente
(ex.: desemprego); a dificuldade de acesso a uma alimentação
culturalmente coerente com quem come e às estigmatizações
relacionadas à pobreza (classe social), ao gênero e à raça.
Sob esse olhar analítico e teórico, podemos compreender que o
DHAA e o acesso à alimentação adequada estão atrelados a processos
de construção de justiça social4, os quais somente são passíveis de
ocorrer a partir do reconhecimento dos múltiplos sistemas de
opressões que recaem sobre os indivíduos e coletivos (CONSEA, 2007;
PARANHOS et al., 2018; WERLE, 2014; RAWL, 2000; COLLINS, 2016).
O DHAA é um direito que abrange não apenas pessoas em
extrema vulnerabilidade social. A construção efetiva do DHAA dá-se de
90
maneira intersetorial também, porque, para cada coletivo, políticas
que abranjam diferentes dimensões de vulnerabilidades precisarão ser
trabalhadas. No caso da população em situação de rua, a Política
Nacional da Pessoa em Situação de Rua (PNPSR) prevê o DHAA a partir
do objetivo de implementar políticas de SAN voltadas para esse grupo.
Faz parte dos objetivos da PNPSR “implementar ações de segurança
alimentar e nutricional suficientes para proporcionar acesso
permanente à alimentação pela população em situação de rua à
alimentação, com qualidade [...]” (Inciso XIII, do artigo 7º do decreto
nº 7053 de 23 de Dezembro de 2009).
Algumas das ações atinentes à garantia de alimentação adequada
para a população em situação de rua são equipamentos públicos da
política da SAN, como restaurantes populares e banco de alimentos,
além de serviços de acolhimento, como albergues e centros
temporários. Porém, torna-se indispensável para o processo de
construção de justiça social e do DHAA o poder de exigências políticas
exercido, principalmente, por movimentos sociais ligados à pessoa em
situação de rua. Esses movimentos reivindicam como prioridade deste
processo de construção de DHAA o acesso a outros direitos básicos,
como moradia.
É notório, portanto, que o acesso à alimentação adequada
perpassa as particularidades de cada coletivo. A partir de reflexões e
pesquisas de autores que consideram os processos coloniais e
decoloniais, como Collins (2016), hooks (1984) e Akotirene (2019),
reconhecemos que a intersecção de opressões vivenciadas
estruturalmente por mulheres em situação de rua as estigmatiza e as
desumaniza a partir, por exemplo, da deslegitimação, da objetificação
ou da negligência de seus prazeres, desejos e subjetividades.
Reconhecer seus prazeres e valorizá-los, tanto nos estudos
acadêmicos, quanto nas políticas públicas, é um caminho para a
desconstrução de disparidades físicas, materiais e simbólicas que
foram sendo forjadas historicamente. Falar de prazeres é falar
também de construção de identidades. Conforme refletiu o filósofo
italiano Nicola Perullo (2013), o prazer em comer é também um
sentimento que possibilita a construção de memórias, de percepção de
auto conexão, que constrói ou apresenta subjetividades e identidades.
Em 2007, o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e
Nutricional (CONSEA) definiu de maneira ampliada o conceito de
91
alimentação adequada e saudável, marcando em sua definição a
alimentação enquanto um direito humano básico para a população
brasileira, valorizando dimensões socioculturais dos sistemas de
produção e de consumo alimentar e considerando a importância do
prazer para uma alimentação adequada:
92
família (dois filhos e o marido Firmino), os pesquisadores teceram uma
discussão que apresenta um pouco das relações subjetivas que esses
sujeitos estabelecem com a própria alimentação. Ronaldo cozinhava
em um fogão de acampamento; Raimunda, além do fogão
improvisado, se utilizou de uma fogueira improvisada para cozinhar
para os pesquisadores, ambos em barracas montadas. Os autores
discutiram que, no ato de cozinhar dos seus entrevistados, havia uma
possibilidade de construção de identidades, de memórias, de projetos
e de estruturas de um lar, mais do que uma forma de poderem se
alimentar. No estudo, era pelo cozinhar, pelas normas de convívio
diante da comida e pelo uso de utensílios de cozinha que estes sujeitos
sentiam-se em suas próprias casas e cozinhas, comendo à mesa.
A falta do direito à moradia no estudo de Jabur et al. (2015) não é
negligenciada ou esquecida; ao contrário, pode ser ressaltada pela
importância do sentido de lar na construção de identificação com o
próprio comer. O Guia Alimentar para a População Brasileira (BRASIL,
2014), norteado pela definição de alimentação saudável e adequada do
CONSEA (2007), e pautado também em contribuições teóricas como as
de Brillat-Savarin (2019), reconhece e propõe um caminho para
construção da alimentação adequada abrangente e coesa com a
complexidade da alimentação humana. Nesse sentido, apresenta
diretrizes que valorizam o prazer a partir de aspectos como:
possibilidade de tempo para comer; atenção aos sabores, aromas,
visões e texturas das comidas; possibilidade de comer em um
ambiente considerado tranquilo e agradável; possibilidade de comer
em companhias agradáveis e possibilidade de preparar o que se come.
O prazer em comer, nesse sentido, está atrelado às dimensões
culturais e sociais das relações humanas, que também influenciam nas
possibilidades de acesso ao que proporciona prazer, e também às
possibilidades de escolha: escolher com quem se come, escolher o quê
se come (pautado no que gosta ou não gosta), escolher onde se come
(BRASIL, 2014). Com isso, valorizar o prazer em comer em políticas e
diretrizes públicas é reconhecer o prazer enquanto direito e também
enquanto parte constitutiva do processo de construção e alcance dos
direitos humanos básicos. O prazer em comer, enquanto construção
subjetiva e coletiva, não é vivenciado por todas as mulheres em
situação de rua da mesma forma. Nosso intuito ao trabalharmos com
a ideia de prazer em comer é reconhecer a abrangência que o prazer
93
em comer concentra em sentido e significado, atrelá-lo à formação
cultural, social e política da sociedade, dos indivíduos e coletivos,
tratando-o como indispensável para o alcance de justiça social e
dignidade humana.
94
vender balas no farol). Em segundo, a fala de Camélia reforça as
questões teóricas que trouxemos na seção anterior, expondo a
necessidade de trabalhar a intersetorialidade de direitos humanos
para o alcance de justiça social e dignidade humana.
Camélia reivindicou moradia, a fim de vislumbrar por trabalho
digno. Isto pode ser um caminho para acessar também outros direitos,
como o DHAA. A terceira questão refere-se forma como a moradia foi
retratada na fala de Camélia. Trata-se de um lugar que possibilita
ocupação alinhada aos objetivos e desejos de vida, percebido como um
lugar de segurança, de privacidade e de autonomia para o trabalho. Ao
encontro dessa reflexão, outras conversas em campo sugeriram a
casa enquanto lugar também possível de se ter privacidade e
autonomia, como na conversa que tivemos com Maria Carolina: “A casa
seria um lugar de ter individualidade, minha individualidade respeitada.
Os companheiros desrespeitam [a individualidade], mexem nas
coisas...e os funcionários fazem vista grossa [se referindo à
permanência em albergues]”.
A ideia de “Moradia Primeiro” faz parte da pauta de movimentos
ligados aos direitos da população em situação de rua ao redor do
mundo (ONU, 2020; CSJ, 2017). Esse modelo de atenção à população
em situação de rua teve como local pioneiro Nova York, na década de
1990, e apresentou como proposta a oferta de moradia enquanto
porta de entrada para o cuidado especial à população em situação de
rua com agravos mentais (TSEMBERIS, 2010). O modelo “Housing
First”6, como é chamado nos países que o implementaram (Europa e
América do Norte, por exemplo)7, compreende a moradia individual
como direito humano fundamental e prevê o acesso à moradia
individual como primeiro estágio para uma reinserção social, inclusive
nos casos de pessoas em situação de rua que requerem suporte para
redução de danos ou abstinência quanto ao uso de substâncias
6 É possível conhecer mais a trajetória da abordagem “housing first” pelo Housing First
95
psicoativas (HALL et al., 2018). No caso da maior parte dos estados
brasileiros, a população em situação de rua tem acesso a diferentes
tipos de serviços de acolhimento e suporte social, incluindo a
permanência em albergues de pernoite coletivos e o acesso a núcleos
de convivência com atividades de lazer e/ou refeições. Porém, essa
população não tem garantido o acesso à moradia permanente, o que
complexifica e dificulta o trabalho da rede de atenção à saúde, assim
como a prospecção de sua reinserção social (SMS/SP, 2016; BRASIL,
2020). Além disso, a população em situação de rua no Brasil não é
definida enquanto grupo de risco geológico e social, o que também
refreia o acesso a programas de habitação (BRASIL, 2020).
Em Setembro de 2018, a pesquisadora em campo esteve em um
evento na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). O
evento “Nós votamos!” tratou de um encontro entre pessoas em
situação de rua, movimentos, organizações sociais e pastorais com os
candidatos e as candidatas ao governo de São Paulo nas eleições
daquele ano. Dentre os candidatos ao cargo de governo de São Paulo,
estiveram presentes no evento: professora Lisete (então filiada ao
PSOL), Ana Bock (então candidata a vice-governadora do candidato
Luiz Marinho, filiados ao partido dos trabalhadores - PT) e Marcelo
Cândido (então filiado ao PDT). O nome do evento explicita a intenção
e a demanda da população em situação de rua em ser vista e ouvida
pelas autoridades públicas: o povo em rua também vota, também
existe, também tem direitos. Assim, houve apresentação de propostas
e compromissos sobre as questões que permeiam o estar na rua no
estado de São Paulo. O evento contou com o apoio do Centro
Acadêmico XI de Agosto da Faculdade de Direito-USP e foi realizado
pelo Fórum da Cidade São Paulo.
Durante o evento, um dos assuntos mais comentados foi a demanda
do povo em situação de rua por acesso à moradia permanente, e não a
mais vagas de albergues. A frase “Moradia sim, albergue não” foi
proferida constantemente pelos movimentos e pessoas em situação de
rua no local. Após o evento, alguns dos presentes explicaram para a
pesquisadora o sentido de lutar por moradia e não por albergues, citando
o projeto “De Braços Abertos” enquanto referência de ação que havia
dado certo em suas próprias vidas e na vida de colegas. Este projeto foi
iniciado em 2013 pela prefeitura de São Paulo, organizando-se de maneira
intersetorial pautado na abordagem do “Housing First”. Um dos
96
fundamentos mais aclamados do projeto durante a conversa em campo
foi a oferta de moradia. No caso do projeto, estadas em hotéis,
acompanhadas pela oferta de vales refeições (para três refeições diárias)
e pela promoção de vagas de trabalho, como de varrição pública, para
pessoas em situação de rua, com salário proporcional às horas
trabalhadas na semana.
A oferta das vagas em hotéis não dependia do estar empregado,
o que proporcionava, segundo o grupo de pessoas que ouvimos no
evento, maior dignidade e acolhimento a quem procurava o projeto.
O objetivo do “De Braços Abertos” foi a mobilizar atenção e ação
frente à questão de uso de crack, álcool e outras drogas na cidade,
em um tripé alimentação-moradia-trabalho, a fim de um
planejamento menos higienista e, enquanto um projeto de redução
de danos, com baixa exigência aos inscritos (RUI et al., 2016). Em
soma aos relatos em campo, que exaltavam os resultados do projeto,
alguns dados públicos também apresentam resultados satisfatórios,
especialmente quanto à redução do uso de crack e de outras drogas
pelos inscritos, assim como boa adesão às vagas de trabalho e
percepção favorável dos participantes sobre os impactos do projeto
em suas vidas (RUI et al., 2016). O projeto “De Braços Abertos”,
contudo, foi interrompido, de maneira abrupta e não dialogada com
a população em situação de rua, em Maio de 2017 pela gestão de João
Dória, conforme explicado pelos participantes do evento e também
apresentado na etnografia de Alves et al. (2020).
Se a pauta de “moradia primeiro” já influenciava o projeto “De
Braços Abertos” em 2013, esta recebe aprovação pela plenária do
Comitê Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento da
Política Nacional para População em Situação de Rua (CIAMP Rua) em
28 de Julho de 2016, quando passam a ser priorizados conceitos e
metodologias de políticas públicas para as pessoas em situação de rua
que objetivassem o acesso a uma moradia segura e individual. Isso se
tornou um marco na priorização das ações para com a população em
situação de rua, uma vez que o acesso a outros direitos, como
alimentação adequada, passou a ser compreendido de maneira
contígua ao acesso à moradia, como ouvimos de um dos locutores do
movimento nacional da população em situação de rua durante o
evento da Faculdade de Direito: “Antes, priorizávamos [nós, ligados
a movimentos sociais da população em situação de rua] a
97
alimentação, mas não é possível falar sobre alimentação adequada sem
a garantia da moradia”.
A conquista de políticas públicas que possibilitam um maior acesso
à alimentação diária em quantidade adequada e qualidade nutricional
planejada a partir de equipamentos públicos, como os serviços de
acolhimento e restaurantes populares, possibilitaram, ao longo dos
anos, o avanço na luta por justiça social (BRASIL, 2013). Contudo, o
acesso à habitação é reconhecido pelos movimentos de pessoas em
situação de rua, enquanto um direito básico que proporciona bases
para a possibilidade de uma vida menos estigmatizada e mais
normalizada no que tange à estabilidade social e econômica; de uma
rotina diária mais autônoma e de oportunizar a construção de
identidade, privacidade e liberdade (EUROPEAN REPORT, 2013). Nesse
sentido a Ângela mulher em situação de rua que conhecemos durante
nosso trabalho de campo traz: “Se você não tem uma moradia, não dá
pra ser normal. Tem coisas que servem pra sua saúde mental: ir num
cabeleireiro, comprar um negócio que você quer, ter dinheiro pra ir
numa biblioteca, comer o que você quer, ter moradia […].”.
Camélia, Maria Carolina e Ângela falaram sobre o poder habitar
enquanto construção de autonomia. Essa autonomia aparece a partir
da moradia enquanto espaço simbólico e físico facilitador do
desenvolvimento de um trabalho, da garantia de um ambiente privado
e coerente com o estilo de vida almejado por elas, ou de um espaço em
que os desejos do que se come e do que se vivencia são facilitados.
Mais uma vez, Ângela constrói esse conhecimento: “Quando eu tiver
minha casa, ah, vou comer na minha casa mesmo! Vou fazer uma
comidinha e quando não tiver afim, eu peço, uma coisinha assim, uma
pizza [sorriu].”. O prazer enquanto resultado das possibilidades de
escolhas (o que se come, com quem se come, onde se come, quando
se come e como se come) e também enquanto resultado e propiciador
da vivência e construção identitária, permeia, nesse sentido, as falas
em campo e a reivindicação por direitos básicos, tornando-se
estratégia para o alcance de uma alimentação mais coerente com seus
desejos e com o que consideram adequado para si.
98
O olhar disciplinador e punitivo para com as mulheres em situação
de rua: obstáculos frente ao DHAA
8 A noção de corpo que Foucault traz desde pelo menos a década de 70 marca os
estudos na temática até hoje em dia, e traz à tona o corpo enquanto produto e
produtor de poder disciplinante a partir de dimensões como: subjetivações, desejos,
prazeres, sexualidades. E nesse sentido, o de dar o contorno subjetivo e atrelado ao
prazer e ao controle dos prazeres, é que Foucault torna-se uma referência importante
de trazermos. Para uma visão mais interdisciplinar, abrangente e crítica sobre as
temáticas do corpo, recomendamos a leitura de RAGO (2004), que atravessam autores
como o próprio Michel Foucault, mas também Gilles Deleuze, Jacques Derrida e Walter
Benjamim, além também de olhares epistêmicos feministas.
9 Foucault (2016) apresenta as mudanças nas formas de punição física principalmente
99
terem suas comidas ou marmitas reviradas ou modificadas após
manifestarem desaprovações ou embates pessoais em serviços de
acolhimento com funcionários. Em seus relatos, contam que
experienciam, enquanto usuários de serviços de acolhimento e
alimentação, tratos diferentes vindos de alguns funcionários e
colaboradores a depender do quão obedientes são às regras ou o quão
silenciados ficam diante de suas discordâncias nesses serviços. Em suas
percepções e experiências, realizar reclamações de funcionários desses
serviços, por exemplo, pode culminar em punições como a retirada da
carne na marmita recebida naquela semana, ou, ainda, maior rispidez na
fala e no contato com o serviço.
O caráter disciplinar confere utilidade econômica e política a esses
corpos, à medida que aumenta o poder político de quem busca
discipliná-los. Aquilo que desvia de sua utilidade política e econômica
para o poder vigente torna-se alvo de coerções morais implícitas. Há
uma racionalidade corporal construída pelos poderes vigentes10, que,
quando desviantes, são passíveis de punição. Os dispositivos punitivos
das sociedades, como a prisão, ou o manicômio, entre outros, não
apenas punem, mas também delimitam o que é punível. À medida que
agem, produzem padrões de comportamentos, ações, vidas, desejos,
paixões, prazeres e instintos puníveis (FOUCAULT, 2016; WELLAUSEN,
2007). Nesse sentido, os sujeitos passam a ser julgados caso suas vidas
representem uma ameaça à ordem dos poderes vigentes e à utilidade
econômica dos corpos.
Anteriormente, citamos a fala de Camélia, uma mulher em situação
de rua. Em seu relato em meio à audiência pública, ela nos apresenta
elementos de caráter punitivo proferidos em relação à sua vida e a seus
direitos. “Vai vender balas no farol” parece ser a resposta recorrente
para solicitações cotidianas da Camélia. Apesar do DHAA ser universal
(ONU, 1948), fica visível que o acesso a este depende, portanto, de
fatores como a desconstrução de estigmas sociais. Estigmas que alocam
corpos como o de Camélia ao lugar de objetos puníveis socialmente, a
partir de contornos simbólicos de deveres sociais - tais como “se você
10O poder para Foucault não se centraliza apenas em instituições como o Estado. Ao
invés, o poder para o filósofo está disperso, em todos os lugares e em todos os corpos
que produzem o real, o saber, verdades, morais, antes mesmo de reprimi-las ou coagi-
las. Os corpos que exercem poder, portanto, criam aquilo que podem reprimir
(FOUCAULT, 2016).
100
quer, vá vender balas” -, ditando (inconstitucionalmente, inclusive)
quem tem direitos ou não. A realidade de pedir doações marca por si só
a falta de alcance de direitos básicos por parte do Estado, e esses
obstáculos culturais refletem ainda mais a mercantilização dos corpos,
que os pune, negligenciando a obrigação de suporte social do Estado.
Escolhemos fazer um recorte de gênero para pensar a questão
que nos propusemos aqui. Isso é importante, uma vez que raça, classe
e gênero são mecanismos de biopoder e de necropolíticas em uma
sociedade capitalista, racista e misógina, produzindo corpos que
podem morrer e corpos que podem matar (MBEMBE, 2018;
FOUCAULT, 2020). Inclusive, a intersecção dessas categorias de
diferenciação social pode criar novas exclusões.
Lorena se encontrava semanalmente com a pesquisadora em
campo para conversas informais. Um dos encontros ocorreu em um
abrigo que frequentava para convívio e pernoite, onde, por vezes,
auxiliava voluntariamente na limpeza. Seu direito ao serviço não
estava condicionado ao trabalho. Durante um dos encontros, Lorena
limpava um dos ambientes do serviço enquanto conversava com a
pesquisadora e disse que não era necessária ajuda, pois ela poderia
limpar devagar, no tempo dela. Apesar de sua percepção de que
aquela atividade era algo voluntário, ambas foram interpeladas aos
gritos por um colaborador local. Os gritos foram destinados
exclusivamente à Lorena, a fim de que não parasse o serviço de
limpeza enquanto falava. Em sua fala e postura corporal ameaçadoras
e agressivas, o colaborador homem deixava claro que ela não estava
ali apenas para receber (comida, abrigo), mesmo que isso caracterize
um direito; tinha, também, de fazer um serviço, obedecendo a um
comando por vezes mais ou menos explícito.
A partir da nossa articulação campo-teoria, tornou-se importante
refletir sobre as mulheres em situação de rua, dentre tantos aspectos,
enquanto corpos cuja maneira de desenvolver a vida social é
supostamente desviante sob as perspectivas hegemônicas; corpos
deslocados do ambiente do doméstico e da racionalidade produtivista
capitalista e que, assim, ferem a ordem desse sistema econômico-
político (GATTO, 2017). Apesar de minoria nos censos da população em
situação de rua, a maior parte da violência (física, psicológica, sexual)
destinada à pessoa em situação de rua é para com mulheres (50,8%)
(BRASIL, 2019).
101
A marginalização da mulher em situação de rua se inicia nas bases
de um capitalismo concebido pela exploração e objetificação da
pessoa negra, no sexismo e na heterocisnormatividade (BEAUVOIR,
2019; SAFFIOTI, 1992). A corporalidade das mulheres em situação de
rua não parece se encaixar na figura corporal de produtividade
hegemônica; não parece cumprir com uma suposta obrigação de
produção. Assim, não apenas a funcionalidade biológica dos corpos
em prol da produção do capital é aclamada, mas também sua estética
é idealizada a partir do ideal cultural capitalista (CROCHIK, 2000). Não
cumprindo com tal, as mulheres em situação de rua veem
potencializada a marginalização de seus corpose, junto a eles, de seus
prazeres, desejos e direitos.
Mary Douglas (2002), em seu extenso trabalho sobre a noção de
poluição, pode somar a essa nossa articulação teórica. Os corpos das
mulheres em situação de rua - com seus desejos, prazeres, crenças e
cheiros - parecem então ser enxergados e tratados justamente
enquanto poluição, enquanto um perigo/profanação/ameaça à ordem.
Logo, tornam-se corpos que devem ser escondidos ou removidos, em
uma cultura higienista e punitivista que viver deslegitima o direito à
existência desses corpos. Pettinger et al. (2017) estudaram a
experiência de discutir e pensar sobre a própria comida com adultos
em situação de rua. Para os autores, a atividade de reflexão e discussão
promovida otimizou o interesse no autocuidado e promoveu o
empoderamento, além de melhorar a percepção de bem-estar e a
construção de saúde desses adultos. Refletir a respeito das próprias
identidades, a partir da comida e do cozinhar, é importante à medida
que a extrema pobreza advém também de relações de poder
opressivas e exploratórias, nos níveis social, cultural, político e
econômico. Nessa senda, para a promoção do DHAA é importante um
caminho de desverticalização das relações humanas. A possibilidade
de escolha, de pensar no que se gosta e no que não se gosta, do que é
prazeroso e do porquê é prazeroso e a possibilidade de cozinhar o que
se come são fatores que possibilitam uma maior conexão simbólica
entre a pessoa que come e sua prática alimentar, em uma perspectiva
individual e social.
102
Prazer enquanto estratégia para o alcance do DHAA junto a mulheres
em situação de rua
103
achava a quantidade de comida sempre desproporcional à sua fome;
geralmente vinha no prato uma quantidade maior que sua vontade de
comer. O fato de não poder se servir pode ser um causador dessa
sensação. Percebendo que a quantidade no prato da pesquisadora
também poderia ser muito volumosa, disse “Não precisa comer tudo,
não”, já avisando sobre a “doação”, termo usado por alguns usuários
dos serviços de acolhimento e alimentação, em restaurantes
populares ou mesmo nas calçadas, quando não querem mais a comida
do prato e oferecem para outros colegas que ainda possam querer
comer mais. Quem não quer comer mais grita “doação”, e aqueles que
desejam a comida se manifestam. Parte do prato da pesquisadora foi
para um homem que sentava algumas cadeiras à frente. Rosa se
levantou e levou o prato até ele.
É nesse sentido que, quando escutamos algumas mulheres em
situação de rua no campo, percebemos que essas resistências
incorporam estratégias construídas para um comer mais coerente com
sua identidade, seus gostos, prazeres, desejos e sensações de bem-
estar, o que perpassa a noção êmica de um comer adequado. Joana,
por exemplo, se mantém com uma tigela de plástico e talheres em sua
barraca e caminha diariamente para buscar comida em um restaurante
vegano. A doação ocorre após o restaurante servir os clientes das
mesas, por volta das 15h00. O companheiro de Joana é quem
usualmente lava a tigela e os talheres, pois ela gosta de ter a certeza
de que os utensílios estão sempre limpos antes de pegar as refeições.
Joana ilustra: “Não vou comer aqui, não [se referindo ao serviço de
acolhimento]. A comida é boa, mas venho me sentindo melhor
comendo num restaurante ali, a comida é vegana. Uma delícia. E você
acredita que tô me sentindo mais leve, tô me sentindo melhor, vem
fazendo muito bem pra mim, pra minha saúde, pro meu corpo. E é
deliciosa, e enche.”.
A percepção sobre o que é adequado para comer envolveu, nesse
exemplo, a percepção sobre comer algo com sabor bom, sobre sentir-
se bem, leve, saciada, saudável, satisfeita. Além da busca por doações
de almoços e jantares em restaurantes cuja comida as agrada de
alguma maneira, outras estratégias de resistência aos engessamentos
dos serviços de alimentação e acolhimento são usadas, como o próprio
cozinhar. Quando escolhem cozinhar, geralmente fazendo isso em
calçadas, viadutos ou prédios abandonados, o fazem com ingredientes
104
improvisados. Para além das precariedades do cozinhar na situação de
rua – que envolvem, dentre outros aspectos, o uso do mesmo
ingrediente (como macarrão) por dias, ou ainda, o uso de
ingredientes apodrecidos - há a possibilidade de poder comer algo
preparado por elas, com os conhecimentos delas, para elas e com a
própria família ou amigos.
O compartilhamento e uso de saberes tradicionais e populares
podem levar à construção de um sistema alimentar identitariamente
coerente com quem come e produz. O conhecimento é em si um bem
comum e também um direito. O alimento enquanto símbolo
caracteriza-se por diferentes dimensões que articulam diversos bens
comuns da humanidade, como os conhecimentos e saberes ancestrais
e familiares. A alimentação adequada e saudável, por sua vez,
considera e almeja a garantia desta articulação na vivência prática do
comer. Os conhecimentos culinários de grupos e pessoas em extrema
vulnerabilidade social são passíveis de serem negligenciados e de
terem sua vivência dificultada pelos processos de exclusão das
estruturas sociais do país e da cidade. As mulheres em situação de rua
têm seus saberes culinários, assim como sua identidade cultural,
subtraídos ou negligenciados por meio também da dificuldade de
acesso à moradia e ao cozinhar.
O DHAA não se inicia e termina no acesso ao alimento em
quantidade e qualidade nutricional suficientes, mas prevê um sistema
de produção, cultivo, identificação cultural, consumo, preparo e
compartilhamento de saberes alimentares entre pares, de maneira
coerente com quem come. A noção de prazer emergiu em nossa
discussão a partir de percepções e reivindicações de autonomia, de
liberdade, de privacidade e de poder de escolha, ficando em foco a
demanda por moradia para concretização dessas demandas, ou seja,
para a construção efetiva do DHAA às mulheres em situação de rua.
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109
110
A MARGINALIZAÇÃO DO AFRODESCENDENTE E A
INSTITUCIONALIDADE RACISTA: os diferentes imaginários
da rua para o negro e para o branco
111
A minha pele de ébano é, a minha pele
A minha alma nua
Espalhando a luz do sol
Espelhando a luz da lua
Tem a plumagem da noite
E a liberdade da rua
Minha pele é linguagem
E a leitura é toda sua
Por sua vez, isso faz pensar a causa grupal da divindade, tendo-a
como perfil do nomos espiritual da comunidade, caracterizada na
determinação do orixá da nação local, que se estabelece em uma força
afirmativa de determinação coletiva. É, por isso, uma expressão
comunal de afirmação como condicionante de sujeito histórico,
inscrito em uma possível forma, visto na categoria conceitual de
alegoria carnavalesca do cinema negro, (PRUDENTE,2014), Uma vez
que se trata de um processo de verticalidade coletiva em uma
consagração publica de positividade do grupo. Como é caso da cidade
nigeriana de Oyó, onde Xangô ocupou a terceira dinastia, sendo
alafin/aláàfin – rei, correspondendo-se assim em uma linha de
descendência de Sàngó. Constatamos essa percepção no imaginário
popular que está inserido no folguedo carnavalesco, apontando o
samba-enredo Do Iorubá ao Reino de Oyó, (1981), da escola de samba
denominada Os Cabeções de Vila Prudente, como segue:
112
E hoje como herança
Cabeções canta em louvor
Aganjú, kaô e laira
Baiani, afonjá e agadô
Bambaquerê
Bambabará
Oi no bangulê
Deixa o corpo se arrastar”
113
estabelece a orixalidade, de tal sorte que todos os lugares do
afrodescendente trazem uma noção antiga de espaço comunal, em
razão de um saber que se estabelece na circularidade de saberes
sagrados da cosmovisão africana (PRUDENTE, 2014, 2019a, 2019e).
Parece pertinente lembrar que, no histórico filme “Alma no olho”
(1974), do cineasta negro Zózimo Bulbul, o rompimento com o terno,
que expressa uma indumentária do poder eurocolonial caucasiano,
deu-se com a afirmação do corpo nu africano, cuja naturalidade
configura a sua liberdade como retorno à axiologia do continente
negro. Isso se faz, ‘ao nosso quase cego ver’, por uma abstração
cinematográfica na qual a alegria do personagem é resultado do
regresso à sua teluricidade, estabelecido em lugariedade de dimensão
externa. A película “Alma no olho” (1974) é, inequivocamente, uma
lição da emergente tendência cinematográfica denominada cinema
negro, que discute a volta simbólica de um negro vítima da tentativa
de aculturação de sua africanidade.
114
folguedos carnavalescos que têm a rua como essência, segundo
Prudente e Costa (2020):
115
observa Adriano Kuler na sua reflexão filosófica, a respeito da
consciência de si:
A consciência de si deve reconhecer-se como vida e, para tanto, deve negar sua
independência absoluta. Por um lado, a consciência de si precisa experimentar
sua dependência da vida, o que significa que ela deve experimentar a morte. Mas
morrer significa sua própria aniquilação. Para que possa haver subsistência
deste reconhecimento de dependência da vida, deve também esta consciência
de si, enquanto aquela parte que reconhece manter-se viva. Por conta disto, a
única experiência possível para o reconhecimento da dependência da vida é a
experiência do medo da morte. Por outro lado, a própria limitação da
dependência só pode ocorrer por meio da autoaplicação da negatividade à
consciência de si. Isto só é possível caso a consciência de si pudesse relacionar-
se negativamente consigo mesma (por meio do desejo). Para isto, ela precisa da
alteridade. (KULER, 2019, p. 24).
116
frevo baiano e outros, com identidades da negritude musical, como é
relatado no samba-reggae baiano:
117
Almeida realiza também sua proposta cinematográfica como uma criativa
malsinação da crise da modernidade, na medida em que a razão do
esvaziamento existencial, do mito da Antiguidade, do Ulisses, é a própria
ordenação da modernidade, que não supre a insatisfação do homem moderno,
sendo estranha a sua ontologia. A modernidade, quando fechada com o ideal de
unicidade ariana, impede a instintividade do mito, que se realiza na possibilidade
de abertura da multiplicidade em que se insere a existencialidade na errância
própria do espírito de aventura. (PRUDENTE, 2020, p. 101).
118
cinematografia dos grandes estúdios restrito, na época, para o
atendimento dos interesses industriais do colonialismo americano.
No filme “Referências” (2006), de Zózimo Bulbul, que se
constitui, ‘a nosso quase cego ver’, em um inequívoco inventário do
cinema negro. Em entrevista a Celso Prudente, o cineasta Nelson
Pereira dos Santos falou que os realizadores do cinema novo vão às
ruas, considerando que os estúdios não comportavam as realidades
que estavam na rua4. A arte que implicam as relações miscigênicas tem
essencialmente uma dimensão coletiva, como é o caso da:
119
portugueses eram instrumentalizados pelos europeus para execução da
colonização, cuja centralidade era europeia.
A colonização foi fundamental à acumulação de riqueza em
proveito da Revolução Industrial, que fez a Inglaterra mais rica e
Portugal mais empobrecido (PRUDENTE, 2021). Reiteramos que a
situação portuguesa de protagonista da eurocolonização não lhe
furtou da condição de objeto da ação colonial, cabendo-lhe também a
situação de vítima da eurocolonização (PRUDENTE, 2021). Esse
fenômeno vai possivelmente apontar As concorrências identitárias
entre os países de língua portuguesas, considerando que todos foram
vítimas da eurocolonização.
Esse sentimento identitário se estabelece em uma perspectiva
da lusofonia de horizontalidade democrática, a que chamamos
atenção no filme “Revolução das abóboras” (2014) (PRUDENTE,
2014, 2018b, 2019a, 2019b, 2019c).. Esta se fez em uma comunhão de
lutas afro-ibéricas revolucionárias, pelo fim da colonização,
culminando com o testemunho do desiderato da Revolução dos
Cravos (PRUDENTE, 2015; OLIVEIRA E PRUDENTE, 2015), que
propugnava pelo fim da colonização ultramarina, assim como pela
igualdade, liberdade e soberania dos estados. Essa fora uma situação
fundante para o discernimento da formação da horizontalidade da
imagem do ibero-ásio-afro-ameríndio (PRUDENTE, 2016, 2018b,
2019a, 2019b, 2019c, 2020b; PRUDENTE; MARTINHO; SILVA, 2020),
que constituíram uma massa excepcional de miserabilidade. Um
quadro que foi pintado pelo estado brasileiro de vocação
eurocaucasiano cuja sua vocacionalidade branco-europeia racista vai
dar origem à institucionalidade atual.
Esse fenômeno se caracterizou nas cotas raciais para brancos
europeus e seus descendentes, em detrimentos dos brancos ibéricos
empobrecidos, amarelos asiáticos, pretos africanos e vermelhos
ameríndios, como demonstrado no gráfico a seguir:
120
Gráfico 1: Cotas raciais no Brasil.
121
De tal sorte que o governo fez uma campanha de
embranquecimento do Brasil, em uma ação que promovia a vinda de
brancos europeus, com incentivos e fomentos do estado. Esses
benefícios iam desde passagens, terras, animais bípedes e
quadrupedes, quantia em dinheiros relativos ao número de pessoas da
família, reconhecimento de casamento e batismo de religiões
protestantes, quando o estado era católico teocrático entre outros,
como segue:
122
(PRUDENTE,2006), e manutenção do privilégio de hereditariedade
eurodescendente, regado com o sangue e a miserabilidade negra, que
é uma opção política do Brasil, como se vê na crise sanitária mundial
do Covid 19:
A riqueza dos dez homens mais ricos do mundo dobrou desde o início da
pandemia. A renda de 99% da humanidade está pior em virtude da Covid-19. As
crescentes desigualdades econômicas, de gênero e raciais, assim como as
desigualdades que existem entre os países, estão destruindo nosso mundo. Isso
não acontece por acaso, mas sim por escolha: A “violência econômica” é
cometida quando as escolhas de políticas estruturais são feitas para as pessoas
mais ricas e poderosas. Isso causa danos diretos a todos nós e principalmente às
pessoas em situação de pobreza, a mulheres e meninas e a grupos racializados.
(OXFAM GB, 2022, Web).
A desigualdade contribui para a morte de pelo menos uma pessoa a cada quatro
segundos no mundo. Porém, podemos mudar radicalmente nossas economias
para que sejam focadas na igualdade. Podemos reaver a riqueza extrema por
meio de tributação progressiva; investir em políticas públicas fortes e
comprovadas contra a desigualdade; e mudar corajosamente o poder na
economia e na sociedade. Se tivermos coragem e ouvirmos os movimentos que
exigem mudanças, podemos criar uma economia em que ninguém viverá na
pobreza, nem com um patrimônio bilionário inimaginável - uma economia na
qual a desigualdade não mate mais. (OXFAM GB, 2022, Web).
123
As violentas relações de dominação eurocêntricas desenvolveram-
se em vantagens hereditárias ao euro-hetero-macho-autoritário,
determinado por uma euroheteronormatividade alimentada pela
tendência racista de institucionalidade brasileira. De tal sorte que
fizemos uma pequena historiografia das cotas raciais, demonstrando-as
como beneplácito único e exclusivo do embranquecimento, imbricado
no privilégio eurodescendente de que resultaram do crime de
escravidão (PRUDENTE, 2006). Considerando que essa instituição
escravista foi atípica e criminosa, em que o pai escravizava o próprio
filho. Dessemelhando das próprias instituições, que foram fundantes do
direito brasileiro, tal como o Direito Romano, que supria as lacunas
jurídicas brasileiras no período colonial. Por sua vez, essa mesma fonte
jurídica era esquecida nos direitos consagrados aos escravizados.
Parece-nos de suma importância o discernimento que a rua tem
um sentido de acolhimento onírico para criança e jovem
empobrecidos, que são geralmente afrodescendentes. Considerando
que a rua tem inegável liame com as relações musicais no âmbito
popular. Nesse processo, a musicalidade estabelece-se como uma
possibilidade de dimensão metafórica quando relacionada com a rua,
permitindo-me que se suponha pertinente ver a música como uma
planta, tanto mais bonita e aromática quanto mais é percebida a sua
raiz no fundo do seio da rua. Chamou-nos atenção um dito popular
sobre o sucesso musical, “a musica faz sucesso quando pega na rua”.
Essa possibilidade de imaginário sugere a força polissêmica da relação
subjetiva que é percebida entre rua e música.
O indivíduo marginalizado que se configura em vulnerabilidade,
enquanto minoria frente à violenta exclusão eurocaucasiana,
encontra, na subjetividade musical da rua, traços da significação
ancestral. Assim, consegue especialmente fazer nessa lugariedade,
uma espécie de possível viagem onírica à sua axiologia, permitindo-lhe
um nível de plenitude que é encontrado na força vital da polissemia do
pai, na condição do primeiro, que, por isso, é aqui o primitivo, razão
pela qual é o depositário da memória do grupo.
Em nossa percepção, os processos litúrgicos, na unicidade da
estrutura do pensamento religioso, acontecem por meio de música,
nas mais diferentes religiões do universo eurocidental e nos diversos
de nomos diferentes da eurocidentalidade. Há possibilidades que
essas musicalidades reconstituíram a imagem do pai, como
124
ancestralidade. Como se observa na consideração de Brasil
(PRUDENTE, 2021), da música e da rua, que se constituem como fontes
para o negado, motivadora à inspiração de plenitude nos valores
populares originados na africanidade ancestral. Como segue:
125
batucadas que são vistas debaixo das marquises e dos viadutos, de
coberturas que lhe são mais permanentes, tornando-se um
receptáculo coletivo. Isso permite uma abstração de familiaridade
costurada na memorialidade do grupo que tem na rua uma subjacência
de consagração, decorrente da ritualidade nas religiões de matrizes
africanas, sendo uma força de subjetividade de constante presença no
seu cotidiano. É provável que o fator fundamental da falta de atenção
e de humanização das ruas estejam implicados na tentativa de
desarticulação da ontologia do vulnerável de rua.
Considerando que um número significativo de vulneráveis de rua
é formado por afrodescente, que encontra na rua um sentido lúdico
gregário das relações comunais próprias, das circularidades dos
saberes sagrados da cosmovisão africana (PRUDENTE, 2014, 2019a,
2019e), reiteramos ser a primeira manifestação de conhecimento do
respeito à biodiversidade, tendo em vista que todas relações de
bioexistências são expressões das divindades, colocá-las no processo
de preconceito seria negar a própria orixalidade. Lembrando que o
Panteão dos Deuses da cultura ioruba está debaixo da terra, em lugar
aberto tal como a exterioridade da rua.
Referências
126
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130
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131
132
CRIANÇAS E ADOLESCENTES EM SITUAÇÃO DE RUA:
trabalho e táticas de sobrevivência
133
O contexto político e social brasileiro, envolvendo as crianças e adolescentes, só
começa a ser modificada no final da década de 1980, quando o país passou por
um processo de “redemocratização”, em que a sociedade civil e principalmente
os movimentos sociais se mobilizaram na defesa da igualdade e da garantia de
direitos. Com base nessa mobilização, surgiu a Constituição brasileira de 1988,
cujo artigo 227 se direciona a todas as crianças e adolescentes, sem quaisquer
distinções. Foi a partir desse artigo que se originou, em 1990, o Estatuto da
Criança e do Adolescente (ECA), considerado, mundialmente, uma das mais
modernas leis direcionadas à questão da criança e do adolescente, servindo de
referência para vários países. O ECA consiste num instrumento de
reconhecimento de crianças e adolescentes como sujeitos de saberes, direitos e
deveres, independentemente de sua condição social, cultural ou econômica.
(ANDRADE, 2019, p. 22)
134
passa a ser mantenedora da sobrevivência em um momento de caos
social e de fragilidade humana.
Para execução das táticas, crianças e adolescentes em situação de
rua se dividem em grupos, cada um com características próprias,
regras de convivência e sobrevivência que consideram os tempos e
espaços ocupados. Dentre os diversos grupos, Andrade (2019, p. 87)
destaca cinco:
135
não compreendem as paredes invisíveis que se erguem, guardando um
mundo que é vivenciado apenas pelos que o compartilham.
Para isto podemos dizer que o trabalho define a essência humana. Portanto, o
homem, para continuar existindo, precisa estar continuamente produzindo sua
própria existência através do trabalho. Isto faz com que a vida do homem seja
determinada pelo modo como ele produz sua existência (SAVIANI, 1998, p.152).
136
Por outro lado, quando o trabalho é inserido em um contexto mais amplo, que
extrapola as barreiras do emprego, passa a englobar outras atividades, como as
táticas de manutenção da vida. Buscar o significado do trabalho neste contexto
seria situá-lo no campo do não-trabalho. Dessa maneira, as atividades
desenvolvidas pelas crianças e adolescentes em situação de rua podem ser
consideradas trabalho, tendo em vista que essas atividades exigem um exercício
físico e mental dos executores, que adaptam a natureza a si próprios através das
táticas que desenvolvem para satisfazerem suas necessidades humanas no
mundo capitalista (ANDRADE, 2019, p. 73).
137
que a linguagem comum se refere com as sugestiva expressões de ganchos,
tachos e biscates (PAIS, 2003, p.07).
[...] a pobreza perdeu o seu sinal positivo mais forte e adquiriu, mais claramente,
o sentido negativo de falta, estendida também ao plano moral, fazendo
desaparecer as fronteiras entre o “pobre honesto” e o “marginal” ou
“criminoso”. Não ter dinheiro para consumir os bens cada vez mais oferecidos
no mercado equivale, para os pobres, especialmente se pertencentes a grupos
raciais (como os negros) e residenciais (como os favelados), mas principalmente
os despojados “meninos de rua”, a ser objetos de suspeita de cometer atos
ilegais ou ilícitos ou, pior, de ser agente de violência
A política social do neoliberalismo é vista pela classe média alta
como uma política que atende aos seus interesses. Essa política confina
138
a massa trabalhadora pobre nos serviços sociais públicos decadentes e
reserva os serviços sociais privados para os setores de renda elevada.
Isso faz com que a população pobre almeje a conquista de melhores
condições de sobrevivência, utilizando as diversas formas possíveis. Ela
também obriga parte da classe trabalhadora a enviar seus filhos, desde
cedo, ao mercado de trabalho. “Essas crianças precisam adquirir desde
cedo o conhecimento e sobretudo o hábito e a tradição do trabalho
penoso a que se destinam.” (FRIGOTTO, 1995, p.15).
A política neoliberal também fez crescer o desemprego, gerando
uma degradação nas condições de vida dos setores populares e
criando uma classe de trabalhadores desempregados que buscam sua
sobrevivência nas ruas. Entre essas pessoas, encontramos um grande
número de crianças e adolescentes em situação de rua:
139
produção mínima estipulada ou salário fixo. Contudo, não podemos
desconsiderar que sua independência e sua motivação estão ligadas
ao capitalismo. Tais crianças e adolescentes são, ao mesmo tempo,
patrões e empregados sobrevivendo no sistema capitalista. Sua
metodologia de trabalho executa, em um mesmo espaço, o trabalho
imaterial e o trabalho material.
As táticas de sobrevivência exigem das crianças e adolescentes
planejamento, execução e avaliação, que as enquadram as no mercado
capitalista. Estes são trabalhadores independentes e capitalistas de si
mesmos, adquirindo capital e tornando-se consumidores. Todo o
dinheiro adquirido com as táticas de sobrevivência insere as crianças e
os adolescentes em situação de rua no mercado de compras,
possibilitando que eles se enquadrem no sistema capitalista,
comportando-se como consumidores. Para Bonamigo (1996), o
trabalho garante muito mais que a sobrevivência das crianças
adolescentes. Garante, antes, seu reconhecimento como sujeitos
produtivos da sociedade, para qual o trabalho é algo extremamente
valorizado.
Tais táticas lícitas e ilícitas caminham em total oposição, já que
uma desperta pena; a outra, ódio. No entanto, oscilações são comuns
e constantes no cotidiano das crianças e adolescentes em situação de
rua, como nos afirma Gregori:
140
Cabe ainda destacar que esses sentimentos também se
materializam em ações de extrema violência, em que crianças e
adolescentes são exterminadas, sofrem agressões físicas, morrem
pela fome e pelo frio. Por outro lado, a caridade, a “esmola”, são
capazes de promover a vida, mesmo que de forma pontual.
Entendemos que a superação do desafio passa por uma agenda
política que, de fato, materialize ações que possibilitem maior
orçamento para políticas públicas que visem ao atendimento das
crianças e adolescentes em situação de rua, engajamento das
sociedade civil organizada, integração entre os vários setores que
interagem com a temática, atenção às famílias e comunidades de
origem das crianças e adolescentes em situação de rua.
Referências
141
FRIGOTTO, G. Trabalho, conhecimento, consciência e a educação do
trabalhador: Impasses teóricos e práticos, in GOMES, Carlos Minayo et
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142
COMPORTAMENTO SUICIDA ENTRE A POPULAÇÃO EM
SITUAÇÃO DE RUA: um estudo teórico-reflexivo
Introdução
143
mentais que, por sua vez, podem ser um dos fatores que contribuem
para que uma pessoa viva em situação de rua (CASTRO et al., 2019).
Entre os imbróglios mais relevantes enfrentados por esse público,
estão os transtornos mentais. Em relação a isso. a Pesquisa Nacional
sobre a População em Situação de Rua (PNPSR) constatou que, dos
problemas mais prevalentes, os psiquiátricos / mentais correspondem
a 6,1%, ocupando o 2ª lugar (BRASIL, 2014). Nesse sentido, sabe-se que
os motivos para o suicídio são diversos, incluindo causas psicológicas,
econômicas, sociais. Todavia, apesar de estarem envolvidas questões
socioculturais, psicodinâmicas, filosófico-existenciais e ambientais, na
maioria dos suicídios, um transtorno mental encontra-se presente
(RAMOS et al., 2019).
O Decreto Presidencial nº 7.053, de 23 de Dezembro de 2009,
instituiu a Política Nacional para a População em Situação de Rua. A
atual política define a PSR como grupo populacional heterogêneo que
possui em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares
interrompidos ou fragilizados, a inexistência de moradia convencional
regular e que utiliza os logradouros públicos e as áreas degradadas
como espaço de moradia e sustento, de forma temporária ou
permanente (BRASIL, 2012).
De um modo geral, os serviços de saúde limitam o acesso,
restringem o acolhimento e não respondem às necessidades dessa
população, o que leva ao abandono dos acompanhamentos. Tal
situação é agravada quando as pessoas em situação de rua
apresentam transtornos mentais. Inclusive, estudos destacam
limitações das Políticas Públicas voltadas para esse grupo (WIJK;
MÂNGIA, 2019).
O movimento dialético entre exclusão e inclusão, assim, conduz
ao sofrimento ético-político decorrente da relação entre a vivência da
injustiça social e as respostas afetivas frente aos processos tanto
econômicos e sociais, quanto subjetivos. Nesse sentido, diante de uma
experiência, o sujeito é afetado por emoções e sentimentos que o
modificam (VALE; VECCHIA, 2020). De maneira análoga, a PSR vem
sendo excluída, fato que gera sofrimento, angústia e outros
transtornos que acarretam pensamentos e tentativas suicidas como
meio de fuga dessa dura realidade.
Este capítulo é um estudo teórico-reflexivo realizado como parte
da revisão narrativa da literatura da pesquisa de campo
144
“Comportamento suicida entre a População em Situação de Rua: estudo
em capital do nordeste brasileiro”, inserida no macroprojeto de
pesquisa desenvolvido junto a essa população, desde outubro de 2019,
em uma capital nordestina do Brasil, intitulada “Uso de álcool e outras
drogas, transtorno mental comum e violência entre a população em
situação de Rua”. A pesquisa está devidamente cadastrada na CPESI-
PROPESQI da Universidade Federal do Piauí (UFPI), contando com a
autorização da Secretaria Municipal de Cidadania, Assistência Social e
Políticas integradas- SEMCASPI de Teresina-Piauí e com a aprovação do
Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da UFPI, parecer nº. 3.152.268, em 18
de Fevereiro de 2019.
A coleta de dados foi realizada a partir de fontes secundárias, por
meio de levantamento bibliográfico. O propósito geral dessa revisão
de literatura consistiu em reunir informações sobre o tema proposto e
desenvolvê-lo a partir dos achados. Para tanto, realizou-se o
levantamento dos artigos na literatura nas seguintes bases de dados:
Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde
(LILACS), Scientific Electronic Library Online (SciELO), Biblioteca
Virtual em Saúde (BVS). Foram utilizados, também, o “Manual sobre o
cuidado à saúde junto a população em situação de rua” e “Saúde da
população em situação de rua: um direito humano”, ambos
produzidos pelo Ministério da Saúde.
Em relação ao tempo de publicação, foram selecionados estudos
publicados há até 10 anos, ou seja, a partir de 2010. A busca por estudos
para a revisão foi realizada nos meses de Novembro de 2020 a Janeiro
de 2021. Foram utilizados, para busca dos artigos, os seguintes
descritores e suas combinações nas línguas portuguesa e inglesa:
“População de rua”, “ Suicídio”, “Vulnerabilidade em Saúde”,
“Tentativa de suicídio”, “Pensamento suicida”,“ Epidemiologia”,
“População em situação de rua”
Nas bases de dados, os descritores foram associados da seguinte
maneira: “população de rua OR população em situação de rua AND
suicídio”; “população de rua OR população em situação de rua AND
pensamento suicida AND tentativa de suicídio”; “ Epidemiologia AND
suicídio”; “ População em situação de rua AND vulnerabilidade em saúde”.
Os critérios de inclusão definidos para a seleção dos artigos
foram: artigos publicados em português, inglês e espanhol; artigos na
145
íntegra que retratassem a temática em questão e artigos publicados e
indexados nos referidos bancos de dados.
Ao final, foram encontrados nove artigos que discutiam a
temática em questão, ao qual se procedeu a análise quanto à síntese
dos dados extraídos dos artigos, realizada de forma descritiva,
possibilitando observar, contar, descrever e classificar os dados, com
o intuito de reunir o conhecimento produzido sobre o tema explorado
no estudo em tela.
Resultados e discussão
146
LILACS Condições de risco à Revista 2020
saúde: pessoas em Enfermagem
situação de rua UERJ
SciELO Sobreviver nas ruas: Psicologia em 2020
percursos de resistência estudo
à negação do direito à
saúde
SciELO Comportamento suicida: Revista 2010
fatores de risco e Eletrônica de
intervenções Enfermagem
preventivas
BVS Comportamento suicida: Rev Cient Esc 2020
o perfil epidemiológico Estadual
das lesões Saúde Pública
autoprovocadas no Goiás
estado de goiás
SciELO Comportamento suicida: Psicologia USP 2014
epidemiologia
147
situação de rua já passaram por experiências de impedimento de
receber atendimento na rede de saúde (BRASIL,2014).
Essa realidade influencia na continuidade dos tratamentos de
transtornos mentais, acarretando em piora do quadro clínico e
agravando da vulnerabilidade às ações de autoagressão. Como
evidenciam Wijk e Mângia, 2019, requisições burocráticas, como a
exigência de documentos e comprovante de residência, além de
limitações no agendamento de consultas e inflexibilidade de horários,
reforçam o processo de exclusão vivenciado. Por serem vítimas de
repreensões, encaminhamentos indiscriminados e/ou ações de
recolhimentos por parte de serviços de outras Secretarias de Estado,
muitas vezes essa população se apresenta insegura em buscar os
serviços de saúde.
Outrossim, a PNPSR apontou a perda da moradia como o principal
motivo para as mulheres irem às ruas. Não obstante, dado o maior
número de homens em situação de rua e a formação sociocultural
predominantemente machista, mulheres em situação de rua são
constantemente expostas a situações de submissão e de violência
física, sexual e psicológica (VALE; VECCHIA, 2020). Por conseguinte, as
mulheres em situação de rua, suportam, além dos imbróglios comuns
desse contexto, o machismo e todos os tipos de violência,
caracterizando um panorama complexo e de grande vulnerabilidade.
Nessa perspectiva, a oferta de cuidados do Sistema Único de
Saúde (SUS) é limitada. Diante das condições de precariedade,
privação e invisibilidade vivenciadas por essa população, as Políticas
Públicas atuais não garantem o cuidado integral (WIJK; MÂNGIA,
2019). Tais limitações à saúde da PSR potencializam fragilidades e
impedem que estratégias de prevenção ao suicídio e transtornos
mentais sejam efetivadas.
Sabe-se, ainda, que o comportamento suicida é mais comum
entre homens em situação de rua, usuários de drogas (lícitas ou ilícitas)
e com história de transtorno mental. Observam-se, neste continuum,
ideações suicidas fortemente associadas à falta de moradia e à
inexistência do apoio emocional e social (CASTRO et al., 2019).
Nesse sentido, percebe-se que a situação de rua é causa e
consequência de fatores de risco ao comportamento suicida, tais
como o uso de álcool e outras drogas, conflitos familiares, isolamento
148
social, transtornos mentais associados, formando uma relação
complexa de retroalimentação.
Diante disso, faz-se necessário pontuar um estudo realizado em
seis capitais brasileiras com usuários de crack, que buscam
atendimento em Centros de Atenção Psicossocial para Álcool e
Drogas. Em relação ao status de moradia, as pessoas que moram nas
ruas apresentam um maior consumo de bebidas alcóolicas, uso de
drogas ilícitas e problemas psíquicos quando comparadas às pessoas
que não viveram nas ruas em nenhum momento de suas vidas. Além
disso, entre as 266 pessoas que já haviam morado na rua, obtiveram-
se relatos de ideação suicida em 49,4% (131 pessoas), além de
tentativas de suicídio em 28,3% (75 pessoas) (CASTRO et al, 2019).
Relaciona-se o contexto de vulnerabilidade ao suicídio para
pessoas em situação de rua à história de vida de doenças, em especial,
à depressão (CASTRO et al., 2019). Ao analisar essa constatação, pode-
se traçar um paralelo ao isolamento vivenciado pelas pessoas que
vivem nas ruas, vínculos familiares insatisfatórios e, muitas vezes,
inexistentes, além da tristeza decorrente da conjuntura vivenciada e o
abuso de álcool e outras drogas, que não só contribuem para a
presença do comportamento suicida, como também podem ser
consideradas um indicador de risco para a tentativa de suicídio
(CASTRO et al., 2019).
Destarte, a partir do levantamento feito na literatura, evidencia-
se a carência de estudos mais aprofundados sobre o comportamento
suicida e seus desdobramentos na população de rua. Ademais, urge o
fortalecimento das estratégias provenientes da Política Nacional para
a População em Situação de Rua, a fim de combater as dificuldades do
acesso à saúde e aos tratamentos contínuos a esse público que, por
ser mais vulnerável, precisa de esforços e mais atenção por parte da
comunidade científica, dos profissionais de saúde e do Poder Público.
Conclusão
149
autoagressão, ao abuso de álcool e de outras drogas que influenciam
no isolamento social, acarretando sofrimento e tristeza.
Por fim, as dificuldades encontradas para o acesso aos serviços de
saúde constituem violação do direito à assistência especializada e
integral, reduzindo oportunidades de tratamento, suporte psiquiátrico
e medicamentoso efetivo. Essa realidade influencia e potencializa o
agravamento das condições clínicas de saúde mental; por isso, precisa
ser mais estudada e debatida a fim de melhorar condições de saúde e
de cidadania.
Referências
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jan. 2021.
152
A CRIANÇA, O ADOLESCENTE E O TRABALHO NA FEIRA LIVRE
153
Embora a realidade econômica do Brasil não seja a única causa do
trabalho infantil, diversas famílias de baixa renda em nosso país, dada
sua condição financeira, por falta de emprego, não têm tido condições
de manter seus filhos no contexto escolar, somente. Isso, de certa
forma, tem colaborado para elevar o número de crianças e
adolescentes inseridos precocemente no mercado de trabalho,
obrigando-os a contribuírem com o orçamento doméstico, garantindo,
assim, a sobrevivência de toda família.
O Brasil é integrante da Organização Internacional do Trabalho e
ratificou as Convenções nº 138 (1973) e 182 (1997). No ano de 2006, na
XVI Reunião Regional Americana da Organização Internacional do
Trabalho (OIT), assumiu compromisso junto à Comissão Nacional de
Erradicação do Trabalho Infantil, que, até o ano de 2015, estaria
erradicando as piores formas de trabalho infantil e, até 2020, todas as
formas de trabalho infantil seriam eliminadas (OIT, 2006). Essas metas
que ainda não foram alcançadas.
Diante da realidade apresentada, este capitulo traz o resultado de
uma pesquisa qualitativa realizada no município de Itapetinga-BA,
cidade situada na Região do Sudoeste baiano, com uma população
estimada em 76.795 mil habitantes. Possui uma área de
aproximadamente 1.665 km e conta com um do campus da Universidade
Estadual do Sudoeste da Bahia (IBGE, 2020). O locus da pesquisa foi a
feira livre da Central de Abastecimento I e II do município.
Para realização do estudo, foi investigada a seguinte
problematização: Quais possíveis impactos negativos pode o trabalho
infantil trazer para o desenvolvimento intelectual e físico de crianças e
adolescentes? Para responder a essa questão, foram traçados os
seguintes objetivos específicos: a) investigar na feira livre e na Central
de Abastecimento I e II do município de Itapetinga-Bahia o quadro de
crianças e adolescentes que fazem atividades consideradas como
exploração da mão de obra infantil; b) traçar o perfil sociodemográfico
das crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil na feira
livre de Itapetinga-Bahia.
154
precocemente no mercado de trabalho. A criança é um ser humano em
construção. Conforme conceitua o Dicionário Aurélio, a infância é
definida como um período de crescimento, que vai do nascimento até
a puberdade. O Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90),
em seu artigo segundo, define a criança como a pessoa de zero
até doze anos incompletos; entre os doze aos dezoito anos passa a se
viver a fase da adolescência (ECA, 1990).
Existe uma grande quantidade de estudos, artigos e pesquisas
que abordam os motivos que levam crianças e adolescentes a terem a
mão de obra explorada, bem como Leis e recomendações que buscam
combater essa prática. Entretanto, poucos são os estudos que
analisam as consequências do trabalho de crianças e adolescentes.
Isso tem dificultado o acesso a essas informações tão importantes, que
podem contribuir para efetivação de políticas públicas de atendimento
e garantindo o mínimo de dignidade às vítimas, colaborando com a
inserção do adolescente no mercado de trabalho na idade permitida
por Lei. Dentre as pesquisas, destacamos dois importantes estudos:
Infâncias (pre)ocupadas: trabalho infantil, família e identidade
(MARQUES, 2001) e Crianças operárias na recém-industrializada São
Paulo (MOURA, 1999).
O ser humano está em constante transformação, portanto, não
são seres imóveis, ou incapazes de se adaptar. Isso também acontece
com a infância, pois, para Arroyo (1994), existem várias infâncias, que
variam de criança para criança. A infância na cidade não é como no
campo; o sujeito que vive na zona rural, começa a assumir
responsabilidades mais cedo, tendo de, muitas vezes, acordar antes do
raiar do sol para ajudar o pai ou a mãe na lida com o trabalho. As
crianças que residem em condomínio fechado geralmente desfrutam
a fase da infância em sua totalidade, o que difere daquelas que moram
em bairros periféricos ou favelas.
Uma criança que reside em um condomínio fechado não irá
precisar trabalhar de maneira precoce para ajudar no sustento do lar.
Consequentemente, terá uma infância mais longa, embora tenha, de
certa forma, sua liberdade privada. Já o garoto que mora na favela, por
conta de diversos fatores, corre o risco de começar a trabalhar
precocemente para contribuir com a renda familiar. Contudo,
diferentemente do primeiro, será livre para poder explorar o meio em
que vive. Nesse quadro, é visível que
155
Dia a dia nega-se às crianças o direito de serem crianças. Os fatos que zombam
desse direito, ostentam seus ensinamentos na vida cotidiana. O mundo trata os
meninos ricos como se fossem dinheiro, para que se acostumem a atuar como o
dinheiro atua. O mundo trata meninos pobres como se fosse lixo, para que se
transforme em lixo. E os do meio, os que não são ricos nem pobres, conserva-os
atados à mesa do televisor, para que aceitem desde cedo, como destino, vida
prisioneira. Muita magia e muita sorte têm crianças que conseguem ser crianças
(KRAMER; BAZILIO, 2008, p. 83).
Dizer que a criança é cidadã de direitos é entender que tem direito à brincadeira,
a não tomar conta de outra criança, a não trabalhar, a não exercer funções que,
em outras classes sociais, são exercidas por adultos e, em grande parte das
situações são remunerados. Que tem direito à educação (KRAMER; BAZILIO,
2008, p. 122).
156
legalmente proibida, uma violação de direitos fundamentais inserida
no campo das violações dos Direitos Humanos.
A mídia escrita e falada tem divulgado levantamento de dados
indicando que, nos últimos 23 anos, os índices de exploração de
trabalho infantil diminuiu. No Brasil, porém, a situação continua crítica,
pois crianças e adolescentes pertencentes às famílias que vivem em
contexto de vulnerabilidade social permanecem exercendo atividades
trabalhistas nos mais variados ambientes, recebendo como
pagamento valores que não condizem com a atividade executada,
muitas vezes sofrendo violência física e psicológica, tendo seus
Direitos Humanos violados.
Assim, para podermos ter uma noção da situação do trabalho infantil
no Brasil, recorremos aos dados da Pesquisa Nacional de Amostra de
Domicílios (PNAD, 2016), elaborada pelo IBGE. A pesquisa indica que, de
1992 a 2015, houve redução de cerca de 65,62% no número de crianças e
adolescentes executando atividades proibidas em nosso país. Em 1992, o
Brasil tinha cerca de 7,8 milhões de crianças e adolescentes trabalhando
precocemente. Com o compromisso assumido pelo governo federal, em
parceria com estados e municípios, de erradicar esse fenômeno que
assola o país desde a chegada dos portugueses, em 2015 esse número caiu
para 2,7 milhões, ou seja, em números concretos a redução foi de 5.101
milhões de casos (PNAD, 2016).
Um dos vários mecanismos de enfrentamento a exploração do
trabalho infantil é o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil
(PETI), que teve início em 1996, como ação do Governo Federal,
apoiado pela OIT, coordenado pela Secretaria de Assistência Social e
vinculado ao Ministério da Previdência Social e Assistência Social, a fim
de combater o trabalho executados por crianças em carvoarias em
Três Lagoas (MS). O objetivo era retirar crianças e adolescentes, com
idades entre 7 a 14 anos, das atividades consideradas as piores formas
de trabalho infantil. Com o bom nível de desempenho do programa,
sua cobertura foi ampliada para os estados de Rondônia, Pernambuco,
Sergipe e Bahia e, posteriormente, para todo o país, através da
implementação do Sistema Único de Assistência Social (SUAS).
O PETI tinha como foco central as famílias que possuíam uma
renda per capita de pelo menos ½ salário mínimo. A realização de
atividades sócio educacionais, além da geração de trabalho e renda,
157
tinha como fim melhorar a qualidade e condições de vida das famílias.
Segundo Souza (2016),
158
adolescentes do sexo feminino, com idades entre 5 e 17 anos inseridas
no trabalho doméstico, conforme aponta dados da Pesquisa Nacional
por Amostra de Domicílios (PNAD, 2014). Essa atividade apresenta
dificuldades para ser identificada, porque é naturalizada pela
sociedade, tendo em vista, o processo histórico cultural e social que
determinou os papéis ocupáveis por homens e mulheres na sociedade,
o que se reflete nos dias atuais.
Quando observados os dados disponibilizados pelo PNAD-2016, o
quesito regional aponta que região Nordeste concentra o maior
percentual de casos de exploração do trabalho infantil, com 33%, cerca
de 356 mil. A região nordeste apresenta um dos piores indicadores
sociais, o que incide diretamente na qualidade de vida das famílias, que
não tem acesso a saneamento básico, educação de qualidade, saúde,
moradia, emprego e renda. A falta de políticas sociais que alcancem
diretamente a população pobre contribui para inserção cada vez mais
precoce de crianças e adolescentes no mercado de trabalho.
Levando em consideração a característica de cor e raça, o estudo
mostra que existe uma proporção maior de negros e pardos em
situação de trabalho infantil, correspondendo a um total de 66,2%,
contra 3% de indígenas e 33,3% da população branca. Conforme os
dados, crianças e adolescentes negras e pardas são as principais
vítimas de trabalho infantil no Brasil. Isso pode ser explicado a partir
do histórico escravocrata do nosso país, que perdurou cerca de 400
anos e negou os direitos mais básicos ao povo negro.
159
determinadas condições e circunstâncias que podem ser minimizadas
ou revertidas” (PAULILO; JEOLÁS, 1999, p.1).
Em todo território nacional é possível identificar a presença de
crianças e adolescentes executando atividades laborais em feiras
livres. Muitos desses meninos e meninas recorrem ao trabalho precoce
por necessidades econômicas dos pais, que, frente à falta de emprego,
ou à baixa remuneração, veem-se obrigados a orientar os filhos a
trabalhar desde cedo, visando à complementação da renda familiar, ou
mesmo ao sustento de suas próprias necessidades.
Nas feiras livres, crianças e adolescentes exercem as mais variadas
funções como: carregador de mercadorias, seja até os automóveis ou
residências dos consumidores; vendedores de frutas e verduras,
produtos fornecidos por feirantes, durante a realização da feira, para
prestação de contas ao término da tarefa; guardador de veículos, entre
outras e, para isso, são utilizados carrinhos de mão ou galeotas.
Em Itapetinga, há quatro feiras livres que funcionam nos
seguintes bairros: Primavera, Nova Itapetinga, Vila Isabel e São
Francisco de Assis. Contudo, as feiras dos três primeiros bairros só
funcionam de fato aos domingos. Já a principal feira livre de
Itapetinga, locus desta pesquisa, funciona de segunda a sábado, na
Central de Abastecimento, em um galpão construído pelo governo
municipal no ano de 1992. Com o crescimento do comércio no
município, foi necessário a ampliar o espaço para dar mais comodidade
aos comerciantes. Assim, em 1994, foi acrescentado um segundo
galpão conhecido como Central de Abastecimento II. Esse mercado
está localizado em uma área privilegiada da cidade, no Bairro São
Francisco de Assis. Saindo do seu entorno em direção ao centro da
cidade passa pela Rua Monteiro Lobato, que, por sua vez, já se tornou
quase uma extensão do próprio mercado, pois é tomada de lado a lado
pelo comércio de bazares e utilidades domésticas. Esse “corredor do
comércio” tem causas no desenvolvimento pretérito do município
(STÜRMER, 2014).
O referido “corredor do comércio”, além de trazer
desenvolvimento para Itapetinga, também poderá contribuir com
crescimento da utilização da mão de obra infantil. Além da Central de
Abastecimento I e II, em suas adjacências se concentram os
supermercados, os restaurantes e os bares, formando, segundo
Moreira (2010), a representação do “estômago da cidade”, ou seja, o
160
local de onde saem alimentos para a maior parte da população do
município. Funcionando no horário comercial de segunda-feira a
sábado, há uma construção comunicativa para compra e venda de
mercadorias que se realizam nesse universo da feira livre.
No mês de dezembro do ano de 2019, fizemos pesquisa na Central
de Abastecimento I e II. Conseguimos coletar os seguintes dados: 23
crianças e/ou adolescentes em situação de trabalho infantil. Contudo,
os dados podem não revelar a real situação, já que não foram levadas
em consideração as crianças e adolescentes que estavam
acompanhados dos seus respectivos responsáveis, ajudando-os em
seus comércios. Assim, dos 23 sujeitos encontrados em situação de
trabalho precoce, 3 são crianças, o que corresponde um percentual de
13,04%,. 20 são adolescentes, representando 86,96%. Levando em
consideração os dados apresentados, percebe-se que o número de
adolescentes é maior do que o de crianças. Outro fator importante é a
questão de gênero: cerca de 8,70% (2) é do sexo feminino, e 91,30% (21)
do sexo masculino.
Em relação às atividades executadas pelas crianças e
adolescentes pesquisados, foi possível traçar um panorama dividido
da seguinte forma: em termos de porcentagem, tomando conta de
veículos 30,43% (7); pegando carrego 17,39% (4); vendendo tempero
13,04 % (3); trabalhando em barracas de verduras 21,74% (5); vendendo
salgados 13,04% (3); e, por fim, trabalhando em barraca de carne 4,35%
(1). Essa última atividade está tipificada na lista de piores formas de
Trabalho Infantil (TIP) da Convenção 182 da Organização Internacional
do Trabalho (1999). O Decreto 6.481, de 12 de junho de 2008
(Regulamenta os artigos 3o, alínea “d”, e 4o da Convenção 182 da
Organização Internacional do Trabalho (OIT) que trata da proibição
das piores formas de trabalho infantil e ação imediata para sua
eliminação, aprovada pelo Decreto Legislativo no 178, de 14 de
dezembro de 1999, e promulgada pelo Decreto no 3.597, de 12 de
setembro de 2000, e dá outras providências), lista mais de 90
atividades que colocam em risco a saúde e segurança das crianças e
adolescentes em situação de exploração do trabalho infantil.
Outro dado importante que conseguimos colher na pesquisa foi a
questão da média de idade das crianças e adolescentes envolvidas
precocemente no trabalho. Percebe-se que as crianças que se
encontram executando atividades trabalhistas, com média de idade
161
dos cinco aos onze anos, corresponde cerca de 13,04% (3) dos casos. Já
em relação aos adolescentes, esse percentual aumenta, chegando a
86,96%. Há um empate em relação aos números dos adolescentes em
situação de exploração de trabalho infantil, na Central de
Abastecimento I e II, com idades entre doze e quatorze anos e quinze
a dezessete anos, foram 10 casos, ou seja, 43,48%.
O ECA, no artigo 60, deixa claro que é proibido qualquer trabalho
aos menores de quatorze anos de idade, salvo na condição de
aprendiz. Entretanto, a Emenda Constitucional nº 20 (BRASIL, 1998) e
a modificação infraconstitucional na Consolidação das Leis do
Trabalho (Lei nº 10. 097, de 19 de dezembro de 2000), ampliaram o
limite de idade para dezesseis anos, em que foi determinada “[...] a
proibição de trabalho noturno, perigoso ou insalubre aos menores de
dezoito anos e de qualquer trabalho a menores de dezesseis anos,
salvo na condição de aprendiz, a partir de quatorze anos” (BRASIL,
2000). Desse modo,
162
somando 30,43% (7) dos casos de crianças e adolescentes exercendo
atividades trabalhistas.
Como podemos verificar nos dados acima, o Conjunto
Habitacional José Leal Ivo apresentou um índice relativamente alto de
crianças e adolescentes vítimas de trabalho infantil na Central de
Abastecimento I e II.
163
econômicos, próprios da exploração produtiva do modo capitalista de
produção de países em desenvolvimento, torna-se inaceitável sob
quaisquer condições a exploração da mão de obra infanto-juvenil.
O trabalho infantil pode provocar alguns impactos negativos que,
de certa forma, afetam o desenvolvimento intelectual, físico e
socioemocional de crianças e adolescentes inseridos precocemente no
mercado de trabalho. Assim, tendo em vista o objetivo dessa pesquisa,
analisamos os dados referentes à situação educacional das crianças e
adolescentes que, além estudar, exercem alguma atividade
trabalhista. A partir do relatório do PNAD-2016, foi possível observar
que as vítimas do trabalho infantil são, em sua maioria, alfabetizadas.
No entanto, a faixa etária de 10 a 17 anos não sabe ler. Verificou-se,
também, que a maioria das crianças e adolescentes encontradas em
situação de trabalho infantil no ano de 2016 frequentavam uma
unidade escolar.
Além disso, dados apresentados pelo Fundo das Nações Unidas
para a Infância (UNICEF) e o Instituto Claro, revelam que, no ano de
2018, mais de 2,6 milhões de estudantes de escolas públicas brasileiras
foram reprovados em suas respectivas séries, sendo que a região
nordestina aparece negativamente com 342.316 estudantes evadidos
no ano de 2018 (UNICEF, 2018).
Ao pontuar a questão das crianças e adolescentes que dividem o seu
tempo entre trabalho e escola, os dados apresentados pela PNAD (2016)
mostram que 84%, ou seja, 2.013.761, tem a faixa etária de 5 a 17 anos.
Desse mesmo grupo 6% (377.083 mil) não frequentavam a rede regular de
ensino. Para Marques (2001), dividir o tempo entre escola e trabalho,
crianças e adolescentes estarão sujeitos ao fracasso escolar, pois,
164
Outro fator importante a ser destacado é o perfil econômico das
famílias de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos que se encontram no
contexto de trabalho infantil. Observou-se que 49,83% têm uma renda
per capita menor que ½ do salário mínimo, o que configura família de
baixa renda. As famílias que correspondem 27,80%, tem um ganho
mensal de apenas 1 (um) salário-mínimo. Assim, 77,63% das crianças e
adolescentes em situação de trabalho infantil convivem em um lar que
tem uma renda per capita menor que 1 (um) salário-mínimo (PNAD,
2016). Segundo Rua (2007),
165
Para compreender a influência do trabalho infantil no baixo
rendimento escolar, Bezerra (2005) utilizou os dados do Sistema
Nacional de Avaliação da Educação Básica (SAEB) de 2003, que possui
informações de testes padrões de língua portuguesa e de matemática
aplicados aos alunos da 4ª e 8ª série (atualmente 3º e 7º ano) do ensino
fundamental e da 3ª série (atualmente 3º ano) do ensino médio, em
escolas públicas e privadas do Brasil. O autor concluiu que o trabalho
infantil, principalmente fora do domicílio e durante longas horas, reduz
o desempenho escolar. Com o desempenho escolar reduzido, a criança
e/ou o adolescente perde a motivação para continuar frequentando a
unidade educacional, levando-o a evadir-se.
Percebe-se que a criança não é compreendida nas suas
especificidades, e a infância não é contemplada como uma fase
importante na vida do sujeito, em que, ao invés de trabalhar, deve-se
brincar e estudar. De acordo com Marques (2001, p. 101), a infância deve
ser vista “como um ciclo de vida em que deve brincar e estudar, mas que,
dada a situação econômica que enfrenta, acaba transformando-se num
período ocupado pelo trabalho infantil, cuja a responsabilidade é com a
sobrevivência familiar”. Outro fator negativo gerado pelo trabalho
precoce de crianças e adolescentes, é o econômico. Estudos realizados
por Kassouf (1999) e por Emerson e Souza (2003), todos utilizando dados
da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), mostram que
um indivíduo que começar a trabalhar mais cedo terá um salário menor
na fase adulta da vida, devido à perda dos anos de escolaridade causado
pelo trabalho infantil. Estando fora do contexto escolar, o jovem terá
menos oportunidades de emprego, o que poderá lhe dar uma melhor
qualidade de vida. Verifica-se que
166
utilização por crianças, mas por adultos. Portanto, pode haver
problemas ergonômicos, fadiga e maior risco de acidentes. O autor
argumenta que as crianças não estão cientes do perigo envolvido em
algumas atividades e, em caso de acidentes, geralmente não sabem
como reagir. O fator físico também deve ser levado em consideração,
pois existem
167
Assim, diante dos dados apresentados acima, percebe-se o
quanto o trabalho precoce representa uma acelerada maturação, que
pode agravar o quadro da saúde de crianças e adolescentes, além de
criar um rompimento no convívio social e familiar. O resultado futuro
será um adulto inválido ou incapaz de exercer atividades trabalhistas,
por causa dos problemas de desenvolvimento físico e psíquico, doença
dos ossos, coluna, auto-estima, pulmão, desnutrição, exposição solar,
fadiga interna e outros (FISCHER, 2003).
Referências
168
BRASIL. Decreto nº 6.481, de 12 junho de 2008. Regulamenta os artigos
3º, alínea "d", e 4º da Convenção 182 da Organização Internacional do
Trabalho (OIT) que trata da proibição das piores formas de trabalho
infantil e ação imediata para sua eliminação, aprovada pelo Decreto
Legislativo nº 178, de 14 de dezembro de 1999, e promulgada pelo
Decreto nº 3.597, de 12 de setembro de 2000, e dá outras
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171
172
ESTRATÉGIAS DE DEFESA DA POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA
EM MATÉRIA PENAL: o caso da ocupação Babilônia,
em Aracaju-Sergipe
1
Pós-doutor (PPGD/UFBA). Doutor em Direito (PUC-Rio). Mestre em Direito (UFBA).
Professor do Programa de Pós-graduação em Direitos Humanos e Políticas Públicas da
Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PPGDH/PUCPR). Membro da Clacso
Espanha. Ex-Presidente da Comissão da Verdade Sobre a Escravidão Negra da Ordem
dos Advogados do Brasil - Seccional Sergipe (OAB/SE). E-mail: [Link]@[Link]
Lattes: [Link] ORCID: [Link]/0000-0002-3710-7237
2 Advogado. Mestre em Direitos Humanos pela Universidade Tiradentes (UNIT/SE).
173
debater as possibilidades e caminhos a trilhar na defesa técnica da
população em situação de rua em matéria penal.
Para isso, inicialmente, busca-se compreender o que é a
Ocupação Babilônia, qual foi a repercussão do caso na mídia sergipana
e o excesso da linguagem adotado, aliado à reprodução de estigmas
sociais e criminalizações, ao tratar sobre o assunto, tanto pela mídia
quanto pelo sistema de justiça. Em seguida, investigam-se os principais
elementos constitutivos das decisões judiciais prolatadas no processo
e os caminhos traçados pela defesa dos acusados para enfrentar as
violações de direitos humanos que ainda permeiam a atuação do
sistema de justiça no tema população em situação de rua.
A primeira análise aborda a utilização do habeas corpus que, mais
do que uma ferramenta processual penal, constitui-se num remédio
constitucional destinado a garantir o direito fundamental à liberdade
de locomoção.
No segundo tópico, abordam-se os temas referentes: 1) à
ausência de risco à garantia da ordem pública ou da conveniência da
instrução processual - notadamente diante da violação à
individualização da prisão na decisão combatida; 2) à impossibilidade
da aplicação da prisão preventiva em crimes cuja pena máxima é
inferior a quatro anos e; 3) ao risco à integridade dos custodiados, que
permaneceram num cárcere insalubre em momento de crise sanitária
(pandemia da Covid-19).
Estuda-se, ainda, a partir do caso estudado, o instituto da
revogação da prisão preventiva, enquanto instrumento voltado a
garantir a liberdade das pessoas que foram presas de forma, em que
pese legal, desnecessária. Este trabalho está, dessa maneira, em
simbiose com a análise das estratégias de defesa e das formas de
manejo do pedido de liberdade, diante da ausência de periculum
libertatis, isto é, perigo na liberdade do custodiado, e/ou fumus comissi
delicti, ou seja, indícios de autoria delitiva.
O prognóstico que esse artigo visa confirmar ou negar é de que
quando a defesa técnica se atém aos institutos jurídicos criados para
coibir excessos de poder e decisões que carecem de razoabilidade, a
probabilidade de o direito constitucional à liberdade de locomoção ser
efetivado cresce significativamente.
O método de abordagem para realização do estudo é o dedutivo,
partindo-se de premissas gerais sobre o caso, para chegar ao final a uma
174
discussão específica sobre a utilização das ferramentas jurídicas para
garantia do direito à liberdade. A pesquisa realizada é bibliográfica e
documental, sobretudo em arquivos judiciais, com uso da técnica do
estudo de caso único incorporado. O marco teórico utilizado teve como
base a teoria crítica do direito penal, de modo que, a partir da
elaboração do presente artigo, busca-se contribuir com a comunidade
acadêmica, movimentos sociais e sistema de justiça na realização de
estudos sobre as matérias tratadas, isto é, os direitos material e
processual penal na perspectiva da população em situação de rua.
175
eles não possuíam trabalho e residência fixa, bem como pelo fato que
“ocupam uma invasão.”7 (SERGIPE, 2022).
Convém o destaque de que a fim de formar a sua convicção a
respeito dos indícios de autoria dos delitos em comento, o Juízo
considerou unicamente os depoimentos dos policiais que conduziram
os flagrados. (SERGIPE, 2022).
No dia seguinte, a imprensa sergipana noticiou que “uma gangue
formada por cerca de 20 moradores da Invasão Babilônia realizou um
arrastão em uma residência [...] em frente à entrada da garagem da antiga
plantonista, onde estava sendo realizada uma festa.” (DARRAGE, 2020).
Narrou ainda que “os marginais chegaram no local agredindo as
pessoas, recolhendo os pertences e apedrejando veículos que estavam
estacionados em frente à residência.” (DARRAGE, 2020).
Outros órgãos da imprensa veicularam o fato com as manchetes abaixo:
Figura 1
7As informações sobre o caso foram obtidas no processo de n.º 202020300208 – Auto
de Prisão em Flagrante (SERGIPE, 2022) - que tramitou na 3ª Vara Criminal da Comarca
de Aracaju, Estado de Sergipe, cuja consulta pública pode ser realizada no portal do
Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe.
176
Figura 2
177
Assim como a imprensa, o direito penal constituiu-se
historicamente num dos principais instrumentos de opressão das
populações rejeitadas: negros, indígenas, povos de terreiro e de matriz
africana e outros povos e comunidades tradicionais, como os povos
ciganos e, também, os que não tinham onde morar e nem trabalho.
178
dos que se identificam como direita é mais segregadora e excludente,
notadamente no Brasil.” (p.12).
Diante desse complexo contexto, a defesa técnica dos onze
homens em situação de rua presos no Caso da Ocupação Babilônia
impetrou habeas corpus ao Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe e
requereu a revogação da prisão preventiva, o que resultou na
restituição da liberdade dos, à época, investigados8. É sobre essas
estratégias de defesa que se debruçará a seguir.
gestão das provas, mesmo na fase processual, fica nas mãos do Juízo, conforme
defende Lopes Jr. (2020, p. 52).
10 A presença de “uma figura excessivamente ativa do julgador acomete e inviabiliza o
179
pulsões do Estado de polícia, pois é o muro mais frágil de todo Estado
de Direito.” (p.168).
Considerar o homem como uma coisa: pode-se ter uma forma mais expressiva
da incivilidade? Mas é aquilo que acontece, infelizmente, nove entre dez vezes
no processo penal. Na melhor das hipóteses aqueles que se vão ver, fechados
nas jaulas como os animais do jardim zoológico, parecem homens de mentira ao
invés de homens de verdade. E se, todavia, alguém percebe que são homens de
verdade, parece-lhe que são homens de outra raça ou, quase, de outro mundo.
Este não lembra, quando sente assim, a parábola do publicano e do fariseu, nem
suspeita que a sua seja justamente a mentalidade do fariseu: eu não sou como
este. (CARNELUTTI, 2017, p.9-10).
180
expressa Wacquant (2003, p. 19) o que para Notato (2018) é a tônica
das políticas de segurança pública dirigidas à população em situação
de rua: políticas que não são voltadas para a sua proteção, mas sim
para a criminalização de seus comportamentos característicos e que
usam eufemismos para esconder o que se busca de fato, ou seja, “a
penalização/criminalização da pobreza. As abordagens truculentas e
as medidas higienistas de intervenção no espaço visam aos interesses
estéticos das cidades, a serviço de grupos econômicos e sociais
dominantes.” (p. 108).
181
Sob este prisma, a decisão recorrida caminhava, grosso modo,
pela generalização dos fundamentos da cautelar, de forma que a
reincidência – e possível prática de latrocínio – não pode servir de base
idônea para uma nova prisão. Não é pelo cometimento de um crime no
passado que, necessariamente, a pessoa praticará outros. No caso,
não só a decisão fundamentou genericamente a reincidência como
ameaça de lesão à ordem pública, como estendeu o argumento a
terceiros que têm a primariedade ao seu favor.
Com isso, o referido argumento configura flagrante ilegalidade,
ao passo em que vai de encontro à individualização da prisão. Nos
termos do Art. 282, § 6º, do Código de Processo Penal, a prisão
preventiva somente será determinada quando não for cabível a sua
substituição por outra medida cautelar e o não cabimento da
substituição por outra medida cautelar deverá ser justificado de forma
fundamentada nos elementos presentes do caso concreto, de forma
individualizada. (BRASIL, 1941).
Assim, não pode o magistrado decretar qualquer cautelar sem que
seja de forma individualizada, sobretudo em se tratando de constrição da
liberdade, medida extrema que deve ser aplicada em último caso.
Nesse sentido, também, Nucci (2011) destaca que o magistrado deve
examinar o fato e a autoria, em detalhes, para aplicar, adequadamente, a
medida cautelar restritiva de liberdade, individualizando-a, visto que há
várias à mercê do julgador para a imposição.
Além disto, com a recente reforma trazida pela Lei n.º
13.964/2019, o Código de Processo Penal acresceu no Art. 312 que a
decisão que decretar a prisão preventiva deve destacar o “perigo
gerado pelo estado de liberdade do imputado.” (BRASIL, 1941).
Desse modo, o argumento inicial é de que, como apenas houve o
reconhecimento de dois dos onze presos como autores do suposto
latrocínio, a infração, em tese, praticada pelos demais, seria o delito de
dano, previsto no artigo 163 do Código Penal12, cuja pena máxima
abstratamente cominada é inferior a quatro anos, o que não autoriza
182
a segregação cautelar, nos termos do artigo 313, I, do Código de
Processo Penal13.
Além desta primeira estratégia, buscou-se repelir o argumento de
que são “moradores de uma invasão” como justificativa para a prisão
cautelar. Isto porque, segundo Lima (2020) a prisão decretada com
fundamento na conveniência da instrução criminal não pode se basear
em mera conveniência, mas a fim de impedir que o investigado
perturbe ou impeça a produção de provas. Meras ilações ou
conjecturas desprovidas de base empírica concreta não autorizam a
decretação da prisão do agente com base na necessidade em
assegurar a aplicação da lei penal.
Demonstrou-se, ainda, a inexistência de perigo na liberdade dos
agentes, visto que desnecessárias para acautelar o processo. Diante do
contexto pandêmico, citou-se, na oportunidade, a Recomendação n.º
62/2020 do Conselho Nacional de Justiça - CNJ, que recomendou a
utilização excepcional de prisões preventivas em se tratando de crime
cometido com violência ou grave ameaça contra pessoa, observando-se
a adequação das medidas cautelares diversas da prisão. (BRASIL, 2020).
O “Guia de Atuação Ministerial: defesa dos direitos das pessoas
em situação de rua”, produzido pelo Conselho Nacional do Ministério
Público (CNMP, 2015), inclusive, no item que aborda as suas diretrizes
de atuação, diz que a situação de extrema vulnerabilidade na qual as
pessoas em situação de rua se encontram, decorrente das diversas
espécies de atos discriminatórios e do não acesso à fruição de direitos
fundamentais, exige que o trabalho de fiscalização do Ministério
Público esteja conectado com o Decreto Federal n. 7.053 de 2009, que
institui a Política Nacional para as Pessoas em Situação de Rua e, em
relação às medidas relativas à liberdade pessoal, sugere aos membros
do Ministério Público da União e dos Ministérios Públicos dos Estados
que atuem de modo a:
13Prevê a lei que: “Art. 313. Nos termos do art. 312 deste Código, será admitida a
decretação da prisão preventiva: [...] nos crimes dolosos punidos com pena privativa
de liberdade máxima superior a 4 (quatro) anos.” (BRASIL, 1941). Segundo Lima
(2020), “Atento ao princípio da proporcionalidade, o dispositivo visa evitar que o mal
causado durante o processo seja desproporcional àquele que, possivelmente, poderá
ser infligido ao acusado quando de seu término. Ou seja, ao decretar a prisão
preventiva, deve o juiz fazer um prognóstico se, ao término do processo, ao réu
poderá ser aplicada pena privativa de liberdade”.
183
I - Zelar pela observância da Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001, para que a
internação, em qualquer de suas modalidades, só seja efetivada quando os
recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes, assim o fazendo
mediante laudo médico circunstanciado que aponte os seus motivos; e que a
internação compulsória só seja determinada, de acordo com a legislação
vigente, pelo juiz competente, que haverá de levar em conta as condições de
segurança do estabelecimento quanto à salvaguarda do paciente, dos demais
internados e dos funcionários;
II - Impetrar ação de habeas corpus para fazer cessar restrição à liberdade da
pessoa em situação de rua presa com fundamento na contravenção penal de
vadiagem (conduta descrita pelo art. 59 do Decreto-Lei n. 3.688, de 3 de outubro
de 1941 – Lei das Contravenções Penais);
III - Zelar pela inocorrência de prisões arbitrárias ou medidas de restrição de
liberdade baseadas em estigmas negativos e preconceitos sociais, tais como as
prisões para averiguações;
IV - Adotar medidas judiciais, inclusive a eventual impetração de ação de habeas
corpus, para fazer cessar restrição à liberdade decorrente de prisão provisória que se
mostre abusiva ou que evidencie intenção de criminalização da pobreza ou de
movimentos sociais, promovendo a apuração da responsabilidade pelo abuso de
autoridade, nos termos do artigo 653 do Código de Processo Penal. (p.29-30)
Conclusão
184
notadamente, os fundamentos jurídicos que embasaram a impetração
de habeas corpus e do pedido de revogação da prisão preventiva,
trazendo uma perspectiva crítica acerca de como a prisão preventiva
não pode servir como antecipação de pena, sob risco de esvaziamento
do devido processo legal.
Depreendeu-se, inicialmente, o entendimento de que a decisão
genérica não possui condão de legitimar a custódia de alguém,
sobretudo quando utilizados argumentos característicos de terceiros
para justificar o cárcere de outrem. Por isso, a legislação processual
penal é clara ao indicar que as decisões devem ser fundamentadas
considerando o caso concreto individualmente.
Em seguida, investigaram-se os principais elementos
constitutivos das decisões judiciais prolatadas no processo: 1) que
havia risco de que os suspeitos, por serem moradores de uma
ocupação, não fossem encontrados para que pudessem responder ao
processo; 2) que alguns dos presos seriam reincidentes e; 3) que o
suposto crime praticado seria grave.
Ocorre que esses elementos constitutivos, quando analisados
pela Corte Sergipana foram afastados, de modo a respeitar o fato de
que as meras conjecturas desprovidas de base empírica concreta não
autorizam a decretação da prisão do agente, afinal, não se constava
nos autos qualquer informação de que os onze homens em situação
de rua presos no Caso Babilônia estivessem influenciando na produção
de provas ou conjecturavam fugir do distrito da culpa.
Para corroborar com essa análise, foram trazidas jurisprudências
do Supremo Tribunal Federal, do Superior Tribunal de Justiça e do
Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe.
Nesse contexto, investigou-se, ainda, como a defesa traçou os
caminhos para elaborar as suas teses e para garantir o direito à liberdade
dos suspeitos. Além da indicação de que a decisão que fundamentou a
custódia carecia de fundamentação, o impetrante do habeas corpus
justificou ausência de fumus comissi delicti e periculum libertatis.
Em relação aos pedidos de liberdade, ficou evidente: 1) a
importância das alegações da impossibilidade da aplicação da prisão
preventiva em crimes cuja pena máxima é inferior a quatro anos e; 2)
que havia fundado risco à integridade dos custodiados, visto que a
prisão ocorreu durante a pandemia da Covid-19.
185
O artigo ainda abordou a estratégia defensiva, a partir do caso
concreto, do instituto da revogação da prisão preventiva enquanto
instrumento voltado a garantir a liberdade das pessoas que foram
presas de forma - ainda que legal - desnecessária.
Portanto, confirmou-se o prognóstico de que quando a defesa
técnica se atém aos institutos jurídicos criados para coibir excessos
de poder e decisões que carecem de razoabilidade, a probabilidade
de o direito constitucional à liberdade de locomoção ser efetivado
cresce significativamente.
Ainda, as conclusões apontam para a necessidade de mudanças
na formação do sistema de justiça e na necessidade de construção de
espaços de atendimento jurídico qualificado para as demandas penais
da população em situação de rua, sejam promovidos pelos poderes
públicos ou por organizações sociais.
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SERGIPE. Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe. Ação Penal de
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Comarca de Aracaju. 15 abr. 2020. Disponível em: [Link]
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WACQUANT, Loic. As prisões da miséria. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
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Criminológico. Rio de Janeiro: Revan, 2003.
189
190
EDUCAÇÃO SOCIAL DE RUA E
PESQUISAS COM PESSOAS EM
SITUAÇÃO DE RUA
191
192
EDUCADOR SOCIAL DE RUA:
um andarilho da esperança para os (in)visibilizados das ruas
193
Há tempos, venho sendo andarilha. Em 1982, fiz um caminho que
mudaria para sempre meu existir no mundo. Saí de Vitória para Recife,
à época, comprometida com uma causa religiosa e não parei mais de
“andarilhar”. Aprendi o gosto da vida em outros lugares, em aprender
com a experiência do outro, em perceber, em escutar o caminho de
minhas andarilhagens.
Iniciei minha vida profissional na cidade do Recife, trabalhando
nas ruas. Aos 19 anos, quando entrei no Seminário de Educadoras
Cristãs em Recife, tive minha primeira experiência trabalhando em
uma ONG chamada visão mundial, em parceria com a Igreja Batista da
Concórdia, em Pernambuco
No início, fazia abordagens nas ruas da cidade do Recife, durante a
madrugada com um grupo de jovens, todos evangélicos. Nosso objetivo
maior era evangelizar, no sentido proselitista e dogmático da palavra,
prostitutas e viciados que faziam das ruas seu lugar de morada. Um grupo
ingênuo de jovens, sem formação específica, querendo mudar o mundo a
partir da religião, no final da ditadura militar.
Estar com aquelas pessoas era algo estranho, paradoxal, que me
fazia enxergar o tamanho da invisibilidade delas para sociedade. Com
o passar do tempo, fui morar em um bairro onde chamado Brasília
Teimosa3. Lá, existia uma famosa zona de prostituição com o objetivo
de realizar um trabalho religioso e social com as prostitutas e seus
filhos. Assim, realizava o trabalho nas ruas de Recife e no bairro de
Brasília Teimosa.
Nesse momento histórico, no final da ditadura militar, o Brasil
reagia fortemente às arbitrariedades do governo militar, no final da
década de 70, início de 80. O governo militar não conseguia mais
esconder seus fracassos e arbitrariedades da sociedade. O Brasil vivia,
então, a plena revitalização dos movimentos sociais e das lutas pela
democratização de um país imerso na desigualdade social, com graves
problemas econômicos e sociais. Em meio a esse contexto de saúde
civil, emergia uma luta contra a abordagem repressiva e
assistencialista em relação às pessoas em situação de rua no Brasil
(jovens, adultos, idosos, crianças).
A Educação Social de Rua emerge no Brasil, então, entre o final
dos anos 70 e início dos anos 80. Sua gênese ocorre com práxis da/na
194
rua em meio a uma imensa população que a habitava devido aos
inúmeros problemas sociopolíticos e econômicos que ocasionou
aumento significativo da extrema pobreza, desigualdade e
vulnerabilidade social, da camada negra e pobre do país. A Educação
Social de Rua surge, assim, voltada para os pobres e oprimidos por um
sistema econômico perverso, que viola direitos humanos quando
deveria garanti-los.
Em meio a esse contexto social desastroso, homens e mulheres
se colocam na andarilhagem da esperança. As pastorais da igreja
católica foram fundamentais na mobilização e formação de
educadores de Rua que lutavam pelos direitos dos (in)visíveis que nela
habitavam. Dessa forma, homens e mulheres, de maneira voluntária,
iniciam trabalhos repletos de intencionalidade educativa com a
população em situação de rua em todo Brasil, especialmente com as
crianças e adolescentes , fazendo surgir em 1985 o Movimento
Nacional de Meninos e Meninas de Rua do Brasil. Este movimento
nasceem prol da proteção, da luta por direitos, reinserção, dignidade,
socialização e humanização de crianças e adolescentes que viviam em
situação de abandono nas ruas, nascendo na e da resistência ao
governo militar violento (PAIVA, 2006) que ao invés de cuidar,
perseguia e exterminava a população de rua.
195
eclesiais de base. Esse movimento expandiu-se a todos os grupos e
sujeitos que se encontravam de alguma maneira em situação de
vulnerabilidade e com seus direitos violados, levando esperança,
apesar de não se limitar a uma classe social. Dada a grande
desigualdade social no Brasil, essa Educação tem se ocupado
prioritariamente dos grupos mais pauperizados, pois estes
constantemente tem seus direitos humanos violados. São os
chamados excluídos da sociedade de consumo, que ocupam vários
outros espaços da sociedade possíves, emboranão se enquadrem em
seus padrões.
O encontro com os Educadores de Rua em Recife, em um período
de grandes transformações históricas no Brasil, no qual os movimentos
sociais assumiram importante papel na sociedade brasileira, me levou
a conhecer o pensamento de Paulo Freire. Isso causou meu
afastamento do campo religioso, fundamentalista e dogmático,
apresentando-me uma outra educação, diferente, dirigida aos pobres,
aos oprimidos, aos invisibilizados de uma sociedade injusta
socialmente. Uma educação sobretudo esperançosa.
Uma vez consciente de meu fazer educativo nas ruas, busco
formação através do curso de pedagogia e posteriormente do curso
de direito. Posso afirmar que minhas escolhas acadêmicas foram
escolhas de vida. Ocorreram por militância, por desejo de uma
sociedade em que caibam todos, por querer estar ao lado daqueles que
expõe as fraturas sociais através de sua (in)visibilidade existencial.
Estive por mais de 20 anos nas ruas, primeiro na cidade de Recife,
posteriormente na cidade de Vila Velha, sempre junto àqqueles que a
sociedade finge não ver. Hoje sou educadora social por identidade e
andarilho através da escrita:
196
Educador social de rua: quem é este andarilho?
197
com processos de emancipação humana, com educação e formação
política além dos muros da escola.
O fazer do Educador Social é um fazer cheio de sentido, amoroso,
sem ser piegas. No dizer de Freire, a amorosidade seria “aquela que
percebe a vida como um processo acontecendo e não algo que é
determinado a priori” (FREIRE, 2002, p.74). Eles vivem em meio a
processos dinâmicos, complexos, como o é a própria vida. O desafio de
educar em meio à negação de direitos humanos, em meio à
invisibilidades e dores é, sem dúvida, um ato de coragem, que exige do
Educador Social permanente análise crítica da realidade.
A nomenclatura “educador social” no Brasil nasce lado a lado com
a Educação Social, pois é o executor de suas práxis. Se constitui a partir
da luta pelos direitos humanos das crianças e adolescentes que, na
ocasião, viviam nas ruas totalmente desprotegidos e desprovidos de leis
que lhes assegurassem direitos. Tais educadores eram os militantes dos
movimentos sociais. Dentre eles, havia professores, assistentes sociais,
profissionais da área da saúde, da teologia, estudantes de variados
cursos e outros que se embrenharam às causas humanitárias. Para os
primeiros educadores sociais de rua, segundo Oliveira (2004), não havia
treinamento específico, o que os dava certo direcionamento era a
Teologia da Libertação, além de leituras pessoais das obras de Freire,
Makarenko, Freinet, Erving, Goffman e Foucault. Conta nessa lista
formativa os encontros semanais, em que trocavam ideias, experiências
e leituras de textos que os fazia refletir e avaliar suas práticas, o que é,
ou deveria ser uma constante para o educador social.
Como já mencionado acima, o educador social se constituiu nas
ruas. Este foi seu primeiro campo, que mais tarde se estendeu a
contextos diversos, se estendeu a todos que tem seus direitos
humanos violados. Nasceu da luta por crianças e adolescentes em
situação de rua, que viviam em situação de completo abandono, sendo
inclusive alvo de extermínio. Estes eram os sujeitos da Educação Social
de Rua, crianças e adolescentes que faziam das ruas seu lugar de
morada, junto a adultos, idosos etc.
A rua se tornou um espaço educativo libertador por pura
necessidade social. Nas ruas, aconteciam ações de transformação de
sujeitos, de formação política e social daqueles que a sociedade insistia
em não ver. A rua foi, então, por muito tempo, o espaço mais utilizado
pelo Educador social. Na década de 90, com as mudanças políticas
198
ocorridas no Brasil, com a nova Constituição de 1988, com o criação do
Estatuto da criança e do Adolescente, fruto da luta da sociedade civil
organizada e Educadores Sociais de Rua, a Educação Social foi
(re)pensada e se (re)constituiu, fazendo com que os Educadores
Sociais ocupassem outros espaços, com todas as faixas etárias e
demandas e locais diversos.
As ONGs, asilos, abrigos, orfanatos, prisões, internatos, hospitais,
o campo, projetos sociais, cooperativas, empresas, escolas, as próprias
ruas, apesar de não serem mais o grande palco do educador social,
dentre outros, se constituem campo de atuação do educador social no
Brasil. Nestes espaços, o andarilho reinventa a educação de forma
consciente e libertadora.
“A educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem. Não
se pode temer o debate, a análise da realidade. Não fugir da discussão
criadora, sob pena de ser farsa” (FREIRE, 1983, p.104). O Educador
Social é um andarilho nesses novos espaços de educação que se
apresentam ainda nos dias de hoje como um mosaico em construção
permanente, repleto de desafios e perspectivas, tecido aos poucos
pelos atores do cotidiano que adotaram as ruas, lugar por vezes
inóspito, como espaço educativo amoroso e esperançoso.
A Educação Social de Rua não surge de forma antagônica à
Educação Escolar. Esta é vista e sentida pelos Educadores Sociais como
um espaço importante, lugar de lutas. Mesmo com seus paradoxos e
mazelas, ainda se constitui lugar de lutas, um dos palcos de esperança
para os oprimidos. Entretanto, os Educadores Sociais sabem que não
se podem limitar processos educativos apenas ao espaço escolar; seria
como observar somente parte do mundo que vivemos, estreitando
horizontes. A práxis da Educação Social de Rua nos ensina que a escola
não é reserva natural da formalidade e nem do rigor pedagógico. A
escola não se constitui o único espaço de formação e informação do
ser-ai-homem” (PINEL, 2006).
Nesse sentido, Vygostsky nos ajuda a compreender como ocorre
a educação quando afirma que:
No fim das contas só a vida educa, e quanto mais amplamente ela irromper na
escola mais dinâmico e rico será o processo educativo. O maior erro da escola foi
ter se fechado e se isolado da vida com uma cerca alta. A educação é tão
inadmissível fora da vida quanto a combustão sem oxigênio ou a respiração no
199
vácuo. Por isso o trabalho educativo do pedagogo deve estar necessariamente
vinculado ao seu trabalho criador, social e vital (VYGOTSKY, 2001, p. 456).
200
no Brasil tem como referência teórica, principalmente, Paulo Freire.
Hoje, muitos órgãos públicos Municipais, Estaduais e Federais, assim
como diversas ONGs, não orientam os procedimentos da abordagem
da rua segundo os pressupostos da Educação Social de Rua. Então,
nem todos aqueles que atuam nas ruas junto à população em situação
de rua podem ser denominados, de fato, Educadores sociais de Rua.
A práxis da Educação Social de Rua, referenciada em Paulo Freire,
dada sua complexidade, costuma ser mais hábil, flexível, dinâmica,
versátil. É uma prática pedagógica militante, que se transforma em
instrumento de promoção, libertação pessoal e comunitária,
contribuindo para um mundo mais justo através de um projeto
educativo voltado para humanização das pessoas.
O fazer do Educador Social ainda se constitui um fazer em
construção. Por isso, a compreensão de suas práticas certamente
contribuirá para o aprofundamento dessa ciência. Oliveira (2004 p.27)
dizia, em 1994, que era inadmissível um fenômeno tão importante
quanto o avanço pedagógico trazido pela Educação Social de Rua não
se fazer presente tanto quanto o país necessitava. É nesse sentido que
muitas universidades hoje, no Brasil, realizam pesquisas buscando
conhecer e visibilizar o conhecimento construído no espaço rua
através de Educadores Sociais de Rua.
A produção teórica da Educação Social no Brasil se fortalece em
forma de livros, artigos, revistas, trabalhos feitos por pesquisadores da
área, que muito têm contribuído para reflexão e formação do
educador social. Aqueles redigidos pelo próprio educador, que, ao
sistematizar sua prática, faz o movimento de se reinventar enquanto
educador e ser humano. As sistematizações, o acervo de teorização a
ser utilizado na formação do Educador Social, funcionam como fonte
de conhecimento aos que não atuam e aos que não atuam, mas
desejam estar na área.
O educador social no Brasil é um profissional que pode ser
remunerado ou voluntário, efetivo ou contratado, atuando em
espaços educativos variados. São responsáveis por realizar
intervenções na vida de pessoas que se encontram em fragilidade
humana, vulnerabilidade social e/ou excluídas da sociedade. Trabalha
com uma educação voltada para a autonomia, liberdade, sempre
comprometida com o educando.
201
Seu papel está muito atrelado à garantia dos direitos, à convivência
social como um direito humano, à construção da cidadania, ao
protagonismo de seu educando, levando-o a sentir- se parte de uma
sociedade, sujeito de direitos. Dentre suas atribuições, está a de
transformação, tanto do sujeito quanto da sociedade e de si mesmo
O Educador Social brasileiro sofre a invisibilidade de sua atuação
e profissão, a mesma invisibilidade que seus educandos sofrem
socialmente. Ele clama por formação específica para a área da
Educação Social, por uma área de atuação reconhecida, por formação
no sentido acadêmico, o que desde muito tempo acontece na Europa.
A formação do Educador social ainda é uma das principais
fragilidades do oficio. Na década de 80 e 90, as formações ocorriam
através do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua,
contando, inclusive, com Paulo Freire atuando diretamente na
formação desses educadores, que tinham a militância como forte
aliado em sua formação.
Com o esvaziamento dos movimentos sociais, a formação do
Educador social ficou extremamente prejudicada. No final da década de
90, as universidades brasileiras começam a perceber a importância dessa
outra possibilidade educativa, encetando pesquisas na área, ao mesmo
tempo em que se abria para formação dos educadores através de
congressos, seminários, cursos de formação, extensão universitária etc.
Mesmo em meio à abertura da academia aos Educadores Sociais,
a sistematização da práxis educativa social ocorre também na
experiência do vivido do Educador social com seu educando, produz
conhecimento a ambos. Paiva (2011, p.78) diz que “a experiência
ultrapassa a informação [...]”, relatando que a formação está fincada
principalmente na experiência de ser educador, nas experiências que
suas práxis lhe presenteiam, apesar das inúmeras dificuldades que
estas lhe proporcionam nos mais diversos e diversificados contextos.
Sobre a experiência, Larrosa (2001) nos diz:
202
O Educador social no Brasil hoje sem dúvida é uma profissão que
se torna cada vez mais necessária, dada a crescente desigualdade
social e racial que se aprofunda de forma especial após o golpe sofrido
pela presidenta Dilma Rousseff em 2016, estabelecendo uma perigosa
ruptura democrática.
Em meio ao caos político, democrático e pandêmico que vivemos
hoje, a população em situação de rua, num ato de resistência,
resiliência, enfrentamento ou tentativa de sobrevivência, teima em
aumentar. Não se acomodando às misérias das favelas, eles mostram
sua capacidade de resistir, ainda que sejam vistos pela coletividade
como os sem direitos, não cidadãos, intrusos nas comunidades mais
abastadas. Essa camada da população é vista de forma pior que os pobres,
considerados ninguém, compondo a paisagem destoante do cenário
econômico. São aqueles que não se aconchegam na mornidão da
miséria. Embora sejam considerados como paisagem obscura, que, às
vezes, causam medo, estranhamento, a cada dia, mesmo com a
necropolítica, fica mais difícil para o Estado mantê-los invisíveis. Eles
resistem, apesar de todo desprezo social a que são submetidos. Sobre
a forma de resistir, Freire nos diz:
203
profissão de Educador Social. Este projeto, na visão de Bauli (2018),
atenderia melhor às necessidades atuais do educador social enquanto
profissional da área da Educação Social. Este PL, além de estabelecer
as atribuições do Educador Social, estabelece o nível mínimo de
formação em cursos de educação superior, preservando os interesses
daqueles que já exercem a atividade sem referido nível. Os projetos de
Lei ainda tramitam nas casas de lei (câmara de deputado e Senado) e
vêm sendo alvo de constante debates e audiências entre os
Educadores Sociais brasileiros.
Hoje, enquanto lutam pela regulamentação da profissão, os
Educadores Sociais criam pedagogias , desenvolvem métodos e
técnicas para lidar com a adversidade de uma população
(in)visibilizada. O Educador Social de Rua que tem em Paulo Freire sua
referência teórica tem, como ponto de partida, o comprometimento
com o oprimido, que nem sempre se mantém nessa posição; é ora
oprimido, ora opressor. Dessa forma, a práxis do Educador Social se
desvela de dive maneiras, num cotidiano inventivo. Devido a essa
provisoriedade, o educador social precisa a todo instante analisar
criticamente sua práxis, rever a teoria que o orienta, para sempre
redimensionar sua compreensão de mundo, vendo esse mundo com o
oprimido e também a partir dele, compreendendo, para além do
mundo exterior, sua prática pedagógica e a si mesmo.
Os sujeitos, os educandos da Educação Social de rua de forma
específica são pessoas que vivem em situação econômica desumana.
Portanto, o diálogo entre oprimido e opressor é uma exigência
existencial para libertação e humanização de ambos, para que haja a
quebra do círculo de marginalização do qual o educando é parte.
Oprimido e opressor precisam estar nesse processo de libertação
mútua que, nas ruas, é mediado pelo Educador Social. Freire (1999, p
99) compreende que “é por isso que o opressor se desumaniza ao
desumanizar o oprimido, não importa que coma bem, vista bem, que
durma bem. Não seria possível desumanizar sem desumanizar se tal
radicalidade social da vocação. Não sou se você não é, não sou,
sobretudo se proíbo você ser”.
O Educador social de Rua atua como os oprimidos
desumanizados, é um educador das margens que também de alguma
forma está à margem e nela andarilha com esperança, com luta, mas
por vezes precariamente, sem formação oficial. São brasileiros e
204
brasileiras, militantes que se propõe a caminhar com os oprimidos, a
se inserir se em seu cotidiano, mas não possuem sequer uma titulação
oficial que os constitua como Educadores Sociais. Com isso, muitos
educadores ficam apreensivos em investir em suas carreiras na
Educação Social.
Essa marginalização profissional de quem trabalha com os
marginalizados, essa invisibilidade marginal, a não cidadania, tem
contribuído para não sistematização de toda riqueza da prática
pedagógica construída pelos Educadores Sociais de Rua nos “entre
lugares” (BHABHA, 2003), nas margens, junto com os oprimidos.
Dessa forma, compreender as vivências e experiências, bem
como produzir significados a partir delas no campo da Educação Social
de Rua, constitui-se um desafio para sociedade, para academia.
Sabemos que as vivencias e experiências que produzem práxis junto
aos educandos em situação de rua não se produzem só por uma via,
mas resulta de um processo colaborativo entre educador /educando.
Eles agem o tempo todo em parceria, contaminados um pelo outro,
numa ação reflexão constante, pois, sem isso, o conhecimento seria
algo mecânico e irrefletido.
205
Compreendemos, assim, que o conhecimento surgido da relação
Educador Social e o educando em situação de rua é mutável, dinâmico,
possível, pois é construído com o outro. Quando possui sentido na
história humana, na história do ser que é singular, único, também
produz história. A construção com o outro afirma-se “[...] através do
diálogo que se opera a superação de que resulta um termo novo: não
mais educador do educando, não mais educando do educador, mas
educador-educando com educando- educador” (FREIRE,1980a, p.78).
Assim seguem os Educadores Sociais em suas andarilhagens
esperançosas, repleta de luta e sonhos possíveis.
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206
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VYGOTSKY, L. S. Psicologia pedagógica. SãoPaulo: Martins Fontes, 2001
208
AS PRÁTICAS E CONCEPÇÕES DE CIDADE EDUCADORA NA
CONSTRUÇÃO DO SUJEITO ÉTICO
209
processos de configuração da subjetividade individual e coletiva. Para
atingir esse fim, a perspectiva da Cidade Educadora promove a
participação de todos e o diálogo como metodologias formativas de
uma tomada de consciência dos atores envolvidos.
Uma atitude interdisciplinar permite capturar, do ponto de vista
da fenomenologia, o movimento dialético existente entre as
estruturas sociais e a subjetividade humana. Do ponto de vista
epistemológico, a pedagogia social se constitui nas entranhas dos
movimentos sociais, a partir das experiências de busca pela justiça e
pelo reconhecimento do existir humano.
Numa certa leitura da população em situação de rua, dos
adolescentes em conflito com a lei e de rua, e da formação inicial dos
professores, pode-se capturar uma ontologia do ser humano e das
práticas, estratégias e táticas do sujeito, em seu modo peculiar de se
colocar no mundo. A teoria produzida a partir dessas experiências é
denominada pedagogia social.
Geralmente, a pesquisa pressupõe ideias, percepções e histórias
de vida que se entrelaçam, se atualizam e são revisitadas.
Apresentamos, aqui, alguns entrelaçamentos observados nas relações
entre arte, ciência, formação de professores e pedagogia social, de
forma interdisciplinar, com base em alguns marcadores temporais que
possibilitem ao leitor identificar os entrelaçamentos entre os temas.
210
reconhecimento da sua condição de cidadãos, a qual se constitui para
além da condição biológica, na relação com o outro e com a cultura.
Embora tratássemos de atividades realizadas em um ambiente
cultural específico, um museu de artes, que tem no seu acervo objetos
que fazem referência ao morar, não estamos reduzindo inserção na
cultura à frequentação desses espaços culturais, mas compreendendo
os diversos espaços de aprendizagem humana ao longo da vida.
Entre as reflexões e considerações que hora revisitamos, relativas
ao processo de desenvolvimento humano e às cultura, incluímos a
possibilidade de um transfazer, uma transformação das pessoas
envolvidas no processo de imersão sociopolítica na cultura, que
emerge da observação de alguns fatores, tais como a sociabilidade das
pessoas que participam de atividades de arte, hortas comunitárias e
passeios desenvolvidos no Centro Pop e as mediadas socioeducativas
de adolescentes em conflito com a lei.
As pessoas, quando frequentavam essas atividades culturais,
raramente se envolviam em brigas, mas respeitavam as regras
extremamente rígidas dos museus e eram colaborativas com os
demais. Já os relatos sobre o comportamento delas no albergue em
que pernoitavam sugeriam um comportamento bem distinto. Eram,
por isso, com frequência, adjetivadas como pessoas “problemáticas”,
que não respeitavam regras, entre outras questões relativas à
sociabilidade. Diante dessa contradição, algumas questões
precisavam ser esclarecidas, pois mudanças de comportamento
tendem a ser relacionadas quase que automaticamente a escolhas
pessoais, num movimento que envolve atribuição de rótulos e
possíveis estigmatizações de pessoas e grupos socais.
Desviando desse caminho, optamos por nos questionar se não
seriam esses equipamentos públicos distintos, o museu, o centro Pop
e o albergue, espaços de disputa, radicalmente opostos quanto à
possibilidade de escuta e de apropriação por parte daqueles que o
frequentam e promotores de possibilidades do transfazer das pessoas.
Sobre espaço e lugar, Certeau (1994, p. 201-202) faz a seguinte
distinção: “lugar é a ordem (seja qual for), segundo a qual se
distribuem elementos nas relações de existência”, já espaço seria “um
lugar praticado”, e “a rua geometricamente definida por um
urbanismo é transformada em espaço pelos pedestres”. A “[...] leitura
211
é o espaço produzido pela prática do lugar constituído por um sistema
de signos - um escrito”.
Observar o conceito de espaço como o de “lugar praticado” é
observá-lo numa perspectiva processual e dialética, de forma que seja
possível identificar se as práticas que constituem o espaço e o espaço no
qual as práticas ocorrem se retroalimentam ou não, assim como quais as
práticas são esperadas das pessoas que habitam, frequentam o espaço.
O espaço constituído nos permite fazer aproximações que
envolvam a utilização da arte enquanto forma de mediação e prática
cultural, como um fator preponderante para a constituição de lugares
e ordem, hierárquicos em espaços em que seja possível a emergência
de relações entre os sujeitos que nele habitam, que o frequentam, que
permitam que o diálogo, a escuta se sobreporia ao monologo das
regras arbitrárias.
212
sociais voltadas ao atendimento da população em situação de rua,
sendo um dos primeiros equipamentos públicos do país a tentar atender
à recém instituída Política Nacional de Atenção à População de Rua.
À época de realização das ações descritas, a estimativa de
pessoas em situação de rua na cidade de Osasco era de 120 pessoas.
No Brasil, esse contingente era de aproximadamente 33.000 pessoas,
número que não retratava a realidade, pois a pesquisa ficou restrita
aos grandes centros urbanos do país.
É muito significativo, neste texto, abordar as relações entre
espaço, lugar e população em situação de rua, pois, se existe um grupo
social no qual as tensões para estabelecimento e reconhecimento de
seu espaço, esse grupo é o das pessoas em situação de rua, como se
pode observar nas mais diversas cidades do Brasil e do mundo.
Reconhecida a diversidade e heterogeneidade desse grupo social e as
diferenças entre cidades, Estados, países e continentes, é possível
verificar, em maior ou menor grau, um movimento pelo seu
reconhecimento e suas práticas nos mais diversos espaços que ocupam.
O Museu da Casa Brasileira (MCB) é descrito em seu site oficial
como uma instituição pública pertencente à rede de 16 museus
estaduais, vinculados à Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo,
com a missão de ser um centro museológico de referência
relativamente às questões da morada brasileira pelo viés de seus usos
e costumes, arquitetura e design. O Museu buscava preservar as
relações do homem com seu habitat, por meio da pesquisa, da
discussão e da comunicação, estimulando a inclusão social. O Museu é
uma casa em estilo neoclássico que serviu de morada ao ex-prefeito de
São Paulo (1934-1938), Fabio da Silva Prado e sua esposa:
213
Figura 1: Museu da Casa Brasileira. Acervo pessoal Orlando Coelho Barbosa.
214
privados. O que é o referencial de lar? Qual a
função desse referencial?
Abordagem: Faremos uma visita ao acervo do
museu, buscando ler algumas peças
escolhidas de acordo com o interesse do
grupo. Após a discussão, iremos realizar uma
visita mediada junto a uma experiência
sensorial do acervo, para sensibilizá-los sobre
as questões relacionadas aos usos e costumes
das peças expostas. A intenção é trazer ao
grupo a memória afetiva como ferramenta
para um referencial de identidade focado na
relação entre as pessoas e suas casas.
Questões: Onde nós estamos? O que tem aqui
dentro? Por que existe este lugar? Tem
alguma coisa aqui que você não sabe o que é?
O que estes objetos estão fazendo aqui? Eles
contam alguma história sobre você? Quais
destes objetos te faz lembrar alguma história?
Quais deles não fazem?
3º Exposição À A relação entre o eu e o outro no espaço
Rua é Nossa... público
É de Todos Abordagem: Etapa 1 - Faremos um breve
Nós e sala de passeio ao museu e à apresentação da
encontro Exposição “À Rua é Nossa, é de Todos Nós...”,
conhecendo as salas e conversando com os
educadores. Em outra sala, iremos realizar
uma dinâmica que visa a refletir sobre a
convivência entre os diferentes interesses
individuais que compõe o espaço público e
como essas relações podem ou não ser
harmoniosas.
Etapa 2 - Focada na produção de materiais
feitos pelos membros do grupo e como
exercício de ampliação do campo de
possibilidade de construção da identidade,
visando que os participantes exercitem a
capacidade de expressão de sua história a
partir das ferramentas utilizadas nas visitas
anteriores.
Questões: O que é uma rua? Para que ela
serve? Quem a utiliza? Quem não a utiliza?
215
Como são as relações pessoais que existem na
rua? Quando elas são harmônicas? Quando
não são? Todos podem utilizar a rua? O que
tem na rua?
4º SMADS e Expressão: a transformação da memória
Centro de individual em coletiva - Aproveitando o
Inclusão material trazido pelos membros do grupo
durante as conversas e dinâmicas gravadas e
transcritas, realizadas nos encontros
anteriores, a intenção é que o grupo passe a
selecionar essas memórias para servir de
conteúdo de um produto a ser definido
posteriormente.
Abordagem: Será proposto que se trace um
paralelo entre as memórias individuais
fomentadas na primeira visita ao MCB e as
análises realizadas sobre a coletividade da
visita a exposição “À Rua é Nossa”, para a
construção de uma memória coletiva, a partir
de elementos individuais comuns nos relatos.
Questões: O que vocês fizeram no museu?
Para que as pessoas vêm ao museu? O que
vocês se lembram do que foi feito nos
encontros? Como podemos mostrar o que
fizemos para as outras pessoas? Precisamos
mostrar tudo o que fizemos para as outras
pessoas? O que vamos mostrar para as
pessoas? O que nossas histórias têm de
semelhante umas com as outras? O que elas
têm de diferente? O que mais chamou a
atenção de vocês nessas histórias? Em que
espaço vocês sentem que suas vozes são
ouvidas? Vocês acham que o museu também
conta a história de vocês? Por quê? Como essa
história poderia ser contada? O que vocês
querem dizer? E o que preferem não dizer?
5º MCB Difusão - Para a finalização do projeto, está
prevista a difusão da ação para o público geral
que frequenta o MCB.
Abordagem: Os dois grupos atendidos serão
convidados a visitar novamente o museu,
desta vez, simultaneamente, como
216
oportunidade de trocar as experiências que
tiveram ao longo da ação. Existe, ainda, a
possibilidade do encontro dos grupos com
Robson Mendonça, ex-morador de rua e atual
diretor presidente do Movimento Estadual da
População em Situação de Rua de São Paulo e
idealizador do Bicicloteca, que doa livros a
pessoas em Situação de Rua.
217
Figura 2: Cartaz Existe Por Favor.
218
A primeira parte que consistiu em uma visita ao acervo do Museu da Casa
Brasileira foi marcada por relatos extremamente afetivos e nostálgicos,
notadamente relacionados à infância, ou a um passado de uma “casa” que já
não existe mais. A disposição dos objetos no Museu também suscitou no grupo,
sentimentos relativos à família, religiosidade (no caso de um Oratório), trabalho.
Um integrante do grupo não se conformava com o fato de apenas duas pessoas
terem morado no espaço que hoje é o Museu (BARBOSA, 2012, p.22).
219
A palavra/frase que viria a dar nome ao cartaz surge neste momento. Em um
primeiro momento como uma afirmação da violência a qual o grupo está sujeito
diariamente, daí a afirmação “Não existe, por favor, na Rua”, para depois tornar-
se um questionamento sutil desta mesma violência (BARBOSA, 2012, p. 22).
220
Figura 3: Mesa Mosaico.
221
Nas figuras 3 e 4, a obra de arte recriada em forma de mosaico foi
realizada por dois participantes do Centro Pop e exposta durante a
inauguração do espaço e, posteriormente, em uma exposição de artes
na unidade LAPA/Tito do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial
(SENAC-SP), entre outros espaços culturais. O processo de realização
foi assim descrito:
222
Figura 5: Cartaz Seminário.
223
Todos os habitantes de uma cidade terão o direito de desfrutar, em condições
de liberdade e igualdade, os meios e oportunidades de formação,
entretenimento e desenvolvimento pessoal que ela lhes oferece. O direito a uma
cidade educadora é proposto como uma extensão do direito fundamental de
todos os indivíduos à educação. A cidade educadora renova permanentemente
o seu compromisso em formar nos aspectos, os mais diversos, os seus
habitantes ao longo da vida. E para que isto seja possível, deverá ter em conta
todos os grupos, com suas necessidades particulares.
224
Figura 7: Grafite MSE.
225
Na imagem, é possível observar uma parte do processo de
realização da obra que envolveu um Livro de Artista e um vídeo
desenvolvidos de forma interdisciplinar com a arquiteta Pamela Sarabia.
Compreendemos que as ações desenvolvidas junto à população
em situação de rua e aos adolescentes em conflito com a lei, em
espaços e tempos distintos, compartilham dos mesmos princípios que
norteiam o conceito de Cidade Educadora, no que se refere ao direito
de desfrutar, com liberdade e igualdade, de condições de acesso à arte
e à cultura. Ao mesmo tempo, são ações que podem permitir aos que
dela participaram inverter a lógica de partilha do sensível à qual estão
expostos. Podem, enfim, transfazer sua biografia, por meio de
pequenas ações e mediações, fazer circular os seus modos de perceber
a cidade, os seus direitos, ampliando a sua participação de forma à
construir uma cidadania efetiva.
Para considerar a possibilidade de transformação da cidade em
uma Cidade Educadora, é importante pensar na formação de
professores da educação básica, compreendendo que a escola pode
ser um espaço provocador de reflexões sobre a construção de uma
cidadania efetiva. A função social da escola é um processo histórico e
cultural e o conceito de uma Cidade Educadora amplia as discussões
sobre esse processo, ao deslocar da escola a única responsabilidade
pela educação na sociedade.
Neste sentido, os programas de formação de professores
precisam ousar e experimentar dialogar e reconhecer os vários
saberes que adentram a escola, a questão social, o território e os
diversos atores sociais, além de utilizar as mais diversas linguagens
nesse processo formativo. Uma experiência singular que entendemos
caminhar nesta direção, envolvendo a criação de cenas inspiradas em
vivências de licenciandos em escolas de Educação Básica, foi
desenvolvida em um Subprojeto Interdisciplinar do Programa
Institucional de Iniciação à Docência (PIBID) na Universidade Federal
do ABC, proporcionando reflexões sobre o que muitas vezes é tomado
como “natural” no universo escolar (CAPECCHI e GOMES, 2016; SILVA,
CAPECCHI e GOMES, 2017).
Esse reconhecimento de outros espaços de aprendizagem, de
outros saberes, impacta, de forma direta e indireta, os profissionais da
educação, em particular os professores, exigindo deles uma abertura
226
para essa nova possibilidade de ensino, no qual a cidade, na sua
heterogeneidade social, cultural e científica, deve ser observada.
Para finalizar, porém sem esgotar as discussões aqui levantadas,
é fundamental ir um passo atrás e revisitar os conceitos de infância,
adolescência e família, com os quais temos trabalhado no âmbito da
escola, da academia e nos mais diversos espaços de socialização que a
pessoa perpassa desde sua existência. Assim, a pessoa em situação
de rua, o adolescente em conflito com a lei, o professor, o educador
social, o artista e o pesquisador agem de acordo com conceitos de
infância que foram apreendidos em seu cotidiano.
Nas visitas ao MCB, a relação dos participantes com os objetos da
casa sempre remetia à infância, ora idealizada, ora rememorada, mas
sempre presente em relatos carregados de emoção. Compreendemos
que a construção de uma Cidade Educadora perpassa a construção de
espaços a partir de práticas que não encarcerem a experiência da
infância a uma idealização de crianças e jovens como pequenos seres
de cristal. A construção de espaços que promovam a aprendizagem
intergeracional, que facilite encontros entre grupos sociais distintos,
pode ser uma possibilidade de transfazer para esses diversos grupos
sociais nas diversas etapas da vida.
Os trabalhos sociais com crianças e adolescentes em situação de
rua e mesmo com adultos forjam a configuração de um sujeito ético,
capaz de se colocar no mundo, compreender sua biografia, interpretar
a história e tomar uma posição. Esse agir, que denominamos transfazer
do sujeito, talvez possa ajudar a compreender melhor a situação, o
papel das políticas sociais, as estratégias de sobrevivência da
população em situação de rua ou de privação de direitos.
Acreditamos que os espaços pedagógicos permitam criar uma
concepção do transfazer do sujeito quando não admite que a
população em situação de rua permaneça como espectadora da
tragédia que interfere em sua vida. Ela sempre reage à sua maneira,
num jeito diferente de transformar a si e ao mundo. As ações do sujeito
não devem ser cooptadas ou burocratizadas pelas políticas de
atendimento. Elas devem, sim, ser orientadas a uma politicidade ética.
227
O sujeito vive um contínuo processo de espanto e perplexidade
diante da realidade. Hoje, com uma novidade que afeta especialmente
a população em situação de rua e privação de liberdade. A pandemia
do Covid 19 não criou a desigualdade, como muitos afirmam. Ela
desvela a realidade desigual da cidade em que vivem as populações em
situação de rua e privação de liberdade. Nos contatos que temos feito
com essas pessoas, vai ficando clara a insuficiência do debate sobre
exclusão social. É a negação do existir humano, que se desvela no jeito
com que são julgadas e condenadas pelas práticas autoritárias que
coexistem no interior da cidade.
Situar uma noção de sujeito que não venha negar a dinâmica da vida permanece
como um instigante desafio. É bom lembrar que os pobres não estão mortos,
que eles agem e reagem. Talvez retirem parte de suas forças da “noite escura”
da desigualdade social que os estimulam a arrancar da realidade o que
necessitam para implantar um projeto de vida, mesmo que de maneira limitada
(SOUZA NETO, 2002, p. 176).
Referências
228
EDUCADORAS, A. I. Carta de Ciudades Educadoras. In: VIII Congreso de
Ciudades Educadoras. 2014.
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sobre as violências de São Paulo. São Paulo: Escuta/FAPESP, 2005.
EXPOSIÇÃO ‘A Rua é Nossa é de todos nós’ e o programa educativo
com Moradores de Rua. Instituto Mobilidade Verde, 9 set. 2011.
Disponível em: <[Link]
/09/09/exposicao-a-rua-e-nossa-e-de-todos-nos-desenvolveu-program
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FRAIZE-PEREIRA, J. A. Arte, dor: inquietudes entre estética e
psicanálise. Cotia - SP: Ateliê Editorial, 2005.
GOFFMAN, E. Manicômios, Prisões e Conventos; tradução Dante
Moreira Leite – São Paulo: Perspectiva. 2010.
MENOR da quebrada. Orangotango. Disponível em: <[Link]
[Link]/projetos/arte-no-espaco-publico/menor-da-quebrada/#1>.
Acesso em 22/02/2021. MULTITUDE. São Paulo. Disponível em: <https://
[Link]/>. Acesso em 22/02/2021.
SILVA, T. G.; CAPECCHI, M. C. V. M.; GOMES, V. M. S. O Subprojeto
Interdisciplinar PIBID/UFABC e a formação de professores numa
perspectiva de círculos de cultura. In: MIRANDA, M. A. G. C. e ALVIM, M.
H. (orgs.) Integrando Pesquisa e Formação de Professores: contribuições
do PIBID/UFABC. Campinas, SP: Edições Leitura Crítica, 2017.
SOUZA NETO, J. C. de. Crianças e adolescentes abandonados:
estratégias de sobrevivência. São Paulo: Arte Impressa, 2002.
VYGOTSKY, L. S. A Formação Social da Mente. São Paulo: Martins
Fontes, 1995.
229
230
RELATO DE CASO ACERCA DA FORMAÇÃO E IMPRESSÕES SOBRE
O GRUPO DE PESQUISA EM DIREITO A CIDADE E O PERFIL DA
POPULAÇÃO DE RUA DO MUNICÍPIO DE SANTARÉM,
OESTE DO PARÁ
1
Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). E-mail:
ruandasilva1702@[Link]
231
Assim, ressaltamos que não há unificação e quantificação exata
do total de pessoas em situação de supervulnerabilidade, sobretudo
as que estão em situação de rua no país. A respeito disso, censos
demográficos conduzidos no país, principalmente os decenais
realizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),
até hoje não apresentam essa contabilidade. No caso específico de
Santarém, Aires (2019, p. 14) afirma que,
232
Outro ponto que merece destaque é a utilização de
nomenclaturas para identificar as pessoas em situação de rua. Aqui
daremos principal destaque ao termo população em situação de rua,
por acreditar que define esse grupo social em reconhecimento aos
aspectos jurídicos e políticos. Há outros termos comumente usados
como população com trajetória de rua ou moradores de rua. Este
último é usualmente desconsiderado por parte dos pesquisadores
porque, como mencionado, ninguém escolhe a rua para morar. Há
vários fatores combinados que levam a este fim, por isso opta-se por
população em situação de rua.
233
primeira discussão poderíamos estabelecer Santarém, da relação
cidade e População em Situação de Rua, como um ponto de passagem.
234
Conforme se aprofunda no tema, Ericson qualifica a sua vivência
de forma única e se propõe a ser uma pessoa em situação de rua e a
conviver com elas. Em vários momentos de muita proximidade e ao
passar por diversos pontos importantes da cidade, o autor discorre
com expressividade sobre o olhar da população em situação de rua
com quem convivera.
Segundo consta na pesquisa bibliográfica realizada por Aires
(2019), em certo momento da investigação um dos envolvidos
questionou “O que é aquilo?”, perguntou João do Rio. “Dizem ser o
progresso da cidade”, respondeu João de Deus. “É o futuro de
Santarém”, disse Jorge. “É a Cargill!”, disse Abimael num tom mais
sério. Os três visitantes teriam que obter mais explicações daquele
lugar para entender melhor, contudo, nenhum dos “pés-inchados”
pôde explicar suficientemente. Vendo de longe, dava para notar haver
pessoas naquele lugar. A estrutura não ficava somente da orla da
cidade para o rio, tendo outras partes em terra firme. O que também
chamava atenção era o imenso navio que estava naquele local. Talvez
nem Marco Polo, nem Baudelaire tivessem visto algo parecido. Como
não podiam se aproximar desse lugar de encher os olhos de tanta
admiração, decidiram aportar e desembarcar na passarela de concreto
que crescia ao lado da estrutura metálica gigante.
Entre outras atuações e formação até adentrar no projeto de
pesquisa, muito nos in- dignou as estruturas e invisibilidades impostas
pela ganância humana sobre a presença das pessoas em situação de
rua. O que mais se destaca é a arquitetura contra as pessoas em
situação de rua que consiste em lhes negar o dormir em bancos de
praças públicas, sob viadutos e outros espaços. Impondo-se,
sistematicamente, obstáculos, seja com o uso de blocos de concreto
sob os viadutos ou divisão de bancos de praça com barras de ferro. A
suposta naturalização da desumanidade é muito alarmante.
Santarém não difere das várias partes do Brasil, o único viaduto
da cidade possui rampas que impedem as pessoas de permanecerem
no local. Não se trata aqui em dizer que esses lugares devem servir
como abrigo aos que precisam, mas que não deixe de representar
possibilidades de acolhimento aos que necessitam.
É importante citar a figura do Padre Júlio Lancellotti, da cidade de
São Paulo, como um exemplo de pessoa que está na luta pelos direitos
da população em situação de rua. Ele, no seu ato de bravura e
235
indignação, no auge dos seus 70 e poucos anos de idade, demonstrou
com muito simbolismo que os blocos de concreto postos pela prefeitura
da cidade de São Paulo na área que detém um dos maiores números de
pessoas em situação de rua era uma violação contínua aos direitos
daqueles que buscam de alguma forma abrigar-se da chuva, do frio, do
calor. (PADRE JÚLIO LANCELOTTI, 2021). Demonstra-se cabalmente
que, a todo momento, estado e sociedade tentam, de todas as formas,
insuflar-se contra as pessoas em situação de extrema vulnerabilidade.
Há diversos casos que podem ser facilmente encontrados na rede
mundial de computadores com apenas um clique. É a negligência que
ainda perpétua no poder público e na vida cotidiana.
Tendo com base esse contexto, após os encontros de formação
sobre a temática, o grupo de pesquisa realizou-se uma visita técnica
ao Centro Pop Dom Lino Vombommel, com objetivo de testar o
questionário que outrora estava sendo elaborado para coletada de
dados sobre a população em situação de rua.
Verificou-se no momento, conforme relatos dos próprios
frequentadores daquele espaço, que muitos dependem das refeições
oferecidas pelo Centro e, como na rua não há espaço adequado para a
realização de higiene básica, a instituição é utilizada para essas
atividades, diuturnamente, de segunda a sexta, sendo, portanto, um
local onde as pessoas em situação de rua da cidade permanecem no
período diurno, mas a noite volta para a rua.
Ainda não há por parte do município um projeto de albergues ou
espaço de moradia temporária destinados à população em situação de
rua, para além da experiência premiada concedida ao “Centro Pop”.
Há iniciativas privadas de espaços de tratamento contra drogas e
outros que, em razão de financiamentos públicos e privados, tem a
incumbência de retirar essa população da rua. No entanto, não se sabe
ao certo o que ocorre dentro destes estabelecimentos, razão pela qual
este é um objeto para outro estudo.
Certo que isso é um dos principais problemas enfrentados pelas
pessoas em situação de rua no contexto nacional. Dormir à rua é um
fator de insegurança, visto que não se sabe a maneira como acordará.
Entre as principais reclamações que se ouve entre aqueles que se
encontram em situação de rua, está o receio de ser morto. Nota-se que
essas pessoas costumam procurar lugares para dormir em que se
236
sintam acolhidas, protegidas para dormir e até mesmo vigiadas
(SOUSA et al. 2020).
Ainda sobre os dados levantados, os entrevistados entre 35 e 45
anos de idade possuem pouca qualificação profissional, baixa
escolaridade e a ida à rua está vinculada, principalmente, a conflitos
familiares. Os dados também revelaram que cerca de 59% por cento
das pessoas entrevistadas apontaram o conflito familiar como um
fator determinante para estarem em situação de rua.
Além de evidenciar a questão familiar, o estudo mostrou como se
dá a higiene pessoal deste público. Um ponto peculiar das entrevistas
está envolvido com a pergunta sobre onde realizavam a higiene
corporal e de seus pertences. Os rios Tapajós e Amazonas, em frente a
orla, foram apontados como locais preferenciais, bem como um
banheiro público que fica no Mercadão 2000. Cabe destacar que essa
relação com o rio merece ser melhor analisada, dada a localização e
especificações do município que possibilitam essa dinâmica. Além
disso, é bastante comum ver indivíduos na beira do rio em nudez
explícita, o que, além de evidenciar conflito com a lei, traz riscos à
saúde, tendo em vista que a falta de saneamento básico faz com que
os esgotos estejam conectados com os rios, tornando a água
imprópria para banho e consumo.
A relação das pessoas em situação de rua para com a cidade de
Santarém é bem dinâmica, pode-se auferir que não ficam no mesmo
lugar por muito tempo, ora estão na orla, ora no porto da cidade. A
orla é um importante espaço para o ganho tendo em vista que muitas
pessoas em situação de rua ali permanecem vigiando carros em troca
de dinheiro ou coletando matérias recicláveis. Outra fonte de renda
estava em ser carregador no Porto de Embarcações do Município, no
entanto, a mudança para outro do município, devido a questões
técnicas, fez com que alguns grupos fossem para locais próximos em
busca de trabalho.
[...] a principal atividade apontada como fonte de renda foi a de vigiar carros. A
concentração dessas pessoas pode ser constatada na Avenida Tapajós,
localizada em frente à cidade e considerada uma das mais importantes, tendo
em vista o seu acesso à área comercial. Também, na Avenida Presidente Vargas,
localizada próxima a uma clínica, onde também ocorre um grande fluxo de
pessoas (SOUSA et al. 2020, p. 17).
237
Além disso, outra principal causa de mudança de perspectiva é a
falta de emprego formal, esta se dá por conta do preconceito em torno
desse grupo social, inclusive para acesso a políticas públicas.
Entre os relatos levantados em uma das rodas de conversas do
grupo ganha destaque a ação dos comerciantes locais contra a
população em situação de rua, que solicita constantemente que a
polícia a retire das proximidades dos restaurantes da orla da cidade, do
centro, pois a clientela acha incomoda a presença destes atores. Outro
fato trata da presença de grupos na praça do “trenzinho”, em frente
ao CAS de Arrimo, considerado um local de uso de drogas e onde
embates frequentes ocorrem entre usuários da praça, empresários e
pessoas em situação de rua. De acordo com Aires (2019, p. 28),
238
que haja harmonia é preciso haver um esforço coletivo e coordenado
para o acolhimento adequado dos venezuelanos indígenas e não
indígenas, pois se trata de salvar vidas e aliviar sofrimentos. Existem
barreiras linguísticas e culturais, mas existe também preconceito que
precisamos enfrentar e juntos garantir, promover, proteger e respeitar
os direitos de crianças e adolescentes venezuelanas. Além disso,
segundo a própria ACNUR, a maioria das famílias (59%) alegou não ter
formas de gerar renda no Brasil, tendo que recorrer à coleta nas ruas
(prática de pedir dinheiro).
Em síntese, podemos identificar alguma proximidade com os
mesmos problemas enfreamentos pela população em situação de rua
brasileira. Pedir dinheiro é uma prática notória para quem anda pelo
centro da cidade. Normalmente são mulheres com filhos menores de
idade que ficam próximos à atividade bancária e financeira ou
próximas às lojas e parada de ônibus pedindo dinheiro.
Partindo desse fato, é interessante verificar que durante a
aplicação de questionários realizados pelo Grupo de Pesquisa, em
nenhum momento se verificou a presença de mulheres e crianças
pelos lugares onde foram passados, entre os quais: a Praça Tiradentes,
a Praça Rodrigues dos Santos, a Praça Barão de Santarém, a Avenida
Presidente Vargas, o trecho entre as travessas 7 de setembro e Silva
Jardim, a Orla da cidade, o perímetro onde está localizado o
“Trenzinho” e o perímetro onde está localizado o terminal fluvial
turístico (SOUSA et al. 2020, p. 9-10).
O resultado é a necessidade de haver estudo contínuo referente
às pessoas em situação de rua para realização de um diagnóstico mais
profundo sobre o tema, haja visto que com advento das crises
econômicas que o Brasil vem vivendo, a falta de políticas públicas
concretas e assistência social delicada, essa população tende a ficar
ainda mais a margem da sociedade. É a contribuição capitalista para o
aumento das pessoas em situação de rua em Santarém
O Município de Santarém atualmente passa por um crescimento
econômico acelerado, com grandes projetos sendo executados por
toda a cidade. Tais atividades vêm favorecendo a expulsão de atores e
moradores locais para áreas de periferia devido ao aumento de
impostos e a falta de aplicação das políticas sociais necessárias ao
desenvolvimento também social. Percebemos que, com a chegada
desses empreendimentos, vem a massa de pessoas em busca de
239
emprego e renda, grande parte não tem formação suficiente e acaba
ficando pelas ruas da cidade.
Por esta razão com relação também com o diagnóstico realizado pelo grupo, a
maioria dos entrevistados possui uma renda diária de R$20 (vinte reais). Em
média menos de um salário mínimo por mês para sobreviver, como mencionado
anteriormente em sua exclusividade por trabalho informal. São estratégias que
podemos estabelecer como trabalhadores livres, que tomam a própria iniciativa
em como poderiam utilizar os trabalhadores no dia.
240
É necessário avançar na garantia de Direitos à Moradia,
Dignidade, Participação social e deve haver maior envolvimento do
Poder Público em tomar ações que não sejam apenas assistencialistas.
Várias experiências nacionais e internacionais demonstram ser
possível sair da rua e viver plenamente em sociedade.
Sendo assim, foi com esta finalidade e com intuito de nortear
aqueles que buscam informações sobre as pessoas em situação de rua
do município de Santarém que se levantou dados mínimos sobre o tema.
Referências
241
chega a 61, sendo 36 crianças. Alojamento cedido pela Diocese de
Santarém por um mês não tem como receber tantos venezuelanos. G1
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[Link]> Acesso em fevereiro de 2021.
SOUSA, Fabiana Letícia Costa de; SOUSA, Jenna Valéria Santos de;
SANTANA, Poliana Nunes; REIS, Ana Beatriz Oliveira. O direito à cidade
e a população em situação de rua: um estudo de caso sobre Santarém
- PA. Disponível em: <[Link]
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de 2020.
242
A percepção de moradores de rua como "marginais" é desconstruída na narrativa de Esão através de sua experiência pessoal de perda e luto, que o faz lutar por dignidade e reconhecimento de direitos para essa população . Ao ser impedido de saber sobre a morte de sua família por ser classificado como pessoa em situação de rua, Esão passa a entender e vivenciar profundamente a discriminação e o preconceito . Ele se torna politicamente consciente e engajado, criando o Movimento das pessoas em situação de rua para reivindicar direitos, demonstrando que os moradores de rua possuem o direito de aparecer e participar da esfera pública . A sua ação de levar mais de 300 moradores de rua à Câmara Municipal simboliza uma luta contra a desumanização e pela inclusão social, rompendo com os estigmas que os rotulam como "indigentes" ou "perigosos" .
Pessoas em situação de rua utilizam várias estratégias para combater a invisibilidade e melhorar suas condições de vida, como criar grupos de apoio e desenvolver movimentos que promovem articulação política e social, como o Movimento de Pessoas em Situação de Rua. Estas ações fortalecem a comunidade, fornecem proteção mútua, e facilitam o reconhecimento social, demonstrando que são capazes de mobilização e autocapacitação para lutar por seus direitos .
As condições de vida afetam profundamente a identidade e autopercepção dos moradores de rua, tornando-os vulneráveis à desumanização e ao sofrimento de indeterminação. Esão, ao não poder participar de rituais básicos de despedida de sua família e enfrentando barreiras no acesso à informação e direitos básicos, experimenta uma privação que desafia sua dignidade e cidadania . Sua luta por reconhecimento e espaço político ilustra como a exclusão social afeta sua percepção de si mesmo, engajando-o em movimentos que reivindicam o "Direito de aparecer", conforme proposto por Butler, e transformar a rua de um espaço de invisibilidade em um local de luta e identidade coletiva . As experiências de Esão revelam como a falta de reconhecimento social e as condições precárias de vida exacerbam a exclusão e a desumanização, impactando gravemente a autopercepção e a identidade dos moradores de rua .
A ideia de "política de morte" de Mbembe está ligada à forma como a sociedade e o Estado tratam os moradores de rua, refletindo uma negligência institucional e social que resulta em tragédias repetidas. Essas pessoas enfrentam condições que as expõem a riscos extremos, como mortes por envenenamento e hipotermia, que são vistas como consequências de uma política que os transforma em "coisas da rua" ao invés de reconhecê-los como seres em "situação de rua" . A negligência estatal, evidenciada na distribuição limitada de cobertores sem um esforço estruturado para oferecer soluções duradouras, exemplifica uma política que perpetua sua vulnerabilidade extrema . Esse tipo de prática estatal e social alinha-se à necropolítica de Mbembe, onde certas vidas são menosprezadas, e seus direitos fundamentais, incluindo o direito à vida, são negados de forma rotineira .
A narrativa pessoal de Esão desafia os estereótipos sociais sobre pessoas em situação de rua ao mostrar que essas pessoas não são simplesmente "drogados" ou "perigosos", como comumente estigmatizados, mas indivíduos com histórias complexas e direitos que são frequentemente negados. Esão, após perder sua família, enfrentou a discriminação e o descaso do poder público, destacando-se como ativista e fundador do Movimento das Pessoas em Situação de Rua em São Paulo, desafiando a percepção negativa prevalente . Seu testemunho revela a violência de Estado e o preconceito culturalmente enraizado que categoriza essas pessoas como "não humanas" ou "vidas não passíveis de luto", exigindo um reconhecimento e dignidade há muito negados . O relato de Esão também evidencia o papel da solidariedade e da luta coletiva como formas de humanização e reivindicação de direitos, subvertendo a invisibilidade imposta socialmente e promovendo uma dignidade que a sociedade frequentemente lhes nega . A luta de Esão na esfera pública, apesar dos obstáculos, representa uma tentativa de participar ativamente das decisões e mudar a narrativa sobre essas vidas que são constantemente marginalizadas .
A narrativa de Esão ilustra o conceito de "vidas não passíveis de luto" de Judith Butler ao revelar a situação de pessoas em situação de rua como desumanizadas e desprovidas de reconhecimento social no contexto neoliberal. Esão, ao perder sua família e ser barrado de obter informações sobre eles por ser identificado como morador de rua, exemplifica como certas vidas são consideradas "excedentes do capital" e tratadas com descaso e abandono pelo poder público . Ele não pode vivenciar "o luto" legitimamente, o que caracteriza como Butler descreve a "regulação da comoção", onde vidas são invisibilizadas e desconsideradas . A situação de Esão evidencia a falta de políticas públicas eficientes e a violência ética que Butler identifica, ocorrendo quando direitos básicos são ignorados em nome da defesa de outros interesses . Além disso, Esão luta para garantir o "direito de aparecer", que Butler denomina essencial para o reconhecimento na esfera pública, mas enfrenta barreiras políticas e sociais que perpetuam a exclusão . A condição de Esão e sua mobilização refletem a fragilização e precariedade do reconhecimento de corpos não inteligíveis em uma matriz cultural que engendra categorias de vidas menos valorizadas .
O Movimento de Pessoas em Situação de Rua exemplifica a organização coletiva como um meio crucial de transformação social pela promoção de visibilidade e defesa dos direitos dessa população. Movimentos organizados, como o Projeto Invisíveis, envolvem pessoas de todo o Brasil discutindo questões relevantes para a vida nas ruas, contribuindo para a humanização e justiça social através de publicações e diálogos . Além disso, a união de pessoas em situação de rua propicia proteção, pertencimento e a capacidade de questionar e lutar contra as violações de direitos humanos que enfrentam . A interação dessas organizações com políticas públicas, como a Política Nacional para a População em Situação de Rua, embora insuficiente, demonstra o potencial da organização coletiva para influenciar e cobrar transformações necessárias na sociedade . Esse movimento também levanta a necessidade de implementação de abordagens como "Moradia Primeiro", essencial para garantir direitos básicos, fomentar a integração social e transformar a percepção e tratamento da população em situação de rua .
O conceito de "gestão da morte" em relação às políticas públicas para moradores de rua refere-se à maneira como o Estado e a sociedade tratam as vidas dessas pessoas com negligência e abandono, tratando suas mortes como não importantes ou evitáveis. A política pública frequentemente adota medidas paliativas e assistencialistas, como a distribuição anual de cobertores e sacos térmicos em São Paulo, em vez de implementar ações efetivas de inclusão social e garantias de direitos . A intersetorialidade nas políticas, que poderia proporcionar um sistema mais justo e inclusivo, ainda é subdesenvolvida, resultando na perpetuação de uma "política de morte", onde vidas de moradores de rua são invisibilizadas e desvalorizadas, permitindo que condições de negligência perdurem e contribuam para mortes evitáveis . Essas práticas refletem uma gestão que não promove a vida, mas sim perpetua a possibilidade da morte dessas populações, tratando-as como "coisas de rua" ao invés de seres humanos em situação de rua .
Honneth explica o papel das relações sociais nas vivências das pessoas em situação de rua como um processo essencial de reconhecimento e solidariedade. A luta por reconhecimento é central para a inclusão dessas populações na sociedade e nas esferas de direitos, além de ser um motor para a solidariedade entre indivíduos em situação similar . Essa busca por reconhecimento se manifesta na formação de grupos, que fornecem um sentido de pertencimento e identidade a partir de valores comuns, o que é crucial para sua socialização . Tais relações podem reduzir a exclusão social e oferecer proteção contra a violência e a marginalização continuada .
Judith Butler critica a normatividade social, destacando como ela marginaliza e invisibiliza certas populações, como os moradores de rua, ao não reconhecer suas vidas como dignas de luto ou proteção . Butler argumenta que essa normatividade exclui corpos "não inteligíveis" ao não garantir cuidados básicos e ao desconsiderar seus direitos e cidadania, refletindo uma prática de necropolítica que negligencia essas vidas . Tal crítica busca evidenciar como a estrutura social falha em tratar todas as vidas com dignidade, agravando a precariedade e perpetuando a exclusão ."}