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INVISÍVEIS:

pessoas em situação de rua no Brasil


significantes e significados

1
Livro financiado com recursos do
Instituto Federal de Rondônia - IFRO

2
Fábio Santos de Andrade
Silvana Viana Andrade
Gisely Storch do Nascimento Santos
Maria Aparecida Costa Oliveira
(Organizadores)

INVISÍVEIS:
pessoas em situação de rua no Brasil
significantes e significados

3
Copyright © Autoras e autores

Todos os direitos garantidos. Qualquer parte desta obra pode ser reproduzida,
transmitida ou arquivada desde que levados em conta os direitos das autoras e
dos autores.

Fábio Santos de Andrade; Silvana Viana Andrade; Gisely Storch do


Nascimento Santos; Maria Aparecida Costa Oliveira [Orgs.]

Invisíveis: pessoas em situação de rua no Brasil – significantes e


significados. São Carlos: Pedro & João Editores, 2022. 242p. 16 x 23 cm.

ISBN: 978-65-5869-897-5 [Digital]

1. Invisíveis. 2. Pessoas em situação de rua. 3. Significantes. 4. Significados.


I. Título.

CDD – 410

Capa: Petricor Design


Foto da capa: Fábio Santos de Andrade
Ficha Catalográfica: Hélio Márcio Pajeú – CRB - 8-8828
Diagramação: Joseildo Henrique Conceição e Diany Akiko Lee
Editores: Pedro Amaro de Moura Brito & João Rodrigo de Moura Brito

Conselho Científico da Pedro & João Editores:


Augusto Ponzio (Bari/Itália); João Wanderley Geraldi (Unicamp/ Brasil); Hélio
Márcio Pajeú (UFPE/Brasil); Maria Isabel de Moura (UFSCar/Brasil); Maria da
Piedade Resende da Costa (UFSCar/Brasil); Valdemir Miotello (UFSCar/Brasil); Ana
Cláudia Bortolozzi (UNESP/Bauru/Brasil); Mariangela Lima de Almeida (UFES/
Brasil); José Kuiava (UNIOESTE/Brasil); Marisol Barenco de Mello (UFF/Brasil);
Camila Caracelli Scherma (UFFS/Brasil); Luis Fernando Soares Zuin (USP/Brasil).

Pedro & João Editores


[Link]
13568-878 – São Carlos – SP
2022

4
SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO 9
Fábio Santos de Andrade
Silvana Viana Andrade
Gisely Storch do Nascimento Santos
Maria Aparecida Costa Oliveira

PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA: QUEM SÃO? COMO


VIVEM?

Quanto vale uma vida? O massacre de pessoas em 13


situação de rua no Brasil
Fábio Santos de Andrade
Silvana Viana Andrade

Invisibilidade social: experiência de trabalho com 33


pessoas em situação de rua
Rebeca Nobre Gonzalez Fernandez
Cleivison Jesus de Carvalho

São Paulo é selva de pedras onde o lar é a rua: a 47


história de Esão entre a precariedade e a luta por
cidadania
Thalita Catarina Decome Poker
Maria da Conceição Gomes da Silva

Vivência em pesquisa junto à população em 73


situação de rua: relato de experiência
João Gabriel Ribeiro dos Santos
Márcia Astrês Fernandes
Sandra Cristina Pillon

5
COTIDIANO E TÁTICAS DE SOBREVIVÊNCIA

O prazer de comer por mulheres em situação de 87


rua e o direito humano à alimentação adequada:
obstáculos e estratégias
Fernanda Sabatini
Ramiro Fernandez Unsain
Priscila de Morais Sato
Fernanda Baeza Scagliusi

A marginalização do afrodescendente e a 111


institucionalidade racista: os diferentes
imaginários da rua para o negro e para o branco
Celso Luiz Prudente
Paulo Morais-Alexandre
Alexandre Siles Vargas

Crianças e adolescentes em situação de rua: 133


táticas de sobrevivência e trabalho
Fábio Santos de Andrade
Gisely Storch do Nascimento Santos
Maria Aparecida Costa Oliveira

Comportamento suicida entre a população em 143


situação de rua: um estudo teórico-reflexivo
Máyra Dayananda Cunha Reis
Márcia Astrês Fernandes
Sandra Cristina Pillon

A criança, o adolescente e o trabalho na feira livre 153


Clébio Moreira Lemos
Reginaldo Santos Pereira
Fábio Santos de Andrade

6
Estratégias de defesa da população em situação 173
de rua em matéria penal: o caso da ocupação
Babilônia, em Aracaju-Sergipe
Ilzver de Matos Oliveira
Alberto Hora Mendonça Filho
Rafael Leão Nogueira Torres
Pedro Meneses Feitosa

EDUCAÇÃO SOCIAL DE RUA E PESQUISAS COM


PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA

Educador social de rua: um andarilho da 193


esperança para os (in)visibilizados das ruas
Jacyara Silva de Paiva
Marluce Lucas da Silva Firmino

As práticas e as concepções de cidade educadora 209


na construção do sujeito ético
Orlando Coelho Barbosa
Maria Cândida Varone de Morais Capecchi
João Clemente de Souza Neto

Relato de caso acerca da formação e impressões 231


sobre o grupo de pesquisa em direito a cidade e o
perfil da população de rua do município de
santarém, Oeste do Pará
Ruan Magalhães da Silva

7
8
APRESENTAÇÃO

Rua é lugar onde os diferentes se encontram, onde a arte se


manifesta, onde lutas são construídas; rua é lugar de alegria e de festa,
mas também é lugar de dor e de morte; rua é lugar de significantes e
significados. É na rua que encontramos parte da população brasileira
que, por ter seus direitos básicos negados, lutam pela vida. Nota-se
que a cada dia a rua vem se tornando ainda mais o não-lugar dos mais
pobres, pois a rua sempre acolhe os que nela buscam recursos para
sobrevivência individual e coletiva. É nesse não-lugar que estão as
pessoas em situação de rua.
Quando falamos sobre essas pessoas não estamos falando de um
grupo homogêneo e sim de pessoas diferentes, que vão à rua por
motivos diferentes e que desenvolvem atividades diferentes. São
crianças, adolescentes, adultos e idosos, sozinhos ou em grupo, que
retornam para casa ou que dormem na rua, que desenvolvem táticas
de sobrevivência lícitas ou ilícitas. As causas e motivos do estar em
situação de rua são diversos e envolvem fenômenos políticos,
econômicos, culturais, religiosos, familiares, dentre outros. Assim, é
importante destacar que a casa nem sempre é sinônimo de lar
acolhedor e nela nem sempre há condições mínimas para a
sobrevivência. Dessa forma, a saída de casa em busca da vida na rua
rompe não só os laços familiares, mas também os laços com a fome, a
violência, a falta de afeto e a incompreensão.
Na rua pessoas se reconstroem e erguem seu mundo invisível
onde lutam pela vida e contra a morte. Sobrevivem da caridade, das
sobras e do lixo; roubam, mendigam e fazem atividades artísticas na
busca de recursos financeiros ou alimentos; lutam contra a morte
presente na comida envenenada, no fogo que as incinera enquanto
dormem, na violência gratuita que marca seus corpos, no poder de
polícia do Estado que lhes retira a humanidade e na intolerância dos
que as enxergam como “lixo urbano”. O estar em situação de rua
revela um mundo de diversidade, realidades, causas e motivos de ser
e estar na rua.
Pessoas em situação de rua são cotidianamente percebidas em
diversas cidades brasileiras desenvolvendo suas táticas de sobrevivência

9
nos espaços públicos urbanos. Na rua perdem a condição de humanas e
passam a ser tratadas como parte da cena urbana, como se a rua fosse
seu lugar de direito. Perdem suas histórias e passam a ser identificadas
não pelos nomes, mas pelas táticas de sobrevivência que desenvolvem ou
pelos locais onde estão. Passam a ser o Zé da esquina, a mulher que fica
sentada em frente à casa lotérica, o malabarista do semáforo, o “noia” do
largo. Tornam-se invisíveis enquanto seres humanos possuidores de
direitos, deveres e saberes.
No atual contexto político e econômico onde o desemprego e a
fome têm atingido grande parte da população brasileira, a rua tem se
tornado cada dia mais atrativa. Com o aumento do número de pessoas
em situação de rua também aumentam as violências sofridas por ação
ou omissão da sociedade ou do poder público. A negação de direitos,
a falta de políticas públicas de qualidade e o descaso por parte do
Estado se misturam à violência gratuita que mata pelo frio, pela fome,
pela arma de fogo, pela intolerância e pelo preconceito.
Nessa trilha, o Grupo Humanize (Grupo de Pesquisa sobre
História, Educação Social e Vida Cotidiana), vinculado ao
Departamento Acadêmico de Ciências da Educação (Vilhena/RO) e ao
Programa de Pós-Graduação em Educação Escolar da Universidade
Federal de Rondônia (UNIR), tem se dedicado ao estudo dos
fenômenos que envolvem as pessoas em situação de rua e suas lutas
pela sobrevivência nos espaços públicos urbanos.
Em parceria com a Rede Situação de Rua (@situacaoderua), o
Humanize ampliou o olhar sobre a vida cotidiana de pessoas em
situação de rua de diversas cidades brasileiras, identificando situações
de negação e violação de direitos, falta de políticas públicas específicas
e de qualidade, violências gratuitas que se manifestam tanto por parte
da sociedade quanto do poder público, dentre diversas outras
situações de violação de direitos humanos. No entanto, também foi
possível identificar pessoas e grupos sociais que se dedicam
cotidianamente à luta por justiça social, garantido a vida às pessoas em
situação de rua e acenado para um futuro em que a rua deixa de ser o
não-lugar para os que dela e nela sobrevivem. Essa rica experiência de
diálogo entre o Grupo Humanize e a Rede Situação de Rua foi
denominada de Projeto Invisíveis.
Durante os anos de 2020 e 2021, pessoas de diversos locais do
Brasil aceitaram o desafio de escrever sobre temas que envolvem o

10
estar em situação de rua. Temas que lhes inquietam e que marcam seus
lugares de fala e suas regionalidades. Como resultado, o Projeto
Invisíveis organiza o primeiro livro, que tem como tema central as
pessoas em situação de rua no Brasil, seus significantes e significados,
publicado com financiamento do Instituto Federal de Rondônia (IFRO)
e que traz vivências, experiências e pesquisas de pessoas que estão
ligadas, direta ou indiretamente, com a temática situação de rua.
Nessa trilha, este livro invade a amplitude do estar em situação
de rua, buscando seus significantes e significados, revelados pelos
olhares de profissionais que atuam com pessoas em situação de rua e
de pesquisadores(as) que se dedicam à temática. Cada capítulo traz
experiências que falam de dores, de lutas, de vitórias e de esperança,
acendendo o desejo de um mundo onde a justiça social e a garantia de
direitos possibilitem a humanização e o direito à vida dos que não
estarão mais em situação de rua.

Boa leitura!

Fábio Santos de Andrade


Silvana Viana Andrade
Gisely Storch do Nascimento Santos
Maria Aparecida Costa Oliveira

11
12
PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA:
QUEM SÃO? COMO VIVEM?

13
14
QUANTO VALE UMA VIDA?
O massacre de pessoas em situação de rua no Brasil

Fábio Santos de Andrade1


Silvana Viana Andrade2

As pessoas e a rua

A rua sempre foi um espaço público de circulação e de presença da


diversidade, em que nós, seres humanos, deixamos ecoar nossas vozes de
luta, de vida e de morte. “É nela que os diferentes se encontram, que a arte
se manifesta, que as lutas são construídas. A rua sempre foi um lugar de
vida, de sobrevivência, de significantes e significados.” (ANDRADE, 2019, p.
115). Rua também é lugar de trabalho, de vida e de sobrevida,
principalmente dos mais pobres. Nesse contexto, muitas pessoas
(crianças, adolescentes, adultos e idosos) desenvolvem táticas de
sobrevivência, sejam elas lícitas ou ilícitas.
No decorrer da história, as pessoas em situação de rua assumiram
diversos papéis marcados pela inferioridade e pela negação de
direitos. Foram chamadas de “marginais”, “mendigos”, “doidos”,
“perigosos”, “velhos do saco”, “maltrapilhos”, “esmoleiros”,
“indigentes”, “nóias”, “pedintes”, “necessitados”, “moradores de
rua”, “moradores em situação de rua”, dentre a miríade de muitos
outros nomes que, na esteira de outras tantas formas de violência,
também representam a figura do “mau”, utilizada, por exemplo, para
assustar crianças, perpetuando o estigma.
Por muitos, as pessoas em situação de rua são vistas como seres
(não humanos), que devem ser mantidos a distância e que devem ser
evitados quando vistos. No entanto, elas são pessoas que
abandonaram suas casas por conta da violência familiar, dos abusos

1 Pós-doutor em Educação. Professor Adjunto do Departamento Acadêmico de


Ciências da Educação (DACIE) e do Programa de Pós-Graduação em Educação
Profissional (PPGEEProf) da Universidade Federal de Rondônia (UNIR). Líder do
Humanize – Grupo de pesquisa sobre história, educação social e vida cotidiana.
Coordenador da Rede Situação de Rua. E-mail: fasaan@[Link]
2 Psicóloga. Mestra em Psicologia. Integrante do Humanize – Grupo de pesquisa sobre

história, educação social e vida cotidiana. E-mail: silvana_andrade@[Link]

15
sexuais, da pobreza extrema, da dependência química, dentre outros
problemas, buscando acolhimento e sobrevivência nos espaços
públicos urbanos. Dessa forma, “devemos compreender a história dos
que estão em situação de rua a partir do lugar de fala de quem vivencia
as dores da pobreza. Estar em situação de rua não é uma questão de
escolha, é uma necessidade de sobrevivência e luta contra a injustiça
social.” (ANDRADE, 2019, p 21).
Nas ruas, essas pessoas criam laços de afetividade, erguendo
paredes em um mundo invisível que as acolhe e as alimenta. Elas não
são um grupo homogêneo, mas sim indivíduos partícipes de diversos
grupos formados por crianças, adolescentes, adultos e idosos que
lutam, principalmente, contra a pobreza. É impossível criar uma única
categoria de identificação, pois a rua é um mundo de diversidade,
realidades, causas e motivos de ser/estar. Cada pessoa em situação de
rua é um ser único, que possui história e significantes provocadores
dessa forma de ser/estar. Nessa trilha, apresentamos cinco grupos de
pessoas em situação de rua, considerando que estes não exaurem a
totalidade compósita referida, mas pode ajudar a compreender um
pouco a dinâmica da rua:
1. Trabalhadores na rua – Pessoas que vão à rua sozinhas ou em
família e retornam para casa ao fim do dia. Suas táticas de
sobrevivência são desenvolvidas individualmente ou em grupo,
destacando principalmente a mendicância, a prostituição e a coleta de
materiais recicláveis;
2. Mantendo os vínculos familiares – Pessoas que passaram a
residir na rua, mas ainda mantém vínculos com as famílias que
possuem residência fixa, visitando-as regularmente. Em muitos casos
as famílias residem em cidades diferentes das que as pessoas em
situação de rua estão, o que torna menos frequente a visita;
3. A rua como moradia – Pessoas que perderam os vínculos
familiares que foram rompidos por fatores diversos (distância, brigas,
exploração, abusos, falta de comida e/ou uso de álcool e drogas). Na
rua, vivem em grupos que delimitam espaços, regras de convivência e
funções. Desenvolvem táticas de sobrevivência diversas: roubo,
mendicância, malabares, consumo e venda de drogas, relações sexuais
consentidas ou pagas. Muitos formam famílias e gestam filhos, mesmo
estando em situação de rua. Há casos em que bebês são alugados para
outros membros do grupo, para que estes, fazendo-se passar por

16
família da criança, a use como sensibilizador na mendicância. Assim,
para eles, a rua se torna um lugar de dinâmicas variadas;
4. Usuários e passadores – Pessoas que além de estarem em
situação de rua também fazem uso constante ou comercializam
drogas. A maior parte do dinheiro que ganham é destinado à compra
de drogas ilícitas como crack, thinner, cola e outras. São pessoas que
necessitam de políticas públicas de saúde e estão mais vulneráveis às
violências e à morte;
5. Trecheiros – São as pessoas em situação de rua que não tem
residência fixa e circulam entre as cidades, “correm trecho”. A
permanência em cada cidade normalmente é curta e está vinculada ao
ganho de dinheiro. Quando o ganho reduz, mudam para outra. A
escolha de cada cidade também segue um calendário de festas locais,
onde o ganho é mais significativo.
Nesse mundo de tantos significantes, as pessoas em situação de rua
delimitam espaços, criam normas de convivência e formulam táticas de
sobrevivência. “Os que vivem na rua, nela constroem as relações
definidoras de suas existências. Redefinem o espaço, erguem paredes
invisíveis, numa partilha minuciosa dos locais.” (CRIADY, 1998, p. 21). Elas
criam um mundo que é invisível para a maioria da população, tornando
imperceptíveis algumas experiências vivenciadas nesse espaço:

[...] para os que não compreendem as paredes invisíveis que se erguem,


guardando um mundo que é vivenciado pelos que estão em situação de rua.
Nossa vida cotidiana, nossa conveniência, tornou a rua um símbolo de passagem
e as pessoas em situação de rua são normatizadas como parte dos espaços
públicos. Assim, tornar visível o invisível é uma tarefa que envolve o exercício
contínuo de tentar perceber o mundo a partir de sua essência e de sua
diversidade. (ANDRADE, 2021, p. 124)

Na rua, essas pessoas perdem suas identidades, são retiradas da


condição de seres humanos, passando a ser “coisas”. Enquanto “coisas”,
passam a compor a cena urbana e são identificadas como parte do espaço
que ocupam: “lavador de carros da rua”, “vendedor de balas no
semáforo”, “pedinte da porta do supermercado”, “mendigo que dorme
em frente à loja”, “morador de rua que reside na praça”, “drogado do
largo”... Essa esfera de existência está alocada na zona do não-direito,
mesmo com a asseguração dos direitos básicos pela Constituição Federal
(BRASIL, 2010). Para elas, os direitos estão longe de serem assegurados,
fazendo com que haja a exposição a inúmeras formas de violência.

17
A vida na rua está repleta de perigos. No entanto, esses perigos
tornam-se pequenos quando comparados às manifestações de violência
que se apresentam no universo familiar e nos bairros onde residem. Como
resultado, o abandono desses espaços torna-se inevitável. Para Michaud
(1989, p. 10), a violência acontece quando,

[...] numa situação de interação, um ou vários atores agem de maneira direta ou


indireta, maciça ou esparsa, causando danos a uma ou várias pessoas em graus
variáveis, sejam em integridade física, em sua integridade moral, em suas posses
ou em suas participações simbólicas ou culturais.

As pessoas em situação de rua convivem, diariamente, com diversas


formas de violência materializadas na indiferença, no preconceito, no
racismo, no machismo e na discriminação. Algumas são mais explícitas;
outras, mais sutis. Essa violência faz com que a vida em situação de rua
não seja apenas a busca diária pela sobrevivência, mas também a luta
contra a morte, dado que a rua é o lugar

[...] onde a face cruel do ser humano é liberada. Rua é espaço de vida, mas
também é espaço de morte, principalmente dos mais pobres, dos que estão em
situação de rua que morrem pelo frio, pela fome, pela violência gratuita e pelo
fogo que queima a carne, a vida e a esperança. (ANDRADE, 2019, p. 19).

As violências sofridas por essas pessoas sempre fizeram parte da


história do Brasil, acentuando-se ainda mais a partir da reforma
sanitária brasileira realizada no início do Século XX. A reforma
promoveu uma “limpeza” dos espaços públicos urbanos, expulsando
e marginalizando a população em situação de pobreza, principalmente
aquela que sobrevivia na e da rua. Durante o século, essas violências
se adaptaram aos contextos político, econômico, social e cultural,
deixando seu legado para a vida cotidiana do Século XXI. Na história
do Brasil, pessoas em situação de rua, na condição de “coisa”, de
“feiura” e de “entrave” ao desenvolvimento das cidades, sempre
foram violentadas, mortas e exterminadas.
Os diversos casos de violência sofridos pelas pessoas em situação
de rua sempre foram tratados de forma delicada pela imprensa
tradicional, estando esta a serviço dos interesses de grupos
dominantes. No entanto, principalmente com o advento da Internet e
com a ampliação dos canais midiáticos de comunicação, novos e
velhos casos de violência passaram a ganhar destaque, revelando um

18
sistema de extermínio que sobrevive e se renova no país. Tal realidade
nos fez apresentar, neste texto, uma discussão sobre casos de
violência envolvendo pessoas em situação de rua que foram noticiados
pela imprensa brasileira.

Para começar - A Chacina da Candelária

Um dos principais atos de violência sofrido pelas pessoas em


situação de rua, que marcou com sangue a história social do Brasil,
ficou conhecido com “A Chacina da Candelária”. Esse evento foi um
verdadeiro massacre, ocorrido no dia 23 de Julho de 1993, ganhando
espaço nas manchetes de jornais por todo o mundo.
Na data, como de costume, cerca de 40 crianças e adolescentes
em situação de rua dormiam sob as marquises da Igreja de Nossa
Senhora da Candelária, localizada na região central da cidade do Rio de
Janeiro, quando foram acordadas ao som dos disparos de revólveres.
Nesse episódio, uma criança e sete adolescentes foram mortos. Alguns
morreram no local; outros foram capturados, assassinados dentro de
carros e os corpos foram arremessados à rua. Silveira e Boeckel (2015,
s/p), em matéria publicada no portal G1 da Rede Globo, relatam que, na
noite do crime, Wagner dos Santos, um dos sobreviventes da chacina, foi

[...] obrigado a entrar num carro, dentro do qual foi baleado quatro vezes junto a
outros dois rapazes que dormiam próximo à Candelária. Os três foram abandonados
próximo ao Museu de Arte Moderna, o MAM, no Aterro do Flamengo. Dos três,
somente ele sobreviveu.

Wagner se tronou uma das principais testemunhas do caso e, por


isso, sofreu novo atentado no dia 12 de Setembro de 1994, no centro
do Rio de Janeiro. Esse novo crime fez com que o Ministério Público o
colocasse no Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas
Ameaçadas e como sua ajuda os investigadores conseguiram
identificar três acusados de envolvimento na chacina. Dentro do
Programa de Proteção, Wagner foi enviado para a Suíça, retornando
ao Brasil apenas para participar dos julgamentos.
Em relato publicado em 2015, sua irmã Patrícia informou que “[...] ele
continua morando na Europa, mas até hoje não conseguiu se livrar das
lembranças daquele passado no Rio de Janeiro.” (SILVEIRA; BOECKEL,

19
2015. s/p). Wagner também enfrenta problemas de saúde decorrentes
dos quatro tiros contra ele desferidos.
Uma das hipótese apontou que o crime havia sido cometido por
um grupo de extermínio, também composto por policiais, contratado
para “limpar” o local a mando de comerciantes e de empresários da
região. Os policiais estariam envolvidos no crime em resposta a
queixas de atos considerados “delinquentes”, praticados pelas
crianças e adolescentes em situação de rua, que, no episódio, foram
denominados como “menores de rua”.

Esta hipótese vem ao encontro do relatório anual divulgado pela Anistia


Internacional duas semanas antes do massacre, a Anistia denunciava a morte de
crianças e adolescentes no Brasil e atribuía os crimes a grupos de extermínio e a
policiais. Desta forma, o massacre ganhou repercussões internacionais, antes de
atingir a opinião pública no país. (Kravicz, 2020, p. 04).

É importante destacar que o termo “menor”, que deveria fazer


referência à menor idade, sempre foi usado de forma pejorativa para
caracterizar crianças e adolescentes em situação de pobreza,
principalmente os que estão em situação de rua. “Menor” é o pobre, o
que está nas ruas, que é “da rua”. O termo “menor”, ao identificar seus
designados à condição de “criminosos”, “marginais” e “delinquentes”,
torna-os alvo da política punitiva e da limpeza dos espaços públicos
urbanos, implementadas pelo Estado e por parte da sociedade.
A utilização do termo “situação de rua” se diferencia do termo
“menor de rua” por considerar que a permanência das crianças e dos
adolescentes na rua é uma condição temporária, e não definitiva. Por isso
utilizamos sempre o termo criança e adolescente em situação de rua.
Ainda sobre a chacina, após quase 30 anos, o que imperou foi a
impunidade dos crimes. Apesar de terem recebido altas condenações,

Os policiais Marcus Vinícius Borges Emmanuel e Marcos Aurélio Dias Alcântara


foram condenados a mais de 200 anos de prisão; Nélson Oliveira dos Santos
Cunha, a 45. Os três foram soltos pelo indulto após cumprirem parte da pena.
Um dos principais participantes, Marcus, teve o indulto suspenso e está foragido
da Justiça. (HÁ 25 ANOS, 2018, s/p)

Outro relato importante foi feito pela educadora Yvonne Bezerra


de Mello, que, à época, trabalhava com crianças e adolescentes em
situação de rua na Candelária. No relato, ela aponta uma nova
motivação para o crime, o que nos faz reviver a tragédia e a dor sentida

20
pelos jovens. Em matéria publicada pelo Portal Terra, no ano de 2018
(CANDELÁRIA, 2018, s/p), Yvonne revela que esteve com os jovens
horas antes da chacina. Ao pressentir que algo de ruim aconteceria à
noite, deu a três deles uma ficha telefônica para que ligassem caso
“acontecesse alguma coisa”. À noite ela recebeu uma ligação. Os
garotos gritavam: “Eles estão matando a gente!”. Quando Yvonne
chegou ao local, os corpos já estavam em frente à igreja.
Yvonne estava convencida de que houve um acerto de contas pela
ausência de pagamento de dívidas relativas à venda de drogas, pois, no
local, havia policiais que traficavam cocaína e alguns garotos da
Candelária ajudavam nas vendas. Tal afirmação apresenta-se como
uma nova hipótese para o caso.
A terceira hipótese aponta como motivação o fato de que, na
noite anterior ao crime, uma viatura da polícia fora apedrejada por
crianças e adolescentes em situação de rua e esse fato pode ter sido o
motivador do crime. De toda sorte, as várias hipóteses revelaram a
constante violência sofrida pelas crianças e adolescentes em situação
de rua, cometida, principalmente, por membros da polícia.
É importante destacar que o massacre da Candelária aconteceu
num período em que luta pela defesa e pela garantia dos direitos das
crianças e dos adolescentes se acentuava. Quatro anos antes era
promulgado o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que, dentre
seus artigos, destaca-se o 4º:

É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do Poder Público


assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida,
à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à
cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e
comunitária. (BRASIL, 1990, s/p).

O ECA ampliou e definiu os compromissos da família, da


comunidade, da sociedade e do poder público para com os direitos da
criança e do adolescente, garantindo a estes os mesmos direitos que
têm os adultos, além daqueles aplicáveis a cada idade. No entanto,
mesmo com uma legislação avançada na proteção e garantia de
direitos, os agentes públicos, que deveriam defendê-los e garanti-los,
tornaram-se os principais violadores.

21
Sede e fome que matam

Outro crime recorrente no Brasil é o assassinato de pessoas em


situação de rua por envenenamento, prática que tem sido
constantemente noticiada na impressa brasileira. Para elucidar esse
tipo crime, selecionamos dois casos recentes que ganharam
visibilidade nacional. O primeiro ocorreu no ano de 2019, na cidade de
Barueri (SP); o segundo, no ano de 2020, na cidade de Itapevi (SP).
O primeiro caso, datado de 16 de novembro de 2019, foi notícia na
imprensa jornalística. Uma das principais matérias foi publicada pelo
Portal Terra, escrita pela jornalista Ana Paula Niederauer, intitulada:
“Quatro moradores de rua morrem em Barueri - Outros quatro estão
internados; suspeita é que eles tenham ingerido bebida alcoólica
envenenada”. (NIEDERAUER, 2019, s/p).
Na noite do crime, oito pessoas em situação de rua, que dormiam
na região central da cidade de Barueri, receberam de um homem
desconhecido uma garrafa que supostamente continha bebida
alcóolica. Na época, o setor de comunicação da prefeitura afirmou que
todas as oito pessoas haviam dado entrada no Pronto Socorro da
cidade com sinais de envenenamento. Dentre essas, quatro morreram.
É importante destacar que a prática de distribuição de bebidas
alcóolicas para os que estão em situação de rua é vista com
normalidade por grande parte da população, representando um
“gesto de caridade”. O consumo constante faz com as bebidas
alcóolicas se tornem parte do cotidiano dos grupos, sendo um dos
itens mais doados pelos que circulam nas regiões centrais das cidades.
No entanto, o que ganha destaque no caso é a presença de veneno na
bebida. Assim, na mesma noite em que o crime foi cometido, a garrafa
foi apreendida pela Polícia Civil para a realização de perícia e para o
registro de ocorrência.
O resultado da perícia foi publicado em matéria no site de notícias
G1, no dia 22 novembro de 2019, com o título “Bebida que matou
moradores de rua em Barueri (SP) tinha cocaína, diz laudo” (JORNAL
NACIONAL, 2019, s/p). Os laudos médicos constataram que havia uma
grande concentração de cocaína no líquido, capaz de provocar a morte
por overdose.
O segundo caso envolvendo envenenamento também foi
publicado pelo site G1, em matéria assinada pelas jornalistas Fernanda

22
Santos e Carolina Giacola e pelo jornalista Bruno Tavares, no dia 22 de
julho de 2020 (SANTOS et al, 2020, s/p). A matéria relatava que a polícia
da cidade de Itapevi, região da grande São Paulo, estaria investigando
a morte de duas pessoas em situação de rua, sob suspeita de
envenenamento por comida. De acordo com a matéria, duas pessoas
em situação de rua e um cachorro morreram após ingerir alimentos
envenenados. Além desses, outro homem em situação de rua também
recebeu a comida e a levou para a casa onde residia com uma criança
de 11 anos e uma adolescente de 17 anos. Após ingerirem o alimento,
eles passaram mal e foram encaminhados ao hospital da cidade, a que
chegaram em estado grave. Sobreviveram, mas as sequelas do
envenenamento permaneceram. Os responsáveis pelo crime não
foram identificados.
Ambos os casos supracitados revelam tentativas de extermínio
de pessoas em situação de rua por envenenamento. Essa violência, na
visão de seus executores, não objetiva exterminar seres humanos, mas
sim limpar aquilo que os incomodava. Cabe destacar que esses não são
casos isolados; acontecem em todo o Brasil, somados aos casos de
bebidas envenenadas. É o extermínio disfarçado de solidariedade.
A necessidade de sobrevivência das pessoas em situação de rua
leva à mendicância e doação (esmola), ao passo que alimenta, pode
também provocar a morte.

O corpo em chamas

É comum encontrar pessoas em situação de rua dormindo em


frente às lojas, debaixo de marquises ou em bancos de praças em plena
luz do dia. Essas pessoas são rotuladas como “preguiçosas”,
“bêbadas”, “drogadas” etc. O que poucos sabem é que o sono do dia
pode estar vinculado aos perigos da noite. Ficar acordado durante a
noite é uma tática de sobrevivência que possibilita a fuga ao menor
sinal de perigo. Isso faz que com o sono menos perigoso aconteça
durante o dia, em espaços públicos urbanos, com grande
concentração de pessoas.
É durante a noite, quando as ruas estão vazias, que os criminosos
saem para queimar pessoas em situação de rua. Com o sentimento de
impunidade, os violadores agem rapidamente, jogando líquido
inflamável e ateado fogo. Esse crime, quando não mata, pode deixar

23
sequelas terríveis. Com isso, a incineração se torna outra prática
comum de extermínio de pessoas em situação de rua, fazendo da noite
uma inimiga cruel.
O caso mais famoso de incineração ocorrido no Brasil foi o
assassinato do líder indígena Galdino Jesus dos Santos, conhecido
nacionalmente como “índio Galdino”, pertencente à etnia Pataxó-hã-hã-
hãe da Bahia. No mês de Abril de 1997, Galdino estava em Brasília, junto
com outras lideranças indígenas, participando de negociações com a
Fundação Nacional do Índio (FUNAI) relativas à demarcação de terras e à
promulgação de atividades comemorativas ao “Dia do Índio”.
As atividades de que Galdino participava, no dia 19, se estenderam
até tarde da noite, fazendo com ele só pudesse chegar à pensão em
que estava hospedado às 3h do dia 20. Por causa do horário avançado,
ele foi impedido de entrar, tendo de se abrigar em uma parada de
ônibus localizada na Asa Sul de Brasília.
Consta no processo judicial que, enquanto Galdino dormia, cinco
jovens de classe média alta o viram, atearam fogo em seu corpo e
fugiram. De acordo com a matéria publicada por Pedro Alves e Ana
Helena Paixão no site Metrópoles, no dia 20 de Abril de 2017, os jovens
voltava de uma festa, quando

[...] avistaram o que disseram (no processo) pensar ser um mendigo naquele
ponto de ônibus e tiveram a cruel ideia de atear fogo ao corpo inerte, por
diversão. Os cinco foram até um posto de gasolina próximo, compraram álcool
e fósforos e retornaram à parada. Encharcaram o corpo de álcool, acenderam o
fósforo e lançaram sobre “o mendigo”. Entraram no carro e deram a
partida enquanto Galdino se levantava desesperado, gritando de dor. (ALVES;
PAIXÃO, 2017, s/p, grifo nosso)

Galdino teve 95% do corpo queimado, foi levado ao hospital, mas


morreu horas depois por conta das queimaduras. Dentre os
assassinos, um era adolescente e foi julgado tendo como base o ECA.
Os outros quatro foram processados com adultos. No entanto, foi só
no ano de 1999 que o Superior Tribunal de Justiça acatou o pedido do
Ministério Público e classificou o crime como homicídio triplamente
qualificado, como afirma a matéria publicada pelo site Consultor
Jurídico, no dia 09 de Fevereiro de 1999:

Os quatro rapazes que assassinaram, num ponto de ônibus de Brasília, o índio


pataxó Galdino Jesus dos Santos, serão levados a júri popular. A decisão foi
tomada, nesta terça-feira (9/2), pelo Superior Tribunal de Justiça, por três votos

24
a um, ao acatar a tese do Ministério Público do Distrito Federal. Segundo o MP,
os jovens cometeram homicídio triplamente qualificado e não lesão corporal
seguida de morte. (CASO PATAXÓ, 1999, s/p).

Galdino não foi assassinado por ser um indígena, mas por ter sido
confundido com uma pessoa em situação de rua – com um “mendigo”.
Tal fato no faz retomar a reflexão sobre a condição não-humana de
quem está em situação de rua. Trata-se de um ser “coisa”, que pode
ser exterminando tal como se fosse “coisa sem valor”. Analogamente
à maioria dos casos em que impera a impunidade, os assassinos de
classe média alta receberam diversas regalias durante o período em
que estiveram presos, além de não cumprirem toda a pena estipulada
inicialmente pela justiça.
O caso Galdino, morto por ter sido confundido com um
“mendigo”, não é um caso isolado. A impressa brasileira tem noticiado
com frequência os atos de violência praticados por grupos de
extermínio, ou por pessoas comuns.
Outro crime de incineração de pessoas em situação de rua
aconteceu no dia 27 de Fevereiro de 2019, na zona Oeste da cidade do
Recife. Em matéria publicada pelo site Rádio Jornal Pernambuco, a
jornalista Priscila Miranda (2019, s/p) relata que uma mulher grávida,
que estava em situação de rua, havia dado entrada no Hospital da
Restauração, depois de ter sido queimada enquanto dormia debaixo
do viaduto da Caxangá, Zona Oeste da cidade do Recife.
A vítima, Karla Braz, de vinte e sete anos, dormia quando dois
homens se aproximaram e atearam fogo em seu corpo. Karla foi
socorrida por um homem, que também estava em situação de rua, e
foi levada ao Hospital Barão de Lucena, que fica próximo ao local do
crime. Como o hospital não possuía atendimento especializado, Karla
não foi socorrida.
O homem que a socorreu relatou:

"Quando ela chegou perto de mim eu tava dormindo, toda queimada. Tocaram
fogo nela dormindo. Eu socorri ela pro Barão de Lucena, mas não atenderam.
Aí fui ver se pegava um ônibus para levar ela, mas os ônibus não quiseram
parar. Aí fomos andando e quando chegou perto dos taxistas, eles socorreram
ela." (MIRANDA, 2019, s/p).

O crime cometido contra Karla soma-se ao de Flávia Souza, menina


de 15 anos, grávida, morta no Rio de Janeiro, em 2008. Também,

25
correlaciona-se com diversos outros casos de mulheres em situação de
rua que foram queimadas enquanto dormiam. No entanto, o maior
número vítimas é do sexo masculino. Como exemplo, citamos casos
recentes ocorridos em: São José do Rio Preto (SP), no dia 20 de Janeiro
de 2021; Salvador (BA), no dia 03 de Fevereiro de 2021; São José dos
Campos (SP), no dia 22 de Março de 2021; Nova Iguaçu (RJ), no dia 03 de
Outubro de 2021; bairro da Mooca em São Paulo (SP), no dia 05 de Janeiro
de 2022; Buri (SP), no dia 13 de Fevereiro de 2022, dentre muitos outros.
Na maioria absoluta dos casos, os criminosos não são identificados.

Noites que congelam o corpo

Constantemente, os casos de pessoas em situação de rua mortas


no Brasil por conta do frio se repetem. Nos boletins de ocorrência,
regista-se morte por hipotermia; no entanto, essas pessoas são vítimas
da negligência e da violação de direitos por parte do Estado.
A cidade de São Paulo é a região que mais apresenta mortes de
pessoas em situação de rua causadas pelo frio. Só no ano de 2021,
foram registradas 16 mortes. Essas mortes causadas pelo frio são
anunciadas, tendo em vista que as baixas temperaturas se repetem
todos os anos, não sendo acontecimentos atípicos. A retirada das
pessoas das ruas, a partir de políticas públicas de qualidade pensadas
exclusivamente para atender a esse público, deveria ser programa de
governo. No entanto, essas ações acontecem de forma paliativa, com
tons assistencialistas, ou como forma de “limpeza” dos espaços
públicos, e não como programa de defesa e garantia de direitos,
típicos à justiça social. Como exemplo, citamos o anúncio feito pelo
governador de São Paulo no ano de 2021:

[...] o governo de São Paulo anunciou que vai distribuir 25 mil cobertores e 25 mil
sacos térmicos de dormir para moradores de rua da capital graças a uma doação
da iniciativa privada de R$ 2,5 milhões. O anúncio foi feito pelo governador João
Doria (PSDB) em coletiva de imprensa. (MORADORES DE RUA, 2021, s/p)

A distribuição de cobertores e de sacos de dormir são ações que


se repetem todos os anos. Essas atitudes consideram as pessoas como
parte da rua, como se a rua fosse o local de dormir, tornando-as cada
vez mais “coisas de rua” e, cada vez menos, “em situação de rua”.

26
Ao não se efetivarem políticas públicas de qualidade, que
humanizem e garantam direitos às pessoas em situação de rua, o
Estado torna-se corresponsável pelas mortes causadas por
hipotermia. Somente no mês de Junho de 2021, entre os dias 29 e 30,
quando os termômetros chegaram a 6º C , sete pessoas morreram na
cidade de São Paulo por causa do frio.
A morte dolorosa por hipotermia é causada quando o corpo humano
fica sob longa exposição ao frio intenso. Nessa situação, o corpo libera
mais calor do que consegue reter, fazendo com que a temperatura
corporal caia e com que as pessoas percam o controle total

[...] dos membros inferiores e superiores, a perda dos sentidos, as pupilas ficam
dilatadas, e a pessoa que se encontra nessa situação tem a respiração
seriamente comprometida com risco sério de parada cardíaca-respiratória, além
de perder, na maioria das vezes, a consciência. (HIPOTERMIA, 2021, s/p).

Uma das cenas mais cruéis de morte pelo frio aconteceu também
em São Paulo, no mês de Junho de 2019. Na ocorrência, Gabriel, de 22
anos, foi visto deitado em uma escada da estação Barra Funda, Zona
Oeste da capital, por uma passageira do metrô que logo acionou um
segurança da estação. No entanto, quando este chegou ao local,
Gabriel já estava morto sobre em um colchonete, sem sinais de
violência física e sem qualquer proteção contra o frio. Sua morte for
registrada como hipotermia.

Violência gratuita

Os fatos relatados anteriormente denunciam as inúmeras mortes de


pessoas em situação de rua no Brasil. Contudo, ainda temos as mortes
causadas por “arma branca”, por arma de fogo, por atropelamento etc.
Cotidianamente, pessoas em situação de rua são encontras mortas
ou feridas por balas de revólveres, facas, facões, pedações de madeira,
pedras, dentre muitos outros instrumentos. Recentemente, foram
noticiadas duas situações pela impressa brasileira e mundial. A primeira, o
caso de uma mulher em situação de rua que, após pedir a quantia de 1,00
real a um homem que estava parado na calçada, foi vítima de um tiro
disferido. O caso ocorreu no dia 20 de Novembro de 2019. O vídeo que
mostra a cena, registrado por câmeras de segurança, circulou
rapidamente pela Internet.

27
As filmagens, que ainda estão disponíveis na Internet, mostram Zilda
Henrique, conhecida na região como Néia, circulando pelas ruas da cidade
de Niterói (RJ). Ao avistar um homem na rua, Néia se aproxima e o aborda
pedindo dinheiro. Rapidamente, ele saca um revólver de calibre 38 e o
dispara contra ela. O assassino sai andando normalmente, enquanto Néia
agoniza no chão.
Uma testemunha do crime pediu ajuda aos motoristas que
passavam pelo local, mas Néia só foi socorrida quando o Corpo de
Bombeiros chegou. Ela não resistiu ao ferimento e morreu.
O suspeito foi preso temporariamente e em seu depoimento alegou
que Néia tentou roubá-lo – dado não confirmado pelas imagens das
câmeras e pelo relato das testemunhas. O caso figura dentre os mais
cruéis praticados contra pessoas em situação de rua.
No dia 17 de Maio de 2020, outro vídeo registrado por câmeras de
segurança ganhou destaque nacional. Nas imagens, um homem em
situação de rua aparece sendo arrastado pelas ruas do centro da cidade
de São Luís (MA), amarrado a uma caminhonete. O caso ganhou
notoriedade nacional e logo virou notícia do programa Fantástico, da
Rede Globo de Televisão.
A matéria divulgada no site do programa, com o título: “Homem é
preso acusado de arrastar um homem sem teto até a morte em São Luís,
no Maranhão”, descreve o crime a partir de relatos de testemunhas e de
imagens obtidas por câmeras de segurança:

Essa história começa no pequeno restaurante de Geucimar. Nos últimos tempos,


o comércio de espetinhos vinha sendo alvo de alguns pequenos furtos e
funcionários suspeitavam do morador de rua. Na noite do crime, um dos vigias
do restaurante ligou para Geucimar dizendo que o homem tentava mais uma vez
furtar o local. De acordo com a polícia, foi então que eles espancaram Carlos
Alberto e o dono do restaurante decidiu levar o rapaz, ainda vivo, amarrado a
uma corda para outro ponto da cidade. (HOMEM É PRESO, 2020, s/p)

O empresário arrastou Carlos Alberto por mais de um quilômetro


amarrado à traseira da caminhonete. Nas imagens das câmeras de
segurança, o empresário aparece bebendo água enquanto arrasta vítima.
Outras imagens mostram Geucimar dando marcha-a-ré, passando com o
carro sobre o homem.
O delegado responsável pelo caso, Felipe César Mendonça, do
Departamento de Proteção à Pessoa, classificou o crime como bárbaro
e com requinte de crueldade. Relata, ainda, que “[...] na época, a

28
família chegou a fazer o reconhecimento do corpo. O assassino fugiu,
mas foi encontrado dentro de uma oficina mecânica, justamente com
o mesmo veículo que praticou o crime.” (APÓS TORTURAR, 2020, s/p).
À época, o empresário confessou o crime informalmente à polícia.
No entanto, manteve-se em silêncio no inquérito, quando
questionado. Com base nas imagens das câmeras e no relato de
testemunhas, ele responde pelos crimes de tortura e homicídio.

Números e violências

De acordo com o Boletim Epidemiológico Nº 14, lançado pelo


Ministério da Saúde em 2019, cujo tema é a violência sofrida por pessoas
em situação de rua no Brasil, foram registrados 17.386 casos entre os anos
2015 e 2017.

Entre essas 17.386 pessoas, observou-se que os casos se concentraram em


indivíduos nas faixas etárias de 15-24 anos, com 6.622 (38,1%); 25-34 anos, com
3.802 (21,9%); e 35-44 anos, com 2.561 (14,7%). Ainda que em menor frequência,
observou-se também a ocorrência de casos notificados em menores de 5 anos
303 (1,8%). Ao longo do triênio estudado, a faixa etária mais afetada foi a de 15 a
24 anos (36,0% em 2015, 40,7% em 2016 e 37,9% em 2017). (BRASIL, 2019, p. 03).

O dados acima mostram que a violência sofrida pelas pessoas em


situação de rua tem chegado a números alarmantes. No entanto, esses
números consideram apenas os casos registrados no Sistema de
Informação de Agravos de Notificação (Sinan), nos anos de 2015, 2016
e 2017. Ou seja, o número de violências é muito maior, tendo em vista
que muitos casos permanecem subnotificados.
Esses números seriam reduzidos se o Estado garantisse os
direitos básicos das pessoas em situação de rua. Contudo, o que
vemos, cotidianamente, é a anulação de direitos e a imposição do
poder de polícia, o qual é demonstrado tanto pela violência, quanto
pelas políticas compensatórias e assistencialistas.
Cabe ainda destacar que grande parte da impressa brasileira, que
divulga matérias sobre os casos de violência, ainda persiste em sustentar
os estereótipos que também violentam as pessoas em situação de rua.
Nas matérias que compõem este texto, por exemplo, há o uso de
designações como “sem-teto”, “mendigo” e “morador de rua”.
Mesmo convivendo com tanta violência, as pessoas em situação
de rua sobrevivem por meio de suas táticas e ao analisarmos

29
profundamente o cotidiano dessas pessoas, verificamos que suas
táticas de sobrevivência são reflexos combativos às ações do Estado.
Sem poder contar com um sistema efetivo de proteção e garantia de
direitos, elas colocam em prática seu poder de reação e resiliência,
superando obstáculos e criando novas táticas para resistir às violências
e sobreviver nos espaços públicos urbanos.
As pessoas em situação de rua criam um Estado paralelo em seu
mundo invisível. Refletindo sobre o pensamento de Foucault (2005, p.
30), entendemos surgir, aqui, uma nova forma de poder local,
considerado periférico ou molecular, que ainda não fora absorvido
pelo Estado.

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promulgado em 5 de outubro de 1988, com alterações adotadas pelas
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30
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Brasília, 14 de julho de 1990.
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31
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[Link]>. Acesso em: 30 mar. 2016.

32
INVISIBILIDADE SOCIAL:
experiência de trabalho com pessoas em situação de rua

Rebeca Nobre Gonzalez Fernandez1


Cleivison Jesus de Carvalho2

Introdução

Ao receber o convite para expor nossa experiência com pessoas


em situação de rua, sentimo-nos muito prestigiados e, ao mesmo
tempo, convocados à responsabilidade em dividir com os leitores
nossa atuação na área do Sistema Único de Assistência Social (SUAS).
Nosso sentimento de prestígio se ampara na importância com que
entendemos o ato de levar para outras esferas a discussão sobre
vulnerabilidade daqueles que estão à margem da sociedade. Há uma
demanda contínua de casos em grandes metrópoles, que, no
Município de Seropédica3, nem se faz tão constante e/ou recorrente.
Mesmo assim, é de suma importância refletir sobre como surgem os
casos, como agir, como acionar os equipamentos e como “educar” os
munícipes nessas situações.
Na imagem abaixo, o cartunista Adão Iturrusgarai ilustra, de
forma bem didática, de que forma as pessoas se tornam invisíveis para
a sociedade. A partir dessa tirinha, vamos iniciar a narrativa das
experiências.

1 Licenciada em Pedagogia e Especialista em Educação Infantil pela Universidade


Federal Rural do Rio de Janeiro/UFRRJ. E-mail: becangf@[Link]
2 Licenciado em Belas Artes pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro/UFRRJ.

E-mail: cleivisoncarvalho@[Link]
3 Município situado na Região Metropolitana do Estado do Rio de Janeiro, com

população estimada de 83.000 habitantes, segundo dados do IBGE https://


[Link]/brasil/rj/seropedica/panorama Acesso em: 15/12/2020.

33
Figura 1: Mundo monstro. Adão, 2012.

Folha de São Paulo. Publicação de 22/08/20124.

Estariam as pessoas em situação de rua realmente invisíveis para


a sociedade? Assim como o cartunista, de forma “cômica”, expõe na
tirinha, poderíamos associar tal invisibilidade ao funcionamento
precário das políticas públicas para a Pessoa em Situação de Rua
(PSR)? Ou, simplesmente, associá-la à falta de empatia dos
transeuntes? De fato, não podemos culpabilizar a atitude das pessoas
que dão coro à invisibilidade da PSR, pois, do contrário, caso haja
alguma ação de apoio, que não é um problema, estaríamos falando de
assistencialismo, medida que não garante os direitos efetivos à grande
maioria. Portanto, a política pública funciona como atuação e como
ampliação dos direitos de “todas” as pessoas em situação de rua.
Iniciemos, então, o relato das experiências profissionais no âmbito
do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) em 2006, no então
Programa Sentinela, um programa governamental para a assistência e o
acompanhamento de crianças e adolescente vítimas de abuso e de
exploração sexual. Segundo Santi (2013), a partir da interpretação dos
dados no site do Ministério de Desenvolvimento Social:

O Programa Sentinela era co-financiado pelo Governo Federal, através do


Ministério de Desenvolvimento Social. Após três anos da implantação do
Programa Sentinela, em meados do ano de 2008, o Projeto Técnico do Programa
Sentinela foi executado pelo Centro de Referência de Assistência Social, tratava-
se do processo de transição da nomenclatura. O Programa Sentinela veio a ser
modificado em ocasião das novas orientações designadas pelo ministério de
Desenvolvimento Social e Combate a Fome. Conforme tais determinações, o
Programa Sentinela passou a se chamar de Serviço de enfrentamento a
violência, abuso e exploração sexual contra crianças e adolescentes. Desta
forma, para além da modificação no nome do programa, em obediência as
demais legislações, o antigo Programa Sentinela, agora com novo nome, já

4Fonte: [Link]
Acesso em: 19/01/2021.

34
mencionado, passou a ser oferecido no Centro de Especializado de Assistência
Social (CREAS) [...] (SANTI, 2013, p.10/11).

O acompanhamento também se dava em torno do núcleo familiar


em que a criança e adolescente estavam inseridos, uma vez que toda
a família sofre a fragilidade de tal violação. Destacamos, ainda, que a
maioria dos casos de violência sexual acontece no seio intrafamiliar.
Baseado nas informações do Ministério da Mulher, da Família e dos
Direitos Humanos (MMFDH),17 mil denúncias dessa natureza foram
registradas, sendo que 73% dos casos ocorreram na própria casa da
vítima5. Essa experiência fez com que despertasse um olhar para
outras demandas sociais. Como bem define Guerra (2008),

[...] a violência é uma forma de relação social expressa nos padrões de


sociabilidade, modos de vida, modelos atualizados de comportamentos sociais
vigentes, e é simultaneamente, a negação de valores, universais de liberdade,
igualdade e vida (GUERRA, 2001, p.31).

Expressa-se, dessa forma, um olhar panorâmico para toda uma


realidade, seja ela de gênero, racial ou financeira.
A partir desse ponto, acessamos outras aéreas dos serviços sócio-
assistenciais. Uma delas foi o Centro de Referência Especializado de
Assistência Social (CREAS), que, até hoje, em nossas atuações, reflete
os aprendizados do CREAS. Trata-se de um equipamento público
estatal importante, visto o trabalho realizado com os direitos violados
de crianças, adolescentes, mulheres, idosos e pessoas em situação de
rua. Em uma esfera da proteção social especial de média
complexidade, integrante do Sistema único de Assistência Social
(SUAS), de acordo com a lei nº 12.435 de 2011, a

proteção social especial é a modalidade de atendimento assistencial destinada


às famílias e indivíduos que se encontram em situação de risco pessoal e social,
por ocorrência de abandono, maus tratos físicos e, ou, psíquicos, abuso sexual,
uso de substâncias psicoativas, situação de rua, situação de trabalho infantil,
dentre outras (PNAS, 2004, p. 37).

5 Matéria publicada no site do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Disponível em: [Link]


rio-divulga-dados-de-violencia-sexual-contra-criancas-e-adolescentes Acesso em:
18/11/2020

35
Da experiência citada anteriormente, um dos públicos alvos desse
serviço que não só chamou a atenção, mas também despertou o olhar
de pesquisadores acerca, foram as Pessoas em Situação de Rua (PSR).
Instituído a partir do Decreto Federal nº 7.053, de 23 de dezembro de
2009, a Política Nacional para a População em Situação de Rua define
tal grupo como:

[...] grupo populacional heterogêneo que possui em comum a pobreza extrema,


os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia
convencional regular, e que utiliza os logradouros públicos e as áreas
degradadas como espaço de moradia e de sustento, de forma temporária ou
permanente, bem como as unidades de acolhimento para pernoite temporário
ou como moradia provisória. (BRASIL, 2009, p.1).

É importante frisar a especificidade do termo pessoa em situação


de rua, que denota a questão de não ser da rua, mas de estar na rua.
Esse estar é amplo, pois vários fatores motivam a existência de pessoas
valendo-se das ruas como moradia. Como bem menciona Silva (2006),
“podemos destacar a falta de trabalho, inexistência de moradia,
drogadição, alcoolismo, saúde mental prejudicada, vínculos familiares
fragilizados e/ou rompidos, etc”. Tendo em vista esse aspecto, além
das péssimas condições em que a pessoa em situação de rua se
encontra, é indispensável refletir sobre o recorte referente a cada
pessoa por nós contemplada.
Ainda segundo a Política Nacional para Inclusão Social da
População em Situação de Rua, esses espaços são majoritariamente
ocupados por homens, predominantemente negros, com baixa ou
nenhuma escolaridade. Quase hegemonicamente, o motivo de ocupar
as ruas relaciona-se ao alcoolismo e/ou ao uso de drogas, seguindo de
falta de emprego e, por fim, de rompimento dos vínculos familiares.
Importante ressaltar que esses motivos podem estar ligados ou
correlacionados, como afirma o trecho da Política Nacional para
Inclusão Social da População em Situação de Rua:

[...] A população em situação de rua é predominantemente masculina, 82%[...]


39,1% das pessoas em situação de rua se declararam pardas. Assim, a proporção
de negros (pardos somados a pretos) é substancialmente maior na população
em situação de rua.[...] 74% dos entrevistados sabem ler e escrever. 17,1% não
sabem escrever e 8,3% apenas assinam o próprio nome. A imensa maioria não
estuda atualmente (95%). Apenas 3,8% dos entrevistados afirmaram estar
fazendo algum curso (ensino formal 2,1% e profissionalizante 1,7%). Diagnosticou-

36
se que 48,4% não concluíram o primeiro grau e 17,8% não souberam
responder/não lembram/não responderam o seu nível de escolaridade. Apenas
3,2% concluíram o segundo grau. Os principais motivos pelos quais essas pessoas
passaram a viver e morar na rua se referem aos problemas de alcoolismo e/ou
drogas (35,5); desemprego (29,8%) e desavenças com pai/mãe/irmãos (29,1%).
Dos entrevistados no censo, 71,3% citaram pelo menos um desses três motivos
(que podem estar correlacionados entre si ou ser consequência do outro).
(BRASIL, 2008, p. 10-11).

Os dados acima são necessários à reflexão, tanto no âmbito da


sociedade civil, quanto no âmbito da gestão pública, ressaltando que
cada Estado e Município têm suas especificidades em relação às
demandas de pessoas em situação de rua, bem como deverão prestar
serviços específicos a cada situação.
Seja em uma grande metrópole, como no caso das capitais, ou em
recortes menores, como no caso dos municípios, pensar em políticas
públicas para essas pessoas se faz cada vez mais pertinente, garantindo o
alcance, a adesão e a participação efetiva das pessoas que fazem das ruas
seu espaço de moradia. Ninguém mais do que elas próprias sabem das
necessidades por que passam tendo a rua como abrigo.
Sendo assim, quando refletimos sobre a invisibilidade das pessoas
em situação de rua a partir da experiência técnica, convém fazê-lo por
meio do diálogo entre as especificações dos casos e a atuação
intersetorial.

Impressões e procedimentos das intervenções técnicas

Nossa atuação no PSR do município de Seropédica acompanhou


uma baixa demanda, com um caso ou outro. Entretanto, mesmo sendo
poucos os casos, quando estes surgiam, sentíamos imenso desgaste
mental. A falta de estrutura para providenciar acolhimento, somada à
tentativa de suprir demandas emergenciais, contribuíam para o
comprometimento emocional dos profissionais envolvidos.
Isso nos faz refletir sobre a falta de estrutura dos Municípios e
Estados para a prestação de atendimento, por mais que os índices
sejam menores nessas regiões do que nas capitais. A ideia de não ter
um equipamento específico para pessoas em situação de rua, como

37
um Centro Pop6, uma casa de passagem etc., deturpa a noção de
estrutura básica de acolhimento, fazendo com que o atendimento seja
precarizado e, algumas vezes, ineficaz.
Na perspectiva do acolhimento, o respeito à subjetividade da
pessoa em situação de rua e o enfoque à humanização são fatores
importantes para a prática. Essencial ao trabalho social, o acolhimento
deve ser observado pelos profissionais que atuam com a demanda da
PSR sob duas perspectivas, de acordo com as Orientações Técnicas do
Centro de Referência Especializado para População em Situação de
Rua (2011), a saber: “a acolhida inicial dos usuários no Serviço e a
postura receptiva e acolhedora necessária durante todo o
desenvolvimento do trabalho”, com objetivo de compreender as
situações vividas por esse público, de auxiliar na identificação das
demandas e de construir um vínculo para melhor desenvolvimento do
trabalho, equiparado às expectativas dos envolvidos. O olhar técnico
constitui responsabilidade dos profissionais da equipe. O acolhimento
faz toda diferença para a abordagem inicial, seja ela feita pelo
orientador social7 ou pelo próprio técnico.
Na experiência local, a equipe não contava com o orientador
social. Por um momento, o equipamento contou com esse
profissional; porém, ele não permaneceu por questões contratuais,
dificultando em alguns aspectos a abordagem social e até mesmo a
busca ativa. Criava-se um contexto para intervenções mais paliativas
do que funcionais, propriamente resolutivas, deixando que a demanda
chegasse de forma espontânea, sem uma previa identificação no
território, dificultando ainda mais as intervenções.
Tendo em vista as dificuldades para a construção de uma análise
mais crítica, respaldada por estudos dentro da perspectiva territorial
para as pessoas em situação de rua que acessavam o serviço, não
tínhamos propriedade, dados ou referências dos asistidos. Com uma

6 Termo utilizado para referência o lugar de acolhimento: Centro de Referência


Especializado Para a População em Situação de Rua. BRASÍLIA, 2011.
7 Profissional de escolaridade mínima de nível médio completo; conhecimento básico

sobre a legislação referente à política de Assistência Social de direitos


socioassistenciais e direitos de segmentos específicos; conhecimento da realidade
social do território e da rede de articulação do CREAS; habilidade para se comunicar
com as famílias e os indivíduos; conhecimento e experiência no trabalho social com
famílias e indivíduos em situação de risco. (BRASÍLIA, 2011).

38
equipe aquém {a normativa que rege a NOB / RH – SUAS8, e em um
espaço físico sem condições para atender à demanda, as intervenções
buscavam suprir as demandas emergenciais.
Os casos eram, em sua maioria, trazidos de forma espontânea,
destacando os principais que eram “trecheiros”, que, de acordo com a
Política Nacional para Inclusão Social da População em Situação de Rua
(2008), designa o grupo “composto por pessoas que transitam de uma
cidade à outra, caminhando pelas estradas, pedindo carona ou se
deslocando com passes de viagem concedidos por entidades
assistenciais”. Os mesmos acessavam o equipamento em busca de
ajuda para alcançar seu destino, que na maioria dos casos, eram em
direção à capital.
A população em situação de rua é bastante complexa e
heterogênea, constituída por diversos subgrupos. Com suas
especificidades e experiências, suas demandas atraem o olhar para as
vivências mais peculiares. O relato de cada pessoa abordada é único,
não podendo levar em conta uma lógica e/ou molde de atendimento,
pois cada um a ser acolhido tem suas referências socioculturais, bem
como suas necessidades. Independentemente de terem a rua como
moradia, seus direitos devem ser resguardados.
É preocupante a falta de estrutura e de conhecimento técnico das
equipes acerca da temática. O pouco investimento do poder público
tem sua parcela de irresponsabilidade. Por vezes, sentimo-nos
frustrados e até mesmo culpados, sem que a ineficiência decorra de
nossas atitudes práticas, as quais mobilizam diversos esforços.
Entender o papel de cada um dentro desse protagonismo de ações
é fundamental. Tal protagonismo, por ora, pode até ser da Assistência
Social, mas o decorrer do processo, assim como sua finalidade, é de todo
o sistema. A base para que o papel desses protagonistas sejam de
relevância está nas políticas públicas que garantam o direito à educação,
à saúde, ao trabalho, à moradia, ao lazer e à segurança, todos muito bem
pontuados na nossa Carta Magna.

8 Norma Operacional Básica de Recursos Humanos do Sistema Único de Assistência Social.

39
Uma perspectiva sobre a eficácia dos equipamentos e das políticas
públicas

De acordo com a Tipificação Nacional de Serviços


Socioassistenciais (2009), a referência para o serviço de assistência às
pessoas que utilizam as ruas como espaço de moradia compõe o
Serviço Especializado para Pessoas em Situação de Rua e o Serviço
Especializado em Abordagem Social, ambos na esfera da Proteção
Social Especial de Média Complexidade. Em municípios de pequeno e
médio porte que não ofertem estrutura de um Centro Pop, como o
caso da experiência profissional relatada, o CREAS se torna o
equipamento articulador desse serviço.
Numa perspectiva sobre a eficácia dos atendimentos, bem como
sobre as políticas públicas, o discurso pode soar redundante, pois falar
de políticas públicas implica estruturar uma equipe de referência que
conheça as necessidades e, mais que isso, entender que eles próprios
são os principais agentes que contribuem ao processo de construção
dessa política.
Pensar na invisibilidade que a rua traz para essas pessoas é pensar
nos problemas cotidianos, na dificuldade de acesso às necessidades
básicas, tais como lavar as mãos e dispor de local para fazer as
necessidades fisiológicas de excreção. Sem falar na violência física,
sexual, patrimonial e institucional que enfrentam e as dificuldades de
acesso aos benefícios oferecidos pelos programas sociais. Isso
justificado muitas vezes pela falta de documento e até mesmo pela
falta de um endereço de referência.
Nesse contexto, a equipe precisa entender seu papel articulador das
ações em conjunto com o usuário, tendo o equipamento como referência
para endereço, guarda de pertences etc., formando, aos poucos, os
vínculos e as propostas de trabalho para cada vivência trazida.
A sociedade é, igualmente, de suma importância, cabendo à
equipe socializar informações junto à comunidade local, pois a visão
deturpada prejudica a intervenção. Um exemplo de tal visão
deturpada é a sociedade julgar o estado de vulnerabilidade como
consequência ou culpa de ações dos próprios usuários, não
entendendo que diversos são os fatores que podem levar uma pessoa
ou uma família a estarem na rua. Outro exemplo é a ideia de que retirá-
los das ruas seria, na verdade, uma forma de “limpeza”. Porém, essa

40
atitude legitima ainda mais o estereótipo de invisibilidade que essas
pessoas possuem. Nesse sentido, a articulação junto à sociedade para
esclarecimento e entendimento das questões é fundamental. Não
basta retirar os sujeitos das ruas; deve-se, além disso, identificar cada
necessidade existente, estabelecer vínculos e criar metodologias de
trabalho. Vale lembrar que isso requer tempo, didática e uma dinâmica
de trabalho parcimoniosa.
Ainda sobre a eficácia da equipe, é muito importante ressaltar o
processo de educação permanente. Pautada dentro do processo de
trabalho no âmbito do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), a
educação permanente é uma conquista e se faz ferramenta
fundamental para os trabalhadores do SUAS. Ela engendra a qualidade
dos serviços sócio-assistenciais, visando à emancipação dos
trabalhadores e dos usuários do sistema. Neste sentido, a Política
Nacional de Educação Permanente do SUAS afirma que:

Os percursos formativos e as ações de formação e capacitação, compreendidas


no âmbito desta Política destinam-se aos trabalhadores do SUAS com Ensino
Fundamental, Médio e Superior que atuam na rede socioassistencial
governamental e não governamental, assim como aos gestores e agentes de
controle social no exercício de suas competências e responsabilidades.
(PNEP/SUAS, 2013, p. 27)

As políticas públicas se adaptam às diferentes estratégias


adotadas em Estados e Municípios, levando em consideração o déficit
de pessoal qualificado e de estruturas de acolhimento. Neste sentido,
vale reforçar a valorização de ações conjuntas, na defesa pela
intersetorialidade. Cabe salientar que quando se fala da eficácia das
políticas públicas, o papel da intersetorialidade é fundamental e não há
como articular ações sem pensar no papel de cada interlocutor dentro
dessa política, na intenção de fortalecimento de ações de caráter
intersetorial, com intuito de resgatar direitos e acesso à cidadania
dessa população.

Intersetorialidade

Tendo em vista que a Política Nacional para a População em


Situação de Rua foi instituída pelo Decreto nº 7. 053, de 23 de

41
Dezembro de em 20099, a partir de uma composição múltipla entre
Ministérios, há dados que corroboram a produtividade da
intersetorialidade nos casos de atendimento às pessoas em situação
de rua. O direcionamento precipitado de atendimentos cujas
necessidades são de atuação da saúde, por exemplo, mas os levam
como responsabilidade da Assistência Social, pode tornar a resolução
do caso mais longa e, por vezes, ineficaz.
Entende-se por intersetorialidade a ação de um ou mais setores,
tanto públicos, quanto privados e da sociedade civil, em que as
necessidades específicas de cada caso são solucionadas a partir do
trabalho coletivo. A articulação intersetorial promove levantamentos
de reflexões no que dizem respeito à sociedade civil participativa,
ajudando a identificar a vulnerabilidade social.. Como afirmam Pereira
e Teixeira (2013):

A noção de intersetorialidade surgiu ligada ao conceito de rede, a qual emergiu


como uma nova concepção de gestão contrária à setorização e à especialização,
propondo, por outro lado, integração, articulação dos saberes e dos serviços ou
mesmo a formação de redes de parcerias entre os sujeitos coletivos no
atendimento às demandas dos cidadãos. (PEREIRA; TEIXEIRA, 2013, p. 121).

A intersetorialidade busca reconhecer esses os agentes atrelados


aos serviços e a utilização da articulação em rede é fala cotidiana dos
trabalhadores do SUAS. Pensar em intersetorialidade é pensar em
rede, é tecer aprendizado e reconhecer limitações, podendo contar
com o outro. Isso revela que não estamos sozinhos, que o
protagonismo pode ser de um equipamento, de uma secretaria, sem
que se diminua a responsabilidade dos agentes contemplados em sua
singularidade. Propõe-se, assim, uma dinâmica de trabalho mais
organizada e um olhar empático. A partir do momento em que cada
participante do processo emancipatório da pessoa em situação de rua
se faz ativo, a evolução do caso se torna mais leve e as
responsabilidades de cada autor é representada.
O trabalho intersetorial evidencia que para a população em
situação de rua ter sua história reconhecida e para que possa superar
as mazelas que a vida proporciona, a articulação com os diversos
setores do poder público e da sociedade civil são fundamentais no

9[Link]
Acesso em: 18/02/2021

42
sentido de promover ações concretas para sua promoção, prevenção
e resgate social. Atuar no campo de visão de um trabalho
multifacetado com esse tipo de demanda é também pensar em um
atendimento humanizado, interdisciplinar, com a proposta de
contribuir na elaboração de um atendimento que observe o indivíduo
na sua totalidade, identificando suas vulnerabilidades com a primazia
de exaltar suas potencialidades. Desse modo, a Política Nacional de
Assistência Social (2004), menciona que:

[...], ao invés de metas setoriais a partir de demandas ou necessidades genéricas,


trata-se de identificar os problemas concretos, as potencialidades e as soluções,
a partir de recortes territoriais que identifiquem conjuntos populacionais em
situações similares, e intervir através das políticas públicas, com o objetivo de
alcançar resultados integrados e promover impacto positivo nas condições de
vida (PNAS, 2004, p. 44).

Traçar o viés da intersetorialidade demanda mapear o papel das


políticas sociais e das transformações por elas promovidas. Assim,
para o trabalho intersetorial ter efeito, é de suma importância que haja
diálogo entre os setores envolvidos, com a consciência de que a
dinâmica precisa estar pautada em decisões técnicas, não se
esquecendo do perfil ético e embasamento teórico dentro das
políticas sociais existentes. Dessa forma, o trabalho integrado entre
setores é essencial para resolver com eficácia as demandas
vivenciadas pelas pessoas em situação de rua e, consequentemente,
para efetivar a PNPSR. Partindo do pressuposto que é ineficaz e
impossível, dentro da complexidade que a demanda requer, não
trabalhar em rede e não construir essa metodologia.
Ante o exposto, consolidar a intersetorialidade não é tarefa fácil,
perpassando a conscientização da importância de políticas públicas,
dos direitos sociais e, consequentemente, da ampliação da cidadania.
Ainda há muito que avançar dentro da perspectiva intersetorial, há
desafios a serem enfrentados e redes a serem construídas. Porém,
mesmo com todas as provocações, a idealização de uma
intersetorialidade fortalecida é a ideia central para a construção de
uma política pública para as pessoas em situação de rua, que
reconheça suas particularidades e os sujeitos de direitos que são.

43
Considerações finais

Com todo o histórico que a política de assistência social possui,


vindo de uma perspectiva assistencialista, com seus adventos na luta
dos movimentos sociais na intenção de nortear o trabalho, a
assistencialização dos serviços sócio-assistenciais é uma das pautas a
serem travadas. Dessa forma, tudo que foi evidenciado anteriormente
precisa ser considerado. Partindo do pressuposto dos trabalhadores
que atuam na ponta do serviço, passando pela educação permanente
e consequentemente, pela ampliação da proteção social integral
emancipatória, ao invés da descentralização compensatória.
Ainda na intenção de avanço da política assistencial, há o combate
aos desmontes das conquistas até aqui conseguidas, que, aos poucos
e sorrateiramente, vão se diluindo. Haja vista o próprio Decreto nº
7.053 de 23 de Dezembro de 2009, já citado acima, que institui a Política
Nacional para a População em Situação de Rua e seu Comitê
Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento, que sofreu
intervenções assinadas pelo Vice-presidente Antônio Hamilton
Mourão e da Ministra Damares Regina, outorgando o Decreto de nº
9.894 de 27 de Junho de 2019. Tais revogações evidenciam a
fragilidade do texto que ampara as políticas públicas para pessoas em
situação de rua. Precisamos estar atentos, não regredir e planejar
novas pactuações com a atuação enquanto política pública
institucionalizada, tentando diminuir esse efeito.
Mover as estruturas em face à transformação das demandas das
pessoas em situação de rua é um desafio a ser superado. As ações de
âmbito governamental ainda se mostram tímidas quase inexistentes,
diante da seriedade do problema, reafirmando o estereótipo de
indiferença que paira na sociedade. Tendo em vista a narrativa
apresentada a partir de nossa experiência profissional, é notório que a
falta de conhecimento sobre a real dimensão das pessoas em situação
de rua afeta diretamente as intervenções possíveis, assim como as
realizadas. Diante do trabalho complexo e multifacetado, o olhar
técnico, para além da ajuda momentânea, é fundamental. Por mais que
pareça algo inatingível, é preciso elevar a instâncias maiores as
implicações que a demanda proporciona.
São várias as experiências compartilhadas pelas pessoas que
utilizam as ruas como moradia, soando até desconfortável recorrer à

44
nomenclatura PSR toda vez que queremos citá-las. Esse termo pode
enviesar-nos a achar que são as mesmas pessoas e a verdade é
completamente diferente. Existem Joãos, Jorges, Elenas, Márcias,
Fabianas... uma diversidade de identidades, com nomes, sobrenomes
e faixas etária distintas. Portanto, falar de forma generalizada também
requer empatia, pois cada um tem sua história de vida, sendo a
responsabilidade dos profissionais, do governo e da sociedade civil
como um todo tirar a capa da invisibilidade e aprender as
especificidades que cada um desses seres humanos carrega consigo.

Referências

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Secretaria Nacional de Renda de Cidadania e Secretaria Nacional de
Assistência Social. Orientações Técnicas: Centro de Referência
Especializado Para População em Situação de Rua. SUAS e População
em Situação de Rua, v. 3, Brasil LTDA. Brasília: 2011.
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Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome – 1ª ed. –
Brasília: MDS, 2013.
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29/01/2021.
BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome.
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Rua. Brasília, 2008.
BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome.
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Assistência Social PNAS 2004.
BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome.
Secretaria Nacional de Assistência Social. Orientações Técnicas: Centro de
Referências Especializado de Assistência Social. Brasília, 2011.

45
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de Serviço Socioassistenciais. Resolução nº 109, 11 de novembro de
2009. Brasília, 2009.
GUERRA, Viviane Nogueira de Azevedo. Violência de Pais Contra
Filhos: a tragédia revisitada, 6ª edição. São Paulo: Cortez, 2008.
LUCIMERI SANTI. Programa Sentinela x CREAS: um estudo
comparativo. 2013 Disponível em: [Link]
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PEREIRA, Karine Yanne de Lima; TEIXEIRA, Solange Maria. Redes e
intersetorialidade nas políticas sociais: reflexões sobre sua
concepção na política de assistência social. Textos & Contextos: Porto
Alegre, RS, v. 12, n. 1, p. 114 - 127, jan./jun. 2013. Disponível em:
[Link]
[Link] Acesso em: 20/03/21.
SILVA, Maria Lucia Lopes da. Mudanças Recentes no Mundo do Trabalho
e o Fenômeno População em Situação de Rua no Brasil 1995-2005;
Universidade de Brasília – UNB, Brasília, 2006 p.81. Disponível em:
[Link] Acesso em: 10/01/2021

46
SÃO PAULO É SELVA DE PEDRAS ONDE O LAR É A RUA:
a história de Esão entre a precariedade e a luta por cidadania

Thalita Catarina Decome Poker1


Maria da Conceição Gomes da Silva2

A População em Situação de Rua (PSR) no Brasil sofre as


consequências de vários excedentes históricos, desde o período da
escravatura até a lógica neoliberal contemporânea. Entendendo que,
nessa conjuntura social, as pessoas que não se adaptaram às relações
de produção e de submissão têm os seus direitos dizimados, sendo
escamoteadas, as PSRs acabam fazendo parte desse grupo. A PSR,
então, representa as contradições de um Estado que assegura os
direitos fundamentais previstos como constitucionais somente a
alguns grupos sociais (PAIVA et al., 2016).
Assim, a PSR demanda uma orientação assentada na assistência e
na política social, por vivenciar inúmeras práticas que retiram sua
dignidade, tais como violência, miséria e privação (PAIVA et al., 2016).
A PSR é mais do que uma problemática social, é, sobretudo, uma
questão de valoração do quê ou de quem reconheceremos dentro do
constructo de humanidade.
Posto isso, temos por objetivo neste estudo entender, por meio da
narrativa de Esão, como a experiência de estar em situação de rua pode
despir o sujeito do reconhecimento de sua cidadania. Para as exposições
a seguir, foi contemplado, enquanto instrumento de pesquisa, o relato
oral, tendo em vista a possibilidade de promover a visibilidade de uma
política de memória para além dos documentos oficiais (POLLAK, 1989).
Esse instrumento de pesquisa propicia, a quem ouve, o convite à
desconstrução de preconceitos e de estereótipos, colocando o(a)

1 Doutora pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento


Humano pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo – IP/USP. Pesquisadora
do Grupo de Estudos e Pesquisa sobre Infância e Educação Infantil - GEPSI/FEUSP.
Professora da graduação em Psicologia e responsável pela cadeira de Psicologia Escolar,
no Centro Universitário Salesiano de São Paulo – UNISAL.
2 Doutoranda e mestre em psicologia pela Universidade Federal do Ceará ( UFC).

Licenciada em História pela Universidade Estadual do Ceará(UECE). E-mail:


ceicagomesead@[Link]

47
pesquisador(a) na posição de testemunha (BOSI, 2003). Como aponta
GAGNEBIN (2006), também implica a inserção do pesquisador no mundo
do entrevistado, gerando o compromisso ético do primeiro com o
segundo. Alinhada às especificidades do relato oral, utilizamos uma
pergunta disparadora: Como foi a experiência de estar em situação de
rua? Por meio desse questionamento, pudemos ter acesso à narrativa
testemunhal de Esão.
No decorrer dos enunciados expostos, encontraremos na voz de
Esão o testemunho fiel da violência de Estado diante da experiência de
6 anos em sua vida como pessoa em situação de rua. Alguns cuidados
éticos procedimentais foram tomados em relação à entrevista oral
realizada com duração de 3 horas como: 1) considerando a
legitimidade da voz de Esão na transcrição da entrevista, não houve a
retextualização dos conteúdos, por isso, mesmo em desuso, há
trechos em que a expressão morador de rua permanece; 2) o percurso
da sua memória foi respeitado durante a entrevista; 3) por se tratar de
uma pessoa que atualmente é reconhecida como figura pública na
cidade de São Paulo, seu nome foi alterado para Esão, à fim de garantir
o sigilo e o anonimato do ponto de vista ético, não fomentando
qualquer tipo de perseguição às colocações feitas por nosso narrador.
Como instrumento orientador do entendimento da fala de Esão,
seguimos as diretrizes da análise de discurso, sendo caracterizada pela
identificação de núcleos de sentido e de “eixos-temáticos”
representam a relação linguagem-situação (ORLANDI, 2020). A análise
do testemunho de Esão considerou enquanto enunciado discursivo as
suas valorações, seu pertencimento, os juízos de valor e suas
formações ideológicas (PÊCHEUX, 1990). Diante dos enunciados de
Esão, encontramos três eixos temáticos: primeiro, a questão da
violência de Estado e da ingerência de políticas públicas; segundo, a
visão preconceituosa e o estereótipo negativo atribuído culturalmente
à PSR; por fim, o terceiro: o sentimento de comunidade como algo
propositivo para superar as mazelas atuais.
Interpretamos os enunciados do nosso narrador, especialmente,
à luz dos aforismas sobre vulnerabilidade proposto por Butler (2015;
2020) em que pesa a inteligibilidade dos corpos a serviço de uma ética
do ordenamento das vidas pela estrutura social. Por abordar a
gramática moral dos conflitos sociais na luta por reconhecimento e a
categoria do sofrimento de indeterminação apoiada nos aforismas da

48
fenomenologia do espírito de Hegel, recorremos aos escritos de
Honneth (2007; 2011). Não obstante, lançamos mão dos conceitos de
memória política, discutidos por Gagnebin (2010) como necessidade
de resgate dos processos de violência histórica enquanto denuncia da
realidade passível de elaboração.
Entende-se a pertinência e a relevância deste estudo a partir da
relação do saber psicológico em interface com os constructos sociais
de cidadania enquanto instituição que assegura o reconhecimento de
nossa humanidade. Além disso, a psicologia quando se debruça a
dialogar com a cidadania, versa sobre a reivindicação das múltiplas
possibilidades de alterização. Assim, estar com o Outro implica
responsabilizar-se por seu sofrimento e por sua angústia (FREIRE,
2003). Implica oferecer-lhe morada, termo que Butler (2019) irá
empregar apoiando-se em Lévinas, que, em sua tradução, significa ter
um ethos 3em que o Outro possa se debruçar e erguer-se no mundo.
É em nome de proposições éticas que Butler (2019) irá pensar em
um estatuto político transpassado pela premissa de que, enquanto
sujeitos, somos vulneráveis – o entendimento disso nos permite
pensar em formas relacionais propositivas para a não violência dos
corpos. O pensamento butleriano busca entender, por meio da
corporeidade, a dimensão ético-política a partir da qual algumas vidas
são inteligíveis dentro da matriz cultural.
No pensamento de Butler (2015; 2019),todas as vidas são
vulneráveis. Todavia, quanto menos inteligível um corpo é, mais
precário ele poderá se tornar, pela ausência atos de cuidado
demandados pelo tornar-se humano. Essa precariedade no
reconhecimento de corpos não inteligíveis consistirá, especialmente,
nas formas discursivas com que o Estado e as relações sociais
expressarão a negligência a essas vidas – seja pela violência, pela
racionalidade de guerra para poder proteger um grupo, ou,
simplesmente, pela ausência de políticas públicas.
A questão ético-política relativa a como algumas vidas são
niveladas pela precariedade recaí discursivamente nos processos de
identificação e não identificação – que irão definir o quê será

3Na concepção de Lévinas, autor que Butler irá se apoiar, o Ethos tem um sentido
comunitário, em seu constructo está posto o apelo que é feito a mim mesmo no
encontro com o outro implicando na capacidade de se responsabilizar pelo outro de
cada ente.

49
publicamente aceito ou não para o que sujeito seja um falante viável
(BUTLER, 2019). Se a defesa argumentativa da pessoa vai contra o que
é defendido normativamente, automaticamente, ela irá carecer de
credibilidade (BUTLER, 2019). Posto isso, qualquer processo que possa
gerar identificação em um sujeito ao entendimento dos corpos
excedentes no projeto neoliberal de sociedade passa a ser censurado.
Vemos essa premissa na violência de Estado, assim como em
outros processos que passam a dizimar a vida vivível de PSRs,
resultando na invisibilização de pessoas, e não as ações contra elas.
Assim, a não identificação com as pessoas em situação de rua ocorre
no sentido de remeter aqueles que de, algum modo, se adaptaram à
lógica e ao sistema neoliberal à vulnerabilidade que todas as pessoas
têm caso sejam um excedente, condição necessária para que seus
direitos sociais sejam suspensos.
Nesse cenário, os processos de identificação e de não
identificação podem ser constituídos por meio das disputas em torno
da memória política transmitida pela cultura, sendo o silenciamento ou
o medo os elementos que irão regular a visão sobre determinado
grupo enquadrado como o excedente do capital. No caso de PSR, o
enquadramento vem pela adjetivação negativa a partir dos
estereótipos de que esse grupo é “vagabundo, violento e rebelde”
(PAIVA et al., 2016), e, portanto, as ações violentas contra essas
pessoas são justificadas em nome da segurança de indivíduos que se
sujeitaram à ordem vigente.
A questão da memória nos remete às políticas de memória
discutidas por Jean Marie Gagnebin (2010) ao abordar o preço de uma
reconciliação extorquida em um país como o Brasil, que não superou a
lógica da colonização e convive, ainda hoje, com os pensamentos e as
ações segregacionistas, que não superaram a herança do período
escravocrata. Não obstante, as formas de governança compartilham
várias maneiras de violência justificada por ações do Estado, pois não
elaboraram o passado totalitário e o período militar.
Vemos, nesses casos, o quanto que a aparência do esquecimento
pode silenciar o passado. Pois, do ponto de vista das políticas de memória,
a necessidade de não se elaborar algum episódio na história de modo
unilateral, ou seja, de modo a engendrar uma verdade estática e aceita
por todos – condição essa que nega ao recordar todo o processo reflexivo
e as contradições presentes nele (GAGNEBIN, 2010).

50
Em consonância, para Ricoeur (2007), as formas de lembrar-
esquecer associadas à questão do dever de memória ou de outros
problemas cruciais que apelam a uma política da memória – anistia vs.
crimes imprescritíveis - podem ser colocados sob o título da
reapropriação do passado por uma memória instruída pela história
unilateral. Desse modo, entre a totalidade dos fatos pela visão parcial
da história e as lembranças de quem viveu os acontecimentos, a
memória e seu sentido político, tem imensurável importância.
Cabe considerar também, que esse esquecimento não é
entendido como a reconciliação das partes envolvidas, mas como
formas de não falar mais desse acontecimento e do dano que ela possa
ter causado na realidade das pessoas – no pensamento mágico de que,
ao não falar, a questão será superada. (GAGNEBIN, 2010, p. 178). Essas
ideias se apoiam nas concepções de Freud, que afirma que “o
esquecimento não é somente uma não-memória, o apagar dos rastros
, ou uma página em branco, [...] mas um manancial de lembranças
inconscientes que pode se transformar num poderoso aliado de
recordação por meio de um processo elaborativo”.
Não obstante, o tempo da memória é o tempo vivido; é pela soma
de experiências que o narrador irá compor vários campos de sentido,
formando o tecido da lembrança – a presentificação do passado
mediada por significados socialmente aceitos. Quanto à memória
individual, esta “[...] nos permite o acesso à História por uma via
alternativa àquela da versão oficial e institucionalizada dos fatos,
conduzindo-nos àquilo de que, em última análise, a História é feita: a
vida cotidiana de sujeitos concretos” (REIS; SCHUCMAN, 2010, p. 390).
É no sentido de pensar a história e como o cotidiano irá conduzi-la que
a memória social manifesta a sua emergência, pois permite que a voz
outrora suprimida pela heteronormatividade e o que foi aceito como
oficial pela cultura se sobreponha, evidenciando a necessidade de se
contar uma história à contrapelo (BENJAMIN, 1994), no qual aqueles
que foram silenciados possam ter suas vozes ecoadas em busca de
uma vida mais digna.
Com base neste prólogo, as exposições a seguir se justificam e
ganham relevo por trazer, de maneira desnuda, a discriminação sofrida
pela PSR e a necessidade urgente de estratégias que garantam a
efetividade das políticas públicas para a garantia de direitos para essa
população. Posto isso, passemos agora à voz de nosso Narrador, Esão.

51
A voz de Esão, uma voz que vem das ruas

Esão se apresenta como um homem nascido na década de 50 em


Alegrete. É ex-agropecuarista, foi casado e pai de dois filhos. Ele chegou a
São Paulo em 1998, quando, por insistência de sua esposa e para que seus
filhos pudessem cursar uma faculdade, resolveu vender as suas
propriedades e se mudar para montar um novo negócio. Todavia, Esão,
ao chegar naquilo que ele irá chamar de “selva de pedras” (sic.), passou
por uma série de desventuras que o levaram a fazer parte da população
em situação de rua até 2004. Dentre os acontecimentos que levaram Esão
para a situação de rua, o primeiro foi ser vítima de um sequestro que
resultou no roubo de todo o dinheiro que tinha em uma maleta das
propriedades que vendeu em Alegrete.
Após essa desventura, Esão passa “a viver três anos na
calçada”(sic); e, depois, “três anos no sistema albergário” (sic) –
totalizando 6 anos a sua experiência como pessoa em situação de rua.
Ao tomar consciência de sua condição, Esão nos conta da violência que
tanto ele como outras pessoas que vivem em situação de rua passam:

[...] chegava final de ano eu olhava na rua, ás vezes, pegava um marmitex com
comida azeda. Pensava, esses filha da puta comendo bem e vem dá comida azeda
para a gente. Eu ficava revoltado. Ficava revoltado, ás vezes, quando eu ia no viaduto
do chá. Às vezes, eles fazem. Todos os domingos, eles fazem isso aí. Eles dão um
pouco de leite com pão. Oh! Mas, pão seco aqui com leite. Mas, nenhuma manteiga
para passar no pão. Aí, eu comecei a ver eu estou querendo assistencialismo
também. Estou querendo que os outros me ajudem. Então...você começa a
observar, você começa a sentir na pele, a ser chutado, acordado pelo guarda e
receber um spray de pimenta. Isso vai te dando uma revolta. Chegar em um bar pedir
uma água e os caras te negar, pedir para usar o banheiro e dizer que está quebrado
que é só para clientes. Tudo isso aí vai te dando uma visão da realidade do mundo,
uma visão que muitas vezes as pessoas não sentem porque você vai chegar em um
bar e vai comer e vai pedir para ir no banheiro e vai direto. Você não é acordado com
um jato de água, nem com spray e nem com chute. Mas, quem está na rua é. Eu já vi
policiais tirar marmitex da mão do morador de rua e atirar no lixo, assim, só para ele
não comer. Sendo que era outra pessoa que tinha dado o marmitex. São coisas que
dificilmente a sociedade consegue ver. Como eu digo, é mais fácil você abraçar um
cachorro sarnoso do que sentar ao lado do morador de rua, para ouvir o problema
que ele tem.

Nesse trecho, Esão nos mostra o primeiro marcador na vida da PSR,


isto é, há quem pense que ter a propriedade privada e não tê-la como algo
significado por aqueles que merecem ter sua humanidade reconhecida e

52
por aqueles que não são dignos dela. Vemos essa questão posta quando
nosso narrador, após nos apresentar a série de violências que ele e outras
pessoas na mesma condição viveram, estabelece uma linha de
comparação entre o cão com sarna e as pessoas em situação de rua.
Podemos aproximar esse trecho à questão da inteligibilidade dos corpos,
isto é, existem critérios históricos e sociais que realizam o ordenamento
de nossa corporeidade de modo a estabelecer hierarquias de poder e de
reconhecimento entre aqueles que irão ser enquadrados enquanto seres
viventes, tendo seu estatuto de humanidade garantido (BUTLER,2020).
A ontologia do corpo proposta por Butler (2018; 2020) pode nos
auxiliar a entender o modo como se organiza os processos de
racionalização de uma sociedade estruturalmente movida pelas
relações de produção e de exploração. Pode, sobretudo, desvelar as
contradições implícitas a quem não cumpre o projeto político do
Capital – a saber, de se submeter ao mundo do trabalho e de ter a
propriedade privada. Mesmo a autora tratando a categoria de corpo
inicialmente associada ao contexto de gênero e sexualidade, as
questões sobre as formas com que os corpos assumem em seus
escritos podem ser facilmente transportadas para contextos em que
as pessoas são enquadradas como excedentes do capital. Nesse
sentido, o corpo da PSR pode convergir com essas premissas teóricas
Na visão de Butler (2020), o corpo ocupa dimensões para além
dos pressupostos anatomofisiológicos, Em outras palavras, ter um
corpo implica estar submetido ao modo como a cultura irá concebê-lo,
em relação indissolúvel com a sociedade. Posto isso, o corpo em
situação de rua se manifesta, inicialmente, por tudo aquilo que
descaracteriza o que é valorado como humano na sociedade moderna
neoliberal. Ele carrega em si as marcas de alguns tabus e receios
contemporâneos, como a perda de bens materiais e dos laços afetivos
que as pessoas podem estabelecer, se assemelhando muito ao que
Butler (2018) irá chamar de corpo abjeto.
Os corpos sempre apresentam uma dimensão política,
especialmente, aqueles que desencadeiam estranhamento ou tabus
dos mecanismos de adequação da realidade – por se afastarem das
normas instituídas socialmente. À tudo aquilo que é culturalmente
insustentável para as pessoas administrarem, como as doenças, a
morte, as perdas e os medos, pode causar uma desorganização
emocional. Essas condições inadministráveis, uma vezsignificadas para

53
as pessoas, tem como reação a execração, a rejeição entre outras
formas negativas de adjetivar esses indivíduos que exponham isso.
Esta reação Butler (2018) irá conceituar como abjeção do corpo.
Posto isso, o corpo da pessoa em situação de rua enquadrado
como abjeto é apenas o aspecto inicial quanto aos motivo que levam
os segregados a PSR a sustentarem um discurso de ódio. Uma vez que
a PSR carrega em seu corpo e no seu modo de vida algo mais profundo,
nega-se a estrutura social que a nega. Nessa condição, a PSR não se
deixa escravizar para girar a economia e contribuir para transformar o
capital em sujeito. Não estar nesse projeto é evidenciar que quem se
adaptou é falho.
O testemunho de Esão nos é revela um segundo incidente, aa
ultima passagem para o rompimento do mundo que o reconhecia
como cidadão - a fatalidade de perder a esposa e seus dois filhos em
um acidente de carro, no momento em que sua família vinha para São
Paulo. Isso ocorre quando, em um dia, Esão para em um bar e, ao ver
o noticiário de TV, toma conhecimento da ocorrência de que sua
esposa e filhos sofrem um acidente na viagem para São Paulo e
morrem. Diante disso, nosso narrador se depara com o preconceito e
com o descaso do poder público:

Foi o que me deixou mais desnorteado, porque fui a câmara municipal para
saber o que de fato estava acontecendo [acidente que perdeu a esposa e filhos]
e fui proibido de entrar por ser morador de rua... Quando eu virei morador de
rua eu ouvi que eu era um drogado e não servia para nada, que eu não presto
para nada também. Então, eu comecei a mudar o meu conceito; senti na própria
pele o que é a discriminação do morador de rua. E como os políticos só fazem
projetos politiqueiros, por exemplo. (sic).

Nesse ponto, vale recorrer àquilo que Butler (2015), ao analisar o


contexto das guerras contemporâneas, reflexão que se estende
amplamente às questões sociais presentes no Estado neoliberal,
denomina como vidas não passíveis de luto, isso é, há uma gerência dos
corpos por meio das políticas de governabilidade que, quando
associada a vidas que são consideradas como excedentes do capital,
são tratadas com abandono ou descaso. Esse conceito se aproxima à
narrativa de Esão enquanto pessoa em situação de rua, pois,
destituído da cidadania, não teria acesso às informações sobre a
família morta. Esão, na impossibilidade de localizar os corpos, não
viveria “o luto” legitimamente. Há pessoas que não podem viver seu

54
luto, porque elas e seus entes queridos não são enquadrados como
vidas, havendo assim uma “regulação da comoção”, de forma que
certas vidas são invisibilizadas e desconsideradas.
Ao perceber-se como alguém que pertence ao grupo de pessoas
em situação de rua, Esão vivencia aquilo que Butler (2017), baseada em
Adorno, denomina como violência ética, que se configura como o não-
reconhecimento do outro como humano de direitos. Isso estabelece
a prerrogativa de alguns exercerem julgamento moral sobre aqueles
que consideram o “outro”, seguindo padrões normativos que os alijam
das tomadas de decisão sobre seus destinos. A violência ética ocorre
todas as vezes que, em nome da defesa dos direitos de alguns, ignora-
se e violam-se os direitos básicos de outros, considerando-os
“bárbaros” e “incivilizados” (idem, ibidem). No caso de Esão e de
pessoas em situação de rua, enquadrados como drogados e perigosos,
há a visão de que devem ser afastados e mesmo eliminados.
Na esteira de discussão sobre as falhas ética nas relações,
podemos aproximar esse trecho também ao que Honneth (2011)
chama de sofrimento de indeterminação, conceito que versa sobre as
formas insuficientes de liberdade e garantia de uma vida plena no
autorreconhecimento do sujeito. Essa categoria de análise rompe com
todo o idealismo de Hegel, ao entender os rituais de passagem na
sociedade moderna como algo necessário para amadurecimento do
espírito, chamado anteriormente como sofrimento determinado.
No âmbito do reconhecimento social, o sofrimento de
indeterminação está ligado ao esvaziamento dos conteúdos racionais
para a práxis da vida de alguns grupos e pessoas. Ainda quanto à
conceituação do termo, Honneth (2007), ao buscar suas bases em
Wittgenstein, explora o fato de que o sofrimento se dá por meio de
concepções equivocadas no modo como as pessoas são reconhecidas,
ou seja, trata-se de imagens que, deturpadas, as mantêm presas.
Vemos essa categoria posta quando Esão não pode sequer dar um
telefonema para ter mais informações sobre a morte de sua esposa e
de seu filho por ser enquadrado como PSR.
Nessa cena narrada por Esão, podemos entender que a experiência
do luto é algo previsto na existência humana e que pode ser equacionada
enquanto condição de sofrimento determinado. Todavia, não poder velar
os corpos, ou até mesmo não poder ter acesso à informação para saber o
que houve, pode ser entendido como uma situação de sofrimento

55
indeterminado, pois foge àquilo que racionalmente é previsto enquanto
reconhecimento do constructo humano.
Assim, a situação de ser barrado de entrar na Câmara para saber
o que aconteceu com a sua família é o estopim para que nosso
narrador tome consciência da necessidade de lutar por dignidade para
a população em situação de rua:

Aquilo [ser proibido de entrar na Câmara dos vereadores] me causou uma


revolta muito grande que em 2005 eu consegui colocar mais de 300 moradores
de rua dentro da Câmara Municipal. De lá para cá, não deixei mais enxotar
moradores de rua dentro da Câmara e eles não conseguiram fazer com que não
entrassem. Depois fizeram uma comemoração no salão nobre que era a
disponibilização da lei 12.306 que é a lei que dá direito a população de rua na
cidade de são Paulo. Nessa ultima gestão, quer dizer, na ultima gestão passada
da Câmara municipal entrou o chamado turma da bala, que eram os coronéis
que entraram na Câmara de São Paulo e tentaram proibir a entrada de
moradores de rua de novo. Aí fiz uma briga com o ministério público e eles não
conseguiram fazer...até hoje consegue entrar o morador de rua.”

Esse trecho carrega discursivamente dois enunciados. O primeiro


é a ação de colocar mais de 300 pessoas em situação de rua na Câmara
Municipal, que pode ter sido uma forma não convencional e
compensadora de Esão velar os seus mortos e de resgatar seu valor
humano – poder chorar e se despedir daqueles que amamos. Podemos
até mesmo, fazer uma relação com os ritos gregos4, em que era
necessário sepultar os mortos. Ou seja, a necessidade de lembrar-se
pela despedida das pessoas que amamos vem do desejo de se alcançar
alguma continuidade com a realidade. Do ponto de vista da dinâmica
da memória, trata-se de lembrar para não esquecer; é como se
pudéssemos, ao reviver os mortos no processo de fazer a passagem,
conduzi-los para o barqueiro5, acompanhá-los até o outro mundo.
Em consonância com Ricoeur (2007),percebemos que Esão fala
pouco do que precede ao acontecimento de luto que rompeu
significativamente com a sua história de vida anterior. Vemos aqui que,
do ponto de vista da oralidade, o calar ou falar pouco sobre sua perda,

4 Os gregos antigos tinham grande zelo com os mortos, a importância de um enterro


com todos os rituais funerários era algo marcado como uma forma de respeito à
dignidade humana.
5 Neste trecho referimo-nos ao barqueiro Caronte personagem na mitologia grega

designado a levar as pessoas mortas até a terra dos mortos. A pessoa falecia era
sepultada com moedas nos olhos para pagar Caronte e garantir a travessia.

56
pode ser indício de algo que lhe cause muita dor; por isso, esquecer
talvez seja a tentativa adaptativa de lidar com a vida que não foi
possível de ter continuidade.
Ricoeur pontua (2007) que há pessoas que precisa lembrar-se de
fatos tão marcantes com esse, para elaborar; quem sabe, um dia o
esquecimento venha com o sentido de algo que foi trabalhado,
refletido. O lembrar-se, no caso de Esão, possivelmente está traduzido
no gesto de colocar “300 moradores de rua na Câmera” (sic) para que
ninguém mais seja expulso daquele lugar. Nesse caso, pode ter
também a conotação, em termos de consciência, de evitar a repetição
de um acontecimento tão carregado de desumanização. Trata-se de
um processo reflexivo e de uma forma de responder as atrocidades.
O segundo enunciado é a tomada de consciência política da
situação que lhe negou a sua cidadania – ser enquadrado como pessoa
em situação de rua. Diante disso, Esão cria o Movimento das pessoas
em situação de rua, para, junto a seus pares, reivindicar o acesso à
Câmara dos Vereadores. Passa, com isso, a participar da Comissão dos
direitos humanos, ganhando espaço para trazer a pauta das
necessidades e direitos dessa população. Todavia, nosso narrador
percebe como as relações de poder funcionam nesses lugares e chama
algumas ações de “politicagem”(sic.), por não proporem algo efetivo,
que erradique as mazelas sociais de seu grupo.
A atitude de Esão, ao criar o Movimento acima citado, acena à
importância do exercício daquilo que Butler (2018) denomina como
“Direito de aparecer”, configurado como o direito de participar da esfera
pública, operando um campo de possibilidade que visa tensionar os
quadros de reconhecimento. Também, pode ser entendido como uma
forma elaborativa de reivindicar a sua cidadania pela luta por
reconhecimento social, motor para promover a solidariedade entre seus
iguais. Tendo em vista, assim, a busca por formas particulares de
liberdade, a luta por reconhecimento é motivada pela inclusão das
identidades de grupos e pessoas, tanto na sociedade, quanto no direito,
frente às condições de falha ética das vidas.
Em continuidade, mesmo com todo o jogo político,
especialmente, do poder público em negar denuncias como a violência
policial, ações higienistas, dentre outros atos de violência, Esão
consegue articular algumas estratégias para alargar a participação das
pessoas em situação de rua na comissão dos direitos humanos e

57
propor um debate para que fosse discutido o perfil dessa população.
Embora essas discussões promovessem maior visibilidade às questões
dessas pessoas, ainda assim, de acordo com o nosso narrador, alguns
não eram aceitos para frequentar o espaço e discutir seus direitos,
mesmo estando na “casa do povo”(sic).
A fala de Esão, ao mencionar que nem todas as pessoas em
situação de rua têm acesso à “casa do povo” (sic.), nos faz pensar
sobre o significado da palavra “povo”. Butler (2018) reflete que o
conceito de povo estabelece limites implícitos ou explícitos, isto é,
mesmo quando alguém deseja garantir um discurso de inclusão, trata-
se de um conceito demarcador. Quando se estabelece a ideia de que
“nós somos o povo”, implicitamente há aqueles que não são o povo,
e, portanto, serão excluídos. Como podemos constatar na fala de Esão,
mesmo o direito a lutar por suas garantias e de participar da tomada
de decisão é limitado, dando continuidade ao jogo de exclusão de
algumas pessoas. Concordamos com Butler (2018) que a luta tem que
ser permanente.
Ao falar sobre a sua participação e engajamento político quanto à
luta por direitos e reconhecimento da PSR, Esão elege em seu discurso
o incômodo com as ações figurativas feitas em algumas ocasiões,
como, por exemplo, um vereador que queria criar o dia nacional da
pessoa em situação de rua, sem citar nenhuma estratégia para atender
às necessidades dessa população. Ao invés disso, nosso narrador
acredita que poderia haver outras formas de pensar na cidadania das
pessoas em situação de rua e relembra, com isso, o massacre da Sé. Na
época, o narrador acaba por sugerir que houvesse um ato para que as
mortes das vidas que foram ceifadas fossem lembradas:

Do massacre6 que mataram vários moradores de rua... Quando estávamos


discutindo o macro na praça da Sé. Aí daqui dali discussão eu e outros
convencemos a secretaria em fazer um ato em memória às vítimas do massacre.
Aí sim, foi feito um ato de memória as vítimas do massacre e foi colocado no
quadro. Até foi feito meio politiqueiro né, que quando terminou a inauguração
os moradores de rua levou o dele [dinheiro] e caiu [um temporal] em maio e os

6O massacre da Sé é conhecido pelos crimes que ocorreram entre os dias 19 à 22 de


agosto de 2004. Foram oito vítimas feridas, e outras mortas com golpe na cabeça
enquanto dormiam na praça da Sé. De acordo com as investigações, o objetivo do
massacre foi silenciar os moradores de rua quanto a questão do envolvimento da
polícia com o tráfico de drogas (EBC, 2015).

58
nomes das vítimas que estavam ali foi tudo borrado. Tiveram que tirar o quadro
e fazer de novo. “Então coisas assim, eu ainda concordo” (sic.).

Quanto aos dos direitos sociais, Esão aborda a questão da moradia


para a população em situação de rua, no quanto os projetos de inclusão são
falhos, muitas vezes confundindo assistencialismo com assistência social.
Para exemplificar, conta de um projeto social que tinha como objetivo dar
casas para às pessoas em situação de rua, sem trabalhar as condições que
promovessem a autonomia desses indivíduos: “Porque as atuais...eh
projetos que tem são paliativos. Por isso, o povo fala: Eh, você vai pegar
uma casa dar para um maloqueiro e amanhã depois ele vende. Ele vende
porque, porque não souberam fazer “(sic.)
Esão aborda uma questão recorrentemente levantada por PSR’s:
a falta de sinergia entre as políticas públicas e suas reais necessidades
(ROSAS; BRETAS, 2015), evidenciando os mecanismos que atuam no
sentido de barrar/ administrar a obtenção dos direitos básicos, o que
reitera a ideia de que exista uma “indústria da miséria”(sic). , que
mantém essas pessoas na posição de descartáveis ao sistema,
individualizando a responsabilidade dessa miséria, atribuindo ao
sujeito a culpa pela falta de adaptação, alimentando a ideia de que os
“dominados são diferentes, segregando-os” (VERAS, 2011, p. 46), ou,
em outras palavras, de que eles “não têm jeito”, justificando, assim, o
apartheid social.
Esse apartheid resulta na mitigação da cidadania, condição que se
traduz “como modalidade de inscrição social étnica subalternizada de
vários grupos e segmentos sociais na divisão e repartição das riquezas
do país [...]” (SALES, 2007, p.48). Essa condição tem caracterizado
grande parte da sociedade brasileira, demarcando os limites do
reconhecimento pela sociedade e pelo direito. A construção dessa
cidadania subalternizada, delineada a partir da abolição do trabalho
escravo e solidificada com o processo de industrialização do Brasil, tem
produzido vidas em máxima precariedade.
Sobre a questão da moradia, Esão fala da experiência de ter vivido
três anos em albergues, relatando como a gestão é falha para oferecer
esse direito social, a começar por não fazer uma triagem das pessoas
que solicitam, conferindo a vaga para quem não tem problemas com
moradia, como, por exemplo, os donos de loja na região da Sé. Além
disso, nosso narrador conta que havia casos de roubo, de ausência de

59
vagas e de maus-tratos de alguns funcionários que não tinham
qualificação para lidar com essa população.
Um ponto que é mencionado ao falar dos albergues é quanto o
próprio sistema não auxilia as pessoas a efetivar sua autonomia, o que
é demonstrado pelos horários e rotinas rígidas:

Era uma maneira de prender o camarada, por quê? As fichas do almoço eram das
9 às 10hs, então se eu sair lá do Brás para vir almoçar aqui, eu tinha que chegar
vir correndo para cá para pegar uma ficha e almoçar. Aí, eu não podia sair para
garantir o meu almoço. Aí meu almoço vinha, terminava 13:30/14:00hs tinha que
dar a volta para garantir a minha outra vaga lá. Então, não tinha tempo de fazer
o meu corre para arrumar um trabalho ou outra coisa. Porque a indústria da
miséria não permite que o camarada se ressocialize. Que ele crie um mecanismo,
para andar com as próprias pernas. Nós vamos engessar ele, é este mecanismo
ele vai e volta, é esse caminho que a população de rua ficasse naquela
rotatividade, saindo de um albergue indo para o outro, o outro, o outro, o outro
e assim consecutivamente não abrindo vagas para os novos que estão vindo
para a rua” (sic).

A lei 12.3167 eu fala sobre a questão do Albergue, quando o camarada chega na


cidade ele tem que ter o Albergue, ele tem que ter direito a tirar os seus
documentos, a encaminhar para curso profissionalizante, encaminhar para um
emprego. Depois ele vai para um hotel social para uma moradia provisória, até
ter a sua moradia definitiva. Isso tá a lei. Só que isso não tem. O que mais
prejudicou o que mais prejudica a população de rua? O poder público! (sic)”

Até o momento, Esão se ateve a dizer o quanto as políticas e


iniciativas públicas são falhas para pensar pessoas que estão na rua ou
sem teto, seja por não se ater às condições objetivas, subjetivas ou à
cultura dessa população, seja por ações ligadas à promoção da imagem
de outras pessoas. Nesse momento, a oralidade revela o que chama de
“indústria da miséria” (sic.), relacionado, também, ao terceiro setor:

Não vou dizer que sejam todas, mas 70% das entidades que trabalham com
população de rua, ela não trabalha para tirar da miséria, ela trabalha para que
fique na miséria. Porque senão vão perder o seu emprego, vão perder a sua
fonte de renda. O governo não tem interesse de acabar com a miséria, senão
como é que vai pedir para a UNICEF pedir para os Americanos, para investir em

7Esão se refere à lei municipal aprovada na cidade de São Paulo em 1997, que visa
prestar atendimento qualificado às pessoas em situação de rua Fonte:
[Link]
portal/cao_civel/aa_ppdeficiencia/aa_ppd_legislacao/aa_ppd_legislacao_municipal.

60
um país subdesenvolvido, não precisa de dinheiro para investir. Que ele é
subdesenvolvido, ele não tem mais a miséria.”

Outro conceito valorativo apresentado em sua narrativa refere ao


que a pessoa em situação de rua pensa em relação à polícia. Nesse
sentido, faz um breve esclarecimento:

O morador de rua ele não é contra a polícia, ele não é contra a guarda. Ele é
contra a farda da instituição que faz repressão a ele. Quando ele vê um policial
fardado vindo a direção dele ele já fica revoltado, por quê? Porque ele sabe que
vai sofrer alguma opressão de uma maneira ou de outra. Então essas coisas você
vai tendo uma visão.

Refletindo sobre a relação entre a polícia e as pessoas em situação


de rua, enfatizamos aquilo que, para Mbembe (2018), seriam as políticas
da inimizade, quando afirma que as democracias modernas se sustentam
nas construções de inimigos, que se caracterizam como “um conjunto de
pessoas que, de uma maneira ou de outra, sempre foram consideradas
estrangeiras, um excedente populacional indesejável do qual sonhamos
nos desembaraçar-nos e, como tal, ‘total ou parcialmente privados de
direitos’’ (MBEMBE, 2018, p. 71). Esses grupos são colocados na condição
de inimigos do sistema, como perturbadores da ordem, entendidos como
as “classes perigosas” (COIMBRA, 2001), contra as quais se justifica
qualquer violência. Para Agamben (2004), essas pessoas são aquelas que
não se integraram ao sistema, e, portanto, são submetidas a um
permanente “Estado de Exceção”.
Essas “classes perigosas” no Brasil, de tempos em tempos,
mudam de configuração. Mais amplamente, ao longo da história, os
inimigos são sempre reatualizados – dentre eles os comunistas e os
defensores dos direitos humanos. Destaca-se que, de modo
permanente, os pobres, os miseráveis moradores da periferia e
aqueles que são impelidos à situação de rua são equacionados pela
política de Estado de Exceção. Essa política é travestida pelos
processos subjetivos e sociais do preconceito.
Para Crochik (2006) opreconceito é olhar para o objeto (o outro)
de maneira estereotipada; é um ato de desamor.O estereótipo, para
Bosi (2003, p.117), “nos é transmitido com tal força e autoridade que
pode parecer um fato biológico”. Diante disso, olhar para alguém de
modo estereotipado é impor, de forma autoritária, uma política de
reconhecimento em que suas possibilidades como sujeito são

61
reduzidas à simplificação. O preconceito associado às ações de
violência, posto na obra de Butler (2020), pode estar no fato de que se
alguém se sensibilizar à PSR. Pelo olhar da norma, estará se
identificando com todos os estereótipos negativos atribuídos a essa
população, tornando-se tão vulnerável quanto.
Outro elemento que Esão realça é o estereótipo da pessoa em
situação de rua como “marginal” (sic):

Agora, há muitas coisas atribuídas ao morador de rua que não é do morador de rua.
Porque, por exemplo, quem é os megas traficantes da Cracolândia? Policiais
armados. Eles prendem a trocas e depois vão vender lá na cracolândia. Isso já é
matéria de jornais, e muitos jornais já abordaram isso. Mas, se algum morador de rua
conhecer aqueles policiais que está vendendo a droga deles está lascado, ele vai ser
morto; para não denunciar. Então são as coisas que acontecem nos bastidores que a
sociedade não conhece, mas marginaliza a população de rua. E a coisa não é dessa
maneira, acontece. Só quem viveu esta realidade é que sabe (sic).

A crença de que as pessoas em situação de rua são marginais,


conforme aludido por Esão, retoma a discussão sobre as classes perigosas
e ressalta a necessidade de colocar em questão outro ponto que se
evidencia ao pensarmos o massacre da Sé e tantos outros atos de
violência explícita perpetradas contra a PSR’s: a existência de uma
“política de morte” (AGAMBEN, 2004) ou necropolítica (MBEMBE, 2018),
que consiste nas construções de corpos abandonados e matáveis, cujas
mortes não seriam apuradas pela justiça, por serem atribuídas
identidades marginais às vítimas, justificando, assim, sua eliminação.
Conforme pontua Butler (2018, p.17): “[...] é claro que há
diferenças entre políticas que buscam explicitamente a morte de
determinadas populações e políticas que produzem condições de
negligência sistemáticas que na realidade permitem que as pessoas
morram [...]. Essa forma de administração dos corpos é característica
da democracia moderna ( AGAMBEN,2004; MBEMBE, 2018). Tanto
Agamben (2004) quanto Mbembe (2018), cada um a seu modo,
atualizam e tensionam o biopoder descrito por Foucault, conceito que
tem como eixo central a vida e sua regulação calculada e cuidada, ou
seja a “gestão da vida”, teorizando que, para muitas populações, há
uma “gestão da morte”.
Nessa seara de discussão, Butler (2019, p.75) apoiada nos
conceitos de Foucault, irá tratar das formas de governabilidade como
táticas para “ordenar populações e produzir e reproduzir sujeitos, suas

62
práticas e crenças em relação a objetivos políticos específicos”. Assim,
podemos entender que a gestão das vidas atua no ordenamento de
quais mortes deverão, de fato, ser sentidas, passíveis de luto. Assim, o
Estado, enquanto poder soberano, produz com naturalidade essas
políticas de morte e de extermínio. No que se refere às pessoas em
situação de rua, observamos que essas vidas são constituídas na
negligência e no abandono do poder público, que, mais tarde, os
elimina como violentos e perigosos, justificando-se assim as ações
truculentas do Estado policial e de civis, constituindo-se uma política
baseada na “eliminação do outro” (BENTO, 2018).
Ainda no sentido das violências que o poder público pratica contra a
população de rua, Esão narra cenas de manipulações midiáticas, como ir
“um carro da prefeitura dando cobertor e vinte minutos depois vai
alguém tirando o cobertor e metendo o aço” (sic). Nosso narrador
também abordou o fato de não haver banheiros para que a população em
situação de rua pudesse usar – a proibição de entrar em banheiros
consiste na ideia de que eles irão “sujar” (sic) esse espaço:

Pessoal fala: Eh, morador de rua caga e mija nas ruas nas calçadas e está tudo
fedendo. Onde é que está o banheiro público? Não tem! Ele vai fazer na roupa,
não! Não sou contra, eu digo assim: cada um tem o que merece, o que plantou
para si. Agora eu fico indignado, quando tem dois pesos e duas medidas. Se o
morador de rua, está mijando aqui na rua vem a polícia e advoga dizendo que é
atentado ao pudor. Agora se é os boyzinhos da faculdade de direito, fazendo
aqui no Largo, aí só falta o policial mostrar o bilau dele porque ele pode.

Dentro de suas ações reivindicatória por cidadania junto a seus


pares, nosso narrador apresenta uma síntese de seu relato – a
necessidade do sentimento de comunidade para a superação das
mazelas sociais. Defende o pertencimento em comunidade, pois
somente assim as pessoas poderão se identificar mutuamente, unindo-
se por um sentimento de solidariedade. Na leitura de Esão, enquanto
se vive em sociedade, as pessoas que não atendem à norma são
invisíveis, como lemos no trecho abaixo:

O pensamento em comunidade vem da minha experiência, quando você está na


rua está dormindo na calçada, uma pessoa passa por você vira a cara de lado dá
pouca importância não presta atenção em você. Você mostra que quem se
aproxima de você é querendo tirar proveito. Pouca gente vem para de fato fazer
alguma coisa. Um exemplo, a igreja universal faz a comida na rua, mas saí com
fotografia com a câmera de filmagem. Naquele momento ela faz um carinho, um

63
abraço e um beijo; bate fotos. Depois daquele momento, nego passa e vê o
morador de rua e desconhece. Então esta experiência que você vai pegando,
você começa a notar esta questão da sociedade ser podre. Porque quando eu
falo da sociedade, eu falo de uma conjuntura geral, assim religiosa e tudo mais,
né. Mostra esse lado, quem está na rua vê este lado negativo (sic).

O sentido da palavra “invisibilidade”, elencada por Esão, não


significa que as pessoas em situação de rua não sejam vistas, no
sentido físico, mas que há uma construção social e discursiva de
invisibilidade. Esse sentido posto na narrativa está em consonância
com as conclusões de Honneth (2011) de que os limites do
reconhecimento estão para além das esferas familiares e jurídicas. Eles
transbordam, na medida em que existem grupos que são úteis (no
caso do autor, as pessoas escravizadas); no caso de Esão, úteis para a
prática da caridade.
A caridade, nessa conjuntura, não permite que as pessoas em
situação de rua sejam percebidas em sua real subjetividade e
existência. Honneth (2011), ao utilizar o romance de Ralph Elisson, O
homem invisível, para contextualizar seu conceito de invisibilidade, usa
o exemplo do desrespeito com pessoas negras como resultado de seu
passado de escravidão:

De estas situaciones de invisibilidad descritas por Ralph Ellison con presencia


física se distinguen por su carácter particularmente activo: aquí los
protagonistas, esto es, los señores blancos, parecen querer indicar a todos
intencionalmente que manifiestan a las personas negras presentes que ellos no
son visibles (HONNETH, 2011, p. 166)8

Para Honneth (2011), o exercício de tornar as pessoas invisíveis


não é obra do acaso, em que, acidentalmente, pessoas não são vistas.
Trata-se, ao contrário, de um ato performativo intencional, que
pretende depreciar e desvalorizar as pessoas, convencendo-as,
inclusive, de sua insignificância e inexistência. Essa produção de
invisibilidade e precariedade mantém os limites do reconhecimento,
pois, embora exista a Política Nacional para a População em Situação
de Rua- PNPSR (BRASIL, 2009), existe também o solapamento de

8“Destas situações de invisibilidade com presença física se distinguem os casos


descritos por Ralph Ellison por seu caráter particularmente ativo: aqui os
protagonistas, isto é, os senhores brancos, parecem querer indicar a todos
intencionalmente que manifestam as pessoas negras presentes que eles não são
visíveis”. Tradução nossa.

64
direito quando, por exemplo, esse acesso é barrado por falta de
documentação, de endereço fixo etc., haja vista que para ter acesso à
saúde, a pessoa precisa apresentar um comprovante de residência (no
caso da PSR’s, o equipamento social de atendimento à população de
rua e, na prática, esses equipamentos não atendem toda a demanda
da população). Como apresentado por Esão quando se referiu à lei
municipal que impunha a existência do Albergue na cidade de São
Paulo: “[...] Tá na lei [...] só que isso não tem” (sic).
Vimos anteriormente que, ao saber da morte da esposa e do filho
e de ter o acesso negado às informações, em função de se achar em
situação de rua, Eseu se articulou e se tornou um dos iniciadores do
Movimento de Pessoas em Situação de Rua em São Paulo. A partir da
união com seus pares, nosso narrador, obteve alguns avanços, dando
um exemplo concreto de que as alianças fortalecem as pessoas e
acenam, minimamente, a possíveis rompimentos nos quadros de
precariedade a que estão impostos (BUTLER, 2018).
Note-se que como resultado de movimentos semelhantes em
várias cidades do Brasil e por ocasião da ascensão de um partido
progressista que tinha como pauta central a defesa dos direitos
humanos, em 2009, foi aprovada a PNPSR, já mencionada. A referida
política, instituída pelo Decreto n. 7.053/2009 traz entre seus princípios
o respeito à dignidade, à vida e à cidadania da pessoa humana (BRASIL,
2009). Contudo, observamos que, a despeito da lei, a situação de
nosso narrador continua se perpetuando rotineiramente, quando nos
deparamos com notícias nos jornais que, cotidianamente, trazem as
violações dos direitos humanos e cidadania dessas pessoas, como no
exemplo recente da mulher que deu à luz na calçada de uma
maternidade no Estado do Acre (DIA A DIA NOTÍCIA, 2022). Situações
como essa nos fazem perceber claramente, que nem todas as vidas são
tidas como humanas e, portanto, acabam não existindo efetivamente
para as políticas públicas, embora, supostamente, tenham sido
elaboradas em seu favor.
Para além da possibilidade de articulação política, pertencer ao
grupo tem outra importância para pessoas em situação de rua: podem
significar proteção, cuidado, união e sentimento de pertença. É
comum que essas pessoas formem grupos, nos quais simulam uma
família com mãe pai e irmãos e se protegem uns aos outros. Andar e

65
dormir em bando pode significar a defesa contra as violências
circundantes (SILVA, 2020).
Podemos perceber que há também nessa formação a busca por
reconhecimento tão caro aos sujeitos (HONNETH, 2003) e o
sentimento de pertencer a uma comunidade. Conforme Honneth
(2013), a participação em grupos faz parte do processo de socialização
das pessoas, se mantendo ao longo de sua vida como importante, por
gerar a sensação de pertencer a uma comunidade de valores. Embora
as pessoas em situação de rua sejam percebidas como formas de vida
anômalas, arrestadas das possibilidades de uma vida considerada
“vivível” por estarem fora dos padrões normativos vigentes, ao
escutá-los e vê-los sob a perspectiva de um outro olhar, percebemos
as táticas que eles desenvolvem para continuar existindo.
Da fala de Esão no final do encontro, percebemos certo orgulho
de si e de seus pares quando diz reconhecer o “morador de rua” (sic)
como ambientalista. O narrador nos conta que, embora isso não
apareça pela norma da sociedade, a população em situação de rua
contribui significativamente para a preservação do meio ambiente
associado ao ofício da reciclagem:

Morador de rua ele,....eh.... é ambientalista, ele luta pelo meio ambiente, porque
ele que faz a coleta do material reciclável, ele não coleta lixo, ele coleta o
material reciclável. Não é pegar o lixo. Ele é o camarada que mais cria, porque
pela necessidade que ele passa tanto na rua, ele é obrigado a criar alguma coisa
para a sobrevivência dele. É uma comunidade que mais se organiza e mais lutam
em conjunto em grupo. É o contrário da sociedade. Você tem em uma casa oito
filhos, o mais velho vai cuidar do mais novo. Na rua não, o mais novo cuida do
mais velho.

Vemos nesse trecho o quanto as adjetivações positivas em


relação à pessoa em situação de rua são escamoteadas pela realidade
social. Seja como alguém que luta por cidadania, ou que participa da
coleta de material reciclável para além da sobrevivência, essa
população contribui para o meio ambiente e busca com as condições
que têm modificar a realidade a sua volta. Por fim, para encerrar o
encontro, Esão faz um balanço de seu testemunho e conclui: “Mas, a
gente vai aprendendo assim e vai se fortalecendo mais. Eu falo assim...
eu digo assim: Tem alguns golpes que a gente vai tomar todo dia, que
a prefeitura tenta tirar daqui e outro tenta tirar dali, mas a gente vai
vencendo”(sic.).

66
Após o gravador ser desligado, Esão diz que tem tudo aquilo de que
precisa para viver. Olho ao redor e vejo um computador, ele me mostra as
fotos dos filhos e netos que a experiência de ter passado pela situação rua
lhe deu. Há estantes com livros velhos de que nosso narrador se orgulha,
pois fazem parte dos projetos que desenvolveu posteriormente para que
todas as pessoas tivessem acesso aos livros. E, do ponto de vista afetivo
da sua história, há o cachorro que o acompanha sempre pelo
escritório/casa. Tudo de seu mundo é impregnado de biografia e memória
da nova história que escreveu na selva de pedras como costuma chamar.
Os objetos a nós mostrados rompem com a lógica de que tudo é
descartável: por exemplo, o livro usado que empresta para outras
pessoas, tem as marcas de quem já leu.
Embora em seu testemunho haja muito de sofrimento pela perda da
dignidade, Esão se considera um vencedor, pois, em um pequeno espaço,
vive em comunidade, tem uma família que construiu por laços afetivos e
consegue, mesmo com duros golpes, lutar por reconhecimento social.
Venceu, porque, já idoso, tem a quem contar suas histórias, suas lutas –
ou, como diria Bosi (2003, p.206): “O velho, na comunidade, quer
aprender os novos cantos e ensinas os antigos cantos de outrora. Sua
identidade precisa ser reconhecida; sua memória, preservada”. Seus
relatos estão gravados em entrevistas, livros e poemas. Apesar de tudo o
que viveu, Esão venceu pela coletividade!

Sínteses possíveis

Entendemos que, quando tratamos da dialética das contradições


postas nas políticas de vida e nas mortes de corpos excedentes do Capital
situado em um momento histórico, é possível sintetizar os achados até o
momento. Diante das exposições que fizemos, a espinha dorsal de nossa
discussão foi entender a experiência de passar pela situação de rua entre
os períodos de 2003 à 2009, quando Esão, ao perder suas reservas
financeiras e sua família, passa a ter a história de agropecuarista
interrompida para vivenciar uma condição de cidadania precária.
Esão nos conta de uma sociedade que não sabe lidar com os
processos de alteridade relativamente àqueles que representam o
excedente do Capital, não obstante todos pudéssemos correr o risco
de precisar lidar com a condição de estar em situação de rua. No caso
de nosso narrador, há uma vida que foi fragilizada; há uma história

67
interrompida. Sobretudo, há alguém que foi desumanizado. De
próspero fazendeiro à morador de rua, há um processo de perda de
liberdade, de dignidade. Também, há um processo de mudanças do/no
corpo, da/na sua subjetividade e objetividade, o que se evidencia na
extorsão de uma história de vida. Para Bosi (2003, p.163) “não há
memória para aqueles que a nada pertence[m]”.
Vemos esse cenário no quanto os únicos objetos biográficos
encontrados na casa coletiva/escritório de Esão são apenas algumas fotos
com pessoas em situação de rua, tornados seus filhos e suas filhas. Não
há nada para se guardar do Esão fazendeiro. Encontramos na narrativa de
Esão o resgate da lembrança de processos de violência ética, de abjeção
do corpo e de ausência de políticas efetivas do Estado.
Nosso narrador carrega em seu relato o desejo de denúncia. Em
muitos momentos, quando fala da violência policial e do massacre da
Sé, ao mesmo tempo em que carrega em seu discurso a necessidade
de não resignação e desejo de mudança, concentra-se em seus pares
para construir um movimento social de PSR, passando a ocupar o
conselho de Direitos Humanos na Câmara Municipal.
Assim como as tramas que entrelaçam fios diversos de um
trabalho artesanal, a memória individual de Esão é colada à memória
coletiva. Percebe-se isso em momentos da sua narrativa em que, por
exemplo, irá falar da condição dos albergues e das suas limitações,
traçando um paralelo com o momento em que passou por eles. Ou,
então, quando se vale do pronome “nós”. A noção de individuo
deformada por uma cultura com imperativos neoliberais não o
atravessa, pois, em sua casa, que é o escritório onde vive e trabalha
para o movimento social, nada é individual, mas sim pensado a partir
da noção de comunidade.
Nesse sentido, se a rua é o lar inevitável para algumas pessoas,
logo é necessário que se limpe seus resíduos. Além disso, a reciclagem
ao mesmo tempo tem o sentido de responsabilidade com a sociedade,
por ter como elemento a preservação do meio ambiente,
configurando-se como uma atividade que devolve um pouco da
dignidade perdida à noção de sujeito para a pessoa em situação de rua.
Por fim, como síntese, Esão nos apresenta outra perspectiva de
viver no coletivo – o sentimento de comunidade. Movido pela
solidariedade nas relações, é, possível, ao seu ver, garantir com que
todas as pessoas tenham a dignidade que valora o constructo de

68
humanidade. Sendo a sua segunda síntese, a ideia dinâmica de que se
“vai vencendo”(sic)., isto é, mesmo com todas as ações que ferem e
ceifam os direitos da PSR, não é possível se resignar, afinal como
postula Butler (2015) o reconhecimento não é uma questão de
retórica, mas uma emergência a ser tratada.
Entendemos que, na estrutura social, temos muitos Esãos que
lutam para transformar a realidade do outro e, com isso, transformar
a si mesmo. Diante das exposições feitas, esperamos que este breve
relato seja objeto de reflexão para inspirar outras formas ainda não
mensuradas de reconhecimento da população em situação de rua,
assim como para promover mais políticas públicas factíveis de serem
cumpridas, visando à erradicação de políticas de morte associadas a
essa população.

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71
72
VIVÊNCIA EM PESQUISA JUNTO À POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE
RUA: relato de experiência

João Gabriel Ribeiro dos Santos1


Márcia Astrês Fernandes2
Sandra Cristina Pillon3

Introdução

A população em situação de rua (PSR) se caracterizada pela não


consideração de suas necessidades, sendo portadora de uma grande
invisibilidade em face ao governo e à maioria dos demais sujeitos.
Pesquisas em território brasileiro apontam o cotidiano da vivência
nas ruas como uma experiência marcada pela miséria e pelos vínculos
com a criminalidade. No entanto, também é caracterizada pelo
enfrentamento ao preconceito e pelos sentimentos de impotência, de
solidão e de desespero. A morte precoce e as doenças contraídas e
agravadas nas ruas são prevalentes, assim como os relatos qualitativos
de violência patrimonial, sexual e física, de brigas e disputas por
territórios e objetos. Além disso, prevalece o preconceito generalizado
por parte da sociedade, a qual, em vez de lhes prestar auxílio, muitas
vezes parece ignorar sua existência (FIORATI et al., 2016).
O debate acerca da PSR ainda é raso e, de certa forma, escasso na
produção de informações, especialmente a nível nacional, em que
pode se observar verdadeira carência da literatura científica brasileira
sobre a temática com poucos estudos se atentando às suas condições
de vida e saúde. Em suma, as abordagens que vão além do factual e
levam em conta os determinantes sociais do processo saúde-doença
desses indivíduos são ainda muito pouco expressivas no debate
qualificado (PAIVA et al., 2016).

1 Graduando em Enfermagem pela Universidade Federal do Piauí.


2 Doutora em Ciências pela Universidade de São Paulo. Professora Associada da
Universidade Federal do Piauí.
3 Doutora em Psiquiatria e Psicologia Médica pela Universidade Federal de São Paulo.

Professora Titular da Universidade de São Paulo.

73
Compreende-se aqui que esses e outros fatores contribuem para
consolidação da invisibilidade do indivíduo em situação de rua, o qual
acaba sendo definido como um ser sem histórias, sem aspectos
individuais e inerentes à sua trajetória. Sua condição de
vulnerabilidade social acaba redobrada, concretizando-se por meio de
elementos como dificuldade de acesso a serviços de saúde, educação,
trabalho e renda (SILVA JUNIOR & BELLOC, 2018)
As políticas e ações de auxílio a essa população, ainda que
importantes e de grande ajuda, não são soluções concretas para
muitas dessas necessidades não observadas. É preciso, ainda, destacar
e reivindicar os princípios que estão especificados na definição do
Sistema Único Saúde (SUS), a saber, universalidade, integração e
equidade (PAIVA et al., 2016).
Pesquisas a nível nacional evidenciam o aumento da
vulnerabilidade entre os sujeitos que se encontram em situação de rua,
mostrando que as condições de saúde afetadas por patologias
presentes entre aqueles em condição de rua e idosos os impediam de
trabalhar e de conseguir recursos financeiros para a subsistência,
contribuindo para a permanência crônica e prolongada destes nas ruas
(DE MATTOS et al., 2016).
Entretanto, não se pode culpar um ou dois fatores como se todo
o problema da situação de rua se originasse de forma linear e
unilateral, visto a incidência de vários fatores políticos, econômicos,
culturais e sociais, multidimensionais, complexos e de causalidades
distintas e diversificadas (FIORATI et al., 2016). É necessário pensar
nessa multidimensão de fatores causais ao se analisar a decorrência da
situação daqueles em condição de rua.
Entende-se nesse documento a necessidade de intervenções
inovadoras que possibilitem a mobilização social e a necessidade de
inserção dessa população que se encontra completamente excluída.
Essa exclusão ocorre, talvez, em decorrência da negligência para com
as condições gerais autorrelatadas por aqueles que vivem esse
contexto todos os dias de suas vidas (DE OLIVEIRA PEREZ et al., 2014).
A luz das evidências apresentadas, torna-se extremamente
necessário entender as condições de vida e saúde dessa população,
como se dá o seu viver nas ruas a partir dos relatos e descrições
daqueles envoltos nesse contexto, perceber a sua vivência para além

74
dos estigmas. Para isso, é preciso privilegiar as percepções dos que
estão ou estiveram em contato direto com tais relatos.
Este capítulo trata de um estudo descritivo, reflexivo-teórico, na
modalidade relato de experiência, originado a partir da vivência com
um macroprojeto de pesquisa desenvolvido junto a essa população,
desde Outubro de 2019, em uma capital nordestina do Brasil. O projeto
se intitula Uso de álcool e outras drogas, transtorno mental comum e
violência entre a população em situação de Rua, sob coordenação
acadêmica da docente orientadora. A pesquisa está devidamente
cadastrada na CPESI-PROPESQI da Universidade Federal do Piauí-
UFPI, contando com a autorização da Secretaria Municipal de
Cidadania, Assistência Social e Políticas integradas- SEMCASPI de
Teresina-Piauí. Igualmente, a pesquisa fora aprovada pelo Comitê de
Ética em Pesquisa- CEP da UFPI, parecer nº. 3.152.268, em 18 de
Fevereiro de 2019.
A aplicação dos questionários para pessoas em situação de rua foi
realizada por estudantes de Enfermagem envolvidos no projeto. O
instrumento de pesquisa abordava os aspectos sociodemográficos, as
condições de vida e saúde, o sofrimento mental, a violência e o uso de
substâncias psicoativas da PSR. Em seguida, os estudantes
participantes responderam a um questionário acerca das suas
experiências e percepções frente à participação no projeto.
Doravante, será descrita a vivência de um deles, coautor desse escrito.
Juntamente, realizou-se uma revisão da literatura científica, por
meio de duas buscas avançadas feitas através da Biblioteca Virtual em
Saúde (BVS), para maior compreensão do que outros estudos dizem
acerca do tema, comparando percepções e resultados com as
vivências do estudante supramencionado. A bibliografia erigida fora
também relevante para a fundamentação teórica dos resultados e
discussão aqui apresentados.
Os descritores utilizados foram selecionados a partir de consulta
aos indexados nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS). A
primeira busca foi feita usando os descritores “Pessoas em Situação
de Rua”; “Abuso de Substâncias” e “Fatores de Risco”, utilizando o
operador booleano AND entre cada um dos três termos. Os estudos
foram incluídos a partir do idioma em que estavam escritos
(Português, Inglês e Espanhol), ano de publicação (foram utilizados
artigos publicados nos últimos cinco anos para maior atualidade de

75
dados a serem aprofundados na discussão). Houve a focalização da
população e das problemáticas de interesse para o presente estudo.
Foram excluídos os estudos que não permitiram uma compressão das
situações de vida da população em situação de rua, assim como
aqueles que não focavam nessa parcela da população.
A segunda busca utilizou os descritores “Pessoas em situação de
rua” AND “Abuso de substâncias” AND “Prevalência”, com os mesmos
critérios de inclusão e exclusão. Artigos encontrados aleatoriamente à
busca foram utilizados para maior quantitativo e precisão de dados
comparativos.

Resultados e discussão

O estudante de enfermagem, quando questionado sobre sua


percepção acerca dessa parcela da população, antes da sua
participação no projeto, afirma que não tinha uma imagem concreta
acerca da PSR. Pensava neles como pessoas desamparadas pela
sociedade de forma geral, necessitadas de ajuda, inclusive no quesito
alimentação (visto que o estudante já havia presenciado iniciativas de
doações de roupa e comida para pessoas nas ruas, anteriormente).
Ainda, tinha noção superficial das suas dificuldades, porém não parava
para refletir ativamente em toda a situação, em como eles se sentiam,
nas suas implicações, e no fato de que tais problemas são contínuos,
não acabam após uma peça de roupa ser doada ou um prato de comida
ser ofertado uma vez na vida. O sofrimento deles permanece, eles
permanecem ali, o preconceito permanece ali..
Tais percepções iniciais não diferem muito do que já foi
documentado por diversos [Link] estudo transversal,
interpretativo, segundo a modalidade estudo de caso, com
abordagem quantitativa e qualitativa, realizado em uma residência
de acolhimento transitório para mulheres em situação de rua, situada
na cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, ao serem
questionadas acerca das motivações que as levaram à condição de
rua, as participantes tinham a desolação nitidamente estampada em
seus rostos, além da tristeza pela perca do espaço social e físico
privado e a fragilidade e vulnerabilidade social às quais estavam
expostas (VILLA et al., 2017).

76
A participação no macroprojeto foi uma experiência de magnitude
tão grande, que toda essa percepção mudou. Apesar dos questionários
de caráter objetivo e abordagem quantitativa da pesquisa, muitos dos
entrevistados conseguiam se abrir completamente em relação às suas
vivências e experiências, relatando situação e histórias de vida por vezes
chocantes. Alguns chegavam a chorar, após certa relutância inicial em
aderir à participação; outros se sentiam muito tocados pelo conteúdo
dos instrumentos utilizados, como se o falar os permitissem
momentânea catarse de toda a sua vivência.
Os relatos que foram expostos pela amostra da pesquisa levaram
a compreender essas pessoas como seres humanos envoltos,
diariamente, num ambiente sem esperanças, sem grandes
possibilidades, com condições de vida horríveis, com descaso por
parte das autoridades e com a prevalência da fome e da miséria. A falta
de oportunidades dessa população é bem documentada. Por exemplo,
diversos estudos, embora com algumas divergências entre os achados,
apontam como nível de escolaridade majoritário o ensino fundamental
ou médio completo ou incompleto (BARROS et al., 2018; LEE et al.,
2017; BROWN et al., 2016; DUNEE et al., 2015; BARMAN-ADHIKARI et al.,
2019; SKYERS et al., 2017), com prevalências de até 64% para
analfabetismo/ensino fundamental incompleto em amostras
brasileiras com 128 mulheres (VILLA et al., 2017).
A falta de oportunidades também se apresentou, assim como a
miséria inerente, às condições ocupacionais da população de rua.
Nenhum dos entrevistados com os quais o acadêmico de enfermagem
teve contato possuía emprego formal, com muitos relatos de
condições socioeconômicas precárias. Na verdade, os altos índices de
desemprego não são novidade entre a população em situação de rua.
Prevalências recentes e assustadoras de 90,1% de desemprego entre
aqueles que habitam as ruas já haviam sido documentadas na Jamaica,
por meio de um estudo transversal com 566 participantes conduzido
em 2015 (SKYERS et al., 2017).
A vivência com o macroprojeto, por meio da aplicação dos
questionários, permitiu conhecer mais acerca das problemáticas que
se concretizam como parte integral do dia-a-dia nas ruas, como os
vícios e as condições de saúde por vezes ruins.
Uma verdadeira minoria dos entrevistados reportava não utilizar
substâncias psicoativas, de qualquer natureza. A maioria dos

77
entrevistados apresentava vícios e uso frequente de variadas SPA, a
qual, pela percepção do participante entrevistador, eram
principalmente tabaco, álcool, cocaína e crack. Isso vai ao encontro dos
achados de diversos autores, os quais incluem ainda exacerbados níveis
de uso da cannabis, metanfetamina e opiáceos (MILLER-ARCHIE et al.,
2019; BRUNINI et al., 2018; LAPORTE et al., 2018; SPINELLI et al., 2017;
BARROS et al., 2017; BROWN et al., 2019; SKYERS et al., 2017; GOZDZIK et
al., 2015; BARMAN-ADHIKARI et al., 2019; FLETCHER & REBACK, 2017).
Essas percepções não diferem muito do que se documenta acerca
dessa população. Existe clara relação entre o morar emalbergues e o
risco de consumo e dependência de substâncias psicoativas, com
percentuais assustadoramente altos de abuso de drogas sendo
evidenciados por diferentes autores, com comparações
estatisticamente significativas (VARGAS et al., 2018; BARROS et al.,
2017; HALPERN et al., 2017; BROWN et al., 2016; RILEY et al, 2015).
O status em contexto de rua, juntamente ao problemático status
de usuário de substâncias psicoativas, leva o indivíduo a adquirir marcas
sociais, sendo estigmatizado a esses status (SOUZA et al., 2016).
Em estudo de coorte retrospectivo com dados de 411 prontuários
de mulheres que buscaram tratamento especializado para uso de
substâncias psicoativas, de um serviço de tratamento especializado
para transtornos por uso de SPA da cidade de São Paulo, estado de São
Paulo, Brasil, coletados durante o ano de 2011, referentes a 2002-2010,
o uso de múltiplas drogas incluindo cocaína e I demonstrou associação
com o morar nas ruas e em albergues (VARGAS et al., 2018). Relações
de significância também são apresentadas por Halpern et al., 2017, em
seu estudo com 564 usuários de crack que buscaram tratamento em
Centros de Atenção Psicossocial para Álcool e Drogas (CAPSad) de seis
capitais brasileiras, dentre os quais a parcela da amostra que, em
algum momento, morou nas ruas ou em abrigos, mostrou médias mais
elevadas e estatisticamente significativas em relação ao consumo de
álcool (HALPERN et al., 2017).
Semelhantemente, Barros et al., 2017 documentou, por meio de
delineamento transversal, prevalências de 74.9%, 37.9%, 53.1%, 38.1% e
17.8% para o uso de álcool, maconha, crack, cocaína intranasal e outras
substâncias, respectivamente, entre uma amostra de 481 homens
adultos em situação de rua em Goiânia, Brasil, (97.7% dos quais já
utilizaram alguma SPA durante a vida) tudo isso apenas nos 30 dias

78
anteriores à sua pesquisa, conduzida entre agosto e novembro de 2015
(BARROS et al., 2018).
A presença do álcool enquanto SPA mais prevalente entre a
população em situação de rua é outro fator de semelhança com a
literatura consultada (MILLER-ARCHIE et al., 2019; BRUNINI et al.,
2018; LAPORTE et al., 2018; SPINELLI et al., 2017; BARROS et al., 2017),
assim como do tabaco (BROWN et al., 2019; GOZDZIK et al., 2015;
SKYERS et al., 2017).
As condições de saúde ruins e regulares também são descritas em
outros estudos (SPINELLI et al., 2017). A exemplo, relatos de saúde
considerada ruim ou regular foram registradas entre 156 usuários de 7
abrigos situados no estado de Kansas, EUA, enfrentando a falta de
moradia após a recessão econômica de 2008, com prevalência de
42,6% (LEE et al., 2017).
As motivações foram o que mais marcaram o entrevistador.
Grande parte das pessoas entrevistadas relatou estar em situação
de rua por decorrência de conflitos familiares. Então, eles não
tinham pra onde ir, estavam sem renda, sem emprego, sem apoio
familiar e, muitas vezes, viciados em uma ou mais SPA, com o estado
de saúde debilitado...
Um homem expressou não querer que os filhos o vissem em tão
complicado estado. Outros falavam da mãe, o único apoio no mundo;
em decorrência do falecimento da mãe, muitos não encontravam
apoio nos demais membros da família e, igualmente, passaram a não
ver saída que não as ruas. Outro citou uma experiência de conflito com
o pai dele por conta da orientação sexual. O pai o expulsou de casa e
sua morada passou a ser a rua. Em verdade, o entrevistado falou dessa
situação como um exemplo hipotético; entretanto, a forma detalhada
e específica como ele discorreu sobre exemplo levou-nos a pensar se
aquela não seria a história de vida dele, e de alguma forma, ele não
tivera conseguido falar abertamente sobre, valendo-se da
exemplificação como forma de desabafo.
A ajuda que é recebida por algumas dessas pessoas, embora
extremamente importante e altamente necessária, acaba se tornando
insuficiente. Eles não estão ali por desejo próprio, nenhum está. Foram
motivados por circunstâncias, principalmente conflitos familiares, o
que se correlaciona ao uso abusivo de álcool e ao sofrimento mental
(VILLA et al., 2017).

79
As experiências com a pesquisa permitiram identificar, através das
falas dos entrevistados, altos níveis de sofrimento mental entre eles. A
grande maioria atingia a pontuação do instrumento utilizado para aferir
níveis de sofrimento mental. Era raro tal pontuação não ser alcançada, e
alguns afirmavam, por meio da entrevista, sofrer com todos os problemas
psicossomáticos em relação aos quais eram questionados.
A saúde mental da PSR é um ponto de bastante destaque em se
tratando da saúde dessa população. Diversos autores mostram serem
alarmantes as prevalências de transtornos mentais e psiquiátricos
nessa população, como a depressão, o estresse percebido, o estresse
pós-traumático, os transtornos psicóticos como esquizofrenia,
ansiedade, fobias específicas e transtorno de personalidade antissocial
(GOZDZIK et al., 2015; BARMAN-ADHIKARI et al., 2019; BROWN et al.,
2019; LAPORTE et al., 2018; FLETCHER & REBACK, 2017).
No aspecto social, a experiência com o macroprojeto aumentou a
compreensão sobre a situação dessas pessoas e , por conseguinte, a
empatia, especialmente após ouvir tantas histórias de vida, a maioria
marcada por muitos dilemas, vícios dentre outros.
Consequentemente, a experiência nos levou à reflexão do quanto
esses indivíduos sofreme do quão difícil, degradante, competitiva e
violenta é a situação da rua. Esses sujeitos dependem de instituições
para se alimentar, alguns tomavam banho no Centro de Atenção
Psicossocial, alguns apresentam claras patologias psiquiátricas. Alguns
compareciam todos os dias; outros, apenas alguns dias e outros
compareceram uma única vez e não mais voltaram.
No aspecto acadêmico, a experiência permitiu ao estudante de
Enfermagem grande evolução, desde as habilidades de conversação e
de escuta, até às de pesquisa, pela utilização dos instrumentos
componentes dos questionários e demais aspectos.

Considerações finais

Conclui-se que as pessoas em situação de rua caracterizam-se,


tanto pela percepção dos pesquisadores, quanto pela análise do
referencial teórico, como indivíduos em situação de miséria, em
condições socioeconômicas cronicamente precárias condições de
saúde (especialmente mental) debilitada, expostos a muita
vulnerabilidade social e a um contexto que propicia o uso de

80
substâncias psicoativas, as quais apresentam taxas alarmantes entre
essa população.
Trata-se de uma parcela da população completamente
negligenciada, carente de atenção e de auxílio por parte da sociedade
e das instituições governamentais e/ou filantrópicas. São carentes,
também, de serem devidamente ouvidos e compreendidos enquanto
indivíduos com necessidades plurais e singulares, com experiências de
vida e personalidades completamente únicas. Existem programas e
intervenções, porém muito mais precisa ainda ser feito.
Em relação às estratégias de intervenção que podem ser aderidas
em prol do manejo das condições gerais desses indivíduos, citam-se,
principalmente, as intervenções em saúde mental e a reabilitação por
uso de SPA. A maioria das pessoas com quem tivemos contato durante
as entrevistas, como discutido, relatava histórico de muito sofrimento
mental, de uso constante de álcool e outras drogas, principalmente o
crack. Isso ressalta a importância de ações urgentes em resposta a
essas condições.

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83
84
COTIDIANO E TÁTICAS DE
SOBREVIVÊNCIA

85
86
O PRAZER DE COMER POR MULHERES EM SITUAÇÃO DE RUA E O
DIREITO HUMANO À ALIMENTAÇÃO ADEQUADA:
obstáculos e estratégias

Fernanda Sabatini
Ramiro Fernandez Unsain
Priscila de Morais Sato
Fernanda Baeza Scagliusi

Introdução

Neste capítulo, nosso interesse foi articular discussões entre o


Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) e a noção de justiça
social com a dimensão do prazer em comer, observando vivências de
mulheres em situação de rua. Na primeira parte do capítulo, traremos
algumas questões teóricas, as quais fundamentam e direcionam nosso
olhar analítico, contextualizando a discussão proposta. Em seguida,
dialogaremos com vivências em campo, a partir de um estudo
etnográfico com mulheres em situação de rua que realizamos no
centro da cidade de São Paulo. Perpassaremos a dimensão de prazer
em comer enquanto estratégia importante na construção do DHAA,
atrelando-a ao alcance de justiça social, aqui pensada a partir do direito
à moradia. Nesse sentido, versaremos, ao longo do capítulo, sobre dois
obstáculos para o alcance do DHAA, reconhecidos a partir da
articulação campo-teoria: a falta de moradia e a deslegitimação
simbólica direcionadas às mulheres em situação de rua, proveniente,
dentre tantas questões, do trato punitivo e marginalizante
direcionado aos seus corpos.
A vivência em campo que dá base aos dados empíricos e às
articulações teóricas que realizamos neste capítulo, sobretudo nas
segunda e terceira parte, é uma vivência etnográfica com mulheres em
situação de rua, desenvolvida na região central da cidade de São Paulo,
no bairro da Sé. A pesquisadora responsável pela construção dos
dados em campo foi a primeira autora deste capítulo. O trabalho teve
início em Agosto de 2018 e ainda está vigente. Porém, os dados que
utilizaremos neste recorte textual foram construídos entre Agosto de
2018 e Março de 2020,oriundos de observações participantes com

87
registro exaustivo em diário de campo e conversas informais com
mulheres em situação de rua ou mesmo com outros autores sociais
que permeiam a vida destas. Tais observações ocorreram em
audiências públicas, oficinas ou eventos junto a cooperativas,
coletivos e movimentos ligados aos direitos das pessoas em situação
de rua que atuam na região central da cidade de São Paulo, construídos
também com a participação de mulheres em situação de rua. Os nomes
que trazemos neste capítulo são fictícios e não há nenhuma menção a
características pessoais únicas que venham a ferir o anonimato delas.

Direito Humano à alimentação adequada, justiça social e prazer


alimentar: algumas questões teóricas

O DHAA é prerrogativa de diversos documentos legislativos,


dentre eles: pactos, tratados internacionais, diretrizes e outros
documentos constitucionais, tanto internacionais quanto nacionais
(ONU, 1999; BRASIL, 1992, BRASIL, 2006)1. No contexto político
brasileiro, o DHAA é assegurado pela Constituição Federal desde 2010,
através de Emenda Constitucional nº64 (BRASIL, 2010). A promoção do
DHAA é um processo cujo caminho de construção envolve políticas de
Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) a fim de garantir direitos
como: alimentos livres de contaminantes; acesso a refeições que
respeitem hábitos culturais de indivíduos e coletivos; acesso aos meios
produtivos do alimento ou acesso financeiro e material suficientes
para se alimentar de maneira adequada; acesso da população a
informações cientificamente comprovadas sobre alimentação
adequada e saudável sobre o alimento que se come e possibilidade de
a população exigir a realização plena de seus direitos (BRASIL, 2013).
Nesse sentido, dentre os obstáculos para o alcance do DHAA estão
questões estruturantes da sociedade.
Entendemos estrutura social enquanto uma “categoria histórica
que reproduz as condições materiais e espirituais de uma sociedade”

1Para um debate acerca dos diferentes tratados internacionais e nacionais acerca do


acesso à alimentação adequada, ler “Direito à alimentação versus justiça social: a
diversidade cultural e a efetivação do direito à alimentação” do Dirceu Pereira Siqueira
(2014). Para a compreensão do reconhecimento e exigibilidade do DHAA no Brasil, ler
“A Exigibilidade do Direito Humano à Alimentação Adequada, Ampliando a
Democracia no SISAN” (ABRANDH, 2017).

88
(CÂMARA, 1987, p. 110), atrelada às forças de produção material e
intelectual de uma dada sociedade, que produzem classes sociais,
perspectivas ideológicas e relações sociais (CÂMARA, 1987; MARX
1975). Sob a perspectiva que Câmara (1987) nos traz, é importante
notarmos que a estrutura social do Brasil é forjada em forças de
produção e relações sociais coloniais escravagistas, que se pautaram,
primeiramente, na racialização negativa da pessoa negra e,
posteriormente, nos modos de produção e nas relações sociais
capitalistas, cujas classes sociais trazem as marcas desta racialização
histórica e cujas dinâmicas produzem e reforçam as desigualdades
sociais, política e econômica - não apenas a partir das dimensões da
raça e classe, mas também pela intersecção de sistemas de opressão2
pautados nessas dimensões e em outras, como a de gênero
(AKOTIRENE, 2019; COLLINS, 2016; hooks, 1984).
As pessoas em situação de rua são um grupo heterogêneo em
termos de histórias de vida e de características pessoais. Por isso, são
acometidas de maneira também heterogênea pelos sistemas de
opressão. Falar das mulheres em situação de rua no Brasil,
especialmente em São Paulo, é falar sobre os diferentes sistemas de
opressão de uma sociedade que ainda é estruturada politicamente e
culturalmente nas desigualdades interseccionais de gênero, de raça e
de classe (LEÃO et al., 2017). A situação de rua é tanto uma
consequência dessas desigualdades, quanto uma potencializadora de
sistemas de opressões. Isso se reflete, por exemplo, nos números que
apontam serem pretas ou pardas a maior parte das mulheres em
situação de rua na cidade de São Paulo (SMADS, 2019).
As mulheres em situação de rua vivenciam o extremo desse
sistema de opressão (ONU, 2020; RAMOS, 2018; BRASIL, 2009).

2 A ideia de “sistemas de opressão” é refletida por intelectuais negras, como Patrícia Hill

Collins (2016), bell hooks (1984) e Carla Akotirene (2019), para transmitir a reflexão
epistemológica de interseccionalidade. Quando citamos “sistemas de opressão”
estamos nos remetendo à noção de interseccionalidade cunhada por intelectuais
negras. Raça, gênero e classe, dentro da perspectiva de interseccionalidade, são
exemplos de sistemas estruturais de opressão e de dominação que necessariamente
interagem entre si para atuarem nas identidades de coletivos e indivíduos. Para maior
compreensão do conceito de interseccionalidade, recomendamos, além das autoras
citadas, a leitura de “Demarginalizing the Intersection of Race and Sex: A Black
Feminist Critique of Antidiscrimination Doctrine, Feminist Theory and Antiracist
Politics.” (CRENSHAW, 1989).

89
Segundo boletim epidemiológico do Ministério da Saúde de 2019, entre
2015 e 2017, 17.386 das notificações individuais de violência
interpessoal/autoprovocada registradas no Sistema de Informação de
Agravos de Notificação (Sinan)3 no Brasil tiveram como motivo a vítima
estar em situação de rua. Destas, 50,8% das notificações referiam-se a
violências destinadas a mulheres, sendo 54,8% a pessoas pretas ou
pardas. Quanto à identidade de gênero, as mulheres trans constituíram
1,7% das notificações de violência motivada pela situação de rua (BRASIL,
2019). Algumas das razões para as mulheres se verem na situação de rua
são a tentativa de escapar de violências domésticas, o desemprego ou a
falta de autonomia financeira inscritas à falta de emprego de parceiros
conjugais em relações heteronormativas (SMADS, 2019). Ainda,
interferem nessas razões as dificuldades sociais e familiares impostas à
vivência de identidades de gênero de mulheres trans. O cuidado integral
dessas mulheres e a promoção de seus direitos perpassam, portanto, a
desconstrução de negligências históricas.
Por isso, pensar em DHAA para as mulheres em situação de rua é
pensar políticas que abranjam os problemas estruturais do Brasil,
como a falta de acesso aos meios de produção e à aquisição do
alimento (ex.: falta de moradia); a falta de acesso à renda permanente
(ex.: desemprego); a dificuldade de acesso a uma alimentação
culturalmente coerente com quem come e às estigmatizações
relacionadas à pobreza (classe social), ao gênero e à raça.
Sob esse olhar analítico e teórico, podemos compreender que o
DHAA e o acesso à alimentação adequada estão atrelados a processos
de construção de justiça social4, os quais somente são passíveis de
ocorrer a partir do reconhecimento dos múltiplos sistemas de
opressões que recaem sobre os indivíduos e coletivos (CONSEA, 2007;
PARANHOS et al., 2018; WERLE, 2014; RAWL, 2000; COLLINS, 2016).
O DHAA é um direito que abrange não apenas pessoas em
extrema vulnerabilidade social. A construção efetiva do DHAA dá-se de

3 Os principais tipos de violência notificadas foram físicas (92,9%), seguido de violências

psicológicas e morais (23,2%), sexual (3,9%), tortura (3,8%) e abandono/negligência


(2,7%). Os principais autores das violências foram pessoas desconhecidas (37%) (Dados
do Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde de 2019).
4 Entendemos a justiça social enquanto produto da distribuição equitativa de

oportunidades e direitos e da construção estável de valores como liberdade, a fim de


que as desigualdades existentes sejam para beneficiar a todos ou não existam
(PARANHOS et al., 2018; WERLE, 2014; RAWL, 2000).

90
maneira intersetorial também, porque, para cada coletivo, políticas
que abranjam diferentes dimensões de vulnerabilidades precisarão ser
trabalhadas. No caso da população em situação de rua, a Política
Nacional da Pessoa em Situação de Rua (PNPSR) prevê o DHAA a partir
do objetivo de implementar políticas de SAN voltadas para esse grupo.
Faz parte dos objetivos da PNPSR “implementar ações de segurança
alimentar e nutricional suficientes para proporcionar acesso
permanente à alimentação pela população em situação de rua à
alimentação, com qualidade [...]” (Inciso XIII, do artigo 7º do decreto
nº 7053 de 23 de Dezembro de 2009).
Algumas das ações atinentes à garantia de alimentação adequada
para a população em situação de rua são equipamentos públicos da
política da SAN, como restaurantes populares e banco de alimentos,
além de serviços de acolhimento, como albergues e centros
temporários. Porém, torna-se indispensável para o processo de
construção de justiça social e do DHAA o poder de exigências políticas
exercido, principalmente, por movimentos sociais ligados à pessoa em
situação de rua. Esses movimentos reivindicam como prioridade deste
processo de construção de DHAA o acesso a outros direitos básicos,
como moradia.
É notório, portanto, que o acesso à alimentação adequada
perpassa as particularidades de cada coletivo. A partir de reflexões e
pesquisas de autores que consideram os processos coloniais e
decoloniais, como Collins (2016), hooks (1984) e Akotirene (2019),
reconhecemos que a intersecção de opressões vivenciadas
estruturalmente por mulheres em situação de rua as estigmatiza e as
desumaniza a partir, por exemplo, da deslegitimação, da objetificação
ou da negligência de seus prazeres, desejos e subjetividades.
Reconhecer seus prazeres e valorizá-los, tanto nos estudos
acadêmicos, quanto nas políticas públicas, é um caminho para a
desconstrução de disparidades físicas, materiais e simbólicas que
foram sendo forjadas historicamente. Falar de prazeres é falar
também de construção de identidades. Conforme refletiu o filósofo
italiano Nicola Perullo (2013), o prazer em comer é também um
sentimento que possibilita a construção de memórias, de percepção de
auto conexão, que constrói ou apresenta subjetividades e identidades.
Em 2007, o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e
Nutricional (CONSEA) definiu de maneira ampliada o conceito de

91
alimentação adequada e saudável, marcando em sua definição a
alimentação enquanto um direito humano básico para a população
brasileira, valorizando dimensões socioculturais dos sistemas de
produção e de consumo alimentar e considerando a importância do
prazer para uma alimentação adequada:

A alimentação adequada e saudável é a realização de um direito humano básico,


com a garantia ao acesso permanente e regular, de forma socialmente justa, a
uma prática alimentar adequada aos aspectos biológicos e sociais dos
indivíduos, de acordo com o ciclo da vida e as necessidades alimentares
especiais, pautada no referencial tradicional local. Deve atender aos princípios da
variedade, equilíbrio, moderação, prazer (sabor), às dimensões de gênero e
etnia, e às formas de produção ambientalmente sustentáveis, livres de
contaminantes físicos, químicos, biológicos e de organismos geneticamente
modificados. (CONSEA, 2007, p. 31, grifo nosso).

A noção de prazer é tratada de maneira abrangente na literatura


das Ciências da Saúde e das Ciências Humanas e Sociais, com
diferentes enfoques possíveis em sua compreensão e sentido. Na
definição de alimentação adequada e saudável do CONSEA, por
exemplo, a noção de prazer vem ligada à ideia de sabor. Brillat-Savarin,
em 1825, já discorreu sobre o sabor e o gosto enquanto fontes de
prazer alimentar, especificamente para o autor, fonte de prazer à mesa.
Brillat-Savarin refletiu sobre como os prazeres da vida perpassam os
sentidos e comportamentos humanos, marcando a noção de prazer
em relação à comida não apenas como aquela relacionada a extinguir
a fome e ligada ao apetite, mas também como aquela que se atrela às
relações humanas. O autor, na construção de seu pensamento,
escolheu diferenciar a ideia de “prazer em comer”, atrelado ao saciar
a fome, à de “prazer à mesa”. Para Brillat-Savarin (2019), os prazeres
da mesa ultrapassam apenas o matar a fome, abrangendo a escolha do
local em que se come, com quem se come, o quê se come, fazendo
com que os pares em uma mesa, que quando com fome se comportam
apenas enquanto consumidores (sem interação, centrados em saciar-
se)tornem-se companhias à medida que a fome é saciada.
Seria possível pensar nesse tipo de prazer para a população em
situação de rua? Jabur et al. (2015) trouxeram reflexões interessantes
a partir de um percurso qualitativo. Os autores apresentaram relatos
de vida de duas pessoas em situação de rua, na região do Plano Piloto
de Brasília. A partir de entrevistas com Ronaldo e com Raimunda e sua

92
família (dois filhos e o marido Firmino), os pesquisadores teceram uma
discussão que apresenta um pouco das relações subjetivas que esses
sujeitos estabelecem com a própria alimentação. Ronaldo cozinhava
em um fogão de acampamento; Raimunda, além do fogão
improvisado, se utilizou de uma fogueira improvisada para cozinhar
para os pesquisadores, ambos em barracas montadas. Os autores
discutiram que, no ato de cozinhar dos seus entrevistados, havia uma
possibilidade de construção de identidades, de memórias, de projetos
e de estruturas de um lar, mais do que uma forma de poderem se
alimentar. No estudo, era pelo cozinhar, pelas normas de convívio
diante da comida e pelo uso de utensílios de cozinha que estes sujeitos
sentiam-se em suas próprias casas e cozinhas, comendo à mesa.
A falta do direito à moradia no estudo de Jabur et al. (2015) não é
negligenciada ou esquecida; ao contrário, pode ser ressaltada pela
importância do sentido de lar na construção de identificação com o
próprio comer. O Guia Alimentar para a População Brasileira (BRASIL,
2014), norteado pela definição de alimentação saudável e adequada do
CONSEA (2007), e pautado também em contribuições teóricas como as
de Brillat-Savarin (2019), reconhece e propõe um caminho para
construção da alimentação adequada abrangente e coesa com a
complexidade da alimentação humana. Nesse sentido, apresenta
diretrizes que valorizam o prazer a partir de aspectos como:
possibilidade de tempo para comer; atenção aos sabores, aromas,
visões e texturas das comidas; possibilidade de comer em um
ambiente considerado tranquilo e agradável; possibilidade de comer
em companhias agradáveis e possibilidade de preparar o que se come.
O prazer em comer, nesse sentido, está atrelado às dimensões
culturais e sociais das relações humanas, que também influenciam nas
possibilidades de acesso ao que proporciona prazer, e também às
possibilidades de escolha: escolher com quem se come, escolher o quê
se come (pautado no que gosta ou não gosta), escolher onde se come
(BRASIL, 2014). Com isso, valorizar o prazer em comer em políticas e
diretrizes públicas é reconhecer o prazer enquanto direito e também
enquanto parte constitutiva do processo de construção e alcance dos
direitos humanos básicos. O prazer em comer, enquanto construção
subjetiva e coletiva, não é vivenciado por todas as mulheres em
situação de rua da mesma forma. Nosso intuito ao trabalharmos com
a ideia de prazer em comer é reconhecer a abrangência que o prazer

93
em comer concentra em sentido e significado, atrelá-lo à formação
cultural, social e política da sociedade, dos indivíduos e coletivos,
tratando-o como indispensável para o alcance de justiça social e
dignidade humana.

“Moradia primeiro”, prazer e o alcance do DHAA

Um dos aspectos que caracterizam a situação de rua é a falta de


moradia e a falta desse direito básico configura um agravamento para
o acesso a outros direitos fundamentais, como o comer (ONU, 2020).
Em uma das audiências públicas que presenciamos na cidade de São
Paulo5, uma das mulheres em situação de rua presentes, Camélia,
relatou ao público a contradição que percebe na expectativa do senso
comum em ter que trabalhar primeiro para, então, sair da situação de
rua, alertando em seu raciocínio a dificuldade de estabilidade em
trabalhos antes de se ter moradia. Os demais participantes gritavam
“moradia primeiro!”, enquanto Camélia se pronunciava: “Dizem para
mim: ‘vai trabalhar, vai vender bala no farol’. Como vou trabalhar se
não tenho moradia? Se eu tivesse uma moradia, podia comprar água e
guardar na geladeira para vender. Comprar bala e ter um lugar seguro
para guardar, não ser roubada.”.
A fala de Camélia nos possibilita refletir pelo menos sobre três
principais questões. Primeiramente, é necessário pensar que o
processo de promoção dos direitos da população em situação de rua
perpassa obstáculos como o da deslegitimação da pessoa em extrema
pobreza relativamente ao alcance de direitos básicos. Camélia, em sua
fala, aponta que suas demandas e solicitações são questionadas por
outras pessoas a partir da expectativa que estas apresentam sobre
alcançar direitos básicos a partir do trabalho individual (no caso,

5 Realizada pela Comissão Municipal de Direitos Humanos junto a Movimentos de Luta

das pessoas em situação de rua, em 23 de agosto de 2018 no Auditório Freitas Nobre


da Câmara Municipal de São Paulo. A audiência lembrou os 14 anos dos assassinatos
conhecidos como “massacre da Sé”, discutiu o PL 145/2018, no momento em
tramitação na Câmara Municipal, e contou com a fala de pessoas em situação de rua
sem vínculo a coletivos ou movimentos, assim como de representantes de coletivos e
movimentos da população em situação de rua (como o Movimento Nacional da
População de rua). Em um dado momento da audiência, participantes da mesa de
debate questionaram o público sobre se havia algum profissional de saúde presente, a
pesquisadora em campo era a única até aquele momento.

94
vender balas no farol). Em segundo, a fala de Camélia reforça as
questões teóricas que trouxemos na seção anterior, expondo a
necessidade de trabalhar a intersetorialidade de direitos humanos
para o alcance de justiça social e dignidade humana.
Camélia reivindicou moradia, a fim de vislumbrar por trabalho
digno. Isto pode ser um caminho para acessar também outros direitos,
como o DHAA. A terceira questão refere-se forma como a moradia foi
retratada na fala de Camélia. Trata-se de um lugar que possibilita
ocupação alinhada aos objetivos e desejos de vida, percebido como um
lugar de segurança, de privacidade e de autonomia para o trabalho. Ao
encontro dessa reflexão, outras conversas em campo sugeriram a
casa enquanto lugar também possível de se ter privacidade e
autonomia, como na conversa que tivemos com Maria Carolina: “A casa
seria um lugar de ter individualidade, minha individualidade respeitada.
Os companheiros desrespeitam [a individualidade], mexem nas
coisas...e os funcionários fazem vista grossa [se referindo à
permanência em albergues]”.
A ideia de “Moradia Primeiro” faz parte da pauta de movimentos
ligados aos direitos da população em situação de rua ao redor do
mundo (ONU, 2020; CSJ, 2017). Esse modelo de atenção à população
em situação de rua teve como local pioneiro Nova York, na década de
1990, e apresentou como proposta a oferta de moradia enquanto
porta de entrada para o cuidado especial à população em situação de
rua com agravos mentais (TSEMBERIS, 2010). O modelo “Housing
First”6, como é chamado nos países que o implementaram (Europa e
América do Norte, por exemplo)7, compreende a moradia individual
como direito humano fundamental e prevê o acesso à moradia
individual como primeiro estágio para uma reinserção social, inclusive
nos casos de pessoas em situação de rua que requerem suporte para
redução de danos ou abstinência quanto ao uso de substâncias

6 É possível conhecer mais a trajetória da abordagem “housing first” pelo Housing First

Europe Guide (disponível em: [Link]


first/history-housing-first).
7 Alguns estados brasileiros já estão tendo alguma experiência na aplicação dessa

abordagem, como é o caso do Paraná e Rio Grande do Sul; e no nível nacional, os


contornos e a importância da implementação dessa abordagem de atuação vêm sendo
discutida (conforme Resolução nº 40, de 13 de outubro de 2020), mas precisam ser
discutidas sobretudo junto a movimentos sociais ligados aos direitos da pessoa em
situação de rua.

95
psicoativas (HALL et al., 2018). No caso da maior parte dos estados
brasileiros, a população em situação de rua tem acesso a diferentes
tipos de serviços de acolhimento e suporte social, incluindo a
permanência em albergues de pernoite coletivos e o acesso a núcleos
de convivência com atividades de lazer e/ou refeições. Porém, essa
população não tem garantido o acesso à moradia permanente, o que
complexifica e dificulta o trabalho da rede de atenção à saúde, assim
como a prospecção de sua reinserção social (SMS/SP, 2016; BRASIL,
2020). Além disso, a população em situação de rua no Brasil não é
definida enquanto grupo de risco geológico e social, o que também
refreia o acesso a programas de habitação (BRASIL, 2020).
Em Setembro de 2018, a pesquisadora em campo esteve em um
evento na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). O
evento “Nós votamos!” tratou de um encontro entre pessoas em
situação de rua, movimentos, organizações sociais e pastorais com os
candidatos e as candidatas ao governo de São Paulo nas eleições
daquele ano. Dentre os candidatos ao cargo de governo de São Paulo,
estiveram presentes no evento: professora Lisete (então filiada ao
PSOL), Ana Bock (então candidata a vice-governadora do candidato
Luiz Marinho, filiados ao partido dos trabalhadores - PT) e Marcelo
Cândido (então filiado ao PDT). O nome do evento explicita a intenção
e a demanda da população em situação de rua em ser vista e ouvida
pelas autoridades públicas: o povo em rua também vota, também
existe, também tem direitos. Assim, houve apresentação de propostas
e compromissos sobre as questões que permeiam o estar na rua no
estado de São Paulo. O evento contou com o apoio do Centro
Acadêmico XI de Agosto da Faculdade de Direito-USP e foi realizado
pelo Fórum da Cidade São Paulo.
Durante o evento, um dos assuntos mais comentados foi a demanda
do povo em situação de rua por acesso à moradia permanente, e não a
mais vagas de albergues. A frase “Moradia sim, albergue não” foi
proferida constantemente pelos movimentos e pessoas em situação de
rua no local. Após o evento, alguns dos presentes explicaram para a
pesquisadora o sentido de lutar por moradia e não por albergues, citando
o projeto “De Braços Abertos” enquanto referência de ação que havia
dado certo em suas próprias vidas e na vida de colegas. Este projeto foi
iniciado em 2013 pela prefeitura de São Paulo, organizando-se de maneira
intersetorial pautado na abordagem do “Housing First”. Um dos

96
fundamentos mais aclamados do projeto durante a conversa em campo
foi a oferta de moradia. No caso do projeto, estadas em hotéis,
acompanhadas pela oferta de vales refeições (para três refeições diárias)
e pela promoção de vagas de trabalho, como de varrição pública, para
pessoas em situação de rua, com salário proporcional às horas
trabalhadas na semana.
A oferta das vagas em hotéis não dependia do estar empregado,
o que proporcionava, segundo o grupo de pessoas que ouvimos no
evento, maior dignidade e acolhimento a quem procurava o projeto.
O objetivo do “De Braços Abertos” foi a mobilizar atenção e ação
frente à questão de uso de crack, álcool e outras drogas na cidade,
em um tripé alimentação-moradia-trabalho, a fim de um
planejamento menos higienista e, enquanto um projeto de redução
de danos, com baixa exigência aos inscritos (RUI et al., 2016). Em
soma aos relatos em campo, que exaltavam os resultados do projeto,
alguns dados públicos também apresentam resultados satisfatórios,
especialmente quanto à redução do uso de crack e de outras drogas
pelos inscritos, assim como boa adesão às vagas de trabalho e
percepção favorável dos participantes sobre os impactos do projeto
em suas vidas (RUI et al., 2016). O projeto “De Braços Abertos”,
contudo, foi interrompido, de maneira abrupta e não dialogada com
a população em situação de rua, em Maio de 2017 pela gestão de João
Dória, conforme explicado pelos participantes do evento e também
apresentado na etnografia de Alves et al. (2020).
Se a pauta de “moradia primeiro” já influenciava o projeto “De
Braços Abertos” em 2013, esta recebe aprovação pela plenária do
Comitê Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento da
Política Nacional para População em Situação de Rua (CIAMP Rua) em
28 de Julho de 2016, quando passam a ser priorizados conceitos e
metodologias de políticas públicas para as pessoas em situação de rua
que objetivassem o acesso a uma moradia segura e individual. Isso se
tornou um marco na priorização das ações para com a população em
situação de rua, uma vez que o acesso a outros direitos, como
alimentação adequada, passou a ser compreendido de maneira
contígua ao acesso à moradia, como ouvimos de um dos locutores do
movimento nacional da população em situação de rua durante o
evento da Faculdade de Direito: “Antes, priorizávamos [nós, ligados
a movimentos sociais da população em situação de rua] a

97
alimentação, mas não é possível falar sobre alimentação adequada sem
a garantia da moradia”.
A conquista de políticas públicas que possibilitam um maior acesso
à alimentação diária em quantidade adequada e qualidade nutricional
planejada a partir de equipamentos públicos, como os serviços de
acolhimento e restaurantes populares, possibilitaram, ao longo dos
anos, o avanço na luta por justiça social (BRASIL, 2013). Contudo, o
acesso à habitação é reconhecido pelos movimentos de pessoas em
situação de rua, enquanto um direito básico que proporciona bases
para a possibilidade de uma vida menos estigmatizada e mais
normalizada no que tange à estabilidade social e econômica; de uma
rotina diária mais autônoma e de oportunizar a construção de
identidade, privacidade e liberdade (EUROPEAN REPORT, 2013). Nesse
sentido a Ângela mulher em situação de rua que conhecemos durante
nosso trabalho de campo traz: “Se você não tem uma moradia, não dá
pra ser normal. Tem coisas que servem pra sua saúde mental: ir num
cabeleireiro, comprar um negócio que você quer, ter dinheiro pra ir
numa biblioteca, comer o que você quer, ter moradia […].”.
Camélia, Maria Carolina e Ângela falaram sobre o poder habitar
enquanto construção de autonomia. Essa autonomia aparece a partir
da moradia enquanto espaço simbólico e físico facilitador do
desenvolvimento de um trabalho, da garantia de um ambiente privado
e coerente com o estilo de vida almejado por elas, ou de um espaço em
que os desejos do que se come e do que se vivencia são facilitados.
Mais uma vez, Ângela constrói esse conhecimento: “Quando eu tiver
minha casa, ah, vou comer na minha casa mesmo! Vou fazer uma
comidinha e quando não tiver afim, eu peço, uma coisinha assim, uma
pizza [sorriu].”. O prazer enquanto resultado das possibilidades de
escolhas (o que se come, com quem se come, onde se come, quando
se come e como se come) e também enquanto resultado e propiciador
da vivência e construção identitária, permeia, nesse sentido, as falas
em campo e a reivindicação por direitos básicos, tornando-se
estratégia para o alcance de uma alimentação mais coerente com seus
desejos e com o que consideram adequado para si.

98
O olhar disciplinador e punitivo para com as mulheres em situação
de rua: obstáculos frente ao DHAA

Nesta seção, apontaremos alguns obstáculos simbólicos frente ao


alcance do DHAA, mais especificamente a deslegitimação das
mulheres em situação de rua quanto a seus direitos, a partir do caráter
punitivo para com corpos como os das mulheres em situação de rua.
Para pensarmos em caráter punitivo, podemos nos remeter às
ideias de corpo e de disciplina que Michel Foucault (1987; 2016)8 nos traz.
A contribuição de Foucault é de extrema importância para nós, à medida
que nos possibilita pensar que corpos desviantes da ordem político-
econômica hegemônica são simbolicamente construídos enquanto
puníveis, e que as formas de punição nas sociedades se aperfeiçoam no
sentido de favorecer os mecanismos de poder vigentes9 (FOUCAULT,
2016). Todos os corpos carregam um poder relativo em processos e
contextos sócio-históricos específicos. Mas em termos de
disciplinamento, podemos compreender o poder enquanto método de
controle que age sobre os corpos a fim de torná-los úteis. Nesse sentido,
sob a perspectiva Foucaultiana, um corpo útil é um corpo assujeitado,
um corpo disciplinado, um corpo obediente aos poderes hegemônicos.
Encontramos elementos para pensar mais a respeito dessa questão em
outras conversas durante o campo. Em uma conversa informal com um
grupo de homens e mulheres em situação de rua, ouvimos relatos sobre

8 A noção de corpo que Foucault traz desde pelo menos a década de 70 marca os
estudos na temática até hoje em dia, e traz à tona o corpo enquanto produto e
produtor de poder disciplinante a partir de dimensões como: subjetivações, desejos,
prazeres, sexualidades. E nesse sentido, o de dar o contorno subjetivo e atrelado ao
prazer e ao controle dos prazeres, é que Foucault torna-se uma referência importante
de trazermos. Para uma visão mais interdisciplinar, abrangente e crítica sobre as
temáticas do corpo, recomendamos a leitura de RAGO (2004), que atravessam autores
como o próprio Michel Foucault, mas também Gilles Deleuze, Jacques Derrida e Walter
Benjamim, além também de olhares epistêmicos feministas.
9 Foucault (2016) apresenta as mudanças nas formas de punição física principalmente

a partir do princípio do século XIX, em que a política de controle passa de uma


encenação da dor, em que o corpo é supliciado, para uma punição disciplinaria, de
adestramento, em que não apenas o corpo físico é punido, mas a liberdade, a vontade,
o desejo, a história desse corpo. Qualificar esses corpos, a partir por exemplo de
ciências como a psiquiatria, torna- se uma ferramenta de poder importante nesse
contexto, a fim de justificar socialmente a punição e distanciar moralmente e
socialmente o corpo punido do corpo que pune.

99
terem suas comidas ou marmitas reviradas ou modificadas após
manifestarem desaprovações ou embates pessoais em serviços de
acolhimento com funcionários. Em seus relatos, contam que
experienciam, enquanto usuários de serviços de acolhimento e
alimentação, tratos diferentes vindos de alguns funcionários e
colaboradores a depender do quão obedientes são às regras ou o quão
silenciados ficam diante de suas discordâncias nesses serviços. Em suas
percepções e experiências, realizar reclamações de funcionários desses
serviços, por exemplo, pode culminar em punições como a retirada da
carne na marmita recebida naquela semana, ou, ainda, maior rispidez na
fala e no contato com o serviço.
O caráter disciplinar confere utilidade econômica e política a esses
corpos, à medida que aumenta o poder político de quem busca
discipliná-los. Aquilo que desvia de sua utilidade política e econômica
para o poder vigente torna-se alvo de coerções morais implícitas. Há
uma racionalidade corporal construída pelos poderes vigentes10, que,
quando desviantes, são passíveis de punição. Os dispositivos punitivos
das sociedades, como a prisão, ou o manicômio, entre outros, não
apenas punem, mas também delimitam o que é punível. À medida que
agem, produzem padrões de comportamentos, ações, vidas, desejos,
paixões, prazeres e instintos puníveis (FOUCAULT, 2016; WELLAUSEN,
2007). Nesse sentido, os sujeitos passam a ser julgados caso suas vidas
representem uma ameaça à ordem dos poderes vigentes e à utilidade
econômica dos corpos.
Anteriormente, citamos a fala de Camélia, uma mulher em situação
de rua. Em seu relato em meio à audiência pública, ela nos apresenta
elementos de caráter punitivo proferidos em relação à sua vida e a seus
direitos. “Vai vender balas no farol” parece ser a resposta recorrente
para solicitações cotidianas da Camélia. Apesar do DHAA ser universal
(ONU, 1948), fica visível que o acesso a este depende, portanto, de
fatores como a desconstrução de estigmas sociais. Estigmas que alocam
corpos como o de Camélia ao lugar de objetos puníveis socialmente, a
partir de contornos simbólicos de deveres sociais - tais como “se você

10O poder para Foucault não se centraliza apenas em instituições como o Estado. Ao
invés, o poder para o filósofo está disperso, em todos os lugares e em todos os corpos
que produzem o real, o saber, verdades, morais, antes mesmo de reprimi-las ou coagi-
las. Os corpos que exercem poder, portanto, criam aquilo que podem reprimir
(FOUCAULT, 2016).

100
quer, vá vender balas” -, ditando (inconstitucionalmente, inclusive)
quem tem direitos ou não. A realidade de pedir doações marca por si só
a falta de alcance de direitos básicos por parte do Estado, e esses
obstáculos culturais refletem ainda mais a mercantilização dos corpos,
que os pune, negligenciando a obrigação de suporte social do Estado.
Escolhemos fazer um recorte de gênero para pensar a questão
que nos propusemos aqui. Isso é importante, uma vez que raça, classe
e gênero são mecanismos de biopoder e de necropolíticas em uma
sociedade capitalista, racista e misógina, produzindo corpos que
podem morrer e corpos que podem matar (MBEMBE, 2018;
FOUCAULT, 2020). Inclusive, a intersecção dessas categorias de
diferenciação social pode criar novas exclusões.
Lorena se encontrava semanalmente com a pesquisadora em
campo para conversas informais. Um dos encontros ocorreu em um
abrigo que frequentava para convívio e pernoite, onde, por vezes,
auxiliava voluntariamente na limpeza. Seu direito ao serviço não
estava condicionado ao trabalho. Durante um dos encontros, Lorena
limpava um dos ambientes do serviço enquanto conversava com a
pesquisadora e disse que não era necessária ajuda, pois ela poderia
limpar devagar, no tempo dela. Apesar de sua percepção de que
aquela atividade era algo voluntário, ambas foram interpeladas aos
gritos por um colaborador local. Os gritos foram destinados
exclusivamente à Lorena, a fim de que não parasse o serviço de
limpeza enquanto falava. Em sua fala e postura corporal ameaçadoras
e agressivas, o colaborador homem deixava claro que ela não estava
ali apenas para receber (comida, abrigo), mesmo que isso caracterize
um direito; tinha, também, de fazer um serviço, obedecendo a um
comando por vezes mais ou menos explícito.
A partir da nossa articulação campo-teoria, tornou-se importante
refletir sobre as mulheres em situação de rua, dentre tantos aspectos,
enquanto corpos cuja maneira de desenvolver a vida social é
supostamente desviante sob as perspectivas hegemônicas; corpos
deslocados do ambiente do doméstico e da racionalidade produtivista
capitalista e que, assim, ferem a ordem desse sistema econômico-
político (GATTO, 2017). Apesar de minoria nos censos da população em
situação de rua, a maior parte da violência (física, psicológica, sexual)
destinada à pessoa em situação de rua é para com mulheres (50,8%)
(BRASIL, 2019).

101
A marginalização da mulher em situação de rua se inicia nas bases
de um capitalismo concebido pela exploração e objetificação da
pessoa negra, no sexismo e na heterocisnormatividade (BEAUVOIR,
2019; SAFFIOTI, 1992). A corporalidade das mulheres em situação de
rua não parece se encaixar na figura corporal de produtividade
hegemônica; não parece cumprir com uma suposta obrigação de
produção. Assim, não apenas a funcionalidade biológica dos corpos
em prol da produção do capital é aclamada, mas também sua estética
é idealizada a partir do ideal cultural capitalista (CROCHIK, 2000). Não
cumprindo com tal, as mulheres em situação de rua veem
potencializada a marginalização de seus corpose, junto a eles, de seus
prazeres, desejos e direitos.
Mary Douglas (2002), em seu extenso trabalho sobre a noção de
poluição, pode somar a essa nossa articulação teórica. Os corpos das
mulheres em situação de rua - com seus desejos, prazeres, crenças e
cheiros - parecem então ser enxergados e tratados justamente
enquanto poluição, enquanto um perigo/profanação/ameaça à ordem.
Logo, tornam-se corpos que devem ser escondidos ou removidos, em
uma cultura higienista e punitivista que viver deslegitima o direito à
existência desses corpos. Pettinger et al. (2017) estudaram a
experiência de discutir e pensar sobre a própria comida com adultos
em situação de rua. Para os autores, a atividade de reflexão e discussão
promovida otimizou o interesse no autocuidado e promoveu o
empoderamento, além de melhorar a percepção de bem-estar e a
construção de saúde desses adultos. Refletir a respeito das próprias
identidades, a partir da comida e do cozinhar, é importante à medida
que a extrema pobreza advém também de relações de poder
opressivas e exploratórias, nos níveis social, cultural, político e
econômico. Nessa senda, para a promoção do DHAA é importante um
caminho de desverticalização das relações humanas. A possibilidade
de escolha, de pensar no que se gosta e no que não se gosta, do que é
prazeroso e do porquê é prazeroso e a possibilidade de cozinhar o que
se come são fatores que possibilitam uma maior conexão simbólica
entre a pessoa que come e sua prática alimentar, em uma perspectiva
individual e social.

102
Prazer enquanto estratégia para o alcance do DHAA junto a mulheres
em situação de rua

Os serviços públicos de alimentação voltados para a população


em situação de rua, apesar de serem um importante e indispensável
avanço no acesso à alimentação adequada, promovem relações
limitadas e verticalizadas entre as mulheres usuárias do serviço e a
comida: quem escolhe o cardápio, prepara e serve a comida são outras
pessoas que não quem come. Adicionalmente, as regras de
convivência e permanência nas dependências desses serviços tendem
ao engessamento da conexão das mulheres em situação de rua com
suas comidas. Ângela se posiciona a esse respeito: “Mas lá [serviço
filantrópico de alimentação para a população em situação de rua], por
exemplo, eles te tratam como um quartel. Não tô na cadeia.”.
As pessoas em situação de rua têm suas vidas e corpos controlados
por instituições como a polícia, o Estado e os serviços sociais e de saúde.
Porém, os corpos alvos do poder não deixam de ser também aqueles
que carregam e produzem poder, sobretudo pelas resistências aos
engessamentos autoritários direcionados aos comportamentos,
desejos e prazeres. Em campo, Rosa contou à pesquisadora que sente
seu direito à alimentação negligenciado em alguns serviços de
acolhimento, e acrescenta: “Eu não gosto da comida daqui, prefiro não
almoçar ou pegar em um restaurante. Mas faço questão de ir lá com
você para você ver como é [...].”. Rosa, nesse dia, levou a pesquisadora
em campo para comer em um serviço de alimentação. Disse que não
sentia vontade de comer quando via a comida do serviço e que, se a
pesquisadora fosse comer no local, certamente teria certeza do que
ela estava tentando relatar. Juntas, Rosa e a pesquisadora entraram
no serviço. Após a fila, a comida era servida por funcionários locais.
Havia disponível arroz, feijão, carne moída e salada. A pesquisadora
dispensou a salada. Para sobremesa, gelatina. Para beber, um copo de
suco – que parecia diluído, artificial. Enquanto a pesquisadora comia,
Rosa preferiu ficar apenas com a sobremesa. A pesquisadora ofereceu
sua gelatina para ela também, que aceitou.
Rosa relatou sentir-se ofendida sobretudo com a monotonia do
cardápio, com a falta de oferta de jantar e com a falta de variedade de
carnes, refletindo: “O dinheiro público é destinado para nós, por que
não temos um resultado melhor no prato?”. Rosa disse ainda que

103
achava a quantidade de comida sempre desproporcional à sua fome;
geralmente vinha no prato uma quantidade maior que sua vontade de
comer. O fato de não poder se servir pode ser um causador dessa
sensação. Percebendo que a quantidade no prato da pesquisadora
também poderia ser muito volumosa, disse “Não precisa comer tudo,
não”, já avisando sobre a “doação”, termo usado por alguns usuários
dos serviços de acolhimento e alimentação, em restaurantes
populares ou mesmo nas calçadas, quando não querem mais a comida
do prato e oferecem para outros colegas que ainda possam querer
comer mais. Quem não quer comer mais grita “doação”, e aqueles que
desejam a comida se manifestam. Parte do prato da pesquisadora foi
para um homem que sentava algumas cadeiras à frente. Rosa se
levantou e levou o prato até ele.
É nesse sentido que, quando escutamos algumas mulheres em
situação de rua no campo, percebemos que essas resistências
incorporam estratégias construídas para um comer mais coerente com
sua identidade, seus gostos, prazeres, desejos e sensações de bem-
estar, o que perpassa a noção êmica de um comer adequado. Joana,
por exemplo, se mantém com uma tigela de plástico e talheres em sua
barraca e caminha diariamente para buscar comida em um restaurante
vegano. A doação ocorre após o restaurante servir os clientes das
mesas, por volta das 15h00. O companheiro de Joana é quem
usualmente lava a tigela e os talheres, pois ela gosta de ter a certeza
de que os utensílios estão sempre limpos antes de pegar as refeições.
Joana ilustra: “Não vou comer aqui, não [se referindo ao serviço de
acolhimento]. A comida é boa, mas venho me sentindo melhor
comendo num restaurante ali, a comida é vegana. Uma delícia. E você
acredita que tô me sentindo mais leve, tô me sentindo melhor, vem
fazendo muito bem pra mim, pra minha saúde, pro meu corpo. E é
deliciosa, e enche.”.
A percepção sobre o que é adequado para comer envolveu, nesse
exemplo, a percepção sobre comer algo com sabor bom, sobre sentir-
se bem, leve, saciada, saudável, satisfeita. Além da busca por doações
de almoços e jantares em restaurantes cuja comida as agrada de
alguma maneira, outras estratégias de resistência aos engessamentos
dos serviços de alimentação e acolhimento são usadas, como o próprio
cozinhar. Quando escolhem cozinhar, geralmente fazendo isso em
calçadas, viadutos ou prédios abandonados, o fazem com ingredientes

104
improvisados. Para além das precariedades do cozinhar na situação de
rua – que envolvem, dentre outros aspectos, o uso do mesmo
ingrediente (como macarrão) por dias, ou ainda, o uso de
ingredientes apodrecidos - há a possibilidade de poder comer algo
preparado por elas, com os conhecimentos delas, para elas e com a
própria família ou amigos.
O compartilhamento e uso de saberes tradicionais e populares
podem levar à construção de um sistema alimentar identitariamente
coerente com quem come e produz. O conhecimento é em si um bem
comum e também um direito. O alimento enquanto símbolo
caracteriza-se por diferentes dimensões que articulam diversos bens
comuns da humanidade, como os conhecimentos e saberes ancestrais
e familiares. A alimentação adequada e saudável, por sua vez,
considera e almeja a garantia desta articulação na vivência prática do
comer. Os conhecimentos culinários de grupos e pessoas em extrema
vulnerabilidade social são passíveis de serem negligenciados e de
terem sua vivência dificultada pelos processos de exclusão das
estruturas sociais do país e da cidade. As mulheres em situação de rua
têm seus saberes culinários, assim como sua identidade cultural,
subtraídos ou negligenciados por meio também da dificuldade de
acesso à moradia e ao cozinhar.
O DHAA não se inicia e termina no acesso ao alimento em
quantidade e qualidade nutricional suficientes, mas prevê um sistema
de produção, cultivo, identificação cultural, consumo, preparo e
compartilhamento de saberes alimentares entre pares, de maneira
coerente com quem come. A noção de prazer emergiu em nossa
discussão a partir de percepções e reivindicações de autonomia, de
liberdade, de privacidade e de poder de escolha, ficando em foco a
demanda por moradia para concretização dessas demandas, ou seja,
para a construção efetiva do DHAA às mulheres em situação de rua.

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109
110
A MARGINALIZAÇÃO DO AFRODESCENDENTE E A
INSTITUCIONALIDADE RACISTA: os diferentes imaginários
da rua para o negro e para o branco

Celso Luiz Prudente1


Paulo Marais-Alexandre2
Alexandre Siles Vargas3

O objetivo deste capítulo é demonstrar aspetos da importância


da rua para o afrodescendente, observando que as relações de
exterioridade sugerem uma abstração de lugariedade em algumas
culturas africanas. Observamos que a rua para o negro tem uma
polissemia de coletividade, considerando que a orixalidade demanda
relações de nação, na medida em que a localidade é razão do orixá de
uma dada pessoa. Dessa maneira, a lugariedade é essencial nas
relações de existência da africanidade. Essa é a razão pela qual a rua,
para o afrodescendente, localiza-se no campo ontológico, o qual
demanda o plexo das relações de existencialidade. Logo, a dinâmica
da compreensão de rua implica na polissemia da liberdade, articulada
no processo da afirmação de negritude. É nesse lugar que se dá, de
forma inequívoca, uma afirmação qualitativa de tez, traduzida na sua
humanidade. Contudo, essa compreensão é raramente percebida na
verticalidade do universo eurocolonial, pois trata-se de um traço de
unidade horizontal do diverso negro africano. Esse fenômeno é visto
no imaginário musical da negritude baiana, na interpretação militante
de Margareth Menezes, como segue:

1 Doutor em Cultura pela Universidade de São Paulo – FEUSP. Pós-Doutor em Linguística


pelo Instituto de Estudos da Linguagem – IEL/UNICAMP. Professor Associado da
Universidade Federal do Mato Grosso - UFMT. Antropólogo, Cineasta. Curador da Mostra
Internacional do Cinema Negro. Pesquisador do Centro de Estudos Latino-Americanos
sobre Cultura e Comunicação – CELACC ECA USP. Apresentador e Diretor do Programa
Radiofônico: QUILOMBO ACADEMIA, da Rádio USP, FM 93,7 de São Paulo.
2 Universidade de Lisboa, Faculdade de Belas-Artes, Centro de Investigação e de

Estudos em Belas-Artes; Instituto Politécnico de Lisboa, Escola Superior de Teatro e


Cinema. Pró-Presidente para as Artes do Instituto Politecnico de Lisboa; Professor-
Coordenador da Escola Superior de Teatro e Cinema; Sócio correspondente da
Academia Nacional de Belas Artes.
3 Professor Mestre da Universidade do Estado da Bahia (UNEB)

111
A minha pele de ébano é, a minha pele
A minha alma nua
Espalhando a luz do sol
Espelhando a luz da lua
Tem a plumagem da noite
E a liberdade da rua
Minha pele é linguagem
E a leitura é toda sua

(PORTUGAL; MATUMBI, Alegria da cidade, 2007, Web).

Por sua vez, isso faz pensar a causa grupal da divindade, tendo-a
como perfil do nomos espiritual da comunidade, caracterizada na
determinação do orixá da nação local, que se estabelece em uma força
afirmativa de determinação coletiva. É, por isso, uma expressão
comunal de afirmação como condicionante de sujeito histórico,
inscrito em uma possível forma, visto na categoria conceitual de
alegoria carnavalesca do cinema negro, (PRUDENTE,2014), Uma vez
que se trata de um processo de verticalidade coletiva em uma
consagração publica de positividade do grupo. Como é caso da cidade
nigeriana de Oyó, onde Xangô ocupou a terceira dinastia, sendo
alafin/aláàfin – rei, correspondendo-se assim em uma linha de
descendência de Sàngó. Constatamos essa percepção no imaginário
popular que está inserido no folguedo carnavalesco, apontando o
samba-enredo Do Iorubá ao Reino de Oyó, (1981), da escola de samba
denominada Os Cabeções de Vila Prudente, como segue:

Contam os antigos rituais


Que xangô foi rei e um belo dia
De obatalá seu pai
Poderoso encanto recebia
Oyá dama prendada de riqueza
Ofertava todo seu calor
Roubando do encanto da nobreza
Contrariou a tradição do amor
Xangô ô ô, ô ô
Xangô ô ô, ô ô
Valei-me meu pai, valei-me xangô
Valei-me meu pai, valei-me xangô
Oyó o reino da beleza
Tendo em xangô o seu senho
Que já cansado de riqueza
O solo em moradia transformou

112
E hoje como herança
Cabeções canta em louvor
Aganjú, kaô e laira
Baiani, afonjá e agadô
Bambaquerê
Bambabará
Oi no bangulê
Deixa o corpo se arrastar”

(MARCOS, Cabeções de Vila Prudente, 1981, Web).

O culto e a seção ritualística demandam uma relação de


coletividade. O Xangô reinou em Oyó, motivo pelo qual o povo dessa
nação é de sua descendência, cabendo-lhe a glorificação de
nacionalidade religiosa do axé desse orixá (VERGER, 2002). Ver-se-á,
nesta reflexão crítica, que os nomos comum são dados por uma
demanda de religiosidade. O elemento exterior estabelece-se como
um processo de abstração coletiva, que se faz na tradução das
relações lúdico-gregárias, caracterizadas, entre nós, nos folguedos
populares. Nota-se, na demanda da cultura popular, que a escola de
samba é a maior manifestação de cultura negra e o maracatu
estabelece-se como o mais antigo evento cultural afro-brasileiro.
Ambos estão ligados ao dimensionamento da rua na vida sociocultural
das africanidades. “Desse modo, o apelo popular do carnaval é
resultado da presença negra nos folguedos da escola de samba e do
maracatu, dada sua essência gregária de ritualidade lúdico-comunal, e
se estabelece como possibilidade de pertencimento miscigênico”
(PRUDENTE, 2020, p. 317). Temos a percepção de que haja um sentido
civilizatório na presença cultural de rua do negro, na medida em que
essa ação se dá no sentido de permissão e de pertencimento aos
outros grupos raciais. Isso torna ainda mais evidente a
multiculturalidade do carnaval, realizado com base na “cosmovisão
africana primogênita, que sempre se mostrou aberta ao diferente,
como é visto na sua antiga tradição de respeito a biodiversidade”,
(PRUDENTE, 2014, p. 405), considerando que todas as manifestações
da sua exterioridade são manifestações das divindades.
A compreensão de conceptáculo para o africano constitui-se em
um lugar de domínio exclusivamente individual. Sabe-se, contudo, que
essa possibilidade no âmbito familiar concorre para a abrangência da
religiosidade, em razão da dimensão telúrica de nação na qual se

113
estabelece a orixalidade, de tal sorte que todos os lugares do
afrodescendente trazem uma noção antiga de espaço comunal, em
razão de um saber que se estabelece na circularidade de saberes
sagrados da cosmovisão africana (PRUDENTE, 2014, 2019a, 2019e).
Parece pertinente lembrar que, no histórico filme “Alma no olho”
(1974), do cineasta negro Zózimo Bulbul, o rompimento com o terno,
que expressa uma indumentária do poder eurocolonial caucasiano,
deu-se com a afirmação do corpo nu africano, cuja naturalidade
configura a sua liberdade como retorno à axiologia do continente
negro. Isso se faz, ‘ao nosso quase cego ver’, por uma abstração
cinematográfica na qual a alegria do personagem é resultado do
regresso à sua teluricidade, estabelecido em lugariedade de dimensão
externa. A película “Alma no olho” (1974) é, inequivocamente, uma
lição da emergente tendência cinematográfica denominada cinema
negro, que discute a volta simbólica de um negro vítima da tentativa
de aculturação de sua africanidade.

Inicialmente, chama-se atenção ao filme pela nudez do personagem. É um corpo


que ganha historicidade quando entra numa demanda de espaço e tempo.
Nota-se, pelos trajes do ator, que ele entra em sua cultura – pelas vestes,
sugestivamente iorubá – e encontra ali o seu lugar africano. Posteriormente, é
inserido em outra cultura, e ao ser aculturado, aparece algemado, pois perdeu
seus próprios referenciais (PRUDENTE et al. 2021. p. 157).

O discernimento de nacionalidade para a relação religiosa tem,


nesse contexto, processamento coletivo enquanto fator fundamental
às formas de teluricidade em algumas culturas do Continente Negro.
Observamos, nessa linha de compreensão, a pertinência em apontar aí
a gênese do sentido grupal dos folguedos carnavalescos que
encontram níveis de mediações no sincretismo religioso. Parece-nos
confortável a lembrança que esses folguedos têm, no mais das vezes,
inequívocas expressividades nas atividades de rua, que lhes são
essenciais. Os folguedos mais significativos em termo de
dimensionamento carnavalesco têm origem negra, encontrando nos
ticumbis bantu a sua maternidade cultural (CÂMARA CASCUDO, 2012).
Os ticumbis eram também eventos da corporalidade africana. Suas
manifestações aconteciam na exterioridade, em que o sentido de rua
mostrava-se essencial. Dessa maneira, o ticumbi é a raiz de todos os

114
folguedos carnavalescos que têm a rua como essência, segundo
Prudente e Costa (2020):

[O ticumbi é] a origem de todos os folguedos populares que demandam a


africanidade brasileira: congada, terno de congo, reisada, maracatu, frevo e
outros estilos a origem das escolas de samba. Esses grupos marginalizados
se constituíram em instituição superestrutural do lumpesinato carioca, e é
nesse comportamento que se compreende o surgimento da escola de samba
como forma de organização espontânea de tal segmento, (PRUDENTE,
COSTA, 2020, p. 278).

Percebemos que os folguedos carnavalescos, cuja escola de


samba é a maior protagonista, têm origem nas culturas africanas.
Considerando que essas manifestações são de exterioridades
telúricas, na dinâmica de nação própria do dimensionamento
querigmático do orixá e o protagonismo estrutural tem a composição
dos miscigênicos empobrecidos.
Há uma compreensão sugestiva à polissemia de exterioridade em
que a rua se insere como um espaço de sacralidade negra, na medida em
que se constitui leito de ritualidade lúdica. Isso resulta do discernimento
da circularidade dos saberes sagrados da cosmovisão africana, que é
inquestionavelmente o mais antigo testemunho do respeito à
biodiversidade (PRUDENTE, 2014, 2019a; 2019b; 2019c). Assim, essa
respeitabilidade de natureza holística é também a gênese para o conceito
de contemporaneidade inclusiva, (PRUDENTE, 2018a), contrariando o
comportamento substancial da euro heteronormatividade (PRUDENTE,
2019a; 2019b) própria da ignominia do conservadorismo observada na
hegemonia eurocolonial, caracterizada pelo anacronismo excludente
(PRUDENTE, 2018a).
Entendemos que a falta de relação de exterioridade com alegria
benevolente do eurocaucasiano é decorrente de um narcisismo, cujo
fator patogênico está na negação do outro, encontrado fora do
receptáculo, de seu egoísmo excludente, tratando-o somente como
uma espécie de caminho para imposição da sua violenta alienação de
poder, estabelecido na dependência do diferente, que lhe é negado.
Essa negação do outro é percebida no processo do discernimento de
uma consciência de si que está implicada em um dimensionamento de
morte, na medida em que é ensimesmada. Por outro lado, a demanda
de vida está provavelmente nas relações de austeridade. Como

115
observa Adriano Kuler na sua reflexão filosófica, a respeito da
consciência de si:

A consciência de si deve reconhecer-se como vida e, para tanto, deve negar sua
independência absoluta. Por um lado, a consciência de si precisa experimentar
sua dependência da vida, o que significa que ela deve experimentar a morte. Mas
morrer significa sua própria aniquilação. Para que possa haver subsistência
deste reconhecimento de dependência da vida, deve também esta consciência
de si, enquanto aquela parte que reconhece manter-se viva. Por conta disto, a
única experiência possível para o reconhecimento da dependência da vida é a
experiência do medo da morte. Por outro lado, a própria limitação da
dependência só pode ocorrer por meio da autoaplicação da negatividade à
consciência de si. Isto só é possível caso a consciência de si pudesse relacionar-
se negativamente consigo mesma (por meio do desejo). Para isto, ela precisa da
alteridade. (KULER, 2019, p. 24).

Esse comportamento de fatuidade no interior da


eurocidentalidade tem a rua como lugar de contaminação do vírus da
pobreza em massa. Onde se passa acolhido peremptoriamente em um
receptáculo, buscando evitar contato com a massa miscigênica, na
qual o contato é restrito aonde se nega o diferente massificado, sendo
meramente mais um, pela ignorância em relação à polissemia coletivo
do outro. Pisando-o, reificando-o, com a tentativa de torná-lo, a
qualquer custo, parte fundamental do seu violento processo de
imposição de poder fundado nas necessidades, material e imaterial,
do estranho. Ocupando para essa imposição autoritária, o mito da
superioridade racial da eurocolonialidade caucasiana.
Notamos, nessa demanda, um comportamento burguês de
possível anterioridade moderna (ADORNO E HORKHEIMER, 1947) de
traços individualistas. Isso se vê no trecho da canção, “...se essa rua
fosse minha eu mandava ladrilhar...” (LAGO; MARTINS, 1936, Web). A
melodia é composta na métrica quaternária, sugestiva à europeidade
musical, desenvolvida nos salões fechados para a presença popular
física. Constituindo-se desse modo em valor intrínseco para formação
de um imaginário de origem eurocaucasiana, onde a rua somente tem
importância na perspectiva individual. Trata-se de uma ação sem a
possibilidade da dimensão coletiva, que é percebido no imaginário
miscigênico do frevo baiano, originado na amalgama do ibero-afro-
ameríndio. Nesse simbolismo, o valor comunal da exterioridade é
substancial na canção baiana, como afoxé, samba, samba-reggae,

116
frevo baiano e outros, com identidades da negritude musical, como é
relatado no samba-reggae baiano:

Assim, o samba-reggae alegra os espíritos tristes que sofreram no Pelourinho e


se em tempos remotos tínhamos dezenas e centenas, de negros arrastados por
essas ruas, hoje é pela ressignificação é a negritude que traça a estética da
localidade, com significação dos instrumentos de percussão, que na
tamboralidade se impõem pela autoestima e a capacidade holística da abertura,
que dialoga com o coletivo, no âmbito do respeito a diversidade. (PRUDENTE;
VARGAS; MARTINS, 2021, p. 116).

O mesmo sentido coletivo de centralidade da rua como lugar


comum de ritualidade, congraçamento e luta, é percebido também no
frevo baiano no verso: “A praça Castro Alves é do povo como o céu é
do avião” (VELOSO, 1977, WEB). Esse fenômeno que sugere abstração
da exterioridade da rua como espaço de sociabilidade comum,
originando-se no sentido existencial de relação comunal lúdico
gregário, da circularidade dos saberes sagrados da cosmovisão
africana, primogênita (PRUDENTE, 2008b, 2014, 2019a, 2019e).
No filme “Desta vez Ulisse não sairá de casa” (2020), de Rogerio
Almeida, percebemos que a questão da exterioridade da rua é
cristalina. Esse realizador sugere um tempo moderno em que a
aventura componente fundante da relação existencial não é mais
possível para o Ulisses. Esse personagem, diante da tributável
normatividade das relações do tempo moderno, vê-se furtado de si
mesmo para atender o pagamento das normas da modernidade, cuja
aparência de normalidade social sobrepõe-se às relações existência
que se encontra na aventura. Esse fenômeno lhe furta a polissemia
heroica, considerando que o heroísmo decorre de demanda do campo
ontológico em que a iniciativa do indivíduo se localiza, permitindo-lhe
a individualidade.
De tal sorte que a proibição dos elementos do profundo essencial
do indivíduo, que são próprios das relações instintivas, nas quais se
estabelecem as possibilidades dionisíacas, como a aventura, rosto que
se revela aí a existencialidade, encontrando na aventura lugar de
expressão. Assim, desprovido das aventuras que lhe permitem a
condição heroica Ulisses é, ‘a nosso quase cego ver’ desulissisado,
ficando esvaziado de si mesmo. Conforme se vê:

117
Almeida realiza também sua proposta cinematográfica como uma criativa
malsinação da crise da modernidade, na medida em que a razão do
esvaziamento existencial, do mito da Antiguidade, do Ulisses, é a própria
ordenação da modernidade, que não supre a insatisfação do homem moderno,
sendo estranha a sua ontologia. A modernidade, quando fechada com o ideal de
unicidade ariana, impede a instintividade do mito, que se realiza na possibilidade
de abertura da multiplicidade em que se insere a existencialidade na errância
própria do espírito de aventura. (PRUDENTE, 2020, p. 101).

Diante do peso normativo que lhe impõe a normalidade da boa


aparência social nas relações modernas, apresenta um
comportamento apolíneo, que lhe tenta pulverizar sua ontologia,
concorrendo por uma padronização da aparência social estranha à
instintividade, moldando-o para uma padronização de normatividade
moderna. A essência dessa normatividade é a verticalidade da ordem,
que indica a boa aparência apolínea contrária à abertura do ir às ruas
em busca de aventura da instintividade do herói visto no processo de
existencialidade dionisíaca.
Parece-nos inegável a percepção de que raça e cor na sociedade
brasileira permitem apontar as relações de pobreza e de riqueza como
uma espécie de coralidade social, “tendo no negro o símbolo e o
desdobramento da pobreza, enquanto o branco representa a
burguesia e as relações de poder”, (SANTOS, 2019, p. 32). Dessa
maneira, o preto é um indicativo de pobreza, assim como o branco é
um indicativo de riqueza. Essa situação se constitui em elemento da
cinematografia crítica e reflexiva no Brasil. O cinema novo, de
influência marxista, encontrou nas cores preto e branco sua sintaxe,
que buscava conceituar as lutas de classes (GERBER, 1997; PRUDENTE,
1995). Com esse fenômeno, o proletariado e as relações de pobreza
foram configurados no negro, ao passo que a burguesia e o
desdobramento de poder foram caracterizados no branco.
O cinema novismo propugnou por um cinema de denúncia social,
buscando as realidades das ruas para dar voz aos oprimidos do campo
e da cidade. Por essa razão, o negro foi referencial estético dessa
filmografia (PRUDENTE, 1995), que teve na realização do miscigênico
cineasta baiano Glauber Rocha o principal ideólogo dessa tineta de
vanguarda. O Glauber foi, em nossa compreensão, um marco da
origem do cinema negro, com a sua realização “Leão de Sete Cabeças”
(1971), que surgiu do seio do cinema novo. Esse comportamento
autoral glauberiano contrariava a chanchada com uma linha de

118
cinematografia dos grandes estúdios restrito, na época, para o
atendimento dos interesses industriais do colonialismo americano.
No filme “Referências” (2006), de Zózimo Bulbul, que se
constitui, ‘a nosso quase cego ver’, em um inequívoco inventário do
cinema negro. Em entrevista a Celso Prudente, o cineasta Nelson
Pereira dos Santos falou que os realizadores do cinema novo vão às
ruas, considerando que os estúdios não comportavam as realidades
que estavam na rua4. A arte que implicam as relações miscigênicas tem
essencialmente uma dimensão coletiva, como é o caso da:

música negra [que] se impõe mudando o cenário musical estabelecido.


Sugerindo que a emergência popular das ruas sofre barreiras mercadológicas,
mas é incontida pela identidade racial das minorias, que não aceitam calar.
Fenômeno que entra no imaginário como uma abstração cultural de levantes
populares. (PRUDENTE; VARGAS; MARTINS, 2021. p. 102).

É nessa perspectiva que o afrodescendente, enquanto maioria


minorizada na horizontalidade do ibero-ásio-afro-ameríndio, ganha
visibilidade no cinema (PRUDENTE, 2019a, 2019b, 2019c). A sétima arte
atendeu ao interesse político getulista de construir uma imagem
urbano industrial, baseado no ideal do mito da superioridade racial
eurocaucasiano da monoculturalidade, em detrimento dos outros
grupos raciais da multiculturalidade. Esse comportamento
institucional, desde o período colonial, apresentou um estado de
vocação eurocolonial, concorrendo com políticas públicas – apelidadas
de cotas raciais –, em proveito de embranquecimento, antecedendo o
“descobrimento” (PRUDENTE, 2019c).
O principal problema da institucionalidade brasileira se constitui no
fato de que o “Estado nasceu antes da nação” (PRUDENTE, 2021, p. 11).
Isso é algo que se agrava ainda mais, considerando que essa antecipação
estatal em relação à nacionalidade deu-se fora do território brasileiro. O
Estado do Brasil foi formado em Portugal, com sua nobreza trôpega,
que recebeu o beneplácito das políticas públicas, recebendo terras para
representar a coroa portuguesa (PRUDENTE, 2021). Nesse período, os

4MINISTÉRIO DA CULTURA. Fundação Cultural Palmares. Obras raras o cinema negro


na década de 70. DVD 1 Compasso de Espera. Coordenação do Projeto: Zózimo Bulbul,
Ruth Pinheiro, Biza Vianna, Wanda Ribeiro. Consultores: Antônio Pitanga, Jorge
Coutinho, Joel Zito Araújo, Zózimo Bulbul e Celso Prudente. 2007 Disponível em:
[Link] Acesso em 13 set. 2021.

119
portugueses eram instrumentalizados pelos europeus para execução da
colonização, cuja centralidade era europeia.
A colonização foi fundamental à acumulação de riqueza em
proveito da Revolução Industrial, que fez a Inglaterra mais rica e
Portugal mais empobrecido (PRUDENTE, 2021). Reiteramos que a
situação portuguesa de protagonista da eurocolonização não lhe
furtou da condição de objeto da ação colonial, cabendo-lhe também a
situação de vítima da eurocolonização (PRUDENTE, 2021). Esse
fenômeno vai possivelmente apontar As concorrências identitárias
entre os países de língua portuguesas, considerando que todos foram
vítimas da eurocolonização.
Esse sentimento identitário se estabelece em uma perspectiva
da lusofonia de horizontalidade democrática, a que chamamos
atenção no filme “Revolução das abóboras” (2014) (PRUDENTE,
2014, 2018b, 2019a, 2019b, 2019c).. Esta se fez em uma comunhão de
lutas afro-ibéricas revolucionárias, pelo fim da colonização,
culminando com o testemunho do desiderato da Revolução dos
Cravos (PRUDENTE, 2015; OLIVEIRA E PRUDENTE, 2015), que
propugnava pelo fim da colonização ultramarina, assim como pela
igualdade, liberdade e soberania dos estados. Essa fora uma situação
fundante para o discernimento da formação da horizontalidade da
imagem do ibero-ásio-afro-ameríndio (PRUDENTE, 2016, 2018b,
2019a, 2019b, 2019c, 2020b; PRUDENTE; MARTINHO; SILVA, 2020),
que constituíram uma massa excepcional de miserabilidade. Um
quadro que foi pintado pelo estado brasileiro de vocação
eurocaucasiano cuja sua vocacionalidade branco-europeia racista vai
dar origem à institucionalidade atual.
Esse fenômeno se caracterizou nas cotas raciais para brancos
europeus e seus descendentes, em detrimentos dos brancos ibéricos
empobrecidos, amarelos asiáticos, pretos africanos e vermelhos
ameríndios, como demonstrado no gráfico a seguir:

120
Gráfico 1: Cotas raciais no Brasil.

Fonte: (PRUDENTE, 2019f, p.347).

Notar-se-á, na triste e violenta situação de marginalização racial,


que o estado brasileiro de vocação racista contribuiu para
concorrência da mitologia de superioridade racial, formando, o sentido
e a razão caracterizados pela euroheteronormatividade (PRUDENTE,
2019). A tentativa de imposição dessa suposta normalidade de
sentimento normativo do homem branco europeu como expressão de
perfeição divina, desse modo, (PRUDENTE, PINTO CÓ; MORAIS-
ALEXANDRE, 2021, p 11): “o branco eurocidental é apresentado em um
simbolismo dual de nuances de perfeição e divindade, no personagem
do padre. Essa carga de positividade semiótica foi percebida pelo mero
fato da brancura eurocidental”. Esse comportamento determinou a
verticalidade da hegemonia imagética do euro-hetero-macho-
autoritário, Prudente (2014, 2015, 2016, 2018b, 2019a, 2019b, 2019c,
2019e, 2020a, 2020b; PRUDENTE; MARTINHO; SILVA, 2020;
PRUDENTE; COSTA, 2020; PRUDENTE; OLIVEIRA, 2017).
O questionamento do rei da França, que só cabia a legitimidade
da terra a quem de fato povoasse fez a coroa portuguesa abrir os
cárceres, enviando todos seus degradados para povoar as terras
brasileiras. Essa situação concorreu para formação de uma massa de
miseráveis, que foi formada por ibéricos brancos degradados, pretos
africanos escravizados e vermelhos ameríndios entregues à violenta
máquina de evangelização. Isso concorreu para a formação de uma
massa de miseráveis escurecidos, que foram totalmente esquecidos
pela coroa portuguesa e pelo império que a sucedeu.

121
De tal sorte que o governo fez uma campanha de
embranquecimento do Brasil, em uma ação que promovia a vinda de
brancos europeus, com incentivos e fomentos do estado. Esses
benefícios iam desde passagens, terras, animais bípedes e
quadrupedes, quantia em dinheiros relativos ao número de pessoas da
família, reconhecimento de casamento e batismo de religiões
protestantes, quando o estado era católico teocrático entre outros,
como segue:

O mandatário brasileiro mostrava inegável convicção em relação aos benefícios


que no seu entender seriam dados pela imigração, razão pela qual promoveu a
ida à Europa do major Georg Anton von Schäffer, com o propósito de trazer
interessados ao Brasil. Para o cumprimento desta missão este oficial militar
embarcou de início para Hamburgo, onde concorreu ao estabelecimento de
acordo contratual em proveito da vinda de imigrantes para lida na teluricidade
brasileira. Esta ação governamental o indicou como primeiro passo o contato
com o Grão Ducado de Mecklemburgo-Schwerin, e contatando-se
posteriormente Birkenfeld, que pertencia ao Ducado de Oldenburgo.

No afã de persuadir os Alemães para esta imigração o mando em voga lhe


sugeriu um elenco de vantagens, que se iniciavam no custeio da passagem pelo
governo e seguiram subsequentemente à concessão de lote de chão com
setenta e oito hectares notadamente na região sul do Brasil. Estes benefícios
contavam ainda com pagamentos de diárias, que foram caracterizados em
centos sessenta réis dados respectivamente no ano inicial e metade na segunda
anuidade. Somou-se também neste quadro de vantagem um número de animais,
que se classificaram em bois, vacas, cavalos, porcos e galinhas. Estes benefícios
corresponderam ao número de pessoas de cada grupo familiar. (PRUDENTE,
2019f, p. 340-341).

Essa tendência eurocaucasiana da institucionalidade brasileira vai


do “descobrimento” à atualidade, implicando as relações sociais a uma
demanda de coralidade racial. Nessa, o ideal branco europeu das
relações de monoculturalidade estabelece-se como privilégio
institucional, concomitante à negação das relações de brancos ibéricos
empobrecidos e não brancos, tais como: preto, amarelo, vermelho e a
mestiçagem de relações de multiculturalidade, negadas
institucionalmente, promovendo, assim, o racismo sistêmico como
ação de estado.
Aliás, temos a percepção de que esse racismo institucional tem
sido o principal elemento para o estado mitigar a dívida histórica com
o afrodescendente, indenizando-o do crime de escravidão

122
(PRUDENTE,2006), e manutenção do privilégio de hereditariedade
eurodescendente, regado com o sangue e a miserabilidade negra, que
é uma opção política do Brasil, como se vê na crise sanitária mundial
do Covid 19:

A riqueza dos dez homens mais ricos do mundo dobrou desde o início da
pandemia. A renda de 99% da humanidade está pior em virtude da Covid-19. As
crescentes desigualdades econômicas, de gênero e raciais, assim como as
desigualdades que existem entre os países, estão destruindo nosso mundo. Isso
não acontece por acaso, mas sim por escolha: A “violência econômica” é
cometida quando as escolhas de políticas estruturais são feitas para as pessoas
mais ricas e poderosas. Isso causa danos diretos a todos nós e principalmente às
pessoas em situação de pobreza, a mulheres e meninas e a grupos racializados.
(OXFAM GB, 2022, Web).

Essa contradição racial que é caracterizada na inequívoca


institucionalidade da manutenção hereditária do privilégio decorrente
das relações escravista criminosa. É, com efeito, a principal fonte de
produção de vulneráveis de rua, considerando que são inequivocamente
afrodescendentes e iberodescendente em processo dinâmico de
miscigenação, formando a amalgama do ibero-ásio-afro-ameríndio, no
mundo da eurocidentalidade caucasiana, que tem como razão normativa
o poder acumulativo do euro-hetero-macho-autoritário, preferindo a
viagem bilionária no espaço em pleno sofrimento planetário da Covid 19,
do que se preocupar com o esforço de justiça social mostrando a violenta
ignorância do poder eurocaucasiano que tenta se estabelecer por incrível
que pareça como referência de humanidade. Essas contradições estão
descritas no Relatório da OXFAM - A desigualdade mata: a incomparável
ação necessária para combater a desigualdade sem precedentes
decorrente da Covid 19:

A desigualdade contribui para a morte de pelo menos uma pessoa a cada quatro
segundos no mundo. Porém, podemos mudar radicalmente nossas economias
para que sejam focadas na igualdade. Podemos reaver a riqueza extrema por
meio de tributação progressiva; investir em políticas públicas fortes e
comprovadas contra a desigualdade; e mudar corajosamente o poder na
economia e na sociedade. Se tivermos coragem e ouvirmos os movimentos que
exigem mudanças, podemos criar uma economia em que ninguém viverá na
pobreza, nem com um patrimônio bilionário inimaginável - uma economia na
qual a desigualdade não mate mais. (OXFAM GB, 2022, Web).

123
As violentas relações de dominação eurocêntricas desenvolveram-
se em vantagens hereditárias ao euro-hetero-macho-autoritário,
determinado por uma euroheteronormatividade alimentada pela
tendência racista de institucionalidade brasileira. De tal sorte que
fizemos uma pequena historiografia das cotas raciais, demonstrando-as
como beneplácito único e exclusivo do embranquecimento, imbricado
no privilégio eurodescendente de que resultaram do crime de
escravidão (PRUDENTE, 2006). Considerando que essa instituição
escravista foi atípica e criminosa, em que o pai escravizava o próprio
filho. Dessemelhando das próprias instituições, que foram fundantes do
direito brasileiro, tal como o Direito Romano, que supria as lacunas
jurídicas brasileiras no período colonial. Por sua vez, essa mesma fonte
jurídica era esquecida nos direitos consagrados aos escravizados.
Parece-nos de suma importância o discernimento que a rua tem
um sentido de acolhimento onírico para criança e jovem
empobrecidos, que são geralmente afrodescendentes. Considerando
que a rua tem inegável liame com as relações musicais no âmbito
popular. Nesse processo, a musicalidade estabelece-se como uma
possibilidade de dimensão metafórica quando relacionada com a rua,
permitindo-me que se suponha pertinente ver a música como uma
planta, tanto mais bonita e aromática quanto mais é percebida a sua
raiz no fundo do seio da rua. Chamou-nos atenção um dito popular
sobre o sucesso musical, “a musica faz sucesso quando pega na rua”.
Essa possibilidade de imaginário sugere a força polissêmica da relação
subjetiva que é percebida entre rua e música.
O indivíduo marginalizado que se configura em vulnerabilidade,
enquanto minoria frente à violenta exclusão eurocaucasiana,
encontra, na subjetividade musical da rua, traços da significação
ancestral. Assim, consegue especialmente fazer nessa lugariedade,
uma espécie de possível viagem onírica à sua axiologia, permitindo-lhe
um nível de plenitude que é encontrado na força vital da polissemia do
pai, na condição do primeiro, que, por isso, é aqui o primitivo, razão
pela qual é o depositário da memória do grupo.
Em nossa percepção, os processos litúrgicos, na unicidade da
estrutura do pensamento religioso, acontecem por meio de música,
nas mais diferentes religiões do universo eurocidental e nos diversos
de nomos diferentes da eurocidentalidade. Há possibilidades que
essas musicalidades reconstituíram a imagem do pai, como

124
ancestralidade. Como se observa na consideração de Brasil
(PRUDENTE, 2021), da música e da rua, que se constituem como fontes
para o negado, motivadora à inspiração de plenitude nos valores
populares originados na africanidade ancestral. Como segue:

Para mim, morador de um dos bairros mais pobres da cidade de Salvador no


estado da Bahia, ainda restava uma outra área de conhecimento, a qual me
trazia acolhimento por meio da roda de capoeira, do samba no final de semana,
dos cultos da igreja, do violão que me prometeu um mundo melhor.
Nascia, assim, a minha relação mais aproximada pela “arte das musas”,
embevecida pela rua, adornada pelo cuidado comunitário, pela ancestralidade
percutida nos atabaques e os agogôs do terreiro de candomblé. A partir
destes saberes, que nasceram e foram alimentados pelas ruas do bairro em que
eu cresci, pelas músicas que minha mãe ouvia quando lavava roupa em sua bacia,
fui levado a uma outra paixão, uma paixão que me ofertou plenitude em meio à
pobreza, alegria frente à fome, vida em meio à morte, esta, que me cercou tão
perto em meus dias de guri.” (BRASIL; PRUDENTE, 2021 p. 6).

A polissemia que se tem da relação da rua com a música é


fundamental para o resgate da humanidade negada pela
euroheteronormatividade, que tenta inferiorizar o afrodescente, com
intuito da concorrência da construção da mitologia de superioridade
racial do eurodescente, tentando fragmentar os traços de cognição da
africanidade (PRUDENTE, 2019d). Nesse sentido, o encontro com a
subjetividade musical da rua indica o restabelecimento da iniciativa,
um elemento próprio do campo ontológico, em que estão as vontades
e decisões. Lembrando que a euroheteronormatividade determina a
verticalidade da hegemonia imagética do euro-hetero-macho-
autoritário (PRUDENTE, 2014, 2015, 2016, 2018b, 2019a, 2019b, 2019c,
2019e, 2020a, 2020b; PRUDENTE; MARTINHO; SILVA, 2020;
PRUDENTE; COSTA, 2020; PRUDENTE; OLIVEIRA, 2017), tentando
furtar, com sua violenta ação reducionista, o traço epistêmico da
horizontalidade da imagem do ibero-ásio-afro-ameríndio (PRUDENTE,
2016, 2018b, 2019a, 2019b, 2019c, 2020b; PRUDENTE; MARTINHO;
SILVA, 2020). Nessa amalgama identitária, o afrodescendente se insere
como maioria minorizada, como minorias negadas.
Vê-se aí a consideração da rua que leva em questão a
subjetividade do conviva, demonstrando que há inequívocas
expressões de solidariedade entre as pessoas em condição de rua, que
é frequentemente mais evidente quando flagrados na espontaneidade
do canto coletivo. Comportamento cultural presente nas rodas de

125
batucadas que são vistas debaixo das marquises e dos viadutos, de
coberturas que lhe são mais permanentes, tornando-se um
receptáculo coletivo. Isso permite uma abstração de familiaridade
costurada na memorialidade do grupo que tem na rua uma subjacência
de consagração, decorrente da ritualidade nas religiões de matrizes
africanas, sendo uma força de subjetividade de constante presença no
seu cotidiano. É provável que o fator fundamental da falta de atenção
e de humanização das ruas estejam implicados na tentativa de
desarticulação da ontologia do vulnerável de rua.
Considerando que um número significativo de vulneráveis de rua
é formado por afrodescente, que encontra na rua um sentido lúdico
gregário das relações comunais próprias, das circularidades dos
saberes sagrados da cosmovisão africana (PRUDENTE, 2014, 2019a,
2019e), reiteramos ser a primeira manifestação de conhecimento do
respeito à biodiversidade, tendo em vista que todas relações de
bioexistências são expressões das divindades, colocá-las no processo
de preconceito seria negar a própria orixalidade. Lembrando que o
Panteão dos Deuses da cultura ioruba está debaixo da terra, em lugar
aberto tal como a exterioridade da rua.

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131
132
CRIANÇAS E ADOLESCENTES EM SITUAÇÃO DE RUA:
trabalho e táticas de sobrevivência

Fábio Santos de Andrade1


Gisely Storch do Nascimento Santos2
Maria Aparecida Costa Oliveira3

Crianças e adolescentes em situação de rua

Cotidianamente, os espaços públicos urbanos têm se tornado


locais de vivência para milhares de pessoas que desenvolvem diversas
atividades. Entre tais pessoas, estão as crianças e adolescentes em
situação de rua, ainda denominados pejorativamente como “meninos
de rua” ou “menores de rua”.
O termo “menor de rua” é uma herança dos Códigos de Menores
de 1927 e 1979. O termo “menino de rua” surge no fim da década de
1970, publicado em um livro de Rosa Maria Fischer Ferreira (1979).
Ambos os termos estão envolvidos em uma carga de preconceitos que
coloca a criança e o adolescente em situação de pobreza,
principalmente as que estão em situação de rua, como seres inferiores,
dignos de pena e vítimas de violências por parte do Estado e da
sociedade. Eles também denotam pertença à rua, entendendo que
essas crianças e adolescentes são “de rua”. Torna-se responsabilidade
do Estado incluí-las numa Doutrina de Situação Irregular imposta pelo
Código de Menores de 1979.

1 Pós-doutor em Educação. Professor Adjunto do Departamento Acadêmico de


Ciências da Educação (DACIE) e do Programa de Pós-Graduação em Educação
Profissional (PPGEEProf) da Universidade Federal de Rondônia (UNIR). Líder do
Humanize – Grupo de pesquisa sobre história, educação social e vida cotidiana.
Coordenador da Rede Situação de Rua. E-mail: fasaan@[Link]
2 Doutoranda pelo Programa de Pós-graduação em Educação Escolar, Mestrado e

Doutorado Profissional (PPGEEProf) da Universidade Federal de Rondônia (UNIR).


Integrante do Humanize – Grupo de pesquisa sobre história, educação social e vida
cotidiana. E-mail:[Link]@[Link]
3 Doutoranda pelo Programa de Pós-graduação em Educação Escolar, Mestrado e

Doutorado Profissional (PPGEEProf) da Universidade Federal de Rondônia (UNIR).


Integrante do Humanize – Grupo de pesquisa sobre história, educação social e vida
cotidiana. E-mail:[Link]@[Link].

133
O contexto político e social brasileiro, envolvendo as crianças e adolescentes, só
começa a ser modificada no final da década de 1980, quando o país passou por
um processo de “redemocratização”, em que a sociedade civil e principalmente
os movimentos sociais se mobilizaram na defesa da igualdade e da garantia de
direitos. Com base nessa mobilização, surgiu a Constituição brasileira de 1988,
cujo artigo 227 se direciona a todas as crianças e adolescentes, sem quaisquer
distinções. Foi a partir desse artigo que se originou, em 1990, o Estatuto da
Criança e do Adolescente (ECA), considerado, mundialmente, uma das mais
modernas leis direcionadas à questão da criança e do adolescente, servindo de
referência para vários países. O ECA consiste num instrumento de
reconhecimento de crianças e adolescentes como sujeitos de saberes, direitos e
deveres, independentemente de sua condição social, cultural ou econômica.
(ANDRADE, 2019, p. 22)

Com ECA, extingue-se a Doutrina de Situação Irregular e as crianças


e adolescentes passaram a ser incluídas na Doutrina da Proteção
Integral. Com isso, as que estão em situação de rua deixariam de ser
“menores”, passando a ser identificadas como crianças e adolescentes
em situação de rua, respeitando suas idades, fases de desenvolvimento
e tendo prioridade absoluta nos atendimentos. Assim, deixariam de ser
“de rua” e passariam a estar em “situação de rua”, condição temporária
e não permanente. Por essa razão, neste trabalho utilizamos a
expressão “crianças e adolescentes em situação de rua”.
Essas crianças e adolescentes sempre foram um fenômeno
presente nas grandes metrópoles. Entretanto, com a escassez de
trabalho, o empobrecimento das famílias e a desestruturação familiar,
o fenômeno não se restringe mais às grandes cidades, fazendo-se
presente em quase todas as cidades do Brasil. A saída da casa para a
rua é marcada pela carência de estruturas básicas capazes de
possibilitar a sobrevivência, tais como: saúde, educação, infra
estrutura urbana, saneamento básico etc. No entanto, é com base
nessas carências que surgem as táticas capazes de promover a
manutenção da vida.
As táticas de sobrevivência são as atividades desenvolvidas pelos
que estão em situação de rua, objetivando adquirir recursos para a
sobrevivência individual ou coletiva, executadas pelo furto, roubo,
exploração sexual, mendicância, venda e/ou consumo de drogas,
dentre várias outras. As táticas representavam a principal fonte de
renda para sobrevivência individual e familiar. Assim, a ilegalidade

134
passa a ser mantenedora da sobrevivência em um momento de caos
social e de fragilidade humana.
Para execução das táticas, crianças e adolescentes em situação de
rua se dividem em grupos, cada um com características próprias,
regras de convivência e sobrevivência que consideram os tempos e
espaços ocupados. Dentre os diversos grupos, Andrade (2019, p. 87)
destaca cinco:

1. Crianças e adolescentes que mantêm vínculo com a família e com a escola –


Os membros deste grupo mantêm fortes vínculos familiares, tem residência fixa
e frequentam a escola. Vão à rua desenvolver táticas de sobrevivência, no turno
oposto ao da escola, a fim de geraram renda para contribuir no sustento da
família. Em muitos casos o rendimento escolar é baixo, tendo em vista que as
táticas de sobrevivência provocam o esgotamento físico e mental, o que,
consequentemente, interfere na execução das atividades escolares;
2. Crianças e adolescentes que mantêm vínculo com a família e que
abandonaram a escola – Os membros deste grupo mantêm fortes vínculos
familiares e tem residência fixa, no entanto, deixaram a escola, priorizando a ida
à rua, na tentativa de garantir a sobrevivência individual e familiar. Desenvolvem
táticas de sobrevivência na rua e retornam para casa ao final do dia levando os
ganhos que complementam o sustento da família;
3. Crianças e adolescentes que vão à rua acompanhados da família – Esse grupo
vai à rua em família e retorna para casa ao fim do dia. Normalmente é composto,
principalmente, por pais e filhos e as táticas de sobrevivência são desenvolvidas
em grupo, destacando especialmente a mendicância;
4. Crianças e adolescentes que tomaram a rua como moradia, mas ainda
mantêm vínculos familiares – Esse grupo passou a residir na rua, mas ainda
mantêm vínculos com as famílias, que tem residência fixa, visitando-as
regularmente. Em muitos casos, as famílias residem em cidades diferentes das
que as crianças e adolescentes em situação de rua estão;
5. Crianças e adolescentes que perderam os vínculos familiares, tomando a rua
como moradia – Esse grupo é formado por crianças e adolescentes
independentes. Os laços familiares foram rompidos por diversos fatores
(distância, brigas, exploração, abusos, falta de comida etc.). Vivem em grupos
que delimitam espaços, regras de convivência e funções na rua. Desenvolvem
táticas de sobrevivências diversas: roubo, mendicância, malabares, uso e venda
de drogas, relações sexuais consentidas ou pagas. Muitos formam famílias e têm
filhos, mesmo morando na rua. Há casos em que bebês são alugados para outros
membros do grupo, para serem usados como sensibilizadores na mendicância,
fazendo-se passar por pais da criança. Assim, para eles, a rua se torna um lugar
de dinâmicas variadas.

Cabe destacar que maioria das experiências vivenciadas por


crianças e adolescentes em situação de rua é imperceptível aos que

135
não compreendem as paredes invisíveis que se erguem, guardando um
mundo que é vivenciado apenas pelos que o compartilham.

Nossa vida cotidiana, nossa conveniência, tornou a rua um símbolo de passagem


e as pessoas em situação de rua são normatizadas como parte dos espaços
públicos. Assim, tornar visível o invisível é uma tarefa que envolve o exercício
contínuo de tentar perceber o mundo a partir de sua essência e de sua
diversidade. (ANDRADE, 2021, p. 124)

Dessa forma, a rua torna-se o lugar em que crianças e


adolescentes desenvolvem, de forma criativa, suas táticas de
sobrevivência. É onde encontram seus companheiros, onde vivem e
onde conciliam trabalho, educação e lazer. O espaço da rua,
duramente conquistado, constitui o seu espaço de sobrevivência e de
convivência diária.

Trabalho e tática de sobrevivência

Nas ruas, as crianças e adolescentes adaptam a natureza a si


próprias através das táticas que desenvolvem para satisfazer suas
necessidades humanas no mundo capitalista. Essa afirmação está
diretamente ligada às origens do trabalho, como nos afirma Saviani:

Para isto podemos dizer que o trabalho define a essência humana. Portanto, o
homem, para continuar existindo, precisa estar continuamente produzindo sua
própria existência através do trabalho. Isto faz com que a vida do homem seja
determinada pelo modo como ele produz sua existência (SAVIANI, 1998, p.152).

Na mesma trilha, Marx aponta que sociedade está dividida em


duas classes: possuidores de propriedade e trabalhadores sem
propriedade (MARX, 1994, p. 89). Porém, devemos somar à segunda a
classe dos “trabalhadores sem emprego”, formada por pessoas que
vivem sem emprego fixo por não atenderem às necessidades do
mercado capitalista, muitas tendo que buscar a sobrevivência nas ruas.
As crianças e adolescentes em situação de rua são trabalhadoras que,
por meio de táticas de sobrevivência lícitas e ilícitas, buscam recursos
para a vida. Assim, crianças, adolescentes e adultos que utilizam o
espaço da rua para sobreviver sempre foram rotulados como
vagabundos, marginais, bandidos etc, considerando que estes não se
encontravam inseridos no mundo do trabalho (entendendo trabalho
como sinônimo de emprego).

136
Por outro lado, quando o trabalho é inserido em um contexto mais amplo, que
extrapola as barreiras do emprego, passa a englobar outras atividades, como as
táticas de manutenção da vida. Buscar o significado do trabalho neste contexto
seria situá-lo no campo do não-trabalho. Dessa maneira, as atividades
desenvolvidas pelas crianças e adolescentes em situação de rua podem ser
consideradas trabalho, tendo em vista que essas atividades exigem um exercício
físico e mental dos executores, que adaptam a natureza a si próprios através das
táticas que desenvolvem para satisfazerem suas necessidades humanas no
mundo capitalista (ANDRADE, 2019, p. 73).

No entanto, se para Marx o trabalho é a interação do ser humano


com a natureza, a fim de aprimorar-se de seus recursos, para a garantia
de seu bem-estar físico e espiritual, as táticas de sobrevivência
desenvolvidas pelas crianças e adolescentes em situação de rua
também são formas de trabalho desenvolvidas em um não-lugar.
Compreender as táticas de sobrevivência enquanto trabalho seria
“[...] buscar o significado do trabalho no aparente não trabalho”
(BLASS, 2006). Assim, podemos visualizar as atividades antes
conceituadas como mendicância, vagabundagem ou banditismo
enquanto trabalho, mesmo que seja ilícito, pois essas atividades buscam
a sobrevivência e não o acumulo de riqueza, sendo desenvolvidas na
falta da efetivação dos direitos básicos por parte do Estado.

Nas ruas, crianças e adolescentes sempre foram obrigados a buscar sua


sobrevivência enfrentando desafios que os impulsionam a desenvolver táticas
de sobrevivência que nosso olhar, enquanto coletividade influenciada por
questões culturais e históricas, se desloca, constante- mente, para o campo do
lícito ou do ilícito. Nesse contexto, rótulos passam a ter significado e
identificação, as crianças e adolescentes perdem seus nomes e passam a ser
chamados de menor, menino de rua, marginal, coitadinho, pivete, trombadinha,
bandido, excluído, dentre outros (ANDRADE, 2021, p. 123).

Pais (2003), ao analisar o cotidiano dos jovens portugueses, os


denominados “ganchos, tachos e biscates”, já visualizava as
mudanças que ocorriam no âmbito do trabalho. Jovens sem emprego
eram obrigados a buscar táticas para sobreviver, pois, para eles, o
vínculo a uma atividade de trabalho era condição para viver
plenamente a vida. Assim,
A vivência precária do emprego e do trabalho envolve modalidades múltiplas de
“luta pela vida” que compreendem trabalho doméstico, eventual, temporário,
parcial, oculto ou ilegal, pluri-emprego, formas múltiplas de desenrascanço e

137
que a linguagem comum se refere com as sugestiva expressões de ganchos,
tachos e biscates (PAIS, 2003, p.07).

Nas ruas, crianças e adolescentes tentam manipular recursos


simbólicos e identificatórios para poder dialogar e se posiciona. As
mesmas assumem vários personagens, como “pobrezinhos”, “carentes”,
“marginais” e “trabalhadores”, podendo ser consideradas, em termos
portugueses, como ganchos, tachos ou biscates. Isso é o que Gregori
(2000) chama de “viração” e que, outros cantos do Brasil, ganha nomes
como “manguear” e “caça-jeito”, ou seja, são as capacidades de adaptar-
se às diferentes imagens elaboradas sobre eles e fazer com que essas
imagens tenham sentido nas relações que estabelecem com o mundo e
com seus pares. Ribeiro (2003, p. 623), ao trabalhar com relatos
apresentados pelas crianças em situação de rua, percebeu que elas não
estão na rua por vontade própria:

Na realidade, para elas, a rua é uma alternativa em função de uma situação


circunstancial e de suas condições de vida. Mesmo quando as crianças buscam a
rua para ter liberdade e diversão, essa escolha resulta das restritas
possibilidades que encontram para integrarem-se ou manterem-se em
atividades escolares ou desportivas.

No Brasil, a prática de trabalhos lícitos e ilícitos na rua tornou-se


frequente desde que os princípios neoliberais, orientando a política
econômica brasileira, impulsionando o aumento da pobreza do povo
brasileiro e aprofundando a desigualdade. A riqueza cresceu,
concentrando-se nas mãos dos mais ricos. Considerávamos a pobreza
enquanto desprovimento de bens e valores morais; no entanto,
percebemos que a modernidade tende a fazer desaparecer esse
conceito com seus ideais de consumo. Para Zaluar (1994, p. 181):

[...] a pobreza perdeu o seu sinal positivo mais forte e adquiriu, mais claramente,
o sentido negativo de falta, estendida também ao plano moral, fazendo
desaparecer as fronteiras entre o “pobre honesto” e o “marginal” ou
“criminoso”. Não ter dinheiro para consumir os bens cada vez mais oferecidos
no mercado equivale, para os pobres, especialmente se pertencentes a grupos
raciais (como os negros) e residenciais (como os favelados), mas principalmente
os despojados “meninos de rua”, a ser objetos de suspeita de cometer atos
ilegais ou ilícitos ou, pior, de ser agente de violência
A política social do neoliberalismo é vista pela classe média alta
como uma política que atende aos seus interesses. Essa política confina

138
a massa trabalhadora pobre nos serviços sociais públicos decadentes e
reserva os serviços sociais privados para os setores de renda elevada.
Isso faz com que a população pobre almeje a conquista de melhores
condições de sobrevivência, utilizando as diversas formas possíveis. Ela
também obriga parte da classe trabalhadora a enviar seus filhos, desde
cedo, ao mercado de trabalho. “Essas crianças precisam adquirir desde
cedo o conhecimento e sobretudo o hábito e a tradição do trabalho
penoso a que se destinam.” (FRIGOTTO, 1995, p.15).
A política neoliberal também fez crescer o desemprego, gerando
uma degradação nas condições de vida dos setores populares e
criando uma classe de trabalhadores desempregados que buscam sua
sobrevivência nas ruas. Entre essas pessoas, encontramos um grande
número de crianças e adolescentes em situação de rua:

A idéia do “bem comum” é muito limitada dentro da concepção neoliberal, já


que, segundo ela, existe uma dificuldade para estabelece-lo. Dado que, na
sociedade capitalista as relações sociais são relações de competência entre os
interesses individuais, e na qual a única garantia deve ser a igualdade jurídica dos
atores (BIANCHETTI, 2001, p. 78).

Essa falta de emprego atinge, claramente, a população


economicamente pobre, forçando várias famílias a buscarem seu
sustento nas ruas. As crianças e os adolescentes, número significativo
dentre essas famílias, utilizam a rua para arranjar dinheiro. Para isso
procuram dominar o espaço público. De acordo com Pais (2003, p. 17):

As formas de desenrascanço correspondem a processos no qual os jovens


colocam em jogo sua pluralidade de estratégias que expressam a sua capacidade
de gerar formas próprias de ganhar dinheiro ou de ganhar a vida, como eles
dizem expressivamente, ainda que em terreno de marginalidade,
substancializando culturas de aleatoriedade e de improvisação.

É sabido que as táticas de sobrevivência se configuram como


trabalhos autônomos, não podendo ser compreendidas nos moldes do
vínculo empregatício. Devem ser compreendidas enquanto parte do
cotidiano, sendo executadas na tentativa de driblar as estratégias de
combate e repressão do Estado. Assim, denominamos as crianças e
adolescentes em situação de rua como “trabalhadores livres”, pois
suas táticas são pensadas e executadas de forma individual e/ou
grupal, sem cumprimento de carga horária estabelecida, sem

139
produção mínima estipulada ou salário fixo. Contudo, não podemos
desconsiderar que sua independência e sua motivação estão ligadas
ao capitalismo. Tais crianças e adolescentes são, ao mesmo tempo,
patrões e empregados sobrevivendo no sistema capitalista. Sua
metodologia de trabalho executa, em um mesmo espaço, o trabalho
imaterial e o trabalho material.
As táticas de sobrevivência exigem das crianças e adolescentes
planejamento, execução e avaliação, que as enquadram as no mercado
capitalista. Estes são trabalhadores independentes e capitalistas de si
mesmos, adquirindo capital e tornando-se consumidores. Todo o
dinheiro adquirido com as táticas de sobrevivência insere as crianças e
os adolescentes em situação de rua no mercado de compras,
possibilitando que eles se enquadrem no sistema capitalista,
comportando-se como consumidores. Para Bonamigo (1996), o
trabalho garante muito mais que a sobrevivência das crianças
adolescentes. Garante, antes, seu reconhecimento como sujeitos
produtivos da sociedade, para qual o trabalho é algo extremamente
valorizado.
Tais táticas lícitas e ilícitas caminham em total oposição, já que
uma desperta pena; a outra, ódio. No entanto, oscilações são comuns
e constantes no cotidiano das crianças e adolescentes em situação de
rua, como nos afirma Gregori:

Do ponto de vista das imagens dos meninos de rua, encontramos oscilações e


conflito: são tomados ora como “pequenas monstruosidades sociais”,
“bandidos em potencial” – em versões em que sua periculosidade já está
definida como algo inato ou, se não inato, como resultado de uma miséria social
e moral que dificulta a busca de soluções –, ora “verdadeiros carentes”, nas
versões que os representam como a ilustração mais cabal do abandono, dos
desmandos e da desigualdade social (GREGORI, 2000, p. 30).

Gregori (2000), ao analisar os sentimentos contraditórios que a


imagem das crianças e adolescentes despertam na sociedade, evidencia
a complexidade do tema, visto que o sentimento de ódio frente às
“pequenas monstruosidades” sociais está atrelado ao
desconhecimento das complexas condições que levam as crianças e
adolescente às ruas, bem como à falta de engajamento com as questões
sociais. Por sua vez, o sentimento de pena frente à carência nos remete
aos valores cristãos, à caridade, como se a condição das crianças e
adolescentes fosse uma condição imutável, um desígnio divino.

140
Cabe ainda destacar que esses sentimentos também se
materializam em ações de extrema violência, em que crianças e
adolescentes são exterminadas, sofrem agressões físicas, morrem
pela fome e pelo frio. Por outro lado, a caridade, a “esmola”, são
capazes de promover a vida, mesmo que de forma pontual.
Entendemos que a superação do desafio passa por uma agenda
política que, de fato, materialize ações que possibilitem maior
orçamento para políticas públicas que visem ao atendimento das
crianças e adolescentes em situação de rua, engajamento das
sociedade civil organizada, integração entre os vários setores que
interagem com a temática, atenção às famílias e comunidades de
origem das crianças e adolescentes em situação de rua.

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142
COMPORTAMENTO SUICIDA ENTRE A POPULAÇÃO EM
SITUAÇÃO DE RUA: um estudo teórico-reflexivo

Máyra Dayananda Cunha Reis1


Márcia Astrês Fernandes2
Sandra Cristina Pillon3

Introdução

O comportamento suicida é definido como uma ação na qual o


indivíduo inflige-se dano, não importando o nível ou a razão genuína
da ação. É, portanto, conceituado como um contínuo: pensamentos de
autodestruição, a autoagressão manifestada por gestos suicidadas, as
tentativas de suicídio e, por fim, o próprio suicídio (ABREU et al., 2010).
Como fatores de risco, a literatura aponta que os mais consistentes
indicadores de suicídio são os sujeitos apresentarem isolamento social,
conflitos familiares, desemprego, doenças físicas e, sobretudo, uma
história de tentativas anteriores (RODRIGUES et al., 2020).
Nessa perspectiva, as Pessoas em Situação de Rua (PSR) vivem
em um contexto de muitas privações, que repercutem diretamente na
fragilidade das necessidades humanas básicas. Apresentam
comportamentos vulneráveis à saúde, que merecem destaque e
relevância científica. Nos dados cadastrais do governo federal,
constam 101.854 pessoas em situação de rua no Brasil, sendo o
Nordeste representado por 22.864, considerado o segundo de maior
quantitativo de PSR no país, posterior apenas à região Sudeste
(PATRÍCIA et al.,2020).
Cabe ressaltar questões sociais, violências, preconceitos,
discriminações, a falta de privacidade, carências de infraestrutura para
os cuidados corporais e educação. Aponta-se que essas condições
colaboram para o aparecimento e/ou agravamento de transtornos

1 Graduanda em Enfermagem pela Universidade Federal do Piauí.


2 Doutora em Ciências pela Universidade de São Paulo. Professora Associada da
Universidade Federal do Piauí.
3 Doutora em Ciência pela Universidade Federal de São Paulo. Professora Titular da

Universidade de São Paulo.

143
mentais que, por sua vez, podem ser um dos fatores que contribuem
para que uma pessoa viva em situação de rua (CASTRO et al., 2019).
Entre os imbróglios mais relevantes enfrentados por esse público,
estão os transtornos mentais. Em relação a isso. a Pesquisa Nacional
sobre a População em Situação de Rua (PNPSR) constatou que, dos
problemas mais prevalentes, os psiquiátricos / mentais correspondem
a 6,1%, ocupando o 2ª lugar (BRASIL, 2014). Nesse sentido, sabe-se que
os motivos para o suicídio são diversos, incluindo causas psicológicas,
econômicas, sociais. Todavia, apesar de estarem envolvidas questões
socioculturais, psicodinâmicas, filosófico-existenciais e ambientais, na
maioria dos suicídios, um transtorno mental encontra-se presente
(RAMOS et al., 2019).
O Decreto Presidencial nº 7.053, de 23 de Dezembro de 2009,
instituiu a Política Nacional para a População em Situação de Rua. A
atual política define a PSR como grupo populacional heterogêneo que
possui em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares
interrompidos ou fragilizados, a inexistência de moradia convencional
regular e que utiliza os logradouros públicos e as áreas degradadas
como espaço de moradia e sustento, de forma temporária ou
permanente (BRASIL, 2012).
De um modo geral, os serviços de saúde limitam o acesso,
restringem o acolhimento e não respondem às necessidades dessa
população, o que leva ao abandono dos acompanhamentos. Tal
situação é agravada quando as pessoas em situação de rua
apresentam transtornos mentais. Inclusive, estudos destacam
limitações das Políticas Públicas voltadas para esse grupo (WIJK;
MÂNGIA, 2019).
O movimento dialético entre exclusão e inclusão, assim, conduz
ao sofrimento ético-político decorrente da relação entre a vivência da
injustiça social e as respostas afetivas frente aos processos tanto
econômicos e sociais, quanto subjetivos. Nesse sentido, diante de uma
experiência, o sujeito é afetado por emoções e sentimentos que o
modificam (VALE; VECCHIA, 2020). De maneira análoga, a PSR vem
sendo excluída, fato que gera sofrimento, angústia e outros
transtornos que acarretam pensamentos e tentativas suicidas como
meio de fuga dessa dura realidade.
Este capítulo é um estudo teórico-reflexivo realizado como parte
da revisão narrativa da literatura da pesquisa de campo

144
“Comportamento suicida entre a População em Situação de Rua: estudo
em capital do nordeste brasileiro”, inserida no macroprojeto de
pesquisa desenvolvido junto a essa população, desde outubro de 2019,
em uma capital nordestina do Brasil, intitulada “Uso de álcool e outras
drogas, transtorno mental comum e violência entre a população em
situação de Rua”. A pesquisa está devidamente cadastrada na CPESI-
PROPESQI da Universidade Federal do Piauí (UFPI), contando com a
autorização da Secretaria Municipal de Cidadania, Assistência Social e
Políticas integradas- SEMCASPI de Teresina-Piauí e com a aprovação do
Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da UFPI, parecer nº. 3.152.268, em 18
de Fevereiro de 2019.
A coleta de dados foi realizada a partir de fontes secundárias, por
meio de levantamento bibliográfico. O propósito geral dessa revisão
de literatura consistiu em reunir informações sobre o tema proposto e
desenvolvê-lo a partir dos achados. Para tanto, realizou-se o
levantamento dos artigos na literatura nas seguintes bases de dados:
Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde
(LILACS), Scientific Electronic Library Online (SciELO), Biblioteca
Virtual em Saúde (BVS). Foram utilizados, também, o “Manual sobre o
cuidado à saúde junto a população em situação de rua” e “Saúde da
população em situação de rua: um direito humano”, ambos
produzidos pelo Ministério da Saúde.
Em relação ao tempo de publicação, foram selecionados estudos
publicados há até 10 anos, ou seja, a partir de 2010. A busca por estudos
para a revisão foi realizada nos meses de Novembro de 2020 a Janeiro
de 2021. Foram utilizados, para busca dos artigos, os seguintes
descritores e suas combinações nas línguas portuguesa e inglesa:
“População de rua”, “ Suicídio”, “Vulnerabilidade em Saúde”,
“Tentativa de suicídio”, “Pensamento suicida”,“ Epidemiologia”,
“População em situação de rua”
Nas bases de dados, os descritores foram associados da seguinte
maneira: “população de rua OR população em situação de rua AND
suicídio”; “população de rua OR população em situação de rua AND
pensamento suicida AND tentativa de suicídio”; “ Epidemiologia AND
suicídio”; “ População em situação de rua AND vulnerabilidade em saúde”.
Os critérios de inclusão definidos para a seleção dos artigos
foram: artigos publicados em português, inglês e espanhol; artigos na

145
íntegra que retratassem a temática em questão e artigos publicados e
indexados nos referidos bancos de dados.
Ao final, foram encontrados nove artigos que discutiam a
temática em questão, ao qual se procedeu a análise quanto à síntese
dos dados extraídos dos artigos, realizada de forma descritiva,
possibilitando observar, contar, descrever e classificar os dados, com
o intuito de reunir o conhecimento produzido sobre o tema explorado
no estudo em tela.

Resultados e discussão

Na perspectiva de organizar as informações contidas nos nove


artigos que discutem a temática pesquisada, adotou-se a tabela 1, que
identifica a base de dados, título, nome do periódico e ano de
publicação.

Tabela 1: Artigos levantados nas bases de dados LILACS e SciELO e BVS.


BASE DE Título Periódico Ano
DADOS
SciELO A saúde de quem está Physis: Revista 2020
em situação de rua: de Saúde
(in)visibilidades no Coletiva
acesso ao Sistema Único
de Saúde
SciELO Vulnerabilidades da Revista 2019
população em situação Enfermagem
de rua ao UFPE
comportamento suicida
SciELO Atenção psicossocial e o Ciência & 2019
cuidado em saúde à Saúde Coletiva
população em situação
de rua: uma revisão
integrativa
LILACS Ocorrência de suicídio Revista 2019
na ilha de São Luís entre Nursing
os anos de 2012-2016

146
LILACS Condições de risco à Revista 2020
saúde: pessoas em Enfermagem
situação de rua UERJ
SciELO Sobreviver nas ruas: Psicologia em 2020
percursos de resistência estudo
à negação do direito à
saúde
SciELO Comportamento suicida: Revista 2010
fatores de risco e Eletrônica de
intervenções Enfermagem
preventivas
BVS Comportamento suicida: Rev Cient Esc 2020
o perfil epidemiológico Estadual
das lesões Saúde Pública
autoprovocadas no Goiás
estado de goiás
SciELO Comportamento suicida: Psicologia USP 2014
epidemiologia

A priori, o censo para população em situação de rua realizado pelo


Governo Federal em 2007 oferece dados que esclarecem o panorama
da PSR e sua caracterização no território brasileiro. Diante disso, cabe
ressaltar que os principais motivos pelos quais essas pessoas passaram
a viver e morar na rua se referem aos problemas de alcoolismo e/ou
drogas (35,5%); desemprego (29,8%); e desavenças com
pai/mãe/irmãos (29,1%). Dos entrevistados no censo, 71,3% citaram pelo
menos um desses três motivos, os quais a pesquisa destaca poderem
estar correlacionados ou unidos em relação de causalidade (BRASIL,
2012). Tais fatores, por si sós, já configuram risco, uma vez que o
enfrentamento a conflitos, desastres, violência, abusos ou perdas e o
isolamento estão fortemente associados ao comportamento suicida
(RODRIGUES, et al., 2020).
Ademais, é mister evidenciar os estigmas, preconceitos e
dificuldades de acesso à saúde que a população em situação de rua
enfrenta hodiernamente, destacando serem recorrentes os relatos de
recusa em ir para unidades de saúde, devido a episódios de mau
atendimento, como mostra a Pesquisa Nacional sobre a População em
Situação de Rua. Essa pesquisa revela que 18,4% das pessoas em

147
situação de rua já passaram por experiências de impedimento de
receber atendimento na rede de saúde (BRASIL,2014).
Essa realidade influencia na continuidade dos tratamentos de
transtornos mentais, acarretando em piora do quadro clínico e
agravando da vulnerabilidade às ações de autoagressão. Como
evidenciam Wijk e Mângia, 2019, requisições burocráticas, como a
exigência de documentos e comprovante de residência, além de
limitações no agendamento de consultas e inflexibilidade de horários,
reforçam o processo de exclusão vivenciado. Por serem vítimas de
repreensões, encaminhamentos indiscriminados e/ou ações de
recolhimentos por parte de serviços de outras Secretarias de Estado,
muitas vezes essa população se apresenta insegura em buscar os
serviços de saúde.
Outrossim, a PNPSR apontou a perda da moradia como o principal
motivo para as mulheres irem às ruas. Não obstante, dado o maior
número de homens em situação de rua e a formação sociocultural
predominantemente machista, mulheres em situação de rua são
constantemente expostas a situações de submissão e de violência
física, sexual e psicológica (VALE; VECCHIA, 2020). Por conseguinte, as
mulheres em situação de rua, suportam, além dos imbróglios comuns
desse contexto, o machismo e todos os tipos de violência,
caracterizando um panorama complexo e de grande vulnerabilidade.
Nessa perspectiva, a oferta de cuidados do Sistema Único de
Saúde (SUS) é limitada. Diante das condições de precariedade,
privação e invisibilidade vivenciadas por essa população, as Políticas
Públicas atuais não garantem o cuidado integral (WIJK; MÂNGIA,
2019). Tais limitações à saúde da PSR potencializam fragilidades e
impedem que estratégias de prevenção ao suicídio e transtornos
mentais sejam efetivadas.
Sabe-se, ainda, que o comportamento suicida é mais comum
entre homens em situação de rua, usuários de drogas (lícitas ou ilícitas)
e com história de transtorno mental. Observam-se, neste continuum,
ideações suicidas fortemente associadas à falta de moradia e à
inexistência do apoio emocional e social (CASTRO et al., 2019).
Nesse sentido, percebe-se que a situação de rua é causa e
consequência de fatores de risco ao comportamento suicida, tais
como o uso de álcool e outras drogas, conflitos familiares, isolamento

148
social, transtornos mentais associados, formando uma relação
complexa de retroalimentação.
Diante disso, faz-se necessário pontuar um estudo realizado em
seis capitais brasileiras com usuários de crack, que buscam
atendimento em Centros de Atenção Psicossocial para Álcool e
Drogas. Em relação ao status de moradia, as pessoas que moram nas
ruas apresentam um maior consumo de bebidas alcóolicas, uso de
drogas ilícitas e problemas psíquicos quando comparadas às pessoas
que não viveram nas ruas em nenhum momento de suas vidas. Além
disso, entre as 266 pessoas que já haviam morado na rua, obtiveram-
se relatos de ideação suicida em 49,4% (131 pessoas), além de
tentativas de suicídio em 28,3% (75 pessoas) (CASTRO et al, 2019).
Relaciona-se o contexto de vulnerabilidade ao suicídio para
pessoas em situação de rua à história de vida de doenças, em especial,
à depressão (CASTRO et al., 2019). Ao analisar essa constatação, pode-
se traçar um paralelo ao isolamento vivenciado pelas pessoas que
vivem nas ruas, vínculos familiares insatisfatórios e, muitas vezes,
inexistentes, além da tristeza decorrente da conjuntura vivenciada e o
abuso de álcool e outras drogas, que não só contribuem para a
presença do comportamento suicida, como também podem ser
consideradas um indicador de risco para a tentativa de suicídio
(CASTRO et al., 2019).
Destarte, a partir do levantamento feito na literatura, evidencia-
se a carência de estudos mais aprofundados sobre o comportamento
suicida e seus desdobramentos na população de rua. Ademais, urge o
fortalecimento das estratégias provenientes da Política Nacional para
a População em Situação de Rua, a fim de combater as dificuldades do
acesso à saúde e aos tratamentos contínuos a esse público que, por
ser mais vulnerável, precisa de esforços e mais atenção por parte da
comunidade científica, dos profissionais de saúde e do Poder Público.

Conclusão

Entende-se que as pessoas em situação de rua enfrentam vários


fatores condicionantes ao suicídio, à tentativa de suicídio e à ideação
suicida. Isso se dá devido ao contexto de estigmas, preconceitos,
maior tendência ao desenvolvimento de transtornos mentais que, por
sua vez, estão intimamente relacionados à maior ocorrência de

149
autoagressão, ao abuso de álcool e de outras drogas que influenciam
no isolamento social, acarretando sofrimento e tristeza.
Por fim, as dificuldades encontradas para o acesso aos serviços de
saúde constituem violação do direito à assistência especializada e
integral, reduzindo oportunidades de tratamento, suporte psiquiátrico
e medicamentoso efetivo. Essa realidade influencia e potencializa o
agravamento das condições clínicas de saúde mental; por isso, precisa
ser mais estudada e debatida a fim de melhorar condições de saúde e
de cidadania.

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150
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em: <[Link] Acesso em: 05
jan. 2021.

152
A CRIANÇA, O ADOLESCENTE E O TRABALHO NA FEIRA LIVRE

Clébio Moreira Lemos1


Reginaldo Santos Pereira2
Fábio Santos de Andrade3

O trabalho infantil constitui-se como violação de Direitos


Humanos de crianças e adolescentes, já que ambos estão em processo
de desenvolvimento psíquico, físico, social e motor. Começar a
trabalhar precocemente faz com que esses sujeitos ultrapassem
importantes etapas de sua vida, correndo o risco de perder a
oportunidade de, no tempo certo, qualificarem-se e entrarem para o
mercado de trabalho. Sendo assim, mesmo com a ampliação do
sistema protetivo a partir da implementação de leis que garantem os
direitos humanos, como, por exemplo, à Consolidação das Leis
Trabalhistas de 1943 (CLT), a Constituição Federal de 1988 e o Estatuto
da Criança e do Adolescente 1990 (ECA), o país continua enfrentando
esse grande problema social.
São milhares de crianças e adolescentes que ingressam
precocemente no mercado de trabalho, exercendo atividades que não
são compatíveis com a sua idade, em regime de exploração e de quase
escravidão, já que, além de executarem atividades proibidas pela
legislação, recebem como pagamento um valor pífio, considerado pelo
empregador como uma “ajuda” de custo para a vítima e a família. Isso
se configura como custo benefício para o explorador, uma vez que não
são garantidos os direitos trabalhistas (NOGUEIRA, 1993).

1 Pedagogo. Pós-Graduado em Políticas Públicas e Gestão Educacional (UESB),


Especialista em Direitos Humanos e Contemporaneidade (UFBA), Conselheiro Tutelar
no município de Itapetinga-Ba. E-mail: clebiolemos366@[Link]
2Doutor em Educação. Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação

(PPGED-UESB). E-mail: reginaldouesb@[Link]


3 Pós-doutor em Educação. Professor Adjunto do Departamento Acadêmico de

Ciências da Educação (DACIE) e do Programa de Pós-Graduação em Educação


Profissional (PPGEEProf) da Universidade Federal de Rondônia (UNIR). Líder do
Humanize – Grupo de pesquisa sobre história, educação social e vida cotidiana.
Coordenador da Rede Situação de Rua. E-mail: fasaan@[Link]

153
Embora a realidade econômica do Brasil não seja a única causa do
trabalho infantil, diversas famílias de baixa renda em nosso país, dada
sua condição financeira, por falta de emprego, não têm tido condições
de manter seus filhos no contexto escolar, somente. Isso, de certa
forma, tem colaborado para elevar o número de crianças e
adolescentes inseridos precocemente no mercado de trabalho,
obrigando-os a contribuírem com o orçamento doméstico, garantindo,
assim, a sobrevivência de toda família.
O Brasil é integrante da Organização Internacional do Trabalho e
ratificou as Convenções nº 138 (1973) e 182 (1997). No ano de 2006, na
XVI Reunião Regional Americana da Organização Internacional do
Trabalho (OIT), assumiu compromisso junto à Comissão Nacional de
Erradicação do Trabalho Infantil, que, até o ano de 2015, estaria
erradicando as piores formas de trabalho infantil e, até 2020, todas as
formas de trabalho infantil seriam eliminadas (OIT, 2006). Essas metas
que ainda não foram alcançadas.
Diante da realidade apresentada, este capitulo traz o resultado de
uma pesquisa qualitativa realizada no município de Itapetinga-BA,
cidade situada na Região do Sudoeste baiano, com uma população
estimada em 76.795 mil habitantes. Possui uma área de
aproximadamente 1.665 km e conta com um do campus da Universidade
Estadual do Sudoeste da Bahia (IBGE, 2020). O locus da pesquisa foi a
feira livre da Central de Abastecimento I e II do município.
Para realização do estudo, foi investigada a seguinte
problematização: Quais possíveis impactos negativos pode o trabalho
infantil trazer para o desenvolvimento intelectual e físico de crianças e
adolescentes? Para responder a essa questão, foram traçados os
seguintes objetivos específicos: a) investigar na feira livre e na Central
de Abastecimento I e II do município de Itapetinga-Bahia o quadro de
crianças e adolescentes que fazem atividades consideradas como
exploração da mão de obra infantil; b) traçar o perfil sociodemográfico
das crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil na feira
livre de Itapetinga-Bahia.

Trabalho infantil e infância

O trabalho infantil é caracterizado quando uma criança ou


adolescente com quatorze anos incompletos são inseridos

154
precocemente no mercado de trabalho. A criança é um ser humano em
construção. Conforme conceitua o Dicionário Aurélio, a infância é
definida como um período de crescimento, que vai do nascimento até
a puberdade. O Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90),
em seu artigo segundo, define a criança como a pessoa de zero
até doze anos incompletos; entre os doze aos dezoito anos passa a se
viver a fase da adolescência (ECA, 1990).
Existe uma grande quantidade de estudos, artigos e pesquisas
que abordam os motivos que levam crianças e adolescentes a terem a
mão de obra explorada, bem como Leis e recomendações que buscam
combater essa prática. Entretanto, poucos são os estudos que
analisam as consequências do trabalho de crianças e adolescentes.
Isso tem dificultado o acesso a essas informações tão importantes, que
podem contribuir para efetivação de políticas públicas de atendimento
e garantindo o mínimo de dignidade às vítimas, colaborando com a
inserção do adolescente no mercado de trabalho na idade permitida
por Lei. Dentre as pesquisas, destacamos dois importantes estudos:
Infâncias (pre)ocupadas: trabalho infantil, família e identidade
(MARQUES, 2001) e Crianças operárias na recém-industrializada São
Paulo (MOURA, 1999).
O ser humano está em constante transformação, portanto, não
são seres imóveis, ou incapazes de se adaptar. Isso também acontece
com a infância, pois, para Arroyo (1994), existem várias infâncias, que
variam de criança para criança. A infância na cidade não é como no
campo; o sujeito que vive na zona rural, começa a assumir
responsabilidades mais cedo, tendo de, muitas vezes, acordar antes do
raiar do sol para ajudar o pai ou a mãe na lida com o trabalho. As
crianças que residem em condomínio fechado geralmente desfrutam
a fase da infância em sua totalidade, o que difere daquelas que moram
em bairros periféricos ou favelas.
Uma criança que reside em um condomínio fechado não irá
precisar trabalhar de maneira precoce para ajudar no sustento do lar.
Consequentemente, terá uma infância mais longa, embora tenha, de
certa forma, sua liberdade privada. Já o garoto que mora na favela, por
conta de diversos fatores, corre o risco de começar a trabalhar
precocemente para contribuir com a renda familiar. Contudo,
diferentemente do primeiro, será livre para poder explorar o meio em
que vive. Nesse quadro, é visível que

155
Dia a dia nega-se às crianças o direito de serem crianças. Os fatos que zombam
desse direito, ostentam seus ensinamentos na vida cotidiana. O mundo trata os
meninos ricos como se fossem dinheiro, para que se acostumem a atuar como o
dinheiro atua. O mundo trata meninos pobres como se fosse lixo, para que se
transforme em lixo. E os do meio, os que não são ricos nem pobres, conserva-os
atados à mesa do televisor, para que aceitem desde cedo, como destino, vida
prisioneira. Muita magia e muita sorte têm crianças que conseguem ser crianças
(KRAMER; BAZILIO, 2008, p. 83).

Uma criança que desfruta de sua infância tem a oportunidade de


explorar o lúdico. Marques (2001), em seu ensaio sobre Infâncias
(pre)ocupadas, pesquisa feita com crianças que trabalham nas ruas de
Belo Horizonte – MG, analisou a situação desses meninos e meninas
que, mesmo diante da situação em que vivem, em que tem que
trabalhar para complementar a renda familiar, ainda encontram tempo
para poder brincar. Contudo, são repreendidas pelos seus
“responsáveis”, pois eles encaram o tempo livre necessário ao brincar
como algo que se opõe ao trabalho. Logo, o lúdico passa a ser
concebido como improdutivo, desnecessário. Nesse sentido, é
ignorado o fato da criança estar em processo de desenvolvimento
físico, mental e psicossocial e ser considerada cidadã de direitos. Vale
ressaltar que

Dizer que a criança é cidadã de direitos é entender que tem direito à brincadeira,
a não tomar conta de outra criança, a não trabalhar, a não exercer funções que,
em outras classes sociais, são exercidas por adultos e, em grande parte das
situações são remunerados. Que tem direito à educação (KRAMER; BAZILIO,
2008, p. 122).

A infância é o período de crescimento da criança, momento que ela


começa a conhecer o mundo a sua volta, com brincadeiras e
aprendizados importantes para o crescimento saudável. Isso não condiz
com a ideia de inseri-la no mundo do trabalho. Conforme expresso no
ECA, a existência integral da infância é eficaz para o desenvolvimento
corporal, cognitivo, emocional e social das crianças, impactando
diretamente na construção de uma vida adulta saudável.

Trabalho infantil no Brasil

É de suma importância trazer ao debate um assunto tão


preocupante como a exploração do trabalho infantil, atividade

156
legalmente proibida, uma violação de direitos fundamentais inserida
no campo das violações dos Direitos Humanos.
A mídia escrita e falada tem divulgado levantamento de dados
indicando que, nos últimos 23 anos, os índices de exploração de
trabalho infantil diminuiu. No Brasil, porém, a situação continua crítica,
pois crianças e adolescentes pertencentes às famílias que vivem em
contexto de vulnerabilidade social permanecem exercendo atividades
trabalhistas nos mais variados ambientes, recebendo como
pagamento valores que não condizem com a atividade executada,
muitas vezes sofrendo violência física e psicológica, tendo seus
Direitos Humanos violados.
Assim, para podermos ter uma noção da situação do trabalho infantil
no Brasil, recorremos aos dados da Pesquisa Nacional de Amostra de
Domicílios (PNAD, 2016), elaborada pelo IBGE. A pesquisa indica que, de
1992 a 2015, houve redução de cerca de 65,62% no número de crianças e
adolescentes executando atividades proibidas em nosso país. Em 1992, o
Brasil tinha cerca de 7,8 milhões de crianças e adolescentes trabalhando
precocemente. Com o compromisso assumido pelo governo federal, em
parceria com estados e municípios, de erradicar esse fenômeno que
assola o país desde a chegada dos portugueses, em 2015 esse número caiu
para 2,7 milhões, ou seja, em números concretos a redução foi de 5.101
milhões de casos (PNAD, 2016).
Um dos vários mecanismos de enfrentamento a exploração do
trabalho infantil é o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil
(PETI), que teve início em 1996, como ação do Governo Federal,
apoiado pela OIT, coordenado pela Secretaria de Assistência Social e
vinculado ao Ministério da Previdência Social e Assistência Social, a fim
de combater o trabalho executados por crianças em carvoarias em
Três Lagoas (MS). O objetivo era retirar crianças e adolescentes, com
idades entre 7 a 14 anos, das atividades consideradas as piores formas
de trabalho infantil. Com o bom nível de desempenho do programa,
sua cobertura foi ampliada para os estados de Rondônia, Pernambuco,
Sergipe e Bahia e, posteriormente, para todo o país, através da
implementação do Sistema Único de Assistência Social (SUAS).
O PETI tinha como foco central as famílias que possuíam uma
renda per capita de pelo menos ½ salário mínimo. A realização de
atividades sócio educacionais, além da geração de trabalho e renda,

157
tinha como fim melhorar a qualidade e condições de vida das famílias.
Segundo Souza (2016),

O alcance do programa era garantir o acesso e a permanência de crianças e


adolescentes na escola, a oferta de atividades de contraturno por meio da jornada
ampliada, a concessão de benefício mensal; orientação às famílias e a promoção
de cursos e projetos de qualificação profissional. De acordo com os objetivos
centrais do PETI, a permanência do aluno na escola era umas condicionalidades
para a manutenção da criança ou do adolescente no programa, considerando
como frequência mínima o índice de 85% (SOUZA, 2016, p. 180).

Até o redesenho do PETI, as famílias que tinham crianças e


adolescentes em situação de trabalho infantil recebiam a quantia de
R$ 40,00 (quarenta reais) por sujeito, caso fosse da zona urbana. As
famílias da zona rural recebiam R$ 25,00 (vinte e cinco reais), valores
repassados independente da quantidade de crianças e adolescentes
por família. Com o redesenho em 2005, através da Portaria 666, o
Programa PETI foi integrado ao Programa Bolsa Família, ampliando a
idade para inserção de crianças e adolescentes com a média de idade
entre 0 a 15 anos. Com a aprovação da Resolução nº 130, de 15 de julho
de 2005, os projetos, serviços, programas e benefícios de Assistência
Social, incluindo o PETI, passaram a ser regulados, organizados e
avaliados com base nos eixos estruturantes do Sistema Único de
Assistência Social (SUAS). As ações da assistência social não se
realizam de forma isolada, mas se articulam para a formação de uma
rede de proteção social (BRASIL, 2014).
Em 2016, o PNAD apresentou um relatório com dados referente a
trabalho infantil, em que aponta que 2 milhões e 390 mil crianças
aproximadamente estavam inseridas no mercado de trabalho, dando
a entender que tínhamos uma taxa de 5,96% de casos. A distribuição
por faixa etária de crianças e adolescentes estava da seguinte forma:
de 5 a 9 anos 104.094 (4,35%), de 10 a 13 anos 347.002 (14,51% do total
do trabalho infantil se encontra nessa faixa etária), de 14 a 15 anos
575.194 (24,05%) e 16 a 17 anos 1.364.556 (57,07%). A questão de gênero
também foi analisada. Em 2016, 36% dos casos, aproximadamente, 839
mil eram mulheres e 67%, cerca de 1,5 milhões, eram do sexo masculino
(PNAD, 2016).
Ao apontar a questão do gênero, percebe-se um número maior
de crianças e adolescentes do sexo masculino inseridos precocemente
no mundo do trabalho. No entanto, existem 174.468 crianças e

158
adolescentes do sexo feminino, com idades entre 5 e 17 anos inseridas
no trabalho doméstico, conforme aponta dados da Pesquisa Nacional
por Amostra de Domicílios (PNAD, 2014). Essa atividade apresenta
dificuldades para ser identificada, porque é naturalizada pela
sociedade, tendo em vista, o processo histórico cultural e social que
determinou os papéis ocupáveis por homens e mulheres na sociedade,
o que se reflete nos dias atuais.
Quando observados os dados disponibilizados pelo PNAD-2016, o
quesito regional aponta que região Nordeste concentra o maior
percentual de casos de exploração do trabalho infantil, com 33%, cerca
de 356 mil. A região nordeste apresenta um dos piores indicadores
sociais, o que incide diretamente na qualidade de vida das famílias, que
não tem acesso a saneamento básico, educação de qualidade, saúde,
moradia, emprego e renda. A falta de políticas sociais que alcancem
diretamente a população pobre contribui para inserção cada vez mais
precoce de crianças e adolescentes no mercado de trabalho.
Levando em consideração a característica de cor e raça, o estudo
mostra que existe uma proporção maior de negros e pardos em
situação de trabalho infantil, correspondendo a um total de 66,2%,
contra 3% de indígenas e 33,3% da população branca. Conforme os
dados, crianças e adolescentes negras e pardas são as principais
vítimas de trabalho infantil no Brasil. Isso pode ser explicado a partir
do histórico escravocrata do nosso país, que perdurou cerca de 400
anos e negou os direitos mais básicos ao povo negro.

Trabalho Infantil na Feira Livre de Itapetinga-Bahia

O comércio popular de feiras livres, segundo Moreira (2005),


surgiu no Brasil muito antes dos supermercados convencionais,
possuindo uma tradição muito forte de consumo de gêneros
alimentícios, notadamente de produtos perecíveis. Da mesma forma
que a barganha comercial livre é antiga, também o é a vulnerabilidade
social. Ela concentra-se em um amplo e complexo campo conceitual,
instituído por distintas percepções que podem ser direcionadas para o
campo econômico, ambiental, de saúde, de direitos humanos, entre
tantos outros. Essa temática vem sendo trabalhada ao longo de anos,
na defesa de que “a vulnerabilidade não é uma essência ou algo
inerente a algumas pessoas e a alguns grupos, mas diz respeito a

159
determinadas condições e circunstâncias que podem ser minimizadas
ou revertidas” (PAULILO; JEOLÁS, 1999, p.1).
Em todo território nacional é possível identificar a presença de
crianças e adolescentes executando atividades laborais em feiras
livres. Muitos desses meninos e meninas recorrem ao trabalho precoce
por necessidades econômicas dos pais, que, frente à falta de emprego,
ou à baixa remuneração, veem-se obrigados a orientar os filhos a
trabalhar desde cedo, visando à complementação da renda familiar, ou
mesmo ao sustento de suas próprias necessidades.
Nas feiras livres, crianças e adolescentes exercem as mais variadas
funções como: carregador de mercadorias, seja até os automóveis ou
residências dos consumidores; vendedores de frutas e verduras,
produtos fornecidos por feirantes, durante a realização da feira, para
prestação de contas ao término da tarefa; guardador de veículos, entre
outras e, para isso, são utilizados carrinhos de mão ou galeotas.
Em Itapetinga, há quatro feiras livres que funcionam nos
seguintes bairros: Primavera, Nova Itapetinga, Vila Isabel e São
Francisco de Assis. Contudo, as feiras dos três primeiros bairros só
funcionam de fato aos domingos. Já a principal feira livre de
Itapetinga, locus desta pesquisa, funciona de segunda a sábado, na
Central de Abastecimento, em um galpão construído pelo governo
municipal no ano de 1992. Com o crescimento do comércio no
município, foi necessário a ampliar o espaço para dar mais comodidade
aos comerciantes. Assim, em 1994, foi acrescentado um segundo
galpão conhecido como Central de Abastecimento II. Esse mercado
está localizado em uma área privilegiada da cidade, no Bairro São
Francisco de Assis. Saindo do seu entorno em direção ao centro da
cidade passa pela Rua Monteiro Lobato, que, por sua vez, já se tornou
quase uma extensão do próprio mercado, pois é tomada de lado a lado
pelo comércio de bazares e utilidades domésticas. Esse “corredor do
comércio” tem causas no desenvolvimento pretérito do município
(STÜRMER, 2014).
O referido “corredor do comércio”, além de trazer
desenvolvimento para Itapetinga, também poderá contribuir com
crescimento da utilização da mão de obra infantil. Além da Central de
Abastecimento I e II, em suas adjacências se concentram os
supermercados, os restaurantes e os bares, formando, segundo
Moreira (2010), a representação do “estômago da cidade”, ou seja, o

160
local de onde saem alimentos para a maior parte da população do
município. Funcionando no horário comercial de segunda-feira a
sábado, há uma construção comunicativa para compra e venda de
mercadorias que se realizam nesse universo da feira livre.
No mês de dezembro do ano de 2019, fizemos pesquisa na Central
de Abastecimento I e II. Conseguimos coletar os seguintes dados: 23
crianças e/ou adolescentes em situação de trabalho infantil. Contudo,
os dados podem não revelar a real situação, já que não foram levadas
em consideração as crianças e adolescentes que estavam
acompanhados dos seus respectivos responsáveis, ajudando-os em
seus comércios. Assim, dos 23 sujeitos encontrados em situação de
trabalho precoce, 3 são crianças, o que corresponde um percentual de
13,04%,. 20 são adolescentes, representando 86,96%. Levando em
consideração os dados apresentados, percebe-se que o número de
adolescentes é maior do que o de crianças. Outro fator importante é a
questão de gênero: cerca de 8,70% (2) é do sexo feminino, e 91,30% (21)
do sexo masculino.
Em relação às atividades executadas pelas crianças e
adolescentes pesquisados, foi possível traçar um panorama dividido
da seguinte forma: em termos de porcentagem, tomando conta de
veículos 30,43% (7); pegando carrego 17,39% (4); vendendo tempero
13,04 % (3); trabalhando em barracas de verduras 21,74% (5); vendendo
salgados 13,04% (3); e, por fim, trabalhando em barraca de carne 4,35%
(1). Essa última atividade está tipificada na lista de piores formas de
Trabalho Infantil (TIP) da Convenção 182 da Organização Internacional
do Trabalho (1999). O Decreto 6.481, de 12 de junho de 2008
(Regulamenta os artigos 3o, alínea “d”, e 4o da Convenção 182 da
Organização Internacional do Trabalho (OIT) que trata da proibição
das piores formas de trabalho infantil e ação imediata para sua
eliminação, aprovada pelo Decreto Legislativo no 178, de 14 de
dezembro de 1999, e promulgada pelo Decreto no 3.597, de 12 de
setembro de 2000, e dá outras providências), lista mais de 90
atividades que colocam em risco a saúde e segurança das crianças e
adolescentes em situação de exploração do trabalho infantil.
Outro dado importante que conseguimos colher na pesquisa foi a
questão da média de idade das crianças e adolescentes envolvidas
precocemente no trabalho. Percebe-se que as crianças que se
encontram executando atividades trabalhistas, com média de idade

161
dos cinco aos onze anos, corresponde cerca de 13,04% (3) dos casos. Já
em relação aos adolescentes, esse percentual aumenta, chegando a
86,96%. Há um empate em relação aos números dos adolescentes em
situação de exploração de trabalho infantil, na Central de
Abastecimento I e II, com idades entre doze e quatorze anos e quinze
a dezessete anos, foram 10 casos, ou seja, 43,48%.
O ECA, no artigo 60, deixa claro que é proibido qualquer trabalho
aos menores de quatorze anos de idade, salvo na condição de
aprendiz. Entretanto, a Emenda Constitucional nº 20 (BRASIL, 1998) e
a modificação infraconstitucional na Consolidação das Leis do
Trabalho (Lei nº 10. 097, de 19 de dezembro de 2000), ampliaram o
limite de idade para dezesseis anos, em que foi determinada “[...] a
proibição de trabalho noturno, perigoso ou insalubre aos menores de
dezoito anos e de qualquer trabalho a menores de dezesseis anos,
salvo na condição de aprendiz, a partir de quatorze anos” (BRASIL,
2000). Desse modo,

Em se tratando da população de crianças e adolescentes, no que se refere aos


segmentos Trabalho e Educação, existe todo um aparato legal que determina e
assegura direitos em reconhecimento à condição daqueles como sujeitos em
fase de desenvolvimento biológico e psicossocial e, por isso, com necessidades
específicas a esse período. Contudo, se por um lado, existe uma legislação que
lhes confere o status de sujeitos de direitos, determinando medidas de
proteção, como o direito à Educação Básica e a proibição do Trabalho; por outro
lado, a inserção no trabalho em idade precoce chama atenção para que se reveja
até que ponto esses direitos, que em tese são conquistas legais, os é, também,
para a infância e a adolescência das classes populares (SOUSA, 2008, p. 25).

As residências das crianças e adolescentes que trabalham na


Central de Abastecimento I e II ficam, em sua maioria, em bairros
periféricos, longe do centro comercial. Sendo assim, conforme os
dados coletados, os bairros Hilda Gama, Morada do Bem Querer e São
Francisco de Assis, somaram 4,35% (1) dos casos de crianças e
adolescentes que estão em situação de exploração do trabalho
infantil; o Otavio Camões alcançou a média de 8,70% (2); o bairro mais
populoso da cidade, Nova Itapetinga, chegou a soma de 13,04% (3),
seguido pelos bairros Vila Érica (conhecido como 12 de Dezembro) e
Vila Riachão, que tiveram um percentual de 17,39% (4); já o Conjunto
Habitacional José Leal Ivo foi o que apresentou o maior percentual,

162
somando 30,43% (7) dos casos de crianças e adolescentes exercendo
atividades trabalhistas.
Como podemos verificar nos dados acima, o Conjunto
Habitacional José Leal Ivo apresentou um índice relativamente alto de
crianças e adolescentes vítimas de trabalho infantil na Central de
Abastecimento I e II.

Consequências do trabalho infantil

Quais são as consequências do Trabalho Infantil para crianças,


adolescentes e suas infâncias? Claramente, é aquilo que torna
impossível o ciclo de vida da criança em todas as etapas do
desenvolvimento infantil. Isso representa um amadurecimento
precoce que afeta, de forma violenta, o processo cognitivo, emocional
e educacional do indivíduo, além das questões dos transtornos que são
gerados no convívio social e familiar. Isso contribui para que esses
sujeitos, sem uma preparação exigida pelo mercado econômico atual,
futuramente se tornem adultos que continuam apenas a executar os
sub trabalhos.
Para a criança e o adolescente que começam a trabalhar
precocemente, mesmo no senso comum, existe a percepção que ele
perdeu a infância. Como podemos observar na Central de
Abastecimento, existe uma verdade dentro dessa crença, pois a criança
deixa de brincar para trabalhar, passando a assumir a mesma
responsabilidade dos adultos. Além disso, as crianças, por serem
submetidas as condições insalubres em alguns tipos de trabalhos,
geralmente acabam desenvolvendo doenças crônicas (FISCHER, 2003).
As próprias instituições de ensino muitas vezes tendem a facilitar o
processo de exclusão da criança e adolescente trabalhadoras. Isso
também se relaciona ao processo formativo dos educadores, que não
conseguem fazer um trabalho pedagógico com os adolescentes e as
crianças em defasagem idade-série. Vale ressaltar que a falta de um
projeto educacional para dar conta de acompanhar a vítima do trabalho
precoce vai de encontro à Constituição Cidadã, para a qual as “famílias,
o Estado e a sociedade devem firmar o compromisso de garantir o pleno
desenvolvimento integral das crianças” (BRASIL, 1988).
Tomando o trabalho infantil como uma vulnerabilidade social,
caracterizamos que ela está muito mais direcionada aos fatores

163
econômicos, próprios da exploração produtiva do modo capitalista de
produção de países em desenvolvimento, torna-se inaceitável sob
quaisquer condições a exploração da mão de obra infanto-juvenil.
O trabalho infantil pode provocar alguns impactos negativos que,
de certa forma, afetam o desenvolvimento intelectual, físico e
socioemocional de crianças e adolescentes inseridos precocemente no
mercado de trabalho. Assim, tendo em vista o objetivo dessa pesquisa,
analisamos os dados referentes à situação educacional das crianças e
adolescentes que, além estudar, exercem alguma atividade
trabalhista. A partir do relatório do PNAD-2016, foi possível observar
que as vítimas do trabalho infantil são, em sua maioria, alfabetizadas.
No entanto, a faixa etária de 10 a 17 anos não sabe ler. Verificou-se,
também, que a maioria das crianças e adolescentes encontradas em
situação de trabalho infantil no ano de 2016 frequentavam uma
unidade escolar.
Além disso, dados apresentados pelo Fundo das Nações Unidas
para a Infância (UNICEF) e o Instituto Claro, revelam que, no ano de
2018, mais de 2,6 milhões de estudantes de escolas públicas brasileiras
foram reprovados em suas respectivas séries, sendo que a região
nordestina aparece negativamente com 342.316 estudantes evadidos
no ano de 2018 (UNICEF, 2018).
Ao pontuar a questão das crianças e adolescentes que dividem o seu
tempo entre trabalho e escola, os dados apresentados pela PNAD (2016)
mostram que 84%, ou seja, 2.013.761, tem a faixa etária de 5 a 17 anos.
Desse mesmo grupo 6% (377.083 mil) não frequentavam a rede regular de
ensino. Para Marques (2001), dividir o tempo entre escola e trabalho,
crianças e adolescentes estarão sujeitos ao fracasso escolar, pois,

[...] a convivência entre a escola e o trabalho infantil gera perdas significativas


na vida dessas crianças e desses adolescentes, tanto no aspecto lúdico quanto
na formação escolar necessária à emancipação desses sujeitos. Esses
comprometimentos são provocados não só pela necessidade de inserção no
trabalho infantil como alternativa para tentar garantir a subsistência das
famílias, mas também pelas próprias concepções pedagógicas construídas até
então sobre o brincar, o estudar e o ser criança que dificultam o
desenvolvimento de atividades mais prazerosas no contexto escolar e que
acabam colocando em risco as perspectivas de futuro dessas crianças
(MARQUES, 2001, p. 125).

164
Outro fator importante a ser destacado é o perfil econômico das
famílias de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos que se encontram no
contexto de trabalho infantil. Observou-se que 49,83% têm uma renda
per capita menor que ½ do salário mínimo, o que configura família de
baixa renda. As famílias que correspondem 27,80%, tem um ganho
mensal de apenas 1 (um) salário-mínimo. Assim, 77,63% das crianças e
adolescentes em situação de trabalho infantil convivem em um lar que
tem uma renda per capita menor que 1 (um) salário-mínimo (PNAD,
2016). Segundo Rua (2007),

[...] a crise do emprego faz emergir modalidades de economia paralela em que


as crianças são precocemente envolvidas, acabando por abandonar a escola
muito antes de terem cumprido o seu percurso acadêmico, devido ao fato de
possuírem baixas qualificações escolares e profissionais, quer pela dificuldade
de abandonarem os percursos que iniciaram tão cedo e a vida dos quais criam
uma rede de relações difícil de romper (RUA, 2007, p. 207).

Observa-se que, por conta da precariedade da condição financeira


das famílias, meninos e meninas são impulsionados a começar a
trabalhar cada vez mais cedo, tendo em vista a necessidade de
contribuir para complementar a renda familiar. Isso é, para Souza (2010),
um dos fatores que contribui para ocorrência do fracasso escolar:

[...] devido ao trabalho, os trabalhadores precoces não conseguem acompanhar


regularmente os estudos, o que compromete a aquisição dos conceitos
científicos, presentes na instrução formal. Nesse sentido, tendem a não dominar
os conhecimentos mais complexos e abstratos, próprios da evolução natural dos
conteúdos escolares, apresentando defasagens no desenvolvimento de funções
psicológicas superiores, tais como: memória, atenção, generalização, entre
outras que são imprescindíveis na aprendizagem dos conteúdos das diversas
disciplinas escolares, contribuindo assim, para serem reprovados, repetentes e,
não raro, evadirem-se do universo escolar (SOUSA, 2008, p. 154).

Corroborando com a fala de Souza (2010), Alberto (2002) relata


que o ingresso precoce no trabalho contribui para o analfabetismo de
jovens, promovendo baixo nível de escolaridade e a defasagem
escolar. Além disso, o trabalho compromete o estudo, porque leva
meninos e meninas trabalhadores precoces a terem uma rotina
sobrecarregada se esforçando para dar conta das atividades diárias, o
que, de certa forma, provoca cansaço físico e mental, gerando, assim,
desestímulo para estudar e propensão para o abandono escolar.

165
Para compreender a influência do trabalho infantil no baixo
rendimento escolar, Bezerra (2005) utilizou os dados do Sistema
Nacional de Avaliação da Educação Básica (SAEB) de 2003, que possui
informações de testes padrões de língua portuguesa e de matemática
aplicados aos alunos da 4ª e 8ª série (atualmente 3º e 7º ano) do ensino
fundamental e da 3ª série (atualmente 3º ano) do ensino médio, em
escolas públicas e privadas do Brasil. O autor concluiu que o trabalho
infantil, principalmente fora do domicílio e durante longas horas, reduz
o desempenho escolar. Com o desempenho escolar reduzido, a criança
e/ou o adolescente perde a motivação para continuar frequentando a
unidade educacional, levando-o a evadir-se.
Percebe-se que a criança não é compreendida nas suas
especificidades, e a infância não é contemplada como uma fase
importante na vida do sujeito, em que, ao invés de trabalhar, deve-se
brincar e estudar. De acordo com Marques (2001, p. 101), a infância deve
ser vista “como um ciclo de vida em que deve brincar e estudar, mas que,
dada a situação econômica que enfrenta, acaba transformando-se num
período ocupado pelo trabalho infantil, cuja a responsabilidade é com a
sobrevivência familiar”. Outro fator negativo gerado pelo trabalho
precoce de crianças e adolescentes, é o econômico. Estudos realizados
por Kassouf (1999) e por Emerson e Souza (2003), todos utilizando dados
da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), mostram que
um indivíduo que começar a trabalhar mais cedo terá um salário menor
na fase adulta da vida, devido à perda dos anos de escolaridade causado
pelo trabalho infantil. Estando fora do contexto escolar, o jovem terá
menos oportunidades de emprego, o que poderá lhe dar uma melhor
qualidade de vida. Verifica-se que

O abandono precoce da escola e a impossibilidade de adquirir um emprego legal


no mercado de trabalho (só é possível depois dos dezesseis anos) empurram os
jovens para trajetos de vida em que se cruzam todas as condições favoráveis à
entrada no mundo da exclusão social (RUA, 2007, p. 210).

A situação da saúde de crianças e adolescente também deve ser


observada, pois alguns estudos, apesar de a literatura abrangendo
esse tema ser bastante escassa pela falta de dados, constataram
efeitos maléficos do trabalho infantil sobre a saúde dos pequenos
trabalhadores. Forastieri (1997) destaca que, nos locais de trabalho,
equipamentos, móveis, utensílios e métodos não são projetados para

166
utilização por crianças, mas por adultos. Portanto, pode haver
problemas ergonômicos, fadiga e maior risco de acidentes. O autor
argumenta que as crianças não estão cientes do perigo envolvido em
algumas atividades e, em caso de acidentes, geralmente não sabem
como reagir. O fator físico também deve ser levado em consideração,
pois existem

[...] diferenças físicas, biológicas e anatômicas das crianças, quando comparadas


aos adultos, elas são menos tolerantes a calor, barulho, produtos químicos,
radiações etc., isto é, menos tolerantes a ocupações de risco, que podem trazer
problemas de saúde e danos irreversíveis (FORASTIERI, 1997, p. 138).

Segundo dados disponibilizados pelo Sistema de Informação de


Agravos de Notificação (SINAN) do Ministério da Saúde, entre 2007 e
2019, no Brasil, 279 crianças e adolescentes, com média de idade entre
5 a 17 anos de idade, morreram ao sofrer algum tipo de acidente
enquanto executava alguma atividade trabalhista. Outros 46.507
meninos e meninas contraíram algum tipo de doença em função do
trabalho. Os dados revelam ainda, que somente no ano de 2019, 18
crianças e adolescentes perderam a vida trabalhando, outras 2.659
sofreram acidentes. Para compreendermos a gravidade do problema,
os números apresentados podem não condizer com a realidade, tendo
em vista que muitos casos decorrentes do trabalho infantil nem
sempre são identificados e notificados por profissionais de saúde, no
SINAN, fazendo com o que o número de agravos não seja conhecido
na sua totalidade.
Conforme dados do SINAN, nos últimos 12 anos, aconteceram
27.924 acidentes graves com crianças e adolescentes, sendo que
10.338 foram em uma das mãos, o que ocasionou em 705 amputações
do punho e da mão. Os dados revelam que os adolescentes, com faixa
etária de 14 a 17 anos (27.076 notificações), são os que mais sofrem
acidentes em membros superiores e inferiores: cabeça, mãos e pés.
O levantamento do SINAN também mostra que crianças e
adolescente que trabalham podem sofrer acidentes com animais
peçonhentos. Nesses 12 anos, o sistema registrou 15.147 notificações,
além de 3.176 casos de intoxicação por produtos químicos,
agrotóxicos, plantas e outros, bem como 165 casos de distúrbios
osteomuscular por esforço repetitivo.

167
Assim, diante dos dados apresentados acima, percebe-se o
quanto o trabalho precoce representa uma acelerada maturação, que
pode agravar o quadro da saúde de crianças e adolescentes, além de
criar um rompimento no convívio social e familiar. O resultado futuro
será um adulto inválido ou incapaz de exercer atividades trabalhistas,
por causa dos problemas de desenvolvimento físico e psíquico, doença
dos ossos, coluna, auto-estima, pulmão, desnutrição, exposição solar,
fadiga interna e outros (FISCHER, 2003).

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171
172
ESTRATÉGIAS DE DEFESA DA POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA
EM MATÉRIA PENAL: o caso da ocupação Babilônia,
em Aracaju-Sergipe

Ilzver de Matos Oliveira1


Alberto Hora Mendonça Filho2
Rafael Leão Nogueira Torres3
Pedro Meneses Feitosa4

No ano de 2020, os noticiários do estado de Sergipe veicularam


que onze homens em situação de rua, residentes na Ocupação
Babilônia - prédio desocupado localizado no centro de Aracaju (SE) -
foram presos sob a suspeita de terem praticado crime de homicídio.
Neste contexto, o presente estudo se debruça sobre o caso para

1
Pós-doutor (PPGD/UFBA). Doutor em Direito (PUC-Rio). Mestre em Direito (UFBA).
Professor do Programa de Pós-graduação em Direitos Humanos e Políticas Públicas da
Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PPGDH/PUCPR). Membro da Clacso
Espanha. Ex-Presidente da Comissão da Verdade Sobre a Escravidão Negra da Ordem
dos Advogados do Brasil - Seccional Sergipe (OAB/SE). E-mail: [Link]@[Link]
Lattes: [Link] ORCID: [Link]/0000-0002-3710-7237
2 Advogado. Mestre em Direitos Humanos pela Universidade Tiradentes (UNIT/SE).

Especialista em Direito Penal e Criminologia pela Pontifícia Universidade Católica do


Rio Grande do Sul (PUC/RS) e em Direito Eleitoral pela Fundação Superior do Ministério
Público (FMP/RS). Bacharel em Direito pela UNIT/SE. Professor de Direito Penal e
Processo Penal da graduação e da Pós-Graduação do Centro Universitário Estácio de
Sergipe. Integrante dos Grupos de Pesquisa "Políticas públicas de proteção aos
direitos humanos" e "Novas tecnologias e o impacto nos Direitos Humanos",
presentes no diretório do CNPq. Conselheiro do Instituto da Advocacia de Sergipe
(IASE). Email: alberto@[Link]. Lattes: [Link]
278975. Orcid: [Link] 0000-0002-2169-2523
3 Advogado. Especialista em Ciências Criminais (Guanambi-BA). Pós-graduado em Direito e

Processo Tributário (CERS). Pós graduando em Direito Penal Econômico (PUC-MG).


Bacharel em Direito (Unit-SE). Membro Efetivo do Instituto da Advocacia de Sergipe (IASE).
Conselheiro Estadual da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas
(ABRACRIM/SE). Ex-Presidente da Comissão de Estudos Penais da Ordem dos Advogados
do Brasil - Seccional Sergipe (OAB/SE). E-mail: rafaelleao09@[Link]
4 Advogado. Mestre em Direito pela Universidade Tiradentes/SE. Graduado em Direito pela

Universidade Tiradentes/SE. Professor da Graduação em Direito no Centro Universitário


Estácio de Sergipe. E-mail: [Link]@[Link]. Lattes. [Link]
7137246666834791. ORCID: [Link]

173
debater as possibilidades e caminhos a trilhar na defesa técnica da
população em situação de rua em matéria penal.
Para isso, inicialmente, busca-se compreender o que é a
Ocupação Babilônia, qual foi a repercussão do caso na mídia sergipana
e o excesso da linguagem adotado, aliado à reprodução de estigmas
sociais e criminalizações, ao tratar sobre o assunto, tanto pela mídia
quanto pelo sistema de justiça. Em seguida, investigam-se os principais
elementos constitutivos das decisões judiciais prolatadas no processo
e os caminhos traçados pela defesa dos acusados para enfrentar as
violações de direitos humanos que ainda permeiam a atuação do
sistema de justiça no tema população em situação de rua.
A primeira análise aborda a utilização do habeas corpus que, mais
do que uma ferramenta processual penal, constitui-se num remédio
constitucional destinado a garantir o direito fundamental à liberdade
de locomoção.
No segundo tópico, abordam-se os temas referentes: 1) à
ausência de risco à garantia da ordem pública ou da conveniência da
instrução processual - notadamente diante da violação à
individualização da prisão na decisão combatida; 2) à impossibilidade
da aplicação da prisão preventiva em crimes cuja pena máxima é
inferior a quatro anos e; 3) ao risco à integridade dos custodiados, que
permaneceram num cárcere insalubre em momento de crise sanitária
(pandemia da Covid-19).
Estuda-se, ainda, a partir do caso estudado, o instituto da
revogação da prisão preventiva, enquanto instrumento voltado a
garantir a liberdade das pessoas que foram presas de forma, em que
pese legal, desnecessária. Este trabalho está, dessa maneira, em
simbiose com a análise das estratégias de defesa e das formas de
manejo do pedido de liberdade, diante da ausência de periculum
libertatis, isto é, perigo na liberdade do custodiado, e/ou fumus comissi
delicti, ou seja, indícios de autoria delitiva.
O prognóstico que esse artigo visa confirmar ou negar é de que
quando a defesa técnica se atém aos institutos jurídicos criados para
coibir excessos de poder e decisões que carecem de razoabilidade, a
probabilidade de o direito constitucional à liberdade de locomoção ser
efetivado cresce significativamente.
O método de abordagem para realização do estudo é o dedutivo,
partindo-se de premissas gerais sobre o caso, para chegar ao final a uma

174
discussão específica sobre a utilização das ferramentas jurídicas para
garantia do direito à liberdade. A pesquisa realizada é bibliográfica e
documental, sobretudo em arquivos judiciais, com uso da técnica do
estudo de caso único incorporado. O marco teórico utilizado teve como
base a teoria crítica do direito penal, de modo que, a partir da
elaboração do presente artigo, busca-se contribuir com a comunidade
acadêmica, movimentos sociais e sistema de justiça na realização de
estudos sobre as matérias tratadas, isto é, os direitos material e
processual penal na perspectiva da população em situação de rua.

Entre os fatos e os autos: uma breve sinopse do caso da ocupação


Babilônia

No prédio abandonado, que antes abrigava a antiga Delegacia


Plantonista de Aracaju, Estado de Sergipe5, inúmeras pessoas e
famílias em situação de rua6 passaram a residir, constituindo a
chamada “Ocupação Babilônia”.
Em 14 de março de 2020, onze homens em situação de rua residentes
nesta ocupação foram presos em flagrante pela suposta prática dos
delitos dos artigos 157, §3º, II, e 163, ambos do Código Penal – latrocínio e
dano, respectivamente. Por ocasião da audiência de custódia, realizada
em 15 de março de 2020, o Juízo Plantonista homologou o flagrante e o
converteu em prisão preventiva sob o pretexto de garantir a ordem
pública, sustentando que alguns eram egressos do sistema prisional e que

5 O referido imóvel localiza-se na Avenida Pedro Calazans, 503, no Centro da cidade de


Aracaju, estado de Sergipe. (INFONET. 2009). Historicamente, a prática da higienização tem
se repetido nas cidades, a lógica desse processo é “limpar” a cidade e livrá-la da parcela “feia”,
“suja”, “ignorante”, “drogada” e outros estereótipos mais. Alguns dos exemplos dessa
técnica de higienização relatados por Nonato (2018) são os megaeventos ocorridos no Brasil
- Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 - e a megaoperação da Cracolândia,
em São Paulo em 21 de maio de 2017.
6 No presente trabalho, utiliza-se o termo população em situação de rua, como sendo

“um grupo populacional heterogêneo, composto por pessoas com diferentes


realidades, mas que têm em comum a condição de pobreza absoluta, vínculos
interrompidos ou fragilizados e inexistência de moradia convencional regular, sendo
compelidos a utilizarem a rua como espaço de moradia e sustento, por contingência
temporária ou de forma permanente.” (BRASIL, 2006, p.7). A conceituação legal ou
jurídica de “pessoas em situação de rua” foi estabelecida pelo Decreto no 7.053, de 23
de dezembro de 2009, que institui a Politica Nacional para a População em Situação de
Rua e seu Comitê Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento. (BRASIL, 2009).

175
eles não possuíam trabalho e residência fixa, bem como pelo fato que
“ocupam uma invasão.”7 (SERGIPE, 2022).
Convém o destaque de que a fim de formar a sua convicção a
respeito dos indícios de autoria dos delitos em comento, o Juízo
considerou unicamente os depoimentos dos policiais que conduziram
os flagrados. (SERGIPE, 2022).
No dia seguinte, a imprensa sergipana noticiou que “uma gangue
formada por cerca de 20 moradores da Invasão Babilônia realizou um
arrastão em uma residência [...] em frente à entrada da garagem da antiga
plantonista, onde estava sendo realizada uma festa.” (DARRAGE, 2020).
Narrou ainda que “os marginais chegaram no local agredindo as
pessoas, recolhendo os pertences e apedrejando veículos que estavam
estacionados em frente à residência.” (DARRAGE, 2020).
Outros órgãos da imprensa veicularam o fato com as manchetes abaixo:

Figura 1

Fonte: INFONET, 2020.

7As informações sobre o caso foram obtidas no processo de n.º 202020300208 – Auto
de Prisão em Flagrante (SERGIPE, 2022) - que tramitou na 3ª Vara Criminal da Comarca
de Aracaju, Estado de Sergipe, cuja consulta pública pode ser realizada no portal do
Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe.

176
Figura 2

Fonte: JORNAL DA CIDADE, 2020.

Nonato (2018) ao abordar como, ao elaborarem matérias como as


expostas acima, que defendem e incentivam a brutalidade policial,
entre outros mecanismos arbitrários, como estratégia para combater
a violência e a criminalidade em nome de uma pretensa garantia de
segurança e da ordem pública, a mídia policialesca e a polarização
político-partidária elaboram e reproduzem narrativas equivocadas que
influenciam o senso comum e os órgãos de segurança pública, diz que:

Nesse contexto, as pessoas em situação de rua são alvo preferencial de um


processo de higienização urbana e criminalização da pobreza levado a efeito
pelos órgãos de segurança pública, fato que as invisibiliza, colocando-as em
permanentes condições de vulnerabilidade diante da atuação de tais órgãos.
Desse modo, [...] objetiva-se refletir a respeito do tratamento higienista e
criminalizante dispensado à população em situação de rua, uma verdadeira
expansão da violência nas grandes cidades brasileiras, levada a efeito mediante
o policiamento em nome da suposta garantia de segurança e da ordem públicas.
O estudo conclui que as inúmeras formas repugnantes de violência contra as
pessoas em situação de rua, sujeitos ditos perigosos e indesejáveis sociais,
correspondem a uma manifestação ou estratégia neoliberal na área de
segurança pública. O estudo finaliza, igualmente, afirmando que a atual matriz
operacional e ideológica dos órgãos de segurança pública diante desse público
deita raízes na herança de autoritarismo que marca a metodologia operacional
desses órgãos e que atinge diretamente pessoas e grupos social e
economicamente menos favorecidos. (NONATO, p. 90-91).

177
Assim como a imprensa, o direito penal constituiu-se
historicamente num dos principais instrumentos de opressão das
populações rejeitadas: negros, indígenas, povos de terreiro e de matriz
africana e outros povos e comunidades tradicionais, como os povos
ciganos e, também, os que não tinham onde morar e nem trabalho.

A criminalização da mendicância no Brasil é secular e remonta às Leis Criminais


do Império. No Código Penal da República, a mendicância e a vadiagem
ganharam dois capítulos inteiros, estabelecendo-se a prática como
contravenção, cabendo cinco (5) artigos aos mendigos e três (3) aos vadios,
sendo que a diferença entre os dois não fica absolutamente clara. Observa-se
que o mesmo sentimento que dominava a sociedade brasileira naquela época
vigora até hoje: manter-se os bons costumes e o valor ao trabalho (valor capital-
trabalho), protegendo a sociedade de todos que vão contra esses preceitos e,
para tal proteção, pautam-se em políticas de segurança pública e,
consequentemente, na criminalização e repressão, que acabam incentivando a
higienização e segregação social. (FIGUEIREDO e GUERRA, 2016, p.165).

Neste mesmo sentido, diz Nonato (2018):

Há de se registrar ainda que a atual matriz operacional e ideológica dos órgãos de


segurança publica quanto à população em situação de rua deita raízes nas
experiências e organizações autoritárias do Brasil-Colônia, encarregadas de
manter a ordem local, de conteúdo essencialmente particularizado. Isso significa
afirmar que o modelo de policiamento majoritariamente aplicado nos dias atuais
está umbilicalmente atrelado às diversificadas formas de coerção como
perspectivas aptas à manutenção da ordem, e, enquanto tais, assentam-se na
preocupação institucional de controle social dos menos favorecidos social e
economicamente, ou seja, os órgãos de segurança que monopolizam as ações
nesse setor agem de maneira seletiva e reativa em relação ao uso da forca. (p.108)

Lima e Oliveira (2016) ao discutirem desmilitarização das polícias,


política criminal e direitos humanos no Estado de Direito, defendem que
não obstante os processos de construção e aniquilação do indivíduo não
padronizado não sejam questões apenas de uma determinada época,
mas sistêmicas, “o esforço teórico em torno da busca de um consenso
entre polos ideológicos opostos coloca um desafio ético importante: para
além dos discursos, tanto de esquerda quanto de direita, a aceitação do
diferente deve ser uma prática cotidiana.” (p.12). Entretanto, dizem os
autores, “numa breve análise de posturas de blocos, movimentos,
partidos políticos e outras instituições, o que se percebe é que a prática

178
dos que se identificam como direita é mais segregadora e excludente,
notadamente no Brasil.” (p.12).
Diante desse complexo contexto, a defesa técnica dos onze
homens em situação de rua presos no Caso da Ocupação Babilônia
impetrou habeas corpus ao Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe e
requereu a revogação da prisão preventiva, o que resultou na
restituição da liberdade dos, à época, investigados8. É sobre essas
estratégias de defesa que se debruçará a seguir.

Estratégias de defesa da população em situação de rua em matéria penal

Além das dificuldades e chagas intrínsecas aos casos penais,


sobretudo no sistema neoinquisitivo9 e pela presença do protagonismo
judicial10, vale frisar os peculiares complicadores do caso em questão11:
1) a discriminação da população em situação de rua e de ativistas de
movimentos sociais; 2) entraves no diálogo com a família dos
constituintes ou pessoas próximas pela inutilização de meios de
comunicação e; 3) o baixo acesso a documentos – inclusive aos
indispensáveis à cidadania, como, por exemplo, a carteira de identidade.
Figueiredo e Guerra (2016) dizem que, por conta do processo de
escravidão e da forma como o capital se desenvolveu no Brasil, a
pobreza e os pobres sempre foram tratados como questão de polícia.
Dizem os autores que “a questão penal é o campo preferido das

8 As referidas informações foram obtidas a partir da consulta aos autos de n.º


202000308220 e 202000308687, que tramitaram na Câmara Criminal do Tribunal de
Justiça do Estado de Sergipe e 202020500184 de competência da 5ª Vara Criminal da
Comarca de Aracaju (SE), cuja consulta pública pode ser realizada a partir do portal do
Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe.
9 O processo penal segue uma postura inquisitória ou neoinquisitória, porquanto a

gestão das provas, mesmo na fase processual, fica nas mãos do Juízo, conforme
defende Lopes Jr. (2020, p. 52).
10 A presença de “uma figura excessivamente ativa do julgador acomete e inviabiliza o

sistema acusatório, porque o macula, radicalmente, com a pecha de parcial, além de


que o juiz-ator não detém o locus privilegiado, que a ordem constitucional o aloca, para
fiscalizar a observância do rito processual consonante às garantias e direitos do réu”
(MENDONÇA FILHO; JABORANDY, 2019).
11 Além do Caso da Ocupação Babilônia, a cidade de Aracaju se tornou destaque

nacionalmente após receber diligência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias


da Câmara dos Deputados, em agosto de 2021, para averiguar denúncias de violência
policial da desocupação da Ocupação João Mulungu. (CDHM, 2022).

179
pulsões do Estado de polícia, pois é o muro mais frágil de todo Estado
de Direito.” (p.168).

As evidências do Estado Penal se expressam de pelo menos duas maneiras: no


estigma (estigmatizando) e na criminalização. Em relação ao estigma, o termo
era usado por outras civilizações, como os gregos, que tinham o estigma no
próprio corpo como sinal que o diferenciava como indivíduo, ou seja, para
evitar contatos sociais. Hoje, a palavra estigma representa “algo de mal”, que
deve ser evitado, uma ameaça à sociedade, isto é, uma identidade deteriorada
por uma ação social. Já o conceito de criminalização é explicado como ato de
imputar crime ou ato de tomar como crime a ação ou ações de determinados
grupos sociais. A criminalização e o estigma assumem contornos raciais e
étnicos, na medida em que a população de rua é tida como perigosa para a
sociedade, considerada ameaçadora para o patrimônio público. (FIGUEIREDO
E GUERRA, 2016, p.169).

Figueiredo e Guerra (2016) defendem, assim, que a população de


rua desvela uma desigualdade/anormalidade dentro do sistema
socioeconômico que os coloca em condição de vulnerabilidade e, o
que deveria ser uma condição de tutela dessa população, essa
vulnerabilidade os estigmatiza criminalmente e a eles, então, impõe-se
o encarceramento massivo, como se fosse a saída ideal para os
problemas sociais, mas, que só finda produzindo mais marginalizados,
mais estigmatizados, violações de direitos humanos e de garantias
fundamentais. (p. 171 a 174).
É como diz Carnelutti:

Considerar o homem como uma coisa: pode-se ter uma forma mais expressiva
da incivilidade? Mas é aquilo que acontece, infelizmente, nove entre dez vezes
no processo penal. Na melhor das hipóteses aqueles que se vão ver, fechados
nas jaulas como os animais do jardim zoológico, parecem homens de mentira ao
invés de homens de verdade. E se, todavia, alguém percebe que são homens de
verdade, parece-lhe que são homens de outra raça ou, quase, de outro mundo.
Este não lembra, quando sente assim, a parábola do publicano e do fariseu, nem
suspeita que a sua seja justamente a mentalidade do fariseu: eu não sou como
este. (CARNELUTTI, 2017, p.9-10).

Nonato (2018), nessa mesma linha, retoma o conceito do que


Wacquant (2011, p. 38) chama de “legitimação da gestão policial e
judiciaria da pobreza que incomoda”, isto é, o Estado é mínimo na
garantia do bem comum e máximo no seu exercício de marginalização,
exclusão e o conceito de “criminalizacao da miséria”, como se

180
expressa Wacquant (2003, p. 19) o que para Notato (2018) é a tônica
das políticas de segurança pública dirigidas à população em situação
de rua: políticas que não são voltadas para a sua proteção, mas sim
para a criminalização de seus comportamentos característicos e que
usam eufemismos para esconder o que se busca de fato, ou seja, “a
penalização/criminalização da pobreza. As abordagens truculentas e
as medidas higienistas de intervenção no espaço visam aos interesses
estéticos das cidades, a serviço de grupos econômicos e sociais
dominantes.” (p. 108).

No caso das pessoas em situação de rua, apesar das condições adversas de


sobrevivência que enfrentam, espera-se que sejam ordeiras, trabalhadoras e
vivam conformadas com o pouco que tem, para que não haja justificativa de
intervenções à guisa de uma verdadeira cruzada de limpeza da cidade, sob o
pretexto de que ameaçam a segurança da população, que as considera, embora
sem fundamento, integrantes de uma “classe perigosa”, que ameaça o bem-
estar de toda a sociedade, sendo isso, porém, um mito fabricado e manipulado
em nome do denominado “clamor popular”. (NONATO, 2018, p. 105).

Assim, após a contextualização dos fatos e dos autos judiciais


correspondentes, feita anteriormente, passa-se à análise dos
principais elementos constitutivos das decisões judiciais prolatadas no
processo e os caminhos traçados pela defesa dos investigados para
enfrentar as violações de direitos humanos que permeiam a atuação
do sistema de justiça no tema população em situação de rua.
Num primeiro instante, explicou-se, nas petições, o standard
jurídico vigente no Brasil a respeito da liberdade e a teleologia das
prisões cautelares, bem como, o modo através do qual a Constituição
Federal assegura, em seu artigo 5º, LVI, que ninguém será preso senão
em flagrante ou por ordem escrita e fundamentada da autoridade
judiciária competente. (BRASIL, 1988).
A prisão preventiva, então, não pode servir como uma
antecipação da pena sob risco de esvaziamento do devido processo
legal e da presunção de inocência como norma de tratamento,
segundo a qual o indivíduo deve ser considerado inocente até o
trânsito em julgado de uma condenação. Esta compreensão, inclusive,
restou ratificada pelo Supremo Tribunal Federal, por ocasião do
julgamento das Ações de Diretas de Constitucionalidade 43, 44 e 54,
que afastou a famigerada execução provisória da pena. (STF, 2019).

181
Sob este prisma, a decisão recorrida caminhava, grosso modo,
pela generalização dos fundamentos da cautelar, de forma que a
reincidência – e possível prática de latrocínio – não pode servir de base
idônea para uma nova prisão. Não é pelo cometimento de um crime no
passado que, necessariamente, a pessoa praticará outros. No caso,
não só a decisão fundamentou genericamente a reincidência como
ameaça de lesão à ordem pública, como estendeu o argumento a
terceiros que têm a primariedade ao seu favor.
Com isso, o referido argumento configura flagrante ilegalidade,
ao passo em que vai de encontro à individualização da prisão. Nos
termos do Art. 282, § 6º, do Código de Processo Penal, a prisão
preventiva somente será determinada quando não for cabível a sua
substituição por outra medida cautelar e o não cabimento da
substituição por outra medida cautelar deverá ser justificado de forma
fundamentada nos elementos presentes do caso concreto, de forma
individualizada. (BRASIL, 1941).
Assim, não pode o magistrado decretar qualquer cautelar sem que
seja de forma individualizada, sobretudo em se tratando de constrição da
liberdade, medida extrema que deve ser aplicada em último caso.
Nesse sentido, também, Nucci (2011) destaca que o magistrado deve
examinar o fato e a autoria, em detalhes, para aplicar, adequadamente, a
medida cautelar restritiva de liberdade, individualizando-a, visto que há
várias à mercê do julgador para a imposição.
Além disto, com a recente reforma trazida pela Lei n.º
13.964/2019, o Código de Processo Penal acresceu no Art. 312 que a
decisão que decretar a prisão preventiva deve destacar o “perigo
gerado pelo estado de liberdade do imputado.” (BRASIL, 1941).
Desse modo, o argumento inicial é de que, como apenas houve o
reconhecimento de dois dos onze presos como autores do suposto
latrocínio, a infração, em tese, praticada pelos demais, seria o delito de
dano, previsto no artigo 163 do Código Penal12, cuja pena máxima
abstratamente cominada é inferior a quatro anos, o que não autoriza

12À conduta de “destruir, inutilizar ou deteriorar coisa alheia”, aplica-se a pena de


detenção de um a seis meses ou multa. Mesmo na forma qualificada, a pena máxima
é de três anos. (BRASIL, 1940).

182
a segregação cautelar, nos termos do artigo 313, I, do Código de
Processo Penal13.
Além desta primeira estratégia, buscou-se repelir o argumento de
que são “moradores de uma invasão” como justificativa para a prisão
cautelar. Isto porque, segundo Lima (2020) a prisão decretada com
fundamento na conveniência da instrução criminal não pode se basear
em mera conveniência, mas a fim de impedir que o investigado
perturbe ou impeça a produção de provas. Meras ilações ou
conjecturas desprovidas de base empírica concreta não autorizam a
decretação da prisão do agente com base na necessidade em
assegurar a aplicação da lei penal.
Demonstrou-se, ainda, a inexistência de perigo na liberdade dos
agentes, visto que desnecessárias para acautelar o processo. Diante do
contexto pandêmico, citou-se, na oportunidade, a Recomendação n.º
62/2020 do Conselho Nacional de Justiça - CNJ, que recomendou a
utilização excepcional de prisões preventivas em se tratando de crime
cometido com violência ou grave ameaça contra pessoa, observando-se
a adequação das medidas cautelares diversas da prisão. (BRASIL, 2020).
O “Guia de Atuação Ministerial: defesa dos direitos das pessoas
em situação de rua”, produzido pelo Conselho Nacional do Ministério
Público (CNMP, 2015), inclusive, no item que aborda as suas diretrizes
de atuação, diz que a situação de extrema vulnerabilidade na qual as
pessoas em situação de rua se encontram, decorrente das diversas
espécies de atos discriminatórios e do não acesso à fruição de direitos
fundamentais, exige que o trabalho de fiscalização do Ministério
Público esteja conectado com o Decreto Federal n. 7.053 de 2009, que
institui a Política Nacional para as Pessoas em Situação de Rua e, em
relação às medidas relativas à liberdade pessoal, sugere aos membros
do Ministério Público da União e dos Ministérios Públicos dos Estados
que atuem de modo a:

13Prevê a lei que: “Art. 313. Nos termos do art. 312 deste Código, será admitida a
decretação da prisão preventiva: [...] nos crimes dolosos punidos com pena privativa
de liberdade máxima superior a 4 (quatro) anos.” (BRASIL, 1941). Segundo Lima
(2020), “Atento ao princípio da proporcionalidade, o dispositivo visa evitar que o mal
causado durante o processo seja desproporcional àquele que, possivelmente, poderá
ser infligido ao acusado quando de seu término. Ou seja, ao decretar a prisão
preventiva, deve o juiz fazer um prognóstico se, ao término do processo, ao réu
poderá ser aplicada pena privativa de liberdade”.

183
I - Zelar pela observância da Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001, para que a
internação, em qualquer de suas modalidades, só seja efetivada quando os
recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes, assim o fazendo
mediante laudo médico circunstanciado que aponte os seus motivos; e que a
internação compulsória só seja determinada, de acordo com a legislação
vigente, pelo juiz competente, que haverá de levar em conta as condições de
segurança do estabelecimento quanto à salvaguarda do paciente, dos demais
internados e dos funcionários;
II - Impetrar ação de habeas corpus para fazer cessar restrição à liberdade da
pessoa em situação de rua presa com fundamento na contravenção penal de
vadiagem (conduta descrita pelo art. 59 do Decreto-Lei n. 3.688, de 3 de outubro
de 1941 – Lei das Contravenções Penais);
III - Zelar pela inocorrência de prisões arbitrárias ou medidas de restrição de
liberdade baseadas em estigmas negativos e preconceitos sociais, tais como as
prisões para averiguações;
IV - Adotar medidas judiciais, inclusive a eventual impetração de ação de habeas
corpus, para fazer cessar restrição à liberdade decorrente de prisão provisória que se
mostre abusiva ou que evidencie intenção de criminalização da pobreza ou de
movimentos sociais, promovendo a apuração da responsabilidade pelo abuso de
autoridade, nos termos do artigo 653 do Código de Processo Penal. (p.29-30)

Assim, tanto na segunda instância por meio de habeas corpus


quanto em petição dirigida ao próprio juízo singular, a defesa buscou
a restituição da liberdade, asseverando a inidoneidade de tal
constrição, influenciada claramente por fatores raciais e
socioeconômicos. O Poder Judicário acolheu os argumentos e os
pedidos, afastando as citadas mitigações da liberdade.

Conclusão

Tratou-se nesse artigo sobre a prisão de onze homens em


situação de rua, residentes na Ocupação Babilônia, no centro da capital
do estado de Sergipe, Aracaju. Inicialmente, constatou-se que a
Ocupação, situada na antiga Delegacia Plantonista de Aracaju/SE,
possui inúmeras famílias abrigadas na sua estrutura desde 2015 e que
historicamente enfrentam oposição dos órgãos do sistema de justiça.
Entre manifestações da mídia sergipana, que veiculou manchetes
nas quais trataram do caso com diversas adjetivações que evidenciam
o excesso de linguagem, por exemplo, a identificação pelos termos
“gangue” e “marginais”, o texto analisou como foi estruturada a
defesa técnica, visando à liberdade dos onze homens presos no Caso
Babilônia, em razão das sua condição de pessoas em situação de rua,

184
notadamente, os fundamentos jurídicos que embasaram a impetração
de habeas corpus e do pedido de revogação da prisão preventiva,
trazendo uma perspectiva crítica acerca de como a prisão preventiva
não pode servir como antecipação de pena, sob risco de esvaziamento
do devido processo legal.
Depreendeu-se, inicialmente, o entendimento de que a decisão
genérica não possui condão de legitimar a custódia de alguém,
sobretudo quando utilizados argumentos característicos de terceiros
para justificar o cárcere de outrem. Por isso, a legislação processual
penal é clara ao indicar que as decisões devem ser fundamentadas
considerando o caso concreto individualmente.
Em seguida, investigaram-se os principais elementos
constitutivos das decisões judiciais prolatadas no processo: 1) que
havia risco de que os suspeitos, por serem moradores de uma
ocupação, não fossem encontrados para que pudessem responder ao
processo; 2) que alguns dos presos seriam reincidentes e; 3) que o
suposto crime praticado seria grave.
Ocorre que esses elementos constitutivos, quando analisados
pela Corte Sergipana foram afastados, de modo a respeitar o fato de
que as meras conjecturas desprovidas de base empírica concreta não
autorizam a decretação da prisão do agente, afinal, não se constava
nos autos qualquer informação de que os onze homens em situação
de rua presos no Caso Babilônia estivessem influenciando na produção
de provas ou conjecturavam fugir do distrito da culpa.
Para corroborar com essa análise, foram trazidas jurisprudências
do Supremo Tribunal Federal, do Superior Tribunal de Justiça e do
Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe.
Nesse contexto, investigou-se, ainda, como a defesa traçou os
caminhos para elaborar as suas teses e para garantir o direito à liberdade
dos suspeitos. Além da indicação de que a decisão que fundamentou a
custódia carecia de fundamentação, o impetrante do habeas corpus
justificou ausência de fumus comissi delicti e periculum libertatis.
Em relação aos pedidos de liberdade, ficou evidente: 1) a
importância das alegações da impossibilidade da aplicação da prisão
preventiva em crimes cuja pena máxima é inferior a quatro anos e; 2)
que havia fundado risco à integridade dos custodiados, visto que a
prisão ocorreu durante a pandemia da Covid-19.

185
O artigo ainda abordou a estratégia defensiva, a partir do caso
concreto, do instituto da revogação da prisão preventiva enquanto
instrumento voltado a garantir a liberdade das pessoas que foram
presas de forma - ainda que legal - desnecessária.
Portanto, confirmou-se o prognóstico de que quando a defesa
técnica se atém aos institutos jurídicos criados para coibir excessos
de poder e decisões que carecem de razoabilidade, a probabilidade
de o direito constitucional à liberdade de locomoção ser efetivado
cresce significativamente.
Ainda, as conclusões apontam para a necessidade de mudanças
na formação do sistema de justiça e na necessidade de construção de
espaços de atendimento jurídico qualificado para as demandas penais
da população em situação de rua, sejam promovidos pelos poderes
públicos ou por organizações sociais.

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189
190
EDUCAÇÃO SOCIAL DE RUA E
PESQUISAS COM PESSOAS EM
SITUAÇÃO DE RUA

191
192
EDUCADOR SOCIAL DE RUA:
um andarilho da esperança para os (in)visibilizados das ruas

Jacyara Silva de Paiva1


Marluce Lucas da Silva Firmino2

Quem é esse peregrino


Que caminha sem parar?
Quem é esse meu poeta
Que ninguém pode calar?
Quem é esse?
(MILTON NASCIMENTO, 1990, faixa 07)

Falando sobre caminhos e caminhadas

Peregrina: é assim que sinto, é assim que me coloco no mundo da


vida, caminhando aberta às solidariedades, às intempéries e aos
aprendizados dos caminhos que se abrem diante de mim. Durante o
tempo em que caminhei como educadora nas ruas, procurava
conhecer os cenários por onde ia. Buscava a melhor visão com um
olhar ora compreensivo, ora indignado e reflexivo, mas, sobretudo,
atento e curioso.
Como seres humanos, aprendemos a andar. Desde então, estamos
ora ali, ora acolá sempre indo e vindo, partindo e chegando por mil
motivos. Existem peregrinos romeiros, que caminham por fé;
peregrinos andarilhos, que caminham para experienciar o andar.
Também existem os andarilhos (in)visíveis, que se deslocam por pura
falta de opção , forçados pela injustiça social, como os que vivem no
exílio, os que fogem da fome, os que se deslocam porque devem. Por
último, existem os engajados, uma palavra cara nos anos 1960, que são
os comprometidos com uma causa (BRANDÃO, 2008,p. 40). Denomino
estes de andarilhos da esperança em meio à distopia social.

1 Professora Dra adjunta do Centro de Educação, departamento de Linguagens, cultura

e Educação da Universidade Federal do Espírito Santo, pesquisadora do programa de


Pós-graduação de Psicologia Institucional– PPGpsi, coordenadora do Núcleo de
Estudos Afro Brasileiros da Universidade Federal do Espírito Santo.
2 Graduada em Psicologia.

193
Há tempos, venho sendo andarilha. Em 1982, fiz um caminho que
mudaria para sempre meu existir no mundo. Saí de Vitória para Recife,
à época, comprometida com uma causa religiosa e não parei mais de
“andarilhar”. Aprendi o gosto da vida em outros lugares, em aprender
com a experiência do outro, em perceber, em escutar o caminho de
minhas andarilhagens.
Iniciei minha vida profissional na cidade do Recife, trabalhando
nas ruas. Aos 19 anos, quando entrei no Seminário de Educadoras
Cristãs em Recife, tive minha primeira experiência trabalhando em
uma ONG chamada visão mundial, em parceria com a Igreja Batista da
Concórdia, em Pernambuco
No início, fazia abordagens nas ruas da cidade do Recife, durante a
madrugada com um grupo de jovens, todos evangélicos. Nosso objetivo
maior era evangelizar, no sentido proselitista e dogmático da palavra,
prostitutas e viciados que faziam das ruas seu lugar de morada. Um grupo
ingênuo de jovens, sem formação específica, querendo mudar o mundo a
partir da religião, no final da ditadura militar.
Estar com aquelas pessoas era algo estranho, paradoxal, que me
fazia enxergar o tamanho da invisibilidade delas para sociedade. Com
o passar do tempo, fui morar em um bairro onde chamado Brasília
Teimosa3. Lá, existia uma famosa zona de prostituição com o objetivo
de realizar um trabalho religioso e social com as prostitutas e seus
filhos. Assim, realizava o trabalho nas ruas de Recife e no bairro de
Brasília Teimosa.
Nesse momento histórico, no final da ditadura militar, o Brasil
reagia fortemente às arbitrariedades do governo militar, no final da
década de 70, início de 80. O governo militar não conseguia mais
esconder seus fracassos e arbitrariedades da sociedade. O Brasil vivia,
então, a plena revitalização dos movimentos sociais e das lutas pela
democratização de um país imerso na desigualdade social, com graves
problemas econômicos e sociais. Em meio a esse contexto de saúde
civil, emergia uma luta contra a abordagem repressiva e
assistencialista em relação às pessoas em situação de rua no Brasil
(jovens, adultos, idosos, crianças).
A Educação Social de Rua emerge no Brasil, então, entre o final
dos anos 70 e início dos anos 80. Sua gênese ocorre com práxis da/na

3Bairro da cidade do Recife, a época constituído basicamente de famílias de


pescadores e prostitutas.

194
rua em meio a uma imensa população que a habitava devido aos
inúmeros problemas sociopolíticos e econômicos que ocasionou
aumento significativo da extrema pobreza, desigualdade e
vulnerabilidade social, da camada negra e pobre do país. A Educação
Social de Rua surge, assim, voltada para os pobres e oprimidos por um
sistema econômico perverso, que viola direitos humanos quando
deveria garanti-los.
Em meio a esse contexto social desastroso, homens e mulheres
se colocam na andarilhagem da esperança. As pastorais da igreja
católica foram fundamentais na mobilização e formação de
educadores de Rua que lutavam pelos direitos dos (in)visíveis que nela
habitavam. Dessa forma, homens e mulheres, de maneira voluntária,
iniciam trabalhos repletos de intencionalidade educativa com a
população em situação de rua em todo Brasil, especialmente com as
crianças e adolescentes , fazendo surgir em 1985 o Movimento
Nacional de Meninos e Meninas de Rua do Brasil. Este movimento
nasceem prol da proteção, da luta por direitos, reinserção, dignidade,
socialização e humanização de crianças e adolescentes que viviam em
situação de abandono nas ruas, nascendo na e da resistência ao
governo militar violento (PAIVA, 2006) que ao invés de cuidar,
perseguia e exterminava a população de rua.

A resistência é um ato de embate de criação, modos de ser como verdade única,


contra o que está aí, a selvageria do capitalismo, pautado pelo exagero do
consumismo e competição, por exemplo, criando subjetividades de
acomodação, submissão, aceitação das ordens despóticas do outro sem
questionamento, gerando medo e pavor de se posicionar contra (PINEL, 2002).

Nesse contexto, enquanto religiosa, me encontro com a Educação


de Rua, com Educadores Sociais de Rua, que falavam de esperança não
após a morte, mas no agora. Educadores que se propunham a uma outra
educação, inventada, diferente, que tem como base os movimentos
sociais e a teoria de Paulo Freire, nosso atual Patrono da Educação
Brasileira. A redemocratização do País, a mudança no panorama legal
brasileiro e o altíssimo nível de participação popular criou um clima
propício à Educação de Rua no Brasil. Neste momento, dá-se meu
encontro com a Educação Social de Rua.
A Educação Social no Brasil emerge com a educação de rua, com
educadores populares, em sua maioria vindo das comunidades

195
eclesiais de base. Esse movimento expandiu-se a todos os grupos e
sujeitos que se encontravam de alguma maneira em situação de
vulnerabilidade e com seus direitos violados, levando esperança,
apesar de não se limitar a uma classe social. Dada a grande
desigualdade social no Brasil, essa Educação tem se ocupado
prioritariamente dos grupos mais pauperizados, pois estes
constantemente tem seus direitos humanos violados. São os
chamados excluídos da sociedade de consumo, que ocupam vários
outros espaços da sociedade possíves, emboranão se enquadrem em
seus padrões.
O encontro com os Educadores de Rua em Recife, em um período
de grandes transformações históricas no Brasil, no qual os movimentos
sociais assumiram importante papel na sociedade brasileira, me levou
a conhecer o pensamento de Paulo Freire. Isso causou meu
afastamento do campo religioso, fundamentalista e dogmático,
apresentando-me uma outra educação, diferente, dirigida aos pobres,
aos oprimidos, aos invisibilizados de uma sociedade injusta
socialmente. Uma educação sobretudo esperançosa.
Uma vez consciente de meu fazer educativo nas ruas, busco
formação através do curso de pedagogia e posteriormente do curso
de direito. Posso afirmar que minhas escolhas acadêmicas foram
escolhas de vida. Ocorreram por militância, por desejo de uma
sociedade em que caibam todos, por querer estar ao lado daqueles que
expõe as fraturas sociais através de sua (in)visibilidade existencial.
Estive por mais de 20 anos nas ruas, primeiro na cidade de Recife,
posteriormente na cidade de Vila Velha, sempre junto àqqueles que a
sociedade finge não ver. Hoje sou educadora social por identidade e
andarilho através da escrita:

Escrever, para mim, vem sendo tanto um prazer profundamente experimenta


do quanto um dever irrecusável, uma tarefa política a ser cumprida. [...] escrever
não é uma questão apenas de satisfação pessoal. Não escrevo somente porque
me dá prazer escrever, mas também porque me sinto politicamente
comprometido, porque gostaria de convencer outras pessoas, sem a elas mentir,
de que o sonho ou os sonhos de que falo, sobre que escrevo e porque luto,
valem a pena ser tentados (FREIRE, 1994, p.15-16).

196
Educador social de rua: quem é este andarilho?

Me constitui Educadora de Rua na vivência, através da experiência.


Experienciei formas diferentes de fazer pedagogias, os diferentes
modos de produção de conhecimento, a especificidade do fazer
pedagógico para aqueles que não são considerados em nossa
sociedade. Eram andarilhagens esperançosas, realizadas com muita
disponibilidade, militância, indignação, luta, amorosidade e alegria,
como nos fala Freire: “ a minha abertura de querer bem, significa minha
disponibilidade à alegria de viver, justa alegria de viver, que assumida
plenamente não permite que me transforme num ser adocicado nem
tão pouco num ser arestoso e amargo” (FREIRE, 1999, p.160).
Hoje me identifico com Educadora Social, reafirmada na condição
de professora universitária e pesquisadora. Sinto a constante
necessidade de olhar no espaço exterior, nas margens, nos entre
lugares invisibilizados socialmente, em meio a governos que, para além
de invisibilizá-los, tentam exterminá-los, coisificá-los através da
violação de seus direitos.
Como pesquisadora, compreendo a extensão de um grotesco
fenômeno social que nasce com a desigualdade social, com racismo
estrutural em que negros e pobres, que deveriam ser alcançados pelas
políticas públicas do Estado, encontram se nas ruas, sendo lhe negado
o direito humano à dignidade, à saúde, ao emprego e à educação.

Quem é este andarilho esperançoso?

Educadores Sociais de Rua trabalham com pessoas andarilhas. São


assim,ão por ser essa a condição possível em um país tão desigual.
Trabalham com escutas pedagógicas, afinal “é condição essencial
escutar vozes jamais escutadas [...] das mulheres, dos negros, dos
índios, dos pobres, dos civis [...] pertencemos a nações que nasceram
mutiladas [...] elas têm uma cultura passada, literatura, que também
está mutilada” (GALEANO, 1987).
Galeano ainda nos convoca a recuperar essas vozes perdidas. Por
isso, este meu escrito se dirige à compreensão das vivências e
experiências do Educador Social de Rua, que,ue por atuar com os
(in)visíveis sociais, também por vezes se tornam invisíveis, também à
margem da sociedade, com suas vozes perdidas, apesar de atuarem

197
com processos de emancipação humana, com educação e formação
política além dos muros da escola.
O fazer do Educador Social é um fazer cheio de sentido, amoroso,
sem ser piegas. No dizer de Freire, a amorosidade seria “aquela que
percebe a vida como um processo acontecendo e não algo que é
determinado a priori” (FREIRE, 2002, p.74). Eles vivem em meio a
processos dinâmicos, complexos, como o é a própria vida. O desafio de
educar em meio à negação de direitos humanos, em meio à
invisibilidades e dores é, sem dúvida, um ato de coragem, que exige do
Educador Social permanente análise crítica da realidade.
A nomenclatura “educador social” no Brasil nasce lado a lado com
a Educação Social, pois é o executor de suas práxis. Se constitui a partir
da luta pelos direitos humanos das crianças e adolescentes que, na
ocasião, viviam nas ruas totalmente desprotegidos e desprovidos de leis
que lhes assegurassem direitos. Tais educadores eram os militantes dos
movimentos sociais. Dentre eles, havia professores, assistentes sociais,
profissionais da área da saúde, da teologia, estudantes de variados
cursos e outros que se embrenharam às causas humanitárias. Para os
primeiros educadores sociais de rua, segundo Oliveira (2004), não havia
treinamento específico, o que os dava certo direcionamento era a
Teologia da Libertação, além de leituras pessoais das obras de Freire,
Makarenko, Freinet, Erving, Goffman e Foucault. Conta nessa lista
formativa os encontros semanais, em que trocavam ideias, experiências
e leituras de textos que os fazia refletir e avaliar suas práticas, o que é,
ou deveria ser uma constante para o educador social.
Como já mencionado acima, o educador social se constituiu nas
ruas. Este foi seu primeiro campo, que mais tarde se estendeu a
contextos diversos, se estendeu a todos que tem seus direitos
humanos violados. Nasceu da luta por crianças e adolescentes em
situação de rua, que viviam em situação de completo abandono, sendo
inclusive alvo de extermínio. Estes eram os sujeitos da Educação Social
de Rua, crianças e adolescentes que faziam das ruas seu lugar de
morada, junto a adultos, idosos etc.
A rua se tornou um espaço educativo libertador por pura
necessidade social. Nas ruas, aconteciam ações de transformação de
sujeitos, de formação política e social daqueles que a sociedade insistia
em não ver. A rua foi, então, por muito tempo, o espaço mais utilizado
pelo Educador social. Na década de 90, com as mudanças políticas

198
ocorridas no Brasil, com a nova Constituição de 1988, com o criação do
Estatuto da criança e do Adolescente, fruto da luta da sociedade civil
organizada e Educadores Sociais de Rua, a Educação Social foi
(re)pensada e se (re)constituiu, fazendo com que os Educadores
Sociais ocupassem outros espaços, com todas as faixas etárias e
demandas e locais diversos.
As ONGs, asilos, abrigos, orfanatos, prisões, internatos, hospitais,
o campo, projetos sociais, cooperativas, empresas, escolas, as próprias
ruas, apesar de não serem mais o grande palco do educador social,
dentre outros, se constituem campo de atuação do educador social no
Brasil. Nestes espaços, o andarilho reinventa a educação de forma
consciente e libertadora.
“A educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem. Não
se pode temer o debate, a análise da realidade. Não fugir da discussão
criadora, sob pena de ser farsa” (FREIRE, 1983, p.104). O Educador
Social é um andarilho nesses novos espaços de educação que se
apresentam ainda nos dias de hoje como um mosaico em construção
permanente, repleto de desafios e perspectivas, tecido aos poucos
pelos atores do cotidiano que adotaram as ruas, lugar por vezes
inóspito, como espaço educativo amoroso e esperançoso.
A Educação Social de Rua não surge de forma antagônica à
Educação Escolar. Esta é vista e sentida pelos Educadores Sociais como
um espaço importante, lugar de lutas. Mesmo com seus paradoxos e
mazelas, ainda se constitui lugar de lutas, um dos palcos de esperança
para os oprimidos. Entretanto, os Educadores Sociais sabem que não
se podem limitar processos educativos apenas ao espaço escolar; seria
como observar somente parte do mundo que vivemos, estreitando
horizontes. A práxis da Educação Social de Rua nos ensina que a escola
não é reserva natural da formalidade e nem do rigor pedagógico. A
escola não se constitui o único espaço de formação e informação do
ser-ai-homem” (PINEL, 2006).
Nesse sentido, Vygostsky nos ajuda a compreender como ocorre
a educação quando afirma que:

No fim das contas só a vida educa, e quanto mais amplamente ela irromper na
escola mais dinâmico e rico será o processo educativo. O maior erro da escola foi
ter se fechado e se isolado da vida com uma cerca alta. A educação é tão
inadmissível fora da vida quanto a combustão sem oxigênio ou a respiração no

199
vácuo. Por isso o trabalho educativo do pedagogo deve estar necessariamente
vinculado ao seu trabalho criador, social e vital (VYGOTSKY, 2001, p. 456).

A práxis pedagógica dos Educadores Sociais de Rua tem início


como um processo criador, social, vital, como leitura de/do mundo,
conscientização, dialogicidade e ação reflexão-ação (MACHADO,
2008). Por isso, esta prática tem muito a ensinar à escola; precisa ser
pensada, repensada, colocada em pauta nas agendas diárias da
academia, precisa ser conhecida, compreendida, enquanto realidade
única, complexa e plural, cheia de contornos, de possibilidades, de
potencialidades, provisoriedades e de produção de conhecimento.
Essa prática se desvelou a mim, como educadora social de rua, e se
desvela agora, como pesquisadora, enquanto uma prática não
estática, definitiva, mas sim em constante movimento, sendo
compreendida de várias formas, pois as experiências dos educadores
sociais de rua, aliadas à formação que se realiza das mais diversas
formas, constituem o educador social de rua.
O Educador Social de Rua se constitui junto aos oprimidos. Por
isso. seu fazer pedagógico implica a análise da sociedade, da estrutura
social que a compõe, análises sempre provisórias, não definitivas,
porque o contexto sócio histórico é sempre provisório.
Atuando em um contexto multifacetado, complexo e paradoxal,
o Educador Social pode ser visto e compreendido através de diversos
olhares. São seres no mundo, educando (in)visíveis sociais, educadores
capazes de agir conscientemente nesse espaço-mundo da pobreza e
dos miseráveis, nesse nosso espaço latino americano, ajudando, de
forma política e consciente, a criar outros modos de ser, de viver,
talvez mais humanos. A esse respeito, Freire descreve que:

[...] a conscientização é, nesse sentido, um teste da realidade. Quanto maior a


conscientização, mais se desvela a realidade, mais se penetra na essência
fenomênica do objeto ante o qual nos encontramos para analisá-lo. Por essa
razão a conscientização não consiste em estarmos diante da realidade
assumindo uma posição falsamente intelectual. A consciência não pode existir
fora da práxis, isto é, sem o ato ação-reflexão. Esta unidade dialética constitui de
maneira permanente o modo de ser ou de transformar o mundo que caracteriza
os homens (FREIRE, 1974, p. 30).

Por ter tido origem junto aos movimentos sociais e pastorais da


igreja católica, a Educação de Rua praticada pelos Educadores Sociais

200
no Brasil tem como referência teórica, principalmente, Paulo Freire.
Hoje, muitos órgãos públicos Municipais, Estaduais e Federais, assim
como diversas ONGs, não orientam os procedimentos da abordagem
da rua segundo os pressupostos da Educação Social de Rua. Então,
nem todos aqueles que atuam nas ruas junto à população em situação
de rua podem ser denominados, de fato, Educadores sociais de Rua.
A práxis da Educação Social de Rua, referenciada em Paulo Freire,
dada sua complexidade, costuma ser mais hábil, flexível, dinâmica,
versátil. É uma prática pedagógica militante, que se transforma em
instrumento de promoção, libertação pessoal e comunitária,
contribuindo para um mundo mais justo através de um projeto
educativo voltado para humanização das pessoas.
O fazer do Educador Social ainda se constitui um fazer em
construção. Por isso, a compreensão de suas práticas certamente
contribuirá para o aprofundamento dessa ciência. Oliveira (2004 p.27)
dizia, em 1994, que era inadmissível um fenômeno tão importante
quanto o avanço pedagógico trazido pela Educação Social de Rua não
se fazer presente tanto quanto o país necessitava. É nesse sentido que
muitas universidades hoje, no Brasil, realizam pesquisas buscando
conhecer e visibilizar o conhecimento construído no espaço rua
através de Educadores Sociais de Rua.
A produção teórica da Educação Social no Brasil se fortalece em
forma de livros, artigos, revistas, trabalhos feitos por pesquisadores da
área, que muito têm contribuído para reflexão e formação do
educador social. Aqueles redigidos pelo próprio educador, que, ao
sistematizar sua prática, faz o movimento de se reinventar enquanto
educador e ser humano. As sistematizações, o acervo de teorização a
ser utilizado na formação do Educador Social, funcionam como fonte
de conhecimento aos que não atuam e aos que não atuam, mas
desejam estar na área.
O educador social no Brasil é um profissional que pode ser
remunerado ou voluntário, efetivo ou contratado, atuando em
espaços educativos variados. São responsáveis por realizar
intervenções na vida de pessoas que se encontram em fragilidade
humana, vulnerabilidade social e/ou excluídas da sociedade. Trabalha
com uma educação voltada para a autonomia, liberdade, sempre
comprometida com o educando.

201
Seu papel está muito atrelado à garantia dos direitos, à convivência
social como um direito humano, à construção da cidadania, ao
protagonismo de seu educando, levando-o a sentir- se parte de uma
sociedade, sujeito de direitos. Dentre suas atribuições, está a de
transformação, tanto do sujeito quanto da sociedade e de si mesmo
O Educador Social brasileiro sofre a invisibilidade de sua atuação
e profissão, a mesma invisibilidade que seus educandos sofrem
socialmente. Ele clama por formação específica para a área da
Educação Social, por uma área de atuação reconhecida, por formação
no sentido acadêmico, o que desde muito tempo acontece na Europa.
A formação do Educador social ainda é uma das principais
fragilidades do oficio. Na década de 80 e 90, as formações ocorriam
através do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua,
contando, inclusive, com Paulo Freire atuando diretamente na
formação desses educadores, que tinham a militância como forte
aliado em sua formação.
Com o esvaziamento dos movimentos sociais, a formação do
Educador social ficou extremamente prejudicada. No final da década de
90, as universidades brasileiras começam a perceber a importância dessa
outra possibilidade educativa, encetando pesquisas na área, ao mesmo
tempo em que se abria para formação dos educadores através de
congressos, seminários, cursos de formação, extensão universitária etc.
Mesmo em meio à abertura da academia aos Educadores Sociais,
a sistematização da práxis educativa social ocorre também na
experiência do vivido do Educador social com seu educando, produz
conhecimento a ambos. Paiva (2011, p.78) diz que “a experiência
ultrapassa a informação [...]”, relatando que a formação está fincada
principalmente na experiência de ser educador, nas experiências que
suas práxis lhe presenteiam, apesar das inúmeras dificuldades que
estas lhe proporcionam nos mais diversos e diversificados contextos.
Sobre a experiência, Larrosa (2001) nos diz:

Do ponto de vista da experiência, o importante não é nem a posição, nem a


oposição, nem a imposição, nem a proposição, mas a exposição, nossa maneira
de expormos, com tudo o que tem de vulnerabilidade e risco. Por isso é incapaz
de experiência aquele que se põe ou se opõe, ou se impõe, ou se propõe, mas
não se expõe. É incapaz de experiência aquele a quem nada lhe passa, nada lhe
acontece, a quem nada lhe sucede, a quem nada o toca, nada lhe chega, nada o
afeta, a quem nada o ameaça, a quem nada ocorre (LARROSA, 2001).

202
O Educador social no Brasil hoje sem dúvida é uma profissão que
se torna cada vez mais necessária, dada a crescente desigualdade
social e racial que se aprofunda de forma especial após o golpe sofrido
pela presidenta Dilma Rousseff em 2016, estabelecendo uma perigosa
ruptura democrática.
Em meio ao caos político, democrático e pandêmico que vivemos
hoje, a população em situação de rua, num ato de resistência,
resiliência, enfrentamento ou tentativa de sobrevivência, teima em
aumentar. Não se acomodando às misérias das favelas, eles mostram
sua capacidade de resistir, ainda que sejam vistos pela coletividade
como os sem direitos, não cidadãos, intrusos nas comunidades mais
abastadas. Essa camada da população é vista de forma pior que os pobres,
considerados ninguém, compondo a paisagem destoante do cenário
econômico. São aqueles que não se aconchegam na mornidão da
miséria. Embora sejam considerados como paisagem obscura, que, às
vezes, causam medo, estranhamento, a cada dia, mesmo com a
necropolítica, fica mais difícil para o Estado mantê-los invisíveis. Eles
resistem, apesar de todo desprezo social a que são submetidos. Sobre
a forma de resistir, Freire nos diz:

As resistências - a orgânica e/ou a cultural - são manhas necessárias à


sobrevivência física e cultural dos oprimidos. O sincretismo religioso afro-
brasileiro expressa a resistência ou a manha com que a cultura africana escrava
se defendia do poder hegemônico do colonizador branco [...] Não é na
resignação mas na rebeldia em face as injustiças que nos afirmamos (FREIRE,
1999, p.87).

Estes profissionais atuam com esperança junto aos


desesperançados, junto àqueles que têm nas ruas, a cada minuto, seus
direitos violados. Apesar de se fazer extremamente necessário em
especial nos momentos de crises sociais e políticas onde rupturas
democráticas aprofundam as violações de direitos humanos, o
Educador Social ainda não possui profissão regulamentada. O primeiro
passo para regulamentação da profissão inicia-se em 2009, através do
projeto de Lei 5346/2009, do então deputado Chico Lopes.
Em 2015, Educadores Sociais de diversos Estados apontam
supostos equívocos na referida proposta que ainda tramitava na
Câmara de Deputados. A partir de audiências públicas em diversos
estados do Brasil, através do senador Telmário Mota, é apresentado o
projeto de Lei 328/2015, também com o objetivo de regulamentação da

203
profissão de Educador Social. Este projeto, na visão de Bauli (2018),
atenderia melhor às necessidades atuais do educador social enquanto
profissional da área da Educação Social. Este PL, além de estabelecer
as atribuições do Educador Social, estabelece o nível mínimo de
formação em cursos de educação superior, preservando os interesses
daqueles que já exercem a atividade sem referido nível. Os projetos de
Lei ainda tramitam nas casas de lei (câmara de deputado e Senado) e
vêm sendo alvo de constante debates e audiências entre os
Educadores Sociais brasileiros.
Hoje, enquanto lutam pela regulamentação da profissão, os
Educadores Sociais criam pedagogias , desenvolvem métodos e
técnicas para lidar com a adversidade de uma população
(in)visibilizada. O Educador Social de Rua que tem em Paulo Freire sua
referência teórica tem, como ponto de partida, o comprometimento
com o oprimido, que nem sempre se mantém nessa posição; é ora
oprimido, ora opressor. Dessa forma, a práxis do Educador Social se
desvela de dive maneiras, num cotidiano inventivo. Devido a essa
provisoriedade, o educador social precisa a todo instante analisar
criticamente sua práxis, rever a teoria que o orienta, para sempre
redimensionar sua compreensão de mundo, vendo esse mundo com o
oprimido e também a partir dele, compreendendo, para além do
mundo exterior, sua prática pedagógica e a si mesmo.
Os sujeitos, os educandos da Educação Social de rua de forma
específica são pessoas que vivem em situação econômica desumana.
Portanto, o diálogo entre oprimido e opressor é uma exigência
existencial para libertação e humanização de ambos, para que haja a
quebra do círculo de marginalização do qual o educando é parte.
Oprimido e opressor precisam estar nesse processo de libertação
mútua que, nas ruas, é mediado pelo Educador Social. Freire (1999, p
99) compreende que “é por isso que o opressor se desumaniza ao
desumanizar o oprimido, não importa que coma bem, vista bem, que
durma bem. Não seria possível desumanizar sem desumanizar se tal
radicalidade social da vocação. Não sou se você não é, não sou,
sobretudo se proíbo você ser”.
O Educador social de Rua atua como os oprimidos
desumanizados, é um educador das margens que também de alguma
forma está à margem e nela andarilha com esperança, com luta, mas
por vezes precariamente, sem formação oficial. São brasileiros e

204
brasileiras, militantes que se propõe a caminhar com os oprimidos, a
se inserir se em seu cotidiano, mas não possuem sequer uma titulação
oficial que os constitua como Educadores Sociais. Com isso, muitos
educadores ficam apreensivos em investir em suas carreiras na
Educação Social.
Essa marginalização profissional de quem trabalha com os
marginalizados, essa invisibilidade marginal, a não cidadania, tem
contribuído para não sistematização de toda riqueza da prática
pedagógica construída pelos Educadores Sociais de Rua nos “entre
lugares” (BHABHA, 2003), nas margens, junto com os oprimidos.
Dessa forma, compreender as vivências e experiências, bem
como produzir significados a partir delas no campo da Educação Social
de Rua, constitui-se um desafio para sociedade, para academia.
Sabemos que as vivencias e experiências que produzem práxis junto
aos educandos em situação de rua não se produzem só por uma via,
mas resulta de um processo colaborativo entre educador /educando.
Eles agem o tempo todo em parceria, contaminados um pelo outro,
numa ação reflexão constante, pois, sem isso, o conhecimento seria
algo mecânico e irrefletido.

Por conta da dialética ação-reflexão afirmam-se como sujeitos, seres de relação


no mundo, com o mundo, e com os outros, pela mediação do mundo linguagem.
Os seres humanos atuam sobre a realidade objetiva e sabem que atuam:
podem objetivar tanto a realidade quanto a ação e podem comunicar tudo isso
na forma de linguagem (FIORI,1970, p. 20).

Diante do inacabamento, da incompletude do homem, o


conhecimento nunca está pronto e acabado, ele se faz no cotidiano dos
seres humanos; é tecido ponto a ponto enquanto existir a necessidade
de ser educado e de educar-se (FREIRE, 1989, p. 27). O conhecimento
como resultado de processos de ensino-aprendizagem, não é irrefletido,
mecânico, não existe do nada, é uma via de mão dupla na qual educador
e educando exercem simultaneamente papéis de protagonistas.
Freire nos fala constantemente do educador e educando
andando juntos, diante de um mundo sempre a ser desvelado,
transformado. Para ele, é a partir desse desvelar coletivo que ocorrerá
emancipação. Dessa forma é que se tem consciência da opressão, mas
esse processo precisa ser sempre coletivo “[...] Não se pode realizar se
no isolamento, no individualismo, mas na comunhão, na solidariedade
dos existires” (FREIRE, 2004, p. 86).

205
Compreendemos, assim, que o conhecimento surgido da relação
Educador Social e o educando em situação de rua é mutável, dinâmico,
possível, pois é construído com o outro. Quando possui sentido na
história humana, na história do ser que é singular, único, também
produz história. A construção com o outro afirma-se “[...] através do
diálogo que se opera a superação de que resulta um termo novo: não
mais educador do educando, não mais educando do educador, mas
educador-educando com educando- educador” (FREIRE,1980a, p.78).
Assim seguem os Educadores Sociais em suas andarilhagens
esperançosas, repleta de luta e sonhos possíveis.

Referências

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Normatização. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade
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206
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207
PINEL, Hiran. Apenas dois rapazes & uma educação social: cinema,
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Edição experimental do autor. Vitória: UFES/CE/PPGE, 2006.
VYGOTSKY, L. S. Psicologia pedagógica. SãoPaulo: Martins Fontes, 2001

208
AS PRÁTICAS E CONCEPÇÕES DE CIDADE EDUCADORA NA
CONSTRUÇÃO DO SUJEITO ÉTICO

Orlando Coelho Barbosa1


Maria Cândida Varone de Morais Capecchi2
João Clemente de Souza Neto3

Este capítulo discute as aproximações entre arte, ciência,


formação de professores e pedagogia social em um Centro de Inclusão
para População em Situação de Rua (Centro Pop), um Serviço de
Cumprimento de Medidas Socioeducativas em Meio Aberto (SME) e
um projeto de formação inicial de professores de ciência (PIBID), em
territórios distintos. As experiências pedagógicas permitem capturar o
transfazer que emerge de experiências de mediação em espaços de
arte, cultura e saúde.
O capítulo tem como referência o conceito de Cidade Educadora,
que norteia esta perspectiva e justifica trabalhar a cidade como espaço
comunitário de aprendizagem, elicitando conteúdos pedagógicos que
aproximam os três territórios. Aprender com a cidade é aprender com
a diversidade, com a população em situação de rua, com os jovens que
cumprem medidas socioeducativas e os professores em início de
formação, com a dinâmica e os movimentos que compõem a cidade.
Identificar aproximações significa buscar na prática da mediação
um fio condutor que articule história, biografias e teoria, com base em
pensadores como Rancière, Paulo Freire, Certeau e Vygotsky.
Acreditamos que a Cidade é locus privilegiado para capturar os

1 Doutorando em Psicologia Educacional (UNIFIEO), Bolsista Capes, Mestre em


Psicologia Educacional (UNIFIEO), pesquisador nas áreas de educação, artes e saúde.
2 Doutora em Educação (Faculdade de Educação da USP), com doutorado sanduíche

na Universidade de Leeds (Inglaterra); Professora Adjunta da Universidade Federal do


ABC; Membro do Programa de Pós-Graduação em Ensino e História das Ciências e da
Matemática (UFABC); Pesquisadora em formação de professores; e-mail:
[Link]@[Link]
3 Pós-Doutor em Sociologia Clínica (PUC/SP); Professor Adjunto do Programa de

Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM);


Membro do Instituto Catequético Secular São José (ICA); Escritor e editor;
Pesquisador no campo da Pedagogia Social; E-mail: [Link]@[Link]

209
processos de configuração da subjetividade individual e coletiva. Para
atingir esse fim, a perspectiva da Cidade Educadora promove a
participação de todos e o diálogo como metodologias formativas de
uma tomada de consciência dos atores envolvidos.
Uma atitude interdisciplinar permite capturar, do ponto de vista
da fenomenologia, o movimento dialético existente entre as
estruturas sociais e a subjetividade humana. Do ponto de vista
epistemológico, a pedagogia social se constitui nas entranhas dos
movimentos sociais, a partir das experiências de busca pela justiça e
pelo reconhecimento do existir humano.
Numa certa leitura da população em situação de rua, dos
adolescentes em conflito com a lei e de rua, e da formação inicial dos
professores, pode-se capturar uma ontologia do ser humano e das
práticas, estratégias e táticas do sujeito, em seu modo peculiar de se
colocar no mundo. A teoria produzida a partir dessas experiências é
denominada pedagogia social.
Geralmente, a pesquisa pressupõe ideias, percepções e histórias
de vida que se entrelaçam, se atualizam e são revisitadas.
Apresentamos, aqui, alguns entrelaçamentos observados nas relações
entre arte, ciência, formação de professores e pedagogia social, de
forma interdisciplinar, com base em alguns marcadores temporais que
possibilitem ao leitor identificar os entrelaçamentos entre os temas.

Relacionamos e afirmamos que a possibilidade da frequentação de espaços


culturais e as atividades realizadas conjuntamente com as oficinas de arte e
artesanato desenvolvidas no Centro de Referência Especializado no
Atendimento à População em Situação de Rua de Osasco (Centro Pop), como
sendo práticas que, ao construírem novos espaços de escuta, propiciam a
existência do sujeito aprendente como descrevemos na psicopedagogia. A
relação desenvolvida nestes espaços impacta o sujeito de forma dialógica e
concomitante, tanto os espaços da oficina, a produção estética e do belo destes
sujeitos quanto artistas e educadores que participantes e coautores deste
processo da aprendizagem humana. É a construção coletiva do acesso aos
direitos humanos fundamentais e da cidadania nas cidades que deriva desta
relação (BARBOSA, 2012, p. 2).

Este capítulo tem como fonte o trabalho “Existe por favor na


Rua”, realizado em 2012, com o objetivo de cumprir as exigências
necessárias para obtenção do título de bacharel em psicopedagogia no
Centro Universitário Fieo. A possibilidade de frequentar espaços
culturais pela população em situação de rua era fundamental para

210
reconhecimento da sua condição de cidadãos, a qual se constitui para
além da condição biológica, na relação com o outro e com a cultura.
Embora tratássemos de atividades realizadas em um ambiente
cultural específico, um museu de artes, que tem no seu acervo objetos
que fazem referência ao morar, não estamos reduzindo inserção na
cultura à frequentação desses espaços culturais, mas compreendendo
os diversos espaços de aprendizagem humana ao longo da vida.
Entre as reflexões e considerações que hora revisitamos, relativas
ao processo de desenvolvimento humano e às cultura, incluímos a
possibilidade de um transfazer, uma transformação das pessoas
envolvidas no processo de imersão sociopolítica na cultura, que
emerge da observação de alguns fatores, tais como a sociabilidade das
pessoas que participam de atividades de arte, hortas comunitárias e
passeios desenvolvidos no Centro Pop e as mediadas socioeducativas
de adolescentes em conflito com a lei.
As pessoas, quando frequentavam essas atividades culturais,
raramente se envolviam em brigas, mas respeitavam as regras
extremamente rígidas dos museus e eram colaborativas com os
demais. Já os relatos sobre o comportamento delas no albergue em
que pernoitavam sugeriam um comportamento bem distinto. Eram,
por isso, com frequência, adjetivadas como pessoas “problemáticas”,
que não respeitavam regras, entre outras questões relativas à
sociabilidade. Diante dessa contradição, algumas questões
precisavam ser esclarecidas, pois mudanças de comportamento
tendem a ser relacionadas quase que automaticamente a escolhas
pessoais, num movimento que envolve atribuição de rótulos e
possíveis estigmatizações de pessoas e grupos socais.
Desviando desse caminho, optamos por nos questionar se não
seriam esses equipamentos públicos distintos, o museu, o centro Pop
e o albergue, espaços de disputa, radicalmente opostos quanto à
possibilidade de escuta e de apropriação por parte daqueles que o
frequentam e promotores de possibilidades do transfazer das pessoas.
Sobre espaço e lugar, Certeau (1994, p. 201-202) faz a seguinte
distinção: “lugar é a ordem (seja qual for), segundo a qual se
distribuem elementos nas relações de existência”, já espaço seria “um
lugar praticado”, e “a rua geometricamente definida por um
urbanismo é transformada em espaço pelos pedestres”. A “[...] leitura

211
é o espaço produzido pela prática do lugar constituído por um sistema
de signos - um escrito”.
Observar o conceito de espaço como o de “lugar praticado” é
observá-lo numa perspectiva processual e dialética, de forma que seja
possível identificar se as práticas que constituem o espaço e o espaço no
qual as práticas ocorrem se retroalimentam ou não, assim como quais as
práticas são esperadas das pessoas que habitam, frequentam o espaço.
O espaço constituído nos permite fazer aproximações que
envolvam a utilização da arte enquanto forma de mediação e prática
cultural, como um fator preponderante para a constituição de lugares
e ordem, hierárquicos em espaços em que seja possível a emergência
de relações entre os sujeitos que nele habitam, que o frequentam, que
permitam que o diálogo, a escuta se sobreporia ao monologo das
regras arbitrárias.

A população em situação de rua e o centro pop

O Centro de Referência Especializado no Atendimento à


População em Situação de Rua, Centro Pop, uma Instituição Pública
vinculada à Secretaria de Promoção e Assistência Social da Prefeitura
do Município de Osasco, para atendimento a adultos em situação de
rua que espontaneamente se dirigem ao local, ou que são
encaminhados por equipamentos públicos, tais como serviço de busca
ativa, albergues municipais, serviços de saúde mental, hospitais, e pela
população em geral, possuía uma equipe de trabalho formada por
psicólogos, assistentes sociais, agentes de proteção social,
coordenador administrativo, professora de educação física, cozinheira
e auxiliar de cozinha, vigia, professora de alfabetização, auxiliares de
manutenção e limpeza e oficineiro de artes.
No Centro, eram realizados cerca de 60 atendimentos por dia.
Eram disponibilizadas no local atendimento psicossocial individual e
em grupo oficinas de arte/artesanato, horticultura, alfabetização,
visitas monitoradas a equipamentos culturais, museus etc.
A proposta de realização de visitas monitoradas a equipamentos
culturais e a consequente visita dos educadores desses equipamentos
ao Centro Pop, assim como a realização de discussões e propostas de
criação de objetos artesanais em sucata, já ocorriam desde sua
inauguração no ano de 2008. Politicamente, era um salto nas políticas

212
sociais voltadas ao atendimento da população em situação de rua,
sendo um dos primeiros equipamentos públicos do país a tentar atender
à recém instituída Política Nacional de Atenção à População de Rua.
À época de realização das ações descritas, a estimativa de
pessoas em situação de rua na cidade de Osasco era de 120 pessoas.
No Brasil, esse contingente era de aproximadamente 33.000 pessoas,
número que não retratava a realidade, pois a pesquisa ficou restrita
aos grandes centros urbanos do país.
É muito significativo, neste texto, abordar as relações entre
espaço, lugar e população em situação de rua, pois, se existe um grupo
social no qual as tensões para estabelecimento e reconhecimento de
seu espaço, esse grupo é o das pessoas em situação de rua, como se
pode observar nas mais diversas cidades do Brasil e do mundo.
Reconhecida a diversidade e heterogeneidade desse grupo social e as
diferenças entre cidades, Estados, países e continentes, é possível
verificar, em maior ou menor grau, um movimento pelo seu
reconhecimento e suas práticas nos mais diversos espaços que ocupam.
O Museu da Casa Brasileira (MCB) é descrito em seu site oficial
como uma instituição pública pertencente à rede de 16 museus
estaduais, vinculados à Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo,
com a missão de ser um centro museológico de referência
relativamente às questões da morada brasileira pelo viés de seus usos
e costumes, arquitetura e design. O Museu buscava preservar as
relações do homem com seu habitat, por meio da pesquisa, da
discussão e da comunicação, estimulando a inclusão social. O Museu é
uma casa em estilo neoclássico que serviu de morada ao ex-prefeito de
São Paulo (1934-1938), Fabio da Silva Prado e sua esposa:

213
Figura 1: Museu da Casa Brasileira. Acervo pessoal Orlando Coelho Barbosa.

Crédito foto: Chema Llanos.

Olhando para a foto do MCB, vemos que é um lugar de síntese


que envolve aqueles que viveram sempre no não lugar, que tiveram
negada sua existência, e aqueles que sempre tiveram lugar demarcado
e uma existência super-reconhecida. A visita a um espaço como esse
propicia múltiplas leituras e interpretações.
Parte da metodologia desenhada nesse processo está no quadro 1:

Encontro Local Descrição da atividade


1º SMADS e Ida aos centros onde os grupos são atendidos
Centro de Abordagem: Ida aos espaços de albergue de
Inclusão cada grupo para aproximação e
conhecimento do perfil dos participantes.
Encontro importante para se estabelecer uma
relação entre os educadores do MCB com o
grupo, assim como para definir as questões e
abordagens durante os encontros no museu.
2º Acervo A memória e o referencial de lar - Tratará do
tema do museu enquanto espaço público que
preserva a relação entre as pessoas e seus
lares. O Museu público que fala de lugares

214
privados. O que é o referencial de lar? Qual a
função desse referencial?
Abordagem: Faremos uma visita ao acervo do
museu, buscando ler algumas peças
escolhidas de acordo com o interesse do
grupo. Após a discussão, iremos realizar uma
visita mediada junto a uma experiência
sensorial do acervo, para sensibilizá-los sobre
as questões relacionadas aos usos e costumes
das peças expostas. A intenção é trazer ao
grupo a memória afetiva como ferramenta
para um referencial de identidade focado na
relação entre as pessoas e suas casas.
Questões: Onde nós estamos? O que tem aqui
dentro? Por que existe este lugar? Tem
alguma coisa aqui que você não sabe o que é?
O que estes objetos estão fazendo aqui? Eles
contam alguma história sobre você? Quais
destes objetos te faz lembrar alguma história?
Quais deles não fazem?
3º Exposição À A relação entre o eu e o outro no espaço
Rua é Nossa... público
É de Todos Abordagem: Etapa 1 - Faremos um breve
Nós e sala de passeio ao museu e à apresentação da
encontro Exposição “À Rua é Nossa, é de Todos Nós...”,
conhecendo as salas e conversando com os
educadores. Em outra sala, iremos realizar
uma dinâmica que visa a refletir sobre a
convivência entre os diferentes interesses
individuais que compõe o espaço público e
como essas relações podem ou não ser
harmoniosas.
Etapa 2 - Focada na produção de materiais
feitos pelos membros do grupo e como
exercício de ampliação do campo de
possibilidade de construção da identidade,
visando que os participantes exercitem a
capacidade de expressão de sua história a
partir das ferramentas utilizadas nas visitas
anteriores.
Questões: O que é uma rua? Para que ela
serve? Quem a utiliza? Quem não a utiliza?

215
Como são as relações pessoais que existem na
rua? Quando elas são harmônicas? Quando
não são? Todos podem utilizar a rua? O que
tem na rua?
4º SMADS e Expressão: a transformação da memória
Centro de individual em coletiva - Aproveitando o
Inclusão material trazido pelos membros do grupo
durante as conversas e dinâmicas gravadas e
transcritas, realizadas nos encontros
anteriores, a intenção é que o grupo passe a
selecionar essas memórias para servir de
conteúdo de um produto a ser definido
posteriormente.
Abordagem: Será proposto que se trace um
paralelo entre as memórias individuais
fomentadas na primeira visita ao MCB e as
análises realizadas sobre a coletividade da
visita a exposição “À Rua é Nossa”, para a
construção de uma memória coletiva, a partir
de elementos individuais comuns nos relatos.
Questões: O que vocês fizeram no museu?
Para que as pessoas vêm ao museu? O que
vocês se lembram do que foi feito nos
encontros? Como podemos mostrar o que
fizemos para as outras pessoas? Precisamos
mostrar tudo o que fizemos para as outras
pessoas? O que vamos mostrar para as
pessoas? O que nossas histórias têm de
semelhante umas com as outras? O que elas
têm de diferente? O que mais chamou a
atenção de vocês nessas histórias? Em que
espaço vocês sentem que suas vozes são
ouvidas? Vocês acham que o museu também
conta a história de vocês? Por quê? Como essa
história poderia ser contada? O que vocês
querem dizer? E o que preferem não dizer?
5º MCB Difusão - Para a finalização do projeto, está
prevista a difusão da ação para o público geral
que frequenta o MCB.
Abordagem: Os dois grupos atendidos serão
convidados a visitar novamente o museu,
desta vez, simultaneamente, como

216
oportunidade de trocar as experiências que
tiveram ao longo da ação. Existe, ainda, a
possibilidade do encontro dos grupos com
Robson Mendonça, ex-morador de rua e atual
diretor presidente do Movimento Estadual da
População em Situação de Rua de São Paulo e
idealizador do Bicicloteca, que doa livros a
pessoas em Situação de Rua.

Como pode ser observado no quadro, a metodologia proposta


tinha a intencionalidade de aproximar os participantes e educadores,
o que significava reconhecer as diferenças e semelhanças e
proporcionar um ambiente de colaboração o menos hierárquico
possível entre educadores e participantes.
Reforçamos que o encontro com o outro e com a história é sempre
uma possibilidade humanizadora para todos. Esse princípio reverbera a
teoria de Paulo Freire e de Vygotsky com a prática pedagógica. As
reflexões que daí emergem são subsídios para a formação do professor,
dos educadores e da pessoa em situação de rua.

Construção do Cartaz MCB, Centro Pop

A imagem a seguir é um dos produtos do trabalho conjunto


desenvolvido pelos educadores do Centro Pop, pelos educadores do
Museu da Casa Brasileira e pelas pessoas em situação de rua que
participaram do projeto. É importante destacar que este cartaz (Fig. 2)
é uma síntese da percepção e da interpretação das pessoas em
situação de rua, com base no movimento educacional desencadeado.

217
Figura 2: Cartaz Existe Por Favor.

Acervo pessoal Orlando Coelho Barbosa.

Na imagem 1, “Existe Por Favor na Rua”, pode-se observar a


síntese das discussões que emergiram dos encontros. Assim, a escolha
da imagem do sapato e de uma flor são representações imagéticas das
percepções do grupo sobre o que é estar em situação de rua e a as
contradições que envolvem essa condição única. O sapato como um
eterno caminhar, a necessidade e, às vezes, a impossibilidade de parar
em um espaço seu, de constituir um espaço seu, ao mesmo tempo que
a flor sinaliza gentileza, cuidado, amor, como possibilidades.
Contradições existenciais que têm na palavra “Por favor”, de
forma dialética e dialógica, as maneiras de ocupar o espaço da rua, dos
albergues, do Centro Pop, podem ser assim descritas

218
A primeira parte que consistiu em uma visita ao acervo do Museu da Casa
Brasileira foi marcada por relatos extremamente afetivos e nostálgicos,
notadamente relacionados à infância, ou a um passado de uma “casa” que já
não existe mais. A disposição dos objetos no Museu também suscitou no grupo,
sentimentos relativos à família, religiosidade (no caso de um Oratório), trabalho.
Um integrante do grupo não se conformava com o fato de apenas duas pessoas
terem morado no espaço que hoje é o Museu (BARBOSA, 2012, p.22).

As observações etnográficas dos pesquisadores, em diálogo com


as imagens presentes na produção artística do grupo, nos permitem
inferir que a relação com os objetos, com o espaço do Museu e com as
memórias dos participantes entrelaçam percepções estéticas e
políticas. Assim, no instante que o participante em situação de rua é
informado da condição social das pessoas que moravam na casa que
hoje é Museu, é como se dessa experiência emergissem séculos de
desigualdades sociais e culturais.
Ao mesmo tempo, o processo de naturalização das mesmas
desigualdades é colocado em xeque, pois, afinal, o que existe de natural
na desigualdade percebida pelo participante, a partir de sua fala?
Neste processo de disputa e construção do espaço, a visita a um
espaço de arte e cultura, perante a arquitetura ostensiva, o jardim bem
cuidado, reflexões emergem, movimentando e potencializando as
contradições inerentes à própria questão social dos participantes e do
próprio museu.
Ao adentrar a exposição temporária “Esta rua é nossa é de todos
nós”, outros relatos da vivência na rua são pontuados e assim observados:

relatos carregados de indignação contra a violência policial exercida contra as


pessoas que estão em situação de rua, já que muitos dos presentes haviam sido
vítimas ou presenciado atos de violência semelhantes aos expostos. A exposição
consistia em vários painéis e vídeos de ruas mundo afora e as várias formas de
ocupação do espaço público. Da afetividade de lembranças familiares
resultantes da visita ao acervo do museu, ocorre um deslocamento para a
violência cotidiana da rua, dos equipamentos públicos (albergues), privados
(shoppings) etc. (BARBOSA, 2012, p. 22).

Neste momento da visita ao museu e a partir das discussões em


grupo, surge a palavra/frase que será transformada em cartaz,
distribuída pelos participantes e cujo processo de emergência
destacamos a seguir:

219
A palavra/frase que viria a dar nome ao cartaz surge neste momento. Em um
primeiro momento como uma afirmação da violência a qual o grupo está sujeito
diariamente, daí a afirmação “Não existe, por favor, na Rua”, para depois tornar-
se um questionamento sutil desta mesma violência (BARBOSA, 2012, p. 22).

Rancière (2005, p.15) descreve a relação estabelecida entre arte e


política a partir de um processo que nomeia como o de “partilha do
sensível”. Para o autor, a partilha do sensível é a forma como são
definidas a partilha do comum, observando-se um “sistema de
evidências sensíveis”, no qual cada sujeito partilha o comum e uma
parcela específica dele, todo esse processo envolve espaços, tempo e
atividades realizadas. Porém, o mesmo autor, recorrendo a
Aristóteles, afirma a existência de um processo que antecede a
participação no comum e sua consequente partilha. Seria a definição
de quem pode tomar parte.

O animal falante é um animal político. Mas o escravo, se compreende a


linguagem, não a “possui”. Os artesãos, diz Platão, não podem participar das
coisas comuns, porque eles não têm tempo para se dedicar a outra coisa que
não seja o trabalho. Eles não podem estar em outro lugar, pois o trabalho não
espera. A partilha do sensível faz ver quem pode tomar parte do comum em
função daquilo que faz, do tempo e do espaço onde esta atividade se exerce.
Assim, ter esta ou aquela ocupação define competências ou incompetências
para o comum. Define ou não o fato de ser visível num espaço comum, dotado
de uma palavra comum etc. (RANCIÈRE, 2005, p.16).

Rancière inicia uma discussão teórica sobre o estatuto da arte,


dos artistas, das imagens, da técnica e de sua relação com a política.
Porém, nos ateremos ao processo que antecede a própria partilha do
sensível, vivenciado cotidianamente no século XXI por diversos grupos
sociais, entre eles a população em situação de rua e os adultos e
adolescentes em conflito com a lei.
Pontua Rancière que “ter esta ou aquela ocupação” define a
relação do sujeito com a possibilidade de partilhar o comum, de ter a
sua percepção, seu olhar sobre o mundo, sobre o estar no mundo.
Identificamos nesse processo de autorização uma hierarquização das
relações de saber o conteúdo emergente dos processos de visitação a
espaços culturais, na relação com a arte e o fazer de distintos grupos
culturais que historicamente têm sua palavra silenciada.

220
Figura 3: Mesa Mosaico.

Acervo pessoal Orlando Coelho Barbosa.

Figura 4: Mesa Mosaico.

Acervo pessoal Orlando Coelho Barbosa.

221
Nas figuras 3 e 4, a obra de arte recriada em forma de mosaico foi
realizada por dois participantes do Centro Pop e exposta durante a
inauguração do espaço e, posteriormente, em uma exposição de artes
na unidade LAPA/Tito do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial
(SENAC-SP), entre outros espaços culturais. O processo de realização
foi assim descrito:

Podemos considerar os espaços das oficinas como espaços praticados e


potenciais, porém para nomear e relatar efetivamente o que ocorre nas oficinas
de arte e artesanato no momento de sua produção artística, as palavras que
existem parecem não acolher em sua totalidade o que efetivamente é
presenciado, compartilhado, experimentado no momento em que um sujeito
toma para si um pedaço de sucata de azulejo retirado de uma caçamba de lixo e o
transpõe para um tampo de mesa, [...] também sucata, que já abrigou ao seu redor
alguma família na hora do almoço, imaginar as possíveis cenas familiares que
desencadearam ao seu redor, brigas, sorrisos, conversávamos muito sobre estas
possibilidades de valorização/desvalorização dos objetos. Dia a dia a obra de arte
foi sendo construída, reconstruindo Tarsila do Amaral... semanas…se passam e
aquele pedaço de azulejo/sucata, que já foi areia, pia, piso na casa de alguém, uma
casa de uma família que não imaginamos conhecer, e que brigou, amou, quantas
histórias cavadas e presenciadas por aqueles cacos retirados da caçamba. Neste
processo, caminho descaminho, esse objeto morre e renasce pelas mãos de dois
artistas que não se reconhecem como o sendo, mas que se afirmarão no final
como tal, pois não são reconhecidos como artistas, são artistas porque precisam e
não sabem bem precisar o porquê. Aquele pedaço de sucata azulejo mesa vira uma
releitura de Tarsila. recentemente conhecida por eles por meio de uma visita a
Pinacoteca do Estado... o azulejo vira Tarsila, que nem Tarsila ousaria..., mas isto
não é arte acadêmica, não é bricolagem, isto é sonho e é vida... e enfim é uma
narrativa... pisada é uma desinvenção de objetos, uma homenagem a Manoel de
Barros, que eles ainda não leram, mas já conhecem ..., enfim é um outro idioma,
autoria de pensamento, o que falam neste momento, a arte surge mas como uma
necessidade de afirmar a vida, como a própria vida/arte inseparáveis. Como
pensou Foucault (BARBOSA, 2012, p. 23).

A descrição, as observações sobre o processo de construção da


obra de arte decorrem de uma atuação interdisciplinar que envolveu
profissionais que atuavam no Centro Pop, no Museu da Casa Brasileira,
na Pinacoteca do Estado de São Paulo, em diversos momentos, da
disposição para o diálogo dos participantes envolvidos que reafirmam
de forma única construção social do conhecimento, que permite aos
mais diversos atores sociais envolvidos partilhar dessa construção.

222
Figura 5: Cartaz Seminário.

Acervo pessoal Orlando Coelho Barbosa.

Ações decorrentes de processo de visita a museus na Estação luz,


da Pinacoteca do Estado, em 2008, e a realização de oficinas de mosaico,
resultaram na produção de um cartaz desenvolvido em conjunto com
educadores, no Museu da Casa Brasileira. Cartaz posteriormente
incorporado na divulgação do lançamento do Plano Municipal de
Atenção à População em Situação de Rua, na Cidade de Osasco, em 2011.
É a consagração de um processo dialético que envolve pessoas e suas
relações com a arte e a política e circulação de palavras.
As observações e reflexões sobre o processo desenvolvido junto à
população de rua nos permitiram experimentar, junto a outros atores
sociais, no caso de adolescentes em conflito com a lei, a realização de
oficinas de arte, de visitas a museus, residências artísticas, enfim,
deslocamentos pela cidade em espaços que não faziam parte do
repertório cultural dos adolescentes. Agora, tínhamos como referência
o conceito de Cidade Educadora que, entre seus princípios, destaca:

223
Todos os habitantes de uma cidade terão o direito de desfrutar, em condições
de liberdade e igualdade, os meios e oportunidades de formação,
entretenimento e desenvolvimento pessoal que ela lhes oferece. O direito a uma
cidade educadora é proposto como uma extensão do direito fundamental de
todos os indivíduos à educação. A cidade educadora renova permanentemente
o seu compromisso em formar nos aspectos, os mais diversos, os seus
habitantes ao longo da vida. E para que isto seja possível, deverá ter em conta
todos os grupos, com suas necessidades particulares.

Esses princípios, embora presentes na prática das ações


desenvolvidas junto à população de rua, ainda não eram identificados
como um dos objetivos das ações desenvolvidas.

Figura 6: Grafite MSE.

Acervo pessoal Orlando Coelho Barbosa.

O grafite da imagem 6 foi realizado por adolescentes que


frequentam um Serviço de Medidas Socioeducativas em Meio Aberto
(MSE) na cidade de São Paulo, em conjunto com educadores de um
coletivo alemão chamado Orangotango. Foi proposto aos adolescentes
que representassem por meio de desenhos o cotidiano do bairro onde
moram e algumas das atividades de lazer que mais gostam.

224
Figura 7: Grafite MSE.

Acervo pessoal Orlando Coelho Barbosa.

Ainda seguindo os princípios de uma cidade educadora, o grupo


participou da exposição Multitude no Sesc Pompéia na cidade de São
Paulo com a obra “A Quebrada”.

Figura 8: Adolescente fazendo colagem no MSE.

Acervo pessoal Orlando Coelho Barbosa.

225
Na imagem, é possível observar uma parte do processo de
realização da obra que envolveu um Livro de Artista e um vídeo
desenvolvidos de forma interdisciplinar com a arquiteta Pamela Sarabia.
Compreendemos que as ações desenvolvidas junto à população
em situação de rua e aos adolescentes em conflito com a lei, em
espaços e tempos distintos, compartilham dos mesmos princípios que
norteiam o conceito de Cidade Educadora, no que se refere ao direito
de desfrutar, com liberdade e igualdade, de condições de acesso à arte
e à cultura. Ao mesmo tempo, são ações que podem permitir aos que
dela participaram inverter a lógica de partilha do sensível à qual estão
expostos. Podem, enfim, transfazer sua biografia, por meio de
pequenas ações e mediações, fazer circular os seus modos de perceber
a cidade, os seus direitos, ampliando a sua participação de forma à
construir uma cidadania efetiva.
Para considerar a possibilidade de transformação da cidade em
uma Cidade Educadora, é importante pensar na formação de
professores da educação básica, compreendendo que a escola pode
ser um espaço provocador de reflexões sobre a construção de uma
cidadania efetiva. A função social da escola é um processo histórico e
cultural e o conceito de uma Cidade Educadora amplia as discussões
sobre esse processo, ao deslocar da escola a única responsabilidade
pela educação na sociedade.
Neste sentido, os programas de formação de professores
precisam ousar e experimentar dialogar e reconhecer os vários
saberes que adentram a escola, a questão social, o território e os
diversos atores sociais, além de utilizar as mais diversas linguagens
nesse processo formativo. Uma experiência singular que entendemos
caminhar nesta direção, envolvendo a criação de cenas inspiradas em
vivências de licenciandos em escolas de Educação Básica, foi
desenvolvida em um Subprojeto Interdisciplinar do Programa
Institucional de Iniciação à Docência (PIBID) na Universidade Federal
do ABC, proporcionando reflexões sobre o que muitas vezes é tomado
como “natural” no universo escolar (CAPECCHI e GOMES, 2016; SILVA,
CAPECCHI e GOMES, 2017).
Esse reconhecimento de outros espaços de aprendizagem, de
outros saberes, impacta, de forma direta e indireta, os profissionais da
educação, em particular os professores, exigindo deles uma abertura

226
para essa nova possibilidade de ensino, no qual a cidade, na sua
heterogeneidade social, cultural e científica, deve ser observada.
Para finalizar, porém sem esgotar as discussões aqui levantadas,
é fundamental ir um passo atrás e revisitar os conceitos de infância,
adolescência e família, com os quais temos trabalhado no âmbito da
escola, da academia e nos mais diversos espaços de socialização que a
pessoa perpassa desde sua existência. Assim, a pessoa em situação
de rua, o adolescente em conflito com a lei, o professor, o educador
social, o artista e o pesquisador agem de acordo com conceitos de
infância que foram apreendidos em seu cotidiano.
Nas visitas ao MCB, a relação dos participantes com os objetos da
casa sempre remetia à infância, ora idealizada, ora rememorada, mas
sempre presente em relatos carregados de emoção. Compreendemos
que a construção de uma Cidade Educadora perpassa a construção de
espaços a partir de práticas que não encarcerem a experiência da
infância a uma idealização de crianças e jovens como pequenos seres
de cristal. A construção de espaços que promovam a aprendizagem
intergeracional, que facilite encontros entre grupos sociais distintos,
pode ser uma possibilidade de transfazer para esses diversos grupos
sociais nas diversas etapas da vida.
Os trabalhos sociais com crianças e adolescentes em situação de
rua e mesmo com adultos forjam a configuração de um sujeito ético,
capaz de se colocar no mundo, compreender sua biografia, interpretar
a história e tomar uma posição. Esse agir, que denominamos transfazer
do sujeito, talvez possa ajudar a compreender melhor a situação, o
papel das políticas sociais, as estratégias de sobrevivência da
população em situação de rua ou de privação de direitos.
Acreditamos que os espaços pedagógicos permitam criar uma
concepção do transfazer do sujeito quando não admite que a
população em situação de rua permaneça como espectadora da
tragédia que interfere em sua vida. Ela sempre reage à sua maneira,
num jeito diferente de transformar a si e ao mundo. As ações do sujeito
não devem ser cooptadas ou burocratizadas pelas políticas de
atendimento. Elas devem, sim, ser orientadas a uma politicidade ética.

No cotidiano, homens e mulheres encontram estratégias para concretizar seus


sonhos e realizar seus desejos. O cotidiano é sempre rico de atalhos, e é dele que o
sujeito extrai os elementos para transfazer a sua história (SOUZA NETO, 2002, p. 14).

227
O sujeito vive um contínuo processo de espanto e perplexidade
diante da realidade. Hoje, com uma novidade que afeta especialmente
a população em situação de rua e privação de liberdade. A pandemia
do Covid 19 não criou a desigualdade, como muitos afirmam. Ela
desvela a realidade desigual da cidade em que vivem as populações em
situação de rua e privação de liberdade. Nos contatos que temos feito
com essas pessoas, vai ficando clara a insuficiência do debate sobre
exclusão social. É a negação do existir humano, que se desvela no jeito
com que são julgadas e condenadas pelas práticas autoritárias que
coexistem no interior da cidade.

Situar uma noção de sujeito que não venha negar a dinâmica da vida permanece
como um instigante desafio. É bom lembrar que os pobres não estão mortos,
que eles agem e reagem. Talvez retirem parte de suas forças da “noite escura”
da desigualdade social que os estimulam a arrancar da realidade o que
necessitam para implantar um projeto de vida, mesmo que de maneira limitada
(SOUZA NETO, 2002, p. 176).

Referências

AUGÉ, M. Não lugares: introdução a uma antropologia da


supermodernidade. Campinas, SP: Papirus Editora, 2017.
BARBOSA, C.O. Existe Por Favor na Rua. UNIFIEOM, 2014
BONDIA, L. J. Leituras – julho de 2001- Textos subsídios ao trabalho das
unidades da rede Municipal de educação de Campinas, 2001.
CADERNO Arte+ Pinacoteca do Estado de São Paulo e IMPAES, 2007.
CAPECCHI, M. C. V. M.; GOMES, V. M. S. Ações e reflexões de futuros
professores no contexto do Subprojeto Interdisciplinar do
PIBID/UFABC: experimentando olhares sensíveis. In: MIRANDA, M. A.
G. C. e ALVIM, M. H. (orgs.) Reflexões sobre ações do PIBID/UFABC:
contribuições à valorização do magistério e ao aprimoramento da
formação de professores para a Educação Básica. Rio de Janeiro: Ed.
Autêntica, 2016.
CERTEAU, M. de. A cultura no plural. Campinas, SP: Papirus, 1995.
CERTEAU, M. de. A invenção do cotidiano. Petrópolis RJ: Vozes, 1994.
COLI, J. O que é arte. São Paulo: Brasiliense, 2017.

228
EDUCADORAS, A. I. Carta de Ciudades Educadoras. In: VIII Congreso de
Ciudades Educadoras. 2014.
ENDO, P. C. A Violência no coração da cidade: um estudo psicanalítico
sobre as violências de São Paulo. São Paulo: Escuta/FAPESP, 2005.
EXPOSIÇÃO ‘A Rua é Nossa é de todos nós’ e o programa educativo
com Moradores de Rua. Instituto Mobilidade Verde, 9 set. 2011.
Disponível em: <[Link]
/09/09/exposicao-a-rua-e-nossa-e-de-todos-nos-desenvolveu-program
a-educativo-com-moradores-de-rua/>.
FRAIZE-PEREIRA, J. A. Arte, dor: inquietudes entre estética e
psicanálise. Cotia - SP: Ateliê Editorial, 2005.
GOFFMAN, E. Manicômios, Prisões e Conventos; tradução Dante
Moreira Leite – São Paulo: Perspectiva. 2010.
MENOR da quebrada. Orangotango. Disponível em: <[Link]
[Link]/projetos/arte-no-espaco-publico/menor-da-quebrada/#1>.
Acesso em 22/02/2021. MULTITUDE. São Paulo. Disponível em: <https://
[Link]/>. Acesso em 22/02/2021.
SILVA, T. G.; CAPECCHI, M. C. V. M.; GOMES, V. M. S. O Subprojeto
Interdisciplinar PIBID/UFABC e a formação de professores numa
perspectiva de círculos de cultura. In: MIRANDA, M. A. G. C. e ALVIM, M.
H. (orgs.) Integrando Pesquisa e Formação de Professores: contribuições
do PIBID/UFABC. Campinas, SP: Edições Leitura Crítica, 2017.
SOUZA NETO, J. C. de. Crianças e adolescentes abandonados:
estratégias de sobrevivência. São Paulo: Arte Impressa, 2002.
VYGOTSKY, L. S. A Formação Social da Mente. São Paulo: Martins
Fontes, 1995.

229
230
RELATO DE CASO ACERCA DA FORMAÇÃO E IMPRESSÕES SOBRE
O GRUPO DE PESQUISA EM DIREITO A CIDADE E O PERFIL DA
POPULAÇÃO DE RUA DO MUNICÍPIO DE SANTARÉM,
OESTE DO PARÁ

Ruan Magalhães da Silva1

Como a sociedade observa as pessoas a margem da sociedade?


Essa é uma das perguntas que justificam este estudo e que pode nos
dar uma dimensão de como determinado local reage à mazela social
que invisibiliza as pessoas desprovidas de direito. São questões sobre
o cerne de tanta negação da realidade que podem estar entre os
principais entraves para a busca efetiva de novas formas de se
encontrar soluções para os problemas que envolvem pessoas em
situação de rua no Brasil, particularmente na região de Santarém,
oeste do Pará. Cabe destacar que, antes de sabermos mais sobre as
pessoas em situação de rua, este que vos escreve não conhecia tais
terminologias envoltas à temática, conceitos e tampouco tinha acesso
a estudos sérios sobre esse grupo social no meio local, consequência
de grande inquietude. No entanto, em meados de 2018, tem-se o início
de estudos sociológico, político e jurídico das pessoas em situação de
rua do município de Santarém, assunto que envolveu diversos atores
e interessados, tornando-se necessário falar sobre a situação teórica
em torno de pesquisas sobre o tema no âmbito local.
O problema envolvendo pessoas em situação de rua vem sendo
denunciado há anos no Brasil. Estudo realizado pelo Ministério do
Desenvolvimento Social, publicado no ano de 2009, já denunciava que
no Brasil havia cerca 31,922 (trinta e um mil, novecentas e vinte e duas)
pessoas em situação de rua. As informações, no entanto, somente se
firmaram em grandes centros urbanos, precarizando a questão
interiorana. Historicamente a região norte é negligenciada em estudos
governamentais e dessa vez não foi diferente.

1
Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). E-mail:
ruandasilva1702@[Link]

231
Assim, ressaltamos que não há unificação e quantificação exata
do total de pessoas em situação de supervulnerabilidade, sobretudo
as que estão em situação de rua no país. A respeito disso, censos
demográficos conduzidos no país, principalmente os decenais
realizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),
até hoje não apresentam essa contabilidade. No caso específico de
Santarém, Aires (2019, p. 14) afirma que,

Das cidades brasileiras, em especial as cidades médias e, no caso específico, o


contexto amazônico, Santarém, não dispõe de dados municipais oficiais. Do
mesmo modo que não figuram como pauta principal nas discussões acadêmicas
realizadas em âmbito nacional acerca destas populações.

Santarém é uma cidade com pouco mais de 350 anos e é


constituída por povos amazônicos e de várias outras partes do país,
principalmente advindos do nordeste e centro-oeste. Dentre a
população local, destacam-se os indígenas, ribeirinhos e quilombolas.
Santarém é um Município de porte médio que serve de entreposto
entre grandes Capitais como Belém e Manaus, o que a torna eixo
obrigatório para um fluxo de pessoas que se estabelecem pela cidade.
É com base na tentativa de suprir, ainda que parcialmente, a
demanda por informação sobre as pessoas em situação de rua de
Santarém, que surge o Grupo de Pesquisa “O Direito a Cidade e a
População de Rua”. Grupo formado por discentes e docentes da
Universidade Federal do Oeste do Pará, em parceria com a Defensoria
Pública da União e com Centro Pop Dom Lino Vombommel (Centro de
Referência Especializado para População em Situação de Rua em
Santarém – Pará).
Em linhas gerais, no imaginário popular a população em situação
de rua é vista como indigna, desafortunada, um mau exemplo. É sobre
essa cultura que se desarticulam estigmas de modo a readequar tais
pensamentos através de uma troca de lentes e de empatia. É comum,
embora repulsivo, grupos minoritários serem negligenciados diante a
outros, como se fossem menos dignos de direitos. Em verdade, a
Constituição Federal de 1988 versa que a não discriminação em
diversas razões é um dos principais direitos inalienáveis. Ocorre que
não se faz o mínimo para efetivar tais direitos fundamentais. Veja que
o fato de estar na rua e dela prover sua vida, sobreviver, reflete a
negação de direitos básicos.

232
Outro ponto que merece destaque é a utilização de
nomenclaturas para identificar as pessoas em situação de rua. Aqui
daremos principal destaque ao termo população em situação de rua,
por acreditar que define esse grupo social em reconhecimento aos
aspectos jurídicos e políticos. Há outros termos comumente usados
como população com trajetória de rua ou moradores de rua. Este
último é usualmente desconsiderado por parte dos pesquisadores
porque, como mencionado, ninguém escolhe a rua para morar. Há
vários fatores combinados que levam a este fim, por isso opta-se por
população em situação de rua.

A mudança ocorreu no sentido de problematizar a situação em que se encontra


essa população. A pessoa em situação de rua, frequentemente, não encara a rua
como sua moradia definitiva, mas como um momento forçoso de sua vida. Por
isso, é mais adequado dizer que população ou pessoa em situação de rua
engloba aqueles que no momento utilizam a rua como sua moradia. Embora haja
controvérsias, alguns estudos se filiam a tese de que a população em situação
de Rua é bastante heterogênea e possui em comum três condições principais
que se articulam sendo elas: a condição de pobreza extrema; vínculos familiares
interrompidos ou fragilizados; inexistência de moradia convencional regular.
(FARIAS; GOMES; ALMEIDA, 2016, p. 16).

Ao visualizarmos que as causas podem ser diversas. Que estas se


convergem para a tentativa de determinar motivos que levam ao
extremo de um indivíduo encontrar a sobrevivência na rua.

A experiência de pesquisa sobre a população em situação de rua do


município de Santarém

O município de Santarém, segue uma lógica diferente das


metrópoles regionais da Amazônia por ser um entreposto entre
importantes capitais da região. Em simultâneo, influencia cidades
próximas mais ao interior da parte oeste do Pará. Detém ligação direta
através de BR-163 com o Estado do Mato Grosso e devido a isto escoa
produção de soja para vários países, basicamente pela proximidade
com a América do Norte e Europa saindo do Porto de Miritituba,
localizado em Itaituba - Pará.
Sendo assim, em primeiro momento, este fato servirá para
explicar outros pontos deste relato de experiência. Visto que em uma

233
primeira discussão poderíamos estabelecer Santarém, da relação
cidade e População em Situação de Rua, como um ponto de passagem.

Resumidamente, ocorreram em Santarém alguns acontecimentos que a


tornaram um ambiente propício para fenômenos sociais que tiveram
consequências importantes para seu crescimento econômico. Entre os quais
destacam-se a expansão da borracha, a chagada de imigrantes, o cultivo do
cacau, a produção e industrialização da juta a exploração madeireira. A Era da
Borracha, sem dúvida, foi o mais importante, pois, assegurou, definitivamente,
a função de entreposto comercial para essa cidade, reafirmando seu papel de
liderança na porção oeste do Pará. (OLIVEIRA, 2008, s/p)

De outro modo, constata os dados do IBGE (2010) que o Índice de


Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) em Santarém foi de
0,691. Na classificação dos municípios paraenses, ocupa a 4ª. melhor
colocação em todo o Estado. Diante disto, devido ao seu crescimento
populacional, desenvolvimento como uma Metrópole regional,
atração dos migrantes vindos de outras partes do país para melhoria
de vida e ao observar globalmente o contexto local, podemos notar
que a cidade não tem conseguido quantificar o contingente de
indivíduos que tem chegado.
Por consequência deste contexto, tem se tornado comum
encontrar pessoas em situação de rua pelas rodovias de Santarém
pedindo dinheiro, alimentos ou somente deitados ao chão sem
nenhum acesso a procedimentos que atendam às necessidades
básicas. Trata-se de um problema social grave que tem gerado conflito
local e não recebe a devida atenção.
Como base na problemática que envolve a população em situação
de rua em Santarém, o Grupo de Pesquisa “Direito a cidade e a
População de Rua” decide dedicar-se a estudos que possam
compreender tal fenômeno. Inicialmente foram realizadas
capacitações, rodas de conversas, análise de documentários sobre o
tema com a finalidade de explorar todo o contexto de histórias e
vivências daqueles que já tinham um trabalho anterior com o público e
pudessem fornecer informações que subsidiariam o trabalho de
pesquisa. Dentre os estudos destaca-se Ericson Quaresma Aires como
um dos importantes facilitadores de conhecimento a respeito do
delicado assunto. Assim, refletimos sobre a pesquisa intitulada por ele
“Nas margens da margem: uma análise sócio-espacial dos ‘pés-
inchados’ na área central da cidade de Santarém-PA”.

234
Conforme se aprofunda no tema, Ericson qualifica a sua vivência
de forma única e se propõe a ser uma pessoa em situação de rua e a
conviver com elas. Em vários momentos de muita proximidade e ao
passar por diversos pontos importantes da cidade, o autor discorre
com expressividade sobre o olhar da população em situação de rua
com quem convivera.
Segundo consta na pesquisa bibliográfica realizada por Aires
(2019), em certo momento da investigação um dos envolvidos
questionou “O que é aquilo?”, perguntou João do Rio. “Dizem ser o
progresso da cidade”, respondeu João de Deus. “É o futuro de
Santarém”, disse Jorge. “É a Cargill!”, disse Abimael num tom mais
sério. Os três visitantes teriam que obter mais explicações daquele
lugar para entender melhor, contudo, nenhum dos “pés-inchados”
pôde explicar suficientemente. Vendo de longe, dava para notar haver
pessoas naquele lugar. A estrutura não ficava somente da orla da
cidade para o rio, tendo outras partes em terra firme. O que também
chamava atenção era o imenso navio que estava naquele local. Talvez
nem Marco Polo, nem Baudelaire tivessem visto algo parecido. Como
não podiam se aproximar desse lugar de encher os olhos de tanta
admiração, decidiram aportar e desembarcar na passarela de concreto
que crescia ao lado da estrutura metálica gigante.
Entre outras atuações e formação até adentrar no projeto de
pesquisa, muito nos in- dignou as estruturas e invisibilidades impostas
pela ganância humana sobre a presença das pessoas em situação de
rua. O que mais se destaca é a arquitetura contra as pessoas em
situação de rua que consiste em lhes negar o dormir em bancos de
praças públicas, sob viadutos e outros espaços. Impondo-se,
sistematicamente, obstáculos, seja com o uso de blocos de concreto
sob os viadutos ou divisão de bancos de praça com barras de ferro. A
suposta naturalização da desumanidade é muito alarmante.
Santarém não difere das várias partes do Brasil, o único viaduto
da cidade possui rampas que impedem as pessoas de permanecerem
no local. Não se trata aqui em dizer que esses lugares devem servir
como abrigo aos que precisam, mas que não deixe de representar
possibilidades de acolhimento aos que necessitam.
É importante citar a figura do Padre Júlio Lancellotti, da cidade de
São Paulo, como um exemplo de pessoa que está na luta pelos direitos
da população em situação de rua. Ele, no seu ato de bravura e

235
indignação, no auge dos seus 70 e poucos anos de idade, demonstrou
com muito simbolismo que os blocos de concreto postos pela prefeitura
da cidade de São Paulo na área que detém um dos maiores números de
pessoas em situação de rua era uma violação contínua aos direitos
daqueles que buscam de alguma forma abrigar-se da chuva, do frio, do
calor. (PADRE JÚLIO LANCELOTTI, 2021). Demonstra-se cabalmente
que, a todo momento, estado e sociedade tentam, de todas as formas,
insuflar-se contra as pessoas em situação de extrema vulnerabilidade.
Há diversos casos que podem ser facilmente encontrados na rede
mundial de computadores com apenas um clique. É a negligência que
ainda perpétua no poder público e na vida cotidiana.
Tendo com base esse contexto, após os encontros de formação
sobre a temática, o grupo de pesquisa realizou-se uma visita técnica
ao Centro Pop Dom Lino Vombommel, com objetivo de testar o
questionário que outrora estava sendo elaborado para coletada de
dados sobre a população em situação de rua.
Verificou-se no momento, conforme relatos dos próprios
frequentadores daquele espaço, que muitos dependem das refeições
oferecidas pelo Centro e, como na rua não há espaço adequado para a
realização de higiene básica, a instituição é utilizada para essas
atividades, diuturnamente, de segunda a sexta, sendo, portanto, um
local onde as pessoas em situação de rua da cidade permanecem no
período diurno, mas a noite volta para a rua.
Ainda não há por parte do município um projeto de albergues ou
espaço de moradia temporária destinados à população em situação de
rua, para além da experiência premiada concedida ao “Centro Pop”.
Há iniciativas privadas de espaços de tratamento contra drogas e
outros que, em razão de financiamentos públicos e privados, tem a
incumbência de retirar essa população da rua. No entanto, não se sabe
ao certo o que ocorre dentro destes estabelecimentos, razão pela qual
este é um objeto para outro estudo.
Certo que isso é um dos principais problemas enfrentados pelas
pessoas em situação de rua no contexto nacional. Dormir à rua é um
fator de insegurança, visto que não se sabe a maneira como acordará.
Entre as principais reclamações que se ouve entre aqueles que se
encontram em situação de rua, está o receio de ser morto. Nota-se que
essas pessoas costumam procurar lugares para dormir em que se

236
sintam acolhidas, protegidas para dormir e até mesmo vigiadas
(SOUSA et al. 2020).
Ainda sobre os dados levantados, os entrevistados entre 35 e 45
anos de idade possuem pouca qualificação profissional, baixa
escolaridade e a ida à rua está vinculada, principalmente, a conflitos
familiares. Os dados também revelaram que cerca de 59% por cento
das pessoas entrevistadas apontaram o conflito familiar como um
fator determinante para estarem em situação de rua.
Além de evidenciar a questão familiar, o estudo mostrou como se
dá a higiene pessoal deste público. Um ponto peculiar das entrevistas
está envolvido com a pergunta sobre onde realizavam a higiene
corporal e de seus pertences. Os rios Tapajós e Amazonas, em frente a
orla, foram apontados como locais preferenciais, bem como um
banheiro público que fica no Mercadão 2000. Cabe destacar que essa
relação com o rio merece ser melhor analisada, dada a localização e
especificações do município que possibilitam essa dinâmica. Além
disso, é bastante comum ver indivíduos na beira do rio em nudez
explícita, o que, além de evidenciar conflito com a lei, traz riscos à
saúde, tendo em vista que a falta de saneamento básico faz com que
os esgotos estejam conectados com os rios, tornando a água
imprópria para banho e consumo.
A relação das pessoas em situação de rua para com a cidade de
Santarém é bem dinâmica, pode-se auferir que não ficam no mesmo
lugar por muito tempo, ora estão na orla, ora no porto da cidade. A
orla é um importante espaço para o ganho tendo em vista que muitas
pessoas em situação de rua ali permanecem vigiando carros em troca
de dinheiro ou coletando matérias recicláveis. Outra fonte de renda
estava em ser carregador no Porto de Embarcações do Município, no
entanto, a mudança para outro do município, devido a questões
técnicas, fez com que alguns grupos fossem para locais próximos em
busca de trabalho.

[...] a principal atividade apontada como fonte de renda foi a de vigiar carros. A
concentração dessas pessoas pode ser constatada na Avenida Tapajós,
localizada em frente à cidade e considerada uma das mais importantes, tendo
em vista o seu acesso à área comercial. Também, na Avenida Presidente Vargas,
localizada próxima a uma clínica, onde também ocorre um grande fluxo de
pessoas (SOUSA et al. 2020, p. 17).

237
Além disso, outra principal causa de mudança de perspectiva é a
falta de emprego formal, esta se dá por conta do preconceito em torno
desse grupo social, inclusive para acesso a políticas públicas.
Entre os relatos levantados em uma das rodas de conversas do
grupo ganha destaque a ação dos comerciantes locais contra a
população em situação de rua, que solicita constantemente que a
polícia a retire das proximidades dos restaurantes da orla da cidade, do
centro, pois a clientela acha incomoda a presença destes atores. Outro
fato trata da presença de grupos na praça do “trenzinho”, em frente
ao CAS de Arrimo, considerado um local de uso de drogas e onde
embates frequentes ocorrem entre usuários da praça, empresários e
pessoas em situação de rua. De acordo com Aires (2019, p. 28),

Os “pés-inchados” encaram o medo constante e seguem, mesmo a custo


elevado diante a qualquer coisa ante a uma possível punição, a relação entre os
“pés-inchados’ e os “homens da lei” em torno da orla fluvial da cidade
geralmente também é conflituosa.

Em Santarém, segundo dados do Centro Pop Dom Lino, registrado


pelo Portal G1 Santarém e Região em reportagem disponível na rede de
‘internet’ (COM MAIS DE 3.400, 2019), a população em situação de rua
em gira em torno de 1000 (mil) pessoas, supomos que esse número seja
ainda maior devido o aumento de desigualdade social no país. Podemos
dimensionar a amplitude devido ao total de atendimentos realizados
desde a inauguração do Centro pop e que ultrapassa o número de 5.000
(cinco mil) em menos de três anos.
O município ainda enfrenta outro problema que tem impactado
no aumento do número de pessoas em situação de rua que é a
chegada de indígenas da etnia Warao, que utilizam a rua para pedir
ajuda aos seus filhos, bem como emprego e outros. Compreende-se,
assim, que essa comunidade pode ser vista como população em
situação de rua, visto que de dependem dela para sobreviver.
Ainda, discorrendo sobre as peculiaridades do povo Warao,
conforme relatório- realizado pela Agência da Organização das Nações
Unidas para Refugiados (ACNUR), atualmente, 131 Waraos, sendo 61
crianças e adolescentes, estão vivendo em Santarém. (ALTO
COMISSARIADO DAS, 2021). Abrigados pela Prefeitura, muitos deles
chegam em situação de alta vulnerabilidade social. De acordo com
Antônio Carlos Cabral, oficial de Saúde da UNICEF na Amazônia. Para

238
que haja harmonia é preciso haver um esforço coletivo e coordenado
para o acolhimento adequado dos venezuelanos indígenas e não
indígenas, pois se trata de salvar vidas e aliviar sofrimentos. Existem
barreiras linguísticas e culturais, mas existe também preconceito que
precisamos enfrentar e juntos garantir, promover, proteger e respeitar
os direitos de crianças e adolescentes venezuelanas. Além disso,
segundo a própria ACNUR, a maioria das famílias (59%) alegou não ter
formas de gerar renda no Brasil, tendo que recorrer à coleta nas ruas
(prática de pedir dinheiro).
Em síntese, podemos identificar alguma proximidade com os
mesmos problemas enfreamentos pela população em situação de rua
brasileira. Pedir dinheiro é uma prática notória para quem anda pelo
centro da cidade. Normalmente são mulheres com filhos menores de
idade que ficam próximos à atividade bancária e financeira ou
próximas às lojas e parada de ônibus pedindo dinheiro.
Partindo desse fato, é interessante verificar que durante a
aplicação de questionários realizados pelo Grupo de Pesquisa, em
nenhum momento se verificou a presença de mulheres e crianças
pelos lugares onde foram passados, entre os quais: a Praça Tiradentes,
a Praça Rodrigues dos Santos, a Praça Barão de Santarém, a Avenida
Presidente Vargas, o trecho entre as travessas 7 de setembro e Silva
Jardim, a Orla da cidade, o perímetro onde está localizado o
“Trenzinho” e o perímetro onde está localizado o terminal fluvial
turístico (SOUSA et al. 2020, p. 9-10).
O resultado é a necessidade de haver estudo contínuo referente
às pessoas em situação de rua para realização de um diagnóstico mais
profundo sobre o tema, haja visto que com advento das crises
econômicas que o Brasil vem vivendo, a falta de políticas públicas
concretas e assistência social delicada, essa população tende a ficar
ainda mais a margem da sociedade. É a contribuição capitalista para o
aumento das pessoas em situação de rua em Santarém
O Município de Santarém atualmente passa por um crescimento
econômico acelerado, com grandes projetos sendo executados por
toda a cidade. Tais atividades vêm favorecendo a expulsão de atores e
moradores locais para áreas de periferia devido ao aumento de
impostos e a falta de aplicação das políticas sociais necessárias ao
desenvolvimento também social. Percebemos que, com a chegada
desses empreendimentos, vem a massa de pessoas em busca de

239
emprego e renda, grande parte não tem formação suficiente e acaba
ficando pelas ruas da cidade.

Por esta razão com relação também com o diagnóstico realizado pelo grupo, a
maioria dos entrevistados possui uma renda diária de R$20 (vinte reais). Em
média menos de um salário mínimo por mês para sobreviver, como mencionado
anteriormente em sua exclusividade por trabalho informal. São estratégias que
podemos estabelecer como trabalhadores livres, que tomam a própria iniciativa
em como poderiam utilizar os trabalhadores no dia.

É neste sentido que se observa que a cidade não acompanha o


crescimento urbano e social, onde cada vez as pessoas mais pobres
têm sido afastadas do centro e sendo levadas a periferia do Município.
Até mesmo sobrevivem da rua. É como se retrata no sentido de
expulsar as pessoas da cidade para longe das vistas de quem quer
esconder a realidade.

Este dinamismo político-econômico de Santarém torna-se visível na sua intensa


urbanização, com fortes características de periurbanização. A cidade se
expandiu e se reafirmou como líder no oeste do Pará, mas, sua rápida e intensa
expansão urbana apre- senta um caráter de precariedade no que tange aos itens
relacionados com infra-estrutura e equipamentos de serviços. Na cidade há
loteamentos clandestinos, moradias precárias e acentuada violência urbana,
fenômenos que são claras expressões da presença de áreas de exclusão e
segregação sociais, em contradição com a área central, mais equipada.
(OLIVEIRA, 2008, s/p)

A população em situação de rua do município de Santarém tem


características que não fogem ao que tem sido evidenciado em
relatórios nacionais. Boa parte é constituída por homens, maiores de
idade, pretos, baixa escolaridade e em decorrência de conflitos
familiares permanecem sobrevivendo da rua. São pessoas com uma
história, um rosto, uma vida.
Em suma, a experiência do grupo de pesquisa nos faz refletir sobre
a delicadeza com que o tema deve ser tratado. Em respeito aos
indivíduos e suas vivências, conhecemos pessoas de fora da cidade que
há vinte anos buscam explicar e ajudar na formação de políticas públicas
nacionais sobre o tema. Além do que a cidade deve ter uma forma de
acolhimento a todos que buscam viver dela e por ela. Ninguém vive a
rua porque quer, em sua maioria não, mas por necessidade.

240
É necessário avançar na garantia de Direitos à Moradia,
Dignidade, Participação social e deve haver maior envolvimento do
Poder Público em tomar ações que não sejam apenas assistencialistas.
Várias experiências nacionais e internacionais demonstram ser
possível sair da rua e viver plenamente em sociedade.
Sendo assim, foi com esta finalidade e com intuito de nortear
aqueles que buscam informações sobre as pessoas em situação de rua
do município de Santarém que se levantou dados mínimos sobre o tema.

Referências

AIRES, Ericson Quaresma. Nas margens da margem: uma análise sócio-


espacial dos “pés-inchados” na área central da cidade de Santarém-PA.
UFOPA, 2019. Disponível em: [Link]
JCiD2R2VVlhbOfFuVxGl30q8ql/view Acesso em fevereiro de 2021.
ALTO COMISSARIADO das Nações Unidas para os Refugiados. ACNUR,
Brasil. Santarém Acolhedora: Município celebra 2 anos de acolhimento
de venezuelanos. Disponível em: <[Link]
2019/11/26/santarem-acolhedora-municipio-celebra-2-anos-de-acolhim
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ALTO COMISSARIADO DAS Nações Unidas para os Refugiados.
ACNUR, Brasil. Perfil de indígenas venezuelanos Warao estado do
Pará. Disponível em: <[Link]
ult/files/image_1_1596328353_0.pdf> Acesso em fevereiro de 2021.
BRASIL. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Santarém: Regiões
do Município de Santarém. Disponível em: <[Link]
br/cidades-eestados/pa/sant [Link]>. Acesso em: fevereiro de 2021.
COM MAIS DE 3.400 pessoas em situação de rua atendidas, Centro POP
completa 5 anos em Santarém: Instituição desenvolve várias ações
visando a reinserção na sociedade das pessoas que procuram ajuda. G1
SANTARÉM - PA (Santarém-pa). Jornal Tapajós (Org.). 2019. Disponível
em: <[Link]
mais-de-3400-pessoas-em-situacao-de-rua-atendidas-centro-pop-
completa-5-anos-em-santar [Link]>. Acesso em fevereiro de 2021.
ENCONTRO DEFINE novo alojamento e assistência para venezuelanos
refugiados em Santarém. Segundo o governo, número de refugiados

241
chega a 61, sendo 36 crianças. Alojamento cedido pela Diocese de
Santarém por um mês não tem como receber tantos venezuelanos. G1
SANTARÉM – PA (Santarém-pa). Jornal Tapajós. Disponível em:
[Link]
[Link].
Acesso em fevereiro de 2021.
FARIAS, Sandra Martins. GOMES, Marcella Furtado de Magalhães. DE
ALMEIDA, Eduarda Lorena. Proteção, Promoção e Reparação dos
Direitos dos Cidadãos em Situação de Rua. V.04. Belo Horizonte:
Marginália Comunicação, 2016.
OLIVEIRA, Janete Marília Gentil Coimbra de. Expansão urbana e
periferização de Santarém-PA, Brasil: questões para o planejamento
urbano. Diez años de cambios en el Mundo, en la Geografía y en las
Ciencias Sociales, 1999-2008. Actas del X Coloquio Internacional de
Geocrítica, Universidad de Barcelona, 26-30 de mayo de 2008.
Disponível em: <[Link] Acesso em
fevereiro de 2021.
PADRE JÚLIO LANCELOTTI quebra a marretadas pedras instaladas pela
prefeitura sob viadutos de SP. PORTAL G1 SÃO PAULO. Disponível em:
<[Link] o-paulo/noticia/2021/02/02/padre-julio-
lancelotti-quebra-a-marretadas-pedras-instaladas-so b-viadutos-pela-
[Link]> Acesso em fevereiro de 2021.
SOUSA, Fabiana Letícia Costa de; SOUSA, Jenna Valéria Santos de;
SANTANA, Poliana Nunes; REIS, Ana Beatriz Oliveira. O direito à cidade
e a população em situação de rua: um estudo de caso sobre Santarém
- PA. Disponível em: <[Link]
nFHpFdg58KF5RbdM8zIa78/view?usp=sharing> Acesso em novembro
de 2020.

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Common questions

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A percepção de moradores de rua como "marginais" é desconstruída na narrativa de Esão através de sua experiência pessoal de perda e luto, que o faz lutar por dignidade e reconhecimento de direitos para essa população . Ao ser impedido de saber sobre a morte de sua família por ser classificado como pessoa em situação de rua, Esão passa a entender e vivenciar profundamente a discriminação e o preconceito . Ele se torna politicamente consciente e engajado, criando o Movimento das pessoas em situação de rua para reivindicar direitos, demonstrando que os moradores de rua possuem o direito de aparecer e participar da esfera pública . A sua ação de levar mais de 300 moradores de rua à Câmara Municipal simboliza uma luta contra a desumanização e pela inclusão social, rompendo com os estigmas que os rotulam como "indigentes" ou "perigosos" .

Pessoas em situação de rua utilizam várias estratégias para combater a invisibilidade e melhorar suas condições de vida, como criar grupos de apoio e desenvolver movimentos que promovem articulação política e social, como o Movimento de Pessoas em Situação de Rua. Estas ações fortalecem a comunidade, fornecem proteção mútua, e facilitam o reconhecimento social, demonstrando que são capazes de mobilização e autocapacitação para lutar por seus direitos .

As condições de vida afetam profundamente a identidade e autopercepção dos moradores de rua, tornando-os vulneráveis à desumanização e ao sofrimento de indeterminação. Esão, ao não poder participar de rituais básicos de despedida de sua família e enfrentando barreiras no acesso à informação e direitos básicos, experimenta uma privação que desafia sua dignidade e cidadania . Sua luta por reconhecimento e espaço político ilustra como a exclusão social afeta sua percepção de si mesmo, engajando-o em movimentos que reivindicam o "Direito de aparecer", conforme proposto por Butler, e transformar a rua de um espaço de invisibilidade em um local de luta e identidade coletiva . As experiências de Esão revelam como a falta de reconhecimento social e as condições precárias de vida exacerbam a exclusão e a desumanização, impactando gravemente a autopercepção e a identidade dos moradores de rua .

A ideia de "política de morte" de Mbembe está ligada à forma como a sociedade e o Estado tratam os moradores de rua, refletindo uma negligência institucional e social que resulta em tragédias repetidas. Essas pessoas enfrentam condições que as expõem a riscos extremos, como mortes por envenenamento e hipotermia, que são vistas como consequências de uma política que os transforma em "coisas da rua" ao invés de reconhecê-los como seres em "situação de rua" . A negligência estatal, evidenciada na distribuição limitada de cobertores sem um esforço estruturado para oferecer soluções duradouras, exemplifica uma política que perpetua sua vulnerabilidade extrema . Esse tipo de prática estatal e social alinha-se à necropolítica de Mbembe, onde certas vidas são menosprezadas, e seus direitos fundamentais, incluindo o direito à vida, são negados de forma rotineira .

A narrativa pessoal de Esão desafia os estereótipos sociais sobre pessoas em situação de rua ao mostrar que essas pessoas não são simplesmente "drogados" ou "perigosos", como comumente estigmatizados, mas indivíduos com histórias complexas e direitos que são frequentemente negados. Esão, após perder sua família, enfrentou a discriminação e o descaso do poder público, destacando-se como ativista e fundador do Movimento das Pessoas em Situação de Rua em São Paulo, desafiando a percepção negativa prevalente . Seu testemunho revela a violência de Estado e o preconceito culturalmente enraizado que categoriza essas pessoas como "não humanas" ou "vidas não passíveis de luto", exigindo um reconhecimento e dignidade há muito negados . O relato de Esão também evidencia o papel da solidariedade e da luta coletiva como formas de humanização e reivindicação de direitos, subvertendo a invisibilidade imposta socialmente e promovendo uma dignidade que a sociedade frequentemente lhes nega . A luta de Esão na esfera pública, apesar dos obstáculos, representa uma tentativa de participar ativamente das decisões e mudar a narrativa sobre essas vidas que são constantemente marginalizadas .

A narrativa de Esão ilustra o conceito de "vidas não passíveis de luto" de Judith Butler ao revelar a situação de pessoas em situação de rua como desumanizadas e desprovidas de reconhecimento social no contexto neoliberal. Esão, ao perder sua família e ser barrado de obter informações sobre eles por ser identificado como morador de rua, exemplifica como certas vidas são consideradas "excedentes do capital" e tratadas com descaso e abandono pelo poder público . Ele não pode vivenciar "o luto" legitimamente, o que caracteriza como Butler descreve a "regulação da comoção", onde vidas são invisibilizadas e desconsideradas . A situação de Esão evidencia a falta de políticas públicas eficientes e a violência ética que Butler identifica, ocorrendo quando direitos básicos são ignorados em nome da defesa de outros interesses . Além disso, Esão luta para garantir o "direito de aparecer", que Butler denomina essencial para o reconhecimento na esfera pública, mas enfrenta barreiras políticas e sociais que perpetuam a exclusão . A condição de Esão e sua mobilização refletem a fragilização e precariedade do reconhecimento de corpos não inteligíveis em uma matriz cultural que engendra categorias de vidas menos valorizadas .

O Movimento de Pessoas em Situação de Rua exemplifica a organização coletiva como um meio crucial de transformação social pela promoção de visibilidade e defesa dos direitos dessa população. Movimentos organizados, como o Projeto Invisíveis, envolvem pessoas de todo o Brasil discutindo questões relevantes para a vida nas ruas, contribuindo para a humanização e justiça social através de publicações e diálogos . Além disso, a união de pessoas em situação de rua propicia proteção, pertencimento e a capacidade de questionar e lutar contra as violações de direitos humanos que enfrentam . A interação dessas organizações com políticas públicas, como a Política Nacional para a População em Situação de Rua, embora insuficiente, demonstra o potencial da organização coletiva para influenciar e cobrar transformações necessárias na sociedade . Esse movimento também levanta a necessidade de implementação de abordagens como "Moradia Primeiro", essencial para garantir direitos básicos, fomentar a integração social e transformar a percepção e tratamento da população em situação de rua .

O conceito de "gestão da morte" em relação às políticas públicas para moradores de rua refere-se à maneira como o Estado e a sociedade tratam as vidas dessas pessoas com negligência e abandono, tratando suas mortes como não importantes ou evitáveis. A política pública frequentemente adota medidas paliativas e assistencialistas, como a distribuição anual de cobertores e sacos térmicos em São Paulo, em vez de implementar ações efetivas de inclusão social e garantias de direitos . A intersetorialidade nas políticas, que poderia proporcionar um sistema mais justo e inclusivo, ainda é subdesenvolvida, resultando na perpetuação de uma "política de morte", onde vidas de moradores de rua são invisibilizadas e desvalorizadas, permitindo que condições de negligência perdurem e contribuam para mortes evitáveis . Essas práticas refletem uma gestão que não promove a vida, mas sim perpetua a possibilidade da morte dessas populações, tratando-as como "coisas de rua" ao invés de seres humanos em situação de rua .

Honneth explica o papel das relações sociais nas vivências das pessoas em situação de rua como um processo essencial de reconhecimento e solidariedade. A luta por reconhecimento é central para a inclusão dessas populações na sociedade e nas esferas de direitos, além de ser um motor para a solidariedade entre indivíduos em situação similar . Essa busca por reconhecimento se manifesta na formação de grupos, que fornecem um sentido de pertencimento e identidade a partir de valores comuns, o que é crucial para sua socialização . Tais relações podem reduzir a exclusão social e oferecer proteção contra a violência e a marginalização continuada .

Judith Butler critica a normatividade social, destacando como ela marginaliza e invisibiliza certas populações, como os moradores de rua, ao não reconhecer suas vidas como dignas de luto ou proteção . Butler argumenta que essa normatividade exclui corpos "não inteligíveis" ao não garantir cuidados básicos e ao desconsiderar seus direitos e cidadania, refletindo uma prática de necropolítica que negligencia essas vidas . Tal crítica busca evidenciar como a estrutura social falha em tratar todas as vidas com dignidade, agravando a precariedade e perpetuando a exclusão ."}

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