Trajetória Militar de José Pessoa
Trajetória Militar de José Pessoa
APRESENTADA POR
RAFAEL ROESLER
APRESENTADA POR
RAFAEL ROESLER
RAFAEL ROESLER
Tese de Doutorado apresentada à Escola de Ciências Sociais FGV CPDOC como requisito
parcial para a obtenção do grau de Doutor em História, Política e Bens Culturais.
Roesler, Rafael
Marechal José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque: vida e trajetória militar /
Rafael Roesler. – 2021.
745 f.
CDD – 923.581
RAFAEL ROESLER
TESE APRESENTADO(A) AO CURSO DE DOUTORADO EM HISTÓRIA, POLÍTICA E BENS CULTURAIS PARA OBTENÇÃO DO GRAU DE
DOUTOR(A) EM HISTÓRIA, POLÍTICA E BENS CULTURAIS.
PROFº/ª CELSO CORRÊA PINTO DE CASTRO PROFº ANTONIO DE ARAUJO FREITAS JUNIOR
DIRETOR(A) PRÓ-REITOR DE ENSINO, PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO
À Deus, Senhor de todos os exércitos.
AGRADECIMENTOS
A presente tese tem por objetivo apresentar um trabalho biográfico do marechal José Pessoa,
uma das principais lideranças militares das décadas de 1930 e 1940. Nascido no seio de
famílias oligárquicas de forte influência política na vida da República, José Pessoa dizia-se
contrário ao envolvimento dos militares na política. No seu ponto de vista, a maneira dos
militares fazerem política era a gênese de muitas infelicidades para a Nação, embora tenha
sido parte ativa do movimento revolucionário de 1930, que depôs o presidente Washington
Luís. Encontra-se no panteão das personalidades cultuadas no Exército Brasileiro, por ter
possuído virtudes e portado valores que o tornaram um dos modelos ideais de soldado e de
chefe militar a serem seguidos pelos integrantes da Instituição. Pessoa combateu na Primeira
Guerra Mundial, comandou o Corpo de Bombeiros do Distrito Federal e a Escola Militar do
Realengo, presidiu o Clube Militar, participou da fundação do Centro de Estudos e Defesa do
Petróleo e chefiou a Comissão de Localização da Nova Capital Federal. Em 1937, posicionou-
se veementemente contra o golpe do Estado Novo. O confronto de ideias com os generais
Góes Monteiro e Eurico Gaspar Dutra acabou o afastando do centro do poder militar e o levou
ao ostracismo no final da carreira. Diante disso, o foco da pesquisa se concentrou não só no
resgate da sua trajetória militar, mas também das suas origens familiares e da forma como se
posicionou diante dos cenários político, econômico e social do Exército e da Nação. Como
instrumentos metodológicos foram utilizadas as indicações metodológicas e teóricas de Vavy
Pacheco Borges e Gilberto Velho, ao selecionar-se aquilo que parecia significativo na vida do
personagem e analisar-se o contexto em que foi construída sua trajetória profissional. Uma
pesquisa realizada nos acervos documentais do Centro de Pesquisa e Documentação de
História Contemporânea do Brasil, da Fundação Getúlio Vargas, possibilitou o acesso às
fontes. Conclui-se que, ao defender, durante toda a sua vida militar, o afastamento dos
militares da política partidária, José Pessoa fez parte, juntamente com alguns poucos oficiais
generais, de um projeto de Exército derrotado no período pós-Revolução de 1930.
This objective of this thesis is to present a biography of Marshal José Pessoa, one of the main
military leaders of the 1930s and 1940s. José Pessoa, who was born into oligarchic families
with strong political influence in the country, was against the involvement of the military
personnel in politics. In his opinion, the military way of doing politics was the genesis of
great misery for the Nation, despite his participation in the revolutionary movement of 1930,
which deposed the President Washington Luís. Due to his virtues and values, which made him
one of the perfect models of soldier and military leader to be followed by members of the
Institution, he is part of the pantheon of personalities who are revered within the Brazilian
Army. Pessoa fought in the First World War, commanded the Fire Department of the Federal
District and the Realengo Military School, chaired the Military Club, participated in the
founding of the Center for Studies and Defense of Petroleum and was the leader of the
Commission responsible to find a new location for the New Federal Capital. In 1937, he took
a strong stand against the Estado Novo coup. For the clash of ideas with General Góes
Monteiro and General Eurico Gaspar Dutra, he was withdrawn from the center of the military
power and led to ostracism at the end of his career. Having said that, the focus of the research
was not only on rescuing his military trajectory, but also on his family origins and the way he
stood before political, economic and social scenarios of the Army and of the Nation. The
methodological and theoretical indications of Vavy Pacheco Borges and Gilberto Velho were
used as methodological tools for the selection of what seemed to be significant in Pessoa’s
life and for the analysis of the context in which his professional trajectory was built. A
research that was carried out in the documentary collections of the Research and
Documentation Center of Contemporary History of Brazil, at the Getúlio Vargas Foundation,
allowed the access to the sources. We conclude that, by defending the withdrawal of the
military personnel from political parties throughout his military life, José Pessoa and a few
other generals were part of a defeated Army project in the post-Revolution period of 1930.
BC – Batalhão de Caçadores
BG – Batalhão de Guardas
BM – Biblioteca Militar
CB – Corpo de Bombeiros
CC – Corpo de Cadetes
DC – Divisão de Cavalaria
EM – Estado-Maior
Esq – Esquadrão
GO – Grupo de Obuses
JC – Juventude Comunista
LN – Liga Nacionalista
PC – Posto de Comando
PM – Polícia Militar
PRP – Partido Republicano Progressista
RD – Regimento de Dragões
RI – Regimento de Infantaria
RM – Região Militar
1 INTRODUÇÃO...................................................................................................... 21
2 O GÊNERO BIOGRÁFICO................................................................................. 31
9.2 A questão dos soldos, o levante comunista de 1935 e o Estado Novo............. 537
12 CONCLUSÃO...................................................................................................... 717
REFERÊNCIAS........................................................................................................ 721
21
1 INTRODUÇÃO
Após ter sido relegado a segundo plano, por ter sido, durante décadas, considerado um
gênero menor, o biográfico ressurgiu com força no fim dos anos 1970. Como lembra Levillain
(2003, p. 141), foi nessa época que as biografias floresceram na França. Antes, porém, a
escrita de biografias já havia sido reabilitada nas universidades francesas, nos últimos anos da
década de 1960, acompanhado, ao que parece, a retomada dos estudos da história política no
meio acadêmico.
Como destaca François Dosse (2015) em O Desafio Biográfico, a biografia tem
despontado como um setor privilegiado de experiências que suscitam a paixão tanto de
escritores como de historiadores e pesquisadores em ciências humanas, o que tem causado um
aumento das publicações que se propõem a narrar histórias de vidas. A realidade apresentada
por Dosse não é um privilégio dos mercados franceses1 ou anglo-saxões, onde, aliás, as
narrativas biográficas nunca despareceram como gênero literário, mesmo depois do advento
dos Annales, apontado pela historiografia como o grande responsável pelo ocaso do gênero
biográfico. O mercado editorial brasileiro, mesmo, tem apresentado números expressivos nos
últimos anos, no tocante às publicações que envolvem contar a vida de um indivíduo.2
Entretanto, como destaca Dosse (2015, p. 5), o crescimento sistemático das
publicações biográficas se deve, principalmente, aos empreendimentos de inúmeros
romancistas, o que acaba aproximando mais as narrativas de vida do gênero literário do que
da pesquisa histórica. A verdade é que a biografia nunca teve fronteiras muito bem definidas.
Como aponta Revel (2010, p. 35), pode-se considerar que a continuidade de seu sucesso
editorial se deve à sua capacidade de romper os limites canônicos estabelecidos e de ocupar os
espaços em meio à literatura e à história. Loriga (2011) lembra, ainda, que a fronteira que
separa a biografia da história se mostrou, ao longo do tempo, bastante incerta e conflituosa,
em grande parte porque desde o final do século XVIII os historiadores se desviaram das ações
dos indivíduos para se dedicarem a descobrir os processos invisíveis da história universal.
O certo, no entanto, é que o interesse por trabalhos biográficos, que se reflete na
pluralidade de públicos e de leitores, excede a lógica do mercado ou o fascínio que parecem
exercer os personagens notáveis. Avelar (2012, p. 63) lembra que o “nosso gosto pelas
1
Levillain (2003, p. 143) destaca a profusão de coleções de biografias no mercado editorial francês, no qual a
influência de historiadores tem crescido sistematicamente.
2
Uma pesquisa realizada pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros, realizada em 2021, apontou um
crescimento de 46% nas vendas de livros, principalmente os digitais, entre os primeiros semestres de 2020 e
2021, muito em função do isolamento social provocado pela pandemia de COVID-19. As biografias destacaram-
se, dentre os best-sellers vendidos.
22
escritas de vida ancora-se num extenso leque de interesses pelo ‘outro’: suas experiencias de
vida, a curiosidade não isenta de voyeurismo, a exemplaridade”.
As transformações ocorridas no campo da história, de uma maneira geral, e na história
do século XX, especialmente, geraram uma nova discussão sobre o papel dos atores sociais, o
que permitiu que a biografia retomasse o seu espaço nos debates historiográficos atuais, como
aponta Ferreira (2012, p. 9). Distinta da obra ficcional, própria da literatura, a biografia
histórica deve ser posta à prova de verificação pelos critérios do método científico, devendo o
biógrafo atentar, no entanto, para as contradições lembradas por Lejeune (1980), de ocultar os
fundamentos ideológicos e seu projeto, em busca do discurso erudito peculiar aos trabalhos
científicos (não se escreve uma biografia por mero afã do conhecimento), e de buscar uma
narrativa totalizante, uma vez que existem as barreiras documentais (não é possível dar conta
de toda uma vida), surgindo daí a necessidade de se recorrer à psicologia e à imaginação
ficcional.
Acompanhando a tendência internacional de renovação historiográfica, diversos
historiadores brasileiros voltaram a apostar na biografia como forma de lidar com problemas
de pesquisa bastante diversos, a partir dos anos 1980. Apesar de não se tratar de um
movimento homogêneo, nem de uma escola, como lembra Schmidt (2012, p. 202-203), as
pesquisas produzidas, em lugares institucionais diversificados, têm procurado expressar uma
preocupação voltada a repensar as interpretações consagradas sobre a história brasileira, a
partir do percurso de determinados indivíduos em contextos específicos. O percurso de
militantes brasileiros ou estrangeiros que atuaram nos movimentos operários na transição do
século XIX para o XX no Brasil, as experiências de escravos e libertos nos períodos da
escravidão e pós-abolição, o papel dos “grandes personagens” da história nacional, as práticas
discursivas e não discursivas de determinados sujeitos históricos, são algumas das diversas
experiências que pretendem repensar os personagens, temas e problemas significativos à
historiografia nacional.
Entretanto, ainda é muito incipiente a produção biográfica no campo da nova história
militar, principalmente no meio acadêmico. A renovação que se operou no campo, a partir da
década de 1990, sob a tutela de Celso Castro, Vitor Izecksohn e Hendrik Kraay (dentre outros
pesquisadores), devido a uma maior influência da história social, da sociologia e da
antropologia, cuidou de mudar o foco da tradicional história militar, voltada exclusivamente
ao estudo das batalhas, armas e heróis nacionais, e apresentar à historiografia novos olhares
sobre as instituições militares e a atuação de seus personagens. As poucas obras publicadas
antes desse período se destinavam às narrativas memorias de personagens que procuravam
23
narrar suas experiências na caserna ou suas participações nos grandes eventos políticos da
Primeira República, principalmente. Mais recentemente, entretanto, há uma tentativa de se
reavivar as pesquisas biográficas sobre os personagens militares, das quais pode ser
considerada um dos pontos de inflexão do campo a biografia de Luiz Alves de Lima e Silva, o
Duque de Caxias, escrita por Adriana Barreto de Souza, publicada em 2008, por não se ater
aos aspectos laudatórios do herói nacional, mas, por traçar o perfil familiar e social que
fizeram do patrono do Exército um dos principais sustentáculos do Império e da unidade
nacional.
A partir desse contexto é que esta pesquisa foi pensada e desenvolvida. Está inserida
na área de concentração História, Política e Bens Culturais, na linha de pesquisa Instituições e
Política, e tem como tema “Marechal José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque – vida e
trajetória militar”. Sendo assim, o objeto da pesquisa foi produzir um trabalho biográfico
sobre o marechal José Pessoa, uma das principais lideranças militares das décadas de 1930 e
1940.
Nascido no seio de famílias oligárquicas de forte influência política do Nordeste
brasileiro, José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque era irmão de José Pessoa, governador da
Paraíba entre os anos de 1928 e 1930, e sobrinho de Epitácio Pessoa, presidente da República
entre 1919 e 1922. Apesar do forte envolvimento da família na vida política do País, dizia-se
contrário ao envolvimento dos militares na política, pois na sua visão “a nossa maneira [dos
militares] de fazer política tem sido a gênese de muitas infelicidades para o País”. Entretanto,
completava, “não se deve inferir daí que eu os condene” (CASTRO, 2002, p. 41). Em 1922,
manteve-se ao lado da legalidade e condenou veementemente o movimento tenentista. Porém,
anos mais tarde, comandou as forças militares e civis que tomaram o Palácio da Guanabara,
na então Capital Federal, que depuseram o presidente Washington Luís, durante a Revolução
de 1930.
O marechal José Pessoa encontra-se no panteão das personalidades cultuadas no
Exército Brasileiro, por ter possuído virtudes e portado valores que o tornaram um dos
modelos ideais de soldado e de chefe militar a serem seguidos pelos integrantes da Instituição.
Durante o processo de socialização profissional por que passam os cadetes da Academia
Militar das Agulhas Negras (AMAN), única escola de formação dos oficiais combatentes do
Exército e da qual Pessoa foi o idealizador, seu nome é constantemente evocado. 3 No
comando da Escola Militar de Realengo, precursora da AMAN, entre os anos de 1931 e 1934,
3
É durante esse processo de socialização, como lembra Celso Castro (2002), que são incorporados à
personalidade do futuro oficial do Exército os valores, atitudes e comportamentos próprios da carreira militar.
24
próprio presidente Getúlio Vargas, os quais denominava “os liberticidas de 1937” e a quem
imputava a pecha de “traidores da Nação e da Pátria”. Sendo assim, acabou sendo afastado do
centro do poder militar e desempenhou, como oficial general, funções de pouca relevância
dentro da Instituição no final da carreira. Essa percepção corrobora a hipótese inicial desta
tese.
Diante disso, cabe ressaltar, então, que o foco da pesquisa se concentrou não só no
resgate da sua trajetória militar, mas também das suas origens familiares e da forma como se
posicionou diante dos cenários político, econômico e social do Exército e da Nação. O
período escolhido para análise compreende todas as fases de sua vida, que vão dos relatos
sobre a sua infância e juventude até a última função que desempenhou nas atividades de
localização de Brasília. Os objetivos primordiais envolveram a construção de uma narrativa
histórica que consistiu em determinar as origens familiares e a formação escolar e militar do
marechal José Pessoa e identificar como foi construída sua trajetória profissional, a partir da
interação com os projetos políticos, econômicos e sociais, individuais ou coletivos, do
Exército e da Nação.
Em relação ao quadro teórico que embasou a pesquisa, ele será amplamente discutido
no próximo capítulo, no qual, em um primeiro momento, será feita uma análise da volta da
biografia ao campo do conhecimento histórico, para, em seguida, se buscar o entendimento do
valor epistemológico da biografia para a escrita da história.
Sobre a metodologia adotada para esta pesquisa, pareceram ser apropriadas algumas
indicações metodológicas e teóricas apresentadas por Vavy Pacheco Borges e por Gilberto
Velho.
A quem se aventura pela prática biográfica, Borges (2015, p. 221) aponta que se deve
começar pela seleção daquilo que parecia significativo na vida do personagem a ser
biografado: detalhes que enriqueceram a interpretação, o que foi visto como simbólico e, até
mesmo, o que foi aleatório. Essas escolhas, segundo a autora, já se constituem em uma forma
de interpretação, de atribuição de sentido: o início da história; quando ela deveria começar, se
nas origens familiares ou no início da trajetória profissional; e se o ponto final seria marcado
pela morte do biografado, como se deu nesta tese, ou ir além. José Pessoa, fez parte, em vida,
de uma trama política e nela sua memória esteve presente até que a última pessoa que o
conheceu morresse, assim como estará presente, também, na memória institucional do
Exército.
Especificamente quanto à relação de Pessoa com o contexto em que foi construída sua
trajetória profissional, as análises realizadas durante a pesquisa estiveram norteadas pelo
26
conceito de “campo de possibilidades” formulado por Gilberto Velho. Para Velho, é possível
se pensar o contexto não como uma configuração fixa e pré-moldada, mas como um “campo
de possibilidades”, espaço para a formulação e implementação de projetos individuais e
coletivos. Nesse caso, não se pode entender projeto como um plano perfeitamente organizado
e racionalizado, mas “a conduta organizada para atingir finalidades específicas” (VELHO,
2013, p. 132). Para o antropólogo, os projetos individuais sempre interagem com outros
dentro de um campo de possibilidades. Não operam num vácuo, mas sim a partir de premissas
e paradigmas culturais compartilhados por universos específicos. Por isso mesmo, são
complexos, e os indivíduos, em princípio, podem ser portadores de projetos diferentes, até
contraditórios, cujas pertinência e relevância serão definidas contextualmente. As trajetórias
individuais ganham consistência a partir do delineamento mais ou menos elaborado de
projetos com objetivos específicos. A interação desses projetos com outros, individuais ou
coletivos, bem como a natureza e a dinâmica do campo de possibilidades, serão
condicionantes para as suas viabilizações. (VELHO, 2013, p. 137-138)
A construção do alicerce teórico de qualquer pesquisa, seja qual for a metodologia
empregada, passa necessariamente por uma sólida pesquisa bibliográfica, constituindo-se em
uma primeira etapa de pesquisa. O aprofundamento no tema que norteou esse trabalho, ou
seja, o gênero biográfico, deu-se, a partir da leitura de uma diversidade de fontes
bibliográficas. François Dosse (2015), Sabina Loriga (1998), Giovanni Levi (2006), Pierre
Bourdieu (2006), Phillippe Levillain (2003), Phillippe Lejeune (1980), Carlos Rojas (2000),
Gilberto Velho (2013), Alexandre Avelar (2007, 2012), Benito Schmidt (2003, 2012), Marieta
de Moraes Ferreira (2012), Vavy Pacheco Borges (2012, 2015) e Mary Del Priore (2009) são
exemplos de autores que permitiram esse aprofundamento teórico.
No que se refere especificamente ao objeto da pesquisa, as discussões teóricas
passaram, necessariamente, pela formação das famílias oligárquicas na província da Paraíba e
a rede parental que se formou em torno delas, tornando-se fundamental o trabalho
desenvolvido por Linda Lewin (1993) sobre as relações de parentela naquele estado. Cabe
ressaltar, que José Pessoa carregava em seu sobrenome a herança de duas oligarquias
poderosas do Nordeste brasileiro: os Pessoa e os Cavalcanti de Albuquerque. Também o
entendimento do contexto institucional em que se deu o desenvolvimento da trajetória
profissional de Pessoa foi condição importante para o entendimento das ações desenvolvidas
pelo personagem ao longo da narrativa histórica. Levi (2006, p. 176) lembra que uma vida
não pode ser compreendida unicamente através de seus desvios ou singularidades, mas, ao
contrário, mostrando-se que cada desvio aparente em relação às normas ocorre em um
27
contexto histórico que o justifica. Sendo assim, foi preciso, no transcorrer da pesquisa recorrer
às interpretações feitas por Celso Castro (1994, 1995, 2002, 2012), Frank McCann (2009),
Jehovah Motta (2001) e José Murilo de Carvalho (1982, 2002, 2006), dentre outros, a respeito
do Exército brasileiro e da Escola Militar do Realengo, comandada pelo biografado na década
de 1930.
Especificamente sobre a trajetória profissional de José Pessoa, o ponto de partida da
pesquisa foi a única obra biográfica do marechal publicada até hoje, de autoria do coronel
Hiram de Freitas Câmara (2011), intitulada Marechal José Pessoa – A força de um ideal,
publicada originalmente em 1985. No entanto, muito pouco, ou quase nada, a respeito das
origens familiares de Pessoa é abordado nessa publicação. A maior parte do texto está
limitada à atuação do marechal no comando da Escola Militar do Realengo e à idealização e
construção da Academia Militar das Agulhas Negras. A forma laudatória como foi escrita,
não aborda, também, com profundidade o antagonismo de ideias entre Pessoa e Góes
Monteiro e Eurico Dutra, o que não a torna, entretanto, menos importante à pesquisa. Em
março de 2019, este pesquisador realizou uma entrevista com o coronel Câmara, a qual foi
importante para que fossem esclarecidos alguns pontos obscuros da vida de José Pessoa,
particularmente os da sua vida familiar. Também foi possível se entender como o livro foi
pensado e escrito. Segundo ele, o interesse pela vida de Pessoa surgiu devido às narrativas de
seu pai, que havia sido cadete do marechal na Escola Militar do Realengo. Desde então,
passou a admirá-lo. No entanto, demostrou um certo ressentimento a respeito da forma
amadorística como escreveu o livro, sem regras ou metodologia definidas. Um descuido que
atribuiu à sua inexperiência e juventude, durante o tempo em que realizou a pesquisa.
Ressaltou, entretanto, a importância do acervo documental de Pessoa ter sido doado ao
CPDOC, devido à expertise que a instituição possui para o arquivamento dos documentos.
Segundo ele, a escolha do CPDOC pela filha do marechal, Elizabeth Marinho, para a doação,
se deu por uma indicação da historiadora Aspásia Camargo e do historiador Marcos Bretas,
que o auxiliaram na pesquisa feita para o livro. Atendendo a um pedido do coronel Hiram, a
entrevista infelizmente não foi anexada à tese.
Durante a leitura do livro escrito por Câmara, tomou-se conhecimento de um
importante projeto levado a efeito durante os anos de 1984 e 1985, conduzido pela, então,
Diretoria de Assuntos Culturais, Educação Física e Desportos do Exército. O Projeto
Marechal Pessoa visava a comemoração do centenário de nascimento de José Pessoa. Foi
coordenado pelo coronel Hiram e contou com o apoio de Aspásia Camargo e Marcos Bretas,
na coordenação de pesquisa oral. Uma série de entrevistas foi realizada com militares e civis
28
que conviveram com José Pessoa, dentre eles: os generais Umberto Peregrino, Tasso Villar de
Aquino e Carlos de Meira Mattos; o brigadeiro José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, filho
do marechal; e o advogado Marcelo Pessoa, sobrinho do marechal. As entrevistas foram
gravadas em fitas VHS, nos estúdios da Escola de Comunicações do Exército (EsCom).
Segundo o coronel Hiram, essas fitas deveriam estar arquivadas na Biblioteca do Exército
(BIBLIEX). Este pesquisador desdobrou-se na tentativa de encontrar esses depoimentos orais.
Entretanto, tanto a BIBLIEX como a EsCom afirmaram não possuir, em seus arquivos, as
fitas com as entrevistas. O pouco que se pode obter dessa importante pesquisa oral, foram as
poucas e pequenas transcrições existentes no livro de Câmara (2011).
A leitura do livro de Câmara (2011), no entanto, conduziu este pesquisador aos
arquivos do Acervo José Pessoa, pertencente ao CPDOC FGV, os documentos primários que
fundamentaram a escrita desse autor. A consulta a esses documentos textuais (manuscritos),
impressos (livros e exemplares de periódicos) e iconográficos (fotos) foram fundamentais e
serviram de fio condutor à elaboração desta tese. Os manuscritos, organizados em cinco séries
– documentos pessoais, “Diário da Minha Vida”, vida pública, assuntos gerais e recortes de
jornais –, foram essenciais para a construção das trajetórias profissional e de vida de José
Pessoa, especialmente a sua autobiografia, nunca publicada, distribuída em quinze pastas,
cujo conteúdo abrange as narrativas de sua infância, formação e carreira militar, e o arquivo
sobre a Comissão de Levantamento da Nova Capital Federal.
Outros acervos também foram relevantes para a construção desta tese. A começar pelo
do Arquivo Histórico do Exército, especialmente os arquivos da fé de ofício de Pessoa e os da
Escola Militar do Realengo, como as ordens do dia e os Boletins Escolares redigidos à época
do seu comando. O outro encontra-se na sede administrativa do Clube Militar, no Rio de
Janeiro, e compõe-se pelas atas da Presidência e da Assembleia Geral da instituição, dos anos
de 1944 a 1946, período em que José Pessoa a presidiu. Também mereceram atenção os
relatórios do Ministério da Guerra, os Diários Oficiais e os Boletins do Exército. Entretanto,
nem todas as instituições detentoras de arquivos sobre José Pessoa tiveram a compreensão de
disponibilizar os seus arquivos para a consulta, como foi o caso do Corpo de Bombeiros do
Rio de Janeiro. Após alguns contatos feitos com o museu da instituição, houve a indicação de
que haveria um retorno quanto à autorização para a pesquisa, o que não ocorreu. A existência
de alguns acervos digitalizados disponíveis na Internet facilitaram o trabalho de pesquisa,
como os do Center for Research Libraries e os acervos legislativos disponibilizados pela
Câmara de Deputados e pela Presidência da República em seus sites. Além desses, o acervo
digital da Primeira Guerra Mundial, do Ministério da Defesa da França, permitiu o acesso às
29
personagem histórico marechal José Pessoa começa a ser construído na memória do Exército,
devido às importantes reformas que implementou naquele estabelecimento de ensino militar, e
a idealização e construção da Escola Militar de Resende, mais tarde nominada Academia
Militar das Agulhas Negras, seu sonho maior.
Por fim, nos três últimos capítulos, será abordado o final da sua carreira, merecendo
destaque o debate ideológico entre Pessoa e os chefes militares que desencadearam o golpe do
Estado Novo, e o seu desempenho à frente da Comissão de Localização de Brasília, função
que desempenhou no posto de marechal, já na afastado do serviço ativo do Exército.
Sendo assim, almeja-se, nas próximas páginas, desenvolver este estudo, desejando-se
que o trabalho aqui feito ajude a compreender melhor o papel desempenhado pelo marechal
José Pessoa na história do Exército brasileiro e da Nação.
31
2 O GÊNERO BIOGRÁFICO
cronologia do que com as estruturas, com os grandes homens do que com as massas, era
“incapaz de superar a superficialidade dos fatos e penetrar na totalidade estruturante que
englobava e dava sentido à organização social” (AVELAR, 2012, p. 67).
A biografia, por centrar-se na vida de uma pessoa, foi relegada pela historiografia
positivista explicativa, pois considerava que uma vida, por mais significativa que
tenha sido, não explicava uma estrutura econômica, uma revolução ou um sistema
político” (PEREZ, 1997, p. 413)
Considera-se de modo geral que a história dita nova, e em particular a Escola dos
Annales, não estão especialmente interessadas na biografia. Isto é ignorar que
Lucien Febvre escreveu Luther, e que a grande tese de Fernand Braudel sobre Felipe
4
No prefácio que escreveu à Apologia da História, Jacques Le Goff ressalta que, embora dê mais atenção ao
coletivo do que ao individual, Marc Bloch não deixa de fazer do indivíduo um dos seus polos de interesse da
história. Numa crítica à definição de história de Fustel de Coulanges, para quem a história é a “ciência das
sociedades humanas”, Bloch observa que “isso talvez seja reduzir em excesso, na história, a parte do indivíduo”
(BLOCH, 2001, p. 54).
5
Em 1996, Le Goff publicou, com o título de São Luis, um estudo profundo sobre a vida de Luis IX.
33
II e o Mediterrâneo é, também, à sua maneira, uma biografia (LE GOFF, 1981, apud
LEVILLAIN, 2012, p. 143)
6
Lewis Namier (1929), Matthias Gelzer (1912), Charles Beard (1913), Friedrich Münzer (1920) e Ronald Syme
(1939) são alguns dos historiadores que, ao longo das primeiras décadas do século XX, endossaram o projeto
prosopográfico. Cf. Loriga (2011, p. 46-47)
7
Loriga (2011, p. 48) destaca a obra de William Thomas e Florian Znaniecki, Le Paysan Polonais em Europe et
em Amérique (1918-1920), realizada com base em testemunhos pessoais de imigrantes poloneses nos Estados
Unidos.
34
através das quais se tenta caracterizar as personalidades ocultas, ou, através delas, explicar as
vidas dos grandes homens.
Nesse contexto, as tensões existentes entre as ações humanas e as estruturas sociais,
começaram a se tornar a principal abordagem de trabalhos de pesquisa mais rigorosos.
Levillain (2003, p. 141) aponta a reabilitação dos temas biográficos no meio acadêmico na
década de 1960, graças a um aumento significativo do número de teses de história política nas
universidades.
Dessa forma, não havia mais como esse novo panorama intelectual sustentar os
antigos fundamentos de uma produção histórica “estruturalista e galileana” (CHARTIER,
1994, p. 101), que pareciam estar solidamente definidos. “O retorno do indivíduo se tornava a
própria condição de fazer história [...], pois não poderia haver reflexão historiográfica e
política sem que o sujeito estivesse presente” (AVELAR, 2012, p. 64). Diante dessa quebra de
paradigma, que, nas últimas décadas, frustrou, no campo historiográfico, a expectativa de uma
história total, a biografia voltou a ser objeto de análise histórica. Ao escrever sobre os tempos
de incerteza e de crise epistemológica vividos pela história no século passado, Chartier (1994)
aponta para essa virada crítica em busca do indivíduo:
Como afirma Avelar (2007, p. 49), com a retração da ênfase dada ao modelo
estruturalista socioeconômico, houve uma renovação da biografia, que ganhou legitimidade,
abrindo-se para os fatos, para o acaso e para os encadeamentos cronológicos. Trataram, assim,
os historiadores de recuperar o sentido de tempo vivido pelos homens.
O entendimento da biografia como narrativa escrita, que tem por objetivo a história
de uma vida particular, está ligado “ao próprio surgimento da história como forma de
conhecimento do mundo” (SCHMIDT, 2003, p. 58). Ao longo de toda a Antiguidade, a
biografia foi vista como distinta da história e ligada à escrita da “vida”. Como lembra Burke
(1997, p. 58), ao citar um dos mais destacados praticantes desse gênero, Plutarco, ao escrever
sobre a vida de Alexandre, faz uma distinção entre escrever histórias narrativas e escrever
“vidas”:
36
Não escrevemos histórias, mas vidas; nem sempre são nas ações mais gloriosas que
se manifestam a virtude ou os vícios, ao contrário, um feito de um momento, uma
palavra ou uma brincadeira servem mais para pintar um caráter do que batalhas em
que morrem milhares de homens, ou numerosos exércitos, ou cidades sitiadas.
(PLUTARCO, s.d, p. 166)
Distante do pacto de verdade que a escrita histórica pressupõe, a vida dos santos
ensina ao leitor algo bem diverso do fato atestado. [...] as hagiografias copiam dos
Evangelhos a tensão constate entre o ser e o parecer. Trata-se menos de conhecer a
vida autêntica de um indivíduo que de edificar o leitor. (DOSSE, 2015, p. 137-138)
Seguindo o pensamento de Certeau (1982), Dosse (2015, p. 138) afirma que “as
hagiografias procuram muito mais investigar a concepção de mundo veiculada pelo
hagiógrafo do que reproduzir a vida real do santo biografado”. O documento hagiográfico
responde a uma organização textual própria: “A combinação dos atos, dos lugares e dos temas
indica uma estrutura própria que se refere não essencialmente ‘àquilo que se passou’, como
faz a história, mas ‘àquilo que é exemplar’” (CERTEAU, 1982, p. 266). Nele, o relato de vida
tem valor de testemunho de uma travessia experiencial, a da relação com Deus e aquele que
foi canonizado, ao mesmo tempo em que reflete uma estrutura particular, na qual “o indivíduo
conta menos do que a personagem” (CERTEAU, 1982, p. 271). Seguindo uma concepção
teleológica, diferentemente da biografia moderna, que acompanha a evolução das
potencialidades do indivíduo ao longo do tempo, na hagiografia tudo é dado na origem,
estando o santo já predestinado à santidade. Para o hagiógrafo, o desdobramento da história
“não passa de uma epifania progressiva do estado inicial de vocação ou eleição do santo”
(DOSSE, 2015, p. 138). Como destaca Del Priore (2009, p. 7), esse tipo de escrita
encarregou-se de demonstrar a exemplaridade humana. A vida dos santos deveria incentivar
modelos aos leitores e “as encarnações do sagrado se tornavam modelares no percurso
realizado por mártires, doutores e confessores”.
A partir do final do século XII, os valores medievais começaram a sofrer um desgaste
gradual. A emergência do individualismo e a revalorização das referências da Antiguidade
favoreceram a produção de biografias menos estereotipadas. Como aponta Burke (1997), a
noção de exemplaridade continuou presente na escrita biográfica. Entretanto, houve uma
“tensão, para dizer o mínimo, entre a ideia do indivíduo como exemplar e a ideia do indivíduo
como único” (BURKE, 1997, p.95). Essa tensão, segundo Schmidt (2012), esteve presente na
escrita biográfica ao longo de toda a modernidade, condensando-se na figura do herói. Sendo
assim, as biografias modernas, em consonância com o movimento de individualização que
marcou as sociedades ocidentais, estiveram pautadas nas qualidades singulares do herói e em
como esse herói encarnava valores e qualidades coletivas próprias de um grupo restrito, como
a nobreza, da nação ou, até mesmo, de toda a humanidade. À maneira dos santos, na
hagiografia, “a existência dos heróis é atestada pelo modo de enfrentar e vencer a adversidade
ao preço do sofrimento. Essa atitude se concretiza finalmente no sacrifício que o herói aceita
em defesa da sua causa” (DOSSE, 2015, p. 152).
38
armas e o rol dos biografáveis foi ampliado, passando a incluir os eruditos, os cortesãos, os
juristas, os artistas, os descobridores e os filósofos. (DOSSE, 2015, p. 156-158)
Dosse (2015, p. 158) destaca, ainda, que no século XVII a concentração de poderes
nas mãos da realeza atraiu os olhares dos biógrafos para o destino de alguns indivíduos
excepcionais, graças ao papel que desempenhavam. Notadamente, o maior deles era o rei. Os
projetos de escrita sobre a vida do monarca, então, se multiplicaram, já que, sozinho, ele
encarnava o poder estatal.
Com a inauguração do século das Luzes, a exemplaridade heroica desce do seu
pedestal e se difunde pelo corpo da sociedade. O termo “herói”, que outrora designava os
semideuses da Antiguidade, nos Setecentos toma uma nova acepção e o “herói” passa a ser
simples “personagem” de uma narrativa, ficando, como destaca Dosse (2015, p. 161) “até
certo ponto, banalizado”. Os valores guerreiros que o herói encarnava foram sendo aos poucos
sendo tidos como ultrapassados por uma sociedade que almejava a paz. Em uma crítica aos
relatos excessivamente militaristas sobre o reinado de Luís XIV, Voltaire sugeriu substituir o
“herói” pelo “grande homem”. (DOSSE, 2015, p. 166) Como bem lembra Schmidt (2012, p.
189), “não é à toa que os revolucionários franceses dedicaram o seu Panteão aos ‘grandes
homens’, a quem a pátria devia manifestar seu eterno reconhecimento”.
Em meados do século XVIII, o elogio dos grandes homens tornou-se mesmo um
gênero literário que suplantou em definitivo a velha oração fúnebre, constituindo-se em um
momento importante de laicização da memória. As reflexões biográficas no Século das Luzes,
que passaram a recair menos sobre os méritos pessoais, acessíveis a todos os cidadãos, e mais
sobre os valores humanitários, de moderação no desempenho das responsabilidades e da
criatividade no ofício. (DOSSE, 2015, p. 167) Cabe salientar, como lembra Schmidt (2012, p.
189), que foi “na primeira metade do século XVIII que a palavra biografia surgiu registrada
nos dicionários europeus: biography, em inglês, em 1683; biographie, em alemão, em 1709; e
biographie, em francês, em 1755”.
O debate a respeito do indivíduo na história marcou de forma significativa o século
XIX, o que, obviamente produziu ecos nos caminhos do gênero biográfico. François Dosse
ressalta que o progresso dos valores liberais e democráticos e o aprofundamento da questão
social provocaram uma crise da figura do herói, opondo-lhe uma estratégia de suspeita, a fim
de fazer valer outras lógicas mais coletivas e sociais, o que é sentido mais enfaticamente na
literatura. O afã de se pluralizar as abordagens dos indivíduos conduziu a um questionamento
do gênio solitário, causando a sua desqualificação e a desvalorização dos seus atos. (DOSSE,
2015, p. 167-168) Em On Heroes, Heroes-Worship and the Heroic in History (1841), o
40
historiador inglês Thomas Carlyle (1795-1881), destacava o fato de estar se vivendo em uma
época em que se parecia “negar a existência dos grandes homens; negar que seja desejável a
sua existência” (CARLYLE, 2013, p. 29). Afirmou, ainda, que “a História Universal é, no
fundo, a História dos Grandes Homens” e que era “justo considerar que a alma da história do
mundo seja a alma dos grandes homens” (CARLYLE, 2013, p. 22).
Dosse (2015, p. 168-169) destaca, entretanto, que o herói não despareceu por completo
do horizonte da produção literária do século XIX. Na verdade, foi substituído pelo grande
homem, personagem que, devido à sua identidade patriótica, passou a exaltar os valores
heroicos de coragem em combate e de disposição ao sacrifício, em uma República sempre às
voltas com a guerra. Após a Revolução Francesa, além daqueles celebrados pela nação
reconhecida, como Joana D’Arc, Napoleão e Bayard, houve um esforço, na França,
especialmente, no sentido de se repertoriar as vidas daqueles que alcançaram certa
notoriedade em suas esferas de competências, havendo uma proliferação de relatos
biográficos que tentavam articular individualidade e exemplaridade.
Dosse (2015, p. 170-173) destaca a pouca importância dada à biografia ao longo dos
oitocentos, ao longo do qual é tida apenas como uma “subdisciplina auxiliar da história, um
de seus múltiplos materiais de construção [...] um mero instrumento a serviço do nobre
trabalho do historiador”. Se o interesse pela mesma persistiu, em um momento em que o
pensamento histórico atingiu o seu apogeu e a historiografia oitocentista ganhou uma
“configuração disciplinar e lugares institucionais próprios” (SCHIMDT, 2012, p. 191), é
porque era um verdadeiro modismo entre os leitores apaixonados e curiosos pelas histórias de
vida dos seus contemporâneos e uma burguesia que procurava se revelar e se conhecer.
Essa disseminação dos sujeitos biografados era uma consequência de uma sociedade
que se democratizava e que atribuía aos indivíduos um valor cada vez maior8. Dessa forma,
segundo Dosse (2015), a biografia se portou bem ao longo do século XIX, mas como um
subgênero, muito pouco cultivado pelos historiadores, que preferiam voltar a sua atenção para
a pesquisa da história das civilizações, dos povos, das sociedades e das instituições. O
passado somente poderia ser interrogado a partir do coletivo atuante na história.
8
Loriga (2011, p. 23) destaca que a segunda metade do século XIX foi profícua na produção de dicionários
bibliográficos, tais como a Biographie universelle ancienne et moderne, a Nouvelle Biographie géne´rale depuis
les temps pplus anciens jusqu’à nos jours, o Doctionary of National Biography, o Doctnionary of American
Biography e a Allgemeine Deutsche Biographie.
41
Aos poucos, o gênero foi sendo abandonado por acadêmicos e historiadores, que o
viam com grande desdém. À medida que a história se constituiu como uma disciplina com
pretensões científicas, a biografia foi sendo exilada dos seus domínios. Esse afastamento entre
biografia e história foi impulsionado, com aponta Loriga (2011, p. 35- 44), por três forças
dessemelhantes “que fazem da totalidade a categoria explicativa do devir histórico”: a
primeira de caráter político, proveniente da afirmação do povo como sujeito social, o que
acabou revestindo a história biográfica de um caráter elitista que se chocava contra o desejo
de fraternidade e igualdade; a segunda procedente da filosofia, principalmente da filosofia
kantiana, que descrevia o homem como um meio pelo qual a natureza realizava seus fins, e
afirmava que a história deveria se elevar acima do indivíduo e pensar em grandes proporções;
e a terceira, a da ciência, ou mais especificamente, do perigo proveniente das disciplinas
nascentes, como a Demografia e a Sociologia, desejosas de adquirir um estatuto científico
incontestável e, segundo Schimdt (2012, p. 191), das críticas feitas, principalmente pela
Sociologia, aos “ídolos dos historiadores”, dentre eles o hábito incontrolável de conceber a
história como a história dos indivíduos e não como a história dos fatos.
Dosse (2015, p. 195-197) aponta que a situação da biografia, como um gênero menor e
desprezado, ao longo do século XX, não se modificou, se é que não se agravou. A acusação
ao “ídolo individual” ou ao hábito inveterado de se conceber a história como história dos
indivíduos, que induzia quase sempre ao ordenamento dos trabalhos em torno de um homem,
e não de uma instituição, de um fenômeno social ou de uma relação a estabelecer, se tornou o
próprio paradigma dos Annales, a partir de 19299. Del Priore (2009, p. 8) destaca que, dentro
desse contexto de renovação dos métodos de trabalho do historiador, esse foi o momento do
eclipse da narrativa e da história factual, o que excluiu, por consequência a biografia, que era
narrativa por excelência. E lembra que a Nova História, nascida dos Annales na década de
1960, por privilegiar o “fato social total” em todas as suas dimensões econômicas, sociais,
culturais e espirituais, acabou por minimizar a história política, diplomática, militar ou
eclesiástica que evidenciava o indivíduo e o fato. Essa abordagem era marcada pelo diálogo
estreito com as outras ciências humanas e pela ênfase na história total de Fernand Braudel,
9
François Dosse aponta que o mergulho da história nas águas das ciências sociais, graças à Escola dos Annales,
tanto quanto o grande destaque que as teses durkheimianas ganharam no início do século XX, contribuíram para
a radicalização do desaparecimento da biografia em proveito das lógicas massificantes e quantificáveis. Com
isso, ela se tornou apenas um local de refúgio da historieta, do relato anedótico, sem outra ambição que encantar
e distrair. (DOSSE, 2015, p. 181)
42
situavam em sua relação com o meio social ou psicológico. O foco do historiador passou a
estar naquilo que condicionava o indivíduo e a história “vista de baixo” deu as costas à
história dos grandes homens, motores das decisões, analisadas de acordo com suas
consequências e resultados. (DEL PRIORE, 2009, p. 9)
Os anos 1980 ainda abriram espaço para o alargamento dos debates de historiadores e
sociólogos a respeito da biografia. Em 1986, Pierre Bourdieu publicou “A ilusão biográfica”,
uma crítica à subjetividade das biografias históricas, que, para ele eram capazes,
exclusivamente, de reconstruir a vida de forma artificial. Em uma investida em favor das
várias histórias possíveis de vida para cada indivíduo, Bourdieu (2006, p. 189) ressalta que
“tentar compreender uma vida como uma série única e por si suficiente de acontecimentos
sucessivos [...] é quase tão absurdo quanto tentar explicar a razão de um trajeto de metrô sem
levar em conta a estrutura de rede”. A crítica de Bourdieu à biografia levou os historiadores a
pensá-la sob outro ângulo. Novamente apropriada pela história social e cultural, não era mais
vista como a história de um indivíduo isolado, mas, sim, a história de uma época vista por um
indivíduo ou por um grupo de indivíduos. Como destaca Del Priore (2009, p. 9), o indivíduo
deixou de ser apresentado como herói, na encruzilhada de fatos, mas como um receptáculo de
correntes de pensamento e de movimentos que a narrativa de suas vidas torna mais palpáveis.
Vista sob uma nova ótica, a biografia contribuiu, também, para a aproximação entre
indivíduo e sociedade. O indivíduo, que não estava mais só, passou a existir em uma rede de
relações sociais diversificadas. Em uma interação constante, na sua vida convergem fatos e
forças sociais, assim como a sua própria existência, suas ideias, representações e imaginário
convergem para o contexto social a qual ele pertence. Com isso, passou-se a se permitir uma
abordagem histórica pelo foco de um indivíduo que não era, necessariamente, ilustre ou
conhecido. Isso tornou-se possível justamente porque os destinos individuais estavam
situados em diversas redes que se entrecruzavam, como a casa e a família, o espaço regional,
o universo espiritual, a utensilagem mental de uma época. (DEL PRIORE, 2009, p. 10)
O processo de retomada do individual, e a discussão historiográfica em torno dela,
provocou a abertura de novos campos de trabalho. Dentre eles, cabe ressaltar o importe papel
da micro-história. Juntamente com a história das mulheres e com os estudos de cultura
popular, essa experiência historiográfica contribuiu, segundo Loriga (2011, p. 221-222), “para
restituir aos vencidos da história uma dignidade pessoal”. Preocupada com a problematização
mais nítida do objeto de investigação, especialmente com as hierarquias e os conflitos sociais,
essa nova abordagem histórica apresentou como características: a ênfase nos conflitos de
classe sub-reptícios aos fatos e personagens históricos, a despreocupação com os contextos
44
Giovanni Levi (2006, p. 168), no seu artigo clássico Usos da Biografia, aponta que a
maioria das questões metodológicas da historiografia contemporânea diz respeito à biografia,
sobretudo as relações com as ciências sociais, os problemas das escalas de análise e das
relações entre regras e práticas, bem como aqueles, mais complexos, referentes aos limites da
liberdade e da racionalidade humana. Entretanto, mesmo estando no centro das preocupações
dos historiadores contemporâneos, Souza (2007, p. 28) ressalta que o espaço para a biografia
na História ainda tem se limitado a dois usos já tradicionais: como biografia representativa e
como estudo de caso. Para a historiadora, o modo como ambos recorrem à biografia tornou-se
um problema, já que, nesses casos, o biográfico não se constitui no lugar de produção de uma
escrita da História, além do historiador continuar mantendo-se afastado do único, do
acidental.
No primeiro caso, a escolha de uma trajetória de vida não ocorre em função do que há
de singular nessa trajetória. Como ressalta Avelar (2012, p. 68), o indivíduo enfocado não é
digno da reconstrução biográfica pelo que tem de excepcional, mas por sintetizar várias outras
vidas, servindo de passagem para a apreensão de marcos mais amplos. Daí, como aponta
Souza (2007, p. 28), o uso da denominação “biografia representativa”.
O uso da biografia como estudo de caso valoriza ainda menos o biográfico como lugar
de construção de um discurso histórico, conferindo ao indivíduo uma função meramente
ilustrativa de uma realidade mais ampla abordada. Nesse caso, em um primeiro momento, se
procede a uma análise macroestrutural da sociedade e dos quadros explicativos subjacentes,
para, só então, dar-se início à análise biográfica. (SOUZA, 2007, p. 28)
É certo que, apesar das críticas, esses usos têm o seu lugar assegurado na análise social
e constituem-se em práticas científicas consolidadas pela historiografia, como lembram Souza
45
(2007, p. 28) e Avelar (2012, 69). Além do mais, as questões que suscitam o uso da biografia,
como representatividade e como estudo de caso, não estão, como ressalta Avelar (2012, p.
70), fundamentalmente ligadas à problemática da escrita da história e à crise dos anos 1970,
como visto anteriormente, uma vez que, nos dois casos, a narrativa obedece aos critérios de
estabelecimento das constâncias e continuidades do mundo social. Entretanto, o valor
epistemológico da biografia para a escrita da história, só pode ser repensado a partir das
discussões que envolvem a narrativa biográfica e outras questões que serão abordadas a
seguir.
10
Dosse (2015, p. 55) aponta que o recurso à ficção é inevitável na medida em que não se pode restituir a
riqueza e a complexidade da vida real. Procurar trazer tudo à luz é ao mesmo tempo a ambição que orienta o
biógrafo e uma aporia que o condena ao fracasso.
46
Na narrativa de ficção todas as distorções são permitidas, um caminho que jamais deve ser
trilhado pelo historiador.
Apesar das divergências apontadas por Del Priore, que separam as narrativas do
historiador e do romancista, Levi (2006, p. 168) aponta que, livre dos entraves documentais, a
literatura comporta uma infinidade de modelos e esquemas biográficos que influenciaram
amplamente os historiadores. Essa influência, que se deu mais indireta do que diretamente,
suscitou uma série de problemas, questões e esquemas psicológicos e comportamentais que
puseram o historiador diante de obstáculos documentais muitas vezes instransponíveis. Para
ele, o “fascínio de arquivistas” pelas descrições impossíveis de corroborar, próprio dos
historiadores, como, por exemplo, os atos e pensamentos da vida cotidiana, o caráter
fragmentário e dinâmico da identidade e os momentos contraditórios da sua constituição,
alimentou não só a renovação da história narrativa, como também o interesse por novos tipos
de fontes, nas quais se poderiam descobrir indícios esparsos dos atos e das palavras do
cotidiano.
É dentro desse contexto que Levi indaga se é possível se escrever a vida de um
indivíduo. Ao mesmo tempo em que essa questão levanta pontos importantes à historiografia,
ela se esvazia em meio a simplificações que tomam como pretexto a falta de fontes.
Entretanto, essa não é a principal dificuldade que se apresenta ao historiador-biógrafo, e, sim,
o fato destes imaginarem que os atores históricos obedecem a um modelo de racionalidade
anacrônica e limitado. Calcados em uma tradição biográfica estabelecida e na própria retórica
da disciplina, alguns historiadores ainda têm se contentado com os modelos que associam
uma cronologia ordenada11, uma personalidade coerente e estável, ações sem inércia e
decisões sem incerteza. (LEVI, 2006, p. 169) Com isso, como bem lembra Avelar (2012, p.
71), ao escreverem biografias, correm o risco de formatarem seus personagens e de induzirem
os leitores a expectativas ingênuas de estarem sendo apresentados a uma vida marcada por
regularidades, repetições e permanências. Como bem destaca Vavy Pacheco Borges,
11
Vavy Pacheco Borges aponta que um dos maiores desafios do historiador é trabalhar com temporalidades
diferentes, conciliando a cronologia linear com o percurso de vida não linear. Organizar a narrativa a partir de
cortes temáticos, través de flashbacks, alternando as temporalidades da vida, ou utilizando itens alfabeticamente
organizados, são algumas inovações utilizadas pelos biógrafos contemporâneos. Entretanto, ela não nega a
importância da cronologia para a ordenação dos fatos, tanto para o historiador como para o leitor. Para uma
compreensão inicial é sempre importante ordenar os acontecimentos no tempo em uma tábua cronológica. Se
será usada posteriormente, na narração final, total ou parcialmente, o biógrafo irá decidir. Esquemas
cronológicos, de parentesco e árvores genealógicas também ajudam na ordenação e na compreensão dos fatos de
uma vida. (BORGES, 2015, p. 221, 224-225)
47
desejado são fundamentais em suas vidas. E, para eles, como para nós, há uma parte
indecifrável do aleatório, do imprevisível, do misterioso da vida (a não ser que
acreditemos em alguma espécie de “Divina Providência”). (BORGES, 2012, p. 233)
instituição, assegura aos indivíduos, para além das mudanças biológicas e sociais, a
constância nominal, a identidade no sentido de identidade consigo mesmo que a ordem social
demanda.
Souza (2007, p. 29) lembra que, na visão do sociólogo francês, o nome próprio é “o
melhor exemplo de uma imposição arbitrária, que assegura uma constância através do tempo
e uma unidade através dos espaços sociais” e que a nominação, nesse sentido, introduziria a
noção de trajetória, definida por Bourdieu (2006, p.189) como “uma série de posições
sucessivamente ocupadas por um mesmo agente (ou um mesmo grupo) num espaço que é ele
próprio um devir, estando sujeito a incessantes transformações”. Em uma analogia com a
malha ferroviária de um metrô, Pierre Bourdieu aponta o absurdo de se tentar compreender
uma vida, sem levar em consideração a “estrutura de rede” na qual o indivíduo está inscrito e
age.
Tentar compreender uma vida como uma série única e por si suficiente de
acontecimentos sucessivos, sem outro vínculo que não a associação a um sujeito
cuja constância certamente não é senão aquela de um nome próprio, é quase tão
absurdo quanto tentar explicar a razão de um trajeto no metrô sem levar em conta a
estrutura da rede, isto é, a matriz das relações objetivas entre as diferentes estações.
(BOURDIEU, 2006, p. 189-190)
12
À capacidade de um indivíduo existir como agente em diferentes campos, Bourdieu (2006, p. 190) chamou de
superfície social.
49
tendo, também, validade para o momento final da pesquisa, o da escrita. Nesse sentido, ao
transformar o nome em uma espécie de brecha para o passado, a trajetória de um indivíduo
permitiria recompor e pensar questões mais gerais, relativas a relações familiares, a formação
escolar/acadêmica, a estratégias de socialização e de ação no mundo. (SOUZA, 2007, p. 29-
30)
Ao discutir a relação indivíduo-sociedade, a partir do conceito de configuração,
Adriana Barreto afirma que todo individuo ocupa um lugar numa teia humana composta por
relações que não lhe é permitido modificar senão dentro de certos limites. Escrever uma
biografia é, em parte, pensar essas relações que se precipitam sobre os indivíduos no
momento do nascimento e através das quais eles se colocam no mundo. Essa rede de
dependências não é rígida. Ao contrário, as inter-relações que nela ocorrem estão em
constante adaptação. Os lugares por onde um personagem passou, a maneira de agir em
relação aos outros indivíduos e as decisões tomadas permitem-lhe dar continuidade,
reelaborar ou romper com relações herdadas, além de lhe abrir novas possibilidades de
constituir novas alianças. Para Souza, é nesse jogo de relações que a construção de uma
biografia vai acontecendo. Cada indivíduo encontra-se inscrito em redes de dependência,
estando sujeito às contingências da experiência. Essas redes constituem uma conduta e
engendram práticas concretamente negociadas frente a um “campo de possibilidades”.
(SOUZA, 2007, p. 32) A partir deste conceito, formulado pelo antropólogo Gilberto Velho, é
possível se iniciar algumas considerações sobre a relação entre indivíduo e contexto.
dia. Questões como essa conduzem a uma avaliação do caráter intersticial de liberdade de que
dispõem os indivíduos. Parece sempre existir uma dose de indeterminação.
Penso nas normas e nas práticas da família e dos grupos nos quais o biografado
nasceu, cresceu e viveu (é óbvio que sua variação é quase infinita). É preciso se
refletir nas margens de liberdade que cada um possui; as margens não são aferíveis,
não são mensuráveis. O grave problema da necessidade ou do determinismo versus
o fluxo caótico e aleatório da vida nunca está claro em cada vida. [...] Perceber as
razões das escolhas feitas em nossa própria vida já não é fácil, imagina na dos
outros! Advirto novamente, como na questão de uma “normalidade” ou “desvio” já
mencionada, que o historiador evite conclusões apressadas ou rígidas. (BORGES,
2015, p. 222)
13
Para uma tipologia dos usos da biografia, consultar LEVI, Giovanni. Usos da biografia. In.: FERREIRA,
Marieta de Moraes; AMADO, Janaína. Usos e abusos da história oral. 8. ed. Rio de Janeiro: FGV, 2006.
52
contribui para o retrato de uma época ou de um grupo. Não se trata, entretanto, de buscar uma
interpretação em que as condutas individuais são reduzidas a comportamentos-tipos, mas de
compreender as vicissitudes biográficas à luz de um contexto que as torne possíveis e, logo,
normais.
Por outro lado, o contexto é utilizado para preencher as lacunas documentais por meio
de comparações com outras pessoas cuja vida apresenta alguma analogia com a do
personagem estudado. Franco Venturi, ao reconstituir os primeiros anos de Diderot, em sua
Juventude de Diderot, ilustra bem esse caso, já que o faz praticamente sem documentação
direta.
14
Souza (2007, p. 32) ressalta que aí esteja, talvez, a maior contribuição dos estudos com recortes biográficos, ao
recusarem esses usos.
54
independentemente do número de fontes que consiga consultar, já que ao fazê-lo, novas pistas
surgirão, correndo o risco de enredar-se a cada passo de sua pesquisa.
A prática biográfica, por vezes, arrebata o biógrafo para o universo do biografado, em
uma autêntica “possessão” (Dosse, 2015, p. 14). Essa apropriação mergulha-o em um
universo de exterioridade. A projeção necessária e exigida pela empatia que é criada com o
tema pesquisado – existem exceções notórias, como a biografia de Hitler por Ian Kershaw –,
acaba não só transformando o biógrafo, em função da personagem cuja biografia escreve,
como arrebata-o para o universo do biografado, durante o período da pesquisa e da redação da
biografia, a ponto de não conseguir distinguir o universo exterior do interior. O movimento
em direção ao outro, bem próximo da escrita biográfica, oferece alguns riscos, como a perda
da própria identidade e a não determinação da singularidade do sujeito biografado. O biógrafo
deve saber manter-se no meio-termo, um procedimento difícil, já que os arroubos passionais e
as tomadas de distância objetivantes são tão necessárias quanto o cuidado de preservar-se tal
qual é. (DOSSE, 2015, p. 14-15)
Daí entra a prática estrita e séria do ofício do historiador, na busca da maior
objetividade possível, através da busca por provas documentais e, sobretudo, pelo
questionamento e pela contraposição da própria documentação. (BORGES, 2015, p. 218)
Como lembra Dosse (2015, p. 59) “a biografia não depende apenas de arte: quer-se também
estribada no verídico, nas fontes escritas, nos testemunhos orais. Preocupa-se com dizer a
verdade sobre a personagem biografada”. Daí o melhor proveito que se pode tirar dos
documentos íntimos, como as cartas, diários, autobiografias15, por se encontrarem o mais
perto possível do autêntico, ainda que se corra o risco de se alimentar uma ilusão de se
restituir inteiramente uma vida, devido ao caráter aporético de se querer extrair deles a
verdade de um indivíduo. Como um cientista, o biógrafo deve cruzar suas fontes, confrontá-
las, a fim de se aproximar da verdade. Nesse sentido, nada como o uso do método histórico,
fundamental na comparação e confirmação dos documentos originais que irá manusear, já
que, em muitos momentos, corre o perigo de mergulhar numa obra imaginária para escapar à
vida real. (DOSSE, 2015, p. 59)
De uma maneira geral, o biógrafo expõe as motivações que o levaram a acompanhar a
vida de um personagem, assim como os objetivos do seu empreendimento, suas fontes e a
metodologia que utilizará para tal, formando com o leitor uma espécie de “contrato de leitura”
15
Para Dosse (2015, p. 68), a fonte autobiográfica tem uma importância capital porque dá ao biógrafo a ilusão de
penetrar no âmago do personagem e chegar bem perto da sua intencionalidade. O uso de memórias, confissões
ou registros autobiográficos é adotado de formas diversas nas biografias; dá a entender que se está mais próximo
da restituição autêntica do passado.
55
(DOSSE, 2015, p. 95). Tal prática, como aponta Avelar (2012, p. 76), apesar de ser bastante
clássica, conduzem a um entendimento de que o texto produzido será distinto de uma obra de
ficção, pois poderá ser posto à prova de verificação pelos critérios e métodos de estudo
científico. Borges (2015, p. 217) lembra a preocupação atual com o verossímil, com aquilo
que parece ser verdadeiro, possível ou provável. E, ressalta que, em um trabalho de pesquisa
histórica, “o fundamental é não enganar o leitor quanto ao que afirmamos” (2015, p. 218).
Para ela, o ideal é se começar pelo que já foi escrito (ou trabalhado de outra forma) sobre o
personagem a ser biografado, o que poderá, por vezes, colocar o biógrafo diante de uma
imagem já estabelecida, até mesmo marcante, a ser revista. Essa indicação de Borges, parece
ir ao encontro da proposta desta tese, uma vez que existe um único trabalho publicado no
meio editorial sobre o personagem a ser aqui biografado, o marechal José Pessoa Cavalcanti
de Albuquerque, cuja primeira edição data de mais de vinte anos e, no que parece a este
pesquisador, não apresentou muitos fatos novos em sua última reedição.
Philippe Lejeune ressalta, no entanto, duas grandes contradições inerentes a esse pacto
biográfico estabelecido entre autor e leitor. A primeira é a tendência do discurso, da
competência e da erudição do biógrafo mascarar a inevitável parcialidade e os fundamentos
ideológicos do seu projeto. Não se escreve a vida de outro indivíduo por mero conhecimento.
A outra contradição, da qual a maioria dos biógrafos sequer parecem ter consciência, diz
respeito ao fato de que querer registrar a vida de uma pessoa pressupõe o domínio e a visão
totalizante do que ela foi ao longo da sua existência. Os textos documentais, em geral,
apresentam muitas lacunas, o que implicará recorrer à utilização da psicologia e da
imaginação ficcional. (LEJEUNE, 1980, p. 77-78)
Mas, que fatos devem ser selecionados para a narração de uma vida? Vavy Pacheco
Borges apresenta algumas indicações metodológicas a quem se aventura pela prática
biográfica.
Ao narrar os acontecimentos de uma vida, os fatos são permanentemente selecionados,
uma vez que a narração de uma vida requer uma seleção daquilo que parece significativo.
Essa escolha já se constitui em uma forma de interpretação, de atribuição de sentido. Embora
essa seleção não seja evidente, algumas escolhas são mais fáceis de se fazer: fatos
importantes, como nascimento, origem social e familiar, por exemplo. Dependendo da vida do
personagem, outros fatos relevantes também não serão difíceis de escolher: se o mesmo for
um político, escritor, ou, um militar, como no caso do biografado neste trabalho. Fica claro,
então, que será fundamental a interpretação de sua trajetória profissional. (BORGES, 2015, p.
221)
56
Há, porém, aqueles acontecimentos que podem ser vistos como menores na vida do
indivíduo e que são mais difíceis de ser selecionados: detalhes que enriquecem a
interpretação, o que é anedótico, o que é visto como simbólico, o que é aleatório. Uma vida
individual imbrica-se com os grandes acontecimentos de sua época, e a presença de todo o
tipo de fato (político, econômico, social, cultural etc.) pode ser percebida ao longo de sua
existência. Entretanto, somente devem entrar na narração aqueles que marcaram essa vida. E,
quanto ao início da história? Quando ela deve começar? Nas origens da família, no
nascimento do personagem? E o ponto final? Será marcado pela morte do biografado, ou irá
mais além? Cabe lembrar que ele fez parte, em vida, de uma trama social e nela sua memória
estará presente até que a última pessoa que o conheceu morra, assim como estará presente,
também, na memória familiar (está pode ser fundamental?). Não há dúvida que a memória
que faz parte do domínio público é fundamental. Como também são fundamentais os vazios e
as ausências (as incertezas, as possibilidades perdidas etc.), aquilo que os documentos não
explicam. Cabe ao historiador interpretá-las. (BORGES, 2015, p, 221)
“Para o historiador em geral e para o historiador biógrafo em particular, não há, como
sabemos, fatos importantes a ser revelados, doa a quem doer, mas sim acontecimentos que se
tornam históricos se nos ajudam a responder nosso problema de pesquisa” (SCHMIDT, 2014,
p. 17). Essa reflexão de Schimdt conduz à questão final a ser abordada, que é a dimensão ética
da pesquisa biográfica, mais especificamente a ética do historiador-biógrafo, tanto no que diz
respeito ao biografado quanto no que diz respeito aos princípios de sua disciplina.
Que normas (explícitas ou implícitas) pautam a atividade do historiador que se propõe
a narrar uma vida? Vavy Pacheco Borges adverte, nesse sentido, que
O ofício do historiador, como lembra Schmidt (2014, p. 18), “pauta-se por certas
exigências, por convenções explicitas e implícitas a respeito do que é permitido ou proibido,
adequado ou inadequado, valorizado ou estigmatizado”. Os rigores teóricos e metodológicos e
a necessidade social de produzir os trabalhos historiográficos não são polos opostos às
57
convenções de caráter ético, assim como não o são os limites impostos ao trabalho do
historiador-biógrafo no manuseio dos documentos pessoais e no trato com familiares e amigos
do personagem biografado. (AVELAR, 2012, p. 77) Sendo assim, as biografias escritas por
historiadores profissionais
não visam a fazer vir à tona segredos antes escondidos, mas sim compreender
historicamente os percursos de certos personagens, de modo a entender, por
exemplo, o funcionamento de determinados mecanismos sociais e sistemas
normativos, a pluralidade existente em grupos e instituições vistas normalmente
como homogêneas, a construção discursiva e não-discursiva dos indivíduos, as
margens de liberdade disponíveis às pessoas em diferentes épocas históricas, entre
outras questões. (SCHIMDT, 2014, p. 17)
A única obra publicada sobre a narrativa de vida de José Pessoa muito pouco, ou quase
nada, apresenta sobre as origens familiares desse personagem. Sendo assim, este capítulo tem
por objetivo delinear, ainda que a traços largos, uma vez que as fontes disponíveis para tal são
bastante limitadas em quantidade e em informações, as relações de parentela16 dos Pessoa
Cavalcanti de Albuquerque. Não há, entretanto, como compreender essas relações sem se
fazer um mergulho nas intrincadas relações parentais e políticas (estas, praticamente uma
consequência daquelas) das velhas oligarquias da sociedade paraibana dos anos finais do
Império e iniciais da República.
Especial atenção será dada à parentela dos Pessoa, uma vez que, este foi o nome
escolhido por José Pessoa para acompanhá-lo durante toda carreira. Certamente há uma
intencionalidade nessa escolha, uma vez que, como já destacado, é o nome próprio que
assegura ao seu portador a identidade através dos tempos e espaços sociais. Em seus relatos
autobiográficos, são muito poucos os momentos em que é possível identificar referências às
famílias Cavalcanti e Albuquerque, como no breve relato em que José Pessoa faz referência à
sua genealogia por parte de pai.
16
O conceito de parentela identifica-se com a noção de “clã parental” cunhado por Oliveira Vianna, na obra
Instituições Políticas, para se referir a uma família extensa, distribuída por muitas casas e propriedades, cujos
membros se relacionavam por laços de sangue, casamento ou por parentesco imaginário ou suposto. (LEWIN,
1993, p. 15)
17
O auge da produção algodoeira no estado ocorreu na década de 1920, quando a Paraíba se tornou o principal
exportador de algodão do Brasil, respondendo por ¼ da exportação nacional desse produto.
59
18
Ao longo da Primeira República, a cronologia política da Paraíba pode ser dividida em três subperíodos, que
estiveram relacionados aos eventos políticos nacionais e à expansão ou retração do crescimento econômico do
País. A liderança oligárquica dos Pessoa esteve presente em dois momentos: no segundo (1912-1922), um
período de “ordem” epitacista, em que os Pessoa coordenaram de maneira exímia a máquina eleitoral estadual; e
no terceiro (1922-1930) caracterizado pelo declínio e desintegração da oligarquia Pessoa. Em termos nacionais,
o desenlace do domínio dos Pessoa coincidiu com a vitória da Revolução de 1930, liderada por Getúlio Vargas.
(LEWIN, 1993, p. 71-72)
19
Moriz (1985, p. 42) descreve como se formou na Paraíba, no último quartel do Século XIX, uma “aristocracia
rural, territorial e endinheirada”, encabeçada por nomes como os Barbosa de Melo, os Guedes Pereira, os
Bezerra Cavalcante, os Carneiro Cunha e os Maia. Portanto, como lembra Mariano (2011), era comum que essas
famílias com toda a sua tradição de “dignidade e prestígio”, apresentassem, nas vilas e cidades do interior, seu
poder político e econômico a partir de sua descendência na rede familiar.
60
vinculados de maneira personalística, e que eram responsáveis por organizar o eleitorado que
lhe fornecia votos, defender seus interesses partidários em seu município natal e ocupar os
cargos que lhes eram confiados por nomeação. Ao preencher os cargos municipais com
membros da família ou com os amigos, a parentela situacionista institucionalizava sua
representação política, uma vez que validavam seu monopólio sobre os cargos públicos, as
nomeações para o funcionalismo e o poder de polícia. Na medida em que podia ser
considerada um grupo corporativo com uma duração maior do que o período de vida de um
determinado político, a parentela poderia ser entendida, também, como uma organização
econômica, em virtude dos direitos coletivos e individuais que seus membros tinham sobre a
terra20. De uma maneira geral, dois ou mais ramos de uma mesma parentela podiam coordenar
suas atividades econômicas com o intuito de aumentar a sua solidariedade como um grupo
corporativo. (LEWIN, 1993, p. 113-114)
As associações econômicas e políticas na Paraíba, durante a era das oligarquias, foram
fortemente influenciadas pelos vínculos de sangue e casamento, bem como pelos laços rituais
estabelecidos pelas relações de compadrio ou adoções, por exemplo. Traçando-se linhas
divisórias entre os ligados por laços de sangue, casamento e afiliação ritual, de um lado, e o
resto da sociedade, de outro, o sistema de parentesco determinava quem pertencia ao grupo
familiar por nascimento e quem podia ser recrutado para a ele afiliar-se pelo casamento ou
através da inclusão cerimonial21. No interior do grupo familiar, definia o acesso a
recompensas materiais, status e participação em processos decisórios. Sob outro ponto de
vista, refletia o quanto esse grupo tinha de levar em consideração a sociedade mais ampla e a
maneira como organizava a sua interação com ela. Além disso, e pela mesma razão, o sistema
de parentesco influenciava a extensão da mobilidade na estrutura social e, por conseguinte, a
capacidade da elite oligárquica de manter a sua posição privilegiada na sociedade
politicamente organizada. (LEWIN, 1993, p. 115)
20
Tanto ao nível municipal, quanto estadual, a política oligárquica paraibana tratou basicamente de uma única
questão: montar uma coalizão de grupos formalmente organizados a fim de exercer o monopólio da economia
exportadora do estado. Esta questão implicou, também, em montar uma estratégia que negasse aos rivais
econômicos a chance de existirem como grupos. Sendo assim, não há como separar a luta pelo controle de
cargos públicos da luta pelo controle da terra, dos mercados, do recolhimento de impostos e de outros recursos
econômicos. (LEWIN, 1993, p. 107)
21
A maneira como o sistema de parentesco afetava a base grupal da organização oligárquica na Paraíba, nada
mais era do que o reflexo do acontecia de uma maneira geral em todo o País durante a Primeira República.
61
José Pessoa nasceu aos doze dias do mês de setembro do ano de mil oitocentos e
oitenta e cinco, em “uma casa de regular tamanho, lembrando as antigas vivendas de cômodos
do interior”, no município de Cabaceiras, um então “vilarejo perdido nos sertões dos Cariris”,
estado da Paraíba. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 1) Uma terra, nas suas palavras,
22
Eram irmãos de José Pessoa: João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, Aristarcho Pessoa Cavalcanti de
Albuquerque, Sebastiana Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, Priscila Pessoa Cavalcanti de Albuquerque,
Cândido Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, Joaquim Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, Henriqueta Pessoa
Cavalcanti de Albuquerque, Oswaldo Pessoa Cavalcanti de Albuquerque.
62
intimamente ligada ao longo da história das oligarquias paraibanas. (LEWIN, 1993, p. 147)
Segundo Gabaglia (1951, p. 25), não demorou muito, logo após a chegada a Umbuzeiro, para
que José da Silva Pessoa se tornasse um homem de “relações e grande influência política”25
na região e entre os moradores locais. Da união de José da Silva Pessoa e de Henriqueta de
Lucena nasceram cinco filhos: Maria, mãe de José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque,
Miranda, José, Antônio e Epitácio. (LEWIN, 1993, p. 144-146)
Mapa 1 – Regiões de origem, em Pernambuco (em azul), e de destino, na Paraíba (em vermelho) da família
Pessoa, no começo do Século XX.
25
Em 1867, José da Silva Pessoa recebeu do Imperador D. Pedro II o título de tenente-coronel comandante do
Batalhão de Infantaria da Província da Paraíba. Para Gabaglia (1951, p. 25), o recebimento desse título aumentou
o prestígio adquirido por José na região, o que era de se esperar, já que o recebimento do título de coronel recaía,
como lembra Faoro (1997, p. 622) sobre “pessoa socialmente qualificada, em regra detentora de riqueza, à
medida que se acentua o teor de classe na sociedade”.
64
26
Lewin (1993, p. 124) aponta que os sobrenomes serviam também para fixar tanto indivíduos como os ramos
de uma parentela numa referência espacial específica. A preferência por estabelecer os filhos ou alguns deles em
propriedades muitas vezes contíguas àquela em que residiam os pais, sugere que o padrão preferido de residência
para as famílias de elite da Paraíba pode ser mais bem descrito como ambilocal, isto é, comportando residência
associada seja com os pais do marido, seja com os pais da esposa. Do mesmo modo que a descendência, a
residência não seguia regras consolidadas. Em alguns casos, os recém-casados estabeleciam-se na parte da
propriedade destinada por herança ao marido; em outros, na propriedade que a esposa recebia como dote.
65
Em sua autobiografia, José Pessoa associa o surgimento da sua linhagem materna aos
“heróis” da Revolução de 1817, a qual considera um movimento libertador “que deu ao nosso
país o primeiro governo republicano, antecedendo, em 72 anos e alguns meses, ao movimento
de 15 de novembro de 89” (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 5), e no qual vários membros
da família Pessoa teriam tido ações decisivas. Ressalta a ação do padre João Ribeiro Pessoa
de Melo e do capitão de Artilharia Domingos Teotônio Jorge Martins Pessoa, ao qual teria
cabido dar o grito de rebelião e que, posteriormente, teria feito parte do Governo Provisório
do Recife27. Destaca, ainda, a sua ascendência direta da família Lucena, da qual destaca as
figuras de Henrique Pereira Lucena28, seu bisavô, pai de sua avó Henriqueta Pereira de
Lucena, “liberal patriota” que lutou na Revolução Praieira, em 1848, e do Barão de Lucena29
(também Henrique Pereira de Lucena, nome herdado do pai), seu tio-avô, irmão de
Henriqueta.30 Lewin (1993) destaca a importância que este último teve para Maria da Silva
Pessoa e seus irmãos, após eles terem ficados órfãos de pai e mãe prematuramente 31. O Barão
de Lucena foi o responsável por encaminhar profissional e politicamente os irmãos homens,
dentre os quais se destacou na política nacional Epitácio Pessoa, irmão caçula de Maria.
Epitácio foi o grande herdeiro político dos Lucena, de quem seguiu os passos.
Os fragmentos de memória extraídos do livro de Laurita Pessoa Raja Gabaglia, filha
de Epitácio Pessoa, a respeito de José da Silva Pessoa, bem como do próprio Epitácio, assim
como dos relatos memoriais de José Pessoa, parecem denotar um esforço no sentido de se se
27
A participação dos dois na revolta, lhes deu destinos semelhantes. O primeiro enforcou-se em 19 de maio de
1817 e o segundo foi condenado à morte pela Comissão Militar de Pernambuco em 8 de julho de 1817, tendo
sido enforcado no mesmo dia. (TAVARES, 2017)
28
Henrique Lucena era Coronel da Guarda Nacional em Pernambuco e um dos principais donos de engenho na
região dos municípios de Limoeiro e Nazaré, em Pernambuco. Foi um dos líderes da Revolução Praieira na Zona
da Mata norte desse estado. (MOSHER, 1996, p. 216; CARVALHO e CÂMARA, 2008, p. 20-21)
29
Henrique Pereira de Lucena, o Barão de Lucena, nasceu no município de Bom Jardim-PE, em 23/05/183, e
faleceu no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, em 10/12/1913. Uma das principais lideranças do Partido
Conservador no Nordeste, exerceu forte influência política nos estados da região, sobretudo em Pernambuco e na
Paraíba, na segunda metade dos anos 1800. Foi presidente das províncias do Rio Grande do Norte (1872),
Pernambuco (1872-1875 e 1890), Bahia (1877-1878) e Rio Grande do Sul (1885-1886). Na República foi
Ministro dos Transportes (1891), da Agricultura (1891), da Justiça (1891) e da Fazenda (1891). A continuidade
da vida pública na República se deve à relação de amizade que nutria com Deodoro da Fonseca, tendo sido
apontado como um dos conspiradores do golpe republicano de 1889. Com a renúncia de Deodoro em 1891,
encerrou a sua carreira política. Foi o grande responsável pela introdução de Epitácio Pessoa na vida política.
(LEWIN, 1993)
30
Acervo José Pessoa. Arquivo pessoal JPdv1953.00.00, “Diário da Minha Vida” (autobiografia), Pasta I, p. 6.
31
Os pais de Maria da Silva Pessoa morreram de varíola em 1847, durante uma viagem da família ao Recife.
Henrique Pereira de Lucena era irmão da mãe de Maria e, à época, era governador de Pernambuco. Apesar da
posição política que ocupava, não acolheu os filhos da irmã, já que o cargo que ocupava o impedia de ser tutor
legal dos órfãos. Entretanto, isso não impediu de custear os estudos e encaminhar profissionalmente e
politicamente os sobrinhos. Exemplos da interferência do tio são as bolsas de estudos arranjadas que custearam
os estudos primário e secundário de Epitácio no Ginásio Pernambucano, a nomeação de inspetor aduaneiro de
Antônio da Silva Pessoa, irmão de Epitácio, na Alfândega Federal de Recife, e a vaga que Lucena arrumou para
que o mais velho dos órfãos homens, José da Silva Pessoa, entrasse para a Escola Militar em 1875. (LEWIN,
1993, p. 147-149; MELO, 2005, p.30)
66
enquadrar uma memória32 sobre a identidade familiar dos Pessoa, na medida em apontam a
perpetuação de uma tradição familiar iniciada muito antes do estabelecimento da família em
Umbuzeiro e que é marcada por uma força política que ultrapassa o tempo e as divisas do
local. Como lembra Gomes (2016, p. 985), os elementos da tradição, tais como valores,
ideias, posturas e normas de comportamento, quando evocadas no tempo, condicionavam e
legitimavam as ações políticas dos Pessoa em fortes bases liberais e republicanas.
Por outro lado, ao descrever a linhagem de sua família paterna, José Pessoa aponta
para uma ascendência “nobre por origem” e evoca uma tradição familiar de amor à liberdade
e de ideais republicanos, ainda que se vanglorie, em determinados momentos, de que alguns
de seus antepassados tenham servido à Corte de D. Pedro I.33
Suas raízes paternas, no que toca aos Cavalcanti, estariam entrelaçadas às do poeta
florentino do século XIII Guido Cavalcanti. No Brasil, José Pessoa aponta Fillippo Cavalcanti
como o tronco principal desse grupo familiar, a quem descreve como um fidalgo italiano do
século XVI, “latino por excelência” e “superiormente inteligente e político”, que teria fugido
para Portugal em 1557, devido a perseguições políticas, e de onde migrou para o Brasil em
1558. Na Colônia, Fillippo teria sido acolhido por Jerônimo Albuquerque, cunhado de Duarte
Coelho, primeiro donatário da Capitania de Pernambuco, e de quem viria a se tornar genro,
após casar-se com Catarina de Albuquerque. Já estabelecido em Recife, Fillippo Cavalcanti
tornou-se homem de grande sucesso na vida social e influente nos negócios.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 2-3)
Evaldo Cabral de Mello, em Mitos de Veneza no Brasil, atribui a chegada de um certo
“Felipe Cavalcanti” ao Brasil a um movimento de migração de colonos florentinos para
Pernambuco no século XVI. Para o autor, o mais ilustre deles foi justamente Felipe [Filippo],
que se envolveu no comércio de açúcar e se tornou um indivíduo de vastíssimos cabedais, de
grande autoridade e cujos negócios seriam os engenhos de açúcar. A descrição de Mello
confirma a narrativa de José Pessoa, de que Felipe Cavalcanti teria aportado no Brasil vindo
da metrópole portuguesa, após fugir de Florença por ter se envolvido em conspirações
políticas contra os Médici. E aponta, ainda, a origem oligárquica da família Cavalcanti ao
32
Ver enquadramento da memória em POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos
Históricos, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, 1989, p 3-15.
33
Ao discorrer sobre a sua linhagem paterna, José Pessoa faz menção a Manoel Clemente Cavalcanti de
Albuquerque, preso por ter participado da Revolta de Pernambuco (1817) e que, depois de libertado, teria
participado do Conselho das Províncias, após a Independência. Manuel teria tido a honra de conduzir a coroa e o
bastão de D. Pedro I no seu ato de coroação. Cita, ainda, o Visconde de Albuquerque, um político de alto valor e
um “homem de corte”, o diplomata Diogo Velho Cavalcanti de Albuquerque, altamente condecorado durante o
Império e a Viscondessa de Cavalcanti, alta dama “que tanto relevo e distinção dera aos salões do Império”.
(ALBUQUERQUE, 1953, pasta I, p. 2-4)
67
círculo dos ottimati34, antigas famílias venezianas de origem mercantil, que haviam se
decantado em oligarquias e que, a partir do século XV buscaram estabelecer uma hegemonia
política em Veneza. Para o historiador, é bem provável que essa herança oligárquica tenha
acompanhado os Cavalcanti, assim como seus parentes Maneli e Acióli, a partir do momento
em que se estabeleceram no Nordeste do Brasil. A longa história de ativismo político dessas
famílias na Itália teria sido herdada pelos seus descendentes no Brasil, o que explicaria, na
visão de Mello a participação dos Cavalcanti, por exemplo, nos movimentos insurreccionais
de 1710, 1817 e 1824, em Pernambuco. (MELLO, 2002, p. 158-160)
O outro tronco familiar paterno de José Pessoa, o dos Albuquerque, estaria em
Jerônimo de Albuquerque, fidalgo35 nascido em Portugal, no início dos anos 1500, que viajou
para a Capitania de Pernambuco em 1535, acompanhando Duarte Coelho e sua esposa Brites
de Albuquerque, de quem Jerônimo era irmão. Casou-se com uma índia tabajara, de nome
Muyrã Ubi, batizada, posteriormente, de Maria do Espírito Santo Arco Verde, com quem teve
oito filhos, dentre eles Catarina de Albuquerque, que veio a se casar com Filipe Cavalcanti,
dando origem assim, ao grupo familiar Cavalcanti de Albuquerque. Jerônimo de Albuquerque
teve, ainda, mais dezesseis filhos, cinco de outras mulheres e onze de um segundo matrimônio
com Felipa de Mello, com quem se casou por volta de 1562, a mando de Catarina da Áustria,
rainha de Portugal. Governou a Capitânia de Pernambuco entre os anos de 1576 e 1580,
período em que seu sobrinho, Jorge de Albuquerque, terceiro donatário, encontrava-se
acompanhando o Rei D. Afonso em campanha militar na África. A Jerônimo atribui-se a
fundação do primeiro engenho de Pernambuco, o engenho Nossa Senhora da Ajuda,
conhecido, mais tarde, por Forno da Cal. Teria início, assim, uma das mais fortes oligarquias
açucareiras do estado de Pernambuco. (COSTA, 1897, p. 61-62)
Os Cavalcanti de Albuquerque tiveram uma participação expressiva nas conspirações
e revoltas de caráter emancipatório que marcaram Pernambuco no século XIX. Tanto na
Conspiração Suassuna (1801) como na Revolução Pernambucana (1817), os irmãos Francisco
de Paula, José Francisco e Luiz Francisco Cavalcanti de Albuquerque são apontados como
líderes dos movimentos. (BIBLIOTECA NACIONAL, 1817; BIBLIOTECA NACIONAL
1955)
José Pessoa destaca, também, a participação de José Batista do Rego Cavalcanti e seu
filho Manoel Clemente Cavalcanti de Albuquerque no comado de tropas que adentraram em
34
Nobres, em tradução livre.
35
Jerônimo de Albuquerque tinha ascendência nobre, pois o seu pai descendia de D. Afonso Sanchez, filho
legítimo do rei D. Dinis de Portugal.
68
Recife, durante a Revolução de 1817, às quais armaram e vestiram às próprias custas. Os dois
vieram a formar, juntamente com alguns correligionários, um governo revolucionário na
Paraíba. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 3-4)
Ainda que buscasse uma origem nobre na linhagem paterna, José Pessoa adotou o
sobrenome materno para ser aquele que o acompanharia a vida toda. Durante toda a sua
carreira militar, que praticamente se confunde com a sua vida adulta, adotou a identificação
da linhagem materna para acompanhar o seu nome próprio.
A escolha de José Pessoa possivelmente encontre respaldo em uma prática
generalizada até o final do século XX, própria da tradição brasileira, de estabelecer a
descendência de maneira ambilinear, isto é, considerada a partir de um ou de ambos os pais.
Lewin (1993, p. 119-120) explica que a atribuição de sobrenomes que refletissem a
descendência traçada a partir de ascendentes mais distantes dos pais era uma prática comum
às oligarquias da Primeira República. Os sobrenomes paternos ou maternos podiam ser
omitidos em favor dos sobrenomes dos avós ou mesmo bisavós.
Os políticos da oligarquia paraibana fizeram um uso excepcionalmente criativo de
todas as oportunidades que a descendência ambilinear lhes concedia. Particularmente através
da ênfase nas linhagens maternas, esses políticos souberam manipular seus sobrenomes de
maneira muito vantajosa para ressaltar as afiliações, em benefício de seus objetivos de
carreira. A própria organização do parentesco orientava-os para uma afiliação materna como
paterna. A existência genealógica de uma figura ancestral feminina que houvesse exercido
poder político ou econômico encorajava a ênfase numa linhagem matrilinear, seja como uma
linhagem mais elevada ou como uma linhagem do mesmo status da matrilinear. (LEWIN,
1993, p. 119-120)
Alguns líderes que pertenceram à oligarquia estadual paraibana servem para ilustrar
muito bem a flexibilidade da descendência ambilinear, porque historicamente maximizaram
sua vantagem política através de uma nomenclatura que sublinhava os laços com os parentes
da mãe. Epitácio, por exemplo, que, através do barão de Lucena, usufruíra de reconhecimento
universal, por ser seu sobrinho favorito. E o governador João Pessoa, através de Epitácio.
(LEWIN, 1993, p. 122-123) Não é de surpreender, pois, que José Pessoa, ainda na sua
juventude, a exemplo do tio e do irmão, tenha acolhido o sobrenome materno como uma
estratégia de conquistar e preservar o prestígio e o poder. Como lembra Mariano (2011, p.
15), “os sobrenomes funcionavam como projeção da honra, como pré-requisitos políticos e
como sinônimos de status social. Os sobrenomes serviam para fixar redes ou ramos de
família, criando uma referência espacial”.
69
designação de seu nome para integrar a comitiva que acompanhou os reis belgas em uma
visita ao Brasil.
A narrativa memorial de José Pessoa sobre a sua parentela destaca-se em dois
aspectos, ao fazer referências: primeiramente, à nobreza da sua linhagem (família paterna
“nobre por origem”, “secularmente tradicional” e de uma estirpe fundada por “muitos títulos
ilustres”); e, em segundo lugar, à herança liberal herdada dos antepassados, o que gerou uma
“tradição familiar de cultura e coragem” e tornou tanto os Cavalcanti de Albuquerque, como
os Pessoa, “precursores do ideal da liberdade” nas províncias de Pernambuco e da Paraíba.
Essas referências aproximam muito o seu discurso das características da grande família
oligárquica paraibana e do viés aristocrático que marcou a sua vida pessoal e a sua carreira
militar, como será visto nos próximos capítulos.
As alegações de linhagem, que serviram para justificar o exercício da autoridade
política na Paraíba, como mostra Lewin (1993, p. 52-53), são um aspecto herdado que remete
ao período de conquista e ocupação do estado, ainda no Brasil Colônia. Essas alegações,
normalmente inseparáveis das reivindicações pela propriedade da terra, reclamavam
prerrogativas políticas em virtude da filiação de uma família “pioneira” ou “tradicional”. Isso
significava, em primeiro lugar, invocar critérios raciais para demonstrar a “brancura” de um
político – sua ascendência portuguesa, verdadeira ou suposta. Com o aparecimento mais
frequente do mulato na vida social e política da Nação depois de 1850, os membros das
oligarquias procuravam distinguir-se da maioria de pele mais escura sobre a qual exerciam
sua dominação. O conceito de “família tradicional” definia uma barreira de classe e de cor
contra o ingresso da política do estado. Em segundo lugar, ao estabelecer conexões de
linhagem com uma família tradicional, podia-se reivindicar autoridade política baseando-se na
descendência de um grupo de parentesco que houvesse historicamente exercido considerável
autoridade política e militar.
Entretanto, a linhagem por si só, não assegurava a um político e à sua família uma
posição influente na elite oligárquica da Paraíba ou o controle de seu município natal. Era a
posse da terra, combinada com uma linhagem de prestígio, que conferia o direito ao domínio
local. Os direitos legais à terra assentavam-se numa tradição oral informal, que ligava os
proprietários, legítimos ou putativos, às grandes concessões de terra que as primeiras famílias
do sertão tinham obtido da Coroa. (LEWIN, 1993, p. 53)
Gráfico 1 – Genealogia de José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque (ramo ascendente). .
Não se sabe muito sobre a primeira infância de José Pessoa. Os poucos relatos
existentes apontam que após o casamento, em 1874, Maria Pessoa Cavalcanti de Albuquerque
e sua família fixaram residência na Vila de Umbuzeiro. Melo (2003, p. 38), sem apontar a
fonte da informação, destaca que Cândido Clementino era um funcionário público sem
projeção e que “vivia em estado de extrema pobreza” com a família, o que denota uma certa
incoerência com as origens familiares de Maria, com a sua proximidade com o irmão Epitácio
e com a descrição feita por José Pessoa da casa em que viveu. Melo (2003, p. 38) relata,
ainda, que, no exercício da função, Cândido Clementino morou em várias cidades do interior
paraibano, como Guarabira e Cabaceiras, terra natal de José Pessoa.
Das lembranças da época vivida na vila de Umbuzeiro, considerada por ele a “terra
dos ancestrais”, Pessoa faz um relato do que ele chama de “casa grande” e “mansão paterna”:
Não é possível identificar a que residência José Pessoa se refere. Porém, a descrição
feita se assemelha muito com a propriedade construída por seu avô, José da Silva Pessoa, em
1868, e que se localizava na região que viria a ser a sede da futura cidade de Umbuzeiro, não
ficando claro se a propriedade se encontrava dentro ou fora dos limites da fazenda
Prosperidade. Nas memórias de Epitácio Pessoa, relatadas por Gabaglia (1951, p. 25), a
chamada “Casa Amarelinha”, ou “Casa Grande”, localizava-se em uma das partes mais altas
do Planalto da Borborema, a cerca de 550 metros acima do nível do mar. Epitácio relata que
era nessa casa que costumava passar os verões com a família.
36
Varanda de uma casa sertaneja.
73
Alguns anos mais tarde, Cândido e Maria mudaram-se com os filhos para a capital
paraibana, à época chamada Cidade da Parahyba. Não há um registro exato da data em que
essa mudança ocorreu. Porém, há uma indicação de Melo (2003, p. 39) de que em 1889 João
Pessoa encontrava-se matriculado no curso de humanidades do Liceu Paraibano, escola
tradicional da capital. O autor descreve, também, a viagem que João Pessoa fez,
acompanhando o tio Epitácio37, ao Rio de Janeiro, às vésperas do golpe republicano, o que lhe
permitiu testemunhar in loco, aos onze anos de idade, a instauração do novo regime no País. É
certo, portanto, que a família Cavalcanti de Albuquerque acompanhou, já na capital
paraibana, os primeiros dias da República e a ascensão de Epitácio Pessoa na política regional
e nacional.
As notícias do novo governo não tardaram a chegar à Paraíba. No entanto, sem o
destaque merecido e diante de uma população ainda incrédula a respeito dos acontecimentos.
37
Epitácio Pessoa, em 1887, já exercia o cargo de promotor público da cidade do Cabo-PE, após se formar na
Faculdade de Direito do Recife, em novembro de 1886. A exemplo de seu padrinho político, o Barão de Lucena,
que também havia começado a vida pública como promotor de uma cidade do sertão pernambucano, dava seus
primeiros passos na carreira política. Em 1890 foi eleito Deputado Federal pela Paraíba, participando da
Constituinte de 1891.
74
O jornal Gazeta da Parahyba, publicado na capital da província, pouco destaque deu à notícia
da República, na edição do dia 16 de novembro de 1889. Um texto de um pouco mais de uma
coluna dava conta dos graves acontecimentos que se passavam na Corte do Império, ao
mesmo tempo em que não sabia indicar as causas do povo levantar-se juntamente com o
Exército e a Armada para apoiar a mudança do regime, em um momento em que “o governo
monárquico parecia ostentar tanta força e a oposição republicana parecia moderar-se”38. O
periódico destacou, ainda, que, na noite de 15 de novembro, assim que a notícia da
instauração da República foi divulgada, uma grande massa popular concentrou-se em frente às
suas oficinas, apesar de terem recebido a notícia “senão com indiferença, ao menos
friamente”39. Entretanto, a confirmação da mudança do regime de governo no País ocorreu
somente na edição do dia 17 de novembro, quando foi noticiada a nomeação do Dr. Venâncio
Neiva para o governo do, agora, estado da Paraíba.
Diferentemente da capital, foi somente nos primeiros dias do ano de 1890 que as
notícias da nova República figuraram nas páginas de um jornal do interior paraibano. O
Gazeta do Sertão40, de Campina Grande, na primeira página da sua edição do dia 3 de janeiro
dava conta que os
grandes acontecimentos de que foi teatro a cidade do Rio de Janeiro, capital do país,
sobrevindo em época em que o espírito público parecia abatido e aguardava a
abertura do parlamento, lançaram por sobre toda a nação tão intenso raio de luz que
a ninguém foi dado, nos primeiros momentos de fulgor, vaticinar os futuros destino
da pátria, há tanto tempo traída e acabrunhada.41
Entretanto, alertava que “um grandioso foco de luz desnorteia também a razão e nos
precipita igualmente em falsas veredas e situações perigosas”. A matéria publicada no jornal,
sob o título de “Patriotismo”, não censurava a mudança de rumos na política do País. Tratava
o golpe republicano como uma revolução necessária, devido à “mentira e corrupção” que
poluíram por tanto tempo a Monarquia, e que ele teria sido o resultado de um processo que
não teria ocorrido da noite para o dia42. O artigo destacava, ainda, a pouca participação da
Paraíba, assim como de todos os estados do Norte, na causa republicana. Para o articulista,
que não assinou o nome, isso se deveu, sobretudo, à “completa ignorância em que deixava a
38
Gazeta da Parahyba, Cidade da Parahyba, 16 nov. 1889, p. 3.
39
Ibidem.
40
Diferentemente de o Gazeta da Parahyba, da capital paraibana, que tinha uma tiragem diária, as publicações
do Gazeta do Sertão eram semanais.
41
Gazeta do Sertão, Campina Grande, 3 jan. 1890, p. 1.
42
Provavelmente, aqui o jornal faz uma alusão aos diversos movimentos de cunho republicano que já haviam
ocorrido na região, como a Revolução Pernambucana (1817), a Confederação do Equador (1824) e a Revolução
Praieira (1848).
75
monarquia mergulhado o povo” e “à ambição e o egoísmo das almas pequeninas, movidas não
pela ideia de patriotismo, mas pela voz de interesse pessoal”. O jornal entendia, ainda, que,
com o golpe republicano, uma ditadura militar passava a dirigir os destinos do País. Uma
ditadura “necessária para fundar em tempo a República, mas não para se perpetuar no
poder”.43
Assim que a notícia da instauração da República chegou à Paraíba, iniciaram-se as
articulações políticas para a governança do novo estado. O Gazeta da Parahyba publicou
extensa matéria de primeira página, em que discorreu sobre o governo provisório instaurado
no Brasil, aplaudindo “com entusiasmo o movimento pacífico, mas revolucionário [...] aceito
por todas as classes, que veem na mudança de governo a salvação pública”44. Não obstante já
haver a indicação de um governador para o estado da Paraíba, a matéria indicou a formação
de um governo provisório paraibano, composto por representantes das diferentes correntes
partidárias estaduais e por militares do Exército e da Armada. Conforme apontam Lopes
(2015) e Pinto (1960), no dia 17 de novembro, na Câmara Municipal da Cidade da Parahyba,
sob a liderança do Dr. Silvino Elvídio Carneiro da Cunha, o Barão do Abiaí, foi organizada
uma junta governativa para o estado, composta pelos seguintes membros: coronel do Exército
Honorato Caldas (Comandante do 27 º Batalhão de Infantaria), tenente da Armada Artur
Lisboa, Francisco de Lima Filho e Eugênio Toscano, dono do Gazeta da Parahyba. Nesse
ato, o coronel Honorato recusou-se a aceitar um antigo líder monarquista à frente do governo.
Uma nova reunião, então, foi feita na sede do 27º Batalhão, onde um novo governo provisório
foi aclamado, sem a resistência do antigo presidente da província, Francisco Luis da Gama
Rosa.
A nova junta governativa, sob a liderança do coronel Honorato contava, ainda, com os
seguintes membros, conforme publicou o jornal em 19 de novembro: os capitães do Exército
João Claudino de Oliveira Cruz e Pedro de Alcântara Cousseiro, o primeiro-tenente da
Armada Artur José dos Reis Lisboa e, por parte da sociedade civil, o Dr. Antônio da Cruz
Cordeiro Sênior, o comendador Tomás de Aquino Mindelo e o Dr. Manuel Carlos de
Gouveia.45
Essa junta durou no poder até o dia 6 de dezembro, quando o Cel. Honorato Caldas foi
deposto para que assumisse o governo o Dr. Venâncio Neiva, governador nomeado pelo chefe
43
Gazeta do Sertão, Campina Grande, 3 jan. 1890, p. 1.
44
Gazeta da Parahyba, Cidade da Parahyba, 19 nov. 1889, p. 1.
45
Ibidem.
76
46
Antônio Alfredo Mello (1896-1900), José Peregrino de Araújo (1900-1904), Álvaro Lopes Machado (1904-
1905), Valfredo Leal (1905-1908), João Lopes Machado (1908-1912). (LEWIN, 1993)
77
quando Castro Pinto foi eleito governador, o primeiro sob a influência dessa oligarquia.
(LEWIN, 1993, p. 213-216)
Enquanto a República dava os seus primeiros passos no estado da Paraíba, José Pessoa
cursava as primeiras aulas do ensino elementar na capital paraibana. Os seus relatos
memoriais não precisam em que escola ele realizou seus estudos primários. Entretanto, um
estudo das leis provinciais que regulavam o ensino na Paraíba permite entender como eles
aconteciam.
O ensino público no Brasil do século XIX era regulamentado por leis próprias em cada
província do País, e se dividia em instrução primária e secundária. A regulamentação do
ensino na Paraíba47, à época em que José Pessoa a cursou, previa a instrução primária dividida
em quatro graus, em escolas separadas para o sexo masculino e para o sexo feminino.
Somente no ensino de quarto grau eram permitidas classes mistas. O ensino primário deveria
constar das seguintes matérias: elementos de Gramática Portuguesa, princípios de Aritmética
(compreendendo o sistema legal de pesos e medidas), noções de História e Geografia do
Brasil, noções de História Sagrada e trabalhos de agulha e prendas domésticas nas escolas do
sexo feminino. Para a admissão e matrícula nas escolas públicas primárias da província era
necessário se ter entre seis e quinze anos de idade, ser livre, estar vacinado, não sofrer de
nenhuma moléstia contagiosa e ter a sua filiação e naturalidade comprovadas. A
regulamentação permitia, ainda, a qualquer cidadão nacional ou estrangeiro abrir
estabelecimentos de ensino primário na província.
Ainda que não seja possível saber o educandário que frequentou em seus primeiros
estudos, José Pessoa faz menção às aulas de três professores que lhe marcaram a lembrança:
Cristóvão Chacom de Holanda Dias Parede, José Pedro Gonçalves, “de raça negra, viajado,
inteligente e culto”, e Manoel Lopes de Oliveira, de alcunha “Mandú”, que já havia sido
contratado pelo seu avô para lecionar para os filhos, na Fazenda Umbuzeiro.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 9) Além disso, aponta, ter sido no colegial que se
manifestaram os seus pendores pela imprensa, ao ponto de ter fundado, em companhia de
colegas, um pequeno jornal humorístico intitulado O Quotidiano, cujas colunas eram
ilustradas com caricaturas, feitas a bico de pena. Entretanto, com apenas duas semanas de
vida, a publicação do jornal chegou ao fim, devido a uma matéria indelicada sobre a
namorada de um colega de escola, o que causou uma revolta entre os alunos e resultou em um
ferimento em sua cabeça. A desilusão que essa primeira experiência lhe causou com o
47
Lei nº 761, de 7 de dezembro de 1883 e Regulamento nº 36, de 26 de junho de 1886, do Presidente da Paraíba
do Norte.
78
jornalismo não lhe impediu de publicar alguns livros ao longo da carreira das armas, todas de
cunho profissional, dentre os quais Estudo Sobre a Esgrima e Os Tanks na Guerra Europeia,
este de grande importância, já que relata a experiência do então tenente José Pessoa durante a
Primeira Guerra Mundial e que serviu de referência para a implantação da primeira unidade
de combate blindada no Brasil. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 19-20)
Das agitações políticas e sociais que assolaram os sertões nordestinos, um episódio em
especial marcou as lembranças do jovem José Pessoa: a Revolta de Canudos, uma “guerra de
anjos doidos em prol de uma Jerusalém fanática” (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 10).
Dos eventos relacionados ao episódio, descreve o entusiasmo que tomou conta da população
da capital paraibana por ocasião do embarque do 27º Batalhão de Linha, em 1898, para o
sertão da Bahia. No dia da partida, a escola em que estudava terminou as aulas mais cedo,
para que todos os meninos pudessem comparecer à estação da estrada de ferro, que se tornou
pequena devido ao grande número de pessoas que lá estiveram para apresentar as suas
despedidas. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 12)
Quanto ao ensino secundário, José Pessoa o fez, em parte, no Internato do Ginásio
Nacional48, no solar de São Cristóvão, na Capital Federal, o que é de se estranhar, uma vez
que a capital da Paraíba contava com o Liceu Paraibano 49, escola de educação secundária de
grande prestígio junto às famílias de elite do estado e que, devido à sua equiparação ao
Ginásio Nacional50, em termos educacionais, propiciava aos filhos da elite paraibana as
mesmas condições de acesso ao ensino superior. Entretanto, é preciso considerar a
possibilidade de que as presenças dos tios Epitácio e José na Capital Federal tenham
influenciado a opção de fazer o curso secundário no Rio de Janeiro. Epitácio Pessoa, à época,
era ministro da Justiça51 do Governo Campos Sales e José da Silva Pessoa comandava o 3º
Batalhão de Infantaria da Brigada Policial da Capital Federal 52. Este teria sido, segundo
48
Com a República, o Colégio Pedro II passou a se chamar Ginásio Nacional, nomenclatura que não teve
aceitação e logo deixou de ser utilizada, retornando o uso do nome original.
49
O Liceu Paraibano foi criado por meio da Lei nº 11, de 24 de março de 1836, do Presidente da Paraíba do
Norte, um ano antes da criação do Colégio Pedro II.
50
O Decreto nº 981, de 8 de novembro de 1890, que regulamentou a educação primária e secundária no Distrito
Federal, previa a equiparação dos cursos secundários dos estados ao curso do Ginásio Nacional quando aqueles
possuíssem um plano de ensino organizado conforme os parâmetros deste. Em 1896, por meio do Decreto nº
2.301, de 1 de julho, o Liceu passou a ser equiparado ao Ginásio Nacional.
51
Epitácio Pessoa foi ministro do Interior do Governo Campos Sales entre os anos de 1898 e 1901. Esse
Ministério abrangia, ainda, a Justiça e a Educação. Entre 1901 e 1902 foi, ainda, ministro interino da Indústria,
Transportes e Obras Públicas. (MELO, 2005)
52
O Decreto nº 958, de 6 de novembro de 1890, organizou a Brigada Policial da Capital Federal, que passou a
ser composta por um regimento de Cavalaria e três batalhões de Infantaria. O Decreto previa que o comando da
Brigada, um coronel ou general-de-brigada do Exército, ficaria sob as ordens imediatas do ministro da Justiça e
que os comandantes dos corpos seriam retirados dos corpos especiais do Exército. Consta nas Fés de Ofício de
79
Lewin (1993, p. 150), o grande responsável por inserir Epitácio na rede de relações políticas
formada pelas elites civil e militar da Capital Federal, no início da República. José, por
ocasião do golpe republicano tornou-se tenente ajudante-de-ordens de Deodoro e, com isso,
Epitácio passou a transitar com frequência no Itamarati, onde, segundo Melo (2005, p. 30),
“era visto com grande simpatia”. Mais tarde, no posto de general, comandou a Brigada
Policial da Capital Federal em duas ocasiões (1910-1914 e 1919-1924). José da Silva Pessoa
chegou ao posto de marechal.53
Os Decretos que regulamentavam o ensino no Ginásio Nacional54 previam o
funcionamento do curso secundário em dois estabelecimentos distintos, um para o regime de
internato e outro de externato. O curso seria integralizado em seis anos, com uma grade
composta pelas seguintes disciplinas: Desenho, Português, Literatura, Francês, Inglês,
Alemão, Latim, Grego, Matemática Elementar, Elementos de Mecânica e Astronomia, Física,
Química, História Natural, Geografia (especialmente a do Brasil), História (especialmente a
do Brasil) e Lógica. Os alunos do internato teriam, ainda, o ensino de ginástica, apenas por
uma questão de “higidez física”. Após a conclusão de todas as disciplinas com
aproveitamento e ser aprovado no “exame de madureza”55, o aluno receberiam o grau de
Bacharel em Ciências e Letras. Essa titulação permitia que os concludentes dos cursos
secundários do Ginásio Nacional, e estabelecimento de ensino secundários equiparados,
disputassem, em igualdades de condições, cargos em repartições federais ou em
estabelecimentos de ensino secundário, com a preferência para a nomeação. Do corpo docente
do Ginásio Nacional, alguns professores que marcaram a lembrança de José Pessoa foram:
Luiz Gama, Gastão Ruch (Francês), Mattoso Maia (História Geral), Timóteo Pereira
(Matemática) e Francisco Guimarães (Português).56
Após concluir os estudos secundários, José Pessoa retornou à capital paraibana, para
prestar, segundo ele próprio conta, os “exames de madureza” no Liceu Paraibano, onde teria
concluído o curso secundário no ano de 1902. Em 1903 deslocou-se para Recife juntamente
José da Silva Pessoa que a sua nomeação para o comando do 3º Batalhão se deu em 1900, e que aconteceu por
ordem direta do chefe da pasta da Justiça, não por acaso seu irmão Epitácio.
53
Cf. Lewin (1993) e Fés de Ofício do Marechal José Pessoa da Silva e General Aristarcho Pessoa Cavalcanti de
Albuquerque.
54
Decretos nº 3.251, de 8 de abril de 1899 e, posteriormente, o 3.914, de 26 de janeiro de 1901, após a reforma
de ensino promovida por Epitácio Pessoa, quando Ministro da Educação.
55
O Decreto nº 981/1890, previa três tipos de exames para o curso secundário integral: os de suficiência, para as
disciplinas a serem continuadas no ano seguinte; os finais, para as disciplinas já concluídas e os de madureza,
destinados a verificar se o aluno possuía a cultura intelectual necessária. Ao final do curso integral, a aprovação
no exame de madureza garantia o título de Bacharel em Ciências e Letras e o acesso a qualquer instituição de
ensino superior sem que fosse necessário a realização de novas provas.
56
Dados sobre os professores citados por José Pessoa foram retirados do Anuário do Colégio Pedro II, Ano XV,
não sendo possível identificar qual disciplina lecionava Luiz Gama.
80
57
COLÉGIO PEDRO II. Internato do Ginásio Nacional. Atas dos Exames do 1º Ano (1899-1909).
58
O Decreto nº 1.331-A, de 17 de fevereiro de 1954, aprovou o regulamento para a reforma dos ensinos primário
e secundário no Município da Corte.
59
Os cursos a que a legislação de ensino se refere eram os cursos de Medicina e de Direito. Os estatutos dessas
escolas, segundo Barros e Carvalho (2017, p. 104), previam, como condições de matrícula, os exames de
admissão, feitos nas próprias faculdades, ou o diploma de Bacharel em Letras, do Colégio Pedro II ou de
81
províncias. Até 1870, os exames preparatórios eram prestados no Colégio Pedro II ou nas
faculdades. A partir desse ano, passaram a ser feitos de forma difusa em todo o Brasil,
variando as disciplinas cobradas com as legislações vigentes. As reformas realizadas no início
da República, por meio do Decreto nº 981/189060 e dos subsequentes, mantiveram até 1911,
em termos gerais, as reformas feitas durante o Império. Os exames finais prestados no Pedro
II e nas escolas congêneres, que davam direito, caso o aluno fosse aprovado, ao tão
ambicionado grau de Bacharel em Ciências e Letras e ao acesso direto ao ensino superior,
passaram a se chamar os já citados exames de madureza. A partir de 1895, as certidões dos
exames preparatórios, que antes eram expedidos somente pelos encarregados do governo
federal, passaram a ser emitidas pelos liceus estaduais. Apesar de serem considerados pelas
autoridades uma exceção ao ensino seriado das escolas secundárias, os exames preparatórios
se tornaram a opção escolhida por uma extensa quantidade de alunos residentes nos estados
para ter acesso ao ensino superior. (BARROS, CARVALHO, 2017, p. 107-108)
Isto posto, é possível que José Pessoa tenha prestado os exames preparatórios no Liceu
Paraibano, ao invés dos exames de madureza, para conseguir o acesso à Faculdade de Direito
de Recife, tendo, para isso, recebido aulas particulares ministradas por professores
contratados pela família, o que ele próprio já demonstrou ter sido uma prática comum adotada
pelos Pessoa. O pretexto de perpetuar a narrativa de pertencimento a uma elite e a uma
origem aristocrática, pode ter o levado a indicar em suas memórias a realização de um exame
no lugar de outro, já que o título de Bacharel em Ciências e Letras, obtido somente com os
exames de madureza, era bastante ambicionado pelas elites do País.
A viagem ao Recife, ao invés de servir ao propósito da matrícula no curso superior de
Direito, acabou despertando em José Pessoa a vocação para a carreira das armas. Ao chegar à
capital pernambucana, ele e Cândido depararam-se com as agitações que tomavam conta da
população por conta das notícias que chegavam da Revolução Acreana, liderada por Plácido
de Castro. Pessoa lembra do grande número de cidadãos recifenses inflamados por um furor
patriótico, que se dirigiram aos quarteis da cidade pedindo armas, para seguir para aquela
região, a fim de tomarem parte no movimento revolucionário. (ALBUQUERQUE, 1953,
Pasta I, p. 13) De uma maneira geral, as negociações em torno da questão acreana se deram
em meio a forte comoção da imprensa nacional. Em uma consulta feita aos principais jornais
de Recife da época, como o Jornal do Recife e o Diário Pernambucano, é possível notar que
estabelecimentos de ensino equiparados a este, nas províncias, ou o título de aprovação nos exames
preparatórios.
60
Conhecida como reforma Benjamin Constant.
82
as notícias dos acontecimentos no Acre passaram a ser publicadas com uma constância maior,
quase que semanalmente, nos anos de 1902 e 1903, dando um grande destaque às negociações
com a Bolívia, conduzidas pelo Barão do Rio Branco, então ministro das Relações Exteriores
do Governo Rodrigues Alves.
As ações do Barão do Rio Branco na questão acreana foram fundamentais para conter
os ânimos revolucionários de Plácido de Castro e sua intenção de criar um estado
independente no Acre, e para garantir as pretensões territoriais do Brasil. Uma das ações
tomadas pelo Governo Federal, para dar suporte às negociações de Rio Branco, e assegurar as
intenções brasileiras na região, foi fortalecer as desorganizadas tropas do Exército presentes
nas fronteiras mato-grossense e amazonense. O ministro da Guerra, marechal Francisco de
Paula Argollo, no seu relatório do ano de 1903, expôs as dificuldades organizacionais
enfrentadas pelo Exército devido ao elevado número de claros em suas tropas. As condições
financeiras pelas quais passavam o governo já haviam obrigado essa força a reduzir o seu
efetivo de 28.160 homens para 15.000 homens. Essa deficiência de pessoal tornou-se mais
evidente no momento em que se tornou necessário reforçar as guarnições do Mato Grosso e
do Amazonas com tropas da Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Sul. Em um esforço para se
evitar o enorme gasto de recursos que uma grande mobilização de tropas causaria, Argollo
considerava, ainda, a possibilidade de o Governo autorizar os comandantes de distritos a
alistarem voluntários para o completamento dos efetivos das guarnições fronteiriças.
(RELATÓRIO DO MINISTÉRIO DA GUERRA, 1903, p. 4-5)
Tomados pelo surto patriótico que grassava a cidade, os irmãos Pessoa alistaram-se,
em 18 de março de 1903, no 40º Batalhão de Infantaria61. Entretanto, os recrutas não
embarcaram para a região amazônica, porque não tinham recebido instrução suficiente para
participarem de uma operação de guerra. Devido a isso, foram transferidos para o 2º Batalhão
de Infantaria, que permaneceria em Recife. Mesmo assim, José Pessoa relata que, diante da
decepção que ele e o irmão sentiram, compareceram à presença do comandante do Batalhão,
com o intuito de solicitarem a sua inclusão nos efetivos que partiriam para o Acre, no que não
foram atendidos. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 12-14)
Na Paraíba, os pais de José e Cândido, ao tomarem conhecimento do alistamento dos
filhos, à revelia deles, solicitaram a Epitácio Pessoa, então ministro da Justiça, a transferência
61
O 40º Batalhão de Infantaria, com sede em Recife-PE, compôs o grupamento da coluna expedicionária que,
sob o comando do general Antônio Olímpio da Silveira, reforçou o efetivo do Amazonas. O general Olímpio da
Silveira havia servido como capitão na Guerra do Paraguai, ocasião em que recebeu do Duque de Caxias e de D.
Pedro II referências elogiosas pela sua bravura e galhardia em batalha. Sua coluna era composta por cerca de
3.000 expedicionários. (LIMA, 1952, p. 231)
83
62
Cândido não permaneceu na Escola Militar.
63
A Guerra do Paraguai foi um dos marcos decisivos para a mudança e a inserção da Instituição no jogo das
forças políticas que ocorreram na segunda metade do século XIX. A experiência de guerra contribuiu
significativamente para que o Exército que retornou dos campos de batalha paraguaios fosse muito diferente
daquele que havia ido e para que a Instituição emergisse como órgão de representatividade nacional.
64
Motta (2001, p. 133) aponta que as reivindicações por melhorias nas estruturas do Exército provinham,
sobretudo, da baixa oficialidade dos grupos que ocupavam uma posição mais subalterna na hierarquia militar.
84
segunda metade do século XIX, nas administrações de Caxias, Belegarde e Felizardo, o que
deixava transparecer a deficiência do seu modo de organização interna. Somava-se a isso a
“crise de identidade” sofrida pelos militares a respeito do verdadeiro serviço que deveriam
prestar à Nação, uma vez que tinham suas funções divididas com a Guarda Nacional65.
(ROESLER, 2015, p. 25)
A outra está relacionado ao sistema de recrutamento de praças existente no País, que
será mais debatido no próximo capítulo. Vigorava o sistema de voluntariado, porém, na falta
de candidatos, persistia o recrutamento forçado. Com isso, os quadros eram oriundos das
camadas mais pobres da população, em um contexto em que os filhos das camadas mais
abastadas possuíam privilégios que os isentavam do serviço militar.
A falta de profissionalismo dos quadros66 do Exército ficaria patente durante a
campanha do Paraguai, em que escravos dividiram o front de combate com os quadros ditos
“profissionais”. Em busca de alforria, os escravos se alistavam e partiam para o combate sem
nenhum treinamento profissional. A própria Instituição já havia identificado a necessidade de
definir um modelo de treinamento que contribuísse para sua profissionalização. Como destaca
Domingos Neto (1980, p. 46), a Escola Militar não fornecia nenhuma instrução especializada
aos oficiais, privilegiando as disciplinas teóricas e o ensino de generalidades, que não
mantinham relação direta com as atividades militares. Não existiam programas de
treinamento, nem exercícios de campanha. Não demorou para ficar evidente à oficialidade
que depender da convocação de homens sem o mínimo de instrução militar e conduzi-los nos
campos de batalha era uma tarefa bastante perigosa. O próprio processo de convocação, como
visto, se constituía mais em problema do que em solução. Castro (1995, p. 101) aponta que a
profissionalização do Exército foi mais intensamente discutida a partir de 1850, quando o
ensino militar passou a ser tratado com maior interesse por parte da oficialidade.
65
A Guarda Nacional foi criada em 1831 e surgiu do desejo da elite liberal, da época, de desmantelar o Exército
Nacional após a abdicação de D. Pedro I. Foi um reflexo da política antimilitar e liberal adotada pela regência
formada pelos senadores Nicolau Pereira de Campos Vergueiro e José Joaquim Carneiro Campos, e pelo militar
Francisco de Lima e Silva. A partir da data de sua criação, a Guarda passou a dividir com o Exército as
atribuições de defesa. Por estar subordinada ao Ministério da Justiça, ela possuía mais distinção e
reconhecimento que o Exército e disputava com este não só o orçamento para a defesa como, também, as
atenções da Coroa e o status social, já que a Guarda incorporava os grupos de mais alta renda do País. A própria
existência da Guarda Nacional, segundo Edmundo Campos Coelho, não deixava claro o papel que o Exército
deveria desempenhar, uma vez que cabia a ela “defender a Constituição, a liberdade, a independência e a
integridade do Império [restabelecendo] a ordem e a tranquilidade públicas e auxiliar o Exército na defesa das
fronteiras e costas”. Somente em 1918, através de um decreto do presidente Wenceslau Braz, a Guarda foi
reorganizada e passou a ser considerada reserva de 2ª linha do Exército. (COELHO, 2000, p. 55-58)
66
Ricardo Salles aponta para o número insuficiente de quadros ao início da guerra, o que levou as autoridades
militares brasileiras lançar mão do recrutamento dos efetivos dos corpos policiais e da Guarda Nacional para
formar os corpos de Voluntários da Pátria, além de promoverem o recrutamento no seio das camadas populares.
(SALLES, s.d)
85
Entre os anos de 1855 e 1874, a formação dos oficiais do Exército Brasileiro ocorreu
em dois institutos de ensino distintos, sediados na cidade do Rio de Janeiro e cada um com
seu currículo próprio: na Escola Central, localizada no Largo de São Francisco, herdeira da
Academia Real Militar, criada em 1811, e na Escola de Aplicação, com sede na Fortaleza da
Praia Vermelha. A Escola de Aplicação, criada em 1855, tinha a missão de colocar em prática
os conhecimentos técnico-militares. Já o ensino das cadeiras científicas (Matemática, Ciências
Físicas e estudos de Engenharia) ficava a cargo da Escola Central. Uma nova regulamentação
do ensino feita no ano de 186367 a cargo do ministro da Guerra, general Polidoro, definiu mais
claramente a vocação de cada escola. Na Praia Vermelha se daria a formação dos oficiais das
armas de Infantaria, Cavalaria e Artilharia, e, no Largo de São Francisco, a formação dos
engenheiros e o funcionamento do curso de Estado-Maior. Anexo ainda à Escola de
Aplicação, funcionava um curso preparatório de dois anos, destinado ao ensino das doutrinas
preparatórias exigidas para os cursos militares e à instrução prática elementar das diferentes
armas. Durante o período da Guerra do Paraguai, as escolas militares deixaram de funcionar,
retomando suas atividades em 1870, ao final do conflito. Em 1874, a Escola Central foi
extinta, para dar lugar à Escola Politécnica, que passaria a ser responsável pelo ensino de
engenharia civil. Com isso, a Escola de Aplicação, que passou a concentrar todos os cursos de
formação (Infantaria, Cavalaria, Engenharia e Artilharia), passou a denominar-se Escola
Militar. Os oficiais formados nos cursos de Engenharia e Artilharia possuíam uma formação
mais longa – cinco e três anos, respectivamente –, devido à pesada carga horária de matérias
científicas, e eram considerados oficiais de Estado-Maior. Os cursos de Infantaria e Cavalaria
tinham uma formação curta, de apenas dois anos. O curso preparatório passou a ser feito em
três anos e comum a todas as armas. (MOTTA, 2001, passim)
Castro (1995, p. 102) aponta que os esforços feitos pelo Império para a modernização
do Exército, na realidade, foram ínfimos, já que várias tentativas entre 1870 e 1889
fracassaram. A década de 1880, principalmente, caracterizou-se pela intensificação do
inconformismo e do descontentamento do Exército para com o Império. Esse inconformismo
teria sido tencionado por razões de ordem prática, como a ausência de uma política para o
Exército definida pelo governo imperial. No entanto, tais motivos não são suficientes para
explicar o envolvimento do Exército nas agitações sociais e políticas do final do século XIX,
que culminaram no seu envolvimento em episódios como a abolição e o golpe que instituiu a
República. A referência teórica para todo esse envolvimento pode ser encontrada nas novas
67
Decreto nº 3.083, de 28 de abril de 1863.
86
ideias que adentravam o Brasil naquele período, dentre elas o positivismo, que encontrou forte
aceitação dentro do Exército, principalmente dentro das escolas militares, verdadeiras caixas
de reverberação do que acontecia na política nacional. (ROESLER, 2015, p. 29)
A formação em duas escolas independentes deu origem a uma separação evidente
entre os oficiais que delas eram egressos: os “científicos” e os “tarimbeiros”. Essa separação
perduraria até o final do Império. Castro (1995, p. 24) explica que o termo “tarimbeiro” era
utilizado para designar os oficiais de perfil mais troupier, geralmente das armas de Infantaria
e Cavalaria, o que os distinguia dos oficiais “científicos”, geralmente das armas de Artilharia
e Engenharia e aqueles que possuíam o curso de Estado-Maior. Coelho (2000, p. 70) aponta o
uso dos termos ainda no início da República. Os “tarimbeiros”, eram, em sua maioria, oficiais
mais velhos, que haviam participado da campanha do Paraguai. Muitos não haviam cursado a
Escola Militar e que tinham como objetivo maior o desagravo do Exército. Não eram
entusiastas da República e sim da defesa da honra do Exército. O maior expoente desse grupo
era Deodoro da Fonseca, líder do movimento que derrubou a Monarquia. O outro grupo, os
“científicos” ou “bacharéis”, era constituído, em sua maioria, por oficiais mais jovens. Eram
partidários do regime republicano, pois o identificavam com os princípios do positivismo,
que, em maior ou menor grau, os influenciava. Sua personificação era o tenente-coronel
Benjamin Constant, veterano do Paraguai e professor da Escola Militar da Praia Vermelha.
Apesar das diferenças e da dificuldade de relações entre os oficiais dos dois grupos, a
farda os unia e, acima de qualquer divergência, prevalecia o espírito de corpo. Como lembra
Carvalho (2006, p. 25), foi graças à união dos grupos que o golpe republicano se tornou
possível: os “científicos” entraram com o poder das ideias e os “tarimbeiros” com o poder da
corporação.
A Escola Militar assistiu à queda da Monarquia e ao surgimento da República. Pelos
corredores e bancos escolares do “Tabernáculo da Ciência”68 passaram importantes gerações
de militares. Celso Castro chamou de “mocidade militar” a jovem oficialidade com estudos
superiores ou “científicos”, que buscou a liderança de Benjamin Constant, à época professor
de Matemática dessa instituição de ensino. Uma geração surgida em meio a um Exército que,
ao final do Império, buscava mudar suas características estruturais e organizacionais: uma
regulamentação mais eficaz dos sistemas de promoção e de mérito, abertura da carreira militar
às pessoas não pertencentes à elite e separação da formação acadêmica entre “científicos” e
68
Assim era chamada a Escola Militar da Praia Vermelha pelos alunos, o que, segundo Celso Castro, evidencia a
importância que o ensino científico adquiriu nesse educandário militar.
87
“tarimbeiros”. A esse grupo, Castro (1995, p.17) atribui o papel de “elemento iniciador e
dinâmico da conspiração republicana no interior do Exército”.
O membro típico da “mocidade militar” possuía as seguintes características: era
oriundo de um dos estados do Norte do Brasil, região menos favorecida do País; não havia
atingido ainda os trinta anos de idade à época do golpe republicano e frequentara a Escola
Militar no período posterior a 1874, após a reabertura do estabelecimento de ensino, com o
fim da Guerra do Paraguai. O fato de haver uma predominância de pessoas da região Norte
não significa que a Escola da Praia Vermelha não atraísse indivíduos de outros estados.
Significativa era, também, por exemplo, a representação de alunos naturais do Rio Grande do
Sul. Para os novos alunos, o afastamento da vida familiar implicava terem nos alunos mais
velhos um grupo de referência. Era por meio da intensa convivência com seus pares, no dia a
dia da Escola, que o aluno se tornava membro da “mocidade militar”. A forte interação
existente nos anos de formação, mesmo no compartilhamento dos momentos de lazer e na
existência de grêmios e sociedades acadêmicas mantidas pelos alunos, criavam nos discentes
um forte espírito de corpo69 e contribuíam para a construção de uma identidade social dos
jovens alunos “científicos”. (CASTRO, 1995, p. 31, 33-38)
Os “doutores” formados na Praia Vermelha julgavam-se preparados “pelos paladinos
do positivismo70 no Brasil para oferecer solução a todos os grandes problemas do país”
(DOMINGOS NETO, 1984, p. 54). Era clara a grande influência de doutrinas como o
cientificismo, o positivismo e o republicanismo sobre esses jovens oficiais, que se
preocupavam mais com o pensamento de Comte do que com as questões de ordem prática da
Instituição. O positivismo apresentou uma alternativa para o papel social e político dos
militares ao propor, na ausência de uma identidade profissional, uma identidade política. Essa
mentalidade do novo oficial, inteirado e engajado nos assuntos políticos da Nação, teve no
desfecho da Questão Militar seu reflexo mais direto, em um período em que as ideias
abolicionistas e republicanas já estavam consolidadas dentro do Exército. (MORAES, 2004,
p. 57)
O universo cultural da “mocidade militar”, permeado pela valorização simbólica do
mérito individual e pelos ideais de progresso, evolução e cientificismo, seria, segundo Celso
69
É em Bourdieu que Castro (1995, p. 38) busca o sentido do espírito de corpo, como a integração e a
solidariedade oriundas do encantamento afetivo que nasce de se poder admirar a si mesmo em seus pares e do
sentimento de solidariedade que repousa sobre a comunidade de esquemas de percepção, de apreciação, de
pensamento e de ação.
70
Na Escola Militar destacou-se a figura de Benjamin Constant. Inspirado nas ideias positivistas, teria liderado a
Mocidade Militar na conspiração que culminou na República, em 1889. Castro (1995, p. 18), a partir de outra
perspectiva de análise, entende que, na realidade, o líder Constant é que teria sido seduzido e convertido para o
ideal republicano pelos seus alunos.
88
Castro, o responsável por alimentar nos jovens “científicos” dois outros sentimentos: o
abolicionismo e o republicanismo71. Dentre os alunos da Escola Militar teriam, inclusive,
surgido as primeiras e mais ativas organizações abolicionistas da década de 1880. Em relação
ao republicanismo, mais radical e anterior ao de outras parcelas do Exército, não foi, segundo
o autor, a participação ativa dos alunos na Questão Militar que os levou ao seu encontro.
Antes mesmo dela, a “mocidade militar” já havia se tornado republicana. A fundação de dois
clubes secretos republicanos pelos alunos, nos anos de 1878 e 1885, corrobora essa ideia.
(CASTRO, 199, p. 79-81)
É evidente, portanto, como aponta Castro (1995, p. 48), que, embora a Escola Militar
tivesse sido criada com o objetivo de profissionalizar o corpo militar, ela pouco direcionava
seus alunos para a doutrina militar e para os estudos técnicos e táticos. O seu curso, na
verdade, era visto como uma excelente oportunidade de ascensão social, o que contribuía para
atrair muitos jovens sem vocação para a carreira das armas, que estavam mais interessados no
título de “doutor” do que na patente militar. Muitos, após concluírem os cursos científicos,
largavam a farda e passavam a trabalhar como professores ou engenheiros. Essa situação
perdurou até a segunda década da República, quando as reformas do ensino militar de 1918 e
1919 implementaram mudanças nos currículos de formação, por meio do ensino teórico-
prático.72
José Pessoa iniciou a sua formação militar em 9 de abril de 1903, na Escola
Preparatória e de Tática de Realengo, na vigência da regulamentação do ensino militar de
189873, que se constituiu em uma segunda tentativa de adaptar o ensino militar aos tempos
republicanos.
Em 1890, ainda na vigência do governo provisório de Deodoro da Fonseca, e tendo
Benjamim Constant como ministro da Guerra, um primeiro regulamento já havia sido
implementado74. Ele foi a base de todos os regulamentos subsequentes implementados ao
longo da Primeira República. Como lembra Motta (2001, p. 171), ao assumir a pasta da
Guerra Constant imediatamente implementou as suas ideias na reforma do ensino militar.
Como era professor da Escola Militar desde 1873, presumia ser conhecedor dos problemas e
71
Castro (1995, p. 63) destaca a constância com que surgem, nos escritos dos alunos da Escola Militar,
referências explícitas ao evolucionismo, ao abolicionismo, ao republicanismo e ao positivismo, cuja influência
faz-se sentir a partir do ingresso de Benjamim Constant como professor de Matemática do curso superior, em
1872.
72
Antes dessas reformas, outras três reformas do ensino militar foram implementadas, nos anos de 1905, 1913 e
1914. Todas elas pretendiam tornar o ensino na Escola Militar mais voltado para a prática do que para a teoria.
Porém, as mudanças foram discretas, sem resultados efetivos.
73
Decreto nº 2.881, de 18 de abril de 1898.
74
Decreto nº 330, de 12 de abril de 1890.
89
das necessidades do ensino. A leitura de Comte incutira nele profunda convicções de como o
ensino e a educação militar deveriam acontecer.
Em termos gerais, o regulamento de 1890 estabelecia que a formação do oficial
passaria a ocorrer nas escolas militares e na Escola Superior de Guerra. As escolas militares
destinavam-se à instrução teórica e prática das praças do Exército e passariam a ter três sedes,
localizadas no Rio de Janeiro (Praia Vermelha), em Porto Alegre e em Fortaleza. O currículo
previa a existência de três cursos em sequência: um Curso Preparatório, com a duração de três
anos, um Curso Geral, de quatro anos, e um Curso das Três Armas (Infantaria, Cavalaria e
Artilharia), com a duração de um ano. A Escola de Fortaleza contava apenas com o Curso
Preparatório. A Escola Superior de Guerra, localizada em São Cristóvão, na Capital Federal,
destinava-se ao ensino técnico das armas de Artilharia e Engenharia e ao Curso de Estado-
Maior. Funcionava em regime de externato e, para a matrícula, era necessário que o aluno
tivesse aprovação plena nos Cursos Geral e das Três Armas, da Escola Militar. Os cursos de
Engenharia e de Estado-Maior tinham a duração e dois anos e o de Artilharia um ano
somente.
Existiam, ainda as escolas práticas do Exército, que possuíam um regulamento
próprio75. Localizavam-se na Capital Federal, em Realengo, e na cidade de Rio Pardo, no Rio
Grande do Sul, específica para os oficiais de Infantaria e Cavalaria. Destinavam-se a
complementar e aperfeiçoar a instrução dos oficiais e praças de pret76 que possuíssem
qualquer um dos cursos das armas das escolas militares e que não tivessem obtido licença
para frequentar os cursos da Escola Superior de Guerra. Os cursos das escolas práticas
duravam nove meses.
Para Marcusso (2012, p. 41), a implementação do regulamento de 1890 deixava
evidente o novo tipo de oficial que o ensino militar republicano pretendia formar: um oficial
que teria inevitavelmente um papel político na sociedade e guardião das instituições
republicanas, sempre apoiado na moral e na honra. A instrução que municiaria os oficiais com
tais qualidades teria como base a ciência moderna e o humanismo tradicional, ou seja, uma
formação “humanística-científica”, fortemente marcada pelas ideais positivistas de Comte, em
um currículo predominantemente voltado mais ao ensino científico do que ao técnico-
75
Decreto nº 432, de 4 de julho de 1891.
76
Praças de pret eram os cidadãos que foram recrutados para o serviço militar obrigatório. Após o tempo de
serviço eram considerados praças ou soldados rasos. Os que aspiravam patentes de oficial, se matriculavam nas
escolas de formação de oficiais. A expressão praças de pret vem do exército português, ainda nos tempos
coloniais.
90
profissional. Como ressalta Grunennvaldt (2005, p. 25), “o alvo era para modelar um militar a
um só tempo político e técnico-especialista”.
O regulamento de Benjamim Constant recebeu muitas críticas ao longo da década de
1890. As principais críticas partiram da própria corporação militar, por meio dos ministros da
Guerra subsequentes. Tanto Bernardo Vasques77 quanto Francisco de Paula Argollo78
criticaram os programas de ensino, que privilegiavam mais o ensino teórico do que a instrução
militar. Argollo ainda ressaltaria que a longa duração dos cursos das escolas militares causava
“a demora nos acessos dos oficiais e grande perturbação e incalculável prejuízo para as
fileiras [do Exército]”79.
As intensas críticas provocaram uma nova reforma do ensino militar em 189880,
assinada por João Thomaz Cantuária, ministro da Guerra do Governo Prudente de Moraes. As
mudanças mais significativas estavam na estrutura da formação, por meio da redução da
quantidade de escolas militares. A Escola Militar da Praia Vermelha passou a denominar-se
Escola Militar do Brasil. O novo regulamento não previu o local da sede da Escola, apenas
que iria se localizar “onde o Governo determinar”. Entretanto, Cantuária justificou a
permanência da instituição de ensino na Praia Vermelha, apesar de haver autorização do
poder legislativo para a mudança, devido à “falta de edifício apropriado, em lugar
conveniente, ao ensino e a disciplina escolar”81. Está claro que a intenção de afastar a Escola
Militar da Praia Vermelha estava mais ligada à necessidade de afastar os alunos da política do
que à reformulação do ensino. Como relata o general Lobato Filho, ex-aluno da Escola Militar
do Brasil, o regime implementado pelo regulamento de 1898 “desarticulou a formação do
clima político na Escola Militar da Praia Vermelha” (LOBATO FILHO, 1992, p. 15). Para
ele, ainda,
destinavam-se ao ensino teórico e prático exigido para a matrícula no Curso Geral da Escola
Militar. O curso possuía a duração de três anos, não podendo o aluno frequentá-lo por mais de
quatro anos. A aprovação em todas as disciplinas do curso preparatório e de tática habilitava o
aluno à matrícula na Escola Militar do Brasil.
A Escola Militar do Brasil passou a destinar-se a ministrar aos oficiais e praças do
Exército não só os conhecimentos relativos à três armas combatentes (Infantaria, Cavalaria e
Artilharia) como os peculiares ao Estado-Maior e engenharia militar. O currículo estava
organizado em dois cursos subsequentes: o Curso Geral e o Curso Especial. O primeiro
compreendia o estudo teórico e prático das três armas e possuía a duração de três anos. O
segundo, feito em dois anos, destinava-se à formação dos oficiais de Estado-Maior e
engenheiros militares. A provação em todas as disciplinas de dois anos quaisquer do Curso
Geral dava direito ao título de alferes-alunos82.
José Pessoa recebeu o número de aluno 1254, ao matricular-se nas disciplinas do
primeiro ano do Curso Preparatório e de Tática do Realengo. Jamais cursaria a Escola Militar
do Brasil, já que em 1905 uma nova reestruturação do ensino militar seria posta em prática,
como será visto adiante.
Para matricular-se no curso da Escola Preparatória e de Tática era necessário ao
candidato ser brasileiro nato, ter mais de quinze e menos de vinte e um anos e ser aprovado no
exame de admissão. Os candidatos eram classificados em dois grupos: militares e civis. Os
candidatos civis não poderiam matricular-se sem antes assentarem praça no Exército. Quanto
ao exame de admissão, constava de conhecimento prático das quatro operações com números
inteiros, leitura e escrita de Português. Entretanto, o regulamento previa que os civis que
apresentassem certidão de aprovação nos exames preparatórios do Ginásio Nacional e
instituições similares, à exceção dos exames de Matemática, cujas certidões aceitas deveriam
ser somente os das escolas Politécnica, Naval e de Minas de Ouro Preto, estavam dispensados
do exame de admissão e teriam a sua matrícula assegurada. Aqui cabe uma pequena discussão
a respeito da matrícula de José Pessoa na Escola e a relação com a sua conclusão do ensino
secundário, debatida anteriormente.
Na Fé de Ofício de José Pessoa consta que a sua procedência era civil. O fato de ter
assentado praça no 2º Batalhão de Infantaria, em Recife, com o intuito de seguir para o Acre,
o que não se concretizou, atendia a uma das condições para a matrícula. Consta, também, que,
no ato da matrícula, apresentou as certidões de exames feitos no Liceu Paraibano,
82
O título de alferes-aluno foi criado pela Lei nº 149, de 27 de agosto de 1840. Era uma distinção na hierarquia
do corpo de alunos. Em termos práticos, garantia um melhor soldo aos alunos que alcançavam esse mérito.
92
Exames – Nas segundas parciais, feitas em Outubro de 1903, foi inabilitado para
História; nas finais de Dezembro, foi aprovado simplesmente com grau 5 (cinco), no
1º ano de Desenho e com grau 4 (quatro) no 2º ano dessa matéria e reprovado em
Aritmética; nos de segunda época, foi reprovado no exame vago de Aritmética que
prestou, precedendo a necessária licença e aprovado simplesmente com grau 4
(quatro), no exame adiado de História Geral, especialmente do Brasil e Geografia
Pátria; nos segundos exames parciais de Outubro, de 1904, foi inabilitado em
Álgebra; nos finais de Dezembro, foi aprovado plenamente com grau 6 (seis), em
Aritmética; na prática militar do 1º ano, foi habilitado simplesmente com grau 5
(cinco); nos de segunda época, em março de 1905, deixou de prestar sem motivo
justificado os exames adiados de Álgebra e Geometria; nos de fim de ano,
Dezembro, foi aprovado simplesmente com grau 4 (quatro), em Álgebra, Noções de
Ciências Físicas e Naturais e plenamente com grau 6 (seis), em Geometria,
Trigonometria Retilínea e Cosmografia; na prática militar do 2º ano, foi habilitado
simplesmente com grau 5 (cinco) e na do 3º e em Geometria Prática, com grau 4
(quatro).85 (FÉ DE OFÍCIO DO MARECHAL JOSÉ PESSOA, 2016)
A rotina escolar a que o aluno estava submetido é descrita por Lobato Filho, que havia
frequentado a Escola Preparatória do Realengo, anos antes de José Pessoa.
É coisa perfeitamente humana dar hoje razão aos preparatorianos daquele tempo, de
não se conformarem com certas exigências da disciplina e da educação militar
nessas escolas, como por exemplo o célebre toque de formatura para o lavatório às
83
Decreto nº 4.247, de 23 de novembro de 1901.
84
Arts. 61 e 66 do Decreto nº 2.881, de 18 de abril de 1898.
85
Havia exames parciais em julho e em outubro de cada ano. Caso o aluno fosse inabilitado no exame de julho,
seria desligado da Escola. Caso fosse inabilitado no exame de outubro, o aluno faria um exame final no mês de
março do ano seguinte. Caso reprovasse neste, seria desligado. As provas eram avaliadas com graus de 0 a 10 e a
nota 3, ou menor, inabilitava o aluno na disciplina. Art. 160 do Decreto nº 2.881, de 18 de abril de 1898.
93
O general aponta ainda que a Escola Militar do Brasil possuía um regime diferenciado.
Por tratar-se de uma escola de curso superior, as exigências disciplinares eram mais brandas,
além da alimentação ser melhor.
Durante os três anos de curso, o aluno José Pessoa recebeu dois elogios: um do
presidente da República, pelo garbo com que se portou na parada de 7 de setembro de 1904 e,
outro pelo general Hermes da Fonseca, então comandante da Escola, em dezembro do mesmo
ano, pelo seu “muito respeito à disciplina e às instituições republicanas [...] e pela sua
esmerada educação e delicadeza” (FÉ DE OFÍCIO DO MARECHAL JOSÉ PESSOA, 2016).
Em janeiro de 1905 foi acometido de uma enfermidade grave, que lhe afastou da escola por
94
noventa dias, período que lhe foi permitido convalescer na sua terra natal 86. Foi nesse mesmo
ano, no mês de setembro, que recebeu a única punição no seu período como aluno, um
impedimento de 48 horas, devido a uma falta não justificada às aulas teóricas. Em dezembro
de 1905 concluiu com aproveitamento o Curso Preparatório e de Tática, sendo excluído da
Escola em março de 1906, passando, nessa data, à condição de adido à Escola de Artilharia e
Engenharia, devido à extinção da Escola Preparatória e de Tática. (FÉ DE OFÍCIO DO
MARECHAL JOSÉ PESSOA, 2016)
86
Não foi possível identificar que enfermidade foi essa. O regulamento de 1898, em seu art. 215, permitia ao
aluno enfermo, com a licença do comandante da Escola, tratar-se na casa da família, tendo direito aos
medicamentos fornecidos pela Escola.
95
aluno e professor da Escola, e foi licenciado no posto de tenente-coronel para assumir o seu
mandato na política. Varela também foi aluno, sem, porém, ter concluído o curso. Semanas
antes de ter eclodido a Revolta, ambos haviam proferido discursos críticos contra a política
nacional e a Lei de Vacinação Obrigatória, que inflamaram o Congresso. Com trajetórias
políticas marcadas pelo positivismo, os dois tinham devoção à figura de Benjamin Constant e
Floriano Peixoto. (CASTRO; ARAÚJO, 2012, p. 29-30)
Segundo Castro e Araújo (2012, p. 32-33), as articulações para o movimento militar já
vinham ocorrendo ao longo do mês de outubro. Uma reunião realizada na casa do senador
Sodré, em 17 de outubro, da qual participaram políticos de oposição ao governo e alunos das
escolas da Praia Vermelha e do Realengo, marcou a consolidação de um projeto político
coletivo que teria o seu desfecho no levante do mês seguinte. Na ocasião, o aluno Joaquim
Gaudie de Aquino Correa discursou em nome de seus colegas em homenagem à Sodré,
oferecendo-lhe uma escultura em bronze. No início de novembro um novo encontro ocorreu,
desta vez em uma sala da Escola da Praia Vermelha, com a participação de uma grande
quantidade de alunos e de um jovem oficial da Fortaleza de São João. A pauta da reunião teria
sido a preocupação com a falta de munição para o levante armado, para o qual se
comprometeu o oficial presente a colaborar, subtraindo a munição necessária dos depósitos da
fortaleza. Os autores apontam que, segundo o depoimento de um ex-aluno da Escola Militar,
desde o mês de outubro os ânimos já estavam bastante exaltados entre os estudantes, apesar
do clima pré-revolucionário não ser notado fora dos muros da Escola. Uma comissão de
alunos procurou Sodré, que lhes informou que somente concordaria com a saída da Escola
para o movimento quando tivesse a certeza do seu êxito. Enquanto isso, no Clube Militar, o
major Agostinho Raimundo Gomes de Castro e outros oficiais articulavam a adesão de quase
toda a guarnição militar do Rio de Janeiro, inclusive de elementos da Marinha.
O pretexto que faltava para o início do movimento veio em 31 de outubro com a
votação da Lei da Vacinação Obrigatória. Nos dias seguintes iniciou-se uma forte mobilização
daqueles que se mostravam contrários à obrigatoriedade imposta pela lei, dentre eles Sodré,
que fundou a Liga contra a Vacinação Obrigatória, em uma reunião ocorrida no Centro das
Classes Operárias. Também o Apostolado Positivista se manifestou fortemente contrário à
nova legislação. Em 9 de novembro a lei foi regulamentada, o que levou a uma escalada da
oposição. No dia seguinte, Sodré proferiu um inflamado discurso no Senado incitando a
resistência à arbitrariedade da nova lei. Finalmente, nos dias 11 e 12 de novembro as
manifestações, sob a liderança de Lauro Sodré e Barbosa Lima, ganharam as ruas da Capital
Federal. No dia 13 a situação começou a sair do controle. Um movimento de caráter mais
96
popular espalhou-se pela cidade. Bondes foram quebrados, lojas atacadas e combustores de
iluminação depredados. A polícia passou a ser atacada e barricadas foram erguidas. Em
poucos dias perdeu-se o controle sobre a turba popular, que passou a travar sérios embates
com as tropas policiais, que contavam com o apoio de destacamentos do Exército e da
Marinha, o que ocasionou ondas de violência e várias mortes nas principais ruas da cidade.
(CASTRO; ARAÚJO, 2012, p. 34-36)
Na Escola da Praia Vermelha o levante teve início na madrugada de 14 para 15 de
novembro. Como apontam Castro e Araújo (2012, p. 36), na tarde do dia 14 haviam se
reunido no Clube Militar, a fim de acertarem os detalhes finais do movimento, os generais
Travassos e Olímpio da Silveira, Lauro Sodré, Barbosa Lima, o major Gomes de Castro e o
capitão Augusto Mendes de Moraes. À Silveira, Gomes de Castro e Moraes coube a
responsabilidade de deflagrar o movimento na Escola de Tática do Realengo.
Nas partes dos comandantes das escolas militares da Praia Vermelha e do Realengo,
acerca dos fatos ocorridos nos dias 14 e 15 de novembro de 1904, é relatado que os estudantes
foram instigados pela oposição ao Governo, principalmente por Lauro Sodré, Alfredo Varela
e pelo general Sylvestre Travassos.87 Na noite do dia 14 para o dia 15 de novembro, os alunos
da Escola Militar do Brasil, sob as ordens de Travassos, depuseram o seu comandante e
marcharam em direção ao Palácio do Catete, para depor Rodrigues Alves. Após um embate
com as forças governamentais na Rua da Passagem, em Botafogo, que resultou no ferimento
do general Travassos, que morreria poucos dias depois, a revolta foi contida, tendo os alunos
rebeldes retornados à Escola, onde foram presos, juntamente com vários oficiais, alguns de
altas patentes, que participaram do levante. O relatório aponta, ainda, a tentativa de levante na
Escola Preparatória e de Tática do Realengo, da qual José Pessoa era aluno, que foi debelada
graças à ação do seu comandante, Hermes da Fonseca. No dia 16 de novembro, sob o estado
de sítio decretado no Distrito Federal, o controle do Rio de Janeiro foi retomado.
Da análise que fazem do movimento, Castro e Araújo (2012, p. 48) apontam que o
levante da Escola Militar do Brasil teve na revolta popular contra a vacina um pretexto.
Provavelmente a aderência ao movimento popular tenha cativado alguns revoltosos. No
entanto, segundo os autores, outros interesses e propósitos estavam envolvidos na deflagração
da revolta. Lauro Sodré, expoente político do movimento, era líder do Partido Republicano
Federal, que reunia as oposições de todos os estados contra a “política dos governadores”. A
política nacional oligárquica dos primeiros anos do Século XX facilitava a emergência de
87
Essas partes estão anexas ao Relatório do Ministro da Guerra de 1904, Francisco de Paula Argolo, apresentado
ao presidente da República em 1905.
97
descontentamentos por parte daqueles políticos que não tinham acesso direto ao poder. Dessa
forma, a disposição de Rodrigues Alves e a tomada do seu cargo por Sodré representariam
uma tentativa de modificação da ordem política vigente, em um contexto de disputa de grupos
políticos intraelites. Sevcenko (1993, p. 10) ressalta que alguns setores da oposição política88
ao governo aproveitaram-se da indignação popular para abrir caminho para o seu intento, para
o que contavam com o apoio dos alunos da Escola Militar do Brasil.
Já no caso do general Travassos, Castro e Araújo (2012, p. 48) supõem que a sua
aceitação da liderança do movimento deva ter sedado em razão da sua orientação positivista,
refletida na postura que adotou contrária à Lei da Vacinação Obrigatória, que era vista como
uma afronta à liberdade de escolha e à inviolabilidade do lar, previstas pela Constituição de
1891. Segundo os autores, Travassos era um militar com pouca expressão dentro do Exército
e teria despontado como liderança militar do movimento somente na reunião do Clube
Militar, na tarde do dia 14 de novembro.
A participação na Revolta da Vacina implicou o desligamento de 275 alunos da Escola
Militar do Brasil e 63 alunos da Escola Preparatória e de Tática do Realengo89. José Pessoa
não se encontrava nas relações que enumeravam os envolvidos nos acontecimentos de 14 para
15 de novembro, o que atesta, desde os tempos de aluno o caráter legalista e apartidário que o
acompanhou ao longo da carreira. No entanto, seu irmão Aristarcho, que era aluno da Escola
Militar do Brasil, ficou preso por vinte e cinco dias na Fortaleza de Santa Cruz, estando
previsto para, após a prisão, ser redistribuído em um dos corpos da guarnição do Rio de
Janeiro, por ser suspeito de ter participado da rebelião dos alunos, ainda que não tivesse sido
provada a sua participação90. Obviamente a expulsão de Aristarcho não aconteceu, já que
concluiu seus estudos militares e fez carreira dentro do Exército, como consta em sua Fé de
Ofício.
88
Esses setores, segundo Carvalho (2002, p. 95) e Sevcenko (1993, p. 22) eram formados basicamente por dois
grupos distintos. Um grupo era composto pela jovem oficialidade que ascendeu e se impôs ao País durante os
governos de Deodoro da Fonseca e de Floriano Peixoto, acompanhados de diversas classes dos setores sociais
urbanos, como: trabalhadores do serviço público, funcionários do Estado, profissionais autônomos, pequenos
empresários, bacharéis desempregados e uma vasta multidão de locatários de imóveis, arruinados e desesperados
com a reforma urbana empreendida na cidade do Rio de Janeiro na administração do Prefeito Pereira Passos. O
outro grupo era formado por monarquistas depostos pelo regime republicano.
89
Relatório do Ministro da Guerra de 1904. Anexo F (Partes e Relações de Oficiais e Praças Referentes aos
Acontecimentos de 14 de novembro de 1904).
90
Os nomes dos envolvidos no levante das escolas militares na noite de 14 para 15 de novembro foram
enumerados em três relações distintas, no Relatório do Ministro da Guerra, em 1904: a) relação nominal dos
alunos da Escola Militar do Brasil que não ficou provado terem tomado parte nos acontecimentos; b) relação
nominal dos alunos da Escola Militar do Brasil que foram mandados excluir do Exército a bem da disciplina, por
se terem envolvido nos acontecimentos; c) lista dos oficiais responsáveis pelos acontecimentos.
98
MIL NOVECENTOS E SEIS [...] Nos exames finais foi aprovado plenamente com
grão sete na primeira e quarta aulas, simplesmente grau quatro, na segunda e
reprovado na terceira, deixando por isso de fazer Desenho.
MIL NOVECENTOS E SETE [...] Nos exames finais foi aprovado simplesmente
com grau cinco, na terceira aula e em Desenho, ambas do primeiro ano do curso de
guerra; grau três na primeira, grau cinco na quarta, plenamente grão seis na terceira,
grau sete na segunda aula e em Desenho, tudo do segundo ano, bem como no
primeiro, segundo, terceiro, quarto, quinto e sexto grupos do ensino prático, e grau
seis no oitavo grupo.
MIL NOVECENTOS E OITO [...] Nos exames finais, foi aprovado simplesmente
com grau cinco no oitavo grupo, grau oito no primeiro, grau quatro no quinto e
sétimo, grau nove no sexto, com distinção grau dez no segundo e terceiro. 91 (FÉ DE
OFÍCIO DO MARECHAL JOSÉ PESSOA, 2016)
91
As disciplinas teóricas eram agrupadas em aulas (quatro no 1º ano e quatro no 2º ano) e as práticas em oito
grupos distribuídos ao longo dos dois anos do curso.
101
docente, estava muito longe de satisfazer aos requisitos exigidos para uma Escola de
Formação de Oficiais”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 14)
A falta de instalações físicas apropriadas ao funcionamento dos cursos de formação
dos oficiais do Exército, bem como de equipamentos e material didático para aulas e instrução
militar, sempre foram preocupações dos ministros que passaram pela pasta da Guerra nos
primeiros anos da República. O general João Neponuceno Medeiros de Mallet, no relatório do
Ministério da Guerra de 1898, ano da primeira grande reforma do ensino militar dos tempos
republicanos, já apontava a necessidade de “reformas urgentes, tendentes a manter-lhes a
estabilidade e conservação” das edificações da Escola Militar do Brasil, bem como de
trabalhos de adaptação nas instalações da Escola Preparatória e de Tática de Realengo, cujo
edifício não se prestava ao fim a que se destinava, “em vista de suas acanhadas dimensões”.
(RELATÓRIO DO MINISTRO DA GUERRA, 1898, p. 19-20) Os relatórios que se
seguiram, até o de 1905, quando se iniciaram as mudanças decorrentes da nova reestruturação
do ensino militar, não apresentam a realização de obras de grande vulto nas escolas militares,
a não ser reformas de pequena monta e pintura de parte das instalações. Entretanto, a
necessidade premente de reformas estruturais mais amplas sempre foi evidenciada de maneira
muito clara. A justificativa para a sua não realização, também: a falta de recursos
orçamentários.
O relato de Lobato Filho dá uma mostra das condições da Escola Preparatória e de
Tática de Realengo em seus primeiros anos de funcionamento:
de Paula Cidade, contemporâneo de José Pessoa na Escola de Guerra, relata que o velhíssimo
edifício daquela instituição de ensino, em 1906, “não comportava mais de duzentos e agora
mais de novecentos ou mil alunos. Ao comandante tocava a difícil tarefa de acomodar
confortavelmente [...] aquela multidão, composta por jovens por ele olhados como filhos”
(CIDADE, 1961, p. 94)
Era uma situação de fato, que durava nada menos de três meses! Brincadeiras de
mau gosto e até brutalidades, espancamentos. Alguns alunos da Escola Preparatória
e de Tática de Rio Pardo forma punidos e desligados em 1902, por terem
arrebentado as mãos de um bicho a palmatoadas. Durante um trote, nesse mesmo
ano, ainda em Rio Pardo, um bicho morreu afogado no rio que banha a cidade.
(CIDADE, 1961, p. 115)
Como aponta Celso Castro, a fase dos trotes era a mais crítica da formação do aluno
que acabara de ingressar na escola militar. Nesse período, “o novato era colocado em uma
posição de liminaridade, vivendo simbolicamente nas margens da vida social – daí o termo
‘bicho’, pelo qual era chamado” (CASTRO, 1995, p. 34). A prática possibilitava a
aproximação com os alunos mais antigos, principais responsáveis pela socialização dos
“bichos” no ambiente cultural predominante na escola e pelo controle informal do seu
cotidiano. Também contribuía, em grande medida, para a formação do espírito de corpo e para
a construção de uma identidade social dos alunos da Escola Militar. Os novatos que não
aceitassem o trote corriam o risco de se tornarem permanentemente alijados desse meio
social. Entretanto, para além de ser visto como um instrumento “civilizatório” dos “bichos”, a
prática do trote também era importante para os alunos veteranos, uma vez que, a ação destes
só era possível porque se reconheciam como grupo, cuja unidade estaria em risco com a
entrada dos novatos. (CASTRO, 1995, p. 35-36)
Ainda sobre a indisciplina que campeava em meio ao corpo discente da Escola, José
Pessoa lembra da irreverência de gerações de alunos que frequentaram as aulas do professor
Leonídio Galvão, de alcunha “Mamouth”, professor de Matemática e Aritmética, o qual
“sofria, com equanimidade inalterável, a animosidade permanente, a guerra injusta que lhe
moviam os alunos vadios, cuja hostilidade afrontosa não raro se expandia em atos
predatórios”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 16)
92
No jargão militar, é o calouro que acabou de ingressar em uma escola militar.
104
Com aquele pátio tomado por alojamentos; salas de aula fora de sua sede; horários
de trabalho e de refeições anacrônicos e desajustados93; [...] com a quase totalidade
dos seus alunos espalhados por “repúblicas”, e, por isso mesmo, sem condições de
fiscalizá-los; [...] o trote campeando livremente, violento e por vezes deprimente [...]
Tais deficiências e desconfortos não podiam deixar de contribuir para uma queda
sensível de sua disciplina. [...] foi assim que, rapidamente adaptadas ao seu peculiar
modo de vida, começamos a enfrentar os percalços da vida militar. (BLEY, 1976, p.
3)
Essa situação seria abrandada sensivelmente no início de 1919, ano em que o corpo de
instrutores da Missão Indígena94 passou a atuar naquela Escola, aumentando o rigor
disciplinar e implementando mudanças na prática da instrução militar.
Os reflexos da experiência de aluno de José Pessoa, tanto na Escola Preparatória como
na Escola de Guerra, seriam profundamente sentidos nas intensas reformas estruturais e
educacionais por ele implementadas anos mais tarde, quando comandou a Escola Militar do
Realengo.
93
Em seus relatos autobiográficos Juarez Távora faz uma narrativa do quadro horário de trabalho seguido pela
Escola Militar do Realengo em 1917. Trata-se de um quadro horário bastante semelhante ao quadro horário que
seria implantado mais tarde pelo Regulamento de 1919, com pequenas alterações. Desta forma, parece ser
inviável a observação de Bley que a Escola em 1918 seguisse horários de trabalho “anacrônicos” e
“desajustados”. Cf. Távora (1973, p. 88)
94
Ver ROESLER, Rafael. O impulso renovador: a atuação da Missão Indígena na Escola Militar do
Realengo (1919-1922). 2015. 170 p. Dissertação (Mestrado em História, Política e Bens Culturais) – Fundação
Getúlio Vargas, Rio de Janeiro-RJ, 2015.
105
O processo de reforma por que passou a instituição foi lento, fruto da falta de
continuidade dos ministérios da guerra ao longo da Primeira República.95 Segundo McCann
(2009, p. 102-103), essa descontinuidade era resultado das frequentes trocas de liderança, das
fracas tradições do Exército, dos procedimentos administrativos inadequados e da falta de
uma economia nacional integrada. A Revolução Federalista (1893-1895) e a desgastante
experiência no sertão baiano extinguiram, ainda, a capacidade das Forças Armadas para
desempenhar, no campo político, um papel moderador, herdado da derrubada do Império. Ao
final do Governo Rodrigues Alves (1898), as oligarquias agrárias regionais já haviam
reestabelecido o seu domínio sobre o sistema político.
A base intelectual para as iniciativas das reformas implementadas até a Primeira
Guerra Mundial foi lançada no Ministério da Guerra de Mallet (1898-1902). O Projeto Mallet,
como ficou conhecido, previa: a mudança da composição de unidades militares; a
95
Nos doze anos que se seguiram entre 1898, com a assunção do primeiro presidente civil da República, e 1910,
início do governo de Hermes da Fonseca, quatro presidentes e seis ministros da guerra diferentes ocuparam suas
respectivas pastas. Na Presidência da República: Manuel Campos Sales (1898-1902), Rodrigues Alves (1902-
1906), Afonso. A. Moreira Pena (1906-1909) e Nilo Peçanha (1909-1910). No Ministério da Guerra: João de
Medeiros Mallet (1898-1902), Francisco de P. Argollo (1902-1906), Hermes R. da Fonseca (1906-1909), Luís
Mendes de Morais (1909), Carlos Eugênio de A. Guimarães (1909), José Bernardino Borman (1909-1910).
106
A primeira medida daquilo que o ministro entendia como indispensável era tornar
realidade o serviço militar obrigatório no País, que vinha sendo lembrado como essencial nos
relatórios ministeriais, ano após ano.
Em 1874 foi aprovada a primeira lei96 que previa a obrigatoriedade do serviço militar,
o alistamento universal e o sorteio para cobrir as vagas não preenchidas pelo voluntariado e
pelo reengajamento. Entretanto, a lei permitia várias exceções e deixava o alistamento e o
sorteio a cargo das juntas paroquiais, presididas pelo juiz de paz e complementadas pelo
pároco e pelo subdelegado, o que a transformou em um grande fracasso. A lei permitia aos
que não quisessem servir pagar certa quantia em dinheiro ou apresentar substitutos e concedia
isenção a bacharéis, padres, proprietários de empresas agrícolas e pastoris, caixeiros de lojas
comerciais, entre outros. Como destaca Carvalho (2006, p.25), o serviço continuou a pesar
exclusivamente sobre os ombros das pessoas sem recursos financeiros ou políticos.
96
Lei nº 2.556, de 26 de setembro de 1874.
108
97
Essa lei ficou conhecida como Lei do Sorteio Militar.
98
Segundo Castro (2012, p. 63), um dos pontos centrais da luta entre os defensores e os opositores do serviço
militar obrigatório era a apropriação que os dois lados faziam da imagem da família. Os militares afirmavam que
a caserna seria a continuação do lar, enquanto o movimento operário afirmava que o serviço militar obrigatório
impediria os homens de constituir família.
99
Celso Casto atribui essa incapacidade à dificuldade de intimação dos sorteados, já que nem sempre os
funcionários dos Correios encontravam os endereços dos sorteados. Sendo assim, as juntas julgadoras dos
insubmissos geralmente os absolviam, dada a precariedade desse sistema. (CASTRO, 2012, P.79)
109
Na realidade, a vida militar, mais especificamente a no Exército, não era atrativa para
ninguém. Os soldos baixos e a existência de castigos físicos como forma de disciplinar a tropa
dificultavam o recrutamento. Dessa forma, os efetivos da instituição eram compostos pelas
camadas mais pobres da sociedade, desprotegidas do dinheiro e da política. A forma de
recrutamento adotada ainda seria amplamente discutida durante os anos finais dos Oitocentos
e os anos iniciais do século XX, inclusive com a visão antecipada da necessidade de o serviço
militar se tornar obrigatório100. (ROESLER, 2015, p. 27)
Foi no Ministério de Hermes da Fonseca, entretanto, que as reformas pretendidas por
Mallet começaram a tomar forma. Em seu primeiro relatório ao Presidente da República, em
1906, deixou claro o estado em que se encontrava o Exército: “carece de pessoal e de material
bélico, de organização e de comando”. Destacava ainda a inefetividade da Lei do Serviço
Militar de 1874, incompatível com o regime republicano e com os princípios básicos dos
exércitos modernos, e imputava ao governo a “obrigação de promover a adoção de uma lei
que dê ao Exército soldados e reservistas em número suficiente para enfrentar qualquer
adversário e alimentar uma luta tão prolongada quanto permitam os recursos da Nação”. Com
o serviço militar obrigatório, no entanto, viria “a necessidade de quarteis higiênicos e
confortáveis e de campos de instrução”, uma vez que a maioria dos aquartelamentos não
atendiam aos requisitos mínimos de “conforto e sociabilidade indispensáveis à vida dos
conscritos, entre os quais se encontrará o mais rude camponês com o mais culto intelectual”.
(RELATÓRIO DO MINISTÉRIO DA GUERRA, 1906, p. 3-4)
Em relação à reestruturação do Exército, ressaltou a necessidade de cada estado
possuir o seu próprio campo de instrução e construção de uma vila militar no Distrito Federal,
com campo de exercícios e material adequado à instrução militar, localizada na Fazenda
Sapopemba, e que serviria de modelo ao restante do Exército. Os arsenais e fábricas de
pólvora e de cartuchos também necessitariam passar por uma renovação, com direções mais
técnicas, a cargo de oficiais de Artilharia. E, apesar do empenho dos governos anteriores em
reorganizá-lo, a força terrestre ainda estava reduzida “a corpos disseminados pelo vasto
território nacional, com efetivos reduzidíssimos, sem material de mobilização, alguns até sem
armamentos, e vivendo independentes, sem o menor laço de solidariedade, a não ser a
subordinação comum aos comandantes de distritos”. Na concepção de Hermes a falta de
grandes unidades táticas constituídas, que enquadrassem os batalhões e regimentos, deixava o
100
A ideia de instauração de um serviço militar universal nasceu, segundo Alain Rouquié, no seio das
instituições militares, bem como a ideia de nação em armas sempre esteve ligada às transformações do aparelho
militar no começo do século XX. (ROUQUIÉ, 1984, p.117.)
110
Exército sem comando, uma vez que os comandantes de distrito, absortos nas atividades
administrativas, não comandavam efetivamente. Para ele, a organização dos distritos militares
não atendia “aos preceitos universalmente adotados de forças combatentes”, apenas
satisfaziam “as exigências de uma administração rudimentar”, o que levava a instituição, nos
conflitos armados a organizar-se em grandes unidades improvisadas “sob o comando de
generais sem o tirocínio necessário, porque não tiveram a oportunidade de se exercitarem”.
Nos períodos de paz, as forças “estavam dispersas por vasto território, sem laços que revelem
a mínima preocupação de seu verdadeiro destino”, mais organizadas “para a vida pacífica e
indolente das guarnições, que para os intensos labores da campanha”. Faltavam equipamentos
indispensáveis à mobilização da tropa, como carroções de munições e barracas. À falta de
meios, juntava-se a inexperiência dos comandantes. Em meio ao relatório, o ministro diz, com
franqueza, que “o Exército não está aparelhado para a guerra, isto é, para o desempenho de
sua missão essencial, apesar das grandes somas anualmente gastas com a sua manutenção”.
(RELATÓRIO DO MINISTÉRIO DA GUERRA, 1906, p. 4-7)
Juntamente com a reorganização dos corpos de tropa, Hermes recomendou uma
reforma administrativa, com a redução do tamanho das diretorias de Artilharia, Engenharia,
Saúde e Contabilidade, anexando-as à Secretaria da Guerra. Esta teria à frente um diretor
geral, que assumiria os despachos que não necessitavam da aprovação do ministro da Guerra,
aliviando-o, assim, do fardo administrativo diário e liberando-o para os assuntos de maior
relevância do Ministério. A Secretaria de Guerra aliviaria, também, o fardo burocrático do
Estado-Maior, que passaria a cuidar, exclusivamente, do preparo da tropa, do estudo da defesa
do País e das campanhas futuras. Preocupava-lhe, ainda, a formação de oficiais além da
capacidade do Exército para incorporá-los nos corpos de tropa. Com isso, a distribuição e a
acomodação dos oficiais dentro dos quadros tornavam-se um problema, principalmente para
os oficiais subalternos101. As promoções a primeiro-tenente e capitão poderiam demorar, à
época, até doze anos, o que poderia causar um desestímulo “à nova vida intensa de exercícios
que há de se implementar no Exército”. A solução estaria no aumento de primeiros-tenentes e
capitães de todos os corpos e no fechamento de algumas escolas de formação de oficiais até
que se abrissem novos claros nos corpos de tropa. (RELATÓRIO DO MINISTÉRIO DA
GUERRA, 1906, p. 10-11)
As propostas de Hermes da Fonseca não foram implementadas em sua totalidade.
Como dependiam de desembolsos do Governo, o Congresso fez forte oposição aos gastos
101
Tenentes.
111
102
Lei nº 1.860, de 4 de janeiro de 1908.
103
O Decreto nº 6.971, de 4 de junho de 1908, organizou as grandes unidades e os seus quadros de oficiais. A
legislação definia que as grandes unidades do exército ativo seriam: brigada estratégica, brigada de Cavalaria,
divisão de exército e exército. A brigada ficava definida como a base de formação do Exército e, como tal, a
maior unidade a permanecer constituída. As brigadas estratégicas tinham como a base de sua constituição
batalhões de Infantaria, enquanto as brigadas de Cavalaria eram formadas por regimentos de Cavalaria. As
divisões de exército e o exército somente seriam constituídos com a mobilização real ou para as manobras.
O Decreto nº 7.054, de 6 de agosto de 1908, criou cinco brigadas estratégicas e três brigadas de Cavalaria. As
brigadas estratégicas estavam distribuídas em quatro regiões de inspeção: 9ª Região (1ª Brigada – Capital
Federal), 10ª Região (2ª Brigada – Curitiba-PR), 12ª Região (3ª e 4ª Brigadas – São Borja-RS) e 13ª Região (5ª
Brigada – Cuiabá-MT). As de cavalaria estavam localizadas somente na 12ª Região, no estado do Rio Grande do
Sul: 1ª Brigada, em São Luiz; 2ª Brigada, em Alegrete e 3ª Brigada, em Bagé. McCann (2009, p. 144) lembra
que essas brigadas possuíam comandos próprios, que estavam diretamente subordinados ao ministro da Guerra,
diferentemente das demais unidades, que se subordinavam aos inspetores regionais. Isso se tornou um problema
em algumas regiões, em que a dualidade de comando levou a instruções conflitantes até mesmo sobre o tipo de
uniforme a ser utilizado pelas tropas.
104
Decreto nº 7.053, de 6 de agosto de 1908. Aprova o regulamento das inspeções permanentes criadas pela Lei
nº 1.860, de 4 de janeiro de 1908.
105
A Lei nº 403, de 24 de outubro de 1896, criou o Estado-Maior do Exército e a Intendência de Guerra.
106
O Decreto nº 3.189, de 6 de janeiro de 1899, aprovou o regulamentou o Estado-Maior.
112
repartição”, que contribuíram para que o Estado-Maior, com raras exceções, só apresentasse
“hábeis engenheiros e inescrupulosos funcionários públicos” (RELATÓRIO DO
MINISTÉRIO DA GUERRA, 1908, p. 26). Nos anos de 1908 107 e 1909108, o Estado-Maior
passou por duas reorganizações sucessivas. A de 1908 aboliu o Corpo de Estado-Maior109 e
abriu a possibilidade de oficiais de qualquer arma, do posto de capitão a coronel, possuidores
do curso de Estado-Maior e com a experiência de ter servido nos corpos de tropa do Exército,
executarem as tarefas administrativas. Com a reforma de 1909, muitos encargos
administrativos foram afastados das atribuições do Estado-Maior e passados aos
Departamento da Guerra e Central, conforme o Relatório do Ministério da Guerra de 1909. O
que era rotineiro ficou ao encargo dos sargentos e civis da repartição. Com isso, os oficiais
podiam dedicar-se mais à supervisão da educação dos oficiais e ao treinamento dos soldados.
Outra criação marcante das reformas implementadas por Hermes da Fonseca, e mais
durável, foi a Vila Militar. Idealizada por Mallet, durante o seu ministério, em 1901, a vila
militar tipo110 seria um modelo de vila militar a ser construído em todos os distritos militares.
Segundo Viana (2010, p. 105), consistiria na reunião de forças em um conjunto tático,
reunindo quarteis, residências, depósitos, campos de instrução e outras instalações militares,
com o propósito de racionalizar o controle administrativo e econômico das tropas.
A primeira cidade a receber uma vila militar foi o Rio de Janeiro. Construída no
distante bairro de Deodoro, onde se localizava a antiga Fazenda Sapopemba, teve a sua pedra
fundamental lançada no dia 18 de novembro de 1907. (RELATÓRIO DO MINISTRO DA
GUERRA, 1907, p. 68) Segundo McCann (2009, p. 144), a intenção de Hermes era alojar as
brigadas estratégicas em suas próprias bases. Cada regimento teria seu próprio quartel,
escritórios, enfermarias e casas para os oficiais e sargentos. No entanto, a falta de verba
governamental não permitiu que o modelo construído no Rio de Janeiro fosse implementado
nas demais regiões até a Primeira Guerra Mundial.111
107
Lei nº 1.860, de 4 de janeiro de 1908. Regula o alistamento e sorteio militar e reorganiza o Exército.
108
Decreto nº 7.389, de 29 de abril de 1909. Aprova o regulamento do Estado-Maior do Exército.
109
Tanto a Lei nº 403, de 24 de outubro de 1896, que criou o Estado-Maior do Exército, quanto o Decreto Nº
3.189, de 6 de janeiro de 1899, que regulamentou o Estado-Maior, previa criação do Corpo de Estado-Maior,
formado por oficiais oriundos do quadro de Estado-Maior de 1ª classe, criado na organização do Exército de
1842. Esses oficiais estavam diretamente subordinados ao chefe do Estado-Maior. A reorganização de 1908
extinguiu o corpo de Estado-Maior e redistribuiu os oficiais que a ele pertenciam pelas armas de Infantaria,
Cavalaria, Artilharia e Engenharia.
110
RELATÓRIO DO MINISTRO DA GUERRA, 1901, p. 78-79.
111
Para maiores detalhes sobre a construção da Vila Militar de Deodoro, recomenda-se a leitura da Dissertação
de Mestrado em História, Política Bens Culturais de Claudius Gomes de Aragão Viana, intitulada História,
Memória e Patrimônio da Escola Militar do Realengo (CPDOC – 2010).
113
fato. Entretanto, no brevíssimo relato que faz do cangaço, nas suas memórias, ao mesmo
tempo em que considera Antônio Silvino “o maior bandoleiro da sua geração”, também
achava justo reconhecer que ele “foi fruto das injustiças sociais e das miseráveis condições do
ambiente em que viveu naquela região”.
A experiência de servir com seu tio repetiu-se em março de 1913, quando o general
José da Silva Pessoa comandava a Brigada Policial do Distrito Federal 112. Por meio de uma
solicitação do Ministério da Justiça e Negócios Interiores, José Pessoa, já promovido a
segundo-tenente, foi nomeado ajudante-de-ordens do tio, permanecendo na função até
setembro de 1914, quando foi exonerado a pedido. Curiosamente, no período em que
permaneceu cedido à Brigada Policial, exerceu suas funções no posto de capitão113. Nesse
período, exerceu, ainda, a função de instrutor de esgrima de baioneta dos membros da força
policial. Nessa ocasião, a fim de uniformizar o ensino e tornar mais rápida a difusão dessa
prática, publicou o trabalho Instrução Para Esgrima de Baioneta, impressa pela gráfica da
instituição. (RELATÓRIO DO MINISTRO DA JUSTIÇA E NEGÓCIOS DO INTERIOR,
1913-1914, p. 112 e 118)
Segundo o próprio José Pessoa, embora nunca tenha sentido inclinação à carreira de
escritor, o concurso de circunstâncias inerentes às funções que desempenhou ao longo da
profissão, o levou a escrever duas obras. Uma delas é o Estudo Sobre a Esgrima, “um
trabalho sobre o manejo das armas brancas, o esporte predileto da minha mocidade”, como ele
mesmo relata. Ainda que a apresente com outro nome, as circunstâncias de sua produção,
quando em comissão na Brigada de Polícia do Distrito Federal, levam a crer que se trata da
obra citada no parágrafo anterior. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 19)
A outra, publicada em 1921, após a experiência que teve em combate no Exército
francês, na Primeira Guerra Mundial, é Os Tanks na Guerra Europeia. Nas suas palavras,
“uma contribuição ao conhecimento desses novos e decisivos engenhos de guerra, que, com
os gases asfixiantes, dominara o fim da Primeira Conflagração Mundial de 1914-18, e foram
os fatores decisivos da vitória dos aliados”. José Pessoa publicou, ainda, um terceiro livro,
intitulado Chefes da Cavalaria Brasileira, em 1940, com o intuito de homenagear os
112
A Brigada Policial do Distrito Federal foi regulamentada pelo Decreto nº 958, de 6 de novembro de 1890,
sendo incumbida de velar pela segurança pública, manter a ordem e executar as leis, por meio dos respectivos
corpos aquartelados em diversas freguesias, cuja ação compreendia todo o distrito da capital federal. O Governo
podia ainda convocar a brigada para auxiliar nas operações do Exército em caso de guerra.
113
Como não foram localizados os seus assentamentos na força policial, não foi possível determinar como foi
efetivada essa mudança de posto. Quando cessou o seu comissionamento, retornou aos corpos de tropa do
Exército no posto de segundo-tenente. Cf.: Fé de Ofício do Marechal José Pessoa, 2016.
116
principais líderes dessa arma, e expressou a vontade de editar um quarto, intitulado Escola de
Cavalaria. Este último nunca foi publicado. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 19)
O percurso de José Pessoa como oficial subalterno, mais especificamente nos postos
de aspirante-a-oficial e segundo-tenente, foi cheio de idas e vindas, permanecendo ele muito
pouco tempo nas unidades em que serviu. Entre os anos de 1909 e 1917, foi movimentado dez
vezes dentro do território nacional, tendo servido em oito unidades e desempenhado várias
funções dentro e fora do Exército. O quadro a seguir mostra as unidades em que serviu nos
primeiros postos da carreira.
Entre os anos de 1910 e 1911, e no ano de 1917, José Pessoa desempenhou a função
de instrutor militar de Sociedades de Tiro e de Escolas de Instrução Militar, nas unidades
pelas quais passou.
Dentre as dificuldades enfrentadas pelo Exército Brasileiro durante a campanha da
Tríplice Aliança, estavam a falta de qualificação profissional de sua tropa, devido à baixa
escolarização, e o pouco preparo na prática do tiro. A preocupação da instituição em encontrar
a solução mais adequada para esses problemas perdurou por muito tempo. Atento a essas
questões, o Ministério da Guerra manteve-se à procura da melhor forma de sanar essas
deficiências e, nos primeiros anos do Século XX, apresentou uma proposta de introduzir a
cultura militar nas instituições civis de tiro e educacionais.
Afora as iniciativas do Exército após o final da Guerra da Tríplice Aliança em
fortalecer a prática do tiro em suas escolas, com a criação da Escola de Tática e de Tiro de
Rio Pardo, em 1885, a qual iniciou as suas atividades somente três anos depois, e de cinco
linhas de tiro na cidade do Rio de Janeiro, em 1896, a primeira experiência do Ministério da
Guerra em estender o ensino e a prática de tiro aos civis aconteceu com a criação do Tiro
Nacional, em 1898114. Subordinado à 4ª Região Militar, tinha a finalidade de ministrar a
prática do tiro com armas portáteis aos oficiais e praças do Exército e demais organizações
armadas federais e aos civis previamente matriculados. (PINTO, 2015, p. 116)
Nos primeiros anos de seu funcionamento, a frequência de militares do Exército foi
inexpressiva, devido às dificuldades ligadas às rotinas dos quarteis. O maior índice de adesão
estava entre os civis, principalmente os alunos das faculdades de Direito, Engenharia e
Medicina, os mais entusiasmados. Tão logo aprendiam as técnicas de tiro, recebiam um
atestado assinado pelo comandante do distrito militar e eram excluídos, podendo retornar
somente em caso de competições. Usavam sua própria munição e armamento. Caso
desejassem utilizar o armamento militar, como forma de incentivo à prática com armamento
de guerra, deveriam indenizar o valor de cada disparo, com um custo reduzido. Frequentavam
o Tiro Nacional, ainda, os oficiais da Armada e da Brigada Policial do Distrito Federal, porém
com uma frequência não muito boa. (PINTO, 2015, p. 116-117)
O sucesso alcançado pelo Tiro Nacional, principalmente após 1904, com o aumento da
frequência de militares, fez prosperar no Brasil a criação de sociedades recreativas de tiro.
Talvez a mais expressiva tenha sido a Sociedade de Propagando do Tiro Brasileiro (SPTB),
114
Seu funcionamento foi aprovado pelo Decreto Nº 3.224, de 10 de março de 1899.
118
criada em 1902 pelo farmacêutico Antônio Carlos Lopes, na cidade de Rio Grande-RS. A
SPTB serviria de modelo às demais sociedades brasileiras, pela proposta de não se destinar
apenas à prática desportiva do tiro, mas, também, ao preparo dos homens para defesa do
Brasil. Com ares de sociedade paramilitar, direcionava-se àqueles que exerciam atividades
ligadas ou não à segurança territorial, capazes de auxiliar as instituições preexistentes com
essa destinação a construir uma nação com feições de robustez. (PINTO, 2015, p. 118)
Passados quatro de sua fundação, a SPTB possuía mais de setecentos associados, um
sucesso para a época. O Exército não tardaria a perceber a oportunidade singular que se
apresentava: implementar a difusão da educação militar a um grande número de jovens com o
mínimo de dispêndio. Assim, incorporou as sociedades de tiro a seu projeto de defesa
nacional e passou a incentivar a multiplicação de associações de tiro nas cidades brasileiras.
Em parceria com as sociedades locais, estimulava a criação de linhas de tiro. Os municípios
construíam e aparelhavam as sedes e o Exército fornecia o armamento, a munição e designava
os oficiais ou sargentos para a educação militar dos sócios. (PINTO, 2015, p. 119-121)
Em 1906, por uma iniciativa do ministro da Guerra Hermes da Fonseca, foi criada a
Confederação do Tiro Brasileiro (CTB)115. A CTB recebeu três regulamentações sucessivas,
nos anos de 1907, 1909 e 1910116, com muito poucas alterações em seus textos, com cada
regulamentação subsequente praticamente mantendo as diretrizes da anterior. Sua finalidade
primordial era reunir todas as sociedades de tiro brasileiras sob a tutela e doutrina do Exército,
o que acabou não acontecendo. Segundo Pinto (2015, p. 137), tal fato ocorreu devido,
provavelmente, às inúmeras exigências feitas pela própria Confederação, o que acabou
inibindo a adesão de muitas agremiações: manter, no mínimo, cinquenta sócios contribuintes;
submeter-se à fiscalização imediata do inspetor geral da região militar a que pertencia a
sociedade de tiro; franquear as linhas de tiro às forças de terra e mar em dias úteis da semana;
submeter ao Departamento da Guerra a aprovação das plantas e orçamentos das linhas de tiro
e ter como presidentes honorários, fazendo parte do conselho diretor, com voto deliberativo, o
chefe do poder executivo do município no qual a sociedade se encontrasse 117. Ao aderir à
Confederação, a agremiação recebia um número e passavam a ser denominadas pelo nome da
localidade em que se encontravam.
115
Criada pelo Decreto Legislativo nº 1.503, de 5 de setembro de 1906, e regulamentada pelo Decreto nº 7.350,
de 11 de março de 1909.
116
Decreto nº 6.464, de 29 de abril de 1907; Decreto nº 7.350, de 11 de março de 1909 e Decreto nº 8.083, de 25
de junho de 1910.
117
Art. 21, do Decreto 8.083, de 25 de junho de 1910.
119
Podiam fazer parte das sociedades de tiro os brasileiros natos ou naturalizados maiores
de 21 anos. Os jovens de 16 a 21 anos também podiam associar-se, desde que autorizados
pelos pais. Apesar de constituírem-se em sociedades mistas, civil e militar, seguiam uma
rotina em que as atividades se aproximavam das lides castrenses. Tinham muitas obrigações e
algumas liberdades, “tudo em favor da boa educação e formação exemplar de seus
frequentadores” (PINTO, 2015, p. 142). Dentre as proibições estava a manifestação de caráter
político e religioso. Como incentivo, recebiam do Exército o armamento para o tiro, a
munição era indenizada a preço de custo, além de receberem do Tesouro Nacional um
subsídio anula de 10:000$000 (dez contos de réis)118.
Eram objetivos expressos da Confederação, previstos nos estatutos das sociedades de
tiro, dar ao sócio o ensino elementar da arma de Infantaria e especialmente o tiro de guerra
com o armamento de dotação do Exército, o fuzil Mauzer. O regulamento de 1910119 previa a
obrigatoriedade de as sociedades de tiro confederadas manterem dois cursos técnicos: o de
habilitação de atiradores livres e o de tiro e de evoluções militares até a escola de companhia.
No primeiro, os sócios recebiam instruções elementares sobre o funcionamento do fuzil e
noções indispensáveis ao exercício do tiro. Ao seu final, mediante a demonstração de
conhecimentos da matéria ensinada no programa do curso, recebiam um certificado que lhes
permitia atirar livremente em qualquer sociedade da Confederação. O segundo curso
destinava-se aos sócios civis que pretendiam ser dispensados do serviço militar obrigatório120.
Nele recebiam instruções sobre o funcionamento e manejo do fuzil de dotação dos corpos de
tropa do Exército, instruções práticas de tiro e de maneabilidade e evoluções militares de
frações até o nível companhia.
A Confederação do Tiro Brasileiro foi extinta em 1917, no mesmo decreto121 que criou
a Diretoria Geral do Tiro de Guerra, sua sucessora. As sociedades confederadas passaram a se
chamar Tiros de Guerra. Na prática, as atribuições e estrutura administrativa permaneceram as
mesmas, porém, com uma presença maior de militares. Esses órgãos, destinados à formação
de reservistas de 2ª categoria, existem até hoje.
118
Esse subsídio estava previsto na Lei nº 1.503, de 5 de setembro de 1906, que criou a Confederação do Tiro
Brasileiro.
119
Decreto nº 8.083, de 25 de junho de 1910.
120
O Art. 97, da Lei nº 1.860, de 1908, que regulava o Serviço Militar Obrigatório, previa que os sócios civis
das sociedades da Confederação do Tiro Brasileiro que tivessem feito os cursos de tiro e de evoluções e prestado,
perante uma comissão nomeada pelo Estado-Maior do Exército, exames relativos ao conhecimento e emprego
das armas portáteis regulamentares e também exames relativos às escolas de soldado, da secção e da companhia,
serviriam, apenas, três meses, por ocasião das manobras, sendo dispensados da incorporação quando sorteados.
121
Decreto nº 12.708, de 9 de novembro de 1917.
120
Os instrutores das sociedades de tiro eram nomeados pelo ministro da Guerra, a pedido
do presidente da CTB. Na 7ª Região de Inspeção, José Pessoa foi instrutor da Sociedade de
Tiro nº 86, domiciliada em Salvador, em três ocasiões: de 23 de outubro a 20 de dezembro de
1910 e de 20 de fevereiro 11 de abril de 1911, quando serviu no 50 º Batalhão de Caçadores e
de 15 de abril de 1911 a 4 de março de 1912, quando estava no 11º Pelotão de Estafetas e
Exploradores. Quando em serviço no 6º Batalhão de Artilharia de Posição (Salvador-BA) foi
instrutor do Tiro Baiano (5 a 19 de março de 1912) e, cumulativamente a este, do Tiro de
Pirajá (20 de março a 5 de abril de 1912). O Relatório do Ministro da Guerra de 1910
apontava a dificuldade encontrada pelo inspetor da 7ª Região em achar um terreno que fosse
apropriado à implantação de uma Linha de Tiro, devido ao grande dispêndio que seria gerado
com a sua aquisição e com as obras de adaptação. O Relatório de 1916, último antes da
extinção da Confederação, relacionava trinta e duas sociedades de tiro. (FÉ DE OFÍCIO DO
MARECHAL JOSÉ PESSOA, 2016 e RELATÓRIOS DO MINISTRO DA GUERRA, 1910
e 1916)
Durante o período em que serviu no 50º Batalhão de Caçadores, José Pessoa
acumulou, ainda, a função de auxiliar de instrutor da Faculdade de Medicina de Salvador, nos
períodos compreendidos entre 4 de junho e 15 de setembro de 1910 e 1 e 22 de outubro de
1910. (FÉ DE OFÍCIO DO MARECHAL JOSÉ PESSOA, 2016)
O sucesso conquistado pelo Ministério da Guerra com a Confederação do Tiro
Brasileiro, levou os sucessivos ministros dedicarem-se à ampliação de seu front, investindo na
educação militar da juventude escolar. Como destaca Pinto (2015, p. 167),
Cabe considerar que a luta pela solução dos problemas relacionados aos efetivos e ao
preparo profissional da tropa adentraram a República e ganharam um alcance nacional, sendo
abraçados não só pela instituição, como por todas as esferas de governo e algumas
personalidades civis, como Olavo Bilac, por exemplo. Atento a esse processo, como lembra
Pinto (2015, p. 169), o Exército fomentou leis que pudessem amparar os seus interesses e
propostas de educação, pátria e defesa nacional. Ainda que não fosse seu objetivo primordial,
a Lei do Serviço Militar de 1908, apresentou um dispositivo direcionado ao segmento da
população que lhe era mais caro: a juventude escolar.
121
Art. 98. É obrigatória a instrução do tiro de guerra e evoluções militares, até à escola
da companhia, aos alunos maiores de 16 anos que cursarem as escolas superiores e
estabelecimentos de instrução secundaria mantidos pela União, pelos Estados ou
municípios, inclusive o Distrito Federal, bem como aos que cursarem
estabelecimentos particulares que estiverem no gozo da equiparação.
No regulamento que expedir para a execução desta lei, o Governo providenciará no
sentido de ser cumprida, cabalmente, a obrigação imposta pelo presente artigo,
indicando, ao mesmo tempo, a forma segundo a qual a medida será posta em prática
nos estabelecimentos de ensino supra enumerados. 122
alunos das EIM também deveriam receber instruções práticas sobre fuzil Mauzer, tiro e
evoluções militares até o nível companhia, conforme o previsto no Decreto nº 6.947, de 8 de
maio de 1908:
Apesar de ter atuado nas escolas de instrução militar em mais de uma ocasião, José
Pessoa tratou de relatar em sua autobiografia apenas o período em que esteve à frente da
instrução militar da Faculdade de Direito de São Paulo e do Ginásio São Bento, no ano de
1917, quando exercia a função de ajudante-de-ordens do comandante da 6ª Região Militar, em
São Paulo-SP.
Esse ano foi emblemático para as autoridades militares e civis e para a população
brasileira, que acompanhavam atentas o desenrolar da Primeira Guerra Mundial na Europa. A
condição do Brasil, que passou de nação neutra no conflito a nação beligerante, após o
reconhecimento do estado guerra com o Império Alemão, provocou um surto patriótico no
País e fez aumentar a procura da juventude brasileira pelos quarteis e sociedades e linhas de
123
Eram essas escolas a Escola Politécnica, as faculdades de Medicina e Direito e os ginásios da Bahia, Carneiro
Ribeiro, São Salvador e Nossa Senhora da Vitória.
124
tiro, a fim de receber a instrução com armas. É bem verdade que o início do conflito trouxe
novamente à pauta das discussões da sociedade a necessidade de se pensar a defesa nacional.
Dentre esses assuntos, estava a velha questão do serviço militar obrigatório, nas palavras de
Olavo Bilac a “fonte de ressurreição de um Brasil forte pelo patriotismo de seus filhos” (apud
McCANN, 2009, p. 230).
Para Coelho (2000, p. 75), os debates sobre o serviço militar obrigatório, nas primeiras
décadas do Século XX, fizeram surgir três linhas interpretativas distintas a respeito do papel
do Exército na sociedade: a dos Jovens Turcos, tendo como plataforma de propagação de suas
ideias reformistas a revista A Defesa Nacional, a do poeta Olavo Bilac e a do político e
jornalista Alberto Torres.
Os oficiais que fundaram e publicaram a revista A Defesa Nacional foram um novo
fenômeno no Exército: eram oficiais de baixa patente (tenentes e capitães) que, ao mesmo
tempo, eram instruídos e hábeis no comando de tropas. O surgimento do grupo se deu em
decorrência das reformas implementadas no Exército por Hermes da Fonseca, que, seguindo
os passos de seu antecessor Argollo, viabilizou o envio de militares brasileiros para
treinamento na Alemanha.124 Nos anos de 1908 e 1910, dois grupos de oficiais foram
enviados para treinamentos de dois anos no Exército imperial alemão, considerado, à época,
um dos melhores e mais bem equipados exércitos do mundo.125
Dos três grupos que estagiaram no exército germânico, o último tornou-se o mais
importante, pelo número de oficiais que o compôs126 e pela intensidade em que se engajou no
processo de reforma do Exército. Ainda na Alemanha, ao final do estágio, alguns
componentes do grupo, como Leitão de Carvalho e Bertoldo Klinger, demonstravam uma
grande preocupação em valorizar os conhecimentos adquiridos e transmiti-los a todo o
Exército Brasileiro. Às vésperas do retorno ao Brasil, um grupo de onze ex-estagiários127 se
124
Cristina Luna destaca que em 1905, na gestão de Argollo como Ministro da Guerra, foram enviados à
Alemanha seis oficiais brasileiros para treinamento no Exército alemão. Essa informação de Luna contraria a
historiografia militar brasileira, que aponta a ida da primeira turma de oficiais para a Alemanha em 1906
(LUNA, 2011. p. 139)
125
A respeito do envio de oficiais para o exterior, a fim de realizarem estágios em exércitos de outros países,
principalmente os europeus, todas as leis que fixaram as despesas gerais da República, a começar pela Lei nº
957, de 30 de dezembro de 1902, que fixou as despesas para o ano de 1903, autorizaram o Poder Executivo a
mandar para o exterior oficiais, a fim de se aperfeiçoarem em conhecimentos militares, geralmente pelo tempo
de um ano, ou para servir arregimentados em exércitos estrangeiros. A última lei que previu tal dispositivo foi a
Lei nº 2.842, de 3 de janeiro de 1914, que fixou as despesas da República para o mesmo ano.
126
Luna (2011, p. 192) aponta uma divergência existente entre o número de oficiais que participaram do último
estágio no Exército alemão. Enquanto Leila Capella indica a participação de 21 oficiais, José Murilo de Carvalho
aponta 22 oficiais. O fato é que, segundo a autora, foram designados 20 oficiais para o estágio.
127
Participaram da reunião Bertoldo Klinger, Epaminondas de Lima e Silva, Joaquim de Souza Reis Neto, César
Augusto Parga Rodrigues, Evaristo Marques da Silva, Euclides de Oliveira Figueiredo, José Antônio Coelho
125
Ramalho, Eduardo Cavalcanti de Albuquerque Sá, José Bento Tomás Gonçalves, Jerônimo Furtado do
Nascimento e Francisco Jorge Pinheiro.
128
O grupo fundador da revista foi formado por oito ex-estagiários do exército alemão: os primeiros-tenentes
Bertoldo Klinger, Estevão Leitão de Carvalho, Joaquim de Souza Reis Neto, Euclides de Oliveira Figueiredo,
Amaro de Azambuja Vilanova e os capitães Epaminondas de Lima e Silva, César Augusto Parga Rodrigues e
Francisco Jorge Pinheiro; e quatro adeptos da campanha de reforma do Exército: os primeiros-tenentes Brasílio
Taborda, José Pompeu Cavalcanti de Albuquerque e Mário Clementino de Carvalho e o segundo-tenente
Francisco de Paula Cidade. (LUNA, 2011, p. 205)
129
Muitos trabalhos atribuem a Klinger a escrita do primeiro editorial da revista. No entanto, Francisco Paula
Cidade, um dos fundadores da revista, afirma que foi Mário Clementino o autor do primeiro editorial. Cf. A
Defesa Nacional, n. 190, out. 1929, p.14. O próprio Bertholdo Klinger afirma em suas memórias ter sido Mário
Clementino o autor do primeiro e do segundo editoriais da revista. Cf. Klinger, 1944, p. 203.
126
alcunha de “Jovens Turcos”130, por uma parcela de militares e por membros das oligarquias
locais que temiam o protagonismo do Exército e preferiam ver fortalecidas as polícias
estaduais e a Guarda Nacional, a fim de que essas forças pudessem atender aos seus interesses
políticos, em detrimento dos interesses nacionais ligados ao poder central. (LUNA, 2011, p.
209)
Segundo McCann (2009, p. 216-217), a proposta de criação da revista era a publicação
de assuntos eminentemente profissionais, o que de fato acontecia, já que o seu interior
privilegiava os artigos técnicos, através dos quais os redatores traduziam manuais e
regulamentos alemães e difundiam seu sistema de treinamento, práticas e costumes.
Entretanto, a partir de uma análise dos exemplares publicados no período que vai da fundação
da revista ao final dos anos 1910 é possível perceber que A Defesa Nacional se voltava,
também, à publicação de conteúdos ideológicos e doutrinários em favor da profissionalização
do Exército e das questões nacionais. A parte editorial da revista eram o locus privilegiado
dos redatores, onde expunham as suas ideias e realizavam suas críticas mais fortes a favor da
profissionalização do Exército, do ensino militar, da Lei do Serviço Militar, do não
envolvimento dos militares na política e da necessidade de reorganização da instituição. Não
raras eram também as críticas feitas à falta de atuação dos políticos que compunham o
parlamento, para resolver as graves questões que conduziam o País ao atraso e à pouca
preocupação com os assuntos de defesa. Também era discutidos assuntos considerados
relevantes à Nação, como o momento nacional frente à Primeira Grande Guerra131 ou a
indústria nacional do aço132. É inegável que os fundadores do periódico demonstraram grande
desenvoltura ao analisar os aspectos políticos das questões que pretendiam que fossem apenas
questões militares.
O serviço militar obrigatório foi uma das principais bandeiras empunhadas pelo grupo,
para quem, além de constituir-se uma questão meramente militar, passou a ser relacionado a
interesses mais abrangentes, que pudessem sensibilizar a sociedade como um todo: “o serviço
militar obrigatório é o apanágio superior de desenvolvimento dos povos, e pressupõe uma
130
O apelido era uma alusão ao grupo de jovens oficiais turcos, de caráter nacionalista que, através de uma
revista também intitulada A Defesa Nacional, propunham a reforma das forças armadas turcas. A exemplo do
grupo brasileiro, também haviam estagiado na Alemanha e, ao retornarem à Turquia, participaram das lutas pela
modernização e reconstrução daquele país ao lado de Mustafá Kemal. Com o fortalecimento do grupo, a alcunha
tornou-se positiva, passando a simbolizar aqueles que lutavam pela profissionalização do Exército. Klinger
ressalta que os adversários de seu grupo, na verdade, haviam lhes prestado uma homenagem, pois os jovens
turcos originais eram grandes patriotas. (KLINGER, 1958, p. 63)
131
A Defesa Nacional, n. 43, abr. 1917, p. 213-214.
132
A Defesa Nacional, n. 44, maio 1917, p. 249-251.
127
133
A Defesa Nacional, n. 9, jun. 1914, p. 275.
134
A Defesa Nacional, n. 9, jun. 1914, p. 273.
135
A Defesa Nacional, n. 9, jun. 1914, p. 273.
136
A Defesa Nacional, n. 36, set. 1916, p. 372.
137
A Defesa Nacional, n. 271, out. 1953, p. 13-15. Edição comemorativa de 40 anos da revista.
128
do Exército. O apoio dado por altos chefes militares pode ser exemplificado ainda no fato de
que alguns oficiais do grupo fundador terem sido requisitados para servir nas seções do
Estado-Maior do Exército e até para ser oficial de gabinete do ministro da Guerra138. O fato de
terem estado próximos de algumas autoridades militares permitiu a continuação de sua linha
editorial bastante agressiva, se forem levadas em conta as características das instituições
militares, baseadas na hierarquia e na disciplina.
Apesar do apoio que A Defesa Nacional recebeu de oficiais de altas patentes do
Exército e das publicações acaloradas em defesa das reformas e da modernização da
Instituição, José Pessoa nunca foi simpático à revista. Como general-de-divisão, em abril de
1942, quando exercia a função de inspetor da arma de Cavalaria, recebeu um exemplar da
revista, enviado pelo tenente Umberto Peregrino, que fora seu ajudante-de-ordens anos antes,
na mesma Inspetoria. No documento de resposta, em que acusa e agradece o recebimento do
periódico, deixa claro que não via com simpatia o gesto da revista, que escolhia “o mais
jovem e o menos graduado dos seus redatores – entre eles se contam generais e oficiais
superiores – para investi-lo na ingrata e árdua missão de crítico da sua redação”. Via, ainda,
na atitude da revista e do tenente, por fazer parte do corpo editorial, “uma quebra das normas
disciplinares adotadas pelo Exército”. E questiona: “como repercutirá na sociedade civil e no
próprio meio militar um jovem tenente, assinando de público artigos de crítica irônica e
mesmo mordaz a propósito de livros e outras publicações de seus superiores hierárquicos?”.
Por fim, considera que excluiria a leitura do periódico de suas leituras, “enquanto a mesma
continuar nessa orientação que considero errônea”.139
A segunda linha interpretativa apontada por Coelho, foi a que Olavo Bilac apresentou
em sua campanha em favor do serviço militar obrigatório. Para Bilac, o papel de defesa
desempenhado pelas Forças Armadas era menos importante que a sua principal missão: a
educação cívica dos cidadãos. Ao trazer todas as classes para os quartéis, o Exército atuaria
como nivelador social, ensinando disciplina, patriotismo e ordem. (McCANN, 2009, p. 219)
Para ele, enquanto as elites queriam somente seu próprio prazer e prosperidade, as
classes menos abastadas eram mantidas na mais bruta ignorância, vivendo na inércia, na
apatia e na absoluta privação da consciência. Dessa forma, refletindo a ideia dominante na
classe média de que o Brasil não era uma nação coesa e unificada, o serviço militar
138
Leitão de Carvalho passou a trabalhar no Estado-Maior ainda em 1914. Por conta de nomeação do General
Faria, seu chefe, para ser Ministro da Guerra, tornou-se o primeiro oficial subalterno a pertencer ao gabinete do
Ministro. Já Bertholdo Klinger trabalhou a partir de 1918 na primeira Seção do Estado-Maior, sendo mais tarde,
em 1921, convocado para ser oficial de gabinete do Chefe do Estado-Maior do Exército. Cf. CARVALHO,
1961.
139
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JP ag 1923.12.27.
129
obrigatório apresentava-se como uma promessa de salvação para o Brasil. Bilac achava que os
verdadeiros brasileiros eram os da classe média e que a militarização de todos os civis daria à
sociedade as virtudes da mesma, dotando-a da coesão necessária para preservar-se. O serviço
militar obrigatório elevaria os homens da classe baixa e nivelaria os da alta, e estimularia,
purificaria e devolveria à sociedade homens conscientes e dignos. Na sua visão, as Forças
Armadas seriam as responsáveis por fornecer a disciplina e a ordem para reconstruir o Brasil,
elevando milhões de esmorecidos. (McCANN, 2009, p. 219)
Nos anos de 1915 e 1916, Bilac percorreu os estados do centro-sul do País,
propagando a sua mensagem em uma série de discursos patrióticos, dirigidos, sobretudo, à
juventude das instituições de ensino superior, intelectuais e militares das cidades do Rio de
Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre. O início desse périplo ocorreu na
cidade de São Paulo, em 9 de outubro de 1915, justamente na Faculdade de Direito, da qual
José Pessoa seria instrutor militar dois anos mais tarde. Segundo McCann (2009, p. 220), a
escolha da instituição não se deu por acaso, uma vez que, anos antes, em 1910, os acadêmicos
de Direito haviam apoiado efusivamente a campanha antimilitarista de Rui Barbosa. Para o
autor, a intenção de Bilac era reconciliar São Paulo, por intermédio de sua juventude, com os
militares.
E uma lei apontou à nossa esperança o entreluzir de uma promessa de salvação: a lei
do sorteio militar, se não a providência completa do serviço militar obrigatório, ao
menos um ensaio salutar, o primeiro passo para a convalescença e para a cura.
Então, como ainda hoje, eu considerava que era esse o único providencial remédio
para o nosso definhamento. Nunca fui, não sou, nem serei um militarista. E não
tenho medo do militarismo político. O melhor meio para combater a possível
supremacia da casta militar é justamente a militarização de todos os civis: a
estratocracia é impossível, quando todos os cidadãos são soldados. Que é o serviço
militar generalizado? É o triunfo completo da democracia; o nivelamento das
classes; a escola da ordem, da disciplina, da coesão; o laboratório da dignidade
própria e do patriotismo. É a instrução primária obrigatória; é a educação cívica
obrigatória; é o asseio obrigatório, a higiene obrigatória, a regeneração muscular e
física obrigatória. As cidades estão cheias de ociosos descalços, maltrapilhos,
inimigos da carta de “abc” e do banho, — animais brutos, que de homens têm
apenas a aparência e a maldade. Para esses rebotalhos da sociedade a caserna seria a
salvação. A caserna é um filtro admirável, em que os homens se depuram e apuram:
dela sairiam conscientes, dignos, brasileiros, esses infelizes sem consciência, sem
dignidade, sem pátria, que constituem a massa amorfa e triste da nossa multidão...
(BILAC, 1917, p. 6-7)
140
Entretanto, como lembra Lima Sobrinho (1968, p. 393), Bilac exortava os oficiais a serem fanáticos por sua
profissão. A solução que apontava para a falta de espírito nacional e para o regionalismo extremo era fundir o
Exército com o povo em uma só mentalidade democrática. Os oficiais seriam os mestres salvadores que
instruiriam o povo.
131
destaque dado pela imprensa e as palestras proferidas no Clube Militar e no Clube Naval, nos
dias que se sucederam à conferência na Faculdade de Direito, provocaram uma mobilização
que resultou na criação de duas importantes associações: a Liga da Defesa Nacional, em 1916,
na Capital Federal, e a Liga Nacionalista, em 1917, em São Paulo.
Apesar da fundação das duas associações terem as suas origens no discurso de 9 de
outubro de 1915, para Hansen (2015, p. 124) o comprometimento de Bilac com cada uma
delas foi diferente. Na Liga da Defesa Nacional foi secretário geral e o principal porta-voz da
instituição, representando-a em todo o País e divulgando suas propostas por meio de discursos
sempre prestigiados pela presença de autoridades locais e ampla cobertura da imprensa. Na
Liga Nacionalista, foi presidente honorário, mais uma distinção do que um cargo,
propriamente dito.
Bilac, portanto, logrou tornar-se uma figura pública dotada de extraordinário capital
simbólico, cujo uso, por ele e por outros, permitiu mobilizar forças e interesses
distintos em torno de projetos políticos coerentes. De um lado, agregou conhecidos
expoentes da elite liberal civilista e militares na constituição da Liga da Defesa
Nacional, cuja prioridade era a implementação do serviço militar obrigatório. De
outro, inspirou a criação da Liga Nacionalista, associação claramente comprometida
com a agenda política da elite intelectual de São Paulo, com um ambicioso programa
de reforma das práticas políticas nacionais por meio da educação, do cumprimento
das normas eleitorais e da garantia da integridade do voto. (HANSEN, 2015, p. 125)
141
Décadas mais tarde, o Exército se valeria da imagem de Olavo Bilac na busca de uma aproximação com a
sociedade. Em 1939, Getúlio Vargas decretaria o dia 16 de novembro, data natalícia de Bilac, como o “Dia do
Reservista” e, em 1966, Castelo Branco o elevaria a eminência de “patrono” do Serviço Militar.
132
proferido no Clube Militar, o poeta minimizou a sua importância na campanha civilista que
acabara de inaugurar:
142
O Estado de São Paulo, 16 dez. 1916, p. 5.
143
Ibidem.
144
Medeiros (2005, p. 29) considera que o discurso de Steidel, que conclama a colaboração das “classes
superiores” em auxílio a um “punhado de moços”, é bastante apropriado à situação verificada em São Paulo
nesse período, em especial na Faculdade de Direito, uma vez que a Liga Nacionalista era uma típica associação
de classes, que congregava grande parte de doutores diplomados por esta instituição, há décadas formadora da
elite cultural e política do País, e bacharelandos em Direito. Segundo a autora, o próprio Steidel fazia parte da
arquitetura dessa sociedade. O fato de ser um doutor diplomado pela própria Faculdade, conferia-lhe a
competência para fazer parte dessa elite cultural.
133
Pati (1950, s.p.) corrobora a ideia de Levi-Moreira. Para ele, a Liga, ao longo de sua
existência, foi a grande responsável pelo forte sentimento de solidariedade que grassava o
meio acadêmico da Faculdade de Direito. Aponta que, desde os seus primeiros passos, a
associação permitiu, em menos de dez anos de existência, aproximar os estudantes
universitários, mobilizando-os para a campanha de saneamento da democracia brasileira.
145
O Estado de São Paulo, 27 jul. 1917, p. 4.
134
Cabe ressaltar que a Liga Nacionalista não esteve vinculada somente aos alunos da
Faculdade de Direito. Dela fizeram parte acadêmicos de todos os cursos superiores de São
Paulo, chegando a ter em 1917, segundo Medeiros (2005, p. 42), 1.004 afiliados, dos quais
somente 227 contribuintes. Esse baixo número de contribuintes se deve ao fato de um
excessivo número de professores terem sido inscritos como sócios isentos do pagamento de
anuidade. Durante todo o seu período de existência, a presidência esteve nas mãos de
Vergueiro Steidel. A vice-presidência esteve nas mãos dos professores A.F. de Paula Souza e
Rodolpho de Carvalho, da Escola Politécnica, e Arnaldo Vieira de Carvalho, da Faculdade de
Medicina. Um outro ponto a se mencionar é que muitos membros da Liga Nacionalista
também fizeram parte do quadro de associados do diretório regional da Liga da Defesa
Nacional paulista, fundado com a presença de Olavo Bilac, em 1917. A Liga Nacionalista foi
fechada em 7 de agosto de 1924, por ordem do presidente Artur Bernardes, acusada de
envolvimento na Revolta dos Tenentes de 1924, ocorrida em São Paulo.
José Pessoa era um entusiasta da campanha civilista de Olavo Bilac e das medidas
adotadas pelo governo federal em prol do serviço militar obrigatório. Em suas memórias
lembrou com entusiasmo dos efeitos que a Primeira Guerra Mundial provocou nos governos
federal e estaduais e nas instituições civis e militares, que passaram a tomar medidas de toda a
natureza preparando a defesa do País, diante da iminência da declaração de guerra à
Alemanha146.
A juventude acorreu aos quartéis e às linhas de tiro, a fim de receber instrução das
armas; os intelectuais fundaram ligas de defesa, a imprensa exortava o patriotismo e
pregava a união nacional. O Brasil, enfim, levantou-se numa só alma e num só
corpo, todo na defesa de sua soberania. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 1)
146
O Brasil havia adotado uma posição de neutralidade no início do conflito. Entretanto, diante do apoio
brasileiro ao esforço de guerra aliado, uma série de torpedeamentos de navios brasileiros por submarinos
alemães ocorreu na costa brasileira, no ano de 1917. Diante do clamor popular, o Brasil reconheceu o estado de
guerra com a Alemanha em novembro de 1917.
135
O retorno de Olavo Bilac a São Paulo no ano de 1917 é lembrada por José Pessoa, já
que, nessa ocasião, estava à disposição da 6ª Região Militar, exercendo a função de ajudante-
de-ordens do inspetor. Ressalta o sentimento patriótico que a passagem do poeta despertou na
população paulista e a maneira festiva com que “o mensageiro da esperança e da segurança
nacional” foi recepcionado pelas instituições culturais, acadêmicas e militares.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 2) Os principais jornais da capital paulista noticiaram a
recepção festiva que Bilac teve na noite de 16 de março, na Estação da Luz. O Correio
Paulistano, na edição de 17 de março, listou os inúmeros representantes dos governos federal,
estadual e municipal, além das autoridades civis e militares e representantes de grêmios
estudantis, de centros culturais e da imprensa que compareceram ao evento.
No dia 23 de março, Olavo Bilac foi recepcionado pelo inspetor da 6ª Região Militar,
general Luiz Barbedo, na sede do 43º Batalhão de Caçadores. Essa recepção foi noticiada nos
jornais paulistanos como um evento de grandes proporções, que contou com a presença dos
oficiais da guarnição militar de São Paulo e diversas autoridades civis e militares. Na ocasião,
como lembra José Pessoa, o tenente Mário Travassos dirigiu a palavra aos presentes. Em um
discurso acalorado, em prol da nacionalidade, do papel do Exército na defesa da Nação e da
hegemonia do Brasil na América do Sul, Travassos defendia que “a sublime doutrina do
nacionalismo precisa criar dogmas para a massa e determinadas diretivas para os que
pensam”.147 Em suas palavras de agradecimento, Bilac ressaltou que o “Brasil nunca esteve
perdido, mas sim desorientado”.148 Entretanto, afirmou que “dessa desnorteação [o Brasil]
estava salvo”.149 Destacou, ainda, que, se alguma vez, o Exército esteve apartado do povo,
essa separação havia acabado, pois, “o Exército nacional, como está, é a escola normal do
patriotismo, da bravura e da alegria do povo brasileiro.”150
Mereceria destaque, ainda, na imprensa o retorno de Bilac, no dia 3 de abril, ao Centro
Acadêmico 11 de Agosto, da Faculdade de Direito de São Paulo, onde foi recebido, segundo
José Pessoa, “delirantemente pela mocidade” e proferiu “uma eloquente conferência que fez
eco por todo Brasil” (ALBUQUERQUE, 1953, pasta II, p. 2). As palavras que Bilac proferiu
nessa instituição foram publicadas na edição de 4 de abril do Correio Paulistano. Na ocasião,
lembrou da conferência que fizera naquele mesmo local dois anos antes e ressaltou os
benefícios que a sua campanha já havia trazido à pátria. Campanha, essa, que já não mais se
147
Correio Paulistano, São Paulo 24 mar. 1917, p. 3.
148
Correio Paulistano, São Paulo, 24 mar. 1917, p. 3.
149
Ibidem.
150
Ibidem.
136
Em abril de 1917, José Pessoa, no posto de segundo-tenente, foi nomeado instrutor das
escolas de instrução militar da Faculdade de Direito de São Paulo e do Ginásio São Bento.
Entretanto, ressalta em suas memórias que “a mocidade que tinha recebido Bilac com tanto
fervor patriótico, não teve o mesmo gesto para os seus instrutores, nomeados para ministrar-
lhes a instrução militar”. Referia-se ao trote com o qual, costumeiramente, os acadêmicos de
direito recebiam os instrutores militares, o que teria levado, em algumas ocasiões, instrutores
e alunos ao enfrentamento físico. (ALBUQUERQUE, 1953, pasta II, p. 2)
Na manhã de 8 de maio daquele mesmo ano151, chegou à Faculdade de Direito, a fim
de apresentar-se ao seu diretor, Dr. Herculano de Freitas. À porta do instituto acadêmico, foi
logo recebido por alguns calouros fazendo-se passar por veteranos do 5º Ano. Diziam-se
representantes dos cursos escolares e designados pelos colegas para dar as boas-vindas ao
novo instrutor. Reconheceu ali o início do trote. Porém, surpreendeu-se mais com a forma
desdenhosa com que foi recebido pelo diretor da Faculdade, que dissera-lhe supor que
receberia um oficial de mais idade, que havia conhecido quando fora ministro da Justiça, na
Capital Federal. José Pessoa respondeu-lhe: “Não haja nisso qualquer aborrecimento, diretor,
se o senhor desejar um instrutor barbado [o diretor usava barba] é só fazer um pedido ao meu
general e, estou certo, ele atenderá imediatamente”. Entretanto, o que mais o decepcionou foi
o tom paternal da resposta do Dr. Herculano, ao pedir-lhe paciência com “estes rapazes [os
estudantes], de fala arrogante, bolso bem suprido e sem muito juízo”. E concluiu: “reconheço-
o um belo oficial, perfeitamente qualificado para o desempenho da missão, filho de uma
família na qual conto com amigos, como Epitácio e o marechal [José da Silva] Pessoa”.
(ALBUQUERQUE, 1953, pasta II, p. 3-4)
O primeiro contato com os alunos foi bastante peculiar, ao deparar-se na galeria das
salas de aula com “uma procissão informe dos acadêmicos, à guisa de formatura militar,
marchando com as pernas tortas e as mãos espalmadas a altura da frontal, avançando
lentamente ao meu encontro”. Nesse momento foi interpelado pelo “comandante” do
“grotesco batalhão” se deveriam vir a participar das instruções por ele ministradas. Sem
abalar-se, dirigiu-lhes uma extensa fala, previamente preparada para enfrentá-los, pois, sabia
que “não era possível aceitar a luta física, sozinho, contra 823 acadêmicos”. No longo
discurso que proferiu, José Pessoa, ressaltou a confiança que o Exército depositava nos
151
José Pessoa aponta, em suas memórias, o dia 8 de maio de 1917 como sendo a data em que se apresentou na
Faculdade de Direito, para exercer as funções de instrutor militar dos acadêmicos. Entretanto, no dia 6 de maio
de 1917, o jornal Correio Paulistano publicou uma nota da Secretaria da Faculdade, dando conhecimento à
população dos horários de instrução militar a serem seguidos naquele centro acadêmico. Dessa forma, não há
como precisar a data exata em que José Pessoa iniciou as suas atividades naquele instituto de ensino.
138
“jovens patrícios paulistas para adestrá-los no manejo das armas”. Destacou a caserna como
uma “escola de civismo, onde a mocidade deve aprender a defender a Pátria, amá-la e
respeitá-la” e que “todo cidadão deve ser soldado, não por ofício, mas por um dever
patriótico”. Lembrou-lhes das palavras proferidas por Bilac naquela mesma escola poucos
dias antes e que foi “com grande satisfação patriótica” que viu o modo como eles procuraram
“dar realidade às palavras do poeta”. Já ao final de sua fala, indagou-lhes “como, pois,
explicar a inércia e a obscuridade em que vive esta Academia líder em matéria de defesa
nacional?”. Para, então, convocar-lhes: “saiamos dessa indiferença, meus amigos. Faço um
apelo ao vosso sentimento patriótico: unamos os nossos esforços pela grandeza do Brasil”. E
concluiu: “A vós, no dia da vitória, caberá uma boa parte dos louros que colhemos”. Ao
retirar-se, ressaltou que no dia seguinte esperava encontrar um “batalhão mais garboso do que
o que me prestou as honras à minha chegada, hoje, nesta Escola”. E brincou, “mas, olhem, o
comandante, continua preso até segunda ordem”. As gargalhadas provocadas nos estudantes
deram-lhe a impressão de que havia conquistado a confiança dos estudantes e de que estava
“assegurada a vitória do serviço militar na Academia e em São Paulo”, sendo aquela ocasião
“um dia de alegria para todos nós da guarnição e de tranquilidade para o Exército”.
(ALBUQUERQUE, 1953, pasta II, p. 5-9)
No dia seguinte, ao chegar à Faculdade, reencontrou os alunos, desta vez em forma,
apesar de muito irrequietos e falantes. Na ocasião, deixou-lhes claro que, a partir daquele
momento eram, além de estudantes, “uma força militar, na qual deve imperar a ordem e a
disciplina”. E tratou de implementar o seu programa de instrução, que em nada diferia dos
programas previstos pela Confederação do Tiro Brasileiro para as sociedades de tiro e escolas
de instrução militar. Quanto aos horários, dividiu-o por anos:
152
Esses horários diferem, em relação aos 1º e 2º anos, da nota publicada no Correio Paulistano, em 6 de maio
de 1917. O jornal informava à população paulistana os horários de instrução militar da Faculdade de Direito.
Para esses anos, a publicação previa as instruções militares às segundas, terças e sextas-feiras, das 13 às 14
horas.
139
Região Militar, general Luiz Barbedo. O sucesso da formatura serviu de estímulo às demais
escolas superiores e colégios de São Paulo, que aderiram ao serviço militar. Não foi possível
precisar a que evento, especificamente, José Pessoa se refere nessa ocasião. Ele não cita a data
precisa e não há registros nos principais periódicos da capital paulista de desfile da companhia
dos acadêmicos de Direito no período considerado por ele.
Após meses intensos de instrução, na tarde do dia 21 de agosto de 1917, em
solenidade realizada na Avenida Paulista, em frente ao Clube Trianon, a Companhia de
Caçadores da Faculdade de Direito recebeu a bandeira nacional. Compareceram ao evento,
dentre outras autoridades: o presidente do estado de São Paulo, Dr. Altino Arantes; o
presidente do Senado Federal, Dr. Jorge Tibiriçá; o inspetor da 6ª Região Militar, general Luiz
Barbedo, acompanhado de seu Estado-Maior; o prefeito de São Paulo, Dr. Washington Luíz e
o diretor da Faculdade de Direito, Dr. Herculano de Freitas. Também se faziam presentes
famílias da sociedade paulistana e grande massa popular.153 Segundo Pinto (2015, p. 174), as
solenidades de entrega de bandeira nacional às companhias de instrução das sociedades de tiro
e das escolas de instrução militar constituíam-se em atos solenes, apadrinhados por
personalidades ilustres e testemunhados por autoridades locais, com o concurso da sociedade
local. Eram verdadeiras festas cívicas. Corroborando Pinto, o Correio Paulistano atestava que
“o elegante belvedere da Avenida Paulista se achava completamente cheio de quase tudo o
que S. Paulo tem de mais elevado e chique”154.
A solenidade não estava restrita somente à companhia de caçadores da Faculdade de
Direito. Estavam formados junto a esta as demais companhias das escolas superiores do
estado de São Paulo: os batalhões dos ginásios São Bento e Coração de Jesus e o batalhão do
Mackenzie College. Também fazia parte da tropa um pelotão da 1ª Companhia do 43º
Batalhão de Caçadores, sob o comando do Tenente Mário Travassos. 155 Todas essas frações
constituíam uma brigada, que estava sob o comando de José Pessoa, que “sendo apenas um
segundo-tenente, foi apelidado pelos acadêmicos de ‘jovem general’” (ALBUQUERQUE,
1953, pasta II, p. 12).
A solenidade, amplamente noticiada nos principais jornais e revistas da capital
paulista, iniciou-se às 14 horas. O pavilhão nacional da Companhia de Caçadores da
Faculdade de Direito fora ofertado pelo bacharelando Assad Bechara, e constituía-se em “uma
verdadeira peça heráldica, confeccionado em seda do oriente, bordado a ouro e marchetado de
153
Correio Paulistano, São Paulo, 21 ago. 1917, p. 2.
154
Correio Paulistano, São Paulo, 21 ago. 1917, p. 2.
155
Ibidem.
140
estrelas de prata, trabalho primoroso das senhoras paulistas” (ALBUQUERQUE, 1953, pasta
II, p. 12). Segundo José Pessoa, Bechara, ao fazer uso da palavra, destacou que não ele
deveria fazer a entrega da bandeira, e, sim, Olavo Bilac, o iniciador da cruzada de regeneração
nacional. 156 No prosseguimento da solenidade, em um longo discurso proferido em nome dos
acadêmicos de Direito, o professor Dr. Azevedo Marques exortou os alunos a continuarem
marchando e “erguendo bem alto, aos olhos do mundo, o estandarte impoluto”.157 Por fim, o
porta-bandeira da companhia de caçadores, bacharelando José Alves Palma, fez uso da
palavra, lembrando da “apatia em que se conservava a mocidade brasileira, há dois anos
despertada pelas palavras, altamente patrióticas pronunciadas [...] pelo extraordinário cultor
das belas letras que é Olavo Bilac”.158 Encerrou afirmando que a juventude brasileira saberia
“compreender a necessidade de se preparar para conduzir o nosso pavilhão sempre
vitoriosamente”159 e que a pátria descansaria feliz, “sob o preparo militar dos seus filhos para
todas as eventualidades”160.
A bandeira nacional foi entregue ao porta-bandeira da companhia da Faculdade de
Direito pela madrinha da bandeira dos acadêmicos de Direito. Uma curiosidade a respeito
dessa escolha é que, a pedido dos alunos da Faculdade de Direito, foi aberto um concurso
entre os leitores e leitoras da revista A Cigarra161, a fim de se escolher, dentre as senhoritas
paulistas, quem deveria ser a madrinha da bandeira da “companhia de guerra dos alunos da
Faculdade de Direito”.162 A vencedora do concurso foi a Srta. Maria Guedes Penteado163, com
314 votos, a quem caberia “a honra de batizar o pendão sagrado da mais radiante e promissora
156
Um fato pitoresco narrado por Pati (1950) sobre a oferta da bandeira é, que, honrando as tradições do
comércio da Rua 25 de Março (Bechara era comerciante) e não confiando muito, ao que parece, na beleza do seu
gesto, Bechara fez um discurso verdadeiramente comercial. Disse que só em seda o auriverde pendão lhe custara
tantos contos de réis. Os bordados do losango amarelo, feitos a ouro, tantos contos. As palavras do lema
positivista, Ordem e Progresso, outros tantos. Entre matéria-prima e mão-de-obra, tantos contos. O discurso do
“Bichara”, como era chamado pelos acadêmicos, ficou célebre. No dia seguinte ao do juramento à bandeira, e
durante todo o curso, ele era invariavelmente felicitado em tom galhofeiro pelos colegas, à porta da Faculdade.
157
Correio Paulistano, São Paulo, 21 ago. 1917, p. 2.
158
Ibidem.
159
Ibidem.
160
Ibidem.
161
Fundada pelo jornalista Gelásio Pimenta, A Cigarra circulou na capital paulista entre os anos de 1914 e 1975.
Foi um periódico relacionado com as diversas transformações culturais ocorridas no início do século XX e era
mais voltado para o sexo feminino, participando diretamente no modo de viver paulistano, com um discurso
elitista e pomposo. (MATOS, 2008)
162
A Cigarra, São Paulo, 14 jun. 1917, p. 32.
163
Maria Guedes Penteado era filha de Inácio Leite Penteado e de Olívia Guedes Penteado, proeminente casal da
elite paulistana. Seu nome era encontrado constantemente nas colunas sociais dos principais jornais e revistas da
capital paulista, em eventos hípicos e assistenciais ligados à Cruz Vermelha Brasileira de São Paulo. Em 1932, já
casada com Clóvis Martins Camargo, ajudou a organizar e dirigir o Departamento de Assistência aos Feridos
criado para dar assistência aos soldados paulistas na Revolução de 1932. (SCHPUN, 2011)
141
164
A Cigarra, São Paulo, 10 ago. 1917, p. 18.
165
A Cigarra, São Paulo, 10 ago. 1917, p. 19.
142
Às 15:30 horas a cerimônia foi encerrando com o desfile da tropa, comandada por José
Pessoa.
Imagem 9 – Desfile do batalhão acadêmico na Avenida Paulista, após a entrega da Bandeira Nacional, 21 ago.
1917
166
Correio Paulistano, São Paulo, 25 ago. 1917, p. 3.
167
O nome da escola de instrução comandada por José Pessoa variava a cada nota da imprensa. Por vezes
aparecia o nome “companhia de guerra”, por vezes “companhia de caçadores”. Em suas memórias, José Pessoa
utiliza este último.
143
Fonte: Arquivo Público do Estado de São Paulo. Revista A Cigarra, 24 ago. 1917.
José Pessoa dá destaque ainda a três eventos dos quais participou a companhia de
caçadores. O primeiro, ocorrido a 4 de novembro, foi a participação nas manobras de combate
simulado da 6ª Região Militar, que rendeu elogios à sua tropa por parte do inspetor daquela
grande unidade, pela “perícia no manejo e emprego das armas, além da resistência às
marchas”. Em 15 de novembro, a Faculdade de Direito inaugurou a sua sala de armas, com a
presença da Srta. Maria Guedes Penteado, madrinha dos estudantes, e dos docentes e
discentes da Faculdade. E a cerimônia realizada em 19 de novembro, no Clube Trianon, para
a passagem do pavilhão nacional aos novos guardas-bandeiras do Grêmio Politécnico, dos
centros acadêmicos Oswaldo Aranha e 11 de Agosto e do Mackenzie College, que
compunham o batalhão acadêmico. (ALBUQUERQUE, 1953, pasta II, p. 14 e 15)
No dia 8 de dezembro, perante uma banca composta por José Pessoa e pelos tenentes
Antônio Paiva de Sampaio e Aarão Jefferson Ferraz, cinquenta e quatro alunos de Direito
prestaram os exames de reservistas169, como preconizava o Regulamento para a Execução do
Alistamento e Sorteio Militar170, de 1908. Todos foram aprovados.
Imagem 11 – Inauguração da sala de armas da Faculdade de Direito (José Pessoa está em pé, ao lado
da senhora de vestido branco e cinto preto), 15 nov. 1917.
Fonte: Arquivo Público do Estado de São Paulo. Revista A Cigarra, 29 nov. 1917.
169
A edição de 9 de dezembro de 1917, do Correio Paulistano, publicou a relação dos aprovados no exame.
170
Decreto nº 6.947, de 8 de maio de 1908.
145
Apesar da Lei do Serviço Militar de 1908 prever em seus dispositivos que as escolas
de instrução militar formavam a reserva de 2ª categoria da Nação, fica claro que não foi com
essa percepção que José Pessoa cumpriu as suas funções de instrutor militar na Faculdade de
Direito. Até então, todas as funções executadas por ele nos corpos de tropa eram
171
Refere-se José Pessoa à sua participação na Comissão de Estudos de Operações de Guerra e de Aquisição de
Material de Guerra na França, em 1918, durante a Primeira Guerra Mundial.
172
Correio Paulistano, São Paulo, 10 dez. 1917, p. 2.
173
Correio Paulistano, São Paulo, 10 dez. 1917, p. 2.
146
A Primeira Guerra Mundial já se arrastava há três anos quando José Pessoa teve,
certamente, a maior experiência de sua carreira militar como oficial subalterno, ao incorporar-
se, voluntariamente, ao Exército francês, para combater nos campos de batalha europeus.
No final de julho de 1914 chegaram ao Brasil os primeiros ecos do grande conflito
mundial. As edições do dia 27 de julho do jornal O Estado de São Paulo e as de 29 de julho
do Correio Paulistano e dos jornais cariocas Correio da Manhã e Jornal do Brasil,
noticiavam, em destaque, a declaração de guerra do Império Austro-húngaro à Servia. Por
meio da imprensa escrita, a população brasileira acompanharia sobressaltada o envolvimento
das grandes potências europeias no conflito, em notícias publicadas diariamente.
A preocupação do governo brasileiro centrava-se principalmente nas dificuldades
financeiras que a guerra europeia poderia acarretar para o País. A edição do dia 3 de agosto de
1914, do jornal carioca A Noite, noticiava a reunião ministerial convocada pelo presidente
Hermes da Fonseca para discutir “as providências a serem tomadas pelo governo para atenuar
os efeitos da guerra europeia no nosso país e para socorrer os brasileiros que estão nos países
conflagrados”174. Estiveram presentes os ministros da Fazenda, Justiça, Viação, Marinha
Agricultura e Guerra, além de senadores e deputados federais membros das comissões e
finanças do Senado e da Câmara dos Deputados. A segunda edição do mesmo jornal, no
mesmo dia, noticiava as primeiras medidas adotadas pelo governo brasileiro, dentre elas a
busca emergencial, nos Estados Unidos, de “carvão, óleos e mercadorias”175 necessárias ao
consumo do País, por navios do Lloyd Brasileiro, o repatriamento imediato dos brasileiros
que se encontravam na Europa e a decretação de um feriado nacional de doze dias, uma vez
que, diante das circunstâncias graves que o início do conflito europeu criara para o mundo, era
“dever do Poder Executivo zelar pelos supremos interesses da Nação”176.
À época em que a guerra iniciou, as principais relações comerciais e diplomáticas
brasileiras passavam pela Europa. A Inglaterra era a principal parceira política e credora do
País, seguida timidamente pela Alemanha, que vinha incrementando gradativamente as
174
A Noite, Rio de Janeiro, 3 ago. 1914, p. 2.
175
Idem, p.1.
176
Ibidem.
147
177
Mensagem apresentada ao Congresso Nacional pelo presidente Wenceslau Braz, em 3 de maio de 1915, por
ocasião de sua posse.
148
178
Silva (2015, p. 639-640) aponta que no Rio de Janeiro, por exemplo, os jornais Correio da Manhã e Jornal
do Brasil abriam espaço para a divulgação de opiniões pró-Alemanha, enquanto os jornais A Noite, Gazeta de
Notícias, O Imparcial e Jornal do Commercio eram notadamente aliadófilos.
149
trocadas com intelectuais e autoridades dos países da Entente. A Liga também promovia
festas, exposições e eventos, divulgando a causa aliada e atacando a atuação alemã na guerra,
com a presença de artistas e intelectuais oriundos dos países aliados. A sua fundação serviu de
inspiração para a criação de agremiações semelhantes em outros estados brasileiros, como a
Liga Bahiana pelos Aliados. Foi desfeita em 25 julho de 1919, baseada no seu estatuto, que
previa o fim da entidade após o estabelecimento da paz com a vitória aliada. (PIRES, 2013, p.
61-62, 85-86, 149)
Tão importante quanto o papel desempenhado pela Liga Brasileira pelos Aliados, foi o
que teve a Liga da Defesa Nacional. Criada no contexto da Primeira Grande Guerra, os
intelectuais que dela fizeram parte, engajaram-se na luta pela implantação do serviço militar
obrigatório e na defesa do apoio brasileiro aos países aliados, pertencentes à Tríplice Entente
(Reino Unido, França e Rússia). Ao realizar as suas inflamadas palestras nas principais
capitais do País, Olavo Bilac conclamava a intelectualidade brasileira a aderir às causas
nacionalistas e serem os responsáveis pela defesa da pátria e pela modernização das estruturas
sociais da Nação. Em setembro de 1916, por ocasião da instalação do Diretório Central da
Liga na Biblioteca Nacional, Bilac apelou para a competência, sabedoria e fervor patriótico
dos que se encontravam presentes ao ato, “representantes de todas as classes produtoras e
defensoras do país [...] alguns dos maiores, dos mais belos e respeitados, alguns que já fazem
parte do patrimônio moral da nossa terra”. (BILAC, 1917, p. 75)
Nas conferências públicas que realizava, Bilac deixava claro, ainda, que a defesa
nacional era um problema “imenso e complexo” e que não estava organizada no País. A boa e
verdadeira defesa deveria ser preventiva e que, ainda que não existissem “perigos imediatos
que nos cerquem, há incontestavelmente sempre perigos latentes, próximos ou remotos,
prováveis ou ao menos possíveis, que ameaçam constantemente todas as nacionalidades,
ainda as mais sólidas, fortes e armadas” (BILAC, 1917, p. 126). E ressaltava que se a defesa
era um dever imperioso para as nacionalidades mais bem organizadas, o que se poderia dizer
do Brasil, “um país pobre de instrução primária, profissional e cívica, pobre de coesão, pobre
de culto patriótico” (BILAC, 1917, p. 126). Para ilustrar a sua fala, o poeta usava os eventos
que se passavam na Europa:
E poderemos acreditar que o Brasil, este imenso país de solo fértil e de ricas
entranhas, ainda despovoado e desarmado, fique sempre, graças ao acaso, ou ao
benefício da Providência Divina, imune de qualquer investida da ambição ou da
necessidade comercial? Tal é o perigo externo, próximo ou remoto, sempre possível.
O outro perigo, iminente, o interno, é a quebra da unidade: o depauperamento do
caráter, o definhamento do patriotismo consciente, à mingua de instrução, o acúmulo
dos erros das más administrações, o império das cúbicas individuais, e a triste
indiferença em que vegeta a maior parte da população.
Impõe-se a defesa. Defendamo-nos! (BILAC, 1917, p. 127-128)
Entretanto, Daróz (2016, p. 47) lembra que, se existia um número elevado de notáveis
que defendiam a causa aliada, os germanófilos também se organizaram em torno de
personalidades da política e da intelectualidade brasileira, como: João Dunshee de Abranches,
presidente da Associação Brasileira de Imprensa, o escritor Capistrano de Abreu, o diplomata
Oliveira Lima, o jornalista Assis Chateaubriand e o chanceler Lauro Müller. Esse grupo
defendia a manutenção da neutralidade do País, por entender que a guerra tinha motivações
comerciais, cujo propósito era impedir a ascensão comercial da Alemanha. Também se
utilizavam dos meios de comunicação disponíveis à época e confrontavam a Liga Brasileira
pelos Aliados sempre que podiam, cuja ação, diziam ser inútil à causa aliada e contrariar os
interesses do Brasil.
O posicionamento a favor ou contra um dos lados beligerantes também chegou às
Forças Armadas. No Exército, os posicionamentos ficaram bastante evidentes nos debates que
se estabeleceram em torno da contratação de uma missão militar estrangeira, para a
modernização da instrução e do ensino da Instituição.
Não havia, entretanto, um consenso sobre a origem dessa missão militar, prevalecendo
as discussões em torno de duas potências europeias envolvidas no conflito: Alemanha e
França. Pugnava por uma missão alemã a ala “progressista” do Exército, que tinha entre os
seus legítimos representantes os Jovens Turcos. Influenciados por tudo que haviam
vivenciado durante o estágio na Alemanha, viam o Exército germânico como o mais bem
preparado da Europa em termos de equipamento e doutrina (LUNA, 201, p. 117-118). Já
dentre os francófilos destacou-se o general Cardoso de Aguiar, ministro da Guerra do
presidente Delfim Moreira e principal articulador da contratação de uma missão militar
francesa (McCANN, 2009, p. 258).
Ao estudar as relações militares e comerciais entre Brasil e Alemanha nas primeiras
décadas da República (1889-1920), Luna (2011) estabelece um amplo debate a respeito das
152
Portugal, a França e a Alemanha. Nesses dois últimos países, foi convidado a assistir a
manobras militares. Na França, especialmente, seguiu um roteiro intenso de visitas a escolas e
instalações militares, assistiu a manobras e exercícios das tropas francesas e realizou viagens
organizadas por fornecedores de armas. Certamente, cientes da simpatia que Hermes nutria
pelos alemães, os franceses empenharam-se em demonstrar a importância e o
desenvolvimento do aparelho militar do país, ao mesmo tempo que tentavam demovê-lo da
crença que tinha na superioridade militar germânica. (LUNA, 2011, p. 175-176)
Na segunda quinzena de agosto, Hermes visitou a Alemanha. Iniciou o roteiro pela
cidade de portuária de Kiel, com o intuito de assistir a exercícios realizados por submarinos
produzidos pelo estaleiro Germânia, uma novidade para a estratégia naval da época. Em
seguida, se dirigiu a Berlim, onde assistiu às manobras do exército e da esquadra alemães,
ocasião em que mereceu uma atenção especial do Kaiser Guilherme II. Antes de retornar ao
Brasil, assistiu, ainda, à parada militar de outono em companhia do mandatário alemão e
participou de alguns eventos e jantares em sua homenagem, promovidos por autoridades civis
alemãs. Nesse tempo que passou na Alemanha, Hermes da Fonseca, com a aquiescência do
Barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores, tratou de alinhavar com Guilherme II
a contratação da missão militar alemã, o que repercutiu fortemente nas imprensas alemãs e
francesas. (LUNA, 2011, p. 176-177)
A passagem do presidente brasileiro pela Alemanha sofreu uma enxurrada de críticas
da imprensa francesa, que depreciou a iniciativa do governo brasileiro de contratar instrutores
militares para o seu Exército nacional. Conforme aponta Luna (2011, p. 180-181), os jornais
franceses fizeram questão de destacar a proximidade cultural existente entre Brasil e França,
advinda da origem latina de ambos os países, a enorme presença de capital francês na
economia brasileira, tanto através do financiamento de grandes obras públicas, como da
concessão de empréstimos para a política de valorização do café e a presença de uma bem
sucedida missão militar francesa junto à Força Pública do estado de São Paulo 179, desde 1906.
Contestaram as boas relações existentes entre Brasil e Alemanha, chamando o governo
brasileiro de descortês, por tentar contratar militares alemães, quando ainda se encontrava no
179
Em 1906, o estado de São Paulo, gozando da sua autonomia administrativa, contratou uma missão militar
francesa, comandada pelo coronel Paul Balagny, para instruir a sua Força Pública. O contrato da missão militar
francesa para a Força Pública paulista foi fechado por Gabriel de Toledo Piza, representante da oligarquia
paulista e ministro plenipotenciário brasileiro, com o ministro da Guerra francês, Eugène Étienne. Resultou da
preferência do presidente do estado e do prefeito da cidade de São Paulo, Jorge Tibiriçá e Antônio Prado,
respectivamente, por uma missão militar francesa. O Barão do Rio Branco, Ministro das Relações Exteriores, se
opôs aos franceses, mas não conseguiu demover a preferência de Tibiriçá, nascido na França, filho de mãe
francesa. (LUNA, 2011, p. 142)
154
País [em São Paulo] uma missão militar francesa, e de ingrato, por não reconhecer os
benefícios dos enormes empréstimos franceses.
A confusão gerada pela imprensa francesa, segundo Luna (2011, p. 185), levou
Hermes a não firmar com a Alemanha o contrato de uma missão militar de instrução. Para a
autora,
Porém, a autora entende não ser esse o único motivo do recuo de presidente brasileiro,
que o colocaria como um dos maiores opositores daqueles que defendiam a missão alemã,
como o próprio Barão do Rio Branco e o ministro da Guerra Bormann. Luna (2011, p. 186)
lembra que a trajetória de hábil renovador, que Hermes teve no exercício da pasta da Guerra,
ocasião em que abarcou a compra de considerável volume de material bélico alemão e o envio
de vários oficiais brasileiros para estagiarem no exército germânico, não deixa dúvidas de que
ele era partidário do emprego de instrutores alemães no Exército brasileiro. Sendo assim, a
mudança de ideia quanto ao fechamento do contrato da missão alemã, não aconteceu
exclusivamente por motivos militares180 ou por conta da hábil campanha da imprensa
francesa, mas, sim, porque foi pressionado por fatores políticos e econômicos, que fizeram
com que vacilasse em relação às consequências do fechamento do contrato. A autora defende
que o principal motivo que levou Hermes a não contratar uma missão militar alemã de
instrução encontra-se, sobretudo, ligado a pressões advindas da elite cafeeira paulista e à
participação desses em alguns planos de intervenção do governo no mercado cafeeiro, dentre
eles, e o principal, o Convênio de Taubaté181, em 1906. Cabe ressaltar, que foi na elite
paulista, que combateu ferozmente a sua candidatura à presidência da República, apoiando a
campanha civilista de Rui Barbosa, que Hermes encontrou a sua principal oposição. Além
180
Cabe ressaltar que durante o governo de Hermes da Fonseca, encontravam-se na Alemanha o último grupo de
militares que realizavam o estágio no exército daquele país, um convênio que fora firmado ainda quando era
ministro da Guerra. Em função desse convênio, havia um compromisso por parte do governo brasileiro não
enviar militares brasileiros para arregimentação em outros exércitos e não receber instrutores militares
estrangeiros, com exceção dos alemães.
181
Acordo fechado na cidade de mesmo nome, em 1906, entre os presidentes dos estados de São Paulo, Minas
Gerais e Rio de Janeiro: Jorge Tibiriçá, Francisco Sales e Nilo Peçanha, respectivamente. O convênio procurou
estabelecer um equilíbrio entre a oferta e a demanda, através da aquisição do excedente do café pelo governo
federal. O café adquirido ficaria estocado em depósitos no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos e o capital
necessário para a compra seria obtido por meio de financiamento no exterior, com destaque para a França.
(LUNA, 2011, p. 186)
A questão do capital francês, inclusive, foi utilizada, como visto, pelos capitalistas e pela imprensa francesa para
se opor à visita de Hermes da Fonseca à Alemanha, em 1908.
155
disso, como lembra Luna (2011, p. 188), Hermes tinha entre os seus principais apoios
políticos dois apoiadores do Convênio de Taubaté: o senador Pinheiro Machado e o
fazendeiro Francisco Antônio de Sales, membro da elite política mineira, nomeado ministro
da Fazenda, no seu governo.
Sendo assim, o assunto missão militar de instrução saiu da pauta do governo até o final
do ano de 1912. As discussões em torno da questão se recenderiam justamente com o retorno
ao Brasil do jovem grupo de oficiais da última turma que estagiou no Exército alemão, entre
os anos de 1910 e 1912, e que fundou a revista A Defesa Nacional, os Jovens Turcos.
A análise apurada que Cristina Luna faz do pensamento militar dos Jovens Turcos
permite compreender por que o grupo foi taxado de germanófilo durante muito tempo. Cabe
lembrar que os ex-estagiários do Exército alemão exerceram a liderança do grupo que passou
a orbitar em torno das publicações feitas em A Defesa Nacional182. Além disso, é preciso
contextualizar as concepções divulgadas pelo grupo nas páginas da revista. O parâmetro de
referência do grupo, para as conclusões a que chegavam era a nação e o estado-nação tal
como se generalizaram na Europa Ocidental. Como aponta Capella (1985, p. 71), “ao
confrontarem o modelo com a realidade brasileira, o que surge diante de seus olhos é uma
total assimetria, um terrível simulacro onde se desejava uma cópia”. Seguindo essa ideia,
Luna (2011, p. 215) lembra que
Moraes (2005, p. 141) aponta os Jovens Turcos como o “núcleo intelectualmente mais
organizado” de um movimento de reforma do Exército que se estabeleceu no País ainda no
prenúncio do primeiro grande conflito mundial. Como explica Luna (2011, p. 214), o
exacerbado nacionalismo conjugado com o fortalecimento do capitalismo industrial e
financeiro, que redundou no imperialismo, intensificou as rivalidades existentes entre as
grandes potências europeias. A busca por proteção, e a tentativa de evitar que essas
rivalidades resultassem em um novo conflito que as envolvesse, levou-as, nos estertores do
182
É importante compreender que o grupo de oficiais que estagiou no Exército alemão, entre 1910 e 1912, não
era o mesmo grupo de oficiais que fundou a revista A Defesa Nacional. Nem todos os oficiais que estagiaram no
Exército alemão foram fundadores da revista. E nem todos os colaboradores da revista haviam estagiado no
Exército alemão. Paula Cidade, Brasílio Taborda, Mário Clementino e Cavalcanti de Albuquerque não
participaram do estágio na Alemanha, porém aderiram ao projeto de criação da revista no Brasil. Amaro de
Azambuja estagiou no período de 1908 a 1910.
156
Século XIX e no nascer do Século XX, a uma acorrida armamentista e tecnológica sem
precedentes. A “falácia da paz armada”, segundo a autora, repercutiria no Brasil, ratificando
entre muitos civis e militares a necessidade imediata de retomada do processo de reforma do
Exército, que, iniciado há poucos anos, se encontrava praticamente paralisado, como
consequência das conturbações provocadas pela “política das salvações”, de Hermes da
Fonseca, e das restrições impostas pelas elites políticas e econômicas aos gastos com as
Forças Armadas.
A partir do entendimento de que o Exército deveria ser o “volante” da Nação, era
necessário que estivesse bem preparado. Portanto, na luta retórica pela modernização do
Exército, os Turcos defenderam a compra de novos armamentos, sobretudo da Alemanha.
Para a capacitação dos quadros da Instituição, propuseram a vinda de instrutores militares
alemães, para ajudarem na formação do oficialato, além de modificações na Escola Militar.
Entendiam que, melhor preparados, os oficiais brasileiros poderiam formar mais
satisfatoriamente os recrutas, que, após o período de arregimentação, passariam a compor uma
reserva militar para o País183. (LUNA, 2011, p. 215-216)
Após a fundação de A Defesa Nacional, a revista passou a ser um importante
instrumento de divulgação dos conhecimentos adquiridos no Exército alemão, o que era feito,
segundo Capella (1985), em uma parte jornalística, basicamente composta por artigos
técnicos. Traziam traduções de manuais e regulamentos alemães, artigos contendo
recomendações a respeito do emprego de armamento e organização e emprego da tropa, e o
que existia de mais moderno no mundo sobre técnica e tática militar, principalmente o que
vinha da Europa. Todos esses artigos eram assinados e percebe-se a grande afluência de
artigos de colaboradores, em sua maioria militares, alguns até oficiais de altas patentes,
ocupantes de cargos elevados dentro do Exército. Durante o período que compreendeu as
vésperas e o desenrolar da Primeira Guerra Mundial houve uma valorização dos assuntos
militares publicados na revista.
O grupo ligado à revista A Defesa Nacional era constantemente criticado por civis e
militares simpáticos aos franceses. Ao rebater as críticas apontavam que os francófilos as
faziam baseados em uma afinidade idealizada entre franceses e brasileiros, a qual era quase
tão grande quanto a entre brasileiros e alemães. Defendiam que as escolhas feitas em relação à
modernização do Exército deveriam ser estratégicas e especificamente militares, e não
apoiadas em simpatias e falsas impressões. Se os armamentos alemães eram melhores, então,
183
Como já visto, os Jovens Turcos foram veemente defensores do serviço militar obrigatório.
157
184
Em 7 de maio de 1915, um submarino alemão torpedeou e afundou o transatlântico britânico Lusitania, na
costa da Irlanda. O navio era proveniente da Nova York e tinha como destino Liverpool. Dos 1.200 mortos no
trágico evento, 128 eram norte-americanos. O presidente dos EUA, Woodrow Wilson, considerou a tragédia uma
afronta ao país norte-americano e exigiu reparações da Alemanha. O kaiser, temendo a entrada dos EUA na
guerra, com todo o seu poderio, recuou na campanha submarina. Entretanto, em 1917 a ação submarina alemã
recrudesceria, novamente. (DARÓZ, 2016, p. 55)
158
185
Luna (2011, p. 230) lembra que a entrada dos EUA na guerra também foi decorrente das implicações
econômicas que o bloqueio naval alemão provocou na economia norte-americana.
159
admirador de Rui Barbosa. Logo o novo chanceler mostrou os novos rumos da política
externa brasileira, quando, em 10 de maio, encaminhou um telegrama aos EUA, declarando a
intenção de estreitar as relações com o país norte-americano. (DARÓZ, 2016, p. 90-92;
LUNA, 2011, p. 229-230)
Entretanto, como lembra Daróz (2016, p. 92), apesar de todo a pressão popular a favor
da guerra, um movimento em sentido contrário, formado por operários e sindicalistas
anarquistas surgiu no Brasil, posicionou-se contra a guerra e acusou o governo de estar
desviando a atenção da população dos problemas sociais internos do País. Em algumas
ocasiões, esses grupos entraram em choque com os nacionalistas, que defendiam a entrada
brasileira na guerra. Uma greve geral foi deflagrada e o País lançado em um clima de
desordem e instabilidade, sendo o movimento reprimido violentamente pelo governo.
Na verdade, é possível buscar as origens dessa resistência na análise que Castro (2012,
58-62) faz do “antimilitarismo” que surgiu em meio ao movimento operário, em particular os
anarquistas, por ocasião dos debates em torno do serviço militar obrigatório, a partir de 1908,
e que culminou na criação da Liga Antimilitarista Brasileira, no mesmo ano.
Nos meses seguintes, mais navios brasileiros seriam alvos de torpedeamento por
submarinos alemães. Na noite de 20 de maio, quando navegava em águas francesas, no Canal
da Mancha, o cargueiro Tijuca foi atingido. Um marinheiro perdeu a vida no evento. Em 22
de maio, o cargueiro Lapa foi interceptado e afundado pelos alemães na costa espanhola.
Felizmente, ninguém morreu nessa ocasião. Os dois navios brasileiros estavam transportando
sacas de café para a França. (VINHOSA, 2015, p. 82-95)
O afundamento desses navios levou ao fim da neutralidade brasileira diante do
conflito. Em 2 de junho de 1917, por meio do Decreto nº 12.501, o governo fez o confisco de
navios alemães que se encontravam retidos nos portos brasileiros desde 1914, o que provocou
protestos da embaixada alemã dos Países Baixos, representante dos interesses junto ao Brasil
após o rompimento das relações diplomáticas entre os dois países. O chanceler Nilo Peçanha
respondeu que a represália se sustentava nas regras do direito internacional. No dia 4 de
junho, a embaixada brasileira em Washington comunicou ao Secretário de Estado dos EUA a
revogação do estado de neutralidade e o rompimento dos laços diplomáticos com a Alemanha.
Além disso, o presidente Wenceslau Braz também autorizou o uso dos portos brasileiros por
navios de guerra norte-americanos, que, de imediato, aproveitaram a oferta para marcar
presença e demonstrar força. Em junho, cinco cruzadores norte-americanos aportaram no Rio
de Janeiro, onde foram recebidos festivamente pelas autoridades brasileiras. Dessa forma, o
governo brasileiro alinhava-se de vez com a política dos EUA. (VINHOSA, 2015, p. 82-95)
160
Capella (1985, p. 42-47) lembra que os ataques alemães aos navios brasileiros
recrudesceram os debates da elite letrada brasileira a respeito da posição que o governo
brasileiro deveria tomar diante da guerra que se aproximava do País. De um lado, os pró-
aliados, como Rui Barbosa, Graça Aranha, Olavo Bilac, Coelho Neto e Pandiá Calógeras,
dentre outros. De outro, os germanófilos, como os Jovens Turcos, Lima Barreto, Capistrano
de Abreu, Vicente de Carvalho e Dunshee Abranches. E, ainda existiam os neutros, como
Assis Chateaubriand, Azevedo Amaral, Jackson Figueiredo e Alberto Torres, que alegava ser
melhor para o Brasil e para as nações sul-americanas um empate entre os países beligerantes,
porque só assim haveria um enfraquecimento do imperialismo das nações europeias. Luna
(2011, p. 231) destaca, ainda, que a campanha pró-Alemanha contava, também, com a
publicação de pequenos jornais, pelas colônias germânicas existentes no Brasil,
principalmente as da região sul do País.
Em 18 de outubro, o quarto navio brasileiro foi torpedeado por um submarino alemão
em águas espanholas. Dessa vez, o cargueiro Macau, que também transportava café para a
França. Curiosamente, esse era um dos navios confiscados dos alemães em junho. A notícia
do afundamento do Macau chegou ao País somente cinco dias depois, gerando uma forte
revolta da população, que passou a pressionar o governo brasileiro pela entrada do Brasil no
conflito europeu. Dois dias depois, em 25 de outubro, Wenceslau Braz encaminhou ao
Congresso Nacional, uma mensagem em que demonstrava a sua disposição em romper a
neutralidade e reconhecendo que, na verdade, o Brasil já se encontrava em guerra. No dia
seguinte, após um amplo debate entre os deputados e senadores da República, o Congresso
publicou o Decreto nº 3.361, reconhecendo o estado de guerra iniciado pelo Império Alemão
contra o Brasil. Ao mesmo tempo, autorizava o Presidente da República a “tomar todas as
medidas de defesa e segurança pública que julgar necessárias”186. Dessa maneira, entrava o
Brasil na Primeira Guerra Mundial. (VINHOSA, 2015, p. 82-95)
Luna (2011, p. 232) destaca, ainda, a forma lacônica com que foi recebida pelos
germanófilos, em especial os editores da revista A Defesa Nacional, a notícia do estado de
guerra entre Brasil e Alemanha. Se a contratação de uma missão militar alemã já estava
difícil, com a derrota da Alemanha na guerra, ficou inexequível. Com isso, a França, que,
desde os prenúncios do conflito, já se empenhava em malograr o envio de uma missão militar
germânica ao Brasil, teria sucesso em 1919, com a contratação pelo governo brasileiro da
Missão Militar Francesa.
186
Decreto nº 3.361, de 26 de outubro de 1917.
161
A Missão Aché, como ficou conhecida a Comissão de Estudos, tinha por objetivo
reunir a maior quantidade de conhecimentos no tocante à doutrina militar francesa,
inclusive com a participação de oficiais brasileiros em combate, bem como a
aquisição do material bélico necessário para remodelar o Exército brasileiro segundo
os padrões da força terrestre daquele país.
187
Rodrigues Alves, recém eleito Presidente, encomendou ao ex-ministro da Fazenda Pandiá Calógeras um
estudo confidencial dos problemas do governo, para orientar a nova administração, que só ficou pronto no início
de 1918. Nesse estudo, Calógeras previa o envio de um grande corpo expedicionário brasileiro, formado pelo
Exército e pela Marinha, para combater na França. O custo desse corpo expedicionário seria financiado por
empréstimos norte-americanos e britânicos, que seriam quitados com compensações pagas pelas nações
derrotadas. O rumo tomado pela guerra e as circunstâncias políticas brasileiras impediram que se deliberasse
seriamente sobre essa ideia. (McCANN, 2009, p. 283)
188
A Comissão foi criada por meio do Aviso Reservado nº 914, de 21 de dezembro de 1917.
162
Imagem 12 – Integrantes da Missão Aché na França (ministro Olintho Magalhães, em trajes civis; general Aché
à sua esquerda; José Pessoa indicado por uma seta), 1918.
José Pessoa faz um longo relato, em sua autobiografia, dos momentos passados nos
campos de batalha europeus, durante a Primeira Guerra Mundial. A começar pela viagem feita
do Rio de Janeiro à França, juntamente com os demais integrantes da Missão Aché.
Curiosamente, ele não faz menção à sua participação na Comissão de Estudos de
Operações e Aquisição de Material. Tampouco, que a viagem a que se refere, tendo por
destino a Europa, foi realizada em companhia dos integrantes da Comissão. E, sim, que se
tratava da sua viagem para combater, voluntariamente, na guerra. José Pessoa também não se
prende a datas em sua narrativa. Portanto, não foi possível determinar, em muitos momentos,
os períodos exatos em que os fatos ocorreram. As datas citadas nos próximos parágrafos
foram retiradas da Fé de Ofício de José Pessoa e do histórico do 4º Regimento de Dragões
francês, o que permitiu inferir o momento em que aconteceram determinados fatos vividos
pelo personagem.
José Pessoa partiu do porto do Rio de Janeiro, com destino a Londres, no dia 9 de
janeiro de 1918, a bordo do transatlântico Darro, da armadora inglesa Royal Mail Steam
164
Packet (RMSP). Antes, porém, de seguir para a capital inglesa, o navio dirigiu-se para a costa
sul-africana, ancorando em Freetown, à época capital da possessão inglesa de Serra Leoa.
Naquele porto, o Darro foi reabastecido e incorporado a um comboio formado por cerca de
vinte navios mercantes, que seriam escoltados até Londres por uma esquadra inglesa, formada
por cinco contratorpedeiros e um cruzador ligeiro da Marinha Real britânica.
Pessoa narra que, já na partida, a ansiedade tomava conta dos passageiros do Darro,
devido à campanha submarina alemã que ocorria no Atlântico contra a navegação comercial
aliada. Durante todo o trajeto, viajaram afastados da costa africana, para escapar dos ataques
alemães. À noite, não era permitido acender as luzes da embarcação, tampouco fumar.
Também não era permitido a emissão de qualquer tipo de som, podendo conversar somente
em tom baixo e com a voz abafada. Não havia qualquer tipo de divertimento. Os dias eram
igualmente monótonos. Os passageiros ficavam sempre no tombadilho do navio, com os
petrechos de salvamento à mão e com os olhos no horizonte, à procura de algum submarino
inimigo. (ALBUQUERQUE, Pasta I, p. 28-29)
Entretanto, a monotonia da viagem seria quebrada em duas ocasiões. Na primeira, na
altura do arquipélago das Canárias, entre as ilhas de Palma e Tenerife, o navio transporte
francês Bayard, que transportava uma grande carga de substâncias explosivas, foi atingido por
torpedos alemães. José Pessoa conta que se encontrava no convés do Darro, em companhia de
outros oficiais brasileiros que também iriam para a guerra189, quando avistaram os rastros dos
torpedos alemães em direção ao navio francês. Pouco tempo depois, uma grande explosão foi
ouvida no meio do comboio. Em pouco tempo o Bayard afundou envolto em chamas, ao
mesmo tempo em que muitos tripulantes do navio eram vistos se debatendo na água e
tentando se agarrar nos destroços. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 29a)
Segundo Pessoa, a resposta da esquadra inglesa que escoltava o comboio foi imediata.
Em uma manobra rápida, os navios ingleses, assim como as peças de artilharia instaladas no
Darro, conseguiram engajar o submarino alemão que foi atingido e afundou no Atlântico. Os
botes de socorro conseguiram salvar poucos náufragos do cargueiro francês. Os do Darro
recolheram apenas três sobreviventes.
O outro evento ocorreu já na costa inglesa, na chegada ao porto de Southampton. O
transatlântico Drina, da mesma classe do Darro, e também pertencente à RMSP, foi
torpedeado e afundou, sem fazer vítimas. No entanto, ao contrário do que ocorreu nas
189
Supõe-se que esses militares eram integrantes da Comissão de Estudos de Operações e Aquisição de Material.
165
Cavalaria (2º CCav), comandado pelo general Rabillot, juntamente com as 4ª e 6ª Divisões de
Cavalaria e a 2ª Divisão de Cavalaria a Pé (2ª DCP)190. 191
O regimento de Dragões francês era uma unidade típica de Cavalaria. Sua organização
consistia em um esquadrão de Estado-Maior e quatro esquadrões operacionais, a cavalo192.
Cada esquadrão operacional era constituído por quatro pelotões. Comandava o 4º Regimento,
em 1918, o coronel De Fournas. Os esquadrões eram comandados por capitães, e os pelotões
por tenentes. José Pessoa compôs o efetivo do 1º Esquadrão, sob o comando do capitão De
Vrie, um veterano do conflito, que estava servindo no 4º de Dragões desde 1914. O efetivo de
um esquadrão variava de 130 a 150 homens. O pelotão tinha entre 40 e 50 homens.193
O 4º Regimento de Dragões participou das principais ações empreendidas pela 2ª DC
na Primeira Guerra Mundial. Atuando na região central da Frente Ocidental entre 1914 e
1915, teve as suas ações deslocadas para o norte, a partir de 1916. Dentre os grandes eventos
bélicos de que tomou parte, estão: as batalhas de Sarrembourg e Grand Couronné, em 1914; a
2ª Batalha de Champagne, em 1915; a Batalha do Somme, em 1916; e as 3ª Batalha de
Flandres, 2ª Batalha de La Manne e a 3ª Batalha de Picardie, em 1918.194
190
A Cavalaria a Pé deslocava-se a cavalo, mas, combatia a pé.
191
O Ministério da Defesa francês mantém um extenso arquivo histórico digitalizado, no qual é possível
encontrar todas as ordens de marcha e operações das unidades e grandes unidades militares francesas que
combateram na Primeira Guerra Mundial. Em relação aos regimentos, esses documentos trazem o registro dos
oficiais que comandaram suas frações em combate. Infelizmente, de todos os regimentos que estavam
subordinados ao 2º Corpo de Cavalaria, somente os arquivos do ano de 1918 em diante, do 4º Regimento, não
estão disponíveis.
Cf.: Ministério da Guerra da França. Os Exércitos Franceses na Grande Guerra, Tomo X, 1923 e os Anexos do
Tomo VII, de Os Exércitos Franceses na Grande Guerra.
192
Não obstante, os controles de efetivos, previstos nas ordens de marchas, registrarem a existência de cavalos,
na razão de um por home, por vezes eram previstos deslocamentos de pelotões por meio motorizado para a frente
de combate. Cf.: Jornal de Marchas e Operações do 4º Regimento de Dragões, 1917.
193
Essa configuração dos regimentos de Dragões do Exército francês na Primeira Guerra Mundial é encontrada
nas ordens de operações de todos os regimentos, entre os anos de 1914 e 1919. As informações dos comandos
foram retiradas dos registros de marcha de dezembro de 1917, do 4º Regimento de Dragões. Como esses
personagens são citados por José Pessoa, em suas memórias, infere-se que exerceram os mesmos comandos no
ano de 1918. Cf.: Jornal de Marchas e Operações do 4º Regimento de Dragões, 1914-1917.
194
Ministério da Guerra da França. Os Exércitos Franceses na Grande Guerra, 1923.
167
Gráfico 2 – Enquadramento do Esquadrão a que pertenceu José Pessoa no Exército Francês, 1918.
2º CCav
Gen Rabillot
2ª DC
4ª DC 6ª DC 2ª DCP
Gen Lasson
4º RD
8º RD 12º RD 31º RD
Cel De Fournas
EM
1º Esq
Cap De Vries
2º Esq
3º Esq
4º Esq
195
Em 4 de agosto de 1914, no início das operações militares na Frente Ocidental, os alemães tomaram Liège,
iniciando, assim, a invasão do território belga. Tal ação ocorreu após o governo belga ter negado à Alemanha o
direito de trânsito pelo seu território. A intenção dos alemães era, pelo Norte, entrar em território francês
utilizando o país belga. (WILLMOTT, 2008, p. 40)
168
comandado nominalmente pelo rei belga, pois, de fato, o comando das ações foi de
Degoutte.196 Sendo assim, em 18 de setembro, o 2º CCav iniciou o seu deslocamento para as
cidades de Proven e Rousbrugge-Haringe, onde seria reposicionado o seu quartel-general.197
José Pessoa apresentou-se no 4º RD, na região de Beauvais, no dia 5 de setembro de
1918, em plena Ofensiva dos Cem Dias198. Relata ter sentido uma grande decepção por
nenhuma função militar ter sido atribuída aos estrangeiros voluntários. Mais tarde, foi
compreender que se tratava de uma medida de justa cautela e previdência adotada pelo
comando francês. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 25)
A apresentação no início de setembro se deu a tempo de permitir-lhe acompanhar, a
partir de 18 de setembro, o deslocamento do 4º RD para o Flandres, o que ocorreu à esteira da
2ª Divisão de Cavalaria. Durante o deslocamento, nas longas e contínuas cavalgadas, os
militares do Regimento, além das atividades de rotina, limitavam-se a conduzir as suas
montarias, ora a pé, ao passo, ora montado, ao trote, acompanhando o conjunto da 2ª DC. À
noite, quando a marcha não prosseguia, a tropa estacionava e realizava um bivaque199, sempre
em posição de alerta, permanecendo os cavalos encilhados. Após nove extenuantes jornadas,
o Regimento atravessou a fronteira franco-belga em Neuve-Chapelle, atingindo a região de
Herzelle. Nessa região ficou concentrada a Cavalaria francesa. A missão do 4º RD era
acompanhar o ataque belga em direção à região de La Lys, que iniciaria em 29 de setembro.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 25; HISTÓRICO DO 4º REGIMENTO DE DRAGÕES,
1921, p. 62)
Em 30 de setembro, o Exército belga, apoiado pelos exércitos francês e britânico,
atravessou a floresta de Houtulst e atingiram o cume do monte Passchendaele. Na noite desse
dia, o 4º RD bivacou a oeste de Ypres, em um terreno repleto de buracos cheios de água,
abertos pelas granadas da artilharia inimiga. No dia 1 de outubro deslocou-se até a frente de
combate. A marcha se deu por uma estrada enlameada, previamente demarcada pelas tropas
aliadas em meio ao campo de batalha, sob chuva e neve incessantes. Esse caminho era o único
196
Ao Norte, a campanha conduzida por Alberto I, que ficou conhecida na História como a 5ª Batalha de Ypres
(28 de setembro a 11 de novembro), na verdade, começou na cidade em ruínas, no oeste de Flandres, mas
continuou metodicamente para o nordeste, superando os IV e VI exércitos alemães e libertando os distritos
costeiros da Bélgica ao avançar para a Antuérpia. No momento do armistício o exército belga tinha feito a sua
frente avançar 72 km a leste de seus pontos de partida. Porém, não atingiram o seu objetivo final, que era a
Antuérpia, que ainda permanecia nas mãos dos alemães. (SONDHAUS, 2003, s.p.)
197
Ministério da Guerra da França. Os Exércitos Franceses na Grande Guerra, 1923 e 1938.
198
Ofensiva dos Cem Dias foi como ficou conhecida a ofensiva empreendida pelos aliados a partir do final de
agosto de 1918.
199
O bivaque constitui-se em um estacionamento provisório da tropa em marcha. O pernoite se dá a céu aberto,
ou sob a proteção de algum abrigo natural.
169
Um dia após ser elogiado pelo comandante do Regimento, José Pessoa foi novamente
surpreendido, quando, durante a leitura do boletim da unidade, ouviu seu nome ser citado para
receber a Cruz de Guerra200. Também, devido a uma série de mudanças nos comandos dos
pelotões, assumiria o comando de um pelotão do 1º Esquadrão. Terminada a leitura, o capitão
De Vries conduziu-o pelo braço à presença dos soldados do 3º Pelotão, a quem dirigiu a
palavra: “Camaradas, o tenente Pessoa será de hoje em diante o comandante do vosso
pelotão”. Prontamente todos se perfilaram e prestaram a continência a Pessoa. Do momento,
considerado por José Pessoa um dos mais emocionantes da sua vida, lembra:
Lemos no rosto viril daqueles valentes soldados, a simpatia confinante e sincera que
une os lutadores de uma mesma causa, caldeados no fragor das pelejas em que se
expõe a vida pela vitória de um ideal comum. E esta confiança e simpatia nunca me
abandonaram até o fim da peleja, em 11 de novembro de 1918, quando deixei, na
mais tocante das despedidas, o meu 4º Regimento de Dragões, tradição e glória da
cavalaria francesa. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 27)
200
A Cruz de Guerra foi criada por lei pelo presidente da República da França em 8 de abril de 1915. Destinava-
se a condecorar os atos individuais de bravura dos militares franceses durante a Primeira Guerra Mundial. A
condecoração de José Pessoa foi noticiada em dois jornais da Capital Federal: a Gazeta de Notícias, de 5 de
novembro de 1918, e O Paiz, de 13 de novembro de 1918. Este último, além de noticiar o recebimento da
condecoração, ainda publicou um extenso texto com a trajetória militar de José Pessoa até a sua ida para a
guerra.
171
Câmara (2011, p. 62) aponta que Pessoa, durante a campanha do Flandres, comandou,
também, um pelotão formado por soldados turcos. Segundo um depoimento do brigadeiro
Pessoa (1984 apud CÂMARA, 2011, p. 62), filho de José Pessoa, essa experiência de
comando, em particular, havia impressionado sobremaneira o seu pai. A rusticidade e a
agressividade dos soldados turcos transformavam-nos em verdadeiras máquinas combatentes,
capazes de realizar atos de bravura inimagináveis. Por outro lado, uma atitude desses soldados
causou horror a José Pessoa. Era comum a esses combatentes, em um preito de profunda
admiração, ofertar a seus comandantes um colar feito com as orelhas cortadas das cabeças dos
inimigos que haviam acabado de vencer em encarniçados combates corpo a corpo.
A partir de 16 de outubro, o 4º RD passou a operar em estreita ligação com as tropas
de infantaria, executando patrulhas de reconhecimento nas linhas inimigas. Em 28 de outubro,
acompanhando o reposicionamento da 2ª DC, o Regimento mudou a sua área de
estacionamento para a região de Gitsberg. Em 10 de novembro, a unidade deslocou-se para
Landelede. Foi nessa pequena aldeia do Flandres que, à meia-noite, os militares ficaram
sabendo da assinatura do armistício que deu fim à Primeira Guerra Mundial. (HISTÓRICO
DO 4º REGIMENTO DE DRAGÕES, 1921, p. 63)
No dia 12 de novembro, o 4º RD deixou de integrar a 2ª DC e passou a integrar a
missão francesa próxima ao Exército britânico, deslocando-se para Roubaix. No dia 15 de
novembro a unidade foi dividida. O Estado-Maior, juntamente com os 1º e 2º Esquadrões
partiram em direção a Lille, instalando-se no distrito de Kléber. Como compunha o efetivo do
1º Esquadrão, José Pessoa permaneceu nessa localidade. O 3º Esquadrão foi para Tourcoing e
o 4º permaneceu em Roubaix. Permaneceu assim até o dia 26 de novembro, quando voltou a
fazer parte da 2ª DC. A partir dessa data iniciou o seu retraimento do front. Em meio ao
retorno para a França, José Pessoa foi desligado do efetivo do Regimento e em 26 de
dezembro apresentou-se à Comissão de Estudos, em Paris. (HISTÓRICO DO 4º
REGIMENTO DE DRAGÕES, 1921, p. 63-64)
Além da condecoração recebida, a atuação de José Pessoa no 4º Regimento de
Dragões foi motivo de elogios de toda a cadeia de comando a que estava subordinado,
publicados em sua Fé de Ofício e, as quais, ele faz questão de destacar em suas memórias. Do
capitão Devries, seu comandante de esquadrão foi reconhecido como um “oficial de valor [...]
um verdadeiro exemplo tanto pela nobreza do seu caráter, como pelo devotamento e grande
abnegação com que põe a sua espada a serviço da França” (FÉ DE OFÍCIO DO MARECHAL
JOSÉ PESSOA, 2016). O coronel De Fournas, comandante do 4º RD, em boletim da unidade,
elogiou-o no comando do pelotão, que “conduziu ao fogo em condições particularmente
172
delicadas e perigosas.” Também fez questão de ressaltar que José Pessoa, “distinguiu-se
sempre pela sua bravura e por ter solicitado permissão, por várias vezes, para, reconhecer as
primeiras linhas de infantaria, o que levou a efeito debaixo de fogos extremamente violentos”
(FÉ DE OFÍCIO DO MARECHAL JOSÉ PESSOA, 2016).
Também foi reconhecido pelos comandantes das grandes unidades a que estava
subordinado o 4º Regimento. O general Lasson, comandante da 2ª Divisão de Cavalaria, em
um extenso elogio, considerou-o um oficial “muito instruído, apaixonado pela profissão,
aproveitando todas as oportunidades para aperfeiçoar os seus conhecimentos militares” (FÉ
DE OFÍCIO DO MARECHAL JOSÉ PESSOA, 2016). Segue Lasson, “no comando de um
pelotão, provou ser possuidor de verdadeiras e sábias qualidades de comando e senso tático.
Ousado e brilhante no fogo [...] ofereceu-se várias vezes para cumprir missões perigosas” (FÉ
DE OFÍCIO DO MARECHAL JOSÉ PESSOA, 2016). Pelo general Rabillot, comandante do
2º Corpo de Cavalaria, foi considerado um “oficial ardente e trabalhador, que exerceu durante
vários meses o comando de seu posto no Exército francês em operações”. (FÉ DE OFÍCIO
DO MARECHAL JOSÉ PESSOA, 2016)
José Pessoa ainda foi promovido por bravura a capitão em janeiro de 1919, devido à
sua atuação nos campos de batalha do Flandres. A sua passagem pelo Exército francês seria
lembrada, ainda, anos mais tarde, quando foi promovido, já no posto de general, ao grau de
comendador da Legião de Honra do governo francês, recebida das mãos comandante do 2º
CC, nos campos da Europa, em 1918.
Mapa 2 – Área de atuação da 2º Corpo de Cavalaria, ao qual estava subordinado o 4º Regimento de Dragões, 1918.
.
Fonte: Departamento de História da Academia Militar de West Point, EUA
173
174
Um fato que marcou a vida de José Pessoa, em meio à Primeira Guerra Mundial, foi
ter conhecido a sua esposa, Blanche Mary Edward. Segundo Câmara (2011, p. 62), já no final
de 1918, Pessoa contraiu tifo durante a guerra, tendo sido evacuado para um hospital de
campanha na França.201 Durante a sua convalescença, conheceu a inglesa Blanche, uma
enfermeira voluntária da Cruz Vermelha Francesa, com a qual se casou antes mesmo do
término da guerra.202
Pouco coisa foi possível se determinar sobre Blanche Mary, até mesmo pela ausência
de narrativas a respeito da vida familiar nas memórias de José Pessoa. Contatos foram feitos
com a Cruz Vermelha francesa, com o intuito de se verificar como Blanche se tornou
enfermeira no conflito europeu. Em resposta, a instituição apontou que a quase totalidade dos
arquivos que tratavam da sua participação na Primeira Guerra Mundial desapareceu, não
201
Daróz (2016, p. 148) aponta que a Comissão de Estudos, além de José Pessoa, teve mais duas baixas, ao
longo da guerra. O major Tertuliano Potyguara foi ferido em combate e retornou para o front, após recuperar-se.
E, o tenente Andrade Neves, que foi acometido pela gripe espanhola, vindo a falecer em outubro de 1918.
202
Não foi possível determinar em que condições José Pessoa contraiu a doença, nem em que data,
especificamente, esteve baixado no hospital de campanha francês. Curiosamente, ele não cita esse fato em suas
memórias. Tampouco faz menção em que condições conheceu a esposa.
175
havendo, em seus registros, nada a respeito da esposa de José Pessoa. Também não foram
encontradas informações dos corpos de saúde nos inventários digitalizados sobre o conflito,
do Ministério da Defesa francês. O centro francês de bibliotecas La Contemporaine mantém
um extenso arquivo de documentos da Primeira Guerra Mundial, dentre eles, muitos da Cruz
Vermelha, os quais, infelizmente, não estão disponíveis para o acesso à distância. Entretanto,
pesquisas realizadas por meio dos sites privados internacionais Ancestry e Family Search
permitiram o acesso a alguns documentos digitalizados, por meio dos quais se tornou possível
averiguar as origens de Blanche.
Em 11 de janeiro de 1927, apesar de terem se casado na França, José Pessoa e Blanche
Mary legalizaram a sua união em território brasileiro, conforme consta na certidão de
casamento dos dois, emitida pela 4ª Pretoria Civel da cidade do Rio de Janeiro. 203 No
documento, constam os nomes dos pais de Blanche, Frederic Edward e Ada Emily Edward, e
a sua data de nascimento, 22 de março de 1894. A partir dessas informações, buscou-se nos
documentos dos censos britânicos de 1901 e 1911 alguns dados importantes sobre a sua vida.
Esses censos, como é apontado no site Ancestry, tinham a finalidade de obter informações da
população do Reino Unido como um todo. A forma mais eficiente para isso era, em uma data
determinada, listar todos os moradores pelo nome. Sendo assim, um dos “cabeças” da família,
o pai ou a mãe, se dirigiam à paróquia mais próxima de sua residência e preenchiam uma
ficha, na qual apunham informações como: nome, idade e local de nascimento dos membros
da família; endereço; profissão ou ocupação dos pais e filhos; número de cômodos da
residência; etc.
Frederic e Ada Edward casaram-se no ano de 1888. Dessa união, nasceram seis filhos:
Jessie, Frederic, Blanche, Harold, Violet e Walter. Em 1901, a família residia no número 27
da Chambers Street, no distrito londrino de Farringdon, à época uma área tradicional de
comércio de alimentos, às margens do Rio Tâmisa.204 Dez anos depois, Frederic, Ada e os
filhos e filhas já haviam se mudado para uma casa de quatro quartos, localizada no número 5
da Stamford Street, no bairro de Lambeth, uma zona comercial e manufatureira da cidade,
próxima ao centro da capital inglesa.205 Assim, faz sentido a profissão apontada para Frederic
no censo de 1911: um comerciante de alimentos licenciado. Essa informação, corrobora,
203
Conforme a certidão de casamento de José Pessoa e Blanche Mary Edward, lavrada pela 4ª Pretoria Civel, da
5ª Circunscrição de Registros Civis da cidade do Rio de Janeiro, datada de 11 de janeiro de 1927. Disponível no
site Family Search, nas informações relativas à José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque.
204
Conforme o registro feito por Ada Edward à folha 36 do censo de 1901, realizado pela Paróquia de St. Ann
Blackfriars, no distrito de Farringdon, Londres. Disponível no site Ancestry. Consulta realizada em 20 dez. 2020.
205
Conforme o registro de número 767 feito por Frederic Edward no censo de 1911, realizado na igreja
anglicana do bairro de Lambeth, Londres. Disponível no site Ancestry. Consulta realizada em 20 dez. 2020.
176
portanto, o relato de Câmara (2011, p. 63), de que o pai de Blanche era um comerciante de
classe média alta, que residia em um bairro elegante de Londres. No censo de 1911 Frederic
informou, ainda, que Blanche, aos 17 anos de idade já exercia uma profissão: fabricante de
flores artificiais.
Ele se casou com a pessoa certa. Ele, homem formal, a casa dele sempre muito
organizada, certinha.
Quando eu era ajudante-de-ordens diariamente ia ao seu encontro em casa. Ele me
mandava buscar de carro. E eu ia ter com ele no apartamento em que morava no
Leme. Já o encontrava uniformizado de general para almoçar. D. Mary,
extremamente delicada, atenciosa, chamava-o, em minha frente, de “general”. Ele se
sentava à mesa, cerimonioso, impecável, comendo com toda a etiqueta. D. Mary
fazia comida muito racional para ele. Legumes, essas coisas. Ele almoçava
conversando muito demoradamente, com certa elegância. Os filhos, ao lado. Duas
meninas e o José, pequeno, novinho ainda. Era uma reunião de família, bonita. E eu
assistia àquilo, em geral participava da sobremesa. Depois íamos para o Quartel-
General. (CÂMARA, 2011, p. 63)
177
Da união de José Pessoa e Blanche nasceram três filhos: Elizabeth, nascida em 1925,
no Rio de Janeiro; Joy, nascida em São Luiz Gonzaga-RS, em 1927; e José, que recebeu o
mesmo nome do pai, também nascido no Rio, em 1930. Elizabeth casou-se em outubro de
1948 com Rogério Marinho, redator e diretor do jornal O Globo.206 Em setembro de 1956, Joy
casou-se com o engenheiro Antônio Seabra Moggi, à época superintendente do Centro de
Aperfeiçoamento e Pesquisas do Petróleo, da Petrobrás.207 José seguiu a carreira militar, na
Força Aérea, atingindo o posto de major-brigadeiro. A exemplo do pai, comandou, entre os
anos de 1982 e 1984, a Academia da Força Aérea, em Pirassununga-SP.208
Imagem 16 – José Pessoa, Blanche Mary e filhos (Elizabeth, Joy e José, sentado no chão), 1931.
Blanche faleceu no dia 25 de maio de 1988, aos noventa e quatro anos de idade, no
Rio de Janeiro.209 Dos filhos, dois já faleceram. O site Family Search aponta que Elizabeth
teria falecido em 2017, sem, entretanto, apontar a fonte da informação. Nem mesmo no jornal
O Globo, de propriedade da família Marinho, foi encontrado o obituário da filha de José
Pessoa. Recentemente, o brigadeiro Pessoa veio a falecer, no dia 26 de agosto de 2021.210
Ao final da guerra, José Pessoa ainda permaneceu na França, à disposição da
Comissão de Estudos. Em 1919, seria nomeado para a Missão de Operações de Guerra e
Aquisição de Material Bélico, que substituiu a Missão Aché, para auxiliar na compra dos
206
Conforme a certidão de casamento de Rogério Marinho e Elizabeth Pessoa Cavalcanti de Albuquerque,
lavrada pela 5ª Zona de Registros de Pessoas Naturais da cidade do Rio de Janeiro, datada de 2 de outubro de
1948. Disponível no site Family Search, nas informações relativas à José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque.
207
Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, 27 set. 1956, p. 5.
208
Revista A Esquadrilha, Academia da Força Aérea, 1983.
209
Conforme a certidão de óbito de Blanche Mary Edward Cavalcanti de Albuquerque. Disponível no site
Family Search, nas informações relativas à José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque.
210
Obituário do brigadeiro Pessoa, publicado no jornal O Globo do dia 27 de agosto de 2021.
178
primeiros carros blindados do Exército brasileiro, assunto que será abordado no próximo
capítulo.
Gráfico 3 – Genealogia de José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque (ramo descendente).
Fontes: Lewin, 1993; site Ancestry UK, 2020; site Family Search, 2020.
179
180
211
Apesar da substituição ter sido noticiada em periódicos da Capital Federal, como na edição do dia 3 de
outubro de 1919, da Gazeta de Notícias, não foi encontrado na literatura consultada como se deu essa
substituição de uma missão para a outra. Também nenhum decreto a respeito do assunto foi encontrado, nos anos
de 1918 e 1919.
212
À época, o termo “carros de assalto” era utilizado para designar os veículos blindados motomecanizados
empregados em combate para apoiar as tropas de Infantaria.
213
Caetano de Faria alegava que a contratação de uma missão militar estrangeira obrigaria o Brasil a criar
vínculo com uma potência europeia e entendia que os métodos e doutrinas empregados na guerra europeia, a
serem ensinados ao Exército brasileiro, não seriam os mais adequados aos países da América do Sul, onde os
grandes espaços e a população dispersa mantinham os exércitos nacionais a boa distância uns dos outros. Para
ele, seria difícil imaginar uma guerra de trincheiras nos pampas do Rio da Prata ou nas ondulações das pradarias
gaúchas. (McCANN, 2009, p. 255-256)
181
A autora lembra que, diferentemente do ministro da Guerra brasileiro, que via como
objetivo primordial da contratação da MMF a instrução e a organização e/ou reorganização
das escolas militares do Exército brasileiro, os interesses franceses estavam muito mais
voltados ao superávit de sua balança comercial. Uma das consequências lógicas da Missão
Francesa era o fornecimento de material de guerra ao Brasil, vendendo a sucata que não lhes
tinha mais serventia. Uma das bases do plano de expansão da influência francesa era o
interesse na venda de material bélico, o que teria uma excelente repercussão nos países
vizinhos sul-americanos, que também poderiam querer adquirir os produtos da França.
(BELLITANI, 2009, p. 253)
214
SALKIN, Yves. Presença e influência militar francesa na América Latina de 1919 a 1940. Tese de
Doutorado. Sorbonne I. Paris. 1983.
182
O apoio imediato à iniciativa de Cardoso de Aguiar não foi unânime. Um dos grupos
que reagiu à contratação dos franceses foi a dos oficiais progressistas que formavam os
Jovens Turcos, notórios defensores de uma missão alemã, antes da guerra. Entretanto, Leitão
de Carvalho lembrou aos colegas que a decisão pela escolha da missão era do governo e não
deles. Se a preferência era pelo modelo alemão, antes da guerra, com a sua derrota, fora
necessário se recorrer a outro. E expressou a sua opinião, lembrando-lhes que eram os líderes
da campanha progressista no Exército: “devemos prestar à missão francesa o apoio que
daríamos, antes da guerra, à missão alemã, se tivesse sido contratada” (CARVALHO, 1961, v.
2, p. 23). O fato é que, como lembra McCann (2009, p. 260), o gabinete de Cardoso de Aguiar
tinha o seu representante do grupo de A Defesa Nacional, o capitão Joaquim de Souza Reis
Netto, assim como vários do grupo ocupavam postos no Estado-Maior do Exército, como os
capitães Bertholdo Klinger, João Batista Mascarenhas de Moraes, Pantaleão da Silva Pessoa,
Genserico de Vaconcelos e Julião Freire Esteves. Esses oficiais acabariam por usar a sua
influência em favor da missão.
Pouco tempo após as eleições de 1919, em decorrência da morte de Rodrigues Alves,
assumiu a Presidência da República Epitácio Pessoa, que teve como ministro da Guerra do
seu governo o civil Pandiá Calógeras215. A esses dois personagens é creditado o impulso que
as mudanças propostas pela MMF ganharam, a partir de julho daquele ano. Cardoso de
Aguiar idealizou a Missão e tratou de contratá-la, Calógeras foi o grande realizador das ideias
dos franceses.
Com a aprovação do projeto de lei no Congresso, a contratação de uma missão militar
francesa virou uma realidade. O Decreto nº 3.741, de 28 de maio de 1919, autorizava o
governo brasileiro a contratar, na França, uma missão militar, para fins de instrução no
Exército, bem como abrir os créditos necessários à contratação. O contrato, assinado em Paris,
no dia 8 de setembro de 1919, era bastante favorável aos franceses e tinha a duração de quatro
anos, podendo ser mantido no todo ou em parte a partir da data de sua expiração, mediante
manifestação prévia do governo brasileiro. Na realidade, a missão durou bem mais do que
isso, sendo extinta em setembro de 1940.
Nos artigos do contrato constavam as diretivas para o funcionamento da MMF no
Exército brasileiro. Além da previsão das escolas militares brasileiras nas quais a Missão
atuaria, impunha limites ao Brasil quanto à negociação de material bélico e contratação de
215
Entre 28 de julho e 3 de outubro de 1919, ocupou interinamente a pasta da Guerra o jurista Alfredo Pinto
Vieira de Melo, em conjunto com o Ministério da Justiça e Negócios Interiores. A partir de outubro de 1919,
ficou à frente somente deste último ministério.
183
outras missões estrangeiras. Quanto a estas, proibia o governo brasileiro de contratá-las para
propósitos militares, com exceção de técnicos para as fábricas, arsenais e serviços
geográficos, e previa uma pesada indenização caso essa cláusula não fosse cumprida. Em
relação à compra de material bélico, o Brasil deveria dar preferência à indústria francesa.
Previa, também, vultosos salários aos militares franceses que compunham a Missão, a serem
pagos pelo governo brasileiro.216
Entretanto, Bellintani (2009, p. 254) ressalta que um dos pontos fracos da MMF era
justamente o material bélico para a exportação, já que as fábricas francesas estavam muito
mais interessadas em competir entre si do que vencer a concorrência internacional. Também
existia uma carência de chefes capacitados para serem enviados como comandante da Missão,
que deveria ser muito mais do que um oficial de comando e instrução. Esse militar deveria
desempenhar com destreza as funções de representante diplomático, ser capaz de angariar as
simpatias locais e ter jogo de cintura suficiente para, sem atritos, desfazer qualquer resistência
contra a presença de estrangeiros junto à força militar. O escolhido foi o general Maurice
Gamelin, que permaneceu no comando da MMF até 1925, quando foi substituído pelo general
Fredéric Coffec.
Os principais opositores da Missão, dentro do Exército, agrupavam-se em torno do general
Bento Ribeiro, Chefe do Estado-Maior do Exército, órgão que, durante a sua chefia, tentou barrar
de todo modo as medidas e propostas idealizadas pela MMF. Também existia a resistência dos
oficiais brasileiros mais antigos, que não aceitavam as instruções e pensavam que nada havia para
mudar na Instituição. Dentre as principais críticas estavam o contrato oneroso para os cofres
brasileiros, para que os franceses desempenhassem missões de instrução que poderiam ser
desempenhadas por oficiais brasileiros, e a previsão de os oficiais franceses terem no Exército
brasileiro uma patente superior à que tinham no francês. (BELLITELI, 2009, p. 268)
O projeto inicial da vinda da MMF era a instrução dos oficiais e a reorganização das
escolas militares, o que contribuiria para uma maior profissionalização do Exército.
Entretanto, dentre os projetos apresentados por Gamelin estava a reorganização da estrutura
da Instituição, o que passaria pela organização do efetivo do Exército em cinco divisões de
Infantaria, seu desdobramento para a mobilização, a transformação de três brigadas de
Cavalaria em três divisões e a utilização das forças policiais nas operações. Tudo isso tinha
um objetivo: fazer frente à hipótese de guerra com a Argentina, vista como o principal
adversário militar do Brasil na América do Sul. Em um primeiro momento, devido à
216
O contrato, em sua íntegra, está disponível em MALAN, Alfredo Souto. Missão Militar Francesa de
instrução juto ao Exército brasileiro. Rio de Janeiro: BIBLIEX, 1988.
184
resistência de Bento Ribeiro, esses planos ficaram somente no plano teórico. (BELLITELI,
2009, p. 269)
Entretanto, em junho de 1919 dois decretos trataram de reorganizar a organização das
forças do Exército dentro do território nacional: os decretos nº 13.651 e nº 13.652, ambos de
18 de junho de 1919. O primeiro dividiu administrativamente o território da República em
sete regiões militares e um distrito militar. Em termos operacionais, criou-se cinco divisões de
exército. O segundo reorganizou as brigadas de Infantaria e Artilharia dentro de cada divisão.
O projeto inicial de reestruturação pensado por Gamelin iria ser posto em prática em 31 de
dezembro de 1921, por meio do Decreto nº 15.235, que organizou o Exército ativo em tempo
de paz, com as unidades de tropas sendo distribuídas em cinco divisões de Infantaria, três
divisões de Cavalaria, uma brigada mista e unidades independentes. O decreto previa, ainda, a
criação de unidades especiais, constituídas por oficiais de todas as armas. Dentre elas, uma
companhia de carros de assalto, para a qual foi designado como comandante José Pessoa.
Parece lógico que a intenção de se criar uma unidade blindada no Exército brasileiro
nasceu bem antes do decreto de dezembro de 1921, uma vez que, em setembro de 1919,
começaram as articulações para a compra de carros de assalto da França. Para essa missão,
como visto no início deste capítulo, foi nomeado José Pessoa.217
Apesar de ter participado da guerra em uma unidade de Cavalaria, Pessoa não
conhecia o emprego dos blindados em combate, mesmo tendo os observado em ação nos
campos de batalha. Sendo assim, comunicou ao general Leite de Castro, chefe da Missão de
Aquisição, que talvez não fosse a pessoa mais indicada para a missão que lhe foi dada.
Entretanto, estaria disposto a cumpri-la se lhe fosse permitido realizar um estágio em uma
unidade blindada do Exército francês. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 23)
Aceita a sugestão por Leite de Castro, foi franqueado a José Pessoa um estágio no
503º Regimento de Artilharia de Assalto (RAA) do Exército francês, sediado em Versailles.
Para isso, contribuiu a intermediação feita pelo general Gamelin, chefe da MMF no Brasil,
junto ao governo francês. Antes, porém, de apresentar-se no 503º RAA, realizou, a partir de 1º
de agosto de 1919, um rápido estágio na fábrica da Renault, a fim de estudar o funcionamento
e acompanhar a fabricação do carro de assalto Renault FT-17, o blindado escolhido para
mobiliar as unidades mecanizadas do Exército brasileiro. Terminada a passagem pela fábrica
dos blindados, apresentou-se no 503º Regimento, onde frequentou o estágio de carros de
217
Segundo Belliteli (2009, p. 275), a sugestão para a compra de carros de assalto e da criação de uma
companhia de carros de assalto, partiu do general Gamelin, chefe da Missão Militar Francesa, que via esses
empreendimentos como necessidades estratégicas urgentes do Exército brasileiro, devido ao fato da Argentina
ser considerada a provável hipótese de guerra brasileira.
185
assalto, entre 6 de outubro de 1919 e 12 de fevereiro de 1920. Nesse meio tempo, um fato
bastante curioso ocorreu. Em 2 de novembro de 1919, José Pessoa foi desligado da Missão de
Aquisição, em virtude da redução do número de seus membros, e foi lhe dada a ordem para
apresentar-se no Rio de Janeiro na primeira oportunidade. O desligamento lhe rendeu um
extenso elogio de Leite de Castro, que destacou “o brilho de sua competência e o auxílio de
seus esforços que na atualidade me eram de grande valia, especialmente na recepção do
material de guerra que tivemos a incumbência de adquirir do governo francês”. Não se sabe se
foi por influência do chefe da Missão de Aquisição, porém, em 8 de novembro o desligamento
de Pessoa foi anulado, por ordem do ministro da Guerra. (FÉ DE OFÍCIO DO MARECHAL
JOSÉ PESSOA, 2016)
Em 12 de fevereiro de 1920, Leite de Castro recebeu uma mensagem do comandante
do 503º RAA, informando que José Pessoa havia concluído com aproveitamento o estágio de
carros de assalto e que, para que tivesse um melhor aproveitamento técnico, um oficial
francês foi colocado à sua disposição durante toda a sua estada no Regimento. No mês
seguinte, Pessoa apresentou-se na Escola de Artilharia de Assalto do Exército francês,
também localizada em Versailles, a fim de realizar o curso prático de artilharia de assalto que
iniciaria no dia 15 de março e que terminaria em junho. Após a conclusão do curso, uma nota
remetida pelo Centro de Estudos de Carros de Combate ao comando da Missão de Aquisição
destacou a inteligência, a assiduidade, o excelente espírito militar e a educação de José Pessoa
durante o curso. A nota também informava que ele havia adquirido os conhecimentos
necessários sobre a técnica e o emprego tático do carro Renault e que, devido a isso, estava
apto para o comando de uma companhia de carros de assalto. Ao regressar para a sede da
Missão brasileira em junho, recebeu, então a ordem para receber do governo francês os
primeiros carros blindados que seriam empregados no Exército brasileiro.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 25; FÉ DE OFÍCIO DO MARECHAL JOSÉ PESSOA,
2016)
No relato que faz a respeito do recebimento dos carros de assalto Renault FT-17,
considerado um carro de combate revolucionário para a sua época218, fica claro que José
Pessoa desaprovou as condições em que se encontravam os blindados que seriam vendidos ao
Brasil. Também demonstrou certas restrições quando ao modelo escolhido pelo Estado-Maior
218
Segundo Bastos (2001, p. 40), o Renault FT-17 era considerado um carro de combate revolucionário por: a)
possuir uma torre com giro de 360º, e armado com um canhão Puteaux de 37 mm ou metralhadora Hotchkissde 8
mm; b) sua arquitetura de construção, com motor na parte traseira, torre no centro e sistema de direção à frente;
c) ter sido fabricado em série, como em uma linha de produção de automóveis; e d) ter sido projetado para
possuir uma família sobre o mesmo chassis, como carro TSF, carro projetor, carro transportador de ponte, etc.
Durante a Primeira Guerra Mundial, cerca de 3.200 unidades foram produzidas para o Exército francês.
186
do Exército brasileiro. Apesar de ser, à época, o carro de combate menos vulnerável do seu
tipo; era, entretanto, considerado pouco veloz (6 km por hora) e mal armado (um canhão de
37 mm ou metralhadora). (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 25)
Ainda teceu críticas ao governo brasileiro, que encomendou somente uma seção de
carros, sem fazer as especificações necessárias quanto ao número de veículos e ao seu
armamento. Ressaltou que o calibre dos armamentos não era o utilizado pelo Exército
brasileiro e a necessidade da compra de uma seção de manutenção, o que seria de grande valia
para a composição de um núcleo de instrução. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 25)
O fato é que o lote de blindados que estava sendo preparado para ser entregue ao
Brasil era de carros velhos, que haviam sido utilizados na guerra que acabara de terminar,
conforme lembra José Pessoa.
Quando foi avisado à Missão que os carros blindados, encomendados por nós,
estavam prontos para serem entregues, seguiu-se uma verdadeira peregrinação pelos
depósitos de tanques do território francês, sendo eu sempre constrangido a rejeitar
tal material por verificar serem engenhos velhos, recuperados, da guerra recém-
finda. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 25)
presentes, o mais apreensivo era Leite de Castro, que, mais tarde, confidenciou a José Pessoa
ter pensado que o incidente ocorrera devido à alguma imprudência cometida por ele.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 26)
O incidente ocorrido nos campos de ensaio de Bourbon serviu para mostrar ao
comandante da missão brasileira que o material adquirido pelo Brasil não servia ao seu
propósito. Na ocasião, Leite de Castro deixou claro aos oficiais franceses que, daquele dia em
diante, José Pessoa estabeleceria as condições para uma nova inspeção. Por sua vez, Pessoa
ressaltou que somente voltaria a examinar os carros de assalto quando eles fossem novos e
construídos sob as suas vistas. Mais tarde, a Fábrica Delaunay, responsável pela construção
dos carros Renault, convocou-o para uma nova inspeção, dessa vez em carros novos, que
foram recebidos na mais perfeita ordem. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 27)
Mesmo antes de concluir a missão que lhe fora dada, José Pessoa tratou de produzir
um relatório, datado de maio de 1920, em que relacionou o material adquirido219. Também
apresentou uma série de modificações técnicas feitas nos motores dos carros, executadas a seu
mando, com o propósito de melhorar o desempenho dos veículos e torná-los mais adaptados
ao solo e ao clima brasileiros. Muitas dessas modificações, que tiveram a aprovação dos
219
Foram adquiridos do governo francês: 5 carros metralhadoras, sendo 2 armados; 6 carros canhão, munidos do
canhão 37 mm semiautomático; 1 carro TSF (telegrafia sem fio), munido de um aparelho transmissor e receptor
para comunicações; 41 caixas de munições e 78 caixas de ferramentas e peças sobressalentes.
(ALBUQUERQUE, 1919)
188
especialistas franceses, a que foram submetidas, foram feitas fruto do que José Pessoa
observou nos campos de batalha europeus. Dessa forma, no seu entender, foram eliminados os
inconvenientes e defeitos dos veículos, aumentando a sua eficiência operacional. Entretanto,
apesar da fiscalização rigorosa e detalhada que fizera, deixou claro que não havia como se
responsabilizar pelas imperfeições de fundição e de montagem defeituosa dos mesmos, já que
a produção foi exigida sob a pressão dos acontecimentos da guerra.220
Os Renault FT-17 vendidos ao Brasil chegaram no porto do Rio de Janeiro no início
de 1921, sendo recolhidos ao 1º Regimento de Infantaria, na Vila Militar, onde permaneceram
guardados em depósito até outubro daquele ano, quando foram entregues a José Pessoa, já
nomeado comandante da Companhia de Carros de Assalto do Exército brasileiro.
O entusiasmo de José Pessoa com os blindados o levou a escrever a sua obra mais
conhecida no meio militar, Os Tanks na Guerra Europeia, publicado no ano de 1921 pela
editora Albuquerque & Neves, do Rio de Janeiro. O livro, com 244 páginas, constitui-se em
um verdadeiro tratado sobre o emprego de carros blindados no início do Século XX e foi o
primeiro a ser publicado sobre o assunto na América do Sul. Muito do que foi transcrito nas
suas páginas é fruto do que Pessoa presenciou em combate e da sua experiência nas escolas de
blindados francesas. Na dedicatória, ofereceu a obra aos “camaradas de arma”, que vinham se
esforçando no “serviço obscuro da caserna” em “preparar, formar e aperfeiçoar” o Exército
nacional, aos professores da Escola de Carros de Combate de Versailles e aos companheiros
do 4º Regimento de Dragões francês, unidade em que havia combatido na Bélgica.
220
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1919.05.12.
189
José Pessoa dedica um capítulo inteiro do livro à exposição dos defeitos do carro
Renault francês. O meio que encontrou para isso foi comparando-o ao tanque Whippet inglês.
Entendia que o Renault FT-17, no estado em que se encontrava, não serviria a uma nova
guerra. Apesar do equipamento ter obtido sucesso no front, durante a Primeira Guerra, era
preciso lembrar que tal sucesso se deveu, em parte, aos alemães, que não possuíam material
equivalente, nem em qualidade, nem em quantidade. Considerava o carro francês “pouco
rústico, mal armado, de fraca mobilidade e sem facilidades para vencer os sérios obstáculos
que se encontram nos campos de batalha da guerra moderna” (ALBUQUERQUE, 1921, p.
107). Destacava, ainda, os problemas de visibilidade e o intenso barulho que tomava conta do
interior do carro, o que não permitia empregá-lo, na guerra moderna, em missões de
reconhecimento, à frente da infantaria, pois, pouco se via e nada se ouvia do campo de
batalha. Dado os defeitos do Renault, reconhece que o Exército brasileiro poderia ter
escolhido carro melhor e, ainda que indiretamente, tece uma pequena crítica a incapacidade de
escolha do Brasil na aquisição do blindado. É possível se fazer aqui uma inferência de que
Pessoa conhecia os termos do contrato firmado com a França, quando da contratação da
Missão Militar Francesa. Além disso, presenciou, nos depósitos franceses, as más condições
dos equipamentos que aquele país pretendia vender ao governo brasileiro.
O fato é que José Pessoa considerava o tanque inglês superior ao francês, tanto
tecnicamente quanto em relação ao emprego tático.
O estudo meticuloso que fizemos sobre os diversos tipos de aparelhos em uso nos
exércitos Aliados, leva-nos à convicção, que é, aliás, a de um grande número de
oficiais franceses, todos comandantes de secções de tanks durante a guerra, de que o
tank Whippet é um engenho superior ao Renault. (ALBUQUERQUE, 1921, p. 111)
É que o aparelho inglês é muito veloz, e, por isso mesmo, menos vulnerável; apesar
de pouco blindado, é bem armado, dispõe de motores de grande força, pode transpor
largos obstáculos e, em certas missões, acompanhar mesmo a cavalaria. Apesar de
ser um pouco mais pesado que o Renault, apresenta a grande vantagem de poder
fazer longas marchas por seus próprios meios, o que não consegue esse carro
francês. (ALBUQUERQUE, 1921, p. 111)
193
Terminando este confronto, não deixaremos de salientar que o carro Renault tem a
vantagem de ser mais bem protegido que o tank Whippet; mas, na guerra, o melhor
aparelho não foi o que provou ter maior espessura de blindagem, e, sim, o que
melhor marchou contra o inimigo. De mais, conhecendo as faculdades de
aperfeiçoamento do gênio francês, não será de surpreender que, mais cedo ou mais
tarde, o carro Renault se apresente inteiramente expurgado dos defeitos que ora o
colocam em plano inferior. (ALBUQUERQUE, 1921, p. 112-113)
194
Imagem 23 – José Pessoa em frente a um reboque carregado com um Renault FT-17, 1920.
Gráfico 4 – Proposta de José Pessoa para um sistema de ligação entre unidades de tanques, 1921.
José Pessoa dedicou dois capítulos do livro ao emprego do carro Renault no Exército
brasileiro. Em um deles discorre sobre a iniciativa tomada, ainda na França, para implementar
várias modificações no motor desse blindado, a fim de torná-lo mais eficiente e adaptado às
condições de emprego no Brasil. Tais mudanças foram motivos de um relatório enviado ao
Ministério da Guerra brasileiro, já citado nesse capítulo. Também trata do armamento
utilizado nos carros brasileiros, dos meios de comunicações e do seu emprego tático.
No outro aborda a organização dos tanques no Exército brasileiro. Reafirma que o
engenho blindado foi especialmente importante para a liberdade do emprego das tropas de
infantaria nos campos de batalha, tendo se tornado um equipamento desejado pelos exércitos
de todas as nações do mundo. Entretanto, ressalta que esse recente invento não era uma
máquina perfeita e que, para sua máxima eficiência, era necessário que houvesse a previsão
196
Esse chefe tão qualificado e capacitado a que José Pessoa se refere era ele mesmo, já
que o Aviso nº 360, de 26 de maio de 1921, do ministro da Guerra, o havia nomeado para
organizar a recém criada Companhia de Carros de Assalto.
Havia, também, a necessidade de se adestrar a tropa brasileira de infantaria ao
combate com os carros de blindados, já que ela trabalharia em estreita colaboração com estes.
A experiência da Primeira Guerra Mundial havia demonstrado que, apesar de toda a descrença
inicial dos comandantes franceses, o apoio dos carros de combate aos ataques da infantaria foi
o fator decisivo para a vitória aliada.
Pessoa desaconselhava, ainda, a aquisição de blindados pesados pelo Exército. Apesar
da guerra ter demonstrado a importância desses aparelhos, ao atuarem em conjunto com os
carros leves no rompimento de obstáculos e devido à potência de fogo de seus armamentos, a
realidade econômica brasileira não permitia a sua compra. Entretanto, achava que se deveria
fazer um maior esforço para a aquisição de alguns carros com maior poder ofensivo e mais
velozes. E, novamente, indicava o carro Whippet inglês como o mais apropriado ao uso pelas
tropas blindadas brasileiras, em desfavor do francês Renault. O Whippet, apesar de ser mais
pesado que o Renault, era três vezes mais bem armado e duas vezes mais veloz.
Por fim, sugeria, diante do material adquirido à França, a organização de uma
companhia de instrução autônoma, com um aquartelamento especialmente construído para
atender às suas necessidades e com subordinação imediata a um general. Apesar do trabalho
em cooperação com a infantaria, o comando e a administração da companhia deveriam ser
totalmente independentes dessa arma, como a experiência de combate na França havia
demonstrado ser a melhor solução, devido à complexidade dos serviços e à necessidade da
instrução das unidades blindadas. De certo modo, a sugestão de José Pessoa já havia sido
atendida no mesmo aviso ministerial que o nomeou comandante da Companhia de Carros de
Assalto. Nele estava previsto que, sob o ponto de vista da instrução, a Companhia estava
diretamente subordinada ao chefe do Estado-Maior do Exército e constituía-se em uma tropa
de instrução da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais. Mais tarde, no Decreto nº 15.235, de
31 de dezembro de 1921, que organizou o Exército em tempo de paz, a colocou na condição
de tropa especial, com comando e administração autônomas.
Os Tanks na Guerra Europeia foi prefaciado pelo general Gamelin, chefe da Missão
Militar Francesa. Diante da preferência declarada de Pessoa pelo carro blindado inglês e dos
apontamentos feitos na obra sobre as limitações de emprego do carro Renault, tratou o general
de defender o emprego do carro francês.
198
Gamelin concordou com José Pessoa quanto à importância dos carros de assalto como
instrumento principal da vitória aliada na Primeira Guerra Mundial. E destacou que ele
mesmo havia participado do primeiro projeto de um carro de assalto francês, em 1915.
Entretanto, ressaltou que os blindados estavam apenas começando a sua trajetória e que os
modelos existentes à época seriam, ainda, aperfeiçoados. Além disso, muitos outros carros
especializados ainda iriam surgir, com armamentos mais potentes, com couraças melhores e
mais velocidade para acompanhar a cavalaria. Curiosamente, essas foram algumas limitações
apontadas pelo autor em relação ao carro Renault.
O general francês previniu os leitores quanto às conclusões equivocadas que uma
leitura desatenta da comparação entre os carros Whippet e Renault, feita por José Pessoa,
poderia induzir. Toda a argumentação de Gamelin se desenvolveu a partir das características
do carro inglês, que, segundo Pessoa, o tornavam um blindado melhor que o carro francês:
maior velocidade, apesar da fraca couraça; mais apto a acompanhar as tropas de cavalaria;
armamento mais potente; maior potência de motor; e maior facilidade para a transposição de
largos obstáculos.
Primeiramente, Gamelin apontou que não havia como comparar o carro inglês, com
suas 18 toneladas, com o francês, de 6 toneladas, uma vez que eles se destinaram a propósitos
diferentes no campo de batalha. A melhor prova disso era o fato de os próprios ingleses, além
dos norte-americanos e belgas, terem comprados o Renault, enquanto o próprio Exército
francês tinha adquirido o Whippet. Ou seja, todos os exércitos do mundo estavam interessados
em mobiliarem-se com carros leves e pesados. Argumentou, ainda, que, para acompanhar a
infantaria, as questões relativas à proteção (uma blindagem mais espessa) e à visibilidade
(menor tamanho), características do Renault, eram mais importantes que o poder de fogo e a
velocidade. Para ele, uma velocidade de 7 a 8 km/h era mais do que suficiente para
acompanhar a manobra de uma tropa de infantaria, que marchava a pé. Utilizou, ainda, o
exemplo de tropas em deslocamento nas planuras da região sul do Brasil, onde um carro de
menor tamanho ficaria menos visível à artilharia inimiga. Além disso, o armamento do
Renault era mais do que apropriado ao ataque a posições de metralhadoras, não sendo
necessária uma potência de fogo maior do que um canhão de 37 mm. Assim sendo, para as
operações de apoio aproximado à infantaria, a blindagem seria primordial, em detrimento da
velocidade. As provas disso, eram o fato de as principais potências da Europa Central e
Oriental terem adquirido o Renault e o sucesso que o carro obteve em operações na Síria e no
Marrocos. Além do mais, a velocidade necessária ao acompanhamento das operações de
Cavalaria não era uma questão que se apresentava para o Brasil. Cabe lembrar, que, desde o
199
início de sua concepção, a Companhia de Carros de Assalto foi criada como uma tropa de
apoio à infantaria, e não como uma tropa de cavalaria.
Outro ponto defendido pelo general francês diz respeito às limitações de emprego dos
carros de assalto diante da diversidade dos tipos de terrenos brasileiros. Essa limitação se
dava, principalmente, pela necessidade de se atravessar riachos e rios que em tempos de
chuva se transformavam em torrentosos caudais. As poucas pontes existentes nesses locais
eram pequenas e de pouca capacidade, o que exigia uma transposição feita em pontes
flutuantes ou em pontes de pilotis221. Essas pontes não suportavam um peso maior do que 8
toneladas, no caso das pontes flutuantes, e 11 toneladas, nas pontes de pilotis. Sendo assim, a
capacidade dessas estruturas era um limitador ao emprego de carros pesados e, à época,
somente o Renault atendia a essa condição.
Gamelin encerrou o seu texto enfatizando que essas teriam sido as condições impostas
pelo governo brasileiro, no momento da aquisição dos carros de assalto, o que o levou a optar
pelo Renault. Era bom que os militares que lessem a obra estivessem cientes disso. Felicitou
José Pessoa pelo resultado dos estudos realizados e pelo esforço realizado, o que distinguia o
seu trabalho. Porém, não acreditava que todas as opiniões lançadas no livro viessem a se
tornar doutrina para o Estado-Maior do Exército. O general francês não estava de todo errado,
uma vez que, à época, toda a instrução e a doutrina criada para o Exército brasileiro passava
pelas mãos da Missão Militar Francesa, da qual era o chefe e principal representante
comercial das fábricas de artigos militares franceses.
Um ponto importante que cabe ressaltar, é que, ao publicar a obra, Pessoa não pensava
no seu valor apenas para o meio militar. Como ele relata, o livro, ao sair do prelo, “esclareceu
a opinião pública brasileira sobre o valor dos carros de combate e sua missão na guerra
moderna” (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 33). Alguns jornais brasileiros se
manifestaram sobre o valor da obra, assim como o Estado-Maior do Exército, que também
emitiu um parecer sobre o livro.
O jornal paraibano A União222, que se constituía no órgão oficial do governo daquele
estado, em sua edição do dia 29 de junho de 1921, publicou um extenso texto a respeito do
livro de José Pessoa. Na verdade, o artigo, escrito pelo editor-chefe do jornal, Carlos
221
Na engenharia militar, as pontes sobre pilotis são pontes construídas provisoriamente, cuja estrutura é lançada
sobre pilares de madeira ou outro material de circunstância, como colunas de ferro ou trilhos de trem, por
exemplo.
222
O jornal A União foi fundado em 1893, pelo presidente da Província da Paraíba, Álvaro Machado. Desde a sua
fundação, tornou-se um órgão oficial do Partido Republicano paraibano, agremiação fundada pelo próprio
Álvaro Machado. Desde aquela época tem sido um jornal estatal paraibano, constituindo-se no único jornal
oficial ainda existente no Brasil. Interessante notar, ainda, que o Partido Republicano da Paraíba foi durante anos
o abrigo político da família Pessoa e dos políticos a ela ligados. Cf.: Site do Diário Oficial do Estado da Paraíba.
200
Fernandes, parecia muito mais uma resenha do livro do que um texto jornalístico. Fernandes
apresentou o livro como uma literatura necessária à “nossa escassíssima literatura militar”
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 34). Também não descuidou de lembrar as origens
paraibanas de Pessoa, um bravo militar, que “vencendo os próprios laços inquebrantáveis de
um desvelado carinho materno, esteve entre os heróis que guarneceram o front contra os
assaltos e investidas das cruentas hordas dos Impérios Centrais” (ALBUQUERQUE, 1953,
Pasta II, p. 34). O autor do artigo minimizou, ainda, as palavras de Gamelin sobre o livro. Não
as via como uma crítica. Pelo contrário, considerou que elas “imprimem um cunho
relevantíssimo à competência do capitão Pessoa num dos aspectos mais graves do atual
armamento das nações...” (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 34).
Jornais de grande circulação do Rio de Janeiro e de São Paulo, também se
manifestaram a respeito do livro. O Jornal do Brasil, de 26 de agosto de 1921, lembrou a
passagem do autor pelas fileiras do Exército francês, bem como a incumbência que tivera de
receber os primeiros carros Renault do Exército brasileiro. Destacou que o livro, “escrito com
singeleza e proficiência técnica, merece figurar na estante de todos os militares e merece ser
divulgado entre os nossos dirigentes”223. O Paiz deu destaque à obra na seção dedicada à
publicação de livros novos. O jornal ressaltou a escassez de publicações de natureza militar no
Brasil e o desaparecimento dos poucos trabalhos produzidos. Sendo assim, considerou ser do
maior interesse o registro do “aparecimento de um trabalho sobre assuntos militares e escrito
por um patrício”224. Destacou, ainda, que a obra tinha “um valor incontestável de utilidade
pública”225 e que, apesar de não precisar de recomendações, possuía um prefácio escrito pelo
general Gamelin. Já a edição do dia 8 de maio de 1922, do Correio Paulistano, lembrou a
passagem de José Pessoa, “um dos mais brilhantes e prestigiados oficiais do nosso
Exército”226, pela capital paulista, quando comandou a Companhia de Caçadores da
Faculdade de Direito. Sobre o livro, ressaltou a forte impressão deixada pelo autor, que
conseguiu, a par do seu conhecimento científico, “vulgarizar os conhecimentos gerais sobre
uma das mais modernas criações: o carro de assalto automóvel”.227
Em um artigo publicado na Revista da Semana do dia 3 de setembro de 1921, no Rio
de Janeiro, o capitão Genserico de Vasconcellos, instrutor da Escola de Estado-Maior do
Exército, ressaltou a notável atividade intelectual do Exército, que “constando a sua
223
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 26 ago. 1921, p. 5.
224
O Paiz, Rio de Janeiro, 22 set. 1921, p. 7.
225
Ibidem.
226
Correio Paulistano, Rio de Janeiro, 8 maio 1922, p. 4.
227
Ibidem.
201
oficialidade de uns três milhares, mantem quatro revistas técnicas e profissionais, e raro é o
mês em que se não registra o aparecimento de um novo livro”. 228 Logo após ter destacado a
intelectualidade da oficialidade, apresentou a obra de José Pessoa, um “jovem oficial da arma
de Cavalaria”229, cujo livro justificou, “de modo brilhante, a sua escolha para comandar a
primeira companhia de tanks que se vai incorporar ao organismo do nosso Exército”230.
Vasconcellos também destacou o prefácio de Gamelin. Porém, como as outras publicações,
minimizou as críticas feitas pelo general ao livro.
O Estado-Maior do Exército do Exército brasileiro (EME) também emitiu um parecer
técnico-militar, datado de 13 de fevereiro de 1922, sobre Os Tanks na Guerra Europeia. José
Pessoa faz menção a esse relatório na autobiografia que pretendia publicar. Entretanto, não
discorre sobre o parecer, limitando-se a apresentar somente o último parágrafo do relatório:
“Nessas circunstâncias, é certo o valor da meritória obra do capitão José Pessoa Cavalcanti de
Albuquerque, cuja utilidade em relação ao nosso Exército não se pode negar”.231 Certamente,
porque no longo texto produzido por aquele órgão do Exército, há uma evidente discordância
de opiniões. O EME, apesar de ter atestado a valiosa contribuição dada por Pessoa sobre os
carros de assalto, ratificou praticamente todos os pontos de vista apresentados por Gamelin no
prefácio do livro. Em uma cópia do documento produzido pela 3ª Seção232 do Estado-Maior,
endereçado ao ministro da Guerra, tratou José Pessoa de assinalar à lápis os principais pontos
discordantes das suas ideias. O EME destacou que a escolha dos carros franceses pelo
Exército não se tratou de uma pura e simples escolha de um modelo adaptável às exigências
da Instituição. Se fosse assim, naturalmente o caminho a seguir seria outro. Porém, à época, o
Exército contentava-se exclusivamente com “os carros de pequena tonelagem, destinados ao
mister especial do acompanhamento da Infantaria, acidental e concomitantemente embora,
desempenhem o papel de carros de ruptura ou preparação”.233
O relatório destacou, também, que fora a guerra de trincheiras que fizera surgir os
carros de assalto como armas de ruptura, capazes de abrir brechas em obstáculos e quebrar a
resistência das defesas inimigas. Assim como fez surgir, também, o carro de assalto ligeiro,
destinado ao apoio das tropas de infantaria nas operações ofensivas. Entretanto, o relatório
destaca que a guerra de trincheiras não condizia com a realidade do continente sul-americano,
que exigiria carros pesados e velozes. Não era essa a realidade de nações ainda incipientes
228
Revista da Semana, Rio de Janeiro, 3 set. 1921, p. 18.
229
Ibidem.
230
Ibidem.
231
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1921.08.22.
232
Seção responsável pelo planejamento e pela coordenação das operações militares.
233
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1921.08.22.
202
234
Ibidem.
235
Ibidem.
203
Antes de regressar da França para o Brasil, José Pessoa foi nomeado para a sua última
comissão na Europa, em junho de 1920. Por ordem do ministro da Guerra, se apresentou no
porto da cidade de Antuérpia, na Bélgica, para fazer parte da comitiva que acompanhou a
família real belga em visita ao Brasil. O entendimento das razões que levaram o rei Alberto I
e sua família partirem em viagem e permanecerem em território brasileiro por mais de um
mês está intimamente ligado à eleição de Epitácio Pessoa para a presidência do Brasil em
1919, após a morte prematura de Rodrigues Alves.
Com o final da guerra, as grandes potências vencedoras trataram de reunir-se em Paris
para discutirem os termos da paz europeia. Com a presença de 70 delegados, representantes
dos 27 países vitoriosos na Primeira Guerra Mundial, dentre eles o Brasil, teve início em 18
de janeiro de 1919, a Conferência de Paz de Paris.
O final do primeiro grande conflito mundial coincidiu com o final do governo de
Venceslau Braz. O recém eleito presidente para o quadriênio 1919-1922, Rodrigues Alves,
encontrando-se em debilitado estado de saúde, não tomou posse, assumindo o cargo o vice-
presidente Delfim Moreira. Como aponta Vinhosa (2015, p. 179-180), o curto período em que
Delfim Moreira esteve à frente do governo brasileiro transformou-se em um verdadeiro caos
administrativo, devido à sua completa falta de autoridade e a uma doença que afetou as suas
faculdades mentais. Na verdade, como relata o autor, o vice-presidente não teve a
competência e o poder necessários para substituir as pessoas já indicadas por Rodrigues Alves
e seus familiares, para comporem as pastas ministeriais do governo. Delfim Moreira era uma
mera figura decorativa no Catete. Quem governava o País, de fato, era o próprio presidente
eleito, mesmo estando enfermo em cima de uma cama.
236
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1921.08.22.
204
O Ministério das Relações Exteriores, que tivera à frente Nilo Peçanha, cujo objetivo
precípuo foi alinhar o Brasil às potências aliadas contra a Alemanha, passou a ser comandado
por Domício da Gama, que desempenhava a função de embaixador brasileiro em Washington,
desde 1910. Mesmo tendo desempenhado a função de ministro no curto período do governo
de Delfim Moreira, de novembro de 1918 a julho de 1919, Gama foi o grande responsável por
articular a participação brasileira na Conferência de Paris. Vinhosa (2015, p. 182) destaca que,
logo após assumir o Itamaraty, o novo ministro teve diante de si três problemas internacionais
para resolver de imediato: a participação do Brasil nas conferências preliminares da paz, nas
quais se assentariam as bases do Tratado de Versalhes; o número de delegados que caberia ao
Brasil na Conferência de Paris; e a inclusão brasileira no primeiro conselho executivo da Liga
das Nações.
O autor lembra, ainda, que o principal interesse do Brasil ao entrar na guerra era a sua
participação na Conferência de Paz, com o propósito de conquistar um lugar ao lado das
grandes potências na Liga das Nações. Além disso, havia os interesses materiais que tinha a
defender, como os navios alemães apresados em portos brasileiros e o dinheiro do café
comprado pela Alemanha. A participação brasileira enfrentou forte resistência da França e da
Inglaterra, que não concordavam com a atuação de uma delegação do Brasil nas conferências
preliminares. Esses países alegavam que, devido à pouca colaboração brasileira no conflito,
apenas uma participação limitada na conferência plenária deveria ser permitida.
Coube a Domício da Gama a difícil tarefa de enfrentar a resistência dos representantes
francês e inglês, Clemenceau e Lloyd George. Graças ao seu prestígio com os homens da
administração norte-americana, adquirido nos anos que esteve à frente da embaixada
brasileira em Washington, o que garantiu o apoio do presidente dos EUA, Woodrow Wilson,
e seus assessores, o Brasil conseguiu um lugar nas negociações de paz e a sua inclusão no
Conselho da Liga das Nações, sendo tratado em igualdade de condições com a Sérvia e a
Bélgica, por exemplo, nações que foram grandemente sacrificadas no conflito. Entretanto,
todo o esforço despendido por Gama não garantiu a participação nas conferências
preliminares. (VINHOSA, 2015, p. 183)
Além da celeuma das discussões em torno da participação brasileira na Conferência de
Paz, outra se estabeleceu quando foi necessário escolher quem seria o chefe da delegação que
representaria o Brasil. A imprensa nacional cogitava o nome do próprio Domício da Gama.
Entretanto, Rodrigues Alves externou a intenção de designar Rui Barbosa para a missão. Rui
havia participado intensamente da campanha pró aliados, como presidente da Liga Brasileira
pelos Aliados, e gozava da simpatia popular, devido à sua participação bastante elogiada na
205
parlamento brasileiro contra a ofensiva alemã em território belga. O soberano destacou, ainda,
a amizade inestimável que unia os dois países e concluiu a sua fala desejando sucesso e glória
para o governo de Epitácio.
O discurso de Epitácio Pessoa, em resposta à fala do rei Alberto, ressaltou o papel
proeminente das instituições liberais belgas, que sempre serviram de modelo ao Brasil. O
presidente recém eleito não esqueceu de destacar o estreitamento das relações comerciais
entre os dois países e os investimentos belgas que seriam, a partir daquele momento,
direcionados ao Brasil. Epitácio explicou, ainda, que a estreita solidariedade e a identificação
moral existente entre as duas nações foram as principais razões do Brasil ter se manifestado
contra a quebra da neutralidade belga pela Alemanha, em 1914. (FAGUNDES, 2007, p. 27)
No terceiro dia da visita, Epitácio recebeu uma comitiva de industriais belgas na sede
da chancelaria brasileira. Um almoço em nome do presidente eleito foi oferecido no Cercle
Noble, o mais importante centro social aristocrático de Bruxelas, tendo sido considerado um
evento que retribuiu à altura o banquete oferecido pelos reis no Palácio Real. (FAGUNDES,
2007, p. 28)
Fagundes (2007, p. 29) ressalta que a visita de Epitácio à Bélgica foi considerada pela
legação brasileira naquele país a melhor propaganda possível para a nação brasileira. Desde o
início, era imprescindível que a exposição da imagem do Brasil em um círculo social
considerado extremamente civilizado, cujos soberanos eram tidos como os mais populares no
momento, fosse considerada um sucesso. Dessa maneira, o comportamento da comitiva
brasileira foi condigno com o esperado pela corte: civilizado, culto e formal. Some-se a isso, a
intensa repercussão que a visita teve na imprensa belga.
Fagundes (2007, p. 49-50) aponta que a articulação para que os soberanos belgas
visitassem o Brasil começou antes mesmo da passagem de Epitácio pelos países europeus, em
1920. Em dezembro de 1919, o chefe da legação brasileira em Bruxelas, Barros Moreira,
informou ao ministro das Relações Exteriores, Azevedo Marques, por meio de um telegrama,
o desejo do rei Alberto I e da rainha Elizabeth de visitarem o Brasil, o que só não ocorreu
naquela ocasião porque os soberanos encontravam-se em visita oficial aos Estados Unidos.
Entretanto, Alberto I deixou claro que aceitaria de bom grado um convite oficial do governo
brasileiro e que viria ao Brasil assim que as circunstâncias permitissem. Para ter a certeza da
intenção do rei, Barros Moreira passou a articular com o primeiro-ministro belga, Léon
Delacroix, a visita do soberano às terras brasileiras. Após a sinalização positiva do rei
Alberto, o convite oficial do governo brasileiro então foi feito, em abril de 1920, sendo
prontamente aceito pelo governo belga.
207
A autora destaca, ainda, que a possível viagem da família real belga ao território
brasileiro foi tratada de maneira confidencial pelos dois governos, para que os demais países
da América do Sul não se aproveitassem da oportunidade, o que tiraria o caráter de deferência
especial feita pelo governo belga ao Brasil. A primeira visita de um monarca europeu a uma
nação sul-americana certamente daria um significado especial ao evento, colocando o País em
uma posição de prestígio na América Latina. (FAGUNDES, 2007, p. 51)
Assim que o governo belga confirmou a visita da família real, a imprensa da Capital
Federal passou a noticiar os preparativos feitos para receber os soberanos em território
nacional.
A data natalícia do rei Alberto I foi lembrada pelos jornais O Paiz e Jornal do Brasil.
Enquanto o primeiro destacou a personalidade do soberano, graças à qual “conseguiu reunir o
apreço de todo o mundo e uma admiração sem restrições”237, o segundo lembrou da coragem
e do abnegado patriotismo do rei no comando das tropas belgas durante a Primeira Guerra
Mundial, o que fez a “ilustre figura do rei-soldado”238 tornar-se “uma das mais admiradas e
respeitadas entre as quais se distinguiram no correr da grande guerra”239. Para Fagundes
(2007, p. 53), o destaque dado pelos periódicos cariocas à atuação de Alberto I na primeira
grande guerra foi responsável por um processo de heroificação pelo qual passou a figura do
rei. Sendo assim, segundo a autora, é compreensível que os jornais da Capital Federal
constantemente se refiram a ele como rei-herói ou rei-soldado.
O Correio da Manhã tratou a visita de Alberto I como “o acontecimento do ano”240. A
figura lendária do rei certamente iria “influir profundamente sobre o imaginário do carioca,
entusiasta, curioso e acolhedor”241. O jornal considerou, ainda, que era preciso que o Rio de
Janeiro se preparasse e se enfeitasse, “de modo a contentar a faceirice de seus filhos”242.
Entretanto, atentou para o cuidado que se deveria ter com os preparativos da cidade, pois, o “o
Rio é como certas mulheres de muita beleza e muita graça natural, que não sabe vestir-se com
elegância. Exageram tudo e são de um mau gosto deplorável”243.
A edição de 30 de agosto de 1920 de O Paiz publicou uma nota do Palácio Real de
Bruxelas, que exaltava a “antiga e sincera” amizade do Brasil com a Bélgica. O comunicado
apontava que a viagem da família real belga ao território brasileiro aconteceria em retribuição
237
O Paiz, Rio de Janeiro, 8 abr. 1920, p. 3.
238
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 8 abr. 1920, p. 6.
239
Ibidem.
240
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 12 jun 1920, p. 2.
241
Ibidem.
242
Ibidem.
243
Ibidem.
208
244
O Paiz, Rio de Janeiro, 30 ago. 1920, p. 1.
245
A Noite, Rio de Janeiro, 10 ago. 1920, p. 1.
246
O Paiz, Rio de Janeiro, 31 ago. 1920, p. 1.
209
247
O Paiz, Rio de Janeiro, 14 ago. 1920, p. 2.
248
O Paiz, Rio de Janeiro, 19 ago. 1920, p. 2.
249
Ibidem.
250
O Paiz, Rio de Janeiro, 28 jun. 1920, p. 1
251
Diário do Congresso Nacional, 20 maio 1920, p. 311.
252
A Noite, 12 jun. 1920, p. 3.
253
Ibidem.
254
Ibidem.
255
Diário do Congresso Nacional, 26 jun. 1920, p. 836.
210
para as despesas prováveis e, que, se fosse excedida essa importância, este deveria pedir “ao
Congresso um crédito extraordinário”256. E, ironizando a “bonita homenagem”257 que
pretendia o governo fazer a “real e augusta família a que se referia o projeto” 258, defendia que
“o Congresso não pode, justamente para homenagear um rei constitucional, faltar aos seus
deveres constitucionais, [...] incorrendo na responsabilidade de dar ao Poder Executivo uma
autorização sem limites”259. Apesar dos veementes protestos de Lacerda, o projeto do crédito
ilimitado foi aprovado pela maioria da Câmara dos Deputados e encaminhado ao Senado.
Também no Senado a questão foi alvo de críticas. Conforme noticiou O Paiz, em sua
edição de 17 de junho de 1920, a Comissão de Finanças do Senado havia se reunido dois dias
antes para discutir o projeto aprovado na Câmara. Dos oito senadores presentes à seção260,
Soares dos Santos manifestou-se contrário à proposta do Executivo. O senador, ao especificar
o motivo de seu voto, disse que o natural era ter o governo brasileiro preparado um programa
dos festejos para a recepção dos reis belgas, no qual deveria estar compreendido um
orçamento restrito para as despesas, correspondente às exigências financeiras pelas quais a
Nação passava. Para ele, a verba concedida para o crédito deveria ser a “resultante de uma
combinação entre os dois poderes constituídos [Executivo e Legislativo], harmônicos e
independentes”. Ressaltou que as duas casas do Congresso não deveriam se “comprometer na
execução de um programa que o momento atual não comporte pelas dificuldades nacionais” e
criticou a posição do Congresso que, “facilitando a abertura de um certo crédito ilimitado [...]
alienou de si uma faculdade de importância, como órgão fiscalizador”.261
A aprovação da proposta do governo refletiu negativamente, ainda, em outros órgãos
da imprensa carioca, como no jornal Correio da Manhã, que, em sua edição de 27 de junho de
1920, lembrou que a administração nacional deveria passar por normas rigorosas de conduta e
questionou como “pôde o Congresso entregar ao governo executivo a faculdade de gastar sem
medida?”262.
Apesar do voto contrário de Soares dos Santos, o projeto do crédito ilimitado,
proposto pelo presidente Epitácio, também foi aprovado no Senado. Dessa forma, contava o
256
Ibidem.
257
Ibidem.
258
Ibidem.
259
Ibidem.
260
De acordo com o Diário do Congresso Nacional de 16 de julho de 1920, estiveram presentes à seção da
Comissão de Finanças do Senado os senadores: Bueno de Paiva, que presidiu a seção, Alfredo Ellis, João Lyra,
José Eusebio, Soares dos Santos, Felipe Schmidt, Gonzaga Jayme, o relator do projeto, e Francisco Sá.
261
O Paiz, Rio de Janeiro, 17 jul. 1920, p. 4.
262
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 27 jun. 1920, p. 2.
211
governo brasileiro com o aval do Congresso Nacional para executar os gastos necessários com
os preparativos e recepção da família real belga no Brasil.
Sendo assim, passou o governo a tratar dos detalhes da visita, a começar pela viagem e
a hospedagem dos soberanos da Bélgica. Como aponta Fagundes (2007, p. 59), a primeira
missão ficou a cargo de Barros Moreira, representante brasileiro em Bruxelas. O ministro das
Relações Exteriores brasileiro, Azevedo Marques foi o responsável por conduzir uma grande
reforma do ambiente interno e dos jardins no Palácio Guanabara, local escolhido para
hospedar os monarcas belgas durante a sua estada no Brasil. Obras de saneamento também
foram realizadas pela prefeitura do Distrito Federal no entorno do palácio. Cabe considerar,
que essa escolha, apontada pela autora, não deve ter se dado à toa, já que o Guanabara havia
servido de residência oficial da realeza brasileira, nos últimos anos da Monarquia: a Princesa
Isabel e o Conde D’Eu.
Os preparativos da viagem de Bruxelas ao Rio de Janeiro também foram envoltos em
algumas polêmicas. Inicialmente, o navio escolhido para o transporte da família real foi o
vapor Uberaba, que seria comboiado pelo encouraçado São Paulo. A escolha da tripulação
dos navios ficou a cargo de Barros Moreira. Em telegrama enviado a Azevedo Marques, o
chefe da legação brasileira em Bruxelas sugeriu que os oficiais encarregados pela busca dos
monarcas belgas deveriam falar francês e serem “mundanos”263. Sugeriu, também, a
composição da comitiva. Uma vez que a viagem seria feita a bordo de uma embarcação
militar, deveriam acompanhar o rei Alberto e sua família: um vice-almirante, que seria o
chefe da comitiva, um oficial general ou oficial superior do Exército, um oficial intermediário
da Marinha e um oficial intermediário do Exército. Barros Moreira destacou, ainda, no
mesmo telegrama, que, caso houvesse algum embaraço por conta da prerrogativa das patentes
dos oficiais generais, ele mesmo poderia chefiar a comitiva. Caso a proposta fosse aceita,
solicitou o comissionamento para a viagem na categoria de embaixador. (FAGUNDES, 2007,
p. 60)
A proposta de Barros Moreira, somente no que diz respeito à composição da comitiva,
foi aceita. Tendo ele próprio como chefe, mas não na condição de embaixador, foram
designados para compô-la: o general Augusto Tasso Fragoso, o capitão-de-fragata Henrique
Aristides Guilhem, o capitão-de-corveta Leopoldo da Nóbrega Moreira e o capitão José
Pessoa Cavalcanti de Albuquerque. Uma grande comitiva formada por membros da corte
belga, além da família real, também acompanharia o rei Alberto I ao Brasil. Faziam parte da
263
Nesse sentido, o termo utilizado por Barros Moreira diz respeito a oficiais que deveriam ter uma experiência
pessoal ou de carreira em outros países do mundo.
212
264
O Paiz, Rio de Janeiro, 15 maio 1920, p. 4.
265
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 15 maio 1920, p. 4.
266
Ibidem.
267
Ibidem.
213
Paulo no transporte da família real, uma vez que as reformas desta embarcação demorariam
apenas umas poucas semanas.268
Silva (2016, s.p.) lembra que em 1920 o São Paulo tinha acabado de retornar dos
Estados Unidos, onde passou por modernização, em um estaleiro daquele país. O navio era
um dos dois encouraçados da categoria Dreadnought que haviam sido adquiridos da
Inglaterra, ao final da primeira década do Século XX, juntamente com toda uma nova
esquadra. A aquisição elevou o Brasil à categoria de potência naval no cenário sul-americano.
O autor lembra que, ainda que estivesse desatualizado, diante da evolução que as belonaves
de guerra sofreram durante a Primeira Guerra Mundial, o São Paulo, graças aos 150 metros de
comprimento e capacidade de abrigar cerca de 1.000 tripulantes, ainda era um poderoso
símbolo para uma nação que pretendia participar ativamente do concerto internacional.
A imprensa carioca deu uma atenção especial aos preparativos do São Paulo para a
viagem à Bélgica. Apesar da ampla reforma por que passou o navio, os aposentos que foram
destinados aos monarcas belgas seguiram vazios, já que a aquisição do mobiliário que os
comporiam seria adquirido na Inglaterra, na tradicional casa de móveis Waring & Gillow.
Apesar da simplicidade dos aposentos, tudo tinha um “aspecto agradável”. Tudo havia sido
pensado para o conforto da família real. Um salão de jantar “sombrio” e com um “elegante
conforto” foi providenciado para a realeza. Outro amplo refeitório seria utilizado pelas
comitivas. Uma cozinha e uma padaria foram montadas e a dispensa foi fartamente abastecida
com produtos nacionais. Houve, ainda, o cuidado para que, do passadiço superior do navio,
fosse possível ao rei e à rainha vislumbrarem a Baía da Guanabara, quando da chegada da
embarcação ao Rio.269
268
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 18 maio 1920, p. 3.
269
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 27 jul. 1920, p. 3; O Paiz, 27 jul. 1920, p. 4.
214
270
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 30 jul. 1920, p. 3.
271
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 27 jul. 1920, p. 3.
215
música de câmara, preferencialmente nacional.272 Tudo foi pensado para a alegria e satisfação
da família real durante a viagem.
O Rio de Janeiro também foi preparado para receber Alberto I, cuja imagem estava
associada à modernidade e aos novos tempos. Um rei entusiasta do progresso.
Segundo Fagundes (2007, p. 65), houve uma grande preocupação das autoridades
brasileiras em mostrar um Brasil civilizado, o que ficou bastante perceptível pela organização
da Capital Federal para a recepção. Para a autora, “a cidade do Rio de Janeiro reformada,
iluminada, saneada e modernizada, figurava como símbolo de que o Brasil havia finalmente
ingressado na era do progresso e da civilização”.
O grande responsável pelos preparativos da cidade para receber a realeza belga foi o
prefeito Carlos Sampaio, que tomou posse do governo da cidade do Rio de Janeiro após a
curtíssima gestão do advogado Milcíades Sá Freire. Sá Freire havia sido nomeado por
Epitácio Pessoa em julho de 1919, em substituição a Paulo de Frontin, que administrou a
cidade de janeiro a julho de 1919. Nesse curtíssimo período, Frontin iniciou uma política
pública que subsistiu nos governos posteriores: construir uma cidade moderna, vitrine de uma
nação voltada ao progresso. Na sua gestão, planejou a derrubada do Morro do Castelo, um
projeto que seria concretizado somente duas gestões à frente, e priorizou a urbanização da
zona sul da cidade, com a abertura de ruas por toda a costa. (FAGUNDES, 2007, p. 66-67)
Sá Freire recebeu a prefeitura do Rio de Janeiro com as finanças no vermelho, graças
às políticas de gastos sem controle implementadas pelos prefeitos anteriores. Ao assumir,
colocou como meta do seu governo reequilibrar as finanças públicas, o que provocou uma
série de duras críticas, tanto da população como da imprensa carioca. Afinal de contas, a
cidade deveria se preparar para dois grandes eventos: a recepção dos reis belgas, em 1920, e
as festividades do centenário da Independência, em 1922. Sendo assim, com menos de um ano
de governo, Sá Freire pediu demissão do cargo, em junho de 1920, assumindo Carlos
Sampaio. (FAGUNDES, 2007, p. 66-69)
Diante da precariedade financeira da prefeitura, Sampaio se viu diante do dilema de
renunciar ao cargo de prefeito ou assumir as suas funções e tratar de preparar a cidade para a
recepção de Alberto I, o que fez tomando um empréstimo junto ao governo federal para
concluir as obras iniciadas nas gestões anteriores. Além disso, ainda seria necessário executar
a limpeza e a reparação de algumas ruas do município, principalmente as da orla, como as
avenidas Atlântica e Niemeyer, esta uma obra não acabada da gestão de Paulo de Frontin. A
272
A Noite, Rio de Janeiro, 17 jul. 1920, p. 3.
216
energia com que o novo prefeito impulsionou os serviços públicos da cidade foi aclamada
pela imprensa carioca. (FAGUNDES, 2007, p. 70-71)
Por ocasião da sua nomeação, o jornal O Paiz destacou a longa experiência de
Sampaio como engenheiro e sua trajetória profissional em grandes empresas, o que lhe dava
“dotes completos de organizador e administrador”273, além de conhecer “a fundo o que
possuem, em matéria de serviços públicos, as mais adiantadas capitais do mundo”274. O
periódico também lembrou ser o novo prefeito “um sincero apaixonado das incomparáveis
belezas do Rio de Janeiro, cuja evolução tem acompanhado cuidadosamente”275.
As obras realizadas por Sampaio se concentraram, principalmente, na zona sul da
cidade, com a construção do bairro da Urca, a urbanização da Lagoa Rodrigo de Freitas e a
construção da Avenida Epitácio Pessoa, transformando a área em um local que seria, em
pouco tempo, tomado pela elite da sociedade carioca. No centro da cidade, os lampiões da
Avenida Rio Branco formam substituídos por uma moderna iluminação elétrica e a cidade
recebeu uma pintura e lavagem das fachadas dos prédios e das ruas principais. Entretanto, a
sua gestão ficou marcada pela demolição do Morro do Castelo, sob a justificativa de que a
obra permitiria a melhoria do aspecto estético do centro da cidade, já com vistas às
comemorações do centenário da Independência. O fato é que a cidade não estava sendo
preparada somente para o rei Alberto I ver, e, sim, no local para onde todos deveriam ir para
poder vislumbrar o famoso rei dos belgas. Nos dias que antecederam a chegada da realeza ao
Rio de Janeiro, os principais jornais da cidade noticiavam o grande número de visitantes que
chegavam à cidade para as festividades. Paulistas, mineiros, sulistas e moradores do interior
do estado do Rio de Janeiro lotavam os hotéis e pensões cariocas e congestionavam o
movimento dos trens na Central do Brasil. (FAGUNDES, 2007, p. 74-78)
O reconhecimento de que o esforço despendido por Carlos Sampaio para embelezar a
cidade e torná-la mais agradável aos olhos da monarquia era necessário não foi unânime. As
principais críticas feitas às obras, se bem que feitas por uma minoria, apontavam os gastos
desnecessários feitos na reforma do Rio de Janeiro. A edição do Correio da Manhã de 20 de
junho destacava que o projeto de remodelação da cidade posto em prática serviria, sobretudo,
para aumentar as grandes fortunas dos “tubarões dos altos negócios, engenheiros, arquitetos,
fornecedores, banqueiros, prestamistas e todos quantos sabem aproveitar as grandes
273
O Paiz, Rio de Janeiro, 8 jun. 1920, p. 3.
274
Ibidem.
275
Ibidem.
217
ocasiões”276. O que causava admiração ao colunista era que, enquanto todos estavam “a ver, a
assistir à organização do grande assalto aos dinheiros públicos de uma nação empobrecida [...]
o governo não perceba nada do que se passa, e esteja, ele próprio, a acoroçoar as ambições em
ebulição”277. E ressaltava que, se a cidade pudesse despertar algum interesse no rei Alberto, o
que era de se duvidar, seria em “lhe facultarmos o conhecimento exato do que somos, sem
exageros, nem embelezamentos de fantasmagoria, conseguidos a última hora com dinheiro
que não temos, e que havemos de pagar a juros de judeus...”278. Fagundes (2007, p. 73)
lembra que não só do governo federal a prefeitura do Rio de Janeiro tomou empréstimos, mas,
também, do setor privado, o que garantiu a construção da Urca.
Tão importante quanto organização da viagem dos soberanos belgas e a remodelação
da Capital Federal foi a elaboração do programa a ser seguido pelo rei Alberto e sua família
no Brasil. Para isso, foi montada uma comissão sob a chefia do ministro Azevedo Marques,
que se encarregou de pensar as recepções, os passeios e as comemorações que seriam
oferecidas. O grande desafio foi se pensar uma série de atividades originais, que fugisse às
expectativas do rei e da rainha. Alberto I era tido como um homem de gostos simples e que
gostava de escapar dos festejos oficiais. Ciente dos hábitos do rei, Epitácio Pessoa
recomendou que se montasse um roteiro que privilegiasse paradas militares, passeios nos
pontos turísticos do Rio de Janeiro, espetáculos culturais, excursões ao campo e viagens a São
Paulo e Minas Gerais, dentre outras atividades. (FAGUNDES, 2007, p. 82-83)
O objetivo era deixar os reis à vontade e fatigá-los o mínimo possível. Encontros com
a colônia belga e visitas a hospitais e institutos médicos foram lembrados por Barros Moreira
para serem incluídos no roteiro. Ainda que os programas de São Paulo e Minas Gerias
tivesses sido feitos em separado, alguns pontos em comum eram perceptíveis nos três roteiros
elaborados: a grande quantidade de cerimonias em estabelecimentos públicos, as visitas a
institutos de ensino e pesquisa, as paradas militares, os grandes banquetes e as visitas ao
interior dos três estados. (FAGUNDES, 2007, p. 83-84)
Segundo Fagundes (2007), outros dois pontos que causaram polêmica durante os
preparativos para a chegada dos reis foram a criação da Ordem do Cruzeiro e o
estabelecimento de um protocolo para a recepção dos soberanos.
Em relação ao primeiro ponto, a autora lembra que o grande problema era que a
Constituição de 1891 proibia as condecorações. Entretanto, Epitácio Pessoa, quando em visita
276
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 20 jun. 1920, p. 2.
277
Ibidem.
278
Ibidem.
218
279
Ao escrever a biografia do pai, Gabaglia (1951, p. 297) lembra que Epitácio, mesmo sabedor da restrição que
a Constituição lhe impunha, resolveu aceitar as comendas, por considerar que recusá-las implicaria em um ato
diplomático indelicado com o ofertante.
219
Epitácio visitou todas as dependências do São Paulo, dedicando mais atenção àquelas que
serviriam de acomodação ao rei Alberto e à família real. 280
Após a visita, o presidente fez um discurso dirigido aos oficiais e marinheiros do
navio. Epitácio destacou a missão que a tripulação iria cumprir, “da maior importância, da
maior soberania”. Como era a primeira vez que um navio brasileiro iria buscar um chefe de
estado na Europa, pediu à tripulação que avaliasse a significância da viagem para “a expansão
do nosso comércio, das nossas indústrias, para nossa prosperidade, em suma”. Sob o ponto de
vista político e do convívio internacional, ressaltou a importância da visita de Alberto I, pois,
o rei não era “qualquer chefe de estado, e sim aquele que nos momentos mais sombrios da
história soube defender com brio e denodo a fé dos tratados e a integridade de sua pátria”.
Mas, além dos aspectos econômico e político, a missão era delicada porque a tripulação
também iria “levar a longes terras e a estranhas gentes uma impressão de nossa cultura e da
nossa educação militar [...] os tesouros da vossa cultura [...] os hábitos de boa sociedade”. Os
oficiais e marinheiros seriam um reflexo “da nossa civilização e do nosso adestramento”. O
Brasil esperava “que suas tradições sejam representadas dignamente pelo vosso patriotismo e
pelo vosso pundonor de soldados”. Após o discurso, que provocou forte comoção entre os
presentes, a visita do presidente da República foi brindada com champagne nos aposentos que
seriam destinados ao rei Alberto.281
A tripulação do São Paulo estava composta pelo comandante da embarcação, 21
oficiais, 2 oficiais de ordens do rei e da rainha, 2 oficiais médicos, 1 oficial farmacêutico, 15
oficiais de máquinas, 1 mestre, 2 contra-mestres, 18 sub-oficiais (enfermeiros, escreventes,
armeiros, carpinteiros e caldeireiros), 40 mecânicos, 400 marinheiros, 388 foguistas, 50
praças do batalhão naval e marinheiros da banda de música e marcial. Além desses militares
seguiam juntos 20 garçons contratados pela confeitaria Falcone de Petrópolis e 5 professores
de música que compunham o quinteto de cordas. O general Tasso Fragoso também seguia a
bordo. Como se pode perceber, tudo foi pensado para o maior conforto da família real.282
Antes de chegar à Bélgica, o São Paulo faria duas paradas, uma na ilha de São Vicente
ou da Madeira, para reabastecer de carvão, e outra no porto de Portsmouth, na Inglaterra, para
receber o mobiliário que seriam instalados nos aposentos dos reis belgas. Segundo José
Pessoa (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 61), Epitácio manifestou ao comandante
Gumensoro o desejo de que o São Paulo recebesse o rei Alberto e sua família no porto belga
280
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 27 jul. 1920, p. 3; O Paiz, Rio de Janeiro, 27 jul. 1920, p. 4.
281
O Paiz, Rio de Janeiro, 27 jul. 1920, p. 4
282
Ibidem.
220
de Zeebruge, que havia sido destruído durante a guerra pelos alemães e estava sendo
reconstruído. Seria um grande serviço à Bélgica se o navio ancorasse naquela localidade, pois,
assim mostraria ao mundo que o porto já estava livre à navegação. Caso não fosse possível, o
encouraçado deveria se dirigir ao porto de Antuérpia. A perícia dos marinheiros brasileiros
permitiu que, em 28 de agosto de 1920, o encouraçado brasileiro atracasse em Zeebruge, onde
receberia os soberanos belgas a bordo.
Cabe ressaltar, como aponta Fagundes (2007, p. 118), que a restrição imposta à
impressa brasileira, de acompanhar a viagem dos soberanos a bordo do São Paulo, somente
permitiu à população brasileira saber o que aconteceu na Bélgica, e como a viagem
transcorreu, após o navio aportar no Brasil, quando os repórteres brasileiros puderam
entrevistar alguns membros da tripulação. Também as narrativas memoriais de José Pessoa
permitem entender o que se passou na apresentação da comitiva brasileira aos soberanos
belgas e nos dias em que o encouraçado cruzou o Atlântico.
José Pessoa juntou-se à comitiva brasileira na Bélgica. A descrição que ele faz da
recepção no Palácio Real reforça a imagem construída de Alberto I, própria de uma
aristocracia que sempre cativou Pessoa, de um rei intelectual e moderno, atento ao que
acontecia na geopolítica mundial.
283
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 3.
284
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 2 set. 1920, p. 7
285
O Imparcial, Rio de Janeiro, 21 set. 1920, p. 5
222
Imagem 25 – Chegada dos reis belgas à estação de Zeebruge, por ocasião do embarque para o Brasil,
1 set. 1920.
O rei, seguido da rainha Elisabeth, foi recebido a bordo por uma guarda do batalhão
naval brasileiro, a qual passou em revista. A oficialidade do navio, a música de bordo e mil
marinheiros brasileiros formavam no convés em uniforma de gala. Uma salva de gala foi feita
pelas artilharias brasileira e belga. Exatamente às 14 horas o São Paulo deixou o porto, “por
entre estrondosas aclamações da multidão”.286
Os príncipes herdeiros não acompanharam os reis na viagem ao Brasil. Os príncipes
Charles e Maria José não os acompanharam por conta dos estudos. Já o príncipe Leopoldo
chegaria ao Rio de Janeiro no dia 5 de outubro, juntando-se à comitiva real na cidade de São
Paulo. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 70)
286
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 2 set. 1920, p. 7; Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 7 out. 1920, p. 7.
223
Imagem 26 – Embarque do rei Alberto I e comitiva no encouraçado São Paulo em Zeebruge, 1 set. 1920.
e assim é que deve ser”288. De hábitos simples, acordava muito cedo e caminhava durante
horas pelo convés do São Paulo, procurando inteirar-se, com a oficialidade, da posição do
navio no mar. Durante a viagem, procurou, também, inteirar-se da rotina do encouraçado.
Percorreu todos os recantos do navio, indo, inclusive, até a caldeiraria, para acompanhar a
faina dos marinheiros que a abastecia com carvão. Não dispensou, também, a prática dos
esportes que lhe foram arranjados a bordo, sendo quase sempre acompanhado pela rainha e os
demais membros da comitiva belga.289
A rainha Elisabeth, quando não estava em companhia do rei, passava as horas do dia
na sala de música, com o quinteto de cordas. Exímia violinista, reunia-se diariamente com os
músicos brasileiros para executar peças de Bach, Mendelssohn, Vivaldi e outros autores
clássicos de renome. Não desprezava, entretanto, a música regional. Em uma das noites da
viagem, em companhia do rei, subiu ao convés para apreciar a marujada tocando samba e
maxixe.290
José Pessoa nutria uma profunda admiração pelos soberanos e assim os descreveu:
288
A Razão, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 3.
289
O Imparcial, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 5; Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 3.
290
O Imparcial, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 5; Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 3.
225
Imagem 27 – Rei Alberto I e Rainha Elisabeth, 1920 (nas fotos uma dedicatória
ao capitão de corveta Leopoldo da Nóbrega Moreira, que foi ajudante-de-ordens
da rainha durante a visita ao Brasil).
Apesar de ter sido providenciado um cômodo separado para os reis realizarem as suas
refeições, os soberanos preferiram fazê-las juntamente com os membros das comitivas
brasileira e belga. Nos dias 15 e 16 de setembro, um almoço foi oferecido pelos oficiais do
São Paulo ao rei e à rainha, respectivamente. Nesses dias, tanto Alberti I como Elizabeth
fizeram as suas refeições na praça d’armas do navio, juntamente com a oficialidade do
encouraçado.291
As noites da viagem ainda foram animadas com sessões de cinema, ocasiões em que
eram exibidos filmes sobre o Brasil, e retretas da banda naval. As festas também eram uma
constante. Uma, em especial, marcou a passagem do São Paulo pela Linha do Equador, no dia
14 de setembro. Seguindo a tradição marítima, os presentes a bordo que nunca haviam
cruzado a linha equinocial deveriam ser apresentados ao “rei Netuno”, na ocasião um
marinheiro veterano travestido de deus dos mares, e serem submetidos a um batismo, em um
291
Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 4.
226
Dois dias depois, o São Paulo aportou próximo à costa africana, na ilha de São
Vicente, para recompletar o estoque de carvão. Durante a parada, os reis foram a terra e
acabaram pernoitando na ilha. Apesar da recepção que fora preparada para os soberanos
belgas, o rei preferiu fazer uma caminhada pelo campo. Com seu vigor físico, subiu encostas,
292
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 3; Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 4.
293
O Imparcial, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 5; Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 3.
227
escalou rochedos e atingiu os picos mais altos da baía da ilha. De acordo com a Gazeta de
Notícias, somente um dos ajudantes-de-ordens do rei conseguiu acompanhá-lo até o fim da
caminhada, “o capitão Pessoa, treinado nas marchas de guerra e treinado no ‘front’”. Antes da
partida, o rei e a rainha depositaram um ramo de flores nos túmulos dos tripulantes do navio
brasileiro Piauí sepultados no cemitério da ilha, mortos durante as operações de patrulha das
quais a embarcação participou em Cabo Verde, durante a Primeira Guerra Mundial.294
Um fato não noticiado pelos jornais cariocas, mas lembrado por José Pessoa, foi a
morte de um marinheiro em um acidente ocorrido a bordo, no dia 12 de setembro. O
comandante Gumensoro pretendia realizar a cerimônia de lançar o corpo ao mar à noite, após
o rei e a rainha terem se recolhido aos seus aposentos. Entretanto, Alberto I, ao saber do
ocorrido, comunicou ao comandante que, ele e a rainha pretendiam comparecer às honras
fúnebres. Às 21 horas o navio parou em alto mar e toda a guarnição formou no convés. Com a
presença dos soberanos, o monsenhor Nols conduziu o ofício religioso. O corpo do
marinheiro foi coberto com a bandeira do Brasil e lançado ao mar. Às 22 horas o São Paulo
retomou a sua marcha. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 66-67)
Às 17 horas do dia 14 de setembro, o São Paulo passou pela ilha de Fernando de
Noronha, já navegando em águas nacionais. A previsão da chegada do encouraçado à Capital
Federal era o dia 18 de setembro, o que foi motivo de contentamento entre todos a bordo. No
entanto, à meia-noite do dia 17 de setembro, um radiograma do presidente Epitácio Pessoa
chegou ao navio, pedindo a aquiescência do rei para adiar a chegada em 24 horas. O pedido,
como noticiou O Imparcial, “ecoou tristemente, prejudicando muito as distrações a bordo”.295
A solicitação de Epitácio faz todo o sentido. Nada poderia ser mais significativo para a
cidade do Rio de Janeiro do que receber a realeza no Domingo, quando toda a população
poderia voltar a sua atenção para a chegada dos soberanos. E foi isso o que aconteceu. Ao
invés de chegar no dia 18 de setembro, ao cair da noite de um Sábado, o São Paulo fundeou
as suas âncoras em frente ao píer da Praça Mauá no Domingo, dia 19 de setembro, o que
permitiu aos reis belgas desfrutar de todo o cerimonial que havia sido preparado pelas
autoridades brasileiras.
Às 13 horas do dia 19 de setembro, então, o São Paulo adentrou a Baía de Guanabara,
escoltado pelos destroieres Pará, Piauí, Paraná, Sergipe, Santa Catarina e Paraíba, da
Marinha brasileira, e hidroaviões da Escola de Aviação Naval. Foi recebido sob salvas de
tiros dos canhões das fortalezas de Santa Cruz, de São João e da Lage, ao que foram
294
Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 4.
295
O Imparcial, Rio de Janeiro, 21 set. 1920, p. 5.
228
Imagem 29 – Praça Mauá na chegada dos reis belgas ao Rio de janeiro, 19 set. 1920.
296
A Noite, Rio de Janeiro, 19 set. 1920, p. 2; Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 1.
297
Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 1.
298
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 1.
229
Antes do rei retirar-se do local, o prefeito do Rio de Janeiro, Dr. Carlos Sampaio, fez
uma longa saudação em francês ao soberano belga. Na sua fala, além de destacar as
qualidades e a simplicidade dos soberanos e a alegria que o povo brasileiro sentia em recebê-
299
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 1.
230
los, Sampaio ressaltou que esperava que a visita não se prestasse somente a uma troca de
cumprimentos entre os dois governos, mas, também, um estreitamento “das relações
comerciais, que, provocando o interesse recíproco, são sempre as que mais profundamente
aproximam os povos e os fazem amigos leais e verdadeiros”. Alberto I agradeceu as palavras
de Carlos Sampaio, e confessou estar impaciente para conhecer o Rio de Janeiro, cujos
esplendores já havia podido avaliar. Também ressaltou “o porto magnífico e tão bem
aparelhado do Rio de Janeiro”. E complementou que, do pouco que ele havia visto “já é o
bastante para me dar uma ideia das facilidades que o Brasil oferece à nossa navegação e ao
nosso comércio”. Após essas palavras, o rei Alberto retirou-se do cais em companhia do
presidente Epitácio. Antes de embarcar, juntamente com o presidente do Brasil, na carruagem
que os conduziria ao Palácio do Catete, recebeu a continência de um batalhão e a salva de
gala de uma bateria, ambos da Escola Militar, e ouviu os hinos belga e brasileiro, sob
aclamação popular.300
Laurita Pessoa Raja Gabaglia, filha de Epitácio, tinha dezenove anos de idade à época
da visita dos reis belgas. É por meio da sua narrativa a respeito dos fatos que vivenciou
naquele mês de outubro de 1920, transcrita na biografia que escreveu do pai anos mais tarde,
que é possível entender como ocorreu a passagem do rei Alberto I e da rainha Elisabeth pelo
Brasil.
O deslocamento do séquito real da Praça Mauá até o Palácio Guanabara, composto de
nove carros à Deaumont301, constituiu-se em um grande evento. Alberto I e Epitácio Pessoa
ocupavam o primeiro carro do cortejo. José Pessoa seguiu no sétimo carro, juntamente com o
general Tasso Fragoso.302 Durante todo o trajeto o cortejo, que seguiu pela avenida Rio
Branco, pelo largo da Glória, pela Praia do Flamengo e pela rua Paysandu, foi escoltado pela
Escola Militar. Tropas do Exército e da Marinha formavam em ambos os lados das avenidas e
ruas pelas quais a comitiva passou. A todo momento a população, que se aglomerava nas
calçadas e nas sacadas dos prédios, dava vivas e ovacionava os reis belgas. As bandas
militares tocavam sem cessar os hinos nacionais belga e brasileiro. No Flamengo, a massa
popular era tanta que as pessoas estavam trepadas nas árvores. Bandeiras dos dois países
enfeitavam todo o trajeto. Tanto o rei como a rainha acenavam a todo instante para o povo. O
cortejo foi recebido no Palácio da Guanabara ao som da Brabançonne, o hino nacional da
300
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 1.
301
Tipo de carruagem aberta.
302
Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 2.
231
303
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 1; O Paiz, Rio de Janeiro, 21 set. 1920, p. 3.
232
304
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 15 maio 1920, p. 4.
233
E quando aqueles soldados , tão cheios de ardor entusiástico e tão dispostos a dar a
sua vida pelo Brasil, evoluíam, garbosamente, o primeiro magistrado da República,
certamente sentiu, como nunca, a necessidade de tornar a nossa defesa nacional
bastante eficiente, para que possamos fazer o que fez a Bélgica, e sem sofrer tudo o
que ela sofreu, no dia em que, a um período de paz, suceder o reaparecimento da
guerra, que o nosso amor pela paz não consegue eliminar do ciclo fatal do
desenvolvimento histórico.306
Uma das tropas mais ovacionadas e lembradas pela imprensa foi a da Escola Militar.
Para o jornal A Razão, a “mocidade resplandecente” da instituição constituía-se no “espelho
305
O Paiz, Rio de Janeiro, 23 set. 1920, p. 3.
306
Ibidem.
234
da beleza física e da elegância moral da nossa raça, que encanta, comove e arrebata as
multidões”.307
As apresentações militares, no entanto, não estiveram restritas apenas à Capital
Federal. Em meio à visita, duas viagens foram feitas, uma a Belo Horizonte, nos dias 2 e 3 de
outubro, e outra a São Paulo e algumas cidades do interior paulista, entre 4 e 12 de outubro.
Todas as viagens foram feitas em companhia do presidente Epitácio Pessoa e sua esposa.
Nessas ocasiões, as forças policiais dos estados também foram apresentadas ao rei, com
visitas aos quarteis das forças públicas e desfiles militares.
Na capital mineira, os soberanos foram recebidos pelo presidente do estado, Artur
Bernardes, e ficaram hospedados no Palácio da Liberdade. Durante a visita a Minas Gerais, os
soberanos tiveram a oportunidade de conhecer a mina de ouro de Morro Velho. Também
receberam autoridades mineiras, visitaram escolas públicas e o quartel da força pública e
assistiram uma missa no Colégio de Santa Maria das Irmãs Dominicanas, celebrada pelo
capelão real, padre Nols. Enquanto encontravam-se o rei e a rainha em solo mineiro, o
príncipe Leopoldo chegava em território brasileiro, em Salvador, onde foi recebido pelo
cônsul belga e por autoridades baianas no dia 4 de outubro. (GABAGLIA, 1953, p. 390; O
PAIZ, 3 e 4 out. 1920)
307
A Razão, Rio de Janeiro, 23 set. 1920, p. 1.
235
No mesmo dia em que o príncipe herdeiro chegava ao Brasil, o casal real iniciou o seu
deslocamento para a capital paulista. Ao longo dos trajetos percorridos nos estados de Minas
Gerais e São Paulo, segundo Gabaglia (1953, p. 392), foram inúmeras as manifestações
preparadas para os soberanos belgas, mesmo nas mais modestas estações da linha férrea.
Ainda que não quisesse, o maquinista do trem especial que conduzia o casal real e o Sr. e Sra.
Epitácio Pessoa era obrigado a parar para que os reis atendessem à população, que os
esperava com charangas, foguetes, flores e discursos das autoridades locais. As manifestações
populares enterneciam o rei e a rainha, assim como os presentes recebidos. Mesmo os das
pessoas mais modestas. A autora relata a entrega de um presente um tanto pitoresco aos
soberanos, enviado por um funcionário da Central do Brasil: uma lata de batatas fritas,
preparada pela sua mulher.
O comboio real chegou à Estação da Luz já ao cair da noite do dia 5 de outubro. Sob
forte aclamação popular, foram recebidos pelo presidente do estado, Dr. Washington Luiz, e
por outras autoridades civis e militares. Após receber as honras protocolares pelas tropas do
Exército e da força policial paulista o cortejo real seguiu até a Chácara Carvalho, uma das
mais cômodas e luxuosas residências de São Paulo, que foi especialmente preparada para
hospedar os reis durante a sua estada na capital paulista. Cabe ressaltar que, assim como no
Rio de Janeiro, a cidade paulista preparou-se à altura para recepcionar o casal real. A exemplo
da Capital Federal, São Paulo tratou de embelezar-se. De acordo com os grandes jornais
paulistanos, as avenidas e ruas por onde passariam o cortejo real foram ricamente enfeitadas
com bandeiras nacionais e belgas. Também a população acorreu em massa às ruas, para
acompanhar a passagem de suas majestades.308
Segundo Gabaglia (1953, p. 391), nos oito dias em que permaneceram no estado de
São Paulo, Alberto I e Elisabeth percorreram os principais centros industriais e agrícolas do
estado. Seguiram uma extensa programação de atividades, sempre acompanhados do
presidente Epitácio e sua esposa. Além das atividades protocolares, cumpridas no Palácio dos
Campos Elíseos e no Tribunal do Júri de São Paulo, no primeiro dia da visita à capital, os
soberanos assistiram a uma parada e desfile da força pública, visitaram o Palácio das
Indústrias e vários pontos da cidade. Nos dias seguintes, já em companhia do príncipe
Leopoldo, que se juntou aos pais em 7 de outubro, visitaram o Instituo Butantã e a Escola
Normal, receberam membros das comunidades belga e francesa e a imprensa.309
308
Correio Paulistano, São Paulo, 6 out. 1920, p. 1; O Estado de São Paulo, São Paulo, 6 out. 1920, p. 1.
309
O Estado de São Paulo, São Paulo, 8 out. 1920, p. 3.
236
Também excursionaram pelo interior do estado de São Paulo. Durante dois dias
hospedaram-se na Fazenda Guatapará, próxima à cidade de Ribeirão Preto, uma das maiores
fazendas paulistas de café. O rei aproveitou para cavalgar, conhecer os engenhos de açúcar, as
máquinas de beneficiar café e os campos de criação de gado. Em Ribeirão Preto, assistiu a um
jogo de futebol entre o Palestra e um clube local. A rainha aproveitou seu tempo para passear
de canoa no rio Mogi-Guaçu, pescar e caçar borboletas, em companhia da sua dama de honra
e do médico e cientista brasileiro Adolfo Lutz.310
No dia 12 de outubro, antes de embarcarem de volta ao Rio de Janeiro, os reis e sua
comitiva ainda tiveram a oportunidade de conhecer a cidade de Santos. No balneário
passearam pelas praias e visitaram o porto, onde pararam nos armazéns gerais da Companhia
Belga. À noite, na Estação da Luz, embarcaram em trem especial, para retornarem à Capital
Federal.311
310
Correio Paulistano, São Paulo, 11 out. 1920, p. 1.
311
Correio Paulistano, São Paulo, 13 out. 1920, p. 1.
237
312
O Paiz, Rio de Janeiro, 22, 26 e 28 set. 1920 e 1 out. 1920.
313
O Paiz, Rio de Janeiro, 26 set. 1920, p. 3.
314
O Paiz, Rio de Janeiro, 14 e 15 out. 1920.
238
horas da manhã. Assim como na chegada, foram aclamados durante todo o trajeto. Tropas da
Marinha e do Exército, sob o comando do general Luiz Barbedo guarneciam as avenidas e
ruas por onde as comitivas passaram. No cais, várias autoridades encontravam-se à espera,
para apresentarem as suas despedidas aos reis belgas. A bordo do São Paulo, a família real
despediu-se do presidente Epitácio Pessoa e sua esposa. Às 14 horas, o encouraçado brasileiro
levantou âncora e iniciou a viagem de retorno dos reis belgas. Do navio brasileiro, o rei
Alberto I enviou uma mensagem ao presidente Epitácio, na qual expressou o quão
impressionado havia ficado com “a forma delicada da hospitalidade brasileira” e a admiração
que sentia “pela obra do passado, pela atividade do presente e pelo porvir ilimitado” da nação
brasileira. Ressaltou que “o Brasil fez timbre em dar à Bélgica provas tangíveis de sua
amizade e de seu desejo de ver desenvolver-se as relações entre os dois países”. Em nome
dele e da rainha, expressou os “desejos mais sinceros pela prosperidade do Brasil e dos seus
habitantes” e concluiu desejando ao presidente brasileiro e família votos de felicidade e
apreço.315
Imagem 34 – Reis belgas a bordo do encouraçado São Paulo, no dia do retorno à Bélgica (na
foto vêm-se o presidente Epitácio Pessoa e membros da comitiva brasileira; José Pessoa
indicado por uma seta, ao lado da Sra. Epitácio Pessoa), 16 out. 1920.
315
O Paiz, Rio de Janeiro, 17 out. 1920, p. 3.
239
José Pessoa (1953, Pasta I, p. 16-17) relata que o rei Alberto não completou a viagem
a bordo do São Paulo. Na parada do encouraçado em Lisboa o rei desembarcou e seguiu de
avião para Bruxelas. Uma crise governamental havia eclodido na Bélgica, o que requeria a
sua volta com urgência. A rainha e o príncipe Leopoldo seguiram viagem até Dunquerque,
onde chegaram no dia 6 de novembro, acompanhados do embaixador Barros Moreira. José
Pessoa e o general Tasso Fragoso também desembarcaram em Lisboa, onde permaneceram
alguns dias. Da capital portuguesa seguiram por terra até Paris e, logo depois, retornaram ao
Brasil.
Imagem 35 – José Pessoa e príncipe Leopoldo durante a viagem de regresso à Bélgica, out. 1920.
Para Gabaglia (1951, p. 393-394), para além da cortesia política, a visita de Alberto I e
Elisabeth teve, também, uma intenção pessoal, de amizade, o que a enobreceu. A simpatia
demonstrada por Epitácio Pessoa e sua família durante a visita que fizeram à Bélgica
determinou a vinda dos soberanos belgas ao Brasil. Segundo a autora, nas palavras do rei, de
todos os chefes de estado que ele já havia encontrado, Epitácio teria sido o que mais lhe havia
impressionado, devido à forma como o presidente brasileiro se colocava acima da população,
para trabalhar, dentro da ordem e do progresso, pela prosperidade da Nação. No entanto, ela
considera que existiam outras razões para aproximá-los: “a simplicidade dos hábitos, o apego
à família, a afetividade, mais ardente e comunicativa no brasileiro, mais reservada no belga,
240
316
A Província, Recife, 14 jan. 1921, p. 3.
317
O Norte, Paraíba do Norte, 15 jan. 1921, p. 1
318
Ibidem.
242
relata, foi um verdadeiro “préstito cívico”, que se deu sob aclamação popular e com direito a
banda de música e foguetório. À sua espera estavam o presidente do estado, Dr. Solon de
Lucena, altas autoridades paraibanas, oficiais do Exército e Marinha, representantes do
comércio e de corporações operárias e uma comissão de senhoritas da sociedade paraibana,
que lhe ofertaram flores. Após o desembarque, a multidão que o esperava praticamente
obrigou-o a seguir a pé pelas ruas embandeiradas e cheias de gente até a antiga casa de seus
pais, onde lhe foi oferecido um jantar íntimo. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 48; O
NORTE, 16 jan. 1921, p. 1)
Não há como dissociar a visita de José Pessoa à Paraíba do forte apelo político que ela
teve. Os preparativos para sua chegada à cidade foram noticiados em mais de uma ocasião
pelos jornais locais e da capital pernambucana, bem como o empenho da comissão de
recepção para que as festividades estivessem à altura do homenageado. Tal fato não deve ser
visto com surpresa, uma vez que o presidente do estado, à época, pertencia à família Lucena,
tradicional aliada política da família Pessoa. José Pessoa, assim como Sólon de Lucena, era
sobrinho-neto do Barão de Lucena319, de quem Epitácio Pessoa se considerava herdeiro
político. Sendo assim, nada mais significativo para o establishment paraibano do que receber
um herói de guerra pertencente a uma das mais tradicionais famílias da oligarquia política da
Paraíba.
Imagem 36 – José Pessoa (3º em pé da esq. para a dir.) entre os irmãos (Aristarcho, 4º em pé da esq. para a dir.,
e Joaquim, sentado, 2º da esq. para a dir.) e amigos logo após o retorno da Primeira Guerra Mundial, s.d.
319
Lewin, 1993, p. 382.
243
320
O Norte, Paraíba do Norte, 14 e 15 jan. 1921; Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 20 jan. 1921, p. 3.
244
321
Relatório do Ministro da Guerra de 1919, p. 87.
245
322
Histórico da Companhia de Carros de Assalto, out. 1921.
323
Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 27 maio 1921, p. 2.
246
Ao meu ver, os nossos carros só darão rendimento igual aos que têm dado nos países
do velho mundo, onde lhes é dispensado o apreço que lhes é devido, em face da
experiência da última guerra, quando pudermos contar com homens em seu serviço
por dois ou mais anos, quando não lhes forem destinados, no momento da
incorporação, homens manifestadamente fracos, mas tão somente indivíduos fortes
e, finalmente, quando a escolha destes recair, de regra, em eletricistas, choferes,
mecânicos, etc., e não em comerciantes, lavradores, estudantes, etc., como aconteceu
desta feita.324
Até o final do seu comando, José Pessoa não havia recebido os itens que solicitou.
A instalação da Companhia na Vila Militar foi uma verdadeira odisseia, como define
José Pessoa, a começar pelas instalações provisórias, em um barracão emprestado, nos fundos
do 1º Regimento de Infantaria (1º RI). O recebimento dos carros de assalto comprados do
Exército francês foi outro problema. Em um ofício enviado em 25 de setembro de 1921, para
o comandante da 1ª Região Militar, José Pessoa relata ter encontrado os carros Renault, que se
encontravam armazenados no próprio 1º RI, “nas mais deploráveis condições”. Ele próprio
custava crer que “o material cuja aquisição nos custou uma soma vultosa [...] estivesse nas
condições em que com bastante pesar meu e de todos que me acompanharam, o fui
encontrar”. Os carros encontravam-se em péssimas condições de conservação e de
manutenção. Faltavam peças vitais ao funcionamento e a ferrugem tomava conta das peças e
engrenagens dos motores. Os tanques de gasolina de alguns carros encontravam-se corroídos
324
Boletim Interno Nº 55, de 7 de dezembro de 1921, da Companhia de Carros de Assalto.
325
Ibidem.
247
326
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1921.10.03.
327
Avisos Nº 621, de 5 de outubro de 1921, e Nº 631, de 10 de outubro de 1921, do Ministério da Guerra.
248
tanks marchou à noite, por entre matagal e morros e debaixo de chuva, para concentrar-se no
local de espera. A presença da unidade entre as tropas causou surpresa tanto para os militares
como para o público presente. Porém, o que chamou mais a atenção da assistência foram as
denominações dadas aos tanks, que lembravam grandes efemérides da história militar
nacional: Itororó, Humaitá, Colônia de Dourados, Palmares, Riachuelo, Forte Coimbra,
Caseros, Tuiuti, Campina da Taborda e Ypiranga. A Companhia de Carros de Assalto
encerrou em desfile. Segundo José Pessoa, a impressão deixada pelos tanks foi bastante
satisfatória, a ponto de o general Mangin chamar-lhe à sua presença, para apertar-lhe a mão.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 31-32)
A visita do herói de guerra francês foi noticiada de maneira discreta pela imprensa
carioca. Apesar de toda atenção e entusiasmo que a Companhia de Carros de Assalto teria
despertado no meio militar e civil, como narra José Pessoa, não é dado, nas páginas dos
jornais cariocas, nenhum destaque à participação da unidade na parada militar. A cobertura
mais extensa do evento foi feita pela Gazeta de Notícias. Ao citar a CCA, limitou-se a
informar que “os carros de assalto (tanks) despertaram muita curiosidade” 328
no público
presente.
Um fato que desagradava a José Pessoa, e é recorrente em sua narrativa, era a não
aceitação do emprego dos blindados por grande parte dos oficiais do Exército, principalmente
daqueles de mais altos postos. Inclusive, esse foi um dos motivos do pouco tempo de
existência da Companhia de Carros e Assalto, como será exposto mais adiante. Por isso, toda
oportunidade era bem vinda para demonstrar a operacionalidade das novas máquinas de
328
Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 15 out. 1921, p. 3.
250
guerra. Com esse propósito, e a fim de “desfazer as últimas incompreensões que perduravam
no espírito de alguns” (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 33), Pessoa resolveu organizar
um exercício de combate simulado na Vila Militar. Seria uma ótima ocasião para mostrar a
eficiência dos tanks combatendo ao lado da Infantaria e da Aviação do Exército.
A demonstração ocorreu no dia 3 de novembro, na Vila Militar. Estiveram presentes o
ministro da Guerra, Pandiá Calógeras, o marechal Hermes da Fonseca, ex-presidente da
República e tido como o grande reformador do Exército, o general José da Silva Pessoa,
comandante da Brigada Militar da Capital Federal, o general Carneiro da Fontoura, inspetor
da 1ª Região Militar, vários generais e militares de altas patentes da guarnição da Capital
Federal, todos as unidades militares da Vila Militar e um grande público curioso para ver, pela
primeira vez, os carros de assalto em ação. A apresentação rendeu a José Pessoa e aos oficiais
da Companhia de Carros de Assalto um elogio do inspetor da 1ª RM, que foi publicado em
Boletim Regional, e transcrito no Boletim Interno da CCA. Nele o general Fontoura exaltou a
competência e o êxito obtido na instrução do pessoal e no manejo dos novos instrumentos de
guerra. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 33; ALBUQUERQUE, 1921, arquivo
JPvp1921.1003)
A imprensa carioca cobriu o exercício. O Jornal do Brasil fez uma descrição
minuciosa da programação, que consistia, resumidamente, em “mostrar a fisionomia de
ataque dos carros em cooperação com a Infantaria” e “treinar as guarnições nas transposições
de toda a sorte de obstáculos”. Ressaltou, ainda, que várias fotografias e filmes foram tirados
por ocasião dos exercícios, que tiveram aspecto “verdadeiramente majestoso e festivo”. O
objetivo, era exibir as filmagens em um dos cinemas da Capital Federal. 329
Num prenúncio dos acontecimentos que resultariam no levante tenentista de 1922, o
diário O Jornal utilizou a notícia do exercício militar promovido por José Pessoa para fazer
uma crítica bastante contundente à “politicagem” que já grassava pelas fileiras do Exército.
Segundo o jornal, ela dava “seus últimos arrancos, alentada só pelos que sempre se alheiam ao
preparo profissional, a grande maioria, crente de suas responsabilidades entrega-se nos corpos
ao ensino dos patrícios chamados às armas”. Ao destacar o exercício realizado pela
Companhia de Carros de Assalto, “uma demonstração dessa vida nova, que tomou quase que
a universalidade dos espíritos [...] produto de muito trabalho e de muita dedicação”, afirmou
que “os que se entregam sinceramente ao trabalho, não podem ser acusados de falta de amor e
de falta de conhecimentos”.330 E concluiu a notícia nos seguintes termos:
329
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 5 nov. 1921, p. 10.
330
O Jornal, Rio de Janeiro, 5 nov. 1921, p. 8.
251
Imagem 39 – Exercício militar da Companhia de Carros de Assalto na Vila Militar, 3 nov. 1921.
José Pessoa tinha uma posição muita clara quanto à entrada da política nos quartéis, à
qual se colocava firmemente contra. Havia assumido o comando da Companhia em meio à
agitação política que tomava conta do País e vivenciou o processo de aproximação dos
militares com Nilo Peçanha, durante o processo eleitoral de 1922. Sobre o ponto culminante
dessa aproximação, que foi o episódio das “cartas falsas”, supostamente escritas por Artur
Bernardes, contendo referências desrespeitosas aos militares e, principalmente, a Hermes da
Fonseca, Pessoa considerava o fato “triste e vergonhoso, sabendo-se que o pretexto invocado
para tão desassisada atitude revolucionária se baseava em cartas anônimas, aliás, já
publicamente conhecidas com falsas, escritas por políticos sem escrúpulos”
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p 49).
331
Ibidem.
252
Como lembram Ferreira e Pinto (2003, p. 398), a vitória de Artur Bernardes no pleito
eleitoral de 1º de março, que só fez confirmar o esquema eleitoral da política dos
governadores implementada por Campos Sales no início da Primeira República, não foi bem
aceita pela oposição, que desencadeou uma forte campanha de mobilização popular, que
acirrou os ânimos da população. Durante todo o primeiro semestre de 1922, os derrotados da
Reação Republicana assumiram uma postura panfletária, denunciando as perseguições
bernardistas feitas aos partidários da oposição e aos militares, inclusive acenando para a
possibilidade de uma intervenção armada na política. O clima de agitação política tomou
conta do cenário nacional, e logo os militares passariam do protesto à rebeldia.
Na edição de 9 de março de 1922, de O Paiz, o soldado Genevio Bernardino da Silva,
que acabara de ser expulso da Companhia de Carros de Assalto, acusou Pessoa de uma série
de abusos cometidos durante o comando. Dentre elas, a de proibir os oficiais da unidade de
posicionarem-se politicamente e de ler os jornais do Rio de Janeiro. Por conta disso, reinava
no quartel um clima de indignação e de hostilidade contra José Pessoa. Inclusive, como ele
descreveu, “por questão de política, houve, entre ele [José Pessoa] e o tenente Aché, um sério
incidente”. Várias prisões e medidas vexatórias também já haviam sido imputadas a oficiais e
praças pelo comandante. O jornal dizia não poder comprovar os fatos narrados pelo soldado,
que apenas o transcrevia “verbo ad verbum”. No entanto, o redator do artigo afirmava custar
acreditar que tais atitudes teriam sido tomadas por José Pessoa, “por sabermos que o
comandante em questão é um oficial de valor incontestável – não há como chamar para tanto
a atenção das autoridades do Exército”.332
Dois dias depois, José Pessoa deu a sua resposta à acusação do soldado, nas páginas
do mesmo periódico. Iniciava informando que o soldado havia sido expulso por ser a sua
permanência no seio da Companhia perniciosa. Ressaltava que Genevio era oriundo do 2º
Regimento de Infantaria, de onde veio com “nota de péssima conduta, desidioso no
cumprimento de seus deveres e dado ao hábito de roubo e em cuja prática degradante foi aliás
apanhado por este mesmo comandante, que lhe aplicou a pena merecida, isto é, a expulsão”.
Quanto à proibição da leitura de jornais, indicou que ele mesmo lia todos os jornais da Capital
e nunca privou os oficiais de fazê-lo. No entanto, não descartava a ideia de proibir a leitura de
algum jornal, se ela fosse “perniciosa à disciplina militar interna”.333 Em relação à política,
José Pessoa foi mais enfático e reafirmou a sua posição:
332
A Noite, Rio de Janeiro, 9 mar. 1922, p. 5.
333
A Noite, Rio de Janeiro, 11 mar. 1922, p. 4.
253
Sou também acusado de ter parcialidade pelas candidaturas políticas; isto não,
sentir-me-ia transviado dos meus deveres se emprestasse a nobreza da minha farda à
campanha deletéria da politicagem, como também me consideraria o mais indigno
dentre os indignos se jamais voltasse contra a Nação as armas que ela me confiou
para a defesa da sua tranquilidade e da sua honra.
Aqui nesta casa – ao contrário do que diz Genevio – vivemos todos felizes, em plena
harmonia de esforços e de sentimentos, unicamente preocupados com a eficiência do
nosso trabalho, em prol da segurança e grandeza da terra que nos é comum. Tendo a
consciência nítida de nossos deveres de militares, alheios, por consequência, às
questões políticas, pouco nos interessa que seja vencedora esta ou aquela facção.
Conhecemos-lhe perfeitamente os processos, o egoísmo, o impatriotismo e sabemos
que só se aproximam do Exército para explorar-lhe os serviços e a grande boa-fé.
Acho, pois, desnecessário declarara que como soldado é meu dever acatar e respeitar
aquele que a Nação em seu julgamento soberano investir da direção dos seus altos
destinos, seja ele quem for.334
Cerca de três meses após José Pessoa ter manifestado as suas convicções políticas nas
páginas da imprensa, a revolta tenentista eclodiu no Rio de Janeiro, em 5 de julho, com a
revolta do Forte de Copacabana, que recebeu o apoio das guarnições de Campo Grande,
Niterói e Distrito Federal. A Companhia de Carros de Assalto não participou diretamente das
ações que debelaram o intento dos revoltosos. De acordo com os registros feitos em seu livro
histórico, a Companhia permaneceu à disposição do comando da 1ª Brigada de Infantaria, na
Vila Militar, durante a madrugada e a manhã do dia 5 de julho. No início da tarde daquele
mesmo dia, sem ser empregada, retornou ao seu aquartelamento. Apesar de não ter entrado
em ação, Pessoa relata em suas memórias ter sido elogiado pelo comandante da 1ª Brigada 335,
que reconhecia nele “um oficial de rara distinção e patriota extremado” (ALBUQUERQUE,
1953, Pasta II, p. 49). Sobre a participação da Companhia nos acontecimentos, dirigiu-se aos
seus comandados afirmando não se surpreender com a decisão e a presteza com que eles se
apresentaram no terreno “em que se deviam medir pelas armas” (ALBUQUERQUE, 1953,
Pasta II, p. 59). Sobre a luta político-partidária, lembrou-lhes do seguinte:
334
Ibidem.
335
José Pessoa afirma ter recebido o elogio do general Tertuliano de Albuquerque Potyguara, que havia servido
com ele na comissão de Cavalaria, durante a Missão Aché. No entanto, o testemunho do general Setembrino de
Carvalho, que assumiu a chefia do Estado-Maior do Exército durante a crise de 5 de julho, sobre os
acontecimentos da revolta do Forte de Copacabana, indica o general Ribeiro da Costa como o comandante da 1ª
Brigada de Infantaria, a qual estava à disposição a CCA, na Vila Militar.
254
A lista em questão tinha, de fato, por fim angariar os nomes dos oficiais que
estivessem dispostos a garantir o governo legalmente constituído. Ora, esta
pretensão pareceu-me ociosa e mesmo impertinente, pois, aquela obrigação já consta
imperativamente do art. 14 da nossa Carta Magna e, de mais ao alistarmo-nos sob a
nossa gloriosa bandeira, assumimos solene e expressamente aquele sagrado
compromisso, isto é, o de defendermos as instituições e obedecermos às autoridades
legalmente constituídas. Daí o discordarmos profundamente destes processos de
“listas” que não só vê, ferir o sentimento de disciplina como também nem sempre,
feita a devida exceção aos dignos, exprimem sinceridade da parte de muitos que,
pressurosamente, correm a nelas apor os seus nomes.
É claro que se um oficial ou soldado não se sentir obrigado a manter, com o
sacrifício da própria vida, o compromisso sagrado que assumimos, muito menos
compelido se sentiria pela responsabilidade, simples e efêmera aliás, de sua
assinatura em uma daquelas folhas. Além disso, não me seria possível dar tão mau
exemplo, fazendo circular na Unidade sob o me comando, um documento
condenado pelos regulamentos em vigor; meu dever seria punir, e puniria, com
severidade, todo aquele que procurasse introduzi-la entre os meus comandados.
........................................................................................................................................
É verdade, sem dúvida, declarar a V. Exa. que eu e os meus oficiais, leais ao pacto
de honra e de sacrifício de nossa própria vida, firmado com a Nação ao vestirmos a
farda do nosso Exército glorioso, havermos de, na parte que nos couber, manter
intangíveis, as autoridades constitucionais e bem assim a paz e ordem públicas
garantias imprescindíveis e inalienáveis dos nossos foros de nação civilizada.336
José Pessoa afirmou nunca ter entendido a atitude dos “dezoito heróis de
Copacabana”. Não achava cabível que “um forte se revolte contra os poderes constitucionais”,
que “prendesse o general que era o comandante do seu Distrito de Artilharia de Costa [general
Bonifácio da Costa], que confiante da sua autoridade foi ao forte revoltado, aconselhar à
guarnição a reconduzir-se ao caminho da disciplina”. Tampouco aceitava que essa guarnição
revoltosa “bombardeasse a capital do País, visando o ministro da Guerra, outros edifícios
públicos e o palácio do Catete, onde residia a família do presidente da República, destruísse
casas, matassem habitantes civis e os seus camaradas legalistas que heroicamente os
enfrentaram”. E questionava: “então queriam que o presidente da República, no seu
centenário de 1922, afrontado pelas armas da anarquia, cruzasse os braços?”. Acreditava na
336
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1921.10.03.
255
conduta de enfrentamento do tio, que fora diferente de “outros que, em situação idêntica, não
tiveram a coragem de reagir, entregando o poder maculando o mais alto posto da hierarquia
nacional”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 48-49)
Passada a agitação do mês de julho, outros eventos significativos marcariam, ainda, a
passagem de José Pessoa pela CCA: o juramento à bandeira dos soldados da CCA, a parada
militar de 7 de setembro de 1922, a inauguração das novas instalações da Companhia e o
último exercício de 1922.
O juramento à bandeira dos soldados da Companhia ocorreu em 25 de agosto de 1922,
no Campo de São Cristóvão. A data foi propositalmente escolhida por Pessoa, por ser a data
natalícia do Duque de Caxias, em um culto que o acompanharia durante toda a carreira. Na
ocasião, Caxias tornou-se o patrono da unidade de carros de assalto. Compareceram ao evento
o ministro da Guerra, o chefe do Estado-Maior do Exército, o comandante da 1ª Região
Militar, o chefe da Missão Militar Francesa e diversos outros generais da guarnição do
Distrito Federal. As arquibancadas montadas no local estavam repletas de famílias convidadas
e de outros oficiais que assistiram os 97 conscritos da CCA receberem o seu pavilhão
nacional.337
Cabem aqui duas considerações a respeito das escolhas de José Pessoa em torno de
Caxias, a partir da análise que Castro (2002) faz da criação do culto à figura de Luís Alves de
Lima e Silva como patrono do Exército.
A primeira, como aponta Castro (2002, p. 18) é a inspiração francesa para se
estabelecer uma nova tradição no Exército brasileiro: a escolha de um patrono ao qual se
identificariam, em um primeiro momento, as turmas das escolas militares. A distinção recaia
sobre o nome de um grande chefe militar ou de uma batalha famosa, que serviria de
inspiração aos jovens oficiais.
A segunda é uma implicação da primeira e tem a ver com o resgate, nos anos iniciais
da década de 1920, da figura do Duque de Caxias, “esquecida” pelos militares nos primeiros
anos da República, pelos fortes vínculos que ele mantinha com a Monarquia. A “festa de
Caxias”, institucionalizada por Setembrino de Carvalho em 1923, somente seria oficializada
em 1925, por meio de aviso ministerial338. A partir desse ano, no natalício do duque passou-se
a comemorar no âmbito do Exército o Dia do Soldado. (CASTRO, 2002, passim)
Como bem lembra Castro (2020, p. 20), o objetivo a ser alcançado com esse resgate,
no plano simbólico, “era a afirmação da legalidade e do afastamento da política, a bem da
337
A Noite, Rio de Janeiro, 25 ago. 1922, p. 7.
338
Aviso Ministerial Nº 366, de 11 de agosto de 1925, do ministro da Guerra Fernando Setembrino de Carvalho.
256
unidade interna do Exército, despedaçada, nos anos 20, por diversas revoltas internas e
clivagens políticas”. Caxias, na figura do grande pacificador do Império, evocava a união e
integridade nacionais. Dessa forma, como destaca o autor, para as autoridades militares, seu
culto funcionaria, no plano interno da instituição como “um antídoto contra a indisciplina e a
politização dos militares” (Castro, 2002, p. 20).
No centenário da Independência, uma grande parada militar foi organizada na Quinta
da Boa Vista, que contou com todas as tropas do Exército, da Marinha, das linhas de tiro e das
academias civis do Distrito Federal e dos estados. A CCA abriu o desfile militar no Campo de
São Cristóvão, “sob as aclamações delirantes das autoridades presentes e da massa popular
que ali se apinhava para assistir a parada militar, com os sodados engalanados nos seus
uniformes”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 51-52)
Em 3 de outubro foram inauguradas as novas instalações da Companhia na Vila
Militar. Em um longo discurso, José Pessoa destacou o empenho do ministro da Guerra e do
comandante da 1ª Região Militar, que se encontravam presentes, para que a unidade blindada
tivesse o seu aquartelamento próprio. Lembrou das dificuldades passadas nas péssimas
instalações provisórias do 1º Regimento de Infantaria e da Fazenda Sapopemba e afirmou
estar encerrada a sua missão, já que a Companhia se encontrava de posse de todo o
equipamento, regulamentos técnicos e táticos, mobiliários e instalações necessárias à vida e à
instrução do pessoal. Terminando a sua fala, fez, novamente, questão de destacar que não se
encontrava no comando da Companhia apenas por possuir laços consanguíneos com o
presidente da República, como haviam alegado alguns jornais do Rio de Janeiro, e, sim,
porque era o único dos oficiais do Exército que possuía o curso da especialidade que o
habilitava à função.339
O ano de instrução foi encerrado com uma longa marcha motorizada, que teve início
em 15 de outubro e que mobilizou todo o efetivo e trens e combate da Companhia, com o
objetivo de ensinar aos conscritos marchar, estacionar e combater. Durante sete dias a unidade
percorreu 146 quilômetros, em um longo movimento através de todo o território do Distrito
Federal. O exercício ficou marcado pela inclemência do tempo e pelas dificuldades
encontradas para a transposição dos obstáculos. No terceiro dia, na descida da Serra do
Morgado, um acidente com uma viatura hipomóvel provocou a morte dos animais que a
tracionavam. Refeito do susto, o efetivo prosseguiu a marcha, que terminou no Forte de
339
Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 4 out. 1922, p. 4.
257
Ouço dizer que todo o mal provém da imprensa. Não é só da imprensa, é sobretudo
dos políticos sem consciência, de juízes que prevaricam, de militares sem
patriotismo, de funcionários relapsos. Para estes a Pátria só se define quando
representa o interesse da sua cobiça. Encostam-se nos potentados, invadem os
gabinetes, as repartições, penetram em toda a parte, querem tudo e a todos procuram
em defesa das causas mesquinhas praticando injustiças de toda a natureza. Por isso,
ponha-se nas ambições um freio e nas prevaricações a cadeia.
Quando o Exército, por força de lei, está ao lado dos interesses de um grupo deles,
dos políticos, por exemplo, não há classe mais digna do respeito e da gratidão
nacional. O ciclo completo dos elogios os mais exagerados, do entusiasmo o mais
ridículo, da dedicação a mais torpe, reboam nos versos e na prosa de suas gazetas e
mais tiradas de sua doutrina malsã; quando, ao contrário, as suas pretensões se não
harmonizam com o nosso dever, explodem então em ódio e vileza, cobrem-nos de
impropérios, dizem que queremos cavalgar a Nação, ser o seu tutor.
........................................................................................................................................
258
É preciso camaradas meus, que a Nação tenha orgulho do Exército; sim, o mesmo
orgulho que nós temos de termos nascido à sua sombra; dignifiquemo-nos
dignificando a Pátria, cumpramos nossos deveres cívicos, respeitemos a autoridade e
sejamos obedientes à lei.
Um exército que não tem a compreensão exata desta conduta, não se pode sentir
com o direito de merecer o respeito e a estima dos seus concidadãos.340
Em um país como o Brasil, ainda mais nos anos 1920, cada soldado – pensava ele
[José Pessoa] – representava depois de sua desincorporação um agente do
desenvolvimento social ao retornar ao seu local de origem. Assim – julgava – todo
esforço deveria ser realizado para valorizá-lo como cidadão e como ser humano.
Homens convocados pela prática do sorteio militar, rústicos, analfabetos,
acostumados a usar como talheres com as próprias mãos, passavam a receber
permanentemente atenção e educação social, envolvendo noções de higiene, saúde e
340
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1921.10.03.
341
Função de estado-maior, quer nos batalhões quer nos grandes comandos, que se destina a assessorar o
comandante em assuntos atinentes à administração e à parte financeira.
259
Vi-me a braços com dificuldades de toda a sorte. Apesar de ser novo o quartel,
recentemente inaugurado, a tropa e cavalhada achavam-se mal alojadas. Tudo era
deficiente ou funcionava mal, desde a distribuição da água potável ao
funcionamento da luz e dos esgotos; os animais, por sua vez, viviam soltos, no pátio
central do quartel, onde a poeira ou a lama, nos dias de chuva, punha o recinto em
polvorosa e o ar irrespirável; os alojamentos dos homens eram guarnecidos de
tarimbas cobertas de velhos colchões; a ferradoria, improvisada, funcionava debaixo
do alojamento de um dos esquadrões e o piso era de cimento liso; o chão das baias
carcomidas, favorecendo a estagnação da água, que se tornava pútrida; tudo isso,
agravado com uma pesada dívida da administração anterior, cuja regularização
exigia esforço e dedicação. A deficiência e o desconforto se sentiam por toda a
parte. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 60)
260
Fontes: Hemeroteca da Biblioteca Nacional. O Paiz, 21 fev. 1926; Google Earth, 2020.
342
Consta na Fé de Ofício de José Pessoa que, em 27 de janeiro de 1927, ele assumiu o comando do 1º RCD.
Não foram encontrados registros históricos do porquê da assunção intempestiva.
343
O Paiz, Rio de janeiro, 21 fev. 1926, p. 7.
261
A passagem pelo 1º RCD também ficaria marcada pela personalidade forte de José
Pessoa. Algumas publicações em periódicos da Capital Federal apresentam uma série de
incidentes ocorridos tendo como protagonista Pessoa e que, certamente, determinaram o seu
afastamento do comando do regimento.
A edição do dia 19 de fevereiro, de O Jornal, noticiou um incidente havido entre
Pessoa e o major Arthur Ferreira, chefe do Serviço de Veterinária da 1ª RM. Em um
determinado dia, alguns oficiais do estado-maior da 1ª RM, dentre eles Ferreira, encontravam-
se realizando exercícios de tiro no estande do 1º RCD, quando chegou ao local José Pessoa,
acompanhado dos oficiais do regimento, que cumprimentou os integrantes da Região Militar.
De todos os presentes, somente Ferreira não lhe respondeu, talvez por não ter ouvido a
saudação, já que não há nenhuma indicação na reportagem de qualquer indisposição entre os
dois. A atitude de Ferreira não agradou à Pessoa, que o censurou perante os oficiais presentes
e lhe deu voz de prisão. A partir daí o caso virou um grande imbróglio, porque entre os
oficiais da RM encontrava-se o coronel Cunha Pitta, chefe do Serviço de Material Bélico do
quartel-general da 1ª Região Militar, que lembrou a Pessoa que, de acordo com os
regulamentos do Exército, antes de mandar prender Ferreira, ele deveria ter-lhe pedido
permissão, já que era mais antigo. O caso foi parar nas mãos do general Mena Barreto,
comandante da 1ª Região Militar, que mandou arquivar o caso.344
Outros três eventos provocaram um vai e vem de decisões disciplinares e jurídicas que
foram determinantes para o afastamento de José Pessoa do comando do 1º RCD e que
resultou em sua prisão. O primeiro deles foi a publicação em boletim interno do 1º RCD, por
ordem de Pessoa, de uma nota em que advertia o coronel Waldomiro Castilhos, que se
encontrava preso no regimento. O que gerou a publicação foi a conduta do coronel,
considerada por Pessoa inadequada ao local em que estava recolhido. O preso desrespeitava
as determinações do comando do regimento e a todos, escrevia cartas ofensivas e reclamava
de tudo, o que prejudicava a disciplina e a ordem do quartel. Mesmo assim, o comandante da
Região considerou a nota descabida e inadequada, por tratar-se Castilho de um oficial de
patente superior à Pessoa, e determinou o seu cancelamento do boletim interno da unidade.345
O outro fato envolveu a apresentação do primeiro-tenente Correia de Mattos no
regimento. Ao apresentar-se, José Pessoa não lhe deu posse das funções que deveria executar,
em decorrência de algumas informações desabonadoras que havia recebido sobre o tenente.
Sentindo-se ofendido, Correia de Mattos queixou-se ao comandante da 1ª Região Militar,
344
O Jornal, Rio de Janeiro, 19 fev. 1926, p. 4.
345
O Imparcial, Rio de Janeiro, 17 mar. 1926, p. 7; O Jornal, Rio de Janeiro, 14 abr. 1926, p. 6.
262
general Menna Barreto. Este deu ordem a Pessoa para empossar o tenente, o que o fez a
contragosto.346
O último fato foi a recusa de José Pessoa em desligar do regimento dois oficiais
sorteados para o serviço do Conselho de Justiça. A não liberação ocorreu sob o argumento de
que, segundo entendimento do Supremo Tribunal Federal, esses oficiais somente deveriam ser
afastados do serviço nos dias em que ocorressem sessões do Conselho.347
José Pessoa solicitou a Menna Barreto que reconsiderasse os seus atos em relação aos
dois primeiros casos. Como o general não ao atendeu, Pessoa pediu autorização para prestar
uma queixa do general ao ministro da Guerra. Ato contínuo, Menna Barreto mandou prender
José Pessoa por 15 dias, utilizando como argumentos os fatos relatados acima e alegando
desobediência a ordens recebidas e aos regulamentos. Sendo assim, em 31 de março, à noite,
José Pessoa foi recolhido ao 1º Grupo de Artilharia Divisionária. Após ter impetrado com um
pedido de habeas corpus por meio de seu advogado, foi posto em liberdade em 13 de abril.
Apesar de Menna Barreto ter argumentado que a justiça civil não tinha competência para
julgar e decidir sobre penas disciplinares, o juiz que determinou a soltura entendeu que o
comandante da Região não possuía autoridade para prender Pessoa, uma vez que, logo após a
queixa, ele já não estava mais sob às suas ordens, como mandava o regulamento à época348. O
jornal O Imparcial, inclusive, lembrou que era “a primeira vez desde os tempos monárquicos
que um juiz civil intervém com sua autoridade em caso de caráter absolutamente militar e que
se acha enquadrado em regulamentos e leis estritamente militares”349.
O habeas corpus impetrado por José Pessoa e as ações de Menna Barreto no comando
da 1ª Região Militar dividiram as opiniões dos periódicos cariocas. O Imparcial lembrou que
o caso envolvendo José Pessoa era “mais um incidente havido entre um comandante de
unidade da guarnição e o general comandante da 1ª Região Militar”350. O Jornal indicou que
prisão de Pessoa em “nada tinha de desabonador para a conduta desse distinto oficial”351. E
apontou novos fatos a respeito do assunto, ao revelar que o verdadeiro motivo da prisão
estava “no empenho de colocar, como colocaram, à frente do regimento o tenente-coronel
Euclides de Figueiredo, oficial de gabinete do ministro da Guerra”352. Apesar da classificação
de Figueiredo no 1º RCD, o jornal lembrava que o próprio presidente da República havia
346
O Paiz, Rio de Janeiro, 17 mar. 1926, p. 4.
347
O Jornal, Rio de Janeiro, 14 abr. 1926, p. 6.
348
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 13 abr. 1926, p. 2.
349
O Imparcial, Rio de Janeiro, 13 abr. 1926, p. 14.
350
O Imparcial, Rio de Janeiro, 17 mar. 1926, p. 7.
351
O Jornal, Rio de Janeiro, 6 abr. 1926, p. 5.
352
Ibidem.
263
ordenado que José Pessoa permanecesse no comando até o dia 15 de novembro, o que se
constituía em uma “prova de estima que sua excelência queria dar a esse oficial [José
Pessoa]”353. Por conta desse privilégio o colunista concluiu: “daí as perseguições que vinha
sofrendo, até o ato de sua prisão e imediata passagem do comando, da parte daqueles que
foram contrariados por essa ordem do presidente da República”354. Por outro lado, A Noite
apontou que a decisão tomada pela justiça civil implicava “no cancelamento da nota da fé de
ofício daquele militar [Menna Barreto]”355. E questionou: “a que novos imprevistos dará lugar
essa situação irregular do habeas corpus invadir a disciplina dos quarteis, em desabono da
autoridade militar”356.
Menna Barreto se recusou a cumprir o habeas corpus da soltura de José Pessoa.
Segundo a publicação de O Jornal, o general deu uma parte de doente, para afastar-se das
funções e não cumprir o alvará de soltura, o que coube ao seu substituto imediato, o general
Azeredo Coutinho.357 Em meados do mês de maio, Menna Barreto, por fim, passaria o
comando da 1ª RM em definitivo para Azeredo Coutinho, alegando não possuir mais força
moral para ocupar o cargo, diante da decisão tomada pela justiça civil, o que, na sua visão,
“alterava profundamente preceitos tradicionais ao nosso Exército, tornando imprecisa a
jurisdição disciplinar dos comandos e fazendo periclitar a autoridade de que estão
investidos”358.
Pessoa omite de suas memórias os fatos que desencadearam a sua prisão. Tampouco
que foi preso e solto graças a um contestado habeas corpus. Relata, somente o afastamento do
comando, que teria sido motivado pela ambição de Euclides Figueiredo pelo comando do
regimento, tido como uma unidade de escol da Cavalaria, um fato que teria contado com a
complacência do ministro da Guerra, general Setembrino de Carvalho e de Menna Barreto,
uma vez que Figueiredo era o “enfant gâté”359 de Setembrino. Na sua visão, esses oficiais
“não vacilaram em infringir princípios inalienáveis de direito militar e da lei de organização
do Exército”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 71)
Ainda sem saber que seria preso, José Pessoa passou o comando do 1º RCD ao capitão
Cedor Marques da Silva, em 31 de março, já que, pelos regulamentos, ao prestar queixa de
um superior deveria ser retirado do comando deste. No longo discurso que fez, transcrito na
353
Ibidem.
354
Ibidem.
355
A Noite, Rio de Janeiro, 19 maio 1926, p. 2.
356
Ibidem.
357
O Jornal, Rio de Janeiro, 13 abr., 1926, p. 5.
358
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 19 maio 1926, p. 2.
359
Criança mimada, em tradução literal.
264
integra pela Gazeta de Notícias, não citou uma só vez os acontecimentos que envolviam a
discórdia com Menna Barreto ou com o ministro das Guerra. Fez questão de ressaltar,
entretanto, todas as melhorias nas instalações, equipamentos, víveres e cavalhada que fez no
período em que serviu no regimento. Lembrou, também, que estava deixando o comando sem
uma dívida sequer, diferentemente de quando chegou à unidade, que contava com uma dívida
de mais de duzentos contos de reis. Por fim, agradeceu ao apoio dos oficiais e praças e
concitou a todos: “respeitemos a lei, acatemos as autoridades e amemos, sobretudo a
Pátria”.360 Câmara (2011, p. 69) lembra, ainda, ao fazer referência a uma revista do 1º RCD,
de 1927, que José Pessoa foi o idealizador do primeiro jogo de polo do Brasil, ainda como
comandante do regimento.
José Pessoa descreve em suas memórias uma série de irregularidades que teriam sido
cometidas por Euclides Figueiredo do 1º RCD: oferecia banquetes de desagravo a
autoridades, regados a champagne e pagos com o dinheiro da administração da unidade;
mudou o nome do regimento para Dragões da Independência, o que ia de encontro com a lei
de organização do Exército; fez despesas vultosas com uniformes e realizou uma compra
abusiva de cavalos no exterior. Segundo Pessoa, os abusos de Figueiredo chamaram a atenção
dos jornais da Capital Federal, que passaram a pedir uma investigação do governo na unidade.
Por fim, dois atestados de deserção de soldados do regimento apresentados ao Supremo
Tribunal Militar, assinados ilegalmente por Figueiredo, levaram a justiça Militar a decretar a
irregularidade do comando deste oficial. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 79)
Não foi possível comprovar nos periódicos cariocas as afirmações de José Pessoa. Em
uma pesquisa feita nos jornais do Distrito Federal, da época, nada foi encontrado sobre as
irregularidades por ele apontadas. No entanto, não se pode deixar de ressaltar a atitude de
Pessoa de afrontar, ainda como major, um oficial general comandante da maior Região Militar
do Exército, à época. Mais do que isso, cabe destacar o fato de ele ter recorrido à justiça
comum para buscar a reparação de uma pena imposta na esfera administrativa, o que não era
uma atitude comum adotada pela oficialidade da época. Cabe, porém, lembrar de todo o
capital político e simbólico acumulado por José Pessoa até aquele momento, o que,
provavelmente, justifique a postura por ele adotada. Tratava-se de um oficial com experiência
de combate na Primeira Guerra Mundial, que havia recebido as mais altas condecorações dos
exércitos que dela participaram. Além disso, carregava no nome o peso político-aristocrático
da família Pessoa. Seu tio Epitácio, em 1926, era um influente senador da República e já
360
Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 3 abr. 1926, p. 10.
265
havia ocupado, entre 1919 e 1922, o cargo de chefe de governo. Havia, ainda, as influências
políticas dos irmãos João, que era ministro do Supremo Tribunal Federal (dois anos depois
seria eleito governador da Paraíba) e Cândido, intendente da Capital Federal (seria eleito
deputado federal em 1927).
Da passagem de comando até o mês de setembro de 1927, José Pessoa ficou adido ao
Departamento do Pessoal da Guerra, quando então foi transferido para o Rio Grande do Sul.
Parece, a um olhar desatento, que realmente, como havia afirmado O Jornal, nada houve de
desabonador no que aconteceu com Pessoa no 1º RCD. Além de ser promovido à tenente-
coronel, por merecimento, em agosto de 1927, o Exército deu-lhe, ainda, o comando de um
regimento, o 3º Regimento de Cavalaria Independente (3º RCI), na distante São Luiz
Gonzaga-RS.361
Entretanto, nas circunstâncias em que aconteceu, não é possível se considerar a
transferência de Pessoa para a fronteira sul do País como algo relevante para a carreira. Como
bem lembra McCann (2009, p. 362), São Luiz Gonzaga era considerada, à época, “a pior
guarnição do Sul”. Cabe lembrar, ainda, o impacto que a movimentação para uma fronteira
poderia causar em uma futura promoção. Longe dos olhos da Comissão de Promoções, da
qual faziam parte todos os generais da guarnição da Capital Federal, ficava mais difícil
concorrer a uma promoção por merecimento. Importava mais no processo ser apadrinhado por
um general da Capital do que o profissionalismo na carreira.
José Pessoa chegou a São Luiz Gonzaga em 26 de outubro de 1927. Havia partido do
Rio de Janeiro acompanhado da sua esposa e da pequena Elizabeth, então com apenas 2 anos
de idade, que realizou a viagem bastante doente, devido a uma complicação do sarampo. A
viagem foi longa e realizada em três etapas: sete dias de navio até Porto Alegre, três de trem
até Santo Ângelo e, finalmente, mais um de automóvel até a chegada a São Luiz.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 84)
Pessoa relata a decepção que sentiu com o atraso material e o desconforto da pequena
cidade da região das Missões, no Rio Grande do Sul. Apesar da boa acolhida proporcionada
por seu povo, o município não possuía sequer um hotel digno para hospedagem, e a
correspondência só chegava uma vez por semana, isso se não caíssem chuvas fortes, o que
provocava a cheia dos rios e dificultava a travessia das balsas. Também não existiam estradas
361
Fé de Ofício de José Pessoa.
266
de ferro que chegassem até a pequena localidade, tampouco rodovias, apenas um caminho
ligava a cidade à vizinha Santo Ângelo. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 84)
Apresentou-se no 3º RCI um dia após à sua chegada e, como de hábito, mandou dar
publicidade à sua assunção no boletim interno da unidade. Em suas palavras, afirmou estar
convicto que não lhe faltaria da parte dos oficiais e praças “a colaboração eficiente e,
sobretudo leal e digna de que preciso no interesse da ordem, do trabalho e da disciplina,
máxima aspiração de toda unidade do Exército que tem consciência do dever”. E numa
inspiração bilaquiana, lembrou aos oficiais subalternos serem eles “os verdadeiros formadores
da mentalidade e do adestramento profissional dos homens”. E pedia que eles tivessem a
“consciência do serviço que prestam ao país, fazendo dos seus filhos aptos soldados e
cidadãos que, ao deixar a caserna, sejam reais fatores de progresso da região onde o destino os
levar”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 85-86)
A impressão que teve do regimento não era diferente da que a cidade lhe deixara. As
instalações estavam em ruínas, o aquartelamento havia sido pilhado pelos revoltosos de
1924362. O efetivo de pessoal não estava completo, não havia mobiliário e, apesar de tratar-se
de um quartel de Cavalaria, não havia um cavalo sequer. Aos poucos e com o auxílio dos
oficiais e praças, entretanto, a unidade foi sendo reconstruída, segundo suas memórias. Uns
faziam tijolos, outros levantavam paredes e ainda havia aqueles que cortavam madeira na
costa do rio Uruguai. Após seis meses de intensos trabalhos, o 3º RCI estava completamente
reformado. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 86-87)
Apesar do ressuprimento de armamentos e equipamentos necessários à instrução feitos
pela 3ª Região Militar, da reorganização dos trens de combate e da reconstrução das baias,
ainda havia a resistência do Serviço de Remonta em fornecer os cavalos ao regimento. O
estado-maior da Região alegava que fornecer cavalos a um regimento localizado em uma
cidade em que a estiagem anual acabava com as pastagens, era condená-los a morrer de fome.
A solução encontrada por José Pessoa foi tomar emprestado à pequena escola agrícola de São
Luiz algum material de aragem e sementes de forrageiras e, com isso, plantar lotes de
forrageiras em uma área ampla do terreno do quartel, irrigada por uma sanga próxima. Algum
tempo depois, o regimento já possuía capim suficiente para alimentar a cavalhada. Com isso,
um novo pedido foi feito ao general comandante da Região Militar, dessa vez acompanhado
por fotos do novo capinzal, que garantiria o forrageamento dos animais. Alguns dias depois,
um telegrama da Região comunicava a autorização do fornecimento de cavalos ao regimento.
362
Provavelmente, nesse caso, José Pessoa tenha se referido ao movimento revolucionário federalista de 1923,
que assolou o estado do Rio Grande do Sul e não o levante tenentista de 1924.
267
A notícia exaltou os ânimos do pessoal, que, com muita satisfação, recebeu os novos animais
e logo passou a adestrá-los e usá-los na instrução. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 89-
90)
O ponto culminante dos esforços de Pessoa em remodelar o regimento foi uma
inspeção do comandante da 3ª Região Militar, general Gil de Almeida, em maio de 1928,
pouco mais de seis meses após ter assumido o comando da unidade. A nova cavalhada e os
novos trens de combate foram apresentados ao general. A inspeção terminou com o regimento
dando uma carga, para demonstrar o alto grau de adestramento alcançado. Após três dias de
instrução, Gil de Almeida disse estar impressionado com o progresso da unidade. Antes do
general partir, foi lido em sua presença o boletim diário do regimento, que publicou uma
extensa relação dos melhoramentos feitos no aquartelamento, dentre os quais constavam: a
reconstrução total dos pavilhões do comando, dos esquadrões, das baias e do serviço de
veterinária; a restauração da usina elétrica e da rede de água, de esgoto e de gás; a ampliação
das instalações com a construção de um estádio e de pistas para exercícios físicos e de
obstáculos para cavaleiros; a construção de um campo de polo e de uma piscina para natação;
a reforma da escola regimental, que foi dotada de novo material escolar; criação de uma
biblioteca; construção de moradias para oficiais solteiros; instalação de um ambulatório;
reforma da enfermaria veterinária; aquisição de novos mobiliários e camas para os
alojamentos; reforma de viaturas e criação de alfaiataria, correaria e carpintaria. Naquele
mesmo ano, em setembro, o regimento recebeu outra comitiva ilustre, composta pelo ministro
da Guerra Sezefredo Passos, pelos generais Tasso Fragoso, chefe do Estado-Maior do
Exército, Malan D’Angrogne, subchefe do Estado-Maior do Exército e Espir, chefe da Missão
Militar Francesa. Esses oficiais acompanhavam os alunos da Escola de Estado-Maior. Todos
regressaram à Capital Federal bastante impressionados com a apresentação e a instrução do 3º
RCI. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 96-100)
José Pessoa narra que o seu comando foi perturbado pela ação irregular dos chamados
“provisórios” em São Luiz, que cometiam assassinatos e todo o tipo de violências contra a
população local e contra os soldados do Exército. É muito provável que Pessoa se refira, ao
utilizar o termo, aos corpos provisórios, que, segundo Mauch (2011, p. 73), foram
organizados originalmente para atuarem na revolução federalista de 1893, em algumas regiões
do Rio Grande do Sul. Eram tropas de civis armados pelo governo do estado, que atuavam
sob o comando e em auxílio à Brigada Militar363 na repressão aos revoltosos liderados por
363
A Brigada Militar é a polícia militar do Rio Grande do Sul.
268
Assis Brasil. Por ocasião da revolução federalista de 1923, esses corpos foram reorganizados.
O comando dessas milícias civis era motivo de grande disputa entre os coronéis locais,
habilmente manejada por Borges de Medeiros, presidente do Rio Grande do Sul, como
explica a autora. Com o término da revolução, os corpos provisórios foram oficialmente
extintos. Porém, muitos coronéis os mantiveram, tendo como finalidade única intimidar o
eleitorado oposicionista que comparecia às urnas.
Após ter pedido reiteradas providências às autoridades civis, todas sem sucesso, José
Pessoa resolveu agir por conta própria para dar fim à ação dos “provisórios” em São Luiz.
Segundo sua narrativa, organizou com o regimento um cerco à força irregular, prendeu os
seus integrantes e encaminhou-os às autoridades competentes. Dessa forma, a população da
cidade “se sentiu garantida na sua vida e no seu trabalho fecundo, até então tumultuados”. O
sucesso do regimento restabeleceu “a confiança e o respeito na guarnição federal, perdidas
pela inércia das autoridades superiores, estabelecendo sólida e cordial camaradagem entre
militares e civil”. Com o restabelecimento da ordem pública, o 3º RCI passou a ser a única
autoridade verdadeiramente respeitada da região das Missões364. (ALBUQUERQUE, 1953,
Pasta II, p. 101-102)
Pessoa praticamente não faz menção à sua vida familiar em suas memórias. A
autobiografia que escreveu tem como escopo a sua trajetória militar, não permitindo se ter
acesso ao José, marido e pai. Porém, ao narrar a sua passagem pelas terras gaúchas, faz
menção ao nascimento de sua segunda filha, Joy, em 1927, sem, no entanto, precisar o dia e o
mês. O destaque dessa breve narrativa está mais nas demonstrações de apreço da população
local do que no nascimento da criança.
No raro relato sobre a família, José Pessoa conta da alegria e da ansiedade da filha
Elizabeth com o nascimento da irmã e da forma como ela ia e vinha do quarto do nenê, com
um gatinho de estimação debaixo do braço. Também relata as demonstrações de amizade e de
simpatia da população civil e dos membros do regimento, que organizaram uma formatura,
com direito à banda de música em frente à sua residência. Essa mesma banda se encarregou
de, na mesma noite, realizar uma retreta na praça central de São Luiz, em homenagem à
“gauchinha recém nascida”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 106-107)
José Pessoa e sua família despediram-se de São Luiz Gonzaga em 10 de fevereiro de
1929. No dia anterior passou o comando do 3º RCI ao major Francisco Gil Castelo Branco.
364
Assim é conhecida a região Noroeste do Rio Grande do Sul. Recebeu esse nome por fazer fronteira com a
região de Missiones, na Argentina e por ter abrigado, no século XVII, algumas missões jesuítico-guaranis. São
algumas cidades dessa região: São Borja, São Luiz Gonzaga, Santo Ângelo, São Miguel das Missões, Santo
Antônio das Missões e Santa Rosa.
269
365
A Escola de Cavalaria assim denominou-se entre os anos de 1927 e 1936, quando, por meio do Decreto nº
640, de 13 de fevereiro de 1936, foi cirada a Escola das Armas, que incorporou a instrução dos oficiais de
Cavalaria. Anteriormente, nos anos de 1925 e 1926, denominou-se Escola Provisória de Cavalaria.
270
366
Decreto nº 14.131, de 7 abr. 1920.
367
Portaria do Ministério da Guerra, de 25 mar. 1925.
368
Decretos nº 18.696 e nº 18.697, de 11 abr. 1929. Essa foi a primeira vez que a Escola de Cavalaria recebeu
uma regulamentação distinta das demais escolas militares.
271
369
Fé de Ofício do Marechal José Pessoa.
272
6 A REVOLUÇÃO DE 1930
370
Como lembram Ferreira e Pinto (2013, p. 403), a adesão dos mineiros à chapa pró-Vargas se deu devido à
determinação de Washington Luís em indicar o paulista Júlio Preses como seu sucessor, o que quebrou o acordo
tácito da política dos governadores, que vinha há anos alternando no cargo político máximo da República
políticos paulistas e mineiros.
371
Jornal de Recife, Recife, 31 jul. 1930, p. 1.
273
considerava “um desambientado [...] um homem muito puro para viver no nosso meio tão
corrompido”. E considerou que a política do País não comportava homens da têmpera de João
Pessoa, que “foi sempre leal demais para ser político”. Quando os repórteres lhe mostraram
uma foto do assassino João Dantas ao lado de José Pereira de Lima, principal opositor político
de João Pessoa na Paraíba, e apontado, à época, como mandante do crime, José Pessoa disse
que Dantas não era o verdadeiro culpado, mas, “apenas a máquina que executou o crime”.
Sobre o momento político pelo qual atravessava o País, afirmou estar “descrente de qualquer
renascimento de energias, pelo menos durante a nossa geração”. Apesar de crer em um futuro
grandioso e surpreendente para o Brasil, entendia que ninguém dos presentes na entrevista
chegaria a presenciá-lo.372
Em suas memórias, escritas mais de duas décadas após a morte de João Pessoa, fica
claro que José Pessoa atribuiu a morte do irmão à “politicagem” que tanto condenou ao longo
da carreira, cujo grande fomentador, no seu entender, teria sido o próprio presidente
Washington Luís, ao impor ao País, por uma “vontade despótica”, a candidatura de Júlio
Prestes às eleições de 1930.
A não aceitação da chapa Júlio Prestes-Vital Soares pelo Partido Republicano
Paraibano (PRP), que ficou conhecida como o “Nego”, sob a liderança de João Pessoa, foi o
372
O Jornal, Rio de Janeiro, 30 jul. 1930, p. 1.
274
bastante, segundo José Pessoa, para que o presidente da República “se jogasse
desabridamente contra o pequeno estado nordestino, perturbando, de todos os meios, desde a
coação pela força ao suborno aviltante, a vida constitucional daquela unidade da Federação”.
Para Pessoa, o “inferno de violências e opróbios” criados por Washington Luís no estado da
Paraíba, um resultado da Revolta de Princesa373, culminou no assassinato do irmão, por meio
das “mãos traiçoeiras dos assalariados daquele governo”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X,
p. 2-3)
373
Revolta liderada pelo político paraibano José Pereira de Lima, deflagrada no município de Princesa, atual
Princesa Isabel (PB), em oposição ao governo de João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, quando esteve à frente
da presidência do estado da Paraíba. As origens do movimento estão nas reformas da estrutura político-
administrativas implementadas por João Pessoa em 1928, que deslocaram a hegemonia do comércio estadual do
interior para o litoral, o que acabou desagradando as lideranças políticas do interior paraibano, e na proposta
defendida por João Pessoa de revezamento dos candidatos às eleições de 1930, para a Câmara de Deputados e do
Senado, o que quebrou a hegemonia política de algumas famílias poderosas do interior da Paraíba, como os
Pereira Lima e os Dantas. Com isso, em 24 de fevereiro de 1930, José Pereira anunciou o rompimento com o
governo estadual e iniciou um movimento rebelde armado na cidade de Princesa, seu principal reduto político. A
revolta contou com o assentimento do governo federal, interessado na queda de João Pessoa do governo
paraibano. Washington Luís chegou a propor ao Congresso uma intervenção federal no estado, o que não foi
aceito, já que o próprio João Pessoa deveria a solicitar. (CALICCHIO, s.d.)
275
Vargas uma atitude mais incisiva em relação à situação política pela qual passava a Nação. As
articulações existentes em torno da possibilidade de um movimento revolucionário que
depusesse Washington Luís tomaram corpo e deixaram os bastidores. As ações que
conduziram ao golpe de 1930 tomaram forma em setembro, quando forças militares e milícias
civis armadas iniciaram o seu deslocamento de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul para a
Capital Federal.
Câmara (2011, p. 69) considera que o fato de o assassinato do irmão ter motivado o
envolvimento de José Pessoa na trama política que pôs fim à Primeira República confirmou as
influências de Epitácio e de João Pessoa no seu comportamento político, até então de forte
tendência legalista. Apesar da observação feita pelo autor, é importante ressaltar que Pessoa
não via o movimento conduzido por uma parcela significativa das Forças Armadas como um
golpe, e, sim, como um “movimento nacionalista” de retorno à legalidade, que jogou por terra
um “governo opressor [de Washington Luís] que tantos males e humilhações causara à nação”
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X, p. 1). O assassinato do irmão João, no seu entendimento,
por motivos políticos, deu-lhe a certeza de que estava agindo corretamente para trazer a
Nação novamente aos trilhos.
Também não entendia que aqueles que conduziram o movimento de 1930 fossem
revolucionários. Para José Pessoa, o único revolucionário foi Washington Luís, que “calcou
aos pés, ostensivamente, as leis e os preceitos de moral política, escolhendo à revelia dos
interesses superiores do país, o seu substituto”. Para Pessoa, o que ocorreu, na verdade, foi
um “movimento nacional contra o autêntico revolucionário”.374
Nos rascunhos de uma carta que foi enviada à redação de um jornal (José Pessoa não
identifica o jornal), em 1947, na qual se colocou frontalmente contra as manifestações que
estavam sendo preparadas para o regresso de Washington Luís ao Brasil, José Pessoa lembrou
ao redator que o presidente deposto havia ultrajado a sociedade, a democracia e a constituição
do País em vários momentos do seu governo: quando interveio junto aos seus partidários no
Congresso Federal, incitando-os a burlar a legalidade dos representantes paraibanos eleitos
para as casas do parlamento; quando assentiu com a revolta de Princesa, um dos eventos que
teria concorrido para o assassinato de João Pessoa, e pelo desamparo do governo federal às
viúvas e órfãos dos soldados legalistas paraibanos mortos pelos revoltosos, que teriam sido
armados pelo próprio governo do País. Sendo assim, entendia que os promotores das
festividades cavavam um fosso profundo nos sentimentos cristãos, humanos e patrióticos do
374
Diário Carioca, Rio de Janeiro, 7 jul. 1931, p. 2.
276
povo que havia ajudado o Exército a depor um ex-presidente que havia “deslustrado o mais
alto cargo da magistratura nacional”. No final do rascunho há uma nota de Pessoa indicando
que a carta jamais fora publicada, porque havia sido informado por amigos que Washington
Luís regressava ao Brasil gravemente doente.375
375
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JP ag 1930.10.24.
376
O motivo da insatisfação estava relacionado ao ressentimento que os oficiais mantinham com o governo de
Washington Luís, devido ao fato da manutenção da política do governo anterior, de não anistiar os rebeldes de
1922 e 1924.
277
berço político de Vargas e que contava com um forte aparato da Brigada Militar e com
unidades civis provisórias comandadas por alguns coronéis varguistas. Um dos temores de
Washington Luís é que o sul do Brasil se levantasse em massa depois da derrota de Vargas
nas eleições de março de 1930.
O fato é que, ao invés de se sentir lisonjeado, Góes zangou-se com a nova função. Ele
próprio relata que, ao ser indagado por Sezefredo Passos a respeito da escolha de uma unidade
de Cavalaria para comandar, pediu para não ser enviado para o Rio Grande do Sul, tendo em
vista as relações familiares que mantinha no estado. Pesava, ainda, em sua decisão, o fato de
saber que Oswaldo Aranha, com quem nutria uma antiga amizade, já articulava no Rio de
Janeiro os planos operacionais de um movimento armado para depor o presidente. O ministro
prometeu-lhe, então, um comando no Mato Grosso. Apesar da promessa, Góes foi mandado
para São Luiz das Missões, o que o desagradou profundamente, por entender que a
transferência foi feita de “caso pensado”. Além de ser considerada a pior guarnição do Sul, a
unidade que iria comandar estava subordinada ao general Gil Antônio Dias de Almeida,
comandante da 3ª RM, um antigo desafeto. Ao se despedir de um amigo, Góes o
confidenciou: “Não me importa. Eles pagarão caro”. (COUTINHO, 1955, p. 55-56)
Apesar de ter resistido inicialmente às investidas de Oswaldo Aranha, para que
chefiasse as ações militares da revolução, e ser escolhido à revelia para o posto pelos oficiais
revolucionários envolvidos, Góes aceitou somente assumir a função simbólica de chefe do
estado-maior do comando militar do movimento. No relato que fez a Coutinho (1955, p. 61-
62), contou que a chefia militar chegou a ser oferecida a Luís Carlos Prestes, que, inclusive,
recebeu dinheiro para a compra de armas fora do País. No entanto, seu comprometimento com
o comunismo foi considerado uma ameaça ao movimento e seu nome foi rejeitado por
Vargas. Prestes jamais entregou as armas e não devolveu o dinheiro. Góes e Aranha chegaram
a discutir outros nomes. Dentre eles, os de alguns generais que se encontravam servindo na
Capital Federal, como Mariante e Azeredo Coutinho, que não serviriam por serem altamente
comprometidos com o legalismo, e os de Tasso Fragoso e Menna Barreto, considerados
conservadores demais. McCann (2009, p. 363) aponta que o comando foi oferecido, ainda, ao
coronel Estevão Leitão de Carvalho, que comandava um quartel em Passo Fundo. Leitão de
Carvalho recusou a oferta e manteve-se ao lado da legalidade durante todo o movimento,
chegando a ser preso durante o levante no Rio Grande do Sul, quando seu quartel foi tomado
pelos revoltosos.
Tudo estava sendo preparado para que a revolução se tornasse uma realidade. A vitória
de Júlio Prestes nas eleições de março e o assassinato de João Pessoa, ocorrido logo em
278
seguida, arrefeceu os ânimos dos oficiais revolucionários, fazendo-os retomar o ardor por um
levante armado. Apesar de Oswaldo Aranha considerar a vitória do candidato de Washington
Luís nas urnas um fato consumado, Góes discordou do amigo e considerou formar, se fosse
preciso, uma sociedade secreta no Exército, com o propósito de derrubar o governo377. A
partir daí, começou a articular nas unidades do interior do Rio Grande do Sul as bases
militares para a revolução. Os sinais de que um levante estava por vir e os rumores que
corriam por todo o estado colocaram as guarnições do Rio Grande do Sul em alerta. O
comandante da 3ª RM solicitou ao ministro da Guerra para concentrar tropas no interior do
estado, a fim de diminuir a vulnerabilidade das tropas legalistas e impedir que os
conspiradores tivessem acesso aos oficiais e sargentos simpatizantes à causa revolucionária.
Sezefredo Passos negou a autorização, alegando que a paz reinava no Brasil e que o perigo de
um levante já havia passado. (COUTINHO, 1955, p. 73-76; McCANN, 2009, p. 365-366)
Na Capital Federal, o ministro da Guerra centralizava cada vez mais as funções
peculiares ao Estado-Maior do Exército, isolando-se em seu gabinete e indispondo-se com
alguns dos generais de maior influência entre a oficialidade do Exército, justamente aqueles a
quem os revolucionários pediam apoio à causa revolucionária: Tasso Fragoso, Menna Barreto,
Andrade Neves e Malan D’Angrogne. Em setembro, o deputado federal gaúcho Lindolfo
Collor esteve no Rio de Janeiro, para pedir apoio a esses generais. Encontrou-se com Tasso e
deixou-o a par de que a Aliança Liberal desencadearia em breve uma revolução. Tasso disse-
lhe ser contrário aos movimentos de rebelião contra as autoridades constituídas. No entanto,
se ela tomasse uma proporção nacional assegurava que não ficaria neutro e que tomaria a
atitude que o seu patriotismo mandasse. (ARARIPE, 1960, p. 546; McCANN, 2009, p. 366)
McCann (2009, p. 367) faz uma importante consideração quanto aos oficiais que
aderiram à revolução, como Góes Monteiro. Todos eles concordavam com a crítica tenentista
de que os políticos paulistas confabulavam para controlar o sistema político do País em
benefício próprio. Alguns receavam, ainda, que diante da crise econômica que grassava a
Nação o comunismo se tornasse atraente às massas ignorantes. Além disso, a situação das
Forças Armadas deprimia alguns oficiais, como Góes. Faltavam líderes, soldados e material.
A estrutura disciplinar do Exército estava fragilizada e não resistiria ao mais simples golpe. A
exemplo do que pensava José Pessoa, esses oficiais entendiam que a revolução era o caminho
para a regeneração nacional e o Exército teria um importante papel nesse intento. No entanto,
377
De fato, como conta em suas memórias, Góes Monteiro chegou a estabelecer com Estilac Leal, Pinto Soares e
outros oficiais as bases de uma organização clandestina e insurrecional, que, graças aos eventos de outubro de
1930, não precisou ser criada.
279
armados por líderes políticos locais. Em pouco tempo todo o sistema de comando das forças
federais mineiras foi desmantelado e as unidades militares foram imobilizadas em seus
aquartelamentos. Logo a força revolucionária mineira estava a postos nas divisas com os
estados de São Paulo e Rio de Janeiro. (McCANN, 2009, p. 375-376)
Cordeiro de Farias salienta que Aristarcho foi escolhido para a coordenação militar do
movimento mais pela sua antiguidade, afinal de contas era muito mais velho do que os demais
militares revoltosos, do que pelo “treino militar suficiente para orientar uma rebelião”.
Entretanto, Farias ressalta que a chefia tinha que ser de Aristarcho, afinal de contas ele era
irmão de João Pessoa e um homem com grande poder de decisão. (CAMARGO; GÓES,
1981, p. 178)
No Nordeste, onde o movimento foi capitaneado por Juarez Távora e pelo ex-
secretário de segurança do governador João Pessoa, João Américo de Almeida, a resistência
federal durou apenas três dias. Em Pernambuco, além das guarnições federais, as unidades de
Tiros aderiram ao movimento. Na Paraíba a resistência foi maior, já que os principais
281
6.1.1 O 24 de outubro
378
Como relata Tasso Fragoso, nenhuma família do Rio de Janeiro desejava que seu filho vestisse uma farda e
fosse morrer na linha de frente por um homem francamente divorciado dos interesses coletivos. (ARARIPE,
1960, p. 547)
282
379
A Junta Governativa Provisória foi formada por Tasso Fragoso, Menna Barreto e o almirante Isaías de
Noronha. Governou o País até o dia 3 de novembro de 1930, quando o governo foi entregue a Getúlio Vargas.
380
O general Malan era o comandante da Escola de Aviação.
283
horas de reunião, Sezefredo dirigiu-se ao Catete, para colocar o presidente a par dos
acontecimentos. (McCANN, 2009, p. 379-380)
Em torno das 6 horas do dia 24, o general Tasso Fragoso falou ao telefone com os
generais João Gomes Ribeiro, comandante da Vila Militar, e João Álvares de Azevedo Costa,
comandante da 4ª Região Militar, em uma tentativa de convencê-los a aderirem à revolução.
Pouco tempo depois, foi a vez do ministro Sezefredo ligar para Menna Barreto, em uma
tentativa de trazê-lo de volta à legalidade. Barreto informou ao ministro que as ordens para o
levante armado já estavam dadas e que o movimento revolucionário se tratava, justamente, de
uma restauração da legalidade. (ARARIPE, 1960, p. 560; McCANN, 2009, p. 380)
Em torno das 8:30 horas, Malan D’Angrogne mandou informar a Tasso que aderira à
revolução. Imediatamente, recebeu os comandos do 3º Regimento de Infantaria (3º RI),
localizado na antiga sede da Escola Militar da Praia Vermelha, e da Fortaleza de São João, na
Urca. Aos poucos, outros oficiais generais foram aderindo à causa revolucionária, como José
Fernandes Leite de Castro, Firmino Antônio Borba, Álvaro Mariante e Pantaleão Telles
Ferreira. Malan, ao assumir as suas funções no 3º RI, encarregou José Pessoa do comando do
grupamento formado por essa unidade militar e dos civis armados que a ela foram se
agregando. A sua missão seria a mais decisiva do movimento armado: marchar para o Palácio
Guanabara e ocupá-lo. (ARARIPE, 1960, p. 562; McCANN, 2009, p. 380)
Cabe aqui abrir um parêntese, para explicar a situação de José Pessoa quando o
movimento começou. Após concluir o curso de Aperfeiçoamento, Pessoa havia sido
classificado na 5º Brigada de Cavalaria. Porém, nunca assumiu as suas funções, já que havia
solicitado, ainda em 1929, a sua matrícula no curso de Estado-Maior. Como mandava o
regulamento381 que o amparava, deveria aguardar o parecer favorável do Estado-Maior do
Exército no requerimento da matrícula. Por isso, em janeiro de 1930, foi colocado à
disposição do Departamento do Pessoal da Guerra, até que fosse autorizado a realizar o
concurso de admissão.
Após o concurso, José Pessoa não foi classificado para a realização do curso,
instalando-se uma celeuma sobre o assunto, que tomou conta das páginas da imprensa. Sob o
título de “As mesquinharias no Exército”, as edições dos dias 20 e 23 de abril do Correio da
Manhã debateram a não aceitação da matrícula de José Pessoa pelo chefe do EME. José
Pessoa argumentou que havia entrado com grau de recurso junto ao Ministério da Guerra,
porque, há mais de dez anos, alunos, cujos graus tinham sido menores do que o dele, vinham
381
Decreto nº 14.130, de 7 de abril de 1920.
284
382
Conforme nota do jornal Diário Carioca, José Pessoa obteve o grau 4,95 (de um máximo de 10,0) no
concurso de admissão, sendo classificado em segundo lugar, de dez oficiais. O jornal ratificou, ainda, a
informação de Pessoa, de que há anos alunos, cujos graus haviam ficado abaixo de 4,5, vinham sendo
diplomados na Escola de Estado-Maior. Ressaltou, ainda, que a não matrícula de José Pessoa ia de encontro a
todos os dispositivos legais vigentes à época. Cf. Diário Carioca, Rio de Janeiro, 15 mar. 1930, p. 2.
383
No concurso que José Pessoa prestou, o chefe do Estado-Maior do Exército mandou aproveitar somente os
candidatos com notas iguais ou superiores a 5,0. Cf. O Paiz, Rio de Janeiro, 20 abr. 1920, p. 4.
384
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 20 abr. 1930, p. 4.
385
Ibidem.
386
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 23 abr. 1930, p. 4.
285
para a negativa em ceder Aristarcho, João Pessoa indicou então o nome de José Pessoa, o que
também foi negado.387
Por fim, o ponto máximo da indisposição do ministro da Guerra com a parte militar da
família Pessoa ocorreu no início de outubro, dias depois da revolução ter iniciado no Rio
Grande do Sul. Em uma série de avisos publicados no Diário Oficial da União, vários oficiais,
de todas os postos, foram convocados a apresentarem-se no Departamento do Pessoal da
Guerra388, em uma tentativa óbvia do Ministério da Guerra de controlar quem havia se
tornado suspeito de envolvimento no movimento revolucionário. Dentre os nomes elencados,
estavam os de José e Aristarcho. Como os irmãos descumpriram a ordem exarada, passaram à
condição de desertores em 16 de outubro389 e, nessa condição, participaram da revolução. Se a
intenção de Sezefredo Passos era limitar as ações dos irmãos Pessoa, a sua participação na
politicagem do governo acabou os impulsionando no movimento de 1930. Em novembro,
com a anistia dada a todos os militares e civis envolvidos na revolução390, José e Aristarcho
Pessoa foram formalmente reincorporados às fileiras do Exército. Fecha parênteses.
Em entrevista ao jornal A União, de 7 de dezembro de 1930, José Pessoa explica os
motivos de sua deserção e deixa claro que nunca teve a intenção de participar da revolução na
Capital Federal. Quando estivera na capital paraibana, em agosto, para acompanhar o
translado do corpo de João Pessoa para a Capital Federal, foi procurado pelos amigos José
Américo, secretário de Segurança Pública da Paraíba, Anthenor Navarro, diretor da
Repartição de Águas e Esgotos, e José de Ávila Lins, prefeito da Cidade da Paraíba. Esses
conterrâneos colocaram-no a par do movimento revolucionário que estava por acontecer
naquele estado. Ficou combinado que aguardaria no Rio de Janeiro um telegrama cifrado, que
lhe informaria a data oportuna para retornar à Paraíba, de onde, ao lado de Juarez Távora,
dirigiria as ações revolucionárias nos estados do Norte.391
José Pessoa nunca recebeu o telegrama, que, apesar de ter sido enviado, extraviou-se
no caminho. O não recebimento da aguardada comunicação vinda do Nordeste é que o
obrigou a desertar, para não ser preso e ficar, assim, impedido de atuar na revolução, uma vez
que, no Rio de Janeiro, já era sabido que ele participaria das forças revolucionárias dos
estados setentrionais do País. Até ser convocado pelo general Malan para comandar as forças
387
Mensagem apresentada à Assembleia Legislativa da Paraíba em 1930, pelo vice-presidente do estado, Dr.
Álvaro Pereira de Carvalho, p. 80-82.
388
Diário Oficial da União, 9 out. 1930, p. 19.208.
389
Diário Oficial da União, 18 out. 1930, p. 19.759.
390
Decreto nº 19.395, de 8 de novembro de 1930.
391
A União, Cidade da Paraíba, 7 dez. 1930, p. 1.
286
392
Ibidem.
393
Ávila Lins era irmão do prefeito da Cidade da Paraíba, Dr. José de Ávila Lins, um dos articuladores do
movimento revolucionário no estado da Paraíba. Havia comandado o 22º Batalhão de Caçadores, na capital
paraibana, e foi transferido para o rio por influência do irmão político. Exercia a função de fiscal administrativo
do 3º RI. Por ocasião da revolução, estava comandando interinamente o regimento.
394
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JP ag 1930.10.24
395
José Pessoa relata que cerca de três mil civis haviam comparecido ao 3º RI, para tomarem parte da luta
armada. A imprensa carioca da época estimou esse efetivo em torno de dois mil homens.
287
de-ordens do presidente, que abrisse os portões, o que foi feito. Dessa forma, as tropas do 3º
RI ocuparam o interior do Palácio Guanabara, permitindo aos generais Tasso, Menna Barreto
e Malan entregarem a Washington Luís a intimação para deixasse o cargo.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X, p. 5)
396
A intervenção de José Pessoa a favor da prisão do ex-presidente em uma fortaleza do Exército é corroborada
por Tasso Fragoso em suas memórias. In. ARARIPE, 1960, p. 169.
288
desejado. D. Leme sugeriu, então, que Washington Luís ficasse preso no próprio Guanabara.
Pessoa retrucou-lhe que o palácio não poderia ser convertido em um presídio para se recolher
um preso comum, ao que foi severamente repreendido por Tasso Fragoso, que lembrou que o
momento não era de intransigências. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X, p. 17-22)
Imagem 44 – General Tasso Fragoso (centro) nos jardins do Palácio Guanabara, 24 out. 1930.
Diante do impasse que se estabeleceu, José Pessoa narra que se retirou para o jardim
do Palácio, onde foi buscar alguns soldados, a fim de estabelecer uma guarda à porta do salão
em que se encontrava o ex-presidente. Solicitou, então, que se retirassem do local as pessoas
estranhas à Junta Provisória, que se encontrava na sala contígua. Logo após, dirigiu-se aos
generais e informou que daria um prazo de quinze minutos para que Washington Luís se
decidisse, sendo que, após esse prazo, empregaria a força para retirar o presidente deposto do
palácio. Após um período de relutância, e graças aos conselhos de D. Leme, o presidente
entregou-se, sendo recolhido preso ao Forte de Copacabana já ao anoitecer do dia 24 de
outubro. Os ministros do governo deposto que o acompanhavam também foram recolhidos a
outros quartéis da guarnição.397
No dia 25 de outubro o destacamento formado na Praia Vermelha foi dissolvido e,
antes de devolver o comando do 3º RI a Ávila Lins, José Pessoa mandou publicar no boletim
397
Conforme depoimento prestado por José Pessoa ao deputado Maurício de Lacerda, um dia após a tomada do
Palácio Guanabara. Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1930.10.24.
289
da unidade uma ordem do dia, na qual ressaltava a participação do Regimento nas ações de 24
de outubro, que se deram sob o seu comando. Além disso, deixava claro que o movimento
conduzido pelo Exército ocorreu para trazer novamente o Brasil à legalidade.
398
O Jornal, Rio de Janeiro, 26 out. 1930, p. 6.
290
399
Com o golpe de 1930, Leite de Castro ocupou a pasta da Guerra.
400
O Jornal, Rio de Janeiro, 25 out. 1930, p. 2 e 4.
401
O Jornal, Rio de Janeiro, 26 nov. 1930, p. 3.
291
402
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 28 nov. 1930, p. 3; O Jornal, Rio de Janeiro, 28 nov. 1930, p. 9.
403
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 26 nov. 1930, p. 2; O Jornal, Rio de Janeiro, 27 nov. 1930, p. 7; A União,
Cidade da Paraíba, 6 dez. 1930, p. 1.
404
Nas memórias que escreveu do pai, Malan D’Angrogne, o general Souto Malan confirma a existência do
ofício elogioso preparado por D’Angrogne e enviado apara Leite de Castro. (MALAN, 1977, p. 314)
292
o seu comando, como a referência elogiosa do general Malan já havia confirmado, e que, na
verdade, Ávila Lins sequer havia participado da tomada do Guanabara, pois, quando a tropa
começou a avançar sobre o Palácio, Lins retirou-se para o aquartelamento da Praia Vermelha,
sem apresentar razão para tal. Na reportagem relatou, também, os encontros que teve na
Paraíba com os articuladores da revolução e o período em que esteve homiziado na casa de
amigos, para não ser preso, no Rio de Janeiro. E que, inclusive, no dia 23 de outubro, ao
buscar informações sobre o movimento com Ávila Lins, por intermédio do Dr. Manuel de
Carvalho, recebeu daquele a notícia de que o plano dos generais havia fracassado e, por conta
disso, podia tratar de ausentar-se.405
A resposta de Lins a José Pessoa foi publicada em 14 de dezembro. Nela, Lins
praticamente ratificou todas as informações que já havia apresentado sobre os fatos na
reportagem de O Jornal, de 25 de outubro. Também apresentou uma série de fatos novos que
teriam acontecido nos dias 24 e 25 de outubro, dando destaque para o seguinte:
- ressaltou que sempre manteve José Pessoa informado sobre o que se passava no Rio
de Janeiro e que, na verdade, era Pessoa que se encontrava desiludido com o movimento e
desejoso de se ausentar da Capital Federal;
- Pessoa chegou ao 3º RI já tarde da noite do dia 23 de outubro, em carro particular,
em trajes à paisana e com a barba por fazer. Depois de tomar conhecimento do plano de
operações de Menna Barreto, solicitou-lhe um local para repousar um pouco;
- negou veementemente que esteve subordinado à Pessoa e que jamais recebera ordem
do general Malan para tal. E, mesmo que a tivesse recebido, jamais a cumpriria: “se
tivéssemos que nos subordinar a um comando superior, este não seria certamente o do Sr. Cel.
Pessoa”. Ressaltou que se encontrava presente no 3º RI o coronel Affonso Pinho de Castilho,
um velho camarada da revolta tenentista de 1922, e que, inclusive, era mais antigo que José
Pessoa. Se tivesse que se subordinar a alguém, seria a Castilho;
- nunca enviou recado a José Pessoa por intermédio do Dr. Manuel de Carvalho,
mandando-o ausentar-se do Rio de Janeiro;
- ao chegar à praia de Botafogo deixou o Regimento a comando dos seus oficiais e
pegou um táxi até o Palácio Guanabara. Lá chegando, constatou que uma companhia do 3º RI,
comandada pelo capitão Soares dos Santos, já se encontrava no local e mantinha o ex-
presidente Washington Luís preso. Retornou, então, para a Rua Farani, onde reencontrou José
Pessoa, que marchava com o restante da tropa do Regimento para o Guanabara, sendo essa a
405
A União, Cidade da Paraíba, 7 dez. 1930, p. 1.
293
última vez que o viu. Não seguiu juntamente com a tropa porque não havia mais nada a se
fazer no Palácio;
- jamais mandou publicar no boletim do Regimento a ordem do dia exarada por José
Pessoa no dia 25 de outubro. Em relação a esse fato, alegou que os oficiais da unidade
ameaçaram rebelarem-se contra a publicação de Pessoa e que só não o fizeram porque ele os
impediu;
- relatou que o ministro Leite de Castro informou-lhe jamais ter recebido um ofício
elogioso do general Malan a respeito das ações de José Pessoa na tomada do Guanabara e que
Malan jamais autorizou Pessoa a publicá-lo em qualquer veículo de imprensa.406
Apesar da longa exposição que fez, sob o pretexto de trazer à tona a verdade dos fatos
ocorridos em 24 de outubro, somente no fim da matéria jornalística fica claro o real motivo de
Ávila Lins avocar insistentemente para si o comando das tropas da Praia Vermelha: o alarde
que a imprensa do Rio de Janeiro fez da atuação de José Pessoa no movimento revolucionário
de 24 de outubro. Lins sentia-se incomodado com o fato de Pessoa, como o legítimo
representante de João Pessoa, ter sido recebido em Botafogo sob os aplausos da população.
Também o perturbava os jornais cariocas terem publicado, no dia seguinte à tomada do
Guanabara, fotos e referências elogiosas à ação de José Pessoa no comando do 3º RI. Havia,
ainda, a publicação da ordem do dia de Pessoa no periódico O Jornal, o que teria acentuado
aos olhos do meio civil a sua participação no movimento de 24 de outubro. Em suma, pesava
sobre a moral de Lins o esquecimento completo de seu nome pela imprensa carioca.407
Não fica claro se foi motivada pelas entrevistas dadas por Lins, mas, segundo José
Pessoa, mas uma sindicância foi aberta, por ordem de Leite de Castro. A finalidade era apurar
o paradeiro daquele oficial no dia em que o 3º RI marchou sobre o Palácio Guanabara.
Em um primeiro momento, no relatório que encaminhou a Leite de Castro, Pessoa
reafirmou que foi investido do comando do 3º RI pelo general Malan em pessoa, no gabinete
do comandante do Regimento, estando presente ao ato, inclusive, o próprio Ávila Lins, além
de outros oficiais da unidade. Mesmo diante desse fato, e da referência elogiosa em que
Malan o confirmou como comandante superior das tropas da Praia Vermelha, José Pessoa
deixou claro que as entrevistas de Lins aos jornais cariocas e paraibanos não serviram a outra
coisa senão colocar em dúvida a sua autoridade, diante dos sucessos que obtivera, e a
autoridade dos membros da Junta Provisória. Com isso, afirmou Pessoa, Lins provara ter
406
A União, Cidade da Paraíba, 14 dez. 1930, p. 1 e 3.
407
A União, Cidade da Paraíba, 14 dez. 1930, p. 1 e 3.
294
sido desleal com seus superiores hierárquicos, além de ter tentado iludir a opinião pública,
buscando para si “glórias imerecidas”.408
Pessoa afirmou a Leite de Castro que, certamente, as entrevistas de Lins tinham um
propósito político, diante do alarde que elas haviam provocado na imprensa paraibana, em
especial as publicações feitas no jornal A União, órgão oficial de imprensa do governo
paraibano, cujo diretor era o irmão de Ávila Lins.409
Quanto à ausência de Ávila Lins nas ações do Guanabara, Pessoa informou que ela se
deu devido ao fato daquele oficial ter se retirado de Botafogo quando as ações tomaram o
aspecto de luta armada e que, alguns dias depois, foi por ele procurado, para justificar-se,
dizendo que havia retornado ao quartel da Praia Vermelha para tomar certas providências. Em
relação às afirmações que Lins fez aos jornais de que estivera no Guanabara por ocasião da
prisão de Washington Luís, Pessoa ressaltou que não passavam de notícias espalhafatosas, já
que ninguém o havia visto no local, nem mesmo a imprensa.410
Tanto Tasso Fragoso quanto Malan D’Angrogne atestam, em suas memórias, que o
comando das tropas formadas pelo 3º Regimento de Infantaria e do batalhão de civis
estiveram sob o comando de José Pessoa, no movimento de 24 de outubro. Tasso afirma que o
general Malan “encarregou o coronel José Pessoa de pôr-se à testa do grupamento formado
por essa unidade [3º RI] e os numerosos civis que a ela se tinham agregado”411. Por sua vez,
Malan registrou em seu diário que, de fato, havia estado no 3º RI, logo após ter recebido a
missão de comandar as tropas da Praia Vermelha e do Forte São João e relata a chegada
naquele quartel: “Converso um pouco e anarquia, abraço o José Pessoa a quem dou o
comando da praça...” (sic)412. Se João Pessoa havia se tornado o mártir da revolução, nada
poderia ser mais significativo, aos olhos da imprensa e da população, do que o próprio irmão
do mártir adentrar o Guanabara e depor aquele que era considerado o principal responsável
pelo caos político e econômico em que se encontrava a Nação.
A participação de José Pessoa na tomada do Guanabara causou outra controvérsia,
dessa vez com o coronel Bertholdo Klinger, que tinha sido empossado por Tasso e Menna
Barreto chefe do estado-maior revolucionário, no Forte Copacabana, em 23 de outubro. O que
gerou os embates entre Pessoa e Klinger foi a publicação do livro A Expiação, do jornalista
Rubey de Menezes Wanderely, 1931. Nele, dentre outras coisas, o autor transcreve as
408
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1930.10.24.
409
Ibidem.
410
Ibidem.
411
Araripe, 1960, p. 562.
412
Malan, 1977, p. 310.
295
413
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 19 jun. 1931, p. 2.
296
Após devolver o comando do 3º RI a Ávila Lins, José Pessoa foi designado pela junta
governativa para o comando do Corpo de Bombeiros da Capital Federal.415 Cabe ressaltar, no
entanto, que o Corpo de Bombeiros, à época, era uma corporação bastante diferente da que
existe hodiernamente.
Criado em 1856, por um decreto imperial416, com a finalidade de prestar um serviço de
extinção de incêndios na capital do Império, o Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro é a
corporação dessa natureza mais antiga do Brasil. Inicialmente, não tinha um caráter militar,
sendo o trabalho de combate a incêndios executado pelos operários dos arsenais de Guerra e
da Marinha, das obras públicas e das casas de correção. Em cada uma dessas repartições
organizou-se uma seção de bombeiros, que era composta, como indicava o decreto, pelos
“operários mais ágeis, robustos e moralizados, preferindo-se os mais amestrados em qualquer
um dos ofícios de maquinismo ou de construção”. As seções das quatro repartições
formavam, assim, o Corpo Provisório de Bombeiros da Capital, sob o comando de um oficial
414
O Jornal, Rio de Janeiro, 16 e 29 jul. 1931.
415
No dia 25 de outubro de 1930, a junta governativa provisória fez uma série de nomeações: o general Leite de
Castro foi nomeado ministro da Guerra; o general Malan, chefe do Estado-Maior do Exército; o general Firmino
Antônio Borba, comandante da 1º Região Militar; o almirante Isaías de Noronha, cumulativamente à função de
membro da junta governativa, foi nomeado ministro da Marinha; o general Deschamps Cavalcanti, comandante
da Polícia Militar do Distrito Federal; o coronel Bertholdo Klinger, chefe da Polícia do Distrito Federal e José
Pessoa, comandante do Corpo de Bombeiros. O Jornal, Rio de Janeiro, 29 out. 1930, p. 4.
416
Decreto nº 1.775, de 2 jul. 1856.
297
Imagem 45 – Vista interna do Quartel Centra do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal, década de 1910.
Em 1917, por meio de decreto418, as forças policiais dos estados, bem como a Brigada
Policial e o Corpo de Bombeiros do Distrito Federal, passaram a se constituir forças auxiliares
do Exército Nacional, desde que houvesse a concordância dos governadores a que essas
forças estivesses subordinadas. Com isso, poderiam ser convocadas em caso de mobilização
do Exército e participarem das manobras militares anuais da Instituição. Nessas ocasiões,
417
Decreto n° 7.666, de 19 jul. 1880.
418
Decreto nº 3.216, de 3 jan. 1917.
298
419
Decreto nº 19.374, de 20 out. 1930.
420
Decreto nº 16.274, de 20 dez. 1923.
299
Imagem 46 – Vista aérea do Quartel Centra do Corpo de Bombeiros da Capital Federal, 1938
(indicada pela seta, Praça da República no canto superior esquerdo da foto).
A origem da confusão que tomou conta das ruas do Rio de Janeiro foi o 1º Batalhão de
Polícia Militar. Naquele quartel, dois soldados que haviam protestado contra a má qualidade
do rancho foram duramente repreendidos pelo comandante do batalhão, major José Augusto
de Ferreira e Silva, que os teria, inclusive, agredido fisicamente. Indignados com a atitude do
comandante do batalhão, os demais soldados da unidade depredaram as louças e o mobiliário
do rancho. Diante da situação, Ferreira e Silva, que era simpatizante do presidente deposto,
ligou para o quartel-general da PM, informando que o 1º BPM havia se rebelado contra o
novo governo. Ao mesmo tempo, aproveitando-se da situação, de acordo com o jornal
Correio da Manhã, supostos elementos comunistas, infiltrados naquele batalhão, telefonaram
para diversas unidades do Exército e da Polícia, alarmando-as umas contra as outras, em razão
de ataques que estavam em curso. Em decorrência da informação falsa, praticamente todas as
unidades do Exército da Capital Federal entraram em prontidão e alguns batalhões da PM
saíram armados às ruas, para tomarem de assalto os quartéis do Exército mais próximos.421
O alarme falso gerado no 1º BPM levou a Capital Federal à beira do caos, na manhã
do dia 27 de outubro. Para citar apenas alguns exemplos da movimentação militar que tomou
conta da cidade: no Méier, o 3º BPM ameaçou deixar o seu aquartelamento para tomar de
421
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 28 out. 1930, p. 1 e 6; O Jornal, Rio de Janeiro, 28 out. 1930, p. 3.
300
José Pessoa não detalha, em suas memórias, como ocorreu o choque entre tropas a que
se refere. Entretanto, dois eventos, que foram noticiados pelos jornais do Rio de Janeiro,
envolveram diretamente a guarda do Corpo de Bombeiros.
Em um depoimento que deu ao periódico O Jornal, Pessoa esclareceu um fato que
resultou na morte de quatro soldados do Exército e que deixou muitos outros feridos. Um
caminhão que transportava praças do 1º Regimento de Infantaria investiu em alta velocidade
contra a linha de defesa que havia sido montada em frente ao quartel dos bombeiros,
certamente imaginando estar o Corpo de Bombeiros sublevado, também. Nesse momento, o
422
Ibidem.
301
sargento que conduzia a viatura mandou abrir fogo contra a tropa dos bombeiros, que
prontamente reagiu. A guarda que fazia a proteção do quartel-general da Polícia Militar, que
ficava próximo ao do Corpo de Bombeiros, também abriu fogo contra o caminhão.
Visivelmente transtornado com a situação, José Pessoa afirmou que o acidente “não passou de
um mal-entendido” e que seu resultado foi uma “obra de impatriotas que procuram, valendo-
se do momento, estabelecer confusão no espírito público”.423
Imagem 47 – Força do Corpo de Bombeiros na Rua Visconde de Rio Branco, próximo à Praça da
República, 27 out. 1930.
423
O Jornal, Rio de Janeiro, 28 out. 1930, p. 3.
424
Diário Carioca, Rio de Janeiro, 27 out. 1930, p. 4.
302
O Diário de Notícias noticiou, ainda, que uma companhia do 4º BPM tentou tomar de
assalto o quartel dos bombeiros. No entanto, antes mesmo de chegar à Praça da República,
foram rechaçados a tiros pela guarda da corporação, não tendo a troca de tiros resultado em
mortes. A tropa da PM, detida, acenou com um lenço branco. Após esse ato, as duas forças
entraram em entendimento, tendo os soldados da PM percebido o grande mal-entendido que
estava em curso e retornado ao seu quartel.425
Alguns jornais mal-informados atribuíram, ainda, ao tenente-coronel Bandeira de
Mello a responsabilidade dos acontecimentos de 27 de outubro. Nesses periódicos foi
noticiado que, sob a liderança desse oficial legalista da PM, que estaria inconformado com o
movimento de 24 de outubro, um pequeno efetivo do 5º Batalhão de Polícia Militar teria
iniciado um levante comunista na Capital Federal.426
O suposto levante da Polícia Militar foi encerrado no mesmo dia em que tomou forma
e com os dois oficiais da PM que teriam iniciado o motim, presos: o major José Augusto de
Ferreira e Silva e o tenente-coronel Bandeira de Mello. A versão oficial do governo provisório
foi dada pelo general Deschamps Cavalcanti, comandante da Polícia Militar nomeado pela
Junta Provisória, para quem os acontecimentos não passaram de “uma ligeira manifestação
comunista, prontamente sufocada pelo Exército, Corpo de Bombeiros, Polícia Militar e
civis”427.
Entre o discurso de posse e o discurso de despedida de José Pessoa do comando do
Corpo de Bombeiros passaram-se exatamente dezoito dias. No dia 11 de novembro, Leite de
Castro mandou chamá-lo ao ministério da Guerra e ofereceu-o o comando da Escola Militar.
Alguns anos antes, durante o tempo em que serviram juntos na Comissão de Aquisição de
Material, em Paris, compartilharam ideias sobre a transformação que a formação dos oficiais
do Exército deveria sofrer. Leite de Castro disse que, no comando da Escola Militar, Pessoa
poderia pôr em prática todas as ideias que os dois comungavam.
José Pessoa recusou o convite de Leite de Castro, alegando que nada poderia fazer em
um ambiente em que a política mandava. O ministro garantiu-lhe total apoio durante, já que
era necessário dar uma nova forma à oficialidade do Exército, e terminou a conversa
informando a Pessoa que essa era a sua nova missão. Diante das garantias dadas por Leite de
Castro, não restou a José Pessoa outra atitude senão a de aceitar a missão imposta, com a
425
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 27 out. 1930, p. 2.
426
Diário Carioca, Rio de Janeiro, 27 out. 1930, p. 4.
427
Ibidem.
303
afirmou que o movimento pacificador ensejado por ele e pelos oficiais da junta governativa,
na Capital Federal, somente ocorreu com o propósito de evitar uma guerra civil, que levaria a
um derramamento desnecessário de sangue no País. Como lembra McCann (2011, p. 382),
embora Tasso tenha personificado, em grande medida, a alma do Exército em 1930, a rebelião
que ele e seus colegas generais levaram a cabo distinguiu-se dos golpes institucionais que se
veriam no Brasil anos mais tarde, em 1937, 1945 e 1964. O golpe de 24 de outubro, segundo
o autor, foi um golpe da alta oficialidade contra a própria estrutura do comando do Exército,
contra o presidente da República, o ministro e o chefe do Estado-Maior. Foi um indicador da
desintegração da Instituição.
Imagem 49 – Oswaldo Aranha (de terno) e o general Tasso Fragoso (de frente para
Aranha) conversam no Palácio do Catete, 28 out. 1930.
Imagem 50 – Getúlio Vargas (ao centro) entre membros da Junta Governativa: general Menna
Barreto (E) e general Tasso Fragoso (D), 31 out. 1930.
428
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 3 de novembro de 1930, p. 1.
307
Nos cargos destinados às Forças Armadas, Vargas manteve as nomeações feitas pela
Junta Provisória. O general Leite de Castro permaneceu à frente da pasta da Guerra, o general
Malan na chefia do Estado-Maior do Exército e o almirante Noronha como ministro da
Marinha. Para a chefia da Casa Militar da presidência foi nomeado o general Francisco
Ramos de Andrade Neves. Dos generais, Leite de Castro e Andrade Neves eram gaúchos e
Malan havia servido durante muito tempo no Rio Grande do Sul. Os três haviam sido
procurados por Lindolfo Collor antes da revolução e se mostraram favoráveis à deposição de
Washington Luís. Todos eles eram a favor da modernização do Exército e possuíam ampla
experiência na Europa.429 (FORJAZ, 1988, p. 107; McCANN, 2011, p. 387-388)
Um fato curioso, narrado por Malan D’Angrogne, ocorreu no Palácio do Catete, no
mesmo dia em que Washington Luís foi deposto. À noite, a Junta Provisória reuniu-se e Leite
de Castro mostrou-se contrário à entrega do poder a Vargas. Ao que tudo indica, Malan
comungava da ideia de Castro. No seu diário escreveu: “fizemos a revolução e o povo quer
que tomemos conta do país”. (MALAN, 1977, P. 312)
McCann (2011, p. 388) lembra que Vargas tinha por hábito manter os potenciais
aspirantes ao poder dentro da sua esfera de controle. Dessa forma, mantinham-se tão
intimamente envolvidos com o governo que acabavam cooptados ou neutralizados. Assim foi
com as nomeações de Leite de Castro e Malan. Em pouco tempo, o primeiro tornou-se um
ardoroso defensor da revolução e dos tenentes que a fizeram. Uma prova disso era o efetivo
do seu gabinete. Dos onze oficiais nomeados, sete eram tenentes de 1922 e 1924, dentre os
quais os majores Eduardo Gomes e Estillac Leal, os capitães Cordeiro de Farias e Dulcídio
Gomes e o primeiro-tenente Filinto Müller.
Getúlio Vargas ainda interveio nos estados. Segundo Tavares (1982, p. 111-112), nos
primeiros momentos do pós-1930, a revolução havia assumido o propósito de reorganizar o
Estado por meio de uma reforma radical, com o poder confluindo para Vargas. O que
interessava ao grupo que ascendeu ao poder com o golpe de 1930 era transformar as antigas
sociedades oligárquicas regionais e locais em uma sociedade nacionalmente integrada e
centralmente orientada. Desse modo, segundo o autor, os primeiros momentos do governo
Vargas foram destinados à reestruturação política do Estado, por meio da centralização
burocrática-institucional. Com esse propósito, Getúlio substituiu os presidentes dos estados
429
Como tenente-coronel, Leite de Castro foi subchefe da Comissão de Estudos de Operações e Aquisições de
Material na França, em 1918. Durante a Primeira Guerra, integrou o estado-maior do general Charles Mangim,
comandante da artilharia francesa. Malan D’Angrogne, no posto de major, foi para Paris em 1916, para exercer a
função de adido militar na França. Durante a estada de Hermes da Fonseca na Europa, acompanhou-o na visita à
frente belga. Andrade Neves, como coronel, foi adido militar na Bélgica entre 1923 e 1925. (McCANN, 2011, p.
626-627)
309
por pessoas de sua inteira confiança, que ele mesmo nomeou. Eram militares430 ou civis que
haviam participado do levante de outubro. O único estado que teve o seu presidente mantido,
Olegário Maciel, foi Minas Gerais. Como destaca McCann (2011, p. 386), com uma profusão
de decretos, Getúlio Vargas varreu a Primeira República para os arquivos da história.
Essas nomeações, para Forjaz (1988, p. 109), colocaram em evidência o choque que
passou a existir entre a proposta autoritária e centralizadora dos tenentes e o projeto liberal-
regionalista das oligarquias vencedoras em 1930. Como ressalta Gomes (1980, p. 28),
enquanto os tenentes procuravam emprestar ao estado as suas ideias centralizadoras, as
antigas oligarquias divergentes defendiam a manutenção das prerrogativas de autonomia
estadual, de limitação dos poderes da União.
Segundo Santos Neto (2007, p. 39-40), esses interventores agiam como fiscalizadores
e ordenadores da revolução. Além disso, formaram um corpo burocrático que refletiu a
ascensão dos tenentes aos cargos políticos. A sua conduta, que em um primeiro momento
parecia estranha ao meio e era delimitada por um Código dos Interventores 431, acabou, aos
poucos, comungando dos velhos hábitos políticos que deveriam combater. Por isso, Vargas
costumava manter os interventores pouco tempo em seus cargos, o que possibilitava um maior
controle do Governo Provisório.
Na Paraíba, o primeiro nome indicado para o cargo de interventor foi o de José
Américo de Almeida, homem de confiança do governo de João Pessoa e um dos líderes da
revolução no estado. Américo ficou apenas um mês na função, pois foi chamado por Vargas
para compor o ministério do Governo Provisório, assumindo a pasta da Viação e Obras
Públicas. Em seu lugar foi nomeado Anthenor Navarro, uma indicação de Juarez Távora, um
dos próceres da revolução no Nordeste. Segundo Santos Neto (2007, p. 43), Navarro era um
revolucionário de última hora e que, mesmo não sendo militar, aproximou-se dos ideais
tenentistas. Foi atuando como um verdadeiro “tenente civil” e defendendo os princípios da
revolução que pautou a sua administração, favorecida por um novo ordenamento estatal forte
e por um processo de centralização burocrático-administrativo.
Foi atuando na política paraibana, como um dos membros do governo de João Pessoa,
que Anthenor Navarro ganhou destaque. No cargo de diretor da Repartição de Água e Esgoto
da capital paraibana reestruturou o sistema de abastecimento e regularizou o fornecimento de
430
Dos interventores nomeados, sete eram militares: general José Antônio Flores da Cunha, no Rio Grande do
Sul; general Ptolomeu de Assis Brasil, em Santa Catarina; general Mário Tourinho, no Paraná; coronel João
Alberto Lins de Barros, em São Paulo; capitão-tenente Humberto Arêa Leão, no Piauí; tenente Joaquim de
Magalhães Cardoso Barata, no Pará; e general José Calazans, em Sergipe. Fontes: O Jornal, Rio de Janeiro, 15,
20, 25 e 26 nov. 1930.
431
Decreto nº 20.348, de 29 de agosto de 1931.
310
água da cidade. Revolucionário convicto, nunca escondeu as suas ideias e sua perspectiva
moralizadora da política brasileira. Ao lado de José Américo e Juarez Távora, foi um dos
articuladores da revolução de 1930 na Paraíba. Nesse período, aproximou-se dos propósitos
tenentistas, passando a ser um ferrenho defensor de um novo ordenamento político para o
Brasil. E foi justamente com essa base moralizadora e saneadora que Navarro conduziu o
governo do estado, alinhando-se ao movimento de 30. Com propostas que davam
continuidade à obra de João Pessoa, tratou de soerguer a economia, a administração e a
estrutura burocrática da Paraíba, ao mesmo tempo em que passou a questionar as velhas
práticas políticas da Primeira República. (SANTOS NETO, 2007, p. 48-49)
Sob a batuta de Távora e Américo, a montagem de um aparato centralizador de estado
passou a ser uma regra nos estados do Nordeste. Foi sob a liderança desses dois personagens,
como lembra Santos Neto (2007, p. 50), que um novo pacto de poder estatizado e de conduta
moralizadora foi firmado entre os estados do Norte e Nordeste. A indicação de Navarro para a
interventoria da Paraíba consolidou a perspectiva desse pacto e garantiu as transformações
pelas quais passaria o estado, que resultaram no desmonte dos mecanismos de dominação das
velhas oligarquias paraibanas. Sendo assim, a participação dos grupos de poder locais deixou
de ser significativa na nova estrutura política que surgiu no pós-1930.
Ao longo do tempo de sua interventoria (1930-1932), Navarro procurou aproximar a
sua administração dos ideais revolucionários e dos princípios de centralização estatal que
haviam sido defendidos por João Pessoa durante o seu governo. Haja visto a comoção social
que tomou conta do estado e a crescente mitificação das medidas administrativas adotadas
pelo ex-presidente da Paraíba, a ação intervencionista de Anthenor Navarro passou,
necessariamente, pela continuidade do processo de centralização burocrático-administrativa
iniciado pelo seu antecessor. Fiel a esse modelo de centralização, que se deu em todas as
esferas de sua jurisdição, empreendeu uma forte campanha de soerguimento das finanças do
estado e aumentou a fiscalização dos municípios, impondo limites à sua autonomia.
(SANTOS NETO, 2007, p. 50-51)
Essas duas ações administrativas, que pautaram o governo intervencionista de
Navarro, não podem ser dissociadas uma da outra. Ao promover o rigoroso controle das
finanças estatais, interferiu diretamente no controle exercido pelos poderes locais. Exonerou,
removeu e transferiu um grande número de funcionários públicos que mal exerciam as suas
funções. Ao mesmo tempo em que reorganizou o quadro funcional da Paraíba, promoveu uma
revisão criteriosa dos vencimentos pagos pelo estado. Com isso, subordinou completamente o
funcionalismo público à suas ordens, atingindo os apadrinhados políticos dos chefes locais,
311
432
Diário Carioca, Rio de Janeiro, 3 abr. 1931, p. 12.
433
A União, João Pessoa, 7 abr. 1931, p. 7.
434
Epitácio Cavalcanti, à época, ocupava o cargo de função de chefe de gabinete do ministro da Agricultura.
435
Epitácio não cita o nome do cunhado.
436
Diário Carioca, Rio de Janeiro, 3 abr. 1931, p. 12.
437
A União, João Pessoa, 8 abr. 1931, p. 1.
313
Federal e da Paraíba. Segundo esses periódicos, à frente do malfadado intento estava Joaquim
Pessoa. A falsa notícia esquentou ainda mais as desavenças entre a família Pessoa e Navarro,
que foi aos jornais esclarecer que nada de anormal se passava em seu estado.438 Se a intenção
da família Pessoa era desqualificar a figura do interventor da Paraíba, foi este que logo tratou
de desmerecer a importância dos membros da oligarquia de Umbuzeiro para o estado.
Anthenor Navarro ressaltou que se havia uma pessoa na Paraíba que não encontraria
apoio para um movimento revolucionário, esse alguém era Joaquim Pessoa. Alegou que,
devido ao tamanho do seu desprestígio, Joaquim não contaria sequer com o apoio dos amigos.
Navarro fez questão de deixar claro, também, o conceito que João Pessoa tinha do irmão.
Navarro insinuou, ainda, que Joaquim não gozava da consideração de nenhum dos
membros mais próximos da família Pessoa. Segundo o interventor, Epitácio Pessoa não teria
aprovado a escolha do sobrinho para ocupar a prefeitura da capital paraibana, considerando a
nomeação do parente o único erro do breve governo de José Américo. Alegou que essa
também era a opinião de José Pessoa, para quem o irmão estava impossibilitado de assumir
qualquer cargo político da Paraíba. Essa opinião de Pessoa teria sido externada em uma
reunião feita da casa de Oswaldo Pessoa, quando estivera na capital paraibana para buscar o
corpo do irmão assassinado, na qual estavam presentes o próprio Navarro e José Américo. A
opinião dos irmãos a respeito de Joaquim seria devido ao comportamento mesquinho e
impertinente que ele sempre mantivera ao longo do governo de João Pessoa. O interventor
apontou, ainda, que comungavam da mesma opinião quase todos os membros da família
Pessoa, citando a viúva do ex-presidente da Paraíba, Epitácio Cavalcanti e Antônio Pessoa
Filho.440
Na entrevista, Navarro insinuou, também, que Joaquim havia confabulado contra o
governo de João Pessoa, por ocasião do rompimento deste com o governo federal durante as
eleições de 1930, e que tinha fome pelo poder, já que sempre almejou o controle da Paraíba,
após o movimento revolucionário. O interventor apontou, ainda, que, somente mantivera
Joaquim à frente da prefeitura de João Pessoa atendendo a um pedido de Juarez Távora.
438
O Jornal, Rio de Janeiro, 28 jun. 1931, p. 9.
439
Ibidem.
440
Ibidem.
314
441
Ibidem.
442
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 30 jun. 1931, p. 2.
443
Ibidem.
315
seus favorecidos. E lembrou que, ao contrário do desejo do povo paraibano, Navarro somente
ocupava o cargo de interventor por uma indicação de Juarez Távora.444
De fato, José Pessoa nunca foi a favor da escolha de Anthenor Navarro para a
interventoria da Paraíba. Após o movimento de 24 de outubro, Pessoa e Juarez Távora
encontraram-se no Rio de Janeiro. Na ocasião discutiram a interventoria da Paraíba. Alguns
dias depois e após ter refletido melhor sobre o assunto, José Pessoa escreveu ao colega
revolucionário. Na carta, reafirmou que jamais pleiteara para amigos ou parentes posições de
mando no governo paraibano. Lembrou-o que trabalhara em prol da revolução a fim de
restabelecer o verdadeiro regime democrático no País, o que fez sem se vincular a grupos ou
partidos políticos.445
No documento, José Pessoa discordou da indicação de Anthenor Navarro para ocupar
a interventoria da Paraíba no lugar de José Américo e questionou os motivos que levaram
Távora a tal decisão. Respaldou a sua discordância na pouca idade de Navarro, o que não lhe
dava, ainda, “o descortino necessário para tomar sobre os ombros as responsabilidades de um
cargo que exige, neste instante de remodelamentos graves e radicais, o uma grande
capacidade realizadora”. Para Pessoa, a vaga de Américo deveria ser ocupada “por um
paraibano cuja individualidade não se restringisse a uma simples promessa”. E, advogando
em causa da família Pessoa, lembrou a Távora que, se existiam na Paraíba “espíritos
brilhantes como Irineu Joffily446 e mesmo Joaquim Pessoa”, não seria justo esquecê-los
naquele momento de reivindicações liberais.447
Uma carta de igual teor foi enviada para José Américo, enquanto ainda ocupava o
cargo de interventor na Paraíba. No texto, praticamente idêntico ao da carta enviada a Távora,
José Pessoa deixou clara, mais uma vez, sua posição contrária à indicação de Navarro, por
entender que ele não satisfazia totalmente “os interesses político-administrativos” da Paraíba,
pela qual João Pessoa havia “empregado todas as energias na defesa de sua autonomia”. E,
novamente, defendeu o nome do irmão para o cargo. Qualquer outra escolha, no seu entender,
seria atentar contra a memória de João Pessoa.448
444
Ibidem.
445
Carta de José Pessoa à Juarez Távora sobre a interventoria da Paraíba, de 7 de novembro de 1930. Acervo
José Pessoa. JPag1930.11.07. Publicada no Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 30 jun. 1931, p. 2.
446
Irineu Joffily era paraibano de Campina Grande. Em 1930, como deputado estadual da Paraíba, apoiou a
Aliança Liberal nas eleições presidenciais. Tomou parte do movimento de 3 de outubro no seu estado. Indicado
por Juarez Távora, em novembro de 1930 foi nomeado por Getúlio Vargas interventor do estado do Rio Grande
do Norte. Três anos mais tarde, foi eleito deputado federal pelo Partido Progressista, representando o estado da
Paraíba na Assembleia Constituinte. MAYER, Miguel Jorge. Irineu Joffily. In.: CPDOC. Verbetes.
447
Ibidem.
448
Carta de José Pessoa à José Américo sobre a interventoria da Paraíba, de 12 de novembro de 1930. Acervo
José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1930.11.07.
316
Em sua narrativa autobiográfica, fica claro que José Pessoa não concordava com as
nomeações feitas pelo governo provisório para as interventorias dos estados do Norte e
Nordeste do País. As indicações de Juarez Távora, no seu entender feitas à revelia, entregaram
os estados a interventores bisonhos e incapazes, que os submeteram a regimes lastimáveis de
experiências. As violências e perseguições, praticadas com “requintes de crueldade”,
deixavam evidentes que havia uma completa falta de orientação jurídica nas unidades da
federação. Segundo Pessoa, “por toda a parte corria uma desorientação geral”.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X, p. 25)
A intensa troca de farpas entre Navarro e a família Pessoa, tendo como veículo as
páginas dos jornais cariocas, durou meses.
De um lado, Navarro reafirmando as acusações que fazia aos Pessoa, em espacial a
Joaquim, a quem acusava de ter favorecido os irmãos em concessões feitas durante o tempo
em que esteve à frente do governo da capital paraibana, o que ocasionou a sua queda do
cargo, e a José, a quem acusou de afastar-se propositalmente da Paraíba durante a revolução
de 1930, por ser anti-revolucionário e por não aceitar a liderança de Juarez Távora, à época
capitão, enquanto Pessoa era coronel. Navarro acusou, ainda, José Pessoa de não aceitar o
rompimento do irmão com o governo de Washington Luís e chegou a lembrar as acusações
feitas por Ávila Lins a respeito da liderança do 3º RI na tomada do Palácio Guanabara e os
doze contos de réis gastos por Pessoa na viagem à Paraíba para buscar o corpo do irmão, que
foi feita às expensas do governo federal.450
Do outro lado, José Pessoa rebatendo as acusações de Navarro e ressaltando a
tagarelice, as calúnias e as intrigas do interventor paraibano, feitas “numa desenvoltura de
escandalizar até mesmo os frequentadores de senzala”. Para Pessoa, Navarro pretendia
“monopolizar os ideais revolucionários, afastando do caminho os que entraram na peleja com
sinceridade e patriotismo”.451
449
Ibidem.
450
O Jornal, Rio de Janeiro, 2 jul. 1931, p. 4 e 11.
451
Diário Carioca, Rio de Janeiro, 7 jul. 1931, p. 2.
317
Na verdade, como lembra Santos Neto (2007, p. 60), por trás de toda a celeuma entre
Navarro e família Pessoa, o que estava em jogo era a tentativa da emergência de grupos
políticos que procuravam se identificar com a obra de João Pessoa. De um lado, a família
Pessoa, que procurava desqualificar a interventoria de Navarro, acusando-o de macular a obra
revolucionária do ex-presidente da Paraíba. Ao mesmo tempo, avocavam para si o direito
legítimo de continuá-la. Julgando-se herdeiros políticos de João Pessoa, os Pessoa tentavam
requerer o posto da interventoria do estado, o que fica claro nas cartas enviadas por José
Pessoa a Juarez Távora e José Américo. Do outro estava Navarro e a sua obra saneadora. Com
um discurso de moralização político-administrativa, entendia ser o seu governo
intervencionista o que melhor se identificava com o legado de João Pessoa.
A oposição a Navarro, no estado da Paraíba, acusava-o de não conseguir levar adiante
sua proposta moralizadora. Para esses políticos, sua interventoria não havia servido a outro
propósito senão o de favorecer o grupo político encabeçado por José Américo. Dessa forma,
camufladas por trás do discurso moralizador, continuavam agindo as velhas oligarquias
paraibanas. Ao tratar toda a estrutura administrativa do estado como podre, os opositores
acusavam Navarro de não ter considerado as qualidades e honrarias de políticos de
reconhecida honestidade. (SANTOS NETO, 2007, p. 61)
Apesar da centralização estatal ter sido uma marca das interventorias pós-1930,
principalmente nos estados do Norte e Nordeste, não era intenção de Vargas iniciar nos
estados da federação lutas internas com as antigas chefias locais, já que muitas delas faziam
parte das oligarquias que haviam apoiado a revolução. Sempre que fosse possível, a
orientação de Getúlio era a busca pela conciliação. Em um primeiro momento, como lembram
Forjaz (1988) e McCann (2009), apesar do apoio tenentista e da adesão aos princípios
propagados por esses militares, o governo provisório não se sustentou exclusivamente em
uma base militar e esteve muito próximo aos elementos civis.452 Sendo assim, como aponta
Santos Neto (2007, p. 62), as notícias sobre as desavenças criadas por Anthenor Navarro com
as velhas oligarquias paraibanas começaram a incomodar Getúlio Vargas. Em uma conversa
com José Américo o chefe do governo provisório teria expressado a sua insatisfação com as
atitudes do interventor, lembrando ao ministro paraibano que, para nomear Navarro, teve que
ir de encontro à vontade expressa da família Pessoa.
452
José Murilo de Carvalho aponta que no período pós-revolução o receio do militarismo atingiu as lideranças
civis do movimento, até mesmo daqueles mais identificados com o tenentismo, como Oswaldo Aranha. alguns
exemplos apontados pelo autor são os das lideranças paulistas e gaúchas, que jamais conviveram em paz com o
tenentismo. Essa liderança civil tinha uma longa prática de detectar e manipular em seu favor as ambições e
cisões internas do Exército e continuou a fazê-lo no pós-30. (CARVALHO, 1982, p. 110-111)
318
Por sua vez, Américo tratou de lembrar a Navarro que sua postura frente ao Governo
Provisório não poderia exceder aos limites da conciliação. Estava muito claro para José
Américo que, diante das relações estabelecidas entre a Paraíba e o governo central (uma pasta
do ministério de Vargas era ocupada por um paraibano), o governo daquele estado não
deveria aproximar-se do radicalismo revolucionário dos tenentes e, sim, da proposta
conciliatória defendida pelos revolucionários civis, como o próprio Vargas. (SANTOS
NETO, 2007, p. 62)
Anthenor Navarro faleceu em 26 de abril de 1932, em um acidente de avião no litoral
da Bahia. Regressava de uma visita que fizera ao Nordeste acompanhando José Américo. No
regresso ao Rio de Janeiro, o hidroavião que os transportava caiu na baía de Todos os Santos.
Além de Navarro, morreram no acidente o piloto e o co-piloto, o telegrafista Brás Santos e o
diretor-geral do Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (DNOCS). Somente Américo
sobreviveu ao acidente, ficando gravemente ferido. (ANTHENOR, s.d.) No lugar de Navarro
assumiu a interventoria do estado da Paraíba Gratuliano da Costa Brito, um dos membros do
Conselho Consultivo do estado, órgão de assessoramento da interventoria paraibana. Com um
tom mais conciliador do que o seu antecessor, Costa Brito conseguiu empreender um período
de paz na política da Paraíba durante a sua interventoria. (GRATULIANO, s.d.)
Um dos grandes questionamentos que poderiam ter sido feitos no pós-1930 era quem
reconstruiria o Exército brasileiro. Os velhos generais envolvidos no movimento de 24 de
outubro, como Tasso Fragoso, Menna Barreto e Malan D’Angrogne, ou os oficiais
revolucionários, como Góes Monteiro, Juarez Távora e Cordeiro de Farias?
Como lembra Carvalho (1982, p. 109-110), “a consolidação do poder militar [após a
revolução de 1930] e a definição do conteúdo de sua ação política exigiu um longo esforço e o
enfrentamento de correntes opostas, tanto dentro como fora da organização”. Isto, segundo o
autor, se deve a dois motivos, principalmente. O primeiro deles é que a revolução não foi um
consenso dentro das Forças Armadas. Tanto foi assim que a Marinha praticamente ignorou o
movimento. Quanto aos oficiais, a maior parte não aderiu à revolução e os que não aderiram,
não se interessaram em articular uma grande resistência. O segundo fator está ligado
justamente à minoria da oficialidade que participou do golpe de 1930. Essa minoria era
composta principalmente dos remanescentes dos movimentos rebeldes da década de 1920. A
reintegração e a rápida ascensão desses militares nos quadros do Exército perturbaram
319
453
Entre 1930 e 1934 aconteceram nove movimentos (cinco conspirações e quatro protestos) liderados por
generais e vinte (quatorze conspirações, um protesto e cinco revoltas) em que os praças tomaram parte. A partir
de 1937, com o Estado Novo, esse número caiu significativamente. (CARVALHO, 1982, p. 113)
320
A questão das promoções foi a primeira grande celeuma que surgiu no seio da
Instituição, colocando em lados opostos os oficiais do velho governo e os líderes
revolucionários. As discordâncias em torno dos critérios utilizados para as promoções
geraram muitas tensões e aflições pessoais e institucionais, a ponto de afetar fisicamente um
dos expoentes do movimento de 24 de outubro, o general Malan D’Angrogne, que teve um
derrame após uma discussão sobre a presidência da Comissão de Promoções do Exército, em
janeiro de 1931, vindo a falecer um ano depois. O que estava em discussão eram os quesitos
utilizados para as promoções. Oficiais identificados com a profissionalização do Exército,
como Goés Monteiro e aqueles ligados aos jovens turcos, como Bertholdo Klinger, viam o
sistema de promoções ainda atrelado à política, o que prejudicava a melhoria dos padrões
profissionais da instituição. Argumentavam que os critérios políticos não poderiam se
sobrepor ao desempenho no treinamento e no comando. Acusavam Getúlio Vargas de ter
infestado a lista de escolha para as promoções de 1931 de considerações pessoais e de ter
relegado a segundo plano os homens que haviam lutado contra os governos que a revolução
substituíra, privilegiando, assim, oficiais que se favoreceram do governo de Washington
Luís.454 Curiosamente, nas promoções de maio de 1931, a general-de-brigada, três dos
coronéis promovidos eram jovens turcos: José Maria Franco Ferreira, César Augusto de Parga
Rodrigues e o próprio Klinger. (McCANN, 2009, p. 390-391)
Em dezembro de 1930, Góes Monteiro, o capitão Alcides Etchegoyen e o primeiro-
tenente Jurandir Mamede, apoiados por dezenove oficiais revolucionários, compilaram uma
lista de propostas que seria apresentada a Getúlio Vargas após ouvidas as opiniões de oficiais
454
O protesto mais veemente foi do coronel de artilharia Olyntho Marques Vasconcelos, um jovem turco
preterido na promoção a general-de-brigada e transferido compulsoriamente para funções administrativas
juntamente com mais vinte e dois coronéis que, na visão de Getúlio Vargas, não se identificavam com os ideais
revolucionários. Vasconcelos escreveu uma carta a Vargas, argumentando que os processos para as promoções, e
os homens que os conduziam, eram exatamente os mesmos da velha República. (McCANN, 2009, p. 390)
321
revolucionários de todas as regiões do País. Para isso, o grupo nomeou três porta vozes, que
tinham a função de colher assinaturas no documento: Góes Monteiro, no Sul; Leite de Castro,
nos estados do centro do País e Juarez Távora, no Norte. Entendido como um pacto secreto455,
no documento os oficiais signatários se comprometiam em trabalhar pelas reformas
pretendidas pela revolução. Nele, afirmavam, ainda, que, enquanto o Governo Provisório
estivesse reorganizando a Nação, as Forças Armadas garantiriam a sobrevivência do novo
regime. Era inequívoco que, enquanto uma nova constituição para o País não fosse feita,
Getúlio Vargas necessitaria do apoio dos militares. (McCANN, 2009, p. 391)
O documento propunha que comandantes identificados com a causa revolucionária
fossem nomeados em todos os níveis da instituição e que os que não fossem com ela
comprometidos fossem exonerados de suas funções ou transferidos para locais em que não
pudessem causar nenhum dano ao novo governo. Previa, também, que a controversa
Comissão de Promoções passasse inteiramente ao controle dos revolucionários, uma atitude
que, por si só, já contradizia a tão defendida ênfase de Góes Monteiro no profissionalismo.
(McCANN, 2009, p. 391)
Entretanto, a crítica à lista preparada por Góes e seus seguidores foi maior do que se
esperava. Como aponta McCann (2009, p. 391-392), muitos oficiais recusaram-se a assiná-la.
Um dos motivos era a desconfiança em relação aos delegados regionais designados para ouvi-
los. Questionavam como Góes, Leite de Castro e Távora queriam revolucionar o Exército se
nem conseguiam restaurar a ordem e a disciplina na instituição. Também não estavam
dispostos a apoiar uma república que seria dirigida por oficiais subalternos, em que generais
seriam comandados por capitães e tenentes, subvertendo, dessa maneira, a hierarquia militar.
Colocar a cadeia de comando de lado seria temerário. Poderia implicar a destruição da
disciplina, um dos pilares da instituição, e o afastamento forçado de muitos oficiais honestos e
capazes. Sendo assim, com oficiais que não eram revolucionários verdadeiramente convictos,
tornava-se difícil concretizar as promessas feitas pela Aliança Liberal para a revolução.
A grande verdade é que o Exército estava sem liderança. Malan havia morrido e o
Estado-Maior estava sem chefe. Os oficiais da linha sucessória do órgão eram coronéis da
velha República, como Arnaldo de Pais de Andrade e Leitão de Carvalho, um legalista
convicto, que, inclusive, havia se recusado a comandar as tropas revolucionárias do Rio
455
Como o encontro desses oficiais aconteceu na cidade mineira de Poços de Caldas, esse pacto ficou conhecido
como Pacto de Poços de Caldas. Na ocasião, os militares e civis revolucionários presentes definiram-se
claramente a favor da implantação de uma ditadura no Brasil, único regime que garantiria a implementação das
ideias revolucionárias no País. O Exército teria o papel de sustentação do regime ditatorial. (FORJAZ, 1988, p.
118)
322
Grande do Sul. Ficava a impressão de que os oficiais superiores do velho Exército estavam
retomando o controle da Instituição.
Somava-se a isso, como lembra McCann (2009, p. 393) a manutenção por Vargas de
antigas práticas da Primeira República, o que desagradava profundamente os oficiais
reformistas. Uma delas era o pagamento de altas pensões aos oficiais reformados, inclusive
para aqueles que foram exonerados compulsoriamente de seus cargos após o movimento de
1930, por serem considerados incompatíveis com os princípios da revolução. Outra, eram os
cortes na quantidade de alistados e o uso da verba para engordar o soldo da oficialidade.
Existia, ainda, dois graves problemas que impactariam diretamente no tempo de espera
para as promoções dos capitães e tenentes. Em relação aos primeiros, ainda que todos os
majores não alinhados com as propostas da revolução fossem reformados compulsoriamente,
não existiriam vagas suficientes para a promoção de todos, o que lhes deixava duas opções de
prosseguimento na carreira: seriam forçados a sair da instituição ou permaneceriam anos no
posto aguardando a ascensão na carreira. (McCANN, 2009, p. 394)
Quanto aos tenentes, havia o problema da reintegração dos alunos excluídos da Escola
Militar em 1922. Cabe lembrar, que a anistia de todos os tenentes e alunos expulsos durante o
levante tenentista era uma das bandeiras defendidas pelos tenentes que apoiaram a revolução
de 1930. Em maio de 1932, mais de quinhentos estudantes exonerados foram readmitidos nas
fileiras do Exército. Após um breve curso de um ano na Escola Militar, foram promovidos a
primeiro-tenentes, sendo classificados, na lista de promoções, à frente dos tenentes formados
após 1922, inclusive daqueles que haviam lutado para derrubar a Primeira República. Da noite
para o dia, oficiais com uma década de serviços prestados ao Exército e muito bem
preparados profissionalmente foram preteridos, o que levou a 163 primeiro-tenentes a
assinarem um protesto que foi enviado ao ministro da Guerra. Os autores do protesto foram
presos, o que provocou a solidariedade de oficiais de todas as patentes com os transgressores.
Estava claro que a reintegração dos rebeldes de 1922 não era apoiada pelas camadas mais
altas da hierarquia militar, que enxergaram na atitude de Leite de Castro e de Vargas uma
injustiça feita aos oficiais que perderam suas posições na classificação dos oficiais
subalternos. A solução encontrada foi criar duas listas paralelas para as promoções: uma para
os rebeldes de 1922 e outra para os tenentes formados após essa data.456 A Góes Monteiro e
456
Um exemplo da confusão que as promoções dos rebeldes de 1922 reintegrados causou foi a consulta que o
comandante do 2º Regimento de Artilharia Montada fez ao ministro da Guerra, questionando como deveria
proceder em relação aos primeiro-tenentes ex-alunos da Escola Militar anistiados, quanto à precedência destes
em relação aos demais tenentes, no desempenho das funções e serviços da unidade militar. Leite de Castro
respondeu-lhe que os tenentes anistiados deveriam ser considerados concluintes do curso da Escola Militar do
323
seus apoiadores ficava claro que um corpo de oficiais insatisfeito, sob todos os ângulos, não
favorecia o clima para a reforma da instituição. (McCANN, 2009, p. 394-395)
Segundo Forjaz (1988, p. 119-123, 135-136), a trajetória ascensional dos tenentes
somente se daria com a fundação do Clube 3 de Outubro, em fevereiro de 1931, que passou a
ser o porta voz do tenentismo junto às Forças Armadas e ao Governo. O Clube não tinha a
pretensão de tornar-se um partido político, e, sim, um grupo de pressão que agiria diretamente
sobre o governo provisório em prol das ideias defendidas pelos oficiais reformistas. Era uma
organização elitista e fechada, que só aceitava entre seus membros sócios com um passado
comprovadamente revolucionário. Góes Monteiro foi o seu primeiro presidente e Oswaldo
Aranha o terceiro vice-presidente. A autora ressalta que Vargas, cooptando os tenentes do
Clube, neles se apoiava para resistir às exigências das oligarquias. Ao mesmo tempo, apoiava-
se nestas, também, quando era necessário refrear os avanços tenentistas. Foi por influência da
agremiação, por exemplo, que Getúlio nomeou diversos tenentes para a interventoria dos
estados. Atuante entre os anos de 1931 e 1934, o Clube foi aos poucos se esvaziando, com
muitos tenentes deixando o seu quadro social após 1932, a fim de formar partidos políticos
para enfrentar o processo eleitoral que formaria a Constituinte, o que já não era mais possível
se fazer somente por meio de atividades revolucionarias de grupos apolíticos. Outros tenentes
também seriam cooptados pela esquerda, afastando-se dos propósitos do Clube. Em 1935, por
iniciativa dos próprios membros, o 3 de Outubro seria extinto.
O fato é que, com todos os problemas e crises enfrentadas no pós-revolução, na década
de 1930 o Exército se viu projetado para o centro do poder nacional de uma maneira muito
mais decisiva do que no início da Primeira República. Segundo Carvalho (1982, p. 109), o
conflito entre as forças políticas civis e a derrota da mais forte delas abriram um espaço na
estrutura burocrática estatal que permitiu ao setor militar a conquista da parcela de poder tão
almejada desde os últimos anos da Monarquia. Entretanto, como aponta McCann (2009. p.
386), o que diferencia o período pós-revolução dos períodos anteriores é o fato de que, pela
primeira vez, na República, os militares tiveram um mediador civil eficaz na pessoa de
Getúlio Vargas. O chefe do Governo Provisório tinha plena consciência da sua dependência
das Forças Armadas. No entanto, como aponta o autor, nos anos seguintes Vargas soube
manobrar habilmente tanto as forças revolucionárias como as que defenderam o legalismo, de
uma maneira tal que ambas passaram a depender de seu governo centralizador. Dessa forma,
ano letivo de 1922. Portanto, seriam mais antigos do que os colegas das turmas posteriores. Correio da Manhã, 1
jan. 1931, p. 2.
324
457
José Pessoa formou-se um ano antes, em 1909.
458
O Debate era o jornal oficial do Bloco Acadêmico Castilhista, órgão fundado por acadêmicos da Faculdade de
Direito de Porto Alegre, sob a direção de Getúlio Vargas, com o intuito de apoiar a candidatura de Carlos
Barbosa nas eleições de 1906, para a presidência do estado.
325
afirmando estar do lado da legalidade. Devido às suas altas notas, aos elogios recebidos dos
instrutores franceses e à familiaridade que tinha com o Rio Grande, foi encarregado, pelo
gabinete do ministro da Guerra, de elaborar um plano de defesa para o governo gaúcho contra
os seus oponentes na guerra civil de 1923-24, o que o levou aproximar-se de dois líderes
destacados de unidades militares do estado: Flores da Cunha e Oswaldo Aranha 459. Ambos
iriam colocar em prática o plano de Góes contra tenentes rebeldes que lutariam ao seu lado na
revolução de 1930: Cordeiro de Farias e os irmãos Nelson e Alcides Etchegoyen. (McCANN,
2009, p. 404-405)
Em 1924, Góes foi promovido a capitão e ajudou a formular o plano legalista de
combate aos tenentes rebeldes em São Paulo. Após a retirada dos tenentes da capital paulista,
foi nomeado instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior (ECEME), função que
desempenhou por pouco tempo, já que em 1925 passou a ser o oficial das operações legalistas
contra a Coluna Prestes, sob o comando do general Mariante, atuando no Paraná, em Minas
Gerais e na Bahia. Em 1926, promovido a major, acompanhou Mariante como seu oficial de
gabinete, no comando da recém-criada arma de Aviação do Exército. Em 1928, foi promovido
a tenente-coronel, posto que ocupava quando foi designado para o comando do 3º Regimento
de Cavalaria Independente, no Rio Grande do Sul, em 1930. Na ocasião, envolveu-se no
movimento de 1930, como chefe do estado-maior revolucionário, a convite de Oswaldo
Aranha e com a “benção” de Getúlio Vargas. (McCANN, 2009, p. 357-358, 405)
Imagem 51 – Góes Monteiro (ao centro, com os braços sobre as pernas), e seu Estado-Maior
revolucionário no Rio Grande do Sul, out. 1930.
459
A amizade com Oswaldo Aranha já era antiga. Góes o conheceu em 1918, quando servia em Quaraí-RS, por
intermédio da família da sua esposa. Aranha tinha um escritório de advocacia em Alegrete, cujo sócio era
Getúlio Vargas. McCANN, 2009, p. 357.
326
A ascensão de Góes na carreira de oficial foi meteórica. Em menos de dez anos passou
de primeiro-tenente para tenente-coronel, uma escalada muita rápida para os limites de
promoções da época.460 Com isso, como aponta McCann (2009, p. 358-359), passou a orbitar
a categoria de oficiais “para quem a possibilidade de efetivamente exercer influência e poder
começava a ser real”. Os estudos com os oficiais da Missão Militar Francesa reforçaram a
autoconfiança natural que possuía para pensar, escrever e falar sobre o Exército e seus
problemas, o que, na maioria das vezes, irritava os altos escalões da Instituição. Góes entendia
que o Exército era, ao mesmo tempo, o núcleo das causas e das soluções para a maioria dos
problemas nacionais. Via a saúde política do País atrelada às condições em que o Exército se
encontrava e, nas atitudes do governo federal para com a Instituição, as causas para a sua
ineficiência. A participação na perseguição à Coluna Prestes fortaleceu a opinião que tinha em
relação à organização deficiente da força. Muitas tropas de polícias estaduais com que teve
contato eram mais eficazes do que as federais. Também criticava os colegas, que, na sua
visão, pouco se interessavam em aprender a doutrina militar e resistiam aos ensinamentos da
Missão Francesa.
Em 1931, num período de três meses, Góes saiu do posto de tenente-coronel para o de
general-de-brigada.461 Neste último, comandou a 2ª e a 1ª Regiões Militares, sediadas em São
Paulo e Rio de Janeiro, respectivamente. Homem de confiança de Getúlio, foi escolhido para
comandar o Destacamento do Exército do Leste, durante a Revolução Constitucionalista de
1932. À frente das forças legalistas subjugou o movimento em São Paulo. Como general
vitorioso, aumentou ainda mais a sua influência dentro da instituição e no governo provisório.
A recompensa veio em forma de promoção. Em outubro de 1932, foi promovido a general-de-
divisão462, aos quarenta e dois anos de idade. (McCANN, 2009, p. 425)
Com a popularidade em alta, Góes participou dos trabalhos que antecederam a
Assembleia Constituinte. Em 1933, fez parte da comissão que se encarregou de elaborar o
anteprojeto da nova Constituição. Nela, defendeu a anistia aos militares que lutaram ao lado
de São Paulo, em 1932, como uma forma de eliminar as tensões no interior das Forças
460
Uma consulta aos Almanaques de Oficiais das décadas de 1920 permite ver como as promoções de Góes
Monteiro estiveram fora dos padrões da época, em comparação com as de seus contemporâneos. Eurico Dutra e
Euclides Figueiredo, oficiais de Cavalaria, como Góes, demoraram cinco anos e onze meses e três anos e sete
meses, respectivamente, para as promoções de capitão a major. Klinger, que era oficial de Artilharia, esperou
três anos e onze meses. Leitão de Carvalho, de Infantaria, demorou cinco anos e um mês, para subir de capitão a
major. José Pessoa, oficial de Cavalaria, demorou quatro anos e quatro meses. A promoção de Góes demorou
exatos dois anos.
461
Em março de 1931 foi promovido a coronel e em maio a general-de-brigada.
462
À época, o posto de general-de-divisão era o mais alto da carreira militar no Exército.
327
...a total ausência dos usuais clichês e lugares-comuns que em todas as épocas,
sobretudo nas crises, os chefes militares utilizam para ocultar divergências e
clivagens internas ou para consumo diário do espírito militar. Nenhuma referência à
“coesão inabalável”, “passado glorioso”, “abnegação dos chefes”, “culto à
disciplina” ou qualquer outra fórmula de estilo. Pelo contrário, é essencialmente
crítica e realista sua percepção dos fatos e a interpretação, na perspectiva histórica,
das relações entre o Exército e a sociedade civil... (COELHO, 2000, p. 111-112)
Góes afirmava que não havia “na história dos exércitos do mundo nenhum que tenha
história tão infeliz e melancólica como a do Exército brasileiro” (COUTINHO, 1955, p. 308).
Na sua visão, como aponta Coelho (2000, p. 112), isso se devia, sobretudo, ao fato de o
Exército ter sido, ao longo da história, utilizado como uma força pretoriana ou miliciana a
serviço das facções políticas civis. As causas dessa utilização como força meio-policial
poderiam ser encontradas na repulsa que sempre prevalecera na sociedade civil pelo espírito
militar e na natureza do regime político liberal. E era justamente esse regime, na perspectiva
de Góes, que provocava a indisciplina e as sedições militares, problemas que não seriam
corrigidos com sanções jurídicas e políticas e, sim, atacando-se as causas primárias de
natureza institucional.
Coelho (2000, p. 114) lembra que, para Góes, o Estado Novo não foi instituído para
favorecer as classes militares, mas, para organizá-las, livrá-las do partidarismo político e
discipliná-las espiritualmente para o seu árduo labor técnico. Apesar disso, ele entendia que os
problemas de defesa nacional faziam que o Exército fosse “um órgão essencialmente político;
328
Fica claro, então, que para Góes Monteiro não seriam os modelos políticos os mais
adequados para organizar a Nação e, sim, os modelos organizacionais, dados pelas Forças
Armadas, as únicas e verdadeiras instituições nacionais. O projeto ditatorial de Góes
significou a vitória de um modelo que se sobrepôs ao pensamento dos generais que
pretendiam a neutralidade das Forças Armadas e a não-intervenção do Exército na política
nacional. Entre esses generais, estava José Pessoa.
329
463
O general Deschamps foi exonerado a pedido do cargo de comandante da Escola Militar do Realengo para
assumir, em novembro, a chefia do Departamento do Pessoal da Guerra.
331
Vermelha e do levante de 1922, o comandante não teve outra opção senão ligar para o
ministro da Guerra, que autorizou a partida da Escola. Diante da aquiescência do ministro, o
que contrariou a sua posição, o general Aranha colocou o seu cargo à disposição, depois de
somente 18 dias de comando. (ARAGÃO, 1959, p. 206)
As tropas da Escola Militar chegaram ao centro do Rio quando o movimento
contrarrevolucionário já estava controlado, ficando estacionadas na Praça da República.
Aragão (1959, p. 207-209) aponta que ao efetivo do estabelecimento de ensino coube a
guarda de alguns pontos chaves da cidade, como as oficinas da Light, a empresa de Telégrafos
e as sedes dos ministérios civis. Além disso, os alunos ainda ficaram responsáveis pelo
controle do tráfego das principais avenidas da cidade. Segundo o autor, o ambiente no Rio de
Janeiro era de tumulto. As tropas irregulares que chegavam dos outros estados, pelo fato de
terem apoiado a revolução, sentiam-se no direito de usufruir de vantagens que não tinham. A
última missão da Escola foi fazer a guarda de honra e a escolta a cavalo de Getúlio Vargas,
quando de sua chegada à Capital Federal, retornando ao Realengo logo em seguida.
Imagem 52 – Alunos da Escola Militar do Realengo fazendo a guarda do Palácio do Catete durante a Revolução
de 1930, out. 1930.
(1985, p. 36), aspirante da turma de 1934, Pessoa chegou com as credenciais de sua ação
revolucionária e dos seus laços de família. No período em que esteve à frente da formação da
jovem oficialidade do Exército, empreendeu uma ampla reforma na Escola, não apenas em
seus elementos formais, como a infraestrutura e o ensino, mas, também, como aponta Câmara
(2011, p. 72), no aspecto anímico dos novos oficiais que passaram a ser formados na nova
República.
Imagem 53 – Flagrante de José Pessoa (ao centro) dentre oficiais do Exército no dia da assunção do
comando da Escola Militar, 15 jan. 1930.
Cadetes!
O dever que o Exército tinha a cumprir para com a República já está consumado.
Disso sabeis, perfeitamente, pela contribuição que vos coube na jornada de
abnegação e renúncia que culminou com a gloriosa arrancada de 24 de outubro.
Vossa contribuição, nos moldes da feição técnico-profissional da Escola Militar do
presente, traduziu a medida justa do vosso valor, em nada menor ao da Escola
Militar do passado. Se dentro dos vossos muros não há mais lugar para especulações
464
Como já demonstrado, a partir da análise que José Murilo de Carvalho faz do contexto pós-1930, o Exército
foi assolado por inúmeros atos de rebeldia e de conspirações, seja dos altos postos da instituição, seja com a
ampla participação dos praças, entre 1930 e 1937. Como lembra Celso Castro (1994, p. 232), a consolidação de
um projeto hegemônico para a instituição ocorreria somente com a instauração da ditadura do Estado Novo, sob
a liderança de Góes Monteiro e de Eurico Gaspar Dutra.
333
465
Boletim Interno nº 13 da Escola Militar do Realengo, de 15 jan. 1931.
334
como aponta Castro (2002, p. 39). A reforma da Escola Militar significava apenas o início
desse processo, como ele relatou anos mais tarde, em suas memórias.
Fica claro nas palavras de José Pessoa, segundo Castro (2002, p. 40), que o problema
da falta de homogeneidade do corpo de oficiais do Exército passava pelo pouco compromisso
do alto comando do Exército com as coisas da instituição, já que “o padrão de soldados
devotados” não era uma regra naquele órgão. Grande parte dos oficiais formados na “velha”
República, como lembrou Pessoa, encontrava-se “divorciada da sua profissão”. A causa desse
divórcio podia ser encontrada na “politicagem”, que tinha, nos últimos anos, cooptado boa
parte das altas patentes da Instituição, e que, na visão de José Pessoa, já há algum tempo
vinha sendo a gênese de muitas infelicidades para o País. Em uma entrevista concedida ao
jornal A Noite, após um ano de comando, com o título “A política para os políticos e mais
ninguém”, ele falou sobre o assunto.
Não sou político. Não quero ser. A política tem sido a gênese de muitas infelicidades
para o país. Na Escola Militar não se ouve discussões que colidam com as doutrinas
ministradas aos oficiais do amanhã. Ao assumir este comando, reuni mestres e
cadetes, advertindo-os de que seria desaconselhável o trato de assuntos em
desacordo com a disciplina militar. Separo-me completamente dos políticos. Só não
chamo a isso de um divórcio porque nunca estivemos juntos. Não se deve inferir daí
que eu os condene. Absolutamente. Uma vez norteados por princípios sadios,
servindo a um ideal de civismo puro, são úteis e necessários à nação. Mas, a política,
para os políticos e mais ninguém.466
Portanto, para Pessoa, política e disciplina militar não deviam se misturar. As gerações
homogêneas de oficiais a que ele se referia, segundo Castro (2002, p. 41), seriam aquelas
disciplinadas e afastadas da política, diferentemente das que considerava heterogêneas,
sacrificadas pelas práticas políticas da velha República, que feriam a disciplina militar. Deste
modo, todos os esforços que empreendeu para a formação de um corpo disciplinado de
466
A Noite, Rio de Janeiro, 17 dez. 1931, p. 1.
335
José Pessoa narra, em sua autobiografia, que, ao assumir o comando da Escola Militar
do Realengo, encontrou-a vivendo sob o mesmo regime de desordem que havia vivenciado no
seu tempo de aluno, com os mesmos métodos rotineiros de ensino e disciplina e os hábitos
turbulentos dos “meninos de Floriano”, fazendo uma alusão aos excessos de condutas
cometidos pela geração de oficiais formadas nos primeiros anos da República. Embora
reconhecesse o importante papel político que aquela juventude militar teve na consolidação da
República, Pessoa não concordava com as regalias disciplinares deixadas como herança para
as gerações de oficiais subsequentes. No seu ponto de vista, “julgavam-se os moços [de 1930]
com o privilégio de uma herança que não lhes havia sido outorgada”. (ALBUQUERQUE,
1953, Pasta III, p. 13)
336
Essa herança remetia a velhos hábitos indesejáveis, criados pelas gerações de alunos
que se formaram antes da Revolução de 1930, e que contavam com a permissividade e a
tolerância das autoridades militares, que, para eles, faziam vistas grossas. Uma dessas práticas
comuns, segundo José Pessoa, era o regime “disfarçado” de externato em que viviam muitos
alunos467, em repúblicas468 ou “baiucas” alugadas nas imediações do edifício da Escola, sem
conforto e sem higiene, “onde tudo se praticava e aprendia, menos os estudos”. Era comum,
como ele aponta, Realengo viver “em constante sobressalto por causa dos notívagos
ocupantes das ‘repúblicas’, que [...] pululavam por todos os recantos da localidade”. Para essa
desordem contribuía, segundo Pessoa, a facilidade de ingresso na Escola de elementos de toda
a espécie, “desde o mais perfeito candidato ao indesejável”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta
III, p. 13)
Esse estado de indisciplina a que se refere Pessoa fazia parte de uma velha ordem
presente na Escola do Realengo desde os seus primeiros anos de funcionamento, e que pode
ser encontrado nos relatos de alunos das gerações mais antigas formadas no estabelecimento
de ensino, dentre eles o do próprio José Pessoa, como visto anteriormente, quando se escreveu
sobre a sua formação na antiga Escola Preparatória e de Tática. O general Punaro Bley, aluno
do Realengo em 1918, relata os graves problemas ideológicos e de indisciplina pelos quais
passava a Escola já na segunda década da República, “onde tudo era permitido, cada qual se
defendendo como pudesse” (BLEY, 1982 apud ROESLER, 2015, p. 120). O marechal
Machado Lopes, que ingressou na Escola Militar no mesmo ano que Bley, também narra o
estado de caos em que a instituição vivia, a ponto de “quando os alunos passavam por Bangu
as pessoas trancavam as portas, pois caso contrário os alunos invadiam tudo” (LOPES, 1986
apud ROESLER, 2015, p. 128.469
Também a atitude do corpo docente não agradava a José Pessoa. Apesar de a Escola
possuir professores de reconhecida cultura e personalidade, eles sofriam a influência do meio
e era comum as vistas grossas feitas à prática da “cola”, nas provas escritas.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 14) Nelson Werneck Sodré, que cursou a Escola
467
O regime regulamentar de funcionamento da Escola Militar era o de internato.
468
Segundo Viana (2010, p. 83), a hospedagem dos alunos em repúblicas era uma prática herdada, ainda, da
Praia Vermelha. Como aponta Svartaman (2006, p. 100), um dos problemas dessa convivência fora dos muros da
Escola, além das festas e bebedeiras, que comumente acabavam de modo desagradável, como as brigas e
desentendimentos com os civis, eram as reuniões promovidas pelos alunos para a discussão de temas políticos.
Certamente, apesar de não mencionar, esse era um ponto que desagradava a José Pessoa.
469
A EMR conheceria um período de relativa estabilidade em termos disciplinares e um fortalecimento do
ensino técnico-profissional com a atuação da Missão Indígena de instrução, entre os anos de 1919 e 1923. Com
uma forte influência das ideias profissionalizantes dos Jovens Turcos, mesmo depois de seu término e após o
início da atuação da Missão Militar Francesa, as bases de ensino e de instrução que foram implementadas pelos
seus instrutores ainda se fizeram sentir na Escola nos anos subsequentes. Ver Roesler (2015).
337
Militar à época do comando de Pessoa, conta que, mesmo com todas as iniciativas tomadas
pelo comando para coibir tal prática, em seu primeiro ano como aluno, 1931, a “cola” ainda se
fazia presente nas provas mensais, que eram precariamente vigiadas pelos professores. Sodré
credita esse insucesso ao grande número de alunos que compunham as turmas de aula. Como
narrou em suas memórias, não havia a possibilidade de professor algum conduzir com
eficiência as tarefas de ensino. (SODRÉ, 1967, p. 67)
Entretanto, em um primeiro momento, o que mais causou impacto no novo
comandante foi o estado de degradação material em que se encontrava a Escola Militar, sem a
solução do qual não seria possível investir na parte anímica da formação da jovem
oficialidade. Como relata Sodré (1967, p. 60), a edificação velha, mas não antiga, da Escola,
construída em forma de um longo retângulo fechado, dividido internamente em pavilhões, em
tudo lembrava um presídio. Apesar do aspecto taciturno do estabelecimento de ensino,
Werneck destaca o imenso esforço feito por José Pessoa para remodelar a sua infraestrutura.
Imagem 55 – Fachada da Escola Militar do Realengo antes da reforma de José Pessoa, 1929.
470
Albuquerque, 1953, Pasta III, p. 15-22.
471
Ibidem.
472
Ibidem.
339
preparadas. Não havia um açougue apropriado para guardar as carnes, que eram cortadas
sobre um velho cepo de madeira, engordurado e coberto de insetos.473
Não havia uma área apropriada para o lazer dos alunos. A Sociedade Acadêmica
Militar ocupava uma acanhada sala no andar térreo do mesmo pavilhão da enfermaria. Não
havia uma sala apropriada para os alunos conversarem. O faziam acocorados à sombra das
árvores ou sentados nos meios-fios das varandas, já que não existiam bancos nos pátios da
Escola. Esses mesmos pátios ficavam completamente às escuras à noite, e as reuniões de
alunos, quer para estudos, quer para palestras, eram feitas nos dormitórios, sobre as camas, à
luz de velas ou dos precários lampiões de querosene, que eram adquiridos pelos próprios
alunos.474
Inexistente era, também, uma área apropriada para o cumprimento das penas
disciplinares mais graves. Os alunos que necessitassem ficar reclusos eram recolhidos ao
Corpo da Guarda da Escola ou ficavam presos nos quartéis da Vila Militar ou das fortalezas.
Quando isso acontecia, perdiam aulas e misturavam-se aos soldados, o que não era apropriado
para um futuro oficial do Exército. Para José Pessoa, mesmo em 1930, parecia que a Escola
Militar “vivia ainda sob o regime do Regulamento do Conde de Lippe, o código disciplinar
que, desde D. João VI até os primórdios da República, tinha regulado a disciplina no
Exército”.
Pessoa possuía a convicção de que a prisão disciplinar não educava o cadete. Para ele,
cárcere e estudo não se harmonizavam. Ao contrário: entendia que o cadete, quando ficava
detido como um transgressor comum, misturava-se com quem não devia. Com isso, ficava
exposto a uma tempestade de sentimentos, revoltando-se interiormente, o que refletia no seu
comportamento ao retornar à Escola: “desabafava-se com os colegas, garatujava irreverências
nas paredes e depredava o que lhe caía às mãos. Era um espírito de revolta”. A solução
encontrada por Pessoa para solucionar esse problema foi agir na parte psicológica dos cadetes.
Os castigos, ao invés de terem simplesmente um efeito punitivo, passaram a servir de
estímulo à melhoria do caráter. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 32)
Fizemos de cada um, escravo da sua dignidade pessoal. Determinamos que não se
prenderia mais ninguém fora da Escola e sim no próprio estabelecimento escolar. A
prisão deveria ser evitada, por vexatória ao amor próprio dos homens. Bastaram
essas medidas humanas para mudar completamente o estado das coisas, e criar,
consequentemente, o espírito de ordem e cooperação. (ALBUQUERQUE, 1953,
Pasta III, p. 32)
473
Ibidem.
474
Ibidem.
340
A longa narrativa que Pessoa faz, em sua autobiografia, a respeito das condições em
que encontrou a Escola do Realengo, podem ser corroboradas pelas lembranças do coronel
José Britto da Silveira, sobre as instalações do estabelecimento de ensino:
Após chegar à conclusão de que “tinham-no entregue para comandar não uma Escola,
mas um verdadeiro espólio”, José Pessoa, com o apoio do ministro Leite de Castro, passou à
reforma ampla da Escola Militar. Aliás, a implementação de reformas nas dependências da
Escola Militar foi uma pauta constante nos relatórios dos sucessivos ministros que ocuparam
a pasta da Guerra desde a sua mudança para o Realengo, em 1911. Já em 1912, o ministro
Vespasiano Gonçalves de Mendonça apontava a necessidade da adequação da estrutura física
da Escola, já que todos os cursos de formação passariam a funcionar em uma única
edificação.475 Três anos depois, no ministério de Caetano de Faria, um projeto foi feito para a
475
Relatório do Ministro da Guerra, 1912, p. 25-26.
341
ampliação do prédio da Escola, o que não foi levado a termo, por falta de verba. 476
Finalmente, entre 1919 e 1921, tendo à frente da pasta da Guerra o civil Pandiá Calógeras, a
Escola Militar passou por algumas reformas e ampliações, a fim de adaptá-la às crescentes
necessidades decorrentes do aumento do efetivo de alunos e às novas práticas que passavam a
imperar nos currículos escolares do ensino militar. A construção de um segundo andar no
pátio principal, com a finalidade de melhor distribuir as salas de aula e as repartições
administrativas; a remodelagem da fachada principal do prédio da Escola, em estilo art
noveau; a construção de um segundo e um terceiro pátios, abrigando alojamentos amplos e
mais convenientemente mobiliados; as construções de um novo um pavilhão para a ferraria,
de uma sala de veterinária e de um picadeiro ao ar livre para a instrução de equitação e a
execução de melhorias no pavilhão da enfermaria, foram algumas das obras de ampliação da
Escola.477 Passados oito anos desde a última grande reforma, parece estar claro, de acordo
com o relato feito por José Pessoa, de que nada mais havia sido investido no estabelecimento
de ensino.
Cabe ressaltar, como já citado, que Pessoa exerceu, por pouco tempo, a função de
fiscal administrativo da Escola, justamente em um período em que as reformas estruturais
fomentadas por Calógeras recém haviam sido implementadas. Portanto, não é difícil inferir
que, ao assumir o comando, a imagem de um estabelecimento reformado contrastou com o
estado de degradação em que o mesmo se encontrava. Daí, talvez, venha a criticidade com
que apresentou em suas memórias o péssimo estado de conservação da Escola.
Seguindo um planejamento rígido, José Pessoa cuidou em primeiro lugar da higiene e
do saneamento do estabelecimento de ensino e de sua vizinhança. Em sua autobiografia, cita
uma série de obras que foram implementadas nos primeiros anos de seu comando.
Uma nova rede de esgotos foi construída e totalmente canalizada. O terreno pantanoso
no qual o prédio do alojamento dos alunos estava localizado foi drenado, aterrado e
higienizado, afastando do convívio dos habitantes da Escola e dos moradores dos arredores as
moscas e os mosquitos. As cocheiras municipais foram afastadas das vizinhanças da Escola.
Um novo portão de serviço foi aberto, o que possibilitou que as carroças do lixo não mais
adentrassem o prédio pelo portão do Corpo da Guarda, misturando-se aos alunos e
professores. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 22)
Os alunos, após retornarem das longas marchas e exercícios, passaram a contar com
água suficiente para o banho. Um novo sistema de captação d’água, com mais de oito
476
Relatório do Ministro da Guerra, 1915, p. 23
477
Relatórios do Ministro da Guerra, 1919 (p. 94), 1920 (p. 76-77) e 1921 (p. 32).
342
Imagem 56 – Sala de aula Benjamin Constant, após a reforma da Escola Militar, 1937.
Um desvio de estrada de ferro foi feito, de modo que uma estação para o embarque de
pessoal, material e animais foi construída ao lado da Escola. Os pátios internos e as praças
fronteiriças foram adequadamente iluminadas, assim como as salas de aula, que passaram a se
prestar ao estudo dos alunos. Novas cavalariças e um parque para a guarda do material bélico
também foram construídos. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 23-25)
478
No linguajar militar, o cassino de oficiais, ou de sargentos, é o local, nos estabelecimentos militares,
destinado ao descanso e ao lazer desses militares. Geralmente ficam em área contígua aos refeitórios.
343
As dependências passaram a ser mais agradáveis e o conforto dos alunos foi priorizado
por José Pessoa, como conta Nelson Werneck Sodré:
Começou [José Pessoa] por reformar a Escola materialmente, para o que, com o
prestígio de que desfrutava, conseguiu com facilidade os meios. Tinha noção do que
devia ser uma Escola Militar, em higiene e conforto, coisas que conhecia e
apreciava, ao contrário dos chefes de sua geração, que as supunham incompatíveis
com a vida militar, e até desonrosas para o soldado. Deu fisionomia diferente àquela
penitenciária já tendendo a tornar-se pardieiro, construiu banheiros em que não se
sentia repugnância de entrar, substituiu as camas, colchões, as roupas. Fez um
rancho limpo, agradável e escolheu material de mesa e de cozinha como para uma
casa de família. Providenciou para que a alimentação fosse melhorada. Os salões da
biblioteca e do cassino era dignos de um clube, com mobiliário confortável, sóbrio e
bonito. Criou um banco, onde os cadetes recebiam os vencimentos, retirados com
cheque. Procurou, por todos os meios, assim, conferir dignidade àqueles que
deveriam ser oficiais adiante. Tratados pior do que soldados, antes, os cadetes
estranhavam até tanto esmero. (SODRÉ, 1967, p. 61)
Imagem 57 – Biblioteca da Escola Militar, após a reforma feita por José Pessoa, 1937.
facilidade os livros adotados pela Escola e o enxoval regulamentar, já que, para os demais
cadetes, essas obrigações eram cumpridas pelos pais ou pelos tutores. Telas pintadas à óleo
retratando passagens históricas do Exército e os principais chefes militares foram colocadas
no novo salão nobre e nos cassinos reformados. Também as salas de aula e laboratórios
receberem pinturas dos renomados professores que passaram pela Escola. Com isso, pensava
Pessoa em criar “uma ideologia [...] um misto de brasilidade e sentimento militar,
amalgamados pelo culto ao passado, pelo espírito de tradição”. O cadete passaria a ser, então,
“um modelo de homem e de soldado disciplinado”, que reconquistaria, em curto prazo, “a
confiança da sociedade e as dignidades militares de um verdadeiro candidato à carreira das
armas”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 31-34)
Imagem 58 – Fachada da Escola Militar após a reforma de José Pessoa. Formatura de Aspirantes, 1932.
comando de José Pessoa, o que pode ser visto no quadro comparativo, que indica o aumento
significativo, de mais de oito vezes, das receitas da Escola no ano de 1931.
Imagem 59 – Refeitório dos cadetes, após a reforma feita por José Pessoa, 1937.
479
Informações retiradas dos boletins dos meses de maio, junho e outubro de 1931, da Escola Militar do
Realengo.
346
Obras da Escola
1 litro de ácido clorídrico...............................................................................3$100
1 litro de ácido muriático...............................................................................3$100
36 litros de álcool a 40º, a..............................................................................2$580
4 metros cúbicos de areia lavada, a..............................................................20$000
10 metros de consoeiras de peroba rosa de 3x9, a.........................................5$500
42 manilhas de barro de 3”, a........................................................................1$800
5 quilos de solda de 2x1, a.............................................................................5$900
48 tábuas de canela de 4m, a........................................................................20$000
42,45m de tábuas de cedro de 0.015mx0,33m, a...........................................7$500
55,10m de tábuas de cedro de 0,03mx0,33m, a.............................................9$900
31,20m de tábuas de cedro rosa de 0,035mx0,30m, a..................................10$500
13,10m de tábuas de cedro rosa de 0,035mx0,36m, a..................................12$600
38,40m de tábuas de cedro rosa de 0,025mx0,22m, a....................................5$500
7,60m de tábuas de cedro de 0,055mx0,22m, a..............................................2$500
25,80m de tábuas de proba de Campos de 0,025mx0,68m, a.......................17$000
5 metros de tela de metal amarelo, especial, a...............................................15$000
1 pacote de velas brasileiras.............................................................................3$100
7 31,35 pés quadrados de vidro para vidraça, a...............................................1$350
10 quilos de vermelhão lavado, de sapateiro, a..................................................$590 481
480
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 45, 23 fev. 1931, p. 172.
481
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 64, 17 mar. 1931, p. 279.
347
José Pessoa propunha para a Escola uma “remodelação integral”, sob inspiração
europeia: “West Point, Saint-Cyr, Sandhurst483, serão os moldes de onde sairão as linhas
gerais da reforma dos processos de vossa formação militar” (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta
III, p. 42).
Se as reformas estruturais da Escola se destinavam a dar um novo impulso ao ensino e
à parte anímica da formação do novo oficial, o preparo físico dos cadetes também não poderia
ser esquecido. Juntamente com o ensino cientificista e o preparo técnico-profissional, ele era
uma das bases propostas por José Pessoa para a nova Escola Militar. A cultura física deveria
andar de “braços dados com o preparo intelectual e profissional” (ALBUQUERQUE, 1953,
Pasta III, p. 42).
A formação do oficial brasileiro em seu primeiro lance na Escola Militar, terá como
base a educação física, como meio a cultura geral científica e como fim a mais
rigorosa preparação profissional. Desse tríplice aspecto resultarão, seguramente, as
qualidades morais indispensáveis ao oficialato e que deveis cultivar desde já.484
482
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 306, 31 dez. 1931, p. 1.935.
483
West Point, Saint-Cyr e Sandhurst são, respectivamente, as escolas de formação de oficiais dos exércitos dos
EUA, França e Inglaterra. Essas academias militares, no verdadeiro sentido do termo, serviriam de modelos para
o que José Pessoa pensava sobre a instituição de ensino formadora da oficialidade brasileira: a Academia Militar
das Agulhas Negras.
484
Boletim Interno nº 13 da Escola Militar do Realengo, de 15 jan. 1931.
348
485
Diário Carioca, Rio de Janeiro, 14 jul. 1931, p. 6.
486
Adolfo Bergamini foi interventor do Distrito Federal de 24 de outubro de 1930 a 21 de setembro de 1931.
487
Raul Penna Firme era, à época, um jovem arquiteto formado pela Escola Nacional de Belas Artes, que havia,
sob pseudônimo, concorrido ao projeto da nova Escola Militar. Anos mais tarde acompanharia José Pessoa na
comissão de locação da nova Capital Federal. (CÂMARA, 2011, p. 123).
349
Imagem 60 – Estádio construído na Escola Militar do Realengo durante o comando de José Pessoa, [193-].
488
José Pessoa não precisa a data do ocorrido. Porém, como cita na narrativa que já era general-de-brigada, o
fato deve ter ocorrido entre agosto e dezembro de 1933.
350
Outro fato pitoresco atinente às reformas, também narrado por José Pessoa, foi a
restrição ao uso dos automóveis oficiais do estabelecimento, com a finalidade de diminuir o
351
impacto financeiro na economia da Escola. Com isso os oficiais, e o próprio Pessoa, passaram
a deslocarem-se a cavalo ou em charretes. Para o comandante, uma antiga carruagem
conduzida por dois cavalos, dos tempos da Escola da Praia Vermelha, foi reformada. Com ela,
Pessoa deslocava-se diariamente da Escola para a sua residência e vice-versa. As reformas
possibilitaram, também, a dispensa de funcionários cujas tarefas tornaram-se desnecessárias
ao dia a dia da escola. Na nova cozinha, por exemplo, onze empregados que cuidavam dos
fogões a lenha foram substituídos por apenas um, que acendia diariamente o novo fogão a
óleo. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 35)
Não há dúvidas de que o prestígio do qual gozava Pessoa junto à cúpula do Exército e
do governo provisório contribuiu muito para a facilidade com que ele empreendeu as reformas
na Escola Militar. Afinal de contas, nada poderia ser mais significativo do que o centro de
formação da oficialidade do novo Exército que se pretendia construir ser comandado pelo
irmão do mártir da Revolução de 1930.
No entanto, como ressalta Sodré (1967, p. 60), José Pessoa era um oficial sobre o qual
as opiniões divergiam entre a oficialidade da Instituição. Muitos atribuíam o seu sucesso na
carreira à influência do tio Epitácio. Esses mesmos oficiais diziam que a boa impressão que
passava se devia mais ao seu aspecto exterior do que aos conhecimentos profissionais, que
eram insuficientes, o que parece ser, na opinião deste pesquisador, um contrassenso. Não se
pode negar a importância do peso do nome que José Pessoa carregava, em um período em que
a influência das velhas oligarquias, como já discutido, muitas vezes apenas havia mudado de
roupagem. Entretanto, há que se lembrar que Pessoa era um oficial que esteve na frente de
combate durante a Primeira Guerra Mundial, escreveu um verdadeiro tratado sobre os tanques
de guerra, especializou-se na academia francesa de Saint-Cyr e destacou-se no curso de
aperfeiçoamento de oficiais, merecendo elogios dos instrutores franceses. A causa para todo o
despeito dos colegas de farda, segundo Nelson Werneck, não poderia ser outra, senão a
inveja. Sodré fala com conhecimento de causa, pois, além de ter sido cadete de Pessoa, entre
1931 e 1934, seria seu ajudante-de ordens, anos mais tarde.
A aparência de José Pessoa e maneira como se portava marcaram significativamente
os cadetes do Realengo, no período em que ele esteve à frente da Escola Militar. O uniforme
bem talhado que utilizava, como ressaltou o general Umberto Peregrino em entrevista
concedida ao Projeto Marechal José Pessoa489, “em nada se assemelhava aos alunos com seus
489
O Projeto Marechal José Pessoa foi criado pela Diretoria de Assuntos Culturais, Educação Física e Desportos
do Exército, em 6 de outubro de 1984, com a finalidade de comemorar o centenário de nascimento de José
Pessoa. Coordenou o projeto o coronel Hiram de Freitas Câmara, biógrafo de José Pessoa. Colaboraram com o
352
uniformes largos, passados a ‘toque de caixa’ com um velho ferro a carvão, e os cabelos
sobrando por fora dos gorros enormes” (PEREGRINO, 1984 apud CÂMARA, 2011, p. 80).
Ele e o general Tasso Villar de Aquino, ex-cadete entre 1931 e 1933, assim relataram a
impressão deixada por Pessoa:
José Pessoa era homem de elegância extraordinária, em tudo. No trajar, nos gestos,
no falar, ele era um home que não se descuidava nunca. Você nunca o apanhava em
momento de relaxamento. Sempre composto. Dignidade extraordinária. Ele fazia
isto com consciência do que estava fazendo. Não era atitude fátua; era atitude
consciente, atitude para valer, de quem sabia o que estava fazendo, porque estava
fazendo. Ele era humano e justamente, um homem vaidoso, e essa vaidade era justa,
compreensível. Ele a cultivava e nós respeitávamos. Ele queria passar ao cadete essa
imagem, compenetrar o cadete de que ele devia ter sempre uma atitude especial, que
correspondesse à sua posição, à sua condição de cadete, que não era um estudante
comum. (AQUINO, 1984 apud CÂMARA, 2011, p. 80)
projeto a Fundação Getúlio Vargas, a Casa Rui Barbosa, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o
Instituto de Geografia e História Militar do Brasil. A professora Aspásia Camargo foi coordenadora da pesquisa
oral e o professor Marcos Bretas foi um dos pesquisadores envolvidos. Durante o projeto, algumas entrevistas
gravadas em VT foram realizadas com militares que foram ex-cadetes ou que serviram com José Pessoa e com
alguns familiares. Dentre os entrevistados estavam os generais Umberto Peregrino, Tasso Villar de Aquino e
Carlos de Meira Mattos. Além destes, prestaram depoimentos ao projeto o brigadeiro José Pessoa Cavalcanti de
Albuquerque, filho de José Pessoa, e Marcelo Pessoa, seu sobrinho, filho de Aristharco Pessoa. As entrevistas
foram gravadas na Escola de Comunicações do Exército (EsCom), entre os meses de outubro e dezembro de
1984..
353
A personalidade forte de Pessoa, descrita por Sodré, que já havia aparecido em vários
momentos da sua carreira, tornaria a ganhar as páginas dos jornais cariocas. Em 13 de maio
de 1931, José Pessoa procurou Leite de Castro e colocou à disposição o cargo de comandante
da Escola Militar. Ao mesmo tempo, Aristharco Pessoa entregava a Oswaldo Aranha o seu
cargo de comandante do Corpo de Bombeiros da Capital Federal.
A atitude tomada pelos irmãos foi uma forma de protesto à relação dos coronéis que
foram promovidos a generais-de brigada em 7 de maio de 1931.490 Nela constava o nome do
coronel Maurício José Cardoso, chefe de gabinete do ministro da Guerra. Em junho de 1930,
Cardoso era o comandante do 22º Batalhão de Caçadores, uma das unidades militares
enviadas por Washington Luís à Paraíba para controlar os embates que estavam acontecendo
em função da Revolta de Princesa. Em uma carta enviada ao redator-chefe do periódico O
Jornal, Assis Chateaubriand, em resposta a uma matéria publicada no jornal, intitulada “As
próximas promoções ao posto de general”491, Pessoa relata toda a sorte de atrocidades que
Cardoso e seus soldados teriam feito à população da capital paraibana, naquela ocasião.
Pessoas teriam sido espancadas nas ruas e obrigadas a darem vivas ao presidente eleito Júlio
Prestes. Para os irmãos Pessoa, a presença das tropas de Cardoso no estado somente teria
servido para “anarquizar o estado da Paraíba, humilhar o estadista destemido que o dirigia
[João Pessoa] e aviltar o povo patriota e intemerato que o Brasil novo conheceu”. Além disso,
José Pessoa afirmou que os soldados teriam ferido a tiro e a golpes de sabre um dos seus
irmãos, que residia na capital paraibana. Apesar de não citar o nome, o relato de Pessoa leva a
crer que tenha sido Joaquim, já que afirmou que o irmão ferido teria ocupado cargos políticos
e administrativos relevantes. Para José e Aristharco, a promoção de Maurício Cardoso
constituía-se em uma afronta à memória de João Pessoa e um desrespeito ao povo
paraibano.492
Leite de Castro e Oswaldo Aranha recusaram os pedidos de demissão dos irmãos
Pessoa, que continuaram a exercer os seus cargos. Maurício Cardoso foi promovido a general-
de-brigada, em maio de 1931. Apesar de comandar as tropas enviadas por Washington Luís à
Paraíba, Cardoso havia apoiado a Revolução de 1930, tendo participado ativamente no
comandando das forças revolucionárias em Pernambuco. Chegou a general-de-divisão em
1938, maior posto do Exército à época. Foi reformado em 1949, como marechal.
490
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 8 maio 1931, p. 1.
491
O Jornal, Rio de Janeiro, 10 maio 1931, p. 4.
492
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). Arquivo Pessoal JP ag 1930.11.07.
354
Ao passo que as reformas da estrutura física aconteciam, José Pessoa tratou de cuidar
da parte anímica da formação dos oficiais do Exército da nova República. Como aponta
Câmara (2011, p. 84), na base dessas reformas pode ser encontrado um conjunto de ideias e
símbolos com uma poderosa força intrínseca de coesão e um profundo efeito psicológico
sobre a juventude militar, capazes de influenciar comportamentos por toda a carreira em
benefício do Exército e da própria Nação.
Em meio à turbulência política pela qual passava o País, Pessoa vislumbrava, com
suas mudanças, dar novos rumos à formação da oficialidade brasileira e, talvez, à própria
instituição Exército:
No entanto, na visão de Pessoa, era preciso que essa formação ideológica ocorresse
sob a inspiração de um nome que, na história da Nação, personificasse as qualidades por ele
pretendidas para o novo oficial do Exército, como a desambição de poder, o espírito de união
e de concórdia, o elevado senso de cumprimento do dever, a disciplina e o respeito à
dignidade humana. A escolha recaiu sobre aquele por quem José Pessoa já havia
demonstrado, ao longo de sua carreira, possuir verdadeira devoção e, cuja imagem serviria de
exemplo à jovem oficialidade, durante o processo de sua formação: o Duque de Caxias. Sendo
assim, como destaca Câmara (2011, p. 88), a finalidade precípua da reforma moral e ética
implantada por Pessoa na Escola Militar foi gerar o “Cadete de Caxias”, aquele que deveria
ser o cadete do “dever ser”, como um ideal a atingir. Como lembra o general Tasso Villar de
Aquino, à época de José Pessoa “Caxias era venerado na Escola [Militar]” (apud CÂMARA,
2011, p. 86).
Não temos dúvidas de que as novas gerações, educadas sob o signo de Caxias, estão
fadadas a mudar os hábitos e destinos do Exército, formando uma mentalidade
homogênea de chefes que, a exemplo dos seus antepassados, não permitirão
esquecimento das nossas nobres tradições. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p.
70)
É Celso Castro quem melhor analisa a criação do culto a Caxias no âmbito do Exército
brasileiro. Para o autor, a institucionalização do culto a um patrono para o Exército ocupou
um papel central no processo de reorganização da instituição nos anos que se seguiram à
Revolução de 1930. As intensas agitações políticas das décadas anteriores, dentre as quais
destacaram-se os movimentos tenentistas dos anos 1920, resultaram em um Exército
fragmentado organizacional e ideologicamente. Cabia, portanto, às lideranças da instituição
definir o perfil e a identidade institucional do Exército da nova República. O arranjo
organizacional e simbólico encontrado, que permaneceu vigente por meio século, foi o
resultado, segundo Castro (2000, p. 104), da “invenção do Exército como uma instituição
nacional, herdeira de uma tradição específica e com um papel a desempenhar na construção
da Nação brasileira”. Nesse processo, como lembra o autor, ganhou força o culto a Caxias:
O “culto a Caxias” prossegue, até 1930, seguindo a mesma rotina: flores, discursos e
desfiles em frente à estátua de Caxias. Qual o sentido da instituição de Caxias como
“patrono” do Exército? Minha sugestão é que, até 1930, o objetivo a ser alcançado,
no plano simbólico, era a afirmação do valor da legalidade e do afastamento da
356
política, a bem da unidade interna do Exército, despedaçada, nos anos 20, por
diversas revoltas internas e clivagens políticas. (CASTRO, 2000, p. 107)
O culto a Caxias foi oficializado no dia 25 de agosto de 1923 493, pelo ministro da
Guerra Setembrino de Carvalho, a partir de uma proposta surgida no Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro494.
Sr. Chefe do Departamento do Pessoal da Guerra - Convido, para servir ao culto das
nossas tradições que, a exemplo do que se pratica com Osório e Barroso, se renda,
cada ano ao Duque de Caxias a homenagem de nossa veneração, resolvi se realize
hoje, data natalícia desse glorioso general, urna formatura de tropas do Exército, as
quais se hão de reunir destacamentos da Marinha e da Brigada Policial, no terreno
adjacente à sua estátua. E nenhuma ocasião é mais própria do que esta, para instituir,
como ora o faço, com o caráter permanente, a festa de Caxias, que se efetuará a 25
de agosto. Saúde e fraternidade - Setembrino de Carvalho. (RELATÓRIO DO
MINISTRO DA GUERRA, 1923, p. 85)
Dois anos mais tarde, Setembrino de Carvalho oficializaria a data natalícia de Caxias,
25 de agosto, como o “Dia do Soldado”. No aviso ministerial495 que instituiu a comemoração,
Carvalho apontava que a escolha da data havia sido uma sugestão do comandante da 1ª
Região Militar, general Menna Barreto, e dava ordem para que os comandantes das unidades
militares organizassem, anualmente, em seus quartéis, a festa militar. Como destaca Castro
(2000, p. 106 e 108), a transformação da “festa de Caxias” em Dia do Soldado serviria para
vincular, simbolicamente, uma categoria genérica, o soldado brasileiro, ao seu guia. A data
escolhida correspondia ao nascimento daquele que era visto como o protótipo das virtudes
militares.
O aviso de 1923 de Setembrino de Carvalho faz menção aos cultos de Osório e do
almirante Barroso. Castro (2000, p. 104-105) lembra que até a instituição da “festa a Caxias”,
as memórias de Osório e do almirante Barroso, dentre outros tantos chefes militares que
haviam se destacado na Guerra do Paraguai, mereciam grande destaque nas celebrações das
batalhas de Tuiuti e do Riachuelo. O 24 de maio, data da Batalha de Tuiuti, era comemorada
anualmente no âmbito do Exército, em todo o território nacional, com a presença de
autoridades do Governo, discursos e desfiles de tropas. Na Capital Federal a celebração da
data ocorria em frente à estátua de Osório, na praça 15 de Novembro. A lembrança da figura
do Marquês de Herval como expoente máximo da data militar, contrastava com o
“esquecimento” da figura de Caxias.
493
Aviso nº 443, do ministro da Guerra, de 25 de agosto de 1923.
494
A proposta foi feita por Eugenio Vilhena de Morais, membro do IHGB. (CASTRO, 2000, p. 105)
495
Aviso nº 366, do ministro da Guerra, de 11 de agosto de 1925.
357
O culto a Osório, como destaca Castro (2000, p. 105), era em grande medida
espontâneo, fruto da popularidade que o chefe militar sempre desfrutou junto à tropa. E foi
justamente essa celebração espontânea à imagem de Osório que provocou algumas
discordâncias à oficialização de Caxias como patrono do Exército. Em um artigo escrito para
a Revista do IHGB, em 1949, o coronel J. B. Magalhães ressaltou a irregularidade do
processo de escolha de Caxias, ainda que a achasse justa, por não ter atendido à “completa
realidade histórica nacional” (MAGALHÃES, 1949, p. 235). Considerava a preferência por
Caxias uma “injustiça histórica a Osório, que foi o mais amado dos chefes do Exército e o
mais perfeito tipo de cidadão-soldado” (MAGALHÃES, 1949, p. 235). E contrastava a figura
de Osório, “homem do povo [...] brasileiro soldado e político, amante do progresso resultante
da ordem com seu patriotismo vivo e sempre ativo”, com a de Caxias, “nosso melhor tipo de
militar, oriundo da velha nobreza portuguesa [...], o representante máximo das energias
construtivas da Monarquia” (MAGALHÃES, 1949, p. 236). Para Magalhães (1949, p. 236),
as duas figuras juntas representavam a síntese da estrutura militar brasileira. Enquanto Caxias
era essencialmente o chefe, Osório era o próprio Exército. O autor tratou, ainda, de tecer uma
crítica ao esquecimento de Osório, devido ao oficialismo das comemorações de Caxias, ao
mesmo tempo em que destacava a falta de entusiasmo das tropas do Exército em comemorar a
data do patrono.
A partir de 1930, há uma mudança no conteúdo das mensagens veiculadas nos
periódicos do Exército e nas ordens-do-dia dos comandantes militares, em relação a Caxias e
ao Dia do Soldado. A ênfase à legalidade e à disciplina dá lugar à fusão do Exército com a
Nação, tendo como ponto focal Caxias, que passa a ser apresentado como o maior lutador pela
unidade e integridade da Pátria. À medida em que a política do País se encaminhava para a
ditadura do Estado Novo, a imagem evocada de Caxias passou a ressaltar cada vez mais a sua
autoridade e as suas qualidades de chefe militar a serviço de um Estado forte. Caxias passa a
figurar como o símbolo da união militar e da própria Nação e a sua imagem a representar a
cara nacional conservadora da República. (CASTRO, 2000, p. 108)
As palavras de Góes Monteiro, ministro da Guerra, em uma publicação comemorativa
ao Dia do Soldado de 1934, no Correio da Manhã, apontavam claramente essa intenção. Para
o ministro, Caxias era a “expressão sintética, simbólica e aristocrática” do “herói humilde,
sublime e anônimo”, que era o soldado brasileiro. A figura lendária do Duque, pairava “muito
acima das paixões desencadeadas pelas facções partidárias, no pedestal de glórias cada vez
mais alcançado pela admiração crescente das gerações que se sucederam”. A sua espada
jamais permitiu que o território brasileiro “sofresse o ultraje de ser transformado em teatro das
358
façanhas de hordas revoltadas ou que fosse retalhado ao sabor de meros desígnios e interesses
facciosos”. Foi graças a Caxias que, segundo Góis Monteiro, teriam sido estabelecidas as
“bases da perpetuidade da união nacional”. Como grande pacificador, resolveu “com
superioridade de ânimo, as questões que colocaram em litígio os foros de nossa civilização e
deram ao Brasil dias de cruéis dissenções, de angústia e de sangue”.496
Como ressalta Castro (2000, p. 110), dentro do projeto político autoritário vitorioso da
década de 1930, as características relacionadas à autoridade de Caxias, como a sua atuação
como “pacificador” e mantenedor da unidade nacional, passam a ser importantes para a crítica
ao funcionamento da democracia política liberal e das alternativas socialistas, vistas como
elementos de divisão ou subversivas.
Se a formação do oficial da nova República deveria ser construída sob o ideal de
Caxias, era necessário que ao aluno da Escola Militar fosse dada a posição de destaque
necessária no Exército e aos olhos da sociedade nacional. Sendo assim, uma das primeiras
medidas adotadas por José Pessoa, ao assumir o comando, foi resgatar o título de cadete para
designar os alunos da EMR.
Utilizado para designar exclusivamente os alunos de origem nobre, o título de cadete
foi utilizado nas escolas de formação de oficiais do Exército durante todo o Império e nos
primeiros anos da República. O título foi extinto em 1897, por meio de uma lei federal
assinada pelo presidente Prudente de Morais497, em meio à pressão republicana radical de se
expurgar do seio da Nação toda e qualquer lembrança dos tempos do Império. Sendo assim,
talvez tenha causado espanto aos presentes José Pessoa ter aberto o discurso da sua assunção
de comando justamente com o vocativo que há mais de três décadas estava em desuso:
“Cadetes!”.498 Como ressalta Castro (2002, p. 45), a revalorização do título por Pessoa ao
mesmo tempo que dava um ar aristocrático à condição de aspirante-a-oficial do Exército
brasileiro, retomava um elemento do passado e transmitia a ideia de que ser cadete era
pertencer a uma elite social.
O “Cadete de Caxias” passaria a pertencer, dessa forma, não mais a uma nobreza de
sangue. O título, não mais vitalício, mas transitório, inaugurava a ideia de pertencimento a
uma nova aristocracia, como Pessoa deixa claro em uma carta escrita ao ministro da Guerra
Góes Monteiro, em 31 de março de 1934:
496
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 25 de agosto de 1934, p. 3.
497
A Lei nº 448, de 6 de outubro de 1897 especificava que, a partir de 1º de janeiro de 1898, não seria mais
admitida no Exército brasileiro nenhuma praça com a qualificação de cadete.
498
Oficialmente, pode-se dizer que a reabilitação do título de cadete se deu por meio da Lei nº 20.307, de 20 de
agosto de 1931, que criou o Corpo de Cadetes da Escola Militar do Realengo.
359
As turmas que ali chegavam [à Escola Militar], as dos três colégios militares de
então, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Ceará, cobriam quase totalmente as vagas das
matrículas, sem ser obedecida a distinção dos graus de aprovação nas disciplinas dos
colégios nem de idoneidade moral do candidato, todos passando somente por uma
sumária inspeção médica, idêntica a que eram submetidos os conscritos e
voluntários para as fileiras. Aquilo se fazia em detrimento dos direitos da mocidade
civil brasileira, não havendo respeito à igualdade de condições, tão bela na nossa lei
básica. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 25-26)
Não era interessante para a Escola Militar, e para o Exército, na visão de Pessoa, que o
acesso à EMR fosse limitado. As bases sociais do recrutamento deveriam ser ampliadas,
admitindo-se os melhores candidatos, não interessando a fonte de onde provinham. Por
ocasião da leitura da ordem do dia da solenidade de criação do Corpo de Cadetes, em 25 de
agosto de 1931, José Pessoa apresentou os novos critérios de seleção, que se dariam sobre
bases sociais e biológicas:
499
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JP vp 31.05.12.
360
500
Decreto nº 23.994, de 13 de março de 1934.
361
O Regulamento de 1934 teve vida curta, como ver-se-á adiante. Entretanto, no estudo
que fez das condições de admissibilidade à Escola Militar entre os anos de 1937 e 1946,
Rodrigues (2011, p. 130-132) deixa claro que a condição de honorabilidade para se atingir o
oficialato deu causa a outros critérios de seleção discriminatórios no período considerado.
Como mostra o autor, as Instruções para a matrícula na Escola Militar do ano de 1938
passaram a exigir bons antecedentes dos candidatos e de sua família. O preenchimento de uma
ficha individual, com registros e informações sobre os candidatos e seus pais, passou a limitar
a entrada na Escola Militar de filhos de pais desquitados e daqueles que possuíam uma origem
modesta. Critérios como raça e religião também passaram a influenciar no acesso à Escola,
sendo que negros e judeus deixaram de ter as suas requisições à matrícula aceitas. Também os
que possuíam um sobrenome que delatasse uma nacionalidade indesejável para aquele
momento histórico que o Brasil estava vivendo, ou seja o Estado Novo, passaram a ser
preteridos.501
Entretanto, é importante ressaltar que, durante os estudos feitos ao longo desta
pesquisa, do período em que José Pessoa comandou a Escola Militar do Realengo, nenhum
indício foi encontrado que aponte atos discriminatórios de Pessoa no que tange à seleção de
candidatos para a matrícula no estabelecimento de ensino, ou de que suas ideias reformadoras
tenham influenciado, intencionalmente, tais medidas. A grande preocupação de Pessoa era
com a formação moral dos cadetes. Para isso, empenhou-se em projetá-los socialmente, como
se vê nos depoimentos de alguns de seus “ex-cadetes”502, como o general Meira Mattos e Raul
Pedroso:
501
Sobre o assunto, sugere-se a leitura do livro Indesejáveis: instituição, pensamento político e formação
profissional dos oficiais do Exército Brasileiro (1905-1946), de Fernando Rodrigues.
502
Um ponto comum dos relatos dos militares que frequentaram a Escola Militar de Realengo, à época do
comando de José Pessoa, é que todos identificam-se não como ex-cadetes da Escola Militar, mas, como “ex-
cadetes de José Pessoa”. Cabe considerar, que esses relatos memoriais se deram muitos anos depois da formação
no Realengo, quando a imagem de José Pessoa como idealizador da Academia Militar e do “Cadete de Caxias”
já estava consolidada no Exército.
362
Nesse esforço, cuidou Pessoa, também, de coibir a frequência de cadetes em locais não
apropriados ao seu novo status social, como se vê na recomendação publicada em boletim
escolar:
503
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 94, 19 abr. 1932, p. 590-591.
504
Nesse sentido, Celso Castro faz menção à expressão cunhada por Eric Hobsbawn e Terence Ranger, em uma
tentativa de se expressar identidade, coesão e estabilidade social em meio a situações de transformações
históricas, o que é feito por meio do recurso à invenção de símbolos que evocam um passado muitas vezes ideal
ou mitológico. Castro (1994, p. 231).
505
Os símbolos criados por José Pessoa durante o seu comando da Escola Militar do Realengo, entre 1931 e
1934, permanecem até os dias atuais sendo cultuados pelos cadetes da Academia Militar das Agulhas Negras.
Alguns, como o culto à personalidade de Caxias, servem-lhes de modelos a serem seguidos durante toda a
carreira militar.
506
Apesar das mudanças nos uniformes da Escola Militar terem sido autorizadas pelo ministro Leite de Castro
em abril de 1931, sendo imediatamente implementadas por José Pessoa, o novo plano de uniformes só foi
aprovado formalmente em 24 de setembro de 1931, por meio do Decreto nº 20.438.
363
Para Câmara (2011, p. 94), a intenção de José Pessoa, ao criar o conjunto de símbolos
que implementou na Escola Militar, era inequívoca: envolver o cadete afetivamente com a
Escola, com seus símbolos e com a sua mística, ligados à história do Brasil. Dessa forma,
sentir-se-iam responsáveis pela própria função que ocupariam na sociedade: a de chefes
militares, com responsabilidades constitucionais, nascidas das aspirações e interesses da
Nação. Dentre esses símbolos, como ressalta o autor, os uniformes tinham a função de
exteriorizar a mudança de comportamento pela qual passaria o cadete: a de ser um jovem
chefe em formação, pleno de qualidades a serem aprimoradas na nova Escola. Era assim que o
cadete deveria ser visto pela sociedade, que passaria a prestigiá-lo.
Para implementar as mudanças nos uniformes, José Pessoa contou com o auxílio do
artista plástico paulista José Washt Rodrigues510. Em 1922, Washt Rodrigues havia ilustrado a
obra do Ministério da Guerra intitulada Uniformes do Exército Brasileiro, comemorativa ao
centenário da Independência. Tratava-se de uma compilação ilustrada dos principais
uniformes utilizados pelo Exército brasileiro até então, organizada por Gustavo Barroso, à
época diretor do Museu Histórico Nacional. Conforme indica Pessoa, Rodrigues colaborou,
ainda, na criação dos demais símbolos heráldicos da Escola. Pelo fato de Rodrigues residir em
Ouro Preto, houve uma intensa troca de cartas entre os dois.511
Nos uniformes criados por Pessoa encontravam-se detalhes presentes nos uniformes
das diferentes unidades militares do Segundo Império, de todas as armas. Porém,
sobressaíam-se os aspectos dos uniformes dos batalhões de fuzileiros de 1852, que haviam
507
Boletim Escolar nº 110, de 12 de maio de 1931, p. 110-111.
508
Ibidem.
509
Ibidem.
510
José Washt Rodrigues era pintor, desenhista, ceramista, ilustrador e historiador. Nasceu em São Paulo, em
1891, e faleceu no Rio de Janeiro, em 1957. Publicou várias obras sobre a antiga construção civil, fardas do
Reino Unido e do Brasil Império, trajes civis e militares de Pernambuco, durante o domínio holandês, e das
tropas paulistas ao longo dos tempos. Desenhou e aquarelou os uniformes do Exército brasileiro para o livro de
Gustavo Barroso e ilustrou o livro Brasões e Bandeiras do Brasil, de Clóvis Ribeiro. Juntamente com Guilherme
de Almeida, criou o brasão da cidade de São Paulo. Seu viés de historiador contribuiu enormemente para a sua
obra, principalmente os seus trabalhos sobre o Brasil colonial. (TARASANTCHI, 1986.
511
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.04.12.
364
participado da campanha militar contra Rosas: barretina com chapa de metal dourada, na qual
figurava o brasão de armas da Escola; charlateira de palma e palmatória escarlate com
ornamentos dourados; e cordões com palmatórias e borlas com diferentes colorações nas
franjas, a fim de distinguir o ano que os cadetes estavam cursando 512. Dois uniformes foram
criados, um no qual predominava a cor azul-ferrete e outro todo branco513. Detalhes na cor
azul turquesa estavam presentes nos ornamentos e na calça azul-ferrete. O general Meira
Mattos destacou que o novo uniforme foi um dos principais atrativos que o motivaram a
ingressar na Escola Militar, em 1932:
Passeando pela Rua Direita – por onde eu passava sempre, indo ao ginásio e ao
voltar do ginásio –, uma das principais de São Paulo, encontrei dois cadetes da
Escola Militar. Com o uniforme novo da Escola. O uniforme José Pessoa.
Compreendeu? Aquilo me impressionou de uma maneira marcante e, então, eu, no
fundo, comecei a querer vestir aquele uniforme. Aquilo mexeu comigo, eu comecei
a querer saber o que era Escola Militar. (MATTOS, 1984 apud CÂMARA, 2011, p.
94)
Fontes: Acervo José Pessoa (CPDOC FGV) - JPFOTO008; Site do Exército Brasileiro, 2013.
512
As colorações das franjas das borlas, que pendiam em um cordão garança, utilizado em volta do pescoço,
distinguiam o ano que os cadetes estavam cursando. Durante o período em que o curso foi realizado em três anos
a composição era a seguinte: 1º Ano, franjas garança; 2º Ano, franjas garança e amarela; 3º Ano, franjas
amarelas. Com a implementação dos quatros anos de curso, em 1934, os cadetes do 4º Ano passariam a ostentar
franjas douradas nas borlas. Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.04.12.
513
Os uniformes de passeio eram assim constituídos, sem os ornamentos: o azul, por calça azul-ferrete, com duas
listras azul turquesa, e túnica azul-ferrete; e o branco, por calça e túnica brancas. Acervo José Pessoa (CPDOC
FGV). JPag1936.04.12.
365
Entretanto, existiram algumas vozes críticas aos novos uniformes. Dentre elas, a de
Werneck Sodré. Cadete à época das mudanças, Sodré considerou a substituição dos velhos
uniformes cáqui um dos erros do comando de José Pessoa, sem, no entanto, desconsiderar a
boa intenção do comandante:
Em sua ânsia de alterar tudo, substituiu [José Pessoa] o uniforme tradicional, velho
de anos, que era sóbrio, severo, modesto, pelo espalhafatoso uniforme, de cores
berrantes [...] Fê-lo, como sempre, com a melhor das intenções: pretendeu que os
futuros oficiais envergassem fardamento tradicional, com o corte, o modelo, as cores
usadas ao tempo do Império. Esse conceito de tradicional, normalmente confundido
com o antigo, é profundamente duvidoso. Nem sempre o antigo chega a ser
tradicional; nada é excelente apenas por ser antigo. [...] A sobriedade militar, tão
adequadamente fixada no uniforme usado pelos cadetes até 1931, e que, entretanto,
tinha muito de tradicional, e de nosso, brasileiro, em sua simplicidade, foi
substituída pelo espalhafato dos uniformes adotados, a partir de então, que não
acrescentaram coisa alguma, muito pelo contrário. (SODRÉ, 1967, p. 72)
514
O Globo, Rio de Janeiro, 21 nov. 1931, p. 8.
366
Antes que um ato menos compatível com a posição dos cadetes fosse praticado, uma
reunião de entendimento foi marcada com o dono do jornal515 em sua residência, no bairro de
Ipanema. Os cadetes rapidamente redigiram uma nota de retratação e, acompanhados dos
oficiais da Escola e do Dr. Salgado Filho, partiram para o encontro. O responsável pelo
periódico, porém, não estava em casa. O delegado deixou, então, um recado para que o dono
do jornal procurasse o comandante da Escola, na segunda-feira seguinte. (CAMPOS, 1985, p.
32)
Às 7 horas da manhã da segunda-feira, o dono do jornal compareceu à Escola. José
Pessoa, já sabendo do que ocorrera no fim de semana, havia se preparado para recebê-lo. O
diretor do periódico procurou explicar a situação e pediu a Pessoa que convencesse os cadetes
a modificarem a nota de retratação, considerada por ele muito dura em seus termos. De
imediato, José Pessoa chamou o então cadete Flammarion. Entregou-lhe e nota e pediu que
ele reunisse na sala da Sociedade Acadêmica Militar os demais cadetes, para ler-lhes a nota e
saber se consentiam em modificá-la. A reunião não foi longa. Por unanimidade os cadetes
votaram pela publicação na íntegra. Dessa forma, o comandante informou assim ao jornalista:
“Peço-lhe que a publique na íntegra ou eu não me responsabilizarei pelo que possa acontecer!
Eu estou com meus cadetes!”. (CAMPOS, 1985, p. 32)
Pessoa fez publicar em boletim escolar um texto sobre o incidente. Nele considerou
que o “artiguete” publicado em O Globo havia se referido ao “respeitável fardamento escolar
em palavras ferinas e com segunda intenção”. Do exame que fez do caso, reconheceu o pleno
direito ao gesto de indignação de seus comandados contra o “achincalhe de um repórter
desportivo, incapaz de avaliar a beleza dos sentimentos alheios, principalmente dos que fazem
parte de uma coletividade que, pelo seu passado honroso [...] faz jus, sem favor, ao conceito
público”. E, diante da conduta irrepreensível de homens dignos, que vinham mantendo os
cadetes, onde quer que se apresentassem, da impossibilidade de se conterem quando se viram
desacatados pelos civis e considerando o ridículo da nota de O Globo, julgou que nenhuma
observação tinha a fazer aos seus comandados. Segundo Pessoa, indignos seriam os cadetes
de sua farda se tivessem tomado outra atitude.516
E, assim, foi publicada a nota de retratação, na íntegra, pelo jornal O Globo:
Um Descuido Lamentável
A Escola Militar e O Globo
515
O dono do jornal era o jornalista Irineu Marinho. Anos mais tarde, em outubro de 1948, a filha mais velha de
José Pessoa, Elisabeth, viria a se casar com o filho do jornalista, Rogério Marinho.
516
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 274, 23 nov. 1931, p. 1.688-1.689.
367
Juntamente com o plano de uniformes foi criado o brasão de armas da Escola Militar.
Desenhado, também, com a colaboração de Washt Rodrigues, destinava-se a ser utilizado em
chancelas, como timbre e em carimbos em papeis oficiais, bem como nos novos uniformes. A
composição pensada por José Pessoa e Rodrigues para o brasão era a seguinte:
517
O Globo, Rio de Janeiro, 23 nov. 1931, p. 2.
368
A montanha de cinco pontas descrita por Pessoa era o perfil estilizado do maciço das
Agulhas Negras, localizado no município de Itatiaia-RJ. Castro (2002, p. 44) explica a
representação do maciço no brasão, já que a Escola Militar estava localizada a mais de uma
centena de quilômetros de distância da região das Agulhas Negras, para onde a Escola iria se
transferir somente em 1944. Segundo o autor, o que poderia parecer premonição tinha uma
explicação mais simples. O pico das Agulhas Negras era considerado, à época, o ponto
culminante do Brasil. Além disso, fazia parte do maciço central do País, a espinha dorsal do
território nacional, e era geologicamente muito antigo. Tudo isso tinha um forte apelo
simbólico. Assim como as Agulhas Negras eram vistas como um símbolo da unidade
estrutural do Brasil, o Exército e a futura Academia Militar o seriam para a Nação e para o
Exército, respectivamente. Como explicou o capitão Mário Travassos, ajudante-de-ordens de
Pessoa em 1931, ao analisar o brasão, em um artigo que escreveu para a Revista da Escola
Militar:
... por sua posição geográfica [o maciço das Agulhas Negras], a cavaleiro do divisor
de águas que a Mantiqueira representa, como verdadeira síntese fisiográfica do
maciço central brasileiro, é o símbolo de nossa própria unidade estrutural. [...]
Finalmente, a constituição sienítica-nefelítica das rochas das Agulhas Negras
empresta-lhes caráter eruptivo de alta significação geológica em vista da idade que
lhes assegura a estabilidade de rocha primitiva do maciço central do Brasil. Este
sentido seria transmitido ao brasão pela firmeza e estabilidade do símbolo,
518
Conforme a descrição feita por José Pessoa em sua autobiografia. Acervo José Pessoa (CPDOC FGV).
JPag1936.04.12.
369
Com a criação do brasão, esperava-se que a mentalidade dos cadetes assimilasse mais
facilmente, e rapidamente, as forças psicológicas e o apelo histórico que nele estavam
condensados, como explicou Travassos no mesmo texto. Dessa forma, o Corpo de Cadetes,
como uma nova entidade, se manifestaria amplamente, em curto prazo, no cenário das
atividades do Exército e, consequentemente, da Nação.
Alguns anos após José Pessoa ter deixado o comando, algumas mudanças foram
implementadas nos uniformes e no brasão de armas da Escola Militar, o que o deixou
profundamente contrariado. Em 1939, por meio de decreto presidencial o brasão de armas
teve a sua constituição alterada, com o acréscimo de duas asas em seu desenho original, que
correspondiam à arma da Aviação do Exército519. Igualmente, os uniformes criados por
Pessoa foram alterados. Antes mesmo da sua formalização, em junho de 1940520, as mudanças
implementadas já se faziam notar nos uniformes de passeio e parada dos cadetes,
correspondentes ao “azulão” e ao “branco”.
Em documento anexo à sua autobiografia521, José Pessoa trata das modificações
implementadas no plano de uniformes que criou, consideradas por ele uma “consequência do
espírito fantasista da época” e um “verdadeiro atentado à sua estética e significação”. Dentre
as alterações que o incomodaram estavam: a substituição, na gola dos uniformes, do brasão de
armas da Escola Militar pelo distintivo das armas (Infantaria, Cavalaria, Artilharia e
Engenharia); a mudança da cor das borlas, que, ao invés do garança e do ouro, passaram a
ostentar as cores de cada arma; e a substituição da charlateira azul-turquesa com bordas de
metal dourado por uma charlateira mais simples, de pano azul-ferrete. Referindo-se às duas
primeiras mudanças, atentou para o risco de se fomentar a ideia de diferença de arma:
519
Em 29 de janeiro de 1919, o Decreto nº 13.451 criou o curso de aviação, por influência da Missão Militar
Francesa de Aviação, contratada em 1918. O curso passou a funcionar na Escola de Aviação, inaugurada em 10
de julho de 1919, no Campo dos Afonsos, na cidade do Rio de Janeiro. Em 1927, a Aviação do Exército passou a
ser considerada uma arma, por meio do Decreto nº 5.168, de 13 de janeiro de 1927, com estatuto próprio e um
novo regulamento para a Escola de Aviação Militar. Passou a ser conhecida como a 5ª arma, juntamente com a
Infantaria, a Cavalaria, a Artilharia e a Engenharia. O início da formação dos futuros aviadores passou a ocorrer
na Escola Militar do Realengo e, após os dois anos do curso fundamental, os alunos candidatos à Aviação
declaravam por escrito a opção pela conclusão de sua formação na Escola de Aviação Militar.
520
Decreto nº 5.847, de 22 de junho de 1940.
521
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.04.12.
370
que pode originar nocivas rivalidades de arma, revivendo uma antiga ficção
perigosa, quase esquecida hoje entre os oficiais das outras gerações. 522
Por meio de uma carta escrita em 18 de abril de 1940, às vésperas de sua promoção ao
posto de general-de-divisão523, José Pessoa expressou ao comandante da Escola Militar,
coronel Álvaro Fiuza de Castro, o desgosto que sentia em ver a sua criação alterada. Para ele,
afrouxar os “laços mais remotos da tradição”, que foram apertados pela reforma que imprimiu
na Escola, era um “ato antipatriótico”. Mudar as peças do uniforme, inspiradas na campanha
de 1852, substituindo-as por outras “sem estética e sem significação”, como foi feito com as
charlateiras, era “desacertar o que estava certo”, além de “desfigurar a tradição”.524
Considerou, também, a mudança do brasão uma “deturpação do seu histórico e
sentido”. Para Pessoa, não cabia a introdução das asas no desenho, já que, a regulamentação
que criou o brasão de armas, em 1931, regia somente a Escola Militar e não a Escola de
Aviação, a quem a esquadrilha de aviação estava diretamente subordinada. Além do mais, a
maior parte da formação dos cadetes aviadores acontecia juntamente com os seus colegas das
demais armas, em Realengo. Argumentou que brasões de armas são distintivos e insígnias de
nobreza e de família ou de instituições e não fazia sentido modificá-los a cada vez que um
novo filho ou uma nova ideia nasciam. E deu o exemplo do brasão da academia militar
francesa de Saint-Syr, que já contava com 87 anos de existência, sem ser mudado.
Na conclusão da carta, Pessoa alertou Fiuza de Castro que, como comandante da
Escola Militar, cabia a ele a responsabilidade de não permitir a continuidade das modificações
que haviam sido introduzidas no plano de uniformes dos cadetes, que depunham contra a
cultura e o patriotismo.
Oito dias após ter recebido a carta de José Pessoa, Fiuza respondeu-lhe. Agradeceu
educadamente as considerações feitas pelo antigo comandante e ressaltou que, ao longo do
seu comando, sempre procurou conservar aquilo que foi instituído pelos seus antecessores.
Quanto às modificações introduzidas nos uniformes e no brasão, apontou que não lhe coube a
menor interferência no que foi instituído, ao mesmo tempo que afirmou estar aberto às
sugestões de Pessoa. De fato, ao se analisar as regulamentações que introduziram as
modificações no plano de uniformes criado por José Pessoa, não é possível atribuir a Fiuza de
Castro a responsabilidade pelas mudanças, já que foram decisões ministeriais, da pasta da
Guerra, capitaneada, à época, pelo general Eurico Gaspar Dutra.
522
Ibidem.
523
José Pessoa desempenhava, à época, a função de Inspetor da Arma de Cavalaria do Exército. Em 24 de maio
de 1940 foi promovido ao posto de general-de-divisão.
524
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.04.12.
371
Não foi possível definir quem foi o responsável pelo ato, mas os uniformes criados por
José Pessoa acabaram sendo restaurados e preservados, como lembra Câmara (2011, p. 97).
Quanto ao brasão, especificamente, o autor aponta que, na década de 1970, novas mudanças
foram feitas, verificando-se um desarmamento do símbolo, com a retirada dos fuzis, das
lanças e dos canhões presentes no brasão original. O mote “Escola Militar” foi substituído por
“Agulhas Negras”, alinhando-o com a nova denominação da escola de formação, introduzida
em 1951525. Em 1988, por um ato do ministro do Exército526, general Leônidas Pires
Gonçalves, os elementos simbólicos de 1931 foram restaurados, configurando o brasão de
armas que existe hodiernamente.
525
Em 1951, a Escola Militar de Resende recebeu a denominação atual: Academia Militar das Agulhas Negras.
526
Portaria Ministerial nº 007, de 7 de janeiro, de 1988, do ministro do Exército.
527
Câmara (2011, p. 104) lembra que Luiz Alves de Lima e Silva possuiu três espadas durante a sua carreira
militar: a sua espada de campanha, utilizada nas campanhas de pacificação do território nacional, nas campanhas
contra Oribe e Rosas e na Guerra do Paraguai, da qual o espadim é uma miniatura e que se encontra guardada no
Museu do IHGB; uma espada que lhe foi ofertada pelo povo brasileiro, que se encontra sob a guarda da
Academia Militar das Agulhas Negras e que é colocada em destaque nas solenidades de entrega dos espadins aos
cadetes que ingressam na AMAN; e uma espada que foi utilizada por Caxias até atingir o generalato, que se
encontra depositada no Museu do Exército, na Praça Duque de Caxias, no Rio de Janeiro.
372
Pessoa, o apelo simbólico do espadim faria Caxias “pairar no seio dos cadetes do Brasil,
como Napoleão entre os cadetes da Escola de Saint-Cyr”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III,
p. 63-64)
Para que a ideia fosse concretizada, faltava, entretanto, resolver uma questão: localizar
a espada do Duque da Vitória. Como narra Pessoa, uma busca foi feita nos museus da Capital
Federal, sem sucesso. O paradeiro da arma somente foi conhecido com a ajuda do secretário
do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Max Fleiuss. Juntamente com outros
documentos pessoais de Caxias, a espada havia sido recolhida ao IHGB em 1927, pelo diretor
da instituição à época, Eugênio Vilhena de Morais. Com o auxílio de Fleiuss, foi conseguida a
licença necessária para que a peça histórica fosse copiada, o que foi feito por um desenhista
enviado por José Pessoa ao IHGB, para copiar fielmente a espada, em rigorosa escala. Com o
desenho pronto, foi conseguida a autorização do ministro da Guerra para que o espadim fosse
criado. Também foi por determinação de Leite de Castro que se conseguiu o crédito
necessário para a confecção das novas peças na Europa528. A empreitada ficou a cargo do
coronel José Duarte Pinto, chefe da Missão Militar Brasileira na Europa. (ALBUQUERQUE,
1953, Pasta III, p. 64-65)
Em outubro de 1932, os primeiros 800 espadins mandados fabricar na Europa
chegaram ao Brasil e foram recebidos pela Escola Militar em dezembro do mesmo ano. Cada
espadim, com a respectiva bainha, custou US$ 14,80 (quatorze dólares e oitenta centavos) ao
Exército. Em moeda brasileira da época, foram pagos 229$400 (duzentos e vinte nove mil e
quatrocentos réis) pelo lote do armamento.529
Certamente, o espadim foi o elemento simbólico material mais importante criado por
José Pessoa. Na sua lâmina estavam representados outros elementos de sua criação, como o
nome do patrono da Escola, “Caxias”, e o brasão de armas da Escola. Um conjunto simbólico
que representava um “talismã, guiando-os [os cadetes] para uma vida de grandes sucessos, de
amor ao Exército e de felicidade à sua Pátria”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 64)
528
Segundo Câmara (2011, p. 104) os primeiros espadins foram fabricados nas Indústrias Solingen, na
Alemanha.
529
Conforme o que consta no Boletim Escolar nº 288, de 6 de dezembro de 1932, p. 2.115-2.116.
373
Uma ficha histórica foi criada para cada espadim, a fim de que fosse feito um registro
histórico dos detentores de cada espadim. Também foram criadas instruções para o seu
recebimento e para o seu uso. Nas instruções constavam, por exemplo, o juramento do
espadim e o modelo da ficha de registro histórico. Quando um ex-detentor de espadim
praticasse alguma ação que o distinguisse na vida pública, por um gesto de sacrifício ou
serviço excepcional, para o Exército ou para a Nação, seu espadim sairia de circulação e seria
recolhido ao museu da Escola Militar, com a respectiva ficha, onde deveria constar a ação
praticada. Da mesma forma, quando algum cadete praticasse algum ato anormal, como falta
de amor ao trabalho ou incontinência de conduta, que implicasse no seu desligamento da
Escola, o espadim lhe seria retirado em formatura, uma prova pública de sua incapacidade
para o oficialato. O cadete passaria a receber o espadim após as primeiras provas parciais do
primeiro ano da formação e o devolveria na solenidade de formatura do curso, quando seria
declarado aspirante-a-oficial.530 Marcava-se, assim, através da transmissão do espadim a
cadetes de novas turmas, a continuidade da tradição.
Nos dias 15 e 16 de dezembro de 1932, duas solenidades marcaram a entrega dos
espadins aos cadetes, sendo amplamente noticiadas pelos principais jornais cariocas. A
primeira foi realizada no pátio de formaturas da Escola Militar. Na ocasião, como noticiou o
Diário Carioca531, 738 cadetes receberam os seus espadins. José Pessoa fez a entrega da nova
peça do uniforme ao cadete Helium Celso Frazão Guimarães, porta estandarte da Escola
530
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.04.12.
531
Diário Carioca, Rio de Janeiro, 16 dez. 1932, p. 14.
374
Militar e primeiro colocado da sua turma de formação. Após a leitura do juramento por José
Pessoa, os cadetes responderam, da forma que fazem até hoje: “recebo o sabre de Caxias
como o próprio símbolo da honra militar”.
Imagem 67 – Primeira solenidade de entrega de espadins na Escola Militar do Realengo, 15 dez. 1932.
Imagem 68 –José Pessoa faz a entrega do espadim ao cadete porta estandarte da Escola Militar,
15 dez. 1932.
532
José Pessoa destaca, em suas memórias, a presença do chefe do Governo Provisório, Getúlio Vargas, na
cerimônia do dia 16 de dezembro de 1932, na Praça Duque de Caxias. No entanto, nenhum dos jornais que
cobriram o evento indicaram a presença de Vargas na solenidade.
375
Cadetes!
Defronte à estátua do Marechal Luiz Alves de Lima e Silva, aquele que em vida foi
o maior dos generais sul-americanos, acabais de prestar o compromisso do
recebimento do vosso espadim – arma-distintivo que reproduz o sabre glorioso do
invicto soldado, que com atos de sublimada grandeza esmaltou com refulgência
inigualável as páginas gloriosas da história nacional, marcando-as de traços
imperecíveis e assinalando o seu nome como o cidadão que melhor serviu à Pátria e
mais a estremeceu.
........................................................................................................................................
A espada que foi o esteio de um regime, que em rudes prélios cimentou a unidade
nacional e, em terras estranhas, acutilou bravamente os inimigos do Brasil, tendes
hoje a honra e a rara fortuna de a cingirdes, à cintura, outorgada ao Corpo de
Cadetes o encargo de guardar aquele sabre glorioso que reflete, no brilho espelhante
do seu aço, a constância no dever e que nunca a ferrugem da deslealdade, de leve
sequer maculou, em meio século de intenso batalhar em prol da ordem e do prestígio
desta terra estremecida, a que ele serviu com inexcedível dedicação e bem alto a
elevou no conceito das nações! (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 67-68)
533
Em 1949, a estátua do Duque de Caxias que se encontrava no Largo do Machado foi transferida para o
Pantheon de Caxias, construído em frente ao Palácio Duque de Caxias, no Centro do Rio de Janeiro, para abrigar
os restos mortais de Caxias, sua esposa e filho.
376
“mentalidade homogênea de chefes que [...] não permitirão o esquecimento das nossas nobres
tradições”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 70)
Dentre todas as suas criações, José Pessoa considerou a do Corpo de Cadetes (CC) o
ponto culminante da reforma que implementou entre 1931 e 1934. Criado por decreto 534, daria
à Escola Militar uma nova estrutura organizacional. Sob ele seriam reunidos todos os cadetes
do estabelecimento de ensino, o que contribuiria para o grande objetivo a que se propôs ao
assumir o comando da Escola: formar para o Exército um corpo disciplinado de oficiais.
Enfatizava-se, assim, a disciplina, que une e, por consequência, afastava-se da Escola a
política, que divide.
Ao ser admitido no Corpo de Cadetes, o que lhe dava uma nova condição dentro do
Exército, o de “praça especial”, o cadete passaria a fazer parte de uma entidade coletiva, o
que, segundo José Pessoa, a simples matrícula na Escola Militar, como vinha sendo feito até
então, estava longe de caracterizar. A criação do CC alinhava-se aos já citados princípios de
Pessoa de que a Escola Militar se destinava a aprimorar qualidades e não corrigir defeitos.
Dessa forma, segundo ele, fundava-se, na instituição de ensino, um novo regime disciplinar,
não de ordem material, mas, de ordem moral: “a disciplina intelectual e moral, e não a
disciplina material, é que traduz a grande força de coesão dos quadros” (ALBUQUERQUE,
1953, Pasta III, p. 59).
O alcance da eficiência plena desse regime, passaria, necessariamente, pela já
abordada questão do recrutamento. Os novos critérios de seleção para o ingresso na Escola,
estipulados por Pessoa, assentados sobre bases sociais e biológicas, contribuiriam para o
acesso de jovens oriundos de toda a Nação às provas de admissão. Ao ingressarem
espontaneamente no Corpo de Cadetes, não seriam mais compelidos à aquisição “dos nobres e
elevados atributos do oficialato” (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 59) e o fariam, sim,
por uma questão de consciência.
Um regulamento interno foi criado para o Corpo de Cadetes. O seu artigo primeiro
afirmava que o CC era o “verdadeiro símbolo do futuro do Exército e da segurança da Pátria,
por ser a fonte perene de onde brotam sucessivas gerações de oficiais”. Os artigos segundo e
terceiro concitavam os cadetes a imporem a si mesmos “a mais severa observância das boas
normas de conduta civil e militar” e lembrava-os de que todas as suas atitudes não
focalizavam apenas as suas personalidades, mas, sobretudo, refletiam sobre o nome do Corpo
de Cadetes. O Regulamento Interno do Corpo de Cadetes dividia-se em seções que regulavam
534
Decreto nº 20.307, de 20 de agosto de 1931.
377
detalhadamente o dia a dia dos cadetes na Escola: “Dos alojamentos, dos pátios e dos
banheiros”, “Do refeitório”, “Das visitas”, “Das aulas e sessões de estudo”, etc. 535 Para Castro
(1994, p. 235), a visibilidade e a previsibilidade do controle exercido pela Escola Militar
sobre o espaço e o tempo dos cadetes a aproxima do modelo de “instituição total” proposto
por Erving Goffman, para designar estabelecimentos sociais que concentram indivíduos em
tempo integral num único local e sob a mesma autoridade, com atividades diárias
rigorosamente estabelecidas e padronizadas.536 Entretanto, como ressalta o autor, o controle
exercido sobre os cadetes não era exterior, como na categoria criada por Goffman. O principal
controle deveria, segundo José Pessoa, ser a consciência do próprio cadete. No novo estado
psicológico que se pretendia atingir, o cadete se tornaria “escravo da sua dignidade pessoal” e
“prisioneiro de si mesmo”. Nesse sentido, segundo Pessoa, “não existia prisão mais sólida”
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 33).
A partir dessa ideia, a criação do Corpo de Cadetes impactou significativamente o
campo disciplinar da Escola. Analisando-se os boletins escolares dos anos anteriores ao
comando de José Pessoa, é possível perceber um volume acentuado de punições disciplinares
imputadas aos alunos, o que diminuiu sensivelmente a partir de 1931.
O Regulamento da Escola Militar de 1929, que vigia à época, previa cinco tipos de
“penas correcionais” que poderiam ser aplicadas pelo comando da Escola aos alunos:
535
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.04.12.
536
Apesar de Goffman incluir as academias militares no rol das instituições totais, Celso Castro apresenta
algumas restrições ao uso automático do conceito para caracterizar esses estabelecimentos militares. Ver
CASTRO, Celso. O espírito militar: um antropólogo na caserna. 2. ed. rev. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. p. 36-
37
537
Regulamento da Escola Militar de 1929. Decreto nº 18.713, de 25 de abril de 1929.
378
Conforme parte que me foi apresentada, o aluno [...], no dia 24 do corrente, não
tendo obtido a continuação na Enfermaria por observação médica, visto não estar
enfermo, tratou de maneira desatenciosa e grosseira o Sr. Major Chefe do Serviço de
Saúde, não guardando para com esse oficial o respeito que por todos os motivos ele
merece, assim revelando lamentável esquecimento dos deveres de boa educação a
que um cadete, sobretudo da última série do curso, não pode furtar-se de patentear a
cada instante, como prova de que se vai tornando capaz de ser investido das funções
de um oficial.
Também, segundo outra parte que veio ao meu conhecimento, no dia 25 do corrente,
o cadete [...], tendo sido observado por um oficial pelo fato de haver chegado fora de
forma ao rancho, além de lhe voltar as costas, ainda lhe respondeu de maneira
descortês, olvidando as regras de polidez e subordinação a que está obrigado por
força dos regulamentos.
Esses atos, que causam estranheza a todos que aqui convivem, teriam, como exige a
disciplina, a mais severa reprimenda se os seus autores não tivessem, nas
explicações dadas a este comando, provado a sua própria contrariedade pela falta
cometida e o deixando convencido de que não reincidirão nas transgressões desta
ordem que depõem desfavoravelmente contra os seus autores.
Por essas razões, resolvo que sejam os mesmos alunos presos por 30 dias, na sala do
oficial de serviço, da qual não poderão sair senão para os trabalhos escolares e para
as refeições, neste caso acompanhados pelo adjunto.538
Esse fato, embora isolado, dá a esse comando de que o critério que rege atualmente
o regime disciplinar do corpo de cadetes, ainda não foi suficientemente assimilado
pelo meio ambiente. Franca autonomia aos comandantes de subunidades para apurar
e punis as pequenas faltas; abolição da prisão em estado-maior como atentatória
aos brios individuais e coletivos dos cadetes; decidida confiança na conduta pessoal
dos cadetes como comprovam os licenciamentos individuais, sem outra
formalidade que a licença escrita são, entre outros, aspectos capitais que asseguram
as bases novas para o regime disciplinar em substituição a feição material da
disciplina militar comum, sem dúvida incompatível com as características de
idoneidade dos oficiais e consequentemente daqueles que cedem os melhores anos
de sua vida preparando-se para ser honrado com as insígnias de oficial e honrá-las.
Pelo citado regime disciplinar que consta do documento de criação do Corpo de
Cadetes, em véspera de aprovação pelo Estado-Maior do Exército, somente as faltas
de caráter eliminatório chegam ao conhecimento direto do comando. Este poderá
ou não excluir o faltoso. No segundo caso, o faltoso será punido com a pena máxima
correspondente às faltas graves e será ciente de que se novamente seu nome voltar
ao comando em consequência de nova transgressão igualmente grave a exclusão será
irremediável. (grifos do autor)539
538
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 203, de 28 ago. 1931, p. 1.199.
539
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 124, de 27 maio 1931, p. 698.
379
E foi justamente por achar que a “feição material” da disciplina militar comum era
incompatível com as características da formação que pretendia implementar na Escola Militar,
que Pessoa criou tipificações novas de punições disciplinares, que passaram a ser regidas pelo
Regulamento do Corpo de Cadetes, criado em agosto de 1931, como o licenciamento sustado,
que também passou a restringir a liberdade do cadete, impedindo-o de ausentar-se da Escola
nos dias e/ou horários de licenciamentos do Corpo de Cadetes. Tanto o licenciamento sustado
quanto a já prevista detenção passaram a ser utilizadas para penalizar as faltas consideradas
mais leves, como faltar à revista do recolher, má apresentação do uniforme, falta de asseio
corporal e de higiene dos alojamentos, perda de documentação, atrasos ao rancho ou às
atividades de instrução e deixar de prestar a continência a superiores. O que as diferenciavam
da prisão, é que os cadetes poderiam circular livremente dentro da Escola ou dos alojamentos.
Quanto ao tempo do impedimento, mais especificamente no caso da detenção, pouca
vantagem poderia ter em relação à punição mais grave540:
Fica detido por 30 dias, o cadete [...], por haver faltado à revista do dia 22,
ausentando-se sem permissão e por se ter apresentado por ocasião da formatura para
o licenciamento, Sábado, com as charlateira de seu uniforme completamente sujas,
assim incorrendo nas transgressões 3ª e 11ª, da alínea b e 1ª da alínea c, tudo do
artigo 43 do Regulamento do Corpo de Cadetes.541
A partir de 1932, percebeu-se, nos boletins escolares, que as penas de prisão ficaram
cada vez mais raras e mantiveram-se as poucas repreensões, licenciamentos sustados e
detenções. A não ser nos casos de prisão, os cadetes transgressores passaram a ser
enquadrados disciplinarmente pelo Regulamento do Corpo de Cadetes e não mais pelo
Regulamento da Escola, uma demonstração de que oficiais e cadetes estavam assimilando o
novo regime implementado.
540
Na apreciação das faltas cometidas poderiam ser levadas em contas algumas condições atenuantes ou
agravantes, como o histórico de punições do cadete e a sua conduta durante o curso ou a cumulação de
transgressões, o que implicava na diminuição ou no aumento do tempo da pena disciplinar imposta.
541
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 99, 25 abr. 1932, p. 629.
542
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 110, 7 maio 1932, p. 709.
543
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 121, 20 jun. 1932, p. 779.
380
Cabe considerar, no entanto, que as penas disciplinares impostas aos oficiais, praças e
soldados eram reguladas pelo Regulamento Interno e dos Serviços Gerais (RISG) 544, que
atingia os alunos das escolas militares somente em casos de inquéritos policiais militares.
No dia 25 de agosto de 1931, data escolhida não por acaso, por ser o dia do
nascimento do Duque de Caxias, uma formatura foi realizada no estádio em construção no
Campo de Marte, em frente à Escola Militar, para o juramento à bandeira nacional dos cadetes
que haviam sido matriculados naquele ano.545 Estiveram presentes o chefe do Governo
Provisório, Getúlio Vargas, e diversas autoridades militares e civis, além dos familiares dos
cadetes. Na ocasião, José Pessoa aproveitou para dar a notícia da criação do Corpo de
Cadetes. Após a leitura da ordem do dia do comandante da Escola, 230 cadetes realizaram o
juramento à bandeira do Brasil. Em seguida, o recém-criado estandarte do CC foi apresentado
às autoridades civis e militares. O cadete Antônio Pereira Lima, designado porta-estandarte da
Escola Militar, por possuir a melhor classificação intelectual dentre os cadetes do 3º Ano e ser
isento de faltas disciplinares, o recebeu das mãos de Getúlio Vargas. (ALBUQUERQUE,
1953, Pasta III, p. 56, 57, 61)
Imagem 70 – Formatura de criação do Corpo de Cadetes. Getúlio Vargas (ao centro), entre
José Pessoa (E) e o ministro da Guerra Leite de Castro, ago. 1931.
Pessoa conta que o desenho do estandarte foi pensado conjuntamente com Washt
Rodrigues. Por sugestão do artista, o novo símbolo do Corpo de Cadetes deveria refletir o
544
Decreto nº 19.040, de 19 de dezembro de 1929.
545
Cabe lembrar que a escolha da data natalícia de Caxias para o juramento à bandeira já havia se tornado um
hábito de José Pessoa. Assim, como na Escola Militar, já havia promovido a mesma cerimônia para o juramento
dos acadêmicos da Escola de Instrução Militar da Faculdade de Direito de São Paulo, em 1917, e dos soldados
recrutas da Companhia de Carros de Assalto, em 1922.
381
espírito da Escola Militar. Deveria ter uma certa originalidade, sem cair no exagero. Após
ouvir Rodrigues, José Pessoa decidiu que deveria ser evitado fundamentar o estandarte no
pavilhão nacional, para que, nas formaturas, ele ganhasse o destaque necessário, e não se
corresse o risco de se imitar bandeiras que já estivessem sendo utilizadas por outras unidades
militares do Exército. Sendo assim, optou-se por um desenho simples e original, para que
pudesse ser rapidamente observado por todos: um pavilhão azul turquesa, orlado com franjas
douradas e com o novo brasão de armas da Escola Militar bordado no canto superior
esquerdo.546
546
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.04.12.
382
que se encontra no museu da Academia Militar das Agulhas Negras, perceberá somente os
vestígios da existência do chapéu gelot na cabeça de Getúlio Vargas e o encontrará
habilmente encaixado entre os dedos da mão esquerda do presidente. É possível se notar,
também, uma outra mudança feita na pintura, que não é comentada por Peregrino: apesar de
José Pessoa não aparecer na foto, ele está ao lado de Vargas, no quadro à óleo.
Imagem 72 – Foto original de Getúlio Vargas fazendo a entrega do estandarte do Corpo de Alunos
e a pintura a óleo de Richa Ferreira, 1931.
As tradições criadas por José Pessoa entre 1931 e 1934 perduraram no tempo e
encontram-se permanentemente incorporadas ao ideário da formação do cadete da Academia
Militar das Agulhas Negras. Ainda hoje, os símbolos idealizados por Pessoa podem ser vistos
nos uniformes e nas instalações da AMAN. Do mesmo modo, o “ideal de Caxias” serve de
balizador moral às diversas gerações de oficiais que nesse estabelecimento de ensino se
formaram. Como o próprio Pessoa afirmou, cerca de vinte anos após ter comandado a Escola
Militar, quando escreveu as suas memórias, não restava dúvida que as novas gerações de
oficiais do Exército, formadas sob o signo de Caxias, estavam “fadadas a mudar os hábitos e
destinos do Exército, formando uma mentalidade homogênea de chefes que, a exemplo de
seus antepassados, não permitirão o esquecimento das nossas nobres tradições”
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 70)
383
O ensino na Escola Militar, quando José Pessoa assumiu o comando, havia passado
por duas reformas, uma realizada em 1924547 e a outra em 1929548. Essas reformas, como
aponta Motta (2001, p. 266), buscavam um retorno ao equilíbrio entre o ensino científico e o
ensino técnico-profissional, extremamente valorizado nas reformas anteriores, de 1918 e
1919549.
Entre 1905 e 1919, o ensino militar, em especial o da Escola Militar, ficou marcado
por sucessivas reformas (quatro ao total) que, além de centralizarem a formação dos oficiais
em uma só escola, no Realengo, buscaram implementar um currículo mais prático do que
teórico, sem a predominância das disciplinas ditas “científicas”, uma herança da Praia
Vermelha. A reestruturação de 1919, particularmente, foi realizada sob a inspiração do ensino
militar germânico e o regulamento que dela resultou incorporou as aspirações do grupo
renovador dos Jovens Turcos. Com o consentimento da alta cúpula do Exército 550 e
respondendo à nova ordem mundial que surgira após a Primeira Guerra Mundial551, a reforma
aumentou o número e o tempo dos conteúdos do ensino prático. Procurou-se aproximar os
conteúdos teóricos das situações concretas com as quais os oficiais iriam se deparar nos
corpos de tropa. Para os formuladores da norma, à época, o conflito europeu havia mostrado
que era tempo de se repensar os requisitos básicos exigidos dos comandantes de pelotões e
companhias de soldados. (ROESLER, 2015, p. 82-86)
No entanto, a rebelião dos alunos da Escola Militar na noite de 4 para 5 de julho de
1922, em apoio ao movimento tenentista de 1922, quebrou a ordem que havia sido
estabelecida na Escola Militar. Uma estabilidade que havia sido conquistada, em grande parte,
graças à atuação da Missão Indígena e ao próprio regulamento de 1919. O levante dos alunos
547
Decreto nº 16.394, de 27 de fevereiro de 1924.
548
Decreto nº 18.713, de 25 de abril de 1929.
549
Decreto nº 12.977, de 24 de abril de 1918 e Decreto nº 13.574, de 30 de abril de 1919.
550
A reforma do ensino militar de 1919 foi idealizada ainda no Ministério da Guerra de Caetano de Faria e
assinada por Cardoso de Aguiar. Faria era um simpatizante das ideias profissionalizantes dos Jovens Turcos.
Como chefe do Estado-Maior do Exército, em 1914, havia escrito alguns artigos para a revista A Defesa
Nacional. Em 1919, como ministro da Guerra, convocou alguns oficiais que compunham o grupo dos Turcos
para fazer parte do seu gabinete, dentre eles o então capitão Leitão de Carvalho. Bertholdo Klinger, nessa época,
servia no Estado-Maior do Exército. (ROESLER, 2015).
551
Como aponta Grunennvaldt (2005, p. 131), os combates em trincheiras, a evolução rápida e surpreendente do
emprego tático das tropas em campanha e dos equipamentos bélicos, cujas armas aumentaram seu alcance e
poder de destruição, a evolução da logística militar e a redefinição dos conceitos e critérios de guerra
convencional impunham uma revisão e uma adequação dos regulamentos das escolas militares aos novos
tempos.
384
levou o ministro Calógeras, para quem um ano antes tudo era perfeito no estabelecimento de
ensino, a considerar uma nova reforma, já sob a influência da Missão Militar Francesa:
Urge fazer a reforma do Ensino na Escola Militar. Todos sentem que o plano atual
está positivamente abaixo das exigências da cultura geral que deve ter um oficial
para o cabal desempenho das funções que lhe incumbem, como educador, como
instrutor, como juiz eventualmente, como home público, e, até, como home de
sociedade. É fora de dúvida que um oficial que se destina aos altos postos não pode
estar estritamente encerrado dentro do horizonte das coisas da profissão, de todo em
todo alheio aos progressos da vida do país em todos os seus aspectos, e, por isso
mesmo, com uma visão falsa dos valores da comunhão social. Está em adiantada
elaboração um projeto capaz de conciliar as imperiosas necessidades de uma cultura
geral com as exigências cada dia maiores da formação técnica dos nossos jovens
oficiais. (RELATÓRIO DO MINISTRO DA GUERRA, 1923, p. 6)
Jovens Turcos, com a ultravalorização dos assuntos militares práticos, havia colocado o
estabelecimento fora do alcance dos instrutores franceses.
Com essas ideias em mente, em 1924, tendo à frente do Ministério da Guerra o general
Setembrino de Carvalho, uma nova reestruturação do ensino na Escola Militar foi
implementada. Com ela, a Missão Francesa finalmente passaria a exercer a sua influência no
estabelecimento de ensino. A estrutura do curso, prevista no regulamento anterior, foi
mantida, com dois anos de formação comum e um ano de formação nas armas (Infantaria,
Cavalaria, Artilharia e Engenharia). O ensino dividia-se em “geral”, destinado a proporcionar
aos alunos “os conhecimentos científicos indispensáveis a todo oficial”552, e “militar”, de
natureza teórico-prática, com disciplinas essencialmente voltadas ao ensino técnico-
profissional.553
Quanto aos instrutores franceses, o novo regulamento previa que os cursos de Tática
Geral e de História Militar seriam conduzidos por “um oficial estrangeiro contratado”, a quem
caberia “coordenar todo o ensino tático da Escola Militar, tanto teórico como prático”. A esse
oficial cabia, ainda, “apresentar ao comandante o programa dessas matérias e emitir parecer
sobre os programas referentes ao ensino prático”.554
Entretanto, para um regulamento que privilegiava o saber científico, sem desmerecer,
deixe-se claro, o ensino profissional, Motta (2001, p. 275) aponta que poucas vezes “um texto
terá sido tão diminuído ou deformado pelos seus executores”. Para o autor, houve um
completo desrespeito dos docentes, do chamado “ensino geral”, pelas diretrizes de ensino
preconizadas pela norma, que a elas dedicava uma seção inteira.
Não será exagero dizer quer, na sua quase totalidade, não leram [os professores] as
“diretrizes de ensino”, ou se as leram não as entenderam, ou se as entenderam,
deliberadamente as desrespeitaram. O ensino que ministraram, com poucas
exceções, foi livresco, verbalista, desligado dos objetivos traçados. Alguns deles
como que cultivavam a antididática, compraziam-se com o ambiente de medo, e até
de terror, que criavam sob a ameaça das provas inacessíveis e dos graus ínfimos.
(MOTTA, 2001, p. 275)
Já em relação ao ensino militar, não havia muito o que reparar. Os instrutores, na visão
de Motta, eram profissionais devotados, todos já aperfeiçoados sob a orientação da Missão
Francesa. Não lhes impregnavam os sentimentos de renovadores ou de salvadores, como
havia acontecido com os instrutores da Missão Indígena. Entretanto, levavam a sério a
552
Eram ministradas as disciplinas Geometria Analítica, Cálculo Diferencial e Integral, Física Experimental,
Meteorologia, Geometria Descritiva, Mecânica, Química, Topografia, Direito, Legislação Militar e
Administração.
553
Regulamento para a Escola Militar, 1924. Decreto nº 16.394, de 27 de fevereiro de 1924.
554
Ibidem.
386
555
Na noite de 4 para 5 de julho de 1922, 683 alunos da Escola Militar do Realengo, liderados por vários
instrutores do estabelecimento de ensino e pelo coronel João Maria Xavier de Brito, comandante da Fábrica de
Cartuchos do Realengo, sublevaram-se contra o governo e em apoio ao movimento do Forte de Copacabana. O
levante foi contido pelas tropas legalistas ainda no dia 5 de julho. Como resultado, 616 alunos foram desligados
e 2 morreram no confronto com mas tropas do governo. (ROESLER, 2015, p. 137-143)
387
Aluno do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) no ano de 1922, Geisel lembra que
os alunos do CMPA haviam sido contaminados pelos “ideais de 1922”, devido ao contato que
tiveram com os ex-alunos que haviam sido desligados do Realengo e que regressaram para
Porto Alegre. As conversas com esses colegas mais velhos, que os colocavam a par dos
acontecimentos políticos da Capital Federal, e o interesse pelos movimentos dos anos
posteriores, como a Revolução Federalista de 1923, o levante tenentista de 1924, em São
Paulo, e a marcha da Coluna Prestes, contribuíram na formação de uma mentalidade
revolucionária nos alunos do Colégio Militar, com a qual já adentravam na Escola Militar.
Durante a formação no Realengo, era comum lerem os jornais da Capital Federal e os
discursos da Câmara e do Senado, não por influência dos professores, mas, dos colegas mais
velhos, das turmas mais avançadas. Assim, a grande maioria dos alunos se contaminavam
com o espírito revolucionário e, com ele, saíam da Escola Militar.
Em 1929, com o País sob a administração de Washington Luís, a Escola Militar
ganhou uma nova regulamentação556. Entretanto, antes que esta viesse, um ato legislativo557
passou a regular as regras e os aspectos gerais do ensino militar, a partir de 1928. O estatuto
classificava o ensino militar em níveis e categorias e definia os direitos e deveres dos alunos
das escolas militares. À Escola Militar competia, exclusivamente, a formação dos oficiais
combatentes do Exército. Ela estava enquadrada em um conjunto de doze escolas, dentre as
quais figuravam a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, a Escola de Estado-Maior, a Escola
de Engenharia Militar e a Escola de Aviação. Esses institutos de ensino estavam divididos de
acordo com a formação a ser seguida pelo oficial ao longo da carreira, já que o decreto
legislativo previa que a instrução militar deveria ser “gradual e continua e tão completa
quanto possível”558. Assim como o regulamento de 1924, procurava o equilíbrio entre o
ensino profissional e científico, ao prever que o plano geral de ensino deveria atender, em
cada grau de formação, “não só a instrução profissional como a cultura geral que lhe deva
corresponder”559. O decreto previa, ainda, que as escolas, os estabelecimentos e as repartições
de ensino militar deveriam proceder a uma revisão dos seus regulamentos, com o intuito de a
ela se adequarem.
Motta (2001, p. 278) aponta que a reestruturação de 1929 foi “uma reforma que nada
reformou”, pois, a grande maioria dos seus artigos repetiam o texto de 1924. De novidades,
apenas duas: a mudança da duração do curso de formação comum, que passou a ser de um
556
Decreto nº 18.713, de 25 de abril de 1929.
557
Decreto nº 5.632, de 31 de dezembro de 1928.
558
Ibidem.
559
Ibidem.
388
ano, aumentando a formação nas Armas para dois anos; e a criação do cargo de Diretor do
Ensino Militar, que deveria ser ocupado por um oficial estrangeiro, ou seja, um oficial
francês, com funções de orientar, planejar, coordenar e controlar o ensino militar. Quanto ao
currículo e às diretrizes de ensino, nada foi mudado.
Foi o regulamento de 1929 que vigorou durante todo o comando de José Pessoa 560.
Entretanto, segundo Motta (2001, p. 282), o currículo e o programa de ensino da Escola
Militar não foram as grandes preocupações de Pessoa. Para o autor, todas as ações de Pessoa
dirigiram-se nitidamente para a maneira do aluno viver e para a criação de um ambiente
indispensável aos estímulos educacionais adequados à formação militar. Suas ideias
valorizaram sobremaneira o regime escolar e o valor que ele teria para a fixação, pelos alunos,
das atitudes e dos interesses psicológicos apropriados e necessários ao futuro oficial. Para
isso, antes mesmo de assumir o comando, já havia recebido carta branca do ministro Leite de
Castro para implementar as reformas que fossem necessárias na Escola, o que se deu por meio
de um aviso ministerial561, que o autorizava a “baixar instruções internas para o bom
funcionamento da instrução, da administração e da disciplina, bem como outras de caráter
geral”562. Com a competência funcional ampliada, José Pessoa dispôs de recurso financeiros
para construir, ampliar e mobiliar o estabelecimento de ensino, impressionando a todos como
administrador e reformador.
Ao se realizar uma análise dos dois capítulos que José Pessoa dedica ao comando da
Escola Militar, em sua autobiografia, percebe-se que, de fato, a parte didática do ensino
(currículos, programas de ensino, métodos e processos didáticos) não foi merecedora de sua
grande atenção, ao menos nos anos iniciais do comando, certamente pelo esforço
empreendido nas reformas estruturais da Escola, que se arrastaram por cerca de dois anos, e
pela preocupação com o soerguimento da imagem do cadete perante a sociedade. Como
aponta Motta (2001, p. 288), Pessoa tratou de cuidar, primeiramente, daquilo que lhe parecia
mais importante: a mística, as novas instalações e ampliações do quartel e a mudança para
Resende.
As mudanças no ensino teórico foram implementadas no último ano e meio do
comando de Pessoa. Dentre elas estava a criação, em 1933, de novas disciplinas, voltadas ao
estudo da geografia militar563 e do emprego das armas e da tática564. Às vésperas da sua
560
A Escola conheceria um novo regulamento para o ensino militar em 1934.
561
Aviso nº 1, de 2 de janeiro de 1931, do ministro da Guerra Leite de Castro.
562
Ibidem.
563
Decreto nº 22.704, de 11 de maio de 1933, estabeleceu o funcionamento da disciplina Geografia Militar.
389
exoneração, o Regulamento da Escola Militar de 1934 foi assinado, já tendo à frente da pasta
da Guerra o general Góes Monteiro. A mudança mais significativa, em relação ao
regulamento anterior, estava na ampliação do tempo formação do oficial, que passava de três
para quatro anos, para todas as Armas. A medida, segundo Pessoa, visava “aumentar o ensino
militar, fundindo a experiência da Escola às necessidades da vida profissional”565. Além disso,
pretendia-se “poupar a saúde e a energia dos rapazes, sobrecarregados com três anos
apertadíssimos de estudos”566. Sem implicar grandes mudanças curriculares, a ampliação do
tempo de curso permitiu o surgimento, no ensino fundamental, de algumas novidades, como
os estudos de Sociologia e de Economia Política. Motta (2001, p. 291) lembra que os estudos
sociológicos e de economia já haviam feito parte do currículo da Praia Vermelha. Para o autor
o retorno nas disciplinas ao currículo, em 1934, não passava de um modismo, uma vez que, na
esteira dos acontecimentos mundiais e ao sopro da inquietude intelectual que invadiu a Nação
com a Revolução de 1930, todo mundo passou a interessar-se pelos estudos sociais em suas
diversas modalidades.
O mérito nos estudos e o valor moral passaram a ser recompensados. O novo
regulamento instituiu a medalha Caxias, que seria oferecida ao cadete mais distinto, dentre os
primeiros colocados de cada Arma, após a conclusão dos exames finais do 4º Ano e antes da
declaração de aspirantes. O cadete mais bem classificado na instrução militar recebia, como
prêmio, uma espada. O cadete mais distinto ainda teria o seu retrato posto na galeria de honra
da Escola.567
A escolha do cadete mais distinto era feita por um “conselho julgador”, formado pelo
comandante da Escola, pelo fiscal administrativo, pelo diretor de ensino e pelos instrutores
das Armas. O julgamento, na verdade, se constituía em um “minucioso exame dos valores
comparativos” de todos os candidatos, onde eram avaliados não somente o desempenho
intelectual, mas, também, os atributos físicos, profissionais e morais dos cadetes. 568 Cabe
ressaltar que a concessão da medalha Caxias ao cadete mais distinto de cada turma de oficiais
formada existe até hoje, na Academia Militar das Agulhas Negras, seguindo-se os mesmos
critérios estipulados por José Pessoa.
O regulamento previa, inclusive, a prática do estudo obrigatório, às sextas-feiras,
como forma de preparação para as sabatinas. Para isso, com a ampla reforma feita na Escola,
564
Decreto nº 22.609, de 4 de abril de 1933, desdobrou o ensino de Tática em dois, um para a tática da Arma a
que se destinasse o cadete e outro para o estudo da organização e da tática das demais Armas.
565
Albuquerque, 1953, Pasta III, p. 27.
566
Ibidem.
567
Decreto nº 23.994, de 13 de março de 1934.
568
Ibidem.
390
anos antes, os cadetes podiam contar, como lembra José Pessoa, com “salas arejadas,
iluminadas e aparelhadas, com copioso material escolar, pedagógico e científico”. No entanto,
o general Umberto Peregrino, que também fora cadete à época de Pessoa, lembra que as
reformas estruturais realizadas no estabelecimento de ensino já vinham, antes mesmo de
1934, favorecendo o estudo dos cadetes. Para isso, além das salas de aula, valiam-se
amplamente da biblioteca, que passou a ser um local bastante frequentado para tal prática, até
mesmo pelo grande acervo bibliográfico e documental que passou a dispor:
... os cadetes passaram a ter condições de recorrer a fontes abertas, a fontes ricas, a
fontes que lhes dessem possibilidade de enriquecer suas vocações. É bem verdade
que isto só deveria atingir os cadetes mais capazes; mais ambiciosos do ponto de
vista do saber, do aprendizado. Mas, de qualquer maneira, foi uma abertura dele
[José Pessoa]. Antes, nós não tínhamos essa possibilidade; nem que quiséssemos.
(PEREGRINO, 1984 apud CÂMARA, 2011, p. 133)
Uma das mudanças mais lembradas pelos ex-cadetes do Realengo do início da década
de 1930, foi a “extinção” do temido carro de fogo, assim chamado os exames de habilitação
que ocorriam no meio do ano (geralmente em julho) e que versavam sobre parte das matérias
teóricas que já haviam sido dadas. Era considerado o terror da “bicharada” 569. O Regulamento
de 1929 previa que os alunos que não fossem aprovados nesses exames eram desligados da
Escola Militar. O regulamento previa, ainda, que todo aluno desligado antes da conclusão dos
três anos de curso, quaisquer que fossem os motivos, deveria se apresentar ao Departamento
da Guerra, para cumprir mais um ano de serviço em uma unidade de tropa e, desse modo, ter
direito à carteira de reservista. O Regulamento de 1934, do qual José Pessoa foi o grande
idealizador, não extinguiu o desligamento em função dos exames de habilitação, que não
deixaram de existir. Porém, não necessitava mais o ex-aluno cumprir o tempo de serviço na
tropa, obrigatoriedade mantida somente para os casos de desligamento por motivo disciplinar.
Acredita-se, ainda, que as referências à extinção do carro de fogo ocorreram muito em
função das mudanças que Pessoa implementou na área do ensino e que, segundo ele, teriam
contribuído para o melhor desempenho dos cadetes nas disciplinas do ensino fundamental,
que viram o seu rendimento elevado de 43% para 84%: seleção mais adequada de matérias,
acabando com os programas enciclopédicos que intimidavam tanto professores como alunos;
melhor ajuste dos horários de aula; instituição do estudo obrigatório; reformas das salas de
aula; e melhoria do material didático, que tornou-se mais pedagógico e científico.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 28)
569
No jargão das escolas militares os alunos do 1º ano.
391
Apesar de todo o esforço despendido por Pessoa, o regulamento de 1934 não durou.
Aliás, como lembra Motta (2001, p. 292), nem chegou a ser aplicado em toda a sua totalidade.
Referendada por Góes Monteiro, a nova reforma não vingaria com a saída do ministro da
pasta da Guerra, em 1935. O novo ministro, general João Gomes Ribeiro Filho, militar averso
a inovações e mudanças, assim que assumiu a função, tratou logo de mandar suspender a
execução do regulamento de 1934, fazendo retornar as medidas adotadas em 1929570. Voltava,
assim, o curso da Escola Militar a ter três anos, bem como ficavam suprimidos do currículo
teórico as disciplinas Sociologia e Economia. Grosso modo, repetia-se o que estava previsto
em 1929 e, por consequência, a reforma de 1924.
Motta (2001, p. 292) aponta que, entre 1934 e 1940, ano em que a Escola Militar
ganharia um novo regulamento, as questões de ensino passaram a ser resolvidos através de
meros documentos ministeriais, em uma clara manifestação de anarquia legislativa. A própria
competência atribuída ao comandante sobre qual regulamento utilizar fazia a Escola viver sob
um regime ambíguo, o que chegou a gerar críticas por parte da imprensa, como uma nota
publicada no Correio da Manhã, em outubro de 1935, a respeito do ensino militar.
Na Escola Militar, o regulamento muda a cada ano; e, como também a cada ano
mudam os comandos e a direção de ensino, a Escola cai na balbúrdia. Não há um
regulamento: há regulamentos em vigor, e para cada regulamento há interpretações.
Preferível seria que se conservasse e se cumprisse um único regulamento, embora,
com algumas interpretações.571
Quanto ao ensino profissional, no esforço que empreendeu para a sua adequação aos
novos tempos da Escola Militar, José Pessoa cercou-se do apoio do oficial francês diretor do
ensino militar, tenente-coronel Paul Langlet, designado em janeiro de 1930 para a função572.
Assessoravam Pessoa na instrução dos cadetes, ainda, alguns oficiais que marcariam seus
nomes na história do Exército, como o major Mário Travassos, os capitães Humberto Alencar
de Castello Branco573 e Dulcídio do Espírito Santo Cardoso e os tenentes Augusto de Castro
Moniz de Aragão, Breno Borges Fortes, Paulo Enéas da Silva e Amílcar Dutra de Menezes.
(CÂMARA, 2001, p. 122; PEDROSO, 1969, p. 11-13)
570
Decreto nº 192, de 20 de junho de 1935.
571
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 18 out. 1935, p. 4.
572
Bellintani (2009, p. 451).
573
Em 1931 Castello Branco havia terminado o curso de Estado-Maior. O fato de ter concluído o curso em
primeiro lugar lhe valeu uma indicação para servir junto à Missão Militar Francesa. A primeira função que
exerceu, nessa condição, foi o de adjunto do diretor de ensino da Escola Militar, o tenente-coronel Paul Langlet.
(KORNIS, s.d.)
392
Na instrução militar, a Escola desde 1924 vinha recebendo o apoio da Missão Militar
Francesa.574 Como destaca Câmara (2011, p. 127), Langlet publicou várias das conferências
que ministrou na Escola sob o patrocínio da administração do estabelecimento, com o título
Prática das Armas. A presença do oficial francês na direção de ensino militar, segundo o
autor, colaborou em grande medida para o êxito do esforço de modernização dos métodos de
instrução militar, de organização estrutural do ensino profissional e de aprimoramento do
trabalho de comando, com a utilização pioneira dos temas táticos, que os franceses já vinham
aplicando há mais tempo nas outras escolas do Exército. Também foi importante na
montagem de exercícios no terreno e na criação dos estudos de emprego tático das Armas.
Como bem lembra Câmara (2001, p. 127), não existem muitas referências sobre o
trabalho da Missão Militar Francesa na Escola Militar do Realengo, o que dificulta uma
apreciação aprofundada da atuação dos oficiais franceses no estabelecimento de ensino.
Entretanto, o autor destaca que não há como negar a influência marcante que esses instrutores
tiveram na assessoria ao comando no ensino profissional, particularmente em relação à chefia
das pequenas frações. No boletim escolar de 21 de novembro de 1931, José Pessoa mandou
publicar uma referência elogiosa à participação dos instrutores da Escola Militar em um
exercício no terreno realizado no campo de Gericinó, em conjunto com unidades militares da
Vila Militar, que contou com a supervisão dos oficiais franceses.
Sodré (1967, p. 61) recorda que José Pessoa encarregou-se pessoalmente de selecionar
a oficialidade que iria servir na Escola Militar, conseguindo, inclusive, que a maioria tivesse o
curso de Estado-Maior. Quanto aos instrutores da Missão Francesa, aponta a grande
resistência que esses oficiais encontraram para o exercício de suas funções. Essa resistência,
574
Bellintani (2009, p. 450) aponta que, após a revolução de 1930, os franceses ficaram receosos de que o Brasil
não renovasse o contrato da Missão Militar, já que se instalara no País um tendencia xenófoba e a situação
financeira brasileira era difícil. Porém, a MMF permaneceu, porém com um número mais reduzido de
instrutores.
575
Boletim Escolar da Escola Militar do Realengo, 21 nov. 1931, p. 1674.
393
Os poucos oficiais mais antigos que tinham gosto pelo estudo, eram vistos como maus
militares. Alguns generais sequer haviam cursado alguma escola militar. Esses militares não
compreendiam que havia a necessidade de receber ensinamentos, de serem aperfeiçoados.
Sentiam-se humilhados por terem que se sentar, novamente, em bancos escolares. Devido a
isso, não enxergavam a Missão Francesa com bons olhos, apesar da alta capacidade
profissional que os instrutores franceses possuíam, adquirida, em grande parte, nos campos de
batalha da Primeira Guerra Mundial. (SODRÉ, 1967, p. 62)
A resistência aos ensinamentos da MMF foi menor entre os oficiais mais jovens, de
postos mais baixos. Foram os tenentes e capitães que constituíram as primeiras turmas dos
cursos de Aperfeiçoamento e de Estado-Maior sob a orientação dos instrutores franceses.
Esses oficiais, ainda que em pouco número, faziam questão de ostentar em seus uniformes o
símbolo adotado para o curso de Estado-Maior. Representavam os escolhidos, os melhores, o
que despertava a inveja dos demais. Com isso, a situação foi se modificando. Se os primeiros
oficiais que frequentaram a Escola de Estado-Maior foram “caçados a laço”, nos anos que se
seguiram, coube a esses mesmos oficiais traçar as regras do jogo. Daí por diante, trataram de
impor as maiores dificuldades para os demais, que também desejavam realizar aquele curso,
que proporcionava diversas vantagens e que conferia tanta distinção dentro do Exército. Nesse
contexto, Nelson Werneck Sodré lembra que, quando ingressou na Escola Militar, essa
transformação estava em andamento. Desejoso em ter sob o seu comando os melhores
profissionais, José Pessoa havia recrutado quase todos os oficiais instrutores no grupo que
possuía o curso de Estado-Maior, particularmente os tenentes e capitães. (SODRÉ, 1967, p.
62-63)
Cabe aqui um parêntese para considerar que o próprio José Pessoa realizou o curso de
Estado-Maior tardiamente, já no posto de coronel. Como já indicado, havia realizado a prova
para admissão no ano anterior à revolução de 1930, não tendo sido a sua matrícula aceita pelo
chefe do Estado-Maior do Exército, como mandava o regulamento da época. No entanto,
como consta em sua fé de ofício, em 9 de março de 1932 teve o seu requerimento à matrícula
394
na Escola de Estado-Maior deferida pelo ministro da Guerra. Em 2 de abril do mesmo ano foi
passado à disposição do EME para realizar o curso, devendo continuar no exercício de sua
função de comandante da Escola Militar. Pessoa foi inicialmente matriculado no curso de
categoria B, previsto para oficiais superiores e com a duração de dois anos. Entretanto, cinco
dias após a matrícula, por ordem do ministro da Guerra, José Pessoa foi reclassificado na
categoria D, um artifício previsto no regulamento de 1929 da Escola de Estado-Maior576, que
previa o funcionamento de um curso com a duração de cerca de um ano, específico para os
coronéis que haviam sido promovidos até o dia 1º de janeiro de 1929. À luz do regulamento,
Pessoa não poderia ser enquadrado por esse dispositivo, já que sua promoção a coronel
ocorreu em 29 de agosto daquele ano. Somente o realizou devido à interferência do ministro
Leite de Castro. Em 27 de janeiro de 1933, José Pessoa concluiu o curso de Estado-Maior,
com grau 5,32 (de um máximo de 10,0), sendo elogiado pelo comando da Escola pelas
“demonstrações de aprimorada educação e dotes intelectuais de que deu prova”. (FÉ DE
OFÍCIO DO MARECHAL JOSÉ PESSOA, 2016)
O aperfeiçoamento do ensino profissional passou, necessariamente, por dotar as
Armas com o que havia de mais moderno em termos de equipamentos para a instrução
militar. José Pessoa relata em sua autobiografia o esforço empreendido para que os cadetes
fossem formados da maneira adequada.
O batalhão de Infantaria, que enquadrava os cadetes dessa Arma, recebeu o que havia
de melhor em material de tiro. Foram adquiridos armamento ordinário e automático novo e
completo, o que permitiu executar integralmente o tiro de instrução das armas portáteis,
conforme previsto em regulamento. Um esforço também passou a ser feito para que o curso
de Infantaria fosse dotado de uma seção de carros de combate e de morteiros Brandt, a última
novidade para os infantes brasileiros.577
A Artilharia foi dotada de material moderno. Foram recebidos goniômetros-bússola e
abundante material topográfico. Quanto à mobilidade das armas de artilharia, foram
adquiridas atrelagens de cavalos de raças apropriadas para a tração dos canhões Krupp.
Também era aguardado o recebimento de seções de artilharia de calibres orgânicos das
divisões de Infantaria, o que permitiria aproximar a instrução da realidade da tropa.578
A Engenharia passou a dispor de material de equipagem de ponte, que passaram a ser
construídos nas oficinas da própria Escola. Seções de sapadores mineiros foram equipadas
576
Decreto nº 19.022, de 5 de dezembro de 1929.
577
Albuquerque, 1953, Pasta III, p. 29.
578
Ibidem.
395
579
Ibidem.
396
Esses esforços, como lembra Sodré, eram muitas vezes monótonos, principalmente os
que diziam respeito às práticas militares do primeiro ano, cuja instrução básica muito se
assemelhava à da Infantaria, nas quais tudo era um pretexto para se realizar longas marchas,
até mesmo as instruções mais simples, como desmontar um fuzil ou cavar uma trincheira.
Marchava-se longas horas para locais distantes da Escola, para se aprender o que poderia ser
ensinado nos pátios da Escola. Já nos anos seguintes, após os cadetes escolherem para quais
armas iriam, a instrução militar ganhava novos ares e, em alguns casos, era fácil se perceber,
na prática, a importância da pretensão cientificista do ensino teórico. Nas instruções de
Artilharia, por exemplo, ficava evidente a necessidade do emprego da Geometria e da
Topografia para resolver problemas de pontaria dos canhões. (SODRÉ, 1967, p. 63 e 74)
Aliás, a escolha das armas era feita pelo mérito, conforme a classificação dos cadetes
no primeiro ano, o que é feito até os dias de hoje, na Academia Militar das Agulhas Negras.
Conforme relata Sodré (1967, p. 68), a Artilharia e a Engenharia arrebanhavam os melhores
alunos, que, naturalmente iriam ser, mais tarde, os melhores oficiais. Os demais iam para a
Infantaria e a Cavalaria, sendo esta o reduto dos cadetes gaúchos. Já a Engenharia sofria um
certo preconceito, por se aproximar muito do curso correspondente de uma universidade civil.
Na visão dos cadetes, os engenheiros se assemelhavam a paisanos fardados. Um preconceito
que se estendia, também, à Artilharia, considerada uma espécie de elite do Exército, devido às
suas bases curriculares científicas. Entretanto, era certo que ambas as armas conservavam o
seu traço militar, ainda que na Engenharia isso se desse com menor intensidade.
Diferentemente do ensino universitário, no ensino militar a proximidade dos cadetes
com os oficiais instrutores era maior, já que estavam em contato permanente, do clarear do dia
ao anoitecer. Os instrutores conheciam os cadetes a seu cargo e ao longo do ano, fruto das
anotações e das arguições constantes, iam formando juízo de cada instruendo. Tudo isso
580
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 17 out. 1933, p. 4.
397
resultava em um conceito, que era expresso em um grau que entrava com grande peso na
conta do ano do cadete e, consequentemente, impactava de forma significativa na
classificação final do curso. (SODRÉ, 1967, p. 71)
Antes de serem realizadas as manobras militares de fim de ano, o que consolidava o
ano de instrução, José Pessoa teve a oportunidade de apresentar a Escola Militar da nova
República a um chefe de estado estrangeiro. No início do mês de outubro de 1933, o
presidente da República da Argentina, general Agustín Justo, visitou a Capital Federal. Na
programação preparada para a autoridade constava uma visita ao estabelecimento de ensino
militar brasileiro, no dia 11 de outubro, a qual Pessoa fez questão de destacar em sua
autobiografia. Justo havia comandado o Colégio Militar de San Martin, escola militar
responsável pela formação dos oficiais do exército argentino, o que tornava especial a sua
passagem pela Escola do Realengo.
A Escola Militar engalanou-se para receber o presidente argentino, tido por Pessoa
como um conhecedor inato da psicologia humana e dos pendores das multidões, o que o fazia
um “verdadeiro condutor de homens”. Imensas bandeiras do Brasil e da Argentina, com 15
metros de altura, cobriam a fachada principal do edifício da Escola. O hall da escadaria
principal, o salão nobre e as demais dependências do edifício foram ornadas com flores
naturais, o que lhe conferia um “magnífico aspecto”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p.
73)
Imagem 73 – Fachada da Escola Militar enfeitada com as bandeiras da Argentina e do Brasil para a visita de
general Justo, 11 out. 1933.
581
Correio da Manhã, Rio de janeiro, 12 out. 1933, p. 3; Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 12 out. 1933, p. 7;
Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 12 out. 1933, p. 3.
582
Ibidem.
583
Ibidem.
399
Imagem 74 – Quadro de Osório ofertado por José Pessoa aos cadetes argentinos, por ocasião da visita do general
Justo, 11 out. 1933 (na fileira da esquerda, do fundo para frente – 1º) José Pessoa, 2º) general Justo, 3º) Getúlio
Vargas).
Antes do término da visita, já por volta de 11:00, uma corbélia de flores foi oferecida
pelos cadetes à esposa do presidente argentino, Sra. Anna Bernal de Justo, que, durante toda a
visita, foi acompanhada pela esposa de José Pessoa, Sra. Mary Blanche. Segundo José Pessoa,
antes de se retirar, o general Justo teria assim se manifestado:
Levo da sua Escola recordações imperecíveis, mas, três outras coisas ficarão, sem
dúvida, gravadas na memória para o resto da minha vida. Aqui chegando vi, até
hoje, a maior bandeira da minha pátria; assisti a um programa de festas que me
deixou encantado pela beleza e meticulosidade com que foi realizado; daqui saio
emocionado como jamais me senti em qualquer outra escola durante todo o ciclo da
minha longa carreira militar. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 82)
O adestramento anual dos cadetes sempre era concluído com um grande exercício no
terreno. Entre os anos de 1931 e 1934, as regiões habituais para a instrução militar eram os
terrenos de Gericinó, Campo Grande ou Gramacho, como pode ser visto nos boletins
escolares. Entretanto, um exercício marcou o comando de José Pessoa: a manobra de 1933.
Em um grupo de folhas grampeadas, rascunhadas a lápis, anexas à sua autobiografia, Pessoa
tece uma série de considerações a respeito dessa manobra militar, que se desenvolveu na
segunda metade do mês de outubro de 1933, na região das Agulhas Negras, no município de
Resende, no interior do Rio de Janeiro. Nelas, ficam claras a importância dada pelo
comandante ao exercício, quer pelo seu tempo de duração, quer pelo apelo simbólico da
região escolhida.
400
Por ora, cabe tratar da sua importância para o ensino profissional, deixando a questão
do simbolismo para a abordagem que será feita sobre a construção da nova Escola Militar, no
próximo capítulo.
No mesmo rascunho feito por José Pessoa, é possível se perceber a dimensão
territorial em que o exercício de desenvolveu, bem como as fases previstas para as operações
e algumas considerações quanto ao local escolhido para a sua realização. Os reconhecimentos
prévios feitos em toda a região justificavam a escolha do terreno para a manobra, que, além de
ser desconhecido pelos executantes, transitava do plano para o muito acidentado, o que
permitiria aos cadetes e oficiais explorarem ao máximo, segundo Pessoa, o desenvolvimento
de suas habilidades técnicas.
584
Na verdade, os exercícios realizados no terreno, propriamente ditos, duraram 10 dias. Entre os dias 16 e 20 de
outubro, foram realizados o ensino teórico e os preparativos logísticos para a manobra. No dia 21 de outubro foi
realizado o deslocamento por via férrea para as áreas de estacionamento das Armas. De 22 a 31 de outubro
desenvolveram-se os exercícios de combate. No dia 1 de novembro foi realizado o deslocamento de regresso a
Realengo, também por via férrea. Por fim, entre 2 e 5 de novembro foi concedido um período de repouso para os
cadetes. Boletim Escolar nº 241, de 17/10/1922, p. 1918-1919.
585
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JP vp 1931.05.12.
401
586
Ibidem.
587
Os Boletins Escolares nº 241, 242 e 243, de 17, 18 e 19 de outubro de 1933, publicaram, de maneira
detalhada, todo o planejamento operacional e logístico da manobra. Todas as publicações contavam com as
assinaturas do tenente-coronel Langlet e do capitão Castello Branco, o que atestava a aprovação pela Direção de
Ensino Militar.
588
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JP vp 1931.05.12
589
Jornais de marcha, em tradução livre.
590
A Cavalaria ficou estacionada em Pinheiral, a Artilharia em Volta Redonda e a Infantaria e a Engenharia em
Resende. Diário de Marchas e Operações da Manobra de 1933. Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JP vp
1931.05.12.
402
Imagem 75 – José Pessoa (à esquerda, de capacete mais escuro) acompanha o embarque dos cadetes para a
manobra de 1933, 21 out. 1933.
Imagem 76 – Flagrantes do embarque dos cadetes e dos materiais de campanha para a manobra de 1933, 21 out.
1933.
O documento ainda indicava que 10.169 rações foram fornecidas a todo o pessoal
empregado nos exercícios de combate ao longo da manobra.591 Entre a partida e o retorno ao
Realengo, 10:147$400 (dez milhões, cento e quarenta e sete mil e quatrocentos réis) foram
gastos com: a aquisição de combustível, de material de construção e de gêneros alimentícios;
o pagamento de operários civis; o aluguel de juntas de boi; o pagamento à Santa Casa de
591
O Diário da Manobra de 1933 apontava ainda que 5.454 rações foram fornecidas aos animais empregados.
Além disso, foram distribuídos extraordinariamente: 2.150 cafés com pão, 500 quilos de carne verde, 38.200
gramas de café em pó, 2 sacos de pão, 78 quilos de açúcar e 20 cafés com sanduíches de pão com carne. Acervo
José Pessoa (CPDOC FGV). JP vp 1931.05.12.
403
Pedroso também narra algumas situações pitorescas pelas quais passaram os cadetes:
A formação do oficial brasileiro, em seu primeiro lance na Escola Militar, terá como
base a educação física, como meio a cultura geral científica e como fim a mais
rigorosa preparação profissional. Esse tríplice aspecto resultará das qualidades
morais indispensáveis ao oficialato e que deveis cultivar desde já. A guerra é uma
arte toda de execução e do que o Exército precisa é de oficiais aptos ao serviço,
oficiais robustos, enérgicos, conhecedores da profissão, convictos de sua missão
militar, social e política, como oficiais e verdade.592
592
Boletim Interno nº 13 da Escola Militar do Realengo, de 15 jan. 1931.
405
de, naquele local, poderem os cadetes exercitar o dom da oratória, difundindo as suas ideias, o
que, por vezes, gerava discussões acaloradas. Com Pessoa, a SAM ganhou novas instalações,
recursos e condições de funcionamento regular.
Conforme relata Pedroso (1969, p. 125), em suas memórias, sessões da SAM
ocorreriam às quartas-feiras, logo após o jantar, em uma sala do 1º piso. Vários assuntos e
temas eram postos em discussão, com ou sem importância, e as reuniões eram sempre muito
concorridas e animadas.
O autor aponta, também, que todos os anos um cadete do 3º Ano era escolhido para
presidir a Sociedade Acadêmica, o que acontecia por meio de eleição, na qual votavam os
cadetes de todos os anos. Os escolhidos para o cargo sempre eram aqueles considerados mais
cultos, inteligentes, benquistos e de grande valor e gozavam de grande prestígio não só no
Corpo de Cadetes como junto ao comando da Escola. Durante o comando de Pessoa,
desempenharam a função alguns cadetes que ganhariam visibilidade na história do Exército e
da política nacional, como: Golbery do Couto e Silva, Ruy Mostardeiros e Plínio Pitaluga.
A SAM editava A Revista da Escola Militar (REM), que, segundo Sodré (1967, p. 87),
diretor da mesma em 1933, possuía “circulação incerta e periodicidade irregular”. Durante
esta pesquisa, constatou-se que, desde os anos 1920, o periódico tinha uma tiragem anual, o
que perdurou nas décadas subsequentes. Entretanto, a data de publicação era incerta. A partir
de 1951, com a mudança do nome da Escola Militar de Resende para Academia Militar das
Agulhas Negras, a revista passou a chamar-se Revisa Agulhas Negras.
A REM publicava artigos voltados à divulgação dos principais eventos ocorridos na
Escola Militar ao longo do ano de instrução. Também era o veículo em que os cadetes davam
visibilidade aos seus dotes culturais. Diversas eram as publicações de contos, poesias e
considerações a respeito de temas filosóficos, por parte dos cadetes mais “intelectualizados”.
Temas político-ideológicos não tinham vez nas páginas da revista, o que não impedia,
segundo o general Meira Mattos (1984 apud CÂMARA, 2011, p. 137), os alunos mais
politizados de acompanharem e discutirem os problemas econômicos e sociais do País, tendo
como leitura preferida a revista A Defesa Nacional. O general Umberto Peregrino, redator da
revista em 1933, assim definiu os temas publicados na Revista da Escola Militar:
406
Aliás, foi a partir de 1933, como lembra Sodré (1967, p. 87-89), que a revista passou
por uma reformulação, tanto em relação aos assuntos que vinham sendo publicados em suas
páginas como no seu layout, que passou a apresentar mais fotos das atividades e dos recantos
da Escola e a ter capas mais artística, desenhadas pelo artista plástico Miranda Júnior593. Os
temas predominantemente militares perderam espaço e o periódico tornou-se mais literário, o
que permitiu, segundo o autor, levar aos cadetes uma visão para fora dos muros da Escola. Os
mestres e personalidades militares passaram a ser homenageados. As matérias puramente
doutrinárias foram substituídas pelos temas profissionais, profundamente ilustrados.
Pretendia-se, dessa forma, que cada cadete guardasse a revista como lembrança de uma fase
da carreira que todos apreciariam recordar. As iniciativas tomadas por Werneck Sodré e seu
grupo de redatores foram amplamente apoiadas por José Pessoa, que, inclusive, aumentou o
aporte financeiro à edição da revista. No entanto, uma ressalva foi feita pelo comandante: que
secassem as publicações das caricaturas de mau gosto de oficiais e cadetes da Escola, bastante
comuns nas edições dos anos 1920, consideradas por Pessoa profundamente desrespeitosas.
As mudanças implementadas fizeram a revista ganhar visibilidade fora dos muros da Escola e
a imprensa carioca passou a noticiar as edições da REM que eram lançados a cada ano, como
se vê na edição de 28 de dezembro de 1933, do Correio da Manhã:
593
Alcebíades Noronha Miranda, ou Miranda Júnior, como assinava os seus trabalhos, era, à época, um jovem
artista plástico. Havia se diplomado na Escola Nacional de Belas Artes em 1924, especializando-se em pintura.
Na Escola, foi o melhor classificado de seu curso, ganhando a medalha de ouro, o que lhe valeu, como prêmio,
uma viagem de estudos à Europa. (REVISTA DA ESCOLA MILITAR, 1933, p. 24)
594
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 28 dez. 1933, p. 12.
407
Dos depoimentos colhidos ao longo do Projeto José Pessoa, Câmara (2011, p. 136)
aponta que, na literatura, a preferência dos cadetes era pelos autores brasileiros, como José de
Alencar, Olavo Bilac e Machado de Assis. Euclides da Cunha era muito pouco conhecido.
Em relação às artes, Pessoa procurou aproximar os cadetes do que havia de mais
erudito. Como recorda Aquino (1985, p. 14), os licenciamentos semanais eram precedidos de
um almoço de cerimônia, com os cadetes trajando o uniforme de passeio e com a presença dos
oficiais instrutores e da direção da Escola, ao som da Banda de Música, que executava
números selecionados de música erudita. Às quintas-feiras, como lembra Peregrino (1985, p.
22), uma retreta ocorria em frente ao portão da Escola, após o jantar, o que animava os
cadetes, que ouviam o programa musical sentados no meio-fio ou no chão puro.
Câmara (2011, p. 136) ressalta, entretanto, que, para se fixar com maior fidelidade o
momento cultural pelo qual passou a Escola Militar do Realengo entre 1930 e 1934, é preciso
levar em consideração que, apesar de essas manifestações intelectuais e discussões serem
emocionais, segundo os depoimentos colhidos no Projeto Marechal José Pessoa, não eram
ricos de conceitos elaborados. Baseavam-se mais na exposição dos conhecimentos adquiridos
em livros do que em níveis mais elevados de produção cognitiva. Além disso, o autor aponta
408
que, apesar das reuniões da SAM serem amplamente concorridas, poucos eram os cadetes que
dominavam o púlpito, destacando-se aqueles que dissertavam sobre temas filosóficos ou
sociológicos, impulsionados, talvez, ainda pela presença do positivismo na Escola e pela
mudança do currículo introduzida por Pessoa, com o acréscimo dos estudos de Sociologia.
O fato de José Pessoa não permitir que a política partidária ultrapassasse os muros da
Escola do Realengo, como ele mesmo apontou na entrevista dada ao jornal A Noite, em
dezembro de 1931, não significava que não havia o interesse dos cadetes pelos temas da
política nacional. Como relatou o general Meira Mattos ao Projeto José Pessoa:
Meira Mattos estava certo no que afirmou, afinal de contas, a Escola Militar possuía a
tradição republicana de envolver-se nos principais eventos políticos da Nação e não havia sido
diferente, pois, como lembra Aragão (1967), no livro que publicou sobre a sua passagem pelo
Realengo, a Escola Militar havia participado ativamente da Revolução de 1930, ocupando
pontos estratégicos e as principais vias de acesso da Capital Federal, mais por pressão dos
cadetes do que pelo interesse dos oficiais.
De um ponto de vista político-ideológico, assim se manifestou, também, Umberto
Peregrino:
Nós estávamos ainda sob a influência tenentista, fim da Revolução de 30. Em 1930,
a Escola participara. A Escola era muito vinculada ao movimento tenentista. A
revolução de 1932, dentro da Escola, teve repercussão de simpatia mínima. Para o
tenentismo, era uma revolução reacionária. A Revolução de 1932, para nós, que
tínhamos sentimento tenentista, era uma revolução que pretendia contrariar,
derrubar, hostilizar o grupo autêntico da Revolução de 30. Então, a Escola se
manteve muito tranquila. Tanto assim que apenas alguns cadetes contados pelos
dedos, tornaram-se revolucionários em 1932, fugindo da Escola. Nem tentaram ação
subversiva dentro da escola. Eles não tinham ambiente para adesão à Revolução
Constitucionalista de São Paulo. Certamente conversavam entre si. Eu quero deixar
bem determinado que a Escola era esmagadoramente indiferente à Revolução de 32,
porque estava vinculada, impregnada do sentimento tenentista. O comando não
exerceu nenhuma coação. A Escola, em 1932, ficou de prontidão 595. Presentes os
oficiais, mas não houve nenhuma ação. (PEREGRINO, 1984 apud CÂMARA,
2011, p. 137)
595
Durante o período em que transcorreu a Revolução Constitucionalista de 1932, a Escola Militar do Realengo
passou à disposição do comandante da 1ª Região Militar e permaneceu em prontidão. À exceção da Escola do
Realengo, todas as demais escolas do Exército tiveram o seu funcionamento interrompido durante o levante
paulista.
409
596
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 14 jul. 1932, p. 1.
410
dos cadetes, o que causaria uma repercussão prejudicial ao Exército e ao Governo Provisório,
o qual, além da animosidade que arrastaria para si, daria provas de uma suposta carência de
recursos militares para enfrentar a revolta em São Paulo, já que se via na contingência de
apelar para a sua última reserva de combate.597
Pessoa também não achava aconselhável a incorporação de apenas algumas frações de
cadetes à luta, enquanto o restante do efetivo da Escola continuaria com as suas atividades
normais. Além disso, o emprego de subunidades isoladas implicaria entregá-las a
comandantes de pequena graduação, os quais não contariam com a confiança das famílias,
acostumadas aos instrutores e ao comandante da Escola, o que, certamente, geraria a crítica de
terceiros, por haverem permitido a partida de elementos sob a sua direção para a frente de
combate. O mais recomendável, segundo ele, era que toda a Escola fosse convocada,
possibilitando, assim, que o comando do estabelecimento de ensino acompanhasse os
trabalhos em campanha. Entretanto, lembrou que tal fato implicaria o emprego de cadetes
ainda sem a instrução suficiente para o combate, referindo-se àqueles que cursavam os 1º e 2º
anos. Também se correria o risco de envolver a mocidade em uma luta política entre irmãos, o
que valeria integrá-los na paixão partidária, do que tanto se empenhava em afastá-los.598
Os argumentos apresentados por José Pessoa convenceram o ministro Leite de Castro,
que não atendeu à solicitação de Góes Monteiro. Em um telegrama enviado à Pessoa, Góes
lamentou a decisão do ministro da Guerra e salientou que havia pedido as baterias da Escola
Militar para dar à mocidade militar, que no futuro guardaria os destinos da Pátria, uma prova
de confiança, em um momento em que as dúvidas ensombravam a mentalidade de muitos dos
que deviam cooperar com a sua salvação. Afirmou que o pedido não se devia ao fato de haver
a necessidade de recursos militares, mas, era, antes de tudo, uma homenagem aos “moços da
Escola Militar”, que estariam ao seu lado para acudir a defesa da Pátria.599
É de Campos de Aragão, também, o interessante relato de um grave incidente ocorrido
no dia 10 de agosto de 1932, que provocou o pedido de desligamento em massa do Corpo de
Cadetes. O fato foi habilmente contornado por José Pessoa, o que fez com que os cadetes, à
época, aumentassem ainda mais a sua admiração por ele e que fosse evitado o vexame de ver,
na imprensa, o seu nome e o nome da Escola Militar ligados a uma debandada geral dos seus
quadros discentes.
597
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp31.05.12, documentos 0018/6 e 0018/7.
598
Ibidem.
599
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp31.05.12, documento 0019.
411
600
De acordo com o Regulamento da Escola Militar (1929) vigente à época, o cadete que fosse desligado do
curso da Escola Militar deveria apresentar-se a uma unidade de tropa designada pelo Ministério da Guerra, a fim
de cumprir mais um ano de serviço, o tempo de serviço necessário à obtenção do certificado de reservista.
Devido à ação de José Pessoa, essa prática foi extinta nos regulamentos seguintes.
412
ouvi-los, porém, apresentou-lhes uma alternativa: convencer os colegas que haviam aderido
ao movimento de solidariedade a voltarem atrás, afinal, o único propósito do comando da
Escola era punir os líderes do ato de indisciplina do dia anterior. (ARAGÃO, 1967, p. 290)
Pessoa não conseguiu demover os cadetes do que se propunham. Um dos presentes
lembrou ao general que o boato de que a Escola iria ser desarmada ecoou profundamente no
Corpo de Cadetes, o que se constituía em uma evidente falta de confiança para com os
integrantes do estabelecimento de ensino. Pessoa contra-argumentou dizendo que a disciplina
militar não permitia manifestações coletivas quaisquer que fossem. E, mesmo a juventude de
soldado, não deveria permitir que a paixão vencesse a razão. (ARAGÃO, 1967, p. 291)
Já era tarde da noite quando Pessoa deu o seu veredito: não desligaria nenhum cadete.
Entretanto, todo o Corpo de Cadetes cumpriria uma prisão disciplinar de dez dias. Conforme
publicação que mandou fazer em aditamento ao Boletim Escolar601, ressaltou que sua decisão
se baseou, sobretudo, no gesto impensado dos cadetes, que não havia se revestido de
“intenção pecaminosa”, apesar da desilusão que sentia em relação à eclosão do lamentável
incidente. Naquela mesma noite todos devolveram ao almoxarifado as suas fardas de soldado
e receberam, de volta, as suas túnicas de cadetes. Somente uma túnica verde não foi
devolvida, a do primeiro desligado. Em um ato simbólico, os mais de novecentos cadetes que
participaram do ato de protesto a assinaram, para materializar o movimento de camaradagem
e solidariedade. (ARAGÃO, 1967, p. 292-293)
Em 23 de setembro, o jornal Correio da Manhã publicou uma entrevista realizada com
Góes Monteiro, a respeito das negociações de paz que estavam sendo realizadas entre as
partes beligerantes. Um dos principais pontos abordados por Góes se referia à necessidade de
que o estabelecimento da paz não visasse apenas à cessação das hostilidades, que haviam sido
desencadeadas voluntariamente por São Paulo. A paz, na visão dele, deveria visar a
verdadeira união dos brasileiros, pelo estabelecimento de uma “nova ordem de coisas”, a fim
de se evitar os erros do passado. Também serviria para fortalecer os laços federativos, castigar
os réprobos e dar o bem ao povo brasileiro, criando-se, assim, a estrutura da “ossatura das
novas instituições do Estado brasileiro”. A paz proposta por Góes encaminharia, ainda, a
solução dos problemas políticos, sociais e econômicos, mas não como era feito no passado,
para a satisfação dos interesses oligárquicos, e, sim, sob o “prisma do nacionalismo”, criando-
se uma mentalidade própria para esse fim.602
601
Aditamento ao Boletim da Escola Militar do Realengo nº 191, de 11 de agosto de 1932, p. 1.287.
602
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 23 set. 1932, p. 1.
413
Góes destacou, também, que não se podia admitir uma paz negociada à retaguarda, por
personagens duvidosos, sem que houvesse a deposição das armas pelos paulistas, que não se
tratava de uma humilhação ao estado de São Paulo, mas, da soberania da União quanto à
posse do armamento, já que a ela competia jurídica e politicamente a posse de armas para
fazer ou deixar de fazer a guerra. E sugeria, como uma das medidas políticas imediatas a
anistia para os revoltosos, menos para os líderes do movimento, e um novo governo para São
Paulo, atendendo-se às aspirações das principais correntes de opinião.603
Ao tomar conhecimento da entrevista de Góes Monteiro, José Pessoa escreveu-lhe
uma longa carta, em 27 de setembro, em que teceu considerações a respeito do que disse o
comandante das forças legalistas, algumas até em tom de reparação, apesar de rasgar elogios à
atuação das tropas federais e ao comando de Góes no Vale do Paraíba. Como primeira medida
para o pronto restabelecimento da paz, Pessoa sugeriu a desincorporação imediata das forças
irregulares paulistas, sem o intuito de humilhar o estado de São Paulo, paradigma e orgulho
da Nação. E atentou para o cuidado que se deveria ter em se punir somente os líderes da
revolução, como se estivesse à procura de um único responsável pelo movimento. Tal atitude,
como comprovava a história, serviria para dar-lhes prestígio e transformá-los em mártires do
crime que cometeram.604
Lembrou a Goés, também, que, como chefe militar, sabia ser impossível conquistar a
vitória e se manter em combate sem o apoio da retaguarda. Neste ponto, as considerações que
Góes fez na entrevista dada ao Correio da Manhã poderiam ser mal interpretadas por aqueles
que se achavam integrados em outros deveres militares, sem que houvessem os solicitado.
Quanto às medidas políticas sugeridas pelo comandante das tropas legalistas, sugeriu o
cuidado que se deveria ter para que elas não se convertessem em uma mistificação, como
ocorreu no dia imediato após o movimento de 24 de outubro de 1930, em que a Nação, em
vez de escolher e recompensar os seus verdadeiros servidores, alçou a postos de relevo do
Exército aqueles que nunca tiveram outra atitude “senão servir à politicalha em seu proveito e
em nome da classe”.605
Em sua resposta à Pessoa, Góes salientou não achar que alguém pretendesse humilhar
o estado de São Paulo, já que a própria população paulista reconhecia com regozijo as forças
federais e ocupação. Neste ponto, disse a José Pessoa que ficasse tranquilo quanto à maneira
honrosa com que seria ditado o fim do movimento. Quanto à questão das punições, por
603
Ibidem.
604
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag23.12.27, documentos 701-702.
605
Ibidem.
414
maiores que fossem os imperativos do determinismo histórico, parecia a Góes que ela não
poderia ser resolvida nem pela impunidade total dos autores, nem pela punição dos humildes,
que foram enganados e arrastados inconscientemente à luta, como simples órgãos subalternos
de execução. Por fim, considerou achar justo assinalar a eficiência do esforço comum, tanto
dos que se encontravam na frente de combate, como daqueles que, por exigências do serviço,
se encontravam à retaguarda, às vezes até com maiores sacrifícios, dos quais o mais perigoso
era “vencer a atmosfera de derrotismo que geralmente ali se forma e dentro da qual se cria um
daltonismo perigoso, que adultera a visão exata dos homens e dos atos dos que dela se acham
afastados”.606
Oito meses mais tarde, em uma outra carta enviada a Góes Monteiro, em que solicitou
a promoção do, então, capitão Mário Travassos, que já havia sido ultrapassado 22 vezes nas
listas de promoções por colegas com menos capacidade do que ele, cobrou-lhe a omissão que
vinha tendo com as promoções dos oficiais que haviam trabalhado na retaguarda, durante a
Revolução de 1932: “Após a contra revolução paulista, organizou você uma lista de oficiais e
promoção que melhores serviço haviam prestado, fazendo, entretanto, omissão dos que aqui
ficaram guardando a sua retaguarda”.607
Quanto às manifestações nascentes da Aliança Nacional Libertadora (ANL), que já no
início da década de 1930 começavam a adentrar os quartéis, Peregrino ressaltou:
Meira Mattos, que ingressou na Escola do Realengo em 1933, tem uma visão diferente
de Peregrino. Talvez pela distância temporal dos anos de formação, já que este havia
ingressado no estabelecimento de ensino três anos antes daquele.
606
Resposta de Góes Monteiro, escrita em 29 de setembro de 1932, à carta de José Pessoa, de 27 de setembro de
1932 Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp31.05.12, documentos 19-20.
607
Carta enviada por José Pessoa a Góes Monteiro em 31 de maio de 1933. Acervo José Pessoa (CPDOC FGV).
JPvp31.05.12, documentos 38-40.
415
608
A briga de Bangu, ocorrida em 1934, ganhou notoriedade na imprensa carioca e foi um dos fatores
motivadores que levaram José Pessoa a pedir demissão do comando da Escola Militar do Realengo naquele ano.
O assunto será abordado no final deste capítulo.
416
iniciativa dele. Entretanto, na já citada carta que José Pessoa enviou a Góes Monteiro609,
solicitando que interferisse na promoção de Mário Travassos, ele afirma que o levante de
cadetes teria sido insuflado pela população da Capital Federal e por “desleais companheiros”.
O segundo movimento que Otero classifica como greve teria ocorrido em 1933,
devido às más condições da comida da Escola. Como não existem outros depoimentos sobre o
assunto, não é possível precisar se essa manifestação ocorreu ou não. No entanto, cabe
lembrar as grandes reformas implementadas por Pessoa em 1931, dentre elas as melhorias no
rancho e na alimentação dos cadetes. A última greve citada por Leivas Otero teria ocorrido
em 1934, quando mais de 800 cadetes teriam se rebelado contra as ordens de José Pessoa, um
assunto que será explorado a seguir. Sobre ela, o marechal Mascarenhas de Moraes, que
comandou a Escola do Realengo em 1935, no posto de coronel, afirma que ela teria se dado,
em grande parte, devido à propaganda subversiva que havia se infiltrado no estabelecimento
de ensino, ainda no comando de José Pessoa. Segundo o relato de Mascarenhas (2014, p. 124-
125), em suas memórias, foi graças à ação do Corpo de Cadetes, sob o comando dos oficiais
da Escola Militar, que o levante comunista da Escola de Aviação, em 27 de novembro de
1935 foi contido. Aliás, em suas palavras, é possível se perceber um certo tom de crítica à
situação em que a Escola do Realengo se encontrava, quando assumiu o seu comando em
julho daquele ano:
Como aponta Viana (2007, p. 79), por meio do depoimento de Otero, a célula
comunista dos cadetes do Realengo realizava também tarefas fora da Escola Militar, como
pichações de muros, distribuição de panfletos no Realengo, que eram impressos por meio de
um mimeógrafo, e a colocação de bandeiras vermelhas no bairro, nas datas comemorativas do
PCB. Quanto à formação política, essa era feita em reuniões, em que os cadetes estudavam os
principais teóricos do comunismo, como Lênin e Stalin.
O Boletim Escolar do dia 4 de julho de 1932 teceu considerações a respeito de boatos
que circulavam na cidade do Rio de Janeiro a respeito de uma possível perturbação da ordem
por “elementos comunistas”, que pretendiam “conturbar o sossego púbico com a prática de
atos reprováveis e terroristas”. E informava que, a partir daquela data, o serviço de guarda ao
609
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp31.05.12, documentos 38-40.
417
610
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 158, de 4 de julho de 1932, p. 1.031.
611
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 160, de 6 de julho de 1932, p. 1.039.
418
Por outro lado, o autor aponta que a derrota militar dos constitucionalistas permitiu o
afastamento de uma ala importante do Exército, contrária à prática intervencionista nos
estados, o que abriu caminho para as promoções dos oficiais ligados a Góes. Segundo Bretas,
419
os generais oriundos desse grupo formarão a base do Exército até o Estado Novo. Após a
derrota política, como destaca o autor, cabia a Góes preparar o caminho para uma nova
ditadura, já que a promulgação de uma nova constituição era inevitável. Para isso, tornava-se
fundamental reforçar e unificar as Forças Armadas e o Poder Executivo, ideias que formarão
as linhas de ação adotadas por Góes até 1935.
Cumprindo a promessa que fizera ao final da luta contra os revolucionários paulistas,
Vargas convocou a Assembleia Constituinte de 1933, na qual Góes Monteiro teve
participação ativa, impelido pela imagem pública de recém vitorioso da Revolução de 1932 e
de general mais jovem do Exército brasileiro. Atuou na comissão liderada pelo ministro das
Relações Exteriores, Afrânio de Melo Franco, responsável pela redação do anteprojeto a ser
apresentado à Assembleia eleita. Dentre as propostas que defendeu, como aponta Ramos
(2010b), estavam a anistia aos revolucionários paulistas de 1932, como uma maneira de
eliminar as tensões dentro das Forças Armadas, e a oposição à extinção das forças policiais
estaduais e à ideia de federalização das mesmas, sob a alegação de que tal mudança
impactaria significativamente os cofres da União. Participou, também, das discussões em
torno do capítulo relativo à Defesa Nacional, do qual foi relator, defendendo a criação de um
Conselho de Defesa Nacional, que deveria ser o órgão responsável pela política do setor, sem
que, no entanto, houvesse qualquer tipo de intromissão nas atividades específicas do Exército.
Góes apresentou ainda, como lembra McCann (2009, p. 427), a proposta de se
estender o serviço militar obrigatório para as mulheres, sem que elas executassem as funções
específicas de combate, mas não conseguiu fazer prevalecer a sua opinião. Já em plena
Constituinte, invocando os preceitos da hierarquia e da disciplina, mostrou-se contrário à
proposta do deputado baiano Negreiros Falcão de dar o direito de voto aos alunos das escolas
militares de ensino superior e sargentos das Forças Armadas e das forças auxiliares. Falcão
arguiu que, se por motivo de disciplina negava-se o voto aos alunos e sargentos, também
assim deveria ser feito com os oficiais, desde as menores até as mais altas patentes. A
proposta do congressista baiano não foi aceita e os direitos eleitorais dos militares
continuaram restritos à oficialidade.
Como aponta Bretas (2008, p. 52-54), as concepções políticas de Góes encontraram
resistência dentro da comissão de formulação do anteprojeto, já que a maioria dos integrantes
pretendiam apenas uma revisão do texto constitucional de 1891. As suas propostas não
apresentaram nenhuma inovação de peso à política nacional. Para o autor, o ponto principal
da sua participação na comissão não foi, como pode parecer, uma tentativa de implementar
uma reforma política por meio de uma nova Constituição, e, sim, preservar ao máximo as
420
612
Para conhecer mais a miúde a participação de Góes Monteiro na comissão que formulou o anteprojeto da
Constituinte de 1934, sugere-se a leitura do artigo de Marcos Bretas intitulado O general Góes Monteiro: a
formulação de um projeto para o Exército, que consta nas referências deste trabalho.
613
Góes Monteiro chegara ao mais alto posto do Exército à época (general-de-divisão) com apenas 42 anos de
idade.
421
abordava a política brasileira; uma parte intitulada Política de Guerra, em que defendia a
preparação do Brasil para um conflito internacional; e uma parte, confidencial, que chamou
Problemas do Exército, em que apresentou as necessidades de reforma da instituição.
Segundo o autor, após a posse de Góes, o documento, que teve ampla divulgação entre os
ministros de Estado e chefes militares, serviu de base às reformas realizadas na Instituição. É
nele que se materializa o projeto político e militar do jovem general.
O relatório encaminhado à Getúlio tecia severas críticas à Constituinte, considerada
por Góes um “processo clássico do liberalismo moribundo”. Era devido a ela, na visão do
general, que a Revolução de 1930 estava deixando de ser uma revolução. Considerava,
também, que o País se ressentia da inexistência de uma diretriz, de um objetivo político para a
mobilização das forças nacionais. Segundo ele, um dos pontos que a Revolução deixou a
desejar foi não ter aproveitado a sua posição de força para fortalecer o nacionalismo, regular a
vida econômica e reorganizar o Estado. Quanto à questão da segurança nacional, defendia a
necessidade de se fazer uma política de guerra, dotando o Brasil de um plano de guerra, cujo
ponto de partida deveria ser a ordem interna, a cargo da polícia em estreita ligação com o
serviço secreto do Estado-Maior do Exército. Em relação às reformas da Instituição, pedia
poder discricionário ao Exército para resolver os problemas que afetavam os seus
fundamentos. A força armada é definida por Góes como a escola e a oficina para a defesa
nacional, desde que apoiado pela educação, pela imprensa e pela economia, sob a direção do
Estado. Em um país jovem como o Brasil, um Exército bem organizado seria o instrumento
mais poderoso do qual poderia dispor o Governo “para consolidar o espírito nacional e
neutralizar as tendências dissolventes introduzidas pelo imigrantismo”. (BRETAS, 2008, p.
57-60)
Para Bretas (2008, p. 60), é a proposta de reforma do Exército que permitirá o apoio
militar necessário às mudanças institucionais, depois de serem afastados os obstáculos
políticos dentro e fora da organização. McCann (2009, p. 430 e 633) entende que, no relatório
de 18 de janeiro, Góes tentou, na verdade, impor condições a Getúlio antes de assumir o
cargo, especialmente em relação a créditos e dinheiro a mais do que o previsto no orçamento
normal, para equipar progressivamente o Exército e remodelar e homogeneizar os quadros de
oficiais e graduados e a tropa. Conforme salienta o autor, Vargas declarou ao general que não
cabia aquele tipo de manobra entre os dois, que ele providenciasse o que fosse possível,
parasse de criar dificuldades e assumisse logo o novo cargo.
Na manhã do dia 22 de janeiro de 1934 Góes Monteiro assumiu a pasta da Guerra.
Estiveram presentas ao ato ministros de Estado, autoridades civis e os generais da guarnição
422
da Capital Federal. A Escola Militar foi representada por seu subcomandante, coronel Pinto
Guedes, uma vez que José Pessoa encontrava-se doente. Em seu discurso de posse, Góes
rasgou-se em elogios à gestão do seu antecessor, general Espírito Santo Cardoso, que com
“evangélica serenidade” e “espírito de estoicismo” soube conduzir o Exército “através da
mais tormentosa e mais perigosa fase que tem vivido a Nação brasileira”. Ressaltou a fase
pela qual vinha passando a instituição pós-Revolução de 1932, “não menos árdua e crítica de
cicatrização das feridas, de reerguimento moral e profissional [...] a qual vem se processando
lentamente devido as nossas precárias condições, quase probativas de aquisição do material e
da organização industrial de que precisamos com pressa...”. E ressaltou que aquele ato,
presenciado por todos, não era “uma cena banal de transmissão de cargo nem uma solenidade
burocrática da posse de um alto titular”, mas revestia-se de uma “significação mais ampla e
atual e menos rotineira”, já que “em todas as épocas, em todos os recantos do mundo, poucos
são os indivíduos de qualquer categoria ou classe, que não ambicionam o poder de decidir
sobre a totalidade e a coletividade a que pertencem, quase sempre sobre-estimando as próprias
forças e faculdades”.614
Em meio ao discurso, enfatizou que assumir o Ministério da Guerra era um projeto
que jamais havia se passado em sua imaginação. Cabia, a partir daquele momento, então,
curvar-se à suas consequências. Ressaltou que a “voz serena e honesta” do Exército, reunida à
“voz altiva e aflita” da nacionalidade, clamava por um “novo estado de coisas que vivifique a
alma coletiva do povo brasileiro”. E salientou que um Exército fraco, seria melhor que nem
existisse. Sendo assim, era necessário que a instituição fosse “nutrida e fortalecida”, até que
atingisse o nível compatível com a segurança nacional. Para isso, antevendo os rumos que
tomaria a sua gestão, deixou claro que competia ao chefe militar decidir, “sem medir o
valimento das pretensões de outrem, calculando friamente com os trunfos de que dispõe e
com as probabilidades da reação adversa”. Ao concluir, lembrou a todos que a Nação vinha
sendo sacudida por “rumores subterrâneos e por eclosões espaçadas”. Era necessário, pois,
sacudi-la no exato sentido do seu grandioso destino. Naquele momento, segundo Góes, a
política tornava-se “a ciência do que era necessário”.615
A sanha reformista de Góes não poupou a Escola Militar. Não fica claro nas fontes
consultadas a intenção do novo ministro ao interferir no principal centro formador dos oficiais
do Exército. Entretanto, não é difícil inferir a provável razão que o levou a promover
mudanças pontuais no estabelecimento de ensino: exercer o controle sobre o centro de
614
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 23 abr. 1934, p. 2.
615
Ibidem.
423
formação de oficiais que esteve na vanguarda dos principais movimentos insurrecionais que
haviam nascido no seio do Exército nas últimas décadas, como o golpe republicano de 1889, a
Revolta da Vacina, em 1904, e o movimento tenentista de 1922. Entretanto, a ação do
ministro da Guerra encontrou forte resistência da parte de José Pessoa, que, nos anos
subsequentes, contrapôs-se fortemente ao pensamento ideológico de Góes, que resultou no
golpe do Estado Novo.
Pessoa relata que ficou sabendo da posse de Góes Monteiro por meio dos jornais da
Capital Federal. À data da assunção de Góes no Ministério da Guerra, Pessoa convalescia de
uma forte gripe na estação de águas termais de São Lourenço-MG. Daquela localidade, em 24
de janeiro de 1934, colocou à disposição do chefe da pasta da Guerra, por meio de um
telegrama, o seu cargo de comandante da Escola Militar, por entender que o comando do
estabelecimento de ensino era uma função de confiança do novo ministro. Em resposta, Góes
confirmou a continuidade de Pessoa à frente da mocidade militar, o que significava, no
entender do novo ministro, não somente “uma necessidade de ordem militar” como também
“de ordem geral”, a fim de garantir o que a Escola havia sido ao longo de sua existência: um
“poderoso e fecundo manancial de patriotismo”.616
Dias após a resposta de Góes, José Pessoa retornou à sede da Escola do Realengo. Em
sua autobiografia relata ter encontrado uma Escola muito diferente de algumas semanas antes.
Vários instrutores haviam sido nomeados ou substituídos, sem que ele tivesse sido consultado.
Também uma situação de desavença entre os instrutores da arma de Infantaria e a alta
administração da instituição de ensino havia surgido durante a sua ausência. Para completar o
quadro que muito o contrariou, os auxiliares do gabinete do Ministério da Guerra passaram a
interferir diretamente na administração interna da Escola. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta IV,
p. 1-2)
José Pessoa criticou, também, a iniciativa de Góes em tomar parte, como candidato à
Presidência da República, do pleito eleitoral de 1934, o que considerou uma infelicidade para
o Exército, em um momento em que agitação política tomava conta do País. As declarações
cotidianas do chefe da pasta da Guerra à imprensa foram consideradas por Pessoa
“impertinentes e contraditórias, [...] cheias de palavras ocas e sempre pontilhadas de frases
sibilinas, a ponto de o governo ser obrigado a impedir tais excessos de publicidade”, o que
acabou por agitar novamente o Exército, que estava a caminho de serenar a indisciplina pós-
revolução de 1932. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta IV, p. 2)
616
Conforme publicação no Boletim da Escola Militar do Realengo nº 24, de 29 jan. 1934, p. 186.
424
um novo golpe a Getúlio, com o objetivo de dissolver a Constituinte e impor uma nova carta
magna ao País.
A despeito de toda a agitação e ameaças de conspirações que tomaram conta do País
nos meses que antecederam a escolha do novo Presidente, o comportamento de Getúlio
Vargas, como ressalta McCann (2009, p. 430), ficou marcado pelas recomendações de cautela
a seus aliados e pela vigilância atenta a tudo o que ocorria na política da Nação. Dias antes
das eleições, que transcorreram em julho, Góes, afirmando a sua lealdade, apresentou a sua
renúncia da pasta da Guerra a Getúlio. Não desejava ser um candidato de oposição ao nome
do chefe de governo. Na verdade, como destaca o autor, a intenção do ministro era retomar o
clima de confiança entre ambos. Julgava que deixando o Ministério, e retornando às fileiras
do Exército, dava a Vargas a liberdade para implementar as mudanças da instituição, como
haviam acordado. Góes foi mantido no cargo por Getúlio, que nunca o considerou o seu
verdadeiro oponente, como destaca McCann (2009, p. 433), e, sim, Borges de Medeiros, que
também havia se candidatado. Getúlio angariou a maioria dos votos, 175, contra 59 de Borges
e apenas 4 de Monteiro.
Voltando ao assunto da Escola Militar, em 15 de fevereiro uma agressão praticada por
um grupo de nove cadetes a alguns jovens civis ganhou as páginas dos principais jornais do
Rio de Janeiro. O evento deixou muitos feridos e causou sérios danos a um estabelecimento
comercial. O rumo das decisões tomadas a respeito desse nefasto evento contribuiria, nos
meses seguintes, para o pedido de demissão de José Pessoa do comando da Escola.
Conforme noticiou o Correio da Manhã, nesse dia um grupo de cadetes reuniu-se na
confeitaria Mercúrio, em Bangu, para aguardar o empregado do comércio Ary de Castro
Vianna, que teve um desentendimento com o cadete Mário Almeida Silva, durante um baile
de Carnaval, no Bangu Club. Os cadetes sabiam que Ary passaria por aquele local quando
retornasse do trabalho, em torno das 18 horas. Quando este apareceu, foi agredido
violentamente pelo grupo. Os moradores do bairro que passavam pelo estabelecimento
naquele momento revoltaram-se com o ocorrido e reagiram contra os cadetes, que fugiram
para o interior da confeitaria, onde se estabeleceu um grande conflito.617
A polícia compareceu ao local e, com muito custo, conseguiu conter a população e
levar os cadetes presos para a delegacia do 23º Distrito. Em pouco tempo uma multidão se
formou em frente ao distrito policial, com o propósito de tirar os cadetes à força daquele local
e linchá-los. Momentos depois, uma escolta do Exército apareceu para retirar os cadetes do
617
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 17 fev. 1934, p. 5
426
local. Os militares tiveram que investir contra a massa popular, a fim de contê-la e conseguir
evacuar para a Escola Militar os agressores.618 Diante da repercussão negativa que a atitude
dos cadetes teve na imprensa da Capital Federal e do clamor popular para que os envolvidos
fossem punidos, José Pessoa instaurou um inquérito policial militar para apurar as
responsabilidades pelo ocorrido.
Pessoa relata que a partir de março de 1934, após ter sido aprovado o novo
Regulamento da Escola, as ações perturbadoras dos oficiais agitadores do gabinete de Góes à
vida escolar intensificaram-se. Recados do ministro, cartas de ordem, avisos e o envio de
emissários ao comandante da Escola seriam, segundo Pessoa registra em suas memórias,
recorrentes, com a finalidade de obter concessões de toda a espécie, referentes aos estudos e à
disciplina escolar.
A partir daí, teve início uma sucessão de fatos e de troca de mensagens entre o
ministro da Guerra e o comandante da Escola Militar que culminou na demissão deste e que
daria causa ao afastamento de Pessoa do centro de poder da instituição. Segue-se a cronologia
dos acontecimentos.
Em 28 de março, Góes enviou o major José Osório, oficial dos seu gabinete, à Escola
Militar para verificar com José Pessoa a possibilidade de renovar a matrícula de ex-cadetes
que haviam sido desligados no ano anterior por motivos de saúde e de reprovação nas provas
de habilitação do meio do ano, o famigerado “carro de fogo”. Pessoa informou a Osório ser
impossível atender ao pedido do ministro, uma vez que o estabelecimento de ensino não
possuía as acomodações necessárias para absorver o retorno de tantos cadetes. Porém,
considerava a possibilidade de reincluir os desligados por casos de moléstia.619
Diante da negativa do comandante da Escola do Realengo, Góes enviou-lhe uma carta,
no mesmo dia 28. Nela, ratificou o desejo de que Pessoa, usando o critério de seleção que
desejasse, rematriculasse os cadetes desligados nos exames de habilitação. Sugeriu, inclusive,
que novos alojamentos fossem construídos na Escola, desde que a medida não interferisse nas
618
Ibidem.
619
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp31.05.12, doc. 25/0092.
427
despesas mais urgentes. Argumentou que a reinclusão dos desligados, que à primeira vista
parecia uma mera concessão, visava a atender a necessidade de preenchimento das vagas de
primeiro posto, ou seja, de segundo-tenente, que se mostravam insuficientes para o futuro
próximo, devido à baixa formação na Escola Militar. Aventou, inclusive, a possibilidade de
sargentos serem promovidos ao posto de segundo-tenente, conforme previa a lei de
promoções. Concluiu afirmando confiar no juízo de Pessoa para dar a melhor solução ao
caso.620
Ato contínuo, diante da intransigência de Pessoa em acatar os seus pedidos, Góes
emitiu um aviso621 ao comandante da Escola Militar, no dia 31 de março. Nele dava ordem
para que fossem reincluídos no estabelecimento de ensino, a fim de concluírem o curso, os ex-
cadetes que haviam participado da Revolução de 1932 e que haviam sido anistiados por força
de decreto, em janeiro de 1934622. Para tomar a sua decisão, o ministro embasou-se no
Decreto nº 22.081, de 22 de novembro de 1932. Por força desta legislação, foram
considerados aprovados, ao final do ano letivo de 1932, os alunos das escolas militares de
formação que tivessem obtido grau igual ou superior a 3,0 (de um máximo de 10,0) nas contas
de ano das disciplinas ministradas, desobrigando-lhes da realização dos exames finais
previstos no Regulamento da Escola Militar de 1929623, situação exigida apenas daqueles que
não se enquadrassem em tal requisito. O decreto, que visava atender “a situação
extremamente anormal por que passou o país, perturbando a marcha dos trabalhos escolares
em muitos estabelecimentos de ensino”, estendia, ainda, essa prerrogativa aos alunos que
haviam participado de operações militares. Sob o argumento da “equidade” e “da força de
interpretação que se devia dar às consequências do ato de anistia”, uma vez que que os
cadetes desligados à época do levante paulista poderiam ter sido amparados pelo decreto em
questão, Góes resolveu, então, rematriculá-los. Em um rascunho à lápis na cópia do aviso
ministerial, que se encontra nos arquivos do seu acervo pessoal, Pessoa deixa claro o seu
entendimento de que não havia, naquele momento, nenhum ato de anistia a ser reparado,
como afirmou Góes Monteiro.
620
Ibidem.
621
Aviso Ministerial nº 1, do Ministro da Guerra ao Comandante da Escola Militar do Realengo, de 31 mar.
1934. Publicado no Boletim da Escola Militar do Realengo nº 80, 6 abr. 1934, p. 647.
622
O Decreto nº 23.674, de 2 jan. 1934, determinava a reversão às fileiras do Exército dos capitães e oficiais
subalternos reformados ou transferidos para a reserva em função da participação na Revolução de 1932.
623
O Regulamento da Escola Militar de 1929 previa que eram aprovados, ao final do ano letivo, os cadetes que
obtivessem média final acima de 3,0. A média final era calculada a partir das notas obtidas nas contas de ano e
nos exames finais, de cada disciplina. A conta de ano era calculada pela média das provas realizadas antes do
exame final. O exame final de cada disciplina era realizado no final do ano, geralmente em dezembro, e era
constituído de provas escrita, oral e prática, no caso das disciplinas técnicas, como Topografia. A sua nota era o
resultado da média das três provas.
428
Na mesma data em que recebeu o aviso de Góes, José Pessoa respondeu-lhe a carta
recebida três dias antes. Nela, foi categórico: não havia vagas a preencher no Corpo de
Cadetes. Muito pelo contrário, após o cumprimento das determinações de se matricular na
Escola os cadetes aviadores624, conforme o novo regulamento da Escola, e os anistiados da
Revolução de 1932, acatado o aviso ministerial, o efetivo da Escola havia ficado com um
excedente de 18 cadetes. Pessoa ratificou a informação de que somente os desligados por
casos de moléstia poderiam ser rematriculados, por formarem um grupo menor. Com a
absorção dos cadetes aviadores, como mandava o novo Regulamento, havia aumentado para
300 o número de cadetes primeiro-anistas. Além disso, afirmou não achar justo rematricular
os ex-cadetes que haviam “fracassado” nos exames de habilitação, em detrimento de uma
massa de mais de 600 civis que haviam sido reprovados nos exames de admissão à Escola.
Ressaltou a Góes que tomar tal atitude seria cometer uma “injustiça clamorosa”, seria
“regredir [...] orientar as novas gerações para as mesmas mazelas da velha república”.625
Na carta, Pessoa considerou, ainda, um absurdo a solução encontrada pelo ministro de
se prevenir a insuficiência de oficiais do primeiro posto por meio da promoção de sargentos.
Admitiu ignorar até onde iam os dispositivos da lei de promoções, mas, ao seu ver, o simples
fato da sua existência fatalmente mataria as aspirações da mocidade militar, além de tornar
difícil, senão insolúvel, o problema da formação dos oficiais do Exército. Ressaltou ao chefe
da pasta da Guerra que durante mais de um século de existência política do País, o problema
de formação dos oficiais do Exército havia sido abandonado por todos os governos e, até
mesmo, pela própria instituição. E lembrou que ele mesmo vinha se empenhando, desde que
havia assumido o comando da Escola Militar, na busca de uma solução para a formação
inadequada do oficialato, apontando, inclusive, a necessidade imperiosa de se construir uma
academia militar afastada da Capital Federal. Concluiu, afirmando estar disposto a ajudar o
ministro e a sacrificar, como vinha fazendo no Realengo, a sua saúde e a educação dos seus
filhos. Em troca, esperava o reconhecimento do Exército, ao qual tudo devia e pensava servir
com lealdade e dedicação.626
Entre a carta de Góes Monteiro e a resposta de José Pessoa, foi também apontada a
solução do inquérito que este mandou proceder para apurar o envolvimento dos cadetes da
624
Diferentemente do Regulamento de 1929, que previa que os ensinos militar e técnico, necessários às funções
do oficial da Aviação, seriam ministrados na Escola de Aviação, o Regulamento da Escola Militar de 1934
passou a concentrar os estudos teóricos e práticos dos aviadores na Escola Militar do Realengo. O Regulamento
previa que, enquanto a Escola do Realengo não fizesse as adaptações necessárias ao desenvolvimento da parte
prática, seriam utilizadas as instalações da Escola de Aviação.
625
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp31.05.12, doc. 28/0092-4.
626
Ibidem.
429
briga de Bangu. Em sua decisão, Pessoa considerou que o fato, na verdade, constituía-se em
crime de competência da justiça civil. Entretanto, diante da repercussão desfavorável que os
fatos tiveram perante a sociedade, concluiu que o Corpo de Cadetes não deveria mais contar
em seu seio com elementos que, por sua conduta, eram malvistos e que não podiam gozar da
confiança dos seus chefes, camaradas e da própria sociedade, excluindo-os da Escola, a bem
da disciplina.627
Diante da resposta de José Pessoa, Góes Monteiro subiu o tom usado em suas
determinações. Em uma nova carta enviada à Pessoa, no dia 6 de abril, classificada como
confidencial, iniciou fazendo algumas ilações a respeito da formação da oficialidade
brasileira. Fez questão de lembrar ao colega que o Brasil ainda não estava completamente
organizado como povo e como Nação. Segundo Góes, as condições históricas e geográficas
do País não lhe permitiam “acelerar o passo em todos os caminhos e manifestações da
civilização” já alcançados pelas nações mais adiantadas, especialmente nos domínios da
educação e da instrução. Para o ministro, os mesmos vícios, doenças e anomalias que
atingiam o organismo nacional, também podiam ser encontradas no seio das Forças Armadas,
seja pelas características da própria instituição, seja por motivos exteriores. Quais fossem os
motivos, os efeitos nocivos causados por esses problemas só poderiam ser solucionados se as
instituições militares, com energia e sabedoria, fossem conduzidas a realizações que não
colidissem com os seus interesses, que deveriam ser os mesmos da nacionalidade.628
Quanto à Escola Militar, ressaltou a Pessoa que as considerações que havia feito em
sua última carta não se tratavam de questões de direito, de crítica ou de hermenêutica, e, sim,
de lógica e de moral. Sobre rematrícula dos ex-cadetes considerados por Pessoa
“fracassados”, Góes considerou que não era preciso muito esforço imaginativo ou de
raciocínio para se chegar à conclusão que o ponto de vista de Pessoa a respeito do conceito
formulado tinha uma singular significação, tal a rigidez da sua concepção. Para o ministro, a
noção formulada pelo comandante da Escola sobre o “fracasso” poderia, inclusive ser
contestada “à luz da lógica positivista”, e não seria justo utilizá-lo para desqualificar jovens
iniciante se inexperientes:
627
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 73. De 28 mar. 1934, p. 594. Foram desligados os cadetes Adauto
Bezerra de Araújo, Leônidas de Sales Freire, Ene Garcez dos Reis, Lauro Teixeira Góes, Rolindino Manso
Maciel, Milton Carvalho de Queiroz, Rogério Faris Maklouf, Mário Almeida da Silva e Nelson Augusto de
Vasconcelos Coelho.
628
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp31.05.12, doc. 30/0095-6.
430
Entretanto, o que mais incomodou Góes foi o modo como Pessoa tratou a questão do
preenchimento das vagas do primeiro posto, cujos conceitos e linguagem utilizada teriam lhe
causado uma “impressão penosa”. Atribuiu ao colega uma interpretação errônea do assunto.
Góes afirmou que ele teria complicado uma questão simples, mergulhada em intransigências
que facilmente não eram defensáveis. E, fez questão de observar a Pessoa que o ofício do
comando não se constituía somente em administrar, instruir, educar e conduzir aglomerados
humanos para realizar uma vontade. Antes de tudo, fazia-se necessário “incutir nos
comandados a consciência de que devem obedecer ao chefe em favor do bem comum”. Sendo
assim, só haveria superioridade efetiva do chefe se fosse “real e não artificial e fictícia”. E
ressaltou que não era possível se obter disciplina consentida, que levasse ao sacrifício, sem
solidariedade e obediência.630
Ao final da carta, Góes lembrou a Pessoa que este não havia respondido ao pedido que
lhe foi feito a respeito da indicação de medidas para a renovação das matrículas dos ex-
cadetes, sobretudo no que dizia respeito à capacidade da Escola internar um número maior de
cadetes. E enumerou, no seu ponto de vista, quais eram os ex-cadetes aos quais se poderiam
fazer concessões para retornarem ao curso do estabelecimento de ensino:
629
Ibidem.
630
Ibidem.
631
Ibidem.
431
Certo de que essas benevolências não causariam mal algum ao Exército, Góes tratou
de emitir, no dia seguinte ao envio da carta à Pessoa, mais dois avisos ministeriais,
assegurando a rematrícula aos ex-cadetes que se enquadravam nas categorias enumeradas
acima.
No dia 11 de abril, então, foram publicados no Dário Oficial os Avisos nº 2 e 3, do
ministro da Guerra ao comandante da Escola Militar:
A réplica de José Pessoa foi feita em 17 de abril. Considerada por ele uma
manifestação de oposição ao arbítrio633 de Góes, nela afirmou ter ficado atônito com o
“destampatório” da última carta que dele havia recebido e que a vivacidade da linguagem e
dos conceitos por meio dela emitidos lhe davam a impressão de que o ministro estava
“possuído de uma ideia fixa”. Também não via razão para as cobranças que haviam lhe sido
feitas. Se não havia respondido aos questionamentos de Góes, era porque, como já havia
informado, a Escola Militar não tinha como alojar tantos cadetes. Por isso, considerou a
questão das rematrículas dada por encerrada. Ressaltou a Góes que as cartas que havia lhe
enviado sempre foram escritas de modo impessoal, ao contrário das do ministro, que eram
personalistas, além de inverterem o significado das suas palavras [de José Pessoa], e fazê-lo
[Góes] defensor da mocidade militar.634
Retomando a celeuma criada em torno do termo “fracassado”, Pessoa resolveu
explicar a Góes o significado da palavra na gíria dos cadetes, já que o ministro lhe havia
imputado o seu uso pejorativo: “é um termo escolar, usado pelos cadetes, para caracterizar
qualquer insucesso na vida de um colega; como cognominaram de “carro de fogo” o exame de
habilitação, eis tudo. O mais foi fertilidade de imaginação mal-informada”. E discordou
veementemente da afirmação de Góes de que muitos oficiais de altas patentes da época
632
Avisos Ministeriais nº 2 e 3, de 7 abr. 1934, publicados no Diário Oficial da União, 11 abr. 1934, p. 6.925.
633
Observação feita à lápis por José Pessoa documento enviado à Góes Monteiro.
634
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp31.05.12, doc. 32/0097-8.
432
haviam sido julgados erroneamente como “casos perdidos”, durante a sua formação. Lembrou
ao ministro que os cadetes do tempo dos dois, que não gozavam de conceito entre os
companheiros, devido à má educação e aos desvios morais que possuíam, eram os mesmos
homens que, mais tarde, na vida pública, ainda possuíam o mesmo caráter, a mesma má
educação, a mesma mentalidade e que gozavam do mesmo conceito no Exército do
presente.635
Ressaltou ao ministro que o grau de civilização a que tinha chegado a sociedade
brasileira não comportava mais uma Escola Militar do tempo dos dois. A missão da Escola,
no presente, era de “aprimorar qualidades, e não de corrigir defeitos”. E o lembrou de todas as
reformas e mudanças que havia implementado no estabelecimento de ensino, tornando-o
respeitado e querido não só pelo povo, mas, também, pelo Exército. Na “fase dolorosa” pela
qual o País atravessava, a Escola Militar era um exemplo dignificante e merecedor de todos os
louvores e reconhecimentos dos cidadãos brasileiros. Concluindo, fez questão de destacar a
Góes o esforço que vinha fazendo para afastar a Escola dos efeitos da politicagem que voltava
a tomar conta do País:
Juntamente com a carta enviada ao chefe da pasta da Guerra, José Pessoa encaminhou
um ofício por meio do qual pediu demissão do cargo de comandante da Escola Militar. No
documento informou a Góes que cumpriria todas as determinações impostas pelos avisos
ministeriais dos dias 31 de março e 7 de abril. Entretanto, devido à interferência do ministro
nos assuntos da Escola, o que havia ferido a autonomia da instituição de ensino, invadido as
atribuições do comandante e contrariado o Regulamento da Escola Militar, depunha nas mãos
do governo o comando da mesma. Em algumas observações feitas à lápis nas cópias do
documento, Pessoa considerou a atitude que tomou como uma reação contra a anarquia que
havia sido criada pelo ministro em torno da Escola. Também ressaltou que o ofício era uma
635
Ibidem.
636
Ibidem.
433
637
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp31.05.12, doc. 31/0096 e 31-A/0096.
638
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp31.05.12, doc. 33/0098.
434
Pasta IV, p. 20). E indicou que, nos meses seguintes, diferentemente do que o ministro teria
afirmado, a intervenção no estabelecimento de ensino se intensificou:
Nesta nova fase não houve mais tréguas; as ordens descabidas se sucediam, uma
após a outra, até a perturbação da vida escolar, e, afinal, a indisciplina do Corpo de
Cadetes, sob a promessa de pôr abaixo, como de fato fez o ministro, o novo
Regulamento da Escola, que ampliava para quatro anos de curso, para escancarar,
em seguida, as portas daquele estabelecimento de ensino e educação a tudo quanto
era rebotalho, até a indivíduos julgados por crime infamante pelo foro comum 639.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta IV, p. 20)
Rodrigues (2010, p. 136) aponta que essa intensa troca de correspondências entre José
Pessoa e Góes Monteiro ilustra muito bem o pensamento político de cada um dos militares.
De um lado, a formação ideológica complexa na qual se inseria Góes, por demais inclinado a
defender a coisa pública articulada à defesa das Forças Armadas, mesmo que o interesse
levasse a interferir no processo de seleção do núcleo de formação profissional do Exército, à
época. Do outro, o interesse de Pessoa em formar a base de uma nova elite militar, por meio
de uma educação isenta de problemas políticos e morais. Todas essas qualidades, apenas
deveriam ser melhoradas na Escola Militar e não adquiridas naquele estabelecimento de
ensino.
No dia 20 de abril, o ministro da Guerra respondeu ao ofício enviado por José Pessoa,
em que solicitava o afastamento do comando da Escola Militar. Góes informou que, “em
consequência da ética e da ordem militares”, encaminharia o pedido ao chefe do Governo
Provisório, para que este decidisse sobre a exoneração solicitada e a nomeação para uma nova
comissão.640 No documento em que encaminhou ao chefe do Governo Provisório o pedido de
demissão de Pessoa, o ministro apontou que o modo como o comandante da Escola Militar
havia apresentado a sua solicitação de exoneração não só afastava-se da ética e da ordem
militar como, também, da ordem e da moral e, por isso, encerravam em seu contexto infrações
disciplinares. Quanto à ordem que havia dado, por meio de avisos, para a rematrícula de ex-
cadetes, ressaltou que a Escola Militar estava subordinada ao Estado-Maior do Exército, no
ponto de vista do ensino, e ao Ministério da Guerra, nas questões de ordens disciplinar e
administrativa. Devido a isso, as interferências que havia feito no estabelecimento de ensino
639
Refere-se José Pessoa, nesse caso, à reinclusão do ex-cadete Gabriel Soares Marroig. Em janeiro de 1933,
Marroig havia sido condenado na justiça civil do Distrito Federal a um ano de prisão, por ter cometido crime
incurso nos Arts. 268 e 272 (estuprar mulher virgem ou não, mas honesta, menor de 16 anos), do Código Penal
de 1890, que vigia à época. Por ter cometido falta grave inadmissível ao oficialato, Marroig foi desligado da
Escola Militar em fevereiro do mesmo ano. Em maio de 1934, por ordem do ministro da Guerra, o ex-cadete foi
reincluído no Corpo de Cadetes, na arma de Infantaria. Conforme Boletins da Escola Militar do Realengo nº 27,
de 1 fev. 1933; nº 28, de 2 fev. 1933; e nº 108, de 8 maio 1934.
640
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp31.05.12, doc. 34/0098.
435
641
Arquivo Nacional. Fundo Góes Monteiro. Doc. SA 226.16.18-19
642
Ibidem.
643
Ibidem.
644
Informações extraídas da Fé de Ofício de José Pessoa.
436
da mocidade militar, enfrentou uma greve de cadetes, motivada pela implementação do novo
regulamento da Escola.
O Regulamento de 1934, em grande parte, manteve a estrutura do anterior. No entanto,
implementou mudanças profundas no plano de ensino e nos métodos educacionais, assunto
abordado anteriormente neste capítulo. As mudanças mais significativas foram a ampliação
do tempo de duração do curso para quatro anos, a previsão de um ano de ensino fundamental
para os cadetes de todas as armas, inclusive para os da aviação militar, um ensino militar
específico para cada arma, e a necessidade de uma inspeção anual de saúde obrigatória, “com
o caráter de prova eliminatória”, que deveria ser realizada por todos os cadetes no retorno das
férias. Este último item foi o estopim da insubordinação dos cadetes dos 2º e 3º anos, ocorrida
no dia 26 de abril.
Segundo Pessoa, essas novas ideias prestaram-se admiravelmente, como objetivos, às
explorações dos políticos militares da época, principalmente do ministro da Guerra, contra o
espírito inexperiente da juventude militar. Na sua visão, o envolvimento da Escola Militar na
trama política que insistia em transformar o País em uma “mazorca” era necessário àqueles
que ambicionavam perturbar a sucessão presidencial, servindo, dessa forma, o
estabelecimento de ensino, de vanguarda explorada “por aqueles elementos sem entranhas”.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta IV, p. 21)
Conforme narra José Pessoa, os motivos que levaram os cadetes a protestarem e a
negarem-se a cumprir as suas obrigações escolares no dia 26 de abril foram, primeiramente, o
temor de que a aplicação da inspeção de saúde obrigatória, definida no novo regulamento da
Escola, fosse desligar um grande número de cadetes, e, em segundo lugar, o desligamento dos
implicados no incidente da briga de Bangu. No início da tarde daquele dia, os comandantes
das 1ª e 2ª Companhias de Infantaria, capitães Antônio José Belagamba e Arthur da Costa e
Silva, apresentaram-se a Pessoa para reportar-lhe que os cadetes daquelas subunidades, em
resistência passiva, se negavam a entrar em forma para seguirem para as aulas teóricas.
Naquela ocasião, inconformados com a atitude tomada pelos subordinados, os dois capitães
solicitaram as exonerações de suas funções de instrutores, não sendo aceitas por José Pessoa,
que mandou, ato contínuo, reunir o Corpo de Cadetes no segundo pátio da Escola.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta IV, p. 23-25)
Dirigindo-se aos cadetes, informou-lhes que as inspeções de saúde não visavam o
desligamento dos cadetes matriculados nos anos anteriores. Antes de qualquer coisa, os
exames médicos tinham por objetivo organizar uma ficha médica para cada cadete. Quanto à
exclusão dos implicados na briga de Bangu, ressaltou que o caso já havia sido entregue às
437
autoridades da justiça civil, após ter sido dado termo ao inquérito policial que havia mandado
proceder, e que o caso contava com o seu acompanhamento vigilante. Após comunicar aos
presentes que tomaria medidas repressivas, caso não retomassem em ordem as atividades
diárias, convocou uma reunião de oficiais no salão de honra da Escola, para que,
conjuntamente, decidissem as ações a serem tomadas a respeito do caso. Dentre as várias
sugestões presentadas, ficou decidido que o comandante e os oficiais das subunidades agiriam
para levar os cadetes em forma para as atividades da tarde, o que aconteceu, sem sobressaltos.
Antes, porém, nas salas de aula, receberam uma palestra sobre educação, disciplina e dever
militar, ministrada pelos professores e oficiais da administração da Escola.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta IV, p. 25-26)
No mesmo dia, Pessoa enviou um ofício ao ministro da Guerra, informando a
manifestação de indisciplina no Corpo de Cadetes e as causas que a levaram a efeito.
Ressaltou que, diferentemente da tentativa de levante de cadetes ocorrida por ocasião da
Revolução de 1932, não lhe cabia, naquele momento, como comandante demissionário, dar
uma solução definitiva ao caso. Sendo assim, entendia ser o chefe da pasta da Guerra a
autoridade competente para julgar a situação. Por fim, comunicou que o Corpo de Cadetes se
encontrava preso preventivamente. À lápis no cabeçalho da cópia do documento, Pessoa
observou que a greve dos cadetes havia sido o “epílogo da politicagem do ministro da Guerra
na Escola Militar”.645
Por meio da Portaria nº 101, de 26 de abril de 1934, o ministro da Guerra mandou,
então, que fosse instalado um inquérito policial militar para apurar os fatos narrados pelo
comandante da Escola. Para presidi-lo, foi escolhido o general Arnaldo de Souza Paes de
Andrade que, segundo Pessoa, era “um colega pouco simpático ao comandante da Escola” e
que “só apurou o que não convinha” (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta IV, p. 28). A solução ao
processo instaurado foi publicada no Boletim Interno do Departamento da Guerra, de 12 de
maio. Como resultado, por um ato coletivo de indisciplina passiva, ao Corpo de Cadetes foi
imputada uma prisão disciplinar de 30 dias, a contar de 27 de abril e a ser cumprida no
interior da Escola. Na visão de Pessoa, conforme relata em sua autobiografia, o castigo não
surtiu efeito prático, já que os cadetes se encontravam presos preventivamente desde aquela
data e tiveram a sua pena suspensa por Góes Monteiro em 16 de maio, antes mesmo de
645
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp31.05.12, doc. 36-A/0100-1.
438
646
Conforme publicação nos Boletins da Escola Militar do Realengo nº 113, de 14 maio 1934; e nº 115, de 16
maio 1934.
647
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 113, de 14 maio 1934.
648
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp31.05.12, docs. 37 e 38.
649
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 97, de 27 abr. 1934.
650
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 13 maio 1934, p. 2.
439
Por fim, fez ver ao redator do periódico, que este, na verdade, havia sido vítima de
“informações infundadas, oriundas, talvez, de pessoas interessadas em ocultar, maldosamente,
651
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 16 maio 1934, p. 3.
440
a verdade dos fatos”. Concluiu afirmando que o que havia se passado nada mais era do que o
fruto da época pela qual o País estava passando.652
Ao tomar conhecimento da notícia veiculada pelo jornal carioca, Góes Monteiro
mandou Pessoa informar se era da sua autoria o texto publicado. Em uma mensagem
manuscrita, José Pessoa confirmou ao ministro da Guerra que ele havia enviado a carta ao
periódico, com “o objetivo único de restabelecer a verdade” quanto aos motivos que o
levaram a pedir demissão do comando da Escola, já que a opinião que havia se formado em
torno dos acontecimentos do dia 26 de abril era “desairosa” à sua autoridade.653
Diante da confirmação de Pessoa, Góes Monteiro resolveu puni-lo. Enquadrou-o à luz
do Regulamento Interno e dos Serviços Gerais, por ter: censurado ato de seus superiores,
procurado desacreditar seus superiores, se referido de modo desrespeitoso aos seus superiores
e ter dado conhecimento ao jornal de ocorrência afeta ao serviço militar.654 Em uma
demonstração clara do poder que podia exercer sobre os quadros mais altos da instituição, o
ministro enviou um aviso reservado a todos os generais da ativa do Exército, comunicando a
prisão domiciliar de José Pessoa por 48 horas. O período do castigo só não foi maior, porque,
como ressaltou Góes, tinham sido levadas em conta as “circunstâncias atenuantes” dos
“inolvidáveis serviços no comando da Escola Militar, onde deixou traços profundos de
excelentes administrador”. Considerou o ministro, em sua decisão, que Pessoa havia excedido
o “justo limite que a todo militar é lícito usar, em defesa de sua conduta” ao revelar “matéria
de natureza reservada afeta à decisão do final do Chefe da Nação, por envolver crítica
descabida e improcedente a atos legítimos da autoridade do Ministro da Guerra e do próprio
Chefe do Governo”.655
Em uma anotação à lápis no cabeçalho do documento expedido por Góes, José Pessoa
considerou a medida do ministro uma “sentença de um irresponsável, zombando de todo o
Exército”656. Em suas memórias, considerou que um ministro que havia mandado rematricular
na Escola Militar cadetes expulsos “a bem da disciplina e moralidade”, não tinha “autoridade
moral” para responsabilizar um comandante que se nobilitava por obedecer a soberania da lei.
Para Pessoa, Góes Monteiro revelava-se, como chefe, aquele mesmo cadete de outrora, cheio
de mazelas e vícios, que os colegas haviam cognominado de “Mimi Bilontra”.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta IV, p. 33)
652
Ibidem.
653
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp31.05.12, doc. 46/0104-5.
654
Números 21, 22, 23 e 24, do Art. 338, do Regulamento Interno dos Serviços Gerais, de 1929 (Decreto nº
19.040, de 19 dez. 1929).
655
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp31.05.12, doc. 44/0105.
656
Ibidem.
441
Certo de que não havia cometido nenhuma transgressão disciplinar, e após ter
cumprido o castigo a que fora submetido, Pessoa comunicou ao ministro, em 22 de maio, que
iria queixar-se dele ao Chefe do Governo Provisório, como permitia o RISG. 657 No dia
seguinte, Góes, por força de regulamento, solicitou a Getúlio Vargas permissão para que José
Pessoa apresentasse a sua queixa. Na mesma data, também por força regulamentar, este
deixou a subordinação ao ministro da Guerra e passou à disposição do Chefe do Governo, até
que fosse dada uma solução ao caso.658
A queixa foi apresentada por José Pessoa em 9 de junho. Em um longo documento de
13 páginas, ao qual juntou uma série de documentos e recortes de jornais e do Diário Oficial,
que diziam respeito aos fatos por ele explorados, Pessoa apresentou à Vargas as razões que o
levaram a queixar-se de Góes. Após lembrar ao Chefe do Governo as ações profícuas que
havia realizado em prol do Exército, ao implementar as mudanças físicas e anímicas na Escola
Militar, e a vida devotada que tivera à serviço da Pátria, fez um longo relato dos fatos
atinentes à greve dos cadetes e das diversas interferências do ministro da Guerra na vida
administrativa e disciplinar do estabelecimento de ensino. Quanto ao que o motivou a pedir
demissão do comando da Escola, salientou que por ter sido “educado dentro do respeito às
leis, que constituem a norma da moralidade e da justiça”, a sua consciência não o
“aconselhava a permanecer no exercício de um cargo cujas atribuições vinham sendo
invadidas por intermédio de ordens contrárias e dispositivos legais”. Em relação às
interferências de Góes e as recusas em atender aos inúmeros pedidos de rematrículas de ex-
cadetes feitas pelo ministro, ressaltou que somente as fizera para evitar que a Escola militar
“fosse invadida pela onda de protegidos, como se tem dado, indesejável ao corpo de oficiais,
do qual depende a eficiência do Exército e a tranquilidade do País”. Como cidadão consciente
das responsabilidades e deveres que tinha, afirmou a Getúlio que não podia assistir impassível
“tamanho atentado àquela sagrada instituição [Escola Militar]”, que era considerada o orgulho
do Exército, por sua disciplina e seu trabalho.659
A respeito da carta de sua autoria que havia sido publicada no jornal Correio da
Manhã, observou que a opinião pública vinha refletindo um juízo errôneo sobre os fatos que
deram origem ao ato de indisciplina que tomou conta da Escola Militar no dia 26 de abril e
que as autoridades militares não haviam procurado esclarecer o ocorrido. Por isso, viu-se na
obrigação de solicitar ao periódico a retificação das informações que publicara em 13 de
657
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp31.05.12, doc. 46.
658
Arquivo Nacional. Fundo Góes Monteiro. Docs. SA 226.6 e SA 226.7.
659
Arquivo Nacional. Fundo Góes Monteiro. Doc. SA 226.8.
442
maio. Afirmou que o seu único objetivo foi precisar o motivo da sua demissão e reestabelecer
a verdade em relação aos acontecimentos relativos à greve dos cadetes. Com tais argumentos,
disse ter se surpreendido com a punição que havia sido lhe imposta por Góes Monteiro, ainda
mais por tratar-se ele próprio de uma general do Exército que “acabava de prestar os mais
assinalados serviços ao Governo à frente de espinhosa missão, gozando, pelo seu proceder, na
sua classe e perante o País, do mais alto conceito e a quem a mesma autoridade [Góes]
reconhece”. 660
Concluindo a sua exposição de motivos, apresentou a sequência cronológica dos fatos
que haviam se passado, dentre os quais destacavam-se as medidas intervencionistas de Góes
na administração da Escola Militar e suas consequências:
660
Ibidem.
661
O artigo considerava que a parte apresentada pelo oficial deveria ser considerada como expressão da verdade
pelo superior, em consequência de sua situação e dos compromissos de honra que tinha com a Nação e com o
Exército. Também previa que o superior poderia ouvir o acusado para formar perfeito juízo a respeito da
gravidade da falta.
662
O artigo determinava que as punições deveriam ser aplicadas com justiça e imparcialidade e nunca com
manifestação de ódio ou paixão.
443
663
Arquivo Nacional. Fundo Góes Monteiro. Doc. SA 226.8.
664
O RISG de 1929 previa, no Art. 389, que a queixa deveria precisar exatamente o objeto que a fundamentava e
ser redigida em tom respeitoso, além de não ser permitido que o queixoso tratasse assuntos estranhos ao fato que
a tinha motivado.
665
Arquivo Nacional. Fundo Góes Monteiro. Doc. SA 226.8.
444
decisões ministeriais que iam de encontro aos seus pontos de vista, por si só já eram causa de
novas sanções.666
Em outro ponto de seu texto, Góes insinuou que teria interferido decisivamente junto
ao ministro Leite de Castro a favor da nomeação de José Pessoa para o comando da Escola
Militar, fato do qual Pessoa ingratamente havia se esquecido. Afirmou que, inclusive, o
primeiro nome lembrado por Castro para a direção do estabelecimento de ensino teria sido o
dele e não o de Pessoa. E mais, destacou que a manutenção deste na direção da Escola, após
ter concluído o curso de Estado Maior, teria dependido de uma opinião sua, a respeito da
aptidão de Pessoa para a o comando. Em uma afronta à conduta moral do ex-comandante,
Góes contrapõe o fato deste intitular-se constantemente guardião dos regulamentos internos
da Escola com o de ter sido nomeado à revelia do regulamento da Escola, que vigia em 1931.
O ministro lembrou que o regulamento precisou ser modificado por decreto 667, para que
Pessoa assumisse o cargo, já que não possuía, à época, o curso de Estado-Maior.668
Em relação às rematrículas de ex-cadetes, que, segundo Pessoa, teriam sido impostas
por Góes Monteiro e vinham perturbando a vida administrativa da Escola, o ministro afirmou
que foram casos singulares e que não haviam, em nenhum momento, contrariado as normas e
regulamentos da Escola ou do Exército. Lembrou que o próprio José Pessoa, em anos
anteriores, havia mandado rematricular cadetes reprovados no “carro de fogo”. Ademais,
ressaltou que se o ex-comandante tivesse se sentido invadido em suas atribuições por meio de
ordens contrárias aos dispositivos legais, cumpria-lhe ter apelado para os recursos garantidos
pelo RISG. Já ao final do texto, Góes destacou que todas as decisões que havia tomado em
relação aos fatos ocorridos na Escola Militar, como a revogação do desligamento dos cadetes
envolvidos na briga de Bangu, bem como as rematrículas de ex-cadetes, trataram-se de atos
administrativos e da competência do ministro da Guerra, não havendo nada de estranho às
normas regulamentares.669
Na conclusão do seu parecer, o ministro alegou que, por ter José Pessoa apresentado
fatos estranhos ao que motivou a queixa, estava claro que ele havia cometido nova
transgressão disciplinar. Entretanto, Góes solicitou a Vargas que levasse em conta, em sua
666
Ibidem.
667
O Regulamento da Escola Militar de 1929 previa que o cargo de comandante da Escola Militar deveria ser
ocupado por um general-de-brigada ou por um coronel com o curso de Estado-Maior. José Pessoa ainda não
havia realizado o curso, quando assumiu a direção do estabelecimento de ensino. O fez no primeiro ano de
comando. Não foi localizado o decreto a que Góes Monteiro se refere e que teria modificado esse dispositivo.
668
Ibidem.
669
Ibidem.
445
670
Ibidem.
671
Ibidem.
446
José Pessoa nunca escondeu a sua insatisfação com a localização da Escola Militar. Ao
tratar, em suas memórias, dos problemas da formação e da instrução dos oficiais do Exército
brasileiro, deixou claro os motivos da intolerância com o bairro de Realengo:
Para Pessoa, a solução para os problemas da formação passava pela reforma radical da
educação e da preparação da mocidade militar, o que criaria uma nova geração de soldados,
ciosos dos seus deveres morais e materiais da profissão militar e do seu papel na sociedade
brasileira. Parte do plano já havia sido posta em prática, por meio da reforma radical, material
e anímica, que operou na Escola Militar do Realengo, a partir de 1931, e examinada no
capítulo anterior. Entretanto, faltavam as instalações adequadas que correspondessem às
mudanças implementadas673. A necessidade da escolha de uma nova localidade para a Escola
Militar foi anunciada por ocasião da sua primeira ordem do dia, publicada em boletim escolar.
A exemplo de todos os “povos cultos e militarmente organizados” 674, a nova escola
militar deveria estar localizada em uma região abrigada, afastada da agitação social dos
centros populosos, a fim de “salvaguardar a disciplina de uma classe, que não pode e não deve
conhecer outro ‘mot d’ordre’ (palavra de ordem) que não seja o da subordinação à lei, para
respeitá-la e fazê-la respeitada”675. Segundo José Pessoa, a escolha do novo local do
estabelecimento de ensino militar deveria satisfazer a algumas condições:
672
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JP ag 1936.04.12.
673
Segundo seu próprio relato, ao ser convidado por Leite de Castro para assumir o comando da Escola Militar,
em 1930, José Pessoa teria imposto ao ministro da Guerra duas condições para a aceitação do novo cargo: a
primeira, era a não interferência das autoridades superiores no seu comando, a não ser que fosse para corrigir
algo que lhes parecesse errôneo; a segunda, era a construção de uma nova instalação para a Escola, longe das
grandes metrópoles do País. Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JP ag 1936.04.12.
674
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JP ag 1936.04.12.
675
Ibidem.
447
- meio social homogêneo e compatível com a formação moral dos futuros chefes do
Exército;
- tranquilidade, a fim de que os trabalhos e o regime escolar não sejam perturbados
pela agitação social e as atrações de uma grande capital.676
Para ele, seria do recinto austero da nova escola que surgiria a elite militar do Exército
brasileiro. Idealizada pelos “homens da pós-revolução”, seria a responsável pela formação de
uma mentalidade criadora e uniforme, “capaz de organizar o Exército” de que a Nação
precisava.
A Escola Militar é a fonte, de onde, sem cessar, emana a força nova do Exército, que
são as suas contínuas levas de oficiais. Sem receio de errar, pode-se dizer que tanto
mais eficaz será a reforma do Exército quanto melhor for condicionado à preparação
das novas gerações de oficiais. E uma das condições precípuas dessa preparação
depende, em última análise, de convenientes instalações pedagógicas e científicas
para os nossos centros de cultura, de um modo geral e, em particular, da Escola
Militar, que é a escola de formação por excelência. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta
IV, p. 73)
Antes mesmo de ser nomeada uma comissão executiva para planejar a construção da
nova escola militar, José Pessoa já percorria a região Sudeste do País em busca do local mais
apropriado para abrigar as instalações do estabelecimento de ensino militar. Segundo Câmara
(2011, p. 146-148), as cidades de Petrópolis e Teresópolis foram lembradas pelo clima ameno
e por se encontrarem fora do centro político da Nação. Entretanto, eram carentes de variedade
topográfica, localizando-se em terreno predominantemente montanhoso, o que limitaria o
desenvolvimento das instruções militares. Também foram pesquisadas as áreas das fazendas
Estrela e Santa Mônica, no Rio de Janeiro, e a em que se encontra atualmente a Universidade
Federal Rural do Rio de Janeiro, em Seropédica. Em São Paulo foi considerado o Posto
Zootécnico de Pinheiros e, em Minas Gerais, a Várzea do Marçal, na cidade de São João Del-
Rei. Esta última agradou a Pessoa, porém, não atendia à condição de estar localizada no eixo
Rio-São Paulo.
A procura de um local que atendesse às expectativas de José Pessoa, para a construção
das novas instalações da Escola Militar, o levou à região das Agulhas Negras, cujos
contrafortes já haviam provocado a sua admiração e ilustravam o brasão de armas da Escola.
Bopp677 (1978, p. 348) relata que, em 15 de janeiro de 1931, Pessoa percorria a estrada
676
Ibidem.
677
Itamar Bopp foi um historiador local da cidade de Resende-RJ. Militante político da Aliança Liberal,
participou ativamente da Revolução de 1930 na região das Agulhas Negras, como membro da “Coluna
Contreiras”, da qual fora simbolicamente nomeado capitão ajudante-de-ordens. O comandante da coluna era
Nestor Contreiras, fazendeiro de Resende, que liderava cerca de 30 rebeldes, em sua maioria gaúchos,
empregados de sua fazenda. Após formada, a coluna rebelde seguiu para Minas Gerais, a fim de apoiar a
revolução naquele estado, onde recebeu armas, munição e cavalos. Após o golpe de 24 de outubro, Nestor
448
Contreiras retornou a Resende, tendo a sua tropa triplicado de tamanho. Na ocasião, a “Coluna Contreiras”
contava com 7 oficiais e cerca de 350 homens, em sua maioria soldados da força policial mineira. (BOPP, p.
233-236)
678
O Horto Florestal de Resende, à época, era um órgão subordinado ao Ministério da Agricultura.
679
No pleito eleitoral de 1929, foi eleito prefeito de Resende Manoel Fernandes da Silveira, que deveria
governar a cidade no período 1930-33. Nas eleições para presidente da República, foram contabilizados, no
município, 1.216 votos para Júlio Prestes e 154 para Vargas. Por ser um simpatizante de Washington Luiz,
Fernandes da Silveira foi afastado do cargo em 26 de outubro de 1930, por pressão dos políticos locais que
aderiram à Revolução de 1930. Com a vacância do cargo, assumiu interinamente a administração do município
Avelino Silveira, membro do Partido Revolucionário. Em novembro, por ordem do interventor federal do estado
do Rio de Janeiro, o delegado militar de Resende, tenente Ari Pires, reuniu os representantes locais da classe
conservadora, para que fosse escolhido um novo prefeito para a cidade. Em 11 de fevereiro de 1930, assumiu a
função Taurino do Carmo. (BOPP, p. 234-235)
680
Não foi possível precisar a população exata de Resende em 1931, já que inexiste o censo desse ano no site do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Porém, Bopp (1978, p. 231) indica que um censo
estatístico feito em 1930 apurou que a cidade de Resende, sem considerar seus distritos, possuía 2.389 habitantes
e a região de Campos Elíseos, praticamente um bairro fronteiriço à área em que a Escola Militar viria a ser
construída, tinha 1.451 moradores. Em 1948, a Sinopse Estatística do Município de Resende, feita pelo IBGE,
informou que, de acordo com o censo de 1940, o município possuía 27.422 habitantes, considerando-se os seus
seis distritos: Campo Belo, Campos Elíseos, Fumaça, Porto Real, Salto e Vargem Grande.
449
681
Essa descrição encontra-se em um documento que José Pessoa intitulou “Atestado de Nascimento da Nova
Escola Militar”. Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.04.12.
682
A Lyra, Resende, 8 mar. 1931.
450
empenho”, para que a Escola Militar fosse instalada em Resende. Por fim, o periódico
destacou a importância econômica e intelectual de a cidade abrigar a nova Escola:
“Materialmente terá atuação decisiva no desenvolvimento comercial de nossa praça.
Intelectualmente será um núcleo de intensa atividade de alto relevo para o renome desse
rincão”.683
Imagem 80 – Aspecto da cidade de Resende na década de 1930 (Av. Albino de Almeida, no passado e
hodiernamente o centro comercial da cidade).
A aprovação de Resende para a construção das novas instalações da Escola Militar foi
dada pelo ministro da Guerra e pelo chefe do Governo Provisório em setembro de 1931.
No dia 6 de setembro José Pessoa retornou à cidade acompanhado do capitão
Alexandre Chaves, seu assistente na Escola Militar, do engenheiro Moura Filho e do arquiteto
Raul Penna Firme. A este pequeno grupo, Pessoa deu o nome de “Pequena Cruzada”. A
finalidade da nova visita era conhecer mais detalhadamente a região das Agulhas Negras. No
dia seguinte, acompanhados dos doutores Jorge Zany, diretor da Estação de Monta de
Resende, Barreto Costa, diretor do Horto Florestal, e Tácido Rodrigues, iniciaram uma
excursão a pé à região montanhosa de Itatiaia. Sob intensa chuva pernoitaram na região das
Macieiras, no Posto Meteorológico instalado no local. Um fato pitoresco narrado por Itamar
683
A Opinião, Resende, 7 mar. 1931.
451
Bopp é que, na ocasião, José Pessoa quis assinar o livro de visitantes do Posto, mas não havia
pena para fazê-lo. Um dos excursionistas, então, abateu uma ave, de cujas asas foram
retiradas as penas. Dessa forma, os visitantes conseguiram firmar a presença no local. No dia
8 de setembro a excursão prosseguiu com a escalada do maciço das Agulhas Negras. No ápice
da escalada, na localidade conhecida como Grotão, José Pessoa recolheu uma pedra com a
dimensão de 60 x 50 centímetros. Afagando o pedregulho informou aos presentes que aquela
seria a pedra fundamental da “Escola Militar das Agulhas Negras”. No final da manhã, a
caravana retornou a Resende. 684
O “namoro” de José Pessoa com a sociedade resendense ficava a cada mês mais forte.
No aniversário de emancipação política da cidade, em 29 de setembro, uma esquadrilha da
Aviação realizou um sobrevoo no local das festividades. No momento da apresentação da 5ª
Arma, o prefeito de Resende recebeu um telegrama de Pessoa com o seguinte texto: “Cmt.,
oficiais, cadetes Escola Militar, felicitam hospitaleiro povo Resende, na pessoa V. Exa.
passagem grande data – Cel José Pessoa – Cmt. E. Militar”.685
No entanto, nenhuma autoridade do Exército ou do governo federal havia estado no
local para dar o parecer definitivo para a construção da Escola Militar. Então, em 12 de
outubro, o ministro da Guerra Leite de Castro esteve em Resende, acompanhando o chefe do
Governo Provisório. Getúlio Vargas visitou a cidade a convite de Assis Brasil, ministro da
Agricultura, para conhecer a Estação Biológica de Itatiaia. Aproveitou-se a ocasião para as
três autoridades conhecerem, também, o Horto Florestal, local escolhido por Pessoa para as
futuras instalações do estabelecimento de ensino. Após o almoço oferecido naquele local para
Getúlio Vargas e sua comitiva, Leite de Castro falou à imprensa sobre a construção do novo
estabelecimento de ensino militar: “A escolha está assentada [Horto Florestal de Resende].
Poderá retardar um quanto por motivos de ordem financeira, porém, se resolverá na gestão do
presidente Getúlio Vargas...”.686 O “quanto” a que Leite de Castro se referiu duraria sete anos,
como será visto mais adiante.
Finalmente, em 4 de dezembro de 1931, por meio do Aviso Ministerial nº 23, Leite de
Castro deu a ordem para que as providências necessárias à construção de uma nova Escola
Militar fossem tomadas. O ministro reconhecia, no documento, as “impropriedades” da
684
Conforme os relatos contidos em Bopp (1978, p. 242) e na edição especial de 29 de junho de 1938, do jornal
A Lyra.
685
A Lyra, Resende, 29 jun. 1938.
686
Conforme os relatos contidos em Bopp (1978, p. 244) e na edição especial de 29 de junho de 1938, do jornal
A Lyra.
452
690
Boletim Escolar nº 293, de 15 dez. 1931, p. 1.823.
691
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 16 dez. 1931, p. 6.
692
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1931.12.15.
693
Ibidem.
454
militar, picadeiros, moradias para oficiais solteiros, casas de força e luz, um hospital com
maternidade e o Panteão de Caxias. O bairro residencial, organizado no modelo de “cidade
jardim”, seria composto pelas residências para as famílias dos oficiais do comando, da
administração e dos professores e instrutores, por um clube de oficiais, por um grupo escolar e
jardim de infância e por parques para as crianças.694
A zona que deveria ficar a Norte seria formada por um bairro militar, destinado ao
quartel do contingente de oficiais e praças que prestariam o apoio à instrução, às oficinas e
garagens, ao serviço de veterinária e à instalação de uma padaria e de uma lavanderia. Nesse
setor ficariam, também, um polígono de tiro, uma extensa área de instrução, um posto
meteorológico e um campo de aviação. O projeto deveria prever, ainda, algumas obras
complementares, como: monumentos diversos (Caxias, Retirada da Laguna etc.), a
canalização do arroio Alambari e uma rede de comunicações rodoviária e ferroviária com os
principais centros do País, em ligação forçada com a Escola Militar.695
Um fato curioso é que em setembro de 1931, antes mesmo das propostas serem
apresentadas à Comissão Executiva, o que foi feito, como relata José Pessoa, utilizando-se
pseudônimos, para garantir a lisura do processo de escolha, Penna Firme havia enviado uma
carta a Pessoa, agradecendo a confiança com que havida sido distinguido com a elaboração do
projeto da nova Escola Militar. No documento, fica claro que a obra em Resende seria a
primeira de grande vulto do arquiteto em início de carreira, que afirmou contar para tal
empreendimento apenas com seu cabedal técnico e com a experiência que havia adquirido nos
bancos escolares e na pouca prática no exercício da profissão.696
Para que o projeto fosse executado a contento, Penna Firme enumerou uma série de
necessidades, dentre as quais constavam a instalação de um novo escritório amplo e
convenientemente aparelhado, a contratação numerosa de pessoal técnico especializado, o
custeio dos trabalhos de campo e a aquisição de material de expediente. Também apresentou
os documentos que comporiam o projeto, como as plantas, os estudos de hidráulica e elétrica,
os projetos de comunicação rodoviária e ferroviária, os desenhos em perspectiva da nova
Escola e as maquetes. Entretanto, segundo o arquiteto, a consecução de tudo isso dependia do
financiamento da obra, o óbice que se apresentava naquele momento, e que só não abria mão
694
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1931.12.15. As bases para a elaboração do anteprojeto da nova
Escola Militar também foram publicadas no Correio da Manhã de 16 de dezembro de 1931, p. 6.
695
Ibidem.
696
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1931.12.15, Apêndice.
455
da maior oportunidade da sua vida de arquiteto devido à confiança que José Pessoa lhe havia
depositado.697
Na carta, aproveitou também para justificar o valor que cobraria pelo projeto: um
quarto dos honorários calculados sobre a taxa de 2% do valor global da construção e tomando
por base tabelas do Instituto Central de Arquitetos do Rio de Janeiro e de Honorários
Profissionais do Instituto de Engenharia de São Paulo. Como o preço global mínimo da obra
era de 30 mil contos de réis, as despesas e a remuneração do autor do projeto ficariam em 150
contos de réis. No entanto, Penna Firme considerou uma redução de 50% deste valor, ficando,
portanto, o valor final do projeto em 75 contos de réis, que poderiam ser pagos em duas
parcelas: a primeira de 50 contos de réis, no início dos trabalhos, e 25 contos de réis na
entrega do projeto final. Esse valor, segundo o arquiteto, se destinaria somente para a
cobertura simples das despesas, por já sentir-se, como autor do projeto, amplamente
remunerado, devido ao fato de seu nome estar ligado ao “maior empreendimento
arquitetônico e cívico-militar da América do Sul”.
Praticamente dois meses depois das propostas terem sido entregues, no dia 12 de
fevereiro de 1932, a Comissão Executiva fez uma nova reunião, para realizar o julgamento
dos anteprojetos apresentados. Foi escolhida a proposta de Raul Penna Firme, por ter sido
considerada pela Comissão Executiva e pelo Conselho de Administração da Escola Militar a
mais vantajosa. O preço apresentado pelo arquiteto foi o mesmo que havia sido prometido na
carta enviada a Pessoa cinco meses antes.698
Antes mesmo, porém, de comunicar oficialmente ao ministro Leite de Castro o
vencedor da concorrência, os membros da Comissão Executiva699 realizaram uma visita a
Resende, no dia 21 de dezembro de 1931, para verificar in loco as zonas que abrigariam as
instalações descritas nos parágrafos acima e oficializar a escolha da Fazenda das Sementeiras,
que abrigava o Horto Florestal de Resende, como a nova sede da “Universidade Militar”700.
697
Ibidem.
698
Boletim Escolar nº 13, de 15 jan. 1932, p. 113.
699
Segundo a edição comemorativa de lançamento da pedra fundamental da Escola Militar de Resende do jornal
resendense A Lyra, de 29 de junho de 1938, participaram da visita os seguintes oficiais: José Pessoa, tenente
Ribeiro da Costa, seu ajudante-de-ordens; capitão Alexandre Chaves, secretário da Comissão Executiva; major
Orestes Lima, representante do ministro da Guerra; capitão Mário Travassos, representante do Estado-maior do
Exército; tenente-coronel Alcoforado, do curso de Infantaria; capitães Brilhante, Lima Câmara e Barbosa Leite,
respectivamente instrutores da Cavalaria, Artilharia e Educação Física; capitão Godinho, do Serviço de Saúde; e
major Plínio Raulino, da Aviação.
700
Em muitos momentos, em suas memórias, José Pessoa se refere à construção de um novo estabelecimento de
ensino militar como o projeto de uma “Universidade Militar”, e não de uma Escola Militar. Inclusive, o termo
passou a ser utilizado por muitos jornais da época, que passaram a noticiar a construção da “Universidade Militar
de Itatiaia”. Pensava ele em construir uma verdadeira cidade universitária, à semelhança das maiores
universidades do mundo, como Oxford e Cambridge. À exemplo da primeira, que se localizava à margem do
456
Tâmisa, a “Universidade Militar” situar-se-ia à margem do rio Paraíba, possibilitando a prática dos esportes
náuticos e as competições de remo. Enfim, assim como os universitários, os cadetes encontrariam em Resende
tudo o que fosse necessário à vida, ao trabalho e à recreação. Levariam uma vida ao ar livre, entre os parques e
excursões às montanhas. Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1931.12.15.
701
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV), JPvp1931.12.15; Bopp (1978, p. 245-246).
702
Ibidem.
703
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1931.12.15.
457
estado do Rio de Janeiro, informaram que a poucos centímetros abaixo do solo corria um
lençol d’água, o que acarretaria o estaqueamento de todas as fundações da obra. Também
seria necessária a canalização do arroio Alambari, para que fossem evitadas as enchentes
sazonais nas áreas destinadas à construção das edificações. Essas providências elevariam
sobremaneira os custos do projeto, exigindo vultosas somas de dinheiro, praticamente
inviabilizando-o. Dessa maneira, a Comissão Executiva achou por bem mudar a localização
da nova Escola Militar, do Horto para a Fazenda do Castelo, situada em um terreno mais
elevado e livre de inundações. Então, um terceiro e definitivo projeto foi elaborado por Penna
Firme704, considerando a citada fazenda como a área em que seriam erguidas as instalações do
futuro estabelecimento de ensino. Antes, porém, foi solicitada ao interventor do estado do Rio
de Janeiro, almirante Ary Parreiras, a compra das terras das fazendas do Castelo e da Barra, e
suas posteriores doações ao Ministério da Guerra, para que as obras fossem concretizadas. A
benfeitoria do interventor seria a contribuição do estado fluminense à consecução da obra
monumental. O fato é que a compra não foi concretizada e, oito anos mais tarde, as
edificações começaram a ser levantadas no Horto Florestal. Para Pessoa, se a construção da
Escola Militar de Resende não se consumou nas terras do Castelo-Barra, como no projeto
original, “não foi pelas dificuldades naturais, mas por ‘casos’ premeditados criados por maus
chefes”.705
Em 16 de fevereiro de 1932, um ofício foi enviado por José Pessoa ao ministro Leite
de Castro, informando a vitória de Penna Firme e pedindo a aprovação da proposta feita pelo
arquiteto, que seguiu anexa. Em 21 de junho o chefe da pasta da Guerra enviou o ofício de
Pessoa à Diretoria de Engenharia do Exército. Oito dias depois, o capitão João Luiz Monteiro
de Barros, adjunto daquele órgão, informou ser impossível emitir um parecer técnico a
respeito da construção da Escola Militar, já que a Diretoria não havia tido acesso às plantas e
ao anteprojeto apresentado por Penna Firme e ignorava por completo o andamento das obras
em Resende. Em 8 de julho, o Diretor de Engenharia, general Álvaro Guilherme Mariante
informou ao ministro da Guerra:
704
O projeto arquitetônico elaborado por Raul Penna Firme para a Escola Militar de Resende encontra-se no
Acervo José Pessoa, arquivo JPvp1931.12.15. A partir da sua análise, é possível perceber que o arquiteto seguiu
à risca o que foi idealizado por Pessoa e definido como base para o projeto pela Comissão Executiva para a
construção da nova Escola.
705
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.04.12.
458
envolve estudo muito complexo que não pode ser executado por um arquiteto, por
mais competente e por mais idôneo que pareça ser.
A única repartição competente para organizar o projeto e se encarregar da sua
execução é a Diretoria de Engenharia.
706
Fazendas Santo Amaro, Carreiras, Riachuelo, Tanque, Dores, São José e Santa Maria. Nesta última, dois
soldados legalistas sergipanos assassinaram o administrador da fazenda, depois de assaltarem-na. Foram presos e
condenados pela justiça militar. (BOPP, 1978, p. 252 e 254)
459
das paulistas. Os poucos rebeldes capturados ficaram recolhidos na cadeia municipal. Missas
eram rezadas às quintas-feiras na Igreja Matriz da cidade, pedindo o retorno da paz à região,
com grande participação de oficiais, praças e soldados das tropas legalistas. (BOPP, 1978, p.
252-254)
No dia 16 de março, Getúlio Vargas visitou o destacamento militar de Resende.
Conversou com os soldados, concitando-os a manter a ordem legal e a tratarem com
civilidade os rebeldes. No quartel general, encontrou-se com os oficiais e confidenciou que
esperava instalar a nova Escola Militar na cidade ainda durante o seu governo. (BOPP, 1978,
p. 249)
Apesar das tropas paulistas concentrarem-se em Cruzeiro-SP, a apenas 66 quilômetros
de Resende, nenhum combate foi travado nesta cidade. Todas as ações das tropas do governo
e das rebeldes ocorreram nas imediações do município sul-fluminense. Nos quase sete meses
em que as duas cidades estiveram em pé de guerra, as tropas rebeldes chegaram a dominar,
por um curto período, extensas regiões de terras resendenses, ocupando toda a região
montanhosa do distrito de Santana dos Tocos, o povoado de Engenheiro Passos e as estações
ferroviárias de Itatiaia e Babilônia, o que causou grandes prejuízos econômicos ao comércio
dessas localidades, já que, à medida que as tropas paulistas avançavam, a população
abandonava suas residências. Com a contrainvestida das tropas legalistas, o quartel-general do
Destacamento do Exército do Leste, sob o comando do general Góes Monteiro, avançou de
Barra Mansa-RJ para Resende. Por uma infelicidade do destino, o general acompanhou de
perto a morte do irmão, capitão Cícero Augusto de Góes Monteiro, ferido em combate na
localidade de Silveiras-SP. Seu corpo foi evacuado para o ambulatório militar da Santa Casa,
de onde foi transferido para o Rio de Janeiro. (BOPP, 1978, p. 249-255)
A partir de agosto de 1932, as tropas do governo federal começam a empurrar os
rebeldes de volta a São Paulo e chegaram à cidade de Cruzeiro. Com o avanço, o
destacamento militar baseado em Resende escoou para aquele município paulista,
permanecendo na cidade apenas um serviço de ambulância, para evacuar os feridos em
combate. Num último esforço de dissuasão, o general Bertholdo Klinger, que aderira à causa
paulista, ordenou bombardeios aéreos às cidades do Rio de Janeiro, Barra Mansa, Barra do
Piraí e Resende. Somente esta última foi atacada. Na madrugada de 13 de agosto, a população
alarmada despertou sob violentos e sucessivos estampidos das bombas lançadas por um avião
vindo do lado paulista. Os artefatos não causaram danos às áreas centrais, pois, o bombardeio,
não se sabe a razão, concentrou-se nas áreas limítrofes de Resende, atingindo tão somente as
460
707
O jornal A Lyra, de Resende, noticiou em sua edição de 12 de junho de 1932, que, um dia antes, uma
comitiva formada por dois arquitetos e um advogado da empresa norte-americana Starret visitou o Horto
Florestal da cidade, a fim de conhecer as condições locais e os materiais que poderiam ser utilizados, caso lhes
fosse atribuída a construção da nova Escola Militar.
708
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.04.12.
709
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 28 mar. 1933, p. 4.
461
710
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 5 abr. 1933, p. 3.
711
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.04.12 e Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 12 ago. 1933, p. 1.
462
Com o local para a construção da nova Escola Militar definido, o projeto aprovado e a
promessa do ministro da Fazenda de que o governo federal financiaria as obras, José Pessoa
julgou ser chegado o momento de lançar a pedra fundamental do novo estabelecimento de
ensino. O momento significativo escolhido pelo, agora, general Pessoa712 foi a manobra
militar de 1933, da Escola Militar do Realengo, realizada na região das Agulhas Negras.
O ato foi veiculado pela imprensa da Capital Federal, que anunciou o lançamento da
pedra fundamental antes mesmo da partida dos cadetes para a manobra escolar, na região das
Agulhas Negras:
Uma grande solenidade militar foi planejada por Pessoa para o dia 28 de outubro de
1933, já ao final da manobra escolar, para fazer o lançamento da pedra fundamental, que
havia sido recolhida por ele próprio, por ocasião da excursão realizada um ano antes aos
contrafortes das Agulhas Negras. O local escolhido foi a Fazenda do Castelo, local que
abrigaria a sede da futura “Academia Militar das Agulhas Negras”717. Convites foram
712
José Pessoa foi promovido a general-de-brigada em 3 de agosto de 1933. Cf. Fé de Ofício do Marechal José
Pessoa.
713
Anotações de José Pessoa a respeito da manobra de 1933. Acervo José Pessoa (CPDOC FGV).
JPvp1931.05.12.
714
Diário da Noite, Rio de Janeiro, 20 out. 1933, p. 1.
715
A Noite, Rio de Janeiro, 21 out. 1933, p. 2.
716
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 22 out. 1933, p. 16.
717
Em determinado momento, em suas narrativas memoriais, José Pessoa deixa de tratar a nova Escola Militar
como uma “universidade militar” e passa a chamar o futuro estabelecimento de ensino militar pelo termo
“academia militar”. A exemplo das grandes nações desenvolvidas da época, o Brasil não devia possuir uma
463
expedidos para o chefe do Governo Provisório, para o alto comando do Exército e para as
autoridades locais do município de Resende. A imprensa da cidade preparou-se para cobrir o
evento, que foi amplamente noticiado pelos jornais locais e da Capital Federal. Um churrasco
foi oferecido pelos munícipes ao Destacamento da Escola Militar e a banda de música foi
levada para Resende, a fim de abrilhantar o evento e apresentar-se à população no centro da
cidade. A programação do evento foi publicada no Boletim do Destacamento da Escola
Militar em Resende:
Passados alguns minutos das 10 horas da manhã, do dia 27 de outubro, José Pessoa
recebeu um telegrama do ministro da Guerra, general Augusto Inácio do Espírito Santo
Cardoso719, desculpando-se por não poder comparecer ao evento:
simples escola e, sim, uma verdadeira “academia”, na qual os futuros oficiais poderiam desenvolver em sua
plenitude os aspectos profissionais, pedagógicos, morais e éticos da sua formação.
718
Boletim nº 3, do Destacamento da Escola Militar em Resende, de 27 out. 1933. Acervo José Pessoa (CPDOC
FGV). JPvp1931.05.12.
719
O general Espírito Santo Cardoso assumiu o Ministério da Guerra em junho de 1932, após Leite de Castro ter
pedido demissão do cargo.
720
Boletim nº 3, do Destacamento da Escola Militar em Resende, de 27 out. 1933. Acervo José Pessoa (CPDOC
FGV). JPvp1931.05.12.
464
Rio, 27 às 17h10minutos – Não existindo até agora nenhum ato oficial sobre a futura
Academia Militar, lembro presado camarada não convém lançamento pedra
fundamental mesma, o que deverá ser adiado para outra oportunidade. Cordiais
saudações. (a) general Espírito Santo Cardoso.721
721
Ibidem.
722
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 29 out. 1933, p. 3 e A Noite, Rio de Janeiro, 28 out. 1933, p. 1.
465
que foi feito por intermédio do chefe da Casa Militar, general Pantaleão Pessoa, e do ministro
da Guerra. E mesmo com esses contratempos, decidiu manter a solenidade.723
Imagem 82 – José Pessoa reunido com repórteres e autoridades na Fazenda do Castelo, em Resende, durante a
manobra de 1933, 28 out. 1933.
Pessoa confessou aos repórteres não compreender o que o ministro da Guerra quis
dizer em seu telegrama, sobre não haver ato oficial a respeito da futura Academia Militar, se
uma comissão de estudos foi criada, uma maquete aprovada e, de tudo isso, entendia, ainda,
serem confirmações do ato os telegramas recebidos dos generais Pantaleão e Espírito Santo.
Encerrou suas palavras pedindo desculpas à imprensa e dizendo que o que estava passando
era a maior decepção da sua vida.724
O cancelamento da solenidade pareceu, entretanto, não ter causado, em um primeiro
momento, impacto nos cadetes que participavam da “manobra de 1933”, aos quais as
informações parecem terem chegado desencontradas. Os generais Carlos de Meira Mattos e
Tasso Villar de Aquino, que dela participaram, eram cadetes dos 1 º e 3º anos,
respectivamente. O primeiro confidenciou que não fora informado do fato e a impressão que
lhe ficou foi de que a pedra fundamental fora lançada naquela oportunidade. Já Villar de
723
Ibidem.
724
Ibidem.
466
Aquino relata terem os cadetes, assim como Pessoa, sentido uma grande decepção pelo
cancelamento da solenidade.725 Ao que tudo indica, José Pessoa não comunicou
imediatamente aos cadetes a decisão do ministro da Guerra, a fim de manter o estado de
ânimo deles nos últimos dias da manobra escolar. O repórter do Correio da Manhã que esteve
em Resende no dia 28 de outubro, relatou que, apesar do adiamento do ato oficial, encontrou
os cadetes com “ótima disposição de espírito, conservando a alegria característica da nossa
mocidade”726. Espalhados por todos os cantos da Fazenda do Castelo, eles “entravam
valentemente no churrasco, entre ditos chistosos, não parecendo terem realizado, ainda na
véspera, extenuantes exercícios de marcha e campanha...”727.
Diante da consternação que lhe tomou conta e sentindo-se ferido em sua honra
pessoal, na noite do dia 28 de outubro José Pessoa apresentou ao ministro da Guerra, por meio
de um longo telegrama, o seu pedido de exoneração do comando da Escola Militar do
Realengo:
O pedido de demissão de Pessoa ganhou as páginas dos jornais cariocas, que durante
uma semana acompanharam o desenrolar da situação constrangedora. O cancelamento do
725
Depoimentos concedidos ao Projeto Marechal José Pessoa, em dezembro de 1984. In. Câmara (2011, p. 171).
726
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 29 out. 1933, p. 3.
727
Ibidem.
467
lançamento da pedra fundamental foi destacado como o motivo que o levou a tal ato.
Finalmente, no dia 5 de novembro, a notícia da não aceitação do pedido de demissão de
Pessoa por Getúlio Vargas correu as páginas dos periódicos. Considerava o chefe do Governo
Provisório não poder prescindir dos trabalhos de José Pessoa à frente da Escola Militar e da
Comissão Executiva para a construção da nova Escola Militar. Também deixava claro que o
adiamento do lançamento da pedra fundamental em nada iria prejudicar as obras em Resende
e, tampouco, diminuía o apreço que os excelentes serviços prestados por Pessoa até então.728
O jornal resendense A Lyra publicou o teor do telegrama enviado pelo ministro
Espírito Santo Cardoso a José Pessoa, negando-lhe o pedido de exoneração:
Acabo levar seu telegrama conhecimento chefe Governo Provisório que incumbiu-
me de dizer o seguinte: - Pensa sua excelência e com ele eu, não haver motivo para
seu pedido de demissão. Sabe bem o meu digno camarada a alta conta em que o
governo tem seus serviços e assim não duvidará acreditar na satisfação que
experimentará desistindo desse pedido. Resolução adiamento assentamento pedra
fundamental motivada simplesmente fato não ter projeto recebido aprovação oficial,
depois correr trâmites indispensáveis, mas essa medida não significa absolutamente
condenação esse projeto de obra grandiosa e patriótica, pela qual tanto tem se
esforçado com aplausos do governo e de todos. Contamos, pois, mude a sua
resolução. Atenciosas saudações. (a) Espírito Santo Cardoso.729
728
Correio da Manhã, 5 nov. 1933, p. 3; Jornal do Brasil, 5 nov. 1933, p. 7; Diário Carioca, 5 nov. 1933, p. 1.
729
A Lyra, Resende, 28 jun. 1938, p. 4. Edição comemorativa.
468
de mandar baixar os atos que achar por bem determinar, a fim de que não sofram demora, ou
solução de continuidade, as negociações em bom rumo”.730
Um fato interessante diz respeito ao destino dado à lasca de cianita recolhida por José
Pessoa no pico das Agulhas Negras, que, após a malfadada cerimônia de 28 de outubro,
jamais foi encontrada. Câmara (2011, p. 169) relata que ela foi enterrada por Pessoa em um
terreno a leste da casa da Fazenda do Castelo, com o testemunho do “coronel” Abílio Godoy,
proprietário da fazenda e do arquiteto Raul Penna Firme. Em entrevista concedida a este
pesquisador, Câmara (2020) esmiuçou um pouco mais o assunto. José Pessoa teria sido
convidado pelo “coronel” Godoy para um jantar, na noite do dia 28 de outubro. Chegou à casa
da fazenda com uma caixa embaixo do braço e, logo após o jantar, perguntou à Godoy se
alguém poderia lhe auxiliar a cavar um buraco. Acompanhado por dois funcionários
designados pelo proprietário da Fazenda do Castelo, enterrou a caixa, com a pedra
fundamental dentro.731
Um telegrama enviado pelo general Pantaleão Pessôa a José Pessoa, no dia 31 de
outubro de 1933, deixava claro que a mudança da sede da Escola Militar para Resende, e a
obra monumental que ela envolveria, não era um consenso entre a oficialidade do alto
comando do Exército.
Ainda há muito caminho a percorre, pois não creio que a obra grandiosa Academia
Militar Agulhas Negras chegue a seu término sem que um sopro de mentalidade
nova bafeje o Exército inteiro, a fim de que o cadete não sinta o contraste entre os
meios materiais da sua formação e aqueles com os quais deve exercitar sua profissão
pt Daí uma ideia do tempo que meu prezado colega terá para realizar todos os atos
intermediários sem prejuízo da época de chegada em que de qualquer forma verá
coroados todos os seus justos, acertados, profícuos e inexcedíveis esforços pt Se há
alguma franqueza nestas minhas declarações ela é a homenagem melhor que merece
o meu distinto colega a cujo lado me coloco decididamente por considera-lo de
todas as atenções merecedor do maior acatamento pt (a) General Pantaleão Pessôa.
(CÂMARA, 2011, p. 168)
730
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1931.12.15.
731
Segundo Câmara (2020), esse relato lhe foi feito pelo filho do “coronel” Abílio Godoy.
469
Se a reforma proposta por José Pessoa defendia o primeiro argumento, estava claro nas
palavras de Pantaleão Pessôa que a influência do segundo no alto comando do Exército ainda
prevalecia naquele momento.
732
Aviso do ministro da Guerra nº 714, de 11 out. 1934, publicado do Boletim do Departamento do Pessoal do
Exército nº 233, de 12 out. 1934.
470
Essa pergunta deveria o senhor fazer àqueles que, por interesses subalternos de
politicalha, não trepidaram em perturbar a vida de ordem e trabalho do meu
comando no Realengo, destruindo a sua Escola Militar e a Escola Militar dos seus
filhos.
O que resta do grande empreendimento (os estudos e o projeto) se acha arquivado na
Escola do Realengo, para que a mocidade militar, que ali se educa, tenha sempre
viva na memória a mais torpe maldade e traição que até hoje sofreu, a sua boa-fé e
inexperiência.
Por isso, façamos silêncio sobre esses fatos que, trazidos a público, bem diriam da
sua inferioridade.733
A nova ordem que se instaurou com o Estado Novo, concebida por Goés Monteiro e
pelo grupo de generais que se articulou ao seu redor e de Eurico Dutra, se traduziu, dentro do
Exército, em um grande esforço de renovação e de aperfeiçoamento profissional. Como
aponta Carvalho (2006, p. 92), nos últimos anos da década de 1930, com Dutra à frente da
pasta da Guerra, houve um grande empenho para que as leis básicas do Exército fossem
reformuladas, para que escolas e quartéis fossem criados, para se organizar os corpos de tropa
e para se equipar e rearmar a instituição. Segundo McCann (2009, p. 527), Góes, Dutra e
Vargas concordavam que havia a necessidade de se modernizar as Forças Armadas do País.
Um Exército moderno manteria o Brasil unido contra as forças do regionalismo e o defenderia
do inimigo externo. Além disso, daria o exemplo de modernidade educada para o povo
brasileiro. Como ressalta o autor, a combinação era clara: o Exército daria a Vargas paz e
733
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 15 maio 1936, p. 3.
471
- a benignidade do clima;
- a proximidade da Capital Federal;
- a facilidade de comunicações;
- a existência de curso d’água importante;
- a proximidade de um centro de população compatível com a vida social do cadete;
- extensão aproximada de 20 quilômetros e largura média de 5 quilômetros. 735
Após a inspeção de alguns locais, optou-se por manter a ideia original de se construir a
Escola em Resende.
Para que os serviços pudessem ser atacados imediatamente, a Caixa Geral de
Economias da Guerra colocou à disposição da Diretoria de Engenharia do Exército 5 mil
contos de réis. Em maio de 1938, o ministro da Guerra solicitou ao presidente da República
dispensa da concorrência para as obras a serem realizadas, tendo em vista o prazo dilatado e a
inconveniência de se contratar os serviços por partes. O novo plano de obras foi estimado em
cerca de 150 mil contos de réis, um valor muito superior aos 60 mil contos orçados pela
Comissão Executiva, em 1932. O tempo de duração e de conclusão das obras ficariam
condicionados aos recursos que o Ministério da Guerra pudesse dispor para tal fim.736
Por ordem do general Rabello, uma comissão foi nomeada para estudar o plano de
construção da futura Escola Militar. Compunham a equipe o coronel Waldomiro Pereira da
Cunha e o major Antônio José da Fonseca, da Diretoria de Engenharia, o capitão Amaury
Kruel, da Inspetoria Geral do Ensino do Exército e o arquiteto Raul Penna Firme. O projeto
aprovado pelo ministro da Guerra e pelos diretores de Ensino e de Engenharia do Exército,
734
Informações colhidas do discurso do general Manoel Rabello por ocasião do lançamento da pedra
fundamental da nova Escola Militar, publicado no jornal Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 30 jun. 1938, p. 1.
735
Ibidem.
736
Relatório do Ministro da Guerra, 1938, p. 47-48.
472
depois de feitos os reajustes necessários, foi o elaborado por Penna Firme, seis anos antes.
Como característica principal, as edificações teriam uma arquitetura sóbria, de estilo
neoclássico. Apesar da tendência moderna, manteriam um equilíbrio entre a tradição e os
predicados progressistas do pensamento artístico da época. Diferentemente, entretanto, do que
previra José Pessoa, o local escolhido para as instalações da nova Escola agregava os terrenos
do Horto Florestal e da Estação de Monta de Resende, que passaram da jurisdição do
Ministério da Agricultura para o da Guerra, por meio de Decreto-Lei737, e um alqueire de
terra, que foi adquirido por 20 contos de réis e agregado ao patrimônio do Ministério da
Guerra.738
Em 10 de junho de 1938, Manoel Rabello, autorizado pelo ministro Dutra, enviou uma
carta a José Pessoa, que, à época, apesar de ter sido nomeado para o comando da 9ª Região
Militar, ainda não havia se apresentado em Campo Grande, estado do Mato Grosso 739. Por
meio dela, convidava-o a participar da execução das obras em Resende, na superintendência e
na orientação do projeto definitiva elas referente. Lembrou, Rabello, que os primeiros estudos
para a consecução de uma nova Escola Militar foram feitos pela equipe capitaneada por
Pessoa, cuja personalidade ainda continuava ligada à ideia original. A resposta ao convite, que
Pessoa considerou “quase desprimoroso”, foi dada um dia depois. Nela, ressaltou que estava
disposto a ajudar naquilo que lhe cabia. Entretanto, era preciso que ficassem claras a forma e
a amplitude da sua colaboração. (ALBUQUEURQUE, 1953, Pasta V-Apêndice, p. 501-502 e
517)
Em 13 de junho, uma nova carta foi enviada por Rabello a José Pessoa, por meio da
qual o diretor de Engenharia definiu os termos da colaboração de Pessoa à construção da nova
Escola. De início, destacou que uma comissão construtora já havia sido nomeada, à qual
competia a execução dos projetos e a parte administrativa das obras. A seguir, informou que o
local escolhido para a instalação do conjunto dos edifícios, parques, vilas residenciais e
campo de parada eram os terrenos que abrigavam o Horto Florestal e a Estação de Monta de
Resende, pelas “favoráveis condições técnicas” e pela vantagem de já serem áreas de
propriedade do governo federal. Quanto ao projeto definitivo, deveria, obrigatoriamente,
obedecer ao programa das necessidades estabelecido pelo Estado-Maior do Exército, por
intermédio da Inspetoria de Ensino do Exército. Por fim, Rabello especificava que a Pessoa
caberia o estudo do melhor meio de atender a essas necessidades. Para isso, orientaria e
737
Decreto-Lei nº 370, de 11 de abril de 1938.
738
Conforme informações do jornal Correio da Manhã, de 29 de junho de 1938, p. 1 e do Relatório do Ministro
da Guerra, 1938, p. 48.
739
Conforme Fé de Ofício de José Pessoa.
473
Imagem 83 – Vista atual dos locais em que foi construída a Escola Militar de Resende (em vermelho), hoje
Academia Militar das Agulhas Negras, e o local pretendido por José Pessoa, onde ainda se encontra a sede da
Fazenda do Castelo (em verde).
edificações. Fatores, esses, que o levaram a optar por instalar a Escola nas áreas ocupadas
pelas fazendas do Castelo, Santa Rosa e da Barra. Em seguida, deixou claro não concordar
com a grande complexidade da organização do trabalho, que ocasionava uma ampla divisão
de responsabilidades. Não lhe agradou, ainda, o fato de ficar subordinado à Diretoria de
Engenharia, a quem cabia as decisões em última instância. Dessa maneira, chegou à
conclusão de que não deveria envolver a sua autoridade e a sua responsabilidade no meio de
tantas opiniões. Contudo, deixava aberta a possibilidade de o diretor de Engenharia continuar
contando com a sua colaboração. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta V-Apêndice, p. 520)
Um outro fato que incomodava Pessoa era a quantidade de desapropriações de
residências e de prédios comerciais que a mudança do local de construção da nova Escola
causaria, principalmente no bairro Campos Elíseos. A previsão de Pessoa não estava errada, o
que se pode comprovar por algumas notícias publicadas no jornal resendense A Lyra, que
informavam as medidas tomadas pela Prefeitura de Resende para desapropriar terrenos e
casas nas cercanias da área que passaria a abrigar a Escola Militar.740 Bopp (1978, p. 340),
relata que o tabelionato de notas de Resende registrou, no ano de 1941, a aquisição pelo
Ministério da Guerra de 35 residências localizadas em Campos Elíseos para abrir espaço para
a construção da nova Escola Militar. Em 1943, o Decreto nº 12.025, de 19 de março, declarou
de utilidade pública a desapropriação de inúmeros imóveis do 2º Distrito de Resende e de ruas
adjacentes ao terreno em que se realizavam as obras da nova Escola, para que um bairro
residencial militar fosse construído. Caberia ao Ministério da Guerra efetivar a
desapropriação, totalmente ou em parte, com urgência.
A Rabello só coube lamentar a negativa de José Pessoa, a quem informou o pesar que
sentia por não ter logrado êxito com os esforços feitos para conseguir a colaboração
necessária à construção da Escola em Resende. No entanto, disse satisfazer-se em continuar a
contar com a simpatia de Pessoa à realização do grande empreendimento. (ALBUQUERQUE,
1953, Pasta V-Apêndice, p. 506)
O motivo da recusa apresentado por José Pessoa para participar dos planos de
construção da nova Escola é corroborado por Nelson Werneck Sodré que, à época, era um
jovem tenente ajudante-de-ordens de Pessoa, no comando da 9ª Região Militar, no Mato
Grosso, e a quem coube redigir a carta de resposta à Rabello. Sodré (1967, p. 185) aponta que
custou à Pessoa recusar o pedido de Rabello, ainda mais porque este era um dos mais dignos
chefes que o Exército possuía à época. No entanto, essa foi a forma encontrada por ele para
740
A Lyra, Resende, 8 fev. 1940, 5 ago. 1940 e 11 dez 1941.
475
protestar contra as deformações que o projeto original elaborado por Penna Firme havia
sofrido. Segundo o autor, que também foi o portador da carta ao diretor de Engenharia,
Rabello ficou profundamente entristecido com a recusa, mas, respeitou a decisão de Pessoa.
A partir do depoimento de Sodré (1967) fica claro, então, que o motivo da recusa de
Pessoa em participar do planejamento da nova Escola Militar foi a deturpação do projeto
original. No entanto, cabe considerar uma outra questão que pode ter incomodado José
Pessoa: o fato de o diretor de Engenharia necessitar da aprovação e da autorização do ministro
Eurico Dutra para convidá-lo a colaborar com a comissão construtora da nova Escola Militar.
Em todos os documentos de resposta a Rabello, Pessoa fez questão de deixar evidente que o
convite somente fora feito após a aquiescência do ministro da Guerra, ao grifar as frases que a
ele se referiam. Após a recusa em assumir a corresponsabilidade das obras da Escola em
Resende, Dutra enviou-lhe uma carta, na qual reconheceu que a necessidade de se construir
um novo estabelecimento de ensino militar nascera do trabalho “honesto e fecundo do
Realengo”. Também disse ver com simpatia e prazer a indicação do nome de Pessoa para
orientar os trabalhos da nova Escola. No entanto, ressaltou que o modo como a colaboração se
daria ficaria inteiramente a cargo do diretor de Engenharia. Por fim, escreveu o chefe da pasta
da Guerra: “...faço votos para que todas as dificuldades sejam aplainadas, de maneira que
possamos vos ver na execução da obra que idealizastes”. Em uma observação feita à lápis no
documento, José Pessoa considerou, inicialmente, o reconhecimento de Dutra ao seu trabalho
um “elogio velado”. Logo após, substituiu o “velado” por “tardio”. (ALBUQUERQUE, 1953,
Pasta V-Apêndice, p. 514)
Apesar da insatisfação que evidenciada com a atitude de Dutra, parece que Pessoa se
deixou convencer pelas palavras do ministro da Guerra. Dois dias depois de ter recebido a
correspondência do chefe da pasta da Guerra, enviou a Rabello um extenso documento com
uma série de considerações a respeito do novo projeto feito para a Escola Militar, o que
considerou ser uma “modesta colaboração”. Nas suas observações, José Pessoa retomou o
projeto arquitetônico original, elaborado por Penna Firme em 1932. Obviamente, a primeira
consideração foi em relação ao local escolhido para a construção do conjunto de
edificações.741 Mais uma vez, lembrou das impropriedades do terreno, que seriam agravadas
pela necessidade de se arrasar o bairro de Campos Elíseos, considerado à época o bas-fond de
Resende, se não fosse por condições de higiene, certamente seria pelo motivo de a frente da
741
A discordância em relação às mudanças feitas no projeto original elaborado por Raul Penna Firme e ao local
escolhido para abrigara a nova Escola Militar foram, também, o tema de um artigo escrito por José Pessoa para a
Revista da Escola Militar de 1938, que deu grande publicidade aos eventos que envolveram o lançamento da
pedra fundamental.
476
nova Escola ter que encostar nos quintais imundos do bairro. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta
V-Apêndice, p. 521)
Em seguida, Pessoa passou a apontar inúmeras alterações feitas no plano do conjunto
principal, que considerou inapropriadas. Lembrou da necessidade de se separar o bairro
militar do bairro residencial, o que poderia ser feito com o arroio Alambari, que serviria de
limite entre os dois. O Parque das Armas, localizado no conjunto da retaguarda, não possuía
saída própria, o que causaria o inconveniente do escoamento de tropas por dentro da Escola.
Considerou faltar ao bairro escolar e à seção de educação física a estética adequada na
distribuição das instalações. Também a forma como estariam dispostas as instalações não
permitiria a “contemplação do admirável panorama que se descortina na direção das Agulhas
Negras”. Discordou da proposta de todos os apartamentos abrigarem oito ou quatro cadetes.
Estes deveriam ser apenas para os 3º e 4º anos, a exemplo das academias norte-americanas de
Anápolis e West Point. Os cadetes 1º e 2º anos deveriam ocupara alojamentos para cinquenta
homens, “a fim de serem os calouros guiados e enquadrados pelos veteranos na nova vida
profissional”. No prédio da administração deveriam se concentrar as atividades
administrativas, escolares e militares. Ele seria o ponto dominante da Escola e se destacaria
por possuir uma torre, encimada por um grande relógio de quatro faces, semelhante ao Big
Bem, em Londres. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta V-Apêndice, p. 522-524)
Pessoa alertou para a necessidade de se construir abrigos à prova de bombas, uma
obrigação para a época, munidos de câmaras contra gases, para abrigar cadetes e oficiais em
tempos de guerra. Se fazia necessário, ainda, um sistema de defesa antiaérea da cidade
escolar. Também se ressentia da falta de um polígono de tiro para a instrução de todas as
armas e de um grupo de casas para a moradia dos sargentos e praças casados. Uma lavanderia
e uma usina elétrica de emergência deveriam ser construídas e reunidas à veterinária e às
oficinas gerais. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta V-Apêndice, p. 524)
Atentou que o bairro residencial dos oficiais não possuía grupo escolar, jardim de
infância e um campo de lazer destinados às famílias dos oficiais casados. Assim como
também era importante a construção de um edifício para a moradia dos oficiais solteiros e de
um hotel para os visitantes. Lembrou, também, que toda a cidade escolar deveria ser envolta
por um parque paisagista e interligada por uma rede rodoviária interna e que o Rio Paraíba
deveria ter um dos seus trechos preparado para os esportes náuticos. Por fim, ressaltou que o
fornecimento de energia poderia ser feito pela Light e que o abastecimento de água seria
garantido ampliando-se o reservatório geral da cidade de Resende, que se localizava nos
limites dos terrenos da Escola. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta V-Apêndice, p. 525)
477
742
A Lyra, Resende, 7 jul. 1938, p. 1.
743
Ibidem.
744
Ibidem.
478
construção foram retomados, em 1937. Concluiu a sua fala, deixando claro a preocupação que
teve em sempre ouvir os técnicos e as autoridades que sempre se interessaram pelo assunto,
especialmente José Pessoa, “incontestavelmente o pioneiro e impulsionador da ideia”.745
Ao discurso de Rabello seguiram-se o do general Pedro Cavalcanti, inspetor geral do
Ensino Militar, que também lembrou da ação fecunda e inteligente de Pessoa e o do coronel
Duque Estrada, um dos mais antigos professores da Escola Militar, que fez questão de
destacar que a ideia de se localizar em Resende a nova Escola nasceu durante o comando de
José Pessoa, cuja ação se referiu da seguinte maneira:
Ao término do discurso de Duque Estrada chegou José Pessoa, que se atrasou para o
evento. Segundo Câmara (201, p. 184), o automóvel no qual se deslocava para Resende, em
745
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 30 out. 1938, p. 1.
746
A Lyra, Resende, 7 jul. 1938, p. 1.
479
companhia de Henrique Lage, teve uma pane na Serra das Araras. Foi recebido efusivamente
pela população resendense e pelos colegas de farda. O comandante da Escola Militar, general
Mário José Pinto Guedes, pediu autorização a Getúlio Vargas para que Pessoa assinasse a ata
comemorativa. Segundo a imprensa, ele o fez visivelmente emocionado, diante do silêncio
absoluto dos presentes que assistiam “à glorificação de um herói que volta de áspera
campanha coroado pelas bençãos de um povo”.747 Apesar de todos os cumprimentos que
recebera, Sodré (1967, p. 185) aponta que Pessoa, ao final de cerimônia, confidenciou-lhe que
nada daquilo que estava sendo feito era o que havia sonhado. Daquilo que havia planejado,
quase nada restava.
Getúlio encerrou a rodada de discursos. Em sua fala, ressaltou que a nova Escola
Militar constituía uma aspiração geral de todo o Exército e uma aspiração justa e generosa de
todos os cadetes, de todos os professores e de todos os seus comandantes, dos quais
destacava-se José Pessoa. Ressaltou que o novo instituto de educação militar a ser construído,
cujo plano de execução teve que vencer várias vicissitudes e extremas dificuldades, era uma
realização do Estado Novo, que, contando apenas com um pouco mais de meio ano de
existência, já apresentava um patrimônio e um acervo de grandes realizações. Lembrou que o
novo regime, instituído por um movimento que “encontrou a maior ressonância na opinião
pública do País e na adesão de suas classes populares”, sentia-se cada vez mais apoiado pelas
Forças Armadas, que buscavam, naquele momento, aparelharem-se para exercerem a sua
grande missão cívica e moral. Terminou exigindo de cada cidadão ali presente “o
compromisso do devotamento contínuo e permanente pela prosperidade e pela grandeza do
Brasil”. Ao término das palavras do presidente a urna de metal contendo os documentos da
época foi soldada pelo funcionário Benedito Nunes, da Prefeitura Municipal de Resende. Com
uma pá de prata conduzida pelo general Rabello, Getúlio Vargas lançou a primeira porção de
cimento que lacrou o receptáculo que a recebeu, sendo essa a última atividade da
cerimônia.748
747
Ibidem.
748
Ibidem.
480
749
A Lyra, Resende, 7 jul. 1938, p. 4.
481
Imagem 86 – Desfile dos cadetes no Centro de Resende e a homenagem a José Pessoa (indicado pela seta), 29
jun. 1938.
Durante os quase seis anos que durou a construção das instalações da nova Escola
Militar, José Pessoa fez cinco visitas às obras em Resende, entre os anos de 1940 e 1943750, a
convite do general Luiz de Sá Affonseca, que assumiu a chefia da comissão de construção em
1940, no lugar do coronel Waldomiro Pereira.751 No retorno de cada visita, e em outras
ocasiões, sempre que achava necessário, enviava uma carta a Affonseca, com observações e
sugestões de modificações e melhorias.
A primeira visita aconteceu em julho de 1940752, em companhia do diretor de
Engenharia do Exército, general Manoel Rabello. Na ocasião, Pessoa percorreu todas as
edificações em construção, analisou as plantas e ratificou, perante os oficiais da Comissão
Especial de Obras, as propostas de mudanças já feitas à Rabello, por ocasião do convite que
recebera para colaborar com o empreendimento em 1938. Em abril de 1941, em uma carta
enviada a Affonseca, anexou fotografias da academia norte-americana de West Point, para
orientar a estética do edifício central. Lembrou, ainda, que era uma instalação que se
destinava à juventude. Portanto, não deveria ser luxuosa e, sim, austera e de bom gosto, a fim
de se criar uma mística em torno dos fatos proeminentes da história e da memória dos grandes
soldados do Exército e da Nação. No mês seguinte, uma nova correspondência chamava a
atenção do chefe da comissão de construção para a localização da torre que abrigaria o relógio
750
De acordo com as informações de: Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 31 jul. 1940; A Lyra, Resende, 8 ago.
1940 e 17 abr. 1941; Albuquerque, 1953, Pasta V-Apêndice.
751
Em janeiro de 1940, a Comissão Construtora da Escola Militar foi dissolvida pelo ministro da Guerra, sendo
o coronel Waldomiro Pereira dispensado da função. No seu lugar foi criada a Comissão Especial de Obras de
Piquete e Resende, que unificou a direção das obras da Fábrica de Pólvora de Piquete e da nova Escola Militar.
Para a sua chefia foi nomeado o general Luiz de Sá Affonseca. A Lyra, Resende, 1 fev. 1940, p. 1.
752
A Lyra, Resende, 8 ago. 1940, p. 1.
482
“tipo Big-Ben”, que deveria estar em uma posição mais centralizada em relação ao conjunto
principal, para que pudesse também ser vista pelos moradores de Resende, já que a cidade
precisaria, no futuro, ajustar-se aos horários da nova Escola. E, novamente, ressaltou que o
conjunto de construções, dividido em três grupos distintos – local onde os cadetes viveriam,
local em que trabalhariam e local em que recreariam –, não devia primar pelo luxo, mas
atender à natureza clássica de uma moderna academia militar. Segundo Pessoa, todas as
correções deveriam ser feitas com vistas no futuro, acompanhando-se o progresso das
construções pedagógica e científica, sob pena de, em poucos anos, a nova Escola tornar-se
obsoleta, necessitando de “remendo, ampliações ou modificações”. (ALBUQUERQUE, 1953,
Pasta V-Apêndice, p. 526-531)
Nem todas as sugestões feitas por Pessoa, no entanto, eram atendidas. Na carta que
enviou a Affonseca em 7 de julho de 1941, reclamou, de forma sutil, da não aceitação da sua
proposta de mudança dos locais em que seriam construídos a biblioteca e o rancho dos
cadetes. Lembrou, também, que era o momento de se começar a pensar nos ornamentos da
nova Escola, a começar pelo salão nobre, que deveria conter apenas duas decorações
artísticas: as telas A descoberta do Brasil, de Joaquim da Rocha Ferreira, e Proclamação da
Independência, de Pedro Américo. As paredes da biblioteca deveriam conter uma galeria dos
grandes generais do Exército, o que serviria de estímulo à juventude militar. No gabinete do
comandante ficariam apostas séries com os retratos dos chefes de estado, desde o Império, e
dos ex-comandantes da Escola, desde a sua fundação. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta V-
Apêndice, p. 532-534)
Nas três últimas cartas enviadas ao chefe da Comissão de Obras, nos meses de outubro
de 1941 e maio de 1943, Pessoa deu uma atenção especial ao Panteão de Caxias. Opinou, e
mudou de opinião, sobre o local em que a monumental edificação deveria ser construída, em
estilo clássico romano, para harmonizar com o conjunto arquitetônico da Escola. Sugeriu
também algumas modificações no monumento, dentre as quais: trocar o cavalo em que Caxias
estaria montado por um mais fogoso; desembainhar e perfilar a espada do Duque; gravar nas
paredes externas do monumento, como faziam os antigos, certas inscrições simbólicas; o
sarcófago que conteria as cinzas de Caxias deveria ser feito em mármore verde do Paraná e
repousar sobre as estátuas de seis praças de bom comportamento, a exemplo do que fora o
enterro do Duque; e a sala do relicário, além dos objetos pessoais de Caxias, deveria conter as
cinzas da Duquesa. Outro ponto frisado por Pessoa foi o paisagismo da Escola. A arborização
estava sendo feita de forma indiscriminada, misturando-se plantas de espécies diferentes.
Havia a necessidade de se plantar árvores nas áreas próximas ao rancho e ao edifício central
483
da Escola, para proteger aquelas instalações dos raios solares e propiciar locais agradáveis de
estudo para os cadetes. Também a praça que dava acesso à Escola deveria ter um aspecto
militar mais acentuado, com canhões históricos dispostos à sua volta. (ALBUQUERQUE,
1953, Pasta V-Apêndice, p. 536-543)
Imagem 87 – Planta de situação da nova Escola Militar publicada no Jornal do Brasil, 24 ago. 1941.
No conjunto arquitetônico da nova Escola Militar, ou, como queria José Pessoa, da
Academia Militar das Agulhas Negras, um grandioso monumento a Caxias deveria ser
erguido. O Panteão a Caxias foi, inclusive, previsto por Penna Firme no projeto original. Para
Pessoa, o Panteão encerraria toda a mística criada para substituir as ideias filosóficas da velha
Escola e a sua construção era condição essencial para que o novo estabelecimento de ensino
militar fosse a obra perfeita de civismo. O monumento seria ornado em toda a sua volta por
vitrais representativos da vida do Duque. Por eles, os primeiros e últimos raios de sol do dia
se projetariam sobre um sarcófago que guardaria os restos mortais do patrono do Exército.
Sobre o pórtico de entrada seria gravada a inscrição: “Caxias foi grande aos olhos do seu
século; maior será ainda aos olhos da posteridade”. Teria os ares de um recanto sagrado,
retirado em um local de plena quietude, para que pudesse ser visitado por todos os que
484
753
Relatos memoriais sobre o Panteão à Caxias. Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.04.12.
754
Ibidem.
485
Cabe neste ponto abrir um parêntese para se tecer algumas breves considerações sobre
Henrique Lage, considerado um grande benemérito na construção da nova Escola Militar.
Lage nasceu no Rio de Janeiro, em 14 de março de 1881. Era filho de Antônio Martins Lage
Filho, um influente comerciante de carvão de pedra, reboques e trapiches, que iniciou seus
negócios no final do Império, em sociedade com os irmãos, no Rio de Janeiro. Em 1891,
favorecido pela importância que a navegação de cabotagem ganhava no País e pela nova
legislação sobre sociedades anônimas, Antônio Lage fundou aquele que viria a ser o mais
importante negócio da família Lage: a Companhia Nacional de Navegação Costeira.
(RIBEIRO, 2007, p. 27-34)
Com a morte do pai, em 1918, Henrique Lage entrou na sociedade da Lage Irmãos ao
lado dos tio Renaud e Frederico, passando a ser o principal administrador da empresa. Nos
anos seguintes, ampliou os seus negócios ao criar duas companhias de seguros, a Lloyd Sul
Americano, em 1919, e a Lloyd Industrial Sul Americano, em 1920. A partir de 1919
investiu, ainda, na indústria siderúrgica, na exploração de carvão, manganês e mármore, em
Minas Gerais, e no setor bancário, com a fundação do Banco Sul do Brasil, com sede no Rio
de Janeiro e matriz em Florianópolis. No segmento de construção Civil, fundou a Companhia
Nacional de Construções Civis e Hidráulicas, e chegou a aventurar-se no setor da aviação,
com a construção de dois aviões em parceria com as firmas inglesas Blackburn e Bristol.
(RIBEIRO, 2007, p. 126-136)
Durante a Revolução de 1930, Henrique Lage foi preso, uma retaliação de alguns
líderes do movimento revolucionário por ter se negado a contribuir com um navio para a
caravana do pré-candidato Getúlio Vargas. A verdade é que Lage não simpatizava com
nenhum dos lados, já que possuía amigos nas duas facções. Ceder um navio para Vargas era
uma clara demonstração que aderira à causa revolucionária, o que poderia prejudicar os seus
negócios com o governo. Por uma intervenção do seu auxiliar Pedro Brando junto ao general
Tasso Fragoso, Lage foi solto. Entretanto, a possibilidade de uma nova prisão o levou a asilar-
se politicamente na embaixada do México, na Capital Federal, partindo logo em seguida para
a Europa, deixando seus auxiliares no comando dos seus negócios. (RIBEIRO, 2007, p. 163-
164)
A situação econômica pós-revolução de 1930 afetou diretamente as empresas de Lage,
para o bem e para o mal. A desvalorização cambial impactou negativamente as finanças da
Companhia Costeira, devido à elevação dos preços dos produtos importados e às dívidas
contraídas junto aos estaleiros ingleses, quando da compra de navios nos anos 1920. Por outro
lado, os negócios do setor carbonífero foram favorecidos, já que o aumento do preço do
486
carvão importado despertou no governo uma maior atenção para a indústria nacional de
carvão. O incentivo de Vargas à indústria aeronáutica levou Lage, em 1935, a fundar a
Companhia Nacional de Navegação Aérea, destinada a projetar, construir e vender aviões,
treinar pilotos e executar serviços de transportes aéreos. Entre 1935 e 1941, a sua empresa
aeronáutica projetou, fabricou e vendeu para o Exército brasileiro vários modelos diferentes
de aviões. (RIBEIRO, 2007, p. 165,0169, 172-176)
Segundo Ribeiro (2007, p. 228-230), o apoio dado por Getúlio à industrialização do
País, na segunda metade dos anos 1930, particularmente durante o Estado Novo, fez com que
ele se aproximasse do empresariado nacional, dentre eles Henrique Lage, apesar do incidente
ocorrido nos primeiros dias da Revolução de 1930. Na implantação do novo regime, em 1937,
Lage apoiou Getúlio, o que fez com que os dois se aproximassem. As atividades
desempenhadas por Lage o aproximaram, também, dos militares da Marinha e do Exército
brasileiros, dentre os quais fez grande amigos e admiradores. Em 1938, o empresário se
tornou o primeiro civil a receber a Ordem do Mérito Militar, no grau de oficial, recebendo a
comenda diretamente das mãos de Vargas.
Lage comparecia a solenidades e concedia prêmios aos cadetes mais bem classificados
em cada curso. Era presença constante nas cerimônias de entrega dos espadins e de formatura
das turmas de aspirantes. A atenção que dispensava ao Corpo de Cadetes rendeu-lhe uma
homenagem da Escola Militar em janeiro de 1934, quando uma tela pintada à óleo de sua
imagem foi inaugurada no cassino dos cadetes. Na nota publicada em boletim escolar757 sobre
o evento, do qual participaram todos os oficiais da Escola, José Pessoa agradeceu o “especial
carinho e a grata amizade” que Lage e os seus antepassados nutriam pelos cadetes do Brasil e
destacou a figura do homenageado citando-o como um “ilustre e operoso industrial
brasileiro”.
755
Todos os navios da Companhia de Navegação Costeira eram batizados com nomes que iniciavam com a
palavra tupi “Ita”, que significa pedra, ficando, assim, popularmente conhecidos por “Itas”: Itabira, Itatyaia,
Itaúna, Itapeva, Itacolomy, etc.
756
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 23, de 27 jan. 1932, p. 175.
757
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 12, de 15 jan. 1934, p. 84.
488
758
A partir de 1951, a Taça Lages passou a ficar soba a égide do Conselho Desportivo das Forças Armadas, que
passou a chamar-se Comissão Desportiva das Forças Armadas (CDFA) em 1956. Em 1962, o general Floriano
Machado, presidente da CDFA, determinou que, a partir daquele ano, seria adotada a sigla NAVAMAER para
caracterizar a competição desportiva entre as escolas de formação das três Forças Armadas. Informações
retiradas do site do Exército Brasileiro, 2021.
759
Boletim Escolar Nº 59, de 13 de março de 1943, da Escola Militar do Realengo.
489
760
Gabriella Besanzoni era cantora lírica. Henrique Lage a conheceu em 1918, ao assistir, no Brasil, uma ópera
na qual a cantora se apresentou. O casamento somente veio a ocorrer em 1925, depois de finalizado o processo
de divórcio entre Lage e a norte-americana Lillian Agnes Whitman, com quem havia se casado em 1906, nos
EUA, e se separado em 1909. Ribeiro (2007, p. 145).
490
Vendo-se privada do patrimônio que o marido havia lhe deixado, é possível que, anos
mais tarde, Gabirella Besanzoni tenha recorrido ao auxílio de José Pessoa. Nos documentos
do arquivo pessoal de Pessoa, há a cópia de uma carta escrita por ele, em 14 de junho de
1945, e endereçada a Getúlio Vargas, por meio da qual intercede em favor da viúva. Nela,
argumentou achar justo que, por meio de decretos, se tivesse incorporado ao patrimônio
nacional os bens das empresas e o espólio de Henrique Lage necessários ao pagamento dos
empréstimos contraídos pelo empresário junto ao governo. Porém, não achava direito o a
venda, em leilão público, dos bens de propriedade individual de Lage. Disse que o espólio
restante, do qual o governo não necessitava, merecia todo o respeito e atenção das autoridades
e constituía-se em bens invioláveis da viúva. Diante de tal atitude, Pessoa alegou sentir-se
inseguro em relação ao futuro dos bens que adquiriu ao longo de sua carreira, que poderiam
ter a mesma “dolorosa sorte” do patrimônio de Henrique Lage. Finalizou pedindo a Getúlio
que mandasse devolver ao juiz competente o inventário dos bens que não foram incorporados
ao patrimônio da União, para que fosse devolvido a Gabriella o que era de sua propriedade
individual, não ficando, assim, a viúva e sua filha de criação desamparadas. 761
Com a derrubada de Vargas do governo, em outubro de 1945, Pessoa escreveu outra
carta, em 28 de dezembro de 1945, com o mesmo teor da que havia escrito a Vargas. Dessa
vez, a correspondência foi endereçada a José Linhares, presidente do Supremo Tribunal
Federal, que havia assumido a Presidência da República.762
As cartas de Pessoa não surtiram o efeito desejado. Segundo Ribeiro (2007, p. 268-
269), em 1946, a indenização pela encampação do espólio de Henrique Lage, paga em títulos
da dívida pública, foi dividida, em proporção definida em inventário, aos herdeiros de Lage.
Somente Gabriella não recebeu a sua parte, já que a naturalização brasileira lhe havia sido
negada diversas vezes pela justiça brasileira.
Ribeiro (2007, p. 267) aponta que o decreto que incorporou as empresas de Henrique
Lage à União previa a nomeação de um superintendente de confiança do governo federal, o
que coube a Pedro Brando, que, em meio à disputa sucessória do comando da Organização
Henrique Lage (OHL), rompeu relações com Gabriella, o que é um fato curioso, já que, em
maio de 1948 e em setembro de 1949, José Pessoa enviou duas cartas à viúva de Lage,
tecendo considerações a respeito da OHL, a convite dela.
Ao analisar-se o texto da primeira, fica evidente que a viúva de Henrique Lage
recorreu a José Pessoa para orientá-la quanto à reestruturação da Organização Henrique Lage.
761
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.08.06.
762
Ibidem.
491
763
Ibidem.
764
Ibidem.
765
Informações retiradas da reportagem sobre a vida de Marina Colasanti, publicada em 5 out. 2016, no site
100Nonni. Disponível em: [Link] Acesso em: 13 jul. 2020.
766
Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, 20 jul. 1962, p. 9.
492
767
Informações retiradas do artigo sobre a Escola Militar de Resende escrito por Mário Travassos para a edição
especial dos 200 Anos de Resende do jornal A Lyra, em 1944.
768
Ibidem.
769
Informações colhidas do jornal Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 1 out. 1943, p. 1.
493
770
Ibidem.
771
O destacamento precursor que viajou para Resende era composto dos seguintes oficiais e cadetes: capitão de
Infantaria Germano Travassos (filho do coronel Mário Travassos), comandante do destacamento; segundo-
tenente de Intendência Jorge Novaes Bannitz; cadetes Darcy Duarte de Siqueira, Davi José Fernandes,
Emygdio Pinto, Fritz de Castro Eisenlohr, Gil Bollmann, Hilton da Silva Laranjeira, Jair Cordeiro Seabra,
João Florentino Meira de Vasconcelos, Luiz Castelliano de Lucena, Mário Roca Diegues, Oyama Olyntho de
494
viagem, um tanto pitoresca, demorou cerca de um dia e meio, quando o tempo normal de
deslocamento ferroviário entre Realengo e Resende, à época, era de cerca de 5 horas. Vários
fatos contribuíram para o atraso, desde o longo tempo de espera na conexão feita na estação
de Belém (hoje Japeri), que demorou das 6 horas do dia 5 de março até o amanhecer do dia 6
de março, até a queda de barreiras em um túnel sob a estrada Rio-São Paulo, ocasião em que
os cadetes tiveram que abandonar o confortável vagão da 1ª classe para seguirem viagem
sentados sobre as malas, em uma prancha de transporte de cargas. Um fato curioso é que os
integrantes do grupo precursor realizaram a viagem toda praticamente em jejum. Haviam
tomado o café da manhã à 1:00 do dia 5 e a previsão da chegada ao destino deveria acontecer
antes do almoço. O longo tempo de espera na estação de Belém levou os cadetes a pedirem
auxílio ao dono de um estabelecimento comercial que somente tinha a lhes oferecer uma lata
com um pouco de banha e arroz, com o que improvisaram um parco almoço.
A chegada em Resende se deu às 16:00 do dia 6 de março. À espera dos cadetes
estavam Mário Travassos e alguns oficiais da Escola Militar. Após tomarem banho, seguiram
para o refeitório da nova Escola, ficando maravilhados com o mármore que cobria as paredes
e o pé direito muito alto da instalação, com as toalhas de linho e os talheres de prata e com os
maîtres que trajavam smoking e os garçons todos uniformizados. E a comida que, para quem
não comia há dois dias, estava maravilhosa. No entanto, ao chegarem ao local onde
pernoitariam, não havia camas. Por “sugestão” do capitão Travassos, usaram os tacos do piso
como estrado para os colchões.
No alvorecer do dia 7, os cadetes foram organizados em turmas de trabalho e passaram
a auxiliar os três marceneiros da fábrica Kastrup, do Paraná, a realizarem a montagem de todo
o mobiliário dos 50 apartamentos, das 5 alas que alojariam os 600 cadetes da primeira turma
de Resende. Carregaram e montaram as camas, armários, cadeiras, mesas de estudo e toaletes
com espelhos que estavam desmontados em caixotes de madeira. Como reconhecimento pelo
comando da Escola foram elogiados em Boletim Escolar e instituídos donatários do canteiro
central na entrada do pavilhão principal da Escola. Também esteve ao encargo do grupo o
primeiro serviço de guarda tirado nas novas instalações772, no dia 11 de março. Os nomes dos
componentes da primeira guarda estão imortalizados em bronze, no portão de entrada da
Almeida, Roberto Rébula, Salvador de Barros, Thomaz de Aquino Moraes e Zofiel Gouveia de Mattos.
Faziam parte do grupo, ainda, um funcionário civil e um papagaio falador. Destacados em negrito estão os
nomes dos coronéis que assinaram o registro feito em 1997.
772
A guarda do dia 11 de março de 1944 estava assim composta: capitão de Infantaria Francisco de Assis
Bezerra, Superior de Dia; cadete Fritz de Castro Eisenlohr, Adjunto à Escola; cadete Mário Roca Diguez,
Comandante da Guarda; cadetes Gil Bollman e Luiz Castelliano de Lucena, Cabos da Guarda; e cadetes Davi
José Fernandes, Thomaz de Aquino Moraes, Salvador de Barros, Roberto Rébula e João Florentino Meira de
Vasconcellos, Sentinelas. Conforme o relato dos remanescentes de 1944, em 1997.
495
AMAN. Os cadetes que não foram escalados para o serviço prosseguiram na montagem dos
móveis.
Imagem 92 – Chegada dos cadetes do 1º Ano na estação ferroviária de Resende, 11 mar. 1944.
773
Conforme a narrativa do coronel Mário Travassos feita na edição especial do jornal A Lyra, de 1944,
comemorativa aos 200 Anos de Resende. Também deram destaque ao fato as edições de 14 de março de 1944
dos jornais Correio da Manhã, O Jornal, Jornal do Brasil, Gazeta de Notícias, Diário da Noite e Diário
Carioca.
497
774
Assim passou a ser chamado o cadete mais jovem de cada turma que ingressa no 1º Ano da AMAN. Esse
cadete tem a responsabilidade de guardar consigo a chave do portão de entrada dos novos cadetes até a
solenidade de entrada do ano seguinte, quando a passa para o novo “claviculário”.
775
Conforme a narrativa do coronel Mário Travassos feita na edição especial do jornal A Lyra, de 1944,
comemorativa aos 200 Anos de Resende e o publicado na edição do Correio da Manhã de 22 de março de 1944,
p. 2.
498
Imagem 94 – Entrada dos cadetes do 1º Ano pelo “portão dos novos cadetes” da Escola
Militar de Resende, 20 mar. 1944.
A nova Escola Militar, ainda inacabada, porém, não possuía um busto do maior
personagem histórico do Exército brasileiro, aquele cuja imagem deveria servir de inspiração
à juventude militar durante toda a sua carreira: o Duque de Caxias. Desse modo, José Pessoa,
à época à frente da Inspetoria de Cavalaria do Exército, decidiu doar à Escola um busto de
bronze do insigne marechal776.
O dia escolhido por Pessoa, não por acaso, para a entrega do busto de Caxias à Escola
Militar de Resende marcava a data de início do funcionamento da Academia Real Militar no
Brasil, em 1811: 23 de abril. Acompanhado do Inspetor de Ensino do Exército, general Pinto
Guedes – como ele, ex-comandante da Escola do Realengo –, e de sua família, chegou a
Resende antes das 6:00, em carro especial da Central do Brasil. Foi recebido na Escola pelo
coronel Mário Travassos, cumprimentou os oficiais e assistiu a um desfile do Corpo de
Cadetes. Depois de visitar as dependências do estabelecimento de ensino, proferiu um longo
discurso aos cadetes, que se encontravam reunidos em torno do busto ofertado de Caxias.777
Iniciou a sua fala rememorando o surgimento da cavalaria nos tempos medievais e a
criação da Academia Real Militar nos anos 1810, dois motivos memoráveis que glorificavam
776
O busto de Caxias doado por José Pessoa à Escola Militar de Resende, encontra-se, hoje em dia, na entrada
do Corpo de Cadetes da AMAN.
777
Conforme informações do Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 24 abr. 1944, p. 2 e a autobiografia de José
Pessoa, Pasta IV, 1953.
499
a solenidade que acontecia naquela data. Em seguida, ressaltou que, já que os cadetes eram
“os fiéis cruzados das esperanças do Exército”, o busto estava sendo ofertado em nome da
Cavalaria brasileira. Dessa forma, Caxias, guia e inspirador da juventude militar, ficaria
materializado entre os cadetes das Agulhas Negras, como Washington estava para os cadetes
de West Point e Napoleão para os de Saint-Cyr.778
Ao longo de seu discurso, lembrou dos esforços que havia realizado desde 1931 para
que a construção da nova Escola se tornasse uma realidade. Uma vez construída, faltava-lhe,
entretanto, “criar-lhe a fama”, cabendo aos cadetes “manter, em todos os tempos, não só a
disciplina e a reputação desta Academia, senão também o determinismo de invencibilidade,
que é a glória suprema daquele que é o maior de nossos generais – Luiz Alves de Lima e
Silva”. Lembrou que a Escola Militar sempre foi um grande centro de idealismo e de devoção
ao interesse público e que os grandes movimentos da história política do Brasil – Abolição da
Escravatura, Proclamação da República, a consolidação do Florianismo e a Revolução de
1930 – sempre contaram com a coragem e o patriotismo da juventude militar. Para Pessoa, foi
graças a esse passado glorioso que a Escola Militar se elevou no conceito da Nação e de todos
os governos brasileiros, o que teria motivado Getúlio Vargas a fundar a moderna Academia
Militar de Resende. Segundo ele, se até aquele momento, as escolas militares brasileiras não
haviam revivido o prestígio da Academia Real Militar, mas a partir daquela data o novo
estabelecimento militar inaugurado em Resende teria condições de formar uma elite capaz de
responder pela defesa da Pátria e conservar as glórias militares.779
José Pessoa lamentou, entretanto, que o nome dado à nova Escola não tivesse um
“significado nacionalista”, que lembrasse a natureza exuberante do País ou que encerrasse um
dos nomes “imarcescíveis da história pátria”, como “um talismã a guiar a sua existência
criadora”. Referia-se ao nome proposto por ele para batizar a Escola em Resende: Academia
Militar das Agulhas Negras. Uma escolha que, segundo ele, não teria sido arbitrária, por
evocar a grandeza do maciço localizado em Itatiaia. E destacou que, apesar de não ter sido o
nome escolhido pelas autoridades militar da época, havia sido consolidado pela imprensa,
pelo Exército e pela Nação. Antes e concluir o seu discurso, Pessoa, ainda teceu algumas
considerações sobre a Segunda Guerra Mundial e os preparativos da Força Expedicionária
Brasileira que seria enviada para os campos de batalha europeus.780
778
Ibidem.
779
Ibidem.
780
Ibidem.
500
Um fato pitoresco é que nessa mesma data tentou-se introduzir uma nova tradição
dentre as tantas solenidades realizadas na Escola Militar: a cerimônia do sino. Esta consistia
em comemorar-se a passagem da data de instalação dos cursos militares no Brasil, por meio
do toque de um sino fundido em 1811. Após a leitura da Carta Régia que criou os cursos
militares, enquanto os presentes prestavam continência, uma badalada do sino foi dada para
cada geração que já havia passado pela nova Escola Militar.781 Não foram encontrados
registros de quantas vezes a tradição foi repetida, mas, o certo é que ela não perdurou no
tempo. Câmara (2011, p. 210) aponta que em 1978 tentou-se resgatar a solenidade. Porém, o
sino de 1811 não foi encontrado no museu da AMAN.
Dadas como concluídas as obras complementares, finalmente a Escola Militar de
Resende foi inaugurada em 10 de novembro de 1944. Nessa mesma data, escolhida não ao
acaso782, já que marcava o sétimo aniversário da Constituição de 1937, realizou-se a entrega
de espadins aos 401 cadetes que haviam sido aprovados no temido “carro de fogo”, que havia
retornado com a anulação do Regulamento de 1934. Os cadetes que não fossem aprovados
eram desligados da Escola. Presidida pelo general Pinto Guedes, diretor de Ensino do
781
Ibidem.
782
Cabe lembrar que a entrega dos espadins, instituída por José Pessoa em 1931, acontecia tradicionalmente nos
meses de agosto ou setembro.
501
Exército, mais alta autoridade presente, a solenidade contou com a presença de inúmeras
autoridades civis e militares e com um grande número de populares. O Jornal do Commercio,
que noticiou a cerimônia, informou que cerca de 1.300 pessoas se deslocaram por via férrea
da Capital Federal para Resende, a fim de participar do evento.
Imagem 96 – Conjunto principal e entrada da Escola Militar de Resende vista da sala do Comandante (ao fundo,
os bairros residenciais), 1944.
Na ocasião, a Escola Militar foi agraciada pela comunidade resendense com uma
Bandeira Nacional, oferecida pelos comerciantes, industriais e produtores rurais de Resende, e
com um novo estandarte do Corpo de Cadetes, ofertado pelas senhoras resendenses, tendo
sido entregue pela senhora mais idosa da cidade, Emília Santa Rosa, com 100 anos de idade.
Medalhas de prata e de bronze, comemorativas à inauguração da Escola, foram entregues às
autoridades militares e civis presentes, ofertadas pela municipalidade resendense. Mesmo não
estando presente à cerimônia, José Pessoa foi agraciado e lembrado pelo Prefeito Municipal,
Otacílio Assunção. A solenidade de 10 de novembro serviu, ainda, para realizar a passagem
do comando da Escola, do coronel Mário Travassos ao coronel Antônio Alves de
Magalhães.783
783
Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 12 nov. 1944, p. 6.
502
8.2 A polêmica em torno do nome: Escola Militar de Resende ou Academia Militar das
Agulhas Negras?
No discurso que José Pessoa fez na Escola de Resende, em 23 de abril de 1944, por
ocasião da doação do busto de Caxias, é possível se perceber a insatisfação do idealizador da
nova Escola com o nome que lhe foi atribuído, sendo que, ao longo de sua fala, a ela se
referiu como Academia Militar diversas vezes. Antes mesmo de ser criada por meio de
decreto, a nova Escola de Resende já havia sido batizada pelo ministro da Guerra com o nome
784
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 7 fev. 1945, p. 3; Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 12 ago. 1945, p.6.
503
da cidade que lhe abrigaria785. Em 23 de julho de 1943, Pessoa enviou um ofício ao ministro
Dutra, ponderando a escolha do nome. Nele, apresentou as razões de sua discordância.
A primeira delas, estava intimamente ligada à excursão a pé que fizera ao maciço das
Agulhas Negras, em setembro 1931, quando recolheu no cume da serra de Itatiaia a lasca de
cianita que pretendia lançar ao terreno como pedra fundamental da nova Escola em 1933.
Nessa ocasião, segundo Pessoa, teria nascido a mística em torno do nome que deveria ser
dado ao novo estabelecimento de ensino.
Razões poderosas houve que influíram para a designação de Academia Militar das
Agulhas Negras, dada à nossa Escola de Formação, desde a última fase, e pela qual
ficou conhecida de todos, merecendo o beneplácito da opinião pública nacional. Em
na verdade, não foi arbitrária essa escolha, nem produto de qualquer injunção, mas
se impôs como uma feliz inspiração apoiada nas galas da natureza portentosa, desde
a ocasião em que eu, então comandante da Escola Militar, e mais alguns camaradas,
procurando uma região propícia para localizar a nova Escola, galgamos, ao cabo de
longa jornada, o cume das Agulhas Negras, na serra de Itatiaia. Contemplando aulas
alturas, o cenário majestoso da natureza, observamos, como verdadeiro símbolo,
eriçado para os céus, traços muito escuros, com que a água das chuvas sulcara a
montanha, num gigantesco trabalho de erosão, que a pátina dos tempos enegrecera:
eram as Agulhas Negras.
Assim foi que nasceu a mística do nome dado ao novo estabelecimento de ensino do
Exército, adstrito a esse majestoso acidente geográfico; foi com esse nome que a
ideia sofreu os embates das vicissitudes, foi com ele que a mesma se impôs ao fim
de tudo; não podemos esquecê-lo, pois foi ele a bandeira com que lutamos e
vencemos a fraqueza de espírito de alguns e o pessimismo de muitos. 786
José Pessoa lembrava, ainda, ao ministro da Guerra que, desde 1930, o acidente
geográfico já figurava no brasão d’armas da Escola Militar do Realengo, no estandarte do
Corpo de Cadetes e nas lâminas dos espadins dos cadetes, tudo justificado e aprovado pelo
chefe do Governo Provisório. Dessa forma, o simbolismo das Agulhas Negras jamais deixaria
de fazer parte da história do estabelecimento de ensino.
O segundo motivo estava ligado à origem do nome da cidade que abrigaria a nova
Escola Militar: a homenagem ao Conde de Resende.
785
O nome Escola Militar de Resende foi atribuído por meio de aviso ministerial, publicado no Boletim Interno
nº 763 da Secretaria Geral do Ministério da Guerra, de 14 de julho de 1943.
786
Ofício nº 180, do inspetor da Arma de Cavalaria ao ministro da Guerra, de 28 de julho de 1943. Disponível no
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV), JPag1936.05.19.
504
Guiado por essa ideia [um nome ligado à natureza da Pátria], propusemos, desde o
início, o batismo de Academia Militar das Agulhas Negras, às instalações de
Resende: primeiro por tratar-se duma escola de ensino superior; segundo, por
lembrar o nome do grande acidente geográfico, que, como verdadeiro talismã, guiará
doravante os destinos do nosso novo instituto de formação; finalmente, quando já
não fosse o nosso dever de acatamento à tradição, para conservar a analogia com seu
primitivo nome – Academia Real Militar. O nome de Academia seria ainda um belo
gesto de irmandade à sua congênere americana – Academia Militar de West Point - ,
que serviu de modelo à sua maior reforma e de padrão às suas novas edificações às
margens do Paraíba.
O que propusemos e projetamos foi de fato uma academia militar, com as
características de uma cidade universitária, que exigiria alguns anos para ser
construída, mas cumpriria o programa de séculos de preparação elites de verdadeiros
militares, construtores da grandeza do Brasil.
........................................................................................................................................
Mas, aqueles que mais combateram a ideia da construção da nova Escola,
recusaram-lhe aquele nome e lhe batizaram ainda com um nome esdrúxulo que é
uma injúria à nossa história e à gratidão nacional. E o batismo de Resende causou
espécie ao Exército e foi recebida sem entusiasmo pela opinião pública, levando-se a
apelar às autoridades superiores sobre o lançamento do nome do novo
estabelecimento de ensino, apelo vazado em termos que esperavam resposta e
solução mais compatíveis com o patriotismo.
Entretanto, no aviso, o titular da guerra crismou com o nome Escola Militar de
Resende o novo estabelecimento de ensino militar.788
Pessoa tinha razão quanto à indiferença da população em relação ao nome com que
fora batizada a nova Escola Militar. Não só da população, como também da imprensa. Em
uma consulta aos jornais cariocas publicados nos anos subsequentes ao decreto de criação da
Escola Militar de Resende, foi possível perceber que os periódicos, de uma maneira geral,
referiam-se ao novo estabelecimento de ensino como Escola Militar das Agulhas Negras,
dando, dessa maneira, crédito ao que idealizara José Pessoa.
Em uma correspondência trocada com Mário Travassos, dois meses antes da decisão
ministerial, Pessoa informou ao comandante da Escola Militar sobre os esforços que vinha
787
Ibidem.
788
Artigo enviado em 14 de julho de 1943 à Revista da Escola Militar, conforme consta na Pasta IV da
Autobiografia de José Pessoa.
505
realizando para mudar o nome da cidade de Resende para Agulhas Negras, o que implicaria o
batismo da nova Escola com a mesma denominação. E sugeriu, caso não lograsse sucesso na
reforma da toponímia, que fosse utilizado o título Escola Militar Duque de Caxias, “como
capaz de dar ao novo estabelecimento o valor simbólico necessário, com a vantagem de se ter
um título inatacável”.789
Apesar de todo o esforço empreendido, manteve-se o nome de Escola Militar de
Resende até 1951, quando, por meio de um decreto presidencial790, José Pessoa, já afastado
do serviço ativo do Exército, viu um dos seus últimos desejos ser atendido: a mudança da
denominação da Escola Militar para Academia Militar das Agulhas Negras, uma homenagem
ao 140º aniversário de sua fundação. Na exposição de motivos que fez, quando da propositura
do decreto, o general Newton Estillac Leal, ministro da Guerra à época, destacou, dentre
outras coisas, a ação empreendedora de Pessoa à frente da equipe de “patriotas e idealistas”
que realizaram os primeiros estudos para a construção de uma nova Escola Militar, o que
resultou nas instalações erguidas em Resende. Lembrou que foi durante o governo de Vargas
no Estado Novo que a obra grandiosa foi concluída. Porém, a escolha do nome do
estabelecimento de ensino pelo ministro da Guerra da época não fez jus ao que havia proposto
a primitiva comissão planejadora e construtora. Sendo assim, disse Estillac Leal ser justo que,
durante o novo governo de Vargas, fosse efetivado o anseio do Exército brasileiro de se
efetivar a mudança do nome da Escola de Resende para Academia Militar das Agulhas
Negras.791
Da análise que se faz dos arquivos pessoais de José Pessoa, não há qualquer indicação
dos motivos que levaram Estillac Leal a “ressucitar” a questão do nome da Escola Militar de
Resende, sugerindo a Vargas uma mudança intempestiva, como aconteceu. Entretanto,
Peregrino (1985, p. 24) aponta que a iniciativa da solicitação da mudança do nome ao
ministro da Guerra teria partido do general Manoel Azambuja Brilhante, comandante da
Escola Militar de Resende à época. Brilhante havia sido, poucos anos antes, chefe do Estado-
Maior da Inspetoria de Cavalaria, quando esta foi comandada por José Pessoa.
Como aponta Ramos (2010), Leal era um oficial de fortes convicções nacionalistas.
Havia participado ativamente do levante tenentista de 1924, em São Paulo. Apoiou a
candidatura de Getúlio Vargas, no pleito eleitoral de 1929 e, no ano seguinte, tomou parte da
Revolução de 1930, atuando como encarregado das operações no estado-maior de Góes
789
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.05.19.
790
Decreto nº 29.484, de 23 de abril de 1951.
791
A exposição de motivos da propositura do Decreto nº 29.484, de 23 de abril de 1951, feita por Estillac Leal
consta do relato autobiográfico de José Pessoa, Pasta IV.
506
Monteiro. Participou, dois anos mais tarde, do destacamento comandado por Góes que
reprimiu o levante constitucionalista em São Paulo. Entre julho de 1938 e janeiro de 1939,
comandou o 1º Regimento Misto de Artilharia de Dorso, sediado em Campo Grande, Mato
Grosso do Sul, à época em que José Pessoa esteve à frente da 9ª Região Militar, sediada
naquela mesma cidade. Em 1945, quando comandava a Artilharia Divisionária da 3ª Região
Militar, opôs-se à retirada de Vargas do poder, tendo, inclusive, alertado o secretário pessoal
do presidente a respeito das articulações que resultaram no golpe de 29 de outubro.
Na Constituinte de 1946, a questão do petróleo passou a ser abordada como uma
questão política no País. Estillac Leal posicionou-se a favor da corrente de opinião que
defendia a hegemonia do Estado em todo o processo de produção, transporte e etapas
subsequentes, a qual passou a defender fervorosamente, em oposição à que pugnava pelo
capital estrangeiro. No ano seguinte ajudou a promover, inclusive, palestras do general Horta
Barbosa, que havia chefiado a Comissão Nacional do Petróleo (CNP) até 1944, a favor da tese
nacionalista do monopólio no Clube Militar. Em torno da defesa dessa tese, montou a chapa
nacionalista que concorreu à presidência do Clube em 1950, derrotando o grupo encabeçado
pelo general Cordeiro de Farias e da qual participavam oficiais como Humberto Castelo
Branco, Nelson de Melo e Henrique Gomes792. No seu discurso de posse, atacou duramente
Góes Monteiro, que havia defendido a chapa de Cordeiro de Farias. No pleito eleitoral para a
Presidência da República de 1950 apoiou, novamente, a candidatura de Vargas, que em
fevereiro de 1951 empossou-o à frente da pasta da Guerra. (RAMOS, 2010)
É possível que durante a campanha nacionalista pelo petróleo, Estillac Leal tenha se
aproximado de José Pessoa, uma vez que os dois comungavam do mesmo pensamento
monopolista. Pessoa havia participado da fundação, em abril de 1948, do Centro de Estudos e
Defesa do Petróleo e de Economia Nacional (CEDPEN), juntamente com Artur Bernardes,
Leitão de Carvalho e Horta Barbosa. Em torno do CEDPEN articularam-se jornalistas,
estudantes, militares e homens públicos que se mobilizaram em favor de uma solução
nacionalista para a questão do petróleo. A comunhão de ideias a favor do monopólio do
petróleo e a indisposição de Leal com Góes Monteiro, notório desafeto de José Pessoa desde o
ano de 1934, provavelmente sejam fatores que tenham contribuído para que o ministro da
792
Ramos (2010) lembra que Estillac Leal colocara-se ao lado de Vargas no golpe de 29 de outubro de 1945.
Seu antagonista, Cordeiro de Farias, fora naquele episódio o portador da intimação dos generais que
resultara na deposição do chefe do governo. Leal defendia abertamente o monopólio estatal do petróleo, ao
passo que Cordeiro de Farias sustentava a posição contrária, ao lado de Juarez Távora. O embate entre as
duas correntes trazia um prenúncio muito claro de uma inevitável radicalização no setor militar, com
penetrações de profundidade na área política, o que se acentuou com a intranquilidade gerada com a
candidatura de Vargas para a Presidência da República.
507
Guerra interviesse pelo resgate do nome da Academia Militar das Agulhas Negras. Inclusive,
os argumentos utilizados por Estillac Leal na apresentação do decreto que mudou o nome da
Escola Militar à Vargas aproximam-se muito das ponderações apresentadas por Pessoa à
Eurico Dutra, em 1943.
Desde 1940, José Pessoa também já expressava o desejo de mudar o nome de
Resende. Em uma carta enviada ao interventor do estado do Rio de Janeiro, Ernani do Amaral
Peixoto, sugeriu que se aproveitasse o ensejo da urbanização de Resende, em função das
obras da nova Escola Militar, e se providenciasse a mudança do nome da cidade para Agulhas
Negras. Fundamentou a sua solicitação no simbolismo geográfico do maciço das Agulhas
Negras, localizado na região de Itatiaia, que estaria ligado em definitivo à formação das
futuras gerações do Exército. E destacou que a estilização do acidente orográfico já se
encontrava representada no uniforme dos cadetes, no brasão d’armas e no estandarte da
Escola Militar e nas lâminas dos espadins, desde as reformas implementadas na Escola do
Realengo, nos anos 1930.793
A carta foi encerrada com um pedido um tanto esdrúxulo. Pessoa lembrou a Amaral
Peixoto a necessidade de se proibir o estabelecimento de novos residentes estrangeiros na
cidade, com exceção dos portugueses. Sugeriu, também, a retirada dos judeus de Resende,
que teriam se instalado no município “por cálculo”, comprando as melhores faixas de terra da
região, dentre elas a parte do terreno da Fazendo do Castelo, que abrigaria as instalações da
nova Escola Militar. Teria sido, então, graças à “esperteza desses indivíduos”, segundo
Pessoa, que a doação dessa área ao Ministério da Guerra não foi possível, malogrando o
projeto original de construção feito por Penna Firme.794
Um dia após ter recebido a solicitação de Pessoa, Amaral Peixoto o respondeu. Em um
tom bastante cordial, senão político, o interventor comunicou não ser possível realizar,
naquele momento, a mudança do nome de Resende, uma vez que a revisão das delimitações
territoriais da União, bem como das suas toponímias, só poderia ser feita por leis gerais e
quinquenais, conforme o previsto em decreto-lei795. Em relação ao afastamento dos judeus,
Peixoto disse pensar em encampar a região da Fazenda do Castelo, o que, diga-se de
passagem, nunca aconteceu. Dessa forma seria atendida a reivindicação feita por Pessoa.796
793
Carta enviada por José Pessoa ao interventor do estado do Rio de Janeiro em 29 de outubro de 1940 Acervo
José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.05.19.
794
Ibidem.
795
Decreto-lei nº 311, de 2 de março de 138, que dispunha sobre a divisão territorial do País.
796
Carta enviada pelo interventor do estado do Rio de Janeiro a José Pessoa em 30 de outubro de 1940. Acervo
José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.05.19.
508
797
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 10 jun. 1941, p. 4.
798
Decretos-lei: nº 3.030, de 7 fev. 1941 e nº 4.393, de 19 jun. 1942 e Decretos: nº 8.335, de 5 dez. 1941; nº
9.203, de 6 abr. 1942 e nº 10.869, de 20 nov. 1942.
509
das famílias que chegavam à Resende para trabalhar no novo estabelecimento de ensino
militar. (DANTAS, 2013, p. 61-62)
A construção da Escola em Resende serviu, também, para dar visibilidade à cidade no
estado do Rio de Janeiro. O jornal A Noite, da Capital Federal, em duas edições, dos meses de
julho e setembro de 1943, destacou a “ressurreição” e o “rejuvenescimento” de Resende. A
edição de julho destacou a decadência pela qual passou o município após o ciclo do café e o
soerguimento das suas finanças nos primeiros anos da década de 1940, graças ao “sopro
vivificador da ação realizadora do presidente Getúlio Vargas, que fez erguer em seu território
a suntuosa construção da Escola Militar das Agulhas Negras”. O artigo ressaltou, também, as
qualidades climáticas e turísticas da região das Agulhas Negras e o crescimento da produção
rural, do comércio e das instituições financeiras da cidade naquela década. A segunda edição
destacou a construção do bairro residencial da nova Escola Militar, a cargo de escritório de
engenharia Th. Marinho de Andrade, de São Paulo, e ao “progresso em todos os setores de
atividades” pelo qual passava o município sul-fluminense. Ressaltou, também, o novo plano
urbanístico da cidade, que lhe dava uma fisionomia “moça e envolvente”.799
Em 1943, José Pessoa fez novas investidas em prol da mudança do nome de Resende,
em função de um decreto-lei800 expedido naquele ano, que dispunha sobre as normas
nacionais para a revisão quinquenal da divisão administrativa e judiciária do País. Tal
documento previa que cada unidade federativa deveria nomear uma comissão para os estudos
das mudanças em seus territórios. Um dia após a publicação do decreto em Diário Oficial,
Pessoa enviou um ofício ao presidente da Comissão Especial de Estudos da Divisão
Administrativa do Rio de Janeiro, Dr. José Matoso Maias Fortes, sugerindo a mudança do
nome do município de Resende para Agulhas Negras. Contrariando o aviso ministerial que
batizou a Escola Militar de Resende, Pessoa afirmou à Comissão que o nome do novo
estabelecimento de ensino seria Escola Militar das Agulhas Negras. O Secretário Geral do
órgão, apesar de achar a proposta interessante, sugeriu a Maia Fortes que aguardasse a lei
federal que consolidaria a divisão territorial do estado fluminense.801
Maia Fortes encaminhou a solicitação de José Pessoa ao secretário geral do Conselho
Nacional de Geografia802, Cristhovam Leite de Castro. No seu parecer, ressaltou que a
799
A Noite, Rio de Janeiro, 29 jul. 1943, p. 6 e 29 set. 1943, p. 6.
800
Decreto-lei nº 5.901, de 21 de outubro de 1943.
801
Encaminhamento do Secretário Geral da Comissão Especial de Estudos da Divisão Administrativa do Rio de
Janeiro, de 22 de outubro de 1943. Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.05.19.
802
O Decreto-lei nº 5.901, de 21 de outubro de 1943, previa que caberia ao Conselho Nacional de Geografia
elaborar o projeto final das mudanças a serem realizadas na divisão administrativa das unidades federativas do
País, bem como na alteração das toponímias das cidades e vilas brasileiras.
510
mudança do nome do município não resolveria o problema do nome da Escola Militar, já que
o estabelecimento de ensino, apesar de encontrar-se em Resende, situava-se no distrito de
Campos Elíseos, o que causaria uma divergência do nome do verdadeiro local onde a Escola
estava sendo construída e o nome que deveria, dessa forma, adotar: Escola Militar de Campos
Elíseos803. Como solução, Fortes sugeriu ao Conselho que se mudasse o nome do distrito de
Campos Elíseos para Agulhas Negras, o que atenderia o pleito de Pessoa, já que o interesse
maior estava no nome a ser adotado pela nova Escola Militar e não na mudança do nome da
cidade.804
A proposta feita por José Pessoa para mudar o nome de Resende não foi atendida.
Assim como não conseguiu, à época, mudar o nome da Escola Militar. Entretanto, conseguiu
a mudança do distrito de Campos Elíseos que, a partir da revisão quinquenal de 1943, passou
a denominar-se Agulhas Negras805.
No próximo capítulo retomar-se-á o fio da narrativa histórica, destacando-se as
comissões de José Pessoa no posto de general.
803
O parágrafo 1º, do Art. 11, do Decreto-lei nº 5.901, de 21 out. 1943, impedia a mudança da nomenclatura do
distrito de Campos Elíseos em função do nome da estação ferroviária da cidade de Resende, que se localizava
naquele distrito. Somente após a revisão do nome de todas as localidades que abrigassem estações ferroviárias do
estado do Rio de Janeiro, o que se daria por meio de decreto-lei estadual, é que a mudança poderia ser feita.
804
Ofício nº 196, de 30 de outubro de 1943, do presidente da Comissão Especial de Estudos da Divisão
Administrativa do Rio de Janeiro ao Secretário Geral do Conselho Nacional de Geografia. Acervo José Pessoa
(CPDOC FGV). JPag1936.05.19.
805
O Decreto-lei nº 1.056, de 31 de dezembro de 1943, do estado do Rio de Janeiro, fixou a divisão territorial do
município de Resende, que passou a contar com 7 distritos para o quinquênio 1944-1948: Resende, Agulhas
Negras (ex-Campos Elíseos), Fumaça, Itatiaia (ex-Campo Belo), Pedra Selada (ex-Vargem Grande), Pirangaí
(ex-Salto) e Porto Real.
511
Pessoa. Este último, viria a se eleger deputado federal pelo Distrito Federal, no pleito eleitoral
de outubro de 1934.
Sendo assim, em 10 de agosto de 1934, passados quatro meses da sua última
comissão, José Pessoa foi nomeado, por meio de decreto806, comandante do Distrito de
Artilharia de Costa (DAC) da 1ª Região Militar, cuja sede ficava no Rio de Janeiro. Pessoa
afirma, na sua autobiografia, ter sido surpreendido com a nova comissão, por ser um oficial
oriundo da arma de Cavalaria, e que ficou sabendo da designação para a função por meio dos
jornais da Capital Federal807. Em 17 de agosto encaminhou uma carta a Getúlio Vargas, para
agradecer a confiança dispensada pelo chefe do Governo, ao indicá-lo para o novo cargo, sem
deixar de lembrar que iria assumir um departamento onde “quase tudo” estava por fazer ou
organizar, o que, não era, entretanto, na sua visão, motivo para “entibiar os espíritos afeitos ao
trabalho e animados por elevado idealismo construtor”808.
No mesmo documento, aproveitou para ratificar o seu pensamento em relação aos
fatos que o levaram a pedir o afastamento do comando da Escola Militar. Ressaltou a Vargas
que, no desempenho da função pública, tinha por premissas “tolerar os homens e suas
fraquezas, procurando obedecer tão somente ao influxo dos bons sentimentos, do desinteresse
pessoal e do patriotismo” e não “alimentar rixas, dissentimentos e mistificações em
detrimento dos interesses superiores do Estado”. Destacou que no comando da Escola do
Realengo havia lançado as bases de uma “radiosa cruzada educacional para formar homens de
outro estalão e com outra mentalidade”, o que teria o motivado a denunciar “o espírito
arrierée [atrasado] e demagógico daqueles que não trepidaram em infestar uma escola de
moços com delinquentes de toda espécie”, certamente referindo-se, nesse ponto, a Góes
Monteiro. E lembrou ao presidente que o militar deveria ser obediente “dentro da
Constituição e das leis”. Entretanto, quando houvesse um desmando dos superiores
hierárquicos, desrespeitando ostensiva e grosseiramente a lei máxima da Nação, entendia ser
um direito, e, até mesmo, uma obrigação do subordinado, defender a lei de quem revelasse
“não ter por ela o devido respeito e nem a autoridade moral para exigir o seu cumprimento”.
E, usando de ironia, deixou claro que se sentia satisfeito de ter cometido o “crime” de cumprir
o dever de se opor àqueles que pretendiam rasgar, impunemente, “para fins inconfessáveis”,
as normas do estabelecimento de ensino e macular “os melindres de moralidade e cultura” que
naquele local deveriam imperar. Por fim, salientou que, ainda que o Boletim do Exército
806
Publicado no Diário Oficial da União de 14 de agosto de 1934, p. 16.766.
807
Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 13 ago. 1934, p. 6;
808
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp34.08.17, doc. 01/0148-49.
513
809
Ibidem.
810
Ibidem.
811
Decreto nº 24.287, de 24 maio 1934.
812
Por ocasião das comemorações do Dia do Soldado do ano de 1935, conforme noticiou a edição do dia 23 de
agosto de 1935, do Correio da Manhã, José Pessoa mandou substituir o nome do Forte da Vigia para Forte
Duque de Caxias, em homenagem ao marechal Luiz Alves de Lima e Silva. O nome da fortificação que se
localiza no bairro do Leme, no Rio de Janeiro, manteve-se até os dias atuais.
514
813
Alguns autores referem-se à Missão de Instrução de Artilharia de Costa como Missão Militar Americana.
814
A Missão Militar Francesa foi extinta em outubro de 1940. Segundo Araújo (2010), a partir de 1934 somente
cinco oficiais franceses foram mantidos nas escolas militares brasileiras. A principal causa da renúncia dos
franceses à missão foi a incapacidade de mantê-la diante da derrota do exército francês na Segunda Guerra
Mundial e a ocupação da França pela Alemanha nazista.
515
procedências, cedidos pela Marinha. O autor aponta que alguns anos antes, uns poucos
oficiais de destaque da arma de Artilharia haviam estado nos Estados Unidos, para conhecer o
emprego da arma no exército norte-americano. Ao regressarem, suas ações se limitaram a
alguns artigos escritos para a revista Defesa Nacional e a publicação, no fim de 1933, do livro
A Técnica do Tiro de Costa, de autoria do major Ari Luís Monteiro da Silva. Nele, Silva
apontava algumas deficiências do tiro das baterias de costa brasileiras, como as faltas de
pólvora e de munição adequadas e a inexistência de um sistema fire-control815 nas baterias de
costa brasileiras. O autor considerava, ainda, a necessidade de se criar uma escola de
Artilharia de Costa no Exército brasileiro, além de uma comissão permanente para os estudos
relativos à defesa de costa. A partir daí, o assunto passou a ser discutido na Inspetoria de
Costa, notadamente pelo coronel Manoel Correia do Lago e pelo major Agostinho dos Santos.
Este, havia acabado de concluir o curso da Escola de Guerra Naval, ocasião em que entrou em
contato com instrutores norte-americanos dessa Escola. A influência de Agostinho no Estado-
Maior do Exército levou, então, o órgão à decisão de contratar a missão junto aos EUA.
Após os primeiros contatos feitos com o adido militar norte-americano no Brasil, em
meados de 1934, iniciou seus serviços no Exército brasileiro a pequena MIAC, formada pelo
major Rodney H. Smith e pelo capitão William Dalton Hohenthal, do Exército dos EUA. Ao
primeiro, coube o encargo de traçar o Plano de Defesa de Costa do Rio de Janeiro, evolvendo
as artilharias de costa e antiaérea. (DUARTE, 1971, p. 18)
A primeira atribuição dos oficiais norte-americanos ao chegarem ao Rio de Janeiro,
em fevereiro de 1934, foi, juntamente com oficiais brasileiros, formar o Centro de Instrução
de Artilharia de Costa (CIAC), criado pela Portaria nº 78 do Ministério da Guerra, de 30 de
janeiro daquele ano. Em abril, a pasta da Guerra baixou o regulamento e definiu o local de
instalação do CIAC, que funcionaria provisoriamente na Fortaleza de São João. Passavam a
ser atribuições do Centro: aperfeiçoar os oficiais que serviam na Artilharia de Costa; formar
os sargentos de Artilharia de Costa e aperfeiçoar os que nela serviam; e estudar e ensaiar,
mediante as diretrizes da Inspetoria de Costa e a aprovação do EME, quaisquer medidas de
caráter técnico de emprego da Artilharia de Costa, ou de instrução, que implicassem
melhorias nesse ramo da Artilharia. Para comandar o CIAC foi nomeado o coronel Antônio
Fernando Dantas. (DUARTE, 1971, p. 18; FORTES, 2001, p. 172)
Quando José Pessoa assumiu o comando da Distrito de Artilharia de Costa da 1ª
Região Militar, a MIAC já estava em pleno funcionamento. Duarte (1971, p. 18-19) aponta
815
Sistema de controle de fogo, voltado para a designação de alvos e para o cálculo dos dados de disparo das
armas direcionadas para atingir esses alvos, bem como para a avaliação da eficácia dos disparos.
516
que no seu primeiro ano de atuação, a missão americana realizou a inspeção de todos os fortes
da 1ª RM. O capitão Hohenthal fez uma tentativa, sem sucesso, de construir nos arsenais
brasileiros algumas partes do sistema fire-control norte-americano. Diante disso, e graças ao
profundo conhecimento técnico desse oficial sobre o assunto, uma oficina do sistema foi
criada na Fortaleza de São João. Concomitantemente, ele passou a projetar um sistema mais
simples, para ser adaptado às baterias costeiras brasileiras. Segundo Fortes (2001, p. 173), por
determinação de José Pessoa, as modificações realizadas por Hohenthal nos sistemas de tiro
brasileiros, que ficaram conhecidas à época por Sistema Hohenthal, foram implementadas em
todas as unidades de Artilharia de Costa da 1ª Região Militar, a partir de 1937, depois de
terem a sua eficiência comprovada nos exercícios anuais de tiro real, executados sobre alvos
móveis em todas as fortalezas e fortes do Rio de Janeiro.
Em janeiro de 1935, a primeira turma de tenentes e capitães foi diplomada pelo CIAC,
“com resultado tão apreciável quanto o permitiu o material existente”816, conforme a
observação feita pelo ministro Góes Monteiro, em seu relatório de 1934. O relatório ressaltou,
também, a assistência prestada pela Missão à Inspetoria de Costa em assuntos referentes a
modificações e melhoramentos, que visassem a melhoria da Artilharia de Costa brasileira. No
ano seguinte, o general João Gomes Ribeiro Filho, que substituiu Góes Monteiro na pasta da
Guerra, ressaltou as palavras de José Pessoa, que, no comando da Inspetoria de Costa,
considerou o Centro de Instrução como o “a fonte irradiadora dos modernos conhecimentos
de artilharia de costa”817 do Exército brasileiro. Pessoa, conforme relatou o ministro Ribeiro
Filho, atestou, ainda, a capacidade intelectual dos oficiais norte-americanos e o
“desprendimento geral e elevação”818 com que se portavam na transmissão dos conhecimentos
aos oficiais brasileiros, atitudes que contribuíam para fortificar os laços de amizade entre
Brasil e Estados Unidos, há mais de um século radicados.
Conforme aponta Esteves (1996, p. 213), a contratação da MIAC foi renovada pela
primeira vez em 1936, com o objetivo de cooperar com o EME e com a Inspetoria de Defesa
de Costa no desenvolvimento e funcionamento do CIAC, superintender os cursos e auxiliar na
instrução, o que, na prática, já vinha acontecendo desde 1934. Passaram a ficar ao encargo dos
oficiais norte-americanos, também, os cursos de Fortificação Permanente e Guerra Química,
na Escola Técnica do Exército. No seu relatório de 1936, o ministro da Guerra, general Eurico
Dutra, que assumiu as funções de Ribeiro Filho, após o curto período em que este esteve no
816
Relatório do Ministro da Guerra, 1934, p. 55.
817
Relatório do Ministro da Guerra, 1935, p. 38.
818
Ibidem.
517
comando das Forças Armadas, destacou o trabalho intenso e eficiente da Inspetoria de Costa,
apesar do pouco tempo de existência do órgão, e o pleno êxito com que a missão americana
vinha realizando a preparação dos quadros do Exército e o plano de defesa da costa brasileira.
Fontes (2001, p. 175) aponta que uma nova renovação de contrato aconteceu em julho
de 1938, sofrendo a MIAC algumas modificações quanto à sua constituição. A Missão, a
partir daquele ano, passou a ser chefiada por um oficial general, Allen Kimberley, e os seus
membros foram substituídos por oficiais do Corpo de Artilharia de Costa do Exército norte-
americano. Segundo o autor, a intensa mobilização do Exército dos EUA, em função dos fatos
que conduziram aquele país a entrar na Segunda Guerra Mundial, fez com que a presença dos
oficiais norte-americanos no Brasil perdesse força. No primeiro semestre de 1940 todos os
membros da Missão retornaram aos Estados Unidos e somente o coronel Lehmanm Miller,
que substituiu o general Kimberley, permaneceu durante mais algum tempo colaborando nas
atividades de ensino da Escola Técnica e da Escola de Artilharia de Costa (EAC)819. Segundo
Rodrigues (2012, p. 47), a contratação da Missão de Instrução de Artilharia de Costa
contribuiu para a substituição, no Exército brasileiro, do pensamento doutrinário alemão e
francês pelo norte-americano, o qual viria a se consolidar com a participação brasileira na
Segunda Guerra Mundial.
Nos quase três anos em que comandou a Artilharia de Costa, Pessoa percorreu todas as
unidades de costa brasileiras. Dentre todos os grupos e baterias visitados, mereceu uma maior
atenção o Forte de Coimbra, no Mato Grosso. Devido à sua posição geográfica, a cidade de
Corumbá consolidou-se na história nacional como importante ponto estratégico naquele
estado, por localizar-se às margens do Rio Paraguai. Considerado um eixo importante para o
deslocamento de tropas, o rio vinha sendo guarnecido pelo Forte, que se localizava ao sul da
cidade mato-grossense, desde o final do Século XVIII. As baterias de Artilharia das unidades
de costa que ocupavam a fortificação eram o primeiro elemento dissuasório das forças
estrangeiras que pretendessem invadir o território nacional utilizando-se do meio fluvial.820
819
Com a nova Lei do Ensino Militar, aprovada pelo Decreto nº 1.735, de 4 de novembro de 1939, o Centro de
Instrução de Artilharia de Costa passou a denominar-se Escola de Artilharia de Costa. O CIAC e a EAC foram
os centros precursores da atual Escola de Artilharia de Costa e Antiaérea, criada em 1965 e em funcionamento
ainda hoje, na Vila Militar, na cidade do Rio de Janeiro.
820
As unidades de Artilharia de Costa guarneceram o Forte Coimbra até o ano de 1992, quando foram
substituídas por tropas de Infantaria do 17º Batalhão de Fronteira. Hoje em dia, a guarnição do Forte é composta
por um Pelotão Especial de Fronteira. A região de Corumbá, no Mato Grosso do Sul, continua sendo considerada
pelo Exército brasileiro como um importante ponto estratégico nacional. Tanto é assim, que a cidade sul mato-
grossense abriga a sede da 18ª Brigada de Infantaria de Fronteira, criada em 1985, à qual estão subordinadas
tropas de Infantaria localizadas em Corumbá-MS, Coxim-MS e Porto Murtinho-MS. Informações retiradas da
página da 18ª Brigada de Infantaria de Fronteira, no Site do Exército Brasileiro. Acesso em 13 mar. 2021.
518
Segundo McCann, (2009, p. 441), uma das preocupações que ficou evidente nos
primeiros anos do regime pós-revolucionário de Vargas foi equilibrar os objetivos nacionais
do Brasil com suas capacidades e potenciais militares, o que exigiu um maior empenho do
governo em fornecer às Forças Armadas armas e equipamentos adequados e em repensar a
doutrina estratégica brasileira, buscando consolidar, assim, o País como a potência
hegemônica da América do Sul. Para isso, como aponta o autor, o Exército necessitava manter
as unidades militares existentes em condições de operar, aumentar o seu efetivo e equipar
quartéis que existiam somente no papel.
A revolução de 1932 havia tirado o foco dos líderes do Exército dos problemas que
ocorriam nas fronteiras brasileiras. Uma disputa fronteiriça de décadas entre Paraguai e
Bolívia acabou por desencadear a Guerra do Chaco, que durou de 1932 a 1935. Também no
oeste da Amazônia, entre setembro de 1932 e o início de 1933, litígios fronteiriços
envolvendo a região de Letícia levaram Peru e Colômbia a um conflito armado. A
proximidade desses conflitos com a região de Corumbá, no Mato Grosso, e Tabatinga e
Benjamin Constant, na região amazônica, inquietaram Vargas, o que levou o governo a
manter o efetivo do Exército maior do que o permitido pelo orçamento de 1932821. Em março
de 1934, um plano de reorganização da instituição, aumentando o seu efetivo para 74.000
soldados, foi apresentado pelo Estado-Maior do Exército para o chefe do Governo Provisório.
(McCANN, 2009, p. 442)
Em correspondências trocadas com Oswaldo Aranha, que deixou a pasta da Fazenda
para ser embaixador nos EUA, em julho de 1934, Getúlio confidenciou ao amigo que o
incomodava a situação paraguaia e as possíveis implicações que o conflito no Chaco poderia
causar para as relações entre Brasil e Argentina. Seu maior receio coincidia com a opinião do
EME, que estava alarmado com o poderio militar do Paraguai, que havia aumentado o seu
efetivo para 70.000 homens. Vargas expôs a Aranha que após o término do conflito, a
situação econômica em que ficaria aquele país poderia levar um general vitorioso à frente de
um exército descontente a derrubar o governo civil. Sendo assim, era de se temer que o
Paraguai pudesse criar complicações na fronteira do Mato Grosso, provocando um incidente
que pudesse arrastar a Argentina para um possível conflito, já que esta apoiava abertamente o
país vizinho, provendo os paraguaios de todos os recursos necessários, concedendo-lhes
empréstimos para que se mantivessem na luta e acumulando tropas na fronteira com a Bolívia.
(McCANN, 2009, p. 442)
821
Segundo McCann (2009, p. 442), o efetivo mantido em 1932 foi de 60.000 soldados, enquanto o orçamento
daquele ano para o Exército exigia uma redução para 54.500 homens.
519
Vargas lembrou a Aranha que era fundamental que o Brasil tomasse algumas
precauções militares, como reforçar as unidades de costa brasileiras, comprar um ou dois
cruzadores e submarinos e uma ou duas canhoneiras para guarnecerem o Rio Paraguai.
Entretanto, faltava dinheiro ao País. Perguntou ao embaixador qual seria a posição dos
Estados Unidos a respeito do assunto e até onde o governo norte-americano apoiaria o Brasil
em caso de um conflito. Consultado por Aranha, Roosevelt afirmou estar disposto a construir
uma nova frota para o Brasil nos estaleiros dos EUA, em condições melhores e mais baratas
do que as oferecidas por outros países. A verdade é que há tempos os norte-americanos
empenhavam-se em conquistar a simpatia dos países sul-americanos. Como apontou Aranha a
Getúlio, havia um convencimento dos norte-americanos de que, em caso de uma guerra, os
EUA seriam apoiados pelo Brasil e seus vizinhos. Além disso, o governo dos Estados Unidos
não se conformava com o fato de o Brasil manter uma missão militar francesa e não uma
norte-americana. A própria Argentina já contava, à época, com uma missão naval norte-
americana. Segundo Oswaldo Aranha, tudo era possível conseguir dos EUA, desde que as
tratativas fossem feitas em segredo e com discrição. (McCANN, 2009, p. 442-443)
Em setembro de 1934, a Inspetoria de Artilharia de Costa recebeu, do Estado-Maior
do Exército, a missão de produzir um detalhado relatório sobre as condições físicas e
estratégicas do Forte Coimbra. As atribuições da comissão nomeada822 por José Pessoa para
elaborar o documento deixavam evidente a preocupação do governo brasileiro com uma
possível agressão de tropas argentinas e paraguaias ao território nacional, em decorrência do
envolvimento dos dois países na Guerra do Chaco. Além de ter que elaborar uma planta
detalhada da fortificação e de reconhecer e locar em carta topográfica os trechos do Rio
Paraguai que melhor davam visada e acesso ao Forte, cabia também à comissão realizar um
estudo minucioso das posições, no Rio Paraguai, das quais as canhoneiras paraguaias e
argentinas poderiam causar algum dano às baterias de Artilharia e instalações da fortificação
brasileira. Havia, ainda, a preocupação de se verificar em quais posições os canhões
brasileiros, de um calibre e alcance inferior aos dos navios argentinos e paraguaios, deveriam
ser alocados, para causar o maior dano possível às tropas inimigas.823
Apesar de haver uma comissão nomeada para o estudo, Pessoa tratou de acompanhar
in loco os trabalhos em Coimbra, como noticiaram alguns jornais da Capital Federal. O
Correio da Manhã, em sua edição de 2 de dezembro de 1934, indicou a partida de José
822
A comissão era formada pelos tenente-coronel José Agostinho dos Santos, major Ignácio José Veríssimo,
capitão Alfredo Moacyr Uchôa e primeiro-tenente José Venturelli Sobrinho. Acervo José Pessoa (CPDOC
FGV). JPvp34.08.17, doc. 0154.
823
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp34.08.17, doc. 032.
520
824
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 2 dez. 1934, p. 2.
825
A bateria de Artilharia é uma fração de um grupo de Artilharia, composta, atualmente, por seis peças de fogo,
ou obuseiros. À época, as baterias eram mobiliadas por canhões. Explicada de uma maneira simples, a diferença
entre os dois está no emprego tático do tiro realizado por cada um dos armamentos. Enquanto nos tiros de
obuseiro os projéteis realizam uma trajetória curva até o alvo, tendo, assim, um alcance maior, no tiro de canhão
o projetil realiza uma trajetória retilínea, ou tensa, no linguajar militar. Isso não significa, entretanto, que os dois
armamentos não possam realizar qualquer um dos tipos de tiro.
521
defesa da área e emprego dos canhões de menor calibre e mais leves e uma melhor proteção
dos mesmos, já que as baterias fixas eram mais fáceis de serem localizadas previamente pelo
inimigo. A comissão também não via a necessidade de se aumentar o efetivo da guarnição do
Forte. Considerava que as três baterias que compunham o 5º GIAC eram suficientes para a
defesa do corte do Rio Paraguai. Considerou, ainda, que a maneira como as peças de
artilharia826 das baterias estava disposta nos morros circunvizinhos ao Forte atendiam
perfeitamente às possibilidades de tiro, sendo assim capazes de atingir os conveses dos navios
que se aventurassem na passagem pelo Forte. Entretanto, se fazia necessária uma limpeza
melhor da área, muito pedregosa e de difícil acesso. Outro ponto importante a ser melhorado
era a comunicação entre as baterias que ficavam em posições opostas, em relação aos lados da
fortificação, devido à longa distância entre os locais.827
A principal análise feita pela equipe de José Pessoa foi sobre os problemas de defesa
geral da fortificação em caso de ataque inimigo por água, em função dos regimes de cheia e
vazante do Rio Paraguai. A comissão considerou que, nas cheias, não haveria problemas para
a defesa do Forte, já que o alargamento do leito do rio não influenciava na navegação. Sendo
assim, a defesa fixa já existente, combinada com o emprego de campos minados, impediria
uma abordagem por tropas estrangeiras. O problema principal estava no período da seca, de
abril a novembro, quando um ataque por terra poderia ocorrer com mais facilidade. Nesse
caso, ficava mais evidente a necessidade de um sistema móvel de defesa, que permitisse a
mudança rápida das peças de artilharia. Além disso, durante as vazantes, seria essencial o
apoio de batalhões de Infantaria e de grupos de Artilharia de campanha para deter um possível
ataque inimigo. Também a defesa antiaérea do Forte era imprescindível, já que nenhuma
bateria destinada a esse tipo de defesa existia no local e ataques de aviões inimigos poderiam
surgir de qualquer direção.828
Do ponto de vista militar, a comissão considerava que o problema a oeste de Mato
Grosso comportava três grandes problemas: a defesa de Corumbá e de Ladário; a proteção da
Estrada de Ferro Noroeste, entre Miranda e Porto Esperança; e o fechamento da navegação do
Rio Paraguai. Quanto a este último, a construção de um sistema fixo de defesa seria muito
cara. A combinação de um sistema móvel, com campos minados e a cobertura de tropas de
Artilharia de campanha e de Infantaria resolveriam o problema. A comissão entendia, porém,
que a defesa do rio não deveria ocorrer somente na altura de Coimbra, mas, mais ao sul, na
826
No linguajar militar, uma peça de Artilharia corresponde a um obuseiro ou canhão.
827
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp34.08.17, doc. 0154.
828
Ibidem.
522
confluência com o Rio Apa. Em relação à proteção da via férrea, parecia aos oficiais ser uma
hipótese plausível que, em um provável ataque, tropas paraguaias ou bolivianas procurassem
isolar o oeste do Mato Grosso do restante do País, o que fariam interrompendo o fluxo da
Estrada de Ferro Noroeste. No entanto, entendiam que tal intento só seria possível com o
emprego de um efetivo numeroso de soldados, o que seria difícil de ser realizado pelo
Paraguai. Ainda que improvável, caso uma ação desse tipo viesse a ocorrer, durante as cheias,
com tropas transportadas em pequenas lanchas, ou na seca, por tropas a pé, transitando às
margens do Rio Paraguai, o Forte, com suas baterias fixas, não conseguiria deter
integralmente o ataque inimigo.829
Quanto à defesa de Corumbá, os oficiais consideraram ser estrategicamente essencial
ao Brasil manter a posse da cidade, não só pelos reflexos políticos que uma perda
representaria, mas, também, por ser, o local, o principal centro econômico do oeste mato-
grossense. A proximidade com a fronteira boliviana, a falta de obstáculos naturais que
propiciassem a segurança da cidade e o grande número de moradores bolivianos e paraguaios
que ela encerrava eram considerados pelos oficiais inspecionadores fatores favoráveis a um
ataque boliviano, em caso de uma guerra com o Brasil. Consideravam, ainda, que prever a
defesa de Corumbá não implicava somente a defesa aproximada da cidade, mas de toda a
região compreendida entre o Forte Coimbra, ao sul, e o trecho do Rio Paraguai, ao norte da
cidade. Além disso, a defesa de Corumbá compreenderia, automaticamente, a defesa da base
naval de Ladário. Sendo assim, a comissão orientou ao EME que se mobilizassem tropas de
Cuiabá para mobiliarem a região e, assim, manter guarnições militares, preferencialmente de
Infantaria, ao longo de toda a fronteira oeste.830
As construções de um novo aquartelamento para abrigar o pessoal do forte, mais ao
norte do local em que se encontrava, e de um novo porto, para a atracação das embarcações,
foram sugeridas. A finalidade das mudanças era impedir que os tiros inimigos, em caso de
ataque, pudessem atingir essas edificações. Também os paióis mereciam uma reforma, já que
eram demasiadamente expostos ao calor, o que causava o risco de uma explosão. A caixa
d’água do Forte precisava ser mudada de local, pois podia ser facilmente atingida pelos tiros
inimigos, até mesmo os de fuzis. E, o vilarejo vizinho tinha que ser afastado da fortificação,
devido à inconveniência que causava à situação militar do Forte. Com essa mudança, uma
escola primária precisava ser criada, devido ao elevado número de crianças que ali residiam,
829
Ibidem.
830
Ibidem.
523
bem como a limpeza da área circunvizinha, a fim de eliminar os mosquitos que molestavam
os habitantes.831
Mapa 3 – Mapa preparado pela Comissão de inspeção do Forte Coimbra, contendo a localização de
Corumbá-MT e do Forte, 1934.
831
Ibidem.
524
832
Ibidem.
833
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp34.08.17, doc. 0162.
525
834
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp34.08.17, doc. 0154.
835
Ibidem.
526
Inglesa quanto a Holandesa não possuíam vias terrestres em condições de transportar tropas
até as fronteiras com o Brasil. Para a defesa no caso de uma agressão por esses países, José
Pessoa recomendou o emprego de tropas de Infantaria e Artilharia de campanha, numeroso
emprego da aviação e de uma flotilha fluvial. Descartou utilizar a Artilharia de Costa, devido
às condições do terreno amazônico, que não possibilitava a tomada segura de posições para os
canhões abaterem os alvos inimigos.836
Quanto aos países europeus, Japão e EUA, considerou que qualquer um desses países
tinha condições de assumir a supremacia naval no Atlântico e, em consequência, tentar tomar
de assalto Belém e, assim, adentrar o Rio Amazonas. Esse tipo de ação, segundo ele,
provavelmente não seria tentado pela Argentina, já que a Amazonia se constituía em teatro de
operação secundário para aquele país. Além do mais, um desembarque de tropas argentinas na
região a enfraqueceria na região Sul, local principal de suas ações em caso de guerra. O
estudo da defesa para uma hipótese de invasão por esses países se tornava mais complexo,
com a necessidade de emprego de tropas do Exército, de todas as armas, de uma grande
flotilha fluvial, em cooperação com a marinha de Guerra e do emprego de uma potente tropa
de Artilharia de Costa, o que tornava ineficaz a existência de apenas uma bateria independente
na região norte, a 8ª Bateria Independente de Artilharia de Costa (BIAC), em Óbidos, no
Pará.837
Sendo assim, no entender de Pessoa a região amazônica precisava ser reforçada com
um regimento de Artilharia de Costa armado com canhões de médio calibre (155 mm),
composto por dois grupos de Artilharia de Costa, com quatro baterias orgânicas cada um. Um
grupo guarneceria o Rio Pará, com suas baterias localizadas nas ilhas do Mosqueiro e do
Marajó e na cidade de Breves. O outro guarneceria a foz do Rio Amazonas, com baterias na
cidade de Chaves, na costa de Macapá e na ilha de Caviana. A escolha dessas posições
resultava das suas localizações em pontos de passagem obrigatórios para as tropas que
pretendessem penetrar no Rio Amazonas. Essas baterias seriam móveis, com tração
automotiva, para poderem fazer frente ao inimigo com uma maior agilidade. Além do
regimento, José Pessoa previu, também, a necessidade de se criar uma bateria de Artilharia de
grosso calibre transportada por via férrea, como complemento da defesa do Rio Pará, na
eventualidade de um ataque a Belém por couraçados inimigos com armamento mais potente.
Desaconselhou, ainda, o uso de minas submarinas, devido às fortes correntezas em sentidos
836
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp34.08.17, doc. 0169.
837
Ibidem.
527
opostos dos rios e do mar e a natureza lodosa do fundo dos rios, o que dificultaria o
lançamento dos artifícios.838
Gráfico 5 – Proposta de José Pessoa para a defesa da foz do Rio Amazonas, 1937.
838
Ibidem.
839
Ibidem.
528
Apesar da atenção especial que deu às guarnições das regiões Norte e Oeste do País,
José Pessoa cuidou, também, das fortalezas e fortes do estado do Rio de Janeiro, onde se
concentravam a maior parte dos quartéis de Artilharia de Costa do Exército. Durante o seu
primeiro ano de comando no DAC, a modernização e as reformas implementadas por ele
foram motivo de constantes notícias publicadas nos jornais da Capital Federal. Em agosto de
1935, a pedido do Estado-Maior do Exército, chefiou uma comissão que elaborou um projeto
de defesa para os portos do Rio de Janeiro, de Santos, de Mato Grosso e do Rio São
840
Ibidem.
529
841
Faziam parte da comissão: o major Orestes da Rocha Lima, chefe do estado-maior do 1º DAC; o major
Nicanor Guimarães de Sousa, representante do EME; o tenente-coronel Agostinho dos Santos e os majores Ary
Maurell Lobo e José Bina Machado. Também a compunham o professor de fortificação e dois oficiais do curso
de engenheiros construtores da Escola Técnica do Exército e dois oficiais da Marinha com o curso da Escola de
Guerra Naval. Fonte: Correio da Manhã, 13 ago. 1935, p. 3.
842
Decreto nº 305, de 22 de agosto de 1935. O nome Forte Duque de Caxias foi mantido até os dias atuais. No
local funciona hoje em dia o Centro de Estudo de Pessoal do Exército.
843
José Bonifácio foi recolhido preso ao Forte da Laje em 1823, por ocasião da dissolução da Assembleia
Constituinte.
844
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 12 nov. 1935, p. 5.
845
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 30 ago. 1936, p. 6.
530
países vizinhos, a questão das concessões, segundo ele, se tornava altamente inconveniente,
devendo o governo, no seu entender, fazer uma revisão dos contratos feitos até aquele
momento. Citou, inclusive, os exemplos da Companhia Nipônica de Plantação, que detinha
mais de um milhão de hectares no estado do Pará, em uma área que prejudicava a segurança
nacional, envolvendo os municípios de Acará, Monte Alegre, Marabá e Conceição do
Araguaia, e da Companhia Fomento Argentino, que possuía, também, mais de um milhão de
hectares de terras fronteiriças, no Mato Grosso, das quais uma extensa faixa em frente ao
Forte de Coimbra, o que prejudicava sobremaneira a sua defesa. E lembrou ao governo que a
Constituição de 1934 proibia concessões de terras em uma faixa de 100 km ao longo das
fronteiras brasileiras.846
Na mesma entrevista, Pessoa não poupou elogios ao homem amazonense, que, apesar
das condições adversas da região, após quatro séculos de luta havia triunfado sobre a região,
apesar da pecha de indolente que o restante do País havia, injustamente, lhe imposto. E
destacou que, assim como ele e os seus irmãos nordestinos, que haviam nascido e sido criados
na adversidade do sertão, todos eram criadores triunfantes de uma “verdadeira civilização
tropical”. Ainda sobre os tipos humanos nacionais, disse não encontrar diferenças entre os
sulistas e os nortistas. Apesar dos meios ambientes distintos em que viviam, não era possível
se estabelecer um paralelo de inferioridade ou de superioridade, em função da cor das peles
dos homens que habitavam as diferentes regiões do País. No seu ponto de vista, ambos tinham
qualidades e defeitos, porém, todos tinham capacidades especiais, a ponto de se criar uma
civilização, um padrão humano brasileiro. Entretanto, o nortista típico, injustamente tachado
de “sem vontade”, tinha uma qualidade especial: apesar da luta constante que mantinha contra
uma região de natureza agreste, hostil, de clima depauperante e castigada pelas endemias
locais, não cedia, lutava e vencia.847
Pessoa não esqueceu de considerar, ainda, os problemas da Amazônia, que eram, no
seu entender, sobretudo de saneamento e de saúde da população. Devido à extensão da região,
esses problemas não podiam ser resolvidos somente pelos governos locais. Tratava-se de uma
questão nacional, cuja solução cabia ao governo do País. Para ele, era preciso que se seguisse
no Norte o exemplo do que foi feito no Nordeste: humanizar o meio de vida e redimir as
injustiçadas populações do Amazonas. Ao mesmo tempo em que apontou a existência de
importantes centros de reabastecimento, como Belém, onde havia abundância de carne e
peixe, lembrou da precariedade da navegação na bacia Amazônica, principalmente para quem
846
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 2 jun. 1937, p. 3.
847
Ibidem.
531
demandava o interior da região. Deu o exemplo de sua passagem por Óbidos, ocasião em que
fazia mais de um mês que nenhuma embarcação da Lloyd aportava no local. Urgia, portanto,
a quem fosse de direito, sanar essa lacuna. Uma das soluções que apontou ser viável, seria
impulsionar a aviação naquelas regiões, especialmente nos eixos dos rios Solimões, Madeira e
Negro.848
Dois dias após essa entrevista, o jornalista Manoel Paulo Filho849 publicou em sua
coluna, no mesmo periódico, um texto abordando os comentários feitos por José Pessoa a
respeito das concessões estrangeiras no País, ao qual deu o título “Uma Lição”. Nele, Paulo
Filho apontou que Pessoa tinha conhecimento de causa do que havia exposto em seu
depoimento, uma vez que havia visto com os próprios olhos “as condições de desprezo em
que se acham certos pontos estratégicos das fronteiras indígenas” do País. O jornalista criticou
as extensas áreas de terras que estavam sendo transferidas na Amazônia à propriedade e
utilização de estrangeiros. E apontou uma infeliz coincidência:
Feitas essas observações, Paulo Filho passou a discorrer sobre as impressões colhidas
por José Pessoa em suas viagens a respeito das três concessões feitas a estrangeiros no Norte
do País: Fordlândia851, Nipônica de Plantação852 e Fomento Argentino853. Quanto à primeira,
848
Ibidem.
849
Manoel Paulo Telles de Mattos Filho (1890-1969) foi um jornalista e político brasileiro, nascido na Bahia.
Foi redator e diretor do jornal Correio da Manhã. Também participou ativamente da vida política da Capital
Federal e do estado da Guanabara, desempenhando, ao longo da sua vida, várias funções relevantes, como:
delegado de polícia no Rio de Janeiro (1918-1922), chefe do Serviço de Tombamento da Lloyd Brasileira (1922
e 1936-1937), deputado da Assembleia Constituinte (1934-1935), membro do Conselho Consultivo do Distrito
Federal (1936-1937) e procurador do Tribunal de Contas do Estado da Guanabara (1937). Foi, ainda, membro e
presidente da Associação Brasileira de Imprensa, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro,
fundador e presidente do Instituto Histórico e Geográfico da Cidade do Rio de Janeiro e presidente da Academia
Carioca de Letras. Costumava escrever, em suas colunas, sobre a vida política e cultural do País. A partir de
1960, passou a escrevê-las sob o pseudônimo de João Paraguassu. Fonte: Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 18
mar. 1969, p. 3.
850
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 4 jun. 1937, p. 4.
851
O crescente interesse pela borracha na Amazônia, despertado pela exploração na Colômbia, em 1896, levou à
vinda de estrangeiros à América do Sul, dentre o industriário do setor automobilístico Henry Ford. O norte-
americano, pensando em produzir sua própria matéria-prima para os pneus dos seus automóveis, adquiriu, em
julho de 1927, terras no vale do Rio Tapajós, onde se iniciou a construção da cidade que recebeu o nome de
Fordlândia. Destinada a ser a primeira “cidade empresa” edificada na Amazônia, oferecia a seus habitantes:
hospital, escola, água encanada, luz elétrica, moradia, lazer e emprego. No entanto, o investimento de 125 mil
532
destacou o enorme aparato com que a empresa norte-americana havia se instalado no Pará, na
área que lhe fora cedida, sob o pretexto da exploração da borracha: estradas de ferro e de
rodagem, transportes fluviais, escolas e hospitais. Entretanto, lembrou que os resultados de
sua exploração não correspondiam ao vulto do capital empregado pela empresa. Segundo o
jornalista, era do conhecimento de muita gente que, na Fordlândia, a borracha era o negócio
secundário. As atenções dos norte-americanos estariam voltadas, na realidade, para o petróleo
e as madeiras da região, conforme uma denúncia feita por peritos alemães que haviam estado
na área sob o domínio fordista.854
Em relação à Companhia Nipônica de Plantação, lembrou do propósito da concessão
feita pelo governo do Pará: contratar empresa ou companhia que fundasse a instalação e a
exploração de núcleos agrícolas em terras devolutas do estado. À companhia japonesa foram
cedidos mais de um milhão de hectares de terras, com o benefício de, caso a área de
exploração fosse insuficiente, o governo paraense ter que ceder, obrigatoriamente, mais terras,
sem prejuízos para o concessionário, que poderia escolher as áreas. Paulo Filho lembrou,
ainda, outros privilégios da empresa: realizar, dentro do território cedido, quaisquer meios de
comunicação e transportes terrestres, aéreos e fluviais, dispondo, inclusive, de um campo de
aviação. Entretanto, o jornalista mostrou-se aliviado com o fim do contrato e a proibição,
dólares com a aquisição da terra não trouxe correspondente rendimento na exploração dos seringais cultivados.
A baixa produtividade, o fim da Segunda Guerra Mundial, com a consequente queda na demanda mundial por
borracha, e a produção de borracha sintética levaram à retirada dos americanos da região em 1945. O governo
federal adquiriu as benfeitorias e as plantações de seringueiras, porém não impediu a degradação da cidade, que
viu seu patrimônio material ser arruinado, ficando prédios em ruínas e lembranças de moradores remanescentes
do tempo do fastígio da borracha. (SENA, 2008, p. 89)
852
O ponto oficial da imigração japonesa no estado do Pará se deu em 1925, quando o governador Dionísio
Bentes recebeu os enviados da indústria de tecidos japonesa Kanegafuchi Bosseki Kabushiki Kaisha (Kanebo),
Yasuhei Ashizawa e Hideo Nakano, com uma carta do embaixador japonês Hichita Tatsuki. O governador
ofereceu as terras situadas às margens dos rios Capim, Moju ou Acará, como propícias à colonização japonesa.
Em maio de 1926, chegou a Belém uma missão científica japonesa chefiada por Hachiro Fukuhara e mais oito
técnicos, para escolher a área em Acará e fundar a Nambei Takushoku Kabushiki Kaisha (Companhia Nipônica
de Plantações do Brasil S.A.), conhecida como Nantaku. Através da Lei 2.746, de 13 de novembro de 1928, o
governo do Pará concedeu para Hachiro Fukuhara, 600.000 ha de terra em Acará, 400.000 ha em Monte Alegre,
e três lotes, de 10.000 ha cada um, em Marabá, na zona da Estrada de Ferro de Bragança, e em Conceição do
Araguaia. As razões que levaram à desativação das atividades da Nipônica, que ocorreu em 1942, estão ligadas à
Constituição de 1934, que restringiu a entrada de imigrantes no País e a concessão de terras nas fronteiras
brasileiras. (HOMMA, 2016, p. 33-43)
853
Segundo Trubiliano (2014), o surgimento a ocupação de terras por companhias estrangeiras no Mato Grosso
ocorreu em um contexto de aumento do consumo de carne bovino no mercado mundial, uma das consequências
da Primeira Guerra Mundial sobre os fluxos de internacionais de mercadorias e capitais. O cenário favorável
estimulou o investimento de capitais estrangeiros, especialmente platinos, na estruturação de companhias
especializadas na produção de charque. Os primeiros produtores de charque se instalaram no sul de Mato
Grosso, às margens do rio Paraguai ou de seus afluentes. A escolha desses locais se explica pela regular oferta de
matéria-prima e a utilização da via fluvial como o principal escoadouro para produção. Em 1925, segundo o
autor, dezenove empresas do ramo funcionavam no estado. A crescente demanda e a necessidade de garantir
matéria-prima levaram os estancieiros platinos a adquirir fazendas de gado, como no caso da Companhia
Fomento Argentina, proprietária de 277 léguas no Pantanal do Nabileque.
854
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 4 jun. 1937, p. 4.
533
Mas antes de vibrar em cóleras contra os conceitos desrespeitosos das nações que
lutam por colocar, em nome do direito à vida, em qualquer parte do mundo, os seus
855
Ibidem.
856
Ibidem.
857
Ibidem.
858
Ibidem.
859
Carlos Maul (1889-1973) foi um escritor, poeta e jornalista fluminense. Foi editor dos jornais Correio da
Manhã, Imprensa, Gazeta de Notícias, A Notícia e O Dia. Fonte: O Jornal, Rio de Janeiro, 15 mar. 1973, p. 2.
534
Por fim, Maul lembrou que o contrato da Nipônica, assim como os de outras tantas
concessões estrangeiras em território nacional, havia sido firmado antes da Revolução de
1930 e já havia caducado com a promulgação da Constituição de 1934. E destacou que, além
de alguns parlamentares e de alguns elementos das Forças Armadas, havia um desinteresse do
governo em solucionar o problema e “fechar as portas do Brasil a essas transações
vandalísticas”.862
Segundo Takeuchi (2008, p. 176), as concessões do Norte do País eram vistas pelos
antinipóticos como uma estratégia do Japão em utilizar seus súditos, instalados em grandes
latifúndios, para promover o futuro domínio militar e político do Brasil, como já havia feito
na Manchúria, no final dos anos 1920. Sendo assim, segundo a autora, o discurso contrário à
imigração japonesa, conjugava a denúncia do imperialismo japonês ao nacionalismo de
Vargas. A praxis originada desse discurso intolerante foi a iniciativa liderada por José Félix
860
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 10 jun. 1937, p. 4.
861
Ibidem.
862
Ibidem.
535
Alves Pacheco, proprietário do Jornal do Commercio, que abriu espaço em seu jornal para os
ataques aos imigrantes japoneses.
E foi justamente nesse periódico que Maul deu continuidade às suas críticas à presença
dos japoneses no Brasil. Em um artigo publicado em junho de 1935, o jornalista subiu o tom
de suas palavras contra as concessões feitas às companhias nipônicas. Disse custar a entender
por que havia no País uma corrente simpática à “imigração amarela”, em flagrante
contrariedade ao texto constitucional, que restringia a entrada de estrangeiros em território
nacional. Lembrou do estado de São Paulo, que, diante do “regime de portas escancaradas”, já
havia recebido mais de 100.000 imigrantes japoneses, os quais, com rara inteligência,
trataram logo de ocupar pontos estratégicos no litoral e no sertão brasileiros. Salientou,
também, que se iludiam os brasileiros com o suposto progresso que as companhias japonesas
afirmavam trazer ao Brasil. A realidade, segundo ele, era outra: o Japão vendia mais ao Brasil
do que lhe comprava, já que as matérias primas produzidas pelos colonos japoneses no País
eram transportadas para o Japão em navios com bandeira nipônica. Em pouco tempo o Brasil
representaria para o Japão aquilo que os países africanos representavam para a Europa:
colônias fornecedoras de matérias-primas para as indústrias daquele país.863
Cabe ressaltar, que não há evidências, nas narrativas de Pessoa, de que o seu discurso
a favor do afastamento das populações estrangeiras dessas áreas seja um posicionamento de
cunho racialista. Aliás, em nenhum momento, em suas memórias, Pessoa comenta o assunto.
Porém, adota um posicionamento forte a favor de que, nas áreas consideradas sensíveis para a
defesa da Nação, não houvesse concessões ou a presença de moradores estrangeiros,
principalmente dos que fossem provenientes de países que pudessem ter algum interesse
estratégico militar ou econômico no País.
Entretanto, o discurso de Pessoa, de oposição à presença de estrangeiros no País, deu-
se em um contexto em que se fortaleceu a política imigratória de Vargas para os anos 1930, e
que tomou as páginas de muitos jornais do Rio de Janeiro, como lembrou a edição do Diário
Carioca de 13 de junho de 1936. É importante lembrar o destaque que o nacionalismo
brasileiro ganhou no primeiro governo de Getúlio Vargas. Como bem aponta Schulze (2013,
p. 3), já no Século XIX os políticos brasileiros argumentavam que a imigração europeia era
uma maneira de melhorar e “civilizar” a nação brasileira. Nos anos 1930, Vargas tratou de
enfatizar esse debate com a finalidade de criar uma identidade nacional homogênea. Nesse
contexto, segundo o autor, os objetivos e a solução dos problemas relativos à imigração foram
863
Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 14 jun. 1935, p. 10.
536
discutidos por cientistas e políticos brasileiros com intensidade. Isso se evidencia na fundação
do Conselho de Imigração e Colonização (CIC), em 1938, e da Revista de Imigração e
Colonização, em 1940, uma publicação daquele órgão governamental. Em vista do novo
nacionalismo forçado por Vargas, muitos sociólogos e etnólogos dedicaram-se a estudos
sobre a brasilidade e definiram qual seria a imigração desejada e útil para a nação brasileira.
Ainda em 1942, a questão das concessões estrangeiras era discutida nos jornais da
Capital Federal e José Pessoa, à época já no exercício de outra função, o de Inspetor da Arma
de Cavalaria, novamente foi ouvido. Em abril daquele ano concedeu uma entrevista ao
Correio da Manhã, na qual foi dado destaque ao fim da concessão à Nipônica de Plantação
pelo Governo Federal. Para Pessoa, o momento pelo qual passava o País era de salvaguardar
os interesses da soberania. Cabe lembrar que em janeiro de 1942 o Brasil rompeu relações
diplomáticas com os países do Eixo, em função dos constantes torpedeamentos que os navios
brasileiros vinham sofrendo por submarinos alemães no oceano Atlântico, por conta do
alinhamento do País aos Estados Unidos, durante a Segunda Guerra Mundial. Segundo
Pessoa, o Brasil deveria encarar de frente a realidade e se precaver, sem procrastinação, contra
a escravização dos povos livres pelos regimes totalitários, o que faziam sob o slogan da
reivindicação do espaço vital. Nesse contexto, fez questão de lembrar:
O redator do artigo, não identificado, lembrou que o problema das concessões não era
um fruto da Revolução de 1930, mas, havia sido armado pelo governo anterior, cujos políticos
suicidas só tinham “visão e sensibilidade para o que lhes tocasse de perto e diretamente e
eram cegos e insensíveis para o que ultrapassasse o ângulo do seu entendimento”. Destacou,
também, que 1/8 do território brasileiro escapava à jurisdição nacional, devido às concessões
feitas às companhias estrangeiras, que agiam como estados soberanos, em plena
desobediência às leis brasileiras sociais, fiscais e ordinárias. Além desses aspectos, atentou
para o fato de que todas as terras sob concessões não tinham sido escolhidas pelos imigrantes
por acaso, já que haviam sido previamente analisadas por geólogos que pesquisaram o
subsolo, para terem a certeza das suas possibilidades mineralógicas, agrícolas e pecuárias. 865
864
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 12 abr. 1942, p. 2.
865
Ibidem.
537
concessões estrangeiras. O seu envolvimento na trama política que tomou conta das Forças
Armadas e da Nação na década de 1930, e que resultou no golpe de novembro de 1937,
definiu o seu futuro dentro do Exército, afastando-o da possibilidade de ocupar os cargos
afetos ao alto comando, que definiam os rumos da Instituição, como a chefia do Estado-Maior
do Exército ou a pasta da Guerra.
McCann (2009, p. 459) aponta que uma “tempestade militar” agitou as relações das
Forças Armadas com o governo de Vargas a partir de 1934. Era perceptível a irritação que
tomava conta do corpo de oficiais em função da forma como o governo estava tratando o
aumento do soldo dos militares, um anseio que tomava conta das instituições desde julho de
1934, quando Vargas assinou um decreto legalizando as decisões do Governo Provisório,
antes da promulgação da nova Constituição Federal. À época o Exército havia sugerido que
Getúlio elevasse o soldo dos militares, o que não ocorreu, em função do corte de mais de 140
mil contos de réis feito nos orçamentos dos ministérios. Corria, ainda, o boato de que ele
havia prometido um aumento aos militares, a fim de conseguir apoio na eleição para
presidente. Na verdade, segundo o autor, a situação já estava tensa desde que o general João
Gomes da Fontoura, comandante da 1ª Brigada de Infantaria, na Vila Militar, havia sido
nomeado chefe de uma comissão formada por oficiais do Exército e da Marinha que redigiu
uma proposta salarial que foi apresentada ao Congresso Nacional. Se fosse aprovada, dobraria
os soldos os vencimentos de todos os militares. Entretanto, a ideia foi rechaçada pelos
congressistas. Com a notícia, segundo McCann, Gomes da Fontoura teria perdido as
estribeiras e ameaçado marchar com suas tropas diante do Congresso, a fim de trazer os
legisladores federais à razão.
Em setembro de 1934 a pressão por um aumento salarial generalizado para todas as
categorias do funcionalismo público federal aumentou sobre o governo. Aos ministros da
Guerra e da Marinha, Getúlio prometeu alocar 100 mil contos de réis para a compra de novos
armamentos e 19 mil contos de réis para o reajuste dos soldos. Diante da reivindicação dos
militares, surgiu a voz dissonante do general Pantaleão Pessoa, chefe da Casa Militar, que
disse estar admirado com a atitude dos generais, que, diante da situação precária em que
encontravam as unidades militares do Exército, com efetivos e armas inferiores ao prescrito,
pediam um aumento salarial. A situação disciplinar da Instituição começava a ser afetada.
Corria a notícia que, novamente, Gomes da Fontoura teria dito a oficiais que derrubaria o
governo, caso o aumento dos soldos não fosse aprovado. No ano seguinte, foi a vez de Góes
Monteiro se manifestar. Diante da insistência do chefe do EME, general Olímpio da Silveira,
para que a chefia do Exército tomasse uma atitude decisiva, em 9 de abril de 1935 o ministro
539
866
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 17 abr. 1935, p. 1.
540
867
A Nação, Rio de Janeiro, 18 abr. 1935, p. 1; Correio da Manhã, 18 abr. 1935, p. 1; Jornal do Brasil, Rio de
Janeiro, 18 abr. 1935, p. 8.
868
Ibidem.
869
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1935.04.11, doc. 0781.
541
870
Ibidem.
871
Ibidem.
872
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1935.04.11, doc. 0782-4.
542
de suas responsabilidades”, que não aceitaram assistir passivamente a uma questão que já
havia se transformado em uma “questão de classe”, que seria o gérmen de uma cizânia, cujas
consequências seriam levar o Exército à indisciplina desenfreada e à anarquia, com reflexos
perniciosos na vida nacional. O ministro considerou a atitude dos generais “compatível com
os largos gestos e atitudes em prol da solidariedade e coesão da classe militar, que sempre
adotaram, nos momentos críticos, os generais das gerações passadas”. E considerou a atitude
de José Pessoa, de não querer arcar com os problemas da pasta da Guerra, quando declarou
não querer assumi-la, um sinal de fraqueza. Concluiu destacando a situação na qual o País se
encontrava não se devia à ação de somente uma pessoa, pois, somente “os deslocamentos da
coletividade e compatíveis com as ligações das partes do todo” poderiam influir nos destinos
da Nação. Fora desses princípios, as ações isoladas seriam perdidas e só valeriam como
intenções.873
Ser tachado de fraco atingiu os brios de Pessoa. Em 18 de abril, em uma carta curta,
ressaltou à Góes que o fato de não querer arcar com as responsabilidades da pasta da Guerra
não era um sinal de fraqueza, como ele pretendia fazer-lhe crer. O seu passado “de lutas e
dissabores sem contas”, que resultaram no “sacrifício” de um comando que havia se revelado
“defensor intemerato da moralidade, da justiça e da lei” era o penhor de sua consciência, que
jamais havia se enfraquecido diante das situações mais graves e árduas. E destacou que se, de
fato, a fraqueza era considerada por Góes uma de suas qualidades, restava-lhe a certeza de
que, com ela, mais de uma vez havia “arrestado desassombradamente a fortaleza dos homens”
e ainda esperava se opor, mesmo que isoladamente e em qualquer circunstância, “à ousadia
daqueles que não quiserem respeitar a lisura e a nobreza” das suas atitudes.874
Em sua autobiografia, José Pessoa deixa claro que considerava Góes Monteiro um
inimigo pessoal, que vivia à espreita, cheio de intenções maldosas. Ainda a respeito das
insinuações feitas por Góes sobre Pessoa não querer assumir a pasta da Guerra devido aos
problemas que ela trazia, este, em tom jocoso, indagou:
Mas que problemas difíceis tem o nosso Ministério da Guerra que não possam ser
enfrentados por qualquer dos nossos generais, quando até o general Góes Monteiro
já exerceu o cargo? Ele, que é conhecido entre os companheiros, como um oficial
preguiçoso e ineficiente, do qual não se conhece um só trabalho técnico, um plano
de operações ou de defesa... (ALBQUERQUE, 1953, Pasta IV, p. 47)
Segundo McCann (2009, p. 461), Getúlio chamou o motim articulado pelo alto
comando do Exército de “revolução branca”. O presidente também não teria aceitado o
873
Ibidem.
874
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1935.04.11, doc. 0785.
543
argumento de Góes de que o cargo de ministro, por ser político, não estava sujeito às normas
de obediência. Era evidente que as Forças Armadas não mantinham, como esperava Vargas, a
distância institucional das intrigas políticas da Nação. O imbróglio disciplinar gerado pela
crise dos soldos começou a criar ramificações políticas e regionais. No Rio Grande do Sul, um
grupo de oficiais do Batalhão de Engenharia de Cachoeira do Sul, encabeçado pelo capitão
Ciro Carvalho de Abreu875, que dias antes havia servido no Ministério da Guerra, enviou um
telegrama a Góes Monteiro em 18 de abril, criticando-o por não ter punido o general Guedes
da Fontoura e pelo seu posicionamento em relação à questão dos vencimentos dos militares.
Em sua autobiografia, José Pessoa faz a transcrição desse documento, cujo teor ganhou as
páginas dos jornais da Capital Federal. Nele, os oficiais que o assinaram lembraram a Góes
que haviam colaborado com a ascensão de Vargas em 1930, e ajudado a consolidá-lo em
1932. Por isso, achavam-se no dever de se manifestarem sobre a questão dos soldos. Para eles,
o conflito que havia se estabelecido entre o governo e as autoridades militares davam margem
à exploração de politiqueiros contra os interesses da ordem que prometeram implantar na
Revolução de 1930. Consideraram arrogante e inoportuna a solicitação feita por alguns
oficiais em nome do Exército para o reajuste dos vencimentos. Criticaram a complacência de
Góes com a atitude pública de Guedes da Fontoura, a qual consideraram um desvirtuamento
moral do ministro em relação à verdadeira missão do Exército, que deveria ser a de garantir a
autoridade e a liberdade do Congresso legislar sobre os problemas do País. Ressaltaram,
ainda, que os interesses das classes militares jamais poderiam de chocar com os da Nação.876
As cobranças feitas a Góes Monteiro, entretanto, não ficaram restritas somente aos
oficiais da guarnição de Cachoeira do Sul. Os periódicos do Rio de Janeiro destacaram, ainda,
que havia uma mobilização dos oficiais da 3ª Região Militar como um todo877 para que um
telegrama semelhante ao que fora produzido no Batalhão de Engenharia fosse enviado ao
presidente da República. A exemplo dos colegas de Cachoeira do Sul, acreditavam que o
Exército não deveria se vender e que estavam defendendo a honra da Instituição.878
875
Segundo McCann (2009, p. 462), o capitão Ciro Carvalho de Abreu era cunhado do general Pantaleão Pessoa,
chefe da Casa Militar do governo Vargas. Antes de viajar para o Sul, Ciro havia declarado a sua intenção a
Pantaleão, que o advertiu quanto às consequências do ato de indisciplina que iria praticar. Entretanto, como
aponta o autor, em suas memórias o general Pantaleão teria declarado que, em seu íntimo, o desejo era ser
tenente novamente, para poder acompanhar Ciro na sua resolução.
876
Albuquerque, 1953, Pasta IV, p. 52; Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 19 abr. 1935, p. 4; Jornal do Brasil,
Rio de Janeiro, 19 abr. 1935, p. 7; Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 19 abr. 1935, p. 6; Diário de Notícias,
Rio de Janeiro, 20 abr. 1935, p. 1.
877
A 3ª Região Militar abrangia as unidades militares do Rio Grande do Sul.
878
Albuquerque, 1953, Pasta IV, p. 52; Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 19 abr. 1935, p. 4; Jornal do Brasil,
Rio de Janeiro, 19 abr. 1935, p. 7; Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 19 abr. 1935, p. 6; Diário de Notícias,
Rio de Janeiro, 20 abr. 1935, p. 1.
544
Góes considerou o recado recebido dos oficiais de Engenharia ultrajante e exigiu que o
comandante da 3ª Região Militar, general César Augusto Parga Rodrigues, punisse os
insubordinados. A pedido de Pantaleão Pessoa e de Vargas, o governador do Rio Grande do
Sul, Flores da Cunha, procurava acalmar os ânimos dos militares gaúchos e evitar, assim, uma
guerra civil. Por outro lado, na Capital Federal, alguns generais oponentes do regime, como
Klinger e Euclides Figueiredo, atiçavam Guedes da Fontoura, criando uma cisão entre os
oficiais do Exército. Apesar dos militares da Vila Militar estarem divididos, Vargas não
acreditava em um levante, já que Fontoura não tinha o apoio total dos companheiros de farda.
O presidente também achava que não era o momento de criticar publicamente Góes, mas
aconselhou Flores da Cunha a estar pronto e unido ao governo. (McCANN, 2009, p. 463)
Aconselhado pelo general João Gomes, comandante da 1ª RM, por Filinto Müller,
chefe de polícia do Distrito Federal, e por Vicente Rao, ministro da Justiça, Vargas promoveu
algumas mudanças na cúpula do Exército, logo após a Semana Santa de 1935, a fim de
intensificar a disciplina na Instituição. Substituiu Guedes da Fontoura, na Vila Militar, por
Eurico Dutra. Fontoura recusou-se a realizar a passagem de comando, tendo, Dutra,
praticamente se apossado do quartel-general da 1ª Brigada de Infantaria. Em maio, Vargas
promoveu Dutra a general-de-divisão e o pôs no comando da 1ª Região Militar, no lugar do
general João Gomes, que assumiu o Ministério da Guerra no lugar de Góes Monteiro, que
permaneceu provisoriamente sem função. (McCANN, 2009, p. 463-464)
José Pessoa recorda-se dessa época como “dias de perturbação moral”, em que o
Exército fora submetido a uma situação “verdadeiramente humilhante, vergonhosa,
intranquilizadora e infernal”. Destaca que as entrevistas diárias concedidas por Góes Monteiro
aos jornais cariocas constituíam-se em uma “campanha demagógica de desmoralização contra
tudo e contra todos, a provocar o desassossego geral”. Nos tempos de Góes, segundo ele, o
pátio do Ministério da Guerra era uma verdadeira “feira livre, onde fervilhava, nas horas de
expediente, uma elite que variava do jogador do bicho aos contraventores de crimes comuns,
do fascismo, do bolchevismo, tudo à guisa da popularidade encomendada ao ministro”. A
demissão de Góes, para Pessoa, causou alívio e satisfação à classe militar e à Nação. Dessa
forma, voltaram a calma de espírito, a disciplina no Exército e a tranquilidade no País.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta IV, p. 53-54)
Mesmo após o general João Gomes ter assumido a pasta da Guerra, José Pessoa
alegou ter encontrado atos de “sabotagem” do antigo ministro contra ele. Em uma carta
545
endereçada a Gomes, em 18 de junho de 1935, Pessoa mostrou a sua contrariedade com o fato
de Góes Monteiro, pouco antes de ser substituído, por meio de um aviso reservado, ter dado
ordem expressas ao Departamento de Pessoa do Exército para não classificar aspirantes da
turma de 1934 nas unidades de Artilharia de Costa. Ora, estas unidades estavam sob o
comando de Pessoa e os aspirantes de 1934 faziam parte da turma que entrou em greve no
final do período em que dirigiu a Escola Militar do Realengo. No documento, ele deixou claro
ao ministro da Guerra que não via incompatibilidade alguma em esses aspirantes servirem sob
o seu comando e que tudo tratava-se de uma intriga de Góes. Além do mais, segundo ele, não
foi a greve dos cadetes que o levou a afastar-se da Escola Militar e, sim, os atos injuriosos de
Góes Monteiro contra a dignidade da coletividade daquela instituição de ensino. O ministro
João Gomes acabou desfazendo o ato de Góes. No dia 25 de janeiro de 1944, a turma de 1934
festejou os dez anos de sua formatura com um almoço no Automóvel Clube do Rio de
Janeiro, conforme noticiou a edição do jornal Diário Carioca daquela data. Na ocasião, José
Pessoa foi o convidado de honra da turma e presidiu o encontro. Para ele, essa era a prova de
que não havia ficado ressentimentos entre as partes. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta IV, p.
54-58)
As trocas de funções promovidas por Vargas afastaram as ameaças de um golpe
militar, mas não acalmaram os ânimos dos militares e o espírito de indisciplina da tropa. A
questão dos soldos ainda precisava ser resolvida, mesmo diante da situação financeira
periclitante em que o País se encontrava. A solução encontrada pelo Congresso foi conceder a
todo o funcionalismo público uma gratificação mensal, a ser adicionada aos vencimentos.
Vargas vetou a parte do projeto de lei referente aos civis e manteve a dos militares, o que
causou a revolta dos congressistas, que nada puderam fazer, já que se encontravam em fim de
legislatura. Qualquer mudança ficaria por conta dos deputados recém-eleitos. O déficit
causado pela gratificação impactou severamente o Exército, que parou de incorporar recrutas
em suas fileiras. Os sargentos que haviam sido promovidos a tenentes em cargos
comissionados, após a Revolução de 1930, também tiveram as suas promoções a capitães
barradas e gradativamente passaram a ser reformados. (McCANN, 2009, p. 464)
Como lembra McCann (2009, p. 468), a troca de comandantes realizada por Getúlio
não conseguiu conter, a curto prazo, a indisciplina no Exército. Uma coisa era substituí-los,
outra era conseguir que os subordinados os obedecessem. O agitado ano de 1935 foi marcado
pelas manifestações dos integralistas e da Aliança Nacional Libertadora, sendo comum que
militares do Exército e da Marinha participassem ativamente desses atos, o que levou o
governo a aplicar contra os oficiais neles envolvidos a Lei de Segurança Nacional. Um
546
galão”. Segundo a autora, nos anos de trabalho junto às Forças Armadas, o PCB conseguiu
construir bases a manter contatos em quase todas as unidades militares, tanto no Exército
como na Marinha. Porém, os resultados eram inexpressivo e resultavam em pequenas e
isoladas conquistas ou eram reprimidas violentamente.
No entanto, como avalia Vianna (2007, p. 84), o trabalho do Comitê Antimilitar esteve
sempre ameaçado pelo unilateralismo em sua avaliação, uma ideia da qual também comunga
McCann (2009, p. 480). Segundo a autora, por suas características estanques e conspirativas,
tanto as informações provenientes das unidades militares quanto a sua transmissão à direção
do PCB ficavam nas mãos de poucas pessoas que, em geral, faziam julgamentos tão otimistas
quanto subjetivos da situação. Qualquer descontentamento em quartéis ou navios era tomado
como uma ação revolucionária de toda a guarnição. As fantasias revolucionárias do PCB
alimentaram na direção nacional a falsa ideia de que havia uma grande desagregação nas
Forças Armadas e que seria fácil mobilizar as unidades militares para uma revolução por ela
comandada. Para Vianna (2007, p. 84-85), o surgimento da ANL, em março de 1935, a adesão
que recebeu de grande número de militares, a chegada de Prestes ao Brasil e seu
envolvimento na luta revolucionária consolidaram na direção do PCB a opinião de que
bastaria uma ordem sua, respaldada por Prestes, para que todos a seguissem – um erro de
avaliação que custou caro ao Partido.
A ANL acabaria tendo vida curta. Em 5 de julho de 1935, no aniversário do
Movimento Tenentista de 1922, Prestes fez uma proclamação no Forte Copacabana, por meio
da qual conclamou as massas a organizarem-se para a guerra contra o governo de Vargas e
sob o brado de “todo poder à Aliança Nacional Libertadora”. Seis dias depois, invocando a
Lei de Segurança Nacional, Vargas fechou a ANL. McCann (2009, p. 479) aponta que esse
instrumento legal assinado em abril daquele ano foi usado intensamente pelo governo contra
associações ou juntas de toda a espécie que visassem à subversão da ordem política e social,
bem como contra os militares que participassem de atos subversivos ou que pertencessem a
qualquer um desses grupos. Como lembra o autor, a Lei de Segurança nunca foi aceita
totalmente pelos oficiais das Forças Armadas, que a consideravam insultante e desnecessária,
por mencioná-los com destaque em vários dispositivos que enumeravam os crimes contra a
Nação.
O erro de julgamento de Prestes e da direção nacional do PCB precipitou o levante
comunista nos quarteis do Exército. Acreditavam já possuir adesões suficientes entre os
militares para darem início à revolta. Estavam convencidos que a insatisfação com os soldos e
a redução dos efetivos da Instituição eram motivos suficientes para conseguirem novos
548
adeptos. Além disso, com a dispensa de sargentos e cabos, em função dos cortes
orçamentários, Prestes temia perder seus homens-chave. Sendo assim, ficou acertado que a
revolução se daria em novembro, na madrugada do dia 27, em todo o território nacional.
Entretanto, os erros de julgamento apontados por Vianna (2007) e McCann (2009) e a
total falta de coordenação entra as ações malogrou o levante, que iniciou dias antes do
previsto em algumas guarnições militares do Nordeste. Como aponta McCann (2009, p. 480),
em vez de uma explosão conjunta, o que se viu foi um “cordão de estalinhos de festim”
explodindo em intervalos em Natal, Recife e Rio de Janeiro. Na verdade, segundo o autor, os
incidentes do Nordeste estavam mais ligados a assuntos do próprio Exército do que ao
comunismo ou aos planos de Prestes. Após o insucesso dos levantes de Natal, em 23 de
novembro, e de Recife, em 24 de novembro, que foram prontamente reprimidos por tropas
federais dos respectivos estados apoiadas por tropas de Infantaria do Alagoas e da polícia
paraibana, foi a vez dos quarteis da Capital Federal levantarem-se contra o governo de
Vargas.
Na madrugada de 27 de novembro eclodiram revoltas no 3º Regimento de Infantaria,
na Praia Vermelha, e na Escola de Aviação Militar, no Campo dos Afonsos. Se conseguissem
decolar os aviões da Escola de Aviação, os rebeldes poderiam ter causado sérios danos a alvos
militares no Rio de Janeiro. Entretanto, não eram numerosos a ponto de fazer frente às tropas
da Vila Militar, que, às 7 horas da manhã já haviam controlado a situação. McCann (2009, p.
484) aponta que, ironicamente, a Escola Militar fez parte do efetivo militar que debelou o
levante no Campo dos Afonsos. Tendo à frente o seu comandante, coronel Mascarenhas de
Moraes, uma tropa formada por cerca de mil cadetes ficou encarregada de realizar o controle
dos acessos à estrada Rio-São Paulo, chegando a capturar alguns revoltosos em fuga. Como
ressalta o autor, apesar do papel da Escola Militar ter sido secundário nos acontecimentos de
27 de novembro, sua ação foi importante pelo que não aconteceu: pela primeira vez na
história da instituição de ensino militar, os cadetes saíram do seu quartel para defender a
ordem e as instituições nacionais.
Na Praia Vermelha a revolta iniciou às 2:50 horas do dia 27 de novembro, no 3º
Regimento de Infantaria, um dos piores locais para se iniciar uma rebelião, do ponto de vista
tático. Encravado em meio aos morros da Babilônia, da Urca e do Pão de Açúcar, e tendo ao
fundo a baía da Guanabara, era praticamente impossível às tropas revoltosas ocupar uma
posição de ataque ou recuar. Como destaca McCann (2009, p. 483), na estratégia mal pensada
dos líderes a unidade militar seria dominada rapidamente e, a partir daquele local, uma
investida seria realizada contra o Palácio da Guanabara, para prender Vargas.
549
Assim que ficou sabendo do levante no 3º RI, o general Dutra, comandante da 1ª RM,
deu ordem para que as tropas do Batalhão de Guardas (BG), sob o comando do general
Francisco José da Silva Júnior ocupassem o local. Por volta das 3:45 da manhã, a companhia
de metralhadoras pesadas do BG iniciou uma fuzilaria constante contra as instalações do
Regimento. No interior do aquartelamento, os revoltosos atiravam, através do pátio, contra as
companhias que resistiam ao levante. Dutra deu ordem para que tropas do 1º Regimento de
Cavalaria Divisionária (RCD), do 2º Regimento de Infantaria e do 1º Grupo de Obuses (GO),
da Vila Militar, do 2º Batalhão de Caçadores (BC), de Niterói, e do 1º Batalhão de Caçadores,
de Petrópolis, permanecessem de prontidão no Quartel-General da 1ª RM. Além das tropas do
Exército, o 2º Batalhão de Polícia Militar (BPM) marchou para a Praia Vermelha, onde
aguardou a ordem para emprego na altura da Rua da Passagem, em Botafogo. Por volta das 8
horas, as baterias de artilharia do 1º GO iniciaram, a partir do terreno do Iate Clube, o
bombardeio do prédio do 3º RI, pondo-o em chamas. Simultaneamente, dois aviões da
Aviação Militar metralharam o aquartelamento e bombas de gás lacrimogênio foram lançadas
sobre os revoltosos pelo 2º BPM. Sufocados pelo incêndio e causticados pelos bombardeios
do 1º GO, ataques da aviação e investidas das tropas de Infantaria, os revoltosos não
conseguiram manter o seu ponto de defesa e, às 13:20 horas, renderam-se às tropas do
governo. Sob a escolta do 2º BC, os prisioneiros foram levados à Casa de Detenção da Capital
Federal. Tanto Dutra como o ministro da Guerra, João Gomes, acompanharam in loco as
ações que reprimiram o levante no 3º RI. Dutra, inclusive, auxiliou o posicionamento das
metralhadoras do Batalhão de Guardas. Vargas chegou a deslocar-se para a Praia Vermelha ao
raiar do dia 27. Mas, diante do tiroteio cerrado não conseguiu chegar ao posto de comando de
Dutra, rumando, então, para o Campo dos Afonsos, a fim de verificar a situação do levante na
Escola de Aviação.879
As unidades militares de Artilharia de Costa da 1ª RM, sob o comando de José Pessoa,
também participaram das ações que debelaram o levante comunista de 27 de novembro.
Conforme ele relatou em suas memórias, antes mesmo das ameaças de um levante comunista
tomarem forma, havia dado ordem para que as suas unidades subordinadas confeccionassem
um plano de defesa imediata para os fortes e fortalezas da 1ª Região Militar. Sendo assim,
quando a revolta teve início no Nordeste, os quarteis do DAC já estavam em alerta quanto a
uma possível sublevação na Capital Federal. Na madrugada do dia 27, ao saber das ações
revoltosas no quartel do 3º RI, Pessoa deu ordem para que um posto de comando do Distrito
879
Informações retiradas do relato das operações feito pelo general Eurico Dutra e publicado no Boletim Interno
da 1ª Região Militar, de 11 de dezembro de 1935.
550
de Costa fosse montado no Forte Duque de Caxias. De lá, acompanhou, juntamente com seu
Estado-Maior, grande parte do desenrolar dos acontecimentos daquele dia. Com as tropas da
4ª Bateria de Artilharia de Costa (Forte Duque de Caxias) e do 2º Grupo de Artilharia de
Costa (Fortaleza de São João) mandou montar posições de defesa nos morros da Babilônia e
do Nazareth, respectivamente. Do morro da Babilônia, também era possível que as armas
automáticas da 4ª BIAC direcionassem seus fogos para o pátio interno e para a retaguarda das
edificações do 3º RI. Também ficou ao encargo das tropas do DAC a segurança da Avenida
Atlântica. Para isso, Pessoa recebeu o apoio de uma companhia de Infantaria do 2º BC. Uma
lancha da Fortaleza de São João foi guarnecida com metralhadoras, para fazer o
patrulhamento e o reconhecimento das adjacências à Praia Vermelha, a fim de se evitar que os
sublevados recebessem qualquer tipo de socorro pelo mar. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta V,
p. 14-18)
Pessoa narra, ainda, que, após coordenar os esforços das tropas sob o seu comando,
dirigiu-se ao posto de comando da 1ª RM, estabelecido na Avenida Portugal, na Urca.
Daquele ponto acompanhou o comandante da 1ª RM e o ministro da Guerra na investida ao 3º
RI, ocasião em que presenciou a morte do capitão João Ribeiro Pinheiro, ajudante-de-ordens
de Dutra. Também acompanhou a entrada de Dutra e do comandante da 2ª Brigada de
Infantaria no aquartelamento do 3º RI e a rendição dos militares revoltosos. Em relação à ação
das tropas sob o seu comando, rebeldes em fuga, juntamente com seus armamentos
equipamentos, foram apreendidos pelas guarnições que ocupavam os morros da Babilônia e
Nazareth após uma patrulha de limpeza na região. No dia 9 de dezembro, José Pessoa
desmobilizou o PC do DAC e as tropas sob o seu comando retornaram aos seus quartéis.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta V, p. 18-19)
Após a desmobilização, Pessoa mandou publicar no boletim do DAC um extenso
elogio a todos os oficiais e praças que participaram das ações do dia 27 de novembro.
Nominalmente, citou-os um a um, inclusive o cabo José Joaquim Rodrigues, seu motorista,
uma atitude rara para os comandantes da época. Igualmente, foi elogiado pelo comandante da
1ª RM, nos seguintes termos:
880
Boletim Interno da 1ª Região Militar, de 11 de dezembro de 1935.
881
Conforme a Ata da reunião, estiveram presentes os generais-de-divisão: João Gomes Ribeiro Filho, Firmino
Antônio Borba, Pantaleão Telles Ferreira, Valdomiro Castilho de Lima, Góes Monteiro, Constâncio Deschamps
Cavalcanti, Eurico Dutra, Pantaleão Pessoa; e os generais-de-brigada: Raimundo Rodrigues Barbosa, Colatino
Marques, João Guedes da Fontoura, Francisco José da Silva Júnior, Emílio Lúcio Esteves, José Pessoa, José
Maria de Vasconcelos, Júlio Caetano Horta Barbosa, Pedro Alcântara Cavalcanti de Albuquerque, João Cândido
Castro Júnior, José Antônio Coelho Netto, Francisco José Pinto, João Joaquim de Andrade, Estevão Leitão de
Carvalho, Newton de Andrade Cavalcanti, Álvaro Carlos Tourinho e Felipe Antônio Xavier Barros. (SILVA,
1970, p. 88)
552
882
De acordo com o Decreto Legislativo nº 6, de 18 de dezembro de 1935: a emenda nº 1 autorizava o presidente
da República a declarar a “comoção intestina grave, com finalidades subversivas das instituições políticas e
sociais, equiparada ao estado de guerra, em qualquer parte do território nacional”; a nº 2 estabelecia a perda de
patente e posto, sem o prejuízo de outras penalidades, dos oficiais da ativa, da reserva ou reformados que
praticassem ato ou participassem de movimento subversivo das instituições políticas e sociais; e a nº 3, à
semelhança da nº 2, previa a demissão dos funcionários públicos civis, ativos ou inativos, reformados que
praticassem ato ou participassem de movimento subversivo das instituições políticas e sociais.
554
883
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 10 jan. 1936, p. 1 e 3.
555
judiciários, que procuravam garantir a defesa dos acusados, deveria agir com mais rapidez e
decisão, sob pena de permitir que os inimigos se organizassem e estendessem a sua rede de
ação, o que obrigaria o governo a um esforço muito mais intenso para combatê-los e vencê-
los. E, apesar de reconhecer os esforços realizados pela Polícia do Distrito Federal, que
estavam resultando na prisão de muitas pessoas ligadas ao levante de 27 de novembro, os
membros da Comissão lembraram ao governo que muitos “adeptos do credo comunista”
continuavam, em liberdade, com as suas “maquinações subversivas, procurando desfechar,
em breve, um golpe decisivo”. Era urgente, portanto, que se desarticulasse por completo a
“trama em vias de realização”. Para que isso acontecesse, a Comissão requisitou ao governo a
prisão imediata de alguns agentes públicos, em face de suas atividades comunistas: o
governador do Distrito Federal, Pedro Ernesto; o ex-secretário de Educação do Distrito
Federal, Anísio Teixeira; o coronel do Exército Felipe Moreira Lima; o médico Elieser
Magalhães; e os civis Maurício de Lacerda, Luís de Barros e Odilon Batista. (SILVA, 1970,
p. 132-133)
McCann (2009, p. 494) ressalta que a comissão anticomunista serviu para manter
desperta a opinião pública. No entanto, claramente excessos foram cometidos. Como aceitava
denúncias anônimas, muitos dos acusados foram vítimas de inimigos pessoais ou rotulados de
comunistas por não se enquadrarem nos padrões locais. O autor cita o exemplo de uma
mulher que foi processada pelo Tribunal de Segurança porque seu nome constava na
caderneta de endereços de um suposto comunista e porque pertencia à União Feminina do
Brasil. Como a imagem do comunismo estava associado ao estrangeiro, desconfiar de
imigrantes também entrou na ordem do dia. Nem mesmo Vargas tinha a certeza das prisões
que eram feitas. Como aponta McCann (2009, p. 494), no caso da detenção de Pedro Ernesto,
um dos homens mais populares do País, que se deu sob forte comoção da população do Rio de
Janeiro, Getúlio confessou em seu diário que a tinha feito com pesar e com crise na
consciência. Tinha dúvidas se o governador do Distrito Federal era um incompreendido ou
um ludibriado. No final das contas, as dúvidas de Vargas faziam sentido. Pedro Ernesto foi
inocentado das acusações que lhes foram imputadas884. No dia em que saiu da prisão, em
setembro de 1936, a Prefeitura do Rio de Janeiro decretou feriado municipal. A cidade,
segundo o autor, irrompeu em um carnaval improvisado. No desfile que fez pela cidade,
884
Diferentemente de McCann, Levine (1980, p. 208) atribui a soltura de Pedro Ernesto às condições de saúde
do governador do Distrito Federal, que viria a falecer no início de 1940. No entanto Levine comunga da ideia de
McCann a respeito do dilema de Vargas, ao acatar a sugestão da prisão de Pedro Ernesto.
557
passou em frente ao Ministério da Guerra, de cujas janelas oficiais, praças e funcionários civis
assistiam o afeto que a população carioca o dedicava.
Conforme nota da Secretaria da Presidência da República, publicada nas edições de 17
de março dos jornais do Rio de Janeiro, naquela data a Comissão de Repressão ao
Comunismo foi extinta, por haver concluído as diligências e investigações que lhe foram
atribuídas e entregado às autoridades competentes os resultados dos seus trabalhos. Segundo a
informação do governo, nos meses em que atuou, a Comissão custou aos cofres públicos
300:000$000 (trezentos mil contos de réis).885 Diferentemente do que anunciou o Correio da
Manhã, Hélio Silva (1970) aponta que a atuação da Comissão de Repressão ao Comunismo
estendeu-se até setembro de 1937, sem ter apurado nada de concreto. Ao Ministério da Guerra
ficara claro que as ações do Ministério da Justiça, ao invés de reprimir as articulações
comunistas no Brasil, as estavam fomentando. No entanto, o governo já articulava com a alta
cúpula do Exército e da Marinha o golpe que aconteceria em novembro e, em meio aos
acontecimentos que o levaram a termo, as Forças Armadas já haviam convencido Vargas da
necessidade da decretação imediata de um novo estado de guerra. Dessa forma, não fazia mais
sentido a manutenção da Comissão.
Apesar de nomeado para a Comissão de Repressão ao Comunismo, José Pessoa não
atuou na mesma. Em 14 de janeiro de 1936, poucos dias após a criação do órgão, ele solicitou
ao presidente da República, por meio de uma carta, o cancelamento da sua nomeação.
Atribuiu o pedido de seu afastamento à falta de tempo para desempenhar satisfatoriamente a
nova função, em virtude dos cargos que já acumulava, como comandante do DAC da 1ª RM,
inspetor da Defesa Costeira e presidente da Comissão de Estudos da Defesa dos Portos.
Ressaltou que, apesar de saber há dias que seria designado para uma nova tarefa, fora mal
informado pelo ministro da Guerra sobre as atribuições que lhe competiriam, as quais julgou
serem unicamente de natureza técnica. Somente após ser nomeado é que tomou conhecimento
do vulto dos trabalhos a serem desenvolvidos. No entanto, considerou a iniciativa do governo
digna de louvor e, “como soldado e bom brasileiro”, desejava que fossem aplicadas contra os
culpados “as mais severas e inexoráveis punições”. No final da carta, pediu ao presidente que
atendesse à sua solicitação e o tirasse “daquele constrangimento”. É bastante provável que o
constrangimento a que Pessoa se referiu não foi o de ter que investigar os companheiros de
farda, uma vez que, sempre se mostrou avesso à política dentro dos quartéis e às
885
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 17 mar. 1937, p. 3; Diário Carioca, Rio de Janeiro, 17 mar. 1937, p. 1;
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 mar. 1937, p. 7; A Noite, Rio de Janeiro, 17 mar. 1937, p. 1; O Jornal, Rio
de Janeiro, 17 mar. 1937, p. 5.
558
consequências que dela pudessem advir. Pelo teor do texto que escreveu, sentia-se
constrangido de não poder dedicar-se com efetividade à nova missão e, assim, deixar
transparecer que não cumpriu a contento com o seu dever.886 Vargas atendeu o seu pedido e o
substituiu pelo general José Antônio Coelho Netto, comandante da Escola de Aviação Militar,
conforme ressalva feita na mesma nota da Secretaria da Presidência da República que
informou a extinção da Comissão, em 17 de março de 1937.
Nos dois anos que se seguiram, a situação política do País agravou-se com os
constantes boatos de golpe contra o governo de Vargas. Como não poderia deixar de ser, o
turbilhão político acabou atingindo as Forças Armadas, em especial o Exército. Góes
Monteiro, que depois de passar o Ministério da Guerra para João Gomes encontrava-se sem
função, viu na crise política em curso a oportunidade de centralizar o poder no governo
federal e de aumentar a autonomia do Exército com relação à política. Porém, como lembra
McCann (2009, p. 494), a intenção de Góes foi malograda pelo Congresso Nacional, que
ampliou os poderes de Vargas e, ao fazê-lo, também lhe deu mais autoridade sobre as Forças
Armadas, conferindo-lhe especificamente a jurisdição das promoções, atribuições e punições
de oficiais. Com efeito, as emendas à Constituição de 1934 acabaram por tirar das Forças
Armadas a supervisão legal da disciplina interna da caserna.
O ano de 1936 iniciou-se com a atmosfera político-militar completamente anuviada.
Como bem aponta McCann (2009, p. 495), generais discutiam sua autoridade e políticos
reuniam-se secretamente para fazer alianças e comprar armas para as forças públicas de seus
estados. No governo, Vargas procurava adiar a competição pública entre os possíveis
sucessores na eleição marcada para 1938. Flores da Cunha, governador do Rio Grande do Sul,
empenhava-se em criar um pacto tripartite com os governadores Benedito Valadares, de
Minas Gerais, e Armando Sales de Oliveira, de São Paulo, a fim de garantir a eleição deste
último à presidência da República. Tanto o Rio Grande do Sul como São Paulo haviam
importado armas e pareciam estar se preparando para a luta, se fosse necessário. As unidades
provisórias gaúchas comandadas por Flores, bem armadas e com grandes efetivos,
preocupavam os comandantes das forças federais do Sul, particularmente aquelas mais
distantes da Capital Federal.
Flores da Cunha tinha, no governo federal, Góes Monteiro como seu principal
desafeto. Politicamente, divergiam em tudo. Góes era centralizador convicto, enquanto Flores
era um fervoroso defensor da autonomia estadual. Entretanto, sua ideia de autonomia não o
886
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1934.08.18, doc. 0151.
559
impedia de se envolver no jogo político dos outros estados. As visões concorrentes dos dois
acabavam gerando atritos e requeriam de Vargas que tomasse partido de um ou de outro.
Logicamente, essa decisão implicaria levar o Brasil na direção de preservar as hegemonias
regionais ou estabelecer um governo centralizado. Passados seis anos da Revolução de 1930,
as concepções políticas das lideranças nacionais e estaduais pouco haviam mudado. A política
dos governadores ainda vigorava no aspecto de os governadores falarem por seus estados, e
ainda que Minas Gerais e São Paulo não tivessem mais a palavra final, ainda tentavam
influenciar os resultados políticos do País. O próprio Vargas ainda exercitava a velha política,
quando manipulava as regras do jogo, a fim de adequá-las à realidade da Nação. (McCANN,
2009, p. 495-496)
A política e o partidarismo também estavam muito vivos no Exército. Mesmo afastado
de suas funções, Góes Monteiro ainda era o centro das disputas sobre assuntos cruciais para a
Instituição, como a aprovação da emenda constitucional nº 2, que permitia a anulação das
comissões de oficiais. Pessoalmente, ele havia se empenhado junto à oficialidade pela não
aprovação do novo dispositivo. Essa atitude acabou gerando mais desentendimentos entre
Góes e seu sucessor na pasta da Guerra, general João Gomes, do que entre Góes e Vargas. O
fato é que Góes e Gomes não se davam bem. A indisposição entre os dois já havia ficado
evidente na questão dos soldos. Em maio de 1936 a situação agravou-se por conta de alguns
comentários que Góes teria feito a respeito de Gomes a oficiais do Exército. Essa atitude do
ex-ministro levou Góes a enviar telegramas aos comandantes das regiões militares alertando-
os, sem citar nomes, de que alguns elementos ambiciosos estevam tentando reaver suas
posições políticas e andavam empenhados em dividir o Exército para que a Instituição não se
opusesse a seus planos. Logicamente, se referia a Góes. (McCANN, 2009, p. 497-498)
Ao mesmo tempo em que o ministro João Gomes se afastava de Getúlio, por
supostamente estar apoiando a candidatura do governador de São Paulo, Armando Sales, à
presidência da República, Flores da Cunha mobilizava seus corpos provisórios. Em setembro
de 1936 Vargas recebeu relatos de seus parentes do Rio Grande do Sul de que Flores já
contava com cerca de 20.000 homens organizados e armados para a luta. Havia, ainda,
rumores de que Flores poderia candidatar-se à presidência, o que o levou a perder a lealdade
da bancada gaúcha no Congresso, amplamente a favor de Vargas. Nesse interim, a Góes foi
dada a função de inspetor geral das guarnições do Sul, que exigiu de João Gomes uma ação
mais enérgica contra a movimentação de Flores e o reforço das unidades militares do Paraná e
do Rio Grande do Sul. Era necessário, na sua visão, que oficiais de confiança fossem
colocados nos comandos das brigadas das regiões militares do Rio de Janeiro, São Paulo, Rio
560
Grande do Sul e Paraná. Também as forças policiais dos estados, especialmente a Brigada
Miliar do Rio Grande do Sul, precisavam ser neutralizadas ou cooptadas e os corpos
provisórios de Flores desarmados e dispensados. Cabe ressaltar, que os comandos das regiões
militares e de algumas brigadas de importância estratégica estavam entregues a oficiais que
não foram ex-tenentistas ou revolucionários de 1930887. Nos meses que se seguiram, os
comandantes regionais tolerantes às intenções de Flores seriam substituídos ou reformados.
(McCANN, 2009, p. 499-500)
Com o passar dos meses, a má administração de João Gomes à frente da pasta da
Guerra irritou Vargas. A sua reputação ia de mal a pior, devido à sua falta de entusiasmo para
implementar o plano de reorganização do Exército idealizado por Góes Monteiro em 1934.
No início de 1936, o Congresso havia aprovado um crédito especial de 1,5 bilhão de contos de
réis para o Exército adquirir novos armamentos e materiais. No entanto, no final do ano,
quando Gomes passou a função, nada havia sido adquirido. Enquanto as forças federais de
terra nada adquiriam, Gomes autorizou, em outubro de 1936, que São Paulo comprasse no
exterior uma grande quantidade de armas para a sua força pública, o que deixou transparecer
que não se destinavam à manutenção da ordem pública (essa encomenda seria apreendida no
porto de Santos, em janeiro de 1937, e transportada para o Rio de Janeiro). Enquanto isso,
Vargas e Góes debatiam as providências a serem tomadas para frear os preparativos militares
de Flores da Cunha. Góes estava ansioso para agir. Porém, ressentia-se das vacilações de
Gomes e, desanimado com os diversos empecilhos que o ministro lhe colocava no caminho,
pediu demissão da inspetoria do Sul. A gota d’água para Getúlio foi Gomes ter criticado o
comandante da 3ª RM por ter passado por cima da sua autoridade, quando se queixou
diretamente a Vargas, por não estar recebendo as armas e munições que havia solicitado para
conter um possível levante das tropas de Flores, no Sul. O presidente mandou o general José
Pinto, chefe da Casa Militar, dizer a Gomes que apoiasse a política varguista ou colocasse o
cargo à disposição. E foi o que o ministro da Guerra fez, em dezembro de 1936. (McCANN,
2009, p. 502-503)
Para McCann (2009, p. 504), o afastamento de Gomes do poder refletiu a
complexidade da situação político-militar do País. Não havia uma definição clara do papel e
do poder do ministro da Guerra. Diferentemente da República Velha, quando os ministros
geriam o Exército com uma maior autonomia, Vargas considerava-se o comandante em chefe
887
O general Dutra comandava a 1ª RM, o general Almério Moura estava à frente da 2ª RM, o general Emílio
Lúcio Esteves comandava a 3ª RM e João Guedes da Fontoura a 5ª RM. No comando da 1ª Brigada de
Infantaria, na Vila Militar, estava o general José Joaquim de Andrade que, como coronel, havia comandado o 12º
Batalhão de Infantaria, em Belo Horizonte, na resistência à Revolução de 1930.
561
das Forças Armadas e estava decidido a exercer o controle direto sempre que julgasse
necessário. As decisões que Gomes vinha tomando mostravam claramente que ele vinha
subvertendo as instruções do presidente. Tão logo recebeu o pedido de demissão do general
João Gomes, Getúlio convidou o general Eurico Dutra para assumir o Ministério da Guerra. A
atuação firme e decisiva que tivera no levante comunista de novembro de 1935 e o modo
como vinha administrando a 1ª Região Militar fizera a sua fama aumentar diante da população
do Distrito Federal e de Vargas. Somente deixaria o ministério em 1945, sendo o ministro que
mais tempo ocupou o cargo na história do País.
Na esfera política, Vargas manobrava entre os que pretendiam candidatar-se à sua
sucessão, sem, no entanto, indicar o seu preferido. Como aponta McCann (2009, p. 504), a
política nacional ganhou ares de República Velha, com várias facções e partidos tentando
levar o presidente a decidir suas disputas internas. Na passagem de 1936 para 1937, o
governador de São Paulo Armando Sales renunciou ao seu cargo para concorrer à presidência
no pleito eleitoral de janeiro de 1938. No entanto, Sales não era uma unanimidade nem no seu
estado. De Góes Monteiro recebeu o conselho para não se candidatar, porque não receberia o
apoio do Exército. Porém, a principal ameaça ao que restava da Revolução de 1930 e à ideia
de um governo centralizador, segundo o autor, era a potencial aliança entre Flores da Cunha,
Armando Sales e Benedito Valadares, governador de Minas Gerais, que acabou não se
concretizando. Realista, Valadares preferiu manter-se ao lado de Getúlio, deixando seus
aliados em uma posição político-militar vulnerável, já que não podiam contar mais com as
tropas de Minas Gerais, no caso de um levante armado.
Como lembra McCann (2009, p. 509), Dutra, quando assumiu o Ministério da Guerra,
não tinha ligações intelectuais ou emocionais com os tenentes de 1922 nem com a Revolução
de 1930. Seu pensamento militar baseava-se no reformismo intelectual dos Jovens Turcos e
da revista A Defesa Nacional.888 Havia um sentimento de gratidão seu para com Getúlio,
devido às suas promoções a coronel e general-de-brigada. Segundo o autor, o seu longo tempo
à frente da pasta da Guerra e a parceria que faria com Góes Monteiro, que ocuparia a chefia
do Estado-Maior do Exército, serviram para fortalecer a centralização do governo nacional,
modernizar o Exército e levar o País à Segunda Guerra Mundial. Além disso, esses dois
888
Quando a Revolução de 1930 teve início, o general Eurico Dutra comandava o 15º Regimento de Cavalaria
Independente (RCI) e a Escola de Cavalaria. À época ainda era coronel. Apesar de ser convidado, não aderiu ao
movimento revolucionário, tendo resistido ao expurgo de oficiais que ocorreu após o 24 de outubro. Seu maior
castigo, segundo McCann (2009, p. 506), foi ter sido nomeado comandante do 11º RCI, na distante Ponta Porã,
no Mato Grosso. Algum tempo depois, foi convidado para ser chefe do Estado-Maior do Distrito Militar do Mato
Grosso, comandado pelo general Bertholdo Klinger. Os dois eram velhos amigos, desde o tempo em que
publicavam juntos a revista A Defesa Nacional.
562
889
A vida militar de Valdomiro havia começado na antiga Escola Tática e de Tiro de Rio Pardo (RS), onde se
formou em 1892. Entre 1905 e 1913, ainda como capitão, cumpriu dois mantados de deputado estadual pelo Rio
Grande do Sul. Na Escola de Comando e Estado-Maior, que frequentou como tenente-coronel, em 1920, foi
aluno da Missão Militar Francesa. Em 1923, durante o governo de Artur Bernardes, foi preso por demonstrar
simpatia à causa tenentista. Posto em liberdade em 1925 permaneceu alheio à política nacional até 1929, quando
filiou-se à Aliança Liberal. (MAYER, 2010)
890
Durante o Congresso Revolucionário, realizado em novembro de 1932, no Rio de Janeiro, que contou com a
presença de Vargas e dos principais ministros do Governo Provisório, Valdomiro Lima defendeu o estado
federativo e a eleição indireta para a Presidência da República e para os executivos estaduais. Também entendia
que a ingerência militar na política dos estados deveria ser limitada. (MAYER, 2010)
563
891
McCann (2009, p. 511) cita os casos do tenente-coronel Agnelo Souza que, com 33 anos de Exército, jamais
havia servido em suas fileiras. Havia, também, os majores Leopoldo Barros Bittencourt, à disposição do Rio
Grande do Sul desde 1924, e Armando Nestor Cavalcante, que jamais prestara serviço na tropa como oficial
superior.
564
funções. O documento, levado ao conhecimento público por meio da imprensa paulista892, foi
lido na Câmara Federal pelo deputado potiguar Café Filho, no dia 2 de junho. Os generais
signatários por meio da representação, que, de acordo com os jornais, seria encaminhada ao
presidente da República por intermédio de Dutra, assim se manifestaram:
Supostamente, esse encontro de altas patentes teria acontecido na casa de José Pessoa.
Indagado pela imprensa paulista, Dutra mostrou-se surpreendido com a notícia, ainda mais
por estar vivendo o País sob o Estado de Guerra e sob forte censura, desde o levante de
novembro de 1935. Em nota, o ministro declarou que nenhuma representação havia sido lhe
entregue e que os generais signatários haviam sido ouvidos, tendo todos apontado que não ser
exata a notícia veiculada.894
Cabe ressaltar que, dia antes, em 19 de maio, face às notícias preocupantes que
tomavam as páginas da imprensa nacional a respeito da movimentação de tropas federais no
Rio Grande do Sul e a associação que se fazia do fato à sucessão presidencial, Dutra havia
emitido uma proclama ao Exército, a fim de acalmar os ânimos da população e dos militares.
No texto, publicado pela imprensa carioca, o ministro da Guerra garantiu que a movimentação
de tropas no Sul “estavam longe de obedecerem a fins políticos” e, sim, destinava-se “apenas
a salvaguardar a ordem, as instituições e a integridade nacionais”. Ressaltou que já eram de
conhecimento da população os preparativos militares desenvolvidos no Rio Grande do Sul.
Devido, então, a essa “ameaça constante e claramente definida, movida por interesses de
caráter pessoal” é que o governo sentiu a necessidade de responder com “medidas eficientes,
asseguradoras da própria tranquilidade pública”. Nas palavras de Dutra, cabia ao Ministério
da Guerra unicamente “preservar a ordem e manter as instituições, conservando o Exército
892
Estado de São Paulo, São Paulo, 3 jun. 1937, p. 1; Correio Paulistano, São Paulo, 3 jun. 1937, p. 1.
893
Ibidem.
894
Ibidem.
565
895
A Noite, Rio de Janeiro, 20 maio 1937, p. 1; Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 20 maio 1937, p. 1; Correio
da Manhã, Rio de Janeiro, 20 maio 1937, p. 1.
896
Ibidem.
897
Não é difícil deduzir a simpatia que os oficiais do Exército sentiam pelo Rio Grade do Sul. Da leitura que se
faz dos relatórios do Ministério da Guerra, percebe-se que o estado concentrava, à época, a maior parte das
566
unidades militares do País, por tratar-se de uma região estratégica, devido às fronteiras naturais com a Argentina.
Devido a esse fato, muitos oficiais já haviam servido no estado. Alguns consideravam-se gaúchos de coração,
pois haviam constituído família no Sul. Ainda hoje o Rio Grande do Sul é a segunda maior guarnição militar do
País, perdendo em número de unidades militares apenas para a guarnição da Vila Militar, no Rio de Janeiro.
898
De fato, em 23 de maio de 1937, o jornal A Noite noticiou uma troca de telegramas entre Flores da Cunha e
Valdomiro Lima. Flores informou a Valdomiro que havia proposto ao deputado João Carlos Machado que ele
fizesse parte de uma comissão parlamentar que visitaria o Rio Grande do Sul, a fim de verificar a situação
político-militar do estado. Valdomiro informou ao jornal que se sentia honrado com o convite, mas não poderia
viajar para o Sul devido aos seus afazeres na 1ª RM. No mais, a notícia não apontou nenhum tipo de articulação
entre Flores e Valdomiro em desfavor do governo de Vargas.
899
A Noite, Rio de Janeiro, 16 jun. 1937, p. 19.
900
Apesar do jornal referir-se a um código penal militar, o que vigia à época, para a tipificação de crimes
militares, era o Código Penal da Armada, de 1891. Por meio da Lei nº 612, de 29 de setembro de 1899, o Código
da Armada foi ampliado ao Exército, passando a abranger também os militares desta força. O Código Penal
Militar, nesses termos, foi instituído somente em 1944, por meio do Decreto Lei nº 6.227, de 24 de janeiro
daquele ano.
567
obviamente, ao fato de Góes ter denunciado a sua suposta participação no encontro dos
generais na residência de Pessoa, o que, para Valdomiro, não passava de uma calúnia. E, na
sua petição, arrolava como testemunhas os generais Pantaleão Pessoa, José Pessoa, Pantaleão
Telles Ferreira e Brasílio Taborda, que também teriam participado da reunião, e o coronel
Boanerges Lopes de Souza, chefe do Estado-Maior da 1ª RM, que foi o oficial encarregado de
chamá-lo ao Guanabara.901
Porém, o assunto, que parecia estar sob o controle de Dutra, tomou proporções
maiores quando ganhou as páginas dos jornais cariocas, na manhã do dia 16 de junho, com a
publicação, na íntegra, do teor das cartas enviadas por Valdomiro ao chefe da pasta da Guerra.
Ao saber do vazamento para a imprensa, Dutra mandou chamar Valdomiro ao seu gabinete, a
fim de questioná-lo sobre a autoria das publicações. Este respondeu ao ministro, por meio de
um ofício, que não cabia a ele quaisquer publicações nos jornais da Capital Federal e que
desconhecia quem poderia tê-lo feito, já que somente o presidente da República, o próprio
Dutra e o seu advogado [de Valdomiro], Dr. Victor Nunes, tinham conhecimento da queixa-
crime que havia apresentado contra Góes Monteiro.902 Apesar da prova documental de
Valdomiro, eximindo-se da autoria da publicação das cartas na imprensa, todos os jornais em
que o assunto foi veiculado afirmaram o contrário, ou seja, que, durante a reunião que tivera
com Dutra no Ministério da Guerra, ele teria assumido a responsabilidade do envio dos
documentos aos jornais.
Diante da proporção que o fato tomou, e a profunda impressão que causou na opinião
pública, no mesmo dia Dutra mandou prender disciplinarmente Valdomiro por quatro dias, no
quartel-general da 1ª Brigada de Infantaria, na Vila Militar. O argumento utilizado pelo
ministro da Guerra para deter o comandante da 1ª RM foi o fato de ele ter facilitado ao seu
advogado o acesso às cartas, que eram de interesse exclusivo das autoridades envolvidas no
incidente. Na visão de Dutra, o fato de os documentos terem ganhado as páginas dos jornais,
sem a autorização prévia das autoridades competentes, constituía-se em um ato nocivo aos
interesses do Exército e à disciplina que deveria ser observada por todos os oficiais da
Instituição, contrariando, dessa maneira, o Regulamento Interno dos Serviços Gerais. O
ministro da Guerra dava a entender que teria sido o Dr. Victor Nunes o responsável por fazer
901
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 16 jun. 1937, p. 2.
902
Conforme ofício do general Valdomiro Lima ao ministro da Guerra, de 16 de junho de 1937, anexo ao
processo de petição de habeas-corpus impetrado no Supremo Tribunal Militar pelo advogado de Valdomiro, em
16 de junho de 1937. Arquivo do Exército. Acervo do Gabinete do Ministério da Guerra.
568
903
Conforme ofício do ministro da Guerra ao presidente do Superior Tribunal Militar, de 16 de junho de 1937,
anexo ao processo de petição de habeas-corpus impetrado no Supremo Tribunal Militar pelo advogado de
Valdomiro, em 16 de junho de 1937. Arquivo do Exército. Acervo do Gabinete do Ministério da Guerra.
904
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 17 jun. 1937, p. 1.
905
O Radical, Rio de Janeiro, 17 jun. 1937, p. 1.
906
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 17 jun. 1937, p. 1.
907
Basearam-se os ministros no Decreto nº 20.810, de 17 de dezembro de 1931 e no artigo 113 da Constituição
de 1937. Ambos os dispositivos previam que não cabia o recurso de habeas corpus em transgressões
disciplinares. Votaram contra a concessão do habeas corpus à Valdomiro Lima o presidente do STM, almirante
Pedro Frontin e os ministros Barbosa Lima, o relator, e Bulcão Vianna. O voto discordante foi do ministro
Barros Barreto, que entendeu a punição imposta à Valdomiro mais como um caso de excesso de autoridade de
Dutra do que uma transgressão disciplinar. Conforme o Acordão dos autos do Processo de Habeas Corpus nº
8.396, impetrado por Valdomiro Lima. Arquivo do Exército. Acervo do Gabinete do Ministério da Guerra.
569
intuito de conspirar contra o governo. Fez questão de lembrar das interferências de Góes no
seu comando da Escola Militar. E lamentou que alguns “elementos”, “à custa da intriga, da
calúnia e de processos inconfessáveis”, tivessem atingido “os altos postos de
responsabilidade” do Exército, de onde podiam “mais facilmente [...] semearem a desarmonia
e a desordem”. Também alegou que a acusação que lhe estava sendo feita era a responsável
pela sua exoneração do cargo de inspetor da Artilharia de Costa. Por fim, comprometeu-se,
caso ficasse provada a acusação feita por Góes Monteiro, a demitir-se do Exército. Caso
contrário, disse esperar de Góes a mesma atitude, para que o País pudesse readquirir a
“situação de prosperidade e respeito” que lhe competia.908
A suposta participação de José Pessoa na reunião “conspiratória” dos generais e as
declarações que fez à imprensa custaram-lhe o comando da Artilharia de Costa e a liberdade.
Em 10 de junho, Pessoa foi exonerado das funções de comandante do Distrito de Artilharia de
Costa da 1ª RM e de inspetor da Artilharia de Costa. Na mesma data, foi nomeado
comandante da 8ª Brigada de Infantaria, em Juiz de Fora-MG, um cargo que jamais assumiu,
em função do inquérito decorrente da queixa-crime apresentada por Valdomiro Lima contra
Góes Monteiro, do qual foi testemunha. No dia 17 de junho, quando as notícias da celeuma
envolvendo Valdomiro e Góes começavam a circular com mais ênfase na imprensa, Pessoa
passou o comando do DAC ao general José Pompeu de Albuquerque Cavalcante. Na sua
última ordem do dia, após ressaltar as inúmeras melhorias implementadas na defesa costeira
do País durante a sua gestão, fez questão de observar que a nobreza de caráter era uma
qualidade que deveria ser seguida por todos os homens de farda. Sendo assim, concitou a
todos os companheiros a seguirem o exemplo daqueles que demonstravam possuí-la e, ao
mesmo tempo, desprezarem os que não possuíssem tal virtude. Lembrou que os interesses da
Pátria deveriam estar acima de quaisquer interesses pessoais. Por isso, destacou, aceitava com
prazer a nova função que lhe fora atribuída pelo ministro da Guerra. Nas suas palavras,
considerava ser o seu lugar aquele onde o governo achava por bem colocá-lo.909
Terminada a cerimônia de passagem de comando do DAC, Pessoa preocupou-se em
responder ao ministro da Guerra, por escrito, a consulta que este lhe fizera sobre ser ele o
autor da declaração/manifesto publicada no jornal A Noite. A Dutra, José Pessoa confirmou a
sua responsabilidade pelo repto que foi publicado, alegando que o fizera em defesa da sua
dignidade pessoal e do seu próprio lar, que foi considerado um reduto de conspiradores. Os
jornais já apontavam que Dutra apenas aguardava a resposta de Pessoa para mandar prendê-
908
A Noite, Rio de Janeiro, 16 jun. 1937, p. 2.
909
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 18 jun. 1937, p. 3.
570
lo. E foi o aconteceu. No dia seguinte, a imprensa publicou que, por determinação do
presidente da República, José Pessoa havia sido preso.910 A prisão, na verdade, foi
determinada pelo ministro da Guerra, em nota reservada, e teve um enorme efeito moral,
afinal de contas, dos supostos “conspiradores”, somente Pessoa e Valdomiro haviam sido
punidos. Os seis dias de prisão a ele impostos foram cumpridos no quartel-general da 1ª
Brigada de Infantaria, na Vila Militar, mesmo local em que o general Valdomiro havia
cumprido a sua pena. Na nota da prisão, Dutra alegou que Pessoa havia fornecido à imprensa
declarações sobre acontecimentos que estavam sendo tratados oficialmente por autoridades
superiores. Além disso, argumentou o chefe da pasta da Guerra, Pessoa havia feito referências
desabonadoras a superior hierárquico, no caso Góes Monteiro, e assertivas inverídicas a
respeito dos reais motivos de sua transferência para Juiz de Fora.911
Cabe ressaltar que, no dia seguinte ao de sua exoneração, Pessoa já havia feito um
forte pronunciamento em defesa de um ministro civil para a pasta da Guerra, durante a
inauguração da nova ponte de embarque e da nova usina de energia elétrica do Forte da Lage,
no Rio de Janeiro. No seu discurso, elogiou as gestões de Pandiá Calógeras, durante o
governo de seu tio Epitácio, e dos ministros da Guerra João José de Oliveira Junqueira Júnior
e da Marinha Afonso Celso de Assis Figueiredo, o Visconde de Ouro Preto, durante o
Segundo Império. Todos eles ministros civis. Segundo ele,
...esses exemplos nos deixam entrever que a prática de nomearem civis para as
pastas militares é das mais acertadas, pelo natural escrúpulo que têm eles de não
intervir nas funções do comando, intromissão esta tão perturbadora da harmonia e da
disciplina militar. Talvez fossem evitados os ressentimentos oriundos dos bancos
escolares; seria, enfim, um dique à formação de grupos alimentados por prevenções
descabidas. Haja vista o meio século de Império, em que, indistintamente se
nomeavam civis e militares para a pasta da Guerra, sendo-o usual na Marinha. E,
assim, já fizemos na Guerra do Paraguai, o que até hoje fazem as nações cultas,
milenárias e militarmente organizadas.912
Ao abordar, em suas memórias, o discurso proferido no Forte da Lage, fica claro que
Pessoa ressentia-se da exoneração do comando do DAC, que lhe fora imposta a mando de
Dutra. Lembrou que o País passava por um período agitado, em que os chefes do Exército
viviam “com seus passos tolhidos em verdadeiras teias de aranha, contudo despreocupados
com a atitude do triunvirato [Vargas, Dutra e Góes] que [...] mandava e desmandava,
desorganizava e a todos perturbava”. Segundo ele, eram os preparativos para o “liberticida de
910
A Noite, Rio de Janeiro, 17 jun. 1937, p. 2 e 18 jun. 1937, p. 1; Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 19 jun.
1937, p. 3.
911
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1937.06.15, doc.3.
912
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 13 jun. 1937, p. 3.
571
37” que já se faziam presentes, mas, que todos ignoravam. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta
V, p. 68)
Apesar das prisões de Valdomiro e de José Pessoa, Dutra ainda tinha que dar uma
solução à queixa apresentada pelo primeiro contra Góes Monteiro. Para isso, mandou abrir,
em 17 de junho de 1937, um inquérito policial militar, sob a presidência do general Firmino
Antônio Borba. Além de Valdomiro e Góes Monteiro, ouvidos como denunciante e indiciado,
respectivamente, foram inquiridos como testemunhas os generais Dutra, Pantaleão Pessoa,
Pantaleão Telles Ferreira, Brasílio Taborda, José Antônio Coelho Netto e José Pessoa. O
inquérito, que deveria somente apurar se Góes havia cometido o crime de calúnia ao
denunciar Valdomiro Lima, acabou virando um momento de acusações e justificativas de
atitudes tomadas no momento político pelo qual o País passava.
Valdomiro Lima pouco falou em sua inquirição. Tratou, apenas, de ratificar as
acusações que havia feito nas cartas que endereçou ao chefe da pasta da Guerra, em 11 de
junho. Já Góes Monteiro, em um longo depoimento, afirmou que não havia denunciado
ninguém ao presidente da República, apenas “comentado, opinado e referido fatos que
estavam no conhecimento público [...] sem ter a menor responsabilidade pela invenção desses
fatos e sua divulgação”. Entretanto, ressaltou que se foram revelados detalhes da suposta
reunião de generais pela imprensa, em pleno Estado de Guerra e não merecendo o corte da
censura, presumiu ser verdadeira a informação de que ela existiu. Apontou que ficou sabendo
do manifesto dos generais por intermédio do ministro da Guerra, em São Paulo. E que, dias
depois, no encontro que teve com Vargas, apenas havia lhe passado as versões correntes dos
fatos, referindo-se aos rumores existentes de que haviam sido realizadas, na verdade, mais de
uma reunião de generais, ora na casa de José Pessoa, ora no Estado-Maior do Exército.
Deixou claro que, por estar em Curitiba, cuidando da questão do Rio Grande do Sul, não sabia
dos pormenores do assunto, até mesmo porque os boatos e versões que dele circulavam na
imprensa eram inúmeros e desencontrados. Porém, admitiu ter dito a Getúlio que considerava
Valdomiro Lima o único responsável pelas agitações que haviam tomado conta do Exército e
que o considerava um traidor, por ter ele se fiado nas relações de parentesco com o presidente
para produzir o “estado de desprestígio e agitação contínua” em que se encontrava a
Instituição. Góes fez questão de destacar que o que motivou Valdomiro a lhe acusar de
caluniador e delator foi despeito de não ter sido nomeado chefe do Estado-Maior do Exército,
aliás, um cargo, segundo ele, que jamais havia cobiçado. Ao final de seu depoimento, imputou
à imprensa partidária e aos deputados da oposição ao governo a responsabilidade de
espalharem os fatos escandalosos e falsos sobre os acontecimentos que se passavam no
572
Exército, em relação ao que ocorria no Sul do País. Segundo ele, o que interessava a esses
órgãos de imprensa e políticos “a serviço de interesses estrangeiros, de interesses partidários e
de outros interesses escusos” era destituí-lo de suas funções a qualquer custo, para que
pudessem “afogar” a Pátria e o Exército em uma verdadeira “enxurrada de lama”.913
Quanto às testemunhas, os depoimentos de Pantaleão Pessoa, Pantaleão Telles e
Brasílio Taborda apontaram algumas coincidências, parecendo terem sido combinados. Todos
os três foram categóricos ao afirmar que, após tomarem conhecimento da suposta reunião dos
generais por meio dos jornais, procuraram o ministro da Guerra para informar-lhe que a
reunião não havia acontecido e depositar-lhe a confiança que era necessária para que somente
ele falasse em nome do Exército a respeito das questões que ameaçavam criar um dissenso
dentro da Instituição. Entretanto, todos confirmaram, em algum momento, terem trocado
ideias com colegas sobre as apreensões que existiam a respeito das consequências
imprevisíveis que poderiam advir das constantes notícias que eram veiculadas pelos órgãos de
imprensa sobre a concentração de tropas federais no Sul do País.
Pantaleão Telles apontou ser conveniente que se “envidassem esforços fervorosos no
sentido de que fossem mantidas as instituições, a paz e a ordem” e que as acusações falsas que
eram imputadas e ele e aos demais generais não passavam de uma “invencionice”, igual às
muitas outras que vinham acontecendo desde a Revolução de 1930 até aquela data. Pantaleão
Pessoa disse ter se encontrado com Valdomiro Lima somente uma vez, em maio daquele ano.
Na ocasião, segundo ele, deixou claro ao comandante da 1ª RM que não acreditava que o
regime organizado em 1934 fosse tão falho e imprevidente a ponto de não encontrar outro
meio para resolver as questões de ordem criadas pelas próprias autoridades do governo, em
uma clara referência à indisposição do governo com Flores da Cunha. E ressaltou que manter-
se-ia ao lado da Constituição, das leis e da ordem. Além disso, afirmou ter pedido a
Valdomiro para que declarasse pessoalmente o seu apoio ao ministro Dutra. Porém, Pantaleão
Pessoa fez questão de destacar que as dificuldades pelas quais passava a Nação tinham sido
criadas com o pleno concurso e consentimento das próprias autoridades e que, devido a isso,
não seria justo lançar o Brasil em uma “luta fratricida” e, muito menos, tirar daí “pretextos
para fazer do Exército instrumento da satisfação de paixões mal disfarçadas, especialmente
quando por meios dissuasórios tudo poderia voltar aos seus devidos lugares”. Assim como os
seus colegas de farda, Brasílio Taborda disse ter ficado perplexo com ao tomar conhecimento
913
Depoimento do general Góes Monteiro no Inquérito Policial Militar instaurado para apurar queixa-crime de
calúnia apresentada pelo general Valdomiro de Lima em desfavor do general Góes Monteiro, 17 jun. 1937.
Arquivo do Exército. Acervo do Gabinete do Ministério da Guerra.
573
da denúncia que lhe fora imputada de conspirar contra o governo. E que já havia alertado o
general Dutra, seu velho amigo, dos rumores generalizados em todos os meios sociais e
políticos de que o Exército se preparava para entrar no Rio Grande do Sul em uma “expedição
punitiva”, exatamente após o comandante da 3ª RM ter declarado publicamente que os corpos
provisórios de Flores da Cunha já haviam sido desarmados e não representavam mais
nenhuma ameaça à ordem do País. Declarou, também, já haver advertido Dutra sobre a
inevitável guerra civil que poderia advir da invasão daquele estado. Uma guerra que poderia,
segundo Taborda, espalhar-se para outros rincões do Brasil. Buscando novamente as
coincidências existentes nos depoimentos dos três generais, todos terminaram as respostas às
suas inquirições fazendo a mesma afirmação: se a defesa da ordem, do regime e da paz
poderiam ser classificados como conspiração, então, sim, haviam conspirado e continuariam
conspirando, apesar das ameaças e das invenções criadas.914
José Pessoa disse nada ter a esclarecer sobre a reunião dos generais, pois ainda não
tinha visto terem se concretizadas as provas do “crime” que lhe estava sendo imputado. Sendo
assim, não poderia contestá-las com “a verdade, o critério e a honestidade com que se sempre
pautou os atos de sua vida”. Ressaltou que as acusações de Góes Monteiro eram “despidas de
todo o fundamento, sem qualquer cunho de credibilidade, para que se lhe possa emprestar a
devida consideração”. Dizendo-se acostumado à disciplina, ao respeito aos camaradas e à
obediência às ordens superiores, afirmou não poder atinar como alguém poderia provocar a
discórdia e fragmentar a tropa quando o País exigia o “controle das paixões e, principalmente,
a harmonia entre as autoridades militares, para a grandeza do próprio Exército e segurança das
instituições nacionais”. Destacou que tanto o País como o Exército já sabiam que o escândalo
da suposta conspiração dos generais havia sido um “gesto de torpe vingança e de mais uma
manobra de politiqueiros civis e militares” e que, se havia conspiração no Exército, por certo
não seria ele um dos cumplices, ao menos que ao seu lado estivesse o próprio ministro da
Guerra como conivente. Por fim, afirmou nunca ter trocado ideias com colega algum sobre a
situação político-militar do País.915
A respeito do general Coelho Netto, este apenas fora chamado porque fora citado no
depoimento de José Pessoa. Pessoa afirmou que havia se encontrado com Coelho Netto na
914
Depoimentos dos generais Pantaleão Telles Ferreira, Pantaleão Pessoa e Brasílio Taborda no Inquérito
Policial Militar instaurado para apurar queixa-crime de calúnia apresentada pelo general Valdomiro de Lima em
desfavor do general Góes Monteiro, 17 jun. 1937. Arquivo do Exército. Acervo do Gabinete do Ministério da
Guerra.
915
Depoimento do general José Pessoa no Inquérito Policial Militar instaurado para apurar queixa-crime de
calúnia apresentada pelo general Valdomiro de Lima em desfavor do general Góes Monteiro, 17 jun. 1937.
Arquivo do Exército. Acervo do Gabinete do Ministério da Guerra.
574
Escola de Aviação, e que este comandava, a fim de agradecer-lhe pela cessão de alguns aviões
para os serviços da Artilharia de Costa no Amazonas. Na ocasião, conversaram sobre a
situação geral e Netto pediu a Pessoa que falasse ao ministro da Guerra sobre a sua
preocupação com a exploração que se fazia em torno do nome do Exército na imprensa.
Também declarou ter pedido ao colega que aconselhasse a Dutra encontrar uma solução
pacífica e dentro da ordem para os problemas do Rio Grande do Sul.916
O depoimento de Dutra praticamente serviu para ratificar o de Góes Monteiro, tendo o
ministro da Guerra confirmado as informações dadas por Góes da veiculação das notícias a
respeito da suposta conspiração dos generais. Dutra afirmou que desde o dia 30 de maio já
havia sido procurado por alguns generais, como Horta Barbosa, Castro Júnior e Manoel
Rabelo, que se dirigiram ao seu gabinete para trocarem ideias sobre os acontecimentos
políticos-militares que agitavam o País e prestar-lhe o apoio necessário no desempenho da
função de chefe da pasta da Guerra. Segundo o ministro, nesses encontros fez questão de
deixar claro que os preparativos militares que estavam sendo tomados em relação ao Sul não
tinham outros objetivos senão somente dissolver os corpos provisórios organizados por Flores
da Cunha e recuperar o material bélico pertencente ao Exército que ainda estava em poder do
Rio Grande do Sul. Quando isso fosse providenciado, cessariam as atividades militares na
fronteira com aquele estado. Ressaltou, inclusive, que o próprio Valdomiro Lima o havia
procurado, para prestigiar-lhe na função de ministro e oferecer-se para tratar com Flores da
Cunha a devolução do armamento.917
Dutra fez chegar, ainda, às mãos do responsável pelo inquérito, uma declaração de
Vargas a respeito das acusações feitas por Valdomiro Lima. Getúlio afirmou que Valdomiro
não havia reproduzido com exatidão o que tinha dele ouvido na conversa que tiveram no
Palácio da Guanabara e que as informações que havia recebido de Góes e transmitido a Lima
poderiam ser resumidas da seguinte maneira: que um grupo de generais havia se encontrado
no Rio de Janeiro para tratar de assuntos correntes da situação político-militar do País e que
uma das reuniões teria acontecido na casa de José Pessoa. Vargas negou, entretanto, que tenha
feito qualquer referência a uma conspiração de generais.918
916
Depoimento do general Coelho Netto no Inquérito Policial Militar instaurado para apurar queixa-crime de
calúnia apresentada pelo general Valdomiro de Lima em desfavor do general Góes Monteiro, 17 jun. 1937.
Arquivo do Exército. Acervo do Gabinete do Ministério da Guerra.
917
Depoimento do general Eurico Dutra no Inquérito Policial Militar instaurado para apurar queixa-crime de
calúnia apresentada pelo general Valdomiro de Lima em desfavor do general Góes Monteiro, 17 jun. 1937.
Arquivo do Exército. Acervo do Gabinete do Ministério da Guerra.
918
Carta do presidente Getúlio Vargas apresentada no Inquérito Policial Militar instaurado para apurar queixa-
crime de calúnia apresentada pelo general Valdomiro de Lima em desfavor do general Góes Monteiro, 17 jun.
1937. Arquivo do Exército. Acervo do Gabinete do Ministério da Guerra.
575
diante do governo, bem como o STM não havia salvado a honra dos seus magistrados, ao se
negar a defender a verdade e a justiça. Como consequência, os difamadores continuaram a
fazer injustiças e a “corromper a moralidade nacional”. Para Pessoa, “o epílogo desse drama
de delação e vergonha” serviram para provar como se planejou o Estado Novo:
“sorrateiramente, intrigando e desprestigiando os generais do Exército, sob a proteção de uma
justiça tolerante e conivente”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X, p. 104)
Insatisfeito com a solução do inquérito e com a prisão que lhe fora imposta, José
Pessoa resolveu queixar-se do ministro Dutra ao presidente da República. Mais do que um
desagravo, considerava o ato uma questão de “dignidade militar e pessoal”. No documento,
apresentado em 17 de julho, ressaltou que a publicação do seu repto na imprensa, em 16 de
junho, foi feita com o intuito de defender perante o Exército e a Nação a sua dignidade
pessoal e a do seu lar, ofendidas injustamente por quem havia denunciado a suposta
conspiração contra o governo. Destacou, também, ser alheio às competições partidárias e
“visceralmente contrário” à intromissão de militares na política e de políticos na classe
militar. E que, se foi à imprensa, não foi com o intuito de desgravar a sua individualidade, que
pouco valia, e, sim, a dignidade do seu posto. Por possuir a “alma vibrátil” às ofensas e
injustiças, não poderia refrear o “legítimo movimento de defesa” que fez, ao ter conhecimento
pelos jornais das “injúrias e agravos” que lhe fizera Góes Monteiro. Considerou, ainda, ser
um desprimor para o Exército generais serem transferidos sem razões justificáveis e
castigados com prisões “que se não compadecem em absoluto com sua atitude exemplar e
com suas pesadas responsabilidades para com a Nação”. Para Pessoa, os caluniadores não
desprestigiavam somente as suas vítimas, mas também causavam graves prejuízos morais
para o País e para a classe militar.921
Quanto à sua prisão, alegou ter ficado sabendo da pena que lhe fora imposta pelos
jornais e que em momento algum foi notificado formalmente pelo ministro da Guerra. E que,
apesar da nota oficial da sua prisão ter o caráter reservado, foi amplamente divulgada pela
imprensa da Capital Federal, o que Pessoa considerou ter sido um ato de quem procurava lhe
desacreditar perante a opinião pública e a classe militar. Também entendia que não existia, no
Regulamento Interno dos Serviços Gerais e no Regulamento Disciplinar do Exército,
dispositivo que justificasse a sua prisão. Por fim, ressaltou que fora recolhido à prisão antes
da formulação e da publicação da nota de culpa, o que contrariava o RISG.922
921
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1937.06.15, doc.0927.
922
Ibidem.
577
A solução à queixa de José Pessoa foi dada praticamente um mês e meio após ter
chegado às mãos de Getúlio. O presidente mandou arquivar o processo. Sequer ouviu as
partes interessadas, o que, segundo Pessoa aponta em suas memórias, não lhe surpreendeu,
diante da ditadura que se aproximava. No entanto, em outubro de 1937, Dutra mandou o
Departamento do Pessoal do Exército (DPE) cancelar a prisão imposta a Pessoa. Ao dar
ciência do recebimento da notícia ao chefe do DPE, general Raymundo Barbosa, ressaltou
que, apesar do cancelamento da punição disciplinar, já se sentia desagravado com a
“abundância de solidariedade” recebida dos camaradas do Exército, dos cidadãos e da
imprensa da Capital Federal.923
O inquérito presidido pelo general Borba não comprovou a existência da suposta
conspiração de generais contra o governo, tampouco apontou os responsáveis pela propagação
da notícia caluniosa na imprensa. Também não imputou a Góes Monteiro o crime de calúnia,
como desejava Valdomiro Lima. Entretanto, o ostracismo a que foram relegados os
proeminentes generais que nele se viram envolvidos, serviu de alerta para outros oficiais que
desejassem se opor aos rumos que a política nacional tomava. Valdomiro permaneceu sem
função e presidiu alguns poucos inquéritos militares até falecer, em fevereiro de 1938. José
Pessoa foi nomeado comandante da 9ª Região Militar, no distante estado do Mato Grosso,
região conhecida tradicionalmente por receber os “banidos” do Exército. Pantaleão Pessoa
ainda se envolveria em um levante integralista contra o governo, em maio de 1938. Ficou
preso por cinco meses e, após a sua soltura, se auto-exilou em sua fazenda, em Barra do Piraí-
RJ, onde permaneceu até passar à reserva, em 1944. Pantaleão Telles foi reformado
compulsoriamente, em novembro de 1937, por opor-se ao golpe do Estado Novo. Brasílio
Taborda comandou a 8ª Região Militar, função que exerceu até julho de 1939, quando deixou
o serviço ativo do Exército.924
Os meses que se seguiram foram de intensa agitação política. Com o afastamento da
esfera de poder dos generais ouvidos no inquérito conduzido pelo general Borba, o governo
considerou que o Exército estava seguro e passou a mirar em Flores da Cunha. Vargas
considerava Flores a pedra angular de uma potencial oposição política dos estados à
centralização do governo. Era provável que os governos dos demais estados somente se
mobilizassem soba a liderança do governador do Rio Grande do Sul. Em Minas Gerais,
Benedito Valadares, o homem de Getúlio na campanha sucessória à presidência, em um
923
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1937.06.15, doc.0934.
924
Informações retiradas das fés de ofício dos generais Valdomiro Lima, Pantaleão Pessoa, José Pessoa,
Pantaleão Telles e Brasílio Taborda. Arquivo do Exército.
578
925
Guedes da Fontoura, que comandava a 5ª Região Militar, em Curitiba, foi transferido para a 4ª Região Militar,
em Juiz de Fora. Já, Luiz Esteves, comandante da 3ª Região Militar, foi “promovido” à inspetor do 1º Grupo de
Regiões Militares, cuja sede ficava no Rio de Janeiro.
579
Comando [do Exército], jungido às conveniências da nefasta política pessoal dos maus
governos” (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XII, p. 152). Ressaltou a José Américo que
somente a garantia da soberania nacional criaria as condições favoráveis ao desenvolvimento
das demais fontes de riqueza da Nação. E, para que esse objetivo fosse atingido, era
necessário que fosse cumprido o seguinte programa, o qual somente um governo
verdadeiramente patriota, com vontade firme e bem orientada, teria condições de impulsionar:
926
O Plano Cohen foi escrito pelo capitão Olímpio Mourão Filho, organizador da milícia paramilitar da Ação
Integralista Brasileira. Em 1937, Mourão Filho era o chefe do serviço secreto integralista e ocupava, também,
um cargo no serviço de inteligência do Estado-Maior do Exército. O documento redigido pelo capitão nada mais
era do que uma simulação de um golpe comunista, a ser utilizada em um exercício defensivo dos integralistas.
Plínio Salgado não aprovou o plano, por achá-lo fantasioso demais. Ao tomar conhecimento do falso documento,
581
tratar, o documento, de uma fantasia do governo. Era preciso, segundo o ministro, que o
Exército agisse imediatamente para salvar o Brasil de uma nova catástrofe comunista que
estava prestes a explodir. (McCANN, 2009, p. 531)
Os presentes à reunião concordaram que era necessário expurgar da Câmara dos
Deputados os membros reacionários. Dutra, porém, asseverou que era necessário que fossem
mantidas as autoridades constituídas, afinal de contas o movimento revolucionário arrastaria
consigo o presidente da República. Góes ressaltou que para enfrentar os planos comunistas
seria preciso uma ação militar que implicaria um golpe de Estado, que deveria transcorrer no
mais absoluto sigilo, um segredo só de generais. Filinto Müller salientou que seria necessário
que as Forças Armadas ficassem de fora do novo governo que viesse a ser estabelecido.
Sugeriu, também, que as prisões que viessem a ser feitas fossem sumárias e sem direito a
defesa, e que fossem criados campos de trabalhos forçados. O general Cavalcanti recomendou
que os dois ministros militares participassem do movimento ao lado do presidente, a fim de
assegurar-lhe, pelo uso da força, os poderes excepcionais necessários. Também se opôs ao uso
das milícias integralistas no movimento. Se fosse necessário usá-las, que fossem enquadradas
pelas tropas federais. Almério Moura disse ser importante que o movimento não fosse
confundido com uma ditadura militar. No dia seguinte ao da reunião, todos os presentes
assinaram a ata, sob o compromisso de salvarem o Brasil e suas instituições políticas e sociais
da hecatombe que estava prestes a explodir. Também se comprometeram a excluir de suas
ações e intenções qualquer proveito próprio ou qualquer ideia de ditadura militar. (McCANN,
2009, p. 531-532)
No dia 29 de setembro, Dutra e o ministro da Marinha, vice-almirante Henrique
Aristides Guilhem, entregaram a Vargas um documento em que pediam ao Congresso o
restabelecimento do Estado de Guerra. Para Dutra, esse era o meio mais viável de combater o
comunismo, prender congressistas e tomar outras providências do mesmo teor. No mesmo
dia, Vargas encaminhou o pedido dos ministros aos congressistas. No dia seguinte, a
descoberta de um novo plano de tomada de poder pelos comunistas ganhou as páginas dos
jornais e os programas de rádio. E, em 1º de outubro, mesmo sem a apresentação dos
documentos mencionados, os deputados e senadores aprovaram o restabelecimento das
medidas restritivas no País. Diferentemente das situações anteriores, uma comissão foi
Góes utilizou-se de partes dele para solicitar ao congresso que decretasse um novo Estado de Guerra no País.
(McCANN, 2009, p. 525)
582
formada para supervisionar o Estado de Guerra em âmbito nacional 927. Nos estados, a
supervisão ficava por conta dos governadores, à exceção do Rio Grande do Sul, São Paulo e
Distrito Federal, onde a autoridade foi entregue aos generais Daltro Filho (3ª Região Militar),
Parga Rodrigues (2ª Região Militar) e a Filinto Müller, respectivamente. (McCANN, 2009, p.
531-532)
A decisão de retirar dos governadores de São Paulo e Rio Grande do Sul o poder de
implementação do Estado de Guerra requeria que as forças públicas desses estados passassem
ao comando das duas regiões militares, o que levou as polícias a ponderarem a suas opções de
futuro e as suas lealdades. Entretanto, nenhuma das duas forças estaduais desejava uma guerra
civil. Sendo assim, São Paulo não ofereceu resistência, atém mesmo porque tropas estaduais
mineiras já haviam se postado na divisa dos dois estados, prontas para entrar em ação a uma
ordem de Getúlio. No Rio Grande do Sul, Flores da Cunha reconheceu que a Brigada Militar
havia passado para o lado do Exército e que já não tinha o total apoio dos provisórios. Isolado
política e militarmente, recusou-se a assinar o decreto passando o comando das forças
estaduais para o Exército e exilou-se no Uruguai, em 16 de outubro. Três dias depois, Vargas
decretou a intervenção em seu estado natal, nomeando o general Daltro Filho interventor.
(McCANN, 2009, p. 533-535)
As últimas semanas de outubro e as primeiras de novembro, que antecederam a
instauração do Estado Novo, foram marcadas por fortes tensões políticas. Na comissão
nomeada para supervisionar o Estado de Guerra os membros não se entendiam. O general
Cavalcanti e o almirante Pais Leme acusavam Macedo Soares de não cooperar na
administração do grupo. Ao mesmo tempo, Vargas decidiu decretar a intervenção em São
Paula, na Bahia e em Pernambuco, diante das acusações de Góes Monteiro e de Newton
Cavalcanti de que esses estados tramavam um golpe contra o governo. Além disso, resolveu
federalizar dois batalhões da força policial mineira e as polícias estaduais dos outros estados
foram postas sob o comando de uma autoridade federal. (McCANN, 2009, p. 536)
Enquanto o presidente desdobrava-se para garantir o apoio de Plínio Salgado ao golpe,
previsto para acontecer em 15 de novembro, os conspiradores discutiam a melhor maneira de
implementar a reforma constitucional, não chegando a um consenso quanto ao modo de
legalizá-la, se por meio da aprovação do Congresso, ou por imposição do novo governo.
Emissários de Valadares e de Vargas percorriam os estados em busca da concordância dos
governadores estaduais com a mudança de regime. Somente os governadores de Pernambuco
927
A comissão era formada pelo ministro da Justiça, Macedo Soares, pelo general Newton Cavalcanti e pelo
almirante Dário Paes Leite de Castro.
583
e da Bahia não foram consultados, já que estavam marcados para serem destituídos.
Paralelamente a esses fatos, cresciam os rumores de que um golpe de estado viria a acontecer
nos próximos dias de novembro, o que levou Dutra a tomar algumas precauções contra um
provável movimento de generais que procuravam frustrar o golpe. Substituiu comandantes e
visitou pessoalmente as guarnições da Vila Militar e de Minas Gerais para certificar-se de que
essas guarnições estavam comprometidas com o governo. (McCANN, 2009, p. 538)
Em 5 de novembro o jornal Correio da Manhã noticiou os rumores de que, na semana
seguinte se processariam acontecimentos que mudariam por completo o desenrolar dos fatos
políticos do País.928 A publicação surpreendeu os conspiradores, já que a censura e o Estado
de Guerra haviam deixado passar o assunto polêmico. No dia 8 de novembro, líderes de
oposição se reuniram na casa do candidato à presidência Armando Sales, que se comprometeu
em denunciar aos chefes militares a trama que vinha se desenvolvendo. Na Câmara dos
Deputados, o deputado João Carlos Machado, aliado de Flores da Cunha, leu para os colegas
o apelo de Sales. O mesmo foi feito no Senado, pelo senador Paulo de Morais Barros.
(McCANN, 2009, p. 540)
Diante dos manifestos da oposição, que já haviam chegado às ruas e aos oficiais
subalternos das Forças Armadas, no interior dos quartéis, as providências para o golpe foram
antecipadas. Em 9 de novembro, Dutra colocou as 1ª, 2ª e 3ª Regiões Militares929 em
prontidão e alertou as demais regiões que eventos políticos da maior importância estavam
prestes a ocorrer, devendo as suas unidades militares estarem prontas para agir, se fosse
necessário. Nas primeiras horas da manhã do dia 10 de novembro, as forças policiais do
Distrito Federal cercaram o Congresso Nacional. Filinto Müller comunicou ao presidente do
Senado em exercício que o Congresso estava dissolvido. Enquanto isso, Dutra percorria os
quartéis de São Cristóvão, a fim de verificar se estavam de prontidão, e os líderes da oposição
eram avisados do golpe. Às 10 horas, o gabinete de Vargas assinou a nova Constituição, à
exceção do ministro da Agricultura, Odilon Duarte Braga, que renunciou à pasta em protesto
ao golpe. Estava, dessa forma, instituído o Estado Novo, que colocaria o País sob a ditadura
de Vargas durante os próximos oito anos, com a aquiescência de Dutra e Góes Monteiro e de
grande parte do alto comando das Forças Armadas. No pronunciamento que fez ao Exército,
publicado na imprensa e lido em todos os quartéis da Força, Dutra deixava claro qual deveria
ser, a partir daquela data, a missão da Instituição:
928
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 5 nov. 1937, p. 2.
929
A essas regiões militares pertenciam as unidades militares da Capital Federal, de São Paulo e do Rio Grande
do Sul, respectivamente.
584
Cabe, porém, ao Exército, cabe às Forças Armadas não permitirem que essas
aspirações de paz, de ordem, de trabalho sejam frustradas por eternos inimigos da
pátria e do regime. Para isso é necessário uma orientação precisa, definida. Paixões
patrióticas podem entrechocar-se. Conflitos ideológicos podem entrar em ebulição.
Interesses pessoais e de agrupamentos podem ressoar em debates. Questões
regionais podem ser trazidas à arena. Tudo isso pode acontecer. Mas, de tudo isso o
Exército deve estar isento de contaminação. As suas virtudes serão exalçadas na
lisonja dos sedutores. Cumpre, porém, resistir. Não lhe cabe, ao Exército, influir nos
destinos políticos de que os políticos se incumbem. Não é essa a sua missão. Muito
mais simples, nem por isso ela deixa de ser mais nobre. Cumpre-lhe, neste momento
de incerteza, salvaguardar os interesses da pátria, fiel a postulados – obediência,
disciplina, trabalho, instrução, serenidade, discrição, abnegação, renúncia,
patriotismo em suam. Se os arraiais da política se agitam em busca de uma solução
que a todos satisfaça; se, na impossibilidade de atingirem o fim almejado, recorrem
a medidas de exceção; se, descrente dos ensaios esboçados, apegam-se a
deliberações singulares – o espírito público contrasta em uma tranquilidade
aparentemente paradoxal. E isto por quê? Porque o Exército, as Forças Armadas da
Nação, mostram-se coesas e circunscritas às suas legítimas finalidades. Guardiãs da
ordem interna, atentas e vigilantes, isentas de paixões e de ódios, prontas para
atenderem ao primeiro comando dos chefes, é assim que a sociedade as vê e é por
isso que nelas confia. O panorama que se desdobra no cenário da política não foi por
elas criado; os desacordos das facções em pugna não foram por elas fomentados; das
impossibilidades de um entendimento entre os diferentes grupos não lhes cabe
responsabilidade. O que elas têm feito, e continuarão a fazer, é oporem um dique às
explosões que se preparam, é constituírem barreiras às ambições partidárias, é
expelirem dos eu seio os elementos indesejáveis, é destruírem logo no início os
menores surtos de desordem, é se mostrarem dispostas a não consentir que se
transforme em campo de batalha o solo feracíssimo onde o trabalho estua, onde
repousa a paz, onde a riqueza se avoluma e se multiplica. Como é do conhecimento
gera, hoje foi promulgada uma nova Constituição Federal, estatuto que os órgãos
competentes na matéria consideram melhor atender às exigências do presente
momento. Percebendo as lacunas e defeitos o estatuto de 1934 [...] novos rumos são
traçados aso nosso regime democrático, melhor aparelhado para a continuidade
federativa. Qualquer perturbação da ordem será uma brecha para os inimigos da
pátria, para os adversários do regime democrático. Cumpre-nos evitá-la, exercendo
com serenidade e firmeza a missão que nos corresponde [...] Se assim procedermos,
em nós continuará confiante a sociedade brasileira. [...] A pátria e o regime
repousarão sob nossa guarda [...] em defesa da ordem interna, da integridade
política, da soberania nacional. É esta a nossa missão!930
Como bem aponta Carvalho (2006, p. 91), o Estado Novo foi a materialização da
política do Exército, como concebida por Góes Monteiro e pelo grupo de generais ao seu
redor. Aliás, Góes jamais aceitou a interferência da política nos negócios militares. Isso ficou
muito claro na questão do aumento dos soldos, em 1935. Ao tentar usar o peso do seu cargo,
acabou provocando a reação de outros generais, dentre eles José Pessoa, e de políticos
influentes da República, como Flores da Cunha. Para Carvalho (2006, p. 92), na percepção de
Góes, e dos militares que comungavam de suas ideias, já se desenhava nítida a convicção de
que não se conseguiria implementar uma política militar adequada enquanto continuasse a
interferência política dentro dos quartéis. Sendo assim, chegaram à conclusão que seria
necessário eliminar a política do lado de fora para se conseguir eliminá-la internamente,
930
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 11 nov. 1937, p. 1.
585
também. Um pensamento já formulado pelo próprio Góes Monteiro no início dos anos 1930,
segundo o qual se deveria fazer a política do Exército e não a política no Exército.
Passados dezesseis anos do golpe de 10 de novembro, em suas memórias José Pessoa
fez algumas reflexões a respeito do fato. O sentimento que ele expressou é de que o Exército
fora atingido, à época, no respeito e na fé que devia aos seus chefes.
De fato, certos chefes daquela época, por uma questão mais de feitio e educação
doque de qualquer outra, davam a impressão de que não tinham noção de
responsabilidade e moralidade pública, do que era um desagravo dentro da lei, uma
reparação à injustiça ou injúria recebidas. Coisas, que eles, a cada passo, como
estamos vendo, praticavam contra a ordem e a reputação dos subordinados. Era que
eles, com o cérebro escaldante no delírio do poder, não viam que aquilo que
praticavam trazia consequências nefastas e duradouras à Nação. Como afirmamos,
naquela época: em atos dessa espécie (reformas de generais ex-ofício, prisões
violentas e injustas de outros, etc.) se terminará por destruir a hierarquia das Forças
Armadas; afrouxarão os laços de disciplina e obediência por toda a parte; enfim,
apodrecerão o caráter do povo, outrora tão cortês, honesto e trabalhador.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X, p. 94-95)
E não poupou críticas a Vargas, Dutra e Góes, aos quais imputou a pecha de “traidores
do Exército e da Nação”:
Foi o que de fato nos legou o arbítrio e a conivência de três brasileiros que, com
documentos falsos [Plano Cohen], traíram as instituições e lhes deixaram esse cruel
legado que, hoje, humilha e faz sofrer toda a Nação. Só isso fará desaparecer à
gratidão dos brasileiros os serviços materiais que os liberticidas de 37 dizem ter
prestado à coletividade brasileira... Desconheciam eles que os militares não podem
viver ao sabor das suas paixões políticas e caprichos pessoais de quem quer que seja,
mas, ao estrito serviço da Nação. Sim, é à consciência do seu dever que o verdadeiro
militar deverá se subordinar sempre. [...] Não havia entre eles o recato da autoridade,
o natural respeito entre o chefe e o direito dos comandados. Não atendiam aos
reclamos desesperados quanto à defesa e segurança da coletividade, nem acatavam a
palavra dos seus generais e, assim, oprimiam, desprestigiavam a todos,
locupletavam-se, usando contra a classe as maquinações mais absurdas e
censuráveis. Hoje, eles aí estão a espiar o resultado da sua ação ruinosa. Desse
modo, naquela ocasião, três dos mais elevados membros da hierarquia civil e militar
do País [Vargas, Dutra e Góes] maquinavam e acusavam, sem a menor prova e
indício, vários generais de conspirarem contra os poderes públicos, acoimando os
lares dos seus subordinados de refúgios de conspirações imaginárias.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X, p. 95)
ao julgamento coletivo nos reptos que fizeram por meio da imprensa. Para ele, o cárcere
serviu para salvar-lhes o pundonor de chefes militares e o desapontamento que sentiram foi
suportado com dignidade militar. Por isso é que não lhes faltaram “as provas abundantes de
simpatia e apreço da juventude militar e da opinião pública”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta
X, p. 96-97)
587
José Pessoa embarcou para o Mato Grosso no dia 4 de agosto de 1938, partindo do Rio
de Janeiro por via férrea. Em sua companhia seguiu o tenente Nelson Werneck Sodré e suas
respectivas famílias. Sodré era um jovem oficial que há poucos anos havia se formado na
Escola Militar. Fora cadete de José Pessoa, entre abril de 1931 e janeiro de 1934, quando foi
declarado aspirante-a-oficial de Artilharia. Desde então, encontrava-se servindo no 4º
Regimento de Artilharia Montada, em Itu, no interior de São Paulo. Promovido a primeiro-
tenente em setembro de 1936, no segundo semestre de 1937 recebeu o convite para ser
ajudante-de-ordens de Pessoa, o que, segundo ele, o surpreendeu, pois, jamais imaginou que o
general pudesse lembrar-se dele. Ressaltou que não era o seu desejo, tampouco de sua família,
afastar-se de Itu. Entretanto, os aspectos éticos que envolviam o convite levaram-no a aceitar
o cargo de confiança. Tinha uma grande admiração por José Pessoa e era impossível não
aceitar o chamado de um chefe que merecia apreço e que fora colocado no ostracismo pelos
poderosos do governo. Para Werneck, Pessoa, como homem, “valia dez Góes, cem Dutras”.
(SODRÉ, 1967, p. 139)
Da sua relação com o comunismo, afirmou que o movimento de 1935 apanhou-o de
surpresa, apesar de, à época, ter o hábito de ler diariamente os jornais da capital paulista e ser
colaborador assíduo de um deles, o Correio Paulistano, para o qual escrevia críticas literárias
desde 1934. Em suas memórias, disse não guardar a menor lembrança do clima de tensão dos
dias que antecederam o levante de 27 de novembro, no Rio de Janeiro. Segundo ele, as
impressões que tinha sobre o “credo vermelho” ainda eram distantes, não se preocupava com
esse problema, ainda mais porque no Exército em que ele vinha servindo, no interior de São
Paulo, o anticomunismo ainda não havia chegado. (SODRÉ, 1967, p. 126-127) Entretanto,
não seria de todo incorreto afirmar que a realidade por ele presenciada no Mato Grosso, tão
díspar da do centro do País, o tenha sensibilizado para as questões sociais, provocando, assim,
a sua guinada para a esquerda. Sodré (1967, p. 143) conta que, antes mesmo de embarcar para
a região Oeste, durante uma visita ao Iate Clube do Rio de Janeiro, perturbou-lhe o fato de,
nas águas da Guanabara, existirem alguns privilegiados que, em “nome da civilização cristã”,
passeassem em seus barcos, enquanto nas fronteiras longínquas do Brasil morresse gente por
falta de recursos. Uma realidade, segundo ele, que afetava, inclusive, o próprio Exército, já
que as guarnições militares escalonadas às margens do Rio Paraguai careciam de lanchas
apropriadas para levar-lhes suprimento e pô-las em contato com o mundo.
589
Mato Grosso, entretanto, era, àquele tempo, uma espécie de farwest, onde os crimes
não despertavam estranheza, constituíam parte da rotina; a presença de forte
guarnição militar é que permitia, ali, a segurança mínima. Nem era esse o problema
fundamental, para o comando; havia-os em quantidade, e sempre em grandes
proporções. Os recursos minguados não permitiam solução, ainda que
circunstancial. O novo comandante [José Pessoa] vinha, entretanto, cheio de energia
contida e de boas intenções, preocupado em atendê-los. Assumiu o comando no
mesmo dia da chegada e pôs-se a trabalhar como se ali estivesse há tempos. Levava
noção das dificuldades, mas as suas reais dimensões o espantavam. [...] Servir em
Mato Grosso era considerado castigo, salvo para alguns, ali nascidos e criados, com
raízes locais, ambientados, portanto. Os corpos estavam sempre desfalcados, a
oficialidade era heterogênea, os meios poucos, muito abaixo das necessidades, os
claros na tropa eram preenchidos por recrutas trazidos de São Paulo, que encaravam
a convocação como castigo terrível, o próprio exílio. [...] Campo Grande, cidade que
vinha crescendo depressa, apresentava contrastes entre inovações importantes e
deficiências antigas. O Exército construíra ali numerosas casas; evidentemente não
davam para todos os oficiais, mas atenuavam o problema. (SODRÉ, 1967, p. 144-
145)
Vinte dias após assumir o novo cargo, Pessoa encaminhou uma carta ao presidente da
República, relatando as mazelas que assolavam a região e as providências que deviam ser
tomadas para devolver a eficiência operacional da guarnição militar do Mato Grosso e
impulsionar o progresso do estado. As carências por ele apontadas eram tantas que
praticamente tudo faltava. Os meios de comunicação eram deficientes e faltava uma rede
rodoviária capaz de fazer a ligação entre o comando da Região Militar com as unidades
militares que estavam localizadas na fronteira com o Paraguai e a Bolívia. Para isso, a força
militar da 9ª RM deveria ser acrescida de Batalhões Rodoviários e de meios de aviação. A
situação dos quartéis também era bastante precária. Várias unidades militares dividiam as
mesmas instalações e algumas ocupavam prédios alugados, o que prejudicava a instrução e as
condições de vida dos militares.932
Pessoa ressaltou, também, a necessidade de serem criados núcleos de colonização ao
longo das estradas, com escolas e ambulatórios. Além de garantir o povoamento do estado,
esses locais serviriam de pontos de armazenamento de víveres, combustíveis e suprimentos
932
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1938.08.29, doc.0189.
590
para as tropas do Exército, em caso de conflitos armados. Lembrou, ainda, das melhorias das
defesas costeiras do Rio Paraguai, pelas quais já vinha intercedendo desde os tempos em que
havia comandado a Artilharia de Costa, assim como a construção de novos portos fluviais, nas
cidades de Porto Murtinho e de Corumbá, a fim de facilitar o comércio da região. Por fim,
alertou Vargas da necessidade de se cassar as concessões de terras a estrangeiros,
principalmente aquelas próximas ao Forte Coimbra, que atentavam contra a segurança
nacional.933
Pode-se dizer que Pessoa foi incansável na busca de uma solução para a melhoria dos
meios de comunicação rodoviário e ferroviário do Mato Grosso e da navegabilidade do Rio
Paraguai, até mesmo por uma questão de defesa nacional. Durante o período em que lá esteve,
enviou vários telegramas e ofícios ao ministro da Guerra, apontando os eixos rodoviários que
deveriam ser restaurados e os novos a serem construídos e fazendo considerações a respeito
dos benefícios que poderiam advir do investimento nessas ações. Conforme o Relatório do
Ministério da Guerra de 1938, a 9ª RM contava somente com o apoio do 4º Batalhão
Rodoviário934, que era subordinado diretamente à Diretoria de Engenharia. Sendo assim, não
estava sob as ordens diretas de José Pessoa. Em um ofício secreto enviado a Dutra em 4 de
outubro de 1938, Pessoa ressaltou a necessidade de se criar, na estrutura da 9ª RM, mais
batalhões rodoviários, para atender às frentes de trabalho já em andamento, bem como as
novas que surgiriam. No entanto, segundo ele, não bastava somente cria-los, mas, também,
dotá-los de pessoal e maquinário especializados, capazes de atender ao serviço moderno de
construção de rodovias. Caso contrário, continuar-se-ia realizando um trabalho escasso e
rudimentar, ilusório, que não compensava o desperdício de tempo e dinheiro feitos pela
União.935
O Relatório do Ministério da Guerra de 1938 aponta que, naquele ano, na área da 9ª
RM, o 4º Batalhão Rodoviário realizou 148,4 Km de construção e manutenção de rodovias,
nos trechos Campo Grande-Bolicho Seco, Aquidauana-Nioac e Jardim-Cabeceiras do São
Marcos.936 A entrega do primeiro trecho, com 50,4 Km, foi feita pessoalmente por José
Pessoa, em 15 de novembro de 1938. Na ocasião, ressaltou que as obras das demais rodovias
continuariam em ritmo acelerado. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VI, p. 29) A verdade,
entretanto, é que o apoio e as mudanças solicitadas muito pouco ou em quase nada foram
933
Ibidem.
934
O Relatório do Ministério da Guerra de 1938 aponta que, naquele ano, na área da 9ª RM, o 4º Batalhão
Rodoviário realizou 148,4 Km de construção e manutenção de rodovias, nos trechos Campo Grande-Bolicho
Seco, Aquidauana-Nioac e Jardim-Cabeceiras do São Marcos.
935
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1938.08.29, doc.0191 e 0193.
936
Relatório do Ministro da Guerra, 1938, p. 51-52.
591
atendidas pelo ministro da Guerra. Sodré (1967, p. 144) aponta que José Pessoa confiava que
Dutra, sendo natural do Mato Grosso, teria todo o interesse em prover de meios as guarnições
do estado. Para Pessoa, todo esforço que havia despendido nada mais era do que “uma leal
colaboração” que o chefe da pasta da Guerra, durante toda a sua administração, “nunca
aproveitou nem compreendeu” (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VI, p. 25).
Sodré (1967, p. 163) aponta que o espírito inquieto de José Pessoa não permitia que
ele ficasse preso à burocracia do gabinete. Sendo assim, eram constantes as viagens de
inspeção, ocasiões em que o general se sentia bem. Durante o período em que comandou a
guarnição do Mato Grosso, percorreu toda a extensão do estado, sempre em companhia de seu
ajudante-de-ordens. Viajando de automóvel, trem, navio e avião, não deixaram de visitar nem
o mais insignificante posto militar, a fim de verificar as condições de vida e trabalho. Graças a
essa rotina, Pessoa tomou conhecimento de todo os problemas que assolavam a população
civil e o que se passava com as tropas sob o seu comando. Na foz do rio Apa, por exemplo,
encontraram um posto militar em péssimas condições, abrigado em uma choupana construída
pelos próprios soldados. A pequena guarnição, comandada por um sargento, era composta de
não mais do que quinze soldados, que dormiam em redes e não tinham nenhum apoio de
saúde. Se ficassem doentes, tinham que remar quatro horas rio acima, para comprar remédios
no Paraguai. O sargento jamais havia visto um general e ao se apresentar, o fez com um
sotaque misto de castelhano e guarani, o que decepcionou profundamente Pessoa.
Para Pessoa, o problema da língua, que afetava não só a população civil, mas, também,
os militares nativos da região, que residiam nas faixas de fronteira, era uma consequência da
falta de ação das autoridades locais, limitada às zonas urbanas, e da falta de povoamento do
vasto território mato-grossense. Em um ofício reservado enviado ao chefe da pasta da Guerra,
já às vésperas da sua exoneração do comando da 9ª RM, fez uma longa exposição dos
problemas que afetavam a região. Preocupava-o a existência de uma grande quantidade de
estrangeiros residindo em território brasileiro nas faixas de fronteira, o que correspondia,
naquelas áreas, a 80% da população. Segundo Pessoa, se o povo falava o guarani, ao invés do
português, era porque existia um absoluto desamparo à população nacional das fronteiras.
Não existiam escolas nem ambulatórios para o tratamento das endemias locais. Tampouco se
faziam os registros civis dos atos da vida pública. Além disso, o nomadismo predominante em
quase todo o estado, que impedia a fixação do homem à terra, era um fator complicador da
592
mobilização nacional, pois não se conseguia formar tropas de reservas que pudessem apoiar
as operações militares no caso de um conflito armado na região.937
No relatório da 9ª RM, elaborado no final de 1938, reconheceu que o estado geral do
Mato Grosso não era dos mais otimistas. Não havia meios suficientes para atender todas as
necessidades do estado e fazia-se o possível para solucionar os problemas. O que se via pelo
estado era um baixo padrão de vida, uma pobreza geral.938Como relatou Sodré (1967, p. 167),
o Mato Grosso “era o fim do Brasil, em todos os sentidos”.
As andanças de Pessoa pelo interior do estado fizeram-no deparar-se com uma
realidade que, desde o período em que esteve à frente da Inspetoria de Artilharia de Costa,
vinha incomodando: a concessão de terras a estrangeiros. Durante suas viagens de inspeção,
resolveu realizar uma visita inopinada à sede da Companhia Matte Laranjeira 939, na Fazenda
Campanário, em Porto Murtinho. Como relata Werneck Sodré, a Matte Laranjeira, maior
exploradora de erva mate da fronteira mato-grossense à época, era um estado dentro do
Estado. Tanto ele como Pessoa narram que foram necessários mais de três dias para que
fossem visitadas todas as terras pertencentes à empresa argentina. Os dois apontam, também,
que, após o Estado Novo, a imprensa do Rio de Janeiro passou a promover uma forte
campanha contra as concessões feitas à Matte Larangeira.940 Sendo assim, segundo Pessoa,
antes mesmo de partirem para o Mato Grosso já haviam recebido das autoridades do governo
instruções para que observassem as atividades da companhia no estado. Sodré conta que se
surpreendeu com o cuidado e o planejamento da vila em que se localizava a sede da
companhia. Tudo era particular: a estrada, o sistema telefônico, o serviço de rádio, o campo
de aviação, enfim, a própria cidade. A empresa possuía, também, um porto próprio, no rio
937
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1938.08.29, doc.0222.
938
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1938.08.29, doc.0218.
939
Segundo Ferreira (2007), a Empresa Matte Laranjeira foi fundada por Thomaz Larangeira em 1882, após
ganhar uma concessão do Império para explorar erva-mate nativa no sul do Mato Grosso. Graças ao apoio de
políticos influentes do estado, após a República a concessão ampliou-se, passando a área arrendada a possuir
mais de 5.000.000 de hectares. Em 1902 a empresa foi vendida à companhia argentina Francisco Mendes & Cia,
passando a chamar-se Laranjeira Mendes e Companhia. Nos anos seguintes, sucessivas renovações de
arrendamento foram feitas com o governo do Mato Grosso, sempre graças ao apoio dos políticos locais, a ponto,
inclusive da Companhia tornar-se credora do governo do estado, no final da década de 1920. O domínio da
exploração pela Companhia na região durou até 1943, quando Getúlio Vargas cassou a concessão da empresa.
940
De fato, os principais jornais da Capital Federal, nos meses seguintes ao golpe de 10 de novembro de 1937
passaram a questionar e a pedir ao governo a cassação da concessão feita à Matte Larangeira, sob a alegação de
que a presença da empresa em terras fronteiriças contrariava a Constituição de 1937 e atentavam contra a
segurança nacional. Também existiam denúncias de maus tratos à empregados e de exploração de mão-de-obra
indígena, como se pode ver nas edições de 3 de setembro de 1937, de O Radical, às vésperas do Estado Novo, e
de 31 de dezembro de 1937, do Correio da Manhã, e de 3 de março de 1938, do Diário de Notícias. Entretanto,
existiam oficiais generais do Exército que defendiam a presença da Matte Larangeira no Matto Grosso como
elemento de civilização e de progresso no estado. Dentre eles, Candido Rondon, este nascido no estado, e
Mascarenhas de Moraes, que assumiu o comandado a 9ª RM após a saída de José Pessoa, conforme os
depoimentos dados ao periódico O Jornal, de 17 de agosto de 1938.
593
Paraná, que servia de base à sua frota fluvial, localizado em Porto Guaíra, e uma ferrovia
particular de 60 Km, que transportava a erva mate até Porto Mendes, no Paraná, de onde era
transportada, em barcos argentinos, para Buenos Aires. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VI,
p. 9-10; SODRÉ, 1967, p. 164-165)
A Matte Larangeira possuía polícia e justiça próprias, e pesavam sobre ela, como
relata José Pessoa, muitas histórias de violência. Durante a visita, constatou que um dos
diretores da empresa, o capitão da reserva Heitor Mendes Gonçalves, havia avocado para si a
vigilância e ordem da fronteira naquela região. De imediato, Pessoa mandou demovê-lo das
funções, que passaram a ser legalmente exercida, inclusive dentro do território da companhia,
pelo comandante do 11º Regimento de Cavalaria, de Ponta Porã, tenente-coronel Bernardes
Ruas. Em outubro, o presidente da Matte, Ricardo Mendes Gonçalves, encaminhou ao
comando da 9ª RM uma série de documentos, a fim de comprovar a legalidade da concessão
feita, inclusive das ações de polícia praticadas por Heitor Gonçalves. Por meio de uma carta,
Pessoa primeiramente agradeceu-lhe a acolhida que tivera durante a visita à sede da empresa e
ressaltou a importância da presença da companhia como elemento civilizador e de
desenvolvimento do Mato Grosso. Entretanto, destacou que esses eram assuntos cujo
julgamento cabiam aos ministérios do Trabalho e da Agricultura. A ele, como comandante da
Região Militar, interessava a defesa nacional. E, quanto a isso, a Matte não atendia o que
prescrevia a Constituição Federal, por possuir terras sobre a faixa proibitiva de fronteira.
Disse a Gonçalves, também, que tinha dúvidas se a maioria do capital da empresa era
realmente brasileiro. Ratificou que, no seu comando, que exercia a ordem nas terras da
companhia seriam os regimentos de Ponta Porã e de Bela Vista, e, não, um capitão da reserva.
E que, apesar da boa impressão que a estrutura da empresa havia lhe causado, não via motivos
para mudar de opinião sobre a ameaça que as concessões estrangeiras representam para a
defesa da Nação. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VI, p. 11-12)
A falta de pessoal especializado para mobiliar os quartéis da 9ª RM era outro fator que
incomodava Pessoa, assim como os problemas com o voluntariado para o serviço militar
obrigatório, ineficiente no estado. Quanto ao primeiro problema, pesava sobre a guarnição a
falta de oficiais das armas e serviços nos quartéis, assim como os com o curso de Estado-
Maior. Os oficiais que lá se apresentavam não ficavam mais do que dois anos nas unidades
militares, o que provocava, segundo ele, uma “verdadeira desordem administrativa e da
instrução da tropa”. A solução, apresentada para o ministro da Guerra, era simples: os oficiais
transferidos para o Mato Grosso teriam que ficar, obrigatoriamente, dois anos ininterruptos na
594
941
Ibidem.
942
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1938.08.29, doc.0218 e 0222.
943
Movimento fundado por Vargas em janeiro de 1932 para impulsionar o combate ao analfabetismo no Brasil.
Foi reconhecido de utilidade pública por meio do Decreto nº 21.731, de 15 de agosto de 1932.
944
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 25 out. 1938, p. 2.
595
945
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 2 nov. 1938, p. 4.
946
Correio Paulistano, São Paulo, 8 mar. 1939, p. 5.
947
Originalmente, o termo está relacionado ao cangaço, servido para designar pessoas que ofereciam abrigo e
comida aos cangaceiros, por interesse ou medo.
948
Segundo Ibanhes (2019, p. 22) o pai de Silvino Jacques havia trabalhado como carneador na fazenda de
Vargas.
596
feito. Pessoa conta que o chefe Machu era “civilizado” e empregado da prefeitura do
município de Miranda. Segundo ele, o auxílio dos guaicurus foi fundamental para a
perseguição dos bandidos. Para isso, foram empregados para assegurar a mão-de-obra e as
comunicações nas operações militares. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VI, p. 118) Já Sodré
(1967, p. 151) lembra que Jacques não deu trabalho aos índios. Porém, estes deram muita dor
de cabeça a Pessoa. Vivendo na miséria, os guaicurus atacaram bolichos949 pelos caminhos,
dos quais retiravam gêneros e mandavam colocar tudo na conta do governo.
Depois de alguns dias de operações, a realidade começou a ficar mais clara. Os
boletins reservados da 9ª RM apresentam uma descrição detalhada das operações conduzidas
pelos destacamentos empenhados na captura à Silvino Jacques. Fazem um levantamento
minucioso do armamento, dos meios de locomoção, das rotas seguidas pelo bandoleiro e dos
roubos praticados na região. Mostram também que, durante todo o mês de dezembro, Pessoa
esteve sempre no encalço do criminoso e de seu bando.950 Entretanto, conhecendo muito bem
o terreno e a vegetação da região, o grupo de Jacques escapava facilmente dos cercos das
tropas federais. Do outro lado, os destacamentos do Exército estavam exaustos. Não existiam
gêneros suficientes para uma alimentação adequada dos militares e da cavalhada. Em 7
dezembro de 1938, Pessoa enviou um telegrama a Dutra951, solicitando que o ministro lhe
enviasse urgentemente dois aviões, que seriam utilizados na perseguição aos bandoleiros, que
se evadiam para a Bolívia. O ministro respondeu-lhe que não convinha o envio dos aviões, já
que não havia a certeza de que fosse obtido um resultado compensador com o uso das
aeronaves. Ademais, segundo Dutra, era poco provável que os fugitivos fossem alcançados,
diante da falta de informações sobre a área em que se achavam. 952Restou-lhe, então, fazer uso
de um velho avião do Correio Aéreo Militar, que foi colocado à disposição da Região. Pessoa
relata ter recebido com grande desapontamento a resposta de Dutra, que, sob pretexto fútil,
negou-se a cooperar com as operações no Mato Grosso. Nas suas palavras, “era o primeiro
gole da taça da amargura” que o regime ditatorial lhe ofereceria naquelas paragens.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VI, p. 65)
No mesmo dia em que Dutra negou-lhe o apoio aéreo, Pessoa resolveu deslocar seu
posto de comando para o município de Miranda, próximo da área de operações,
estabelecendo, assim, o contato direto com as tropas empregadas na perseguição a Jacques.
Pensou, também, que a presença do general comandante na frente de combate traria uma
949
No linguajar do Sul do Brasil, um bolicho é um bar de pequeno porte ou um mini-mercado.
950
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1938.08.29, doc. 0200 a 0214.
951
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1938.08.29, doc. 0196.
952
Ibidem.
598
maior tranquilidade à população assolada pela violência dos bandoleiros. Diante da negativa
do ministro da Guerra em auxiliar-lhe, resolveu dirigir-se diretamente a Vargas. A resposta do
presidente também foi lacônica. Getúlio, por meio de um telegrama, louvou as ações das
tropas federais, empenhadas em manter a ordem e tranquilidade dos lares mato-grossenses, e
recomendou a Pessoa que se entendesse com o interventor do estado, a fim de reunir
elementos e combinar providências para o combate aos bandoleiros. Desse momento em
diante, segundo Pessoa, do Rio de Janeiro só recebera “promessa vãs” a tudo o que solicitava.
E lamentou-se que Dutra, envolvido em conluios com políticos mato-grossenses, houvesse
esquecido dos soldados do seu estado natal, que, nos pantanais, estavam sendo dizimados pela
febre e pela desinteria a serviço de uma “obra fecunda e durável”. (ALBUQUERQUE, 1953,
Pasta VI, p. 66-67) Sodré (1967, p. 152) lembra que após dias de operações ineficazes, parte
da tropa já se encontrava em estado miserável, entrando em exaustão, com grande parte dos
soldados começando a adoecer, devido ao ataque dos mosquitos.
Diante das dificuldades enfrentadas, José Pessoa resolveu, conjuntamente com as
operações de captura, tomar uma outra providência: iniciou uma campanha de desarmamento
da população civil, o que segundo ele, surtiu um efeito positivo nos moradores das cidades.
Para isso, reorganizou o Serviço de Polícia Militar da 9ª RM, composto de oficiais e
sargentos. Enquanto a população urbana ia entregando as suas armas, o Serviço de Polícia
investigava os possíveis esconderijos das armas pertencentes ao governo federal. Uma vez
localizado o armamento, a Região dava trinta dias para a entrega voluntária do mesmo, sob
pena dos seus detentores serem presos em flagrante. Segundo Pessoa, mesmo com a
possibilidade de prisão, a medida não surtiu o efeito desejado. Para ele, a razão do insucesso
era simples de se compreender: as armas estavam nas mãos de poderosos políticos e
fazendeiros locais, que também eram coiteiros dos bandos armados que, nos períodos
eleitorais, os utilizavam como sua tropa de choque. Como dito, após a Revolução de 1932
muitos políticos locais negaram-se a devolver o armamento que lhes foi emprestado. Um fato
curioso, é que, no rastreamento das armas escondidas, Pessoa foi auxiliado por membros da
força policial de São Paulo, a mando de Dutra. Esses policiais, em um serviço de inteligência,
monitoravam o trânsito de armamento na divisa dos dois estados953. (ALBUQUERQUE,
1953, Pasta VI, p. 62)
953
Em janeiro de 1939, alguns jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo noticiaram que, graças a esse trabalho de
inteligência, realizado pela polícia de São Paulo, foi identificado que Silvino Jacques realizava o transporte de
armas pela divisa dos estados de mato Grosso e São Paulo. O próprio José Pessoa atesta a importância da
colaboração do serviço de inteligência da força paulista na indicação de nomes de detentores e de locais de
embarque e desembarque de armamentos no Mato Grosso. Conforme Albuquerque (1953, Pasta VI, p. 98)
599
Sendo assim, segundo Sodré (1967, p. 153), Pessoa resolveu tomar medidas mais
drásticas. Mandou prender todos os coiteiros que estivessem de posse de armas do Exército. O
mais conhecido era conhecido como “coronel” Joselito, proprietário da fazenda Taboco, no
município de Aquidauana. Diante da impassividade do comandante do batalhão de
Engenharia sediado na cidade, que não queria efetuar a prisão, para não se indispor com
Joselito, Pessoa partiu para Aquidauana e, pessoalmente, organizou o destacamento de busca.
O armamento apreendido foi muito e variado e Joselito foi recolhido ao quartel de
Engenharia. Pouco a pouco uma grande quantidade de armas foram aparecendo, revelando o
poder de fogo que os grandes proprietários rurais da região tinham nas mãos. No entanto,
como relata o autor, tratava-se de gente importante, de situação econômica, política e social
destacada, com relações entre os poderosos do Estado Novo, especialmente Vargas, Dutra e
Filinto Müller, personagens centrais do regime. Joselito, mesmo, era político eminente do
Mato Grosso. Aos poucos surgiam rumores de que as tropas federais não deviam se envolver
em crimes comuns, da competência das autoridades estaduais. Conforme Sodré (1967. p.
154), “a prisão dos senhores feudais da região provocava apreensões, propalava-se que
leváramos insegurança à propriedade rural, atacando seus detentores”.
Pessoa conta ter se surpreendido quando, em 28 de dezembro, recebeu um aviso de
Dutra. No documento, o ministro reconhecia o trabalho indiscutível e necessário empreendido
por Pessoa na busca pelo extermínio do banditismo em Mato Grosso, que no seu ponto de
vista, estava sendo frutífero e sensato. No entanto, entendia que a solução completa do
problema ainda demandava muito tempo e esforço, devido à vastidão do território mato-
grossense. Ademais, as tropas já se encontravam empenhada em atividades diferentes das suas
há algum tempo, o que poderia vir a prejudicar a instrução, além do desgaste material e das
despesas extraordinárias que estavam sendo feitas. Diante disso, ressaltou que seria desejável
que as operações acabassem o mais cedo possível e as tropas retornassem aos seus afazeres
normais. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VI, p. 67) Ficou claro à Pessoa a pouca importância
dada por Dutra ao que acontecia no Mato Grosso e, sem surpresa nenhuma, acontecia o que
Sodré havia profetizado.
Diante da falta de recursos para continuar no combate ao banditismo e das várias
negativas do governo em atender às solicitações feitas por Pessoa, este, acompanhado pelo
tenente Sodré, resolveu falar pessoalmente com Vargas e Dutra. Com o deslocamento
autorizado, os dois chegaram ao Rio de Janeiro em 6 de janeiro de 1939. No dia seguinte,
encontraram-se com Dutra. Segundo Sodré (1967, p. 162-163), o ministro isentou-se de
qualquer decisão e indicou ser melhor que o assunto fosse tratado diretamente com Vargas.
600
954
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1938.08.29, doc. 0223.
955
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1938.08.29, doc. 0227.
601
da Capital Federal. Por isso, o governo entendia que a missão dele no Mato Grosso estava
cumprida e, por ser um dos generais-de-brigada mais antigos do Exército, o presidente da
República resolveu distingui-lo com uma nova comissão: inspetor da arma de Cavalaria, um
cargo há pouco criado, com sede no Rio de Janeiro. Teria Vargas, como era seu hábito,
mandado trazer Pessoa para perto da sua esfera de poder? Provavelmente, sim. No entanto,
segundo narra Sodré (1967, p. 170), ao invés de alegrar-se, Pessoa enfureceu-se com a notícia.
Considerou que retirá-lo do comando da 9ª RM foi a forma diplomática encontrada pelo
governo de afastá-lo do Mato Grosso, onde estava incomodando os poderosos da região.
Em 2 de março de 1939, José Pessoa foi exonerado do comando da 9ª Região Militar.
Passou a função em 3 de março, para o general Amaro Soares Bittencourt, ex-diretor da
Escola Técnica do Exército. Ficou adido ao Departamento do Pessoal do Exército até maio,
quando finalmente confirmou-se a sua nomeação para a chefia da Inspetoria da Arma de
Cavalaria956. Não conseguiu seu intento maior, que era capturar Silvino Jacques. Este
morreria em maio de 1939, em um confronto com uma milícia local autorizada a agir como
força policial, chefiada por Orcírio dos Santos, conforme relata Ibanhes (2019, p. 285).
Porém, certamente o esforço empreendido por Pessoa no Mato Grosso auxiliou a erradicação
do bandoleirismo na região. O elogio que Dutra consignou-lhe, no entanto, foi lacônico, não
ocupando mais do que um parágrafo de sua fé de ofício.
Com a transferência de Pessoa, Sodré (1967, p. 173) resolveu pedir demissão das
funções de ajudante-de-ordens. Sentia que a sua dívida de gratidão moral com o general
estava paga e que Pessoa não se importaria com o seu afastamento, já que, no Rio de Janeiro,
oficiais não faltariam para exercer o cargo. No entanto, segundo o autor, Pessoa ficou
profundamente decepcionado com o pedido. Não entendia como alguém poderia recusar uma
distinção tão alta, de servir na Capital Federal com um chefe tão conhecido e ilustre, o que
poderia lhe ser muito útil na carreira. A partir daí, as suas relações com José Pessoa esfriaram.
Antes, porém, este atendeu a um último pedido seu e providenciou a sua transferência de
retorno a Itu. Mais tarde, cruzaram-se em São Paulo. Na ocasião, Pessoa pediu que Werneck
lhe indicasse nomes para a escolha de futuros assessores. Os oficiais indicados acabariam
sendo convocados para servir na Inspetoria de Cavalaria.
956
A primeira regulamentação das recém-criadas inspetorias das armas e serviços do Exército aconteceu em 31
de março de 1931, por meio do Decreto nº 3.885. Criavam-se, assim, as seguintes inspetorias: de Infantaria; de
Cavalaria, Trem, Remonta e Veterinária; de Artilharia e Material Bélico; de Engenharia; de Aeronáutica; de
recrutamento; de Intendência; e de Saúde. Os inspetores seriam generais de divisão ou de brigada e estavam
subordinados diretamente ao ministro da Guerra.
602
Em 19 de junho de 1939, Pessoa tomou posse daquela que seria a mais longa comissão
de sua carreira militar. Seria inspetor da Arma de Cavalaria até novembro de 1945, quando foi
nomeado adido militar em Londres. Apesar do longo tempo que permaneceu no cargo, são
poucos os registros documentais de sua passagem pela função, que se resumem às suas
narrativas memoriais e umas poucas lembranças do, então, tenente Umberto Peregrino, seu
ajudante-de-ordens na Inspetoria. Também deixaram de ser frequentes as suas aparições nas
páginas dos periódicos da Capital Federal, um sinal claro de que a nova função já não tinha
tanta relevância assim nas esferas de poder do Exército e do governo.
Às recém-criadas inspetorias das Armas e Serviços competia, sobretudo, realizar a
inspeção das instruções técnicas e táticas dos corpos, repartições e estabelecimentos militares
das diversas armas do Exército, bem como do preparo dessas organizações militares para a
mobilização de pessoal e de material em tempo de paz, tendo-se me vista a preparação para a
guerra. Desse modo, os inspetores não tinham qualquer ingerência administrativa sobre os
corpos de tropa ou grandes unidades da Instituição, o que era uma atribuição das Regiões
Militares e das diretorias das Armas.957 Além disso, o acompanhamento da preparação para a
guerra das divisões e brigadas continuavam a ser da competência das inspetorias gerais, que
deveriam trabalhar em estreita cooperação com as inspetorias das armas.958
Os cargos de inspetores deveriam ser ocupados por generais-de-divisão ou de brigada,
oriundos das respectivas armas ou serviços da inspetoria que ocupariam. Dependiam
diretamente do ministro da Guerra, que era a autoridade que aprovava o plano anual de
inspeções, por intermédio do Estado-Maior do Exército, e a quem deveriam informar,
periodicamente, a situação e as necessidades da sua arma, sugerindo as medidas necessárias
ao seu melhor aparelhamento e eficiência.959Na verdade, os generais que ocupavam a função
não passavam de meros fiscais das Armas, sem o poder de emitir qualquer tipo de ordem,
visando o emprego operacional das grandes unidades militares. Além disso, estavam sob o
controle direto de Dutra e de Góes.
Pessoa tinha consciência de que essa seria a sua função, a partir do momento em que
assumiu o cargo. No seu discurso de posse, afirmou estar feliz por voltar “ao trabalho dos
957
O Relatório do Ministro da Guerra, de 1939, era claro quanto a isso, ao ressaltar que os comandantes
regionais não se submeteriam funcionalmente às Inspetorias no concernente à mobilização da tropa, às instruções
técnicas e táticas e à preparação para a guerra. Relatório do Ministro da Guerra, 1939, p. 66.
958
Decreto nº 3.885, de 31 de março de 1939.
959
Ibidem.
603
problemas” de sua Arma de origem. Porém, ressaltou que, mesmo após o longo período em
que esteve afastado, ainda encontrava uma Cavalaria não convenientemente aparelhada, sem
uma doutrina de guerra e sem os modernos recursos para o desempenho da Arma. No seu
entender, eram necessidades urgentes da Cavalaria: a atualização dos regulamentos de
combate da arma, a compra de armas e meios suplementares de transporte e de transposição
de cursos d’água e a compra de arreamentos novos para a cavalhada, uma vez que os
existentes eram inadequados e constituíam-se em verdadeiros instrumentos de tortura para os
animais. Também entendia que o rebanho equino do Exército era insuficiente para atender à
remonta das unidades montadas da Instituição, tanto as da Cavalaria como as da Artilharia de
dorso. A solução para esse problema, segundo ele, era regulamentar, com objetivos
zootécnicos pré-definidos, a criação das raças e os tipos de animais destinados às diversas
necessidades do Exército. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VII, p. 3-4)
Um fato curioso, é a defesa que Pessoa fazia do cuidado que se devia ter com o tipo
físico do oficial e do soldado de Cavalaria. Em 1940, ao tecer algumas considerações a
respeito da criação dos Dragões da Independência960, entendia que os soldados dessa tropa
não poderiam ter menos do que 1,72 metros de altura, o que era comum, segundo ele, em
todas as tropas de cavalaria dos “exércitos organizados”. Quanto à estatura dos oficiais, dizia
ser esta indiferente, já que, somente a partir de 1931 a Escola Militar havia fixado uma altura
mínima para a seleção dos candidatos ao oficialato.961 No entanto, tinha a firme opinião de
que a escolha dos cadetes da arma deveria tornar-se diferenciada, observando-se as condições
de peso e altura do candidato. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VII, p. 8) Um pensamento,
cabe ressaltar, coerente com as regras sanitárias rígidas que havia introduzido no regulamento
do estabelecimento de ensino em 1934, quando o comandou.
Quanto à motorização e a mecanização da arma, em sua fala Pessoa demonstrou não
concordar plenamente com os esforços modernização que vinham sendo feitos pelo alto-
960
Em 1936, por meio do Decreto nº1.042, de 22 de agosto, o 1º Regimento de Cavalaria Divisionário, sediado
no Rio de Janeiro, recebeu a denominação de Dragões da Independência, como uma forma de se resgatar a
história da unidade militar, cuja origem remonta ao Brasil Colônia, com a criação do Esquadrão da Guarda do
Vice-Rei, em 1765. Com a independência do Brasil, em 1822, evento no qual teve participação ativa,
transformou-se na Imperial Guarda de Honra. Daí vem a denominação histórica do Regimento. Em 1927, após
dez anos de deliberação, o Senado Federal aprovou um projeto de lei apresentado pelo deputado e historiador
Gustavo Barros, por meio do qual propunha o resgate das tradições históricas da unidade militar, dentre elas o
tradicional uniforme do Século XIX, branco com capacetes dourados e penachos vermelhos, imortalizado no
quadro da Independência do Brasil, de Pedro Américo. Atualmente o Regimento está sediado em Brasília e
denomina-se 1º Regimento de Cavalaria de Guardas (RCG). Sua missão, à semelhança da época do Império, é
realizar a segurança do presidente da República e a guarda das instalações da Presidência da República. É um
dos três regimentos de Cavalaria do Exército brasileiro que mantêm tropas montadas. Os outros são o 2º RCG,
Regimento Andrade Neves, sediado na Vila Militar do Rio de Janeiro, e o 3º RCG, Regimento Osório,
localizado em Poto Alegre. Informações retiradas dos sites do 1º RCG e do Exército brasileiro.
961
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1939.07.20, doc. 0258.
604
962
Na edição de maio de 1941, da revista Nação Armada, José Pessoa publicou um artigo em que faz referência
à sua obra. No texto, igualmente intitulado Os tanks na guerra europeia, fez uma análise do emprego das tropas
mecanizadas nazistas na Segunda Guerra Mundial, à luz dos conhecimentos abordados no livro publicado vinte
anos antes.
963
Forças armadas alemães.
964
Emprego tático das forças armadas alemãs arquitetada pelo general Heinz Wilhelm Guderian. A blitzkrieg,
ou guerra relâmpago, em português, foi empregada pela primeira vez na Segunda Guerra Mundial, mais
especificamente na invasão da Polônia. Consistia na utilização de forças rápidas de ataque e na surpresa, com
intuito de não dar tempo ao inimigo de organizar as suas defesas. Envolvia o emprego conjunto de um grande
número de aviões, carros blindados, unidades de Artilharia e tropas de Infantaria. O uso maciço das colunas de
605
blindados, valendo-se da sua proteção e, sobretudo, da sua velocidade, para romper as linhas
inimigas. As tropas polonesas, ainda adeptas das cargas da Cavalaria montada, foram
aniquiladas pelos alemães nos primeiros dias de combate.
Pessoa tinha razão quando pedia a modernização dos quartéis de Cavalaria. É
inegável, segundo Carvalho (2006, p. 92), o esforço de renovação e aperfeiçoamento
profissional do Exército empreendido por Dutra e Góes Monteiro durante o Estado Novo:
forma formuladas todas as leis básicas do Exército, escolas e quartéis foram construídos, os
corpos de tropa forma organizados, impulsionou-se o plano de reequipamento e armamento
graças a compras feitas no exterior e ao incentivo à indústria bélica nacional. Entretanto, após
a criação da Companhia de Carros de Assalto, em 1921, da qual o primeiro comandante foi
José Pessoa, o esforço feito pelo Exército para a mecanização ou motorização das tropas de
Cavalaria foi ínfimo.
A CCA havia sido extinta em 1932, graças ao descaso das autoridades militares,
descrentes da utilidade do carro de combate blindado à época. Como aponta Louro (2011, p.
75-76), dois anos mais tarde, a intenção de se criar unidades mecanizadas no Exército
novamente veio à tona, grande parte graças à ação do chefe da Missão Militar Francesa,
general Paul Noel, junto ao Estado-Maior do Exército. Em 1934, a Lei de Organização do
Exército passou a prever, na estrutura das divisões de Cavalaria, regimentos de auto-
metralhadores, além dos já previstos batalhões de carros leves de assalto nas divisões de
Infantaria. Essa estrutura somente começaria a tomar forma, de maneira tímida, em 1938, com
a criação do Esquadrão de Auto-Metralhadoras. Para mobiliá-lo, o Exército adquiriu junto à
Itália vinte e três carros blindados Fiat Ansaldo CV3/35, que haviam sido utilizados com
sucesso nas guerras da Abissínia e Civil Espanhola. Servindo basicamente como unidade
escola, onde os oficiais e sargentos de todas as armas, especialmente os de Cavalaria,
adestravam-se no uso básico dos carros blindados, o Esquadrão foi transformado no Centro de
Instrução de Motomecanização, em 1939. Em 1935, ainda foi incorporada à organização do
EME uma Seção de Motomecanização, com o propósito de orientar os trabalhos de
mecanização do Exército.
Em julho de 1939, Pessoa enviou ao ministro da Guerra um ofício reservado, por meio
do qual apresentou uma proposta para a compra de equipamentos para os futuros regimentos
de auto-metralhadores da Cavalaria. Nele, lembrou a Dutra os esforços que alguns exércitos
sul-americanos estavam fazendo para mecanizar as suas tropas, em especial o exército
blindados tinha a finalidade de romper as linhas estáticas do inimigo e penetrar em profundidade no território
invadido.
606
965
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1939.07.20, doc. 0232.
966
Unidades militares responsáveis pelo suprimento de equinos para as tropas de Cavalaria.
967
Plantações destinadas à alimentação dos animais (milho, cevada, trigo, cana, alfafa, capim gordura, etc).
968
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1939.07.20, doc. 0240 a 0244 e 0261.
607
969
Os postos de general-de-exército e marechal seriam criados somente seis anos mais tarde, com a aprovação do
Estatuto dos Militares pelo Decreto nº 9.698, de 2 de setembro de 1946.
608
que dos “esforços conjugados” pudesse advir uma solução para os problemas.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VII, p. 33-35)
José Pessoa, como inspetor de Cavalaria, empenhou-se muito para resolver os
problemas dos quartéis de Cavalaria. Não aceitava o descaso das autoridades. Os pedidos
recorrentes de melhorias dirigidos aos comandantes das Regiões Militares e ao ministro da
Guerra não continham nada de extraordinário. Pelo contrário, seus anseios buscavam atender
àquilo que era regulamentar, suprir demandas simples como: melhorar os alojamentos para o
pessoal, substituindo-se as camas de madeira por beliches de ferro, e as baias para a
cavalhada; melhorar a qualidade das forragens fornecidas aos quartéis; substituir viaturas
velhas por novas, como as viaturas cozinha e d’água; regularizar os estoques de munições,
equipamentos e, até mesmo, de ferraduras para os cavalos; fornecer os fardamentos
adequados aos soldados (os marinheiros da Armada Nacional recebiam oito uniformes por
ano, ao passo que os soldados do Exército recebiam a metade disso); e adequar as unidades de
remonta à produção de raças adequadas às tropas de Cavalaria, o que implicava, inclusive,
introduzir a inseminação artificial em todas esses quartéis. Os relatórios de 1943970, da
Inspetoria, apresentavam algumas melhorias implementadas na estrutura física dos quartéis e
na instrução da tropa. Entretanto, ainda persistiam a baixa qualidade da cavalhada.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VII, p. 27-30)
Quanto a este último item, José Pessoa sugeriu ao chefe da pasta da Guerra que
considerasse seu trabalho Os Problemas da Equinocultura no Brasil. Apesar da obra não
fazer parte do seu arquivo pessoal, Pessoa cita, em suas memórias, algumas passagens do que
seria um programa governamental para se criar cavalos em grande escala para o Exército e
sanar as deficiências do Serviço de Remonta e Veterinária da Instituição. O programa foi
apresentado ao ministro da Guerra em dezembro de [Link] considerações iniciais, aborda o
problema da motomecanização das tropas de Cavalaria. Para ele, motor e cavalo não se
excluiriam e, sim, se complementariam. Era imperioso que o Exército atacasse de frente o
problema da operacionalização das unidades mecanizadas, até mesmo para assegurar o
equilíbrio de material com os países vizinhos. Porém, era urgente que a Instituição também se
aparelhasse com os cavalos. No seu ponto de vista, se o Exército até aquele momento tinha
sido ineficaz no esforço dispendido com a criação equina, era porque o Estado não encorajava
e não prestava a assistência necessária aos criadores de cavalos do País. Sem uma produção
970
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1939.07.20, doc. 0246 a 0249.
610
equina em larga escala, não havia como manter uma tropa numerosa de Cavalaria.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VII, p. 73-74)
Portanto, para Pessoa, os problemas que afetavam o que ele chamou de “indústria
pastoril” não eram departamentais, mas, nacionais. Seria necessário um esforço de governo
para resolvê-los. Para a organização dessa “indústria”, apresentou algumas sugestões. Dentre
elas, a criação do Instituto de Veterinária do Exército e a ampliação do já existente Instituto
de Biologia, para o estudo de matrizes e o desenvolvimento de produtos biológicos. Além
disso, como medida preliminar, a criação do Conselho Nacional de Equinocultura, para
estimular e orientar a criação equina no Brasil. Esse conselho seria formado por membros dos
ministérios da Agricultura e da Guerra (inclusive do Inspetor de Cavalaria). Também seriam
criados conselhos estaduais e municipais, com subordinação direta ao conselho nacional.
Enquanto o Ministério da Agricultura agiria no cruzamento e seleção das raças, no
desenvolvimento das melhores forragens e no estudo das patologias equinas, o Ministério da
Guerra fomentaria a equinocultura, organizando os plantéis de animais reprodutores e criando
mercado seguro e compensador aos criadores nacionais. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VII,
p. 75-77)
Em setembro de 1940, Pessoa realizou uma viagem de inspeção aos estados da Região
Amazônica. Nessa ocasião, esteve na ilha do Marajó, a fim de verificar se o rebanho equino
daquela região se prestaria ao emprego nas unidades militares do norte do País. No retorno ao
Rio de Janeiro, concedeu uma entrevista ao jornal Correio da Manhã. Disse ter encontrado
grandes manadas de cavalos, na Ilha de Marajó. Entretanto, apontou que a raça criada
naquelas paragens ainda era deficiente e de “linhas defeituosas”, sendo necessário a
introdução de reprodutores de raças mais nobres na ilha. Aproveitou o espaço que o jornal lhe
concedera para abordar, mais uma vez, o problema da remonta no Brasil. Para ele, ainda
existiam algumas questões que necessitavam ser encaradas de frente pelo governo: a ausência
de um “serviço militar compulsório” para os animais de tropa; a falta de divisão geográfica do
País em zonas de criação e da escolha de raças melhoradas para atender os diversos misteres;
a inexistência da aplicação da inseminação artificial pelos criadores; e as aquisições de
cavalos no estrangeiro a baixos preços pelo Ministério da Agricultura, o que desestimulava os
criadores nacionais. Para melhorar a situação existente, segundo ele, era necessário a criação
imediata do já citado Conselho Nacional de Equinocultura.971
971
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 11 set. 1940, p. 3.
611
Mesmo após as batalhas da Segunda Guerra Mundial terem provado nos campos
europeus a relevância do emprego das unidades mecanizadas e motorizadas em combate,
principalmente no tocante ao poder de fogo, mobilidade e velocidade, José Pessoa ainda
defendia o emprego de tropas mistas de Cavalaria. Não era contra a mecanização, porém era
da opinião de que o emprego de tropas montadas ainda tinha a sua utilidade em combate. A
análise que se pode fazer de suas palavras é que tal defesa se dava mais em razão da
preservação da memória dos grandes heróis de Cavalaria, como Osório e Andrade Neves,
cujos sabres “inscreveram um ciclo de glórias no passado histórico da Pátria”, do que do
emprego tático da arma em si. Era um saudosista das cargas de cavalaria nos campos de
batalha e não admitia que os oficiais da arma adotassem um espírito comodista e já não
frequentassem mais os picadeiros972. (ALBUQUERUQE, 1953, Pasta VII, p. 122)
Para Pessoa, a Cavalaria era “a arma por excelência da tradição” e era da tradição,
segundo ele, que se nutria a alma de uma nação. Sendo assim, com o intuito de exaltar e
cultuar as tradições da arma, planejou a inauguração, no salão nobre da Inspetoria de
Cavalaria, de uma galeria de retratos dos chefes mais proeminentes da Cavalaria brasileira.
Não por acaso, a data escolhida foi o dia 23 de agosto 1940, em meio às comemorações da
Semana do Soldado. Não por acaso, também, os homenageados tinham as suas carreiras
militares, de uma forma ou de outra, ligadas à de Caxias. Ou lutaram ao seu lado na Guerra do
Paraguai e nas campanhas do Prata, ou nas revoluções internas por ele pacificadas. Com a
presença do ministro da Guerra, de vários generais da 1ª Região Militar e de familiares dos
chefes homenageados, foram inaugurados os retratos dos seguintes chefes da Cavalaria
brasileira: o marechal Osório; o general Manoel Marques de Souza, Conde de Porto Alegre; o
brigadeiro Andrade Neves; do marechal José Antônio Correa da Câmara, Visconde de
Pelotas; o marechal José de Abreu, Barão de Serro Largo; o brigadeiro Victorino José
Carneiro Monteiro, Barão de São Borja; o general João Manuel Mena Barreto; e o marechal
João Propício, Barão de São Gabriel. Além desses, ainda figuravam na galeria os heróis da
Revolução Farroupilha, brigadeiros Antônio de Souza Neto, Bento Manoel Ribeiro e David
Canabarro.973
Da organização da galeria resultou, ainda, um livro biográfico intitulado Chefes da
Cavalaria Brasileira, com intuito de elevar o culto aos antigos chefes da Cavalaria do
Exército. Publicado pela editora José Olímpio, do Rio de Janeiro, somente 200 exemplares,
numerados e rubricados pelo inspetor de Cavalaria, foram impressos, em uma única edição
972
Local onde se adestram cavalos e se realizam exercícios de equitação.
973
Revista Nação Armada, Rio de Janeiro, nov. 1940, p. 9-14.
612
luxuosa. Nessa obra, José Pessoa coloca Osório na condição de “patrono da Cavalaria
brasileira”. Cabe lembrar que, desde 1923, com a oficialização do culto à Caxias pelo ministro
Setembrino de Carvalho, e a sua posterior imposição como Patrono do Exército nas décadas
seguintes, o culto a Osório, como o maior soldado brasileiro, vinha entrando em declínio. Não
há dúvida que o “rebaixamento” proposto por Pessoa contribuiu para que, nos anos seguintes,
como lembra Castro (2000, p. 112), as comemorações a Osório perdessem o destaque que
tinham tido até então.
outras unidades militares não destinadas a esse fim.974 (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VII, p.
3 e 59)
A escolha da sede da nova Escola levou Pessoa a decidir-se entre os estados do Rio
Grande do Sul e de São Paulo. Pesava sobre o primeiro a quantidade de quartéis da arma.
Mais da metade das unidades de Cavalaria do Exército encontravam-se no Sul. Além disso, o
Rio Grande do Sul estacava-se na criação de equinos. Entretanto, São Paulo ficava mais
próximo da Capital Federal e possuía o maior parque industrial do País. O surto de progresso
pelo qual passava o estado certamente impregnaria o novo estabelecimento de ensino. A
opção de José Pessoa caiu sobre este último estado, não só devido à sua localização central,
mas, também, pelos pontos desfavoráveis que a região Sul trazia para a instalação de uma
escola tão importante. O Rio Grande do Sul era um ponto extremo do País, portanto, a Escola
não receberia a assistência direta do governo. Além disso, localizando-se em um estado
fronteiriço, estaria desnecessariamente exposta a um ataque inimigo, no caso de um conflito
armado, e submetida a um ambiente sem a necessária calma para a formação dos quadros
combatentes. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VII, p. 60-61)
José Pessoa pensou em instalar o estabelecimento de ensino no Vale do Paraíba
paulista. Em suas memórias, citou as visitas feitas às cidades de Taubaté, Tremembé,
Pindamonhangaba e Guaratinguetá. No entanto, foi uma inspeção no 2º RCD, em
Pirassununga, que o fez se decidir pela localidade para abrigar a sede da nova Escola de
Cavalaria. Em novembro de 1939, falou ao jornal Correio da Manhã sobre a construção da
Escola de Cavalaria. O título sugestivo da matéria já apontava Pirassununga como a “cidade
da Cavalaria brasileira”. Ressaltou que a construção de uma escola de Cavalaria com vida
autônoma, a exemplo das que os grandes Exércitos possuíam, como as escolas de Saumur
(França), Hannover (Alemanha), Tor Di Quinto (Itália) e Fort Riley (EUA), era a realização
de um velho sonho do Exército brasileiro. E que Pirassununga atendia a todas as condições
gerais para a construção do estabelecimento de ensino. A primeira, logicamente, era de ordem
econômica. O interventor do estado de São Paulo, Adhemar de Barros, já havia se
974
A Escola de Cavalaria havia sido criada em 11 de abril de 1929, pelo Decreto nº 18.697, com o propósito de
aperfeiçoar os oficiais de Cavalaria no comando de esquadrão e complementar-lhes o ensino profissional para o
comando de regimento e o emprego das brigadas e divisões. Também se destinava a especializar e complementar
a formação profissional dos sargentos da arma. Funcionava nas dependências do 15º Regimento de Cavalaria
Independente, na Vila Militar, no Rio de Janeiro. Em 1932, por meio do Decreto nº 21.142, de 10 de março, o
15º RCI foi extinto, tornando-se um regimento escola destinado exclusivamente aos trabalhos de instrução da
Escola de Cavalaria. Com o passar dos anos, a Escola perdeu a sua finalidade e a sua estrutura física degradou-
se. Em 1937, nela funcionava apenas o curso de equitação, em uma dependência do Regimento Andrade Neves,
como apontou a Mensagem do presidente da República ao Congresso Nacional, de 1937. Na mesma mensagem,
Vargas apontou a necessidade de se restaurar a Escola em um local mais apropriado.
614
975
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 29 nov. 1939, p. 3.
976
Ibidem.
977
Ibidem.
615
978
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1939.07.20, doc. 0238.
979
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1939.07.20, doc. 0239.
616
problema era dinheiro, lembrou a Dutra que o Banco do Brasil havia concedido, por ordem de
Vargas, um empréstimo de trinta mil contos de réis para a continuidade das obras da Escola
Militar de Resende, desafogando, assim, a Caixa de Economias da Guerra. Considerando que
já existiam as promessas da doação dos terrenos e da construção do bloco central da Escola,
Pessoa afirmou que não seria difícil à Caixa de Guerra destinar não mais do que um terço do
valor que seria destinado à Escola Militar para a instalação da Escola de Cavalaria em
Pirassununga. Deixou claro a Dutra o pesar que sentia em ter que suspender o projeto a que
tinha se dedicado com tanto afinco com o intuito de dar uma solução a mais um dos tantos
problemas da organização militar do País. Já ao fim do documento, ressaltou que, diante dos
esforços que o governo fazia em prol da defesa do País, pensava ser aquele o momento do
Exército também “reprimir a inércia dos que se opõem sistematicamente à realização de tudo
que se faz necessário à eficiência da nossa classe”.
Dutra não se sensibilizou com a missiva de Pessoa. Na resposta que lhe enviou, cinco
dias depois, reafirmou que não havia recursos para a construção da Escola. Lembrou que
também tinha as suas origens na carreira na arma de Cavalaria, mas, naquele momento, tinha
que pensar no Exército como um todo e existiam assuntos mais urgentes a resolver. Por isso, a
questão do estabelecimento de ensino ficaria para um momento mais oportuno. Na sua
concepção, era melhor não dar início a uma obra que seria interrompida logo a seguir. O
ministro ressaltou que não havia sobras de recursos na Caixa de Guerra. O dinheiro que lá
estava depositado era uma garantia para as necessidades mais prementes da Força. Ademais,
sabia que o comprometimento do interventor de São Paulo com a construção das edificações
da Escola não passaria de uma promessa, já que o governo daquele estado estava mais
interessado na inauguração da Escola Preparatória de Campinas, ainda em estudos. E reprimiu
a afirmação de Pessoa de que havia pessoas no Exército que se opunham à eficiência da
classe. Disse que ainda não tinha os encontrado. Pelo contrário, ao invés de inércia, havia,
sim, muito dinamismo da parte de todos os que tinham alguma parcela de responsabilidade na
administração do Ministério da Guerra. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VII, p. 68-71)
Finalmente, em 1º de março, José Pessoa colocou um ponto final no assunto.
Comunicou a Dutra que nada mais diria sobre o futuro da Escola de Cavalaria e que lastimava
que as suas palavras tivessem sido interpretadas pelo ministro “fora do verdadeiro
pensamento e objetivo”. Ressaltou que os seus propósitos sempre foram de colaboração.
Disse entender que somente o timoneiro com as mãos no leme estava em condições de
manobrar no sentido de dar um melhor rumo ao barco, referindo-se claramente à afirmação
que Dutra fizera de que existiam outras necessidades mais urgentes do que a construção da
617
Escola e que cabia a ele, como ministro da Guerra, decidir o emprego dos recursos. Encerrou,
afirmando que aguardaria o tempo em que Dutra retomaria o “problema” da Escola de
Cavalaria. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VII, p. 72) Um tempo, aliás, que nunca chegou.
Em meio ao comando da Cavalaria, Pessoa foi nomeado para aquelas que ele
considera em sua autobiografia as “missões especiais” da sua carreira: chefe da missão
diplomática nomeada para a posse do presidente Higino Morinigo, no Paraguai, em 1943, e a
presidência do Clube Militar, de 1944 a 1945.
De 13 a 19 de setembro de 1943, José Pessoa participou de uma missão diplomática no
Paraguai. Foi nomeado Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário com a finalidade de
representar o governo brasileiro na posse do presidente eleito do Paraguai, Higino
Morinigo.980 As narrativas de Pessoa a respeito dessa viagem, feitas em sua autobiografia e
imprensa carioca981, apresentam alguns indícios da importância que essa missão ganhou. O
primeiro é o fato de Morinigo, segundo ele, ser “muito chegado aos argentinos”. Cabe lembrar
que o apoio dado pela Argentina ao Paraguai durante o conflito do Chaco era um fator
estratégico, dentro do cenário sul-americano, que preocupava Getúlio Vargas e o Estado-
Maior do Exército desde a década de 1930.
980
A comitiva que acompanhava José Pessoa era formada pelos seguintes militares: coronel Floriano Peixoto
Keller, major Nero Moura, capitães Antônio Pereira Lyra, Joel Miranda e Carlos Alberto de Abreu Rocha e o
capitão de mar e guerra Jeronimo Francisco Gonçalves. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VIII, p. 120)
981
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 27 ago. 1943, p. 1.
618
Existia também a questão econômica, já que, de acordo com Pessoa, era uma intenção
expressa do governo brasileiro desenvolver o intercâmbio econômico entre os dois países. O
principal impulso dessa intenção, que não era só brasileira, mas dos dois governos, seria dado
por meio da ligação ferroviária entre Assunção e o porto de Santos, para que o Paraguai
pudesse escoar os seus produtos para o Atlântico. Pessoa lembrou que a passagem de uma
rede ferroviária pelo estado de Mato Grosso impulsionaria, ainda, a colonização do estado e a
exportação para o Paraguai dos produtos industrializados do Rio Grande do Sul, do Paraná e
de São Paulo. Nas vésperas do retorno de Pessoa e de sua comitiva ao Brasil, um banquete foi
oferecido na embaixada brasileira ao governo do Paraguai, que foi representado pelo ministro
das Relações Exteriores daquele país, Luís Argaña. Na ocasião, em um ato simbólico, Pessoa
passou às mãos do ministro uma placa de ouro, na qual estava gravado o decreto do governo
brasileiro que perdoava as dívidas de guerra paraguaias, decorrentes da Guerra do Paraguai.
Segundo ele, esse nobre gesto repercutiu politicamente em todos os países platinos.
Entretanto, no seu ponto de vista, só não foi completo porque havia faltado a devolução da
espada do marechal Solano Lopez, que se encontrava de posse do governo brasileiro desde a
sua morte, em 1870, durante o conflito entre os dois países982. Durante o discurso que fez,
Pessoa também destacou e agradeceu o apoio formal prestado pelo Paraguai, em janeiro de
1942, às nações sul-americanas que haviam sofrido algum tipo de agressão pelos países do
Eixo. Dentre elas, o Brasil, cujos navios vinham sendo torpedeados por submarinos alemães
na costa brasileira. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VIII, p. 126-130)
A respeito dessa última questão, aliás, Pessoa já havia se mostrado convencido de que
a agressividade política de certos países pela hegemonia da Europa arrastaria o mundo inteiro
a um novo conflito armado. A iminência da guerra levou-o a apresentar ao EME e ao
Ministério da Guerra, a partir de 1939, uma série de considerações a respeito da situação em
que se encontrava a defesa nacional. Em julho daquele ano, três meses antes da invasão da
Polônia pelos nazistas, enviou uma carta ao chefe do EME, general Francisco José Pinto,
lembrando-o que, assim como em 1918, o Brasil poderia ser “arrastado” para uma nova
conflagração internacional sem estar adequadamente preparado. A começar pelo
aparelhamento bélico das Forças Armadas, que, além de insuficiente, já se encontrava em
situação de inferioridade em relação a alguns países sul-americanos. Reconhecia os esforços
que estavam sendo feitos pelo Ministério da Guerra e pelo EME no sentido de se melhorar a
982
A espada de Solano Lopez, que fazia parte do acervo do Museu Histórico Nacional, foi devolvida ao Paraguai
em 1957, por Juscelino Kubitschek, durante uma visita do presidente Alfredo Stroessner ao Brasil.
619
defesa do País, porém entendia que o Exército ainda não tinha alcançado a sua eficiência real,
capaz de assegurar a defesa e a soberania da Nação. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta IX, p. 2)
Para Pessoa, a forma como o Exército estava organizado não era adequada à defesa
das fronteiras terrestres e marítimas brasileiras. Os portos brasileiros não eram
suficientemente fortificados, o que os deixava expostos à moderna artilharia naval e ao
bombardeio aéreo. A aviação militar era incapaz de assegurar a proteção aérea do território e
a velha esquadra brasileira não tinha condições de garantir a hegemonia do Brasil sobre o
Atlântico Sul. Sendo assim, não havia como as Forças Armadas protegerem adequadamente a
faixa litorânea do País, onde concentravam-se as principais capitais dos estados e a indústria
nacional. Além disso, lembrou que também no litoral encontrava-se a Capital Federal, cidade
que abrigava a maior parte dos órgãos de defesa do Brasil. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta
IX, p. 3)
Diante do que considerou uma desorientação e uma morosidade do Ministério da
Guerra em relação aos preparativos do País para a guerra, Pessoa enviou, em julho de 1940,
para o ministro Dutra, um programa de guerra organizado em vinte e um pontos, que poderia
ser posto integralmente em prática em meses. Considerado por ele vital para a reorganização
da defesa militar brasileira, cabe destacar algumas das ideias abordadas pelo programa:
Uma questão interessante abordada por Pessoa nas cartas que enviou a Dutra, nos anos
subsequentes, foi a importância estratégica do norte e do nordeste do Brasil. Tinha a clara
visão das vulnerabilidades do Norte e do Nordeste em caso de uma invasão estrangeira, já que
a conformação do litoral nordestino, com a presença de mais de trinta portos, facilitava a
atracagem de navios inimigos e a penetração de tropas estrangeiras no interior brasileiro.
Também tratou de destacar a relevância geográfica da cidade de Natal para a navegação aérea,
por localizar-se no extremo leste do País983. A sugestão de Pessoa é que fosse organizado um
exército do Norte, formado pelas 6ª, 7ª e 8ª Regiões Militares. Esse grupo de regiões seria
preparado para o emprego no teatro de operações nordestino e amazônico.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta IX, p. 21-23)
A ligação do centro do País com essas regiões também o preocupava. Na edição de
maio de 1940, da revista Nação Armada984, publicou o artigo intitulado “A grande estrada do
Nordeste”. Nele, defendeu a construção de uma grande rodovia Transnordestina, que seria
formada pelo prolongamento da estrada Rio-Bahia, proporcionando a ligação terrestre dos
estados no Norte com os do Sul. Esse grande eixo rodoviário iniciaria na cidade do Rio de
Janeiro e terminaria em Fortaleza. A falta dessa ligação, segundo ele, expunha o País, em caso
de guerra, aos riscos de ver o seu território fracionado em duas regiões isoladas, já que a
esquadra brasileira não seria capaz de garantir as rotas marítimas entre os estados meridionais
e setentrionais. Dessa forma, não haveria como escoar recursos em pessoal e material de
guerra de uma região em benefício da outra. No seu entender, a rodovia, por uma questão
estratégica, deveria estar afastada do litoral e atravessar as regiões mais populosas e ricas dos
estados, atendendo interesses políticos, econômicos e administrativos. Ao longo do seu
percurso, vários campos de pouso deveriam ser construídos, atendendo, assim, interesses de
ordem técnico-militar. Justificou, também, a preferência por uma rede rodoviária, ao invés de
uma ferroviária. Havia o inconveniente do Brasil não fabricar nenhum tipo de material
ferroviário, desde os trilhos até as locomotivas. Era preciso importar tudo, a preço de ouro. Já
para as rodovias, tudo era nacional. O material e os serviços de construção e conservação
poderiam ser adquiridos no mercado nacional. A construção dessa monumental obra ficaria a
983
O pensamento de José Pessoa seria corroborado em 1941, com a permissão dada pelo governo Vargas para a
instalação de uma base aeronaval norte-americana na cidade de Parnamirim, no Rio Grande do Norte. Devido à
posição geográfica favorável desta cidade, por ser o ponto das Américas mais próximo do continente africano,
essa base foi vital para as operações dos exércitos aliados no norte da África e no sul da Europa. Conhecida por
“trampolim da vitória”, foi a partir dela que partiam os aviões norte-americanos com víveres, armamentos e
equipamentos militares para o ressuprimento das tropas aliadas em combate.
984
A revista Nação Armada foi publicada pelo Exército brasileiro entre os anos de 1939 e 1947. Como a própria
apresentação da revista indicava, em sua capa, era uma revista civil-militar dedicada à discussão dos problemas
da Segurança Nacional.
621
cargo do Exército, que a executaria com seus batalhões rodoviários. Lembrou, ainda, que
outras estradas precisavam ser construídas, para que fossem estabelecidas as ligações
adequadas com as regiões Sul e Oeste do Brasil.985
Na edição de dezembro de 1940 da mesma revista, no artigo intitulado “Estrada do
Norte-Araguaia-Tocantins”, Pessoa apresentou a necessidade de, estabelecida a ligação
rodoviária com o Nordeste, se ampliar essa ligação até a região Norte. Por meio de um
corredor de transportes, que combinaria as vias férreas e rodoviária com a navegação fluvial,
seriam aproveitados os leitos caudalosos dos rios Araguaia e Tocantins para se atingir o rio
Amazonas. Os trechos encachoeirados dos rios seriam removidos, permitindo, assim, a
navegação em todas as suas extensões. A ligação começaria por via férrea, partindo-se da
Capital Federal pelas Estradas de Ferro Centra do Brasil e Mogiana até Araguari-MG e dali
até Anápolis-GO, pela Estrada de Ferro de Goiás. Anápolis seria o ponto de partida de duas
variantes: uma em direção ao Norte, margeando o rio Tocantins até a cidade de Peixe-GO; e
outra margeando o rio Vermelho até Leopoldina-GO. A partir dessas cidades seriam
aproveitados os eixos navegáveis do Araguaia e do Tocantins, respectivamente, para se atingir
o mar pela foz do Amazonas.986
Dois anos mais tarde, em uma publicação no jornal Correio da Manhã Pessoa retomou
o assunto da ligação dos estados do Centro e do Sul do Brasil com os das regiões Nordeste e
Norte. Na sua fala, ratificou as ideias que expôs na Nação Armada e ressaltou que a criação
de um programa rodoviário estimularia a prosperidade econômica e social do Brasil.
Lembrou, ainda, que a construção das estradas geraria trabalho e levaria o socorro necessário
à população nordestina que, naquela época, já era assolada pela seca.987
Pessoa também recorreu à imprensa para pronunciar-se sobre o afundamento de navios
mercantes brasileiros por submarinos alemães. Esses atos praticados pelos nazistas,
principalmente na costa brasileira, deram causa à declaração do Estado de Guerra988 do Brasil
com as nações do Eixo naquele mesmo mês. Desde fevereiro de 1942, submarinos alemães e
italianos vinham torpedeando navios mercantes brasileiros no oceano Atlântico, em represália
ao rompimento das relações diplomáticas do Brasil com as potências do Eixo. Segundo
Bonalume Neto (2021, p. 38-39) o rompimento diplomático do Brasil com os países do Eixo
se deu, em grande parte, por pressão dos EUA. Com a entrada dos norte-americanos na
Segunda Guerra Mundial, após o ataque japonês à base aeronaval de Pearl Harbor, não havia
985
Nação Armada, Rio de Janeiro, maio 1940, p. 11-15.
986
Nação Armada, Rio de Janeiro, dez. 1940, p. 6-11.
987
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 28 maio 1942, p. 3.
988
Decreto nº 10.358, de 31 de agosto de 1942.
622
como os EUA tolerarem um país das Américas com uma política pró-eixo. Ainda mais um
país como o Brasil, detentor do saliente Nordestino, posição geográfica favorável ao apoio das
operações aliadas no norte da África e no sul da Europa. Como aponta o autor, Vargas chegou
a mostrar-se simpático aos alemães. Entretanto, a aproximação com os EUA e as benesses que
essa parceria traria para o Brasil, cujo ponto máximo foi a construção da Companhia
Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda-RJ, o fizeram pender para o lado norte-americano.
No encontro dos chanceleres das Américas realizado no Rio de Janeiro, em 15 de janeiro de
1942, os Estados Unidos pressionaram os países sul-americanos a romperem relações com a
Alemanha, Itália e Japão. Somente o Chile e a Argentina não aderiram à causa norte-
americana. O Brasil romperia relações com o Eixo treze dias depois.
Em agosto de 1942, os ataques dos submarinos alemães intensificaram-se na costa
brasileira. Segundo Bonalume Neto (2021, p. 53), até julho, treze navios mercantes brasileiros
já haviam sido torpedeados pelos nazistas. No mês seguinte, cinco navios brasileiros foram
atacados no litoral nordestino, provocando um verdadeiro massacre de brasileiros, civis e
militares989. Diante dessa tragédia, Pessoa enviou uma carta ao Correio da Manhã, com o
título “Chegou o momento de agir”. No texto, publicado na edição de 28 de agosto do jornal,
ele condenou veementemente o “assassínio premeditado” e a “fria perversidade” dos ataques
nazistas aos navios brasileiros. Defendeu a criação de campos de concentração no País, como
medida repressiva aos inimigos que, porventura, fossem capturados na costa brasileira. E
condenou os “quistos coloniais” existentes no território brasileiro. No seu entender, os
núcleos populacionais formados por imigrantes e descendentes de alemães, italianos e
japoneses deveriam ser expurgados e ocupados militarmente. Acusou-os de exercerem
livremente a espionagem no País.990 A esses “perigosos inimigos”, segundo ele, não existiria
pena melhor do que colocá-los, de pá e picareta na mão, a construir a rodovia Rio-Bahia.991
Pessoa ressaltou que o momento pelo qual o País passava era de “desforra”. Todo pai
deveria sentir-se orgulhoso de acompanhar seus filhos à caserna, e toda mãe de levar suas
989
607 civis e militares morreram. Foram torpedeados os seguintes navios: o Baependy, com 270 mortos,
incluindo soldados do Exército que estavam sendo levados para o Nordeste; o Araraquara, com 131 mortos; o
Aníbal Benévolo, com 150 mortos; o Itagiba, com 36 morto; e o Arará, com 20 mortos. Além desses navios, o
veleiro Jacira, com 6 tripulantes também foi torpedeado. No entanto, sem vítimas fatais. (BONALUME NETO,
2021, p. 53)
990
Cumpre lembrar que com a entrada do Brasil na guerra houve um recrudescimento da campanha de
nacionalização do governo Vargas, implementada em 1939, que tinha como um dos seus objetivos a integração
do imigrante europeu à população brasileira. A partir de 1942 o governo intensificou as mediadas repressivas às
nacionalidades ligadas às potências do Eixo: as liberdades individuais passaram a ser restritas; as viagens dentro
do País tinham que ser autorizadas pelo governo; livros, jornais, revistas e documentos foram apreendidos e
prisões de imigrantes que não falavam o português foram feitas.
991
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 28 ago. 1942, p. 3.
623
filhas aos centros da Cruz Vermelha. Para ele, a fase das palavras já havia passado. Era
chegado o momento de agir. Todas as comodidades, como festas e obras de caráter adiável,
deveriam cessar. Todas as dissidências pessoais e políticas deveriam ser esquecidas, em prol
da defesa da Nação. As armas é que deveriam falar por todos. Segundo Pessoa, ainda havia
tempo de o governo organizar um Exército forte, uma Armada grande e uma Aviação
poderosa.992 Os afundamentos dos navios no Nordeste, amplamente veiculados nas páginas da
imprensa nacional, provocou uma forte comoção popular. Aos poucos, a comoção foi dando
lugar à indignação geral. A União Nacional dos Estudantes (UNE), a Liga de Defesa Nacional
e a população em geral saíram às ruas e passaram a pressionar o governo a adotar um
posicionamento mais radical. Três dias após a publicação da carta de Pessoa, o Brasil
declarou guerra às potências do Eixo.
O título sugestivo da carta de Pessoa e o tom mais exaltado de suas palavras
certamente faziam referência ao que ele considerou, em sua autobiografia, uma falta de
providências reais e preventivas por parte do governo Vargas face aos ataques à frota
mercante brasileira. Segundo ele, o presidente estava cercado de “auxiliares fascistas”, que
ocupavam posições chaves da alta administração. Não há dúvidas que suas palavras fazem
referência a Góes Monteiro, à Dutra e, até mesmo, a Filinto Müller, os quais, no início da
guerra, mostravam-se simpáticos às potências do Eixo. Pessoa ainda teceu críticas ao governo
por não proteger a vida da “gente do mar” e não resguardar o comércio marítimo brasileiro.
Ao contrário, Vargas agravava a situação quando fretava a empresas estrangeiras os melhores
e maiores navios da frota comercial brasileira. Em junho de 1942, chegou enviar uma carta a
Getúlio, sugerindo armar os navios mercantes brasileiros com canhões e combinar a
organização de comboios marítimos com os Estados Unidos, a fim de fortalecer a escolta dos
navios brasileiros. Segundo Pessoa, Vargas jamais o respondeu. (ALBUQUERQUE, 1953,
Pasta IX, p. 53-57)
Para Pessoa, a declaração de guerra chegou tarde demais, o que custou a vida de
muitos brasileiros. A causa dos afundamentos, para ele, foi, sem dúvida alguma, a inépcia e o
desamor no cumprimento do dever dos dirigentes políticos e militares à época e a indiferença
destes pela vida dos brasileiros. Enquanto as listas com os nomes dos mortos eram publicadas
nos jornais, o governo preocupava-se, segundo ele, em “fazer demagogia”.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta IX, p. 61-62)
992
Ibidem.
624
993
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 25 set. 1942, p. 1.
625
A expedição serviu para mostrar a Pessoa que não era somente a navegação regular do
rio que precisava de cuidados. A saúde e a instrução das populações ribeirinhas do São
Francisco também necessitavam de atenção. Comissões de saneamento e escolas precisavam
ser criadas para atender a população abandonada, que sofria diante do desabastecimento de
mercadorias, diante das dificuldades que o rio impunha à navegação em alguns trechos.
Segundo Pessoa, existiam cidades que, diante do estado de abandono em que se encontravam,
não possuíam nem os medicamentos mais básicos para o enfrentamento das endemias locais,
como o quinino, utilizado no tratamento da malária. No seu entender, o saneamento do São
Francisco era uma missão a ser atribuída ao Instituo Oswaldo Cruz, que era perfeitamente
capacitado para essa grandiosa cruzada. Para Pessoa, o momento, entretanto, não era de se
pensar em grandes obras, como barragens, captação de energia elétrica ou colonização em
larga escala. Era certo que elas eram necessárias. Porém, mais urgente eram as obras de
emergência, que permitissem a ligação imediata com o Nordeste. (ALBUQUERQUE, 1953,
Pasta IX, p. 74-75)
Apesar do esforço depreendido por Pessoa, muito pouco foi feito pelo governo Vargas
para a ampliação da malha rodoviária do País e para as melhorias da navegabilidade do São
Francisco. A impulsão racional desses setores viria anos mais tarde, com a criação da
Comissão do Vale do São Francisco994, em 1948, no governo de Eurico Dutra, e com o
desenvolvimento rodoviário que o País passou a partir de 1950, graças à impulsão que a
indústria automobilística tomou no governo de Juscelino Kubitschek.
A partir de 1942, após um longo namoro e uma longa lua-de-mal, conforme aponta
Carvalho (2006, p. 111), o divórcio entre as Forças Armadas e Getúlio Vargas começava a se
configurar.995 À medida que a vitória dos aliados se configurava nos campos de batalha
europeus, Vargas começou a se preparar para nova atmosfera política que tomaria conta do
País. Como aponta Skidmore (1982, p. 72), aos poucos os oficiais brasileiros que lutavam na
Itália começaram a se dar conta da anomalia de lutar pela democracia no exterior, enquanto
994
A Comissão do Vale do São Francisco foi criada pela Lei nº 541, de 15 de dezembro de 1948, como um órgão
autônomo ligado diretamente à Presidência da República. Tinha como encargo a elaboração e a execução de um
plano de desenvolvimento das regiões banhadas pelo rio São Francisco, inclusive com a modernização dos
transportes nele realizados.
995
José Murilo de Carvalho faz uma interessante analogia da relação entre as Forças Armadas e Getúlio Vargas.
Para o autor, essa relação teria passado por três fases: um namoro, de 1930 a 1937, uma lua-de-mel, de 1937 a
1945, e o divórcio, entre 1945 e 1964.
626
persistia uma ditadura em seu próprio país. Em outubro de 1943, um grupo de intelectuais e
políticos mineiros de oposição lançaram um cauteloso manifesto, que ficou conhecido como
Manifesto dos Mineiros, pedindo a redemocratização do Brasil. Entretanto, a causa imediata
para o divórcio, para Carvalho (2006, p. 111), foi o fato de Vargas ter lançado a proposta de
uma nova assembleia constituinte com o apoio do Partido Comunista. Segundo o autor, desde
1942 Vargas vinha intensificando a sua imagem de amigo do operariado brasileiro. Nesse
cenário, os militares, tomados pelo anticomunismo e pela pretensão de guiar o Estado, não
aceitaram, nas negociações políticas, a inclusão de um ator que lhes era ideológica e
politicamente antagônicos.
Foi nesse contexto de enfraquecimento do Estado Novo que José Pessoa participou do
pleito eleitoral para a presidência do Clube Militar, em 1944. O Clube, fundado nos estertores
do Império, em 1887, sempre foi, ao longo da história brasileira, o foco das manifestações de
descontentamento da oficialidade do Exército. Curiosamente, ao longo da década de 1930, o
predomínio das sucessivas presidências da instituição esteve nas mãos dos generais que não
apoiavam o endurecimento do regime pós-Revolução de 1930 e o governo de Getúlio Vargas,
à exceção de um breve período, de janeiro a maio de 1937, em que a direção da instituição
esteve nas mãos de Góes Monteiro.996Em 1939, entretanto, foi eleito o general Meira
Vasconcelos, em chapa única. Apoiador do golpe do Estado Novo e partidário do governo,
Vasconcelos exerceu a função até 1944. A sua recondução na presidência foi a forma
encontrada pelo governo para neutralizar os oficiais anti-varguistas na presidência da
instituição. Esse ciclo foi quebrado pela eleição de Pessoa.
José Pessoa disputou o pleito eleitoral do Clube com o general Valentim Benício da
Silva, comandante da 1ª Região Militar e antigo chefe de gabinete do ministro Dutra, o
candidato apoiado pelo governo. Em uma carta publicada no jornal Diário de Notícias997,
Benício da Silva afirmou que havia apresentado a sua candidatura a pedido de alguns sócios
da instituição. Disse que já era a terceira vez que o seu nome havia sido lembrado e que só
estava concorrendo novamente diante da impossibilidade da candidatura de Dutra, já que o
nome do ministro teria sido a primeira escolha deste mesmo grupo de associados. A eleição
transcorreu no dia 18 de maio de 1944, com a vitória de Pessoa, que angariou 702 votos
contra 271 de Benício998. Como vice-presidente de José Pessoa foi eleito o general Emílio
996
Nesse período foram presidentes do Clube Militar, conforme as Atas da Presidência, os generais: Guedes da
Fontoura (1935-36), Horta Barbosa (1936-37), Góes Monteiro (1937), Parga Rodrigues (1937-39).
997
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 27 abr. 1944, p. 3.
998
Conforme a Ata da Eleição, lavrada pela Assembleia Geral Extraordinária do Clube Militar, de 18 de maio de
1944.
627
Fernandes de Souza Doca999. Um fato curioso é que os jornais cariocas chegaram a noticiar
Souza Doca compondo a chapa de Benício da Silva. Poucos dias depois dos primeiros
anúncios, Doca passou a concorrer ao lado de Pessoa. Do que se pôde perceber da análise da
ata de votação, os sócios não votavam na chapa e, sim, nos candidatos a cada cargo de direção
que compunham as duas chapas. Os oficiais que concorreram ao lado de Pessoa, foram eleitos
com ampla maioria.
À semelhança do que afirmou Benício da Silva a respeito da sua candidatura, Pessoa
aponta, em suas memórias, que também foi procurado insistentemente por um grupo de
oficiais, sócios do Clube, solicitando-lhe que concorresse ao cargo de presidente. Esses
associados apresentaram-lhe a situação detalhada dos problemas financeiros pelos quais
passava a instituição. Em um primeiro momento, disse-lhes que estava honrado com o
convite, mas, que não poderia aceitar o encargo, devido às pesadas atribuições que o cargo de
Inspetor de Cavalaria o impunha. Entretanto, uma notícia veiculada pelo jornal O Globo1000,
que informava a escolha de Benício da Silva por Dutra para concorrer à presidência do Clube
o fez mudar de ideia. Segundo Pessoa, a informação de que Benício era o escolhido do
ministro e as promessas bem parecidas com a “demagogia” das plataformas do governo
causaram a irritação de grande parte da oficialidade do Exército.1001 Sendo assim, sentiu-se
obrigado a revogar os seus propósitos anteriores e aceitar o convite que haviam lhe feito, o
que, como ele ressalta, despertou um grande entusiasmo no seio do Exército, especialmente
nos oficiais de baixa patente, que haviam sido seus cadetes na Escola Militar.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VIII, p. 1-2)
José Pessoa tomou posse da presidência do Clube em 26 de junho. Nem Vargas, nem
Dutra estiveram presentes. No discurso que proferiu na ocasião, ressaltou que a fundação do
Clube Militar, no final do Império, era fruto de um movimento democrático e classificou-o
como uma “sociedade de classe”. Agradeceu a Vargas e aos prefeitos da Capital Federal,
Pedro Ernesto e Henrique Dodsworth, que haviam colaborado na seção e nos aforamentos dos
terrenos das sedes da instituição. E destacou a dedicação que o Clube sempre tivera com a
classe militar e com os destinos da Nação. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VIII, p. 5)
Na sua fala, em momento algum teceu considerações a respeito dos problemas
políticos pelos quais passava o País. No entanto, não deixou de, indiretamente, evidenciar o
999
O general Souza Doca faleceria antes de completar o seu mandato, em 21 de maio de 1945, conforme o
Boletim Interno do Clube Militar nº 44, de 24 de maio de 1945.
1000
O Globo, Rio de Janeiro, 29 abr. 1944, p. 9.
1001
As principais promessas de campanha feitas por Benício da Silva na reportagem de O Globo eram: o
saneamento das finanças do Clube, a criação de serviços de saúde e de instrução para os associados e familiares,
a construção de um ginásio esportivo e a luta pela melhoria dos vencimentos dos militares reformados.
628
papel que se devia esperar da oficialidade das Forças Armadas. Ao comentar a grande
afluência de sócios à votação, tanto do Exército como da Armada e da Aeronáutica, ressaltou
a solidariedade que havia imperado naquela ocasião entre os “velhos marechais e generais” e
a “juventude esperançosa” das Forças Armadas. Para ele, esse sempre fora um traço
característico dos momentos memoráveis pelos quais a Nação já havia passado. Este fato era,
segundo ele, “o reflexo psicológico de uma época”, em que os homens, diante de uma
civilização materialista, encontravam-se atordoados, distantes “das raízes de sua própria
formação espiritual”. Faltava-lhes, na visão de Pessoa, o sentimento de solidariedade e união,
o que somente encontrariam no aconchego da sociedade, criada para a “aproximação dos que
se assemelhavam pelo ideal, pela profissão ou pela comunidade de sentimentos”.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VIII, p. 6-7)
Destacou, ainda, qual seria o problema premente a ser solucionado pela sua gestão: o
saneamento das dívidas do Clube. A outra, como se verá adiante, seria o apoio à Força
Expedicionária Brasileira. Ressaltou que, sem independência econômica, não poderia haver
liberdade e progresso. E que, em matéria de administração, somente não se resolvia o que o
homem não queria, por faltar-lhe “ânimo para servir com probidade” e “devotamento à causa
da coletividade”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VIII, p. 8)
Uma das primeiras providências tomadas por Pessoa, em sua gestão, foi a criação de
um boletim interno semanal do Clube, onde, a exemplo de uma unidade militar, registravam-
se todas as providências administrativas e financeiras tomadas pelas diretorias. Foi da análise
desses documentos, dos anos de 1944, 1945 e início de 1946, que se pode perceber a intensa
mobilização que ocorreu, por parte da diretoria, para a recuperação econômica da instituição.
Logo no segundo boletim, publicado em 22 de julho de 1944, foi publicado a decisão da
Assembleia Geral de dar ao presidente do Clube Militar amplos e irrestritos poderes para
alienar imóveis, tomar quaisquer medidas necessárias à administração e elaborar novos
estatutos.1002 A campanha para se angariar sócios, inclusive de outros estados, foi
intensificada, sendo grande a adesão principalmente dos militares de patentes mais baixas.
Praticamente toda semana eram publicadas a adesão de novos associados e recolhimentos
bancários de mensalidades de sócios residentes fora do Rio de Janeiro, inclusive em cidades
muito distantes da Capital Federal, como Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, por exemplo.
Provavelmente, o que estimulava essas associações distantes era o fato de a mensalidade estar
1002
Boletim Interno do Clube Militar nº 2, 22 jul. 1944, p. 1.
629
vinculada a um pecúlio. Quando o associado titular falecia, o valor assegurado era pago à
família.
Na gestão anterior uma Caixa de Assistência havia sido criada, por meio da qual
empréstimos eram concedidos a sócios e funcionários. Também existia no Clube uma
alfaiataria, cujos serviços podiam ser utilizados pelos associados, sendo as despesas por eles
feitas averbadas em folha de pagamento. Diante da grande inadimplência existente, ainda no
seu primeiro mês de mandato, Pessoa mandou publicar uma mensagem circular, por meio da
qual concitava os sócios a quitarem as suas dívidas. No texto, afirmava que o código de
conduta que cada sócio devia adotar era o procedimento honesto e justo. Lembrou, também
que a honra era o “apanágio dos homens de farda”, mesmo em uma associação como a do
Clube Militar.1003 Tendo em vista a baixa arrecadação com as mensalidades sociais, o quadro
de funcionários e seus respectivos vencimentos também foram reorganizados e escalonados.
Como ele mesmo expôs, não havia como manter uma folha de pagamentos maior do que a
arrecadação dos sócios.1004
Cumprindo o que prometera em sua posse, Pessoa cancelou as grandes atividades
sociais, como bailes e festividades que exigiam gastos vultosos. Ademais, achava que existia
uma questão moral envolvida nessa decisão. Para ele, não era possível que se fizessem
atividades recreativas no Clube enquanto companheiros brasileiros morriam nos campos de
batalha da Itália. As poucas solenidades feitas se revestiram de uma grande simplicidade e se
destinaram à comemoração de datas significativas às Forças Armadas, como a Independência
do Brasil, o Dia do Soldado e as grandes batalhas da Guerra do Paraguai. As atividades
culturais limitavam-se a um ou outro torneio de xadrez ou a exposições de obras de arte. A
biblioteca foi reorganizada e obras novas foram adquiridas, assim como todos os bens móveis
e as obras de arte foram inventariados, o que jamais havia sido feito pelas gestões anteriores.
E nada mais passou a ser adquirido sem que, antes, uma tomada de preços no mercado fosse
feita por uma comissão nomeada para tal.1005
A fim de aumentar a arrecadação mensal, Pessoa determinou, ainda, que os espaços
que não estavam sendo utilizados do edifício sede do Clube fossem locados, como no caso da
empresa norte-americana Rubber Development Corporation1006, que em setembro de 1944,
1003
Boletim Interno do Clube Militar nº 3, 29 jul. 1944, p. 3.
1004
Boletim Interno do Clube Militar nº 4, 5 ago. 1944, p. 4.
1005
Relatório do Primeiro Ano de Administração do Clube, 1944. Acervo José Pessoa (CPDOC FGV).
JPvp1944.06.22, docs. 0285 a 0290
1006
A Rubber Development Corporation era uma empresa norte-americana que possuía do governo brasileiro a
concessão da exploração e comercialização de borracha na Amazônia, com o propósito de manter o esforço de
guerra dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial.
630
alugou três andares inteiros do edifício Marechal Duque de Caxias a um custo mensal de Cr$
27.000,00 (vinte e sete mil cruzeiros).1007 No balanço que fez da administração do Clube no
término do ano de 1944, Pessoa destacou o fato de o Clube estar adentrando o ano de 1945
com saldo positivo em caixa e com os valores para a amortização das dívidas patrimoniais
assegurados. Com dinheiro em caixa, a partir de janeiro de 1945, Pessoa passou a
implementar várias melhorias naquela que seria a nova sede social do Clube, o edifício Duque
de Caxias, em fase final de construção. A iluminação das instalações foi concluída. Novas
salas foram criadas para o lazer dos sócios. Até mesmo portas e janelas que inexistiam foram
colocadas. Obras de arte foram reformadas e mobiliário novo passou a ser adquirido.1008
Quanto à questão econômica, o que mais perturbava Pessoa, entretanto, era a dívida
gerada com os empréstimos tomados pelas gestões anteriores, para as construções do edifício
Marechal Deodoro, sede social do Clube à época em que assumiu a presidência, e do edifício
Duque de Caxias.1009As dívidas geradas com os empréstimos, tomados junto à Caixa
Econômica Federal e ao Instituto dos Industriários, respectivamente, eram da ordem de Cr$
28.617.958,00 e comprometiam o planejamento financeiro do Clube nos próximos vinte anos
de gestão. Semestralmente, a instituição teria que desembolsar mais de Cr$ 500.000,00 para
manter os débitos em dia. Com a inauguração da nova sede social localizada na avenida Rio
Branco, em agosto de 1945, e com os poderes que lhe fora dado pela Assembleia Geral do
Clube, para a alienação dos bens imóveis da instituição, Pessoa passou a negociar com o
governo federal a permuta do edifício Marechal Deodoro por imóveis e terrenos pertencentes
ao Ministério da Educação e Saúde (MES). A negociação envolvia a venda ao MES da antiga
sede social, por um valor de Cr$ 25.463.405,00. Dessa forma, a União encamparia as dívidas
do Clube e ainda restaria à instituição um saldo de Cr$ 10.000.000,00, que seria utilizado para
a construção da sede esportiva, no bairro Jardim Botânico. As tratativas envolviam, ainda, a
cessão, pelo governo, de um terreno para a construção futura de uma nova sede social.
1007
Boletim Interno do Clube Militar nº 9, 9 set. 1944, p. 5.
1008
Conforme o Boletim Interno do Clube Militar nº 27, 13 jan. 1945, p. 1. A nova sede somente seria ocupada
em agosto de 1945. Conforme o relatório dos trabalhos realizados em 1945, publicado no Boletim Interno do
Clube Militar, de 29 de dezembro de 1945, um crédito de Cr$ 500.000,00 foi doado ao Clube pelo Conselho
Superior de Economias de Guerra, para auxiliar a reinstalação da nova sede social.
1009
De acordo com o histórico publicado em seu site, o Clube Militar possuía, em 1944, três sedes: uma sede
social, na Esplanada do Castelo, o edifício Marechal Deodoro; uma sede em construção, na Cinelândia, o
edifício Duque de Caxias; e um terreno do bairro Jardim Botânico, onde seria construída a futura sede esportiva.
Até o ano de 1940, quando mudou a sua sede social para o edifício Marechal Deodoro, que havia acabado de ser
construído, o Clube ocupou um prédio muito antigo na Cinelândia. Neste mesmo ano, estas antigas instalações
foram demolidas, para que um novo edifício, o Duque de Caxias, fosse erguido. Essa edificação ficou pronta em
1945 e, a partir de agosto deste ano, passou a abrigar a sede social definitiva do Clube. Ambos os edifícios
existem até hoje. O Marechal Deodoro está localizado no Centro da cidade, na avenida Graça Aranha, e tornou-
se um edifício comercial. O Duque de Caxias localiza-se na avenida Rio Branco e ainda é a sede social do Clube
Militar.
631
Interessava a Pessoa uma área localizada junto às avenidas Beira Mar, General Justo e
Marechal Câmara1010, também na Esplanada do Castelo, que pertencia ao próprio Ministério
da Educação. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VIII, p. 79-83)
As negociações empreendidas por José Pessoa, primeiramente com o presidente
Getúlio Vargas e, após a queda deste, com o presidente José Linhares, não deram certo.
Apesar de ter sido dada como certa, no relatório dos trabalhos do ano de 1944, a transação
imobiliária com o Ministério da Educação não seguiu adiante, por falta de entendimento entre
as partes. Em dezembro de 1945, Pessoa solicitou autorização ao Conselho Superior de
Economias de Guerra para que a Caixa de Economias de Guerra fizesse um empréstimo de
Cr$ 12.500.00,00 ao Clube, a juros mais baixos do que os praticados pelas demais instituições
financeiras do mercado. O empréstimo foi aprovado em janeiro de 1946. Com o dinheiro,
foram quitadas as dívidas contraídas junto à Caixa Federal e o Instituto dos Industriários,
tornando-se o Clube devedor somente da Caixa da Guerra. Com isso, a ideia de se vender o
edifício Marechal Deodoro foi abandonada de vez.1011
O apoio do Clube Militar à Força Expedicionária Brasileira (FEB) foi o outro grande
empreendimento de José Pessoa à frente do Clube Militar. Nos seus anos de gestão manteve
contato permanente com o comandante da FEB, general Mascarenhas de Moraes, o que fez
por meio do envio constante de telegramas e cartas contendo mensagens de incentivo às ações
das tropas brasileiras na Itália. Segundo Câmara (2011, p. 211), José Pessoa teria
confidenciado ao seu filho, o brigadeiro Pessoa, que havia nutrido um grande desejo de
comandar a FEB. Frustrado em sua aspiração secreta, não poupou esforços para promover
homenagens e eventos beneficentes em favor dos soldados que combatiam na Itália e suas
famílias.
Uma das primeiras medidas de apoio à FEB, aprovada por Pessoa em setembro de
1945, foi o envio de açúcar e café para serem distribuídos às vítimas de guerra na Itália. Por
sugestão de um sócio do Clube, o major Emídio da Costa Miranda, uma comissão foi
nomeada para conseguir, junto ao Instituto Nacional do Café, uma doação de 10.000 quilos de
café e 10.000 quilos de açúcar. Esses produtos seriam embalados em sacos de papel contendo
as inscrições “Brasil” e “Clube Militar”. Por intermédio dos oficiais e soldados da FEB, esses
gêneros seriam distribuídos à população esfomeada das cidades italianas atingidas pela
guerra. Dessa forma, pensava Pessoa, além de se prestar assistência às vítimas da guerra,
1010
Hoje, essa área é próxima à Praça Virgílio, no Centro do Rio de Janeiro.
1011
Informações retiradas do Resumo Histórico dos 91 anos de existência do Clube Militar (1887-1978),
compilação feita pelo coronel Isnard Pereira de Almeida. O documento faz parte do acervo do museu do Clube
Militar.
632
criar-se-ia uma simpatia dessas pessoas com as tropas brasileiras.1012 Entretanto, três semana
depois da sua aprovação, as atividades da comissão foram suspensas. O Boletim Interno do
Clube, de 23 de setembro de 1944, apontava que a imprensa carioca havia veiculado,
erroneamente, que o envio de café e açúcar às vítimas da guerra teria sido uma iniciativa de
Getúlio Vargas. Dessa forma, a fim de não dar crédito a que não era de direito, a Diretoria do
Clube decidiu não levar adiante a empreitada.
Malograda a campanha do açúcar e do café, no mês seguinte o Clube Militar aderiu, a
convite de Juarez Távora, à época presidente do Departamento Nacional de Defesa Nacional,
à campanha “Agasalhemos nossos soldados combatentes”, promovida pela Liga de Defesa
Nacional, com o intuito de angariar agasalhos e meias de lã para serem enviados aos soldados
brasileiros na Itália, durante o inverno europeu.1013 A imprensa de todo o Brasil veiculou
amplamente a iniciativa da LDN. Órgãos assistenciais, grandes empresas nacionais, entidades
de classe e a própria população engajaram-se nas doações de roupas de lã, de cigarros e de
material de higiene para serem enviados às tropas brasileiras na Europa.
Em maio de 1945, o segundo maior conflito mundial terminou. A Nação preparou-se
para receber de volta os soldados brasileiros. Não havia medida para as inúmeras homenagens
que foram prestadas aos heróis nacionais que haviam lutado em defesa da democracia em solo
europeu. Bairros, ruas e praças, de todas as cidades do País, receberam nomes de batalhas ou
de ex-combatentes. Festivais foram organizados. A população, por meio das sociedades de
bairros, dos estudantes e das entidades de classe e assistenciais se mobilizaram na recepção
dos ex-combatentes e no amparo às famílias dos febianos mortos e dos mutilados e inválidos.
Também o governo se preparou para receber os ex-combatentes, que retornariam à Capital
Federal em diversos escalões, devido à impossibilidade de se organizar o transporte de todo o
contingente da FEB em uma única leva. Em 17 de maio, por determinação do ministro da
Guerra, uma Comissão de Honra foi formada1014, com a finalidade de planejar e coordenar os
festejos cívicos que seriam realizados para recepcionar as tropas que retornariam à Pátria a
partir da primeira quinzena de julho.
1012
Boletim Interno do Clube Militar nº 8, de 2 set. 1944, p. 1-2.
1013
Boletim Interno do Clube Militar nº 16, de 30 out. 1944, p. 1.
1014
A Comissão de Honra do Ministério da Guerra para recepcionar a FEB, que era presidida pelo general
Eurico Dutra, era formada pelos ministros e chefes dos estados-maiores das Forças Armadas, pelo ministro
Macedo Soares, das Relações Exteriores, pela Sra. Darcy Vargas, esposa do presidente Vargas, por
representantes de universidades e entidades de classe. A Legião Brasileira de Assistência, a Liga de Defesa
Nacional, a Cruz Vermelha Brasileira e o Clube Militar são alguns exemplos de associações que se juntaram ao
Ministério da Guerra na preparação da recepção dos ex-combatentes. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 1 jun.
1945, p. 5; 30 jun. 1945, p 7.
633
1015
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 30 jun. 1945, p. 7.
1016
Atas das Sessões Ordinárias e Extraordinárias da Comissão de Homenagem, Assistência e Recepção da FEB,
15 maio a 8 nov. 1945. Acervo do Clube Militar, Rio de Janeiro.
1017
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 20jun. 1945, p. 3.
634
etc) os dados biográficos dos heróis e das unidades da FEB, inclusive nas suas cidades de
origem; sessões públicas de palestras com ex-combatentes; organizar um ciclo de
conferências no Clube Militar, com o intuito de esclarecer o que significou a FEB no tocante à
sua influência nos problemas nacionais; e fornecer o irrestrito apoio às associações civis
engajadas nas homenagens aos ex-combatentes.1018
A subcomissão de Assistência tomou a frente no apoio às famílias desamparadas.
Criou a campanha “Casa para o a família do expedicionário morto ou incapacitado em defesa
da Pátria”. Ao jornal Diário de Notícias1019 o general Heitor Borges afirmou que a meta da
campanha era angariar, através de doações, Cr$ 30.000.000,00 para a construção de 1.200
casas para as famílias dos expedicionários mortos. Disse também esperar a doação de terrenos
para a construção das casas. Ao final da campanha, em novembro de 1945, o valor arrecadado
ficou muito aquém do pretendido, tendo sido angariados Cr$ 1.024.000,00 e doados 4
terrenos. Essa subcomissão contou com a participação intensa das esposas dos associados, que
semanalmente realizavam visitas aos ex-combatentes hospitalizados e realizavam passeios e
piqueniques em locais turísticos da cidade para aqueles que podiam se locomover. Além
disso, também houve um empenho na readaptação dos desmobilizados no retorno à vida civil
(empregos, próteses para os mutilados etc.). Chás, eventos esportivos e espetáculos teatrais
foram promovidos pela subcomissão para angariar fundos para as famílias desamparadas.
Estrelas do teatro à época, como a atriz Eva Todor, encenaram peças cujas rendas foram
doadas à campanha do Clube Militar.1020
Quanto à subcomissão de Recepção, cabia, essencialmente, a “preparação psicológica”
do povo para receber a tropa brasileira. Tendo em vista o governo ter se engajado na recepção
dos ex-combatentes, Pessoa determinou que o Clube não se envolvesse no que fosse de
competência das autoridades, apesar de a instituição fazer parte da Comissão de Honra do
governo. Entretanto, todo o apoio foi prestado às associações de bairro que decidiram realizar
algum tipo de festejo para recepcionar os seus moradores que haviam lutado na Itália. Uma
das iniciativas por ela tomada foi providenciar para que nas residências e locais de trabalho
dos ex-combatentes, nos diversos bairros do Rio de Janeiro, fossem afixados quadros de
honras com as fotos dos expedicionários. Para isso, foi pedido às famílias que desejassem,
que entregassem no Clube Militar fotos dos ex-combatentes. Também houve o empenho para
que nenhum bairro da cidade ficasse sem a ornamentação necessária para a recepção e sem
1018
Atas das Sessões Ordinárias e Extraordinárias da Comissão de Homenagem, Assistência e Recepção da FEB,
15 maio a 8 nov. 1945. Acervo do Clube Militar, Rio de Janeiro.
1019
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 26 ago. 1945, p. 17.
1020
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 29 jun. 1945, p. 8.
635
uma Bandeira Nacional hasteada em local de destaque. Uma lista de voluntários foi aberta na
secretária do Clube, para identificar aqueles que desejassem colaborar com as festividades.1021
Cabe aqui um aparte para considerar quão traumática foi a desmobilização da FEB
para os ex-combatentes. Vargas ordenou a desmobilização da tropa brasileira em 6 de julho de
1945, quando ela ainda se encontrava na Itália. Como lembra Ribeiro (2013, p. 18), questões
políticas e militares o levaram a tal decisão. Para Getúlio, a FEB representava uma ameaça à
continuidade do Estado Novo. Afinal de contas, oficiais e praças lutaram nos campos da Itália
pela manutenção da democracia, enquanto em seu próprio país uma ditadura ainda vigorava.
Havia, ainda, questões operacionais: como as Forças Armadas absorveriam em seus quartéis
um efetivo tão grande? Com o final da guerra ficava evidente que o País necessitava passar
por um amplo processo de redemocratização e retorno da FEB aceleraria esse processo. Dessa
forma, como ressalta a autora, a FEB passava a ser uma presença indesejada no governo
varguista e, também, para o Exército de Dutra e de Góes Monteiro. Novas lideranças foram
projetadas e poderiam causar tensões na ordem interna da Instituição em um momento
conturbado para a política nacional. Como bem aponta Bonalume Neto (2021, p. 270), Vargas
tinha medo de que, terminado o desfile na avenida Rio Branco, as tropas esticassem a sua
marcha até o palácio presidencial para depô-lo. A desmobilização das tropas encerrava essas
questões.
Entretanto, para além da conduta de Vargas, Ribeiro (2013, p. 18-19) ressalta a forma
rápida como os expedicionários foram desmobilizados e para os desdobramentos desse ato.
Após a recepção apoteótica, os veteranos se depararam com uma longa lista de decepções. A
eles foi proibido o uso dos uniformes da FEB. Muitos deixaram de receber as condecorações
que lhes eram devidas. Apenas os oficiais puderam optar pela sua permanência nos quadros
do Exército. Os praças e soldados que retornavam à vida civil enfrentavam uma dupla
decepção: a dispensa do Exército e o despreparo da sociedade para recebê-los. Agora civis,
não conseguiam emprego, sofriam com as sequelas de guerra e sequer recebiam assistência
médica. Até mesmo os oficiais enfrentaram a rejeição dos colegas que não haviam participado
da guerra. O desestímulo para que permanecessem na Força foi grande: eram transferidos para
as piores unidades militares e enfrentavam dificuldades na progressão da carreira.
A iniciativa do Clube Militar em prol dos ex-combatentes teve uma ampla aceitação
da população carioca e das entidades e associações de classe do Rio de Janeiro e do Brasil.
Assim como também da imprensa, que, quase que diariamente, dava notoriedade às atividades
1021
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 6 jul. 1945, p. 5.
636
1022
O Diário de Notícias do dia 31 de julho de 1945, na página 5, apresenta uma nota com uma longa lista de
bancos e companhias públicas e privadas que realizaram doações à Comissão do Clube Militar.
637
que, não via como conciliar o sentido nacional dos serviços invocados pelo PC ao símbolo por
ele adotado, que remetia à bandeira da União Soviética. Afirmou que, como patriota, não
poderia aceitar que partidos nacionais adotassem símbolos estrangeiros como insígnia.
Finalizou dizendo que, naquele momento de vibração cívica, somente um sentimento deveria
ter guarida no coração de todos os brasileiros: o de uma Pátria livre, soberana e forte.1023
O Clube realizou, ainda, três atos significativos, em meio às diversas atividades de
homenagem e assistenciais que promoveu em favor da FEB. O primeiro deles foi conceder,
em 13 de julho, por aclamação da Diretoria e dos conselhos Deliberativo e Fiscal, ao general
Mascarenhas de Moraes, comandante da Força Expedicionária, o título de Presidente de
Honra do Clube Militar. No final do ano, em 15 de dezembro, após terem sido encerradas as
atividades da Comissão de Homenagem, Assistência e Recepção da FEB, foi realizado um
baile de gala nas dependências da sede social, o Baile da Vitória. Na ocasião, uma placa de
bronze, comemorativa à FEB, foi inaugurada e o título de Presidente de Honra do Clube foi
formalmente entregue a Mascarenhas de Moraes. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VIII, p. 35)
Um outro fato significativo para a política nacional acabou ocorrendo em meio ao
mandato de Pessoa: a queda de Vargas do poder, em 29 de outubro de 1945. Desde o começo
do ano, alguns protestos contra o governo haviam conseguido ludibriar a censura. Em 22 de
fevereiro, José Américo de Almeida, que havia sido candidato em 1937, concedeu uma
entrevista à imprensa explicado por que deveriam ser realizadas eleições presidenciais e
porque era inadequado que Vargas fosse candidato. Dias depois, Getúlio emitiu um Ato
Adicional1024 emendando a Constituição de 1937, prevendo que, em noventa dias, um decreto
seria baixado fixando a data das eleições. De imediato, os candidatos começaram a aparecer.
O primeiro foi o brigadeiro Eduardo Gomes, que concorreria pela União Democrática
Nacional (UDN). Comícios e protestos populares eram realizados em todo o Brasil contra a
candidatura de Vargas, que insistia em dizer que não concorreria à presidência. Entretanto, em
março iniciou-se um movimento do governo em prol da candidatura de Dutra, o que foi visto
pela oposição como uma manobra diversionista de Vargas para manter a sua influência no
próximo governo. Em abril, Dutra aceitou a sua indicação. (SKIDMORE, 1982, p. 73-74)
A partir de maio, a campanha política intensificou-se. Ao mesmo tempo, Vargas
iniciou uma tímida abertura política, concedendo a anistia a centenas de presos políticos que
haviam sido detidos durante o Estado Novo, dentre eles Luís Carlos Prestes. Em 1º de maio,
discursou à população em um grande comício. Reafirmou a sua intenção de não se candidatar
1023
Boletim Interno do Clube Militar nº 48, 14 jul. 1945, p. 2-3.
1024
Lei Constitucional nº 9, de 28 de fevereiro de 1945.
638
e declarou o seu apoio à Dutra. Vinte e sete dias depois, finalmente, foi fixada a data de 2 de
dezembro para o pleito eleitoral. O Partido Social Democrático (PSD), recém fundado, passou
a apoiar a candidatura de Dutra, que se demitiu em agosto do Ministério da Guerra, sendo
substituído por Góes Monteiro. Tudo parecia certo para, após longos anos de ditadura, o
retorno da democracia no País. (SKIDMORE, 1982, p. 74-75)
Entretanto, no começo de agosto, um grupo ligado a Vargas iniciou um movimento
para o adiamento das eleições presidenciais. Em seu lugar, pediam a instalação de uma nova
Assembleia Constituinte, com o objetivo de redemocratizar o País sob a proteção do ditador.
A oposição defendia justamente o contrário: primeiro deveriam ocorrer as eleições, para
depois se pensar em uma nova Constituição. Havia o temor de Vargas ainda poder exercer
uma grande influência na Constituinte. O Queremismo, nome pelo qual ficou conhecido o
movimento levado a efeito por aqueles que pediam a permanência de Getúlio, contava com o
apoio de partidos políticos proeminentes, como o Partido Comunista, que havia voltado à
legalidade, e do recém fundado Partido Trabalhista Brasileiro. No começo de outubro, em
uma demonstração de força, os queremistas organizaram um grande comício em frente ao
Palácio Guanabara. Vargas discursou, reafirmando que não concorreria à presidência, mas,
ressaltando que o povo tinha o direito de exigir uma nova Constituição. E alertou que havia
forças reacionárias poderosas contrárias à Constituinte. (SKIDMORE, 1982, p. 75)
No dia 10 de outubro, intempestivamente, Vargas baixou um decreto adiantando as
eleições estaduais e municipais para o dia da eleição presidencial1025. A medida causou furor
na oposição. Como o decreto exigia que os governadores e prefeitos candidatos se
licenciassem dos cargos trinta dias antes das eleições, havia a possibilidade dos governantes
interinos nomeados por Vargas manipularem o pleito a favor de Dutra. As modificações das
leis eleitorais começaram a causar suspeitas inclusive na alta oficialidade das Forças
Armadas. Temiam que, a exemplo da Argentina, para onde Perón retornou triunfalmente ao
governo dezessete dias após ter sido deposto, Vargas voltasse ao poder nos braços do povo. A
gota d’água para os generais foi a nomeação por Vargas de seu irmão, Benjamin Vargas, para
a chefia de polícia do Distrito Federal, em substituição a João Alberto Lins de Barros, que
estava há menos de um ano no cargo. Vendo a situação agravar-se, Góes não estava disposto a
ser o próximo a ser substituído. Nesse contexto, conseguiu mobilizar a alta cúpula das Forças
Armadas em prol do apoio de um golpe para derrubar Getúlio. Na tarde de 29 de outubro,
Dutra ainda tentou demover Vargas da ideia de nomear o seu irmão. Getúlio não aceitou a
1025
Decreto-Lei nº 8.063, de 10 de outubro de 1945.
639
ideia, acreditando que Góes não teria coragem de retirá-lo da presidência. Nesse interim, Góes
já havia mobilizado as tropas do Exército do Distrito Federal e cercado o Palácio da
Guanabara. Diante da recusa de Vargas, à noite Góes enviou o general Cordeiro de Farias ao
Palácio, para informar a Getúlio que ele estava deposto. No dia seguinte, Vargas partiu para
um “exílio” em sua fazenda em São Borja-RS. Havia, finalmente, caído o ditador, pelas mãos
daqueles que o haviam colocado no poder. (SKIDMORE, 1982, p. 76-78)
Pessoa, que participou diretamente dos fatos, aponta que o pedido da deposição de
Getúlio partiu de um grupo de generais do alto comando do Exército que serviam na Capital
Federal, refutando a ideia de que Góes teria sido o grande, senão o único, responsável pela
queda de Getúlio. Considerou que a queda da ditadura havia sido um ato de desprendimento e
patriotismo das Forças Armadas, que reabilitou o Brasil aos olhos do mundo. O ato do alto
comando do Exército, na sua opinião, havia sido uma “insurreição benéfica e memorável”,
com o propósito de reestabelecer as tradições institucionais liberais do País. Comparou o 29
de outubro com a data de instauração da República em significado. Para ele, o dia da queda de
Vargas era uma data como não havia maior na história política do Brasil. Ressaltou que os
prejuízos morais que o Estado Novo vinha causando à Nação, as vendetas pessoais das figuras
centrais do governo [Vargas, Dutra e Góes] e a coação à liberdade e à justiça exigiam,
naquele momento, uma reação violenta. E foi o que acabou motivando a atitude do alto
comando das Forças Armadas. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X, p. 119)
Em suas memórias e nas entrevistas que deu à imprensa carioca, Pessoa narrou passo a
passo os acontecimentos que antecederam a queda do governo. Em todas os seus depoimentos
sempre fez questão de deixar claro que Vargas não havia renunciado e, sim, sido deposto. Ao
Correio da Manhã, disse que há tempos o alto comando do Exército vinha acompanhando os
abusos políticos de Vargas. Destacou a situação calamitosa em que se encontrava a economia
do País, fruto da incapacidade administrativa de Getúlio, e a corrupção dos negócios públicos,
o que havia causado o enriquecimento ilícito de um pequeníssimo grupo de servidores
públicos do regime que ocupavam cargos de confiança. Em uma lógica invertida, segundo ele,
os pobres, por meio das contribuições feitas aos institutos do governo, é que emprestavam
dinheiro aos mais ricos, que se aproveitavam desses ganhos para construírem obras opulentas,
enquanto a classe trabalhadora ainda vivia em miseráveis moradas. Era indispensável, pois,
que esses usurpadores fossem julgados, para exemplo às novas gerações.1026
1026
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 15 nov. 1945, p. 6 e 20.
640
Pessoa narra que, diante das atitudes tomadas por Vargas quanto ao pleito eleitoral de
2 de dezembroe a turbulenta campanha queremista, que configuravam a possibilidade de um
novo golpe contra a Nação e que já mereciam a repulsa de grande parte da população, um
grupo formado pelos generais de maior grau hierárquico da Capital Federal1027, sob a direção
do general Christóvão Barcelos, que havia assumido a chefia do Estado-Maior do Exército
com a ascensão de Góes à pasta da Guerra, passou a realizar reuniões periódicas dentro do
prédio do Ministério da Guerra, a fim de deliberar sobre a situação política do País. Delas
participaram, também, oficiais do mais alto posto da Marinha e da Aeronáutica. Como
resultado desses encontros ficou decidida a deposição de Vargas. Segundo Pessoa, para esses
generais era imprescindível que não fosse mais atribuída às Forças Armadas a
responsabilidade pelas mazelas causadas ao País pelo Estado Novo. Ressaltou que a grande
maioria dos chefes militares não haviam apoiado o golpe de 10 novembro de 1937, salvo dois
ou três que já eram de conhecimento público. Sendo assim, o alto comando do Exército não
permitiria mais que fosse enganado, nem consentiria que um novo ultraje fosse praticado
contra a boa-fé e os ideais democráticos do povo brasileiro.1028
Ao Correio da Manhã1029, José Pessoa frisou que o Exército, como “instituição
apolítica”, não deveria “intervir em política partidária” nem se “arvorar em mentor do poder
civil”. Tampouco deveria ser “fiador de regimes políticos”, o que não o impedia a Instituição
de acompanhar atenta a vida política do País. Foi coerente com esse pensamento, então, que o
citado grupo de generais passou a intervir junto a Góes Monteiro para que o Ministério da
Guerra achasse uma fórmula para que o pleito eleitoral de 2 de dezembro ocorresse em
ambiente de absoluta confiança. Nesse interim, Vargas publicou o famigerado decreto
antecipando as eleições para os governos estaduais e municipais, o que levou os chefes
militares, na semana anterior a da deposição de Getúlio, a redigirem um “memorando” a ser
entregue ao presidente por Góes. O documento, cujo texto está transcrito abaixo, tinha o
objetivo, segundo Pessoa, de “garantir a ordem interna e acautelar a honra e a integridade do
Exército, sem, entretanto, visar interesses de partidos ou política de qualquer espécie”:
1027
Ao Correio da Manhã, Pessoa nominou os quatorze generais que faziam parte desse grupo: Christóvão
Barcelos, Milton de Almeida, Newton Cavalcanti, Raymundo Sampaio, Pedro Cavalcanti, Heitor Borges,
Castelo Branco, Agostinho dos Santos, Fiuza de Castro, Mário Ramos, Demerval Peixoto, Franklin Rodrigues,
Borges Fortes, além dele próprio. Correio da Manhã, 15 nov. 1945, p. 20.
1028
Albuquerque, 1953, Pasta X, p. 122 e Correio da Manhã, 15 nov. 1945, p. 20.
1029
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 15 nov. 1945, p. 20.
641
1030
Ibidem.
642
volta da 1 hora da manhã. Por volta das 2:30 horas da madrugada de 30 de outubro, Linhares
assumiu a presidência da República no Guanabara, diante do alto comando da Forças
Aramadas e de autoridade civis da Capital Federal. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X, p.
127) Em 2 de dezembro, Dutra venceria as eleições e se tornaria o presidente do Brasil.
Em sua autobiografia, escrita durante o segundo governo de Vargas, em 1953, José
Pessoa lamenta que o único erro dos generais que levaram a termo o movimento de 29 de
outubro de 1945, foi terem permitido adesão do “pequenino grupo de militares fascistas e
políticos”, ainda “agarrados” aos postos chaves do governo deposto. Dessa forma, segundo
ele, não pôde o Exército se libertar desses “elementos aventureiros”. (ALBUQUERQUE,
1953, Pasta X, p. 128-129) Para a desgraça do Brasil, como ele aponta, anos mais tarde tudo
voltou a ser como era:
Em dezembro de 1945, José Pessoa foi nomeado adido militar em Londres. Despediu-
se, assim, da Inspetoria de Cavalaria e da presidência do Clube Militar. À frente deste, jamais
permitiu que o jogo político interferisse na sua administração. Não há, nas atas da Diretoria e
da Assembleia Geral e nos boletins internos da instituição, no período em que exerceu a
presidência, uma só referência a respeito da política do País, a não ser no seu discurso de
despedida, em janeiro de 1946. Nele, afirmou que um dos seus esforços à frente do Clube foi
afastá-lo da política partidária. Como “sociedade de classe” que era, tinha o entendimento de
que o Clube não deveria viver sobra a influência direta do governo, que sempre o havia
utilizado para interesses políticos e gozo pessoal daqueles que buscavam favores junto ao
governo. Ao final, concitou aos associados que mantivessem a independência do Clube, a fim
de manter o seu prestígio e bom nome.1031
Em 29 de janeiro de 1946, José Pessoa partiu do Rio de Janeiro, por via aérea, para os
Estados Unidos, acompanhado de sua família. Daquele país, seguiu por via marítima até a
Inglaterra. Em 23 de fevereiro, assumiu a sua nova função em Londres. (ALBUQUERQUE,
1953, Pasta X, p. 175) Infelizmente, nada há praticamente nada, em termos de documentação,
a respeito do breve período em que ele esteve à frente da Aditância Militar brasileira na Grã-
Bretanha, entre março de 1946 e janeiro de 1947. Nem mesmo a sua Fé de Ofício apresenta a
sua passagem pela Inglaterra. Nada também foi encontrado na sede da Embaixada brasileira
na Inglaterra, após este pesquisador ter feito contato com aquela legação brasileira no exterior.
O pouco que existe, faz parte de suas memórias sobre a sua passagem por aquele país.
Pessoa narra ter encontrado uma Londres “mutilada”, com os “ferimentos de guerra”
ainda expostos. A Inglaterra, de uma maneira geral, estava devastada e empobrecida pela
guerra e enfrentava uma grave crise econômica. Afirma ter sido muito bem recebido pelos
colegas e pela sociedade em geral e destacou ter se sentido confortável na cidade, ainda mais
por nela residir grande parte da família de sua esposa. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X, p.
175)
A primeira questão que lhe chamou a atenção, após dois meses de desempenho da
função, e que lhe causou indignação, foi o fato de o Brasil não ter usufruído da partilha dos
despojos de guerra entre os países aliados. Para ele, tal fato somente aconteceu devido ao
1031
Boletim Interno do Clube Militar nº 77, 24 jan. 1946, p. 1-2.
644
descaso e à inércia do governo brasileiro, que pouco caso fez do assunto. Mesmo tendo ele e o
embaixador Muniz de Aragão tentado despertar o interesse das autoridades brasileiras para a
possibilidade de uma reparação de guerra, nenhuma providência foi tomada. Do ministro das
Relações Exteriores, João Neves da Fontoura, veio a resposta de que o Brasil não recebeu e
nada receberia dos despojos inimigos a título de reparação. Pessoa chegou a apelar para a
influência do general Pedro Cavalcanti de Albuquerque, presidente da Central de Requisições
do Exército, e seu amigo, junto ao alto comando do Exército. Mas, não obteve sucesso.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X, p. 175-176)
Em 8 de junho de 1946, o Brasil se fez representar na parada militar comemorativa ao
Dia da Vitória em Londres com um pequeníssimo contingente militar. Dois meses antes do
desfile, em 29 de abril, Pessoa foi comunicado pelo chefe do Estado-Maior do Exército,
general Salvador Cesar Obino, que a representação brasileira seria composta pelos adidos
Naval e Aeronáuticos brasileiros em Londres, pelo adido Aeronáutico brasileiro em
Washington e pelo Adido Militar brasileiro em Roma, todos com seus respectivos assistentes.
Além deles, o general Zenóbio da Costa, à época comandando a 1ª Região Militar,
acompanhado dos seus ajudantes-de-ordem, estaria presente. Um contingente de 24 praças,
apenas, das três Forças Armadas, também seria enviado para o evento.1032
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X, p. 179-180)
Pessoa ficou profundamente transtornado por não ter sido escolhido para representar o
Brasil na parada militar. Somente ele, na Embaixada brasileira em Londres, não participaria
do evento. Para ele, o responsável por tal preterição tinha nome: Góes Monteiro, que havia
sido reconduzido à pasta da Guerra por Dutra. Considerou a atitude do ministro uma
“maldade indefinível”. Chegou a questionar o general Obino o porquê da escolha de Zenóbio
da Costa para representar o Exército. O general teria que deslocar-se do Rio de Janeiro para a
Inglaterra, quando ele já se encontrava na cidade. O chefe do EME respondeu-lhe que a
escolha de Zenóbio se deu pelo fato dele ter tomado parte da campanha da FEB na Itália e
essa era uma decisão do governo. Coube a Pessoa resignar-se. (ALBUQUERQUE, 1953,
Pasta X, p. 180)
As condições em que os praças do contingente que representaria o Brasil no desfile
chegaram a Londres decepcionaram Pessoa. Estavam sem armamento e equipamento de
campanha, os uniformes do Exército e da Marinha, principalmente, estavam em mau estado e
o treinamento para o desfile era insuficiente. A tropa brasileira, segundo ele, em tudo
1032
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1946.04.01, doc. 0223.
645
contrastava, para pior, com os soldados dos outros países participantes. Ao recebê-los na
estação férrea londrina de Victoria Station, Pessoa relata a vergonha que sentiu das péssimas
condições em que os soldados brasileiros desembarcaram, diante de generais e autoridades
britânicas que lá se encontravam para prestigiarem a sua chegada. Também o aspecto dos
homens não ajudava. Faltava-lhes robustez física e a altura deles não era uniforme, o que
deixava uma má impressão no desfile em conjunto. A situação precária dos militares
brasileiros obrigou a Pessoa e ao adido Naval brasileiro, almirante Soares Dutra, a comprarem
novas de peças de uniforme e a pedirem armamentos e equipamentos emprestados ao exército
britânico. No relatório que enviou ao Chefe do EME após a parada da Vitória, Pessoa
ressaltou a Obino o “pouco zelo e desinteresse” das autoridades militares brasileiras na
seleção dos homens para tão delicada missão, o que, no seu entendimento, constituía-se em
uma “grave falta de honestidade profissional e uma despreocupação pelo bom nome do País”.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X, p. 183-188)
Após apenas sete meses da sua chegada em Londres, Pessoa foi surpreendido com um
decreto1033 assinado pelo presidente Dutra reorganizando as aditâncias militares brasileiras
pelo mundo. A da Inglaterra deixava de existir. Recebeu do Ministério da Guerra ordens de
regressar imediatamente ao Brasil. Ao despedir-se dos camaradas do exército inglês, ouviu do
major general Gerald Templer, membro do War Officer inglês, o seguinte chiste: “Pessoa, in
your country everything is done so quickly”1034, o que o deixou profundamente envergonhado.
A contrapartida do governo inglês não demorou a chegar, segundo Pessoa. Pouco tempo
depois do Brasil ter extinguido a sua aditância em Londres, a Inglaterra retirou o seu adido
militar do Rio de Janeiro. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X, p. 189 e 193)
No final de março de 1947, José Pessoa estava de volta ao Rio de Janeiro. Demorou
um longo tempo até que uma nova função lhe fosse dada. Nem ele nem a sua Fé de Ofício
citam qual foi o destino que o Exército lhe deu nesse período. Provavelmente, como era o
costume à época, tenha ficado adido ao Departamento do Pessoal da Guerra aguardando uma
nova designação, o que foi feito em 12 de julho de 1948, quando foi nomeado comandante da
Zona Militar do Sul.
1033
Decreto-Lei nº 9.825, de 10 de setembro de 1946.
1034
Em tradução livre: Pessoa, no seu país tudo é feito com muita rapidez.
646
Os últimos anos de José Pessoa no serviço ativo do Exército destacam-se mais pelas
opiniões desmedidas por ele emitidas a respeito do envolvimento dos militares na política
nacional, e da consequente perseguição que sofreu do então ministro da Guerra, general
Canrobert Pereira da Costa1035, segundo Pessoa, o “discípulo favorito” dos “meninos
sabidos”, generais Dutra e Góes Monteiro, do que pelo seu desempenho no comando da Zona
Militar do Sul (ZMS)1036. A deposição de Vargas não implicou o afastamento do velho
fisiologismo que, durante o governo de Eurico Dutra, ainda se fez presente na alta cúpula das
Forças Armadas, em especial do Exército.
Um fato interessante, que merece ser ressaltado, é que, ao contrário do que acontece
hodiernamente nas Forças Armadas, nas décadas de 1930 e 1940 as nomeações de generais
para o exercício de cargos de alto comando, como o Ministério da Guerra e o Estado-Maior
do Exército, não seguiam o critério da antiguidade nos postos. Como Góes Monteiro havia
afirmado anos antes, entendia-se que a chefia dessas pastas eram funções políticas e não
militares. Canrobert, por exemplo, era hierarquicamente mais moderno do que José Pessoa,
que, em 1948, era o general-de-divisão mais antigo do Exército brasileiro. Aquele fora
promovido ao posto em ano posterior a este.
Fica claro, na narrativa memorial de Pessoa, que, eticamente, para ele, isso era
inconcebível, já que existia em vigor uma Lei de Promoções do Exército, o Decreto-Lei nº
1.828, de 1º de dezembro de 1939. Ele mesmo havia sido preterido nas promoções a general-
de-exército por colegas com muito anos a menos de serviço do que ele. Cabe esclarecer que a
lei previa que as promoções aos postos do generalato se dariam por escolha. Isto é, a
Comissão de Promoções do Exército organizava o quadro de acesso para a promoção, no qual
constavam os nomes dos generais que atendiam aos pré-requisitos necessários à promoção, e
o Alto Comando do Exército, baseado no mérito, escolhia os que seriam promovidos.
Especialmente nos governos de Vargas e Dutra isso não ocorreu, devido à prática do
“apadrinhamento”. Muitos oficiais foram preteridos em suas promoções, em detrimento de
companheiros mais antigos, que a ela faziam jus. Interessava ao governo colocar nos postos
chaves das Forças Armadas aqueles generais que coadunavam com as suas práticas.
1035
O general Canrobert havia sido chefe de gabinete do Ministério da Guerra, durante a gestão de Dutra e, após
Dutra deixar o cargo para concorrer às eleições de 1945, de Góes Monteiro. Com a vitória de Dutra, e o pedido
de afastamento de Góes, em outubro de 1946, Canrobert assumiu a pasta da Guerra.
1036
Subordinados ao comandante da Zona Militar do Sul estavam todas as unidades militares dos estados do
Paraná, Santa Catarina e Rio Grande Sul. Apesar de comandar quartéis localizados no Sul do Brasil, a sede do
comando da Zona do Sul ficava no Rio de Janeiro.
647
1037
A Lei Constitucional nº 12, de 7 de novembro de 1945, revogou o artigo 177 da Constituição de 1937.
648
a leitura das críticas que fazia ao sistema de promoções do Exército na tribuna da Câmara, o
que Pessoa considerou um abuso de autoridade, deixando-lhe, em suas palavras, com o
“espírito repugnado”. Em 27 agosto de 1947, o chefe da pasta da Guerra enviou um novo
ofício a Pessoa, dessa vez convidando-o a assumir o comando da Zona Militar do Centro. As
atitudes contraditórias do chefe da pasta da Guerra deixaram Pessoa profundamente irritado.
Na resposta que deu a Canrobert, fez questão de mostrar ao ministro toda a sua indignação
com a punição que lhe fora imposta e que considerou injusta. Lembrou que, na conversa que
os dois tiveram, havia deixado claro que não havia publicado e tampouco autorizado a
publicação da carta lida por Machado. Apenas havia permitido que o deputado fizesse
referência a ela na tribuna da Câmara. Ressaltou que considerava um “intolerável vexame”
para o Exército ver que os seus generais estavam sendo punidos por “pretextos
injustificáveis”. E avisou Canrobert que, enquanto não lhe fosse dada a liberdade de discutir a
questão da punição de “general para general”, considerava-a aberta. Quanto ao convite para o
comando da Zona Centro, disse que estava cioso de suas obrigações e que nada mais lhe cabia
do que cumprir as ordens legais das autoridades. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIV, p. 9-
10)
O ofício de Pessoa foi o que bastou para que se seguisse uma intensa troca de
mensagens entre os dois generais, por meio das quais acusaram-se mutuamente, como se pode
ver na sua narrativa biográfica. Canrobert lembrou a Pessoa que ele teve a chance de
conversar de “general para general” quando o chamou ao seu gabinete para tratar do fato
ocorrido na Câmara dos Deputados. Quanto à promoção, o ministro ressaltou que a escolha
dos generais se dava entre aqueles que satisfaziam as condições da Lei de Promoções e que se
ele, Pessoa, não havia sido promovido era porque não havia conquistado, e tampouco iria
conquistar, o direito à promoção. Em relação ao comando da Zona Centro, Canrobert
informou-o que o havia convidado por uma “questão de ética militar”. Entretanto, devido à
carta e o modo como Pessoa havia tratado a questão, informou que se sentia livre para
oferecer o cargo para outro general. Em um dos tantos ofícios trocados, ainda acusou Pessoa
de querer transformar um “caso lamentável de rotina [...] em um ruidoso caso pessoal”.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIV, p. 14-18 e 28)
Pessoa tomou as palavras de Canrobert como um insulto e disse aceitar o “repto” do
ministro “onde, quando e como” ele quisesse. Entretanto, lembrou-lhe que os verdadeiros
generais, de todos os tempos, não se enfrentavam com “parágrafos de regulamentos” ou com
“encontros ridículos de armas”, mas, sim como lhes exigiam o “brio e as suas alevantadas
responsabilidades perante a Nação”. Em relação à crítica que Canrobert fizera sobre o mérito
649
da sua promoção, disse ao ministro que jamais iria solicitar ou entrar em conchavos para
consegui-la, já que as promoções que vinham sendo feitas baseavam-se no arbítrio e nas
“simpatias pessoais” do presidente da República, apesar de existir uma lei que regulasse tal
processo. Ressaltou, também, que se, diante dos 47 anos de serviços prestados ao Exército e à
Nação e do reconhecimento que tinha perante a classe militar, não havia conquistado os
méritos necessários para a promoção a general-de-exército, não conseguia compreender os
critérios de escolha do ministro e, tampouco, a sua afirmativa de que ele jamais ascenderia a
este posto. E afirmou que era justamente sobre este assunto – a conduta irregular de alguns
chefes militares que negavam direitos a vários generais do Exército – que queria tratar de
“general para general” com Canrobert. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIV, p. 20-21)
Em relação à maneira como Canrobert vinha exercendo as suas funções de ministro,
Pessoa acusou-o de estar seguindo os “exemplos abusivos e dolorosos” dos homens que
foram responsáveis pela ditadura do Estado Novo, ao perseguir e menosprezar o prestígio de
alguns dos mais dignos generais do alto comando do Exército. Também criticou a forma
como o chefe da pasta da Guerra encarava a função pública. Não acreditava que, em um
Exército onde tudo estava por se organizar, existissem homens sem trabalhar. E usou a sua
própria situação como exemplo, já que há meses havia retornado de Londres e continuava sem
função alguma. Atribuiu ao ministro a responsabilidade de ter aumentado a estrutura orgânica
da Instituição sem razão alguma, o que acarretou o aumento dos quadros de oficiais e praças,
sem terem funções a desempenhar. Segundo Pessoa, estes viviam dos cofres públicos sem
trabalhar, o que era inadmissível, justamente em um momento em que a Nação passava por
grandes problemas financeiros. Por fim, destacou ao ministro que as ações por ele praticadas
não fortaleciam a moral e a disciplina do Exército; ao contrário, serviam para formar parasitas
dentro da Instituição e desonrar a classe militar. Os “atos de mandonismo” praticados por
Canrobert não eram, para Pessoa, outra coisa senão um “abuso de autoridade” e uma “nova
forma de disponibilidade punitiva e discricionária” contra os direitos e deveres dos homens,
do Exército e da Nação. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIV, p. 22-23)
Em 23 de julho de 1948, José Pessoa assumiu o comando da Zona Militar do Sul, o
que segundo ele, foi uma surpresa, devido aos embates que vinha tendo com o ministro
Canrobert. Em seu discurso de posse lembrou o longo período em que ficou sem função. Ao
dirigir-se aos seus subordinados, disse esperar deles o zelo e o respeito pela função pública,
que não deveria ser exercida para o gozo pessoal, e, sim para o trabalho correto, honesto e
profícuo. Aos que exerciam cargos de chefia, lembrou que o chefe comandava pelo exemplo
e, somente desta maneira, seriam respeitados e estimados pelos seus comandados. Ressaltou-
650
lhes que “no terreno das violências e das prevenções subalternas, não se degrada somente a
autoridade que as pratica, mas a própria instituição é enxovalhada e enfraquecida”. Fez
questão de ressaltar a todos que o funcionário público, fosse ele militar ou civil, era pago pelo
Estado e, assim, era obrigado a prestar uma tarefa em prol do bem-estar da coletividade. E,
apesar de tecer longas considerações a respeito do esforço que iria empreender para
reorganizar e modernizar as forças militares do Sul, o que mais repercutiu nos jornais da
Capital Federal foi a crítica que fez ao homem brasileiro. Para Pessoa, era lamentável que
este, sendo “dono de uma riqueza imensurável e sempre tão cheio de patriotismo e amor ao
trabalho”, estivesse, naquele momento da história do País, “mergulhado em estranha apatia,
dominado por enervante comodismo e guiado por uma rotina que emperra os mais sagrados
empreendimentos e as mais elementares tarefas”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIV, p. 34-
35)
A respeito da fala de Pessoa, o Jornal do Brasil, em sua edição de 6 de agosto, sob o
título “Grito de Alerta”, publicou um longo texto, no qual afirmou não haver análise mais real
do “clima psíquico” pelo qual passava a maioria dos brasileiros. Para o redator da matéria, o
povo brasileiro passava por um período de descrença: nas leis, nas autoridades, na
honestidade e no trabalho. Essa apatia geral, segundo o repórter, era uma herança dos vícios
do caudilhismo que havia tomado conta da direção política do País durante a ditadura do
Estado Novo, uma época na qual os “valores humanos positivos” tiveram que ceder lugar às
predileções do chefe. Em decorrência disso, o mérito, no País, tinha se tornado uma virtude
esquecida e até incomodava. Sendo assim, o editorialista ressaltou que as palavras de José
Pessoa deveriam ser tomadas, pelos intelectuais, governantes e imprensa, como um “grito de
alerta”, para que fosse levada adiante uma “cruzada” pela “redenção da fé no espírito
brasileiro”.1038 O Diário Carioca apontou que as palavras de Pessoa chegavam em uma hora
oportuna, já que era do conhecimento de todos que uma grande parcela daqueles que
detinham o poder público no País não tinham a consciência perfeita de seus deveres e
responsabilidades. Sendo assim, o redator entendia que elas deveriam ser amplamente
divulgadas, para que se pudesse iniciar no País uma “campanha de mobilização de todas as
energias e todas as boas vontades dos brasileiros”.1039
José Pessoa não relata, em sua autobiografia, o dia a dia da função. Somente considera
que, no curto período em que esteve à frente das unidades militares das 3ª e 5ª Regiões
Militares, realizou diversas inspeções, quer na parte administrativa, quer na instrução das
1038
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 6 ago. 1948, p. 5.
1039
Diário Carioca, Rio de Janeiro, 25 jul. 1948, p. 4.
651
mesmas. Tinha a opinião de que a cada vez que as suas opiniões repercutiam nos noticiários
dos principais periódicos do País, como no caso do seu discurso de posse da ZMS, ressurgia o
“ciúme mórbido” e a “prática de atos torpes” dos seus desafetos do Exército. Afirma, em suas
memórias, que, apesar dos inúmeros e extensos volumes de relatórios que produziu e das
centenas de estudos que realizou a respeito das condições dos armamentos, equipamentos e
instalações das unidades militares da Zona Sul, os quais foram dirigidos ao Ministério da
Guerra, nada foi feito por Canrobert para implementar quaisquer tipos de melhorias nos
quartéis sob o seu comando direto. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIV, p. 44)
Como exemplo desse ciúme desmedido dos seus desafetos, Pessoa faz referência a um
livreto elaborado e publicado pelo major Aristides Correa Leal em abril de 1948, intitulado
“Um Chefe Militar”.1040 Nesse pequeno trabalho de 20 páginas, Aristides Leal reuniu duas
cartas e duas ordens do dia produzidas por José Pessoa: a citada carta enviada ao deputado
Lino Machado, considerações de Pessoa sobre o problema do petróleo brasileiro, uma ordem
do dia alusiva à Batalha de Guararapes e uma ordem do dia dirigida aos militares da ZMS,
que tratava do papel das Forças Armadas na política nacional. Leal justificava a publicação
por considerar esses quatro pronunciamentos de Pessoa fundamentais para o desenvolvimento
da personalidade militar dos oficiais do Exército, ainda mais em um momento em que,
segundo ele, todos estavam vivendo em um mundo “infenso à justiça, à liberdade e ao
direito”. Para o major, em meio a chefes militares que não tinham o hábito de se
pronunciarem sobre os problemas do País enquanto estavam na ativa, a voz de Pessoa era uma
das poucas que indicavam o melhor caminho a ser seguido por quem desejasse o progresso da
Pátria e o bem-estar do povo.
Segundo Pessoa, o autor do livreto foi chamado ao gabinete do ministro da Guerra,
sendo-lhe proibida a publicação da obra. O que o entristeceu, no entanto, foi o fato de a
censura ter sido feita pelo general Newton de Andrade Cavalcanti, seu velho amigo dos
bancos da Escola Militar, que, na ocasião, respondia pela pasta da Guerra. Magoado com o
amigo que havia se vendido “a preço tão baixo” aos seus desafetos, Pessoa cortou relações
com Newton Andrade, a quem nunca mais dirigiu a palavra. As edições da obra que ainda não
haviam sido distribuídas foram confiscadas e incineradas pelo Ministério da Guerra.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIV, p. 49-50)
Ao longo de 1949, José Pessoa mobilizou esforços para a organização da defesa dos
pontos sensíveis do território abrangido pela Zona Militar do Sul. Após enviar vários
1040
O livreto faz parte do Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). Está incluído no arquivo JPvp1948.08.11, docs.
0331 a 0338.
652
1041
Pessoa se refere à ditadura de Rafael Leónidas Trujillo Molina, que chegou ao poder em agosto de 1930, na
República Dominicana, e que dela saiu somente em 1961, após ter sido assassinado.
1042
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1948.08.11, doc. 0321.
1043
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1948.08.11, doc.0323.
1044
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1948.08.11, doc. 0325.
653
sido a venda dos armamentos. Dessa forma, ela não poderia ter acontecido em sigilo, como
afirmara Fiuza de Castro. Além disso, ressaltou que a negociação tinha, ainda, os seus efeitos
políticos, devido ao fato de ter sido feita com um país onde vigorava uma terrível ditadura. E,
por fim, teceu extensos comentários a respeito dos inúmeros relatórios que havia enviado à
pasta da Guerra e as implicações que o não fornecimento de novas armas e equipamentos
teriam para as unidades militares que guarneciam as fronteiras do Sul. Ao ofício, anexou,
ainda, um relatório reservado enviado pelo diretor de Material Bélico ao chefe do EME, no
qual estavam relacionados as dezenas de milhões de cartuchos de munições (de todos os
calibres), as dezenas de milhares de fuzis e granadas, as centenas de metralhadoras e as
dezenas de canhões e morteiros que haviam sido vendidos ao ditador Trujillo.1045
A publicidade dada à negociata das armas a que Pessoa se refere é uma série de
reportagens feitas pelo jornalista Joel Silveira, antigetulista convicto e conhecido opositor da
política de Dutra, entre agosto de outubro de 1948, no jornal Diário de Notícias1046. Nelas,
Silveira criticou fortemente a venda de armas feita pelo governo brasileiro à República
Dominicana. Em uma delas, chegou a relacionar o material de guerra vendido. O transporte
dos armamentos teria sido feito em três remessas, entre novembro de 1947 e setembro de
1949, por um navio da marinha dominicana, que sempre partia do Arsenal da Ilha das Cobras,
no Rio de Janeiro. A reportagem mais polêmica, porém, dava conta que a negociação, da
ordem de U$ 1.500.000,00 (um milhão de dólares, à época em torno de Cr$ 30.000.000,00),
teria sido realizada no câmbio negro. Ao invés de depositar o cheque do pagamento do
armamento no Banco do Brasil, utilizando o câmbio oficial, o ministro Canrobert teria se
utilizado de um intermediador, que o depositou em um banco privado, utilizando o câmbio
paralelo, com um lucro de Cr$ 8,00 por dólar. O Ministério da Guerra jamais teria recebido a
diferença.
Em suas memórias, Pessoa aponta que, anos mais tarde, em 1952, já com Vargas na
presidência, novamente, um inquérito teria sido instaurado pelo governo para apurar
irregularidades no Banco do Brasil. O resultado a que chegou esse procedimento apontou o
envolvimento de vários militares do alto comando do Exército, dentre eles o general
Canrobert, em atos ilegais praticados ainda durante o Governo Dutra. Além do recebimento
do dinheiro pago pelas armas vendidas à República Dominicana por meio do “câmbio negro”,
o ex-ministro ainda teria feito, nos EUA, uma compra irregular de farinha de trigo para
abastecer o Exército, o que teria gerado um prejuízo de milhões de cruzeiros à Nação. Em
1045
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1948.08.11, doc. 0327.
1046
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, Segunda Seção, 29 ago. 1948; 1, 5, 12 e 19 set. 1948; 9 out. 1948.
654
uma carta enviada ao jornal O Globo1047, Canrobert afirmou que esses atos foram praticados
por ordem verbal de Dutra. Segundo Pessoa, o ministro da Guerra à época, general Espírito
Santo Cardoso, sabedor de todas as irregularidades administrativas praticadas na gestão
anterior, nenhuma providência tomou. Canrobert sequer teria sido punido.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIII, p. 22-24)
No fim de toda a história, Pessoa acabou não recebendo o armamento que tanto
necessitava. Na narrativa que faz em sua autobiografia, escrita quatro anos após terem se
passado esses fatos, relembra que o “crime de lesa-pátria” que teria sido cometido por
Canrobert, Fiuza de Castro e, até mesmo, por Dutra, ajudaram a corromper a moralidade
administrativa nacional, o que revelava a decadência moral em que o País ainda vivia, em
1953. Nunca é demais lembrar que Pessoa escreveu suas memórias durante o segundo
governo de Vargas. Para ele, a Nação somente viveria e trabalharia tranquilamente quando
fossem alijados do governo os militares politiqueiros que causavam a desordem do País. No
entanto, isso só aconteceria, no seu entender, por meio de uma profunda reforma do alto
comando do Exército, afastando-se alguns generais “apodrecidos na politicagem” e outros que
viviam “enfurnados na crônica burocrática dos gabinetes”. A esperança do Exército, para ele,
estava na mocidade militar, na oficialidade “moça e patriota”, cerne da classe militar e
“sustentáculo das instituições democráticas da Nação”, que havia sido educada em uma nova
e eficiente Escola Militar e que, por isso, era fiel aos seus deveres, à sua profissão e ao seu
juramento de defender a Pátria. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIII, p. 9-10)
Durante o Governo Dutra, José Pessoa se envolveria, ainda, na campanha nacionalista
em prol do monopólio estatal do petróleo. A luta pela estatização do petróleo brasileiro
ganhou força a partir de fevereiro de 1947, quando Dutra, por meio do Conselho Nacional do
Petróleo1048, mandou constituir a Comissão de Anteprojeto da Legislação do Petróleo, com a
finalidade de rever as leis de exploração do petróleo brasileiro à luz da nova Constituição
federal. Cabe salientar que a Constituição de 1946 passou a aventar a possibilidade, em seu
artigo 153, de se desenvolverem, no País, a pesquisa e o desenvolvimento de recursos
minerais na forma de concessão. Sendo assim, conforme o texto da nova Carta Magna,
1047
O Globo, Rio de Janeiro, 22 nov. 1948, p. 4.
1048
Órgão criado no governo do Estado Novo, a fim de possibilitar ao governo brasileiro o controle da indústria
petrolífera no País, para o qual colaborou decisivamente o general Júlio Caetano Horta Barbosa. O CNP também
estabeleceu limites para a exploração mineral no Brasil, como a determinação de que apenas brasileiros natos
pudessem ser acionistas de empresas de mineração. Cabe ressaltar, porém, que desde 1934 já vigorava o Código
de Minas, que estabeleceu a separação legal entre a propriedade do solo e do subsolo, considerando as riquezas
minerais presentes nesse último como bens alienáveis da União. (MARTINS, 2015, p. 404)
655
A outra personalidade era José Pessoa, que, indagado a respeito do monopólio estatal
do petróleo, pelo referido semanário carioca, assim se pronunciou por meio de carta,
publicada na edição de 20 de fevereiro:
1049
O Jornal de Debates era um semanário carioca que circulou entre os anos de 1946 e 1951. Foi fundado em
21 de junho de 1946 por João Augusto Matos Pimenta, Mário de Brito e Plínio Catanhede. Conforme aponta
Penna (2003, p. 87), no editorial do primeiro número do periódico, lançado em 29 de junho de 1946, já ficava
claro o programa a que se propunha seguir: “a liberdade de pensamentos e o livre debate de ideias [...] sobre
assuntos políticos, econômicos e sociais, não importando a cor política, a escola filosófica e o credo religioso dos
autores”. Com a polêmica gerada em torno do Estatuto do Petróleo, Victor (1970) mostra que o jornal se tornou
o principal espaço de debates entre nacionalistas e entreguistas, como ficaram conhecidos os que pugnavam pelo
capital estrangeiro na exploração do petróleo nacional. Figuras de destaque no cenário político e econômico
nacional foram convidadas pelo jornal a publicar, em suas páginas, artigos versando sobre o tema. Dentre elas,
Horta Barbosa, Juarez Távora, Luis Carlos Prestes, Sylvio Fróes, Arthur Bernardes e José Pessoa.
659
mundial” e mais um dos “satélites das grandes potências”. (BERNARDES, 1948 apud
VICTOR, 1970, p. 230)
Como bem aponta Victor (1970, p. 231), em abril de 1948 o movimento contra o
Estatuto do Petróleo, que já havia penetrado nas escolas, nas faculdades, nos órgãos públicos
e nas fábricas, se tornara tão grande que passou a ser necessária a aglutinação de todas essas
forças sob um comando único, para que os objetivos a que se propunha fossem atingidos com
mais segurança. Nesse contexto, uma semana após a conferência de Arthur Bernardes no
Clube Militar, foi fundado, no Rio de Janeiro, o Centro de Estudos e Defesa do Petróleo
(CEDP). Na primeira reunião do Centro, foi eleita a diretoria, composta por membros civis e
militares. Coube ao engenheiro Luiz Hildebrando Horta Barbosa o exercício da presidência.
Por aclamação, foram eleitos presidentes de honra o ex-presidente Arthur Bernardes e José
Pessoa. Constava, também, no estatuto do Centro que todo presidente da UNE se tornava
presidente de honra do CEDP.
No dia 21 de abril, uma solenidade realizada no Automóvel Clube do Rio marcou a
instalação do CEDP. Sob o lema “O petróleo é nosso!”, o CEDP tinha por objetivo, como
aponta Victor (1070, p. 231), promover uma larga campanha de esclarecimento da opinião
pública através de artigos, conferências, debates, comícios, caravanas e demais meios
constitucionais e democráticos, visando à congregação dos brasileiros que pugnavam pela tese
nacionalista de exploração do petróleo. Em um manifesto dirigido aos brasileiros, o Centro
lembrava que do caminho a ser escolhido na exploração das riquezas petrolíferas do Brasil,
dependiam a sorte das futuras gerações e da soberania do País. O evento foi pouco noticiado
pela imprensa carioca1050. José Pessoa não pôde comparecer, porém enviou uma carta à
diretoria do CEDP, que foi publicada nas edições do dia 23 de abril, do Jornal de Debates, e
do dia 24 de abril, do Diário de Notícias. Nela, Pessoa agradecia e dizia sentir-se honrado
pela escolha de seu nome para a presidência de honra da instituição. Porém, devido ao que
prescrevia os regulamentos do Exército e por estar ainda na ativa, ressaltou que não podia,
como era do seu desejo, aceitar a homenagem. Do longo texto que produziu, cabe ressaltar as
mais significativas passagens:
...não creio que o nosso Parlamento, que possui tantos homens inteligentes,
esclarecidos e patriotas, deixe passar, sem demoradas e necessárias investigações,
qualquer projeto sobre esse problema vital e salvador da política econômica e da
defesa militar da nossa Pátria. Não é curial que o pensamento de meia dúzia de
nossos homens, expresso em polpudo relatório, possa decidir sobre aquilo que
pertence a 50 milhões de brasileiros, em grande parte ciosos de seus direitos,
1050
Diário de Notícias, 22 abr. 1948, p. 1; Diário Carioca, 20 abr. 1948, p. 8; O Jornal, 20 abr. 1948, p. 3.
660
Com o passar dos meses, segundo Martins (2015, p. 409), as teses defendidas pelo
general Horta Barbosa começaram a tornar-se hegemônicas entre os “homens de farda”.
Segundo o autor, em 1949, a grande maioria dos oficiais do Exército desejava o monopólio
estatal. Victor (1970, p. 260) corrobora essa afirmação, ao apontar que, durante o mês de
julho de 1948, dezenas de oficiais da 3ª Região Militar haviam enviado telegramas o general
Estillac Leal, comandante da 3ª RM, solicitando conferências de Horta Barbosa sobre o
problema do petróleo. No mês seguinte, os professores e centenas de oficiais alunos da Escola
Técnica do Exército, no Rio de Janeiro, pediram a Horta Barbosa para aderirem à campanha
do CEDP. Para Martins (2015, p. 409), a tarefa dos oficiais nacionalistas de agregar os
militares do Exército em torno do monopólio do petróleo ficou mais fácil com a eleição de
Estillac Leal à presidência do Clube Militar, já que este também era um entusiasta da causa.
Aliás, a respeito dessa participação do Clube Militar, José Pessoa aponta em sua
autobiografia que os generais “simpáticos aos comunistas”, que faziam parte da diretoria
dessa instituição, em 1948, mais atrapalharam a campanha do petróleo do que a ajudaram.
Para Pessoa, nesse período os comunistas teriam se aproveitado desses militares e da
campanha do “Petróleo é Nosso” para disseminarem a sua ideologia dentro da classe militar.
Nas suas palavras, “os partidários da ideia nacionalista, como era o meu caso, eram por eles
aplaudidos e envolvidos com astúcia nas suas apreciações, dando a impressão de serem todos
partidários do seu objetivo oculto”. A repulsa da classe a esses militares, segundo ele, ficou
1051
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 24 abr. 1948, Segunda Seção, p. 1 e 3.
661
1052
Estillac Leal concorreu contra a chapa do general Osvaldo Cordeiro de Farias, integrante da corrente
simpática à participação do capital estrangeiro na exploração do petróleo nacional. Horta Barbosa foi o vice-
presidente de Estillac.
662
foram espancados e baleados. A situação só foi contida com a chegada de uma tropa da
Polícia do Exército, que conseguiu dispersar os policiais militares. (VICTOR, 1970, p. 261-
262)
Os lamentáveis fatos do dia 23 de setembro ganharam as páginas dos jornais da
Capital Federal e fomentaram um intenso debate na Câmara dos Deputados. Até mesmo os
periódicos que não apoiavam a Campanha do Petróleo, como o Correio da Manhã1053,
condenaram a brutalidade da ação da Polícia. O editorial publicado nesse periódico lembrou
que na Praça Floriano não se encontravam “vagabundos e desclassificados em baderna”, mas
“homens respeitáveis, generais do Exército, cidadãos pacíficos que prestavam [...]
homenagem a um herói nacional”. No entanto, o jornal não deixou de associar a agressão à
presença de elementos comunistas: “O fato de haver comunistas naquele meio, à procura de
pescar em águas turvas, não justifica a violência”. Do outro lado, o jornalista Osório Barbosa,
no Diário de Notícias1054, responsabilizou o ministro da Justiça, Mesquita da Costa, pelos atos
da Polícia, que teria agido “como qualquer um dos seus cruéis beleguins, [...] e, portanto,
perfilhando-lhes as responsabilidades”. Na Câmara, no dia seguinte ao fatídico
acontecimento, o deputado Arthur Bernardes, presidente de honra do CEDP, lembrou aos
presentes: “...quando a Nação se desnivela de um plano superior para outro inferior, em
matéria moral, costuma regenerar-se à custa de sangue. Este sangue começou hoje a derramar-
se... Não lhe dê causa o petróleo!” (BERNARDES, 1948 apud VICTOR, 1970, p. 262). Até
mesmo José Pessoa foi procurado para pronunciar-se sobre os fatos, tendo assim se
manifestado na edição de 24 de setembro, do jornal O Globo:
1053
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 25 set. 1948, p. 4.
1054
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 26 set. 1948, Primeira Seção, p. 3.
1055
O Globo, Rio de Janeiro, 24 set. 1948, Edição Vespertina, p. 1.
663
1056
Plano econômico elaborado pelo Governo Dutra que tinha como objetivo estimular o desenvolvimento de
setores como saúde, alimentação, transporte e energia. Daí a sigla SALTE.
1057
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 1 jan. 1949, Primeira Seção, p. 3.
664
1058
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 13 mar. 1949, Primeira Seção, p. 4.
665
1059
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 22 mar. 1949, p. 6.
1060
A transcrição completa da sessão do Senado, de 22 de março de 1949 pode ser encontrada em Albuquerque
(1953, Pasta XIV, p. 60-86)
666
desenvolviam naquela câmara legislativa sobre o momento político nacional, sustentou que a
ordem do dia de Pessoa revelava a existência de um plano golpista do governo, porque, caso
contrário, ela não teria razão de existir. Por outro lado, o deputado considerou o documento de
Pessoa profundamente tranquilizador, já que indicava que as forças da democracia estavam
advertidas e vigilantes. A exemplo do que aconteceu no Senado, o texto de Pessoa também foi
incluído nos anais da Câmara.1061
Diante da repercussão que a ordem do dia de José Pessoa ganhou na imprensa
nacional, ganhando comentários de apoio nos editoriais dos principais jornais do País, e no
Parlamento, começou a ser aventada a possibilidade de ele ser afastado do comando da Zona
Militar do Sul e ter a sua prisão decretada. No dia 24 de março, o deputado Barreto Pinto
(PTB – Distrito Federal) denunciou, na tribuna da Câmara, a articulação de um movimento
orquestrado pelo governo para depor Pessoa de suas funções e prendê-lo disciplinarmente.
Barreto Pinto aproveitou a ocasião para tecer duras críticas aos generais Canrobert e Góes
Monteiro, atribuindo a este a convicção de que o Exército era uma propriedade sua e
intocável.1062Conforme Pessoa, em 25 de março, Góes Monteiro, em uma entrevista
concedida ao jornal carioca Diretrizes, teria afirmado textualmente: “quem manda no Exército
sou eu”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIV, p. 56)
Pessoa não foi punido, tampouco afastado do seu comando. Entretanto, recebeu, em 29
de março, um ofício do general Canrobert, no qual o ministro deixava evidente o incômodo
sentido com as declarações de Pessoa, apesar de ter deixado claro à imprensa gaúcha, dias
antes, que estava alinhado ao pensamento do comandante da Zona do Sul. O chefe da pasta da
Guerra iniciou o documento apontando os esforços que vinha fazendo, como ministro da
Guerra, para prestigiar os “camaradas” do Alto Comando do Exército. Esforços estes,
segundo ele, que somente não eram correspondidos por José Pessoa. Ressaltou que sempre fez
questão de deliberar com Pessoa qualquer tipo de transformação que precisasse ser feita nas
tropas do Sul. E que, há tempos, vinha esperando que este mudasse as suas atitudes em
relação aos deveres profissionais. Para o ministro, Pessoa não vinha correspondendo à altura
ao seu tratamento. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIV, p. 58-59)
Não havendo Pessoa cometido nenhum ato que pudesse ser enquadrado no
Regulamento Disciplinar do Exército, o pretexto utilizado pelo ministro para adverti-lo foi o
fato dele ter mandado publicar as orientações às tropas do Sul, a respeito da sucessão
1061
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 23 mar. 1949, p. 1; Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 23 mar. 1949,
Primeira Seção, p. 3.
1062
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 25 mar. 1949, p. 1; Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 25mar. 1949,
Primeira Seção, p. 3.
667
presidencial, estando de férias. Segundo Canrobert, Pessoa não poderia ter praticado tal ato
por estar afastado de suas funções, o que feria o Regulamento Interno dos Serviços Gerais.
Além disso, pesava sobre o comandante da Zona Militar do Sul o fato de ter fornecido à
imprensa o texto da ordem-do-dia. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIV, p. 59)
Segundo José Pessoa, assim que recebeu o ofício, ele dirigiu-se ao gabinete do
ministro, a fim de indagá-lo a respeito do propósito da advertência recebida. Disse ao general
Canrobert que se ele provasse ser verdadeiro tudo o que foi dito a seu respeito no documento,
pediria, naquele exato momento, a reforma do serviço ativo do Exército. O chefe da pasta da
Guerra respondeu-lhe: “general Pessoa, o senhor compreende que um homem na minha
posição faz muita coisa com que não concorda”. E informou-lhe que, quando retornasse ao
Brasil, mandaria anular o ofício, o que, de fato, fez. Para Pessoa, ficava claro que, pelas
palavras proferidas, Canrobert havia agido por coação. E o coator tinha nome: Góes Monteiro.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIV, p. 59-60) Nos meses que se seguiram, o boletim
publicado por Pessoa, no comando da Zona Militar do Sul, ainda renderia algumas notícias e
comentários da imprensa nacional e dos políticos da oposição ao governo. Porém, nenhuma
nova celeuma surgiu por conta dela.
Quando o limite de idade para o serviço militar ativo me alcançou, estava tão
acostumado à vida de soldado que não foi fácil habituar ao trabalho sem os
companheiros, sem os ajaezados corcéis, os heráldicos estandartes dos regimentos, a
marcialidade das fanfarras, enfim, o burburio da caserna. Daí, uma tristeza infinita
invadiu-me o coração por muito tempo. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIV, p.
105).
Seus últimos dias na ativa ficaram marcados pelas inúmeras homenagens que lhe
foram prestadas, por entidades civis e militares, como as unidades militares do Sul, das quais
fez questão de se despedir uma a uma, o Regimento Andrade Neves, na Vila Militar, o Clube
668
Militar e a Sociedade Hípica Brasileira. Entretanto, a despedida mais significativa foi a que
lhe preparou a Academia Militar das Agulhas Negras.
Por sugestão do general Ciro do Espírito Santo Cardoso, comandante da AMAN, as
homenagens da Academia Militar ocorreram no dia da data natalícia de José Pessoa. Foi feito
o convite a Pessoa para que se deslocasse para Resende na véspera do seu aniversário, para
que pernoitasse na Academia e lá acordasse sob o toque da alvorada, debaixo do teto
acolhedor da sua maior obra idealizada. Sendo assim, no dia 11 de setembro, José Pessoa
seguiu de avião para a cidade sul-fluminense, acompanhado de sua família e de seu ajudante-
de-ordens, capitão Ernesto Silva. Foram recebidos pelo general Espírito Santo e sua esposa,
na casa de quem ficaram alojadas a Sra. Mary Blanche, esposa de Pessoa, e suas filhas,
Elizabeth e Joy. José Pessoa pernoitou na AMAN, para que, no dia seguinte amanhecesse ao
som dos clarins e da banda de música da Academia. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIV, p.
143-144)
O dia 12 de setembro, conforme o relato de José Pessoa, foi repleto de calorosas e
significativas homenagens. Nas primeiras horas da manhã, uma formatura do Corpo de
Cadetes foi realizada. Nela, o cadete primeiro colocado da Academia ofereceu-lhe um
espadim, como recordação da sua passagem pelo comando da Escola Militar. Uma prova
hípica foi realizada. O almoço transcorreu juntamente com os oficiais da AMAN e os cadetes,
no refeitório destes. Um retrato de Pessoa, pintado à óleo, foi inaugurado no cassino dos
cadetes. Na parte da tarde, uma sessão solene da Sociedade Acadêmica Militar foi realizada
no auditório da Academia. Nessa ocasião, Pessoa recebeu do presidente da SAM, cadete
Mário Augusto Stadler de Souza, uma flâmula da AMAN bordada a ouro e o título de sócio
honorário do grêmio estudantil. O momento também serviu para comunicar oficialmente à
Pessoa que ele seria o paraninfo da turma de aspirantes de 1949. (ALBUQUERQUE, 1953,
Pasta XIV, p. 147-148)
669
Não, jamais me envolvi em política partidária nem ludibriei a minha classe. A minha
espada sempre esteve a serviço da soberania e segurança nacional e, nos momentos
difíceis, ajudou a defender o Brasil, a Constituição e a tranquila família brasileira.
Nunca foi prestadia de políticos demagogos nem acobertou liberticídio
comprometedor da honra do nosso Exército. As minhas estrelas de general não
foram conquistadas dentro dos gabinetes, mediante humilhações e intrigas; a última,
de general-de-exército, que acabo de receber no momento de passar para a reserva,
foi concedida por força de lei, pois o Parlamento do País fez-me justiça...
........................................................................................................................................
Parece que certos chefes se deixaram inocular por um veneno oculto que lhes
tornaram cegos e surdos aos reclamos dos interesses superiores da Nação. Tenho,
porém, a satisfação íntima de declarar que jamais participei dessa conduta, tão
perigosa aos interesses vitais do Brasil [...] O meu supremo desígnio sempre foi o de
afastar o Exército dos erros a que o egoísmo desvairado dos homens o impele a
proteger as novas gerações dos perigos que as ameaçam.
........................................................................................................................................
O nosso País, infelizmente, parece atacado de uma verdadeira catalepsia, que atinge
a grande número dos seus filhos e que ameaça a própria tranquilidade nacional. O
caráter do nosso povo, de bom coração e de bom senso, tem se abastado cada vez
mais e, paradoxalmente, numa completa e arriscada inversão, reflui à tona a massa
falida e os valores morais e profissionais se quedam à parte, afastados e esquecidos
de certos dirigentes, que, às vezes, procuram, no rebotalho das classes, os homens
para os cargos de direção e chefia, os quais se jactanciam de serem “os homens de
confiança”, os “porta-vozes”, os “mandatários da administração e da política”, mas
que, em verdade, envergonham, e infelicitam a Nação. [...] A desgraça que se abate
sobre o Brasil, neste momento, meus caros camaradas, não é propriamente o flagelo
da guerra nem o da peste nem o da fome; é mais triste e acabrunhadora a que
oprimem este grande e fecundo País: é o egoísmo desvairado, é a improbidade
funcional, é a falta de caráter...
........................................................................................................................................
Meus irmãos: urge que reponhamos a Nação em seu verdadeiro caminho; urge que
reajamos contra os males que nos enfraquecem e lançam bem fundo os seus
tentáculos, depauperando o organismo e a alma da Pátria; urge que a sociedade,
particularmente as Forças Armadas, repudiem os falsos patriotas... 1063
Após quase 50 anos de serviços prestados, deixa a vida militar ativa o general-de-
exército José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque. Ao apresentar, em nome do
Exército, as despedidas a esse oficial general, desejo antes ressaltar sua dedicação à
profissão, seu interesse constante pela eficiência da arma de Cavalaria, sua
preocupação elevada com a preparação militar de nossos quadros e seu empenho
1063
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 21 set. 1949, Primeira Seção, p. 5.
672
permanente pela eficiência do escalão sob o seu comando. Em todas as funções que
lhe foram cometidas, no Brasil e no exterior, atuou o general José Pessoa com o
mesmo interesse que sempre manifestou em toda sua longa atividade profissional e
que o elevou ao mais alto grau da hierarquia militar. Na situação em que ora se
encontra, por força das disposições legais, desejo a S. Exa. todas as felicidades.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIV, p. 194-195)
Após passar para a reserva do Exército, José Pessoa recolheu-se ao lar. Poucas foram
as aparições públicas que fez, para participar de uma ou outra solenidade militar. Em 15 de
dezembro de 1949, retornou à Academia Militar, para participar da formatura da turma de
aspirantes daquele ano, que foi batizada com o seu nome, a “Turma José Pessoa”. Para a
solenidade, preparou um discurso dirigido à mocidade militar, que deveria ser lido por ele.
Entretanto, o texto não pode ser incluído no roteiro da cerimônia, que se encontrava fechado
quando a comissão organizadora do evento o recebeu. Porém, o comandante da AMAN,
general Espírito Santo Cardoso, comprometeu-se a lê-lo em uma reunião com todos os
componentes da turma de formandos, o que foi feito. Nas suas palavras, tornou a destacar que
nos jovens oficiais depositava-se a esperança de uma Instituição melhor. A inspiração para o
exercício das funções, segundo ele, não deveria ser buscada nos homens do presente, uma
geração medíocre e prejudicial à Nação, e, sim, nos chefes militares do passado:
Hoje o nosso Exército é mocidade viril toda inteira. Não há só este chefe, esse corpo
de oficiais; são todos brasileiros irmanados, prontos a defender a Pátria e dar sua
inteligência e seu sangue pela sobrevivência. Nada de militarismo latente, de sombra
de sabre a se projetar ameaçadoramente sobre a nação civil: todos confiam na
energia invencível da gente moça e vossa turma certamente conduzirá o Exército ao
pináculo dos seus destinos e da sua glória e deverá inspirar-se na conduta dos nossos
chefes do passado, nas suas lições e nos seus exemplos, pois foi sob a proteção
tutelar daquela legião de grandes chefes do Exército, a começar pelo maior de todos,
o Duque de Caxias, e seguindo-se com os legendários Osório, Porto Alegre, Câmara
e outros que salvamos a nossa unidade e o nosso destino.1064
1064
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 20 dez. 1949, Primeira Seção, p. 4.
673
Exército, naquele momento, não poderia mais tolerar o clima de desconfiança que havia se
formado em meio à opinião pública de um possível golpe militar e que tanto depunha contra a
cultura política da Nação. E deixou claro o seu pensamento sobre o envolvimento de militares
na política, que, segundo ele, era mal interpretado:
1065
O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 7 jan. 1950, p. 30.
1066
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 21 abr. 1950, p. 3.
674
1067
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 17 ago. 1950, p. 1.
1068
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 20 jun. 1950, Segundo Caderno, p. 7.
1069
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 8 mar. 1952, Primeira Seção, p. 3.
1070
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 27 jan. 1952, p. 2.
675
Entretanto, os esforços de Leal não foram suficientes para minimizar os atritos com os
oficiais conservadores do Exército. Lamarão e Montalvão (2010) apontam que os atritos entre
a direção do Clube Militar e a ala conservadora dos oficiais do Exército se deveram, em
grande parte, à uma série de publicações polêmicas da Revista do Clube Militar feitas durante
a gestão de Estillac Leal. Entre a posse de Leal e dezembro de 1951, o grupo nacionalista, por
meio do periódico, reafirmou a defesa do monopólio estatal do petróleo, defendeu a interdição
dos recursos minerais brasileiros ao capital estrangeiro e iniciou uma campanha contra a
intervenção norte-americana na Coréia e, principalmente contra a entrada do Brasil no
conflito, possibilidade que vinha sendo veiculada pela imprensa. As publicações em torno
deste último assunto foram alvos de pesadas críticas da ala das Forças Armadas que
defendiam uma maior aproximação do País com os Estados Unidos. A diretoria passou, então,
a ser vista como simpática aos propósitos dos comunistas no Brasil.
Não conseguindo a desejada unificação, Estillac, então demissionário do Ministério da
Guerra, lançou-se, novamente, candidato à presidência, ao lado de Horta Barbosa. Em
oposição à sua candidatura, foi organizado um movimento denominado Cruzada Democrática,
em torno do qual se agrupou a oficialidade conservadora do Exército, sendo indicados como
candidatos à presidência e vice-presidência, respectivamente, os generais Alcides Etchegoyen
e Nélson de Melo. A chapa recebeu o apoio de nomes de peso das Forças Armadas, como
Juarez Távora, Góes Monteiro e o brigadeiro Eduardo Gomes. Para presidentes honorários do
movimento, foram indicados oficiais generais de grande influência dentro do Exército, como
os marechais Espiridião Rosas e Mascarenhas de Moraes, e os generais Canrobert, Zenóbio da
Costa e José Pessoa, que, ao aceitar o encargo, reiterou o seu apoio integral à Cruzada. Em um
telegrama enviado ao diretório central do movimento, em 10 de março, Pessoa disse estar
certo de que “os moços idealistas” que constituíam o cerne do Exército, nas eleições que se
aproximavam, confirmariam os nomes de Etchegoyen e Nelson de Melo na presidência.
Segundo ele, os dois generais certamente fariam o Clube Militar retomar o prestígio e o
conceito como “legítimo representante” da classe militar.1071
Em uma eleição marcada pelas acusações de repressão por parte da corrente
nacionalista, que denunciava espancamentos e prisões de seus cabos eleitorais, sagrou-se
vitoriosa a Cruzada Democrática, com esmagadora vantagem de votos: 7.288 contra 4.489
dados a Estillac. Nos anos seguintes, as ações contra a ala nacionalista dentro do Clube, e no
Exército, teriam continuidade. Em fevereiro de 1954, um grupo de militares assinaria um
1071
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 11 mar. 1952, p. 1; Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 11 mar. 1952,
Primeira Seção, p. 5.
676
documento que ficaria conhecido como Manifesto dos Coronéis. Elaborado pela Cruzada
Democrática, e assinado por inúmeros generais e oficiais superiores, pregava o saneamento
das Forças Armadas e o respeito à hierarquia e à disciplina e denunciava o perigo da
infiltração comunista nos meios militares. Com grande repercussão, o manifesto influenciou
na queda de ministros, como João Goulart, do Trabalho, e Ciro Espírito Santo Cardoso, da
Guerra. (LAMARÃO; MONTALVÃO, 2010)
José Pessoa não explica, em suas memórias, a razão de ter apoiado a candidatura dos
oficiais nacionalistas no pleito de 1950 e, dois anos depois, ter se voltado contra ela, o que é
estranho, já que não demonstra ter tido nenhum tipo de indisposição com o general Estillac
Leal. Pelo contrário, chegou a acompanhá-lo, quando este esteve à frente da pasta da Guerra,
em uma visita feita à AMAN, em abril de 1951, e colaborou na revisão do Plano de Obras do
Exército para aquele ano, um pedido pessoal do ministro.1072 Cabe lembrar, o que já foi
citado, que Leal foi o principal responsável pela mudança do nome da Escola Militar de
Resende para Academia Militar das Agulhas Negras, um antigo sonho de Pessoa.
É de se pensar que uma das causas prováveis da atitude de Pessoa esteja ligada ao
temor que tomou conta da oficialidade das Forças Armadas, de uma aproximação da direção
do Clube Militar com os ideais comunistas. Nelson Werneck Sodré fez parte da diretoria do
Clube, durante a gestão de Estillac Leal, entre 1950 e 1951. Era Diretor Cultural e responsável
pela publicação da Revista do Clube Militar. Em suas memórias, aponta a enxurrada de cartas
e telegramas de protesto que passaram a ser recebidos de militares de todo o País pela direção
e que eram publicadas diariamente na imprensa carioca, em função das polêmicas edições
citadas anteriormente. Segundo ele aponta, entre julho e dezembro de 1950, mais de 700
manifestações de protesto chegaram ao Clube, em função do artigo “Considerações sobre a
Guerra da Coréia”, publicado na edição de julho da revista, sem a indicação da autoria.
(SODRÉ, 1967)
A outra provável causa, também apontada por Sodré (1967, p. 340), era a desconfiança
dos chefes militares em torno de Estillac Leal, que viria a ser o futuro ministro da Guerra de
Vargas. Segundo o autor, Estillac era visto como “homem incerto, de ideologia vaga,
oportunista, capaz de passar ao outro lado, pretendendo apenas tirar proveito de sua eleição
para o Clube Militar, fazendo dela etapa para a conquista das funções de ministro da Guerra”.
Para Sodré, as atitudes de Leal acabaram isolando-o da corrente militar nacionalista, que da
sua imagem procurou desvincular-se, por não querer ser confundida com os “oportunistas” e
1072
Conforme informações em Albuquerque, 1953, Pasta XI, p. 56-57.
677
1073
Cabe lembrar que a legislação da época, como a de hoje, previa que o posto de marechal somente existiria
em tempo de guerra. No entanto, a Lei nº 1.267, de 9 de dezembro de 1950, previa que os oficiais e praças que
haviam tomado parte, com suas unidades militares, nos combates à revolução comunista de 1935 seriam
promovidos ao posto superior imediato. O benefício atingia inclusive os militares que já se encontravam na
reserva. Como comandou as tropas de Artilharia de Costa, que tomaram parte direta das ações de ataque ao 3º
RI, José Pessoa foi beneficiado pelo dispositivo legal.
678
1074
Varnhagen apontava que o local ideal para se erguer uma nova cidade para ser a sede do Império era a região
da confluência das bacias dos rios Amazonas, Prata e São Francisco, onde se encontraria o coração do Brasil.
(LIMA, 2010, p. 17)
679
1075
Geologicamente, à época, eram considerados planaltos os terrenos que variam de 300 a 1.000 metros de
altitude. Hoje, a definição não estabelece um limite máximo para a altitude. São considerados planaltos as
superfícies planas localizadas no cume de montes ou montanhas, com mais de 300 metros de altura em relação
ao nível do mar.
680
jornais e revistas de grande circulação da época. Nesse sentido, Vergara (2010, p. 43) ressalta
que um dos relatórios mais divulgados foi o do médico higienista da Comissão, Antônio
Martins de Azevedo Pimentel. Foi a partir deste documento que se desenvolveu uma das
principais teses nas quais se apoiavam os defensores da mudança da capital: a questão da
salubridade1076. Para o médico, diferente da zona litorânea, baixa, úmida e quente, o Planalto
Central, por sua altitude, produzia temperaturas mais frescas e solos férteis, o que propiciava a
instalação de uma grande cidade e o bem-estar dos seus habitantes.
No entanto, cerca de dez anos após a Comissão Cruls ter firmado as excelentes
condições de salubridade do Planalto Central, alguns estudos científicos realizados pelos
médicos Arthur Neiva e Belisário Penna apontaram um diagnóstico oposto ao de Pimentel.
Em uma série de viagens científicas promovidas pelo Instituto Oswaldo Cruz nas regiões do
Rio São Francisco e de outras áreas do Nordeste e Centro-Oeste brasileiros, na década de
1910, em apoio às atividades da Inspetoria de Obras contra as Secas, esses pesquisadores
traçaram um quadro dantesco dos sertões brasileiros, inclusive das terras goianas, assoladas
pela malária e pela recém-descoberta doença de Chagas. Este fato não poderia deixar de ter
efeitos sobre a proposta de mudança da capital para o Planalto Central, uma vez que a
imprensa divulgou uma imagem bastante negativa das terras goianas. A salubridade do
Planalto Central e das terras goianas como sítio para a construção da nova capital seria um
ponto permanente de indagação nas discussões sobre a transferência e foi novamente
abordado pelas comissões de estudos criadas nas décadas de 1940 e 1950. (LIMA, 2010, p.
23)
Nos anos subsequentes, a mudança da Capital Federal entrou em compasso de espera.
Durante o período do primeiro governo de Getúlio Vargas, a questão da transferência perdeu
importância política. Voltaria à pauta somente durante a Assembleia Constituinte de 1946, por
iniciativa do ex-presidente Arthur Bernardes, na ocasião deputado pela UDN mineira.
Firmada a nova Carta Magna, esta estabelecia em suas disposições transitórias a mudança da
Capital Federal, novamente para o Planalto Central do País. Também determinava ao
presidente da República a nomeação de uma comissão de técnicos de renomado valor para
realizar os estudos da localização da nova capital. O estudo realizado seria encaminhado ao
Congresso, que deliberaria sobre o tema e, por meio de lei, estabeleceria o início da
delimitação da área escolhida.
1076
Vergara (2010, p. 44) ressalta que o higienismo era uma preocupação constante da República, tanto para
atrair imigrantes europeus, quanto para resolver o problema da insalubridade do Rio de Janeiro, que, segundo a
concepção da época, retardava o desenvolvimento econômico do País.
681
de 1948, Queirós fez uma apreciação crítica da resolução final da Comissão. Considerou de
pouca significação a função colonizadora prevista para a nova capital, enquanto a sua função
política (consolidar a unidade nacional e manter o esquema federativo) carecia de melhor
fundamentação. Quanto à função geopolítica, criticou duramente a visão calcada na
necessidade imperiosa da mudança, em obediência a um suposto destino histórico.
Considerou, ainda, exageradas as dimensões do Distrito Federal. Sendo assim, o deputado
posicionou-se a favor da proposta vencida em Plenário da Comissão e endossou a preferência
de se construir a nova Capital Federal em Anápolis. O relatório de Queirós suscitou reações
dos diversos grupos regionais da Câmara, o que bloqueou temporariamente o projeto.
Passados cinco anos, os resultados da Comissão Polli foram sancionados, sendo rejeitadas as
conclusões da comissão parlamentar. (PEREIRA, 2010, p. 71-73) Castiglione (2010, p. 94)
vai buscar em Boris Fausto as razões para a longa hibernação do projeto de mudança da
capital no Congresso. A primeira é relativa a pouca prioridade dada a essa questão em função
do cenário político que se desenhou em torno da sucessão presidencial a partir de 1948, no
qual Vargas já aparecia como um polo de atração. A segunda é a pouca, ou nenhuma,
importância que Getúlio dava à transferência da Capital Federal.
Mapa 5 – Área escolhida pela Comissão Polli Coelho para a nova Capital Federal. Ao centro, pontilhado, o
Retângulo Cruls, 1948.
A lei apontava, ainda, que estudos definitivos, que deveriam ser concluídos em um
prazo de três anos, seriam realizados para: avaliar as condições de abastecimento de água e
energia elétrica; estabelecer um plano rodo-ferroviário, que deveria ligar a futura capital a
todos os estados; definir as vias de transportes necessárias à efetivação da mudança da capital;
elaborar um plano de desapropriação das áreas necessárias e um plano urbanístico. Um
crédito de Cr$ 20.000.000,00 seria aberto junto ao Ministério de Viação e Obras Públicas para
atender aos encargos criados com os estudos para o estabelecimento da nova capital.1079
Consoante a Lei nº 1.803, uma comissão para a realização dos estudos foi criada, por
meio do Decreto nº 32.976, de 8 de junho de 1953: a Comissão de Localização da Nova
Capital Federal. Sob o comando do general Aguinaldo Caiado de Castro, chefe da Casa
Militar da Presidência da República, à Comissão competia realizar, ou mandar realizar:
1077
Nova Metrópole do Brasil – Relatório geral da sua localização, 1958, p. 10. Acervo José Pessoa (CPDOC
FGV). 981.74 P475n.
1078
Lei nº 1.803, de 5 de janeiro de 1953.
1079
Ibidem.
685
Toda uma estrutura organizacional foi criada com o propósito de que não houvesse
solução de continuidade nos trabalhos realizados pela CLNCF. Além de um presidente, que
era de livre escolha do chefe do Governo, possuía representantes de todos os ministérios, do
Conselho de Segurança Nacional, do Departamento Administrativo do Serviço Público, do
estado de Goiás, do Serviço Geográfico do Exército e do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE). O exercício das funções constituía-se em serviço nacional relevante e
gratuito. A critério do presidente da Comissão, outras pessoas ou entidades especializadas,
civis e militares, poderiam ser contratadas, quando necessário, e subcomissões técnicas de
trabalho podiam ser criadas, com a finalidade de realizarem serviços de campo, pesquisas,
levantamentos, elaboração de mapas, plantas e desenhos. A data limite dos trabalhos era o dia
31 de dezembro de 1955, quando um relatório final deveria ser entregue ao presidente Café
Filho.1081 Em setembro de 1953, um outro decreto1082 complementaria o anterior, ao definir a
constituição dos órgãos deliberativo e executivo da Comissão e a criação de uma Diretoria
Técnica e de uma Secretaria Administrativa.
Castiglione (2010, p. 94-96) aponta que Caiado de Castro destacou-se à frente da
Comissão pelo pragmatismo com que exerceu as suas funções. Como fiel colaborador de
Getúlio, era preciso não deixar dúvidas ao presidente, e ao Congresso, que a Comissão iria
funcionar. Desde o início, o general teria percebido que pelos métodos convencionais de
levantamento direto no campo não seria possível concluir o prazo da execução dos estudos.
Além disso, seria necessária a mobilização de um enorme contingente de técnicos para a
execução dos serviços previstos. Sendo assim, tomou duas decisões fundamentais para o
andamento dos trabalhos: contratou, ainda em 1953, um serviço de levantamento
aerofotogramétrico junto à empresa Serviços Aerofotogramétricos Cruzeiro do Sul1083, para
recobrir toda a área do futuro Distrito Federal; e, em 1954, contratou a empresa norte-
americana Donald J. Belcher and Associates Inc. para realizar os estudos e a seleção dos cinco
1080
Decreto nº 36.598, de 11 de dezembro de 1954.
1081
Ibidem.
1082
Decreto nº 33.769, de 5 de setembro de 1953.
1083
Segundo Castiglione (2010, p. 96), em 1953, apenas duas empresas ofereciam os serviços de fotografias
aéreas métricas no Brasil: a VASP Aerofotogrametria, em São Paulo, e a Serviços Aerofotogramétricos Cruzeiro
do Sul, no Rio de Janeiro. A utilização da técnica de fotogrametria de mapeamento, à época, era
predominantemente feita pelo Serviço Geográfico do Exército, o que pode ter influenciado a decisão de Caiado.
686
sítios mais adequados à localização da nova capital, com base em uma metodologia que
articulava serviços de campo, fotoanálise e fotointerpretação de fotografias aéreas, um serviço
inovador no contexto da engenharia brasileira à época.
O trabalho contratado junto à Cruzeiro do Sul ficou pronto em janeiro de 1954.
Entretanto, o conjunto de fotos produzidos, por si só, não tinham serventia nenhuma. Daí o
contrato firmado com a Belcher and Associates. A contratação da firma norte-americana se
deu por intermédio da Comissão do Vale do São Francisco, em fevereiro daquele mesmo ano.
Basicamente, a firma se comprometia, entre outras coisas:
O prazo estipulado para a entrega desses trabalhos foi de 10 meses e o valor fixado
para a realização dos estudos deveria ser pago em duas parcelas: uma em moeda norte-
americana, no valor de US$ 350.000,00 e outra em moeda brasileira, no valor de Cr$
6.400.000,00.
Nova Metrópole do Brasil – Relatório geral da sua localização, 1958, p. 40-41. Acervo José Pessoa (CPDOC
1084
1085
Ernesto Silva relata que foi convidado pessoalmente por José Pessoa para auxiliá-lo na Comissão de
Localização da Nova Capital Federal, em setembro de 1954. Havia sido ajudante-de-ordens de Pessoa em duas
ocasiões: na Inspetoria de Cavalaria e no comando da Zona Militar do Sul. (SILVA, 1971, p. 87)
1086
Decreto nº 36.598, de 11 de dezembro de 1954.
1087
Ibidem.
688
duas salas deste órgão, em sua sede no Rio de Janeiro, onde instalou a direção da CLNCF. De
imediato, elaborou, também, um plano de ação para os trabalhos da Comissão de Localização,
que deveria se assentar nos seguintes pontos básicos:
Como o próprio José Pessoa afirmou, à época da sua nomeação, a parte política do
problema da mudança da capital já estava resolvida, por meio da Lei nº 1.803/53. Faltava,
entretanto, resolver a questão técnica, que só poderia ser resolvida por técnicos. Para isso,
foram criadas as diversas subcomissões especializadas, que passaram a constituir os
verdadeiros órgãos de estudo e planejamento da Comissão. Segundo Pessoa, o êxito
alcançado no trabalho pelas subcomissões foi imediato, dando solução cabal a todos os temas
que lhes foram propostos, o que confirmou o acerto na medida tomada. Ainda, a fim de
“proteger os interesses nacionais e evitar as tentações e perigos de uma possível ganância
imobiliária” em torno dos terrenos escolhidos para a nova Capital Federal, Pessoa decidiu
pelo sigilo das decisões tomadas pela CLNCF. Temia que a divulgação dessas deliberações
provocasse uma desmedida valorização das terras escolhidas, o que dificultaria a solução da
mudança.1089
Como bem lembra Castiglione, a criação das subcomissões, com seus respectivos
corpos técnicos, tinham uma razão óbvia de ser:
1088
Nova Metrópole do Brasil – Relatório geral da sua localização, 1958, p. 112. Acervo José Pessoa (CPDOC
FGV). 981.74 P475n.
1089
Idem, p. 11.
689
1090
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 20 dez. 1949, p. 4.
1091
Nova Metrópole do Brasil – Relatório geral da sua localização, 1958, p. 14. Acervo José Pessoa (CPDOC
FGV). 981.74 P475n.
1092
Idem, p. 10.
690
Imagem 106 – José Pessoa durante os trabalhos da CLNCF (entre 1955 e 1956).
1093
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta I.
691
O relatório deixava evidente que todos os fatores elencados acima, e que constavam
nas exigências da Lei nº 1.803, deviam ser exaustivamente analisados, a fim de que a seleção
final incorporasse as condições mais vantajosas, já que a construção de uma cidade
representava um investimento de vulto e as complicações econômicas que poderiam advir de
um erro de localização permaneceriam por centenas de ano em sua vida. E citava exemplos de
metrópoles mundiais, cujas edificações, à época, já pagavam o preço por terem sido
construídas sob solos úmidos e moles, como Amsterdam, Cidade do México, Bangkok,
Istambul, Boston e Chicago. 1095
Na apreciação que fez a respeito do trabalho da empresa norte-americana, José Pessoa
afirmou que a Belcher havia terminado a execução do contrato “em plena harmonia, como era
de desejar”. Todos os compromissos contratuais haviam sido cumpridos e um substancioso
trabalho havia sido entregue à Comissão, constante de relatórios, mapas, maquetes e
1094
Nova Metrópole do Brasil – Relatório geral da sua localização, 1958, p. 76. Acervo José Pessoa (CPDOC
FGV). 981.74 P475n.
1095
Ibidem.
692
overlays1096. No entanto, Pessoa entendia que não havia a necessidade imperiosa de ter o
Governo se empenhado em realizar um contrato tão vultoso com uma firma estrangeira, já
que, com os métodos convencionais, o problema dos levantamentos poderia ter sido
resolvido. Ressaltou que o Brasil contava com cartógrafos, geógrafos, engenheiros e institutos
científicos de renomada competência e que eram capazes de rivalizar com os melhores do
estrangeiro. Porém reconheceu que, pelos métodos usuais, não seria possível se cumprir os
prazos previstos.1097
O resultado final dos estudos da firma norte-americana compreendia um mapa geral do
Retângulo Cruls, no qual constava a representação dos cinco sítios de 1.000 Km2, que foram
nominados por cores, a fim não se quebrar o sigilo das suas exatas localizações: Amarelo,
Verde, Azul, Vermelho e Castanho. Na apreciação de cada área constava uma análise
completa sobre: a altitude, os solos para as obras de engenharia, as condições geológicas, o
clima, o planejamento urbano, a drenagem do solo, a proximidade de grandes centros, a
presença de solos para a agricultura, a existência de sítios para reservatórios de água, as fontes
de energia hidrelétrica, a presença de materiais de construção e o aproveitamento
econômico.1098
Silva (1971, p. 71) aponta que tão logo o relatório técnico da Belcher foi entregue,
todos os membros da CLNCF realizaram uma viagem ao Planalto Central, a fim de
verificarem in loco os vários pontos observados pela empresa norte-americana. A inspeção
durou dois dias, com os sítios sendo percorridos a pé e de automóvel pelos integrantes da
Comissão. Somente o sítio Vermelho, devido à sua inacessibilidade, foi percorrido por meio
aéreo. Na entrevista que concedeu ao Programa de História Oral do Arquivo Público do
Distrito Federal, Ernesto Silva narra que o próprio José Pessoa, em sua companhia e do
marechal Mário Travassos, participou das explorações das áreas indicadas no estado de Goiás.
Viajaram apoiados pela Força Aérea, além de examinar in loco os sítios. Percorreram-nos a pé
e de automóvel. Estiveram em Pirapora, Formosa e Planaltina. A principal intenção de Pessoa
era verificar as possibilidades de ligação ferroviária com a futura capital. Ao chegarem em
Planaltina, foram recepcionados pelo governador de Goiás, José Ludovico de Almeida, que os
acompanhou na exploração do sítio Castanho. Ao chegarem ao ponto mais alto da área, com
1.172 metros, Silva conta que todos ficaram maravilhados com o local, especialmente Pessoa.
1096
Termo utilizado para referenciar uma folha translúcida ou transparente colocada sobre um mapa, para
registrar, em consonância com este, informações temáticas adicionais à cartografia básica. (CASTIGLIONE,
2010, p. 101)
1097
Nova Metrópole do Brasil – Relatório geral da sua localização, 1958, p. 112. Acervo José Pessoa (CPDOC
FGV). 981.74 P475n.
1098
Idem, p. 88-102.
693
Não restava dúvida que, na concepção do marechal, o sítio já estava escolhido. (SILVA, 1998,
p. 9-10)
Mapa 6 – Carta geográfica de Goiás com os sítios escolhidos pela empresa Belcher e o Retângulo Cruls
demarcados, 1955.
Fonte: Nova Metrópole do Brasil – Relatório geral da sua localização, 1958. Acervo José Pessoa
(CPDOC FGV). 981.74 P475n.
Imagem 107 – José Pessoa (ao centro, com o binóculo no pescoço) e membros da Comissão de
Localização em visita ao Planalto Central, fev. 1955.
Cada membro da Subcomissão fez a sua avaliação dos sítios baseados nesses critérios,
atribuindo-lhes notas e multiplicando-as pelos seus respectivos pesos. Assim, em 13 de abril
de1955, uma reunião foi realizada para se decidir o sítio mais favorável, ficando registrado
em ata que o sítio escolhido era o Castanho. Silva (1971, p. 73) ressalta que o sítio Verde, o
segundo colocado, por ter uma área contígua ao Castanho, acabou sendo incluído nos limites
do Distrito Federal, quando do traçado do perímetro deste. Do relatório da Belcher, era
possível identificar as características do Castanho, que o fizeram o sítio vencedor:
1099
Idem, p. 21.
695
1.200 metros e se estende muitos quilômetros para oeste, além da fronteira do sítio.
Os fundos dos vales estão a mais ou menos 1.000 metros acima do nível do mar.
Este sítio e o sítio Verde, que se justapõe a ele, são, de todos os cinco, os que se
acham a altitudes elevadas.1100
O Rio Paranoá era o grande trunfo do Castanho, por proporcionar: muito boas
condições recreacionais; aproveitamento hidrelétrico, ainda que pequeno; boas condições de
clima, devido à baixa altitude do seu vale, o que promovia a circulação e renovação do ar; e
um excelente potencial de suprimento de água. Por estar localizado em uma extensa planície,
de suave inclinação, o Castanho se prestava ao desenvolvimento de uma grande cidade de
qualquer tipo possível. Possuía o solo de melhor drenagem de todos os cinco, o que
possibilitava um bom aproveitamento para a formação de reservatórios de água. As condições
geológicas eram as melhores possíveis para as obras de engenharia. Do ponto de vista do
transporte, por estar no eixo natural norte-sul, possuía um bom potencial para uma estrada de
ferro. Também era possível se realizar conexões rodoviárias com Formosa, Cristalina e
Anápolis, ligando-se assim ao Sul e ao Oeste do País. A parte econômica era favorável,
devido ao baixo custo das terras. O único senão ficava por conta do baixo potencial agrícola,
devido à baixa fertilidade dos solos, nada, porém, que não pudesse ser resolvido com as
técnicas agrícolas adequadas de fertilização e adaptação de culturas.1101
De posse das informações encaminhadas por Penna Firme, José Pessoa convocou para
o dia 15 de abril uma reunião do Plenário da CLNCF, para a escolha do sítio Castanho. Um a
um os membros da Comissão declararam os seus votos, que foram justificados desde a forma
mais pragmática, como o do engenheiro Macedo Soares, que declarou ter votado no Castanho
porque ele preenchia “as melhores condições para a localização da Capital do País”, até a
mais apaixonada, como foi o caso de José Pessoa, que se fundamentou em uma avaliação
crítica dos relatórios da Belcher e das comissões Cruls e Polli. Por unanimidade, a escolha do
sítio Castanho foi homologada. Nessa mesma sessão plenária, Pessoa sugeriu o batismo da
nova Capital Federal com o nome Vera Cruz, um apelo histórico ao primeiro nome dado ao
País e que representava, segundo ele, a continuidade histórica da Pátria civilizada no decorrer
dos séculos. Os membros da Comissão não aceitaram e não votaram a proposta. Entenderam
que o nome deveria ser escolhido pelo Congresso Nacional ou por votação popular. Decidiu-
se, então, que Pessoa encaminharia a proposta ao presidente Café Filho, juntamente com uma
exposição de motivos. Apesar de tê-lo utilizado durante todo o período em que esteve à frente
da Comissão, o nome proposto por Pessoa nunca foi levado à apreciação do Congresso e
1100
Idem, p. 96.
1101
Idem, p. 97-99.
696
tampouco foi autorizado pelo presidente da República.1102 Anos mais tarde, o Congresso
ressuscitaria o nome proposto por José Bonifácio, em 1823, e batizaria a nova capital com o
nome de Brasília.
No mesmo dia em que a seleção do sítio foi aprovada em sessão plenária, Pessoa
determinou que uma nova subcomissão, a Subcomissão da Demarcação do Território do
Futuro Distrito Federal1103, tomasse as providências necessárias para definir os limites do
futuro Distrito Federal. Apenas onze dias após ter recebido a missão de José Pessoa, a
Subcomissão de Demarcação apresentou o seu relatório. Pesaram na sua decisão os seguintes
aspectos:
1º) Para a delimitação do novo Distrito Federal devem ser adotadas, de preferência,
as divisas naturais para os limites de Este e Oeste e linhas geodésicas, para os de
Norte e de Sul, tornando-se, assim, mais simples os trabalhos futuros de
demarcação; 2º) Escolher para a área do Distrito Federal a que contenha da melhor
forma os requisitos necessários á sua constituição; 3º) Escolhê-la dentro da região
cujas altitudes extremas oscilem entre 800 e 1.200 metros; 4º) A área prevista deve
conter um número não pequeno de rios que a torne rica em água; 5º) Deve permitir
facilidade de meios de transporte e comunicações em geral e de sua articulação com
os respectivos planos nacionais; 6º) deve apresentar condições mais fáceis e
econômicas para a execução do plano de desapropriação.1104
Sugere, pois, a Subcomissão que seja adotada a seguinte linha-limites, que abranja
área aproximada de 5.850 Km2. O perímetro começa no ponto de latitude 15º30’ S e
longitude 48º12’ W Green. Desse ponto segue para Leste pelo paralelo de 15º30’ S
até encontrar o meridiano de 47º25’ W Green. Daí, por esse meridiano de 47º25’ W
Green., para o Sul, até encontrar o talvegue do córrego Santa Rita, afluente da
margem direita do Rio Preto. Daí pelo talvegue do citado córrego Santa Rita até a
confluência deste com o Rio Preto, logo a jusante da Lagoa Feia. De confluência do
córrego Santa Rita com o Rio Preto, segue pelo talvegue deste último, na direção
Sul, até cruzar o paralelo de 16º03’ S. Daí, pelo paralelo de 16º03’ na direção Oeste
até encontrar o talvegue do Rio Descoberto. Daí para o Norte, pelo talvegue do Rio
Descoberto até encontrar o meridiano de 48º12’ W Green. Daí, para o Norte, pelo
meridiano de 48º12’ W Green. até encontrar o paralelo de 15º30” S, fechando o
perímetro.1105
1102
Idem, p. 165.
1103
Faziam parte da Subcomissão, segundo consta no relatório apresentado à José Pessoa, o engenheiro Allyrio
H. de Matos e os coronéis engenheiros do Serviço Geográfico do Exército Aureliano Luiz de Farias e Luiz
Eugênio P. de Freitas Abreu.
1104
Idem, p. 64.
1105
Idem, p. 65.
697
incansável em suas recomendações sobre o rigoroso sigilo dos trabalhos da CLNCF. Nenhum
pronunciamento público deveria ser feito por nenhum dos membros da Comissão antes que as
medidas protetivas necessárias fossem adotadas. No seu entender, o sítio escolhido deveria ser
transformado em área de utilidade pública, para fins de desapropriação, o que deveria ser feito
pelo Governo Federal. (SILVA, 1971, p. 80)
Conforme narra Silva (1971, p. 80), um dia após ter recebido o relatório da
Subcomissão de Demarcação, José Pessoa encontrou-se com o presidente Café Filho. Na
reunião, solicitou o apoio do presidente para o encaminhamento ao Congresso da decretação
de utilidade pública da área. Café Filho convocou o Consultor Geral da República para
analisar o caso, porém nenhuma decisão foi tomada. Segundo o autor, em 28 de abril de 1955,
o presidente teria informado Pessoa sobre a impossibilidade de baixar qualquer decreto
declarando de utilidade pública o perímetro do futuro Distrito Federal.
Não conformado, em 30 de abril, com o apoio do Ministério da Aeronáutica, José
Pessoa, acompanhado de Ernesto Silva, viajou para Goiás, a fim de solicitar ao governador
daquele estado o apoio que Café Filho negara. Na tarde daquele dia, em uma reunião
reservada, Pessoa expôs ao governador José Ludovico de Almeida a necessidade premente de
um decreto governamental que declarasse ser de utilidade pública, para fins de
desapropriação, todas as terras situadas dentro do perímetro do futuro Distrito Federal. De
imediato, Ludovico convidou seus assessores diretos para um jantar, no qual também estariam
presentes os desembargadores do Tribunal de Justiça de Goiás, além de outros advogados. A
intenção do governador era reunir-se com essas pessoas após o jantar, para achar uma solução
ao problema levado por Pessoa. Após o término da reunião, já às 3 horas da manhã do dia 1º
de maio, ficou decidido que naquele mesmo dia um decreto seria elaborado e assinado de
surpresa, como de fato ocorreu. Na noite do dia 1º de maio, em uma solenidade no Palácio das
Esmeraldas, o Decreto nº 480, que declarou de utilidade pública a área escolhida e demarcada
pela Comissão de Localização, foi assinado. Por sugestão dos assessores de Ludovico de
Almeida, o documento foi datado de 30 de abril, para evitar contestações da oposição, de ter
sido um decreto assinado em dia de feriado. (SILVA, 1971, p. 80-81)
Dez dias após ter assinado o Decreto nº 480, o governador José Ludovico encaminhou
à Assembleia Legislativa do estado de Goiás um projeto de lei, por meio do qual ficava o
governo daquele estado autorizado a desapropriar a área considerada e, ao mesmo, tempo,
entender-se com o governo federal sobre o destino que seria dado aos bens desapropriados.
Assim, em 11 de maio de 1955 foi assinada a Lei nº 1.071, do governo de Goiás, por meio da
qual ficava o poder Executivo do estado autorizado a, num prazo de cinco anos, realizar as
698
1106
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta I, docs. 0382, 0383, 0386 e 0388.
1107
Decreto nº 1.258, de 5 de outubro de 1955, do governador de Goiás.
1108
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta I, doc. 0475.
699
último quesito, a Lei Orçamentária Anual da União para o ano de 1956 1109 consignou uma
verba de Cr$ 120.000.000,00 para as despesas com as desapropriações. No entanto, em 17 de
fevereiro de 1956, em um ofício encaminhado ao ministro da Justiça, José Pessoa ainda
solicitava a liberação do crédito previsto em lei para a Comissão, para que fossem feitos os
pagamentos devidos ao estado de Goiás.1110 Da mesma forma, dez dias depois, enviou um
novo ofício ao presidente da República, solicitando que este desse o encaminhamento
decisivo ao problema.1111 A autorização para a aquisição da área demarcada viria somente no
governo de Juscelino Kubitschek, em abril de 1956. O repasse ao governo de Goiás deveria
ser feito em 10 parcelas mensais de Cr$ 12.000.000,00.1112 Aliás, dinheiro sempre foi um
problema para o andamento dos trabalhos da Comissão de Localização. Assim que assumiu a
presidência da Comissão, Pessoa encaminhou um ofício a Café Filho solicitando crédito
suplementar de Cr$ 30.000.000,00 para a continuidade dos trabalhos.1113 Esse crédito nunca
foi colocado à disposição de Pessoa, que, em fevereiro de 1956, já no governo de Juscelino
Kubitschek, lembrava, por meio de uma carta, ao general Nelson de Melo, chefe do Gabinete
Militar da Presidência da República, que a Comissão encontrava-se sem “um só centavo para
as suas necessidades mais prementes”, pois o crédito que deveria ser a ela destinado não havia
sido incluído no orçamento da União.1114
Com a eleição de Juscelino Kubitschek à Presidência da República, no pleito de 1955,
e o afastamento de Café Filho, por motivo de doença, em novembro daquele ano José Pessoa
colocou o seu cargo à disposição do presidente substituto Nereu Ramos, que decidiu mantê-lo
à frente da Comissão de Localização.1115 Tornaria a fazê-lo em fevereiro de 1956, após
Juscelino ter assumido a Presidência, por considerar que a direção da Comissão deveria ser
exercida por alguém da confiança do presidente da República.1116 Este, também não aceitou o
pedido de demissão. Conforme Silva (2010, p. 84-85), antes mesmo da homologação do sítio
Castanho por Café Filho, e da eleição de Juscelino, Pessoa já havia tomado uma série de
providências, a fim de facilitar os futuros trabalhos de construção da Capital Federal. Logo
após a escolha da área que viria a abrigar a nova capital, mandou erguer no ponto mais alto do
sítio uma cruz de madeira, de onde se descortinava o horizonte em todas as direções. Esse
ponto é considerado por muitos historiadores o marco histórico da capital, já que, em 1957,
1109
Lei nº 2.665, de 6 de dezembro de 1955.
1110
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta IV, doc. 0555.
1111
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta I, doc. 0373.
1112
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta V, doc. 0577.
1113
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta I, doc. 0351.
1114
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta IV, doc. 0556.
1115
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta III, doc. 0532.
1116
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta V, doc. 0589.
700
foi a partir dele que foram locadas todas as coordenadas das edificações e monumentos
construídos em Brasília.1117 No entanto, para Pessoa, a pedra fundamental da nova capital era,
na realidade, um marco comemorativo colocado naquela área, em setembro de 1922, a mando
do presidente Epitácio Pessoa, em comemoração ao centenário da independência do Brasil e
para simbolizar que, naquela região, seria erguida a futura capital do País. Também, em maio
de 1955, a pedido de Pessoa, o estado de Goiás construiu uma pista de pouso de 2.700 metros,
de terra, no local da futura cidade. Seguindo-se a indicação dos estudos realizados pela
Belcher, ali foi erguido um rudimentar aeroporto, que atendeu as primeiras viagens realizadas
para a região. Em dezembro, ainda, foi firmado um contrato com a empresa carioca Geofoto,
para a realização de um levantamento aerofotogramétrico, a fim de que fossem produzidas
cartas topográficas do sítio Castanho. Essas cartas, segundo o autor, foram fundamentais para
a construção da cidade e para o desenho do plano piloto, anos mais tarde.
A Comissão chefiada por José Pessoa mudaria de nome no final do ano de 1955. Com
a conclusão da primeira etapa dos trabalhos, atinentes à escolha da área em que seria
construída a nova capital, a antiga CLNCF foi extinta por meio de decreto1118, sendo criada,
no seu lugar, a Comissão de Planejamento da Construção e da Mudança da Capital Federal
(CPCMCF), que passou a desenvolver os seus trabalhos a partir de 9 de dezembro de 1955.
Em termos organizacionais, foi mantida a estrutura da comissão anterior, assim como a
subordinação direta ao presidente da República. Com um prazo de cinco anos para concluir
seus trabalhos, a Comissão deveria realizar:
1117
Esse local, hoje, é conhecido como a Praça do Cruzeiro e ainda abriga a cruz erguida por José Pessoa.
1118
Decreto nº 38.281, de 9 de dezembro de 1955.
1119
Decreto nº 38.281, de 9 de dezembro de 1955.
701
Na verdade, da análise que se faz dos relatórios produzidos por José Pessoa e da
narrativa de Ernesto Silva, é possível se perceber que, durante todo o ano de 1955, por meio
das suas subcomissões, Pessoa já havia adiantado os estudos e os planejamentos dos diversos
requisitos impostos pela Lei nº 1.803, cabendo, a partir de fevereiro de 1956, apenas
encaminhá-los ao presidente Juscelino para aprovação. Havia, inclusive, preparado um
programa de trabalho para aquele ano corrente, composto das seguintes atividades:
1120
As seguintes subcomissões foram criadas por Pessoa, tanto para atender os estudos técnicos da Comissão de
Localização como para a Comissão de Construção: Fixação de critérios e normas técnicas para a comparação dos
vários locais e seleção dos sítios; Fiscalização do contrato estabelecido entre o Governo Brasileiro e a firma
Belcher e estudos de foto análise; Planejamento urbanístico; Planejamento da produção agropecuária e
abastecimento; Água, esgoto e saneamento; Comunicações (rodovias e ferrovias); Energia elétrica; Estudos de
demarcação do território do futuro Distrito Federal; Organização da nova localização do futuro Distrito Federal;
Colonização; Utilização, transferência e alienação dos bens federais; Transferência e instalação do Governo
Federal; e Constituição geológica do solo e clima. Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta
VI, doc. 0623.
1121
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta V, docs. 0594 e 0595.
702
1º. Ligação da Estrada de Ferro Goiás, a partir de Anápolis, ponta dos trilhos, com
160 Km em bitola de 1 metro;
2º. Prolongamento da Estrada de Ferro Central do Brasil, a partir de Pirapora à
futura capital, com 452 Km em bitola de 1,60 metros;
3º. Articulação das linhas da Companhia Paulista das Estradas de Ferro, a partir da
Colômbia.1123
1122
Nova Metrópole do Brasil – Relatório geral da sua localização, 1958, p. 358. Acervo José Pessoa (CPDOC
FGV). 981.74 P475n.
1123
Nova Metrópole do Brasil – Relatório geral da sua localização, 1958, p. 297. Acervo José Pessoa (CPDOC
FGV). 981.74 P475n.
1124
O planejamento técnico rodo-ferroviário da nova Capital Federal pode ser encontrado em Nova Metrópole
do Brasil – Relatório geral da sua localização, 1958, p. 297-353. Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). 981.74
P475n.
703
Mapa 7 – Mapa do Brasil incluindo a nova Capital Federal, com as respectivas distâncias para as
capitais dos estados, elaborado pela Subcomissão de Comunicações, 1955.
Fonte: Nova Metrópole do Brasil – Relatório geral da sua localização, 1958. Acervo José
Pessoa (CPDOC FGV). 981.74 P475n.
algumas usinas hidrelétricas, a começar pelo Rio Paranoá, que serviria ao abastecimento dos
trabalhos iniciais. Também foi aventada a possibilidade de se gerar energia por meio de usinas
termelétricas, que seriam abastecidas pelo petróleo produzido no País ou, uma novidade, pela
aplicação da energia atômica, já que as prospecções minerais feitas no Brasil indicavam a
possibilidade de extração de minérios como o urânio e o tório em abundância para a produção
elétrica.1125
Em relação ao plano de abastecimento de água e de esgotos da nova capital, Silva
(1971, p. 89) aponta que havia uma descrença do chefe da subcomissão encarregada de
estudar esse problema, engenheiro Saturnino de Brito Filho1126, quanto ao potencial de
abastecimento de água no local escolhido para a sede da capital. Brito Filho considerava as
bacias hidrográficas próximas a esta área limitadas e criticava o estudo feito pela empresa
norte-americana Belcher, por não ter abordado o problema técnico pertinente ao
abastecimento com águas subterrâneas. Um outro problema por ele apontado foi o possível
“surto de habitações em desordem” junto às vias de comunicação que demandavam à nova
Capital Federal, ou seja, o surgimento de favelas. Sugeriu que, durante a fase de construção da
cidade, esses núcleos não planejados de habitações fossem imediatamente destruídos,
assentando-se os operários em residências populares apropriadas. Caso essa realocação
acontecesse em cidades satélites, como havia previsto a Subcomissão de Urbanização, seria
necessário todo um replanejamento da distribuição de água e de esgotos.1127 Entretanto, como
observa o autor, todo o relatório produzido pelo engenheiro foi feito em gabinete, na sede do
Serviço Geográfico do Exército. Brito Filho somente se convenceria do potencial hidráulico
do sítio Castanho quando visitou o local em companhia do presidente Juscelino, em 1956.
Uma outra preocupação de José Pessoa foi a futura colonização da nova capital da
República. O ato de sua transferência para o Planalto Central carecia, no seu entender, de
inúmeras medidas preliminares, sem as quais a vida dos futuros habitantes se tornaria precária
e cheia de dificuldades. Dentre as providências que deveriam ser tomadas, avultava de
importância a do abastecimento, que somente seria solucionada mediante um complexo
estudo que deveria ser realizado por agrônomos, veterinários e técnicos em cooperativismo.
Além disso, um plano de colonização para os arredores da nova capital deveria ser elaborado.
1125
Nova Metrópole do Brasil – Relatório geral da sua localização, 1958, p. 207-224. Acervo José Pessoa
(CPDOC FGV). 981.74 P475n
1126
Brito Filho foi o responsável pelo projeto do Serviço de Águas da Capital da República, no Rio de Janeiro, e,
segundo relata Silva (1971, p. 89) havia sido convocado por José Pessoa para dar a sua opinião sobre o
abastecimento de água da nova Capital Federal.
1127
Nova Metrópole do Brasil – Relatório geral da sua localização, 1958, p. 200. Acervo José Pessoa (CPDOC
FGV). 981.74 P475n.
705
Entretanto, no seu ponto de vista, a origem dos colonos que seriam alocados na área escolhida
não poderia ser qualquer uma. Em um ofício que encaminhou ao presidente do Instituto
Nacional de Imigração e Colonização (INIC), em dezembro de 1954, no qual pedia um estudo
sobre o assunto, disse estar convencido de que no Planalto Goiano se adaptariam com sucesso
os “bons imigrantes europeus”, principalmente os holandeses, que, “acompanhados de seus
instrumentos agrários e gado leiteiro, formariam [...] uma perfeita indústria de laticínios e
explorariam, com êxito, a terra”. Mesclados com imigrantes nacionais, os holandeses, através
de sua experiência no cultivo da terra, iriam incrementar no Planalto Central chácaras e
granjas modelos que propiciariam farta e barata alimentação aos futuros habitantes da nova
capital. A solicitação que fazia ao presidente do INIC era que esses colonos fossem
direcionados às cidades goianas já dotadas de energia hidrelétrica e próximas ao Retângulo
Cruls, como Formosa, Planaltina, Anápolis, Pirenópolis, Corumbá de Goiás e Cristalina, as
quais poderiam, assim, se transformar em grandes centros de produção.1128
Devido ao seu posicionamento estratégico, a nova Capital Federal não poderia
prescindir de uma guarnição militar. O próprio ministro da Guerra à época, general Henrique
Lott, já havia enviado um ofício a Pessoa solicitando que este não esquecesse de reservar no
novo Distrito Federal áreas destinadas a “aquartelamentos diversos, campos de instrução e
adestramento e à instalação de um campo de manobras de grandes unidades”. Lott se
comprometeu, inclusive, em fornecer as dimensões e as características apropriadas que essas
áreas deveriam apresentar.1129 No estudo que submeteu ao Ministério da Guerra, em junho de
1955, no qual auxiliou-o o seu velho amigo marechal Mário Travassos, Pessoa apresentou as
necessidades mínimas de ordem militar. O seu planejamento foi elaborado a partir de três
premissas: a) a segurança imediata e afastada da sede do Governo; b) a representação do
Governo; e c) a própria representação das Forças Armadas.1130
Do ponto de vista da segurança, foi planejado, para a segurança aproximada da sede
do Governo, uma força militar constituída de unidades de todas as armas terrestres (Infantaria,
Cavalaria, Artilharia e Engenharia), à base de regimentos de Infantaria, de tropas blindadas e
de unidades de Artilharia antiaérea. A segurança afastada seria feita por unidades da Força
Aérea e por tropas aerotransportadas. Quanto à representação do Governo, esta se daria à
exemplo do que já acontecia no Rio de Janeiro, sendo formada por unidades de guarda, como
1128
Idem, p. 239-240.
1129
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta III, doc. 0481.
1130
Nova Metrópole do Brasil – Relatório geral da sua localização, 1958, p. 243. Acervo José Pessoa (CPDOC
FGV). 981.74 P475n.
706
1131
Idem, p. 244.
1132
Idem, p. 244.
1133
Idem, p. 245-246.
707
1134
Idem, p. 189.
1135
Idem, p. 190.
1136
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta I, doc. 0401.
1137
O serviço de urbanização prestado por Le Corbusier em Bogotá foi contratado pelo governo colombiano ao
preço de 24.150.000 francos, o que daria cerca de Cr$ 1.725.000,00, pelo câmbio oficial da época, segundo os
cálculos feitos por José Pessoa. Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta III, docs. 0417 e
0418.
1138
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta III, docs. 0416 e 0417.
708
motivos do seu receio em aceitar a oferta feita por ele sem que houvesse um acordo formal
entre as partes.1139
O inconformismo de Pessoa com a ideia de se buscar um urbanista estrangeiro para
aconselhar os trabalhos dos engenheiros e arquitetos brasileiros o levou a buscar em arquitetos
brasileiros reconhecidos e em entidades de classe opiniões que ratificassem o seu pensamento
de que todo o planejamento urbano da nova Capital Federal fosse feito com capital intelectual
exclusivamente nacional. Em seu acervo pessoal, é possível encontrar uma troca de cartas
realizada, em janeiro de 1956, com Oscar Niemeyer, um dos arquitetos brasileiros mais
prolíficos à época, e com o professor Lucas Mayernofer, diretor da Faculdade Nacional de
Arquitetura. Nelas fica claro que Pessoa os procurou a fim de expor a sua intenção de entregar
o planejamento da nova capital a técnicos brasileiros e estender-lhes o convite a participarem
da empreitada. Niemeyer colocou-se à disposição de Pessoa, bastando apenas que fosse
estabelecido formalmente o modo como se daria a sua participação. Mayernofer, em nome da
Faculdade, também declarou o seu apoio à ideia de Pessoa, afirmando a inteira confiança que
depositava nos arquitetos brasileiros. E ofereceu, ainda, as instalações da Faculdade, para que
urbanistas notáveis viessem ao Rio de Janeiro para proferirem palestra e conferências obre as
últimas conquistas do urbanismo a nível mundial.1140 Cabe ressaltar que, em agosto de 1955,
mesmo sem a ação direta de Pessoa, o IAB já havia publicado um manifesto endereçado ao
presidente da República, por meio do qual pugnavam pela participação da classe nos
planejamentos da futura capital. Provavelmente, atento a essa iniciativa, Pessoa tenha
conseguido articular, por intermédio de Niemeyer e Mayernofer, a mobilização dos arquitetos
do Rio de Janeiro em prol da nacionalização dos planejamentos. A partir de março de 1956,
começaram a ser veiculadas algumas notícias nos jornais da Capital Federal dando conta das
reuniões realizadas pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) a fim de encontrar uma
solução para os planejamentos da nova capital.1141
No entanto, um ofício enviado ao presidente Juscelino, às vésperas do seu afastamento
definitivo da presidência da CPCMCF, dá a entender que, mesmo contrariado, Pessoa enviou
ao chefe do Governo a questão da contratação de um urbanista estrangeiro. No documento,
ele cobrou de Juscelino uma decisão sobre a linha de ação que o Governo iria seguir para a
solução do plano urbanístico da nova Capital Federal: a contratação de um urbanista
estrangeiro ou aquela que viria a concretizar-se meses depois, isto é, a realização de um
1139
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta III, doc. 0419.
1140
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta IV, docs. 0553 e 0554.
1141
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 27 ago. 1955, p. 12; Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 9 mar. 1956,
Segunda Seção, p. 2; Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 1 jun. 1956, p. 8.
709
concurso de projetos urbanísticos, uma sugestão dada pelo Instituto de Arquitetos do Brasil, e
direcionada apenas para arquitetos e urbanistas nacionais.1142
Apesar de todo o debate estabelecido entre contratar-se ou não um urbanista
estrangeiro para orientar os trabalhos da Submissão de Planejamento Urbanístico, esta não
deixou de apresentar a Pessoa, ainda no ano de 1955, aquele que seria o primeiro esboço da
nova Capital Federal. Apesar de longas, é interessante que sejam apresentadas algumas das
considerações feitas pela Subcomissão a respeito do projeto urbanístico, a fim de que sejam
notadas, guardadas as devidas proporções, as semelhanças com o projeto de Lúcio Costa,
vencedor do concurso nacional do plano-piloto, promovido pela Comissão de Planejamento
da Construção e da Mudança, em setembro de 1956. Para Penna Firme e sua equipe, a cidade
deveria guardar os seguintes aspectos:
1142
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta V, docs. 0598.
Nova Metrópole do Brasil – Relatório geral da sua localização, 1958, p. 190-193. Acervo José Pessoa
1143
As razões pelas quais os projetos de Penna Firme e Lúcio Costa se assemelham pode
seguir, no futuro, como um novo objeto de pesquisa. Entretanto é óbvio, como bem observa
Câmara (2012, p. 41), que a Avenida Independência de Penna Firme virou o “Eixão” de Lúcio
Costa e que as vias de apoio viraram os “eixinhos”. Isso sem considerar os setores urbanos
separados por funções e a reunião dos três poderes da República em uma só praça.
Imagem 108 – Comparação dos projetos Vera Cruz (esq.) e Brasília (dir.).
Apesar de todo o esforço que depreendeu para que se concretizasse o sonho nacional
de se ver, no Planalto Central, erguida a nova Capital Federal, José Pessoa não veria de perto
resultado do seu trabalho. Em 4 de junho de 1956, apresentou o seu pedido de demissão, em
caráter irrevogável, do cargo de presidente da CPCMCF. Em março de 1956 já corriam as
notícias de que Pessoa poderia pedir o seu afastamento da função. O Correio da Manhã1144
apontava a insatisfação do marechal com a pressão exercida por alguns políticos goianos
sobre o presidente Juscelino, para que fosse criada uma autarquia para ultimar os estudos e
tomar as medidas definitivas para a transferência da Capital Federal, como de fato aconteceu,
com a criação da Companhia Urbanizadora da Nova Capital Federal (NOVACAP), em 19 de
setembro de 1956.1145 Silva (1971, p. 92-93), ratifica a informação de que pessoas próximas a
Juscelino começavam a interferir no planejamento da mudança. Aponta, inclusive, uma
1144
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 8 mar. 1956, p. 14.
1145
A NOVACAP foi criada pela Lei nº 2.874, de 19 de setembro de 1956. Ironicamente, esse era o primeiro ato
legal de Juscelino Kubitschek, desde a sua posse, confirmando a transferência da Capital Federal, já que o artigo
1º da lei determinava a mudança.
711
1146
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta V, doc. 0600. Segundo publicações feitas nas
edições dos dias 9 e 12 de junho de 1956, do jornal Diário de Notícias, a entrevista de Juscelino realmente
aconteceu, o que gerou duras críticas por parte da imprensa.
1147
Semanas mais tarde Ernesto Silva assumiria definitivamente as funções de José Pessoa, a convite do
presidente Juscelino Kubitschek.
712
1148
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 16 jun. 1956, Segundo Caderno, p. 7.
1149
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 22 jul. 1956, Primeiro Caderno, p. 3.
713
Imagem 109 – Projeto “Parque da Lagoa” elaborado por José Pessoa, 1949.
1150
A Sociedade Hípica Brasileira havia sido fundada em 1942 e instalou a sua sede na Lagoa. Nasceu da fusão
entre o Centro Hípico Brasileiro, localizado na Praia Vermelha e o Clube Esportivo de Equitação, localizado em
São Cristóvão e do qual José Pessoa era sócio.
1151
O Globo, Rio de Janeiro, 15 abr. 1942, edição Vespertina, p. 3.
714
olímpicas, que seria utilizada pelos clubes náuticos da cidade, os quais construiriam as suas
sedes em torno da lagoa.1152
Na edição do dia 22 de junho de 1945, José Pessoa tornou a abordar a questão das
favelas, sob o pseudônimo de “general X”. Em um longo artigo intitulado “Favelas, bairros
crepusculares da cidade”, em que fez uma descrição detalhada do aspecto degradante e das
mazelas sociais que atingiam as favelas cariocas, as considerou um problema administrativo e
social de uma geração “intoxicada pela megalomania do mando e do egoísmo pessoal” e que
refletia muito bem a maneira com que ainda eram tratados pelo governo os “interesses da
coletividade”. No seu ponto de vista, sem os “requisitos indispensáveis de higiene” e a
“devida fiscalização policial”, as favelas eram “focos permanentes de endemias e autênticas
escolas de latrocínio”. Segundo Pessoa, a todos cabia a tarefa de salvar a população que
morava naquelas aglomerações inabitáveis. E apontou ao governo uma solução para o
problema: a construção de “parques proletários”, semelhantes a “bairros-jardins”, cercados de
pomar, com ruas arborizadas, escolas primárias e profissionalizantes, assistência hospitalar e
maternidade, centros recreativos, transportes e fiscalização policial. A mão de obra a ser
utilizada para a construção desses locais seria a dos próprios moradores das favelas e dos
presos correcionais da cidade.1153
Em 28 de dezembro de 1956, no Clube Militar, José Pessoa foi homenageado em uma
reunião comemorativa do décimo aniversário de formatura da primeira turma de cadetes que
ingressou na Escola Militar de Resende, por ter sido o inspirador daquele estabelecimento de
ensino.1154 Em janeiro de 1959 participaria, ainda, de dois encontros de turmas. O primeiro foi
o de jubileu de ouro da sua turma, de 1909, da Escola de Guerra de Porto Alegre. O segundo
encontro foi o de jubileu de prata da turma de 1934 da Escola Militar do Realengo, a primeira
turma que realizou o curso inteiramente sob o seu comando naquele estabelecimento de
ensino.1155
Provavelmente, a participação nesses dois últimos encontros seriam as duas últimas
aparições em eventos sociais de José Pessoa. No dia 16 de agosto de 1959, faleceu de causas
naturais, a um mês de completar 74 anos de idade. Seu corpo foi velado no Clube Militar, a
casa pela qual tinha tanta admiração, e conduzido por cadetes da Academia Militar das
Agulhas Negras para o cemitério São João Batista, no bairro de Botafogo, onde foi sepultado
1152
O Globo, Rio de Janeiro, 6 set. 1944, edição Vespertina, p. 6.
1153
O Globo, Rio de Janeiro, 22 jun. 1945, edição Vespertina, p. 5.
1154
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 28 dez. 1956, Segundo Caderno, p. 2.
1155
Convites dos encontros das turmas de 1934, da Escola Militar do Realengo e da turma de 1909, da Escola de
Guerra de Porto Alegre. Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1923.12.27.
715
no túmulo 195-A, às 17 horas daquele mesmo dia. O governador de Goiás, José Feliciano
Ferreira, vários ministros de Estado, deputados e senadores, inúmeras autoridades militares e
civis e antigos camaradas do Exército compareceram ao sepultamento para prestar-lhe as
últimas homenagens. O amigo general José Venturelli Sobrinho fez o panegírico de José
Pessoa. Lembrou que havia preparado um acróstico em homenagem à Pessoa, a quem
mostrou, em companhia de Dna. Blanche, em dezembro de 1958. Pessoa pediu à Venturelli
que guardasse a peça literária para ser lida no seu túmulo, um desejo que o amigo cumpria
naquele momento. 1156
Os principais jornais da Capital Federal deram destaque ao falecimento de José
Pessoa. Todos lembraram a sua exitosa carreira e a amizade especial que ele nutria pela
juventude militar, a qual liderou entre 1931 e 1934, no Realengo, e pela qual se empenhou, na
idealização da Academia Militar das Agulhas Negras. Nos meses seguintes ao da sua morte,
várias homenagens lhe foram prestadas. Sua trajetória militar foi lembrada pelos deputados
Meneses Côrtes e Aderbal Jurema e pelo senador paraibano Rui Carneiro, em sessões solenes
da Câmara dos Deputados, em 18 de agosto, e do Senado Federal, em 19 de agosto.1157 Na
sessão do Senado do dia 29 de agosto, Rui Carneiro fez alusão a uma carta do jornalista Paulo
de Oliveira da bancada de imprensa daquela casa legislativa, por meio da qual Oliveira
sugeria a construção de um monumento em homenagem a José Pessoa em Brasília, como
reconhecimento pelos grandes serviços por ele prestados em prol da nova Capital Federal.
Carneiro lembrou que não era da competência do Senado apresentar projeto de abertura de
crédito para a construção de monumentos, mas, afirmou que encaminharia o pedido à bancada
da Paraíba da Câmara dos Deputados.1158 O fato é que o projeto não foi adiante e até hoje, na
história de Brasília, o trabalho profícuo de José Pessoa não é reconhecido.
Na sua coluna de 31 de agosto de O Globo, o jornalista paraibano Luis Pinto lembrou
o admirável soldado e homem público que fora José Pessoa, no seu entender, um dos
“magníficos exemplos de atuação constante nas lamas jovens de boa formação e boa
índole”.1159 Na Academia Militar das Agulhas Negras, em novembro de 1959, o Curso de
Balística instituiu o “prêmio Marechal José Pessoa”, que passou, a partir daquele ano, a ser
concedido aos cadetes do 3º Ano classificados em primeiro e segundo lugares nos exercícios
de tiro do canhão antiaéreo 90 mm. Os primeiros cadetes a recebê-lo foram: Jaime Juraszec e
1156
Informações retiradas do jornal O Globo, Rio de Janeiro, 17 ago. 1959, Edição Matutina, p. 6.
1157
O Globo, Rio de Janeiro, 18 ago. 1959, Edição Matutina, p. 3 e 19 ago. 1959, Edição Matutina, p. 2.
1158
O Globo, Rio de Janeiro, 29 ago. 1959, Edição Matutina, p. 11.
1159
O Globo, Rio de Janeiro, 31 ago. 1959, Edição Matutina, p. 11.
716
Osni Artiga Filho.1160 A cadeira de Balística já não existe mais e, em decorrência disso, o
prêmio deixou de ser concedido. No dia 15 de dezembro, na sua festa de décimo aniversário
de formatura, foi a vez dos oficiais da “turma General José Pessoa”, declarados aspirantes em
1949, homenageá-lo. Na ocasião, com a presença da viúva e dos filhos, um busto de José
Pessoa foi inaugurado na Esplanada General Affonseca, diante do mastro da bandeira
Nacional, para que todo o Corpo de Cadetes pudesse vê-lo, nas formaturas. Uma placa
comemorativa do aniversário da turma foi descerrada por Dna. Blanche Mary. Discursando
em nome da AMAN, o coronel Manuel Cavalcanti Proença ressaltou que, naquela data, José
Pessoa recebia o primeiro penhor da posteridade que havia conquistado, de direito e de
justiça, que iria aumentando ao longo dos anos, tornando a sua memória cada vez mais viva,
até confundir-se com o objeto da sua própria criação.1161
Imagem 110 – Busto de José Pessoa doado AMAN pela turma de 1949, “Turma
General José Pessoa”.
1160
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 21 nov. 1959, Primeiro Caderno, p. 11.
1161
O Globo, Rio de Janeiro, 16 dez. 1959, Edição Matutina, p. 11.
717
12 CONCLUSÃO
transferido para o seu estado natal, participou das ações de combate ao bando do cangaceiro
Antônio Silvino, uma vítima das injustiças sociais e das condições miseráveis do sertão
nordestino, segundo ele, sem, no entanto, desconsiderar os atos de bandoleiragem praticados
por esse personagem da história da Paraíba. Em 1917, desempenhou a função de chefe de
instrução da Escola de Instrução Militar da Faculdade de Direito de São Paulo, a qual
considerou a sua primeira experiência de comando. Na ocasião, acompanhou de perto a
atuação da Liga da Defesa Nacional paulista e da campanha civilista de Olavo Bilac, de quem
se tornou admirador confesso, em prol do serviço militar obrigatório. No ano seguinte, como
membro da Comissão de Estudos de Operações e Aquisição de Material na França, foi um dos
poucos brasileiros que tomou parte dos combates da Primeira Guerra Mundial, ao ser
incorporado voluntariamente no 4º Regimento de Dragões francês. A experiência valeu-lhe
uma promoção por ato de bravura, ao posto de capitão, e uma das mais altas condecorações
do Exército francês, a Cruz de Guerra.
O contato com os carros blindados nos campos de batalha do Flandres belga, uma
novidade da guerra moderna, despertou em Pessoa o interesse pelo emprego dos veículos
motomecanizados, a ponto de ele escrever um livro sobre o tema, o primeiro do gênero
publicado na América do Sul, em 1921. Ainda na França, ao final da Primeira Grande Guerra,
foi encarregado de realizar a análise técnica dos primeiros carros blindados que seriam
adquiridos pelo Exército brasileiro. No retorno ao Brasil, seria encarregado, pelo Ministério
da Guerra, de organizar a primeira unidade militar blindada da Instituição, da qual foi seu
primeiro comandante.
A aversão latente de José Pessoa pela política dentro da caserna manifestou-se com
mais força nas fases em que atingiu os postos de oficial superior e no generalato, apesar de,
ainda como capitão, ter se mostrado totalmente contrário ao movimento tenentista de 1922.
No comando da Escola Militar do Realengo, cargo que assumiu em 1931 e que o colocaria
definitivamente no panteão dos chefes militares cultuados pela oficialidade do Exército,
implementou ampla reforma estrutural e anímica. A criação de símbolos e o resgate do título
de cadete, apagado da história até então pela República, pretendiam, nas suas palavras, a
construção de uma nova aristocracia, não de sangue, mas física e moral. As interferências
políticas no dia a dia da Escola pelo ministro Góes Monteiro, que se tornaria o seu grande
desafeto na Instituição, o levaram a demitir-se do comando, em 1934. No exercício do cargo,
ainda lançou as bases do seu projeto institucional maior: a construção da Escola Militar de
Resende, mais tarde renomeada Academia Militar das Agulhas Negras, cuja construção
acompanhou de longe.
720
A partir de 1937, Pessoa foi levado ao ostracismo institucional, após ter adotado
abertamente uma posição antagônica ao golpe do Estado Novo, que se constituiu, no seu
entender, mais num conluio de políticos e soldados, do que um regime de salvação.
Juntamente com o general Valdomiro Castilho, foi acusado de conspirar contra o Governo,
pelo simples fato de divergir das ideias políticas dos “liberticidas de 37”, como nominava
Vargas, Dutra e Góes Monteiro. Nos últimos anos da carreira, desempenhou, como oficial
general, várias funções afetas à sua posição hierárquica dentro da Força. Porém, nenhuma
delas o aproximou do centro do poder do alto comando do Exército: o Ministério da Guerra e
o Estado-Maior do Exército. Comandou a 9ª Região Militar, no distante Mato Grosso, a
Inspetoria da Arma de Cavalaria e a Zona Militar do Sul, esta a sua última comissão no
serviço militar ativo. Como inspetor de Cavalaria, participou do movimento de generais que
depôs Getúlio Vargas do poder, em 1945. Em 1948 engajou-se na luta pela nacionalização do
petróleo brasileiro e já na reserva, a partir de 1954, no posto de marechal, presidiu a Comissão
de Localização da Nova Capital Federal, sua última “missão” da vida, cujo trabalho profícuo
permitiu a construção de Brasília, no governo de Juscelino Kubitschek. Seguindo a bússola
moral que norteou toda a sua carreira, afastar-se-ia deste cargo devido às interferências
políticas que resultaram na criação da NOVACAP.
Por fim, cabe concluir esta tese ressaltando que, ao defender, durante toda a sua vida
militar, o afastamento da Instituição da política partidária, José Pessoa fez parte, juntamente
com alguns poucos oficiais generais, de um projeto de Exército derrotado no período pós-
Revolução de 1930. No seu entender, somente um Exército nacional com o seu alto comando
renovado e formado por um corpo de oficiais capazes e patriotas, absortos nos seus deveres
profissionais e alheios ao partidarismo político, seria capaz de manter a Nação afastada das
aventuras antidemocráticas pelas quais o País havia passado. À mocidade militar, que tanto
defendeu e da qual trabalhou em prol, competia, segundo ele, a tarefa da renovação pela qual
a Instituição deveria passar, mantendo-se, assim, a honra e o decoro da classe.
Dessa forma, crê-se que esse trabalho de pesquisa tenha contribuído para uma melhor
compreensão do papel do personagem histórico marechal José Pessoa Cavalcanti de
Albuquerque na história do Exército e do País e do contexto das relações de poder
institucionais e políticas no qual estiveram inseridas as suas trajetórias de vida e militar,
principalmente nas décadas de 1930 e 1940.
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LOTT, Henrique Batista Duffles Teixeira. Henrique Teixeira Lott. Entrevista concedida a
Ignez Cordeiro de Farias e Paulo César Farah. Rio de Janeiro, CPDOC FGV, 1978.
3 FONTES PRIMÁRIAS
3.1 Acervos
_______. Boletins Escolares da Escola Militar do Realengo, 1931, 1932, 1933, 1934, 1943.
COLÉGIO PEDRO II. Atas dos Exames do 1º Ano do Internato do Ginásio Nacional, 1901,
1902.
Lei nº 1.143, de 11 de setembro de 1861. Fixa as forças de terra para o ano financeiro de 1862
a 1863.
Decreto nº 330, de 12 de abril de 1890. Promulga o regulamento que reorganiza o ensino nas
escolas do Exército.
Decreto nº 432, de 4 de julho de 1891. Aprova e manda que seja provisoriamente observado o
regulamento para as escolas praticas do Exército.
736
Decreto nº 1.503, de 5 de setembro de 1906. Institui o subsídio de 10:000$ a cada uma das
sociedades que pertencerem à Confederação do Tiro Brasileiro.
Decreto nº 7.054, de 6 de agosto de 1908. Cria cinco brigadas estratégicas e três de Cavalaria
e manda observar o regulamento dos comandos das referidas Brigadas.
Decreto nº 3.216, de 3 de janeiro de 1917. Fixa as forças de terra para o exercício de 1917.
Decreto nº 23.674, de 2 de janeiro de 1934. Dispõe sobre a reversão às fileiras dos capitães e
subalternos e dá outras providências.
3.5 Leis e Decretos do Estado de Goiás (Site da Secretaria da Casa Civil do Estado de
Goiás)
3.8 Periódicos
O Globo, Rio de Janeiro, 1931, 1942, 1944, 1945, 1948, 1959, 2021.
4 ICONOGRAFIA
4.1 Acervos
ACADEMIA MILITAR DAS AGULHAS NEGRAS. Revista da Escola Militar, 1932, 1933,
1934, 1937, 1938, 1939, 1940, 1945.
FGV CPDOC. Acervo José Pessoa, 1914, 1918, 1932, 1934, 1940, 1943, 1945, 1949, 1955,
1958.
ALBUQUERQUE, José Pessoa Cavalcanti de. Os tanks na guerra europeia. Rio de Janeiro:
Albuquerque e Neves, 1921.
BASTOS, Expedito Carlos Estephani. O Brasil na era dos blindados. Renault FT-17 no
Exército brasileiro 1921-1942. Da Cultura, Rio de Janeiro, ano 1, n. 2, jul/dez 2001, p. 40-
46.
CÂMARA, Hiram de Freitas. Marechal José Pessoa. A força de um ideal. Rio de Janeiro:
BIBLIEX, 2011.
_______. Marechal José Pessoa: o ideal alcançado. Revista Da Cultura, Rio de Janeiro, a.
XII, n. 19, jan. 2012, p. 38-49.
FAAP. Visita da família real belga ao Brasil – 1920. São Paulo: FAAP, 2010.
PARREIRA, Luiz Eduardo Silva. Forte Coimbra: seus brasões e estandartes. Anais da 1ª
Jornada Cultural de Forte de Coimbra, jul. 2013, p. 24-30. Disponível em:<
[Link] Acesso em: 23 abr. 2021.
4.3 Periódicos
4.4 Sites