0% acharam este documento útil (0 voto)
11 visualizações747 páginas

Trajetória Militar de José Pessoa

Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
11 visualizações747 páginas

Trajetória Militar de José Pessoa

Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS

ESCOLA DE CIÊNCIAS SOCIAIS – FGV CPDOC


PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA, POLÍTICA E BENS CULTURAIS
DOUTORADO EM HISTÓRIA, POLÍTICA E BENS CULTURAIS

MARECHAL JOSÉ PESSOA CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE – VIDA E


TRAJETÓRIA MILITAR

APRESENTADA POR
RAFAEL ROESLER

Rio de Janeiro, Novembro de 2021


FFUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS
ESCOLA DE CIÊNCIAS SOCIAIS – FGV CPDOC
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA, POLÍTICA E BENS CULTURAIS
DOUTORADO EM HISTÓRIA, POLÍTICA E BENS CULTURAIS

MARECHAL JOSÉ PESSOA CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE – VIDA E


TRAJETÓRIA MILITAR

APRESENTADA POR
RAFAEL ROESLER

PROFESSOR ORIENTADOR ACADÊMICO


PROF. DR. CELSO CORRÊA PINTO DE CASTRO

Rio de Janeiro, Novembro de 2021


FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS
ESCOLA DE CIÊNCIAS SOCIAIS – FGV CPDOC
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA, POLÍTICA E BENS CULTURAIS
DOUTORADO EM HISTÓRIA, POLÍTICA E BENS CULTURAIS

PROFESSOR ORIENTADOR ACADÊMICO


PROF. DR. CELSO CORRÊA PINTO DE CASTRO

RAFAEL ROESLER

MARECHAL JOSÉ PESSOA CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE – VIDA E


TRAJETÓRIA MILITAR

Tese de Doutorado apresentada à Escola de Ciências Sociais FGV CPDOC como requisito
parcial para a obtenção do grau de Doutor em História, Política e Bens Culturais.

Rio de Janeiro, Novembro de 2021


Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Ficha catalográfica elaborada pelo Sistema de Bibliotecas/FGV

Roesler, Rafael
Marechal José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque: vida e trajetória militar /
Rafael Roesler. – 2021.
745 f.

Tese (doutorado) – Escola de Ciências Sociais da Fundação Getúlio


Vargas, Programa de Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais.
Orientador: Ceso Corrêa Pinto de Castro
Inclui bibliografia.

1. Pessoa, José, 1885-1959. 2. Militares – Brasil – Biografia. 3. Brasil.


Exército – História. I. Castro, Celso, 1963-. II. Escola de Ciências Sociais da
Fundação Getúlio Vargas. Programa de Pós-Graduação em História, Política
e Bens Culturais. III.Título.

CDD – 923.581

Elaborada por Márcia Nunes Bacha – CRB-7/4403


FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS
DOUTORADO EM HISTÓRIA, POLÍTICA E BENS CULTURAIS
CENTRO DE PESQUISA E DOCUMENTAÇÃO DE HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA DO BRASIL

RAFAEL ROESLER

“MARECHAL JOSÉ PESSOA CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE - VIDA E TRAJETÓRIA MILITAR’’.

TESE APRESENTADO(A) AO CURSO DE DOUTORADO EM HISTÓRIA, POLÍTICA E BENS CULTURAIS PARA OBTENÇÃO DO GRAU DE
DOUTOR(A) EM HISTÓRIA, POLÍTICA E BENS CULTURAIS.

DATA DA DEFESA: 25/11/21

ASSINATURA DOS MEMBROS DA BANCA EXAMINADORA

PRESIDENTE DA COMISSÃO EXAMINADORA: PROFº/ª CELSO CORRÊA PINTO DE CASTRO

PROFº/ª CELSO CORRÊA PINTO DE CASTRO


ORIENTADOR(A)

PROFº/ª AMÉRICO OSCAR GUICHARD FREIRE


MEMBRO INTERNO

PROFº/ª ALEXANDRE AVELAR PROFº/ª FERNANDO DA SILVA RODRIGUES


MEMBRO EXTERNO MEMBRO EXTERNO

PROFº/ª ADRIANA MARQUES


MEMBRO EXTERNO

RIO DE JANEIRO, 25 DE NOVEMBRO DE 2021.

PROFº/ª CELSO CORRÊA PINTO DE CASTRO PROFº ANTONIO DE ARAUJO FREITAS JUNIOR
DIRETOR(A) PRÓ-REITOR DE ENSINO, PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO
À Deus, Senhor de todos os exércitos.
AGRADECIMENTOS

Aprendizado, descobertas, decepções, alegrias, paciência, perseverança, conquista!


Estas são apenas algumas palavras que materializam a complexa tarefa que foi escrever essa
tese de doutorado. E se já não bastasse as dificuldades normais inerentes à pesquisa, o mundo
nos apresentou uma pandemia! Sim! Que fique registrado para a posteridade que esta tese foi
concluída em meio à uma pandemia de COVID-19. E, assim, ao mesmo tempo em que, em
um ato doloroso, mas necessário, me afastei dos amigos, do trabalho e das fontes de pesquisa,
me aproximei ainda mais das pessoas que amo. Por isso, sinto-me imensamente grato às
pessoas e instituições que contribuíram sobremaneira para a conclusão deste trabalho.
O primeiro agradecimento destina-se ao professor Celso Castro, meu orientador! Nos
encontramos pela primeira vez no dia 13 de março de 2013, quando fui lhe pedir que me
orientasse no curso de mestrado do PPHPBC. Desde então, tenho tido a grata oportunidade de
conviver com essa pessoa amiga e zelosa, que se mostrou disponível desde o primeiro
contato. Seu conhecimento, criticidade, apontamentos e compreensão, tanto com os
problemas acadêmicos como os pessoais, foram fundamentais para o êxito na pesquisa e para
a conclusão deste trabalho.
Agradeço à direção, à coordenação e aos corpos docente e administrativo do CPDOC e
do PPHPBC, pelo apoio e compreensão, quando foi preciso. Após oito anos de convivência,
deixarei de percorrer os corredores e as salas de aula do CPDOC. Sentirei saudades!
À professora Adriana Marques e ao professor Américo Freire, minha gratidão pelos
preciosos comentários e indicações teórico-metodológicas feitas na banca de qualificação.
Com satisfação e alegria, revejo-os na defesa da tese, juntamente com os professores
Alexandre Avelar e Fernando Rodrigues, aos quais eu agradeço a pronta aceitação do convite
para a participação da banca de defesa.
Não há como esquecer a importância das instituições que abriram as suas portas e
acervos à esta pesquisa: CPDOC, Arquivo Histórico do Exército, Academia Militar das
Agulhas Negras, Clube Militar, Biblioteca do Exército, Casa de Cultura Macedo Miranda,
Arquivo Nacional e Arquivo Público do Distrito Federal. O profissionalismo e a fidalguia das
pessoas que trabalham nessas instituições permanecerão em minha lembrança!
Agradeço aos sucessivos comandantes e chefes da Divisão de Ensino da AMAN, no
período de 2015 a 2021, por terem possibilitado a realização deste curso de doutorado. Aos
colegas da Seção de Pesquisa Acadêmica e Extensão da AMAN, a qual eu tive a honra de
chefiar, minha gratidão pelo apoio e pela compreensão nos momentos de ausência.
Ao amigo Carlos, pela excelente assistência realizada nas consultas dos acervos do
Arquivo do Exército e do CPDOC. Não tenho receio em afirmar que sem a sua profícua
colaboração este trabalho não se concretizaria.
À minha família, meu esteio nas tempestades e minha sombra nas calmarias! Se há
algo de bom que essa pandemia trouxe, foi ter nos aproximado ainda mais! À Cíntia, minha
esposa, minha companheira incansável e meu porto seguro. Obrigado pela sua amizade,
apoio, paciência e amor incondicional! À Beatriz, Clarisse e José, minhas maiores conquistas.
Nada é mais importante do que vocês! À minha mãe, Eva, pelo exemplo de vida e de caráter.
Pela perseverança e luta! Agradeço à Deus pela oportunidade de poder ser marido, pai e filho
de vocês!
Por fim, mas, não menos importante, agradeço à DEUS, Senhor de todos os exércitos,
que tem me permitido, dia após dia, combater o bom combate e conquistar mais esta vitória!
“Eu creio na vossa inteligência e na cultura
que estais adquirindo nesta Academia; creio
na vossa dedicação, na vossa fé nos destinos
do Brasil; creio no vosso são patriotismo, que
há de renovar o Exército e levá-lo à posição
de mantenedor da paz no nosso Continente;
creio na rija tempera da vossa juventude, que
há de levar por diante, num clima de
honestidade profissional, de pureza de
caráter, de trabalho fecundo e de coragem
cívica; creio na vitória de vossas armas e de
vossos ideais; creio no vosso destino glorioso,
creio no novo Exército, creio na grandeza e na
pujança da nossa Pátria.”
Marechal José Pessoa
RESUMO

A presente tese tem por objetivo apresentar um trabalho biográfico do marechal José Pessoa,
uma das principais lideranças militares das décadas de 1930 e 1940. Nascido no seio de
famílias oligárquicas de forte influência política na vida da República, José Pessoa dizia-se
contrário ao envolvimento dos militares na política. No seu ponto de vista, a maneira dos
militares fazerem política era a gênese de muitas infelicidades para a Nação, embora tenha
sido parte ativa do movimento revolucionário de 1930, que depôs o presidente Washington
Luís. Encontra-se no panteão das personalidades cultuadas no Exército Brasileiro, por ter
possuído virtudes e portado valores que o tornaram um dos modelos ideais de soldado e de
chefe militar a serem seguidos pelos integrantes da Instituição. Pessoa combateu na Primeira
Guerra Mundial, comandou o Corpo de Bombeiros do Distrito Federal e a Escola Militar do
Realengo, presidiu o Clube Militar, participou da fundação do Centro de Estudos e Defesa do
Petróleo e chefiou a Comissão de Localização da Nova Capital Federal. Em 1937, posicionou-
se veementemente contra o golpe do Estado Novo. O confronto de ideias com os generais
Góes Monteiro e Eurico Gaspar Dutra acabou o afastando do centro do poder militar e o levou
ao ostracismo no final da carreira. Diante disso, o foco da pesquisa se concentrou não só no
resgate da sua trajetória militar, mas também das suas origens familiares e da forma como se
posicionou diante dos cenários político, econômico e social do Exército e da Nação. Como
instrumentos metodológicos foram utilizadas as indicações metodológicas e teóricas de Vavy
Pacheco Borges e Gilberto Velho, ao selecionar-se aquilo que parecia significativo na vida do
personagem e analisar-se o contexto em que foi construída sua trajetória profissional. Uma
pesquisa realizada nos acervos documentais do Centro de Pesquisa e Documentação de
História Contemporânea do Brasil, da Fundação Getúlio Vargas, possibilitou o acesso às
fontes. Conclui-se que, ao defender, durante toda a sua vida militar, o afastamento dos
militares da política partidária, José Pessoa fez parte, juntamente com alguns poucos oficiais
generais, de um projeto de Exército derrotado no período pós-Revolução de 1930.

Palavras-chave: Biografia; Marechal José Pessoa; Exército.


ABSTRACT

This objective of this thesis is to present a biography of Marshal José Pessoa, one of the main
military leaders of the 1930s and 1940s. José Pessoa, who was born into oligarchic families
with strong political influence in the country, was against the involvement of the military
personnel in politics. In his opinion, the military way of doing politics was the genesis of
great misery for the Nation, despite his participation in the revolutionary movement of 1930,
which deposed the President Washington Luís. Due to his virtues and values, which made him
one of the perfect models of soldier and military leader to be followed by members of the
Institution, he is part of the pantheon of personalities who are revered within the Brazilian
Army. Pessoa fought in the First World War, commanded the Fire Department of the Federal
District and the Realengo Military School, chaired the Military Club, participated in the
founding of the Center for Studies and Defense of Petroleum and was the leader of the
Commission responsible to find a new location for the New Federal Capital. In 1937, he took
a strong stand against the Estado Novo coup. For the clash of ideas with General Góes
Monteiro and General Eurico Gaspar Dutra, he was withdrawn from the center of the military
power and led to ostracism at the end of his career. Having said that, the focus of the research
was not only on rescuing his military trajectory, but also on his family origins and the way he
stood before political, economic and social scenarios of the Army and of the Nation. The
methodological and theoretical indications of Vavy Pacheco Borges and Gilberto Velho were
used as methodological tools for the selection of what seemed to be significant in Pessoa’s
life and for the analysis of the context in which his professional trajectory was built. A
research that was carried out in the documentary collections of the Research and
Documentation Center of Contemporary History of Brazil, at the Getúlio Vargas Foundation,
allowed the access to the sources. We conclude that, by defending the withdrawal of the
military personnel from political parties throughout his military life, José Pessoa and a few
other generals were part of a defeated Army project in the post-Revolution period of 1930.

Keywords: Biography; Marshal José Pessoa; Army.


LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Imagem 1 – Casa em que nasceu José Pessoa, Cabaceiras-PB. 61


Imagem 2 – Maria da Silva Pessoa e Cândido Clementino Cavalcanti de
Albuquerque, mãe e pai de José Pessoa. 64
Imagem 3 – Casa Amarelinha, em Umbuzeiro-PB, no final do Século XIX e
em 2020. 73
Imagem 4 – Escola Preparatória e de Tática do Realengo no início do Século
XX. 93
Imagem 5 – Escola de Guerra de Porto Alegre, 1910. 102
Imagem 6 – Projeto da Vila Militar de Deodoro, 1901. 113
Imagem 7 – Olavo Bilac cercado pelos alunos da Faculdade de Direito de São
Paulo, 9 out. 1915. 129
Imagem 8 – Entrega da bandeira nacional à companhia de caçadores da
Faculdade de Direito pela Srta. Maria Guedes Penteado e por Assad Bechara,
21 ago. 1917. 141
Imagem 9 – Desfile do batalhão acadêmico na Avenida Paulista, após a entrega
da Bandeira Nacional 21 ago. 1917. 142
Imagem 10 – Companhia de Guerra da Faculdade de Direito de São Paulo
posando no Alto de S’Antana, por ocasião da sua última marcha militar, ago.
1917. 143
Imagem 11 – Inauguração da sala de armas da Faculdade de Direito de São
Paulo, 15 nov. 1917 144
Imagem 12 – Integrantes da Missão Aché na França, 1918. 162
Imagem 13 – José Pessoa no posto de Tenente, envergando o uniforme do 4º
Regimento de Dragões durante a Primeira Guerra Mundial (sem data definida). 170
Imagem 14 – Foto de José Pessoa com dedicatória a Blanche Mary e usando a
Cruz de Guerra no peito, 1918. 174
Imagem 15 – Blanche Mary Edward, 1918. 176
Imagem 16 – José Pessoa, Blanche Mary e filhos. 177
Imagem 17 – Carro Renault FT-17. 187
Imagem 18 – Folha de rosto de Os Tanks na Guerra Europeia, 1921. 189
Imagem 19 – Carro de combate em 1558. 190
Imagem 20 – Tanques anglo-americano Liberty e alemão Schunk. 190
Imagem 21 – Tanque britânico Marca V. 191
Imagem 22 – Tanque inglês Whippet. 193
Imagem 23 – José Pessoa em frente a um reboque carregado com um Renault
FT-17, 1920. 194
Imagem 24 – Encouraçado São Paulo no Rio de Janeiro, 1920. 214
Imagem 25 – Chegada dos reis belgas à estação de Zeebruge, por ocasião do
embarque para o Brasil, 1 set. 1920. 222
Imagem 26 – Embarque do rei Alberto I e comitiva no encouraçado São Paulo
em Zeebruge, 1 set. 1920. 223
Imagem 27 – Rei Alberto I e Rainha Elisabeth, 1920 225
Imagem 28 – Os reis belgas a bordo do São Paulo, 1920 226
Imagem 29 – Praça Mauá na chegada dos reis belgas ao Rio de janeiro, 19 set.
1920. 228
Imagem 30 – Desembarque do rei Alberto I na Praça Mauá, 19 set. 1920. 229
Imagem 31 – Rei Alberto I e presidente Epitácio Pessoa desfilam em carro
aberto na Avenida Rio Branco, escoltados pela Escola Militar, 19 set. 1920. 231
Imagem 32 – Os reis belgas entre alunas do Colégio Santa Maria, durante a
visita a Belo Horizonte, 3 out. 1920. 234
Imagem 33 – Rei Alberto e príncipe Leopoldo plantando uma muda de
mangueira na fazenda Guatapará, em Guatapará-SP, 9 out. 1920. 236
Imagem 34 – Reis belgas a bordo do encouraçado São Paulo, no dia do retorno
à Bélgica, 16 out. 1920. 238
Imagem 35 – José Pessoa e príncipe Leopoldo durante a viagem de regresso à
Bélgica, out. 1920. 239
Imagem 36 – José Pessoa entre os irmãos e amigos logo após o retorno da
Primeira Guerra Mundial, s.d. 242
Imagem 37 – Uniforme e brasão da Companhia de Carros de Assalto, 1921. 248
Imagem 38 – Companhia de Carros de Assalto, 1921. 249
Imagem 39 – Exercício militar da Companhia de Carros de Assalto na Vila
Militar, 3 nov. 1921. 251
Imagem 40 – Monumento aos heróis da batalha do Passo do Rosário. 260
Imagem 41 – Funeral de João Pessoa na Paraíba, 1930. 273
Imagem 42 – Aristarcho Pessoa durante a Revolução de 1930 em Minas
Gerais, out. 1930 280
Imagem 43 – Tropa do 3º RI em meio a populares na Rua Farani, em Botafogo,
24 out. 1930. 287
Imagem 44 – General Tasso Fragoso nos jardins do Palácio Guanabara, 24 out.
1930. 288
Imagem 45 – Vista interna do Quartel Centra do Corpo de Bombeiros do
Distrito Federal, década de 1910. 297
Imagem 46 – Vista aérea do Quartel Centra do Corpo de Bombeiros da Capital
Federal, 1938. 299
Imagem 47 – Força do Corpo de Bombeiros na Rua Visconde de Rio Branco,
301
próximo à Praça da República, 27 out. 1930.
Imagem 48 – Quartel-general do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, 2020. 303
Imagem 49 – Oswaldo Aranha e o general Tasso Fragoso conversam no
Palácio do Catete, 28 out. 1930. 306
Imagem 50 – Getúlio Vargas entre membros da Junta Governativa, 31 out.
1930. 306
Imagem 51 – Góes Monteiro e seu Estado-Maior revolucionário no Rio Grande
do Sul, out. 1930. 325
Imagem 52 – Alunos da Escola Militar do Realengo fazendo a guarda do
Palácio do Catete durante a Revolução de 1930, out. 1930. 331
Imagem 53 – Flagrante de José Pessoa dentre oficiais do Exército no dia da
assunção do comando da Escola Militar, 15 jan. 1930. 332
Imagem 54 – José Pessoa no ano em que assumiu o comando da Escola Militar
do Realengo, 1931. 335
Imagem 55 – Fachada da Escola Militar do Realengo antes da reforma de José
Pessoa, 1929. 337
Imagem 56 – Sala de aula Benjamin Constant, após a reforma da Escola
Militar, 1937. 342
Imagem 57 – Biblioteca da Escola Militar, após a reforma feita por José
Pessoa, 1937. 343
Imagem 58 – Fachada da Escola Militar após a reforma de José Pessoa.
Formatura de Aspirantes, 1932. 344
Imagem 59 – Refeitório dos cadetes, após a reforma feita por José Pessoa,
1937. 345
Imagem 60 – Estádio construído na Escola Militar do Realengo durante o
comando de José Pessoa, [193-]. 349
Imagem 61 – Vista aérea da Escola Militar do Realengo, 1934. 350
Imagem 62 – Uniforme de gala criado por José Pessoa em 1931. 364
Imagem 63 – Formatura com os cadetes usando o uniforme branco, 1932. 367
Imagem 64 – Brasão d’Armas da Escola Militar criado por José Pessoa, 1931. 368
Imagem 65 – Modificações implementadas no Brasão d’Armas da Escola
Militar ao longo dos tempos. 371
Imagem 66 – Espadim do “Cadete de Caxias”. 373
Imagem 67 – Primeira solenidade de entrega de espadins na Escola Militar do
Realengo, 15 dez. 1932. 374
Imagem 68 –José Pessoa faz a entrega do espadim ao cadete porta estandarte
da Escola Militar, 15 dez. 1932. 374
Imagem 69 – Entrega de espadins realizada no Largo do Machado, 16 dez.
1932. 375
Imagem 70 – Formatura de criação do Corpo de Cadetes. Getúlio Vargas entre
José Pessoa e o ministro da Guerra Leite de Castro, ago. 1931. 380
Imagem 71 – Estandarte do Corpo de Cadetes criado por José Pessoa em 1931. 381
Imagem 72 – Foto original de Getúlio Vargas fazendo a entrega do estandarte
do Corpo de Alunos e a pintura a óleo de Richa Ferreira, 1931. 3882
Imagem 73 – Fachada da Escola Militar enfeitada com as bandeiras da
Argentina e do Brasil para a visita de general Justo, 11 out. 1933. 397
Imagem 74 – Quadro de Osório ofertado por José Pessoa aos cadetes
argentinos, por ocasião da visita do general Justo, 11 out. 1933. 399
Imagem 75 – José Pessoa acompanha o embarque dos cadetes para a manobra
de 1933, 21 out. 1933. 402
Imagem 76 – Flagrantes do embarque dos cadetes e dos materiais de campanha
para a manobra de 1933, 21 out. 1933. 402
Imagem 77 – Cadetes durante a manobra de 1933, em Resende, out. 1933. 404
Imagem 78 – Capa da Revista da Escola Militar de 1933. 407
Imagem 79 – José Pessoa e o general Almério de Moura, que o substituiu, na
passagem de comando da Escola Militar, em 2 de maio de 1934. 439
Imagem 80 – Aspecto da cidade de Resende na década de 1930 (Av. Albino de
Almeida). 450
Imagem 81 – Maquete do conjunto principal da nova Escola Militar, 1931. 461
Imagem 82 – José Pessoa reunido com repórteres e autoridades na Fazenda do
Castelo, em Resende, durante a manobra de 1933, 28 out. 1933. 465
Imagem 83 – Vista atual dos locais em que foi construída a Escola Militar de
Resende, hoje Academia Militar das Agulhas Negras, e o local pretendido por
José Pessoa, onde ainda se encontra a sede da Fazenda do Castelo. 473
Imagem 84 – Cerimônia de lançamento da pedra fundamental da Escola Militar
de Resende, 29 jun. 1938. 478
Imagem 85 – Getúlio Vargas lacrando a urna de metal no lançamento da pedra
fundamental da nova Escola Militar em Resende, 29 jun. 1938 480
Imagem 86 – Desfile dos cadetes no Centro de Resende e a homenagem a José
Pessoa, 29 jun. 1938. 481
Imagem 87 – Planta de situação da nova Escola Militar publicada no Jornal do
Brasil, 24 ago. 1941. 483
Imagem 88 – Maquete do Panteão à Caxias, 1931. 484
Imagem 89 – Henrique Lage recebendo a Ordem do Mérito Militar, 1938. 486
Imagem 90 – Coronel Mário Travassos recebendo José Pessoa em sua última
visita à Escola Militar do Realengo, 30 set. 1943. 493
Imagem 91 – Cadetes precursores da Escola Militar de Resende, mar. 1944. 495
Imagem 92 – Chegada dos cadetes do 1º Ano na estação ferroviária de
Resende, 11 mar. 1944. 496
Imagem 93 – General Luiz Affonseca fazendo a abertura do portão da Escola
Militar de Resende para a entrega das chaves, 11 mar. 1944. 497
Imagem 94 – Entrada dos cadetes do 1º Ano pelo “portão dos novos cadetes”
da Escola Militar de Resende, 20 mar. 1944. 498
Imagem 95 – Busto de Caxias doado à Escola Militar de Resende por José
Pessoa em 1944. 500
Imagem 96 – Conjunto principal e entrada da Escola Militar de Resende vista
da sala do Comandante, 1944. 501
Imagem 97 – A moradora mais idosa de Resende ofertando um estandarte do
Corpo de Cadetes em nome das senhoras de Resende, por ocasião da entrega
dos espadins em novembro de 1944. 502
Imagem 98 – Forte Coimbra na década de 1930 e hoje em dia. 524
Imagem 99 – José Pessoa e Getúlio Vargas durante uma inspeção à Cavalaria
do Mato Grosso, set. 1941. 612
Imagem 100 – Planta arquitetônica da Escola de Cavalaria em Pirassuninga-SP,
1939. 615
Imagem 101 – José Pessoa e comitiva brasileira na missão do Paraguai. Ao seu
lado está o embaixador Negrão de Lima, ago. 1943. 617
Imagem 102 – General Zenóbio da Costa discursa em solenidade de
homenagem à FEB no Clube Militar, abr., 1945. 636
Imagem 103 – Formatura de despedida de José Pessoa da AMAN, por ocasião
da sua passagem para a reserva, 12 set. 1949. 669
Imagem 104 – José Pessoa em sua despedida do serviço ativo na AMAN, 12
set. 1949. 670
Imagem 105 – José Pessoa e Blanche Mary no baile de formatura da turma de
1949 da Escola Militar de Resende, 15 dez. 1949. 673
Imagem 106 – José Pessoa durante os trabalhos da CLNCF (entre 1955 e
1956). 690
Imagem 107 – José Pessoa e membros da Comissão de Localização em visita
ao Planalto Central, fev. 1955. 693
Imagem 108 – Comparação dos projetos Vera Cruz e Brasília. 710
Imagem 109 – Projeto “Parque da Lagoa” elaborado por José Pessoa, 1949. 713
Imagem 110 – Busto de José Pessoa doado AMAN pela turma de 1949,
“Turma General José Pessoa”. 716
Gráfico 1 – Genealogia de José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque (ramo
ascendente) 71
Gráfico 2 – Enquadramento do Esquadrão a que pertenceu José Pessoa no
Exército Francês, 1918. 167
Gráfico 3 – Genealogia de José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque (ramo
descendente). 179
Gráfico 4 – Proposta de José Pessoa para um sistema de ligação entre unidades
de tanques, 1921. 195
Gráfico 5 – Proposta de José Pessoa para a defesa da foz do Rio Amazonas,
1937. 527

Mapa 1 – Regiões de origem, em Pernambuco, e de destino, na Paraíba da


família Pessoa, no começo do Século XX. 63
Mapa 2 – Área de atuação da 2º Corpo de Cavalaria, ao qual estava
subordinado o 4º Regimento de Dragões, 1918. 173
Mapa 3 – Mapa preparado pela Comissão de inspeção do Forte Coimbra,
contendo a localização de Corumbá-MT e do Forte, 1934. 523
Mapa 4 – Localização da cidade de Óbidos-PA, 2021. 528
Mapa 5 – Área escolhida pela Comissão Polli Coelho para a nova Capital
Federal. Ao centro, pontilhado, o Retângulo Cruls, 1948. 683
Mapa 6 – Carta geográfica de Goiás com os sítios escolhidos pela empresa
Belcher e o Retângulo Cruls demarcados, 1955. 693
Mapa 7 – Mapa do Brasil incluindo a nova Capital Federal, com as respectivas
distâncias para as capitais dos estados, elaborado pela Subcomissão de
Comunicações, 1955. 703

Quadro 1 – Movimentações de José Pessoa Como Oficial Subalterno, 1909 a


1918. 116
Quadro 2 – Comissão de Estudos de Operações e Aquisições de Material na
França. 162
Quadro 3 – Ministério nomeado no Governo Provisório de Getúlio Vargas –
1930. 307
Quadro 4 – Receitas da Escola Militar do Realengo - 1930 e 1931. 345
LISTA DE ABREVIATURAS

AMAN – Academia Militar das Agulhas Negras

ANL – Aliança Nacional Libertadora

Antimil – Comitê Antimilitar do Partido Comunista Brasileiro

BC – Batalhão de Caçadores

BG – Batalhão de Guardas

BIAC – Bateria Independente de Artilharia de Costa

BM – Biblioteca Militar

BPM – Batalhão de Polícia Militar

CB – Corpo de Bombeiros

CC – Corpo de Cadetes

CCA – Companhia de Carros de Assalto

CCav – Corpo de Cavalaria

CEDP – Centro de Estudos e Defesa do Petróleo

CEDPEN – Centro de Estudos e Defesa do Petróleo e de Economia Nacional

CIAC – Centro de Instrução de Artilharia de Costa

CIC – Conselho de Imigração e Colonização

CLNCF – Comissão de Localização da Nova Capital Federal

CMPA – Colégio Militar de Porto Alegre

CNP – Comissão Nacional do Petróleo

CPCMCF – Comissão de Planejamento da Construção e da Mudança da Capital Federal

CTB – Confederação do Tiro Brasileiro

DAC – Distrito de Artilharia de Costa

DC – Divisão de Cavalaria

DCP – Divisão de Cavalaria a Pé

DGCE – Diretoria Geral de Contabilidade do Exército


DMB – Diretoria de Material Bélico

DNOCS – Departamento Nacional de Obras Contra a Seca

DPE – Departamento do Pessoal do Exército

ECEME – Escola de Comando e Estado-Maior

EIM – Escolas de Instrução Militar

EM – Estado-Maior

EME – Estado-Maior do Exército

EMR – Escola Militar do Realengo

EMRes – Escola Militar de Resende

EAO – Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais

Esq – Esquadrão

EUA – Estados Unidos da América

FEB – Força Expedicionária Brasileira

GIAC – Grupo Independente de Artilharia de Costa

GO – Grupo de Obuses

IHGB – Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro

JC – Juventude Comunista

LDN – Liga da Defesa Nacional

LN – Liga Nacionalista

MES – Ministério da Educação e Saúde

MIAC – Missão de Instrução de Artilharia de Costa

MMF – Missão Militar Francesa

NOVACAP – Companhia Urbanizadora da Nova Capital Federal

OHL – Organização Henrique Lage

PC – Posto de Comando

PCB – Partido Comunista Brasileiro

PM – Polícia Militar
PRP – Partido Republicano Progressista

PSD – Partido Social Democrático

PTB – Partido Trabalhista Brasileiro

RAA – Regimento de Artilharia de Assalto

RCD – Regimento de Cavalaria Divisionário

RCI – Regimento de Cavalaria Independente

RD – Regimento de Dragões

RDE – Regulamento Disciplinar do Exército

REM – Revista da Escola Militar

RI – Regimento de Infantaria

RISG – Regulamento Interno e dos Serviços Gerais

RM – Região Militar

SAM – Sociedade Acadêmica Militar

SPTB – Sociedade de Propaganda do Tiro Brasileiro

STM – Superior Tribunal Militar

UDN – União Democrática Nacional

UNE – União Nacional dos Estudantes

ZMS – Zona Militar do Sul


SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO...................................................................................................... 21

2 O GÊNERO BIOGRÁFICO................................................................................. 31

2.1 História e biografia.............................................................................................. 35

2.2 Contar uma vida – questões metodológicas ..................................................... 44

2.2.1 A narrativa biográfica....................................................................................... 45

2.2.2 O indivíduo e o contexto.................................................................................... 49

2.2.3 O “eu” e o “outro”............................................................................................ 53

2.2.4 A ética do historiador-biógrafo......................................................................... 56

3 DAS RELAÇÕES PARENTAIS AOS ESTUDOS INCIAIS E A


FORMAÇÃO MILITAR.......................................................................................... 58

3.1 Oligarquias e relações de parentela na Paraíba............................................... 58

3.2 As origens oligárquicas de José – os Pessoa, os Cavalcanti, os


Albuquerque.............................................................................................................. 61

3.3 A primeira infância, os primeiros estudos e o ingresso na Escola Militar..... 72

3.4 O início da formação militar na Escola Preparatória e de Tática de


Realengo..................................................................................................................... 83

3.5 Mudança de rumo e a matrícula da Escola de Guerra de Porto Alegre........ 94

4 OS ANOS INICIAIS DA CARREIRA MILITAR: DA TROPA AOS


CAMPOS DE BATALHA DA BÉLGICA.............................................................. 105

4.1 As reformas do Exército nos anos iniciais da República................................. 105

4.2 A experiência como oficial subalterno............................................................... 113

4.2.1 Instruindo a juventude nacional....................................................................... 117

4.2.2 Os intelectuais debatem a Primeira Guerra Mundial e o primeiro comando


isolado......................................................................................................................... 123

4.3 Nos campos de batalha da Bélgica..................................................................... 146

4.3.1 Do Rio de Janeiro à França – a viagem para a Europa.................................. 163

4.3.2 Nos campos de batalha belgas.......................................................................... 165


4.3.3 Após o front....................................................................................................... 174

5 AS ORIGENS DOS BLINDADOS NO BRASIL E A VISITA DOS REIS


BELGAS.................................................................................................................... 180

5.1 As origens da arma blindada do Exército brasileiro – a aquisição dos


primeiros carros de assalto....................................................................................... 180

5.2 A visita os reis belgas ao Brasil.......................................................................... 203

5.3 O retorno à terra natal e o comando da Companhia de Carros de Assalto... 241

5.4 Os comandos de regimentos – no Dragões da Independência e na fronteira


gaúcha......................................................................................................................... 259

5.4.1 No 1º Regimento de Cavalaria Divisionária – o Dragões da


Independência............................................................................................................ 259

5.4.2 O comando do 3º Regimento de Cavalaria Independente............................... 265

6 A REVOLUÇÃO DE 1930.................................................................................... 272

6.1 O “movimento nacionalista” de 1930................................................................ 276

6.1.1 O 24 de outubro................................................................................................. 281

6.1.2 A rápida passagem pelo comando do Corpo de Bombeiros da Capital


Federal........................................................................................................................ 296

6.2 Getúlio Vargas no poder: a intervenção no estado da Paraíba e o


desprestígio da família Pessoa.................................................................................. 304

6.3 O Exército pós-revolução e a ascensão de Góes Monteiro.............................. 318

7 NO COMANDO DA ESCOLA MILITAR.......................................................... 329

7.1 As primeiras impressões da Escola e a reforma estrutural............................. 335

7.2 A reforma anímica.............................................................................................. 354

7.3 Ensino, cultura e ideologia na Escola Militar................................................... 383

7.4 A demissão do comando da Escola Militar do Realengo................................. 417

8 A NOVA ESCOLA QUE IREMOS CONSTRUIR............................................. 446

8.1 Acompanhando a construção da nova Escola de longe................................... 469

8.2 A polêmica em torno do nome: Escola Militar de Resende ou Academia


Militar das Agulhas Negras?.................................................................................... 502

9 DO COMANDO DA ARTILHARIA DE COSTA AO ESTADO NOVO......... 511


9.1 O comando da Artilharia de Costa.................................................................... 511

9.2 A questão dos soldos, o levante comunista de 1935 e o Estado Novo............. 537

10 O OSTRACISMO: NO DISTANTE MATO GROSSO E A INSPETORIA


DE CAVALARIA...................................................................................................... 587

10.1 No distante Mato Grosso: o comando da 9ª Região Militar.......................... 588

10.2 A Inspetoria de Cavalaria: o retorno às origens............................................ 602

10. 3 As “missões especiais” e a queda de Getúlio Vargas..................................... 617

11 O “FIM DA CAMINHADA”: A ADITÂNCIA MILITAR EM LONDRES,


O COMANDO DA ZONA MILITAR DO SUL, A NACIONALIZAÇÃO DO
PETRÓLEO E A PASSAGEM PARA A RESERVA............................................ 643

11.1 O comando da Zona Militar do Sul e a nacionalização do Petróleo............. 646

11.2 A passagem para a reserva do serviço ativo................................................... 667

11.3 A política no Clube Militar e a última missão da vida: a Comissão de


Localização da Nova Capital Federal...................................................................... 672

12 CONCLUSÃO...................................................................................................... 717

REFERÊNCIAS........................................................................................................ 721
21

1 INTRODUÇÃO

Após ter sido relegado a segundo plano, por ter sido, durante décadas, considerado um
gênero menor, o biográfico ressurgiu com força no fim dos anos 1970. Como lembra Levillain
(2003, p. 141), foi nessa época que as biografias floresceram na França. Antes, porém, a
escrita de biografias já havia sido reabilitada nas universidades francesas, nos últimos anos da
década de 1960, acompanhado, ao que parece, a retomada dos estudos da história política no
meio acadêmico.
Como destaca François Dosse (2015) em O Desafio Biográfico, a biografia tem
despontado como um setor privilegiado de experiências que suscitam a paixão tanto de
escritores como de historiadores e pesquisadores em ciências humanas, o que tem causado um
aumento das publicações que se propõem a narrar histórias de vidas. A realidade apresentada
por Dosse não é um privilégio dos mercados franceses1 ou anglo-saxões, onde, aliás, as
narrativas biográficas nunca despareceram como gênero literário, mesmo depois do advento
dos Annales, apontado pela historiografia como o grande responsável pelo ocaso do gênero
biográfico. O mercado editorial brasileiro, mesmo, tem apresentado números expressivos nos
últimos anos, no tocante às publicações que envolvem contar a vida de um indivíduo.2
Entretanto, como destaca Dosse (2015, p. 5), o crescimento sistemático das
publicações biográficas se deve, principalmente, aos empreendimentos de inúmeros
romancistas, o que acaba aproximando mais as narrativas de vida do gênero literário do que
da pesquisa histórica. A verdade é que a biografia nunca teve fronteiras muito bem definidas.
Como aponta Revel (2010, p. 35), pode-se considerar que a continuidade de seu sucesso
editorial se deve à sua capacidade de romper os limites canônicos estabelecidos e de ocupar os
espaços em meio à literatura e à história. Loriga (2011) lembra, ainda, que a fronteira que
separa a biografia da história se mostrou, ao longo do tempo, bastante incerta e conflituosa,
em grande parte porque desde o final do século XVIII os historiadores se desviaram das ações
dos indivíduos para se dedicarem a descobrir os processos invisíveis da história universal.
O certo, no entanto, é que o interesse por trabalhos biográficos, que se reflete na
pluralidade de públicos e de leitores, excede a lógica do mercado ou o fascínio que parecem
exercer os personagens notáveis. Avelar (2012, p. 63) lembra que o “nosso gosto pelas
1
Levillain (2003, p. 143) destaca a profusão de coleções de biografias no mercado editorial francês, no qual a
influência de historiadores tem crescido sistematicamente.
2
Uma pesquisa realizada pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros, realizada em 2021, apontou um
crescimento de 46% nas vendas de livros, principalmente os digitais, entre os primeiros semestres de 2020 e
2021, muito em função do isolamento social provocado pela pandemia de COVID-19. As biografias destacaram-
se, dentre os best-sellers vendidos.
22

escritas de vida ancora-se num extenso leque de interesses pelo ‘outro’: suas experiencias de
vida, a curiosidade não isenta de voyeurismo, a exemplaridade”.
As transformações ocorridas no campo da história, de uma maneira geral, e na história
do século XX, especialmente, geraram uma nova discussão sobre o papel dos atores sociais, o
que permitiu que a biografia retomasse o seu espaço nos debates historiográficos atuais, como
aponta Ferreira (2012, p. 9). Distinta da obra ficcional, própria da literatura, a biografia
histórica deve ser posta à prova de verificação pelos critérios do método científico, devendo o
biógrafo atentar, no entanto, para as contradições lembradas por Lejeune (1980), de ocultar os
fundamentos ideológicos e seu projeto, em busca do discurso erudito peculiar aos trabalhos
científicos (não se escreve uma biografia por mero afã do conhecimento), e de buscar uma
narrativa totalizante, uma vez que existem as barreiras documentais (não é possível dar conta
de toda uma vida), surgindo daí a necessidade de se recorrer à psicologia e à imaginação
ficcional.
Acompanhando a tendência internacional de renovação historiográfica, diversos
historiadores brasileiros voltaram a apostar na biografia como forma de lidar com problemas
de pesquisa bastante diversos, a partir dos anos 1980. Apesar de não se tratar de um
movimento homogêneo, nem de uma escola, como lembra Schmidt (2012, p. 202-203), as
pesquisas produzidas, em lugares institucionais diversificados, têm procurado expressar uma
preocupação voltada a repensar as interpretações consagradas sobre a história brasileira, a
partir do percurso de determinados indivíduos em contextos específicos. O percurso de
militantes brasileiros ou estrangeiros que atuaram nos movimentos operários na transição do
século XIX para o XX no Brasil, as experiências de escravos e libertos nos períodos da
escravidão e pós-abolição, o papel dos “grandes personagens” da história nacional, as práticas
discursivas e não discursivas de determinados sujeitos históricos, são algumas das diversas
experiências que pretendem repensar os personagens, temas e problemas significativos à
historiografia nacional.
Entretanto, ainda é muito incipiente a produção biográfica no campo da nova história
militar, principalmente no meio acadêmico. A renovação que se operou no campo, a partir da
década de 1990, sob a tutela de Celso Castro, Vitor Izecksohn e Hendrik Kraay (dentre outros
pesquisadores), devido a uma maior influência da história social, da sociologia e da
antropologia, cuidou de mudar o foco da tradicional história militar, voltada exclusivamente
ao estudo das batalhas, armas e heróis nacionais, e apresentar à historiografia novos olhares
sobre as instituições militares e a atuação de seus personagens. As poucas obras publicadas
antes desse período se destinavam às narrativas memorias de personagens que procuravam
23

narrar suas experiências na caserna ou suas participações nos grandes eventos políticos da
Primeira República, principalmente. Mais recentemente, entretanto, há uma tentativa de se
reavivar as pesquisas biográficas sobre os personagens militares, das quais pode ser
considerada um dos pontos de inflexão do campo a biografia de Luiz Alves de Lima e Silva, o
Duque de Caxias, escrita por Adriana Barreto de Souza, publicada em 2008, por não se ater
aos aspectos laudatórios do herói nacional, mas, por traçar o perfil familiar e social que
fizeram do patrono do Exército um dos principais sustentáculos do Império e da unidade
nacional.
A partir desse contexto é que esta pesquisa foi pensada e desenvolvida. Está inserida
na área de concentração História, Política e Bens Culturais, na linha de pesquisa Instituições e
Política, e tem como tema “Marechal José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque – vida e
trajetória militar”. Sendo assim, o objeto da pesquisa foi produzir um trabalho biográfico
sobre o marechal José Pessoa, uma das principais lideranças militares das décadas de 1930 e
1940.
Nascido no seio de famílias oligárquicas de forte influência política do Nordeste
brasileiro, José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque era irmão de José Pessoa, governador da
Paraíba entre os anos de 1928 e 1930, e sobrinho de Epitácio Pessoa, presidente da República
entre 1919 e 1922. Apesar do forte envolvimento da família na vida política do País, dizia-se
contrário ao envolvimento dos militares na política, pois na sua visão “a nossa maneira [dos
militares] de fazer política tem sido a gênese de muitas infelicidades para o País”. Entretanto,
completava, “não se deve inferir daí que eu os condene” (CASTRO, 2002, p. 41). Em 1922,
manteve-se ao lado da legalidade e condenou veementemente o movimento tenentista. Porém,
anos mais tarde, comandou as forças militares e civis que tomaram o Palácio da Guanabara,
na então Capital Federal, que depuseram o presidente Washington Luís, durante a Revolução
de 1930.
O marechal José Pessoa encontra-se no panteão das personalidades cultuadas no
Exército Brasileiro, por ter possuído virtudes e portado valores que o tornaram um dos
modelos ideais de soldado e de chefe militar a serem seguidos pelos integrantes da Instituição.
Durante o processo de socialização profissional por que passam os cadetes da Academia
Militar das Agulhas Negras (AMAN), única escola de formação dos oficiais combatentes do
Exército e da qual Pessoa foi o idealizador, seu nome é constantemente evocado. 3 No
comando da Escola Militar de Realengo, precursora da AMAN, entre os anos de 1931 e 1934,

3
É durante esse processo de socialização, como lembra Celso Castro (2002), que são incorporados à
personalidade do futuro oficial do Exército os valores, atitudes e comportamentos próprios da carreira militar.
24

ele implementou um conjunto de reformas que passaram tanto pela renovação da


infraestrutura da Escola e dos estatutos disciplinares e organizacionais como pela criação de
um conjunto de símbolos que expressavam o pertencimento dos cadetes a uma tradição
vinculada ao que considerava serem os valores nacionais mais profundos, cujo representante
legítimo, no seu entender, era o Duque de Caxias. Entretanto, a interferência política no dia a
dia da Escola, que chegou a provocar um movimento de rebeldia dos cadetes, o levou a pedir
o afastamento do cargo, em 1934.
Durante sua trajetória militar, combateu na Primeira Guerra Mundial, incorporado ao
Exército francês. Sua obra Os Tanks na Guerra Europeia, fruto da observação que fez do
emprego dos carros blindados nos campos de batalha europeus, serviu de inspiração para a
criação da primeira unidade blindada do Exército Brasileiro, em 1921. Comandou o Corpo de
Bombeiros do Distrito Federal (1930), presidiu o Clube Militar (1944-1946), tendo sido eleito
com ampla maioria dos votos em uma chapa de oposição ao Governo, foi adido militar em
Londres (1947-1948), participou da fundação do Centro de Estudos e Defesa do Petróleo e da
Economia Nacional (1948), além de ter desempenhado, como oficial general, diversas
funções inerentes à carreira militar. Já no final da vida, afastado do serviço ativo, após ter sido
promovido a marechal, chefiou a Comissão de Localização da Nova Capital Federal, entre os
anos de 1954 e 1956, a convite do Presidente Café Filho. Pouco lembrada pela historiografia
brasileira, os trabalhos dessa Comissão foram essenciais à construção de Brasília.
Apesar do fato de o marechal José Pessoa ter sido uma das principais lideranças
militares das décadas de 1930 e 1940, sua trajetória profissional não foi suficiente para
conduzi-lo aos cargos de maior relevância do alto comando do Exército e aproximá-lo do
centro de poder da Instituição: o Estado-Maior do Exército e o Ministério da Guerra. Pouco se
sabe, ainda, sobre os motivos que levaram a esse afastamento. Daí a escolha do tema e os
questionamentos que motivaram esta pesquisa: quais são as origens familiares de José
Pessoa? Como se deu sua formação militar? Como construiu sua trajetória profissional? Com
que grupos dialogou dentro da instituição Exército e como se posicionou diante dos fatos
políticos, econômicos e sociais nacionais no decorrer de sua vida? Por que foi afastado do
centro de poder da Instituição?
Como poderá ser visto ao longo deste trabalho, o comportamento moral de José
Pessoa, de fortes tendências legalistas e veementemente contra o envolvimento da classe
militar na política partidária, o que o levou a posicionar-se contra o golpe de 1937, por
exemplo, provocaram o confronto de ideias e, em consequência, as desavenças que teve com
os principais chefes militares da época, como os generais Góes Monteiro e Eurico Dutra, e o
25

próprio presidente Getúlio Vargas, os quais denominava “os liberticidas de 1937” e a quem
imputava a pecha de “traidores da Nação e da Pátria”. Sendo assim, acabou sendo afastado do
centro do poder militar e desempenhou, como oficial general, funções de pouca relevância
dentro da Instituição no final da carreira. Essa percepção corrobora a hipótese inicial desta
tese.
Diante disso, cabe ressaltar, então, que o foco da pesquisa se concentrou não só no
resgate da sua trajetória militar, mas também das suas origens familiares e da forma como se
posicionou diante dos cenários político, econômico e social do Exército e da Nação. O
período escolhido para análise compreende todas as fases de sua vida, que vão dos relatos
sobre a sua infância e juventude até a última função que desempenhou nas atividades de
localização de Brasília. Os objetivos primordiais envolveram a construção de uma narrativa
histórica que consistiu em determinar as origens familiares e a formação escolar e militar do
marechal José Pessoa e identificar como foi construída sua trajetória profissional, a partir da
interação com os projetos políticos, econômicos e sociais, individuais ou coletivos, do
Exército e da Nação.
Em relação ao quadro teórico que embasou a pesquisa, ele será amplamente discutido
no próximo capítulo, no qual, em um primeiro momento, será feita uma análise da volta da
biografia ao campo do conhecimento histórico, para, em seguida, se buscar o entendimento do
valor epistemológico da biografia para a escrita da história.
Sobre a metodologia adotada para esta pesquisa, pareceram ser apropriadas algumas
indicações metodológicas e teóricas apresentadas por Vavy Pacheco Borges e por Gilberto
Velho.
A quem se aventura pela prática biográfica, Borges (2015, p. 221) aponta que se deve
começar pela seleção daquilo que parecia significativo na vida do personagem a ser
biografado: detalhes que enriqueceram a interpretação, o que foi visto como simbólico e, até
mesmo, o que foi aleatório. Essas escolhas, segundo a autora, já se constituem em uma forma
de interpretação, de atribuição de sentido: o início da história; quando ela deveria começar, se
nas origens familiares ou no início da trajetória profissional; e se o ponto final seria marcado
pela morte do biografado, como se deu nesta tese, ou ir além. José Pessoa, fez parte, em vida,
de uma trama política e nela sua memória esteve presente até que a última pessoa que o
conheceu morresse, assim como estará presente, também, na memória institucional do
Exército.
Especificamente quanto à relação de Pessoa com o contexto em que foi construída sua
trajetória profissional, as análises realizadas durante a pesquisa estiveram norteadas pelo
26

conceito de “campo de possibilidades” formulado por Gilberto Velho. Para Velho, é possível
se pensar o contexto não como uma configuração fixa e pré-moldada, mas como um “campo
de possibilidades”, espaço para a formulação e implementação de projetos individuais e
coletivos. Nesse caso, não se pode entender projeto como um plano perfeitamente organizado
e racionalizado, mas “a conduta organizada para atingir finalidades específicas” (VELHO,
2013, p. 132). Para o antropólogo, os projetos individuais sempre interagem com outros
dentro de um campo de possibilidades. Não operam num vácuo, mas sim a partir de premissas
e paradigmas culturais compartilhados por universos específicos. Por isso mesmo, são
complexos, e os indivíduos, em princípio, podem ser portadores de projetos diferentes, até
contraditórios, cujas pertinência e relevância serão definidas contextualmente. As trajetórias
individuais ganham consistência a partir do delineamento mais ou menos elaborado de
projetos com objetivos específicos. A interação desses projetos com outros, individuais ou
coletivos, bem como a natureza e a dinâmica do campo de possibilidades, serão
condicionantes para as suas viabilizações. (VELHO, 2013, p. 137-138)
A construção do alicerce teórico de qualquer pesquisa, seja qual for a metodologia
empregada, passa necessariamente por uma sólida pesquisa bibliográfica, constituindo-se em
uma primeira etapa de pesquisa. O aprofundamento no tema que norteou esse trabalho, ou
seja, o gênero biográfico, deu-se, a partir da leitura de uma diversidade de fontes
bibliográficas. François Dosse (2015), Sabina Loriga (1998), Giovanni Levi (2006), Pierre
Bourdieu (2006), Phillippe Levillain (2003), Phillippe Lejeune (1980), Carlos Rojas (2000),
Gilberto Velho (2013), Alexandre Avelar (2007, 2012), Benito Schmidt (2003, 2012), Marieta
de Moraes Ferreira (2012), Vavy Pacheco Borges (2012, 2015) e Mary Del Priore (2009) são
exemplos de autores que permitiram esse aprofundamento teórico.
No que se refere especificamente ao objeto da pesquisa, as discussões teóricas
passaram, necessariamente, pela formação das famílias oligárquicas na província da Paraíba e
a rede parental que se formou em torno delas, tornando-se fundamental o trabalho
desenvolvido por Linda Lewin (1993) sobre as relações de parentela naquele estado. Cabe
ressaltar, que José Pessoa carregava em seu sobrenome a herança de duas oligarquias
poderosas do Nordeste brasileiro: os Pessoa e os Cavalcanti de Albuquerque. Também o
entendimento do contexto institucional em que se deu o desenvolvimento da trajetória
profissional de Pessoa foi condição importante para o entendimento das ações desenvolvidas
pelo personagem ao longo da narrativa histórica. Levi (2006, p. 176) lembra que uma vida
não pode ser compreendida unicamente através de seus desvios ou singularidades, mas, ao
contrário, mostrando-se que cada desvio aparente em relação às normas ocorre em um
27

contexto histórico que o justifica. Sendo assim, foi preciso, no transcorrer da pesquisa recorrer
às interpretações feitas por Celso Castro (1994, 1995, 2002, 2012), Frank McCann (2009),
Jehovah Motta (2001) e José Murilo de Carvalho (1982, 2002, 2006), dentre outros, a respeito
do Exército brasileiro e da Escola Militar do Realengo, comandada pelo biografado na década
de 1930.
Especificamente sobre a trajetória profissional de José Pessoa, o ponto de partida da
pesquisa foi a única obra biográfica do marechal publicada até hoje, de autoria do coronel
Hiram de Freitas Câmara (2011), intitulada Marechal José Pessoa – A força de um ideal,
publicada originalmente em 1985. No entanto, muito pouco, ou quase nada, a respeito das
origens familiares de Pessoa é abordado nessa publicação. A maior parte do texto está
limitada à atuação do marechal no comando da Escola Militar do Realengo e à idealização e
construção da Academia Militar das Agulhas Negras. A forma laudatória como foi escrita,
não aborda, também, com profundidade o antagonismo de ideias entre Pessoa e Góes
Monteiro e Eurico Dutra, o que não a torna, entretanto, menos importante à pesquisa. Em
março de 2019, este pesquisador realizou uma entrevista com o coronel Câmara, a qual foi
importante para que fossem esclarecidos alguns pontos obscuros da vida de José Pessoa,
particularmente os da sua vida familiar. Também foi possível se entender como o livro foi
pensado e escrito. Segundo ele, o interesse pela vida de Pessoa surgiu devido às narrativas de
seu pai, que havia sido cadete do marechal na Escola Militar do Realengo. Desde então,
passou a admirá-lo. No entanto, demostrou um certo ressentimento a respeito da forma
amadorística como escreveu o livro, sem regras ou metodologia definidas. Um descuido que
atribuiu à sua inexperiência e juventude, durante o tempo em que realizou a pesquisa.
Ressaltou, entretanto, a importância do acervo documental de Pessoa ter sido doado ao
CPDOC, devido à expertise que a instituição possui para o arquivamento dos documentos.
Segundo ele, a escolha do CPDOC pela filha do marechal, Elizabeth Marinho, para a doação,
se deu por uma indicação da historiadora Aspásia Camargo e do historiador Marcos Bretas,
que o auxiliaram na pesquisa feita para o livro. Atendendo a um pedido do coronel Hiram, a
entrevista infelizmente não foi anexada à tese.
Durante a leitura do livro escrito por Câmara, tomou-se conhecimento de um
importante projeto levado a efeito durante os anos de 1984 e 1985, conduzido pela, então,
Diretoria de Assuntos Culturais, Educação Física e Desportos do Exército. O Projeto
Marechal Pessoa visava a comemoração do centenário de nascimento de José Pessoa. Foi
coordenado pelo coronel Hiram e contou com o apoio de Aspásia Camargo e Marcos Bretas,
na coordenação de pesquisa oral. Uma série de entrevistas foi realizada com militares e civis
28

que conviveram com José Pessoa, dentre eles: os generais Umberto Peregrino, Tasso Villar de
Aquino e Carlos de Meira Mattos; o brigadeiro José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, filho
do marechal; e o advogado Marcelo Pessoa, sobrinho do marechal. As entrevistas foram
gravadas em fitas VHS, nos estúdios da Escola de Comunicações do Exército (EsCom).
Segundo o coronel Hiram, essas fitas deveriam estar arquivadas na Biblioteca do Exército
(BIBLIEX). Este pesquisador desdobrou-se na tentativa de encontrar esses depoimentos orais.
Entretanto, tanto a BIBLIEX como a EsCom afirmaram não possuir, em seus arquivos, as
fitas com as entrevistas. O pouco que se pode obter dessa importante pesquisa oral, foram as
poucas e pequenas transcrições existentes no livro de Câmara (2011).
A leitura do livro de Câmara (2011), no entanto, conduziu este pesquisador aos
arquivos do Acervo José Pessoa, pertencente ao CPDOC FGV, os documentos primários que
fundamentaram a escrita desse autor. A consulta a esses documentos textuais (manuscritos),
impressos (livros e exemplares de periódicos) e iconográficos (fotos) foram fundamentais e
serviram de fio condutor à elaboração desta tese. Os manuscritos, organizados em cinco séries
– documentos pessoais, “Diário da Minha Vida”, vida pública, assuntos gerais e recortes de
jornais –, foram essenciais para a construção das trajetórias profissional e de vida de José
Pessoa, especialmente a sua autobiografia, nunca publicada, distribuída em quinze pastas,
cujo conteúdo abrange as narrativas de sua infância, formação e carreira militar, e o arquivo
sobre a Comissão de Levantamento da Nova Capital Federal.
Outros acervos também foram relevantes para a construção desta tese. A começar pelo
do Arquivo Histórico do Exército, especialmente os arquivos da fé de ofício de Pessoa e os da
Escola Militar do Realengo, como as ordens do dia e os Boletins Escolares redigidos à época
do seu comando. O outro encontra-se na sede administrativa do Clube Militar, no Rio de
Janeiro, e compõe-se pelas atas da Presidência e da Assembleia Geral da instituição, dos anos
de 1944 a 1946, período em que José Pessoa a presidiu. Também mereceram atenção os
relatórios do Ministério da Guerra, os Diários Oficiais e os Boletins do Exército. Entretanto,
nem todas as instituições detentoras de arquivos sobre José Pessoa tiveram a compreensão de
disponibilizar os seus arquivos para a consulta, como foi o caso do Corpo de Bombeiros do
Rio de Janeiro. Após alguns contatos feitos com o museu da instituição, houve a indicação de
que haveria um retorno quanto à autorização para a pesquisa, o que não ocorreu. A existência
de alguns acervos digitalizados disponíveis na Internet facilitaram o trabalho de pesquisa,
como os do Center for Research Libraries e os acervos legislativos disponibilizados pela
Câmara de Deputados e pela Presidência da República em seus sites. Além desses, o acervo
digital da Primeira Guerra Mundial, do Ministério da Defesa da França, permitiu o acesso às
29

cadernetas de marcha e os relatórios de batalha do 4º Regimento de Dragões francês, unidade


militar à qual Pessoa esteve incorporado durante o primeiro grande conflito mundial.
Cabe destacar, ainda, a relevância que ganharam, ao longo da pesquisa, a consulta aos
jornais das décadas de 1910 a 1950, especialmente os do Rio de Janeiro e de São Paulo, para
o que foi fundamental o acesso aos acervos digitais disponibilizados pela Hemeroteca da
Biblioteca Nacional e pelos jornais Estado de São Paulo e O Globo e o acervo da Casa de
Cultura Macedo Miranda, do município de Resende-RJ. Nesse sentido, optou-se por seguir o
que sugere De Luca (2005), para a análise de periódicos, e focar nas notícias publicadas não
só sobre o Exército, como aquelas sobre José Pessoa, especificamente, sem perder o foco nos
objetivos da pesquisa. Como propõe a autora, o espaço ocupado pela notícia no periódico
indica a intencionalidade dos responsáveis pela publicação, assim como a ênfase em
determinados temas, linguagens e natureza dos conteúdos estão associadas ao público que se
pretende atingir. Sendo assim, em muitos momentos as páginas dos periódicos se tornaram o
locus privilegiado para os debates, troca de acusações, reparações e desagravos dos
personagens envolvidos nas disputas de poder no âmbito do Exército e da Nação. Cumpre
ressaltar que os atos de Pessoa sempre mereceram atenção e críticas, mais positivas do que
negativas, dos principais editoriais da Capital Federal, que constantemente destacavam sua
liderança e sua correção de atitude em relação aos fatos políticos da Nação.
O aprofundamento da pesquisa realizada sobre o marechal José Pessoa permitiu a
divisão desta tese em dez capítulos, além da Introdução e da Conclusão. No capítulo 2, como
mencionado, é feita uma análise da volta da biografia ao campo do conhecimento histórico e
uma busca do entendimento do valor epistemológico da biografia para a escrita da história. O
terceiro capítulo é dedicado às relações parentais de José Pessoa e às suas origens
oligárquicas, bem como à abordagem dos seus estudos iniciais e da sua formação militar na
Escola de Guerra de Porto Alegre.
O quarto e o quinto capítulos são dedicados à carreira militar de Pessoa nos postos de
tenente e capitão. Os seus primeiros anos na tropa, a sua participação na Primeira Guerra
Mundial, na região do Flandres (Bélgica), o seu retorno ao Brasil e o empenho em prol da
criação da primeira unidade de carros blindados do Exército brasileiro e a sua nomeação para
desempenhar a função de ajudante-de-ordens do Rei Alberto da Bélgica, em sua visita ao
Brasil, são os assuntos abordados nessa parte da tese.
O capítulo 6 é dedicado à participação de José Pessoa na Revolução de 1930. Os
sétimo e oitavo talvez sejam os mais importantes da tese, já que abordam o comando de
Pessoa na Escola Militar do Realengo, época, no entender deste pesquisador, em que o
30

personagem histórico marechal José Pessoa começa a ser construído na memória do Exército,
devido às importantes reformas que implementou naquele estabelecimento de ensino militar, e
a idealização e construção da Escola Militar de Resende, mais tarde nominada Academia
Militar das Agulhas Negras, seu sonho maior.
Por fim, nos três últimos capítulos, será abordado o final da sua carreira, merecendo
destaque o debate ideológico entre Pessoa e os chefes militares que desencadearam o golpe do
Estado Novo, e o seu desempenho à frente da Comissão de Localização de Brasília, função
que desempenhou no posto de marechal, já na afastado do serviço ativo do Exército.
Sendo assim, almeja-se, nas próximas páginas, desenvolver este estudo, desejando-se
que o trabalho aqui feito ajude a compreender melhor o papel desempenhado pelo marechal
José Pessoa na história do Exército brasileiro e da Nação.
31

2 O GÊNERO BIOGRÁFICO

As últimas quatro décadas foram marcadas, no campo historiográfico, pelo retorno de


algumas questões teóricas tidas como ultrapassadas. Dentre elas, a renovação da história
política, a volta da preocupação, por parte dos historiadores, com as narrativas, e a
recuperação do gênero biográfico. Associadas, como lembra Souza (2007), à escrita da
História no século XIX, essas temáticas foram estigmatizadas durante muito tempo, sob o
rótulo de uma história dita événementielle – no sentido depreciativo do termo –, “uma história
narrativa, restrita a uma descrição linear e sem relevo, que concentrava sua atenção nos
grandes personagens, desprezando a grande multidão de trabalhadores” (FERREIRA, 2012, p.
7).
A imensa transformação ocorrida no campo da história na primeira metade do século
XX, impulsionada pelo surgimento da École des Annales, a partir da fundação, na França, da
revista dos Annales (1929) e da École Pratique des Hautes Études (1949), provocou uma
valorização dos estudos das estruturas, dos processos de longa duração (mais significativos
que os movimentos de fraca amplitude) e dos comportamentos coletivos, em detrimento da
análise do papel do indivíduo e dos aspectos culturais e políticos, o que levou a uma
desqualificação dos relatos pessoais, das histórias de vida e das biografias. Passou-se a
condenar a sua subjetividade e a levantar-se dúvidas sobre as visões distorcidas que
apresentavam, em função das dificuldades de se obter relatos fidedignos. Além disso, os
depoimentos pessoais não eram tidos como representativos de uma época ou de um grupo,
uma vez que a experiência individual expressava uma visão particular que não permitia
generalizações. (FERREIRA, 2012)
Para a nova geração de historiadores dos Annales, para além dos regimes políticos ou
das mudanças de identidade dos detentores de um poder, cujas decisões só faziam traduzir o
estado da relação das forças sociais, a atenção dos historiadores deveria estar voltada para as
realidades do trabalho, da produção, das trocas, o estado das técnicas, as mudanças da
tecnologia e as relações sociais daí resultantes. (RÉMOND, 2003)
Loriga (2011) ressalta, ainda, que a desconfiança com a dimensão individual não ficou
restrita apenas à história social, e lembra das grandes investigações da história serial,
empreendidas ao longo das décadas de 1960 e 1970, por meio das quais os historiadores
pretendiam medir, com a ajuda de indicadores quantitativos, os fenômenos culturais.
Nesse contexto, a biografia se tornou um dos símbolos da história tradicional, da
crônica dos acontecimentos, passando a ocupar um lugar marginal. Mais preocupada como a
32

cronologia do que com as estruturas, com os grandes homens do que com as massas, era
“incapaz de superar a superficialidade dos fatos e penetrar na totalidade estruturante que
englobava e dava sentido à organização social” (AVELAR, 2012, p. 67).

A biografia, por centrar-se na vida de uma pessoa, foi relegada pela historiografia
positivista explicativa, pois considerava que uma vida, por mais significativa que
tenha sido, não explicava uma estrutura econômica, uma revolução ou um sistema
político” (PEREZ, 1997, p. 413)

Sob o prisma do modelo macro-estrutural dos Annales, em que os historiadores


deveriam se ater aos grandes agentes coletivos, tornou-se inviável a percepção dos papeis
desempenhados pelos indivíduos. Para Marc Bloch, o objeto da história eram “os homens.
Mais que o singular, favorável à abstração, o plural, que é o modo gramatical da relatividade,
convém a uma ciência da diversidade”4 (BLOCH, 2001, p. 54).
Depunha, ainda, contra a biografia, a dificuldade em se comprovar os fatos relatados,
o que a aproximava mais do gênero literário do que da história. A comprovação dos
sentimentos e paixões vividos pelos personagens ou, até mesmo, a definição do caráter do
indivíduo pelos seus atos, tornavam-se problemas menores de investigação histórica, já que
não seriam suficientes para determinar as constâncias e regularidades da vida social, que
deveriam ser os objetivos de todo historiador. (AVELAR, 2012)
Jacques Le Goff e Pierre Nora, em 1974, em Faire de l’Histoire, destacaram a
especificidade e insuficiência metodológica do gênero biográfico, situado entre as fronteiras
da literatura e da História, ao mesmo tempo em que o designavam, fora do campo histórico,
um terreno onde acampavam os “escrevinhadores” da história, que se valiam de uma certa
arte de escrever para o grande público para fazer esquecer sua insuficiência científica.
(LEVILLAIN, 2003, p. 142) Mais tarde, em 1981, em um artigo publicado na revista
L’Histoire, em que expressa o desejo de escrever biografia sobre Luis IX5, Le Goff tratou de
amenizar as suas declarações anteriores, mostrando que, ao seu modo, a história nova também
se interessava pela biografia:

Considera-se de modo geral que a história dita nova, e em particular a Escola dos
Annales, não estão especialmente interessadas na biografia. Isto é ignorar que
Lucien Febvre escreveu Luther, e que a grande tese de Fernand Braudel sobre Felipe

4
No prefácio que escreveu à Apologia da História, Jacques Le Goff ressalta que, embora dê mais atenção ao
coletivo do que ao individual, Marc Bloch não deixa de fazer do indivíduo um dos seus polos de interesse da
história. Numa crítica à definição de história de Fustel de Coulanges, para quem a história é a “ciência das
sociedades humanas”, Bloch observa que “isso talvez seja reduzir em excesso, na história, a parte do indivíduo”
(BLOCH, 2001, p. 54).
5
Em 1996, Le Goff publicou, com o título de São Luis, um estudo profundo sobre a vida de Luis IX.
33

II e o Mediterrâneo é, também, à sua maneira, uma biografia (LE GOFF, 1981, apud
LEVILLAIN, 2012, p. 143)

O próprio Le Goff (1993, p. 8), ao escrever sobe as diversas “voltas” do campo


histórico, considera a volta da biografia como a que provocou “menos contestações”. Ainda
que muitas ainda continuassem sendo “superficiais, anedóticas, por vezes anacrônicas”,
graças, segundo ele, mercado editorial de livros históricos, que estaria inundado de biografias.
E complementa, afirmando que “a biografia histórica nova, sem reduzir as grandes
personagens a uma explicação sociológica, esclarece-as pelas estruturas e estuda-as através de
suas funções e seus papeis”.
Ainda que relegado a segundo plano, o gosto pelo singular conseguiu, durante
décadas, sobreviver em alguns recônditos da historiografia. Primeiramente graças ao sucesso
da prosopografia, em que se desejava a cisão dos fatos sociais em uma miríade de existências
particulares que poderiam ser combinadas no contexto de conjuntos mais amplos, ainda que
as tentativas de se uniformizar as singularidades se revestissem de um caráter antibiográfico,
uma vez que a variedade do passado era sacrificada em nome das regularidades e os
indivíduos pareciam estar completamente submetidos às pressões sociais6. (LORIGA, 2011,
p. 46-47)
Depois, pelas pouquíssimas obras revestidas de um caráter psicossocial7, que visavam
a conciliar a pesquisa de regularidades com a pesquisa das significações psíquicas atribuídas
pelos atores sociais aos acontecimentos. Para isso, os autores baseavam-se nos testemunhos
pessoais, nas quais se pretendia levar em conta as atividades psíquicas dos indivíduos e suas
atitudes pessoais. (LORIGA, 2011, p. 48)
O modelo totalizante da história, proposto pelos historiadores dos Annales passou a
sofrer várias críticas a partir dos anos 1960, em um contexto em que o rompimento com a
modernidade, marcada pelo olhar onisciente da razão iluminista, passou a dar o tom em um
cenário cultural não mais influenciado pelas metanarrativas que legitimaram, durante muito
tempo, os grandes projetos de emancipação. Frente ao alargamento das experiências
individuais e à explosão de vozes e de subjetividades, não havia mais como enquadrar o
mundo da vida em categorias ou sujeitos coletivos, como a classe, o partido e a revolução.

6
Lewis Namier (1929), Matthias Gelzer (1912), Charles Beard (1913), Friedrich Münzer (1920) e Ronald Syme
(1939) são alguns dos historiadores que, ao longo das primeiras décadas do século XX, endossaram o projeto
prosopográfico. Cf. Loriga (2011, p. 46-47)
7
Loriga (2011, p. 48) destaca a obra de William Thomas e Florian Znaniecki, Le Paysan Polonais em Europe et
em Amérique (1918-1920), realizada com base em testemunhos pessoais de imigrantes poloneses nos Estados
Unidos.
34

Destituídos de quaisquer significantes mais amplos, os indivíduos pareciam se encontrar


livres para se afirmarem diante de qualquer tradição. (AVELAR, 2012, p. 66-68)
Para Levillain (2003, p. 162-163) e Rojas (2000, p. 22), a recuperação do interesse
pelas trajetórias individuais, principalmente pela historiografia francesa, a partir do final da
década de 1960, se deve, em grande parte, à crise dos paradigmas marxista e estruturalista, e
ao descrédito em um dos pilares em que se assentou o movimento dos Annales: o predomínio
da história serial e quantitativa, em detrimento da história factual.
A renovação do campo de pesquisa histórica, no final dos nos 1970 e ao longo dos
1980, revalorizou as análises qualitativas. A isso somou-se o reaparecimento da história
cultural e o resgate do político como um “locus privilegiado de articulação social e de sua
representação” (FERREIRA, 2012, p. 8), o que proporcionou o surgimento de alternativas
importantes para a revalorização da ação dos atores e de suas estratégias. À renovação da
história política, outrora condenada pelos historiadores dos Annales por ser um exemplo
perfeito da história factual, subjetiva, individualista e elitista, encarnando, assim, “todos os
defeitos do gênero de história do qual uma geração almejava encerrar o reinado” (REMOND,
2003, p. 18), associou-se a revalorização do papel do sujeito na história, e novos significados
foram atribuídos aos depoimentos, relatos pessoais e biografias. Por constituírem-se em uma
representação que espelharia uma visão de mundo, os relatos pessoais passaram a se tornar
importantes meios de assegurar a transmissão de uma experiência coletiva. (FERREIRA,
2012, p. 9)

Mas associando a história política à descrição das liberdades, a historiografia


francesa devolvia-lhe as cartas de nobreza que a história positivista ou “historicista”
lhe havia roubado propondo um remodelamento com base nas ciências sociais, e que
se preferisse a análise das forças profundas, dos comportamentos coletivos e das
realidades econômicas e sociais à das vontades individuais [...] Neste raciocínio,
mesmo que os advogados metodólogos da história política não cheguem a esse
ponto, a biografia reassume uma função a meio caminho entre o particular e o
coletivo, exercício apropriado para identificar uma figura num meio, examinar o
sentido adquirido por uma educação distribuída a outros segundo ao mesmos
modelos, analisar as relações entre desígnio pessoal e forças convergentes ou
concorrentes,, fazer o balanço entre o herdado e o adquirido em todos os domínios.
(LEVILLAIN, 2003, p. 165)

Rojas (2000, p. 23) destaca, ainda, nesse processo de revalorização da individualidade


na historiografia nos últimos decênios do século XX, o avanço qualitativo que houve no
campo teórico dos estudos sobre biografias com a popularização e a ampla difusão da
psicanálise, o que possibilitou uma maior autopercepção dos indivíduos sobre si mesmos e
suas obras. Com isso, o século XX foi pródigo no florescimento de “biografias psicológicas”,
35

através das quais se tenta caracterizar as personalidades ocultas, ou, através delas, explicar as
vidas dos grandes homens.
Nesse contexto, as tensões existentes entre as ações humanas e as estruturas sociais,
começaram a se tornar a principal abordagem de trabalhos de pesquisa mais rigorosos.
Levillain (2003, p. 141) aponta a reabilitação dos temas biográficos no meio acadêmico na
década de 1960, graças a um aumento significativo do número de teses de história política nas
universidades.
Dessa forma, não havia mais como esse novo panorama intelectual sustentar os
antigos fundamentos de uma produção histórica “estruturalista e galileana” (CHARTIER,
1994, p. 101), que pareciam estar solidamente definidos. “O retorno do indivíduo se tornava a
própria condição de fazer história [...], pois não poderia haver reflexão historiográfica e
política sem que o sujeito estivesse presente” (AVELAR, 2012, p. 64). Diante dessa quebra de
paradigma, que, nas últimas décadas, frustrou, no campo historiográfico, a expectativa de uma
história total, a biografia voltou a ser objeto de análise histórica. Ao escrever sobre os tempos
de incerteza e de crise epistemológica vividos pela história no século passado, Chartier (1994)
aponta para essa virada crítica em busca do indivíduo:

O objeto da história, portanto, não são, ou não são mais, as estruturas e os


mecanismos que regulam, fora de qualquer controle subjetivo, as relações sociais, e
sim as racionalidades e as estratégias acionadas pelas comunidades: as parentelas, as
famílias e os indivíduos. (CHARTIER, 1994, p. 102)

Como afirma Avelar (2007, p. 49), com a retração da ênfase dada ao modelo
estruturalista socioeconômico, houve uma renovação da biografia, que ganhou legitimidade,
abrindo-se para os fatos, para o acaso e para os encadeamentos cronológicos. Trataram, assim,
os historiadores de recuperar o sentido de tempo vivido pelos homens.

2.1 História e biografia

O entendimento da biografia como narrativa escrita, que tem por objetivo a história
de uma vida particular, está ligado “ao próprio surgimento da história como forma de
conhecimento do mundo” (SCHMIDT, 2003, p. 58). Ao longo de toda a Antiguidade, a
biografia foi vista como distinta da história e ligada à escrita da “vida”. Como lembra Burke
(1997, p. 58), ao citar um dos mais destacados praticantes desse gênero, Plutarco, ao escrever
sobre a vida de Alexandre, faz uma distinção entre escrever histórias narrativas e escrever
“vidas”:
36

Não escrevemos histórias, mas vidas; nem sempre são nas ações mais gloriosas que
se manifestam a virtude ou os vícios, ao contrário, um feito de um momento, uma
palavra ou uma brincadeira servem mais para pintar um caráter do que batalhas em
que morrem milhares de homens, ou numerosos exércitos, ou cidades sitiadas.
(PLUTARCO, s.d, p. 166)

Com Tucídides a história passou a reivindicar a possibilidade de enunciar um discurso


verdadeiro sobre o passado, ao passo que a biografia manteve seu elo com a imaginação,
cabendo aos biógrafos, diferentemente dos historiadores, não encontrar testemunhos
confiáveis capazes de atestar o que realmente havia acontecido, mas construir narrativas sobre
personagens reais que transmitissem lições de vida aos leitores, mesmo que à custa do
sacrifício da verdade. As Vidas Paralelas de Plutarco e a Vida dos Doze Césares de Suetônio
são exemplos de biografias que apresentam modelos de conduta ou de atitudes desmedidas e
vícios. Sendo assim, as escritas de “vidas” na Antiguidade tinham, sobretudo, um objetivo
moral, de oferecer ao homem modelos de ações a serem seguidas ou refutadas. (SCHMIDT,
2012, p. 188)
Para Loriga (2011, p. 18) a biografia, desde a origem, assim como na Idade Média e na
Renascença, época em que, segundo Burke (1997, p. 91) as distinções feitas por Plutarco
foram constantemente reafirmadas, sempre foi um gênero híbrido e compósito. Mesmo
sofrendo inúmeras transformações ao longo do tempo, principalmente quanto à escolha e à
elaboração dos fatos e estilos narrativos, sempre se equilibrou entre verdade histórica e
verdade literária. Para aquela autora, muitos biógrafos privilegiaram uma narração
cronológica, baseada nas fases da existência humana: o nascimento, a formação, a carreira, a
maturidade, o declínio e a morte. No entanto, isso não implicava, necessariamente, que a
biografia devesse repousar sobre uma narrativa cronológica. E retoma o exemplo de Plutarco,
que coloca toda a ênfase de sua escrita no caráter e nas qualidades morais dos personagens, e
não em suas vidas.
Essa função moral da escrita biográfica e sua distinção da história persistiu ao longo
da Idade Média, quando floresceram as hagiografias. Como bem ressalta Schmidt (2012, p.
188), elas guardavam, igualmente, “um objetivo pedagógico, no sentido de oferecer aos
leitores [...] modelos de conduta, de virtude, de caridade, de castidade, de fé”.
Dosse (2015, p. 137) entende a hagiografia como “um gênero literário”, que
“privilegia as encarnações humanas do sagrado e ambiciona torná-las exemplares para o resto
da humanidade”. Por isso mesmo, seu regime de verdade permanece distinto do que se espera
do historiador.
37

Distante do pacto de verdade que a escrita histórica pressupõe, a vida dos santos
ensina ao leitor algo bem diverso do fato atestado. [...] as hagiografias copiam dos
Evangelhos a tensão constate entre o ser e o parecer. Trata-se menos de conhecer a
vida autêntica de um indivíduo que de edificar o leitor. (DOSSE, 2015, p. 137-138)

Seguindo o pensamento de Certeau (1982), Dosse (2015, p. 138) afirma que “as
hagiografias procuram muito mais investigar a concepção de mundo veiculada pelo
hagiógrafo do que reproduzir a vida real do santo biografado”. O documento hagiográfico
responde a uma organização textual própria: “A combinação dos atos, dos lugares e dos temas
indica uma estrutura própria que se refere não essencialmente ‘àquilo que se passou’, como
faz a história, mas ‘àquilo que é exemplar’” (CERTEAU, 1982, p. 266). Nele, o relato de vida
tem valor de testemunho de uma travessia experiencial, a da relação com Deus e aquele que
foi canonizado, ao mesmo tempo em que reflete uma estrutura particular, na qual “o indivíduo
conta menos do que a personagem” (CERTEAU, 1982, p. 271). Seguindo uma concepção
teleológica, diferentemente da biografia moderna, que acompanha a evolução das
potencialidades do indivíduo ao longo do tempo, na hagiografia tudo é dado na origem,
estando o santo já predestinado à santidade. Para o hagiógrafo, o desdobramento da história
“não passa de uma epifania progressiva do estado inicial de vocação ou eleição do santo”
(DOSSE, 2015, p. 138). Como destaca Del Priore (2009, p. 7), esse tipo de escrita
encarregou-se de demonstrar a exemplaridade humana. A vida dos santos deveria incentivar
modelos aos leitores e “as encarnações do sagrado se tornavam modelares no percurso
realizado por mártires, doutores e confessores”.
A partir do final do século XII, os valores medievais começaram a sofrer um desgaste
gradual. A emergência do individualismo e a revalorização das referências da Antiguidade
favoreceram a produção de biografias menos estereotipadas. Como aponta Burke (1997), a
noção de exemplaridade continuou presente na escrita biográfica. Entretanto, houve uma
“tensão, para dizer o mínimo, entre a ideia do indivíduo como exemplar e a ideia do indivíduo
como único” (BURKE, 1997, p.95). Essa tensão, segundo Schmidt (2012), esteve presente na
escrita biográfica ao longo de toda a modernidade, condensando-se na figura do herói. Sendo
assim, as biografias modernas, em consonância com o movimento de individualização que
marcou as sociedades ocidentais, estiveram pautadas nas qualidades singulares do herói e em
como esse herói encarnava valores e qualidades coletivas próprias de um grupo restrito, como
a nobreza, da nação ou, até mesmo, de toda a humanidade. À maneira dos santos, na
hagiografia, “a existência dos heróis é atestada pelo modo de enfrentar e vencer a adversidade
ao preço do sofrimento. Essa atitude se concretiza finalmente no sacrifício que o herói aceita
em defesa da sua causa” (DOSSE, 2015, p. 152).
38

Durante os séculos XIII-XV, um novo gênero biográfico começa a evoluir, o da


biografia cavaleiresca, que celebra como heróis os cavaleiros, cujo empreendimento social
passa a desafiar o primado dos clérigos e, frequentemente, a contestá-lo. Tendo por objeto, a
princípio, a vida da nobreza, procuravam garantir um poder ainda frágil e confirmar os reis
em suas prerrogativas. Geralmente constituíam-se em obras de encomenda, que celebravam as
proezas militares e o estado de espírito do mundo dos cavaleiros, exaltando carreiras militares
e exemplares. Resultante de um processo de laicização e de uma reivindicação de identidade
de uma linhagem, em sua inserção no espaço e no tempo, integravam-se no seio da genealogia
“cuja narrativa é concomitantemente exemplificação e afirmação de um grupo social”.
(DOSSE, 2015, p. 152)
Na vida heroica do cavaleiro, o vínculo com a verdade é tão ambivalente quanto no
discurso hagiográfico. Sendo assim, a biografia cavaleiresca permaneceu ligada ao gênero
épico e inspirada na literatura, sendo marcada pela constante tensão entre a história e a ficção.
Diferentemente do santo na hagiografia, o cavaleiro não era o habitáculo da voz divina.
Porém, seus feitos heroicos se deviam, em grande medida, à ação de Deus, seu protetor e sua
armadura. O biografo o via como um eleito de Deus, cujo caminho estava balizado de provas
dolorosas, que deveria enfrentar às custas de inúmeros ferimentos físicos e psíquicos.
(DOSSE, 2015, p. 153)
O século XVI assiste ao florescimento de relatos biográficos segundo o modelo legado
pela Antiguidade, caracterizados pelo heroísmo à antiga, que busca a imortalidade no
reconhecimento público. Todo o Renascimento procura encontrar os caminhos exemplares na
perspectiva de uma difusão de virtudes. Dessa forma, as biografias produzidas nesse período
ficaram permeadas por uma filosofia moral, cujos valores se afastam dos preceitos cristãos,
ocasionando, assim, um esquecimento dos relatos hagiográficos e cavaleirescos. (DOSSE,
2015, p. 154-155)
Ao acompanhar um regime de historicidade que buscava no passado exemplos para as
ações tomadas no presente, a concepção de biografia como magistra vitae domina a forma dos
relatos de vidas durante o século XVI. O zelo especial pela retórica provoca um retorno à obra
de Cícero e a paixão pelas biografias antigas um resgate das obras de Plutarco e Suetônio,
amplamente traduzidas para o francês. A escrita mantida entre a exemplaridade moral e a
anedota singular tornou-se o modelo constitutivo do gênero ao longo de todo o período
moderno, e a trilogia antiga – fortuna, virtude e fama –, que dá ritmo à temporalidade das
vidas, foi retomada e encontrou nas obras de Petrarca o seu maior expoente. O que motivava o
relato de uma vida, não era mais, necessariamente, a carreira militar ou os grandes feitos de
39

armas e o rol dos biografáveis foi ampliado, passando a incluir os eruditos, os cortesãos, os
juristas, os artistas, os descobridores e os filósofos. (DOSSE, 2015, p. 156-158)
Dosse (2015, p. 158) destaca, ainda, que no século XVII a concentração de poderes
nas mãos da realeza atraiu os olhares dos biógrafos para o destino de alguns indivíduos
excepcionais, graças ao papel que desempenhavam. Notadamente, o maior deles era o rei. Os
projetos de escrita sobre a vida do monarca, então, se multiplicaram, já que, sozinho, ele
encarnava o poder estatal.
Com a inauguração do século das Luzes, a exemplaridade heroica desce do seu
pedestal e se difunde pelo corpo da sociedade. O termo “herói”, que outrora designava os
semideuses da Antiguidade, nos Setecentos toma uma nova acepção e o “herói” passa a ser
simples “personagem” de uma narrativa, ficando, como destaca Dosse (2015, p. 161) “até
certo ponto, banalizado”. Os valores guerreiros que o herói encarnava foram sendo aos poucos
sendo tidos como ultrapassados por uma sociedade que almejava a paz. Em uma crítica aos
relatos excessivamente militaristas sobre o reinado de Luís XIV, Voltaire sugeriu substituir o
“herói” pelo “grande homem”. (DOSSE, 2015, p. 166) Como bem lembra Schmidt (2012, p.
189), “não é à toa que os revolucionários franceses dedicaram o seu Panteão aos ‘grandes
homens’, a quem a pátria devia manifestar seu eterno reconhecimento”.
Em meados do século XVIII, o elogio dos grandes homens tornou-se mesmo um
gênero literário que suplantou em definitivo a velha oração fúnebre, constituindo-se em um
momento importante de laicização da memória. As reflexões biográficas no Século das Luzes,
que passaram a recair menos sobre os méritos pessoais, acessíveis a todos os cidadãos, e mais
sobre os valores humanitários, de moderação no desempenho das responsabilidades e da
criatividade no ofício. (DOSSE, 2015, p. 167) Cabe salientar, como lembra Schmidt (2012, p.
189), que foi “na primeira metade do século XVIII que a palavra biografia surgiu registrada
nos dicionários europeus: biography, em inglês, em 1683; biographie, em alemão, em 1709; e
biographie, em francês, em 1755”.
O debate a respeito do indivíduo na história marcou de forma significativa o século
XIX, o que, obviamente produziu ecos nos caminhos do gênero biográfico. François Dosse
ressalta que o progresso dos valores liberais e democráticos e o aprofundamento da questão
social provocaram uma crise da figura do herói, opondo-lhe uma estratégia de suspeita, a fim
de fazer valer outras lógicas mais coletivas e sociais, o que é sentido mais enfaticamente na
literatura. O afã de se pluralizar as abordagens dos indivíduos conduziu a um questionamento
do gênio solitário, causando a sua desqualificação e a desvalorização dos seus atos. (DOSSE,
2015, p. 167-168) Em On Heroes, Heroes-Worship and the Heroic in History (1841), o
40

historiador inglês Thomas Carlyle (1795-1881), destacava o fato de estar se vivendo em uma
época em que se parecia “negar a existência dos grandes homens; negar que seja desejável a
sua existência” (CARLYLE, 2013, p. 29). Afirmou, ainda, que “a História Universal é, no
fundo, a História dos Grandes Homens” e que era “justo considerar que a alma da história do
mundo seja a alma dos grandes homens” (CARLYLE, 2013, p. 22).
Dosse (2015, p. 168-169) destaca, entretanto, que o herói não despareceu por completo
do horizonte da produção literária do século XIX. Na verdade, foi substituído pelo grande
homem, personagem que, devido à sua identidade patriótica, passou a exaltar os valores
heroicos de coragem em combate e de disposição ao sacrifício, em uma República sempre às
voltas com a guerra. Após a Revolução Francesa, além daqueles celebrados pela nação
reconhecida, como Joana D’Arc, Napoleão e Bayard, houve um esforço, na França,
especialmente, no sentido de se repertoriar as vidas daqueles que alcançaram certa
notoriedade em suas esferas de competências, havendo uma proliferação de relatos
biográficos que tentavam articular individualidade e exemplaridade.
Dosse (2015, p. 170-173) destaca a pouca importância dada à biografia ao longo dos
oitocentos, ao longo do qual é tida apenas como uma “subdisciplina auxiliar da história, um
de seus múltiplos materiais de construção [...] um mero instrumento a serviço do nobre
trabalho do historiador”. Se o interesse pela mesma persistiu, em um momento em que o
pensamento histórico atingiu o seu apogeu e a historiografia oitocentista ganhou uma
“configuração disciplinar e lugares institucionais próprios” (SCHIMDT, 2012, p. 191), é
porque era um verdadeiro modismo entre os leitores apaixonados e curiosos pelas histórias de
vida dos seus contemporâneos e uma burguesia que procurava se revelar e se conhecer.
Essa disseminação dos sujeitos biografados era uma consequência de uma sociedade
que se democratizava e que atribuía aos indivíduos um valor cada vez maior8. Dessa forma,
segundo Dosse (2015), a biografia se portou bem ao longo do século XIX, mas como um
subgênero, muito pouco cultivado pelos historiadores, que preferiam voltar a sua atenção para
a pesquisa da história das civilizações, dos povos, das sociedades e das instituições. O
passado somente poderia ser interrogado a partir do coletivo atuante na história.

A biografia não passa de um parente pobre, de um gênero menor, desdenhado e


relegado a alguns polígrafos sem prestígio intelectual. Vê-se isso desde o começo do
século, antes mesmo da profissionalização do ofício do historiador, que só ocorre de
fato, a partir dos anos 1880. O gênero biográfico é repudiado pelos historiadores

8
Loriga (2011, p. 23) destaca que a segunda metade do século XIX foi profícua na produção de dicionários
bibliográficos, tais como a Biographie universelle ancienne et moderne, a Nouvelle Biographie géne´rale depuis
les temps pplus anciens jusqu’à nos jours, o Doctionary of National Biography, o Doctnionary of American
Biography e a Allgemeine Deutsche Biographie.
41

liberais e românticos já nos anos da Restauração (1815-1830. (DOSSE, 2015. p.


171-172)

Aos poucos, o gênero foi sendo abandonado por acadêmicos e historiadores, que o
viam com grande desdém. À medida que a história se constituiu como uma disciplina com
pretensões científicas, a biografia foi sendo exilada dos seus domínios. Esse afastamento entre
biografia e história foi impulsionado, com aponta Loriga (2011, p. 35- 44), por três forças
dessemelhantes “que fazem da totalidade a categoria explicativa do devir histórico”: a
primeira de caráter político, proveniente da afirmação do povo como sujeito social, o que
acabou revestindo a história biográfica de um caráter elitista que se chocava contra o desejo
de fraternidade e igualdade; a segunda procedente da filosofia, principalmente da filosofia
kantiana, que descrevia o homem como um meio pelo qual a natureza realizava seus fins, e
afirmava que a história deveria se elevar acima do indivíduo e pensar em grandes proporções;
e a terceira, a da ciência, ou mais especificamente, do perigo proveniente das disciplinas
nascentes, como a Demografia e a Sociologia, desejosas de adquirir um estatuto científico
incontestável e, segundo Schimdt (2012, p. 191), das críticas feitas, principalmente pela
Sociologia, aos “ídolos dos historiadores”, dentre eles o hábito incontrolável de conceber a
história como a história dos indivíduos e não como a história dos fatos.
Dosse (2015, p. 195-197) aponta que a situação da biografia, como um gênero menor e
desprezado, ao longo do século XX, não se modificou, se é que não se agravou. A acusação
ao “ídolo individual” ou ao hábito inveterado de se conceber a história como história dos
indivíduos, que induzia quase sempre ao ordenamento dos trabalhos em torno de um homem,
e não de uma instituição, de um fenômeno social ou de uma relação a estabelecer, se tornou o
próprio paradigma dos Annales, a partir de 19299. Del Priore (2009, p. 8) destaca que, dentro
desse contexto de renovação dos métodos de trabalho do historiador, esse foi o momento do
eclipse da narrativa e da história factual, o que excluiu, por consequência a biografia, que era
narrativa por excelência. E lembra que a Nova História, nascida dos Annales na década de
1960, por privilegiar o “fato social total” em todas as suas dimensões econômicas, sociais,
culturais e espirituais, acabou por minimizar a história política, diplomática, militar ou
eclesiástica que evidenciava o indivíduo e o fato. Essa abordagem era marcada pelo diálogo
estreito com as outras ciências humanas e pela ênfase na história total de Fernand Braudel,

9
François Dosse aponta que o mergulho da história nas águas das ciências sociais, graças à Escola dos Annales,
tanto quanto o grande destaque que as teses durkheimianas ganharam no início do século XX, contribuíram para
a radicalização do desaparecimento da biografia em proveito das lógicas massificantes e quantificáveis. Com
isso, ela se tornou apenas um local de refúgio da historieta, do relato anedótico, sem outra ambição que encantar
e distrair. (DOSSE, 2015, p. 181)
42

que recusava as análises que só retinham um único fator em detrimento da multiplicidade de


componentes particulares, das circunstâncias que levavam a uma conjuntura.
Loriga (2011, p. 45-46) atenta, ainda, que o avanço da história serial, na década de
1970, em que as ações dos indivíduos serviam apenas como dados para a construção de
amplas séries estatísticas, em uma tentativa de se medir, com a ajuda de indicadores
quantificáveis, os fenômenos culturais, contribuiu para aumentar a desconfiança com o
indivíduo.
Ainda que ao longo dos anos 1960 e 1970 as forças da história total e da história
quantitativa estivessem presentes, durante a segunda metade do século XX o demorado
eclipse do gênero biográfico começou a passar. Quando o projeto biográfico parecia estar
definitivamente abandonado, a desconfiança com a dimensão individual foi se dissipando.
Pouco a pouco foi ocorrendo o resgate da memória dos marginais e dos perdedores da
história. A reflexão biográfica foi retomada, progressivamente, em toda a historiografia,
como, por exemplo, nos estudos sobre cultura popular e da história das mulheres. A crise dos
grandes modelos de interpretação, como o marxismo e o estruturalismo, contribuiu para que
numerosos historiadores se questionassem sobre o papel do indivíduo na história. A decepção
e a insatisfação com as categorias abrangentes de classes sociais ou de mentalidade, que
submetiam as ações humanas ao efeito das forças econômicas, sociais ou culturais,
reascendeu, nos historiadores, o desejo de reflexão sobre as trajetórias pessoais. Nesse
sentido, o individual se tornou a questão central da história. Com isso, a própria biografia se
democratizou, ao deslocar a atenção do grande homem (noção essa descartada e, por vezes,
tida como pejorativa) para o homem qualquer. (LORIGA, 2011, p. 212-213)
Loriga (2011, p. 213-214) destaca, entretanto, que se, por um lado, essas novas
experiências historiográficas investiram a biografia de esperanças desmesuradas, que iam
muito além de um trabalho de compreensão científica, por outro, ainda existia, em alguns
historiadores, a convicção de que o estudo de um indivíduo era uma experiência relativamente
simples e a biografia era uma modesta ferramenta que ajudava a observar melhor, senão
ilustrar, as estruturas e as tendências de longa duração. Continuava, desta forma, “a cumprir [a
biografia] o ofício de suplemento de alma, de ornamento, ou mesmo de simples cereja em
cima do bolo” (LORIGA, 2011, p. 214).
Foi, entretanto, somente a partir da década de 1980 que a rejeição ao gênero biográfico
começou a se dissipar e, assim, o indivíduo pôde encontrar a história. Em uma verdadeira
mudança de paradigma, graças à perda da hegemonia das análises marxistas e estruturalistas,
a historiografia voltou a dar espaço às análises dos indivíduos, suas ações e como essas se
43

situavam em sua relação com o meio social ou psicológico. O foco do historiador passou a
estar naquilo que condicionava o indivíduo e a história “vista de baixo” deu as costas à
história dos grandes homens, motores das decisões, analisadas de acordo com suas
consequências e resultados. (DEL PRIORE, 2009, p. 9)
Os anos 1980 ainda abriram espaço para o alargamento dos debates de historiadores e
sociólogos a respeito da biografia. Em 1986, Pierre Bourdieu publicou “A ilusão biográfica”,
uma crítica à subjetividade das biografias históricas, que, para ele eram capazes,
exclusivamente, de reconstruir a vida de forma artificial. Em uma investida em favor das
várias histórias possíveis de vida para cada indivíduo, Bourdieu (2006, p. 189) ressalta que
“tentar compreender uma vida como uma série única e por si suficiente de acontecimentos
sucessivos [...] é quase tão absurdo quanto tentar explicar a razão de um trajeto de metrô sem
levar em conta a estrutura de rede”. A crítica de Bourdieu à biografia levou os historiadores a
pensá-la sob outro ângulo. Novamente apropriada pela história social e cultural, não era mais
vista como a história de um indivíduo isolado, mas, sim, a história de uma época vista por um
indivíduo ou por um grupo de indivíduos. Como destaca Del Priore (2009, p. 9), o indivíduo
deixou de ser apresentado como herói, na encruzilhada de fatos, mas como um receptáculo de
correntes de pensamento e de movimentos que a narrativa de suas vidas torna mais palpáveis.
Vista sob uma nova ótica, a biografia contribuiu, também, para a aproximação entre
indivíduo e sociedade. O indivíduo, que não estava mais só, passou a existir em uma rede de
relações sociais diversificadas. Em uma interação constante, na sua vida convergem fatos e
forças sociais, assim como a sua própria existência, suas ideias, representações e imaginário
convergem para o contexto social a qual ele pertence. Com isso, passou-se a se permitir uma
abordagem histórica pelo foco de um indivíduo que não era, necessariamente, ilustre ou
conhecido. Isso tornou-se possível justamente porque os destinos individuais estavam
situados em diversas redes que se entrecruzavam, como a casa e a família, o espaço regional,
o universo espiritual, a utensilagem mental de uma época. (DEL PRIORE, 2009, p. 10)
O processo de retomada do individual, e a discussão historiográfica em torno dela,
provocou a abertura de novos campos de trabalho. Dentre eles, cabe ressaltar o importe papel
da micro-história. Juntamente com a história das mulheres e com os estudos de cultura
popular, essa experiência historiográfica contribuiu, segundo Loriga (2011, p. 221-222), “para
restituir aos vencidos da história uma dignidade pessoal”. Preocupada com a problematização
mais nítida do objeto de investigação, especialmente com as hierarquias e os conflitos sociais,
essa nova abordagem histórica apresentou como características: a ênfase nos conflitos de
classe sub-reptícios aos fatos e personagens históricos, a despreocupação com os contextos
44

amplos e a longa duração e a renúncia à história totalizante. As biografias extraídas dessa


nova prática historiográfica passaram, então, até mesmo pela tradição marxista da qual eram
provenientes seus autores, a dedicar uma atenção especial aos anônimos da história: o
“popular”, os “de baixo”. (DEL PRIORE, 2009, p. 11) Para Loriga (2011, p. 222), a micro-
história nasceu da aliança entre convicção política e reflexão metodológica, com a ideia de
utilizar materiais biográficos de maneira agressiva, a fim de questionar algumas
homogeneidades fictícias (como a instituição, a comunidade e a classe social), e, a partir daí,
poder se debruçar sobre as capacidades de iniciativa pessoal dos atores históricos.

2.2 Contar uma vida – questões metodológicas

Giovanni Levi (2006, p. 168), no seu artigo clássico Usos da Biografia, aponta que a
maioria das questões metodológicas da historiografia contemporânea diz respeito à biografia,
sobretudo as relações com as ciências sociais, os problemas das escalas de análise e das
relações entre regras e práticas, bem como aqueles, mais complexos, referentes aos limites da
liberdade e da racionalidade humana. Entretanto, mesmo estando no centro das preocupações
dos historiadores contemporâneos, Souza (2007, p. 28) ressalta que o espaço para a biografia
na História ainda tem se limitado a dois usos já tradicionais: como biografia representativa e
como estudo de caso. Para a historiadora, o modo como ambos recorrem à biografia tornou-se
um problema, já que, nesses casos, o biográfico não se constitui no lugar de produção de uma
escrita da História, além do historiador continuar mantendo-se afastado do único, do
acidental.
No primeiro caso, a escolha de uma trajetória de vida não ocorre em função do que há
de singular nessa trajetória. Como ressalta Avelar (2012, p. 68), o indivíduo enfocado não é
digno da reconstrução biográfica pelo que tem de excepcional, mas por sintetizar várias outras
vidas, servindo de passagem para a apreensão de marcos mais amplos. Daí, como aponta
Souza (2007, p. 28), o uso da denominação “biografia representativa”.
O uso da biografia como estudo de caso valoriza ainda menos o biográfico como lugar
de construção de um discurso histórico, conferindo ao indivíduo uma função meramente
ilustrativa de uma realidade mais ampla abordada. Nesse caso, em um primeiro momento, se
procede a uma análise macroestrutural da sociedade e dos quadros explicativos subjacentes,
para, só então, dar-se início à análise biográfica. (SOUZA, 2007, p. 28)
É certo que, apesar das críticas, esses usos têm o seu lugar assegurado na análise social
e constituem-se em práticas científicas consolidadas pela historiografia, como lembram Souza
45

(2007, p. 28) e Avelar (2012, 69). Além do mais, as questões que suscitam o uso da biografia,
como representatividade e como estudo de caso, não estão, como ressalta Avelar (2012, p.
70), fundamentalmente ligadas à problemática da escrita da história e à crise dos anos 1970,
como visto anteriormente, uma vez que, nos dois casos, a narrativa obedece aos critérios de
estabelecimento das constâncias e continuidades do mundo social. Entretanto, o valor
epistemológico da biografia para a escrita da história, só pode ser repensado a partir das
discussões que envolvem a narrativa biográfica e outras questões que serão abordadas a
seguir.

2.2.1 A narrativa biográfica

Uma primeira questão refere-se à narrativa biográfica. A prática da escrita biográfica


em muito se assemelha à prática escrita do historiador, que tem, como uma de suas marcas, a
intenção de construir um discurso próximo da verdade. Sendo assim, o historiador-biógrafo
não pode renunciar à tarefa de narrar uma história verdadeira, a partir da observação de certos
cânones constituintes da pesquisa histórica. Entretanto, o campo da escrita biográfica requer
do historiador a atenção necessária para poder avaliar o caráter ambivalente da prática
epistemológica do seu ofício, uma vez que se apresenta inevitavelmente tenso entre o seu polo
científico e seu polo ficcional. Convencido de sua capacidade de penetrar nos acontecimentos
e fatos relevantes de uma trajetória de vida, o historiador-biógrafo pode se ver em uma
encruzilhada narrativa ao se deparar com lacunas documentais e perguntas sem respostas, o
que o fará se dar conta da dimensão ficcional da biografia10. (AVELAR, 2012, p. 70)
Nesse sentido, a escrita biográfica pressupõe uma narrativa de “acontecimentos
encadeados e uma intriga codificada por fatos reais, interpretados” (DEL PRIORE, 2009, p.
11). Longe do caráter ficcional dos romances, próprios do gênero literário, o que se espera,
portanto, do texto de um historiador-biógrafo é que ele conte a história real de uma vida, no
qual a narrativa dos eventos é imposta por documentos e não nascida da imaginação.
Del Priore (2009, p. 11-12) destaca que o historiador, ao reconstituir as coisas do
passado, tenta imaginá-las como se as tivesse visto. Nesse momento, há um cruzamento
perigoso com a imaginação literária. Para ela, o discurso exposto pelo biógrafo ou pelo
romancista tem em comum a intriga da narrativa. No entanto, a intriga do biógrafo deve se
conformar às leis de encadeamento e aos cânones da disciplina, às quais escapa o romancista.

10
Dosse (2015, p. 55) aponta que o recurso à ficção é inevitável na medida em que não se pode restituir a
riqueza e a complexidade da vida real. Procurar trazer tudo à luz é ao mesmo tempo a ambição que orienta o
biógrafo e uma aporia que o condena ao fracasso.
46

Na narrativa de ficção todas as distorções são permitidas, um caminho que jamais deve ser
trilhado pelo historiador.
Apesar das divergências apontadas por Del Priore, que separam as narrativas do
historiador e do romancista, Levi (2006, p. 168) aponta que, livre dos entraves documentais, a
literatura comporta uma infinidade de modelos e esquemas biográficos que influenciaram
amplamente os historiadores. Essa influência, que se deu mais indireta do que diretamente,
suscitou uma série de problemas, questões e esquemas psicológicos e comportamentais que
puseram o historiador diante de obstáculos documentais muitas vezes instransponíveis. Para
ele, o “fascínio de arquivistas” pelas descrições impossíveis de corroborar, próprio dos
historiadores, como, por exemplo, os atos e pensamentos da vida cotidiana, o caráter
fragmentário e dinâmico da identidade e os momentos contraditórios da sua constituição,
alimentou não só a renovação da história narrativa, como também o interesse por novos tipos
de fontes, nas quais se poderiam descobrir indícios esparsos dos atos e das palavras do
cotidiano.
É dentro desse contexto que Levi indaga se é possível se escrever a vida de um
indivíduo. Ao mesmo tempo em que essa questão levanta pontos importantes à historiografia,
ela se esvazia em meio a simplificações que tomam como pretexto a falta de fontes.
Entretanto, essa não é a principal dificuldade que se apresenta ao historiador-biógrafo, e, sim,
o fato destes imaginarem que os atores históricos obedecem a um modelo de racionalidade
anacrônica e limitado. Calcados em uma tradição biográfica estabelecida e na própria retórica
da disciplina, alguns historiadores ainda têm se contentado com os modelos que associam
uma cronologia ordenada11, uma personalidade coerente e estável, ações sem inércia e
decisões sem incerteza. (LEVI, 2006, p. 169) Com isso, como bem lembra Avelar (2012, p.
71), ao escreverem biografias, correm o risco de formatarem seus personagens e de induzirem
os leitores a expectativas ingênuas de estarem sendo apresentados a uma vida marcada por
regularidades, repetições e permanências. Como bem destaca Vavy Pacheco Borges,

nossos personagens históricos não são modelos de coerência, de continuidade, de


racionalidade; como para nós, as tensões entre o vivido e o que foi imaginado e

11
Vavy Pacheco Borges aponta que um dos maiores desafios do historiador é trabalhar com temporalidades
diferentes, conciliando a cronologia linear com o percurso de vida não linear. Organizar a narrativa a partir de
cortes temáticos, través de flashbacks, alternando as temporalidades da vida, ou utilizando itens alfabeticamente
organizados, são algumas inovações utilizadas pelos biógrafos contemporâneos. Entretanto, ela não nega a
importância da cronologia para a ordenação dos fatos, tanto para o historiador como para o leitor. Para uma
compreensão inicial é sempre importante ordenar os acontecimentos no tempo em uma tábua cronológica. Se
será usada posteriormente, na narração final, total ou parcialmente, o biógrafo irá decidir. Esquemas
cronológicos, de parentesco e árvores genealógicas também ajudam na ordenação e na compreensão dos fatos de
uma vida. (BORGES, 2015, p. 221, 224-225)
47

desejado são fundamentais em suas vidas. E, para eles, como para nós, há uma parte
indecifrável do aleatório, do imprevisível, do misterioso da vida (a não ser que
acreditemos em alguma espécie de “Divina Providência”). (BORGES, 2012, p. 233)

As narrativas biográficas contemporâneas têm sido construídas sob um prisma que


procura rejeitar a ideia de uma vida linear e coerente para seus personagens, privilegiando as
múltiplas facetas de suas existências. A biografia moderna, como uma exposição não-
determinista de um indivíduo, dentro de um contexto, nos previne contra o equívoco de se
atribuir à história uma visão homogênea e progressista, em que há uma acumulação dos fatos
e a eliminação das contradições e dos elementos de rupturas. O prévio conhecimento do
desfecho dos fatos não implica que este já estivesse determinado desde o início. (AVELAR,
2007, p. 56)
É nesse sentido que Pierre Bourdieu teceu sua crítica à “ilusão biográfica”, ao
considerar ser indispensável reconstruir o contexto em que age o indivíduo biografado, numa
pluralidade de campos, a cada instante. Para Bourdieu (2006, p. 184), a narrativa biográfica
ancora-se no pressuposto de que “a vida constitui um todo, um conjunto coerente e orientado,
que pode e deve ser apreendido como expressão unitária de uma ‘intenção’ subjetiva e
objetiva de um projeto”. Essa vida organizada, segundo o sociólogo, transcorre como uma
história – “um caminho que percorremos e que deve ser percorrido, um trajeto, uma corrida,
um cursus, [...] um percurso orientado, um deslocamento linear, unidirecional...” –, como um
relato coerente de acontecimentos com significado e direção (do qual não fazem parte as
noções de risco e incerteza), que aponta para um fim determinado que já se manifesta nos
primeiros anos da vida do personagem biografado. Como aponta Souza (2007, p. 29), é essa
crença difundida no senso-comum histórico, de que a vida é em si uma história, que constitui
o cerne da ilusão retórica defendida por Bourdieu, e que tem como seu elemento constituinte
o nome próprio.
O nome próprio “é o atestado visível da identidade do seu portador através dos tempos
e dos espaços sociais, o fundamento da unidade de suas sucessivas manifestações e da
possibilidade socialmente reconhecida de totalizar essas manifestações em registros oficiais”
(BOURDIE, 2006, p. 187). É o nome “José Pessoa” que irá assegurar ao biografado neste
trabalho, por exemplo, uma identidade constante e durável em todos os campos onde esse
personagem intervém como agente através do tempo, ou seja, em todas as suas histórias de
vida possíveis: o herdeiro de uma tradição oligárquica paraibana, o idealizador de uma
mudança de sede da Escola Militar, o “inventor de tradições”, o presidente da Comissão de
Locação da Nova Capital Federal, etc. Para Bourdieu (2006, p. 187), o nome próprio, como
48

instituição, assegura aos indivíduos, para além das mudanças biológicas e sociais, a
constância nominal, a identidade no sentido de identidade consigo mesmo que a ordem social
demanda.
Souza (2007, p. 29) lembra que, na visão do sociólogo francês, o nome próprio é “o
melhor exemplo de uma imposição arbitrária, que assegura uma constância através do tempo
e uma unidade através dos espaços sociais” e que a nominação, nesse sentido, introduziria a
noção de trajetória, definida por Bourdieu (2006, p.189) como “uma série de posições
sucessivamente ocupadas por um mesmo agente (ou um mesmo grupo) num espaço que é ele
próprio um devir, estando sujeito a incessantes transformações”. Em uma analogia com a
malha ferroviária de um metrô, Pierre Bourdieu aponta o absurdo de se tentar compreender
uma vida, sem levar em consideração a “estrutura de rede” na qual o indivíduo está inscrito e
age.

Tentar compreender uma vida como uma série única e por si suficiente de
acontecimentos sucessivos, sem outro vínculo que não a associação a um sujeito
cuja constância certamente não é senão aquela de um nome próprio, é quase tão
absurdo quanto tentar explicar a razão de um trajeto no metrô sem levar em conta a
estrutura da rede, isto é, a matriz das relações objetivas entre as diferentes estações.
(BOURDIEU, 2006, p. 189-190)

Os acontecimentos biográficos se definem como colocações e deslocamentos no


espaço social. Assim, não é possível se compreender uma trajetória sem que se tenha
previamente construído os estados sucessivos do campo no qual ela se desenvolveu e o
conjunto das relações objetivas do agente considerado com os outros agentes envolvidos no
mesmo campo12. (BOURDIEU, 2006, p.190)
Em uma perspectiva contrária à rigidez atribuída por Bourdieu ao nome, tido por ele
como a marca indelével da unidade existencial, Ginzburg (1989) propõe tomá-lo como o fio
condutor para a construção de uma nova história social. Para Adriana Barreto de Souza, a
proposta do historiador italiano só é possível porque o individual não é visto em oposição ao
social, já que este seria o resultado da ação de indivíduos em suas relações com outros
indivíduos. Ao invés de partir de conceitos generalizantes, como classe e grupos organizados
profissional ou socialmente, a ênfase do historiador deveria recair sobre as trajetórias
individuais e, por intermédio delas, “percorrer em múltiplos espaços e tempos as relações nas
quais elas se inscreviam” (SOUZA, 2007, p. 29). Tomado como uma espécie de bússola, na
concepção de Ginzburg, o nome guiaria o historiador pelo universo documental dos arquivos,

12
À capacidade de um indivíduo existir como agente em diferentes campos, Bourdieu (2006, p. 190) chamou de
superfície social.
49

tendo, também, validade para o momento final da pesquisa, o da escrita. Nesse sentido, ao
transformar o nome em uma espécie de brecha para o passado, a trajetória de um indivíduo
permitiria recompor e pensar questões mais gerais, relativas a relações familiares, a formação
escolar/acadêmica, a estratégias de socialização e de ação no mundo. (SOUZA, 2007, p. 29-
30)
Ao discutir a relação indivíduo-sociedade, a partir do conceito de configuração,
Adriana Barreto afirma que todo individuo ocupa um lugar numa teia humana composta por
relações que não lhe é permitido modificar senão dentro de certos limites. Escrever uma
biografia é, em parte, pensar essas relações que se precipitam sobre os indivíduos no
momento do nascimento e através das quais eles se colocam no mundo. Essa rede de
dependências não é rígida. Ao contrário, as inter-relações que nela ocorrem estão em
constante adaptação. Os lugares por onde um personagem passou, a maneira de agir em
relação aos outros indivíduos e as decisões tomadas permitem-lhe dar continuidade,
reelaborar ou romper com relações herdadas, além de lhe abrir novas possibilidades de
constituir novas alianças. Para Souza, é nesse jogo de relações que a construção de uma
biografia vai acontecendo. Cada indivíduo encontra-se inscrito em redes de dependência,
estando sujeito às contingências da experiência. Essas redes constituem uma conduta e
engendram práticas concretamente negociadas frente a um “campo de possibilidades”.
(SOUZA, 2007, p. 32) A partir deste conceito, formulado pelo antropólogo Gilberto Velho, é
possível se iniciar algumas considerações sobre a relação entre indivíduo e contexto.

2.2.2 O indivíduo e o contexto

Através das noções de “projeto” e “campo de possibilidades”, Gilberto Velho


estabelece uma nova dimensão para a problemática dos processos de interação entre grupos e
segmentos diferenciados nas sociedades complexas moderno-contemporâneas, em que as
trocas culturais acontecem de forma permanente através das migrações, viagens e encontros
internacionais de todo tipo, além da existência do fenômeno da cultura e da comunicação de
massas. Essa problemática, segundo Velho, está presente, também, nas biografias e trajetórias
individuais, uma vez que os indivíduos modernos nascem e vivem dentro de culturas e
tradições particulares, como seus antepassados de todas as épocas e áreas geográficas. Dessa
maneira, a construção das identidades está subordinada a constelações culturais singulares e a
conjuntos de símbolos delimitáveis, o que afeta, de alguma forma, o processo histórico como
50

um todo e as relações entre os sistemas culturais, repercutindo na existência de indivíduos


particulares. (VELHO, 2013, p. 131-132)
Velho define projeto como “a conduta organizada para atingir finalidades específicas”.
O campo de possibilidades é o “espaço para a formulação e implementação de projetos”
(VELHO, 2013, p. 132). Para o antropólogo,

evitando um voluntarismo individualista agonístico ou de um determinismo


sociocultural rígido, as noções de projeto e campo de possibilidades podem ajudar a
análise de trajetórias e biografias enquanto expressões de um quadro sócio-histórico,
sem esvaziá-las arbitrariamente de suas peculiaridades e singularidades. (VELHO,
2013, p. 132)

As trajetórias individuais ganham consistência a partir do delineamento mais ou


menos elaborado de projetos com objetivos específicos. A interação desses projetos com
outros, individuais ou coletivos, bem como a natureza e a dinâmica do campo de
possibilidades, serão condicionantes para as suas viabilizações. (VELHO, 2013, p. 138)
Ainda a respeito da relação entre indivíduo e contexto, Rojas chama atenção para o
complexo problema das biografias que tendem a subestimar a importância de uma das partes
dessa relação. Nesses casos, as análises biográficas sempre se moverão entre os dois
extremos, que tentam, de um lado, privilegiar o indivíduo em detrimento de um contexto visto
como um mero pano de fundo para processo histórico, já que um mesmo contexto poderia ser
o gerador de diversos indivíduos peculiares, e do outro, colocar o ambiente histórico como um
definidor das grandes tendências e desdobramentos nos quais os indivíduos deverão de
encaixar. (ROJAS, 2000, p. 28-29)
Para Rojas, o problema de todo historiador-biógrafo está na relação do indivíduo com
o contexto ou, ainda, na relação estabelecida entre o indivíduo e o contexto. A solução para
esse problema não está, pois, na possibilidade de se pensar se o indivíduo se relaciona com o
contexto, ou se existe tal relação, e, sim, na capacidade de o biógrafo visualizar o indivíduo
como parte integrante e pertencente a um determinado contexto. Dessa forma, evitar-se-ia o
erro de tratar tanto o indivíduo como o contexto como entidades já determinadas e
estabelecidas, cabendo ao biógrafo apenas descobrir suas ligações. (ROJAS, 2000, p. 31)
Para Borges (2015, p. 222), a relação indivíduo-contexto é o ponto teórico mais
complicado, quando se trata de escrever uma vida. Assim, alguns pontos devem ser levados
em consideração pelo biógrafo, como os condicionantes sociais do personagem, o grupo ou
grupos em que atuava, enfim, todas as redes de relações pessoais que constituíam o seu dia a
51

dia. Questões como essa conduzem a uma avaliação do caráter intersticial de liberdade de que
dispõem os indivíduos. Parece sempre existir uma dose de indeterminação.

Penso nas normas e nas práticas da família e dos grupos nos quais o biografado
nasceu, cresceu e viveu (é óbvio que sua variação é quase infinita). É preciso se
refletir nas margens de liberdade que cada um possui; as margens não são aferíveis,
não são mensuráveis. O grave problema da necessidade ou do determinismo versus
o fluxo caótico e aleatório da vida nunca está claro em cada vida. [...] Perceber as
razões das escolhas feitas em nossa própria vida já não é fácil, imagina na dos
outros! Advirto novamente, como na questão de uma “normalidade” ou “desvio” já
mencionada, que o historiador evite conclusões apressadas ou rígidas. (BORGES,
2015, p. 222)

A diversidade de tipos individuais quebra a ideia de determinação e de necessidade, de


unidade de certo grupo social. Não há, no entender de Borges (2015, p. 222) um tipo de
comportamento normal, um padrão de indivíduo que faz parte de um determinado grupo
social, em determinado momento. Entretanto, os indivíduos de um mesmo grupo social
apresentam lances de vida semelhantes (de maior ou de menor porte) e uma reflexão do
biógrafo a respeito do grupo, segundo a historiadora, pode iluminar a compreensão do
biografado. A discussão sobre a representatividade do biografado é recorrente na bibliografia
que trata das biografias, se ele seria um caso modal ou não. Aceitá-lo como tal, seria aceitar,
no limite, uma reflexão sobre a possibilidade de uma generalização. Como aponta Borges
(2015, p. 223), “trata-se do sério problema do geral e do particular, que não se resolverá por
uma fórmula, mas por uma procura lenta e cuidadosa de afirmação sobre cada vida”.
Mas, como organizar esse problema na narrativa? Loriga (1998, p. 123) alerta para o
perigo de organizá-la como um sanduíche, “um pouco de contexto, um pouco de existência
individual, e outra camada e contexto...”. É preciso, ainda, estar atento ao não “enraizamento”
do personagem em seu meio social, em seu tempo. É preciso vê-lo em movimento. Dessa
forma, o contexto histórico não pode ser um cenário descrito no primeiro capítulo e do qual
depois o autor distinguirá a silhueta do biografado. (BORGES, 2015, 223)
Ao formular uma tipologia13 que visa a lançar luz sobre a complexidade das diversas
abordagens do problema biográfico, Levi (2006, p. 175-176), em uma delas, também discorre
sobre a relação entre biografia e contexto, a partir de duas perspectivas distintas. Na primeira,
a reconstituição do contexto histórico e social em que se desenrolaram os acontecimentos
permite compreender o que à primeira vista parece inexplicável e desconcertante. O
comportamento do personagem, típico do meio social, perde o seu caráter individual e

13
Para uma tipologia dos usos da biografia, consultar LEVI, Giovanni. Usos da biografia. In.: FERREIRA,
Marieta de Moraes; AMADO, Janaína. Usos e abusos da história oral. 8. ed. Rio de Janeiro: FGV, 2006.
52

contribui para o retrato de uma época ou de um grupo. Não se trata, entretanto, de buscar uma
interpretação em que as condutas individuais são reduzidas a comportamentos-tipos, mas de
compreender as vicissitudes biográficas à luz de um contexto que as torne possíveis e, logo,
normais.
Por outro lado, o contexto é utilizado para preencher as lacunas documentais por meio
de comparações com outras pessoas cuja vida apresenta alguma analogia com a do
personagem estudado. Franco Venturi, ao reconstituir os primeiros anos de Diderot, em sua
Juventude de Diderot, ilustra bem esse caso, já que o faz praticamente sem documentação
direta.

Para tornar interessante uma tentativa de reconstituição da biografia de seus


primeiros anos, é indispensável ampliar tanto quanto possível em torno dele o
número de pessoas e de movimentos com os quais ele entrou em contato,
reconstituir em trono dele o seu meio, multiplicar os exemplos de outras vidas que
tenham algum paralelo com a sua, fazer reviver em torno dele outras pessoas jovens.
(VENTURI, 1939 apud LEVI, 2006, p. 176)

Sob qualquer uma das perspectivas, a utilização da biografia pressupõe,


implicitamente, que uma vida, qualquer que seja a sua originalidade aparente, não pode ser
compreendida unicamente através de seus desvios ou singularidades, mas, ao contrário,
mostrando-se que cada desvio aparente em relação às normas ocorre em um contexto histórico
que o justifica. No entanto, cabe considerar que, nesses casos, o contexto frequentemente é
apresentado como algo rígido, coerente, e que serve de pano de fundo imóvel para explicar
uma biografia. Apesar de estarem arraigadas a um contexto, as trajetórias individuais não
agem sobre ele, tampouco o modificam. (LEVI, 2006, p. 176)
Há ainda, segundo Levi (2006, p. 176-177), casos em que as biografias são utilizadas
especificamente para esclarecer um contexto. Nesses casos, o contexto não é percebido em
sua integridade e exaustividade estática, meio por meio de suas margens. Através da descrição
de casos extremos, lança-se luz sobre as margens do campo social em que esses casos
ocorrem. Pode-se citar aqui a biografia de Menocchio, através da qual Ginzburg (2006) faz
uma análise de uma cultura popular através de um caso extremo, e não de um caso modal.
Em Microanálise e Construção do Social, Jacques Revel, ao defender a micro-história
como uma tentativa de se construir uma nova história social, propõe a revisão de alguns
pressupostos e noções clássicas, dentre elas a de contexto, que, para ele, durante muito tempo
foi utilizada de forma preguiçosa pelos historiadores. Para Revel os seus usos mais comuns
são:
53

Uso retórico: o contexto, em geral apresentado no início do estudo, produz um efeito


de realidade em torno do objeto da pesquisa. Uso argumentativo: o contexto
apresenta as condições gerais, nas quais uma realidade particular encontra seu lugar,
mesmo que nem sempre se vá além de uma simples exposição dos dois níveis de
observação. Uso interpretativo, mais raro: extraem-se às vezes do contexto as razões
gerais que permitiriam explicar situações particulares. (REVEL, 1998, p. 27)

A abordagem original da micro-história recusa, entretanto, a evidência que subentende


todos esses usos: a existência de um contexto unificado e homogêneo, dentro do qual e em
função do qual os atores fariam as suas escolhas14. Essa recusa, na visão de Revel, pode ser
entendida de duas maneiras: 1) como uma lembrança das multiplicidades das experiências e
das representações sociais, em parte contraditórias e ambíguas, por meio das quais os homens
constroem o mundo e suas ações; 2) como um convite para inverter o procedimento mais
habitual para o historiador, aquele que consiste em partir de um contexto global para situar e
interpretar seu texto. O que é propõe, ao contrário, é construir a pluralidade dos contextos que
são necessários à compreensão dos comportamentos observados. (REVEL, 1998, p. 27)

2.2.3 O “eu” e o “outro”

Outra questão a ser abordada é a relação biógrafo-biografado, que surge já no


despertar do interesse do biógrafo pelo personagem do relato de vida que pretende
desenvolver. Pensar nessa relação implica em mergulhar no estudo das subjetividades, das
dimensões e significações do “outro” – o biografado – em relação àquele que o pensa e o
imagina, o “eu” – o biógrafo. Ao se propor a escrever uma biografia, o biógrafo se vê diante
do desafio de pensar não somente o outro como a si mesmo, pois “falar do outro é falar de si e
tentando-se compreender uma vida, acaba-se por pensar o outro por si mesmo e pensar a si
mesmo pelo outro” (BORGES, 2012, p. 232). Na busca pelos dados de sua pesquisa, o
biógrafo pode ser comparado, na visão de Malcolm (1995, p.16), a um “arrombador
profissional”, um “voyeur”, um “bisbilhoteiro”; e a uma espécie de benfeitor, que sacrifica
anos de sua vida envolvido em um trabalho de consulta a arquivos e bibliotecas e em
entrevistas de testemunhas. Ao dedicar a sua existência ao esclarecimento da vida de um
estranho, ao preço de sacrifícios pessoais que transformam sua escolha em sacerdócio, o
trabalho do biógrafo se identifica, muitas vezes, ao “labor de um beneditino” (DOSSE, 2015,
p. 13). Nesse trabalho, sabe que dificilmente conseguirá a completude de sua obra,

14
Souza (2007, p. 32) ressalta que aí esteja, talvez, a maior contribuição dos estudos com recortes biográficos, ao
recusarem esses usos.
54

independentemente do número de fontes que consiga consultar, já que ao fazê-lo, novas pistas
surgirão, correndo o risco de enredar-se a cada passo de sua pesquisa.
A prática biográfica, por vezes, arrebata o biógrafo para o universo do biografado, em
uma autêntica “possessão” (Dosse, 2015, p. 14). Essa apropriação mergulha-o em um
universo de exterioridade. A projeção necessária e exigida pela empatia que é criada com o
tema pesquisado – existem exceções notórias, como a biografia de Hitler por Ian Kershaw –,
acaba não só transformando o biógrafo, em função da personagem cuja biografia escreve,
como arrebata-o para o universo do biografado, durante o período da pesquisa e da redação da
biografia, a ponto de não conseguir distinguir o universo exterior do interior. O movimento
em direção ao outro, bem próximo da escrita biográfica, oferece alguns riscos, como a perda
da própria identidade e a não determinação da singularidade do sujeito biografado. O biógrafo
deve saber manter-se no meio-termo, um procedimento difícil, já que os arroubos passionais e
as tomadas de distância objetivantes são tão necessárias quanto o cuidado de preservar-se tal
qual é. (DOSSE, 2015, p. 14-15)
Daí entra a prática estrita e séria do ofício do historiador, na busca da maior
objetividade possível, através da busca por provas documentais e, sobretudo, pelo
questionamento e pela contraposição da própria documentação. (BORGES, 2015, p. 218)
Como lembra Dosse (2015, p. 59) “a biografia não depende apenas de arte: quer-se também
estribada no verídico, nas fontes escritas, nos testemunhos orais. Preocupa-se com dizer a
verdade sobre a personagem biografada”. Daí o melhor proveito que se pode tirar dos
documentos íntimos, como as cartas, diários, autobiografias15, por se encontrarem o mais
perto possível do autêntico, ainda que se corra o risco de se alimentar uma ilusão de se
restituir inteiramente uma vida, devido ao caráter aporético de se querer extrair deles a
verdade de um indivíduo. Como um cientista, o biógrafo deve cruzar suas fontes, confrontá-
las, a fim de se aproximar da verdade. Nesse sentido, nada como o uso do método histórico,
fundamental na comparação e confirmação dos documentos originais que irá manusear, já
que, em muitos momentos, corre o perigo de mergulhar numa obra imaginária para escapar à
vida real. (DOSSE, 2015, p. 59)
De uma maneira geral, o biógrafo expõe as motivações que o levaram a acompanhar a
vida de um personagem, assim como os objetivos do seu empreendimento, suas fontes e a
metodologia que utilizará para tal, formando com o leitor uma espécie de “contrato de leitura”

15
Para Dosse (2015, p. 68), a fonte autobiográfica tem uma importância capital porque dá ao biógrafo a ilusão de
penetrar no âmago do personagem e chegar bem perto da sua intencionalidade. O uso de memórias, confissões
ou registros autobiográficos é adotado de formas diversas nas biografias; dá a entender que se está mais próximo
da restituição autêntica do passado.
55

(DOSSE, 2015, p. 95). Tal prática, como aponta Avelar (2012, p. 76), apesar de ser bastante
clássica, conduzem a um entendimento de que o texto produzido será distinto de uma obra de
ficção, pois poderá ser posto à prova de verificação pelos critérios e métodos de estudo
científico. Borges (2015, p. 217) lembra a preocupação atual com o verossímil, com aquilo
que parece ser verdadeiro, possível ou provável. E, ressalta que, em um trabalho de pesquisa
histórica, “o fundamental é não enganar o leitor quanto ao que afirmamos” (2015, p. 218).
Para ela, o ideal é se começar pelo que já foi escrito (ou trabalhado de outra forma) sobre o
personagem a ser biografado, o que poderá, por vezes, colocar o biógrafo diante de uma
imagem já estabelecida, até mesmo marcante, a ser revista. Essa indicação de Borges, parece
ir ao encontro da proposta desta tese, uma vez que existe um único trabalho publicado no
meio editorial sobre o personagem a ser aqui biografado, o marechal José Pessoa Cavalcanti
de Albuquerque, cuja primeira edição data de mais de vinte anos e, no que parece a este
pesquisador, não apresentou muitos fatos novos em sua última reedição.
Philippe Lejeune ressalta, no entanto, duas grandes contradições inerentes a esse pacto
biográfico estabelecido entre autor e leitor. A primeira é a tendência do discurso, da
competência e da erudição do biógrafo mascarar a inevitável parcialidade e os fundamentos
ideológicos do seu projeto. Não se escreve a vida de outro indivíduo por mero conhecimento.
A outra contradição, da qual a maioria dos biógrafos sequer parecem ter consciência, diz
respeito ao fato de que querer registrar a vida de uma pessoa pressupõe o domínio e a visão
totalizante do que ela foi ao longo da sua existência. Os textos documentais, em geral,
apresentam muitas lacunas, o que implicará recorrer à utilização da psicologia e da
imaginação ficcional. (LEJEUNE, 1980, p. 77-78)
Mas, que fatos devem ser selecionados para a narração de uma vida? Vavy Pacheco
Borges apresenta algumas indicações metodológicas a quem se aventura pela prática
biográfica.
Ao narrar os acontecimentos de uma vida, os fatos são permanentemente selecionados,
uma vez que a narração de uma vida requer uma seleção daquilo que parece significativo.
Essa escolha já se constitui em uma forma de interpretação, de atribuição de sentido. Embora
essa seleção não seja evidente, algumas escolhas são mais fáceis de se fazer: fatos
importantes, como nascimento, origem social e familiar, por exemplo. Dependendo da vida do
personagem, outros fatos relevantes também não serão difíceis de escolher: se o mesmo for
um político, escritor, ou, um militar, como no caso do biografado neste trabalho. Fica claro,
então, que será fundamental a interpretação de sua trajetória profissional. (BORGES, 2015, p.
221)
56

Há, porém, aqueles acontecimentos que podem ser vistos como menores na vida do
indivíduo e que são mais difíceis de ser selecionados: detalhes que enriquecem a
interpretação, o que é anedótico, o que é visto como simbólico, o que é aleatório. Uma vida
individual imbrica-se com os grandes acontecimentos de sua época, e a presença de todo o
tipo de fato (político, econômico, social, cultural etc.) pode ser percebida ao longo de sua
existência. Entretanto, somente devem entrar na narração aqueles que marcaram essa vida. E,
quanto ao início da história? Quando ela deve começar? Nas origens da família, no
nascimento do personagem? E o ponto final? Será marcado pela morte do biografado, ou irá
mais além? Cabe lembrar que ele fez parte, em vida, de uma trama social e nela sua memória
estará presente até que a última pessoa que o conheceu morra, assim como estará presente,
também, na memória familiar (está pode ser fundamental?). Não há dúvida que a memória
que faz parte do domínio público é fundamental. Como também são fundamentais os vazios e
as ausências (as incertezas, as possibilidades perdidas etc.), aquilo que os documentos não
explicam. Cabe ao historiador interpretá-las. (BORGES, 2015, p, 221)

2.2.4 A ética do historiador-biógrafo

“Para o historiador em geral e para o historiador biógrafo em particular, não há, como
sabemos, fatos importantes a ser revelados, doa a quem doer, mas sim acontecimentos que se
tornam históricos se nos ajudam a responder nosso problema de pesquisa” (SCHMIDT, 2014,
p. 17). Essa reflexão de Schimdt conduz à questão final a ser abordada, que é a dimensão ética
da pesquisa biográfica, mais especificamente a ética do historiador-biógrafo, tanto no que diz
respeito ao biografado quanto no que diz respeito aos princípios de sua disciplina.
Que normas (explícitas ou implícitas) pautam a atividade do historiador que se propõe
a narrar uma vida? Vavy Pacheco Borges adverte, nesse sentido, que

é preciso um grande respeito ao outro, um cuidado para não se querer “consumir” o


biografado como um produto, evitando aquilo que ocorre por vezes hoje em dia, nas
relações humanas e, especialmente, em algumas relações biográficas. Uma vida não
deve ser encarada como um objeto que vamos expor e vender, sem outras
considerações embora, obviamente, faça parte de nosso trabalho devolver à
sociedade o produto de nossas pesquisas. (BORGES, 2015, p. 237)

O ofício do historiador, como lembra Schmidt (2014, p. 18), “pauta-se por certas
exigências, por convenções explicitas e implícitas a respeito do que é permitido ou proibido,
adequado ou inadequado, valorizado ou estigmatizado”. Os rigores teóricos e metodológicos e
a necessidade social de produzir os trabalhos historiográficos não são polos opostos às
57

convenções de caráter ético, assim como não o são os limites impostos ao trabalho do
historiador-biógrafo no manuseio dos documentos pessoais e no trato com familiares e amigos
do personagem biografado. (AVELAR, 2012, p. 77) Sendo assim, as biografias escritas por
historiadores profissionais

não visam a fazer vir à tona segredos antes escondidos, mas sim compreender
historicamente os percursos de certos personagens, de modo a entender, por
exemplo, o funcionamento de determinados mecanismos sociais e sistemas
normativos, a pluralidade existente em grupos e instituições vistas normalmente
como homogêneas, a construção discursiva e não-discursiva dos indivíduos, as
margens de liberdade disponíveis às pessoas em diferentes épocas históricas, entre
outras questões. (SCHIMDT, 2014, p. 17)

A exemplo do que acontece na História, no caso da biografia histórica, o que guia os


passos da investigação e estabelece o que deve ou não ser narrado são problemas de pesquisa
com relevância histórica, que podem ser respondidos pelos métodos dessa disciplina. Os
historiadores biógrafos sabem que não podem “esgotar” o personagem, pois nesse campo não
existem biografias “definitivas”. Seu interesse é acompanhar um percurso singular para, com
ele ou por meio dele, sugerir respostas a questões que também interessam a seus colegas de
profissão. (SCHIMDT, 2014, p. 19)
58

3 DAS RELAÇÕES PARENTAIS AOS ESTUDOS INCIAIS E A FORMAÇÃO


MILITAR

A única obra publicada sobre a narrativa de vida de José Pessoa muito pouco, ou quase
nada, apresenta sobre as origens familiares desse personagem. Sendo assim, este capítulo tem
por objetivo delinear, ainda que a traços largos, uma vez que as fontes disponíveis para tal são
bastante limitadas em quantidade e em informações, as relações de parentela16 dos Pessoa
Cavalcanti de Albuquerque. Não há, entretanto, como compreender essas relações sem se
fazer um mergulho nas intrincadas relações parentais e políticas (estas, praticamente uma
consequência daquelas) das velhas oligarquias da sociedade paraibana dos anos finais do
Império e iniciais da República.
Especial atenção será dada à parentela dos Pessoa, uma vez que, este foi o nome
escolhido por José Pessoa para acompanhá-lo durante toda carreira. Certamente há uma
intencionalidade nessa escolha, uma vez que, como já destacado, é o nome próprio que
assegura ao seu portador a identidade através dos tempos e espaços sociais. Em seus relatos
autobiográficos, são muito poucos os momentos em que é possível identificar referências às
famílias Cavalcanti e Albuquerque, como no breve relato em que José Pessoa faz referência à
sua genealogia por parte de pai.

3.1 Oligarquias e relações de parentela na Paraíba

Os padrões locais de organização política na Paraíba remontam ao período inicial da


conquista e da ocupação do estado. A formação das divisas paraibanas está fortemente
relacionada às raízes familiares coloniais da organização e comportamento políticos ao longo
da Primeira República. Portanto, o exercício do poder político permaneceu ligado ao fato de
que os primeiros desbravadores do território paraibano o fizeram como empreendimentos
militares e familiares ao final do século XVI. Um legado deixado a seus descendentes que
continuou a refletir uma alta dependência com respeito à filiação familiar, mesmo após a
mudança rural empreendida no estado ao longo do século XIX, com o início da expansão da
cultura algodoeira17, do tabaco e dos cereais. Três aspectos desse legado da fronteira tiveram

16
O conceito de parentela identifica-se com a noção de “clã parental” cunhado por Oliveira Vianna, na obra
Instituições Políticas, para se referir a uma família extensa, distribuída por muitas casas e propriedades, cujos
membros se relacionavam por laços de sangue, casamento ou por parentesco imaginário ou suposto. (LEWIN,
1993, p. 15)
17
O auge da produção algodoeira no estado ocorreu na década de 1920, quando a Paraíba se tornou o principal
exportador de algodão do Brasil, respondendo por ¼ da exportação nacional desse produto.
59

importantes consequências para os alicerces da economia política da Paraíba posterior a 1889:


1) a resolução dos conflitos por meio de lutas violentas e endêmicas entre famílias; 2) a
importância assumida pela linhagem como base para a reinvindicação ao direito à autoridade
política; 3) a participação na família como fundamento dos direitos sobre a terra. Tudo isso
conferia legitimidade política à oligarquia ao nível local e preservava a violência como um
meio socialmente aceito de resolução de conflitos. (LEWIN, 1993, p. 50)
O crescimento econômico ocorrido na Paraíba ao longo dos quarenta e um anos da
Primeira República ocasionou uma expansão sem precedentes do setor exportador,
propiciado, em grande parte, pelos investimentos em infraestrutura e pelo aumento das áreas
destinadas ao cultivo do algodão, principalmente. Essa expansão econômica teve importantes
efeitos sobre o sistema oligárquico de base familiar no estado, já que a oligarquia agrária
dependeu diretamente da economia exportadora não apenas para sua subsistência, mas
também para o seu controle da vida política. Um reflexo disso está na importância que o
governo do estado passou a ter para as famílias dominantes da Paraíba. Como as famílias de
elite engajaram-se com mais frequência numa competição violenta pelo controle dos
mercados locais, também passou a ter uma importância mais destacada a capacidade dos
grupos de base familiar mais poderosos para monopolizar os cargos municipais ou para
excluir seus rivais de representação no poder legislativo estadual. As políticas governamentais
refletiram consistentemente os interesses fundiários e comerciais dos mais importantes grupos
de base familiar paraibanos, como a oligarquia Pessoa18, por exemplo. Diversas parentelas
poderosas e seus arranjos faccionais locais exerceram controle preponderante sobre a
economia fundiária estadual19. (LEWIN, 1993, p. 70-71)
Para os políticos da oligarquia estadual da Paraíba, o pertencer a uma parentela
constituía a sua mais importante afiliação organizacional. Muito mais do que uma organização
social, a parentela estava subjacente à base da rede de parentes e amigos de um político.
Faziam parte desse grupo de base familiar os seguidores políticos que a ele estavam

18
Ao longo da Primeira República, a cronologia política da Paraíba pode ser dividida em três subperíodos, que
estiveram relacionados aos eventos políticos nacionais e à expansão ou retração do crescimento econômico do
País. A liderança oligárquica dos Pessoa esteve presente em dois momentos: no segundo (1912-1922), um
período de “ordem” epitacista, em que os Pessoa coordenaram de maneira exímia a máquina eleitoral estadual; e
no terceiro (1922-1930) caracterizado pelo declínio e desintegração da oligarquia Pessoa. Em termos nacionais,
o desenlace do domínio dos Pessoa coincidiu com a vitória da Revolução de 1930, liderada por Getúlio Vargas.
(LEWIN, 1993, p. 71-72)
19
Moriz (1985, p. 42) descreve como se formou na Paraíba, no último quartel do Século XIX, uma “aristocracia
rural, territorial e endinheirada”, encabeçada por nomes como os Barbosa de Melo, os Guedes Pereira, os
Bezerra Cavalcante, os Carneiro Cunha e os Maia. Portanto, como lembra Mariano (2011), era comum que essas
famílias com toda a sua tradição de “dignidade e prestígio”, apresentassem, nas vilas e cidades do interior, seu
poder político e econômico a partir de sua descendência na rede familiar.
60

vinculados de maneira personalística, e que eram responsáveis por organizar o eleitorado que
lhe fornecia votos, defender seus interesses partidários em seu município natal e ocupar os
cargos que lhes eram confiados por nomeação. Ao preencher os cargos municipais com
membros da família ou com os amigos, a parentela situacionista institucionalizava sua
representação política, uma vez que validavam seu monopólio sobre os cargos públicos, as
nomeações para o funcionalismo e o poder de polícia. Na medida em que podia ser
considerada um grupo corporativo com uma duração maior do que o período de vida de um
determinado político, a parentela poderia ser entendida, também, como uma organização
econômica, em virtude dos direitos coletivos e individuais que seus membros tinham sobre a
terra20. De uma maneira geral, dois ou mais ramos de uma mesma parentela podiam coordenar
suas atividades econômicas com o intuito de aumentar a sua solidariedade como um grupo
corporativo. (LEWIN, 1993, p. 113-114)
As associações econômicas e políticas na Paraíba, durante a era das oligarquias, foram
fortemente influenciadas pelos vínculos de sangue e casamento, bem como pelos laços rituais
estabelecidos pelas relações de compadrio ou adoções, por exemplo. Traçando-se linhas
divisórias entre os ligados por laços de sangue, casamento e afiliação ritual, de um lado, e o
resto da sociedade, de outro, o sistema de parentesco determinava quem pertencia ao grupo
familiar por nascimento e quem podia ser recrutado para a ele afiliar-se pelo casamento ou
através da inclusão cerimonial21. No interior do grupo familiar, definia o acesso a
recompensas materiais, status e participação em processos decisórios. Sob outro ponto de
vista, refletia o quanto esse grupo tinha de levar em consideração a sociedade mais ampla e a
maneira como organizava a sua interação com ela. Além disso, e pela mesma razão, o sistema
de parentesco influenciava a extensão da mobilidade na estrutura social e, por conseguinte, a
capacidade da elite oligárquica de manter a sua posição privilegiada na sociedade
politicamente organizada. (LEWIN, 1993, p. 115)

20
Tanto ao nível municipal, quanto estadual, a política oligárquica paraibana tratou basicamente de uma única
questão: montar uma coalizão de grupos formalmente organizados a fim de exercer o monopólio da economia
exportadora do estado. Esta questão implicou, também, em montar uma estratégia que negasse aos rivais
econômicos a chance de existirem como grupos. Sendo assim, não há como separar a luta pelo controle de
cargos públicos da luta pelo controle da terra, dos mercados, do recolhimento de impostos e de outros recursos
econômicos. (LEWIN, 1993, p. 107)
21
A maneira como o sistema de parentesco afetava a base grupal da organização oligárquica na Paraíba, nada
mais era do que o reflexo do acontecia de uma maneira geral em todo o País durante a Primeira República.
61

3.2 As origens oligárquicas de José – os Pessoa, os Cavalcanti, os Albuquerque

José Pessoa nasceu aos doze dias do mês de setembro do ano de mil oitocentos e
oitenta e cinco, em “uma casa de regular tamanho, lembrando as antigas vivendas de cômodos
do interior”, no município de Cabaceiras, um então “vilarejo perdido nos sertões dos Cariris”,
estado da Paraíba. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 1) Uma terra, nas suas palavras,

onde o homem vive na adversidade e em luta com a natureza, sob a influência de um


clima hostil, cheio da luminosidade dos dias de sol cadente e da cintilação das
estrelas em noites de céu sem nuvens, denunciadoras do flagelo periódico das secas,
que, devido à desídia em muitos governos, continua devastando aquela região.
Foram essas determinantes cósmicas que plasmaram nos filhos do Nordeste a
retidão de caráter, o sentimento de renúncia e a resistência ao sofrimento.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 8)

Imagem 1 – Casa em que nasceu José Pessoa, Cabaceiras-PB.

Fonte: Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPFOTO058.

Como ele mesmo ressalta, era filho “legítimo” 22


de Maria da Silva Pessoa e de
Cândido Clementino Cavalcanti de Albuquerque, um funcionário público de carreira na
Paraíba, nascido no município de Pedras de Fogo, praticamente na divisa com o estado de
Pernambuco.

22
Eram irmãos de José Pessoa: João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, Aristarcho Pessoa Cavalcanti de
Albuquerque, Sebastiana Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, Priscila Pessoa Cavalcanti de Albuquerque,
Cândido Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, Joaquim Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, Henriqueta Pessoa
Cavalcanti de Albuquerque, Oswaldo Pessoa Cavalcanti de Albuquerque.
62

A sua linhagem carrega o peso das oligarquias políticas e aristocracias açucareiras


paraibanas e pernambucanas. Seus avós maternos, José da Silva Pessoa e Henriqueta Barbosa
de Lucena, eram donos de engenhos e pertenciam à elite proprietária rural de Pernambuco. O
avô é descrito por ele como tendo sido um “homem inteligente e político liberal convicto” 23,
que, ainda jovem, já era “figura destacada no cenário político pernambucano”.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 6) A união com Henriqueta de Lucena não foi o
primeiro matrimônio de José da Silva Pessoa. Anteriormente, por volta de 1856, aos dezessete
anos de idade, já havia sido casado com a irmã de Henriqueta, Ubaldina, que faleceu de parto
menos de um ano após o casamento. (LEWIN, 1993, p. 145) Não há dúvidas de que tanto o
primeiro quanto o segundo matrimônio constituíram-se em arranjos para consolidar a união de
duas famílias proeminentes, proprietárias de terras no interior de Pernambuco e da Paraíba, os
Silva Pessoa e os Lucena. A associação política às fileiras do Partido Liberal no interior dos
dois estados teria colaborado sobremaneira, segundo Gabaglia (1951, p. 23), para a união das
duas famílias.
A imagem retratada do avô, por José Pessoa, corrobora os relatos memoriais de
Epitácio Pessoa sobre o pai, descritos por Gabaglia (1951, p. 24). Epitácio descreve José da
Silva Pessoa como um homem rude, o “tipo social sertanejo [...] inteligente, ativo, intrépido,
temível em suas cóleras, generoso com seus escravos”, um “chefe de família extremíssimo”,
um legítimo “defensor do clã” e da região de Umbuzeiro “contra a ameaça de possíveis
bandidos”. Porém, de todas as memórias, sobressaem as de um “liberal extremado”,
fortemente atuante, já aos quinze anos de idade na região de Nazaré, no interior de
Pernambuco.
Embora de origem pernambucana, José e Henriqueta possuíam terras no sudeste da
Paraíba, região adjacente ao município de Bom Jardim-PE, onde a família detinha a maior
parte de suas posses. Uma dessas posses foi herdada por Henriqueta, após a morte de seu pai
(Henrique Pereira de Lucena), e na qual ela e José estabeleceram-se definitivamente em 1861:
a Fazenda Prosperidade24, localizada no município de Ingá, na Paraíba. O distrito de Natuba,
onde se localizava a fazenda, mais precisamente, foi incorporado, mais tarde, ao distrito de
Umbuzeiro, local que se tornaria o berço político da família Pessoa e ao qual estaria
23
O discurso de José Pessoa em torno do envolvimento da família com a política liberal é bastante forte, tanto no
que toca aos Cavalcanti de Albuquerque quanto aos Pessoa. Lewin (1993), aponta uma ligação histórica desses
ramos familiares com o Partido Liberal, do qual eram militantes ativos nos conflitos locais, tanto em
Pernambuco como na Paraíba.
24
As informações a respeito do nome da fazenda em que se estabeleceriam José da Silva Pessoa e Henriqueta de
Lucena quando se mudaram para a Paraíba são divergentes. Diferentemente de Lewin (1993), tanto Epitácio
Pessoa, em suas memórias, quanto Melo (2005, p. 29) apontam a Fazenda Marcos de Castro como sendo o local
em que passaram a residir os Silva Pessoa.
63

intimamente ligada ao longo da história das oligarquias paraibanas. (LEWIN, 1993, p. 147)
Segundo Gabaglia (1951, p. 25), não demorou muito, logo após a chegada a Umbuzeiro, para
que José da Silva Pessoa se tornasse um homem de “relações e grande influência política”25
na região e entre os moradores locais. Da união de José da Silva Pessoa e de Henriqueta de
Lucena nasceram cinco filhos: Maria, mãe de José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque,
Miranda, José, Antônio e Epitácio. (LEWIN, 1993, p. 144-146)

Mapa 1 – Regiões de origem, em Pernambuco (em azul), e de destino, na Paraíba (em vermelho) da família
Pessoa, no começo do Século XX.

Fonte: site Brasil Turismo, 2021.

25
Em 1867, José da Silva Pessoa recebeu do Imperador D. Pedro II o título de tenente-coronel comandante do
Batalhão de Infantaria da Província da Paraíba. Para Gabaglia (1951, p. 25), o recebimento desse título aumentou
o prestígio adquirido por José na região, o que era de se esperar, já que o recebimento do título de coronel recaía,
como lembra Faoro (1997, p. 622) sobre “pessoa socialmente qualificada, em regra detentora de riqueza, à
medida que se acentua o teor de classe na sociedade”.
64

Lewin (1993, p. 124-125) aponta que essa distribuição geográfica da parentela, ou


pelo menos a de vários de seus ramos, quando se tratava de uma parentela muito grande,
complementava fortemente a identidade grupal dos descendentes de um mesmo casal
ancestral. Na prática, os nomes de família identificavam-se popularmente com municípios
natais específicos, onde se situava a maioria das propriedades dos membros. Usualmente,
existia também uma propriedade considerada como berço da família, local de nascimento de
pelo menos duas gerações, onde residia a família nuclear de mais prestígio do grupo.
Sobretudo, a posse de terras próximas às propriedades dos pais e irmãos assegurava que a
geração seguinte manteria a natureza corporativa do grupo familiar26. Parece ter sido esse o
caso dos Pessoa, que nunca se desligaram de sua terra natal. Epitácio, especialmente, manteve
por toda a vida laços estreitos com o seu irmão Antônio, que ainda muito novo, aos onze anos
de idade, assumiria as lides da Fazenda Prosperidade, após a morte dos pais. Mais tarde, com
uma carreira política consolidada, valer-se-ia das famílias de seus irmãos, em Umbuzeiro,
para o recrutamento político aos cargos oligárquicos regionais e nacionais.

Imagem 2 – Maria da Silva Pessoa e Cândido Clementino


Cavalcanti de Albuquerque, mãe e pai de José Pessoa.

Fontes: Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPFOTO071; Ferreira, 1987.

26
Lewin (1993, p. 124) aponta que os sobrenomes serviam também para fixar tanto indivíduos como os ramos
de uma parentela numa referência espacial específica. A preferência por estabelecer os filhos ou alguns deles em
propriedades muitas vezes contíguas àquela em que residiam os pais, sugere que o padrão preferido de residência
para as famílias de elite da Paraíba pode ser mais bem descrito como ambilocal, isto é, comportando residência
associada seja com os pais do marido, seja com os pais da esposa. Do mesmo modo que a descendência, a
residência não seguia regras consolidadas. Em alguns casos, os recém-casados estabeleciam-se na parte da
propriedade destinada por herança ao marido; em outros, na propriedade que a esposa recebia como dote.
65

Em sua autobiografia, José Pessoa associa o surgimento da sua linhagem materna aos
“heróis” da Revolução de 1817, a qual considera um movimento libertador “que deu ao nosso
país o primeiro governo republicano, antecedendo, em 72 anos e alguns meses, ao movimento
de 15 de novembro de 89” (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 5), e no qual vários membros
da família Pessoa teriam tido ações decisivas. Ressalta a ação do padre João Ribeiro Pessoa
de Melo e do capitão de Artilharia Domingos Teotônio Jorge Martins Pessoa, ao qual teria
cabido dar o grito de rebelião e que, posteriormente, teria feito parte do Governo Provisório
do Recife27. Destaca, ainda, a sua ascendência direta da família Lucena, da qual destaca as
figuras de Henrique Pereira Lucena28, seu bisavô, pai de sua avó Henriqueta Pereira de
Lucena, “liberal patriota” que lutou na Revolução Praieira, em 1848, e do Barão de Lucena29
(também Henrique Pereira de Lucena, nome herdado do pai), seu tio-avô, irmão de
Henriqueta.30 Lewin (1993) destaca a importância que este último teve para Maria da Silva
Pessoa e seus irmãos, após eles terem ficados órfãos de pai e mãe prematuramente 31. O Barão
de Lucena foi o responsável por encaminhar profissional e politicamente os irmãos homens,
dentre os quais se destacou na política nacional Epitácio Pessoa, irmão caçula de Maria.
Epitácio foi o grande herdeiro político dos Lucena, de quem seguiu os passos.
Os fragmentos de memória extraídos do livro de Laurita Pessoa Raja Gabaglia, filha
de Epitácio Pessoa, a respeito de José da Silva Pessoa, bem como do próprio Epitácio, assim
como dos relatos memoriais de José Pessoa, parecem denotar um esforço no sentido de se se
27
A participação dos dois na revolta, lhes deu destinos semelhantes. O primeiro enforcou-se em 19 de maio de
1817 e o segundo foi condenado à morte pela Comissão Militar de Pernambuco em 8 de julho de 1817, tendo
sido enforcado no mesmo dia. (TAVARES, 2017)
28
Henrique Lucena era Coronel da Guarda Nacional em Pernambuco e um dos principais donos de engenho na
região dos municípios de Limoeiro e Nazaré, em Pernambuco. Foi um dos líderes da Revolução Praieira na Zona
da Mata norte desse estado. (MOSHER, 1996, p. 216; CARVALHO e CÂMARA, 2008, p. 20-21)
29
Henrique Pereira de Lucena, o Barão de Lucena, nasceu no município de Bom Jardim-PE, em 23/05/183, e
faleceu no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, em 10/12/1913. Uma das principais lideranças do Partido
Conservador no Nordeste, exerceu forte influência política nos estados da região, sobretudo em Pernambuco e na
Paraíba, na segunda metade dos anos 1800. Foi presidente das províncias do Rio Grande do Norte (1872),
Pernambuco (1872-1875 e 1890), Bahia (1877-1878) e Rio Grande do Sul (1885-1886). Na República foi
Ministro dos Transportes (1891), da Agricultura (1891), da Justiça (1891) e da Fazenda (1891). A continuidade
da vida pública na República se deve à relação de amizade que nutria com Deodoro da Fonseca, tendo sido
apontado como um dos conspiradores do golpe republicano de 1889. Com a renúncia de Deodoro em 1891,
encerrou a sua carreira política. Foi o grande responsável pela introdução de Epitácio Pessoa na vida política.
(LEWIN, 1993)
30
Acervo José Pessoa. Arquivo pessoal JPdv1953.00.00, “Diário da Minha Vida” (autobiografia), Pasta I, p. 6.
31
Os pais de Maria da Silva Pessoa morreram de varíola em 1847, durante uma viagem da família ao Recife.
Henrique Pereira de Lucena era irmão da mãe de Maria e, à época, era governador de Pernambuco. Apesar da
posição política que ocupava, não acolheu os filhos da irmã, já que o cargo que ocupava o impedia de ser tutor
legal dos órfãos. Entretanto, isso não impediu de custear os estudos e encaminhar profissionalmente e
politicamente os sobrinhos. Exemplos da interferência do tio são as bolsas de estudos arranjadas que custearam
os estudos primário e secundário de Epitácio no Ginásio Pernambucano, a nomeação de inspetor aduaneiro de
Antônio da Silva Pessoa, irmão de Epitácio, na Alfândega Federal de Recife, e a vaga que Lucena arrumou para
que o mais velho dos órfãos homens, José da Silva Pessoa, entrasse para a Escola Militar em 1875. (LEWIN,
1993, p. 147-149; MELO, 2005, p.30)
66

enquadrar uma memória32 sobre a identidade familiar dos Pessoa, na medida em apontam a
perpetuação de uma tradição familiar iniciada muito antes do estabelecimento da família em
Umbuzeiro e que é marcada por uma força política que ultrapassa o tempo e as divisas do
local. Como lembra Gomes (2016, p. 985), os elementos da tradição, tais como valores,
ideias, posturas e normas de comportamento, quando evocadas no tempo, condicionavam e
legitimavam as ações políticas dos Pessoa em fortes bases liberais e republicanas.
Por outro lado, ao descrever a linhagem de sua família paterna, José Pessoa aponta
para uma ascendência “nobre por origem” e evoca uma tradição familiar de amor à liberdade
e de ideais republicanos, ainda que se vanglorie, em determinados momentos, de que alguns
de seus antepassados tenham servido à Corte de D. Pedro I.33
Suas raízes paternas, no que toca aos Cavalcanti, estariam entrelaçadas às do poeta
florentino do século XIII Guido Cavalcanti. No Brasil, José Pessoa aponta Fillippo Cavalcanti
como o tronco principal desse grupo familiar, a quem descreve como um fidalgo italiano do
século XVI, “latino por excelência” e “superiormente inteligente e político”, que teria fugido
para Portugal em 1557, devido a perseguições políticas, e de onde migrou para o Brasil em
1558. Na Colônia, Fillippo teria sido acolhido por Jerônimo Albuquerque, cunhado de Duarte
Coelho, primeiro donatário da Capitania de Pernambuco, e de quem viria a se tornar genro,
após casar-se com Catarina de Albuquerque. Já estabelecido em Recife, Fillippo Cavalcanti
tornou-se homem de grande sucesso na vida social e influente nos negócios.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 2-3)
Evaldo Cabral de Mello, em Mitos de Veneza no Brasil, atribui a chegada de um certo
“Felipe Cavalcanti” ao Brasil a um movimento de migração de colonos florentinos para
Pernambuco no século XVI. Para o autor, o mais ilustre deles foi justamente Felipe [Filippo],
que se envolveu no comércio de açúcar e se tornou um indivíduo de vastíssimos cabedais, de
grande autoridade e cujos negócios seriam os engenhos de açúcar. A descrição de Mello
confirma a narrativa de José Pessoa, de que Felipe Cavalcanti teria aportado no Brasil vindo
da metrópole portuguesa, após fugir de Florença por ter se envolvido em conspirações
políticas contra os Médici. E aponta, ainda, a origem oligárquica da família Cavalcanti ao

32
Ver enquadramento da memória em POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos
Históricos, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, 1989, p 3-15.
33
Ao discorrer sobre a sua linhagem paterna, José Pessoa faz menção a Manoel Clemente Cavalcanti de
Albuquerque, preso por ter participado da Revolta de Pernambuco (1817) e que, depois de libertado, teria
participado do Conselho das Províncias, após a Independência. Manuel teria tido a honra de conduzir a coroa e o
bastão de D. Pedro I no seu ato de coroação. Cita, ainda, o Visconde de Albuquerque, um político de alto valor e
um “homem de corte”, o diplomata Diogo Velho Cavalcanti de Albuquerque, altamente condecorado durante o
Império e a Viscondessa de Cavalcanti, alta dama “que tanto relevo e distinção dera aos salões do Império”.
(ALBUQUERQUE, 1953, pasta I, p. 2-4)
67

círculo dos ottimati34, antigas famílias venezianas de origem mercantil, que haviam se
decantado em oligarquias e que, a partir do século XV buscaram estabelecer uma hegemonia
política em Veneza. Para o historiador, é bem provável que essa herança oligárquica tenha
acompanhado os Cavalcanti, assim como seus parentes Maneli e Acióli, a partir do momento
em que se estabeleceram no Nordeste do Brasil. A longa história de ativismo político dessas
famílias na Itália teria sido herdada pelos seus descendentes no Brasil, o que explicaria, na
visão de Mello a participação dos Cavalcanti, por exemplo, nos movimentos insurreccionais
de 1710, 1817 e 1824, em Pernambuco. (MELLO, 2002, p. 158-160)
O outro tronco familiar paterno de José Pessoa, o dos Albuquerque, estaria em
Jerônimo de Albuquerque, fidalgo35 nascido em Portugal, no início dos anos 1500, que viajou
para a Capitania de Pernambuco em 1535, acompanhando Duarte Coelho e sua esposa Brites
de Albuquerque, de quem Jerônimo era irmão. Casou-se com uma índia tabajara, de nome
Muyrã Ubi, batizada, posteriormente, de Maria do Espírito Santo Arco Verde, com quem teve
oito filhos, dentre eles Catarina de Albuquerque, que veio a se casar com Filipe Cavalcanti,
dando origem assim, ao grupo familiar Cavalcanti de Albuquerque. Jerônimo de Albuquerque
teve, ainda, mais dezesseis filhos, cinco de outras mulheres e onze de um segundo matrimônio
com Felipa de Mello, com quem se casou por volta de 1562, a mando de Catarina da Áustria,
rainha de Portugal. Governou a Capitânia de Pernambuco entre os anos de 1576 e 1580,
período em que seu sobrinho, Jorge de Albuquerque, terceiro donatário, encontrava-se
acompanhando o Rei D. Afonso em campanha militar na África. A Jerônimo atribui-se a
fundação do primeiro engenho de Pernambuco, o engenho Nossa Senhora da Ajuda,
conhecido, mais tarde, por Forno da Cal. Teria início, assim, uma das mais fortes oligarquias
açucareiras do estado de Pernambuco. (COSTA, 1897, p. 61-62)
Os Cavalcanti de Albuquerque tiveram uma participação expressiva nas conspirações
e revoltas de caráter emancipatório que marcaram Pernambuco no século XIX. Tanto na
Conspiração Suassuna (1801) como na Revolução Pernambucana (1817), os irmãos Francisco
de Paula, José Francisco e Luiz Francisco Cavalcanti de Albuquerque são apontados como
líderes dos movimentos. (BIBLIOTECA NACIONAL, 1817; BIBLIOTECA NACIONAL
1955)
José Pessoa destaca, também, a participação de José Batista do Rego Cavalcanti e seu
filho Manoel Clemente Cavalcanti de Albuquerque no comado de tropas que adentraram em

34
Nobres, em tradução livre.
35
Jerônimo de Albuquerque tinha ascendência nobre, pois o seu pai descendia de D. Afonso Sanchez, filho
legítimo do rei D. Dinis de Portugal.
68

Recife, durante a Revolução de 1817, às quais armaram e vestiram às próprias custas. Os dois
vieram a formar, juntamente com alguns correligionários, um governo revolucionário na
Paraíba. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 3-4)
Ainda que buscasse uma origem nobre na linhagem paterna, José Pessoa adotou o
sobrenome materno para ser aquele que o acompanharia a vida toda. Durante toda a sua
carreira militar, que praticamente se confunde com a sua vida adulta, adotou a identificação
da linhagem materna para acompanhar o seu nome próprio.
A escolha de José Pessoa possivelmente encontre respaldo em uma prática
generalizada até o final do século XX, própria da tradição brasileira, de estabelecer a
descendência de maneira ambilinear, isto é, considerada a partir de um ou de ambos os pais.
Lewin (1993, p. 119-120) explica que a atribuição de sobrenomes que refletissem a
descendência traçada a partir de ascendentes mais distantes dos pais era uma prática comum
às oligarquias da Primeira República. Os sobrenomes paternos ou maternos podiam ser
omitidos em favor dos sobrenomes dos avós ou mesmo bisavós.
Os políticos da oligarquia paraibana fizeram um uso excepcionalmente criativo de
todas as oportunidades que a descendência ambilinear lhes concedia. Particularmente através
da ênfase nas linhagens maternas, esses políticos souberam manipular seus sobrenomes de
maneira muito vantajosa para ressaltar as afiliações, em benefício de seus objetivos de
carreira. A própria organização do parentesco orientava-os para uma afiliação materna como
paterna. A existência genealógica de uma figura ancestral feminina que houvesse exercido
poder político ou econômico encorajava a ênfase numa linhagem matrilinear, seja como uma
linhagem mais elevada ou como uma linhagem do mesmo status da matrilinear. (LEWIN,
1993, p. 119-120)
Alguns líderes que pertenceram à oligarquia estadual paraibana servem para ilustrar
muito bem a flexibilidade da descendência ambilinear, porque historicamente maximizaram
sua vantagem política através de uma nomenclatura que sublinhava os laços com os parentes
da mãe. Epitácio, por exemplo, que, através do barão de Lucena, usufruíra de reconhecimento
universal, por ser seu sobrinho favorito. E o governador João Pessoa, através de Epitácio.
(LEWIN, 1993, p. 122-123) Não é de surpreender, pois, que José Pessoa, ainda na sua
juventude, a exemplo do tio e do irmão, tenha acolhido o sobrenome materno como uma
estratégia de conquistar e preservar o prestígio e o poder. Como lembra Mariano (2011, p.
15), “os sobrenomes funcionavam como projeção da honra, como pré-requisitos políticos e
como sinônimos de status social. Os sobrenomes serviam para fixar redes ou ramos de
família, criando uma referência espacial”.
69

Os filhos de Maria Pessoa Cavalcanti de Albuquerque e Cândido Clementino


Cavalcanti de Albuquerque deram origem ao ramo da parentela conhecido na Paraíba como os
Pessoa Cavalcanti de Albuquerque.
Dos irmãos de José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, destacaram-se no cenário
político federal ou regional, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, Cândido Pessoa
Cavalcanti de Albuquerque e Aristarcho Pessoa Cavalcanti de Albuquerque. João Pessoa
chegou à presidência da Paraíba em outubro de 1928, pelo Partido Republicano da Paraíba,
sob forte influência política do tio Epitácio. Um ano e nove meses depois, foi assassinado,
quando concorria à Vice-Presidência da República, na chapa de Getúlio Vargas. José Pessoa
refere-se ao irmão como “aquele que o Brasil consagra como símbolo de resistência aos
governos opressores, o mártir do movimento nacionalista de 1930”, mas, cujo “ideal foi traído
pelos seus próprios companheiros de jornada na aventura política de 10 de novembro de
1937” e o compara a Cristo, já que teria carregado a cruz do martírio nos eventos de 1930.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 5)
Cândido foi deputado federal pelo Distrito Federal em dois períodos, de 1927 a 1930 e
nos anos de 1934 e 1935. Aristarcho fez carreira militar, chegando ao posto de coronel. Como
segundo-tenente, fez parte das tropas legalistas na repressão à Revolta do Contestado (1912-
1916). Como capitão, lutou na repressão aos revoltosos do Forte de Copacabana, em 1922, e,
como tenente-coronel, comandou o contingente revolucionário de Minas Gerais, nos eventos
que culminaram na Revolução de 1930. Foi promovido a coronel em maio de 1931.
Reconvocado para o serviço ativo (havia passado para a reserva em 1939), comandou o Corpo
de Bombeiros do Distrito Federal, entre os anos de 1942 e 1945. Foi promovido post mortem
ao posto de general-de-brigada pelo presidente da República, em 1951, após o seu falecimento
dois anos antes. (FÉ DE OFÍCIO DO GENERAL ARISTARCHO PESSOA CAVALCANTI
DE ALBUQUERQUE, 2018)
Lewin (1993, p. 146-147) ressalta que os filhos de Maria e de Cândido estiveram
sempre muito próximos ao tio Epitácio durante toda a sua vida. João Pessoa teria sido seu
sobrinho favorito e herdeiro de suas tradições políticas na Paraíba. José Pessoa faz grande
deferência ao tio em suas memórias, apontando-o como um “brasileiro extraordinário, a quem
o Brasil deve inestimáveis serviço [...] que tão superiormente soube governar o Brasil, em
fase agitada e difícil” e a quem devem “o país e a história um preito de gratidão”
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 7). Em 1919, José Pessoa acompanhou o tio, já
presidente da República, em uma visita à Bélgica. No ano seguinte, foi “surpreendido” com a
70

designação de seu nome para integrar a comitiva que acompanhou os reis belgas em uma
visita ao Brasil.
A narrativa memorial de José Pessoa sobre a sua parentela destaca-se em dois
aspectos, ao fazer referências: primeiramente, à nobreza da sua linhagem (família paterna
“nobre por origem”, “secularmente tradicional” e de uma estirpe fundada por “muitos títulos
ilustres”); e, em segundo lugar, à herança liberal herdada dos antepassados, o que gerou uma
“tradição familiar de cultura e coragem” e tornou tanto os Cavalcanti de Albuquerque, como
os Pessoa, “precursores do ideal da liberdade” nas províncias de Pernambuco e da Paraíba.
Essas referências aproximam muito o seu discurso das características da grande família
oligárquica paraibana e do viés aristocrático que marcou a sua vida pessoal e a sua carreira
militar, como será visto nos próximos capítulos.
As alegações de linhagem, que serviram para justificar o exercício da autoridade
política na Paraíba, como mostra Lewin (1993, p. 52-53), são um aspecto herdado que remete
ao período de conquista e ocupação do estado, ainda no Brasil Colônia. Essas alegações,
normalmente inseparáveis das reivindicações pela propriedade da terra, reclamavam
prerrogativas políticas em virtude da filiação de uma família “pioneira” ou “tradicional”. Isso
significava, em primeiro lugar, invocar critérios raciais para demonstrar a “brancura” de um
político – sua ascendência portuguesa, verdadeira ou suposta. Com o aparecimento mais
frequente do mulato na vida social e política da Nação depois de 1850, os membros das
oligarquias procuravam distinguir-se da maioria de pele mais escura sobre a qual exerciam
sua dominação. O conceito de “família tradicional” definia uma barreira de classe e de cor
contra o ingresso da política do estado. Em segundo lugar, ao estabelecer conexões de
linhagem com uma família tradicional, podia-se reivindicar autoridade política baseando-se na
descendência de um grupo de parentesco que houvesse historicamente exercido considerável
autoridade política e militar.
Entretanto, a linhagem por si só, não assegurava a um político e à sua família uma
posição influente na elite oligárquica da Paraíba ou o controle de seu município natal. Era a
posse da terra, combinada com uma linhagem de prestígio, que conferia o direito ao domínio
local. Os direitos legais à terra assentavam-se numa tradição oral informal, que ligava os
proprietários, legítimos ou putativos, às grandes concessões de terra que as primeiras famílias
do sertão tinham obtido da Coroa. (LEWIN, 1993, p. 53)
Gráfico 1 – Genealogia de José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque (ramo ascendente). .

Fonte: adaptado pelo autor de Lewin, 1993.


71
72

3.3 A primeira infância, os primeiros estudos e o ingresso na Escola Militar

Não se sabe muito sobre a primeira infância de José Pessoa. Os poucos relatos
existentes apontam que após o casamento, em 1874, Maria Pessoa Cavalcanti de Albuquerque
e sua família fixaram residência na Vila de Umbuzeiro. Melo (2003, p. 38), sem apontar a
fonte da informação, destaca que Cândido Clementino era um funcionário público sem
projeção e que “vivia em estado de extrema pobreza” com a família, o que denota uma certa
incoerência com as origens familiares de Maria, com a sua proximidade com o irmão Epitácio
e com a descrição feita por José Pessoa da casa em que viveu. Melo (2003, p. 38) relata,
ainda, que, no exercício da função, Cândido Clementino morou em várias cidades do interior
paraibano, como Guarabira e Cabaceiras, terra natal de José Pessoa.
Das lembranças da época vivida na vila de Umbuzeiro, considerada por ele a “terra
dos ancestrais”, Pessoa faz um relato do que ele chama de “casa grande” e “mansão paterna”:

Era ladeada do engenho de algodão, em redor dos quais bandos de pombos


esvoaçavam, e dos currais, nos quais os vaqueiros ferravam o gado e, as vacas
leiteiras, ruminando, amamentavam os bezerros. Do espaçoso cupiá36 da casa grande
descortinava-se o açude do Baixinho (como chamavam o terreno ao pé do morro
onde repousava a mansão), o sítio agreste e as vetustas e frondosas paineiras cujos
flocos, no verão, o vento destroçava, fazendo-as voar ao longe... (PESSOA, 1953,
pasta I, p. 9)

Não é possível identificar a que residência José Pessoa se refere. Porém, a descrição
feita se assemelha muito com a propriedade construída por seu avô, José da Silva Pessoa, em
1868, e que se localizava na região que viria a ser a sede da futura cidade de Umbuzeiro, não
ficando claro se a propriedade se encontrava dentro ou fora dos limites da fazenda
Prosperidade. Nas memórias de Epitácio Pessoa, relatadas por Gabaglia (1951, p. 25), a
chamada “Casa Amarelinha”, ou “Casa Grande”, localizava-se em uma das partes mais altas
do Planalto da Borborema, a cerca de 550 metros acima do nível do mar. Epitácio relata que
era nessa casa que costumava passar os verões com a família.

36
Varanda de uma casa sertaneja.
73

Imagem 3 – Casa Amarelinha, em Umbuzeiro-PB, no final do Século XIX (acima) e


em 2020 (abaixo).

Fontes: Lewin, 1993; A União, 12 jul. 2020.

Alguns anos mais tarde, Cândido e Maria mudaram-se com os filhos para a capital
paraibana, à época chamada Cidade da Parahyba. Não há um registro exato da data em que
essa mudança ocorreu. Porém, há uma indicação de Melo (2003, p. 39) de que em 1889 João
Pessoa encontrava-se matriculado no curso de humanidades do Liceu Paraibano, escola
tradicional da capital. O autor descreve, também, a viagem que João Pessoa fez,
acompanhando o tio Epitácio37, ao Rio de Janeiro, às vésperas do golpe republicano, o que lhe
permitiu testemunhar in loco, aos onze anos de idade, a instauração do novo regime no País. É
certo, portanto, que a família Cavalcanti de Albuquerque acompanhou, já na capital
paraibana, os primeiros dias da República e a ascensão de Epitácio Pessoa na política regional
e nacional.
As notícias do novo governo não tardaram a chegar à Paraíba. No entanto, sem o
destaque merecido e diante de uma população ainda incrédula a respeito dos acontecimentos.

37
Epitácio Pessoa, em 1887, já exercia o cargo de promotor público da cidade do Cabo-PE, após se formar na
Faculdade de Direito do Recife, em novembro de 1886. A exemplo de seu padrinho político, o Barão de Lucena,
que também havia começado a vida pública como promotor de uma cidade do sertão pernambucano, dava seus
primeiros passos na carreira política. Em 1890 foi eleito Deputado Federal pela Paraíba, participando da
Constituinte de 1891.
74

O jornal Gazeta da Parahyba, publicado na capital da província, pouco destaque deu à notícia
da República, na edição do dia 16 de novembro de 1889. Um texto de um pouco mais de uma
coluna dava conta dos graves acontecimentos que se passavam na Corte do Império, ao
mesmo tempo em que não sabia indicar as causas do povo levantar-se juntamente com o
Exército e a Armada para apoiar a mudança do regime, em um momento em que “o governo
monárquico parecia ostentar tanta força e a oposição republicana parecia moderar-se”38. O
periódico destacou, ainda, que, na noite de 15 de novembro, assim que a notícia da
instauração da República foi divulgada, uma grande massa popular concentrou-se em frente às
suas oficinas, apesar de terem recebido a notícia “senão com indiferença, ao menos
friamente”39. Entretanto, a confirmação da mudança do regime de governo no País ocorreu
somente na edição do dia 17 de novembro, quando foi noticiada a nomeação do Dr. Venâncio
Neiva para o governo do, agora, estado da Paraíba.
Diferentemente da capital, foi somente nos primeiros dias do ano de 1890 que as
notícias da nova República figuraram nas páginas de um jornal do interior paraibano. O
Gazeta do Sertão40, de Campina Grande, na primeira página da sua edição do dia 3 de janeiro
dava conta que os

grandes acontecimentos de que foi teatro a cidade do Rio de Janeiro, capital do país,
sobrevindo em época em que o espírito público parecia abatido e aguardava a
abertura do parlamento, lançaram por sobre toda a nação tão intenso raio de luz que
a ninguém foi dado, nos primeiros momentos de fulgor, vaticinar os futuros destino
da pátria, há tanto tempo traída e acabrunhada.41

Entretanto, alertava que “um grandioso foco de luz desnorteia também a razão e nos
precipita igualmente em falsas veredas e situações perigosas”. A matéria publicada no jornal,
sob o título de “Patriotismo”, não censurava a mudança de rumos na política do País. Tratava
o golpe republicano como uma revolução necessária, devido à “mentira e corrupção” que
poluíram por tanto tempo a Monarquia, e que ele teria sido o resultado de um processo que
não teria ocorrido da noite para o dia42. O artigo destacava, ainda, a pouca participação da
Paraíba, assim como de todos os estados do Norte, na causa republicana. Para o articulista,
que não assinou o nome, isso se deveu, sobretudo, à “completa ignorância em que deixava a

38
Gazeta da Parahyba, Cidade da Parahyba, 16 nov. 1889, p. 3.
39
Ibidem.
40
Diferentemente de o Gazeta da Parahyba, da capital paraibana, que tinha uma tiragem diária, as publicações
do Gazeta do Sertão eram semanais.
41
Gazeta do Sertão, Campina Grande, 3 jan. 1890, p. 1.
42
Provavelmente, aqui o jornal faz uma alusão aos diversos movimentos de cunho republicano que já haviam
ocorrido na região, como a Revolução Pernambucana (1817), a Confederação do Equador (1824) e a Revolução
Praieira (1848).
75

monarquia mergulhado o povo” e “à ambição e o egoísmo das almas pequeninas, movidas não
pela ideia de patriotismo, mas pela voz de interesse pessoal”. O jornal entendia, ainda, que,
com o golpe republicano, uma ditadura militar passava a dirigir os destinos do País. Uma
ditadura “necessária para fundar em tempo a República, mas não para se perpetuar no
poder”.43
Assim que a notícia da instauração da República chegou à Paraíba, iniciaram-se as
articulações políticas para a governança do novo estado. O Gazeta da Parahyba publicou
extensa matéria de primeira página, em que discorreu sobre o governo provisório instaurado
no Brasil, aplaudindo “com entusiasmo o movimento pacífico, mas revolucionário [...] aceito
por todas as classes, que veem na mudança de governo a salvação pública”44. Não obstante já
haver a indicação de um governador para o estado da Paraíba, a matéria indicou a formação
de um governo provisório paraibano, composto por representantes das diferentes correntes
partidárias estaduais e por militares do Exército e da Armada. Conforme apontam Lopes
(2015) e Pinto (1960), no dia 17 de novembro, na Câmara Municipal da Cidade da Parahyba,
sob a liderança do Dr. Silvino Elvídio Carneiro da Cunha, o Barão do Abiaí, foi organizada
uma junta governativa para o estado, composta pelos seguintes membros: coronel do Exército
Honorato Caldas (Comandante do 27 º Batalhão de Infantaria), tenente da Armada Artur
Lisboa, Francisco de Lima Filho e Eugênio Toscano, dono do Gazeta da Parahyba. Nesse
ato, o coronel Honorato recusou-se a aceitar um antigo líder monarquista à frente do governo.
Uma nova reunião, então, foi feita na sede do 27º Batalhão, onde um novo governo provisório
foi aclamado, sem a resistência do antigo presidente da província, Francisco Luis da Gama
Rosa.
A nova junta governativa, sob a liderança do coronel Honorato contava, ainda, com os
seguintes membros, conforme publicou o jornal em 19 de novembro: os capitães do Exército
João Claudino de Oliveira Cruz e Pedro de Alcântara Cousseiro, o primeiro-tenente da
Armada Artur José dos Reis Lisboa e, por parte da sociedade civil, o Dr. Antônio da Cruz
Cordeiro Sênior, o comendador Tomás de Aquino Mindelo e o Dr. Manuel Carlos de
Gouveia.45
Essa junta durou no poder até o dia 6 de dezembro, quando o Cel. Honorato Caldas foi
deposto para que assumisse o governo o Dr. Venâncio Neiva, governador nomeado pelo chefe

43
Gazeta do Sertão, Campina Grande, 3 jan. 1890, p. 1.
44
Gazeta da Parahyba, Cidade da Parahyba, 19 nov. 1889, p. 1.
45
Ibidem.
76

do Governo Provisório da República, Deodoro da Fonseca. Epitácio Pessoa fazia parte do


novo governo, exercendo a função de secretário do governador.
A geração de políticos nacionais que deu continuidade à sua vida pública na Primeira
República fazia parte, como lembra Lewin (1993, p. 204), de uma elite que era “um produto
do fim do Império”. Membros das classes conservadoras, esses políticos permaneceram
altamente elitistas e dependentes dos padrões hierárquicos de organização social e política
herdados da sociedade escravocrata. Na Paraíba, os anos iniciais da República refletiram
fortemente essa continuidade, com a alternância no poder das velhas oligarquias familiares.
Tanto o Partido Conservador como o Liberal haviam se constituído tendo por base linhas de
afiliação familiares bastante sólidas, que se perpetuaram por gerações. Mesmo às vésperas da
República, não havia, na província, um Partido Republicano constituído, como os já
existentes em outras províncias do Império, apenas alguns republicanos dispersos nos partidos
já existentes. Na verdade, os blocos familiares que controlavam o governo provincial desde os
anos 1830 é que foram os grandes responsáveis pelos alinhamentos partidários. (LEWIN,
1993, p. 204)
Os anos 1890 foram bastante turbulentos no que tange à política no estado da Paraíba,
devido à alternância de poder das oligarquias Neiva-Lucena e Machado-Leal até o ano de
1912, quando se inaugurou uma nova era política sob a dominação da oligarquia Pessoa.
O primeiro governador republicano da Paraíba foi escolhido para o cargo devido à
influência direta do Barão de Lucena e por fazer parte da ala dominante do antigo Partido
Conservador na política provincial paraibana. O governo de Venâncio Neiva teve vida curta,
durando apenas dois anos, de 1889 a 1891. Com a renúncia de Deodoro, em 1891, Neiva foi
obrigado a entregar o cargo a uma junta militar provisória designada por Floriano Peixoto, até
que um novo governador fosse nomeado. (LEWIN, 1993, p. 209-210)
O escolhido para suceder a Venâncio Neiva foi Álvaro Lopes Machado, ligado aos
antigos liberais paraibanos e militar de carreira, o que teria agradado Floriano Peixoto. Lopes
Machado assumiu o governo em fevereiro de 1892, sendo considerado o primeiro grande
governador “poderoso” da Paraíba republicana. Os governadores que lhe sucederam 46, após a
sua renúncia para concorrer ao Senado, em 1896, ocuparam o cargo sob a sua esfera de
influência. Chegou a governar novamente o estado nos anos de 1904 e 1905, quando se
tornou senador, novamente. Teve em Epitácio Pessoa seu principal opositor político. A sua
morte, em 1912, deixou um vácuo de poder que foi prontamente ocupado pelos Pessoa,

46
Antônio Alfredo Mello (1896-1900), José Peregrino de Araújo (1900-1904), Álvaro Lopes Machado (1904-
1905), Valfredo Leal (1905-1908), João Lopes Machado (1908-1912). (LEWIN, 1993)
77

quando Castro Pinto foi eleito governador, o primeiro sob a influência dessa oligarquia.
(LEWIN, 1993, p. 213-216)
Enquanto a República dava os seus primeiros passos no estado da Paraíba, José Pessoa
cursava as primeiras aulas do ensino elementar na capital paraibana. Os seus relatos
memoriais não precisam em que escola ele realizou seus estudos primários. Entretanto, um
estudo das leis provinciais que regulavam o ensino na Paraíba permite entender como eles
aconteciam.
O ensino público no Brasil do século XIX era regulamentado por leis próprias em cada
província do País, e se dividia em instrução primária e secundária. A regulamentação do
ensino na Paraíba47, à época em que José Pessoa a cursou, previa a instrução primária dividida
em quatro graus, em escolas separadas para o sexo masculino e para o sexo feminino.
Somente no ensino de quarto grau eram permitidas classes mistas. O ensino primário deveria
constar das seguintes matérias: elementos de Gramática Portuguesa, princípios de Aritmética
(compreendendo o sistema legal de pesos e medidas), noções de História e Geografia do
Brasil, noções de História Sagrada e trabalhos de agulha e prendas domésticas nas escolas do
sexo feminino. Para a admissão e matrícula nas escolas públicas primárias da província era
necessário se ter entre seis e quinze anos de idade, ser livre, estar vacinado, não sofrer de
nenhuma moléstia contagiosa e ter a sua filiação e naturalidade comprovadas. A
regulamentação permitia, ainda, a qualquer cidadão nacional ou estrangeiro abrir
estabelecimentos de ensino primário na província.
Ainda que não seja possível saber o educandário que frequentou em seus primeiros
estudos, José Pessoa faz menção às aulas de três professores que lhe marcaram a lembrança:
Cristóvão Chacom de Holanda Dias Parede, José Pedro Gonçalves, “de raça negra, viajado,
inteligente e culto”, e Manoel Lopes de Oliveira, de alcunha “Mandú”, que já havia sido
contratado pelo seu avô para lecionar para os filhos, na Fazenda Umbuzeiro.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 9) Além disso, aponta, ter sido no colegial que se
manifestaram os seus pendores pela imprensa, ao ponto de ter fundado, em companhia de
colegas, um pequeno jornal humorístico intitulado O Quotidiano, cujas colunas eram
ilustradas com caricaturas, feitas a bico de pena. Entretanto, com apenas duas semanas de
vida, a publicação do jornal chegou ao fim, devido a uma matéria indelicada sobre a
namorada de um colega de escola, o que causou uma revolta entre os alunos e resultou em um
ferimento em sua cabeça. A desilusão que essa primeira experiência lhe causou com o

47
Lei nº 761, de 7 de dezembro de 1883 e Regulamento nº 36, de 26 de junho de 1886, do Presidente da Paraíba
do Norte.
78

jornalismo não lhe impediu de publicar alguns livros ao longo da carreira das armas, todas de
cunho profissional, dentre os quais Estudo Sobre a Esgrima e Os Tanks na Guerra Europeia,
este de grande importância, já que relata a experiência do então tenente José Pessoa durante a
Primeira Guerra Mundial e que serviu de referência para a implantação da primeira unidade
de combate blindada no Brasil. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 19-20)
Das agitações políticas e sociais que assolaram os sertões nordestinos, um episódio em
especial marcou as lembranças do jovem José Pessoa: a Revolta de Canudos, uma “guerra de
anjos doidos em prol de uma Jerusalém fanática” (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 10).
Dos eventos relacionados ao episódio, descreve o entusiasmo que tomou conta da população
da capital paraibana por ocasião do embarque do 27º Batalhão de Linha, em 1898, para o
sertão da Bahia. No dia da partida, a escola em que estudava terminou as aulas mais cedo,
para que todos os meninos pudessem comparecer à estação da estrada de ferro, que se tornou
pequena devido ao grande número de pessoas que lá estiveram para apresentar as suas
despedidas. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 12)
Quanto ao ensino secundário, José Pessoa o fez, em parte, no Internato do Ginásio
Nacional48, no solar de São Cristóvão, na Capital Federal, o que é de se estranhar, uma vez
que a capital da Paraíba contava com o Liceu Paraibano 49, escola de educação secundária de
grande prestígio junto às famílias de elite do estado e que, devido à sua equiparação ao
Ginásio Nacional50, em termos educacionais, propiciava aos filhos da elite paraibana as
mesmas condições de acesso ao ensino superior. Entretanto, é preciso considerar a
possibilidade de que as presenças dos tios Epitácio e José na Capital Federal tenham
influenciado a opção de fazer o curso secundário no Rio de Janeiro. Epitácio Pessoa, à época,
era ministro da Justiça51 do Governo Campos Sales e José da Silva Pessoa comandava o 3º
Batalhão de Infantaria da Brigada Policial da Capital Federal 52. Este teria sido, segundo

48
Com a República, o Colégio Pedro II passou a se chamar Ginásio Nacional, nomenclatura que não teve
aceitação e logo deixou de ser utilizada, retornando o uso do nome original.
49
O Liceu Paraibano foi criado por meio da Lei nº 11, de 24 de março de 1836, do Presidente da Paraíba do
Norte, um ano antes da criação do Colégio Pedro II.
50
O Decreto nº 981, de 8 de novembro de 1890, que regulamentou a educação primária e secundária no Distrito
Federal, previa a equiparação dos cursos secundários dos estados ao curso do Ginásio Nacional quando aqueles
possuíssem um plano de ensino organizado conforme os parâmetros deste. Em 1896, por meio do Decreto nº
2.301, de 1 de julho, o Liceu passou a ser equiparado ao Ginásio Nacional.
51
Epitácio Pessoa foi ministro do Interior do Governo Campos Sales entre os anos de 1898 e 1901. Esse
Ministério abrangia, ainda, a Justiça e a Educação. Entre 1901 e 1902 foi, ainda, ministro interino da Indústria,
Transportes e Obras Públicas. (MELO, 2005)
52
O Decreto nº 958, de 6 de novembro de 1890, organizou a Brigada Policial da Capital Federal, que passou a
ser composta por um regimento de Cavalaria e três batalhões de Infantaria. O Decreto previa que o comando da
Brigada, um coronel ou general-de-brigada do Exército, ficaria sob as ordens imediatas do ministro da Justiça e
que os comandantes dos corpos seriam retirados dos corpos especiais do Exército. Consta nas Fés de Ofício de
79

Lewin (1993, p. 150), o grande responsável por inserir Epitácio na rede de relações políticas
formada pelas elites civil e militar da Capital Federal, no início da República. José, por
ocasião do golpe republicano tornou-se tenente ajudante-de-ordens de Deodoro e, com isso,
Epitácio passou a transitar com frequência no Itamarati, onde, segundo Melo (2005, p. 30),
“era visto com grande simpatia”. Mais tarde, no posto de general, comandou a Brigada
Policial da Capital Federal em duas ocasiões (1910-1914 e 1919-1924). José da Silva Pessoa
chegou ao posto de marechal.53
Os Decretos que regulamentavam o ensino no Ginásio Nacional54 previam o
funcionamento do curso secundário em dois estabelecimentos distintos, um para o regime de
internato e outro de externato. O curso seria integralizado em seis anos, com uma grade
composta pelas seguintes disciplinas: Desenho, Português, Literatura, Francês, Inglês,
Alemão, Latim, Grego, Matemática Elementar, Elementos de Mecânica e Astronomia, Física,
Química, História Natural, Geografia (especialmente a do Brasil), História (especialmente a
do Brasil) e Lógica. Os alunos do internato teriam, ainda, o ensino de ginástica, apenas por
uma questão de “higidez física”. Após a conclusão de todas as disciplinas com
aproveitamento e ser aprovado no “exame de madureza”55, o aluno receberiam o grau de
Bacharel em Ciências e Letras. Essa titulação permitia que os concludentes dos cursos
secundários do Ginásio Nacional, e estabelecimento de ensino secundários equiparados,
disputassem, em igualdades de condições, cargos em repartições federais ou em
estabelecimentos de ensino secundário, com a preferência para a nomeação. Do corpo docente
do Ginásio Nacional, alguns professores que marcaram a lembrança de José Pessoa foram:
Luiz Gama, Gastão Ruch (Francês), Mattoso Maia (História Geral), Timóteo Pereira
(Matemática) e Francisco Guimarães (Português).56
Após concluir os estudos secundários, José Pessoa retornou à capital paraibana, para
prestar, segundo ele próprio conta, os “exames de madureza” no Liceu Paraibano, onde teria
concluído o curso secundário no ano de 1902. Em 1903 deslocou-se para Recife juntamente

José da Silva Pessoa que a sua nomeação para o comando do 3º Batalhão se deu em 1900, e que aconteceu por
ordem direta do chefe da pasta da Justiça, não por acaso seu irmão Epitácio.
53
Cf. Lewin (1993) e Fés de Ofício do Marechal José Pessoa da Silva e General Aristarcho Pessoa Cavalcanti de
Albuquerque.
54
Decretos nº 3.251, de 8 de abril de 1899 e, posteriormente, o 3.914, de 26 de janeiro de 1901, após a reforma
de ensino promovida por Epitácio Pessoa, quando Ministro da Educação.
55
O Decreto nº 981/1890, previa três tipos de exames para o curso secundário integral: os de suficiência, para as
disciplinas a serem continuadas no ano seguinte; os finais, para as disciplinas já concluídas e os de madureza,
destinados a verificar se o aluno possuía a cultura intelectual necessária. Ao final do curso integral, a aprovação
no exame de madureza garantia o título de Bacharel em Ciências e Letras e o acesso a qualquer instituição de
ensino superior sem que fosse necessário a realização de novas provas.
56
Dados sobre os professores citados por José Pessoa foram retirados do Anuário do Colégio Pedro II, Ano XV,
não sendo possível identificar qual disciplina lecionava Luiz Gama.
80

com seu irmão Cândido, para matricular-se na Faculdade de Direito. (ALBUQUERQUE,


1953, Pasta I, p. 12)
Cabe um parêntese nesse ponto, para uma pequena digressão a respeito de uma conta
que não fecha, considerando-se os fatos e datas apresentadas nos relatos memoriais de José
Pessoa e as legislações de ensino vigentes à época para o ensino secundário e superior. Ele
afirma que, em 1898, aos treze anos, ainda se encontrava na capital paraibana cursando o
ensino primário, ocasião em que presenciou os eventos da Revolta de Canudos. Os decretos
que regulamentavam o ensino no Ginásio Nacional previam a matrícula no curso secundário
com, no máximo, quatorze anos de idade. Entretanto, as atas dos exames57 dos alunos do
Internato, apontam que José Pessoa realizou os exames de suficiência das disciplinas do 1º
Ano em dezembro de 1901, quando já tinha dezesseis anos de idade. Tanto ele como seu
primo Epitácio Pessoa Sobrinho, filho de Miranda Pessoa, sua tia materna. Desse modo, não
haveria como ele ter completado o curso do Ginásio Nacional. E realmente não o fez, já que
ele mesmo afirma que retornou à Paraíba em 1902, para prestar os exames de madureza no
Liceu Paraibano, com dezessete anos de idade. Ademais, não foram encontrados registros de
exames prestados por José Pessoa nas atas dos exames de suficiência do Ginásio Nacional, no
final de 1902.
Infelizmente, os dados disponíveis na documentação consultada não permitem inferir
com certeza em que condições ele concluiu o ensino secundário. Também as tentativas de
contato com o Liceu Paraibano, a fim de verificar se existe algum tipo de acervo arquivístico
para a consulta de dados relativos aos exames prestados pelos alunos, no início do Século XX,
foram infrutíferas. Entretanto, existe uma hipótese bastante plausível, que indica uma
possibilidade de acesso de José Pessoa à Faculdade de Direito de Recife.
A regulamentação do ensino secundário e superior no Império previa que o acesso aos
cursos superiores poderia ocorrer por dois meios: por meio do ensino secundário, nos liceus
da Corte ou das províncias, ou aulas isoladas, e dos exames preparatórios. A partir da
Reforma Couto Ferraz58, em 1854, e em todas as regulamentações de ensino posteriores do
Império, os alunos que lograssem êxito nos chamados “exames preparatórios”, realizados uma
vez ao ano, teriam direito à matrícula nas academias de ensino superior59 da Corte e das

57
COLÉGIO PEDRO II. Internato do Ginásio Nacional. Atas dos Exames do 1º Ano (1899-1909).
58
O Decreto nº 1.331-A, de 17 de fevereiro de 1954, aprovou o regulamento para a reforma dos ensinos primário
e secundário no Município da Corte.
59
Os cursos a que a legislação de ensino se refere eram os cursos de Medicina e de Direito. Os estatutos dessas
escolas, segundo Barros e Carvalho (2017, p. 104), previam, como condições de matrícula, os exames de
admissão, feitos nas próprias faculdades, ou o diploma de Bacharel em Letras, do Colégio Pedro II ou de
81

províncias. Até 1870, os exames preparatórios eram prestados no Colégio Pedro II ou nas
faculdades. A partir desse ano, passaram a ser feitos de forma difusa em todo o Brasil,
variando as disciplinas cobradas com as legislações vigentes. As reformas realizadas no início
da República, por meio do Decreto nº 981/189060 e dos subsequentes, mantiveram até 1911,
em termos gerais, as reformas feitas durante o Império. Os exames finais prestados no Pedro
II e nas escolas congêneres, que davam direito, caso o aluno fosse aprovado, ao tão
ambicionado grau de Bacharel em Ciências e Letras e ao acesso direto ao ensino superior,
passaram a se chamar os já citados exames de madureza. A partir de 1895, as certidões dos
exames preparatórios, que antes eram expedidos somente pelos encarregados do governo
federal, passaram a ser emitidas pelos liceus estaduais. Apesar de serem considerados pelas
autoridades uma exceção ao ensino seriado das escolas secundárias, os exames preparatórios
se tornaram a opção escolhida por uma extensa quantidade de alunos residentes nos estados
para ter acesso ao ensino superior. (BARROS, CARVALHO, 2017, p. 107-108)
Isto posto, é possível que José Pessoa tenha prestado os exames preparatórios no Liceu
Paraibano, ao invés dos exames de madureza, para conseguir o acesso à Faculdade de Direito
de Recife, tendo, para isso, recebido aulas particulares ministradas por professores
contratados pela família, o que ele próprio já demonstrou ter sido uma prática comum adotada
pelos Pessoa. O pretexto de perpetuar a narrativa de pertencimento a uma elite e a uma
origem aristocrática, pode ter o levado a indicar em suas memórias a realização de um exame
no lugar de outro, já que o título de Bacharel em Ciências e Letras, obtido somente com os
exames de madureza, era bastante ambicionado pelas elites do País.
A viagem ao Recife, ao invés de servir ao propósito da matrícula no curso superior de
Direito, acabou despertando em José Pessoa a vocação para a carreira das armas. Ao chegar à
capital pernambucana, ele e Cândido depararam-se com as agitações que tomavam conta da
população por conta das notícias que chegavam da Revolução Acreana, liderada por Plácido
de Castro. Pessoa lembra do grande número de cidadãos recifenses inflamados por um furor
patriótico, que se dirigiram aos quarteis da cidade pedindo armas, para seguir para aquela
região, a fim de tomarem parte no movimento revolucionário. (ALBUQUERQUE, 1953,
Pasta I, p. 13) De uma maneira geral, as negociações em torno da questão acreana se deram
em meio a forte comoção da imprensa nacional. Em uma consulta feita aos principais jornais
de Recife da época, como o Jornal do Recife e o Diário Pernambucano, é possível notar que

estabelecimentos de ensino equiparados a este, nas províncias, ou o título de aprovação nos exames
preparatórios.
60
Conhecida como reforma Benjamin Constant.
82

as notícias dos acontecimentos no Acre passaram a ser publicadas com uma constância maior,
quase que semanalmente, nos anos de 1902 e 1903, dando um grande destaque às negociações
com a Bolívia, conduzidas pelo Barão do Rio Branco, então ministro das Relações Exteriores
do Governo Rodrigues Alves.
As ações do Barão do Rio Branco na questão acreana foram fundamentais para conter
os ânimos revolucionários de Plácido de Castro e sua intenção de criar um estado
independente no Acre, e para garantir as pretensões territoriais do Brasil. Uma das ações
tomadas pelo Governo Federal, para dar suporte às negociações de Rio Branco, e assegurar as
intenções brasileiras na região, foi fortalecer as desorganizadas tropas do Exército presentes
nas fronteiras mato-grossense e amazonense. O ministro da Guerra, marechal Francisco de
Paula Argollo, no seu relatório do ano de 1903, expôs as dificuldades organizacionais
enfrentadas pelo Exército devido ao elevado número de claros em suas tropas. As condições
financeiras pelas quais passavam o governo já haviam obrigado essa força a reduzir o seu
efetivo de 28.160 homens para 15.000 homens. Essa deficiência de pessoal tornou-se mais
evidente no momento em que se tornou necessário reforçar as guarnições do Mato Grosso e
do Amazonas com tropas da Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Sul. Em um esforço para se
evitar o enorme gasto de recursos que uma grande mobilização de tropas causaria, Argollo
considerava, ainda, a possibilidade de o Governo autorizar os comandantes de distritos a
alistarem voluntários para o completamento dos efetivos das guarnições fronteiriças.
(RELATÓRIO DO MINISTÉRIO DA GUERRA, 1903, p. 4-5)
Tomados pelo surto patriótico que grassava a cidade, os irmãos Pessoa alistaram-se,
em 18 de março de 1903, no 40º Batalhão de Infantaria61. Entretanto, os recrutas não
embarcaram para a região amazônica, porque não tinham recebido instrução suficiente para
participarem de uma operação de guerra. Devido a isso, foram transferidos para o 2º Batalhão
de Infantaria, que permaneceria em Recife. Mesmo assim, José Pessoa relata que, diante da
decepção que ele e o irmão sentiram, compareceram à presença do comandante do Batalhão,
com o intuito de solicitarem a sua inclusão nos efetivos que partiriam para o Acre, no que não
foram atendidos. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 12-14)
Na Paraíba, os pais de José e Cândido, ao tomarem conhecimento do alistamento dos
filhos, à revelia deles, solicitaram a Epitácio Pessoa, então ministro da Justiça, a transferência

61
O 40º Batalhão de Infantaria, com sede em Recife-PE, compôs o grupamento da coluna expedicionária que,
sob o comando do general Antônio Olímpio da Silveira, reforçou o efetivo do Amazonas. O general Olímpio da
Silveira havia servido como capitão na Guerra do Paraguai, ocasião em que recebeu do Duque de Caxias e de D.
Pedro II referências elogiosas pela sua bravura e galhardia em batalha. Sua coluna era composta por cerca de
3.000 expedicionários. (LIMA, 1952, p. 231)
83

e a matrícula dos dois na Escola Preparatória e de Tática de Realengo, no Rio de Janeiro.


Sendo assim, foi ainda no ano de 1903 que José Pessoa ingressou na carreira das armas.62
(ALBUQUERQUE, 1953, pasta I, p. 14)

3.4 O início da formação militar na Escola Preparatória e de Tática de Realengo

O início da formação militar de José Pessoa se deu em meio às inquietações políticas e


institucionais do Exército brasileiro nas primeiras décadas da República, descritas por Lessa
(1988, p. 49-50) a partir da metáfora da entropia, em que a brusca ruptura da ordem imperial
deixou o governo do País em um completo estado de incerteza política. Para ele, o
componente caótico dos primeiros anos republicanos teve, como ingrediente nada desprezível,
o comportamento do estamento militar que passa a viver uma situação inédita de
hiperpolitização. A maior preocupação das Forças Armadas nesse período, segundo o autor,
era dar conta das turbulências causadas pelas divergências dentro da própria corporação.
Foram nesses anos que surgiram as primeiras movimentações voltadas à modernização e
reorganização do Exército, com fortes reflexos no ensino militar e na reorganização dos
currículos e das estruturas das escolas militares.
As discussões acerca da necessidade de profissionalização e modernização do Exército
remontam à Guerra do Paraguai (1865-1870). As experiências colhidas durante essa
campanha intensificaram os debates acerca da necessidade premente de se reorganizar e
profissionalizar os quadros da Instituição. As discussões sobre um novo modelo de
organização para o Exército perpassaram várias décadas do século XIX e adentraram os
primeiros anos do século XX. Ainda que esse conflito tenha se constituído em um marco na
organização das Forças Armadas do País63, desde a década de 1840 algumas vozes64 já
pediam mudanças no ensino militar, uma melhor formação profissional para os oficiais e mais
tempo e melhores condições para os exercícios práticos. (ROESLER, 2015, p. 23)
Uma série de deficiências não permitiam que o Exército da primeira metade dos
Oitocentos tivesse um caráter nacional e profissional. A primeira delas diz respeito à falta de
um modelo definitivo de organização efetiva e profissional, conseguida somente a partir da

62
Cândido não permaneceu na Escola Militar.
63
A Guerra do Paraguai foi um dos marcos decisivos para a mudança e a inserção da Instituição no jogo das
forças políticas que ocorreram na segunda metade do século XIX. A experiência de guerra contribuiu
significativamente para que o Exército que retornou dos campos de batalha paraguaios fosse muito diferente
daquele que havia ido e para que a Instituição emergisse como órgão de representatividade nacional.
64
Motta (2001, p. 133) aponta que as reivindicações por melhorias nas estruturas do Exército provinham,
sobretudo, da baixa oficialidade dos grupos que ocupavam uma posição mais subalterna na hierarquia militar.
84

segunda metade do século XIX, nas administrações de Caxias, Belegarde e Felizardo, o que
deixava transparecer a deficiência do seu modo de organização interna. Somava-se a isso a
“crise de identidade” sofrida pelos militares a respeito do verdadeiro serviço que deveriam
prestar à Nação, uma vez que tinham suas funções divididas com a Guarda Nacional65.
(ROESLER, 2015, p. 25)
A outra está relacionado ao sistema de recrutamento de praças existente no País, que
será mais debatido no próximo capítulo. Vigorava o sistema de voluntariado, porém, na falta
de candidatos, persistia o recrutamento forçado. Com isso, os quadros eram oriundos das
camadas mais pobres da população, em um contexto em que os filhos das camadas mais
abastadas possuíam privilégios que os isentavam do serviço militar.
A falta de profissionalismo dos quadros66 do Exército ficaria patente durante a
campanha do Paraguai, em que escravos dividiram o front de combate com os quadros ditos
“profissionais”. Em busca de alforria, os escravos se alistavam e partiam para o combate sem
nenhum treinamento profissional. A própria Instituição já havia identificado a necessidade de
definir um modelo de treinamento que contribuísse para sua profissionalização. Como destaca
Domingos Neto (1980, p. 46), a Escola Militar não fornecia nenhuma instrução especializada
aos oficiais, privilegiando as disciplinas teóricas e o ensino de generalidades, que não
mantinham relação direta com as atividades militares. Não existiam programas de
treinamento, nem exercícios de campanha. Não demorou para ficar evidente à oficialidade
que depender da convocação de homens sem o mínimo de instrução militar e conduzi-los nos
campos de batalha era uma tarefa bastante perigosa. O próprio processo de convocação, como
visto, se constituía mais em problema do que em solução. Castro (1995, p. 101) aponta que a
profissionalização do Exército foi mais intensamente discutida a partir de 1850, quando o
ensino militar passou a ser tratado com maior interesse por parte da oficialidade.

65
A Guarda Nacional foi criada em 1831 e surgiu do desejo da elite liberal, da época, de desmantelar o Exército
Nacional após a abdicação de D. Pedro I. Foi um reflexo da política antimilitar e liberal adotada pela regência
formada pelos senadores Nicolau Pereira de Campos Vergueiro e José Joaquim Carneiro Campos, e pelo militar
Francisco de Lima e Silva. A partir da data de sua criação, a Guarda passou a dividir com o Exército as
atribuições de defesa. Por estar subordinada ao Ministério da Justiça, ela possuía mais distinção e
reconhecimento que o Exército e disputava com este não só o orçamento para a defesa como, também, as
atenções da Coroa e o status social, já que a Guarda incorporava os grupos de mais alta renda do País. A própria
existência da Guarda Nacional, segundo Edmundo Campos Coelho, não deixava claro o papel que o Exército
deveria desempenhar, uma vez que cabia a ela “defender a Constituição, a liberdade, a independência e a
integridade do Império [restabelecendo] a ordem e a tranquilidade públicas e auxiliar o Exército na defesa das
fronteiras e costas”. Somente em 1918, através de um decreto do presidente Wenceslau Braz, a Guarda foi
reorganizada e passou a ser considerada reserva de 2ª linha do Exército. (COELHO, 2000, p. 55-58)
66
Ricardo Salles aponta para o número insuficiente de quadros ao início da guerra, o que levou as autoridades
militares brasileiras lançar mão do recrutamento dos efetivos dos corpos policiais e da Guarda Nacional para
formar os corpos de Voluntários da Pátria, além de promoverem o recrutamento no seio das camadas populares.
(SALLES, s.d)
85

Entre os anos de 1855 e 1874, a formação dos oficiais do Exército Brasileiro ocorreu
em dois institutos de ensino distintos, sediados na cidade do Rio de Janeiro e cada um com
seu currículo próprio: na Escola Central, localizada no Largo de São Francisco, herdeira da
Academia Real Militar, criada em 1811, e na Escola de Aplicação, com sede na Fortaleza da
Praia Vermelha. A Escola de Aplicação, criada em 1855, tinha a missão de colocar em prática
os conhecimentos técnico-militares. Já o ensino das cadeiras científicas (Matemática, Ciências
Físicas e estudos de Engenharia) ficava a cargo da Escola Central. Uma nova regulamentação
do ensino feita no ano de 186367 a cargo do ministro da Guerra, general Polidoro, definiu mais
claramente a vocação de cada escola. Na Praia Vermelha se daria a formação dos oficiais das
armas de Infantaria, Cavalaria e Artilharia, e, no Largo de São Francisco, a formação dos
engenheiros e o funcionamento do curso de Estado-Maior. Anexo ainda à Escola de
Aplicação, funcionava um curso preparatório de dois anos, destinado ao ensino das doutrinas
preparatórias exigidas para os cursos militares e à instrução prática elementar das diferentes
armas. Durante o período da Guerra do Paraguai, as escolas militares deixaram de funcionar,
retomando suas atividades em 1870, ao final do conflito. Em 1874, a Escola Central foi
extinta, para dar lugar à Escola Politécnica, que passaria a ser responsável pelo ensino de
engenharia civil. Com isso, a Escola de Aplicação, que passou a concentrar todos os cursos de
formação (Infantaria, Cavalaria, Engenharia e Artilharia), passou a denominar-se Escola
Militar. Os oficiais formados nos cursos de Engenharia e Artilharia possuíam uma formação
mais longa – cinco e três anos, respectivamente –, devido à pesada carga horária de matérias
científicas, e eram considerados oficiais de Estado-Maior. Os cursos de Infantaria e Cavalaria
tinham uma formação curta, de apenas dois anos. O curso preparatório passou a ser feito em
três anos e comum a todas as armas. (MOTTA, 2001, passim)
Castro (1995, p. 102) aponta que os esforços feitos pelo Império para a modernização
do Exército, na realidade, foram ínfimos, já que várias tentativas entre 1870 e 1889
fracassaram. A década de 1880, principalmente, caracterizou-se pela intensificação do
inconformismo e do descontentamento do Exército para com o Império. Esse inconformismo
teria sido tencionado por razões de ordem prática, como a ausência de uma política para o
Exército definida pelo governo imperial. No entanto, tais motivos não são suficientes para
explicar o envolvimento do Exército nas agitações sociais e políticas do final do século XIX,
que culminaram no seu envolvimento em episódios como a abolição e o golpe que instituiu a
República. A referência teórica para todo esse envolvimento pode ser encontrada nas novas

67
Decreto nº 3.083, de 28 de abril de 1863.
86

ideias que adentravam o Brasil naquele período, dentre elas o positivismo, que encontrou forte
aceitação dentro do Exército, principalmente dentro das escolas militares, verdadeiras caixas
de reverberação do que acontecia na política nacional. (ROESLER, 2015, p. 29)
A formação em duas escolas independentes deu origem a uma separação evidente
entre os oficiais que delas eram egressos: os “científicos” e os “tarimbeiros”. Essa separação
perduraria até o final do Império. Castro (1995, p. 24) explica que o termo “tarimbeiro” era
utilizado para designar os oficiais de perfil mais troupier, geralmente das armas de Infantaria
e Cavalaria, o que os distinguia dos oficiais “científicos”, geralmente das armas de Artilharia
e Engenharia e aqueles que possuíam o curso de Estado-Maior. Coelho (2000, p. 70) aponta o
uso dos termos ainda no início da República. Os “tarimbeiros”, eram, em sua maioria, oficiais
mais velhos, que haviam participado da campanha do Paraguai. Muitos não haviam cursado a
Escola Militar e que tinham como objetivo maior o desagravo do Exército. Não eram
entusiastas da República e sim da defesa da honra do Exército. O maior expoente desse grupo
era Deodoro da Fonseca, líder do movimento que derrubou a Monarquia. O outro grupo, os
“científicos” ou “bacharéis”, era constituído, em sua maioria, por oficiais mais jovens. Eram
partidários do regime republicano, pois o identificavam com os princípios do positivismo,
que, em maior ou menor grau, os influenciava. Sua personificação era o tenente-coronel
Benjamin Constant, veterano do Paraguai e professor da Escola Militar da Praia Vermelha.
Apesar das diferenças e da dificuldade de relações entre os oficiais dos dois grupos, a
farda os unia e, acima de qualquer divergência, prevalecia o espírito de corpo. Como lembra
Carvalho (2006, p. 25), foi graças à união dos grupos que o golpe republicano se tornou
possível: os “científicos” entraram com o poder das ideias e os “tarimbeiros” com o poder da
corporação.
A Escola Militar assistiu à queda da Monarquia e ao surgimento da República. Pelos
corredores e bancos escolares do “Tabernáculo da Ciência”68 passaram importantes gerações
de militares. Celso Castro chamou de “mocidade militar” a jovem oficialidade com estudos
superiores ou “científicos”, que buscou a liderança de Benjamin Constant, à época professor
de Matemática dessa instituição de ensino. Uma geração surgida em meio a um Exército que,
ao final do Império, buscava mudar suas características estruturais e organizacionais: uma
regulamentação mais eficaz dos sistemas de promoção e de mérito, abertura da carreira militar
às pessoas não pertencentes à elite e separação da formação acadêmica entre “científicos” e

68
Assim era chamada a Escola Militar da Praia Vermelha pelos alunos, o que, segundo Celso Castro, evidencia a
importância que o ensino científico adquiriu nesse educandário militar.
87

“tarimbeiros”. A esse grupo, Castro (1995, p.17) atribui o papel de “elemento iniciador e
dinâmico da conspiração republicana no interior do Exército”.
O membro típico da “mocidade militar” possuía as seguintes características: era
oriundo de um dos estados do Norte do Brasil, região menos favorecida do País; não havia
atingido ainda os trinta anos de idade à época do golpe republicano e frequentara a Escola
Militar no período posterior a 1874, após a reabertura do estabelecimento de ensino, com o
fim da Guerra do Paraguai. O fato de haver uma predominância de pessoas da região Norte
não significa que a Escola da Praia Vermelha não atraísse indivíduos de outros estados.
Significativa era, também, por exemplo, a representação de alunos naturais do Rio Grande do
Sul. Para os novos alunos, o afastamento da vida familiar implicava terem nos alunos mais
velhos um grupo de referência. Era por meio da intensa convivência com seus pares, no dia a
dia da Escola, que o aluno se tornava membro da “mocidade militar”. A forte interação
existente nos anos de formação, mesmo no compartilhamento dos momentos de lazer e na
existência de grêmios e sociedades acadêmicas mantidas pelos alunos, criavam nos discentes
um forte espírito de corpo69 e contribuíam para a construção de uma identidade social dos
jovens alunos “científicos”. (CASTRO, 1995, p. 31, 33-38)
Os “doutores” formados na Praia Vermelha julgavam-se preparados “pelos paladinos
do positivismo70 no Brasil para oferecer solução a todos os grandes problemas do país”
(DOMINGOS NETO, 1984, p. 54). Era clara a grande influência de doutrinas como o
cientificismo, o positivismo e o republicanismo sobre esses jovens oficiais, que se
preocupavam mais com o pensamento de Comte do que com as questões de ordem prática da
Instituição. O positivismo apresentou uma alternativa para o papel social e político dos
militares ao propor, na ausência de uma identidade profissional, uma identidade política. Essa
mentalidade do novo oficial, inteirado e engajado nos assuntos políticos da Nação, teve no
desfecho da Questão Militar seu reflexo mais direto, em um período em que as ideias
abolicionistas e republicanas já estavam consolidadas dentro do Exército. (MORAES, 2004,
p. 57)
O universo cultural da “mocidade militar”, permeado pela valorização simbólica do
mérito individual e pelos ideais de progresso, evolução e cientificismo, seria, segundo Celso
69
É em Bourdieu que Castro (1995, p. 38) busca o sentido do espírito de corpo, como a integração e a
solidariedade oriundas do encantamento afetivo que nasce de se poder admirar a si mesmo em seus pares e do
sentimento de solidariedade que repousa sobre a comunidade de esquemas de percepção, de apreciação, de
pensamento e de ação.
70
Na Escola Militar destacou-se a figura de Benjamin Constant. Inspirado nas ideias positivistas, teria liderado a
Mocidade Militar na conspiração que culminou na República, em 1889. Castro (1995, p. 18), a partir de outra
perspectiva de análise, entende que, na realidade, o líder Constant é que teria sido seduzido e convertido para o
ideal republicano pelos seus alunos.
88

Castro, o responsável por alimentar nos jovens “científicos” dois outros sentimentos: o
abolicionismo e o republicanismo71. Dentre os alunos da Escola Militar teriam, inclusive,
surgido as primeiras e mais ativas organizações abolicionistas da década de 1880. Em relação
ao republicanismo, mais radical e anterior ao de outras parcelas do Exército, não foi, segundo
o autor, a participação ativa dos alunos na Questão Militar que os levou ao seu encontro.
Antes mesmo dela, a “mocidade militar” já havia se tornado republicana. A fundação de dois
clubes secretos republicanos pelos alunos, nos anos de 1878 e 1885, corrobora essa ideia.
(CASTRO, 199, p. 79-81)
É evidente, portanto, como aponta Castro (1995, p. 48), que, embora a Escola Militar
tivesse sido criada com o objetivo de profissionalizar o corpo militar, ela pouco direcionava
seus alunos para a doutrina militar e para os estudos técnicos e táticos. O seu curso, na
verdade, era visto como uma excelente oportunidade de ascensão social, o que contribuía para
atrair muitos jovens sem vocação para a carreira das armas, que estavam mais interessados no
título de “doutor” do que na patente militar. Muitos, após concluírem os cursos científicos,
largavam a farda e passavam a trabalhar como professores ou engenheiros. Essa situação
perdurou até a segunda década da República, quando as reformas do ensino militar de 1918 e
1919 implementaram mudanças nos currículos de formação, por meio do ensino teórico-
prático.72
José Pessoa iniciou a sua formação militar em 9 de abril de 1903, na Escola
Preparatória e de Tática de Realengo, na vigência da regulamentação do ensino militar de
189873, que se constituiu em uma segunda tentativa de adaptar o ensino militar aos tempos
republicanos.
Em 1890, ainda na vigência do governo provisório de Deodoro da Fonseca, e tendo
Benjamim Constant como ministro da Guerra, um primeiro regulamento já havia sido
implementado74. Ele foi a base de todos os regulamentos subsequentes implementados ao
longo da Primeira República. Como lembra Motta (2001, p. 171), ao assumir a pasta da
Guerra Constant imediatamente implementou as suas ideias na reforma do ensino militar.
Como era professor da Escola Militar desde 1873, presumia ser conhecedor dos problemas e

71
Castro (1995, p. 63) destaca a constância com que surgem, nos escritos dos alunos da Escola Militar,
referências explícitas ao evolucionismo, ao abolicionismo, ao republicanismo e ao positivismo, cuja influência
faz-se sentir a partir do ingresso de Benjamim Constant como professor de Matemática do curso superior, em
1872.
72
Antes dessas reformas, outras três reformas do ensino militar foram implementadas, nos anos de 1905, 1913 e
1914. Todas elas pretendiam tornar o ensino na Escola Militar mais voltado para a prática do que para a teoria.
Porém, as mudanças foram discretas, sem resultados efetivos.
73
Decreto nº 2.881, de 18 de abril de 1898.
74
Decreto nº 330, de 12 de abril de 1890.
89

das necessidades do ensino. A leitura de Comte incutira nele profunda convicções de como o
ensino e a educação militar deveriam acontecer.
Em termos gerais, o regulamento de 1890 estabelecia que a formação do oficial
passaria a ocorrer nas escolas militares e na Escola Superior de Guerra. As escolas militares
destinavam-se à instrução teórica e prática das praças do Exército e passariam a ter três sedes,
localizadas no Rio de Janeiro (Praia Vermelha), em Porto Alegre e em Fortaleza. O currículo
previa a existência de três cursos em sequência: um Curso Preparatório, com a duração de três
anos, um Curso Geral, de quatro anos, e um Curso das Três Armas (Infantaria, Cavalaria e
Artilharia), com a duração de um ano. A Escola de Fortaleza contava apenas com o Curso
Preparatório. A Escola Superior de Guerra, localizada em São Cristóvão, na Capital Federal,
destinava-se ao ensino técnico das armas de Artilharia e Engenharia e ao Curso de Estado-
Maior. Funcionava em regime de externato e, para a matrícula, era necessário que o aluno
tivesse aprovação plena nos Cursos Geral e das Três Armas, da Escola Militar. Os cursos de
Engenharia e de Estado-Maior tinham a duração e dois anos e o de Artilharia um ano
somente.
Existiam, ainda as escolas práticas do Exército, que possuíam um regulamento
próprio75. Localizavam-se na Capital Federal, em Realengo, e na cidade de Rio Pardo, no Rio
Grande do Sul, específica para os oficiais de Infantaria e Cavalaria. Destinavam-se a
complementar e aperfeiçoar a instrução dos oficiais e praças de pret76 que possuíssem
qualquer um dos cursos das armas das escolas militares e que não tivessem obtido licença
para frequentar os cursos da Escola Superior de Guerra. Os cursos das escolas práticas
duravam nove meses.
Para Marcusso (2012, p. 41), a implementação do regulamento de 1890 deixava
evidente o novo tipo de oficial que o ensino militar republicano pretendia formar: um oficial
que teria inevitavelmente um papel político na sociedade e guardião das instituições
republicanas, sempre apoiado na moral e na honra. A instrução que municiaria os oficiais com
tais qualidades teria como base a ciência moderna e o humanismo tradicional, ou seja, uma
formação “humanística-científica”, fortemente marcada pelas ideais positivistas de Comte, em
um currículo predominantemente voltado mais ao ensino científico do que ao técnico-

75
Decreto nº 432, de 4 de julho de 1891.
76
Praças de pret eram os cidadãos que foram recrutados para o serviço militar obrigatório. Após o tempo de
serviço eram considerados praças ou soldados rasos. Os que aspiravam patentes de oficial, se matriculavam nas
escolas de formação de oficiais. A expressão praças de pret vem do exército português, ainda nos tempos
coloniais.
90

profissional. Como ressalta Grunennvaldt (2005, p. 25), “o alvo era para modelar um militar a
um só tempo político e técnico-especialista”.
O regulamento de Benjamim Constant recebeu muitas críticas ao longo da década de
1890. As principais críticas partiram da própria corporação militar, por meio dos ministros da
Guerra subsequentes. Tanto Bernardo Vasques77 quanto Francisco de Paula Argollo78
criticaram os programas de ensino, que privilegiavam mais o ensino teórico do que a instrução
militar. Argollo ainda ressaltaria que a longa duração dos cursos das escolas militares causava
“a demora nos acessos dos oficiais e grande perturbação e incalculável prejuízo para as
fileiras [do Exército]”79.
As intensas críticas provocaram uma nova reforma do ensino militar em 189880,
assinada por João Thomaz Cantuária, ministro da Guerra do Governo Prudente de Moraes. As
mudanças mais significativas estavam na estrutura da formação, por meio da redução da
quantidade de escolas militares. A Escola Militar da Praia Vermelha passou a denominar-se
Escola Militar do Brasil. O novo regulamento não previu o local da sede da Escola, apenas
que iria se localizar “onde o Governo determinar”. Entretanto, Cantuária justificou a
permanência da instituição de ensino na Praia Vermelha, apesar de haver autorização do
poder legislativo para a mudança, devido à “falta de edifício apropriado, em lugar
conveniente, ao ensino e a disciplina escolar”81. Está claro que a intenção de afastar a Escola
Militar da Praia Vermelha estava mais ligada à necessidade de afastar os alunos da política do
que à reformulação do ensino. Como relata o general Lobato Filho, ex-aluno da Escola Militar
do Brasil, o regime implementado pelo regulamento de 1898 “desarticulou a formação do
clima político na Escola Militar da Praia Vermelha” (LOBATO FILHO, 1992, p. 15). Para
ele, ainda,

O ponto essencial, ao se tratar da questão de subtrair a Escola Militar da influência


política residia, sem dúvida, naquele notável companheirismo generalizado e
incondicional, nascido da convivência de seis anos de internato. (LOBATO FILHO,
1992, p. 16)

A desarticulação do clima político a que se refere Lobato Filho certamente se deveu,


em grande parte, à criação das escolas preparatórias e de tática, que tinham suas sedes em
Realengo, no Distrito Federal e na cidade de Rio Pardo, no Rio Grande do Sul, afastando,
assim, a formação inicial dos alunos da agitação política do Rio de Janeiro. Essas escolas
77
Ministro da Guerra em 1895.
78
Ministro da Guerra em 1896.
79
Relatório do Ministro da Guerra de 1896, p. 15.
80
Decreto nº 2.881, de 18 de abril de 1898.
81
Relatório do Ministro da Guerra de 1897, p. 5.
91

destinavam-se ao ensino teórico e prático exigido para a matrícula no Curso Geral da Escola
Militar. O curso possuía a duração de três anos, não podendo o aluno frequentá-lo por mais de
quatro anos. A aprovação em todas as disciplinas do curso preparatório e de tática habilitava o
aluno à matrícula na Escola Militar do Brasil.
A Escola Militar do Brasil passou a destinar-se a ministrar aos oficiais e praças do
Exército não só os conhecimentos relativos à três armas combatentes (Infantaria, Cavalaria e
Artilharia) como os peculiares ao Estado-Maior e engenharia militar. O currículo estava
organizado em dois cursos subsequentes: o Curso Geral e o Curso Especial. O primeiro
compreendia o estudo teórico e prático das três armas e possuía a duração de três anos. O
segundo, feito em dois anos, destinava-se à formação dos oficiais de Estado-Maior e
engenheiros militares. A provação em todas as disciplinas de dois anos quaisquer do Curso
Geral dava direito ao título de alferes-alunos82.
José Pessoa recebeu o número de aluno 1254, ao matricular-se nas disciplinas do
primeiro ano do Curso Preparatório e de Tática do Realengo. Jamais cursaria a Escola Militar
do Brasil, já que em 1905 uma nova reestruturação do ensino militar seria posta em prática,
como será visto adiante.
Para matricular-se no curso da Escola Preparatória e de Tática era necessário ao
candidato ser brasileiro nato, ter mais de quinze e menos de vinte e um anos e ser aprovado no
exame de admissão. Os candidatos eram classificados em dois grupos: militares e civis. Os
candidatos civis não poderiam matricular-se sem antes assentarem praça no Exército. Quanto
ao exame de admissão, constava de conhecimento prático das quatro operações com números
inteiros, leitura e escrita de Português. Entretanto, o regulamento previa que os civis que
apresentassem certidão de aprovação nos exames preparatórios do Ginásio Nacional e
instituições similares, à exceção dos exames de Matemática, cujas certidões aceitas deveriam
ser somente os das escolas Politécnica, Naval e de Minas de Ouro Preto, estavam dispensados
do exame de admissão e teriam a sua matrícula assegurada. Aqui cabe uma pequena discussão
a respeito da matrícula de José Pessoa na Escola e a relação com a sua conclusão do ensino
secundário, debatida anteriormente.
Na Fé de Ofício de José Pessoa consta que a sua procedência era civil. O fato de ter
assentado praça no 2º Batalhão de Infantaria, em Recife, com o intuito de seguir para o Acre,
o que não se concretizou, atendia a uma das condições para a matrícula. Consta, também, que,
no ato da matrícula, apresentou as certidões de exames feitos no Liceu Paraibano,

82
O título de alferes-aluno foi criado pela Lei nº 149, de 27 de agosto de 1840. Era uma distinção na hierarquia
do corpo de alunos. Em termos práticos, garantia um melhor soldo aos alunos que alcançavam esse mérito.
92

comprovando a sua aprovação nas disciplinas Francês, Inglês, Geografia e Português. O


decreto que regulamentava os exames preparatórios para o ano de 190183, em vigor à época da
matrícula dele na Escola Preparatória e de Tática, relacionava as disciplinas exigidas para a
matrícula nos cursos superiores do País. Dentre elas, constam as que José Pessoa comprovou
a aprovação. Em relação ao exame de Matemática, é provável que o tenha prestado no exame
de admissão à Escola, tendo em vista a exigência apresentada no parágrafo anterior.
No período em que frequentou o Curso Preparatório e de Tática, José Pessoa cumpriu
uma grade curricular que possuía, no ensino teórico, aulas de: Português, Francês, Inglês,
Alemão, Geografia, Aritmética, Álgebra, Geometria e Cosmografia, elementos de História
Natural, precedidos de noções de Física e Química e Desenho. No ensino prático: instruções
elementares das armas combatentes (Infantaria, Cavalaria e Artilharia) até a escola de
batalhão e regimento, armamento e tiro, noções de balística e serviço em campanha,
escrituração militar, preceitos de subordinação, honras militares, esgrima, escolas de lança e
espada, equitação, ginástica e natação e geometria prática. 84 Sobre o seu aproveitamento nas
disciplinas, consta em seus assentamentos

Exames – Nas segundas parciais, feitas em Outubro de 1903, foi inabilitado para
História; nas finais de Dezembro, foi aprovado simplesmente com grau 5 (cinco), no
1º ano de Desenho e com grau 4 (quatro) no 2º ano dessa matéria e reprovado em
Aritmética; nos de segunda época, foi reprovado no exame vago de Aritmética que
prestou, precedendo a necessária licença e aprovado simplesmente com grau 4
(quatro), no exame adiado de História Geral, especialmente do Brasil e Geografia
Pátria; nos segundos exames parciais de Outubro, de 1904, foi inabilitado em
Álgebra; nos finais de Dezembro, foi aprovado plenamente com grau 6 (seis), em
Aritmética; na prática militar do 1º ano, foi habilitado simplesmente com grau 5
(cinco); nos de segunda época, em março de 1905, deixou de prestar sem motivo
justificado os exames adiados de Álgebra e Geometria; nos de fim de ano,
Dezembro, foi aprovado simplesmente com grau 4 (quatro), em Álgebra, Noções de
Ciências Físicas e Naturais e plenamente com grau 6 (seis), em Geometria,
Trigonometria Retilínea e Cosmografia; na prática militar do 2º ano, foi habilitado
simplesmente com grau 5 (cinco) e na do 3º e em Geometria Prática, com grau 4
(quatro).85 (FÉ DE OFÍCIO DO MARECHAL JOSÉ PESSOA, 2016)

A rotina escolar a que o aluno estava submetido é descrita por Lobato Filho, que havia
frequentado a Escola Preparatória do Realengo, anos antes de José Pessoa.

É coisa perfeitamente humana dar hoje razão aos preparatorianos daquele tempo, de
não se conformarem com certas exigências da disciplina e da educação militar
nessas escolas, como por exemplo o célebre toque de formatura para o lavatório às

83
Decreto nº 4.247, de 23 de novembro de 1901.
84
Arts. 61 e 66 do Decreto nº 2.881, de 18 de abril de 1898.
85
Havia exames parciais em julho e em outubro de cada ano. Caso o aluno fosse inabilitado no exame de julho,
seria desligado da Escola. Caso fosse inabilitado no exame de outubro, o aluno faria um exame final no mês de
março do ano seguinte. Caso reprovasse neste, seria desligado. As provas eram avaliadas com graus de 0 a 10 e a
nota 3, ou menor, inabilitava o aluno na disciplina. Art. 160 do Decreto nº 2.881, de 18 de abril de 1898.
93

4:30 da madrugada; formaturas para tudo; aulas, exercícios, instrução, rancho,


parada diariamente e com todas as formalidades, em uniforme correto, manobras
complicadíssimas, guardas aos domingos e plantão à noite nos alojamentos quase
atravancados de camas, licenças escritas e muito controladas para saída, portão
permanentemente impedido... (LOBATO FILHO, 1961, p. 90)

O general aponta ainda que a Escola Militar do Brasil possuía um regime diferenciado.
Por tratar-se de uma escola de curso superior, as exigências disciplinares eram mais brandas,
além da alimentação ser melhor.

Imagem 4 – Escola Preparatória e de Tática do Realengo no início do Século XX.

Fonte: Acervo da 9ª Brigada de Infantaria Motorizada.

Durante os três anos de curso, o aluno José Pessoa recebeu dois elogios: um do
presidente da República, pelo garbo com que se portou na parada de 7 de setembro de 1904 e,
outro pelo general Hermes da Fonseca, então comandante da Escola, em dezembro do mesmo
ano, pelo seu “muito respeito à disciplina e às instituições republicanas [...] e pela sua
esmerada educação e delicadeza” (FÉ DE OFÍCIO DO MARECHAL JOSÉ PESSOA, 2016).
Em janeiro de 1905 foi acometido de uma enfermidade grave, que lhe afastou da escola por
94

noventa dias, período que lhe foi permitido convalescer na sua terra natal 86. Foi nesse mesmo
ano, no mês de setembro, que recebeu a única punição no seu período como aluno, um
impedimento de 48 horas, devido a uma falta não justificada às aulas teóricas. Em dezembro
de 1905 concluiu com aproveitamento o Curso Preparatório e de Tática, sendo excluído da
Escola em março de 1906, passando, nessa data, à condição de adido à Escola de Artilharia e
Engenharia, devido à extinção da Escola Preparatória e de Tática. (FÉ DE OFÍCIO DO
MARECHAL JOSÉ PESSOA, 2016)

3.5 Mudança de rumo e a matrícula da Escola de Guerra de Porto Alegre

As intenções veladas refletidas no que preconizava o regulamento de 1898 não foram


suficientes para afastar os alunos da Escola Militar do Brasil das agitações políticas que
tomavam conta da Capital Federal nos primeiros anos da República. A sua participação nas
campanhas abolicionistas e no golpe republicano inauguraram uma efervescência política nas
dependências da Escola que só cessaria com o seu fechamento em 1904 e a sua transferência
de vez para o Realengo. Castro e Araújo (2012, p. 33), lembram as ondas de manifestações de
insubordinação e de indisciplina que tomaram conta da Escola na Praia Vermelha nos anos de
1894 e 1897. A primeira, de orientação claramente política, tratou-se de uma afronta direta ao
comandante da Escola, general Joaquim Mendes Ouriques Jacques, que tinha fama de
antiflorianista. A segunda foi uma revolta diante da ordem do ministro da Guerra de enviar
munições para as tropas do Rio Grande do Sul. Os alunos tomaram a medida como ofensiva à
honra e à moral do estabelecimento de ensino. Em ambas as ocasiões, segundo os autores, as
aulas foram suspensas e muitos alunos foram desligados, sendo que alguns foram
posteriormente reincorporados.
Em 14 de novembro de 1904, no contexto da revolta popular que eclodira no Rio de
Janeiro contra a Lei de Vacinação Obrigatória contra a Varíola, que ficou conhecida na
história como a Revolta da Vacina, uma nova tentativa de golpe de Estado tomou forma na
Escola Militar do Brasil, localizada na Praia Vermelha. Liderados pelo general Silva
Rodrigues Travassos e tendo como mentores políticos o senador Lauro Sodré e os deputados
Alfredo Varela e Alexandre José Barbosa Lima, um grupo de jovens oficiais e cerca de 300
alunos da Escola Militar intentaram depor o presidente Rodrigues Alves. Sodré havia sido

86
Não foi possível identificar que enfermidade foi essa. O regulamento de 1898, em seu art. 215, permitia ao
aluno enfermo, com a licença do comandante da Escola, tratar-se na casa da família, tendo direito aos
medicamentos fornecidos pela Escola.
95

aluno e professor da Escola, e foi licenciado no posto de tenente-coronel para assumir o seu
mandato na política. Varela também foi aluno, sem, porém, ter concluído o curso. Semanas
antes de ter eclodido a Revolta, ambos haviam proferido discursos críticos contra a política
nacional e a Lei de Vacinação Obrigatória, que inflamaram o Congresso. Com trajetórias
políticas marcadas pelo positivismo, os dois tinham devoção à figura de Benjamin Constant e
Floriano Peixoto. (CASTRO; ARAÚJO, 2012, p. 29-30)
Segundo Castro e Araújo (2012, p. 32-33), as articulações para o movimento militar já
vinham ocorrendo ao longo do mês de outubro. Uma reunião realizada na casa do senador
Sodré, em 17 de outubro, da qual participaram políticos de oposição ao governo e alunos das
escolas da Praia Vermelha e do Realengo, marcou a consolidação de um projeto político
coletivo que teria o seu desfecho no levante do mês seguinte. Na ocasião, o aluno Joaquim
Gaudie de Aquino Correa discursou em nome de seus colegas em homenagem à Sodré,
oferecendo-lhe uma escultura em bronze. No início de novembro um novo encontro ocorreu,
desta vez em uma sala da Escola da Praia Vermelha, com a participação de uma grande
quantidade de alunos e de um jovem oficial da Fortaleza de São João. A pauta da reunião teria
sido a preocupação com a falta de munição para o levante armado, para o qual se
comprometeu o oficial presente a colaborar, subtraindo a munição necessária dos depósitos da
fortaleza. Os autores apontam que, segundo o depoimento de um ex-aluno da Escola Militar,
desde o mês de outubro os ânimos já estavam bastante exaltados entre os estudantes, apesar
do clima pré-revolucionário não ser notado fora dos muros da Escola. Uma comissão de
alunos procurou Sodré, que lhes informou que somente concordaria com a saída da Escola
para o movimento quando tivesse a certeza do seu êxito. Enquanto isso, no Clube Militar, o
major Agostinho Raimundo Gomes de Castro e outros oficiais articulavam a adesão de quase
toda a guarnição militar do Rio de Janeiro, inclusive de elementos da Marinha.
O pretexto que faltava para o início do movimento veio em 31 de outubro com a
votação da Lei da Vacinação Obrigatória. Nos dias seguintes iniciou-se uma forte mobilização
daqueles que se mostravam contrários à obrigatoriedade imposta pela lei, dentre eles Sodré,
que fundou a Liga contra a Vacinação Obrigatória, em uma reunião ocorrida no Centro das
Classes Operárias. Também o Apostolado Positivista se manifestou fortemente contrário à
nova legislação. Em 9 de novembro a lei foi regulamentada, o que levou a uma escalada da
oposição. No dia seguinte, Sodré proferiu um inflamado discurso no Senado incitando a
resistência à arbitrariedade da nova lei. Finalmente, nos dias 11 e 12 de novembro as
manifestações, sob a liderança de Lauro Sodré e Barbosa Lima, ganharam as ruas da Capital
Federal. No dia 13 a situação começou a sair do controle. Um movimento de caráter mais
96

popular espalhou-se pela cidade. Bondes foram quebrados, lojas atacadas e combustores de
iluminação depredados. A polícia passou a ser atacada e barricadas foram erguidas. Em
poucos dias perdeu-se o controle sobre a turba popular, que passou a travar sérios embates
com as tropas policiais, que contavam com o apoio de destacamentos do Exército e da
Marinha, o que ocasionou ondas de violência e várias mortes nas principais ruas da cidade.
(CASTRO; ARAÚJO, 2012, p. 34-36)
Na Escola da Praia Vermelha o levante teve início na madrugada de 14 para 15 de
novembro. Como apontam Castro e Araújo (2012, p. 36), na tarde do dia 14 haviam se
reunido no Clube Militar, a fim de acertarem os detalhes finais do movimento, os generais
Travassos e Olímpio da Silveira, Lauro Sodré, Barbosa Lima, o major Gomes de Castro e o
capitão Augusto Mendes de Moraes. À Silveira, Gomes de Castro e Moraes coube a
responsabilidade de deflagrar o movimento na Escola de Tática do Realengo.
Nas partes dos comandantes das escolas militares da Praia Vermelha e do Realengo,
acerca dos fatos ocorridos nos dias 14 e 15 de novembro de 1904, é relatado que os estudantes
foram instigados pela oposição ao Governo, principalmente por Lauro Sodré, Alfredo Varela
e pelo general Sylvestre Travassos.87 Na noite do dia 14 para o dia 15 de novembro, os alunos
da Escola Militar do Brasil, sob as ordens de Travassos, depuseram o seu comandante e
marcharam em direção ao Palácio do Catete, para depor Rodrigues Alves. Após um embate
com as forças governamentais na Rua da Passagem, em Botafogo, que resultou no ferimento
do general Travassos, que morreria poucos dias depois, a revolta foi contida, tendo os alunos
rebeldes retornados à Escola, onde foram presos, juntamente com vários oficiais, alguns de
altas patentes, que participaram do levante. O relatório aponta, ainda, a tentativa de levante na
Escola Preparatória e de Tática do Realengo, da qual José Pessoa era aluno, que foi debelada
graças à ação do seu comandante, Hermes da Fonseca. No dia 16 de novembro, sob o estado
de sítio decretado no Distrito Federal, o controle do Rio de Janeiro foi retomado.
Da análise que fazem do movimento, Castro e Araújo (2012, p. 48) apontam que o
levante da Escola Militar do Brasil teve na revolta popular contra a vacina um pretexto.
Provavelmente a aderência ao movimento popular tenha cativado alguns revoltosos. No
entanto, segundo os autores, outros interesses e propósitos estavam envolvidos na deflagração
da revolta. Lauro Sodré, expoente político do movimento, era líder do Partido Republicano
Federal, que reunia as oposições de todos os estados contra a “política dos governadores”. A
política nacional oligárquica dos primeiros anos do Século XX facilitava a emergência de

87
Essas partes estão anexas ao Relatório do Ministro da Guerra de 1904, Francisco de Paula Argolo, apresentado
ao presidente da República em 1905.
97

descontentamentos por parte daqueles políticos que não tinham acesso direto ao poder. Dessa
forma, a disposição de Rodrigues Alves e a tomada do seu cargo por Sodré representariam
uma tentativa de modificação da ordem política vigente, em um contexto de disputa de grupos
políticos intraelites. Sevcenko (1993, p. 10) ressalta que alguns setores da oposição política88
ao governo aproveitaram-se da indignação popular para abrir caminho para o seu intento, para
o que contavam com o apoio dos alunos da Escola Militar do Brasil.
Já no caso do general Travassos, Castro e Araújo (2012, p. 48) supõem que a sua
aceitação da liderança do movimento deva ter sedado em razão da sua orientação positivista,
refletida na postura que adotou contrária à Lei da Vacinação Obrigatória, que era vista como
uma afronta à liberdade de escolha e à inviolabilidade do lar, previstas pela Constituição de
1891. Segundo os autores, Travassos era um militar com pouca expressão dentro do Exército
e teria despontado como liderança militar do movimento somente na reunião do Clube
Militar, na tarde do dia 14 de novembro.
A participação na Revolta da Vacina implicou o desligamento de 275 alunos da Escola
Militar do Brasil e 63 alunos da Escola Preparatória e de Tática do Realengo89. José Pessoa
não se encontrava nas relações que enumeravam os envolvidos nos acontecimentos de 14 para
15 de novembro, o que atesta, desde os tempos de aluno o caráter legalista e apartidário que o
acompanhou ao longo da carreira. No entanto, seu irmão Aristarcho, que era aluno da Escola
Militar do Brasil, ficou preso por vinte e cinco dias na Fortaleza de Santa Cruz, estando
previsto para, após a prisão, ser redistribuído em um dos corpos da guarnição do Rio de
Janeiro, por ser suspeito de ter participado da rebelião dos alunos, ainda que não tivesse sido
provada a sua participação90. Obviamente a expulsão de Aristarcho não aconteceu, já que
concluiu seus estudos militares e fez carreira dentro do Exército, como consta em sua Fé de
Ofício.

88
Esses setores, segundo Carvalho (2002, p. 95) e Sevcenko (1993, p. 22) eram formados basicamente por dois
grupos distintos. Um grupo era composto pela jovem oficialidade que ascendeu e se impôs ao País durante os
governos de Deodoro da Fonseca e de Floriano Peixoto, acompanhados de diversas classes dos setores sociais
urbanos, como: trabalhadores do serviço público, funcionários do Estado, profissionais autônomos, pequenos
empresários, bacharéis desempregados e uma vasta multidão de locatários de imóveis, arruinados e desesperados
com a reforma urbana empreendida na cidade do Rio de Janeiro na administração do Prefeito Pereira Passos. O
outro grupo era formado por monarquistas depostos pelo regime republicano.
89
Relatório do Ministro da Guerra de 1904. Anexo F (Partes e Relações de Oficiais e Praças Referentes aos
Acontecimentos de 14 de novembro de 1904).
90
Os nomes dos envolvidos no levante das escolas militares na noite de 14 para 15 de novembro foram
enumerados em três relações distintas, no Relatório do Ministro da Guerra, em 1904: a) relação nominal dos
alunos da Escola Militar do Brasil que não ficou provado terem tomado parte nos acontecimentos; b) relação
nominal dos alunos da Escola Militar do Brasil que foram mandados excluir do Exército a bem da disciplina, por
se terem envolvido nos acontecimentos; c) lista dos oficiais responsáveis pelos acontecimentos.
98

O discurso do ministro da Guerra, marechal Argollo, a respeito dos fatos, destaca a


necessidade do afastamento dos militares das “lutas partidárias” e dos “exploradores
políticos”, em um momento em que parece ser necessária a afirmação de um modelo
profissional. O ministro antepõe-se ao modelo do bacharel de farda, do soldado-cidadão,
corrompedor da disciplina militar e resultante da desobediência e da desordem e critica a ação
de alguns políticos que, na ausência de partidos, faziam convergir impatrioticamente as suas
ações para os elementos militares, explorando-lhes habilmente as fraquezas, procurando
desviá-los do papel que lhes era traçado na Constituição, para transformá-los em instrumentos
de suas ambições. (RELATÓRIO DO MINISTRO DA GUERRA, 1904, p. 6-7)
Em relação à instrução e à educação militar, Argollo argumenta:

Faltam-nos, pois, as qualidades fundamentais que caracterizam o espírito do


verdadeiro soldado, e daí a superior dificuldade que temos de lutar para formá-lo,
agradada pela vocação, quase que exclusiva, da nossa inteligência para os estudos
teóricos, para as especulações puramente abstratas, de onde resulta lamentável
inaptidão para os trabalhos práticos e para os misteres profissionais, e franca aversão
pelo o regime militar, embora entusiasticamente apaixonados por todas as suas
brilhantes exterioridades.
A educação e a instrução militar, entre nós, exigem, pois, forçosamente uma radical
transformação moral e intelectual do indivíduo sob pena de ficarmos com soldados
caracterizados unicamente pelo uniforme que vestem. (RELATÓRIO DO
MINISTRO DA GUERA, 1904, p. 5)

Às vésperas de concluir os seus estudos na Escola Preparatória, José Pessoa seria


surpreendido por mais uma mudança na regulamentação do ensino militar. Face aos graves
acontecimentos de novembro de 1904, que inverteram a ordem disciplinar e hierárquica do
Exército, devido ao envolvimento dos alunos da Escola Militar do Brasil na Revolta da
Vacina, o Governo Federal decidiu fechá-la até segunda ordem, bem como extinguir a Escola
Preparatória e de Tática. Em dezembro, o Congresso Nacional, reconhecendo os defeitos do
ensino militar do Exército abriu caminho para uma nova reforma, que iria se concretizar em
1905.
O Decreto nº 5.698, de 2 de outubro de 1905, assinado pelo presidente Rodrigues
Alves e pelo ministro da Guerra, promulgou o novo regulamento para as escolas do Exército.
Dentre as tantas mudanças significativas promovidas pelo novo estatuto estava a alteração do
número de instituições de ensino e a redistribuição dos cursos e seus respectivos conteúdos,
com a predominância do ensino prático sobre o teórico. (ROESLER, 2015, p. 57)
Com o regulamento de 1905, a formação dos oficiais do Exército passou a ser dividida
em quatro escolas:
99

a) Escola de Guerra – localizava-se em Porto Alegre-RS. Destinava-se a ministrar a


instrução militar preliminar, que seria complementada na Escola de Aplicação de Infantaria e
Cavalaria. Habilitava as praças de pret do Exército ao exercício das funções do primeiro posto
de oficial em qualquer uma das armas. Tinha a duração de dois anos.
b) Escola de Aplicação de Infantaria e Cavalaria – localizava-se em Rio Pardo-RS.
Seu curso era obrigatório a todos os alunos que concluíssem com aproveitamento a Escola de
Guerra. Era destinada a estudos profissionais, práticos e aplicativos. Tinha a duração de dez
meses e, ao final do curso, o aluno era declarado aspirante-a-oficial.
c) Escola de Artilharia e Engenharia – localizava-se em Realengo-RJ. Seu curso
destinava-se aos estudos teóricos e práticos de Artilharia e Engenharia. Nela eram
matriculados os aspirantes que haviam frequentado os dois cursos anteriores. Sua duração era
de dois anos para o curso de Artilharia e três anos para o curso de Engenharia.
d) Escola de Aplicação de Artilharia e Engenharia – localizava-se em Santa Cruz-RJ.
Nela complementavam-se os estudos iniciados na Escola de Artilharia e Engenharia. Seus
estudos eram essencialmente práticos e aplicativos e tinham a duração de dez meses.
O regulamento previa, ainda, o funcionamento de uma escola de Estado-Maior,
destinada a proporcionar aos oficiais até o posto de capitão, inclusive, possuidores do curso
das armas, a instrução militar complementar ao desempenho do serviço de estado-maior no
Exército. Essa escola estava diretamente subordinada ao chefe do Estado-Maior do Exército e
o seu curso tinha a duração de dois anos.
A partir das mudanças implementadas em 1905, e ao longo das três primeiras décadas
do Século XX, como lembra Castro (1995, p. 199), a “mocidade militar”, apesar do ativismo
político, sofreria uma dupla derrota: dentro do próprio Exército e na arena política. Os
intensos esforços de reforma do Exército iniciados por Hermes da Fonseca naquele mesmo
ano colocaram os oficiais “científicos” na contramão do projeto profissionalizante que se
iniciava na instituição. Apagava-se aos poucos a era do “Tabernáculo da Ciência” e a geração
da Praia Vermelha, marcada pelo cientificismo da “mocidade militar” daria lugar a uma nova
geração, caracterizada pela busca da profissionalização e modernização do Exército: a
“geração do Realengo”.
Seguindo o novo regulamento que fora implementado, o aluno José Pessoa foi
transferido, em maio de 1906, para a Escola de Guerra de Porto Alegre-RS, onde matriculou-
se no 1º ano do Curso de Guerra, sendo incluído no efetivo da 5ª Companhia de Alunos. No
estabelecimento de ensino cursou as seguintes disciplinas: a) teóricas - Arte e História
militares, Estudo Prático do Armamento, Balística, Geometria Analítica, Geometria
100

Descritiva, Planos Cotados, Trabalhos Gráficos, Física, Fortificação de Campanha, Noções de


Direito internacional aplicado à guerra, legislação e administração militares, Topografia e
Química; b) práticas - Trabalhos topográficos, Instrução prática das unidades do combate,
Estudo descritivo e nomenclatura do armamento, equipamento, arreamento, munições e
demais material de guerra regulamentar, Equitação e esgrima a cavalo, Hipnologia, Esgrima
de espada, florete e baioneta, Ginástica e natação, Redação e estilo militar, Higiene e Prática
falada das línguas francesa (obrigatória), inglesa ou alemã (facultativa).
Ao longo do curso foi novamente, em duas ocasiões, elogiado pelo garbo e pela
impecável disciplina com que se apresentou nas formaturas para o vice-presidente da
República, em agosto de 1906, e para os comandantes do Distrito Militar e das 1ª e 2ª
Brigadas de Infantaria, em novembro de 1907. Concluiu o curso sem sofrer nenhuma punição
e com pleno aproveitamento em todas as disciplinas teóricas e práticas.

MIL NOVECENTOS E SEIS [...] Nos exames finais foi aprovado plenamente com
grão sete na primeira e quarta aulas, simplesmente grau quatro, na segunda e
reprovado na terceira, deixando por isso de fazer Desenho.
MIL NOVECENTOS E SETE [...] Nos exames finais foi aprovado simplesmente
com grau cinco, na terceira aula e em Desenho, ambas do primeiro ano do curso de
guerra; grau três na primeira, grau cinco na quarta, plenamente grão seis na terceira,
grau sete na segunda aula e em Desenho, tudo do segundo ano, bem como no
primeiro, segundo, terceiro, quarto, quinto e sexto grupos do ensino prático, e grau
seis no oitavo grupo.
MIL NOVECENTOS E OITO [...] Nos exames finais, foi aprovado simplesmente
com grau cinco no oitavo grupo, grau oito no primeiro, grau quatro no quinto e
sétimo, grau nove no sexto, com distinção grau dez no segundo e terceiro. 91 (FÉ DE
OFÍCIO DO MARECHAL JOSÉ PESSOA, 2016)

Em janeiro de 1909 foi declarado aspirante-a-oficial, após ter concluído os cursos de


Cavalaria e de Infantaria. (FÉ DE OFÍCIO DO MARECHAL JOSÉ PESSOA, 2016)
Seguindo a ordem normal da formação, solicitou sua matrícula na Escola de Artilharia
e Engenharia, a fim de cursar, no Realengo, os dois anos da formação dos oficiais daquelas
armas. Em abril de 1909 foi-lhe concedida a licença para a matrícula no 1º ano daquele curso,
sendo incluído na 2ª Companhia de Alunos. Inexplicavelmente, no mês de agosto do mesmo
ano pediu o trancamento da matrícula, sendo transferido para o 13º Regimento de Cavalaria,
na Capital Federal, onde iniciou a sua carreira de oficial. (FÉ DE OFÍCIO DO MARECHAL
JOSÉ PESSOA, 2016)
Do tempo vivido nas escolas militares, José Pessoa faz questão de ressaltar as más
condições estruturais da Escola de Guerra, a qual, para ele, “mau grado a cultura de seu corpo

91
As disciplinas teóricas eram agrupadas em aulas (quatro no 1º ano e quatro no 2º ano) e as práticas em oito
grupos distribuídos ao longo dos dois anos do curso.
101

docente, estava muito longe de satisfazer aos requisitos exigidos para uma Escola de
Formação de Oficiais”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 14)
A falta de instalações físicas apropriadas ao funcionamento dos cursos de formação
dos oficiais do Exército, bem como de equipamentos e material didático para aulas e instrução
militar, sempre foram preocupações dos ministros que passaram pela pasta da Guerra nos
primeiros anos da República. O general João Neponuceno Medeiros de Mallet, no relatório do
Ministério da Guerra de 1898, ano da primeira grande reforma do ensino militar dos tempos
republicanos, já apontava a necessidade de “reformas urgentes, tendentes a manter-lhes a
estabilidade e conservação” das edificações da Escola Militar do Brasil, bem como de
trabalhos de adaptação nas instalações da Escola Preparatória e de Tática de Realengo, cujo
edifício não se prestava ao fim a que se destinava, “em vista de suas acanhadas dimensões”.
(RELATÓRIO DO MINISTRO DA GUERRA, 1898, p. 19-20) Os relatórios que se
seguiram, até o de 1905, quando se iniciaram as mudanças decorrentes da nova reestruturação
do ensino militar, não apresentam a realização de obras de grande vulto nas escolas militares,
a não ser reformas de pequena monta e pintura de parte das instalações. Entretanto, a
necessidade premente de reformas estruturais mais amplas sempre foi evidenciada de maneira
muito clara. A justificativa para a sua não realização, também: a falta de recursos
orçamentários.
O relato de Lobato Filho dá uma mostra das condições da Escola Preparatória e de
Tática de Realengo em seus primeiros anos de funcionamento:

...falta de acomodação, dando em resultado alojamentos quase atravancados de


camas, escassez de salas para o estudo noturno, o que não era possível no
alojamento, alimentação deficiente e mal preparada, à qual o cadete dava a
denominação genérica de engasga-gato, por não ser ainda conhecido o termo
“gororoba”. Eram coisas incomodas, mas, necessárias. (LOBATO FILHO, 1961, p.
90)

A ampla reforma estrutural do Exército promovida por Hermes da Fonseca, a partir de


1906, concentrou-se principalmente na guarnição do Distrito Federal. A partir dos relatórios
do Ministério da Guerra, expedidos no período em que José Pessoa foi aluno da Escola de
Guerra de Porto Alegre, entre os anos de 1906 e 1908, percebe-se que muito poucas mudanças
estruturais foram implementadas naquele instituto de ensino militar. O principal problema
apontado pela pasta da Guerra era o descompasso existente entre o tamanho físico da Escola e
o excessivo número de alunos, situação que se agravou a partir de 1906, quando o Curso de
Guerra absorveu os alunos das extintas Escola Preparatória e de Tática e Escola de Guerra de
Rio Pardo. (RELATÓRIOS DO MINISTRO DA GUERRA, 1906-1908) O general Francisco
102

de Paula Cidade, contemporâneo de José Pessoa na Escola de Guerra, relata que o velhíssimo
edifício daquela instituição de ensino, em 1906, “não comportava mais de duzentos e agora
mais de novecentos ou mil alunos. Ao comandante tocava a difícil tarefa de acomodar
confortavelmente [...] aquela multidão, composta por jovens por ele olhados como filhos”
(CIDADE, 1961, p. 94)

Imagem 5 – Escola de Guerra de Porto Alegre, 1910.

Fonte: Acervo do Colégio Militar de Porto Alegre.

Devido à precariedade das acomodações, tornou-se uma prática comum, na Escola de


Guerra, a divisão do efetivo de alunos em diversas turmas, que assistiam as aulas de
disciplinas comuns em horários distintos. A mesma prática acontecia na época dos exames. O
relatório de 1906 apontava, ainda, a deficiência do fornecimento de medicamentos pelo
laboratório farmacêutico do Exército. Entre 1906 e 1908, as principais obras realizadas na
Escola de Guerra foram a instalação de uma usina de energia elétrica, melhorias na parte
sanitária e pintura das instalações. Não há relatos de melhorias ou construção de novas
instalações físicas voltadas à instrução prática. (RELATÓRIOS DO MINISTRO DA
GUERRA, 1906-1908)
Entretanto, um dos fatos que mais impressionaram José Pessoa, ao longo do tempo de
formação, foi a brutalidade dos trotes a que eram submetidos os calouros da Escola
Preparatória e de Tática. Como ele mesmo relata,

E foi tão forte a impressão que me deixaram esses espetáculos desagradáveis


incompatíveis com camaradagem e grau de cultura a que atingiram as classes
armadas, que me induziu a proibi-los, quando voltei à Escola Militar como seu
103

Comandante. As recordações desagradáveis do regime pedagógico e educacional do


meu tempo determinaram o meu empenho em convencer a Nação, particularmente o
Exército, da necessidade da criação de uma Academia Militar à altura de sua
finalidade, empregando, nesse propósito, o melhor das minhas energias e dedicação,
enfrentando de ânimo sereno e firme as investidas da intriga astuciosa e da maldade
dos que pretendiam recontaminá-la pela infiltração de elementos indesejáveis, de
indisciplina e imoralidade. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 15)

O general Francisco de Paula Cidade foi aluno da Escola Preparatória e de Tática de


Rio Pardo-RS, congênere da do Realengo. Por meio do relato desse oficial é possível entender
a dimensão dos trotes a que eram submetidos os “bichos”92.

Era uma situação de fato, que durava nada menos de três meses! Brincadeiras de
mau gosto e até brutalidades, espancamentos. Alguns alunos da Escola Preparatória
e de Tática de Rio Pardo forma punidos e desligados em 1902, por terem
arrebentado as mãos de um bicho a palmatoadas. Durante um trote, nesse mesmo
ano, ainda em Rio Pardo, um bicho morreu afogado no rio que banha a cidade.
(CIDADE, 1961, p. 115)

Como aponta Celso Castro, a fase dos trotes era a mais crítica da formação do aluno
que acabara de ingressar na escola militar. Nesse período, “o novato era colocado em uma
posição de liminaridade, vivendo simbolicamente nas margens da vida social – daí o termo
‘bicho’, pelo qual era chamado” (CASTRO, 1995, p. 34). A prática possibilitava a
aproximação com os alunos mais antigos, principais responsáveis pela socialização dos
“bichos” no ambiente cultural predominante na escola e pelo controle informal do seu
cotidiano. Também contribuía, em grande medida, para a formação do espírito de corpo e para
a construção de uma identidade social dos alunos da Escola Militar. Os novatos que não
aceitassem o trote corriam o risco de se tornarem permanentemente alijados desse meio
social. Entretanto, para além de ser visto como um instrumento “civilizatório” dos “bichos”, a
prática do trote também era importante para os alunos veteranos, uma vez que, a ação destes
só era possível porque se reconheciam como grupo, cuja unidade estaria em risco com a
entrada dos novatos. (CASTRO, 1995, p. 35-36)
Ainda sobre a indisciplina que campeava em meio ao corpo discente da Escola, José
Pessoa lembra da irreverência de gerações de alunos que frequentaram as aulas do professor
Leonídio Galvão, de alcunha “Mamouth”, professor de Matemática e Aritmética, o qual
“sofria, com equanimidade inalterável, a animosidade permanente, a guerra injusta que lhe
moviam os alunos vadios, cuja hostilidade afrontosa não raro se expandia em atos
predatórios”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 16)

92
No jargão militar, é o calouro que acabou de ingressar em uma escola militar.
104

A prática intensa do trote e as constantes demonstrações de indisciplina por parte dos


alunos das escolas militares persistiria por mais de uma década. Em 1918, Punaro Blay, que
ingressara na Escola Militar do Realengo naquele ano, descreve a velha ordem que ainda
imperava no estabelecimento de ensino:

Com aquele pátio tomado por alojamentos; salas de aula fora de sua sede; horários
de trabalho e de refeições anacrônicos e desajustados93; [...] com a quase totalidade
dos seus alunos espalhados por “repúblicas”, e, por isso mesmo, sem condições de
fiscalizá-los; [...] o trote campeando livremente, violento e por vezes deprimente [...]
Tais deficiências e desconfortos não podiam deixar de contribuir para uma queda
sensível de sua disciplina. [...] foi assim que, rapidamente adaptadas ao seu peculiar
modo de vida, começamos a enfrentar os percalços da vida militar. (BLEY, 1976, p.
3)

Essa situação seria abrandada sensivelmente no início de 1919, ano em que o corpo de
instrutores da Missão Indígena94 passou a atuar naquela Escola, aumentando o rigor
disciplinar e implementando mudanças na prática da instrução militar.
Os reflexos da experiência de aluno de José Pessoa, tanto na Escola Preparatória como
na Escola de Guerra, seriam profundamente sentidos nas intensas reformas estruturais e
educacionais por ele implementadas anos mais tarde, quando comandou a Escola Militar do
Realengo.

93
Em seus relatos autobiográficos Juarez Távora faz uma narrativa do quadro horário de trabalho seguido pela
Escola Militar do Realengo em 1917. Trata-se de um quadro horário bastante semelhante ao quadro horário que
seria implantado mais tarde pelo Regulamento de 1919, com pequenas alterações. Desta forma, parece ser
inviável a observação de Bley que a Escola em 1918 seguisse horários de trabalho “anacrônicos” e
“desajustados”. Cf. Távora (1973, p. 88)
94
Ver ROESLER, Rafael. O impulso renovador: a atuação da Missão Indígena na Escola Militar do
Realengo (1919-1922). 2015. 170 p. Dissertação (Mestrado em História, Política e Bens Culturais) – Fundação
Getúlio Vargas, Rio de Janeiro-RJ, 2015.
105

4 OS ANOS INICIAIS DA CARREIRA MILITAR: DA TROPA AOS CAMPOS DE


BATALHA DA BÉLGICA

José Pessoa chegou à tropa em meio às reformas estruturais do Exército Brasileiro,


empreendidas por Hermes da Fonseca, então Ministro da Guerra do Governo Afonso Pena
(1906-1909).
Após a campanha em Canudos (1896-1897), o Exército havia ficado em ruínas. Como
destaca McCann (2009, p. 102), os relatórios dos oficiais de alta patente constantemente
reportavam os problemas e a falta de dinheiro para, até mesmo, os reparos mais simples dos
equipamentos e da infraestrutura das instalações. Ao invés de produzir um Exército mais
profissional, a experiência de Canudos arruinou-o. Para Coelho (2000, p. 88), “os sucessivos
fracassos na luta contra os sertanejos de Antônio Conselheiro atingiram fundo a já abalada
credibilidade na competência profissional do Exército”. As derrotas nas três primeiras
expedições expuseram ao povo brasileiro os graves problemas por que passava o Exército,
principalmente nas questões estruturais e ligadas ao efetivo.

4.1 As reformas do Exército nos anos iniciais da República

O processo de reforma por que passou a instituição foi lento, fruto da falta de
continuidade dos ministérios da guerra ao longo da Primeira República.95 Segundo McCann
(2009, p. 102-103), essa descontinuidade era resultado das frequentes trocas de liderança, das
fracas tradições do Exército, dos procedimentos administrativos inadequados e da falta de
uma economia nacional integrada. A Revolução Federalista (1893-1895) e a desgastante
experiência no sertão baiano extinguiram, ainda, a capacidade das Forças Armadas para
desempenhar, no campo político, um papel moderador, herdado da derrubada do Império. Ao
final do Governo Rodrigues Alves (1898), as oligarquias agrárias regionais já haviam
reestabelecido o seu domínio sobre o sistema político.
A base intelectual para as iniciativas das reformas implementadas até a Primeira
Guerra Mundial foi lançada no Ministério da Guerra de Mallet (1898-1902). O Projeto Mallet,
como ficou conhecido, previa: a mudança da composição de unidades militares; a

95
Nos doze anos que se seguiram entre 1898, com a assunção do primeiro presidente civil da República, e 1910,
início do governo de Hermes da Fonseca, quatro presidentes e seis ministros da guerra diferentes ocuparam suas
respectivas pastas. Na Presidência da República: Manuel Campos Sales (1898-1902), Rodrigues Alves (1902-
1906), Afonso. A. Moreira Pena (1906-1909) e Nilo Peçanha (1909-1910). No Ministério da Guerra: João de
Medeiros Mallet (1898-1902), Francisco de P. Argollo (1902-1906), Hermes R. da Fonseca (1906-1909), Luís
Mendes de Morais (1909), Carlos Eugênio de A. Guimarães (1909), José Bernardino Borman (1909-1910).
106

concentração das unidades que se encontravam extremamente dispersas pelo Brasil; a


centralização de nomeações de oficiais; a reorganização do ensino militar, com o reforço do
ensino teórico e a experiência prática no campo; a ênfase no treinamento de tiro; a execução
de manobras militares rotineiras; a regularização do planejamento; a melhoria dos critérios de
promoção; a elevação do nível intelectual dos oficiais; a remodelação dos quarteis e
instalações do Exército e a modernização do armamento. No entanto, as políticas monetárias
restritivas do Governo Campos Sales impediram a implementação imediata das mudanças
pretendidas, por mais razoáveis que fossem. (McCANN, 2009, p. 106-108)
A necessidade da elaboração de um plano de reorganização da força terrestre deixou
evidente, ainda, a inexperiência dos oficiais do recém-criado Estado-Maior do Exército em
planejamento. Segundo McCann (2009, p. 108), essa situação exemplificou algumas das
características do Exército Brasileiro das primeiras décadas da República: a incapacidade do
Estado-Maior de cumprir a sua função de planejamento, a tendência em ater-se ao debate de
teorias não postas à provas, a necessidade do líder cuidar das minúcias e depender de vários
“oficiais de confiança”, a importância em demasia atribuída ao “plano”, que assumia
características de sagrada escritura e a tentativa de concluir as tarefas complexas às pressas.
Com isso, os comandantes gastavam mais energia com a burocracia dos planejamentos do que
com a execução. Grande parte do corpo de oficiais havia se habituado à rotina burocrática e
em nada tinham a ver com a preparação dos soldados para o combate, demonstrando, assim,
muito pouco interesse pela carreira das armas. Como lembra Cidade (1955, p. 235), havia
oficiais que chegaram ao posto de coronel ou de general “sem nunca ter dado tiro com o fuzil
regulamentar”.
A insistência de Mallet na necessidade de haver manobras de treinamento, a fim de
criar um verdadeiro Exército, talvez seja a principal herança do seu ministério. Para ele, o
preparo dos generais em tempo de paz deveria corresponder às funções que desempenhariam
em tempo de guerra, o que não correspondia à realidade da época:

Os nossos generais são obrigados e se limitarem, na prática, aos atos administrativos


nos comandos de distritos e nas inspeções de corpos, o que concorrerá
evidentemente para torná-los ótimos administradores na paz, porém, menos aptos
para as funções de comando, para a manobra de guerra. Salvo por estudos teóricos
de gabinete, bebidos em excelentes tratados dos mestres da guerra e na história das
campanhas europeia e americanas, desconhecem eles, em geral, os atos de comando,
por falta de prática. (RELATÓRIO DO MINISTÉRIO DA GUERRA, 1901, p. 30-
31)

A questão do Acre, apesar de produzir alguma euforia patriótica na população civil,


marcou, já nos primeiros anos do Século XX, a necessidade de reestruturação das Forças
107

Armadas brasileiras. O sucessor de Mallet no Ministério da Guerra, marechal Argollo (1902-


1906), abriu o Relatório do Ministério da Guerra de 1903 indicando que “os sucessos obtidos
ultimamente nas fronteiras do Amazonas vieram, mais uma vez, patentear a iniludível
necessidade de organizar o nosso Exército”. Lembrou, ainda, que uma nação não podia
confiar a garantia do seu território unicamente “aos princípios da jurisprudência internacional
e à eficácia das notas diplomáticas”. E que os sacrifícios feitos com a “manutenção das
instituições militares perfeitamente organizadas serão por demais compensadas pelo que
ganharmos em prestígio no convívio internacional, pela paz e tranquilidade [...] com que são
tratados os poderosos” (RELATÓRIO DO MINISTÉRIO DA GUERRA, 1903, p. 3-4).
Argollo apontou, também, as razões pelas quais o Exército encontrava-se em más
condições:

...organizam-se planos de reforma, arquitetam-se projetos o mais variados; mas,


passado o momento esmorece o ânimo, parece o que chamamos prudência e
ponderação, surgem os doutrinários humanistas, discute-se a paz universal, o
barbarismo do regime militar, arruinador das forças vivas da nação, nada se faz;
permanece tudo como estava, se se alguém ainda continua a ocupar-se da defesa
nacional, em geral, o que faz mais por oposição política ao governo do que por
convicção da necessidade de organizá-la.
O Exército, se está nessas condições em que se acha, não é porque ignoramos as
suas necessidades e o que é preciso fazer para elevá-lo ao nível dos que mais se
recomendem pela sua organização, mas unicamente pela falta de firmeza, resolução
e coragem da nossa parte para realizar aquilo que reconhecemos e confessamos ser
indispensável. (RELATÓRIO DO MINISTÉRIO DA GUERRA, 1903, p. 5)

A primeira medida daquilo que o ministro entendia como indispensável era tornar
realidade o serviço militar obrigatório no País, que vinha sendo lembrado como essencial nos
relatórios ministeriais, ano após ano.
Em 1874 foi aprovada a primeira lei96 que previa a obrigatoriedade do serviço militar,
o alistamento universal e o sorteio para cobrir as vagas não preenchidas pelo voluntariado e
pelo reengajamento. Entretanto, a lei permitia várias exceções e deixava o alistamento e o
sorteio a cargo das juntas paroquiais, presididas pelo juiz de paz e complementadas pelo
pároco e pelo subdelegado, o que a transformou em um grande fracasso. A lei permitia aos
que não quisessem servir pagar certa quantia em dinheiro ou apresentar substitutos e concedia
isenção a bacharéis, padres, proprietários de empresas agrícolas e pastoris, caixeiros de lojas
comerciais, entre outros. Como destaca Carvalho (2006, p.25), o serviço continuou a pesar
exclusivamente sobre os ombros das pessoas sem recursos financeiros ou políticos.

96
Lei nº 2.556, de 26 de setembro de 1874.
108

Em 4 de janeiro de 1908 foi promulgada a Lei nº 1.86097, que regulava o alistamento e


o sorteio militar. Segundo Castro (2012, p. 53-57), entre a implantação da primeira lei, em
1874, e a implantação da segunda, o que viria a acontecer somente em 1917, viveu-se uma
intensa propaganda a favor ou contra o serviço militar obrigatório. Entre os que lutavam pelo
sorteio militar estavam os militares e alguns membros da elite civil agrupados nos tiros de
guerra, organizações civis de treinamento de atiradores destinadas a criar reservas treinadas
para o Exército. A principal oposição veio do movimento operário, em especial dos
anarquistas, que se posicionaram radicalmente contra a lei do sorteio. Afirmavam que o
serviço militar obrigatório afastava o homem do trabalho prático, impedindo-os de constituir
família98.
Com a candidatura de Hermes da Fonseca à Presidência da República, ferrenho
defensor do serviço militar obrigatório, a oposição operária acirrou-se. Facções da elite
política também se agruparam em torno da campanha do “civilista” Rui Barbosa,
desaparecendo o entusiasmo das elites civis pelo sorteio militar. (CASTRO, 2012, p. 59)
Apesar de arrefecida entre os anos de 1909 e 1912, a eclosão da Primeira Guerra
Mundial voltou a avivar a oposição dos grupos operários à guerra e ao sorteio. No entanto,
toda a mobilização operária foi insuficiente para evitar que o Brasil entrasse na Guerra e
implementasse a Lei do Sorteio Militar, o que se deu em 16 de dezembro de 1916, quando, no
quartel-general do Exército, foi realizado o primeiro sorteio em solenidade aberta ao público e
que contou com a presença do Presidente da República Wenceslau Braz. (CASTRO, 2012, p.
73-78)
No entanto, a euforia inicial dos defensores da lei deu lugar a frustrações, já que o
sorteio se tornou um grande fracasso, dada a incapacidade do Governo brasileiro de implantá-
lo e a incapacidade de punir os insubmissos99, isto é, aqueles que sorteados não se
apresentavam prontos para o serviço militar. A questão do serviço militar somente seria
resolvida entre o decorrer dos anos 1930 e 1940, com a universalização da exigência do
documento de serviço militar e a adoção de dispositivos legais mais eficazes. (CASTRO,
2012, p. 79)

97
Essa lei ficou conhecida como Lei do Sorteio Militar.
98
Segundo Castro (2012, p. 63), um dos pontos centrais da luta entre os defensores e os opositores do serviço
militar obrigatório era a apropriação que os dois lados faziam da imagem da família. Os militares afirmavam que
a caserna seria a continuação do lar, enquanto o movimento operário afirmava que o serviço militar obrigatório
impediria os homens de constituir família.
99
Celso Casto atribui essa incapacidade à dificuldade de intimação dos sorteados, já que nem sempre os
funcionários dos Correios encontravam os endereços dos sorteados. Sendo assim, as juntas julgadoras dos
insubmissos geralmente os absolviam, dada a precariedade desse sistema. (CASTRO, 2012, P.79)
109

Na realidade, a vida militar, mais especificamente a no Exército, não era atrativa para
ninguém. Os soldos baixos e a existência de castigos físicos como forma de disciplinar a tropa
dificultavam o recrutamento. Dessa forma, os efetivos da instituição eram compostos pelas
camadas mais pobres da sociedade, desprotegidas do dinheiro e da política. A forma de
recrutamento adotada ainda seria amplamente discutida durante os anos finais dos Oitocentos
e os anos iniciais do século XX, inclusive com a visão antecipada da necessidade de o serviço
militar se tornar obrigatório100. (ROESLER, 2015, p. 27)
Foi no Ministério de Hermes da Fonseca, entretanto, que as reformas pretendidas por
Mallet começaram a tomar forma. Em seu primeiro relatório ao Presidente da República, em
1906, deixou claro o estado em que se encontrava o Exército: “carece de pessoal e de material
bélico, de organização e de comando”. Destacava ainda a inefetividade da Lei do Serviço
Militar de 1874, incompatível com o regime republicano e com os princípios básicos dos
exércitos modernos, e imputava ao governo a “obrigação de promover a adoção de uma lei
que dê ao Exército soldados e reservistas em número suficiente para enfrentar qualquer
adversário e alimentar uma luta tão prolongada quanto permitam os recursos da Nação”. Com
o serviço militar obrigatório, no entanto, viria “a necessidade de quarteis higiênicos e
confortáveis e de campos de instrução”, uma vez que a maioria dos aquartelamentos não
atendiam aos requisitos mínimos de “conforto e sociabilidade indispensáveis à vida dos
conscritos, entre os quais se encontrará o mais rude camponês com o mais culto intelectual”.
(RELATÓRIO DO MINISTÉRIO DA GUERRA, 1906, p. 3-4)
Em relação à reestruturação do Exército, ressaltou a necessidade de cada estado
possuir o seu próprio campo de instrução e construção de uma vila militar no Distrito Federal,
com campo de exercícios e material adequado à instrução militar, localizada na Fazenda
Sapopemba, e que serviria de modelo ao restante do Exército. Os arsenais e fábricas de
pólvora e de cartuchos também necessitariam passar por uma renovação, com direções mais
técnicas, a cargo de oficiais de Artilharia. E, apesar do empenho dos governos anteriores em
reorganizá-lo, a força terrestre ainda estava reduzida “a corpos disseminados pelo vasto
território nacional, com efetivos reduzidíssimos, sem material de mobilização, alguns até sem
armamentos, e vivendo independentes, sem o menor laço de solidariedade, a não ser a
subordinação comum aos comandantes de distritos”. Na concepção de Hermes a falta de
grandes unidades táticas constituídas, que enquadrassem os batalhões e regimentos, deixava o

100
A ideia de instauração de um serviço militar universal nasceu, segundo Alain Rouquié, no seio das
instituições militares, bem como a ideia de nação em armas sempre esteve ligada às transformações do aparelho
militar no começo do século XX. (ROUQUIÉ, 1984, p.117.)
110

Exército sem comando, uma vez que os comandantes de distrito, absortos nas atividades
administrativas, não comandavam efetivamente. Para ele, a organização dos distritos militares
não atendia “aos preceitos universalmente adotados de forças combatentes”, apenas
satisfaziam “as exigências de uma administração rudimentar”, o que levava a instituição, nos
conflitos armados a organizar-se em grandes unidades improvisadas “sob o comando de
generais sem o tirocínio necessário, porque não tiveram a oportunidade de se exercitarem”.
Nos períodos de paz, as forças “estavam dispersas por vasto território, sem laços que revelem
a mínima preocupação de seu verdadeiro destino”, mais organizadas “para a vida pacífica e
indolente das guarnições, que para os intensos labores da campanha”. Faltavam equipamentos
indispensáveis à mobilização da tropa, como carroções de munições e barracas. À falta de
meios, juntava-se a inexperiência dos comandantes. Em meio ao relatório, o ministro diz, com
franqueza, que “o Exército não está aparelhado para a guerra, isto é, para o desempenho de
sua missão essencial, apesar das grandes somas anualmente gastas com a sua manutenção”.
(RELATÓRIO DO MINISTÉRIO DA GUERRA, 1906, p. 4-7)
Juntamente com a reorganização dos corpos de tropa, Hermes recomendou uma
reforma administrativa, com a redução do tamanho das diretorias de Artilharia, Engenharia,
Saúde e Contabilidade, anexando-as à Secretaria da Guerra. Esta teria à frente um diretor
geral, que assumiria os despachos que não necessitavam da aprovação do ministro da Guerra,
aliviando-o, assim, do fardo administrativo diário e liberando-o para os assuntos de maior
relevância do Ministério. A Secretaria de Guerra aliviaria, também, o fardo burocrático do
Estado-Maior, que passaria a cuidar, exclusivamente, do preparo da tropa, do estudo da defesa
do País e das campanhas futuras. Preocupava-lhe, ainda, a formação de oficiais além da
capacidade do Exército para incorporá-los nos corpos de tropa. Com isso, a distribuição e a
acomodação dos oficiais dentro dos quadros tornavam-se um problema, principalmente para
os oficiais subalternos101. As promoções a primeiro-tenente e capitão poderiam demorar, à
época, até doze anos, o que poderia causar um desestímulo “à nova vida intensa de exercícios
que há de se implementar no Exército”. A solução estaria no aumento de primeiros-tenentes e
capitães de todos os corpos e no fechamento de algumas escolas de formação de oficiais até
que se abrissem novos claros nos corpos de tropa. (RELATÓRIO DO MINISTÉRIO DA
GUERRA, 1906, p. 10-11)
As propostas de Hermes da Fonseca não foram implementadas em sua totalidade.
Como dependiam de desembolsos do Governo, o Congresso fez forte oposição aos gastos

101
Tenentes.
111

militares. Mesmo assim, em 1908 o Exército sofreria nova reorganização102. As mudanças


significativas estavam na criação de treze regiões de inspeções, que abarcariam vinte e uma
regiões de alistamento militar, a reorganização do Estado-Maior e a reorganização do Exército
de 1ª linha em grandes unidades103, brigadas, batalhões, regimentos e corpo de saúde. No
entanto, as grandes unidades somente seriam organizadas quando o Governo julgasse
conveniente. O Regulamento das Inspeções Permanentes104, de 1908, determinava que o
comando de cada inspeção estaria a cargo de um inspetor permanente, que seria um general
do serviço ativo. Esses exerceriam funções meramente administrativas, que seriam, “de modo
geral, velar pela observância fiel das leis, instruções, e regulamentos militares, cumprindo e
fazendo cumprir as suas prescrições”.
Entretanto, as mudanças mais importantes, talvez, tenham sido as implementadas no
Estado-Maior do Exército.
O Estado-Maior do Exército foi criado em 1896105 e teve seu regulamento aprovado
três anos depois106. Com a regulamentação de 1899, o Estado-Maior substituiu a repartição do
Ajudante-Geral do Exército, assumindo a maior parte de suas atribuições administrativas e
recebendo grande parte de seu quadro de pessoal. Segundo McCann (2009, p. 143), os oficiais
provenientes dessa repartição eram mais afeitos a lidar com a burocracia e a criar tarefas sem
importância do que a planejar os exercícios de treinamento para as tropas, os procedimentos
de mobilização, a obtenção de armas e as campanhas. Alguns passavam toda a sua carreira na
burocracia, sem jamais passar pelos corpos de tropa. Hermes atribuía esses problemas à
“educação defeituosa proporcionada pelas escolas militares, cujo programa de ensino tornara
inseparável o curso de estado-maior ao de engenharia” e aos “moldes burocráticos da

102
Lei nº 1.860, de 4 de janeiro de 1908.
103
O Decreto nº 6.971, de 4 de junho de 1908, organizou as grandes unidades e os seus quadros de oficiais. A
legislação definia que as grandes unidades do exército ativo seriam: brigada estratégica, brigada de Cavalaria,
divisão de exército e exército. A brigada ficava definida como a base de formação do Exército e, como tal, a
maior unidade a permanecer constituída. As brigadas estratégicas tinham como a base de sua constituição
batalhões de Infantaria, enquanto as brigadas de Cavalaria eram formadas por regimentos de Cavalaria. As
divisões de exército e o exército somente seriam constituídos com a mobilização real ou para as manobras.
O Decreto nº 7.054, de 6 de agosto de 1908, criou cinco brigadas estratégicas e três brigadas de Cavalaria. As
brigadas estratégicas estavam distribuídas em quatro regiões de inspeção: 9ª Região (1ª Brigada – Capital
Federal), 10ª Região (2ª Brigada – Curitiba-PR), 12ª Região (3ª e 4ª Brigadas – São Borja-RS) e 13ª Região (5ª
Brigada – Cuiabá-MT). As de cavalaria estavam localizadas somente na 12ª Região, no estado do Rio Grande do
Sul: 1ª Brigada, em São Luiz; 2ª Brigada, em Alegrete e 3ª Brigada, em Bagé. McCann (2009, p. 144) lembra
que essas brigadas possuíam comandos próprios, que estavam diretamente subordinados ao ministro da Guerra,
diferentemente das demais unidades, que se subordinavam aos inspetores regionais. Isso se tornou um problema
em algumas regiões, em que a dualidade de comando levou a instruções conflitantes até mesmo sobre o tipo de
uniforme a ser utilizado pelas tropas.
104
Decreto nº 7.053, de 6 de agosto de 1908. Aprova o regulamento das inspeções permanentes criadas pela Lei
nº 1.860, de 4 de janeiro de 1908.
105
A Lei nº 403, de 24 de outubro de 1896, criou o Estado-Maior do Exército e a Intendência de Guerra.
106
O Decreto nº 3.189, de 6 de janeiro de 1899, aprovou o regulamentou o Estado-Maior.
112

repartição”, que contribuíram para que o Estado-Maior, com raras exceções, só apresentasse
“hábeis engenheiros e inescrupulosos funcionários públicos” (RELATÓRIO DO
MINISTÉRIO DA GUERRA, 1908, p. 26). Nos anos de 1908 107 e 1909108, o Estado-Maior
passou por duas reorganizações sucessivas. A de 1908 aboliu o Corpo de Estado-Maior109 e
abriu a possibilidade de oficiais de qualquer arma, do posto de capitão a coronel, possuidores
do curso de Estado-Maior e com a experiência de ter servido nos corpos de tropa do Exército,
executarem as tarefas administrativas. Com a reforma de 1909, muitos encargos
administrativos foram afastados das atribuições do Estado-Maior e passados aos
Departamento da Guerra e Central, conforme o Relatório do Ministério da Guerra de 1909. O
que era rotineiro ficou ao encargo dos sargentos e civis da repartição. Com isso, os oficiais
podiam dedicar-se mais à supervisão da educação dos oficiais e ao treinamento dos soldados.
Outra criação marcante das reformas implementadas por Hermes da Fonseca, e mais
durável, foi a Vila Militar. Idealizada por Mallet, durante o seu ministério, em 1901, a vila
militar tipo110 seria um modelo de vila militar a ser construído em todos os distritos militares.
Segundo Viana (2010, p. 105), consistiria na reunião de forças em um conjunto tático,
reunindo quarteis, residências, depósitos, campos de instrução e outras instalações militares,
com o propósito de racionalizar o controle administrativo e econômico das tropas.
A primeira cidade a receber uma vila militar foi o Rio de Janeiro. Construída no
distante bairro de Deodoro, onde se localizava a antiga Fazenda Sapopemba, teve a sua pedra
fundamental lançada no dia 18 de novembro de 1907. (RELATÓRIO DO MINISTRO DA
GUERRA, 1907, p. 68) Segundo McCann (2009, p. 144), a intenção de Hermes era alojar as
brigadas estratégicas em suas próprias bases. Cada regimento teria seu próprio quartel,
escritórios, enfermarias e casas para os oficiais e sargentos. No entanto, a falta de verba
governamental não permitiu que o modelo construído no Rio de Janeiro fosse implementado
nas demais regiões até a Primeira Guerra Mundial.111

107
Lei nº 1.860, de 4 de janeiro de 1908. Regula o alistamento e sorteio militar e reorganiza o Exército.
108
Decreto nº 7.389, de 29 de abril de 1909. Aprova o regulamento do Estado-Maior do Exército.
109
Tanto a Lei nº 403, de 24 de outubro de 1896, que criou o Estado-Maior do Exército, quanto o Decreto Nº
3.189, de 6 de janeiro de 1899, que regulamentou o Estado-Maior, previa criação do Corpo de Estado-Maior,
formado por oficiais oriundos do quadro de Estado-Maior de 1ª classe, criado na organização do Exército de
1842. Esses oficiais estavam diretamente subordinados ao chefe do Estado-Maior. A reorganização de 1908
extinguiu o corpo de Estado-Maior e redistribuiu os oficiais que a ele pertenciam pelas armas de Infantaria,
Cavalaria, Artilharia e Engenharia.
110
RELATÓRIO DO MINISTRO DA GUERRA, 1901, p. 78-79.
111
Para maiores detalhes sobre a construção da Vila Militar de Deodoro, recomenda-se a leitura da Dissertação
de Mestrado em História, Política Bens Culturais de Claudius Gomes de Aragão Viana, intitulada História,
Memória e Patrimônio da Escola Militar do Realengo (CPDOC – 2010).
113

Imagem 6 – Projeto da Vila Militar de Deodoro, 1901.

Fonte: AHEx. Comissão Construtora da Vila Militar, 1909.

4.2 A experiência como oficial subalterno

Em meio às reformas estruturais e organizacionais por que passava o Exército


brasileiro, apresentou-se José Pessoa, recém egresso da Escola Militar, em 11 de agosto de
1909, no 13º Regimento de Cavalaria, sediado na Capital Federal, que tinha como
comandante o seu tio, coronel José da Silva Pessoa. Esse Regimento estava subordinado à 1ª
Brigada Estratégica, criada há menos de um ano, no plano de reestruturação do Ministério de
Hermes da Fonseca. Apesar das mudanças pelas quais vinha passando o Exército, o ministro
da Guerra José Bernardino Bormann, em seu Relatório de 1909, ainda apontava algumas
dificuldades enfrentadas pela 9ª Região de Inspeção, zona administrativa em que se localizava
a unidade de José Pessoa. Segundo Bormann, a instrução daquele ano ressentia-se da
transição sofrida pelo Exército. Para o ministro, as instruções de regimento e brigada só
estavam sendo levadas a termo devido à dedicação do chefe de inspeção e dos comandantes
de corpos e da brigada, ressaltando, nesse contexto, os exercícios no terreno conduzidos pela
Brigada Estratégica, em outubro daquele ano. (RELATÓRIO DO MINISTRO DA GUERRA,
1909, p. 75-80) Nessas manobras, ficou a cargo do 13º Regimento realizar um ataque à Vila
Militar de Deodoro e repelir a figuração inimiga que lá encontrava-se entrincheirada. A
114

atuação de José Pessoa nos exercícios rendeu-lhe um elogio do comandante do Regimento,


que destacou a sua “competência, dedicação, inteligência [...] e perícia com que se houve no
assalto a espada” (FÉ DE OFÍCIO DO MARECHAL JOSÉ PESSOA, 1909).
Em suas críticas, o ministro ainda apontava as legislações em vigor que
regulamentavam as regiões de inspeção e as brigadas estratégicas, que, na prática, permitiam
a dualidade de comando das tropas da mesma guarnição. Enquanto o regulamento das
inspeções dava aos inspetores autoridades sobre os estabelecimentos militares de qualquer
natureza dentro das regiões, regulamento das brigadas estratégicas as subordinavam
diretamente ao ministro da Guerra. Nas regiões em que os inspetores acumulavam o comando
das brigadas estratégicas esse problema não existia. No entanto, nas 9ª e 12ª Regiões,
localizadas na Capital Federal e no Rio Grande do Sul, respectivamente, os comandantes eram
diferentes, o que causava embaraços, até mesmo, para o serviço diário. Não poupou, também,
em suas observações, as condições estruturais dos quarteis da região, não existindo na Região
“um só quartel que satisfaça as condições de higiene, conforto e boa instalação dos serviços”.
(RELATÓRIO DO MINISTRO DA GUERRA, 1909, p. 75-80)
Os relatórios dos anos subsequentes não apontaram melhoras sensíveis das condições
dos equipamentos e aquartelamentos, apenas alguma melhoria na qualidade de alguns
equipamentos de campanha, fardamentos e munição para o tiro.
Em 1912, a “política da salvação” de Hermes da Fonseca, amplamente criticada pelos
militares do Exército, como lembra Capella (1985, p. 97-99), devido aos excessivos gastos
realizados pelos governos estaduais para a manutenção de suas forças públicas, enquanto o
descaso com a situação do Exército era enorme, levou José Pessoa ao sertão paraibano,
quando estava agregado à 4ª Companhia Isolada de Caçadores, na capital daquele estado.
Entre maio e agosto daquele ano, foi designado pelo inspetor da 5ª Região Militar para
cumprir diligência no interior do estado, participando do combate ao bando de cangaceiros
liderado por Antônio Silvino. (FÉ DE OFÍCIO DO MARECHAL JOSÉ PESSOA, 2016)
Manoel Baptista de Morais, conhecido como Antônio Silvino, atuou nos estados na
Paraíba e Pernambuco entre a última década do Século XIX e a segunda década do Século
XX, até ser preso pelas forças policiais pernambucanas em 1914, no município de
Taquaritinga. Silvino adotou o nome do tio, Silvino Aires Cavalcanti de Albuquerque, um
cangaceiro que o acolheu ainda jovem, após o assassinato do pai, devido a brigas por terras.
(OLIVEIRA, 2011)
Curiosamente o tio de Antônio Silvino carregava no nome o ramo dos Cavalcanti de
Albuquerque de Pernambuco. Não há informações se José Pessoa tinha conhecimento desse
115

fato. Entretanto, no brevíssimo relato que faz do cangaço, nas suas memórias, ao mesmo
tempo em que considera Antônio Silvino “o maior bandoleiro da sua geração”, também
achava justo reconhecer que ele “foi fruto das injustiças sociais e das miseráveis condições do
ambiente em que viveu naquela região”.
A experiência de servir com seu tio repetiu-se em março de 1913, quando o general
José da Silva Pessoa comandava a Brigada Policial do Distrito Federal 112. Por meio de uma
solicitação do Ministério da Justiça e Negócios Interiores, José Pessoa, já promovido a
segundo-tenente, foi nomeado ajudante-de-ordens do tio, permanecendo na função até
setembro de 1914, quando foi exonerado a pedido. Curiosamente, no período em que
permaneceu cedido à Brigada Policial, exerceu suas funções no posto de capitão113. Nesse
período, exerceu, ainda, a função de instrutor de esgrima de baioneta dos membros da força
policial. Nessa ocasião, a fim de uniformizar o ensino e tornar mais rápida a difusão dessa
prática, publicou o trabalho Instrução Para Esgrima de Baioneta, impressa pela gráfica da
instituição. (RELATÓRIO DO MINISTRO DA JUSTIÇA E NEGÓCIOS DO INTERIOR,
1913-1914, p. 112 e 118)
Segundo o próprio José Pessoa, embora nunca tenha sentido inclinação à carreira de
escritor, o concurso de circunstâncias inerentes às funções que desempenhou ao longo da
profissão, o levou a escrever duas obras. Uma delas é o Estudo Sobre a Esgrima, “um
trabalho sobre o manejo das armas brancas, o esporte predileto da minha mocidade”, como ele
mesmo relata. Ainda que a apresente com outro nome, as circunstâncias de sua produção,
quando em comissão na Brigada de Polícia do Distrito Federal, levam a crer que se trata da
obra citada no parágrafo anterior. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 19)
A outra, publicada em 1921, após a experiência que teve em combate no Exército
francês, na Primeira Guerra Mundial, é Os Tanks na Guerra Europeia. Nas suas palavras,
“uma contribuição ao conhecimento desses novos e decisivos engenhos de guerra, que, com
os gases asfixiantes, dominara o fim da Primeira Conflagração Mundial de 1914-18, e foram
os fatores decisivos da vitória dos aliados”. José Pessoa publicou, ainda, um terceiro livro,
intitulado Chefes da Cavalaria Brasileira, em 1940, com o intuito de homenagear os

112
A Brigada Policial do Distrito Federal foi regulamentada pelo Decreto nº 958, de 6 de novembro de 1890,
sendo incumbida de velar pela segurança pública, manter a ordem e executar as leis, por meio dos respectivos
corpos aquartelados em diversas freguesias, cuja ação compreendia todo o distrito da capital federal. O Governo
podia ainda convocar a brigada para auxiliar nas operações do Exército em caso de guerra.
113
Como não foram localizados os seus assentamentos na força policial, não foi possível determinar como foi
efetivada essa mudança de posto. Quando cessou o seu comissionamento, retornou aos corpos de tropa do
Exército no posto de segundo-tenente. Cf.: Fé de Ofício do Marechal José Pessoa, 2016.
116

principais líderes dessa arma, e expressou a vontade de editar um quarto, intitulado Escola de
Cavalaria. Este último nunca foi publicado. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 19)
O percurso de José Pessoa como oficial subalterno, mais especificamente nos postos
de aspirante-a-oficial e segundo-tenente, foi cheio de idas e vindas, permanecendo ele muito
pouco tempo nas unidades em que serviu. Entre os anos de 1909 e 1917, foi movimentado dez
vezes dentro do território nacional, tendo servido em oito unidades e desempenhado várias
funções dentro e fora do Exército. O quadro a seguir mostra as unidades em que serviu nos
primeiros postos da carreira.

Quadro 1 – Movimentações de José Pessoa como oficial subalterno, 1909 a 1918.


REGIÃO DE
PERÍODO UNIDADE INSPEÇÃO/MILITAR POSTO OBS.
CIDADE
11/08/1909 a 13º Regimento de 3ª Região de Inspeção Aspirante-a-
10/03/1910 Cavalaria (Capital Federal) Oficial
11/03/1909 a 4ª Companhia 5ª Região de Inspeção Aspirante-a-
02/05/1910 Isolada (Paraíba do Norte-PB) Oficial
28/05/1910 a 50º Batalhão de 7ª Região de Inspeção Aspirante-a-
12/04/1911 Caçadores (Salvador-BA) Oficial
11º Pelotão de
13/04/1911 a 7ª Região de Inspeção Aspirante-a-
Estafetas e
04/03/1912 (Salvador-BA) Oficial
Exploradores
05/03/1912 a 6º Batalhão de 7ª Região de Inspeção Aspirante-a-
20/02/1913 Artilharia (Salvador-BA) Oficial
26/04/1912 a 4ª Companhia 5ª Região de Inspeção Segundo-
(1)
04/03/1913 Isolada (Paraíba do Norte-PB) Tenente
05/03/1913 a 13º Regimento de 3ª Região de Inspeção Segundo-
(1)
22/08/1913 Cavalaria (Capital Federal) Tenente
Brigada Policial
12/03/1913 a Capital Federal
do Distrito Capitão (2)
14/09/1914 (Rio de Janeiro)
Federal
23/08/1913 a 11º Regimento de 12ª Região de Inspeção Segundo-
16/02/1915 Cavalaria (Bagé-RS) Tenente
Quartel-general
11/12/1914 a 10ª Região Militar Segundo- À disposição do
da 10ª Região
21/09/1915 (São Paulo-SP) Tenente Inspetor da 10ª RM
Militar
22/09/1915 a 2º Regimento de 4ª Região Militar Segundo-
(3)
01/02/1918 Cavalaria (Castro-PR) Tenente
(1) José Pessoa foi promovido em 26/02/1913 a segundo-tenente de Infantaria, já que o curso da Escola de
Guerra formava oficiais de Infantaria e Cavalaria. Em 02/04/1913, amparado pela Lei nº 1.143, de 11/09/1861,
mudou para a arma de Cavalaria.
(2) Período em que esteve comissionado junto ao Ministério da Justiça e Negócios do Interior. Exerceu a função
de ajudante-de-ordens do comandante da Brigada de Polícia no posto de capitão. Quando retornou ao Exército
voltou ao posto de segundo-tenente.
(3) Nesse período, pouco permaneceu no Regimento, tendo exercido várias outras atividades fora de suas
funções: destacado no 53º Batalhão de Caçadores (30/03/1916 a 06/06/1916), auxiliar do Chefe de Gabinete do
Departamento de Guerra (07/06/1916 a 17/10/1916), ajudante-de-ordens do comandante da 6ª RM (18/10/1916 a
26/04/1917) e instrutor militar da Faculdade de Direito de São Paulo e do Ginásio São Bento (27/06/1917 a
09/12/1917).
Fontes: Relatório do Ministro da Justiça e Negócios do Interior, 1913-1914 e Fé de Ofício do Marechal José
Pessoa, 2016.
117

4.2.1 Instruindo a juventude nacional

Entre os anos de 1910 e 1911, e no ano de 1917, José Pessoa desempenhou a função
de instrutor militar de Sociedades de Tiro e de Escolas de Instrução Militar, nas unidades
pelas quais passou.
Dentre as dificuldades enfrentadas pelo Exército Brasileiro durante a campanha da
Tríplice Aliança, estavam a falta de qualificação profissional de sua tropa, devido à baixa
escolarização, e o pouco preparo na prática do tiro. A preocupação da instituição em encontrar
a solução mais adequada para esses problemas perdurou por muito tempo. Atento a essas
questões, o Ministério da Guerra manteve-se à procura da melhor forma de sanar essas
deficiências e, nos primeiros anos do Século XX, apresentou uma proposta de introduzir a
cultura militar nas instituições civis de tiro e educacionais.
Afora as iniciativas do Exército após o final da Guerra da Tríplice Aliança em
fortalecer a prática do tiro em suas escolas, com a criação da Escola de Tática e de Tiro de
Rio Pardo, em 1885, a qual iniciou as suas atividades somente três anos depois, e de cinco
linhas de tiro na cidade do Rio de Janeiro, em 1896, a primeira experiência do Ministério da
Guerra em estender o ensino e a prática de tiro aos civis aconteceu com a criação do Tiro
Nacional, em 1898114. Subordinado à 4ª Região Militar, tinha a finalidade de ministrar a
prática do tiro com armas portáteis aos oficiais e praças do Exército e demais organizações
armadas federais e aos civis previamente matriculados. (PINTO, 2015, p. 116)
Nos primeiros anos de seu funcionamento, a frequência de militares do Exército foi
inexpressiva, devido às dificuldades ligadas às rotinas dos quarteis. O maior índice de adesão
estava entre os civis, principalmente os alunos das faculdades de Direito, Engenharia e
Medicina, os mais entusiasmados. Tão logo aprendiam as técnicas de tiro, recebiam um
atestado assinado pelo comandante do distrito militar e eram excluídos, podendo retornar
somente em caso de competições. Usavam sua própria munição e armamento. Caso
desejassem utilizar o armamento militar, como forma de incentivo à prática com armamento
de guerra, deveriam indenizar o valor de cada disparo, com um custo reduzido. Frequentavam
o Tiro Nacional, ainda, os oficiais da Armada e da Brigada Policial do Distrito Federal, porém
com uma frequência não muito boa. (PINTO, 2015, p. 116-117)
O sucesso alcançado pelo Tiro Nacional, principalmente após 1904, com o aumento da
frequência de militares, fez prosperar no Brasil a criação de sociedades recreativas de tiro.
Talvez a mais expressiva tenha sido a Sociedade de Propagando do Tiro Brasileiro (SPTB),
114
Seu funcionamento foi aprovado pelo Decreto Nº 3.224, de 10 de março de 1899.
118

criada em 1902 pelo farmacêutico Antônio Carlos Lopes, na cidade de Rio Grande-RS. A
SPTB serviria de modelo às demais sociedades brasileiras, pela proposta de não se destinar
apenas à prática desportiva do tiro, mas, também, ao preparo dos homens para defesa do
Brasil. Com ares de sociedade paramilitar, direcionava-se àqueles que exerciam atividades
ligadas ou não à segurança territorial, capazes de auxiliar as instituições preexistentes com
essa destinação a construir uma nação com feições de robustez. (PINTO, 2015, p. 118)
Passados quatro de sua fundação, a SPTB possuía mais de setecentos associados, um
sucesso para a época. O Exército não tardaria a perceber a oportunidade singular que se
apresentava: implementar a difusão da educação militar a um grande número de jovens com o
mínimo de dispêndio. Assim, incorporou as sociedades de tiro a seu projeto de defesa
nacional e passou a incentivar a multiplicação de associações de tiro nas cidades brasileiras.
Em parceria com as sociedades locais, estimulava a criação de linhas de tiro. Os municípios
construíam e aparelhavam as sedes e o Exército fornecia o armamento, a munição e designava
os oficiais ou sargentos para a educação militar dos sócios. (PINTO, 2015, p. 119-121)
Em 1906, por uma iniciativa do ministro da Guerra Hermes da Fonseca, foi criada a
Confederação do Tiro Brasileiro (CTB)115. A CTB recebeu três regulamentações sucessivas,
nos anos de 1907, 1909 e 1910116, com muito poucas alterações em seus textos, com cada
regulamentação subsequente praticamente mantendo as diretrizes da anterior. Sua finalidade
primordial era reunir todas as sociedades de tiro brasileiras sob a tutela e doutrina do Exército,
o que acabou não acontecendo. Segundo Pinto (2015, p. 137), tal fato ocorreu devido,
provavelmente, às inúmeras exigências feitas pela própria Confederação, o que acabou
inibindo a adesão de muitas agremiações: manter, no mínimo, cinquenta sócios contribuintes;
submeter-se à fiscalização imediata do inspetor geral da região militar a que pertencia a
sociedade de tiro; franquear as linhas de tiro às forças de terra e mar em dias úteis da semana;
submeter ao Departamento da Guerra a aprovação das plantas e orçamentos das linhas de tiro
e ter como presidentes honorários, fazendo parte do conselho diretor, com voto deliberativo, o
chefe do poder executivo do município no qual a sociedade se encontrasse 117. Ao aderir à
Confederação, a agremiação recebia um número e passavam a ser denominadas pelo nome da
localidade em que se encontravam.

115
Criada pelo Decreto Legislativo nº 1.503, de 5 de setembro de 1906, e regulamentada pelo Decreto nº 7.350,
de 11 de março de 1909.
116
Decreto nº 6.464, de 29 de abril de 1907; Decreto nº 7.350, de 11 de março de 1909 e Decreto nº 8.083, de 25
de junho de 1910.
117
Art. 21, do Decreto 8.083, de 25 de junho de 1910.
119

Podiam fazer parte das sociedades de tiro os brasileiros natos ou naturalizados maiores
de 21 anos. Os jovens de 16 a 21 anos também podiam associar-se, desde que autorizados
pelos pais. Apesar de constituírem-se em sociedades mistas, civil e militar, seguiam uma
rotina em que as atividades se aproximavam das lides castrenses. Tinham muitas obrigações e
algumas liberdades, “tudo em favor da boa educação e formação exemplar de seus
frequentadores” (PINTO, 2015, p. 142). Dentre as proibições estava a manifestação de caráter
político e religioso. Como incentivo, recebiam do Exército o armamento para o tiro, a
munição era indenizada a preço de custo, além de receberem do Tesouro Nacional um
subsídio anula de 10:000$000 (dez contos de réis)118.
Eram objetivos expressos da Confederação, previstos nos estatutos das sociedades de
tiro, dar ao sócio o ensino elementar da arma de Infantaria e especialmente o tiro de guerra
com o armamento de dotação do Exército, o fuzil Mauzer. O regulamento de 1910119 previa a
obrigatoriedade de as sociedades de tiro confederadas manterem dois cursos técnicos: o de
habilitação de atiradores livres e o de tiro e de evoluções militares até a escola de companhia.
No primeiro, os sócios recebiam instruções elementares sobre o funcionamento do fuzil e
noções indispensáveis ao exercício do tiro. Ao seu final, mediante a demonstração de
conhecimentos da matéria ensinada no programa do curso, recebiam um certificado que lhes
permitia atirar livremente em qualquer sociedade da Confederação. O segundo curso
destinava-se aos sócios civis que pretendiam ser dispensados do serviço militar obrigatório120.
Nele recebiam instruções sobre o funcionamento e manejo do fuzil de dotação dos corpos de
tropa do Exército, instruções práticas de tiro e de maneabilidade e evoluções militares de
frações até o nível companhia.
A Confederação do Tiro Brasileiro foi extinta em 1917, no mesmo decreto121 que criou
a Diretoria Geral do Tiro de Guerra, sua sucessora. As sociedades confederadas passaram a se
chamar Tiros de Guerra. Na prática, as atribuições e estrutura administrativa permaneceram as
mesmas, porém, com uma presença maior de militares. Esses órgãos, destinados à formação
de reservistas de 2ª categoria, existem até hoje.

118
Esse subsídio estava previsto na Lei nº 1.503, de 5 de setembro de 1906, que criou a Confederação do Tiro
Brasileiro.
119
Decreto nº 8.083, de 25 de junho de 1910.
120
O Art. 97, da Lei nº 1.860, de 1908, que regulava o Serviço Militar Obrigatório, previa que os sócios civis
das sociedades da Confederação do Tiro Brasileiro que tivessem feito os cursos de tiro e de evoluções e prestado,
perante uma comissão nomeada pelo Estado-Maior do Exército, exames relativos ao conhecimento e emprego
das armas portáteis regulamentares e também exames relativos às escolas de soldado, da secção e da companhia,
serviriam, apenas, três meses, por ocasião das manobras, sendo dispensados da incorporação quando sorteados.
121
Decreto nº 12.708, de 9 de novembro de 1917.
120

Os instrutores das sociedades de tiro eram nomeados pelo ministro da Guerra, a pedido
do presidente da CTB. Na 7ª Região de Inspeção, José Pessoa foi instrutor da Sociedade de
Tiro nº 86, domiciliada em Salvador, em três ocasiões: de 23 de outubro a 20 de dezembro de
1910 e de 20 de fevereiro 11 de abril de 1911, quando serviu no 50 º Batalhão de Caçadores e
de 15 de abril de 1911 a 4 de março de 1912, quando estava no 11º Pelotão de Estafetas e
Exploradores. Quando em serviço no 6º Batalhão de Artilharia de Posição (Salvador-BA) foi
instrutor do Tiro Baiano (5 a 19 de março de 1912) e, cumulativamente a este, do Tiro de
Pirajá (20 de março a 5 de abril de 1912). O Relatório do Ministro da Guerra de 1910
apontava a dificuldade encontrada pelo inspetor da 7ª Região em achar um terreno que fosse
apropriado à implantação de uma Linha de Tiro, devido ao grande dispêndio que seria gerado
com a sua aquisição e com as obras de adaptação. O Relatório de 1916, último antes da
extinção da Confederação, relacionava trinta e duas sociedades de tiro. (FÉ DE OFÍCIO DO
MARECHAL JOSÉ PESSOA, 2016 e RELATÓRIOS DO MINISTRO DA GUERRA, 1910
e 1916)
Durante o período em que serviu no 50º Batalhão de Caçadores, José Pessoa
acumulou, ainda, a função de auxiliar de instrutor da Faculdade de Medicina de Salvador, nos
períodos compreendidos entre 4 de junho e 15 de setembro de 1910 e 1 e 22 de outubro de
1910. (FÉ DE OFÍCIO DO MARECHAL JOSÉ PESSOA, 2016)
O sucesso conquistado pelo Ministério da Guerra com a Confederação do Tiro
Brasileiro, levou os sucessivos ministros dedicarem-se à ampliação de seu front, investindo na
educação militar da juventude escolar. Como destaca Pinto (2015, p. 167),

Através de medidas legais e outras com um misto de persuasão e política,


conseguiram com que parte do sistema educacional brasileiro aceitasse as Escolas de
Instrução Militar em suas instituições, proporcionando, aos seus alunos, além de um
currículo da tradição escolar, um outro, o da cultura militar, voltado para o preparo
dessa juventude à guerra, fornecendo-lhes instruções típicas de combatentes,
formando-os como reservistas de 2ª categoria do exército, ao fim de cada ano.

Cabe considerar que a luta pela solução dos problemas relacionados aos efetivos e ao
preparo profissional da tropa adentraram a República e ganharam um alcance nacional, sendo
abraçados não só pela instituição, como por todas as esferas de governo e algumas
personalidades civis, como Olavo Bilac, por exemplo. Atento a esse processo, como lembra
Pinto (2015, p. 169), o Exército fomentou leis que pudessem amparar os seus interesses e
propostas de educação, pátria e defesa nacional. Ainda que não fosse seu objetivo primordial,
a Lei do Serviço Militar de 1908, apresentou um dispositivo direcionado ao segmento da
população que lhe era mais caro: a juventude escolar.
121

Art. 98. É obrigatória a instrução do tiro de guerra e evoluções militares, até à escola
da companhia, aos alunos maiores de 16 anos que cursarem as escolas superiores e
estabelecimentos de instrução secundaria mantidos pela União, pelos Estados ou
municípios, inclusive o Distrito Federal, bem como aos que cursarem
estabelecimentos particulares que estiverem no gozo da equiparação.
No regulamento que expedir para a execução desta lei, o Governo providenciará no
sentido de ser cumprida, cabalmente, a obrigação imposta pelo presente artigo,
indicando, ao mesmo tempo, a forma segundo a qual a medida será posta em prática
nos estabelecimentos de ensino supra enumerados. 122

Embora apresentasse a obrigatoriedade da oferta da instrução militar nas escolas


superiores e secundaristas e permitisse a convocação de menores de dezesseis anos, a
implementação da lei necessitou de outros incentivos, uma vez que, na mesma lei, não havia o
exercício da obrigatoriedade para que todo esse universo de jovens aderisse à educação
militar. Como destaca Pinto (2015, p. 170), “na prática, a ‘obrigatoriedade’ foi convertida em
‘necessidade moral e patriótica’, fomentada pelo ‘bombardeio’ da propaganda de seus
idealistas e pela promessa legal de alguns benefícios na vida profissional civil”. Seu objetivo
era proporcionar à juventude uma educação militar com efeitos de preparação para a guerra
através de lições básicas, organizando, desse modo, uma reserva numerosa e inteligente. O
Ginásio Nacional – Colégio Dom Pedro II –, modelo de educação por longo período,
inaugurou a aplicação dessa lei, sendo a formação militar registrada nas instituições civis
como Escolas de Instrução Militar (EIM). (PINTO, 2015, p. 169-170)
O principal objetivo das EIM era transformar os alunos-sócios em reservistas do
Exército. Além das instruções tipicamente militares, os uniformes dos alunos possuíam uma
aparência muito semelhante aos dos militares, tornando-se praticamente uma cópia, diferindo
somente na cor, sendo a “kaki” a mais utilizada. Seria um equívoco, entretanto, pensar nessas
instituições como quarteis, e, muito menos, em seus alunos como militares. Embora
possuíssem as instruções militares como complemento à sua formação escolar, reservas de
armamento em suas dependências e um código disciplinar que se assemelhava ao dos
militares, tais elementos não são suficientes para indicar que as instituições de ensino civis
que abrigavam as escolas de instrução eram aquartelamentos. Sua destinação era
exclusivamente ao ensino dos fundamentos mais elementares para transformar a juventude em
cidadãos aptos a uma convocação. (PINTO, 2015, p. 173-174)
A obrigatoriedade imposta pela lei de 1908 acabou por colocar as Escolas de Instrução
Militar, quanto à instrução, sob o controle da CTB (e da Diretoria Geral dos Tiros de Guerra,
após 1917), a exemplo das sociedades de tiro. O conteúdo programático e sua fiscalização
eram de responsabilidade do Ministério da Guerra. Assim como nas sociedades de tiro, os
122
Lei nº 1.860, de 4 de janeiro de 1908.
122

alunos das EIM também deveriam receber instruções práticas sobre fuzil Mauzer, tiro e
evoluções militares até o nível companhia, conforme o previsto no Decreto nº 6.947, de 8 de
maio de 1908:

Art. 170. É obrigatória a instrução do tiro de guerra e evoluções militares, até a


escola de companhia, aos alunos maiores de 16 anos que cursarem as escolas
superiores e estabelecimentos de instrução secundária mantidos pela União, pelos
Estados, ou municípios, inclusive o Distrito Federal, bem como aos que cursarem
estabelecimentos particulares que estiverem no gozo da equiparação.
Art. 171. Ao Ministério da Justiça e Negócios Interiores compete expedir as
necessárias instruções para serem introduzidos nos programas de ensino das
academias, escolas e colégios referidos no artigo anterior, o ensino do tiro de guerra
e de evoluções militares para os alunos maiores de 16 anos.
Art. 172. Nessas instruções se marcará o número de faltas, nas aulas, que serão
abonadas aos alunos que servirem como voluntários de manobras anuais.
Art. 173. A instrução militar obrigatória nos institutos de ensino compreenderá:
Fuzil Mauser a) nomenclatura, seus acessórios e munições; b) limpeza e
conservação; c) funcionamento geral do mecanismo; d) funcionamento da alça de
mira. Instrução pratica do atirador e) regras de pontaria e posições de atirador; f)
carregar e atuar sobre o gatilho; g) tiro com cartuxo de manobra; h) tiro ao alvo com
carga reduzida; i) tiro ao alvo, nas linhas de tiro, com cartucho de guerra; j)
avaliação de distância e emprego da alça de mira; k) iniciação dos alunos nos
exercícios de pontarias por detrás de muros, arvores e quaisquer outros abrigos, e
contra alvos moveis em combinação com as instruções sobre apreciação de
distancias e emprego de alça. Evoluções militares l) instrução individual sem arma;
m) idem com arma; n) instrução da esquadra em ordem unida e extensa; o)
exercícios de flexibilidade da esquadra; p) instrução de combate da esquadra; q)
divisão e subdivisão da companhia e lugares dos graduados nas diversas formações;
r) instrução de pelotão em ordem unida e dispersa. Esgrima de baioneta.

A formação completa era aplicada no ano escolar e os alunos que completassem o


programa recebiam a Caderneta de Reservista contendo a comprovação de seu
aproveitamento militar.
Cabe considerar, porém, como se vê no dispositivo legal acima, que a aplicação da lei
dependia da cooperação do Ministério da Justiça e Negócios Interiores, uma vez que cabia à
Diretoria do Interior desse órgão a gestão educacional no País. Enquanto o Ministério da
Guerra desejou e planejou a lei, coube àquele Ministério regulamentá-la.
O oficial que fosse nomeado instrutor, deveria responder a três instâncias
administrativas: à Diretoria Geral dos Tiros de Guerra, fonte de aplicação militar e destino de
todos os controles de formação dos reservistas; à Organização Militar mais próxima, fonte da
logística com armamento, munições, alvos, pessoal auxiliar e estande de tiro; e à direção da
instituição de ensino. O Decreto nº 6.947/1908 também definia, em seu artigo 175, as
incumbências desse oficial na formação dos alunos

§ 1º Dar a instrução militar nos dias e horas designados no programa do instituto de


ensino.
123

§ 2º Seguir uma progressão racional e metódica nos exercícios das diversas


categorias de alunos que frequentarem as aulas de tiro e evoluções e que, a seu
critério, melhor convenha para o êxito final do conjunto.
§ 3º Encarregar-se da linha de tiro existente na localidade, quando ela não tenha
encarregado próprio.
§ 4º Registrar depois de cada exercício em um livro rubricado pelo diretor do
estabelecimento de instrução as ocorrências havidas e os nomes dos alunos que
faltaram.
§ 5º Requisitar do comandante da força do exército ativo na localidade, ou na mais
próxima, a munição necessária par os exercícios de tiro.
§ 6º Requisitar do mesmo comandante uma praça para cuidar do armamento a cargo
do estabelecimento de instrução e artigos precisos para a limpeza e conservação.
§ 7º Requisitar do inspector permanente um aspirante a oficial para auxiliá-lo
quando o número de alunos obrigados ao ensino militar for superior a 30.
§ 8º Comunicar ao registro militar da região de alistamento os nomes dos alunos que
concluíram os respectivos cursos e receberam cadernetas, declarando, em relação a
cada um, o nome, filiação, ano de nascimento, naturalidade e município em que
residir.

Os “exercícios” a que foram submetidos os alunos maiores de dezesseis anos das


escolas de instrução militar123 da 7ª Região Militar, no ano de 1910, foram iniciados em datas
diferentes. A instrução foi ministrada no interior dos quarteis do 50º Batalhão de Caçadores e
do 6º Grupo de Artilharia, “por falta de lugar apropriado nos respectivos estabelecimentos”.
Devido ao grande número de alunos, foram organizadas turmas que faziam exercícios três
vezes por semana, sendo que os alunos da 6ª série da Faculdade de Medicina, que estavam
sob a instrução de José Pessoa, apresentaram um melhor desempenho. (RELATÓRIO DO
MINISTRO DA GUERRA, 1910, p. 69).

4.2.2 Os intelectuais debatem a Primeira Guerra Mundial e o primeiro comando isolado

Apesar de ter atuado nas escolas de instrução militar em mais de uma ocasião, José
Pessoa tratou de relatar em sua autobiografia apenas o período em que esteve à frente da
instrução militar da Faculdade de Direito de São Paulo e do Ginásio São Bento, no ano de
1917, quando exercia a função de ajudante-de-ordens do comandante da 6ª Região Militar, em
São Paulo-SP.
Esse ano foi emblemático para as autoridades militares e civis e para a população
brasileira, que acompanhavam atentas o desenrolar da Primeira Guerra Mundial na Europa. A
condição do Brasil, que passou de nação neutra no conflito a nação beligerante, após o
reconhecimento do estado guerra com o Império Alemão, provocou um surto patriótico no
País e fez aumentar a procura da juventude brasileira pelos quarteis e sociedades e linhas de

123
Eram essas escolas a Escola Politécnica, as faculdades de Medicina e Direito e os ginásios da Bahia, Carneiro
Ribeiro, São Salvador e Nossa Senhora da Vitória.
124

tiro, a fim de receber a instrução com armas. É bem verdade que o início do conflito trouxe
novamente à pauta das discussões da sociedade a necessidade de se pensar a defesa nacional.
Dentre esses assuntos, estava a velha questão do serviço militar obrigatório, nas palavras de
Olavo Bilac a “fonte de ressurreição de um Brasil forte pelo patriotismo de seus filhos” (apud
McCANN, 2009, p. 230).
Para Coelho (2000, p. 75), os debates sobre o serviço militar obrigatório, nas primeiras
décadas do Século XX, fizeram surgir três linhas interpretativas distintas a respeito do papel
do Exército na sociedade: a dos Jovens Turcos, tendo como plataforma de propagação de suas
ideias reformistas a revista A Defesa Nacional, a do poeta Olavo Bilac e a do político e
jornalista Alberto Torres.
Os oficiais que fundaram e publicaram a revista A Defesa Nacional foram um novo
fenômeno no Exército: eram oficiais de baixa patente (tenentes e capitães) que, ao mesmo
tempo, eram instruídos e hábeis no comando de tropas. O surgimento do grupo se deu em
decorrência das reformas implementadas no Exército por Hermes da Fonseca, que, seguindo
os passos de seu antecessor Argollo, viabilizou o envio de militares brasileiros para
treinamento na Alemanha.124 Nos anos de 1908 e 1910, dois grupos de oficiais foram
enviados para treinamentos de dois anos no Exército imperial alemão, considerado, à época,
um dos melhores e mais bem equipados exércitos do mundo.125
Dos três grupos que estagiaram no exército germânico, o último tornou-se o mais
importante, pelo número de oficiais que o compôs126 e pela intensidade em que se engajou no
processo de reforma do Exército. Ainda na Alemanha, ao final do estágio, alguns
componentes do grupo, como Leitão de Carvalho e Bertoldo Klinger, demonstravam uma
grande preocupação em valorizar os conhecimentos adquiridos e transmiti-los a todo o
Exército Brasileiro. Às vésperas do retorno ao Brasil, um grupo de onze ex-estagiários127 se

124
Cristina Luna destaca que em 1905, na gestão de Argollo como Ministro da Guerra, foram enviados à
Alemanha seis oficiais brasileiros para treinamento no Exército alemão. Essa informação de Luna contraria a
historiografia militar brasileira, que aponta a ida da primeira turma de oficiais para a Alemanha em 1906
(LUNA, 2011. p. 139)
125
A respeito do envio de oficiais para o exterior, a fim de realizarem estágios em exércitos de outros países,
principalmente os europeus, todas as leis que fixaram as despesas gerais da República, a começar pela Lei nº
957, de 30 de dezembro de 1902, que fixou as despesas para o ano de 1903, autorizaram o Poder Executivo a
mandar para o exterior oficiais, a fim de se aperfeiçoarem em conhecimentos militares, geralmente pelo tempo
de um ano, ou para servir arregimentados em exércitos estrangeiros. A última lei que previu tal dispositivo foi a
Lei nº 2.842, de 3 de janeiro de 1914, que fixou as despesas da República para o mesmo ano.
126
Luna (2011, p. 192) aponta uma divergência existente entre o número de oficiais que participaram do último
estágio no Exército alemão. Enquanto Leila Capella indica a participação de 21 oficiais, José Murilo de Carvalho
aponta 22 oficiais. O fato é que, segundo a autora, foram designados 20 oficiais para o estágio.
127
Participaram da reunião Bertoldo Klinger, Epaminondas de Lima e Silva, Joaquim de Souza Reis Neto, César
Augusto Parga Rodrigues, Evaristo Marques da Silva, Euclides de Oliveira Figueiredo, José Antônio Coelho
125

encontraram para cear no restaurante Rheingold, em Berlim. Aproveitaram a ocasião para


fazer algumas conjecturas sobre qual seria a melhor forma de aproveitar os conhecimentos
adquiridos junto ao exército germânico. Concordaram que o melhor seria o engajamento nos
corpos de tropa, onde poderiam demonstrar na prática como deveriam ser instruídos os
oficiais e praças e apresentar, através de exemplos, em exercícios táticos, a maneira de
empregar unidades no combate. (LUNA, 2011, p. 195)
Na viagem de regresso ao Brasil, em novembro de 1912, foram reunidos pelo acaso no
mesmo navio os tenentes Bertoldo Klinger e Estevão Leitão de Carvalho e o capitão César
Augusto Parga Rodrigues. Durante suas conversas diárias, além de decidirem concentrar os
esforços reformadores nas unidades militares da capital, surgiu a proposta de criação de uma
revista capaz de contribuir para a formação técnica do oficialato brasileiro e com o processo
de reforma do Exército. (LUNA, 2011, p. 195)
A fundação da revista A Defesa Nacional ocorreu em 20 de setembro de 1913, em ata
redigida nas dependências do Clube Militar, no Rio de Janeiro. Conforme o registro feito na
edição de outubro de 1933, comemorativa dos vinte anos da revista, o interesse dos oficiais
que estavam ali reunidos era editar uma revista “que refletisse as ideias do novo Exército e
fosse, por consequência, um órgão de combate e um instrumento de trabalho”. Os objetivos e
orientações do grupo fundador128 ficaram claros já no primeiro editorial da revista, escrito
pelo tenente Mário Clementino129: “lutar pelo ‘soerguimento’ do Exército, pela defesa
nacional e pelo desenvolvimento econômico e social do país, segundo o modelo do Estado
Nação e da ‘nação armada’”. Segundo Luna (2011, p. 192), foi justamente a fundação da
revista que lhes permitiu a propagação das suas ideias a respeito da modernização do Exército
e da Nação.
Ainda segundo a autora, foi devido ao afã modernizador, com tendências a extrapolar
os limites da caserna, que os oficiais reunidos em torno de A Defesa Nacional receberam a

Ramalho, Eduardo Cavalcanti de Albuquerque Sá, José Bento Tomás Gonçalves, Jerônimo Furtado do
Nascimento e Francisco Jorge Pinheiro.
128
O grupo fundador da revista foi formado por oito ex-estagiários do exército alemão: os primeiros-tenentes
Bertoldo Klinger, Estevão Leitão de Carvalho, Joaquim de Souza Reis Neto, Euclides de Oliveira Figueiredo,
Amaro de Azambuja Vilanova e os capitães Epaminondas de Lima e Silva, César Augusto Parga Rodrigues e
Francisco Jorge Pinheiro; e quatro adeptos da campanha de reforma do Exército: os primeiros-tenentes Brasílio
Taborda, José Pompeu Cavalcanti de Albuquerque e Mário Clementino de Carvalho e o segundo-tenente
Francisco de Paula Cidade. (LUNA, 2011, p. 205)
129
Muitos trabalhos atribuem a Klinger a escrita do primeiro editorial da revista. No entanto, Francisco Paula
Cidade, um dos fundadores da revista, afirma que foi Mário Clementino o autor do primeiro editorial. Cf. A
Defesa Nacional, n. 190, out. 1929, p.14. O próprio Bertholdo Klinger afirma em suas memórias ter sido Mário
Clementino o autor do primeiro e do segundo editoriais da revista. Cf. Klinger, 1944, p. 203.
126

alcunha de “Jovens Turcos”130, por uma parcela de militares e por membros das oligarquias
locais que temiam o protagonismo do Exército e preferiam ver fortalecidas as polícias
estaduais e a Guarda Nacional, a fim de que essas forças pudessem atender aos seus interesses
políticos, em detrimento dos interesses nacionais ligados ao poder central. (LUNA, 2011, p.
209)
Segundo McCann (2009, p. 216-217), a proposta de criação da revista era a publicação
de assuntos eminentemente profissionais, o que de fato acontecia, já que o seu interior
privilegiava os artigos técnicos, através dos quais os redatores traduziam manuais e
regulamentos alemães e difundiam seu sistema de treinamento, práticas e costumes.
Entretanto, a partir de uma análise dos exemplares publicados no período que vai da fundação
da revista ao final dos anos 1910 é possível perceber que A Defesa Nacional se voltava,
também, à publicação de conteúdos ideológicos e doutrinários em favor da profissionalização
do Exército e das questões nacionais. A parte editorial da revista eram o locus privilegiado
dos redatores, onde expunham as suas ideias e realizavam suas críticas mais fortes a favor da
profissionalização do Exército, do ensino militar, da Lei do Serviço Militar, do não
envolvimento dos militares na política e da necessidade de reorganização da instituição. Não
raras eram também as críticas feitas à falta de atuação dos políticos que compunham o
parlamento, para resolver as graves questões que conduziam o País ao atraso e à pouca
preocupação com os assuntos de defesa. Também era discutidos assuntos considerados
relevantes à Nação, como o momento nacional frente à Primeira Grande Guerra131 ou a
indústria nacional do aço132. É inegável que os fundadores do periódico demonstraram grande
desenvoltura ao analisar os aspectos políticos das questões que pretendiam que fossem apenas
questões militares.
O serviço militar obrigatório foi uma das principais bandeiras empunhadas pelo grupo,
para quem, além de constituir-se uma questão meramente militar, passou a ser relacionado a
interesses mais abrangentes, que pudessem sensibilizar a sociedade como um todo: “o serviço
militar obrigatório é o apanágio superior de desenvolvimento dos povos, e pressupõe uma

130
O apelido era uma alusão ao grupo de jovens oficiais turcos, de caráter nacionalista que, através de uma
revista também intitulada A Defesa Nacional, propunham a reforma das forças armadas turcas. A exemplo do
grupo brasileiro, também haviam estagiado na Alemanha e, ao retornarem à Turquia, participaram das lutas pela
modernização e reconstrução daquele país ao lado de Mustafá Kemal. Com o fortalecimento do grupo, a alcunha
tornou-se positiva, passando a simbolizar aqueles que lutavam pela profissionalização do Exército. Klinger
ressalta que os adversários de seu grupo, na verdade, haviam lhes prestado uma homenagem, pois os jovens
turcos originais eram grandes patriotas. (KLINGER, 1958, p. 63)
131
A Defesa Nacional, n. 43, abr. 1917, p. 213-214.
132
A Defesa Nacional, n. 44, maio 1917, p. 249-251.
127

mentalidade militar e política diversa da que possuímos”.133 Atribuíram à execução da lei do


sorteio um caráter fundamental, relacionando-a “diretamente com a própria existência do
Exército”. 134 Para os Jovens Turcos, o sorteio passou a ser entendido como o ponto inicial da
renovação da Instituição: “[...] era pela aplicação da lei do sorteio, que deveríamos ter
iniciado a execução das reformas contidas na lei de reorganização do Exército [...]”.135 Nesse
contexto, a deflagração da Primeira Guerra Mundial foi usada como pano de fundo para a
campanha em prol da mudança da forma de recrutamento. Quando mencionada, a guerra
servia para ilustrar o acerto das nações que dispunham do serviço militar obrigatório e, assim,
tornavam-se “nações armadas”. Em 1916, quando já estava para ser efetivado, foi definido
por Klinger como “[...] o supremo imposto, o verdadeiro imposto da honra” e de “[...] a mola
real de todo o funcionamento da preparação militar”.136
Um fato curioso a respeito dos textos dos editoriais é que o estatuto do grupo
mantenedor previa que os editoriais e artigos a cargo dos redatores não deveriam ser
assinados. Como muitas críticas que foram feitas nos editoriais e em alguns artigos que
compuseram a revista resultaram em sansões disciplinares aos redatores, é de se supor que a
falta de autoria nesses escritos era uma maneira de evitar que uma grande carga de punições
fosse imposta a um só oficial ou grupo de oficiais. O general Brasílio Taborda conta que em
várias ocasiões os companheiros do grupo mantenedor assumiram as autorias dos editoriais,
para evitar que colegas que já haviam sido punidos várias vezes o fossem novamente.137
A colaboração através da escrita de artigos por oficiais de postos mais elevados
contribuiu para a credibilidade alcançada pela revista dentro do Exército. Segundo Leitão de
Carvalho, o interesse em conquistar a alta oficialidade sempre esteve presente, desde os
primeiros números da revista. (CARVALHO, 1961, p. 177) O próprio chefe do Estado-Maior,
em 1913, general Caetano de Faria escreveu um artigo intitulado “Atualidade Militar” no
segundo número da revista, o que se repetiria ao longo do primeiro ano de circulação. A
conquista da participação ou apoio de oficiais generais à proposta profissionalizante de A
Defesa Nacional é a confirmação de que o anseio por reformas já era, há muito, latente em
parcelas da oficialidade. A atuação do grupo mantenedor e a existência da revista tornaram
possível uma relativa união de interesses, antes dispersos, entre parte da jovem oficialidade e
alguns oficiais antigos, chamados de “progressistas”, em prol de urgentes mudanças no seio

133
A Defesa Nacional, n. 9, jun. 1914, p. 275.
134
A Defesa Nacional, n. 9, jun. 1914, p. 273.
135
A Defesa Nacional, n. 9, jun. 1914, p. 273.
136
A Defesa Nacional, n. 36, set. 1916, p. 372.
137
A Defesa Nacional, n. 271, out. 1953, p. 13-15. Edição comemorativa de 40 anos da revista.
128

do Exército. O apoio dado por altos chefes militares pode ser exemplificado ainda no fato de
que alguns oficiais do grupo fundador terem sido requisitados para servir nas seções do
Estado-Maior do Exército e até para ser oficial de gabinete do ministro da Guerra138. O fato de
terem estado próximos de algumas autoridades militares permitiu a continuação de sua linha
editorial bastante agressiva, se forem levadas em conta as características das instituições
militares, baseadas na hierarquia e na disciplina.
Apesar do apoio que A Defesa Nacional recebeu de oficiais de altas patentes do
Exército e das publicações acaloradas em defesa das reformas e da modernização da
Instituição, José Pessoa nunca foi simpático à revista. Como general-de-divisão, em abril de
1942, quando exercia a função de inspetor da arma de Cavalaria, recebeu um exemplar da
revista, enviado pelo tenente Umberto Peregrino, que fora seu ajudante-de-ordens anos antes,
na mesma Inspetoria. No documento de resposta, em que acusa e agradece o recebimento do
periódico, deixa claro que não via com simpatia o gesto da revista, que escolhia “o mais
jovem e o menos graduado dos seus redatores – entre eles se contam generais e oficiais
superiores – para investi-lo na ingrata e árdua missão de crítico da sua redação”. Via, ainda,
na atitude da revista e do tenente, por fazer parte do corpo editorial, “uma quebra das normas
disciplinares adotadas pelo Exército”. E questiona: “como repercutirá na sociedade civil e no
próprio meio militar um jovem tenente, assinando de público artigos de crítica irônica e
mesmo mordaz a propósito de livros e outras publicações de seus superiores hierárquicos?”.
Por fim, considera que excluiria a leitura do periódico de suas leituras, “enquanto a mesma
continuar nessa orientação que considero errônea”.139
A segunda linha interpretativa apontada por Coelho, foi a que Olavo Bilac apresentou
em sua campanha em favor do serviço militar obrigatório. Para Bilac, o papel de defesa
desempenhado pelas Forças Armadas era menos importante que a sua principal missão: a
educação cívica dos cidadãos. Ao trazer todas as classes para os quartéis, o Exército atuaria
como nivelador social, ensinando disciplina, patriotismo e ordem. (McCANN, 2009, p. 219)
Para ele, enquanto as elites queriam somente seu próprio prazer e prosperidade, as
classes menos abastadas eram mantidas na mais bruta ignorância, vivendo na inércia, na
apatia e na absoluta privação da consciência. Dessa forma, refletindo a ideia dominante na
classe média de que o Brasil não era uma nação coesa e unificada, o serviço militar

138
Leitão de Carvalho passou a trabalhar no Estado-Maior ainda em 1914. Por conta de nomeação do General
Faria, seu chefe, para ser Ministro da Guerra, tornou-se o primeiro oficial subalterno a pertencer ao gabinete do
Ministro. Já Bertholdo Klinger trabalhou a partir de 1918 na primeira Seção do Estado-Maior, sendo mais tarde,
em 1921, convocado para ser oficial de gabinete do Chefe do Estado-Maior do Exército. Cf. CARVALHO,
1961.
139
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JP ag 1923.12.27.
129

obrigatório apresentava-se como uma promessa de salvação para o Brasil. Bilac achava que os
verdadeiros brasileiros eram os da classe média e que a militarização de todos os civis daria à
sociedade as virtudes da mesma, dotando-a da coesão necessária para preservar-se. O serviço
militar obrigatório elevaria os homens da classe baixa e nivelaria os da alta, e estimularia,
purificaria e devolveria à sociedade homens conscientes e dignos. Na sua visão, as Forças
Armadas seriam as responsáveis por fornecer a disciplina e a ordem para reconstruir o Brasil,
elevando milhões de esmorecidos. (McCANN, 2009, p. 219)
Nos anos de 1915 e 1916, Bilac percorreu os estados do centro-sul do País,
propagando a sua mensagem em uma série de discursos patrióticos, dirigidos, sobretudo, à
juventude das instituições de ensino superior, intelectuais e militares das cidades do Rio de
Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre. O início desse périplo ocorreu na
cidade de São Paulo, em 9 de outubro de 1915, justamente na Faculdade de Direito, da qual
José Pessoa seria instrutor militar dois anos mais tarde. Segundo McCann (2009, p. 220), a
escolha da instituição não se deu por acaso, uma vez que, anos antes, em 1910, os acadêmicos
de Direito haviam apoiado efusivamente a campanha antimilitarista de Rui Barbosa. Para o
autor, a intenção de Bilac era reconciliar São Paulo, por intermédio de sua juventude, com os
militares.

Imagem 7 – Olavo Bilac cercado pelos alunos da Faculdade de Direito de São


Paulo, 9 out. 1915.

Fonte: Arquivo Público do Estado de São Paulo. A Cigarra, 16 out. 1915.


130

Francisco Pati, ex-aluno da Faculdade de Direito, testemunhou o discurso de Bilac no


Centro Acadêmico 11 de Agosto. Para quem esperava uma palestra sobre poesias, a
assistência, formada por docentes e discentes da Faculdade, jornalistas e homens de letras,
que se aglomerava na sala 2, a antiga “sala dos calouros”, a mais ampla das salas do velho
edifício conventual, surpreendeu-se quando o poeta proferiu seu célebre discurso “Em
marcha”, iniciando a campanha em favor do serviço militar obrigatório. Entretanto, quando já
se retirava da tribuna, diante da insistência da mocidade presente, que explodia em aplausos,
retornou, meio a contra gosto, para recitar Benedicte e Da Tarde. (PATI, 1950, s.p.)
Em uma palestra exaltadamente patriótica, procurou sensibilizar os estudantes para os
principais problemas nacionais, como: a “falta de ideal e coesão”, a “indiferença das classes
cultas” e a “manutenção das classes populares na mais bruta ignorância” e “absoluta privação
de consciência”. Previu a “militarização de todos os civis” no filtro purificador dos quarteis,
em um Brasil carente de fé e esperança e ávido por um ideal, apesar de não se considerar
militarista e não querer um regime militarista no País. 140

E uma lei apontou à nossa esperança o entreluzir de uma promessa de salvação: a lei
do sorteio militar, se não a providência completa do serviço militar obrigatório, ao
menos um ensaio salutar, o primeiro passo para a convalescença e para a cura.
Então, como ainda hoje, eu considerava que era esse o único providencial remédio
para o nosso definhamento. Nunca fui, não sou, nem serei um militarista. E não
tenho medo do militarismo político. O melhor meio para combater a possível
supremacia da casta militar é justamente a militarização de todos os civis: a
estratocracia é impossível, quando todos os cidadãos são soldados. Que é o serviço
militar generalizado? É o triunfo completo da democracia; o nivelamento das
classes; a escola da ordem, da disciplina, da coesão; o laboratório da dignidade
própria e do patriotismo. É a instrução primária obrigatória; é a educação cívica
obrigatória; é o asseio obrigatório, a higiene obrigatória, a regeneração muscular e
física obrigatória. As cidades estão cheias de ociosos descalços, maltrapilhos,
inimigos da carta de “abc” e do banho, — animais brutos, que de homens têm
apenas a aparência e a maldade. Para esses rebotalhos da sociedade a caserna seria a
salvação. A caserna é um filtro admirável, em que os homens se depuram e apuram:
dela sairiam conscientes, dignos, brasileiros, esses infelizes sem consciência, sem
dignidade, sem pátria, que constituem a massa amorfa e triste da nossa multidão...
(BILAC, 1917, p. 6-7)

O discurso proferido por Bilac no Centro Acadêmico 11 de Agosto, em 9 de outubro,


despertou nos segmentos letrados e formadores de opinião um súbito sentimento patriótico e
provocou uma rápida mobilização nacional. Como lembra Hansen (2015, p. 127), o discurso
teve efeitos imediatos. Foi festejado pela imprensa, que passou a dar ampla cobertura à
campanha, e levou muitos alunos da Faculdade de Direito a aderirem à causa. Para a autora, o

140
Entretanto, como lembra Lima Sobrinho (1968, p. 393), Bilac exortava os oficiais a serem fanáticos por sua
profissão. A solução que apontava para a falta de espírito nacional e para o regionalismo extremo era fundir o
Exército com o povo em uma só mentalidade democrática. Os oficiais seriam os mestres salvadores que
instruiriam o povo.
131

destaque dado pela imprensa e as palestras proferidas no Clube Militar e no Clube Naval, nos
dias que se sucederam à conferência na Faculdade de Direito, provocaram uma mobilização
que resultou na criação de duas importantes associações: a Liga da Defesa Nacional, em 1916,
na Capital Federal, e a Liga Nacionalista, em 1917, em São Paulo.
Apesar da fundação das duas associações terem as suas origens no discurso de 9 de
outubro de 1915, para Hansen (2015, p. 124) o comprometimento de Bilac com cada uma
delas foi diferente. Na Liga da Defesa Nacional foi secretário geral e o principal porta-voz da
instituição, representando-a em todo o País e divulgando suas propostas por meio de discursos
sempre prestigiados pela presença de autoridades locais e ampla cobertura da imprensa. Na
Liga Nacionalista, foi presidente honorário, mais uma distinção do que um cargo,
propriamente dito.

Bilac, portanto, logrou tornar-se uma figura pública dotada de extraordinário capital
simbólico, cujo uso, por ele e por outros, permitiu mobilizar forças e interesses
distintos em torno de projetos políticos coerentes. De um lado, agregou conhecidos
expoentes da elite liberal civilista e militares na constituição da Liga da Defesa
Nacional, cuja prioridade era a implementação do serviço militar obrigatório. De
outro, inspirou a criação da Liga Nacionalista, associação claramente comprometida
com a agenda política da elite intelectual de São Paulo, com um ambicioso programa
de reforma das práticas políticas nacionais por meio da educação, do cumprimento
das normas eleitorais e da garantia da integridade do voto. (HANSEN, 2015, p. 125)

O discurso patriótico de Olavo Bilac reflete os principais objetivos da LDN, previstos


em seu Estatuto, de 23 de setembro de 1916: “soerguer, numa campanha nacionalista, as
forças vivas e a energia moral da nação” e “fortalecer o caráter nacional, imprimindo aos
brasileiros confiança em seu próprio valor”. Para Engel (2012, p. 3-4), esses objetivos seriam
alcançados por meio de medidas que viabilizassem a criação de corpos militarizados, física e
mentalmente saudáveis, como associações de escoteiros, linhas de tiro e batalhões patrióticos
em instituições de ensino secundário e superior, por exemplo. Dessa maneira, segundo a
autora, por meio do ensino cívico, pretendia-se chegar aos corações e mentes da juventude
brasileira, que tendo seus corpos disciplinados de acordo com os padrões militares, seriam
formados “cidadãos-soldados”, base da identidade de um novo Brasil, capaz de trilhar os
caminhos do progresso e da civilização de acordo com os padrões sociais da classe média
brasileira, como Bilac pregava em suas palestras.
Não tardou para as Forças Armadas perceberem o impacto mobilizador do discurso e o
potencial político de Olavo Bilac141. Entretanto, no seu discurso de 6 de novembro de 1915,

141
Décadas mais tarde, o Exército se valeria da imagem de Olavo Bilac na busca de uma aproximação com a
sociedade. Em 1939, Getúlio Vargas decretaria o dia 16 de novembro, data natalícia de Bilac, como o “Dia do
Reservista” e, em 1966, Castelo Branco o elevaria a eminência de “patrono” do Serviço Militar.
132

proferido no Clube Militar, o poeta minimizou a sua importância na campanha civilista que
acabara de inaugurar:

A vossa generosidade exagera o préstimo do meu nome e a importância do meu


trabalho. Nada fiz, que merecesse tão alto prêmio. O que disse e fiz já estava no
pensamento de todos os brasileiros bons, e já tinha sido proclamado. A lei do sorteio
militar, que sempre reputei benéfica para a necessidade da coesão nacional, está
decretada há mais de sete anos; e já muitos homens de espírito clarividente e de leal
patriotismo, estudando e anunciando os perigos que nos ameaçam, apontaram o
remédio e a salvação. Nada inventei, nada criei. Mostrei de novo, apenas, e com
menos brilho, a fealdade da doença do tempo, a desnacionalização da nossa gente, a
fraqueza dos governos, o desvanecimento do entusiasmo, a falta da coragem e da fé;
e apenas procurei reacender a propaganda esquecida. Acredito que o valor da minha
ação nasceu unicamente de uma prospera conjuntura do tempo e do lugar, — da
ocasião feliz em que foram pronunciadas as minhas palavras. (BILAC, 1917, p. 17-
18)

A pregação do poeta, e a própria criação da Liga da Defesa Nacional, que estimularia


a criação de várias associações congêneres no País, mobilizou, também, os acadêmicos
paulistanos que fundaram, na Faculdade de Direito, a Liga Nacionalista. Bandecchi (1980, p.
21), aponta a criação da Liga em 25 de janeiro de 1917, data escolhida em homenagem à
criação da cidade de São Paulo. Entretanto, o jornal O Estado de São Paulo, na edição de 16
de dezembro de 1916, noticiava que, desde meados de 1915, “um seleto grupo de moços
estudantes, profundamente influenciados pela palavra fulgurante de Olavo Bilac, começou a
trabalhar com empenho, em silêncio, na organização de uma associação patriótica”.142 A
notícia indicava, ainda, que a associação teria sido fundada no dia anterior (15/12/1916), em
reunião realizada no escritório do Dr. Vergueiro Steidel, advogado e professor da Faculdade
de Direito, ocasião em que “foram aprovadas as bases e linhas gerais da organização de uma
‘Liga Nacionalista’”143.
Na reunião de posse do conselho deliberativo, realizada em 26 de junho de 1917,
Frederico Vergueiro Steidel, primeiro presidente da Liga, fundada seis meses antes, deixou
claro os fins a que ela se propunha, os quais somente seriam alcançados com a colaboração da
juventude acadêmica, em especial da Faculdade de Direito, e das classes superiores 144 da
sociedade paulistana.

142
O Estado de São Paulo, 16 dez. 1916, p. 5.
143
Ibidem.
144
Medeiros (2005, p. 29) considera que o discurso de Steidel, que conclama a colaboração das “classes
superiores” em auxílio a um “punhado de moços”, é bastante apropriado à situação verificada em São Paulo
nesse período, em especial na Faculdade de Direito, uma vez que a Liga Nacionalista era uma típica associação
de classes, que congregava grande parte de doutores diplomados por esta instituição, há décadas formadora da
elite cultural e política do País, e bacharelandos em Direito. Segundo a autora, o próprio Steidel fazia parte da
arquitetura dessa sociedade. O fato de ser um doutor diplomado pela própria Faculdade, conferia-lhe a
competência para fazer parte dessa elite cultural.
133

Um punhado de moços patriotas das nossas escolas, emocionados pela palavra


brilhante de Olavo Bilac, tomou a peito levar por diante a campanha de civismo em
todas as suas manifestações, já pelo culto do patriotismo já pela difusão da
instrução, já pelo serviço militar e já pela verdade eleitoral.
Esse punhado de moços, e permitireis que destaque os da Faculdade de Direito, pela
sua dedicação, veio solicitar o concurso dos homens feitos, e dirigiu-se a todas as
classes superiores, pedindo sua colaboração. Como recusar ao entusiasmo da
mocidade e o apoio da experiência dos homens e das coisas que somente o perpassar
dos anos nos ensina?145

Da análise que se pode fazer do estatuto da Liga Nacionalista, datado de 30 de maio de


1917, é possível perceber que o seu projeto de nação em muito se assemelhava ao da Liga da
Defesa Nacional e se baseava em três pilares, segundo Levi-Moreira (1984, p. 68): a
institucionalização da obrigatoriedade do serviço militar, a melhoria do nível educacional da
população brasileira e a luta pelo voto secreto. A autora aponta que o que confere
especificidade à Liga paulista é o fato de a associação ter se caracterizado essencialmente pela
ação.

A campanha iniciada pela Liga, em prol do que seus integrantes chamavam de


reerguimento do caráter nacional, foi feita através de intensa propaganda, com
conferências na capital e interior de São Paulo. A entidade fundou escolas de
alfabetização para adultos, publicou o manual de instrução cívica de Antônio de S.
Dória, desenvolveu intensa campanha pelo voto secreto através dos diversos canais
de comunicação existentes no período (cinema, imprensa, folhetos) e enviou
mensagens e circulares às autoridades locais pugnando pela legislação do voto
secreto. Incentivou ainda a juventude a cooperar na campanha pelo serviço militar,
proposta pelas forças armadas. A LNSP difundiu o conceito de que a passagem pelo
exército era a melhor escola de moral e civismo. Entre as campanhas secundárias,
destacaram-se as lutas contra os jogos de azar e contra o alcoolismo. (LEVI-
MOREIRA, 1984, p. 68)

Pati (1950, s.p.) corrobora a ideia de Levi-Moreira. Para ele, a Liga, ao longo de sua
existência, foi a grande responsável pelo forte sentimento de solidariedade que grassava o
meio acadêmico da Faculdade de Direito. Aponta que, desde os seus primeiros passos, a
associação permitiu, em menos de dez anos de existência, aproximar os estudantes
universitários, mobilizando-os para a campanha de saneamento da democracia brasileira.

Eram aproveitados, de preferência, os dias de festa nacional, para pregação do nosso


evangelho. Nas cidades onde havia teatros, as conferências realizavam-se nos
teatros. Não havendo teatros nem cinemas, serviam-nos de palco as salas de aula dos
grupos escolares ou os jardins públicos. Aqui na capital eram os salões de cinema os
sítios preferidos. O acadêmico designado para fazer o discurso comemorativo de
uma data ou de um feito qualquer assomava num dos camarotes, mandava acender
as luzes, batia palmas pedindo silêncio e começava: — Em nome da Liga
Nacionalista de São Paulo, aqui estou para dizer-vos... (PATI, 1950, s.p.)

145
O Estado de São Paulo, 27 jul. 1917, p. 4.
134

Pati aponta, ainda, que nunca se verificou um movimento de impaciência ou uma


atitude de desagrado por parte do público, em São Paulo, tanto na capital como nas cidades do
interior.

A existência da Liga Nacionalista coincidiu com os anos de preparação do ciclo


revolucionário brasileiro. Eram, então, os anos de grande agitação política. As
cidades eram dominadas pelos prefeitos e estes obedeciam cegamente à comissão
diretora do partido situacionista. Havia, não obstante, em relação aos emissários da
Liga, compreensão e tolerância. Havia mesmo estímulo. (PATI, 1950, s.p.)

Cabe ressaltar que a Liga Nacionalista não esteve vinculada somente aos alunos da
Faculdade de Direito. Dela fizeram parte acadêmicos de todos os cursos superiores de São
Paulo, chegando a ter em 1917, segundo Medeiros (2005, p. 42), 1.004 afiliados, dos quais
somente 227 contribuintes. Esse baixo número de contribuintes se deve ao fato de um
excessivo número de professores terem sido inscritos como sócios isentos do pagamento de
anuidade. Durante todo o seu período de existência, a presidência esteve nas mãos de
Vergueiro Steidel. A vice-presidência esteve nas mãos dos professores A.F. de Paula Souza e
Rodolpho de Carvalho, da Escola Politécnica, e Arnaldo Vieira de Carvalho, da Faculdade de
Medicina. Um outro ponto a se mencionar é que muitos membros da Liga Nacionalista
também fizeram parte do quadro de associados do diretório regional da Liga da Defesa
Nacional paulista, fundado com a presença de Olavo Bilac, em 1917. A Liga Nacionalista foi
fechada em 7 de agosto de 1924, por ordem do presidente Artur Bernardes, acusada de
envolvimento na Revolta dos Tenentes de 1924, ocorrida em São Paulo.
José Pessoa era um entusiasta da campanha civilista de Olavo Bilac e das medidas
adotadas pelo governo federal em prol do serviço militar obrigatório. Em suas memórias
lembrou com entusiasmo dos efeitos que a Primeira Guerra Mundial provocou nos governos
federal e estaduais e nas instituições civis e militares, que passaram a tomar medidas de toda a
natureza preparando a defesa do País, diante da iminência da declaração de guerra à
Alemanha146.

A juventude acorreu aos quartéis e às linhas de tiro, a fim de receber instrução das
armas; os intelectuais fundaram ligas de defesa, a imprensa exortava o patriotismo e
pregava a união nacional. O Brasil, enfim, levantou-se numa só alma e num só
corpo, todo na defesa de sua soberania. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 1)

146
O Brasil havia adotado uma posição de neutralidade no início do conflito. Entretanto, diante do apoio
brasileiro ao esforço de guerra aliado, uma série de torpedeamentos de navios brasileiros por submarinos
alemães ocorreu na costa brasileira, no ano de 1917. Diante do clamor popular, o Brasil reconheceu o estado de
guerra com a Alemanha em novembro de 1917.
135

O retorno de Olavo Bilac a São Paulo no ano de 1917 é lembrada por José Pessoa, já
que, nessa ocasião, estava à disposição da 6ª Região Militar, exercendo a função de ajudante-
de-ordens do inspetor. Ressalta o sentimento patriótico que a passagem do poeta despertou na
população paulista e a maneira festiva com que “o mensageiro da esperança e da segurança
nacional” foi recepcionado pelas instituições culturais, acadêmicas e militares.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 2) Os principais jornais da capital paulista noticiaram a
recepção festiva que Bilac teve na noite de 16 de março, na Estação da Luz. O Correio
Paulistano, na edição de 17 de março, listou os inúmeros representantes dos governos federal,
estadual e municipal, além das autoridades civis e militares e representantes de grêmios
estudantis, de centros culturais e da imprensa que compareceram ao evento.
No dia 23 de março, Olavo Bilac foi recepcionado pelo inspetor da 6ª Região Militar,
general Luiz Barbedo, na sede do 43º Batalhão de Caçadores. Essa recepção foi noticiada nos
jornais paulistanos como um evento de grandes proporções, que contou com a presença dos
oficiais da guarnição militar de São Paulo e diversas autoridades civis e militares. Na ocasião,
como lembra José Pessoa, o tenente Mário Travassos dirigiu a palavra aos presentes. Em um
discurso acalorado, em prol da nacionalidade, do papel do Exército na defesa da Nação e da
hegemonia do Brasil na América do Sul, Travassos defendia que “a sublime doutrina do
nacionalismo precisa criar dogmas para a massa e determinadas diretivas para os que
pensam”.147 Em suas palavras de agradecimento, Bilac ressaltou que o “Brasil nunca esteve
perdido, mas sim desorientado”.148 Entretanto, afirmou que “dessa desnorteação [o Brasil]
estava salvo”.149 Destacou, ainda, que, se alguma vez, o Exército esteve apartado do povo,
essa separação havia acabado, pois, “o Exército nacional, como está, é a escola normal do
patriotismo, da bravura e da alegria do povo brasileiro.”150
Mereceria destaque, ainda, na imprensa o retorno de Bilac, no dia 3 de abril, ao Centro
Acadêmico 11 de Agosto, da Faculdade de Direito de São Paulo, onde foi recebido, segundo
José Pessoa, “delirantemente pela mocidade” e proferiu “uma eloquente conferência que fez
eco por todo Brasil” (ALBUQUERQUE, 1953, pasta II, p. 2). As palavras que Bilac proferiu
nessa instituição foram publicadas na edição de 4 de abril do Correio Paulistano. Na ocasião,
lembrou da conferência que fizera naquele mesmo local dois anos antes e ressaltou os
benefícios que a sua campanha já havia trazido à pátria. Campanha, essa, que já não mais se

147
Correio Paulistano, São Paulo 24 mar. 1917, p. 3.
148
Correio Paulistano, São Paulo, 24 mar. 1917, p. 3.
149
Ibidem.
150
Ibidem.
136

circunscrevia às “gloriosas escadas da Faculdade de Direito”, mas, que se acentuava em todo


o País.
A terceira visão do papel dos militares, exposta por Coelho, é a do escritor e político
fluminense Alberto Torres. Em 1914, publicou dois livros importantes, nos quais expunha o
seu pensamento a respeito dos problemas nacionais brasileiros e da defesa do País: A
Organização Nacional e O Problema Nacional Brasileiro. Apesar de concordar com Bilac
quanto à necessidade de organizar o Brasil, não aceitava a ideia de que os quarteis fossem as
verdadeiras escolas de civismo. Para ele, os quartéis treinavam soldados, não cidadãos; a
transmissão das virtudes cívicas constituía um processo distinto daquele que ensinava as
habilidades militares. Se um soldado era virtuoso, altruísta e compassivo, segundo Torres, era
porque trazia essas virtudes de casa e da praça pública, e não as adquiria em um quartel. Ao
invés de se buscar uma solução militar para os problemas de um país sem sociedade e sem
nação, o escritor acreditava que o ideal era a construção da unidade e da infraestrutura
nacional, a exemplo de países como o Japão, a Nova Zelândia e a Austrália. Em um país
como o Brasil, anarquicamente organizado, o serviço militar obrigatório malograria antes de
começar. (McCANN, 2009, p. 221)
Torres também não acreditava no caráter permanente do corpo de oficiais do Exército,
o que contribuiria para a criação de uma hierarquia privilegiada, disciplinada e coesa, com
tendência a evoluir para uma casta autoritária. Era uma ilusão supor que o recrutamento
aberto, por produzir oficiais das classes baixa e média, eliminaria o perigo. Entendia que a
oficialidade deveria treinar as tropas que os estados seriam obrigados a fornecer. Quanto ao
recrutamento, deveria ser voluntário. O recrutamento compulsório ocorreria somente para
preencher claros. (McCANN, 2009, p. 222-223)
Segundo Lima Sobrinho (1968, p. 396-397), para Alberto Torres a defesa nacional era
algo maior que a defesa militar, que não se constituía, na sua visão, nem o primeiro, nem o
mais vigoroso dos meios de defesa. Para ele, a base da defesa nacional estava no governo
constitucional, na educação pública, no sistema judiciário organizado, na economia forte, na
cautela com o crédito externo, na restrição aos investimentos estrangeiros e à imigração, na
política externa cordial na propaganda pacifista e, finalmente, na defesa militar.
No entanto, como destaca McCann (2009, p. 223), Torres e Bilac concordavam em
alguns pontos: a necessidade de patriotismo, de ordem, de um ideal nacional, da eliminação
da apatia e da unidade nacional. Os dois entendiam que os militares deveriam ficar longe da
política, pois um exército político não passava de uma mera facção. A política dividiria,
separaria e desmembraria o Exército.
137

Em abril de 1917, José Pessoa, no posto de segundo-tenente, foi nomeado instrutor das
escolas de instrução militar da Faculdade de Direito de São Paulo e do Ginásio São Bento.
Entretanto, ressalta em suas memórias que “a mocidade que tinha recebido Bilac com tanto
fervor patriótico, não teve o mesmo gesto para os seus instrutores, nomeados para ministrar-
lhes a instrução militar”. Referia-se ao trote com o qual, costumeiramente, os acadêmicos de
direito recebiam os instrutores militares, o que teria levado, em algumas ocasiões, instrutores
e alunos ao enfrentamento físico. (ALBUQUERQUE, 1953, pasta II, p. 2)
Na manhã de 8 de maio daquele mesmo ano151, chegou à Faculdade de Direito, a fim
de apresentar-se ao seu diretor, Dr. Herculano de Freitas. À porta do instituto acadêmico, foi
logo recebido por alguns calouros fazendo-se passar por veteranos do 5º Ano. Diziam-se
representantes dos cursos escolares e designados pelos colegas para dar as boas-vindas ao
novo instrutor. Reconheceu ali o início do trote. Porém, surpreendeu-se mais com a forma
desdenhosa com que foi recebido pelo diretor da Faculdade, que dissera-lhe supor que
receberia um oficial de mais idade, que havia conhecido quando fora ministro da Justiça, na
Capital Federal. José Pessoa respondeu-lhe: “Não haja nisso qualquer aborrecimento, diretor,
se o senhor desejar um instrutor barbado [o diretor usava barba] é só fazer um pedido ao meu
general e, estou certo, ele atenderá imediatamente”. Entretanto, o que mais o decepcionou foi
o tom paternal da resposta do Dr. Herculano, ao pedir-lhe paciência com “estes rapazes [os
estudantes], de fala arrogante, bolso bem suprido e sem muito juízo”. E concluiu: “reconheço-
o um belo oficial, perfeitamente qualificado para o desempenho da missão, filho de uma
família na qual conto com amigos, como Epitácio e o marechal [José da Silva] Pessoa”.
(ALBUQUERQUE, 1953, pasta II, p. 3-4)
O primeiro contato com os alunos foi bastante peculiar, ao deparar-se na galeria das
salas de aula com “uma procissão informe dos acadêmicos, à guisa de formatura militar,
marchando com as pernas tortas e as mãos espalmadas a altura da frontal, avançando
lentamente ao meu encontro”. Nesse momento foi interpelado pelo “comandante” do
“grotesco batalhão” se deveriam vir a participar das instruções por ele ministradas. Sem
abalar-se, dirigiu-lhes uma extensa fala, previamente preparada para enfrentá-los, pois, sabia
que “não era possível aceitar a luta física, sozinho, contra 823 acadêmicos”. No longo
discurso que proferiu, José Pessoa, ressaltou a confiança que o Exército depositava nos

151
José Pessoa aponta, em suas memórias, o dia 8 de maio de 1917 como sendo a data em que se apresentou na
Faculdade de Direito, para exercer as funções de instrutor militar dos acadêmicos. Entretanto, no dia 6 de maio
de 1917, o jornal Correio Paulistano publicou uma nota da Secretaria da Faculdade, dando conhecimento à
população dos horários de instrução militar a serem seguidos naquele centro acadêmico. Dessa forma, não há
como precisar a data exata em que José Pessoa iniciou as suas atividades naquele instituto de ensino.
138

“jovens patrícios paulistas para adestrá-los no manejo das armas”. Destacou a caserna como
uma “escola de civismo, onde a mocidade deve aprender a defender a Pátria, amá-la e
respeitá-la” e que “todo cidadão deve ser soldado, não por ofício, mas por um dever
patriótico”. Lembrou-lhes das palavras proferidas por Bilac naquela mesma escola poucos
dias antes e que foi “com grande satisfação patriótica” que viu o modo como eles procuraram
“dar realidade às palavras do poeta”. Já ao final de sua fala, indagou-lhes “como, pois,
explicar a inércia e a obscuridade em que vive esta Academia líder em matéria de defesa
nacional?”. Para, então, convocar-lhes: “saiamos dessa indiferença, meus amigos. Faço um
apelo ao vosso sentimento patriótico: unamos os nossos esforços pela grandeza do Brasil”. E
concluiu: “A vós, no dia da vitória, caberá uma boa parte dos louros que colhemos”. Ao
retirar-se, ressaltou que no dia seguinte esperava encontrar um “batalhão mais garboso do que
o que me prestou as honras à minha chegada, hoje, nesta Escola”. E brincou, “mas, olhem, o
comandante, continua preso até segunda ordem”. As gargalhadas provocadas nos estudantes
deram-lhe a impressão de que havia conquistado a confiança dos estudantes e de que estava
“assegurada a vitória do serviço militar na Academia e em São Paulo”, sendo aquela ocasião
“um dia de alegria para todos nós da guarnição e de tranquilidade para o Exército”.
(ALBUQUERQUE, 1953, pasta II, p. 5-9)
No dia seguinte, ao chegar à Faculdade, reencontrou os alunos, desta vez em forma,
apesar de muito irrequietos e falantes. Na ocasião, deixou-lhes claro que, a partir daquele
momento eram, além de estudantes, “uma força militar, na qual deve imperar a ordem e a
disciplina”. E tratou de implementar o seu programa de instrução, que em nada diferia dos
programas previstos pela Confederação do Tiro Brasileiro para as sociedades de tiro e escolas
de instrução militar. Quanto aos horários, dividiu-o por anos:

...para os 1º, 2º e 3º anos, às segundas, quartas e sextas-feiras, das 8 às 9 horas; para


o 4º e 5º anos, às segundas, terças e sextas-feiras, das 7 às 8 horas. Os exercícios de
tiro eram ministrados aos sábados, na linha de tiro da Força Pública. 152
(ALBUQUERQUE, 1953, pasta II, p. 9)

O programa de instrução militar aplicado nos alunos da Faculdade de Direito deu


certo. José Pessoa narra que três meses após dar início às atividades de instrução, o corpo de
acadêmicos desfilou no centro histórico de São Paulo, “fardado, armado e equipado”,
“cobertos por estrondosa aclamação popular”. Estava presente no evento o inspetor da 6ª

152
Esses horários diferem, em relação aos 1º e 2º anos, da nota publicada no Correio Paulistano, em 6 de maio
de 1917. O jornal informava à população paulistana os horários de instrução militar da Faculdade de Direito.
Para esses anos, a publicação previa as instruções militares às segundas, terças e sextas-feiras, das 13 às 14
horas.
139

Região Militar, general Luiz Barbedo. O sucesso da formatura serviu de estímulo às demais
escolas superiores e colégios de São Paulo, que aderiram ao serviço militar. Não foi possível
precisar a que evento, especificamente, José Pessoa se refere nessa ocasião. Ele não cita a data
precisa e não há registros nos principais periódicos da capital paulista de desfile da companhia
dos acadêmicos de Direito no período considerado por ele.
Após meses intensos de instrução, na tarde do dia 21 de agosto de 1917, em
solenidade realizada na Avenida Paulista, em frente ao Clube Trianon, a Companhia de
Caçadores da Faculdade de Direito recebeu a bandeira nacional. Compareceram ao evento,
dentre outras autoridades: o presidente do estado de São Paulo, Dr. Altino Arantes; o
presidente do Senado Federal, Dr. Jorge Tibiriçá; o inspetor da 6ª Região Militar, general Luiz
Barbedo, acompanhado de seu Estado-Maior; o prefeito de São Paulo, Dr. Washington Luíz e
o diretor da Faculdade de Direito, Dr. Herculano de Freitas. Também se faziam presentes
famílias da sociedade paulistana e grande massa popular.153 Segundo Pinto (2015, p. 174), as
solenidades de entrega de bandeira nacional às companhias de instrução das sociedades de tiro
e das escolas de instrução militar constituíam-se em atos solenes, apadrinhados por
personalidades ilustres e testemunhados por autoridades locais, com o concurso da sociedade
local. Eram verdadeiras festas cívicas. Corroborando Pinto, o Correio Paulistano atestava que
“o elegante belvedere da Avenida Paulista se achava completamente cheio de quase tudo o
que S. Paulo tem de mais elevado e chique”154.
A solenidade não estava restrita somente à companhia de caçadores da Faculdade de
Direito. Estavam formados junto a esta as demais companhias das escolas superiores do
estado de São Paulo: os batalhões dos ginásios São Bento e Coração de Jesus e o batalhão do
Mackenzie College. Também fazia parte da tropa um pelotão da 1ª Companhia do 43º
Batalhão de Caçadores, sob o comando do Tenente Mário Travassos. 155 Todas essas frações
constituíam uma brigada, que estava sob o comando de José Pessoa, que “sendo apenas um
segundo-tenente, foi apelidado pelos acadêmicos de ‘jovem general’” (ALBUQUERQUE,
1953, pasta II, p. 12).
A solenidade, amplamente noticiada nos principais jornais e revistas da capital
paulista, iniciou-se às 14 horas. O pavilhão nacional da Companhia de Caçadores da
Faculdade de Direito fora ofertado pelo bacharelando Assad Bechara, e constituía-se em “uma
verdadeira peça heráldica, confeccionado em seda do oriente, bordado a ouro e marchetado de

153
Correio Paulistano, São Paulo, 21 ago. 1917, p. 2.
154
Correio Paulistano, São Paulo, 21 ago. 1917, p. 2.
155
Ibidem.
140

estrelas de prata, trabalho primoroso das senhoras paulistas” (ALBUQUERQUE, 1953, pasta
II, p. 12). Segundo José Pessoa, Bechara, ao fazer uso da palavra, destacou que não ele
deveria fazer a entrega da bandeira, e, sim, Olavo Bilac, o iniciador da cruzada de regeneração
nacional. 156 No prosseguimento da solenidade, em um longo discurso proferido em nome dos
acadêmicos de Direito, o professor Dr. Azevedo Marques exortou os alunos a continuarem
marchando e “erguendo bem alto, aos olhos do mundo, o estandarte impoluto”.157 Por fim, o
porta-bandeira da companhia de caçadores, bacharelando José Alves Palma, fez uso da
palavra, lembrando da “apatia em que se conservava a mocidade brasileira, há dois anos
despertada pelas palavras, altamente patrióticas pronunciadas [...] pelo extraordinário cultor
das belas letras que é Olavo Bilac”.158 Encerrou afirmando que a juventude brasileira saberia
“compreender a necessidade de se preparar para conduzir o nosso pavilhão sempre
vitoriosamente”159 e que a pátria descansaria feliz, “sob o preparo militar dos seus filhos para
todas as eventualidades”160.
A bandeira nacional foi entregue ao porta-bandeira da companhia da Faculdade de
Direito pela madrinha da bandeira dos acadêmicos de Direito. Uma curiosidade a respeito
dessa escolha é que, a pedido dos alunos da Faculdade de Direito, foi aberto um concurso
entre os leitores e leitoras da revista A Cigarra161, a fim de se escolher, dentre as senhoritas
paulistas, quem deveria ser a madrinha da bandeira da “companhia de guerra dos alunos da
Faculdade de Direito”.162 A vencedora do concurso foi a Srta. Maria Guedes Penteado163, com
314 votos, a quem caberia “a honra de batizar o pendão sagrado da mais radiante e promissora

156
Um fato pitoresco narrado por Pati (1950) sobre a oferta da bandeira é, que, honrando as tradições do
comércio da Rua 25 de Março (Bechara era comerciante) e não confiando muito, ao que parece, na beleza do seu
gesto, Bechara fez um discurso verdadeiramente comercial. Disse que só em seda o auriverde pendão lhe custara
tantos contos de réis. Os bordados do losango amarelo, feitos a ouro, tantos contos. As palavras do lema
positivista, Ordem e Progresso, outros tantos. Entre matéria-prima e mão-de-obra, tantos contos. O discurso do
“Bichara”, como era chamado pelos acadêmicos, ficou célebre. No dia seguinte ao do juramento à bandeira, e
durante todo o curso, ele era invariavelmente felicitado em tom galhofeiro pelos colegas, à porta da Faculdade.
157
Correio Paulistano, São Paulo, 21 ago. 1917, p. 2.
158
Ibidem.
159
Ibidem.
160
Ibidem.
161
Fundada pelo jornalista Gelásio Pimenta, A Cigarra circulou na capital paulista entre os anos de 1914 e 1975.
Foi um periódico relacionado com as diversas transformações culturais ocorridas no início do século XX e era
mais voltado para o sexo feminino, participando diretamente no modo de viver paulistano, com um discurso
elitista e pomposo. (MATOS, 2008)
162
A Cigarra, São Paulo, 14 jun. 1917, p. 32.
163
Maria Guedes Penteado era filha de Inácio Leite Penteado e de Olívia Guedes Penteado, proeminente casal da
elite paulistana. Seu nome era encontrado constantemente nas colunas sociais dos principais jornais e revistas da
capital paulista, em eventos hípicos e assistenciais ligados à Cruz Vermelha Brasileira de São Paulo. Em 1932, já
casada com Clóvis Martins Camargo, ajudou a organizar e dirigir o Departamento de Assistência aos Feridos
criado para dar assistência aos soldados paulistas na Revolução de 1932. (SCHPUN, 2011)
141

juventude paulista”.164 A revista ainda destacava os motivos que a levaram a vitória:


“formosa, distinta, culta, inteligente e boa, ela será um símbolo perfeito na mística cerimonia
de tão alta significação, figurando a Pátria, entregando a seus filhos um estandarte
glorioso”.165

Imagem 8 – Entrega da bandeira nacional à companhia de caçadores da Faculdade de Direito


pela Srta. Maria Guedes Penteado (ao centro) e por Assad Bechara (ao lado da bandeira), 21 ago. 1917.

Fonte: Hemeroteca da Biblioteca Nacional. Revista A Vida Moderna, 6 set. 1917.

164
A Cigarra, São Paulo, 10 ago. 1917, p. 18.
165
A Cigarra, São Paulo, 10 ago. 1917, p. 19.
142

Às 15:30 horas a cerimônia foi encerrando com o desfile da tropa, comandada por José
Pessoa.

Imagem 9 – Desfile do batalhão acadêmico na Avenida Paulista, após a entrega da Bandeira Nacional, 21 ago.
1917

Fonte: Hemeroteca da Biblioteca Nacional. Revista A Vida Moderna, 6 set. 1917.

É inegável que a mensagem de Olavo Bilac, de um Brasil carente de fé e esperança e


ávido por um ideal havia atingido em cheio o coração dos jovens acadêmicos que se
perfilavam na Avenida Paulista, naquela ocasião. Curiosamente, haja visto as instituições em
que estudavam, eram filhos da mais legítima classe média paulistana, a quem a mensagem
deveria chegar, como desejava o poeta. E, sem dúvida, José Pessoa parecia estar cumprindo
bem a missão de ser o mestre salvador responsável pela instrução do povo.
No dia 25 de agosto, o Correio Paulistano166 publicou uma nota em que dava destaque
aos exercícios militares executados pela Companhia de Caçadores da Faculdade de Direito167
e ao programa de instrução inteiramente prático elaborado por José Pessoa. Ao mesmo tempo,
fazia uma convocação das tropas escolares da guarnição para uma formatura, naquela mesma
data, na Avenida Tiradentes, a fim de se constituir o grupamento que desfilaria no dia 7 de
setembro na Capital Federal. Na ocasião, foram convocados: o batalhão de alunos do
Mackenzie College, das escolas de Engenharia e Medicina e a Companhia de Caçadores da
Faculdade de Direito.

166
Correio Paulistano, São Paulo, 25 ago. 1917, p. 3.
167
O nome da escola de instrução comandada por José Pessoa variava a cada nota da imprensa. Por vezes
aparecia o nome “companhia de guerra”, por vezes “companhia de caçadores”. Em suas memórias, José Pessoa
utiliza este último.
143

Imagem 10 – Companhia de Caçadores da Faculdade de Direito posando no Alto de S’Antana, por


ocasião da sua última marcha militar, ago. 1917. Na primeira fileira está José Pessoa (primeiro da
esquerda para a direita, segurando a espada).

Fonte: Arquivo Público do Estado de São Paulo. Revista A Cigarra, 24 ago. 1917.

No dia 7 de setembro o batalhão acadêmico, comandado por José Pessoa, desfilou na


Capital Federal. A tropa, bem instruída, equipada e com a sua marcha uniforme e cadenciada
provocou vibrantes aplausos da assistência e lhe rendeu um troféu destinado à sociedade de
melhor preparação militar, ofertado pelo Ministro da Guerra. (ALBUQUERQUE, 1953, pasta
II. p. 13)
A excelente impressão que a tropa comandada por José Pessoa deixou no desfile da
Independência mereceu uma referência elogiosa da Liga de Defesa Nacional, por meio de
uma carta datada de 13 de outubro de 1917, assinada pelo Secretário Geral da Liga, Olavo
Bilac, e endereçada ao comandante da Companhia Isolada nº 2, da Escola de Direito de São
Paulo. Nela, o poeta destaca a profunda impressão deixada pela tropa dos acadêmicos de
Direito na parada de 7 de setembro e externa “os mais sinceros cumprimentos pelo garbo com
que nela se apresentou a mocidade dessa sociedade de tiro”. E destaca que a mocidade de
todos os tiros do Brasil tinha dado “uma clara demonstração de como tem em alta conta a
necessidade da Pátria unida e forte para ser respeitada no concerto das Nações”.
Curiosamente, no texto, Bilac refere-se a todo momento à companhia da Faculdade de Direito
como uma “sociedade de tiro”. Ao se consultar o documento, é possível se ver as correções
feitas à lápis por José Pessoa, substituindo-se as “sociedades de tiro” por “academia”.168
(ALBUQUERQUE, 1917) O elogio da Liga de Defesa Nacional mereceu uma nota na edição
de 20 de setembro, do Correio Paulistano.
168
Arquivo pessoal do Marechal José Pessoa (CPDOC FGV). JP vp 1917.10.13.
144

José Pessoa dá destaque ainda a três eventos dos quais participou a companhia de
caçadores. O primeiro, ocorrido a 4 de novembro, foi a participação nas manobras de combate
simulado da 6ª Região Militar, que rendeu elogios à sua tropa por parte do inspetor daquela
grande unidade, pela “perícia no manejo e emprego das armas, além da resistência às
marchas”. Em 15 de novembro, a Faculdade de Direito inaugurou a sua sala de armas, com a
presença da Srta. Maria Guedes Penteado, madrinha dos estudantes, e dos docentes e
discentes da Faculdade. E a cerimônia realizada em 19 de novembro, no Clube Trianon, para
a passagem do pavilhão nacional aos novos guardas-bandeiras do Grêmio Politécnico, dos
centros acadêmicos Oswaldo Aranha e 11 de Agosto e do Mackenzie College, que
compunham o batalhão acadêmico. (ALBUQUERQUE, 1953, pasta II, p. 14 e 15)
No dia 8 de dezembro, perante uma banca composta por José Pessoa e pelos tenentes
Antônio Paiva de Sampaio e Aarão Jefferson Ferraz, cinquenta e quatro alunos de Direito
prestaram os exames de reservistas169, como preconizava o Regulamento para a Execução do
Alistamento e Sorteio Militar170, de 1908. Todos foram aprovados.

Imagem 11 – Inauguração da sala de armas da Faculdade de Direito (José Pessoa está em pé, ao lado
da senhora de vestido branco e cinto preto), 15 nov. 1917.

Fonte: Arquivo Público do Estado de São Paulo. Revista A Cigarra, 29 nov. 1917.

169
A edição de 9 de dezembro de 1917, do Correio Paulistano, publicou a relação dos aprovados no exame.
170
Decreto nº 6.947, de 8 de maio de 1908.
145

No dia 9 de dezembro, a primeira turma de reservistas da Faculdade de Direito de São


Paulo concluiu seu ano de instrução, com o juramento à bandeira dos estudantes e a entrega
das cadernetas de reservistas. Na solene ocasião, acompanhada por inúmeras autoridades civis
e militares e pelos familiares dos alunos soldados, o acadêmico Armando Leite de Castro
falou em nome da turma, ao prestar uma homenagem a seu instrutor, destacando o gesto nobre
que este tivera ao inaugurar, às suas próprias custas, a sala de armas da Faculdade de Direito.
Em suas palavras de agradecimento, José Pessoa, ressaltou que fora chamada à Europa171,
para uma nova comissão, e que, se de lá retornasse reassumiria com satisfação as suas funções
na Companhia de Caçadores da Faculdade de Direito. Porém, se não voltasse à Pátria, a
companhia saberia defender com galhardia as afrontas do inimigo.172
A cerimônia prosseguiu com o juramento à bandeira, realizado pelos atiradores, que se
encontravam perfilados em duas filas. Logo após, foi realizada a passagem da bandeira ao
novo porta-bandeira da Companhia e, em seguida, foram entregues as cadernetas de
reservistas aos cinquenta e quatro atiradores que concluíram o curso, por uma comissão
formada pela Srta. Maria Guedes Penteado, pelo prefeito de São Paulo, Dr. Washington Luis,
e pelo secretário da Presidência do estado, Dr. José Rubião. Após os discursos de praxe,
realizados pelos oradores da turma, a cerimônia encerrou-se com os alunos-soldados fazendo
uma demonstração de exercícios de ginástica sueca e de esgrima.173
Ao final de sua nomeação como instrutor da Faculdade, José Pessoa foi elogiado pelo
comandante da Região nos seguintes termos:

Ao desligar o Sr. José Pessoa agradeço a colaboração eficaz prestada a esse


Comando nas comissões que exerceu junto à Faculdade de Direito e do Ginásio S.
Bento como Instrutor Militar dos seus alunos onde, com perfeito êxito, incorporou
ao Exército Nacional uma bela turma de reservistas, recrutada entre os moços
daquela Academia Superior. Ao nomeá-lo oficial instrutor da Faculdade de Direito,
tive em vista as qualidades especiais que este oficial deveria ter necessárias ao meio
e no momento delicado onde iria servir; ao sr. 2º Tenente José Pessoa declaro com
satisfação, que ele cumpriu muito bem a sua missão. (ALBUQUERQUE, 1953,
pasta II, p. 18)

Apesar da Lei do Serviço Militar de 1908 prever em seus dispositivos que as escolas
de instrução militar formavam a reserva de 2ª categoria da Nação, fica claro que não foi com
essa percepção que José Pessoa cumpriu as suas funções de instrutor militar na Faculdade de
Direito. Até então, todas as funções executadas por ele nos corpos de tropa eram

171
Refere-se José Pessoa à sua participação na Comissão de Estudos de Operações de Guerra e de Aquisição de
Material de Guerra na França, em 1918, durante a Primeira Guerra Mundial.
172
Correio Paulistano, São Paulo, 10 dez. 1917, p. 2.
173
Correio Paulistano, São Paulo, 10 dez. 1917, p. 2.
146

características dos oficiais subalternos incorporados em pequenas frações, de unidades valor


batalhão ou regimento. Ao mesmo tempo em que definiu a experiência que teve junto aos
acadêmicos como uma delicada missão, a considerou o seu primeiro comando isolado.

4.3 Nos campos de batalha da Bélgica

A Primeira Guerra Mundial já se arrastava há três anos quando José Pessoa teve,
certamente, a maior experiência de sua carreira militar como oficial subalterno, ao incorporar-
se, voluntariamente, ao Exército francês, para combater nos campos de batalha europeus.
No final de julho de 1914 chegaram ao Brasil os primeiros ecos do grande conflito
mundial. As edições do dia 27 de julho do jornal O Estado de São Paulo e as de 29 de julho
do Correio Paulistano e dos jornais cariocas Correio da Manhã e Jornal do Brasil,
noticiavam, em destaque, a declaração de guerra do Império Austro-húngaro à Servia. Por
meio da imprensa escrita, a população brasileira acompanharia sobressaltada o envolvimento
das grandes potências europeias no conflito, em notícias publicadas diariamente.
A preocupação do governo brasileiro centrava-se principalmente nas dificuldades
financeiras que a guerra europeia poderia acarretar para o País. A edição do dia 3 de agosto de
1914, do jornal carioca A Noite, noticiava a reunião ministerial convocada pelo presidente
Hermes da Fonseca para discutir “as providências a serem tomadas pelo governo para atenuar
os efeitos da guerra europeia no nosso país e para socorrer os brasileiros que estão nos países
conflagrados”174. Estiveram presentes os ministros da Fazenda, Justiça, Viação, Marinha
Agricultura e Guerra, além de senadores e deputados federais membros das comissões e
finanças do Senado e da Câmara dos Deputados. A segunda edição do mesmo jornal, no
mesmo dia, noticiava as primeiras medidas adotadas pelo governo brasileiro, dentre elas a
busca emergencial, nos Estados Unidos, de “carvão, óleos e mercadorias”175 necessárias ao
consumo do País, por navios do Lloyd Brasileiro, o repatriamento imediato dos brasileiros
que se encontravam na Europa e a decretação de um feriado nacional de doze dias, uma vez
que, diante das circunstâncias graves que o início do conflito europeu criara para o mundo, era
“dever do Poder Executivo zelar pelos supremos interesses da Nação”176.
À época em que a guerra iniciou, as principais relações comerciais e diplomáticas
brasileiras passavam pela Europa. A Inglaterra era a principal parceira política e credora do
País, seguida timidamente pela Alemanha, que vinha incrementando gradativamente as

174
A Noite, Rio de Janeiro, 3 ago. 1914, p. 2.
175
Idem, p.1.
176
Ibidem.
147

transações comerciais e diplomáticas em território nacional, como já visto no início deste


capítulo, e a França. Diante disso, o governo brasileiro tomou uma postura neutra em relação
ao conflito. O Decreto nº 11.073, de 4 de agosto de 1914, estabelecia as “regras gerais de
neutralidade do Brasil no caso de guerra entre as potências estrangeiras”. As cláusulas do
Decreto proibiam os residentes no Brasil de qualquer tipo de participação ou auxílio em favor
das nações beligerantes, bem como de praticar atos hostis contra elas. Também proibia essas
nações de promover, em território brasileiro, o alistamento de nacionais ou estrangeiros em
suas forças de terra e de mar. Tratavam, ainda, do tráfico marítimo nos portos brasileiros e de
atos hostis provocados por navios de guerra dos beligerantes em águas nacionais, o que
implicaria uma violação da neutralidade do País e uma ofensa à soberania nacional.
O governo do presidente Wenceslau Braz (1914-1918) seria, em termos políticos e
econômicos, tão turbulento quanto o de seu antecessor, devido às várias contendas políticas
mal resolvidas por Hermes da Fonseca e a grave crise financeira e econômica pela qual
passaria o País, uma consequência, em parte, dos efeitos econômicos que a guerra traria ao
Brasil. Na mensagem que dirigiu ao Congresso Nacional, por ocasião de sua posse, deu
destaque às implicações decorrentes do conflito europeu para o País. Dentre elas, a
dificuldade que o estatuto da neutralidade trouxe às relações comerciais brasileiras, tendo em
vista à restrição da presença dos navios das nações beligerantes em águas nacionais, e a
situação dos brasileiros expatriados que se encontravam em viagem ou em estudos nos países
europeus envolvidos no conflito. Ressaltou, também, as dificuldades impostas pelos países
beligerantes aos neutros, quanto ao apresamento de produtos que poderiam vir a ser
considerados contrabando de guerra, o que tornou “instável o comércio internacional e sujeito
às interpretações as mais diversas dos respectivos tribunais de presas” 177. No entanto,
assegurou ao Congresso que o critério de neutralidade mantido pelo Brasil e as relações
pacíficas mantidas com as nações beligerantes coroaram de êxito as ações diplomáticas que
foram tomadas nos casos em que se fez necessário o desembaraço de mercadorias brasileiras
apreendidas. Enumerou, ainda, diversos decretos complementares ao 11.073/1914, que
tornaram a circulação de navios estrangeiros nos portos brasileiros ainda mais rigorosa.
Entretanto, logo a seguir, aponta algumas exceções abertas em relação à expedição de
telegramas cifrados de origens britânica, francesa e portuguesa e a autorização para o reparo,
no porto do Rio de Janeiro, dos cruzadores Glasgow e Carnavon, da marinha de guerra
inglesa.

177
Mensagem apresentada ao Congresso Nacional pelo presidente Wenceslau Braz, em 3 de maio de 1915, por
ocasião de sua posse.
148

Se o Catete adotou uma postura de neutralidade, o mesmo não aconteceu com a


intelectualidade brasileira. O conflito europeu provocou, desde o seu início, uma série de
fortes debates em todos os setores da sociedade brasileira, sobretudo entre os intelectuais, que
passaram a expor abertamente a sua posição a favor de um dos lados beligerantes. O principal
campo escolhido para o debate foi a imprensa. Na qualidade de guias da opinião pública, os
homens de letra do Brasil digladiaram-se em uma batalha de ideias que colocou em campos
opostos os favoráveis à Tríplice Entente – chamados de aliadófilos – e os inclinados às
potências centrais – os germanófilos, estes em número bem menos expressivo que os
primeiros.
Para Silva (2015, p. 636-637), o posicionamento majoritário dos jornais brasileiros a
favor da França, Inglaterra e Rússia foi impelido pelos laços econômicos com o império
britânico e de identificação cultural, que amarravam os intelectuais e as elites brasileiras com
a França. Como ressalta o autor, a alidofilia foi praticamente francofilia. Identificada pelos
intelectuais e publicistas brasileiros como o berço da civilização, da ordem democrática e
republicana, das luzes e das artes, a França conquistou seus corações e mentes. Segundo o
autor, a maior parte das notícias internacionais que abasteciam os periódicos nacionais
chegavam por intermédio das agências francesa Havas e da britânica Reuters. Dessa forma,
elas dedicaram-se a divulgar relatos e impressões a favor dos aliados, em uma tentativa de
modelar as impressões do conflito entre aqueles que o assistiam de longe.178
Diariamente, colunas e cartas endereçadas às redações dos jornais, com diferentes
opiniões a respeito do conflito, eram publicadas. Os partidários da neutralidade brasileira
reconheciam a dificuldade da manutenção dessa posição, devido às pressões externas e
internas sofridas pelo governo. Entretanto, combatiam os argumentos dos intelectuais
brasileiros que defendiam a entrada do País na guerra, acusando-os de falta de patriotismo,
pois entendiam que a neutralidade era a única situação capaz de atender aos interesses
nacionais. Por sua vez, os germanófilos entendiam que o Brasil alcançaria o progresso ao lado
dos alemães, representantes do inédito e das inovações tecnológicas, contra a hegemonia
econômica exercida pela Inglaterra e preponderância intelectual da França. Para eles, a
Alemanha era sinônimo de renovação, e o Brasil teria obteria muitas vantagens econômicas e
políticas ao optar pelo apoio à causa germânica no conflito. Já os defensores da Entente,
entendiam que os aliados representavam o verdadeiro ideal de liberdade e democracia para o

178
Silva (2015, p. 639-640) aponta que no Rio de Janeiro, por exemplo, os jornais Correio da Manhã e Jornal
do Brasil abriam espaço para a divulgação de opiniões pró-Alemanha, enquanto os jornais A Noite, Gazeta de
Notícias, O Imparcial e Jornal do Commercio eram notadamente aliadófilos.
149

mundo. Admiradores da cultura francesa e do ideal de latinidade, pretendiam o rompimento


de qualquer relação com a Alemanha e seus parceiros. O grupo dos aliadófilos era composto
por escritores, políticos e jornalistas. Rui Barbosa, Graça Aranha e Olavo Bilac eram algumas
das personalidades defensoras dessa corrente de pensamento. Sob a perspectiva aliadófila, a
neutralidade era uma prova de covardia. Os países que a adotavam omitiam-se perante a
responsabilidade de defender o considerado mundo livre, sacrificando um dever em razão de
propósitos de cunho econômico. (PIRES, 2013, p. 27-40)
Além dos jornais, associações intelectuais e ligas surgidas em decorrência da guerra
também foram espaços de debates a respeito do conflito europeu. Em todos os cantos do País
formaram-se grupos, que reuniam, em sua maioria, intelectuais, com o propósito de realizar
propaganda dos aliados e criticar os impérios centrais. Uma dessa primeiras associações,
como aponta Pires (2013, p. 57-59), foi a Liga Brasileira pelos Aliados, criada em 17 de
março de 1915, no Rio de Janeiro, por um grupo de pessoas influentes no cenário político-
cultural da Capital Federal. Sua organização foi orquestrada pelos membros da Academia
Brasileira de Letras José Veríssimo e Graça Aranha e pelo capitão do Exército Eliseu
Motarroyos. Em comum, esses três personagens pertenciam a uma rede de sociabilidade
formada por intelectuais da Capital Federal, permeada por ideias nacionalistas. Rui Barbosa
era o presidente honorário da Liga e Graça Aranha o seu representante no exterior. Muitos dos
componentes do seu Comitê Executivo, segundo a autora, eram personagens cujas trajetórias
cruzaram-se em instituições de ensino de renome do Rio de Janeiro, como o Colégio Pedro II,
a Escola Militar da Praia Vermelha e a Escola Naval. Outros frequentaram instituições de
ensino superior como as faculdades de Direito de São Paulo, Rio de Janeiro e Recife ou a
Escola Nacional de Belas Artes. Eram homens de grande atividade intelectual, republicanos e
nacionalistas, como os poetas Alberto de Oliveira e Olavo Bilac, o urbanista Armando de
Godoy e o romancista Afonso Escragnole de Taunay. Outros ocupavam posições importantes
no panorama político brasileiro, como os senadores Antônio Azeredo e Lauro Sodré, além do
próprio Rui Barbosa e os deputados Maurício de Medeiros, José Eduardo de Macedo Soares e
Viriato Corrêa.
A Liga pelos Aliados tinha como objetivo promover a causa aliada entre a população
brasileira, angariando a sua simpatia para os países desse grupo beligerante. Almejava,
também, alertar os brasileiros para a ameaça do chamado “perigo alemão”, definido como a
ambição do Kaiser de apossar-se de uma parcela do território brasileiro, através das colônias
alemãs localizadas no sul do País. Os jornais da Capital Federal eram a suas principais
plataformas de divulgação, onde publicavam moções, manifestos, artigos e correspondências
150

trocadas com intelectuais e autoridades dos países da Entente. A Liga também promovia
festas, exposições e eventos, divulgando a causa aliada e atacando a atuação alemã na guerra,
com a presença de artistas e intelectuais oriundos dos países aliados. A sua fundação serviu de
inspiração para a criação de agremiações semelhantes em outros estados brasileiros, como a
Liga Bahiana pelos Aliados. Foi desfeita em 25 julho de 1919, baseada no seu estatuto, que
previa o fim da entidade após o estabelecimento da paz com a vitória aliada. (PIRES, 2013, p.
61-62, 85-86, 149)
Tão importante quanto o papel desempenhado pela Liga Brasileira pelos Aliados, foi o
que teve a Liga da Defesa Nacional. Criada no contexto da Primeira Grande Guerra, os
intelectuais que dela fizeram parte, engajaram-se na luta pela implantação do serviço militar
obrigatório e na defesa do apoio brasileiro aos países aliados, pertencentes à Tríplice Entente
(Reino Unido, França e Rússia). Ao realizar as suas inflamadas palestras nas principais
capitais do País, Olavo Bilac conclamava a intelectualidade brasileira a aderir às causas
nacionalistas e serem os responsáveis pela defesa da pátria e pela modernização das estruturas
sociais da Nação. Em setembro de 1916, por ocasião da instalação do Diretório Central da
Liga na Biblioteca Nacional, Bilac apelou para a competência, sabedoria e fervor patriótico
dos que se encontravam presentes ao ato, “representantes de todas as classes produtoras e
defensoras do país [...] alguns dos maiores, dos mais belos e respeitados, alguns que já fazem
parte do patrimônio moral da nossa terra”. (BILAC, 1917, p. 75)
Nas conferências públicas que realizava, Bilac deixava claro, ainda, que a defesa
nacional era um problema “imenso e complexo” e que não estava organizada no País. A boa e
verdadeira defesa deveria ser preventiva e que, ainda que não existissem “perigos imediatos
que nos cerquem, há incontestavelmente sempre perigos latentes, próximos ou remotos,
prováveis ou ao menos possíveis, que ameaçam constantemente todas as nacionalidades,
ainda as mais sólidas, fortes e armadas” (BILAC, 1917, p. 126). E ressaltava que se a defesa
era um dever imperioso para as nacionalidades mais bem organizadas, o que se poderia dizer
do Brasil, “um país pobre de instrução primária, profissional e cívica, pobre de coesão, pobre
de culto patriótico” (BILAC, 1917, p. 126). Para ilustrar a sua fala, o poeta usava os eventos
que se passavam na Europa:

Há pouco mais de dois anos, na Europa, quase todos os homens de pensamento


acreditavam que a guerra, naqueles tempos de intensa e nobre propaganda de
pacifismo, seria um sonho de realização impossível, um absurdo pesadelo. Os fatos
desencantaram esta esperança. Toda a Europa está ensopada em sangue. Rasgaram-
se tratados, anularam-se convenções e amizades, violaram-se fronteiras, talaram-se
campos, arrasaram-se cidades, aniquilaram-se pátrias. (BILAC, 1917, p. 127)
151

E, ao apontar as causas dos perigos externo e interno, conclamava a população à


defesa:

E poderemos acreditar que o Brasil, este imenso país de solo fértil e de ricas
entranhas, ainda despovoado e desarmado, fique sempre, graças ao acaso, ou ao
benefício da Providência Divina, imune de qualquer investida da ambição ou da
necessidade comercial? Tal é o perigo externo, próximo ou remoto, sempre possível.
O outro perigo, iminente, o interno, é a quebra da unidade: o depauperamento do
caráter, o definhamento do patriotismo consciente, à mingua de instrução, o acúmulo
dos erros das más administrações, o império das cúbicas individuais, e a triste
indiferença em que vegeta a maior parte da população.
Impõe-se a defesa. Defendamo-nos! (BILAC, 1917, p. 127-128)

Entretanto, Daróz (2016, p. 47) lembra que, se existia um número elevado de notáveis
que defendiam a causa aliada, os germanófilos também se organizaram em torno de
personalidades da política e da intelectualidade brasileira, como: João Dunshee de Abranches,
presidente da Associação Brasileira de Imprensa, o escritor Capistrano de Abreu, o diplomata
Oliveira Lima, o jornalista Assis Chateaubriand e o chanceler Lauro Müller. Esse grupo
defendia a manutenção da neutralidade do País, por entender que a guerra tinha motivações
comerciais, cujo propósito era impedir a ascensão comercial da Alemanha. Também se
utilizavam dos meios de comunicação disponíveis à época e confrontavam a Liga Brasileira
pelos Aliados sempre que podiam, cuja ação, diziam ser inútil à causa aliada e contrariar os
interesses do Brasil.
O posicionamento a favor ou contra um dos lados beligerantes também chegou às
Forças Armadas. No Exército, os posicionamentos ficaram bastante evidentes nos debates que
se estabeleceram em torno da contratação de uma missão militar estrangeira, para a
modernização da instrução e do ensino da Instituição.
Não havia, entretanto, um consenso sobre a origem dessa missão militar, prevalecendo
as discussões em torno de duas potências europeias envolvidas no conflito: Alemanha e
França. Pugnava por uma missão alemã a ala “progressista” do Exército, que tinha entre os
seus legítimos representantes os Jovens Turcos. Influenciados por tudo que haviam
vivenciado durante o estágio na Alemanha, viam o Exército germânico como o mais bem
preparado da Europa em termos de equipamento e doutrina (LUNA, 201, p. 117-118). Já
dentre os francófilos destacou-se o general Cardoso de Aguiar, ministro da Guerra do
presidente Delfim Moreira e principal articulador da contratação de uma missão militar
francesa (McCANN, 2009, p. 258).
Ao estudar as relações militares e comerciais entre Brasil e Alemanha nas primeiras
décadas da República (1889-1920), Luna (2011) estabelece um amplo debate a respeito das
152

intenções do governo brasileiro, especialmente do Ministério da Guerra, em relação à


contratação de uma missão militar estrangeira de instrução ainda na segunda década da
República. A autora mostra que nos Ministérios da Guerra de Mallet (1898-1902), Argolo
(1902-1906) e Hermes da Fonseca (1906-1908) houve um aprofundamento da dependência
externa do Exército e das relações militares com a Alemanha, em meio a um contexto de
imperialismo em que essas relações ficaram marcadas por uma forte concorrência exercida
por outras potências, como a Inglaterra, os Estados Unidos e, sobretudo, a França. Ao longo
desse período, França e Alemanha foram os protagonistas da disputa pelo predomínio da
influência militar sobre o Exército brasileiro, tentando ganhar a concorrência da compra de
armamentos e do envio de uma missão militar de instrução ao Brasil.
A concorrência acirrada que se estabeleceu até 1919, quando foi contratada uma
missão militar francesa de instrução, se deu por meio de iniciativas como: o já citado convite
para que oficiais brasileiros estagiassem no Exército alemão; o convite para que Hermes da
Fonseca, então Ministro da Guerra, visitasse os países europeus, entre 1908 e 1910, para
assistir as manobras militares e conhecer as fábricas de armamentos; e as ruidosas campanhas
das imprensas nacional e internacional. O acirramento das relações comerciais e militares com
a Alemanha, sinalizada pela visita de Hermes àquele país em 1908, levou o Ministério da
Guerra a cogitar a contratação de uma missão militar, sendo que a preferência de Hermes
tendia a ser para os alemães. O roteiro de visitas do ministro, que privilegiou as manobras de
guerra da Alemanha, e não as da França, causou uma forte reação da imprensa francesa, que,
de uma maneira geral, criticou a preferência do governo brasileiro pelos alemães, em
detrimento dos franceses. O jornal francês Le Temps, por exemplo, lembrou dos enormes
investimentos que os capitalistas franceses haviam feito na construção e ferrovias e portos no
Brasil. (LUNA, 2011, p. 164-166)
A reação da imprensa francesa não impediu que, em junho de 1910, o novo ministro
da Guerra do, agora, presidente Hermes da Fonseca, José Bernardino Bormann, iniciasse as
negociações para a contratação de uma missão militar alemã para o Exército brasileiro. A
missão seria composta por vinte instrutores alemães que seriam enviados ao Brasil, para
aperfeiçoarem a instrução militar do Exército dos principais distritos militares do País (Rio de
Janeiro e Rio Grande do Sul). O pedido brasileiro repercutiu nos meios militares e civis
brasileiros e, logicamente, na Alemanha e na França. No Brasil, as opiniões ainda se dividiam
se a missão deveria ser francesa ou alemã. (LUNA, 2011, p. 170-172)
Em meio às tratativas de Bormann com a Alemanha, o presidente Hermes da Fonseca
encontrava-se na Europa, por motivos de saúde do seu filho, e foi convidado para visitar
153

Portugal, a França e a Alemanha. Nesses dois últimos países, foi convidado a assistir a
manobras militares. Na França, especialmente, seguiu um roteiro intenso de visitas a escolas e
instalações militares, assistiu a manobras e exercícios das tropas francesas e realizou viagens
organizadas por fornecedores de armas. Certamente, cientes da simpatia que Hermes nutria
pelos alemães, os franceses empenharam-se em demonstrar a importância e o
desenvolvimento do aparelho militar do país, ao mesmo tempo que tentavam demovê-lo da
crença que tinha na superioridade militar germânica. (LUNA, 2011, p. 175-176)
Na segunda quinzena de agosto, Hermes visitou a Alemanha. Iniciou o roteiro pela
cidade de portuária de Kiel, com o intuito de assistir a exercícios realizados por submarinos
produzidos pelo estaleiro Germânia, uma novidade para a estratégia naval da época. Em
seguida, se dirigiu a Berlim, onde assistiu às manobras do exército e da esquadra alemães,
ocasião em que mereceu uma atenção especial do Kaiser Guilherme II. Antes de retornar ao
Brasil, assistiu, ainda, à parada militar de outono em companhia do mandatário alemão e
participou de alguns eventos e jantares em sua homenagem, promovidos por autoridades civis
alemãs. Nesse tempo que passou na Alemanha, Hermes da Fonseca, com a aquiescência do
Barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores, tratou de alinhavar com Guilherme II
a contratação da missão militar alemã, o que repercutiu fortemente nas imprensas alemãs e
francesas. (LUNA, 2011, p. 176-177)
A passagem do presidente brasileiro pela Alemanha sofreu uma enxurrada de críticas
da imprensa francesa, que depreciou a iniciativa do governo brasileiro de contratar instrutores
militares para o seu Exército nacional. Conforme aponta Luna (2011, p. 180-181), os jornais
franceses fizeram questão de destacar a proximidade cultural existente entre Brasil e França,
advinda da origem latina de ambos os países, a enorme presença de capital francês na
economia brasileira, tanto através do financiamento de grandes obras públicas, como da
concessão de empréstimos para a política de valorização do café e a presença de uma bem
sucedida missão militar francesa junto à Força Pública do estado de São Paulo 179, desde 1906.
Contestaram as boas relações existentes entre Brasil e Alemanha, chamando o governo
brasileiro de descortês, por tentar contratar militares alemães, quando ainda se encontrava no

179
Em 1906, o estado de São Paulo, gozando da sua autonomia administrativa, contratou uma missão militar
francesa, comandada pelo coronel Paul Balagny, para instruir a sua Força Pública. O contrato da missão militar
francesa para a Força Pública paulista foi fechado por Gabriel de Toledo Piza, representante da oligarquia
paulista e ministro plenipotenciário brasileiro, com o ministro da Guerra francês, Eugène Étienne. Resultou da
preferência do presidente do estado e do prefeito da cidade de São Paulo, Jorge Tibiriçá e Antônio Prado,
respectivamente, por uma missão militar francesa. O Barão do Rio Branco, Ministro das Relações Exteriores, se
opôs aos franceses, mas não conseguiu demover a preferência de Tibiriçá, nascido na França, filho de mãe
francesa. (LUNA, 2011, p. 142)
154

País [em São Paulo] uma missão militar francesa, e de ingrato, por não reconhecer os
benefícios dos enormes empréstimos franceses.
A confusão gerada pela imprensa francesa, segundo Luna (2011, p. 185), levou
Hermes a não firmar com a Alemanha o contrato de uma missão militar de instrução. Para a
autora,

o anúncio imediato da escolha da nacionalidade da missão, fosse com Alemanha ou


com a França, poderia representar um distanciamento ou até mesmo um incidente
diplomático, sendo que ambas as potências pertenciam ao rol dos cinco maiores
parceiros comerciais do Brasil. (LUNA, 2011, p. 185)

Porém, a autora entende não ser esse o único motivo do recuo de presidente brasileiro,
que o colocaria como um dos maiores opositores daqueles que defendiam a missão alemã,
como o próprio Barão do Rio Branco e o ministro da Guerra Bormann. Luna (2011, p. 186)
lembra que a trajetória de hábil renovador, que Hermes teve no exercício da pasta da Guerra,
ocasião em que abarcou a compra de considerável volume de material bélico alemão e o envio
de vários oficiais brasileiros para estagiarem no exército germânico, não deixa dúvidas de que
ele era partidário do emprego de instrutores alemães no Exército brasileiro. Sendo assim, a
mudança de ideia quanto ao fechamento do contrato da missão alemã, não aconteceu
exclusivamente por motivos militares180 ou por conta da hábil campanha da imprensa
francesa, mas, sim, porque foi pressionado por fatores políticos e econômicos, que fizeram
com que vacilasse em relação às consequências do fechamento do contrato. A autora defende
que o principal motivo que levou Hermes a não contratar uma missão militar alemã de
instrução encontra-se, sobretudo, ligado a pressões advindas da elite cafeeira paulista e à
participação desses em alguns planos de intervenção do governo no mercado cafeeiro, dentre
eles, e o principal, o Convênio de Taubaté181, em 1906. Cabe ressaltar, que foi na elite
paulista, que combateu ferozmente a sua candidatura à presidência da República, apoiando a
campanha civilista de Rui Barbosa, que Hermes encontrou a sua principal oposição. Além

180
Cabe ressaltar que durante o governo de Hermes da Fonseca, encontravam-se na Alemanha o último grupo de
militares que realizavam o estágio no exército daquele país, um convênio que fora firmado ainda quando era
ministro da Guerra. Em função desse convênio, havia um compromisso por parte do governo brasileiro não
enviar militares brasileiros para arregimentação em outros exércitos e não receber instrutores militares
estrangeiros, com exceção dos alemães.
181
Acordo fechado na cidade de mesmo nome, em 1906, entre os presidentes dos estados de São Paulo, Minas
Gerais e Rio de Janeiro: Jorge Tibiriçá, Francisco Sales e Nilo Peçanha, respectivamente. O convênio procurou
estabelecer um equilíbrio entre a oferta e a demanda, através da aquisição do excedente do café pelo governo
federal. O café adquirido ficaria estocado em depósitos no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos e o capital
necessário para a compra seria obtido por meio de financiamento no exterior, com destaque para a França.
(LUNA, 2011, p. 186)
A questão do capital francês, inclusive, foi utilizada, como visto, pelos capitalistas e pela imprensa francesa para
se opor à visita de Hermes da Fonseca à Alemanha, em 1908.
155

disso, como lembra Luna (2011, p. 188), Hermes tinha entre os seus principais apoios
políticos dois apoiadores do Convênio de Taubaté: o senador Pinheiro Machado e o
fazendeiro Francisco Antônio de Sales, membro da elite política mineira, nomeado ministro
da Fazenda, no seu governo.
Sendo assim, o assunto missão militar de instrução saiu da pauta do governo até o final
do ano de 1912. As discussões em torno da questão se recenderiam justamente com o retorno
ao Brasil do jovem grupo de oficiais da última turma que estagiou no Exército alemão, entre
os anos de 1910 e 1912, e que fundou a revista A Defesa Nacional, os Jovens Turcos.
A análise apurada que Cristina Luna faz do pensamento militar dos Jovens Turcos
permite compreender por que o grupo foi taxado de germanófilo durante muito tempo. Cabe
lembrar que os ex-estagiários do Exército alemão exerceram a liderança do grupo que passou
a orbitar em torno das publicações feitas em A Defesa Nacional182. Além disso, é preciso
contextualizar as concepções divulgadas pelo grupo nas páginas da revista. O parâmetro de
referência do grupo, para as conclusões a que chegavam era a nação e o estado-nação tal
como se generalizaram na Europa Ocidental. Como aponta Capella (1985, p. 71), “ao
confrontarem o modelo com a realidade brasileira, o que surge diante de seus olhos é uma
total assimetria, um terrível simulacro onde se desejava uma cópia”. Seguindo essa ideia,
Luna (2011, p. 215) lembra que

os “turcos” observaram a realidade nacional e concluíram que o Brasil era um “país


invertebrado e amorfo”, governado por uma elite política que pouco se preocupava
com a defesa nacional e habitado por uma massa inculta, composta por diferentes
etnias. Como resposta a todo esse contexto, os “turcos” atribuíram ao Exército o
papel de volante da nação...

Moraes (2005, p. 141) aponta os Jovens Turcos como o “núcleo intelectualmente mais
organizado” de um movimento de reforma do Exército que se estabeleceu no País ainda no
prenúncio do primeiro grande conflito mundial. Como explica Luna (2011, p. 214), o
exacerbado nacionalismo conjugado com o fortalecimento do capitalismo industrial e
financeiro, que redundou no imperialismo, intensificou as rivalidades existentes entre as
grandes potências europeias. A busca por proteção, e a tentativa de evitar que essas
rivalidades resultassem em um novo conflito que as envolvesse, levou-as, nos estertores do

182
É importante compreender que o grupo de oficiais que estagiou no Exército alemão, entre 1910 e 1912, não
era o mesmo grupo de oficiais que fundou a revista A Defesa Nacional. Nem todos os oficiais que estagiaram no
Exército alemão foram fundadores da revista. E nem todos os colaboradores da revista haviam estagiado no
Exército alemão. Paula Cidade, Brasílio Taborda, Mário Clementino e Cavalcanti de Albuquerque não
participaram do estágio na Alemanha, porém aderiram ao projeto de criação da revista no Brasil. Amaro de
Azambuja estagiou no período de 1908 a 1910.
156

Século XIX e no nascer do Século XX, a uma acorrida armamentista e tecnológica sem
precedentes. A “falácia da paz armada”, segundo a autora, repercutiria no Brasil, ratificando
entre muitos civis e militares a necessidade imediata de retomada do processo de reforma do
Exército, que, iniciado há poucos anos, se encontrava praticamente paralisado, como
consequência das conturbações provocadas pela “política das salvações”, de Hermes da
Fonseca, e das restrições impostas pelas elites políticas e econômicas aos gastos com as
Forças Armadas.
A partir do entendimento de que o Exército deveria ser o “volante” da Nação, era
necessário que estivesse bem preparado. Portanto, na luta retórica pela modernização do
Exército, os Turcos defenderam a compra de novos armamentos, sobretudo da Alemanha.
Para a capacitação dos quadros da Instituição, propuseram a vinda de instrutores militares
alemães, para ajudarem na formação do oficialato, além de modificações na Escola Militar.
Entendiam que, melhor preparados, os oficiais brasileiros poderiam formar mais
satisfatoriamente os recrutas, que, após o período de arregimentação, passariam a compor uma
reserva militar para o País183. (LUNA, 2011, p. 215-216)
Após a fundação de A Defesa Nacional, a revista passou a ser um importante
instrumento de divulgação dos conhecimentos adquiridos no Exército alemão, o que era feito,
segundo Capella (1985), em uma parte jornalística, basicamente composta por artigos
técnicos. Traziam traduções de manuais e regulamentos alemães, artigos contendo
recomendações a respeito do emprego de armamento e organização e emprego da tropa, e o
que existia de mais moderno no mundo sobre técnica e tática militar, principalmente o que
vinha da Europa. Todos esses artigos eram assinados e percebe-se a grande afluência de
artigos de colaboradores, em sua maioria militares, alguns até oficiais de altas patentes,
ocupantes de cargos elevados dentro do Exército. Durante o período que compreendeu as
vésperas e o desenrolar da Primeira Guerra Mundial houve uma valorização dos assuntos
militares publicados na revista.
O grupo ligado à revista A Defesa Nacional era constantemente criticado por civis e
militares simpáticos aos franceses. Ao rebater as críticas apontavam que os francófilos as
faziam baseados em uma afinidade idealizada entre franceses e brasileiros, a qual era quase
tão grande quanto a entre brasileiros e alemães. Defendiam que as escolhas feitas em relação à
modernização do Exército deveriam ser estratégicas e especificamente militares, e não
apoiadas em simpatias e falsas impressões. Se os armamentos alemães eram melhores, então,

183
Como já visto, os Jovens Turcos foram veemente defensores do serviço militar obrigatório.
157

deveriam ser os escolhidos, em detrimento dos franceses. Para fundamentar a sua


argumentação, publicavam, por exemplo, várias análises baseadas em comparações técnicas
entre o armamento francês e o alemão. (LUNA, 2011, p. 220)
Com o desenrolar da Primeira Guerra Mundial, uma das propostas reformistas dos
Jovens Turcos tornou-se improvável: a contratação de uma missão militar de instrução alemã.
Uma sucessão de fatos que levou ao afundamento de navios brasileiros em águas nacionais e
internacionais iria tirar o Brasil da sua condição de neutralidade em relação ao conflito.
Meses após o início da guerra, a Inglaterra estabeleceu um bloqueio naval sobre a
Alemanha e os países neutros na Europa, com uma clara intenção de prejudicar o comércio
marítimo alemão. Obviamente, essa decisão trouxe sérias consequências à economia
brasileira, uma vez que o país germânico era, como já visto, um dos principais parceiros
econômicos brasileiros. Conforme aponta Vinhosa (2015, p. 34-40), o bloqueio inglês
impactou diretamente as exportações brasileiras de café, uma vez que esse produto passou a
ser considerado contrabando de guerra pelos ingleses.
A resposta da Alemanha não tardaria a vir, em fevereiro de 1915, também em forma
de bloqueio dos mares no entorno da ilha britânica e da Irlanda, com o objetivo de sufocar a
economia da Grã-Bretanha. Devido à inferioridade da esquadra germânica em relação à
Marinha Real inglesa, a reação alemã se deu com o uso intenso da guerra submarina,
interrompida em 1916184, mas, retomada em 1917, quando a Alemanha comunicou ao mundo
o bloqueio das Ilhas Britânicas e da França e alertou que a passagem de navios das nações
neutras pelo Canal da Mancha, Mar do Norte, Mar da Irlanda e Mar Mediterrâneo se daria por
conta e risco de cada país. (VINHOSA, 2015, p. 80-82)
Assim como havia acontecido por ocasião do bloqueio inglês, o governo brasileiro
sentiu pesadamente, na economia nacional, o impacto da nova política de bloqueio naval
imposta pelos alemães, uma vez que o País dependia essencialmente da exportação de café
para a Europa, principalmente para a Inglaterra e a França.
Embora o Brasil não considerasse o café como um produto de guerra, a Alemanha
entendia que o seu transporte para seus inimigos era um contrabando e, por isso, qualquer
ataque aos navios brasileiros seria justificável. O Governo brasileiro protestou veementemente
contra o anúncio do bloqueio alemão, por meio de uma mensagem oficial assinada pelo

184
Em 7 de maio de 1915, um submarino alemão torpedeou e afundou o transatlântico britânico Lusitania, na
costa da Irlanda. O navio era proveniente da Nova York e tinha como destino Liverpool. Dos 1.200 mortos no
trágico evento, 128 eram norte-americanos. O presidente dos EUA, Woodrow Wilson, considerou a tragédia uma
afronta ao país norte-americano e exigiu reparações da Alemanha. O kaiser, temendo a entrada dos EUA na
guerra, com todo o seu poderio, recuou na campanha submarina. Entretanto, em 1917 a ação submarina alemã
recrudesceria, novamente. (DARÓZ, 2016, p. 55)
158

Chanceler Lauro Müller, em 6 de fevereiro de 1917. Na nota, o governo do Brasil considerava


o bloqueio “nem regular, nem eficaz e [...] contrário aos princípios de direito e às regras
convencionais estabelecidas para as operações militares” (HORNE, 1923, p. 18), ao passo que
imputava ao governo alemão a “responsabilidade por todos os atos que envolvam cidadãos
brasileiros, mercadorias, ou navios brasileiros e, que, comprovadamente, tenham sido
cometidos em desacordo [...] das convenções assinadas por Brasil e Alemanha” (HORNE,
1923, p. 18-19).
Como lembra Daróz (2016, p. 87), o recrudescimento da campanha submarina alemã,
a partir de 1917, provocou o afundamento e a avaria de onze navios mercantes que
navegavam no Atlântico sob a bandeira norte-americana. Com isso, os EUA, cuja sociedade
já era favorável a um engajamento do país ao lado das nações da Entente, desde o
afundamento do transatlântico britânico Lusitania, em 1915, deixou de lado a sua posição
isolacionista e declarou guerra à Alemanha e às potências centrais em abril de 1917185. A
decisão norte-americana teve reflexos no Brasil, devido ao alinhamento político do País aos
EUA, decorrente da Doutrina Monroe. Apesar de ter mantido a neutralidade brasileira, o
presidente Wenceslau Braz afirmou que apoiaria os Estados Unidos em qualquer evento
relacionado à guerra na Europa. Entretanto, a guerra não tardaria em fazer vítimas brasileiras
e tirar o País da condição de nação neutra diante do conflito.
No dia 4 de abril de 1917, o navio mercante Paraná, que se deslocava do Rio de
Janeiro para o porto de Havre, na França, com uma carga de café e feijão, foi torpedeado por
um submarino alemão e afundou no Canal da Mancha. Três tripulantes morreram no episódio,
o que causou uma grande comoção na população brasileira. O afundamento de navio gerou
uma intensa onda de protestos e diversas manifestações públicas a favor da declaração de
guerra ocorreram em toda a Nação. A campanha militarista aprofundou-se e uma reação
violenta contra instituições alemãs no Brasil, como banco, escolas, restaurantes e casas
comerciais, ocorreu. No dia 11 de abril, o País rompeu relações diplomáticas com a Alemanha
e os diplomatas alemães foram expulsos do território brasileiro. (DARÓZ, 2016, p. 90-92)
Apesar desse fato, e da pressão da imprensa e dos políticos de oposição, que
consideraram a medida demasiadamente branda, uma posição de cautela foi adotada pelo
governo brasileiro, que manteve a neutralidade no conflito. O chanceler Lauro Müller, um
descendente de alemães, foi acusado de germanofilia, o que tornou insustentável a sua
permanência no cargo, sendo substituído por Nilo Peçanha, um defensor da causa aliada e

185
Luna (2011, p. 230) lembra que a entrada dos EUA na guerra também foi decorrente das implicações
econômicas que o bloqueio naval alemão provocou na economia norte-americana.
159

admirador de Rui Barbosa. Logo o novo chanceler mostrou os novos rumos da política
externa brasileira, quando, em 10 de maio, encaminhou um telegrama aos EUA, declarando a
intenção de estreitar as relações com o país norte-americano. (DARÓZ, 2016, p. 90-92;
LUNA, 2011, p. 229-230)
Entretanto, como lembra Daróz (2016, p. 92), apesar de todo a pressão popular a favor
da guerra, um movimento em sentido contrário, formado por operários e sindicalistas
anarquistas surgiu no Brasil, posicionou-se contra a guerra e acusou o governo de estar
desviando a atenção da população dos problemas sociais internos do País. Em algumas
ocasiões, esses grupos entraram em choque com os nacionalistas, que defendiam a entrada
brasileira na guerra. Uma greve geral foi deflagrada e o País lançado em um clima de
desordem e instabilidade, sendo o movimento reprimido violentamente pelo governo.
Na verdade, é possível buscar as origens dessa resistência na análise que Castro (2012,
58-62) faz do “antimilitarismo” que surgiu em meio ao movimento operário, em particular os
anarquistas, por ocasião dos debates em torno do serviço militar obrigatório, a partir de 1908,
e que culminou na criação da Liga Antimilitarista Brasileira, no mesmo ano.
Nos meses seguintes, mais navios brasileiros seriam alvos de torpedeamento por
submarinos alemães. Na noite de 20 de maio, quando navegava em águas francesas, no Canal
da Mancha, o cargueiro Tijuca foi atingido. Um marinheiro perdeu a vida no evento. Em 22
de maio, o cargueiro Lapa foi interceptado e afundado pelos alemães na costa espanhola.
Felizmente, ninguém morreu nessa ocasião. Os dois navios brasileiros estavam transportando
sacas de café para a França. (VINHOSA, 2015, p. 82-95)
O afundamento desses navios levou ao fim da neutralidade brasileira diante do
conflito. Em 2 de junho de 1917, por meio do Decreto nº 12.501, o governo fez o confisco de
navios alemães que se encontravam retidos nos portos brasileiros desde 1914, o que provocou
protestos da embaixada alemã dos Países Baixos, representante dos interesses junto ao Brasil
após o rompimento das relações diplomáticas entre os dois países. O chanceler Nilo Peçanha
respondeu que a represália se sustentava nas regras do direito internacional. No dia 4 de
junho, a embaixada brasileira em Washington comunicou ao Secretário de Estado dos EUA a
revogação do estado de neutralidade e o rompimento dos laços diplomáticos com a Alemanha.
Além disso, o presidente Wenceslau Braz também autorizou o uso dos portos brasileiros por
navios de guerra norte-americanos, que, de imediato, aproveitaram a oferta para marcar
presença e demonstrar força. Em junho, cinco cruzadores norte-americanos aportaram no Rio
de Janeiro, onde foram recebidos festivamente pelas autoridades brasileiras. Dessa forma, o
governo brasileiro alinhava-se de vez com a política dos EUA. (VINHOSA, 2015, p. 82-95)
160

Capella (1985, p. 42-47) lembra que os ataques alemães aos navios brasileiros
recrudesceram os debates da elite letrada brasileira a respeito da posição que o governo
brasileiro deveria tomar diante da guerra que se aproximava do País. De um lado, os pró-
aliados, como Rui Barbosa, Graça Aranha, Olavo Bilac, Coelho Neto e Pandiá Calógeras,
dentre outros. De outro, os germanófilos, como os Jovens Turcos, Lima Barreto, Capistrano
de Abreu, Vicente de Carvalho e Dunshee Abranches. E, ainda existiam os neutros, como
Assis Chateaubriand, Azevedo Amaral, Jackson Figueiredo e Alberto Torres, que alegava ser
melhor para o Brasil e para as nações sul-americanas um empate entre os países beligerantes,
porque só assim haveria um enfraquecimento do imperialismo das nações europeias. Luna
(2011, p. 231) destaca, ainda, que a campanha pró-Alemanha contava, também, com a
publicação de pequenos jornais, pelas colônias germânicas existentes no Brasil,
principalmente as da região sul do País.
Em 18 de outubro, o quarto navio brasileiro foi torpedeado por um submarino alemão
em águas espanholas. Dessa vez, o cargueiro Macau, que também transportava café para a
França. Curiosamente, esse era um dos navios confiscados dos alemães em junho. A notícia
do afundamento do Macau chegou ao País somente cinco dias depois, gerando uma forte
revolta da população, que passou a pressionar o governo brasileiro pela entrada do Brasil no
conflito europeu. Dois dias depois, em 25 de outubro, Wenceslau Braz encaminhou ao
Congresso Nacional, uma mensagem em que demonstrava a sua disposição em romper a
neutralidade e reconhecendo que, na verdade, o Brasil já se encontrava em guerra. No dia
seguinte, após um amplo debate entre os deputados e senadores da República, o Congresso
publicou o Decreto nº 3.361, reconhecendo o estado de guerra iniciado pelo Império Alemão
contra o Brasil. Ao mesmo tempo, autorizava o Presidente da República a “tomar todas as
medidas de defesa e segurança pública que julgar necessárias”186. Dessa maneira, entrava o
Brasil na Primeira Guerra Mundial. (VINHOSA, 2015, p. 82-95)
Luna (2011, p. 232) destaca, ainda, a forma lacônica com que foi recebida pelos
germanófilos, em especial os editores da revista A Defesa Nacional, a notícia do estado de
guerra entre Brasil e Alemanha. Se a contratação de uma missão militar alemã já estava
difícil, com a derrota da Alemanha na guerra, ficou inexequível. Com isso, a França, que,
desde os prenúncios do conflito, já se empenhava em malograr o envio de uma missão militar
germânica ao Brasil, teria sucesso em 1919, com a contratação pelo governo brasileiro da
Missão Militar Francesa.

186
Decreto nº 3.361, de 26 de outubro de 1917.
161

Reconhecido o estado de beligerância, era o momento de decidir como o Brasil


contribuiria à causa aliada. Entre 20 de novembro e 3 de dezembro de 1917 ocorreu, em Paris,
a Conferência Interaliada, da qual participou o ex-ministro do Exterior Olyntho de Magalhães,
representante do governo brasileiro. Ficou decidido, no encontro, que a participação do Brasil
na guerra se daria por meio da colaboração no abastecimento de gêneros aos aliados. O País
também abriria os portos brasileiros às nações aliadas, enviaria aviadores navais para a
Inglaterra e uma missão médica militar para a França, que ficou responsável pela montagem
de um hospital para o atendimento a feridos de guerra em Paris. Além disso, uma divisão
naval brasileira auxiliaria no patrulhamento e no combate a submarinos alemães no Atlântico
Sul, mais precisamente na costa da África. No entanto, a gripe espanhola “atacou” os navios
brasileiros antes mesmo deles aportarem em seu destino final, o porto de Dacar.187
(VINHOSA, 2015, p. 82-95)
Com a entrada na guerra ao lado da Entente, e a consequente aproximação com a
França, o Brasil aproveitou para alinhar a sua doutrina com a dos franceses e, também,
adquirir material bélico. Como lembra Daróz (2016, p. 144-145), a declaração de guerra
interrompeu o fluxo de material bélico e o intercambio militar com a Alemanha, deixando o
Exército brasileiro sem uma fonte capaz de atender às suas necessidades de suprimento e
equipamento, o que o fez procurar por novos fornecedores. Essa situação tornava-se mais
grave em decorrência da inexpressiva indústria bélica brasileira, incapaz de suprir as
necessidades das Forças Armadas.
Sendo assim, por uma iniciativa do general Caetano de Faria, Ministro da Guerra, foi
criada a Comissão de Estudos de Operações e Aquisição de Material na França188, composta
por vinte e seis oficiais e chefiada pelo general Napoleão Felippe Aché, um militar experiente
que, como capitão, lutara na Campanha do Contestado. Dentre os oficiais designados, estava
José Pessoa. Daróz (2016, p. 145), resume a finalidade da Missão:

A Missão Aché, como ficou conhecida a Comissão de Estudos, tinha por objetivo
reunir a maior quantidade de conhecimentos no tocante à doutrina militar francesa,
inclusive com a participação de oficiais brasileiros em combate, bem como a
aquisição do material bélico necessário para remodelar o Exército brasileiro segundo
os padrões da força terrestre daquele país.

187
Rodrigues Alves, recém eleito Presidente, encomendou ao ex-ministro da Fazenda Pandiá Calógeras um
estudo confidencial dos problemas do governo, para orientar a nova administração, que só ficou pronto no início
de 1918. Nesse estudo, Calógeras previa o envio de um grande corpo expedicionário brasileiro, formado pelo
Exército e pela Marinha, para combater na França. O custo desse corpo expedicionário seria financiado por
empréstimos norte-americanos e britânicos, que seriam quitados com compensações pagas pelas nações
derrotadas. O rumo tomado pela guerra e as circunstâncias políticas brasileiras impediram que se deliberasse
seriamente sobre essa ideia. (McCANN, 2009, p. 283)
188
A Comissão foi criada por meio do Aviso Reservado nº 914, de 21 de dezembro de 1917.
162

De um modo geral, os integrantes da Missão Aché visitaram importantes sítios e


instalações militares do Exército francês. Rodrigues (2010, p. 108) aponta que alguns oficiais
integraram unidades de combate francesas por cerca de três meses, de setembro a novembro
de 1918. Muitos desses oficiais foram condecorados e promovidos por atos de bravura em
combate. Assim que chegaram à Europa, antes de serem incorporados à essas unidades, esses
oficiais realizaram estágios em escolas militares do Exército francês, dentre eles a renomada
Saint-Cyr, ocasião em que começaram a atualizar os seus conhecimentos doutrinários
relativos às suas especialidades. O autor lembra, ainda, a importância que a Missão teve para
o julgamento e a análise que instruíram o processo de contratação da Missão Militar Francesa
de instrução, a partir de 1919.

Quadro 2 – Comissão de Estudos de Operações e Aquisições de Material na França.


Subcomissões Militares
Subchefe da Comissão Tenente-Coronel José Fernandes Leite de Castro
Secretário Segundo-Tenente Octávio Monteiro Aché
Major João Batista de Oliveira Brandão Júnior
Serviço de Estado-Maior
Primeiro-Tenente Álvaro Áreas
Serviço de Administração Primeiro-Tenente José Nery Eubanck da Câmara
Serviço de veterinária Major Joaquim Moreira Sampaio
Primeiro-Tenente Alzir Mendes Rodrigues Lima
Aviação Primeiro-Tenente Mário Barbedo
Segundo-Tenente Bento Ribeiro Carneiro Monteiro
Primeiro-Tenente Demócrito Barbosa
Artilharia Primeiro-Tenente Sebastião do Rego Barros
Segundo-Tenente Carlos de Andrade Neves
Major Tertuliano de Albuquerque Potyguara
Infantaria Capitão Praxedes Theodulo Silva Júnior
Segundo-Tenente Onofre Muniz Gomes de Lima
Major Firmino Antonio Borba
Primeiro-Tenente Izauro Reguera
Cavalaria
Primeiro-Tenente Christóvão de Castro Barcellos
Primeiro-Tenente José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque
Major Rodrigo de Araújo Aragão Bocão
Capitão Cleómenes Lopes de Siqueira Filho
Capitão João Affonso de Souza Ferreira
Corpo de Saúde Capitão Alarico Damázio
Capitão João Florentino Moreira
Capitão Manoel esteves de Assis
Primeiro-Tenente Carlos da Rocha Fernandes
Fonte: Rodrigues, 2010.
163

Imagem 12 – Integrantes da Missão Aché na França (ministro Olintho Magalhães, em trajes civis; general Aché
à sua esquerda; José Pessoa indicado por uma seta), 1918.

Fonte: Acervo do Museu da República. Coleção Cristóvão Barcellos.

José Pessoa faz um longo relato, em sua autobiografia, dos momentos passados nos
campos de batalha europeus, durante a Primeira Guerra Mundial. A começar pela viagem feita
do Rio de Janeiro à França, juntamente com os demais integrantes da Missão Aché.
Curiosamente, ele não faz menção à sua participação na Comissão de Estudos de
Operações e Aquisição de Material. Tampouco, que a viagem a que se refere, tendo por
destino a Europa, foi realizada em companhia dos integrantes da Comissão. E, sim, que se
tratava da sua viagem para combater, voluntariamente, na guerra. José Pessoa também não se
prende a datas em sua narrativa. Portanto, não foi possível determinar, em muitos momentos,
os períodos exatos em que os fatos ocorreram. As datas citadas nos próximos parágrafos
foram retiradas da Fé de Ofício de José Pessoa e do histórico do 4º Regimento de Dragões
francês, o que permitiu inferir o momento em que aconteceram determinados fatos vividos
pelo personagem.

4.3.1 Do Rio de Janeiro à França – a viagem para a Europa

José Pessoa partiu do porto do Rio de Janeiro, com destino a Londres, no dia 9 de
janeiro de 1918, a bordo do transatlântico Darro, da armadora inglesa Royal Mail Steam
164

Packet (RMSP). Antes, porém, de seguir para a capital inglesa, o navio dirigiu-se para a costa
sul-africana, ancorando em Freetown, à época capital da possessão inglesa de Serra Leoa.
Naquele porto, o Darro foi reabastecido e incorporado a um comboio formado por cerca de
vinte navios mercantes, que seriam escoltados até Londres por uma esquadra inglesa, formada
por cinco contratorpedeiros e um cruzador ligeiro da Marinha Real britânica.
Pessoa narra que, já na partida, a ansiedade tomava conta dos passageiros do Darro,
devido à campanha submarina alemã que ocorria no Atlântico contra a navegação comercial
aliada. Durante todo o trajeto, viajaram afastados da costa africana, para escapar dos ataques
alemães. À noite, não era permitido acender as luzes da embarcação, tampouco fumar.
Também não era permitido a emissão de qualquer tipo de som, podendo conversar somente
em tom baixo e com a voz abafada. Não havia qualquer tipo de divertimento. Os dias eram
igualmente monótonos. Os passageiros ficavam sempre no tombadilho do navio, com os
petrechos de salvamento à mão e com os olhos no horizonte, à procura de algum submarino
inimigo. (ALBUQUERQUE, Pasta I, p. 28-29)
Entretanto, a monotonia da viagem seria quebrada em duas ocasiões. Na primeira, na
altura do arquipélago das Canárias, entre as ilhas de Palma e Tenerife, o navio transporte
francês Bayard, que transportava uma grande carga de substâncias explosivas, foi atingido por
torpedos alemães. José Pessoa conta que se encontrava no convés do Darro, em companhia de
outros oficiais brasileiros que também iriam para a guerra189, quando avistaram os rastros dos
torpedos alemães em direção ao navio francês. Pouco tempo depois, uma grande explosão foi
ouvida no meio do comboio. Em pouco tempo o Bayard afundou envolto em chamas, ao
mesmo tempo em que muitos tripulantes do navio eram vistos se debatendo na água e
tentando se agarrar nos destroços. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 29a)
Segundo Pessoa, a resposta da esquadra inglesa que escoltava o comboio foi imediata.
Em uma manobra rápida, os navios ingleses, assim como as peças de artilharia instaladas no
Darro, conseguiram engajar o submarino alemão que foi atingido e afundou no Atlântico. Os
botes de socorro conseguiram salvar poucos náufragos do cargueiro francês. Os do Darro
recolheram apenas três sobreviventes.
O outro evento ocorreu já na costa inglesa, na chegada ao porto de Southampton. O
transatlântico Drina, da mesma classe do Darro, e também pertencente à RMSP, foi
torpedeado e afundou, sem fazer vítimas. No entanto, ao contrário do que ocorreu nas

189
Supõe-se que esses militares eram integrantes da Comissão de Estudos de Operações e Aquisição de Material.
165

Canárias, o submarino alemão não foi localizado e conseguiu fugir. (ALBUQUERQUE,


1953, Pasta I, p. 29a-30)
A chegada à Inglaterra se deu no dia 8 de fevereiro, de onde partiu para a França,
também por meio naval, pelo Mar do Norte. A chegada definitiva a Paris se deu no dia 15
daquele mesmo mês. No dia 8 de março apresentou-se ao chefe da Comissão de Estudos,
general Aché. No dia 25 de março foi nomeado para a subcomissão de Cavalaria, na qual
desempenharia as suas funções na Comissão. Em 13 de abril, apresentou-se ao chefe do
Estado-Maior do Exército francês. (FÉ DE OFÍCIO DO MARECHAL JOSÉ PESSOA, 2016)
O restante do mês de abril foi tomado por visitas a instalações militares e
reconhecimentos das áreas de operações do Exército francês. De maio a julho, José Pessoa
frequentou o curso da Academia de Saint-Cyr, juntamente com todos os demais integrantes da
Comissão de Estudo. Como já citado, a passagem por Saint-Cyr tinha a finalidade de atualizar
os oficiais brasileiros ao que havia de mais moderno em termos de conhecimentos
doutrinários para a guerra. Em 29 de maio, José Pessoa foi promovido a primeiro-tenente. Em
22 de agosto, foi passado à disposição do 2º Corpo de Cavalaria do Exército francês, tendo se
apresentado em Sateville Lès Rouen, de onde partiu para o front, ficando adido ao 4º
Regimento de Dragões, unidade subalterna ao 2º Corpo de Cavalaria. (FÉ DE OFÍCIO DO
MARECHAL JOSÉ PESSOA, 2016)
A distribuição dos oficiais brasileiros nas unidades francesas não se deu ao acaso.
Como aponta Pessoa, antes mesmo da Comissão de Estudos iniciar os seus trabalhos, uma
troca de mensagens realizada entre o general Buat, chefe do Quartel-General do Estado-Maior
do Exército francês, e o general Aché, chefe da Comissão, decidiu o destino dos seus
integrantes. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 30a) A incorporação dos membros da
Missão Aché às unidades francesas foi noticiada pelos jornais da Capital Federal, como o
Correio da Manhã (edição de 3 de setembro de 1918), O Paiz (edição de 3 de setembro de
1918), Jornal do Brazil (edição de 5 de setembro de 1918) e O Malho (edição de 7 de
setembro de 1918).

4.3.2 Nos campos de batalha belgas

O 4º Regimento de Dragões (4º RD) estava enquadrado pela 2ª Divisão de Cavalaria


(2ª DC) do Exército francês, comandada pelo general Lasson. No ano de 1918 faziam parte,
ainda, da 2ª DC os 8º, 12º e 31º Regimentos de Dragões. A 2ª DC fazia parte do 2º Corpo de
166

Cavalaria (2º CCav), comandado pelo general Rabillot, juntamente com as 4ª e 6ª Divisões de
Cavalaria e a 2ª Divisão de Cavalaria a Pé (2ª DCP)190. 191
O regimento de Dragões francês era uma unidade típica de Cavalaria. Sua organização
consistia em um esquadrão de Estado-Maior e quatro esquadrões operacionais, a cavalo192.
Cada esquadrão operacional era constituído por quatro pelotões. Comandava o 4º Regimento,
em 1918, o coronel De Fournas. Os esquadrões eram comandados por capitães, e os pelotões
por tenentes. José Pessoa compôs o efetivo do 1º Esquadrão, sob o comando do capitão De
Vrie, um veterano do conflito, que estava servindo no 4º de Dragões desde 1914. O efetivo de
um esquadrão variava de 130 a 150 homens. O pelotão tinha entre 40 e 50 homens.193
O 4º Regimento de Dragões participou das principais ações empreendidas pela 2ª DC
na Primeira Guerra Mundial. Atuando na região central da Frente Ocidental entre 1914 e
1915, teve as suas ações deslocadas para o norte, a partir de 1916. Dentre os grandes eventos
bélicos de que tomou parte, estão: as batalhas de Sarrembourg e Grand Couronné, em 1914; a
2ª Batalha de Champagne, em 1915; a Batalha do Somme, em 1916; e as 3ª Batalha de
Flandres, 2ª Batalha de La Manne e a 3ª Batalha de Picardie, em 1918.194

190
A Cavalaria a Pé deslocava-se a cavalo, mas, combatia a pé.
191
O Ministério da Defesa francês mantém um extenso arquivo histórico digitalizado, no qual é possível
encontrar todas as ordens de marcha e operações das unidades e grandes unidades militares francesas que
combateram na Primeira Guerra Mundial. Em relação aos regimentos, esses documentos trazem o registro dos
oficiais que comandaram suas frações em combate. Infelizmente, de todos os regimentos que estavam
subordinados ao 2º Corpo de Cavalaria, somente os arquivos do ano de 1918 em diante, do 4º Regimento, não
estão disponíveis.
Cf.: Ministério da Guerra da França. Os Exércitos Franceses na Grande Guerra, Tomo X, 1923 e os Anexos do
Tomo VII, de Os Exércitos Franceses na Grande Guerra.
192
Não obstante, os controles de efetivos, previstos nas ordens de marchas, registrarem a existência de cavalos,
na razão de um por home, por vezes eram previstos deslocamentos de pelotões por meio motorizado para a frente
de combate. Cf.: Jornal de Marchas e Operações do 4º Regimento de Dragões, 1917.
193
Essa configuração dos regimentos de Dragões do Exército francês na Primeira Guerra Mundial é encontrada
nas ordens de operações de todos os regimentos, entre os anos de 1914 e 1919. As informações dos comandos
foram retiradas dos registros de marcha de dezembro de 1917, do 4º Regimento de Dragões. Como esses
personagens são citados por José Pessoa, em suas memórias, infere-se que exerceram os mesmos comandos no
ano de 1918. Cf.: Jornal de Marchas e Operações do 4º Regimento de Dragões, 1914-1917.
194
Ministério da Guerra da França. Os Exércitos Franceses na Grande Guerra, 1923.
167

Gráfico 2 – Enquadramento do Esquadrão a que pertenceu José Pessoa no Exército Francês, 1918.

2º CCav
Gen Rabillot

2ª DC
4ª DC 6ª DC 2ª DCP
Gen Lasson

4º RD
8º RD 12º RD 31º RD
Cel De Fournas

EM

1º Esq
Cap De Vries

2º Esq

3º Esq

4º Esq

Fonte: Ministério da Guerra da França, 1923.

Entre julho e novembro, os exércitos aliados realizaram uma sucessão de operações


ofensivas na Frente Ocidental, cada uma com objetivos limitados, o que permitiu-lhes
eliminar as aquisições feitas pelos alemães durante a primavera europeia. Essas ações
eliminaram a vontade alemã de resistir. Ao longo desses meses, os aliados superaram os
alemães tanto no nível tático como no estratégico. A partir do final de agosto, ocorreram as
principais ações da ofensiva, com a Frente dividida em quatro setores: a região dos Flandres, à
cargo do Exército belga195; entre o sul da Bélgica e o Rio Somme, sob a responsabilidade dos
britânicos; ao sul do Somme e à leste de Verdum, a cargo dos franceses; e, a oeste de Verdum,
o exército norte-americano. (SONDHAUS, 2003, s.p.)
Nesse esforço de guerra, o VI Exército francês, sob o comando do general Degoutte,
do qual fazia parte o 2º Corpo de Cavalaria, foi passado à disposição do Rei Alberto I, da
Bélgica, para os combates na região dos Flandres. Ao lado dos belgas atuou, ainda, o II
Exército britânico. Segundo Sondhaus (2003, s.p.), esse corpo de exércitos foi apenas

195
Em 4 de agosto de 1914, no início das operações militares na Frente Ocidental, os alemães tomaram Liège,
iniciando, assim, a invasão do território belga. Tal ação ocorreu após o governo belga ter negado à Alemanha o
direito de trânsito pelo seu território. A intenção dos alemães era, pelo Norte, entrar em território francês
utilizando o país belga. (WILLMOTT, 2008, p. 40)
168

comandado nominalmente pelo rei belga, pois, de fato, o comando das ações foi de
Degoutte.196 Sendo assim, em 18 de setembro, o 2º CCav iniciou o seu deslocamento para as
cidades de Proven e Rousbrugge-Haringe, onde seria reposicionado o seu quartel-general.197
José Pessoa apresentou-se no 4º RD, na região de Beauvais, no dia 5 de setembro de
1918, em plena Ofensiva dos Cem Dias198. Relata ter sentido uma grande decepção por
nenhuma função militar ter sido atribuída aos estrangeiros voluntários. Mais tarde, foi
compreender que se tratava de uma medida de justa cautela e previdência adotada pelo
comando francês. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 25)
A apresentação no início de setembro se deu a tempo de permitir-lhe acompanhar, a
partir de 18 de setembro, o deslocamento do 4º RD para o Flandres, o que ocorreu à esteira da
2ª Divisão de Cavalaria. Durante o deslocamento, nas longas e contínuas cavalgadas, os
militares do Regimento, além das atividades de rotina, limitavam-se a conduzir as suas
montarias, ora a pé, ao passo, ora montado, ao trote, acompanhando o conjunto da 2ª DC. À
noite, quando a marcha não prosseguia, a tropa estacionava e realizava um bivaque199, sempre
em posição de alerta, permanecendo os cavalos encilhados. Após nove extenuantes jornadas,
o Regimento atravessou a fronteira franco-belga em Neuve-Chapelle, atingindo a região de
Herzelle. Nessa região ficou concentrada a Cavalaria francesa. A missão do 4º RD era
acompanhar o ataque belga em direção à região de La Lys, que iniciaria em 29 de setembro.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 25; HISTÓRICO DO 4º REGIMENTO DE DRAGÕES,
1921, p. 62)
Em 30 de setembro, o Exército belga, apoiado pelos exércitos francês e britânico,
atravessou a floresta de Houtulst e atingiram o cume do monte Passchendaele. Na noite desse
dia, o 4º RD bivacou a oeste de Ypres, em um terreno repleto de buracos cheios de água,
abertos pelas granadas da artilharia inimiga. No dia 1 de outubro deslocou-se até a frente de
combate. A marcha se deu por uma estrada enlameada, previamente demarcada pelas tropas
aliadas em meio ao campo de batalha, sob chuva e neve incessantes. Esse caminho era o único

196
Ao Norte, a campanha conduzida por Alberto I, que ficou conhecida na História como a 5ª Batalha de Ypres
(28 de setembro a 11 de novembro), na verdade, começou na cidade em ruínas, no oeste de Flandres, mas
continuou metodicamente para o nordeste, superando os IV e VI exércitos alemães e libertando os distritos
costeiros da Bélgica ao avançar para a Antuérpia. No momento do armistício o exército belga tinha feito a sua
frente avançar 72 km a leste de seus pontos de partida. Porém, não atingiram o seu objetivo final, que era a
Antuérpia, que ainda permanecia nas mãos dos alemães. (SONDHAUS, 2003, s.p.)
197
Ministério da Guerra da França. Os Exércitos Franceses na Grande Guerra, 1923 e 1938.
198
Ofensiva dos Cem Dias foi como ficou conhecida a ofensiva empreendida pelos aliados a partir do final de
agosto de 1918.
199
O bivaque constitui-se em um estacionamento provisório da tropa em marcha. O pernoite se dá a céu aberto,
ou sob a proteção de algum abrigo natural.
169

meio de comunicação com a primeira linha do combate. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p.


25; HISTÓRICO DO 4º REGIMENTO DE DRAGÕES, 1921, p. 62)
Finalmente, às 14 horas do dia 1 de outubro, o Regimento atingiu o cruzamento do
Passchendaele, de onde foi possível vislumbrar o estado caótico do campo de batalha:

...uma imensa bacia alagada, emaranhada de arame farpado, tornando a circulação


singularmente difícil e precária; bem próxima de nós a cidade de Roulers, em poder
do inimigo e debatendo-se numa obstinada resistência., já quase toda destruída pelo
incêndio e as explosões dos projéteis de todos os calibres que não cessavam de cair
sobre ela. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 25-26)

O 4º de Dragões foi prontamente empregado. Mas, não obteve sucesso ao tentar


romper as linhas da infantaria inimiga. Sendo assim, parou durante a noite, “sob o troar
incessante dos canhões e o ruído infernal das demais armas”. No dia seguinte, ao alvorecer,
José Pessoa saiu em uma missão de reconhecimento acompanhando o tenente Delpon,
também do 4º RD. Ao retornar, participou de uma reunião em que o capitão De Vrie,
comandante do seu esquadrão, leu uma ordem de operações do comando de Cavalaria e
distribuiu a cada um dos oficiais a missão que teriam que cumprir nas próximas ações de
combate. Ao dirigir-se para o oficial brasileiro, De Vires falou: “E você, Sr. Pessoa, sem
comando, sem missão”. Pessoa relata que sentiu o terreno fugir-lhe aos pés. Considerou a
atitude do comandante de esquadrão uma atitude de desconfiança, que lhe atingiu os brios de
militar. Entretanto, inconformado com a frase, que considerou ultrajante à sua farda e seu
posto, respondeu ao capitão: “no meu Exército, quando um oficial não tem comando, combate
como soldado e que, desse modo, seguiria eu também para a frente, compartilhando da sorte
do meu Esquadrão e de meus companheiros”. “Se você quiser”, foi a resposta seca de De
Vries. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 26)
Após a distribuição das ordens, o esquadrão ultimou os preparativos para a missão que
iria cumprir, partindo pouco tempo depois para o engajamento do inimigo. José Pessoa relata
que o Regimento conseguiu levar a termo a missão que lhe fora dada, apesar do grande
número de baixas que sofreu. Na noite daquele dia, foram substituídos na frente de combate, e
puderam, no dia 3 de outubro, retornar à área de retaguarda, ocupando a área de Kainse-
Hoffland, onde permaneceram até o dia 14 de outubro. Na manhã seguinte ao retraimento, o
coronel De Fournas, comandante do Regimento, fez a crítica da ação desenvolvida na frente
de combate. Nessa ocasião, elogiou o desempenho do 1º Esquadrão e dirigindo-se para
Pessoa, apertou-lhe fortemente a mão, dizendo: “Sr. Pessoa, você fez bem o seu papel”.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 27)
170

Imagem 13 – José Pessoa no posto de tenente, envergando o uniforme do 4º


Regimento de Dragões durante a Primeira Guerra Mundial (sem data definida).

Fonte: Acervo José Pessoa (CPDOC FGV) – JPFOTO060_1.

Um dia após ser elogiado pelo comandante do Regimento, José Pessoa foi novamente
surpreendido, quando, durante a leitura do boletim da unidade, ouviu seu nome ser citado para
receber a Cruz de Guerra200. Também, devido a uma série de mudanças nos comandos dos
pelotões, assumiria o comando de um pelotão do 1º Esquadrão. Terminada a leitura, o capitão
De Vries conduziu-o pelo braço à presença dos soldados do 3º Pelotão, a quem dirigiu a
palavra: “Camaradas, o tenente Pessoa será de hoje em diante o comandante do vosso
pelotão”. Prontamente todos se perfilaram e prestaram a continência a Pessoa. Do momento,
considerado por José Pessoa um dos mais emocionantes da sua vida, lembra:

Lemos no rosto viril daqueles valentes soldados, a simpatia confinante e sincera que
une os lutadores de uma mesma causa, caldeados no fragor das pelejas em que se
expõe a vida pela vitória de um ideal comum. E esta confiança e simpatia nunca me
abandonaram até o fim da peleja, em 11 de novembro de 1918, quando deixei, na
mais tocante das despedidas, o meu 4º Regimento de Dragões, tradição e glória da
cavalaria francesa. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 27)

200
A Cruz de Guerra foi criada por lei pelo presidente da República da França em 8 de abril de 1915. Destinava-
se a condecorar os atos individuais de bravura dos militares franceses durante a Primeira Guerra Mundial. A
condecoração de José Pessoa foi noticiada em dois jornais da Capital Federal: a Gazeta de Notícias, de 5 de
novembro de 1918, e O Paiz, de 13 de novembro de 1918. Este último, além de noticiar o recebimento da
condecoração, ainda publicou um extenso texto com a trajetória militar de José Pessoa até a sua ida para a
guerra.
171

Câmara (2011, p. 62) aponta que Pessoa, durante a campanha do Flandres, comandou,
também, um pelotão formado por soldados turcos. Segundo um depoimento do brigadeiro
Pessoa (1984 apud CÂMARA, 2011, p. 62), filho de José Pessoa, essa experiência de
comando, em particular, havia impressionado sobremaneira o seu pai. A rusticidade e a
agressividade dos soldados turcos transformavam-nos em verdadeiras máquinas combatentes,
capazes de realizar atos de bravura inimagináveis. Por outro lado, uma atitude desses soldados
causou horror a José Pessoa. Era comum a esses combatentes, em um preito de profunda
admiração, ofertar a seus comandantes um colar feito com as orelhas cortadas das cabeças dos
inimigos que haviam acabado de vencer em encarniçados combates corpo a corpo.
A partir de 16 de outubro, o 4º RD passou a operar em estreita ligação com as tropas
de infantaria, executando patrulhas de reconhecimento nas linhas inimigas. Em 28 de outubro,
acompanhando o reposicionamento da 2ª DC, o Regimento mudou a sua área de
estacionamento para a região de Gitsberg. Em 10 de novembro, a unidade deslocou-se para
Landelede. Foi nessa pequena aldeia do Flandres que, à meia-noite, os militares ficaram
sabendo da assinatura do armistício que deu fim à Primeira Guerra Mundial. (HISTÓRICO
DO 4º REGIMENTO DE DRAGÕES, 1921, p. 63)
No dia 12 de novembro, o 4º RD deixou de integrar a 2ª DC e passou a integrar a
missão francesa próxima ao Exército britânico, deslocando-se para Roubaix. No dia 15 de
novembro a unidade foi dividida. O Estado-Maior, juntamente com os 1º e 2º Esquadrões
partiram em direção a Lille, instalando-se no distrito de Kléber. Como compunha o efetivo do
1º Esquadrão, José Pessoa permaneceu nessa localidade. O 3º Esquadrão foi para Tourcoing e
o 4º permaneceu em Roubaix. Permaneceu assim até o dia 26 de novembro, quando voltou a
fazer parte da 2ª DC. A partir dessa data iniciou o seu retraimento do front. Em meio ao
retorno para a França, José Pessoa foi desligado do efetivo do Regimento e em 26 de
dezembro apresentou-se à Comissão de Estudos, em Paris. (HISTÓRICO DO 4º
REGIMENTO DE DRAGÕES, 1921, p. 63-64)
Além da condecoração recebida, a atuação de José Pessoa no 4º Regimento de
Dragões foi motivo de elogios de toda a cadeia de comando a que estava subordinado,
publicados em sua Fé de Ofício e, as quais, ele faz questão de destacar em suas memórias. Do
capitão Devries, seu comandante de esquadrão foi reconhecido como um “oficial de valor [...]
um verdadeiro exemplo tanto pela nobreza do seu caráter, como pelo devotamento e grande
abnegação com que põe a sua espada a serviço da França” (FÉ DE OFÍCIO DO MARECHAL
JOSÉ PESSOA, 2016). O coronel De Fournas, comandante do 4º RD, em boletim da unidade,
elogiou-o no comando do pelotão, que “conduziu ao fogo em condições particularmente
172

delicadas e perigosas.” Também fez questão de ressaltar que José Pessoa, “distinguiu-se
sempre pela sua bravura e por ter solicitado permissão, por várias vezes, para, reconhecer as
primeiras linhas de infantaria, o que levou a efeito debaixo de fogos extremamente violentos”
(FÉ DE OFÍCIO DO MARECHAL JOSÉ PESSOA, 2016).
Também foi reconhecido pelos comandantes das grandes unidades a que estava
subordinado o 4º Regimento. O general Lasson, comandante da 2ª Divisão de Cavalaria, em
um extenso elogio, considerou-o um oficial “muito instruído, apaixonado pela profissão,
aproveitando todas as oportunidades para aperfeiçoar os seus conhecimentos militares” (FÉ
DE OFÍCIO DO MARECHAL JOSÉ PESSOA, 2016). Segue Lasson, “no comando de um
pelotão, provou ser possuidor de verdadeiras e sábias qualidades de comando e senso tático.
Ousado e brilhante no fogo [...] ofereceu-se várias vezes para cumprir missões perigosas” (FÉ
DE OFÍCIO DO MARECHAL JOSÉ PESSOA, 2016). Pelo general Rabillot, comandante do
2º Corpo de Cavalaria, foi considerado um “oficial ardente e trabalhador, que exerceu durante
vários meses o comando de seu posto no Exército francês em operações”. (FÉ DE OFÍCIO
DO MARECHAL JOSÉ PESSOA, 2016)
José Pessoa ainda foi promovido por bravura a capitão em janeiro de 1919, devido à
sua atuação nos campos de batalha do Flandres. A sua passagem pelo Exército francês seria
lembrada, ainda, anos mais tarde, quando foi promovido, já no posto de general, ao grau de
comendador da Legião de Honra do governo francês, recebida das mãos comandante do 2º
CC, nos campos da Europa, em 1918.
Mapa 2 – Área de atuação da 2º Corpo de Cavalaria, ao qual estava subordinado o 4º Regimento de Dragões, 1918.

.
Fonte: Departamento de História da Academia Militar de West Point, EUA
173
174

4.3.3 Após o front

Um fato que marcou a vida de José Pessoa, em meio à Primeira Guerra Mundial, foi
ter conhecido a sua esposa, Blanche Mary Edward. Segundo Câmara (2011, p. 62), já no final
de 1918, Pessoa contraiu tifo durante a guerra, tendo sido evacuado para um hospital de
campanha na França.201 Durante a sua convalescença, conheceu a inglesa Blanche, uma
enfermeira voluntária da Cruz Vermelha Francesa, com a qual se casou antes mesmo do
término da guerra.202

Imagem 14 – Foto de José Pessoa com dedicatória a Blanche Mary e usando a


Cruz de Guerra no peito (“Para Mary, com amor gentil do seu Pessoa”), 1918.

Fonte: Acervo José Pessoa (CPDOC FGV) – JPFOTO063.

Pouco coisa foi possível se determinar sobre Blanche Mary, até mesmo pela ausência
de narrativas a respeito da vida familiar nas memórias de José Pessoa. Contatos foram feitos
com a Cruz Vermelha francesa, com o intuito de se verificar como Blanche se tornou
enfermeira no conflito europeu. Em resposta, a instituição apontou que a quase totalidade dos
arquivos que tratavam da sua participação na Primeira Guerra Mundial desapareceu, não

201
Daróz (2016, p. 148) aponta que a Comissão de Estudos, além de José Pessoa, teve mais duas baixas, ao
longo da guerra. O major Tertuliano Potyguara foi ferido em combate e retornou para o front, após recuperar-se.
E, o tenente Andrade Neves, que foi acometido pela gripe espanhola, vindo a falecer em outubro de 1918.
202
Não foi possível determinar em que condições José Pessoa contraiu a doença, nem em que data,
especificamente, esteve baixado no hospital de campanha francês. Curiosamente, ele não cita esse fato em suas
memórias. Tampouco faz menção em que condições conheceu a esposa.
175

havendo, em seus registros, nada a respeito da esposa de José Pessoa. Também não foram
encontradas informações dos corpos de saúde nos inventários digitalizados sobre o conflito,
do Ministério da Defesa francês. O centro francês de bibliotecas La Contemporaine mantém
um extenso arquivo de documentos da Primeira Guerra Mundial, dentre eles, muitos da Cruz
Vermelha, os quais, infelizmente, não estão disponíveis para o acesso à distância. Entretanto,
pesquisas realizadas por meio dos sites privados internacionais Ancestry e Family Search
permitiram o acesso a alguns documentos digitalizados, por meio dos quais se tornou possível
averiguar as origens de Blanche.
Em 11 de janeiro de 1927, apesar de terem se casado na França, José Pessoa e Blanche
Mary legalizaram a sua união em território brasileiro, conforme consta na certidão de
casamento dos dois, emitida pela 4ª Pretoria Civel da cidade do Rio de Janeiro. 203 No
documento, constam os nomes dos pais de Blanche, Frederic Edward e Ada Emily Edward, e
a sua data de nascimento, 22 de março de 1894. A partir dessas informações, buscou-se nos
documentos dos censos britânicos de 1901 e 1911 alguns dados importantes sobre a sua vida.
Esses censos, como é apontado no site Ancestry, tinham a finalidade de obter informações da
população do Reino Unido como um todo. A forma mais eficiente para isso era, em uma data
determinada, listar todos os moradores pelo nome. Sendo assim, um dos “cabeças” da família,
o pai ou a mãe, se dirigiam à paróquia mais próxima de sua residência e preenchiam uma
ficha, na qual apunham informações como: nome, idade e local de nascimento dos membros
da família; endereço; profissão ou ocupação dos pais e filhos; número de cômodos da
residência; etc.
Frederic e Ada Edward casaram-se no ano de 1888. Dessa união, nasceram seis filhos:
Jessie, Frederic, Blanche, Harold, Violet e Walter. Em 1901, a família residia no número 27
da Chambers Street, no distrito londrino de Farringdon, à época uma área tradicional de
comércio de alimentos, às margens do Rio Tâmisa.204 Dez anos depois, Frederic, Ada e os
filhos e filhas já haviam se mudado para uma casa de quatro quartos, localizada no número 5
da Stamford Street, no bairro de Lambeth, uma zona comercial e manufatureira da cidade,
próxima ao centro da capital inglesa.205 Assim, faz sentido a profissão apontada para Frederic
no censo de 1911: um comerciante de alimentos licenciado. Essa informação, corrobora,

203
Conforme a certidão de casamento de José Pessoa e Blanche Mary Edward, lavrada pela 4ª Pretoria Civel, da
5ª Circunscrição de Registros Civis da cidade do Rio de Janeiro, datada de 11 de janeiro de 1927. Disponível no
site Family Search, nas informações relativas à José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque.
204
Conforme o registro feito por Ada Edward à folha 36 do censo de 1901, realizado pela Paróquia de St. Ann
Blackfriars, no distrito de Farringdon, Londres. Disponível no site Ancestry. Consulta realizada em 20 dez. 2020.
205
Conforme o registro de número 767 feito por Frederic Edward no censo de 1911, realizado na igreja
anglicana do bairro de Lambeth, Londres. Disponível no site Ancestry. Consulta realizada em 20 dez. 2020.
176

portanto, o relato de Câmara (2011, p. 63), de que o pai de Blanche era um comerciante de
classe média alta, que residia em um bairro elegante de Londres. No censo de 1911 Frederic
informou, ainda, que Blanche, aos 17 anos de idade já exercia uma profissão: fabricante de
flores artificiais.

Imagem 15 – Blanche Mary Edward, 1918.

Fonte: Acervo José Pessoa (CPDOC FGV) – JPFOTO003.

Em Câmara (2011, p. 63), encontra-se um registro de um depoimento do general


Umberto Peregrino, ex-ajudante-de-ordens de José Pessoa na Inspetoria da Arma de
Cavalaria, na década de 1940. Nele é possível perceber um pouco da personalidade de
Blanche:

Ele se casou com a pessoa certa. Ele, homem formal, a casa dele sempre muito
organizada, certinha.
Quando eu era ajudante-de-ordens diariamente ia ao seu encontro em casa. Ele me
mandava buscar de carro. E eu ia ter com ele no apartamento em que morava no
Leme. Já o encontrava uniformizado de general para almoçar. D. Mary,
extremamente delicada, atenciosa, chamava-o, em minha frente, de “general”. Ele se
sentava à mesa, cerimonioso, impecável, comendo com toda a etiqueta. D. Mary
fazia comida muito racional para ele. Legumes, essas coisas. Ele almoçava
conversando muito demoradamente, com certa elegância. Os filhos, ao lado. Duas
meninas e o José, pequeno, novinho ainda. Era uma reunião de família, bonita. E eu
assistia àquilo, em geral participava da sobremesa. Depois íamos para o Quartel-
General. (CÂMARA, 2011, p. 63)
177

Da união de José Pessoa e Blanche nasceram três filhos: Elizabeth, nascida em 1925,
no Rio de Janeiro; Joy, nascida em São Luiz Gonzaga-RS, em 1927; e José, que recebeu o
mesmo nome do pai, também nascido no Rio, em 1930. Elizabeth casou-se em outubro de
1948 com Rogério Marinho, redator e diretor do jornal O Globo.206 Em setembro de 1956, Joy
casou-se com o engenheiro Antônio Seabra Moggi, à época superintendente do Centro de
Aperfeiçoamento e Pesquisas do Petróleo, da Petrobrás.207 José seguiu a carreira militar, na
Força Aérea, atingindo o posto de major-brigadeiro. A exemplo do pai, comandou, entre os
anos de 1982 e 1984, a Academia da Força Aérea, em Pirassununga-SP.208

Imagem 16 – José Pessoa, Blanche Mary e filhos (Elizabeth, Joy e José, sentado no chão), 1931.

Fonte: Câmara, 2011.

Blanche faleceu no dia 25 de maio de 1988, aos noventa e quatro anos de idade, no
Rio de Janeiro.209 Dos filhos, dois já faleceram. O site Family Search aponta que Elizabeth
teria falecido em 2017, sem, entretanto, apontar a fonte da informação. Nem mesmo no jornal
O Globo, de propriedade da família Marinho, foi encontrado o obituário da filha de José
Pessoa. Recentemente, o brigadeiro Pessoa veio a falecer, no dia 26 de agosto de 2021.210
Ao final da guerra, José Pessoa ainda permaneceu na França, à disposição da
Comissão de Estudos. Em 1919, seria nomeado para a Missão de Operações de Guerra e
Aquisição de Material Bélico, que substituiu a Missão Aché, para auxiliar na compra dos

206
Conforme a certidão de casamento de Rogério Marinho e Elizabeth Pessoa Cavalcanti de Albuquerque,
lavrada pela 5ª Zona de Registros de Pessoas Naturais da cidade do Rio de Janeiro, datada de 2 de outubro de
1948. Disponível no site Family Search, nas informações relativas à José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque.
207
Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, 27 set. 1956, p. 5.
208
Revista A Esquadrilha, Academia da Força Aérea, 1983.
209
Conforme a certidão de óbito de Blanche Mary Edward Cavalcanti de Albuquerque. Disponível no site
Family Search, nas informações relativas à José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque.
210
Obituário do brigadeiro Pessoa, publicado no jornal O Globo do dia 27 de agosto de 2021.
178

primeiros carros blindados do Exército brasileiro, assunto que será abordado no próximo
capítulo.
Gráfico 3 – Genealogia de José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque (ramo descendente).

Fontes: Lewin, 1993; site Ancestry UK, 2020; site Family Search, 2020.
179
180

5 AS ORIGENS DOS BLINDADOS NO BRASIL E A VISITA DOS REIS BELGAS

Com o final da guerra e a derrota da Alemanha, intensificou-se a aproximação militar


entre Brasil e França. A Comissão de Estudos de Operações de Guerra e de Aquisição de
Material de Guerra na França, a partir do início do ano de 1919, foi substituída pela Missão
Militar Brasileira de Aquisição de Material de Guerra na França, sob o comando do general
José Fernandes Leite de Castro, à qual José Pessoa passou a pertencer.211
Após o desengajamento do front e a desincorporação do 4º Regimento de Dragões
francês, em dezembro de 1918, José Pessoa retornou à sede da, ainda, Comissão de Estudos,
em Paris. A partir de 1919, já integrado à Missão de Aquisição, foi designado, em setembro,
para participar dos estudos para a aquisição dos primeiros carros de combate blindados
brasileiros.

5.1 As origens da arma blindada do Exército brasileiro – a aquisição dos primeiros


carros de assalto212

Não há como não relacionar as origens dos blindados no Exército brasileiro à


reorganização pela qual ele passou em função da atuação da Missão Militar Francesa de
instrução (MMF), a partir de 1919, com todas as suas implicações militares e econômicas.
A ideia de se buscar no exterior uma grande missão militar, com o objetivo de ensinar
os segredos do que havia de mais avançado em termos de ciência militar e que fora abortada
no Governo Hermes da Fonseca, tornou a ganhar força nos anos de 1917 e 1918, com o
reconhecimento do estado de guerra do Brasil com a Alemanha.
Como lembra McCann (2009, p. 259), ao contrário do general José Caetano de Faria,
ministro da Guerra de Venceslau Braz, que sempre se opusera veementemente à contratação
de uma missão estrangeira213, seu sucessor na pasta, general Alberto Cardoso de Aguiar, já
nas semanas seguintes à posse do governo de Rodrigues Alves, empenhou-se em favor da

211
Apesar da substituição ter sido noticiada em periódicos da Capital Federal, como na edição do dia 3 de
outubro de 1919, da Gazeta de Notícias, não foi encontrado na literatura consultada como se deu essa
substituição de uma missão para a outra. Também nenhum decreto a respeito do assunto foi encontrado, nos anos
de 1918 e 1919.
212
À época, o termo “carros de assalto” era utilizado para designar os veículos blindados motomecanizados
empregados em combate para apoiar as tropas de Infantaria.
213
Caetano de Faria alegava que a contratação de uma missão militar estrangeira obrigaria o Brasil a criar
vínculo com uma potência europeia e entendia que os métodos e doutrinas empregados na guerra europeia, a
serem ensinados ao Exército brasileiro, não seriam os mais adequados aos países da América do Sul, onde os
grandes espaços e a população dispersa mantinham os exércitos nacionais a boa distância uns dos outros. Para
ele, seria difícil imaginar uma guerra de trincheiras nos pampas do Rio da Prata ou nas ondulações das pradarias
gaúchas. (McCANN, 2009, p. 255-256)
181

contratação de uma missão militar originária da França, a grande vencedora da Primeira


Guerra Mundial. Em 4 de dezembro de 1919, antes mesmo da aprovação pelo Congresso
Nacional, Cardoso de Aguiar enviou um telegrama ao adido militar brasileiro na França,
major Alfredo Malan d’Angrogne, avisando que a decisão pela contratação de uma missão
francesa estava tomada e pedindo que ele se empenhasse em conseguir um general para
chefiar a missão.
Segundo Bellintani (2009, p. 249), a vitória da França na guerra foi um fator decisivo
na opção brasileira por uma missão francesa. A autora, destaca, ainda, outras razões para a
escolha: o fato da burguesia brasileira estar voltada para a França e conhecer o idioma, os
alemães haverem perdido prestígio com a derrota na guerra e o eixo econômico europeu
centrar-se, na ocasião, na Inglaterra e na França, países que poderiam auxiliar financeiramente
o Brasil.
Bellintani (2009, p. 250), recorre, ainda, a Yves Salkin214 para explicar que, nos quatro
anos seguintes ao término da Primeira Guerra Mundial, a França preocupou-se em restaurar a
sua economia. Para isso, priorizou o envio de missões de instrução a países que precisavam
desenvolver os seus exércitos. Aos militares dessas missões eram confiadas cinco funções:

Representação: (...) simbolizavam a vitória de nossas armas; Informação: pesquisa


sobre as forças armadas locais; Instrução (...); Organização: sem dúvida a mais
delicada (...). Como fazer admitir a tal general latino-americano, sem que ele perca a
honra, de adotar todas medidas possíveis propostas por um coronel francês situado
junto dele como chefe de Estado Maior ou como conselheiro técnico; Promoção de
vendas de materiais: em 1919 a França tinha a preocupação de escoar o mais
rápido seu estoque de armamentos, munições e material diverso que ela
constituiu ao longo dos anos precedentes. Ela tinha a convicção que se livrando
deste comércio, ela fomentaria sua economia paralisada há quatro anos. (SALKIN,
1983 apud BELLINTANI, 2009, p. 250; grifo meu)

A autora lembra que, diferentemente do ministro da Guerra brasileiro, que via como
objetivo primordial da contratação da MMF a instrução e a organização e/ou reorganização
das escolas militares do Exército brasileiro, os interesses franceses estavam muito mais
voltados ao superávit de sua balança comercial. Uma das consequências lógicas da Missão
Francesa era o fornecimento de material de guerra ao Brasil, vendendo a sucata que não lhes
tinha mais serventia. Uma das bases do plano de expansão da influência francesa era o
interesse na venda de material bélico, o que teria uma excelente repercussão nos países
vizinhos sul-americanos, que também poderiam querer adquirir os produtos da França.
(BELLITANI, 2009, p. 253)

214
SALKIN, Yves. Presença e influência militar francesa na América Latina de 1919 a 1940. Tese de
Doutorado. Sorbonne I. Paris. 1983.
182

O apoio imediato à iniciativa de Cardoso de Aguiar não foi unânime. Um dos grupos
que reagiu à contratação dos franceses foi a dos oficiais progressistas que formavam os
Jovens Turcos, notórios defensores de uma missão alemã, antes da guerra. Entretanto, Leitão
de Carvalho lembrou aos colegas que a decisão pela escolha da missão era do governo e não
deles. Se a preferência era pelo modelo alemão, antes da guerra, com a sua derrota, fora
necessário se recorrer a outro. E expressou a sua opinião, lembrando-lhes que eram os líderes
da campanha progressista no Exército: “devemos prestar à missão francesa o apoio que
daríamos, antes da guerra, à missão alemã, se tivesse sido contratada” (CARVALHO, 1961, v.
2, p. 23). O fato é que, como lembra McCann (2009, p. 260), o gabinete de Cardoso de Aguiar
tinha o seu representante do grupo de A Defesa Nacional, o capitão Joaquim de Souza Reis
Netto, assim como vários do grupo ocupavam postos no Estado-Maior do Exército, como os
capitães Bertholdo Klinger, João Batista Mascarenhas de Moraes, Pantaleão da Silva Pessoa,
Genserico de Vaconcelos e Julião Freire Esteves. Esses oficiais acabariam por usar a sua
influência em favor da missão.
Pouco tempo após as eleições de 1919, em decorrência da morte de Rodrigues Alves,
assumiu a Presidência da República Epitácio Pessoa, que teve como ministro da Guerra do
seu governo o civil Pandiá Calógeras215. A esses dois personagens é creditado o impulso que
as mudanças propostas pela MMF ganharam, a partir de julho daquele ano. Cardoso de
Aguiar idealizou a Missão e tratou de contratá-la, Calógeras foi o grande realizador das ideias
dos franceses.
Com a aprovação do projeto de lei no Congresso, a contratação de uma missão militar
francesa virou uma realidade. O Decreto nº 3.741, de 28 de maio de 1919, autorizava o
governo brasileiro a contratar, na França, uma missão militar, para fins de instrução no
Exército, bem como abrir os créditos necessários à contratação. O contrato, assinado em Paris,
no dia 8 de setembro de 1919, era bastante favorável aos franceses e tinha a duração de quatro
anos, podendo ser mantido no todo ou em parte a partir da data de sua expiração, mediante
manifestação prévia do governo brasileiro. Na realidade, a missão durou bem mais do que
isso, sendo extinta em setembro de 1940.
Nos artigos do contrato constavam as diretivas para o funcionamento da MMF no
Exército brasileiro. Além da previsão das escolas militares brasileiras nas quais a Missão
atuaria, impunha limites ao Brasil quanto à negociação de material bélico e contratação de

215
Entre 28 de julho e 3 de outubro de 1919, ocupou interinamente a pasta da Guerra o jurista Alfredo Pinto
Vieira de Melo, em conjunto com o Ministério da Justiça e Negócios Interiores. A partir de outubro de 1919,
ficou à frente somente deste último ministério.
183

outras missões estrangeiras. Quanto a estas, proibia o governo brasileiro de contratá-las para
propósitos militares, com exceção de técnicos para as fábricas, arsenais e serviços
geográficos, e previa uma pesada indenização caso essa cláusula não fosse cumprida. Em
relação à compra de material bélico, o Brasil deveria dar preferência à indústria francesa.
Previa, também, vultosos salários aos militares franceses que compunham a Missão, a serem
pagos pelo governo brasileiro.216
Entretanto, Bellintani (2009, p. 254) ressalta que um dos pontos fracos da MMF era
justamente o material bélico para a exportação, já que as fábricas francesas estavam muito
mais interessadas em competir entre si do que vencer a concorrência internacional. Também
existia uma carência de chefes capacitados para serem enviados como comandante da Missão,
que deveria ser muito mais do que um oficial de comando e instrução. Esse militar deveria
desempenhar com destreza as funções de representante diplomático, ser capaz de angariar as
simpatias locais e ter jogo de cintura suficiente para, sem atritos, desfazer qualquer resistência
contra a presença de estrangeiros junto à força militar. O escolhido foi o general Maurice
Gamelin, que permaneceu no comando da MMF até 1925, quando foi substituído pelo general
Fredéric Coffec.
Os principais opositores da Missão, dentro do Exército, agrupavam-se em torno do general
Bento Ribeiro, Chefe do Estado-Maior do Exército, órgão que, durante a sua chefia, tentou barrar
de todo modo as medidas e propostas idealizadas pela MMF. Também existia a resistência dos
oficiais brasileiros mais antigos, que não aceitavam as instruções e pensavam que nada havia para
mudar na Instituição. Dentre as principais críticas estavam o contrato oneroso para os cofres
brasileiros, para que os franceses desempenhassem missões de instrução que poderiam ser
desempenhadas por oficiais brasileiros, e a previsão de os oficiais franceses terem no Exército
brasileiro uma patente superior à que tinham no francês. (BELLITELI, 2009, p. 268)
O projeto inicial da vinda da MMF era a instrução dos oficiais e a reorganização das
escolas militares, o que contribuiria para uma maior profissionalização do Exército.
Entretanto, dentre os projetos apresentados por Gamelin estava a reorganização da estrutura
da Instituição, o que passaria pela organização do efetivo do Exército em cinco divisões de
Infantaria, seu desdobramento para a mobilização, a transformação de três brigadas de
Cavalaria em três divisões e a utilização das forças policiais nas operações. Tudo isso tinha
um objetivo: fazer frente à hipótese de guerra com a Argentina, vista como o principal
adversário militar do Brasil na América do Sul. Em um primeiro momento, devido à

216
O contrato, em sua íntegra, está disponível em MALAN, Alfredo Souto. Missão Militar Francesa de
instrução juto ao Exército brasileiro. Rio de Janeiro: BIBLIEX, 1988.
184

resistência de Bento Ribeiro, esses planos ficaram somente no plano teórico. (BELLITELI,
2009, p. 269)
Entretanto, em junho de 1919 dois decretos trataram de reorganizar a organização das
forças do Exército dentro do território nacional: os decretos nº 13.651 e nº 13.652, ambos de
18 de junho de 1919. O primeiro dividiu administrativamente o território da República em
sete regiões militares e um distrito militar. Em termos operacionais, criou-se cinco divisões de
exército. O segundo reorganizou as brigadas de Infantaria e Artilharia dentro de cada divisão.
O projeto inicial de reestruturação pensado por Gamelin iria ser posto em prática em 31 de
dezembro de 1921, por meio do Decreto nº 15.235, que organizou o Exército ativo em tempo
de paz, com as unidades de tropas sendo distribuídas em cinco divisões de Infantaria, três
divisões de Cavalaria, uma brigada mista e unidades independentes. O decreto previa, ainda, a
criação de unidades especiais, constituídas por oficiais de todas as armas. Dentre elas, uma
companhia de carros de assalto, para a qual foi designado como comandante José Pessoa.
Parece lógico que a intenção de se criar uma unidade blindada no Exército brasileiro
nasceu bem antes do decreto de dezembro de 1921, uma vez que, em setembro de 1919,
começaram as articulações para a compra de carros de assalto da França. Para essa missão,
como visto no início deste capítulo, foi nomeado José Pessoa.217
Apesar de ter participado da guerra em uma unidade de Cavalaria, Pessoa não
conhecia o emprego dos blindados em combate, mesmo tendo os observado em ação nos
campos de batalha. Sendo assim, comunicou ao general Leite de Castro, chefe da Missão de
Aquisição, que talvez não fosse a pessoa mais indicada para a missão que lhe foi dada.
Entretanto, estaria disposto a cumpri-la se lhe fosse permitido realizar um estágio em uma
unidade blindada do Exército francês. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 23)
Aceita a sugestão por Leite de Castro, foi franqueado a José Pessoa um estágio no
503º Regimento de Artilharia de Assalto (RAA) do Exército francês, sediado em Versailles.
Para isso, contribuiu a intermediação feita pelo general Gamelin, chefe da MMF no Brasil,
junto ao governo francês. Antes, porém, de apresentar-se no 503º RAA, realizou, a partir de 1º
de agosto de 1919, um rápido estágio na fábrica da Renault, a fim de estudar o funcionamento
e acompanhar a fabricação do carro de assalto Renault FT-17, o blindado escolhido para
mobiliar as unidades mecanizadas do Exército brasileiro. Terminada a passagem pela fábrica
dos blindados, apresentou-se no 503º Regimento, onde frequentou o estágio de carros de

217
Segundo Belliteli (2009, p. 275), a sugestão para a compra de carros de assalto e da criação de uma
companhia de carros de assalto, partiu do general Gamelin, chefe da Missão Militar Francesa, que via esses
empreendimentos como necessidades estratégicas urgentes do Exército brasileiro, devido ao fato da Argentina
ser considerada a provável hipótese de guerra brasileira.
185

assalto, entre 6 de outubro de 1919 e 12 de fevereiro de 1920. Nesse meio tempo, um fato
bastante curioso ocorreu. Em 2 de novembro de 1919, José Pessoa foi desligado da Missão de
Aquisição, em virtude da redução do número de seus membros, e foi lhe dada a ordem para
apresentar-se no Rio de Janeiro na primeira oportunidade. O desligamento lhe rendeu um
extenso elogio de Leite de Castro, que destacou “o brilho de sua competência e o auxílio de
seus esforços que na atualidade me eram de grande valia, especialmente na recepção do
material de guerra que tivemos a incumbência de adquirir do governo francês”. Não se sabe se
foi por influência do chefe da Missão de Aquisição, porém, em 8 de novembro o desligamento
de Pessoa foi anulado, por ordem do ministro da Guerra. (FÉ DE OFÍCIO DO MARECHAL
JOSÉ PESSOA, 2016)
Em 12 de fevereiro de 1920, Leite de Castro recebeu uma mensagem do comandante
do 503º RAA, informando que José Pessoa havia concluído com aproveitamento o estágio de
carros de assalto e que, para que tivesse um melhor aproveitamento técnico, um oficial
francês foi colocado à sua disposição durante toda a sua estada no Regimento. No mês
seguinte, Pessoa apresentou-se na Escola de Artilharia de Assalto do Exército francês,
também localizada em Versailles, a fim de realizar o curso prático de artilharia de assalto que
iniciaria no dia 15 de março e que terminaria em junho. Após a conclusão do curso, uma nota
remetida pelo Centro de Estudos de Carros de Combate ao comando da Missão de Aquisição
destacou a inteligência, a assiduidade, o excelente espírito militar e a educação de José Pessoa
durante o curso. A nota também informava que ele havia adquirido os conhecimentos
necessários sobre a técnica e o emprego tático do carro Renault e que, devido a isso, estava
apto para o comando de uma companhia de carros de assalto. Ao regressar para a sede da
Missão brasileira em junho, recebeu, então a ordem para receber do governo francês os
primeiros carros blindados que seriam empregados no Exército brasileiro.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 25; FÉ DE OFÍCIO DO MARECHAL JOSÉ PESSOA,
2016)
No relato que faz a respeito do recebimento dos carros de assalto Renault FT-17,
considerado um carro de combate revolucionário para a sua época218, fica claro que José
Pessoa desaprovou as condições em que se encontravam os blindados que seriam vendidos ao
Brasil. Também demonstrou certas restrições quando ao modelo escolhido pelo Estado-Maior

218
Segundo Bastos (2001, p. 40), o Renault FT-17 era considerado um carro de combate revolucionário por: a)
possuir uma torre com giro de 360º, e armado com um canhão Puteaux de 37 mm ou metralhadora Hotchkissde 8
mm; b) sua arquitetura de construção, com motor na parte traseira, torre no centro e sistema de direção à frente;
c) ter sido fabricado em série, como em uma linha de produção de automóveis; e d) ter sido projetado para
possuir uma família sobre o mesmo chassis, como carro TSF, carro projetor, carro transportador de ponte, etc.
Durante a Primeira Guerra Mundial, cerca de 3.200 unidades foram produzidas para o Exército francês.
186

do Exército brasileiro. Apesar de ser, à época, o carro de combate menos vulnerável do seu
tipo; era, entretanto, considerado pouco veloz (6 km por hora) e mal armado (um canhão de
37 mm ou metralhadora). (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 25)
Ainda teceu críticas ao governo brasileiro, que encomendou somente uma seção de
carros, sem fazer as especificações necessárias quanto ao número de veículos e ao seu
armamento. Ressaltou que o calibre dos armamentos não era o utilizado pelo Exército
brasileiro e a necessidade da compra de uma seção de manutenção, o que seria de grande valia
para a composição de um núcleo de instrução. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 25)
O fato é que o lote de blindados que estava sendo preparado para ser entregue ao
Brasil era de carros velhos, que haviam sido utilizados na guerra que acabara de terminar,
conforme lembra José Pessoa.

Quando foi avisado à Missão que os carros blindados, encomendados por nós,
estavam prontos para serem entregues, seguiu-se uma verdadeira peregrinação pelos
depósitos de tanques do território francês, sendo eu sempre constrangido a rejeitar
tal material por verificar serem engenhos velhos, recuperados, da guerra recém-
finda. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 25)

A intransigência de Pessoa em aceitar os carros franceses recuperados levou o governo


daquele país a emitir um relatório, que foi enviado diretamente ao Ministério da Guerra
brasileiro, solicitando que o ministro brasileiro verificasse pessoalmente a atuação de José
Pessoa na Missão de Aquisição, devido às dificuldades que ele estava impondo ao
recebimento dos carros Renault. O relatório insinuava, ainda, que a atitude tomada por José
Pessoa se devia à sua preferência por outros carros de procedência estrangeira. Sendo assim,
sem que soubesse do documento francês, foi acompanhado pelo general Leite de Castro em
uma visita de inspeção feita ao Campo de Bourbon, no interior da França, sob o pretexto
velado apresentado pelo chefe da Missão brasileira de querer conhecer a eficiência e o poder
combativo das novas máquinas de guerra. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 26)
Ao chegarem ao local, encontraram os carros muito bem pintados, parecendo ser
veículos novos, o que causou uma boa impressão a Leite de Castro. Com o propósito de evitar
que o comandante da Missão fosse ludibriado pelos franceses, José Pessoa pediu aos oficiais
encarregados pela entrega que abastecessem um dos carros de assalto, para poder fazer uma
demonstração ao general. Conduziu o veículo até a pista de ensaios, onde executou várias
manobras, forçando o blindado ao seu limite. Ao fazer um giro de 360º com o veículo, sobre o
seu próprio eixo, sentiu-o parar e uma de suas lagartas fragmentar-se, uma falha ocorrida
devido ao extremo desgaste dos eixos dos patins de rolamento do veículo. De todos os
187

presentes, o mais apreensivo era Leite de Castro, que, mais tarde, confidenciou a José Pessoa
ter pensado que o incidente ocorrera devido à alguma imprudência cometida por ele.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 26)
O incidente ocorrido nos campos de ensaio de Bourbon serviu para mostrar ao
comandante da missão brasileira que o material adquirido pelo Brasil não servia ao seu
propósito. Na ocasião, Leite de Castro deixou claro aos oficiais franceses que, daquele dia em
diante, José Pessoa estabeleceria as condições para uma nova inspeção. Por sua vez, Pessoa
ressaltou que somente voltaria a examinar os carros de assalto quando eles fossem novos e
construídos sob as suas vistas. Mais tarde, a Fábrica Delaunay, responsável pela construção
dos carros Renault, convocou-o para uma nova inspeção, dessa vez em carros novos, que
foram recebidos na mais perfeita ordem. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 27)

Imagem 17 – Carro Renault FT-17.

Fonte: Albuquerque, 1921

Mesmo antes de concluir a missão que lhe fora dada, José Pessoa tratou de produzir
um relatório, datado de maio de 1920, em que relacionou o material adquirido219. Também
apresentou uma série de modificações técnicas feitas nos motores dos carros, executadas a seu
mando, com o propósito de melhorar o desempenho dos veículos e torná-los mais adaptados
ao solo e ao clima brasileiros. Muitas dessas modificações, que tiveram a aprovação dos

219
Foram adquiridos do governo francês: 5 carros metralhadoras, sendo 2 armados; 6 carros canhão, munidos do
canhão 37 mm semiautomático; 1 carro TSF (telegrafia sem fio), munido de um aparelho transmissor e receptor
para comunicações; 41 caixas de munições e 78 caixas de ferramentas e peças sobressalentes.
(ALBUQUERQUE, 1919)
188

especialistas franceses, a que foram submetidas, foram feitas fruto do que José Pessoa
observou nos campos de batalha europeus. Dessa forma, no seu entender, foram eliminados os
inconvenientes e defeitos dos veículos, aumentando a sua eficiência operacional. Entretanto,
apesar da fiscalização rigorosa e detalhada que fizera, deixou claro que não havia como se
responsabilizar pelas imperfeições de fundição e de montagem defeituosa dos mesmos, já que
a produção foi exigida sob a pressão dos acontecimentos da guerra.220
Os Renault FT-17 vendidos ao Brasil chegaram no porto do Rio de Janeiro no início
de 1921, sendo recolhidos ao 1º Regimento de Infantaria, na Vila Militar, onde permaneceram
guardados em depósito até outubro daquele ano, quando foram entregues a José Pessoa, já
nomeado comandante da Companhia de Carros de Assalto do Exército brasileiro.
O entusiasmo de José Pessoa com os blindados o levou a escrever a sua obra mais
conhecida no meio militar, Os Tanks na Guerra Europeia, publicado no ano de 1921 pela
editora Albuquerque & Neves, do Rio de Janeiro. O livro, com 244 páginas, constitui-se em
um verdadeiro tratado sobre o emprego de carros blindados no início do Século XX e foi o
primeiro a ser publicado sobre o assunto na América do Sul. Muito do que foi transcrito nas
suas páginas é fruto do que Pessoa presenciou em combate e da sua experiência nas escolas de
blindados francesas. Na dedicatória, ofereceu a obra aos “camaradas de arma”, que vinham se
esforçando no “serviço obscuro da caserna” em “preparar, formar e aperfeiçoar” o Exército
nacional, aos professores da Escola de Carros de Combate de Versailles e aos companheiros
do 4º Regimento de Dragões francês, unidade em que havia combatido na Bélgica.

220
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1919.05.12.
189

Imagem 18 – Folha de rosto de Os Tanks na Guerra Europeia, 1921.

Fonte: Acervo da Biblioteca da AMAN.

Na introdução do livro, José Pessoa destaca as duas inovações que dominaram os


campos de batalha ao final da guerra: o uso dos gases asfixiantes e o emprego dos carros
blindados armados de canhão e metralhadora. Ao mesmo tempo em que aponta os efeitos
horrorizantes dos gases empregados pelos alemães nas tropas aliadas, destaca a revolução
causada pelos blindados na ciência da guerra. Utilizado em massa pelos aliados,
principalmente no apoio às tropas de Infantaria, o tank “foi o esmagador, o nivelador
irresistível da grande muralha, atrás da qual esteve entrincheirado o inimigo durante quatro
longos anos” (ALBUQUERQUE, 1921, p. XII).
O capítulo que abre a obra apresenta um histórico dos tanks. Para o autor, não resta
dúvidas de que a ideia original dos carros de guerra se deu ainda na antiguidade clássica, entre
os romanos, gregos e bretões. Ao longo da história, esses carros foram sendo aperfeiçoados,
até que se chegasse na concepção adotada pela primeira vez na Primeira Guerra Mundial,
quando, em setembro de 1916, os ingleses apresentaram seu engenho blindado pesando 32
toneladas sobre lagartas na batalha de Cambles, a que chamaram de tank, devido ao seu
formato grande e quadrado.
190

Imagem 19 – Carro de combate em 1558.

Fonte: Albuquerque, 1921.

Ricamente ilustrado com fotografias e plantas técnicas, Os Tanks na Guerra Europeia


apresenta um meticuloso estudo técnico, organizacional e de emprego tático dos carros de
combate blindados utilizados pelas principais potências envolvidas na Primeira Guerra
Mundial: os tanques Marca V e Whippet britânicos; os modelos Schneider, Saint-Chamond e
Renault franceses; o Liberty, de concepção anglo-americana, utilizado pelos norte-
americanos; e os alemães Elfriede e Schunck. Na análise que faz, Pessoa aponta a
superioridade dos carros ingleses e franceses. No entanto, reconhece que os alemães, tão logo
passaram a utilizá-los, produziram máquinas capazes de fazer frente aos modelos aliados. O
erro germânico foi ter despertado tarde demais para o emprego dos blindados.

Imagem 20 – Tanques anglo-americano Liberty (esquerda) e alemão Schunk (direita).

Fonte: Albuquerque, 1921.

Quanto ao futuro dos blindados, vislumbrava a Inglaterra e a França como os países


que estavam empenhados em aperfeiçoá-los. Enquanto os britânicos preocupavam-se com a
191

transformação dos tanks já utilizados na guerra, os franceses empenhavam-se na produção de


novos aparelhos voltados ao combate: um sobre rodas, para acompanhar a infantaria; um mais
veloz, para operar com a cavalaria e um mais pesado, para atuar na zona de artilharia. José
Pessoa entendia que o mais racional, para os franceses, seria desenvolver o carro Renault,
possuidor de excelentes qualidades de combate. Um novo tipo de material iria exigir novas
táticas de emprego e implicaria em todas as decorrências desastrosas e hesitações que delas
adviriam. Para ele, o mais lógico era o que os ingleses estavam fazendo, ou seja, desenvolver
e aperfeiçoar os veículos já empregados no conflito europeu. E destaca dois importantes
aperfeiçoamentos realizados pelos britânicos com o propósito de superar duas limitações
operacionais encontradas nos campos de batalha: a necessidade de navegar, para transpor
cursos d’água, e a possibilidade de atravessar nuvens de gás. O futuro dos tanks ingleses
apontava, ainda, para dois tipos de aparelhos que mobiliariam o Exército britânico: um veloz,
mas com pouca blindagem, para marchar com extrema velocidade [30 milhas por hora, cerca
de 48 km/h] pelas estradas e campos, e um mais robusto, com uma blindagem forte e
armamento pesado.

Imagem 21 – Tanque britânico Marca V (com corte em seção vertical).

Fonte: Albuquerque, 1921.


192

José Pessoa dedica um capítulo inteiro do livro à exposição dos defeitos do carro
Renault francês. O meio que encontrou para isso foi comparando-o ao tanque Whippet inglês.
Entendia que o Renault FT-17, no estado em que se encontrava, não serviria a uma nova
guerra. Apesar do equipamento ter obtido sucesso no front, durante a Primeira Guerra, era
preciso lembrar que tal sucesso se deveu, em parte, aos alemães, que não possuíam material
equivalente, nem em qualidade, nem em quantidade. Considerava o carro francês “pouco
rústico, mal armado, de fraca mobilidade e sem facilidades para vencer os sérios obstáculos
que se encontram nos campos de batalha da guerra moderna” (ALBUQUERQUE, 1921, p.
107). Destacava, ainda, os problemas de visibilidade e o intenso barulho que tomava conta do
interior do carro, o que não permitia empregá-lo, na guerra moderna, em missões de
reconhecimento, à frente da infantaria, pois, pouco se via e nada se ouvia do campo de
batalha. Dado os defeitos do Renault, reconhece que o Exército brasileiro poderia ter
escolhido carro melhor e, ainda que indiretamente, tece uma pequena crítica a incapacidade de
escolha do Brasil na aquisição do blindado. É possível se fazer aqui uma inferência de que
Pessoa conhecia os termos do contrato firmado com a França, quando da contratação da
Missão Militar Francesa. Além disso, presenciou, nos depósitos franceses, as más condições
dos equipamentos que aquele país pretendia vender ao governo brasileiro.

Conhecendo nós praticamente os defeitos do carro Renault e as dificuldades do seu


manejo em ação, o nosso exército bem poderia ter obtido material melhor, se a
encomenda não tivesse sido feita nas condições de aceitar esse carro tal como está
construído. Com liberdade de escolha, teríamos, certamente, tido o mesmo critério
dos americanos; preferíamos modificar o aparelho em uso no exército francês.
(ALBUQUERQUE, 1921, p. 111)

O fato é que José Pessoa considerava o tanque inglês superior ao francês, tanto
tecnicamente quanto em relação ao emprego tático.

O estudo meticuloso que fizemos sobre os diversos tipos de aparelhos em uso nos
exércitos Aliados, leva-nos à convicção, que é, aliás, a de um grande número de
oficiais franceses, todos comandantes de secções de tanks durante a guerra, de que o
tank Whippet é um engenho superior ao Renault. (ALBUQUERQUE, 1921, p. 111)

E apontava as razões da superioridade do equipamento britânico.

É que o aparelho inglês é muito veloz, e, por isso mesmo, menos vulnerável; apesar
de pouco blindado, é bem armado, dispõe de motores de grande força, pode transpor
largos obstáculos e, em certas missões, acompanhar mesmo a cavalaria. Apesar de
ser um pouco mais pesado que o Renault, apresenta a grande vantagem de poder
fazer longas marchas por seus próprios meios, o que não consegue esse carro
francês. (ALBUQUERQUE, 1921, p. 111)
193

Imagem 22 – Tanque Whippet inglês.

Fonte: Albuquerque, 1921

José Pessoa considerava a questão do transporte um ponto importante para o emprego


tático dos carros blindados, uma vez que, por seus próprios meios, eles não conseguiam fazer
grandes percursos. Devido a isso, era necessário que fossem conduzidos até o front por meio
ferroviário ou utilizando a malha rodoviária, em reboques ou sobre caminhões destinados a
esse fim. Isso exigiria que as unidades blindadas brasileiras possuíssem um serviço de
transporte regular, provido de meios próprios. A falta de boas estradas e os acidentes naturais
do terreno brasileiro seriam fatores que demandariam a aquisição de um carro de combate
pequeno e veloz pelo Exército brasileiro, uma vez que, abandonado o transporte ferroviário ou
a reboque, esses engenhos teriam que vencer longas etapas pelas estradas até as suas posições
de espera ou de partida.
Ao final de sua análise comparativa conclui:

Terminando este confronto, não deixaremos de salientar que o carro Renault tem a
vantagem de ser mais bem protegido que o tank Whippet; mas, na guerra, o melhor
aparelho não foi o que provou ter maior espessura de blindagem, e, sim, o que
melhor marchou contra o inimigo. De mais, conhecendo as faculdades de
aperfeiçoamento do gênio francês, não será de surpreender que, mais cedo ou mais
tarde, o carro Renault se apresente inteiramente expurgado dos defeitos que ora o
colocam em plano inferior. (ALBUQUERQUE, 1921, p. 112-113)
194

Imagem 23 – José Pessoa em frente a um reboque carregado com um Renault FT-17, 1920.

Fonte: Albuquerque, 1921.

No livro, José Pessoa cuidou, ainda, de debater questões táticas importantes ao


emprego dos blindados na guerra moderna, como: as medidas de defesa antitanques; o
emprego das comunicações nas operações com blindados; os armamentos utilizados nos
carros; as operações conjuntas entre aeroplanos e carros blindados e a organização dos
transportes, comboios e passagens em cursos d’água. Um fato curioso é que tratou, inclusive,
do emprego dos tanks em tempos de paz. Para ele, os carros blindados se prestariam muito
bem quando empregados, por exemplo: na agricultura, já que conseguiam lavrar mais de 1,5
hectares por hora; nas explorações florestais, pois possuíam um potente esforço de tração em
terrenos variados; no turismo em regiões montanhosas; na navegação fluvial; e em operações
de manutenção da ordem.
195

Gráfico 4 – Proposta de José Pessoa para um sistema de ligação entre unidades de tanques, 1921.

Fonte: Albuquerque, 1921.

José Pessoa dedicou dois capítulos do livro ao emprego do carro Renault no Exército
brasileiro. Em um deles discorre sobre a iniciativa tomada, ainda na França, para implementar
várias modificações no motor desse blindado, a fim de torná-lo mais eficiente e adaptado às
condições de emprego no Brasil. Tais mudanças foram motivos de um relatório enviado ao
Ministério da Guerra brasileiro, já citado nesse capítulo. Também trata do armamento
utilizado nos carros brasileiros, dos meios de comunicações e do seu emprego tático.
No outro aborda a organização dos tanques no Exército brasileiro. Reafirma que o
engenho blindado foi especialmente importante para a liberdade do emprego das tropas de
infantaria nos campos de batalha, tendo se tornado um equipamento desejado pelos exércitos
de todas as nações do mundo. Entretanto, ressalta que esse recente invento não era uma
máquina perfeita e que, para sua máxima eficiência, era necessário que houvesse a previsão
196

de uma oficina de reparação e revisão de material, mobiliada com pessoal especializado,


próxima do terreno de operações.
Também reconhecia que, devido à inegável vantagem proporcionada pelos blindados,
os exércitos deveriam possuí-los em número considerável, proporcionalmente aos seus
efetivos e à eficiência pretendida em combate. Entretanto, essa não era a realidade do Exército
brasileiro, devido às grandes despesas que seriam exigidas da Nação, em um momento de
“aperturas e economias” pelo qual ela passava. Considerava, ainda, que não cabia um grande
dispêndio em um material ainda imperfeito, que estava em seu primeiro estágio de evolução.
Entretanto, reconhecia que o número de aparelhos adquiridos pelo governo brasileiro não
colocava o País em condições de participar de nenhuma grande operação de guerra. Porém,
eram suficientes para o preparo do pessoal no emprego da nova máquina de guerra, já que, à
época, esse era o único objetivo da aquisição.
Um ponto crítico ressaltado pelo autor no livro era o adestramento do pessoal. Tanto
aqueles militares que serviriam nas unidades blindadas como a tropa de infantaria que atuaria
em conjunto com os carros de combate. Quanto aos primeiros, apontava que o Exército
brasileiro não possuía, em seus quadros, militares especialistas para servir nas unidades
militares de carros de assalto. Por isso, seria necessária uma seleção rigorosa do pessoal que
iria manobrar esses equipamentos de grande poder ofensivo. Recomendava a escolha de
militares já habilitados à condução de viaturas automóveis, que, no entanto, deveriam
complementar a sua instrução com os ensinamentos sobre o tiro de metralhadora e de canhão.
Os demais, seriam selecionados dentre aqueles que tivessem interesse em servir nas unidades
blindadas. Entretanto, esse pessoal deveria ter um profundo conhecimento de manutenção e
de funcionamento dos mecanismos do equipamento.
A organização e a direção da tropa blindada deveriam ser entreguem a um chefe capaz
e esforçado. Nessa escolha residiria todo o êxito do seu funcionamento.

É preciso estudar-se cuidadosamente o emprego tático dos aparelhos; formar os


quadros da nova arma; organizar cursos apropriados para sargentos e oficiais, aos
quais se pretende entregar o comando dos tanks; organizar, em uma palavra, tudo
com método e eficiência.
É esta uma tarefa bastante pesada e bastante importante que reclama do chefe toda a
sua dedicação, capacidade de trabalho e inteligência. Em começo, tudo depende da
escolha desse chefe. Procure-se um especialista, já que não o possuímos, nos
exércitos de algum país amigo, que já se tenha revelado um técnico, quer no campo
de instrução, quer no campo de combate, que seja um estudioso e se mostre
conhecedor da guerra moderna; que seja um entusiasta, um crente sincero dos
resultados militares de que são capazes os engenhos blindados. (ALBUQUERQUE,
1921, p. 219)
197

Esse chefe tão qualificado e capacitado a que José Pessoa se refere era ele mesmo, já
que o Aviso nº 360, de 26 de maio de 1921, do ministro da Guerra, o havia nomeado para
organizar a recém criada Companhia de Carros de Assalto.
Havia, também, a necessidade de se adestrar a tropa brasileira de infantaria ao
combate com os carros de blindados, já que ela trabalharia em estreita colaboração com estes.
A experiência da Primeira Guerra Mundial havia demonstrado que, apesar de toda a descrença
inicial dos comandantes franceses, o apoio dos carros de combate aos ataques da infantaria foi
o fator decisivo para a vitória aliada.
Pessoa desaconselhava, ainda, a aquisição de blindados pesados pelo Exército. Apesar
da guerra ter demonstrado a importância desses aparelhos, ao atuarem em conjunto com os
carros leves no rompimento de obstáculos e devido à potência de fogo de seus armamentos, a
realidade econômica brasileira não permitia a sua compra. Entretanto, achava que se deveria
fazer um maior esforço para a aquisição de alguns carros com maior poder ofensivo e mais
velozes. E, novamente, indicava o carro Whippet inglês como o mais apropriado ao uso pelas
tropas blindadas brasileiras, em desfavor do francês Renault. O Whippet, apesar de ser mais
pesado que o Renault, era três vezes mais bem armado e duas vezes mais veloz.
Por fim, sugeria, diante do material adquirido à França, a organização de uma
companhia de instrução autônoma, com um aquartelamento especialmente construído para
atender às suas necessidades e com subordinação imediata a um general. Apesar do trabalho
em cooperação com a infantaria, o comando e a administração da companhia deveriam ser
totalmente independentes dessa arma, como a experiência de combate na França havia
demonstrado ser a melhor solução, devido à complexidade dos serviços e à necessidade da
instrução das unidades blindadas. De certo modo, a sugestão de José Pessoa já havia sido
atendida no mesmo aviso ministerial que o nomeou comandante da Companhia de Carros de
Assalto. Nele estava previsto que, sob o ponto de vista da instrução, a Companhia estava
diretamente subordinada ao chefe do Estado-Maior do Exército e constituía-se em uma tropa
de instrução da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais. Mais tarde, no Decreto nº 15.235, de
31 de dezembro de 1921, que organizou o Exército em tempo de paz, a colocou na condição
de tropa especial, com comando e administração autônomas.
Os Tanks na Guerra Europeia foi prefaciado pelo general Gamelin, chefe da Missão
Militar Francesa. Diante da preferência declarada de Pessoa pelo carro blindado inglês e dos
apontamentos feitos na obra sobre as limitações de emprego do carro Renault, tratou o general
de defender o emprego do carro francês.
198

Gamelin concordou com José Pessoa quanto à importância dos carros de assalto como
instrumento principal da vitória aliada na Primeira Guerra Mundial. E destacou que ele
mesmo havia participado do primeiro projeto de um carro de assalto francês, em 1915.
Entretanto, ressaltou que os blindados estavam apenas começando a sua trajetória e que os
modelos existentes à época seriam, ainda, aperfeiçoados. Além disso, muitos outros carros
especializados ainda iriam surgir, com armamentos mais potentes, com couraças melhores e
mais velocidade para acompanhar a cavalaria. Curiosamente, essas foram algumas limitações
apontadas pelo autor em relação ao carro Renault.
O general francês previniu os leitores quanto às conclusões equivocadas que uma
leitura desatenta da comparação entre os carros Whippet e Renault, feita por José Pessoa,
poderia induzir. Toda a argumentação de Gamelin se desenvolveu a partir das características
do carro inglês, que, segundo Pessoa, o tornavam um blindado melhor que o carro francês:
maior velocidade, apesar da fraca couraça; mais apto a acompanhar as tropas de cavalaria;
armamento mais potente; maior potência de motor; e maior facilidade para a transposição de
largos obstáculos.
Primeiramente, Gamelin apontou que não havia como comparar o carro inglês, com
suas 18 toneladas, com o francês, de 6 toneladas, uma vez que eles se destinaram a propósitos
diferentes no campo de batalha. A melhor prova disso era o fato de os próprios ingleses, além
dos norte-americanos e belgas, terem comprados o Renault, enquanto o próprio Exército
francês tinha adquirido o Whippet. Ou seja, todos os exércitos do mundo estavam interessados
em mobiliarem-se com carros leves e pesados. Argumentou, ainda, que, para acompanhar a
infantaria, as questões relativas à proteção (uma blindagem mais espessa) e à visibilidade
(menor tamanho), características do Renault, eram mais importantes que o poder de fogo e a
velocidade. Para ele, uma velocidade de 7 a 8 km/h era mais do que suficiente para
acompanhar a manobra de uma tropa de infantaria, que marchava a pé. Utilizou, ainda, o
exemplo de tropas em deslocamento nas planuras da região sul do Brasil, onde um carro de
menor tamanho ficaria menos visível à artilharia inimiga. Além disso, o armamento do
Renault era mais do que apropriado ao ataque a posições de metralhadoras, não sendo
necessária uma potência de fogo maior do que um canhão de 37 mm. Assim sendo, para as
operações de apoio aproximado à infantaria, a blindagem seria primordial, em detrimento da
velocidade. As provas disso, eram o fato de as principais potências da Europa Central e
Oriental terem adquirido o Renault e o sucesso que o carro obteve em operações na Síria e no
Marrocos. Além do mais, a velocidade necessária ao acompanhamento das operações de
Cavalaria não era uma questão que se apresentava para o Brasil. Cabe lembrar, que, desde o
199

início de sua concepção, a Companhia de Carros de Assalto foi criada como uma tropa de
apoio à infantaria, e não como uma tropa de cavalaria.
Outro ponto defendido pelo general francês diz respeito às limitações de emprego dos
carros de assalto diante da diversidade dos tipos de terrenos brasileiros. Essa limitação se
dava, principalmente, pela necessidade de se atravessar riachos e rios que em tempos de
chuva se transformavam em torrentosos caudais. As poucas pontes existentes nesses locais
eram pequenas e de pouca capacidade, o que exigia uma transposição feita em pontes
flutuantes ou em pontes de pilotis221. Essas pontes não suportavam um peso maior do que 8
toneladas, no caso das pontes flutuantes, e 11 toneladas, nas pontes de pilotis. Sendo assim, a
capacidade dessas estruturas era um limitador ao emprego de carros pesados e, à época,
somente o Renault atendia a essa condição.
Gamelin encerrou o seu texto enfatizando que essas teriam sido as condições impostas
pelo governo brasileiro, no momento da aquisição dos carros de assalto, o que o levou a optar
pelo Renault. Era bom que os militares que lessem a obra estivessem cientes disso. Felicitou
José Pessoa pelo resultado dos estudos realizados e pelo esforço realizado, o que distinguia o
seu trabalho. Porém, não acreditava que todas as opiniões lançadas no livro viessem a se
tornar doutrina para o Estado-Maior do Exército. O general francês não estava de todo errado,
uma vez que, à época, toda a instrução e a doutrina criada para o Exército brasileiro passava
pelas mãos da Missão Militar Francesa, da qual era o chefe e principal representante
comercial das fábricas de artigos militares franceses.
Um ponto importante que cabe ressaltar, é que, ao publicar a obra, Pessoa não pensava
no seu valor apenas para o meio militar. Como ele relata, o livro, ao sair do prelo, “esclareceu
a opinião pública brasileira sobre o valor dos carros de combate e sua missão na guerra
moderna” (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 33). Alguns jornais brasileiros se
manifestaram sobre o valor da obra, assim como o Estado-Maior do Exército, que também
emitiu um parecer sobre o livro.
O jornal paraibano A União222, que se constituía no órgão oficial do governo daquele
estado, em sua edição do dia 29 de junho de 1921, publicou um extenso texto a respeito do
livro de José Pessoa. Na verdade, o artigo, escrito pelo editor-chefe do jornal, Carlos
221
Na engenharia militar, as pontes sobre pilotis são pontes construídas provisoriamente, cuja estrutura é lançada
sobre pilares de madeira ou outro material de circunstância, como colunas de ferro ou trilhos de trem, por
exemplo.
222
O jornal A União foi fundado em 1893, pelo presidente da Província da Paraíba, Álvaro Machado. Desde a sua
fundação, tornou-se um órgão oficial do Partido Republicano paraibano, agremiação fundada pelo próprio
Álvaro Machado. Desde aquela época tem sido um jornal estatal paraibano, constituindo-se no único jornal
oficial ainda existente no Brasil. Interessante notar, ainda, que o Partido Republicano da Paraíba foi durante anos
o abrigo político da família Pessoa e dos políticos a ela ligados. Cf.: Site do Diário Oficial do Estado da Paraíba.
200

Fernandes, parecia muito mais uma resenha do livro do que um texto jornalístico. Fernandes
apresentou o livro como uma literatura necessária à “nossa escassíssima literatura militar”
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 34). Também não descuidou de lembrar as origens
paraibanas de Pessoa, um bravo militar, que “vencendo os próprios laços inquebrantáveis de
um desvelado carinho materno, esteve entre os heróis que guarneceram o front contra os
assaltos e investidas das cruentas hordas dos Impérios Centrais” (ALBUQUERQUE, 1953,
Pasta II, p. 34). O autor do artigo minimizou, ainda, as palavras de Gamelin sobre o livro. Não
as via como uma crítica. Pelo contrário, considerou que elas “imprimem um cunho
relevantíssimo à competência do capitão Pessoa num dos aspectos mais graves do atual
armamento das nações...” (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 34).
Jornais de grande circulação do Rio de Janeiro e de São Paulo, também se
manifestaram a respeito do livro. O Jornal do Brasil, de 26 de agosto de 1921, lembrou a
passagem do autor pelas fileiras do Exército francês, bem como a incumbência que tivera de
receber os primeiros carros Renault do Exército brasileiro. Destacou que o livro, “escrito com
singeleza e proficiência técnica, merece figurar na estante de todos os militares e merece ser
divulgado entre os nossos dirigentes”223. O Paiz deu destaque à obra na seção dedicada à
publicação de livros novos. O jornal ressaltou a escassez de publicações de natureza militar no
Brasil e o desaparecimento dos poucos trabalhos produzidos. Sendo assim, considerou ser do
maior interesse o registro do “aparecimento de um trabalho sobre assuntos militares e escrito
por um patrício”224. Destacou, ainda, que a obra tinha “um valor incontestável de utilidade
pública”225 e que, apesar de não precisar de recomendações, possuía um prefácio escrito pelo
general Gamelin. Já a edição do dia 8 de maio de 1922, do Correio Paulistano, lembrou a
passagem de José Pessoa, “um dos mais brilhantes e prestigiados oficiais do nosso
Exército”226, pela capital paulista, quando comandou a Companhia de Caçadores da
Faculdade de Direito. Sobre o livro, ressaltou a forte impressão deixada pelo autor, que
conseguiu, a par do seu conhecimento científico, “vulgarizar os conhecimentos gerais sobre
uma das mais modernas criações: o carro de assalto automóvel”.227
Em um artigo publicado na Revista da Semana do dia 3 de setembro de 1921, no Rio
de Janeiro, o capitão Genserico de Vasconcellos, instrutor da Escola de Estado-Maior do
Exército, ressaltou a notável atividade intelectual do Exército, que “constando a sua

223
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 26 ago. 1921, p. 5.
224
O Paiz, Rio de Janeiro, 22 set. 1921, p. 7.
225
Ibidem.
226
Correio Paulistano, Rio de Janeiro, 8 maio 1922, p. 4.
227
Ibidem.
201

oficialidade de uns três milhares, mantem quatro revistas técnicas e profissionais, e raro é o
mês em que se não registra o aparecimento de um novo livro”. 228 Logo após ter destacado a
intelectualidade da oficialidade, apresentou a obra de José Pessoa, um “jovem oficial da arma
de Cavalaria”229, cujo livro justificou, “de modo brilhante, a sua escolha para comandar a
primeira companhia de tanks que se vai incorporar ao organismo do nosso Exército”230.
Vasconcellos também destacou o prefácio de Gamelin. Porém, como as outras publicações,
minimizou as críticas feitas pelo general ao livro.
O Estado-Maior do Exército do Exército brasileiro (EME) também emitiu um parecer
técnico-militar, datado de 13 de fevereiro de 1922, sobre Os Tanks na Guerra Europeia. José
Pessoa faz menção a esse relatório na autobiografia que pretendia publicar. Entretanto, não
discorre sobre o parecer, limitando-se a apresentar somente o último parágrafo do relatório:
“Nessas circunstâncias, é certo o valor da meritória obra do capitão José Pessoa Cavalcanti de
Albuquerque, cuja utilidade em relação ao nosso Exército não se pode negar”.231 Certamente,
porque no longo texto produzido por aquele órgão do Exército, há uma evidente discordância
de opiniões. O EME, apesar de ter atestado a valiosa contribuição dada por Pessoa sobre os
carros de assalto, ratificou praticamente todos os pontos de vista apresentados por Gamelin no
prefácio do livro. Em uma cópia do documento produzido pela 3ª Seção232 do Estado-Maior,
endereçado ao ministro da Guerra, tratou José Pessoa de assinalar à lápis os principais pontos
discordantes das suas ideias. O EME destacou que a escolha dos carros franceses pelo
Exército não se tratou de uma pura e simples escolha de um modelo adaptável às exigências
da Instituição. Se fosse assim, naturalmente o caminho a seguir seria outro. Porém, à época, o
Exército contentava-se exclusivamente com “os carros de pequena tonelagem, destinados ao
mister especial do acompanhamento da Infantaria, acidental e concomitantemente embora,
desempenhem o papel de carros de ruptura ou preparação”.233
O relatório destacou, também, que fora a guerra de trincheiras que fizera surgir os
carros de assalto como armas de ruptura, capazes de abrir brechas em obstáculos e quebrar a
resistência das defesas inimigas. Assim como fez surgir, também, o carro de assalto ligeiro,
destinado ao apoio das tropas de infantaria nas operações ofensivas. Entretanto, o relatório
destaca que a guerra de trincheiras não condizia com a realidade do continente sul-americano,
que exigiria carros pesados e velozes. Não era essa a realidade de nações ainda incipientes

228
Revista da Semana, Rio de Janeiro, 3 set. 1921, p. 18.
229
Ibidem.
230
Ibidem.
231
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1921.08.22.
232
Seção responsável pelo planejamento e pela coordenação das operações militares.
233
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1921.08.22.
202

militarmente, com a indústria ainda em desenvolvimento e com campos possíveis de batalha


circunscritos a terrenos parcamente dotados de vias de comunicação e meios de transporte.234
O parecer do EME foi encerrado com a ratificação de uma ideia apresentada por
Pessoa no livro, de que, naquele momento, realmente a única intenção do Exército era
preparar o pessoal na prática da nova arma blindada e que, para isso, os carros Renault
adquiridos correspondiam a essas primeiras experimentações.235
Curiosamente, no mesmo mês em que foi emitido o parecer do Estado-Maior do
Exército sobre o livro, um crédito foi liberado pelo Ministério da Guerra destinado à aquisição
de 500 volumes de Os Tanks na Guerra Europeia, a um custo de 15$000 (quinze mil réis)
cada unidade. Tal verba foi solicitada pelo próprio José Pessoa, conforme consta em sua Fé de
Ofício. Não é apontado no documento o motivo da compra. Em uma carta enviada, anos mais
tarde, ao diretor da Biblioteca Militar, Pessoa dá pistas sobre essa aquisição, que teria sido
feita com a finalidade de distribuir os volumes pela tropa. Mesmo com um parecer técnico
exarado pelo EME que ia de encontro ao que pensava Pessoa para o emprego dos carros de
assalto pelo Exército brasileiro, a pasta da Guerra bancou a sua obra. Coincidência, ou não, o
ministro, à época, era Pandiá Calógeras, que fora escolhido pelo presidente Epitácio Pessoa.
A respeito do envio da carta ao general Benício da Silva, presidente da Biblioteca
Militar (BM), em janeiro de 1941, citada no parágrafo anterior, José Pessoa, já no posto de
general, o fez com o intuito de exprimir a sua insatisfação com o chefe daquele órgão, por não
ver atendida a sua solicitação de uma nova publicação de Os Tanks na Guerra Europeia.
Pessoa dizia não se surpreender com a posição adotada pelo general Benício em relação à sua
obra, devido ao fato de estar aquele órgão desviado de sua elevada missão de desenvolver a
cultura geral e profissional no seio do Exército, para transformar-se em privilégio de
afeiçoados, cujas obras só eram publicadas por conterem elogios a Benício ou serem
prefaciadas por ele. Destacava que, enquanto a BM, por intermédio de seu presidente,
preocupava-se em publicar trabalhos sem valor, dentre eles os do próprio general Benício,
fazia oposição à reimpressão de um livro de interesse exclusivamente militar e que se
encontrava com a edição esgotada. E ressaltava que a iniciativa da reedição de sua obra não
teria sido dele, e, sim, da própria administração da BM que, por intermédio de seus oficiais,
compareceram ao seu gabinete para solicitar-lhe permissão para tal intento, cujo renda seria
integralmente revertida às meninas órfãs da Fundação Osório. E conclui, solicitando a

234
Ibidem.
235
Ibidem.
203

devolução dos originais da obra e seu desligamento definitivo da condição de sócio da


Biblioteca.236
O livro foi enviado, ainda, para o Rei Alberto I, da Bélgica, que agradeceu a gentileza
por intermédio de seu chefe de gabinete. José Pessoa, provavelmente pela sua ascendência
aristocrática, nutria uma profunda admiração pelo soberano belga e pela família real. Essa
admiração aprofundou-se após ter presenciado Alberto I comandar pessoalmente as tropas
belgas na Primeira Guerra Mundial, na ofensiva aliada na região dos Flandres.

5.2 A visita os reis belgas ao Brasil

Antes de regressar da França para o Brasil, José Pessoa foi nomeado para a sua última
comissão na Europa, em junho de 1920. Por ordem do ministro da Guerra, se apresentou no
porto da cidade de Antuérpia, na Bélgica, para fazer parte da comitiva que acompanhou a
família real belga em visita ao Brasil. O entendimento das razões que levaram o rei Alberto I
e sua família partirem em viagem e permanecerem em território brasileiro por mais de um
mês está intimamente ligado à eleição de Epitácio Pessoa para a presidência do Brasil em
1919, após a morte prematura de Rodrigues Alves.
Com o final da guerra, as grandes potências vencedoras trataram de reunir-se em Paris
para discutirem os termos da paz europeia. Com a presença de 70 delegados, representantes
dos 27 países vitoriosos na Primeira Guerra Mundial, dentre eles o Brasil, teve início em 18
de janeiro de 1919, a Conferência de Paz de Paris.
O final do primeiro grande conflito mundial coincidiu com o final do governo de
Venceslau Braz. O recém eleito presidente para o quadriênio 1919-1922, Rodrigues Alves,
encontrando-se em debilitado estado de saúde, não tomou posse, assumindo o cargo o vice-
presidente Delfim Moreira. Como aponta Vinhosa (2015, p. 179-180), o curto período em que
Delfim Moreira esteve à frente do governo brasileiro transformou-se em um verdadeiro caos
administrativo, devido à sua completa falta de autoridade e a uma doença que afetou as suas
faculdades mentais. Na verdade, como relata o autor, o vice-presidente não teve a
competência e o poder necessários para substituir as pessoas já indicadas por Rodrigues Alves
e seus familiares, para comporem as pastas ministeriais do governo. Delfim Moreira era uma
mera figura decorativa no Catete. Quem governava o País, de fato, era o próprio presidente
eleito, mesmo estando enfermo em cima de uma cama.

236
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1921.08.22.
204

O Ministério das Relações Exteriores, que tivera à frente Nilo Peçanha, cujo objetivo
precípuo foi alinhar o Brasil às potências aliadas contra a Alemanha, passou a ser comandado
por Domício da Gama, que desempenhava a função de embaixador brasileiro em Washington,
desde 1910. Mesmo tendo desempenhado a função de ministro no curto período do governo
de Delfim Moreira, de novembro de 1918 a julho de 1919, Gama foi o grande responsável por
articular a participação brasileira na Conferência de Paris. Vinhosa (2015, p. 182) destaca que,
logo após assumir o Itamaraty, o novo ministro teve diante de si três problemas internacionais
para resolver de imediato: a participação do Brasil nas conferências preliminares da paz, nas
quais se assentariam as bases do Tratado de Versalhes; o número de delegados que caberia ao
Brasil na Conferência de Paris; e a inclusão brasileira no primeiro conselho executivo da Liga
das Nações.
O autor lembra, ainda, que o principal interesse do Brasil ao entrar na guerra era a sua
participação na Conferência de Paz, com o propósito de conquistar um lugar ao lado das
grandes potências na Liga das Nações. Além disso, havia os interesses materiais que tinha a
defender, como os navios alemães apresados em portos brasileiros e o dinheiro do café
comprado pela Alemanha. A participação brasileira enfrentou forte resistência da França e da
Inglaterra, que não concordavam com a atuação de uma delegação do Brasil nas conferências
preliminares. Esses países alegavam que, devido à pouca colaboração brasileira no conflito,
apenas uma participação limitada na conferência plenária deveria ser permitida.
Coube a Domício da Gama a difícil tarefa de enfrentar a resistência dos representantes
francês e inglês, Clemenceau e Lloyd George. Graças ao seu prestígio com os homens da
administração norte-americana, adquirido nos anos que esteve à frente da embaixada
brasileira em Washington, o que garantiu o apoio do presidente dos EUA, Woodrow Wilson,
e seus assessores, o Brasil conseguiu um lugar nas negociações de paz e a sua inclusão no
Conselho da Liga das Nações, sendo tratado em igualdade de condições com a Sérvia e a
Bélgica, por exemplo, nações que foram grandemente sacrificadas no conflito. Entretanto,
todo o esforço despendido por Gama não garantiu a participação nas conferências
preliminares. (VINHOSA, 2015, p. 183)
Além da celeuma das discussões em torno da participação brasileira na Conferência de
Paz, outra se estabeleceu quando foi necessário escolher quem seria o chefe da delegação que
representaria o Brasil. A imprensa nacional cogitava o nome do próprio Domício da Gama.
Entretanto, Rodrigues Alves externou a intenção de designar Rui Barbosa para a missão. Rui
havia participado intensamente da campanha pró aliados, como presidente da Liga Brasileira
pelos Aliados, e gozava da simpatia popular, devido à sua participação bastante elogiada na
205

Segunda Conferência de Haia, em 1907. Como a imprensa já havia noticiado a participação


de Domício e, alegando que o convite chegou tarde demais, Rui Barbosa declinou do mesmo.
Devido à polêmica que se instalou, outro nome acabou sendo escolhido, o do senador
paraibano Epitácio Pessoa. A delegação brasileira completa era composta pelos seguintes
membros: Epitácio Pessoa, João Pandiá Calógeras, Olinto Magalhães e Raul Fernandes, na
função de delegados plenipotenciários; Rodrigo Otávio de Langaard Meneses, na função de
consultor jurídico; tenente-coronel Alfredo Malan d’Angrogne e capitão-de-fragata Armando
Burlamaqui, nas funções de consultores militares; Hélio Lobo, na função de secretário-geral;
e mais sete secretários e oito adidos. (FAGUNDES, s.d.)
No período em que esteve representando o Brasil em Paris, Epitácio Pessoa foi
indicado como candidato à Presidência da República pelo Partido Republicano Mineiro, nas
eleições de abril de 1919, convocadas em decorrência da morte de Rodrigues Alves. Com o
apoio das oligarquias mineiras e gaúchas, saiu vitorioso no pleito eleitoral. Com o fim da
Conferência de Paz, em junho de 1920, e gozando do status de presidente eleito do Brasil,
cumpriu uma extensa agenda de viagem, a convite de alguns países europeus e dos Estados
Unidos, regressando ao Brasil no final de julho de 1920. As visitas de Epitácio na Europa
iniciaram pela Bélgica. Apesar de não constar a informação em sua fé de ofício, José Pessoa
aponta que em maio de 1920 teria sido designado para acompanhar a comitiva do tio, na visita
àquele país. A análise que Fagundes (2007) faz do relatório do representante brasileiro na
Bélgica, Barros Moreira, ao ministro Domício da Gama, permitem compreender como se
desenvolveu a passagem da comitiva brasileira em território belga.
Mesmo não tendo assumido, de fato, a Presidência da República, Epitácio foi recebido
na Bélgica com pompas de chefe de estado. Foi recebido pessoalmente pelos soberanos
belgas, reis Alberto e Elizabeth, por ocasião da sua chegada. Na estação ferroviária de
Bruxelas faziam-se presentes, ainda, um batalhão de carabineiros, com a bandeira do Brasil, e
uma banda de música, que executou o hino nacional brasileiro, assim que o comboio
ferroviário adentrou a estação. (FAGUNDES, 2007, p. 26)
Segundo Fagundes (2007, p. 26), o programa da visita incluiu excursões a centros
usineiros belgas e ao interior daquele país, principalmente às regiões que haviam sofrido os
maiores estragos durante Primeira Guerra. Nesses passeios, os dois mandatários foram
festivamente recebidos pela população e pelas autoridades locais belgas. De acordo com a
autora, um dos pontos altos da visita foi o jantar de gala oferecido pelos soberanos belgas à
comitiva brasileira, no Palácio Real. Em discurso proferido na ocasião, o rei Alberto deixou
claro que a relevância da aliança entre o Brasil e a Bélgica repousava no apoio dado pelo
206

parlamento brasileiro contra a ofensiva alemã em território belga. O soberano destacou, ainda,
a amizade inestimável que unia os dois países e concluiu a sua fala desejando sucesso e glória
para o governo de Epitácio.
O discurso de Epitácio Pessoa, em resposta à fala do rei Alberto, ressaltou o papel
proeminente das instituições liberais belgas, que sempre serviram de modelo ao Brasil. O
presidente recém eleito não esqueceu de destacar o estreitamento das relações comerciais
entre os dois países e os investimentos belgas que seriam, a partir daquele momento,
direcionados ao Brasil. Epitácio explicou, ainda, que a estreita solidariedade e a identificação
moral existente entre as duas nações foram as principais razões do Brasil ter se manifestado
contra a quebra da neutralidade belga pela Alemanha, em 1914. (FAGUNDES, 2007, p. 27)
No terceiro dia da visita, Epitácio recebeu uma comitiva de industriais belgas na sede
da chancelaria brasileira. Um almoço em nome do presidente eleito foi oferecido no Cercle
Noble, o mais importante centro social aristocrático de Bruxelas, tendo sido considerado um
evento que retribuiu à altura o banquete oferecido pelos reis no Palácio Real. (FAGUNDES,
2007, p. 28)
Fagundes (2007, p. 29) ressalta que a visita de Epitácio à Bélgica foi considerada pela
legação brasileira naquele país a melhor propaganda possível para a nação brasileira. Desde o
início, era imprescindível que a exposição da imagem do Brasil em um círculo social
considerado extremamente civilizado, cujos soberanos eram tidos como os mais populares no
momento, fosse considerada um sucesso. Dessa maneira, o comportamento da comitiva
brasileira foi condigno com o esperado pela corte: civilizado, culto e formal. Some-se a isso, a
intensa repercussão que a visita teve na imprensa belga.
Fagundes (2007, p. 49-50) aponta que a articulação para que os soberanos belgas
visitassem o Brasil começou antes mesmo da passagem de Epitácio pelos países europeus, em
1920. Em dezembro de 1919, o chefe da legação brasileira em Bruxelas, Barros Moreira,
informou ao ministro das Relações Exteriores, Azevedo Marques, por meio de um telegrama,
o desejo do rei Alberto I e da rainha Elizabeth de visitarem o Brasil, o que só não ocorreu
naquela ocasião porque os soberanos encontravam-se em visita oficial aos Estados Unidos.
Entretanto, Alberto I deixou claro que aceitaria de bom grado um convite oficial do governo
brasileiro e que viria ao Brasil assim que as circunstâncias permitissem. Para ter a certeza da
intenção do rei, Barros Moreira passou a articular com o primeiro-ministro belga, Léon
Delacroix, a visita do soberano às terras brasileiras. Após a sinalização positiva do rei
Alberto, o convite oficial do governo brasileiro então foi feito, em abril de 1920, sendo
prontamente aceito pelo governo belga.
207

A autora destaca, ainda, que a possível viagem da família real belga ao território
brasileiro foi tratada de maneira confidencial pelos dois governos, para que os demais países
da América do Sul não se aproveitassem da oportunidade, o que tiraria o caráter de deferência
especial feita pelo governo belga ao Brasil. A primeira visita de um monarca europeu a uma
nação sul-americana certamente daria um significado especial ao evento, colocando o País em
uma posição de prestígio na América Latina. (FAGUNDES, 2007, p. 51)
Assim que o governo belga confirmou a visita da família real, a imprensa da Capital
Federal passou a noticiar os preparativos feitos para receber os soberanos em território
nacional.
A data natalícia do rei Alberto I foi lembrada pelos jornais O Paiz e Jornal do Brasil.
Enquanto o primeiro destacou a personalidade do soberano, graças à qual “conseguiu reunir o
apreço de todo o mundo e uma admiração sem restrições”237, o segundo lembrou da coragem
e do abnegado patriotismo do rei no comando das tropas belgas durante a Primeira Guerra
Mundial, o que fez a “ilustre figura do rei-soldado”238 tornar-se “uma das mais admiradas e
respeitadas entre as quais se distinguiram no correr da grande guerra”239. Para Fagundes
(2007, p. 53), o destaque dado pelos periódicos cariocas à atuação de Alberto I na primeira
grande guerra foi responsável por um processo de heroificação pelo qual passou a figura do
rei. Sendo assim, segundo a autora, é compreensível que os jornais da Capital Federal
constantemente se refiram a ele como rei-herói ou rei-soldado.
O Correio da Manhã tratou a visita de Alberto I como “o acontecimento do ano”240. A
figura lendária do rei certamente iria “influir profundamente sobre o imaginário do carioca,
entusiasta, curioso e acolhedor”241. O jornal considerou, ainda, que era preciso que o Rio de
Janeiro se preparasse e se enfeitasse, “de modo a contentar a faceirice de seus filhos”242.
Entretanto, atentou para o cuidado que se deveria ter com os preparativos da cidade, pois, o “o
Rio é como certas mulheres de muita beleza e muita graça natural, que não sabe vestir-se com
elegância. Exageram tudo e são de um mau gosto deplorável”243.
A edição de 30 de agosto de 1920 de O Paiz publicou uma nota do Palácio Real de
Bruxelas, que exaltava a “antiga e sincera” amizade do Brasil com a Bélgica. O comunicado
apontava que a viagem da família real belga ao território brasileiro aconteceria em retribuição

237
O Paiz, Rio de Janeiro, 8 abr. 1920, p. 3.
238
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 8 abr. 1920, p. 6.
239
Ibidem.
240
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 12 jun 1920, p. 2.
241
Ibidem.
242
Ibidem.
243
Ibidem.
208

à visita de Epitácio Pessoa à Bélgica, em 1919, e consolidaria “as excelentes relações


existentes entre os povos dos dois países”. Destacou, também, que os belgas jamais
esqueceriam que o “primeiro protesto levantado por um país neutro contra a guerra
encarniçada da Alemanha foi formulado pelo parlamento brasileiro”. E lembrou, ainda, do
“desenvolvimento intelectual, artístico, filosófico, literário e jurídico” pelo qual passava o
Brasil. Desenvolvimento, esse, que era “impulsionado por uma mocidade ardente e por
antigas e florescentes instituições”. A nota ressaltou que a “entente espiritual” que
aproximava os dois países deveria ser reafirmada por laços econômicos, já que todas as
circunstâncias que envolviam a visita eram as mais “auspiciosas para esse fim”.244
Ficava claro, como apontado na nota do governo belga, que não se tratava a visita do
rei belga ao Brasil de uma simples retribuição à passagem de Epitácio Pessoa pelos Flandres.
Havia, também, os aspectos econômicos envolvidos. Em uma entrevista que concedeu em
Bruxelas ao jornalista brasileiro Affonso Lopes de Almeida, do jornal A Noite, Alberto I disse
acreditar que das visitas – de Epitácio à Bélgica e dele ao Brasil – subsistiria “mais que a
simpatia afetuosa entre os dois povos”. Lembrou que a nação belga vivia “exclusivamente da
indústria, onde apenas trinta por cento dos habitantes encontram emprego”. No Brasil,
segundo o rei, acontecia justamente o contrário: “o estado do Amazonas, o de Mato Grosso e
o de Goiás, são, na verdade, territórios imensos, tão importantes como se fosse nações, ricos,
fecundos continentes”. E destacou a importância das companhias de navegação dos dois
países, que fariam muito “pela grande obra de aproximação desejada”. Ao final da entrevista,
Alberto I pediu ao jornalista para dizer à imprensa brasileira que “a Bélgica não esquecerá
nunca que, na hora do perigo supremo, foi o Brasil a única potência do mundo que protestou
contra a invasão da minha pátria”.245
As palavras do rei belga a Affonso Almeida seriam ratificadas pelo chefe da legação
brasileira em Bruxelas, Barros Moreira. Em entrevista à agência United Press, publicada pelo
jornal O Paiz em 31 de agosto de 1920, Barros Moreira afirmou que a visita de Alberto I,
além de ser uma “cortesia protocolar, como a de retribuir a visita do presidente Epitácio
Pessoa à Bélgica”, teria “um efeito importante, tanto moral como material, sobre o
intercâmbio belgo-brasileiro”.246 Dias antes, o mesmo jornal já havia dado nota ao entusiasmo
dos negociantes belgas com a viagem do rei ao Brasil, já que ela serviria para “aproximar os

244
O Paiz, Rio de Janeiro, 30 ago. 1920, p. 1.
245
A Noite, Rio de Janeiro, 10 ago. 1920, p. 1.
246
O Paiz, Rio de Janeiro, 31 ago. 1920, p. 1.
209

dois países, comercialmente”247. O periódico ressaltou, também, a concessão, pelo Brasil, de


crédito à Bélgica, que serviria ao “ressurgimento da indústria nacional”248 daquele país.
Destacou, ainda, que os financistas belgas viam com bons olhos um acordo econômico entre
os dois países, o que seria muito proveitoso principalmente para a nação belga, já que
estimularia “a procura brasileira de produtos belgas e abrirá na Bélgica amplos mercados para
as matérias primas do Brasil”249.
O Paiz, destacou, também, a importância das relações comerciais entre os dois países,
principalmente após a reconstrução e a melhoria dos serviços do porto de Antuérpia, o que
servia de “estímulo ao comércio sul-americano”. Ressaltou, ainda, que o porto belga esperava
ver “o café, a borracha e outras matérias primas [brasileiras] passarem por essa cidade quando
se destinam à Bélgica, norte da França e distritos renanos”.250
Os preparativos para a chegada de Alberto I foram intensos, suscitando acalorados
debates pelos representantes do povo brasileiro no Congresso Nacional e pela imprensa da
Capital Federal.
Segundo Fagundes (2007, p. 55-58), uma das primeiras providências tomadas pelo
governo do Brasil foi encaminhar ao Congresso Nacional uma proposta de crédito ilimitado
para custear a visita dos soberanos da nação belga. Em mensagem enviada ao Congresso, em
maio de 1920, Epitácio solicitava ao parlamento brasileiro que habilitasse “o Governo a
proporcionar condigna hospedagem aos Reis visitantes” 251. Sob o argumento de atender “aos
desejos do Governo e do povo brasileiro” 252, de propiciar aos “vetustos monarcas”253, durante
a sua permanência no Brasil, “todo o brilho e conforto possíveis”254, a proposta de orçamento
ilimitado recebeu um parecer favorável da Comissão de Finanças da Câmara dos Deputados,
o que provocou a reação inflamada da oposição ao governo.
A oposição mais enfática ao projeto surgiu na voz do deputado federal pelo estado do
Rio de Janeiro Maurício de Lacerda, defensor da causa operária no parlamento nacional.
Lacerda afirmou que se “a Câmara deixar de fixar o quantum para a recepção destes ou de
outros quaisquer estrangeiros, como de fixar despesas de qualquer outra natureza, falta ao seu
dever constitucional”255. Disse que o Congresso não se negaria a dar ao Governo o crédito

247
O Paiz, Rio de Janeiro, 14 ago. 1920, p. 2.
248
O Paiz, Rio de Janeiro, 19 ago. 1920, p. 2.
249
Ibidem.
250
O Paiz, Rio de Janeiro, 28 jun. 1920, p. 1
251
Diário do Congresso Nacional, 20 maio 1920, p. 311.
252
A Noite, 12 jun. 1920, p. 3.
253
Ibidem.
254
Ibidem.
255
Diário do Congresso Nacional, 26 jun. 1920, p. 836.
210

para as despesas prováveis e, que, se fosse excedida essa importância, este deveria pedir “ao
Congresso um crédito extraordinário”256. E, ironizando a “bonita homenagem”257 que
pretendia o governo fazer a “real e augusta família a que se referia o projeto” 258, defendia que
“o Congresso não pode, justamente para homenagear um rei constitucional, faltar aos seus
deveres constitucionais, [...] incorrendo na responsabilidade de dar ao Poder Executivo uma
autorização sem limites”259. Apesar dos veementes protestos de Lacerda, o projeto do crédito
ilimitado foi aprovado pela maioria da Câmara dos Deputados e encaminhado ao Senado.
Também no Senado a questão foi alvo de críticas. Conforme noticiou O Paiz, em sua
edição de 17 de junho de 1920, a Comissão de Finanças do Senado havia se reunido dois dias
antes para discutir o projeto aprovado na Câmara. Dos oito senadores presentes à seção260,
Soares dos Santos manifestou-se contrário à proposta do Executivo. O senador, ao especificar
o motivo de seu voto, disse que o natural era ter o governo brasileiro preparado um programa
dos festejos para a recepção dos reis belgas, no qual deveria estar compreendido um
orçamento restrito para as despesas, correspondente às exigências financeiras pelas quais a
Nação passava. Para ele, a verba concedida para o crédito deveria ser a “resultante de uma
combinação entre os dois poderes constituídos [Executivo e Legislativo], harmônicos e
independentes”. Ressaltou que as duas casas do Congresso não deveriam se “comprometer na
execução de um programa que o momento atual não comporte pelas dificuldades nacionais” e
criticou a posição do Congresso que, “facilitando a abertura de um certo crédito ilimitado [...]
alienou de si uma faculdade de importância, como órgão fiscalizador”.261
A aprovação da proposta do governo refletiu negativamente, ainda, em outros órgãos
da imprensa carioca, como no jornal Correio da Manhã, que, em sua edição de 27 de junho de
1920, lembrou que a administração nacional deveria passar por normas rigorosas de conduta e
questionou como “pôde o Congresso entregar ao governo executivo a faculdade de gastar sem
medida?”262.
Apesar do voto contrário de Soares dos Santos, o projeto do crédito ilimitado,
proposto pelo presidente Epitácio, também foi aprovado no Senado. Dessa forma, contava o

256
Ibidem.
257
Ibidem.
258
Ibidem.
259
Ibidem.
260
De acordo com o Diário do Congresso Nacional de 16 de julho de 1920, estiveram presentes à seção da
Comissão de Finanças do Senado os senadores: Bueno de Paiva, que presidiu a seção, Alfredo Ellis, João Lyra,
José Eusebio, Soares dos Santos, Felipe Schmidt, Gonzaga Jayme, o relator do projeto, e Francisco Sá.
261
O Paiz, Rio de Janeiro, 17 jul. 1920, p. 4.
262
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 27 jun. 1920, p. 2.
211

governo brasileiro com o aval do Congresso Nacional para executar os gastos necessários com
os preparativos e recepção da família real belga no Brasil.
Sendo assim, passou o governo a tratar dos detalhes da visita, a começar pela viagem e
a hospedagem dos soberanos da Bélgica. Como aponta Fagundes (2007, p. 59), a primeira
missão ficou a cargo de Barros Moreira, representante brasileiro em Bruxelas. O ministro das
Relações Exteriores brasileiro, Azevedo Marques foi o responsável por conduzir uma grande
reforma do ambiente interno e dos jardins no Palácio Guanabara, local escolhido para
hospedar os monarcas belgas durante a sua estada no Brasil. Obras de saneamento também
foram realizadas pela prefeitura do Distrito Federal no entorno do palácio. Cabe considerar,
que essa escolha, apontada pela autora, não deve ter se dado à toa, já que o Guanabara havia
servido de residência oficial da realeza brasileira, nos últimos anos da Monarquia: a Princesa
Isabel e o Conde D’Eu.
Os preparativos da viagem de Bruxelas ao Rio de Janeiro também foram envoltos em
algumas polêmicas. Inicialmente, o navio escolhido para o transporte da família real foi o
vapor Uberaba, que seria comboiado pelo encouraçado São Paulo. A escolha da tripulação
dos navios ficou a cargo de Barros Moreira. Em telegrama enviado a Azevedo Marques, o
chefe da legação brasileira em Bruxelas sugeriu que os oficiais encarregados pela busca dos
monarcas belgas deveriam falar francês e serem “mundanos”263. Sugeriu, também, a
composição da comitiva. Uma vez que a viagem seria feita a bordo de uma embarcação
militar, deveriam acompanhar o rei Alberto e sua família: um vice-almirante, que seria o
chefe da comitiva, um oficial general ou oficial superior do Exército, um oficial intermediário
da Marinha e um oficial intermediário do Exército. Barros Moreira destacou, ainda, no
mesmo telegrama, que, caso houvesse algum embaraço por conta da prerrogativa das patentes
dos oficiais generais, ele mesmo poderia chefiar a comitiva. Caso a proposta fosse aceita,
solicitou o comissionamento para a viagem na categoria de embaixador. (FAGUNDES, 2007,
p. 60)
A proposta de Barros Moreira, somente no que diz respeito à composição da comitiva,
foi aceita. Tendo ele próprio como chefe, mas não na condição de embaixador, foram
designados para compô-la: o general Augusto Tasso Fragoso, o capitão-de-fragata Henrique
Aristides Guilhem, o capitão-de-corveta Leopoldo da Nóbrega Moreira e o capitão José
Pessoa Cavalcanti de Albuquerque. Uma grande comitiva formada por membros da corte
belga, além da família real, também acompanharia o rei Alberto I ao Brasil. Faziam parte da

263
Nesse sentido, o termo utilizado por Barros Moreira diz respeito a oficiais que deveriam ter uma experiência
pessoal ou de carreira em outros países do mundo.
212

delegação do monarca: secretários do rei, damas de honra da rainha, oficiais do Exército


belga, médicos e dois sargentos do Exército belga que tinham a função de cinematografar a
visita. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 48; FAGUNDES, 2007, p. 61)
Entretanto, a maior polêmica em relação à viagem, como aponta Fagundes (2007, p.
61), esteve ligada à seleção dos marinheiros que comporiam as guarnições do Uberaba e do
São Paulo. Em maio de 1920, um boato sobre o critério adotado para a seleção, que estaria
sendo baseado na cor da pele dos marinheiros, passou a ser veiculado na imprensa. A Marinha
logo tratou de desmentir o boato. Uma pequena nota publicada no jornal O Paiz informava
que não tinha “fundamento algum o boato propalado, de que as autoridades superiores da
armada estão fazendo seleção de cor entre as guarnições do Uberaba e do couraçado S.
Paulo”264. Sobre o assunto, o Jornal do Brasil publicou que “as autoridades da Marinha estão
compenetradas da perfeita igualdade entre o elemento de cor e o elemento branco [...]
podemos garantir que absolutamente não há tal seleção de oficialidade e marinhagem desses
navios”265. Para as autoridades da Armada, “o preto, em especial, é resistente e trabalhador”266
e que apresentava grandes qualidades “como homens de guerra”267.
Segundo a autora, a polêmica da cor ainda estaria presente na escolha da guarda que
seria montada para serviço do rei. A notícia foi prontamente desmentida pela Guarda Civil da
Capital Federal, que negou existir tal ideia na corporação. (FAGUNDES, 2007, p. 62)
Apesar da negação dos boatos a respeito da seleção de cor, tanto dos marinheiros
como da guarda que acompanharia a família real belga, cabe lembrar que, ainda nas décadas
iniciais do Século XX, o recrutamento realizado pelas Forças Armadas brasileiras era feito,
principalmente, nas classes menos favorecidas da sociedade, devido à ineficácia da Lei do
Serviço Militar Obrigatório, que só viria a se consolidar entre as décadas de 1930 e 1940, um
assunto já debatido no capítulo anterior. Ainda que o discurso institucional fosse revestido de
uma prática liberal republicana, que negava o preconceito e sustentava a igualdade racial, é
um fato consagrado na historiografia militar que, tanto o Exército como a Marinha,
mantiveram, na República, o viés aristocrático das suas instituições.
Em maio de 1920, o Correio da Manhã noticiou a mudança de planos em relação ao
navio que buscaria o monarca belga e sua família. Segundo o jornal, as reformas pelas quais
deveria passar o Uberaba demandariam um tempo demasiado longo e não ficariam prontas a
tempo da partida para a Europa. Sendo assim, o governo brasileiro optou por utilizar o São

264
O Paiz, Rio de Janeiro, 15 maio 1920, p. 4.
265
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 15 maio 1920, p. 4.
266
Ibidem.
267
Ibidem.
213

Paulo no transporte da família real, uma vez que as reformas desta embarcação demorariam
apenas umas poucas semanas.268
Silva (2016, s.p.) lembra que em 1920 o São Paulo tinha acabado de retornar dos
Estados Unidos, onde passou por modernização, em um estaleiro daquele país. O navio era
um dos dois encouraçados da categoria Dreadnought que haviam sido adquiridos da
Inglaterra, ao final da primeira década do Século XX, juntamente com toda uma nova
esquadra. A aquisição elevou o Brasil à categoria de potência naval no cenário sul-americano.
O autor lembra que, ainda que estivesse desatualizado, diante da evolução que as belonaves
de guerra sofreram durante a Primeira Guerra Mundial, o São Paulo, graças aos 150 metros de
comprimento e capacidade de abrigar cerca de 1.000 tripulantes, ainda era um poderoso
símbolo para uma nação que pretendia participar ativamente do concerto internacional.
A imprensa carioca deu uma atenção especial aos preparativos do São Paulo para a
viagem à Bélgica. Apesar da ampla reforma por que passou o navio, os aposentos que foram
destinados aos monarcas belgas seguiram vazios, já que a aquisição do mobiliário que os
comporiam seria adquirido na Inglaterra, na tradicional casa de móveis Waring & Gillow.
Apesar da simplicidade dos aposentos, tudo tinha um “aspecto agradável”. Tudo havia sido
pensado para o conforto da família real. Um salão de jantar “sombrio” e com um “elegante
conforto” foi providenciado para a realeza. Outro amplo refeitório seria utilizado pelas
comitivas. Uma cozinha e uma padaria foram montadas e a dispensa foi fartamente abastecida
com produtos nacionais. Houve, ainda, o cuidado para que, do passadiço superior do navio,
fosse possível ao rei e à rainha vislumbrarem a Baía da Guanabara, quando da chegada da
embarcação ao Rio.269

268
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 18 maio 1920, p. 3.
269
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 27 jul. 1920, p. 3; O Paiz, 27 jul. 1920, p. 4.
214

Imagem 24 – Encouraçado São Paulo no Rio de Janeiro, 1920.

Fonte: Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, 1920.

A decisão de se adquirir os móveis para os aposentos reais na Europa foi considerada


um “atentado à indústria nacional”. Na visão do Correio da Manhã, perdeu-se uma
“magnífica oportunidade de demonstramos aos soberanos europeus a capacidade dos nosso
industriais e, também, de fazê-los conhecedores da riqueza das nossas florestas”. O jornal
destacou ainda que a reforma planejada para o Uberaba sempre esteve nas mãos da indústria
nacional. Dessa maneira, era incompreensível porque o governo brasileiro não havia aberto
uma concorrência entre as firmas nacionais para a reforma do São Paulo. Considerava, ainda,
a atitude tomada pela comissão encarregada pela reforma “uma ação impatriótica, a qual [...]
vai esconder a opulência das nossas madeiras e o elevado grau de desenvolvimento que
atingimos na indústria mobiliária”.270
Uma biblioteca foi montada, a pedido do ministro das Relações Exteriores brasileiro,
Azevedo Marques, com publicações e propagandas do Brasil e do estado de São Paulo.271
Também a pedido do ministro, um quinteto de cordas foi providenciado para estar a bordo do
São Paulo, durante as viagens de vinda e de volta à Bélgica. Selecionados dentre os mais
premiados do Instituto Nacional de Música, os músicos deveriam entreter os soberanos com

270
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 30 jul. 1920, p. 3.
271
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 27 jul. 1920, p. 3.
215

música de câmara, preferencialmente nacional.272 Tudo foi pensado para a alegria e satisfação
da família real durante a viagem.
O Rio de Janeiro também foi preparado para receber Alberto I, cuja imagem estava
associada à modernidade e aos novos tempos. Um rei entusiasta do progresso.
Segundo Fagundes (2007, p. 65), houve uma grande preocupação das autoridades
brasileiras em mostrar um Brasil civilizado, o que ficou bastante perceptível pela organização
da Capital Federal para a recepção. Para a autora, “a cidade do Rio de Janeiro reformada,
iluminada, saneada e modernizada, figurava como símbolo de que o Brasil havia finalmente
ingressado na era do progresso e da civilização”.
O grande responsável pelos preparativos da cidade para receber a realeza belga foi o
prefeito Carlos Sampaio, que tomou posse do governo da cidade do Rio de Janeiro após a
curtíssima gestão do advogado Milcíades Sá Freire. Sá Freire havia sido nomeado por
Epitácio Pessoa em julho de 1919, em substituição a Paulo de Frontin, que administrou a
cidade de janeiro a julho de 1919. Nesse curtíssimo período, Frontin iniciou uma política
pública que subsistiu nos governos posteriores: construir uma cidade moderna, vitrine de uma
nação voltada ao progresso. Na sua gestão, planejou a derrubada do Morro do Castelo, um
projeto que seria concretizado somente duas gestões à frente, e priorizou a urbanização da
zona sul da cidade, com a abertura de ruas por toda a costa. (FAGUNDES, 2007, p. 66-67)
Sá Freire recebeu a prefeitura do Rio de Janeiro com as finanças no vermelho, graças
às políticas de gastos sem controle implementadas pelos prefeitos anteriores. Ao assumir,
colocou como meta do seu governo reequilibrar as finanças públicas, o que provocou uma
série de duras críticas, tanto da população como da imprensa carioca. Afinal de contas, a
cidade deveria se preparar para dois grandes eventos: a recepção dos reis belgas, em 1920, e
as festividades do centenário da Independência, em 1922. Sendo assim, com menos de um ano
de governo, Sá Freire pediu demissão do cargo, em junho de 1920, assumindo Carlos
Sampaio. (FAGUNDES, 2007, p. 66-69)
Diante da precariedade financeira da prefeitura, Sampaio se viu diante do dilema de
renunciar ao cargo de prefeito ou assumir as suas funções e tratar de preparar a cidade para a
recepção de Alberto I, o que fez tomando um empréstimo junto ao governo federal para
concluir as obras iniciadas nas gestões anteriores. Além disso, ainda seria necessário executar
a limpeza e a reparação de algumas ruas do município, principalmente as da orla, como as
avenidas Atlântica e Niemeyer, esta uma obra não acabada da gestão de Paulo de Frontin. A

272
A Noite, Rio de Janeiro, 17 jul. 1920, p. 3.
216

energia com que o novo prefeito impulsionou os serviços públicos da cidade foi aclamada
pela imprensa carioca. (FAGUNDES, 2007, p. 70-71)
Por ocasião da sua nomeação, o jornal O Paiz destacou a longa experiência de
Sampaio como engenheiro e sua trajetória profissional em grandes empresas, o que lhe dava
“dotes completos de organizador e administrador”273, além de conhecer “a fundo o que
possuem, em matéria de serviços públicos, as mais adiantadas capitais do mundo”274. O
periódico também lembrou ser o novo prefeito “um sincero apaixonado das incomparáveis
belezas do Rio de Janeiro, cuja evolução tem acompanhado cuidadosamente”275.
As obras realizadas por Sampaio se concentraram, principalmente, na zona sul da
cidade, com a construção do bairro da Urca, a urbanização da Lagoa Rodrigo de Freitas e a
construção da Avenida Epitácio Pessoa, transformando a área em um local que seria, em
pouco tempo, tomado pela elite da sociedade carioca. No centro da cidade, os lampiões da
Avenida Rio Branco formam substituídos por uma moderna iluminação elétrica e a cidade
recebeu uma pintura e lavagem das fachadas dos prédios e das ruas principais. Entretanto, a
sua gestão ficou marcada pela demolição do Morro do Castelo, sob a justificativa de que a
obra permitiria a melhoria do aspecto estético do centro da cidade, já com vistas às
comemorações do centenário da Independência. O fato é que a cidade não estava sendo
preparada somente para o rei Alberto I ver, e, sim, no local para onde todos deveriam ir para
poder vislumbrar o famoso rei dos belgas. Nos dias que antecederam a chegada da realeza ao
Rio de Janeiro, os principais jornais da cidade noticiavam o grande número de visitantes que
chegavam à cidade para as festividades. Paulistas, mineiros, sulistas e moradores do interior
do estado do Rio de Janeiro lotavam os hotéis e pensões cariocas e congestionavam o
movimento dos trens na Central do Brasil. (FAGUNDES, 2007, p. 74-78)
O reconhecimento de que o esforço despendido por Carlos Sampaio para embelezar a
cidade e torná-la mais agradável aos olhos da monarquia era necessário não foi unânime. As
principais críticas feitas às obras, se bem que feitas por uma minoria, apontavam os gastos
desnecessários feitos na reforma do Rio de Janeiro. A edição do Correio da Manhã de 20 de
junho destacava que o projeto de remodelação da cidade posto em prática serviria, sobretudo,
para aumentar as grandes fortunas dos “tubarões dos altos negócios, engenheiros, arquitetos,
fornecedores, banqueiros, prestamistas e todos quantos sabem aproveitar as grandes

273
O Paiz, Rio de Janeiro, 8 jun. 1920, p. 3.
274
Ibidem.
275
Ibidem.
217

ocasiões”276. O que causava admiração ao colunista era que, enquanto todos estavam “a ver, a
assistir à organização do grande assalto aos dinheiros públicos de uma nação empobrecida [...]
o governo não perceba nada do que se passa, e esteja, ele próprio, a acoroçoar as ambições em
ebulição”277. E ressaltava que, se a cidade pudesse despertar algum interesse no rei Alberto, o
que era de se duvidar, seria em “lhe facultarmos o conhecimento exato do que somos, sem
exageros, nem embelezamentos de fantasmagoria, conseguidos a última hora com dinheiro
que não temos, e que havemos de pagar a juros de judeus...”278. Fagundes (2007, p. 73)
lembra que não só do governo federal a prefeitura do Rio de Janeiro tomou empréstimos, mas,
também, do setor privado, o que garantiu a construção da Urca.
Tão importante quanto organização da viagem dos soberanos belgas e a remodelação
da Capital Federal foi a elaboração do programa a ser seguido pelo rei Alberto e sua família
no Brasil. Para isso, foi montada uma comissão sob a chefia do ministro Azevedo Marques,
que se encarregou de pensar as recepções, os passeios e as comemorações que seriam
oferecidas. O grande desafio foi se pensar uma série de atividades originais, que fugisse às
expectativas do rei e da rainha. Alberto I era tido como um homem de gostos simples e que
gostava de escapar dos festejos oficiais. Ciente dos hábitos do rei, Epitácio Pessoa
recomendou que se montasse um roteiro que privilegiasse paradas militares, passeios nos
pontos turísticos do Rio de Janeiro, espetáculos culturais, excursões ao campo e viagens a São
Paulo e Minas Gerais, dentre outras atividades. (FAGUNDES, 2007, p. 82-83)
O objetivo era deixar os reis à vontade e fatigá-los o mínimo possível. Encontros com
a colônia belga e visitas a hospitais e institutos médicos foram lembrados por Barros Moreira
para serem incluídos no roteiro. Ainda que os programas de São Paulo e Minas Gerias
tivesses sido feitos em separado, alguns pontos em comum eram perceptíveis nos três roteiros
elaborados: a grande quantidade de cerimonias em estabelecimentos públicos, as visitas a
institutos de ensino e pesquisa, as paradas militares, os grandes banquetes e as visitas ao
interior dos três estados. (FAGUNDES, 2007, p. 83-84)
Segundo Fagundes (2007), outros dois pontos que causaram polêmica durante os
preparativos para a chegada dos reis foram a criação da Ordem do Cruzeiro e o
estabelecimento de um protocolo para a recepção dos soberanos.
Em relação ao primeiro ponto, a autora lembra que o grande problema era que a
Constituição de 1891 proibia as condecorações. Entretanto, Epitácio Pessoa, quando em visita

276
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 20 jun. 1920, p. 2.
277
Ibidem.
278
Ibidem.
218

à Bélgica, já havia contrariado a Constituição ao aceitar as condecorações que lhe foram


oferecidas pelo governo belga279. Em um projeto apresentado à Câmara dos Deputados, o
deputado Celso Bayma propôs a criação da Ordem do Cruzeiro, com a finalidade de distinguir
o rei Alberto durante a sua estada no Brasil. A proposta era de criação de uma nova ordem e
não de restabelecimento da antiga ordem monárquica que atribuía caráter de nobreza ou
vantagens àqueles que a recebessem. Após uma ampla campanha contrária de parte da
imprensa carioca, destacadamente dos jornais O Paiz e Correio da Manhã, que se
posicionaram em defesa da Constituição e contra a criação da nova comenda, e de alguns
deputados constitucionalistas, a proposta foi retirada da pauta de discussões da Câmara e o
assunto foi encerrado. (FAGUNDES, 2007, p. 99-103)
Quanto à questão protocolar, a celeuma que se estabeleceu foi em relação à recepção
da família real no cais da Praça Mauá. O protocolo, elaborado exclusivamente pelo Itamaraty,
não previu a presença das comissões montadas pela Câmara e pelo Senado no cortejo real,
uma deferência que foi feita somente ao presidente Epitácio e seus familiares e aos membros
das casas civil e militar. Foi o que bastou para que veementes protestos se levantassem entre
os membros do Congresso Nacional e na imprensa, que trataram de lembrar que os princípios
republicanos primavam pela existência de três poderes e que o governo não era somente
constituído pelo Executivo. O senador Irineu Machado lembrou que a visita do rei belga era
ao Brasil, e não ao presidente da República, em retribuição ao gesto do parlamento brasileiro
que, em 1914, votou a moção de protesto contra a invasão alemã do território belga. O
governo justificou-se dizendo ter adotado o protocolo francês, que previa somente a presença
dos membros do Executivo no cortejo real. A edição de O Paiz de 16 de setembro ressaltou a
escolha infeliz do protocolo francês e que em trinta anos de vida republicana não havia por
que sentir-se mal em utilizar o protocolo caseiro. (FAGUNDES, 2007, p. 112-114)
O fato é que a programação para a visita prosseguiu, sem alteração de protocolo e sem
concessão de comendas.
Em 27 de julho de 1920, dia da partida do São Paulo para a Bélgica, Epitácio Pessoa
compareceu ao Arsenal da Marinha, para fazer uma inspeção no navio e dirigir a palavra à
tripulação que seguiria para a Europa. Em companhia do ministro da Marinha, almirante Raul
Soares e do comandante da embarcação, capitão de mar-e-guerra Tancredo Gumesoro,

279
Ao escrever a biografia do pai, Gabaglia (1951, p. 297) lembra que Epitácio, mesmo sabedor da restrição que
a Constituição lhe impunha, resolveu aceitar as comendas, por considerar que recusá-las implicaria em um ato
diplomático indelicado com o ofertante.
219

Epitácio visitou todas as dependências do São Paulo, dedicando mais atenção àquelas que
serviriam de acomodação ao rei Alberto e à família real. 280
Após a visita, o presidente fez um discurso dirigido aos oficiais e marinheiros do
navio. Epitácio destacou a missão que a tripulação iria cumprir, “da maior importância, da
maior soberania”. Como era a primeira vez que um navio brasileiro iria buscar um chefe de
estado na Europa, pediu à tripulação que avaliasse a significância da viagem para “a expansão
do nosso comércio, das nossas indústrias, para nossa prosperidade, em suma”. Sob o ponto de
vista político e do convívio internacional, ressaltou a importância da visita de Alberto I, pois,
o rei não era “qualquer chefe de estado, e sim aquele que nos momentos mais sombrios da
história soube defender com brio e denodo a fé dos tratados e a integridade de sua pátria”.
Mas, além dos aspectos econômico e político, a missão era delicada porque a tripulação
também iria “levar a longes terras e a estranhas gentes uma impressão de nossa cultura e da
nossa educação militar [...] os tesouros da vossa cultura [...] os hábitos de boa sociedade”. Os
oficiais e marinheiros seriam um reflexo “da nossa civilização e do nosso adestramento”. O
Brasil esperava “que suas tradições sejam representadas dignamente pelo vosso patriotismo e
pelo vosso pundonor de soldados”. Após o discurso, que provocou forte comoção entre os
presentes, a visita do presidente da República foi brindada com champagne nos aposentos que
seriam destinados ao rei Alberto.281
A tripulação do São Paulo estava composta pelo comandante da embarcação, 21
oficiais, 2 oficiais de ordens do rei e da rainha, 2 oficiais médicos, 1 oficial farmacêutico, 15
oficiais de máquinas, 1 mestre, 2 contra-mestres, 18 sub-oficiais (enfermeiros, escreventes,
armeiros, carpinteiros e caldeireiros), 40 mecânicos, 400 marinheiros, 388 foguistas, 50
praças do batalhão naval e marinheiros da banda de música e marcial. Além desses militares
seguiam juntos 20 garçons contratados pela confeitaria Falcone de Petrópolis e 5 professores
de música que compunham o quinteto de cordas. O general Tasso Fragoso também seguia a
bordo. Como se pode perceber, tudo foi pensado para o maior conforto da família real.282
Antes de chegar à Bélgica, o São Paulo faria duas paradas, uma na ilha de São Vicente
ou da Madeira, para reabastecer de carvão, e outra no porto de Portsmouth, na Inglaterra, para
receber o mobiliário que seriam instalados nos aposentos dos reis belgas. Segundo José
Pessoa (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 61), Epitácio manifestou ao comandante
Gumensoro o desejo de que o São Paulo recebesse o rei Alberto e sua família no porto belga

280
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 27 jul. 1920, p. 3; O Paiz, Rio de Janeiro, 27 jul. 1920, p. 4.
281
O Paiz, Rio de Janeiro, 27 jul. 1920, p. 4
282
Ibidem.
220

de Zeebruge, que havia sido destruído durante a guerra pelos alemães e estava sendo
reconstruído. Seria um grande serviço à Bélgica se o navio ancorasse naquela localidade, pois,
assim mostraria ao mundo que o porto já estava livre à navegação. Caso não fosse possível, o
encouraçado deveria se dirigir ao porto de Antuérpia. A perícia dos marinheiros brasileiros
permitiu que, em 28 de agosto de 1920, o encouraçado brasileiro atracasse em Zeebruge, onde
receberia os soberanos belgas a bordo.
Cabe ressaltar, como aponta Fagundes (2007, p. 118), que a restrição imposta à
impressa brasileira, de acompanhar a viagem dos soberanos a bordo do São Paulo, somente
permitiu à população brasileira saber o que aconteceu na Bélgica, e como a viagem
transcorreu, após o navio aportar no Brasil, quando os repórteres brasileiros puderam
entrevistar alguns membros da tripulação. Também as narrativas memoriais de José Pessoa
permitem entender o que se passou na apresentação da comitiva brasileira aos soberanos
belgas e nos dias em que o encouraçado cruzou o Atlântico.
José Pessoa juntou-se à comitiva brasileira na Bélgica. A descrição que ele faz da
recepção no Palácio Real reforça a imagem construída de Alberto I, própria de uma
aristocracia que sempre cativou Pessoa, de um rei intelectual e moderno, atento ao que
acontecia na geopolítica mundial.

O encontro com Suas Majestades e os Príncipes se deu no Palácio Real de Bruxelas,


no salão dourado do palácio, onde fomos recebidos carinhosamente pelos
Soberanos, apresentando-se a rainha num magnífico vestido de musselina branco,
com duas raras orquídeas no peito, que lhe ressaltavam a elegância; o rei envergava
o uniforme. Recordo-me de que, no decorrer da alegre visita, estivemos divididos
em dois grupos: em um, no qual estavam a Rainha e o Rei a conversa girava sobre
geografia e assuntos do Brasil; no outro, onde me achava, dissertava-se sobre a
guerra e política mundial. Em dado momento, o príncipe herdeiro, Leopoldo, Duque
de Brabant, nos levou a um amplo salão, onde se achava instalado o gabinete do rei,
guarnecido de mobiliário severo e muitas estantes, a fim de consultar o “mapa-
mundi” a propósito da divergência que houve entre sua alteza e o conde
D’Outremont, ex-colega do rei, sobre a posição geográfica do arquipélago malaio, o
maior grupo de ilhas do mundo nos oceanos Pacífico e Índico. Em cima da mesa de
trabalho do rei, repleta de documentos e livros, sobressaíam os retratos da rainha e
dos príncipes.
Nesse ambiente íntimo é que o rei discutia os mais sérios problemas de história e
filosofia, com Einstein e Boglie. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 62)

Na recepção, encontravam-se presentes os membros da comitiva belga, que


acompanhariam o rei e a rainha ao Brasil: o príncipe Leopoldo; a Condessa Chislaine de
Caraman-Chimay, dama de honra da rainha; coronel de Estado-Maior Tilkens, ajudante-de-
ordens do rei; Conde D’Outremont, vice-grão marechal da corte, adido da casa militar do rei;
Max Léo Gérard, secretário do rei; Major Dujardin, oficial de ordens; Dr. Wolf, médico do
221

rei; professor Sarolea, da Universidade de Edimburgo; e o prelado Guirin Nols, capelão.


(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 63)
De uma conversa informal que teria ocorrido entre um grupo de oficiais do São Paulo
com alguns transeuntes e jornalistas na Avenida Atlântica, publicada na edição de 20 de
setembro do Correio da Manhã, também é possível extrair algumas informações sobre os dias
em que a tripulação permaneceu naquele país.
Segundo um tenente do encouraçado, a recepção aos brasileiros na Bélgica “valeu por
um testemunho da hospitalidade e da índole afetiva e generosa do povo amigo”. Esse mesmo
oficial lembrou que a curiosidade do povo belga em ver o São Paulo era enorme. Enquanto o
encouraçado permaneceu ancorado em Zeebruge, ocorreram “verdadeiras invasões do navio,
por pessoas de todas as classes, das mais altas às mais humildes”, chegando a tornar-se a
embarcação “uma fonte de distração para os elegantes veranistas de Ostende”. No período em
que permaneceram em território belga, uma programação de visitas ao antigo front em que
ocorreram as mais famosas batalhas da Primeira Guerra Mundial, na região dos Flandres, um
banquete e uma agenda de festas e visitas a museus, igrejas, vilas, escolas e estabelecimentos
públicos foi oferecida aos oficiais do São Paulo.283
Passados esses agradáveis dias de permanência na Bélgica, no dia 1º de setembro o
encouraçado brasileiro e sua tripulação encontravam-se preparados para o regresso ao Brasil.
Os reis belgas, acompanhados dos príncipes herdeiros e da sua comitiva, chegaram ao cais de
Zeebruge às 13 horas, em um trem especial vindo de Bruxelas. Conforme relatou Assis
Chateaubriand, enviado especial do Jornal do Brasil à Bélgica, para acompanhar a partida dos
reis belgas para o Brasil, “todas as estradas que conduzem a Zeebruge achavam-se
concorridas como nunca. Ricos e pobres, camponeses, fazendeiros e numerosas pessoas
vindas das localidades próximas apinharam-se no porto para se despedir dos soberanos”. Os
soberanos foram recebidos pelas autoridades locais e passaram por um longo tapete vermelho
ladeado por soldados até chegarem ao São Paulo, onde os aguardavam Barros Moreira, chefe
da comitiva brasileira, o general Tasso Fragoso e comandante Gumensoro.284
Antes de embarcar, o rei inaugurou na parça do cais de Zeebruge uma placa de bronze
com o nome de toda a oficialidade do São Paulo, por ter sido ele o navio de maior calado a
aportar naquele porto.285

283
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 3.
284
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 2 set. 1920, p. 7
285
O Imparcial, Rio de Janeiro, 21 set. 1920, p. 5
222

Imagem 25 – Chegada dos reis belgas à estação de Zeebruge, por ocasião do embarque para o Brasil,
1 set. 1920.

Fonte: Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, 1920.

O rei, seguido da rainha Elisabeth, foi recebido a bordo por uma guarda do batalhão
naval brasileiro, a qual passou em revista. A oficialidade do navio, a música de bordo e mil
marinheiros brasileiros formavam no convés em uniforma de gala. Uma salva de gala foi feita
pelas artilharias brasileira e belga. Exatamente às 14 horas o São Paulo deixou o porto, “por
entre estrondosas aclamações da multidão”.286
Os príncipes herdeiros não acompanharam os reis na viagem ao Brasil. Os príncipes
Charles e Maria José não os acompanharam por conta dos estudos. Já o príncipe Leopoldo
chegaria ao Rio de Janeiro no dia 5 de outubro, juntando-se à comitiva real na cidade de São
Paulo. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 70)

286
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 2 set. 1920, p. 7; Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 7 out. 1920, p. 7.
223

Imagem 26 – Embarque do rei Alberto I e comitiva no encouraçado São Paulo em Zeebruge, 1 set. 1920.

Fonte: Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, 1920.

Segundo José Pessoa, a viagem para o Brasil transcorreu em “um ambiente de


cordialidade e mar sereno”. A travessia do Atlântico foi feita em um clima divertido e alegre.
Graças ao empenho da oficialidade do São Paulo, até mesmo os ofícios religiosos, tanto os
protestantes como os católicos, não deixaram de ser celebrados. Tudo foi feito para amenizar
os dias dos soberanos e comitiva a bordo do navio. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 64)
Nos primeiros dias de viagem, um rigoroso protocolo foi seguido por todos a bordo,
tendo à frente o chefe da comitiva brasileira, Barros Moreira. Entretanto, todo esse ambiente
cerimonioso não foi bem aceito pelo rei e pela rainha, que manifestaram o desejo de que todo
aquele rigor fosse posto de lado, já que julgavam que a bordo deveria reinar entre todos a
mais simples cordialidade. Sendo assim, a partir do segundo dia de viagem uma atmosfera
diferente passou a ser percebida no navio.287
A simplicidade dos soberanos a bordo conquistou a simpatia dos marinheiros do
encouraçado. Apesar da disciplina imposta pelos oficiais, que os obrigava a manter distância
dos reis, Alberto I não se conformava em falar somente com a oficialidade, dispensando a
mesma atenção a toda a tripulação. Nas palavras de um marujo, o rei era “uma figura popular
287
O Imparcial, Rio de Janeiro, 21 set. 1920, p. 5
224

e assim é que deve ser”288. De hábitos simples, acordava muito cedo e caminhava durante
horas pelo convés do São Paulo, procurando inteirar-se, com a oficialidade, da posição do
navio no mar. Durante a viagem, procurou, também, inteirar-se da rotina do encouraçado.
Percorreu todos os recantos do navio, indo, inclusive, até a caldeiraria, para acompanhar a
faina dos marinheiros que a abastecia com carvão. Não dispensou, também, a prática dos
esportes que lhe foram arranjados a bordo, sendo quase sempre acompanhado pela rainha e os
demais membros da comitiva belga.289
A rainha Elisabeth, quando não estava em companhia do rei, passava as horas do dia
na sala de música, com o quinteto de cordas. Exímia violinista, reunia-se diariamente com os
músicos brasileiros para executar peças de Bach, Mendelssohn, Vivaldi e outros autores
clássicos de renome. Não desprezava, entretanto, a música regional. Em uma das noites da
viagem, em companhia do rei, subiu ao convés para apreciar a marujada tocando samba e
maxixe.290
José Pessoa nutria uma profunda admiração pelos soberanos e assim os descreveu:

O rei, de aspecto reservado, formava com a rainha um verdadeiro contraste: ele, de


estrutura agigantada, cheio de vigor, taciturno, passava horas lendo, com os olhos de
míope, agarrado avaramente aos assuntos da botânica, da filosofia, da história.
Quanto à botânica, dizia um dos seus biógrafos, “praticava-a por instinto, como
todos os príncipes da família, que desde, Alberto, príncipe consorte da Inglaterra até
Boris, da Bulgária, passaram a vida toda com um herbário debaixo do braço”.
Era um soldado a toda prova, que nos fazia lembrar o herói da Batalha de Marne,
quando ordenou aos seus comandados: “a tropa que não puder mais avançar deverá,
custe o que custar, guardar o terreno conquistado e se faire tuer sur place plutôt que
de reculer”.
O rei Alberto foi bem o continuador da tradição do nome do seu pai, Leopoldo II, o
grande monarca realizador de uma das maiores epopeias da colonização africana do
Século XX – conquista do rico e extenso Congo Belga (dezenas de vezes maior que
a Bélgica).
A rainha Elisabeth, de pequeno talhe, graça e altivo porte, comunicativa, com seus
belos olhos azuis, era de uma doçura e infinita simpatia. Soberana, mãe e enfermeira
de guerra, consciente de seu destino augusto, ela deu exemplo ao mundo, deixando-
os gravados imorredouros.
“A rainha Elisabeth, escreveu o barão Von der Elst nos seus Souvenirs de Guerra,
foi, na tempestade, a estrela brilhante e serena; uma aureola parecia envolver sua
silhueta delgada e graciosa, quando ela aparecia aos soldados nas trincheiras, ou
mesmo nos vestíbulos dos hospitais, cheios de feridos e moribundos. Todos eram
conquistados, dominados, e os rudes combatentes, com os olhos úmidos, cerravam o
punho dizendo: ‘por ela, mesmo assim, faremos matar’.”
Poucos soberanos terão, como essa heroína, amorosa à pátria e caridosa rainha,
maior direito à imortalidade.

288
A Razão, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 3.
289
O Imparcial, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 5; Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 3.
290
O Imparcial, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 5; Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 3.
225

Assim, suas majestades, desde os primeiros dias de viagem, conquistaram o nosso


devotamento e afeição fraternal. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 65-66)

Imagem 27 – Rei Alberto I e Rainha Elisabeth, 1920 (nas fotos uma dedicatória
ao capitão de corveta Leopoldo da Nóbrega Moreira, que foi ajudante-de-ordens
da rainha durante a visita ao Brasil).

Fonte: Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, 1920.

Apesar de ter sido providenciado um cômodo separado para os reis realizarem as suas
refeições, os soberanos preferiram fazê-las juntamente com os membros das comitivas
brasileira e belga. Nos dias 15 e 16 de setembro, um almoço foi oferecido pelos oficiais do
São Paulo ao rei e à rainha, respectivamente. Nesses dias, tanto Alberti I como Elizabeth
fizeram as suas refeições na praça d’armas do navio, juntamente com a oficialidade do
encouraçado.291
As noites da viagem ainda foram animadas com sessões de cinema, ocasiões em que
eram exibidos filmes sobre o Brasil, e retretas da banda naval. As festas também eram uma
constante. Uma, em especial, marcou a passagem do São Paulo pela Linha do Equador, no dia
14 de setembro. Seguindo a tradição marítima, os presentes a bordo que nunca haviam
cruzado a linha equinocial deveriam ser apresentados ao “rei Netuno”, na ocasião um
marinheiro veterano travestido de deus dos mares, e serem submetidos a um batismo, em um

291
Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 4.
226

tanque de água previamente preparado. Um oficial do navio sugeriu o batismo da rainha


Elisabeth. Acabou ele mesmo sendo batizado.292
O 7 de Setembro também foi comemorado a bordo. Pela manhã, o rei passou em
revista à guarnição do São Paulo, que formava no convés. Logo após a cerimônia, Alberto I
expressou o desejo de condecorar alguns oficiais e praças brasileiros. Como não era possível
premiar a todos, os próprios militares elegeram quem deveria receber a honraria ofertada pelo
soberano belga. O monsenhor Nols, capelão da Casa Real, realizou um ofício religioso, que
foi acompanhado de música sacra executada pelos músicos do quinteto brasileiro. À noite
houve um jantar de gala na praça d’armas do navio, com a presença dos oficiais. Na ocasião,
o rei utilizou a palavra para saudar a data da independência brasileira, sendo correspondido
pelo comandante Gumensoro. Ao final do jantar, o rei condecorou os musicistas brasileiros
com a Ordem da Coroa belga. 293

Imagem 28 – Os reis belgas a bordo do São Paulo, 1920.

Fonte: Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, 1920.

Dois dias depois, o São Paulo aportou próximo à costa africana, na ilha de São
Vicente, para recompletar o estoque de carvão. Durante a parada, os reis foram a terra e
acabaram pernoitando na ilha. Apesar da recepção que fora preparada para os soberanos
belgas, o rei preferiu fazer uma caminhada pelo campo. Com seu vigor físico, subiu encostas,

292
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 3; Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 4.
293
O Imparcial, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 5; Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 3.
227

escalou rochedos e atingiu os picos mais altos da baía da ilha. De acordo com a Gazeta de
Notícias, somente um dos ajudantes-de-ordens do rei conseguiu acompanhá-lo até o fim da
caminhada, “o capitão Pessoa, treinado nas marchas de guerra e treinado no ‘front’”. Antes da
partida, o rei e a rainha depositaram um ramo de flores nos túmulos dos tripulantes do navio
brasileiro Piauí sepultados no cemitério da ilha, mortos durante as operações de patrulha das
quais a embarcação participou em Cabo Verde, durante a Primeira Guerra Mundial.294
Um fato não noticiado pelos jornais cariocas, mas lembrado por José Pessoa, foi a
morte de um marinheiro em um acidente ocorrido a bordo, no dia 12 de setembro. O
comandante Gumensoro pretendia realizar a cerimônia de lançar o corpo ao mar à noite, após
o rei e a rainha terem se recolhido aos seus aposentos. Entretanto, Alberto I, ao saber do
ocorrido, comunicou ao comandante que, ele e a rainha pretendiam comparecer às honras
fúnebres. Às 21 horas o navio parou em alto mar e toda a guarnição formou no convés. Com a
presença dos soberanos, o monsenhor Nols conduziu o ofício religioso. O corpo do
marinheiro foi coberto com a bandeira do Brasil e lançado ao mar. Às 22 horas o São Paulo
retomou a sua marcha. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 66-67)
Às 17 horas do dia 14 de setembro, o São Paulo passou pela ilha de Fernando de
Noronha, já navegando em águas nacionais. A previsão da chegada do encouraçado à Capital
Federal era o dia 18 de setembro, o que foi motivo de contentamento entre todos a bordo. No
entanto, à meia-noite do dia 17 de setembro, um radiograma do presidente Epitácio Pessoa
chegou ao navio, pedindo a aquiescência do rei para adiar a chegada em 24 horas. O pedido,
como noticiou O Imparcial, “ecoou tristemente, prejudicando muito as distrações a bordo”.295
A solicitação de Epitácio faz todo o sentido. Nada poderia ser mais significativo para a
cidade do Rio de Janeiro do que receber a realeza no Domingo, quando toda a população
poderia voltar a sua atenção para a chegada dos soberanos. E foi isso o que aconteceu. Ao
invés de chegar no dia 18 de setembro, ao cair da noite de um Sábado, o São Paulo fundeou
as suas âncoras em frente ao píer da Praça Mauá no Domingo, dia 19 de setembro, o que
permitiu aos reis belgas desfrutar de todo o cerimonial que havia sido preparado pelas
autoridades brasileiras.
Às 13 horas do dia 19 de setembro, então, o São Paulo adentrou a Baía de Guanabara,
escoltado pelos destroieres Pará, Piauí, Paraná, Sergipe, Santa Catarina e Paraíba, da
Marinha brasileira, e hidroaviões da Escola de Aviação Naval. Foi recebido sob salvas de
tiros dos canhões das fortalezas de Santa Cruz, de São João e da Lage, ao que foram

294
Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 4.
295
O Imparcial, Rio de Janeiro, 21 set. 1920, p. 5.
228

correspondidas com uma salva do encouraçado. Às 14 horas, o presidente Epitácio Pessoa a


bordo da galeota D. João VI partiu em direção ao São Paulo, para recepcionar o rei Alberto I.
Acompanhava-o a Sra. Epitácio Pessoa, sua filha mais velha Laurita Pessoa, os ministros das
Relações Exteriores e da Marinha, Azevedo Marques e Raul Soares, o ministro da Bélgica,
Robyns de Scheidaner, e alguns outros oficiais da Marinha e da Casa Militar do governo.296
Os jornais da Capital Federal destacaram a imponência do cais da Praça Mauá, “que
impressionava bem pelo seu asseio impecável e pela sua decoração que realçava de uma
maneira extraordinária”297. De acordo com o Correio da Manhã, desde muito cedo uma
grande massa popular já procurava o melhor lugar para observar o “rei-herói”. Forças do
Exército fizeram um rigoroso isolamento dos locais pelos quais os ilustres visitantes iriam
passar. A guarda civil e a polícia providenciaram o isolamento da praça, que estava enfeitada
com bandeiras da Bélgica e do Brasil penduradas nos postes da iluminação pública e nos
prédios ao redor. Quanto à população, que ansiosamente aguardava a chegada dos reis,
“manteve-se à altura da nossa educação, honrando, assim e dignamente, os soberanos que
distinguem o Brasil com sua visita”298.

Imagem 29 – Praça Mauá na chegada dos reis belgas ao Rio de janeiro, 19 set. 1920.

Fonte: Acervo digital da Biblioteca Nacional. Coleção Brasiliana Fotográfica, 1920.

296
A Noite, Rio de Janeiro, 19 set. 1920, p. 2; Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 1.
297
Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 1.
298
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 1.
229

Apesar de toda a celeuma a respeito do protocolo a ser seguido na chegada dos


soberanos belgas ao Rio de Janeiro, representantes de todos os poderes encontravam-se na
Praça Mauá. Senadores, deputados, membros do Supremo Tribunal Federal, ministros de
estado, oficiais de alta patente do Exército e da Marinha, autoridades municipais e membros
da alta sociedade encontravam-se presentes no píer à espera da realeza, tudo sob a mais ampla
cobertura da imprensa nacional.
Às 14:30 horas, chegou ao cais a galeota D. João VI, tendo a bordo os reis belgas
acompanhados do presidente Epitácio e sua esposa, da dama de honra da rainha, do Sr. Barros
Moreira, chefe da comitiva brasileira, dos ministros das Relações Exteriores e da Marinha e
do general Tasso Fragoso. Os demais membros das comitivas brasileira e belga já haviam
chegado ao cais alguns minutos antes, a bordo da lancha Olga. Após o desembarque,
procedeu-se os atos protocolares, com o presidente da República apresentando ligeiramente
ao rei alguns poucos membros dos três poderes do Estado.299

Imagem 30 – Desembarque do rei Alberto I na Praça Mauá, 19 set. 1920.

Fonte: Acervo digital da Biblioteca Nacional. Coleção Brasiliana Fotográfica, 1920.

Antes do rei retirar-se do local, o prefeito do Rio de Janeiro, Dr. Carlos Sampaio, fez
uma longa saudação em francês ao soberano belga. Na sua fala, além de destacar as
qualidades e a simplicidade dos soberanos e a alegria que o povo brasileiro sentia em recebê-

299
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 1.
230

los, Sampaio ressaltou que esperava que a visita não se prestasse somente a uma troca de
cumprimentos entre os dois governos, mas, também, um estreitamento “das relações
comerciais, que, provocando o interesse recíproco, são sempre as que mais profundamente
aproximam os povos e os fazem amigos leais e verdadeiros”. Alberto I agradeceu as palavras
de Carlos Sampaio, e confessou estar impaciente para conhecer o Rio de Janeiro, cujos
esplendores já havia podido avaliar. Também ressaltou “o porto magnífico e tão bem
aparelhado do Rio de Janeiro”. E complementou que, do pouco que ele havia visto “já é o
bastante para me dar uma ideia das facilidades que o Brasil oferece à nossa navegação e ao
nosso comércio”. Após essas palavras, o rei Alberto retirou-se do cais em companhia do
presidente Epitácio. Antes de embarcar, juntamente com o presidente do Brasil, na carruagem
que os conduziria ao Palácio do Catete, recebeu a continência de um batalhão e a salva de
gala de uma bateria, ambos da Escola Militar, e ouviu os hinos belga e brasileiro, sob
aclamação popular.300
Laurita Pessoa Raja Gabaglia, filha de Epitácio, tinha dezenove anos de idade à época
da visita dos reis belgas. É por meio da sua narrativa a respeito dos fatos que vivenciou
naquele mês de outubro de 1920, transcrita na biografia que escreveu do pai anos mais tarde,
que é possível entender como ocorreu a passagem do rei Alberto I e da rainha Elisabeth pelo
Brasil.
O deslocamento do séquito real da Praça Mauá até o Palácio Guanabara, composto de
nove carros à Deaumont301, constituiu-se em um grande evento. Alberto I e Epitácio Pessoa
ocupavam o primeiro carro do cortejo. José Pessoa seguiu no sétimo carro, juntamente com o
general Tasso Fragoso.302 Durante todo o trajeto o cortejo, que seguiu pela avenida Rio
Branco, pelo largo da Glória, pela Praia do Flamengo e pela rua Paysandu, foi escoltado pela
Escola Militar. Tropas do Exército e da Marinha formavam em ambos os lados das avenidas e
ruas pelas quais a comitiva passou. A todo momento a população, que se aglomerava nas
calçadas e nas sacadas dos prédios, dava vivas e ovacionava os reis belgas. As bandas
militares tocavam sem cessar os hinos nacionais belga e brasileiro. No Flamengo, a massa
popular era tanta que as pessoas estavam trepadas nas árvores. Bandeiras dos dois países
enfeitavam todo o trajeto. Tanto o rei como a rainha acenavam a todo instante para o povo. O
cortejo foi recebido no Palácio da Guanabara ao som da Brabançonne, o hino nacional da

300
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 1.
301
Tipo de carruagem aberta.
302
Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 2.
231

Bélgica, cantado pelas alunas do Conservatório Nacional de Música e do Liceu Francês.


(GABAGLIA, 1951, p. 389-390)

Imagem 31 – Rei Alberto I e presidente Epitácio Pessoa desfilam em carro aberto


na Avenida Rio Branco, escoltados pela Escola Militar, 19 set. 1920.

Fonte: Site Enciclopédia Itaú Cultural, 2020.

Nos dois primeiros dias cumpriu-se o circuito diplomático da visita. No dia 19 de


setembro, à noite, o casal real belga foi recebido no Palácio do Catete para a visita protocolar
ao presidente da República. Nessa ocasião, foram apresentados a vários embaixadores. À
noite foram recebidos por Epitácio Pessoa e esposa para um jantar íntimo no Catete. No dia
seguinte, pela manhã, representantes do Congresso Nacional e outras autoridades foram
recebidos pelos soberanos belgas no Palácio Guanabara. À tarde, o rei Alberto, em companhia
do presidente Epitácio, foi recebido pelos representantes dos poderes Legislativo, no Palácio
Monroe, onde foi saudado pelos presidentes do Senado, senador Antônio Azevedo, e da
Câmara, deputado Bueno Brandão. Logo após seguiu para o Supremo Tribunal Federal, onde
foi recebido pelo ministro André Cavalcanti. A jornada de 20 de setembro foi encerrada com
um banquete no Palácio do Catete.303

303
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 20 set. 1920, p. 1; O Paiz, Rio de Janeiro, 21 set. 1920, p. 3.
232

Gablaguia (1953, p. 390) ressalta que não só as atividades diplomáticas atraíam o


interesse dos reis. Também a natureza, a cultura e os aspectos do interior brasileiros
despertavam a curiosidade de Alberto I e Elisabeth. Por conta disso, os responsáveis pelo
protocolo procuraram simplificá-lo o máximo possível. Ainda assim, as festas na Capital
Federal foram inúmeras, dentre as quais: banquetes, recepções no Catete e no Guanabara,
duas garden parties, uma no Guanabara e outra na Quinta da Boa Vista, um concerto de gala
no Teatro Municipal, uma parada militar e a festa veneziana na enseada de Botafogo. Além
dessas atividades, houve, ainda, uma excursão a Petrópolis e Teresópolis, ocasião em que
Suas Majestades inauguraram uma estrada de rodagem recém construída entre as duas
cidades.
Um aspecto importante discutido por Fagundes (2007, p. 148) foi o lugar privilegiado
que os eventos militares ocuparam durante a visita, especialmente se for levado em conta que
o Brasil recebia um “rei-soldado”, herói da Primeira Guerra Nacional, que liderou sua nação
na retomada do território belga do invasor alemão. Era crucial, portanto, que o Brasil pudesse
apresentar um exército igualmente patriota e, acima de tudo, moderno.
Entretanto, como lembra a autora, o Exército que se apresentaria ao rei era bem
diferente do pretendido. Era uma força armada que, dentre outros problemas, ainda não havia
conseguido resolver a questão do serviço militar obrigatório, cuja lei estava distante de se
tornar eficaz. Meses antes da chegada dos reis belgas, a imprensa carioca fazia críticas à falta
de empenho do governo em aparelhar o Exército para a visita. Conforme apontou o Jornal do
Brasil, era natural que um rei que “comandou, de fato e de direito, um grande exército durante
quatro anos da maior guerra da história” se interessasse pelo “estado de preparação do nosso
Exército”. Portanto, “uma parada, pelo menos” deveria lhe ser apresentada. Entretanto, o
Brasil não tinha “um só regimento, uma só tropa, que, à feição dos outros países, se
encarregue desses atos protocolares, que são a representação da força armada do país”.304
Além da participação direta na comitiva que acompanhou a família real, as Forças
Armadas atuaram nas atividades que se desenvolveram na chegada e na partida dos reis e na
grande parada militar que ocorreu no dia 22 de setembro. Todos eles foram eventos de grande
vulto e com grande presença da população carioca. Na edição do dia 20 de setembro, o
Correio da Manhã atribuía às tropas do Exército, da Marinha e das sociedades de tiro “o
grande brilhantismo de que se revestiu, ontem, a recepção dos soberanos belgas”. Segundo o
jornal, o garbo e a disciplina com que as tropas se apresentaram acabou “despertando na

304
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 15 maio 1920, p. 4.
233

massa popular um contentamento e um entusiasmo, que sem exageros podemos chamar de


indescritíveis”.
Porém, nada se comparou, em termos de apresentação militar, à parada realizada no
dia 22 de setembro. Sob o comando do general Luiz Barbedo, inspetor da 1ª Região Militar,
tropas das 1ª (Rio de Janeiro), 2ª (São Paulo) e 3ª (Minas Gerais) regiões militares, da
Marinha, das reservas do Exército e da Marinha e da Escola Militar, totalizando um efetivo de
cerca de 12.200 homens, reuniram-se na Quinta da Boa Vista, para uma apresentação ao rei.
Conforme O Paiz, em sua edição do dia 23 de setembro, era impossível descrever nas páginas
do jornal “a magnífica impressão causada, ontem, pela apoteose militar aos augustos
soberanos belgas”. Ressalta que “não há memória de uma parada que se tenha realizado com
tal imponência e com tão grande frequência”. O jornal lembrava que “não poderia o
presidente da República ter proporcionado ao rei dos belgas espetáculo que mais interessasse
o rei-soldado do que a demonstração de eficiência do nosso exército”. Entretanto, destacava
que Alberto I, “conhecedor dos grandes exércitos europeus [...] não poderia, certamente
deslumbrar-se com a nossa modesta força militar”. Porém, a um profissional inteligente como
o rei, certamente o que mais interessou “foi a oportunidade de apreciar a maneira como uma
nação nova, de população insuficiente para arcar com as responsabilidades militares
decorrentes da posse de um vasto território, está resolvendo o seu problema de defesa
nacional”. O periódico lembrou que nenhum grupo social desejou mais participar das festas
do que as classes armadas, “que cultuam, como todos os soldados do mundo civilizado, a
figura puríssima e gloriosa de guerreiro heroico e generoso, que é Alberto I”. 305 E, em meio
aos elogios à bela apresentação militar, o jornal lembrou ao presidente da República as suas
responsabilidades com a defesa nacional:

E quando aqueles soldados , tão cheios de ardor entusiástico e tão dispostos a dar a
sua vida pelo Brasil, evoluíam, garbosamente, o primeiro magistrado da República,
certamente sentiu, como nunca, a necessidade de tornar a nossa defesa nacional
bastante eficiente, para que possamos fazer o que fez a Bélgica, e sem sofrer tudo o
que ela sofreu, no dia em que, a um período de paz, suceder o reaparecimento da
guerra, que o nosso amor pela paz não consegue eliminar do ciclo fatal do
desenvolvimento histórico.306

Uma das tropas mais ovacionadas e lembradas pela imprensa foi a da Escola Militar.
Para o jornal A Razão, a “mocidade resplandecente” da instituição constituía-se no “espelho

305
O Paiz, Rio de Janeiro, 23 set. 1920, p. 3.
306
Ibidem.
234

da beleza física e da elegância moral da nossa raça, que encanta, comove e arrebata as
multidões”.307
As apresentações militares, no entanto, não estiveram restritas apenas à Capital
Federal. Em meio à visita, duas viagens foram feitas, uma a Belo Horizonte, nos dias 2 e 3 de
outubro, e outra a São Paulo e algumas cidades do interior paulista, entre 4 e 12 de outubro.
Todas as viagens foram feitas em companhia do presidente Epitácio Pessoa e sua esposa.
Nessas ocasiões, as forças policiais dos estados também foram apresentadas ao rei, com
visitas aos quarteis das forças públicas e desfiles militares.
Na capital mineira, os soberanos foram recebidos pelo presidente do estado, Artur
Bernardes, e ficaram hospedados no Palácio da Liberdade. Durante a visita a Minas Gerais, os
soberanos tiveram a oportunidade de conhecer a mina de ouro de Morro Velho. Também
receberam autoridades mineiras, visitaram escolas públicas e o quartel da força pública e
assistiram uma missa no Colégio de Santa Maria das Irmãs Dominicanas, celebrada pelo
capelão real, padre Nols. Enquanto encontravam-se o rei e a rainha em solo mineiro, o
príncipe Leopoldo chegava em território brasileiro, em Salvador, onde foi recebido pelo
cônsul belga e por autoridades baianas no dia 4 de outubro. (GABAGLIA, 1953, p. 390; O
PAIZ, 3 e 4 out. 1920)

Imagem 32 – Os reis belgas entre alunas do Colégio Santa Maria, durante


a visita a Belo Horizonte, 3 out. 1920.

Fonte: FAAP, 2010.

307
A Razão, Rio de Janeiro, 23 set. 1920, p. 1.
235

No mesmo dia em que o príncipe herdeiro chegava ao Brasil, o casal real iniciou o seu
deslocamento para a capital paulista. Ao longo dos trajetos percorridos nos estados de Minas
Gerais e São Paulo, segundo Gabaglia (1953, p. 392), foram inúmeras as manifestações
preparadas para os soberanos belgas, mesmo nas mais modestas estações da linha férrea.
Ainda que não quisesse, o maquinista do trem especial que conduzia o casal real e o Sr. e Sra.
Epitácio Pessoa era obrigado a parar para que os reis atendessem à população, que os
esperava com charangas, foguetes, flores e discursos das autoridades locais. As manifestações
populares enterneciam o rei e a rainha, assim como os presentes recebidos. Mesmo os das
pessoas mais modestas. A autora relata a entrega de um presente um tanto pitoresco aos
soberanos, enviado por um funcionário da Central do Brasil: uma lata de batatas fritas,
preparada pela sua mulher.
O comboio real chegou à Estação da Luz já ao cair da noite do dia 5 de outubro. Sob
forte aclamação popular, foram recebidos pelo presidente do estado, Dr. Washington Luiz, e
por outras autoridades civis e militares. Após receber as honras protocolares pelas tropas do
Exército e da força policial paulista o cortejo real seguiu até a Chácara Carvalho, uma das
mais cômodas e luxuosas residências de São Paulo, que foi especialmente preparada para
hospedar os reis durante a sua estada na capital paulista. Cabe ressaltar que, assim como no
Rio de Janeiro, a cidade paulista preparou-se à altura para recepcionar o casal real. A exemplo
da Capital Federal, São Paulo tratou de embelezar-se. De acordo com os grandes jornais
paulistanos, as avenidas e ruas por onde passariam o cortejo real foram ricamente enfeitadas
com bandeiras nacionais e belgas. Também a população acorreu em massa às ruas, para
acompanhar a passagem de suas majestades.308
Segundo Gabaglia (1953, p. 391), nos oito dias em que permaneceram no estado de
São Paulo, Alberto I e Elisabeth percorreram os principais centros industriais e agrícolas do
estado. Seguiram uma extensa programação de atividades, sempre acompanhados do
presidente Epitácio e sua esposa. Além das atividades protocolares, cumpridas no Palácio dos
Campos Elíseos e no Tribunal do Júri de São Paulo, no primeiro dia da visita à capital, os
soberanos assistiram a uma parada e desfile da força pública, visitaram o Palácio das
Indústrias e vários pontos da cidade. Nos dias seguintes, já em companhia do príncipe
Leopoldo, que se juntou aos pais em 7 de outubro, visitaram o Instituo Butantã e a Escola
Normal, receberam membros das comunidades belga e francesa e a imprensa.309

308
Correio Paulistano, São Paulo, 6 out. 1920, p. 1; O Estado de São Paulo, São Paulo, 6 out. 1920, p. 1.
309
O Estado de São Paulo, São Paulo, 8 out. 1920, p. 3.
236

Também excursionaram pelo interior do estado de São Paulo. Durante dois dias
hospedaram-se na Fazenda Guatapará, próxima à cidade de Ribeirão Preto, uma das maiores
fazendas paulistas de café. O rei aproveitou para cavalgar, conhecer os engenhos de açúcar, as
máquinas de beneficiar café e os campos de criação de gado. Em Ribeirão Preto, assistiu a um
jogo de futebol entre o Palestra e um clube local. A rainha aproveitou seu tempo para passear
de canoa no rio Mogi-Guaçu, pescar e caçar borboletas, em companhia da sua dama de honra
e do médico e cientista brasileiro Adolfo Lutz.310
No dia 12 de outubro, antes de embarcarem de volta ao Rio de Janeiro, os reis e sua
comitiva ainda tiveram a oportunidade de conhecer a cidade de Santos. No balneário
passearam pelas praias e visitaram o porto, onde pararam nos armazéns gerais da Companhia
Belga. À noite, na Estação da Luz, embarcaram em trem especial, para retornarem à Capital
Federal.311

Imagem 33 – Rei Alberto e príncipe Leopoldo plantando uma muda de mangueira na


Fazenda Guatapará, em Guatapará-SP, 9 out. 1920.

Fonte: site Itália Guatapará, 2020.

Gabaglia (1953, p. 391-392) ressalta que, devido ao hábito da vida ao ar livre e da


prática de exercícios, bem como o interesse pelo quotidiano das populações mais humildes, o
rei havia manifestado o desejo de conhecer o interior do Brasil a pé ou a cavalo. Ele e a rainha

310
Correio Paulistano, São Paulo, 11 out. 1920, p. 1.
311
Correio Paulistano, São Paulo, 13 out. 1920, p. 1.
237

também expressaram a vontade de acampar em barracas, na mata virgem. No entanto,


Epitácio Pessoa, alegando a preocupação com a segurança pessoal dos soberanos, conseguiu
demovê-los da ideia da excursão pelo interior do País. Entretanto, teve que ceder em relação
ao camping. Durante três dias, em companhia dos ajudantes-de-ordens brasileiros, dentre eles
José Pessoa, os reis acamparam em barracas em uma floresta próxima a Teresópolis. A autora,
no entanto, põe-se cética em relação ao prazer que os soberanos alegaram sentir em relação à
aventura, devido ao calor insuportável e aos mosquitos que os acompanharam naqueles dias.
Nos dias que passaram no Rio de Janeiro, a programação feita para os soberanos foi
preparada de maneira que lhes sobrasse tempo para os esportes e suas excursões favoritas.
Toda manhã, um automóvel levava Alberto I à praia de Copacabana, onde ele nadava no mar.
No entanto, não demorou muito para que os banhistas descobrissem o hábito do rei e
passassem a acompanhá-lo e, por vezes, a competir com ele. Também conheceu a Floresta da
Tijuca. Nessa oportunidade, apesar do clima chuvoso, escalou com o seu séquito o Pico do
Papagaio, de onde mostrou-se encantado com a natureza carioca. (GABAGLIA, 1953, p. 392)
Entretanto, nem só de passeios compunha-se a agenda dos reis. Também previa visita
a instituições científicas brasileiras localizadas na Capital Federal, como a Escola de Belas
Artes, os institutos Histórico e Geográfico e Oswaldo Cruz, onde foram recebidos pelo Dr.
Carlos Chagas, e de Manguinhos, o Museu Nacional, o Jardim Botânico e o posto zootécnico
do governo federal em Pinheiros.312 As obras de caridade da rainha não foram esquecidas. No
dia 23 de outubro, no prédio da legação belga, em Botafogo, membros da comunidade belga e
das associações francesas residentes no Rio de Janeiro doaram vultosas somas de dinheiro
para as obras de beneficência belgas.313
Já às vésperas do regresso à Bélgica, os soberanos ainda acharam tempo para visitar o
Patronato de Menores e assistirem a uma festa escolar na Quinta da Boa Vista. Em 14 de
outubro, o presidente Epitácio Pessoa assinou um decreto dando cidadania brasileira ao rei e o
tornando marechal do Exército brasileiro. No dia anterior à partida, o rei recebeu no Palácio
Guanabara o comitê da Liga Para os Aliados, oportunidade que teve de conhecer o senador
Rui Barbosa. Nesse mesmo dia, ele e a rainha forma nomeados presidentes das faculdades de
Medicina e de Direito do Rio de Janeiro. 314
No dia 16 de outubro, suas majestades Alberto I e Elisabeth iniciaram o seu retorno
para a Bélgica. O cortejo real partiu do Palácio Guanabara em direção à Praça Mauá às 11

312
O Paiz, Rio de Janeiro, 22, 26 e 28 set. 1920 e 1 out. 1920.
313
O Paiz, Rio de Janeiro, 26 set. 1920, p. 3.
314
O Paiz, Rio de Janeiro, 14 e 15 out. 1920.
238

horas da manhã. Assim como na chegada, foram aclamados durante todo o trajeto. Tropas da
Marinha e do Exército, sob o comando do general Luiz Barbedo guarneciam as avenidas e
ruas por onde as comitivas passaram. No cais, várias autoridades encontravam-se à espera,
para apresentarem as suas despedidas aos reis belgas. A bordo do São Paulo, a família real
despediu-se do presidente Epitácio Pessoa e sua esposa. Às 14 horas, o encouraçado brasileiro
levantou âncora e iniciou a viagem de retorno dos reis belgas. Do navio brasileiro, o rei
Alberto I enviou uma mensagem ao presidente Epitácio, na qual expressou o quão
impressionado havia ficado com “a forma delicada da hospitalidade brasileira” e a admiração
que sentia “pela obra do passado, pela atividade do presente e pelo porvir ilimitado” da nação
brasileira. Ressaltou que “o Brasil fez timbre em dar à Bélgica provas tangíveis de sua
amizade e de seu desejo de ver desenvolver-se as relações entre os dois países”. Em nome
dele e da rainha, expressou os “desejos mais sinceros pela prosperidade do Brasil e dos seus
habitantes” e concluiu desejando ao presidente brasileiro e família votos de felicidade e
apreço.315

Imagem 34 – Reis belgas a bordo do encouraçado São Paulo, no dia do retorno à Bélgica (na
foto vêm-se o presidente Epitácio Pessoa e membros da comitiva brasileira; José Pessoa
indicado por uma seta, ao lado da Sra. Epitácio Pessoa), 16 out. 1920.

Fonte: FAAP, 2010.

315
O Paiz, Rio de Janeiro, 17 out. 1920, p. 3.
239

José Pessoa (1953, Pasta I, p. 16-17) relata que o rei Alberto não completou a viagem
a bordo do São Paulo. Na parada do encouraçado em Lisboa o rei desembarcou e seguiu de
avião para Bruxelas. Uma crise governamental havia eclodido na Bélgica, o que requeria a
sua volta com urgência. A rainha e o príncipe Leopoldo seguiram viagem até Dunquerque,
onde chegaram no dia 6 de novembro, acompanhados do embaixador Barros Moreira. José
Pessoa e o general Tasso Fragoso também desembarcaram em Lisboa, onde permaneceram
alguns dias. Da capital portuguesa seguiram por terra até Paris e, logo depois, retornaram ao
Brasil.

Imagem 35 – José Pessoa e príncipe Leopoldo durante a viagem de regresso à Bélgica, out. 1920.

Fonte: Acervo José Pessoa (CPDOC FGV) – JPFOTO069.

Para Gabaglia (1951, p. 393-394), para além da cortesia política, a visita de Alberto I e
Elisabeth teve, também, uma intenção pessoal, de amizade, o que a enobreceu. A simpatia
demonstrada por Epitácio Pessoa e sua família durante a visita que fizeram à Bélgica
determinou a vinda dos soberanos belgas ao Brasil. Segundo a autora, nas palavras do rei, de
todos os chefes de estado que ele já havia encontrado, Epitácio teria sido o que mais lhe havia
impressionado, devido à forma como o presidente brasileiro se colocava acima da população,
para trabalhar, dentro da ordem e do progresso, pela prosperidade da Nação. No entanto, ela
considera que existiam outras razões para aproximá-los: “a simplicidade dos hábitos, o apego
à família, a afetividade, mais ardente e comunicativa no brasileiro, mais reservada no belga,
240

mas profunda em ambos, e a grande delicadeza dos sentimentos” (GABAGLIA, 1951, p.


393). Além disso, a naturalidade de Epitácio, um traço genuinamente brasileiro, e a facilidade
de expressão encantavam e surpreendiam a timidez do rei nórdico. Laurita lembra que durante
anos após a visita ao Brasil, os reis Alberto e Elisabeth se corresponderam com Epitácio e
Mary Pessoa. Reviram-se muitas vezes em Bruxelas ou no castelo real de Laeken, onde, por
mais de uma vez, os soberanos belgas receberam os amigos brasileiros.
José Pessoa lembra que, após retornar definitivamente ao Brasil, recebeu das mãos do
imediato do São Paulo, comandante Aristides Guilhem, fotografias do rei Alberto e da rainha
Elisabeth, emolduradas em prata e com dedicatórias de próprio punho dos reis e do príncipe
Leopoldo. Em cartas escritas em francês, enviadas aos soberanos, Pessoa agradeceu a cada
membro da família real as lembranças que lhe foram ofertadas.
Ao rei Alberto, de quem se considerou “um ajudante-de-ordens adotado”, afirmou ser
as palavras apostas pelo soberano no retrato que lhe fora ofertado “um verdadeiro título
honorífico”. Além de constituírem-se em um “testemunho do qual poderia sempre se
orgulhar”, afirmou ser a dedicatória do rei-soldado o “legado mais precioso que deixaria para
a sua família”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 74)
À rainha Elisabeth, a “soberana heroína, cuja bondade, distinção e graça o mundo
admirou e proclamou”, agradeceu profundamente a “lembrança inestimável” que havia
recebido, a qual seria preservada como um “troféu”. Lembrou-a, também, que “na alma
brasileira, tão ardente e afetuosa, ficaram gravadas para sempre todas as qualidades de
coração e espírito que, como um dom de Deus, ornamentavam a augusta pessoa de Vossa
Majestade”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 75-76)
A Leopoldo, em quem via brilhar “como em um espelho de ouro, a nobreza e as altas
virtudes de seus augustos e bem amados pais”, expressou a sua “sincera gratidão”,
assegurando que guardaria a foto do príncipe herdeiro como “uma das mais queridas
lembranças da sua boa e inesquecível camaradagem a bordo do São Paulo”.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 77-78)
Outras correspondências foram enviadas por José Pessoa, nos anos seguintes, aos
soberanos belgas, tratando dos mais diversos assuntos. Em uma delas, ofereceu ao rei um
exemplar da sua obra Os Tanks na Guerra Europeia. Em outra, felicitou o casal real pelo
matrimônio da princesa Maria José. E ainda há uma em que, a pretexto de agradecer ao rei a
distinção de lhe fizera ao ler a sua obra sobre os blindados, solicitou a correção da data de
recebimento da Cruz de Guerra, constante no diploma da honraria belga recebida em 1919, no
Palácio Real de Bruxelas. A resposta foi dada por intermédio do gabinete do rei, que
241

informou-lhe ser a data a da expedição do diploma e não do recebimento da honraria, mas,


que, a fim de lhe dar uma satisfação, a data de recebimento seria incluída entre parênteses.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 80-86)
Em todas as correspondências que enviou, José Pessoa faz questão de destacar a honra
que teve em servir à realeza durante a visita dos reis ao Brasil, especialmente como “ajudante-
de-ordens adotado” do rei, assim como as honrarias que recebera da realeza, por ter lutado na
Primeira Guerra Mundial. Ainda que muito próximas de um viés aristocrático, do qual a
República procurou se afastar, certamente foram distinções que poucos oficiais do Exército
brasileiro tiveram em suas carreiras. Raras, entretanto, foram as respostas escritas de próprio
punho pelos soberanos, sendo o mais usual recebê-las por intermédio do gabinete do rei.

5.3 O retorno à terra natal e o comando da Companhia de Carros de Assalto

Em 9 de novembro de 1920, José Pessoa retornou a Paris e apresentou-se ao


comandante da Missão de Aquisição de Material de Guerra, por ter concluído a missão de
acompanhar os reis belgas durante a visita ao Brasil. Em 31 de dezembro foi desligado de
suas funções na França e recebeu a ordem para retornar definitivamente ao Brasil. Antes de
apresentar-se no quartel-general da 1ª Região Militar, no Rio de Janeiro, para assumir a nova
função que lhe haviam designado, de organizar a recém criada Companhia de Carros de
Assaltou, visitou seu estado natal. Segundo Pessoa, o retorno à Paraíba se deu por insistência
do governo e do povo daquele estado, já que todos queriam prestar homenagens a um filho da
terra que há muito não viam. (FÉ DE OFÍCIO DO MARECHAL JOSÉ PESSOA, 2016;
ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 48)
José Pessoa chegou ao Recife no dia 14 de janeiro de 1921, a bordo do vapor inglês
Almanzora. Da capital pernambucana seguiu de trem para a Paraíba, onde, conforme noticiava
o jornal recifense A Província, lhe seriam prestadas “festivas homenagens”.316
A passagem de Pessoa pela Paraíba foi amplamente noticiada pelos jornais locais e
pelos do Rio de Janeiro. A edição de 15 de janeiro de O Norte, da Paraíba do Norte, destacou,
em primeira página, a chegada à cidade do “brioso oficial, que tanto se distinguiu na Europa
pela sua bravura, disciplina e capacidade técnica”317, que voltava à terra natal para “rever
parentes, admiradores e amigos, que conta em grande número na sociedade paraibana” 318. Sua
chegada à estação férrea da Praça Álvaro Machado, na capital paraibana, como ele mesmo

316
A Província, Recife, 14 jan. 1921, p. 3.
317
O Norte, Paraíba do Norte, 15 jan. 1921, p. 1
318
Ibidem.
242

relata, foi um verdadeiro “préstito cívico”, que se deu sob aclamação popular e com direito a
banda de música e foguetório. À sua espera estavam o presidente do estado, Dr. Solon de
Lucena, altas autoridades paraibanas, oficiais do Exército e Marinha, representantes do
comércio e de corporações operárias e uma comissão de senhoritas da sociedade paraibana,
que lhe ofertaram flores. Após o desembarque, a multidão que o esperava praticamente
obrigou-o a seguir a pé pelas ruas embandeiradas e cheias de gente até a antiga casa de seus
pais, onde lhe foi oferecido um jantar íntimo. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 48; O
NORTE, 16 jan. 1921, p. 1)
Não há como dissociar a visita de José Pessoa à Paraíba do forte apelo político que ela
teve. Os preparativos para sua chegada à cidade foram noticiados em mais de uma ocasião
pelos jornais locais e da capital pernambucana, bem como o empenho da comissão de
recepção para que as festividades estivessem à altura do homenageado. Tal fato não deve ser
visto com surpresa, uma vez que o presidente do estado, à época, pertencia à família Lucena,
tradicional aliada política da família Pessoa. José Pessoa, assim como Sólon de Lucena, era
sobrinho-neto do Barão de Lucena319, de quem Epitácio Pessoa se considerava herdeiro
político. Sendo assim, nada mais significativo para o establishment paraibano do que receber
um herói de guerra pertencente a uma das mais tradicionais famílias da oligarquia política da
Paraíba.

Imagem 36 – José Pessoa (3º em pé da esq. para a dir.) entre os irmãos (Aristarcho, 4º em pé da esq. para a dir.,
e Joaquim, sentado, 2º da esq. para a dir.) e amigos logo após o retorno da Primeira Guerra Mundial, s.d.

Fonte: Câmara, 2011.

319
Lewin, 1993, p. 382.
243

A programação da visita foi expressiva. Três dias de festividades se seguiram, com


missa campal, jantares festivos, retretas e até a inauguração e uma avenida com o nome do
homenageado. Em 16 de outubro, com direito à inauguração de uma placa de bronze no local,
a antiga avenida Independência, no bairro de Jaguaribe, passou a se chamar avenida Capitão
José Pessoa (a avenida existe até os dias atuais). O evento contou com a presença do
presidente do estado, do prefeito, Dr. Guedes Pereira, de várias autoridades civis e militares e
de uma grande multidão.320
O órgão de imprensa oficial do governo, o jornal A União, na sua edição de 15 de
janeiro, publicou um extenso editorial sobre a visita ilustre, que José Pessoa tratou de
transcrever na íntegra em suas memórias. Nele, destacou que o homenageado trazia “nas veias
o aguerrido sangue dos Albuquerque, de prosápia insigne em Portugal e Brasil”. Destacou,
também, sua participação da guerra, ocasião em que “foi um dos que primeiro se ofereceram
voluntariamente para essa grave missão de civismo e bravura, além do Atlântico, entre as
forças francesas”. O jornal enumerou os diversos cursos que Pessoa havia feito até então, no
Brasil e na França. E ressaltou que, por ser “devoto da civilização francesa e desse país
sempre novo, com quem praticamos mais diretamente o comércio de ideias e de estética”, ele
não havia abraçado a arriscadíssima missão de participar do conflito europeu “por simples
fatuidade de espírito cavalheiresco”, mas porque “o seu propósito era o de pelejar pelos
princípios sociológicos do direito”. Antes de concluir o texto rejubilando-se com o regresso
de José Pessoa, o jornal lembra a participação importante da família Pessoa na Primeira
Guerra Mundial, devido a uma “singular afinidade de acontecimentos”: a presença de Epitácio
Pessoa na Liga das Nações, como chefe da delegação brasileira, e a de José Pessoa, como
representante da Paraíba no entrechoque das nações beligerantes no conflito.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta I, p. 49-54)
A visita à Paraíba terminou no dia 18 de janeiro. Três dias depois, Pessoa embarcou no
porto de Recife em direção ao Rio de Janeiro, para assumir sua nova função.
Ao retornar ao Brasil, José Pessoa encontrou um Exército no qual já era possível se
sentir fortemente os impactos das mudanças implementadas em decorrência da influência da
Missão Militar Francesa de instrução. Dentre elas, estava a modernização e reestruturação dos
efetivos e dos equipamentos da força terrestre brasileira. Como já abordado, a constituição de
uma unidade blindada já começava a se tornar uma realidade no instante em que a Missão de
Aquisição na França adquiriu os primeiros carros de assalto Renault que mobiliariam o

320
O Norte, Paraíba do Norte, 14 e 15 jan. 1921; Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 20 jan. 1921, p. 3.
244

Exército brasileiro. Em discurso proferido na inauguração da Escola de Aperfeiçoamento de


Oficiais, em 8 de abril de 1920, o chefe da MMF, general Gamelin, destacou que a infantaria
que surgiu após o primeiro grande conflito mundial não poderia mais prescindir dos carros de
assalto321.
Sob essa influência, então, o ministro da Guerra Pandiá Calógeras publicou, em 5 de
maio de 1921, uma portaria que baixava diretrizes para a constituição provisória das
diferentes unidades do Exército para aquele ano, como uma medida de se alcançar a máxima
eficiência da instrução em caso de uma incorporação deficiente, um problema ainda longe de
acabar. A própria portaria reconhecia que a instituição não dispunha de todos os elementos
necessários para o seu completo êxito. Com a nova normatização, acompanhando a doutrina
francesa para o emprego dos blindados, passou a constar, no quadro de efetivos das unidades
de infantaria, uma companhia de carros de assalto. Em termos de efetivo humano, a nova
unidade seria composta por 7 oficiais e 133 praças. O comando ficaria a cargo de um capitão.
Segundo Louro (2011, p. 72), a criação de uma companhia de carros de assalto
constituiu-se em uma primeira iniciativa de se tentar introduzir os carros de combate no
Exército brasileiro. Houve, ainda, outras duas tentativas, segundo o autor: a criação do Centro
de Instrução de Motomecanização, em 1938, e a chegada em massa de equipamentos dos
Estados Unidos, no meio e no fim da Segunda Guerra Mundial.
Ainda em maio, no dia 26, por meio do Aviso nº 360, o ministro da Guerra designou
José Pessoa para organizar a companhia, que, do ponto de vista da instrução, ficaria
diretamente subordinada ao chefe do Estado-Maior do Exército e à disposição da Escola de
Aperfeiçoamento de Oficiais. O aviso previa, ainda, que os oficiais que comporiam a nova
unidade blindada poderiam ser de qualquer arma, o que caiu no gosto de Pessoa, para quem o
Ministro da Guerra “não fez mais do que seguir o exemplo dos exércitos experimentados [...]
que organizam as suas unidades de carros de combate, durante a após a grande guerra com os
especialistas, sem se preocuparem com a distinção de armas” (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta
II, p. 29). Para o comandante recém nomeado, “a complexidade dos serviços [...] e a natureza
do material e da instrução dos carros de combate, inteiramente diversa da infantaria, exige
técnico onde quer que ele se encontre” (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 29). Se a
intenção era se obter dos novos engenhos todas as vantagens de fossem capazes, “o primordial
consiste em confiá-los às mãos dos técnicos” (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 29). Os
oficiais auxiliares nomeados para a companhia, conforme constam no livro histórico da

321
Relatório do Ministro da Guerra de 1919, p. 87.
245

Companhia de Carros de Assalto (CCA), foram: os primeiros-tenentes de Infantaria Octávio


Monteiro Aché, que havia servido com Pessoa na Missão Aché, e João Pereira de Oliveira; o
primeiro-tenente de Artilharia Oswaldo de Araújo Motta; o segundo-tenente de Infantaria
Antônio Carlos de Bittencourt; e o segundo-tenente de Intendência Francisco Salles de
Senna.322 Apesar de não constar no livro, Albuquerque (1953, Pasta II, p. 29) cita, ainda, o
nome do segundo-tenente de Infantaria Aguinaldo Caiado de Castro.
A Gazeta de Notícias noticiou a criação da Companhia, ressaltando que, embora fosse
uma tropa de infantaria, seria comandada por um oficial de cavalaria, graças ao ato do
ministro da Guerra, que permitiu que oficiais de qualquer arma compusessem os quadros da
unidade. Lembrou, também, o jornal, que o comandante, José Pessoa, era sobrinho de
Epitácio.323
A escolha de José Pessoa para o comando da CCA sofreu algumas poucas críticas. O
diário carioca O Imparcial publicou, em sua edição de 1º de junho de 1921, que outros dois
jornais, sem citar os nomes, haviam criticado o ato de nomeação de Pessoa pelo ministro da
Guerra. Para esses periódicos, a nomeação de um oficial de cavalaria para comandar uma
unidade de carros de assalto somente se explicaria pelo fato e o indicado ser sobrinho do
presidente da República. Cabe lembrar que as unidades blindadas, à época, eram associadas às
tropas de Infantaria. O colunista rebateu as críticas, afirmando que tal escolha se deveu ao fato
de ser José Pessoa o único oficial do Exército especializado, nas escolas da França, para tal
missão.
No final do ano, em 31 de dezembro, o Decreto nº 15.235 ratificou a criação da CCA,
que passava a figurar definitivamente na organização do Exército para o tempo de paz, dessa
vez como uma tropa especial, independente. Com a nova formação a Companhia perderia 1
oficial subalterno e 45 praças do seu efetivo total. Quanto à organização, passou a ser
estruturada em uma seção de comando e duas seções de combate. Dessa forma,
regulamentava-se a criação da Companhia de Carros de Assalto, a primeira unidade de carros
blindados do Exército brasileiro e a primeira unidade do tipo na América do Sul.
Para José Pessoa, a estrutura adotada para a CCA, quanto ao efetivo e à quantidade de
carros, estava distante da ideal. O número de equipamentos adquiridos pelo governo brasileiro
(5 carros metralhadores, 6 carros canhão e 1 carro de telegrafia sem fio) dava apenas, no seu
entender, para equipar uma seção de carros. Em um ofício enviado ao ministro da Guerra e

322
Histórico da Companhia de Carros de Assalto, out. 1921.
323
Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 27 maio 1921, p. 2.
246

publicado no Boletim Interno de 7 de dezembro de 1921, da Companhia, Pessoa expressa a


sua insatisfação quanto à seleção dos praças designados para a unidade:

Ao meu ver, os nossos carros só darão rendimento igual aos que têm dado nos países
do velho mundo, onde lhes é dispensado o apreço que lhes é devido, em face da
experiência da última guerra, quando pudermos contar com homens em seu serviço
por dois ou mais anos, quando não lhes forem destinados, no momento da
incorporação, homens manifestadamente fracos, mas tão somente indivíduos fortes
e, finalmente, quando a escolha destes recair, de regra, em eletricistas, choferes,
mecânicos, etc., e não em comerciantes, lavradores, estudantes, etc., como aconteceu
desta feita.324

No mesmo ofício, deixava claro a insuficiência da quantidade de carros de assalto e


relacionava quais equipamentos ainda necessitavam ser adquiridos para que a Companhia
funcionasse na sua máxima eficiência:

Que possuímos 12 carros de combate (3 aliás sem armamento e 1 em mau estado).


Que necessitamos de mais 5 carros de combate, 5 auto-caminhões de 7 toneladas
para o transporte de carros, 1 auto-caminhão de 5 toneladas com um reboque-oficina
de 5 toneladas, 1 auto-caminhão de 3½ toneladas com um reboque de 3 toneladas, 1
motocicleta side-car, 1 bicicleta e 1 carro-cozinha, isso além de armamento
individual e do equipamento, aquele, aliás, já pedido e não remetido pela Diretoria
do Material Bélico, por não possuir, conforme declarou. Deve possuir ainda 1
animal de sela e 6 de tração, isto em tempo de paz. No caso de mobilização, a
companhia necessita mais o seguinte: 8 carros de combate (5 de substituição e 3 de
abastecimento e depanagem), 10 auto-caminhões para o transporte de carros, 2 auto-
caminhões de 3½ toneladas, com 2 plataformas de 3 toneladas, 1 auto de 12 H.P.
(viatura de reconhecimento), 1 auto bi-place (comandante do escalão), 2 bicicletas
(serviço de ligação e reconhecimento), 2 pranchas móveis para embarque e 1
ambulância.325

Até o final do seu comando, José Pessoa não havia recebido os itens que solicitou.
A instalação da Companhia na Vila Militar foi uma verdadeira odisseia, como define
José Pessoa, a começar pelas instalações provisórias, em um barracão emprestado, nos fundos
do 1º Regimento de Infantaria (1º RI). O recebimento dos carros de assalto comprados do
Exército francês foi outro problema. Em um ofício enviado em 25 de setembro de 1921, para
o comandante da 1ª Região Militar, José Pessoa relata ter encontrado os carros Renault, que se
encontravam armazenados no próprio 1º RI, “nas mais deploráveis condições”. Ele próprio
custava crer que “o material cuja aquisição nos custou uma soma vultosa [...] estivesse nas
condições em que com bastante pesar meu e de todos que me acompanharam, o fui
encontrar”. Os carros encontravam-se em péssimas condições de conservação e de
manutenção. Faltavam peças vitais ao funcionamento e a ferrugem tomava conta das peças e
engrenagens dos motores. Os tanques de gasolina de alguns carros encontravam-se corroídos

324
Boletim Interno Nº 55, de 7 de dezembro de 1921, da Companhia de Carros de Assalto.
325
Ibidem.
247

pela ferrugem, assim como as caixas de marchas. As sapatas de outros encontravam-se


quebradas, um sinal de que os carros haviam sofrido um choque violento. Faltavam caixas
com equipamentos e munições e outras encontravam-se espalhadas pelos quarteis da Vila
Militar.326
Preocupava-se, ainda, com a situação do pessoal. Os alojamentos improvisados no
barracão eram inadequados e insuficientes. Não havia material de expediente, nem de uso
geral. O que se conseguiu foi por empréstimo, inclusive as camas. Algum tempo depois, a
Companhia mudou-se para um casarão em ruínas, que havia sido sede da antiga Fazenda
Sapopemba, próximo à Estação de Deodoro. Na classificação de José Pessoa, as novas
instalações não passavam de um “pardieiro”, que oferecia o risco de desabar sobre as cabeças
dos seus ocupantes. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 30)
Foi graças a uma visita de Pandiá Calógeras, ministro da Guerra, às instalações da
unidade que os ventos começaram a soprar a favor da Companhia. Por ordem do ministro um
novo quartel foi construído, para abrigar a unidade blindada. Em outubro de 1922, as novas
instalações, compostas de quatro pavilhões, seriam inauguradas na Vila Militar.
(RELATÓRIOS DO MINISTÉRIO DA GUERRA, 1921 e 1922)
Um cuidado especial ainda foi tomado em relação à instrução. Aproveitando a
determinação do chefe da Missão Militar Francesa, general Gamelin, para que se fizesse uma
revisão dos manuais do Exército, a fim de conformá-los à doutrina francesa, novos
regulamentos técnicos foram confeccionados, visando o exercício e o emprego das unidades
de carros leves. O próprio José Pessoa encarregou-se de traduzir alguns manuais de mecânica
e de manutenção dos carros Renault. Em meados de 1921, a Imprensa Militar publicava os
últimos regulamentos sobre o emprego na nova arma blindada. (ALBUQUERQUE, 1953,
Pasta II, p. 30-31)
Também algumas modificações no uniforme da tropa blindada foram implementadas,
por sugestão de José Pessoa, e autorizadas pelo ministro da Guerra.327 Um exemplo é a
adoção de perneiras de pano na cor kaki, semelhante às usadas pelas tropas blindadas inglesas.
Um brasão, que seria utilizado nos uniformes dos oficiais, foi criado, o que caracterizaria, de
fato, a CCA como uma tropa especial, distinta das demais, conforme constava no decreto da
sua criação. Cabe ressaltar, que a visão que Pessoa tinha das unidades de assalto era a que
trazia da Primeira Guerra Mundial. Dessa forma, tudo foi pensado de acordo com o que

326
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1921.10.03.
327
Avisos Nº 621, de 5 de outubro de 1921, e Nº 631, de 10 de outubro de 1921, do Ministério da Guerra.
248

vivenciou na Europa: uniformes, equipamentos, organização e, até mesmo o brasão da


unidade, que muito se assemelhava ao das unidades blindadas francesas.

Imagem 37 – Uniforme e brasão da Companhia de Carros de Assalto, 1921.

Fonte: Uniformes do Exército Brasileiro, 1922

Apesar de todas as dificuldades enfrentadas, em 3 de outubro de 1921 a CCA


conseguiu instalar-se oficialmente. Naquele mesmo mês, o Brasil recebeu a visita do general
Mangin, herói de guerra e membro do Conselho Superior de Guerra francês. Uma grande
parada militar, com todas as tropas da Capital Federal, foi preparada no Campo da Escola
Militar de Aviação dos Afonsos, para receber o oficial francês. Magin era considerado na
França o “homem dos tanks”, devido às suas façanhas com o uso dos blindados durante a
guerra. Era a oportunidade que José Pessoa precisava para reagir ao ostracismo em que se
encontrava a Companhia e quebrar a aversão que vinha se desenvolvendo no seio do Exército
contra os blindados. No entanto, foi preciso recorrer ao comando da 1ª Região Militar, para
solicitar autorização para tomar parte do grande evento. Uma vez autorizada, a Companhia de
Carros de Assalto passou a preparar-se para o grande dia.
Conforme narra José Pessoa, a perspectiva de participação na parada militar
entusiasmou a todos da Companhia. Um intenso treinamento foi feito com os carros de
assalto, que seriam pilotados pelos próprios oficiais. Como não havia estradas que fossem até
os Afonsos, na véspera do dia 15 de outubro, data marcada para a parada militar, a coluna de
249

tanks marchou à noite, por entre matagal e morros e debaixo de chuva, para concentrar-se no
local de espera. A presença da unidade entre as tropas causou surpresa tanto para os militares
como para o público presente. Porém, o que chamou mais a atenção da assistência foram as
denominações dadas aos tanks, que lembravam grandes efemérides da história militar
nacional: Itororó, Humaitá, Colônia de Dourados, Palmares, Riachuelo, Forte Coimbra,
Caseros, Tuiuti, Campina da Taborda e Ypiranga. A Companhia de Carros de Assalto
encerrou em desfile. Segundo José Pessoa, a impressão deixada pelos tanks foi bastante
satisfatória, a ponto de o general Mangin chamar-lhe à sua presença, para apertar-lhe a mão.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 31-32)

Imagem 38 – Companhia de Carros de Assalto (local indeterminado), 1921.

Fonte: Centro de Instrução de Blindados, 2020.

A visita do herói de guerra francês foi noticiada de maneira discreta pela imprensa
carioca. Apesar de toda atenção e entusiasmo que a Companhia de Carros de Assalto teria
despertado no meio militar e civil, como narra José Pessoa, não é dado, nas páginas dos
jornais cariocas, nenhum destaque à participação da unidade na parada militar. A cobertura
mais extensa do evento foi feita pela Gazeta de Notícias. Ao citar a CCA, limitou-se a
informar que “os carros de assalto (tanks) despertaram muita curiosidade” 328
no público
presente.
Um fato que desagradava a José Pessoa, e é recorrente em sua narrativa, era a não
aceitação do emprego dos blindados por grande parte dos oficiais do Exército, principalmente
daqueles de mais altos postos. Inclusive, esse foi um dos motivos do pouco tempo de
existência da Companhia de Carros e Assalto, como será exposto mais adiante. Por isso, toda
oportunidade era bem vinda para demonstrar a operacionalidade das novas máquinas de

328
Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 15 out. 1921, p. 3.
250

guerra. Com esse propósito, e a fim de “desfazer as últimas incompreensões que perduravam
no espírito de alguns” (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 33), Pessoa resolveu organizar
um exercício de combate simulado na Vila Militar. Seria uma ótima ocasião para mostrar a
eficiência dos tanks combatendo ao lado da Infantaria e da Aviação do Exército.
A demonstração ocorreu no dia 3 de novembro, na Vila Militar. Estiveram presentes o
ministro da Guerra, Pandiá Calógeras, o marechal Hermes da Fonseca, ex-presidente da
República e tido como o grande reformador do Exército, o general José da Silva Pessoa,
comandante da Brigada Militar da Capital Federal, o general Carneiro da Fontoura, inspetor
da 1ª Região Militar, vários generais e militares de altas patentes da guarnição da Capital
Federal, todos as unidades militares da Vila Militar e um grande público curioso para ver, pela
primeira vez, os carros de assalto em ação. A apresentação rendeu a José Pessoa e aos oficiais
da Companhia de Carros de Assalto um elogio do inspetor da 1ª RM, que foi publicado em
Boletim Regional, e transcrito no Boletim Interno da CCA. Nele o general Fontoura exaltou a
competência e o êxito obtido na instrução do pessoal e no manejo dos novos instrumentos de
guerra. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 33; ALBUQUERQUE, 1921, arquivo
JPvp1921.1003)
A imprensa carioca cobriu o exercício. O Jornal do Brasil fez uma descrição
minuciosa da programação, que consistia, resumidamente, em “mostrar a fisionomia de
ataque dos carros em cooperação com a Infantaria” e “treinar as guarnições nas transposições
de toda a sorte de obstáculos”. Ressaltou, ainda, que várias fotografias e filmes foram tirados
por ocasião dos exercícios, que tiveram aspecto “verdadeiramente majestoso e festivo”. O
objetivo, era exibir as filmagens em um dos cinemas da Capital Federal. 329
Num prenúncio dos acontecimentos que resultariam no levante tenentista de 1922, o
diário O Jornal utilizou a notícia do exercício militar promovido por José Pessoa para fazer
uma crítica bastante contundente à “politicagem” que já grassava pelas fileiras do Exército.
Segundo o jornal, ela dava “seus últimos arrancos, alentada só pelos que sempre se alheiam ao
preparo profissional, a grande maioria, crente de suas responsabilidades entrega-se nos corpos
ao ensino dos patrícios chamados às armas”. Ao destacar o exercício realizado pela
Companhia de Carros de Assalto, “uma demonstração dessa vida nova, que tomou quase que
a universalidade dos espíritos [...] produto de muito trabalho e de muita dedicação”, afirmou
que “os que se entregam sinceramente ao trabalho, não podem ser acusados de falta de amor e
de falta de conhecimentos”.330 E concluiu a notícia nos seguintes termos:

329
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 5 nov. 1921, p. 10.
330
O Jornal, Rio de Janeiro, 5 nov. 1921, p. 8.
251

Querendo um Exército disciplinado e forte, não seria justo que esquecêssemos de


nos aperceber de todos os petrechos surgidos na grande guerra e que tiveram a
sanção da experiência.
O espírito que vive hoje no Exército é um penhor seguro de que, ele não será
mergulhado nas ondas revoltas da politicagem, que só tem servido para matar
reputações.
A Companhia de Carros de Assalto merece parabéns pelo muito que já conseguiu. 331

Imagem 39 – Exercício militar da Companhia de Carros de Assalto na Vila Militar, 3 nov. 1921.

Fonte: Bastos, 2001.

José Pessoa tinha uma posição muita clara quanto à entrada da política nos quartéis, à
qual se colocava firmemente contra. Havia assumido o comando da Companhia em meio à
agitação política que tomava conta do País e vivenciou o processo de aproximação dos
militares com Nilo Peçanha, durante o processo eleitoral de 1922. Sobre o ponto culminante
dessa aproximação, que foi o episódio das “cartas falsas”, supostamente escritas por Artur
Bernardes, contendo referências desrespeitosas aos militares e, principalmente, a Hermes da
Fonseca, Pessoa considerava o fato “triste e vergonhoso, sabendo-se que o pretexto invocado
para tão desassisada atitude revolucionária se baseava em cartas anônimas, aliás, já
publicamente conhecidas com falsas, escritas por políticos sem escrúpulos”
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p 49).

331
Ibidem.
252

Como lembram Ferreira e Pinto (2003, p. 398), a vitória de Artur Bernardes no pleito
eleitoral de 1º de março, que só fez confirmar o esquema eleitoral da política dos
governadores implementada por Campos Sales no início da Primeira República, não foi bem
aceita pela oposição, que desencadeou uma forte campanha de mobilização popular, que
acirrou os ânimos da população. Durante todo o primeiro semestre de 1922, os derrotados da
Reação Republicana assumiram uma postura panfletária, denunciando as perseguições
bernardistas feitas aos partidários da oposição e aos militares, inclusive acenando para a
possibilidade de uma intervenção armada na política. O clima de agitação política tomou
conta do cenário nacional, e logo os militares passariam do protesto à rebeldia.
Na edição de 9 de março de 1922, de O Paiz, o soldado Genevio Bernardino da Silva,
que acabara de ser expulso da Companhia de Carros de Assalto, acusou Pessoa de uma série
de abusos cometidos durante o comando. Dentre elas, a de proibir os oficiais da unidade de
posicionarem-se politicamente e de ler os jornais do Rio de Janeiro. Por conta disso, reinava
no quartel um clima de indignação e de hostilidade contra José Pessoa. Inclusive, como ele
descreveu, “por questão de política, houve, entre ele [José Pessoa] e o tenente Aché, um sério
incidente”. Várias prisões e medidas vexatórias também já haviam sido imputadas a oficiais e
praças pelo comandante. O jornal dizia não poder comprovar os fatos narrados pelo soldado,
que apenas o transcrevia “verbo ad verbum”. No entanto, o redator do artigo afirmava custar
acreditar que tais atitudes teriam sido tomadas por José Pessoa, “por sabermos que o
comandante em questão é um oficial de valor incontestável – não há como chamar para tanto
a atenção das autoridades do Exército”.332
Dois dias depois, José Pessoa deu a sua resposta à acusação do soldado, nas páginas
do mesmo periódico. Iniciava informando que o soldado havia sido expulso por ser a sua
permanência no seio da Companhia perniciosa. Ressaltava que Genevio era oriundo do 2º
Regimento de Infantaria, de onde veio com “nota de péssima conduta, desidioso no
cumprimento de seus deveres e dado ao hábito de roubo e em cuja prática degradante foi aliás
apanhado por este mesmo comandante, que lhe aplicou a pena merecida, isto é, a expulsão”.
Quanto à proibição da leitura de jornais, indicou que ele mesmo lia todos os jornais da Capital
e nunca privou os oficiais de fazê-lo. No entanto, não descartava a ideia de proibir a leitura de
algum jornal, se ela fosse “perniciosa à disciplina militar interna”.333 Em relação à política,
José Pessoa foi mais enfático e reafirmou a sua posição:

332
A Noite, Rio de Janeiro, 9 mar. 1922, p. 5.
333
A Noite, Rio de Janeiro, 11 mar. 1922, p. 4.
253

Sou também acusado de ter parcialidade pelas candidaturas políticas; isto não,
sentir-me-ia transviado dos meus deveres se emprestasse a nobreza da minha farda à
campanha deletéria da politicagem, como também me consideraria o mais indigno
dentre os indignos se jamais voltasse contra a Nação as armas que ela me confiou
para a defesa da sua tranquilidade e da sua honra.
Aqui nesta casa – ao contrário do que diz Genevio – vivemos todos felizes, em plena
harmonia de esforços e de sentimentos, unicamente preocupados com a eficiência do
nosso trabalho, em prol da segurança e grandeza da terra que nos é comum. Tendo a
consciência nítida de nossos deveres de militares, alheios, por consequência, às
questões políticas, pouco nos interessa que seja vencedora esta ou aquela facção.
Conhecemos-lhe perfeitamente os processos, o egoísmo, o impatriotismo e sabemos
que só se aproximam do Exército para explorar-lhe os serviços e a grande boa-fé.
Acho, pois, desnecessário declarara que como soldado é meu dever acatar e respeitar
aquele que a Nação em seu julgamento soberano investir da direção dos seus altos
destinos, seja ele quem for.334

Cerca de três meses após José Pessoa ter manifestado as suas convicções políticas nas
páginas da imprensa, a revolta tenentista eclodiu no Rio de Janeiro, em 5 de julho, com a
revolta do Forte de Copacabana, que recebeu o apoio das guarnições de Campo Grande,
Niterói e Distrito Federal. A Companhia de Carros de Assalto não participou diretamente das
ações que debelaram o intento dos revoltosos. De acordo com os registros feitos em seu livro
histórico, a Companhia permaneceu à disposição do comando da 1ª Brigada de Infantaria, na
Vila Militar, durante a madrugada e a manhã do dia 5 de julho. No início da tarde daquele
mesmo dia, sem ser empregada, retornou ao seu aquartelamento. Apesar de não ter entrado
em ação, Pessoa relata em suas memórias ter sido elogiado pelo comandante da 1ª Brigada 335,
que reconhecia nele “um oficial de rara distinção e patriota extremado” (ALBUQUERQUE,
1953, Pasta II, p. 49). Sobre a participação da Companhia nos acontecimentos, dirigiu-se aos
seus comandados afirmando não se surpreender com a decisão e a presteza com que eles se
apresentaram no terreno “em que se deviam medir pelas armas” (ALBUQUERQUE, 1953,
Pasta II, p. 59). Sobre a luta político-partidária, lembrou-lhes do seguinte:

Alheios totalmente da luta partidária, cujas consequências funestas estamos todos


experimentando a estas horas, resta-nos a satisfação de só termos buscado, até hoje,
melhorar, ampliar, estender os nossos conhecimentos, no seu tríplice aspecto –
profissional, físico e moral, aos nossos comandados. Não haveremos de nos nivelar
com aqueles que consideram a carreira das armas, ao invés de um sacerdócio, uma
profissão cômoda e vantajosa. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 50)

334
Ibidem.
335
José Pessoa afirma ter recebido o elogio do general Tertuliano de Albuquerque Potyguara, que havia servido
com ele na comissão de Cavalaria, durante a Missão Aché. No entanto, o testemunho do general Setembrino de
Carvalho, que assumiu a chefia do Estado-Maior do Exército durante a crise de 5 de julho, sobre os
acontecimentos da revolta do Forte de Copacabana, indica o general Ribeiro da Costa como o comandante da 1ª
Brigada de Infantaria, a qual estava à disposição a CCA, na Vila Militar.
254

Em meio aos acontecimentos graves que se desenrolavam no Rio de Janeiro, um clima


de desconfiança se instalou no seio da Instituição. Na mesma semana em que o movimento
tenentista eclodiu, o comandante da 1ª Região Militar, general Carneiro da Fontoura, mandou
passar uma lista em todas as unidades militares do Distrito Federal, com a finalidade de
angariar os nomes dos oficiais que estivessem comprometidos com a legalidade do governo
constituído. José Pessoa recusou-se a assinar o documento. Também não permitiu que a
relação circulasse na CCA. No dia 15 de julho enviou um ofício ao general Fontoura, nos
seguintes termos:

A lista em questão tinha, de fato, por fim angariar os nomes dos oficiais que
estivessem dispostos a garantir o governo legalmente constituído. Ora, esta
pretensão pareceu-me ociosa e mesmo impertinente, pois, aquela obrigação já consta
imperativamente do art. 14 da nossa Carta Magna e, de mais ao alistarmo-nos sob a
nossa gloriosa bandeira, assumimos solene e expressamente aquele sagrado
compromisso, isto é, o de defendermos as instituições e obedecermos às autoridades
legalmente constituídas. Daí o discordarmos profundamente destes processos de
“listas” que não só vê, ferir o sentimento de disciplina como também nem sempre,
feita a devida exceção aos dignos, exprimem sinceridade da parte de muitos que,
pressurosamente, correm a nelas apor os seus nomes.
É claro que se um oficial ou soldado não se sentir obrigado a manter, com o
sacrifício da própria vida, o compromisso sagrado que assumimos, muito menos
compelido se sentiria pela responsabilidade, simples e efêmera aliás, de sua
assinatura em uma daquelas folhas. Além disso, não me seria possível dar tão mau
exemplo, fazendo circular na Unidade sob o me comando, um documento
condenado pelos regulamentos em vigor; meu dever seria punir, e puniria, com
severidade, todo aquele que procurasse introduzi-la entre os meus comandados.
........................................................................................................................................
É verdade, sem dúvida, declarar a V. Exa. que eu e os meus oficiais, leais ao pacto
de honra e de sacrifício de nossa própria vida, firmado com a Nação ao vestirmos a
farda do nosso Exército glorioso, havermos de, na parte que nos couber, manter
intangíveis, as autoridades constitucionais e bem assim a paz e ordem públicas
garantias imprescindíveis e inalienáveis dos nossos foros de nação civilizada.336

José Pessoa afirmou nunca ter entendido a atitude dos “dezoito heróis de
Copacabana”. Não achava cabível que “um forte se revolte contra os poderes constitucionais”,
que “prendesse o general que era o comandante do seu Distrito de Artilharia de Costa [general
Bonifácio da Costa], que confiante da sua autoridade foi ao forte revoltado, aconselhar à
guarnição a reconduzir-se ao caminho da disciplina”. Tampouco aceitava que essa guarnição
revoltosa “bombardeasse a capital do País, visando o ministro da Guerra, outros edifícios
públicos e o palácio do Catete, onde residia a família do presidente da República, destruísse
casas, matassem habitantes civis e os seus camaradas legalistas que heroicamente os
enfrentaram”. E questionava: “então queriam que o presidente da República, no seu
centenário de 1922, afrontado pelas armas da anarquia, cruzasse os braços?”. Acreditava na

336
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1921.10.03.
255

conduta de enfrentamento do tio, que fora diferente de “outros que, em situação idêntica, não
tiveram a coragem de reagir, entregando o poder maculando o mais alto posto da hierarquia
nacional”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 48-49)
Passada a agitação do mês de julho, outros eventos significativos marcariam, ainda, a
passagem de José Pessoa pela CCA: o juramento à bandeira dos soldados da CCA, a parada
militar de 7 de setembro de 1922, a inauguração das novas instalações da Companhia e o
último exercício de 1922.
O juramento à bandeira dos soldados da Companhia ocorreu em 25 de agosto de 1922,
no Campo de São Cristóvão. A data foi propositalmente escolhida por Pessoa, por ser a data
natalícia do Duque de Caxias, em um culto que o acompanharia durante toda a carreira. Na
ocasião, Caxias tornou-se o patrono da unidade de carros de assalto. Compareceram ao evento
o ministro da Guerra, o chefe do Estado-Maior do Exército, o comandante da 1ª Região
Militar, o chefe da Missão Militar Francesa e diversos outros generais da guarnição do
Distrito Federal. As arquibancadas montadas no local estavam repletas de famílias convidadas
e de outros oficiais que assistiram os 97 conscritos da CCA receberem o seu pavilhão
nacional.337
Cabem aqui duas considerações a respeito das escolhas de José Pessoa em torno de
Caxias, a partir da análise que Castro (2002) faz da criação do culto à figura de Luís Alves de
Lima e Silva como patrono do Exército.
A primeira, como aponta Castro (2002, p. 18) é a inspiração francesa para se
estabelecer uma nova tradição no Exército brasileiro: a escolha de um patrono ao qual se
identificariam, em um primeiro momento, as turmas das escolas militares. A distinção recaia
sobre o nome de um grande chefe militar ou de uma batalha famosa, que serviria de
inspiração aos jovens oficiais.
A segunda é uma implicação da primeira e tem a ver com o resgate, nos anos iniciais
da década de 1920, da figura do Duque de Caxias, “esquecida” pelos militares nos primeiros
anos da República, pelos fortes vínculos que ele mantinha com a Monarquia. A “festa de
Caxias”, institucionalizada por Setembrino de Carvalho em 1923, somente seria oficializada
em 1925, por meio de aviso ministerial338. A partir desse ano, no natalício do duque passou-se
a comemorar no âmbito do Exército o Dia do Soldado. (CASTRO, 2002, passim)
Como bem lembra Castro (2020, p. 20), o objetivo a ser alcançado com esse resgate,
no plano simbólico, “era a afirmação da legalidade e do afastamento da política, a bem da

337
A Noite, Rio de Janeiro, 25 ago. 1922, p. 7.
338
Aviso Ministerial Nº 366, de 11 de agosto de 1925, do ministro da Guerra Fernando Setembrino de Carvalho.
256

unidade interna do Exército, despedaçada, nos anos 20, por diversas revoltas internas e
clivagens políticas”. Caxias, na figura do grande pacificador do Império, evocava a união e
integridade nacionais. Dessa forma, como destaca o autor, para as autoridades militares, seu
culto funcionaria, no plano interno da instituição como “um antídoto contra a indisciplina e a
politização dos militares” (Castro, 2002, p. 20).
No centenário da Independência, uma grande parada militar foi organizada na Quinta
da Boa Vista, que contou com todas as tropas do Exército, da Marinha, das linhas de tiro e das
academias civis do Distrito Federal e dos estados. A CCA abriu o desfile militar no Campo de
São Cristóvão, “sob as aclamações delirantes das autoridades presentes e da massa popular
que ali se apinhava para assistir a parada militar, com os sodados engalanados nos seus
uniformes”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 51-52)
Em 3 de outubro foram inauguradas as novas instalações da Companhia na Vila
Militar. Em um longo discurso, José Pessoa destacou o empenho do ministro da Guerra e do
comandante da 1ª Região Militar, que se encontravam presentes, para que a unidade blindada
tivesse o seu aquartelamento próprio. Lembrou das dificuldades passadas nas péssimas
instalações provisórias do 1º Regimento de Infantaria e da Fazenda Sapopemba e afirmou
estar encerrada a sua missão, já que a Companhia se encontrava de posse de todo o
equipamento, regulamentos técnicos e táticos, mobiliários e instalações necessárias à vida e à
instrução do pessoal. Terminando a sua fala, fez, novamente, questão de destacar que não se
encontrava no comando da Companhia apenas por possuir laços consanguíneos com o
presidente da República, como haviam alegado alguns jornais do Rio de Janeiro, e, sim,
porque era o único dos oficiais do Exército que possuía o curso da especialidade que o
habilitava à função.339
O ano de instrução foi encerrado com uma longa marcha motorizada, que teve início
em 15 de outubro e que mobilizou todo o efetivo e trens e combate da Companhia, com o
objetivo de ensinar aos conscritos marchar, estacionar e combater. Durante sete dias a unidade
percorreu 146 quilômetros, em um longo movimento através de todo o território do Distrito
Federal. O exercício ficou marcado pela inclemência do tempo e pelas dificuldades
encontradas para a transposição dos obstáculos. No terceiro dia, na descida da Serra do
Morgado, um acidente com uma viatura hipomóvel provocou a morte dos animais que a
tracionavam. Refeito do susto, o efetivo prosseguiu a marcha, que terminou no Forte de

339
Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 4 out. 1922, p. 4.
257

Copacabana, de onde a Companhia regressou à Vila Militar. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta


II, p. 51-52)
Em 11 de maio de 1923, José Pessoa foi promovido a major. Tal ato obrigou-o a
deixar o comando da Companhia de Carros de Assalto. Passou-o em 19 de maio, para o
primeiro-tenente Antônio Carlos Bittencourt.
Bittencourt acabou herdando os velhos problemas que assolavam a Companhia desde
a sua criação. Dentre eles, e o mais grave, a falta de recursos para a compra de itens para a
manutenção. Também não existiam veículos suficientes para o transporte dos trens da unidade
e dos próprios carros de assalto. Faltava, também, aos substitutos de José Pessoa, o
entusiasmo necessário para o comando de um quartel de carros blindados. (BASTOS, 2011, p.
35)
O descaso do alto comando do Exército com a introdução dos blindados na Instituição,
contribuiu enormemente para que a Companhia de Carros de Assalto tivesse vida curta.
Alegavam não ser possível manter carros de combate e a mecanização em um país
essencialmente agrário, mal provido de estradas. Dessa maneira, o material da unidade foi se
deteriorando. Até a sua extinção, em 1932, seria empregada, ainda, em apenas dois eventos
significativos: na Revolta Tenentista de 1924, quando foi utilizada como força de ocupação
em São Paulo e na Revolução de 1930, com os poucos carros que haviam sobrado. (BASTOS,
2011, p. 36)
No segundo aniversário da Companhia, em 3 de outubro de 1923, José Pessoa
retornou à casa dos blindados, para inaugurar o seu retrato pintado à óleo na galeria dos
comandantes. No longo discurso que fez, novamente posicionou-se em relação ao difícil
período político pelo qual passava o País e o Exército:

Ouço dizer que todo o mal provém da imprensa. Não é só da imprensa, é sobretudo
dos políticos sem consciência, de juízes que prevaricam, de militares sem
patriotismo, de funcionários relapsos. Para estes a Pátria só se define quando
representa o interesse da sua cobiça. Encostam-se nos potentados, invadem os
gabinetes, as repartições, penetram em toda a parte, querem tudo e a todos procuram
em defesa das causas mesquinhas praticando injustiças de toda a natureza. Por isso,
ponha-se nas ambições um freio e nas prevaricações a cadeia.
Quando o Exército, por força de lei, está ao lado dos interesses de um grupo deles,
dos políticos, por exemplo, não há classe mais digna do respeito e da gratidão
nacional. O ciclo completo dos elogios os mais exagerados, do entusiasmo o mais
ridículo, da dedicação a mais torpe, reboam nos versos e na prosa de suas gazetas e
mais tiradas de sua doutrina malsã; quando, ao contrário, as suas pretensões se não
harmonizam com o nosso dever, explodem então em ódio e vileza, cobrem-nos de
impropérios, dizem que queremos cavalgar a Nação, ser o seu tutor.
........................................................................................................................................
258

É preciso camaradas meus, que a Nação tenha orgulho do Exército; sim, o mesmo
orgulho que nós temos de termos nascido à sua sombra; dignifiquemo-nos
dignificando a Pátria, cumpramos nossos deveres cívicos, respeitemos a autoridade e
sejamos obedientes à lei.
Um exército que não tem a compreensão exata desta conduta, não se pode sentir
com o direito de merecer o respeito e a estima dos seus concidadãos.340

O comando da CCA permitiu que José Pessoa vivenciasse de perto a aproximação da


alta oficialidade das Forças Armadas dos cargos políticos e burocráticos oferecidos pelos
governos civis. Como lembra Coelho (2000, p.72) o retorno dos civis ao poder político em
1894 inaugurou uma fase de cooptação do poder militar, fato contra o qual Pessoa sempre se
posicionou, como se pode ver nos discursos apresentados anteriormente.
O distanciamento criado entre os oficiais superiores e os subalternos fez crescer o
número de insurreições e agitações militares lideradas pelos oficiais de baixas patentes, como
o movimento tenentista na década de 1920. Ainda segundo Coelho (2000, p. 72), os laços
firmados entre governo e alta oficialidade criou outros reflexos no Exército que foram a falta
de oficiais mais graduados nos quartéis e o estado de completo abandono pelo qual passou a
Instituição nesse período: equipamentos deficientes, armamentos obsoletos, falta de munição,
infraestrutura dos quartéis deficitárias e falta de comandantes nos quartéis do interior do País.
Nos meses subsequentes ao da sua exoneração do comando da Companhia de Carros
de Assalto, José Pessoa teve uma curta passagem pela Escola Militar do Realengo, onde
exerceu a função de Fiscal Administrativo341, entre 17 de outubro de 1923 a 26 de janeiro de
1924. Após essa data, ficou durante três meses adido ao Departamento do Pessoal da Guerra e
em 167 de abril de 1924 foi transferido para o 1º Regimento de Cavalaria Divisionária, na
Capital Federal.
Para Câmara (2011, p. 67), o exercício do comando da Companhia de Carros de
Assalto serviu a José Pessoa de laboratório para as suas concepções sobre a servidão militar,
com a valorização do homem, da disciplina e do moral. O autor ressalta a influência de Bilac
no pensamento de Pessoa em relação àqueles que eram convocados para o serviço militar:

Em um país como o Brasil, ainda mais nos anos 1920, cada soldado – pensava ele
[José Pessoa] – representava depois de sua desincorporação um agente do
desenvolvimento social ao retornar ao seu local de origem. Assim – julgava – todo
esforço deveria ser realizado para valorizá-lo como cidadão e como ser humano.
Homens convocados pela prática do sorteio militar, rústicos, analfabetos,
acostumados a usar como talheres com as próprias mãos, passavam a receber
permanentemente atenção e educação social, envolvendo noções de higiene, saúde e

340
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1921.10.03.
341
Função de estado-maior, quer nos batalhões quer nos grandes comandos, que se destina a assessorar o
comandante em assuntos atinentes à administração e à parte financeira.
259

saneamento básico. Havia, como pode ser observado, influencia substancial do


pensamento de Bilac nesse comportamento. (CÂMARA, 2011, p. 67)

Na visão de Câmara (2011, p. 67), o cerne do pensamento de Pessoa, de fazer de cada


comandado um multiplicador de evolução, e a experiência do comando da CCA serviram para
consolidar a concepção de seu ideal: o ensino de formação.

5.4 Os comandos de regimentos – no Dragões da Independência e na fronteira gaúcha

Após a experiência à frente da Companhia de Carros de Assalto, José Pessoa


comandou dois regimentos de Cavalaria. Nos anos em que esteve à frente do 1° Regimento de
Cavalaria Divisionário, na Capital Federal, e do 3º Regimento de Cavalaria Independente, em
São Luiz Gonzaga-RS, evidenciou uma característica muito própria de sua personalidade e
que marcou a sua trajetória militar: a de reformador. Assim como havia acontecido na ocasião
em que recebeu a missão de organizar a unidade de carros de assalto, Pessoa assumiu o
comando de duas unidades de Cavalaria em estado precário de instalações e equipamentos.

5.4.1 No 1º Regimento de Cavalaria Divisionária – o Dragões da Independência

José Pessoa apresentou-se no 1º Regimento de Cavalaria Divisionário (1º RCD), em


São Cristóvão, em 25 de abril de 1924, para exercer a função de subcomandante da unidade.
Comandava o regimento o coronel Francisco Pará da Silveira, “comandante tolerante,
bondoso gaúcho, solteirão e bom filho”, a quem Pessoa estimava muito, devido ao seu senso
de humor que tornava mais aprazível a vida no quartel. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p.
60)
As primeiras impressões do aquartelamento não foram as melhores, como ele mesmo
narra:

Vi-me a braços com dificuldades de toda a sorte. Apesar de ser novo o quartel,
recentemente inaugurado, a tropa e cavalhada achavam-se mal alojadas. Tudo era
deficiente ou funcionava mal, desde a distribuição da água potável ao
funcionamento da luz e dos esgotos; os animais, por sua vez, viviam soltos, no pátio
central do quartel, onde a poeira ou a lama, nos dias de chuva, punha o recinto em
polvorosa e o ar irrespirável; os alojamentos dos homens eram guarnecidos de
tarimbas cobertas de velhos colchões; a ferradoria, improvisada, funcionava debaixo
do alojamento de um dos esquadrões e o piso era de cimento liso; o chão das baias
carcomidas, favorecendo a estagnação da água, que se tornava pútrida; tudo isso,
agravado com uma pesada dívida da administração anterior, cuja regularização
exigia esforço e dedicação. A deficiência e o desconforto se sentiam por toda a
parte. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 60)
260

José Pessoa não se considerava um intelectual, tampouco foi reconhecido pela


Instituição como tal. No entanto, tinha o hábito de proferir longos discursos nos quais
ressaltava os grandes feitos do Exército ao longo da história. Também era um hábito mandar
publicá-los nos boletins internos das organizações militares que comandou, dando, assim,
publicidade às suas palavras. Sempre que podia, materializava esses feitos. Assim foi em sua
passagem pelo 1º RCD, quando, em 20 de fevereiro de 1926, já como comandante342,
inaugurou, à frente do quartel, um monumento feito em bronze em homenagem aos heróis da
batalha do Passo do Rosário, da qual o regimento havia participado em 1827, durante a
campanha da Cisplatina. No dia da inauguração fizeram-se presentes autoridades militares e
civis da Capital Federal. Em seu discurso, Pessoa ressaltou a que se destinava o monumento:
“salientar e enaltecer a gloriosa memória daqueles que, pela sua intrepidez e pelo seu
heroísmo, mostraram o valor e as qualidades de nossa raça e pereceram dignamente no campo
de luta, onde tivemos 1.200 homens fora de combate”343. Hodiernamente, esse monumento
encontra-se em frente ao 1º Regimento de Cavalaria de Guardas, os Dragões da
Independência, em Brasília-DF, unidade de Cavalaria oriunda do 1º RCD.

Imagem 40 – Monumento aos heróis da batalha do Passo do Rosário (à direita, em frente


ao 1º RCD, em São Cristóvão, e, à esquerda, em frente ao 1º RCG, em Brasília).

Fontes: Hemeroteca da Biblioteca Nacional. O Paiz, 21 fev. 1926; Google Earth, 2020.

342
Consta na Fé de Ofício de José Pessoa que, em 27 de janeiro de 1927, ele assumiu o comando do 1º RCD.
Não foram encontrados registros históricos do porquê da assunção intempestiva.
343
O Paiz, Rio de janeiro, 21 fev. 1926, p. 7.
261

A passagem pelo 1º RCD também ficaria marcada pela personalidade forte de José
Pessoa. Algumas publicações em periódicos da Capital Federal apresentam uma série de
incidentes ocorridos tendo como protagonista Pessoa e que, certamente, determinaram o seu
afastamento do comando do regimento.
A edição do dia 19 de fevereiro, de O Jornal, noticiou um incidente havido entre
Pessoa e o major Arthur Ferreira, chefe do Serviço de Veterinária da 1ª RM. Em um
determinado dia, alguns oficiais do estado-maior da 1ª RM, dentre eles Ferreira, encontravam-
se realizando exercícios de tiro no estande do 1º RCD, quando chegou ao local José Pessoa,
acompanhado dos oficiais do regimento, que cumprimentou os integrantes da Região Militar.
De todos os presentes, somente Ferreira não lhe respondeu, talvez por não ter ouvido a
saudação, já que não há nenhuma indicação na reportagem de qualquer indisposição entre os
dois. A atitude de Ferreira não agradou à Pessoa, que o censurou perante os oficiais presentes
e lhe deu voz de prisão. A partir daí o caso virou um grande imbróglio, porque entre os
oficiais da RM encontrava-se o coronel Cunha Pitta, chefe do Serviço de Material Bélico do
quartel-general da 1ª Região Militar, que lembrou a Pessoa que, de acordo com os
regulamentos do Exército, antes de mandar prender Ferreira, ele deveria ter-lhe pedido
permissão, já que era mais antigo. O caso foi parar nas mãos do general Mena Barreto,
comandante da 1ª Região Militar, que mandou arquivar o caso.344
Outros três eventos provocaram um vai e vem de decisões disciplinares e jurídicas que
foram determinantes para o afastamento de José Pessoa do comando do 1º RCD e que
resultou em sua prisão. O primeiro deles foi a publicação em boletim interno do 1º RCD, por
ordem de Pessoa, de uma nota em que advertia o coronel Waldomiro Castilhos, que se
encontrava preso no regimento. O que gerou a publicação foi a conduta do coronel,
considerada por Pessoa inadequada ao local em que estava recolhido. O preso desrespeitava
as determinações do comando do regimento e a todos, escrevia cartas ofensivas e reclamava
de tudo, o que prejudicava a disciplina e a ordem do quartel. Mesmo assim, o comandante da
Região considerou a nota descabida e inadequada, por tratar-se Castilho de um oficial de
patente superior à Pessoa, e determinou o seu cancelamento do boletim interno da unidade.345
O outro fato envolveu a apresentação do primeiro-tenente Correia de Mattos no
regimento. Ao apresentar-se, José Pessoa não lhe deu posse das funções que deveria executar,
em decorrência de algumas informações desabonadoras que havia recebido sobre o tenente.
Sentindo-se ofendido, Correia de Mattos queixou-se ao comandante da 1ª Região Militar,

344
O Jornal, Rio de Janeiro, 19 fev. 1926, p. 4.
345
O Imparcial, Rio de Janeiro, 17 mar. 1926, p. 7; O Jornal, Rio de Janeiro, 14 abr. 1926, p. 6.
262

general Menna Barreto. Este deu ordem a Pessoa para empossar o tenente, o que o fez a
contragosto.346
O último fato foi a recusa de José Pessoa em desligar do regimento dois oficiais
sorteados para o serviço do Conselho de Justiça. A não liberação ocorreu sob o argumento de
que, segundo entendimento do Supremo Tribunal Federal, esses oficiais somente deveriam ser
afastados do serviço nos dias em que ocorressem sessões do Conselho.347
José Pessoa solicitou a Menna Barreto que reconsiderasse os seus atos em relação aos
dois primeiros casos. Como o general não ao atendeu, Pessoa pediu autorização para prestar
uma queixa do general ao ministro da Guerra. Ato contínuo, Menna Barreto mandou prender
José Pessoa por 15 dias, utilizando como argumentos os fatos relatados acima e alegando
desobediência a ordens recebidas e aos regulamentos. Sendo assim, em 31 de março, à noite,
José Pessoa foi recolhido ao 1º Grupo de Artilharia Divisionária. Após ter impetrado com um
pedido de habeas corpus por meio de seu advogado, foi posto em liberdade em 13 de abril.
Apesar de Menna Barreto ter argumentado que a justiça civil não tinha competência para
julgar e decidir sobre penas disciplinares, o juiz que determinou a soltura entendeu que o
comandante da Região não possuía autoridade para prender Pessoa, uma vez que, logo após a
queixa, ele já não estava mais sob às suas ordens, como mandava o regulamento à época348. O
jornal O Imparcial, inclusive, lembrou que era “a primeira vez desde os tempos monárquicos
que um juiz civil intervém com sua autoridade em caso de caráter absolutamente militar e que
se acha enquadrado em regulamentos e leis estritamente militares”349.
O habeas corpus impetrado por José Pessoa e as ações de Menna Barreto no comando
da 1ª Região Militar dividiram as opiniões dos periódicos cariocas. O Imparcial lembrou que
o caso envolvendo José Pessoa era “mais um incidente havido entre um comandante de
unidade da guarnição e o general comandante da 1ª Região Militar”350. O Jornal indicou que
prisão de Pessoa em “nada tinha de desabonador para a conduta desse distinto oficial”351. E
apontou novos fatos a respeito do assunto, ao revelar que o verdadeiro motivo da prisão
estava “no empenho de colocar, como colocaram, à frente do regimento o tenente-coronel
Euclides de Figueiredo, oficial de gabinete do ministro da Guerra”352. Apesar da classificação
de Figueiredo no 1º RCD, o jornal lembrava que o próprio presidente da República havia

346
O Paiz, Rio de Janeiro, 17 mar. 1926, p. 4.
347
O Jornal, Rio de Janeiro, 14 abr. 1926, p. 6.
348
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 13 abr. 1926, p. 2.
349
O Imparcial, Rio de Janeiro, 13 abr. 1926, p. 14.
350
O Imparcial, Rio de Janeiro, 17 mar. 1926, p. 7.
351
O Jornal, Rio de Janeiro, 6 abr. 1926, p. 5.
352
Ibidem.
263

ordenado que José Pessoa permanecesse no comando até o dia 15 de novembro, o que se
constituía em uma “prova de estima que sua excelência queria dar a esse oficial [José
Pessoa]”353. Por conta desse privilégio o colunista concluiu: “daí as perseguições que vinha
sofrendo, até o ato de sua prisão e imediata passagem do comando, da parte daqueles que
foram contrariados por essa ordem do presidente da República”354. Por outro lado, A Noite
apontou que a decisão tomada pela justiça civil implicava “no cancelamento da nota da fé de
ofício daquele militar [Menna Barreto]”355. E questionou: “a que novos imprevistos dará lugar
essa situação irregular do habeas corpus invadir a disciplina dos quarteis, em desabono da
autoridade militar”356.
Menna Barreto se recusou a cumprir o habeas corpus da soltura de José Pessoa.
Segundo a publicação de O Jornal, o general deu uma parte de doente, para afastar-se das
funções e não cumprir o alvará de soltura, o que coube ao seu substituto imediato, o general
Azeredo Coutinho.357 Em meados do mês de maio, Menna Barreto, por fim, passaria o
comando da 1ª RM em definitivo para Azeredo Coutinho, alegando não possuir mais força
moral para ocupar o cargo, diante da decisão tomada pela justiça civil, o que, na sua visão,
“alterava profundamente preceitos tradicionais ao nosso Exército, tornando imprecisa a
jurisdição disciplinar dos comandos e fazendo periclitar a autoridade de que estão
investidos”358.
Pessoa omite de suas memórias os fatos que desencadearam a sua prisão. Tampouco
que foi preso e solto graças a um contestado habeas corpus. Relata, somente o afastamento do
comando, que teria sido motivado pela ambição de Euclides Figueiredo pelo comando do
regimento, tido como uma unidade de escol da Cavalaria, um fato que teria contado com a
complacência do ministro da Guerra, general Setembrino de Carvalho e de Menna Barreto,
uma vez que Figueiredo era o “enfant gâté”359 de Setembrino. Na sua visão, esses oficiais
“não vacilaram em infringir princípios inalienáveis de direito militar e da lei de organização
do Exército”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 71)
Ainda sem saber que seria preso, José Pessoa passou o comando do 1º RCD ao capitão
Cedor Marques da Silva, em 31 de março, já que, pelos regulamentos, ao prestar queixa de
um superior deveria ser retirado do comando deste. No longo discurso que fez, transcrito na

353
Ibidem.
354
Ibidem.
355
A Noite, Rio de Janeiro, 19 maio 1926, p. 2.
356
Ibidem.
357
O Jornal, Rio de Janeiro, 13 abr., 1926, p. 5.
358
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 19 maio 1926, p. 2.
359
Criança mimada, em tradução literal.
264

integra pela Gazeta de Notícias, não citou uma só vez os acontecimentos que envolviam a
discórdia com Menna Barreto ou com o ministro das Guerra. Fez questão de ressaltar,
entretanto, todas as melhorias nas instalações, equipamentos, víveres e cavalhada que fez no
período em que serviu no regimento. Lembrou, também, que estava deixando o comando sem
uma dívida sequer, diferentemente de quando chegou à unidade, que contava com uma dívida
de mais de duzentos contos de reis. Por fim, agradeceu ao apoio dos oficiais e praças e
concitou a todos: “respeitemos a lei, acatemos as autoridades e amemos, sobretudo a
Pátria”.360 Câmara (2011, p. 69) lembra, ainda, ao fazer referência a uma revista do 1º RCD,
de 1927, que José Pessoa foi o idealizador do primeiro jogo de polo do Brasil, ainda como
comandante do regimento.
José Pessoa descreve em suas memórias uma série de irregularidades que teriam sido
cometidas por Euclides Figueiredo do 1º RCD: oferecia banquetes de desagravo a
autoridades, regados a champagne e pagos com o dinheiro da administração da unidade;
mudou o nome do regimento para Dragões da Independência, o que ia de encontro com a lei
de organização do Exército; fez despesas vultosas com uniformes e realizou uma compra
abusiva de cavalos no exterior. Segundo Pessoa, os abusos de Figueiredo chamaram a atenção
dos jornais da Capital Federal, que passaram a pedir uma investigação do governo na unidade.
Por fim, dois atestados de deserção de soldados do regimento apresentados ao Supremo
Tribunal Militar, assinados ilegalmente por Figueiredo, levaram a justiça Militar a decretar a
irregularidade do comando deste oficial. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 79)
Não foi possível comprovar nos periódicos cariocas as afirmações de José Pessoa. Em
uma pesquisa feita nos jornais do Distrito Federal, da época, nada foi encontrado sobre as
irregularidades por ele apontadas. No entanto, não se pode deixar de ressaltar a atitude de
Pessoa de afrontar, ainda como major, um oficial general comandante da maior Região Militar
do Exército, à época. Mais do que isso, cabe destacar o fato de ele ter recorrido à justiça
comum para buscar a reparação de uma pena imposta na esfera administrativa, o que não era
uma atitude comum adotada pela oficialidade da época. Cabe, porém, lembrar de todo o
capital político e simbólico acumulado por José Pessoa até aquele momento, o que,
provavelmente, justifique a postura por ele adotada. Tratava-se de um oficial com experiência
de combate na Primeira Guerra Mundial, que havia recebido as mais altas condecorações dos
exércitos que dela participaram. Além disso, carregava no nome o peso político-aristocrático
da família Pessoa. Seu tio Epitácio, em 1926, era um influente senador da República e já

360
Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 3 abr. 1926, p. 10.
265

havia ocupado, entre 1919 e 1922, o cargo de chefe de governo. Havia, ainda, as influências
políticas dos irmãos João, que era ministro do Supremo Tribunal Federal (dois anos depois
seria eleito governador da Paraíba) e Cândido, intendente da Capital Federal (seria eleito
deputado federal em 1927).
Da passagem de comando até o mês de setembro de 1927, José Pessoa ficou adido ao
Departamento do Pessoal da Guerra, quando então foi transferido para o Rio Grande do Sul.
Parece, a um olhar desatento, que realmente, como havia afirmado O Jornal, nada houve de
desabonador no que aconteceu com Pessoa no 1º RCD. Além de ser promovido à tenente-
coronel, por merecimento, em agosto de 1927, o Exército deu-lhe, ainda, o comando de um
regimento, o 3º Regimento de Cavalaria Independente (3º RCI), na distante São Luiz
Gonzaga-RS.361
Entretanto, nas circunstâncias em que aconteceu, não é possível se considerar a
transferência de Pessoa para a fronteira sul do País como algo relevante para a carreira. Como
bem lembra McCann (2009, p. 362), São Luiz Gonzaga era considerada, à época, “a pior
guarnição do Sul”. Cabe lembrar, ainda, o impacto que a movimentação para uma fronteira
poderia causar em uma futura promoção. Longe dos olhos da Comissão de Promoções, da
qual faziam parte todos os generais da guarnição da Capital Federal, ficava mais difícil
concorrer a uma promoção por merecimento. Importava mais no processo ser apadrinhado por
um general da Capital do que o profissionalismo na carreira.

5.4.2 O comando do 3º Regimento de Cavalaria Independente

José Pessoa chegou a São Luiz Gonzaga em 26 de outubro de 1927. Havia partido do
Rio de Janeiro acompanhado da sua esposa e da pequena Elizabeth, então com apenas 2 anos
de idade, que realizou a viagem bastante doente, devido a uma complicação do sarampo. A
viagem foi longa e realizada em três etapas: sete dias de navio até Porto Alegre, três de trem
até Santo Ângelo e, finalmente, mais um de automóvel até a chegada a São Luiz.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 84)
Pessoa relata a decepção que sentiu com o atraso material e o desconforto da pequena
cidade da região das Missões, no Rio Grande do Sul. Apesar da boa acolhida proporcionada
por seu povo, o município não possuía sequer um hotel digno para hospedagem, e a
correspondência só chegava uma vez por semana, isso se não caíssem chuvas fortes, o que
provocava a cheia dos rios e dificultava a travessia das balsas. Também não existiam estradas

361
Fé de Ofício de José Pessoa.
266

de ferro que chegassem até a pequena localidade, tampouco rodovias, apenas um caminho
ligava a cidade à vizinha Santo Ângelo. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 84)
Apresentou-se no 3º RCI um dia após à sua chegada e, como de hábito, mandou dar
publicidade à sua assunção no boletim interno da unidade. Em suas palavras, afirmou estar
convicto que não lhe faltaria da parte dos oficiais e praças “a colaboração eficiente e,
sobretudo leal e digna de que preciso no interesse da ordem, do trabalho e da disciplina,
máxima aspiração de toda unidade do Exército que tem consciência do dever”. E numa
inspiração bilaquiana, lembrou aos oficiais subalternos serem eles “os verdadeiros formadores
da mentalidade e do adestramento profissional dos homens”. E pedia que eles tivessem a
“consciência do serviço que prestam ao país, fazendo dos seus filhos aptos soldados e
cidadãos que, ao deixar a caserna, sejam reais fatores de progresso da região onde o destino os
levar”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 85-86)
A impressão que teve do regimento não era diferente da que a cidade lhe deixara. As
instalações estavam em ruínas, o aquartelamento havia sido pilhado pelos revoltosos de
1924362. O efetivo de pessoal não estava completo, não havia mobiliário e, apesar de tratar-se
de um quartel de Cavalaria, não havia um cavalo sequer. Aos poucos e com o auxílio dos
oficiais e praças, entretanto, a unidade foi sendo reconstruída, segundo suas memórias. Uns
faziam tijolos, outros levantavam paredes e ainda havia aqueles que cortavam madeira na
costa do rio Uruguai. Após seis meses de intensos trabalhos, o 3º RCI estava completamente
reformado. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 86-87)
Apesar do ressuprimento de armamentos e equipamentos necessários à instrução feitos
pela 3ª Região Militar, da reorganização dos trens de combate e da reconstrução das baias,
ainda havia a resistência do Serviço de Remonta em fornecer os cavalos ao regimento. O
estado-maior da Região alegava que fornecer cavalos a um regimento localizado em uma
cidade em que a estiagem anual acabava com as pastagens, era condená-los a morrer de fome.
A solução encontrada por José Pessoa foi tomar emprestado à pequena escola agrícola de São
Luiz algum material de aragem e sementes de forrageiras e, com isso, plantar lotes de
forrageiras em uma área ampla do terreno do quartel, irrigada por uma sanga próxima. Algum
tempo depois, o regimento já possuía capim suficiente para alimentar a cavalhada. Com isso,
um novo pedido foi feito ao general comandante da Região Militar, dessa vez acompanhado
por fotos do novo capinzal, que garantiria o forrageamento dos animais. Alguns dias depois,
um telegrama da Região comunicava a autorização do fornecimento de cavalos ao regimento.

362
Provavelmente, nesse caso, José Pessoa tenha se referido ao movimento revolucionário federalista de 1923,
que assolou o estado do Rio Grande do Sul e não o levante tenentista de 1924.
267

A notícia exaltou os ânimos do pessoal, que, com muita satisfação, recebeu os novos animais
e logo passou a adestrá-los e usá-los na instrução. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 89-
90)
O ponto culminante dos esforços de Pessoa em remodelar o regimento foi uma
inspeção do comandante da 3ª Região Militar, general Gil de Almeida, em maio de 1928,
pouco mais de seis meses após ter assumido o comando da unidade. A nova cavalhada e os
novos trens de combate foram apresentados ao general. A inspeção terminou com o regimento
dando uma carga, para demonstrar o alto grau de adestramento alcançado. Após três dias de
instrução, Gil de Almeida disse estar impressionado com o progresso da unidade. Antes do
general partir, foi lido em sua presença o boletim diário do regimento, que publicou uma
extensa relação dos melhoramentos feitos no aquartelamento, dentre os quais constavam: a
reconstrução total dos pavilhões do comando, dos esquadrões, das baias e do serviço de
veterinária; a restauração da usina elétrica e da rede de água, de esgoto e de gás; a ampliação
das instalações com a construção de um estádio e de pistas para exercícios físicos e de
obstáculos para cavaleiros; a construção de um campo de polo e de uma piscina para natação;
a reforma da escola regimental, que foi dotada de novo material escolar; criação de uma
biblioteca; construção de moradias para oficiais solteiros; instalação de um ambulatório;
reforma da enfermaria veterinária; aquisição de novos mobiliários e camas para os
alojamentos; reforma de viaturas e criação de alfaiataria, correaria e carpintaria. Naquele
mesmo ano, em setembro, o regimento recebeu outra comitiva ilustre, composta pelo ministro
da Guerra Sezefredo Passos, pelos generais Tasso Fragoso, chefe do Estado-Maior do
Exército, Malan D’Angrogne, subchefe do Estado-Maior do Exército e Espir, chefe da Missão
Militar Francesa. Esses oficiais acompanhavam os alunos da Escola de Estado-Maior. Todos
regressaram à Capital Federal bastante impressionados com a apresentação e a instrução do 3º
RCI. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 96-100)
José Pessoa narra que o seu comando foi perturbado pela ação irregular dos chamados
“provisórios” em São Luiz, que cometiam assassinatos e todo o tipo de violências contra a
população local e contra os soldados do Exército. É muito provável que Pessoa se refira, ao
utilizar o termo, aos corpos provisórios, que, segundo Mauch (2011, p. 73), foram
organizados originalmente para atuarem na revolução federalista de 1893, em algumas regiões
do Rio Grande do Sul. Eram tropas de civis armados pelo governo do estado, que atuavam
sob o comando e em auxílio à Brigada Militar363 na repressão aos revoltosos liderados por

363
A Brigada Militar é a polícia militar do Rio Grande do Sul.
268

Assis Brasil. Por ocasião da revolução federalista de 1923, esses corpos foram reorganizados.
O comando dessas milícias civis era motivo de grande disputa entre os coronéis locais,
habilmente manejada por Borges de Medeiros, presidente do Rio Grande do Sul, como
explica a autora. Com o término da revolução, os corpos provisórios foram oficialmente
extintos. Porém, muitos coronéis os mantiveram, tendo como finalidade única intimidar o
eleitorado oposicionista que comparecia às urnas.
Após ter pedido reiteradas providências às autoridades civis, todas sem sucesso, José
Pessoa resolveu agir por conta própria para dar fim à ação dos “provisórios” em São Luiz.
Segundo sua narrativa, organizou com o regimento um cerco à força irregular, prendeu os
seus integrantes e encaminhou-os às autoridades competentes. Dessa forma, a população da
cidade “se sentiu garantida na sua vida e no seu trabalho fecundo, até então tumultuados”. O
sucesso do regimento restabeleceu “a confiança e o respeito na guarnição federal, perdidas
pela inércia das autoridades superiores, estabelecendo sólida e cordial camaradagem entre
militares e civil”. Com o restabelecimento da ordem pública, o 3º RCI passou a ser a única
autoridade verdadeiramente respeitada da região das Missões364. (ALBUQUERQUE, 1953,
Pasta II, p. 101-102)
Pessoa praticamente não faz menção à sua vida familiar em suas memórias. A
autobiografia que escreveu tem como escopo a sua trajetória militar, não permitindo se ter
acesso ao José, marido e pai. Porém, ao narrar a sua passagem pelas terras gaúchas, faz
menção ao nascimento de sua segunda filha, Joy, em 1927, sem, no entanto, precisar o dia e o
mês. O destaque dessa breve narrativa está mais nas demonstrações de apreço da população
local do que no nascimento da criança.
No raro relato sobre a família, José Pessoa conta da alegria e da ansiedade da filha
Elizabeth com o nascimento da irmã e da forma como ela ia e vinha do quarto do nenê, com
um gatinho de estimação debaixo do braço. Também relata as demonstrações de amizade e de
simpatia da população civil e dos membros do regimento, que organizaram uma formatura,
com direito à banda de música em frente à sua residência. Essa mesma banda se encarregou
de, na mesma noite, realizar uma retreta na praça central de São Luiz, em homenagem à
“gauchinha recém nascida”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 106-107)
José Pessoa e sua família despediram-se de São Luiz Gonzaga em 10 de fevereiro de
1929. No dia anterior passou o comando do 3º RCI ao major Francisco Gil Castelo Branco.

364
Assim é conhecida a região Noroeste do Rio Grande do Sul. Recebeu esse nome por fazer fronteira com a
região de Missiones, na Argentina e por ter abrigado, no século XVII, algumas missões jesuítico-guaranis. São
algumas cidades dessa região: São Borja, São Luiz Gonzaga, Santo Ângelo, São Miguel das Missões, Santo
Antônio das Missões e Santa Rosa.
269

Havia passado à disposição do Estado-Maior do Exército, a fim de aperfeiçoar-se na Escola


de Cavalaria, na Capital Federal. A população despediu-se da família Pessoa de maneira
afetuosa, acompanhando-os até a saída da cidade, de onde lhes desejaram boa viagem, sob
“muitas lágrimas, muitos lenços e braços agitados”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p.
113-114)
De 16 de abril a 21 de dezembro de 1929, José Pessoa realizou o Curso de
Aperfeiçoamento de Oficiais de Cavalaria. Diferentemente dos oficiais das demais armas
(Infantaria, Artilharia e Engenharia), que realizavam o seu aperfeiçoamento na Escola de
Aperfeiçoamento de Oficiais (EAO), os oficiais de Cavalaria o realizavam na Escola de
Cavalaria do Distrito Federal365. Ambas as escolas eram um legado da Missão Militar
Francesa de Instrução, contratada em 1919.
A MMF contribuiu sobremaneira para a difusão de ideias e das doutrinas francesas no
seio da oficialidade brasileira. Antes da sua chegada, o ensino militar no Brasil era
essencialmente científico e teórico. Mesmo as disciplinas práticas ocorriam sem a aplicação
da teoria no terreno, o que deveria ocorrer por meio das manobras militares. As principais
mudanças provocadas pelos franceses, segundo Bellintani (2011, p. 384), foram a aplicação
do ensino, o enfoque programático e o nível de exigência nas disciplinas e na execução da
parte prática. Como aponta a autora, nas escolas militares as referências bibliográficas
passaram a ser francesas e, embora os oficiais da MMF falassem razoavelmente o português,
os alunos tiveram que aprender o francês para realizarem as suas pesquisas. Até mesmo os
manuais e regulamentos nacionais passaram por modificações inspiradas na documentação
francesa.
Na verdade, para as escolas militares, a MMF representou uma mudança sensível do
ensino militar, tanto na parte da formação como na parte técnica e de aperfeiçoamento dos
oficiais. Sob a inspiração francesa, o Decreto nº 13.451, de 29 de janeiro de 1919, reorganizou
o ensino militar e criou cursos, como o de Aperfeiçoamento de Oficiais, o de Veterinária e os
técnicos de Artilharia e de Engenharia, para habilitar os oficiais no desempenho das funções
técnicas das armas. Em função disso, novas escolas forma criadas, como a de Veterinária, a de
Intendência e a de Aperfeiçoamento de Oficiais.

365
A Escola de Cavalaria assim denominou-se entre os anos de 1927 e 1936, quando, por meio do Decreto nº
640, de 13 de fevereiro de 1936, foi cirada a Escola das Armas, que incorporou a instrução dos oficiais de
Cavalaria. Anteriormente, nos anos de 1925 e 1926, denominou-se Escola Provisória de Cavalaria.
270

As atividades da EAO iniciaram-se no ano de 1920366, na Vila Militar, sob duas


direções: uma de ensino, a cargo de um oficial da MMF, e uma disciplinar e administrativa,
de responsabilidade de um oficial brasileiro com o curso de Estado-Maior. Subordinada
diretamente ao chefe do Estado-Maior do Exército, a Escola destinava-se a completar a
instrução dos tenentes e capitães das armas do Exército, que haviam se formado na Escola
Militar, e aperfeiçoá-los como instrutores e comandantes de pequenas unidades militares. Em
seu primeiro ano de funcionamento, a EAO aperfeiçoou 81 oficiais (36 de Infantaria, 28 de
Cavalaria, 20 de Artilharia e 7 de Engenharia), conforme aponta Bellintani (2009, p. 338). Até
1925, competia à EAO aperfeiçoar os oficiais de todas as armas. Neste ano, por meio de uma
portaria do ministro da Guerra367, foi criada a Escola Preparatória de Cavalaria, que passou a
funcionar em uma área anexa à EAO, sob a mesma direção desta. Assim, os oficiais de
Cavalaria passaram a ser aperfeiçoados separadamente dos demais oficiais. Além dessas duas,
a Escola de Aviação, que funcionava no Campo dos Afonsos, encarregava-se de formar e
aperfeiçoar os oficiais aviadores do Exército. Como explica Bellintani (2011, p 314),
inicialmente, uma Missão Militar de Aviação foi contratada junto ao governo francês, em
1918, com a finalidade de reorganizar a Aviação Militar brasileira. Até 1924, essa missão
funcionou de forma independente da MMF, integrando-se a ela a partir desse ano.
Em 1929, novas regulamentações foram dadas à EAO e à Escola de Cavalaria.368
Entretanto, os oficiais cavalarianos continuaram a ser aperfeiçoados separadamente. A Escola
de Cavalaria passou, além de preparar os tenentes e capitães para o comando de pequenas
frações, a complementar a instrução profissional para o comando de regimentos e a dar aos
oficiais o conhecimento necessário sobre o emprego das brigadas e divisões. Para cumprir
essas duas últimas finalidades, um curso específico para os oficiais superiores (de majores a
coronéis) foi criado, a fim de aperfeiçoar os conhecimentos táticos dos oficiais, colocá-los a
par das novidades da arma e das questões de material, armamento e instrução, bem como
conservar suas qualidades equestres, já que estavam incluídas no currículo as aulas de
equitação.
Dessa forma, para os oficiais do Exército, frequentar as escolas de aperfeiçoamento
implicava a continuidade da carreira. Primeiramente, porque tomavam conhecimento das mais
modernas táticas de combate e métodos de instrução, ministradas por oficiais originários
daquele que era considerado o melhor exército da época. Em segundo lugar, porque o curso

366
Decreto nº 14.131, de 7 abr. 1920.
367
Portaria do Ministério da Guerra, de 25 mar. 1925.
368
Decretos nº 18.696 e nº 18.697, de 11 abr. 1929. Essa foi a primeira vez que a Escola de Cavalaria recebeu
uma regulamentação distinta das demais escolas militares.
271

de aperfeiçoamento habilitava os tenentes e capitães ao comando das pequenas unidades


militares, e dava aos oficiais superiores os conhecimentos necessários para o serviço nas
grandes unidades, como os regimentos e brigadas. Por fim, possuir o curso de
aperfeiçoamento era condição necessária à matrícula no curso de Estado-Maior.
José Pessoa concluiu o Curso de Aperfeiçoamento na Escola de Cavalaria em segundo
lugar, com média 7,712 (de um máximo de 10,0). Ao seu final, foi classificado na 5ª Brigada
de Cavalaria.369 Não chegou a assumir as suas funções nessa grande unidade. A Revolução de
1930 criaria as condições para que a sua carreira tivesse uma nova direção.

369
Fé de Ofício do Marechal José Pessoa.
272

6 A REVOLUÇÃO DE 1930

José Pessoa apresentou-se no Rio de Janeiro em 16 de abril de 1929, para realizar o


Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais, implementado sob a influência da Missão Militar
Francesa. Da Capital Federal assistiu ao desenrolar do pleito eleitoral de 1930, no qual seu
irmão João Pessoa concorria como vice-presidente de Getúlio Vargas, na chapa da Aliança
Liberal, uma coligação de forças políticas, como apontam Ferreira e Pinto (2103, p. 404-405),
cujas bases de sustentação se encontravam no Rio Grande do Sul, Minas Gerais 370 e Paraíba,
em alguns grupos de oposição ao governo federal e em facções civis e militares descontentes.
A derrota da Aliança Liberal nas eleições de março de 1930 deixou alguns setores da
coligação pró-varguismo inconformados, o que acabou os levando a uma aproximação com as
lideranças derrotadas do movimento tenentista de 1922 e 1924, que ainda gozavam de grande
prestígio no seio do Exército e exerciam forte influência sobre a oficialidade. Se as ideias de
uma nova conspiração contra o governo já tomavam forma, o assassinato de João Pessoa, no
Recife, em 26 de julho, foi a faísca necessária ao acendimento de um estopim que já estava
armado e que transformou o político paraibano no mártir de um movimento que resultou no
golpe de outubro de 1930.
José Pessoa foi o escolhido pelos irmãos Pessoa para cuidar dos trâmites do translado
do corpo do irmão assassinado para a Capital Federal, onde seria sepultado, já que a viúva e
as filhas residiam no Rio de Janeiro. Na Paraíba, encontrava-se apenas Oswaldo Pessoa, o
irmão mais novo, considerado pela família ainda muito inexperiente para dar conta de tal
intento, devido às proporções que o fato havia tomado. Além disso, encontravam-se na capital
paraibana alguns objetos e um importante arquivo pessoal de João Pessoa, que deveriam ser
transferidos para o Rio, a fim de serem resguardados.371
No dia 29 de julho, algumas horas antes de embarcar para o Nordeste, José Pessoa
concedeu uma entrevista a alguns jornalistas, na residência da viúva do irmão, no Rio de
Janeiro. Para um homem conhecido pela sua personalidade forte e pelo seu grande vigor
físico, Pessoa foi encontrado em um estado de abatimento profundo. Apesar de tentar manter
a calma, o seu estado d’alma era perceptível na “sua voz comovida, no seu olhar tristonho, na
sua face encovada, no seu aspecto acabrunhado”. Ao falar do irmão assassinado, disse que o

370
Como lembram Ferreira e Pinto (2013, p. 403), a adesão dos mineiros à chapa pró-Vargas se deu devido à
determinação de Washington Luís em indicar o paulista Júlio Preses como seu sucessor, o que quebrou o acordo
tácito da política dos governadores, que vinha há anos alternando no cargo político máximo da República
políticos paulistas e mineiros.
371
Jornal de Recife, Recife, 31 jul. 1930, p. 1.
273

considerava “um desambientado [...] um homem muito puro para viver no nosso meio tão
corrompido”. E considerou que a política do País não comportava homens da têmpera de João
Pessoa, que “foi sempre leal demais para ser político”. Quando os repórteres lhe mostraram
uma foto do assassino João Dantas ao lado de José Pereira de Lima, principal opositor político
de João Pessoa na Paraíba, e apontado, à época, como mandante do crime, José Pessoa disse
que Dantas não era o verdadeiro culpado, mas, “apenas a máquina que executou o crime”.
Sobre o momento político pelo qual atravessava o País, afirmou estar “descrente de qualquer
renascimento de energias, pelo menos durante a nossa geração”. Apesar de crer em um futuro
grandioso e surpreendente para o Brasil, entendia que ninguém dos presentes na entrevista
chegaria a presenciá-lo.372

Imagem 41 – Funeral de João Pessoa na Paraíba (José Pessoa, indicado pela


seta, segue atrás do carro que transporta o corpo do irmão), 1930.

Fonte: CPDOC/CDA Humberto Nóbrega.

Em suas memórias, escritas mais de duas décadas após a morte de João Pessoa, fica
claro que José Pessoa atribuiu a morte do irmão à “politicagem” que tanto condenou ao longo
da carreira, cujo grande fomentador, no seu entender, teria sido o próprio presidente
Washington Luís, ao impor ao País, por uma “vontade despótica”, a candidatura de Júlio
Prestes às eleições de 1930.
A não aceitação da chapa Júlio Prestes-Vital Soares pelo Partido Republicano
Paraibano (PRP), que ficou conhecida como o “Nego”, sob a liderança de João Pessoa, foi o

372
O Jornal, Rio de Janeiro, 30 jul. 1930, p. 1.
274

bastante, segundo José Pessoa, para que o presidente da República “se jogasse
desabridamente contra o pequeno estado nordestino, perturbando, de todos os meios, desde a
coação pela força ao suborno aviltante, a vida constitucional daquela unidade da Federação”.
Para Pessoa, o “inferno de violências e opróbios” criados por Washington Luís no estado da
Paraíba, um resultado da Revolta de Princesa373, culminou no assassinato do irmão, por meio
das “mãos traiçoeiras dos assalariados daquele governo”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X,
p. 2-3)

A cidade de Princesa, no sertão paraibano, foi transformada em reduto de


cangaceiros e malfeitores, recrutados nos estados vizinhos, pelos partidários do Sr.
Washington Luís, auxiliados com armas e dinheiro, de parceria com os funcionários
peitados do governo federal.
Era o cangaço oficializado, contra a ordem legal, ostensivamente praticado, com a
maior indiferença pelo decoro da função pública e respeito à opinião nacional.
O estado da Paraíba, cercado pelos estados vizinhos, reagia em peso com seu
heroico presidente à frente, enquanto os agentes do governo federal, subornados a
dinheiro, lhe moviam uma guerra iníqua, ao mesmo tempo que davam ampla
liberdade de ação ao banditismo, acastelado em Princesa, para depredar a vida,
honra e propriedade dos seus adversários. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X, p. 2-3)

A morte de João Pessoa possibilitou ao governo federal intervir militarmente na


Paraíba. Sob o pretexto de pôr a termo o movimento rebelde de Princesa, tropas federais da 7ª
Região Militar, sob o comando do general Lavenère Wanderley ocuparam a cidade e
guarneceram as divisas do estado. Como lembra Calicchio (s.d., p. 5), os propósitos
pacificadores do governo federal foram amplamente criticados pelos partidários da Aliança
Liberal, que enxergaram na iniciativa uma forma de intervir no estado. Por requintar-se “na
prática de violências, jogando-se como uma hiena contra a pequenina e heroica Paraíba”
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X, p. 3), José Pessoa enxergava na intervenção uma atitude
rancorosa de Washington Luís, já que não a havia conseguido fazer com João Pessoa vivo.
João Pessoa foi sepultado no Rio de Janeiro em 7 de agosto de 1930, sob forte
aclamação popular e com a presença de diversos políticos aliancistas, que pediam a Getúlio

373
Revolta liderada pelo político paraibano José Pereira de Lima, deflagrada no município de Princesa, atual
Princesa Isabel (PB), em oposição ao governo de João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, quando esteve à frente
da presidência do estado da Paraíba. As origens do movimento estão nas reformas da estrutura político-
administrativas implementadas por João Pessoa em 1928, que deslocaram a hegemonia do comércio estadual do
interior para o litoral, o que acabou desagradando as lideranças políticas do interior paraibano, e na proposta
defendida por João Pessoa de revezamento dos candidatos às eleições de 1930, para a Câmara de Deputados e do
Senado, o que quebrou a hegemonia política de algumas famílias poderosas do interior da Paraíba, como os
Pereira Lima e os Dantas. Com isso, em 24 de fevereiro de 1930, José Pereira anunciou o rompimento com o
governo estadual e iniciou um movimento rebelde armado na cidade de Princesa, seu principal reduto político. A
revolta contou com o assentimento do governo federal, interessado na queda de João Pessoa do governo
paraibano. Washington Luís chegou a propor ao Congresso uma intervenção federal no estado, o que não foi
aceito, já que o próprio João Pessoa deveria a solicitar. (CALICCHIO, s.d.)
275

Vargas uma atitude mais incisiva em relação à situação política pela qual passava a Nação. As
articulações existentes em torno da possibilidade de um movimento revolucionário que
depusesse Washington Luís tomaram corpo e deixaram os bastidores. As ações que
conduziram ao golpe de 1930 tomaram forma em setembro, quando forças militares e milícias
civis armadas iniciaram o seu deslocamento de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul para a
Capital Federal.
Câmara (2011, p. 69) considera que o fato de o assassinato do irmão ter motivado o
envolvimento de José Pessoa na trama política que pôs fim à Primeira República confirmou as
influências de Epitácio e de João Pessoa no seu comportamento político, até então de forte
tendência legalista. Apesar da observação feita pelo autor, é importante ressaltar que Pessoa
não via o movimento conduzido por uma parcela significativa das Forças Armadas como um
golpe, e, sim, como um “movimento nacionalista” de retorno à legalidade, que jogou por terra
um “governo opressor [de Washington Luís] que tantos males e humilhações causara à nação”
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X, p. 1). O assassinato do irmão João, no seu entendimento,
por motivos políticos, deu-lhe a certeza de que estava agindo corretamente para trazer a
Nação novamente aos trilhos.
Também não entendia que aqueles que conduziram o movimento de 1930 fossem
revolucionários. Para José Pessoa, o único revolucionário foi Washington Luís, que “calcou
aos pés, ostensivamente, as leis e os preceitos de moral política, escolhendo à revelia dos
interesses superiores do país, o seu substituto”. Para Pessoa, o que ocorreu, na verdade, foi
um “movimento nacional contra o autêntico revolucionário”.374
Nos rascunhos de uma carta que foi enviada à redação de um jornal (José Pessoa não
identifica o jornal), em 1947, na qual se colocou frontalmente contra as manifestações que
estavam sendo preparadas para o regresso de Washington Luís ao Brasil, José Pessoa lembrou
ao redator que o presidente deposto havia ultrajado a sociedade, a democracia e a constituição
do País em vários momentos do seu governo: quando interveio junto aos seus partidários no
Congresso Federal, incitando-os a burlar a legalidade dos representantes paraibanos eleitos
para as casas do parlamento; quando assentiu com a revolta de Princesa, um dos eventos que
teria concorrido para o assassinato de João Pessoa, e pelo desamparo do governo federal às
viúvas e órfãos dos soldados legalistas paraibanos mortos pelos revoltosos, que teriam sido
armados pelo próprio governo do País. Sendo assim, entendia que os promotores das
festividades cavavam um fosso profundo nos sentimentos cristãos, humanos e patrióticos do

374
Diário Carioca, Rio de Janeiro, 7 jul. 1931, p. 2.
276

povo que havia ajudado o Exército a depor um ex-presidente que havia “deslustrado o mais
alto cargo da magistratura nacional”. No final do rascunho há uma nota de Pessoa indicando
que a carta jamais fora publicada, porque havia sido informado por amigos que Washington
Luís regressava ao Brasil gravemente doente.375

6.1 O “movimento nacionalista” de 1930

O golpe, que estava sendo articulado há meses, tornou-se realidade em 3 de outubro de


1930, tendo como centros irradiadores os estados do Rio Grande do Sul, Minas Gerais e
Paraíba.
McCann (2009, p. 361) lembra que, apesar de haver uma grande insatisfação com o
governo federal no seio da oficialidade do Exército376, a adesão à conspiração não foi
imediata. Havia um temor entre os tenentes de 1920 em associarem-se a políticos que
representavam o tipo de homens que lutaram para depor, como Epitácio Pessoa e Artur
Bernardes. O próprio candidato a vice-presidente, João Pessoa, durante toda a década de 1920
fora um juiz bastante atuante do Supremo Tribunal Militar, que tentara sentenciar os rebeldes.
Por outro lado, pesou na decisão dos tenentes o envolvimento de antigos aliados civis na
conspiração, como os aliancistas gaúchos, os democratas paulistas e os políticos de oposição
do Distrito Federal. Nesse sentido, foi fundamental a participação de Oswaldo Aranha, que
conseguiu persuadi-los a participar do movimento revolucionário a continuarem isolados
dentro da Instituição. Quando Getúlio Vargas anunciou a sua candidatura, grande parte desses
oficiais, principalmente das guarnições do Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, passaram a
apoiá-lo abertamente. Ainda que o governo federal tentasse manter sob controle as
manifestações de insatisfação, não houve como conter o estado de tensão que passou a se
formar.
Um dos grandes articuladores da revolução no meio militar, no Rio Grande do Sul, foi
o tenente-coronel Góes Monteiro. Ironicamente, tido como homem de confiança do ministro
da Guerra Sezefredo Passos, a transferência para o sul do País, para assumir o comando do 3º
Regimento de Cavalaria Independente, na longínqua São Luiz das Missões, causou uma
grande insatisfação nesse oficial. McCann (2009, p. 362) aponta que Sezefredo via em Góes
um oficial competente e leal o bastante para controlar militarmente uma região que era o

375
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JP ag 1930.10.24.
376
O motivo da insatisfação estava relacionado ao ressentimento que os oficiais mantinham com o governo de
Washington Luís, devido ao fato da manutenção da política do governo anterior, de não anistiar os rebeldes de
1922 e 1924.
277

berço político de Vargas e que contava com um forte aparato da Brigada Militar e com
unidades civis provisórias comandadas por alguns coronéis varguistas. Um dos temores de
Washington Luís é que o sul do Brasil se levantasse em massa depois da derrota de Vargas
nas eleições de março de 1930.
O fato é que, ao invés de se sentir lisonjeado, Góes zangou-se com a nova função. Ele
próprio relata que, ao ser indagado por Sezefredo Passos a respeito da escolha de uma unidade
de Cavalaria para comandar, pediu para não ser enviado para o Rio Grande do Sul, tendo em
vista as relações familiares que mantinha no estado. Pesava, ainda, em sua decisão, o fato de
saber que Oswaldo Aranha, com quem nutria uma antiga amizade, já articulava no Rio de
Janeiro os planos operacionais de um movimento armado para depor o presidente. O ministro
prometeu-lhe, então, um comando no Mato Grosso. Apesar da promessa, Góes foi mandado
para São Luiz das Missões, o que o desagradou profundamente, por entender que a
transferência foi feita de “caso pensado”. Além de ser considerada a pior guarnição do Sul, a
unidade que iria comandar estava subordinada ao general Gil Antônio Dias de Almeida,
comandante da 3ª RM, um antigo desafeto. Ao se despedir de um amigo, Góes o
confidenciou: “Não me importa. Eles pagarão caro”. (COUTINHO, 1955, p. 55-56)
Apesar de ter resistido inicialmente às investidas de Oswaldo Aranha, para que
chefiasse as ações militares da revolução, e ser escolhido à revelia para o posto pelos oficiais
revolucionários envolvidos, Góes aceitou somente assumir a função simbólica de chefe do
estado-maior do comando militar do movimento. No relato que fez a Coutinho (1955, p. 61-
62), contou que a chefia militar chegou a ser oferecida a Luís Carlos Prestes, que, inclusive,
recebeu dinheiro para a compra de armas fora do País. No entanto, seu comprometimento com
o comunismo foi considerado uma ameaça ao movimento e seu nome foi rejeitado por
Vargas. Prestes jamais entregou as armas e não devolveu o dinheiro. Góes e Aranha chegaram
a discutir outros nomes. Dentre eles, os de alguns generais que se encontravam servindo na
Capital Federal, como Mariante e Azeredo Coutinho, que não serviriam por serem altamente
comprometidos com o legalismo, e os de Tasso Fragoso e Menna Barreto, considerados
conservadores demais. McCann (2009, p. 363) aponta que o comando foi oferecido, ainda, ao
coronel Estevão Leitão de Carvalho, que comandava um quartel em Passo Fundo. Leitão de
Carvalho recusou a oferta e manteve-se ao lado da legalidade durante todo o movimento,
chegando a ser preso durante o levante no Rio Grande do Sul, quando seu quartel foi tomado
pelos revoltosos.
Tudo estava sendo preparado para que a revolução se tornasse uma realidade. A vitória
de Júlio Prestes nas eleições de março e o assassinato de João Pessoa, ocorrido logo em
278

seguida, arrefeceu os ânimos dos oficiais revolucionários, fazendo-os retomar o ardor por um
levante armado. Apesar de Oswaldo Aranha considerar a vitória do candidato de Washington
Luís nas urnas um fato consumado, Góes discordou do amigo e considerou formar, se fosse
preciso, uma sociedade secreta no Exército, com o propósito de derrubar o governo377. A
partir daí, começou a articular nas unidades do interior do Rio Grande do Sul as bases
militares para a revolução. Os sinais de que um levante estava por vir e os rumores que
corriam por todo o estado colocaram as guarnições do Rio Grande do Sul em alerta. O
comandante da 3ª RM solicitou ao ministro da Guerra para concentrar tropas no interior do
estado, a fim de diminuir a vulnerabilidade das tropas legalistas e impedir que os
conspiradores tivessem acesso aos oficiais e sargentos simpatizantes à causa revolucionária.
Sezefredo Passos negou a autorização, alegando que a paz reinava no Brasil e que o perigo de
um levante já havia passado. (COUTINHO, 1955, p. 73-76; McCANN, 2009, p. 365-366)
Na Capital Federal, o ministro da Guerra centralizava cada vez mais as funções
peculiares ao Estado-Maior do Exército, isolando-se em seu gabinete e indispondo-se com
alguns dos generais de maior influência entre a oficialidade do Exército, justamente aqueles a
quem os revolucionários pediam apoio à causa revolucionária: Tasso Fragoso, Menna Barreto,
Andrade Neves e Malan D’Angrogne. Em setembro, o deputado federal gaúcho Lindolfo
Collor esteve no Rio de Janeiro, para pedir apoio a esses generais. Encontrou-se com Tasso e
deixou-o a par de que a Aliança Liberal desencadearia em breve uma revolução. Tasso disse-
lhe ser contrário aos movimentos de rebelião contra as autoridades constituídas. No entanto,
se ela tomasse uma proporção nacional assegurava que não ficaria neutro e que tomaria a
atitude que o seu patriotismo mandasse. (ARARIPE, 1960, p. 546; McCANN, 2009, p. 366)
McCann (2009, p. 367) faz uma importante consideração quanto aos oficiais que
aderiram à revolução, como Góes Monteiro. Todos eles concordavam com a crítica tenentista
de que os políticos paulistas confabulavam para controlar o sistema político do País em
benefício próprio. Alguns receavam, ainda, que diante da crise econômica que grassava a
Nação o comunismo se tornasse atraente às massas ignorantes. Além disso, a situação das
Forças Armadas deprimia alguns oficiais, como Góes. Faltavam líderes, soldados e material.
A estrutura disciplinar do Exército estava fragilizada e não resistiria ao mais simples golpe. A
exemplo do que pensava José Pessoa, esses oficiais entendiam que a revolução era o caminho
para a regeneração nacional e o Exército teria um importante papel nesse intento. No entanto,

377
De fato, como conta em suas memórias, Góes Monteiro chegou a estabelecer com Estilac Leal, Pinto Soares e
outros oficiais as bases de uma organização clandestina e insurrecional, que, graças aos eventos de outubro de
1930, não precisou ser criada.
279

havia a necessidade de se impedir que a Instituição fosse comprometida pela armadilha da


política partidária. Diante disso, como aponta o autor, somente havia três posturas a serem
adotadas pela oficialidade: aderir à revolução, permanecer neutro ou fingir resistência. A
única certeza que se tinha era que os oficiais do Exército não estavam dispostos a dar a vida
por Washington Luís.
Finalmente, na tarde de 3 de outubro a revolta armada teve início. Cerca de trezentos
homens da Guarda Civil metropolitana iniciaram uma invasão do quartel-general da 3ª Região
Militar, em Porto Alegre. Com os informes que havia recebido das unidades militares do
interior do estado, de que a rebelião se avizinhava, o general Gil ordenou que a guarnição da
capital gaúcha entrasse em prontidão. Entretanto, grande parte da oficialidade dos quartéis já
se encontrava comprometida com o levante. Gil custava a creditar que o presidente do estado,
Getúlio Vargas, estivesse envolvido na trama. O fato é que, uma após a outra, as unidades
militares da capital e do interior do estado foram capitulando e sendo controladas pelos
revolucionários. (McCANN, 2009, p. 369-371) Curiosamente, um dos comandantes que se
manteve legalista e que foi preso durante o levante foi o coronel Euclides Figueiredo, um
velho conhecido de José Pessoa. Cabe lembrar que, no entendimento de Pessoa, Figueiredo
havia confabulado para que fosse deposto do comando do 1º Regimento de Cavalaria
Divisionária, em 1927. Certamente, a atitude de Figueiredo contribuiu para a imagem
negativa com que foi retratado nas memórias de Pessoa, anos mais tarde. Euclides Figueiredo
acabou sendo solto. Porém, jamais aceitou o governo de Vargas e acabou envolvendo-se na
Revolução Constitucionalista de 1932.
Como aponta McCann (2009, p. 373), quanto à adesão à revolução, a tendência foi que
o extrato de capitães para baixo aderissem e o de majores para cima permanecesse,
predominantemente, ao lado da legalidade. Os poucos oficiais subalternos que permaneceram
legalistas assim o fizeram por um sentimento de lealdade a seus comandantes específicos e
não ao governo. Quanto aos oficiais superiores, lutaram contra o movimento revolucionário
porque realmente eram legalistas e acreditavam que o Exército não tinha o direito de rebelar-
se contra uma autoridade constituída. Havia, ainda, aqueles que julgavam que seus
compromissos pessoais os obrigavam a fazê-lo. O autor lembra que os oficiais brasileiros não
juravam lealdade à Constituição e, sim, aos seus superiores, de modo que os laços de lealdade
tinham um papel fundamental na manutenção da disciplina.
Em Minas Gerais, o tenente-coronel Aristarcho Pessoa, irmão de José Pessoa, assumiu
o comando das forças revolucionárias. Diante da recusa das guarnições federais do estado a
aderirem ao movimento, uma força foi formada pela Força Pública do estado e por civis
280

armados por líderes políticos locais. Em pouco tempo todo o sistema de comando das forças
federais mineiras foi desmantelado e as unidades militares foram imobilizadas em seus
aquartelamentos. Logo a força revolucionária mineira estava a postos nas divisas com os
estados de São Paulo e Rio de Janeiro. (McCANN, 2009, p. 375-376)
Cordeiro de Farias salienta que Aristarcho foi escolhido para a coordenação militar do
movimento mais pela sua antiguidade, afinal de contas era muito mais velho do que os demais
militares revoltosos, do que pelo “treino militar suficiente para orientar uma rebelião”.
Entretanto, Farias ressalta que a chefia tinha que ser de Aristarcho, afinal de contas ele era
irmão de João Pessoa e um homem com grande poder de decisão. (CAMARGO; GÓES,
1981, p. 178)

Imagem 42 – Aristarcho Pessoa (ao centro, de bigode) durante


a Revolução de 1930 em Minas Gerais, out. 1930.

Fonte: Acervo Pedro Ernesto (CPDOC FGV) - PEBfoto018.

No Nordeste, onde o movimento foi capitaneado por Juarez Távora e pelo ex-
secretário de segurança do governador João Pessoa, João Américo de Almeida, a resistência
federal durou apenas três dias. Em Pernambuco, além das guarnições federais, as unidades de
Tiros aderiram ao movimento. Na Paraíba a resistência foi maior, já que os principais
281

conspiradores eram ajudantes-de-ordens do governador e do comandante da 7ª Região Militar,


e custou a vida do comandante da RM, general Lavenère Wanderley, e de cinco oficiais do
seu estado-maior, além da do comandante do 23º Batalhão de Caçadores, coronel Pedro
Ângelo Correia. (McCANN, 2009, p. 375-376)

6.1.1 O 24 de outubro

No Rio de Janeiro, pouco a pouco, a oficialidade da Vila Militar e do Ministério da


Guerra passou a reconsiderar a sua lealdade a Washington Luís. Dia após dia, o número de
legalistas diminuía nos quadros do Exército. A baixa resposta à convocação de reservistas da
1ª Região Militar foi uma demonstração de que o povo já não apoiava o governo federal.378 O
presidente passou a ser apontado como o principal responsável pela revolução. Os generais
presentes na Capital Federal começaram a perceber que era necessária uma ação antes que o
Exército se desmantelasse totalmente. Pensavam ser fundamental que a situação fosse
controlada e que Vargas fosse impedido de chegar ao poder. Tasso Fragoso concluiu ser
necessário que os generais conduzissem uma “ação pacificadora”, o que tornaria mais fácil
manter a disciplina da tropa, a ordem social e coibir os abusos e vinganças que poderiam advir
de diferenças pessoais. Em 19 de outubro, o coronel Bertoldo Klinger e o tenente-coronel José
Antônio Coelho Neto, a mando do general Menna Barreto, procuraram vários generais da
Capital Federal, pedindo assinaturas para uma ordem operacional conclamando o presidente a
renunciar. (McCANN, 2009, p. 377)
As ações que resultaram na deposição de Washington Luís aconteceram nos dias 23 e
24 de outubro. O dia 23 e a madrugada do dia 24 foram marcados por encontros e reuniões
dos dois lados envolvidos no movimento. Na manhã do dia 23, Menna Barreto foi ao encontro
de Tasso Fragoso, para comunicar-lhe que tudo estava pronto para o levante armado e pedir
que se juntasse aos revolucionários. Apresentou-lhe uma intimação que seria entregue ao
presidente, exortando-o a entregar o cargo e uma espécie de ordem de operações para as
tropas da guarnição. Ainda que o movimento não estivesse sendo capitaneado pelos generais,
Tasso entendia que eles deveriam tomar a sua direção. Para isso comprometeu-se a conversar
com os generais da guarnição da Capital Federal, para tomar pé da posição que adotariam
diante da revolução. Não achava aconselhável intimá-los a aderirem ao movimento e, sim,
apelar para os seus sentimentos patrióticos, para que abandonassem o seu posto. Quanto à

378
Como relata Tasso Fragoso, nenhuma família do Rio de Janeiro desejava que seu filho vestisse uma farda e
fosse morrer na linha de frente por um homem francamente divorciado dos interesses coletivos. (ARARIPE,
1960, p. 547)
282

intimação para o presidente e a ordem de operações, prometeu fazer algumas observações e


entregá-las posteriormente a Menna Barreto. (ARARIPE, 1960, p. 557-558)
Após o encontro, Tasso dirigiu-se ao Estado-Maior do Exército. Conversou com
alguns generais que lá se encontravam. Nem todos se comprometeram com a revolução, como
o general Alexandre Leal, chefe da 5ª Seção do EME, e o general Azeredo Coutinho,
comandante da 1ª Divisão de Exército, que afirmaram permanecer ao lado do governo, mais
por uma questão de lealdade do que por acreditarem no comando de Washington Luís. Porém,
a grande maioria dos generais com que Tasso conversou afirmaram achar justo o movimento,
em função dos erros que o governo vinha cometendo. (ARARIPE, 1960, p. 559-560)
Para surpresa de Tasso, que nem havia feito as revisões necessárias nos documentos
que Menna Barreto o havia apresentado pela manhã, este precipitou-se e deu início ao levante
na noite daquele mesmo dia. Às 22 horas foi avisado que Menna Barreto encontrava-se no
Forte de Copacabana à sua espera, onde a guarnição da fortaleza já havia sido mobilizada e
tomado as providências para a sua defesa aproximada – nada mais simbólico do que
estabelecer o quartel-general do movimento no mesmo local em que o tenentismo fora
derrotado em 1922. Tasso fardou-se foi ao encontro do colega. Assim que chegou, Menna
Barreto quis entregar o comando do movimento à Tasso, já que este era um general-de-
divisão e mais antigo do que ele. Tasso não viu necessidade nisso e combinaram tomar as
decisões em comum acordo. Delineava-se, assim, a Junta Governativa Provisória379.
Encontravam-se, ainda, no local os majores Francisco Gil Castelo Branco e Valentim Benício
da Silva. O primeiro assumiu as funções de chefe do estado-maior do levante, até que o
coronel Klinger chegasse ao local. Coube a Benício da Silva buscar informações junto ao
Ministério da Guerra. Ao retornar, informou que todos já haviam tomado conhecimento de
que a revolução estava em curso. (ARARIPE, 1960, p. 560-561)
No outro lado da cidade, já na madrugada do dia 24, no Ministério da Guerra,
Sezefredo Passos e o general Alexandre Leal convocaram vários generais da guarnição para
uma reunião de emergência. O tema em discussão era a ordem de operações de Menna
Barreto. O general Malan informou que não a havia assinado, até mesmo porque não
comandava tropa380, mas, entendia ser justo o pedido de renúncia que seria apresentado ao
presidente. Passos foi, ainda, censurado pelos generais presentes porque, até aquele momento,
não havia informado Washington Luís da real situação do movimento. Depois de algumas

379
A Junta Governativa Provisória foi formada por Tasso Fragoso, Menna Barreto e o almirante Isaías de
Noronha. Governou o País até o dia 3 de novembro de 1930, quando o governo foi entregue a Getúlio Vargas.
380
O general Malan era o comandante da Escola de Aviação.
283

horas de reunião, Sezefredo dirigiu-se ao Catete, para colocar o presidente a par dos
acontecimentos. (McCANN, 2009, p. 379-380)
Em torno das 6 horas do dia 24, o general Tasso Fragoso falou ao telefone com os
generais João Gomes Ribeiro, comandante da Vila Militar, e João Álvares de Azevedo Costa,
comandante da 4ª Região Militar, em uma tentativa de convencê-los a aderirem à revolução.
Pouco tempo depois, foi a vez do ministro Sezefredo ligar para Menna Barreto, em uma
tentativa de trazê-lo de volta à legalidade. Barreto informou ao ministro que as ordens para o
levante armado já estavam dadas e que o movimento revolucionário se tratava, justamente, de
uma restauração da legalidade. (ARARIPE, 1960, p. 560; McCANN, 2009, p. 380)
Em torno das 8:30 horas, Malan D’Angrogne mandou informar a Tasso que aderira à
revolução. Imediatamente, recebeu os comandos do 3º Regimento de Infantaria (3º RI),
localizado na antiga sede da Escola Militar da Praia Vermelha, e da Fortaleza de São João, na
Urca. Aos poucos, outros oficiais generais foram aderindo à causa revolucionária, como José
Fernandes Leite de Castro, Firmino Antônio Borba, Álvaro Mariante e Pantaleão Telles
Ferreira. Malan, ao assumir as suas funções no 3º RI, encarregou José Pessoa do comando do
grupamento formado por essa unidade militar e dos civis armados que a ela foram se
agregando. A sua missão seria a mais decisiva do movimento armado: marchar para o Palácio
Guanabara e ocupá-lo. (ARARIPE, 1960, p. 562; McCANN, 2009, p. 380)
Cabe aqui abrir um parêntese, para explicar a situação de José Pessoa quando o
movimento começou. Após concluir o curso de Aperfeiçoamento, Pessoa havia sido
classificado na 5º Brigada de Cavalaria. Porém, nunca assumiu as suas funções, já que havia
solicitado, ainda em 1929, a sua matrícula no curso de Estado-Maior. Como mandava o
regulamento381 que o amparava, deveria aguardar o parecer favorável do Estado-Maior do
Exército no requerimento da matrícula. Por isso, em janeiro de 1930, foi colocado à
disposição do Departamento do Pessoal da Guerra, até que fosse autorizado a realizar o
concurso de admissão.
Após o concurso, José Pessoa não foi classificado para a realização do curso,
instalando-se uma celeuma sobre o assunto, que tomou conta das páginas da imprensa. Sob o
título de “As mesquinharias no Exército”, as edições dos dias 20 e 23 de abril do Correio da
Manhã debateram a não aceitação da matrícula de José Pessoa pelo chefe do EME. José
Pessoa argumentou que havia entrado com grau de recurso junto ao Ministério da Guerra,
porque, há mais de dez anos, alunos, cujos graus tinham sido menores do que o dele, vinham

381
Decreto nº 14.130, de 7 de abril de 1920.
284

sendo diplomados na Escola de Estado-Maior.382 Também indicou que não se encontrava


previsto em nenhum regulamento de ensino o grau 5,0 como base para a matrícula383 e que a
classificação que obtivera na Escola de Aperfeiçoamento, além dos cursos que fizera na
França, durante a Primeira Guerra, por si só já lhe garantiria a matrícula no curso de Estado-
Maior, sem a necessidade de concurso. Por sua vez, o jornal dava a entender os reais motivos
da não aceitação de José Pessoa:

O ministro da Guerra, porém sabe que o coronel José Pessoa Cavalcanti de


Albuquerque é irmão do Sr. João Pessoa, presidente da Paraíba. Daí o seu ódio à
família. Estrangulou qualquer possibilidade do aludido coronel chegar a general,
pelo menos nesses anos mais próximos. Fez o que já havia feito com o major
Aristarcho Pessoa, também irmão do presidente paraibano, afastado da tropa e
jogado para o quadro suplementar, adido ao Departamento da Guerra. 384

O periódico apontava ser uma tristeza “o registro dessas mesquinharias, dessas


injustiças, dessas vergonhas”, que aconteciam no Exército. A culpa, porém, segundo o jornal,
era de Sezefredo Passos, que não tratava a oficialidade “com a necessária seriedade e
correção, respeitando-se a si mesmo para ser por ela respeitado”.385 E afirmava que, apesar do
direito de José Pessoa ser “líquido e indiscutível”, o ministro da Guerra não publicava a
autorização para a matrícula no curso “por estar integrado na politicagem do governo”. Para o
redator do Correio da Manhã, Sezefredo servia aos “interesses mesquinhos de uma
administração cujos processos são indefensáveis e inconfessáveis”. Sendo assim, o ministro
não passava, na velhice, de um apóstata, que “para estar bem sob as graças dos poderosos”,
havia se tornado “amigo urso da sua classe”.386 O fato é que José Pessoa não conseguiu,
naquele ano, o direito à matrícula no curso de Estado-Maior.
O envolvimento de Sezefredo Passos com a politicagem do governo federal era
notório. Em maio de 1930, em meio à crise que se instalara na Paraíba com a Revolta de
Princesa, o governador João Pessoa solicitou, reiteradas vezes, ao Ministério da Guerra que
passasse à disposição do estado da Paraíba seu irmão Aristarcho Pessoa, para que comandasse
a Força Policial do estado. Diante da recusa do ministro, que não apresentou razões plausíveis

382
Conforme nota do jornal Diário Carioca, José Pessoa obteve o grau 4,95 (de um máximo de 10,0) no
concurso de admissão, sendo classificado em segundo lugar, de dez oficiais. O jornal ratificou, ainda, a
informação de Pessoa, de que há anos alunos, cujos graus haviam ficado abaixo de 4,5, vinham sendo
diplomados na Escola de Estado-Maior. Ressaltou, ainda, que a não matrícula de José Pessoa ia de encontro a
todos os dispositivos legais vigentes à época. Cf. Diário Carioca, Rio de Janeiro, 15 mar. 1930, p. 2.
383
No concurso que José Pessoa prestou, o chefe do Estado-Maior do Exército mandou aproveitar somente os
candidatos com notas iguais ou superiores a 5,0. Cf. O Paiz, Rio de Janeiro, 20 abr. 1920, p. 4.
384
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 20 abr. 1930, p. 4.
385
Ibidem.
386
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 23 abr. 1930, p. 4.
285

para a negativa em ceder Aristarcho, João Pessoa indicou então o nome de José Pessoa, o que
também foi negado.387
Por fim, o ponto máximo da indisposição do ministro da Guerra com a parte militar da
família Pessoa ocorreu no início de outubro, dias depois da revolução ter iniciado no Rio
Grande do Sul. Em uma série de avisos publicados no Diário Oficial da União, vários oficiais,
de todas os postos, foram convocados a apresentarem-se no Departamento do Pessoal da
Guerra388, em uma tentativa óbvia do Ministério da Guerra de controlar quem havia se
tornado suspeito de envolvimento no movimento revolucionário. Dentre os nomes elencados,
estavam os de José e Aristarcho. Como os irmãos descumpriram a ordem exarada, passaram à
condição de desertores em 16 de outubro389 e, nessa condição, participaram da revolução. Se a
intenção de Sezefredo Passos era limitar as ações dos irmãos Pessoa, a sua participação na
politicagem do governo acabou os impulsionando no movimento de 1930. Em novembro,
com a anistia dada a todos os militares e civis envolvidos na revolução390, José e Aristarcho
Pessoa foram formalmente reincorporados às fileiras do Exército. Fecha parênteses.
Em entrevista ao jornal A União, de 7 de dezembro de 1930, José Pessoa explica os
motivos de sua deserção e deixa claro que nunca teve a intenção de participar da revolução na
Capital Federal. Quando estivera na capital paraibana, em agosto, para acompanhar o
translado do corpo de João Pessoa para a Capital Federal, foi procurado pelos amigos José
Américo, secretário de Segurança Pública da Paraíba, Anthenor Navarro, diretor da
Repartição de Águas e Esgotos, e José de Ávila Lins, prefeito da Cidade da Paraíba. Esses
conterrâneos colocaram-no a par do movimento revolucionário que estava por acontecer
naquele estado. Ficou combinado que aguardaria no Rio de Janeiro um telegrama cifrado, que
lhe informaria a data oportuna para retornar à Paraíba, de onde, ao lado de Juarez Távora,
dirigiria as ações revolucionárias nos estados do Norte.391
José Pessoa nunca recebeu o telegrama, que, apesar de ter sido enviado, extraviou-se
no caminho. O não recebimento da aguardada comunicação vinda do Nordeste é que o
obrigou a desertar, para não ser preso e ficar, assim, impedido de atuar na revolução, uma vez
que, no Rio de Janeiro, já era sabido que ele participaria das forças revolucionárias dos
estados setentrionais do País. Até ser convocado pelo general Malan para comandar as forças

387
Mensagem apresentada à Assembleia Legislativa da Paraíba em 1930, pelo vice-presidente do estado, Dr.
Álvaro Pereira de Carvalho, p. 80-82.
388
Diário Oficial da União, 9 out. 1930, p. 19.208.
389
Diário Oficial da União, 18 out. 1930, p. 19.759.
390
Decreto nº 19.395, de 8 de novembro de 1930.
391
A União, Cidade da Paraíba, 7 dez. 1930, p. 1.
286

do 3º RI, ficou escondido em Copacabana, na residência do Sr. Claudino Velloso Borges, um


apoiador civil da causa revolucionária, à rua Bulhões de Carvalho, nº 19.392
Em suas memórias, Pessoa relata que chegou ao quartel do 3º RI na noite do dia 23 de
outubro. De imediato tratou de reunir todos os oficiais da unidade, que lhe demonstraram
estar solidários com a revolução. Deu ordens para que fosse organizado um dispositivo de
defesa aproximado ao Regimento e a ligação com o Forte de Copacabana. Na manhã do dia
seguinte, às 11:20 horas, em companhia do tenente-coronel Estevão de Ávila Lins,
comandante interino do 3º RI393, recebeu uma mensagem394 escrita à mão do general Malan,
mandando que marchassem com toda a força organizada, em ordem, até a praia de Botafogo.
Determinou, então, que Ávila Lins colocasse o Regimento em forma em frente ao
aquartelamento e que o primeiro-tenente Antônio Ferraz de Oliveira organizasse a coluna de
civis que havia se agregado à unidade militar.395 Como a ordem do general Malan não
especificava o motivo da mobilização, Pessoa acreditava que o Regimento fosse tomar parte
de uma grande parada militar. Por volta do meio-dia, a força formada pelo 3º RI e pelo
grupamento de civis iniciou o seu deslocamento para a praia de Botafogo, tendo à frente José
Pessoa e o tenente-coronel Ávila Lins. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X, p. 5)
Na altura da rua São Clemente, já em Botafogo, os generais do Forte de Copacabana,
Tasso Fragoso, Menna Barreto e Malan, foram ao encontro de José Pessoa para informar-lhe
que Washington Luís permanecia no Palácio Guanabara, apoiado por um forte contingente da
Polícia Militar e sem a intenção de se entregar. Tasso perguntou a Pessoa se estavam
dispostos a “arrancar” o presidente do Guanabara. Pessoa respondeu-lhe: “foi para isso que
viemos até aqui, meu general”. De imediato, o Regimento formou duas colunas de marcha.
Uma seguiu pela rua Farani, tendo à frente José Pessoa, e outra pela rua Humaitá. Na esquina
com a rua Pinheiro Machado, um mensageiro das forças que defendiam o Palácio foi ao
encontro de Pessoa, deixando-o a par de que as tropas entrincheiradas no Guanabara não
abririam fogo. Sendo assim, deu ordem para que as forças da Polícia Militar se retirassem do
Palácio e retornassem aos seus quartéis. Já em frente às grades que cercavam o Guanabara,
José Pessoa, em companhia do general Malan, ordenou ao capitão Oswaldo Rocha, ajudante-

392
Ibidem.
393
Ávila Lins era irmão do prefeito da Cidade da Paraíba, Dr. José de Ávila Lins, um dos articuladores do
movimento revolucionário no estado da Paraíba. Havia comandado o 22º Batalhão de Caçadores, na capital
paraibana, e foi transferido para o rio por influência do irmão político. Exercia a função de fiscal administrativo
do 3º RI. Por ocasião da revolução, estava comandando interinamente o regimento.
394
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JP ag 1930.10.24
395
José Pessoa relata que cerca de três mil civis haviam comparecido ao 3º RI, para tomarem parte da luta
armada. A imprensa carioca da época estimou esse efetivo em torno de dois mil homens.
287

de-ordens do presidente, que abrisse os portões, o que foi feito. Dessa forma, as tropas do 3º
RI ocuparam o interior do Palácio Guanabara, permitindo aos generais Tasso, Menna Barreto
e Malan entregarem a Washington Luís a intimação para deixasse o cargo.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X, p. 5)

Imagem 43 – Tropa do 3º RI em meio a populares na Rua Farani, em Botafogo, 24 out. 1930.

Fonte: Hemeroteca da Biblioteca Nacional. Revista da Semana, 2 nov. 1930.

No interior do Guanabara, Pessoa presenciou as negociações encetadas pelos generais


da Junta Provisória para que Washington Luís deixasse o palácio com seus próprios pés. Uma
das maiores preocupações de Tasso Fragoso, e que o constrangia verdadeiramente, era a
possibilidade de se fazer o uso da violência para retirar o presidente deposto do Palácio.
Na sala contígua ao aposento em que se encontrava Washington Luís, acompanhado
de alguns ministros e dos chefes das casas civil e militar, Tasso, Menna Barreto, Malan e o
cardeal do Rio de Janeiro, D. Sebastião Leme, discutiam qual seria o melhor local para que o
ex-presidente fosse recolhido preso. O cardeal Leme sugeriu que fossem dadas ao ex-
presidente as opções de se recolher a uma embaixada ou ao Palácio São Joaquim, residência
oficial do cardeal arcebispo do Rio de Janeiro. Pessoa lembrou aos presentes que o local mais
indicado para recolher Washington Luís era uma fortaleza, onde seria possível lhe dar
garantia de vida.396 Tasso ponderou que uma fortaleza não possuía o conforto necessário.
Entretanto, um dos presentes lembrou-lhe que o Forte de Copacabana possuía o conforto

396
A intervenção de José Pessoa a favor da prisão do ex-presidente em uma fortaleza do Exército é corroborada
por Tasso Fragoso em suas memórias. In. ARARIPE, 1960, p. 169.
288

desejado. D. Leme sugeriu, então, que Washington Luís ficasse preso no próprio Guanabara.
Pessoa retrucou-lhe que o palácio não poderia ser convertido em um presídio para se recolher
um preso comum, ao que foi severamente repreendido por Tasso Fragoso, que lembrou que o
momento não era de intransigências. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X, p. 17-22)

Imagem 44 – General Tasso Fragoso (centro) nos jardins do Palácio Guanabara, 24 out. 1930.

Fonte: Hemeroteca da Biblioteca Nacional. Revista da Semana, 2 nov. 1930.

Diante do impasse que se estabeleceu, José Pessoa narra que se retirou para o jardim
do Palácio, onde foi buscar alguns soldados, a fim de estabelecer uma guarda à porta do salão
em que se encontrava o ex-presidente. Solicitou, então, que se retirassem do local as pessoas
estranhas à Junta Provisória, que se encontrava na sala contígua. Logo após, dirigiu-se aos
generais e informou que daria um prazo de quinze minutos para que Washington Luís se
decidisse, sendo que, após esse prazo, empregaria a força para retirar o presidente deposto do
palácio. Após um período de relutância, e graças aos conselhos de D. Leme, o presidente
entregou-se, sendo recolhido preso ao Forte de Copacabana já ao anoitecer do dia 24 de
outubro. Os ministros do governo deposto que o acompanhavam também foram recolhidos a
outros quartéis da guarnição.397
No dia 25 de outubro o destacamento formado na Praia Vermelha foi dissolvido e,
antes de devolver o comando do 3º RI a Ávila Lins, José Pessoa mandou publicar no boletim
397
Conforme depoimento prestado por José Pessoa ao deputado Maurício de Lacerda, um dia após a tomada do
Palácio Guanabara. Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1930.10.24.
289

da unidade uma ordem do dia, na qual ressaltava a participação do Regimento nas ações de 24
de outubro, que se deram sob o seu comando. Além disso, deixava claro que o movimento
conduzido pelo Exército ocorreu para trazer novamente o Brasil à legalidade.

De ordem da Junta militar Pacificadora, assumi ontem, nessa capital, o comando do


agrupamento constituído pelos 3º Regimento de Infantaria e tropas irregulares
organizadas na Praia Vermelha a fim de secundar a ação patriótica das classes
armadas de terra e mar no estabelecimento da ordem e tranquilidade da família
brasileira e também das garantias e liberdades usurpadas por um governo que
aberrava da legalidade, fazendo-se opressor e verdugo dos seus cidadãos.
........................................................................................................................................
São do conhecimento do povo brasileiro e do Exército Nacional as condições
anormalíssimas a que de longa data se viu reduzido o país, sob a pressão de um
governo prepotente e faccioso que pretendeu submeter os sagrados interesses
públicos e os inauferíveis direitos do Brasil ao interesse de uma agremiação
partidária e de uma candidatura ao supremo governo da República, que encontrou a
mais viva e justificável repulsa no sentimento geral de nossos cidadãos.
........................................................................................................................................
...pretendeu o Sr. Washington Luís atirar o Exército contra os bons brasileiros,
nossos irmãos, que lhe resistiram a convertê-lo a instrumento de seus subalternos
interesses e mesquinhas vinganças. Felizmente o Exército brasileiro que sempre se
distinguiu pela bravura, pelo patriotismo e pela disciplina dentro da lei e da
constituição, não se prestou a tão degradante papel e na gloriosa jornada de ontem,
identificado plenamente com o sentimento dos brasileiros, pôs termo à luta fratricida
que tantos dias de luto ainda prometia à nossa querida pátria.
........................................................................................................................................
Felizmente cooperaste com a intensa vibração dessa obra redentora e, ainda
sob o meu comando, depois de ocupardes o Palácio Guanabara, onde se encontrava
o presidente já destituído, foste vós que salvastes a sua vida contra justa indignação
pública, no momento em que a massa enfurecida exigia uma justa vendeta. Cabe-me
assinalar esses generosos esforços no momento em que éreis comandados por
mim, que poucos dias antes tivera a minha captura posta a prêmio por esse mesmo
governo que tanto usou de violência, de suborno e de corrupção.
.......................................................................................................................................
Deixo-vos aqui consignado o meu reconhecimento para tudo o que fizestes, certo de
que assim vos recomendo à gratidão da história, especializando o nome do bravo e
digno comandante, tenente-coronel Estevão de Ávila Lins e estendendo os louvores
que a este cabem aos demais oficiais e às praças do 3º Regimento e patriotas das
tropas irregulares.398 (grifos meus)

No mesmo dia em que José Pessoa elogiava a participação do tenente-coronel Ávila


Lins nas ações de 24 de outubro, este tratava de desmerecê-lo em uma entrevista ao periódico
O Jornal. Ávila Lins apontava que o 3º RI sempre estivera, na verdade, sob o seu comando e
que José Pessoa não havia passado de um mero coadjuvante na investida sobre o Palácio
Guanabara, ficando a seu encargo apenas a organização do efetivo de civis armados. A partir
daí, iniciou-se nas páginas dos principais jornais cariocas e paraibano um intenso bate-boca
que durou mais de um ano entre os dois oficiais, que, a cada publicação, procuravam tomar

398
O Jornal, Rio de Janeiro, 26 out. 1930, p. 6.
290

para si o protagonismo das ações. Para Pessoa, a situação tornou-se extremamente


desconfortável, porque, afinal de contas, era a segunda vez que alguém tentava usurpar-lhe o
comando.
A narrativa feita por Ávila Lins a respeito das ações que resultaram na tomada do
Palácio Guanabara pelas forças do 3º RI é uma verdadeira ode a si mesmo e em nenhum
momento faz menção à participação de José Pessoa e à ordem exarada pelo general Malan na
manhã do dia 24 de outubro.
Lins afirma que a decisão da investida do regimento na praia de Botafogo foi tomada
por uma iniciativa sua, após consultar os oficiais e praças da unidade, que o apoiaram
incondicionalmente. No depoimento que deu ao periódico O Jornal, afirmou que, mesmo que
não fosse apoiado pela oficialidade, “deixaria o quartel e sairia da mesma forma com os
soldados que me fizessem companhia”. Também não faz menção aos generais da junta
provisória: Tasso, Menna Barreto e Malan. Apenas ao general Leite de Castro, comandante da
Artilharia de Costa, que, para ele era “a verdadeira alma da revolução” na Capital Federal399.
Curiosamente, a narrativa que faz de si mesmo, aproxima-se muito dos antecedentes
revolucionários de José Pessoa: considerava-se um amigo pessoal de João Pessoa; era
considerado suspeito pelo governo; pensou em desertar, para poder prestar um melhor serviço
à causa nacional, apesar de ser alheio à política; e, após irrompido o movimento, esperou o
melhor momento para entra em ação de maneira decisiva. Na mesma edição da entrevista de
Ávila Lins, o jornal publicou uma pequena nota, quase imperceptível, na quarta página, em
que informa que foi graças ao convite de Lins que José Pessoa teve a “oportunidade” de
participar do movimento.400
Um mês mais tarde, inconformado com as notícias veiculadas na imprensa carioca,
Lins novamente mandou publicar uma nota em O Jornal, solicitando que o periódico
novamente declarasse que, em 24 de outubro, o 3º RI esteve sob o seu comando e não sob o
de José Pessoa, como alguns jornais da Capital Federal equivocadamente haviam publicado.
Novamente ressaltou que a Pessoa coube, somente, o comando do grupamento de civis.401
Um longo relatório preparado por Ávila Lins, no qual expunha as ações do 3º RI nos
dias 23 e 24 de outubro, também foi publicado na imprensa em novembro. Nele, Lins
novamente afirma que toda a preparação do Regimento se deu sob o seu comando, desde as
19:30 horas do dia 23 de outubro, e que a fez por iniciativa própria, levando em consideração

399
Com o golpe de 1930, Leite de Castro ocupou a pasta da Guerra.
400
O Jornal, Rio de Janeiro, 25 out. 1930, p. 2 e 4.
401
O Jornal, Rio de Janeiro, 26 nov. 1930, p. 3.
291

a ordem de operações preparada por Menna Barreto. Entretanto se contradisse em relação ao


que afirmara na publicação do mês anterior, ao afirmar que o avanço da unidade para a praia
de Botafogo se deu devido a uma ordem do general Malan. O nome de José Pessoa é citado
apenas uma vez no relatório, para indicar que estava à frente do batalhão de civis. Ainda,
segundo Lins, a participação de Pessoa nas ações do 3º RI se deu de forma espontânea e não a
pedido de Malan, e que aquele somente teria abandonado o seu esconderijo em Copacabana
porque o convidara na madrugada de 24 de outubro a comparecer no Regimento.402
No final do mês de novembro e início de dezembro, as imprensas carioca e paraibana
transcreveram, supostamente a pedido de José Pessoa, um ofício do general Malan
encaminhado a Leite de Castro.403 No documento, o recém-empossado chefe do Estado-Maior
do Exército solicitou ao ministro da Guerra a publicação de uma menção elogiosa à José
Pessoa, devido à sua atuação no comando do 3º RI, nas ações de 24 de outubro. Malan
confirmou, no documento, que ele próprio designou José Pessoa para o comando superior da
unidade e do batalhão de civis, “incumbindo-o de dirigir diretamente a organização da
unidade provisória, coordenando os seus elementos, equipando-os e armando-os”. E apontou
o provável motivo de ter designado Pessoa para a função: esteve no Regimento no dia
anterior, em companhia de Tasso Fragoso, e constatou “a natural confusão resultante da
afluência de massa popular que vinha entusiasta oferecer os seus serviços”. Malan também
confirmou que enviou ao Regimento uma ordem escrita para o avanço até Botafogo e que foi
José Pessoa, à frente do 3º RI, que tomou posse do Palácio Guanabara. O general enfatizou,
ainda, que durante o tempo em que Pessoa esteve no Guanabara, “a tudo atendeu com energia,
demonstrando mais uma vez as qualidades de oficial bravo e destemido, permanecendo até a
noite no serviço de segurança e confirmando a sua reputação de chefe calmo, resoluto,
inspirando plena confiança aos seus subordinados”. Malan autorizou José Pessoa a estender o
elogio aos seus subordinados, o que ele realmente o fez, na ordem do dia de 25 de outubro.
Entretanto, em nenhum momento do seu elogio, o general lembrou de Álvaro Lins.404
No dia 7 de dezembro, com o título “Esclarecendo Episódios da Revolução – Como
atuou o 3º Regimento de Infantaria na prisão e deposição do ex-presidente”, o jornal
paraibano A União publicou uma longa reportagem, na qual José Pessoa apresentou a sua
versão a respeito dos fatos de 24 de outubro. Nela afirmou que toda a ação do 3º RI se deu sob

402
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 28 nov. 1930, p. 3; O Jornal, Rio de Janeiro, 28 nov. 1930, p. 9.
403
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 26 nov. 1930, p. 2; O Jornal, Rio de Janeiro, 27 nov. 1930, p. 7; A União,
Cidade da Paraíba, 6 dez. 1930, p. 1.
404
Nas memórias que escreveu do pai, Malan D’Angrogne, o general Souto Malan confirma a existência do
ofício elogioso preparado por D’Angrogne e enviado apara Leite de Castro. (MALAN, 1977, p. 314)
292

o seu comando, como a referência elogiosa do general Malan já havia confirmado, e que, na
verdade, Ávila Lins sequer havia participado da tomada do Guanabara, pois, quando a tropa
começou a avançar sobre o Palácio, Lins retirou-se para o aquartelamento da Praia Vermelha,
sem apresentar razão para tal. Na reportagem relatou, também, os encontros que teve na
Paraíba com os articuladores da revolução e o período em que esteve homiziado na casa de
amigos, para não ser preso, no Rio de Janeiro. E que, inclusive, no dia 23 de outubro, ao
buscar informações sobre o movimento com Ávila Lins, por intermédio do Dr. Manuel de
Carvalho, recebeu daquele a notícia de que o plano dos generais havia fracassado e, por conta
disso, podia tratar de ausentar-se.405
A resposta de Lins a José Pessoa foi publicada em 14 de dezembro. Nela, Lins
praticamente ratificou todas as informações que já havia apresentado sobre os fatos na
reportagem de O Jornal, de 25 de outubro. Também apresentou uma série de fatos novos que
teriam acontecido nos dias 24 e 25 de outubro, dando destaque para o seguinte:
- ressaltou que sempre manteve José Pessoa informado sobre o que se passava no Rio
de Janeiro e que, na verdade, era Pessoa que se encontrava desiludido com o movimento e
desejoso de se ausentar da Capital Federal;
- Pessoa chegou ao 3º RI já tarde da noite do dia 23 de outubro, em carro particular,
em trajes à paisana e com a barba por fazer. Depois de tomar conhecimento do plano de
operações de Menna Barreto, solicitou-lhe um local para repousar um pouco;
- negou veementemente que esteve subordinado à Pessoa e que jamais recebera ordem
do general Malan para tal. E, mesmo que a tivesse recebido, jamais a cumpriria: “se
tivéssemos que nos subordinar a um comando superior, este não seria certamente o do Sr. Cel.
Pessoa”. Ressaltou que se encontrava presente no 3º RI o coronel Affonso Pinho de Castilho,
um velho camarada da revolta tenentista de 1922, e que, inclusive, era mais antigo que José
Pessoa. Se tivesse que se subordinar a alguém, seria a Castilho;
- nunca enviou recado a José Pessoa por intermédio do Dr. Manuel de Carvalho,
mandando-o ausentar-se do Rio de Janeiro;
- ao chegar à praia de Botafogo deixou o Regimento a comando dos seus oficiais e
pegou um táxi até o Palácio Guanabara. Lá chegando, constatou que uma companhia do 3º RI,
comandada pelo capitão Soares dos Santos, já se encontrava no local e mantinha o ex-
presidente Washington Luís preso. Retornou, então, para a Rua Farani, onde reencontrou José
Pessoa, que marchava com o restante da tropa do Regimento para o Guanabara, sendo essa a

405
A União, Cidade da Paraíba, 7 dez. 1930, p. 1.
293

última vez que o viu. Não seguiu juntamente com a tropa porque não havia mais nada a se
fazer no Palácio;
- jamais mandou publicar no boletim do Regimento a ordem do dia exarada por José
Pessoa no dia 25 de outubro. Em relação a esse fato, alegou que os oficiais da unidade
ameaçaram rebelarem-se contra a publicação de Pessoa e que só não o fizeram porque ele os
impediu;
- relatou que o ministro Leite de Castro informou-lhe jamais ter recebido um ofício
elogioso do general Malan a respeito das ações de José Pessoa na tomada do Guanabara e que
Malan jamais autorizou Pessoa a publicá-lo em qualquer veículo de imprensa.406
Apesar da longa exposição que fez, sob o pretexto de trazer à tona a verdade dos fatos
ocorridos em 24 de outubro, somente no fim da matéria jornalística fica claro o real motivo de
Ávila Lins avocar insistentemente para si o comando das tropas da Praia Vermelha: o alarde
que a imprensa do Rio de Janeiro fez da atuação de José Pessoa no movimento revolucionário
de 24 de outubro. Lins sentia-se incomodado com o fato de Pessoa, como o legítimo
representante de João Pessoa, ter sido recebido em Botafogo sob os aplausos da população.
Também o perturbava os jornais cariocas terem publicado, no dia seguinte à tomada do
Guanabara, fotos e referências elogiosas à ação de José Pessoa no comando do 3º RI. Havia,
ainda, a publicação da ordem do dia de Pessoa no periódico O Jornal, o que teria acentuado
aos olhos do meio civil a sua participação no movimento de 24 de outubro. Em suma, pesava
sobre a moral de Lins o esquecimento completo de seu nome pela imprensa carioca.407
Não fica claro se foi motivada pelas entrevistas dadas por Lins, mas, segundo José
Pessoa, mas uma sindicância foi aberta, por ordem de Leite de Castro. A finalidade era apurar
o paradeiro daquele oficial no dia em que o 3º RI marchou sobre o Palácio Guanabara.
Em um primeiro momento, no relatório que encaminhou a Leite de Castro, Pessoa
reafirmou que foi investido do comando do 3º RI pelo general Malan em pessoa, no gabinete
do comandante do Regimento, estando presente ao ato, inclusive, o próprio Ávila Lins, além
de outros oficiais da unidade. Mesmo diante desse fato, e da referência elogiosa em que
Malan o confirmou como comandante superior das tropas da Praia Vermelha, José Pessoa
deixou claro que as entrevistas de Lins aos jornais cariocas e paraibanos não serviram a outra
coisa senão colocar em dúvida a sua autoridade, diante dos sucessos que obtivera, e a
autoridade dos membros da Junta Provisória. Com isso, afirmou Pessoa, Lins provara ter

406
A União, Cidade da Paraíba, 14 dez. 1930, p. 1 e 3.
407
A União, Cidade da Paraíba, 14 dez. 1930, p. 1 e 3.
294

sido desleal com seus superiores hierárquicos, além de ter tentado iludir a opinião pública,
buscando para si “glórias imerecidas”.408
Pessoa afirmou a Leite de Castro que, certamente, as entrevistas de Lins tinham um
propósito político, diante do alarde que elas haviam provocado na imprensa paraibana, em
especial as publicações feitas no jornal A União, órgão oficial de imprensa do governo
paraibano, cujo diretor era o irmão de Ávila Lins.409
Quanto à ausência de Ávila Lins nas ações do Guanabara, Pessoa informou que ela se
deu devido ao fato daquele oficial ter se retirado de Botafogo quando as ações tomaram o
aspecto de luta armada e que, alguns dias depois, foi por ele procurado, para justificar-se,
dizendo que havia retornado ao quartel da Praia Vermelha para tomar certas providências. Em
relação às afirmações que Lins fez aos jornais de que estivera no Guanabara por ocasião da
prisão de Washington Luís, Pessoa ressaltou que não passavam de notícias espalhafatosas, já
que ninguém o havia visto no local, nem mesmo a imprensa.410
Tanto Tasso Fragoso quanto Malan D’Angrogne atestam, em suas memórias, que o
comando das tropas formadas pelo 3º Regimento de Infantaria e do batalhão de civis
estiveram sob o comando de José Pessoa, no movimento de 24 de outubro. Tasso afirma que o
general Malan “encarregou o coronel José Pessoa de pôr-se à testa do grupamento formado
por essa unidade [3º RI] e os numerosos civis que a ela se tinham agregado”411. Por sua vez,
Malan registrou em seu diário que, de fato, havia estado no 3º RI, logo após ter recebido a
missão de comandar as tropas da Praia Vermelha e do Forte São João e relata a chegada
naquele quartel: “Converso um pouco e anarquia, abraço o José Pessoa a quem dou o
comando da praça...” (sic)412. Se João Pessoa havia se tornado o mártir da revolução, nada
poderia ser mais significativo, aos olhos da imprensa e da população, do que o próprio irmão
do mártir adentrar o Guanabara e depor aquele que era considerado o principal responsável
pelo caos político e econômico em que se encontrava a Nação.
A participação de José Pessoa na tomada do Guanabara causou outra controvérsia,
dessa vez com o coronel Bertholdo Klinger, que tinha sido empossado por Tasso e Menna
Barreto chefe do estado-maior revolucionário, no Forte Copacabana, em 23 de outubro. O que
gerou os embates entre Pessoa e Klinger foi a publicação do livro A Expiação, do jornalista
Rubey de Menezes Wanderely, 1931. Nele, dentre outras coisas, o autor transcreve as

408
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1930.10.24.
409
Ibidem.
410
Ibidem.
411
Araripe, 1960, p. 562.
412
Malan, 1977, p. 310.
295

impressões de Klinger sobre os fatos que transcorreram após as tropas do 3º RI tomarem o


Guanabara. Nessa narrativa, aparecia o nome de José Pessoa.
Wanderely narra que Klinger, ao chegar no Palácio Guanabara, no dia 24 de outubro,
recebeu de Tasso Fragoso a ordem de assumir a Chefia de Polícia da Capital Federal. O
coronel teria constatado que as tropas do Exército e da Polícia e os populares presentes no
pátio do Palácio encontravam-se em intensa balbúrdia. Quem deveria estar tomando conta
dessa caótica situação, segundo Klinger, era José Pessoa. Ainda, segundo ele, ao procurar por
Pessoa, encontrou-o esgotado, “derreado a uma cadeira”. Vendo que Pessoa precisava de um
“auxílio capaz”, Klinger teria indicado o tenente-coronel Francisco José Pinto para controlar a
situação e estabelecer a ordem, o que foi prontamente feito. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta
X, p. 46)
A resposta de José Pessoa ao depoimento de Klinger foi publicada no Correio da
Manhã do dia 19 de junho de 1931. Na carta que enviou ao redator do jornal, Pessoa
desconsiderou a autoridade de Klinger para narrar o que se havia passado nos pátios do
Guanabara. Lembrou não ser “lícito consentir que os mistificadores de toda a casta estejam
dificultando a ação dos que possuem incontestável autoridade para narrar, um dia, a história
da segunda república”. Igualmente, não poupou adjetivos depreciativos para desqualificar a
atuação de Klinger no movimento revolucionário, a quem considerou “um ególatra nefelibata
que embaralha propositalmente os fatos e não escolhe os meios para chegar aos fins”. Pessoa
afirmou que não permitiria que Klinger se fizesse revolucionário às suas custas e disse não se
achar surpreso com a anarquia que reinava na Chefia de Polícia da Capital Federal, já que
Klinger não assumia a responsabilidade dos indivíduos que enclausurava, jogando a culpa das
prisões em companheiros de farda. Quanto ao que se passou no interior do Guanabara, Pessoa
questionou a presença de Klinger no local, dizendo se achar surpreso que o chefe do estado-
maior das tropas revolucionárias não estivesse ali presente por ocasião da prisão de
Washington Luís. Concluiu ressaltando que, quando a história “detalhada e exata” da
revolução fosse feita, a contribuição de Klinger, “pela sua comicidade irresistível”, seria
motivo constante de “galhofa popular”.413
Cabe ressaltar que nos meses que se seguiram ao golpe de 1930 as páginas dos jornais
da Capital Federal foram um palco privilegiado para as notícias de desavenças e acusações
mútuas entre oficiais que participaram do movimento de outubro. Essas ações levaram o
general Leite de Castro a endurecer as ações disciplinares sobre os seus comandados,

413
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 19 jun. 1931, p. 2.
296

lembrando-lhes que tais atos constituíam-se em transgressões disciplinares, previstas no


Regulamento Interno e dos Serviços Gerais (RISG). Para o recém-empossado ministro da
Guerra, as desavenças no seio da oficialidade levavam a população a crer que a indisciplina
reinava nas fileiras do Exército e comprometiam os serviços brilhantes que o Exército havia
prestado à revolução.
Foi nesse contexto que Klinger, já promovido a general, levou ao conhecimento de
Leite de Castro as palavras desrespeitosas que Pessoa o havia dirigido. O ministro ordenou a
Pessoa que se pronunciasse sobre as acusações, indagando-lhe se assumia a responsabilidade
pela carta publicada no Correio da Manhã. Em resposta a Leite de Castro, José Pessoa
assumiu a responsabilidade. Porém, considerou que não poderia ser punido, porque na data da
publicação Klinger ainda era coronel, portanto as suas palavras não se constituíam em ofensa
a superior hierárquico. Como nada mais foi publicado nos meses subsequentes e nada consta
na fé de ofício de Pessoa, supõe-se que o caso ficou por isso mesmo.414

6.1.2 A rápida passagem pelo comando do Corpo de Bombeiros da Capital Federal

Após devolver o comando do 3º RI a Ávila Lins, José Pessoa foi designado pela junta
governativa para o comando do Corpo de Bombeiros da Capital Federal.415 Cabe ressaltar, no
entanto, que o Corpo de Bombeiros, à época, era uma corporação bastante diferente da que
existe hodiernamente.
Criado em 1856, por um decreto imperial416, com a finalidade de prestar um serviço de
extinção de incêndios na capital do Império, o Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro é a
corporação dessa natureza mais antiga do Brasil. Inicialmente, não tinha um caráter militar,
sendo o trabalho de combate a incêndios executado pelos operários dos arsenais de Guerra e
da Marinha, das obras públicas e das casas de correção. Em cada uma dessas repartições
organizou-se uma seção de bombeiros, que era composta, como indicava o decreto, pelos
“operários mais ágeis, robustos e moralizados, preferindo-se os mais amestrados em qualquer
um dos ofícios de maquinismo ou de construção”. As seções das quatro repartições
formavam, assim, o Corpo Provisório de Bombeiros da Capital, sob o comando de um oficial

414
O Jornal, Rio de Janeiro, 16 e 29 jul. 1931.
415
No dia 25 de outubro de 1930, a junta governativa provisória fez uma série de nomeações: o general Leite de
Castro foi nomeado ministro da Guerra; o general Malan, chefe do Estado-Maior do Exército; o general Firmino
Antônio Borba, comandante da 1º Região Militar; o almirante Isaías de Noronha, cumulativamente à função de
membro da junta governativa, foi nomeado ministro da Marinha; o general Deschamps Cavalcanti, comandante
da Polícia Militar do Distrito Federal; o coronel Bertholdo Klinger, chefe da Polícia do Distrito Federal e José
Pessoa, comandante do Corpo de Bombeiros. O Jornal, Rio de Janeiro, 29 out. 1930, p. 4.
416
Decreto nº 1.775, de 2 jul. 1856.
297

do Corpo de Engenheiros do Exército. Em 1860, o Corpo passou à subordinação do


Ministério da Justiça e, em 1864, a sua Diretoria Geral ocupou as instalações em que
permanece até os dias atuais, na Praça da Aclamação, atual Praça da República, no Rio de
Janeiro.
A militarização do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro começou em 1880, quando
os seus integrantes passaram a serem organizados dentro de uma hierarquia militar. Os
oficiais, enquanto estivessem no exercício de seus cargos, passaram a gozar do direito de
utilizarem nos seus uniformes as mesmas insígnias estabelecidas para a designação dos postos
do Exército. Assim, o diretor geral da corporação recebeu o posto de tenente-coronel, o
ajudante a de major, os comandantes das seções a de capitão e os instrutores a de tenente. 417
Com o advento da República, a corporação passou a chamar-se Corpo de Bombeiros do
Distrito Federal.

Imagem 45 – Vista interna do Quartel Centra do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal, década de 1910.

Fonte: Acervo digital da Biblioteca Nacional. Coleção Brasiliana Fotográfica (Acervo do


Instituto Moreira Salles), 1910.

Em 1917, por meio de decreto418, as forças policiais dos estados, bem como a Brigada
Policial e o Corpo de Bombeiros do Distrito Federal, passaram a se constituir forças auxiliares
do Exército Nacional, desde que houvesse a concordância dos governadores a que essas
forças estivesses subordinadas. Com isso, poderiam ser convocadas em caso de mobilização
do Exército e participarem das manobras militares anuais da Instituição. Nessas ocasiões,

417
Decreto n° 7.666, de 19 jul. 1880.
418
Decreto nº 3.216, de 3 jan. 1917.
298

passavam à disposição do Ministério da Guerra. Os oficiais e graduados das forças auxiliares


ficavam dispensados do serviço militar obrigatório e passavam à condição de reservistas do
Exército, podendo ser convocados em caso de guerra. Valendo-se dessa prerrogativa, em 20
de outubro de 1930, poucos dias antes da sua queda do governo, Washington Luís, em função
do Estado de Sítio que havia sido decretado, acabou convocando todos os praças reservistas
do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal, com a finalidade de reforçar o efetivo da
guarnição militar da capital.419 Com a Constituição de 1934, os corpos de Bombeiros de todo
o País deixaram de ser considerados forças auxiliares do Exército. Em 1948, por meio da Lei
nº 427, de 11 de outubro, somente a corporação do Distrito Federal retomaria esta condição,
ao ser equiparada à Polícia Militar.
Em 1930, o efetivo previsto para o Corpo de Bombeiros da Capital Federal era de 965
homens, entre oficiais, praças e soldados, conforme o Regulamento de 1923420 da corporação,
que estava em vigor até então. A partir da análise deste regulamento, é possível se perceber o
grau de militarização da corporação, que, além de um comandante geral, assessorado por um
estado-maior, estava organizada em 8 companhias. Em termos comparativos, pode-se afirmar
que esse efetivo correspondia praticamente a um batalhão de Infantaria do Exército. Além
disso, estavam regulamentadas: as transgressões disciplinares e as recompensas, muito
semelhantes às do Exército; as licenças e dispensas; o ensino, que previa escolas de sargentos
e de aperfeiçoamento de oficiais; e os serviços de Saúde, Farmácia, Engenharia, Contadoria e
Correaria.
Pessoa encontraria, então, um Corpo de Bombeiros totalmente militarizado e armado,
até mesmo por estar, a corporação, mobilizada desde o dia 20 de outubro, em função do
Estado de Sítio decretado por Washington Luís. Porém, no dia previsto para a sua assunção de
comando, 27 de outubro de 1930, informações desencontradas, surgidas no meio da
corporação da Polícia Militar (PM), colocaram as tropas do Exército, da PM e do Corpo de
Bombeiros (CB) umas contra as outras, provocando o pânico na população do Rio de Janeiro.

419
Decreto nº 19.374, de 20 out. 1930.
420
Decreto nº 16.274, de 20 dez. 1923.
299

Imagem 46 – Vista aérea do Quartel Centra do Corpo de Bombeiros da Capital Federal, 1938
(indicada pela seta, Praça da República no canto superior esquerdo da foto).

Fonte: Acervo digital da Biblioteca Nacional. Coleção Brasiliana Fotográfica (Acervo do


Museu Aeroespacial), 1938.

A origem da confusão que tomou conta das ruas do Rio de Janeiro foi o 1º Batalhão de
Polícia Militar. Naquele quartel, dois soldados que haviam protestado contra a má qualidade
do rancho foram duramente repreendidos pelo comandante do batalhão, major José Augusto
de Ferreira e Silva, que os teria, inclusive, agredido fisicamente. Indignados com a atitude do
comandante do batalhão, os demais soldados da unidade depredaram as louças e o mobiliário
do rancho. Diante da situação, Ferreira e Silva, que era simpatizante do presidente deposto,
ligou para o quartel-general da PM, informando que o 1º BPM havia se rebelado contra o
novo governo. Ao mesmo tempo, aproveitando-se da situação, de acordo com o jornal
Correio da Manhã, supostos elementos comunistas, infiltrados naquele batalhão, telefonaram
para diversas unidades do Exército e da Polícia, alarmando-as umas contra as outras, em razão
de ataques que estavam em curso. Em decorrência da informação falsa, praticamente todas as
unidades do Exército da Capital Federal entraram em prontidão e alguns batalhões da PM
saíram armados às ruas, para tomarem de assalto os quartéis do Exército mais próximos.421
O alarme falso gerado no 1º BPM levou a Capital Federal à beira do caos, na manhã
do dia 27 de outubro. Para citar apenas alguns exemplos da movimentação militar que tomou
conta da cidade: no Méier, o 3º BPM ameaçou deixar o seu aquartelamento para tomar de

421
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 28 out. 1930, p. 1 e 6; O Jornal, Rio de Janeiro, 28 out. 1930, p. 3.
300

assalto as oficinas da Central do Brasil, no Engenho de Dentro; em Inhaúma, um posto


policial foi incendiado por civis armados, que para lá correram em defesa da revolução; em
Botafogo, o 3º Regimento de Infantaria saiu ao encontro do 2º BPM, na rua São Clemente,
onde houve um tiroteio entre militares das duas unidades, ficando um oficial do Exército
ferido; e, na Praça da República, o tenente-coronel PM legalista Bandeira de Mello
concentrou uma companhia do 5º BPM, apoiada por estivadores e investigadores de polícia,
com a finalidade de tomar de assalto o quartel-general do Exército e os prédios dos órgãos
públicos dos arredores. Quando a notícia do falso levante da PM chegou às ruas, uma grande
massa de civis correu para os quartéis do Exército, colocando-se à disposição para pegar em
armas e defender o movimento revolucionário de 24 de outubro.422
Com a assunção do comando do Corpo de Bombeiros prevista para a parte da tarde do
dia 27 de outubro, José Pessoa, que residia em Botafogo, foi pego de surpresa quando dois
oficiais da corporação bateram à porta da sua casa para o colocar a par do que se passava no
centro da cidade. Também informaram que havia a possibilidade de o quartel da corporação
ser atacado pelo povo. Em companhia dos dois oficiais, Pessoa dirigiu-se ao quartel-general
dos Bombeiros. Ao chegar ao local, descreve como o encontrou e as providências que tomou:

Lá chegando, encontramos, de fato, o quartel em alvoroço, invadido por grande


massa de indivíduos de toda a natureza, tentando assaltar as arrecadações de
armamento, sob a contemplação passiva do comandante deposto.
Assumimos o comando daquela balbúrdia e, imediatamente, fizemos evacuar, com
os nossos homens, os indesejáveis, estabelecendo a ordem necessária. Em seguida,
fizemos estabelecer um dispositivo de segurança para proteger o quartel e
mandamos apresentar, ao ministro da Guerra, o ex-comandante.
Não tardou, porém, que houvesse um choque entre a nossa linha de segurança e um
grupo de militares e civis revoltosos, entre os quais a tropa do quartel-general,
provocando um demorado tiroteio que se estendeu por todo o Campo de Sant’Ana,
havendo mortos e feridos. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 116)

José Pessoa não detalha, em suas memórias, como ocorreu o choque entre tropas a que
se refere. Entretanto, dois eventos, que foram noticiados pelos jornais do Rio de Janeiro,
envolveram diretamente a guarda do Corpo de Bombeiros.
Em um depoimento que deu ao periódico O Jornal, Pessoa esclareceu um fato que
resultou na morte de quatro soldados do Exército e que deixou muitos outros feridos. Um
caminhão que transportava praças do 1º Regimento de Infantaria investiu em alta velocidade
contra a linha de defesa que havia sido montada em frente ao quartel dos bombeiros,
certamente imaginando estar o Corpo de Bombeiros sublevado, também. Nesse momento, o

422
Ibidem.
301

sargento que conduzia a viatura mandou abrir fogo contra a tropa dos bombeiros, que
prontamente reagiu. A guarda que fazia a proteção do quartel-general da Polícia Militar, que
ficava próximo ao do Corpo de Bombeiros, também abriu fogo contra o caminhão.
Visivelmente transtornado com a situação, José Pessoa afirmou que o acidente “não passou de
um mal-entendido” e que seu resultado foi uma “obra de impatriotas que procuram, valendo-
se do momento, estabelecer confusão no espírito público”.423

Imagem 47 – Força do Corpo de Bombeiros na Rua Visconde de Rio Branco, próximo à Praça da
República, 27 out. 1930.

Fonte: Hemeroteca da Biblioteca Nacional. Correio da Manhã, 28 out. 1930.

Entretanto, o Diário Carioca ressaltou que o infeliz incidente serviu de motivação


para os bombeiros e civis armados que defendiam o quartel-general da corporação, que,
tomados de entusiasmo, investiram contra os soldados “amotinados” da PM que se
encontravam na Praça da República, ação que resultou na prisão do tenente-coronel Bandeira
de Mello, que foi conduzido ao prédio dos bombeiros.424

423
O Jornal, Rio de Janeiro, 28 out. 1930, p. 3.
424
Diário Carioca, Rio de Janeiro, 27 out. 1930, p. 4.
302

O Diário de Notícias noticiou, ainda, que uma companhia do 4º BPM tentou tomar de
assalto o quartel dos bombeiros. No entanto, antes mesmo de chegar à Praça da República,
foram rechaçados a tiros pela guarda da corporação, não tendo a troca de tiros resultado em
mortes. A tropa da PM, detida, acenou com um lenço branco. Após esse ato, as duas forças
entraram em entendimento, tendo os soldados da PM percebido o grande mal-entendido que
estava em curso e retornado ao seu quartel.425
Alguns jornais mal-informados atribuíram, ainda, ao tenente-coronel Bandeira de
Mello a responsabilidade dos acontecimentos de 27 de outubro. Nesses periódicos foi
noticiado que, sob a liderança desse oficial legalista da PM, que estaria inconformado com o
movimento de 24 de outubro, um pequeno efetivo do 5º Batalhão de Polícia Militar teria
iniciado um levante comunista na Capital Federal.426
O suposto levante da Polícia Militar foi encerrado no mesmo dia em que tomou forma
e com os dois oficiais da PM que teriam iniciado o motim, presos: o major José Augusto de
Ferreira e Silva e o tenente-coronel Bandeira de Mello. A versão oficial do governo provisório
foi dada pelo general Deschamps Cavalcanti, comandante da Polícia Militar nomeado pela
Junta Provisória, para quem os acontecimentos não passaram de “uma ligeira manifestação
comunista, prontamente sufocada pelo Exército, Corpo de Bombeiros, Polícia Militar e
civis”427.
Entre o discurso de posse e o discurso de despedida de José Pessoa do comando do
Corpo de Bombeiros passaram-se exatamente dezoito dias. No dia 11 de novembro, Leite de
Castro mandou chamá-lo ao ministério da Guerra e ofereceu-o o comando da Escola Militar.
Alguns anos antes, durante o tempo em que serviram juntos na Comissão de Aquisição de
Material, em Paris, compartilharam ideias sobre a transformação que a formação dos oficiais
do Exército deveria sofrer. Leite de Castro disse que, no comando da Escola Militar, Pessoa
poderia pôr em prática todas as ideias que os dois comungavam.
José Pessoa recusou o convite de Leite de Castro, alegando que nada poderia fazer em
um ambiente em que a política mandava. O ministro garantiu-lhe total apoio durante, já que
era necessário dar uma nova forma à oficialidade do Exército, e terminou a conversa
informando a Pessoa que essa era a sua nova missão. Diante das garantias dadas por Leite de
Castro, não restou a José Pessoa outra atitude senão a de aceitar a missão imposta, com a

425
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 27 out. 1930, p. 2.
426
Diário Carioca, Rio de Janeiro, 27 out. 1930, p. 4.
427
Ibidem.
303

certeza de que, a partir daquele momento, a Nação começaria a receber os influxos de um


novo Exército. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta II, p. 118-119)
No entanto, a família Pessoa continuou à frente da corporação, já que, no lugar de José
Pessoa, assumiu o comando do Corpo de Bombeiros o seu irmão, Aristarcho Pessoa.
Infelizmente a impossibilidade de acesso aos arquivos do Corpo de Bombeiros do Rio
de Janeiro prejudicou a pesquisa da breve passagem de José Pessoa pela corporação. Por mais
de três vezes este pesquisador solicitou o acesso aos arquivos do museu do Corpo de
Bombeiros. Entretanto, não obteve a autorização necessária para a realização da pesquisa no
acervo da corporação.

Imagem 48 – Quartel-General do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, 2020.

Fonte: Site do INEPAC-RJ, 2020.


304

6.2 Getúlio Vargas no poder: a intervenção no estado da Paraíba e o desprestígio da


família Pessoa

Com a vitória do movimento de 24 de outubro, iniciaram-se na Capital Federal as


articulações para a entrega do poder da Nação a Getúlio Vargas. Dias antes da chegada do
presidente do Rio Grande do Sul ao Rio de Janeiro, os principais jornais da cidade já
noticiavam as reuniões realizadas no Palácio do Catete entre os generais da Junta Governativa
e os representantes de Vargas.
Como lembra McCann (2011, p. 381), se a intenção dos oficiais generais que levaram
a efeito o movimento pacificador no Rio de Janeiro era afastar do poder as forças
revolucionárias de 3 de outubro, não conseguiram concretizar o que haviam planejado.
Em um telegrama enviado a Getúlio Vargas, no dia 25 de outubro, Tasso Fragoso
comunicou a vitória do movimento militar do dia anterior, na Capital Federal, o que foi feito
“com alto ideal de confraternização da família brasileira e conservação da unidade nacional”.
Pediu o fim das hostilidades armadas por parte dos revolucionários dos outros estados do País
e a presença urgentíssima de Vargas no Rio de Janeiro. Entretanto, a atitude tomada pelo
chefe da Junta Provisória deixava, ainda, algumas dúvidas sobre as reais intenções do
movimento pacificador e causava decepção a alguns revolucionários, que expunham o receio
de os generais da capital estarem querendo se apegar às posições conquistadas ou organizando
uma contra-revolução. (ARARIPE, 1960, p. 573-574)
O próprio Vargas, em resposta a Tasso, disse reconhecer os objetivos patrióticos do
movimento do Rio de Janeiro, que abreviaram o desfecho do movimento revolucionário.
Entretanto, deixou claro que desconhecia os propósitos da Junta Provisória, que, até aquele
momento, não havia deixado claro se aceitava os princípios da revolução. Por isso, não via o
porquê da sua ida imediata ao Rio. Getúlio pediu a Tasso que enviasse um emissário ao seu
encontro, para lhe esclarecer melhor a situação, que se apresentava um tanto confusa.
Discordou do líder do movimento pacificador quanto a estar em jogo a unidade nacional, e
deixou claro que a confraternização da família brasileira somente dependia da aceitação
integral do programa revolucionário. Quanto à definição da situação militar, ela ficaria
“subordinada à solução definitiva da situação política”. (ARARIPE, 1960, p. 575)
Apesar de ser uma das lideranças mais respeitadas do Exército, Tasso nunca foi
desejoso do poder político. Isso fica claro nas mensagens trocadas com Vargas e com
Oswaldo Aranha, quando ratificou a sua intenção de nada desejar depois da revolução e de
passar o governo a Getúlio, quando este chegasse ao Rio de Janeiro. Tasso Fragoso sempre
305

afirmou que o movimento pacificador ensejado por ele e pelos oficiais da junta governativa,
na Capital Federal, somente ocorreu com o propósito de evitar uma guerra civil, que levaria a
um derramamento desnecessário de sangue no País. Como lembra McCann (2011, p. 382),
embora Tasso tenha personificado, em grande medida, a alma do Exército em 1930, a rebelião
que ele e seus colegas generais levaram a cabo distinguiu-se dos golpes institucionais que se
veriam no Brasil anos mais tarde, em 1937, 1945 e 1964. O golpe de 24 de outubro, segundo
o autor, foi um golpe da alta oficialidade contra a própria estrutura do comando do Exército,
contra o presidente da República, o ministro e o chefe do Estado-Maior. Foi um indicador da
desintegração da Instituição.

A revolução pôs sob os holofotes a derrocada do Exército. Os revolucionários de 30


não viam o Exército como a nação armada ou o “povo em armas”, mas como o
principal inimigo militar que precisava ser eliminado ou neutralizado para que a
vitória fosse assegurada. [...] O Exército era o baluarte do velho regime, e não o
agente de um novo Brasil. Em todo o país, os quartéis-generais e comandantes
regionais foram os principais alvos dos revolucionários, cujo objetivo era
desmantelar a cadeia de comando, neutralizar a capacidade operacional do Exército
para que não pudesse defender o governo. E nesse esforço foram tão bem-sucedidos
que seria necessária boa parte da década vindoura para reerguer o Exército.
(McCANN, 2011, p. 383)

Em 26 de outubro, Tasso decidiu enviar alguns emissários ao encontro de Getúlio


Vargas. Dessa forma, encontraram-se com Vargas, em Paranaguá-PR, o ex-deputado federal
pelo Rio Grande do Sul, Ariosto Pinto, o coronel Coelho Neto, o tenente-coronel Lúcio
Esteves e o capitão Carlos de Paiva Chaves, com o propósito de reafirmar a Vargas a intenção
da junta provisória em passar-lhe o governo do País o mais rapidamente possível. (ARARIPE,
1960, p. 582)
Esclarecida a situação, na manhã de 28 de outubro reuniram-se no Palácio do Catete
Tasso Fragoso, os generais Menna Barreto, Malan, Leite de Castro, Borba, Pantaleão Teles e
Andrade Neves, o almirante Isaías Noronha, Oswaldo Aranha, Lindolfo Collor e Plínio
Salgado, para acertarem as bases da passagem de poder a Vargas. Surpreendentemente, ao
mesmo tempo em que a reunião ocorria no Catete, o chefe de Polícia do Distrito Federal,
Bertholdo Klinger, distribuiu uma nota à imprensa, na qual informava ser “destituída de
qualquer consistência a balela de que a Junta Governativa será sumariamente substituída, que
ela entregará as rédeas ao Dr. Getúlio Vargas”. Desconhecedor das intenções de Klinger,
Tasso mandou chamá-lo ao Catete, para que explicasse o seu ato inoportuno. Diante das
argumentações insatisfatórias do coronel, Tasso mandou redigir e enviar aos jornais cariocas
uma nova nota, em que reafirmava o desejo de entregar os destinos da Nação a Vargas.
(ARARIPE, 1960, p. 583-586)
306

Imagem 49 – Oswaldo Aranha (de terno) e o general Tasso Fragoso (de frente para
Aranha) conversam no Palácio do Catete, 28 out. 1930.

Fonte: Acervo Oswaldo Aranha (CPDOC FGV) - OAfoto053.

Desfeito o mal-estar, em 31 de outubro de 1930, Getúlio Vargas chegou à Capital


Federal sob forte aclamação popular. A acolhida que tivera em todos os locais em que o
comboio ferroviário que o conduziu do Sul para o Rio de Janeiro parou e a tumultuada
recepção que teve na estação Pedro II demonstraram os sentimentos populares em relação a
quem deveria conduzir a Nação. Em 3 de novembro o poder do País foi-lhe entregue. Ao
assumir provisoriamente o governo da República, afirmou que o fazia “como delegado da
revolução, em nome do Exército, da Marinha e do povo brasileiros”428.

Imagem 50 – Getúlio Vargas (ao centro) entre membros da Junta Governativa: general Menna
Barreto (E) e general Tasso Fragoso (D), 31 out. 1930.

Fonte: Acervo Cordeiro de Farias (CPDOC FGV) - CFafoto012.

428
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 3 de novembro de 1930, p. 1.
307

Os tenentes fora um apoio necessário ao governo de Vargas, já que, em todo o Brasil,


consolidaram a revolução em suas bases civis ou militares. Como pode ser visto no manifesto
lançado por Getúlio após os eventos de outubro de 1930, alguns princípios defendidos pelos
tenentes faziam parte do programa defendido pelo Governo Provisório, como: o voto secreto,
o ensino primário obrigatório, a criação de um conselho nacional do trabalho, a reforma dos
sistemas tributário, social e político, o serviço militar obrigatório, dentre outros. Corrompido
pela “velha” política oligárquica, as reformas varguistas pretendiam retirar o País do estado de
desordem em que se encontrava. (VARGAS, 1938, p. 19-54)
O governo revolucionário, no entender de Vargas, era o caminho encontrado para se
realizar no País uma reestruturação de suas bases, pautadas na moralidade política, o que se
daria por meio da quebra das antigas práticas de favorecimento político e da reorganização da
estrutura burocrática do Brasil. Para o novo presidente, o problema da Nação era a anarquia
administrativa em que ela se encontrava, o que acabou a levando à beira do caos. (VARGAS,
1938, p. 82 e 124)
Dessa forma, pouco a pouco Vargas foi montando o seu governo e reestruturando
politicamente o País. Fechou o Congresso Nacional, as câmaras legislativas estaduais e
municipais. Revogou a Constituição de 1891 e as constituições dos estados. Fez questão de
escolher pessoalmente o seu ministério, cujas pastas foram distribuídas entre os políticos
aliancistas que colaboraram com a revolução, como se vê no quadro a seguir. Assim, além dos
motivos revolucionários, conseguiu satisfazer os interesses regionais.

Quadro 3 – Ministério nomeado no Governo Provisório de Getúlio Vargas – 1930.


Ministro Ministério Estado de origem
Francisco Campos Educação e Saúde
Minas Gerais
Afrânio de Melo Franco Relações Exteriores
José Américo de Almeida Viação e Obras Públicas Paraíba
Trabalho, Indústria e
Lindolfo Collor
Comércio
Joaquim Francisco de
Agricultura Rio Grande do Sul
Assis Brasil
Justiça e Negócios
Oswaldo Aranha
Interiores
José Maria Whitaker Fazenda São Paulo

Fonte: FORJAZ, 1988; McCANN, 2011.


308

Nos cargos destinados às Forças Armadas, Vargas manteve as nomeações feitas pela
Junta Provisória. O general Leite de Castro permaneceu à frente da pasta da Guerra, o general
Malan na chefia do Estado-Maior do Exército e o almirante Noronha como ministro da
Marinha. Para a chefia da Casa Militar da presidência foi nomeado o general Francisco
Ramos de Andrade Neves. Dos generais, Leite de Castro e Andrade Neves eram gaúchos e
Malan havia servido durante muito tempo no Rio Grande do Sul. Os três haviam sido
procurados por Lindolfo Collor antes da revolução e se mostraram favoráveis à deposição de
Washington Luís. Todos eles eram a favor da modernização do Exército e possuíam ampla
experiência na Europa.429 (FORJAZ, 1988, p. 107; McCANN, 2011, p. 387-388)
Um fato curioso, narrado por Malan D’Angrogne, ocorreu no Palácio do Catete, no
mesmo dia em que Washington Luís foi deposto. À noite, a Junta Provisória reuniu-se e Leite
de Castro mostrou-se contrário à entrega do poder a Vargas. Ao que tudo indica, Malan
comungava da ideia de Castro. No seu diário escreveu: “fizemos a revolução e o povo quer
que tomemos conta do país”. (MALAN, 1977, P. 312)
McCann (2011, p. 388) lembra que Vargas tinha por hábito manter os potenciais
aspirantes ao poder dentro da sua esfera de controle. Dessa forma, mantinham-se tão
intimamente envolvidos com o governo que acabavam cooptados ou neutralizados. Assim foi
com as nomeações de Leite de Castro e Malan. Em pouco tempo, o primeiro tornou-se um
ardoroso defensor da revolução e dos tenentes que a fizeram. Uma prova disso era o efetivo
do seu gabinete. Dos onze oficiais nomeados, sete eram tenentes de 1922 e 1924, dentre os
quais os majores Eduardo Gomes e Estillac Leal, os capitães Cordeiro de Farias e Dulcídio
Gomes e o primeiro-tenente Filinto Müller.
Getúlio Vargas ainda interveio nos estados. Segundo Tavares (1982, p. 111-112), nos
primeiros momentos do pós-1930, a revolução havia assumido o propósito de reorganizar o
Estado por meio de uma reforma radical, com o poder confluindo para Vargas. O que
interessava ao grupo que ascendeu ao poder com o golpe de 1930 era transformar as antigas
sociedades oligárquicas regionais e locais em uma sociedade nacionalmente integrada e
centralmente orientada. Desse modo, segundo o autor, os primeiros momentos do governo
Vargas foram destinados à reestruturação política do Estado, por meio da centralização
burocrática-institucional. Com esse propósito, Getúlio substituiu os presidentes dos estados

429
Como tenente-coronel, Leite de Castro foi subchefe da Comissão de Estudos de Operações e Aquisições de
Material na França, em 1918. Durante a Primeira Guerra, integrou o estado-maior do general Charles Mangim,
comandante da artilharia francesa. Malan D’Angrogne, no posto de major, foi para Paris em 1916, para exercer a
função de adido militar na França. Durante a estada de Hermes da Fonseca na Europa, acompanhou-o na visita à
frente belga. Andrade Neves, como coronel, foi adido militar na Bélgica entre 1923 e 1925. (McCANN, 2011, p.
626-627)
309

por pessoas de sua inteira confiança, que ele mesmo nomeou. Eram militares430 ou civis que
haviam participado do levante de outubro. O único estado que teve o seu presidente mantido,
Olegário Maciel, foi Minas Gerais. Como destaca McCann (2011, p. 386), com uma profusão
de decretos, Getúlio Vargas varreu a Primeira República para os arquivos da história.
Essas nomeações, para Forjaz (1988, p. 109), colocaram em evidência o choque que
passou a existir entre a proposta autoritária e centralizadora dos tenentes e o projeto liberal-
regionalista das oligarquias vencedoras em 1930. Como ressalta Gomes (1980, p. 28),
enquanto os tenentes procuravam emprestar ao estado as suas ideias centralizadoras, as
antigas oligarquias divergentes defendiam a manutenção das prerrogativas de autonomia
estadual, de limitação dos poderes da União.
Segundo Santos Neto (2007, p. 39-40), esses interventores agiam como fiscalizadores
e ordenadores da revolução. Além disso, formaram um corpo burocrático que refletiu a
ascensão dos tenentes aos cargos políticos. A sua conduta, que em um primeiro momento
parecia estranha ao meio e era delimitada por um Código dos Interventores 431, acabou, aos
poucos, comungando dos velhos hábitos políticos que deveriam combater. Por isso, Vargas
costumava manter os interventores pouco tempo em seus cargos, o que possibilitava um maior
controle do Governo Provisório.
Na Paraíba, o primeiro nome indicado para o cargo de interventor foi o de José
Américo de Almeida, homem de confiança do governo de João Pessoa e um dos líderes da
revolução no estado. Américo ficou apenas um mês na função, pois foi chamado por Vargas
para compor o ministério do Governo Provisório, assumindo a pasta da Viação e Obras
Públicas. Em seu lugar foi nomeado Anthenor Navarro, uma indicação de Juarez Távora, um
dos próceres da revolução no Nordeste. Segundo Santos Neto (2007, p. 43), Navarro era um
revolucionário de última hora e que, mesmo não sendo militar, aproximou-se dos ideais
tenentistas. Foi atuando como um verdadeiro “tenente civil” e defendendo os princípios da
revolução que pautou a sua administração, favorecida por um novo ordenamento estatal forte
e por um processo de centralização burocrático-administrativo.
Foi atuando na política paraibana, como um dos membros do governo de João Pessoa,
que Anthenor Navarro ganhou destaque. No cargo de diretor da Repartição de Água e Esgoto
da capital paraibana reestruturou o sistema de abastecimento e regularizou o fornecimento de

430
Dos interventores nomeados, sete eram militares: general José Antônio Flores da Cunha, no Rio Grande do
Sul; general Ptolomeu de Assis Brasil, em Santa Catarina; general Mário Tourinho, no Paraná; coronel João
Alberto Lins de Barros, em São Paulo; capitão-tenente Humberto Arêa Leão, no Piauí; tenente Joaquim de
Magalhães Cardoso Barata, no Pará; e general José Calazans, em Sergipe. Fontes: O Jornal, Rio de Janeiro, 15,
20, 25 e 26 nov. 1930.
431
Decreto nº 20.348, de 29 de agosto de 1931.
310

água da cidade. Revolucionário convicto, nunca escondeu as suas ideias e sua perspectiva
moralizadora da política brasileira. Ao lado de José Américo e Juarez Távora, foi um dos
articuladores da revolução de 1930 na Paraíba. Nesse período, aproximou-se dos propósitos
tenentistas, passando a ser um ferrenho defensor de um novo ordenamento político para o
Brasil. E foi justamente com essa base moralizadora e saneadora que Navarro conduziu o
governo do estado, alinhando-se ao movimento de 30. Com propostas que davam
continuidade à obra de João Pessoa, tratou de soerguer a economia, a administração e a
estrutura burocrática da Paraíba, ao mesmo tempo em que passou a questionar as velhas
práticas políticas da Primeira República. (SANTOS NETO, 2007, p. 48-49)
Sob a batuta de Távora e Américo, a montagem de um aparato centralizador de estado
passou a ser uma regra nos estados do Nordeste. Foi sob a liderança desses dois personagens,
como lembra Santos Neto (2007, p. 50), que um novo pacto de poder estatizado e de conduta
moralizadora foi firmado entre os estados do Norte e Nordeste. A indicação de Navarro para a
interventoria da Paraíba consolidou a perspectiva desse pacto e garantiu as transformações
pelas quais passaria o estado, que resultaram no desmonte dos mecanismos de dominação das
velhas oligarquias paraibanas. Sendo assim, a participação dos grupos de poder locais deixou
de ser significativa na nova estrutura política que surgiu no pós-1930.
Ao longo do tempo de sua interventoria (1930-1932), Navarro procurou aproximar a
sua administração dos ideais revolucionários e dos princípios de centralização estatal que
haviam sido defendidos por João Pessoa durante o seu governo. Haja visto a comoção social
que tomou conta do estado e a crescente mitificação das medidas administrativas adotadas
pelo ex-presidente da Paraíba, a ação intervencionista de Anthenor Navarro passou,
necessariamente, pela continuidade do processo de centralização burocrático-administrativa
iniciado pelo seu antecessor. Fiel a esse modelo de centralização, que se deu em todas as
esferas de sua jurisdição, empreendeu uma forte campanha de soerguimento das finanças do
estado e aumentou a fiscalização dos municípios, impondo limites à sua autonomia.
(SANTOS NETO, 2007, p. 50-51)
Essas duas ações administrativas, que pautaram o governo intervencionista de
Navarro, não podem ser dissociadas uma da outra. Ao promover o rigoroso controle das
finanças estatais, interferiu diretamente no controle exercido pelos poderes locais. Exonerou,
removeu e transferiu um grande número de funcionários públicos que mal exerciam as suas
funções. Ao mesmo tempo em que reorganizou o quadro funcional da Paraíba, promoveu uma
revisão criteriosa dos vencimentos pagos pelo estado. Com isso, subordinou completamente o
funcionalismo público à suas ordens, atingindo os apadrinhados políticos dos chefes locais,
311

limitando-lhes o poder de intervenção na administração estatal. (SANTOS NETO, 2007, p.


52)
Ao reorganizar as finanças do estado, Anthenor Navarro colocou sob a sua tutela as
receitas e o controle das despesas dos municípios paraibanos. Por força de decreto, impôs às
prefeituras municipais o envio dos dados mensais de receitas e despesas à Repartição de
Estatística do governo estadual. Concomitantemente a essa providência, reestruturou as
repartições fiscais, afastando os funcionários coniventes com os poderes locais, que deixavam
de repassar ao estado a arrecadação devida, e criando em vários municípios estações e postos
fiscais que passaram a contar com funcionários nomeados à revelia da política local. Dessa
maneira, Navarro desarticulou a subserviência dos administradores de renda aos chefes
políticos. Sendo assim, o estado passou a ser o condutor das finanças e dos cargos públicos
municipais. Houve casos em que, em nome da ordem e da moralidade pública, prefeitos foram
exonerados e substituídos por prefeitos tenentistas ou administradores alheios aos arranjos
locais. Em nome da revolução, o interventor paraibano submeteu a vida dos municípios à suas
determinações. (SANTOS NETO, 2007, p. 52-53)
Calcado no autoritarismo e na repressão, encobertos por um discurso de saneamento
da moralidade política, Navarro promoveu uma ampla campanha de alijamento das velhas
oligarquias paraibanas do aparato estatal, o que, logicamente, não ocorreu de forma
consensual. Por ser uma das famílias mais influentes da Paraíba, não demorou muito para os
Pessoa sentirem o impacto das ações do interventor.
Uma das decisões da interventoria que afetou diretamente a família Pessoa foi a
suspensão da exclusividade do serviço de transporte de passageiros e mercadorias entre o
município de Cabedelo e a capital paraibana, uma concessão feita no governo de João Pessoa
ao primo do ex-presidente, Antônio Pessoa Filho. Cabe ressaltar que o prefeito da Cidade da
Paraíba era Joaquim Pessoa, irmão de João Pessoa. Navarro suspendeu, ainda, a exclusividade
dos Pessoa no fornecimento de material e serviços prestados ao estado. Não aceitando a
interferência do interventor, Joaquim Pessoa pediu demissão do cargo de prefeito. Além da
exoneração de Joaquim, mais dois membros da família perderam os seus cargos políticos no
interior da Paraíba: Fernando Pessoa, exonerado da prefeitura de Itabaiana e Carlos Pessoa, da
prefeitura de Umbuzeiro, curiosamente o berço político dos Pessoa. (SANTOS NETO, 2007,
p. 59)
Com a perda do poder político, e diante do crescente prestígio dos defensores da
revolução no estado, como José Américo e o próprio interventor, a desprestigiada família
Pessoa iniciou na imprensa uma campanha de desqualificação do governo de Navarro. Em
312

uma entrevista concedida ao jornal Diário Carioca432, e reproduzida no jornal A União433, da


Paraíba, Epitácio Pessoa Cavalcanti434, filho de João Pessoa, expôs a sua opinião a respeito da
interventoria na Paraíba. Lembrou que não só os Pessoa, como “quase todos os paraibanos de
influência”, discordaram da indicação do nome de Anthenor Navarro para a interventoria do
estado. Apesar de reconhecerem os serviços prestados por Navarro à causa revolucionária,
entendiam que ele possuía pouca idade para o cargo. Além disso, Epitácio entendia que havia,
na Paraíba, gente de maior destaque político e com maiores serviços prestados à revolução.
Epitácio explicou, ainda, as razões do rompimento da família Pessoa com o
interventor. Navarro havia exonerado um cunhado435 seu, que ocupava um cargo de
almoxarife do estado e que ganhava os “invejáveis vencimentos de 800$000”. Ressaltou que
esse cunhado foi um fiel colaborador da revolução, ao ceder a sua “modesta” casa comercial
para servir de quartel-general dos revolucionários e de local para a guarda de munições e
armamentos, enviados pelo próprio Navarro, que seriam utilizadas nas ações da capital
paraibana. Além disso, afirmou que Navarro teria exonerado outros membros da família
Pessoa de cargos públicos e prefeituras do interior. No entanto, o ponto máximo da “audácia e
da vilania” do interventor foi ter deposto Joaquim Pessoa da prefeitura da capital, sob
acusação de que este tramava uma revolta comunista contra a interventoria na Paraíba.
Epitácio fez questão de lembrar, ainda, que Navarro ascendeu à política por influência do seu
pai e que as medidas que tomava, naquele momento, no estado, traíam a memória de João
Pessoa.436
A resposta de Navarro a Epitácio foi dada nas páginas do órgão oficial de imprensa do
governo paraibano. Em seu editorial, o jornal A União apontou que Epitácio Cavalcanti estava
“servindo de instrumento nas mãos de inimigos ocultos ou políticos despeitados com a
situação paraibana, para o fim exclusivo de tentarem escândalo em torno do atual governo”.
Apontou ser lamentável que esses adversários estivessem dando curso a seus despeitos
pessoais pelas palavras “de um menor”. E ressaltou que o interventor somente não daria ao
filho de João Pessoa a resposta merecida em razão dos seus escrúpulos pessoais e em respeito
à memória do ex-presidente da Paraíba.437
No final do mês de junho o boato de que um golpe havia sido dado para depor o
interventor interino da Paraíba, Odon Bezerra, correu as páginas de alguns jornais da Capital

432
Diário Carioca, Rio de Janeiro, 3 abr. 1931, p. 12.
433
A União, João Pessoa, 7 abr. 1931, p. 7.
434
Epitácio Cavalcanti, à época, ocupava o cargo de função de chefe de gabinete do ministro da Agricultura.
435
Epitácio não cita o nome do cunhado.
436
Diário Carioca, Rio de Janeiro, 3 abr. 1931, p. 12.
437
A União, João Pessoa, 8 abr. 1931, p. 1.
313

Federal e da Paraíba. Segundo esses periódicos, à frente do malfadado intento estava Joaquim
Pessoa. A falsa notícia esquentou ainda mais as desavenças entre a família Pessoa e Navarro,
que foi aos jornais esclarecer que nada de anormal se passava em seu estado.438 Se a intenção
da família Pessoa era desqualificar a figura do interventor da Paraíba, foi este que logo tratou
de desmerecer a importância dos membros da oligarquia de Umbuzeiro para o estado.
Anthenor Navarro ressaltou que se havia uma pessoa na Paraíba que não encontraria
apoio para um movimento revolucionário, esse alguém era Joaquim Pessoa. Alegou que,
devido ao tamanho do seu desprestígio, Joaquim não contaria sequer com o apoio dos amigos.
Navarro fez questão de deixar claro, também, o conceito que João Pessoa tinha do irmão.

João Pessoa sempre que se referia ao irmão [Joaquim], taxava-o de desvairado e


ambicioso, não admitindo absolutamente qualquer intervenção dos seus amigos a
seu favor. Conservou-o sempre à distância, prescindindo da sua colaboração, tantas
vezes oferecida. A situação do antigo inspetor da Alfândega da Paraíba é, portanto,
de absoluta incompatibilidade com o povo de sua terra.439

Navarro insinuou, ainda, que Joaquim não gozava da consideração de nenhum dos
membros mais próximos da família Pessoa. Segundo o interventor, Epitácio Pessoa não teria
aprovado a escolha do sobrinho para ocupar a prefeitura da capital paraibana, considerando a
nomeação do parente o único erro do breve governo de José Américo. Alegou que essa
também era a opinião de José Pessoa, para quem o irmão estava impossibilitado de assumir
qualquer cargo político da Paraíba. Essa opinião de Pessoa teria sido externada em uma
reunião feita da casa de Oswaldo Pessoa, quando estivera na capital paraibana para buscar o
corpo do irmão assassinado, na qual estavam presentes o próprio Navarro e José Américo. A
opinião dos irmãos a respeito de Joaquim seria devido ao comportamento mesquinho e
impertinente que ele sempre mantivera ao longo do governo de João Pessoa. O interventor
apontou, ainda, que comungavam da mesma opinião quase todos os membros da família
Pessoa, citando a viúva do ex-presidente da Paraíba, Epitácio Cavalcanti e Antônio Pessoa
Filho.440
Na entrevista, Navarro insinuou, também, que Joaquim havia confabulado contra o
governo de João Pessoa, por ocasião do rompimento deste com o governo federal durante as
eleições de 1930, e que tinha fome pelo poder, já que sempre almejou o controle da Paraíba,
após o movimento revolucionário. O interventor apontou, ainda, que, somente mantivera
Joaquim à frente da prefeitura de João Pessoa atendendo a um pedido de Juarez Távora.

438
O Jornal, Rio de Janeiro, 28 jun. 1931, p. 9.
439
Ibidem.
440
Ibidem.
314

Entretanto, no desempenho do cargo não atendeu às expectativas do grupo revolucionário.


Devido ao seu “temperamento irritadiço” e “decepcionado nas suas aspirações de mando”,
Joaquim Pessoa, vez por outra, exagerava no “rigor das medidas” que tomava, “determinando
crises que por fim redundaram no seu pedido de exoneração”. Por fim, Navarro afirmou ser
sabedor que Joaquim tramava contra o seu governo, “tecendo uma série enorme de calúnias e
intrigas” que, felizmente, não haviam tido resultados.441
As palavras fortes de Anthenor Navarro contra Joaquim e a família Pessoa, de um
modo geral, levaram José Pessoa a se pronunciar contra o interventor da Paraíba. Afinal de
contas, foi acusado de ser um desafeto do próprio irmão. Em uma carta enviada ao jornal
Correio da Manhã, Pessoa refuta todas as acusações de Navarro, a quem asseverou faltar “o
traquejo social e a nobreza de sentimentos de que até mesmo os revolucionários de sua
têmpera não podem prescindir”, devido à forma apelativa com que citou o nome da viúva de
João Pessoa, para proferir injúrias ao seu irmão Joaquim. E revelou o real motivo, no seu
entender, da indisposição do interventor com Joaquim. Este, quando prefeito de João Pessoa,
teria cobrado do irmão de Navarro, dono de uma casa comercial na capital paraibana,
impostos municipais atrasados. Desde então o interventor teria passado a persegui-lo, o que
levou à sua exoneração.442
Quanto à acusação de que ele teria refutado a ideia da participação do irmão na
política paraibana, o que teria sido dito em uma reunião na capital da Paraíba, Pessoa afirmou
ter participado da reunião a pedido de Navarro, que, na ocasião, lhe teria oferecido a
presidência do estado, caso a revolução se concretizasse, e lembrou ao interventor que, na
realidade, foi ele quem apontou a incompatibilidade de Joaquim com o meio político
paraibano. José Pessoa ressaltou que não aceitou o cargo porque não era e jamais seria
político. Porém, não se desinteressava pela continuidade do progresso material e econômico
do seu estado natal. Entretanto, não via satisfeito o seu desejo, porque, em contraste com os
“tempos heroicos de João Pessoa”, só que o que existia na Paraíba era “a desolação e a
miséria, atestando a ausência de capacidade do interventor e dos que o cercam”.443
Ao mesmo tempo em que afirmou que Navarro “não representava coisa alguma na sua
terra”, José Pessoa o acusou de explorar a memória de João Pessoa em proveito próprio e de

441
Ibidem.
442
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 30 jun. 1931, p. 2.
443
Ibidem.
315

seus favorecidos. E lembrou que, ao contrário do desejo do povo paraibano, Navarro somente
ocupava o cargo de interventor por uma indicação de Juarez Távora.444
De fato, José Pessoa nunca foi a favor da escolha de Anthenor Navarro para a
interventoria da Paraíba. Após o movimento de 24 de outubro, Pessoa e Juarez Távora
encontraram-se no Rio de Janeiro. Na ocasião discutiram a interventoria da Paraíba. Alguns
dias depois e após ter refletido melhor sobre o assunto, José Pessoa escreveu ao colega
revolucionário. Na carta, reafirmou que jamais pleiteara para amigos ou parentes posições de
mando no governo paraibano. Lembrou-o que trabalhara em prol da revolução a fim de
restabelecer o verdadeiro regime democrático no País, o que fez sem se vincular a grupos ou
partidos políticos.445
No documento, José Pessoa discordou da indicação de Anthenor Navarro para ocupar
a interventoria da Paraíba no lugar de José Américo e questionou os motivos que levaram
Távora a tal decisão. Respaldou a sua discordância na pouca idade de Navarro, o que não lhe
dava, ainda, “o descortino necessário para tomar sobre os ombros as responsabilidades de um
cargo que exige, neste instante de remodelamentos graves e radicais, o uma grande
capacidade realizadora”. Para Pessoa, a vaga de Américo deveria ser ocupada “por um
paraibano cuja individualidade não se restringisse a uma simples promessa”. E, advogando
em causa da família Pessoa, lembrou a Távora que, se existiam na Paraíba “espíritos
brilhantes como Irineu Joffily446 e mesmo Joaquim Pessoa”, não seria justo esquecê-los
naquele momento de reivindicações liberais.447
Uma carta de igual teor foi enviada para José Américo, enquanto ainda ocupava o
cargo de interventor na Paraíba. No texto, praticamente idêntico ao da carta enviada a Távora,
José Pessoa deixou clara, mais uma vez, sua posição contrária à indicação de Navarro, por
entender que ele não satisfazia totalmente “os interesses político-administrativos” da Paraíba,
pela qual João Pessoa havia “empregado todas as energias na defesa de sua autonomia”. E,
novamente, defendeu o nome do irmão para o cargo. Qualquer outra escolha, no seu entender,
seria atentar contra a memória de João Pessoa.448

444
Ibidem.
445
Carta de José Pessoa à Juarez Távora sobre a interventoria da Paraíba, de 7 de novembro de 1930. Acervo
José Pessoa. JPag1930.11.07. Publicada no Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 30 jun. 1931, p. 2.
446
Irineu Joffily era paraibano de Campina Grande. Em 1930, como deputado estadual da Paraíba, apoiou a
Aliança Liberal nas eleições presidenciais. Tomou parte do movimento de 3 de outubro no seu estado. Indicado
por Juarez Távora, em novembro de 1930 foi nomeado por Getúlio Vargas interventor do estado do Rio Grande
do Norte. Três anos mais tarde, foi eleito deputado federal pelo Partido Progressista, representando o estado da
Paraíba na Assembleia Constituinte. MAYER, Miguel Jorge. Irineu Joffily. In.: CPDOC. Verbetes.
447
Ibidem.
448
Carta de José Pessoa à José Américo sobre a interventoria da Paraíba, de 12 de novembro de 1930. Acervo
José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1930.11.07.
316

Ora, se existem aí individualidades como Irineu Jofilly, Joaquim Pessoa e outros,


não é lógico e nem obedece a severos princípios de justiça, a escolha de outro
qualquer nome em detrimento dos já designados, e que são naturalmente indicados
pela coletividade. Ao meu ver, a escolha do nome de Anthenor, obedeceu outro
qualquer motivo alheio ao sentimento revolucionário, e, assim sendo, estou certo
que meus conterrâneos não sancionarão tal alvitre, porquanto, seria desvirtuar a
política redentora aí realizada por João Pessoa, cuja memória deve ser com justiça
venerada.449

Em sua narrativa autobiográfica, fica claro que José Pessoa não concordava com as
nomeações feitas pelo governo provisório para as interventorias dos estados do Norte e
Nordeste do País. As indicações de Juarez Távora, no seu entender feitas à revelia, entregaram
os estados a interventores bisonhos e incapazes, que os submeteram a regimes lastimáveis de
experiências. As violências e perseguições, praticadas com “requintes de crueldade”,
deixavam evidentes que havia uma completa falta de orientação jurídica nas unidades da
federação. Segundo Pessoa, “por toda a parte corria uma desorientação geral”.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X, p. 25)
A intensa troca de farpas entre Navarro e a família Pessoa, tendo como veículo as
páginas dos jornais cariocas, durou meses.
De um lado, Navarro reafirmando as acusações que fazia aos Pessoa, em espacial a
Joaquim, a quem acusava de ter favorecido os irmãos em concessões feitas durante o tempo
em que esteve à frente do governo da capital paraibana, o que ocasionou a sua queda do
cargo, e a José, a quem acusou de afastar-se propositalmente da Paraíba durante a revolução
de 1930, por ser anti-revolucionário e por não aceitar a liderança de Juarez Távora, à época
capitão, enquanto Pessoa era coronel. Navarro acusou, ainda, José Pessoa de não aceitar o
rompimento do irmão com o governo de Washington Luís e chegou a lembrar as acusações
feitas por Ávila Lins a respeito da liderança do 3º RI na tomada do Palácio Guanabara e os
doze contos de réis gastos por Pessoa na viagem à Paraíba para buscar o corpo do irmão, que
foi feita às expensas do governo federal.450
Do outro lado, José Pessoa rebatendo as acusações de Navarro e ressaltando a
tagarelice, as calúnias e as intrigas do interventor paraibano, feitas “numa desenvoltura de
escandalizar até mesmo os frequentadores de senzala”. Para Pessoa, Navarro pretendia
“monopolizar os ideais revolucionários, afastando do caminho os que entraram na peleja com
sinceridade e patriotismo”.451

449
Ibidem.
450
O Jornal, Rio de Janeiro, 2 jul. 1931, p. 4 e 11.
451
Diário Carioca, Rio de Janeiro, 7 jul. 1931, p. 2.
317

Na verdade, como lembra Santos Neto (2007, p. 60), por trás de toda a celeuma entre
Navarro e família Pessoa, o que estava em jogo era a tentativa da emergência de grupos
políticos que procuravam se identificar com a obra de João Pessoa. De um lado, a família
Pessoa, que procurava desqualificar a interventoria de Navarro, acusando-o de macular a obra
revolucionária do ex-presidente da Paraíba. Ao mesmo tempo, avocavam para si o direito
legítimo de continuá-la. Julgando-se herdeiros políticos de João Pessoa, os Pessoa tentavam
requerer o posto da interventoria do estado, o que fica claro nas cartas enviadas por José
Pessoa a Juarez Távora e José Américo. Do outro estava Navarro e a sua obra saneadora. Com
um discurso de moralização político-administrativa, entendia ser o seu governo
intervencionista o que melhor se identificava com o legado de João Pessoa.
A oposição a Navarro, no estado da Paraíba, acusava-o de não conseguir levar adiante
sua proposta moralizadora. Para esses políticos, sua interventoria não havia servido a outro
propósito senão o de favorecer o grupo político encabeçado por José Américo. Dessa forma,
camufladas por trás do discurso moralizador, continuavam agindo as velhas oligarquias
paraibanas. Ao tratar toda a estrutura administrativa do estado como podre, os opositores
acusavam Navarro de não ter considerado as qualidades e honrarias de políticos de
reconhecida honestidade. (SANTOS NETO, 2007, p. 61)
Apesar da centralização estatal ter sido uma marca das interventorias pós-1930,
principalmente nos estados do Norte e Nordeste, não era intenção de Vargas iniciar nos
estados da federação lutas internas com as antigas chefias locais, já que muitas delas faziam
parte das oligarquias que haviam apoiado a revolução. Sempre que fosse possível, a
orientação de Getúlio era a busca pela conciliação. Em um primeiro momento, como lembram
Forjaz (1988) e McCann (2009), apesar do apoio tenentista e da adesão aos princípios
propagados por esses militares, o governo provisório não se sustentou exclusivamente em
uma base militar e esteve muito próximo aos elementos civis.452 Sendo assim, como aponta
Santos Neto (2007, p. 62), as notícias sobre as desavenças criadas por Anthenor Navarro com
as velhas oligarquias paraibanas começaram a incomodar Getúlio Vargas. Em uma conversa
com José Américo o chefe do governo provisório teria expressado a sua insatisfação com as
atitudes do interventor, lembrando ao ministro paraibano que, para nomear Navarro, teve que
ir de encontro à vontade expressa da família Pessoa.

452
José Murilo de Carvalho aponta que no período pós-revolução o receio do militarismo atingiu as lideranças
civis do movimento, até mesmo daqueles mais identificados com o tenentismo, como Oswaldo Aranha. alguns
exemplos apontados pelo autor são os das lideranças paulistas e gaúchas, que jamais conviveram em paz com o
tenentismo. Essa liderança civil tinha uma longa prática de detectar e manipular em seu favor as ambições e
cisões internas do Exército e continuou a fazê-lo no pós-30. (CARVALHO, 1982, p. 110-111)
318

Por sua vez, Américo tratou de lembrar a Navarro que sua postura frente ao Governo
Provisório não poderia exceder aos limites da conciliação. Estava muito claro para José
Américo que, diante das relações estabelecidas entre a Paraíba e o governo central (uma pasta
do ministério de Vargas era ocupada por um paraibano), o governo daquele estado não
deveria aproximar-se do radicalismo revolucionário dos tenentes e, sim, da proposta
conciliatória defendida pelos revolucionários civis, como o próprio Vargas. (SANTOS
NETO, 2007, p. 62)
Anthenor Navarro faleceu em 26 de abril de 1932, em um acidente de avião no litoral
da Bahia. Regressava de uma visita que fizera ao Nordeste acompanhando José Américo. No
regresso ao Rio de Janeiro, o hidroavião que os transportava caiu na baía de Todos os Santos.
Além de Navarro, morreram no acidente o piloto e o co-piloto, o telegrafista Brás Santos e o
diretor-geral do Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (DNOCS). Somente Américo
sobreviveu ao acidente, ficando gravemente ferido. (ANTHENOR, s.d.) No lugar de Navarro
assumiu a interventoria do estado da Paraíba Gratuliano da Costa Brito, um dos membros do
Conselho Consultivo do estado, órgão de assessoramento da interventoria paraibana. Com um
tom mais conciliador do que o seu antecessor, Costa Brito conseguiu empreender um período
de paz na política da Paraíba durante a sua interventoria. (GRATULIANO, s.d.)

6.3 O Exército pós-revolução e a ascensão de Góes Monteiro

Um dos grandes questionamentos que poderiam ter sido feitos no pós-1930 era quem
reconstruiria o Exército brasileiro. Os velhos generais envolvidos no movimento de 24 de
outubro, como Tasso Fragoso, Menna Barreto e Malan D’Angrogne, ou os oficiais
revolucionários, como Góes Monteiro, Juarez Távora e Cordeiro de Farias?
Como lembra Carvalho (1982, p. 109-110), “a consolidação do poder militar [após a
revolução de 1930] e a definição do conteúdo de sua ação política exigiu um longo esforço e o
enfrentamento de correntes opostas, tanto dentro como fora da organização”. Isto, segundo o
autor, se deve a dois motivos, principalmente. O primeiro deles é que a revolução não foi um
consenso dentro das Forças Armadas. Tanto foi assim que a Marinha praticamente ignorou o
movimento. Quanto aos oficiais, a maior parte não aderiu à revolução e os que não aderiram,
não se interessaram em articular uma grande resistência. O segundo fator está ligado
justamente à minoria da oficialidade que participou do golpe de 1930. Essa minoria era
composta principalmente dos remanescentes dos movimentos rebeldes da década de 1920. A
reintegração e a rápida ascensão desses militares nos quadros do Exército perturbaram
319

profundamente a hierarquia e o sistema de promoções da instituição, causando sérias


distensões no seio da oficialidade.
Segundo McCann (2009, p. 385), o Exército pós revolucionário era uma força armada
em crise, com muitas lacunas na sua estrutura de comando e uma liderança paralela,
encabeçada por um dos expoentes da revolução: Goés Monteiro. Como aponta o autor, nos
anos que se sucederam à revolução, a luta pelo controle da instituição acabaria por fundir o
Exército revolucionário com o velho Exército. Mesmo com a perda da sua influência ao longo
das décadas seguintes, a importância moral e simbólica dos rebeldes dos anos 1920 aumentou.
Ainda que a duras penas, o corpo de oficiais da instituição foi reconstruído. A reestruturação
lenta pela qual passou o Exército foi eficaz a ponto de os militares apoiarem a primeira grande
ditadura no Brasil: o Estado Novo (1937-1945). Entretanto, o processo de reconstrução foi
penoso: aconteceram rebeliões em unidades militares e conspirações em vários níveis
hierárquicos, entre os anos de 1931 e 1934; uma guerra civil assolou o estado de São Paulo,
em 1932; houve um levante de sargentos, inspirados pelo exemplo cubano de Fulgêncio
Batista; uma nova constituição foi promulgada, em 1934; um levante comunista foi iniciado,
em 1935; a repressão aos opositores do governo recrudesceu, em 1936; e, por fim, o País
mergulhou em uma ditadura, em 1937.
Da análise que faz dos movimentos rebeldes que surgiram nos primeiros momentos do
governo provisório, Carvalho (1982, p. 114-115) indica que, no primeiro quadriênio da
Segunda República, uma média de nove movimentos de indisciplina, conspirações e motins
surgiram por ano dentro do Exército. Surpreendentemente, em face da visão tenentista que se
tem desse período, o maior número de casos de indisciplina esteve nas mãos dos oficiais
generais, sendo, também, intensa a participação dos praças.453 No caso dos primeiros, na
maioria das vezes as conspirações estiveram ligadas a tentativas de golpes políticos, ou de
protestos contra golpes dados por outros generais. No caso dos praças, trataram-se quase
sempre de conspirações visando revoltas ou de revoltas que foram levadas a efeito. Segundo o
autor, as manifestações dos generais indicavam a instabilidade do novo sistema de poder. Se
no sistema antigo o que prendia os oficiais dos altos postos aos presidentes era a lealdade,
somente a criação de novos vínculos poderia evitar as frequentes manifestações dessas altas
patentes. Dessa forma, uma das grandes preocupações de Vargas foi justamente reestabelecer
esses vínculos, o que foi feito substituindo-se rapidamente a cúpula militar do velho regime.

453
Entre 1930 e 1934 aconteceram nove movimentos (cinco conspirações e quatro protestos) liderados por
generais e vinte (quatorze conspirações, um protesto e cinco revoltas) em que os praças tomaram parte. A partir
de 1937, com o Estado Novo, esse número caiu significativamente. (CARVALHO, 1982, p. 113)
320

Em novembro de 1930, Vargas deu início a um verdadeiro expurgo na oficialidade do


Exército, reformando compulsoriamente os oficiais cujas atitudes eram incompatíveis com os
ideais da revolução. Os Diários Oficiais da União dos últimos meses de 1930 apontam que
dos onze generais-de-divisão (o mais alto posto do Exército à época) que estavam no serviço
ativo, nove foram reformados. Dentre os poupados estavam Tasso Fragoso e Menna Barreto.
Dos vinte e cinco generais-de-brigada, sete foram reformados. Os cortes de oficiais superiores
foram ainda maiores: de uma lista de noventa e nove coronéis, quarenta foram reformados.
Segundo McCann (2009, p. 389), esse expurgo impactou significativamente as promoções a
generais nos anos seguintes. Confusão

A questão das promoções foi a primeira grande celeuma que surgiu no seio da
Instituição, colocando em lados opostos os oficiais do velho governo e os líderes
revolucionários. As discordâncias em torno dos critérios utilizados para as promoções
geraram muitas tensões e aflições pessoais e institucionais, a ponto de afetar fisicamente um
dos expoentes do movimento de 24 de outubro, o general Malan D’Angrogne, que teve um
derrame após uma discussão sobre a presidência da Comissão de Promoções do Exército, em
janeiro de 1931, vindo a falecer um ano depois. O que estava em discussão eram os quesitos
utilizados para as promoções. Oficiais identificados com a profissionalização do Exército,
como Goés Monteiro e aqueles ligados aos jovens turcos, como Bertholdo Klinger, viam o
sistema de promoções ainda atrelado à política, o que prejudicava a melhoria dos padrões
profissionais da instituição. Argumentavam que os critérios políticos não poderiam se
sobrepor ao desempenho no treinamento e no comando. Acusavam Getúlio Vargas de ter
infestado a lista de escolha para as promoções de 1931 de considerações pessoais e de ter
relegado a segundo plano os homens que haviam lutado contra os governos que a revolução
substituíra, privilegiando, assim, oficiais que se favoreceram do governo de Washington
Luís.454 Curiosamente, nas promoções de maio de 1931, a general-de-brigada, três dos
coronéis promovidos eram jovens turcos: José Maria Franco Ferreira, César Augusto de Parga
Rodrigues e o próprio Klinger. (McCANN, 2009, p. 390-391)
Em dezembro de 1930, Góes Monteiro, o capitão Alcides Etchegoyen e o primeiro-
tenente Jurandir Mamede, apoiados por dezenove oficiais revolucionários, compilaram uma
lista de propostas que seria apresentada a Getúlio Vargas após ouvidas as opiniões de oficiais

454
O protesto mais veemente foi do coronel de artilharia Olyntho Marques Vasconcelos, um jovem turco
preterido na promoção a general-de-brigada e transferido compulsoriamente para funções administrativas
juntamente com mais vinte e dois coronéis que, na visão de Getúlio Vargas, não se identificavam com os ideais
revolucionários. Vasconcelos escreveu uma carta a Vargas, argumentando que os processos para as promoções, e
os homens que os conduziam, eram exatamente os mesmos da velha República. (McCANN, 2009, p. 390)
321

revolucionários de todas as regiões do País. Para isso, o grupo nomeou três porta vozes, que
tinham a função de colher assinaturas no documento: Góes Monteiro, no Sul; Leite de Castro,
nos estados do centro do País e Juarez Távora, no Norte. Entendido como um pacto secreto455,
no documento os oficiais signatários se comprometiam em trabalhar pelas reformas
pretendidas pela revolução. Nele, afirmavam, ainda, que, enquanto o Governo Provisório
estivesse reorganizando a Nação, as Forças Armadas garantiriam a sobrevivência do novo
regime. Era inequívoco que, enquanto uma nova constituição para o País não fosse feita,
Getúlio Vargas necessitaria do apoio dos militares. (McCANN, 2009, p. 391)
O documento propunha que comandantes identificados com a causa revolucionária
fossem nomeados em todos os níveis da instituição e que os que não fossem com ela
comprometidos fossem exonerados de suas funções ou transferidos para locais em que não
pudessem causar nenhum dano ao novo governo. Previa, também, que a controversa
Comissão de Promoções passasse inteiramente ao controle dos revolucionários, uma atitude
que, por si só, já contradizia a tão defendida ênfase de Góes Monteiro no profissionalismo.
(McCANN, 2009, p. 391)
Entretanto, a crítica à lista preparada por Góes e seus seguidores foi maior do que se
esperava. Como aponta McCann (2009, p. 391-392), muitos oficiais recusaram-se a assiná-la.
Um dos motivos era a desconfiança em relação aos delegados regionais designados para ouvi-
los. Questionavam como Góes, Leite de Castro e Távora queriam revolucionar o Exército se
nem conseguiam restaurar a ordem e a disciplina na instituição. Também não estavam
dispostos a apoiar uma república que seria dirigida por oficiais subalternos, em que generais
seriam comandados por capitães e tenentes, subvertendo, dessa maneira, a hierarquia militar.
Colocar a cadeia de comando de lado seria temerário. Poderia implicar a destruição da
disciplina, um dos pilares da instituição, e o afastamento forçado de muitos oficiais honestos e
capazes. Sendo assim, com oficiais que não eram revolucionários verdadeiramente convictos,
tornava-se difícil concretizar as promessas feitas pela Aliança Liberal para a revolução.
A grande verdade é que o Exército estava sem liderança. Malan havia morrido e o
Estado-Maior estava sem chefe. Os oficiais da linha sucessória do órgão eram coronéis da
velha República, como Arnaldo de Pais de Andrade e Leitão de Carvalho, um legalista
convicto, que, inclusive, havia se recusado a comandar as tropas revolucionárias do Rio

455
Como o encontro desses oficiais aconteceu na cidade mineira de Poços de Caldas, esse pacto ficou conhecido
como Pacto de Poços de Caldas. Na ocasião, os militares e civis revolucionários presentes definiram-se
claramente a favor da implantação de uma ditadura no Brasil, único regime que garantiria a implementação das
ideias revolucionárias no País. O Exército teria o papel de sustentação do regime ditatorial. (FORJAZ, 1988, p.
118)
322

Grande do Sul. Ficava a impressão de que os oficiais superiores do velho Exército estavam
retomando o controle da Instituição.
Somava-se a isso, como lembra McCann (2009, p. 393) a manutenção por Vargas de
antigas práticas da Primeira República, o que desagradava profundamente os oficiais
reformistas. Uma delas era o pagamento de altas pensões aos oficiais reformados, inclusive
para aqueles que foram exonerados compulsoriamente de seus cargos após o movimento de
1930, por serem considerados incompatíveis com os princípios da revolução. Outra, eram os
cortes na quantidade de alistados e o uso da verba para engordar o soldo da oficialidade.
Existia, ainda, dois graves problemas que impactariam diretamente no tempo de espera
para as promoções dos capitães e tenentes. Em relação aos primeiros, ainda que todos os
majores não alinhados com as propostas da revolução fossem reformados compulsoriamente,
não existiriam vagas suficientes para a promoção de todos, o que lhes deixava duas opções de
prosseguimento na carreira: seriam forçados a sair da instituição ou permaneceriam anos no
posto aguardando a ascensão na carreira. (McCANN, 2009, p. 394)
Quanto aos tenentes, havia o problema da reintegração dos alunos excluídos da Escola
Militar em 1922. Cabe lembrar, que a anistia de todos os tenentes e alunos expulsos durante o
levante tenentista era uma das bandeiras defendidas pelos tenentes que apoiaram a revolução
de 1930. Em maio de 1932, mais de quinhentos estudantes exonerados foram readmitidos nas
fileiras do Exército. Após um breve curso de um ano na Escola Militar, foram promovidos a
primeiro-tenentes, sendo classificados, na lista de promoções, à frente dos tenentes formados
após 1922, inclusive daqueles que haviam lutado para derrubar a Primeira República. Da noite
para o dia, oficiais com uma década de serviços prestados ao Exército e muito bem
preparados profissionalmente foram preteridos, o que levou a 163 primeiro-tenentes a
assinarem um protesto que foi enviado ao ministro da Guerra. Os autores do protesto foram
presos, o que provocou a solidariedade de oficiais de todas as patentes com os transgressores.
Estava claro que a reintegração dos rebeldes de 1922 não era apoiada pelas camadas mais
altas da hierarquia militar, que enxergaram na atitude de Leite de Castro e de Vargas uma
injustiça feita aos oficiais que perderam suas posições na classificação dos oficiais
subalternos. A solução encontrada foi criar duas listas paralelas para as promoções: uma para
os rebeldes de 1922 e outra para os tenentes formados após essa data.456 A Góes Monteiro e

456
Um exemplo da confusão que as promoções dos rebeldes de 1922 reintegrados causou foi a consulta que o
comandante do 2º Regimento de Artilharia Montada fez ao ministro da Guerra, questionando como deveria
proceder em relação aos primeiro-tenentes ex-alunos da Escola Militar anistiados, quanto à precedência destes
em relação aos demais tenentes, no desempenho das funções e serviços da unidade militar. Leite de Castro
respondeu-lhe que os tenentes anistiados deveriam ser considerados concluintes do curso da Escola Militar do
323

seus apoiadores ficava claro que um corpo de oficiais insatisfeito, sob todos os ângulos, não
favorecia o clima para a reforma da instituição. (McCANN, 2009, p. 394-395)
Segundo Forjaz (1988, p. 119-123, 135-136), a trajetória ascensional dos tenentes
somente se daria com a fundação do Clube 3 de Outubro, em fevereiro de 1931, que passou a
ser o porta voz do tenentismo junto às Forças Armadas e ao Governo. O Clube não tinha a
pretensão de tornar-se um partido político, e, sim, um grupo de pressão que agiria diretamente
sobre o governo provisório em prol das ideias defendidas pelos oficiais reformistas. Era uma
organização elitista e fechada, que só aceitava entre seus membros sócios com um passado
comprovadamente revolucionário. Góes Monteiro foi o seu primeiro presidente e Oswaldo
Aranha o terceiro vice-presidente. A autora ressalta que Vargas, cooptando os tenentes do
Clube, neles se apoiava para resistir às exigências das oligarquias. Ao mesmo tempo, apoiava-
se nestas, também, quando era necessário refrear os avanços tenentistas. Foi por influência da
agremiação, por exemplo, que Getúlio nomeou diversos tenentes para a interventoria dos
estados. Atuante entre os anos de 1931 e 1934, o Clube foi aos poucos se esvaziando, com
muitos tenentes deixando o seu quadro social após 1932, a fim de formar partidos políticos
para enfrentar o processo eleitoral que formaria a Constituinte, o que já não era mais possível
se fazer somente por meio de atividades revolucionarias de grupos apolíticos. Outros tenentes
também seriam cooptados pela esquerda, afastando-se dos propósitos do Clube. Em 1935, por
iniciativa dos próprios membros, o 3 de Outubro seria extinto.
O fato é que, com todos os problemas e crises enfrentadas no pós-revolução, na década
de 1930 o Exército se viu projetado para o centro do poder nacional de uma maneira muito
mais decisiva do que no início da Primeira República. Segundo Carvalho (1982, p. 109), o
conflito entre as forças políticas civis e a derrota da mais forte delas abriram um espaço na
estrutura burocrática estatal que permitiu ao setor militar a conquista da parcela de poder tão
almejada desde os últimos anos da Monarquia. Entretanto, como aponta McCann (2009. p.
386), o que diferencia o período pós-revolução dos períodos anteriores é o fato de que, pela
primeira vez, na República, os militares tiveram um mediador civil eficaz na pessoa de
Getúlio Vargas. O chefe do Governo Provisório tinha plena consciência da sua dependência
das Forças Armadas. No entanto, como aponta o autor, nos anos seguintes Vargas soube
manobrar habilmente tanto as forças revolucionárias como as que defenderam o legalismo, de
uma maneira tal que ambas passaram a depender de seu governo centralizador. Dessa forma,

ano letivo de 1922. Portanto, seriam mais antigos do que os colegas das turmas posteriores. Correio da Manhã, 1
jan. 1931, p. 2.
324

conseguiu novamente articular a formação de um único exército nacional. O homem forte em


quem Getúlio apostou para essa empreitada foi Pedro Aurélio de Góes Monteiro
Coelho (2000, p. 110) aponta que, ao neutralizar a corrente tenentista e condenar ao
ostracismo e à reforma os oficiais mais antigos da velha República, o Governo Provisório
possibilitou que uma geração intermediária de oficiais ganhasse destaque. Eram oficiais que
haviam combatido as rebeliões dos anos 1920 sempre sob o comando dos mais antigos, não
existindo nada de especial que os distinguissem do conjunto. Também não haviam tido
qualquer participação de destaque nos movimentos de profissionalização no Exército, como o
dos Jovens Turcos. Entretanto, foram os que receberam mais fortemente os ensinamentos
doutrinários da Missão Militar Francesa. Como lembra o autor, beneficiaram-se dos
movimentos dos quais não foram líderes nem participantes ativos. Não eram velhos demais
para renunciarem às suas aspirações na carreira, nem tão jovens para arriscarem em
contestações revolucionárias os investimentos que já haviam feito nela. No entanto, eram,
certamente, os oficiais mais competentes que a instituição possuía. Dentre eles, destacou-se
Goés Monteiro. A reconstrução do Exército no fim dos anos 1930 passou por suas mãos.
Também foram dele as ideias que colocaram a Instituição no rumo intervencionista que
trilhou nas décadas seguintes.
Pedro Aurélio de Góes Monteiro era alagoano, mas viveu tanto tempo no Rio Grande
do Sul que se identificava profundamente com o estado. Frequentou a Escola de Guerra de
Porto Alegre, na qual se formou oficial de Cavalaria, em 1910, sendo contemporâneo de José
[Link] período de aluno, envolveu-se na agitação política que tomava conta do estado
desde o fim da Monarquia. Foi nessa época que conheceu Getúlio Vargas, um jovem
estudante de Direito e editor do jornal partidário O Debate458, para o qual Góes escrevia sobre
temas militares. Após se formar, serviu até 1916 em unidades militares gaúchas. Entre 1916 e
1918 foi mandado para o Rio de Janeiro, para fazer um curso de engenharia. Nessa época foi
atraído pelas ideias profissionalizantes dos Jovens Turcos e pelos ensinamentos da Missão
Indígena, na Escola Militar. Após concluir o curso, regressou ao Rio Grande do Sul, onde
permaneceu até 1921, ano em que regressou ao Rio, já como primeiro-tenente, para realizar o
curso de aperfeiçoamento com os militares da Missão Militar Francesa. Em 1922, enquanto
frequentava o curso de Estado-Maior, acompanhou o desenrolar do levante tenentista. Apesar
de não se envolver diretamente nos acontecimentos, declarou o seu apoio ao governo,

457
José Pessoa formou-se um ano antes, em 1909.
458
O Debate era o jornal oficial do Bloco Acadêmico Castilhista, órgão fundado por acadêmicos da Faculdade de
Direito de Porto Alegre, sob a direção de Getúlio Vargas, com o intuito de apoiar a candidatura de Carlos
Barbosa nas eleições de 1906, para a presidência do estado.
325

afirmando estar do lado da legalidade. Devido às suas altas notas, aos elogios recebidos dos
instrutores franceses e à familiaridade que tinha com o Rio Grande, foi encarregado, pelo
gabinete do ministro da Guerra, de elaborar um plano de defesa para o governo gaúcho contra
os seus oponentes na guerra civil de 1923-24, o que o levou aproximar-se de dois líderes
destacados de unidades militares do estado: Flores da Cunha e Oswaldo Aranha 459. Ambos
iriam colocar em prática o plano de Góes contra tenentes rebeldes que lutariam ao seu lado na
revolução de 1930: Cordeiro de Farias e os irmãos Nelson e Alcides Etchegoyen. (McCANN,
2009, p. 404-405)
Em 1924, Góes foi promovido a capitão e ajudou a formular o plano legalista de
combate aos tenentes rebeldes em São Paulo. Após a retirada dos tenentes da capital paulista,
foi nomeado instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior (ECEME), função que
desempenhou por pouco tempo, já que em 1925 passou a ser o oficial das operações legalistas
contra a Coluna Prestes, sob o comando do general Mariante, atuando no Paraná, em Minas
Gerais e na Bahia. Em 1926, promovido a major, acompanhou Mariante como seu oficial de
gabinete, no comando da recém-criada arma de Aviação do Exército. Em 1928, foi promovido
a tenente-coronel, posto que ocupava quando foi designado para o comando do 3º Regimento
de Cavalaria Independente, no Rio Grande do Sul, em 1930. Na ocasião, envolveu-se no
movimento de 1930, como chefe do estado-maior revolucionário, a convite de Oswaldo
Aranha e com a “benção” de Getúlio Vargas. (McCANN, 2009, p. 357-358, 405)

Imagem 51 – Góes Monteiro (ao centro, com os braços sobre as pernas), e seu Estado-Maior
revolucionário no Rio Grande do Sul, out. 1930.

Fonte: Acervo Antunes Maciel (CPDOC FGV) - AMfoto003.

459
A amizade com Oswaldo Aranha já era antiga. Góes o conheceu em 1918, quando servia em Quaraí-RS, por
intermédio da família da sua esposa. Aranha tinha um escritório de advocacia em Alegrete, cujo sócio era
Getúlio Vargas. McCANN, 2009, p. 357.
326

A ascensão de Góes na carreira de oficial foi meteórica. Em menos de dez anos passou
de primeiro-tenente para tenente-coronel, uma escalada muita rápida para os limites de
promoções da época.460 Com isso, como aponta McCann (2009, p. 358-359), passou a orbitar
a categoria de oficiais “para quem a possibilidade de efetivamente exercer influência e poder
começava a ser real”. Os estudos com os oficiais da Missão Militar Francesa reforçaram a
autoconfiança natural que possuía para pensar, escrever e falar sobre o Exército e seus
problemas, o que, na maioria das vezes, irritava os altos escalões da Instituição. Góes entendia
que o Exército era, ao mesmo tempo, o núcleo das causas e das soluções para a maioria dos
problemas nacionais. Via a saúde política do País atrelada às condições em que o Exército se
encontrava e, nas atitudes do governo federal para com a Instituição, as causas para a sua
ineficiência. A participação na perseguição à Coluna Prestes fortaleceu a opinião que tinha em
relação à organização deficiente da força. Muitas tropas de polícias estaduais com que teve
contato eram mais eficazes do que as federais. Também criticava os colegas, que, na sua
visão, pouco se interessavam em aprender a doutrina militar e resistiam aos ensinamentos da
Missão Francesa.
Em 1931, num período de três meses, Góes saiu do posto de tenente-coronel para o de
general-de-brigada.461 Neste último, comandou a 2ª e a 1ª Regiões Militares, sediadas em São
Paulo e Rio de Janeiro, respectivamente. Homem de confiança de Getúlio, foi escolhido para
comandar o Destacamento do Exército do Leste, durante a Revolução Constitucionalista de
1932. À frente das forças legalistas subjugou o movimento em São Paulo. Como general
vitorioso, aumentou ainda mais a sua influência dentro da instituição e no governo provisório.
A recompensa veio em forma de promoção. Em outubro de 1932, foi promovido a general-de-
divisão462, aos quarenta e dois anos de idade. (McCANN, 2009, p. 425)
Com a popularidade em alta, Góes participou dos trabalhos que antecederam a
Assembleia Constituinte. Em 1933, fez parte da comissão que se encarregou de elaborar o
anteprojeto da nova Constituição. Nela, defendeu a anistia aos militares que lutaram ao lado
de São Paulo, em 1932, como uma forma de eliminar as tensões no interior das Forças

460
Uma consulta aos Almanaques de Oficiais das décadas de 1920 permite ver como as promoções de Góes
Monteiro estiveram fora dos padrões da época, em comparação com as de seus contemporâneos. Eurico Dutra e
Euclides Figueiredo, oficiais de Cavalaria, como Góes, demoraram cinco anos e onze meses e três anos e sete
meses, respectivamente, para as promoções de capitão a major. Klinger, que era oficial de Artilharia, esperou
três anos e onze meses. Leitão de Carvalho, de Infantaria, demorou cinco anos e um mês, para subir de capitão a
major. José Pessoa, oficial de Cavalaria, demorou quatro anos e quatro meses. A promoção de Góes demorou
exatos dois anos.
461
Em março de 1931 foi promovido a coronel e em maio a general-de-brigada.
462
À época, o posto de general-de-divisão era o mais alto da carreira militar no Exército.
327

Armadas. Debateu-se, também, pela institucionalização do merecimento como critério a ser


adotado para as promoções militares. Em janeiro de 1934, com a renúncia do general Espírito
Santo Cardoso, Vargas enxergou uma oportunidade de trazer para o seu lado o jovem e
ambicioso general e nomeou-o para o ministério da Guerra. No entanto, com uma gestão
atribulada e o envolvimento nos acontecimentos políticos do País, Góes renunciou ao cargo
em maio de 1935.
Da análise que faz da personalidade de Góes Monteiro, Coelho (2000, p. 111-113)
ressalta que ele tinha uma cultura política acima da média dos oficiais de sua geração,
adquirida, sobretudo, graças ao seu autodidatismo. Mesmo tendo se afastado em 1935, foi
resgatado por Vargas em 1937, para se tornar o inspirador e o articulador do Estado Novo e,
após a instalação da ditadura, o homem forte do regime. Não era estimado dentro do Exército
e era criticado pelos colegas de farda por ter um caráter bastante controverso. Entretanto, é
inegável o prestígio que teve dentro da instituição. Segundo o autor, eis o que distingue de
imediato o pensamento de Góes;

...a total ausência dos usuais clichês e lugares-comuns que em todas as épocas,
sobretudo nas crises, os chefes militares utilizam para ocultar divergências e
clivagens internas ou para consumo diário do espírito militar. Nenhuma referência à
“coesão inabalável”, “passado glorioso”, “abnegação dos chefes”, “culto à
disciplina” ou qualquer outra fórmula de estilo. Pelo contrário, é essencialmente
crítica e realista sua percepção dos fatos e a interpretação, na perspectiva histórica,
das relações entre o Exército e a sociedade civil... (COELHO, 2000, p. 111-112)

Góes afirmava que não havia “na história dos exércitos do mundo nenhum que tenha
história tão infeliz e melancólica como a do Exército brasileiro” (COUTINHO, 1955, p. 308).
Na sua visão, como aponta Coelho (2000, p. 112), isso se devia, sobretudo, ao fato de o
Exército ter sido, ao longo da história, utilizado como uma força pretoriana ou miliciana a
serviço das facções políticas civis. As causas dessa utilização como força meio-policial
poderiam ser encontradas na repulsa que sempre prevalecera na sociedade civil pelo espírito
militar e na natureza do regime político liberal. E era justamente esse regime, na perspectiva
de Góes, que provocava a indisciplina e as sedições militares, problemas que não seriam
corrigidos com sanções jurídicas e políticas e, sim, atacando-se as causas primárias de
natureza institucional.
Coelho (2000, p. 114) lembra que, para Góes, o Estado Novo não foi instituído para
favorecer as classes militares, mas, para organizá-las, livrá-las do partidarismo político e
discipliná-las espiritualmente para o seu árduo labor técnico. Apesar disso, ele entendia que os
problemas de defesa nacional faziam que o Exército fosse “um órgão essencialmente político;
328

e a ele interessava, fundamentalmente, sob todos os aspectos, a política verdadeiramente


nacional” (MONTEIRO, 1934, p. 132). Góes entendia que todos os aspectos políticos da vida
nacional, assim como todos os ramos de atividade, de produção e de existência coletiva,
inclusive a educação do povo, afetavam a política militar do País. Dessa forma, “sendo o
Exército um instrumento essencialmente político, a consciência coletiva deve-se criar no
sentido de se fazer a política do Exército, e não a política no Exército” (MONTEIRO, 1934, p.
163). E o que era, para Góes a política do Exército?

...é a preparação para a guerra, e esta preparação interessa e envolve todas as


manifestações e atividades da vida nacional, no campo material – no que se refere á
economia, à produção e aos recursos de toda a natureza – e no campo moral,
sobretudo no que concerne à educação do povo e à formação de uma mentalidade
que sobreponha a tudo os interesses da Pátria. (MONEIRO, 1934, p. 163)

Fica claro, então, que para Góes Monteiro não seriam os modelos políticos os mais
adequados para organizar a Nação e, sim, os modelos organizacionais, dados pelas Forças
Armadas, as únicas e verdadeiras instituições nacionais. O projeto ditatorial de Góes
significou a vitória de um modelo que se sobrepôs ao pensamento dos generais que
pretendiam a neutralidade das Forças Armadas e a não-intervenção do Exército na política
nacional. Entre esses generais, estava José Pessoa.
329

7 NO COMANDO DA ESCOLA MILITAR

Considerada pelos alunos de 1930 um dos pilares da República, a Escola Militar


também teve a sua participação nos eventos da Revolução de 1930, mais por pressão dos
alunos do que por desejo dos oficiais instrutores e do comando do estabelecimento de ensino,
como narra em suas memórias o general Campos de Aragão.
Segundo Aragão (1959, p. 196-198), os alunos do Realengo foram pegos de surpresa
com a notícia de que um movimento revolucionário poderia irromper no País. Os dias que se
sucederam às primeiras notícias foram difíceis para o corpo discente. Os oficiais não
permitiam que os alunos formassem grupos pelos pátios e discutissem assuntos políticos. O
comandante da Escola Militar, general Constâncio Deschamps Cavalcanti, caminhava em
todos os recantos do estabelecimento sondando o ambiente. Logo após a confirmação de que
o levante armado havia iniciado no Sul, a Escola entrou em prontidão. De imediato, o acesso
aos noticiários das rádios e jornais foram proibidos. Os periódicos da tarde, contudo, eram
comprados pelos alunos através das grades das salas de aulas.
Conforme o autor, a partir do dia 20 de outubro de 1930 começaram a circular notícias
de que a guarnição do Rio de Janeiro preparava-se para aderir à revolução. Alguns tenentes
instrutores começaram a sondar os alunos sobre um possível levante da Escola Militar a favor
do movimento. Três dias depois, algumas companhias de alunos já começaram a entrar em
prontidão, equipadas e em condições de embarcar para a cidade. Aragão lembra que, a partir
desse dia, o Corpo de Alunos começou a dormir ao relento, nos pátios do estabelecimento,
com os bornais cheios de munição e as armas em condições de serem empregadas.
(ARAGÃO, 1959, p. 199)
No dia 24 de outubro, um avião sobrevoou a Escola, deixando cair uma mensagem
dentro de uma lata. Aberta a embalagem, um oficial fez a leitura diante da multidão de alunos
que se formou:

Todas as fortalezas da barra acabaram de abrir fogo saudando o grito de revolução.


O general Tasso Fragoso à frente do patriótico movimento ordenou a deposição do
governo de Washington Luiz. Na cidade, o povo entusiasmado compartilhava
desassombradamente da arrancada. Caso tudo corra sem reação legalista, ao meio-
dia uma esquadrilha sobrevoará a Escola, confirmando a vitória. Viva a revolução!
(ARAGÃO, 1959, p. 200)

Às 11:00 a esquadrilha sobrevoou novamente a Escola, dessa vez trazendo amarrados


às asas panos com as cores vermelhas da revolução. À sua passagem, os alunos deram vivas à
revolução e o Hino Nacional foi cantado em coro. Segundo Aragão (1959, p. 201), no dia 27
330

de outubro o comando do estabelecimento de ensino foi trocado, assumindo o general José


Vitoriano Aranha da Silva463.
Os levantes contrarrevolucionários que aconteceram na Capital Federal, nos dias que
se sucederam ao movimento de 24 de outubro, deixaram a Escola em polvorosa. Os oficiais
passavam em vão pelos alojamentos procurando acalmar os ânimos dos alunos. Um grupo
mais exaltado, contrariando as ordens dos instrutores, pulou os muros da Escola e instalou
uma metralhadora no leito da linha férrea que margeava o estabelecimento de ensino, a fim de
parar o primeiro trem que aparecesse, para transportar os alunos para a cidade, o que foi
contornado pelo secretário da Escola. Aragão (1959, p. 205) ressalta que, como alguns
capitães não haviam aderido ao movimento revolucionário, temia-se que a disciplina fosse
abalada. Tudo piorou, segundo o autor, quando o novo comandante da Escola informou que
os alunos não embarcariam para o Rio de Janeiro.
O general Henrique Teixeira Lott era instrutor da Escola Militar quando a Revolução
de 1930 iniciou. Comandava o curso de Infantaria da Escola e o Batalhão Escolar, que
agregava o maior efetivo de cadetes do estabelecimento de ensino. Em depoimento que
concedeu ao Programa de História Oral do CPDOC FGV, Lott narrou que nem todos os
oficiais da Escola estavam dispostos a aderir à revolução. Esses oficiais, que se mantiveram
ao lado da legalidade, como o general Deschamps e ele próprio, de tudo fizeram para
preservar os alunos do envolvimento na causa revolucionária. A adesão da Escola Militar,
segundo ele, se deu por influência dos generais que haviam aderido ao movimento
revolucionário. Conforme lembrou, após a eclosão do movimento no Rio de Janeiro,
Deschamps foi até o quartel-general do Exército, onde recebeu a ordem para que a Escola
Militar não continuasse ao lado das autoridades legalmente constituídas. Como sinal de
adesão, o pavilhão nacional deveria ser hasteado no estabelecimento, o que foi feito. Tal ato
motivou-o a pedir a demissão imediata da função de instrutor. Lembrou, ainda, que um avião
sobrevoava regularmente a Vila Militar, para verificar quais quartéis já haviam aderido à
revolução. (LOTT, 1978, p. 30)
Com a negativa do general Aranha e as notícias alarmantes que chegavam da Capital
Federal, o Corpo de Alunos foi em massa para os pátios da Escola e passou a pressionar os
oficiais, exigindo a partida imediata para o centro da cidade. Os instrutores tentavam, em vão,
mostrar aos alunos que a intervenção do estabelecimento de ensino era desnecessária. Sob os
gritos de que a Escola iria descer e de que deveriam ser lembradas as tradições da Praia

463
O general Deschamps foi exonerado a pedido do cargo de comandante da Escola Militar do Realengo para
assumir, em novembro, a chefia do Departamento do Pessoal da Guerra.
331

Vermelha e do levante de 1922, o comandante não teve outra opção senão ligar para o
ministro da Guerra, que autorizou a partida da Escola. Diante da aquiescência do ministro, o
que contrariou a sua posição, o general Aranha colocou o seu cargo à disposição, depois de
somente 18 dias de comando. (ARAGÃO, 1959, p. 206)
As tropas da Escola Militar chegaram ao centro do Rio quando o movimento
contrarrevolucionário já estava controlado, ficando estacionadas na Praça da República.
Aragão (1959, p. 207-209) aponta que ao efetivo do estabelecimento de ensino coube a
guarda de alguns pontos chaves da cidade, como as oficinas da Light, a empresa de Telégrafos
e as sedes dos ministérios civis. Além disso, os alunos ainda ficaram responsáveis pelo
controle do tráfego das principais avenidas da cidade. Segundo o autor, o ambiente no Rio de
Janeiro era de tumulto. As tropas irregulares que chegavam dos outros estados, pelo fato de
terem apoiado a revolução, sentiam-se no direito de usufruir de vantagens que não tinham. A
última missão da Escola foi fazer a guarda de honra e a escolta a cavalo de Getúlio Vargas,
quando de sua chegada à Capital Federal, retornando ao Realengo logo em seguida.

Imagem 52 – Alunos da Escola Militar do Realengo fazendo a guarda do Palácio do Catete durante a Revolução
de 1930, out. 1930.

Fonte: Hemeroteca da Biblioteca Nacional. Revista da Semana, 1 nov. 1930.

Passado o tumulto inicial do movimento revolucionário, e após os pedidos de


demissão de dois comandantes, José Pessoa foi convidado, pelo novo ministro da Guerra,
general Leite de Castro, a assumir o comando da Escola Militar do Realengo, o que aconteceu
em 15 de janeiro de 1931. A Escola Militar, até então comandada por oficiais generais, teria, a
partir daquele momento, um coronel à sua frente, o que poderia em tese ser considerado um
desprestígio à instituição de ensino. No entanto, como lembra o coronel José Britto da Silveira
332

(1985, p. 36), aspirante da turma de 1934, Pessoa chegou com as credenciais de sua ação
revolucionária e dos seus laços de família. No período em que esteve à frente da formação da
jovem oficialidade do Exército, empreendeu uma ampla reforma na Escola, não apenas em
seus elementos formais, como a infraestrutura e o ensino, mas, também, como aponta Câmara
(2011, p. 72), no aspecto anímico dos novos oficiais que passaram a ser formados na nova
República.

Imagem 53 – Flagrante de José Pessoa (ao centro) dentre oficiais do Exército no dia da assunção do
comando da Escola Militar, 15 jan. 1930.

Fonte: Hemeroteca da Biblioteca Nacional. Revista Fon-Fon, 31 jan. 1930.

Em um período em que a integridade do Exército era uma questão em aberto464, como


lembra Celso Castro (1994, p. 232), Pessoa procurou, desde o início de seu comando, vincular
a reforma que pretendia fazer ao contexto pós-revolucionário, o que ficou evidente no
discurso que escreveu para a sua posse:

Cadetes!
O dever que o Exército tinha a cumprir para com a República já está consumado.
Disso sabeis, perfeitamente, pela contribuição que vos coube na jornada de
abnegação e renúncia que culminou com a gloriosa arrancada de 24 de outubro.
Vossa contribuição, nos moldes da feição técnico-profissional da Escola Militar do
presente, traduziu a medida justa do vosso valor, em nada menor ao da Escola
Militar do passado. Se dentro dos vossos muros não há mais lugar para especulações

464
Como já demonstrado, a partir da análise que José Murilo de Carvalho faz do contexto pós-1930, o Exército
foi assolado por inúmeros atos de rebeldia e de conspirações, seja dos altos postos da instituição, seja com a
ampla participação dos praças, entre 1930 e 1937. Como lembra Celso Castro (1994, p. 232), a consolidação de
um projeto hegemônico para a instituição ocorreria somente com a instauração da ditadura do Estado Novo, sob
a liderança de Góes Monteiro e de Eurico Gaspar Dutra.
333

filosóficas e políticas, representais, entretanto, notável potência combativa a serviço


das mais altas virtudes cívicas emanentes do dever profissional militar quando
cumprido a rigor, como o tendes feito.
Mas, a Revolução não terminou ainda, eis a palavra de ordem do momento. E é
exato. A República está salva, resta salvar a nação. Redimir a República foi o meio,
engrandecer a nação é o único e verdadeiro fim. Revalidada a forma de governo,
cumpre restaurar-se o Brasil.
........................................................................................................................................
O Exército, como instituição democrática por excelência, como verdadeira ossatura
da nacionalidade é, por sua natureza, a instituição que primeiro e mais rapidamente
se deve recompor, tanto é verdade que a integridade da Pátria, mais que a do regime,
repousa em sua eficiência. Urge remodelá-lo, aparelhá-lo e, sobretudo, retomar em
mãos os seus quadros, tarefas que todos esperamos no Exmo. Sr. General Ministro
da Guerra e do Estado-Maior. Desse conjunto ressalta a revalidação dos quadros,
questão a que está estreita e diretamente ligada a Escola Militar, como fonte
geradora de nossos oficiais.465

Consideradas por Pessoa a “certidão de nascimento da nova Escola [Militar]”, as suas


primeiras palavras como comandante do estabelecimento de ensino, lidas pelo seu ajudante-
de-ordens, capitão Mário Travassos, refletiam os novos tempos pelos quais passavam o
Exército e a Nação. Diante dos períodos de instabilidades pelos quais as velhas escolas
militares haviam passado nas últimas décadas, ora com “brilho invulgar”, quando foram
comandadas por homens “capazes e patriotas”, ora “em decadência”, quando estiveram sob a
direção de “gente displicente”, José Pessoa via na Revolução de 1930 a oportunidade de
ressurreição do estabelecimento de ensino. E seria justamente com o advento do “movimento
nacionalista de 30” que seria assentada a pedra angular de uma nova e moderna instituição de
ensino e organização militar. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 11-12)
Como destaca Celso Castro, para além da preservação da ordem republicana, José
Pessoa entendia que os grandes objetivos da revolução eram a salvação da Nação e a
manutenção da integridade da Pátria. A identificação do Exército com conceitos abstratos
como “pátria” e “nação” unificava a instituição, afastando-a, no plano simbólico, dos embates
políticos e ideológicos presentes na sociedade. Como “ossatura da nação”, o Exército teria um
papel fundamental na fase de reeducação e renovação que se iniciava. Nesse contexto, a
Escola Militar, berço da formação da futura oficialidade, era vista como uma instituição
seminal do novo Exército e, por extensão, da nova geração que se pretendia construir.
(CASTRO, 2002, p. 39)
Outro ponto fundamental que causava grande preocupação a Pessoa era a criação de
uma “mentalidade homogênea”, de “um novo estado psicológico” na oficialidade do Exército,

465
Boletim Interno nº 13 da Escola Militar do Realengo, de 15 jan. 1931.
334

como aponta Castro (2002, p. 39). A reforma da Escola Militar significava apenas o início
desse processo, como ele relatou anos mais tarde, em suas memórias.

De fato, criou-se na Escola Militar um novo estado psicológico. E aí está a obra em


marcha – a formação de um novo corpo de oficiais.
O velho regime político não tinha deixado ali coisa alguma de útil ou merecedora de
ser relembrada. É verdade que dava anualmente turmas de aspirantes por conclusão
de curso, mas, nelas, os elementos variavam desde o bom ao mau. As últimas
turmas, então, foram totalmente sacrificadas.
E vemo-las aí, em grande parte divorciadas da sua profissão. É fato que, no seio do
alto comando, surgem admiravelmente belas inteligências e padrão de soldados
devotados, porém, isso não é regra. O que o Exército procura formar são
mentalidades uniformes, ações conjuntas e não personalismos. Resta-nos, entretanto,
a esperança de que a mentalidade está sendo mudada e os métodos atuais operarão,
certamente, novas e homogêneas mentalidades. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III,
p. 31-32)

Fica claro nas palavras de José Pessoa, segundo Castro (2002, p. 40), que o problema
da falta de homogeneidade do corpo de oficiais do Exército passava pelo pouco compromisso
do alto comando do Exército com as coisas da instituição, já que “o padrão de soldados
devotados” não era uma regra naquele órgão. Grande parte dos oficiais formados na “velha”
República, como lembrou Pessoa, encontrava-se “divorciada da sua profissão”. A causa desse
divórcio podia ser encontrada na “politicagem”, que tinha, nos últimos anos, cooptado boa
parte das altas patentes da Instituição, e que, na visão de José Pessoa, já há algum tempo
vinha sendo a gênese de muitas infelicidades para o País. Em uma entrevista concedida ao
jornal A Noite, após um ano de comando, com o título “A política para os políticos e mais
ninguém”, ele falou sobre o assunto.

Não sou político. Não quero ser. A política tem sido a gênese de muitas infelicidades
para o país. Na Escola Militar não se ouve discussões que colidam com as doutrinas
ministradas aos oficiais do amanhã. Ao assumir este comando, reuni mestres e
cadetes, advertindo-os de que seria desaconselhável o trato de assuntos em
desacordo com a disciplina militar. Separo-me completamente dos políticos. Só não
chamo a isso de um divórcio porque nunca estivemos juntos. Não se deve inferir daí
que eu os condene. Absolutamente. Uma vez norteados por princípios sadios,
servindo a um ideal de civismo puro, são úteis e necessários à nação. Mas, a política,
para os políticos e mais ninguém.466

Portanto, para Pessoa, política e disciplina militar não deviam se misturar. As gerações
homogêneas de oficiais a que ele se referia, segundo Castro (2002, p. 41), seriam aquelas
disciplinadas e afastadas da política, diferentemente das que considerava heterogêneas,
sacrificadas pelas práticas políticas da velha República, que feriam a disciplina militar. Deste
modo, todos os esforços que empreendeu para a formação de um corpo disciplinado de

466
A Noite, Rio de Janeiro, 17 dez. 1931, p. 1.
335

oficiais convergiram, primeiramente, para o afastamento da política – que divide – e, depois,


para o fortalecimento da disciplina – que une. No contexto das reformas que promoveu, uma
das primeiras medidas que tomou no campo disciplinar foi a criação do Corpo de Cadetes,
que será abordada mais adiante.

Imagem 54 – José Pessoa no ano em que assumiu o comando


da Escola Militar do Realengo, 1931.

Fonte: Câmara, 2011.

7.1 As primeiras impressões da Escola e a reforma estrutural

José Pessoa narra, em sua autobiografia, que, ao assumir o comando da Escola Militar
do Realengo, encontrou-a vivendo sob o mesmo regime de desordem que havia vivenciado no
seu tempo de aluno, com os mesmos métodos rotineiros de ensino e disciplina e os hábitos
turbulentos dos “meninos de Floriano”, fazendo uma alusão aos excessos de condutas
cometidos pela geração de oficiais formadas nos primeiros anos da República. Embora
reconhecesse o importante papel político que aquela juventude militar teve na consolidação da
República, Pessoa não concordava com as regalias disciplinares deixadas como herança para
as gerações de oficiais subsequentes. No seu ponto de vista, “julgavam-se os moços [de 1930]
com o privilégio de uma herança que não lhes havia sido outorgada”. (ALBUQUERQUE,
1953, Pasta III, p. 13)
336

Essa herança remetia a velhos hábitos indesejáveis, criados pelas gerações de alunos
que se formaram antes da Revolução de 1930, e que contavam com a permissividade e a
tolerância das autoridades militares, que, para eles, faziam vistas grossas. Uma dessas práticas
comuns, segundo José Pessoa, era o regime “disfarçado” de externato em que viviam muitos
alunos467, em repúblicas468 ou “baiucas” alugadas nas imediações do edifício da Escola, sem
conforto e sem higiene, “onde tudo se praticava e aprendia, menos os estudos”. Era comum,
como ele aponta, Realengo viver “em constante sobressalto por causa dos notívagos
ocupantes das ‘repúblicas’, que [...] pululavam por todos os recantos da localidade”. Para essa
desordem contribuía, segundo Pessoa, a facilidade de ingresso na Escola de elementos de toda
a espécie, “desde o mais perfeito candidato ao indesejável”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta
III, p. 13)
Esse estado de indisciplina a que se refere Pessoa fazia parte de uma velha ordem
presente na Escola do Realengo desde os seus primeiros anos de funcionamento, e que pode
ser encontrado nos relatos de alunos das gerações mais antigas formadas no estabelecimento
de ensino, dentre eles o do próprio José Pessoa, como visto anteriormente, quando se escreveu
sobre a sua formação na antiga Escola Preparatória e de Tática. O general Punaro Bley, aluno
do Realengo em 1918, relata os graves problemas ideológicos e de indisciplina pelos quais
passava a Escola já na segunda década da República, “onde tudo era permitido, cada qual se
defendendo como pudesse” (BLEY, 1982 apud ROESLER, 2015, p. 120). O marechal
Machado Lopes, que ingressou na Escola Militar no mesmo ano que Bley, também narra o
estado de caos em que a instituição vivia, a ponto de “quando os alunos passavam por Bangu
as pessoas trancavam as portas, pois caso contrário os alunos invadiam tudo” (LOPES, 1986
apud ROESLER, 2015, p. 128.469
Também a atitude do corpo docente não agradava a José Pessoa. Apesar de a Escola
possuir professores de reconhecida cultura e personalidade, eles sofriam a influência do meio
e era comum as vistas grossas feitas à prática da “cola”, nas provas escritas.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 14) Nelson Werneck Sodré, que cursou a Escola

467
O regime regulamentar de funcionamento da Escola Militar era o de internato.
468
Segundo Viana (2010, p. 83), a hospedagem dos alunos em repúblicas era uma prática herdada, ainda, da
Praia Vermelha. Como aponta Svartaman (2006, p. 100), um dos problemas dessa convivência fora dos muros da
Escola, além das festas e bebedeiras, que comumente acabavam de modo desagradável, como as brigas e
desentendimentos com os civis, eram as reuniões promovidas pelos alunos para a discussão de temas políticos.
Certamente, apesar de não mencionar, esse era um ponto que desagradava a José Pessoa.
469
A EMR conheceria um período de relativa estabilidade em termos disciplinares e um fortalecimento do
ensino técnico-profissional com a atuação da Missão Indígena de instrução, entre os anos de 1919 e 1923. Com
uma forte influência das ideias profissionalizantes dos Jovens Turcos, mesmo depois de seu término e após o
início da atuação da Missão Militar Francesa, as bases de ensino e de instrução que foram implementadas pelos
seus instrutores ainda se fizeram sentir na Escola nos anos subsequentes. Ver Roesler (2015).
337

Militar à época do comando de Pessoa, conta que, mesmo com todas as iniciativas tomadas
pelo comando para coibir tal prática, em seu primeiro ano como aluno, 1931, a “cola” ainda se
fazia presente nas provas mensais, que eram precariamente vigiadas pelos professores. Sodré
credita esse insucesso ao grande número de alunos que compunham as turmas de aula. Como
narrou em suas memórias, não havia a possibilidade de professor algum conduzir com
eficiência as tarefas de ensino. (SODRÉ, 1967, p. 67)
Entretanto, em um primeiro momento, o que mais causou impacto no novo
comandante foi o estado de degradação material em que se encontrava a Escola Militar, sem a
solução do qual não seria possível investir na parte anímica da formação da jovem
oficialidade. Como relata Sodré (1967, p. 60), a edificação velha, mas não antiga, da Escola,
construída em forma de um longo retângulo fechado, dividido internamente em pavilhões, em
tudo lembrava um presídio. Apesar do aspecto taciturno do estabelecimento de ensino,
Werneck destaca o imenso esforço feito por José Pessoa para remodelar a sua infraestrutura.

Imagem 55 – Fachada da Escola Militar do Realengo antes da reforma de José Pessoa, 1929.

Fonte: Site Centro de Memórias do Realengo, 2010.

No dia seguinte à assunção do comando, José Pessoa percorreu todas as dependências


do estabelecimento de ensino. Após a “primeira inspeção”, não havia como esconder o limite
de serventia a que tinha chegado o patrimônio material da EMR. As primeiras impressões que
teve da Escola, anotadas em seu diário, não foram as mais agradáveis, como se vê a seguir,
conforme a narrativa feita em sua autobiografia.
338

As salas de aula e laboratórios encontravam-se em péssimo estado. Faltava-lhes


iluminação e material escolar adequado para o estudo dos alunos. Os quadros negros mal se
sustentavam em pé sobre os tripés. Na biblioteca, as estantes eram velhas e encontravam-se
desarrumadas e desorganizadas. Era um consenso entre os docentes que, nas más condições
em que se encontrava, era melhor que estivesse fechada ao uso. 470
Os alojamentos dos alunos não apresentavam as mínimas condições de conforto e
eram praticamente inabitáveis. As camas eram velhas e feitas de ferro. Os travesseiros e
colchões eram feitos de capim e encontravam-se completamente impregnados de insetos.
Pareciam mais, segundo Pessoa, “tarimbas destinadas a sentenciados dos tempos recuados da
Colônia”. O desamor à limpeza era nítido. A roupa suja acumulava-se debaixo das camas.
Não existia material adequado para a limpeza das paredes e assoalho, que nunca tinha visto a
mínima quantidade de cera. Também os banheiros primavam pela falta de higiene. As paredes
divisórias dos aparelhos sanitários estavam completamente cobertas por desenhos e “as mais
licenciosas inscrições” e o olfato era desagradável, a ponto de “abafar os próprios
pensamentos” de quem os utilizasse.471
Na parte de saúde, não havia como proporcionar um tratamento condigno aos baixados
à enfermaria. Os alunos doentes deitavam-se nas mesmas camas impróprias utilizadas nos
alojamentos. Tudo faltava, da agulha para as injeções aos medicamentos para os tratamentos
necessários. Ao interpelar o médico de serviço, José Pessoa foi informado que a maioria dos
doentes tinham sido vítimas da péssima alimentação da Escola.472
A visita ao rancho dos alunos confirmou as indicações feitas pelo oficial médico sobre
a má qualidade da alimentação oferecida no estabelecimento de ensino. O local estava
instalado em um corredor apertado, escuro e com pouca ventilação. A precária cobertura do
telhado permitia que as andorinhas sujassem os alunos durante as refeições. As mesas, que
não possuíam toalhas, estavam impregnadas pela gordura. Tudo contribuía para que a comida
fosse servida coberta por moscas. O refeitório dos oficiais diferia do dos alunos apenas por
possuírem toalhas sobre as mesas, porque a falta de higiene era a mesma. As condições da
cozinha não eram diferentes. As paredes e o teto eram negros, devido à fumaça que
impregnava o ambiente, proveniente de um precário fogão à lenha, onde as refeições eram

470
Albuquerque, 1953, Pasta III, p. 15-22.
471
Ibidem.
472
Ibidem.
339

preparadas. Não havia um açougue apropriado para guardar as carnes, que eram cortadas
sobre um velho cepo de madeira, engordurado e coberto de insetos.473
Não havia uma área apropriada para o lazer dos alunos. A Sociedade Acadêmica
Militar ocupava uma acanhada sala no andar térreo do mesmo pavilhão da enfermaria. Não
havia uma sala apropriada para os alunos conversarem. O faziam acocorados à sombra das
árvores ou sentados nos meios-fios das varandas, já que não existiam bancos nos pátios da
Escola. Esses mesmos pátios ficavam completamente às escuras à noite, e as reuniões de
alunos, quer para estudos, quer para palestras, eram feitas nos dormitórios, sobre as camas, à
luz de velas ou dos precários lampiões de querosene, que eram adquiridos pelos próprios
alunos.474
Inexistente era, também, uma área apropriada para o cumprimento das penas
disciplinares mais graves. Os alunos que necessitassem ficar reclusos eram recolhidos ao
Corpo da Guarda da Escola ou ficavam presos nos quartéis da Vila Militar ou das fortalezas.
Quando isso acontecia, perdiam aulas e misturavam-se aos soldados, o que não era apropriado
para um futuro oficial do Exército. Para José Pessoa, mesmo em 1930, parecia que a Escola
Militar “vivia ainda sob o regime do Regulamento do Conde de Lippe, o código disciplinar
que, desde D. João VI até os primórdios da República, tinha regulado a disciplina no
Exército”.
Pessoa possuía a convicção de que a prisão disciplinar não educava o cadete. Para ele,
cárcere e estudo não se harmonizavam. Ao contrário: entendia que o cadete, quando ficava
detido como um transgressor comum, misturava-se com quem não devia. Com isso, ficava
exposto a uma tempestade de sentimentos, revoltando-se interiormente, o que refletia no seu
comportamento ao retornar à Escola: “desabafava-se com os colegas, garatujava irreverências
nas paredes e depredava o que lhe caía às mãos. Era um espírito de revolta”. A solução
encontrada por Pessoa para solucionar esse problema foi agir na parte psicológica dos cadetes.
Os castigos, ao invés de terem simplesmente um efeito punitivo, passaram a servir de
estímulo à melhoria do caráter. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 32)

Fizemos de cada um, escravo da sua dignidade pessoal. Determinamos que não se
prenderia mais ninguém fora da Escola e sim no próprio estabelecimento escolar. A
prisão deveria ser evitada, por vexatória ao amor próprio dos homens. Bastaram
essas medidas humanas para mudar completamente o estado das coisas, e criar,
consequentemente, o espírito de ordem e cooperação. (ALBUQUERQUE, 1953,
Pasta III, p. 32)

473
Ibidem.
474
Ibidem.
340

Tratava-se, então, para Pessoa, de tornar o cadete “prisioneiro de si mesmo”. No seu


entender, não havia prisão mais sólida.

Realmente, o segredo, a mola real do quanto conseguimos naquela época, em que o


país atravessava uma das mais turbulentas fases da sua existência, está no campo
moral, ou melhor, psicológico. Foram visados, sobretudo, a alma e o coração da
juventude candidata a oficial. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 32)

A longa narrativa que Pessoa faz, em sua autobiografia, a respeito das condições em
que encontrou a Escola do Realengo, podem ser corroboradas pelas lembranças do coronel
José Britto da Silveira, sobre as instalações do estabelecimento de ensino:

Construção pobre e acachapada, ela se constituía de três pátios onde se localizavam:


salas de aula, cinema, biblioteca e serviços burocráticos no primeiro pátio;
alojamentos e reservas de armamento no segundo e terceiro pátios; neste último,
ainda, o “rancho”, posto médico e áreas desportivas rudimentares.
........................................................................................................................................
Os pátios eram todos de chão batido e serviam como locais de formatura da tropa
dos alojamentos respectivos, e o primeiro pátio para a formatura geral – neste,
existia bem no centro, num poste de quatro metros, o relógio, único ponto luminoso
à noite...
.......................................................................................................................................
A iluminação era muito precária – algumas lâmpadas nos passadiços – nos
alojamentos os compridos pingentes sobre as mesas permitiam o estudo para aqueles
mais fervorosos, assim mesmo, só até a hora do “Silêncio”, quando os alojamentos
ficavam na penumbra sob luz colorida, azul ou verde. Quem pretendesse estudar
após o silêncio teria que usar o artifício de preparar uma extensão elétrica, por conta
própria, e utilizar uma mesa tipo “tabuleiro de baiana” fora do alojamento. As salas
de aula não eram abertas à noite – local adequado para estudo. As camas eram de
tubos de ferro, o enxergão de lâminas do mesmo metal que se cruzavam à guisa de
molas, o colchão era de capim e de pois de um ano aprecia mais uma “lâmina
Gillette”.
........................................................................................................................................
Em suma, as instalações do Realengo mantiveram-se restritas a um quadro de
sobriedade, por vezes vizinho da pobreza. Tudo nele era modesto: salas de aula,
alojamentos, refeitórios, meios auxiliares de ensino. (SILVEIRA, 1985, p. 35-36)

Após chegar à conclusão de que “tinham-no entregue para comandar não uma Escola,
mas um verdadeiro espólio”, José Pessoa, com o apoio do ministro Leite de Castro, passou à
reforma ampla da Escola Militar. Aliás, a implementação de reformas nas dependências da
Escola Militar foi uma pauta constante nos relatórios dos sucessivos ministros que ocuparam
a pasta da Guerra desde a sua mudança para o Realengo, em 1911. Já em 1912, o ministro
Vespasiano Gonçalves de Mendonça apontava a necessidade da adequação da estrutura física
da Escola, já que todos os cursos de formação passariam a funcionar em uma única
edificação.475 Três anos depois, no ministério de Caetano de Faria, um projeto foi feito para a

475
Relatório do Ministro da Guerra, 1912, p. 25-26.
341

ampliação do prédio da Escola, o que não foi levado a termo, por falta de verba. 476
Finalmente, entre 1919 e 1921, tendo à frente da pasta da Guerra o civil Pandiá Calógeras, a
Escola Militar passou por algumas reformas e ampliações, a fim de adaptá-la às crescentes
necessidades decorrentes do aumento do efetivo de alunos e às novas práticas que passavam a
imperar nos currículos escolares do ensino militar. A construção de um segundo andar no
pátio principal, com a finalidade de melhor distribuir as salas de aula e as repartições
administrativas; a remodelagem da fachada principal do prédio da Escola, em estilo art
noveau; a construção de um segundo e um terceiro pátios, abrigando alojamentos amplos e
mais convenientemente mobiliados; as construções de um novo um pavilhão para a ferraria,
de uma sala de veterinária e de um picadeiro ao ar livre para a instrução de equitação e a
execução de melhorias no pavilhão da enfermaria, foram algumas das obras de ampliação da
Escola.477 Passados oito anos desde a última grande reforma, parece estar claro, de acordo
com o relato feito por José Pessoa, de que nada mais havia sido investido no estabelecimento
de ensino.
Cabe ressaltar, como já citado, que Pessoa exerceu, por pouco tempo, a função de
fiscal administrativo da Escola, justamente em um período em que as reformas estruturais
fomentadas por Calógeras recém haviam sido implementadas. Portanto, não é difícil inferir
que, ao assumir o comando, a imagem de um estabelecimento reformado contrastou com o
estado de degradação em que o mesmo se encontrava. Daí, talvez, venha a criticidade com
que apresentou em suas memórias o péssimo estado de conservação da Escola.
Seguindo um planejamento rígido, José Pessoa cuidou em primeiro lugar da higiene e
do saneamento do estabelecimento de ensino e de sua vizinhança. Em sua autobiografia, cita
uma série de obras que foram implementadas nos primeiros anos de seu comando.
Uma nova rede de esgotos foi construída e totalmente canalizada. O terreno pantanoso
no qual o prédio do alojamento dos alunos estava localizado foi drenado, aterrado e
higienizado, afastando do convívio dos habitantes da Escola e dos moradores dos arredores as
moscas e os mosquitos. As cocheiras municipais foram afastadas das vizinhanças da Escola.
Um novo portão de serviço foi aberto, o que possibilitou que as carroças do lixo não mais
adentrassem o prédio pelo portão do Corpo da Guarda, misturando-se aos alunos e
professores. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 22)
Os alunos, após retornarem das longas marchas e exercícios, passaram a contar com
água suficiente para o banho. Um novo sistema de captação d’água, com mais de oito

476
Relatório do Ministro da Guerra, 1915, p. 23
477
Relatórios do Ministro da Guerra, 1919 (p. 94), 1920 (p. 76-77) e 1921 (p. 32).
342

quilômetros de extensão, foi construído, resolvendo a oferta insuficiente existente


anteriormente, que mal dava para o banho e para as demandas diárias dos serviços.
Refeitórios, cozinha, cassino dos oficiais478, salas de aula, alojamentos para oficiais e alunos e
banheiros, mobiliários, enfim, tudo foi reformado ou substituído. Novas dependências
também foram construídas: salão nobre, novas salas de aula, alojamentos adequados para os
oficiais de serviço, um novo Corpo da Guarda, museus para a guarda de objetos e armamentos
históricos, barbearia e alfaiataria. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 22-23)

Imagem 56 – Sala de aula Benjamin Constant, após a reforma da Escola Militar, 1937.

Fonte: Acervo do coronel Hiram de Freitas Câmara.

Um desvio de estrada de ferro foi feito, de modo que uma estação para o embarque de
pessoal, material e animais foi construída ao lado da Escola. Os pátios internos e as praças
fronteiriças foram adequadamente iluminadas, assim como as salas de aula, que passaram a se
prestar ao estudo dos alunos. Novas cavalariças e um parque para a guarda do material bélico
também foram construídos. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 23-25)

478
No linguajar militar, o cassino de oficiais, ou de sargentos, é o local, nos estabelecimentos militares,
destinado ao descanso e ao lazer desses militares. Geralmente ficam em área contígua aos refeitórios.
343

As dependências passaram a ser mais agradáveis e o conforto dos alunos foi priorizado
por José Pessoa, como conta Nelson Werneck Sodré:

Começou [José Pessoa] por reformar a Escola materialmente, para o que, com o
prestígio de que desfrutava, conseguiu com facilidade os meios. Tinha noção do que
devia ser uma Escola Militar, em higiene e conforto, coisas que conhecia e
apreciava, ao contrário dos chefes de sua geração, que as supunham incompatíveis
com a vida militar, e até desonrosas para o soldado. Deu fisionomia diferente àquela
penitenciária já tendendo a tornar-se pardieiro, construiu banheiros em que não se
sentia repugnância de entrar, substituiu as camas, colchões, as roupas. Fez um
rancho limpo, agradável e escolheu material de mesa e de cozinha como para uma
casa de família. Providenciou para que a alimentação fosse melhorada. Os salões da
biblioteca e do cassino era dignos de um clube, com mobiliário confortável, sóbrio e
bonito. Criou um banco, onde os cadetes recebiam os vencimentos, retirados com
cheque. Procurou, por todos os meios, assim, conferir dignidade àqueles que
deveriam ser oficiais adiante. Tratados pior do que soldados, antes, os cadetes
estranhavam até tanto esmero. (SODRÉ, 1967, p. 61)

Imagem 57 – Biblioteca da Escola Militar, após a reforma feita por José Pessoa, 1937.

Fonte: Acervo do coronel Hiram de Freitas Câmara.

As reformas estruturais realizadas deveriam causar um impacto relevante no campo


afetivo da educação dos novos cadetes. A criação de um serviço bancário, controlado por uma
diretoria de oficiais, citado por Sodré, tinha por finalidade, segundo José Pessoa, evitar a
superioridade econômica de alguns cadetes e nivelar ricos e pobres. O pagamento, que passou
a ser feito por cheques, possibilitou que os cadetes menos favorecidos adquirissem com mais
344

facilidade os livros adotados pela Escola e o enxoval regulamentar, já que, para os demais
cadetes, essas obrigações eram cumpridas pelos pais ou pelos tutores. Telas pintadas à óleo
retratando passagens históricas do Exército e os principais chefes militares foram colocadas
no novo salão nobre e nos cassinos reformados. Também as salas de aula e laboratórios
receberem pinturas dos renomados professores que passaram pela Escola. Com isso, pensava
Pessoa em criar “uma ideologia [...] um misto de brasilidade e sentimento militar,
amalgamados pelo culto ao passado, pelo espírito de tradição”. O cadete passaria a ser, então,
“um modelo de homem e de soldado disciplinado”, que reconquistaria, em curto prazo, “a
confiança da sociedade e as dignidades militares de um verdadeiro candidato à carreira das
armas”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 31-34)

Imagem 58 – Fachada da Escola Militar após a reforma de José Pessoa. Formatura de Aspirantes, 1932.

Fonte: Acervo José Pessoa (CPDOC FGV) - JPFOTO007.

A percepção que se tem, a partir da análise dos boletins escolares do período


compreendido entre os anos de 1931 e 1934, é que os maiores aportes financeiros destinados
às reformas físicas do estabelecimento de ensino ocorreram justamente no primeiro ano do
345

comando de José Pessoa, o que pode ser visto no quadro comparativo, que indica o aumento
significativo, de mais de oito vezes, das receitas da Escola no ano de 1931.

Quadro 4 – Receitas da Escola Militar do Realengo - 1930 e 1931.


Receita em Dez/1930 Receita em Nov/1931
148:517$937 1.223.151$021

Fontes: Boletins da Escola Militar do Realengo, 30 jan. 1931 e 31 dez. 1931

Somente para as reformas implementadas por Pessoa nas instalações da Escola do


Realengo, foram recebidos da Diretoria Geral de Contabilidade do Exército (DGCE) e
recolhidos da caixa da Escola, em 1931, 760:500$000 (setecentos e sessenta contos e
quinhentos de réis). Para a compra de mobiliário, o estabelecimento de ensino recebeu, no
mesmo ano 500:000$000 (quinhentos contos de réis), provenientes da DGCE.479

Imagem 59 – Refeitório dos cadetes, após a reforma feita por José Pessoa, 1937.

Fonte: Acervo do coronel Hiram de Freitas Câmara.

479
Informações retiradas dos boletins dos meses de maio, junho e outubro de 1931, da Escola Militar do
Realengo.
346

De tudo era adquirido pela administração da Escola Militar, em grandes quantidades.


Desde material de expediente, passando por materiais diversos de higiene e destinados às
seções de Saúde e Veterinária, até matérias-primas para as reformas físicas e mobiliários
novos para as diversas instalações, como pode ser visto em algumas publicações dos boletins
escolares:

FARMÁCIA – 2 quilos de vaselina líquida, a 10$000; 10 caixas de ampolas de


Lantol, a 11$000; 10 caixas de ampolas de Electrargol, a 11$000; 20 caixas de
ampolas de Cardiosol, a 6$000; 20 caixas de ampolas de óleo canforado, a 4$000; 2
caixas de ampolas de Gaiarcina Duccat, a 12$000; 500 gramas de benzoato de
amônia, por 30$000; 100 gramas de bromidrato de quinino, por 25$000; 15 caixas
de cápsulas amilácias, a 5$000; ½ quilo de citrato de sódio, por 20$000; 4 litro de
éter sulfúrico, a 5$000; 120 gramas de gomenol, a $100; 1 quilo de salicilato de
sódio, por 30$000; 250 gramas de salofeno, a $200; ½ quilo de urotropina, a
30$000; 4 gramas de dionina, 3$500.480

Obras da Escola
1 litro de ácido clorídrico...............................................................................3$100
1 litro de ácido muriático...............................................................................3$100
36 litros de álcool a 40º, a..............................................................................2$580
4 metros cúbicos de areia lavada, a..............................................................20$000
10 metros de consoeiras de peroba rosa de 3x9, a.........................................5$500
42 manilhas de barro de 3”, a........................................................................1$800
5 quilos de solda de 2x1, a.............................................................................5$900
48 tábuas de canela de 4m, a........................................................................20$000
42,45m de tábuas de cedro de 0.015mx0,33m, a...........................................7$500
55,10m de tábuas de cedro de 0,03mx0,33m, a.............................................9$900
31,20m de tábuas de cedro rosa de 0,035mx0,30m, a..................................10$500
13,10m de tábuas de cedro rosa de 0,035mx0,36m, a..................................12$600
38,40m de tábuas de cedro rosa de 0,025mx0,22m, a....................................5$500
7,60m de tábuas de cedro de 0,055mx0,22m, a..............................................2$500
25,80m de tábuas de proba de Campos de 0,025mx0,68m, a.......................17$000
5 metros de tela de metal amarelo, especial, a...............................................15$000
1 pacote de velas brasileiras.............................................................................3$100
7 31,35 pés quadrados de vidro para vidraça, a...............................................1$350
10 quilos de vermelhão lavado, de sapateiro, a..................................................$590 481

Resolução do Conselho [de Administração]


Aprovar, por ser a mais vantajosa [...] a proposta apresentada pela firma LEANDRO
MARTINS & CIA, para o fornecimento de:
Revestimento das paredes do Grande Salão da Biblioteca, com estantes medindo
m/m 52,00m de comprimento executadas de acordo com o projeto, de imbuia tom de
jacarandá, estilo Colonial Brasileiro, com colunas torcidas e molduras tremidas nas
pilastras, formando dois corpos, sendo a parte inferior com portas de painéis
salientes tipo diamante e as partes superiores com portas envidraçadas correndo
sobre esferas; internamente prateleiras de madeira sobre cremalheiras, medindo
4,10m de altura...........................................................................................49:710$000
1 grande mesa para centro, medindo 6,00x1,20m de largura.......................1:700$000
8 mesas, idem, de 2,00x1,20m, a 600$000...................................................4:800$000
82 cadeiras com encosto e assento de sola lavrada, confortáveis, a
95$000..........................................................................................................7:790$000

480
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 45, 23 fev. 1931, p. 172.
481
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 64, 17 mar. 1931, p. 279.
347

1 tapete fabricação nacional Rheigantz com 4,00mx3,50m, para o centro do Salão


Nobre............................................................................................................3:528$000
58 metros de passadeira de lã, qualidade superior, medindo 70cm de largura, metro
líquido 60$000..............................................................................................3:480$000
60 tringles de metal, redondas, idem, 8$000...................................................480$000
100 fichas de metal, idem, 2$000....................................................................200$000
1 chapa de metal, idem, ....................................................................................20$000
58 metros de lona para passadeira, idem a 15$000.........................................870$000
Serviço de marmorista para furar o mármore..................................................250$000
Colocação de passadeira e lona........................................................................120$000
60 almofadas de feltro, confecção especial, para os degraus da escada, líquido
16$000..............................................................................................................960$000
1 tapete de lã, qualidade superior, grande durabilidade, medindo 2,45mx4,20m,
líquido,..........................................................................................................2:400$000
1 lustre de bronze pátina e cristais autênticos, com doze luzes, reprodução do
modelo Arsenal, líquido................................................................................3:600$000
Ditos idem idem com 9 luzes, cada líquido a 2:200$000.............................4:400$000
Total............................................84:308$000 482

José Pessoa propunha para a Escola uma “remodelação integral”, sob inspiração
europeia: “West Point, Saint-Cyr, Sandhurst483, serão os moldes de onde sairão as linhas
gerais da reforma dos processos de vossa formação militar” (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta
III, p. 42).
Se as reformas estruturais da Escola se destinavam a dar um novo impulso ao ensino e
à parte anímica da formação do novo oficial, o preparo físico dos cadetes também não poderia
ser esquecido. Juntamente com o ensino cientificista e o preparo técnico-profissional, ele era
uma das bases propostas por José Pessoa para a nova Escola Militar. A cultura física deveria
andar de “braços dados com o preparo intelectual e profissional” (ALBUQUERQUE, 1953,
Pasta III, p. 42).

A formação do oficial brasileiro em seu primeiro lance na Escola Militar, terá como
base a educação física, como meio a cultura geral científica e como fim a mais
rigorosa preparação profissional. Desse tríplice aspecto resultarão, seguramente, as
qualidades morais indispensáveis ao oficialato e que deveis cultivar desde já.484

Firme no propósito de “educar a juventude, não só mental, como também fisicamente


para formar o homem de amanhã” (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 40), José Pessoa
tomou a iniciativa de dotar a Escola Militar de uma área que se prestasse à prática da
educação física. Até então, a atividades físicas eram desenvolvidas em terrenos encharcados,

482
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 306, 31 dez. 1931, p. 1.935.
483
West Point, Saint-Cyr e Sandhurst são, respectivamente, as escolas de formação de oficiais dos exércitos dos
EUA, França e Inglaterra. Essas academias militares, no verdadeiro sentido do termo, serviriam de modelos para
o que José Pessoa pensava sobre a instituição de ensino formadora da oficialidade brasileira: a Academia Militar
das Agulhas Negras.
484
Boletim Interno nº 13 da Escola Militar do Realengo, de 15 jan. 1931.
348

próximos às linhas de tiro do estabelecimento, o que se constituía muito mais em um perigo


aos instrutores e instruendos do que um benefício à saúde dos militares.
A área escolhida para a futura seção de educação física foi o Campo de Marte, um
amplo terreno localizado em frente à Escola e próximo à estação férrea do Realengo, coberto
de mato e com grandes depressões que, na época das chuvas viravam pequenas lagoas
pantanosas. O projeto arquitetônico da nova área, que contava com um estádio de esportes
com arquibancadas, pista de 400 metros e caixas de salto para a prática do atletismo,
aparelhos de ginástica e quadras de esportes, foi elaborado pelo tenente engenheiro militar
Corrêa Velho e, conforme noticiou o Diário Carioca485, não deixava nada a dever para os
modernos campos de educação física dos Estados Unidos.
Como narra Pessoa, a obra foi bancada com recursos próprios da Escola e contou com
um grande apoio do interventor do Distrito Federal, Adolfo Bergamini486, que forneceu uma
equipe de trabalhadores munidos dos equipamentos e ferramentas necessárias à empreitada.
Além disso, Bergamini se responsabilizou pela construção dos meios-fios e da arborização da
área. Do capitão Aristóteles de Lima Câmara, diretor da Estrada de Ferro Central do Brasil,
José Pessoa conseguiu o apoio de seis carros-pranchas puxados por uma locomotiva, que
foram colocados à sua disposição. Diariamente, essa composição fazia a linha Itacuruçá-
Realengo e, posteriormente, Santa Cruz-Realengo, buscando naquelas localidades a
quantidade de terra necessária ao aterramento. Ao final da obra, além de a Escola ganhar um
novo local destinado à instrução física e às solenidades do estabelecimento, resolveram-se os
problemas de saneamento da área. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 43-44)
Todas as reformas eram acompanhadas pessoalmente por Pessoa que,
costumeiramente, se fazia acompanhar pelo arquiteto Raul Penna Firme487, que, à época, já
cuidava do projeto da futura Escola Militar de Resende, assunto que será tratado mais adiante
neste capítulo. Em meio às obras do aterro, um acontecimento inusitado, narrado pelo próprio
Pessoa em sua autobiografia, mostra o empenho que ele dedicava à reforma que pretendia
implementar.
Durante três dias os transportes de terra cessaram. Incomodado com a situação, no
terceiro dia dirigiu-se ao capataz da obra, que o informou que o morro de Itacuruçá, de onde a
terra era trazida, havia “desaparecido”. Incrédulo com a informação, fez os trabalhadores

485
Diário Carioca, Rio de Janeiro, 14 jul. 1931, p. 6.
486
Adolfo Bergamini foi interventor do Distrito Federal de 24 de outubro de 1930 a 21 de setembro de 1931.
487
Raul Penna Firme era, à época, um jovem arquiteto formado pela Escola Nacional de Belas Artes, que havia,
sob pseudônimo, concorrido ao projeto da nova Escola Militar. Anos mais tarde acompanharia José Pessoa na
comissão de locação da nova Capital Federal. (CÂMARA, 2011, p. 123).
349

embarcarem na composição, o que fizeram muito a contragosto, e dirigiu-se na companhia


deles até aquela localidade. Lá chegando, constatou que, devido à eficiência da equipe de
trabalho, realmente já não havia mais morro a escavar, o que prejudicaria a continuidade da
obra. Constrangido com a situação que fez os funcionários passarem, José Pessoa se propôs a
pagar o almoço da equipe. Em meio à refeição, que aconteceu em um local improvisado com
caixotes e tábuas que serviram de mesa, em um pequeno restaurante da localidade, alguém o
informou que, no bairro de Santa Cruz, havia o dono de uma venda que “dava uma barreira a
quem quisesse tirar um aterro”. Terminado o almoço, partiram todos para Santa Cruz, onde
encontraram o proprietário do terreno e acertaram a exploração do novo aterro, o que permitiu
a continuidade da empreitada.488 (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 45-47)
Câmara (2011, p. 125) lembra que, com a construção da ampla e moderna área
destinada à prática da atividade física, por iniciativa de José Pessoa, anualmente passou a
ocorrer uma competição desportiva entre os cadetes da Escola Militar e da Escola Naval. Essa
competição foi a precursora da olímpiada existente até os dias de hoje entre as academias das
Forças Armadas, chamada NAVAMAER, acrônimo formado a partir dos nomes das escolas
de formação das Forças Armadas: Escola Naval, Academia Militar das Agulhas Negras e
Academia da Força Aérea.

Imagem 60 – Estádio construído na Escola Militar do Realengo durante o comando de José Pessoa, [193-].

Fonte: Câmara, 2011.

488
José Pessoa não precisa a data do ocorrido. Porém, como cita na narrativa que já era general-de-brigada, o
fato deve ter ocorrido entre agosto e dezembro de 1933.
350

Como aponta Motta (2001, p. 285), a criação de um departamento de educação física


na Escola constituiu-se em um ato de pioneirismo da administração escolar. Com ele, a
educação física passou a ser centralizada em um único órgão, que ficou responsável pelo seu
planejamento e execução, um modelo seguido até os dias atuais na Academia Militar das
Agulhas Negras e demais escolas de formação do Exército. Segundo o autor, o departamento
era a concretização de uma ideia de Pessoa, em que se pretendia organizar o ensino de
determinado assunto não através dos cursos, mas soba a égide de um órgão especializado,
com ingerência sob a totalidade do corpo discente.
Contíguo ao espaço destinado às atividades físicas, Pessoa construiu, também, um
departamento de equitação, que contava com picadeiro, estábulos apropriados à cavalhada e
pista de obstáculos. Tanto os oficiais instrutores desse departamento quanto os de educação
física haviam sido especializados nos modernos cursos das Escolas de Educação Física e de
Equitação do Exército. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 49)

Imagem 61 – Vista aérea da Escola Militar do Realengo, 1934.

Fonte: Revista da Escola Militar, 1934.

Outro fato pitoresco atinente às reformas, também narrado por José Pessoa, foi a
restrição ao uso dos automóveis oficiais do estabelecimento, com a finalidade de diminuir o
351

impacto financeiro na economia da Escola. Com isso os oficiais, e o próprio Pessoa, passaram
a deslocarem-se a cavalo ou em charretes. Para o comandante, uma antiga carruagem
conduzida por dois cavalos, dos tempos da Escola da Praia Vermelha, foi reformada. Com ela,
Pessoa deslocava-se diariamente da Escola para a sua residência e vice-versa. As reformas
possibilitaram, também, a dispensa de funcionários cujas tarefas tornaram-se desnecessárias
ao dia a dia da escola. Na nova cozinha, por exemplo, onze empregados que cuidavam dos
fogões a lenha foram substituídos por apenas um, que acendia diariamente o novo fogão a
óleo. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 35)
Não há dúvidas de que o prestígio do qual gozava Pessoa junto à cúpula do Exército e
do governo provisório contribuiu muito para a facilidade com que ele empreendeu as reformas
na Escola Militar. Afinal de contas, nada poderia ser mais significativo do que o centro de
formação da oficialidade do novo Exército que se pretendia construir ser comandado pelo
irmão do mártir da Revolução de 1930.
No entanto, como ressalta Sodré (1967, p. 60), José Pessoa era um oficial sobre o qual
as opiniões divergiam entre a oficialidade da Instituição. Muitos atribuíam o seu sucesso na
carreira à influência do tio Epitácio. Esses mesmos oficiais diziam que a boa impressão que
passava se devia mais ao seu aspecto exterior do que aos conhecimentos profissionais, que
eram insuficientes, o que parece ser, na opinião deste pesquisador, um contrassenso. Não se
pode negar a importância do peso do nome que José Pessoa carregava, em um período em que
a influência das velhas oligarquias, como já discutido, muitas vezes apenas havia mudado de
roupagem. Entretanto, há que se lembrar que Pessoa era um oficial que esteve na frente de
combate durante a Primeira Guerra Mundial, escreveu um verdadeiro tratado sobre os tanques
de guerra, especializou-se na academia francesa de Saint-Cyr e destacou-se no curso de
aperfeiçoamento de oficiais, merecendo elogios dos instrutores franceses. A causa para todo o
despeito dos colegas de farda, segundo Nelson Werneck, não poderia ser outra, senão a
inveja. Sodré fala com conhecimento de causa, pois, além de ter sido cadete de Pessoa, entre
1931 e 1934, seria seu ajudante-de ordens, anos mais tarde.
A aparência de José Pessoa e maneira como se portava marcaram significativamente
os cadetes do Realengo, no período em que ele esteve à frente da Escola Militar. O uniforme
bem talhado que utilizava, como ressaltou o general Umberto Peregrino em entrevista
concedida ao Projeto Marechal José Pessoa489, “em nada se assemelhava aos alunos com seus

489
O Projeto Marechal José Pessoa foi criado pela Diretoria de Assuntos Culturais, Educação Física e Desportos
do Exército, em 6 de outubro de 1984, com a finalidade de comemorar o centenário de nascimento de José
Pessoa. Coordenou o projeto o coronel Hiram de Freitas Câmara, biógrafo de José Pessoa. Colaboraram com o
352

uniformes largos, passados a ‘toque de caixa’ com um velho ferro a carvão, e os cabelos
sobrando por fora dos gorros enormes” (PEREGRINO, 1984 apud CÂMARA, 2011, p. 80).
Ele e o general Tasso Villar de Aquino, ex-cadete entre 1931 e 1933, assim relataram a
impressão deixada por Pessoa:

José Pessoa distinguia-se famosamente pelo apuro ao fardar-se. Impressionava a


apresentação daquele coronel de Cavalaria, de cujas botas Melherbe, a perfeição
elegante, não se apartava. Quanto aos uniformes, não os usava que não fossem
talhados pelo Sciamarella, o artista máximo da indumentária militar, professando na
rua Rodrigo Silva. O quepe da Cavalaria, nitidamente distinto do quepe das outras
armas, por causa da cinta branca que o caracterizava, tornava-se ainda mais vistoso
quando usado pelo Cel José Pessoa, pois lhe realçava a beleza harmoniosamente
recortada e a pele trigueira de um trigueiro como se não o possuiria mais belo
beduíno da poesia de Seleneh Medeiros. Pose ninguém teria igual. E era uma pose
que jamais se surpreenderia relaxada. Era uma pose vaidosa, com base na
consciência dos dotes físicos, da elegância consagrada, da importância oficial.
(PEREGRINO, 1985, p. 23)

José Pessoa era homem de elegância extraordinária, em tudo. No trajar, nos gestos,
no falar, ele era um home que não se descuidava nunca. Você nunca o apanhava em
momento de relaxamento. Sempre composto. Dignidade extraordinária. Ele fazia
isto com consciência do que estava fazendo. Não era atitude fátua; era atitude
consciente, atitude para valer, de quem sabia o que estava fazendo, porque estava
fazendo. Ele era humano e justamente, um homem vaidoso, e essa vaidade era justa,
compreensível. Ele a cultivava e nós respeitávamos. Ele queria passar ao cadete essa
imagem, compenetrar o cadete de que ele devia ter sempre uma atitude especial, que
correspondesse à sua posição, à sua condição de cadete, que não era um estudante
comum. (AQUINO, 1984 apud CÂMARA, 2011, p. 80)

Também Nelson Werneck Sodré descreveu a personalidade de José Pessoa:

Era, realmente, caprichoso no fardar-se, de botas reluzentes, pince-nez sempre no


nariz, retirado, em gesto costumeiro que parecia afetado, quando falava e falava
sempre com ênfase; mesmo as trivialidades, dizia-as em tom solene. Polido, de
polidez convencional, enraivecia-se com facilidade e, então, aparecia o sertanejo
paraibano, de rudeza inexcedível, intratável. Fazia, no entanto, continuado esforço
para refrear esses impulsos, o que lhe devia consumir muita energia. Era vaidoso,
fazendo alto juízo de seus méritos. Mas é fato que os tinha, embora não nas
dimensões que supunha. Na escola militar, foi grande comandante, marcou época. E
seus erros, nela, vincularam-se sempre a malogradas intenções de acerto. No fundo,
era ingênuo, e, como os ingênuos, confiante, tenaz nos propósitos e realizador.
(SODRÉ, 1967, p. 61)

projeto a Fundação Getúlio Vargas, a Casa Rui Barbosa, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o
Instituto de Geografia e História Militar do Brasil. A professora Aspásia Camargo foi coordenadora da pesquisa
oral e o professor Marcos Bretas foi um dos pesquisadores envolvidos. Durante o projeto, algumas entrevistas
gravadas em VT foram realizadas com militares que foram ex-cadetes ou que serviram com José Pessoa e com
alguns familiares. Dentre os entrevistados estavam os generais Umberto Peregrino, Tasso Villar de Aquino e
Carlos de Meira Mattos. Além destes, prestaram depoimentos ao projeto o brigadeiro José Pessoa Cavalcanti de
Albuquerque, filho de José Pessoa, e Marcelo Pessoa, seu sobrinho, filho de Aristharco Pessoa. As entrevistas
foram gravadas na Escola de Comunicações do Exército (EsCom), entre os meses de outubro e dezembro de
1984..
353

A personalidade forte de Pessoa, descrita por Sodré, que já havia aparecido em vários
momentos da sua carreira, tornaria a ganhar as páginas dos jornais cariocas. Em 13 de maio
de 1931, José Pessoa procurou Leite de Castro e colocou à disposição o cargo de comandante
da Escola Militar. Ao mesmo tempo, Aristharco Pessoa entregava a Oswaldo Aranha o seu
cargo de comandante do Corpo de Bombeiros da Capital Federal.
A atitude tomada pelos irmãos foi uma forma de protesto à relação dos coronéis que
foram promovidos a generais-de brigada em 7 de maio de 1931.490 Nela constava o nome do
coronel Maurício José Cardoso, chefe de gabinete do ministro da Guerra. Em junho de 1930,
Cardoso era o comandante do 22º Batalhão de Caçadores, uma das unidades militares
enviadas por Washington Luís à Paraíba para controlar os embates que estavam acontecendo
em função da Revolta de Princesa. Em uma carta enviada ao redator-chefe do periódico O
Jornal, Assis Chateaubriand, em resposta a uma matéria publicada no jornal, intitulada “As
próximas promoções ao posto de general”491, Pessoa relata toda a sorte de atrocidades que
Cardoso e seus soldados teriam feito à população da capital paraibana, naquela ocasião.
Pessoas teriam sido espancadas nas ruas e obrigadas a darem vivas ao presidente eleito Júlio
Prestes. Para os irmãos Pessoa, a presença das tropas de Cardoso no estado somente teria
servido para “anarquizar o estado da Paraíba, humilhar o estadista destemido que o dirigia
[João Pessoa] e aviltar o povo patriota e intemerato que o Brasil novo conheceu”. Além disso,
José Pessoa afirmou que os soldados teriam ferido a tiro e a golpes de sabre um dos seus
irmãos, que residia na capital paraibana. Apesar de não citar o nome, o relato de Pessoa leva a
crer que tenha sido Joaquim, já que afirmou que o irmão ferido teria ocupado cargos políticos
e administrativos relevantes. Para José e Aristharco, a promoção de Maurício Cardoso
constituía-se em uma afronta à memória de João Pessoa e um desrespeito ao povo
paraibano.492
Leite de Castro e Oswaldo Aranha recusaram os pedidos de demissão dos irmãos
Pessoa, que continuaram a exercer os seus cargos. Maurício Cardoso foi promovido a general-
de-brigada, em maio de 1931. Apesar de comandar as tropas enviadas por Washington Luís à
Paraíba, Cardoso havia apoiado a Revolução de 1930, tendo participado ativamente no
comandando das forças revolucionárias em Pernambuco. Chegou a general-de-divisão em
1938, maior posto do Exército à época. Foi reformado em 1949, como marechal.

490
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 8 maio 1931, p. 1.
491
O Jornal, Rio de Janeiro, 10 maio 1931, p. 4.
492
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). Arquivo Pessoal JP ag 1930.11.07.
354

7.2 A reforma anímica

Ao passo que as reformas da estrutura física aconteciam, José Pessoa tratou de cuidar
da parte anímica da formação dos oficiais do Exército da nova República. Como aponta
Câmara (2011, p. 84), na base dessas reformas pode ser encontrado um conjunto de ideias e
símbolos com uma poderosa força intrínseca de coesão e um profundo efeito psicológico
sobre a juventude militar, capazes de influenciar comportamentos por toda a carreira em
benefício do Exército e da própria Nação.

Um plano de uniformes históricos distinguiu o cadete de modo inconfundível.


Tradições de nossa indumentária militar foram atribuídas aos seus uniformes. Os
laços mais remotos da Escola Militar de todos os tempos foram apertados. Criou-se
o Corpo de Cadetes com um código disciplinar especial, em que se tratava mais de
aprimorar virtudes do que corrigir defeitos. Os incapazes e os que não revelavam
pendor pela carreira militar eram excluídos. Criou-se o estandarte e o brasão de
armas do Corpo de Cadetes, cujo símbolo é tudo o que há de mais elevado, nobre e
significativo. Reestabeleceu-se o antigo espadim do cadete dos velhos tempos, mas,
dessa vez, um espadim simbólico, a imitação do sabre glorioso de Caxias.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 34, grifo meu)

Em meio à turbulência política pela qual passava o País, Pessoa vislumbrava, com
suas mudanças, dar novos rumos à formação da oficialidade brasileira e, talvez, à própria
instituição Exército:

A reivindicação do título de Cadete; o espadim simbólico de Caxias; a criação do


estandarte do Corpo de Cadetes; os uniformes históricos; o apuro da seleção física,
moral e intelectual dos candidatos e cada dia maior do corpo docente e do quadro de
instrutores, finalmente a inspirada construção das Agulhas Negras, não há dúvida,
abriram novos rumos à Escola Militar, quiçá ao Exército. Com essa obra laboriosa,
criou-se uma ideologia que é um misto de brasilidade e sentimento militar,
amalgamados no culto do passado, no espírito da tradição. Apesar do momento
turbulento que atravessava a existência nacional, conseguimos com ela preencher a
lacuna de ordem psicológica, substituindo a ideologia filosófica que alimentava o
espírito do antigo aluno da Praia Vermelha. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p.
53)

Alinhado às necessidades educacionais ditadas pelo momento histórico pelo qual


passava a Nação, no início da década de 1930, José Pessoa tratou de empreender, junto à
mocidade militar, uma reforma de natureza espiritual, ética e moral, cujas forças motrizes
seriam a disciplina e a coesão, como lembra Câmara (2011, p. 82). A reforma moral a que o
autor se refere implicava impor à estrutura escolar uma nova forma ideológica para a
formação dos jovens oficiais do Exército.

A aplicação dessa forma ideológica resultaria na prática de um conjunto de ações


educacionais de natureza predominantemente afetiva. A adoção dessas ações, por
seu turno, conduziria à consciência da valorização moral, ética, intelectual e
355

profissional do futuro oficial. Em primeira instância, atingiria o espírito militar do


próprio cadete; em círculo maior, o coração e a mente do público interno do Exército
e, de forma mais abrangente, o coração do público externo ao Exército...
(CÂMARA, 2011, p. 89)

No entanto, na visão de Pessoa, era preciso que essa formação ideológica ocorresse
sob a inspiração de um nome que, na história da Nação, personificasse as qualidades por ele
pretendidas para o novo oficial do Exército, como a desambição de poder, o espírito de união
e de concórdia, o elevado senso de cumprimento do dever, a disciplina e o respeito à
dignidade humana. A escolha recaiu sobre aquele por quem José Pessoa já havia
demonstrado, ao longo de sua carreira, possuir verdadeira devoção e, cuja imagem serviria de
exemplo à jovem oficialidade, durante o processo de sua formação: o Duque de Caxias. Sendo
assim, como destaca Câmara (2011, p. 88), a finalidade precípua da reforma moral e ética
implantada por Pessoa na Escola Militar foi gerar o “Cadete de Caxias”, aquele que deveria
ser o cadete do “dever ser”, como um ideal a atingir. Como lembra o general Tasso Villar de
Aquino, à época de José Pessoa “Caxias era venerado na Escola [Militar]” (apud CÂMARA,
2011, p. 86).

Não temos dúvidas de que as novas gerações, educadas sob o signo de Caxias, estão
fadadas a mudar os hábitos e destinos do Exército, formando uma mentalidade
homogênea de chefes que, a exemplo dos seus antepassados, não permitirão
esquecimento das nossas nobres tradições. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p.
70)

É Celso Castro quem melhor analisa a criação do culto a Caxias no âmbito do Exército
brasileiro. Para o autor, a institucionalização do culto a um patrono para o Exército ocupou
um papel central no processo de reorganização da instituição nos anos que se seguiram à
Revolução de 1930. As intensas agitações políticas das décadas anteriores, dentre as quais
destacaram-se os movimentos tenentistas dos anos 1920, resultaram em um Exército
fragmentado organizacional e ideologicamente. Cabia, portanto, às lideranças da instituição
definir o perfil e a identidade institucional do Exército da nova República. O arranjo
organizacional e simbólico encontrado, que permaneceu vigente por meio século, foi o
resultado, segundo Castro (2000, p. 104), da “invenção do Exército como uma instituição
nacional, herdeira de uma tradição específica e com um papel a desempenhar na construção
da Nação brasileira”. Nesse processo, como lembra o autor, ganhou força o culto a Caxias:

O “culto a Caxias” prossegue, até 1930, seguindo a mesma rotina: flores, discursos e
desfiles em frente à estátua de Caxias. Qual o sentido da instituição de Caxias como
“patrono” do Exército? Minha sugestão é que, até 1930, o objetivo a ser alcançado,
no plano simbólico, era a afirmação do valor da legalidade e do afastamento da
356

política, a bem da unidade interna do Exército, despedaçada, nos anos 20, por
diversas revoltas internas e clivagens políticas. (CASTRO, 2000, p. 107)

O culto a Caxias foi oficializado no dia 25 de agosto de 1923 493, pelo ministro da
Guerra Setembrino de Carvalho, a partir de uma proposta surgida no Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro494.

Sr. Chefe do Departamento do Pessoal da Guerra - Convido, para servir ao culto das
nossas tradições que, a exemplo do que se pratica com Osório e Barroso, se renda,
cada ano ao Duque de Caxias a homenagem de nossa veneração, resolvi se realize
hoje, data natalícia desse glorioso general, urna formatura de tropas do Exército, as
quais se hão de reunir destacamentos da Marinha e da Brigada Policial, no terreno
adjacente à sua estátua. E nenhuma ocasião é mais própria do que esta, para instituir,
como ora o faço, com o caráter permanente, a festa de Caxias, que se efetuará a 25
de agosto. Saúde e fraternidade - Setembrino de Carvalho. (RELATÓRIO DO
MINISTRO DA GUERRA, 1923, p. 85)

Dois anos mais tarde, Setembrino de Carvalho oficializaria a data natalícia de Caxias,
25 de agosto, como o “Dia do Soldado”. No aviso ministerial495 que instituiu a comemoração,
Carvalho apontava que a escolha da data havia sido uma sugestão do comandante da 1ª
Região Militar, general Menna Barreto, e dava ordem para que os comandantes das unidades
militares organizassem, anualmente, em seus quartéis, a festa militar. Como destaca Castro
(2000, p. 106 e 108), a transformação da “festa de Caxias” em Dia do Soldado serviria para
vincular, simbolicamente, uma categoria genérica, o soldado brasileiro, ao seu guia. A data
escolhida correspondia ao nascimento daquele que era visto como o protótipo das virtudes
militares.
O aviso de 1923 de Setembrino de Carvalho faz menção aos cultos de Osório e do
almirante Barroso. Castro (2000, p. 104-105) lembra que até a instituição da “festa a Caxias”,
as memórias de Osório e do almirante Barroso, dentre outros tantos chefes militares que
haviam se destacado na Guerra do Paraguai, mereciam grande destaque nas celebrações das
batalhas de Tuiuti e do Riachuelo. O 24 de maio, data da Batalha de Tuiuti, era comemorada
anualmente no âmbito do Exército, em todo o território nacional, com a presença de
autoridades do Governo, discursos e desfiles de tropas. Na Capital Federal a celebração da
data ocorria em frente à estátua de Osório, na praça 15 de Novembro. A lembrança da figura
do Marquês de Herval como expoente máximo da data militar, contrastava com o
“esquecimento” da figura de Caxias.

493
Aviso nº 443, do ministro da Guerra, de 25 de agosto de 1923.
494
A proposta foi feita por Eugenio Vilhena de Morais, membro do IHGB. (CASTRO, 2000, p. 105)
495
Aviso nº 366, do ministro da Guerra, de 11 de agosto de 1925.
357

O culto a Osório, como destaca Castro (2000, p. 105), era em grande medida
espontâneo, fruto da popularidade que o chefe militar sempre desfrutou junto à tropa. E foi
justamente essa celebração espontânea à imagem de Osório que provocou algumas
discordâncias à oficialização de Caxias como patrono do Exército. Em um artigo escrito para
a Revista do IHGB, em 1949, o coronel J. B. Magalhães ressaltou a irregularidade do
processo de escolha de Caxias, ainda que a achasse justa, por não ter atendido à “completa
realidade histórica nacional” (MAGALHÃES, 1949, p. 235). Considerava a preferência por
Caxias uma “injustiça histórica a Osório, que foi o mais amado dos chefes do Exército e o
mais perfeito tipo de cidadão-soldado” (MAGALHÃES, 1949, p. 235). E contrastava a figura
de Osório, “homem do povo [...] brasileiro soldado e político, amante do progresso resultante
da ordem com seu patriotismo vivo e sempre ativo”, com a de Caxias, “nosso melhor tipo de
militar, oriundo da velha nobreza portuguesa [...], o representante máximo das energias
construtivas da Monarquia” (MAGALHÃES, 1949, p. 236). Para Magalhães (1949, p. 236),
as duas figuras juntas representavam a síntese da estrutura militar brasileira. Enquanto Caxias
era essencialmente o chefe, Osório era o próprio Exército. O autor tratou, ainda, de tecer uma
crítica ao esquecimento de Osório, devido ao oficialismo das comemorações de Caxias, ao
mesmo tempo em que destacava a falta de entusiasmo das tropas do Exército em comemorar a
data do patrono.
A partir de 1930, há uma mudança no conteúdo das mensagens veiculadas nos
periódicos do Exército e nas ordens-do-dia dos comandantes militares, em relação a Caxias e
ao Dia do Soldado. A ênfase à legalidade e à disciplina dá lugar à fusão do Exército com a
Nação, tendo como ponto focal Caxias, que passa a ser apresentado como o maior lutador pela
unidade e integridade da Pátria. À medida em que a política do País se encaminhava para a
ditadura do Estado Novo, a imagem evocada de Caxias passou a ressaltar cada vez mais a sua
autoridade e as suas qualidades de chefe militar a serviço de um Estado forte. Caxias passa a
figurar como o símbolo da união militar e da própria Nação e a sua imagem a representar a
cara nacional conservadora da República. (CASTRO, 2000, p. 108)
As palavras de Góes Monteiro, ministro da Guerra, em uma publicação comemorativa
ao Dia do Soldado de 1934, no Correio da Manhã, apontavam claramente essa intenção. Para
o ministro, Caxias era a “expressão sintética, simbólica e aristocrática” do “herói humilde,
sublime e anônimo”, que era o soldado brasileiro. A figura lendária do Duque, pairava “muito
acima das paixões desencadeadas pelas facções partidárias, no pedestal de glórias cada vez
mais alcançado pela admiração crescente das gerações que se sucederam”. A sua espada
jamais permitiu que o território brasileiro “sofresse o ultraje de ser transformado em teatro das
358

façanhas de hordas revoltadas ou que fosse retalhado ao sabor de meros desígnios e interesses
facciosos”. Foi graças a Caxias que, segundo Góis Monteiro, teriam sido estabelecidas as
“bases da perpetuidade da união nacional”. Como grande pacificador, resolveu “com
superioridade de ânimo, as questões que colocaram em litígio os foros de nossa civilização e
deram ao Brasil dias de cruéis dissenções, de angústia e de sangue”.496
Como ressalta Castro (2000, p. 110), dentro do projeto político autoritário vitorioso da
década de 1930, as características relacionadas à autoridade de Caxias, como a sua atuação
como “pacificador” e mantenedor da unidade nacional, passam a ser importantes para a crítica
ao funcionamento da democracia política liberal e das alternativas socialistas, vistas como
elementos de divisão ou subversivas.
Se a formação do oficial da nova República deveria ser construída sob o ideal de
Caxias, era necessário que ao aluno da Escola Militar fosse dada a posição de destaque
necessária no Exército e aos olhos da sociedade nacional. Sendo assim, uma das primeiras
medidas adotadas por José Pessoa, ao assumir o comando, foi resgatar o título de cadete para
designar os alunos da EMR.
Utilizado para designar exclusivamente os alunos de origem nobre, o título de cadete
foi utilizado nas escolas de formação de oficiais do Exército durante todo o Império e nos
primeiros anos da República. O título foi extinto em 1897, por meio de uma lei federal
assinada pelo presidente Prudente de Morais497, em meio à pressão republicana radical de se
expurgar do seio da Nação toda e qualquer lembrança dos tempos do Império. Sendo assim,
talvez tenha causado espanto aos presentes José Pessoa ter aberto o discurso da sua assunção
de comando justamente com o vocativo que há mais de três décadas estava em desuso:
“Cadetes!”.498 Como ressalta Castro (2002, p. 45), a revalorização do título por Pessoa ao
mesmo tempo que dava um ar aristocrático à condição de aspirante-a-oficial do Exército
brasileiro, retomava um elemento do passado e transmitia a ideia de que ser cadete era
pertencer a uma elite social.
O “Cadete de Caxias” passaria a pertencer, dessa forma, não mais a uma nobreza de
sangue. O título, não mais vitalício, mas transitório, inaugurava a ideia de pertencimento a
uma nova aristocracia, como Pessoa deixa claro em uma carta escrita ao ministro da Guerra
Góes Monteiro, em 31 de março de 1934:

496
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 25 de agosto de 1934, p. 3.
497
A Lei nº 448, de 6 de outubro de 1897 especificava que, a partir de 1º de janeiro de 1898, não seria mais
admitida no Exército brasileiro nenhuma praça com a qualificação de cadete.
498
Oficialmente, pode-se dizer que a reabilitação do título de cadete se deu por meio da Lei nº 20.307, de 20 de
agosto de 1931, que criou o Corpo de Cadetes da Escola Militar do Realengo.
359

Com os exércitos contemporâneos, a tarefa mais difícil para os governos, a parte


mais delicada a tratar, é a criação desse nervo motor que dá vida à nação armada,
isto é, a organização do corpo de oficiais. É que hoje, mais do que nos tempos
passados, torna-se preciso que o corpo de oficiais constitua uma verdadeira
aristocracia, não a aristocracia de sangue, mas uma aristocracia física, moral e
profissional.499 (grifo meu)

A ideia de uma aristocracia do mérito, do pertencimento do cadete a uma elite social,


fundamentou, como lembra Castro (2000, p. 45), uma série de iniciativas tomadas por José
Pessoa durante o seu comando. Dentre elas estava o recrutamento, termo utilizado por Pessoa
para tratar a questão da admissão de novos cadetes à Escola Militar. Na sua visão, este era o
problema básico a ser solucionado pela reforma, os demais problemas eram dele corolários. O
Regulamento da Escola Militar de 1929 previa que os alunos concludentes dos Colégios
Militares estavam dispensados da realização dos exames de admissão, bastando, para o
ingresso à EMR, serem submetidos a um exame de saúde. Diferentemente, os candidatos que
não haviam frequentado os colégios militares eram submetidos a um exame intelectual. Esse
era um artificio do qual José Pessoa discordava veementemente, primeiramente por conta das
condições intelectuais e morais dos alunos provenientes dos colégios militares e, depois, por
limitar o ingresso de uma parcela significativa da sociedade civil.

As turmas que ali chegavam [à Escola Militar], as dos três colégios militares de
então, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Ceará, cobriam quase totalmente as vagas das
matrículas, sem ser obedecida a distinção dos graus de aprovação nas disciplinas dos
colégios nem de idoneidade moral do candidato, todos passando somente por uma
sumária inspeção médica, idêntica a que eram submetidos os conscritos e
voluntários para as fileiras. Aquilo se fazia em detrimento dos direitos da mocidade
civil brasileira, não havendo respeito à igualdade de condições, tão bela na nossa lei
básica. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 25-26)

Não era interessante para a Escola Militar, e para o Exército, na visão de Pessoa, que o
acesso à EMR fosse limitado. As bases sociais do recrutamento deveriam ser ampliadas,
admitindo-se os melhores candidatos, não interessando a fonte de onde provinham. Por
ocasião da leitura da ordem do dia da solenidade de criação do Corpo de Cadetes, em 25 de
agosto de 1931, José Pessoa apresentou os novos critérios de seleção, que se dariam sobre
bases sociais e biológicas:

... o recrutamento se estabelece sobre bases a um tempo sociais e biológicas. O


privilégio dos Colégios Militares em detrimento de outras fontes, não menos
autorizadas, desaparece. Todos os meios sociais podem concorrer à constituição de
nossos quadros., por isso que somente sessenta por cento das vagas são reservadas
aos candidatos daquela origem, naturalmente saturada de elementos radicados nos
círculos militares. De outro modo a repartição das vagas anuais pelas três fontes
reconhecidas idôneas – os Colégios Militares, os institutos secundários de ensino e

499
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JP vp 31.05.12.
360

os corpos de tropa, conduzem, como é natural, à seleção física, moral e intelectual


dos candidatos. Classificação rigorosa por merecimento e média geral cinco (5) de
base asseguram a seleção intelectual. Extrato dos assentamentos dos candidatos
permite o controle do moral dos pretendentes. Por fim, o atestado prévio de sanidade
e rigorosa inspeção médica de entrada afirmam a capacidade física dos concorrentes.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 59-60)

Essas mudanças seriam implementadas formalmente no Regulamento da Escola


Militar de 1934500, cujo texto era notoriamente inspirado nas ideias de José Pessoa. Por meio
dele, alargavam-se as bases sociais da seleção para o estabelecimento de ensino, já que uma
das fontes de recrutamento para o Corpo de Cadetes passava a ser os institutos secundários de
ensino oficial ou oficializados, cujos exames fossem válidos nas outras escolas de ensino
superior da República (as outras fontes eram os colégios militares e os corpos de tropa).
Sendo assim, como lembra Rodrigues (2011, p. 129), a seleção para a Escola Militar deixava
de ser predominantemente endógena, já que se abriam vagas para os civis. Pretendia-se,
assim, segundo o autor, favorecer o ingresso dos melhores elementos da sociedade brasileira.
Entretanto, ao mesmo tempo em que o Regulamento de 1934 ampliava as fontes de
recrutamento, mantinha o controle sobre a seleção. Dentre as condições preliminares para a
admissão à Escola Militar, além dos requisitos acima especificados, os candidatos deveriam
apresentar um “certificado de boa conduta anterior” firmado pelos comandantes dos colégios
militares ou dos corpos de tropa, se fossem militares, ou pelas autoridades policiais dos
distritos em que residiam, se fossem civis. Aqueles que fossem provenientes dos
estabelecimentos de ensino secundário, deveriam, ainda, apresentar um “atestado de conduta”
expedido pelos seus respectivos diretores. Além disso, o artigo 4º do regulamento previa que
o candidato deveria “possuir as condições de honorabilidade indispensáveis a sua situação de
futuro oficial do Exército, verificada em sindicância feita nos estados sob a responsabilidade
de um magistrado, onde residir o candidato; na Capital Federal sob a do comandante da
Escola”.
Para José Pessoa, essas exigências, por ele pensadas muito antes da regulamentação de
1934, tinham uma razão de ser: tornar, perante o comando da Escola Militar, os comandantes
dos colégios militares e dos corpos de tropa e os diretores dos estabelecimentos civis
responsáveis pela idoneidade moral e pela capacidade intelectual daqueles que almejavam
uma vaga no Corpo de Cadetes. Pessoa deixava claro que à Escola Militar competia
“aprimorar qualidades” e não “corrigir defeitos”. Sob esses princípios assentava-se o regime
disciplinar da Escola. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 26 e 59)

500
Decreto nº 23.994, de 13 de março de 1934.
361

O Regulamento de 1934 teve vida curta, como ver-se-á adiante. Entretanto, no estudo
que fez das condições de admissibilidade à Escola Militar entre os anos de 1937 e 1946,
Rodrigues (2011, p. 130-132) deixa claro que a condição de honorabilidade para se atingir o
oficialato deu causa a outros critérios de seleção discriminatórios no período considerado.
Como mostra o autor, as Instruções para a matrícula na Escola Militar do ano de 1938
passaram a exigir bons antecedentes dos candidatos e de sua família. O preenchimento de uma
ficha individual, com registros e informações sobre os candidatos e seus pais, passou a limitar
a entrada na Escola Militar de filhos de pais desquitados e daqueles que possuíam uma origem
modesta. Critérios como raça e religião também passaram a influenciar no acesso à Escola,
sendo que negros e judeus deixaram de ter as suas requisições à matrícula aceitas. Também os
que possuíam um sobrenome que delatasse uma nacionalidade indesejável para aquele
momento histórico que o Brasil estava vivendo, ou seja o Estado Novo, passaram a ser
preteridos.501
Entretanto, é importante ressaltar que, durante os estudos feitos ao longo desta
pesquisa, do período em que José Pessoa comandou a Escola Militar do Realengo, nenhum
indício foi encontrado que aponte atos discriminatórios de Pessoa no que tange à seleção de
candidatos para a matrícula no estabelecimento de ensino, ou de que suas ideias reformadoras
tenham influenciado, intencionalmente, tais medidas. A grande preocupação de Pessoa era
com a formação moral dos cadetes. Para isso, empenhou-se em projetá-los socialmente, como
se vê nos depoimentos de alguns de seus “ex-cadetes”502, como o general Meira Mattos e Raul
Pedroso:

O General José Pessoa, por temperamento, era um homem que se entusiasmava


extremamente pelas ideias que ele achava que eram corretas. Ele considerava sua
missão elevar o nível do cadete em todos os aspectos. Ele tomou várias providências
para situar o cadete na sociedade carioca. Porque quando ele assumiu o comando da
Escola, o cadete era como uma unidade qualquer do Exército. O cadete não tinha
posição de destaque. Foi ele quem criou os uniformes, foi ele quem entrou em
ligação com os clubes cariocas – nesta época, os clubes de maior projeção eram o
Tijuca Tênis Clube e o Fluminense – para que, em todas as festas, viesse uns
convites para um certo número de cadetes – 40 ou 50 cadetes. Ele tomou as medidas
para projetar socialmente o cadete e elevar o nível do cadete na sociedade.
(MATTOS, 1984 apud CÂMARA, 2011, p. 118)
Grande número de cadetes frequentavam os bailes do Tijuca Tênis Clube. O Tijuca
era um clube grã-fino, frequentado por uma sociedade seleta. Nos bailes do Tijuca,

501
Sobre o assunto, sugere-se a leitura do livro Indesejáveis: instituição, pensamento político e formação
profissional dos oficiais do Exército Brasileiro (1905-1946), de Fernando Rodrigues.
502
Um ponto comum dos relatos dos militares que frequentaram a Escola Militar de Realengo, à época do
comando de José Pessoa, é que todos identificam-se não como ex-cadetes da Escola Militar, mas, como “ex-
cadetes de José Pessoa”. Cabe considerar, que esses relatos memoriais se deram muitos anos depois da formação
no Realengo, quando a imagem de José Pessoa como idealizador da Academia Militar e do “Cadete de Caxias”
já estava consolidada no Exército.
362

se reuniam as moças mais bonitas de todos os bairros da cidade. Eram bailes


notáveis. (PEDROSO, 1969, p. 99-100)

Nesse esforço, cuidou Pessoa, também, de coibir a frequência de cadetes em locais não
apropriados ao seu novo status social, como se vê na recomendação publicada em boletim
escolar:

É terminantemente proibida a permanência dos cadetes nos botequins e bilhares,


onde se reúnem elementos de todas as classes, para que assim se evite uma
promiscuidade que em nada lhe abona. Sendo o Corpo de Cadetes formado por um
punhado de jovens escolhidos e selecionados fisicamente, não se pode aceitar que
alguns poucos representantes do Corpo de Cadetes se descuidem de si próprios e
concorram para deprimir sua brilhante corporação, mormente quando está a Escola
aparelhada com um Cassino, onde os cadetes poderão palestrar e distrair-se nas
poucas horas que lhes sobram de seus afanosos trabalhos escolares. 503

Também no campo simbólico, a reforma idealizada e iniciada por Pessoa, como


lembra Castro (1994, p. 231), é um caso exemplar de invenção de tradições504 no Exército
brasileiro, tornando-se, devido à sua longa permanência505, um caso historicamente bem-
sucedido. A materialização do seu pensamento está presentada pelos símbolos que criou, a
fim de que o cadete representasse uma elite moral e ética, tanto no âmbito do Exército como
da Nação: os uniformes históricos, o brasão do cadete, o espadim, o Corpo de Cadetes e seu
estandarte.
Por meio do Boletim Escolar de 12 de maio de 1931, José Pessoa deu conhecimento à
Escola Militar das mudanças que seriam implementadas nos uniformes dos cadetes. Para ele,
os uniformes da Escola, à época, não envolviam afetivamente os cadetes com a história da
Nação. Além disso, mal os distinguiam dos soldados. O novo plano de uniformes, claramente
inspirados nos uniformes do Exército do Segundo Império, foi autorizado pelo ministro Leite
de Castro em abril de 1931506 e não se tratava, como ressaltou Pessoa, de uma “simples
combinações de peças, mais ou menos arbitrárias em suas formas como em suas

503
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 94, 19 abr. 1932, p. 590-591.
504
Nesse sentido, Celso Castro faz menção à expressão cunhada por Eric Hobsbawn e Terence Ranger, em uma
tentativa de se expressar identidade, coesão e estabilidade social em meio a situações de transformações
históricas, o que é feito por meio do recurso à invenção de símbolos que evocam um passado muitas vezes ideal
ou mitológico. Castro (1994, p. 231).
505
Os símbolos criados por José Pessoa durante o seu comando da Escola Militar do Realengo, entre 1931 e
1934, permanecem até os dias atuais sendo cultuados pelos cadetes da Academia Militar das Agulhas Negras.
Alguns, como o culto à personalidade de Caxias, servem-lhes de modelos a serem seguidos durante toda a
carreira militar.
506
Apesar das mudanças nos uniformes da Escola Militar terem sido autorizadas pelo ministro Leite de Castro
em abril de 1931, sendo imediatamente implementadas por José Pessoa, o novo plano de uniformes só foi
aprovado formalmente em 24 de setembro de 1931, por meio do Decreto nº 20.438.
363

tonalidades”507, mas, sim, de um “verdadeiro plano calcado em princípios e visando objetivos


determinados”508, quais sejam:

a) fardar-se o cadete de modo inconfundível;


b) reestabelecer-se, embora respeitando as linhas gerais dos uniformes
contemporâneos, os liames históricos dos uniformes do cadete da Escola Militar;
c) procurar-se o restabelecimento desses liames históricos, notadamente pelos
atributos e emblemas de nossa indumentária militar, tudo enquadrado nos mais
severos princípios da heráldica.509

Para Câmara (2011, p. 94), a intenção de José Pessoa, ao criar o conjunto de símbolos
que implementou na Escola Militar, era inequívoca: envolver o cadete afetivamente com a
Escola, com seus símbolos e com a sua mística, ligados à história do Brasil. Dessa forma,
sentir-se-iam responsáveis pela própria função que ocupariam na sociedade: a de chefes
militares, com responsabilidades constitucionais, nascidas das aspirações e interesses da
Nação. Dentre esses símbolos, como ressalta o autor, os uniformes tinham a função de
exteriorizar a mudança de comportamento pela qual passaria o cadete: a de ser um jovem
chefe em formação, pleno de qualidades a serem aprimoradas na nova Escola. Era assim que o
cadete deveria ser visto pela sociedade, que passaria a prestigiá-lo.
Para implementar as mudanças nos uniformes, José Pessoa contou com o auxílio do
artista plástico paulista José Washt Rodrigues510. Em 1922, Washt Rodrigues havia ilustrado a
obra do Ministério da Guerra intitulada Uniformes do Exército Brasileiro, comemorativa ao
centenário da Independência. Tratava-se de uma compilação ilustrada dos principais
uniformes utilizados pelo Exército brasileiro até então, organizada por Gustavo Barroso, à
época diretor do Museu Histórico Nacional. Conforme indica Pessoa, Rodrigues colaborou,
ainda, na criação dos demais símbolos heráldicos da Escola. Pelo fato de Rodrigues residir em
Ouro Preto, houve uma intensa troca de cartas entre os dois.511
Nos uniformes criados por Pessoa encontravam-se detalhes presentes nos uniformes
das diferentes unidades militares do Segundo Império, de todas as armas. Porém,
sobressaíam-se os aspectos dos uniformes dos batalhões de fuzileiros de 1852, que haviam

507
Boletim Escolar nº 110, de 12 de maio de 1931, p. 110-111.
508
Ibidem.
509
Ibidem.
510
José Washt Rodrigues era pintor, desenhista, ceramista, ilustrador e historiador. Nasceu em São Paulo, em
1891, e faleceu no Rio de Janeiro, em 1957. Publicou várias obras sobre a antiga construção civil, fardas do
Reino Unido e do Brasil Império, trajes civis e militares de Pernambuco, durante o domínio holandês, e das
tropas paulistas ao longo dos tempos. Desenhou e aquarelou os uniformes do Exército brasileiro para o livro de
Gustavo Barroso e ilustrou o livro Brasões e Bandeiras do Brasil, de Clóvis Ribeiro. Juntamente com Guilherme
de Almeida, criou o brasão da cidade de São Paulo. Seu viés de historiador contribuiu enormemente para a sua
obra, principalmente os seus trabalhos sobre o Brasil colonial. (TARASANTCHI, 1986.
511
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.04.12.
364

participado da campanha militar contra Rosas: barretina com chapa de metal dourada, na qual
figurava o brasão de armas da Escola; charlateira de palma e palmatória escarlate com
ornamentos dourados; e cordões com palmatórias e borlas com diferentes colorações nas
franjas, a fim de distinguir o ano que os cadetes estavam cursando 512. Dois uniformes foram
criados, um no qual predominava a cor azul-ferrete e outro todo branco513. Detalhes na cor
azul turquesa estavam presentes nos ornamentos e na calça azul-ferrete. O general Meira
Mattos destacou que o novo uniforme foi um dos principais atrativos que o motivaram a
ingressar na Escola Militar, em 1932:

Passeando pela Rua Direita – por onde eu passava sempre, indo ao ginásio e ao
voltar do ginásio –, uma das principais de São Paulo, encontrei dois cadetes da
Escola Militar. Com o uniforme novo da Escola. O uniforme José Pessoa.
Compreendeu? Aquilo me impressionou de uma maneira marcante e, então, eu, no
fundo, comecei a querer vestir aquele uniforme. Aquilo mexeu comigo, eu comecei
a querer saber o que era Escola Militar. (MATTOS, 1984 apud CÂMARA, 2011, p.
94)

Imagem 62 – Uniforme de gala criado por José Pessoa em 1931.

Fontes: Acervo José Pessoa (CPDOC FGV) - JPFOTO008; Site do Exército Brasileiro, 2013.

512
As colorações das franjas das borlas, que pendiam em um cordão garança, utilizado em volta do pescoço,
distinguiam o ano que os cadetes estavam cursando. Durante o período em que o curso foi realizado em três anos
a composição era a seguinte: 1º Ano, franjas garança; 2º Ano, franjas garança e amarela; 3º Ano, franjas
amarelas. Com a implementação dos quatros anos de curso, em 1934, os cadetes do 4º Ano passariam a ostentar
franjas douradas nas borlas. Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.04.12.
513
Os uniformes de passeio eram assim constituídos, sem os ornamentos: o azul, por calça azul-ferrete, com duas
listras azul turquesa, e túnica azul-ferrete; e o branco, por calça e túnica brancas. Acervo José Pessoa (CPDOC
FGV). JPag1936.04.12.
365

Entretanto, existiram algumas vozes críticas aos novos uniformes. Dentre elas, a de
Werneck Sodré. Cadete à época das mudanças, Sodré considerou a substituição dos velhos
uniformes cáqui um dos erros do comando de José Pessoa, sem, no entanto, desconsiderar a
boa intenção do comandante:

Em sua ânsia de alterar tudo, substituiu [José Pessoa] o uniforme tradicional, velho
de anos, que era sóbrio, severo, modesto, pelo espalhafatoso uniforme, de cores
berrantes [...] Fê-lo, como sempre, com a melhor das intenções: pretendeu que os
futuros oficiais envergassem fardamento tradicional, com o corte, o modelo, as cores
usadas ao tempo do Império. Esse conceito de tradicional, normalmente confundido
com o antigo, é profundamente duvidoso. Nem sempre o antigo chega a ser
tradicional; nada é excelente apenas por ser antigo. [...] A sobriedade militar, tão
adequadamente fixada no uniforme usado pelos cadetes até 1931, e que, entretanto,
tinha muito de tradicional, e de nosso, brasileiro, em sua simplicidade, foi
substituída pelo espalhafato dos uniformes adotados, a partir de então, que não
acrescentaram coisa alguma, muito pelo contrário. (SODRÉ, 1967, p. 72)

Os novos uniformes, que passaram a ser chamados de “azulão” e “branco” pelos


cadetes, devido à predominância de suas cores, logo ganharam outra alcunha dos jovens
desafetos civis: “domador” e “filho de Maria”. Sodré (1967, p. 72) lembra de um episódio
envolvendo os novos uniformes, da parte do jornal O Globo514. Em 21 novembro de 1931,
após um treino do time de futebol Vasco da Gama, o cronista esportivo Mário Filho publicou,
em sua coluna, que o cadete e jogador Eloy Menezes havia vestido o seu uniforme “filho de
Maria” para visitar a noiva, na Ilha do Governador. A notícia, considerada altamente
descortês, provocou a ira dos cadetes, que combinaram uma desforra contra a afronta do
jornal. O general Flammarion Pinto de Campos, ex-cadete e presidente da Sociedade
Acadêmica da Escola do Realengo, à época, é quem melhor narra o desenrolar dos
acontecimentos envolvendo a publicação do periódico.
Após tomarem conhecimento da malfadada notícia, naquele mesmo dia, um sábado de
licenciamento, um grupo de cadetes marcou uma reunião na Galeria Cruzeiro (hoje Edifício
Avenida Central), no centro da cidade. Dali, partiriam para a sede do jornal, a fim de tomarem
satisfação sobre a notícia publicada em tom pejorativo. Eis que, no exato momento em que o
grupo estava formado, um jovem que por ali passava, acompanhado de duas moças, resolveu
fazer um gracejo e apontando para os cadetes falou: “Esses são os filhos de Maria”. Foi o
suficiente para que um dos integrantes do grupo nocauteasse o rapaz. Logo uma multidão se
formou em torno do local. Para a sorte dos cadetes, passava pelo local o capitão Cyro
Riopardino de Rezende que, juntamente com o secretário da Escola Militar e o 4º Delegado
Auxiliar da Capital, Dr. Salgado Filho, apaziguaram a situação. (CAMPOS, 1985, p. 31-32)

514
O Globo, Rio de Janeiro, 21 nov. 1931, p. 8.
366

Antes que um ato menos compatível com a posição dos cadetes fosse praticado, uma
reunião de entendimento foi marcada com o dono do jornal515 em sua residência, no bairro de
Ipanema. Os cadetes rapidamente redigiram uma nota de retratação e, acompanhados dos
oficiais da Escola e do Dr. Salgado Filho, partiram para o encontro. O responsável pelo
periódico, porém, não estava em casa. O delegado deixou, então, um recado para que o dono
do jornal procurasse o comandante da Escola, na segunda-feira seguinte. (CAMPOS, 1985, p.
32)
Às 7 horas da manhã da segunda-feira, o dono do jornal compareceu à Escola. José
Pessoa, já sabendo do que ocorrera no fim de semana, havia se preparado para recebê-lo. O
diretor do periódico procurou explicar a situação e pediu a Pessoa que convencesse os cadetes
a modificarem a nota de retratação, considerada por ele muito dura em seus termos. De
imediato, José Pessoa chamou o então cadete Flammarion. Entregou-lhe e nota e pediu que
ele reunisse na sala da Sociedade Acadêmica Militar os demais cadetes, para ler-lhes a nota e
saber se consentiam em modificá-la. A reunião não foi longa. Por unanimidade os cadetes
votaram pela publicação na íntegra. Dessa forma, o comandante informou assim ao jornalista:
“Peço-lhe que a publique na íntegra ou eu não me responsabilizarei pelo que possa acontecer!
Eu estou com meus cadetes!”. (CAMPOS, 1985, p. 32)
Pessoa fez publicar em boletim escolar um texto sobre o incidente. Nele considerou
que o “artiguete” publicado em O Globo havia se referido ao “respeitável fardamento escolar
em palavras ferinas e com segunda intenção”. Do exame que fez do caso, reconheceu o pleno
direito ao gesto de indignação de seus comandados contra o “achincalhe de um repórter
desportivo, incapaz de avaliar a beleza dos sentimentos alheios, principalmente dos que fazem
parte de uma coletividade que, pelo seu passado honroso [...] faz jus, sem favor, ao conceito
público”. E, diante da conduta irrepreensível de homens dignos, que vinham mantendo os
cadetes, onde quer que se apresentassem, da impossibilidade de se conterem quando se viram
desacatados pelos civis e considerando o ridículo da nota de O Globo, julgou que nenhuma
observação tinha a fazer aos seus comandados. Segundo Pessoa, indignos seriam os cadetes
de sua farda se tivessem tomado outra atitude.516
E, assim, foi publicada a nota de retratação, na íntegra, pelo jornal O Globo:

Um Descuido Lamentável
A Escola Militar e O Globo

515
O dono do jornal era o jornalista Irineu Marinho. Anos mais tarde, em outubro de 1948, a filha mais velha de
José Pessoa, Elisabeth, viria a se casar com o filho do jornalista, Rogério Marinho.
516
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 274, 23 nov. 1931, p. 1.688-1.689.
367

O Globo se vê na dura e dolorosa contingência de retratar-se dos conceitos emitidos


por um seu pouco judicioso redator, na seção esportiva de Sábado, que embora não
tivessem esse objetivo, somos os primeiros a reconhecer, vieram a ferir justas
suscetibilidades dos dignos e briosos cadetes do Brasil. Sendo a tradicional Escola
Militar digna de todos os títulos de respeito e admiração de nossa raça e da nossa
gente, por ser a célula sagrada, geradora do sangue moço, nobre e puro da brilhante
e valorosa mocidade militar, esperança da pátria que dela se orgulha como fonte
perene de suas mais extraordinárias energias, não seria plausível que o nosso jornal
apoiasse o irrefletido gesto do nosso redator que, nos apressamos a confessar, agiu
fora das mais comezinhas normas da ética profissional.517

Imagem 63 – Formatura com os cadetes usando o uniforme branco, 1932.

Fonte: Câmara, 2012.

Juntamente com o plano de uniformes foi criado o brasão de armas da Escola Militar.
Desenhado, também, com a colaboração de Washt Rodrigues, destinava-se a ser utilizado em
chancelas, como timbre e em carimbos em papeis oficiais, bem como nos novos uniformes. A
composição pensada por José Pessoa e Rodrigues para o brasão era a seguinte:

- Escudo orlado de azul turquesa, tendo em campo de ouro uma montanha de 5


pontas, em sabre (estilizada);
- Em abismo, uma torre de ouro; velho atributo comum a todos os distintivos da
Escola Militar;
- Timbre: estrela de ouro, também tradicional nos uniformes dos alunos militares;
- Mote: “Escola Militar”, de azul em listão de ouro;

517
O Globo, Rio de Janeiro, 23 nov. 1931, p. 2.
368

- Suportes: um canhão, lanças e espingardas em ristes de ouro; galhos de carvalho


com folhagens de sua cor, símbolo da grandeza e dignidade, também ornando os
uniformes dos generais brasileiros. 518

Imagem 64 – Brasão d’Armas da Escola Militar criado por


José Pessoa, 1931.

Fonte: Revista da Escola Militar, 1932.

A montanha de cinco pontas descrita por Pessoa era o perfil estilizado do maciço das
Agulhas Negras, localizado no município de Itatiaia-RJ. Castro (2002, p. 44) explica a
representação do maciço no brasão, já que a Escola Militar estava localizada a mais de uma
centena de quilômetros de distância da região das Agulhas Negras, para onde a Escola iria se
transferir somente em 1944. Segundo o autor, o que poderia parecer premonição tinha uma
explicação mais simples. O pico das Agulhas Negras era considerado, à época, o ponto
culminante do Brasil. Além disso, fazia parte do maciço central do País, a espinha dorsal do
território nacional, e era geologicamente muito antigo. Tudo isso tinha um forte apelo
simbólico. Assim como as Agulhas Negras eram vistas como um símbolo da unidade
estrutural do Brasil, o Exército e a futura Academia Militar o seriam para a Nação e para o
Exército, respectivamente. Como explicou o capitão Mário Travassos, ajudante-de-ordens de
Pessoa em 1931, ao analisar o brasão, em um artigo que escreveu para a Revista da Escola
Militar:

... por sua posição geográfica [o maciço das Agulhas Negras], a cavaleiro do divisor
de águas que a Mantiqueira representa, como verdadeira síntese fisiográfica do
maciço central brasileiro, é o símbolo de nossa própria unidade estrutural. [...]
Finalmente, a constituição sienítica-nefelítica das rochas das Agulhas Negras
empresta-lhes caráter eruptivo de alta significação geológica em vista da idade que
lhes assegura a estabilidade de rocha primitiva do maciço central do Brasil. Este
sentido seria transmitido ao brasão pela firmeza e estabilidade do símbolo,

518
Conforme a descrição feita por José Pessoa em sua autobiografia. Acervo José Pessoa (CPDOC FGV).
JPag1936.04.12.
369

representando a firmeza e a estabilidade do Exército. E as Agulhas Negras, como


peça de honra do escudo, estão circundadas pela cor tradicional da Escola, e, em
abismo, nela se encrusta a torre, que era o próprio símbolo da Escola Militar do
passado. (TRAVASSOS, 1931 apud CÂMARA, 2011, p. 98)

Com a criação do brasão, esperava-se que a mentalidade dos cadetes assimilasse mais
facilmente, e rapidamente, as forças psicológicas e o apelo histórico que nele estavam
condensados, como explicou Travassos no mesmo texto. Dessa forma, o Corpo de Cadetes,
como uma nova entidade, se manifestaria amplamente, em curto prazo, no cenário das
atividades do Exército e, consequentemente, da Nação.
Alguns anos após José Pessoa ter deixado o comando, algumas mudanças foram
implementadas nos uniformes e no brasão de armas da Escola Militar, o que o deixou
profundamente contrariado. Em 1939, por meio de decreto presidencial o brasão de armas
teve a sua constituição alterada, com o acréscimo de duas asas em seu desenho original, que
correspondiam à arma da Aviação do Exército519. Igualmente, os uniformes criados por
Pessoa foram alterados. Antes mesmo da sua formalização, em junho de 1940520, as mudanças
implementadas já se faziam notar nos uniformes de passeio e parada dos cadetes,
correspondentes ao “azulão” e ao “branco”.
Em documento anexo à sua autobiografia521, José Pessoa trata das modificações
implementadas no plano de uniformes que criou, consideradas por ele uma “consequência do
espírito fantasista da época” e um “verdadeiro atentado à sua estética e significação”. Dentre
as alterações que o incomodaram estavam: a substituição, na gola dos uniformes, do brasão de
armas da Escola Militar pelo distintivo das armas (Infantaria, Cavalaria, Artilharia e
Engenharia); a mudança da cor das borlas, que, ao invés do garança e do ouro, passaram a
ostentar as cores de cada arma; e a substituição da charlateira azul-turquesa com bordas de
metal dourado por uma charlateira mais simples, de pano azul-ferrete. Referindo-se às duas
primeiras mudanças, atentou para o risco de se fomentar a ideia de diferença de arma:

Desenvolver a ideia de diferença de arma na Escola Militar é despertar o sentimento


contrário ao espírito da uniformidade que preside o curso de formação, é criar mais
uma diferença entre aqueles que estudam e trabalham sob o mesmo teto, sentimento

519
Em 29 de janeiro de 1919, o Decreto nº 13.451 criou o curso de aviação, por influência da Missão Militar
Francesa de Aviação, contratada em 1918. O curso passou a funcionar na Escola de Aviação, inaugurada em 10
de julho de 1919, no Campo dos Afonsos, na cidade do Rio de Janeiro. Em 1927, a Aviação do Exército passou a
ser considerada uma arma, por meio do Decreto nº 5.168, de 13 de janeiro de 1927, com estatuto próprio e um
novo regulamento para a Escola de Aviação Militar. Passou a ser conhecida como a 5ª arma, juntamente com a
Infantaria, a Cavalaria, a Artilharia e a Engenharia. O início da formação dos futuros aviadores passou a ocorrer
na Escola Militar do Realengo e, após os dois anos do curso fundamental, os alunos candidatos à Aviação
declaravam por escrito a opção pela conclusão de sua formação na Escola de Aviação Militar.
520
Decreto nº 5.847, de 22 de junho de 1940.
521
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.04.12.
370

que pode originar nocivas rivalidades de arma, revivendo uma antiga ficção
perigosa, quase esquecida hoje entre os oficiais das outras gerações. 522

Por meio de uma carta escrita em 18 de abril de 1940, às vésperas de sua promoção ao
posto de general-de-divisão523, José Pessoa expressou ao comandante da Escola Militar,
coronel Álvaro Fiuza de Castro, o desgosto que sentia em ver a sua criação alterada. Para ele,
afrouxar os “laços mais remotos da tradição”, que foram apertados pela reforma que imprimiu
na Escola, era um “ato antipatriótico”. Mudar as peças do uniforme, inspiradas na campanha
de 1852, substituindo-as por outras “sem estética e sem significação”, como foi feito com as
charlateiras, era “desacertar o que estava certo”, além de “desfigurar a tradição”.524
Considerou, também, a mudança do brasão uma “deturpação do seu histórico e
sentido”. Para Pessoa, não cabia a introdução das asas no desenho, já que, a regulamentação
que criou o brasão de armas, em 1931, regia somente a Escola Militar e não a Escola de
Aviação, a quem a esquadrilha de aviação estava diretamente subordinada. Além do mais, a
maior parte da formação dos cadetes aviadores acontecia juntamente com os seus colegas das
demais armas, em Realengo. Argumentou que brasões de armas são distintivos e insígnias de
nobreza e de família ou de instituições e não fazia sentido modificá-los a cada vez que um
novo filho ou uma nova ideia nasciam. E deu o exemplo do brasão da academia militar
francesa de Saint-Syr, que já contava com 87 anos de existência, sem ser mudado.
Na conclusão da carta, Pessoa alertou Fiuza de Castro que, como comandante da
Escola Militar, cabia a ele a responsabilidade de não permitir a continuidade das modificações
que haviam sido introduzidas no plano de uniformes dos cadetes, que depunham contra a
cultura e o patriotismo.
Oito dias após ter recebido a carta de José Pessoa, Fiuza respondeu-lhe. Agradeceu
educadamente as considerações feitas pelo antigo comandante e ressaltou que, ao longo do
seu comando, sempre procurou conservar aquilo que foi instituído pelos seus antecessores.
Quanto às modificações introduzidas nos uniformes e no brasão, apontou que não lhe coube a
menor interferência no que foi instituído, ao mesmo tempo que afirmou estar aberto às
sugestões de Pessoa. De fato, ao se analisar as regulamentações que introduziram as
modificações no plano de uniformes criado por José Pessoa, não é possível atribuir a Fiuza de
Castro a responsabilidade pelas mudanças, já que foram decisões ministeriais, da pasta da
Guerra, capitaneada, à época, pelo general Eurico Gaspar Dutra.

522
Ibidem.
523
José Pessoa desempenhava, à época, a função de Inspetor da Arma de Cavalaria do Exército. Em 24 de maio
de 1940 foi promovido ao posto de general-de-divisão.
524
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.04.12.
371

Não foi possível definir quem foi o responsável pelo ato, mas os uniformes criados por
José Pessoa acabaram sendo restaurados e preservados, como lembra Câmara (2011, p. 97).
Quanto ao brasão, especificamente, o autor aponta que, na década de 1970, novas mudanças
foram feitas, verificando-se um desarmamento do símbolo, com a retirada dos fuzis, das
lanças e dos canhões presentes no brasão original. O mote “Escola Militar” foi substituído por
“Agulhas Negras”, alinhando-o com a nova denominação da escola de formação, introduzida
em 1951525. Em 1988, por um ato do ministro do Exército526, general Leônidas Pires
Gonçalves, os elementos simbólicos de 1931 foram restaurados, configurando o brasão de
armas que existe hodiernamente.

Imagem 65 – Modificações implementadas no Brasão d’Armas da


Escola Militar ao longo dos tempos.

Fontes: Revista da Escola Militar, 1939; Site da AMAN, 2020.


José Pessoa afirmava que, assim como os espartanos não podiam ver os seus soldados
desarmados de suas espadas e lanças e sem portar os seus escudos e couraças, não era possível
contemplar o cadete sem uma arma que lhe caracterizasse como um futuro chefe do Exército.
Dessa forma, nasceu a ideia de uma peça que complementaria os uniformes criados em 1931:
a miniatura da espada de campanha utilizado pelo Duque de Caxias nas campanhas de
pacificação em território nacional e contra Oribe e Rosas e na Guerra do Paraguai 527. O cadete
passaria, então, a ser o único militar que teria a distinção de ostentar o sabre de Caxias. Para

525
Em 1951, a Escola Militar de Resende recebeu a denominação atual: Academia Militar das Agulhas Negras.
526
Portaria Ministerial nº 007, de 7 de janeiro, de 1988, do ministro do Exército.
527
Câmara (2011, p. 104) lembra que Luiz Alves de Lima e Silva possuiu três espadas durante a sua carreira
militar: a sua espada de campanha, utilizada nas campanhas de pacificação do território nacional, nas campanhas
contra Oribe e Rosas e na Guerra do Paraguai, da qual o espadim é uma miniatura e que se encontra guardada no
Museu do IHGB; uma espada que lhe foi ofertada pelo povo brasileiro, que se encontra sob a guarda da
Academia Militar das Agulhas Negras e que é colocada em destaque nas solenidades de entrega dos espadins aos
cadetes que ingressam na AMAN; e uma espada que foi utilizada por Caxias até atingir o generalato, que se
encontra depositada no Museu do Exército, na Praça Duque de Caxias, no Rio de Janeiro.
372

Pessoa, o apelo simbólico do espadim faria Caxias “pairar no seio dos cadetes do Brasil,
como Napoleão entre os cadetes da Escola de Saint-Cyr”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III,
p. 63-64)
Para que a ideia fosse concretizada, faltava, entretanto, resolver uma questão: localizar
a espada do Duque da Vitória. Como narra Pessoa, uma busca foi feita nos museus da Capital
Federal, sem sucesso. O paradeiro da arma somente foi conhecido com a ajuda do secretário
do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Max Fleiuss. Juntamente com outros
documentos pessoais de Caxias, a espada havia sido recolhida ao IHGB em 1927, pelo diretor
da instituição à época, Eugênio Vilhena de Morais. Com o auxílio de Fleiuss, foi conseguida a
licença necessária para que a peça histórica fosse copiada, o que foi feito por um desenhista
enviado por José Pessoa ao IHGB, para copiar fielmente a espada, em rigorosa escala. Com o
desenho pronto, foi conseguida a autorização do ministro da Guerra para que o espadim fosse
criado. Também foi por determinação de Leite de Castro que se conseguiu o crédito
necessário para a confecção das novas peças na Europa528. A empreitada ficou a cargo do
coronel José Duarte Pinto, chefe da Missão Militar Brasileira na Europa. (ALBUQUERQUE,
1953, Pasta III, p. 64-65)
Em outubro de 1932, os primeiros 800 espadins mandados fabricar na Europa
chegaram ao Brasil e foram recebidos pela Escola Militar em dezembro do mesmo ano. Cada
espadim, com a respectiva bainha, custou US$ 14,80 (quatorze dólares e oitenta centavos) ao
Exército. Em moeda brasileira da época, foram pagos 229$400 (duzentos e vinte nove mil e
quatrocentos réis) pelo lote do armamento.529
Certamente, o espadim foi o elemento simbólico material mais importante criado por
José Pessoa. Na sua lâmina estavam representados outros elementos de sua criação, como o
nome do patrono da Escola, “Caxias”, e o brasão de armas da Escola. Um conjunto simbólico
que representava um “talismã, guiando-os [os cadetes] para uma vida de grandes sucessos, de
amor ao Exército e de felicidade à sua Pátria”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 64)

528
Segundo Câmara (2011, p. 104) os primeiros espadins foram fabricados nas Indústrias Solingen, na
Alemanha.
529
Conforme o que consta no Boletim Escolar nº 288, de 6 de dezembro de 1932, p. 2.115-2.116.
373

Imagem 66 – Espadim do “Cadete de Caxias”.

Fontes: Revista da Escola Militar, 1937; Site da Empresa Ibéria, 2021.

Uma ficha histórica foi criada para cada espadim, a fim de que fosse feito um registro
histórico dos detentores de cada espadim. Também foram criadas instruções para o seu
recebimento e para o seu uso. Nas instruções constavam, por exemplo, o juramento do
espadim e o modelo da ficha de registro histórico. Quando um ex-detentor de espadim
praticasse alguma ação que o distinguisse na vida pública, por um gesto de sacrifício ou
serviço excepcional, para o Exército ou para a Nação, seu espadim sairia de circulação e seria
recolhido ao museu da Escola Militar, com a respectiva ficha, onde deveria constar a ação
praticada. Da mesma forma, quando algum cadete praticasse algum ato anormal, como falta
de amor ao trabalho ou incontinência de conduta, que implicasse no seu desligamento da
Escola, o espadim lhe seria retirado em formatura, uma prova pública de sua incapacidade
para o oficialato. O cadete passaria a receber o espadim após as primeiras provas parciais do
primeiro ano da formação e o devolveria na solenidade de formatura do curso, quando seria
declarado aspirante-a-oficial.530 Marcava-se, assim, através da transmissão do espadim a
cadetes de novas turmas, a continuidade da tradição.
Nos dias 15 e 16 de dezembro de 1932, duas solenidades marcaram a entrega dos
espadins aos cadetes, sendo amplamente noticiadas pelos principais jornais cariocas. A
primeira foi realizada no pátio de formaturas da Escola Militar. Na ocasião, como noticiou o
Diário Carioca531, 738 cadetes receberam os seus espadins. José Pessoa fez a entrega da nova
peça do uniforme ao cadete Helium Celso Frazão Guimarães, porta estandarte da Escola

530
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.04.12.
531
Diário Carioca, Rio de Janeiro, 16 dez. 1932, p. 14.
374

Militar e primeiro colocado da sua turma de formação. Após a leitura do juramento por José
Pessoa, os cadetes responderam, da forma que fazem até hoje: “recebo o sabre de Caxias
como o próprio símbolo da honra militar”.

Imagem 67 – Primeira solenidade de entrega de espadins na Escola Militar do Realengo, 15 dez. 1932.

Fonte: Hemeroteca da Biblioteca Nacional. Revista Fon-Fon, 24 dez. 1932.

Imagem 68 –José Pessoa faz a entrega do espadim ao cadete porta estandarte da Escola Militar,
15 dez. 1932.

Fonte: Hemeroteca da Biblioteca Nacional. Revista Fon-Fon, 24 dez. 1932.

No dia 16 de dezembro, diante de autoridades civis e militares e da população da


Capital Federal, foi realizada na Praça Duque de Caxias, no Largo do Machado, uma
solenidade na qual os cadetes repetiram o juramento do espadim.532 Para a solenidade, todos

532
José Pessoa destaca, em suas memórias, a presença do chefe do Governo Provisório, Getúlio Vargas, na
cerimônia do dia 16 de dezembro de 1932, na Praça Duque de Caxias. No entanto, nenhum dos jornais que
cobriram o evento indicaram a presença de Vargas na solenidade.
375

os integrantes da Escola Militar tomaram posição em torno da estátua de Caxias533, que se


encontrava ornamentada de flores naturais. Na leitura da Ordem do Dia do comandante da
Escola, José Pessoa lembrou aos cadetes a importância de Caxias para o Exército e para a
Nação e a importância do ato do qual tinham acabado de participar:

Cadetes!
Defronte à estátua do Marechal Luiz Alves de Lima e Silva, aquele que em vida foi
o maior dos generais sul-americanos, acabais de prestar o compromisso do
recebimento do vosso espadim – arma-distintivo que reproduz o sabre glorioso do
invicto soldado, que com atos de sublimada grandeza esmaltou com refulgência
inigualável as páginas gloriosas da história nacional, marcando-as de traços
imperecíveis e assinalando o seu nome como o cidadão que melhor serviu à Pátria e
mais a estremeceu.
........................................................................................................................................
A espada que foi o esteio de um regime, que em rudes prélios cimentou a unidade
nacional e, em terras estranhas, acutilou bravamente os inimigos do Brasil, tendes
hoje a honra e a rara fortuna de a cingirdes, à cintura, outorgada ao Corpo de
Cadetes o encargo de guardar aquele sabre glorioso que reflete, no brilho espelhante
do seu aço, a constância no dever e que nunca a ferrugem da deslealdade, de leve
sequer maculou, em meio século de intenso batalhar em prol da ordem e do prestígio
desta terra estremecida, a que ele serviu com inexcedível dedicação e bem alto a
elevou no conceito das nações! (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 67-68)

Imagem 69 – Entrega de espadins realizada no Largo do Machado, 16 dez. 1932.

Fonte: Hemeroteca da Biblioteca Nacional. Revista Fon-Fon, 24 dez. 1932.


Anos mais tarde, ao escrever a sua biografia e relembrar a solenidade da entrega dos
primeiros espadins, Pessoa ressaltou não ter dúvidas de que as gerações educadas sob o signo
de Caxias “estariam fadadas a mudar os hábitos e destinos do Exército”, formando uma

533
Em 1949, a estátua do Duque de Caxias que se encontrava no Largo do Machado foi transferida para o
Pantheon de Caxias, construído em frente ao Palácio Duque de Caxias, no Centro do Rio de Janeiro, para abrigar
os restos mortais de Caxias, sua esposa e filho.
376

“mentalidade homogênea de chefes que [...] não permitirão o esquecimento das nossas nobres
tradições”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 70)
Dentre todas as suas criações, José Pessoa considerou a do Corpo de Cadetes (CC) o
ponto culminante da reforma que implementou entre 1931 e 1934. Criado por decreto 534, daria
à Escola Militar uma nova estrutura organizacional. Sob ele seriam reunidos todos os cadetes
do estabelecimento de ensino, o que contribuiria para o grande objetivo a que se propôs ao
assumir o comando da Escola: formar para o Exército um corpo disciplinado de oficiais.
Enfatizava-se, assim, a disciplina, que une e, por consequência, afastava-se da Escola a
política, que divide.
Ao ser admitido no Corpo de Cadetes, o que lhe dava uma nova condição dentro do
Exército, o de “praça especial”, o cadete passaria a fazer parte de uma entidade coletiva, o
que, segundo José Pessoa, a simples matrícula na Escola Militar, como vinha sendo feito até
então, estava longe de caracterizar. A criação do CC alinhava-se aos já citados princípios de
Pessoa de que a Escola Militar se destinava a aprimorar qualidades e não corrigir defeitos.
Dessa forma, segundo ele, fundava-se, na instituição de ensino, um novo regime disciplinar,
não de ordem material, mas, de ordem moral: “a disciplina intelectual e moral, e não a
disciplina material, é que traduz a grande força de coesão dos quadros” (ALBUQUERQUE,
1953, Pasta III, p. 59).
O alcance da eficiência plena desse regime, passaria, necessariamente, pela já
abordada questão do recrutamento. Os novos critérios de seleção para o ingresso na Escola,
estipulados por Pessoa, assentados sobre bases sociais e biológicas, contribuiriam para o
acesso de jovens oriundos de toda a Nação às provas de admissão. Ao ingressarem
espontaneamente no Corpo de Cadetes, não seriam mais compelidos à aquisição “dos nobres e
elevados atributos do oficialato” (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 59) e o fariam, sim,
por uma questão de consciência.
Um regulamento interno foi criado para o Corpo de Cadetes. O seu artigo primeiro
afirmava que o CC era o “verdadeiro símbolo do futuro do Exército e da segurança da Pátria,
por ser a fonte perene de onde brotam sucessivas gerações de oficiais”. Os artigos segundo e
terceiro concitavam os cadetes a imporem a si mesmos “a mais severa observância das boas
normas de conduta civil e militar” e lembrava-os de que todas as suas atitudes não
focalizavam apenas as suas personalidades, mas, sobretudo, refletiam sobre o nome do Corpo
de Cadetes. O Regulamento Interno do Corpo de Cadetes dividia-se em seções que regulavam

534
Decreto nº 20.307, de 20 de agosto de 1931.
377

detalhadamente o dia a dia dos cadetes na Escola: “Dos alojamentos, dos pátios e dos
banheiros”, “Do refeitório”, “Das visitas”, “Das aulas e sessões de estudo”, etc. 535 Para Castro
(1994, p. 235), a visibilidade e a previsibilidade do controle exercido pela Escola Militar
sobre o espaço e o tempo dos cadetes a aproxima do modelo de “instituição total” proposto
por Erving Goffman, para designar estabelecimentos sociais que concentram indivíduos em
tempo integral num único local e sob a mesma autoridade, com atividades diárias
rigorosamente estabelecidas e padronizadas.536 Entretanto, como ressalta o autor, o controle
exercido sobre os cadetes não era exterior, como na categoria criada por Goffman. O principal
controle deveria, segundo José Pessoa, ser a consciência do próprio cadete. No novo estado
psicológico que se pretendia atingir, o cadete se tornaria “escravo da sua dignidade pessoal” e
“prisioneiro de si mesmo”. Nesse sentido, segundo Pessoa, “não existia prisão mais sólida”
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 33).
A partir dessa ideia, a criação do Corpo de Cadetes impactou significativamente o
campo disciplinar da Escola. Analisando-se os boletins escolares dos anos anteriores ao
comando de José Pessoa, é possível perceber um volume acentuado de punições disciplinares
imputadas aos alunos, o que diminuiu sensivelmente a partir de 1931.
O Regulamento da Escola Militar de 1929, que vigia à época, previa cinco tipos de
“penas correcionais” que poderiam ser aplicadas pelo comando da Escola aos alunos:

1ª, repreensão em particular;


2ª, repreensão motivada em boletim;
3ª, detenção na Escola, até 30 dias;
4ª, prisão, por um a trinta dias, no quartel dos alunos, e por um a quinze dias no
estado-maior dos corpos ou em fortalezas. A prisão fora do estabelecimento
constitui medida de exceção aplicada em casos de faltas graves e três delas efetuadas
no espaço de 12 meses, ou menos, acarretam o desligamento do aluno.
5ª, desligamento, quando a falta for de natureza grave e inadmissível em quem se
prepara para o posto de oficial, ou, quando no espaço de doze meses ou em tempo
menor, o aluno cometer seis ou mais transgressões disciplinares, sendo três delas,
pelos menos, punidos com prisão e prejudiciais à disciplina escolar.537

No primeiro ano de comando de Pessoa, não há praticamente registros de penas de


repreensão ou detenção. As pouquíssimas penas de prisão aplicadas destinaram-se a coibir
fortemente os casos de atentado à dignidade pessoal e de comportamento inadequado no
interior da Escola, ou fora desta, que pudessem contribuir para que o nome do

535
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.04.12.
536
Apesar de Goffman incluir as academias militares no rol das instituições totais, Celso Castro apresenta
algumas restrições ao uso automático do conceito para caracterizar esses estabelecimentos militares. Ver
CASTRO, Celso. O espírito militar: um antropólogo na caserna. 2. ed. rev. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. p. 36-
37
537
Regulamento da Escola Militar de 1929. Decreto nº 18.713, de 25 de abril de 1929.
378

estabelecimento de ensino e/ou o título de cadete fossem colocados negativamente em


evidência perante o Exército ou a sociedade. Dois exemplos são o caso de cadetes que ficaram
presos por 30 dias, por dirigir-se de maneira desrespeitosa e desatenciosa a oficiais da Escola:

Conforme parte que me foi apresentada, o aluno [...], no dia 24 do corrente, não
tendo obtido a continuação na Enfermaria por observação médica, visto não estar
enfermo, tratou de maneira desatenciosa e grosseira o Sr. Major Chefe do Serviço de
Saúde, não guardando para com esse oficial o respeito que por todos os motivos ele
merece, assim revelando lamentável esquecimento dos deveres de boa educação a
que um cadete, sobretudo da última série do curso, não pode furtar-se de patentear a
cada instante, como prova de que se vai tornando capaz de ser investido das funções
de um oficial.
Também, segundo outra parte que veio ao meu conhecimento, no dia 25 do corrente,
o cadete [...], tendo sido observado por um oficial pelo fato de haver chegado fora de
forma ao rancho, além de lhe voltar as costas, ainda lhe respondeu de maneira
descortês, olvidando as regras de polidez e subordinação a que está obrigado por
força dos regulamentos.
Esses atos, que causam estranheza a todos que aqui convivem, teriam, como exige a
disciplina, a mais severa reprimenda se os seus autores não tivessem, nas
explicações dadas a este comando, provado a sua própria contrariedade pela falta
cometida e o deixando convencido de que não reincidirão nas transgressões desta
ordem que depõem desfavoravelmente contra os seus autores.
Por essas razões, resolvo que sejam os mesmos alunos presos por 30 dias, na sala do
oficial de serviço, da qual não poderão sair senão para os trabalhos escolares e para
as refeições, neste caso acompanhados pelo adjunto.538

Antes mesmo da criação do Corpo de Cadetes, Pessoa já mostrava preocupação com o


não entendimento, por parte dos docentes da Escola, do novo regime disciplinar que passava a
vigorar no estabelecimento. Ao punir um aluno por uma falta que considerou, inclusive,
“eliminatória”, assim se expressou em boletim escolar:

Esse fato, embora isolado, dá a esse comando de que o critério que rege atualmente
o regime disciplinar do corpo de cadetes, ainda não foi suficientemente assimilado
pelo meio ambiente. Franca autonomia aos comandantes de subunidades para apurar
e punis as pequenas faltas; abolição da prisão em estado-maior como atentatória
aos brios individuais e coletivos dos cadetes; decidida confiança na conduta pessoal
dos cadetes como comprovam os licenciamentos individuais, sem outra
formalidade que a licença escrita são, entre outros, aspectos capitais que asseguram
as bases novas para o regime disciplinar em substituição a feição material da
disciplina militar comum, sem dúvida incompatível com as características de
idoneidade dos oficiais e consequentemente daqueles que cedem os melhores anos
de sua vida preparando-se para ser honrado com as insígnias de oficial e honrá-las.
Pelo citado regime disciplinar que consta do documento de criação do Corpo de
Cadetes, em véspera de aprovação pelo Estado-Maior do Exército, somente as faltas
de caráter eliminatório chegam ao conhecimento direto do comando. Este poderá
ou não excluir o faltoso. No segundo caso, o faltoso será punido com a pena máxima
correspondente às faltas graves e será ciente de que se novamente seu nome voltar
ao comando em consequência de nova transgressão igualmente grave a exclusão será
irremediável. (grifos do autor)539

538
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 203, de 28 ago. 1931, p. 1.199.
539
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 124, de 27 maio 1931, p. 698.
379

E foi justamente por achar que a “feição material” da disciplina militar comum era
incompatível com as características da formação que pretendia implementar na Escola Militar,
que Pessoa criou tipificações novas de punições disciplinares, que passaram a ser regidas pelo
Regulamento do Corpo de Cadetes, criado em agosto de 1931, como o licenciamento sustado,
que também passou a restringir a liberdade do cadete, impedindo-o de ausentar-se da Escola
nos dias e/ou horários de licenciamentos do Corpo de Cadetes. Tanto o licenciamento sustado
quanto a já prevista detenção passaram a ser utilizadas para penalizar as faltas consideradas
mais leves, como faltar à revista do recolher, má apresentação do uniforme, falta de asseio
corporal e de higiene dos alojamentos, perda de documentação, atrasos ao rancho ou às
atividades de instrução e deixar de prestar a continência a superiores. O que as diferenciavam
da prisão, é que os cadetes poderiam circular livremente dentro da Escola ou dos alojamentos.
Quanto ao tempo do impedimento, mais especificamente no caso da detenção, pouca
vantagem poderia ter em relação à punição mais grave540:

Fica detido por 30 dias, o cadete [...], por haver faltado à revista do dia 22,
ausentando-se sem permissão e por se ter apresentado por ocasião da formatura para
o licenciamento, Sábado, com as charlateira de seu uniforme completamente sujas,
assim incorrendo nas transgressões 3ª e 11ª, da alínea b e 1ª da alínea c, tudo do
artigo 43 do Regulamento do Corpo de Cadetes.541

Havendo os cadetes [...], depois de terem respondido à chamada do instrutor de


Educação Física, se retirando sem permissão, são os mesmos detidos por 10 dias,
por haverem assim procurado iludir seus superiores, falta que em nada recomenda
quem se prepara para o exercício das funções de oficial, que exige em todos os atos
lealdade e compostura. 542

O Cmt da 1ª Cia. I. em parte de 19 do corrente comunicou que, de ordem deste


Comando, sustou o licenciamento normal de Sábado e Domingo próximos, ao
cadete [...], por ter comparecido à parada sem o distintivo no gorro sem pala, incurso
no nº 1 da letra c do artigo 43, do Regulamento do Corpo de Cadetes. 543

A partir de 1932, percebeu-se, nos boletins escolares, que as penas de prisão ficaram
cada vez mais raras e mantiveram-se as poucas repreensões, licenciamentos sustados e
detenções. A não ser nos casos de prisão, os cadetes transgressores passaram a ser
enquadrados disciplinarmente pelo Regulamento do Corpo de Cadetes e não mais pelo
Regulamento da Escola, uma demonstração de que oficiais e cadetes estavam assimilando o
novo regime implementado.

540
Na apreciação das faltas cometidas poderiam ser levadas em contas algumas condições atenuantes ou
agravantes, como o histórico de punições do cadete e a sua conduta durante o curso ou a cumulação de
transgressões, o que implicava na diminuição ou no aumento do tempo da pena disciplinar imposta.
541
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 99, 25 abr. 1932, p. 629.
542
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 110, 7 maio 1932, p. 709.
543
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 121, 20 jun. 1932, p. 779.
380

Cabe considerar, no entanto, que as penas disciplinares impostas aos oficiais, praças e
soldados eram reguladas pelo Regulamento Interno e dos Serviços Gerais (RISG) 544, que
atingia os alunos das escolas militares somente em casos de inquéritos policiais militares.
No dia 25 de agosto de 1931, data escolhida não por acaso, por ser o dia do
nascimento do Duque de Caxias, uma formatura foi realizada no estádio em construção no
Campo de Marte, em frente à Escola Militar, para o juramento à bandeira nacional dos cadetes
que haviam sido matriculados naquele ano.545 Estiveram presentes o chefe do Governo
Provisório, Getúlio Vargas, e diversas autoridades militares e civis, além dos familiares dos
cadetes. Na ocasião, José Pessoa aproveitou para dar a notícia da criação do Corpo de
Cadetes. Após a leitura da ordem do dia do comandante da Escola, 230 cadetes realizaram o
juramento à bandeira do Brasil. Em seguida, o recém-criado estandarte do CC foi apresentado
às autoridades civis e militares. O cadete Antônio Pereira Lima, designado porta-estandarte da
Escola Militar, por possuir a melhor classificação intelectual dentre os cadetes do 3º Ano e ser
isento de faltas disciplinares, o recebeu das mãos de Getúlio Vargas. (ALBUQUERQUE,
1953, Pasta III, p. 56, 57, 61)

Imagem 70 – Formatura de criação do Corpo de Cadetes. Getúlio Vargas (ao centro), entre
José Pessoa (E) e o ministro da Guerra Leite de Castro, ago. 1931.

Fonte: Câmara, 2012.

Pessoa conta que o desenho do estandarte foi pensado conjuntamente com Washt
Rodrigues. Por sugestão do artista, o novo símbolo do Corpo de Cadetes deveria refletir o

544
Decreto nº 19.040, de 19 de dezembro de 1929.
545
Cabe lembrar que a escolha da data natalícia de Caxias para o juramento à bandeira já havia se tornado um
hábito de José Pessoa. Assim, como na Escola Militar, já havia promovido a mesma cerimônia para o juramento
dos acadêmicos da Escola de Instrução Militar da Faculdade de Direito de São Paulo, em 1917, e dos soldados
recrutas da Companhia de Carros de Assalto, em 1922.
381

espírito da Escola Militar. Deveria ter uma certa originalidade, sem cair no exagero. Após
ouvir Rodrigues, José Pessoa decidiu que deveria ser evitado fundamentar o estandarte no
pavilhão nacional, para que, nas formaturas, ele ganhasse o destaque necessário, e não se
corresse o risco de se imitar bandeiras que já estivessem sendo utilizadas por outras unidades
militares do Exército. Sendo assim, optou-se por um desenho simples e original, para que
pudesse ser rapidamente observado por todos: um pavilhão azul turquesa, orlado com franjas
douradas e com o novo brasão de armas da Escola Militar bordado no canto superior
esquerdo.546

Imagem 71 – Estandarte do Corpo de Cadetes criado por José Pessoa em 1931.

Fontes: Revista da Escola Militar, 1940; Site do Exército Brasileiro, 2013.

O momento da entrega do estandarte ao cadete Pereira Lima pelo chefe do Governo


Provisório foi imortalizado na tela pintada à óleo por J. Rocha Ferreira. A respeito dessa obra,
um fato pitoresco é contado pelo general Umberto Peregrino, no depoimento que deu ao
Projeto José Pessoa, em novembro de 1984, e que se encontra descrito em Câmara (2011, p.
112). As fotografias da época mostram Getúlio Vargas, no ato da entrega do estandarte,
portando à cabeça o seu costumeiro chapéu gelot escuro. E dessa forma, Rocha Ferreira o
retratou. Ao ser apresentada a tela a José Pessoa, ele solicitou ao pintor que retirasse o chapéu
da cabeça de Vargas. Afinal de contas, seria uma falta de respeito, em uma obra que ficaria
para a posteridade, o chefe maior da Nação estar portando um chapéu diante da bandeira
nacional, do estandarte e dos cadetes. E assim foi feito. Para quem observar de perto a tela,

546
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.04.12.
382

que se encontra no museu da Academia Militar das Agulhas Negras, perceberá somente os
vestígios da existência do chapéu gelot na cabeça de Getúlio Vargas e o encontrará
habilmente encaixado entre os dedos da mão esquerda do presidente. É possível se notar,
também, uma outra mudança feita na pintura, que não é comentada por Peregrino: apesar de
José Pessoa não aparecer na foto, ele está ao lado de Vargas, no quadro à óleo.

Imagem 72 – Foto original de Getúlio Vargas fazendo a entrega do estandarte do Corpo de Alunos
e a pintura a óleo de Richa Ferreira, 1931.

Fonte: Câmara, 2011.

As tradições criadas por José Pessoa entre 1931 e 1934 perduraram no tempo e
encontram-se permanentemente incorporadas ao ideário da formação do cadete da Academia
Militar das Agulhas Negras. Ainda hoje, os símbolos idealizados por Pessoa podem ser vistos
nos uniformes e nas instalações da AMAN. Do mesmo modo, o “ideal de Caxias” serve de
balizador moral às diversas gerações de oficiais que nesse estabelecimento de ensino se
formaram. Como o próprio Pessoa afirmou, cerca de vinte anos após ter comandado a Escola
Militar, quando escreveu as suas memórias, não restava dúvida que as novas gerações de
oficiais do Exército, formadas sob o signo de Caxias, estavam “fadadas a mudar os hábitos e
destinos do Exército, formando uma mentalidade homogênea de chefes que, a exemplo de
seus antepassados, não permitirão o esquecimento das nossas nobres tradições”
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 70)
383

7.3 Ensino, cultura e ideologia na Escola Militar

O ensino na Escola Militar, quando José Pessoa assumiu o comando, havia passado
por duas reformas, uma realizada em 1924547 e a outra em 1929548. Essas reformas, como
aponta Motta (2001, p. 266), buscavam um retorno ao equilíbrio entre o ensino científico e o
ensino técnico-profissional, extremamente valorizado nas reformas anteriores, de 1918 e
1919549.
Entre 1905 e 1919, o ensino militar, em especial o da Escola Militar, ficou marcado
por sucessivas reformas (quatro ao total) que, além de centralizarem a formação dos oficiais
em uma só escola, no Realengo, buscaram implementar um currículo mais prático do que
teórico, sem a predominância das disciplinas ditas “científicas”, uma herança da Praia
Vermelha. A reestruturação de 1919, particularmente, foi realizada sob a inspiração do ensino
militar germânico e o regulamento que dela resultou incorporou as aspirações do grupo
renovador dos Jovens Turcos. Com o consentimento da alta cúpula do Exército 550 e
respondendo à nova ordem mundial que surgira após a Primeira Guerra Mundial551, a reforma
aumentou o número e o tempo dos conteúdos do ensino prático. Procurou-se aproximar os
conteúdos teóricos das situações concretas com as quais os oficiais iriam se deparar nos
corpos de tropa. Para os formuladores da norma, à época, o conflito europeu havia mostrado
que era tempo de se repensar os requisitos básicos exigidos dos comandantes de pelotões e
companhias de soldados. (ROESLER, 2015, p. 82-86)
No entanto, a rebelião dos alunos da Escola Militar na noite de 4 para 5 de julho de
1922, em apoio ao movimento tenentista de 1922, quebrou a ordem que havia sido
estabelecida na Escola Militar. Uma estabilidade que havia sido conquistada, em grande parte,
graças à atuação da Missão Indígena e ao próprio regulamento de 1919. O levante dos alunos

547
Decreto nº 16.394, de 27 de fevereiro de 1924.
548
Decreto nº 18.713, de 25 de abril de 1929.
549
Decreto nº 12.977, de 24 de abril de 1918 e Decreto nº 13.574, de 30 de abril de 1919.
550
A reforma do ensino militar de 1919 foi idealizada ainda no Ministério da Guerra de Caetano de Faria e
assinada por Cardoso de Aguiar. Faria era um simpatizante das ideias profissionalizantes dos Jovens Turcos.
Como chefe do Estado-Maior do Exército, em 1914, havia escrito alguns artigos para a revista A Defesa
Nacional. Em 1919, como ministro da Guerra, convocou alguns oficiais que compunham o grupo dos Turcos
para fazer parte do seu gabinete, dentre eles o então capitão Leitão de Carvalho. Bertholdo Klinger, nessa época,
servia no Estado-Maior do Exército. (ROESLER, 2015).
551
Como aponta Grunennvaldt (2005, p. 131), os combates em trincheiras, a evolução rápida e surpreendente do
emprego tático das tropas em campanha e dos equipamentos bélicos, cujas armas aumentaram seu alcance e
poder de destruição, a evolução da logística militar e a redefinição dos conceitos e critérios de guerra
convencional impunham uma revisão e uma adequação dos regulamentos das escolas militares aos novos
tempos.
384

levou o ministro Calógeras, para quem um ano antes tudo era perfeito no estabelecimento de
ensino, a considerar uma nova reforma, já sob a influência da Missão Militar Francesa:

Na Escola Militar dois problemas sérios pedem solução, já agora inadiáveis. O


primeiro é a revisão do programa de ensino. Não é possível ficar somente na feição
profissional, prática, que foi adotada pela última reforma. Indispensável é achar o
meio de adicionar cursos científicos que permitam assegurar a formação de oficiais
capazes de solver os mil e um problemas que surgem na prática da profissão e que
exigem mais do que os conhecimentos de um oficial de tropa médio. [...] O segundo
está em firmar diretamente na Escola o influxo da Missão Militar Francesa, a fim de
assegurar ao quadro de oficiais de todas as armas a homogeneidade precisa – na
formação intelectual, na prática nos regulamentos, nos métodos de comando – que
deve obedecer à mesma doutrina comum, e o não o é hoje, por estar a Escola como
organismo à parte da reorganização do Exército. (RELATÓRIO DO MINISTRO
DA GUERRA, 1922, p. 17-18)

No mesmo tom falaria o general Setembrino de Carvalho, um ano depois, após


assumir a função de Calógeras, ao mesmo tempo em que já anunciava estar em andamento
uma nova reformulação do ensino militar:

Urge fazer a reforma do Ensino na Escola Militar. Todos sentem que o plano atual
está positivamente abaixo das exigências da cultura geral que deve ter um oficial
para o cabal desempenho das funções que lhe incumbem, como educador, como
instrutor, como juiz eventualmente, como home público, e, até, como home de
sociedade. É fora de dúvida que um oficial que se destina aos altos postos não pode
estar estritamente encerrado dentro do horizonte das coisas da profissão, de todo em
todo alheio aos progressos da vida do país em todos os seus aspectos, e, por isso
mesmo, com uma visão falsa dos valores da comunhão social. Está em adiantada
elaboração um projeto capaz de conciliar as imperiosas necessidades de uma cultura
geral com as exigências cada dia maiores da formação técnica dos nossos jovens
oficiais. (RELATÓRIO DO MINISTRO DA GUERRA, 1923, p. 6)

Como ressalta Motta (2001, p. 265), as palavras tanto de Calógeras como de


Setembrino de Carvalho apontavam para uma mudança de rumos em relação a tudo o que
preconizavam os regulamentos para o ensino militar anteriores. Entre 1905 e 1923, o foco das
reestruturações estava no combate ao “bacharelismo” e ao “paisanismo” herdados da Escola
Militar da Praia Vermelha. Com o combate aos excessos da matemática e das ciências, o autor
aponta que se chegou muito perto da eliminação dos valores científicos que deveriam
fundamentar o saber dos oficiais. Era necessário, pois, apontar para outra direção e determinar
o quantum de cultura geral deveria ser colocada no currículo, em conveniência com o ensino
profissional, sem que isso representasse um regresso à Praia Vermelha, que era
definitivamente um fato ultrapassado.
O outro ponto que aproximava os discursos dos dois ministros, segundo Motta (2001,
p. 266), era a necessidade de se colocar a Escola Militar sob a orientação da Missão Militar
Francesa. Os regulamentos de 1918 e 1919, elaborados sob a influência germanófila dos
385

Jovens Turcos, com a ultravalorização dos assuntos militares práticos, havia colocado o
estabelecimento fora do alcance dos instrutores franceses.
Com essas ideias em mente, em 1924, tendo à frente do Ministério da Guerra o general
Setembrino de Carvalho, uma nova reestruturação do ensino na Escola Militar foi
implementada. Com ela, a Missão Francesa finalmente passaria a exercer a sua influência no
estabelecimento de ensino. A estrutura do curso, prevista no regulamento anterior, foi
mantida, com dois anos de formação comum e um ano de formação nas armas (Infantaria,
Cavalaria, Artilharia e Engenharia). O ensino dividia-se em “geral”, destinado a proporcionar
aos alunos “os conhecimentos científicos indispensáveis a todo oficial”552, e “militar”, de
natureza teórico-prática, com disciplinas essencialmente voltadas ao ensino técnico-
profissional.553
Quanto aos instrutores franceses, o novo regulamento previa que os cursos de Tática
Geral e de História Militar seriam conduzidos por “um oficial estrangeiro contratado”, a quem
caberia “coordenar todo o ensino tático da Escola Militar, tanto teórico como prático”. A esse
oficial cabia, ainda, “apresentar ao comandante o programa dessas matérias e emitir parecer
sobre os programas referentes ao ensino prático”.554
Entretanto, para um regulamento que privilegiava o saber científico, sem desmerecer,
deixe-se claro, o ensino profissional, Motta (2001, p. 275) aponta que poucas vezes “um texto
terá sido tão diminuído ou deformado pelos seus executores”. Para o autor, houve um
completo desrespeito dos docentes, do chamado “ensino geral”, pelas diretrizes de ensino
preconizadas pela norma, que a elas dedicava uma seção inteira.

Não será exagero dizer quer, na sua quase totalidade, não leram [os professores] as
“diretrizes de ensino”, ou se as leram não as entenderam, ou se as entenderam,
deliberadamente as desrespeitaram. O ensino que ministraram, com poucas
exceções, foi livresco, verbalista, desligado dos objetivos traçados. Alguns deles
como que cultivavam a antididática, compraziam-se com o ambiente de medo, e até
de terror, que criavam sob a ameaça das provas inacessíveis e dos graus ínfimos.
(MOTTA, 2001, p. 275)

Já em relação ao ensino militar, não havia muito o que reparar. Os instrutores, na visão
de Motta, eram profissionais devotados, todos já aperfeiçoados sob a orientação da Missão
Francesa. Não lhes impregnavam os sentimentos de renovadores ou de salvadores, como
havia acontecido com os instrutores da Missão Indígena. Entretanto, levavam a sério a

552
Eram ministradas as disciplinas Geometria Analítica, Cálculo Diferencial e Integral, Física Experimental,
Meteorologia, Geometria Descritiva, Mecânica, Química, Topografia, Direito, Legislação Militar e
Administração.
553
Regulamento para a Escola Militar, 1924. Decreto nº 16.394, de 27 de fevereiro de 1924.
554
Ibidem.
386

profissão, em prol de um Exército que se pretendia tecnicamente renovado e eficiente. A


pouca didática e a falta de domínio das técnicas de ensino de alguns eram compensadas pelo
senso de dever a cumprir, resultando em um trabalho bastante aceitável. Auxiliava-os na
instrução as inúmeras publicações técnicas de origem francesa, já existentes à época, que
expunham com objetividade todos os aspectos da instrução individual e das pequenas
unidades, no âmbito do combate e do serviço em campanha. (MOTTA, 2001, p. 275-276)
Passado um ano da implementação da reforma de 1924, o ministro Setembrino de
Carvalho, em seu relatório, apontava que era possível se perceber “os magníficos resultados
que já vem colhendo [a reforma de 1924] na Escola Militar, com relação ao preparo técnico-
profissional dos futuros oficiais” (RELATÓRIO DO MINISTÉRIO DA GUERRA, 1925, p.
6). O ex-presidente Ernesto Geisel foi aluno da Escola Militar entre os anos de 1925 e 1927.
Na série de entrevistas que concedeu à Maria Celina D’Araújo e Celso Castro no CPDOC
FGV, entre julho de 1993 e agosto de 1994, no contexto do projeto “1964 e o regime militar”,
recordou que a Missão Francesa possuía, de fato, uma grande influência na direção do ensino
militar. No entanto, segundo ele, a MMF teve sobre o corpo discente da Escola Militar uma
influência estritamente profissional. Em relação à mentalidade e a orientação política dos
alunos, não teve maior importância. Apesar do amor à carreira, do profissionalismo e da
vontade de serem bons oficiais, todos sofriam a influência política do quadro nacional à
época.
Motta (2001, p. 276) afirma que, apesar do segundo momento do movimento
tenentista, iniciado São Paulo, em 5 de julho de 1924, e da campanha da Coluna Prestes, a
Escola Militar viveu, no período pós-1922, um período de calmaria, não havendo reflexos
desses eventos no quotidiano do estabelecimento de ensino. No entanto, a afirmação do autor
não condiz com a realidade descrita por Geisel, quanto à mentalidade revolucionária dos
alunos que frequentaram o estabelecimento de ensino nesse período. No relato do ex-
presidente é possível se perceber que a atitude de contestação à ordem vigente demonstrada
pelos alunos e oficiais do Realengo durante o movimento tenentista de 1922, que resultou no
desligamento de mais de 600 alunos da Escola Militar,555 se fez sentir, também, fora dos
muros do estabelecimento de ensino nos anos posteriores.

555
Na noite de 4 para 5 de julho de 1922, 683 alunos da Escola Militar do Realengo, liderados por vários
instrutores do estabelecimento de ensino e pelo coronel João Maria Xavier de Brito, comandante da Fábrica de
Cartuchos do Realengo, sublevaram-se contra o governo e em apoio ao movimento do Forte de Copacabana. O
levante foi contido pelas tropas legalistas ainda no dia 5 de julho. Como resultado, 616 alunos foram desligados
e 2 morreram no confronto com mas tropas do governo. (ROESLER, 2015, p. 137-143)
387

Aluno do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) no ano de 1922, Geisel lembra que
os alunos do CMPA haviam sido contaminados pelos “ideais de 1922”, devido ao contato que
tiveram com os ex-alunos que haviam sido desligados do Realengo e que regressaram para
Porto Alegre. As conversas com esses colegas mais velhos, que os colocavam a par dos
acontecimentos políticos da Capital Federal, e o interesse pelos movimentos dos anos
posteriores, como a Revolução Federalista de 1923, o levante tenentista de 1924, em São
Paulo, e a marcha da Coluna Prestes, contribuíram na formação de uma mentalidade
revolucionária nos alunos do Colégio Militar, com a qual já adentravam na Escola Militar.
Durante a formação no Realengo, era comum lerem os jornais da Capital Federal e os
discursos da Câmara e do Senado, não por influência dos professores, mas, dos colegas mais
velhos, das turmas mais avançadas. Assim, a grande maioria dos alunos se contaminavam
com o espírito revolucionário e, com ele, saíam da Escola Militar.
Em 1929, com o País sob a administração de Washington Luís, a Escola Militar
ganhou uma nova regulamentação556. Entretanto, antes que esta viesse, um ato legislativo557
passou a regular as regras e os aspectos gerais do ensino militar, a partir de 1928. O estatuto
classificava o ensino militar em níveis e categorias e definia os direitos e deveres dos alunos
das escolas militares. À Escola Militar competia, exclusivamente, a formação dos oficiais
combatentes do Exército. Ela estava enquadrada em um conjunto de doze escolas, dentre as
quais figuravam a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, a Escola de Estado-Maior, a Escola
de Engenharia Militar e a Escola de Aviação. Esses institutos de ensino estavam divididos de
acordo com a formação a ser seguida pelo oficial ao longo da carreira, já que o decreto
legislativo previa que a instrução militar deveria ser “gradual e continua e tão completa
quanto possível”558. Assim como o regulamento de 1924, procurava o equilíbrio entre o
ensino profissional e científico, ao prever que o plano geral de ensino deveria atender, em
cada grau de formação, “não só a instrução profissional como a cultura geral que lhe deva
corresponder”559. O decreto previa, ainda, que as escolas, os estabelecimentos e as repartições
de ensino militar deveriam proceder a uma revisão dos seus regulamentos, com o intuito de a
ela se adequarem.
Motta (2001, p. 278) aponta que a reestruturação de 1929 foi “uma reforma que nada
reformou”, pois, a grande maioria dos seus artigos repetiam o texto de 1924. De novidades,
apenas duas: a mudança da duração do curso de formação comum, que passou a ser de um

556
Decreto nº 18.713, de 25 de abril de 1929.
557
Decreto nº 5.632, de 31 de dezembro de 1928.
558
Ibidem.
559
Ibidem.
388

ano, aumentando a formação nas Armas para dois anos; e a criação do cargo de Diretor do
Ensino Militar, que deveria ser ocupado por um oficial estrangeiro, ou seja, um oficial
francês, com funções de orientar, planejar, coordenar e controlar o ensino militar. Quanto ao
currículo e às diretrizes de ensino, nada foi mudado.
Foi o regulamento de 1929 que vigorou durante todo o comando de José Pessoa 560.
Entretanto, segundo Motta (2001, p. 282), o currículo e o programa de ensino da Escola
Militar não foram as grandes preocupações de Pessoa. Para o autor, todas as ações de Pessoa
dirigiram-se nitidamente para a maneira do aluno viver e para a criação de um ambiente
indispensável aos estímulos educacionais adequados à formação militar. Suas ideias
valorizaram sobremaneira o regime escolar e o valor que ele teria para a fixação, pelos alunos,
das atitudes e dos interesses psicológicos apropriados e necessários ao futuro oficial. Para
isso, antes mesmo de assumir o comando, já havia recebido carta branca do ministro Leite de
Castro para implementar as reformas que fossem necessárias na Escola, o que se deu por meio
de um aviso ministerial561, que o autorizava a “baixar instruções internas para o bom
funcionamento da instrução, da administração e da disciplina, bem como outras de caráter
geral”562. Com a competência funcional ampliada, José Pessoa dispôs de recurso financeiros
para construir, ampliar e mobiliar o estabelecimento de ensino, impressionando a todos como
administrador e reformador.
Ao se realizar uma análise dos dois capítulos que José Pessoa dedica ao comando da
Escola Militar, em sua autobiografia, percebe-se que, de fato, a parte didática do ensino
(currículos, programas de ensino, métodos e processos didáticos) não foi merecedora de sua
grande atenção, ao menos nos anos iniciais do comando, certamente pelo esforço
empreendido nas reformas estruturais da Escola, que se arrastaram por cerca de dois anos, e
pela preocupação com o soerguimento da imagem do cadete perante a sociedade. Como
aponta Motta (2001, p. 288), Pessoa tratou de cuidar, primeiramente, daquilo que lhe parecia
mais importante: a mística, as novas instalações e ampliações do quartel e a mudança para
Resende.
As mudanças no ensino teórico foram implementadas no último ano e meio do
comando de Pessoa. Dentre elas estava a criação, em 1933, de novas disciplinas, voltadas ao
estudo da geografia militar563 e do emprego das armas e da tática564. Às vésperas da sua

560
A Escola conheceria um novo regulamento para o ensino militar em 1934.
561
Aviso nº 1, de 2 de janeiro de 1931, do ministro da Guerra Leite de Castro.
562
Ibidem.
563
Decreto nº 22.704, de 11 de maio de 1933, estabeleceu o funcionamento da disciplina Geografia Militar.
389

exoneração, o Regulamento da Escola Militar de 1934 foi assinado, já tendo à frente da pasta
da Guerra o general Góes Monteiro. A mudança mais significativa, em relação ao
regulamento anterior, estava na ampliação do tempo formação do oficial, que passava de três
para quatro anos, para todas as Armas. A medida, segundo Pessoa, visava “aumentar o ensino
militar, fundindo a experiência da Escola às necessidades da vida profissional”565. Além disso,
pretendia-se “poupar a saúde e a energia dos rapazes, sobrecarregados com três anos
apertadíssimos de estudos”566. Sem implicar grandes mudanças curriculares, a ampliação do
tempo de curso permitiu o surgimento, no ensino fundamental, de algumas novidades, como
os estudos de Sociologia e de Economia Política. Motta (2001, p. 291) lembra que os estudos
sociológicos e de economia já haviam feito parte do currículo da Praia Vermelha. Para o autor
o retorno nas disciplinas ao currículo, em 1934, não passava de um modismo, uma vez que, na
esteira dos acontecimentos mundiais e ao sopro da inquietude intelectual que invadiu a Nação
com a Revolução de 1930, todo mundo passou a interessar-se pelos estudos sociais em suas
diversas modalidades.
O mérito nos estudos e o valor moral passaram a ser recompensados. O novo
regulamento instituiu a medalha Caxias, que seria oferecida ao cadete mais distinto, dentre os
primeiros colocados de cada Arma, após a conclusão dos exames finais do 4º Ano e antes da
declaração de aspirantes. O cadete mais bem classificado na instrução militar recebia, como
prêmio, uma espada. O cadete mais distinto ainda teria o seu retrato posto na galeria de honra
da Escola.567
A escolha do cadete mais distinto era feita por um “conselho julgador”, formado pelo
comandante da Escola, pelo fiscal administrativo, pelo diretor de ensino e pelos instrutores
das Armas. O julgamento, na verdade, se constituía em um “minucioso exame dos valores
comparativos” de todos os candidatos, onde eram avaliados não somente o desempenho
intelectual, mas, também, os atributos físicos, profissionais e morais dos cadetes. 568 Cabe
ressaltar que a concessão da medalha Caxias ao cadete mais distinto de cada turma de oficiais
formada existe até hoje, na Academia Militar das Agulhas Negras, seguindo-se os mesmos
critérios estipulados por José Pessoa.
O regulamento previa, inclusive, a prática do estudo obrigatório, às sextas-feiras,
como forma de preparação para as sabatinas. Para isso, com a ampla reforma feita na Escola,

564
Decreto nº 22.609, de 4 de abril de 1933, desdobrou o ensino de Tática em dois, um para a tática da Arma a
que se destinasse o cadete e outro para o estudo da organização e da tática das demais Armas.
565
Albuquerque, 1953, Pasta III, p. 27.
566
Ibidem.
567
Decreto nº 23.994, de 13 de março de 1934.
568
Ibidem.
390

anos antes, os cadetes podiam contar, como lembra José Pessoa, com “salas arejadas,
iluminadas e aparelhadas, com copioso material escolar, pedagógico e científico”. No entanto,
o general Umberto Peregrino, que também fora cadete à época de Pessoa, lembra que as
reformas estruturais realizadas no estabelecimento de ensino já vinham, antes mesmo de
1934, favorecendo o estudo dos cadetes. Para isso, além das salas de aula, valiam-se
amplamente da biblioteca, que passou a ser um local bastante frequentado para tal prática, até
mesmo pelo grande acervo bibliográfico e documental que passou a dispor:

... os cadetes passaram a ter condições de recorrer a fontes abertas, a fontes ricas, a
fontes que lhes dessem possibilidade de enriquecer suas vocações. É bem verdade
que isto só deveria atingir os cadetes mais capazes; mais ambiciosos do ponto de
vista do saber, do aprendizado. Mas, de qualquer maneira, foi uma abertura dele
[José Pessoa]. Antes, nós não tínhamos essa possibilidade; nem que quiséssemos.
(PEREGRINO, 1984 apud CÂMARA, 2011, p. 133)

Uma das mudanças mais lembradas pelos ex-cadetes do Realengo do início da década
de 1930, foi a “extinção” do temido carro de fogo, assim chamado os exames de habilitação
que ocorriam no meio do ano (geralmente em julho) e que versavam sobre parte das matérias
teóricas que já haviam sido dadas. Era considerado o terror da “bicharada” 569. O Regulamento
de 1929 previa que os alunos que não fossem aprovados nesses exames eram desligados da
Escola Militar. O regulamento previa, ainda, que todo aluno desligado antes da conclusão dos
três anos de curso, quaisquer que fossem os motivos, deveria se apresentar ao Departamento
da Guerra, para cumprir mais um ano de serviço em uma unidade de tropa e, desse modo, ter
direito à carteira de reservista. O Regulamento de 1934, do qual José Pessoa foi o grande
idealizador, não extinguiu o desligamento em função dos exames de habilitação, que não
deixaram de existir. Porém, não necessitava mais o ex-aluno cumprir o tempo de serviço na
tropa, obrigatoriedade mantida somente para os casos de desligamento por motivo disciplinar.
Acredita-se, ainda, que as referências à extinção do carro de fogo ocorreram muito em
função das mudanças que Pessoa implementou na área do ensino e que, segundo ele, teriam
contribuído para o melhor desempenho dos cadetes nas disciplinas do ensino fundamental,
que viram o seu rendimento elevado de 43% para 84%: seleção mais adequada de matérias,
acabando com os programas enciclopédicos que intimidavam tanto professores como alunos;
melhor ajuste dos horários de aula; instituição do estudo obrigatório; reformas das salas de
aula; e melhoria do material didático, que tornou-se mais pedagógico e científico.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 28)

569
No jargão das escolas militares os alunos do 1º ano.
391

Apesar de todo o esforço despendido por Pessoa, o regulamento de 1934 não durou.
Aliás, como lembra Motta (2001, p. 292), nem chegou a ser aplicado em toda a sua totalidade.
Referendada por Góes Monteiro, a nova reforma não vingaria com a saída do ministro da
pasta da Guerra, em 1935. O novo ministro, general João Gomes Ribeiro Filho, militar averso
a inovações e mudanças, assim que assumiu a função, tratou logo de mandar suspender a
execução do regulamento de 1934, fazendo retornar as medidas adotadas em 1929570. Voltava,
assim, o curso da Escola Militar a ter três anos, bem como ficavam suprimidos do currículo
teórico as disciplinas Sociologia e Economia. Grosso modo, repetia-se o que estava previsto
em 1929 e, por consequência, a reforma de 1924.
Motta (2001, p. 292) aponta que, entre 1934 e 1940, ano em que a Escola Militar
ganharia um novo regulamento, as questões de ensino passaram a ser resolvidos através de
meros documentos ministeriais, em uma clara manifestação de anarquia legislativa. A própria
competência atribuída ao comandante sobre qual regulamento utilizar fazia a Escola viver sob
um regime ambíguo, o que chegou a gerar críticas por parte da imprensa, como uma nota
publicada no Correio da Manhã, em outubro de 1935, a respeito do ensino militar.

Na Escola Militar, o regulamento muda a cada ano; e, como também a cada ano
mudam os comandos e a direção de ensino, a Escola cai na balbúrdia. Não há um
regulamento: há regulamentos em vigor, e para cada regulamento há interpretações.
Preferível seria que se conservasse e se cumprisse um único regulamento, embora,
com algumas interpretações.571

Quanto ao ensino profissional, no esforço que empreendeu para a sua adequação aos
novos tempos da Escola Militar, José Pessoa cercou-se do apoio do oficial francês diretor do
ensino militar, tenente-coronel Paul Langlet, designado em janeiro de 1930 para a função572.
Assessoravam Pessoa na instrução dos cadetes, ainda, alguns oficiais que marcariam seus
nomes na história do Exército, como o major Mário Travassos, os capitães Humberto Alencar
de Castello Branco573 e Dulcídio do Espírito Santo Cardoso e os tenentes Augusto de Castro
Moniz de Aragão, Breno Borges Fortes, Paulo Enéas da Silva e Amílcar Dutra de Menezes.
(CÂMARA, 2001, p. 122; PEDROSO, 1969, p. 11-13)

570
Decreto nº 192, de 20 de junho de 1935.
571
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 18 out. 1935, p. 4.
572
Bellintani (2009, p. 451).
573
Em 1931 Castello Branco havia terminado o curso de Estado-Maior. O fato de ter concluído o curso em
primeiro lugar lhe valeu uma indicação para servir junto à Missão Militar Francesa. A primeira função que
exerceu, nessa condição, foi o de adjunto do diretor de ensino da Escola Militar, o tenente-coronel Paul Langlet.
(KORNIS, s.d.)
392

Na instrução militar, a Escola desde 1924 vinha recebendo o apoio da Missão Militar
Francesa.574 Como destaca Câmara (2011, p. 127), Langlet publicou várias das conferências
que ministrou na Escola sob o patrocínio da administração do estabelecimento, com o título
Prática das Armas. A presença do oficial francês na direção de ensino militar, segundo o
autor, colaborou em grande medida para o êxito do esforço de modernização dos métodos de
instrução militar, de organização estrutural do ensino profissional e de aprimoramento do
trabalho de comando, com a utilização pioneira dos temas táticos, que os franceses já vinham
aplicando há mais tempo nas outras escolas do Exército. Também foi importante na
montagem de exercícios no terreno e na criação dos estudos de emprego tático das Armas.
Como bem lembra Câmara (2001, p. 127), não existem muitas referências sobre o
trabalho da Missão Militar Francesa na Escola Militar do Realengo, o que dificulta uma
apreciação aprofundada da atuação dos oficiais franceses no estabelecimento de ensino.
Entretanto, o autor destaca que não há como negar a influência marcante que esses instrutores
tiveram na assessoria ao comando no ensino profissional, particularmente em relação à chefia
das pequenas frações. No boletim escolar de 21 de novembro de 1931, José Pessoa mandou
publicar uma referência elogiosa à participação dos instrutores da Escola Militar em um
exercício no terreno realizado no campo de Gericinó, em conjunto com unidades militares da
Vila Militar, que contou com a supervisão dos oficiais franceses.

Em obediência a um programa de trabalhos organizado pela Missão Militar


Francesa, e no qual tomaram parte a Escola Militar, elementos do 2º RI [Regimento
de Infantaria], e uma bateria do 1º RAM [Regimento de Artilharia Montada],
realizou-se no dia 17 uma demonstração para as escolas militares, desta Capital, nos
terrenos do Campo de Instrução do Gericinó, solucionando um tem tema proposto,
com que se rematou a instrução de conjunto do presente ano letivo.
Do Exmo. Sr. Chefe do Governo Provisório, que se fazia então acompanhar do
Exmo. Sr. general ministro da Guerra, chefe do Estado-Maior do Exército e chefe da
Missão Militar Francesa, além de muitos oficiais, teve este comando oportunidade
de ouvir as melhores referências à maneira por que a Escola se comportou,
revelando-se plenamente instruída, com perfeito conhecimento dos detalhes
profissionais próprios a cada um e completa apreensão das suas funções e dos seus
deveres.575

Sodré (1967, p. 61) recorda que José Pessoa encarregou-se pessoalmente de selecionar
a oficialidade que iria servir na Escola Militar, conseguindo, inclusive, que a maioria tivesse o
curso de Estado-Maior. Quanto aos instrutores da Missão Francesa, aponta a grande
resistência que esses oficiais encontraram para o exercício de suas funções. Essa resistência,
574
Bellintani (2009, p. 450) aponta que, após a revolução de 1930, os franceses ficaram receosos de que o Brasil
não renovasse o contrato da Missão Militar, já que se instalara no País um tendencia xenófoba e a situação
financeira brasileira era difícil. Porém, a MMF permaneceu, porém com um número mais reduzido de
instrutores.
575
Boletim Escolar da Escola Militar do Realengo, 21 nov. 1931, p. 1674.
393

segundo o autor, estava vinculada à turbulência política da época, pontilhada de levantes


militares, e, principalmente, à aversão dos oficiais mais antigos ao contato com o estudo:

Aquela oficialidade habituara-se a uma rotina enfadonha, quase ociosidade. Tinha,


por outro lado, serviços prestados nas campanhas internas, algumas difíceis, como a
de Canudos e do Contestado, serviços que não podiam ser desmerecidos. Para ela,
não existia arte da guerra, a luta armada era uma questão de disciplina e de bravura,
apenas. O que se pretendesse, além disso, era supérfluo, senão nocivo. O estudo
pertencia aos paisanos, como o conforto. (SODRÉ, 1967, p. 61-62)

Os poucos oficiais mais antigos que tinham gosto pelo estudo, eram vistos como maus
militares. Alguns generais sequer haviam cursado alguma escola militar. Esses militares não
compreendiam que havia a necessidade de receber ensinamentos, de serem aperfeiçoados.
Sentiam-se humilhados por terem que se sentar, novamente, em bancos escolares. Devido a
isso, não enxergavam a Missão Francesa com bons olhos, apesar da alta capacidade
profissional que os instrutores franceses possuíam, adquirida, em grande parte, nos campos de
batalha da Primeira Guerra Mundial. (SODRÉ, 1967, p. 62)
A resistência aos ensinamentos da MMF foi menor entre os oficiais mais jovens, de
postos mais baixos. Foram os tenentes e capitães que constituíram as primeiras turmas dos
cursos de Aperfeiçoamento e de Estado-Maior sob a orientação dos instrutores franceses.
Esses oficiais, ainda que em pouco número, faziam questão de ostentar em seus uniformes o
símbolo adotado para o curso de Estado-Maior. Representavam os escolhidos, os melhores, o
que despertava a inveja dos demais. Com isso, a situação foi se modificando. Se os primeiros
oficiais que frequentaram a Escola de Estado-Maior foram “caçados a laço”, nos anos que se
seguiram, coube a esses mesmos oficiais traçar as regras do jogo. Daí por diante, trataram de
impor as maiores dificuldades para os demais, que também desejavam realizar aquele curso,
que proporcionava diversas vantagens e que conferia tanta distinção dentro do Exército. Nesse
contexto, Nelson Werneck Sodré lembra que, quando ingressou na Escola Militar, essa
transformação estava em andamento. Desejoso em ter sob o seu comando os melhores
profissionais, José Pessoa havia recrutado quase todos os oficiais instrutores no grupo que
possuía o curso de Estado-Maior, particularmente os tenentes e capitães. (SODRÉ, 1967, p.
62-63)
Cabe aqui um parêntese para considerar que o próprio José Pessoa realizou o curso de
Estado-Maior tardiamente, já no posto de coronel. Como já indicado, havia realizado a prova
para admissão no ano anterior à revolução de 1930, não tendo sido a sua matrícula aceita pelo
chefe do Estado-Maior do Exército, como mandava o regulamento da época. No entanto,
como consta em sua fé de ofício, em 9 de março de 1932 teve o seu requerimento à matrícula
394

na Escola de Estado-Maior deferida pelo ministro da Guerra. Em 2 de abril do mesmo ano foi
passado à disposição do EME para realizar o curso, devendo continuar no exercício de sua
função de comandante da Escola Militar. Pessoa foi inicialmente matriculado no curso de
categoria B, previsto para oficiais superiores e com a duração de dois anos. Entretanto, cinco
dias após a matrícula, por ordem do ministro da Guerra, José Pessoa foi reclassificado na
categoria D, um artifício previsto no regulamento de 1929 da Escola de Estado-Maior576, que
previa o funcionamento de um curso com a duração de cerca de um ano, específico para os
coronéis que haviam sido promovidos até o dia 1º de janeiro de 1929. À luz do regulamento,
Pessoa não poderia ser enquadrado por esse dispositivo, já que sua promoção a coronel
ocorreu em 29 de agosto daquele ano. Somente o realizou devido à interferência do ministro
Leite de Castro. Em 27 de janeiro de 1933, José Pessoa concluiu o curso de Estado-Maior,
com grau 5,32 (de um máximo de 10,0), sendo elogiado pelo comando da Escola pelas
“demonstrações de aprimorada educação e dotes intelectuais de que deu prova”. (FÉ DE
OFÍCIO DO MARECHAL JOSÉ PESSOA, 2016)
O aperfeiçoamento do ensino profissional passou, necessariamente, por dotar as
Armas com o que havia de mais moderno em termos de equipamentos para a instrução
militar. José Pessoa relata em sua autobiografia o esforço empreendido para que os cadetes
fossem formados da maneira adequada.
O batalhão de Infantaria, que enquadrava os cadetes dessa Arma, recebeu o que havia
de melhor em material de tiro. Foram adquiridos armamento ordinário e automático novo e
completo, o que permitiu executar integralmente o tiro de instrução das armas portáteis,
conforme previsto em regulamento. Um esforço também passou a ser feito para que o curso
de Infantaria fosse dotado de uma seção de carros de combate e de morteiros Brandt, a última
novidade para os infantes brasileiros.577
A Artilharia foi dotada de material moderno. Foram recebidos goniômetros-bússola e
abundante material topográfico. Quanto à mobilidade das armas de artilharia, foram
adquiridas atrelagens de cavalos de raças apropriadas para a tração dos canhões Krupp.
Também era aguardado o recebimento de seções de artilharia de calibres orgânicos das
divisões de Infantaria, o que permitiria aproximar a instrução da realidade da tropa.578
A Engenharia passou a dispor de material de equipagem de ponte, que passaram a ser
construídos nas oficinas da própria Escola. Seções de sapadores mineiros foram equipadas

576
Decreto nº 19.022, de 5 de dezembro de 1929.
577
Albuquerque, 1953, Pasta III, p. 29.
578
Ibidem.
395

para a instrução de minas e equipamentos necessários para o ensino e a prática das


transmissões foram adquiridos, já que, à época, não existia, ainda, a arma de Comunicações e
as transmissões no campo de batalha era uma atribuição dos engenheiros.579
Em relação à Cavalaria, arma de José Pessoa, esta era dotada de cavalos de meio-
sangue selecionados para o treinamento militar. Os desportos equestres e o adestramento eram
feitos sob a supervisão dos oficiais do Departamento de Equitação, especializados na Escola
de Equitação do Exército. Apesar do caráter imparcial com que tratava todas as armas, era
inegável, segundo Câmara (2011, p. 129), uma presença mais atuante de Pessoa junto aos
cadetes de Cavalaria. Um exemplo era a atividade de instrução de “caça à raposa”, na qual o
comandante era presença constante, sendo o diretor da caçada durante todos os anos do seu
comando. Um cavaleiro, logicamente um cadete, com um laço amarrado ao braço
representava a raposa e os demais cavaleiros deveriam alcançá-lo, representando a caçada. A
presença de Pessoa nas atividades da arma, como aponta o autor, estimulou muitos cadetes
nordestinos a disputarem vaga com a clientela tradicional da Cavalaria: os gaúchos. A
tradição da “caça à raposa” persiste ainda hoje entre os cadetes cavalarianos.
A intensidade do ensino profissional levava, muitas vezes, os cadetes à fadiga física, o
que causava algum impacto no aprendizado das disciplinas do ensino teórico. Como relata
Sodré (1967, p. 63), o curso da Escola Militar exigia fundamentalmente esforço físico. Na
rotina escolar, a parte da manhã era dedicada inteiramente aos exercícios práticos do ensino
militar, enquanto a parte da tarde era voltada às aulas teóricas. Segundo o autor, o obstáculo
principal aos estudos teóricos não era a quantidade ou a qualidade dos conteúdos ministrados,
mas o cansaço que a parte prática impunha aos cadetes. Não havia como assimilar as lições
ensinadas em sala de aula enquanto o corpo se ressentia dos esforços físicos. A exaustão a que
os cadetes eram levados chegou a ganhar as páginas da imprensa carioca, sob o título
“Exercícios excessivos”. Ao mesmo tempo em que o jornal reconheceu as mudanças positivas
implementadas por Pessoa, pediu que o comandante “minorasse” as dificuldades dos jovens
cadetes, o que, obviamente, não aconteceu:

Todos quantos conhecem a nossa Escola de Guerra são unânimes em proclamar as


excelências da administração do general José Pessoa. A transformação por ele
operada., nesse estabelecimento é completa, denunciando-se a cada passo. Têm os
rapazes agora boa e abundante alimentação, fardamento bem confeccionado e
distribuído com regularidade, ótimo serviço de saúde. O nível moral é elevado. E os
cadetes dispõem de luxuoso e confortável cassino. Ninguém defende seus
comandados com maior ardor, nem lhes pugna pelos interesses com igual energia.
Mas, há um ponto digno de reparos, na nova orientação desse estabelecimento: - o
excesso de exercícios. Há evidente exageros, nas marchas demasiadamente longas

579
Ibidem.
396

sobre terrenos acidentados e alagadiços a que os rapazes são continuamente sujeitos.


Exige-se, ainda, mais o equipamento completo, tornando-as excessivas penosas. Ai
daquele que se confessa exausto: é tido como incapaz para a carreira... Tão
demasiados são esses exercícios, que os cadetes se queixam de falta absoluta de
tempo para o mais rudimentar estudo das disciplinas teóricas a que são obrigados.
O general José Pessoa há de considerar os reparos que fazemos e verificar que está
exigindo demais... Depois de longas caminhadas, com equipamento completo,
saltando pedras, pulando riachos e atravessando atoleiros, não há espírito capaz de
repassar materiais que demandam estudo calmo e refletido. E na Escola Militar esse
fato é comum, atualmente, trivial...
Amigo dos seus comandados, como ele é, não deixará de tomar todas as
providências precisas para minorar essas dificuldades, pelo menos no fim do ano,
vésperas de exame...580

Esses esforços, como lembra Sodré, eram muitas vezes monótonos, principalmente os
que diziam respeito às práticas militares do primeiro ano, cuja instrução básica muito se
assemelhava à da Infantaria, nas quais tudo era um pretexto para se realizar longas marchas,
até mesmo as instruções mais simples, como desmontar um fuzil ou cavar uma trincheira.
Marchava-se longas horas para locais distantes da Escola, para se aprender o que poderia ser
ensinado nos pátios da Escola. Já nos anos seguintes, após os cadetes escolherem para quais
armas iriam, a instrução militar ganhava novos ares e, em alguns casos, era fácil se perceber,
na prática, a importância da pretensão cientificista do ensino teórico. Nas instruções de
Artilharia, por exemplo, ficava evidente a necessidade do emprego da Geometria e da
Topografia para resolver problemas de pontaria dos canhões. (SODRÉ, 1967, p. 63 e 74)
Aliás, a escolha das armas era feita pelo mérito, conforme a classificação dos cadetes
no primeiro ano, o que é feito até os dias de hoje, na Academia Militar das Agulhas Negras.
Conforme relata Sodré (1967, p. 68), a Artilharia e a Engenharia arrebanhavam os melhores
alunos, que, naturalmente iriam ser, mais tarde, os melhores oficiais. Os demais iam para a
Infantaria e a Cavalaria, sendo esta o reduto dos cadetes gaúchos. Já a Engenharia sofria um
certo preconceito, por se aproximar muito do curso correspondente de uma universidade civil.
Na visão dos cadetes, os engenheiros se assemelhavam a paisanos fardados. Um preconceito
que se estendia, também, à Artilharia, considerada uma espécie de elite do Exército, devido às
suas bases curriculares científicas. Entretanto, era certo que ambas as armas conservavam o
seu traço militar, ainda que na Engenharia isso se desse com menor intensidade.
Diferentemente do ensino universitário, no ensino militar a proximidade dos cadetes
com os oficiais instrutores era maior, já que estavam em contato permanente, do clarear do dia
ao anoitecer. Os instrutores conheciam os cadetes a seu cargo e ao longo do ano, fruto das
anotações e das arguições constantes, iam formando juízo de cada instruendo. Tudo isso

580
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 17 out. 1933, p. 4.
397

resultava em um conceito, que era expresso em um grau que entrava com grande peso na
conta do ano do cadete e, consequentemente, impactava de forma significativa na
classificação final do curso. (SODRÉ, 1967, p. 71)
Antes de serem realizadas as manobras militares de fim de ano, o que consolidava o
ano de instrução, José Pessoa teve a oportunidade de apresentar a Escola Militar da nova
República a um chefe de estado estrangeiro. No início do mês de outubro de 1933, o
presidente da República da Argentina, general Agustín Justo, visitou a Capital Federal. Na
programação preparada para a autoridade constava uma visita ao estabelecimento de ensino
militar brasileiro, no dia 11 de outubro, a qual Pessoa fez questão de destacar em sua
autobiografia. Justo havia comandado o Colégio Militar de San Martin, escola militar
responsável pela formação dos oficiais do exército argentino, o que tornava especial a sua
passagem pela Escola do Realengo.
A Escola Militar engalanou-se para receber o presidente argentino, tido por Pessoa
como um conhecedor inato da psicologia humana e dos pendores das multidões, o que o fazia
um “verdadeiro condutor de homens”. Imensas bandeiras do Brasil e da Argentina, com 15
metros de altura, cobriam a fachada principal do edifício da Escola. O hall da escadaria
principal, o salão nobre e as demais dependências do edifício foram ornadas com flores
naturais, o que lhe conferia um “magnífico aspecto”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p.
73)

Imagem 73 – Fachada da Escola Militar enfeitada com as bandeiras da Argentina e do Brasil para a visita de
general Justo, 11 out. 1933.

Fonte: Hemeroteca da Biblioteca Nacional. Revista da Semana, 21 out. 1933.


398

Conforme noticiaram os principais jornais do Rio de Janeiro, um grande número de


populares acorreu à entrada da Escola Militar, para acompanhar a visita da autoridade
argentina. Também estiveram presentes ministros de Estado, autoridades militares e civis,
generais da guarnição da Capital Federal e famílias da alta sociedade carioca.581
Às 9:30 o general Justo, acompanhado da esposa, chegou ao Realengo escoltado pelos
cadetes do curso de Cavalaria da Escola Militar. No portão do estabelecimento de ensino
aguardava-o o chefe do Governo Provisório, Getúlio Vargas, que chegara meia hora antes, e
José Pessoa. À frente da Escola encontrava-se perfilado o Corpo de Cadetes, que trajava o
uniforme de gala. Enquanto a banda de música tocava o hino argentino, a bateria de
Artilharia, guarnecida pelos cadetes daquele curso, executava uma salva de 21 tiros.582
Após as honras de gala, o presidente argentino e o chefe do Governo Provisório
brasileiro passaram em revista ao Corpo de Cadetes. Logo em seguida, se dirigiram ao
palanque de honra, de onde assistiram ao desfile dos mais de 700 cadetes que se encontravam
em forma, sob o comando do major Henrique Pereira. A programação prosseguiu com a visita
do general Justo e comitiva às dependências da Escola Militar, onde recebeu a apresentação
do corpo docente. No cassino dos cadetes, José Pessoa fez a entrega ao chefe de estado
argentino de uma tela pintada à óleo, em tamanho natural, do marechal Osório, uma oferta dos
cadetes brasileiros aos cadetes da escola militar argentina, em retribuição, como destacou
Pessoa em seu discurso, à oferta que a escola militar brasileira recebera anos antes, de uma
réplica da espada do general argentino San Martín. Os periódicos que cobriram o evento não
deixaram de ressaltar, em detalhes, a beleza do quadro: “emoldurada de finíssimo caixilho de
madeiras nacionais, em estilo marajoara, com a dedicatória ‘Ao Colégio Militar Argentino,
homenagem da Escola Militar do Brasil’”. Para Pessoa, a entrega de uma imagem do Marques
de Herval revestia-se de um grande poder simbólico: Osório possuía a dupla cidadania,
brasileira e argentina, em função da sua luta em defesa dos pavilhões das duas nascentes
democracias, o que inspiraria a união dos cadetes brasileiros e argentinos, em uma cadeia
imperecível de harmonia e fraternidade.583

581
Correio da Manhã, Rio de janeiro, 12 out. 1933, p. 3; Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 12 out. 1933, p. 7;
Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 12 out. 1933, p. 3.
582
Ibidem.
583
Ibidem.
399

Imagem 74 – Quadro de Osório ofertado por José Pessoa aos cadetes argentinos, por ocasião da visita do general
Justo, 11 out. 1933 (na fileira da esquerda, do fundo para frente – 1º) José Pessoa, 2º) general Justo, 3º) Getúlio
Vargas).

Fonte: Hemeroteca da Biblioteca Nacional. Revista da Semana, 21 out. 1933.

Antes do término da visita, já por volta de 11:00, uma corbélia de flores foi oferecida
pelos cadetes à esposa do presidente argentino, Sra. Anna Bernal de Justo, que, durante toda a
visita, foi acompanhada pela esposa de José Pessoa, Sra. Mary Blanche. Segundo José Pessoa,
antes de se retirar, o general Justo teria assim se manifestado:

Levo da sua Escola recordações imperecíveis, mas, três outras coisas ficarão, sem
dúvida, gravadas na memória para o resto da minha vida. Aqui chegando vi, até
hoje, a maior bandeira da minha pátria; assisti a um programa de festas que me
deixou encantado pela beleza e meticulosidade com que foi realizado; daqui saio
emocionado como jamais me senti em qualquer outra escola durante todo o ciclo da
minha longa carreira militar. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta III, p. 82)

O adestramento anual dos cadetes sempre era concluído com um grande exercício no
terreno. Entre os anos de 1931 e 1934, as regiões habituais para a instrução militar eram os
terrenos de Gericinó, Campo Grande ou Gramacho, como pode ser visto nos boletins
escolares. Entretanto, um exercício marcou o comando de José Pessoa: a manobra de 1933.
Em um grupo de folhas grampeadas, rascunhadas a lápis, anexas à sua autobiografia, Pessoa
tece uma série de considerações a respeito dessa manobra militar, que se desenvolveu na
segunda metade do mês de outubro de 1933, na região das Agulhas Negras, no município de
Resende, no interior do Rio de Janeiro. Nelas, ficam claras a importância dada pelo
comandante ao exercício, quer pelo seu tempo de duração, quer pelo apelo simbólico da
região escolhida.
400

As manobras foram concebidas de modo a dar lugar às operações de um


destacamento em ações ofensivas, de duração de 21 dias584, terminando a última fase
sobre a área do terreno escolhida para assentar as construções do novo
estabelecimento que idealizamos. Deste modo, a Escola teria oportunidade, pela
primeira vez, de se transportar à longínqua região da sua sede, onde o Comando
havia organizado um período de manobras capaz de proporcionar aos cadetes
ensinamentos proveitosos, com seu treinamento no comando das pequenas unidades
das respectivas Armas em marcha, estacionamento e combate.585

Por ora, cabe tratar da sua importância para o ensino profissional, deixando a questão
do simbolismo para a abordagem que será feita sobre a construção da nova Escola Militar, no
próximo capítulo.
No mesmo rascunho feito por José Pessoa, é possível se perceber a dimensão
territorial em que o exercício de desenvolveu, bem como as fases previstas para as operações
e algumas considerações quanto ao local escolhido para a sua realização. Os reconhecimentos
prévios feitos em toda a região justificavam a escolha do terreno para a manobra, que, além de
ser desconhecido pelos executantes, transitava do plano para o muito acidentado, o que
permitiria aos cadetes e oficiais explorarem ao máximo, segundo Pessoa, o desenvolvimento
de suas habilidades técnicas.

Os terrenos escolhidos compreendiam uma extensa faixa ao longo do eixo da


Estrada de Ferro Rio-São Paulo, desde o Realengo até a Estação de Bulhões, e daí
infletindo para a região NE de Resende até a estrada da Vargem Grande [em
Resende-RJ]. Nesse terreno desenvolveram-se propriamente as operações ofensivas,
abrangendo três faixas sucessivas:
a) uma faixa de três quilômetros e meio de comprimento, que avança pela margem
esquerda do Paraíba, desde a região do [ilegível] até o corte do rio Pirapitinga
(terreno plano);
b) uma outra de dois quilômetros de comprimento que vai deste rio até as alturas de
Capucho (terreno mediamente elevado);
c) uma terceira faixa de dois quilômetros e meio que vai das alturas de Capucho até
a estrada da Vargem Grande, balizada pela Estação da EFCB [Estrada de Ferro
Central do Brasil], Caixa D’Água e Fazenda Macuco (terreno muito acidentado).
O relatório do reconhecimento descrevia assim o terreno das operações:
1º- clima ameno, água potável em abundância, presença do [rio] Paraíba, perfeitas
condições de salubridade;
- abundância de recursos materiais e facilidades de comunicações;
- aguadas e bons pastos para os animais.
2º - condições táticas e de instrução:
- terreno em geral coberto, podendo ocultar as vistas aéreas e terrestres;

584
Na verdade, os exercícios realizados no terreno, propriamente ditos, duraram 10 dias. Entre os dias 16 e 20 de
outubro, foram realizados o ensino teórico e os preparativos logísticos para a manobra. No dia 21 de outubro foi
realizado o deslocamento por via férrea para as áreas de estacionamento das Armas. De 22 a 31 de outubro
desenvolveram-se os exercícios de combate. No dia 1 de novembro foi realizado o deslocamento de regresso a
Realengo, também por via férrea. Por fim, entre 2 e 5 de novembro foi concedido um período de repouso para os
cadetes. Boletim Escolar nº 241, de 17/10/1922, p. 1918-1919.
585
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JP vp 1931.05.12.
401

- terreno plano e acidentado, impraticável em alguns trechos, inteiramente


desconhecido dos executantes, permitindo assim tirar-se os ensinamentos inerentes
ao caso especial visado.586

Todo o planejamento e preparação prévia para o exercício, assim como a execução,


foram supervisionadas pela Direção de Ensino Militar da Escola Militar. A influência da
Missão Militar Francesa podia ser vista na apresentação do tema tático, em que constavam a
situação geral e as situações particulares da manobra, as características da região em que os
exercícios de combate se desenvolveriam e as condições de emprego de cada Arma.587
Outro reflexo da Missão Francesa podia ser percebido no extenso Diário de Marchas e
Operações do Destacamento da Escola Militar, produzido durante a manobra de 1933 588. Esse
documento foi inspirado claramente nos journaux de marche589 produzidos pelas grandes
unidades, regimentos e batalhões franceses durante a Primeira Guerra Mundial, e que se
constituíam em verdadeiros diários de todas as ações desenvolvidas pelas unidades militares
em combate. Com uma centena de páginas, o diário da manobra de 1933 abordava
detalhadamente o dia a dia do destacamento de cadetes, desde a sua partida da Estação do
Realengo, em 21 de outubro, até o seu retorno para a Escola Militar. Também mostrava a
complexidade da logística empregada para que a manobra fosse realizada em um local mais
afastado da sede da Escola do que os habituais. A começar pela mobilização dos meios
utilizados, que foram transportados até as áreas de estacionamento590, na região das Agulhas
Negras, em composições férreas cedidas pela Estrada de Ferro Central do Brasil: 888
militares (98 oficiais, 617 cadetes, 25 sargentos e 148 soldados), 301 cavalos, 134 muares e
65 viaturas. Todo o transporte do pessoal e dos trens de combate, tanto na ida como no
retorno à Escola, foi realizado em apenas um dia.

586
Ibidem.
587
Os Boletins Escolares nº 241, 242 e 243, de 17, 18 e 19 de outubro de 1933, publicaram, de maneira
detalhada, todo o planejamento operacional e logístico da manobra. Todas as publicações contavam com as
assinaturas do tenente-coronel Langlet e do capitão Castello Branco, o que atestava a aprovação pela Direção de
Ensino Militar.
588
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JP vp 1931.05.12
589
Jornais de marcha, em tradução livre.
590
A Cavalaria ficou estacionada em Pinheiral, a Artilharia em Volta Redonda e a Infantaria e a Engenharia em
Resende. Diário de Marchas e Operações da Manobra de 1933. Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JP vp
1931.05.12.
402

Imagem 75 – José Pessoa (à esquerda, de capacete mais escuro) acompanha o embarque dos cadetes para a
manobra de 1933, 21 out. 1933.

Fonte: Hemeroteca da Biblioteca Nacional. Revista da Semana, 28 out. 1933.

Imagem 76 – Flagrantes do embarque dos cadetes e dos materiais de campanha para a manobra de 1933, 21 out.
1933.

Fonte: Hemeroteca da Biblioteca Nacional. Revista da Semana, 28 out. 1933.

O documento ainda indicava que 10.169 rações foram fornecidas a todo o pessoal
empregado nos exercícios de combate ao longo da manobra.591 Entre a partida e o retorno ao
Realengo, 10:147$400 (dez milhões, cento e quarenta e sete mil e quatrocentos réis) foram
gastos com: a aquisição de combustível, de material de construção e de gêneros alimentícios;
o pagamento de operários civis; o aluguel de juntas de boi; o pagamento à Santa Casa de

591
O Diário da Manobra de 1933 apontava ainda que 5.454 rações foram fornecidas aos animais empregados.
Além disso, foram distribuídos extraordinariamente: 2.150 cafés com pão, 500 quilos de carne verde, 38.200
gramas de café em pó, 2 sacos de pão, 78 quilos de açúcar e 20 cafés com sanduíches de pão com carne. Acervo
José Pessoa (CPDOC FGV). JP vp 1931.05.12.
403

Misericórdia de Resende, devido ao atendimento de doentes; a compra de cigarros; o conserto


de automóveis; o pagamento de cadetes e praças; a compra de medicamentos; o pagamento de
diárias a hotéis de Resende, que abrigaram os oficiais e cadetes enfermos e os oficiais da
direção da manobra.
Raul Pedroso, que cursava o último ano da Escola Militar, lembra que o deslocamento
para a região dos exercícios aconteceu em um clima de descontração, com “a cadetada alegre,
cantando músicas da época” (PEDROSO, 1969, p. 196). É por meio de suas memórias, que se
pode ter uma ideia de como transcorreu a manobra de 1933:

O plano de manobras compreendia, inicialmente, longas marchas longe do inimigo.


Nós marchávamos 25 a 30 quilômetros por dia, sob sol escaldante e à noitinha,
quando íamos estacionar, desabavam tremendos temporais, precedidos e
acompanhados de relâmpagos e trovões. Muitas vezes aproveitávamos os clarões
dos relâmpagos para batermos as estacas de nossas barracas. [...] Eram marchas
forçadas, com equipamento completo, sol abrasador e depois chuvas torrenciais, de
forma que isto concorria para o cansaço, naturalmente.
........................................................................................................................................
Os árbitros [direção da manobra] que faziam as perguntas, estavam acompanhados
de oficiais da Missão Militar Francesa, com experiência da primeira grande guerra
mundial, de 1914-18. [...] Tivemos oportunidade de observar o funcionamento das
Armas e Serviços se completando para o desenvolvimento e êxito dos combates.
........................................................................................................................................
Nós sabíamos teoricamente, mas, naquelas manobras ficamos com a convicção
perfeita de que, só a ofensiva conduz à vitória e que as Armas se completam e
concorrem a vitória. A cadetada estava muito cansada, mas orgulhosa da sua
resistência física, de sua competência na Arte da Guerra, da sua fibra e sobretudo de
seu valor moral e do valor moral de seus comandantes. (PEDROSO, 1969, p. 196-
197 e 201-202)

Pedroso também narra algumas situações pitorescas pelas quais passaram os cadetes:

Ao atingirmos, certa noite, a região de Bulhões, fomos colhidos por tremendo


temporal. Até os uniformes de reserva se molharam. Foi paga pelo Comando uma
pequena etapa de cachaça por causa do frio, da turma estar muito molhada e para
evitar resfriados. Alguns repetiram a dose, por achar que uma só não evitaria a gripe.
........................................................................................................................................
...o que vale é que as viaturas de abastecimento estão atoladas na retaguarda e
quando fizermos o grande alto, não teremos boia, dizia um cadete. [...] O cadete era
mesmo um forte, física e moralmente. Nada conseguia abater o seu moral ou tirar a
sua constante alegria. Com as viaturas atoladas, nós íamos vivendo de recursos
locais. Certa vez resolvemos a situação “requisitando” um boi que o Gay da Cunha,
como bom gaúcho, carneou. Foi uma festa. Churrasco pra todo mundo e a turma se
debruçou na carne fresca e gostosa. Depois, tudo se normalizou.
Comprávamos tudo o que encontrávamos na estrada. Certa vez, entramos num
sórdido botequim onde estavam cadetes de Cavalaria. Havia um bom estoque de
sardinhas. Foi um banquete. (PEDROSO, 1969, p. 196-197)
404

Imagem 77 – Cadetes durante a manobra de 1933, em Resende, out. 1933.

Fonte: Câmara, 2011.

Os exercícios de 1933 foram um sucesso. Nenhum incidente ou acidente graves, com


pessoal ou material, foram registrados. A manobra serviu para mostrar, sob o ponto de vista
profissional, que os ensinamentos dos franceses, que entraram tardiamente na Escola Militar
pareciam estar, definitivamente, assentados sob bases sólidas. Serviu, também para afirmar
que, sob o comando de José Pessoa, os cadetes haviam desenvolvido as qualidades morais
indispensáveis necessárias ao novo Exército, confirmando, assim, a proposta apresentada por
ele na assunção do comando da Escola:

A formação do oficial brasileiro, em seu primeiro lance na Escola Militar, terá como
base a educação física, como meio a cultura geral científica e como fim a mais
rigorosa preparação profissional. Esse tríplice aspecto resultará das qualidades
morais indispensáveis ao oficialato e que deveis cultivar desde já. A guerra é uma
arte toda de execução e do que o Exército precisa é de oficiais aptos ao serviço,
oficiais robustos, enérgicos, conhecedores da profissão, convictos de sua missão
militar, social e política, como oficiais e verdade.592

Quanto às manifestações culturais na Escola do Realengo, estas eram incentivadas por


José Pessoa e, segundo Câmara (2011, p. 135), concentravam-se na Sociedade Acadêmica
Militar (SAM), agremiação de cadetes existente até os dias atuais na AMAN. Para o general
Tasso Villar de Aquino (apud CÂMARA, 2011, p. 135), ex-cadete do Realengo, a SAM
mereceu uma atenção especial de Pessoa, durante o seu comando. A importância que ganhou
decorreu da consciência que o comandante tinha de ser a agremiação uma fonte de cultura e

592
Boletim Interno nº 13 da Escola Militar do Realengo, de 15 jan. 1931.
405

de, naquele local, poderem os cadetes exercitar o dom da oratória, difundindo as suas ideias, o
que, por vezes, gerava discussões acaloradas. Com Pessoa, a SAM ganhou novas instalações,
recursos e condições de funcionamento regular.
Conforme relata Pedroso (1969, p. 125), em suas memórias, sessões da SAM
ocorreriam às quartas-feiras, logo após o jantar, em uma sala do 1º piso. Vários assuntos e
temas eram postos em discussão, com ou sem importância, e as reuniões eram sempre muito
concorridas e animadas.

A assistência seleta, aplaudia a todos os oradores. [...] Os assuntos tratados na


Acadêmica transbordavam da sala de reuniões e eram comentados nos alojamentos.
Algumas vezes havia discussões acaloradas, veementes, que irradiavam inteligência
e punham em evidência a cultura e os conhecimentos dos cadetes. (PEDROSO,
1969, p. 126)

O autor aponta, também, que todos os anos um cadete do 3º Ano era escolhido para
presidir a Sociedade Acadêmica, o que acontecia por meio de eleição, na qual votavam os
cadetes de todos os anos. Os escolhidos para o cargo sempre eram aqueles considerados mais
cultos, inteligentes, benquistos e de grande valor e gozavam de grande prestígio não só no
Corpo de Cadetes como junto ao comando da Escola. Durante o comando de Pessoa,
desempenharam a função alguns cadetes que ganhariam visibilidade na história do Exército e
da política nacional, como: Golbery do Couto e Silva, Ruy Mostardeiros e Plínio Pitaluga.
A SAM editava A Revista da Escola Militar (REM), que, segundo Sodré (1967, p. 87),
diretor da mesma em 1933, possuía “circulação incerta e periodicidade irregular”. Durante
esta pesquisa, constatou-se que, desde os anos 1920, o periódico tinha uma tiragem anual, o
que perdurou nas décadas subsequentes. Entretanto, a data de publicação era incerta. A partir
de 1951, com a mudança do nome da Escola Militar de Resende para Academia Militar das
Agulhas Negras, a revista passou a chamar-se Revisa Agulhas Negras.
A REM publicava artigos voltados à divulgação dos principais eventos ocorridos na
Escola Militar ao longo do ano de instrução. Também era o veículo em que os cadetes davam
visibilidade aos seus dotes culturais. Diversas eram as publicações de contos, poesias e
considerações a respeito de temas filosóficos, por parte dos cadetes mais “intelectualizados”.
Temas político-ideológicos não tinham vez nas páginas da revista, o que não impedia,
segundo o general Meira Mattos (1984 apud CÂMARA, 2011, p. 137), os alunos mais
politizados de acompanharem e discutirem os problemas econômicos e sociais do País, tendo
como leitura preferida a revista A Defesa Nacional. O general Umberto Peregrino, redator da
revista em 1933, assim definiu os temas publicados na Revista da Escola Militar:
406

...amor, mulher, filosofia, muita filosofia. Um positivismo ainda presente. Os vivos


cada vez mais governados pelos mortos. Mas não se chegava a qualquer conclusão.
Política nunca entrava na pauta. Os próprios movimentos de 1930 e 1932 não foram
discutidos. (PEREGRINO, 1984 apud CÂMARA, 2011, p. 135)

Aliás, foi a partir de 1933, como lembra Sodré (1967, p. 87-89), que a revista passou
por uma reformulação, tanto em relação aos assuntos que vinham sendo publicados em suas
páginas como no seu layout, que passou a apresentar mais fotos das atividades e dos recantos
da Escola e a ter capas mais artística, desenhadas pelo artista plástico Miranda Júnior593. Os
temas predominantemente militares perderam espaço e o periódico tornou-se mais literário, o
que permitiu, segundo o autor, levar aos cadetes uma visão para fora dos muros da Escola. Os
mestres e personalidades militares passaram a ser homenageados. As matérias puramente
doutrinárias foram substituídas pelos temas profissionais, profundamente ilustrados.
Pretendia-se, dessa forma, que cada cadete guardasse a revista como lembrança de uma fase
da carreira que todos apreciariam recordar. As iniciativas tomadas por Werneck Sodré e seu
grupo de redatores foram amplamente apoiadas por José Pessoa, que, inclusive, aumentou o
aporte financeiro à edição da revista. No entanto, uma ressalva foi feita pelo comandante: que
secassem as publicações das caricaturas de mau gosto de oficiais e cadetes da Escola, bastante
comuns nas edições dos anos 1920, consideradas por Pessoa profundamente desrespeitosas.
As mudanças implementadas fizeram a revista ganhar visibilidade fora dos muros da Escola e
a imprensa carioca passou a noticiar as edições da REM que eram lançados a cada ano, como
se vê na edição de 28 de dezembro de 1933, do Correio da Manhã:

Recebemos o número de outubro da revista de novos acadêmicos militares, que, na


forma do costume, apresenta um aspecto gráfico excelente. Com perto de 200
páginas, traz a Revista da Escola Militar variada e valiosa colaboração, estando seu
texto copiosamente ilustrado. O seu diretor, cadete Nelson Werneck Sodré insere um
artigo sobre “A Ciência e a Arte”, umas sugestivas “Reminiscências de um
encarcerado” e outros interessantes trabalhos. O coronel Newton Braga escreve
sobre “A Guerra Aérea”. Da autoria do cadete Janary Gentil Nunes destacamos um
belo conto intitulado “Neide Maria”. Muito contribui para a beleza deste número da
Revista da Escola Militar a abundante e valiosa contribuição do jovem e já
consagrado pintor, Miranda Júnior. Há também artigos de colaboração firmados por
Pontes de Miranda, Mário Pinto Serva, Djacir Menezes, Peregrino Júnior e outros. 594

593
Alcebíades Noronha Miranda, ou Miranda Júnior, como assinava os seus trabalhos, era, à época, um jovem
artista plástico. Havia se diplomado na Escola Nacional de Belas Artes em 1924, especializando-se em pintura.
Na Escola, foi o melhor classificado de seu curso, ganhando a medalha de ouro, o que lhe valeu, como prêmio,
uma viagem de estudos à Europa. (REVISTA DA ESCOLA MILITAR, 1933, p. 24)
594
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 28 dez. 1933, p. 12.
407

Imagem 78 – Capa da Revista da Escola Militar de 1933.

Fonte: Revista da Escola Militar, 1933. Acervo da AMAN.

Dos depoimentos colhidos ao longo do Projeto José Pessoa, Câmara (2011, p. 136)
aponta que, na literatura, a preferência dos cadetes era pelos autores brasileiros, como José de
Alencar, Olavo Bilac e Machado de Assis. Euclides da Cunha era muito pouco conhecido.
Em relação às artes, Pessoa procurou aproximar os cadetes do que havia de mais
erudito. Como recorda Aquino (1985, p. 14), os licenciamentos semanais eram precedidos de
um almoço de cerimônia, com os cadetes trajando o uniforme de passeio e com a presença dos
oficiais instrutores e da direção da Escola, ao som da Banda de Música, que executava
números selecionados de música erudita. Às quintas-feiras, como lembra Peregrino (1985, p.
22), uma retreta ocorria em frente ao portão da Escola, após o jantar, o que animava os
cadetes, que ouviam o programa musical sentados no meio-fio ou no chão puro.
Câmara (2011, p. 136) ressalta, entretanto, que, para se fixar com maior fidelidade o
momento cultural pelo qual passou a Escola Militar do Realengo entre 1930 e 1934, é preciso
levar em consideração que, apesar de essas manifestações intelectuais e discussões serem
emocionais, segundo os depoimentos colhidos no Projeto Marechal José Pessoa, não eram
ricos de conceitos elaborados. Baseavam-se mais na exposição dos conhecimentos adquiridos
em livros do que em níveis mais elevados de produção cognitiva. Além disso, o autor aponta
408

que, apesar das reuniões da SAM serem amplamente concorridas, poucos eram os cadetes que
dominavam o púlpito, destacando-se aqueles que dissertavam sobre temas filosóficos ou
sociológicos, impulsionados, talvez, ainda pela presença do positivismo na Escola e pela
mudança do currículo introduzida por Pessoa, com o acréscimo dos estudos de Sociologia.
O fato de José Pessoa não permitir que a política partidária ultrapassasse os muros da
Escola do Realengo, como ele mesmo apontou na entrevista dada ao jornal A Noite, em
dezembro de 1931, não significava que não havia o interesse dos cadetes pelos temas da
política nacional. Como relatou o general Meira Mattos ao Projeto José Pessoa:

Havia. Nessa época, a Revolução de 30 trouxe esperanças e inovações. Havia


inquietação sobre o problema de industrialização, de divisão territorial. Não era
assunto que dividisse os cadetes, mas havia inquietação sobre isso. (MATTOS, 1984
apud CÂMARA, 2011, p. 136)

Meira Mattos estava certo no que afirmou, afinal de contas, a Escola Militar possuía a
tradição republicana de envolver-se nos principais eventos políticos da Nação e não havia sido
diferente, pois, como lembra Aragão (1967), no livro que publicou sobre a sua passagem pelo
Realengo, a Escola Militar havia participado ativamente da Revolução de 1930, ocupando
pontos estratégicos e as principais vias de acesso da Capital Federal, mais por pressão dos
cadetes do que pelo interesse dos oficiais.
De um ponto de vista político-ideológico, assim se manifestou, também, Umberto
Peregrino:

Nós estávamos ainda sob a influência tenentista, fim da Revolução de 30. Em 1930,
a Escola participara. A Escola era muito vinculada ao movimento tenentista. A
revolução de 1932, dentro da Escola, teve repercussão de simpatia mínima. Para o
tenentismo, era uma revolução reacionária. A Revolução de 1932, para nós, que
tínhamos sentimento tenentista, era uma revolução que pretendia contrariar,
derrubar, hostilizar o grupo autêntico da Revolução de 30. Então, a Escola se
manteve muito tranquila. Tanto assim que apenas alguns cadetes contados pelos
dedos, tornaram-se revolucionários em 1932, fugindo da Escola. Nem tentaram ação
subversiva dentro da escola. Eles não tinham ambiente para adesão à Revolução
Constitucionalista de São Paulo. Certamente conversavam entre si. Eu quero deixar
bem determinado que a Escola era esmagadoramente indiferente à Revolução de 32,
porque estava vinculada, impregnada do sentimento tenentista. O comando não
exerceu nenhuma coação. A Escola, em 1932, ficou de prontidão 595. Presentes os
oficiais, mas não houve nenhuma ação. (PEREGRINO, 1984 apud CÂMARA,
2011, p. 137)

595
Durante o período em que transcorreu a Revolução Constitucionalista de 1932, a Escola Militar do Realengo
passou à disposição do comandante da 1ª Região Militar e permaneceu em prontidão. À exceção da Escola do
Realengo, todas as demais escolas do Exército tiveram o seu funcionamento interrompido durante o levante
paulista.
409

O fato é que as inquietações com a Revolução de 1932 se fizerem presentes no Corpo


de Cadetes. Em suas memórias, Sodré (1967, p. 81) relata ter se tornado, quando cadete,
simpático à causa paulista, o que se deveu, em grande medida, à sua desilusão com o Governo
Provisório, “sempre fugidio e indeciso em suas atitudes”. Confessa ter conversado com
colegas de sua confiança sobre a possibilidade de levante da Escola Militar, no sentido de
apoiar os que lutavam em território paulista. Porém, as conversas nunca chegaram ao nível
conspirativo.
O general Campos Aragão, que era cadete do 3º Ano de Artilharia em 1932, destacou
o clima de agitação que tomou conta do estabelecimento de ensino com a notícia do levante
paulista. Segundo ele, a inquietude que tomou conta do País devido à demora para a
convocação da constituinte repercutiu de maneira forte no Realengo, a ponto de, após o início
do movimento, vários cadetes pensarem em abandonar a Escola para unirem-se aos paulistas.
O fato é que as notícias a respeito da inquietação que tomava conta da Escola Militar,
e de possíveis atos de indisciplina, estavam chegando ao conhecimento da população carioca,
o que a secretaria da Escola tratou logo de desmentir, em uma publicação do Correio da
Manhã do dia 14 de julho:

Circulando pela cidade falsas e caluniosas notícias de atos de indisciplina


verificados neste estabelecimento, convém tornar público não serem exatos esses
informes, e, para tranquilidade geral, que a Escola Militar se mantém perfeitamente
dentro dos preceitos da disciplina, coesão e firme sob a direção de seu comandante e
oficiais, e ponta a cumprir rigorosamente os seus deveres que as leis e o seu
patriotismo lhes impõe neste grave momento da vida nacional. – Realengo, 13 de
julho de 1932.596

Cogitou-se, inclusive, o emprego de um efetivo da Escola nas frentes de combate no


Vale do Paraíba. Góes Monteiro, que comandava o Destacamento do Leste na luta contra as
forças paulistas, solicitou ao ministro da Guerra, em julho de 1932, que lhe fossem passadas à
disposição duas ou três baterias de Artilharia Schneider transportadas em caminhões. Essas
baterias deveriam ser mobiliadas por cadetes, o que não agradou a José Pessoa. Em telegrama
e ofício enviados à Goés Monteiro, em 14 de julho, Pessoa explicou os motivos de sua
discordância, apesar de agradecer a prova de confiança que lhe era dada com tal convocação.
Dentre os argumentos utilizados por José Pessoa contra a utilização de cadetes no
front paulista constava a interrupção do funcionamento da Escola Militar, o que prejudicaria,
em caso de necessidade, a renovação dos oficiais subalternos nos corpos de tropa do Exército.
A solicitação de Góes poderia, também, conforme Pessoa, despertar a ansiedade das famílias

596
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 14 jul. 1932, p. 1.
410

dos cadetes, o que causaria uma repercussão prejudicial ao Exército e ao Governo Provisório,
o qual, além da animosidade que arrastaria para si, daria provas de uma suposta carência de
recursos militares para enfrentar a revolta em São Paulo, já que se via na contingência de
apelar para a sua última reserva de combate.597
Pessoa também não achava aconselhável a incorporação de apenas algumas frações de
cadetes à luta, enquanto o restante do efetivo da Escola continuaria com as suas atividades
normais. Além disso, o emprego de subunidades isoladas implicaria entregá-las a
comandantes de pequena graduação, os quais não contariam com a confiança das famílias,
acostumadas aos instrutores e ao comandante da Escola, o que, certamente, geraria a crítica de
terceiros, por haverem permitido a partida de elementos sob a sua direção para a frente de
combate. O mais recomendável, segundo ele, era que toda a Escola fosse convocada,
possibilitando, assim, que o comando do estabelecimento de ensino acompanhasse os
trabalhos em campanha. Entretanto, lembrou que tal fato implicaria o emprego de cadetes
ainda sem a instrução suficiente para o combate, referindo-se àqueles que cursavam os 1º e 2º
anos. Também se correria o risco de envolver a mocidade em uma luta política entre irmãos, o
que valeria integrá-los na paixão partidária, do que tanto se empenhava em afastá-los.598
Os argumentos apresentados por José Pessoa convenceram o ministro Leite de Castro,
que não atendeu à solicitação de Góes Monteiro. Em um telegrama enviado à Pessoa, Góes
lamentou a decisão do ministro da Guerra e salientou que havia pedido as baterias da Escola
Militar para dar à mocidade militar, que no futuro guardaria os destinos da Pátria, uma prova
de confiança, em um momento em que as dúvidas ensombravam a mentalidade de muitos dos
que deviam cooperar com a sua salvação. Afirmou que o pedido não se devia ao fato de haver
a necessidade de recursos militares, mas, era, antes de tudo, uma homenagem aos “moços da
Escola Militar”, que estariam ao seu lado para acudir a defesa da Pátria.599
É de Campos de Aragão, também, o interessante relato de um grave incidente ocorrido
no dia 10 de agosto de 1932, que provocou o pedido de desligamento em massa do Corpo de
Cadetes. O fato foi habilmente contornado por José Pessoa, o que fez com que os cadetes, à
época, aumentassem ainda mais a sua admiração por ele e que fosse evitado o vexame de ver,
na imprensa, o seu nome e o nome da Escola Militar ligados a uma debandada geral dos seus
quadros discentes.

597
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp31.05.12, documentos 0018/6 e 0018/7.
598
Ibidem.
599
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp31.05.12, documento 0019.
411

No final de tarde daquele dia, um caminhão encostou diante da reserva de armamento


de uma das companhias da Escola, com a finalidade de recolher os armamentos velhos do
estabelecimento de ensino, para que fossem distribuídos às tropas irregulares que lutavam ao
lado da legalidade no Vale do Paraíba. Em contrapartida, o Arsenal de Guerra do Rio de
Janeiro distribuiria à Escola armamentos novos. (ARAGÃO, 1967, p. 282)
Em pouco tempo, espalhou-se na Escola a notícia equivocada de que o Ministério da
Guerra havia mandado desarmar a Escola, para que não houvesse a possibilidade da mesma
tomar parte ativa da revolução. Rapidamente, uma multidão de cadetes aglomerou-se em
torno do veículo carregado de armas e munições, impedindo que se retirasse do pátio em que
se encontrava, configurando uma grave situação de desordem e indisciplina. Em coro os
cadetes gritavam: “Não sai! Não sai!” (ARAGÃO, 1967, p. 282)
A muito custo, e após esclarecido o boato, os oficiais instrutores conseguiram
dispersar a multidão, que se recolheu aos alojamentos após o toque de revista. Na manhã
seguinte, Aragão e os colegas começaram a notar que vários cadetes eram retirados de sala de
aula com a ordem de apresentarem-se ao comando do estabelecimento de ensino, e não
retornavam. No intervalo das aulas vieram a saber que os cadetes considerados líderes da
desordem do dia anterior haviam sido desligados. Não demorou muito para que, por iniciativa
de Campos de Aragão, um movimento de solidariedade fosse iniciado. Um a um, com
pouquíssimas ressalvas, os cadetes de todos os anos começaram a apresentar-se aos seus
comandantes de curso, para pedir desligamento da Escola. A cada pedido o motivo alegado
era o mesmo: “Sr. Capitão, eu pratiquei ontem a mesma falta que os meus companheiros
julgados faltosos e, como tal, desejo também ser excluído”. Em pouco tempo, uma multidão
de ex-cadetes vestindo os uniformes verdes de soldado600 circulava pelos pátios, salas e
alojamentos da Escola. Os “desligados” organizavam-se para, em massa, ocuparem os
comboios férreos que partiam em direção à Central do Brasil, para apresentarem-se ao
ministro da Guerra e tomarem conhecimento de em que corpo de tropa deveriam se apresentar
para completarem o seu tempo de serviço. (ARAGÃO, 1967, p. 283-288)
Diante do problema que se avultava, José Pessoa resolveu receber em seu gabinete os
dez melhores cadetes que haviam se desligado. Em uma reunião que iniciou no final da tarde
e demorou quatro horas, ouviu atentamente os argumentos apresentados pelos jovens que se
encontravam diante dele. Pacientemente caminhava de um lado ao outro da sala. Antes de

600
De acordo com o Regulamento da Escola Militar (1929) vigente à época, o cadete que fosse desligado do
curso da Escola Militar deveria apresentar-se a uma unidade de tropa designada pelo Ministério da Guerra, a fim
de cumprir mais um ano de serviço, o tempo de serviço necessário à obtenção do certificado de reservista.
Devido à ação de José Pessoa, essa prática foi extinta nos regulamentos seguintes.
412

ouvi-los, porém, apresentou-lhes uma alternativa: convencer os colegas que haviam aderido
ao movimento de solidariedade a voltarem atrás, afinal, o único propósito do comando da
Escola era punir os líderes do ato de indisciplina do dia anterior. (ARAGÃO, 1967, p. 290)
Pessoa não conseguiu demover os cadetes do que se propunham. Um dos presentes
lembrou ao general que o boato de que a Escola iria ser desarmada ecoou profundamente no
Corpo de Cadetes, o que se constituía em uma evidente falta de confiança para com os
integrantes do estabelecimento de ensino. Pessoa contra-argumentou dizendo que a disciplina
militar não permitia manifestações coletivas quaisquer que fossem. E, mesmo a juventude de
soldado, não deveria permitir que a paixão vencesse a razão. (ARAGÃO, 1967, p. 291)
Já era tarde da noite quando Pessoa deu o seu veredito: não desligaria nenhum cadete.
Entretanto, todo o Corpo de Cadetes cumpriria uma prisão disciplinar de dez dias. Conforme
publicação que mandou fazer em aditamento ao Boletim Escolar601, ressaltou que sua decisão
se baseou, sobretudo, no gesto impensado dos cadetes, que não havia se revestido de
“intenção pecaminosa”, apesar da desilusão que sentia em relação à eclosão do lamentável
incidente. Naquela mesma noite todos devolveram ao almoxarifado as suas fardas de soldado
e receberam, de volta, as suas túnicas de cadetes. Somente uma túnica verde não foi
devolvida, a do primeiro desligado. Em um ato simbólico, os mais de novecentos cadetes que
participaram do ato de protesto a assinaram, para materializar o movimento de camaradagem
e solidariedade. (ARAGÃO, 1967, p. 292-293)
Em 23 de setembro, o jornal Correio da Manhã publicou uma entrevista realizada com
Góes Monteiro, a respeito das negociações de paz que estavam sendo realizadas entre as
partes beligerantes. Um dos principais pontos abordados por Góes se referia à necessidade de
que o estabelecimento da paz não visasse apenas à cessação das hostilidades, que haviam sido
desencadeadas voluntariamente por São Paulo. A paz, na visão dele, deveria visar a
verdadeira união dos brasileiros, pelo estabelecimento de uma “nova ordem de coisas”, a fim
de se evitar os erros do passado. Também serviria para fortalecer os laços federativos, castigar
os réprobos e dar o bem ao povo brasileiro, criando-se, assim, a estrutura da “ossatura das
novas instituições do Estado brasileiro”. A paz proposta por Góes encaminharia, ainda, a
solução dos problemas políticos, sociais e econômicos, mas não como era feito no passado,
para a satisfação dos interesses oligárquicos, e, sim, sob o “prisma do nacionalismo”, criando-
se uma mentalidade própria para esse fim.602

601
Aditamento ao Boletim da Escola Militar do Realengo nº 191, de 11 de agosto de 1932, p. 1.287.
602
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 23 set. 1932, p. 1.
413

Góes destacou, também, que não se podia admitir uma paz negociada à retaguarda, por
personagens duvidosos, sem que houvesse a deposição das armas pelos paulistas, que não se
tratava de uma humilhação ao estado de São Paulo, mas, da soberania da União quanto à
posse do armamento, já que a ela competia jurídica e politicamente a posse de armas para
fazer ou deixar de fazer a guerra. E sugeria, como uma das medidas políticas imediatas a
anistia para os revoltosos, menos para os líderes do movimento, e um novo governo para São
Paulo, atendendo-se às aspirações das principais correntes de opinião.603
Ao tomar conhecimento da entrevista de Góes Monteiro, José Pessoa escreveu-lhe
uma longa carta, em 27 de setembro, em que teceu considerações a respeito do que disse o
comandante das forças legalistas, algumas até em tom de reparação, apesar de rasgar elogios à
atuação das tropas federais e ao comando de Góes no Vale do Paraíba. Como primeira medida
para o pronto restabelecimento da paz, Pessoa sugeriu a desincorporação imediata das forças
irregulares paulistas, sem o intuito de humilhar o estado de São Paulo, paradigma e orgulho
da Nação. E atentou para o cuidado que se deveria ter em se punir somente os líderes da
revolução, como se estivesse à procura de um único responsável pelo movimento. Tal atitude,
como comprovava a história, serviria para dar-lhes prestígio e transformá-los em mártires do
crime que cometeram.604
Lembrou a Goés, também, que, como chefe militar, sabia ser impossível conquistar a
vitória e se manter em combate sem o apoio da retaguarda. Neste ponto, as considerações que
Góes fez na entrevista dada ao Correio da Manhã poderiam ser mal interpretadas por aqueles
que se achavam integrados em outros deveres militares, sem que houvessem os solicitado.
Quanto às medidas políticas sugeridas pelo comandante das tropas legalistas, sugeriu o
cuidado que se deveria ter para que elas não se convertessem em uma mistificação, como
ocorreu no dia imediato após o movimento de 24 de outubro de 1930, em que a Nação, em
vez de escolher e recompensar os seus verdadeiros servidores, alçou a postos de relevo do
Exército aqueles que nunca tiveram outra atitude “senão servir à politicalha em seu proveito e
em nome da classe”.605
Em sua resposta à Pessoa, Góes salientou não achar que alguém pretendesse humilhar
o estado de São Paulo, já que a própria população paulista reconhecia com regozijo as forças
federais e ocupação. Neste ponto, disse a José Pessoa que ficasse tranquilo quanto à maneira
honrosa com que seria ditado o fim do movimento. Quanto à questão das punições, por

603
Ibidem.
604
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag23.12.27, documentos 701-702.
605
Ibidem.
414

maiores que fossem os imperativos do determinismo histórico, parecia a Góes que ela não
poderia ser resolvida nem pela impunidade total dos autores, nem pela punição dos humildes,
que foram enganados e arrastados inconscientemente à luta, como simples órgãos subalternos
de execução. Por fim, considerou achar justo assinalar a eficiência do esforço comum, tanto
dos que se encontravam na frente de combate, como daqueles que, por exigências do serviço,
se encontravam à retaguarda, às vezes até com maiores sacrifícios, dos quais o mais perigoso
era “vencer a atmosfera de derrotismo que geralmente ali se forma e dentro da qual se cria um
daltonismo perigoso, que adultera a visão exata dos homens e dos atos dos que dela se acham
afastados”.606
Oito meses mais tarde, em uma outra carta enviada a Góes Monteiro, em que solicitou
a promoção do, então, capitão Mário Travassos, que já havia sido ultrapassado 22 vezes nas
listas de promoções por colegas com menos capacidade do que ele, cobrou-lhe a omissão que
vinha tendo com as promoções dos oficiais que haviam trabalhado na retaguarda, durante a
Revolução de 1932: “Após a contra revolução paulista, organizou você uma lista de oficiais e
promoção que melhores serviço haviam prestado, fazendo, entretanto, omissão dos que aqui
ficaram guardando a sua retaguarda”.607
Quanto às manifestações nascentes da Aliança Nacional Libertadora (ANL), que já no
início da década de 1930 começavam a adentrar os quartéis, Peregrino ressaltou:

Qual era o momento de aprender e surpreender as manifestações políticas dos


cadetes? Era a Acadêmica [Sociedade Acadêmica Militar]. Uma vez por semana, o
cadete solto, fazendo seu discurso, dizendo as suas poesias e se manifestando. O
cadete na Acadêmica só se preocupava, nas suas discussões, nas suas manifestações
intelectuais, com aqueles temas altamente justos. Fora da Acadêmica, uma
manifestação de diferença ligeira entre companheiros. Na Acadêmica, nunca vi
proselitismo comunista, enquanto fui cadete. Eu saí da Escola Militar sem ter sofrido
arranhão do proselitismo comunista. Tudo o que eu sabia de comunismo era o que
eu sabia por mim mesmo, pela minha curiosidade. O integralismo, também não.
Havia um desinteresse. (PEREGIRNO apud CÂMARA, 2011, p. 138)

Meira Mattos, que ingressou na Escola do Realengo em 1933, tem uma visão diferente
de Peregrino. Talvez pela distância temporal dos anos de formação, já que este havia
ingressado no estabelecimento de ensino três anos antes daquele.

Havia já no início de 1934 um movimento de fundo ideológico na Escola, dividindo


os cadetes. Nós só viemos a saber que era da esquerda mais tarde. Eu, cadete, por
exemplo, só vim identificar este grupo como ideológico por ocasião do movimento
de novembro de 1935. Foi aí que eles decidiram se desmascarar completamente.

606
Resposta de Góes Monteiro, escrita em 29 de setembro de 1932, à carta de José Pessoa, de 27 de setembro de
1932 Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp31.05.12, documentos 19-20.
607
Carta enviada por José Pessoa a Góes Monteiro em 31 de maio de 1933. Acervo José Pessoa (CPDOC FGV).
JPvp31.05.12, documentos 38-40.
415

Esse grupo, na crise gerada pela briga de Bangu608, começou a alimentar


descontentamento na Escola contra a decisão do comando. (MATTOS, 1984 apud
CÂMARA, 2011, p. 138)

No estudo que faz do movimento revolucionário de 1935, Viana (2007, p. 76-78)


aponta que no início da década de 1930 o Comitê Antimilitar (Antimil) do Partido Comunista
Brasileiro (PCB), cuja função era estreitar ligações com os escalões mais baixos das Forças
Armadas, teria desenvolvido grande atividade nas Escola Militar do Realengo, Escola de
Aviação Militar, onde o movimento se fez mais forte, e na Escola de Sargentos do Exército.
Em especial na Escola do Realengo, a ação do Antimil teria sido bastante efetiva e o
recrutamento inicial dos cadetes não se dava diretamente para o PCB, mas para duas
organizações a ele vinculadas: a Juventude Comunista (JC) ou o Socorro Vermelho. Segundo
a autora, fatores como o entusiasmo com o tenentismo, especialmente com a Coluna Prestes, e
a decepção com o rumo que a Revolução de 1930 havia tomado criaram um ambiente
propício à receptividade do trabalho do Partido Comunista nas Forças Armadas.
De depoimentos colhidos junto a ex-cadetes do Realengo da década de 1930, Viana
(2007, p. 78) salienta que por volta de 1930 ou 1931, o então cadete Amílcar Besouchet
empenhava-se em converter seus colegas à causa comunista. Teria sido através de Besouchet
que outro cadete, Francisco Leivas Otero, por suas convicções anti-imperialistas, aproximou-
se do PCB. Os dois, então, passaram a trabalhar juntos para formar uma célula da JC na
Escola, tendo, de imediato, se unido a eles o cadete Ivã Ribeiro. A ligação com o Partido era
feita por intermédio de um operário, Nepomuceno, membro do Antimil. Dessa maneira,
recebiam materiais da Juventude Comunista e do PCB. A partir daí, foram ampliando o
trabalho na Escola e agrupando vários simpatizantes.
Segundo depoimento de Leivas Otero a Viana (2007, p. 78), a célula da Escola Militar
era bastante ativa e procurava desenvolver um “trabalho de massa”, isto é, voltado para os
problemas mais sentidos pelos cadetes, chegando até, como aponta Otero, a dirigir greves no
estabelecimento de ensino, das quais cita três. A primeira, foi o já explorado episódio da
transferência das armas por ocasião da Revolução de 1932, que, por conta de um boato, levou
os cadetes a insubordinarem-se e pedirem em massa o desligamento da Escola. Os demais
relatos existentes sobre o fato não apontam se o levante foi incentivado pelos cadetes que
pertenciam à Juventude Comunista. Cabe lembrar que, nas memórias de Campos de Aragão, a
iniciativa do pedido de desligamento em massa surgiu em meio aos cadetes de Artilharia, por

608
A briga de Bangu, ocorrida em 1934, ganhou notoriedade na imprensa carioca e foi um dos fatores
motivadores que levaram José Pessoa a pedir demissão do comando da Escola Militar do Realengo naquele ano.
O assunto será abordado no final deste capítulo.
416

iniciativa dele. Entretanto, na já citada carta que José Pessoa enviou a Góes Monteiro609,
solicitando que interferisse na promoção de Mário Travassos, ele afirma que o levante de
cadetes teria sido insuflado pela população da Capital Federal e por “desleais companheiros”.
O segundo movimento que Otero classifica como greve teria ocorrido em 1933,
devido às más condições da comida da Escola. Como não existem outros depoimentos sobre o
assunto, não é possível precisar se essa manifestação ocorreu ou não. No entanto, cabe
lembrar as grandes reformas implementadas por Pessoa em 1931, dentre elas as melhorias no
rancho e na alimentação dos cadetes. A última greve citada por Leivas Otero teria ocorrido
em 1934, quando mais de 800 cadetes teriam se rebelado contra as ordens de José Pessoa, um
assunto que será explorado a seguir. Sobre ela, o marechal Mascarenhas de Moraes, que
comandou a Escola do Realengo em 1935, no posto de coronel, afirma que ela teria se dado,
em grande parte, devido à propaganda subversiva que havia se infiltrado no estabelecimento
de ensino, ainda no comando de José Pessoa. Segundo o relato de Mascarenhas (2014, p. 124-
125), em suas memórias, foi graças à ação do Corpo de Cadetes, sob o comando dos oficiais
da Escola Militar, que o levante comunista da Escola de Aviação, em 27 de novembro de
1935 foi contido. Aliás, em suas palavras, é possível se perceber um certo tom de crítica à
situação em que a Escola do Realengo se encontrava, quando assumiu o seu comando em
julho daquele ano:

Em menos de cinco anos de comando na Escola havia eu retocado, e mesmo


modificado, o ambiente em que vivia o cadete, proporcionando-lhe alimentação
mais sadia e agradável, maior cuidado com seus uniformes, regularidade na entrega
dos graus das sabatinas por parte dos professores, melhor apuração e julgamento das
faltas, mais atenção aos justos lazeres na disputa de tempo entre o ensino
fundamental e a instrução militar. (MORAES, 2014, p. 126)

Como aponta Viana (2007, p. 79), por meio do depoimento de Otero, a célula
comunista dos cadetes do Realengo realizava também tarefas fora da Escola Militar, como
pichações de muros, distribuição de panfletos no Realengo, que eram impressos por meio de
um mimeógrafo, e a colocação de bandeiras vermelhas no bairro, nas datas comemorativas do
PCB. Quanto à formação política, essa era feita em reuniões, em que os cadetes estudavam os
principais teóricos do comunismo, como Lênin e Stalin.
O Boletim Escolar do dia 4 de julho de 1932 teceu considerações a respeito de boatos
que circulavam na cidade do Rio de Janeiro a respeito de uma possível perturbação da ordem
por “elementos comunistas”, que pretendiam “conturbar o sossego púbico com a prática de
atos reprováveis e terroristas”. E informava que, a partir daquela data, o serviço de guarda ao

609
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp31.05.12, documentos 38-40.
417

quartel seria reforçado, permanecendo o armamento municiado durante todo o serviço. O


boletim recomendava, ainda, aos cadetes, que observassem todos os preceitos dos
regulamentos militares ao aproximarem-se ou adentrarem à Escola, a fim de se evitar
acidentes desagradáveis.610
Certamente diante dos fatos perturbadores que se avizinhavam, o ministro do Exército,
general Augusto Inácio do Espírito Santo Cardoso, expediu uma proclamação ao Exército,
transcrita no Boletim Escolar de 6 de julho de 1932. Nela, Cardoso lançou um apelo a todos
os militares, em nome da Pátria, e perguntou quem se recusaria a atendê-lo. Ressaltou que a
Nação desejava um Exército unido. Nos vínculos de união é que seria encontrada a
tranquilidade do País. E, novamente, questionou: “quem tentará romper esses laços de
fraternidade?”. Também advertiu que quem se levantasse contra os seus irmãos contribuiria
para a desagregação da Nação. E em tom de alerta, afirmou que todos os soldados do Brasil,
unidos ao Chefe do Governo Provisório, permaneceriam firmes em seus postos, permitindo
que a obra de reconstrução nacional fosse feita, apesar dos dissídios políticos que a
retardavam.611
Outro ponto importante ressaltado por Nascimento (2010, p. 211), é que a ANL
acabou recebendo em seus quadros, a partir da sua criação em 1935, tenentes dissidentes das
revoltas de 1922, 1924 e 1930 inconformados com os rumos que a Revolução de 1930 havia
tomado, um sentimento, como visto em Sodré, presente, também, entre os cadetes. Acabaria
recebendo, também, parte da jovem oficialidade que havia se formado entre 1928 e 1932 na
Escola do Realengo, imbuída do espírito revolucionário que a figura quase mítica de Prestes
representava.

7.4 A demissão do comando da Escola Militar do Realengo

O início do ano de 1934 agitou o Exército brasileiro. A chegada de Góes Monteiro à


pasta da Guerra e a tentativa de colocar em prática as suas pretensões ditatoriais para o
governo da Nação dividiu a alta cúpula da instituição. Como não poderia de ser, dentro da
tradição republicana, a sua “política do Exército” atingiria, também, a Escola Militar, criando
um profundo atrito com José Pessoa, o que o levou a pedir demissão do cargo de comandante
do estabelecimento de ensino.

610
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 158, de 4 de julho de 1932, p. 1.031.
611
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 160, de 6 de julho de 1932, p. 1.039.
418

O prestígio de Góes Monteiro junto a Getúlio Vargas cresceu após a Revolução de


1932. Como aponta McCann (2009, p. 425), para Góes, com os paulistas derrotados o
Exército estava livre para voltar as suas atenções para os perigos que confrontavam a Pátria.
O movimento revolucionário em São Paulo forneceu os pretextos necessários para que os
oficiais ineptos e agitadores fossem afastados definitivamente da instituição. A derrubada de
alguns oficiais tidos como reformistas, dentre eles o jovem turco Bertholdo Klinger, abriu o
caminho para que Góes, e não mais os oficiais treinados na Alemanha, moldasse o novo
Exército conforme as suas ideias políticas. Como lembra Bretas (2008, p. 47), a vitória sobre
os revoltosos paulistas serviu, ainda, de marco divisor da vida do general, que abandonou
definitivamente a prática da ação política definida pelos oficiais do grupo tenentista, que
estava a cada dia mais isolado dentro da instituição. Segundo o autor, o afastamento de Góes
dos oficiais ligados ao movimento de 1922 já estava em curso antes mesmo da eclosão do
movimento paulista. Visando a estabilizar a situação política em São Paulo, Góes acabara se
aproximando dos partidos políticos tradicionais, o que contrariou as lideranças tenentistas do
estado. Ao perceber a inviabilidade do projeto político tenentista, Góes acaba se afastando, o
que coincide com o declínio dos tenentes e o início da Revolução de 1932.
Góes considerava, também, segundo McCann (2009, p. 426), que era um desejo das
oligarquias brasileiras destruir a Instituição. Dividindo o corpo de oficiais, controlariam o
Brasil. Fazendo menção ao discurso feito pelo general por ocasião da sua despedida do
Destacamento do Leste, o autor mostra um Góes Monteiro truculento, que exortava os
soldados a serem vigilantes com a Pátria e a agirem prontamente sempre que o “inimigo
interno” se manifestasse no Exército. Entretanto, como aponta Bretas (2008, p. 47), a
Revolução Constitucionalista significou, na verdade, um fracasso político para Góes, pois
garantiu a reconstitucionalização do País, o que destruiu as suas pretensões de conservar a
ditadura do Governo Provisório:

...instituição de um Governo Provisório forte e que se manterá dentro dos princípios


e imposições da moral e do direito, capaz de organizar as forças vivas da nação e
impedi-las no caminho da ordem e do progresso. Este governo que tem de se basear
na força deve estender o seu período de duração tanto quanto seja preciso, até possa
estabelecer solidamente as novas fundações sobre que deve assentar o regime futuro,
convenientemente escoimado dos vícios do passado, radicalmente nacionalista,
atendendo apenas às necessidades e possibilidades do povo brasileiro.
(MONTEIRO, 1934, p. 100)

Por outro lado, o autor aponta que a derrota militar dos constitucionalistas permitiu o
afastamento de uma ala importante do Exército, contrária à prática intervencionista nos
estados, o que abriu caminho para as promoções dos oficiais ligados a Góes. Segundo Bretas,
419

os generais oriundos desse grupo formarão a base do Exército até o Estado Novo. Após a
derrota política, como destaca o autor, cabia a Góes preparar o caminho para uma nova
ditadura, já que a promulgação de uma nova constituição era inevitável. Para isso, tornava-se
fundamental reforçar e unificar as Forças Armadas e o Poder Executivo, ideias que formarão
as linhas de ação adotadas por Góes até 1935.
Cumprindo a promessa que fizera ao final da luta contra os revolucionários paulistas,
Vargas convocou a Assembleia Constituinte de 1933, na qual Góes Monteiro teve
participação ativa, impelido pela imagem pública de recém vitorioso da Revolução de 1932 e
de general mais jovem do Exército brasileiro. Atuou na comissão liderada pelo ministro das
Relações Exteriores, Afrânio de Melo Franco, responsável pela redação do anteprojeto a ser
apresentado à Assembleia eleita. Dentre as propostas que defendeu, como aponta Ramos
(2010b), estavam a anistia aos revolucionários paulistas de 1932, como uma maneira de
eliminar as tensões dentro das Forças Armadas, e a oposição à extinção das forças policiais
estaduais e à ideia de federalização das mesmas, sob a alegação de que tal mudança
impactaria significativamente os cofres da União. Participou, também, das discussões em
torno do capítulo relativo à Defesa Nacional, do qual foi relator, defendendo a criação de um
Conselho de Defesa Nacional, que deveria ser o órgão responsável pela política do setor, sem
que, no entanto, houvesse qualquer tipo de intromissão nas atividades específicas do Exército.
Góes apresentou ainda, como lembra McCann (2009, p. 427), a proposta de se
estender o serviço militar obrigatório para as mulheres, sem que elas executassem as funções
específicas de combate, mas não conseguiu fazer prevalecer a sua opinião. Já em plena
Constituinte, invocando os preceitos da hierarquia e da disciplina, mostrou-se contrário à
proposta do deputado baiano Negreiros Falcão de dar o direito de voto aos alunos das escolas
militares de ensino superior e sargentos das Forças Armadas e das forças auxiliares. Falcão
arguiu que, se por motivo de disciplina negava-se o voto aos alunos e sargentos, também
assim deveria ser feito com os oficiais, desde as menores até as mais altas patentes. A
proposta do congressista baiano não foi aceita e os direitos eleitorais dos militares
continuaram restritos à oficialidade.
Como aponta Bretas (2008, p. 52-54), as concepções políticas de Góes encontraram
resistência dentro da comissão de formulação do anteprojeto, já que a maioria dos integrantes
pretendiam apenas uma revisão do texto constitucional de 1891. As suas propostas não
apresentaram nenhuma inovação de peso à política nacional. Para o autor, o ponto principal
da sua participação na comissão não foi, como pode parecer, uma tentativa de implementar
uma reforma política por meio de uma nova Constituição, e, sim, preservar ao máximo as
420

Forças Armadas e a capacidade de manobra do Executivo, onde o Exército poderia encontrar


um aliado valioso nos momentos de dificuldade.612
McCann (2009, p. 427) lembra que, como em 1891, os membros civis da Constituinte
quiseram manter os militares envolvidos na política nacional. A nova legislatura, graças às
leis de anistia, teria a participação dos exilados de 1930 e 1932 em suas câmaras, dando aos
inimigos do regime status e plataforma para proteger seus interesses e atacar o governo de
Vargas. Assim como na Constituição anterior, a de 1934 declarou, em seu artigo 162, que as
Forças Armadas eram “instituições nacionais permanentes, e, dentro da lei, essencialmente
obedientes aos seus superiores hierárquicos”, destinando-se a “defender a Pátria e garantir os
Poderes constitucionais, a ordem e a lei” (BRASIL, 1934). Como observa Stepan (1975, p.
75), ao determinar obediência “dentro dos limites da lei”, o texto autorizava os militares a
prestar uma obediência apenas discricionária ao presidente, já que ela dependia de sua decisão
sobre a legalidade da ordem presidencial. Para McCann (2009, p. 427), o fato dessa cláusula
ter sobrevivido na carta magna de 1934, indica que os políticos desejavam impor
constitucionalmente um papel intervencionista ou moderador às Forças Armadas, ao qual
pudessem recorrer sempre que houvesse disputas entre o Executivo e o Congresso. Segundo o
autor, preservar as velhas práticas da Primeira República, a nova Constituição dava um duro
golpe contra a tendência centralizadora da Revolução de 1930 e contra a esperança de isolar
os militares da política.
Mesmo com a Constituinte em andamento, o fantasma da ditadura militar ainda
pairava sobre a política nacional e sempre rondava o nome de Góes Monteiro. Com a renúncia
do general Espírito Santo Cardoso do ministério da Guerra, Getúlio viu a oportunidade de
trazer para o seu lado o jovem e ambicioso general.613 Em dezembro de 1933, Vargas
convidou Góes para assumir a pasta da Guerra, dando-lhe a oportunidade de levar a termo a
sua sonhada reforma do Exército. Sob o pretexto de que precisava de tempo para consultar
outros generais, Góes Monteiro não aceitou o convite prontamente, permanecendo distante do
chefe do Governo Provisório por quase um mês. Finalmente, na noite de 18 de janeiro de
1934 procurou Getúlio, para apresentar-lhe uma carta, da qual tratava dos problemas e das
necessidades do Exército. Segundo Bretas (2008, p. 57), a carta parecia-se mais com um
relatório sobre os problemas da defesa nacional e dividia-se em três partes: uma carta em que

612
Para conhecer mais a miúde a participação de Góes Monteiro na comissão que formulou o anteprojeto da
Constituinte de 1934, sugere-se a leitura do artigo de Marcos Bretas intitulado O general Góes Monteiro: a
formulação de um projeto para o Exército, que consta nas referências deste trabalho.
613
Góes Monteiro chegara ao mais alto posto do Exército à época (general-de-divisão) com apenas 42 anos de
idade.
421

abordava a política brasileira; uma parte intitulada Política de Guerra, em que defendia a
preparação do Brasil para um conflito internacional; e uma parte, confidencial, que chamou
Problemas do Exército, em que apresentou as necessidades de reforma da instituição.
Segundo o autor, após a posse de Góes, o documento, que teve ampla divulgação entre os
ministros de Estado e chefes militares, serviu de base às reformas realizadas na Instituição. É
nele que se materializa o projeto político e militar do jovem general.
O relatório encaminhado à Getúlio tecia severas críticas à Constituinte, considerada
por Góes um “processo clássico do liberalismo moribundo”. Era devido a ela, na visão do
general, que a Revolução de 1930 estava deixando de ser uma revolução. Considerava,
também, que o País se ressentia da inexistência de uma diretriz, de um objetivo político para a
mobilização das forças nacionais. Segundo ele, um dos pontos que a Revolução deixou a
desejar foi não ter aproveitado a sua posição de força para fortalecer o nacionalismo, regular a
vida econômica e reorganizar o Estado. Quanto à questão da segurança nacional, defendia a
necessidade de se fazer uma política de guerra, dotando o Brasil de um plano de guerra, cujo
ponto de partida deveria ser a ordem interna, a cargo da polícia em estreita ligação com o
serviço secreto do Estado-Maior do Exército. Em relação às reformas da Instituição, pedia
poder discricionário ao Exército para resolver os problemas que afetavam os seus
fundamentos. A força armada é definida por Góes como a escola e a oficina para a defesa
nacional, desde que apoiado pela educação, pela imprensa e pela economia, sob a direção do
Estado. Em um país jovem como o Brasil, um Exército bem organizado seria o instrumento
mais poderoso do qual poderia dispor o Governo “para consolidar o espírito nacional e
neutralizar as tendências dissolventes introduzidas pelo imigrantismo”. (BRETAS, 2008, p.
57-60)
Para Bretas (2008, p. 60), é a proposta de reforma do Exército que permitirá o apoio
militar necessário às mudanças institucionais, depois de serem afastados os obstáculos
políticos dentro e fora da organização. McCann (2009, p. 430 e 633) entende que, no relatório
de 18 de janeiro, Góes tentou, na verdade, impor condições a Getúlio antes de assumir o
cargo, especialmente em relação a créditos e dinheiro a mais do que o previsto no orçamento
normal, para equipar progressivamente o Exército e remodelar e homogeneizar os quadros de
oficiais e graduados e a tropa. Conforme salienta o autor, Vargas declarou ao general que não
cabia aquele tipo de manobra entre os dois, que ele providenciasse o que fosse possível,
parasse de criar dificuldades e assumisse logo o novo cargo.
Na manhã do dia 22 de janeiro de 1934 Góes Monteiro assumiu a pasta da Guerra.
Estiveram presentas ao ato ministros de Estado, autoridades civis e os generais da guarnição
422

da Capital Federal. A Escola Militar foi representada por seu subcomandante, coronel Pinto
Guedes, uma vez que José Pessoa encontrava-se doente. Em seu discurso de posse, Góes
rasgou-se em elogios à gestão do seu antecessor, general Espírito Santo Cardoso, que com
“evangélica serenidade” e “espírito de estoicismo” soube conduzir o Exército “através da
mais tormentosa e mais perigosa fase que tem vivido a Nação brasileira”. Ressaltou a fase
pela qual vinha passando a instituição pós-Revolução de 1932, “não menos árdua e crítica de
cicatrização das feridas, de reerguimento moral e profissional [...] a qual vem se processando
lentamente devido as nossas precárias condições, quase probativas de aquisição do material e
da organização industrial de que precisamos com pressa...”. E ressaltou que aquele ato,
presenciado por todos, não era “uma cena banal de transmissão de cargo nem uma solenidade
burocrática da posse de um alto titular”, mas revestia-se de uma “significação mais ampla e
atual e menos rotineira”, já que “em todas as épocas, em todos os recantos do mundo, poucos
são os indivíduos de qualquer categoria ou classe, que não ambicionam o poder de decidir
sobre a totalidade e a coletividade a que pertencem, quase sempre sobre-estimando as próprias
forças e faculdades”.614
Em meio ao discurso, enfatizou que assumir o Ministério da Guerra era um projeto
que jamais havia se passado em sua imaginação. Cabia, a partir daquele momento, então,
curvar-se à suas consequências. Ressaltou que a “voz serena e honesta” do Exército, reunida à
“voz altiva e aflita” da nacionalidade, clamava por um “novo estado de coisas que vivifique a
alma coletiva do povo brasileiro”. E salientou que um Exército fraco, seria melhor que nem
existisse. Sendo assim, era necessário que a instituição fosse “nutrida e fortalecida”, até que
atingisse o nível compatível com a segurança nacional. Para isso, antevendo os rumos que
tomaria a sua gestão, deixou claro que competia ao chefe militar decidir, “sem medir o
valimento das pretensões de outrem, calculando friamente com os trunfos de que dispõe e
com as probabilidades da reação adversa”. Ao concluir, lembrou a todos que a Nação vinha
sendo sacudida por “rumores subterrâneos e por eclosões espaçadas”. Era necessário, pois,
sacudi-la no exato sentido do seu grandioso destino. Naquele momento, segundo Góes, a
política tornava-se “a ciência do que era necessário”.615
A sanha reformista de Góes não poupou a Escola Militar. Não fica claro nas fontes
consultadas a intenção do novo ministro ao interferir no principal centro formador dos oficiais
do Exército. Entretanto, não é difícil inferir a provável razão que o levou a promover
mudanças pontuais no estabelecimento de ensino: exercer o controle sobre o centro de

614
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 23 abr. 1934, p. 2.
615
Ibidem.
423

formação de oficiais que esteve na vanguarda dos principais movimentos insurrecionais que
haviam nascido no seio do Exército nas últimas décadas, como o golpe republicano de 1889, a
Revolta da Vacina, em 1904, e o movimento tenentista de 1922. Entretanto, a ação do
ministro da Guerra encontrou forte resistência da parte de José Pessoa, que, nos anos
subsequentes, contrapôs-se fortemente ao pensamento ideológico de Góes, que resultou no
golpe do Estado Novo.
Pessoa relata que ficou sabendo da posse de Góes Monteiro por meio dos jornais da
Capital Federal. À data da assunção de Góes no Ministério da Guerra, Pessoa convalescia de
uma forte gripe na estação de águas termais de São Lourenço-MG. Daquela localidade, em 24
de janeiro de 1934, colocou à disposição do chefe da pasta da Guerra, por meio de um
telegrama, o seu cargo de comandante da Escola Militar, por entender que o comando do
estabelecimento de ensino era uma função de confiança do novo ministro. Em resposta, Góes
confirmou a continuidade de Pessoa à frente da mocidade militar, o que significava, no
entender do novo ministro, não somente “uma necessidade de ordem militar” como também
“de ordem geral”, a fim de garantir o que a Escola havia sido ao longo de sua existência: um
“poderoso e fecundo manancial de patriotismo”.616
Dias após a resposta de Góes, José Pessoa retornou à sede da Escola do Realengo. Em
sua autobiografia relata ter encontrado uma Escola muito diferente de algumas semanas antes.
Vários instrutores haviam sido nomeados ou substituídos, sem que ele tivesse sido consultado.
Também uma situação de desavença entre os instrutores da arma de Infantaria e a alta
administração da instituição de ensino havia surgido durante a sua ausência. Para completar o
quadro que muito o contrariou, os auxiliares do gabinete do Ministério da Guerra passaram a
interferir diretamente na administração interna da Escola. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta IV,
p. 1-2)
José Pessoa criticou, também, a iniciativa de Góes em tomar parte, como candidato à
Presidência da República, do pleito eleitoral de 1934, o que considerou uma infelicidade para
o Exército, em um momento em que agitação política tomava conta do País. As declarações
cotidianas do chefe da pasta da Guerra à imprensa foram consideradas por Pessoa
“impertinentes e contraditórias, [...] cheias de palavras ocas e sempre pontilhadas de frases
sibilinas, a ponto de o governo ser obrigado a impedir tais excessos de publicidade”, o que
acabou por agitar novamente o Exército, que estava a caminho de serenar a indisciplina pós-
revolução de 1932. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta IV, p. 2)

616
Conforme publicação no Boletim da Escola Militar do Realengo nº 24, de 29 jan. 1934, p. 186.
424

Quando assumiu o Ministério da Guerra, Góes passou a ser assediado pelos


adversários de Vargas, que viram no general um possível candidato de oposição nas eleições
indiretas que seriam realizadas em meio à Constituinte de 1934. Imaginavam os opositores de
Getúlio que a candidatura de Góes seria amplamente referendada pelo Exército. McCann
(2009, p. 430) aponta que o assédio ao ministro da Guerra não passou de uma tentativa de
enfraquecer o Governo Vargas, fragmentando o seu apoio militar.
O nome de Góes foi lançado no dia 11 de abril de 1934, em meio a uma sessão da
Constituinte, pelo deputado mineiro Cristiano Machado, do Partido Republicano Mineiro
(PRM). A articulação política de Machado não prosperou. O nome do ministro da Guerra não
foi bem aceito pela bancada paulista, de maior peso, que não fez nenhum esforço para
demonstrar o mínimo de entusiasmo pela candidatura do ex-comandante do Destacamento do
Leste, principal responsável pelas derrotas sofridas pelas tropas paulistas na Revolução de
1932. (RAMOS, 2010b)
A candidatura de Góes Monteiro, como aponta McCann (2009, p. 430), esteve envolta
em murmúrios sobre planos de golpe para impô-lo como ditador, caso fosse derrotado nas
eleições. Em seu apoio, a ala radical que compunha o Clube 3 de Outubro emitiu um
manifesto. Também a seu favor estavam republicanos da velha guarda, uma contradição para
quem condenava a política liberal do governo, como lembra o autor.
Vargas recebeu inúmeras cartas e telegramas denunciando possíveis tramas de um
golpe de estado. Do Sul, Flores da Cunha alertou Getúlio sobre uma possível articulação de
oficiais do gabinete de Góes com oficiais de unidades militares do Rio Grande do Sul para a
imposição do ministro da Guerra em um cargo ditatorial, caso não fosse eleito. Informações
de igual teor chegaram da Bahia, da parte do interventor do estado, capitão Juracy Magalhães.
O alerta de Flores da Cunha em muito se deveu às mudanças que Góes procurou fazer nos
comandos militares, como bem lembra Ramos (2010b). Acreditando no êxito da indicação
perremista, o ministro da Guerra solicitou a Vargas a substituição do comandante da 3º
Região Militar, general José Maria Franco Ferreira. Em meio à agitação e os boatos de golpe
que começaram a tomar conta da alta cúpula do Exército, Ferreira, a exemplo do general João
Guedes da Fontoura, comandante da Vila Militar, havia se manifestado a favor da Assembleia
Constituinte e declarado apoio e lealdade ao governo, o que já evidenciava estar a instituição
dividida a respeito da candidatura de Góes. Flores, segundo McCann (2009, p. 431) chegou a
propor a Vargas o envio de um destacamento policial gaúcho ao Rio de Janeiro, para fazer a
guarda pessoal do chefe do Governo Provisório. Assim como Oswaldo Aranha, teria proposto
425

um novo golpe a Getúlio, com o objetivo de dissolver a Constituinte e impor uma nova carta
magna ao País.
A despeito de toda a agitação e ameaças de conspirações que tomaram conta do País
nos meses que antecederam a escolha do novo Presidente, o comportamento de Getúlio
Vargas, como ressalta McCann (2009, p. 430), ficou marcado pelas recomendações de cautela
a seus aliados e pela vigilância atenta a tudo o que ocorria na política da Nação. Dias antes
das eleições, que transcorreram em julho, Góes, afirmando a sua lealdade, apresentou a sua
renúncia da pasta da Guerra a Getúlio. Não desejava ser um candidato de oposição ao nome
do chefe de governo. Na verdade, como destaca o autor, a intenção do ministro era retomar o
clima de confiança entre ambos. Julgava que deixando o Ministério, e retornando às fileiras
do Exército, dava a Vargas a liberdade para implementar as mudanças da instituição, como
haviam acordado. Góes foi mantido no cargo por Getúlio, que nunca o considerou o seu
verdadeiro oponente, como destaca McCann (2009, p. 433), e, sim, Borges de Medeiros, que
também havia se candidatado. Getúlio angariou a maioria dos votos, 175, contra 59 de Borges
e apenas 4 de Monteiro.
Voltando ao assunto da Escola Militar, em 15 de fevereiro uma agressão praticada por
um grupo de nove cadetes a alguns jovens civis ganhou as páginas dos principais jornais do
Rio de Janeiro. O evento deixou muitos feridos e causou sérios danos a um estabelecimento
comercial. O rumo das decisões tomadas a respeito desse nefasto evento contribuiria, nos
meses seguintes, para o pedido de demissão de José Pessoa do comando da Escola.
Conforme noticiou o Correio da Manhã, nesse dia um grupo de cadetes reuniu-se na
confeitaria Mercúrio, em Bangu, para aguardar o empregado do comércio Ary de Castro
Vianna, que teve um desentendimento com o cadete Mário Almeida Silva, durante um baile
de Carnaval, no Bangu Club. Os cadetes sabiam que Ary passaria por aquele local quando
retornasse do trabalho, em torno das 18 horas. Quando este apareceu, foi agredido
violentamente pelo grupo. Os moradores do bairro que passavam pelo estabelecimento
naquele momento revoltaram-se com o ocorrido e reagiram contra os cadetes, que fugiram
para o interior da confeitaria, onde se estabeleceu um grande conflito.617
A polícia compareceu ao local e, com muito custo, conseguiu conter a população e
levar os cadetes presos para a delegacia do 23º Distrito. Em pouco tempo uma multidão se
formou em frente ao distrito policial, com o propósito de tirar os cadetes à força daquele local
e linchá-los. Momentos depois, uma escolta do Exército apareceu para retirar os cadetes do

617
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 17 fev. 1934, p. 5
426

local. Os militares tiveram que investir contra a massa popular, a fim de contê-la e conseguir
evacuar para a Escola Militar os agressores.618 Diante da repercussão negativa que a atitude
dos cadetes teve na imprensa da Capital Federal e do clamor popular para que os envolvidos
fossem punidos, José Pessoa instaurou um inquérito policial militar para apurar as
responsabilidades pelo ocorrido.
Pessoa relata que a partir de março de 1934, após ter sido aprovado o novo
Regulamento da Escola, as ações perturbadoras dos oficiais agitadores do gabinete de Góes à
vida escolar intensificaram-se. Recados do ministro, cartas de ordem, avisos e o envio de
emissários ao comandante da Escola seriam, segundo Pessoa registra em suas memórias,
recorrentes, com a finalidade de obter concessões de toda a espécie, referentes aos estudos e à
disciplina escolar.

Aquelas insinuações chegavam com impertinência à Escola: ora permitindo-se


matrículas a cadetes desligados em exame de habilitação; ora dando permissão para
fazer exame aos reprovados em uma, duas e mais matérias; ora, ainda, concedendo
matrícula aos julgados incapazes em inspeção de saúde; ora, ainda mais, permitindo
matrícula a candidatos com idade muito acima da fixada pelo regulamento; ora,
finalmente, culminando na matrícula de cadetes dali expulsos a bem da disciplina e
moralidade da escola, havendo entre estes até criminoso julgado no foro comum
contra crime de ofensa à sociedade. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta IV, p. 3)

A partir daí, teve início uma sucessão de fatos e de troca de mensagens entre o
ministro da Guerra e o comandante da Escola Militar que culminou na demissão deste e que
daria causa ao afastamento de Pessoa do centro de poder da instituição. Segue-se a cronologia
dos acontecimentos.
Em 28 de março, Góes enviou o major José Osório, oficial dos seu gabinete, à Escola
Militar para verificar com José Pessoa a possibilidade de renovar a matrícula de ex-cadetes
que haviam sido desligados no ano anterior por motivos de saúde e de reprovação nas provas
de habilitação do meio do ano, o famigerado “carro de fogo”. Pessoa informou a Osório ser
impossível atender ao pedido do ministro, uma vez que o estabelecimento de ensino não
possuía as acomodações necessárias para absorver o retorno de tantos cadetes. Porém,
considerava a possibilidade de reincluir os desligados por casos de moléstia.619
Diante da negativa do comandante da Escola do Realengo, Góes enviou-lhe uma carta,
no mesmo dia 28. Nela, ratificou o desejo de que Pessoa, usando o critério de seleção que
desejasse, rematriculasse os cadetes desligados nos exames de habilitação. Sugeriu, inclusive,
que novos alojamentos fossem construídos na Escola, desde que a medida não interferisse nas

618
Ibidem.
619
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp31.05.12, doc. 25/0092.
427

despesas mais urgentes. Argumentou que a reinclusão dos desligados, que à primeira vista
parecia uma mera concessão, visava a atender a necessidade de preenchimento das vagas de
primeiro posto, ou seja, de segundo-tenente, que se mostravam insuficientes para o futuro
próximo, devido à baixa formação na Escola Militar. Aventou, inclusive, a possibilidade de
sargentos serem promovidos ao posto de segundo-tenente, conforme previa a lei de
promoções. Concluiu afirmando confiar no juízo de Pessoa para dar a melhor solução ao
caso.620
Ato contínuo, diante da intransigência de Pessoa em acatar os seus pedidos, Góes
emitiu um aviso621 ao comandante da Escola Militar, no dia 31 de março. Nele dava ordem
para que fossem reincluídos no estabelecimento de ensino, a fim de concluírem o curso, os ex-
cadetes que haviam participado da Revolução de 1932 e que haviam sido anistiados por força
de decreto, em janeiro de 1934622. Para tomar a sua decisão, o ministro embasou-se no
Decreto nº 22.081, de 22 de novembro de 1932. Por força desta legislação, foram
considerados aprovados, ao final do ano letivo de 1932, os alunos das escolas militares de
formação que tivessem obtido grau igual ou superior a 3,0 (de um máximo de 10,0) nas contas
de ano das disciplinas ministradas, desobrigando-lhes da realização dos exames finais
previstos no Regulamento da Escola Militar de 1929623, situação exigida apenas daqueles que
não se enquadrassem em tal requisito. O decreto, que visava atender “a situação
extremamente anormal por que passou o país, perturbando a marcha dos trabalhos escolares
em muitos estabelecimentos de ensino”, estendia, ainda, essa prerrogativa aos alunos que
haviam participado de operações militares. Sob o argumento da “equidade” e “da força de
interpretação que se devia dar às consequências do ato de anistia”, uma vez que que os
cadetes desligados à época do levante paulista poderiam ter sido amparados pelo decreto em
questão, Góes resolveu, então, rematriculá-los. Em um rascunho à lápis na cópia do aviso
ministerial, que se encontra nos arquivos do seu acervo pessoal, Pessoa deixa claro o seu
entendimento de que não havia, naquele momento, nenhum ato de anistia a ser reparado,
como afirmou Góes Monteiro.

620
Ibidem.
621
Aviso Ministerial nº 1, do Ministro da Guerra ao Comandante da Escola Militar do Realengo, de 31 mar.
1934. Publicado no Boletim da Escola Militar do Realengo nº 80, 6 abr. 1934, p. 647.
622
O Decreto nº 23.674, de 2 jan. 1934, determinava a reversão às fileiras do Exército dos capitães e oficiais
subalternos reformados ou transferidos para a reserva em função da participação na Revolução de 1932.
623
O Regulamento da Escola Militar de 1929 previa que eram aprovados, ao final do ano letivo, os cadetes que
obtivessem média final acima de 3,0. A média final era calculada a partir das notas obtidas nas contas de ano e
nos exames finais, de cada disciplina. A conta de ano era calculada pela média das provas realizadas antes do
exame final. O exame final de cada disciplina era realizado no final do ano, geralmente em dezembro, e era
constituído de provas escrita, oral e prática, no caso das disciplinas técnicas, como Topografia. A sua nota era o
resultado da média das três provas.
428

Na mesma data em que recebeu o aviso de Góes, José Pessoa respondeu-lhe a carta
recebida três dias antes. Nela, foi categórico: não havia vagas a preencher no Corpo de
Cadetes. Muito pelo contrário, após o cumprimento das determinações de se matricular na
Escola os cadetes aviadores624, conforme o novo regulamento da Escola, e os anistiados da
Revolução de 1932, acatado o aviso ministerial, o efetivo da Escola havia ficado com um
excedente de 18 cadetes. Pessoa ratificou a informação de que somente os desligados por
casos de moléstia poderiam ser rematriculados, por formarem um grupo menor. Com a
absorção dos cadetes aviadores, como mandava o novo Regulamento, havia aumentado para
300 o número de cadetes primeiro-anistas. Além disso, afirmou não achar justo rematricular
os ex-cadetes que haviam “fracassado” nos exames de habilitação, em detrimento de uma
massa de mais de 600 civis que haviam sido reprovados nos exames de admissão à Escola.
Ressaltou a Góes que tomar tal atitude seria cometer uma “injustiça clamorosa”, seria
“regredir [...] orientar as novas gerações para as mesmas mazelas da velha república”.625
Na carta, Pessoa considerou, ainda, um absurdo a solução encontrada pelo ministro de
se prevenir a insuficiência de oficiais do primeiro posto por meio da promoção de sargentos.
Admitiu ignorar até onde iam os dispositivos da lei de promoções, mas, ao seu ver, o simples
fato da sua existência fatalmente mataria as aspirações da mocidade militar, além de tornar
difícil, senão insolúvel, o problema da formação dos oficiais do Exército. Ressaltou ao chefe
da pasta da Guerra que durante mais de um século de existência política do País, o problema
de formação dos oficiais do Exército havia sido abandonado por todos os governos e, até
mesmo, pela própria instituição. E lembrou que ele mesmo vinha se empenhando, desde que
havia assumido o comando da Escola Militar, na busca de uma solução para a formação
inadequada do oficialato, apontando, inclusive, a necessidade imperiosa de se construir uma
academia militar afastada da Capital Federal. Concluiu, afirmando estar disposto a ajudar o
ministro e a sacrificar, como vinha fazendo no Realengo, a sua saúde e a educação dos seus
filhos. Em troca, esperava o reconhecimento do Exército, ao qual tudo devia e pensava servir
com lealdade e dedicação.626
Entre a carta de Góes Monteiro e a resposta de José Pessoa, foi também apontada a
solução do inquérito que este mandou proceder para apurar o envolvimento dos cadetes da

624
Diferentemente do Regulamento de 1929, que previa que os ensinos militar e técnico, necessários às funções
do oficial da Aviação, seriam ministrados na Escola de Aviação, o Regulamento da Escola Militar de 1934
passou a concentrar os estudos teóricos e práticos dos aviadores na Escola Militar do Realengo. O Regulamento
previa que, enquanto a Escola do Realengo não fizesse as adaptações necessárias ao desenvolvimento da parte
prática, seriam utilizadas as instalações da Escola de Aviação.
625
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp31.05.12, doc. 28/0092-4.
626
Ibidem.
429

briga de Bangu. Em sua decisão, Pessoa considerou que o fato, na verdade, constituía-se em
crime de competência da justiça civil. Entretanto, diante da repercussão desfavorável que os
fatos tiveram perante a sociedade, concluiu que o Corpo de Cadetes não deveria mais contar
em seu seio com elementos que, por sua conduta, eram malvistos e que não podiam gozar da
confiança dos seus chefes, camaradas e da própria sociedade, excluindo-os da Escola, a bem
da disciplina.627
Diante da resposta de José Pessoa, Góes Monteiro subiu o tom usado em suas
determinações. Em uma nova carta enviada à Pessoa, no dia 6 de abril, classificada como
confidencial, iniciou fazendo algumas ilações a respeito da formação da oficialidade
brasileira. Fez questão de lembrar ao colega que o Brasil ainda não estava completamente
organizado como povo e como Nação. Segundo Góes, as condições históricas e geográficas
do País não lhe permitiam “acelerar o passo em todos os caminhos e manifestações da
civilização” já alcançados pelas nações mais adiantadas, especialmente nos domínios da
educação e da instrução. Para o ministro, os mesmos vícios, doenças e anomalias que
atingiam o organismo nacional, também podiam ser encontradas no seio das Forças Armadas,
seja pelas características da própria instituição, seja por motivos exteriores. Quais fossem os
motivos, os efeitos nocivos causados por esses problemas só poderiam ser solucionados se as
instituições militares, com energia e sabedoria, fossem conduzidas a realizações que não
colidissem com os seus interesses, que deveriam ser os mesmos da nacionalidade.628
Quanto à Escola Militar, ressaltou a Pessoa que as considerações que havia feito em
sua última carta não se tratavam de questões de direito, de crítica ou de hermenêutica, e, sim,
de lógica e de moral. Sobre rematrícula dos ex-cadetes considerados por Pessoa
“fracassados”, Góes considerou que não era preciso muito esforço imaginativo ou de
raciocínio para se chegar à conclusão que o ponto de vista de Pessoa a respeito do conceito
formulado tinha uma singular significação, tal a rigidez da sua concepção. Para o ministro, a
noção formulada pelo comandante da Escola sobre o “fracasso” poderia, inclusive ser
contestada “à luz da lógica positivista”, e não seria justo utilizá-lo para desqualificar jovens
iniciante se inexperientes:

Pensar que jovens iniciantes e inexperientes, cujas propensões e aptidões definitivas


ainda não podem estar desenvolvidas e conhecidas, que sofreram um primeiro
insucesso no curso escolar, estejam condenados per secula, é afirmação que os fatos

627
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 73. De 28 mar. 1934, p. 594. Foram desligados os cadetes Adauto
Bezerra de Araújo, Leônidas de Sales Freire, Ene Garcez dos Reis, Lauro Teixeira Góes, Rolindino Manso
Maciel, Milton Carvalho de Queiroz, Rogério Faris Maklouf, Mário Almeida da Silva e Nelson Augusto de
Vasconcelos Coelho.
628
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp31.05.12, doc. 30/0095-6.
430

constantemente destroem. A nossa observação direta, o exame de várias gerações,


que temos acompanhado, inclusive aquela a que pertencemos, demonstram
contrariamente, quer do ponto de vista moral e intelectual, quer do ponto de vista da
aptidão real para o desempenho da função de comando.
Lembra-se você do que nos aconteceu a nós mesmos em diferentes fases da nossa
carreira? Quantos de nós, talvez, fossemos considerados por gente sentenciosa como
casos perdidos, que moral, quer intelectual, quer profissionalmente? Entretanto,
pode-se apresentar copiosa messe de exemplos que negam aquelas sentenças
precipitadas.
Você torna-se injusto quando parece atribuir aos outros propósitos inexistentes,
esquecendo-se de que há quem estude e medite os nossos problemas com
sinceridade e patriotismo, não desconhecendo que os fatos sociais não se realizam
pela simples vontade dos homens senão arrastados pelo curso dos acontecimentos,
sujeitos estes a relações de causas e efeitos, tão verdadeiros nos domínios
psicológicos e social como em matemática e astronomia.629

Entretanto, o que mais incomodou Góes foi o modo como Pessoa tratou a questão do
preenchimento das vagas do primeiro posto, cujos conceitos e linguagem utilizada teriam lhe
causado uma “impressão penosa”. Atribuiu ao colega uma interpretação errônea do assunto.
Góes afirmou que ele teria complicado uma questão simples, mergulhada em intransigências
que facilmente não eram defensáveis. E, fez questão de observar a Pessoa que o ofício do
comando não se constituía somente em administrar, instruir, educar e conduzir aglomerados
humanos para realizar uma vontade. Antes de tudo, fazia-se necessário “incutir nos
comandados a consciência de que devem obedecer ao chefe em favor do bem comum”. Sendo
assim, só haveria superioridade efetiva do chefe se fosse “real e não artificial e fictícia”. E
ressaltou que não era possível se obter disciplina consentida, que levasse ao sacrifício, sem
solidariedade e obediência.630
Ao final da carta, Góes lembrou a Pessoa que este não havia respondido ao pedido que
lhe foi feito a respeito da indicação de medidas para a renovação das matrículas dos ex-
cadetes, sobretudo no que dizia respeito à capacidade da Escola internar um número maior de
cadetes. E enumerou, no seu ponto de vista, quais eram os ex-cadetes aos quais se poderiam
fazer concessões para retornarem ao curso do estabelecimento de ensino:

a) os inabilitados primários em exames parciais;


b) os desligados por faltas disciplinares não reincidentes (transgressores primários);
c) os de moléstia;
d) os atingidos por medidas de clemência governamental;
e) alguns reincidentes em falta de aplicação, ainda não julgados completamente
fracassados.631

629
Ibidem.
630
Ibidem.
631
Ibidem.
431

Certo de que essas benevolências não causariam mal algum ao Exército, Góes tratou
de emitir, no dia seguinte ao envio da carta à Pessoa, mais dois avisos ministeriais,
assegurando a rematrícula aos ex-cadetes que se enquadravam nas categorias enumeradas
acima.
No dia 11 de abril, então, foram publicados no Dário Oficial os Avisos nº 2 e 3, do
ministro da Guerra ao comandante da Escola Militar:

Ao Sr. Comandante da Escola Militar:


Declarando que fixado o efetivo da Escola Militar em 650 cadetes, nesse número
não se incluem os de aviação, que devem ser computados a parte, pois o efetivo
orçamentário do Corpo de Cadetes é de 688 no corrente ano. As vagas, então
abertas, serão preenchidas atendendo: a) os desligados por motivo de moléstia; b) os
inabilitados primários parciais em 1933; c) os atingidos por medida de clemência
governamental. (Aviso nº 3).
Mandando reincluir no Corpo de Cadetes os ex-alunos Segundo-Tenente em
comissão Antônio Vaz e o ex-cadete Saul Rocha da Silva Pontes, julgados inaptos
em inspeção de saúde para rematrícula, bem como os demais amparados pelo Aviso
nº 1, de 31 de março último, devendo ser considerados como se não tivesse havido
solução de continuidade no curso, em virtude do ato de clemência governamental
que autorizou a reinclusão. (Aviso nº 2).632

A réplica de José Pessoa foi feita em 17 de abril. Considerada por ele uma
manifestação de oposição ao arbítrio633 de Góes, nela afirmou ter ficado atônito com o
“destampatório” da última carta que dele havia recebido e que a vivacidade da linguagem e
dos conceitos por meio dela emitidos lhe davam a impressão de que o ministro estava
“possuído de uma ideia fixa”. Também não via razão para as cobranças que haviam lhe sido
feitas. Se não havia respondido aos questionamentos de Góes, era porque, como já havia
informado, a Escola Militar não tinha como alojar tantos cadetes. Por isso, considerou a
questão das rematrículas dada por encerrada. Ressaltou a Góes que as cartas que havia lhe
enviado sempre foram escritas de modo impessoal, ao contrário das do ministro, que eram
personalistas, além de inverterem o significado das suas palavras [de José Pessoa], e fazê-lo
[Góes] defensor da mocidade militar.634
Retomando a celeuma criada em torno do termo “fracassado”, Pessoa resolveu
explicar a Góes o significado da palavra na gíria dos cadetes, já que o ministro lhe havia
imputado o seu uso pejorativo: “é um termo escolar, usado pelos cadetes, para caracterizar
qualquer insucesso na vida de um colega; como cognominaram de “carro de fogo” o exame de
habilitação, eis tudo. O mais foi fertilidade de imaginação mal-informada”. E discordou
veementemente da afirmação de Góes de que muitos oficiais de altas patentes da época

632
Avisos Ministeriais nº 2 e 3, de 7 abr. 1934, publicados no Diário Oficial da União, 11 abr. 1934, p. 6.925.
633
Observação feita à lápis por José Pessoa documento enviado à Góes Monteiro.
634
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp31.05.12, doc. 32/0097-8.
432

haviam sido julgados erroneamente como “casos perdidos”, durante a sua formação. Lembrou
ao ministro que os cadetes do tempo dos dois, que não gozavam de conceito entre os
companheiros, devido à má educação e aos desvios morais que possuíam, eram os mesmos
homens que, mais tarde, na vida pública, ainda possuíam o mesmo caráter, a mesma má
educação, a mesma mentalidade e que gozavam do mesmo conceito no Exército do
presente.635
Ressaltou ao ministro que o grau de civilização a que tinha chegado a sociedade
brasileira não comportava mais uma Escola Militar do tempo dos dois. A missão da Escola,
no presente, era de “aprimorar qualidades, e não de corrigir defeitos”. E o lembrou de todas as
reformas e mudanças que havia implementado no estabelecimento de ensino, tornando-o
respeitado e querido não só pelo povo, mas, também, pelo Exército. Na “fase dolorosa” pela
qual o País atravessava, a Escola Militar era um exemplo dignificante e merecedor de todos os
louvores e reconhecimentos dos cidadãos brasileiros. Concluindo, fez questão de destacar a
Góes o esforço que vinha fazendo para afastar a Escola dos efeitos da politicagem que voltava
a tomar conta do País:

E durante a revolta de São Paulo, quando solicitada pelos politiqueiros civis e


militares para aderir ao movimento, respondeu a Escola Militar com aquele gesto de
civismo e disciplina consciente, sem o qual você e todos nós teríamos soçobrados
sob os escombros da rebelião. Isto, meu caro general, você deve saber como se
obtém.
Na frente da nova geração de cadetes, esforcei-me para estimular a educação e o
saber, o espírito de solidariedade e o respeito às leis. Ao mesmo tempo procurei
afastar da Escola aqueles que se mostraram baldos de moral, infensos à disciplina e
ao trabalho, a fim de alcançar justamente o grau de eficiência a que chegou, como é
sabido, a nossa Escola Miliar.636

Juntamente com a carta enviada ao chefe da pasta da Guerra, José Pessoa encaminhou
um ofício por meio do qual pediu demissão do cargo de comandante da Escola Militar. No
documento informou a Góes que cumpriria todas as determinações impostas pelos avisos
ministeriais dos dias 31 de março e 7 de abril. Entretanto, devido à interferência do ministro
nos assuntos da Escola, o que havia ferido a autonomia da instituição de ensino, invadido as
atribuições do comandante e contrariado o Regulamento da Escola Militar, depunha nas mãos
do governo o comando da mesma. Em algumas observações feitas à lápis nas cópias do
documento, Pessoa considerou a atitude que tomou como uma reação contra a anarquia que
havia sido criada pelo ministro em torno da Escola. Também ressaltou que o ofício era uma

635
Ibidem.
636
Ibidem.
433

forma de mostrar que a ações de Góes Monteiro em relação ao estabelecimento de ensino


sempre foram “nefastas”.637
Nos dias que se seguiram, Góes enviou duas correspondências a Pessoa. A primeira,
datada de 19 de abril, classificada como secreta e pessoal, foi uma resposta à carta de Pessoa,
de 17 de abril. Nela o ministro da Guerra lembrou que o início das correspondências trocadas
entre os dois deu-se, da sua parte, em um tom simples e despretensiosos, sem muitas
formalidades, o que seria próprio da alta consideração, da confiança e da camaradagem que
nutria por Pessoa. Entretanto, segundo o ministro, foi o comandante da Escola que teria se
valido do formalismo desnecessário e incompatível com a singeleza da linguagem incialmente
utilizada para dar interpretação errônea a certos assuntos tratados e fazer-lhe acusações
injustas, de ordem moral e funcional. Góes não considerou próprio, também, que se
mantivesse, entre pessoas que se conheciam de longa data e que mantinham um certo grau de
intimidade e camaradagem, uma troca de correspondências tão alongada e impessoal, para
tratar de assuntos de ordem pública. Considerou, ainda, que José Pessoa o tratava de modo
injusto, quando qualificava de “maldade” certas ideias por ele expostas. Salientou que nunca
procurou ser mau e, particularmente, não o seria com um “distinto e digno companheiro de
classe”. Em relação à maneira como enxergavam o futuro do Exército, Góes afirmou:
“Acredito, ainda que, só pelas expressões decorrentes da natureza e diversidade de nossos
temperamentos, possam apreciar-se discrepâncias em relação aos objetivos que temos em
vista alcançar para o Exército”. E concluiu indicando que a correspondência que estava
enviando colocava um ponto final na discussão entre os dois, por achar “não haver mais
razões de reciprocas recriminação no terreno amistoso” a que os havia conduzido a conjuntura
de serviço.638
Em suas memórias, José Pessoa adverte o leitor para não se deixar impressionar pelas
palavras “melífluas” de Góes Monteiro e pela afirmação de que deixaria em paz a
administração da Escola Militar. Nas suas palavras, somente seriam enganados aqueles que
não conheciam a vida pregressa do ministro desde os bancos escolares, uma “vida mergulhada
numa existência dissoluta de desvirtuamento de caráter” (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta IV,
p. 17). O verdadeiro objetivo do tom de cordialidade utilizado nesta última correspondência,
segundo Pessoa, estava oculto. Tratava-se apenas de “uma manobra de diversão, camuflada
em nuvens de fumaça, que não tardou a se desvendar em atos de uma verdadeira intervenção
branca, perturbando o ensino e a disciplina da Escola Militar...” (ALBUQUERQUE, 1953,

637
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp31.05.12, doc. 31/0096 e 31-A/0096.
638
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp31.05.12, doc. 33/0098.
434

Pasta IV, p. 20). E indicou que, nos meses seguintes, diferentemente do que o ministro teria
afirmado, a intervenção no estabelecimento de ensino se intensificou:

Nesta nova fase não houve mais tréguas; as ordens descabidas se sucediam, uma
após a outra, até a perturbação da vida escolar, e, afinal, a indisciplina do Corpo de
Cadetes, sob a promessa de pôr abaixo, como de fato fez o ministro, o novo
Regulamento da Escola, que ampliava para quatro anos de curso, para escancarar,
em seguida, as portas daquele estabelecimento de ensino e educação a tudo quanto
era rebotalho, até a indivíduos julgados por crime infamante pelo foro comum 639.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta IV, p. 20)

Rodrigues (2010, p. 136) aponta que essa intensa troca de correspondências entre José
Pessoa e Góes Monteiro ilustra muito bem o pensamento político de cada um dos militares.
De um lado, a formação ideológica complexa na qual se inseria Góes, por demais inclinado a
defender a coisa pública articulada à defesa das Forças Armadas, mesmo que o interesse
levasse a interferir no processo de seleção do núcleo de formação profissional do Exército, à
época. Do outro, o interesse de Pessoa em formar a base de uma nova elite militar, por meio
de uma educação isenta de problemas políticos e morais. Todas essas qualidades, apenas
deveriam ser melhoradas na Escola Militar e não adquiridas naquele estabelecimento de
ensino.
No dia 20 de abril, o ministro da Guerra respondeu ao ofício enviado por José Pessoa,
em que solicitava o afastamento do comando da Escola Militar. Góes informou que, “em
consequência da ética e da ordem militares”, encaminharia o pedido ao chefe do Governo
Provisório, para que este decidisse sobre a exoneração solicitada e a nomeação para uma nova
comissão.640 No documento em que encaminhou ao chefe do Governo Provisório o pedido de
demissão de Pessoa, o ministro apontou que o modo como o comandante da Escola Militar
havia apresentado a sua solicitação de exoneração não só afastava-se da ética e da ordem
militar como, também, da ordem e da moral e, por isso, encerravam em seu contexto infrações
disciplinares. Quanto à ordem que havia dado, por meio de avisos, para a rematrícula de ex-
cadetes, ressaltou que a Escola Militar estava subordinada ao Estado-Maior do Exército, no
ponto de vista do ensino, e ao Ministério da Guerra, nas questões de ordens disciplinar e
administrativa. Devido a isso, as interferências que havia feito no estabelecimento de ensino

639
Refere-se José Pessoa, nesse caso, à reinclusão do ex-cadete Gabriel Soares Marroig. Em janeiro de 1933,
Marroig havia sido condenado na justiça civil do Distrito Federal a um ano de prisão, por ter cometido crime
incurso nos Arts. 268 e 272 (estuprar mulher virgem ou não, mas honesta, menor de 16 anos), do Código Penal
de 1890, que vigia à época. Por ter cometido falta grave inadmissível ao oficialato, Marroig foi desligado da
Escola Militar em fevereiro do mesmo ano. Em maio de 1934, por ordem do ministro da Guerra, o ex-cadete foi
reincluído no Corpo de Cadetes, na arma de Infantaria. Conforme Boletins da Escola Militar do Realengo nº 27,
de 1 fev. 1933; nº 28, de 2 fev. 1933; e nº 108, de 8 maio 1934.
640
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp31.05.12, doc. 34/0098.
435

eram perfeitamente regulares e de caráter didático, em concordância com o EME. Sendo


assim, alegou ao chefe do Governo que a afirmação de Pessoa, de que o ministro da Guerra
teria invadido as atribuições do comandante da Escola, era totalmente destituída de
fundamento.641
No documento, Góes concluiu que, diante das atitudes de Pessoa, que haviam se
tornado passíveis de sanções disciplinares, era necessário que ele fosse exonerado do cargo de
comando. E apontou ao chefe do Governo as funções vagas que poderiam ser ocupadas pelo
posto de general-de-brigada: Subchefe do Estado-Maior do Exército (Capital Federal),
comandante da 3ª Brigada de Infantaria (São Paulo), comandante da 8ª Brigada de Infantaria
(Belo Horizonte), comandante das 1ª e 2ª Divisões de Cavalaria (Rio Grande do Sul) e
comandante da 1º Distrito de Artilharia de Costa (Capital Federal). Entretanto, o ministro fez
duas ressalvas à ocupação dos postos por Pessoa. O cargo de subchefe do EME era de
confiança do chefe do EME e Góes avaliou que José Pessoa não tinha capacidade intelectual
para exercê-lo. Obviamente, não era esse o principal empecilho à ocupação do cargo e, sim, o
fato de o EME trabalhar em íntima ligação ao Ministério da Guerra. O exercício de um cargo
naquele órgão também conferia ao seu ocupante uma posição de destaque dentro da
instituição. Ademais, caso o chefe do EME, por qualquer motivo, se ausentasse do cargo, José
Pessoa assumiria a função.642
Góes também considerou que Pessoa, por ser de Cavalaria, não estaria apto a
comandar a Artilharia de Costa, cuja sede ficava na Capital Federal. Levando-se em conta que
todos os demais cargos ficavam distantes do Rio de Janeiro, parece evidente que Góes
pretendia afastar José Pessoa do centro de poder do Governo Provisório. Apesar de toda a
celeuma existente entre os dois, Pessoa ainda gozava de grande consideração entre os generais
do Exército. Além disso, como seria possível descartar um dos próceres da Revolução de
1930? Ainda estava viva na memória da Instituição e da sociedade civil a atuação do irmão de
João Pessoa no movimento levado a termo na Capital Federal. No entanto, apesar das
alegações do ministro, foi justamente para o comando da Artilharia que Pessoa foi nomeado
após a sua saída da Escola Militar, assunto que será tratado no próximo capítulo.643
A exoneração do cargo aconteceu no dia 28 de abril e em 2 de maio Pessoa passou o
comando da Escola para o general Almério de Moura.644 Antes, porém, de deixar o comando

641
Arquivo Nacional. Fundo Góes Monteiro. Doc. SA 226.16.18-19
642
Ibidem.
643
Ibidem.
644
Informações extraídas da Fé de Ofício de José Pessoa.
436

da mocidade militar, enfrentou uma greve de cadetes, motivada pela implementação do novo
regulamento da Escola.
O Regulamento de 1934, em grande parte, manteve a estrutura do anterior. No entanto,
implementou mudanças profundas no plano de ensino e nos métodos educacionais, assunto
abordado anteriormente neste capítulo. As mudanças mais significativas foram a ampliação
do tempo de duração do curso para quatro anos, a previsão de um ano de ensino fundamental
para os cadetes de todas as armas, inclusive para os da aviação militar, um ensino militar
específico para cada arma, e a necessidade de uma inspeção anual de saúde obrigatória, “com
o caráter de prova eliminatória”, que deveria ser realizada por todos os cadetes no retorno das
férias. Este último item foi o estopim da insubordinação dos cadetes dos 2º e 3º anos, ocorrida
no dia 26 de abril.
Segundo Pessoa, essas novas ideias prestaram-se admiravelmente, como objetivos, às
explorações dos políticos militares da época, principalmente do ministro da Guerra, contra o
espírito inexperiente da juventude militar. Na sua visão, o envolvimento da Escola Militar na
trama política que insistia em transformar o País em uma “mazorca” era necessário àqueles
que ambicionavam perturbar a sucessão presidencial, servindo, dessa forma, o
estabelecimento de ensino, de vanguarda explorada “por aqueles elementos sem entranhas”.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta IV, p. 21)
Conforme narra José Pessoa, os motivos que levaram os cadetes a protestarem e a
negarem-se a cumprir as suas obrigações escolares no dia 26 de abril foram, primeiramente, o
temor de que a aplicação da inspeção de saúde obrigatória, definida no novo regulamento da
Escola, fosse desligar um grande número de cadetes, e, em segundo lugar, o desligamento dos
implicados no incidente da briga de Bangu. No início da tarde daquele dia, os comandantes
das 1ª e 2ª Companhias de Infantaria, capitães Antônio José Belagamba e Arthur da Costa e
Silva, apresentaram-se a Pessoa para reportar-lhe que os cadetes daquelas subunidades, em
resistência passiva, se negavam a entrar em forma para seguirem para as aulas teóricas.
Naquela ocasião, inconformados com a atitude tomada pelos subordinados, os dois capitães
solicitaram as exonerações de suas funções de instrutores, não sendo aceitas por José Pessoa,
que mandou, ato contínuo, reunir o Corpo de Cadetes no segundo pátio da Escola.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta IV, p. 23-25)
Dirigindo-se aos cadetes, informou-lhes que as inspeções de saúde não visavam o
desligamento dos cadetes matriculados nos anos anteriores. Antes de qualquer coisa, os
exames médicos tinham por objetivo organizar uma ficha médica para cada cadete. Quanto à
exclusão dos implicados na briga de Bangu, ressaltou que o caso já havia sido entregue às
437

autoridades da justiça civil, após ter sido dado termo ao inquérito policial que havia mandado
proceder, e que o caso contava com o seu acompanhamento vigilante. Após comunicar aos
presentes que tomaria medidas repressivas, caso não retomassem em ordem as atividades
diárias, convocou uma reunião de oficiais no salão de honra da Escola, para que,
conjuntamente, decidissem as ações a serem tomadas a respeito do caso. Dentre as várias
sugestões presentadas, ficou decidido que o comandante e os oficiais das subunidades agiriam
para levar os cadetes em forma para as atividades da tarde, o que aconteceu, sem sobressaltos.
Antes, porém, nas salas de aula, receberam uma palestra sobre educação, disciplina e dever
militar, ministrada pelos professores e oficiais da administração da Escola.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta IV, p. 25-26)
No mesmo dia, Pessoa enviou um ofício ao ministro da Guerra, informando a
manifestação de indisciplina no Corpo de Cadetes e as causas que a levaram a efeito.
Ressaltou que, diferentemente da tentativa de levante de cadetes ocorrida por ocasião da
Revolução de 1932, não lhe cabia, naquele momento, como comandante demissionário, dar
uma solução definitiva ao caso. Sendo assim, entendia ser o chefe da pasta da Guerra a
autoridade competente para julgar a situação. Por fim, comunicou que o Corpo de Cadetes se
encontrava preso preventivamente. À lápis no cabeçalho da cópia do documento, Pessoa
observou que a greve dos cadetes havia sido o “epílogo da politicagem do ministro da Guerra
na Escola Militar”.645
Por meio da Portaria nº 101, de 26 de abril de 1934, o ministro da Guerra mandou,
então, que fosse instalado um inquérito policial militar para apurar os fatos narrados pelo
comandante da Escola. Para presidi-lo, foi escolhido o general Arnaldo de Souza Paes de
Andrade que, segundo Pessoa, era “um colega pouco simpático ao comandante da Escola” e
que “só apurou o que não convinha” (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta IV, p. 28). A solução ao
processo instaurado foi publicada no Boletim Interno do Departamento da Guerra, de 12 de
maio. Como resultado, por um ato coletivo de indisciplina passiva, ao Corpo de Cadetes foi
imputada uma prisão disciplinar de 30 dias, a contar de 27 de abril e a ser cumprida no
interior da Escola. Na visão de Pessoa, conforme relata em sua autobiografia, o castigo não
surtiu efeito prático, já que os cadetes se encontravam presos preventivamente desde aquela
data e tiveram a sua pena suspensa por Góes Monteiro em 16 de maio, antes mesmo de

645
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp31.05.12, doc. 36-A/0100-1.
438

completar o prazo estipulado, devido ao bom comportamento que mantiveram durante o


transcorrer do inquérito.646
Constava, ainda, na apreciação dos fatos feita pelo general Paes de Andrade, que os
cadetes deixaram de “cumprir os comandos ordenados pelos oficiais e pelo próprio
comandante da Escola Militar”647. Ainda que Pessoa não se refira diretamente ao assunto, a
consideração feita por Andrade teve o claro intuito de atender às reconsiderações de ato
solicitadas pelos capitães Belagamba e Costa e Silva648, dois dias após a manifestação dos
cadetes. No Boletim Escolar do dia 27 de abril, José Pessoa fez publicar o relato dos fatos
ocorridos no dia anterior. No texto, constou que o Corpo de Cadetes, “mal orientado em
assuntos de aplicação de um dispositivo regulamentar, havia concertado a ausência coletiva
aos trabalhos escolares, deixando, também, de atender aos seus instrutores”649. Sentindo-se
atingidos em seus brios, os comandantes de companhias solicitaram à Pessoa que mudasse a
parte do texto que considerava a insubordinação somente aos instrutores, já que, em um
primeiro momento, nem mesmo o comandante da Escola teve suas ordens plenamente
atendidas pelos cadetes, tendo ficado, dessa forma, segundo Costa e Silva, “plenamente
patenteado que o comando periclitou integralmente em todos os escalões”. Pessoa não
atendeu ao pedido dos capitães, manteve o texto original do Boletim Escolar e encaminhou o
pedido dos instrutores a Paes de Andrade, para que o assunto fosse apreciado no transcorrer
do inquérito.
Ao deixar a Escola Militar, José Pessoa ficou adido ao Departamento Geral do
Pessoal, enquanto aguardava a sua nova comissão no posto de general. Diante das diversas
notícias desencontradas que estavam sendo veiculadas pelos jornais da Capital Federal sobre a
greve dos cadetes, resolveu relatar a sua versão dos fatos. No dia 13 de maio, o jornal Correio
da Manhã publicou uma nota sobre o resultado do inquérito conduzido por Paes de Andrade
para apurar a greve dos cadetes. Segundo a notícia, a causa do pedido de demissão de Pessoa
do comando do estabelecimento teria sido a greve dos cadetes.650

646
Conforme publicação nos Boletins da Escola Militar do Realengo nº 113, de 14 maio 1934; e nº 115, de 16
maio 1934.
647
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 113, de 14 maio 1934.
648
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp31.05.12, docs. 37 e 38.
649
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 97, de 27 abr. 1934.
650
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 13 maio 1934, p. 2.
439

Imagem 79 – José Pessoa e o general Almério de Moura, que o substituiu,


na passagem de comando da Escola Militar, em 2 de maio de 1934.

Fonte: Hemeroteca da Biblioteca Nacional. Revista Vida Doméstica, jun. 1934.

Consternado com as “pérfidas notícias anônimas” a respeito dos atos de indisciplina


ocorridos na Escola Militar, que, segundo ele, teriam sido veiculadas pelos “mazorqueiros”
que não conseguiram lhe atribuir responsabilidade sobre os atos dos cadetes no inquérito
conduzido por Paes de Andrade, Pessoa enviou uma carta ao Correio da Manhã, solicitando a
retificação das informações veiculadas no dia anterior. No texto, publicado na edição do dia
16 de maio, ressaltou que um simples ato de indisciplina jamais justificaria o seu pedido de
demissão do comando da Escola, principalmente porque ele havia sido praticado sem
nenhuma razão moral ou legal justificável. E, destacando que o seu pedido de demissão já
havia sido encaminhado dias antes da greve dos cadetes, explicou os verdadeiros motivos do
seu pedido de exoneração:

Esses motivos importavam em não me conformar com a revogação, mediante avisos


ministeriais, de dispositivos expressos e imperativos do regulamento da Escola
Militar, vale dizer de uma lei recentemente aprovada pelo chefe da Nação.651

Por fim, fez ver ao redator do periódico, que este, na verdade, havia sido vítima de
“informações infundadas, oriundas, talvez, de pessoas interessadas em ocultar, maldosamente,

651
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 16 maio 1934, p. 3.
440

a verdade dos fatos”. Concluiu afirmando que o que havia se passado nada mais era do que o
fruto da época pela qual o País estava passando.652
Ao tomar conhecimento da notícia veiculada pelo jornal carioca, Góes Monteiro
mandou Pessoa informar se era da sua autoria o texto publicado. Em uma mensagem
manuscrita, José Pessoa confirmou ao ministro da Guerra que ele havia enviado a carta ao
periódico, com “o objetivo único de restabelecer a verdade” quanto aos motivos que o
levaram a pedir demissão do comando da Escola, já que a opinião que havia se formado em
torno dos acontecimentos do dia 26 de abril era “desairosa” à sua autoridade.653
Diante da confirmação de Pessoa, Góes Monteiro resolveu puni-lo. Enquadrou-o à luz
do Regulamento Interno e dos Serviços Gerais, por ter: censurado ato de seus superiores,
procurado desacreditar seus superiores, se referido de modo desrespeitoso aos seus superiores
e ter dado conhecimento ao jornal de ocorrência afeta ao serviço militar.654 Em uma
demonstração clara do poder que podia exercer sobre os quadros mais altos da instituição, o
ministro enviou um aviso reservado a todos os generais da ativa do Exército, comunicando a
prisão domiciliar de José Pessoa por 48 horas. O período do castigo só não foi maior, porque,
como ressaltou Góes, tinham sido levadas em conta as “circunstâncias atenuantes” dos
“inolvidáveis serviços no comando da Escola Militar, onde deixou traços profundos de
excelentes administrador”. Considerou o ministro, em sua decisão, que Pessoa havia excedido
o “justo limite que a todo militar é lícito usar, em defesa de sua conduta” ao revelar “matéria
de natureza reservada afeta à decisão do final do Chefe da Nação, por envolver crítica
descabida e improcedente a atos legítimos da autoridade do Ministro da Guerra e do próprio
Chefe do Governo”.655
Em uma anotação à lápis no cabeçalho do documento expedido por Góes, José Pessoa
considerou a medida do ministro uma “sentença de um irresponsável, zombando de todo o
Exército”656. Em suas memórias, considerou que um ministro que havia mandado rematricular
na Escola Militar cadetes expulsos “a bem da disciplina e moralidade”, não tinha “autoridade
moral” para responsabilizar um comandante que se nobilitava por obedecer a soberania da lei.
Para Pessoa, Góes Monteiro revelava-se, como chefe, aquele mesmo cadete de outrora, cheio
de mazelas e vícios, que os colegas haviam cognominado de “Mimi Bilontra”.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta IV, p. 33)

652
Ibidem.
653
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp31.05.12, doc. 46/0104-5.
654
Números 21, 22, 23 e 24, do Art. 338, do Regulamento Interno dos Serviços Gerais, de 1929 (Decreto nº
19.040, de 19 dez. 1929).
655
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp31.05.12, doc. 44/0105.
656
Ibidem.
441

Certo de que não havia cometido nenhuma transgressão disciplinar, e após ter
cumprido o castigo a que fora submetido, Pessoa comunicou ao ministro, em 22 de maio, que
iria queixar-se dele ao Chefe do Governo Provisório, como permitia o RISG. 657 No dia
seguinte, Góes, por força de regulamento, solicitou a Getúlio Vargas permissão para que José
Pessoa apresentasse a sua queixa. Na mesma data, também por força regulamentar, este
deixou a subordinação ao ministro da Guerra e passou à disposição do Chefe do Governo, até
que fosse dada uma solução ao caso.658
A queixa foi apresentada por José Pessoa em 9 de junho. Em um longo documento de
13 páginas, ao qual juntou uma série de documentos e recortes de jornais e do Diário Oficial,
que diziam respeito aos fatos por ele explorados, Pessoa apresentou à Vargas as razões que o
levaram a queixar-se de Góes. Após lembrar ao Chefe do Governo as ações profícuas que
havia realizado em prol do Exército, ao implementar as mudanças físicas e anímicas na Escola
Militar, e a vida devotada que tivera à serviço da Pátria, fez um longo relato dos fatos
atinentes à greve dos cadetes e das diversas interferências do ministro da Guerra na vida
administrativa e disciplinar do estabelecimento de ensino. Quanto ao que o motivou a pedir
demissão do comando da Escola, salientou que por ter sido “educado dentro do respeito às
leis, que constituem a norma da moralidade e da justiça”, a sua consciência não o
“aconselhava a permanecer no exercício de um cargo cujas atribuições vinham sendo
invadidas por intermédio de ordens contrárias e dispositivos legais”. Em relação às
interferências de Góes e as recusas em atender aos inúmeros pedidos de rematrículas de ex-
cadetes feitas pelo ministro, ressaltou que somente as fizera para evitar que a Escola militar
“fosse invadida pela onda de protegidos, como se tem dado, indesejável ao corpo de oficiais,
do qual depende a eficiência do Exército e a tranquilidade do País”. Como cidadão consciente
das responsabilidades e deveres que tinha, afirmou a Getúlio que não podia assistir impassível
“tamanho atentado àquela sagrada instituição [Escola Militar]”, que era considerada o orgulho
do Exército, por sua disciplina e seu trabalho.659
A respeito da carta de sua autoria que havia sido publicada no jornal Correio da
Manhã, observou que a opinião pública vinha refletindo um juízo errôneo sobre os fatos que
deram origem ao ato de indisciplina que tomou conta da Escola Militar no dia 26 de abril e
que as autoridades militares não haviam procurado esclarecer o ocorrido. Por isso, viu-se na
obrigação de solicitar ao periódico a retificação das informações que publicara em 13 de

657
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp31.05.12, doc. 46.
658
Arquivo Nacional. Fundo Góes Monteiro. Docs. SA 226.6 e SA 226.7.
659
Arquivo Nacional. Fundo Góes Monteiro. Doc. SA 226.8.
442

maio. Afirmou que o seu único objetivo foi precisar o motivo da sua demissão e reestabelecer
a verdade em relação aos acontecimentos relativos à greve dos cadetes. Com tais argumentos,
disse ter se surpreendido com a punição que havia sido lhe imposta por Góes Monteiro, ainda
mais por tratar-se ele próprio de uma general do Exército que “acabava de prestar os mais
assinalados serviços ao Governo à frente de espinhosa missão, gozando, pelo seu proceder, na
sua classe e perante o País, do mais alto conceito e a quem a mesma autoridade [Góes]
reconhece”. 660
Concluindo a sua exposição de motivos, apresentou a sequência cronológica dos fatos
que haviam se passado, dentre os quais destacavam-se as medidas intervencionistas de Góes
na administração da Escola Militar e suas consequências:

1º - Intervenção do ministro da Guerra nas atribuições privativas do comando da


Escola Militar, ferindo a autonomia desta e contrariando dispositivos expressos no
Regulamento da mesma Escola, a saber:
- rematrícula de cadetes julgados incapazes em inspeção de saúde, prestada perante
junta médica, cujas decisões são inapeláveis;
- rematrícula de cadetes que já haviam gozado, antes de sua exclusão, de todos os
favores da lei;
- rematrícula de cadetes cuja idade excedia de muito os limites estabelecidos em lei;
- rematrícula de cadete condenado à prisão celular por tribunais comuns e expulso
definitivamente da Escola Militar, a bem da disciplina, “por haver cometido falta de
natureza grave inadmissível em que se prepara para o posto de oficial”;
- rematrícula de cadetes que não o requereram à autoridade competente,
contrariando o que diz imperativamente o Art. 9 do Regulamento da Escola Militar,
tudo isto acarretando, além do mais, balburdia na vida da Escola, que carecia de
instalações para esse acréscimo de efetivo, dificuldades ao funcionamento das aulas
e do plano de ensino, exigindo a organização de nova época de exames e reunião de
novas juntas médicas, cujos membros já se achavam sobrecarregados com a
inspeção geral de saúde, e abrindo maus precedentes em uma instituição, onde mais
do que nunca devem imperar a ordem e a obediência à lei.
.......................................................................................................................................
4º - Adulteração, na opinião pública e na imprensa, dos motivos que levaram o
queixoso a solicitar demissão do comando da Escola Militar e, consequentemente,
remessa de uma carta de sua autoria ao CORREIO DA MANHÃ, com o objetivo
único de reestabelecimento dos fatos.
5º - Prisão do queixoso, mesmo depois de haver este informado por escrito ao Sr.
Ministro da Guerra dos verdadeiros propósitos que tivera na remessa da aludida
carta, confiando que aquela autoridade reconhecesse que a informação estava dentro
do que preceitua o Art. 387661 do RISG, e, fazendo-o, S. Ex. acatava o que determina
o Art. 350662 do mesmo regulamento.
6º - Finalmente, tendo consciência de que nenhuma transgressão disciplinar cometi
na remessa e redação da mencionada carta, o que destoaria da norma inflexível que
sempre me impus no desempenho da minha função militar, que exerço há perto de
35 anos, e possuindo uma fé de ofício que constitui o melhor galardão da minha vida

660
Ibidem.
661
O artigo considerava que a parte apresentada pelo oficial deveria ser considerada como expressão da verdade
pelo superior, em consequência de sua situação e dos compromissos de honra que tinha com a Nação e com o
Exército. Também previa que o superior poderia ouvir o acusado para formar perfeito juízo a respeito da
gravidade da falta.
662
O artigo determinava que as punições deveriam ser aplicadas com justiça e imparcialidade e nunca com
manifestação de ódio ou paixão.
443

militar, sinto-me forçado, e o faço impelido pela minha dignidade pessoal e


profissional, a trazer a V. Ex. a presente queixa contra o Sr. General de Divisão
Pedro Aurélio de Góes Monteiro, Ministro da Guerra, pedindo a V. Ex.
exclusivamente JUSTIÇA.663

Igualmente extenso foi o documento contendo as informações prestadas por Góes


Monteiro a Vargas a respeito dos assuntos abordados na queixa de Pessoa. Nele, Góes rebate
às acusações feitas por Pessoa sobre as interferências feitas na Escola Militar e chega a fazer
algumas insinuações a respeito da capacidade profissional e da conduta moral do ex-
comandante da Escola.
Góes iniciou o seu texto afirmando que sempre havia devotado particular estima e
consideração por José Pessoa, desde os bancos escolares, apesar das suas “intransigências e
assomos de opiniões”, no serviço e fora dele, o que considerava impróprio para alguém que já
havia ascendido a um grau tão elevado da carreira. Também considerou que, na queixa,
Pessoa havia se afastado do objeto que lhe era lícito tratar, pois, de acordo com a norma
regulamentar, somente lhe cabia recurso quanto às considerações feitas em relação à matéria
publicada no jornal Correio da Manhã, causa da prisão a que foi submetido. Tudo o que foi
apresentado a mais, segundo o ministro, ia de encontro ao comportamento ético e aos
preceitos que regiam os assuntos da disciplina militar. Dessa forma, Góes entendia que
Pessoa, por ter extrapolado os objetivos da queixa664, havia cometido uma nova
transgressão.665
O ministro ressaltou que aguentou até quanto pôde as arremetidas de José Pessoa
contra a sua autoridade, feitas por meio de documentos privados e nos autos de inquéritos
procedidos na Escola Militar, além das “outras incompreensões e inconveniências no tocante
às relações que deviam ser mantidas entre uma autoridade superior e outra autoridade
subordinada”. Segundo Góes, quando se produziram os primeiros atritos, ele teria agido com
serenidade e se valido da confiança depositada em Pessoa, a fim de fazê-lo mudar da falsa
direção que havia tomado na direção da Escola Militar, em cujo comando teria agido com
excesso de arbítrio, e de não levar ao exagero medidas que havia tomado e que contrariavam
as decisões emanadas pelo ministério da Guerra. Para Góes, as respostas às suas cartas, feitas
em termos impróprios por José Pessoa, em face da contrariedade que demonstrou, diante das

663
Arquivo Nacional. Fundo Góes Monteiro. Doc. SA 226.8.
664
O RISG de 1929 previa, no Art. 389, que a queixa deveria precisar exatamente o objeto que a fundamentava e
ser redigida em tom respeitoso, além de não ser permitido que o queixoso tratasse assuntos estranhos ao fato que
a tinha motivado.
665
Arquivo Nacional. Fundo Góes Monteiro. Doc. SA 226.8.
444

decisões ministeriais que iam de encontro aos seus pontos de vista, por si só já eram causa de
novas sanções.666
Em outro ponto de seu texto, Góes insinuou que teria interferido decisivamente junto
ao ministro Leite de Castro a favor da nomeação de José Pessoa para o comando da Escola
Militar, fato do qual Pessoa ingratamente havia se esquecido. Afirmou que, inclusive, o
primeiro nome lembrado por Castro para a direção do estabelecimento de ensino teria sido o
dele e não o de Pessoa. E mais, destacou que a manutenção deste na direção da Escola, após
ter concluído o curso de Estado Maior, teria dependido de uma opinião sua, a respeito da
aptidão de Pessoa para a o comando. Em uma afronta à conduta moral do ex-comandante,
Góes contrapõe o fato deste intitular-se constantemente guardião dos regulamentos internos
da Escola com o de ter sido nomeado à revelia do regulamento da Escola, que vigia em 1931.
O ministro lembrou que o regulamento precisou ser modificado por decreto 667, para que
Pessoa assumisse o cargo, já que não possuía, à época, o curso de Estado-Maior.668
Em relação às rematrículas de ex-cadetes, que, segundo Pessoa, teriam sido impostas
por Góes Monteiro e vinham perturbando a vida administrativa da Escola, o ministro afirmou
que foram casos singulares e que não haviam, em nenhum momento, contrariado as normas e
regulamentos da Escola ou do Exército. Lembrou que o próprio José Pessoa, em anos
anteriores, havia mandado rematricular cadetes reprovados no “carro de fogo”. Ademais,
ressaltou que se o ex-comandante tivesse se sentido invadido em suas atribuições por meio de
ordens contrárias aos dispositivos legais, cumpria-lhe ter apelado para os recursos garantidos
pelo RISG. Já ao final do texto, Góes destacou que todas as decisões que havia tomado em
relação aos fatos ocorridos na Escola Militar, como a revogação do desligamento dos cadetes
envolvidos na briga de Bangu, bem como as rematrículas de ex-cadetes, trataram-se de atos
administrativos e da competência do ministro da Guerra, não havendo nada de estranho às
normas regulamentares.669
Na conclusão do seu parecer, o ministro alegou que, por ter José Pessoa apresentado
fatos estranhos ao que motivou a queixa, estava claro que ele havia cometido nova
transgressão disciplinar. Entretanto, Góes solicitou a Vargas que levasse em conta, em sua

666
Ibidem.
667
O Regulamento da Escola Militar de 1929 previa que o cargo de comandante da Escola Militar deveria ser
ocupado por um general-de-brigada ou por um coronel com o curso de Estado-Maior. José Pessoa ainda não
havia realizado o curso, quando assumiu a direção do estabelecimento de ensino. O fez no primeiro ano de
comando. Não foi localizado o decreto a que Góes Monteiro se refere e que teria modificado esse dispositivo.
668
Ibidem.
669
Ibidem.
445

decisão, os serviços anteriores do queixoso e a “desagradável situação moral” em que ele


havia ficado após a greve dos cadetes na Escola Militar.670
Em 17 de julho, Vargas deu a sua solução à queixa apresentada por José Pessoa. Este
considera, em suas memórias, que Getúlio lhe deu razão e mandou Góes cancelar o ato
injustificado que havia praticado, devido aos seus atos e serviços relevantes à frente da Escola
Militar. Entretanto, na análise fria que se faz da conclusão do processo, fica evidente a
influência que o ministro tinha junto ao chefe do Governo Provisório, uma vez que Getúlio
mandou arquivar a queixa e cancelar a nota de prisão de Pessoa “de acordo com o parecer do
Sr. Ministro da Guerra” e “atendendo aos relevantes serviços prestados pelo Gen. José Pessoa
na direção Escola Militar”, exatamente como Góes havia solicitado em sua exposição de
motivos.671
A demissão de José Pessoa do comando da Escola Militar e a indisposição que se
criou entre ele e Góes Monteiro, que não ficou restrita somente aos eventos afetos à Escola do
Realengo, certamente influenciaram fortemente o futuro de sua carreira militar. Pessoa não foi
impedido de exercer funções de expressão no posto de general, dentro da Instituição. Porém,
foi afastado da esfera de poder do Exército junto ao Governo, o que o impediu de chegar aos
cargos mais altos da Força, como à chefia do Estado-Maior do Exército ou, até mesmo, ao
Ministério da Guerra. No próximo capítulo será feita uma digressão, para se incluir a visão de
José Pessoa sobre a construção da nova Escola Militar, em Resende-RJ. Logo após, retomar-
se-á o fio da história, com a abordagem das comissões que Pessoa exerceu durante o
generalato e a sua última missão, já na reserva do serviço ativo.

670
Ibidem.
671
Ibidem.
446

8 A NOVA ESCOLA QUE IREMOS CONSTRUIR

José Pessoa nunca escondeu a sua insatisfação com a localização da Escola Militar. Ao
tratar, em suas memórias, dos problemas da formação e da instrução dos oficiais do Exército
brasileiro, deixou claro os motivos da intolerância com o bairro de Realengo:

Ali tudo é impróprio à formação do corpo de oficiais. O clima é exaustivo; os


campos empantanados facultam a proliferação de mosquitos e, pois, os surtos de
impaludismo; a paisagem, por toda a parte, é cansativa e monótona; as condições da
localidade, qualquer que seja o ponto de vista porque sejam encaradas, estão abaixo
das exigências necessárias. E pela localização, dentro da Capital Federal, ainda está
sujeita a ser presa das agitações políticas que, periodicamente, ainda inflamam a
capital do País, como frequentes vezes tem acontecido.672

Para Pessoa, a solução para os problemas da formação passava pela reforma radical da
educação e da preparação da mocidade militar, o que criaria uma nova geração de soldados,
ciosos dos seus deveres morais e materiais da profissão militar e do seu papel na sociedade
brasileira. Parte do plano já havia sido posta em prática, por meio da reforma radical, material
e anímica, que operou na Escola Militar do Realengo, a partir de 1931, e examinada no
capítulo anterior. Entretanto, faltavam as instalações adequadas que correspondessem às
mudanças implementadas673. A necessidade da escolha de uma nova localidade para a Escola
Militar foi anunciada por ocasião da sua primeira ordem do dia, publicada em boletim escolar.
A exemplo de todos os “povos cultos e militarmente organizados” 674, a nova escola
militar deveria estar localizada em uma região abrigada, afastada da agitação social dos
centros populosos, a fim de “salvaguardar a disciplina de uma classe, que não pode e não deve
conhecer outro ‘mot d’ordre’ (palavra de ordem) que não seja o da subordinação à lei, para
respeitá-la e fazê-la respeitada”675. Segundo José Pessoa, a escolha do novo local do
estabelecimento de ensino militar deveria satisfazer a algumas condições:

- clima ameno e seco;


- salubridade perfeita (ausência de endemias locais);
- variedade topográfica, para treinamento militar dos instruendos;
- abundância de água potável e presença de um grande rio, para aplicações militares
(exercícios de pontoneiros, transposição de curso d’água, desportos náuticos, etc);
- facilidade de comunicações (rodoviária e ferroviária) com os centros adiantados do
País e, se possível, com as estações termais de repouso;

672
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JP ag 1936.04.12.
673
Segundo seu próprio relato, ao ser convidado por Leite de Castro para assumir o comando da Escola Militar,
em 1930, José Pessoa teria imposto ao ministro da Guerra duas condições para a aceitação do novo cargo: a
primeira, era a não interferência das autoridades superiores no seu comando, a não ser que fosse para corrigir
algo que lhes parecesse errôneo; a segunda, era a construção de uma nova instalação para a Escola, longe das
grandes metrópoles do País. Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JP ag 1936.04.12.
674
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JP ag 1936.04.12.
675
Ibidem.
447

- meio social homogêneo e compatível com a formação moral dos futuros chefes do
Exército;
- tranquilidade, a fim de que os trabalhos e o regime escolar não sejam perturbados
pela agitação social e as atrações de uma grande capital.676

Para ele, seria do recinto austero da nova escola que surgiria a elite militar do Exército
brasileiro. Idealizada pelos “homens da pós-revolução”, seria a responsável pela formação de
uma mentalidade criadora e uniforme, “capaz de organizar o Exército” de que a Nação
precisava.

A Escola Militar é a fonte, de onde, sem cessar, emana a força nova do Exército, que
são as suas contínuas levas de oficiais. Sem receio de errar, pode-se dizer que tanto
mais eficaz será a reforma do Exército quanto melhor for condicionado à preparação
das novas gerações de oficiais. E uma das condições precípuas dessa preparação
depende, em última análise, de convenientes instalações pedagógicas e científicas
para os nossos centros de cultura, de um modo geral e, em particular, da Escola
Militar, que é a escola de formação por excelência. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta
IV, p. 73)

Antes mesmo de ser nomeada uma comissão executiva para planejar a construção da
nova escola militar, José Pessoa já percorria a região Sudeste do País em busca do local mais
apropriado para abrigar as instalações do estabelecimento de ensino militar. Segundo Câmara
(2011, p. 146-148), as cidades de Petrópolis e Teresópolis foram lembradas pelo clima ameno
e por se encontrarem fora do centro político da Nação. Entretanto, eram carentes de variedade
topográfica, localizando-se em terreno predominantemente montanhoso, o que limitaria o
desenvolvimento das instruções militares. Também foram pesquisadas as áreas das fazendas
Estrela e Santa Mônica, no Rio de Janeiro, e a em que se encontra atualmente a Universidade
Federal Rural do Rio de Janeiro, em Seropédica. Em São Paulo foi considerado o Posto
Zootécnico de Pinheiros e, em Minas Gerais, a Várzea do Marçal, na cidade de São João Del-
Rei. Esta última agradou a Pessoa, porém, não atendia à condição de estar localizada no eixo
Rio-São Paulo.
A procura de um local que atendesse às expectativas de José Pessoa, para a construção
das novas instalações da Escola Militar, o levou à região das Agulhas Negras, cujos
contrafortes já haviam provocado a sua admiração e ilustravam o brasão de armas da Escola.
Bopp677 (1978, p. 348) relata que, em 15 de janeiro de 1931, Pessoa percorria a estrada

676
Ibidem.
677
Itamar Bopp foi um historiador local da cidade de Resende-RJ. Militante político da Aliança Liberal,
participou ativamente da Revolução de 1930 na região das Agulhas Negras, como membro da “Coluna
Contreiras”, da qual fora simbolicamente nomeado capitão ajudante-de-ordens. O comandante da coluna era
Nestor Contreiras, fazendeiro de Resende, que liderava cerca de 30 rebeldes, em sua maioria gaúchos,
empregados de sua fazenda. Após formada, a coluna rebelde seguiu para Minas Gerais, a fim de apoiar a
revolução naquele estado, onde recebeu armas, munição e cavalos. Após o golpe de 24 de outubro, Nestor
448

Riachuelo-Resende em companhia do capitão Mário Travassos, seu ajudante-de-ordens,


quando o carro em que se deslocavam apresentou uma pane no motor. Foram socorridos pelo
agrônomo J. Barreto Costa, diretor do Horto Florestal de Resende, que seguia em direção ao
Rio de Janeiro. Durante a viagem para a Capital Federal, Barreto Costa tomou conhecimento
do motivo da viagem de Pessoa à região. Entusiasmado com a informação de que a região
poderia vir a abrigar a nova escola de formação dos oficiais do Exército, deu meia volta no
veículo e retornou a Resende, em companhia dos dois oficiais. Pessoa e Travassos
pernoitaram na Fazenda do Castelo, de propriedade de Abílio Marcondes de Godoy e, na
manhã seguinte, apesar de ser um domingo, percorreram a cidade e visitaram o Horto
Florestal678, instalado na Fazenda das Sementes, uma das áreas consideradas propicias à
construção da nova Escola. Também tiveram o primeiro encontro com o prefeito da cidade,
Dr. Taurino do Carmo679.
Segundo Bopp (1978, p. 238), o encontro entre Pessoa e Taurino prolongou-se por
muitas horas. José Pessoa fez um inquérito minucioso a respeito da cidade: vida local,
salubridade do município, altitude, possibilidades materiais e usos e costumes.680 Ao final da
reunião, mostrou-se muito satisfeito com o que ouviu e garantiu ao prefeito que insistiria com
o ministro Leite de Castro para visitar Resende. Não restava dúvidas a Pessoa de que Resende
era a cidade ideal para abrigar o estabelecimento de ensino militar, por atender a todos os
requisitos que havia imposto para o local da nova Escola Militar.

Toda aquela região privilegiada empolga pela exuberância da natureza, pelos


panoramas deslumbrantes, pela amenidade do clima saudável, sem endemias locais,
pela abundância de água potável, banhada que é pelo caudaloso Paraíba – o que
facilita a prática de esportes náuticos; fertilidade do solo, drenado, seco, talhado ao

Contreiras retornou a Resende, tendo a sua tropa triplicado de tamanho. Na ocasião, a “Coluna Contreiras”
contava com 7 oficiais e cerca de 350 homens, em sua maioria soldados da força policial mineira. (BOPP, p.
233-236)
678
O Horto Florestal de Resende, à época, era um órgão subordinado ao Ministério da Agricultura.
679
No pleito eleitoral de 1929, foi eleito prefeito de Resende Manoel Fernandes da Silveira, que deveria
governar a cidade no período 1930-33. Nas eleições para presidente da República, foram contabilizados, no
município, 1.216 votos para Júlio Prestes e 154 para Vargas. Por ser um simpatizante de Washington Luiz,
Fernandes da Silveira foi afastado do cargo em 26 de outubro de 1930, por pressão dos políticos locais que
aderiram à Revolução de 1930. Com a vacância do cargo, assumiu interinamente a administração do município
Avelino Silveira, membro do Partido Revolucionário. Em novembro, por ordem do interventor federal do estado
do Rio de Janeiro, o delegado militar de Resende, tenente Ari Pires, reuniu os representantes locais da classe
conservadora, para que fosse escolhido um novo prefeito para a cidade. Em 11 de fevereiro de 1930, assumiu a
função Taurino do Carmo. (BOPP, p. 234-235)
680
Não foi possível precisar a população exata de Resende em 1931, já que inexiste o censo desse ano no site do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Porém, Bopp (1978, p. 231) indica que um censo
estatístico feito em 1930 apurou que a cidade de Resende, sem considerar seus distritos, possuía 2.389 habitantes
e a região de Campos Elíseos, praticamente um bairro fronteiriço à área em que a Escola Militar viria a ser
construída, tinha 1.451 moradores. Em 1948, a Sinopse Estatística do Município de Resende, feita pelo IBGE,
informou que, de acordo com o censo de 1940, o município possuía 27.422 habitantes, considerando-se os seus
seis distritos: Campo Belo, Campos Elíseos, Fumaça, Porto Real, Salto e Vargem Grande.
449

treinamento tático de todas as armas. É servido pela Estrada de Ferro Centra do


Brasil e está situada entre os seguintes pontos de penetração: Barra do Piraí (linha do
centro), Barra Mansa (oeste de Minas), que vai ao porto de Angra dos Reis, fadada a
ser um centro importante de atividades navais, e Cruzeiro (Rede Mineira de Viação
Sul). É também acessível pela estrada de rodagem Rio-São Paulo e por via aérea,
dispondo, neste particular, de campos de aterrissagem para aviões e amerissagem
para hidroaviões, justapostos e nos limites dos terrenos escolhidos. Além disso, a
vizinhança de uma cidade pequena, mas de meio social homogêneo, modesto, mas
bem constituído de famílias tradicionais, localizada entre as duas principais capitais,
Rio e São Paulo, os dois polos da civilização brasileira, afastada das tentações da
nossa grande capital e das agitações políticas. Tudo isso, aos pés das Agulhas
Negras, então o trato mais elevado das terras brasileiras, futuro centro de estudos
científicos e atração turística. As novas gerações de cadetes encontrariam ali os
elementos para a conservação da saúde, para o estudo e para a prática de todos os
exercícios necessários à sua preparação técnico-profissional.681

A presença de José Pessoa em Resende movimentou a imprensa local. Em sua edição


de 8 de março, o jornal A Lyra deu destaque à possibilidade de a cidade abrigar a nova Escola
Militar e ressaltou os impactos socioeconômicos que ela causaria no município:

A cidade de Resende não será beneficiada só... será reconstruída, triplicada e


valorizada em uma proporção de difícil cálculo. A Escola Militar a ser construída
nos moldes mais modernos e com dependências indispensáveis aos seus fins, será
uma construção de uns cinco mil contos. Deverá abranger a Escola uma área para
800 cadetes.
Ao lado desse número haverá outro efetivo, como está no Realengo, de cerca de
mais 400 homens, para os vários serviços da mesma, inclusive 120 figuras da sua
banda de música, que há pouco tempo, em concurso público no Teatro João
Caetano, ficou provado ser a melhor do Brasil!
Com a Escola virão 50 oficiais, nela em função de administração e instrução.
Com a Escola virão cerca de 40 professores e docentes. Incluindo-se o pessoal civil
nela empregado, desde os muitos oficiais de secretaria, inspetores, conservadores,
bedéis, pessoal de cozinha e copa, a Escola Militar trará para Resende umas 1.800
pessoas, não incluindo-se as suas famílias!!!
E o governo... com a construção da dita Escola, cuidará de construir mais de 150
casas para o pessoal administrativo e professorado!
Isto não é nada. O tudo será as várias centenas de contos, mensais, grifo mensais,
que virão para Resende!!!682

Com teor semelhante, o periódico A Opinião lembrou que Resende, apesar do


encantamento de Pessoa com a cidade, haveria de disputar com outras cidades do País a
primazia para abrigar a Escola Militar. Por tratar-se, o estabelecimento de ensino militar, de
um patrimônio nacional, o jornal alertou para o cuidado que se haveria de ter com a escolha
da localidade, cujos interesses deveriam ser de ordem coletiva e não para atender a
“elementos outros estranhos a essa conveniência”, referindo-se claramente às tramas políticas
que haviam caracterizado a velha República. E concitou “os responsáveis pela situação
dominante local, resultante dos acontecimentos de outubro,” a agirem com “solicitude e

681
Essa descrição encontra-se em um documento que José Pessoa intitulou “Atestado de Nascimento da Nova
Escola Militar”. Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.04.12.
682
A Lyra, Resende, 8 mar. 1931.
450

empenho”, para que a Escola Militar fosse instalada em Resende. Por fim, o periódico
destacou a importância econômica e intelectual de a cidade abrigar a nova Escola:
“Materialmente terá atuação decisiva no desenvolvimento comercial de nossa praça.
Intelectualmente será um núcleo de intensa atividade de alto relevo para o renome desse
rincão”.683

Imagem 80 – Aspecto da cidade de Resende na década de 1930 (Av. Albino de Almeida, no passado e
hodiernamente o centro comercial da cidade).

Fonte: Acervo digital do IBGE.

A aprovação de Resende para a construção das novas instalações da Escola Militar foi
dada pelo ministro da Guerra e pelo chefe do Governo Provisório em setembro de 1931.
No dia 6 de setembro José Pessoa retornou à cidade acompanhado do capitão
Alexandre Chaves, seu assistente na Escola Militar, do engenheiro Moura Filho e do arquiteto
Raul Penna Firme. A este pequeno grupo, Pessoa deu o nome de “Pequena Cruzada”. A
finalidade da nova visita era conhecer mais detalhadamente a região das Agulhas Negras. No
dia seguinte, acompanhados dos doutores Jorge Zany, diretor da Estação de Monta de
Resende, Barreto Costa, diretor do Horto Florestal, e Tácido Rodrigues, iniciaram uma
excursão a pé à região montanhosa de Itatiaia. Sob intensa chuva pernoitaram na região das
Macieiras, no Posto Meteorológico instalado no local. Um fato pitoresco narrado por Itamar

683
A Opinião, Resende, 7 mar. 1931.
451

Bopp é que, na ocasião, José Pessoa quis assinar o livro de visitantes do Posto, mas não havia
pena para fazê-lo. Um dos excursionistas, então, abateu uma ave, de cujas asas foram
retiradas as penas. Dessa forma, os visitantes conseguiram firmar a presença no local. No dia
8 de setembro a excursão prosseguiu com a escalada do maciço das Agulhas Negras. No ápice
da escalada, na localidade conhecida como Grotão, José Pessoa recolheu uma pedra com a
dimensão de 60 x 50 centímetros. Afagando o pedregulho informou aos presentes que aquela
seria a pedra fundamental da “Escola Militar das Agulhas Negras”. No final da manhã, a
caravana retornou a Resende. 684
O “namoro” de José Pessoa com a sociedade resendense ficava a cada mês mais forte.
No aniversário de emancipação política da cidade, em 29 de setembro, uma esquadrilha da
Aviação realizou um sobrevoo no local das festividades. No momento da apresentação da 5ª
Arma, o prefeito de Resende recebeu um telegrama de Pessoa com o seguinte texto: “Cmt.,
oficiais, cadetes Escola Militar, felicitam hospitaleiro povo Resende, na pessoa V. Exa.
passagem grande data – Cel José Pessoa – Cmt. E. Militar”.685
No entanto, nenhuma autoridade do Exército ou do governo federal havia estado no
local para dar o parecer definitivo para a construção da Escola Militar. Então, em 12 de
outubro, o ministro da Guerra Leite de Castro esteve em Resende, acompanhando o chefe do
Governo Provisório. Getúlio Vargas visitou a cidade a convite de Assis Brasil, ministro da
Agricultura, para conhecer a Estação Biológica de Itatiaia. Aproveitou-se a ocasião para as
três autoridades conhecerem, também, o Horto Florestal, local escolhido por Pessoa para as
futuras instalações do estabelecimento de ensino. Após o almoço oferecido naquele local para
Getúlio Vargas e sua comitiva, Leite de Castro falou à imprensa sobre a construção do novo
estabelecimento de ensino militar: “A escolha está assentada [Horto Florestal de Resende].
Poderá retardar um quanto por motivos de ordem financeira, porém, se resolverá na gestão do
presidente Getúlio Vargas...”.686 O “quanto” a que Leite de Castro se referiu duraria sete anos,
como será visto mais adiante.
Finalmente, em 4 de dezembro de 1931, por meio do Aviso Ministerial nº 23, Leite de
Castro deu a ordem para que as providências necessárias à construção de uma nova Escola
Militar fossem tomadas. O ministro reconhecia, no documento, as “impropriedades” da

684
Conforme os relatos contidos em Bopp (1978, p. 242) e na edição especial de 29 de junho de 1938, do jornal
A Lyra.
685
A Lyra, Resende, 29 jun. 1938.
686
Conforme os relatos contidos em Bopp (1978, p. 244) e na edição especial de 29 de junho de 1938, do jornal
A Lyra.
452

Escola do Realengo e a José Pessoa, como comandante do estabelecimento de ensino,


competia dar solução ao problema, o que deveria acontecer em três fases sucessivas:

1ª - Escolha de um novo local para a Escola Militar, preenchendo as condições


necessárias ao mais perfeito rendimento dos trabalhos (topografia, local e clima
apropriados) assegurando comunicações fáceis com os centros adiantados do País e
ambiente social compatível com a formação moral dos cadetes;
2ª – Elaboração de um projeto de novas instalações que encare a Escola Militar sob a
forma de área edificada na qual se distinga nitidamente o local onde vivem os
cadetes, aquele em que estes exercem suas atividades acadêmicas e o que lhes é
destinado ao treinamento físico e profissional; que assegure apropriadas instalações
aos órgãos do comando e dos serviços, do professorado e instrutores, os parques das
armas, estádios, ginásios, linha e polígono de tiro, picadeiro e pistas equestres e
automobilísticas, campos de instrução e quarteis para o contingente de serviço e para
um destacamento das três armas sobre a base de um batalhão de caçadores; que
comporte a organização de uma seção de artilharia pesada, um terreno de aviação e
um posto de monta; enfim, que abranja, suficientemente, quanto se relacione com os
modernos preceitos pedagógicos, do ponto de vista cultural como militar, isto é, com
a formação física, moral e profissional dos oficiais combatentes.
3ª – Execução do projeto assentado em condições tais que se concluam as obras em
determinado tempo e nada falte aos múltiplos pormenores de seu acabamento,
inclusive obras complementares que se venham a impor.687

Devido à complexidade dos trabalhos e à necessidade de se organizar a documentação


que seria produzida durante o planejamento e a execução do projeto, uma Comissão
Executiva688 deveria ser instituída, sob a presidência do comandante da Escola Militar. Esse
órgão tinha uma tríplice missão: escolher o local para novas instalações, elaborar o projeto
dessas instalações e fiscalizar a execução do projeto. Subcomissões seriam formadas,
constituídas por oficiais do alto comando do Exército, das armas e serviços e do
Departamento de Engenharia do Exército e por docentes da Escola. O funcionamento da
Comissão deveria ser regulado por um estatuto.689
Em 15 de dezembro a Comissão Executiva reuniu-se pela primeira vez, na sede da
Escola Militar do Realengo, para receber as propostas dos anteprojetos para a construção das
687
Publicado no Boletim Escolar nº 286, de 7 dez. 1931, p. 1.761.
688
A Comissão Executiva estava assim composta:
- Secretaria – capitão Alexandre José Gomes da Silva Chaves;
- 1ª Subcomissão (representantes do Alto Comando) – major Orestes da Rocha Lima, do Ministério da
Guerra; o 1º oficial da Diretoria Geral de Contabilidade da Guerra, Dr. José Lopes Pereira de Carvalho; e major
Mário Travassos do Estado-Maior do Exército;
- 2ª Subcomissão (armas e serviços) – os instrutores chefes dos cursos de Infantaria (tenente-coronel Eduardo
Guedes Alcoforado), Cavalaria (capitão Manoel de Azambuja Brilhante), Artilharia (capitão Antônio José de
Lima Câmara) e Engenharia (capitão José de Lima Figueiredo) da Escola Militar; o major Plínio Raulino de
Oliveira, da Aviação; o chefe do Departamento de Educação Física da Escola Militar (capitão João Barbosa
Leite); o capitão médico Matheus de Lemos, chefe do Serviço de Saúde da Escola Militar e o capitão médico
Ângelo Godinho dos Santos;
- 3ª Subcomissão (docentes) – tenente-coronel Sebastião Corrêa Fontes, diretor de estudos da Escola Militar
e o major Antônio José Osório, do ensino fundamental;
- Diretoria de Engenharia – tenente-coronel Mário Ary Pires.
Publicado no Boletim Escolar nº 293, de 15 dez. 1931, p. 1.822.
689
Publicado no Boletim Escolar nº 286, de 7 dez. 1931, p. 1.762.
453

novas instalações, atendendo à concorrência aberta pelo Ministério da Guerra no Diário


Oficial nº 258, de 4 de novembro de 1931. Apresentaram propostas os arquitetos Raul Penna
Firme, Octávio Freire, João Donato e Roberto Printece.690
O Correio da Manhã noticiou o evento de apresentação das propostas e deu destaque
às palavras do presidente da Comissão Executiva, que ressaltou a projeção que a preparação
técnica e moral das gerações que seriam educadas na nova Escola Militar teria, para fora do
Exército e, até mesmo, para além das fronteiras do País. Para José Pessoa, os futuros oficiais,
formados “nas mais rígidas normas do dever”, tornariam o País mais “equilibrado em suas
forças políticas e econômicas, tendo, então, no preparo e organização da classe a significação
de potência militar, desfrutando o respeito das outras nações”.691
Nessa mesma reunião, como lembra Pessoa, foram apresentadas as bases para a
elaboração do projeto vencedor, cuja inspiração foi buscada nas instalações e nos modelos
pedagógicos, científicos e educacionais dos melhores estabelecimentos de ensino militar
congêneres estrangeiros da época: West Point (Exército dos EUA), Saint-Cyr (Exército da
França), Woolwich (Artilharia e Engenharia do Exército da Inglaterra) e Anápolis (Academia
Naval dos EUA). 692

I) A Academia Militar a projetar-se deve ser encarada a extensa área edificada,


servida por uma rede própria de comunicações e dispondo do abastecimento de
água, luz e força;
II) Os edifícios devem ser projetados sob as normas mais modernas que regem as
construções desse gênero, muito especialmente quanto às instalações sanitárias e
elétricas;
III) A ideia do projeto foi delineada segundo repertório anexo, onde se encontra a
organização dos edifícios (bairros) e quaisquer questões que possam interessar num
primeiro trabalho para a sua instalação.693

O conjunto das construções exigido pela Comissão Executiva, segundo Pessoa,


deveria prever duas zonas de instalações na área escolhida para abrigar a nova Escola. A
primeira ficaria a Sul, e seria composta por um bairro escolar e um bairro residencial. No
bairro escolar ficariam: as edificações do comando e da administração da nova Escola, as
dependências do ensino (salas de aula, bibliotecas, auditórios, cinema, laboratórios, museu,
gabinetes dos professores, etc.), um quartel dos cadetes (dormitórios para 2 e 4 cadetes,
cassino, sala d’armas, salão para a sociedade acadêmica e salas de leitura), uma seção de
educação física (ginásios, piscinas e quadras esportivas), um parques das armas para o ensino

690
Boletim Escolar nº 293, de 15 dez. 1931, p. 1.823.
691
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 16 dez. 1931, p. 6.
692
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1931.12.15.
693
Ibidem.
454

militar, picadeiros, moradias para oficiais solteiros, casas de força e luz, um hospital com
maternidade e o Panteão de Caxias. O bairro residencial, organizado no modelo de “cidade
jardim”, seria composto pelas residências para as famílias dos oficiais do comando, da
administração e dos professores e instrutores, por um clube de oficiais, por um grupo escolar e
jardim de infância e por parques para as crianças.694
A zona que deveria ficar a Norte seria formada por um bairro militar, destinado ao
quartel do contingente de oficiais e praças que prestariam o apoio à instrução, às oficinas e
garagens, ao serviço de veterinária e à instalação de uma padaria e de uma lavanderia. Nesse
setor ficariam, também, um polígono de tiro, uma extensa área de instrução, um posto
meteorológico e um campo de aviação. O projeto deveria prever, ainda, algumas obras
complementares, como: monumentos diversos (Caxias, Retirada da Laguna etc.), a
canalização do arroio Alambari e uma rede de comunicações rodoviária e ferroviária com os
principais centros do País, em ligação forçada com a Escola Militar.695
Um fato curioso é que em setembro de 1931, antes mesmo das propostas serem
apresentadas à Comissão Executiva, o que foi feito, como relata José Pessoa, utilizando-se
pseudônimos, para garantir a lisura do processo de escolha, Penna Firme havia enviado uma
carta a Pessoa, agradecendo a confiança com que havida sido distinguido com a elaboração do
projeto da nova Escola Militar. No documento, fica claro que a obra em Resende seria a
primeira de grande vulto do arquiteto em início de carreira, que afirmou contar para tal
empreendimento apenas com seu cabedal técnico e com a experiência que havia adquirido nos
bancos escolares e na pouca prática no exercício da profissão.696
Para que o projeto fosse executado a contento, Penna Firme enumerou uma série de
necessidades, dentre as quais constavam a instalação de um novo escritório amplo e
convenientemente aparelhado, a contratação numerosa de pessoal técnico especializado, o
custeio dos trabalhos de campo e a aquisição de material de expediente. Também apresentou
os documentos que comporiam o projeto, como as plantas, os estudos de hidráulica e elétrica,
os projetos de comunicação rodoviária e ferroviária, os desenhos em perspectiva da nova
Escola e as maquetes. Entretanto, segundo o arquiteto, a consecução de tudo isso dependia do
financiamento da obra, o óbice que se apresentava naquele momento, e que só não abria mão

694
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1931.12.15. As bases para a elaboração do anteprojeto da nova
Escola Militar também foram publicadas no Correio da Manhã de 16 de dezembro de 1931, p. 6.
695
Ibidem.
696
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1931.12.15, Apêndice.
455

da maior oportunidade da sua vida de arquiteto devido à confiança que José Pessoa lhe havia
depositado.697
Na carta, aproveitou também para justificar o valor que cobraria pelo projeto: um
quarto dos honorários calculados sobre a taxa de 2% do valor global da construção e tomando
por base tabelas do Instituto Central de Arquitetos do Rio de Janeiro e de Honorários
Profissionais do Instituto de Engenharia de São Paulo. Como o preço global mínimo da obra
era de 30 mil contos de réis, as despesas e a remuneração do autor do projeto ficariam em 150
contos de réis. No entanto, Penna Firme considerou uma redução de 50% deste valor, ficando,
portanto, o valor final do projeto em 75 contos de réis, que poderiam ser pagos em duas
parcelas: a primeira de 50 contos de réis, no início dos trabalhos, e 25 contos de réis na
entrega do projeto final. Esse valor, segundo o arquiteto, se destinaria somente para a
cobertura simples das despesas, por já sentir-se, como autor do projeto, amplamente
remunerado, devido ao fato de seu nome estar ligado ao “maior empreendimento
arquitetônico e cívico-militar da América do Sul”.
Praticamente dois meses depois das propostas terem sido entregues, no dia 12 de
fevereiro de 1932, a Comissão Executiva fez uma nova reunião, para realizar o julgamento
dos anteprojetos apresentados. Foi escolhida a proposta de Raul Penna Firme, por ter sido
considerada pela Comissão Executiva e pelo Conselho de Administração da Escola Militar a
mais vantajosa. O preço apresentado pelo arquiteto foi o mesmo que havia sido prometido na
carta enviada a Pessoa cinco meses antes.698
Antes mesmo, porém, de comunicar oficialmente ao ministro Leite de Castro o
vencedor da concorrência, os membros da Comissão Executiva699 realizaram uma visita a
Resende, no dia 21 de dezembro de 1931, para verificar in loco as zonas que abrigariam as
instalações descritas nos parágrafos acima e oficializar a escolha da Fazenda das Sementeiras,
que abrigava o Horto Florestal de Resende, como a nova sede da “Universidade Militar”700.

697
Ibidem.
698
Boletim Escolar nº 13, de 15 jan. 1932, p. 113.
699
Segundo a edição comemorativa de lançamento da pedra fundamental da Escola Militar de Resende do jornal
resendense A Lyra, de 29 de junho de 1938, participaram da visita os seguintes oficiais: José Pessoa, tenente
Ribeiro da Costa, seu ajudante-de-ordens; capitão Alexandre Chaves, secretário da Comissão Executiva; major
Orestes Lima, representante do ministro da Guerra; capitão Mário Travassos, representante do Estado-maior do
Exército; tenente-coronel Alcoforado, do curso de Infantaria; capitães Brilhante, Lima Câmara e Barbosa Leite,
respectivamente instrutores da Cavalaria, Artilharia e Educação Física; capitão Godinho, do Serviço de Saúde; e
major Plínio Raulino, da Aviação.
700
Em muitos momentos, em suas memórias, José Pessoa se refere à construção de um novo estabelecimento de
ensino militar como o projeto de uma “Universidade Militar”, e não de uma Escola Militar. Inclusive, o termo
passou a ser utilizado por muitos jornais da época, que passaram a noticiar a construção da “Universidade Militar
de Itatiaia”. Pensava ele em construir uma verdadeira cidade universitária, à semelhança das maiores
universidades do mundo, como Oxford e Cambridge. À exemplo da primeira, que se localizava à margem do
456

Durante a estada na cidade, a Comissão foi acompanhada pelo Prefeito Taurino do


Carmo, pelo juiz de direito Dr. Américo Lobo e pelo diretor do Horto Florestal, Barreto
Costa. Foram colhidos informes junto à população e as terras adjacentes ao Horto Florestal
foram visitadas, desde a localidade de Floriano, situada a leste da área considerada, até os
contrafortes da serra da Pedra Selada, a oeste. Cada membro da Comissão Executiva ficou
responsável por emitir um relatório detalhado de acordo com a sua especialidade.701
A visita também tinha o intuito de verificar as condições de salubridade da cidade. O
membro do Serviço de Saúde da Escola Militar, acompanhado dos doutores Manoel da
Silveira, Roberto Cotrim e do próprio prefeito, que eram clínicos do município há muitos
anos, visitaram a Santa Casa de Misericórdia e conferiram os registros de óbitos dos distritos
de Resende. À comissão de saúde, a Santa Casa pareceu mais um asilo de velhos. Dos 40
internados, 22 eram idosos. Inclusive, um deles já com idade centenária. Fazendo um
trocadilho, um dos visitantes teria dito: “ao invés de encontrarmos micróbios, estamos a
encontrar macróbios”. Dessa maneira, estavam atestadas as condições de salubridade de
Resende.702
Segundo Pessoa, a Comissão regressou ao Rio de Janeiro levando consigo não só a
certeza de que Resende era a região certa para a sede da nova Escola Militar, mas, também, a
fixação dos terrenos destinados à construção das instalações. A visita serviu para mostrar aos
técnicos militares que as terras do Horto Florestal eram insuficientes para tal intento. Seria
necessária a anexação de algumas áreas vizinhas, que compreendiam ruas da cidade e alguns
terrenos da zona rural, adjacentes à estrada da Vargem Grande e às fazendas do Castelo e da
Barra.703
Conforme José Pessoa, depois da visita que confirmou a escolha de Resende para
abrigar a Escola Militar e decretado vencedor o anteprojeto de Penna Firme, este apresentou à
Comissão Executiva um primeiro projeto já delineado para o Horto Florestal. Esse trabalho
não agradou à Comissão, obrigando-se o arquiteto a elaborar um novo trabalho. Entretanto,
depois de pronto o novo projeto e na iminência de ser aprovado, relatórios elaborados por um
geólogo do Ministério da Agricultura, encarregado de estudar o subsolo do Horto Florestal, e
pelo engenheiro Edgard de Souza Chermont do Departamento de Portos, Rios e Canais do

Tâmisa, a “Universidade Militar” situar-se-ia à margem do rio Paraíba, possibilitando a prática dos esportes
náuticos e as competições de remo. Enfim, assim como os universitários, os cadetes encontrariam em Resende
tudo o que fosse necessário à vida, ao trabalho e à recreação. Levariam uma vida ao ar livre, entre os parques e
excursões às montanhas. Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1931.12.15.
701
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV), JPvp1931.12.15; Bopp (1978, p. 245-246).
702
Ibidem.
703
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1931.12.15.
457

estado do Rio de Janeiro, informaram que a poucos centímetros abaixo do solo corria um
lençol d’água, o que acarretaria o estaqueamento de todas as fundações da obra. Também
seria necessária a canalização do arroio Alambari, para que fossem evitadas as enchentes
sazonais nas áreas destinadas à construção das edificações. Essas providências elevariam
sobremaneira os custos do projeto, exigindo vultosas somas de dinheiro, praticamente
inviabilizando-o. Dessa maneira, a Comissão Executiva achou por bem mudar a localização
da nova Escola Militar, do Horto para a Fazenda do Castelo, situada em um terreno mais
elevado e livre de inundações. Então, um terceiro e definitivo projeto foi elaborado por Penna
Firme704, considerando a citada fazenda como a área em que seriam erguidas as instalações do
futuro estabelecimento de ensino. Antes, porém, foi solicitada ao interventor do estado do Rio
de Janeiro, almirante Ary Parreiras, a compra das terras das fazendas do Castelo e da Barra, e
suas posteriores doações ao Ministério da Guerra, para que as obras fossem concretizadas. A
benfeitoria do interventor seria a contribuição do estado fluminense à consecução da obra
monumental. O fato é que a compra não foi concretizada e, oito anos mais tarde, as
edificações começaram a ser levantadas no Horto Florestal. Para Pessoa, se a construção da
Escola Militar de Resende não se consumou nas terras do Castelo-Barra, como no projeto
original, “não foi pelas dificuldades naturais, mas por ‘casos’ premeditados criados por maus
chefes”.705
Em 16 de fevereiro de 1932, um ofício foi enviado por José Pessoa ao ministro Leite
de Castro, informando a vitória de Penna Firme e pedindo a aprovação da proposta feita pelo
arquiteto, que seguiu anexa. Em 21 de junho o chefe da pasta da Guerra enviou o ofício de
Pessoa à Diretoria de Engenharia do Exército. Oito dias depois, o capitão João Luiz Monteiro
de Barros, adjunto daquele órgão, informou ser impossível emitir um parecer técnico a
respeito da construção da Escola Militar, já que a Diretoria não havia tido acesso às plantas e
ao anteprojeto apresentado por Penna Firme e ignorava por completo o andamento das obras
em Resende. Em 8 de julho, o Diretor de Engenharia, general Álvaro Guilherme Mariante
informou ao ministro da Guerra:

Ao Exmo. Sr. General Ministro da Guerra o general Álvaro Guilherme Mariante,


Diretor de Engenharia, informa que a construção de uma escola militar com vários
edifícios, quartel, casas residenciais, hospital, estação de estrada de ferro, oficinas,
posto meteorológico, canalização de rio, esgotos e água, campos entrincheirados,
hangar, parque e campos de aviação, construção de redes de ferro e rodoviárias, etc.,

704
O projeto arquitetônico elaborado por Raul Penna Firme para a Escola Militar de Resende encontra-se no
Acervo José Pessoa, arquivo JPvp1931.12.15. A partir da sua análise, é possível perceber que o arquiteto seguiu
à risca o que foi idealizado por Pessoa e definido como base para o projeto pela Comissão Executiva para a
construção da nova Escola.
705
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.04.12.
458

envolve estudo muito complexo que não pode ser executado por um arquiteto, por
mais competente e por mais idôneo que pareça ser.
A única repartição competente para organizar o projeto e se encarregar da sua
execução é a Diretoria de Engenharia.

A execução do projeto de uma nova Escola Militar entrava em compasso de espera,


devido aos entraves burocráticos que começavam a se impor e à Revolução Constitucionalista
de 1932, para a qual se voltaram todas as atenções do alto comando do Exército a partir de
março daquele ano. Por localizar-se próximo à divisa dos estados de São Paulo e Rio de
Janeiro, Resende se tornou um ponto estratégico a ser conquistado pelas tropas rebeldes
paulistas e a ser mantido pelas forças legalistas. Devido a isso, as terras do município, bem
como as adjacentes a ele, foram palco de alguns entreveros entre as forças oponentes.
A primeira tropa legalista a chegar a Resende, proveniente do Rio de Janeiro, foi um
pelotão do 1º Regimento de Cavalaria Divisionária, em 10 de março de 1932, sob o comando
do coronel Pinto Coelho. Dois dias depois, o quartel-general do destacamento militar que
fazia frente aos paulistas na divisa entre os dois estados foi instalado na Estação Ferroviária
da cidade, sob o comando do coronel Manoel Cerqueira Daltro Filho, que expediu uma
proclamação aos habitantes, informando que a cidade se encontrava, a partir daquele dia,
militarmente ocupada. Cerca de 800 homens armados e municiados constituíam o
destacamento, formado por três unidades do Exército: o regimento já citado; a 2ª Bateria do 1º
Grupo de Artilharia, do estado da Paraíba; e a 1ª Força de Saúde Divisionária, da Capital
Federal. Durante o período de ocupação, o contingente foi reforçado por tropas de Infantaria
provenientes dos estados do Ceará, Sergipe e Alagoas. Uma esquadrilha de aviação foi
utilizada para a observação das tropas rebeldes na região norte de São Paulo. Para que os
aviões pudessem aterrissar, uma pista foi construída no Horto Florestal de Resende, no local
ocupado por um grande maciço de mangueiras, que foi derrubado. (BOPP, 1978, p. 250-252)
Os primeiros contingentes que chegaram à cidade montaram acampamento no distrito
de Campos Elíseos. Entretanto, à medida que o efetivo das tropas aumentava, os cinemas
Odeon e Central e os grupos escolares João Maia e Ezequiel Freire foram sendo utilizados
como alojamentos dos soldados. As sedes de algumas fazendas706, algumas casas de família e
a loja maçônica Lealdade e Brio foram utilizadas para abrigar a oficialidade e os praças. Um
ambulatório militar foi instalado na Santa Casa de Misericórdia pela força de saúde legalista,
para atender os feridos evacuados dos fronts de combate, tanto das tropas do governo como

706
Fazendas Santo Amaro, Carreiras, Riachuelo, Tanque, Dores, São José e Santa Maria. Nesta última, dois
soldados legalistas sergipanos assassinaram o administrador da fazenda, depois de assaltarem-na. Foram presos e
condenados pela justiça militar. (BOPP, 1978, p. 252 e 254)
459

das paulistas. Os poucos rebeldes capturados ficaram recolhidos na cadeia municipal. Missas
eram rezadas às quintas-feiras na Igreja Matriz da cidade, pedindo o retorno da paz à região,
com grande participação de oficiais, praças e soldados das tropas legalistas. (BOPP, 1978, p.
252-254)
No dia 16 de março, Getúlio Vargas visitou o destacamento militar de Resende.
Conversou com os soldados, concitando-os a manter a ordem legal e a tratarem com
civilidade os rebeldes. No quartel general, encontrou-se com os oficiais e confidenciou que
esperava instalar a nova Escola Militar na cidade ainda durante o seu governo. (BOPP, 1978,
p. 249)
Apesar das tropas paulistas concentrarem-se em Cruzeiro-SP, a apenas 66 quilômetros
de Resende, nenhum combate foi travado nesta cidade. Todas as ações das tropas do governo
e das rebeldes ocorreram nas imediações do município sul-fluminense. Nos quase sete meses
em que as duas cidades estiveram em pé de guerra, as tropas rebeldes chegaram a dominar,
por um curto período, extensas regiões de terras resendenses, ocupando toda a região
montanhosa do distrito de Santana dos Tocos, o povoado de Engenheiro Passos e as estações
ferroviárias de Itatiaia e Babilônia, o que causou grandes prejuízos econômicos ao comércio
dessas localidades, já que, à medida que as tropas paulistas avançavam, a população
abandonava suas residências. Com a contrainvestida das tropas legalistas, o quartel-general do
Destacamento do Exército do Leste, sob o comando do general Góes Monteiro, avançou de
Barra Mansa-RJ para Resende. Por uma infelicidade do destino, o general acompanhou de
perto a morte do irmão, capitão Cícero Augusto de Góes Monteiro, ferido em combate na
localidade de Silveiras-SP. Seu corpo foi evacuado para o ambulatório militar da Santa Casa,
de onde foi transferido para o Rio de Janeiro. (BOPP, 1978, p. 249-255)
A partir de agosto de 1932, as tropas do governo federal começam a empurrar os
rebeldes de volta a São Paulo e chegaram à cidade de Cruzeiro. Com o avanço, o
destacamento militar baseado em Resende escoou para aquele município paulista,
permanecendo na cidade apenas um serviço de ambulância, para evacuar os feridos em
combate. Num último esforço de dissuasão, o general Bertholdo Klinger, que aderira à causa
paulista, ordenou bombardeios aéreos às cidades do Rio de Janeiro, Barra Mansa, Barra do
Piraí e Resende. Somente esta última foi atacada. Na madrugada de 13 de agosto, a população
alarmada despertou sob violentos e sucessivos estampidos das bombas lançadas por um avião
vindo do lado paulista. Os artefatos não causaram danos às áreas centrais, pois, o bombardeio,
não se sabe a razão, concentrou-se nas áreas limítrofes de Resende, atingindo tão somente as
460

terras de duas chácaras e um valo, localizado no terreno de um imóvel residencial. No mês de


setembro, a calmaria retornou à cidade. (BOPP, 1978, p. 255)
Enquanto o projeto de construção de uma nova Escola Militar estava em compasso de
espera, José Pessoa procurava resolver um outro problema crucial para que o projeto da
construção das instalações saísse do papel: o financiamento para a obra, orçado em 60 mil
contos de réis ([Link]$000).
Segundo Pessoa, uma das imposições do governo federal é que os recursos financeiros
necessários à construção da nova Escola não deveriam sair dos cofres do tesouro nacional. A
solução, pouco ortodoxa, encontrada pela Comissão Executiva foi recorrer à venda de uma
parte do produto nacional que vinha sendo queimado pelo governo em decorrência da crise de
1929: o café. A proposta feita por José Pessoa ao governo é que fossem cedidas 1.000.000 de
sacas, das 18.000.000 que vinham sendo queimadas, à Comissão Executiva. O produto da
venda dessas sacas seria utilizado na construção das instalações da Escola em Resende. No
entanto, o dinheiro arrecadado não passaria pelas mãos da Comissão, que ficaria responsável
somente pela fiscalização das obras. Uma operação de crédito seria realizada pelo governo
federal, que depositaria no Banco do Brasil o numerário necessário ao custeio do projeto.
Algumas firmas estrangeiras apresentaram as suas propostas de construção à Comissão. A
escolhida foi a norte-americana Starret Cia.707, que se propunha a receber as sacas de café e
entregar a Escola Militar construída, com o uso de matéria-prima e técnicos brasileiros.708
A solução encontrada por Pessoa ganhou as páginas dos jornais da Capital Federal.
Em março de 1933, o Correio da Manhã publicou uma pequena nota sobre a conclusão dos
trabalhos da comissão formada para a construção da nova Escola Militar. O uso do café como
meio de se financiar a obra foi abordado, destacando a permissão dada pelo chefe do Governo
Provisório para dar andamento à proposta junto a empresas estrangeiras. No entanto, o jornal
considerou que talvez não fosse demais serem ouvidos o ministro da Fazenda, o diretor da
Carteira Cambial do Banco do Brasil e o presidente do Departamento Nacional do Café, que
ainda não haviam emitido suas opiniões a respeito do assunto.709
Oito dias após, o mesmo periódico publicou uma entrevista com José Pessoa,
abordando a construção da nova Escola Militar em Resende. Pessoa destacou a idoneidade do
consórcio que seria firmado com a empresa Starret e a autorização dada por Getúlio Vargas

707
O jornal A Lyra, de Resende, noticiou em sua edição de 12 de junho de 1932, que, um dia antes, uma
comitiva formada por dois arquitetos e um advogado da empresa norte-americana Starret visitou o Horto
Florestal da cidade, a fim de conhecer as condições locais e os materiais que poderiam ser utilizados, caso lhes
fosse atribuída a construção da nova Escola Militar.
708
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.04.12.
709
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 28 mar. 1933, p. 4.
461

para que os termos da proposta de financiamento fossem apresentados aos norte-americanos,


o que seria feito por intermédio do Ministério da Guerra. No entanto, destacou que caberia ao
ministro da Fazenda decidir sobre a operação a ser feita com o produto brasileiro e que o seu
uso para a construção da nova Escola não iria afetar o mercado do produto junto aos Estados
Unidos, tendo em vista que já estava em andamento um contrato de troca de café brasileiro
por trigo norte-americano. A permuta a ser feita para a obra em Resende somente seria posta
em prática após a conclusão deste último contrato.710
A solução encontrada por Pessoa foi inicialmente aprovada pelo ministro da Fazenda
Oswaldo Aranha. Entretanto, em uma visita que realizou à Escola Militar do Realengo no dia
12 de agosto de 1933, ocasião em lhe foi apresentado o projeto e a maquete da nova Escola,
Aranha voltou atrás. Explicou que a situação financeira do País no exterior não permitia o uso
do café como moeda de troca para o financiamento das obras em Resende. Considerou, no
entanto, a possibilidade de a obra ser realizada em etapas e totalmente custeada pelos cofres
do governo, desde que houvesse uma consignação nas leis orçamentárias da União. A
proposta do ministro era que a construção das instalações fosse feita em seis anos, com uma
dotação anual de 10 mil contos de réis. Uma linha de crédito seria aberta para o ministério da
Guerra e evitar-se-ia, assim, toda a trama que envolveria o produto brasileiro. Pessoa indicou,
em suas memórias, que a proposta de Oswaldo Aranha não teria sido aceita pela Comissão
Executiva para a construção da Escola, permanecendo esta fiel à proposta inicial apresentada
ao governo. O fato é que, anos mais tarde, quando se iniciaram as obras em Resende, foi com
o financiamento do Tesouro da União que o projeto idealizado por Pessoa se concretizou.711

Imagem 81 – Maquete do conjunto principal da nova Escola Militar, 1931.

Fonte: Revista Militar Brasileira, jan./mar. 1942.

710
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 5 abr. 1933, p. 3.
711
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.04.12 e Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 12 ago. 1933, p. 1.
462

Com o local para a construção da nova Escola Militar definido, o projeto aprovado e a
promessa do ministro da Fazenda de que o governo federal financiaria as obras, José Pessoa
julgou ser chegado o momento de lançar a pedra fundamental do novo estabelecimento de
ensino. O momento significativo escolhido pelo, agora, general Pessoa712 foi a manobra
militar de 1933, da Escola Militar do Realengo, realizada na região das Agulhas Negras.

Em outubro de 1933, estava escolhida a região de Resende e ali a Fazenda do


Castelo para receber as construções da nova Escola, bem como concluído o projeto
arquitetônico e o seu plano de financiamento. Diante disso, resolvemos então
realizar naquela região as manobras de encerramento do ano de instrução do Corpo
de Cadetes, e, uma vez naquela região, aproveitar a estadia e ali lançar a pedra
fundamental da nova Escola Militar.713

O ato foi veiculado pela imprensa da Capital Federal, que anunciou o lançamento da
pedra fundamental antes mesmo da partida dos cadetes para a manobra escolar, na região das
Agulhas Negras:

Iniciam-se amanhã, as grandes manobras da Escola Militar, na região do vale do


Paraíba. [...] As manobras terminarão no dia 2 de novembro próximo, sendo nessa
ocasião lançada a pedra fundamental da nova Academia Militar das Agulhas Negras,
devendo comparecer à cerimônia o chefe do Governo Provisório e altas autoridades
políticas e militares.714
Ao terminarem as manobras, será feito o lançamento da pedra fundamental da nova
Academia Militar das Agulhas Negras. O ato revestir-se-á de toda a solenidade, a ele
comparecendo o chefe do Governo Provisório, ministros de Estado e altas
autoridades militares.715
Ao terminarem as manobras, será feito oficialmente o lançamento da pedra
fundamental da nova Academia Militar das Agulhas Negras. Comparecerá ao ato
inaugural o chefe do Governo Provisório, ministros de Estado, altas autoridades
civis e militares, representantes diplomáticos e imprensa.716

Uma grande solenidade militar foi planejada por Pessoa para o dia 28 de outubro de
1933, já ao final da manobra escolar, para fazer o lançamento da pedra fundamental, que
havia sido recolhida por ele próprio, por ocasião da excursão realizada um ano antes aos
contrafortes das Agulhas Negras. O local escolhido foi a Fazenda do Castelo, local que
abrigaria a sede da futura “Academia Militar das Agulhas Negras”717. Convites foram

712
José Pessoa foi promovido a general-de-brigada em 3 de agosto de 1933. Cf. Fé de Ofício do Marechal José
Pessoa.
713
Anotações de José Pessoa a respeito da manobra de 1933. Acervo José Pessoa (CPDOC FGV).
JPvp1931.05.12.
714
Diário da Noite, Rio de Janeiro, 20 out. 1933, p. 1.
715
A Noite, Rio de Janeiro, 21 out. 1933, p. 2.
716
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 22 out. 1933, p. 16.
717
Em determinado momento, em suas narrativas memoriais, José Pessoa deixa de tratar a nova Escola Militar
como uma “universidade militar” e passa a chamar o futuro estabelecimento de ensino militar pelo termo
“academia militar”. A exemplo das grandes nações desenvolvidas da época, o Brasil não devia possuir uma
463

expedidos para o chefe do Governo Provisório, para o alto comando do Exército e para as
autoridades locais do município de Resende. A imprensa da cidade preparou-se para cobrir o
evento, que foi amplamente noticiado pelos jornais locais e da Capital Federal. Um churrasco
foi oferecido pelos munícipes ao Destacamento da Escola Militar e a banda de música foi
levada para Resende, a fim de abrilhantar o evento e apresentar-se à população no centro da
cidade. A programação do evento foi publicada no Boletim do Destacamento da Escola
Militar em Resende:

Para conhecimento do Destacamento e devida execução, público o seguinte:


I – Pedra Fundamental da Academia Militar
Será lançada amanhã, com toda a solenidade, a pedra fundamental da Academia
Militar. Pare essa solenidade, formará, por determinação do Sr. general comandante
da Escola, o Destacamento Escolar, na Fazenda do Castelo, de conformidade com a
ordem distribuída.
II – Churrasco na Fazenda do Castelo
A municipalidade de Resende, oferece amanhã, após a solenidade de lançamento da
pedra fundamental, aos oficiais e cadetes do Destacamento, um churrasco na
Fazenda do Castelo. Deverão comparecer incorporados, todos os senhores oficiais e
cadetes às 11 horas naquela localidade.
III – Banda de Música
A fim de tomar parte da solenidade de amanhã, chegou hoje, às 16h15, a Banda de
Música da Escola Militar, a qual ficou encostada e arranchada pelo Destacamento.
........................................................................................................................................
V – Retreta
A Banda de Música fará amanhã uma retreta na praça da Igreja, em hora que será
posteriormente determinada.718

Passados alguns minutos das 10 horas da manhã, do dia 27 de outubro, José Pessoa
recebeu um telegrama do ministro da Guerra, general Augusto Inácio do Espírito Santo
Cardoso719, desculpando-se por não poder comparecer ao evento:

Quartel-general – Rio: 27 às 10h15minutos – Ao meu digno camarada a cujos


esforços e capacidade administrativa deve o País a situação admirável em que se
encontra a Escola Militar que neste momento realiza nessa localidade trabalhos
práticos mais alta importância para instrução dos futuros oficiais agradeço a
gentileza do convite para ir amanhã pt Peço desculpas por não poder corresponder
delicada prova de consideração pois meu estado de saúde exige resguardos a que
devo submeter pt Saudações Cordiais pt (a) General Espírito Santo Cardoso –
Ministro da Guerra.720

simples escola e, sim, uma verdadeira “academia”, na qual os futuros oficiais poderiam desenvolver em sua
plenitude os aspectos profissionais, pedagógicos, morais e éticos da sua formação.
718
Boletim nº 3, do Destacamento da Escola Militar em Resende, de 27 out. 1933. Acervo José Pessoa (CPDOC
FGV). JPvp1931.05.12.
719
O general Espírito Santo Cardoso assumiu o Ministério da Guerra em junho de 1932, após Leite de Castro ter
pedido demissão do cargo.
720
Boletim nº 3, do Destacamento da Escola Militar em Resende, de 27 out. 1933. Acervo José Pessoa (CPDOC
FGV). JPvp1931.05.12.
464

Ao cair a noite do mesmo dia, às 19 horas, um novo telegrama do ministro da Guerra


chegou às mãos de Pessoa, aconselhando-o a não seguir em frente com a solenidade do dia
seguinte, já que nada de oficial existia sobre a construção da Academia Militar:

Rio, 27 às 17h10minutos – Não existindo até agora nenhum ato oficial sobre a futura
Academia Militar, lembro presado camarada não convém lançamento pedra
fundamental mesma, o que deverá ser adiado para outra oportunidade. Cordiais
saudações. (a) general Espírito Santo Cardoso.721

Cumprindo a ordem do ministro, um contrariado e atônito José Pessoa mandou


cancelar a solenidade de lançamento da pedra fundamental. Manteve, porém, o almoço
oferecido pelos cidadãos resendenses e a apresentação da Banda de Música.
Na manhã do dia 28 de outubro, logo cedo, as autoridades locais já se encontravam na
Fazenda do Castelo à espera do início do grande evento. A população resendense também
acorrera em grande número ao local. Na estação ferroviária de Resende, o capitão Sylvio
Santa Rosa, ajudante do Corpo de Cadetes, aguardava os convidados e representantes da
imprensa que chegavam do Rio de Janeiro, para comunicar-lhes que a solenidade havia sido
transferida para uma data ainda não fixada. Solicitou, porém, que os repórteres fossem até a
fazenda onde acampavam os cadetes.722
Assim que a imprensa chegou, José Pessoa convocou os convidados que aguardavam
na vasta casa da fazenda e os repórteres para uma reunião, realizada na sala de visitas do
próprio local. Inicialmente, agradeceu a presença de todos. Em seguida discursou sobre a
reforma que empreendeu na Escola Militar, à qual devia os cabelos brancos, e as melhorias
sentidas no coeficiente de aproveitamento intelectual e no preparo físico dos cadetes. Falou
sobre a localização da Academia Militar que seria construída e o esforço incessante feito junto
às autoridades para que a principal escola militar do Brasil tivesse instalações adequadas.
Salientou todos os passos cumpridos pela Comissão Executiva, desde a aprovação do projeto
à promessa de financiamento feita pelo ministro Oswaldo Aranha. Explicou, então, que, por
estarem as coisas encaminhadas, lembrou de aproveitar as manobras escolares para fazer o
lançamento da pedra fundamental da futura Academia Militar das Agulhas Negras, ideia que
foi comunicada e apoiada pelos seus superiores hierárquicos. Por fim, ressaltou que até o dia
26 de outubro nenhuma autoridade militar tinha se manifestado em contrário ao ato planejado,
apesar dos avisos que recebera do não comparecimento do chefe do Governo Provisório, o

721
Ibidem.
722
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 29 out. 1933, p. 3 e A Noite, Rio de Janeiro, 28 out. 1933, p. 1.
465

que foi feito por intermédio do chefe da Casa Militar, general Pantaleão Pessoa, e do ministro
da Guerra. E mesmo com esses contratempos, decidiu manter a solenidade.723

Imagem 82 – José Pessoa reunido com repórteres e autoridades na Fazenda do Castelo, em Resende, durante a
manobra de 1933, 28 out. 1933.

Fonte: Hemeroteca da Biblioteca Nacional. Revista da Semana, 28 out. 1933.

Pessoa confessou aos repórteres não compreender o que o ministro da Guerra quis
dizer em seu telegrama, sobre não haver ato oficial a respeito da futura Academia Militar, se
uma comissão de estudos foi criada, uma maquete aprovada e, de tudo isso, entendia, ainda,
serem confirmações do ato os telegramas recebidos dos generais Pantaleão e Espírito Santo.
Encerrou suas palavras pedindo desculpas à imprensa e dizendo que o que estava passando
era a maior decepção da sua vida.724
O cancelamento da solenidade pareceu, entretanto, não ter causado, em um primeiro
momento, impacto nos cadetes que participavam da “manobra de 1933”, aos quais as
informações parecem terem chegado desencontradas. Os generais Carlos de Meira Mattos e
Tasso Villar de Aquino, que dela participaram, eram cadetes dos 1 º e 3º anos,
respectivamente. O primeiro confidenciou que não fora informado do fato e a impressão que
lhe ficou foi de que a pedra fundamental fora lançada naquela oportunidade. Já Villar de

723
Ibidem.
724
Ibidem.
466

Aquino relata terem os cadetes, assim como Pessoa, sentido uma grande decepção pelo
cancelamento da solenidade.725 Ao que tudo indica, José Pessoa não comunicou
imediatamente aos cadetes a decisão do ministro da Guerra, a fim de manter o estado de
ânimo deles nos últimos dias da manobra escolar. O repórter do Correio da Manhã que esteve
em Resende no dia 28 de outubro, relatou que, apesar do adiamento do ato oficial, encontrou
os cadetes com “ótima disposição de espírito, conservando a alegria característica da nossa
mocidade”726. Espalhados por todos os cantos da Fazenda do Castelo, eles “entravam
valentemente no churrasco, entre ditos chistosos, não parecendo terem realizado, ainda na
véspera, extenuantes exercícios de marcha e campanha...”727.
Diante da consternação que lhe tomou conta e sentindo-se ferido em sua honra
pessoal, na noite do dia 28 de outubro José Pessoa apresentou ao ministro da Guerra, por meio
de um longo telegrama, o seu pedido de exoneração do comando da Escola Militar do
Realengo:

Havendo Governo me nomeado presidente Comissão Executiva construção nova


Escola Militar, autorizado crédito execução projeto e posteriormente aprovado o
projeto submeti pessoalmente S. Exa. chefe governo que determinou estudo
financiamento construção; havendo Ministro Oswaldo Aranha em discurso
pronunciado interior Escola Realengo presença setecentos cadetes e oficialidade
meu comando declarado ali estar funções ministro Fazenda a fim estudar projeto e
dar solução condições financiamento ter contemplado orçamento guerra dez mil
contos início construção nova Escola; Havendo V. Exa. também aprovado projeto
vos submeti presença chefe Estado-Maior e outros oficiais-generais e superiores
convocados V. Exa. meio calorosa expansão;
Tornou-se lógica e consequente a cerimônia do lançamento pedra fundamental,
desde que por aqui passa Corpo de Cadetes em manobra sob meu comando que
também sou presidente Comissão Executiva a quem cabem atribuições suficientes
para tal deliberação.
Finalmente, confirmando o que de lógico e consequente a Cerimônia Lançamento
Pedra Fundamental minha iniciativa devo dizer que o Sr. General Pantaleão Pêssoa
chefe Estado-Maior Presidência respondendo meu convite ao chefe Governo
Provisório declara aos oficiais que o procuraram em meu nome que chefe Governo
talvez não pudesse comparecer devido excesso serviços urgentes, ficando resolução
definitiva ser transmitida hoje, despacho esse que constitui entre os demais já
enumerados o último dos atos oficiais relativos sobre a futura Escola.
Assim explicado a V. Exa. minha iniciativa comprovado ter sempre agido critério e
conhecimento autoridades a que estou subordinado como oficial-general do Exército
que preza sua dignidade funções e honra pessoal só me resta face opinião pública e
brios meus oficiais atônitos e Corpo de Cadetes decepcionados tal situação solicitar
irrevogavelmente minha demissão comando Escola Militar. (a) General José Pessoa
Cavalcanti de Albuquerque. (CÂMARA, 2011, p. 170-171)

O pedido de demissão de Pessoa ganhou as páginas dos jornais cariocas, que durante
uma semana acompanharam o desenrolar da situação constrangedora. O cancelamento do

725
Depoimentos concedidos ao Projeto Marechal José Pessoa, em dezembro de 1984. In. Câmara (2011, p. 171).
726
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 29 out. 1933, p. 3.
727
Ibidem.
467

lançamento da pedra fundamental foi destacado como o motivo que o levou a tal ato.
Finalmente, no dia 5 de novembro, a notícia da não aceitação do pedido de demissão de
Pessoa por Getúlio Vargas correu as páginas dos periódicos. Considerava o chefe do Governo
Provisório não poder prescindir dos trabalhos de José Pessoa à frente da Escola Militar e da
Comissão Executiva para a construção da nova Escola Militar. Também deixava claro que o
adiamento do lançamento da pedra fundamental em nada iria prejudicar as obras em Resende
e, tampouco, diminuía o apreço que os excelentes serviços prestados por Pessoa até então.728
O jornal resendense A Lyra publicou o teor do telegrama enviado pelo ministro
Espírito Santo Cardoso a José Pessoa, negando-lhe o pedido de exoneração:

Acabo levar seu telegrama conhecimento chefe Governo Provisório que incumbiu-
me de dizer o seguinte: - Pensa sua excelência e com ele eu, não haver motivo para
seu pedido de demissão. Sabe bem o meu digno camarada a alta conta em que o
governo tem seus serviços e assim não duvidará acreditar na satisfação que
experimentará desistindo desse pedido. Resolução adiamento assentamento pedra
fundamental motivada simplesmente fato não ter projeto recebido aprovação oficial,
depois correr trâmites indispensáveis, mas essa medida não significa absolutamente
condenação esse projeto de obra grandiosa e patriótica, pela qual tanto tem se
esforçado com aplausos do governo e de todos. Contamos, pois, mude a sua
resolução. Atenciosas saudações. (a) Espírito Santo Cardoso.729

Pessoa permaneceu no comando da Escola Militar. Entretanto, no dia 8 de novembro


enviou um dossiê ao ministro da Guerra, no qual expunha as razões de sua discordância da
alegação feita por Espírito Santo Cardoso sobre não haver ato oficial sobre a futura Escola
Militar. Em uma anotação à lápis, José Pessoa considerou que, com o documento, encerrava
definitivamente o “rumoroso caso do lançamento da primeira pedra fundamental da Escola
Militar”. Já que o ministro alegava não existir aprovação oficial do projeto de construção da
Escola em Resende, Pessoa deixou claro que aguardava, então, novas ordens escritas para a
sua aprovação definitiva. No entanto, ressaltou que uma comissão julgadora, nomeada por um
ato do ministro da Guerra, já havia escolhido o projeto ideal, cujos documentos técnicos,
relatórios e desenhos seguiam anexos. Apenas a maquete permaneceria na Escola do
Realengo, devido à sua fragilidade. Lembrou a Cardoso, também, que, seguindo as ordens que
dele havia recebido, as tratativas a respeito do financiamento da obra já estavam em
andamento diretamente com o ministro da Fazenda, Oswaldo Aranha. Encerrando o
documento, disse que a Escola Militar esperava que Espírito Santo Cardoso fizesse a “fineza

728
Correio da Manhã, 5 nov. 1933, p. 3; Jornal do Brasil, 5 nov. 1933, p. 7; Diário Carioca, 5 nov. 1933, p. 1.
729
A Lyra, Resende, 28 jun. 1938, p. 4. Edição comemorativa.
468

de mandar baixar os atos que achar por bem determinar, a fim de que não sofram demora, ou
solução de continuidade, as negociações em bom rumo”.730
Um fato interessante diz respeito ao destino dado à lasca de cianita recolhida por José
Pessoa no pico das Agulhas Negras, que, após a malfadada cerimônia de 28 de outubro,
jamais foi encontrada. Câmara (2011, p. 169) relata que ela foi enterrada por Pessoa em um
terreno a leste da casa da Fazenda do Castelo, com o testemunho do “coronel” Abílio Godoy,
proprietário da fazenda e do arquiteto Raul Penna Firme. Em entrevista concedida a este
pesquisador, Câmara (2020) esmiuçou um pouco mais o assunto. José Pessoa teria sido
convidado pelo “coronel” Godoy para um jantar, na noite do dia 28 de outubro. Chegou à casa
da fazenda com uma caixa embaixo do braço e, logo após o jantar, perguntou à Godoy se
alguém poderia lhe auxiliar a cavar um buraco. Acompanhado por dois funcionários
designados pelo proprietário da Fazenda do Castelo, enterrou a caixa, com a pedra
fundamental dentro.731
Um telegrama enviado pelo general Pantaleão Pessôa a José Pessoa, no dia 31 de
outubro de 1933, deixava claro que a mudança da sede da Escola Militar para Resende, e a
obra monumental que ela envolveria, não era um consenso entre a oficialidade do alto
comando do Exército.

Ainda há muito caminho a percorre, pois não creio que a obra grandiosa Academia
Militar Agulhas Negras chegue a seu término sem que um sopro de mentalidade
nova bafeje o Exército inteiro, a fim de que o cadete não sinta o contraste entre os
meios materiais da sua formação e aqueles com os quais deve exercitar sua profissão
pt Daí uma ideia do tempo que meu prezado colega terá para realizar todos os atos
intermediários sem prejuízo da época de chegada em que de qualquer forma verá
coroados todos os seus justos, acertados, profícuos e inexcedíveis esforços pt Se há
alguma franqueza nestas minhas declarações ela é a homenagem melhor que merece
o meu distinto colega a cujo lado me coloco decididamente por considera-lo de
todas as atenções merecedor do maior acatamento pt (a) General Pantaleão Pessôa.
(CÂMARA, 2011, p. 168)

Para Câmara (2011, p. 168), existia uma preocupação de muitos contemporâneos de


José Pessoa de que a concretização da Academia das Agulhas Negras pudesse vir a criar um
contraste, que julgavam inadequado à formação do oficial, entre o nível de formação dos
oficiais e a realidade da caserna nos anos 1930. Para o autor, o general Pantaleão não estava
só em sua argumentação. Muitos militares questionavam a oportunidade da mudança,
revelando-se dois argumentos:

730
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1931.12.15.
731
Segundo Câmara (2020), esse relato lhe foi feito pelo filho do “coronel” Abílio Godoy.
469

- um, que poderíamos considerar possibilista, enfatizando que a vontade


institucional funcionaria como catalisador da evolução na nova Academia,
instrumento dessa vontade. Fundamentava-se filosoficamente na capacidade de que
a própria instituição poderia influir do desenvolvimento do meio, aplicando-a com o
sentido de acelerar o passo de sua maturação como Exército de um País de grandeza,
motivado pelo momento histórico; em outras palavras, era a hora de o Estado e a
Nação brasileira intervirem no ambiente, na direção do pensamento de José Pessoa;
- o outro, de tendência determinista, aconselhava manter a marcha natural da
evolução, isto é, aguardar a Nação atingir um nível tal de adiantamento que o
Exército evoluiria no mesmo passo, e, então uma nova Academia fluiria de forma
natural, por haverem Escola e tropa alcançado o mesmo padrão social e militar da
sociedade brasileira. [...] Fundamentavam-se no determinismo do meio, capaz de,
por sua inexorabilidade, levar a instituição e o centro formador de seus oficiais a
uma evolução natural, da qual emergiria, no momento certo, uma Escola compatível
como o nível do Exército. (CÂMARA, 2011, p. 169)

Se a reforma proposta por José Pessoa defendia o primeiro argumento, estava claro nas
palavras de Pantaleão Pessôa que a influência do segundo no alto comando do Exército ainda
prevalecia naquele momento.

8.1 Acompanhando a construção da nova Escola de longe

Com a exoneração de José Pessoa do comando da Escola Militar do Realengo, em


abril de 1934, o projeto da construção da Escola Militar em Resende entrou em uma longa
espera de três anos. Em 27 agosto de 1934, Pessoa solicitou ao ministro da Guerra, general
Goés Monteiro, a demissão do cargo de presidente da Comissão Executiva da nova Escola
Militar. No ofício que encaminhou, teceu severas críticas ao parecer emitido pelo tenente-
coronel José Vicente de Araújo Silva, da Diretoria de Engenharia do Exército, sobre a
localização definitiva da nova Escola. Desconsiderando os estudos feitos pela Comissão
Executiva, que indicavam a Fazenda do Castelo como a futura sede, Araújo Silva focalizou o
Horto Florestal como o local mais apropriado à locação das instalações. Para Pessoa, o
engenheiro da Diretoria de Engenharia, que jamais havia ido a Resende para verificar in loco
as condições do terreno, ou comparecido à Escola do Realengo para verificar os arquivos da
Comissão Executiva, não teve outro propósito senão o de “diminuir o acervo de trabalho da
Comissão, cuja dedicação e desprendimento não soube apreciar...”. Esse caso, era, na visão de
Pessoa, um “exemplo flagrante a comprovar, ainda uma vez mais, a ausência de vistas de
conjunto que tem presidido as decisões de caráter militar, o que explica o motivo porque
ainda não possuímos a escola de formação de oficiais de que precisa a Nação brasileira”. Em
outubro um aviso ministerial732 confirmou a demissão de Pessoa. O documento, assinado pelo

732
Aviso do ministro da Guerra nº 714, de 11 out. 1934, publicado do Boletim do Departamento do Pessoal do
Exército nº 233, de 12 out. 1934.
470

ministro Góes Monteiro, ressaltava que a exoneração da presidência da Comissão Executiva


da nova Escola Militar dava-se a pedido de José Pessoa. Em relação ao despacho de Góes,
Pessoa fez uma anotação à lápis no rodapé da página: “Este despacho lacônico e ridículo,
sobre assunto de tanta relevância e já conhecido por todo o País, escusa-nos de
comentários...”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta V-Apêndice, p. 593-601)
Da exoneração de José Pessoa do comando da Escola Militar do Realengo, em abril de
1934, ao Estado Novo, em novembro de 1937, o projeto de construção de um novo
estabelecimento de ensino militar destinado à formação da oficialidade do Exército ficou
parado na Diretoria de Engenharia do Exército. Mesmo de longe, no comando da Artilharia de
Costa, Pessoa não esconderia a sua mágoa em relação à falta de interesse do alto comando do
Exército em dar início às obras em Resende. Em uma entrevista que concedeu ao jornal
Correio da Manhã, em maio de 1936, ao ser indagado como estava a iniciativa que tivera de
se uma nova Escola Militar, respondeu:

Essa pergunta deveria o senhor fazer àqueles que, por interesses subalternos de
politicalha, não trepidaram em perturbar a vida de ordem e trabalho do meu
comando no Realengo, destruindo a sua Escola Militar e a Escola Militar dos seus
filhos.
O que resta do grande empreendimento (os estudos e o projeto) se acha arquivado na
Escola do Realengo, para que a mocidade militar, que ali se educa, tenha sempre
viva na memória a mais torpe maldade e traição que até hoje sofreu, a sua boa-fé e
inexperiência.
Por isso, façamos silêncio sobre esses fatos que, trazidos a público, bem diriam da
sua inferioridade.733

A nova ordem que se instaurou com o Estado Novo, concebida por Goés Monteiro e
pelo grupo de generais que se articulou ao seu redor e de Eurico Dutra, se traduziu, dentro do
Exército, em um grande esforço de renovação e de aperfeiçoamento profissional. Como
aponta Carvalho (2006, p. 92), nos últimos anos da década de 1930, com Dutra à frente da
pasta da Guerra, houve um grande empenho para que as leis básicas do Exército fossem
reformuladas, para que escolas e quartéis fossem criados, para se organizar os corpos de tropa
e para se equipar e rearmar a instituição. Segundo McCann (2009, p. 527), Góes, Dutra e
Vargas concordavam que havia a necessidade de se modernizar as Forças Armadas do País.
Um Exército moderno manteria o Brasil unido contra as forças do regionalismo e o defenderia
do inimigo externo. Além disso, daria o exemplo de modernidade educada para o povo
brasileiro. Como ressalta o autor, a combinação era clara: o Exército daria a Vargas paz e

733
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 15 maio 1936, p. 3.
471

segurança internas e, em troca, o chefe do Governo Provisório daria as armas e indústrias


modernas que sustentariam o desenvolvimento da instituição.
A partir da ideia, então, de se ter uma Estado forte com um Exército forte, a
construção de uma nova Escola Militar voltou à pauta do Ministério da Guerra e do presidente
Getúlio Vargas. A resolução da retomada das obras se deu no final de 1937, antes ainda do
golpe que instituiu o Estado Novo, por uma iniciativa do diretor de Engenharia do Exército,
general Manoel Rabello. Uma comissão composta pelo coronel Luiz de Affonseca, da
Diretoria de Engenharia, pelo tenente-coronel Abacílio Reis, da Escola Militar do Realengo e
pelo capitão Amaury Kruel, do Estado-Maior do Exército, foi nomeada para a escolha do
melhor terreno.734 As condições gerais estabelecidas pelo ministro da Guerra para a escolha
do local em tudo se aproximavam às estabelecidas por José Pessoa, em 1931:

- a benignidade do clima;
- a proximidade da Capital Federal;
- a facilidade de comunicações;
- a existência de curso d’água importante;
- a proximidade de um centro de população compatível com a vida social do cadete;
- extensão aproximada de 20 quilômetros e largura média de 5 quilômetros. 735

Após a inspeção de alguns locais, optou-se por manter a ideia original de se construir a
Escola em Resende.
Para que os serviços pudessem ser atacados imediatamente, a Caixa Geral de
Economias da Guerra colocou à disposição da Diretoria de Engenharia do Exército 5 mil
contos de réis. Em maio de 1938, o ministro da Guerra solicitou ao presidente da República
dispensa da concorrência para as obras a serem realizadas, tendo em vista o prazo dilatado e a
inconveniência de se contratar os serviços por partes. O novo plano de obras foi estimado em
cerca de 150 mil contos de réis, um valor muito superior aos 60 mil contos orçados pela
Comissão Executiva, em 1932. O tempo de duração e de conclusão das obras ficariam
condicionados aos recursos que o Ministério da Guerra pudesse dispor para tal fim.736
Por ordem do general Rabello, uma comissão foi nomeada para estudar o plano de
construção da futura Escola Militar. Compunham a equipe o coronel Waldomiro Pereira da
Cunha e o major Antônio José da Fonseca, da Diretoria de Engenharia, o capitão Amaury
Kruel, da Inspetoria Geral do Ensino do Exército e o arquiteto Raul Penna Firme. O projeto
aprovado pelo ministro da Guerra e pelos diretores de Ensino e de Engenharia do Exército,

734
Informações colhidas do discurso do general Manoel Rabello por ocasião do lançamento da pedra
fundamental da nova Escola Militar, publicado no jornal Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 30 jun. 1938, p. 1.
735
Ibidem.
736
Relatório do Ministro da Guerra, 1938, p. 47-48.
472

depois de feitos os reajustes necessários, foi o elaborado por Penna Firme, seis anos antes.
Como característica principal, as edificações teriam uma arquitetura sóbria, de estilo
neoclássico. Apesar da tendência moderna, manteriam um equilíbrio entre a tradição e os
predicados progressistas do pensamento artístico da época. Diferentemente, entretanto, do que
previra José Pessoa, o local escolhido para as instalações da nova Escola agregava os terrenos
do Horto Florestal e da Estação de Monta de Resende, que passaram da jurisdição do
Ministério da Agricultura para o da Guerra, por meio de Decreto-Lei737, e um alqueire de
terra, que foi adquirido por 20 contos de réis e agregado ao patrimônio do Ministério da
Guerra.738
Em 10 de junho de 1938, Manoel Rabello, autorizado pelo ministro Dutra, enviou uma
carta a José Pessoa, que, à época, apesar de ter sido nomeado para o comando da 9ª Região
Militar, ainda não havia se apresentado em Campo Grande, estado do Mato Grosso 739. Por
meio dela, convidava-o a participar da execução das obras em Resende, na superintendência e
na orientação do projeto definitiva elas referente. Lembrou, Rabello, que os primeiros estudos
para a consecução de uma nova Escola Militar foram feitos pela equipe capitaneada por
Pessoa, cuja personalidade ainda continuava ligada à ideia original. A resposta ao convite, que
Pessoa considerou “quase desprimoroso”, foi dada um dia depois. Nela, ressaltou que estava
disposto a ajudar naquilo que lhe cabia. Entretanto, era preciso que ficassem claras a forma e
a amplitude da sua colaboração. (ALBUQUEURQUE, 1953, Pasta V-Apêndice, p. 501-502 e
517)
Em 13 de junho, uma nova carta foi enviada por Rabello a José Pessoa, por meio da
qual o diretor de Engenharia definiu os termos da colaboração de Pessoa à construção da nova
Escola. De início, destacou que uma comissão construtora já havia sido nomeada, à qual
competia a execução dos projetos e a parte administrativa das obras. A seguir, informou que o
local escolhido para a instalação do conjunto dos edifícios, parques, vilas residenciais e
campo de parada eram os terrenos que abrigavam o Horto Florestal e a Estação de Monta de
Resende, pelas “favoráveis condições técnicas” e pela vantagem de já serem áreas de
propriedade do governo federal. Quanto ao projeto definitivo, deveria, obrigatoriamente,
obedecer ao programa das necessidades estabelecido pelo Estado-Maior do Exército, por
intermédio da Inspetoria de Ensino do Exército. Por fim, Rabello especificava que a Pessoa
caberia o estudo do melhor meio de atender a essas necessidades. Para isso, orientaria e

737
Decreto-Lei nº 370, de 11 de abril de 1938.
738
Conforme informações do jornal Correio da Manhã, de 29 de junho de 1938, p. 1 e do Relatório do Ministro
da Guerra, 1938, p. 48.
739
Conforme Fé de Ofício de José Pessoa.
473

coordenaria os trabalhos do Departamento de Arquitetura e ficaria diretamente subordinado à


Diretoria de Engenharia, a quem caberia a última palavra para a aprovação dos projetos,
cálculos, detalhes e especificações. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta V-Apêndice, p. 503-505)
A proposta de Rabello mexeu com os brios de José Pessoa. Um dia após ter recebido a
carta do diretor de Engenharia, Pessoa enviou a sua resposta. Iniciou-a lembrando a Rabello o
“copioso trabalho” que empreendera para “resolver o problema fundamental da formação e
instrução” dos oficiais do Exército, que havia levado quatro anos para ser concluído e que se
encontrava “encerrado em tubos de metal” no arquivo da Escola do Realengo. Um trabalho
que, naquele momento, inclusive, servia de modelo ao que fora elaborado pela comissão
encarregada pela construção da nova Escola Militar. Devido ao fato do novo projeto em tudo
contrariar os ditames dos estudos originais, era por um “dever de coerência” que não desejava
ser corresponsável por ele. E explicou os motivos. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta V-
Apêndice, p. 519)

Imagem 83 – Vista atual dos locais em que foi construída a Escola Militar de Resende (em vermelho), hoje
Academia Militar das Agulhas Negras, e o local pretendido por José Pessoa, onde ainda se encontra a sede da
Fazenda do Castelo (em verde).

Fonte: Google Earth, 2021.

Primeiramente, refutou a ideia apresentada pelo diretor de Engenharia de que a faixa


de terreno do Horto Florestal e da Estação de Monta apresentava as condições técnicas
favoráveis à construção das edificações. Lembrou a Rabello os estudos que haviam sido feitos
no projeto original, que indicavam a presença de lençóis d’água a pouca profundidade do solo
e as cheias do riacho Alambari, que inundavam o campo de parada e a área destinada às
474

edificações. Fatores, esses, que o levaram a optar por instalar a Escola nas áreas ocupadas
pelas fazendas do Castelo, Santa Rosa e da Barra. Em seguida, deixou claro não concordar
com a grande complexidade da organização do trabalho, que ocasionava uma ampla divisão
de responsabilidades. Não lhe agradou, ainda, o fato de ficar subordinado à Diretoria de
Engenharia, a quem cabia as decisões em última instância. Dessa maneira, chegou à
conclusão de que não deveria envolver a sua autoridade e a sua responsabilidade no meio de
tantas opiniões. Contudo, deixava aberta a possibilidade de o diretor de Engenharia continuar
contando com a sua colaboração. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta V-Apêndice, p. 520)
Um outro fato que incomodava Pessoa era a quantidade de desapropriações de
residências e de prédios comerciais que a mudança do local de construção da nova Escola
causaria, principalmente no bairro Campos Elíseos. A previsão de Pessoa não estava errada, o
que se pode comprovar por algumas notícias publicadas no jornal resendense A Lyra, que
informavam as medidas tomadas pela Prefeitura de Resende para desapropriar terrenos e
casas nas cercanias da área que passaria a abrigar a Escola Militar.740 Bopp (1978, p. 340),
relata que o tabelionato de notas de Resende registrou, no ano de 1941, a aquisição pelo
Ministério da Guerra de 35 residências localizadas em Campos Elíseos para abrir espaço para
a construção da nova Escola Militar. Em 1943, o Decreto nº 12.025, de 19 de março, declarou
de utilidade pública a desapropriação de inúmeros imóveis do 2º Distrito de Resende e de ruas
adjacentes ao terreno em que se realizavam as obras da nova Escola, para que um bairro
residencial militar fosse construído. Caberia ao Ministério da Guerra efetivar a
desapropriação, totalmente ou em parte, com urgência.
A Rabello só coube lamentar a negativa de José Pessoa, a quem informou o pesar que
sentia por não ter logrado êxito com os esforços feitos para conseguir a colaboração
necessária à construção da Escola em Resende. No entanto, disse satisfazer-se em continuar a
contar com a simpatia de Pessoa à realização do grande empreendimento. (ALBUQUERQUE,
1953, Pasta V-Apêndice, p. 506)
O motivo da recusa apresentado por José Pessoa para participar dos planos de
construção da nova Escola é corroborado por Nelson Werneck Sodré que, à época, era um
jovem tenente ajudante-de-ordens de Pessoa, no comando da 9ª Região Militar, no Mato
Grosso, e a quem coube redigir a carta de resposta à Rabello. Sodré (1967, p. 185) aponta que
custou à Pessoa recusar o pedido de Rabello, ainda mais porque este era um dos mais dignos
chefes que o Exército possuía à época. No entanto, essa foi a forma encontrada por ele para

740
A Lyra, Resende, 8 fev. 1940, 5 ago. 1940 e 11 dez 1941.
475

protestar contra as deformações que o projeto original elaborado por Penna Firme havia
sofrido. Segundo o autor, que também foi o portador da carta ao diretor de Engenharia,
Rabello ficou profundamente entristecido com a recusa, mas, respeitou a decisão de Pessoa.
A partir do depoimento de Sodré (1967) fica claro, então, que o motivo da recusa de
Pessoa em participar do planejamento da nova Escola Militar foi a deturpação do projeto
original. No entanto, cabe considerar uma outra questão que pode ter incomodado José
Pessoa: o fato de o diretor de Engenharia necessitar da aprovação e da autorização do ministro
Eurico Dutra para convidá-lo a colaborar com a comissão construtora da nova Escola Militar.
Em todos os documentos de resposta a Rabello, Pessoa fez questão de deixar evidente que o
convite somente fora feito após a aquiescência do ministro da Guerra, ao grifar as frases que a
ele se referiam. Após a recusa em assumir a corresponsabilidade das obras da Escola em
Resende, Dutra enviou-lhe uma carta, na qual reconheceu que a necessidade de se construir
um novo estabelecimento de ensino militar nascera do trabalho “honesto e fecundo do
Realengo”. Também disse ver com simpatia e prazer a indicação do nome de Pessoa para
orientar os trabalhos da nova Escola. No entanto, ressaltou que o modo como a colaboração se
daria ficaria inteiramente a cargo do diretor de Engenharia. Por fim, escreveu o chefe da pasta
da Guerra: “...faço votos para que todas as dificuldades sejam aplainadas, de maneira que
possamos vos ver na execução da obra que idealizastes”. Em uma observação feita à lápis no
documento, José Pessoa considerou, inicialmente, o reconhecimento de Dutra ao seu trabalho
um “elogio velado”. Logo após, substituiu o “velado” por “tardio”. (ALBUQUERQUE, 1953,
Pasta V-Apêndice, p. 514)
Apesar da insatisfação que evidenciada com a atitude de Dutra, parece que Pessoa se
deixou convencer pelas palavras do ministro da Guerra. Dois dias depois de ter recebido a
correspondência do chefe da pasta da Guerra, enviou a Rabello um extenso documento com
uma série de considerações a respeito do novo projeto feito para a Escola Militar, o que
considerou ser uma “modesta colaboração”. Nas suas observações, José Pessoa retomou o
projeto arquitetônico original, elaborado por Penna Firme em 1932. Obviamente, a primeira
consideração foi em relação ao local escolhido para a construção do conjunto de
edificações.741 Mais uma vez, lembrou das impropriedades do terreno, que seriam agravadas
pela necessidade de se arrasar o bairro de Campos Elíseos, considerado à época o bas-fond de
Resende, se não fosse por condições de higiene, certamente seria pelo motivo de a frente da

741
A discordância em relação às mudanças feitas no projeto original elaborado por Raul Penna Firme e ao local
escolhido para abrigara a nova Escola Militar foram, também, o tema de um artigo escrito por José Pessoa para a
Revista da Escola Militar de 1938, que deu grande publicidade aos eventos que envolveram o lançamento da
pedra fundamental.
476

nova Escola ter que encostar nos quintais imundos do bairro. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta
V-Apêndice, p. 521)
Em seguida, Pessoa passou a apontar inúmeras alterações feitas no plano do conjunto
principal, que considerou inapropriadas. Lembrou da necessidade de se separar o bairro
militar do bairro residencial, o que poderia ser feito com o arroio Alambari, que serviria de
limite entre os dois. O Parque das Armas, localizado no conjunto da retaguarda, não possuía
saída própria, o que causaria o inconveniente do escoamento de tropas por dentro da Escola.
Considerou faltar ao bairro escolar e à seção de educação física a estética adequada na
distribuição das instalações. Também a forma como estariam dispostas as instalações não
permitiria a “contemplação do admirável panorama que se descortina na direção das Agulhas
Negras”. Discordou da proposta de todos os apartamentos abrigarem oito ou quatro cadetes.
Estes deveriam ser apenas para os 3º e 4º anos, a exemplo das academias norte-americanas de
Anápolis e West Point. Os cadetes 1º e 2º anos deveriam ocupara alojamentos para cinquenta
homens, “a fim de serem os calouros guiados e enquadrados pelos veteranos na nova vida
profissional”. No prédio da administração deveriam se concentrar as atividades
administrativas, escolares e militares. Ele seria o ponto dominante da Escola e se destacaria
por possuir uma torre, encimada por um grande relógio de quatro faces, semelhante ao Big
Bem, em Londres. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta V-Apêndice, p. 522-524)
Pessoa alertou para a necessidade de se construir abrigos à prova de bombas, uma
obrigação para a época, munidos de câmaras contra gases, para abrigar cadetes e oficiais em
tempos de guerra. Se fazia necessário, ainda, um sistema de defesa antiaérea da cidade
escolar. Também se ressentia da falta de um polígono de tiro para a instrução de todas as
armas e de um grupo de casas para a moradia dos sargentos e praças casados. Uma lavanderia
e uma usina elétrica de emergência deveriam ser construídas e reunidas à veterinária e às
oficinas gerais. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta V-Apêndice, p. 524)
Atentou que o bairro residencial dos oficiais não possuía grupo escolar, jardim de
infância e um campo de lazer destinados às famílias dos oficiais casados. Assim como
também era importante a construção de um edifício para a moradia dos oficiais solteiros e de
um hotel para os visitantes. Lembrou, também, que toda a cidade escolar deveria ser envolta
por um parque paisagista e interligada por uma rede rodoviária interna e que o Rio Paraíba
deveria ter um dos seus trechos preparado para os esportes náuticos. Por fim, ressaltou que o
fornecimento de energia poderia ser feito pela Light e que o abastecimento de água seria
garantido ampliando-se o reservatório geral da cidade de Resende, que se localizava nos
limites dos terrenos da Escola. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta V-Apêndice, p. 525)
477

A cerimônia de oficialização do início das obras, enfim, ocorreu em 29 de junho de


1938. Segundo o jornal A Lyra742, desde o dia anterior, a cidade de Resende foi tomada por
uma intensa movimentação de automóveis que transportavam oficiais do Exército e das forças
policiais do estado do Rio de Janeiro, que garantiriam a segurança das autoridades durante a
solenidade.
São o periódico resendense e o carioca Correio da Manhã que melhor descrevem os
fatos do evento que marcou o lançamento da pedra fundamental da nova Escola Militar
naquela amanhã de 29 de junho, que contou com a presença do presidente da República,
Getúlio Vargas, ministros de Estado e inúmeras autoridades militares e civis. A presença do
chefe de Estado fez a população da cidade comparecer em peso à antiga área do Horto
Florestal de Resende, local da cerimônia. Duas companhias de cadetes, trajando o uniforme
de gala criado no comando de José Pessoa, o “azulão”, e a banda de música da Escola Militar
chegaram à estação ferroviária da cidade às 10:20 horas, apenas alguns minutos antes da
chegada de Getúlio Vargas à antiga Fazenda das Sementes. Vargas se deslocou do Rio de
Janeiro de automóvel, acompanhado dos ministros da Agricultura, Fernando Costa, e da
Guerra, general Eurico Dutra, e do general Pinto, chefe da Casa Militar. Após examinar a
planta do projeto de construção, Vargas dirigiu-se ao local da solenidade, que iniciou às 11:00
horas, com a leitura da ata comemorativa ao evento. Dentre os generais listados, não constava
o nome de José Pessoa.743
Uma urna foi preparada para ser enterrada no local. Em seu interior foram guardados
jornais do dia, revistas, moedas e uma cópia da ata comemorativa. Às 11:10 horas o bate
estacas cravou no terreno a primeira estaca das fundações da nova Escola, sob os aplausos
efusivos da população e das autoridades presentes.744
Iniciaram-se, então, os discursos. O primeiro a falar foi o diretor de Engenharia do
Exército, general Manoel Rabello, que destacou o nome de José Pessoa como autor e mentor
da ideia da nova Escola Militar e a liderança que ele exerceu à frente da Comissão Executiva,
em 1931. Rabello lembrou que em 1934 o projeto original foi submetido à apreciação da
Diretoria de Engenharia, que dele não tinha participado, e que a imobilização dos planos de
construção ocorreu, “entre outros alvitres de ordem prática para a sua prossecução”, devido ao
impasse da escolha do local mais apropriado para a instalação das edificações. Incensando a
sim mesmo, ressaltou que foi graças à iniciativa da Diretoria de Engenharia que os planos de

742
A Lyra, Resende, 7 jul. 1938, p. 1.
743
Ibidem.
744
Ibidem.
478

construção foram retomados, em 1937. Concluiu a sua fala, deixando claro a preocupação que
teve em sempre ouvir os técnicos e as autoridades que sempre se interessaram pelo assunto,
especialmente José Pessoa, “incontestavelmente o pioneiro e impulsionador da ideia”.745
Ao discurso de Rabello seguiram-se o do general Pedro Cavalcanti, inspetor geral do
Ensino Militar, que também lembrou da ação fecunda e inteligente de Pessoa e o do coronel
Duque Estrada, um dos mais antigos professores da Escola Militar, que fez questão de
destacar que a ideia de se localizar em Resende a nova Escola nasceu durante o comando de
José Pessoa, cuja ação se referiu da seguinte maneira:

Sonhou vê-la exaltada à altura de sua missão, digna de um Exército de que é o


fundamento, a razão de ser, e trabalhou. Buscou, pediu e rogou, escolheu Resende,
idealizou seu plano, fez organizar o projeto, iludiu-se e desiludiu-se. Não executou,
mas não importa, porque a semente ficou. E em pensamento, por certo, dirá nessa
hora como o digo: bem haja quem a semente cultivou.746

Imagem 84 – Cerimônia de lançamento da pedra fundamental da Escola Militar de Resende,


29 jun. 1938.

Fonte: Hemeroteca da Biblioteca Nacional. Revista da Semana, 9 jul. 1938.

Ao término do discurso de Duque Estrada chegou José Pessoa, que se atrasou para o
evento. Segundo Câmara (201, p. 184), o automóvel no qual se deslocava para Resende, em

745
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 30 out. 1938, p. 1.
746
A Lyra, Resende, 7 jul. 1938, p. 1.
479

companhia de Henrique Lage, teve uma pane na Serra das Araras. Foi recebido efusivamente
pela população resendense e pelos colegas de farda. O comandante da Escola Militar, general
Mário José Pinto Guedes, pediu autorização a Getúlio Vargas para que Pessoa assinasse a ata
comemorativa. Segundo a imprensa, ele o fez visivelmente emocionado, diante do silêncio
absoluto dos presentes que assistiam “à glorificação de um herói que volta de áspera
campanha coroado pelas bençãos de um povo”.747 Apesar de todos os cumprimentos que
recebera, Sodré (1967, p. 185) aponta que Pessoa, ao final de cerimônia, confidenciou-lhe que
nada daquilo que estava sendo feito era o que havia sonhado. Daquilo que havia planejado,
quase nada restava.
Getúlio encerrou a rodada de discursos. Em sua fala, ressaltou que a nova Escola
Militar constituía uma aspiração geral de todo o Exército e uma aspiração justa e generosa de
todos os cadetes, de todos os professores e de todos os seus comandantes, dos quais
destacava-se José Pessoa. Ressaltou que o novo instituto de educação militar a ser construído,
cujo plano de execução teve que vencer várias vicissitudes e extremas dificuldades, era uma
realização do Estado Novo, que, contando apenas com um pouco mais de meio ano de
existência, já apresentava um patrimônio e um acervo de grandes realizações. Lembrou que o
novo regime, instituído por um movimento que “encontrou a maior ressonância na opinião
pública do País e na adesão de suas classes populares”, sentia-se cada vez mais apoiado pelas
Forças Armadas, que buscavam, naquele momento, aparelharem-se para exercerem a sua
grande missão cívica e moral. Terminou exigindo de cada cidadão ali presente “o
compromisso do devotamento contínuo e permanente pela prosperidade e pela grandeza do
Brasil”. Ao término das palavras do presidente a urna de metal contendo os documentos da
época foi soldada pelo funcionário Benedito Nunes, da Prefeitura Municipal de Resende. Com
uma pá de prata conduzida pelo general Rabello, Getúlio Vargas lançou a primeira porção de
cimento que lacrou o receptáculo que a recebeu, sendo essa a última atividade da
cerimônia.748

747
Ibidem.
748
Ibidem.
480

Imagem 85 – Getúlio Vargas lacrando a urna de metal no lançamento


da pedra fundamental da nova Escola Militar em Resende, 29 jun. 1938.

Fonte: Hemeroteca da Biblioteca Nacional. Revista da Semana, 11 mar. 1944.

Ao final da solenidade, as companhias de cadetes, acompanhadas pela banda de


música da Escola Militar, desfilaram pelas ruas de Resende, diante da admiração e dos
aplausos da população, que lotava as calçadas para acompanhar o espetáculo. Ao
aproximarem-se da estação ferroviária, para embarcarem para o Rio, os cadetes foram parados
pelo general Pinto Guedes. No alto de um coreto, ao lado de Pinto Guedes, encontrava-se José
Pessoa, que, naquele momento passou a receber uma homenagem do comandante da Escola
Militar. Diante dos cadetes, Guedes enalteceu os grandes méritos e o espírito empreendedor
de Pessoa, devotado ao bem-estar e ao progresso dos cadetes brasileiros. Em nome do povo
resendense, o ex-prefeito Alfredo Sodré saudou José Pessoa pelos grandes serviços prestados
ao município. Encerrando a singela solenidade, que foi acompanhada por uma grande
quantidade de populares, os cadetes desfilaram em continência a Pessoa, que agradeceu
comovido as homenagens que lhe foram prestadas, retornando em seguida para o Rio de
Janeiro.749

749
A Lyra, Resende, 7 jul. 1938, p. 4.
481

Imagem 86 – Desfile dos cadetes no Centro de Resende e a homenagem a José Pessoa (indicado pela seta), 29
jun. 1938.

Fonte: Revista da Escola Militar, 1938.

Durante os quase seis anos que durou a construção das instalações da nova Escola
Militar, José Pessoa fez cinco visitas às obras em Resende, entre os anos de 1940 e 1943750, a
convite do general Luiz de Sá Affonseca, que assumiu a chefia da comissão de construção em
1940, no lugar do coronel Waldomiro Pereira.751 No retorno de cada visita, e em outras
ocasiões, sempre que achava necessário, enviava uma carta a Affonseca, com observações e
sugestões de modificações e melhorias.
A primeira visita aconteceu em julho de 1940752, em companhia do diretor de
Engenharia do Exército, general Manoel Rabello. Na ocasião, Pessoa percorreu todas as
edificações em construção, analisou as plantas e ratificou, perante os oficiais da Comissão
Especial de Obras, as propostas de mudanças já feitas à Rabello, por ocasião do convite que
recebera para colaborar com o empreendimento em 1938. Em abril de 1941, em uma carta
enviada a Affonseca, anexou fotografias da academia norte-americana de West Point, para
orientar a estética do edifício central. Lembrou, ainda, que era uma instalação que se
destinava à juventude. Portanto, não deveria ser luxuosa e, sim, austera e de bom gosto, a fim
de se criar uma mística em torno dos fatos proeminentes da história e da memória dos grandes
soldados do Exército e da Nação. No mês seguinte, uma nova correspondência chamava a
atenção do chefe da comissão de construção para a localização da torre que abrigaria o relógio

750
De acordo com as informações de: Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 31 jul. 1940; A Lyra, Resende, 8 ago.
1940 e 17 abr. 1941; Albuquerque, 1953, Pasta V-Apêndice.
751
Em janeiro de 1940, a Comissão Construtora da Escola Militar foi dissolvida pelo ministro da Guerra, sendo
o coronel Waldomiro Pereira dispensado da função. No seu lugar foi criada a Comissão Especial de Obras de
Piquete e Resende, que unificou a direção das obras da Fábrica de Pólvora de Piquete e da nova Escola Militar.
Para a sua chefia foi nomeado o general Luiz de Sá Affonseca. A Lyra, Resende, 1 fev. 1940, p. 1.
752
A Lyra, Resende, 8 ago. 1940, p. 1.
482

“tipo Big-Ben”, que deveria estar em uma posição mais centralizada em relação ao conjunto
principal, para que pudesse também ser vista pelos moradores de Resende, já que a cidade
precisaria, no futuro, ajustar-se aos horários da nova Escola. E, novamente, ressaltou que o
conjunto de construções, dividido em três grupos distintos – local onde os cadetes viveriam,
local em que trabalhariam e local em que recreariam –, não devia primar pelo luxo, mas
atender à natureza clássica de uma moderna academia militar. Segundo Pessoa, todas as
correções deveriam ser feitas com vistas no futuro, acompanhando-se o progresso das
construções pedagógica e científica, sob pena de, em poucos anos, a nova Escola tornar-se
obsoleta, necessitando de “remendo, ampliações ou modificações”. (ALBUQUERQUE, 1953,
Pasta V-Apêndice, p. 526-531)
Nem todas as sugestões feitas por Pessoa, no entanto, eram atendidas. Na carta que
enviou a Affonseca em 7 de julho de 1941, reclamou, de forma sutil, da não aceitação da sua
proposta de mudança dos locais em que seriam construídos a biblioteca e o rancho dos
cadetes. Lembrou, também, que era o momento de se começar a pensar nos ornamentos da
nova Escola, a começar pelo salão nobre, que deveria conter apenas duas decorações
artísticas: as telas A descoberta do Brasil, de Joaquim da Rocha Ferreira, e Proclamação da
Independência, de Pedro Américo. As paredes da biblioteca deveriam conter uma galeria dos
grandes generais do Exército, o que serviria de estímulo à juventude militar. No gabinete do
comandante ficariam apostas séries com os retratos dos chefes de estado, desde o Império, e
dos ex-comandantes da Escola, desde a sua fundação. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta V-
Apêndice, p. 532-534)
Nas três últimas cartas enviadas ao chefe da Comissão de Obras, nos meses de outubro
de 1941 e maio de 1943, Pessoa deu uma atenção especial ao Panteão de Caxias. Opinou, e
mudou de opinião, sobre o local em que a monumental edificação deveria ser construída, em
estilo clássico romano, para harmonizar com o conjunto arquitetônico da Escola. Sugeriu
também algumas modificações no monumento, dentre as quais: trocar o cavalo em que Caxias
estaria montado por um mais fogoso; desembainhar e perfilar a espada do Duque; gravar nas
paredes externas do monumento, como faziam os antigos, certas inscrições simbólicas; o
sarcófago que conteria as cinzas de Caxias deveria ser feito em mármore verde do Paraná e
repousar sobre as estátuas de seis praças de bom comportamento, a exemplo do que fora o
enterro do Duque; e a sala do relicário, além dos objetos pessoais de Caxias, deveria conter as
cinzas da Duquesa. Outro ponto frisado por Pessoa foi o paisagismo da Escola. A arborização
estava sendo feita de forma indiscriminada, misturando-se plantas de espécies diferentes.
Havia a necessidade de se plantar árvores nas áreas próximas ao rancho e ao edifício central
483

da Escola, para proteger aquelas instalações dos raios solares e propiciar locais agradáveis de
estudo para os cadetes. Também a praça que dava acesso à Escola deveria ter um aspecto
militar mais acentuado, com canhões históricos dispostos à sua volta. (ALBUQUERQUE,
1953, Pasta V-Apêndice, p. 536-543)

Imagem 87 – Planta de situação da nova Escola Militar publicada no Jornal do Brasil, 24 ago. 1941.

Fonte: Hemeroteca da Biblioteca Nacional. Jornal do Brasil, 24 ago. 1941.

No conjunto arquitetônico da nova Escola Militar, ou, como queria José Pessoa, da
Academia Militar das Agulhas Negras, um grandioso monumento a Caxias deveria ser
erguido. O Panteão a Caxias foi, inclusive, previsto por Penna Firme no projeto original. Para
Pessoa, o Panteão encerraria toda a mística criada para substituir as ideias filosóficas da velha
Escola e a sua construção era condição essencial para que o novo estabelecimento de ensino
militar fosse a obra perfeita de civismo. O monumento seria ornado em toda a sua volta por
vitrais representativos da vida do Duque. Por eles, os primeiros e últimos raios de sol do dia
se projetariam sobre um sarcófago que guardaria os restos mortais do patrono do Exército.
Sobre o pórtico de entrada seria gravada a inscrição: “Caxias foi grande aos olhos do seu
século; maior será ainda aos olhos da posteridade”. Teria os ares de um recanto sagrado,
retirado em um local de plena quietude, para que pudesse ser visitado por todos os que
484

desejassem “render homenagem ao gênio, ao patriotismo e à glória”. Seria o local destinado


aos atos religiosos e de exaltação à memória dos grandes generais da história do Exército.753
Pessoa tinha a intenção, ainda, que ao Panteão fossem recolhidos os restos mortais de
outros grandes vultos da história militar do Brasil, como: Osório, Conde de Porto Alegre,
Andrade Neves, Mena Barreto, Barão de São Borja, Argolo, Sampaio, Taunay etc. Também
as cinzas da Duquesa seriam recolhidas ao local, para fazer companhia ao marido. O
monumento possuiria uma cripta, onde ficaria exposto um relicário com os pertences do
Duque: a sua espada, seus uniformes, seu bastão de marechal, suas condecorações e outros
bens pessoais, para serem motivo de culto e estímulo à juventude militar. Apesar da
suntuosidade descrita, Pessoa queria um monumento de linhas simples e severas, mas de uma
solidez que o perpetuasse e que se tornasse um santuário ao nome de Caxias.754
Mesmo com todo o entusiasmo e o empenho de José Pessoa para que a sua ideia se
concretizasse, o monumento não foi construído. Em seu relato autobiográfico não há nenhuma
referência às causas do Panteão não ter sido erigido. Uma hipótese aponta para a falta de
verbas. Em algumas das correspondências em que o general Affonseca responde às propostas
de mudanças feitas por Pessoa, o alto custo das obras é sempre apontado como motivo para se
adiar o que não era considerado essencial à construção da nova Escola Militar.

Imagem 88 – Maquete do Panteão à Caxias, 1931.

Fonte: Revista Militar Brasileira, jan./mar. 1942.

753
Relatos memoriais sobre o Panteão à Caxias. Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.04.12.
754
Ibidem.
485

Cabe neste ponto abrir um parêntese para se tecer algumas breves considerações sobre
Henrique Lage, considerado um grande benemérito na construção da nova Escola Militar.
Lage nasceu no Rio de Janeiro, em 14 de março de 1881. Era filho de Antônio Martins Lage
Filho, um influente comerciante de carvão de pedra, reboques e trapiches, que iniciou seus
negócios no final do Império, em sociedade com os irmãos, no Rio de Janeiro. Em 1891,
favorecido pela importância que a navegação de cabotagem ganhava no País e pela nova
legislação sobre sociedades anônimas, Antônio Lage fundou aquele que viria a ser o mais
importante negócio da família Lage: a Companhia Nacional de Navegação Costeira.
(RIBEIRO, 2007, p. 27-34)
Com a morte do pai, em 1918, Henrique Lage entrou na sociedade da Lage Irmãos ao
lado dos tio Renaud e Frederico, passando a ser o principal administrador da empresa. Nos
anos seguintes, ampliou os seus negócios ao criar duas companhias de seguros, a Lloyd Sul
Americano, em 1919, e a Lloyd Industrial Sul Americano, em 1920. A partir de 1919
investiu, ainda, na indústria siderúrgica, na exploração de carvão, manganês e mármore, em
Minas Gerais, e no setor bancário, com a fundação do Banco Sul do Brasil, com sede no Rio
de Janeiro e matriz em Florianópolis. No segmento de construção Civil, fundou a Companhia
Nacional de Construções Civis e Hidráulicas, e chegou a aventurar-se no setor da aviação,
com a construção de dois aviões em parceria com as firmas inglesas Blackburn e Bristol.
(RIBEIRO, 2007, p. 126-136)
Durante a Revolução de 1930, Henrique Lage foi preso, uma retaliação de alguns
líderes do movimento revolucionário por ter se negado a contribuir com um navio para a
caravana do pré-candidato Getúlio Vargas. A verdade é que Lage não simpatizava com
nenhum dos lados, já que possuía amigos nas duas facções. Ceder um navio para Vargas era
uma clara demonstração que aderira à causa revolucionária, o que poderia prejudicar os seus
negócios com o governo. Por uma intervenção do seu auxiliar Pedro Brando junto ao general
Tasso Fragoso, Lage foi solto. Entretanto, a possibilidade de uma nova prisão o levou a asilar-
se politicamente na embaixada do México, na Capital Federal, partindo logo em seguida para
a Europa, deixando seus auxiliares no comando dos seus negócios. (RIBEIRO, 2007, p. 163-
164)
A situação econômica pós-revolução de 1930 afetou diretamente as empresas de Lage,
para o bem e para o mal. A desvalorização cambial impactou negativamente as finanças da
Companhia Costeira, devido à elevação dos preços dos produtos importados e às dívidas
contraídas junto aos estaleiros ingleses, quando da compra de navios nos anos 1920. Por outro
lado, os negócios do setor carbonífero foram favorecidos, já que o aumento do preço do
486

carvão importado despertou no governo uma maior atenção para a indústria nacional de
carvão. O incentivo de Vargas à indústria aeronáutica levou Lage, em 1935, a fundar a
Companhia Nacional de Navegação Aérea, destinada a projetar, construir e vender aviões,
treinar pilotos e executar serviços de transportes aéreos. Entre 1935 e 1941, a sua empresa
aeronáutica projetou, fabricou e vendeu para o Exército brasileiro vários modelos diferentes
de aviões. (RIBEIRO, 2007, p. 165,0169, 172-176)
Segundo Ribeiro (2007, p. 228-230), o apoio dado por Getúlio à industrialização do
País, na segunda metade dos anos 1930, particularmente durante o Estado Novo, fez com que
ele se aproximasse do empresariado nacional, dentre eles Henrique Lage, apesar do incidente
ocorrido nos primeiros dias da Revolução de 1930. Na implantação do novo regime, em 1937,
Lage apoiou Getúlio, o que fez com que os dois se aproximassem. As atividades
desempenhadas por Lage o aproximaram, também, dos militares da Marinha e do Exército
brasileiros, dentre os quais fez grande amigos e admiradores. Em 1938, o empresário se
tornou o primeiro civil a receber a Ordem do Mérito Militar, no grau de oficial, recebendo a
comenda diretamente das mãos de Vargas.

Imagem 89 – Henrique Lage (de cartola na mão) recebendo


a Ordem do Mérito Militar, 1938.

Fonte: Revista da Escola Militar, 1945.


487

A aproximação de Henrique Lage com a Escola Militar deu-se por intermédio da


continuidade de uma ação benemérita iniciada por seu pai, quando da criação da Companhia
de Navegação, em 1891. Ao fundar a empresa, Antônio Lage Filho ficou sabendo que muitos
alunos da Escola Militar da Praia Vermelha, oriundos dos mais diversos rincões do País, não
possuíam recursos financeiros para visitarem as suas famílias no período de férias. Passou,
então, a ofertar-lhes passagens de ida e volta para qualquer ponto do País em que aportassem
seus navios. Henrique deu continuidade à tradição criada pelo pai, como se vê abaixo, na
publicação feita em boletim escolar, e estendeu a benfeitoria a oficiais superiores e generais
do Exército, que recebiam passagens de cortesia para viajarem nos seus “Itas” 755. O
relacionamento criado com a Escola Militar do Realengo aproximou-o de José Pessoa, com
quem desenvolveu uma amizade especial. (AMAN, 2011, p. 48)

COMPANHIA DE NAVEGAÇÃO COSTEIRA – OFERECIMENTO DE


PASSAGENS
Do Exmo. Sr. Henrique Lage, Presidente da Cia. Nacional de navegação Costeira,
recebeu este Comando o gentil oferecimento de 10 passagens grátis, em navios
daquela prestigiosa empresa, para os cadetes desta Escola que desejarem visitar suas
famílias, no gozo das férias regulamentares.
É com a mais viva satisfação que este Comando dá publicidade a esse nobre gesto
do Sr. Henrique Lage, o qual, repete assim a generosa iniciativa dos membros da sua
família, antigos diretores da mesma Companhia, que, por esses atos, se fizeram
credores do apreço e gratidão da Escola de Guerra, em outros tempos, sentimentos
que ainda perduram muito justamente em seus corações.
Ressaltando essa distinção do atual Diretor da Companhia Nacional de Navegação
Costeira, que por demais penhora à Escola Militar, este Comando deixa consignados
os seus sinceros agradecimentos àquele ilustre e operoso patrício, exemplo de
tenacidade e energia e cuja simpatia pela classe militar, que parece tradicional em
sua família, sobremodo nos honra e cativa.756

Lage comparecia a solenidades e concedia prêmios aos cadetes mais bem classificados
em cada curso. Era presença constante nas cerimônias de entrega dos espadins e de formatura
das turmas de aspirantes. A atenção que dispensava ao Corpo de Cadetes rendeu-lhe uma
homenagem da Escola Militar em janeiro de 1934, quando uma tela pintada à óleo de sua
imagem foi inaugurada no cassino dos cadetes. Na nota publicada em boletim escolar757 sobre
o evento, do qual participaram todos os oficiais da Escola, José Pessoa agradeceu o “especial
carinho e a grata amizade” que Lage e os seus antepassados nutriam pelos cadetes do Brasil e
destacou a figura do homenageado citando-o como um “ilustre e operoso industrial
brasileiro”.

755
Todos os navios da Companhia de Navegação Costeira eram batizados com nomes que iniciavam com a
palavra tupi “Ita”, que significa pedra, ficando, assim, popularmente conhecidos por “Itas”: Itabira, Itatyaia,
Itaúna, Itapeva, Itacolomy, etc.
756
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 23, de 27 jan. 1932, p. 175.
757
Boletim da Escola Militar do Realengo nº 12, de 15 jan. 1934, p. 84.
488

Em junho de 1938, segundo Garrido e Marujo (2013, p. 139), em uma carta


endereçada ao general Pinto Guedes, comandante da Escola Militar do Realengo, propôs a
criação de um evento desportivo entre as escolas militares de formação do Exército e da
Marinha. Para premiar a equipe vencedora, ofertaria como prêmio um troféu, a Taça Lage 758,
nome pelo qual ficou conhecido o evento que se tornou anual. Entre 7 e 13 dezembro de 1938,
foi realizado o primeiro torneio, que reuniu os cadetes da Escola Militar e os alunos da Escola
Naval, recém-instalada na Ilha de Villegagnon. As modalidades desportivas (atletismo,
basquetebol, polo, futebol e natação) foram disputadas nas sedes das duas instituições e nos
clubes proeminentes da cidade, como o Tijuca Tênis Clube, o Clube de Regatas Vasco da
Gama e o Fluminense Futebol Clube. A partir de 1941, com a criação do Ministério da
Aeronáutica, os alunos da sua escola de formação também passaram a participar da
competição.
A amizade com José Pessoa teria levado Lage a se engajar no projeto de construção da
nova Escola Militar, em Resende. Doou todo o mármore vermelho utilizado no revestimento
de grande parte do conjunto principal da Escola e a prataria para o refeitório dos cadetes.
Também teria mandado fundir os grandes portões de ferro da entrada da Escola na fundição
dos estaleiros da Companhia Costeira. (AMAN, 2011, p. 48)
Henrique Lage faleceu em 2 de julho de 1941. Seu corpo foi velado em sua residência,
no bairro do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Uma guarda de quatro cadetes foi colocada
em volta do seu caixão, que foi coberto pelo estandarte do Corpo de Cadetes, uma oferta de
José Pessoa. Várias autoridades compareceram ao velório, dentre elas, o presidente Getúlio
Vargas. Como última homenagem, em 13 de março de 1943, um dia antes da data natalícia de
Lage, o comandante da Escola Militar, coronel Mário Travassos, concedeu-lhe o título de
Cadete Nº 1, por meio de uma publicação em Boletim Escolar759. Daquele ano em diante, a
numeração atribuída aos cadetes que ingressavam na Escola Militar, e posteriormente na
Academia Militar das Agulhas Negras, passou a iniciar sempre pelo número 002. (AMAN,
2011, p. 48)

758
A partir de 1951, a Taça Lages passou a ficar soba a égide do Conselho Desportivo das Forças Armadas, que
passou a chamar-se Comissão Desportiva das Forças Armadas (CDFA) em 1956. Em 1962, o general Floriano
Machado, presidente da CDFA, determinou que, a partir daquele ano, seria adotada a sigla NAVAMAER para
caracterizar a competição desportiva entre as escolas de formação das três Forças Armadas. Informações
retiradas do site do Exército Brasileiro, 2021.
759
Boletim Escolar Nº 59, de 13 de março de 1943, da Escola Militar do Realengo.
489

Lage e sua esposa, Gabriella Besanzoni760, de naturalidade italiana, não deixaram


filhos que pudessem herdar a fortuna e os negócios de Henrique. Sendo assim, após a sua
morte, iniciou-se uma ferrenha disputa pelo comando das empresas Lage, tendo de um lado
Gabriella, para quem Lage havia deixado em testamento 52% do patrimônio das empresas, e
Pedro Brando, braço direito de Lage em seus negócios e que, desde 1937, era o diretor-
presidente da Companhia Costeira e de outros empreendimentos do conglomerado, e do outro
os sobrinhos de Henrique, Victor e Eugênio Lage. Em 1941, o governo deu mostras de
interesse no espólio de Henrique Lage. Em julho daquele ano uma ação governamental
nomeou uma comissão para saber a real situação jurídica e financeira das empresas e do
patrimônio do industrial. Em janeiro de 1942, o relatório dos trabalhos apontou que a
condição deficitária das empresas, agravada pela morte de Lage, geraria grande instabilidade
no mercado, o que criava condições para uma medida de intervenção governamental sobre o
patrimônio formado pelo empresário. O relatório questionou, ainda, o comando dos negócios
por Gabriella Besanzoni que, mesmo sendo detentora de 52% do patrimônio das empresas,
não poderia controlá-las, por não ter a naturalidade brasileira, o que a impedia, por lei, de ser
proprietária dos títulos de capital que havia herdado. (RIBEIRO, 2007, p. 257-258)
Apesar da intensa disputa jurídica entre os herdeiros de Henrique Lage, dois atos do
governo selaram o destino do espólio do industrial. Com o rompimento das relações
diplomáticas do Brasil com as potências do Eixo, em janeiro de 1942, e a posterior do País na
Segunda Guerra Mundial, em agosto de 1942, o dirigismo estatal realizado por Vargas
recrudesceu. Por meio de dois decretos-lei, as empresas Lage passaram ao controle absoluto
do governo federal. O Decreto-lei nº 4.613, de 25 de agosto de 1942 determinou, como
medida de emergência, a entrega obrigatória ao governo federal de todo o carvão nacional
destinado ao mercado brasileiro. O outro decreto, de nº 4.648, de 2 de setembro de 1942,
incorporou ao patrimônio nacional os bens e direitos das empresas da Organização Lage e do
espólio de Henrique Lage. Justificava o governo que o conglomerado se constituía em um
conjunto valioso, aproveitável no interesse da defesa nacional, o que impunha o exercício da
sua administração pelo Estado e a sua incorporação ao patrimônio do País. Chegavam, assim,
ao fim, 117 anos de atividades empresariais da família Lage, iniciada em 1825 pelo bisavô de
Henrique, Antônio Martins Lage. (RIBEIRO, 2007, p. 265-269)

760
Gabriella Besanzoni era cantora lírica. Henrique Lage a conheceu em 1918, ao assistir, no Brasil, uma ópera
na qual a cantora se apresentou. O casamento somente veio a ocorrer em 1925, depois de finalizado o processo
de divórcio entre Lage e a norte-americana Lillian Agnes Whitman, com quem havia se casado em 1906, nos
EUA, e se separado em 1909. Ribeiro (2007, p. 145).
490

Vendo-se privada do patrimônio que o marido havia lhe deixado, é possível que, anos
mais tarde, Gabirella Besanzoni tenha recorrido ao auxílio de José Pessoa. Nos documentos
do arquivo pessoal de Pessoa, há a cópia de uma carta escrita por ele, em 14 de junho de
1945, e endereçada a Getúlio Vargas, por meio da qual intercede em favor da viúva. Nela,
argumentou achar justo que, por meio de decretos, se tivesse incorporado ao patrimônio
nacional os bens das empresas e o espólio de Henrique Lage necessários ao pagamento dos
empréstimos contraídos pelo empresário junto ao governo. Porém, não achava direito o a
venda, em leilão público, dos bens de propriedade individual de Lage. Disse que o espólio
restante, do qual o governo não necessitava, merecia todo o respeito e atenção das autoridades
e constituía-se em bens invioláveis da viúva. Diante de tal atitude, Pessoa alegou sentir-se
inseguro em relação ao futuro dos bens que adquiriu ao longo de sua carreira, que poderiam
ter a mesma “dolorosa sorte” do patrimônio de Henrique Lage. Finalizou pedindo a Getúlio
que mandasse devolver ao juiz competente o inventário dos bens que não foram incorporados
ao patrimônio da União, para que fosse devolvido a Gabriella o que era de sua propriedade
individual, não ficando, assim, a viúva e sua filha de criação desamparadas. 761
Com a derrubada de Vargas do governo, em outubro de 1945, Pessoa escreveu outra
carta, em 28 de dezembro de 1945, com o mesmo teor da que havia escrito a Vargas. Dessa
vez, a correspondência foi endereçada a José Linhares, presidente do Supremo Tribunal
Federal, que havia assumido a Presidência da República.762
As cartas de Pessoa não surtiram o efeito desejado. Segundo Ribeiro (2007, p. 268-
269), em 1946, a indenização pela encampação do espólio de Henrique Lage, paga em títulos
da dívida pública, foi dividida, em proporção definida em inventário, aos herdeiros de Lage.
Somente Gabriella não recebeu a sua parte, já que a naturalização brasileira lhe havia sido
negada diversas vezes pela justiça brasileira.
Ribeiro (2007, p. 267) aponta que o decreto que incorporou as empresas de Henrique
Lage à União previa a nomeação de um superintendente de confiança do governo federal, o
que coube a Pedro Brando, que, em meio à disputa sucessória do comando da Organização
Henrique Lage (OHL), rompeu relações com Gabriella, o que é um fato curioso, já que, em
maio de 1948 e em setembro de 1949, José Pessoa enviou duas cartas à viúva de Lage,
tecendo considerações a respeito da OHL, a convite dela.
Ao analisar-se o texto da primeira, fica evidente que a viúva de Henrique Lage
recorreu a José Pessoa para orientá-la quanto à reestruturação da Organização Henrique Lage.

761
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.08.06.
762
Ibidem.
491

Nela, Pessoa argumentou conhecer superficialmente as empresas. Porém, ressaltou a


necessidade de dotá-las de uma sólida organização, para que pudessem desenvolver ao
máximo as suas possibilidades. Orientou ser urgente a escolha do pessoal que iria dirigir a
Organização, tendo-se o cuidado especial de selecionar aqueles que soubessem colocar os
interesses da OHL à frente dos interesses pessoais. E lembrou à viúva ter presenciado, em
companhia dela, alguns depoimentos deprimentes em relação ao funcionamento das empresas
como um todo: pessoas em cargos de chefia que não residiam no Rio de Janeiro; manutenção
nos quadros das empresas de empregados que não gozavam de boa reputação no comércio;
altos funcionários que eram pagos mesmo sem produzirem nada para a Organização; novos
funcionários que eram admitidos por pessoas que não tinham autorização para tal; e o
funcionamento de empresas deficitárias. Segundo Pessoa, esses eram problemas que, sem
dúvida, iriam arrastar a OHL à falência total. Anexou à carta, inclusive, uma proposta de
reorganização, em forma de organograma, chegando ao detalhamento da constituição das
unidades de produção e da administração diária das empresas.763
Na segunda, José Pessoa aceitou um convite de Gabriella, feito por intermédio de três
diretores da OHL, Eugênio Dodswortz, Arthur Rocha e Enzo Bettendiéri, para organizar e
dirigir, como superintendente, o Serviço Social da Organização Henrique Lage.764
O fato é, que Gabriella Besanzoni nunca retomou o controle das empresas Lage.
Segundo a escritora Marina Colasanti, sua sobrinha-neta, que morou na residência dos Lage
na segunda metade dos anos 1940 (hoje o Parque Lage, no Rio de Janeiro), a viúva de
Henrique Lage casou-se novamente com um oficial da receita italiana e retornou para a Itália.
Antes, porém, vendeu tudo o que tinha herdado do ex-marido, o que, segundo Colasanti, não
era pouco.765 Com o depoimento da escritora, resta a dúvida se Gabriella, falecida em julho de
1962, recuperou ou não os bens deixados para ela no testamento do empresário. Conforme
noticiou o jornal carioca Tribuna da Imprensa766, Besanzoni deixou uma herança de mais de
Cr$ [Link] (um bilhão de cruzeiros), que foi distribuída para os pobres, Colasanti,
amigos e o marido. Entretanto, o jornal destacou que Gabriella faleceu sem receber a
indenização que o governo brasileiro lhe devia pela incorporação do espólio de Lage,
estimada em Cr$ 500.000.000 (quinhentos milhões de cruzeiros), que ainda tramitava, à
época, na 1ª Vara da Fazenda Pública do Rio de Janeiro.

763
Ibidem.
764
Ibidem.
765
Informações retiradas da reportagem sobre a vida de Marina Colasanti, publicada em 5 out. 2016, no site
100Nonni. Disponível em: [Link] Acesso em: 13 jul. 2020.
766
Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, 20 jul. 1962, p. 9.
492

Retornando à instalação da nova Escola Militar em Resende, no final de 1943 as


construções já haviam tomado certo vulto e o ministro Dutra passou a considerar se já não era
o momento, como relata o coronel Mário Travassos, de “insuflar vida à majestade inerte das
construções”. Ao assumir o comando da Escola do Realengo, em janeiro de 1943, coube a
Travassos acompanhar in loco as obras em Resende e decidir a melhor oportunidade para dar
início às atividades no novo estabelecimento de ensino.767
Em abril de 1943, Mário Travasso vislumbrou a possibilidade de se transferir, aos
poucos, as atividades do Realengo para Resende. Não seria adequado, naquele momento,
levar para a nova Escola os cursos das Armas (2º e 3º anos), em vista das suas complexas
atividades e do numeroso pessoal, material e animais que estariam envolvidos na
transferência. Entretanto, era recomendável que os cadetes do 1º ano, que entrariam em 1944,
já o fizessem nas novas instalações. Como as suas atividades seriam mais acadêmicas do que
profissionais, já disporiam do mínimo indispensável para o funcionamento do curso, desde
que se ultimassem, durante o ano de 1943, certas providências, como a construção das
residências dos serventuários. No transcorrer de 1944, as obras complementares seriam
concluídas, impulsionadas que seriam pelo funcionamento parcial da Escola. O processo de
mudança estaria consolidado em 1945, quando todos os anos passariam a funcionar em
Resende. Dessa forma, haveria o tempo necessário para a recíproca aclimatação social e
econômica entre as “singelezas” do município e as “complexidades” da Escola.768
Antes, porém, que a mudança para Resende se efetivasse, a Escola Militar do
Realengo prestou a sua última homenagem ao idealizador na nova Escola. No dia 30 de
setembro, a convite de Mário Travassos, José Pessoa passou uma manhã com os oficiais e
cadetes do estabelecimento de ensino militar. Um concurso hípico e um torneio esportivo
foram organizados para receber o ex-comandante. Em seu discurso de agradecimento, Pessoa
não escondeu a emoção que estava sentindo no momento, segundo ele, um dos mais
significativos de sua carreira de soldado e ressaltou que na Escola Militar havia vivido os
momentos mais felizes de sua vida, desde a mocidade, quando foi aluno da Escola de Tática,
até a maturidade do oficialato, com os esforços empreendidos para a recuperação do
estabelecimento de ensino. Ao fim da visita, uma miniatura do espadim lhe foi oferecida
como lembrança. Até, então, somente o presidente da República havia recebido tal brinde.769

767
Informações retiradas do artigo sobre a Escola Militar de Resende escrito por Mário Travassos para a edição
especial dos 200 Anos de Resende do jornal A Lyra, em 1944.
768
Ibidem.
769
Informações colhidas do jornal Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 1 out. 1943, p. 1.
493

Imagem 90 – Coronel Mário Travassos (esquerda) recebendo José Pessoa


em sua última visita à Escola Militar do Realengo, 30 set. 1943.

Fonte: Câmara, 2011.

Finalmente, em 19 de novembro de 1943, por meio do Decreto nº 6.012, foi criada a


Escola Militar de Resende, que passaria funcionar a partir de 1º de janeiro de 1944, e
extinguiu a do Realengo, que deixaria de existir em 31 de dezembro daquele mesmo ano. Em
31 de janeiro de 1944, o coronel Mário Travassos passou o comando da Escola do Realengo
para o coronel professor Augusto da Cunha Duque Estrada, que permaneceria à frente da
velha Escola até que ela cerrasse as portas. Travassos seguiu para Resende, para ultimar os
preparativos para a recepção da primeira turma de cadetes que ingressaria na nova Escola, em
11 de março.770
Antes, porém, de ocorrer a simbólica passagem pelo “portão dos novos cadetes” da
nova Escola, mais uma das tantas tradições criadas na história da Escola Militar, um grupo de
quinze cadetes precursores foi transportado para Resende, nos dias 5 e 6 de março de 1944.
Na antessala do gabinete do comandante da AMAN, encontra-se afixado um relato do
deslocamento daquele pequeno grupo para a nova Escola. Assinaram o documento, datado de
29 de outubro de 1997, nove coronéis, remanescentes da turma que ingressou em 1944771. A

770
Ibidem.
771
O destacamento precursor que viajou para Resende era composto dos seguintes oficiais e cadetes: capitão de
Infantaria Germano Travassos (filho do coronel Mário Travassos), comandante do destacamento; segundo-
tenente de Intendência Jorge Novaes Bannitz; cadetes Darcy Duarte de Siqueira, Davi José Fernandes,
Emygdio Pinto, Fritz de Castro Eisenlohr, Gil Bollmann, Hilton da Silva Laranjeira, Jair Cordeiro Seabra,
João Florentino Meira de Vasconcelos, Luiz Castelliano de Lucena, Mário Roca Diegues, Oyama Olyntho de
494

viagem, um tanto pitoresca, demorou cerca de um dia e meio, quando o tempo normal de
deslocamento ferroviário entre Realengo e Resende, à época, era de cerca de 5 horas. Vários
fatos contribuíram para o atraso, desde o longo tempo de espera na conexão feita na estação
de Belém (hoje Japeri), que demorou das 6 horas do dia 5 de março até o amanhecer do dia 6
de março, até a queda de barreiras em um túnel sob a estrada Rio-São Paulo, ocasião em que
os cadetes tiveram que abandonar o confortável vagão da 1ª classe para seguirem viagem
sentados sobre as malas, em uma prancha de transporte de cargas. Um fato curioso é que os
integrantes do grupo precursor realizaram a viagem toda praticamente em jejum. Haviam
tomado o café da manhã à 1:00 do dia 5 e a previsão da chegada ao destino deveria acontecer
antes do almoço. O longo tempo de espera na estação de Belém levou os cadetes a pedirem
auxílio ao dono de um estabelecimento comercial que somente tinha a lhes oferecer uma lata
com um pouco de banha e arroz, com o que improvisaram um parco almoço.
A chegada em Resende se deu às 16:00 do dia 6 de março. À espera dos cadetes
estavam Mário Travassos e alguns oficiais da Escola Militar. Após tomarem banho, seguiram
para o refeitório da nova Escola, ficando maravilhados com o mármore que cobria as paredes
e o pé direito muito alto da instalação, com as toalhas de linho e os talheres de prata e com os
maîtres que trajavam smoking e os garçons todos uniformizados. E a comida que, para quem
não comia há dois dias, estava maravilhosa. No entanto, ao chegarem ao local onde
pernoitariam, não havia camas. Por “sugestão” do capitão Travassos, usaram os tacos do piso
como estrado para os colchões.
No alvorecer do dia 7, os cadetes foram organizados em turmas de trabalho e passaram
a auxiliar os três marceneiros da fábrica Kastrup, do Paraná, a realizarem a montagem de todo
o mobiliário dos 50 apartamentos, das 5 alas que alojariam os 600 cadetes da primeira turma
de Resende. Carregaram e montaram as camas, armários, cadeiras, mesas de estudo e toaletes
com espelhos que estavam desmontados em caixotes de madeira. Como reconhecimento pelo
comando da Escola foram elogiados em Boletim Escolar e instituídos donatários do canteiro
central na entrada do pavilhão principal da Escola. Também esteve ao encargo do grupo o
primeiro serviço de guarda tirado nas novas instalações772, no dia 11 de março. Os nomes dos
componentes da primeira guarda estão imortalizados em bronze, no portão de entrada da

Almeida, Roberto Rébula, Salvador de Barros, Thomaz de Aquino Moraes e Zofiel Gouveia de Mattos.
Faziam parte do grupo, ainda, um funcionário civil e um papagaio falador. Destacados em negrito estão os
nomes dos coronéis que assinaram o registro feito em 1997.
772
A guarda do dia 11 de março de 1944 estava assim composta: capitão de Infantaria Francisco de Assis
Bezerra, Superior de Dia; cadete Fritz de Castro Eisenlohr, Adjunto à Escola; cadete Mário Roca Diguez,
Comandante da Guarda; cadetes Gil Bollman e Luiz Castelliano de Lucena, Cabos da Guarda; e cadetes Davi
José Fernandes, Thomaz de Aquino Moraes, Salvador de Barros, Roberto Rébula e João Florentino Meira de
Vasconcellos, Sentinelas. Conforme o relato dos remanescentes de 1944, em 1997.
495

AMAN. Os cadetes que não foram escalados para o serviço prosseguiram na montagem dos
móveis.

Imagem 91 – Cadetes precursores da Escola Militar de Resende, mar. 1944.

Fonte: Revista da Escola Militar, 1945.

Os dias 11 e 20 de março ficaram marcados por solenidades que mereceram a atenção


dos principais jornais da Capital Federal, apesar de não contarem com a presença das
autoridades civis e militares do governo federal. Um fato curioso é que nem José Pessoa foi
convidado para as cerimônias que marcaram o início do funcionamento da grande obra que
idealizou.
No dia 11, uma cerimônia, prestigiada apenas por autoridades municipais e pela
população resendense, foi realizada com a finalidade de se entregar as instalações da nova
Escola Militar ao seu primeiro comandante, o coronel Mário Travassos, e aos seus primeiros
ocupantes, 111 cadetes do 1º Ano, que desembarcaram na estação ferroviária de Resende às
16:30 daquele dia, transportados em um comboio especial proveniente do Realengo. Dentre
eles, encontrava-se simbolicamente o Cadete nº 1, Henrique Lage. Daquele local, o
grupamento seguiu em marcha até o portão de entrada da Escola (Portão Monumental), sob o
comando do capitão de Infantaria Dióscoro Vale, comandante do Corpo de Cadetes.
496

Imagem 92 – Chegada dos cadetes do 1º Ano na estação ferroviária de Resende, 11 mar. 1944.

Fonte: Revista da Escola Militar, 1945

Na esplanada fronteiriça ao Portão Monumental, aguardavam perfilados Mário


Travassos e os oficiais professores e instrutores. No lado de dentro, estavam em forma os
oficiais da Comissão de Obras, capitaneados pelo seu chefe, general Luiz de Sá Affonseca. Às
17:00 teve início a solenidade, com o general Affonseca realizando a abertura do portão de
entrada e a entrega da chave da nova Escola Militar ao coronel Mário Travassos. Depois,
seguiu-se a leitura da ordem do dia do comandante e a assunção do serviço pela primeira
guarda ao quartel. Eram 17:30 quando o grupamento do Corpo de Cadetes transpôs, em
marcha, o Portão Monumental da Escola Militar de Resende, encerrando a solenidade.773

773
Conforme a narrativa do coronel Mário Travassos feita na edição especial do jornal A Lyra, de 1944,
comemorativa aos 200 Anos de Resende. Também deram destaque ao fato as edições de 14 de março de 1944
dos jornais Correio da Manhã, O Jornal, Jornal do Brasil, Gazeta de Notícias, Diário da Noite e Diário
Carioca.
497

Imagem 93 – General Luiz Affonseca fazendo a abertura do portão da


Escola Militar de Resende para a entrega das chaves, 11 mar. 1944.

Fonte: Revista da Escola Militar, 1945.

Em 20 de março, chegaram a Resende os 470 cadetes restantes, que completaram o


efetivo de 596 cadetes do 1º Ano da Escola Militar. Uma nova cerimônia foi realizada, para
dar início às aulas no novo estabelecimento de ensino. Em coluna por um, todos os cadetes
transpuseram o “portão de honra para matriculados”. Em mais uma nova tradição que acabava
de se criar, esse portão, localizado à direita do Portão Monumental, passou a ser aberto
somente uma vez ao ano, para recepcionar os novos cadetes. De maneira análoga, somente
uma vez ao ano também passou a ser aberto um outro portão, localizado à esquerda do
Monumental, para a saída dos aspirantes que passaram a se formar no estabelecimento de
ensino. Ao cadete mais jovem da turma do 1º Ano, Mário Inácio da Silveira, foi entregue a
chave do portão dos novos cadetes, para que a guardasse até o ano seguinte, quando a
entregaria ao “claviculário”774 da próxima turma.775

774
Assim passou a ser chamado o cadete mais jovem de cada turma que ingressa no 1º Ano da AMAN. Esse
cadete tem a responsabilidade de guardar consigo a chave do portão de entrada dos novos cadetes até a
solenidade de entrada do ano seguinte, quando a passa para o novo “claviculário”.
775
Conforme a narrativa do coronel Mário Travassos feita na edição especial do jornal A Lyra, de 1944,
comemorativa aos 200 Anos de Resende e o publicado na edição do Correio da Manhã de 22 de março de 1944,
p. 2.
498

Imagem 94 – Entrada dos cadetes do 1º Ano pelo “portão dos novos cadetes” da Escola
Militar de Resende, 20 mar. 1944.

Fonte: Revista da Escola Militar, 1945.

A nova Escola Militar, ainda inacabada, porém, não possuía um busto do maior
personagem histórico do Exército brasileiro, aquele cuja imagem deveria servir de inspiração
à juventude militar durante toda a sua carreira: o Duque de Caxias. Desse modo, José Pessoa,
à época à frente da Inspetoria de Cavalaria do Exército, decidiu doar à Escola um busto de
bronze do insigne marechal776.
O dia escolhido por Pessoa, não por acaso, para a entrega do busto de Caxias à Escola
Militar de Resende marcava a data de início do funcionamento da Academia Real Militar no
Brasil, em 1811: 23 de abril. Acompanhado do Inspetor de Ensino do Exército, general Pinto
Guedes – como ele, ex-comandante da Escola do Realengo –, e de sua família, chegou a
Resende antes das 6:00, em carro especial da Central do Brasil. Foi recebido na Escola pelo
coronel Mário Travassos, cumprimentou os oficiais e assistiu a um desfile do Corpo de
Cadetes. Depois de visitar as dependências do estabelecimento de ensino, proferiu um longo
discurso aos cadetes, que se encontravam reunidos em torno do busto ofertado de Caxias.777
Iniciou a sua fala rememorando o surgimento da cavalaria nos tempos medievais e a
criação da Academia Real Militar nos anos 1810, dois motivos memoráveis que glorificavam

776
O busto de Caxias doado por José Pessoa à Escola Militar de Resende, encontra-se, hoje em dia, na entrada
do Corpo de Cadetes da AMAN.
777
Conforme informações do Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 24 abr. 1944, p. 2 e a autobiografia de José
Pessoa, Pasta IV, 1953.
499

a solenidade que acontecia naquela data. Em seguida, ressaltou que, já que os cadetes eram
“os fiéis cruzados das esperanças do Exército”, o busto estava sendo ofertado em nome da
Cavalaria brasileira. Dessa forma, Caxias, guia e inspirador da juventude militar, ficaria
materializado entre os cadetes das Agulhas Negras, como Washington estava para os cadetes
de West Point e Napoleão para os de Saint-Cyr.778
Ao longo de seu discurso, lembrou dos esforços que havia realizado desde 1931 para
que a construção da nova Escola se tornasse uma realidade. Uma vez construída, faltava-lhe,
entretanto, “criar-lhe a fama”, cabendo aos cadetes “manter, em todos os tempos, não só a
disciplina e a reputação desta Academia, senão também o determinismo de invencibilidade,
que é a glória suprema daquele que é o maior de nossos generais – Luiz Alves de Lima e
Silva”. Lembrou que a Escola Militar sempre foi um grande centro de idealismo e de devoção
ao interesse público e que os grandes movimentos da história política do Brasil – Abolição da
Escravatura, Proclamação da República, a consolidação do Florianismo e a Revolução de
1930 – sempre contaram com a coragem e o patriotismo da juventude militar. Para Pessoa, foi
graças a esse passado glorioso que a Escola Militar se elevou no conceito da Nação e de todos
os governos brasileiros, o que teria motivado Getúlio Vargas a fundar a moderna Academia
Militar de Resende. Segundo ele, se até aquele momento, as escolas militares brasileiras não
haviam revivido o prestígio da Academia Real Militar, mas a partir daquela data o novo
estabelecimento militar inaugurado em Resende teria condições de formar uma elite capaz de
responder pela defesa da Pátria e conservar as glórias militares.779
José Pessoa lamentou, entretanto, que o nome dado à nova Escola não tivesse um
“significado nacionalista”, que lembrasse a natureza exuberante do País ou que encerrasse um
dos nomes “imarcescíveis da história pátria”, como “um talismã a guiar a sua existência
criadora”. Referia-se ao nome proposto por ele para batizar a Escola em Resende: Academia
Militar das Agulhas Negras. Uma escolha que, segundo ele, não teria sido arbitrária, por
evocar a grandeza do maciço localizado em Itatiaia. E destacou que, apesar de não ter sido o
nome escolhido pelas autoridades militar da época, havia sido consolidado pela imprensa,
pelo Exército e pela Nação. Antes e concluir o seu discurso, Pessoa, ainda teceu algumas
considerações sobre a Segunda Guerra Mundial e os preparativos da Força Expedicionária
Brasileira que seria enviada para os campos de batalha europeus.780

778
Ibidem.
779
Ibidem.
780
Ibidem.
500

Imagem 95 – Busto de Caxias doado à Escola Militar de Resende por


José Pessoa em 1944.

Fonte: foto do autor, 2020.

Um fato pitoresco é que nessa mesma data tentou-se introduzir uma nova tradição
dentre as tantas solenidades realizadas na Escola Militar: a cerimônia do sino. Esta consistia
em comemorar-se a passagem da data de instalação dos cursos militares no Brasil, por meio
do toque de um sino fundido em 1811. Após a leitura da Carta Régia que criou os cursos
militares, enquanto os presentes prestavam continência, uma badalada do sino foi dada para
cada geração que já havia passado pela nova Escola Militar.781 Não foram encontrados
registros de quantas vezes a tradição foi repetida, mas, o certo é que ela não perdurou no
tempo. Câmara (2011, p. 210) aponta que em 1978 tentou-se resgatar a solenidade. Porém, o
sino de 1811 não foi encontrado no museu da AMAN.
Dadas como concluídas as obras complementares, finalmente a Escola Militar de
Resende foi inaugurada em 10 de novembro de 1944. Nessa mesma data, escolhida não ao
acaso782, já que marcava o sétimo aniversário da Constituição de 1937, realizou-se a entrega
de espadins aos 401 cadetes que haviam sido aprovados no temido “carro de fogo”, que havia
retornado com a anulação do Regulamento de 1934. Os cadetes que não fossem aprovados
eram desligados da Escola. Presidida pelo general Pinto Guedes, diretor de Ensino do

781
Ibidem.
782
Cabe lembrar que a entrega dos espadins, instituída por José Pessoa em 1931, acontecia tradicionalmente nos
meses de agosto ou setembro.
501

Exército, mais alta autoridade presente, a solenidade contou com a presença de inúmeras
autoridades civis e militares e com um grande número de populares. O Jornal do Commercio,
que noticiou a cerimônia, informou que cerca de 1.300 pessoas se deslocaram por via férrea
da Capital Federal para Resende, a fim de participar do evento.

Imagem 96 – Conjunto principal e entrada da Escola Militar de Resende vista da sala do Comandante (ao fundo,
os bairros residenciais), 1944.

Fonte: A Lyra, Edição Especial, 1944.

Na ocasião, a Escola Militar foi agraciada pela comunidade resendense com uma
Bandeira Nacional, oferecida pelos comerciantes, industriais e produtores rurais de Resende, e
com um novo estandarte do Corpo de Cadetes, ofertado pelas senhoras resendenses, tendo
sido entregue pela senhora mais idosa da cidade, Emília Santa Rosa, com 100 anos de idade.
Medalhas de prata e de bronze, comemorativas à inauguração da Escola, foram entregues às
autoridades militares e civis presentes, ofertadas pela municipalidade resendense. Mesmo não
estando presente à cerimônia, José Pessoa foi agraciado e lembrado pelo Prefeito Municipal,
Otacílio Assunção. A solenidade de 10 de novembro serviu, ainda, para realizar a passagem
do comando da Escola, do coronel Mário Travassos ao coronel Antônio Alves de
Magalhães.783

783
Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 12 nov. 1944, p. 6.
502

Imagem 97 – A moradora mais idosa de Resende ofertando um estandarte do Corpo de Cadetes


em nome das senhoras de Resende, por ocasião da entrega dos espadins em novembro de 1944.

Fonte: Revista da Escola Militar, 1945.

Ao longo do ano de 1944, os corpos docente e discente da velha Escola do Realengo


foram, aos poucos, sendo transferidos para a nova Escola. Em fevereiro de 1945, uma
pequena nota do jornal Correio da Manhã informava que os cursos das Armas haviam se
instalado em definitivo em Resende, para dar continuidade aos seus estudos. Em 11 de agosto
daquele ano a primeira turma de aspirantes-a-oficial formou-se na Escola Militar de Resende,
em uma cerimônia que contou com a presença do presidente Getúlio Vargas e do ministro da
Guerra Eurico Dutra.784

8.2 A polêmica em torno do nome: Escola Militar de Resende ou Academia Militar das
Agulhas Negras?

No discurso que José Pessoa fez na Escola de Resende, em 23 de abril de 1944, por
ocasião da doação do busto de Caxias, é possível se perceber a insatisfação do idealizador da
nova Escola com o nome que lhe foi atribuído, sendo que, ao longo de sua fala, a ela se
referiu como Academia Militar diversas vezes. Antes mesmo de ser criada por meio de
decreto, a nova Escola de Resende já havia sido batizada pelo ministro da Guerra com o nome

784
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 7 fev. 1945, p. 3; Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 12 ago. 1945, p.6.
503

da cidade que lhe abrigaria785. Em 23 de julho de 1943, Pessoa enviou um ofício ao ministro
Dutra, ponderando a escolha do nome. Nele, apresentou as razões de sua discordância.
A primeira delas, estava intimamente ligada à excursão a pé que fizera ao maciço das
Agulhas Negras, em setembro 1931, quando recolheu no cume da serra de Itatiaia a lasca de
cianita que pretendia lançar ao terreno como pedra fundamental da nova Escola em 1933.
Nessa ocasião, segundo Pessoa, teria nascido a mística em torno do nome que deveria ser
dado ao novo estabelecimento de ensino.

Razões poderosas houve que influíram para a designação de Academia Militar das
Agulhas Negras, dada à nossa Escola de Formação, desde a última fase, e pela qual
ficou conhecida de todos, merecendo o beneplácito da opinião pública nacional. Em
na verdade, não foi arbitrária essa escolha, nem produto de qualquer injunção, mas
se impôs como uma feliz inspiração apoiada nas galas da natureza portentosa, desde
a ocasião em que eu, então comandante da Escola Militar, e mais alguns camaradas,
procurando uma região propícia para localizar a nova Escola, galgamos, ao cabo de
longa jornada, o cume das Agulhas Negras, na serra de Itatiaia. Contemplando aulas
alturas, o cenário majestoso da natureza, observamos, como verdadeiro símbolo,
eriçado para os céus, traços muito escuros, com que a água das chuvas sulcara a
montanha, num gigantesco trabalho de erosão, que a pátina dos tempos enegrecera:
eram as Agulhas Negras.
Assim foi que nasceu a mística do nome dado ao novo estabelecimento de ensino do
Exército, adstrito a esse majestoso acidente geográfico; foi com esse nome que a
ideia sofreu os embates das vicissitudes, foi com ele que a mesma se impôs ao fim
de tudo; não podemos esquecê-lo, pois foi ele a bandeira com que lutamos e
vencemos a fraqueza de espírito de alguns e o pessimismo de muitos. 786

José Pessoa lembrava, ainda, ao ministro da Guerra que, desde 1930, o acidente
geográfico já figurava no brasão d’armas da Escola Militar do Realengo, no estandarte do
Corpo de Cadetes e nas lâminas dos espadins dos cadetes, tudo justificado e aprovado pelo
chefe do Governo Provisório. Dessa forma, o simbolismo das Agulhas Negras jamais deixaria
de fazer parte da história do estabelecimento de ensino.
O segundo motivo estava ligado à origem do nome da cidade que abrigaria a nova
Escola Militar: a homenagem ao Conde de Resende.

Acresce que sempre evitamos ligar ao novo instituto o nome da florescente e


acolhedora cidade onde ele foi construído, movidos por um sentimento de justiça
histórica e fidelidade aos nossos maiores, que com sacrifícios da própria vida
formaram esta grande Pátria de nossos dias. Pois que o Conde de Resende é aquele
mesmo vice-rei que, vai para mas de um século e meio, assinou a cruel e infamante
sentença de morte contra o denodado e admirável Tiradentes, mandando esquartejá-
lo e decapitá-lo, bem como condenando a degredo uma plêiade de intelectuais, seus
companheiros da Inconfidência Mineira, confiscando-lhes os bens e afogando em
sangue o primeiro sonho de Independência e a primeira ideia de liberdade em terras

785
O nome Escola Militar de Resende foi atribuído por meio de aviso ministerial, publicado no Boletim Interno
nº 763 da Secretaria Geral do Ministério da Guerra, de 14 de julho de 1943.
786
Ofício nº 180, do inspetor da Arma de Cavalaria ao ministro da Guerra, de 28 de julho de 1943. Disponível no
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV), JPag1936.05.19.
504

brasileiras. [...] Denominando uma cidade, a homenagem incompreensível


conseguiu vir até nossos dias sem chamar a atenção sobre si. Lançada, porém, á luz
da notoriedade pela localização em suas terras do instituto de nosso corpo de
oficiais, a injustiça dessa denominação ressalta de maneira chocante e, quase
diríamos, afrontosa à nossa cultura e ao nosso patriotismo.787

Em um artigo enviado à Revista da Escola Militar, datado do mesmo dia em que o


aviso do ministro da Guerra batizou a Escola Militar de Resende, Pessoa argumentou e
atribuiu responsabilidades à escolha do nome considerado, por ele, esdrúxulo. O texto nunca
foi publicado, por razões óbvias. Afinal de contas, como poderia a revista oficial da Escola
Militar publicar um artigo no qual era contestada uma decisão do ministro da Guerra?

Guiado por essa ideia [um nome ligado à natureza da Pátria], propusemos, desde o
início, o batismo de Academia Militar das Agulhas Negras, às instalações de
Resende: primeiro por tratar-se duma escola de ensino superior; segundo, por
lembrar o nome do grande acidente geográfico, que, como verdadeiro talismã, guiará
doravante os destinos do nosso novo instituto de formação; finalmente, quando já
não fosse o nosso dever de acatamento à tradição, para conservar a analogia com seu
primitivo nome – Academia Real Militar. O nome de Academia seria ainda um belo
gesto de irmandade à sua congênere americana – Academia Militar de West Point - ,
que serviu de modelo à sua maior reforma e de padrão às suas novas edificações às
margens do Paraíba.
O que propusemos e projetamos foi de fato uma academia militar, com as
características de uma cidade universitária, que exigiria alguns anos para ser
construída, mas cumpriria o programa de séculos de preparação elites de verdadeiros
militares, construtores da grandeza do Brasil.
........................................................................................................................................
Mas, aqueles que mais combateram a ideia da construção da nova Escola,
recusaram-lhe aquele nome e lhe batizaram ainda com um nome esdrúxulo que é
uma injúria à nossa história e à gratidão nacional. E o batismo de Resende causou
espécie ao Exército e foi recebida sem entusiasmo pela opinião pública, levando-se a
apelar às autoridades superiores sobre o lançamento do nome do novo
estabelecimento de ensino, apelo vazado em termos que esperavam resposta e
solução mais compatíveis com o patriotismo.
Entretanto, no aviso, o titular da guerra crismou com o nome Escola Militar de
Resende o novo estabelecimento de ensino militar.788

Pessoa tinha razão quanto à indiferença da população em relação ao nome com que
fora batizada a nova Escola Militar. Não só da população, como também da imprensa. Em
uma consulta aos jornais cariocas publicados nos anos subsequentes ao decreto de criação da
Escola Militar de Resende, foi possível perceber que os periódicos, de uma maneira geral,
referiam-se ao novo estabelecimento de ensino como Escola Militar das Agulhas Negras,
dando, dessa maneira, crédito ao que idealizara José Pessoa.
Em uma correspondência trocada com Mário Travassos, dois meses antes da decisão
ministerial, Pessoa informou ao comandante da Escola Militar sobre os esforços que vinha

787
Ibidem.
788
Artigo enviado em 14 de julho de 1943 à Revista da Escola Militar, conforme consta na Pasta IV da
Autobiografia de José Pessoa.
505

realizando para mudar o nome da cidade de Resende para Agulhas Negras, o que implicaria o
batismo da nova Escola com a mesma denominação. E sugeriu, caso não lograsse sucesso na
reforma da toponímia, que fosse utilizado o título Escola Militar Duque de Caxias, “como
capaz de dar ao novo estabelecimento o valor simbólico necessário, com a vantagem de se ter
um título inatacável”.789
Apesar de todo o esforço empreendido, manteve-se o nome de Escola Militar de
Resende até 1951, quando, por meio de um decreto presidencial790, José Pessoa, já afastado
do serviço ativo do Exército, viu um dos seus últimos desejos ser atendido: a mudança da
denominação da Escola Militar para Academia Militar das Agulhas Negras, uma homenagem
ao 140º aniversário de sua fundação. Na exposição de motivos que fez, quando da propositura
do decreto, o general Newton Estillac Leal, ministro da Guerra à época, destacou, dentre
outras coisas, a ação empreendedora de Pessoa à frente da equipe de “patriotas e idealistas”
que realizaram os primeiros estudos para a construção de uma nova Escola Militar, o que
resultou nas instalações erguidas em Resende. Lembrou que foi durante o governo de Vargas
no Estado Novo que a obra grandiosa foi concluída. Porém, a escolha do nome do
estabelecimento de ensino pelo ministro da Guerra da época não fez jus ao que havia proposto
a primitiva comissão planejadora e construtora. Sendo assim, disse Estillac Leal ser justo que,
durante o novo governo de Vargas, fosse efetivado o anseio do Exército brasileiro de se
efetivar a mudança do nome da Escola de Resende para Academia Militar das Agulhas
Negras.791
Da análise que se faz dos arquivos pessoais de José Pessoa, não há qualquer indicação
dos motivos que levaram Estillac Leal a “ressucitar” a questão do nome da Escola Militar de
Resende, sugerindo a Vargas uma mudança intempestiva, como aconteceu. Entretanto,
Peregrino (1985, p. 24) aponta que a iniciativa da solicitação da mudança do nome ao
ministro da Guerra teria partido do general Manoel Azambuja Brilhante, comandante da
Escola Militar de Resende à época. Brilhante havia sido, poucos anos antes, chefe do Estado-
Maior da Inspetoria de Cavalaria, quando esta foi comandada por José Pessoa.
Como aponta Ramos (2010), Leal era um oficial de fortes convicções nacionalistas.
Havia participado ativamente do levante tenentista de 1924, em São Paulo. Apoiou a
candidatura de Getúlio Vargas, no pleito eleitoral de 1929 e, no ano seguinte, tomou parte da
Revolução de 1930, atuando como encarregado das operações no estado-maior de Góes

789
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.05.19.
790
Decreto nº 29.484, de 23 de abril de 1951.
791
A exposição de motivos da propositura do Decreto nº 29.484, de 23 de abril de 1951, feita por Estillac Leal
consta do relato autobiográfico de José Pessoa, Pasta IV.
506

Monteiro. Participou, dois anos mais tarde, do destacamento comandado por Góes que
reprimiu o levante constitucionalista em São Paulo. Entre julho de 1938 e janeiro de 1939,
comandou o 1º Regimento Misto de Artilharia de Dorso, sediado em Campo Grande, Mato
Grosso do Sul, à época em que José Pessoa esteve à frente da 9ª Região Militar, sediada
naquela mesma cidade. Em 1945, quando comandava a Artilharia Divisionária da 3ª Região
Militar, opôs-se à retirada de Vargas do poder, tendo, inclusive, alertado o secretário pessoal
do presidente a respeito das articulações que resultaram no golpe de 29 de outubro.
Na Constituinte de 1946, a questão do petróleo passou a ser abordada como uma
questão política no País. Estillac Leal posicionou-se a favor da corrente de opinião que
defendia a hegemonia do Estado em todo o processo de produção, transporte e etapas
subsequentes, a qual passou a defender fervorosamente, em oposição à que pugnava pelo
capital estrangeiro. No ano seguinte ajudou a promover, inclusive, palestras do general Horta
Barbosa, que havia chefiado a Comissão Nacional do Petróleo (CNP) até 1944, a favor da tese
nacionalista do monopólio no Clube Militar. Em torno da defesa dessa tese, montou a chapa
nacionalista que concorreu à presidência do Clube em 1950, derrotando o grupo encabeçado
pelo general Cordeiro de Farias e da qual participavam oficiais como Humberto Castelo
Branco, Nelson de Melo e Henrique Gomes792. No seu discurso de posse, atacou duramente
Góes Monteiro, que havia defendido a chapa de Cordeiro de Farias. No pleito eleitoral para a
Presidência da República de 1950 apoiou, novamente, a candidatura de Vargas, que em
fevereiro de 1951 empossou-o à frente da pasta da Guerra. (RAMOS, 2010)
É possível que durante a campanha nacionalista pelo petróleo, Estillac Leal tenha se
aproximado de José Pessoa, uma vez que os dois comungavam do mesmo pensamento
monopolista. Pessoa havia participado da fundação, em abril de 1948, do Centro de Estudos e
Defesa do Petróleo e de Economia Nacional (CEDPEN), juntamente com Artur Bernardes,
Leitão de Carvalho e Horta Barbosa. Em torno do CEDPEN articularam-se jornalistas,
estudantes, militares e homens públicos que se mobilizaram em favor de uma solução
nacionalista para a questão do petróleo. A comunhão de ideias a favor do monopólio do
petróleo e a indisposição de Leal com Góes Monteiro, notório desafeto de José Pessoa desde o
ano de 1934, provavelmente sejam fatores que tenham contribuído para que o ministro da

792
Ramos (2010) lembra que Estillac Leal colocara-se ao lado de Vargas no golpe de 29 de outubro de 1945.
Seu antagonista, Cordeiro de Farias, fora naquele episódio o portador da intimação dos generais que
resultara na deposição do chefe do governo. Leal defendia abertamente o monopólio estatal do petróleo, ao
passo que Cordeiro de Farias sustentava a posição contrária, ao lado de Juarez Távora. O embate entre as
duas correntes trazia um prenúncio muito claro de uma inevitável radicalização no setor militar, com
penetrações de profundidade na área política, o que se acentuou com a intranquilidade gerada com a
candidatura de Vargas para a Presidência da República.
507

Guerra interviesse pelo resgate do nome da Academia Militar das Agulhas Negras. Inclusive,
os argumentos utilizados por Estillac Leal na apresentação do decreto que mudou o nome da
Escola Militar à Vargas aproximam-se muito das ponderações apresentadas por Pessoa à
Eurico Dutra, em 1943.
Desde 1940, José Pessoa também já expressava o desejo de mudar o nome de
Resende. Em uma carta enviada ao interventor do estado do Rio de Janeiro, Ernani do Amaral
Peixoto, sugeriu que se aproveitasse o ensejo da urbanização de Resende, em função das
obras da nova Escola Militar, e se providenciasse a mudança do nome da cidade para Agulhas
Negras. Fundamentou a sua solicitação no simbolismo geográfico do maciço das Agulhas
Negras, localizado na região de Itatiaia, que estaria ligado em definitivo à formação das
futuras gerações do Exército. E destacou que a estilização do acidente orográfico já se
encontrava representada no uniforme dos cadetes, no brasão d’armas e no estandarte da
Escola Militar e nas lâminas dos espadins, desde as reformas implementadas na Escola do
Realengo, nos anos 1930.793
A carta foi encerrada com um pedido um tanto esdrúxulo. Pessoa lembrou a Amaral
Peixoto a necessidade de se proibir o estabelecimento de novos residentes estrangeiros na
cidade, com exceção dos portugueses. Sugeriu, também, a retirada dos judeus de Resende,
que teriam se instalado no município “por cálculo”, comprando as melhores faixas de terra da
região, dentre elas a parte do terreno da Fazendo do Castelo, que abrigaria as instalações da
nova Escola Militar. Teria sido, então, graças à “esperteza desses indivíduos”, segundo
Pessoa, que a doação dessa área ao Ministério da Guerra não foi possível, malogrando o
projeto original de construção feito por Penna Firme.794
Um dia após ter recebido a solicitação de Pessoa, Amaral Peixoto o respondeu. Em um
tom bastante cordial, senão político, o interventor comunicou não ser possível realizar,
naquele momento, a mudança do nome de Resende, uma vez que a revisão das delimitações
territoriais da União, bem como das suas toponímias, só poderia ser feita por leis gerais e
quinquenais, conforme o previsto em decreto-lei795. Em relação ao afastamento dos judeus,
Peixoto disse pensar em encampar a região da Fazenda do Castelo, o que, diga-se de
passagem, nunca aconteceu. Dessa forma seria atendida a reivindicação feita por Pessoa.796

793
Carta enviada por José Pessoa ao interventor do estado do Rio de Janeiro em 29 de outubro de 1940 Acervo
José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.05.19.
794
Ibidem.
795
Decreto-lei nº 311, de 2 de março de 138, que dispunha sobre a divisão territorial do País.
796
Carta enviada pelo interventor do estado do Rio de Janeiro a José Pessoa em 30 de outubro de 1940. Acervo
José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.05.19.
508

Em um artigo que assinou para o jornal Correio da Manhã, intitulado “Resende e a


Escola Militar das Agulhas Negras”, Pessoa tornou a sugerir às autoridades competentes a
mudança do nome da cidade para Agulhas Negras. Os argumentos utilizados por Pessoa
apontavam para a infelicidade da cidade, “um dos centros da mais fecunda intelectualidade
fluminense”, ter seu nome ligado “a uma figura [Conde de Resende] intimamente envolvida
no desterro dos patriotas da Inconfidência Mineira”. Segundo ele, havia chegado o momento
de o município adotar um nome que se confundisse com a grande expressão geográfica da
localidade, que fosse “uma expressão de brasilidade e de mística para estímulo da juventude
que ali irá adestrar-se na carreira das armas”. 797
A partir de 1941, a cidade de Resende passou por um intenso processo de urbanização,
em função da construção das edificações da nova Escola Militar. Entre este ano e o ano de
1942, diversos decretos do governo federal798 desapropriaram imóveis residenciais e
comerciais e autorizaram permutas entre terrenos particulares e terrenos da União, para que o
projeto do estabelecimento de ensino fosse atendido. Segundo Bopp (1978, p. 327 e 329),
uma comissão para a remodelação da cidade foi organizada, por sugestão e presidência do
general Affonseca, da qual faziam parte quatro médicos, dois engenheiros, um militar e um
industrial. Dos estudos realizados pela comissão resultaram várias obras importantes para a
cidade, como: a construção de uma nova ponte sobre o Rio Paraíba e a urbanização de suas
margens; construção de ruas e avenidas; construção de uma nova rede de abastecimento de
água, com a capacidade média de produção de mais de um milhão de litros por dia;
construção de uma nova rede de esgotos sanitários; ampliação dos serviços hospitalares e as
fundações de asilo e patronato de menores.
Uma escola foi fundada para a educação primária dos filhos dos funcionários que
realizavam as obras da nova Escola Militar, em 1943. Recebeu o nome de Escola Agulhas
Negras e localizava-se no interior da vila residencial militar. Começou a funcionar em um
barracão de madeira, passando, mais tarde, a ocupar o prédio da Prefeitura Militar. Essa
escola deu origem a um dos mais conceituados colégios públicos do município: o Colégio
Olavo Bilac. Construído entre os anos de 1945 e 1948, em uma parceria do governo do estado
do Rio de Janeiro e o Ministério da Guerra, ocupou um terreno próximo à Escola Militar, em
uma das principais avenidas da cidade. Quando pronto, passou a atender a elevada demanda

797
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 10 jun. 1941, p. 4.
798
Decretos-lei: nº 3.030, de 7 fev. 1941 e nº 4.393, de 19 jun. 1942 e Decretos: nº 8.335, de 5 dez. 1941; nº
9.203, de 6 abr. 1942 e nº 10.869, de 20 nov. 1942.
509

das famílias que chegavam à Resende para trabalhar no novo estabelecimento de ensino
militar. (DANTAS, 2013, p. 61-62)
A construção da Escola em Resende serviu, também, para dar visibilidade à cidade no
estado do Rio de Janeiro. O jornal A Noite, da Capital Federal, em duas edições, dos meses de
julho e setembro de 1943, destacou a “ressurreição” e o “rejuvenescimento” de Resende. A
edição de julho destacou a decadência pela qual passou o município após o ciclo do café e o
soerguimento das suas finanças nos primeiros anos da década de 1940, graças ao “sopro
vivificador da ação realizadora do presidente Getúlio Vargas, que fez erguer em seu território
a suntuosa construção da Escola Militar das Agulhas Negras”. O artigo ressaltou, também, as
qualidades climáticas e turísticas da região das Agulhas Negras e o crescimento da produção
rural, do comércio e das instituições financeiras da cidade naquela década. A segunda edição
destacou a construção do bairro residencial da nova Escola Militar, a cargo de escritório de
engenharia Th. Marinho de Andrade, de São Paulo, e ao “progresso em todos os setores de
atividades” pelo qual passava o município sul-fluminense. Ressaltou, também, o novo plano
urbanístico da cidade, que lhe dava uma fisionomia “moça e envolvente”.799
Em 1943, José Pessoa fez novas investidas em prol da mudança do nome de Resende,
em função de um decreto-lei800 expedido naquele ano, que dispunha sobre as normas
nacionais para a revisão quinquenal da divisão administrativa e judiciária do País. Tal
documento previa que cada unidade federativa deveria nomear uma comissão para os estudos
das mudanças em seus territórios. Um dia após a publicação do decreto em Diário Oficial,
Pessoa enviou um ofício ao presidente da Comissão Especial de Estudos da Divisão
Administrativa do Rio de Janeiro, Dr. José Matoso Maias Fortes, sugerindo a mudança do
nome do município de Resende para Agulhas Negras. Contrariando o aviso ministerial que
batizou a Escola Militar de Resende, Pessoa afirmou à Comissão que o nome do novo
estabelecimento de ensino seria Escola Militar das Agulhas Negras. O Secretário Geral do
órgão, apesar de achar a proposta interessante, sugeriu a Maia Fortes que aguardasse a lei
federal que consolidaria a divisão territorial do estado fluminense.801
Maia Fortes encaminhou a solicitação de José Pessoa ao secretário geral do Conselho
Nacional de Geografia802, Cristhovam Leite de Castro. No seu parecer, ressaltou que a

799
A Noite, Rio de Janeiro, 29 jul. 1943, p. 6 e 29 set. 1943, p. 6.
800
Decreto-lei nº 5.901, de 21 de outubro de 1943.
801
Encaminhamento do Secretário Geral da Comissão Especial de Estudos da Divisão Administrativa do Rio de
Janeiro, de 22 de outubro de 1943. Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1936.05.19.
802
O Decreto-lei nº 5.901, de 21 de outubro de 1943, previa que caberia ao Conselho Nacional de Geografia
elaborar o projeto final das mudanças a serem realizadas na divisão administrativa das unidades federativas do
País, bem como na alteração das toponímias das cidades e vilas brasileiras.
510

mudança do nome do município não resolveria o problema do nome da Escola Militar, já que
o estabelecimento de ensino, apesar de encontrar-se em Resende, situava-se no distrito de
Campos Elíseos, o que causaria uma divergência do nome do verdadeiro local onde a Escola
estava sendo construída e o nome que deveria, dessa forma, adotar: Escola Militar de Campos
Elíseos803. Como solução, Fortes sugeriu ao Conselho que se mudasse o nome do distrito de
Campos Elíseos para Agulhas Negras, o que atenderia o pleito de Pessoa, já que o interesse
maior estava no nome a ser adotado pela nova Escola Militar e não na mudança do nome da
cidade.804
A proposta feita por José Pessoa para mudar o nome de Resende não foi atendida.
Assim como não conseguiu, à época, mudar o nome da Escola Militar. Entretanto, conseguiu
a mudança do distrito de Campos Elíseos que, a partir da revisão quinquenal de 1943, passou
a denominar-se Agulhas Negras805.
No próximo capítulo retomar-se-á o fio da narrativa histórica, destacando-se as
comissões de José Pessoa no posto de general.

803
O parágrafo 1º, do Art. 11, do Decreto-lei nº 5.901, de 21 out. 1943, impedia a mudança da nomenclatura do
distrito de Campos Elíseos em função do nome da estação ferroviária da cidade de Resende, que se localizava
naquele distrito. Somente após a revisão do nome de todas as localidades que abrigassem estações ferroviárias do
estado do Rio de Janeiro, o que se daria por meio de decreto-lei estadual, é que a mudança poderia ser feita.
804
Ofício nº 196, de 30 de outubro de 1943, do presidente da Comissão Especial de Estudos da Divisão
Administrativa do Rio de Janeiro ao Secretário Geral do Conselho Nacional de Geografia. Acervo José Pessoa
(CPDOC FGV). JPag1936.05.19.
805
O Decreto-lei nº 1.056, de 31 de dezembro de 1943, do estado do Rio de Janeiro, fixou a divisão territorial do
município de Resende, que passou a contar com 7 distritos para o quinquênio 1944-1948: Resende, Agulhas
Negras (ex-Campos Elíseos), Fumaça, Itatiaia (ex-Campo Belo), Pedra Selada (ex-Vargem Grande), Pirangaí
(ex-Salto) e Porto Real.
511

9 DO COMANDO DA ARTILHARIA DE COSTA AO ESTADO NOVO

Entre a exoneração do comando da Escola Militar, em abril de 1934, e a nomeação


para um novo cargo, José Pessoa ficou sem função, tendo permanecido adido ao
Departamento do Pessoal do Exército e à disposição do Estado-Maior do Chefe do Governo
Provisório, no período em que aguardou a solução da queixa apresentada contra Góes
Monteiro. Nos anos que se seguiram, enquanto permaneceu na ativa, Pessoa desempenhou
funções compatíveis com o posto de general e de relevância para a estrutura organizacional do
Exército. O comando da Artilharia de Costa e a inspetoria da arma de Cavalaria são exemplos
das comissões que lhes foram dadas nas últimas décadas da carreira. Além disso, ainda teve
uma breve passagem por Mato Grosso, onde ajudou a debelar a atuação dos “bandoleiros” que
assolavam a região.
No entanto, como será visto neste capítulo, a dinâmica do campo de possibilidades que
se apresentou ao projeto de Exército de José Pessoa inviabilizou o êxito pleno da sua trajetória
militar. O confronto de ideias com Dutra e Góes Monteiro e a posição antagônica que adotou
em relação ao golpe de novembro de 1937, em meio às interações que ocorreram nos altos
escalões do Exército às vésperas do Estado Novo, definiram o seu afastamento dos centros de
poder da Instituição e certamente contribuíram para que não ocupasse cargos de maior
relevância no comando das Forças Armadas, como a chefia do Estado-Maior do Exército ou,
até mesmo, o cargo de ministro da Guerra.

9.1 O comando da Artilharia de Costa

O hábito de Vargas de manter sob a sua esfera de controle os potenciais aspirantes ao


poder, certamente colaborou para manter José Pessoa sob as suas vistas, apesar da manifesta
intenção de Góes Monteiro de afastar o desafeto da Capital Federal, como visto no capítulo
anterior. Apesar de toda a celeuma que se passou com o ministro da Guerra e as
consequências que dela advieram, que se tornaram do conhecimento de toda a guarnição da
Capital Federal, Pessoa não deixou de gozar da alta consideração de grande parte dos generais
do Exército, um círculo hierárquico sob o qual as suas ideias ainda tinham alguma influência.
Por outro lado, é certo que Vargas não podia prescindir do apoio político da família Pessoa,
ainda muito influente nos círculos oligárquicos nordestinos e que o havia apoiado
incondicionalmente durante o movimento revolucionário promovido pela Aliança Liberal em
1930, com a participação ativa, principalmente, dos irmãos José, Aristharco e Cândido
512

Pessoa. Este último, viria a se eleger deputado federal pelo Distrito Federal, no pleito eleitoral
de outubro de 1934.
Sendo assim, em 10 de agosto de 1934, passados quatro meses da sua última
comissão, José Pessoa foi nomeado, por meio de decreto806, comandante do Distrito de
Artilharia de Costa (DAC) da 1ª Região Militar, cuja sede ficava no Rio de Janeiro. Pessoa
afirma, na sua autobiografia, ter sido surpreendido com a nova comissão, por ser um oficial
oriundo da arma de Cavalaria, e que ficou sabendo da designação para a função por meio dos
jornais da Capital Federal807. Em 17 de agosto encaminhou uma carta a Getúlio Vargas, para
agradecer a confiança dispensada pelo chefe do Governo, ao indicá-lo para o novo cargo, sem
deixar de lembrar que iria assumir um departamento onde “quase tudo” estava por fazer ou
organizar, o que, não era, entretanto, na sua visão, motivo para “entibiar os espíritos afeitos ao
trabalho e animados por elevado idealismo construtor”808.
No mesmo documento, aproveitou para ratificar o seu pensamento em relação aos
fatos que o levaram a pedir o afastamento do comando da Escola Militar. Ressaltou a Vargas
que, no desempenho da função pública, tinha por premissas “tolerar os homens e suas
fraquezas, procurando obedecer tão somente ao influxo dos bons sentimentos, do desinteresse
pessoal e do patriotismo” e não “alimentar rixas, dissentimentos e mistificações em
detrimento dos interesses superiores do Estado”. Destacou que no comando da Escola do
Realengo havia lançado as bases de uma “radiosa cruzada educacional para formar homens de
outro estalão e com outra mentalidade”, o que teria o motivado a denunciar “o espírito
arrierée [atrasado] e demagógico daqueles que não trepidaram em infestar uma escola de
moços com delinquentes de toda espécie”, certamente referindo-se, nesse ponto, a Góes
Monteiro. E lembrou ao presidente que o militar deveria ser obediente “dentro da
Constituição e das leis”. Entretanto, quando houvesse um desmando dos superiores
hierárquicos, desrespeitando ostensiva e grosseiramente a lei máxima da Nação, entendia ser
um direito, e, até mesmo, uma obrigação do subordinado, defender a lei de quem revelasse
“não ter por ela o devido respeito e nem a autoridade moral para exigir o seu cumprimento”.
E, usando de ironia, deixou claro que se sentia satisfeito de ter cometido o “crime” de cumprir
o dever de se opor àqueles que pretendiam rasgar, impunemente, “para fins inconfessáveis”,
as normas do estabelecimento de ensino e macular “os melindres de moralidade e cultura” que
naquele local deveriam imperar. Por fim, salientou que, ainda que o Boletim do Exército

806
Publicado no Diário Oficial da União de 14 de agosto de 1934, p. 16.766.
807
Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 13 ago. 1934, p. 6;
808
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp34.08.17, doc. 01/0148-49.
513

continuasse “silencioso” quanto ao comando que havia feito no Realengo, restava-lhe o


“conforto moral” que havia recebido do que a classe militar tinha de “mais digno e
representativo”, claramente referindo-se aos oficiais do Exército que não compartilhavam das
ideias do ministro da Guerra.809
José Pessoa assumiu o comando da DAC dez dias após a sua nomeação, por encontrar-
se, na ocasião, recuperando-se, como ele mesmo conta, de uma grave enfermidade contraída
nos “pantanais do Realengo”. Segundo ele, na Escola Militar havia deixado não somente “o
resto da mocidade e a desilusão de ver o Exército rumar, em breve futuro, por outra estrada no
mundo novo que se nos separa”, mas, também, a saúde.810
A estrutura da defesa da costa brasileira naquele ano compreendia uma Inspetoria da
Defesa da Costa, distritos de Artilharia de Costa e grupamentos, grupos e baterias de
Artilharia de Costa. Efetivamente organizado, e em funcionamento, existia somente o distrito
comandado por Pessoa e algumas unidades independentes distribuídas pelo território nacional.
A lei de organização dos quadros e efetivos do Exército para o tempo de paz 811, de
1934, estruturava a Artilharia de Costa da 1ª Região Militar em dois grandes grupamentos. O
primeiro deles, o Grupamento do Leste, estava sediado na Fortaleza de Santa Cruz e possuía
um grupo e três baterias independentes de Artilharia, distribuídas pela fortaleza de Santa Cruz
e fortes Marechal Hermes, São Luiz e Imbuí, todos no Rio de Janeiro. O outro grupamento,
do Oeste, possuía a sua sede na Fortaleza de São João e era constituído por três grupos e uma
bateria independente de Artilharia, distribuídos pela fortaleza de São João e fortes de
Copacabana, da Lage e do Vigia812, localizados no Distrito Federal.
A lei previa, ainda, que o comandante da DAC da 1ª RM deveria acumular,
provisoriamente, a Inspetoria da Artilharia de Costa, subordinada diretamente ao chefe do
Estado-Maior do Exército. Sendo assim, José Pessoa ficava responsável, também, pela
inspeção, instrução e organização de todas as unidades de Artilharia de Costa do Exército,
marítimas e fluviais, inclusive as localizadas em outras regiões militares: dois grupos de
Artilharia de Costa, sediados em Itaipu (São Paulo) e Coimbra (Mato Grosso); e quatro
baterias independentes, sediadas nos fortes de Paranaguá (Paraná), Marechal Luz e Marechal
Moura (ambos em Santa Catarina) e na distante cidade de Óbidos (Pará).

809
Ibidem.
810
Ibidem.
811
Decreto nº 24.287, de 24 maio 1934.
812
Por ocasião das comemorações do Dia do Soldado do ano de 1935, conforme noticiou a edição do dia 23 de
agosto de 1935, do Correio da Manhã, José Pessoa mandou substituir o nome do Forte da Vigia para Forte
Duque de Caxias, em homenagem ao marechal Luiz Alves de Lima e Silva. O nome da fortificação que se
localiza no bairro do Leme, no Rio de Janeiro, manteve-se até os dias atuais.
514

O comando de Pessoa coincidiu com a contratação de uma missão militar norte-


americana de instrução, para orientar e organizar a defesa da costa brasileira: a Missão de
Instrução de Artilharia de Costa (MIAC)813. A Missão Militar Francesa, contratada em 1919,
e ainda em vigor à época, havia contribuído enormemente para a modernização do Exército e
a profissionalização dos quadros da instituição. Atuando mais incisivamente nas escolas de
Aperfeiçoamento, Estado-Maior e Aviação, e nos cursos de oficiais de Intendência, Saúde e
Veterinária, os oficiais franceses deram novos rumos à doutrina do Exército, criando manuais
e regulamentos e reorientando o ensino e a instrução militar. Entretanto, a MMF não se
envolveu com a defesa da costa brasileira.
Segundo Araújo (2010), no início da década de 1930 os trabalhos do Estado-Maior do
Exército e de suas escolas ressentiram-se com a participação política de seus comandantes nas
revoluções de 1930 e 1932. Com isso, a Missão Francesa perdeu muita influência dentro da
instituição814. Somou-se a esse fato, como aponta Bellintanni (2009, p. 461), a insatisfação
surgida em meio à alta oficialidade do Exército, quando, em 1932, os franceses se negaram a
fornecer armamento às forças legalistas no decorrer da Revolução Constitucionalista.
Em 1933, uma missão brasileira, chefiada pelo general Leite de Castro, foi enviada à
Europa, com o objetivo de adquirir novos armamentos para o Exército. Os oficiais brasileiros
percorreram vários países e visitaram diversas firmas de material militar. Entretanto, quando
chegaram a Paris, foram obrigados a pagar um fisco para a França, atitude contestada pelo
governo brasileiro, já que os oficiais franceses, no Brasil, estavam isentos de tributos.
Profundamente irritado com o ocorrido, Leite de Castro e a Missão Militar Brasileira
deixaram a França, após romperem o tratado de comércio existente com aquele país. Em maio
daquele mesmo ano, o ministro da Guerra, general Espírito Santo, suspendeu a missão na
Europa e, por meio de uma portaria ministerial, organizou uma nova missão brasileira, com a
finalidade de realizar estudos para a indústria bélica do País. A partir daí, iniciou-se uma
aproximação com o governo norte-americano, que resultaria na vinda para o Brasil de uma
missão norte-americana com o objetivo de cooperar com o desenvolvimento da artilharia de
costa brasileira. (BELLINTANNI, 2009, p. 309-400)
Segundo Duarte (1971, p. 17), em 1934 alguns fortes brasileiros eram dotados de
baterias Krupp, de procedência alemã. Outros eram armados com material de diversas

813
Alguns autores referem-se à Missão de Instrução de Artilharia de Costa como Missão Militar Americana.
814
A Missão Militar Francesa foi extinta em outubro de 1940. Segundo Araújo (2010), a partir de 1934 somente
cinco oficiais franceses foram mantidos nas escolas militares brasileiras. A principal causa da renúncia dos
franceses à missão foi a incapacidade de mantê-la diante da derrota do exército francês na Segunda Guerra
Mundial e a ocupação da França pela Alemanha nazista.
515

procedências, cedidos pela Marinha. O autor aponta que alguns anos antes, uns poucos
oficiais de destaque da arma de Artilharia haviam estado nos Estados Unidos, para conhecer o
emprego da arma no exército norte-americano. Ao regressarem, suas ações se limitaram a
alguns artigos escritos para a revista Defesa Nacional e a publicação, no fim de 1933, do livro
A Técnica do Tiro de Costa, de autoria do major Ari Luís Monteiro da Silva. Nele, Silva
apontava algumas deficiências do tiro das baterias de costa brasileiras, como as faltas de
pólvora e de munição adequadas e a inexistência de um sistema fire-control815 nas baterias de
costa brasileiras. O autor considerava, ainda, a necessidade de se criar uma escola de
Artilharia de Costa no Exército brasileiro, além de uma comissão permanente para os estudos
relativos à defesa de costa. A partir daí, o assunto passou a ser discutido na Inspetoria de
Costa, notadamente pelo coronel Manoel Correia do Lago e pelo major Agostinho dos Santos.
Este, havia acabado de concluir o curso da Escola de Guerra Naval, ocasião em que entrou em
contato com instrutores norte-americanos dessa Escola. A influência de Agostinho no Estado-
Maior do Exército levou, então, o órgão à decisão de contratar a missão junto aos EUA.
Após os primeiros contatos feitos com o adido militar norte-americano no Brasil, em
meados de 1934, iniciou seus serviços no Exército brasileiro a pequena MIAC, formada pelo
major Rodney H. Smith e pelo capitão William Dalton Hohenthal, do Exército dos EUA. Ao
primeiro, coube o encargo de traçar o Plano de Defesa de Costa do Rio de Janeiro, evolvendo
as artilharias de costa e antiaérea. (DUARTE, 1971, p. 18)
A primeira atribuição dos oficiais norte-americanos ao chegarem ao Rio de Janeiro,
em fevereiro de 1934, foi, juntamente com oficiais brasileiros, formar o Centro de Instrução
de Artilharia de Costa (CIAC), criado pela Portaria nº 78 do Ministério da Guerra, de 30 de
janeiro daquele ano. Em abril, a pasta da Guerra baixou o regulamento e definiu o local de
instalação do CIAC, que funcionaria provisoriamente na Fortaleza de São João. Passavam a
ser atribuições do Centro: aperfeiçoar os oficiais que serviam na Artilharia de Costa; formar
os sargentos de Artilharia de Costa e aperfeiçoar os que nela serviam; e estudar e ensaiar,
mediante as diretrizes da Inspetoria de Costa e a aprovação do EME, quaisquer medidas de
caráter técnico de emprego da Artilharia de Costa, ou de instrução, que implicassem
melhorias nesse ramo da Artilharia. Para comandar o CIAC foi nomeado o coronel Antônio
Fernando Dantas. (DUARTE, 1971, p. 18; FORTES, 2001, p. 172)
Quando José Pessoa assumiu o comando da Distrito de Artilharia de Costa da 1ª
Região Militar, a MIAC já estava em pleno funcionamento. Duarte (1971, p. 18-19) aponta

815
Sistema de controle de fogo, voltado para a designação de alvos e para o cálculo dos dados de disparo das
armas direcionadas para atingir esses alvos, bem como para a avaliação da eficácia dos disparos.
516

que no seu primeiro ano de atuação, a missão americana realizou a inspeção de todos os fortes
da 1ª RM. O capitão Hohenthal fez uma tentativa, sem sucesso, de construir nos arsenais
brasileiros algumas partes do sistema fire-control norte-americano. Diante disso, e graças ao
profundo conhecimento técnico desse oficial sobre o assunto, uma oficina do sistema foi
criada na Fortaleza de São João. Concomitantemente, ele passou a projetar um sistema mais
simples, para ser adaptado às baterias costeiras brasileiras. Segundo Fortes (2001, p. 173), por
determinação de José Pessoa, as modificações realizadas por Hohenthal nos sistemas de tiro
brasileiros, que ficaram conhecidas à época por Sistema Hohenthal, foram implementadas em
todas as unidades de Artilharia de Costa da 1ª Região Militar, a partir de 1937, depois de
terem a sua eficiência comprovada nos exercícios anuais de tiro real, executados sobre alvos
móveis em todas as fortalezas e fortes do Rio de Janeiro.
Em janeiro de 1935, a primeira turma de tenentes e capitães foi diplomada pelo CIAC,
“com resultado tão apreciável quanto o permitiu o material existente”816, conforme a
observação feita pelo ministro Góes Monteiro, em seu relatório de 1934. O relatório ressaltou,
também, a assistência prestada pela Missão à Inspetoria de Costa em assuntos referentes a
modificações e melhoramentos, que visassem a melhoria da Artilharia de Costa brasileira. No
ano seguinte, o general João Gomes Ribeiro Filho, que substituiu Góes Monteiro na pasta da
Guerra, ressaltou as palavras de José Pessoa, que, no comando da Inspetoria de Costa,
considerou o Centro de Instrução como o “a fonte irradiadora dos modernos conhecimentos
de artilharia de costa”817 do Exército brasileiro. Pessoa, conforme relatou o ministro Ribeiro
Filho, atestou, ainda, a capacidade intelectual dos oficiais norte-americanos e o
“desprendimento geral e elevação”818 com que se portavam na transmissão dos conhecimentos
aos oficiais brasileiros, atitudes que contribuíam para fortificar os laços de amizade entre
Brasil e Estados Unidos, há mais de um século radicados.
Conforme aponta Esteves (1996, p. 213), a contratação da MIAC foi renovada pela
primeira vez em 1936, com o objetivo de cooperar com o EME e com a Inspetoria de Defesa
de Costa no desenvolvimento e funcionamento do CIAC, superintender os cursos e auxiliar na
instrução, o que, na prática, já vinha acontecendo desde 1934. Passaram a ficar ao encargo dos
oficiais norte-americanos, também, os cursos de Fortificação Permanente e Guerra Química,
na Escola Técnica do Exército. No seu relatório de 1936, o ministro da Guerra, general Eurico
Dutra, que assumiu as funções de Ribeiro Filho, após o curto período em que este esteve no

816
Relatório do Ministro da Guerra, 1934, p. 55.
817
Relatório do Ministro da Guerra, 1935, p. 38.
818
Ibidem.
517

comando das Forças Armadas, destacou o trabalho intenso e eficiente da Inspetoria de Costa,
apesar do pouco tempo de existência do órgão, e o pleno êxito com que a missão americana
vinha realizando a preparação dos quadros do Exército e o plano de defesa da costa brasileira.
Fontes (2001, p. 175) aponta que uma nova renovação de contrato aconteceu em julho
de 1938, sofrendo a MIAC algumas modificações quanto à sua constituição. A Missão, a
partir daquele ano, passou a ser chefiada por um oficial general, Allen Kimberley, e os seus
membros foram substituídos por oficiais do Corpo de Artilharia de Costa do Exército norte-
americano. Segundo o autor, a intensa mobilização do Exército dos EUA, em função dos fatos
que conduziram aquele país a entrar na Segunda Guerra Mundial, fez com que a presença dos
oficiais norte-americanos no Brasil perdesse força. No primeiro semestre de 1940 todos os
membros da Missão retornaram aos Estados Unidos e somente o coronel Lehmanm Miller,
que substituiu o general Kimberley, permaneceu durante mais algum tempo colaborando nas
atividades de ensino da Escola Técnica e da Escola de Artilharia de Costa (EAC)819. Segundo
Rodrigues (2012, p. 47), a contratação da Missão de Instrução de Artilharia de Costa
contribuiu para a substituição, no Exército brasileiro, do pensamento doutrinário alemão e
francês pelo norte-americano, o qual viria a se consolidar com a participação brasileira na
Segunda Guerra Mundial.
Nos quase três anos em que comandou a Artilharia de Costa, Pessoa percorreu todas as
unidades de costa brasileiras. Dentre todos os grupos e baterias visitados, mereceu uma maior
atenção o Forte de Coimbra, no Mato Grosso. Devido à sua posição geográfica, a cidade de
Corumbá consolidou-se na história nacional como importante ponto estratégico naquele
estado, por localizar-se às margens do Rio Paraguai. Considerado um eixo importante para o
deslocamento de tropas, o rio vinha sendo guarnecido pelo Forte, que se localizava ao sul da
cidade mato-grossense, desde o final do Século XVIII. As baterias de Artilharia das unidades
de costa que ocupavam a fortificação eram o primeiro elemento dissuasório das forças
estrangeiras que pretendessem invadir o território nacional utilizando-se do meio fluvial.820

819
Com a nova Lei do Ensino Militar, aprovada pelo Decreto nº 1.735, de 4 de novembro de 1939, o Centro de
Instrução de Artilharia de Costa passou a denominar-se Escola de Artilharia de Costa. O CIAC e a EAC foram
os centros precursores da atual Escola de Artilharia de Costa e Antiaérea, criada em 1965 e em funcionamento
ainda hoje, na Vila Militar, na cidade do Rio de Janeiro.
820
As unidades de Artilharia de Costa guarneceram o Forte Coimbra até o ano de 1992, quando foram
substituídas por tropas de Infantaria do 17º Batalhão de Fronteira. Hoje em dia, a guarnição do Forte é composta
por um Pelotão Especial de Fronteira. A região de Corumbá, no Mato Grosso do Sul, continua sendo considerada
pelo Exército brasileiro como um importante ponto estratégico nacional. Tanto é assim, que a cidade sul mato-
grossense abriga a sede da 18ª Brigada de Infantaria de Fronteira, criada em 1985, à qual estão subordinadas
tropas de Infantaria localizadas em Corumbá-MS, Coxim-MS e Porto Murtinho-MS. Informações retiradas da
página da 18ª Brigada de Infantaria de Fronteira, no Site do Exército Brasileiro. Acesso em 13 mar. 2021.
518

Segundo McCann, (2009, p. 441), uma das preocupações que ficou evidente nos
primeiros anos do regime pós-revolucionário de Vargas foi equilibrar os objetivos nacionais
do Brasil com suas capacidades e potenciais militares, o que exigiu um maior empenho do
governo em fornecer às Forças Armadas armas e equipamentos adequados e em repensar a
doutrina estratégica brasileira, buscando consolidar, assim, o País como a potência
hegemônica da América do Sul. Para isso, como aponta o autor, o Exército necessitava manter
as unidades militares existentes em condições de operar, aumentar o seu efetivo e equipar
quartéis que existiam somente no papel.
A revolução de 1932 havia tirado o foco dos líderes do Exército dos problemas que
ocorriam nas fronteiras brasileiras. Uma disputa fronteiriça de décadas entre Paraguai e
Bolívia acabou por desencadear a Guerra do Chaco, que durou de 1932 a 1935. Também no
oeste da Amazônia, entre setembro de 1932 e o início de 1933, litígios fronteiriços
envolvendo a região de Letícia levaram Peru e Colômbia a um conflito armado. A
proximidade desses conflitos com a região de Corumbá, no Mato Grosso, e Tabatinga e
Benjamin Constant, na região amazônica, inquietaram Vargas, o que levou o governo a
manter o efetivo do Exército maior do que o permitido pelo orçamento de 1932821. Em março
de 1934, um plano de reorganização da instituição, aumentando o seu efetivo para 74.000
soldados, foi apresentado pelo Estado-Maior do Exército para o chefe do Governo Provisório.
(McCANN, 2009, p. 442)
Em correspondências trocadas com Oswaldo Aranha, que deixou a pasta da Fazenda
para ser embaixador nos EUA, em julho de 1934, Getúlio confidenciou ao amigo que o
incomodava a situação paraguaia e as possíveis implicações que o conflito no Chaco poderia
causar para as relações entre Brasil e Argentina. Seu maior receio coincidia com a opinião do
EME, que estava alarmado com o poderio militar do Paraguai, que havia aumentado o seu
efetivo para 70.000 homens. Vargas expôs a Aranha que após o término do conflito, a
situação econômica em que ficaria aquele país poderia levar um general vitorioso à frente de
um exército descontente a derrubar o governo civil. Sendo assim, era de se temer que o
Paraguai pudesse criar complicações na fronteira do Mato Grosso, provocando um incidente
que pudesse arrastar a Argentina para um possível conflito, já que esta apoiava abertamente o
país vizinho, provendo os paraguaios de todos os recursos necessários, concedendo-lhes
empréstimos para que se mantivessem na luta e acumulando tropas na fronteira com a Bolívia.
(McCANN, 2009, p. 442)

821
Segundo McCann (2009, p. 442), o efetivo mantido em 1932 foi de 60.000 soldados, enquanto o orçamento
daquele ano para o Exército exigia uma redução para 54.500 homens.
519

Vargas lembrou a Aranha que era fundamental que o Brasil tomasse algumas
precauções militares, como reforçar as unidades de costa brasileiras, comprar um ou dois
cruzadores e submarinos e uma ou duas canhoneiras para guarnecerem o Rio Paraguai.
Entretanto, faltava dinheiro ao País. Perguntou ao embaixador qual seria a posição dos
Estados Unidos a respeito do assunto e até onde o governo norte-americano apoiaria o Brasil
em caso de um conflito. Consultado por Aranha, Roosevelt afirmou estar disposto a construir
uma nova frota para o Brasil nos estaleiros dos EUA, em condições melhores e mais baratas
do que as oferecidas por outros países. A verdade é que há tempos os norte-americanos
empenhavam-se em conquistar a simpatia dos países sul-americanos. Como apontou Aranha a
Getúlio, havia um convencimento dos norte-americanos de que, em caso de uma guerra, os
EUA seriam apoiados pelo Brasil e seus vizinhos. Além disso, o governo dos Estados Unidos
não se conformava com o fato de o Brasil manter uma missão militar francesa e não uma
norte-americana. A própria Argentina já contava, à época, com uma missão naval norte-
americana. Segundo Oswaldo Aranha, tudo era possível conseguir dos EUA, desde que as
tratativas fossem feitas em segredo e com discrição. (McCANN, 2009, p. 442-443)
Em setembro de 1934, a Inspetoria de Artilharia de Costa recebeu, do Estado-Maior
do Exército, a missão de produzir um detalhado relatório sobre as condições físicas e
estratégicas do Forte Coimbra. As atribuições da comissão nomeada822 por José Pessoa para
elaborar o documento deixavam evidente a preocupação do governo brasileiro com uma
possível agressão de tropas argentinas e paraguaias ao território nacional, em decorrência do
envolvimento dos dois países na Guerra do Chaco. Além de ter que elaborar uma planta
detalhada da fortificação e de reconhecer e locar em carta topográfica os trechos do Rio
Paraguai que melhor davam visada e acesso ao Forte, cabia também à comissão realizar um
estudo minucioso das posições, no Rio Paraguai, das quais as canhoneiras paraguaias e
argentinas poderiam causar algum dano às baterias de Artilharia e instalações da fortificação
brasileira. Havia, ainda, a preocupação de se verificar em quais posições os canhões
brasileiros, de um calibre e alcance inferior aos dos navios argentinos e paraguaios, deveriam
ser alocados, para causar o maior dano possível às tropas inimigas.823
Apesar de haver uma comissão nomeada para o estudo, Pessoa tratou de acompanhar
in loco os trabalhos em Coimbra, como noticiaram alguns jornais da Capital Federal. O
Correio da Manhã, em sua edição de 2 de dezembro de 1934, indicou a partida de José

822
A comissão era formada pelos tenente-coronel José Agostinho dos Santos, major Ignácio José Veríssimo,
capitão Alfredo Moacyr Uchôa e primeiro-tenente José Venturelli Sobrinho. Acervo José Pessoa (CPDOC
FGV). JPvp34.08.17, doc. 0154.
823
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp34.08.17, doc. 032.
520

Pessoa e seu estado-maior para o Mato Grosso, a fim de “inspecionar as fortificações de


Coimbra e ter uma impressão pessoal sobre a nossa [do Brasil] defesa fixa do Rio Paraguai”.
O jornal apontou, ainda, a minuciosa inspeção que Pessoa havia feito nos fortes da baia da
Guanabara, de Macaé e de Santos.824
Pessoa relatou, em sua autobiografia, que ao chegar em Coimbra a comissão nada
encontrou que comportasse uma inspeção técnica, decidindo, então, descer o Rio Paraguai, a
fim de realizar um estudo do meio fluvial e da região vizinha ao Forte. Chegaram à conclusão
de que não só o estado da defesa militar da fortificação, como, também, o da região, havia se
tornado ao longo dos tempos cada vez mais ineficiente, praticamente inexistindo. Nas suas
palavras, “faltava-lhe tudo: do armamento ao mais elementar conforto de vida”. Os canhões
utilizados na defesa, que haviam pertencido à Marinha de Guerra, por terem se tornado
antiquados, eram do tipo mais antigo que o Exército possuía e ficavam expostos ao tempo e às
vistas do inimigo, podendo ser facilmente atingidos em caso de um ataque. Quanto ao
aquartelamento, Pessoa apontou a situação precária das edificações e as condições vexatórias
das famílias dos oficiais e praças, que residiam em edifícios úmidos, os quais comparou a
“verdadeiros cortiços”. O Forte Coimbra, segundo ele, “era apenas um símbolo, uma relíquia
histórica, armada de velhos canhões, isolado da civilização e vivendo nas profundezas do
nada”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta V, p. 58-61)
Em janeiro de 1935, José Pessoa apresentou um detalhado relatório ao EME, fruto da
inspeção em Coimbra. No extenso documento, a comissão fez considerações sobre os
acidentes topográficos da região lindeira ao Forte, apontou a melhor disposição a ser ocupada
pelas baterias825 do 5º Grupo Independente de Artilharia de Costa (GIAC), guarnição que
ocupava as instalações da fortificação, para a realização da defesa do Rio Paraguai, fez
sugestões quanto ao emprego do armamento utilizado, analisou as possibilidades de defesa
frente a um ataque inimigo e propôs mudanças nas instalações e localizações da fortificação e
do vilarejo contíguo ao Forte.
Dentre as várias observações feitas pelo grupo inspecionador estavam a substituição
das baterias de Artilharia fixas por um sistema de baterias móveis, que seriam deslocadas por
meio de estradas de rodagem construídas a oeste do Forte, o que proporcionaria uma melhor

824
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 2 dez. 1934, p. 2.
825
A bateria de Artilharia é uma fração de um grupo de Artilharia, composta, atualmente, por seis peças de fogo,
ou obuseiros. À época, as baterias eram mobiliadas por canhões. Explicada de uma maneira simples, a diferença
entre os dois está no emprego tático do tiro realizado por cada um dos armamentos. Enquanto nos tiros de
obuseiro os projéteis realizam uma trajetória curva até o alvo, tendo, assim, um alcance maior, no tiro de canhão
o projetil realiza uma trajetória retilínea, ou tensa, no linguajar militar. Isso não significa, entretanto, que os dois
armamentos não possam realizar qualquer um dos tipos de tiro.
521

defesa da área e emprego dos canhões de menor calibre e mais leves e uma melhor proteção
dos mesmos, já que as baterias fixas eram mais fáceis de serem localizadas previamente pelo
inimigo. A comissão também não via a necessidade de se aumentar o efetivo da guarnição do
Forte. Considerava que as três baterias que compunham o 5º GIAC eram suficientes para a
defesa do corte do Rio Paraguai. Considerou, ainda, que a maneira como as peças de
artilharia826 das baterias estava disposta nos morros circunvizinhos ao Forte atendiam
perfeitamente às possibilidades de tiro, sendo assim capazes de atingir os conveses dos navios
que se aventurassem na passagem pelo Forte. Entretanto, se fazia necessária uma limpeza
melhor da área, muito pedregosa e de difícil acesso. Outro ponto importante a ser melhorado
era a comunicação entre as baterias que ficavam em posições opostas, em relação aos lados da
fortificação, devido à longa distância entre os locais.827
A principal análise feita pela equipe de José Pessoa foi sobre os problemas de defesa
geral da fortificação em caso de ataque inimigo por água, em função dos regimes de cheia e
vazante do Rio Paraguai. A comissão considerou que, nas cheias, não haveria problemas para
a defesa do Forte, já que o alargamento do leito do rio não influenciava na navegação. Sendo
assim, a defesa fixa já existente, combinada com o emprego de campos minados, impediria
uma abordagem por tropas estrangeiras. O problema principal estava no período da seca, de
abril a novembro, quando um ataque por terra poderia ocorrer com mais facilidade. Nesse
caso, ficava mais evidente a necessidade de um sistema móvel de defesa, que permitisse a
mudança rápida das peças de artilharia. Além disso, durante as vazantes, seria essencial o
apoio de batalhões de Infantaria e de grupos de Artilharia de campanha para deter um possível
ataque inimigo. Também a defesa antiaérea do Forte era imprescindível, já que nenhuma
bateria destinada a esse tipo de defesa existia no local e ataques de aviões inimigos poderiam
surgir de qualquer direção.828
Do ponto de vista militar, a comissão considerava que o problema a oeste de Mato
Grosso comportava três grandes problemas: a defesa de Corumbá e de Ladário; a proteção da
Estrada de Ferro Noroeste, entre Miranda e Porto Esperança; e o fechamento da navegação do
Rio Paraguai. Quanto a este último, a construção de um sistema fixo de defesa seria muito
cara. A combinação de um sistema móvel, com campos minados e a cobertura de tropas de
Artilharia de campanha e de Infantaria resolveriam o problema. A comissão entendia, porém,
que a defesa do rio não deveria ocorrer somente na altura de Coimbra, mas, mais ao sul, na

826
No linguajar militar, uma peça de Artilharia corresponde a um obuseiro ou canhão.
827
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp34.08.17, doc. 0154.
828
Ibidem.
522

confluência com o Rio Apa. Em relação à proteção da via férrea, parecia aos oficiais ser uma
hipótese plausível que, em um provável ataque, tropas paraguaias ou bolivianas procurassem
isolar o oeste do Mato Grosso do restante do País, o que fariam interrompendo o fluxo da
Estrada de Ferro Noroeste. No entanto, entendiam que tal intento só seria possível com o
emprego de um efetivo numeroso de soldados, o que seria difícil de ser realizado pelo
Paraguai. Ainda que improvável, caso uma ação desse tipo viesse a ocorrer, durante as cheias,
com tropas transportadas em pequenas lanchas, ou na seca, por tropas a pé, transitando às
margens do Rio Paraguai, o Forte, com suas baterias fixas, não conseguiria deter
integralmente o ataque inimigo.829
Quanto à defesa de Corumbá, os oficiais consideraram ser estrategicamente essencial
ao Brasil manter a posse da cidade, não só pelos reflexos políticos que uma perda
representaria, mas, também, por ser, o local, o principal centro econômico do oeste mato-
grossense. A proximidade com a fronteira boliviana, a falta de obstáculos naturais que
propiciassem a segurança da cidade e o grande número de moradores bolivianos e paraguaios
que ela encerrava eram considerados pelos oficiais inspecionadores fatores favoráveis a um
ataque boliviano, em caso de uma guerra com o Brasil. Consideravam, ainda, que prever a
defesa de Corumbá não implicava somente a defesa aproximada da cidade, mas de toda a
região compreendida entre o Forte Coimbra, ao sul, e o trecho do Rio Paraguai, ao norte da
cidade. Além disso, a defesa de Corumbá compreenderia, automaticamente, a defesa da base
naval de Ladário. Sendo assim, a comissão orientou ao EME que se mobilizassem tropas de
Cuiabá para mobiliarem a região e, assim, manter guarnições militares, preferencialmente de
Infantaria, ao longo de toda a fronteira oeste.830
As construções de um novo aquartelamento para abrigar o pessoal do forte, mais ao
norte do local em que se encontrava, e de um novo porto, para a atracação das embarcações,
foram sugeridas. A finalidade das mudanças era impedir que os tiros inimigos, em caso de
ataque, pudessem atingir essas edificações. Também os paióis mereciam uma reforma, já que
eram demasiadamente expostos ao calor, o que causava o risco de uma explosão. A caixa
d’água do Forte precisava ser mudada de local, pois podia ser facilmente atingida pelos tiros
inimigos, até mesmo os de fuzis. E, o vilarejo vizinho tinha que ser afastado da fortificação,
devido à inconveniência que causava à situação militar do Forte. Com essa mudança, uma
escola primária precisava ser criada, devido ao elevado número de crianças que ali residiam,

829
Ibidem.
830
Ibidem.
523

bem como a limpeza da área circunvizinha, a fim de eliminar os mosquitos que molestavam
os habitantes.831
Mapa 3 – Mapa preparado pela Comissão de inspeção do Forte Coimbra, contendo a localização de
Corumbá-MT e do Forte, 1934.

Fonte: Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1934.08.17.

831
Ibidem.
524

Outras providências consideradas importantes foram: proibir a entrada de bebida


alcoólicas no vilarejo, bem como a moradia de estrangeiros, principalmente paraguaios,
bolivianos e argentinos; a construção e a manutenção de um cinema e de um cassino para
diminuir a solidão e a tristeza de oficiais e praças; modificar o fardamento, a fim de
conformá-lo melhor às condições climáticas da região; e, até mesmo, a adoção de
mosquiteiros nas camas, uma providência muito simples, mas essencial para o bem estar dos
militares. A mudança dos critérios de classificação de pessoal em Coimbra também era uma
necessidade urgente. Oficiais e praças que para lá eram transferidos, ficavam esquecidos pelo
órgão movimentador do Exército. Somente em casos de queixa, atos e indisciplina e doenças
graves, como a beribéri, eram lembrados e retirados do Forte. Era conveniente, então, que um
sistema de rodízio de pessoal fosse implantado em Coimbra. A sugestão da equipe
inspecionadora era a permanência de 6 meses para oficiais, 10 meses para sargentos e 12
meses para cabos.832
Uma curiosidade a respeito dessa visita de Pessoa ao Forte Coimbra é o fato de
encontrar-se anexo aos seus arquivos pessoais um artigo do general Malan D’Angrogne,
escrito em outubro de 1926, sobre a localidade de Coimbra833. Entre outubro de 1924 e julho
de 1926, Malan havia comandado a Circunscrição Militar do Mato Grosso, cuja sede ficava
em Campo Grande, e conhecia bem a região. Não foi possível identificar o periódico, ou
revista, em que o texto foi publicado. Entretanto, nele Pessoa fez vários apontamentos à lápis,
principalmente nas passagens acerca dos aspectos históricos, geográficos e topográficos da
região. Certamente, o artigo de um dos líderes do movimento de 24 de outubro de 1930
serviu-lhe de guia para a inspeção no Mato Grosso.

Imagem 98 – Forte Coimbra na década de 1930 e hoje em dia.

Fontes: Parreira, 2013; site do Exército Brasileiro, 2021.

832
Ibidem.
833
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp34.08.17, doc. 0162.
525

Em janeiro de 1936, José Pessoa enviou um novo ofício ao Ministério da Guerra,


solicitando a substituição dos canhões de 120 mm do Forte Coimbra por canhões Armstrong,
de calibre maior (152 mm), que haviam sido cedidos pela Marinha. Para isso, um minucioso
estudo foi realizado pela Inspetoria de Costa, sugerindo a localização detalhada das novas
peças de artilharia nos acidentes topográficos circunvizinhos à fortificação e a reorganização
do grupo de Artilharia que guarnecia o Forte. As informações de janeiro foram
complementadas por outro ofício enviado em outubro à pasta da Guerra. Nele, além da
ratificação das informações anteriores, foi apontado a quantia necessária que deveria ser
despendida com a modernização das instalações de Coimbra, cerca de 370:000$000 (trezentos
e setenta milhões de réis), que podia ser “encarada como uma pequena despesa em face de
obras de tal vulto”, segundo Pessoa.834
As reformas propostas pela comissão nomeada por José Pessoa, bem como a
substituição dos armamentos, foram aprovadas pelo Ministério da Guerra em outubro de 1936
e em janeiro de 1937 foram baixadas as instruções para a execução das obras no Forte
Coimbra. O projeto, o orçamento dos trabalhos e a execução das obras ficaram a cargo do
Serviço de Engenharia da Inspetoria de Defesa de Costa. O Departamento de Engenharia do
Exército ficou responsável pela aprovação dos projetos e pela liberação dos créditos
orçamentários à realização das obras.835
José Pessoa também produziu relatórios sobre a distante guarnição de Óbidos, no Pará.
Em um fragmento de documento anexo aos seus arquivos pessoais, o qual supõe-se ser um
relatório a respeito das condições estratégicas de defesa da região amazônica, é possível
encontrar algumas observações da visita feita por ele à localidade, em abril de 1937. Nele,
Pessoa teceu longas considerações a respeito dos inimigos prováveis do Brasil na região Norte
do País: os países andinos, Colômbia, Venezuela, Peru e Bolívia; as Guianas; e a Argentina,
os países europeus, Japão e Estados Unidos.
Em relação aos países andinos, Pessoa destacou que estes dispunham de exércitos
pequenos e fracos e que apenas a Colômbia possuía uma flotilha fluvial superior à que o
Brasil mantinha no Amazonas. Ainda assim, os terrenos da bacia Amazônica não permitiam
que esses países levassem a termo uma invasão com grandes efetivos. Nem uma invasão por
mar, o Brasil devia temer. Quanto a uma invasão dos países aos quais as Guianas pertenciam,
deveria haver o temor de operações de pequena envergadura feitas por terra. Tanto a Guiana

834
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp34.08.17, doc. 0154.
835
Ibidem.
526

Inglesa quanto a Holandesa não possuíam vias terrestres em condições de transportar tropas
até as fronteiras com o Brasil. Para a defesa no caso de uma agressão por esses países, José
Pessoa recomendou o emprego de tropas de Infantaria e Artilharia de campanha, numeroso
emprego da aviação e de uma flotilha fluvial. Descartou utilizar a Artilharia de Costa, devido
às condições do terreno amazônico, que não possibilitava a tomada segura de posições para os
canhões abaterem os alvos inimigos.836
Quanto aos países europeus, Japão e EUA, considerou que qualquer um desses países
tinha condições de assumir a supremacia naval no Atlântico e, em consequência, tentar tomar
de assalto Belém e, assim, adentrar o Rio Amazonas. Esse tipo de ação, segundo ele,
provavelmente não seria tentado pela Argentina, já que a Amazonia se constituía em teatro de
operação secundário para aquele país. Além do mais, um desembarque de tropas argentinas na
região a enfraqueceria na região Sul, local principal de suas ações em caso de guerra. O
estudo da defesa para uma hipótese de invasão por esses países se tornava mais complexo,
com a necessidade de emprego de tropas do Exército, de todas as armas, de uma grande
flotilha fluvial, em cooperação com a marinha de Guerra e do emprego de uma potente tropa
de Artilharia de Costa, o que tornava ineficaz a existência de apenas uma bateria independente
na região norte, a 8ª Bateria Independente de Artilharia de Costa (BIAC), em Óbidos, no
Pará.837
Sendo assim, no entender de Pessoa a região amazônica precisava ser reforçada com
um regimento de Artilharia de Costa armado com canhões de médio calibre (155 mm),
composto por dois grupos de Artilharia de Costa, com quatro baterias orgânicas cada um. Um
grupo guarneceria o Rio Pará, com suas baterias localizadas nas ilhas do Mosqueiro e do
Marajó e na cidade de Breves. O outro guarneceria a foz do Rio Amazonas, com baterias na
cidade de Chaves, na costa de Macapá e na ilha de Caviana. A escolha dessas posições
resultava das suas localizações em pontos de passagem obrigatórios para as tropas que
pretendessem penetrar no Rio Amazonas. Essas baterias seriam móveis, com tração
automotiva, para poderem fazer frente ao inimigo com uma maior agilidade. Além do
regimento, José Pessoa previu, também, a necessidade de se criar uma bateria de Artilharia de
grosso calibre transportada por via férrea, como complemento da defesa do Rio Pará, na
eventualidade de um ataque a Belém por couraçados inimigos com armamento mais potente.
Desaconselhou, ainda, o uso de minas submarinas, devido às fortes correntezas em sentidos

836
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp34.08.17, doc. 0169.
837
Ibidem.
527

opostos dos rios e do mar e a natureza lodosa do fundo dos rios, o que dificultaria o
lançamento dos artifícios.838

Gráfico 5 – Proposta de José Pessoa para a defesa da foz do Rio Amazonas, 1937.

Fonte: Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1934.08.17.

Pessoa justificava a permanência da 8ª BIAC em Óbidos enquanto as necessidades


táticas e logísticas da defesa de costa amazônica não fossem melhoradas. A cidade localizava-
se em um ponto de estrangulamento do Rio Amazonas, a 1.000 Km de Belém, e em uma
posição intermediária entre as fronteiras terrestre e marítima do País, o que facilitava a defesa
em caso de penetração de embarcações inimigas por meio fluvial. Entretanto, era preciso que
a disposição dos canhões daquela unidade militar fosse reorganizada, aproveitando-se melhor
a topografia do local. Do jeito que estavam não atendiam à doutrina de Artilharia da época,
além de serem alvos fáceis para um bombardeiro inimigo. Também era preciso que fossem
realizados alguns melhoramentos no armamento utilizado, que, apesar de se encontrar em
condições aceitáveis de conservação externa e emprego, não possuíam mecanismos de direção
e de pontaria adequados, escudos de proteção e a pólvora adequada para a realização do
tiro.839

838
Ibidem.
839
Ibidem.
528

Quanto às instalações do aquartelamento, eram pequenas e estavam mal-cuidadas. Um


exemplo era o paiol, que não possuía nenhum requisito técnico para a guarda da munição e da
pólvora, além de dividir o espaço com uma enfermaria improvisada. As poucas obras de
restauração feitas aconteciam por iniciativa do comandante da Bateria. Quanto à instrução, era
deficiente, em decorrência da falta de equipamentos apropriados, como os já citados aparelhos
de pontaria adequados, e do desconhecimento das técnicas costeiras de tiro, por sargentos e
oficiais que não possuíam, até aquele momento, os cursos do CIAC. Apesar de tudo, segundo
Pessoa, a 8ª BIAC era uma tropa bem comandada, disciplinada e com elevado espírito de
corporação, digna de elogios.840

Mapa 4 – Localização da cidade de Óbidos-PA, 2021.

Fonte: site Guianet, 2021.

Apesar da atenção especial que deu às guarnições das regiões Norte e Oeste do País,
José Pessoa cuidou, também, das fortalezas e fortes do estado do Rio de Janeiro, onde se
concentravam a maior parte dos quartéis de Artilharia de Costa do Exército. Durante o seu
primeiro ano de comando no DAC, a modernização e as reformas implementadas por ele
foram motivo de constantes notícias publicadas nos jornais da Capital Federal. Em agosto de
1935, a pedido do Estado-Maior do Exército, chefiou uma comissão que elaborou um projeto
de defesa para os portos do Rio de Janeiro, de Santos, de Mato Grosso e do Rio São

840
Ibidem.
529

Francisco, em conjunto com oficiais da Marinha e engenheiros de fortificação da Escola


Técnica do Exército.841 Nesse mesmo mês, por ocasião das comemorações do Dia do Soldado
no Distrito de Artilharia de Costa, cuja programação contou com salvas de 21 tiros em todos
os fortes da costa brasileira ao raiar do dia 25 de agosto e uma romaria ao túmulo do Duque
de Caxias, Pessoa sugeriu ao Ministério da Guerra a mudança do nome do Forte do Vigia,
localizado na praia do Leme, para Forte Duque de Caxias, o que foi feito por meio de decreto
presidencial842. Já no final do ano, em novembro, uma solenidade marcou a remodelação do
Forte da Laje. Na ocasião, José Pessoa inaugurou no local uma placa em comemoração ao
112º aniversário da prisão de José Bonifácio de Andrade e Silva na fortificação843. No
discurso que proferiu, Pessoa ressaltou a figura inconteste de José Bonifácio na campanha em
prol da independência do Brasil, o que o tornava merecedor dos louvores e gratidão de toda a
Nação. Dentre os melhoramentos realizados no forte constavam novas instalações bélicas e
uma sala de estudos para as praças, batizada com o nome de José Pessoa. 844 No ano seguinte,
foi a vez da Fortaleza de Santa Cruz receber uma nova ponte de atracação, o que facilitou o
acesso de pessoal e de material às suas instalações.845
As suas visitas aos mais diversos rincões do País colocaram José Pessoa diante de uma
realidade que o incomodava há tempos: a presença de moradores estrangeiros em locais que
considerava de segurança nacional. A exemplo da manifestação que fizera, se posicionando
contra a presença de comerciantes judeus na cidade de Resende, à época da construção da
Escola Militar de Resende, Pessoa manifestou-se, durante o período em que comandou a
DAC, contra as concessões de terras a estrangeiros no Norte e no Oeste do País. Destas,
abordou, em sua autobiografia, os casos da Companhia Fomento Argentino, no Mato Grosso,
e da Fordlândia e da Companhia Nipônica de Plantação, ambas no estado do Pará. Esta
última, considerada por ele “a mais escandalosa das concessões”.
Em entrevista concedida ao Correio da Manhã, em junho de 1937, na qual tratou da
sua visita ao Norte do País, José Pessoa apontou que a imigração e as concessões de terras
constituíam, quando não fiscalizadas, “verdadeiro perigo a um país”. Nas fronteiras com os

841
Faziam parte da comissão: o major Orestes da Rocha Lima, chefe do estado-maior do 1º DAC; o major
Nicanor Guimarães de Sousa, representante do EME; o tenente-coronel Agostinho dos Santos e os majores Ary
Maurell Lobo e José Bina Machado. Também a compunham o professor de fortificação e dois oficiais do curso
de engenheiros construtores da Escola Técnica do Exército e dois oficiais da Marinha com o curso da Escola de
Guerra Naval. Fonte: Correio da Manhã, 13 ago. 1935, p. 3.
842
Decreto nº 305, de 22 de agosto de 1935. O nome Forte Duque de Caxias foi mantido até os dias atuais. No
local funciona hoje em dia o Centro de Estudo de Pessoal do Exército.
843
José Bonifácio foi recolhido preso ao Forte da Laje em 1823, por ocasião da dissolução da Assembleia
Constituinte.
844
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 12 nov. 1935, p. 5.
845
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 30 ago. 1936, p. 6.
530

países vizinhos, a questão das concessões, segundo ele, se tornava altamente inconveniente,
devendo o governo, no seu entender, fazer uma revisão dos contratos feitos até aquele
momento. Citou, inclusive, os exemplos da Companhia Nipônica de Plantação, que detinha
mais de um milhão de hectares no estado do Pará, em uma área que prejudicava a segurança
nacional, envolvendo os municípios de Acará, Monte Alegre, Marabá e Conceição do
Araguaia, e da Companhia Fomento Argentino, que possuía, também, mais de um milhão de
hectares de terras fronteiriças, no Mato Grosso, das quais uma extensa faixa em frente ao
Forte de Coimbra, o que prejudicava sobremaneira a sua defesa. E lembrou ao governo que a
Constituição de 1934 proibia concessões de terras em uma faixa de 100 km ao longo das
fronteiras brasileiras.846
Na mesma entrevista, Pessoa não poupou elogios ao homem amazonense, que, apesar
das condições adversas da região, após quatro séculos de luta havia triunfado sobre a região,
apesar da pecha de indolente que o restante do País havia, injustamente, lhe imposto. E
destacou que, assim como ele e os seus irmãos nordestinos, que haviam nascido e sido criados
na adversidade do sertão, todos eram criadores triunfantes de uma “verdadeira civilização
tropical”. Ainda sobre os tipos humanos nacionais, disse não encontrar diferenças entre os
sulistas e os nortistas. Apesar dos meios ambientes distintos em que viviam, não era possível
se estabelecer um paralelo de inferioridade ou de superioridade, em função da cor das peles
dos homens que habitavam as diferentes regiões do País. No seu ponto de vista, ambos tinham
qualidades e defeitos, porém, todos tinham capacidades especiais, a ponto de se criar uma
civilização, um padrão humano brasileiro. Entretanto, o nortista típico, injustamente tachado
de “sem vontade”, tinha uma qualidade especial: apesar da luta constante que mantinha contra
uma região de natureza agreste, hostil, de clima depauperante e castigada pelas endemias
locais, não cedia, lutava e vencia.847
Pessoa não esqueceu de considerar, ainda, os problemas da Amazônia, que eram, no
seu entender, sobretudo de saneamento e de saúde da população. Devido à extensão da região,
esses problemas não podiam ser resolvidos somente pelos governos locais. Tratava-se de uma
questão nacional, cuja solução cabia ao governo do País. Para ele, era preciso que se seguisse
no Norte o exemplo do que foi feito no Nordeste: humanizar o meio de vida e redimir as
injustiçadas populações do Amazonas. Ao mesmo tempo em que apontou a existência de
importantes centros de reabastecimento, como Belém, onde havia abundância de carne e
peixe, lembrou da precariedade da navegação na bacia Amazônica, principalmente para quem

846
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 2 jun. 1937, p. 3.
847
Ibidem.
531

demandava o interior da região. Deu o exemplo de sua passagem por Óbidos, ocasião em que
fazia mais de um mês que nenhuma embarcação da Lloyd aportava no local. Urgia, portanto,
a quem fosse de direito, sanar essa lacuna. Uma das soluções que apontou ser viável, seria
impulsionar a aviação naquelas regiões, especialmente nos eixos dos rios Solimões, Madeira e
Negro.848
Dois dias após essa entrevista, o jornalista Manoel Paulo Filho849 publicou em sua
coluna, no mesmo periódico, um texto abordando os comentários feitos por José Pessoa a
respeito das concessões estrangeiras no País, ao qual deu o título “Uma Lição”. Nele, Paulo
Filho apontou que Pessoa tinha conhecimento de causa do que havia exposto em seu
depoimento, uma vez que havia visto com os próprios olhos “as condições de desprezo em
que se acham certos pontos estratégicos das fronteiras indígenas” do País. O jornalista criticou
as extensas áreas de terras que estavam sendo transferidas na Amazônia à propriedade e
utilização de estrangeiros. E apontou uma infeliz coincidência:

É curiosa a coincidência. Subiram os preços da borracha, das madeiras, das


castanhas, do cacau e dos óleos vegetais. Matérias primas, que eram desconhecidas e
às quais não se dava valor, são hoje solicitadas e adquiridas, em abundância, pelos
corretores internacionais que não vacilam em ofertas as mais vantajosas. As
indústrias químicas e bélicas dos Estados Unidos e da Europa despacham agentes
habilitados, que sobem e descem o mar doce [...] na ambição de descobrirem novos
elementos de fortuna. O alienígena, avisado e poderoso, está pouco a pouco
infiltrando-se e enraizando-se nessas paragens. Cresce o mal porque a terra parece
sem dono, tão distante se acha do convívio da civilização.850

Feitas essas observações, Paulo Filho passou a discorrer sobre as impressões colhidas
por José Pessoa em suas viagens a respeito das três concessões feitas a estrangeiros no Norte
do País: Fordlândia851, Nipônica de Plantação852 e Fomento Argentino853. Quanto à primeira,

848
Ibidem.
849
Manoel Paulo Telles de Mattos Filho (1890-1969) foi um jornalista e político brasileiro, nascido na Bahia.
Foi redator e diretor do jornal Correio da Manhã. Também participou ativamente da vida política da Capital
Federal e do estado da Guanabara, desempenhando, ao longo da sua vida, várias funções relevantes, como:
delegado de polícia no Rio de Janeiro (1918-1922), chefe do Serviço de Tombamento da Lloyd Brasileira (1922
e 1936-1937), deputado da Assembleia Constituinte (1934-1935), membro do Conselho Consultivo do Distrito
Federal (1936-1937) e procurador do Tribunal de Contas do Estado da Guanabara (1937). Foi, ainda, membro e
presidente da Associação Brasileira de Imprensa, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro,
fundador e presidente do Instituto Histórico e Geográfico da Cidade do Rio de Janeiro e presidente da Academia
Carioca de Letras. Costumava escrever, em suas colunas, sobre a vida política e cultural do País. A partir de
1960, passou a escrevê-las sob o pseudônimo de João Paraguassu. Fonte: Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 18
mar. 1969, p. 3.
850
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 4 jun. 1937, p. 4.
851
O crescente interesse pela borracha na Amazônia, despertado pela exploração na Colômbia, em 1896, levou à
vinda de estrangeiros à América do Sul, dentre o industriário do setor automobilístico Henry Ford. O norte-
americano, pensando em produzir sua própria matéria-prima para os pneus dos seus automóveis, adquiriu, em
julho de 1927, terras no vale do Rio Tapajós, onde se iniciou a construção da cidade que recebeu o nome de
Fordlândia. Destinada a ser a primeira “cidade empresa” edificada na Amazônia, oferecia a seus habitantes:
hospital, escola, água encanada, luz elétrica, moradia, lazer e emprego. No entanto, o investimento de 125 mil
532

destacou o enorme aparato com que a empresa norte-americana havia se instalado no Pará, na
área que lhe fora cedida, sob o pretexto da exploração da borracha: estradas de ferro e de
rodagem, transportes fluviais, escolas e hospitais. Entretanto, lembrou que os resultados de
sua exploração não correspondiam ao vulto do capital empregado pela empresa. Segundo o
jornalista, era do conhecimento de muita gente que, na Fordlândia, a borracha era o negócio
secundário. As atenções dos norte-americanos estariam voltadas, na realidade, para o petróleo
e as madeiras da região, conforme uma denúncia feita por peritos alemães que haviam estado
na área sob o domínio fordista.854
Em relação à Companhia Nipônica de Plantação, lembrou do propósito da concessão
feita pelo governo do Pará: contratar empresa ou companhia que fundasse a instalação e a
exploração de núcleos agrícolas em terras devolutas do estado. À companhia japonesa foram
cedidos mais de um milhão de hectares de terras, com o benefício de, caso a área de
exploração fosse insuficiente, o governo paraense ter que ceder, obrigatoriamente, mais terras,
sem prejuízos para o concessionário, que poderia escolher as áreas. Paulo Filho lembrou,
ainda, outros privilégios da empresa: realizar, dentro do território cedido, quaisquer meios de
comunicação e transportes terrestres, aéreos e fluviais, dispondo, inclusive, de um campo de
aviação. Entretanto, o jornalista mostrou-se aliviado com o fim do contrato e a proibição,

dólares com a aquisição da terra não trouxe correspondente rendimento na exploração dos seringais cultivados.
A baixa produtividade, o fim da Segunda Guerra Mundial, com a consequente queda na demanda mundial por
borracha, e a produção de borracha sintética levaram à retirada dos americanos da região em 1945. O governo
federal adquiriu as benfeitorias e as plantações de seringueiras, porém não impediu a degradação da cidade, que
viu seu patrimônio material ser arruinado, ficando prédios em ruínas e lembranças de moradores remanescentes
do tempo do fastígio da borracha. (SENA, 2008, p. 89)
852
O ponto oficial da imigração japonesa no estado do Pará se deu em 1925, quando o governador Dionísio
Bentes recebeu os enviados da indústria de tecidos japonesa Kanegafuchi Bosseki Kabushiki Kaisha (Kanebo),
Yasuhei Ashizawa e Hideo Nakano, com uma carta do embaixador japonês Hichita Tatsuki. O governador
ofereceu as terras situadas às margens dos rios Capim, Moju ou Acará, como propícias à colonização japonesa.
Em maio de 1926, chegou a Belém uma missão científica japonesa chefiada por Hachiro Fukuhara e mais oito
técnicos, para escolher a área em Acará e fundar a Nambei Takushoku Kabushiki Kaisha (Companhia Nipônica
de Plantações do Brasil S.A.), conhecida como Nantaku. Através da Lei 2.746, de 13 de novembro de 1928, o
governo do Pará concedeu para Hachiro Fukuhara, 600.000 ha de terra em Acará, 400.000 ha em Monte Alegre,
e três lotes, de 10.000 ha cada um, em Marabá, na zona da Estrada de Ferro de Bragança, e em Conceição do
Araguaia. As razões que levaram à desativação das atividades da Nipônica, que ocorreu em 1942, estão ligadas à
Constituição de 1934, que restringiu a entrada de imigrantes no País e a concessão de terras nas fronteiras
brasileiras. (HOMMA, 2016, p. 33-43)
853
Segundo Trubiliano (2014), o surgimento a ocupação de terras por companhias estrangeiras no Mato Grosso
ocorreu em um contexto de aumento do consumo de carne bovino no mercado mundial, uma das consequências
da Primeira Guerra Mundial sobre os fluxos de internacionais de mercadorias e capitais. O cenário favorável
estimulou o investimento de capitais estrangeiros, especialmente platinos, na estruturação de companhias
especializadas na produção de charque. Os primeiros produtores de charque se instalaram no sul de Mato
Grosso, às margens do rio Paraguai ou de seus afluentes. A escolha desses locais se explica pela regular oferta de
matéria-prima e a utilização da via fluvial como o principal escoadouro para produção. Em 1925, segundo o
autor, dezenove empresas do ramo funcionavam no estado. A crescente demanda e a necessidade de garantir
matéria-prima levaram os estancieiros platinos a adquirir fazendas de gado, como no caso da Companhia
Fomento Argentina, proprietária de 277 léguas no Pantanal do Nabileque.
854
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 4 jun. 1937, p. 4.
533

prescrita na Constituição Federal, de se conceder áreas, no território nacional, áreas maiores


do que dez mil hectares sem a aprovação do Senado Federal.855
Porém, na visão de Paulo Filho, o caso mais grave de concessão encontrava-se no
Mato Grosso, onde a Companhia Fomento Argentino era “mais do que um Estado dentro do
Estado”. Lembrou das palavras de José Pessoa, para quem a companhia argentina jamais
havia cumprido com as suas obrigações contratuais. Agravava a situação o fato de a área
cedida aos argentinos estar de frente para o Forte Coimbra, sob o ponto de vista da segurança
nacional, uma das mais perigosas áreas de fronteira, que se encontrava completamente
cercada pelas ambições industriais e comerciais estrangeiras. Se, por desgraça nacional,
apontou o jornalista, a defesa da integridade brasileira dependesse do Forte, não o encontraria
em condições, porque sua ocupação e conquista seriam rápidas e facílimas.856
Antes de concluir, lembrou o caso da Etiópia, que no ano anterior havia sido ocupada
pelas tropas italianas de Mussolini. Lembrou o jornalista que a nação africana produzia tudo
quanto o Brasil produzia e exportava. Foi o que bastou para o império fascista, superiormente
aparelhado militarmente, construísse naquele país redes telegráficas, estradas de ferro e de
rodagem, portos e hospitais, para, em pouco tempo, avançar com 500.000 homens e vencer o
“império negro”.857
Encerrando o seu texto, e daí justificando o título dado, Paulo Filho apontou que da
questão etíope e das concessões estrangeiras havia uma lição a tirar:

É que os povos ricos de matérias primas e pobres de armas e munições, para se


defender, correm riscos angustiosos. Principalmente, quando deixam as fronteiras
abandonadas e se despojam de vastas áreas de territórios incultos e quase
inacessíveis.858

No mesmo Correio da Manhã, também no mês de junho, pronunciou-se a respeito da


concessão da Companhia Nipônica de Plantação o jornalista Carlos Maul859, em um artigo
intitulado “A mais escandalosa das concessões”. Nele, Maul fez um alerta em relação às
“cobiças do imperialismo” às terras nacionais, consideradas pelas nações estrangeiras não
aproveitadas e desnecessárias à população brasileira.

Mas antes de vibrar em cóleras contra os conceitos desrespeitosos das nações que
lutam por colocar, em nome do direito à vida, em qualquer parte do mundo, os seus

855
Ibidem.
856
Ibidem.
857
Ibidem.
858
Ibidem.
859
Carlos Maul (1889-1973) foi um escritor, poeta e jornalista fluminense. Foi editor dos jornais Correio da
Manhã, Imprensa, Gazeta de Notícias, A Notícia e O Dia. Fonte: O Jornal, Rio de Janeiro, 15 mar. 1973, p. 2.
534

excessos de gente, nós precisamos seguir de perto os passos de certos homens


públicos esquecidos da dignidade da sua investidura que entregam a estranhos as
maiores reservas do nosso patrimônio e não trepidam em transferir a grupos
financeiros alienígenas pedaços consideráveis do território nacional, em concessões
escandalosas pelo vulto das facilidades outorgadas.860

Dentre as “facilidades outorgadas” à Nipônica, além daquelas já especificadas por


Paulo Filho dias antes, Maul ainda apontou que estavam acertadas nas cláusulas do contrato
firmado entre a Companhia e o estado do Pará a liberdade que a empresa japonesa tinha de
limitar o acesso de nacionais à área concedida, a isenção de solicitar ás autoridades brasileiras
a aprovação de quaisquer edificações que pretendessem construir, bem como os planos de
trabalho agrícola e industrial realizados, e a autorização para criar a sua própria polícia de
segurança. E apontou o que representavam para a segurança nacional, no seu ponto de vista,
esses pontos.

Examinemos agora o que representam alguns pontos dessa concessão. Permite-se


neles a construção de estradas de ferro, de campos de aviação, de linhas telegráficas,
com liberdade irrestrita de exploração desses serviços que são privativos do Estado,
e sem nenhuma ressalva mesmo no que se relacione com a defesa nacional.
Consente-se, ainda, que essas comunicações ultrapassem as fronteiras do Brasil, em
convênio com outros concessionários. Admite-se, também, polícia de segurança, o
que importa em afastar das zonas da concessão qualquer forma de vigilância das
autoridades brasileiras, ficando a companhia japonesa senhora de baraço e cutelo em
suas terras. O que se contém nesse contrato [...] demonstra a perfeita submissão do
governo do Pará à política emigrantista do Japão.861

Por fim, Maul lembrou que o contrato da Nipônica, assim como os de outras tantas
concessões estrangeiras em território nacional, havia sido firmado antes da Revolução de
1930 e já havia caducado com a promulgação da Constituição de 1934. E destacou que, além
de alguns parlamentares e de alguns elementos das Forças Armadas, havia um desinteresse do
governo em solucionar o problema e “fechar as portas do Brasil a essas transações
vandalísticas”.862
Segundo Takeuchi (2008, p. 176), as concessões do Norte do País eram vistas pelos
antinipóticos como uma estratégia do Japão em utilizar seus súditos, instalados em grandes
latifúndios, para promover o futuro domínio militar e político do Brasil, como já havia feito
na Manchúria, no final dos anos 1920. Sendo assim, segundo a autora, o discurso contrário à
imigração japonesa, conjugava a denúncia do imperialismo japonês ao nacionalismo de
Vargas. A praxis originada desse discurso intolerante foi a iniciativa liderada por José Félix

860
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 10 jun. 1937, p. 4.
861
Ibidem.
862
Ibidem.
535

Alves Pacheco, proprietário do Jornal do Commercio, que abriu espaço em seu jornal para os
ataques aos imigrantes japoneses.
E foi justamente nesse periódico que Maul deu continuidade às suas críticas à presença
dos japoneses no Brasil. Em um artigo publicado em junho de 1935, o jornalista subiu o tom
de suas palavras contra as concessões feitas às companhias nipônicas. Disse custar a entender
por que havia no País uma corrente simpática à “imigração amarela”, em flagrante
contrariedade ao texto constitucional, que restringia a entrada de estrangeiros em território
nacional. Lembrou do estado de São Paulo, que, diante do “regime de portas escancaradas”, já
havia recebido mais de 100.000 imigrantes japoneses, os quais, com rara inteligência,
trataram logo de ocupar pontos estratégicos no litoral e no sertão brasileiros. Salientou,
também, que se iludiam os brasileiros com o suposto progresso que as companhias japonesas
afirmavam trazer ao Brasil. A realidade, segundo ele, era outra: o Japão vendia mais ao Brasil
do que lhe comprava, já que as matérias primas produzidas pelos colonos japoneses no País
eram transportadas para o Japão em navios com bandeira nipônica. Em pouco tempo o Brasil
representaria para o Japão aquilo que os países africanos representavam para a Europa:
colônias fornecedoras de matérias-primas para as indústrias daquele país.863
Cabe ressaltar, que não há evidências, nas narrativas de Pessoa, de que o seu discurso
a favor do afastamento das populações estrangeiras dessas áreas seja um posicionamento de
cunho racialista. Aliás, em nenhum momento, em suas memórias, Pessoa comenta o assunto.
Porém, adota um posicionamento forte a favor de que, nas áreas consideradas sensíveis para a
defesa da Nação, não houvesse concessões ou a presença de moradores estrangeiros,
principalmente dos que fossem provenientes de países que pudessem ter algum interesse
estratégico militar ou econômico no País.
Entretanto, o discurso de Pessoa, de oposição à presença de estrangeiros no País, deu-
se em um contexto em que se fortaleceu a política imigratória de Vargas para os anos 1930, e
que tomou as páginas de muitos jornais do Rio de Janeiro, como lembrou a edição do Diário
Carioca de 13 de junho de 1936. É importante lembrar o destaque que o nacionalismo
brasileiro ganhou no primeiro governo de Getúlio Vargas. Como bem aponta Schulze (2013,
p. 3), já no Século XIX os políticos brasileiros argumentavam que a imigração europeia era
uma maneira de melhorar e “civilizar” a nação brasileira. Nos anos 1930, Vargas tratou de
enfatizar esse debate com a finalidade de criar uma identidade nacional homogênea. Nesse
contexto, segundo o autor, os objetivos e a solução dos problemas relativos à imigração foram

863
Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 14 jun. 1935, p. 10.
536

discutidos por cientistas e políticos brasileiros com intensidade. Isso se evidencia na fundação
do Conselho de Imigração e Colonização (CIC), em 1938, e da Revista de Imigração e
Colonização, em 1940, uma publicação daquele órgão governamental. Em vista do novo
nacionalismo forçado por Vargas, muitos sociólogos e etnólogos dedicaram-se a estudos
sobre a brasilidade e definiram qual seria a imigração desejada e útil para a nação brasileira.
Ainda em 1942, a questão das concessões estrangeiras era discutida nos jornais da
Capital Federal e José Pessoa, à época já no exercício de outra função, o de Inspetor da Arma
de Cavalaria, novamente foi ouvido. Em abril daquele ano concedeu uma entrevista ao
Correio da Manhã, na qual foi dado destaque ao fim da concessão à Nipônica de Plantação
pelo Governo Federal. Para Pessoa, o momento pelo qual passava o País era de salvaguardar
os interesses da soberania. Cabe lembrar que em janeiro de 1942 o Brasil rompeu relações
diplomáticas com os países do Eixo, em função dos constantes torpedeamentos que os navios
brasileiros vinham sofrendo por submarinos alemães no oceano Atlântico, por conta do
alinhamento do País aos Estados Unidos, durante a Segunda Guerra Mundial. Segundo
Pessoa, o Brasil deveria encarar de frente a realidade e se precaver, sem procrastinação, contra
a escravização dos povos livres pelos regimes totalitários, o que faziam sob o slogan da
reivindicação do espaço vital. Nesse contexto, fez questão de lembrar:

Por todo o Brasil existem, disseminados, perigosos latifúndios, constituindo focos de


desnacionalização, como pequenos domínios de expansão imperialista, nucleados
em território pátrio, a exigir de nós ação e sentimento patriótico, para extirpá-los, e
capacidade de realizar logo e de maneira radical o programa de autodomínio
nacional que constitui o traço mais característico do governo da Revolução [de
1930].864

O redator do artigo, não identificado, lembrou que o problema das concessões não era
um fruto da Revolução de 1930, mas, havia sido armado pelo governo anterior, cujos políticos
suicidas só tinham “visão e sensibilidade para o que lhes tocasse de perto e diretamente e
eram cegos e insensíveis para o que ultrapassasse o ângulo do seu entendimento”. Destacou,
também, que 1/8 do território brasileiro escapava à jurisdição nacional, devido às concessões
feitas às companhias estrangeiras, que agiam como estados soberanos, em plena
desobediência às leis brasileiras sociais, fiscais e ordinárias. Além desses aspectos, atentou
para o fato de que todas as terras sob concessões não tinham sido escolhidas pelos imigrantes
por acaso, já que haviam sido previamente analisadas por geólogos que pesquisaram o
subsolo, para terem a certeza das suas possibilidades mineralógicas, agrícolas e pecuárias. 865

864
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 12 abr. 1942, p. 2.
865
Ibidem.
537

As concessões de terras a estrangeiros começaram a perder força com a Constituição


de 1934. Em dois de seus artigos ficava evidente ter havido, durante a Assembleia
Constituinte de 1933, uma manobra política a fim de se dificultar essa prática que se tornou
comum nos anos 1920. No artigo 120, ficava determinado que nenhuma corrente imigratória
poderia exceder a cota de 2% sobre o número total de respectivos nacionais entrados no País
nos últimos 50 anos. E no 130, estabelecia-se que nenhuma concessão de terras de superfície
superior a 10 mil hectares poderia ser feita sem a autorização do Senado Federal.
José Pessoa foi exonerado do comando do Distrito de Artilharia de Costa em 10 de
junho de 1937, por ter se manifestado contrário às posições adotadas pelo alto comando do
Exército e que resultariam no golpe do Estado Novo. Em seu discurso de despedida, lembrou
do estado “deveras lamentável de desorganização” em que encontrou a Inspetoria de
Artilharia de Costa e o DAC da 1ª RM, cujos quartéis e material estavam em “ruínas”. E
enumerou a série de providências que havia tomado durante a sua gestão, que iam desde a
recuperação das instalações e material bélico dos fortes e fortalezas brasileiras, passando pela
construção de novas aparelhagens, como o sistema “fire-control”, até o aprimoramento da
instrução técnica de oficiais e sargentos, o que se deu por meio dos cursos do Centro de
Instrução de Artilharia de Costa. Reconhecia, no entanto, que o tempo foi exíguo para que a
execução do que havia programado para a melhoria do estado da defesa de costa do Brasil, já
que parte dele havia sido consumido nas tarefas de demover “as dificuldades criadas pela
rotina, pela falta de patriotismo e desconhecimento dos problemas costeiros”. Antes de
concluir, agradecendo a todos os seus oficiais e à Missão Norte-Americana de Instrução,
concitou a todos a prosseguirem nos seus “nobilitantes desígnios” de bem servir à Pátria, à
sociedade a ao Exército, um “ponto de honra”, para todos os militares. Lembrou que na
“ordem, no trabalho, no patriotismo, na disciplina e lealdade” se assentava a eficiência do
Exército e que “as nobres qualidades do caráter” deveriam ser uma característica dos homens
de farda. Sendo assim, aqueles que não possuíam tal virtude, deveriam ser desprezados.
As palavras finais de José Pessoa como comandante da defesa da costa brasileira
tinham destinatários certos: os generais Góes Monteiro e Eurico Dutra. O entendimento das
causas que levaram à exoneração de Pessoa se dará no item a seguir.

9.2 A questão dos soldos, o levante comunista de 1935 e o Estado Novo

O comando de José Pessoa no Distrito de Artilharia de Costa não ficaria marcado


somente pelas mudanças estruturais que implementou nos fortes brasileiros e pelas críticas às
538

concessões estrangeiras. O seu envolvimento na trama política que tomou conta das Forças
Armadas e da Nação na década de 1930, e que resultou no golpe de novembro de 1937,
definiu o seu futuro dentro do Exército, afastando-o da possibilidade de ocupar os cargos
afetos ao alto comando, que definiam os rumos da Instituição, como a chefia do Estado-Maior
do Exército ou a pasta da Guerra.
McCann (2009, p. 459) aponta que uma “tempestade militar” agitou as relações das
Forças Armadas com o governo de Vargas a partir de 1934. Era perceptível a irritação que
tomava conta do corpo de oficiais em função da forma como o governo estava tratando o
aumento do soldo dos militares, um anseio que tomava conta das instituições desde julho de
1934, quando Vargas assinou um decreto legalizando as decisões do Governo Provisório,
antes da promulgação da nova Constituição Federal. À época o Exército havia sugerido que
Getúlio elevasse o soldo dos militares, o que não ocorreu, em função do corte de mais de 140
mil contos de réis feito nos orçamentos dos ministérios. Corria, ainda, o boato de que ele
havia prometido um aumento aos militares, a fim de conseguir apoio na eleição para
presidente. Na verdade, segundo o autor, a situação já estava tensa desde que o general João
Gomes da Fontoura, comandante da 1ª Brigada de Infantaria, na Vila Militar, havia sido
nomeado chefe de uma comissão formada por oficiais do Exército e da Marinha que redigiu
uma proposta salarial que foi apresentada ao Congresso Nacional. Se fosse aprovada, dobraria
os soldos os vencimentos de todos os militares. Entretanto, a ideia foi rechaçada pelos
congressistas. Com a notícia, segundo McCann, Gomes da Fontoura teria perdido as
estribeiras e ameaçado marchar com suas tropas diante do Congresso, a fim de trazer os
legisladores federais à razão.
Em setembro de 1934 a pressão por um aumento salarial generalizado para todas as
categorias do funcionalismo público federal aumentou sobre o governo. Aos ministros da
Guerra e da Marinha, Getúlio prometeu alocar 100 mil contos de réis para a compra de novos
armamentos e 19 mil contos de réis para o reajuste dos soldos. Diante da reivindicação dos
militares, surgiu a voz dissonante do general Pantaleão Pessoa, chefe da Casa Militar, que
disse estar admirado com a atitude dos generais, que, diante da situação precária em que
encontravam as unidades militares do Exército, com efetivos e armas inferiores ao prescrito,
pediam um aumento salarial. A situação disciplinar da Instituição começava a ser afetada.
Corria a notícia que, novamente, Gomes da Fontoura teria dito a oficiais que derrubaria o
governo, caso o aumento dos soldos não fosse aprovado. No ano seguinte, foi a vez de Góes
Monteiro se manifestar. Diante da insistência do chefe do EME, general Olímpio da Silveira,
para que a chefia do Exército tomasse uma atitude decisiva, em 9 de abril de 1935 o ministro
539

enviou a todos os generais do Exército uma mensagem codificada, a fim de consultá-los a


respeito da questão dos vencimentos, e convocou os generais do Rio de Janeiro para uma
reunião que seria realizada seis dias mais tarde, em seu gabinete. (McCANN, 2009, p. 460-
461)
Conforme veiculou a edição de 17 de abril do Correio da Manhã, a reunião do dia 15
teria sido secretíssima. No entanto, o jornal afirmou que havia rumores de que os ânimos de
alguns generais estavam exaltados, especialmente os de Guedes da Fontoura, que tornou a
insistir em uma demonstração de força militar em frente à Câmara dos Deputados, no dia da
votação das novas tabelas dos soldos. O periódico também veiculou que Góes comunicou aos
generais que renunciaria ao seu cargo, caso o reajuste dos vencimentos não fosse concedido.
A nota ainda informou que o general Olímpio da Silveira, chefe do Estado-Maior do Exército,
sugeriu que nenhum general da ativa assumisse a pasta da Guerra, caso Góes viesse a se
demitir. Apesar de as palavras de Olímpio não terem o caráter de ordem, nenhum dos
presentes o contradisse. Ao general João Gomes Ribeiro Filho, comandante da 1ª Região
Militar, coube a tarefa de redigir uma nota esclarecendo a finalidade da reunião. O
documento, publicado no Correio da Manhã, na verdade, nada esclareceu. De mais
significativo, reafirmou que o Exército se preocupava mais com o “lado moral da questão [dos
vencimentos dos militares]” e que, em caso algum, intencionava tomar “medidas de outra
natureza”.866
No dia 18 de abril, alguns jornais da Capital Federal reproduziram uma mensagem do
general João Gomes Ribeiro Filho, comandante da 1ª Região Militar, publicada no boletim
daquele órgão, a respeito das notícias veiculadas pelo Correio da Manhã, do dia anterior,
sobre a possibilidade de os militares se utilizarem da força para dar uma solução à questão dos
seus vencimentos. Nela, Gomes afirmou que as notícias veiculadas pela imprensa, de que
haveria uma reação armada para resolver a questão dos soldos, eram infundadas e tinham o
propósito de estabelecer um “dissídio grave e descabido” entre os militares e destes com o
meio civil. Já que a situação estava entregue às autoridades competentes, nada mais se tinha a
fazer, a não ser esperar. E ressaltou que a Nação continuava a “depositar a confiança no seu
Exército, tendo a certeza de que as armas que lhe foram confiadas estarão prontas para a
defesa de sua honra e integridade e nunca contra ela”. Finalizou reafirmando às “classes civis”

866
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 17 abr. 1935, p. 1.
540

que, quais fossem os interesses dos militares, jamais se transformariam em “janízaros


opressores” dos seus patrícios.867
Esses mesmos periódicos, logo após a transcrição das palavras de Ribeiro Filho,
reproduziram uma mensagem de Olímpio da Silveira, enviada ao ministro da Guerra. Nela, o
chefe do EME contradisse as notícias veiculadas pelo Correio da Manhã de 17 de abril a
respeito da sua participação da reunião dos generais com Góes Monteiro. O chefe do EME
ressaltou que a única declaração que havia feito no encontro foi a de que era e sempre seria
“pela ordem e pela disciplina, dentro da lei e do respeito aos poderes constitucionais”.
Entretanto, afirmou que considerava serem justas as aspirações da classe militar e que tinha a
certeza de que os poderes constituídos procurariam atendê-la com equidade, dentro das
possibilidades financeiras do País.868
José Pessoa não participou da reunião do dia 15 de abril. Dá a entender uma carta
enviada ao ministro da Guerra, em 11 de abril, que sequer havia sido consultado pessoalmente
a respeito da questão dos soldos. Nela, afirmou ter tomado conhecimento do assunto por
intermédio de seu chefe do Estado-Maior do DAC, tenente-coronel Agostinho dos Santos.
Santos teria sido chamado ao gabinete do chefe da pasta da Guerra, onde foi incumbido de
relatar a Pessoa o que estava ocorrendo, bem como obter a sua opinião a respeito do propósito
de Góes, de demitir-se do cargo de ministro.869
Na carta, Pessoa fez a sua exposição dos motivos que o levavam a não concordar com
a atitude de Góes e dos generais que tomavam uma posição a favor do ministro. Afirmou que
não desejava ser acusado, no futuro, de haver negligenciado os seus “compromissos de honra
para com a Nação”, até mesmo pelas funestas consequências que poderiam advir da atitude
assumida pelo ministro da Guerra e pelos demais generais que exerciam cargos da confiança
do chefe do Estado. Disse a Góes que a falta de discernimento desses oficiais poderia arrastar
o País à desordem e à anarquia, uma atitude própria de caudilhos e aventureiros. Entretanto,
acreditava que, tendo um nome a zelar e um passado a defender, não manchariam a honra de
uma “geração de generais que foi o orgulho da nacionalidade brasileira”. Ressaltou que
considerava um grave erro o modo inconveniente com que vinha sendo tratada a questão dos
vencimentos militares, sobretudo em um momento em que o País passava por uma grave crise

867
A Nação, Rio de Janeiro, 18 abr. 1935, p. 1; Correio da Manhã, 18 abr. 1935, p. 1; Jornal do Brasil, Rio de
Janeiro, 18 abr. 1935, p. 8.
868
Ibidem.
869
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1935.04.11, doc. 0781.
541

financeira. A insistência em uma nova tabela de vencimentos poderia se converter, no futuro,


em “uma arma perigosa contra a classe militar”.870
Pessoa deixou claro que não se opunha ao aumento dos vencimentos, desde que o
benefício fosse estendido a todos os funcionários da União, uma atitude que exigia “alto
espírito de equidade e coragem cívica” por parte daqueles que tinham a incumbência de
resolver a questão. Na sua opinião, o caso dos soldos dos militares deveria ser solucionado
com “discrição e serena energia”, a fim de que a classe não fosse exposta a “juízos
malévolos”. Afirmou a Góes que não almejava ser o seu sucessor na pasta da Guerra. Não por
ser solidário com os “gestos menos ponderados” dos demais generais, mas, porque não era
ambicioso o suficiente para se “prevalecer da situação do momento, a fim de desfrutar as
honrarias de tal posto” e por não querer arcar com o “acervo de problemas [...] dependentes de
solução” em meio a uma situação tumultuada para a qual não havia concorrido. Por fim,
ressaltou que desaprovava qualquer ato de violência que se viesse a praticar e pediu que todos
refletissem sobre a questão, já que não haviam sido esgotados todos os meios para resolvê-la.
No rodapé da página da carta, em post scriptum, pediu que ela fosse lida por todos os generais
que participariam do encontro de 15 de abril.871
Dois dias após ter recebido a carta de José Pessoa, Góes Monteiro a respondeu. Diante
dos argumentos apresentados pelo ministro da Guerra, Pessoa fez uma observação à lápis no
seu cabeçalho, indicando não ter tomado conhecimento de “nada mais baixo”. Góes negou ter
convocado a reunião com os generais. Afirmou que o encontro planejado foi uma “obra do
acaso” e expressou o seu descontentamento com os protelamentos que vinha sofrendo a
questão dos vencimentos dos militares, em torno da qual já se faziam sentir “torpes
explorações com o objetivo tácito de desprestigiar e dividir o Exército”. Também negou ter
pedido solidariedade com o seu gesto de afastar-se do cargo de ministro, no caso de não serem
atendidas “as justas aspirações dos militares”. No entendimento de Góes, tal atitude não se
caracterizava como uma quebra da disciplina, já que o cargo de ministro da Guerra era
político e de confiança. Ademais, já havia comunicado o presidente sobre o assunto em
foco.872
Góes considerou injusta a afirmação de Pessoa sobre os generais que declararam
serem solidários ao ministro da Guerra, quando os julgou negligentes em relação aos
compromissos de honra com a Nação. Ressaltou que foi justamente por “terem medido o peso

870
Ibidem.
871
Ibidem.
872
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1935.04.11, doc. 0782-4.
542

de suas responsabilidades”, que não aceitaram assistir passivamente a uma questão que já
havia se transformado em uma “questão de classe”, que seria o gérmen de uma cizânia, cujas
consequências seriam levar o Exército à indisciplina desenfreada e à anarquia, com reflexos
perniciosos na vida nacional. O ministro considerou a atitude dos generais “compatível com
os largos gestos e atitudes em prol da solidariedade e coesão da classe militar, que sempre
adotaram, nos momentos críticos, os generais das gerações passadas”. E considerou a atitude
de José Pessoa, de não querer arcar com os problemas da pasta da Guerra, quando declarou
não querer assumi-la, um sinal de fraqueza. Concluiu destacando a situação na qual o País se
encontrava não se devia à ação de somente uma pessoa, pois, somente “os deslocamentos da
coletividade e compatíveis com as ligações das partes do todo” poderiam influir nos destinos
da Nação. Fora desses princípios, as ações isoladas seriam perdidas e só valeriam como
intenções.873
Ser tachado de fraco atingiu os brios de Pessoa. Em 18 de abril, em uma carta curta,
ressaltou à Góes que o fato de não querer arcar com as responsabilidades da pasta da Guerra
não era um sinal de fraqueza, como ele pretendia fazer-lhe crer. O seu passado “de lutas e
dissabores sem contas”, que resultaram no “sacrifício” de um comando que havia se revelado
“defensor intemerato da moralidade, da justiça e da lei” era o penhor de sua consciência, que
jamais havia se enfraquecido diante das situações mais graves e árduas. E destacou que se, de
fato, a fraqueza era considerada por Góes uma de suas qualidades, restava-lhe a certeza de
que, com ela, mais de uma vez havia “arrestado desassombradamente a fortaleza dos homens”
e ainda esperava se opor, mesmo que isoladamente e em qualquer circunstância, “à ousadia
daqueles que não quiserem respeitar a lisura e a nobreza” das suas atitudes.874
Em sua autobiografia, José Pessoa deixa claro que considerava Góes Monteiro um
inimigo pessoal, que vivia à espreita, cheio de intenções maldosas. Ainda a respeito das
insinuações feitas por Góes sobre Pessoa não querer assumir a pasta da Guerra devido aos
problemas que ela trazia, este, em tom jocoso, indagou:

Mas que problemas difíceis tem o nosso Ministério da Guerra que não possam ser
enfrentados por qualquer dos nossos generais, quando até o general Góes Monteiro
já exerceu o cargo? Ele, que é conhecido entre os companheiros, como um oficial
preguiçoso e ineficiente, do qual não se conhece um só trabalho técnico, um plano
de operações ou de defesa... (ALBQUERQUE, 1953, Pasta IV, p. 47)

Segundo McCann (2009, p. 461), Getúlio chamou o motim articulado pelo alto
comando do Exército de “revolução branca”. O presidente também não teria aceitado o

873
Ibidem.
874
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1935.04.11, doc. 0785.
543

argumento de Góes de que o cargo de ministro, por ser político, não estava sujeito às normas
de obediência. Era evidente que as Forças Armadas não mantinham, como esperava Vargas, a
distância institucional das intrigas políticas da Nação. O imbróglio disciplinar gerado pela
crise dos soldos começou a criar ramificações políticas e regionais. No Rio Grande do Sul, um
grupo de oficiais do Batalhão de Engenharia de Cachoeira do Sul, encabeçado pelo capitão
Ciro Carvalho de Abreu875, que dias antes havia servido no Ministério da Guerra, enviou um
telegrama a Góes Monteiro em 18 de abril, criticando-o por não ter punido o general Guedes
da Fontoura e pelo seu posicionamento em relação à questão dos vencimentos dos militares.
Em sua autobiografia, José Pessoa faz a transcrição desse documento, cujo teor ganhou as
páginas dos jornais da Capital Federal. Nele, os oficiais que o assinaram lembraram a Góes
que haviam colaborado com a ascensão de Vargas em 1930, e ajudado a consolidá-lo em
1932. Por isso, achavam-se no dever de se manifestarem sobre a questão dos soldos. Para eles,
o conflito que havia se estabelecido entre o governo e as autoridades militares davam margem
à exploração de politiqueiros contra os interesses da ordem que prometeram implantar na
Revolução de 1930. Consideraram arrogante e inoportuna a solicitação feita por alguns
oficiais em nome do Exército para o reajuste dos vencimentos. Criticaram a complacência de
Góes com a atitude pública de Guedes da Fontoura, a qual consideraram um desvirtuamento
moral do ministro em relação à verdadeira missão do Exército, que deveria ser a de garantir a
autoridade e a liberdade do Congresso legislar sobre os problemas do País. Ressaltaram,
ainda, que os interesses das classes militares jamais poderiam de chocar com os da Nação.876
As cobranças feitas a Góes Monteiro, entretanto, não ficaram restritas somente aos
oficiais da guarnição de Cachoeira do Sul. Os periódicos do Rio de Janeiro destacaram, ainda,
que havia uma mobilização dos oficiais da 3ª Região Militar como um todo877 para que um
telegrama semelhante ao que fora produzido no Batalhão de Engenharia fosse enviado ao
presidente da República. A exemplo dos colegas de Cachoeira do Sul, acreditavam que o
Exército não deveria se vender e que estavam defendendo a honra da Instituição.878

875
Segundo McCann (2009, p. 462), o capitão Ciro Carvalho de Abreu era cunhado do general Pantaleão Pessoa,
chefe da Casa Militar do governo Vargas. Antes de viajar para o Sul, Ciro havia declarado a sua intenção a
Pantaleão, que o advertiu quanto às consequências do ato de indisciplina que iria praticar. Entretanto, como
aponta o autor, em suas memórias o general Pantaleão teria declarado que, em seu íntimo, o desejo era ser
tenente novamente, para poder acompanhar Ciro na sua resolução.
876
Albuquerque, 1953, Pasta IV, p. 52; Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 19 abr. 1935, p. 4; Jornal do Brasil,
Rio de Janeiro, 19 abr. 1935, p. 7; Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 19 abr. 1935, p. 6; Diário de Notícias,
Rio de Janeiro, 20 abr. 1935, p. 1.
877
A 3ª Região Militar abrangia as unidades militares do Rio Grande do Sul.
878
Albuquerque, 1953, Pasta IV, p. 52; Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 19 abr. 1935, p. 4; Jornal do Brasil,
Rio de Janeiro, 19 abr. 1935, p. 7; Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 19 abr. 1935, p. 6; Diário de Notícias,
Rio de Janeiro, 20 abr. 1935, p. 1.
544

Góes considerou o recado recebido dos oficiais de Engenharia ultrajante e exigiu que o
comandante da 3ª Região Militar, general César Augusto Parga Rodrigues, punisse os
insubordinados. A pedido de Pantaleão Pessoa e de Vargas, o governador do Rio Grande do
Sul, Flores da Cunha, procurava acalmar os ânimos dos militares gaúchos e evitar, assim, uma
guerra civil. Por outro lado, na Capital Federal, alguns generais oponentes do regime, como
Klinger e Euclides Figueiredo, atiçavam Guedes da Fontoura, criando uma cisão entre os
oficiais do Exército. Apesar dos militares da Vila Militar estarem divididos, Vargas não
acreditava em um levante, já que Fontoura não tinha o apoio total dos companheiros de farda.
O presidente também achava que não era o momento de criticar publicamente Góes, mas
aconselhou Flores da Cunha a estar pronto e unido ao governo. (McCANN, 2009, p. 463)
Aconselhado pelo general João Gomes, comandante da 1ª RM, por Filinto Müller,
chefe de polícia do Distrito Federal, e por Vicente Rao, ministro da Justiça, Vargas promoveu
algumas mudanças na cúpula do Exército, logo após a Semana Santa de 1935, a fim de
intensificar a disciplina na Instituição. Substituiu Guedes da Fontoura, na Vila Militar, por
Eurico Dutra. Fontoura recusou-se a realizar a passagem de comando, tendo, Dutra,
praticamente se apossado do quartel-general da 1ª Brigada de Infantaria. Em maio, Vargas
promoveu Dutra a general-de-divisão e o pôs no comando da 1ª Região Militar, no lugar do
general João Gomes, que assumiu o Ministério da Guerra no lugar de Góes Monteiro, que
permaneceu provisoriamente sem função. (McCANN, 2009, p. 463-464)
José Pessoa recorda-se dessa época como “dias de perturbação moral”, em que o
Exército fora submetido a uma situação “verdadeiramente humilhante, vergonhosa,
intranquilizadora e infernal”. Destaca que as entrevistas diárias concedidas por Góes Monteiro
aos jornais cariocas constituíam-se em uma “campanha demagógica de desmoralização contra
tudo e contra todos, a provocar o desassossego geral”. Nos tempos de Góes, segundo ele, o
pátio do Ministério da Guerra era uma verdadeira “feira livre, onde fervilhava, nas horas de
expediente, uma elite que variava do jogador do bicho aos contraventores de crimes comuns,
do fascismo, do bolchevismo, tudo à guisa da popularidade encomendada ao ministro”. A
demissão de Góes, para Pessoa, causou alívio e satisfação à classe militar e à Nação. Dessa
forma, voltaram a calma de espírito, a disciplina no Exército e a tranquilidade no País.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta IV, p. 53-54)
Mesmo após o general João Gomes ter assumido a pasta da Guerra, José Pessoa
alegou ter encontrado atos de “sabotagem” do antigo ministro contra ele. Em uma carta
545

endereçada a Gomes, em 18 de junho de 1935, Pessoa mostrou a sua contrariedade com o fato
de Góes Monteiro, pouco antes de ser substituído, por meio de um aviso reservado, ter dado
ordem expressas ao Departamento de Pessoa do Exército para não classificar aspirantes da
turma de 1934 nas unidades de Artilharia de Costa. Ora, estas unidades estavam sob o
comando de Pessoa e os aspirantes de 1934 faziam parte da turma que entrou em greve no
final do período em que dirigiu a Escola Militar do Realengo. No documento, ele deixou claro
ao ministro da Guerra que não via incompatibilidade alguma em esses aspirantes servirem sob
o seu comando e que tudo tratava-se de uma intriga de Góes. Além do mais, segundo ele, não
foi a greve dos cadetes que o levou a afastar-se da Escola Militar e, sim, os atos injuriosos de
Góes Monteiro contra a dignidade da coletividade daquela instituição de ensino. O ministro
João Gomes acabou desfazendo o ato de Góes. No dia 25 de janeiro de 1944, a turma de 1934
festejou os dez anos de sua formatura com um almoço no Automóvel Clube do Rio de
Janeiro, conforme noticiou a edição do jornal Diário Carioca daquela data. Na ocasião, José
Pessoa foi o convidado de honra da turma e presidiu o encontro. Para ele, essa era a prova de
que não havia ficado ressentimentos entre as partes. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta IV, p.
54-58)
As trocas de funções promovidas por Vargas afastaram as ameaças de um golpe
militar, mas não acalmaram os ânimos dos militares e o espírito de indisciplina da tropa. A
questão dos soldos ainda precisava ser resolvida, mesmo diante da situação financeira
periclitante em que o País se encontrava. A solução encontrada pelo Congresso foi conceder a
todo o funcionalismo público uma gratificação mensal, a ser adicionada aos vencimentos.
Vargas vetou a parte do projeto de lei referente aos civis e manteve a dos militares, o que
causou a revolta dos congressistas, que nada puderam fazer, já que se encontravam em fim de
legislatura. Qualquer mudança ficaria por conta dos deputados recém-eleitos. O déficit
causado pela gratificação impactou severamente o Exército, que parou de incorporar recrutas
em suas fileiras. Os sargentos que haviam sido promovidos a tenentes em cargos
comissionados, após a Revolução de 1930, também tiveram as suas promoções a capitães
barradas e gradativamente passaram a ser reformados. (McCANN, 2009, p. 464)
Como lembra McCann (2009, p. 468), a troca de comandantes realizada por Getúlio
não conseguiu conter, a curto prazo, a indisciplina no Exército. Uma coisa era substituí-los,
outra era conseguir que os subordinados os obedecessem. O agitado ano de 1935 foi marcado
pelas manifestações dos integralistas e da Aliança Nacional Libertadora, sendo comum que
militares do Exército e da Marinha participassem ativamente desses atos, o que levou o
governo a aplicar contra os oficiais neles envolvidos a Lei de Segurança Nacional. Um
546

exemplo claro do desafio ao governo foi a eleição de Guedes da Fontoura à presidência do


Clube Militar, em maio daquele ano. O não cumprimento do Plano de Reorganização do
Exército de 1934 pelo governo, o corte do número de soldados do Exército e a perspectiva de
redução do orçamento da Instituição para 1936 agitaram a caserna. Em outubro, uma
assembleia de protesto contra a redução de praças foi realizada no Clube Militar. Em resposta
ao ato, o ministro João Gomes mandou o chefe de polícia do Distrito Federal investigar a
identidade dos agitadores e agir com rigor contra as manifestações não autorizadas. O chefe
da pasta da Guerra alegou que assuntos atinentes ao Estado-Maior do Exército não deveriam
ser discutidos em público, já que eram atinentes à Segurança Nacional. A ação firme de
Gomes coibiu os protestos clandestinos e arrefeceu o ânimo dos oficiais mais exaltados.
Entretanto, poucas semanas depois o Exército seria sacudido pelos levantes comunistas em
seus quartéis.
As atividades comunistas nas fileiras do Exército já eram vigiadas pela Instituição há
algum tempo, como aponta McCann (2009, p. 475). Segundo o autor, a retórica comunista
sobre as classes trabalhadoras levou os altos escalões do Exército a considerarem esse
movimento mais perigoso do que o fascismo do integralismo brasileiro. Para os militares, este
ainda era capaz de manter a ordem social existente, ao passo que o comunismo tinha por
objetivo invertê-la. McCann (2009, p. 478) lembra que os oficiais brasileiros toleravam e
atuavam segundo certas normas quando estavam envolvidos em uma rebelião. Aceitava-se até
agir contra as normas regulamentares para não trair companheiros que atuassem em
conspirações políticas. Entretanto, a insurreição ideológica ainda era desconhecida e
considerada uma importação estrangeira malvista. Trair a pátria por uma nação estrangeira
não tinha perdão, e os estrangeiros que ameaçassem o País despertavam a xenofobia latente
sob a cordialidade brasileira.
A ação comunista já se fazia sentir nas Forças Armadas desde 1929, com a
organização do Comitê Militar Revolucionário e do Comitê Antimilitar, órgãos ligados ao
Partido Comunista Brasileiro e que tinha a responsabilidade de estreitar o contato com os
oficiais e praças do Exército e da Marinha. Paralelamente a eles, ocorria, também, a ação da
Juventude Comunista junto aos alunos das escolas militares, assunto já abordado nos
capítulos anteriores. Como lembra Vianna (2007, p. 76), o desencanto com as promessas não
cumpridas pela Revolução de 1930 e o entusiasmo com o movimento tenentista e a Coluna
Prestes foram fatores que criaram um ambiente propício à receptividade do trabalho do PCB
nas Forças Armadas. O Partido concitava principalmente os praças a não se iludirem e a lutar
juntamente com os operários, marinheiros, camponeses e soldados contra a “canalha do
547

galão”. Segundo a autora, nos anos de trabalho junto às Forças Armadas, o PCB conseguiu
construir bases a manter contatos em quase todas as unidades militares, tanto no Exército
como na Marinha. Porém, os resultados eram inexpressivo e resultavam em pequenas e
isoladas conquistas ou eram reprimidas violentamente.
No entanto, como avalia Vianna (2007, p. 84), o trabalho do Comitê Antimilitar esteve
sempre ameaçado pelo unilateralismo em sua avaliação, uma ideia da qual também comunga
McCann (2009, p. 480). Segundo a autora, por suas características estanques e conspirativas,
tanto as informações provenientes das unidades militares quanto a sua transmissão à direção
do PCB ficavam nas mãos de poucas pessoas que, em geral, faziam julgamentos tão otimistas
quanto subjetivos da situação. Qualquer descontentamento em quartéis ou navios era tomado
como uma ação revolucionária de toda a guarnição. As fantasias revolucionárias do PCB
alimentaram na direção nacional a falsa ideia de que havia uma grande desagregação nas
Forças Armadas e que seria fácil mobilizar as unidades militares para uma revolução por ela
comandada. Para Vianna (2007, p. 84-85), o surgimento da ANL, em março de 1935, a adesão
que recebeu de grande número de militares, a chegada de Prestes ao Brasil e seu
envolvimento na luta revolucionária consolidaram na direção do PCB a opinião de que
bastaria uma ordem sua, respaldada por Prestes, para que todos a seguissem – um erro de
avaliação que custou caro ao Partido.
A ANL acabaria tendo vida curta. Em 5 de julho de 1935, no aniversário do
Movimento Tenentista de 1922, Prestes fez uma proclamação no Forte Copacabana, por meio
da qual conclamou as massas a organizarem-se para a guerra contra o governo de Vargas e
sob o brado de “todo poder à Aliança Nacional Libertadora”. Seis dias depois, invocando a
Lei de Segurança Nacional, Vargas fechou a ANL. McCann (2009, p. 479) aponta que esse
instrumento legal assinado em abril daquele ano foi usado intensamente pelo governo contra
associações ou juntas de toda a espécie que visassem à subversão da ordem política e social,
bem como contra os militares que participassem de atos subversivos ou que pertencessem a
qualquer um desses grupos. Como lembra o autor, a Lei de Segurança nunca foi aceita
totalmente pelos oficiais das Forças Armadas, que a consideravam insultante e desnecessária,
por mencioná-los com destaque em vários dispositivos que enumeravam os crimes contra a
Nação.
O erro de julgamento de Prestes e da direção nacional do PCB precipitou o levante
comunista nos quarteis do Exército. Acreditavam já possuir adesões suficientes entre os
militares para darem início à revolta. Estavam convencidos que a insatisfação com os soldos e
a redução dos efetivos da Instituição eram motivos suficientes para conseguirem novos
548

adeptos. Além disso, com a dispensa de sargentos e cabos, em função dos cortes
orçamentários, Prestes temia perder seus homens-chave. Sendo assim, ficou acertado que a
revolução se daria em novembro, na madrugada do dia 27, em todo o território nacional.
Entretanto, os erros de julgamento apontados por Vianna (2007) e McCann (2009) e a
total falta de coordenação entra as ações malogrou o levante, que iniciou dias antes do
previsto em algumas guarnições militares do Nordeste. Como aponta McCann (2009, p. 480),
em vez de uma explosão conjunta, o que se viu foi um “cordão de estalinhos de festim”
explodindo em intervalos em Natal, Recife e Rio de Janeiro. Na verdade, segundo o autor, os
incidentes do Nordeste estavam mais ligados a assuntos do próprio Exército do que ao
comunismo ou aos planos de Prestes. Após o insucesso dos levantes de Natal, em 23 de
novembro, e de Recife, em 24 de novembro, que foram prontamente reprimidos por tropas
federais dos respectivos estados apoiadas por tropas de Infantaria do Alagoas e da polícia
paraibana, foi a vez dos quarteis da Capital Federal levantarem-se contra o governo de
Vargas.
Na madrugada de 27 de novembro eclodiram revoltas no 3º Regimento de Infantaria,
na Praia Vermelha, e na Escola de Aviação Militar, no Campo dos Afonsos. Se conseguissem
decolar os aviões da Escola de Aviação, os rebeldes poderiam ter causado sérios danos a alvos
militares no Rio de Janeiro. Entretanto, não eram numerosos a ponto de fazer frente às tropas
da Vila Militar, que, às 7 horas da manhã já haviam controlado a situação. McCann (2009, p.
484) aponta que, ironicamente, a Escola Militar fez parte do efetivo militar que debelou o
levante no Campo dos Afonsos. Tendo à frente o seu comandante, coronel Mascarenhas de
Moraes, uma tropa formada por cerca de mil cadetes ficou encarregada de realizar o controle
dos acessos à estrada Rio-São Paulo, chegando a capturar alguns revoltosos em fuga. Como
ressalta o autor, apesar do papel da Escola Militar ter sido secundário nos acontecimentos de
27 de novembro, sua ação foi importante pelo que não aconteceu: pela primeira vez na
história da instituição de ensino militar, os cadetes saíram do seu quartel para defender a
ordem e as instituições nacionais.
Na Praia Vermelha a revolta iniciou às 2:50 horas do dia 27 de novembro, no 3º
Regimento de Infantaria, um dos piores locais para se iniciar uma rebelião, do ponto de vista
tático. Encravado em meio aos morros da Babilônia, da Urca e do Pão de Açúcar, e tendo ao
fundo a baía da Guanabara, era praticamente impossível às tropas revoltosas ocupar uma
posição de ataque ou recuar. Como destaca McCann (2009, p. 483), na estratégia mal pensada
dos líderes a unidade militar seria dominada rapidamente e, a partir daquele local, uma
investida seria realizada contra o Palácio da Guanabara, para prender Vargas.
549

Assim que ficou sabendo do levante no 3º RI, o general Dutra, comandante da 1ª RM,
deu ordem para que as tropas do Batalhão de Guardas (BG), sob o comando do general
Francisco José da Silva Júnior ocupassem o local. Por volta das 3:45 da manhã, a companhia
de metralhadoras pesadas do BG iniciou uma fuzilaria constante contra as instalações do
Regimento. No interior do aquartelamento, os revoltosos atiravam, através do pátio, contra as
companhias que resistiam ao levante. Dutra deu ordem para que tropas do 1º Regimento de
Cavalaria Divisionária (RCD), do 2º Regimento de Infantaria e do 1º Grupo de Obuses (GO),
da Vila Militar, do 2º Batalhão de Caçadores (BC), de Niterói, e do 1º Batalhão de Caçadores,
de Petrópolis, permanecessem de prontidão no Quartel-General da 1ª RM. Além das tropas do
Exército, o 2º Batalhão de Polícia Militar (BPM) marchou para a Praia Vermelha, onde
aguardou a ordem para emprego na altura da Rua da Passagem, em Botafogo. Por volta das 8
horas, as baterias de artilharia do 1º GO iniciaram, a partir do terreno do Iate Clube, o
bombardeio do prédio do 3º RI, pondo-o em chamas. Simultaneamente, dois aviões da
Aviação Militar metralharam o aquartelamento e bombas de gás lacrimogênio foram lançadas
sobre os revoltosos pelo 2º BPM. Sufocados pelo incêndio e causticados pelos bombardeios
do 1º GO, ataques da aviação e investidas das tropas de Infantaria, os revoltosos não
conseguiram manter o seu ponto de defesa e, às 13:20 horas, renderam-se às tropas do
governo. Sob a escolta do 2º BC, os prisioneiros foram levados à Casa de Detenção da Capital
Federal. Tanto Dutra como o ministro da Guerra, João Gomes, acompanharam in loco as
ações que reprimiram o levante no 3º RI. Dutra, inclusive, auxiliou o posicionamento das
metralhadoras do Batalhão de Guardas. Vargas chegou a deslocar-se para a Praia Vermelha ao
raiar do dia 27. Mas, diante do tiroteio cerrado não conseguiu chegar ao posto de comando de
Dutra, rumando, então, para o Campo dos Afonsos, a fim de verificar a situação do levante na
Escola de Aviação.879
As unidades militares de Artilharia de Costa da 1ª RM, sob o comando de José Pessoa,
também participaram das ações que debelaram o levante comunista de 27 de novembro.
Conforme ele relatou em suas memórias, antes mesmo das ameaças de um levante comunista
tomarem forma, havia dado ordem para que as suas unidades subordinadas confeccionassem
um plano de defesa imediata para os fortes e fortalezas da 1ª Região Militar. Sendo assim,
quando a revolta teve início no Nordeste, os quarteis do DAC já estavam em alerta quanto a
uma possível sublevação na Capital Federal. Na madrugada do dia 27, ao saber das ações
revoltosas no quartel do 3º RI, Pessoa deu ordem para que um posto de comando do Distrito

879
Informações retiradas do relato das operações feito pelo general Eurico Dutra e publicado no Boletim Interno
da 1ª Região Militar, de 11 de dezembro de 1935.
550

de Costa fosse montado no Forte Duque de Caxias. De lá, acompanhou, juntamente com seu
Estado-Maior, grande parte do desenrolar dos acontecimentos daquele dia. Com as tropas da
4ª Bateria de Artilharia de Costa (Forte Duque de Caxias) e do 2º Grupo de Artilharia de
Costa (Fortaleza de São João) mandou montar posições de defesa nos morros da Babilônia e
do Nazareth, respectivamente. Do morro da Babilônia, também era possível que as armas
automáticas da 4ª BIAC direcionassem seus fogos para o pátio interno e para a retaguarda das
edificações do 3º RI. Também ficou ao encargo das tropas do DAC a segurança da Avenida
Atlântica. Para isso, Pessoa recebeu o apoio de uma companhia de Infantaria do 2º BC. Uma
lancha da Fortaleza de São João foi guarnecida com metralhadoras, para fazer o
patrulhamento e o reconhecimento das adjacências à Praia Vermelha, a fim de se evitar que os
sublevados recebessem qualquer tipo de socorro pelo mar. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta V,
p. 14-18)
Pessoa narra, ainda, que, após coordenar os esforços das tropas sob o seu comando,
dirigiu-se ao posto de comando da 1ª RM, estabelecido na Avenida Portugal, na Urca.
Daquele ponto acompanhou o comandante da 1ª RM e o ministro da Guerra na investida ao 3º
RI, ocasião em que presenciou a morte do capitão João Ribeiro Pinheiro, ajudante-de-ordens
de Dutra. Também acompanhou a entrada de Dutra e do comandante da 2ª Brigada de
Infantaria no aquartelamento do 3º RI e a rendição dos militares revoltosos. Em relação à ação
das tropas sob o seu comando, rebeldes em fuga, juntamente com seus armamentos
equipamentos, foram apreendidos pelas guarnições que ocupavam os morros da Babilônia e
Nazareth após uma patrulha de limpeza na região. No dia 9 de dezembro, José Pessoa
desmobilizou o PC do DAC e as tropas sob o seu comando retornaram aos seus quartéis.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta V, p. 18-19)
Após a desmobilização, Pessoa mandou publicar no boletim do DAC um extenso
elogio a todos os oficiais e praças que participaram das ações do dia 27 de novembro.
Nominalmente, citou-os um a um, inclusive o cabo José Joaquim Rodrigues, seu motorista,
uma atitude rara para os comandantes da época. Igualmente, foi elogiado pelo comandante da
1ª RM, nos seguintes termos:

Ao general José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, comandante do DAC da 1ª RM,


cujas brilhantes qualidades de chefe perfeitamente compenetrado dos seus onerosos
deveres e de suas altas responsabilidades, se confirmaram na coadjuvação preciosa
prestada antes e depois da insurreição e pela atuação inteligente e acertada do dia 27,
revelada na valiosa cooperação das fortalezas de seu mando durante o período de
ataque aos amotinados do 3º RI, atuação que permitiu a este comando despreocupar-
551

se de providências a respeito dessas forças, firme, como acertadamente estava, na


iniciativa e no discernimento do valoroso chefe da artilharia costeira. 880

Os levantes de novembro de 1935 levaram o Congresso Nacional a aprovar o Estado


de Sítio e a censura à imprensa. No mês seguinte as casas legislativas concordaram em
ampliar os poderes excepcionais do governo decretando estado de guerra por noventa dias, o
qual seria renovado continuamente nos meses seguintes. O efeito concreto dessas medidas foi
a brutal repressão que levou às cadeias do Distrito Federal membros da ANL, comunistas,
simpatizantes e inocentes que não haviam participado dos movimentos rebeldes. De tão
abarrotados que ficaram os presídios, navios foram transformados em verdadeiras cadeias
flutuantes na Baía da Guanabara. No ano seguinte, a repressão chegou ao Congresso com a
suspensão da imunidade parlamentar dos congressistas, para permitir a prisão de deputados e
senadores supostamente apoiadores da causa comunista. A tensão foi maior na cidade do Rio
de Janeiro, onde os agentes da polícia, capitaneados por Filinto Müller, revistavam
incansavelmente as casas de alguns bairros cariocas, à procura de Prestes e de seus
companheiros da direção nacional do PCB. (McCANN, 2009, p. 487)
O general Gomes, chefe da pasta da Guerra, defendia que a repressão deveria revestir-
se da máxima violência possível. Justificava a sua atitude no fato de as organizações militares
que se revoltaram em 27 de novembro, o 3º RI e a Escola de Aviação, serem consideradas
unidades de elite do Exército, nas quais a Instituição havia investido amplos recursos para que
cumprissem a sua missão. Além do mais, era constrangedor para o Exército, que deveria estar
a salvo da ameaça comunista, tivesse servido de meio ao levante. Nesse contexto, Gomes
reuniu em seu gabinete, no dia 3 de dezembro, todos os generais do Rio de Janeiro, a fim de
que fosse discutida, em conjunto, a situação em que o País se encontrava 881. Também
pretendia colher as opiniões dos chefes militares presentes a respeito das leis repressivas
vigentes à época. O ministro entendia que a legislação vigente era ineficaz para a punição dos
militares envolvidos em rebeliões e levantes contra o governo. Nas suas palavras, as leis
cuidavam mais de “premiar os delinquentes de possíveis injustiças e vinganças [...] que de
punir rigorosamente os culpados e criminosos”. Gomes desejava, na verdade, a expulsão

880
Boletim Interno da 1ª Região Militar, de 11 de dezembro de 1935.
881
Conforme a Ata da reunião, estiveram presentes os generais-de-divisão: João Gomes Ribeiro Filho, Firmino
Antônio Borba, Pantaleão Telles Ferreira, Valdomiro Castilho de Lima, Góes Monteiro, Constâncio Deschamps
Cavalcanti, Eurico Dutra, Pantaleão Pessoa; e os generais-de-brigada: Raimundo Rodrigues Barbosa, Colatino
Marques, João Guedes da Fontoura, Francisco José da Silva Júnior, Emílio Lúcio Esteves, José Pessoa, José
Maria de Vasconcelos, Júlio Caetano Horta Barbosa, Pedro Alcântara Cavalcanti de Albuquerque, João Cândido
Castro Júnior, José Antônio Coelho Netto, Francisco José Pinto, João Joaquim de Andrade, Estevão Leitão de
Carvalho, Newton de Andrade Cavalcanti, Álvaro Carlos Tourinho e Felipe Antônio Xavier Barros. (SILVA,
1970, p. 88)
552

imediata da Instituição de todos os militares envolvidos na revolta. Entendia que o julgamento


dos envolvidos no levante comunista seria muito demorado e, por isso, concitava os presentes
a buscarem medidas mais imediatas e severas, inclusive como uma forma de proteger o
governo e o Exército contra futuras subversões. (SILVA, 1970, p. 88)
Os generais presentes, de uma maneira geral, entenderam que o julgamento dos
envolvidos deveria seguir o que previa a legislação vigente no País e que, se houvesse a
necessidade de leis mais severas ou de uma lei de exceção, que fosse a Constituição
emendada. José Pessoa se manifestou contrário às opiniões dadas pelos colegas. Disse não
conceber que generais estivessem reunidos com o fim de discutirem a legislação vigente, ou
uma nova. Para ele, esse assunto deveria ser da alçada exclusiva dos juristas e não de generais
do Exército. O que justificava o encontro que transcorria, segundo ele, era o apoio moral e
material que os chefes militares presentes deveriam hipotecar ao ministro da Guerra, o qual
deveria ser o único representante da Instituição capaz de agir junto aos poderes competentes
na busca de uma punição mais severa aos crimes praticados pelos militares. (SILVA, 1970, p.
90-91)
Góes Monteiro, que, mesmo sem função, encontrava-se presente, apresentou por
escrito a sua posição a respeito dos acontecimentos. Preocupava-o o fato de o Exército
apresentar-se ao País como uma instituição que não estivesse unida. A expulsão do serviço
militar era uma questão que afetava diretamente o status dos oficiais perante as leis civil e
militar e, de certo modo, as normas dos governos passados haviam afetado a todos os
presentes na reunião. Em meio aos debates acerca das causas da revolta, Góes culpou a
liberalidade da Constituição de 1934 que havia dado aos soldados o direito ao voto, abrindo as
portas da caserna ao contato político e às ideias vindas do exterior. (McCANN, 2009, p. 489-
491; SILVA, 1970, p. 92-97) Na verdade, por anos Góes havia se empenhado na redução das
hegemonias regionais. Pare ele os políticos brasileiros tramavam contra o Exército a fim de
manterem a sua influência e poder pessoal. No relatório do Ministério da Guerra, do ano de
1934, que apresentou ao presidente, já havia afirmado que a grandeza do Brasil deveria
assentar-se “em base sólida”. Para realizar essa “magna tarefa”, que pedia os esforços de
todos os “bons brasileiros”, um dos primeiros cuidados deveria ser com o Exército, que tinha
que ser “imunizado contra as seduções do partidarismo”.
Segundo McCann (2009, p. 491), o voto de Góes intimidou alguns colegas presentes à
reunião, ainda mais porque ele apresentara-se com um memorando pronto. Aconselhou os
colegas a apoiarem o ministro da Guerra, pois mais acontecimentos como o que havia
ocorrido poderiam levar o País à desintegração nacional e à subversão social. Tais ameaças só
553

existiam porque o Exército, espinha dorsal da Nação, encontrava-se em condição fatal.


Entretanto, para se resolver o problema não bastava somente punir os rebeldes, mas, também,
dar uma solução aos problemas institucionais do País. Para Góes, o Brasil estava doente e sua
doença infectara o Exército. Os tratamentos sugeridos por ele foram esboçados em três linhas
de ação possíveis: 1) reformar a Constituição de 1934, o que seria uma solução temporária; 2)
manter a Constituição e enfrentar a anarquia em que se encontrava a Nação; e 3) dar um golpe
de Estado, abolir a Constituição e impor o governo de uma junta até que uma nova
Constituição fosse promulgada. No entanto, considerou esta última linha de ação a mais
inadequada para o Exército, já que havia o risco de dividir as Forças Armadas. Curiosamente,
esse foi o caminho que percorreria dois anos mais tarde. (SILVA, 1970, p. 95-96)
Apesar das considerações de Góes, no mesmo dia da reunião Getúlio e Gomes
assinaram um decreto dissolvendo algumas unidades militares, dentre eles o 3º RI, e criando
outras. Com essa medida, aliada à expulsão dos oficiais rebeldes, com a perda de todas as
patentes e benefícios, esperavam eliminar a tolerância com as rebeliões que sobrevivera no
Exército desde os governos passados. Ao longo do mês de dezembro, após intensa
deliberação, o Congresso Nacional aprovou três emendas à Constituição de 1934882, que
atendiam, em grande parte, os anseios dos militares. As mudanças realizadas na carta magna
da Nação abriram as portas do País à criação de um forte sistema de censura e de um Tribunal
de Segurança Nacional. Também houve o recrudescimento da Lei de Segurança Nacional. No
dia 21, o estado de sítio foi prorrogado, podendo o presidente considerá-lo equivalente ao
estado de guerra. Dez dias depois, Vargas assinou uma lei cancelado as comissões dos oficiais
rebeldes. Essa lei também tornava crime a filiação de oficiais e sargentos a partidos
subversivos ou que pregassem a violência contra o governo ou a sociedade. (McCANN, 2009,
p. 491-492)
Nos meses que se seguiram, uma verdadeira tempestade anticomunista sacudiu o
governo e tomou conta do País, que politicamente acabou sendo empurrado mais para a
direita. As manchetes veementes de grande parte da imprensa do Rio de Janeiro, a favor das
ações do governo na repressão aos levantes comunistas, levaram Vargas a convidar os
diretores de jornais e revistas da Capital Federal e os correspondentes dos jornais dos estados

882
De acordo com o Decreto Legislativo nº 6, de 18 de dezembro de 1935: a emenda nº 1 autorizava o presidente
da República a declarar a “comoção intestina grave, com finalidades subversivas das instituições políticas e
sociais, equiparada ao estado de guerra, em qualquer parte do território nacional”; a nº 2 estabelecia a perda de
patente e posto, sem o prejuízo de outras penalidades, dos oficiais da ativa, da reserva ou reformados que
praticassem ato ou participassem de movimento subversivo das instituições políticas e sociais; e a nº 3, à
semelhança da nº 2, previa a demissão dos funcionários públicos civis, ativos ou inativos, reformados que
praticassem ato ou participassem de movimento subversivo das instituições políticas e sociais.
554

e do exterior para uma reunião no Palácio do Catete, em 9 de janeiro de 1936. Naquela


ocasião o presidente agradeceu-lhes a colaboração que a imprensa carioca vinha dando ao
governo nas providências que havia tomado para reprimir os golpes comunistas no Brasil.
Vargas destacou não só a “forma vigorosa, brilhante, sincera e altamente patriótica” com que
a imprensa estava colaborando com o seu governo, mas, também, o modo como os jornais do
Rio de Janeiro estavam mantendo a população informada a respeito dos acontecimentos,
mantendo, assim, o “espírito público num ambiente de grande receptividade” às medidas de
repressão adotadas contra o comunismo. Em agradecimento às palavras de Vargas, o
jornalista Herbert Moses, presidente da Associação Brasileira de Imprensa, destacou que as
campanhas de apoio ao governo que estavam sendo realizadas pelos veículos de imprensa
brasileiros eram espontâneas e movidas “apenas por princípios de alto patriotismo”, ficando,
dessa maneira, provado que o jornalismo e o governo podiam se encontrar perfeitamente
quando se tratasse “de uma campanha pelo Brasil”. Em primeira mão, Getúlio anunciou aos
jornalistas presentes que o governo iria criar uma comissão encarregada de proceder às
investigações e organizar listas de todos “os elementos comunistas” que exerciam funções
públicas ou em estabelecimentos de créditos e instituições particulares ligas ao governo.
Segundo Vargas, o governo não se envolveria diretamente nos trabalhos da comissão, para
manter a imparcialidade dos casos apurados. Também anunciou os membros que a
comporiam: o deputado gaúcho Adalberto Corrêa, do Partido Republicano Rio-Grandense,
aliado de Vargas; o contra-almirante Dario Paes Leme de Castro e o general José Pessoa.883
No mesmo dia em que Getúlio reuniu os jornalistas no Catete, o ministro da Justiça,
Vicente Rao, estabeleceu as instruções a serem observadas pela Comissão de Repressão ao
Comunismo, que visavam cumprir o que previam as emendas nº 2 e 3 à Constituição de 1934,
a Lei nº 38 (Lei de Segurança Nacional), de 4 de abril de 1935, e a Lei nº 136, de 14 de
dezembro de 1935, que recrudesceu a Lei de Segurança Nacional. O artigo 1º do documento
expedido por Rao definia as competências da Comissão e o 2º o seu propósito:

Art. 1º - A Comissão investigará, por forma sumária, sobre a participação em atos ou


crimes contra as instituições políticas e sociais: a) de funcionários civis da União ou
do Distrito Federal; b) de militares; c) de diretores, empregados ou operários de
empresas, institutos ou serviços mantidos pela União ou pela Municipalidade, ou por
qualquer deles subvencionados; d) de profissionais da Marinha Mercante Nacional;
e) de empregados de empresas particulares, inclusive os das concessionárias de
serviço público ou institutos de crédito; f) de professores de estabelecimentos
particulares de ensino equiparados ou não.
Art. 2º - As investigações terão por fim propor ao governo, sob a forma de parecer, a
instauração de processo administrativo ou judiciário ou a aplicação de outras penas

883
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 10 jan. 1936, p. 1 e 3.
555

previstas por lei e que incidam na competência do Poder Executivo (emendas n os 2 e


3 à Constituição e Leis nos 38 e 136, de 4 de abri e 14 de dezembro de 1935).
(SILVA, 1970, p. 128)

Em uma carta enviada a Oswaldo Aranha, em 11 de janeiro, Getúlio mostrava-se


assustado com o comunismo. Nela, informou ao amigo que “o vírus comunista” havia
contaminado o País mais cedo e com maior intensidade do que se poderia imaginar: “Nas
escolas, entre os moços de espírito mais impressionável e nas classes militares, já está
produzindo efeitos nefastos...”. E destacou que, para além da repressão dos responsáveis, era
preciso dar início à uma campanha de saneamento, que deveria ser “tenaz e prolongada”. Para
Getúlio, a Nação vivia em uma “pobreza franciscana em matéria de ideias políticas”. Ao
povo, segundo ele, faltava “estímulos sadios de ordem moral e ideológica [...] que marquem
um rumo, uma diretriz com poder bastante para neutralizar a sedução de doutrinas exóticas e
subservientes”. Para o referido saneamento dos ambientes educacionais e culturais, Vargas
confessou estar articulando algumas ações com o Ministério da Educação, a Secretaria de
Educação da Prefeitura do Rio de Janeiro, a chefia do Estado-Maior do Exército e a Liga de
Defesa Nacional. Nos estados, essa articulação deveria ramificar-se através dos órgãos ligados
a essas funções. (SILVA, 1970, p. 129-130)
Em 18 de janeiro, o ministro da Justiça baixou instruções complementares às do dia 9
de janeiro. Nelas, estendeu a ação da Comissão de Repressão a todo o território nacional e
criou a obrigatoriedade das autoridades civis e militares prestarem o auxílio e as informações,
ou provas, que lhes fossem solicitados por esse órgão. As medidas de Rao também
recrudesceram o poder de repressão da Comissão:

Art 3º - Poderá a Comissão:


a) propor ao governo federal o afastamento provisório dos respectivos cargos ou
funções, de quaisquer funcionários civis ou militares, da União ou do Distrito
Federal, bem como sua prisão, ou detenção;
b) propor a prisão ou detenção de qualquer pessoa cuja atividade seja reputada
prejudicial às instituições políticas e sociais;
c) propor iguais medidas com relação às demais pessoas indicadas pelas instruções
anteriores;
d) propor medidas tendentes a evitar a propaganda de ideias subversivas pela
imprensa ou, de modo geral, pela palavra ou través de publicações de qualquer
natureza e requisitar a apreensão e destruição as edições e publicações;
e) organizar, quanto antes, um plano tendente a uniformizar, em todo o País, as
medidas de repressão ao comunismo. (SILVA, 1970, p. 131.)

No dia 5 de fevereiro realizou-se a sexta sessão da Comissão de Repressão ao


Comunismo, que funcionava no sétimo andar do prédio do Ministério da Marinha. Ao final da
reunião, a Comissão aprovou a proposta de que o Estado, face aos demorados processos
556

judiciários, que procuravam garantir a defesa dos acusados, deveria agir com mais rapidez e
decisão, sob pena de permitir que os inimigos se organizassem e estendessem a sua rede de
ação, o que obrigaria o governo a um esforço muito mais intenso para combatê-los e vencê-
los. E, apesar de reconhecer os esforços realizados pela Polícia do Distrito Federal, que
estavam resultando na prisão de muitas pessoas ligadas ao levante de 27 de novembro, os
membros da Comissão lembraram ao governo que muitos “adeptos do credo comunista”
continuavam, em liberdade, com as suas “maquinações subversivas, procurando desfechar,
em breve, um golpe decisivo”. Era urgente, portanto, que se desarticulasse por completo a
“trama em vias de realização”. Para que isso acontecesse, a Comissão requisitou ao governo a
prisão imediata de alguns agentes públicos, em face de suas atividades comunistas: o
governador do Distrito Federal, Pedro Ernesto; o ex-secretário de Educação do Distrito
Federal, Anísio Teixeira; o coronel do Exército Felipe Moreira Lima; o médico Elieser
Magalhães; e os civis Maurício de Lacerda, Luís de Barros e Odilon Batista. (SILVA, 1970,
p. 132-133)
McCann (2009, p. 494) ressalta que a comissão anticomunista serviu para manter
desperta a opinião pública. No entanto, claramente excessos foram cometidos. Como aceitava
denúncias anônimas, muitos dos acusados foram vítimas de inimigos pessoais ou rotulados de
comunistas por não se enquadrarem nos padrões locais. O autor cita o exemplo de uma
mulher que foi processada pelo Tribunal de Segurança porque seu nome constava na
caderneta de endereços de um suposto comunista e porque pertencia à União Feminina do
Brasil. Como a imagem do comunismo estava associado ao estrangeiro, desconfiar de
imigrantes também entrou na ordem do dia. Nem mesmo Vargas tinha a certeza das prisões
que eram feitas. Como aponta McCann (2009, p. 494), no caso da detenção de Pedro Ernesto,
um dos homens mais populares do País, que se deu sob forte comoção da população do Rio de
Janeiro, Getúlio confessou em seu diário que a tinha feito com pesar e com crise na
consciência. Tinha dúvidas se o governador do Distrito Federal era um incompreendido ou
um ludibriado. No final das contas, as dúvidas de Vargas faziam sentido. Pedro Ernesto foi
inocentado das acusações que lhes foram imputadas884. No dia em que saiu da prisão, em
setembro de 1936, a Prefeitura do Rio de Janeiro decretou feriado municipal. A cidade,
segundo o autor, irrompeu em um carnaval improvisado. No desfile que fez pela cidade,

884
Diferentemente de McCann, Levine (1980, p. 208) atribui a soltura de Pedro Ernesto às condições de saúde
do governador do Distrito Federal, que viria a falecer no início de 1940. No entanto Levine comunga da ideia de
McCann a respeito do dilema de Vargas, ao acatar a sugestão da prisão de Pedro Ernesto.
557

passou em frente ao Ministério da Guerra, de cujas janelas oficiais, praças e funcionários civis
assistiam o afeto que a população carioca o dedicava.
Conforme nota da Secretaria da Presidência da República, publicada nas edições de 17
de março dos jornais do Rio de Janeiro, naquela data a Comissão de Repressão ao
Comunismo foi extinta, por haver concluído as diligências e investigações que lhe foram
atribuídas e entregado às autoridades competentes os resultados dos seus trabalhos. Segundo a
informação do governo, nos meses em que atuou, a Comissão custou aos cofres públicos
300:000$000 (trezentos mil contos de réis).885 Diferentemente do que anunciou o Correio da
Manhã, Hélio Silva (1970) aponta que a atuação da Comissão de Repressão ao Comunismo
estendeu-se até setembro de 1937, sem ter apurado nada de concreto. Ao Ministério da Guerra
ficara claro que as ações do Ministério da Justiça, ao invés de reprimir as articulações
comunistas no Brasil, as estavam fomentando. No entanto, o governo já articulava com a alta
cúpula do Exército e da Marinha o golpe que aconteceria em novembro e, em meio aos
acontecimentos que o levaram a termo, as Forças Armadas já haviam convencido Vargas da
necessidade da decretação imediata de um novo estado de guerra. Dessa forma, não fazia mais
sentido a manutenção da Comissão.
Apesar de nomeado para a Comissão de Repressão ao Comunismo, José Pessoa não
atuou na mesma. Em 14 de janeiro de 1936, poucos dias após a criação do órgão, ele solicitou
ao presidente da República, por meio de uma carta, o cancelamento da sua nomeação.
Atribuiu o pedido de seu afastamento à falta de tempo para desempenhar satisfatoriamente a
nova função, em virtude dos cargos que já acumulava, como comandante do DAC da 1ª RM,
inspetor da Defesa Costeira e presidente da Comissão de Estudos da Defesa dos Portos.
Ressaltou que, apesar de saber há dias que seria designado para uma nova tarefa, fora mal
informado pelo ministro da Guerra sobre as atribuições que lhe competiriam, as quais julgou
serem unicamente de natureza técnica. Somente após ser nomeado é que tomou conhecimento
do vulto dos trabalhos a serem desenvolvidos. No entanto, considerou a iniciativa do governo
digna de louvor e, “como soldado e bom brasileiro”, desejava que fossem aplicadas contra os
culpados “as mais severas e inexoráveis punições”. No final da carta, pediu ao presidente que
atendesse à sua solicitação e o tirasse “daquele constrangimento”. É bastante provável que o
constrangimento a que Pessoa se referiu não foi o de ter que investigar os companheiros de
farda, uma vez que, sempre se mostrou avesso à política dentro dos quartéis e às

885
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 17 mar. 1937, p. 3; Diário Carioca, Rio de Janeiro, 17 mar. 1937, p. 1;
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 mar. 1937, p. 7; A Noite, Rio de Janeiro, 17 mar. 1937, p. 1; O Jornal, Rio
de Janeiro, 17 mar. 1937, p. 5.
558

consequências que dela pudessem advir. Pelo teor do texto que escreveu, sentia-se
constrangido de não poder dedicar-se com efetividade à nova missão e, assim, deixar
transparecer que não cumpriu a contento com o seu dever.886 Vargas atendeu o seu pedido e o
substituiu pelo general José Antônio Coelho Netto, comandante da Escola de Aviação Militar,
conforme ressalva feita na mesma nota da Secretaria da Presidência da República que
informou a extinção da Comissão, em 17 de março de 1937.
Nos dois anos que se seguiram, a situação política do País agravou-se com os
constantes boatos de golpe contra o governo de Vargas. Como não poderia deixar de ser, o
turbilhão político acabou atingindo as Forças Armadas, em especial o Exército. Góes
Monteiro, que depois de passar o Ministério da Guerra para João Gomes encontrava-se sem
função, viu na crise política em curso a oportunidade de centralizar o poder no governo
federal e de aumentar a autonomia do Exército com relação à política. Porém, como lembra
McCann (2009, p. 494), a intenção de Góes foi malograda pelo Congresso Nacional, que
ampliou os poderes de Vargas e, ao fazê-lo, também lhe deu mais autoridade sobre as Forças
Armadas, conferindo-lhe especificamente a jurisdição das promoções, atribuições e punições
de oficiais. Com efeito, as emendas à Constituição de 1934 acabaram por tirar das Forças
Armadas a supervisão legal da disciplina interna da caserna.
O ano de 1936 iniciou-se com a atmosfera político-militar completamente anuviada.
Como bem aponta McCann (2009, p. 495), generais discutiam sua autoridade e políticos
reuniam-se secretamente para fazer alianças e comprar armas para as forças públicas de seus
estados. No governo, Vargas procurava adiar a competição pública entre os possíveis
sucessores na eleição marcada para 1938. Flores da Cunha, governador do Rio Grande do Sul,
empenhava-se em criar um pacto tripartite com os governadores Benedito Valadares, de
Minas Gerais, e Armando Sales de Oliveira, de São Paulo, a fim de garantir a eleição deste
último à presidência da República. Tanto o Rio Grande do Sul como São Paulo haviam
importado armas e pareciam estar se preparando para a luta, se fosse necessário. As unidades
provisórias gaúchas comandadas por Flores, bem armadas e com grandes efetivos,
preocupavam os comandantes das forças federais do Sul, particularmente aquelas mais
distantes da Capital Federal.
Flores da Cunha tinha, no governo federal, Góes Monteiro como seu principal
desafeto. Politicamente, divergiam em tudo. Góes era centralizador convicto, enquanto Flores
era um fervoroso defensor da autonomia estadual. Entretanto, sua ideia de autonomia não o

886
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1934.08.18, doc. 0151.
559

impedia de se envolver no jogo político dos outros estados. As visões concorrentes dos dois
acabavam gerando atritos e requeriam de Vargas que tomasse partido de um ou de outro.
Logicamente, essa decisão implicaria levar o Brasil na direção de preservar as hegemonias
regionais ou estabelecer um governo centralizado. Passados seis anos da Revolução de 1930,
as concepções políticas das lideranças nacionais e estaduais pouco haviam mudado. A política
dos governadores ainda vigorava no aspecto de os governadores falarem por seus estados, e
ainda que Minas Gerais e São Paulo não tivessem mais a palavra final, ainda tentavam
influenciar os resultados políticos do País. O próprio Vargas ainda exercitava a velha política,
quando manipulava as regras do jogo, a fim de adequá-las à realidade da Nação. (McCANN,
2009, p. 495-496)
A política e o partidarismo também estavam muito vivos no Exército. Mesmo afastado
de suas funções, Góes Monteiro ainda era o centro das disputas sobre assuntos cruciais para a
Instituição, como a aprovação da emenda constitucional nº 2, que permitia a anulação das
comissões de oficiais. Pessoalmente, ele havia se empenhado junto à oficialidade pela não
aprovação do novo dispositivo. Essa atitude acabou gerando mais desentendimentos entre
Góes e seu sucessor na pasta da Guerra, general João Gomes, do que entre Góes e Vargas. O
fato é que Góes e Gomes não se davam bem. A indisposição entre os dois já havia ficado
evidente na questão dos soldos. Em maio de 1936 a situação agravou-se por conta de alguns
comentários que Góes teria feito a respeito de Gomes a oficiais do Exército. Essa atitude do
ex-ministro levou Góes a enviar telegramas aos comandantes das regiões militares alertando-
os, sem citar nomes, de que alguns elementos ambiciosos estevam tentando reaver suas
posições políticas e andavam empenhados em dividir o Exército para que a Instituição não se
opusesse a seus planos. Logicamente, se referia a Góes. (McCANN, 2009, p. 497-498)
Ao mesmo tempo em que o ministro João Gomes se afastava de Getúlio, por
supostamente estar apoiando a candidatura do governador de São Paulo, Armando Sales, à
presidência da República, Flores da Cunha mobilizava seus corpos provisórios. Em setembro
de 1936 Vargas recebeu relatos de seus parentes do Rio Grande do Sul de que Flores já
contava com cerca de 20.000 homens organizados e armados para a luta. Havia, ainda,
rumores de que Flores poderia candidatar-se à presidência, o que o levou a perder a lealdade
da bancada gaúcha no Congresso, amplamente a favor de Vargas. Nesse interim, a Góes foi
dada a função de inspetor geral das guarnições do Sul, que exigiu de João Gomes uma ação
mais enérgica contra a movimentação de Flores e o reforço das unidades militares do Paraná e
do Rio Grande do Sul. Era necessário, na sua visão, que oficiais de confiança fossem
colocados nos comandos das brigadas das regiões militares do Rio de Janeiro, São Paulo, Rio
560

Grande do Sul e Paraná. Também as forças policiais dos estados, especialmente a Brigada
Miliar do Rio Grande do Sul, precisavam ser neutralizadas ou cooptadas e os corpos
provisórios de Flores desarmados e dispensados. Cabe ressaltar, que os comandos das regiões
militares e de algumas brigadas de importância estratégica estavam entregues a oficiais que
não foram ex-tenentistas ou revolucionários de 1930887. Nos meses que se seguiram, os
comandantes regionais tolerantes às intenções de Flores seriam substituídos ou reformados.
(McCANN, 2009, p. 499-500)
Com o passar dos meses, a má administração de João Gomes à frente da pasta da
Guerra irritou Vargas. A sua reputação ia de mal a pior, devido à sua falta de entusiasmo para
implementar o plano de reorganização do Exército idealizado por Góes Monteiro em 1934.
No início de 1936, o Congresso havia aprovado um crédito especial de 1,5 bilhão de contos de
réis para o Exército adquirir novos armamentos e materiais. No entanto, no final do ano,
quando Gomes passou a função, nada havia sido adquirido. Enquanto as forças federais de
terra nada adquiriam, Gomes autorizou, em outubro de 1936, que São Paulo comprasse no
exterior uma grande quantidade de armas para a sua força pública, o que deixou transparecer
que não se destinavam à manutenção da ordem pública (essa encomenda seria apreendida no
porto de Santos, em janeiro de 1937, e transportada para o Rio de Janeiro). Enquanto isso,
Vargas e Góes debatiam as providências a serem tomadas para frear os preparativos militares
de Flores da Cunha. Góes estava ansioso para agir. Porém, ressentia-se das vacilações de
Gomes e, desanimado com os diversos empecilhos que o ministro lhe colocava no caminho,
pediu demissão da inspetoria do Sul. A gota d’água para Getúlio foi Gomes ter criticado o
comandante da 3ª RM por ter passado por cima da sua autoridade, quando se queixou
diretamente a Vargas, por não estar recebendo as armas e munições que havia solicitado para
conter um possível levante das tropas de Flores, no Sul. O presidente mandou o general José
Pinto, chefe da Casa Militar, dizer a Gomes que apoiasse a política varguista ou colocasse o
cargo à disposição. E foi o que o ministro da Guerra fez, em dezembro de 1936. (McCANN,
2009, p. 502-503)
Para McCann (2009, p. 504), o afastamento de Gomes do poder refletiu a
complexidade da situação político-militar do País. Não havia uma definição clara do papel e
do poder do ministro da Guerra. Diferentemente da República Velha, quando os ministros
geriam o Exército com uma maior autonomia, Vargas considerava-se o comandante em chefe

887
O general Dutra comandava a 1ª RM, o general Almério Moura estava à frente da 2ª RM, o general Emílio
Lúcio Esteves comandava a 3ª RM e João Guedes da Fontoura a 5ª RM. No comando da 1ª Brigada de
Infantaria, na Vila Militar, estava o general José Joaquim de Andrade que, como coronel, havia comandado o 12º
Batalhão de Infantaria, em Belo Horizonte, na resistência à Revolução de 1930.
561

das Forças Armadas e estava decidido a exercer o controle direto sempre que julgasse
necessário. As decisões que Gomes vinha tomando mostravam claramente que ele vinha
subvertendo as instruções do presidente. Tão logo recebeu o pedido de demissão do general
João Gomes, Getúlio convidou o general Eurico Dutra para assumir o Ministério da Guerra. A
atuação firme e decisiva que tivera no levante comunista de novembro de 1935 e o modo
como vinha administrando a 1ª Região Militar fizera a sua fama aumentar diante da população
do Distrito Federal e de Vargas. Somente deixaria o ministério em 1945, sendo o ministro que
mais tempo ocupou o cargo na história do País.
Na esfera política, Vargas manobrava entre os que pretendiam candidatar-se à sua
sucessão, sem, no entanto, indicar o seu preferido. Como aponta McCann (2009, p. 504), a
política nacional ganhou ares de República Velha, com várias facções e partidos tentando
levar o presidente a decidir suas disputas internas. Na passagem de 1936 para 1937, o
governador de São Paulo Armando Sales renunciou ao seu cargo para concorrer à presidência
no pleito eleitoral de janeiro de 1938. No entanto, Sales não era uma unanimidade nem no seu
estado. De Góes Monteiro recebeu o conselho para não se candidatar, porque não receberia o
apoio do Exército. Porém, a principal ameaça ao que restava da Revolução de 1930 e à ideia
de um governo centralizador, segundo o autor, era a potencial aliança entre Flores da Cunha,
Armando Sales e Benedito Valadares, governador de Minas Gerais, que acabou não se
concretizando. Realista, Valadares preferiu manter-se ao lado de Getúlio, deixando seus
aliados em uma posição político-militar vulnerável, já que não podiam contar mais com as
tropas de Minas Gerais, no caso de um levante armado.
Como lembra McCann (2009, p. 509), Dutra, quando assumiu o Ministério da Guerra,
não tinha ligações intelectuais ou emocionais com os tenentes de 1922 nem com a Revolução
de 1930. Seu pensamento militar baseava-se no reformismo intelectual dos Jovens Turcos e
da revista A Defesa Nacional.888 Havia um sentimento de gratidão seu para com Getúlio,
devido às suas promoções a coronel e general-de-brigada. Segundo o autor, o seu longo tempo
à frente da pasta da Guerra e a parceria que faria com Góes Monteiro, que ocuparia a chefia
do Estado-Maior do Exército, serviram para fortalecer a centralização do governo nacional,
modernizar o Exército e levar o País à Segunda Guerra Mundial. Além disso, esses dois

888
Quando a Revolução de 1930 teve início, o general Eurico Dutra comandava o 15º Regimento de Cavalaria
Independente (RCI) e a Escola de Cavalaria. À época ainda era coronel. Apesar de ser convidado, não aderiu ao
movimento revolucionário, tendo resistido ao expurgo de oficiais que ocorreu após o 24 de outubro. Seu maior
castigo, segundo McCann (2009, p. 506), foi ter sido nomeado comandante do 11º RCI, na distante Ponta Porã,
no Mato Grosso. Algum tempo depois, foi convidado para ser chefe do Estado-Maior do Distrito Militar do Mato
Grosso, comandado pelo general Bertholdo Klinger. Os dois eram velhos amigos, desde o tempo em que
publicavam juntos a revista A Defesa Nacional.
562

generais eliminariam o regionalismo político como uma ameaça à integridade da Pátria e


fariam das Forças Armadas o moderador do sistema político nacional no próximo meio
século.
Uma das pretensões de Vargas, após a nomeação de Dutra, era colocar na chefia do
Estado-Maior do Exército o general Valdomiro Castilho de Lima, tio da sua esposa. Para
Getúlio, essa seria uma escolha lógica devido ao momento crítico que passava a política
nacional. Valdomiro era da família e as suas raízes gaúchas 889 poderiam ser úteis em um
possível confronto com Flores da Cunha. Apesar de politicamente sempre ter se posicionado a
favor de um estado federalista890, Valdomiro esteve ao lado do governo varguista nas crises
políticas do País, até então. Na Revolução de 1930 teve papel de destaque, quando comandou
as tropas revolucionárias que ocuparam o quartel-general da 3 ª RM, em Porto Alegre. Em
seguida, organizou uma coluna de 4.000 homens que partiu de Porto Alegre em direção ao
Rio de Janeiro, tendo estacionado em Curitiba, de onde recebeu ordens de Getúlio para
retornar ao Rio Grande do Sul. Em 1932, durante a Revolução Constitucionalista, no posto de
general-de-divisão, dividiu o comando das tropas federais com Góes Monteiro, tendo sido
responsável pela cobertura da frente Sul. Naquela ocasião, enfrentou a resistência de seus
próprios comandados, já que as tropas da Brigada Militar, solidárias a Borges de Medeiros,
eram simpáticas ao movimento paulista. Derrotados os constitucionalistas, Valdomiro foi
nomeado por Vargas governador militar de São Paulo e comandante da 2ª RM, funções que
exerceu até janeiro de 1933, quando foi nomeado interventor do estado de São Paulo.
(MAYER, 2010)
Durante a interventoria, em uma tentativa de aproximar-se politicamente da sociedade
paulista, Valdomiro empenhou-se para que a nova legislação trabalhista do governo Vargas
fosse aplicada ao estado de São Paulo. Dentre as ações desencadeadas pelo interventor estava
o estímulo à sindicalização dos trabalhadores da lavoura e do operariado. Um esforço em vão,
diante da forte resistência política que enfrentou dos cafeicultores, de um lado, e das classes
operárias, que resistiam em aceitar a Lei de Sindicalização do Ministério do Trabalho, do

889
A vida militar de Valdomiro havia começado na antiga Escola Tática e de Tiro de Rio Pardo (RS), onde se
formou em 1892. Entre 1905 e 1913, ainda como capitão, cumpriu dois mantados de deputado estadual pelo Rio
Grande do Sul. Na Escola de Comando e Estado-Maior, que frequentou como tenente-coronel, em 1920, foi
aluno da Missão Militar Francesa. Em 1923, durante o governo de Artur Bernardes, foi preso por demonstrar
simpatia à causa tenentista. Posto em liberdade em 1925 permaneceu alheio à política nacional até 1929, quando
filiou-se à Aliança Liberal. (MAYER, 2010)
890
Durante o Congresso Revolucionário, realizado em novembro de 1932, no Rio de Janeiro, que contou com a
presença de Vargas e dos principais ministros do Governo Provisório, Valdomiro Lima defendeu o estado
federativo e a eleição indireta para a Presidência da República e para os executivos estaduais. Também entendia
que a ingerência militar na política dos estados deveria ser limitada. (MAYER, 2010)
563

outro. Mesmo na esfera federal, Valdomiro também encontrava resistências, sobretudo de


Juarez Távora e Oswaldo Aranha, que defendiam a necessidade de um interventor civil e
paulista, capaz de apaziguar as correntes antagônicas do estado. (MAYER, 2010)
Na Constituinte de 1934, com o propósito de conseguir suporte político para o seu
governo e enfrentar as forças tradicionais paulistas, articulou a criação de dois novos partidos
políticos, que seriam solidários ao governo de Vargas, nas eleições de maio de 1933: o
Partido da Lavoura, que buscava angariar o apoio dos cafeicultores, e o Partido Socialista
Brasileiro, ligado às classes operárias. O péssimo desempenho desses partidos no pleito
eleitoral, que contrastou profundamente com os resultados favoráveis ao governo federal nos
outros estados, concorreu para a substituição de Valdomiro Lima da interventoria de São
Paulo e para o seu retorno ao Exército. Em 1935, na função de inspetor do 1º Grupo de
Regiões Militares, apoiou as medidas repressivas ao levante comunista de novembro, levadas
a termo pelo governo federal. No ano seguinte, em dezembro, assumiu o comando da 1ª
Região Militar. (MAYER, 2010) Segundo McCann (2009, p. 509), a nomeação de Valdomiro
para a 1ª RM se deu por insistência de Dutra, que, diante da possibilidade de Vargas empossar
o parente na chefia do EME, manobrou politicamente para que seu preferido para função,
Góes Monteiro, fosse nomeado.
Aos poucos os planos para isolar política e militarmente o governador do Rio Grande
do Sul foram avançando. A partir de janeiro de 1937, Dutra, com o argumento de que era
necessário um controle mais rígido sobre o corpo de oficiais do Exército, tomou algumas
medidas para chamar de volta à caserna alguns oficiais que desempenhavam missões não-
militares. Dentre esses oficiais, três estavam à disposição de Flores, que em todo o tempo de
suas carreiras, não haviam servido mais do que um ano nos corpos de tropa federais 891. Em
maio, parecia não haver mais como retroceder na decisão de isolar o Rio Grande do Sul.
(McCANN, 2009, p. 511) Foi aí que a política interna do Exército veio à tona e aflorou aos
olhos do público.
O temor de que a pressão sobre Flores da Cunha conduzisse o País a uma guerra civil,
levou um grupo de generais a reunir-se e redigir um manifesto condenando as manobras
realizadas no Sul e em apoio às posições assumidas pelos comandantes da 3ª RM, general
Lúcio Esteves, e da 5ª RM, general João Guedes da Fontoura, contrárias às medidas que
vinham sendo adotadas por Dutra e Góes. Esses dois generais acabariam destituídos de suas

891
McCann (2009, p. 511) cita os casos do tenente-coronel Agnelo Souza que, com 33 anos de Exército, jamais
havia servido em suas fileiras. Havia, também, os majores Leopoldo Barros Bittencourt, à disposição do Rio
Grande do Sul desde 1924, e Armando Nestor Cavalcante, que jamais prestara serviço na tropa como oficial
superior.
564

funções. O documento, levado ao conhecimento público por meio da imprensa paulista892, foi
lido na Câmara Federal pelo deputado potiguar Café Filho, no dia 2 de junho. Os generais
signatários por meio da representação, que, de acordo com os jornais, seria encaminhada ao
presidente da República por intermédio de Dutra, assim se manifestaram:

1º - Aplaudir calorosamente os generais João Guedes da Fontoura e Lúcio Esteves e


o Estado-Maior da 3ª Região Militar, pela atitude que assumiram em face do Rio
Grande do Sul.
2º - Assegurar integral respeito à ordem constitucional vigente na República.
3º - Votar absoluto respeito às autoridades constituídas do Estado, a fim de que
possam exercer com inteira liberdade as suas funções.
4º - Manter-se o Exército equidistante das correntes políticas em luta a fim de que
possa a eleição presidencial processar-se livremente.
5º - Agir com espírito de justiça quanto à situação das forças militares estaduais,
mantendo-se o estado atual das coisas, que só mais tarde, gradativamente se tratará,
em entendimento cordial com as autoridades estaduais.
A referida representação é assinada por 12 generais, a saber: Manoel Rabello,
Valdomiro Castilho de Lima, Pantaleão Telles, Colatino Marques, Silva Júnior,
Pantaleão Pessoa, Brasílio Taborda, José Pessoa, Coelho Netto, Pedro Cavalcanti,
Horta Barbosa e Pedro Júnior.893

Supostamente, esse encontro de altas patentes teria acontecido na casa de José Pessoa.
Indagado pela imprensa paulista, Dutra mostrou-se surpreendido com a notícia, ainda mais
por estar vivendo o País sob o Estado de Guerra e sob forte censura, desde o levante de
novembro de 1935. Em nota, o ministro declarou que nenhuma representação havia sido lhe
entregue e que os generais signatários haviam sido ouvidos, tendo todos apontado que não ser
exata a notícia veiculada.894
Cabe ressaltar que, dia antes, em 19 de maio, face às notícias preocupantes que
tomavam as páginas da imprensa nacional a respeito da movimentação de tropas federais no
Rio Grande do Sul e a associação que se fazia do fato à sucessão presidencial, Dutra havia
emitido uma proclama ao Exército, a fim de acalmar os ânimos da população e dos militares.
No texto, publicado pela imprensa carioca, o ministro da Guerra garantiu que a movimentação
de tropas no Sul “estavam longe de obedecerem a fins políticos” e, sim, destinava-se “apenas
a salvaguardar a ordem, as instituições e a integridade nacionais”. Ressaltou que já eram de
conhecimento da população os preparativos militares desenvolvidos no Rio Grande do Sul.
Devido, então, a essa “ameaça constante e claramente definida, movida por interesses de
caráter pessoal” é que o governo sentiu a necessidade de responder com “medidas eficientes,
asseguradoras da própria tranquilidade pública”. Nas palavras de Dutra, cabia ao Ministério
da Guerra unicamente “preservar a ordem e manter as instituições, conservando o Exército
892
Estado de São Paulo, São Paulo, 3 jun. 1937, p. 1; Correio Paulistano, São Paulo, 3 jun. 1937, p. 1.
893
Ibidem.
894
Ibidem.
565

afastado de influências estranhas às suas legitimas finalidades”. A Instituição devia se manter


na “estrada reta do dever, como elemento de coesão e de fraternidade entre os brasileiros, e
nunca como instrumento de opressão, de desmembramento e de desordem”.895
Dutra informou, ainda, que havia dado ordem ao inspetor do 2º Grupo de Regiões
Militares, Góes Monteiro, para realizar uma viagem de inspeção às regiões do Sul, com o
“objetivo fundamental” de informar ao governo a “situação precisa” das atividades político-
militares do governador do Rio Grande do Sul e sugerir medidas de reação imediata, capaz de
“abafar o nascer de qualquer atitude de rebelião ou agressão” que viesse a se manifestar
naquele estado. Ressaltou, ainda, que todas as medidas de caráter militar que viessem a ser
tomadas tinham o “objetivo exclusivo de pôr o Exército em condições de cumprir a sua
missão de mantenedor da ordem interna e fiel executor das deliberações do governo
legalmente constituído”.896
Segundo McCann (2009, p. 512), ao saber do manifesto dos generais, Góes Monteiro,
apesar de não possuir, naquele momento, nenhuma autoridade para questionar os colegas,
enviou uma carta aos oficiais que haviam participado da reunião, exigindo-lhes que lhe
dissessem o nome de quem havia participado do encontro na casa de José Pessoa. Por medo,
ou por respeito, alguns generais lhe responderam. Uns afirmaram não ter havido reunião
alguma. Outros informaram que o encontro não passou de uma conversa sobre os problemas
do momento, que assolavam o Brasil, e que nada tinham comentado sobre ele. Alguns poucos
admitiram o protesto a Dutra e que o fizeram para impedir uma guerra civil no País. Dois
corajosos questionaram as ações de Góes no Sul. Estava evidente que Góes enfurecera-se por
ter sido frustrado o seu projeto de uma ação militar no Sul. No entanto, garantiu aos colegas
que a sua missão era de suprema importância para a Nação. O fato é que o episódio serviu
para mostrar a influência que Góes ainda tinha no Exército. Porém, o incidente serviu para
mostrar a ele e a Vargas que ambos não tinham poder absoluto sobre o Exército, já que um
número considerável de generais havia deixado claro que os homens mais poderosos do País
também tinham os seus limites. Também mais dois pontos importantes ficaram patentes: não
era um consenso entre a oficialidade do Exército a velha prática da intervenção federal nos
estados e a consideração especial que grande parte dos oficiais da Instituição tinham pelo Rio
Grande do Sul897.

895
A Noite, Rio de Janeiro, 20 maio 1937, p. 1; Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 20 maio 1937, p. 1; Correio
da Manhã, Rio de Janeiro, 20 maio 1937, p. 1.
896
Ibidem.
897
Não é difícil deduzir a simpatia que os oficiais do Exército sentiam pelo Rio Grade do Sul. Da leitura que se
faz dos relatórios do Ministério da Guerra, percebe-se que o estado concentrava, à época, a maior parte das
566

O suposto encontro na casa de Pessoa ganhou ares de conspiração contra o governo. O


general Valdomiro Lima negou que houvesse uma conspiração de generais. Entretanto, Góes
afirmou a Vargas que o tio de sua esposa se comunicava em segredo com Flores da Cunha898.
Getúlio, ao tomar conhecimento do fato, cobrou de Dutra medidas mais enérgicas, a fim de
que o cenário político do País não descambasse para a anarquia. Em 11 de junho, mandou
chamar Valdomiro ao Palácio Guanabara, para informá-lo que não mais se considerasse chefe
do EME; o cargo seria assumido por Góes Monteiro. A Vargas, Valdomiro negou mais uma
vez estar envolvido em manobras políticas e afirmou que renunciaria ao comando da 1ª
Região Militar se Góes assumisse a chefia do EME. Do outro lado, Dutra pressionava Vargas,
informando-lhe que somente ficaria à frente da pasta da Guerra se o EME fosse dado a Góes
Monteiro. (McCANN, 2009, p. 513)
No mesmo dia em que esteve em conferência com Getúlio, Valdomiro encaminhou
duas cartas ao ministro da Guerra. Em uma delas, informou a Dutra que fora chamado ao
Palácio Guanabara em 11 de junho, onde se encontrou com o presidente da República. Na
ocasião, segundo Valdomiro, este informou-lhe que soube, por intermédio de Góes Monteiro,
que ele e outros oficiais generais haviam participado da reunião na casa de José Pessoa, com o
propósito de conspirarem contra o governo. Ressaltou a Dutra que Góes utilizava-se de má fé
ao acusá-lo de traição e que um dos dois não estava à altura de ser general: Góes, por
denunciá-lo falsamente ou ele próprio, que estava sendo denunciado como traidor.899
A outra carta constituía-se em uma queixa-crime apresentada por Valdomiro ao
ministro da Guerra, em desfavor de Góes Monteiro. Nela, o comandante da 1ª RM acusava
Góes de ter incorrido no crime previsto no artigo 142 do código penal militar vigente à época:
“...imputar a outro, presente ou ausente, em reunião pública ou por qualquer meio de
publicidade, fatos contrários à honra, ao brio e a deveres militares”900. A sua queixa devia-se,

unidades militares do País, por tratar-se de uma região estratégica, devido às fronteiras naturais com a Argentina.
Devido a esse fato, muitos oficiais já haviam servido no estado. Alguns consideravam-se gaúchos de coração,
pois haviam constituído família no Sul. Ainda hoje o Rio Grande do Sul é a segunda maior guarnição militar do
País, perdendo em número de unidades militares apenas para a guarnição da Vila Militar, no Rio de Janeiro.
898
De fato, em 23 de maio de 1937, o jornal A Noite noticiou uma troca de telegramas entre Flores da Cunha e
Valdomiro Lima. Flores informou a Valdomiro que havia proposto ao deputado João Carlos Machado que ele
fizesse parte de uma comissão parlamentar que visitaria o Rio Grande do Sul, a fim de verificar a situação
político-militar do estado. Valdomiro informou ao jornal que se sentia honrado com o convite, mas não poderia
viajar para o Sul devido aos seus afazeres na 1ª RM. No mais, a notícia não apontou nenhum tipo de articulação
entre Flores e Valdomiro em desfavor do governo de Vargas.
899
A Noite, Rio de Janeiro, 16 jun. 1937, p. 19.
900
Apesar do jornal referir-se a um código penal militar, o que vigia à época, para a tipificação de crimes
militares, era o Código Penal da Armada, de 1891. Por meio da Lei nº 612, de 29 de setembro de 1899, o Código
da Armada foi ampliado ao Exército, passando a abranger também os militares desta força. O Código Penal
Militar, nesses termos, foi instituído somente em 1944, por meio do Decreto Lei nº 6.227, de 24 de janeiro
daquele ano.
567

obviamente, ao fato de Góes ter denunciado a sua suposta participação no encontro dos
generais na residência de Pessoa, o que, para Valdomiro, não passava de uma calúnia. E, na
sua petição, arrolava como testemunhas os generais Pantaleão Pessoa, José Pessoa, Pantaleão
Telles Ferreira e Brasílio Taborda, que também teriam participado da reunião, e o coronel
Boanerges Lopes de Souza, chefe do Estado-Maior da 1ª RM, que foi o oficial encarregado de
chamá-lo ao Guanabara.901
Porém, o assunto, que parecia estar sob o controle de Dutra, tomou proporções
maiores quando ganhou as páginas dos jornais cariocas, na manhã do dia 16 de junho, com a
publicação, na íntegra, do teor das cartas enviadas por Valdomiro ao chefe da pasta da Guerra.
Ao saber do vazamento para a imprensa, Dutra mandou chamar Valdomiro ao seu gabinete, a
fim de questioná-lo sobre a autoria das publicações. Este respondeu ao ministro, por meio de
um ofício, que não cabia a ele quaisquer publicações nos jornais da Capital Federal e que
desconhecia quem poderia tê-lo feito, já que somente o presidente da República, o próprio
Dutra e o seu advogado [de Valdomiro], Dr. Victor Nunes, tinham conhecimento da queixa-
crime que havia apresentado contra Góes Monteiro.902 Apesar da prova documental de
Valdomiro, eximindo-se da autoria da publicação das cartas na imprensa, todos os jornais em
que o assunto foi veiculado afirmaram o contrário, ou seja, que, durante a reunião que tivera
com Dutra no Ministério da Guerra, ele teria assumido a responsabilidade do envio dos
documentos aos jornais.
Diante da proporção que o fato tomou, e a profunda impressão que causou na opinião
pública, no mesmo dia Dutra mandou prender disciplinarmente Valdomiro por quatro dias, no
quartel-general da 1ª Brigada de Infantaria, na Vila Militar. O argumento utilizado pelo
ministro da Guerra para deter o comandante da 1ª RM foi o fato de ele ter facilitado ao seu
advogado o acesso às cartas, que eram de interesse exclusivo das autoridades envolvidas no
incidente. Na visão de Dutra, o fato de os documentos terem ganhado as páginas dos jornais,
sem a autorização prévia das autoridades competentes, constituía-se em um ato nocivo aos
interesses do Exército e à disciplina que deveria ser observada por todos os oficiais da
Instituição, contrariando, dessa maneira, o Regulamento Interno dos Serviços Gerais. O
ministro da Guerra dava a entender que teria sido o Dr. Victor Nunes o responsável por fazer

901
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 16 jun. 1937, p. 2.
902
Conforme ofício do general Valdomiro Lima ao ministro da Guerra, de 16 de junho de 1937, anexo ao
processo de petição de habeas-corpus impetrado no Supremo Tribunal Militar pelo advogado de Valdomiro, em
16 de junho de 1937. Arquivo do Exército. Acervo do Gabinete do Ministério da Guerra.
568

os documentos chegarem às mãos dos jornalistas.903 O encarregado de recolher Lima à prisão


foi o general Firmino Antônio Borba, o mais antigo dos generais-de-divisão do Exército. A
Borba foi dado, também, o comando interino da 1ª RM.904
No dia seguinte à publicação das cartas de Valdomiro Lima, o imbróglio envolvendo-o
e a Góes Monteiro virou assunto de primeira página dos jornais da Capital Federal. O Radical
tratou o assunto como uma “nova questão militar”. O redator da notícia lamentou-se pelo fato
de o Exército, no momento em que o País era “sacudido por ventos desagregadores”, não ter
podido evitar que as “forças corrosivas e ocultas [da Nação]” lançassem entre os soldados
brasileiros “os germes da insídia, quebrando a comunhão fraternal da caserna”. Lembrou aos
leitores que somente uma classe armada afastada da “sanha” que envolvia a política nacional
seria a garantia suprema e única dos direitos dos brasileiros. E ressentiu-se da dúvida que,
naquele momento, atordoava a população, diante dos “efeitos maléficos” daqueles que
tramavam contra o “espírito harmonioso” dos quartéis.905
As narrativas dos fatos veiculadas pelos periódicos cariocas, à época, deixam
transparecer que Valdomiro já aguardava a sua prisão, uma vez que, como apontou o Correio
da Manhã906, desde a manhã do dia 16 de junho, o seu advogado já se encontrava às portas do
Supremo Tribunal Militar (STM), aguardando a autorização do general para que um habeas
corpus fosse impetrado em seu favor. O recurso foi julgado no dia 18 de junho, sendo negado
por três votos contra um. A maioria dos ministros entendeu que não era da competência do
STM julgar habeas corpus pertinente a militares presos disciplinarmente, sendo a autoridade
militar o único juiz da conveniência da punição.907
Vendo o seu nome citado nas páginas dos jornais, como sendo o anfitrião da reunião
“conspiratória”, José Pessoa tratou de defender-se das acusações. Em uma carta enviada ao
jornal A Noite, sob o título Ao Exército e meus concidadãos – uma declaração e um repto,
Pessoa afirmou ser “falsa e caluniosa” a denúncia feita por Góes Monteiro a respeito da
suposta reunião de generais e que jamais recebera em sua casa quaisquer oficiais com o

903
Conforme ofício do ministro da Guerra ao presidente do Superior Tribunal Militar, de 16 de junho de 1937,
anexo ao processo de petição de habeas-corpus impetrado no Supremo Tribunal Militar pelo advogado de
Valdomiro, em 16 de junho de 1937. Arquivo do Exército. Acervo do Gabinete do Ministério da Guerra.
904
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 17 jun. 1937, p. 1.
905
O Radical, Rio de Janeiro, 17 jun. 1937, p. 1.
906
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 17 jun. 1937, p. 1.
907
Basearam-se os ministros no Decreto nº 20.810, de 17 de dezembro de 1931 e no artigo 113 da Constituição
de 1937. Ambos os dispositivos previam que não cabia o recurso de habeas corpus em transgressões
disciplinares. Votaram contra a concessão do habeas corpus à Valdomiro Lima o presidente do STM, almirante
Pedro Frontin e os ministros Barbosa Lima, o relator, e Bulcão Vianna. O voto discordante foi do ministro
Barros Barreto, que entendeu a punição imposta à Valdomiro mais como um caso de excesso de autoridade de
Dutra do que uma transgressão disciplinar. Conforme o Acordão dos autos do Processo de Habeas Corpus nº
8.396, impetrado por Valdomiro Lima. Arquivo do Exército. Acervo do Gabinete do Ministério da Guerra.
569

intuito de conspirar contra o governo. Fez questão de lembrar das interferências de Góes no
seu comando da Escola Militar. E lamentou que alguns “elementos”, “à custa da intriga, da
calúnia e de processos inconfessáveis”, tivessem atingido “os altos postos de
responsabilidade” do Exército, de onde podiam “mais facilmente [...] semearem a desarmonia
e a desordem”. Também alegou que a acusação que lhe estava sendo feita era a responsável
pela sua exoneração do cargo de inspetor da Artilharia de Costa. Por fim, comprometeu-se,
caso ficasse provada a acusação feita por Góes Monteiro, a demitir-se do Exército. Caso
contrário, disse esperar de Góes a mesma atitude, para que o País pudesse readquirir a
“situação de prosperidade e respeito” que lhe competia.908
A suposta participação de José Pessoa na reunião “conspiratória” dos generais e as
declarações que fez à imprensa custaram-lhe o comando da Artilharia de Costa e a liberdade.
Em 10 de junho, Pessoa foi exonerado das funções de comandante do Distrito de Artilharia de
Costa da 1ª RM e de inspetor da Artilharia de Costa. Na mesma data, foi nomeado
comandante da 8ª Brigada de Infantaria, em Juiz de Fora-MG, um cargo que jamais assumiu,
em função do inquérito decorrente da queixa-crime apresentada por Valdomiro Lima contra
Góes Monteiro, do qual foi testemunha. No dia 17 de junho, quando as notícias da celeuma
envolvendo Valdomiro e Góes começavam a circular com mais ênfase na imprensa, Pessoa
passou o comando do DAC ao general José Pompeu de Albuquerque Cavalcante. Na sua
última ordem do dia, após ressaltar as inúmeras melhorias implementadas na defesa costeira
do País durante a sua gestão, fez questão de observar que a nobreza de caráter era uma
qualidade que deveria ser seguida por todos os homens de farda. Sendo assim, concitou a
todos os companheiros a seguirem o exemplo daqueles que demonstravam possuí-la e, ao
mesmo tempo, desprezarem os que não possuíssem tal virtude. Lembrou que os interesses da
Pátria deveriam estar acima de quaisquer interesses pessoais. Por isso, destacou, aceitava com
prazer a nova função que lhe fora atribuída pelo ministro da Guerra. Nas suas palavras,
considerava ser o seu lugar aquele onde o governo achava por bem colocá-lo.909
Terminada a cerimônia de passagem de comando do DAC, Pessoa preocupou-se em
responder ao ministro da Guerra, por escrito, a consulta que este lhe fizera sobre ser ele o
autor da declaração/manifesto publicada no jornal A Noite. A Dutra, José Pessoa confirmou a
sua responsabilidade pelo repto que foi publicado, alegando que o fizera em defesa da sua
dignidade pessoal e do seu próprio lar, que foi considerado um reduto de conspiradores. Os
jornais já apontavam que Dutra apenas aguardava a resposta de Pessoa para mandar prendê-

908
A Noite, Rio de Janeiro, 16 jun. 1937, p. 2.
909
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 18 jun. 1937, p. 3.
570

lo. E foi o aconteceu. No dia seguinte, a imprensa publicou que, por determinação do
presidente da República, José Pessoa havia sido preso.910 A prisão, na verdade, foi
determinada pelo ministro da Guerra, em nota reservada, e teve um enorme efeito moral,
afinal de contas, dos supostos “conspiradores”, somente Pessoa e Valdomiro haviam sido
punidos. Os seis dias de prisão a ele impostos foram cumpridos no quartel-general da 1ª
Brigada de Infantaria, na Vila Militar, mesmo local em que o general Valdomiro havia
cumprido a sua pena. Na nota da prisão, Dutra alegou que Pessoa havia fornecido à imprensa
declarações sobre acontecimentos que estavam sendo tratados oficialmente por autoridades
superiores. Além disso, argumentou o chefe da pasta da Guerra, Pessoa havia feito referências
desabonadoras a superior hierárquico, no caso Góes Monteiro, e assertivas inverídicas a
respeito dos reais motivos de sua transferência para Juiz de Fora.911
Cabe ressaltar que, no dia seguinte ao de sua exoneração, Pessoa já havia feito um
forte pronunciamento em defesa de um ministro civil para a pasta da Guerra, durante a
inauguração da nova ponte de embarque e da nova usina de energia elétrica do Forte da Lage,
no Rio de Janeiro. No seu discurso, elogiou as gestões de Pandiá Calógeras, durante o
governo de seu tio Epitácio, e dos ministros da Guerra João José de Oliveira Junqueira Júnior
e da Marinha Afonso Celso de Assis Figueiredo, o Visconde de Ouro Preto, durante o
Segundo Império. Todos eles ministros civis. Segundo ele,

...esses exemplos nos deixam entrever que a prática de nomearem civis para as
pastas militares é das mais acertadas, pelo natural escrúpulo que têm eles de não
intervir nas funções do comando, intromissão esta tão perturbadora da harmonia e da
disciplina militar. Talvez fossem evitados os ressentimentos oriundos dos bancos
escolares; seria, enfim, um dique à formação de grupos alimentados por prevenções
descabidas. Haja vista o meio século de Império, em que, indistintamente se
nomeavam civis e militares para a pasta da Guerra, sendo-o usual na Marinha. E,
assim, já fizemos na Guerra do Paraguai, o que até hoje fazem as nações cultas,
milenárias e militarmente organizadas.912

Ao abordar, em suas memórias, o discurso proferido no Forte da Lage, fica claro que
Pessoa ressentia-se da exoneração do comando do DAC, que lhe fora imposta a mando de
Dutra. Lembrou que o País passava por um período agitado, em que os chefes do Exército
viviam “com seus passos tolhidos em verdadeiras teias de aranha, contudo despreocupados
com a atitude do triunvirato [Vargas, Dutra e Góes] que [...] mandava e desmandava,
desorganizava e a todos perturbava”. Segundo ele, eram os preparativos para o “liberticida de

910
A Noite, Rio de Janeiro, 17 jun. 1937, p. 2 e 18 jun. 1937, p. 1; Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 19 jun.
1937, p. 3.
911
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1937.06.15, doc.3.
912
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 13 jun. 1937, p. 3.
571

37” que já se faziam presentes, mas, que todos ignoravam. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta
V, p. 68)
Apesar das prisões de Valdomiro e de José Pessoa, Dutra ainda tinha que dar uma
solução à queixa apresentada pelo primeiro contra Góes Monteiro. Para isso, mandou abrir,
em 17 de junho de 1937, um inquérito policial militar, sob a presidência do general Firmino
Antônio Borba. Além de Valdomiro e Góes Monteiro, ouvidos como denunciante e indiciado,
respectivamente, foram inquiridos como testemunhas os generais Dutra, Pantaleão Pessoa,
Pantaleão Telles Ferreira, Brasílio Taborda, José Antônio Coelho Netto e José Pessoa. O
inquérito, que deveria somente apurar se Góes havia cometido o crime de calúnia ao
denunciar Valdomiro Lima, acabou virando um momento de acusações e justificativas de
atitudes tomadas no momento político pelo qual o País passava.
Valdomiro Lima pouco falou em sua inquirição. Tratou, apenas, de ratificar as
acusações que havia feito nas cartas que endereçou ao chefe da pasta da Guerra, em 11 de
junho. Já Góes Monteiro, em um longo depoimento, afirmou que não havia denunciado
ninguém ao presidente da República, apenas “comentado, opinado e referido fatos que
estavam no conhecimento público [...] sem ter a menor responsabilidade pela invenção desses
fatos e sua divulgação”. Entretanto, ressaltou que se foram revelados detalhes da suposta
reunião de generais pela imprensa, em pleno Estado de Guerra e não merecendo o corte da
censura, presumiu ser verdadeira a informação de que ela existiu. Apontou que ficou sabendo
do manifesto dos generais por intermédio do ministro da Guerra, em São Paulo. E que, dias
depois, no encontro que teve com Vargas, apenas havia lhe passado as versões correntes dos
fatos, referindo-se aos rumores existentes de que haviam sido realizadas, na verdade, mais de
uma reunião de generais, ora na casa de José Pessoa, ora no Estado-Maior do Exército.
Deixou claro que, por estar em Curitiba, cuidando da questão do Rio Grande do Sul, não sabia
dos pormenores do assunto, até mesmo porque os boatos e versões que dele circulavam na
imprensa eram inúmeros e desencontrados. Porém, admitiu ter dito a Getúlio que considerava
Valdomiro Lima o único responsável pelas agitações que haviam tomado conta do Exército e
que o considerava um traidor, por ter ele se fiado nas relações de parentesco com o presidente
para produzir o “estado de desprestígio e agitação contínua” em que se encontrava a
Instituição. Góes fez questão de destacar que o que motivou Valdomiro a lhe acusar de
caluniador e delator foi despeito de não ter sido nomeado chefe do Estado-Maior do Exército,
aliás, um cargo, segundo ele, que jamais havia cobiçado. Ao final de seu depoimento, imputou
à imprensa partidária e aos deputados da oposição ao governo a responsabilidade de
espalharem os fatos escandalosos e falsos sobre os acontecimentos que se passavam no
572

Exército, em relação ao que ocorria no Sul do País. Segundo ele, o que interessava a esses
órgãos de imprensa e políticos “a serviço de interesses estrangeiros, de interesses partidários e
de outros interesses escusos” era destituí-lo de suas funções a qualquer custo, para que
pudessem “afogar” a Pátria e o Exército em uma verdadeira “enxurrada de lama”.913
Quanto às testemunhas, os depoimentos de Pantaleão Pessoa, Pantaleão Telles e
Brasílio Taborda apontaram algumas coincidências, parecendo terem sido combinados. Todos
os três foram categóricos ao afirmar que, após tomarem conhecimento da suposta reunião dos
generais por meio dos jornais, procuraram o ministro da Guerra para informar-lhe que a
reunião não havia acontecido e depositar-lhe a confiança que era necessária para que somente
ele falasse em nome do Exército a respeito das questões que ameaçavam criar um dissenso
dentro da Instituição. Entretanto, todos confirmaram, em algum momento, terem trocado
ideias com colegas sobre as apreensões que existiam a respeito das consequências
imprevisíveis que poderiam advir das constantes notícias que eram veiculadas pelos órgãos de
imprensa sobre a concentração de tropas federais no Sul do País.
Pantaleão Telles apontou ser conveniente que se “envidassem esforços fervorosos no
sentido de que fossem mantidas as instituições, a paz e a ordem” e que as acusações falsas que
eram imputadas e ele e aos demais generais não passavam de uma “invencionice”, igual às
muitas outras que vinham acontecendo desde a Revolução de 1930 até aquela data. Pantaleão
Pessoa disse ter se encontrado com Valdomiro Lima somente uma vez, em maio daquele ano.
Na ocasião, segundo ele, deixou claro ao comandante da 1ª RM que não acreditava que o
regime organizado em 1934 fosse tão falho e imprevidente a ponto de não encontrar outro
meio para resolver as questões de ordem criadas pelas próprias autoridades do governo, em
uma clara referência à indisposição do governo com Flores da Cunha. E ressaltou que manter-
se-ia ao lado da Constituição, das leis e da ordem. Além disso, afirmou ter pedido a
Valdomiro para que declarasse pessoalmente o seu apoio ao ministro Dutra. Porém, Pantaleão
Pessoa fez questão de destacar que as dificuldades pelas quais passava a Nação tinham sido
criadas com o pleno concurso e consentimento das próprias autoridades e que, devido a isso,
não seria justo lançar o Brasil em uma “luta fratricida” e, muito menos, tirar daí “pretextos
para fazer do Exército instrumento da satisfação de paixões mal disfarçadas, especialmente
quando por meios dissuasórios tudo poderia voltar aos seus devidos lugares”. Assim como os
seus colegas de farda, Brasílio Taborda disse ter ficado perplexo com ao tomar conhecimento

913
Depoimento do general Góes Monteiro no Inquérito Policial Militar instaurado para apurar queixa-crime de
calúnia apresentada pelo general Valdomiro de Lima em desfavor do general Góes Monteiro, 17 jun. 1937.
Arquivo do Exército. Acervo do Gabinete do Ministério da Guerra.
573

da denúncia que lhe fora imputada de conspirar contra o governo. E que já havia alertado o
general Dutra, seu velho amigo, dos rumores generalizados em todos os meios sociais e
políticos de que o Exército se preparava para entrar no Rio Grande do Sul em uma “expedição
punitiva”, exatamente após o comandante da 3ª RM ter declarado publicamente que os corpos
provisórios de Flores da Cunha já haviam sido desarmados e não representavam mais
nenhuma ameaça à ordem do País. Declarou, também, já haver advertido Dutra sobre a
inevitável guerra civil que poderia advir da invasão daquele estado. Uma guerra que poderia,
segundo Taborda, espalhar-se para outros rincões do Brasil. Buscando novamente as
coincidências existentes nos depoimentos dos três generais, todos terminaram as respostas às
suas inquirições fazendo a mesma afirmação: se a defesa da ordem, do regime e da paz
poderiam ser classificados como conspiração, então, sim, haviam conspirado e continuariam
conspirando, apesar das ameaças e das invenções criadas.914
José Pessoa disse nada ter a esclarecer sobre a reunião dos generais, pois ainda não
tinha visto terem se concretizadas as provas do “crime” que lhe estava sendo imputado. Sendo
assim, não poderia contestá-las com “a verdade, o critério e a honestidade com que se sempre
pautou os atos de sua vida”. Ressaltou que as acusações de Góes Monteiro eram “despidas de
todo o fundamento, sem qualquer cunho de credibilidade, para que se lhe possa emprestar a
devida consideração”. Dizendo-se acostumado à disciplina, ao respeito aos camaradas e à
obediência às ordens superiores, afirmou não poder atinar como alguém poderia provocar a
discórdia e fragmentar a tropa quando o País exigia o “controle das paixões e, principalmente,
a harmonia entre as autoridades militares, para a grandeza do próprio Exército e segurança das
instituições nacionais”. Destacou que tanto o País como o Exército já sabiam que o escândalo
da suposta conspiração dos generais havia sido um “gesto de torpe vingança e de mais uma
manobra de politiqueiros civis e militares” e que, se havia conspiração no Exército, por certo
não seria ele um dos cumplices, ao menos que ao seu lado estivesse o próprio ministro da
Guerra como conivente. Por fim, afirmou nunca ter trocado ideias com colega algum sobre a
situação político-militar do País.915
A respeito do general Coelho Netto, este apenas fora chamado porque fora citado no
depoimento de José Pessoa. Pessoa afirmou que havia se encontrado com Coelho Netto na

914
Depoimentos dos generais Pantaleão Telles Ferreira, Pantaleão Pessoa e Brasílio Taborda no Inquérito
Policial Militar instaurado para apurar queixa-crime de calúnia apresentada pelo general Valdomiro de Lima em
desfavor do general Góes Monteiro, 17 jun. 1937. Arquivo do Exército. Acervo do Gabinete do Ministério da
Guerra.
915
Depoimento do general José Pessoa no Inquérito Policial Militar instaurado para apurar queixa-crime de
calúnia apresentada pelo general Valdomiro de Lima em desfavor do general Góes Monteiro, 17 jun. 1937.
Arquivo do Exército. Acervo do Gabinete do Ministério da Guerra.
574

Escola de Aviação, e que este comandava, a fim de agradecer-lhe pela cessão de alguns aviões
para os serviços da Artilharia de Costa no Amazonas. Na ocasião, conversaram sobre a
situação geral e Netto pediu a Pessoa que falasse ao ministro da Guerra sobre a sua
preocupação com a exploração que se fazia em torno do nome do Exército na imprensa.
Também declarou ter pedido ao colega que aconselhasse a Dutra encontrar uma solução
pacífica e dentro da ordem para os problemas do Rio Grande do Sul.916
O depoimento de Dutra praticamente serviu para ratificar o de Góes Monteiro, tendo o
ministro da Guerra confirmado as informações dadas por Góes da veiculação das notícias a
respeito da suposta conspiração dos generais. Dutra afirmou que desde o dia 30 de maio já
havia sido procurado por alguns generais, como Horta Barbosa, Castro Júnior e Manoel
Rabelo, que se dirigiram ao seu gabinete para trocarem ideias sobre os acontecimentos
políticos-militares que agitavam o País e prestar-lhe o apoio necessário no desempenho da
função de chefe da pasta da Guerra. Segundo o ministro, nesses encontros fez questão de
deixar claro que os preparativos militares que estavam sendo tomados em relação ao Sul não
tinham outros objetivos senão somente dissolver os corpos provisórios organizados por Flores
da Cunha e recuperar o material bélico pertencente ao Exército que ainda estava em poder do
Rio Grande do Sul. Quando isso fosse providenciado, cessariam as atividades militares na
fronteira com aquele estado. Ressaltou, inclusive, que o próprio Valdomiro Lima o havia
procurado, para prestigiar-lhe na função de ministro e oferecer-se para tratar com Flores da
Cunha a devolução do armamento.917
Dutra fez chegar, ainda, às mãos do responsável pelo inquérito, uma declaração de
Vargas a respeito das acusações feitas por Valdomiro Lima. Getúlio afirmou que Valdomiro
não havia reproduzido com exatidão o que tinha dele ouvido na conversa que tiveram no
Palácio da Guanabara e que as informações que havia recebido de Góes e transmitido a Lima
poderiam ser resumidas da seguinte maneira: que um grupo de generais havia se encontrado
no Rio de Janeiro para tratar de assuntos correntes da situação político-militar do País e que
uma das reuniões teria acontecido na casa de José Pessoa. Vargas negou, entretanto, que tenha
feito qualquer referência a uma conspiração de generais.918

916
Depoimento do general Coelho Netto no Inquérito Policial Militar instaurado para apurar queixa-crime de
calúnia apresentada pelo general Valdomiro de Lima em desfavor do general Góes Monteiro, 17 jun. 1937.
Arquivo do Exército. Acervo do Gabinete do Ministério da Guerra.
917
Depoimento do general Eurico Dutra no Inquérito Policial Militar instaurado para apurar queixa-crime de
calúnia apresentada pelo general Valdomiro de Lima em desfavor do general Góes Monteiro, 17 jun. 1937.
Arquivo do Exército. Acervo do Gabinete do Ministério da Guerra.
918
Carta do presidente Getúlio Vargas apresentada no Inquérito Policial Militar instaurado para apurar queixa-
crime de calúnia apresentada pelo general Valdomiro de Lima em desfavor do general Góes Monteiro, 17 jun.
1937. Arquivo do Exército. Acervo do Gabinete do Ministério da Guerra.
575

Em 28 de junho, o general Firmino Borba encaminhou a sua solução do inquérito a


Dutra. Dentro do que todos já esperavam, Borba concluiu que a notícia da reunião dos
generais não havia passado de um boato, disseminado aos quatro ventos do País pelos jornais
partidários, a fim de se criar um escândalo político-militar que agitasse a opinião pública.
Entretanto, não soube o presidente do inquérito apontar os nomes dos responsáveis pela
criação da falsa notícia. Quanto à queixa de Valdomiro, propriamente dita, não encontrou
indícios de crime cometido por Góes Monteiro. Pelo contrário, alegou que Góes havia agido
de boa-fé, ao informar e esclarecer o chefe da Nação sobre uma possível conspiração de
generais contra o governo. E mais, atribuiu a Valdomiro a ocorrência de uma transgressão
disciplinar, por ter apresentado “queixa, parte, denúncia ou qualquer outro documento sem
fundamento”, conforme previa o artigo 338 do Regulamento Interno e dos Serviços Gerais.
No entanto, reconheceu que uma punição imposta a Valdomiro, apesar de servir de exemplo à
oficialidade, traria o malefício de causar uma grande inquietação no seio do Exército.919
Por força regulamentar, o inquérito foi enviado à Procuradoria Geral da Justiça
Militar, já que se tratava da apuração de um suposto crime militar. Da análise da
documentação que lhe fora enviada, o Procurador Geral da República, ministro Washington
Vaz de Mello, concluiu que, de fato, não houve a reunião dos generais e que, em decorrência,
nenhuma conspiração havia sido tramada. No seu entender, não houve, também, crime
cometido por Góes Monteiro. Sendo assim, não ofereceu denúncia. O caso foi, ainda, revisado
pelo Supremo Tribunal Militar, que ratificou o parecer do Procurador Geral e definiu a
competência do Ministério da Guerra para dar a solução final ao inquérito. No entanto, mais
uma vez, coerente com a posição que tomara no julgamento do habeas corpus de Valdomiro
Lima, o ministro Barros Barreto concluiu que Góes Monteiro, havia, sim, cometido o crime
de calúnia, estando sujeito às punições previstas no Código Penal Militar. Porém, foi foto
vencido.920
José Pessoa, em sua autobiografia, refere-se ao inquérito como um ato “faccioso” do
governo, pois, segundo ele, “nada apurou, porque nada devia apurar”. Na sua visão, a justiça
do País paralisou-se diante do “conluio desavergonhado” que havia se formado entre o
governo e o Supremo Tribunal Militar. Para ele, o ministro relator do STM havia se curvado
919
Solução do Inquérito Policial Militar instaurado para apurar queixa-crime de calúnia apresentada pelo general
em desfavor do general Góes Monteiro, 17 jun. 1937. Arquivo do Exército. Acervo do Gabinete do Ministério da
Guerra.
920
Pareceres exarados pelo Procurador Geral da Justiça Militar e pelo Supremo Tribunal Militar a respeito da
solução dada ao Inquérito Policial Militar instaurado para apurar queixa-crime de calúnia apresentada pelo
general em desfavor do general Góes Monteiro, 3 e 14 jul. 1937. Arquivo do Exército. Acervo do Gabinete do
Ministério da Guerra.
576

diante do governo, bem como o STM não havia salvado a honra dos seus magistrados, ao se
negar a defender a verdade e a justiça. Como consequência, os difamadores continuaram a
fazer injustiças e a “corromper a moralidade nacional”. Para Pessoa, “o epílogo desse drama
de delação e vergonha” serviram para provar como se planejou o Estado Novo:
“sorrateiramente, intrigando e desprestigiando os generais do Exército, sob a proteção de uma
justiça tolerante e conivente”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X, p. 104)
Insatisfeito com a solução do inquérito e com a prisão que lhe fora imposta, José
Pessoa resolveu queixar-se do ministro Dutra ao presidente da República. Mais do que um
desagravo, considerava o ato uma questão de “dignidade militar e pessoal”. No documento,
apresentado em 17 de julho, ressaltou que a publicação do seu repto na imprensa, em 16 de
junho, foi feita com o intuito de defender perante o Exército e a Nação a sua dignidade
pessoal e a do seu lar, ofendidas injustamente por quem havia denunciado a suposta
conspiração contra o governo. Destacou, também, ser alheio às competições partidárias e
“visceralmente contrário” à intromissão de militares na política e de políticos na classe
militar. E que, se foi à imprensa, não foi com o intuito de desgravar a sua individualidade, que
pouco valia, e, sim, a dignidade do seu posto. Por possuir a “alma vibrátil” às ofensas e
injustiças, não poderia refrear o “legítimo movimento de defesa” que fez, ao ter conhecimento
pelos jornais das “injúrias e agravos” que lhe fizera Góes Monteiro. Considerou, ainda, ser
um desprimor para o Exército generais serem transferidos sem razões justificáveis e
castigados com prisões “que se não compadecem em absoluto com sua atitude exemplar e
com suas pesadas responsabilidades para com a Nação”. Para Pessoa, os caluniadores não
desprestigiavam somente as suas vítimas, mas também causavam graves prejuízos morais
para o País e para a classe militar.921
Quanto à sua prisão, alegou ter ficado sabendo da pena que lhe fora imposta pelos
jornais e que em momento algum foi notificado formalmente pelo ministro da Guerra. E que,
apesar da nota oficial da sua prisão ter o caráter reservado, foi amplamente divulgada pela
imprensa da Capital Federal, o que Pessoa considerou ter sido um ato de quem procurava lhe
desacreditar perante a opinião pública e a classe militar. Também entendia que não existia, no
Regulamento Interno dos Serviços Gerais e no Regulamento Disciplinar do Exército,
dispositivo que justificasse a sua prisão. Por fim, ressaltou que fora recolhido à prisão antes
da formulação e da publicação da nota de culpa, o que contrariava o RISG.922

921
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1937.06.15, doc.0927.
922
Ibidem.
577

A solução à queixa de José Pessoa foi dada praticamente um mês e meio após ter
chegado às mãos de Getúlio. O presidente mandou arquivar o processo. Sequer ouviu as
partes interessadas, o que, segundo Pessoa aponta em suas memórias, não lhe surpreendeu,
diante da ditadura que se aproximava. No entanto, em outubro de 1937, Dutra mandou o
Departamento do Pessoal do Exército (DPE) cancelar a prisão imposta a Pessoa. Ao dar
ciência do recebimento da notícia ao chefe do DPE, general Raymundo Barbosa, ressaltou
que, apesar do cancelamento da punição disciplinar, já se sentia desagravado com a
“abundância de solidariedade” recebida dos camaradas do Exército, dos cidadãos e da
imprensa da Capital Federal.923
O inquérito presidido pelo general Borba não comprovou a existência da suposta
conspiração de generais contra o governo, tampouco apontou os responsáveis pela propagação
da notícia caluniosa na imprensa. Também não imputou a Góes Monteiro o crime de calúnia,
como desejava Valdomiro Lima. Entretanto, o ostracismo a que foram relegados os
proeminentes generais que nele se viram envolvidos, serviu de alerta para outros oficiais que
desejassem se opor aos rumos que a política nacional tomava. Valdomiro permaneceu sem
função e presidiu alguns poucos inquéritos militares até falecer, em fevereiro de 1938. José
Pessoa foi nomeado comandante da 9ª Região Militar, no distante estado do Mato Grosso,
região conhecida tradicionalmente por receber os “banidos” do Exército. Pantaleão Pessoa
ainda se envolveria em um levante integralista contra o governo, em maio de 1938. Ficou
preso por cinco meses e, após a sua soltura, se auto-exilou em sua fazenda, em Barra do Piraí-
RJ, onde permaneceu até passar à reserva, em 1944. Pantaleão Telles foi reformado
compulsoriamente, em novembro de 1937, por opor-se ao golpe do Estado Novo. Brasílio
Taborda comandou a 8ª Região Militar, função que exerceu até julho de 1939, quando deixou
o serviço ativo do Exército.924
Os meses que se seguiram foram de intensa agitação política. Com o afastamento da
esfera de poder dos generais ouvidos no inquérito conduzido pelo general Borba, o governo
considerou que o Exército estava seguro e passou a mirar em Flores da Cunha. Vargas
considerava Flores a pedra angular de uma potencial oposição política dos estados à
centralização do governo. Era provável que os governos dos demais estados somente se
mobilizassem soba a liderança do governador do Rio Grande do Sul. Em Minas Gerais,
Benedito Valadares, o homem de Getúlio na campanha sucessória à presidência, em um

923
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1937.06.15, doc.0934.
924
Informações retiradas das fés de ofício dos generais Valdomiro Lima, Pantaleão Pessoa, José Pessoa,
Pantaleão Telles e Brasílio Taborda. Arquivo do Exército.
578

pronunciamento pelo rádio se manifestou contrário a qualquer movimento de coerção para


levar a efeito a sucessão presidencial. Dias depois, apresentou como seu candidato José
Américo Valadares, da Paraíba. Alguns políticos consideraram a atitude de Valadares um
gesto de rompimento com Vargas. (McCANN, 2009, p. 516-517)
Mesmo após os provisórios de Flores terem sido desmobilizados, em junho de 1937, e
ele ter se comprometido com Vargas em não interferir na sucessão presidencial, o presidente
pediu a Dutra que fizesse uma inspeção nas guarnições do Rio Grande do Sul, no mês de
julho. Getúlio preocupava-se, porque, se houvesse uma intervenção, era imprescindível que os
soldados gaúchos cumprissem as ordens do governo federal. Dutra percorreu os principais
centros militares do estado, ressaltando sempre a necessidade da obediência incondicional ao
governo, com lealdade e isenção. Nas conversas que teve com os oficiais, percebeu, porém,
que não lhes interessava envolverem-se na política local e que possuíam restrições a uma
possível intervenção federal. No encontro que teve com Flores da Cunha, este ressaltou as
intenções pacíficas do Rio Grande do Sul. Porém, deixou claro a Dutra que saberia defender
dignamente os interesses do estado, se fosse preciso. Ao mesmo tempo, Góes Monteiro, já na
função de chefe do Estado-Maior do Exército, preocupava-se, no Rio de Janeiro, em realocar
os generais dos altos comandos. Figuras indiferentes às manobras contra Flores, como os
generais Guedes da Fontoura e Esteves, ganharam novos comandos, distantes do sul do
País925. (McCANN, 2009, p. 518-519)
O mês de agosto transcorreu conturbado. Praticamente quase todos os dias havia
rumores de golpes de estado militares e civis ou de levantes comunistas e integralistas. No
último dia de julho, José Américo havia proferido um inflamado discurso político na
Esplanada do Castelo, no Rio de Janeiro, defendendo o saneamento das finanças públicas, a
reestruturação da administração pública e o estímulo à exploração de recursos minerais e à
indústria bélica para a defesa nacional. Abordou este último tema, inclusive, talvez até
estimulado por José Pessoa. Os dois eram velhos conhecidos. Cabe lembrar que haviam, em
1930, articulado a Revolução na Paraíba juntos. Pessoa aponta que visitou José Américo em
1937, logo que este se candidatou à Presidência. No encontro, José Américo lhe teria
solicitado algumas ideias referentes à defesa nacional. Sendo assim, Pessoa enviou uma carta
ao amigo presidenciável, expondo a o estado deplorável em que se encontrava a defesa do
País, o que seria, segundo ele, uma consequência da “incúria e impatriotismo do Alto

925
Guedes da Fontoura, que comandava a 5ª Região Militar, em Curitiba, foi transferido para a 4ª Região Militar,
em Juiz de Fora. Já, Luiz Esteves, comandante da 3ª Região Militar, foi “promovido” à inspetor do 1º Grupo de
Regiões Militares, cuja sede ficava no Rio de Janeiro.
579

Comando [do Exército], jungido às conveniências da nefasta política pessoal dos maus
governos” (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XII, p. 152). Ressaltou a José Américo que
somente a garantia da soberania nacional criaria as condições favoráveis ao desenvolvimento
das demais fontes de riqueza da Nação. E, para que esse objetivo fosse atingido, era
necessário que fosse cumprido o seguinte programa, o qual somente um governo
verdadeiramente patriota, com vontade firme e bem orientada, teria condições de impulsionar:

a) solucionar o problema siderúrgico, com a nacionalização da indústria do ferro,


graças à existência no território nacional, de jazidas de minérios desse metal e de
manganês, assim como reservas colossais de matas e quedas d’água;
b) resolver integralmente o problema dos combustíveis (carvão, petróleo, etc);
c) fabricar o material bélico e as pólvoras químicas do País;
d) organizar, sob novas bases, a instrução profissional e técnica do corpo de oficiais;
e) ampliar e melhorar as nossas defesas terrestre e costeira, tudo subordinado aos
altos interesses nacionais. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XII, p. 153-154)

O acirramento político levou Dutra a enviar uma circular às regiões militares


lembrando que os militares não estavam acostumados a embates políticos de grandes
proporções e concitando-os a guardarem a ordem interna e manterem-se alheios à luta
política. No dia 18, o ministro deu ordem para que os comandantes regionais se pusessem de
sobreaviso, para o caso de comoções públicas. No dia seguinte, o novo comandante da 3ª RM,
general Daltro Filho, telegrafou a Vargas, para informar que os oficiais gaúchos se mostravam
dispostos a resistirem a qualquer ato atentatório contra a autonomia rio-grandense e que
Flores estava decidido a resistir a qualquer tipo de intervenção que houvesse. Além disso,
Daltro também informou que Flores articulava com São Paulo um amplo movimento contra o
governo. (McCANN, 2009, p. 519-521)
Na sequência de fatos que culminou no golpe do Estado Novo, merece atenção a
aliança feita por Vargas, Dutra e Góes para o fortalecimento das Forças Armadas nacionais.
Desde a década de 1930, Góes vinha ressaltando a Vargas a necessidade premente de fazer
algumas reformas importantes na esfera militar do País. Cabe lembrar o plano de reformas
para o Exército, que ele já havia apresentado a Getúlio, em 1934. Os diversos generais que
passaram pela pasta da Guerra e pelo EME há tempos vinham frisando as deficiências de
armamento, munição e equipamentos do Exército. Tanto o presidente quanto os dois generais
concordavam que o Brasil precisava modernizar urgentemente as suas Forças Armadas. Como
aponta McCann (2009, p. 527), um Exército moderno garantiria a unidade do País contra as
forças centrífugas do regionalismo e o defenderia contra inimigos externos. O acordo que se
estabeleceria a partir de 1937 era claro: Góes e Dutra garantiriam a Vargas a paz e a
segurança interna da Nação e este lhes daria as armas e uma indústria moderna que
580

sustentassem o desenvolvimento de um Exército e de uma Marinha fortes para o País. Para


Carvalho (2006, p. 110), com o acordo do Estado Novo, Vargas e as Forças Armadas
atingiriam o ponto máximo de sua influência, derrotando os adversários e eliminando a sua
capacidade de reação pelo fechamento dos mecanismos de participação.
Em setembro o cenário político inflamou-se. O governador de Minas Gerias, Benedito
Valadares demonstrava estar desanimado com os discursos polêmicos do seu candidato à
presidência, José Américo. O prefeito do Rio de Janeiro, Pedro Ernesto, posto em liberdade,
após não ter sido comprovada a sua participação no levante comunista de 1935, declarou o
seu apoio ao candidato da oposição, Armando Sales. Devido ao seu carisma junto à população
carioca, era certo que Ernesto arrastaria uma multidão na direção de Sales. Em uma reunião
com Valadares e Dutra, Vargas concordou que não havia tempo hábil para achar um
candidato substituto a José Américo na corrida às eleições presidenciais. Também não havia
como prorrogar legalmente o mandato de Vargas. A solução encontrada pelos três foi uma
ação revolucionária. Consultados por Getúlio, tanto Dutra como Valadares confirmaram a sua
colaboração em uma nova revolução. Dutra, entretanto, não garantiu o apoio do Exército. E
Benedito Valadares impôs duas condições: que o Exército aceitasse a revolução e que a força
pública mineira não fosse retirada do seu comando direto. Entretanto, ainda era necessário
eliminar a influência de Flores da Cunha e garantir o apoio dos integralistas de Plínio Salgado
ao novo regime. (McCANN, 2009, p. 527-530)
Enquanto corriam rumores no Congresso Nacional de que Góes Monteiro estava
tramando um golpe contra a democracia do País, o que foi negado veementemente pelo chefe
do EME, Benedito Valadares apresentava a Vargas os rascunhos de um manifesto
presidencial e de uma nova Constituição, elaborados pelo jurista mineiro Francisco Campos.
Concomitantemente a tudo isso, Getúlio procurava, sempre que possível, demonstrar o seu
apoio ao Exército, participando de solenidades militares e assistindo às manobras no campo
de instrução de Gericinó. Em 27 de setembro, Dutra convocou uma reunião que seria crucial
para a consolidação dos planos de Vargas, com a participação de Góes Monteiro e dos
generais Almério Moura, comandante da 1ª RM, Coelho Netto, comandante da Aviação
Militar, Newton Cavalcanti e de Filinto Müller, chefe da Polícia do Distrito Federal. Na
ocasião, apresentou a todos o famigerado Plano Cohen926, afirmando categoricamente não se

926
O Plano Cohen foi escrito pelo capitão Olímpio Mourão Filho, organizador da milícia paramilitar da Ação
Integralista Brasileira. Em 1937, Mourão Filho era o chefe do serviço secreto integralista e ocupava, também,
um cargo no serviço de inteligência do Estado-Maior do Exército. O documento redigido pelo capitão nada mais
era do que uma simulação de um golpe comunista, a ser utilizada em um exercício defensivo dos integralistas.
Plínio Salgado não aprovou o plano, por achá-lo fantasioso demais. Ao tomar conhecimento do falso documento,
581

tratar, o documento, de uma fantasia do governo. Era preciso, segundo o ministro, que o
Exército agisse imediatamente para salvar o Brasil de uma nova catástrofe comunista que
estava prestes a explodir. (McCANN, 2009, p. 531)
Os presentes à reunião concordaram que era necessário expurgar da Câmara dos
Deputados os membros reacionários. Dutra, porém, asseverou que era necessário que fossem
mantidas as autoridades constituídas, afinal de contas o movimento revolucionário arrastaria
consigo o presidente da República. Góes ressaltou que para enfrentar os planos comunistas
seria preciso uma ação militar que implicaria um golpe de Estado, que deveria transcorrer no
mais absoluto sigilo, um segredo só de generais. Filinto Müller salientou que seria necessário
que as Forças Armadas ficassem de fora do novo governo que viesse a ser estabelecido.
Sugeriu, também, que as prisões que viessem a ser feitas fossem sumárias e sem direito a
defesa, e que fossem criados campos de trabalhos forçados. O general Cavalcanti recomendou
que os dois ministros militares participassem do movimento ao lado do presidente, a fim de
assegurar-lhe, pelo uso da força, os poderes excepcionais necessários. Também se opôs ao uso
das milícias integralistas no movimento. Se fosse necessário usá-las, que fossem enquadradas
pelas tropas federais. Almério Moura disse ser importante que o movimento não fosse
confundido com uma ditadura militar. No dia seguinte ao da reunião, todos os presentes
assinaram a ata, sob o compromisso de salvarem o Brasil e suas instituições políticas e sociais
da hecatombe que estava prestes a explodir. Também se comprometeram a excluir de suas
ações e intenções qualquer proveito próprio ou qualquer ideia de ditadura militar. (McCANN,
2009, p. 531-532)
No dia 29 de setembro, Dutra e o ministro da Marinha, vice-almirante Henrique
Aristides Guilhem, entregaram a Vargas um documento em que pediam ao Congresso o
restabelecimento do Estado de Guerra. Para Dutra, esse era o meio mais viável de combater o
comunismo, prender congressistas e tomar outras providências do mesmo teor. No mesmo
dia, Vargas encaminhou o pedido dos ministros aos congressistas. No dia seguinte, a
descoberta de um novo plano de tomada de poder pelos comunistas ganhou as páginas dos
jornais e os programas de rádio. E, em 1º de outubro, mesmo sem a apresentação dos
documentos mencionados, os deputados e senadores aprovaram o restabelecimento das
medidas restritivas no País. Diferentemente das situações anteriores, uma comissão foi

Góes utilizou-se de partes dele para solicitar ao congresso que decretasse um novo Estado de Guerra no País.
(McCANN, 2009, p. 525)
582

formada para supervisionar o Estado de Guerra em âmbito nacional 927. Nos estados, a
supervisão ficava por conta dos governadores, à exceção do Rio Grande do Sul, São Paulo e
Distrito Federal, onde a autoridade foi entregue aos generais Daltro Filho (3ª Região Militar),
Parga Rodrigues (2ª Região Militar) e a Filinto Müller, respectivamente. (McCANN, 2009, p.
531-532)
A decisão de retirar dos governadores de São Paulo e Rio Grande do Sul o poder de
implementação do Estado de Guerra requeria que as forças públicas desses estados passassem
ao comando das duas regiões militares, o que levou as polícias a ponderarem a suas opções de
futuro e as suas lealdades. Entretanto, nenhuma das duas forças estaduais desejava uma guerra
civil. Sendo assim, São Paulo não ofereceu resistência, atém mesmo porque tropas estaduais
mineiras já haviam se postado na divisa dos dois estados, prontas para entrar em ação a uma
ordem de Getúlio. No Rio Grande do Sul, Flores da Cunha reconheceu que a Brigada Militar
havia passado para o lado do Exército e que já não tinha o total apoio dos provisórios. Isolado
política e militarmente, recusou-se a assinar o decreto passando o comando das forças
estaduais para o Exército e exilou-se no Uruguai, em 16 de outubro. Três dias depois, Vargas
decretou a intervenção em seu estado natal, nomeando o general Daltro Filho interventor.
(McCANN, 2009, p. 533-535)
As últimas semanas de outubro e as primeiras de novembro, que antecederam a
instauração do Estado Novo, foram marcadas por fortes tensões políticas. Na comissão
nomeada para supervisionar o Estado de Guerra os membros não se entendiam. O general
Cavalcanti e o almirante Pais Leme acusavam Macedo Soares de não cooperar na
administração do grupo. Ao mesmo tempo, Vargas decidiu decretar a intervenção em São
Paula, na Bahia e em Pernambuco, diante das acusações de Góes Monteiro e de Newton
Cavalcanti de que esses estados tramavam um golpe contra o governo. Além disso, resolveu
federalizar dois batalhões da força policial mineira e as polícias estaduais dos outros estados
foram postas sob o comando de uma autoridade federal. (McCANN, 2009, p. 536)
Enquanto o presidente desdobrava-se para garantir o apoio de Plínio Salgado ao golpe,
previsto para acontecer em 15 de novembro, os conspiradores discutiam a melhor maneira de
implementar a reforma constitucional, não chegando a um consenso quanto ao modo de
legalizá-la, se por meio da aprovação do Congresso, ou por imposição do novo governo.
Emissários de Valadares e de Vargas percorriam os estados em busca da concordância dos
governadores estaduais com a mudança de regime. Somente os governadores de Pernambuco

927
A comissão era formada pelo ministro da Justiça, Macedo Soares, pelo general Newton Cavalcanti e pelo
almirante Dário Paes Leite de Castro.
583

e da Bahia não foram consultados, já que estavam marcados para serem destituídos.
Paralelamente a esses fatos, cresciam os rumores de que um golpe de estado viria a acontecer
nos próximos dias de novembro, o que levou Dutra a tomar algumas precauções contra um
provável movimento de generais que procuravam frustrar o golpe. Substituiu comandantes e
visitou pessoalmente as guarnições da Vila Militar e de Minas Gerais para certificar-se de que
essas guarnições estavam comprometidas com o governo. (McCANN, 2009, p. 538)
Em 5 de novembro o jornal Correio da Manhã noticiou os rumores de que, na semana
seguinte se processariam acontecimentos que mudariam por completo o desenrolar dos fatos
políticos do País.928 A publicação surpreendeu os conspiradores, já que a censura e o Estado
de Guerra haviam deixado passar o assunto polêmico. No dia 8 de novembro, líderes de
oposição se reuniram na casa do candidato à presidência Armando Sales, que se comprometeu
em denunciar aos chefes militares a trama que vinha se desenvolvendo. Na Câmara dos
Deputados, o deputado João Carlos Machado, aliado de Flores da Cunha, leu para os colegas
o apelo de Sales. O mesmo foi feito no Senado, pelo senador Paulo de Morais Barros.
(McCANN, 2009, p. 540)
Diante dos manifestos da oposição, que já haviam chegado às ruas e aos oficiais
subalternos das Forças Armadas, no interior dos quartéis, as providências para o golpe foram
antecipadas. Em 9 de novembro, Dutra colocou as 1ª, 2ª e 3ª Regiões Militares929 em
prontidão e alertou as demais regiões que eventos políticos da maior importância estavam
prestes a ocorrer, devendo as suas unidades militares estarem prontas para agir, se fosse
necessário. Nas primeiras horas da manhã do dia 10 de novembro, as forças policiais do
Distrito Federal cercaram o Congresso Nacional. Filinto Müller comunicou ao presidente do
Senado em exercício que o Congresso estava dissolvido. Enquanto isso, Dutra percorria os
quartéis de São Cristóvão, a fim de verificar se estavam de prontidão, e os líderes da oposição
eram avisados do golpe. Às 10 horas, o gabinete de Vargas assinou a nova Constituição, à
exceção do ministro da Agricultura, Odilon Duarte Braga, que renunciou à pasta em protesto
ao golpe. Estava, dessa forma, instituído o Estado Novo, que colocaria o País sob a ditadura
de Vargas durante os próximos oito anos, com a aquiescência de Dutra e Góes Monteiro e de
grande parte do alto comando das Forças Armadas. No pronunciamento que fez ao Exército,
publicado na imprensa e lido em todos os quartéis da Força, Dutra deixava claro qual deveria
ser, a partir daquela data, a missão da Instituição:

928
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 5 nov. 1937, p. 2.
929
A essas regiões militares pertenciam as unidades militares da Capital Federal, de São Paulo e do Rio Grande
do Sul, respectivamente.
584

Cabe, porém, ao Exército, cabe às Forças Armadas não permitirem que essas
aspirações de paz, de ordem, de trabalho sejam frustradas por eternos inimigos da
pátria e do regime. Para isso é necessário uma orientação precisa, definida. Paixões
patrióticas podem entrechocar-se. Conflitos ideológicos podem entrar em ebulição.
Interesses pessoais e de agrupamentos podem ressoar em debates. Questões
regionais podem ser trazidas à arena. Tudo isso pode acontecer. Mas, de tudo isso o
Exército deve estar isento de contaminação. As suas virtudes serão exalçadas na
lisonja dos sedutores. Cumpre, porém, resistir. Não lhe cabe, ao Exército, influir nos
destinos políticos de que os políticos se incumbem. Não é essa a sua missão. Muito
mais simples, nem por isso ela deixa de ser mais nobre. Cumpre-lhe, neste momento
de incerteza, salvaguardar os interesses da pátria, fiel a postulados – obediência,
disciplina, trabalho, instrução, serenidade, discrição, abnegação, renúncia,
patriotismo em suam. Se os arraiais da política se agitam em busca de uma solução
que a todos satisfaça; se, na impossibilidade de atingirem o fim almejado, recorrem
a medidas de exceção; se, descrente dos ensaios esboçados, apegam-se a
deliberações singulares – o espírito público contrasta em uma tranquilidade
aparentemente paradoxal. E isto por quê? Porque o Exército, as Forças Armadas da
Nação, mostram-se coesas e circunscritas às suas legítimas finalidades. Guardiãs da
ordem interna, atentas e vigilantes, isentas de paixões e de ódios, prontas para
atenderem ao primeiro comando dos chefes, é assim que a sociedade as vê e é por
isso que nelas confia. O panorama que se desdobra no cenário da política não foi por
elas criado; os desacordos das facções em pugna não foram por elas fomentados; das
impossibilidades de um entendimento entre os diferentes grupos não lhes cabe
responsabilidade. O que elas têm feito, e continuarão a fazer, é oporem um dique às
explosões que se preparam, é constituírem barreiras às ambições partidárias, é
expelirem dos eu seio os elementos indesejáveis, é destruírem logo no início os
menores surtos de desordem, é se mostrarem dispostas a não consentir que se
transforme em campo de batalha o solo feracíssimo onde o trabalho estua, onde
repousa a paz, onde a riqueza se avoluma e se multiplica. Como é do conhecimento
gera, hoje foi promulgada uma nova Constituição Federal, estatuto que os órgãos
competentes na matéria consideram melhor atender às exigências do presente
momento. Percebendo as lacunas e defeitos o estatuto de 1934 [...] novos rumos são
traçados aso nosso regime democrático, melhor aparelhado para a continuidade
federativa. Qualquer perturbação da ordem será uma brecha para os inimigos da
pátria, para os adversários do regime democrático. Cumpre-nos evitá-la, exercendo
com serenidade e firmeza a missão que nos corresponde [...] Se assim procedermos,
em nós continuará confiante a sociedade brasileira. [...] A pátria e o regime
repousarão sob nossa guarda [...] em defesa da ordem interna, da integridade
política, da soberania nacional. É esta a nossa missão!930

Como bem aponta Carvalho (2006, p. 91), o Estado Novo foi a materialização da
política do Exército, como concebida por Góes Monteiro e pelo grupo de generais ao seu
redor. Aliás, Góes jamais aceitou a interferência da política nos negócios militares. Isso ficou
muito claro na questão do aumento dos soldos, em 1935. Ao tentar usar o peso do seu cargo,
acabou provocando a reação de outros generais, dentre eles José Pessoa, e de políticos
influentes da República, como Flores da Cunha. Para Carvalho (2006, p. 92), na percepção de
Góes, e dos militares que comungavam de suas ideias, já se desenhava nítida a convicção de
que não se conseguiria implementar uma política militar adequada enquanto continuasse a
interferência política dentro dos quartéis. Sendo assim, chegaram à conclusão que seria
necessário eliminar a política do lado de fora para se conseguir eliminá-la internamente,

930
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 11 nov. 1937, p. 1.
585

também. Um pensamento já formulado pelo próprio Góes Monteiro no início dos anos 1930,
segundo o qual se deveria fazer a política do Exército e não a política no Exército.
Passados dezesseis anos do golpe de 10 de novembro, em suas memórias José Pessoa
fez algumas reflexões a respeito do fato. O sentimento que ele expressou é de que o Exército
fora atingido, à época, no respeito e na fé que devia aos seus chefes.

De fato, certos chefes daquela época, por uma questão mais de feitio e educação
doque de qualquer outra, davam a impressão de que não tinham noção de
responsabilidade e moralidade pública, do que era um desagravo dentro da lei, uma
reparação à injustiça ou injúria recebidas. Coisas, que eles, a cada passo, como
estamos vendo, praticavam contra a ordem e a reputação dos subordinados. Era que
eles, com o cérebro escaldante no delírio do poder, não viam que aquilo que
praticavam trazia consequências nefastas e duradouras à Nação. Como afirmamos,
naquela época: em atos dessa espécie (reformas de generais ex-ofício, prisões
violentas e injustas de outros, etc.) se terminará por destruir a hierarquia das Forças
Armadas; afrouxarão os laços de disciplina e obediência por toda a parte; enfim,
apodrecerão o caráter do povo, outrora tão cortês, honesto e trabalhador.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X, p. 94-95)

E não poupou críticas a Vargas, Dutra e Góes, aos quais imputou a pecha de “traidores
do Exército e da Nação”:

Foi o que de fato nos legou o arbítrio e a conivência de três brasileiros que, com
documentos falsos [Plano Cohen], traíram as instituições e lhes deixaram esse cruel
legado que, hoje, humilha e faz sofrer toda a Nação. Só isso fará desaparecer à
gratidão dos brasileiros os serviços materiais que os liberticidas de 37 dizem ter
prestado à coletividade brasileira... Desconheciam eles que os militares não podem
viver ao sabor das suas paixões políticas e caprichos pessoais de quem quer que seja,
mas, ao estrito serviço da Nação. Sim, é à consciência do seu dever que o verdadeiro
militar deverá se subordinar sempre. [...] Não havia entre eles o recato da autoridade,
o natural respeito entre o chefe e o direito dos comandados. Não atendiam aos
reclamos desesperados quanto à defesa e segurança da coletividade, nem acatavam a
palavra dos seus generais e, assim, oprimiam, desprestigiavam a todos,
locupletavam-se, usando contra a classe as maquinações mais absurdas e
censuráveis. Hoje, eles aí estão a espiar o resultado da sua ação ruinosa. Desse
modo, naquela ocasião, três dos mais elevados membros da hierarquia civil e militar
do País [Vargas, Dutra e Góes] maquinavam e acusavam, sem a menor prova e
indício, vários generais de conspirarem contra os poderes públicos, acoimando os
lares dos seus subordinados de refúgios de conspirações imaginárias.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X, p. 95)

Quanto às reformas e prisões arbitrárias que afastaram do Exército muitos chefes


militares, ressaltou que não se tinha a quem apelar, já que todos os atos eram feitos com a
conivência do governo. A natural defesa dos generais perseguidos pelo regime, segundo ele,
seria por meio da lei e dos tribunais, o que era impossível, já que quem os acusava eram as
próprias autoridades da República. Homens, estes, que orquestravam entre si o golpe de
Estado, zombando das Forças Armadas e da Nação. A alternativa que ele, Valdomiro Lima e
demais generais, que se colocaram ao lado da legalidade, encontraram foi a de se submeterem
586

ao julgamento coletivo nos reptos que fizeram por meio da imprensa. Para ele, o cárcere
serviu para salvar-lhes o pundonor de chefes militares e o desapontamento que sentiram foi
suportado com dignidade militar. Por isso é que não lhes faltaram “as provas abundantes de
simpatia e apreço da juventude militar e da opinião pública”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta
X, p. 96-97)
587

10 O OSTRACISMO: NO DISTANTE MATO GROSSO E A INSPETORIA DE


CAVALARIA

Após ter sido exonerado do comando do Distrito de Artilharia de Costa da 1ª RM, em


10 de junho de 1937, José Pessoa passou um longo período sem assumir qualquer tipo de
comissão. Chegou a ser nomeado comandante da 8ª Brigada de Infantaria, em Juiz de Fora-
MG. Porém, devido aos fatos que o envolveram no inquérito presidido pelo general Borba,
nunca tomou posse do cargo. De julho de 1937 a agosto de 1938 ficou adido ao Gabinete
Militar da Presidência da República e ao Departamento do Pessoal do Exército. Nesse interim,
foi, por decreto, nomeado comandante da 9ª Região Militar931, em 18 de novembro de 1937.
Entretanto, só assumiu o cargo em 11 de agosto de 1938.
A sua passagem pelo Mato Grosso foi breve, não durou mais do que sete meses. As
informações existentes sobre esse período podem ser encontradas apenas em sua
autobiografia, nos documentos que constam em seu arquivo pessoal e nas memórias de
Nelson Werneck Sodré, que foi ajudante-de-ordens de Pessoa à época. Segundo Pessoa,
“longe dos mandões do Ministério da Guerra e tendo na mente o sentimento de liberdade e a
preocupação de fazer uma obra útil e durável”, levou para o Mato Grosso um programa que
era o seu próprio espírito: “espraiar a civilização por todos os recantos daquele vasto
território”. Para isso, intencionava construir escolas e quartéis e ampliar as redes de estradas,
de telefone e de telégrafos. A distância da Capital Federal, afinal teria as suas benesses, já que
estaria livre dos que “nada faziam pelo Exército, nem deixavam ninguém fazer”. Tanto é que,
como ele ressalta, teria pedido ao ministro da Guerra que o deixasse no novo comando o
maior tempo possível. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VI, p. 1)
No entanto, Pessoa tinha a consciência de que não havia sido escolhido somente para o
comando de uma região militar. Pesaria sobre ele, também, a missão de desarmar a população
civil em um estado onde a criminalidade e a impunidade atingiam o auge, assolado por
bandoleiros que há anos atentavam contra a vida e a propriedade da população regional,
dentre os quais destacava-se o bando de Sylvino Jacques. Além disso, ainda teria que envidar
esforços para realizar a captura de armamento e material militar que o governo federal havia
emprestado ao estado durante a Revolução Constitucionalista, para o combate aos paulistas, e
que ainda permanecia nas mãos dos poderosos da política regional. E é justamente sobre esses
dois assuntos, o desenvolvimento da região e o combate ao banditismo regional, que está o
foco da narrativa memorial de José Pessoa acerca da sua passagem pela 9ª RM.
931
A 9ª Região Militar compreendia, à época, as unidades militares do estado do Mato Grosso.
588

10.1 No distante Mato Grosso: o comando da 9ª Região Militar

José Pessoa embarcou para o Mato Grosso no dia 4 de agosto de 1938, partindo do Rio
de Janeiro por via férrea. Em sua companhia seguiu o tenente Nelson Werneck Sodré e suas
respectivas famílias. Sodré era um jovem oficial que há poucos anos havia se formado na
Escola Militar. Fora cadete de José Pessoa, entre abril de 1931 e janeiro de 1934, quando foi
declarado aspirante-a-oficial de Artilharia. Desde então, encontrava-se servindo no 4º
Regimento de Artilharia Montada, em Itu, no interior de São Paulo. Promovido a primeiro-
tenente em setembro de 1936, no segundo semestre de 1937 recebeu o convite para ser
ajudante-de-ordens de Pessoa, o que, segundo ele, o surpreendeu, pois, jamais imaginou que o
general pudesse lembrar-se dele. Ressaltou que não era o seu desejo, tampouco de sua família,
afastar-se de Itu. Entretanto, os aspectos éticos que envolviam o convite levaram-no a aceitar
o cargo de confiança. Tinha uma grande admiração por José Pessoa e era impossível não
aceitar o chamado de um chefe que merecia apreço e que fora colocado no ostracismo pelos
poderosos do governo. Para Werneck, Pessoa, como homem, “valia dez Góes, cem Dutras”.
(SODRÉ, 1967, p. 139)
Da sua relação com o comunismo, afirmou que o movimento de 1935 apanhou-o de
surpresa, apesar de, à época, ter o hábito de ler diariamente os jornais da capital paulista e ser
colaborador assíduo de um deles, o Correio Paulistano, para o qual escrevia críticas literárias
desde 1934. Em suas memórias, disse não guardar a menor lembrança do clima de tensão dos
dias que antecederam o levante de 27 de novembro, no Rio de Janeiro. Segundo ele, as
impressões que tinha sobre o “credo vermelho” ainda eram distantes, não se preocupava com
esse problema, ainda mais porque no Exército em que ele vinha servindo, no interior de São
Paulo, o anticomunismo ainda não havia chegado. (SODRÉ, 1967, p. 126-127) Entretanto,
não seria de todo incorreto afirmar que a realidade por ele presenciada no Mato Grosso, tão
díspar da do centro do País, o tenha sensibilizado para as questões sociais, provocando, assim,
a sua guinada para a esquerda. Sodré (1967, p. 143) conta que, antes mesmo de embarcar para
a região Oeste, durante uma visita ao Iate Clube do Rio de Janeiro, perturbou-lhe o fato de,
nas águas da Guanabara, existirem alguns privilegiados que, em “nome da civilização cristã”,
passeassem em seus barcos, enquanto nas fronteiras longínquas do Brasil morresse gente por
falta de recursos. Uma realidade, segundo ele, que afetava, inclusive, o próprio Exército, já
que as guarnições militares escalonadas às margens do Rio Paraguai careciam de lanchas
apropriadas para levar-lhes suprimento e pô-las em contato com o mundo.
589

A chegada em Campo Grande, então capital do Mato Grosso e sede da 9ª RM,


conforme narra José Pessoa, se deu no dia 9 de agosto. Esperavam-no da estação ferroviária
da cidade uma grande comitiva de oficiais da Região Militar e de autoridades civis. Desde o
desembarque, Pessoa afirmou já ter começado a se inteirar sobre os recursos da terra, a cultura
e a política regionais. E, confessou ter ficado bastante impressionado com os relatos da onda
de banditismo que tomava conta do estado. Sodré retrata bem as condições do Mato Grosso, à
época, e o entusiasmo de Pessoa na chegada à nova guarnição:

Mato Grosso, entretanto, era, àquele tempo, uma espécie de farwest, onde os crimes
não despertavam estranheza, constituíam parte da rotina; a presença de forte
guarnição militar é que permitia, ali, a segurança mínima. Nem era esse o problema
fundamental, para o comando; havia-os em quantidade, e sempre em grandes
proporções. Os recursos minguados não permitiam solução, ainda que
circunstancial. O novo comandante [José Pessoa] vinha, entretanto, cheio de energia
contida e de boas intenções, preocupado em atendê-los. Assumiu o comando no
mesmo dia da chegada e pôs-se a trabalhar como se ali estivesse há tempos. Levava
noção das dificuldades, mas as suas reais dimensões o espantavam. [...] Servir em
Mato Grosso era considerado castigo, salvo para alguns, ali nascidos e criados, com
raízes locais, ambientados, portanto. Os corpos estavam sempre desfalcados, a
oficialidade era heterogênea, os meios poucos, muito abaixo das necessidades, os
claros na tropa eram preenchidos por recrutas trazidos de São Paulo, que encaravam
a convocação como castigo terrível, o próprio exílio. [...] Campo Grande, cidade que
vinha crescendo depressa, apresentava contrastes entre inovações importantes e
deficiências antigas. O Exército construíra ali numerosas casas; evidentemente não
davam para todos os oficiais, mas atenuavam o problema. (SODRÉ, 1967, p. 144-
145)

Vinte dias após assumir o novo cargo, Pessoa encaminhou uma carta ao presidente da
República, relatando as mazelas que assolavam a região e as providências que deviam ser
tomadas para devolver a eficiência operacional da guarnição militar do Mato Grosso e
impulsionar o progresso do estado. As carências por ele apontadas eram tantas que
praticamente tudo faltava. Os meios de comunicação eram deficientes e faltava uma rede
rodoviária capaz de fazer a ligação entre o comando da Região Militar com as unidades
militares que estavam localizadas na fronteira com o Paraguai e a Bolívia. Para isso, a força
militar da 9ª RM deveria ser acrescida de Batalhões Rodoviários e de meios de aviação. A
situação dos quartéis também era bastante precária. Várias unidades militares dividiam as
mesmas instalações e algumas ocupavam prédios alugados, o que prejudicava a instrução e as
condições de vida dos militares.932
Pessoa ressaltou, também, a necessidade de serem criados núcleos de colonização ao
longo das estradas, com escolas e ambulatórios. Além de garantir o povoamento do estado,
esses locais serviriam de pontos de armazenamento de víveres, combustíveis e suprimentos

932
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1938.08.29, doc.0189.
590

para as tropas do Exército, em caso de conflitos armados. Lembrou, ainda, das melhorias das
defesas costeiras do Rio Paraguai, pelas quais já vinha intercedendo desde os tempos em que
havia comandado a Artilharia de Costa, assim como a construção de novos portos fluviais, nas
cidades de Porto Murtinho e de Corumbá, a fim de facilitar o comércio da região. Por fim,
alertou Vargas da necessidade de se cassar as concessões de terras a estrangeiros,
principalmente aquelas próximas ao Forte Coimbra, que atentavam contra a segurança
nacional.933
Pode-se dizer que Pessoa foi incansável na busca de uma solução para a melhoria dos
meios de comunicação rodoviário e ferroviário do Mato Grosso e da navegabilidade do Rio
Paraguai, até mesmo por uma questão de defesa nacional. Durante o período em que lá esteve,
enviou vários telegramas e ofícios ao ministro da Guerra, apontando os eixos rodoviários que
deveriam ser restaurados e os novos a serem construídos e fazendo considerações a respeito
dos benefícios que poderiam advir do investimento nessas ações. Conforme o Relatório do
Ministério da Guerra de 1938, a 9ª RM contava somente com o apoio do 4º Batalhão
Rodoviário934, que era subordinado diretamente à Diretoria de Engenharia. Sendo assim, não
estava sob as ordens diretas de José Pessoa. Em um ofício secreto enviado a Dutra em 4 de
outubro de 1938, Pessoa ressaltou a necessidade de se criar, na estrutura da 9ª RM, mais
batalhões rodoviários, para atender às frentes de trabalho já em andamento, bem como as
novas que surgiriam. No entanto, segundo ele, não bastava somente cria-los, mas, também,
dotá-los de pessoal e maquinário especializados, capazes de atender ao serviço moderno de
construção de rodovias. Caso contrário, continuar-se-ia realizando um trabalho escasso e
rudimentar, ilusório, que não compensava o desperdício de tempo e dinheiro feitos pela
União.935
O Relatório do Ministério da Guerra de 1938 aponta que, naquele ano, na área da 9ª
RM, o 4º Batalhão Rodoviário realizou 148,4 Km de construção e manutenção de rodovias,
nos trechos Campo Grande-Bolicho Seco, Aquidauana-Nioac e Jardim-Cabeceiras do São
Marcos.936 A entrega do primeiro trecho, com 50,4 Km, foi feita pessoalmente por José
Pessoa, em 15 de novembro de 1938. Na ocasião, ressaltou que as obras das demais rodovias
continuariam em ritmo acelerado. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VI, p. 29) A verdade,
entretanto, é que o apoio e as mudanças solicitadas muito pouco ou em quase nada foram

933
Ibidem.
934
O Relatório do Ministério da Guerra de 1938 aponta que, naquele ano, na área da 9ª RM, o 4º Batalhão
Rodoviário realizou 148,4 Km de construção e manutenção de rodovias, nos trechos Campo Grande-Bolicho
Seco, Aquidauana-Nioac e Jardim-Cabeceiras do São Marcos.
935
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1938.08.29, doc.0191 e 0193.
936
Relatório do Ministro da Guerra, 1938, p. 51-52.
591

atendidas pelo ministro da Guerra. Sodré (1967, p. 144) aponta que José Pessoa confiava que
Dutra, sendo natural do Mato Grosso, teria todo o interesse em prover de meios as guarnições
do estado. Para Pessoa, todo esforço que havia despendido nada mais era do que “uma leal
colaboração” que o chefe da pasta da Guerra, durante toda a sua administração, “nunca
aproveitou nem compreendeu” (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VI, p. 25).
Sodré (1967, p. 163) aponta que o espírito inquieto de José Pessoa não permitia que
ele ficasse preso à burocracia do gabinete. Sendo assim, eram constantes as viagens de
inspeção, ocasiões em que o general se sentia bem. Durante o período em que comandou a
guarnição do Mato Grosso, percorreu toda a extensão do estado, sempre em companhia de seu
ajudante-de-ordens. Viajando de automóvel, trem, navio e avião, não deixaram de visitar nem
o mais insignificante posto militar, a fim de verificar as condições de vida e trabalho. Graças a
essa rotina, Pessoa tomou conhecimento de todo os problemas que assolavam a população
civil e o que se passava com as tropas sob o seu comando. Na foz do rio Apa, por exemplo,
encontraram um posto militar em péssimas condições, abrigado em uma choupana construída
pelos próprios soldados. A pequena guarnição, comandada por um sargento, era composta de
não mais do que quinze soldados, que dormiam em redes e não tinham nenhum apoio de
saúde. Se ficassem doentes, tinham que remar quatro horas rio acima, para comprar remédios
no Paraguai. O sargento jamais havia visto um general e ao se apresentar, o fez com um
sotaque misto de castelhano e guarani, o que decepcionou profundamente Pessoa.
Para Pessoa, o problema da língua, que afetava não só a população civil, mas, também,
os militares nativos da região, que residiam nas faixas de fronteira, era uma consequência da
falta de ação das autoridades locais, limitada às zonas urbanas, e da falta de povoamento do
vasto território mato-grossense. Em um ofício reservado enviado ao chefe da pasta da Guerra,
já às vésperas da sua exoneração do comando da 9ª RM, fez uma longa exposição dos
problemas que afetavam a região. Preocupava-o a existência de uma grande quantidade de
estrangeiros residindo em território brasileiro nas faixas de fronteira, o que correspondia,
naquelas áreas, a 80% da população. Segundo Pessoa, se o povo falava o guarani, ao invés do
português, era porque existia um absoluto desamparo à população nacional das fronteiras.
Não existiam escolas nem ambulatórios para o tratamento das endemias locais. Tampouco se
faziam os registros civis dos atos da vida pública. Além disso, o nomadismo predominante em
quase todo o estado, que impedia a fixação do homem à terra, era um fator complicador da
592

mobilização nacional, pois não se conseguia formar tropas de reservas que pudessem apoiar
as operações militares no caso de um conflito armado na região.937
No relatório da 9ª RM, elaborado no final de 1938, reconheceu que o estado geral do
Mato Grosso não era dos mais otimistas. Não havia meios suficientes para atender todas as
necessidades do estado e fazia-se o possível para solucionar os problemas. O que se via pelo
estado era um baixo padrão de vida, uma pobreza geral.938Como relatou Sodré (1967, p. 167),
o Mato Grosso “era o fim do Brasil, em todos os sentidos”.
As andanças de Pessoa pelo interior do estado fizeram-no deparar-se com uma
realidade que, desde o período em que esteve à frente da Inspetoria de Artilharia de Costa,
vinha incomodando: a concessão de terras a estrangeiros. Durante suas viagens de inspeção,
resolveu realizar uma visita inopinada à sede da Companhia Matte Laranjeira 939, na Fazenda
Campanário, em Porto Murtinho. Como relata Werneck Sodré, a Matte Laranjeira, maior
exploradora de erva mate da fronteira mato-grossense à época, era um estado dentro do
Estado. Tanto ele como Pessoa narram que foram necessários mais de três dias para que
fossem visitadas todas as terras pertencentes à empresa argentina. Os dois apontam, também,
que, após o Estado Novo, a imprensa do Rio de Janeiro passou a promover uma forte
campanha contra as concessões feitas à Matte Larangeira.940 Sendo assim, segundo Pessoa,
antes mesmo de partirem para o Mato Grosso já haviam recebido das autoridades do governo
instruções para que observassem as atividades da companhia no estado. Sodré conta que se
surpreendeu com o cuidado e o planejamento da vila em que se localizava a sede da
companhia. Tudo era particular: a estrada, o sistema telefônico, o serviço de rádio, o campo
de aviação, enfim, a própria cidade. A empresa possuía, também, um porto próprio, no rio

937
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1938.08.29, doc.0222.
938
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1938.08.29, doc.0218.
939
Segundo Ferreira (2007), a Empresa Matte Laranjeira foi fundada por Thomaz Larangeira em 1882, após
ganhar uma concessão do Império para explorar erva-mate nativa no sul do Mato Grosso. Graças ao apoio de
políticos influentes do estado, após a República a concessão ampliou-se, passando a área arrendada a possuir
mais de 5.000.000 de hectares. Em 1902 a empresa foi vendida à companhia argentina Francisco Mendes & Cia,
passando a chamar-se Laranjeira Mendes e Companhia. Nos anos seguintes, sucessivas renovações de
arrendamento foram feitas com o governo do Mato Grosso, sempre graças ao apoio dos políticos locais, a ponto,
inclusive da Companhia tornar-se credora do governo do estado, no final da década de 1920. O domínio da
exploração pela Companhia na região durou até 1943, quando Getúlio Vargas cassou a concessão da empresa.
940
De fato, os principais jornais da Capital Federal, nos meses seguintes ao golpe de 10 de novembro de 1937
passaram a questionar e a pedir ao governo a cassação da concessão feita à Matte Larangeira, sob a alegação de
que a presença da empresa em terras fronteiriças contrariava a Constituição de 1937 e atentavam contra a
segurança nacional. Também existiam denúncias de maus tratos à empregados e de exploração de mão-de-obra
indígena, como se pode ver nas edições de 3 de setembro de 1937, de O Radical, às vésperas do Estado Novo, e
de 31 de dezembro de 1937, do Correio da Manhã, e de 3 de março de 1938, do Diário de Notícias. Entretanto,
existiam oficiais generais do Exército que defendiam a presença da Matte Larangeira no Matto Grosso como
elemento de civilização e de progresso no estado. Dentre eles, Candido Rondon, este nascido no estado, e
Mascarenhas de Moraes, que assumiu o comandado a 9ª RM após a saída de José Pessoa, conforme os
depoimentos dados ao periódico O Jornal, de 17 de agosto de 1938.
593

Paraná, que servia de base à sua frota fluvial, localizado em Porto Guaíra, e uma ferrovia
particular de 60 Km, que transportava a erva mate até Porto Mendes, no Paraná, de onde era
transportada, em barcos argentinos, para Buenos Aires. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VI,
p. 9-10; SODRÉ, 1967, p. 164-165)
A Matte Larangeira possuía polícia e justiça próprias, e pesavam sobre ela, como
relata José Pessoa, muitas histórias de violência. Durante a visita, constatou que um dos
diretores da empresa, o capitão da reserva Heitor Mendes Gonçalves, havia avocado para si a
vigilância e ordem da fronteira naquela região. De imediato, Pessoa mandou demovê-lo das
funções, que passaram a ser legalmente exercida, inclusive dentro do território da companhia,
pelo comandante do 11º Regimento de Cavalaria, de Ponta Porã, tenente-coronel Bernardes
Ruas. Em outubro, o presidente da Matte, Ricardo Mendes Gonçalves, encaminhou ao
comando da 9ª RM uma série de documentos, a fim de comprovar a legalidade da concessão
feita, inclusive das ações de polícia praticadas por Heitor Gonçalves. Por meio de uma carta,
Pessoa primeiramente agradeceu-lhe a acolhida que tivera durante a visita à sede da empresa e
ressaltou a importância da presença da companhia como elemento civilizador e de
desenvolvimento do Mato Grosso. Entretanto, destacou que esses eram assuntos cujo
julgamento cabiam aos ministérios do Trabalho e da Agricultura. A ele, como comandante da
Região Militar, interessava a defesa nacional. E, quanto a isso, a Matte não atendia o que
prescrevia a Constituição Federal, por possuir terras sobre a faixa proibitiva de fronteira.
Disse a Gonçalves, também, que tinha dúvidas se a maioria do capital da empresa era
realmente brasileiro. Ratificou que, no seu comando, que exercia a ordem nas terras da
companhia seriam os regimentos de Ponta Porã e de Bela Vista, e, não, um capitão da reserva.
E que, apesar da boa impressão que a estrutura da empresa havia lhe causado, não via motivos
para mudar de opinião sobre a ameaça que as concessões estrangeiras representam para a
defesa da Nação. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VI, p. 11-12)
A falta de pessoal especializado para mobiliar os quartéis da 9ª RM era outro fator que
incomodava Pessoa, assim como os problemas com o voluntariado para o serviço militar
obrigatório, ineficiente no estado. Quanto ao primeiro problema, pesava sobre a guarnição a
falta de oficiais das armas e serviços nos quartéis, assim como os com o curso de Estado-
Maior. Os oficiais que lá se apresentavam não ficavam mais do que dois anos nas unidades
militares, o que provocava, segundo ele, uma “verdadeira desordem administrativa e da
instrução da tropa”. A solução, apresentada para o ministro da Guerra, era simples: os oficiais
transferidos para o Mato Grosso teriam que ficar, obrigatoriamente, dois anos ininterruptos na
594

região.941Em relação ao alistamento militar, Pessoa empreendeu uma grande campanha em


prol do compromisso obrigatório dos jovens para com a Nação. Em um discurso proferido na
solenidade de 7 de setembro de 1938, concitou os pais a não deixarem seus filhos faltarem
com o cumprimento do dever com a Pátria. Lembrou aos presentes que o certificado de
reservista deveria se constituir, para os jovens, no “atestado da sua virilidade, da sua
emancipação, da sua coragem cívica, do seu patriotismo”. Ressaltou ter certeza de que o
espírito público se transformaria beneficamente “pela educação moral e física recebida na
caserna” e que era justo reconhecer que no serviço militar obrigatório estava “o mais vasto
campo de ação social e deve ser o complemento salutar de toda a educação”. Segundo Pessoa,
sua ação motivadora teria dado certo, pois, o voluntariado para o ano de 1939 havia duplicado
em relação aos anos anteriores, graças ao empenho dos presidentes e delegados das juntas de
alistamento e dos prefeitos dos municípios mato-grossenses. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta
VI, p. 14-19)
Nos documentos enviados a Dutra, Pessoa deixou claro que o pouco que se pôde fazer
na região, quer na manutenção dos quartéis, quer nas melhorias das condições de vida da
população, foi por iniciativa do comando da 9ª RM. Com os poucos créditos colocados à
disposição da Região Militar pelo Ministério da Guerra, as dotações de materiais e
armamentos foram completadas e equipamentos e viaturas foram adquiridas. Quanto aos
problemas peculiares à região, ressaltou que, desde o seu primeiro dia de comando, houve a
“sadia e tenaz preocupação” de solucioná-los. Em colaboração com os órgãos de direção do
Mato Grosso, ambulatórios e escolas foram fundadas em lugares distantes e abandonados,
onde era predominante a presença de estrangeiros e a língua portuguesa era desconhecida.942
O empenho de José Pessoa na melhoria da educação no Mato Grosso ganhou as
páginas dos jornais do centro do País. Muitas matérias foram publicadas nos principais
periódicos do Rio de Janeiro e de São Paulo a respeito do trabalho de “verdadeira brasilidade
realizado” pelas unidades militares da 9ª RM em prol da Cruzada Nacional de Educação 943. A
edição do Correio da Manhã do dia 25 de outubro de 1938 ressaltou a iniciativa de Pessoa,
que havia criado, auxiliado pela Cruzada, escolas em Forte Coimbra e em Porto Murtinho,
com o potencial de atender a mais de duas mil pessoas e que já contavam com mais de cem
alunos matriculados.944 Na edição de 2 de novembro de 1938, do mesmo jornal, o redator

941
Ibidem.
942
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1938.08.29, doc.0218 e 0222.
943
Movimento fundado por Vargas em janeiro de 1932 para impulsionar o combate ao analfabetismo no Brasil.
Foi reconhecido de utilidade pública por meio do Decreto nº 21.731, de 15 de agosto de 1932.
944
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 25 out. 1938, p. 2.
595

destacou a participação das Forças Armadas na campanha contra o analfabetismo. E,


ressaltou, mais uma vez o trabalho de Pessoa, que já havia fundado inúmeras escolas no Mato
Grosso. Inclusive, o periódico apontou que na foz do rio Apa, onde vinte e três crianças
recebiam a formação primária, o professor era um cabo que pertencia à guarnição militar, que
exercia gratuitamente o magistério.945 Em março de 1939, o Correio Paulistano, ao noticiar a
colaboração do Exército com a Cruzada, destacou a “ação silenciosa” de alguns abnegados
oficiais, como José Pessoa, que vinham fundando inúmeras escolas pelo País.946
Apesar de todos os esforços empreendidos por Pessoa para a melhoria das condições
das unidades militares e da vida população mato-grossense, nada lhe deu mais dor de cabeça
do que o combate ao banditismo regional. Há anos os jornais do centro do País noticiavam a
ação de “bandoleiros” no Oeste do País, realizando roubos de gado, depredação de
patrimônios público e privado e assassinatos. Como lembra Pessoa, eram bandos armados
formados por conhecidos criminosos nacionais e de países vizinhos. Esses bandidos
conheciam muito bem o terreno, as estradas e a vegetação, o que lhes dava uma noção exata
da região. Além disso, eram auxiliados por coiteiros947, que lhes davam asilo, comida e lhes
abasteciam com armas e cavalos. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VI, p. 59)
O principal bando armado que há tempos perturbava a ordem no Mato Grosso atuava
no sul do estado e era chefiado por Silvino Jacques. Segundo Ibanhes (2019), Silvino era
gaúcho. Havia servido na Brigada Militar do Rio Grande do Sul, onde chegou à graduação de
sargento. E, curiosamente, era um dos muitos afilhados que Vargas tinha no [Link] ao
Mato Grosso após ter fugido do Rio Grande do Sul, onde cometeu um assassinato. Durante a
fuga, homiziou-se na Argentina e no Paraguai, de onde partiu para a região sul mato-
grossense, onde passou a ser acoitado por alguns conterrâneos seus. No Oeste do Brasil
constituiu família, trabalhou em fazendas e foi dono de comércio. Durante a Revolução
Constitucionalista, lutou ao lado das forças pró-Vargas. Na região de Porto Murtinho,
comandou uma força legalista contra os revolucionários paulistas que haviam chegado ao sul
do Mato Grosso, ganhando o título de “capitão”. Com fim da luta contra os paulistas, recusou-
se a devolver as armas que foram cedidas à sua tropa pelo governo federal. A partir daí,
iniciou sua ação de terror no estado. Sodré (1967, p. 149), que participou das caçadas ao
bandoleiro, conta que o bando de Jacques era formado por ex-militares e desertores

945
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 2 nov. 1938, p. 4.
946
Correio Paulistano, São Paulo, 8 mar. 1939, p. 5.
947
Originalmente, o termo está relacionado ao cangaço, servido para designar pessoas que ofereciam abrigo e
comida aos cangaceiros, por interesse ou medo.
948
Segundo Ibanhes (2019, p. 22) o pai de Silvino Jacques havia trabalhado como carneador na fazenda de
Vargas.
596

paraguaios. O grupo especializou-se em roubar gado de pequenos proprietários e criadores,


para depois vende-lo a baixo preço a grandes latifundiários mato-grossenses, os seus coiteiros.
Diante da passividade do interventor Júlio Müller, sem força e sem autoridade, da
indiferença de Dutra e das inúmeras queixas sobre a insegurança crescente no interior do
estado, que lhe chegava por meio da população, Pessoa resolveu agir. A primeira providência
que tomou, segundo ele, foi solicitar às autoridades federais, no Rio de Janeiro, que houvesse
um entendimento entre o Brasil e os países limítrofes que as tropas federais pudessem
adentrar no território paraguaio e boliviano para perseguirem os bandoleiros, já que era uma
estratégia comum aos criminosos fugirem para os territórios vizinhos após os roubos
cometidos. A resposta que recebeu foi que não transpusesse a fronteira. (ALBUQUERQUE,
1953, Pasta VI, p. 61)
Segundo Sodré (1967, p. 150), a decisão de Pessoa em engajar-se na perseguição a
Jacques deu-se após ele ter ficado impressionado com os relatos dramáticos de um estancieiro
que lhe procurou para pedir auxílio após ter a sua fazenda roubada pelo bandido. Como
lembra o autor, aparentemente a Região Militar possuía meios suficientes para o intento: dois
regimentos de Cavalaria estacionados na linha de fronteira; dois batalhões de Infantaria às
margens do rio Paraguai e tropas ao longo da ferrovia Noroeste, em Três Lagoas, em
Aquidauana e em Campo Grande. Entretanto, essas tropas nunca haviam saído da sua rotina
dos quarteis. Para serem empregadas em campanha, era necessário que lhes fossem dados os
recursos necessários para o seu deslocamento e as condições para que fossem supridas durante
o tempo em que estivessem em operações. Além disso, Jacques conhecia como ninguém o
terreno no qual atuavam e não tinha o menor interesse em um confronto com tropas federais.
Esquivava-se dos combates e escapava por terrenos que somente ele conhecia. E ainda
contava com a ajuda dos coiteiros que lhe supriam e forneciam-lhe as informações que
necessitava. Foi aí que começaram os problemas.
Para Sodré (1967, p. 150), José Pessoa certamente adotou a melhor estratégia possível
para fazer frente ao bando de Jacques. Constituiu destacamentos de combate dotados de
grande mobilidade e ocupou pontos de passagem obrigatórios para Jacques. Para isso, utilizou
parte das tropas de Cavalaria e de tropas autotransportadas por unidades motorizadas da
Região. Outra medida foi barrar as rotas de fuga dos bandoleiros, localizadas na fronteira com
o Paraguai, marcadas pelos rios Apa e Paraguai. Para fugirem, esses teriam, então, que
transpor a serra da Bodoquena, na área ocupada pelas aldeias dos índios guaicurus. Dessa
forma, Pessoa chamou ao quartel-general da Região o chefe Joaquim Matchu, que concordou
em colaborar, desde que lhe dessem um uniforme vistoso e o título de “capitão”, o que foi
597

feito. Pessoa conta que o chefe Machu era “civilizado” e empregado da prefeitura do
município de Miranda. Segundo ele, o auxílio dos guaicurus foi fundamental para a
perseguição dos bandidos. Para isso, foram empregados para assegurar a mão-de-obra e as
comunicações nas operações militares. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VI, p. 118) Já Sodré
(1967, p. 151) lembra que Jacques não deu trabalho aos índios. Porém, estes deram muita dor
de cabeça a Pessoa. Vivendo na miséria, os guaicurus atacaram bolichos949 pelos caminhos,
dos quais retiravam gêneros e mandavam colocar tudo na conta do governo.
Depois de alguns dias de operações, a realidade começou a ficar mais clara. Os
boletins reservados da 9ª RM apresentam uma descrição detalhada das operações conduzidas
pelos destacamentos empenhados na captura à Silvino Jacques. Fazem um levantamento
minucioso do armamento, dos meios de locomoção, das rotas seguidas pelo bandoleiro e dos
roubos praticados na região. Mostram também que, durante todo o mês de dezembro, Pessoa
esteve sempre no encalço do criminoso e de seu bando.950 Entretanto, conhecendo muito bem
o terreno e a vegetação da região, o grupo de Jacques escapava facilmente dos cercos das
tropas federais. Do outro lado, os destacamentos do Exército estavam exaustos. Não existiam
gêneros suficientes para uma alimentação adequada dos militares e da cavalhada. Em 7
dezembro de 1938, Pessoa enviou um telegrama a Dutra951, solicitando que o ministro lhe
enviasse urgentemente dois aviões, que seriam utilizados na perseguição aos bandoleiros, que
se evadiam para a Bolívia. O ministro respondeu-lhe que não convinha o envio dos aviões, já
que não havia a certeza de que fosse obtido um resultado compensador com o uso das
aeronaves. Ademais, segundo Dutra, era poco provável que os fugitivos fossem alcançados,
diante da falta de informações sobre a área em que se achavam. 952Restou-lhe, então, fazer uso
de um velho avião do Correio Aéreo Militar, que foi colocado à disposição da Região. Pessoa
relata ter recebido com grande desapontamento a resposta de Dutra, que, sob pretexto fútil,
negou-se a cooperar com as operações no Mato Grosso. Nas suas palavras, “era o primeiro
gole da taça da amargura” que o regime ditatorial lhe ofereceria naquelas paragens.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VI, p. 65)
No mesmo dia em que Dutra negou-lhe o apoio aéreo, Pessoa resolveu deslocar seu
posto de comando para o município de Miranda, próximo da área de operações,
estabelecendo, assim, o contato direto com as tropas empregadas na perseguição a Jacques.
Pensou, também, que a presença do general comandante na frente de combate traria uma

949
No linguajar do Sul do Brasil, um bolicho é um bar de pequeno porte ou um mini-mercado.
950
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1938.08.29, doc. 0200 a 0214.
951
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1938.08.29, doc. 0196.
952
Ibidem.
598

maior tranquilidade à população assolada pela violência dos bandoleiros. Diante da negativa
do ministro da Guerra em auxiliar-lhe, resolveu dirigir-se diretamente a Vargas. A resposta do
presidente também foi lacônica. Getúlio, por meio de um telegrama, louvou as ações das
tropas federais, empenhadas em manter a ordem e tranquilidade dos lares mato-grossenses, e
recomendou a Pessoa que se entendesse com o interventor do estado, a fim de reunir
elementos e combinar providências para o combate aos bandoleiros. Desse momento em
diante, segundo Pessoa, do Rio de Janeiro só recebera “promessa vãs” a tudo o que solicitava.
E lamentou-se que Dutra, envolvido em conluios com políticos mato-grossenses, houvesse
esquecido dos soldados do seu estado natal, que, nos pantanais, estavam sendo dizimados pela
febre e pela desinteria a serviço de uma “obra fecunda e durável”. (ALBUQUERQUE, 1953,
Pasta VI, p. 66-67) Sodré (1967, p. 152) lembra que após dias de operações ineficazes, parte
da tropa já se encontrava em estado miserável, entrando em exaustão, com grande parte dos
soldados começando a adoecer, devido ao ataque dos mosquitos.
Diante das dificuldades enfrentadas, José Pessoa resolveu, conjuntamente com as
operações de captura, tomar uma outra providência: iniciou uma campanha de desarmamento
da população civil, o que segundo ele, surtiu um efeito positivo nos moradores das cidades.
Para isso, reorganizou o Serviço de Polícia Militar da 9ª RM, composto de oficiais e
sargentos. Enquanto a população urbana ia entregando as suas armas, o Serviço de Polícia
investigava os possíveis esconderijos das armas pertencentes ao governo federal. Uma vez
localizado o armamento, a Região dava trinta dias para a entrega voluntária do mesmo, sob
pena dos seus detentores serem presos em flagrante. Segundo Pessoa, mesmo com a
possibilidade de prisão, a medida não surtiu o efeito desejado. Para ele, a razão do insucesso
era simples de se compreender: as armas estavam nas mãos de poderosos políticos e
fazendeiros locais, que também eram coiteiros dos bandos armados que, nos períodos
eleitorais, os utilizavam como sua tropa de choque. Como dito, após a Revolução de 1932
muitos políticos locais negaram-se a devolver o armamento que lhes foi emprestado. Um fato
curioso, é que, no rastreamento das armas escondidas, Pessoa foi auxiliado por membros da
força policial de São Paulo, a mando de Dutra. Esses policiais, em um serviço de inteligência,
monitoravam o trânsito de armamento na divisa dos dois estados953. (ALBUQUERQUE,
1953, Pasta VI, p. 62)

953
Em janeiro de 1939, alguns jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo noticiaram que, graças a esse trabalho de
inteligência, realizado pela polícia de São Paulo, foi identificado que Silvino Jacques realizava o transporte de
armas pela divisa dos estados de mato Grosso e São Paulo. O próprio José Pessoa atesta a importância da
colaboração do serviço de inteligência da força paulista na indicação de nomes de detentores e de locais de
embarque e desembarque de armamentos no Mato Grosso. Conforme Albuquerque (1953, Pasta VI, p. 98)
599

Sendo assim, segundo Sodré (1967, p. 153), Pessoa resolveu tomar medidas mais
drásticas. Mandou prender todos os coiteiros que estivessem de posse de armas do Exército. O
mais conhecido era conhecido como “coronel” Joselito, proprietário da fazenda Taboco, no
município de Aquidauana. Diante da impassividade do comandante do batalhão de
Engenharia sediado na cidade, que não queria efetuar a prisão, para não se indispor com
Joselito, Pessoa partiu para Aquidauana e, pessoalmente, organizou o destacamento de busca.
O armamento apreendido foi muito e variado e Joselito foi recolhido ao quartel de
Engenharia. Pouco a pouco uma grande quantidade de armas foram aparecendo, revelando o
poder de fogo que os grandes proprietários rurais da região tinham nas mãos. No entanto,
como relata o autor, tratava-se de gente importante, de situação econômica, política e social
destacada, com relações entre os poderosos do Estado Novo, especialmente Vargas, Dutra e
Filinto Müller, personagens centrais do regime. Joselito, mesmo, era político eminente do
Mato Grosso. Aos poucos surgiam rumores de que as tropas federais não deviam se envolver
em crimes comuns, da competência das autoridades estaduais. Conforme Sodré (1967. p.
154), “a prisão dos senhores feudais da região provocava apreensões, propalava-se que
leváramos insegurança à propriedade rural, atacando seus detentores”.
Pessoa conta ter se surpreendido quando, em 28 de dezembro, recebeu um aviso de
Dutra. No documento, o ministro reconhecia o trabalho indiscutível e necessário empreendido
por Pessoa na busca pelo extermínio do banditismo em Mato Grosso, que no seu ponto de
vista, estava sendo frutífero e sensato. No entanto, entendia que a solução completa do
problema ainda demandava muito tempo e esforço, devido à vastidão do território mato-
grossense. Ademais, as tropas já se encontravam empenhada em atividades diferentes das suas
há algum tempo, o que poderia vir a prejudicar a instrução, além do desgaste material e das
despesas extraordinárias que estavam sendo feitas. Diante disso, ressaltou que seria desejável
que as operações acabassem o mais cedo possível e as tropas retornassem aos seus afazeres
normais. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VI, p. 67) Ficou claro à Pessoa a pouca importância
dada por Dutra ao que acontecia no Mato Grosso e, sem surpresa nenhuma, acontecia o que
Sodré havia profetizado.
Diante da falta de recursos para continuar no combate ao banditismo e das várias
negativas do governo em atender às solicitações feitas por Pessoa, este, acompanhado pelo
tenente Sodré, resolveu falar pessoalmente com Vargas e Dutra. Com o deslocamento
autorizado, os dois chegaram ao Rio de Janeiro em 6 de janeiro de 1939. No dia seguinte,
encontraram-se com Dutra. Segundo Sodré (1967, p. 162-163), o ministro isentou-se de
qualquer decisão e indicou ser melhor que o assunto fosse tratado diretamente com Vargas.
600

Em 8 de dezembro, reuniram-se com o presidente, no Palácio do Catete. Getúlio os recebeu


cordialmente, porém sem demonstrar nenhuma animação com a narrativa de Pessoa. Ao final
da explanação deste, Vargas disse que o ano estava apenas começando e que era preciso que o
primeiro trimestre findasse, para que se pudesse utilizar verbas suplementares. Pediu a Pessoa
que tivesse paciência, e que assim que fosse possível, receberia os recursos solicitados. Sodré
conta que, logo após, esse diálogo, Pessoa pediu que se retirasse do recinto e jamais soube o
que foi conversado entre os Vargas e Pessoa. No entanto, este parecia satisfeito após sair do
gabinete do presidente. Porém, a 9ª RM jamais recebeu um centavo do dinheiro prometido por
Getúlio. Como aponta Pessoa, em suas memórias, “a politicagem que se praticava no Palácio
da Guerra tudo emperrava e desvirtuava. Sentimos que ali tinham preferência o interesse
pessoal e perseguições aos desafetos [...] do plano de obras só tinham andamento as obras
onde se gastasse muito dinheiro” (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VI, p. 78).
Diante da inércia do governo, José Pessoa enviou um novo ofício a Dutra, em 20 de
janeiro, ratificando as informações de todos os documentos já enviados até então. Nele,
Pessoa ressaltava que tanto ele como os oficiais da 9ª RM apenas solicitavam os recursos e
meios necessários para fazer de Mato Grosso “uma força notável nos destinos da federação
brasileira”. Dutra respondeu-lhe que o Ministério não dispunha de verbas especiais ou
extraordinárias para atender às despesas com o combate ao banditismo. No entanto, afirmou
que enviaria vinte mil contos de réis para a manutenção de viaturas. Segundo Pessoa, o
dinheiro nunca chegou. No mês seguinte, Pessoa tornou a solicitar recursos, desta vez para a
manutenção do Serviço de Polícia da 9ª Região. Lembrou a Dutra que, quando estivera no
Rio, este tinha lhe prometido o dinheiro para esse fim. Mais uma vez, o ministro negou-lhe o
envio da verba. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VI, p. 76-77)
No dia 8 de fevereiro, um novo ofício de Pessoa foi encaminhado ao chefe da pasta da
Guerra, colocando-o a par das necessidades para a continuidade das operações de erradicação
do bandoleirismo e das melhorias que foram implementadas no estado por iniciativa da 9ª
RM. No documento, Pessoa comunicou a Dutra, também, que diante da negativa do envio de
recursos para a manutenção do Serviço de Polícia, este seria extinto. 954 Se já havia uma
decisão tomada por Vargas e Dutra não é possível se saber, mas esse ofício de Pessoa parece
ter selado o seu destino à frente da guarnição do Mato Grosso. Dois dias depois de tê-lo
enviado, recebeu uma carta cifrada955 de Dutra. Nela o ministro comunicou-o que, diante das
promoções que ocorreriam em breve, caberia aos generais recém promovidos comissões fora

954
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1938.08.29, doc. 0223.
955
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1938.08.29, doc. 0227.
601

da Capital Federal. Por isso, o governo entendia que a missão dele no Mato Grosso estava
cumprida e, por ser um dos generais-de-brigada mais antigos do Exército, o presidente da
República resolveu distingui-lo com uma nova comissão: inspetor da arma de Cavalaria, um
cargo há pouco criado, com sede no Rio de Janeiro. Teria Vargas, como era seu hábito,
mandado trazer Pessoa para perto da sua esfera de poder? Provavelmente, sim. No entanto,
segundo narra Sodré (1967, p. 170), ao invés de alegrar-se, Pessoa enfureceu-se com a notícia.
Considerou que retirá-lo do comando da 9ª RM foi a forma diplomática encontrada pelo
governo de afastá-lo do Mato Grosso, onde estava incomodando os poderosos da região.
Em 2 de março de 1939, José Pessoa foi exonerado do comando da 9ª Região Militar.
Passou a função em 3 de março, para o general Amaro Soares Bittencourt, ex-diretor da
Escola Técnica do Exército. Ficou adido ao Departamento do Pessoal do Exército até maio,
quando finalmente confirmou-se a sua nomeação para a chefia da Inspetoria da Arma de
Cavalaria956. Não conseguiu seu intento maior, que era capturar Silvino Jacques. Este
morreria em maio de 1939, em um confronto com uma milícia local autorizada a agir como
força policial, chefiada por Orcírio dos Santos, conforme relata Ibanhes (2019, p. 285).
Porém, certamente o esforço empreendido por Pessoa no Mato Grosso auxiliou a erradicação
do bandoleirismo na região. O elogio que Dutra consignou-lhe, no entanto, foi lacônico, não
ocupando mais do que um parágrafo de sua fé de ofício.
Com a transferência de Pessoa, Sodré (1967, p. 173) resolveu pedir demissão das
funções de ajudante-de-ordens. Sentia que a sua dívida de gratidão moral com o general
estava paga e que Pessoa não se importaria com o seu afastamento, já que, no Rio de Janeiro,
oficiais não faltariam para exercer o cargo. No entanto, segundo o autor, Pessoa ficou
profundamente decepcionado com o pedido. Não entendia como alguém poderia recusar uma
distinção tão alta, de servir na Capital Federal com um chefe tão conhecido e ilustre, o que
poderia lhe ser muito útil na carreira. A partir daí, as suas relações com José Pessoa esfriaram.
Antes, porém, este atendeu a um último pedido seu e providenciou a sua transferência de
retorno a Itu. Mais tarde, cruzaram-se em São Paulo. Na ocasião, Pessoa pediu que Werneck
lhe indicasse nomes para a escolha de futuros assessores. Os oficiais indicados acabariam
sendo convocados para servir na Inspetoria de Cavalaria.

956
A primeira regulamentação das recém-criadas inspetorias das armas e serviços do Exército aconteceu em 31
de março de 1931, por meio do Decreto nº 3.885. Criavam-se, assim, as seguintes inspetorias: de Infantaria; de
Cavalaria, Trem, Remonta e Veterinária; de Artilharia e Material Bélico; de Engenharia; de Aeronáutica; de
recrutamento; de Intendência; e de Saúde. Os inspetores seriam generais de divisão ou de brigada e estavam
subordinados diretamente ao ministro da Guerra.
602

10.2 A Inspetoria de Cavalaria: o retorno às origens

Em 19 de junho de 1939, Pessoa tomou posse daquela que seria a mais longa comissão
de sua carreira militar. Seria inspetor da Arma de Cavalaria até novembro de 1945, quando foi
nomeado adido militar em Londres. Apesar do longo tempo que permaneceu no cargo, são
poucos os registros documentais de sua passagem pela função, que se resumem às suas
narrativas memoriais e umas poucas lembranças do, então, tenente Umberto Peregrino, seu
ajudante-de-ordens na Inspetoria. Também deixaram de ser frequentes as suas aparições nas
páginas dos periódicos da Capital Federal, um sinal claro de que a nova função já não tinha
tanta relevância assim nas esferas de poder do Exército e do governo.
Às recém-criadas inspetorias das Armas e Serviços competia, sobretudo, realizar a
inspeção das instruções técnicas e táticas dos corpos, repartições e estabelecimentos militares
das diversas armas do Exército, bem como do preparo dessas organizações militares para a
mobilização de pessoal e de material em tempo de paz, tendo-se me vista a preparação para a
guerra. Desse modo, os inspetores não tinham qualquer ingerência administrativa sobre os
corpos de tropa ou grandes unidades da Instituição, o que era uma atribuição das Regiões
Militares e das diretorias das Armas.957 Além disso, o acompanhamento da preparação para a
guerra das divisões e brigadas continuavam a ser da competência das inspetorias gerais, que
deveriam trabalhar em estreita cooperação com as inspetorias das armas.958
Os cargos de inspetores deveriam ser ocupados por generais-de-divisão ou de brigada,
oriundos das respectivas armas ou serviços da inspetoria que ocupariam. Dependiam
diretamente do ministro da Guerra, que era a autoridade que aprovava o plano anual de
inspeções, por intermédio do Estado-Maior do Exército, e a quem deveriam informar,
periodicamente, a situação e as necessidades da sua arma, sugerindo as medidas necessárias
ao seu melhor aparelhamento e eficiência.959Na verdade, os generais que ocupavam a função
não passavam de meros fiscais das Armas, sem o poder de emitir qualquer tipo de ordem,
visando o emprego operacional das grandes unidades militares. Além disso, estavam sob o
controle direto de Dutra e de Góes.
Pessoa tinha consciência de que essa seria a sua função, a partir do momento em que
assumiu o cargo. No seu discurso de posse, afirmou estar feliz por voltar “ao trabalho dos

957
O Relatório do Ministro da Guerra, de 1939, era claro quanto a isso, ao ressaltar que os comandantes
regionais não se submeteriam funcionalmente às Inspetorias no concernente à mobilização da tropa, às instruções
técnicas e táticas e à preparação para a guerra. Relatório do Ministro da Guerra, 1939, p. 66.
958
Decreto nº 3.885, de 31 de março de 1939.
959
Ibidem.
603

problemas” de sua Arma de origem. Porém, ressaltou que, mesmo após o longo período em
que esteve afastado, ainda encontrava uma Cavalaria não convenientemente aparelhada, sem
uma doutrina de guerra e sem os modernos recursos para o desempenho da Arma. No seu
entender, eram necessidades urgentes da Cavalaria: a atualização dos regulamentos de
combate da arma, a compra de armas e meios suplementares de transporte e de transposição
de cursos d’água e a compra de arreamentos novos para a cavalhada, uma vez que os
existentes eram inadequados e constituíam-se em verdadeiros instrumentos de tortura para os
animais. Também entendia que o rebanho equino do Exército era insuficiente para atender à
remonta das unidades montadas da Instituição, tanto as da Cavalaria como as da Artilharia de
dorso. A solução para esse problema, segundo ele, era regulamentar, com objetivos
zootécnicos pré-definidos, a criação das raças e os tipos de animais destinados às diversas
necessidades do Exército. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VII, p. 3-4)
Um fato curioso, é a defesa que Pessoa fazia do cuidado que se devia ter com o tipo
físico do oficial e do soldado de Cavalaria. Em 1940, ao tecer algumas considerações a
respeito da criação dos Dragões da Independência960, entendia que os soldados dessa tropa
não poderiam ter menos do que 1,72 metros de altura, o que era comum, segundo ele, em
todas as tropas de cavalaria dos “exércitos organizados”. Quanto à estatura dos oficiais, dizia
ser esta indiferente, já que, somente a partir de 1931 a Escola Militar havia fixado uma altura
mínima para a seleção dos candidatos ao oficialato.961 No entanto, tinha a firme opinião de
que a escolha dos cadetes da arma deveria tornar-se diferenciada, observando-se as condições
de peso e altura do candidato. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VII, p. 8) Um pensamento,
cabe ressaltar, coerente com as regras sanitárias rígidas que havia introduzido no regulamento
do estabelecimento de ensino em 1934, quando o comandou.
Quanto à motorização e a mecanização da arma, em sua fala Pessoa demonstrou não
concordar plenamente com os esforços modernização que vinham sendo feitos pelo alto-

960
Em 1936, por meio do Decreto nº1.042, de 22 de agosto, o 1º Regimento de Cavalaria Divisionário, sediado
no Rio de Janeiro, recebeu a denominação de Dragões da Independência, como uma forma de se resgatar a
história da unidade militar, cuja origem remonta ao Brasil Colônia, com a criação do Esquadrão da Guarda do
Vice-Rei, em 1765. Com a independência do Brasil, em 1822, evento no qual teve participação ativa,
transformou-se na Imperial Guarda de Honra. Daí vem a denominação histórica do Regimento. Em 1927, após
dez anos de deliberação, o Senado Federal aprovou um projeto de lei apresentado pelo deputado e historiador
Gustavo Barros, por meio do qual propunha o resgate das tradições históricas da unidade militar, dentre elas o
tradicional uniforme do Século XIX, branco com capacetes dourados e penachos vermelhos, imortalizado no
quadro da Independência do Brasil, de Pedro Américo. Atualmente o Regimento está sediado em Brasília e
denomina-se 1º Regimento de Cavalaria de Guardas (RCG). Sua missão, à semelhança da época do Império, é
realizar a segurança do presidente da República e a guarda das instalações da Presidência da República. É um
dos três regimentos de Cavalaria do Exército brasileiro que mantêm tropas montadas. Os outros são o 2º RCG,
Regimento Andrade Neves, sediado na Vila Militar do Rio de Janeiro, e o 3º RCG, Regimento Osório,
localizado em Poto Alegre. Informações retiradas dos sites do 1º RCG e do Exército brasileiro.
961
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1939.07.20, doc. 0258.
604

escalão da Força. Compreendia a empolgação do Exército em substituir o cavalo pelo


caminhão, para o transporte de tropas, de material e de canhões. Porém antes de que essa
transformação fosse levada à efeito, entendia que era preciso a realização de maiores estudos
técnicos e financeiros sobre a questão. Afinal de contas, para que a motorização fosse
mantida, havia que se pensar na necessidade de se manter estoques de peças sobressalentes,
combustíveis e material de transporte, além das vias de comunicação e das oficinas para a
realização dos reparos e consertos dos caminhões. No seu entender, a mobilidade tática da
Cavalaria montada, em certas ocasiões, ainda era melhor do que a da motorizada. Era melhor,
portanto, que, em um primeiro momento, se motorizasse a Infantaria e a Artilharia, e se
intensificasse a prática da equitação, o tiro das armas automáticas e os desportos equestres.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VII, p. 3-4)
Quanto à mecanização, valiam as mesmas premissas da motorização. Lembrou do
livro Os Tanks na Guerra Europeia, que escreveu em 1923, após ter retornado dos campos de
batalha da Europa.962 Nele, havia mostrado a necessidade da mecanização das tropas de
Infantaria, fundamental para as guerras futuras. Em relação à Cavalaria, entendia que era mais
urgente que se atualizassem os estudos do apoio que os carros de combate poderiam dar às
tropas montadas, e não o emprego da blindagem pela arma. Reconhecia que os problemas
relativos à moto-mecanização eram complexos de serem resolvidos, devido à vasta extensão
territorial do Brasil, aos efetivos a serem mobilizados em caso de guerra e à falta de recursos
técnicos das unidades militares brasileiras. Às vésperas do segundo maior conflito mundial do
Século XX, na visão de Pessoa, a guerra de movimento, com o emprego de tropas montadas,
ainda seria a realidade sul-americana por um longo período. Por isso, entendia que a
modernização da Cavalaria deveria ocorrer, porém, sem dispensar o uso dos cavalos.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VII, p. 5) Alguns meses depois, o exército alemão mostraria
justamente o contrário, na Segunda Guerra Mundial, e apresentaria ao mundo uma nova
concepção de emprego das tropas mecanizadas. Na invasão da Polônia, em setembro de 1939,
a nova tática de guerra utilizada pela Wehrmatch963, a blitzkrieg964, fez o uso amplo dos carros

962
Na edição de maio de 1941, da revista Nação Armada, José Pessoa publicou um artigo em que faz referência
à sua obra. No texto, igualmente intitulado Os tanks na guerra europeia, fez uma análise do emprego das tropas
mecanizadas nazistas na Segunda Guerra Mundial, à luz dos conhecimentos abordados no livro publicado vinte
anos antes.
963
Forças armadas alemães.
964
Emprego tático das forças armadas alemãs arquitetada pelo general Heinz Wilhelm Guderian. A blitzkrieg,
ou guerra relâmpago, em português, foi empregada pela primeira vez na Segunda Guerra Mundial, mais
especificamente na invasão da Polônia. Consistia na utilização de forças rápidas de ataque e na surpresa, com
intuito de não dar tempo ao inimigo de organizar as suas defesas. Envolvia o emprego conjunto de um grande
número de aviões, carros blindados, unidades de Artilharia e tropas de Infantaria. O uso maciço das colunas de
605

blindados, valendo-se da sua proteção e, sobretudo, da sua velocidade, para romper as linhas
inimigas. As tropas polonesas, ainda adeptas das cargas da Cavalaria montada, foram
aniquiladas pelos alemães nos primeiros dias de combate.
Pessoa tinha razão quando pedia a modernização dos quartéis de Cavalaria. É
inegável, segundo Carvalho (2006, p. 92), o esforço de renovação e aperfeiçoamento
profissional do Exército empreendido por Dutra e Góes Monteiro durante o Estado Novo:
forma formuladas todas as leis básicas do Exército, escolas e quartéis foram construídos, os
corpos de tropa forma organizados, impulsionou-se o plano de reequipamento e armamento
graças a compras feitas no exterior e ao incentivo à indústria bélica nacional. Entretanto, após
a criação da Companhia de Carros de Assalto, em 1921, da qual o primeiro comandante foi
José Pessoa, o esforço feito pelo Exército para a mecanização ou motorização das tropas de
Cavalaria foi ínfimo.
A CCA havia sido extinta em 1932, graças ao descaso das autoridades militares,
descrentes da utilidade do carro de combate blindado à época. Como aponta Louro (2011, p.
75-76), dois anos mais tarde, a intenção de se criar unidades mecanizadas no Exército
novamente veio à tona, grande parte graças à ação do chefe da Missão Militar Francesa,
general Paul Noel, junto ao Estado-Maior do Exército. Em 1934, a Lei de Organização do
Exército passou a prever, na estrutura das divisões de Cavalaria, regimentos de auto-
metralhadores, além dos já previstos batalhões de carros leves de assalto nas divisões de
Infantaria. Essa estrutura somente começaria a tomar forma, de maneira tímida, em 1938, com
a criação do Esquadrão de Auto-Metralhadoras. Para mobiliá-lo, o Exército adquiriu junto à
Itália vinte e três carros blindados Fiat Ansaldo CV3/35, que haviam sido utilizados com
sucesso nas guerras da Abissínia e Civil Espanhola. Servindo basicamente como unidade
escola, onde os oficiais e sargentos de todas as armas, especialmente os de Cavalaria,
adestravam-se no uso básico dos carros blindados, o Esquadrão foi transformado no Centro de
Instrução de Motomecanização, em 1939. Em 1935, ainda foi incorporada à organização do
EME uma Seção de Motomecanização, com o propósito de orientar os trabalhos de
mecanização do Exército.
Em julho de 1939, Pessoa enviou ao ministro da Guerra um ofício reservado, por meio
do qual apresentou uma proposta para a compra de equipamentos para os futuros regimentos
de auto-metralhadores da Cavalaria. Nele, lembrou a Dutra os esforços que alguns exércitos
sul-americanos estavam fazendo para mecanizar as suas tropas, em especial o exército

blindados tinha a finalidade de romper as linhas estáticas do inimigo e penetrar em profundidade no território
invadido.
606

argentino, que já havia transformado suas tropas de Cavalaria divisionárias em grupos de


reconhecimento mecanizados. Portanto, na visão de Pessoa, era imperativo que o Exército
brasileiro introduzisse em sua estrutura orgânica as modernas tropas mecanizadas, a fim de
que os outros países da América do Sul não tomassem a dianteira em um assunto de tanta
relevância. Sugeriu ao ministro que fossem adquiridos carros franceses para se mobiliar os
regimentos brasileiros, pelas suas condições técnicas e por serem mais adaptáveis à precária
rede de estradas brasileira.965 O fato é que os carros franceses não foram adquiridos,
tampouco mais carros italianos. Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial e a
consequente aproximação com os Estados Unidos, a partir de 1943 o Exército passou a
receber blindados norte-americanos.
Durante os anos em que permaneceu à frente da Inspetoria de Cavalaria, a rotina de
José Pessoa constituiu-se basicamente das inspeções que realizou nas diversas unidades de
Cavalaria do Exército. Se por um lado, segundo ele, era uma tarefa “fastidiosa e monótona”,
por outro reconfortava-o o progresso que cada tropa apresentava, diante dos ensinamentos
transmitidos pela equipe da Inspetoria, após cada visita. Nas inspeções, realizadas por Pessoa
e seu Estado-Maior, que demoravam dois dias, em cada regimento, eram verificados o estado
material e moral da tropa e a eficiência da guarnição após 48 horas de trabalhos ininterruptos.
Livro de castigos, higiene do aquartelamento e das baias, estado do material de guerra,
depósitos, escriturações das finanças, enfim, tudo era inspecionado. A higidez física do
pessoal e da cavalhada também era avaliada. As duas jornadas de trabalhos eram encerradas
com uma marcha a cavalo, ou motorizada, para as unidades deste tipo, e exercícios táticos e
de tiro no terreno. Nas unidades militares de remonta966, uma inspeção do serviço de
veterinária era feita. Além disso, eram verificados o desenvolvimento das culturas
forrageiras967 e a criação do rebanho equino na região. Por fim, uma crítica geral das
atividades desenvolvidas era feita, com a presença do comandante e dos oficiais da
unidade.968
Pessoa relata que, ao retornar à Capital Federal, não se preocupava, apenas, em
descrever para as autoridades, por meio de relatórios, o que havia observado nas viagens.
Empenhava-se, também, em conseguir das autoridades o armamento e o equipamento
necessários ao recompletamento dos estoques das unidades inspecionadas, particularmente as
das fronteiras, que deveriam estar em permanente estado de eficiência. O descaso das

965
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1939.07.20, doc. 0232.
966
Unidades militares responsáveis pelo suprimento de equinos para as tropas de Cavalaria.
967
Plantações destinadas à alimentação dos animais (milho, cevada, trigo, cana, alfafa, capim gordura, etc).
968
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1939.07.20, doc. 0240 a 0244 e 0261.
607

autoridades, entretanto, lhe trazia, muitas vezes, aborrecimentos. Sentia-se incomodado


especialmente com a incompreensão de Dutra, que lhe negava a maioria dos pedidos. Quando
conseguia algo de relevância era porque entrava em entendimento direto com os chefes das
diversas diretorias do Exército, como em certa feita em que conseguiu a substituição integral
de mosquetões de uma unidade militar porque o diretor de Material Bélico era um velho
amigo seu, apesar de o ministro da Guerra ter autorizado somente a troca de algumas armas.
A manobra, realizada por debaixo dos panos, acabou valendo-lhe uma chamada de atenção e a
desconfiança de Dutra. Mais tarde, em outra viagem, ficou sabendo que o ministro, por meio
de um telegrama confidencial, pediu ao comandante da 3ª RM que o mantivesse informado a
respeito das inspeções realizadas no Sul. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VII, p. 10-12)
Em tom de desabafo, ressentia-se do pouco valor que os chefes do Exército davam ao
seu trabalho. No seu entender, as autoridades da Instituição alimentavam “um sentimento
crônico e impaciente” contra tudo o produzia. Porém, nada tinham para usar contra a sua
capacidade e o seu caráter. Quando elogiavam o seu trabalho, segundo ele, o faziam
tardiamente ou sorrateiramente por meio de cartas pessoais. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta
VII, p. 13) Após onze meses de comando, em 24 maio de 1940, foi promovido a general-de-
divisão, o mais alto posto do Exército à época969.
Entre 1940 e 1945, Pessoa endereçou vários relatórios ao Ministério da Guerra,
apresentando as deficiências e as necessidades de todas as unidades de Cavalaria do Exército,
mesmo as mais distantes e remotas. Nos documentos que produziu no seu primeiro ano de
inspetoria, a situação mais crítica por ele descrita ainda era a das unidades de Cavalaria do
Mato Grosso, mesmo após todo o esforço que ele fizera para melhorar as condições
estruturais dos quartéis do estado, durante o período em que comandou a 9ª RM. Constatou
que, de um modo geral, as unidades não eram atendidas nem em 50% de suas necessidades
mínimas. Não havia equipamentos e armamentos suficientes para a instrução, tampouco a
quantidade desejável de oficiais e sargentos para a ocupação de todos os cargos previstos. As
deficiências se deviam, em grande parte, à ineficiência das repartições responsáveis pelo
ressuprimento da tropa, que não atendiam com brevidade os pedidos regulares. Porém, o mais
preocupante foi o estado de magreza em que encontrou a cavalhada, o que impedia os
regimentos de cumprirem integralmente o programa anual de instrução. A situação mais
periclitante era do 10º Regimento de Cavalaria Independente, em Bela Vista, que há seis
meses não recebia forragens e material de limpeza para os cavalos. O estado da moradia dos

969
Os postos de general-de-exército e marechal seriam criados somente seis anos mais tarde, com a aprovação do
Estatuto dos Militares pelo Decreto nº 9.698, de 2 de setembro de 1946.
608

oficiais e sargentos também era extremamente desconfortável. Ocupavam velhas casas de


madeira cobertas com zinco, inadequadas para o clima da região. Em Bela Vista sequer havia
casas de aluguel suficientes para todas as famílias, o que obrigava a algumas delas viverem
em verdadeiros “mocambos”. Pessoa alertou ao ministro a necessidade de se melhorar a
eficiência dos quartéis do Oeste brasileiro, uma vez que era essa tropa que guarnecia as
fronteiras com o Paraguai e a Bolívia. Para ele, a solução era simples, bastava organizar os
depósitos de fardamento, material, equipamentos e armamento da Região. Tratava-se somente
de “uma questão de vontade”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VII, p. 17-20)
Quanto às tropas do Sul, das 3ª e 5ª Regiões Militares, destacou que estas não estavam
em condições de realizarem com êxito uma operação de guerra. Os quartéis, construídos há
mais de 18 anos, muitos deles de madeira, necessitavam de grandes reformas, adaptações ou
ampliações. Raro era o quartel que não sofria com a escassez de água e que possuíam baias
suficientes para os cavalos. A saúde e a higiene do pessoal e da cavalhada eram precaríssimas.
Segundo Pessoa, as poucas obras realizadas pela Diretoria de Engenharia não corrigiam os
problemas. Existiam quartéis, como o do 5º Regimento de Cavalaria Divisionário, em
Curitiba, que sequer encontrava-se na zona urbana da cidade, o que dificultava o transporte de
todos os gêneros necessários à vida vegetativa da unidade. Os quartéis que estavam em
melhores condições, assim se encontravam graças à ação empreendedora dos seus
comandantes e ao auxílio financeiro da população local, como o 15º RCI, em Castro-PR. Por
outro lado, Pessoa havia encontrado algumas aberrações. Em São Borja-RS, por exemplo, o
comandante do 2º RCI decidiu gastar mais de 300 contos de réis para murar o quartel, ao
invés de reparar os alojamentos e as baias e melhorar a enfermaria para os doentes. Em
Santana do Livramento-RS, o hospital da guarnição funcionava em um dos pavilhões do 7º
RCI. Destacou, ainda que as forragens fornecidas aos cavalos eram de baixa qualidade e não
satisfaziam os animais. Até mesmo a vizinha Argentina, em caso de uma guerra, possuiria
uma cavalaria melhor do que a brasileira. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VII, p. 21-25)
Vendo as suas solicitações ao Ministério da Guerra não serem atendidas, algumas
vezes José Pessoa recorria ao auxílio dos comandantes das regiões militares, como no caso da
inspeção que fez na única unidade de Cavalaria da 2ª RM, em Pirassununga-SP, em agosto de
1942. Encontrou o 2º RCD em mau estado de conservação. Também não havia munição
suficiente para a realização do tiro de instrução. Além disso, havia o recorrente problema do
estado desfavorável da cavalhada e do equipamento de montaria. Diante das inúmeras vezes
em que solicitou o apoio dos órgãos competentes para sanar as irregularidades, sem sucesso,
pediu ao comandante da 2ª RM que interviesse junto às instâncias superiores, na esperança de
609

que dos “esforços conjugados” pudesse advir uma solução para os problemas.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VII, p. 33-35)
José Pessoa, como inspetor de Cavalaria, empenhou-se muito para resolver os
problemas dos quartéis de Cavalaria. Não aceitava o descaso das autoridades. Os pedidos
recorrentes de melhorias dirigidos aos comandantes das Regiões Militares e ao ministro da
Guerra não continham nada de extraordinário. Pelo contrário, seus anseios buscavam atender
àquilo que era regulamentar, suprir demandas simples como: melhorar os alojamentos para o
pessoal, substituindo-se as camas de madeira por beliches de ferro, e as baias para a
cavalhada; melhorar a qualidade das forragens fornecidas aos quartéis; substituir viaturas
velhas por novas, como as viaturas cozinha e d’água; regularizar os estoques de munições,
equipamentos e, até mesmo, de ferraduras para os cavalos; fornecer os fardamentos
adequados aos soldados (os marinheiros da Armada Nacional recebiam oito uniformes por
ano, ao passo que os soldados do Exército recebiam a metade disso); e adequar as unidades de
remonta à produção de raças adequadas às tropas de Cavalaria, o que implicava, inclusive,
introduzir a inseminação artificial em todas esses quartéis. Os relatórios de 1943970, da
Inspetoria, apresentavam algumas melhorias implementadas na estrutura física dos quartéis e
na instrução da tropa. Entretanto, ainda persistiam a baixa qualidade da cavalhada.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VII, p. 27-30)
Quanto a este último item, José Pessoa sugeriu ao chefe da pasta da Guerra que
considerasse seu trabalho Os Problemas da Equinocultura no Brasil. Apesar da obra não
fazer parte do seu arquivo pessoal, Pessoa cita, em suas memórias, algumas passagens do que
seria um programa governamental para se criar cavalos em grande escala para o Exército e
sanar as deficiências do Serviço de Remonta e Veterinária da Instituição. O programa foi
apresentado ao ministro da Guerra em dezembro de [Link] considerações iniciais, aborda o
problema da motomecanização das tropas de Cavalaria. Para ele, motor e cavalo não se
excluiriam e, sim, se complementariam. Era imperioso que o Exército atacasse de frente o
problema da operacionalização das unidades mecanizadas, até mesmo para assegurar o
equilíbrio de material com os países vizinhos. Porém, era urgente que a Instituição também se
aparelhasse com os cavalos. No seu ponto de vista, se o Exército até aquele momento tinha
sido ineficaz no esforço dispendido com a criação equina, era porque o Estado não encorajava
e não prestava a assistência necessária aos criadores de cavalos do País. Sem uma produção

970
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1939.07.20, doc. 0246 a 0249.
610

equina em larga escala, não havia como manter uma tropa numerosa de Cavalaria.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VII, p. 73-74)
Portanto, para Pessoa, os problemas que afetavam o que ele chamou de “indústria
pastoril” não eram departamentais, mas, nacionais. Seria necessário um esforço de governo
para resolvê-los. Para a organização dessa “indústria”, apresentou algumas sugestões. Dentre
elas, a criação do Instituto de Veterinária do Exército e a ampliação do já existente Instituto
de Biologia, para o estudo de matrizes e o desenvolvimento de produtos biológicos. Além
disso, como medida preliminar, a criação do Conselho Nacional de Equinocultura, para
estimular e orientar a criação equina no Brasil. Esse conselho seria formado por membros dos
ministérios da Agricultura e da Guerra (inclusive do Inspetor de Cavalaria). Também seriam
criados conselhos estaduais e municipais, com subordinação direta ao conselho nacional.
Enquanto o Ministério da Agricultura agiria no cruzamento e seleção das raças, no
desenvolvimento das melhores forragens e no estudo das patologias equinas, o Ministério da
Guerra fomentaria a equinocultura, organizando os plantéis de animais reprodutores e criando
mercado seguro e compensador aos criadores nacionais. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VII,
p. 75-77)
Em setembro de 1940, Pessoa realizou uma viagem de inspeção aos estados da Região
Amazônica. Nessa ocasião, esteve na ilha do Marajó, a fim de verificar se o rebanho equino
daquela região se prestaria ao emprego nas unidades militares do norte do País. No retorno ao
Rio de Janeiro, concedeu uma entrevista ao jornal Correio da Manhã. Disse ter encontrado
grandes manadas de cavalos, na Ilha de Marajó. Entretanto, apontou que a raça criada
naquelas paragens ainda era deficiente e de “linhas defeituosas”, sendo necessário a
introdução de reprodutores de raças mais nobres na ilha. Aproveitou o espaço que o jornal lhe
concedera para abordar, mais uma vez, o problema da remonta no Brasil. Para ele, ainda
existiam algumas questões que necessitavam ser encaradas de frente pelo governo: a ausência
de um “serviço militar compulsório” para os animais de tropa; a falta de divisão geográfica do
País em zonas de criação e da escolha de raças melhoradas para atender os diversos misteres;
a inexistência da aplicação da inseminação artificial pelos criadores; e as aquisições de
cavalos no estrangeiro a baixos preços pelo Ministério da Agricultura, o que desestimulava os
criadores nacionais. Para melhorar a situação existente, segundo ele, era necessário a criação
imediata do já citado Conselho Nacional de Equinocultura.971

971
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 11 set. 1940, p. 3.
611

Mesmo após as batalhas da Segunda Guerra Mundial terem provado nos campos
europeus a relevância do emprego das unidades mecanizadas e motorizadas em combate,
principalmente no tocante ao poder de fogo, mobilidade e velocidade, José Pessoa ainda
defendia o emprego de tropas mistas de Cavalaria. Não era contra a mecanização, porém era
da opinião de que o emprego de tropas montadas ainda tinha a sua utilidade em combate. A
análise que se pode fazer de suas palavras é que tal defesa se dava mais em razão da
preservação da memória dos grandes heróis de Cavalaria, como Osório e Andrade Neves,
cujos sabres “inscreveram um ciclo de glórias no passado histórico da Pátria”, do que do
emprego tático da arma em si. Era um saudosista das cargas de cavalaria nos campos de
batalha e não admitia que os oficiais da arma adotassem um espírito comodista e já não
frequentassem mais os picadeiros972. (ALBUQUERUQE, 1953, Pasta VII, p. 122)
Para Pessoa, a Cavalaria era “a arma por excelência da tradição” e era da tradição,
segundo ele, que se nutria a alma de uma nação. Sendo assim, com o intuito de exaltar e
cultuar as tradições da arma, planejou a inauguração, no salão nobre da Inspetoria de
Cavalaria, de uma galeria de retratos dos chefes mais proeminentes da Cavalaria brasileira.
Não por acaso, a data escolhida foi o dia 23 de agosto 1940, em meio às comemorações da
Semana do Soldado. Não por acaso, também, os homenageados tinham as suas carreiras
militares, de uma forma ou de outra, ligadas à de Caxias. Ou lutaram ao seu lado na Guerra do
Paraguai e nas campanhas do Prata, ou nas revoluções internas por ele pacificadas. Com a
presença do ministro da Guerra, de vários generais da 1ª Região Militar e de familiares dos
chefes homenageados, foram inaugurados os retratos dos seguintes chefes da Cavalaria
brasileira: o marechal Osório; o general Manoel Marques de Souza, Conde de Porto Alegre; o
brigadeiro Andrade Neves; do marechal José Antônio Correa da Câmara, Visconde de
Pelotas; o marechal José de Abreu, Barão de Serro Largo; o brigadeiro Victorino José
Carneiro Monteiro, Barão de São Borja; o general João Manuel Mena Barreto; e o marechal
João Propício, Barão de São Gabriel. Além desses, ainda figuravam na galeria os heróis da
Revolução Farroupilha, brigadeiros Antônio de Souza Neto, Bento Manoel Ribeiro e David
Canabarro.973
Da organização da galeria resultou, ainda, um livro biográfico intitulado Chefes da
Cavalaria Brasileira, com intuito de elevar o culto aos antigos chefes da Cavalaria do
Exército. Publicado pela editora José Olímpio, do Rio de Janeiro, somente 200 exemplares,
numerados e rubricados pelo inspetor de Cavalaria, foram impressos, em uma única edição

972
Local onde se adestram cavalos e se realizam exercícios de equitação.
973
Revista Nação Armada, Rio de Janeiro, nov. 1940, p. 9-14.
612

luxuosa. Nessa obra, José Pessoa coloca Osório na condição de “patrono da Cavalaria
brasileira”. Cabe lembrar que, desde 1923, com a oficialização do culto à Caxias pelo ministro
Setembrino de Carvalho, e a sua posterior imposição como Patrono do Exército nas décadas
seguintes, o culto a Osório, como o maior soldado brasileiro, vinha entrando em declínio. Não
há dúvida que o “rebaixamento” proposto por Pessoa contribuiu para que, nos anos seguintes,
como lembra Castro (2000, p. 112), as comemorações a Osório perdessem o destaque que
tinham tido até então.

Imagem 99 – José Pessoa e Getúlio Vargas durante uma inspeção à


Cavalaria do Mato Grosso, set. 1941.

Fonte: Câmara, 2011.

Durante o período em que esteve à frente da Inspetoria de Cavalaria, José Pessoa


empenhou-se, também, na criação de uma nova Escola de Cavalaria. Segundo ele, havia
recebido essa missão do ministro da Guerra, em setembro de 1939. No seu ponto de vista, a
construção do novo estabelecimento de ensino seria fundamental para o aperfeiçoamento dos
quadros e a especialização dos métodos e processos do ensino profissional da arma. A escola
que existia, já não atendia a essas finalidades e ocupava, indevidamente, as dependências de
613

outras unidades militares não destinadas a esse fim.974 (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VII, p.
3 e 59)
A escolha da sede da nova Escola levou Pessoa a decidir-se entre os estados do Rio
Grande do Sul e de São Paulo. Pesava sobre o primeiro a quantidade de quartéis da arma.
Mais da metade das unidades de Cavalaria do Exército encontravam-se no Sul. Além disso, o
Rio Grande do Sul estacava-se na criação de equinos. Entretanto, São Paulo ficava mais
próximo da Capital Federal e possuía o maior parque industrial do País. O surto de progresso
pelo qual passava o estado certamente impregnaria o novo estabelecimento de ensino. A
opção de José Pessoa caiu sobre este último estado, não só devido à sua localização central,
mas, também, pelos pontos desfavoráveis que a região Sul trazia para a instalação de uma
escola tão importante. O Rio Grande do Sul era um ponto extremo do País, portanto, a Escola
não receberia a assistência direta do governo. Além disso, localizando-se em um estado
fronteiriço, estaria desnecessariamente exposta a um ataque inimigo, no caso de um conflito
armado, e submetida a um ambiente sem a necessária calma para a formação dos quadros
combatentes. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VII, p. 60-61)
José Pessoa pensou em instalar o estabelecimento de ensino no Vale do Paraíba
paulista. Em suas memórias, citou as visitas feitas às cidades de Taubaté, Tremembé,
Pindamonhangaba e Guaratinguetá. No entanto, foi uma inspeção no 2º RCD, em
Pirassununga, que o fez se decidir pela localidade para abrigar a sede da nova Escola de
Cavalaria. Em novembro de 1939, falou ao jornal Correio da Manhã sobre a construção da
Escola de Cavalaria. O título sugestivo da matéria já apontava Pirassununga como a “cidade
da Cavalaria brasileira”. Ressaltou que a construção de uma escola de Cavalaria com vida
autônoma, a exemplo das que os grandes Exércitos possuíam, como as escolas de Saumur
(França), Hannover (Alemanha), Tor Di Quinto (Itália) e Fort Riley (EUA), era a realização
de um velho sonho do Exército brasileiro. E que Pirassununga atendia a todas as condições
gerais para a construção do estabelecimento de ensino. A primeira, logicamente, era de ordem
econômica. O interventor do estado de São Paulo, Adhemar de Barros, já havia se

974
A Escola de Cavalaria havia sido criada em 11 de abril de 1929, pelo Decreto nº 18.697, com o propósito de
aperfeiçoar os oficiais de Cavalaria no comando de esquadrão e complementar-lhes o ensino profissional para o
comando de regimento e o emprego das brigadas e divisões. Também se destinava a especializar e complementar
a formação profissional dos sargentos da arma. Funcionava nas dependências do 15º Regimento de Cavalaria
Independente, na Vila Militar, no Rio de Janeiro. Em 1932, por meio do Decreto nº 21.142, de 10 de março, o
15º RCI foi extinto, tornando-se um regimento escola destinado exclusivamente aos trabalhos de instrução da
Escola de Cavalaria. Com o passar dos anos, a Escola perdeu a sua finalidade e a sua estrutura física degradou-
se. Em 1937, nela funcionava apenas o curso de equitação, em uma dependência do Regimento Andrade Neves,
como apontou a Mensagem do presidente da República ao Congresso Nacional, de 1937. Na mesma mensagem,
Vargas apontou a necessidade de se restaurar a Escola em um local mais apropriado.
614

comprometido a financiar a construção e todo o conjunto principal da Escola e o prefeito da


cidade, Dr. Belarmino Del Nero, a doar todos os terrenos, da ordem de 5.000 alqueires, que
fossem necessários às novas edificações, inclusive uma fazenda destinada à instrução e às
plantações forrageiras para a alimentação dos animais.975
Também havia os aspectos operacionais, já que em Pirassununga estava a sede do 2º
RCD, que poderia ser transformado em regimento escola, bastando, para isso, pequenas obras
complementares em suas instalações. Por fim, existiam os aspectos de ordem social. A cidade
possuía um meio social homogêneo, constituído de famílias tradicionais. Seu clima era
agradável e salubre. Estava distante a apenas quatro horas da capital paulista, com a qual se
ligava por uma vasta rede ferroviária e rodoviária. Além disso, possuía educandários nível
secundário modelares, o que possibilitaria uma boa educação aos filhos dos militares, e estava
próxima de cidades que possuíam excelentes cursos de nível superior, como São Paulo,
Campinas e Piracicaba.976
Para Pessoa, o plano de ensino da Escola não deveria se limitar somente ao
aperfeiçoamento dos oficiais e sargentos de Cavalaria. No estabelecimento de ensino também
seriam formados os oficiais da reserva da arma e funcionaria um curso de aplicações para os
veterinários do Exército e para os formados nas escolas civis que desejassem entrar no
quadro. À semelhança do que havia pensado para a Escola Militar de Resende, a estrutura da
nova Escola de Cavalaria seria constituída de três setores distintos: o escolar, o residencial e o
militar. Cabe ressaltar, como ele aponta em sua autobiografia, que coube, novamente, ao
arquiteto Penna Firme a elaboração do projeto da Escola. O conjunto arquitetônico seria
emoldurado por um parque florestal formado por plantas da flora nacional. Um hipódromo e
um estádio deveriam ser construídos. O Rio Mogi-Guaçu, que ficaria no entorno do terreno da
Escola, permitiria as instruções de transposição de cursos de água. E assim como havia
pensado para a Academia Militar, quando idealizou o Panteão de Caxias, um museu da
Cavalaria seria organizado, onde seriam guardados os troféus e as relíquias e realizadas as
festas nacionais da arma.977

975
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 29 nov. 1939, p. 3.
976
Ibidem.
977
Ibidem.
615

Imagem 100 – Planta arquitetônica da Escola de Cavalaria em Pirassuninga-SP, 1939.

Fonte: Hemeroteca da Biblioteca Nacional. Correio da Manhã, 29 nov. 1939.

O sonho de Pessoa, no entanto, não sairia do papel. Munido de todas as informações


necessárias e das garantias dadas pelo interventor de São Paulo e pelo prefeito de
Pirassununga, Pessoa encaminhou um relatório a Dutra, ainda no mês de novembro,
solicitando o concorde do ministro para o início das obras da Escola.978 Em meados de
dezembro, Dutra respondeu o ofício de Pessoa por meio de uma curta carta pessoal. Nela, o
ministro reconhecia a necessidade da criação de uma nova Escola de Cavalaria. Porém,
deixou claro que o governo não dispunha de recursos para a construção do estabelecimento de
ensino e informou a Pessoa que sua missão estava terminada e que o governo aguardaria uma
outra oportunidade para retomar o assunto. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VII, p. 65)
Não conformado, Pessoa, em 2 de fevereiro de 1940, fez uma nova tentativa junto a
Dutra de retomar os planos de construção da Escola. Por meio de uma carta979, reafirmou ao
ministro a necessidade premente de se criar um órgão para centralizar e difundir os
conhecimentos modernos da arma, ainda mais com a introdução dos novos conhecimentos
sobre a organização da Cavalaria que a guerra moderna impunha naquele momento. Se o

978
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1939.07.20, doc. 0238.
979
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1939.07.20, doc. 0239.
616

problema era dinheiro, lembrou a Dutra que o Banco do Brasil havia concedido, por ordem de
Vargas, um empréstimo de trinta mil contos de réis para a continuidade das obras da Escola
Militar de Resende, desafogando, assim, a Caixa de Economias da Guerra. Considerando que
já existiam as promessas da doação dos terrenos e da construção do bloco central da Escola,
Pessoa afirmou que não seria difícil à Caixa de Guerra destinar não mais do que um terço do
valor que seria destinado à Escola Militar para a instalação da Escola de Cavalaria em
Pirassununga. Deixou claro a Dutra o pesar que sentia em ter que suspender o projeto a que
tinha se dedicado com tanto afinco com o intuito de dar uma solução a mais um dos tantos
problemas da organização militar do País. Já ao fim do documento, ressaltou que, diante dos
esforços que o governo fazia em prol da defesa do País, pensava ser aquele o momento do
Exército também “reprimir a inércia dos que se opõem sistematicamente à realização de tudo
que se faz necessário à eficiência da nossa classe”.
Dutra não se sensibilizou com a missiva de Pessoa. Na resposta que lhe enviou, cinco
dias depois, reafirmou que não havia recursos para a construção da Escola. Lembrou que
também tinha as suas origens na carreira na arma de Cavalaria, mas, naquele momento, tinha
que pensar no Exército como um todo e existiam assuntos mais urgentes a resolver. Por isso, a
questão do estabelecimento de ensino ficaria para um momento mais oportuno. Na sua
concepção, era melhor não dar início a uma obra que seria interrompida logo a seguir. O
ministro ressaltou que não havia sobras de recursos na Caixa de Guerra. O dinheiro que lá
estava depositado era uma garantia para as necessidades mais prementes da Força. Ademais,
sabia que o comprometimento do interventor de São Paulo com a construção das edificações
da Escola não passaria de uma promessa, já que o governo daquele estado estava mais
interessado na inauguração da Escola Preparatória de Campinas, ainda em estudos. E reprimiu
a afirmação de Pessoa de que havia pessoas no Exército que se opunham à eficiência da
classe. Disse que ainda não tinha os encontrado. Pelo contrário, ao invés de inércia, havia,
sim, muito dinamismo da parte de todos os que tinham alguma parcela de responsabilidade na
administração do Ministério da Guerra. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VII, p. 68-71)
Finalmente, em 1º de março, José Pessoa colocou um ponto final no assunto.
Comunicou a Dutra que nada mais diria sobre o futuro da Escola de Cavalaria e que lastimava
que as suas palavras tivessem sido interpretadas pelo ministro “fora do verdadeiro
pensamento e objetivo”. Ressaltou que os seus propósitos sempre foram de colaboração.
Disse entender que somente o timoneiro com as mãos no leme estava em condições de
manobrar no sentido de dar um melhor rumo ao barco, referindo-se claramente à afirmação
que Dutra fizera de que existiam outras necessidades mais urgentes do que a construção da
617

Escola e que cabia a ele, como ministro da Guerra, decidir o emprego dos recursos. Encerrou,
afirmando que aguardaria o tempo em que Dutra retomaria o “problema” da Escola de
Cavalaria. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VII, p. 72) Um tempo, aliás, que nunca chegou.

10. 3 As “missões especiais” e a queda de Getúlio Vargas

Em meio ao comando da Cavalaria, Pessoa foi nomeado para aquelas que ele
considera em sua autobiografia as “missões especiais” da sua carreira: chefe da missão
diplomática nomeada para a posse do presidente Higino Morinigo, no Paraguai, em 1943, e a
presidência do Clube Militar, de 1944 a 1945.
De 13 a 19 de setembro de 1943, José Pessoa participou de uma missão diplomática no
Paraguai. Foi nomeado Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário com a finalidade de
representar o governo brasileiro na posse do presidente eleito do Paraguai, Higino
Morinigo.980 As narrativas de Pessoa a respeito dessa viagem, feitas em sua autobiografia e
imprensa carioca981, apresentam alguns indícios da importância que essa missão ganhou. O
primeiro é o fato de Morinigo, segundo ele, ser “muito chegado aos argentinos”. Cabe lembrar
que o apoio dado pela Argentina ao Paraguai durante o conflito do Chaco era um fator
estratégico, dentro do cenário sul-americano, que preocupava Getúlio Vargas e o Estado-
Maior do Exército desde a década de 1930.

Imagem 101 – José Pessoa e comitiva brasileira na missão do Paraguai. Ao


seu lado (de terno preto) está o embaixador Negrão de Lima, ago. 1943.

Fonte: Acervo José Pessoa (CPDOC FGV) - JPFOTO020_4.

980
A comitiva que acompanhava José Pessoa era formada pelos seguintes militares: coronel Floriano Peixoto
Keller, major Nero Moura, capitães Antônio Pereira Lyra, Joel Miranda e Carlos Alberto de Abreu Rocha e o
capitão de mar e guerra Jeronimo Francisco Gonçalves. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VIII, p. 120)
981
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 27 ago. 1943, p. 1.
618

Existia também a questão econômica, já que, de acordo com Pessoa, era uma intenção
expressa do governo brasileiro desenvolver o intercâmbio econômico entre os dois países. O
principal impulso dessa intenção, que não era só brasileira, mas dos dois governos, seria dado
por meio da ligação ferroviária entre Assunção e o porto de Santos, para que o Paraguai
pudesse escoar os seus produtos para o Atlântico. Pessoa lembrou que a passagem de uma
rede ferroviária pelo estado de Mato Grosso impulsionaria, ainda, a colonização do estado e a
exportação para o Paraguai dos produtos industrializados do Rio Grande do Sul, do Paraná e
de São Paulo. Nas vésperas do retorno de Pessoa e de sua comitiva ao Brasil, um banquete foi
oferecido na embaixada brasileira ao governo do Paraguai, que foi representado pelo ministro
das Relações Exteriores daquele país, Luís Argaña. Na ocasião, em um ato simbólico, Pessoa
passou às mãos do ministro uma placa de ouro, na qual estava gravado o decreto do governo
brasileiro que perdoava as dívidas de guerra paraguaias, decorrentes da Guerra do Paraguai.
Segundo ele, esse nobre gesto repercutiu politicamente em todos os países platinos.
Entretanto, no seu ponto de vista, só não foi completo porque havia faltado a devolução da
espada do marechal Solano Lopez, que se encontrava de posse do governo brasileiro desde a
sua morte, em 1870, durante o conflito entre os dois países982. Durante o discurso que fez,
Pessoa também destacou e agradeceu o apoio formal prestado pelo Paraguai, em janeiro de
1942, às nações sul-americanas que haviam sofrido algum tipo de agressão pelos países do
Eixo. Dentre elas, o Brasil, cujos navios vinham sendo torpedeados por submarinos alemães
na costa brasileira. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VIII, p. 126-130)
A respeito dessa última questão, aliás, Pessoa já havia se mostrado convencido de que
a agressividade política de certos países pela hegemonia da Europa arrastaria o mundo inteiro
a um novo conflito armado. A iminência da guerra levou-o a apresentar ao EME e ao
Ministério da Guerra, a partir de 1939, uma série de considerações a respeito da situação em
que se encontrava a defesa nacional. Em julho daquele ano, três meses antes da invasão da
Polônia pelos nazistas, enviou uma carta ao chefe do EME, general Francisco José Pinto,
lembrando-o que, assim como em 1918, o Brasil poderia ser “arrastado” para uma nova
conflagração internacional sem estar adequadamente preparado. A começar pelo
aparelhamento bélico das Forças Armadas, que, além de insuficiente, já se encontrava em
situação de inferioridade em relação a alguns países sul-americanos. Reconhecia os esforços
que estavam sendo feitos pelo Ministério da Guerra e pelo EME no sentido de se melhorar a

982
A espada de Solano Lopez, que fazia parte do acervo do Museu Histórico Nacional, foi devolvida ao Paraguai
em 1957, por Juscelino Kubitschek, durante uma visita do presidente Alfredo Stroessner ao Brasil.
619

defesa do País, porém entendia que o Exército ainda não tinha alcançado a sua eficiência real,
capaz de assegurar a defesa e a soberania da Nação. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta IX, p. 2)
Para Pessoa, a forma como o Exército estava organizado não era adequada à defesa
das fronteiras terrestres e marítimas brasileiras. Os portos brasileiros não eram
suficientemente fortificados, o que os deixava expostos à moderna artilharia naval e ao
bombardeio aéreo. A aviação militar era incapaz de assegurar a proteção aérea do território e
a velha esquadra brasileira não tinha condições de garantir a hegemonia do Brasil sobre o
Atlântico Sul. Sendo assim, não havia como as Forças Armadas protegerem adequadamente a
faixa litorânea do País, onde concentravam-se as principais capitais dos estados e a indústria
nacional. Além disso, lembrou que também no litoral encontrava-se a Capital Federal, cidade
que abrigava a maior parte dos órgãos de defesa do Brasil. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta
IX, p. 3)
Diante do que considerou uma desorientação e uma morosidade do Ministério da
Guerra em relação aos preparativos do País para a guerra, Pessoa enviou, em julho de 1940,
para o ministro Dutra, um programa de guerra organizado em vinte e um pontos, que poderia
ser posto integralmente em prática em meses. Considerado por ele vital para a reorganização
da defesa militar brasileira, cabe destacar algumas das ideias abordadas pelo programa:

1ª) Fazer um empréstimo de defesa nacional, com o fim de restaurar o Exército e a


Marinha e criar a Aviação. Este empréstimo será resgatado por quem perder a
guerra;
2ª) Criar o Ministério da Defesa Nacional, com as subsecretarias da Guerra, da
Marinha e da Aeronáutica (direção única, providências rápidas);
3ª) Organização do Alto Comando do Exército;
4ª) Criação, de fato, do Conselho Superior da Guerra, com a convocação temporária
de membros do Alto Comando, a fim de estudar o plano de guerra e atualizar os
planos de operações e defesa da Nação;
5ª) Criar o Comando em Chefe do Exército que, terá também a presidência
permanente do Conselho Superior da Guerra. Reajustar o quadro dos generais, uns
envelhecidos e outros habituados à política e à estagnação da vida burocrática;
6ª) Criação de novas fábricas [de munições e de armamentos] e ampliação das
existentes;
7ª) Reaparelhar as escolas de aperfeiçoamento e de formação de oficiais;
........................................................................................................................................
11ª) Acelerar a ligação do sistema rodo-ferroviário Norte-Sul-Oeste, com os
recursos do Fundo Rodoviário e outros e suspensão temporária dos demais;
........................................................................................................................................
13ª) O Exército deverá auxiliar ativamente a industrialização do ferro, do petróleo e
do xisto betuminoso, bem como, o beneficiamento do carvão nacional;
........................................................................................................................................
18ª) Suspensão de tudo quanto for obras de caráter adiável, revertendo tudo em
favor de equipamentos para as Forças Armadas, sua razão de ser;
........................................................................................................................................
20ª) Restaurar o canal de navegação do São Francisco.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta IX, p. 8-14)
620

Uma questão interessante abordada por Pessoa nas cartas que enviou a Dutra, nos anos
subsequentes, foi a importância estratégica do norte e do nordeste do Brasil. Tinha a clara
visão das vulnerabilidades do Norte e do Nordeste em caso de uma invasão estrangeira, já que
a conformação do litoral nordestino, com a presença de mais de trinta portos, facilitava a
atracagem de navios inimigos e a penetração de tropas estrangeiras no interior brasileiro.
Também tratou de destacar a relevância geográfica da cidade de Natal para a navegação aérea,
por localizar-se no extremo leste do País983. A sugestão de Pessoa é que fosse organizado um
exército do Norte, formado pelas 6ª, 7ª e 8ª Regiões Militares. Esse grupo de regiões seria
preparado para o emprego no teatro de operações nordestino e amazônico.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta IX, p. 21-23)
A ligação do centro do País com essas regiões também o preocupava. Na edição de
maio de 1940, da revista Nação Armada984, publicou o artigo intitulado “A grande estrada do
Nordeste”. Nele, defendeu a construção de uma grande rodovia Transnordestina, que seria
formada pelo prolongamento da estrada Rio-Bahia, proporcionando a ligação terrestre dos
estados no Norte com os do Sul. Esse grande eixo rodoviário iniciaria na cidade do Rio de
Janeiro e terminaria em Fortaleza. A falta dessa ligação, segundo ele, expunha o País, em caso
de guerra, aos riscos de ver o seu território fracionado em duas regiões isoladas, já que a
esquadra brasileira não seria capaz de garantir as rotas marítimas entre os estados meridionais
e setentrionais. Dessa forma, não haveria como escoar recursos em pessoal e material de
guerra de uma região em benefício da outra. No seu entender, a rodovia, por uma questão
estratégica, deveria estar afastada do litoral e atravessar as regiões mais populosas e ricas dos
estados, atendendo interesses políticos, econômicos e administrativos. Ao longo do seu
percurso, vários campos de pouso deveriam ser construídos, atendendo, assim, interesses de
ordem técnico-militar. Justificou, também, a preferência por uma rede rodoviária, ao invés de
uma ferroviária. Havia o inconveniente do Brasil não fabricar nenhum tipo de material
ferroviário, desde os trilhos até as locomotivas. Era preciso importar tudo, a preço de ouro. Já
para as rodovias, tudo era nacional. O material e os serviços de construção e conservação
poderiam ser adquiridos no mercado nacional. A construção dessa monumental obra ficaria a

983
O pensamento de José Pessoa seria corroborado em 1941, com a permissão dada pelo governo Vargas para a
instalação de uma base aeronaval norte-americana na cidade de Parnamirim, no Rio Grande do Norte. Devido à
posição geográfica favorável desta cidade, por ser o ponto das Américas mais próximo do continente africano,
essa base foi vital para as operações dos exércitos aliados no norte da África e no sul da Europa. Conhecida por
“trampolim da vitória”, foi a partir dela que partiam os aviões norte-americanos com víveres, armamentos e
equipamentos militares para o ressuprimento das tropas aliadas em combate.
984
A revista Nação Armada foi publicada pelo Exército brasileiro entre os anos de 1939 e 1947. Como a própria
apresentação da revista indicava, em sua capa, era uma revista civil-militar dedicada à discussão dos problemas
da Segurança Nacional.
621

cargo do Exército, que a executaria com seus batalhões rodoviários. Lembrou, ainda, que
outras estradas precisavam ser construídas, para que fossem estabelecidas as ligações
adequadas com as regiões Sul e Oeste do Brasil.985
Na edição de dezembro de 1940 da mesma revista, no artigo intitulado “Estrada do
Norte-Araguaia-Tocantins”, Pessoa apresentou a necessidade de, estabelecida a ligação
rodoviária com o Nordeste, se ampliar essa ligação até a região Norte. Por meio de um
corredor de transportes, que combinaria as vias férreas e rodoviária com a navegação fluvial,
seriam aproveitados os leitos caudalosos dos rios Araguaia e Tocantins para se atingir o rio
Amazonas. Os trechos encachoeirados dos rios seriam removidos, permitindo, assim, a
navegação em todas as suas extensões. A ligação começaria por via férrea, partindo-se da
Capital Federal pelas Estradas de Ferro Centra do Brasil e Mogiana até Araguari-MG e dali
até Anápolis-GO, pela Estrada de Ferro de Goiás. Anápolis seria o ponto de partida de duas
variantes: uma em direção ao Norte, margeando o rio Tocantins até a cidade de Peixe-GO; e
outra margeando o rio Vermelho até Leopoldina-GO. A partir dessas cidades seriam
aproveitados os eixos navegáveis do Araguaia e do Tocantins, respectivamente, para se atingir
o mar pela foz do Amazonas.986
Dois anos mais tarde, em uma publicação no jornal Correio da Manhã Pessoa retomou
o assunto da ligação dos estados do Centro e do Sul do Brasil com os das regiões Nordeste e
Norte. Na sua fala, ratificou as ideias que expôs na Nação Armada e ressaltou que a criação
de um programa rodoviário estimularia a prosperidade econômica e social do Brasil.
Lembrou, ainda, que a construção das estradas geraria trabalho e levaria o socorro necessário
à população nordestina que, naquela época, já era assolada pela seca.987
Pessoa também recorreu à imprensa para pronunciar-se sobre o afundamento de navios
mercantes brasileiros por submarinos alemães. Esses atos praticados pelos nazistas,
principalmente na costa brasileira, deram causa à declaração do Estado de Guerra988 do Brasil
com as nações do Eixo naquele mesmo mês. Desde fevereiro de 1942, submarinos alemães e
italianos vinham torpedeando navios mercantes brasileiros no oceano Atlântico, em represália
ao rompimento das relações diplomáticas do Brasil com as potências do Eixo. Segundo
Bonalume Neto (2021, p. 38-39) o rompimento diplomático do Brasil com os países do Eixo
se deu, em grande parte, por pressão dos EUA. Com a entrada dos norte-americanos na
Segunda Guerra Mundial, após o ataque japonês à base aeronaval de Pearl Harbor, não havia

985
Nação Armada, Rio de Janeiro, maio 1940, p. 11-15.
986
Nação Armada, Rio de Janeiro, dez. 1940, p. 6-11.
987
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 28 maio 1942, p. 3.
988
Decreto nº 10.358, de 31 de agosto de 1942.
622

como os EUA tolerarem um país das Américas com uma política pró-eixo. Ainda mais um
país como o Brasil, detentor do saliente Nordestino, posição geográfica favorável ao apoio das
operações aliadas no norte da África e no sul da Europa. Como aponta o autor, Vargas chegou
a mostrar-se simpático aos alemães. Entretanto, a aproximação com os EUA e as benesses que
essa parceria traria para o Brasil, cujo ponto máximo foi a construção da Companhia
Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda-RJ, o fizeram pender para o lado norte-americano.
No encontro dos chanceleres das Américas realizado no Rio de Janeiro, em 15 de janeiro de
1942, os Estados Unidos pressionaram os países sul-americanos a romperem relações com a
Alemanha, Itália e Japão. Somente o Chile e a Argentina não aderiram à causa norte-
americana. O Brasil romperia relações com o Eixo treze dias depois.
Em agosto de 1942, os ataques dos submarinos alemães intensificaram-se na costa
brasileira. Segundo Bonalume Neto (2021, p. 53), até julho, treze navios mercantes brasileiros
já haviam sido torpedeados pelos nazistas. No mês seguinte, cinco navios brasileiros foram
atacados no litoral nordestino, provocando um verdadeiro massacre de brasileiros, civis e
militares989. Diante dessa tragédia, Pessoa enviou uma carta ao Correio da Manhã, com o
título “Chegou o momento de agir”. No texto, publicado na edição de 28 de agosto do jornal,
ele condenou veementemente o “assassínio premeditado” e a “fria perversidade” dos ataques
nazistas aos navios brasileiros. Defendeu a criação de campos de concentração no País, como
medida repressiva aos inimigos que, porventura, fossem capturados na costa brasileira. E
condenou os “quistos coloniais” existentes no território brasileiro. No seu entender, os
núcleos populacionais formados por imigrantes e descendentes de alemães, italianos e
japoneses deveriam ser expurgados e ocupados militarmente. Acusou-os de exercerem
livremente a espionagem no País.990 A esses “perigosos inimigos”, segundo ele, não existiria
pena melhor do que colocá-los, de pá e picareta na mão, a construir a rodovia Rio-Bahia.991
Pessoa ressaltou que o momento pelo qual o País passava era de “desforra”. Todo pai
deveria sentir-se orgulhoso de acompanhar seus filhos à caserna, e toda mãe de levar suas

989
607 civis e militares morreram. Foram torpedeados os seguintes navios: o Baependy, com 270 mortos,
incluindo soldados do Exército que estavam sendo levados para o Nordeste; o Araraquara, com 131 mortos; o
Aníbal Benévolo, com 150 mortos; o Itagiba, com 36 morto; e o Arará, com 20 mortos. Além desses navios, o
veleiro Jacira, com 6 tripulantes também foi torpedeado. No entanto, sem vítimas fatais. (BONALUME NETO,
2021, p. 53)
990
Cumpre lembrar que com a entrada do Brasil na guerra houve um recrudescimento da campanha de
nacionalização do governo Vargas, implementada em 1939, que tinha como um dos seus objetivos a integração
do imigrante europeu à população brasileira. A partir de 1942 o governo intensificou as mediadas repressivas às
nacionalidades ligadas às potências do Eixo: as liberdades individuais passaram a ser restritas; as viagens dentro
do País tinham que ser autorizadas pelo governo; livros, jornais, revistas e documentos foram apreendidos e
prisões de imigrantes que não falavam o português foram feitas.
991
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 28 ago. 1942, p. 3.
623

filhas aos centros da Cruz Vermelha. Para ele, a fase das palavras já havia passado. Era
chegado o momento de agir. Todas as comodidades, como festas e obras de caráter adiável,
deveriam cessar. Todas as dissidências pessoais e políticas deveriam ser esquecidas, em prol
da defesa da Nação. As armas é que deveriam falar por todos. Segundo Pessoa, ainda havia
tempo de o governo organizar um Exército forte, uma Armada grande e uma Aviação
poderosa.992 Os afundamentos dos navios no Nordeste, amplamente veiculados nas páginas da
imprensa nacional, provocou uma forte comoção popular. Aos poucos, a comoção foi dando
lugar à indignação geral. A União Nacional dos Estudantes (UNE), a Liga de Defesa Nacional
e a população em geral saíram às ruas e passaram a pressionar o governo a adotar um
posicionamento mais radical. Três dias após a publicação da carta de Pessoa, o Brasil
declarou guerra às potências do Eixo.
O título sugestivo da carta de Pessoa e o tom mais exaltado de suas palavras
certamente faziam referência ao que ele considerou, em sua autobiografia, uma falta de
providências reais e preventivas por parte do governo Vargas face aos ataques à frota
mercante brasileira. Segundo ele, o presidente estava cercado de “auxiliares fascistas”, que
ocupavam posições chaves da alta administração. Não há dúvidas que suas palavras fazem
referência a Góes Monteiro, à Dutra e, até mesmo, a Filinto Müller, os quais, no início da
guerra, mostravam-se simpáticos às potências do Eixo. Pessoa ainda teceu críticas ao governo
por não proteger a vida da “gente do mar” e não resguardar o comércio marítimo brasileiro.
Ao contrário, Vargas agravava a situação quando fretava a empresas estrangeiras os melhores
e maiores navios da frota comercial brasileira. Em junho de 1942, chegou enviar uma carta a
Getúlio, sugerindo armar os navios mercantes brasileiros com canhões e combinar a
organização de comboios marítimos com os Estados Unidos, a fim de fortalecer a escolta dos
navios brasileiros. Segundo Pessoa, Vargas jamais o respondeu. (ALBUQUERQUE, 1953,
Pasta IX, p. 53-57)
Para Pessoa, a declaração de guerra chegou tarde demais, o que custou a vida de
muitos brasileiros. A causa dos afundamentos, para ele, foi, sem dúvida alguma, a inépcia e o
desamor no cumprimento do dever dos dirigentes políticos e militares à época e a indiferença
destes pela vida dos brasileiros. Enquanto as listas com os nomes dos mortos eram publicadas
nos jornais, o governo preocupava-se, segundo ele, em “fazer demagogia”.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta IX, p. 61-62)

992
Ibidem.
624

A ameaça dos submarinos alemães levou o governo a proibir a navegação de


cabotagem na costa brasileira. Era preciso, dessa forma, encontrar um outro meio de
reestabelecer a ligação dos estados centrais com o Norte e o Nordeste. Não havia outra forma
disso ser feito a não ser pelo interior do País. José Pessoa conta que foi chamado ao
Ministério da Guerra para ser comunicado por Dutra da decisão do governo de suspender a
navegação marítima nos portos brasileiros. Diante da informação do ministro, avocou para si
a tarefa de encontrar uma forma de reestabelecer a ligação com os estados nordestinos. A
solução que encontrou remontava aos tempos do Brasil Colônia e Império: a navegação pelo
rio São Francisco.
Em outubro de 1942, Pessoa organizou uma expedição que percorreu toda a extensão
do São Francisco. Foi acompanhado pelos capitães Oswaldo Wagner e Antônio Pereira Lima,
dos seu estado-maior. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta IX, p. 66) Ao que tudo indica, a
organização da expedição deu-se por iniciativa própria de Pessoa, já que, em suas memórias,
não há a indicação de que tenha recebido ordem direta para tal. Antes de partir, concedeu uma
entrevista ao Correio da Manhã. Destacou que a navegação pelo São Francisco, conjugada ao
sistema rodoferroviário, constituía-se na solução definitiva para o bloqueio marítimo que os
submarinos alemães impunham ao Brasil. Urgia, então, transformar esse caminho no meio
permanente de comunicação com o Nordeste. Para isso, entretanto, o rio deveria ser dotado de
meios e melhoramentos que assegurassem a sua sobrevivência e um papel destacado na
economia do País, no pós-guerra. A pouca profundidade de alguns pontos do rio, que
impediam a navegação sobretudo na época da seca, poderiam ser resolvidas, segundo Pessoa,
com a dragagem sistemática do leito do canal de navegação, o que seria, no seu entender, uma
atribuição do Ministério da Viação. Além disso, os portos de Pirapora, em Minas Gerais, e de
Petrolina, em Pernambuco, nos dois extremos do rio, deveriam ser mais bem aparelhados,
para suportar o tráfego intenso que iria se estabelecer. Os batalhões de pontoneiros do
Exército, em cooperação com a Marinha, auxiliariam nas tarefas necessárias para manter a
navegação no São Francisco.993
Durante o trajeto percorrido, conforme relata Pessoa, tudo foi observado e anotado:

...capacidade das ferrovias e das obras de arte, desvios, possibilidades de


abastecimentos (inclusive de combustíveis), material rodante possível de ser
utilizado, oficinas de reparação, cartas da região e documentos estatísticos,
população, número e porcentagem de estrangeiros, produção e comércio, indústria e
agricultura, exportação e importação, possibilidades de acantonamento de tropas e
depósitos de material, capacidade dos portos para embarque e desembarque de
tropas e material, espécie, número, capacidade e tonelagem da navegação, duração

993
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 25 set. 1942, p. 1.
625

das viagens na cheia e vazante do rio, dificuldades e praticabilidade do canal de


navegação, campos de aviação, enfim tudo o que interessasse ao deslocamento de
tropa e operações militares e constantes das nossas diretivas dessa útil e proveitosa
viagem de reconhecimento. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta IX, p. 67)

A expedição serviu para mostrar a Pessoa que não era somente a navegação regular do
rio que precisava de cuidados. A saúde e a instrução das populações ribeirinhas do São
Francisco também necessitavam de atenção. Comissões de saneamento e escolas precisavam
ser criadas para atender a população abandonada, que sofria diante do desabastecimento de
mercadorias, diante das dificuldades que o rio impunha à navegação em alguns trechos.
Segundo Pessoa, existiam cidades que, diante do estado de abandono em que se encontravam,
não possuíam nem os medicamentos mais básicos para o enfrentamento das endemias locais,
como o quinino, utilizado no tratamento da malária. No seu entender, o saneamento do São
Francisco era uma missão a ser atribuída ao Instituo Oswaldo Cruz, que era perfeitamente
capacitado para essa grandiosa cruzada. Para Pessoa, o momento, entretanto, não era de se
pensar em grandes obras, como barragens, captação de energia elétrica ou colonização em
larga escala. Era certo que elas eram necessárias. Porém, mais urgente eram as obras de
emergência, que permitissem a ligação imediata com o Nordeste. (ALBUQUERQUE, 1953,
Pasta IX, p. 74-75)
Apesar do esforço depreendido por Pessoa, muito pouco foi feito pelo governo Vargas
para a ampliação da malha rodoviária do País e para as melhorias da navegabilidade do São
Francisco. A impulsão racional desses setores viria anos mais tarde, com a criação da
Comissão do Vale do São Francisco994, em 1948, no governo de Eurico Dutra, e com o
desenvolvimento rodoviário que o País passou a partir de 1950, graças à impulsão que a
indústria automobilística tomou no governo de Juscelino Kubitschek.
A partir de 1942, após um longo namoro e uma longa lua-de-mal, conforme aponta
Carvalho (2006, p. 111), o divórcio entre as Forças Armadas e Getúlio Vargas começava a se
configurar.995 À medida que a vitória dos aliados se configurava nos campos de batalha
europeus, Vargas começou a se preparar para nova atmosfera política que tomaria conta do
País. Como aponta Skidmore (1982, p. 72), aos poucos os oficiais brasileiros que lutavam na
Itália começaram a se dar conta da anomalia de lutar pela democracia no exterior, enquanto

994
A Comissão do Vale do São Francisco foi criada pela Lei nº 541, de 15 de dezembro de 1948, como um órgão
autônomo ligado diretamente à Presidência da República. Tinha como encargo a elaboração e a execução de um
plano de desenvolvimento das regiões banhadas pelo rio São Francisco, inclusive com a modernização dos
transportes nele realizados.
995
José Murilo de Carvalho faz uma interessante analogia da relação entre as Forças Armadas e Getúlio Vargas.
Para o autor, essa relação teria passado por três fases: um namoro, de 1930 a 1937, uma lua-de-mel, de 1937 a
1945, e o divórcio, entre 1945 e 1964.
626

persistia uma ditadura em seu próprio país. Em outubro de 1943, um grupo de intelectuais e
políticos mineiros de oposição lançaram um cauteloso manifesto, que ficou conhecido como
Manifesto dos Mineiros, pedindo a redemocratização do Brasil. Entretanto, a causa imediata
para o divórcio, para Carvalho (2006, p. 111), foi o fato de Vargas ter lançado a proposta de
uma nova assembleia constituinte com o apoio do Partido Comunista. Segundo o autor, desde
1942 Vargas vinha intensificando a sua imagem de amigo do operariado brasileiro. Nesse
cenário, os militares, tomados pelo anticomunismo e pela pretensão de guiar o Estado, não
aceitaram, nas negociações políticas, a inclusão de um ator que lhes era ideológica e
politicamente antagônicos.
Foi nesse contexto de enfraquecimento do Estado Novo que José Pessoa participou do
pleito eleitoral para a presidência do Clube Militar, em 1944. O Clube, fundado nos estertores
do Império, em 1887, sempre foi, ao longo da história brasileira, o foco das manifestações de
descontentamento da oficialidade do Exército. Curiosamente, ao longo da década de 1930, o
predomínio das sucessivas presidências da instituição esteve nas mãos dos generais que não
apoiavam o endurecimento do regime pós-Revolução de 1930 e o governo de Getúlio Vargas,
à exceção de um breve período, de janeiro a maio de 1937, em que a direção da instituição
esteve nas mãos de Góes Monteiro.996Em 1939, entretanto, foi eleito o general Meira
Vasconcelos, em chapa única. Apoiador do golpe do Estado Novo e partidário do governo,
Vasconcelos exerceu a função até 1944. A sua recondução na presidência foi a forma
encontrada pelo governo para neutralizar os oficiais anti-varguistas na presidência da
instituição. Esse ciclo foi quebrado pela eleição de Pessoa.
José Pessoa disputou o pleito eleitoral do Clube com o general Valentim Benício da
Silva, comandante da 1ª Região Militar e antigo chefe de gabinete do ministro Dutra, o
candidato apoiado pelo governo. Em uma carta publicada no jornal Diário de Notícias997,
Benício da Silva afirmou que havia apresentado a sua candidatura a pedido de alguns sócios
da instituição. Disse que já era a terceira vez que o seu nome havia sido lembrado e que só
estava concorrendo novamente diante da impossibilidade da candidatura de Dutra, já que o
nome do ministro teria sido a primeira escolha deste mesmo grupo de associados. A eleição
transcorreu no dia 18 de maio de 1944, com a vitória de Pessoa, que angariou 702 votos
contra 271 de Benício998. Como vice-presidente de José Pessoa foi eleito o general Emílio

996
Nesse período foram presidentes do Clube Militar, conforme as Atas da Presidência, os generais: Guedes da
Fontoura (1935-36), Horta Barbosa (1936-37), Góes Monteiro (1937), Parga Rodrigues (1937-39).
997
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 27 abr. 1944, p. 3.
998
Conforme a Ata da Eleição, lavrada pela Assembleia Geral Extraordinária do Clube Militar, de 18 de maio de
1944.
627

Fernandes de Souza Doca999. Um fato curioso é que os jornais cariocas chegaram a noticiar
Souza Doca compondo a chapa de Benício da Silva. Poucos dias depois dos primeiros
anúncios, Doca passou a concorrer ao lado de Pessoa. Do que se pôde perceber da análise da
ata de votação, os sócios não votavam na chapa e, sim, nos candidatos a cada cargo de direção
que compunham as duas chapas. Os oficiais que concorreram ao lado de Pessoa, foram eleitos
com ampla maioria.
À semelhança do que afirmou Benício da Silva a respeito da sua candidatura, Pessoa
aponta, em suas memórias, que também foi procurado insistentemente por um grupo de
oficiais, sócios do Clube, solicitando-lhe que concorresse ao cargo de presidente. Esses
associados apresentaram-lhe a situação detalhada dos problemas financeiros pelos quais
passava a instituição. Em um primeiro momento, disse-lhes que estava honrado com o
convite, mas, que não poderia aceitar o encargo, devido às pesadas atribuições que o cargo de
Inspetor de Cavalaria o impunha. Entretanto, uma notícia veiculada pelo jornal O Globo1000,
que informava a escolha de Benício da Silva por Dutra para concorrer à presidência do Clube
o fez mudar de ideia. Segundo Pessoa, a informação de que Benício era o escolhido do
ministro e as promessas bem parecidas com a “demagogia” das plataformas do governo
causaram a irritação de grande parte da oficialidade do Exército.1001 Sendo assim, sentiu-se
obrigado a revogar os seus propósitos anteriores e aceitar o convite que haviam lhe feito, o
que, como ele ressalta, despertou um grande entusiasmo no seio do Exército, especialmente
nos oficiais de baixa patente, que haviam sido seus cadetes na Escola Militar.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VIII, p. 1-2)
José Pessoa tomou posse da presidência do Clube em 26 de junho. Nem Vargas, nem
Dutra estiveram presentes. No discurso que proferiu na ocasião, ressaltou que a fundação do
Clube Militar, no final do Império, era fruto de um movimento democrático e classificou-o
como uma “sociedade de classe”. Agradeceu a Vargas e aos prefeitos da Capital Federal,
Pedro Ernesto e Henrique Dodsworth, que haviam colaborado na seção e nos aforamentos dos
terrenos das sedes da instituição. E destacou a dedicação que o Clube sempre tivera com a
classe militar e com os destinos da Nação. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VIII, p. 5)
Na sua fala, em momento algum teceu considerações a respeito dos problemas
políticos pelos quais passava o País. No entanto, não deixou de, indiretamente, evidenciar o

999
O general Souza Doca faleceria antes de completar o seu mandato, em 21 de maio de 1945, conforme o
Boletim Interno do Clube Militar nº 44, de 24 de maio de 1945.
1000
O Globo, Rio de Janeiro, 29 abr. 1944, p. 9.
1001
As principais promessas de campanha feitas por Benício da Silva na reportagem de O Globo eram: o
saneamento das finanças do Clube, a criação de serviços de saúde e de instrução para os associados e familiares,
a construção de um ginásio esportivo e a luta pela melhoria dos vencimentos dos militares reformados.
628

papel que se devia esperar da oficialidade das Forças Armadas. Ao comentar a grande
afluência de sócios à votação, tanto do Exército como da Armada e da Aeronáutica, ressaltou
a solidariedade que havia imperado naquela ocasião entre os “velhos marechais e generais” e
a “juventude esperançosa” das Forças Armadas. Para ele, esse sempre fora um traço
característico dos momentos memoráveis pelos quais a Nação já havia passado. Este fato era,
segundo ele, “o reflexo psicológico de uma época”, em que os homens, diante de uma
civilização materialista, encontravam-se atordoados, distantes “das raízes de sua própria
formação espiritual”. Faltava-lhes, na visão de Pessoa, o sentimento de solidariedade e união,
o que somente encontrariam no aconchego da sociedade, criada para a “aproximação dos que
se assemelhavam pelo ideal, pela profissão ou pela comunidade de sentimentos”.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VIII, p. 6-7)
Destacou, ainda, qual seria o problema premente a ser solucionado pela sua gestão: o
saneamento das dívidas do Clube. A outra, como se verá adiante, seria o apoio à Força
Expedicionária Brasileira. Ressaltou que, sem independência econômica, não poderia haver
liberdade e progresso. E que, em matéria de administração, somente não se resolvia o que o
homem não queria, por faltar-lhe “ânimo para servir com probidade” e “devotamento à causa
da coletividade”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VIII, p. 8)
Uma das primeiras providências tomadas por Pessoa, em sua gestão, foi a criação de
um boletim interno semanal do Clube, onde, a exemplo de uma unidade militar, registravam-
se todas as providências administrativas e financeiras tomadas pelas diretorias. Foi da análise
desses documentos, dos anos de 1944, 1945 e início de 1946, que se pode perceber a intensa
mobilização que ocorreu, por parte da diretoria, para a recuperação econômica da instituição.
Logo no segundo boletim, publicado em 22 de julho de 1944, foi publicado a decisão da
Assembleia Geral de dar ao presidente do Clube Militar amplos e irrestritos poderes para
alienar imóveis, tomar quaisquer medidas necessárias à administração e elaborar novos
estatutos.1002 A campanha para se angariar sócios, inclusive de outros estados, foi
intensificada, sendo grande a adesão principalmente dos militares de patentes mais baixas.
Praticamente toda semana eram publicadas a adesão de novos associados e recolhimentos
bancários de mensalidades de sócios residentes fora do Rio de Janeiro, inclusive em cidades
muito distantes da Capital Federal, como Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, por exemplo.
Provavelmente, o que estimulava essas associações distantes era o fato de a mensalidade estar

1002
Boletim Interno do Clube Militar nº 2, 22 jul. 1944, p. 1.
629

vinculada a um pecúlio. Quando o associado titular falecia, o valor assegurado era pago à
família.
Na gestão anterior uma Caixa de Assistência havia sido criada, por meio da qual
empréstimos eram concedidos a sócios e funcionários. Também existia no Clube uma
alfaiataria, cujos serviços podiam ser utilizados pelos associados, sendo as despesas por eles
feitas averbadas em folha de pagamento. Diante da grande inadimplência existente, ainda no
seu primeiro mês de mandato, Pessoa mandou publicar uma mensagem circular, por meio da
qual concitava os sócios a quitarem as suas dívidas. No texto, afirmava que o código de
conduta que cada sócio devia adotar era o procedimento honesto e justo. Lembrou, também
que a honra era o “apanágio dos homens de farda”, mesmo em uma associação como a do
Clube Militar.1003 Tendo em vista a baixa arrecadação com as mensalidades sociais, o quadro
de funcionários e seus respectivos vencimentos também foram reorganizados e escalonados.
Como ele mesmo expôs, não havia como manter uma folha de pagamentos maior do que a
arrecadação dos sócios.1004
Cumprindo o que prometera em sua posse, Pessoa cancelou as grandes atividades
sociais, como bailes e festividades que exigiam gastos vultosos. Ademais, achava que existia
uma questão moral envolvida nessa decisão. Para ele, não era possível que se fizessem
atividades recreativas no Clube enquanto companheiros brasileiros morriam nos campos de
batalha da Itália. As poucas solenidades feitas se revestiram de uma grande simplicidade e se
destinaram à comemoração de datas significativas às Forças Armadas, como a Independência
do Brasil, o Dia do Soldado e as grandes batalhas da Guerra do Paraguai. As atividades
culturais limitavam-se a um ou outro torneio de xadrez ou a exposições de obras de arte. A
biblioteca foi reorganizada e obras novas foram adquiridas, assim como todos os bens móveis
e as obras de arte foram inventariados, o que jamais havia sido feito pelas gestões anteriores.
E nada mais passou a ser adquirido sem que, antes, uma tomada de preços no mercado fosse
feita por uma comissão nomeada para tal.1005
A fim de aumentar a arrecadação mensal, Pessoa determinou, ainda, que os espaços
que não estavam sendo utilizados do edifício sede do Clube fossem locados, como no caso da
empresa norte-americana Rubber Development Corporation1006, que em setembro de 1944,

1003
Boletim Interno do Clube Militar nº 3, 29 jul. 1944, p. 3.
1004
Boletim Interno do Clube Militar nº 4, 5 ago. 1944, p. 4.
1005
Relatório do Primeiro Ano de Administração do Clube, 1944. Acervo José Pessoa (CPDOC FGV).
JPvp1944.06.22, docs. 0285 a 0290
1006
A Rubber Development Corporation era uma empresa norte-americana que possuía do governo brasileiro a
concessão da exploração e comercialização de borracha na Amazônia, com o propósito de manter o esforço de
guerra dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial.
630

alugou três andares inteiros do edifício Marechal Duque de Caxias a um custo mensal de Cr$
27.000,00 (vinte e sete mil cruzeiros).1007 No balanço que fez da administração do Clube no
término do ano de 1944, Pessoa destacou o fato de o Clube estar adentrando o ano de 1945
com saldo positivo em caixa e com os valores para a amortização das dívidas patrimoniais
assegurados. Com dinheiro em caixa, a partir de janeiro de 1945, Pessoa passou a
implementar várias melhorias naquela que seria a nova sede social do Clube, o edifício Duque
de Caxias, em fase final de construção. A iluminação das instalações foi concluída. Novas
salas foram criadas para o lazer dos sócios. Até mesmo portas e janelas que inexistiam foram
colocadas. Obras de arte foram reformadas e mobiliário novo passou a ser adquirido.1008
Quanto à questão econômica, o que mais perturbava Pessoa, entretanto, era a dívida
gerada com os empréstimos tomados pelas gestões anteriores, para as construções do edifício
Marechal Deodoro, sede social do Clube à época em que assumiu a presidência, e do edifício
Duque de Caxias.1009As dívidas geradas com os empréstimos, tomados junto à Caixa
Econômica Federal e ao Instituto dos Industriários, respectivamente, eram da ordem de Cr$
28.617.958,00 e comprometiam o planejamento financeiro do Clube nos próximos vinte anos
de gestão. Semestralmente, a instituição teria que desembolsar mais de Cr$ 500.000,00 para
manter os débitos em dia. Com a inauguração da nova sede social localizada na avenida Rio
Branco, em agosto de 1945, e com os poderes que lhe fora dado pela Assembleia Geral do
Clube, para a alienação dos bens imóveis da instituição, Pessoa passou a negociar com o
governo federal a permuta do edifício Marechal Deodoro por imóveis e terrenos pertencentes
ao Ministério da Educação e Saúde (MES). A negociação envolvia a venda ao MES da antiga
sede social, por um valor de Cr$ 25.463.405,00. Dessa forma, a União encamparia as dívidas
do Clube e ainda restaria à instituição um saldo de Cr$ 10.000.000,00, que seria utilizado para
a construção da sede esportiva, no bairro Jardim Botânico. As tratativas envolviam, ainda, a
cessão, pelo governo, de um terreno para a construção futura de uma nova sede social.

1007
Boletim Interno do Clube Militar nº 9, 9 set. 1944, p. 5.
1008
Conforme o Boletim Interno do Clube Militar nº 27, 13 jan. 1945, p. 1. A nova sede somente seria ocupada
em agosto de 1945. Conforme o relatório dos trabalhos realizados em 1945, publicado no Boletim Interno do
Clube Militar, de 29 de dezembro de 1945, um crédito de Cr$ 500.000,00 foi doado ao Clube pelo Conselho
Superior de Economias de Guerra, para auxiliar a reinstalação da nova sede social.
1009
De acordo com o histórico publicado em seu site, o Clube Militar possuía, em 1944, três sedes: uma sede
social, na Esplanada do Castelo, o edifício Marechal Deodoro; uma sede em construção, na Cinelândia, o
edifício Duque de Caxias; e um terreno do bairro Jardim Botânico, onde seria construída a futura sede esportiva.
Até o ano de 1940, quando mudou a sua sede social para o edifício Marechal Deodoro, que havia acabado de ser
construído, o Clube ocupou um prédio muito antigo na Cinelândia. Neste mesmo ano, estas antigas instalações
foram demolidas, para que um novo edifício, o Duque de Caxias, fosse erguido. Essa edificação ficou pronta em
1945 e, a partir de agosto deste ano, passou a abrigar a sede social definitiva do Clube. Ambos os edifícios
existem até hoje. O Marechal Deodoro está localizado no Centro da cidade, na avenida Graça Aranha, e tornou-
se um edifício comercial. O Duque de Caxias localiza-se na avenida Rio Branco e ainda é a sede social do Clube
Militar.
631

Interessava a Pessoa uma área localizada junto às avenidas Beira Mar, General Justo e
Marechal Câmara1010, também na Esplanada do Castelo, que pertencia ao próprio Ministério
da Educação. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VIII, p. 79-83)
As negociações empreendidas por José Pessoa, primeiramente com o presidente
Getúlio Vargas e, após a queda deste, com o presidente José Linhares, não deram certo.
Apesar de ter sido dada como certa, no relatório dos trabalhos do ano de 1944, a transação
imobiliária com o Ministério da Educação não seguiu adiante, por falta de entendimento entre
as partes. Em dezembro de 1945, Pessoa solicitou autorização ao Conselho Superior de
Economias de Guerra para que a Caixa de Economias de Guerra fizesse um empréstimo de
Cr$ 12.500.00,00 ao Clube, a juros mais baixos do que os praticados pelas demais instituições
financeiras do mercado. O empréstimo foi aprovado em janeiro de 1946. Com o dinheiro,
foram quitadas as dívidas contraídas junto à Caixa Federal e o Instituto dos Industriários,
tornando-se o Clube devedor somente da Caixa da Guerra. Com isso, a ideia de se vender o
edifício Marechal Deodoro foi abandonada de vez.1011
O apoio do Clube Militar à Força Expedicionária Brasileira (FEB) foi o outro grande
empreendimento de José Pessoa à frente do Clube Militar. Nos seus anos de gestão manteve
contato permanente com o comandante da FEB, general Mascarenhas de Moraes, o que fez
por meio do envio constante de telegramas e cartas contendo mensagens de incentivo às ações
das tropas brasileiras na Itália. Segundo Câmara (2011, p. 211), José Pessoa teria
confidenciado ao seu filho, o brigadeiro Pessoa, que havia nutrido um grande desejo de
comandar a FEB. Frustrado em sua aspiração secreta, não poupou esforços para promover
homenagens e eventos beneficentes em favor dos soldados que combatiam na Itália e suas
famílias.
Uma das primeiras medidas de apoio à FEB, aprovada por Pessoa em setembro de
1945, foi o envio de açúcar e café para serem distribuídos às vítimas de guerra na Itália. Por
sugestão de um sócio do Clube, o major Emídio da Costa Miranda, uma comissão foi
nomeada para conseguir, junto ao Instituto Nacional do Café, uma doação de 10.000 quilos de
café e 10.000 quilos de açúcar. Esses produtos seriam embalados em sacos de papel contendo
as inscrições “Brasil” e “Clube Militar”. Por intermédio dos oficiais e soldados da FEB, esses
gêneros seriam distribuídos à população esfomeada das cidades italianas atingidas pela
guerra. Dessa forma, pensava Pessoa, além de se prestar assistência às vítimas da guerra,

1010
Hoje, essa área é próxima à Praça Virgílio, no Centro do Rio de Janeiro.
1011
Informações retiradas do Resumo Histórico dos 91 anos de existência do Clube Militar (1887-1978),
compilação feita pelo coronel Isnard Pereira de Almeida. O documento faz parte do acervo do museu do Clube
Militar.
632

criar-se-ia uma simpatia dessas pessoas com as tropas brasileiras.1012 Entretanto, três semana
depois da sua aprovação, as atividades da comissão foram suspensas. O Boletim Interno do
Clube, de 23 de setembro de 1944, apontava que a imprensa carioca havia veiculado,
erroneamente, que o envio de café e açúcar às vítimas da guerra teria sido uma iniciativa de
Getúlio Vargas. Dessa forma, a fim de não dar crédito a que não era de direito, a Diretoria do
Clube decidiu não levar adiante a empreitada.
Malograda a campanha do açúcar e do café, no mês seguinte o Clube Militar aderiu, a
convite de Juarez Távora, à época presidente do Departamento Nacional de Defesa Nacional,
à campanha “Agasalhemos nossos soldados combatentes”, promovida pela Liga de Defesa
Nacional, com o intuito de angariar agasalhos e meias de lã para serem enviados aos soldados
brasileiros na Itália, durante o inverno europeu.1013 A imprensa de todo o Brasil veiculou
amplamente a iniciativa da LDN. Órgãos assistenciais, grandes empresas nacionais, entidades
de classe e a própria população engajaram-se nas doações de roupas de lã, de cigarros e de
material de higiene para serem enviados às tropas brasileiras na Europa.
Em maio de 1945, o segundo maior conflito mundial terminou. A Nação preparou-se
para receber de volta os soldados brasileiros. Não havia medida para as inúmeras homenagens
que foram prestadas aos heróis nacionais que haviam lutado em defesa da democracia em solo
europeu. Bairros, ruas e praças, de todas as cidades do País, receberam nomes de batalhas ou
de ex-combatentes. Festivais foram organizados. A população, por meio das sociedades de
bairros, dos estudantes e das entidades de classe e assistenciais se mobilizaram na recepção
dos ex-combatentes e no amparo às famílias dos febianos mortos e dos mutilados e inválidos.
Também o governo se preparou para receber os ex-combatentes, que retornariam à Capital
Federal em diversos escalões, devido à impossibilidade de se organizar o transporte de todo o
contingente da FEB em uma única leva. Em 17 de maio, por determinação do ministro da
Guerra, uma Comissão de Honra foi formada1014, com a finalidade de planejar e coordenar os
festejos cívicos que seriam realizados para recepcionar as tropas que retornariam à Pátria a
partir da primeira quinzena de julho.

1012
Boletim Interno do Clube Militar nº 8, de 2 set. 1944, p. 1-2.
1013
Boletim Interno do Clube Militar nº 16, de 30 out. 1944, p. 1.
1014
A Comissão de Honra do Ministério da Guerra para recepcionar a FEB, que era presidida pelo general
Eurico Dutra, era formada pelos ministros e chefes dos estados-maiores das Forças Armadas, pelo ministro
Macedo Soares, das Relações Exteriores, pela Sra. Darcy Vargas, esposa do presidente Vargas, por
representantes de universidades e entidades de classe. A Legião Brasileira de Assistência, a Liga de Defesa
Nacional, a Cruz Vermelha Brasileira e o Clube Militar são alguns exemplos de associações que se juntaram ao
Ministério da Guerra na preparação da recepção dos ex-combatentes. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 1 jun.
1945, p. 5; 30 jun. 1945, p 7.
633

Como o efetivo da FEB chegaria ao porto do Rio de Janeiro em vários escalões,


decidiu-se que a programação das festividades seria a mesma para cada contingente que
chegasse. Os dias da chegada de cada escalão seriam considerados pontos facultativos nas
repartições federais, estaduais e municipais, para que a população pudesse participar ao
máximo das festividades. Resumidamente, a programação constava de: uma recepção dos
navios de transportes das tropas na entrada da Baía da Guanabara, por embarcações da
Marinha e por aviões da Força Aérea e com uma salva de tiros dos canhões das fortalezas de
Santa Cruz, Lage e São João; um desfile militar no Centro da cidade; e festejos populares em
diversos pontos da cidade, a cargo das associações de bairros. À Prefeitura do Rio de Janeiro
cabia a ornamentação da cidade.1015
Antes mesmo do governo decidir-se pela formação de uma comissão que coordenasse
as homenagens à FEB, a Diretoria do Clube Militar já havia decidido receber os ex-
combatentes brasileiros com as honras que haviam conquistado. Por sugestão dos associados
coronel Feliciano Cardoso e major Aristides Leal, a Comissão de Homenagem, Assistência e
Recepção à FEB foi organizada em 15 de maio de 1945, sob a presidência de José Pessoa. A
Comissão era formada por um Diretório e três subcomissões, como o seu próprio nome
indicava: de Homenagem, presidida pelo almirante Ari Parreira; de Assistência, presidida pelo
general Souza Doca (substituído pelo general Heitor Borges após o seu falecimento) e de
Recepção, que tinha à frente o brigadeiro Gervásio Duncan. Além dessas, esperavam os
membros da Diretoria que comissões estaduais fossem formadas, a fim de planejarem e
executarem a recepção dos ex-combatentes nos seus respectivos estados.1016 Em uma visita
feita ao jornal Diário de Notícias, o tenente-coronel da Aeronáutica Francisco Teixeira e os
majores Aristides Leal e Péricles de Azevedo, membros da Comissão, explicaram que a
iniciativa do Clube em criá-la visava a três propósitos: difundir o feitos da FEB e explicar o
que os mesmos significavam para o processo de democratização do Brasil; prestar assistência
ao expedicionário, por meio de ações concretas, como a doação de casas para as famílias que
haviam perdido seus entes queridos; e criar um clima de simpatia junto ao povo, para que os
expedicionários fossem recebidos como os heróis que verdadeiramente eram.1017
Foi com esses propósitos que as subcomissões trabalharam. À subcomissão de
Homenagens coube: criar na população um clima de entusiasmo e esclarecimento em relação
à FEB; difundir por todos os meios (imprensa, rádio, folhetos, cinemas, postais, conferências,

1015
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 30 jun. 1945, p. 7.
1016
Atas das Sessões Ordinárias e Extraordinárias da Comissão de Homenagem, Assistência e Recepção da FEB,
15 maio a 8 nov. 1945. Acervo do Clube Militar, Rio de Janeiro.
1017
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 20jun. 1945, p. 3.
634

etc) os dados biográficos dos heróis e das unidades da FEB, inclusive nas suas cidades de
origem; sessões públicas de palestras com ex-combatentes; organizar um ciclo de
conferências no Clube Militar, com o intuito de esclarecer o que significou a FEB no tocante à
sua influência nos problemas nacionais; e fornecer o irrestrito apoio às associações civis
engajadas nas homenagens aos ex-combatentes.1018
A subcomissão de Assistência tomou a frente no apoio às famílias desamparadas.
Criou a campanha “Casa para o a família do expedicionário morto ou incapacitado em defesa
da Pátria”. Ao jornal Diário de Notícias1019 o general Heitor Borges afirmou que a meta da
campanha era angariar, através de doações, Cr$ 30.000.000,00 para a construção de 1.200
casas para as famílias dos expedicionários mortos. Disse também esperar a doação de terrenos
para a construção das casas. Ao final da campanha, em novembro de 1945, o valor arrecadado
ficou muito aquém do pretendido, tendo sido angariados Cr$ 1.024.000,00 e doados 4
terrenos. Essa subcomissão contou com a participação intensa das esposas dos associados, que
semanalmente realizavam visitas aos ex-combatentes hospitalizados e realizavam passeios e
piqueniques em locais turísticos da cidade para aqueles que podiam se locomover. Além
disso, também houve um empenho na readaptação dos desmobilizados no retorno à vida civil
(empregos, próteses para os mutilados etc.). Chás, eventos esportivos e espetáculos teatrais
foram promovidos pela subcomissão para angariar fundos para as famílias desamparadas.
Estrelas do teatro à época, como a atriz Eva Todor, encenaram peças cujas rendas foram
doadas à campanha do Clube Militar.1020
Quanto à subcomissão de Recepção, cabia, essencialmente, a “preparação psicológica”
do povo para receber a tropa brasileira. Tendo em vista o governo ter se engajado na recepção
dos ex-combatentes, Pessoa determinou que o Clube não se envolvesse no que fosse de
competência das autoridades, apesar de a instituição fazer parte da Comissão de Honra do
governo. Entretanto, todo o apoio foi prestado às associações de bairro que decidiram realizar
algum tipo de festejo para recepcionar os seus moradores que haviam lutado na Itália. Uma
das iniciativas por ela tomada foi providenciar para que nas residências e locais de trabalho
dos ex-combatentes, nos diversos bairros do Rio de Janeiro, fossem afixados quadros de
honras com as fotos dos expedicionários. Para isso, foi pedido às famílias que desejassem,
que entregassem no Clube Militar fotos dos ex-combatentes. Também houve o empenho para
que nenhum bairro da cidade ficasse sem a ornamentação necessária para a recepção e sem

1018
Atas das Sessões Ordinárias e Extraordinárias da Comissão de Homenagem, Assistência e Recepção da FEB,
15 maio a 8 nov. 1945. Acervo do Clube Militar, Rio de Janeiro.
1019
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 26 ago. 1945, p. 17.
1020
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 29 jun. 1945, p. 8.
635

uma Bandeira Nacional hasteada em local de destaque. Uma lista de voluntários foi aberta na
secretária do Clube, para identificar aqueles que desejassem colaborar com as festividades.1021
Cabe aqui um aparte para considerar quão traumática foi a desmobilização da FEB
para os ex-combatentes. Vargas ordenou a desmobilização da tropa brasileira em 6 de julho de
1945, quando ela ainda se encontrava na Itália. Como lembra Ribeiro (2013, p. 18), questões
políticas e militares o levaram a tal decisão. Para Getúlio, a FEB representava uma ameaça à
continuidade do Estado Novo. Afinal de contas, oficiais e praças lutaram nos campos da Itália
pela manutenção da democracia, enquanto em seu próprio país uma ditadura ainda vigorava.
Havia, ainda, questões operacionais: como as Forças Armadas absorveriam em seus quartéis
um efetivo tão grande? Com o final da guerra ficava evidente que o País necessitava passar
por um amplo processo de redemocratização e retorno da FEB aceleraria esse processo. Dessa
forma, como ressalta a autora, a FEB passava a ser uma presença indesejada no governo
varguista e, também, para o Exército de Dutra e de Góes Monteiro. Novas lideranças foram
projetadas e poderiam causar tensões na ordem interna da Instituição em um momento
conturbado para a política nacional. Como bem aponta Bonalume Neto (2021, p. 270), Vargas
tinha medo de que, terminado o desfile na avenida Rio Branco, as tropas esticassem a sua
marcha até o palácio presidencial para depô-lo. A desmobilização das tropas encerrava essas
questões.
Entretanto, para além da conduta de Vargas, Ribeiro (2013, p. 18-19) ressalta a forma
rápida como os expedicionários foram desmobilizados e para os desdobramentos desse ato.
Após a recepção apoteótica, os veteranos se depararam com uma longa lista de decepções. A
eles foi proibido o uso dos uniformes da FEB. Muitos deixaram de receber as condecorações
que lhes eram devidas. Apenas os oficiais puderam optar pela sua permanência nos quadros
do Exército. Os praças e soldados que retornavam à vida civil enfrentavam uma dupla
decepção: a dispensa do Exército e o despreparo da sociedade para recebê-los. Agora civis,
não conseguiam emprego, sofriam com as sequelas de guerra e sequer recebiam assistência
médica. Até mesmo os oficiais enfrentaram a rejeição dos colegas que não haviam participado
da guerra. O desestímulo para que permanecessem na Força foi grande: eram transferidos para
as piores unidades militares e enfrentavam dificuldades na progressão da carreira.
A iniciativa do Clube Militar em prol dos ex-combatentes teve uma ampla aceitação
da população carioca e das entidades e associações de classe do Rio de Janeiro e do Brasil.
Assim como também da imprensa, que, quase que diariamente, dava notoriedade às atividades

1021
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 6 jul. 1945, p. 5.
636

da Comissão de Homenagem, Assistência e Recepção. Às ações do Clube somaram-se os


esforços de entidades regionais e nacionais, como: a Legião Brasileira de Assistência, a Cruz
Vermelha Brasileira, a Liga da Defesa Nacional, o Comitê das Mulheres pela Democracia, o
Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Telefônicas do Rio de Janeiro, o Movimento
Democrático dos Médicos, a Frente Democrática Maranhense, e comitês de bairros, como o
Comitê Democrático Progressista de Santa Cruz e o Comitê Pró-Reivindicações Democráticas
do Flamengo e Botafogo. Todas se colocavam à disposição para auxiliarem nas atividades das
subcomissões. Não houve banco e companhia pública, ou privada, que deixasse de fazer
alguma doação em dinheiro para a causa dos ex-combatentes.1022

Imagem 102 – General Zenóbio da Costa discursa em solenidade de homenagem à FEB


no Clube Militar (José Pessoa é o 5ª da esq./dir.), abr., 1945.

Fonte: Acervo José Pessoa (CPDOC FGV) - JPFOTO026.

Até mesmo o Partido Comunista declarou o seu apoio e a sua solidariedade à


campanha do Clube Militar. No ofício que enviou ao Clube destacou que, desde o início da
guerra, fora a favor do envio de uma força expedicionária à Europa e, invocando a união
nacional da Pátria, ressaltou que continuaria a sua atividade patriótica de mobilizar o
proletariado e o povo para consagrar os combatentes brasileiros. Na resposta que enviou ao
Secretário Geral do partido, Álvaro Ventura, Pessoa agradeceu o apoio. Destacou que, como o
Clube não incluía entre as suas finalidades a atividade político-partidária, era seu dever
receber o gesto do Partido como um desejo dos brasileiros a ele filiados. Entretanto, ressaltou

1022
O Diário de Notícias do dia 31 de julho de 1945, na página 5, apresenta uma nota com uma longa lista de
bancos e companhias públicas e privadas que realizaram doações à Comissão do Clube Militar.
637

que, não via como conciliar o sentido nacional dos serviços invocados pelo PC ao símbolo por
ele adotado, que remetia à bandeira da União Soviética. Afirmou que, como patriota, não
poderia aceitar que partidos nacionais adotassem símbolos estrangeiros como insígnia.
Finalizou dizendo que, naquele momento de vibração cívica, somente um sentimento deveria
ter guarida no coração de todos os brasileiros: o de uma Pátria livre, soberana e forte.1023
O Clube realizou, ainda, três atos significativos, em meio às diversas atividades de
homenagem e assistenciais que promoveu em favor da FEB. O primeiro deles foi conceder,
em 13 de julho, por aclamação da Diretoria e dos conselhos Deliberativo e Fiscal, ao general
Mascarenhas de Moraes, comandante da Força Expedicionária, o título de Presidente de
Honra do Clube Militar. No final do ano, em 15 de dezembro, após terem sido encerradas as
atividades da Comissão de Homenagem, Assistência e Recepção da FEB, foi realizado um
baile de gala nas dependências da sede social, o Baile da Vitória. Na ocasião, uma placa de
bronze, comemorativa à FEB, foi inaugurada e o título de Presidente de Honra do Clube foi
formalmente entregue a Mascarenhas de Moraes. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta VIII, p. 35)
Um outro fato significativo para a política nacional acabou ocorrendo em meio ao
mandato de Pessoa: a queda de Vargas do poder, em 29 de outubro de 1945. Desde o começo
do ano, alguns protestos contra o governo haviam conseguido ludibriar a censura. Em 22 de
fevereiro, José Américo de Almeida, que havia sido candidato em 1937, concedeu uma
entrevista à imprensa explicado por que deveriam ser realizadas eleições presidenciais e
porque era inadequado que Vargas fosse candidato. Dias depois, Getúlio emitiu um Ato
Adicional1024 emendando a Constituição de 1937, prevendo que, em noventa dias, um decreto
seria baixado fixando a data das eleições. De imediato, os candidatos começaram a aparecer.
O primeiro foi o brigadeiro Eduardo Gomes, que concorreria pela União Democrática
Nacional (UDN). Comícios e protestos populares eram realizados em todo o Brasil contra a
candidatura de Vargas, que insistia em dizer que não concorreria à presidência. Entretanto, em
março iniciou-se um movimento do governo em prol da candidatura de Dutra, o que foi visto
pela oposição como uma manobra diversionista de Vargas para manter a sua influência no
próximo governo. Em abril, Dutra aceitou a sua indicação. (SKIDMORE, 1982, p. 73-74)
A partir de maio, a campanha política intensificou-se. Ao mesmo tempo, Vargas
iniciou uma tímida abertura política, concedendo a anistia a centenas de presos políticos que
haviam sido detidos durante o Estado Novo, dentre eles Luís Carlos Prestes. Em 1º de maio,
discursou à população em um grande comício. Reafirmou a sua intenção de não se candidatar

1023
Boletim Interno do Clube Militar nº 48, 14 jul. 1945, p. 2-3.
1024
Lei Constitucional nº 9, de 28 de fevereiro de 1945.
638

e declarou o seu apoio à Dutra. Vinte e sete dias depois, finalmente, foi fixada a data de 2 de
dezembro para o pleito eleitoral. O Partido Social Democrático (PSD), recém fundado, passou
a apoiar a candidatura de Dutra, que se demitiu em agosto do Ministério da Guerra, sendo
substituído por Góes Monteiro. Tudo parecia certo para, após longos anos de ditadura, o
retorno da democracia no País. (SKIDMORE, 1982, p. 74-75)
Entretanto, no começo de agosto, um grupo ligado a Vargas iniciou um movimento
para o adiamento das eleições presidenciais. Em seu lugar, pediam a instalação de uma nova
Assembleia Constituinte, com o objetivo de redemocratizar o País sob a proteção do ditador.
A oposição defendia justamente o contrário: primeiro deveriam ocorrer as eleições, para
depois se pensar em uma nova Constituição. Havia o temor de Vargas ainda poder exercer
uma grande influência na Constituinte. O Queremismo, nome pelo qual ficou conhecido o
movimento levado a efeito por aqueles que pediam a permanência de Getúlio, contava com o
apoio de partidos políticos proeminentes, como o Partido Comunista, que havia voltado à
legalidade, e do recém fundado Partido Trabalhista Brasileiro. No começo de outubro, em
uma demonstração de força, os queremistas organizaram um grande comício em frente ao
Palácio Guanabara. Vargas discursou, reafirmando que não concorreria à presidência, mas,
ressaltando que o povo tinha o direito de exigir uma nova Constituição. E alertou que havia
forças reacionárias poderosas contrárias à Constituinte. (SKIDMORE, 1982, p. 75)
No dia 10 de outubro, intempestivamente, Vargas baixou um decreto adiantando as
eleições estaduais e municipais para o dia da eleição presidencial1025. A medida causou furor
na oposição. Como o decreto exigia que os governadores e prefeitos candidatos se
licenciassem dos cargos trinta dias antes das eleições, havia a possibilidade dos governantes
interinos nomeados por Vargas manipularem o pleito a favor de Dutra. As modificações das
leis eleitorais começaram a causar suspeitas inclusive na alta oficialidade das Forças
Armadas. Temiam que, a exemplo da Argentina, para onde Perón retornou triunfalmente ao
governo dezessete dias após ter sido deposto, Vargas voltasse ao poder nos braços do povo. A
gota d’água para os generais foi a nomeação por Vargas de seu irmão, Benjamin Vargas, para
a chefia de polícia do Distrito Federal, em substituição a João Alberto Lins de Barros, que
estava há menos de um ano no cargo. Vendo a situação agravar-se, Góes não estava disposto a
ser o próximo a ser substituído. Nesse contexto, conseguiu mobilizar a alta cúpula das Forças
Armadas em prol do apoio de um golpe para derrubar Getúlio. Na tarde de 29 de outubro,
Dutra ainda tentou demover Vargas da ideia de nomear o seu irmão. Getúlio não aceitou a

1025
Decreto-Lei nº 8.063, de 10 de outubro de 1945.
639

ideia, acreditando que Góes não teria coragem de retirá-lo da presidência. Nesse interim, Góes
já havia mobilizado as tropas do Exército do Distrito Federal e cercado o Palácio da
Guanabara. Diante da recusa de Vargas, à noite Góes enviou o general Cordeiro de Farias ao
Palácio, para informar a Getúlio que ele estava deposto. No dia seguinte, Vargas partiu para
um “exílio” em sua fazenda em São Borja-RS. Havia, finalmente, caído o ditador, pelas mãos
daqueles que o haviam colocado no poder. (SKIDMORE, 1982, p. 76-78)
Pessoa, que participou diretamente dos fatos, aponta que o pedido da deposição de
Getúlio partiu de um grupo de generais do alto comando do Exército que serviam na Capital
Federal, refutando a ideia de que Góes teria sido o grande, senão o único, responsável pela
queda de Getúlio. Considerou que a queda da ditadura havia sido um ato de desprendimento e
patriotismo das Forças Armadas, que reabilitou o Brasil aos olhos do mundo. O ato do alto
comando do Exército, na sua opinião, havia sido uma “insurreição benéfica e memorável”,
com o propósito de reestabelecer as tradições institucionais liberais do País. Comparou o 29
de outubro com a data de instauração da República em significado. Para ele, o dia da queda de
Vargas era uma data como não havia maior na história política do Brasil. Ressaltou que os
prejuízos morais que o Estado Novo vinha causando à Nação, as vendetas pessoais das figuras
centrais do governo [Vargas, Dutra e Góes] e a coação à liberdade e à justiça exigiam,
naquele momento, uma reação violenta. E foi o que acabou motivando a atitude do alto
comando das Forças Armadas. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X, p. 119)
Em suas memórias e nas entrevistas que deu à imprensa carioca, Pessoa narrou passo a
passo os acontecimentos que antecederam a queda do governo. Em todas os seus depoimentos
sempre fez questão de deixar claro que Vargas não havia renunciado e, sim, sido deposto. Ao
Correio da Manhã, disse que há tempos o alto comando do Exército vinha acompanhando os
abusos políticos de Vargas. Destacou a situação calamitosa em que se encontrava a economia
do País, fruto da incapacidade administrativa de Getúlio, e a corrupção dos negócios públicos,
o que havia causado o enriquecimento ilícito de um pequeníssimo grupo de servidores
públicos do regime que ocupavam cargos de confiança. Em uma lógica invertida, segundo ele,
os pobres, por meio das contribuições feitas aos institutos do governo, é que emprestavam
dinheiro aos mais ricos, que se aproveitavam desses ganhos para construírem obras opulentas,
enquanto a classe trabalhadora ainda vivia em miseráveis moradas. Era indispensável, pois,
que esses usurpadores fossem julgados, para exemplo às novas gerações.1026

1026
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 15 nov. 1945, p. 6 e 20.
640

Pessoa narra que, diante das atitudes tomadas por Vargas quanto ao pleito eleitoral de
2 de dezembroe a turbulenta campanha queremista, que configuravam a possibilidade de um
novo golpe contra a Nação e que já mereciam a repulsa de grande parte da população, um
grupo formado pelos generais de maior grau hierárquico da Capital Federal1027, sob a direção
do general Christóvão Barcelos, que havia assumido a chefia do Estado-Maior do Exército
com a ascensão de Góes à pasta da Guerra, passou a realizar reuniões periódicas dentro do
prédio do Ministério da Guerra, a fim de deliberar sobre a situação política do País. Delas
participaram, também, oficiais do mais alto posto da Marinha e da Aeronáutica. Como
resultado desses encontros ficou decidida a deposição de Vargas. Segundo Pessoa, para esses
generais era imprescindível que não fosse mais atribuída às Forças Armadas a
responsabilidade pelas mazelas causadas ao País pelo Estado Novo. Ressaltou que a grande
maioria dos chefes militares não haviam apoiado o golpe de 10 novembro de 1937, salvo dois
ou três que já eram de conhecimento público. Sendo assim, o alto comando do Exército não
permitiria mais que fosse enganado, nem consentiria que um novo ultraje fosse praticado
contra a boa-fé e os ideais democráticos do povo brasileiro.1028
Ao Correio da Manhã1029, José Pessoa frisou que o Exército, como “instituição
apolítica”, não deveria “intervir em política partidária” nem se “arvorar em mentor do poder
civil”. Tampouco deveria ser “fiador de regimes políticos”, o que não o impedia a Instituição
de acompanhar atenta a vida política do País. Foi coerente com esse pensamento, então, que o
citado grupo de generais passou a intervir junto a Góes Monteiro para que o Ministério da
Guerra achasse uma fórmula para que o pleito eleitoral de 2 de dezembro ocorresse em
ambiente de absoluta confiança. Nesse interim, Vargas publicou o famigerado decreto
antecipando as eleições para os governos estaduais e municipais, o que levou os chefes
militares, na semana anterior a da deposição de Getúlio, a redigirem um “memorando” a ser
entregue ao presidente por Góes. O documento, cujo texto está transcrito abaixo, tinha o
objetivo, segundo Pessoa, de “garantir a ordem interna e acautelar a honra e a integridade do
Exército, sem, entretanto, visar interesses de partidos ou política de qualquer espécie”:

I – O governo se compromete a não mais modificar o Ato Adicional nº 9 e leis sobre


a matéria eleitoral em vigor;

1027
Ao Correio da Manhã, Pessoa nominou os quatorze generais que faziam parte desse grupo: Christóvão
Barcelos, Milton de Almeida, Newton Cavalcanti, Raymundo Sampaio, Pedro Cavalcanti, Heitor Borges,
Castelo Branco, Agostinho dos Santos, Fiuza de Castro, Mário Ramos, Demerval Peixoto, Franklin Rodrigues,
Borges Fortes, além dele próprio. Correio da Manhã, 15 nov. 1945, p. 20.
1028
Albuquerque, 1953, Pasta X, p. 122 e Correio da Manhã, 15 nov. 1945, p. 20.
1029
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 15 nov. 1945, p. 20.
641

II – As eleições presidenciais e para os demais cargos eletivos serão realizadas,


impreterivelmente, em 2 de dezembro próximo vindouro de acordo com o que está
estabelecido em lei.
III – Em virtude do último Decreto-Lei nº 8.063, os atuais interventores, bem como
o Prefeito do Distrito Federal e o governador de Minas Gerais, quando houverem de
se desincompatibilizar no prazo marcado por aquele decreto, serão substituídos pelo
presidente do mais alto Tribunal de Justiça existente em cada estado. 1030

Diante da impassividade de Góes para cobrar uma resposta de Vargas para o


“memorando” dos generais, em 25 de outubro o grupo de generais tornou a reunir-se e decidiu
que a retirada de Getúlio do poder seria na noite do dia seguinte. Naquela ocasião, segundo
Pessoa, toda a guarnição do Rio de Janeiro já se encontrava de sobreaviso e pronta para
ocupar os pontos sensíveis da cidade. No entanto, no dia 26, Góes apresentou a resposta de
Vargas. O presidente concordava com os dois primeiros pontos impostos pelos generais. Mas,
mostrava-se reticente quanto ao terceiro. Não queria se indispor com os interventores dos
estados, dos quais muitos eram seus amigos. Pessoa relatou ao Correio da Manhã que, antes
mesmo de responder ao documento dos generais, Vargas substituiu vários interventores dos
estados, o que aumentou ainda mais a indisposição do grupo para com o presidente. Em meio
a tudo isso, começaram a surgir rumores de que Getúlio havia empossado o seu irmão na
chefia de Polícia do Distrito Federal a fim de promover a prisão dos generais que o
confrontavam. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X, p. 123-124)
Diante das insistentes cobranças dos colegas, Góes decidiu, então, demitir-se da chefia
da pasta da Guerra e aderir à causa dos generais, não mais como ministro da Guerra, mas,
como general mais antigo na coordenação das atividades. Pessoa é categórico, entretanto, ao
afirmar que faltou a Góes a autoridade necessária para tomar a frente do movimento que
derrubou Getúlio do poder desde o início, tendo em vista os laços de honra e lealdade que o
ligavam ao governo. A partir daí, as tropas que estavam de sobreaviso passaram à ação,
cercando o Palácio Guanabara e cortando as comunicações do presidente com o exterior do
edifício. Segundo Pessoa, Getúlio ainda tentou negociar com os generais, por intermédio de
Dutra, a sua permanência no poder, o que foi rechaçado pelo alto comando das Forças
Armadas. Assim, na noite de 29 de outubro, Vargas foi deposto. (ALBUQUERQUE, 1953,
Pasta X, p. 126)
Já na madrugada de 30 de outubro, coube a José Pessoa, em companhia do almirante
Adalberto Lara de Almeida e do brigadeiro Amilcar Pederneiras, dirigir-se à residência do
presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro José Linhares, a fim de comunicar-lhe a
deposição de Vargas e convidá-lo a assumir a chefia do governo. Linhares os recebeu por

1030
Ibidem.
642

volta da 1 hora da manhã. Por volta das 2:30 horas da madrugada de 30 de outubro, Linhares
assumiu a presidência da República no Guanabara, diante do alto comando da Forças
Aramadas e de autoridade civis da Capital Federal. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X, p.
127) Em 2 de dezembro, Dutra venceria as eleições e se tornaria o presidente do Brasil.
Em sua autobiografia, escrita durante o segundo governo de Vargas, em 1953, José
Pessoa lamenta que o único erro dos generais que levaram a termo o movimento de 29 de
outubro de 1945, foi terem permitido adesão do “pequenino grupo de militares fascistas e
políticos”, ainda “agarrados” aos postos chaves do governo deposto. Dessa forma, segundo
ele, não pôde o Exército se libertar desses “elementos aventureiros”. (ALBUQUERQUE,
1953, Pasta X, p. 128-129) Para a desgraça do Brasil, como ele aponta, anos mais tarde tudo
voltou a ser como era:

Na história da política, também, não há propriamente escuridão nem claridade, o


objetivo está em avançar onde houver maiores interesses a auferir. E esses políticos
aproveitadores, sem patriotismo, sem sentimento de justiça e sem amor ao próximo,
embotados por aura de intrigas e causadores daquela deposição, cinco anos mais
tarde, ao voltar o vencido de 1945 [Vargas] ao poder, lá estão outra vez jogados aos
pés do amo para levá-lo, certamente, a novos insucessos... (ALBUQUERQUE,
1953, Pasta X, p. 130)
643

11 O “FIM DA CAMINHADA”: A ADITÂNCIA MILITAR EM LONDRES, O


COMANDO DA ZONA MILITAR DO SUL, A NACIONALIZAÇÃO DO
PETRÓLEO E A PASSAGEM PARA A RESERVA

Em dezembro de 1945, José Pessoa foi nomeado adido militar em Londres. Despediu-
se, assim, da Inspetoria de Cavalaria e da presidência do Clube Militar. À frente deste, jamais
permitiu que o jogo político interferisse na sua administração. Não há, nas atas da Diretoria e
da Assembleia Geral e nos boletins internos da instituição, no período em que exerceu a
presidência, uma só referência a respeito da política do País, a não ser no seu discurso de
despedida, em janeiro de 1946. Nele, afirmou que um dos seus esforços à frente do Clube foi
afastá-lo da política partidária. Como “sociedade de classe” que era, tinha o entendimento de
que o Clube não deveria viver sobra a influência direta do governo, que sempre o havia
utilizado para interesses políticos e gozo pessoal daqueles que buscavam favores junto ao
governo. Ao final, concitou aos associados que mantivessem a independência do Clube, a fim
de manter o seu prestígio e bom nome.1031
Em 29 de janeiro de 1946, José Pessoa partiu do Rio de Janeiro, por via aérea, para os
Estados Unidos, acompanhado de sua família. Daquele país, seguiu por via marítima até a
Inglaterra. Em 23 de fevereiro, assumiu a sua nova função em Londres. (ALBUQUERQUE,
1953, Pasta X, p. 175) Infelizmente, nada há praticamente nada, em termos de documentação,
a respeito do breve período em que ele esteve à frente da Aditância Militar brasileira na Grã-
Bretanha, entre março de 1946 e janeiro de 1947. Nem mesmo a sua Fé de Ofício apresenta a
sua passagem pela Inglaterra. Nada também foi encontrado na sede da Embaixada brasileira
na Inglaterra, após este pesquisador ter feito contato com aquela legação brasileira no exterior.
O pouco que existe, faz parte de suas memórias sobre a sua passagem por aquele país.
Pessoa narra ter encontrado uma Londres “mutilada”, com os “ferimentos de guerra”
ainda expostos. A Inglaterra, de uma maneira geral, estava devastada e empobrecida pela
guerra e enfrentava uma grave crise econômica. Afirma ter sido muito bem recebido pelos
colegas e pela sociedade em geral e destacou ter se sentido confortável na cidade, ainda mais
por nela residir grande parte da família de sua esposa. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X, p.
175)
A primeira questão que lhe chamou a atenção, após dois meses de desempenho da
função, e que lhe causou indignação, foi o fato de o Brasil não ter usufruído da partilha dos
despojos de guerra entre os países aliados. Para ele, tal fato somente aconteceu devido ao
1031
Boletim Interno do Clube Militar nº 77, 24 jan. 1946, p. 1-2.
644

descaso e à inércia do governo brasileiro, que pouco caso fez do assunto. Mesmo tendo ele e o
embaixador Muniz de Aragão tentado despertar o interesse das autoridades brasileiras para a
possibilidade de uma reparação de guerra, nenhuma providência foi tomada. Do ministro das
Relações Exteriores, João Neves da Fontoura, veio a resposta de que o Brasil não recebeu e
nada receberia dos despojos inimigos a título de reparação. Pessoa chegou a apelar para a
influência do general Pedro Cavalcanti de Albuquerque, presidente da Central de Requisições
do Exército, e seu amigo, junto ao alto comando do Exército. Mas, não obteve sucesso.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X, p. 175-176)
Em 8 de junho de 1946, o Brasil se fez representar na parada militar comemorativa ao
Dia da Vitória em Londres com um pequeníssimo contingente militar. Dois meses antes do
desfile, em 29 de abril, Pessoa foi comunicado pelo chefe do Estado-Maior do Exército,
general Salvador Cesar Obino, que a representação brasileira seria composta pelos adidos
Naval e Aeronáuticos brasileiros em Londres, pelo adido Aeronáutico brasileiro em
Washington e pelo Adido Militar brasileiro em Roma, todos com seus respectivos assistentes.
Além deles, o general Zenóbio da Costa, à época comandando a 1ª Região Militar,
acompanhado dos seus ajudantes-de-ordem, estaria presente. Um contingente de 24 praças,
apenas, das três Forças Armadas, também seria enviado para o evento.1032
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X, p. 179-180)
Pessoa ficou profundamente transtornado por não ter sido escolhido para representar o
Brasil na parada militar. Somente ele, na Embaixada brasileira em Londres, não participaria
do evento. Para ele, o responsável por tal preterição tinha nome: Góes Monteiro, que havia
sido reconduzido à pasta da Guerra por Dutra. Considerou a atitude do ministro uma
“maldade indefinível”. Chegou a questionar o general Obino o porquê da escolha de Zenóbio
da Costa para representar o Exército. O general teria que deslocar-se do Rio de Janeiro para a
Inglaterra, quando ele já se encontrava na cidade. O chefe do EME respondeu-lhe que a
escolha de Zenóbio se deu pelo fato dele ter tomado parte da campanha da FEB na Itália e
essa era uma decisão do governo. Coube a Pessoa resignar-se. (ALBUQUERQUE, 1953,
Pasta X, p. 180)
As condições em que os praças do contingente que representaria o Brasil no desfile
chegaram a Londres decepcionaram Pessoa. Estavam sem armamento e equipamento de
campanha, os uniformes do Exército e da Marinha, principalmente, estavam em mau estado e
o treinamento para o desfile era insuficiente. A tropa brasileira, segundo ele, em tudo

1032
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1946.04.01, doc. 0223.
645

contrastava, para pior, com os soldados dos outros países participantes. Ao recebê-los na
estação férrea londrina de Victoria Station, Pessoa relata a vergonha que sentiu das péssimas
condições em que os soldados brasileiros desembarcaram, diante de generais e autoridades
britânicas que lá se encontravam para prestigiarem a sua chegada. Também o aspecto dos
homens não ajudava. Faltava-lhes robustez física e a altura deles não era uniforme, o que
deixava uma má impressão no desfile em conjunto. A situação precária dos militares
brasileiros obrigou a Pessoa e ao adido Naval brasileiro, almirante Soares Dutra, a comprarem
novas de peças de uniforme e a pedirem armamentos e equipamentos emprestados ao exército
britânico. No relatório que enviou ao Chefe do EME após a parada da Vitória, Pessoa
ressaltou a Obino o “pouco zelo e desinteresse” das autoridades militares brasileiras na
seleção dos homens para tão delicada missão, o que, no seu entendimento, constituía-se em
uma “grave falta de honestidade profissional e uma despreocupação pelo bom nome do País”.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X, p. 183-188)
Após apenas sete meses da sua chegada em Londres, Pessoa foi surpreendido com um
decreto1033 assinado pelo presidente Dutra reorganizando as aditâncias militares brasileiras
pelo mundo. A da Inglaterra deixava de existir. Recebeu do Ministério da Guerra ordens de
regressar imediatamente ao Brasil. Ao despedir-se dos camaradas do exército inglês, ouviu do
major general Gerald Templer, membro do War Officer inglês, o seguinte chiste: “Pessoa, in
your country everything is done so quickly”1034, o que o deixou profundamente envergonhado.
A contrapartida do governo inglês não demorou a chegar, segundo Pessoa. Pouco tempo
depois do Brasil ter extinguido a sua aditância em Londres, a Inglaterra retirou o seu adido
militar do Rio de Janeiro. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta X, p. 189 e 193)
No final de março de 1947, José Pessoa estava de volta ao Rio de Janeiro. Demorou
um longo tempo até que uma nova função lhe fosse dada. Nem ele nem a sua Fé de Ofício
citam qual foi o destino que o Exército lhe deu nesse período. Provavelmente, como era o
costume à época, tenha ficado adido ao Departamento do Pessoal da Guerra aguardando uma
nova designação, o que foi feito em 12 de julho de 1948, quando foi nomeado comandante da
Zona Militar do Sul.

1033
Decreto-Lei nº 9.825, de 10 de setembro de 1946.
1034
Em tradução livre: Pessoa, no seu país tudo é feito com muita rapidez.
646

11.1 O comando da Zona Militar do Sul e a nacionalização do Petróleo

Os últimos anos de José Pessoa no serviço ativo do Exército destacam-se mais pelas
opiniões desmedidas por ele emitidas a respeito do envolvimento dos militares na política
nacional, e da consequente perseguição que sofreu do então ministro da Guerra, general
Canrobert Pereira da Costa1035, segundo Pessoa, o “discípulo favorito” dos “meninos
sabidos”, generais Dutra e Góes Monteiro, do que pelo seu desempenho no comando da Zona
Militar do Sul (ZMS)1036. A deposição de Vargas não implicou o afastamento do velho
fisiologismo que, durante o governo de Eurico Dutra, ainda se fez presente na alta cúpula das
Forças Armadas, em especial do Exército.
Um fato interessante, que merece ser ressaltado, é que, ao contrário do que acontece
hodiernamente nas Forças Armadas, nas décadas de 1930 e 1940 as nomeações de generais
para o exercício de cargos de alto comando, como o Ministério da Guerra e o Estado-Maior
do Exército, não seguiam o critério da antiguidade nos postos. Como Góes Monteiro havia
afirmado anos antes, entendia-se que a chefia dessas pastas eram funções políticas e não
militares. Canrobert, por exemplo, era hierarquicamente mais moderno do que José Pessoa,
que, em 1948, era o general-de-divisão mais antigo do Exército brasileiro. Aquele fora
promovido ao posto em ano posterior a este.
Fica claro, na narrativa memorial de Pessoa, que, eticamente, para ele, isso era
inconcebível, já que existia em vigor uma Lei de Promoções do Exército, o Decreto-Lei nº
1.828, de 1º de dezembro de 1939. Ele mesmo havia sido preterido nas promoções a general-
de-exército por colegas com muito anos a menos de serviço do que ele. Cabe esclarecer que a
lei previa que as promoções aos postos do generalato se dariam por escolha. Isto é, a
Comissão de Promoções do Exército organizava o quadro de acesso para a promoção, no qual
constavam os nomes dos generais que atendiam aos pré-requisitos necessários à promoção, e
o Alto Comando do Exército, baseado no mérito, escolhia os que seriam promovidos.
Especialmente nos governos de Vargas e Dutra isso não ocorreu, devido à prática do
“apadrinhamento”. Muitos oficiais foram preteridos em suas promoções, em detrimento de
companheiros mais antigos, que a ela faziam jus. Interessava ao governo colocar nos postos
chaves das Forças Armadas aqueles generais que coadunavam com as suas práticas.

1035
O general Canrobert havia sido chefe de gabinete do Ministério da Guerra, durante a gestão de Dutra e, após
Dutra deixar o cargo para concorrer às eleições de 1945, de Góes Monteiro. Com a vitória de Dutra, e o pedido
de afastamento de Góes, em outubro de 1946, Canrobert assumiu a pasta da Guerra.
1036
Subordinados ao comandante da Zona Militar do Sul estavam todas as unidades militares dos estados do
Paraná, Santa Catarina e Rio Grande Sul. Apesar de comandar quartéis localizados no Sul do Brasil, a sede do
comando da Zona do Sul ficava no Rio de Janeiro.
647

A primeira grande indisposição de Pessoa com Canrobert foi em torno de uma


solicitação feita por Dutra ao Parlamento brasileiro para que uma lei fosse criada com a
finalidade de se restaurar o artigo 177 da Constituição de 1937, que havia sido revogado após
a queda de Vargas1037. Este artigo, originalmente, dava ao governo federal o poder
discricionário de aposentar ou reformar funcionários civis e militares, cujos afastamentos se
impusessem no interesse do serviço público ou por conveniência do regime. Tal dispositivo,
foi amplamente utilizado por Vargas para perseguir a afastar administrativamente do governo
vários oficiais generais e funcionários civis que não concordavam com o regime do Estado
Novo.
Ao tomar conhecimento do assunto, Pessoa afirma ter escrito, em 3 de julho de 1947,
uma carta ao coronel e deputado federal Lino Machado, que teria ficado com a relatoria do
projeto encaminhado por Dutra. Nela, parabenizava o deputado por se opor à criação da nova
lei, lembrando que, se fosse para punir militares delinquentes e contrários ao regime, o
Exército já possuía uma profusa legislação. Ressaltou que, na verdade, o que a Instituição
mais necessitava era uma revisão da Lei de Promoções, a fim de se acabar com o arbítrio das
autoridades, quando se tratava das promoções para o alto comando. Esse tipo de lei, segundo
Pessoa, além de comprometer a segurança nacional, envergonhava os militares do Exército,
por dar margens à transformação de “atos de função pública em coisa privada”. Citou a
Machado o seu caso pessoal, por ter sido preterido na promoção a general-de-exército por
generais-de-divisão mais modernos que ele. Por fim, destacou ao deputado que o momento
era de se deixar de lado as “armas políticas”, que desagregavam e corrompiam, para se tratar
do que era mais necessário ao País, como a defesa nacional. Pessoa conta que Lino Machado
telefonou-lhe e pediu autorização para fazer referência à carta em uma das sessões da Câmara
dos Deputados, ao que assentiu. Entretanto, Lino foi além, e leu-a na íntegra, na tribuna da
casa legislativa. Foi o suficiente para a imprensa da Capital Federal dar publicidade à
mensagem de Pessoa, cobrindo-a de elogios, o que, segundo ele, desagradou o ministro da
Guerra. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIV, p. 5-9)
Poucos dias após a imprensa ter publicado a mensagem de Pessoa a Machado, o
general Canrobert mandou chamá-lo para uma conversa sobre assuntos de serviço em seu
gabinete. Segundo Pessoa, durante a conversa o ministro tocou no assunto da carta, sem,
entretanto, polemizá-lo. Entretanto, cinco dias após a conversa entre os dois, Canrobert
mandou-lhe entregar um ofício reservado, repreendendo-o disciplinarmente por ter facilitado

1037
A Lei Constitucional nº 12, de 7 de novembro de 1945, revogou o artigo 177 da Constituição de 1937.
648

a leitura das críticas que fazia ao sistema de promoções do Exército na tribuna da Câmara, o
que Pessoa considerou um abuso de autoridade, deixando-lhe, em suas palavras, com o
“espírito repugnado”. Em 27 agosto de 1947, o chefe da pasta da Guerra enviou um novo
ofício a Pessoa, dessa vez convidando-o a assumir o comando da Zona Militar do Centro. As
atitudes contraditórias do chefe da pasta da Guerra deixaram Pessoa profundamente irritado.
Na resposta que deu a Canrobert, fez questão de mostrar ao ministro toda a sua indignação
com a punição que lhe fora imposta e que considerou injusta. Lembrou que, na conversa que
os dois tiveram, havia deixado claro que não havia publicado e tampouco autorizado a
publicação da carta lida por Machado. Apenas havia permitido que o deputado fizesse
referência a ela na tribuna da Câmara. Ressaltou que considerava um “intolerável vexame”
para o Exército ver que os seus generais estavam sendo punidos por “pretextos
injustificáveis”. E avisou Canrobert que, enquanto não lhe fosse dada a liberdade de discutir a
questão da punição de “general para general”, considerava-a aberta. Quanto ao convite para o
comando da Zona Centro, disse que estava cioso de suas obrigações e que nada mais lhe cabia
do que cumprir as ordens legais das autoridades. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIV, p. 9-
10)
O ofício de Pessoa foi o que bastou para que se seguisse uma intensa troca de
mensagens entre os dois generais, por meio das quais acusaram-se mutuamente, como se pode
ver na sua narrativa biográfica. Canrobert lembrou a Pessoa que ele teve a chance de
conversar de “general para general” quando o chamou ao seu gabinete para tratar do fato
ocorrido na Câmara dos Deputados. Quanto à promoção, o ministro ressaltou que a escolha
dos generais se dava entre aqueles que satisfaziam as condições da Lei de Promoções e que se
ele, Pessoa, não havia sido promovido era porque não havia conquistado, e tampouco iria
conquistar, o direito à promoção. Em relação ao comando da Zona Centro, Canrobert
informou-o que o havia convidado por uma “questão de ética militar”. Entretanto, devido à
carta e o modo como Pessoa havia tratado a questão, informou que se sentia livre para
oferecer o cargo para outro general. Em um dos tantos ofícios trocados, ainda acusou Pessoa
de querer transformar um “caso lamentável de rotina [...] em um ruidoso caso pessoal”.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIV, p. 14-18 e 28)
Pessoa tomou as palavras de Canrobert como um insulto e disse aceitar o “repto” do
ministro “onde, quando e como” ele quisesse. Entretanto, lembrou-lhe que os verdadeiros
generais, de todos os tempos, não se enfrentavam com “parágrafos de regulamentos” ou com
“encontros ridículos de armas”, mas, sim como lhes exigiam o “brio e as suas alevantadas
responsabilidades perante a Nação”. Em relação à crítica que Canrobert fizera sobre o mérito
649

da sua promoção, disse ao ministro que jamais iria solicitar ou entrar em conchavos para
consegui-la, já que as promoções que vinham sendo feitas baseavam-se no arbítrio e nas
“simpatias pessoais” do presidente da República, apesar de existir uma lei que regulasse tal
processo. Ressaltou, também, que se, diante dos 47 anos de serviços prestados ao Exército e à
Nação e do reconhecimento que tinha perante a classe militar, não havia conquistado os
méritos necessários para a promoção a general-de-exército, não conseguia compreender os
critérios de escolha do ministro e, tampouco, a sua afirmativa de que ele jamais ascenderia a
este posto. E afirmou que era justamente sobre este assunto – a conduta irregular de alguns
chefes militares que negavam direitos a vários generais do Exército – que queria tratar de
“general para general” com Canrobert. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIV, p. 20-21)
Em relação à maneira como Canrobert vinha exercendo as suas funções de ministro,
Pessoa acusou-o de estar seguindo os “exemplos abusivos e dolorosos” dos homens que
foram responsáveis pela ditadura do Estado Novo, ao perseguir e menosprezar o prestígio de
alguns dos mais dignos generais do alto comando do Exército. Também criticou a forma
como o chefe da pasta da Guerra encarava a função pública. Não acreditava que, em um
Exército onde tudo estava por se organizar, existissem homens sem trabalhar. E usou a sua
própria situação como exemplo, já que há meses havia retornado de Londres e continuava sem
função alguma. Atribuiu ao ministro a responsabilidade de ter aumentado a estrutura orgânica
da Instituição sem razão alguma, o que acarretou o aumento dos quadros de oficiais e praças,
sem terem funções a desempenhar. Segundo Pessoa, estes viviam dos cofres públicos sem
trabalhar, o que era inadmissível, justamente em um momento em que a Nação passava por
grandes problemas financeiros. Por fim, destacou ao ministro que as ações por ele praticadas
não fortaleciam a moral e a disciplina do Exército; ao contrário, serviam para formar parasitas
dentro da Instituição e desonrar a classe militar. Os “atos de mandonismo” praticados por
Canrobert não eram, para Pessoa, outra coisa senão um “abuso de autoridade” e uma “nova
forma de disponibilidade punitiva e discricionária” contra os direitos e deveres dos homens,
do Exército e da Nação. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIV, p. 22-23)
Em 23 de julho de 1948, José Pessoa assumiu o comando da Zona Militar do Sul, o
que segundo ele, foi uma surpresa, devido aos embates que vinha tendo com o ministro
Canrobert. Em seu discurso de posse lembrou o longo período em que ficou sem função. Ao
dirigir-se aos seus subordinados, disse esperar deles o zelo e o respeito pela função pública,
que não deveria ser exercida para o gozo pessoal, e, sim para o trabalho correto, honesto e
profícuo. Aos que exerciam cargos de chefia, lembrou que o chefe comandava pelo exemplo
e, somente desta maneira, seriam respeitados e estimados pelos seus comandados. Ressaltou-
650

lhes que “no terreno das violências e das prevenções subalternas, não se degrada somente a
autoridade que as pratica, mas a própria instituição é enxovalhada e enfraquecida”. Fez
questão de ressaltar a todos que o funcionário público, fosse ele militar ou civil, era pago pelo
Estado e, assim, era obrigado a prestar uma tarefa em prol do bem-estar da coletividade. E,
apesar de tecer longas considerações a respeito do esforço que iria empreender para
reorganizar e modernizar as forças militares do Sul, o que mais repercutiu nos jornais da
Capital Federal foi a crítica que fez ao homem brasileiro. Para Pessoa, era lamentável que
este, sendo “dono de uma riqueza imensurável e sempre tão cheio de patriotismo e amor ao
trabalho”, estivesse, naquele momento da história do País, “mergulhado em estranha apatia,
dominado por enervante comodismo e guiado por uma rotina que emperra os mais sagrados
empreendimentos e as mais elementares tarefas”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIV, p. 34-
35)
A respeito da fala de Pessoa, o Jornal do Brasil, em sua edição de 6 de agosto, sob o
título “Grito de Alerta”, publicou um longo texto, no qual afirmou não haver análise mais real
do “clima psíquico” pelo qual passava a maioria dos brasileiros. Para o redator da matéria, o
povo brasileiro passava por um período de descrença: nas leis, nas autoridades, na
honestidade e no trabalho. Essa apatia geral, segundo o repórter, era uma herança dos vícios
do caudilhismo que havia tomado conta da direção política do País durante a ditadura do
Estado Novo, uma época na qual os “valores humanos positivos” tiveram que ceder lugar às
predileções do chefe. Em decorrência disso, o mérito, no País, tinha se tornado uma virtude
esquecida e até incomodava. Sendo assim, o editorialista ressaltou que as palavras de José
Pessoa deveriam ser tomadas, pelos intelectuais, governantes e imprensa, como um “grito de
alerta”, para que fosse levada adiante uma “cruzada” pela “redenção da fé no espírito
brasileiro”.1038 O Diário Carioca apontou que as palavras de Pessoa chegavam em uma hora
oportuna, já que era do conhecimento de todos que uma grande parcela daqueles que
detinham o poder público no País não tinham a consciência perfeita de seus deveres e
responsabilidades. Sendo assim, o redator entendia que elas deveriam ser amplamente
divulgadas, para que se pudesse iniciar no País uma “campanha de mobilização de todas as
energias e todas as boas vontades dos brasileiros”.1039
José Pessoa não relata, em sua autobiografia, o dia a dia da função. Somente considera
que, no curto período em que esteve à frente das unidades militares das 3ª e 5ª Regiões
Militares, realizou diversas inspeções, quer na parte administrativa, quer na instrução das

1038
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 6 ago. 1948, p. 5.
1039
Diário Carioca, Rio de Janeiro, 25 jul. 1948, p. 4.
651

mesmas. Tinha a opinião de que a cada vez que as suas opiniões repercutiam nos noticiários
dos principais periódicos do País, como no caso do seu discurso de posse da ZMS, ressurgia o
“ciúme mórbido” e a “prática de atos torpes” dos seus desafetos do Exército. Afirma, em suas
memórias, que, apesar dos inúmeros e extensos volumes de relatórios que produziu e das
centenas de estudos que realizou a respeito das condições dos armamentos, equipamentos e
instalações das unidades militares da Zona Sul, os quais foram dirigidos ao Ministério da
Guerra, nada foi feito por Canrobert para implementar quaisquer tipos de melhorias nos
quartéis sob o seu comando direto. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIV, p. 44)
Como exemplo desse ciúme desmedido dos seus desafetos, Pessoa faz referência a um
livreto elaborado e publicado pelo major Aristides Correa Leal em abril de 1948, intitulado
“Um Chefe Militar”.1040 Nesse pequeno trabalho de 20 páginas, Aristides Leal reuniu duas
cartas e duas ordens do dia produzidas por José Pessoa: a citada carta enviada ao deputado
Lino Machado, considerações de Pessoa sobre o problema do petróleo brasileiro, uma ordem
do dia alusiva à Batalha de Guararapes e uma ordem do dia dirigida aos militares da ZMS,
que tratava do papel das Forças Armadas na política nacional. Leal justificava a publicação
por considerar esses quatro pronunciamentos de Pessoa fundamentais para o desenvolvimento
da personalidade militar dos oficiais do Exército, ainda mais em um momento em que,
segundo ele, todos estavam vivendo em um mundo “infenso à justiça, à liberdade e ao
direito”. Para o major, em meio a chefes militares que não tinham o hábito de se
pronunciarem sobre os problemas do País enquanto estavam na ativa, a voz de Pessoa era uma
das poucas que indicavam o melhor caminho a ser seguido por quem desejasse o progresso da
Pátria e o bem-estar do povo.
Segundo Pessoa, o autor do livreto foi chamado ao gabinete do ministro da Guerra,
sendo-lhe proibida a publicação da obra. O que o entristeceu, no entanto, foi o fato de a
censura ter sido feita pelo general Newton de Andrade Cavalcanti, seu velho amigo dos
bancos da Escola Militar, que, na ocasião, respondia pela pasta da Guerra. Magoado com o
amigo que havia se vendido “a preço tão baixo” aos seus desafetos, Pessoa cortou relações
com Newton Andrade, a quem nunca mais dirigiu a palavra. As edições da obra que ainda não
haviam sido distribuídas foram confiscadas e incineradas pelo Ministério da Guerra.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIV, p. 49-50)
Ao longo de 1949, José Pessoa mobilizou esforços para a organização da defesa dos
pontos sensíveis do território abrangido pela Zona Militar do Sul. Após enviar vários

1040
O livreto faz parte do Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). Está incluído no arquivo JPvp1948.08.11, docs.
0331 a 0338.
652

relatórios ao Ministério da Guerra solicitando a melhoria e a substituição dos armamentos


obsoletos das unidades militares que inspecionara, e não obter nenhuma resposta, resolveu, no
mês de maio, ir pessoalmente à Diretoria de Material Bélico (DMB), a fim de saber a
possibilidade de fornecimento dos armamentos que considerava indispensáveis à defesa
daquelas localidades. No órgão, ouviu que não havia armas suficientes para serem fornecidas,
já que o plano de redistribuição elaborado pelo Estado-Maior do Exército para o ano de 1949
havia sido prejudicado pela venda de grande parte do armamento brasileiro à República
Dominicana, o que teria prejudicado os estoques de reserva para a defesa do País. Em ofício
enviado ao ministro Canrobert por intermédio do EME, Pessoa mostrou-se indignado e
surpreso com a venda, ainda mais pelo fato dela ter sido feita a um país que passava por uma
ditadura1041 e pelo fato dos chefes militares do alto comando do Exército não terem sido
consultados. Lembrou ao ministro que silenciar diante desse fato significava renunciar à
responsabilidade, aos deveres e às obrigações para com o Exército e a Nação.1042
No final de junho, Canrobert mandou o diretor de Material Bélico, general Orestes da
Rocha Lima, apurar os fatos em torno da estada de Pessoa na DMB. Os oficiais que
atenderam Pessoa confirmaram que ele realmente havia estado no órgão, a fim de verificar a
possibilidade de fornecimento de armas para a ZMS. Também confirmaram que lhe foram
passadas informações sobre a venda de armamento para a República Dominicana. Entretanto,
negaram que haviam dito que as reservas de armamento do País estavam comprometidas e
que as afirmações feitas por Pessoa sobre esse fato não passavam de inverdades. Por sua vez,
o chefe do EME, general Fiuza de Castro, lembrou por meio de um ofício ao ministro da
Guerra que a venda do armamento, ao contrário do que afirmava Pessoa, tinha sido feita com
a anuência do alto comando do Exército, e que das negociações, que ocorreram em sigilo,
haviam participado o Ministério da Guerra, o EME e o Conselho de Segurança Nacional. 1043
No dia 2 de julho, As informações prestadas por Rocha Lima e por Fiuza de Castro foram
encaminhadas a Pessoa por Canrobert, que afirmou estar de pleno acordo com os
esclarecimentos prestados pelos generais.1044
Na resposta que deu a Canrobert, em 12 de agosto, Pessoa mostrou-se indignado pelo
fato de os oficiais da DMB terem dito que as suas afirmações não condiziam com a realidade,
uma vez que até os jornais da Capital Federal já haviam noticiado quão escandalosa havia

1041
Pessoa se refere à ditadura de Rafael Leónidas Trujillo Molina, que chegou ao poder em agosto de 1930, na
República Dominicana, e que dela saiu somente em 1961, após ter sido assassinado.
1042
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1948.08.11, doc. 0321.
1043
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1948.08.11, doc.0323.
1044
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1948.08.11, doc. 0325.
653

sido a venda dos armamentos. Dessa forma, ela não poderia ter acontecido em sigilo, como
afirmara Fiuza de Castro. Além disso, ressaltou que a negociação tinha, ainda, os seus efeitos
políticos, devido ao fato de ter sido feita com um país onde vigorava uma terrível ditadura. E,
por fim, teceu extensos comentários a respeito dos inúmeros relatórios que havia enviado à
pasta da Guerra e as implicações que o não fornecimento de novas armas e equipamentos
teriam para as unidades militares que guarneciam as fronteiras do Sul. Ao ofício, anexou,
ainda, um relatório reservado enviado pelo diretor de Material Bélico ao chefe do EME, no
qual estavam relacionados as dezenas de milhões de cartuchos de munições (de todos os
calibres), as dezenas de milhares de fuzis e granadas, as centenas de metralhadoras e as
dezenas de canhões e morteiros que haviam sido vendidos ao ditador Trujillo.1045
A publicidade dada à negociata das armas a que Pessoa se refere é uma série de
reportagens feitas pelo jornalista Joel Silveira, antigetulista convicto e conhecido opositor da
política de Dutra, entre agosto de outubro de 1948, no jornal Diário de Notícias1046. Nelas,
Silveira criticou fortemente a venda de armas feita pelo governo brasileiro à República
Dominicana. Em uma delas, chegou a relacionar o material de guerra vendido. O transporte
dos armamentos teria sido feito em três remessas, entre novembro de 1947 e setembro de
1949, por um navio da marinha dominicana, que sempre partia do Arsenal da Ilha das Cobras,
no Rio de Janeiro. A reportagem mais polêmica, porém, dava conta que a negociação, da
ordem de U$ 1.500.000,00 (um milhão de dólares, à época em torno de Cr$ 30.000.000,00),
teria sido realizada no câmbio negro. Ao invés de depositar o cheque do pagamento do
armamento no Banco do Brasil, utilizando o câmbio oficial, o ministro Canrobert teria se
utilizado de um intermediador, que o depositou em um banco privado, utilizando o câmbio
paralelo, com um lucro de Cr$ 8,00 por dólar. O Ministério da Guerra jamais teria recebido a
diferença.
Em suas memórias, Pessoa aponta que, anos mais tarde, em 1952, já com Vargas na
presidência, novamente, um inquérito teria sido instaurado pelo governo para apurar
irregularidades no Banco do Brasil. O resultado a que chegou esse procedimento apontou o
envolvimento de vários militares do alto comando do Exército, dentre eles o general
Canrobert, em atos ilegais praticados ainda durante o Governo Dutra. Além do recebimento
do dinheiro pago pelas armas vendidas à República Dominicana por meio do “câmbio negro”,
o ex-ministro ainda teria feito, nos EUA, uma compra irregular de farinha de trigo para
abastecer o Exército, o que teria gerado um prejuízo de milhões de cruzeiros à Nação. Em

1045
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1948.08.11, doc. 0327.
1046
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, Segunda Seção, 29 ago. 1948; 1, 5, 12 e 19 set. 1948; 9 out. 1948.
654

uma carta enviada ao jornal O Globo1047, Canrobert afirmou que esses atos foram praticados
por ordem verbal de Dutra. Segundo Pessoa, o ministro da Guerra à época, general Espírito
Santo Cardoso, sabedor de todas as irregularidades administrativas praticadas na gestão
anterior, nenhuma providência tomou. Canrobert sequer teria sido punido.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIII, p. 22-24)
No fim de toda a história, Pessoa acabou não recebendo o armamento que tanto
necessitava. Na narrativa que faz em sua autobiografia, escrita quatro anos após terem se
passado esses fatos, relembra que o “crime de lesa-pátria” que teria sido cometido por
Canrobert, Fiuza de Castro e, até mesmo, por Dutra, ajudaram a corromper a moralidade
administrativa nacional, o que revelava a decadência moral em que o País ainda vivia, em
1953. Nunca é demais lembrar que Pessoa escreveu suas memórias durante o segundo
governo de Vargas. Para ele, a Nação somente viveria e trabalharia tranquilamente quando
fossem alijados do governo os militares politiqueiros que causavam a desordem do País. No
entanto, isso só aconteceria, no seu entender, por meio de uma profunda reforma do alto
comando do Exército, afastando-se alguns generais “apodrecidos na politicagem” e outros que
viviam “enfurnados na crônica burocrática dos gabinetes”. A esperança do Exército, para ele,
estava na mocidade militar, na oficialidade “moça e patriota”, cerne da classe militar e
“sustentáculo das instituições democráticas da Nação”, que havia sido educada em uma nova
e eficiente Escola Militar e que, por isso, era fiel aos seus deveres, à sua profissão e ao seu
juramento de defender a Pátria. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIII, p. 9-10)
Durante o Governo Dutra, José Pessoa se envolveria, ainda, na campanha nacionalista
em prol do monopólio estatal do petróleo. A luta pela estatização do petróleo brasileiro
ganhou força a partir de fevereiro de 1947, quando Dutra, por meio do Conselho Nacional do
Petróleo1048, mandou constituir a Comissão de Anteprojeto da Legislação do Petróleo, com a
finalidade de rever as leis de exploração do petróleo brasileiro à luz da nova Constituição
federal. Cabe salientar que a Constituição de 1946 passou a aventar a possibilidade, em seu
artigo 153, de se desenvolverem, no País, a pesquisa e o desenvolvimento de recursos
minerais na forma de concessão. Sendo assim, conforme o texto da nova Carta Magna,

1047
O Globo, Rio de Janeiro, 22 nov. 1948, p. 4.
1048
Órgão criado no governo do Estado Novo, a fim de possibilitar ao governo brasileiro o controle da indústria
petrolífera no País, para o qual colaborou decisivamente o general Júlio Caetano Horta Barbosa. O CNP também
estabeleceu limites para a exploração mineral no Brasil, como a determinação de que apenas brasileiros natos
pudessem ser acionistas de empresas de mineração. Cabe ressaltar, porém, que desde 1934 já vigorava o Código
de Minas, que estabeleceu a separação legal entre a propriedade do solo e do subsolo, considerando as riquezas
minerais presentes nesse último como bens alienáveis da União. (MARTINS, 2015, p. 404)
655

passou-se a admitir a participação de capitais estrangeiros na exploração do petróleo, desde


que integrados em empresas constituídas no Brasil.
A criação do Estatuto do Petróleo, como ficou conhecido o anteprojeto de Dutra,
motivou um intenso debate entre intelectuais e empresários País em torno da interferência
estrangeira na exploração do petróleo brasileiro. Até mesmo o escritor Monteiro Lobato
envolveu-se na polêmica, ao defender que a exploração deveria ser exclusiva da iniciativa
privada nacional. No livro O Escândalo do Petróleo e Ferro, de sua autoria, cuja primeira
edição foi lançada em 1936, Lobato culpou o Estado pelas dificuldades da exploração do
petróleo do País. Para o escritor, o controle que o governo exercia sobre o setor petrolífero,
favorecia os trustes internacionais. Esse insucesso brasileiro a que Lobato se referia, segundo
Martins (2015, p. 405), gerava muitas discussões e desconfianças. Técnicos do Serviço
Geológico do Ministério da Agricultura, inclusive, justificavam a não descoberta de jazidas
pelo baixo potencial petrolífero do Brasil. No entanto, tais argumentos eram vistos com muita
desconfiança. Havia uma forte crença no País, de que o mesmo era potencialmente rico em
petróleo. Apenas não se encontravam as jazidas porque “forças ocultas” as impediam.
A luta pela elaboração de uma legislação nacionalista acabaria por envolver, também,
os militares. A Segunda Guerra Mundial mostrou que o petróleo havia se tornado um item
essencial à defesa nacional. Muitos militares ligados à FEB viam, inclusive, com bons olhos o
investimento de capitais estrangeiros, principalmente o norte-americano, nos setores
estratégicos da economia brasileira. Sonhavam com um Plano Marshall para a América
Latina, o que acabou não acontecendo, já que os olhos do governo dos EUA estavam voltados
para a Ásia e para a Europa, palcos da luta entre o comunismo e o capitalismo. Esse foi um
fator fundamental para que Dutra buscasse a liberalização do setor petrolífero brasileiro, com
a finalidade de atrair o capital estrangeiro, o que se daria por meio do regime de concessões.
Dessa forma, acionistas estrangeiros poderiam participar da indústria do petróleo no Brasil,
desde que se submetessem às restrições que se impunham ao percentual de capital externo no
negócio e à distribuição do produto, já que a prioridade era o abastecimento do mercado
interno e não a exportação. (MARTINS, 2015, p. 404-405)
Na verdade, o Estatuto proposto por Dutra não agradou a ninguém. Por ficar no meio
termo entre a liberalização e a nacionalização do setor do petróleo, recebeu intensas críticas
tanto de quem pugnava pela participação da iniciativa privada, como daqueles que defendiam
o monopólio estatal, o que acabou por provocar um intenso debate sobre o tema. O palco
dessas discussões, no meio militar, foi o Clube Militar, que promoveu uma série de palestras
sobre o tema, nos meses de maio e junho de 1947.
656

O primeiro palestrante foi Juarez Távora. No dia 21 de maio, o auditório do Clube


encontrava-se lotado para ouvir o ex-ministro da Agricultura de Vargas e principal inspirador
do Código de Minas de 1934. Perante um público atento, Távora defendeu o Estatuto do
Petróleo. Afinal de contas, era um dos membros da comissão que elaborava o anteprojeto de
Dutra. Embora admitisse, no seu discurso, a participação do capital estrangeiro na exploração
do petróleo, como aponta Victor (1970, p. 194), ele tinha reservas quanto ao procedimento
desse capital fora do Brasil. Inclusive, um dos aspectos fundamentais da nova lei, caso fosse
aprovada, era de que o controle da indústria petroleira se daria pela predominância do capital
nacional, que se daria nos elos intermediários da indústria, da refinação e do transporte,
através dos quais mais facilmente se estabeleciam os monopólios. No seu livro Petróleo Para
o Brasil, Távora deixa claro que o problema do petróleo brasileiro era de abastecimento.
Solucioná-lo era fundamental para a economia do País e o bem-estar social da Nação. Além
disso, tratava-se de uma questão de segurança nacional. O ideal, segundo ele, era que o Brasil
tivesse o controle total das suas fontes de combustíveis fósseis, o que era impossível naquele
momento, devido à deficiência de recursos próprios do País, como capital, tecnologia e
pessoal especializado para a exploração. A solução rápida só seria alcançada, segundo ele,
com a entrada de capital estrangeiro. (TÁVORA, 1955, p. 86-87)
O contraponto aos argumentos de Távora foi realizado pelo general Horta Barbosa, no
dia 30 de julho, no mesmo auditório do Clube Militar. Jornalistas, técnicos em petróleo,
representantes das Forças Armadas, estudantes, políticos e membros das mais variadas classes
sociais lotaram as instalações do clube para ouvir o ex-presidente do Conselho Nacional de
Petróleo. Em seu discurso, Barbosa ressaltou que o petróleo era a base da economia e da
defesa militar de um país. Portanto, não havia como se associarem, na indústria petroleira, o
Estado e a iniciativa privada. Para ele, se tal indústria visasse somente o lucro, perderia o seu
caráter de utilidade pública. Entregá-la, então, ao capital estrangeiro, mesmo que sob a forma
de sociedades mistas, era uma injustiça social. O petróleo pertencia à Nação, que “havia de
dividi-lo igualmente entre todos os seus filhos”. Defendeu que o controle de todo o setor de
petróleo deveria caber ao Estado. A pesquisa, a lavra e a refinação constituíam, segundo
Barbosa, as “partes de um todo, cuja posse assegura poder econômico e poder político”.
Sendo assim, entendia não ser possível conferir a terceiros o exercício da atividade, que se
confundia com a própria soberania nacional. No seu ponto de vista, os problemas mais
imediatos poderiam ser solucionados com a nacionalização do setor de refino. Os altíssimos
lucros das refinarias nacionais custeariam as pesquisas e a exploração do petróleo e
657

poupariam divisas do Estado com a importação de combustíveis. (VICTOR, 1970, p. 200-


204)
Apesar das fortes divergências existentes entre Távora e Horta Barbosa, Martins
(2015, p. 408) aponta que havia pontos em comum nas posições defendidas pelos generais.
Primeiramente quanto à autonomia no abastecimento básico de energia, que, para ambos, era
uma questão de segurança nacional. O outro ponto convergente era a necessidade da
participação ativa do Estado no controle da indústria do petróleo.
Victor (1970, p. 196-197) lembra, ainda, que, entre as conferências de Távora e Horta
Barbosa, a bancada comunista da Câmara dos Deputados apresentou um projeto de lei que
instituía um regime legal para as jazidas de petróleo e de gases naturais do País. Basicamente,
a proposta considerava essas jazidas bens inalienáveis da União e, devido a isso, o direito de
pesquisa e lavra do petróleo e dos gases naturais só poderiam ser outorgados a pessoas físicas
ou jurídicas nacionais, constituídas, estas, unicamente de sócios ou acionistas brasileiros.
Previa, também, que o Instituto Nacional do Petróleo poderia organizar companhias de
economia mista, com capital do governo e de particulares nacionais, para a pesquisa, a lavra, a
industrialização, o transporte e o comércio do petróleo e seus derivados. Daí a crítica feita por
Horta Barbosa às sociedades mistas, em sua conferência de 30 de julho. Conforme ressalta o
autor, em um momento em que os debates se dividiam entre o monopólio e a iniciativa
privada, o projeto comunista nada contribuía à defesa dos interesses nacionais. Como aceitava
a iniciativa privada nacional, colidia com a proposta monopolista dos nacionalistas. Além
disso, nenhuma garantia havia de que a participação do capital particular nas sociedades de
economia mista não se daria por intermédio de “testas de ferro” dos trustes internacionais.
Diante do fato de o Partido Comunista ter sido colocado na ilegalidade pelo governo Dutra e a
consequente cassação dos mandatos dos deputados comunistas na Câmara, em janeiro de
1948, a proposta não seguiu adiante.
Aos poucos a campanha nacionalista foi angariando a simpatia popular e ganhando
adesões importantes de associações de classe e estudantis, como a Comissão Unificadora dos
Trabalhadores da Light e o Clube Positivista, no Rio de Janeiro, que propuseram ao governo a
criação de uma Campanha Nacional do Petróleo, com o objetivo de se fundar uma indústria
petrolífera nacional, e a União Nacional dos Estudantes (UNE). Também em São Paulo, o
general Horta Barbosa já havia, em outubro de 1947, conseguido despertar na juventude
estudantil paulista o interesse pelo problema do petróleo, com a mobilização do Clube XI de
Agosto, da Faculdade de Direito, em prol do monopólio estatal do petróleo. (VICTOR, 1970,
p. 206)
658

No começo do ano de 1948, a campanha nacionalista pelo petróleo ganharia a adesão


de duas figuras cujas opiniões tinham um grande impacto na opinião pública nacional. A
primeira, uma das mais altas personalidades da política nacional e ex-presidente da República,
era Arthur Bernardes, que em 30 de janeiro assim pronunciou-se a favor da tese do general
Horta Barbosa, no periódico Jornal de Debates1049:

Consentir que o nosso petróleo caia em mãos estrangeiras ou de estrangeiros


“camuflados” em nacionais é o mesmo que entregar a inimigos potenciais a melhor
arma da nossa defesa militar e econômica. Não façamos com o nosso petróleo o que,
desgraçadamente, a ditadura acabou fazendo com o minério de ferro brasileiro, cujo
controle perdemos. (BERNARDES, 1948 apud VICTOR, 1970, p. 222)

A outra personalidade era José Pessoa, que, indagado a respeito do monopólio estatal
do petróleo, pelo referido semanário carioca, assim se pronunciou por meio de carta,
publicada na edição de 20 de fevereiro:

O que devo responder, como brasileiro, interessado sinceramente na solução


irrevogável desse problema de defesa e economia, é que, em face dos exemplos
desastrosos experimentados por vários países, que entregaram a exploração do seu
subsolo aos grandes trustes estrangeiros, sou contrário à exploração do nosso
petróleo mediante concessões estrangeiras, sob qualquer forma por que elas se
apresentam.
O problema do petróleo, ultimamente debatido com elevação e patriotismo pelos
mais altos técnicos e estudiosos, é assunto que interessa a todos, militares e civis, já
que esse “ouro fluído” representa talvez o elemento mais precioso na vida dos
povos, que o disputam afoitamente, pela enorme importância que desempenha seus
produtos nas ações de guerra e pela variada aplicação nos tempos de paz.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XI, p. 1-2)

Em 7 de abril de 1948, o auditório do Clube Militar tornou-se novamente o palco para


a defesa da tese nacionalista do petróleo. Dessa vez para Arthur Bernardes, que mais uma vez
defendeu, perante uma entusiasmada plateia, o monopólio estatal. Salientou que, se o
problema do petróleo fosse mal resolvido, os brasileiros teriam o seu futuro comprometido e
passariam para a história como um povo incapaz, que não merecia “o maravilhoso país que a
Providência lhe destinou”. Com o petróleo, ressaltou Bernardes, o Brasil se tornaria, em um
futuro breve, uma poderosa nação. Sem ele, o País seria mera “figura decorativa no palco

1049
O Jornal de Debates era um semanário carioca que circulou entre os anos de 1946 e 1951. Foi fundado em
21 de junho de 1946 por João Augusto Matos Pimenta, Mário de Brito e Plínio Catanhede. Conforme aponta
Penna (2003, p. 87), no editorial do primeiro número do periódico, lançado em 29 de junho de 1946, já ficava
claro o programa a que se propunha seguir: “a liberdade de pensamentos e o livre debate de ideias [...] sobre
assuntos políticos, econômicos e sociais, não importando a cor política, a escola filosófica e o credo religioso dos
autores”. Com a polêmica gerada em torno do Estatuto do Petróleo, Victor (1970) mostra que o jornal se tornou
o principal espaço de debates entre nacionalistas e entreguistas, como ficaram conhecidos os que pugnavam pelo
capital estrangeiro na exploração do petróleo nacional. Figuras de destaque no cenário político e econômico
nacional foram convidadas pelo jornal a publicar, em suas páginas, artigos versando sobre o tema. Dentre elas,
Horta Barbosa, Juarez Távora, Luis Carlos Prestes, Sylvio Fróes, Arthur Bernardes e José Pessoa.
659

mundial” e mais um dos “satélites das grandes potências”. (BERNARDES, 1948 apud
VICTOR, 1970, p. 230)
Como bem aponta Victor (1970, p. 231), em abril de 1948 o movimento contra o
Estatuto do Petróleo, que já havia penetrado nas escolas, nas faculdades, nos órgãos públicos
e nas fábricas, se tornara tão grande que passou a ser necessária a aglutinação de todas essas
forças sob um comando único, para que os objetivos a que se propunha fossem atingidos com
mais segurança. Nesse contexto, uma semana após a conferência de Arthur Bernardes no
Clube Militar, foi fundado, no Rio de Janeiro, o Centro de Estudos e Defesa do Petróleo
(CEDP). Na primeira reunião do Centro, foi eleita a diretoria, composta por membros civis e
militares. Coube ao engenheiro Luiz Hildebrando Horta Barbosa o exercício da presidência.
Por aclamação, foram eleitos presidentes de honra o ex-presidente Arthur Bernardes e José
Pessoa. Constava, também, no estatuto do Centro que todo presidente da UNE se tornava
presidente de honra do CEDP.
No dia 21 de abril, uma solenidade realizada no Automóvel Clube do Rio marcou a
instalação do CEDP. Sob o lema “O petróleo é nosso!”, o CEDP tinha por objetivo, como
aponta Victor (1070, p. 231), promover uma larga campanha de esclarecimento da opinião
pública através de artigos, conferências, debates, comícios, caravanas e demais meios
constitucionais e democráticos, visando à congregação dos brasileiros que pugnavam pela tese
nacionalista de exploração do petróleo. Em um manifesto dirigido aos brasileiros, o Centro
lembrava que do caminho a ser escolhido na exploração das riquezas petrolíferas do Brasil,
dependiam a sorte das futuras gerações e da soberania do País. O evento foi pouco noticiado
pela imprensa carioca1050. José Pessoa não pôde comparecer, porém enviou uma carta à
diretoria do CEDP, que foi publicada nas edições do dia 23 de abril, do Jornal de Debates, e
do dia 24 de abril, do Diário de Notícias. Nela, Pessoa agradecia e dizia sentir-se honrado
pela escolha de seu nome para a presidência de honra da instituição. Porém, devido ao que
prescrevia os regulamentos do Exército e por estar ainda na ativa, ressaltou que não podia,
como era do seu desejo, aceitar a homenagem. Do longo texto que produziu, cabe ressaltar as
mais significativas passagens:

...não creio que o nosso Parlamento, que possui tantos homens inteligentes,
esclarecidos e patriotas, deixe passar, sem demoradas e necessárias investigações,
qualquer projeto sobre esse problema vital e salvador da política econômica e da
defesa militar da nossa Pátria. Não é curial que o pensamento de meia dúzia de
nossos homens, expresso em polpudo relatório, possa decidir sobre aquilo que
pertence a 50 milhões de brasileiros, em grande parte ciosos de seus direitos,

1050
Diário de Notícias, 22 abr. 1948, p. 1; Diário Carioca, 20 abr. 1948, p. 8; O Jornal, 20 abr. 1948, p. 3.
660

deveres e responsabilidades, desprezando-se uma útil auscultação ao restante da


opinião nacional.
........................................................................................................................................
O gesto veemente e descabido, contido no relatório da Comissão der Legislação do
Petróleo, manifestando-se favoravelmente à entrega das nossas jazidas de petróleo à
exploração dos trustes estrangeiros, contém expressões desatenciosas, como estas: -
“que o façam os que, por esse ou por aquele motivo, tudo esperam dos soviets,
compreende-se. Agem, conscientes ou não, como cartas do seu jogo”. Eu
aconselharia àquela Comissão mais ponderação de linguagem em documentos de tal
relevância, pois, a cooperação e a fraternidade, em assuntos dessa natureza, devem
ser o procedimento normal entre os homens que têm consciência se suas
responsabilidades.
........................................................................................................................................
Contudo, reafirmamos: é crime de lesa-pátria, um atentado e uma ameaça à
existência nacional, diante dos exemplos desastrosos de outros países, entregar aos
trustes estrangeiros a exploração e o aproveitamento da riqueza petrolífera do
Brasil.1051

Com o passar dos meses, segundo Martins (2015, p. 409), as teses defendidas pelo
general Horta Barbosa começaram a tornar-se hegemônicas entre os “homens de farda”.
Segundo o autor, em 1949, a grande maioria dos oficiais do Exército desejava o monopólio
estatal. Victor (1970, p. 260) corrobora essa afirmação, ao apontar que, durante o mês de
julho de 1948, dezenas de oficiais da 3ª Região Militar haviam enviado telegramas o general
Estillac Leal, comandante da 3ª RM, solicitando conferências de Horta Barbosa sobre o
problema do petróleo. No mês seguinte, os professores e centenas de oficiais alunos da Escola
Técnica do Exército, no Rio de Janeiro, pediram a Horta Barbosa para aderirem à campanha
do CEDP. Para Martins (2015, p. 409), a tarefa dos oficiais nacionalistas de agregar os
militares do Exército em torno do monopólio do petróleo ficou mais fácil com a eleição de
Estillac Leal à presidência do Clube Militar, já que este também era um entusiasta da causa.
Aliás, a respeito dessa participação do Clube Militar, José Pessoa aponta em sua
autobiografia que os generais “simpáticos aos comunistas”, que faziam parte da diretoria
dessa instituição, em 1948, mais atrapalharam a campanha do petróleo do que a ajudaram.
Para Pessoa, nesse período os comunistas teriam se aproveitado desses militares e da
campanha do “Petróleo é Nosso” para disseminarem a sua ideologia dentro da classe militar.
Nas suas palavras, “os partidários da ideia nacionalista, como era o meu caso, eram por eles
aplaudidos e envolvidos com astúcia nas suas apreciações, dando a impressão de serem todos
partidários do seu objetivo oculto”. A repulsa da classe a esses militares, segundo ele, ficou

1051
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 24 abr. 1948, Segunda Seção, p. 1 e 3.
661

evidente com a renovação da diretoria, com a eleição de Estillac Leal à presidência, em


1950.1052 (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XI, p. 12)
E foi justamente a participação dos comunistas na campanha em prol do monopólio
estatal o pretexto utilizado pelo grupo que apoiava o uso do capital estrangeiro para
enfraquecer o movimento nacionalista. Segundo Victor (1970, p. 259), “a arma de mais fácil
manejo era a classificação do movimento como de caráter nitidamente comunista, a fim de
incompatibilizá-la com as amplas camadas da opinião pública”. Como aponta o autor, no dia
17 de junho de 1948, o CEDP havia programado um grande comício no Vale do Anhangabaú,
em São Paulo. Nas madrugadas dos dias anteriores, foram praticados atos de vandalismo por
partidários contrários à campanha, com a retirada e o destroçamento de faixas e cartazes. No
Largo do Cambuci, uma torre simbólica de madeira, em homenagem aos generais Cordeiro de
Farias e José Pessoa, foi derrubada a golpes de machado. A polícia da capital paulista logo
tratou de associar a baderna a uma “ação subterrânea” de membros do Partido Comunista
envolvidos na Campanha do Petróleo.
Apesar desses problemas, a atuação do CEDP aumentava significativamente. Entre 1
de junho e 30 de julho de 1948, o Centro já havia realizado, no Rio de Janeiro, mais de 30
comícios e 22 conferências. Em São Paulo, entre 20 de junho e 17 de julho, a instituição
realizara 31 comícios e 19 conferências. Esse sucesso levou a direção do Centro a planejar,
em julho, a Primeira Convenção Nacional do Petróleo, cujos trabalhos preparatórios teriam
início a partir de 7 de setembro. De 7 a 29 de setembro seriam realizados os congressos
municipais e estaduais. Finalmente, entre 18 e 21 de outubro aconteceria o congresso
nacional. No entanto, a violência novamente deixaria as suas marcas durante o Congresso do
Distrito Federal, no Rio de Janeiro, em 23 de setembro. Ao encerrar-se a sessão do Congresso,
ocorrida na Associação Brasileira de Imprensa, o vereador José Junqueira sugeriu que as
coroas de flores existentes na mesa dos trabalhos fossem depositadas aos pés da estátua de
Floriano Peixoto, na Cinelândia. As inúmeras autoridades presentes ao ato, dentre eles os
generais Leitão de Carvalho, Horta Barbosa e Raymundo Sampaio, e centenas de pessoas para
lá, então, se dirigiram. No momento em que o orador do evento, coronel Arthur Carnaúba,
fazia o uso da palavra, um grupo de choque da Polícia Especial do Distrito Federal surgiu da
multidão e tentou calar o militar. Ao mesmo tempo bombas de gás foram utilizadas para
dispersar os presentes. Deputados, jornalistas, militares do Exército e até mesmo mulheres

1052
Estillac Leal concorreu contra a chapa do general Osvaldo Cordeiro de Farias, integrante da corrente
simpática à participação do capital estrangeiro na exploração do petróleo nacional. Horta Barbosa foi o vice-
presidente de Estillac.
662

foram espancados e baleados. A situação só foi contida com a chegada de uma tropa da
Polícia do Exército, que conseguiu dispersar os policiais militares. (VICTOR, 1970, p. 261-
262)
Os lamentáveis fatos do dia 23 de setembro ganharam as páginas dos jornais da
Capital Federal e fomentaram um intenso debate na Câmara dos Deputados. Até mesmo os
periódicos que não apoiavam a Campanha do Petróleo, como o Correio da Manhã1053,
condenaram a brutalidade da ação da Polícia. O editorial publicado nesse periódico lembrou
que na Praça Floriano não se encontravam “vagabundos e desclassificados em baderna”, mas
“homens respeitáveis, generais do Exército, cidadãos pacíficos que prestavam [...]
homenagem a um herói nacional”. No entanto, o jornal não deixou de associar a agressão à
presença de elementos comunistas: “O fato de haver comunistas naquele meio, à procura de
pescar em águas turvas, não justifica a violência”. Do outro lado, o jornalista Osório Barbosa,
no Diário de Notícias1054, responsabilizou o ministro da Justiça, Mesquita da Costa, pelos atos
da Polícia, que teria agido “como qualquer um dos seus cruéis beleguins, [...] e, portanto,
perfilhando-lhes as responsabilidades”. Na Câmara, no dia seguinte ao fatídico
acontecimento, o deputado Arthur Bernardes, presidente de honra do CEDP, lembrou aos
presentes: “...quando a Nação se desnivela de um plano superior para outro inferior, em
matéria moral, costuma regenerar-se à custa de sangue. Este sangue começou hoje a derramar-
se... Não lhe dê causa o petróleo!” (BERNARDES, 1948 apud VICTOR, 1970, p. 262). Até
mesmo José Pessoa foi procurado para pronunciar-se sobre os fatos, tendo assim se
manifestado na edição de 24 de setembro, do jornal O Globo:

...em torno da reunião de homens responsáveis que, nas instituições mais


representativas do nosso meio cultural, se reúnem para debater problemas nacionais,
devo declarar:
- Não sou filiado ao Centro de Estudos e Defesa do Petróleo;
- Não me presto a explorações políticas de quem quer que seja;
- Não concordo com o ultraje e as afrontas sucessivas que vem sofrendo a sociedade
e a civilização brasileira por parte daqueles que se dizem mantenedores da ordem
pública e são pagos com o dinheiro do povo para garantir a sua tranquilidade;
- Não concordo com a agitação que se vem fazendo em torno do petróleo, quando o
governo, agora, segue uma diretriz certa, com a compra e instalação de refinarias;
- Não concordo, finalmente, que seja entregue aos trustes estrangeiros a exploração e
a industrialização do nosso ouro negro, fonte excepcional de riqueza, capaz de
restaurar as finanças do Brasil.
Eis o que devo dizer, como cidadão, em resposta à suas perguntas.1055

1053
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 25 set. 1948, p. 4.
1054
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 26 set. 1948, Primeira Seção, p. 3.
1055
O Globo, Rio de Janeiro, 24 set. 1948, Edição Vespertina, p. 1.
663

Com essas declarações, Pessoa aponta, em sua autobiografia, que encerrou


definitivamente a sua cooperação ativa com a campanha de estudos sobre o petróleo. Fica
evidente, em sua narrativa memorial, que o desgostava o uso político das atividades do
CEDP. E não foi somente Pessoa que se afastaria do Centro. Como aponta Martins (2015, p.
410), com o tempo, a campanha pelo monopólio estatal do petróleo tomou ares de uma luta
pela libertação do Brasil, “uma cruzada patriótica pela independência econômica”, a qual, por
sua vez, era vista como uma condição necessária para uma verdadeira independência política.
Essa tendência, segundo o autor, se acirrou ainda mais quando os comunistas aderiram e,
posteriormente, lideraram a campanha, ao fazerem uma forte associação entre a luta pelo
petróleo e o combate ao imperialismo norte-americano. Esse caminho acabou afastando
muitas personalidades do CEDP, até mesmo os seus idealizadores, Horta Barbosa e Arthur
Bernardes. Tampouco agradou as lideranças políticas conservadoras e a cúpula militar, que
passaram a ver no movimento um tom de subversão, como indica Martins (2015, p. 411). Para
eles, a campanha pelo petróleo, ao invés de patriotismo, havia passado a ser mero comunismo.
Daí a dura repressão que ela passou a ter a partir do final de 1948.
Diante de tanta resistência, o Estatuto do Petróleo foi esquecido pelo Congresso e,
inclusive, por Dutra, que passou a se dedicar mais as propostas econômicas do governo, que
ficariam conhecidas como Plano SALTE1056. Entretanto, os militares e políticos nacionalistas
não deixaram de ter a sua vitória em relação ao monopólio do petróleo. Como lembra Martins
(2015, p. 412), esse problema acabaria sendo resolvido poucos anos mais tarde, durante o
segundo governo de Vargas, com a criação da Petrobrás (Petróleo Brasileiro S.A.), em
outubro de 1953.
Em 1949, ano em que José Pessoa deixou o serviço ativo do Exército, a corrida
política para a eleição presidencial começou a ganhar força no País. Com ela, começaram a
surgir os temores de um novo golpe, ou de alguma artimanha política que possibilitasse a
perpetuação de Dutra no governo. A cada vez que era instado a se manifestar sobre a questão
sucessória, o presidente esquivava-se, o que gerava um clima de inquietação no meio político
e na população. Na mensagem de Ano Novo que dirigiu ao povo brasileiro, na passagem de
1948 para 1949, Dutra recomendou o adiantamento do debate sobre a sucessão presidencial,
já que ele poderia ser prejudicial à marcha normal da administração pública.1057

1056
Plano econômico elaborado pelo Governo Dutra que tinha como objetivo estimular o desenvolvimento de
setores como saúde, alimentação, transporte e energia. Daí a sigla SALTE.
1057
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 1 jan. 1949, Primeira Seção, p. 3.
664

Como aponta Pessoa, em sua autobiografia, a partir de 1949, o “irrequieto grupelho”


do alto comando do Exército, insatisfeito com o longo período em que mandou e desmandou
no Exército, iniciou as suas manobras políticas para se manter no poder. Um dos nomes
aventados para concorrer ao cargo de Dutra era o do chefe da pasta da Guerra, general
Canrobert. Em uma visita de inspeção que fez às unidades militares do Sul, no mês de março,
o ministro afirmou à imprensa nada saber sobre a questão e que, se existisse algum
movimento nesse sentido, era à sua revelia. Indagado se aceitaria uma possível candidatura,
respondeu que se fosse político poderia afirmar com certeza que seria candidato. Porém,
ressaltou que, como era militar, e por não pertencer a nenhuma “facção política”, era infenso à
política. Mas, não descartou a possibilidade de lançar o seu nome ao pleito eleitoral do ano
seguinte. Sobre a posição do Exército em relação à política, afirmou que havia criado uma
barreira na Instituição para separá-la da política e que, naquele momento, podia afirmar com
certeza que o Exército estava completamente afastado da política.1058
As declarações do general Canrobert repercutiram na imprensa e geraram um clima de
agitação no seio do Exército. Antevendo a inquietação que as palavras do ministro poderiam
causar nas suas tropas, José Pessoa, em 21 de março, mandou publicar, em boletim interno do
Comando da Zona Sul, as suas orientações para o período eleitoral que se avizinhava, do qual
merecem destaque alguns trechos mais importantes, devido à repercussão que tal documento
causaria:

Na qualidade de comandante da Zona Militar Sul e com o objetivo de orientar os


meus subordinados diretos, devo esclarecer que, vivendo à Margem delas, não
devemos participar das questões políticas de ordem partidária, como, aliás, é de
nossa obrigação, em face da Constituição e dos regulamentos militares. [...]
........................................................................................................................................
A sucessão presidencial é assunto que, particularmente, interessa a todos os
brasileiros, mas os militares devem se manter fora das disputas partidárias, acatando
a decisão das urnas, a qual representa a vontade soberana do povo. Dentro do regime
democrático em que vivemos e de acordo com as leis vigentes do País, se alguém
pode se candidatar e ter o seu nome registrado perante os altos órgãos eleitorais,
assegurando o direito de ser votado, é indiscutível que, se eleito, deve ser
empossado, não pelo Exército, que não tem tal missão, mas, pelas instituições
políticas, às quais deve a Força Armada (sic), manter e garantir, de acordo com a
Constituição que juramos defender.
........................................................................................................................................
Assim sendo, tenhamos particular cuidado com o desenrolar da campanha
presidencial, que ora se projeta no cenário nacional. [...] Hoje não mais
permitiremos explorações com o nome da nossa classe nem seremos ludibriados
pelos obreiros diabólicos de documentos falsos, pois, ainda nos recordamos da
monstruosa aventura política, oriunda de absurdas maquinações, pela qual os
brasileiros ambiciosos assaltaram o poder e, perante a Nação, feriram

1058
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 13 mar. 1949, Primeira Seção, p. 4.
665

profundamente o Exército na sua honra, na sua hierarquia e no seu decoro, fazendo


se seu crime o crime de toda uma classe.1059

A mensagem de Pessoa foi amplamente noticiada pela imprensa de todo o País.


Segundo ele, o jornal gaúcho O Mundo chegou a procurar o ministro Canrobert, para que este
opinasse sobre a mensagem proferida aos militares do Sul. O ministro teria dito que
encontrava nas expressões usadas por Pessoa “o mesmo sentido das declarações que proferiu
em sua recente viagem a Porto Alegre”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIV, p. 55)
No entanto, a repercussão maior do boletim de Pessoa ocorreu no Parlamento
brasileiro, gerando debates acalorados entre os senadores da República, nas sessões do dia 22
de março, das casas legislativas. A celeuma toda se iniciou quando o senador gaúcho Salgado
Filho (Partido Trabalhista Brasileiro – PTB) pediu autorização para ler e fazer constar nos
anais da casa a ordem-do-dia de José Pessoa, alegando que o fazia em virtude das palavras de
Pessoa sustentarem uma tese com a qual todos os políticos estavam de pleno acordo. A maior
reação à intenção de Salgado Filho partiu de Góes Monteiro, que, no último pleito eleitoral
havia sido eleito senador pelo estado de Alagoas, pelo Partido Social Democrático (PSD).
Góes tomou a atitude de Salgado Filho como uma afronta à classe militar e discordou do fato
de o senador gaúcho levar ao Parlamento um assunto que deveria ser discutido
exclusivamente no âmbito militar e pediu que o colega apontasse um só oficial que
discordasse da tese de Pessoa. E lançando um desafio a Salgado Filho, disse que estava pronto
a debater com ele qualquer assunto relacionado às Forças Armadas, já que havia sido ex-chefe
do EME, ex-ministro da Guerra e um dos responsáveis pelos golpes de 10 de novembro e 29
de outubro. Ao lado de Góes intervieram, também, os senadores Vitorino Freire (Maranhão –
PSD) e Georgino Avelino (Rio Grande do Norte – PSD), que declararam não ver razão para a
leitura do documento, posto que o próprio ministro da Guerra já havia exaltado, na imprensa,
o espírito de disciplina do Exército. A todo momento provocado e interrompido por Góes, que
procurou de todas as maneiras obstar a leitura do texto de Pessoa, Salgado Filho aparentava
ingenuidade e dizia-se surpreendido com a agitação do recinto. Até mesmo um debate sobre
as causas e responsabilidades pelo golpe do Estado Novo veio à tona. No fim, Salgado Filho
leu a ordem do dia e a mesma foi incluída nos anais do Senado.1060
O documento também foi lido na Câmara dos Deputados pelo deputado Café Filho
(Partido Republicano Progressista – PRP – RN), que, em meio aos debates que se

1059
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 22 mar. 1949, p. 6.
1060
A transcrição completa da sessão do Senado, de 22 de março de 1949 pode ser encontrada em Albuquerque
(1953, Pasta XIV, p. 60-86)
666

desenvolviam naquela câmara legislativa sobre o momento político nacional, sustentou que a
ordem do dia de Pessoa revelava a existência de um plano golpista do governo, porque, caso
contrário, ela não teria razão de existir. Por outro lado, o deputado considerou o documento de
Pessoa profundamente tranquilizador, já que indicava que as forças da democracia estavam
advertidas e vigilantes. A exemplo do que aconteceu no Senado, o texto de Pessoa também foi
incluído nos anais da Câmara.1061
Diante da repercussão que a ordem do dia de José Pessoa ganhou na imprensa
nacional, ganhando comentários de apoio nos editoriais dos principais jornais do País, e no
Parlamento, começou a ser aventada a possibilidade de ele ser afastado do comando da Zona
Militar do Sul e ter a sua prisão decretada. No dia 24 de março, o deputado Barreto Pinto
(PTB – Distrito Federal) denunciou, na tribuna da Câmara, a articulação de um movimento
orquestrado pelo governo para depor Pessoa de suas funções e prendê-lo disciplinarmente.
Barreto Pinto aproveitou a ocasião para tecer duras críticas aos generais Canrobert e Góes
Monteiro, atribuindo a este a convicção de que o Exército era uma propriedade sua e
intocável.1062Conforme Pessoa, em 25 de março, Góes Monteiro, em uma entrevista
concedida ao jornal carioca Diretrizes, teria afirmado textualmente: “quem manda no Exército
sou eu”. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIV, p. 56)
Pessoa não foi punido, tampouco afastado do seu comando. Entretanto, recebeu, em 29
de março, um ofício do general Canrobert, no qual o ministro deixava evidente o incômodo
sentido com as declarações de Pessoa, apesar de ter deixado claro à imprensa gaúcha, dias
antes, que estava alinhado ao pensamento do comandante da Zona do Sul. O chefe da pasta da
Guerra iniciou o documento apontando os esforços que vinha fazendo, como ministro da
Guerra, para prestigiar os “camaradas” do Alto Comando do Exército. Esforços estes,
segundo ele, que somente não eram correspondidos por José Pessoa. Ressaltou que sempre fez
questão de deliberar com Pessoa qualquer tipo de transformação que precisasse ser feita nas
tropas do Sul. E que, há tempos, vinha esperando que este mudasse as suas atitudes em
relação aos deveres profissionais. Para o ministro, Pessoa não vinha correspondendo à altura
ao seu tratamento. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIV, p. 58-59)
Não havendo Pessoa cometido nenhum ato que pudesse ser enquadrado no
Regulamento Disciplinar do Exército, o pretexto utilizado pelo ministro para adverti-lo foi o
fato dele ter mandado publicar as orientações às tropas do Sul, a respeito da sucessão

1061
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 23 mar. 1949, p. 1; Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 23 mar. 1949,
Primeira Seção, p. 3.
1062
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 25 mar. 1949, p. 1; Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 25mar. 1949,
Primeira Seção, p. 3.
667

presidencial, estando de férias. Segundo Canrobert, Pessoa não poderia ter praticado tal ato
por estar afastado de suas funções, o que feria o Regulamento Interno dos Serviços Gerais.
Além disso, pesava sobre o comandante da Zona Militar do Sul o fato de ter fornecido à
imprensa o texto da ordem-do-dia. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIV, p. 59)
Segundo José Pessoa, assim que recebeu o ofício, ele dirigiu-se ao gabinete do
ministro, a fim de indagá-lo a respeito do propósito da advertência recebida. Disse ao general
Canrobert que se ele provasse ser verdadeiro tudo o que foi dito a seu respeito no documento,
pediria, naquele exato momento, a reforma do serviço ativo do Exército. O chefe da pasta da
Guerra respondeu-lhe: “general Pessoa, o senhor compreende que um homem na minha
posição faz muita coisa com que não concorda”. E informou-lhe que, quando retornasse ao
Brasil, mandaria anular o ofício, o que, de fato, fez. Para Pessoa, ficava claro que, pelas
palavras proferidas, Canrobert havia agido por coação. E o coator tinha nome: Góes Monteiro.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIV, p. 59-60) Nos meses que se seguiram, o boletim
publicado por Pessoa, no comando da Zona Militar do Sul, ainda renderia algumas notícias e
comentários da imprensa nacional e dos políticos da oposição ao governo. Porém, nenhuma
nova celeuma surgiu por conta dela.

11.2 A passagem para a reserva do serviço ativo

No dia 12 de setembro, José Pessoa completou 64 anos de idade. Por força


regulamentar, essa era a idade limite para a permanência no serviço ativo do Exército. Enfim,
havia chegado o momento de passar para a reserva. Por uma coincidência infeliz, ou por um
despropósito das “forças ocultas” que tanto criticou ao longo de seus anos de caserna, no dia
seguinte ao do seu aniversário foi promovido ao posto de general-de-exército, o último da
carreira. Não teria tempo de aproveitá-lo na ativa. Nas suas palavras:

Quando o limite de idade para o serviço militar ativo me alcançou, estava tão
acostumado à vida de soldado que não foi fácil habituar ao trabalho sem os
companheiros, sem os ajaezados corcéis, os heráldicos estandartes dos regimentos, a
marcialidade das fanfarras, enfim, o burburio da caserna. Daí, uma tristeza infinita
invadiu-me o coração por muito tempo. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIV, p.
105).

Seus últimos dias na ativa ficaram marcados pelas inúmeras homenagens que lhe
foram prestadas, por entidades civis e militares, como as unidades militares do Sul, das quais
fez questão de se despedir uma a uma, o Regimento Andrade Neves, na Vila Militar, o Clube
668

Militar e a Sociedade Hípica Brasileira. Entretanto, a despedida mais significativa foi a que
lhe preparou a Academia Militar das Agulhas Negras.
Por sugestão do general Ciro do Espírito Santo Cardoso, comandante da AMAN, as
homenagens da Academia Militar ocorreram no dia da data natalícia de José Pessoa. Foi feito
o convite a Pessoa para que se deslocasse para Resende na véspera do seu aniversário, para
que pernoitasse na Academia e lá acordasse sob o toque da alvorada, debaixo do teto
acolhedor da sua maior obra idealizada. Sendo assim, no dia 11 de setembro, José Pessoa
seguiu de avião para a cidade sul-fluminense, acompanhado de sua família e de seu ajudante-
de-ordens, capitão Ernesto Silva. Foram recebidos pelo general Espírito Santo e sua esposa,
na casa de quem ficaram alojadas a Sra. Mary Blanche, esposa de Pessoa, e suas filhas,
Elizabeth e Joy. José Pessoa pernoitou na AMAN, para que, no dia seguinte amanhecesse ao
som dos clarins e da banda de música da Academia. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIV, p.
143-144)
O dia 12 de setembro, conforme o relato de José Pessoa, foi repleto de calorosas e
significativas homenagens. Nas primeiras horas da manhã, uma formatura do Corpo de
Cadetes foi realizada. Nela, o cadete primeiro colocado da Academia ofereceu-lhe um
espadim, como recordação da sua passagem pelo comando da Escola Militar. Uma prova
hípica foi realizada. O almoço transcorreu juntamente com os oficiais da AMAN e os cadetes,
no refeitório destes. Um retrato de Pessoa, pintado à óleo, foi inaugurado no cassino dos
cadetes. Na parte da tarde, uma sessão solene da Sociedade Acadêmica Militar foi realizada
no auditório da Academia. Nessa ocasião, Pessoa recebeu do presidente da SAM, cadete
Mário Augusto Stadler de Souza, uma flâmula da AMAN bordada a ouro e o título de sócio
honorário do grêmio estudantil. O momento também serviu para comunicar oficialmente à
Pessoa que ele seria o paraninfo da turma de aspirantes de 1949. (ALBUQUERQUE, 1953,
Pasta XIV, p. 147-148)
669

Imagem 103 – Formatura de despedida de José Pessoa da AMAN, por ocasião da


sua passagem para a reserva, 12 set. 1949.

Fonte: Acervo José Pessoa (CPDOC FGV) – JPFOTO032.

No discurso de despedida e agradecimento, que proferiu durante a sessão solene da


SAM, Pessoa recordou as transformações que implementou na Escola do Realengo e o
esforço que empreendeu para que a Academia Militar, o sonho de sua vida, fosse construída
em Resende. Ressaltou aos presentes que “nenhuma obra grandiosa será construída sem uma
parcela de sofrimento e de coragem, elementos que destroçam a fraqueza dos egoístas e a
maledicência dos fracos”. Lembrou que Caxias, pela “messe interminável” de virtudes que
possuía, deveria ser o exemplo e guia de todos os militares. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta
XIV, p. 147-148) E, ao final, fez a exortação que se segue aos cadetes, representantes
legítimos da mocidade militar, que seria a grande responsável, no seu entender, pela
renovação que o Exército tanto necessitava:

Sede bons, humanos e justos; trabalhai com altruísmo, firmeza e honestidade;


cumpri com devoção o vosso dever e estareis servindo à Pátria com toda a
dignidade.
Eu creio na vossa inteligência e na cultura que estais adquirindo nesta Academia;
creio na vossa dedicação, na vossa fé nos destinos do Brasil; creio no vosso são
patriotismo, que há de renovar o Exército e levá-lo à posição de mantenedor da paz
no nosso Continente; creio na rija tempera da vossa juventude, que há de levar por
diante, num clima de honestidade profissional, de pureza de caráter, de trabalho
fecundo e de coragem cívica; creio na vitória de vossas armas e de vossos ideais;
creio no vosso destino glorioso, creio no novo Exército, creio na grandeza e na
pujança da nossa Pátria. (ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIV, p. 154)
670

Imagem 104 – José Pessoa em sua despedida


do serviço ativo na AMAN, 12 set. 1949.

Fonte: Acervo José Pessoa (CPDOC FGV) - JPFOTO033_6.

Finalmente, no dia 21 de setembro, José Pessoa passou, interinamente, o comando da


sua última comissão no Exército ao coronel José Theóphilo de Arruda, chefe do seu Estado-
Maior, até que outro general fosse nomeado para o desempenho do cargo. A cerimônia, que
ocorreu no gabinete de Pessoa, foi extremamente simples, o que não era comum para as
despedidas de um integrante do alto comando do Exército. Estiveram presentes ao ato apenas
os militares e funcionários civis do comando da Zona Militar do Sul. Na sua ordem do dia de
despedida, lembrou do início de sua carreira, do comando da Escola Militar, da fé que
depositava na juventude militar, cujos representantes legítimos eram os cadetes das Agulhas
Negras, e da presidência do Clube Militar. Também considerou as suas últimas palavras na
ativa um alerta ao Exército e um chamamento às responsabilidades que todos os brasileiros
tinham sobre os ombros. Na verdade, Pessoa não mediu palavras para falar da política no
Exército, da ojeriza que sentia à política partidária e da hipocrisia dos generais que estavam
nos altos postos da Instituição:

...infelizmente, durante a minha permanência no Exército, este atravessou uma das


piores fases, pois embora eu e muitos dignos companheiros déssemos o melhor dos
671

nossos esforços para o seu progresso e eficiência, outros camaradas, envolvidos na


mais desenfreada politicagem, solapavam a obra construída dos que trabalhavam e
dos postos queriam vantagens, mas, negligenciavam os deveres, expondo o Brasil a
mortal perigo; soldados que, se são úteis à família, constituem um verdadeiro
pesadelo à classe, porque se afastam do juramento para desvirtuá-lo, da
camaradagem para proscrevê-lo, da classe para melhor explorá-la.

Não, jamais me envolvi em política partidária nem ludibriei a minha classe. A minha
espada sempre esteve a serviço da soberania e segurança nacional e, nos momentos
difíceis, ajudou a defender o Brasil, a Constituição e a tranquila família brasileira.
Nunca foi prestadia de políticos demagogos nem acobertou liberticídio
comprometedor da honra do nosso Exército. As minhas estrelas de general não
foram conquistadas dentro dos gabinetes, mediante humilhações e intrigas; a última,
de general-de-exército, que acabo de receber no momento de passar para a reserva,
foi concedida por força de lei, pois o Parlamento do País fez-me justiça...
........................................................................................................................................
Parece que certos chefes se deixaram inocular por um veneno oculto que lhes
tornaram cegos e surdos aos reclamos dos interesses superiores da Nação. Tenho,
porém, a satisfação íntima de declarar que jamais participei dessa conduta, tão
perigosa aos interesses vitais do Brasil [...] O meu supremo desígnio sempre foi o de
afastar o Exército dos erros a que o egoísmo desvairado dos homens o impele a
proteger as novas gerações dos perigos que as ameaçam.
........................................................................................................................................
O nosso País, infelizmente, parece atacado de uma verdadeira catalepsia, que atinge
a grande número dos seus filhos e que ameaça a própria tranquilidade nacional. O
caráter do nosso povo, de bom coração e de bom senso, tem se abastado cada vez
mais e, paradoxalmente, numa completa e arriscada inversão, reflui à tona a massa
falida e os valores morais e profissionais se quedam à parte, afastados e esquecidos
de certos dirigentes, que, às vezes, procuram, no rebotalho das classes, os homens
para os cargos de direção e chefia, os quais se jactanciam de serem “os homens de
confiança”, os “porta-vozes”, os “mandatários da administração e da política”, mas
que, em verdade, envergonham, e infelicitam a Nação. [...] A desgraça que se abate
sobre o Brasil, neste momento, meus caros camaradas, não é propriamente o flagelo
da guerra nem o da peste nem o da fome; é mais triste e acabrunhadora a que
oprimem este grande e fecundo País: é o egoísmo desvairado, é a improbidade
funcional, é a falta de caráter...
........................................................................................................................................
Meus irmãos: urge que reponhamos a Nação em seu verdadeiro caminho; urge que
reajamos contra os males que nos enfraquecem e lançam bem fundo os seus
tentáculos, depauperando o organismo e a alma da Pátria; urge que a sociedade,
particularmente as Forças Armadas, repudiem os falsos patriotas... 1063

Do alto comando do Exército, nenhuma homenagem recebeu. Apenas, como ele


mesmo observou, em uma anotação à lápis, em suas memórias, um “elogio hipócrita” do
ministro Canrobert, que cabia em apenas um parágrafo. Assim resumiu o ministro os mais de
48 anos de serviço prestados por José Pessoa ao Exército e à Nação:

Após quase 50 anos de serviços prestados, deixa a vida militar ativa o general-de-
exército José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque. Ao apresentar, em nome do
Exército, as despedidas a esse oficial general, desejo antes ressaltar sua dedicação à
profissão, seu interesse constante pela eficiência da arma de Cavalaria, sua
preocupação elevada com a preparação militar de nossos quadros e seu empenho

1063
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 21 set. 1949, Primeira Seção, p. 5.
672

permanente pela eficiência do escalão sob o seu comando. Em todas as funções que
lhe foram cometidas, no Brasil e no exterior, atuou o general José Pessoa com o
mesmo interesse que sempre manifestou em toda sua longa atividade profissional e
que o elevou ao mais alto grau da hierarquia militar. Na situação em que ora se
encontra, por força das disposições legais, desejo a S. Exa. todas as felicidades.
(ALBUQUERQUE, 1953, Pasta XIV, p. 194-195)

11.3 A política no Clube Militar e a última missão da vida: a Comissão de Localização


da Nova Capital Federal

Após passar para a reserva do Exército, José Pessoa recolheu-se ao lar. Poucas foram
as aparições públicas que fez, para participar de uma ou outra solenidade militar. Em 15 de
dezembro de 1949, retornou à Academia Militar, para participar da formatura da turma de
aspirantes daquele ano, que foi batizada com o seu nome, a “Turma José Pessoa”. Para a
solenidade, preparou um discurso dirigido à mocidade militar, que deveria ser lido por ele.
Entretanto, o texto não pode ser incluído no roteiro da cerimônia, que se encontrava fechado
quando a comissão organizadora do evento o recebeu. Porém, o comandante da AMAN,
general Espírito Santo Cardoso, comprometeu-se a lê-lo em uma reunião com todos os
componentes da turma de formandos, o que foi feito. Nas suas palavras, tornou a destacar que
nos jovens oficiais depositava-se a esperança de uma Instituição melhor. A inspiração para o
exercício das funções, segundo ele, não deveria ser buscada nos homens do presente, uma
geração medíocre e prejudicial à Nação, e, sim, nos chefes militares do passado:

Hoje o nosso Exército é mocidade viril toda inteira. Não há só este chefe, esse corpo
de oficiais; são todos brasileiros irmanados, prontos a defender a Pátria e dar sua
inteligência e seu sangue pela sobrevivência. Nada de militarismo latente, de sombra
de sabre a se projetar ameaçadoramente sobre a nação civil: todos confiam na
energia invencível da gente moça e vossa turma certamente conduzirá o Exército ao
pináculo dos seus destinos e da sua glória e deverá inspirar-se na conduta dos nossos
chefes do passado, nas suas lições e nos seus exemplos, pois foi sob a proteção
tutelar daquela legião de grandes chefes do Exército, a começar pelo maior de todos,
o Duque de Caxias, e seguindo-se com os legendários Osório, Porto Alegre, Câmara
e outros que salvamos a nossa unidade e o nosso destino.1064

Na ocasião, concedeu uma entrevista à revista O Cruzeiro, que realizou a cobertura do


evento em Resende. Foi indagado pelo repórter das razões que o levaram a publicar a
polêmica ordem do dia de março daquele ano, que tratou da sucessão presidencial, quando
exercia o comando da Zona Militar do Sul. Pessoa respondeu que o fez porque sentiu que o

1064
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 20 dez. 1949, Primeira Seção, p. 4.
673

Exército, naquele momento, não poderia mais tolerar o clima de desconfiança que havia se
formado em meio à opinião pública de um possível golpe militar e que tanto depunha contra a
cultura política da Nação. E deixou claro o seu pensamento sobre o envolvimento de militares
na política, que, segundo ele, era mal interpretado:

Dizem, por exemplo, que eu combato as candidaturas militares. Eu não combato.


Apenas acho que só os militares de competência para o cargo, que tenham cultura e
saibam administrar, podem aspirar a sua investidura. Se nas nações mais civilizadas
do mundo, o militar exerce posições de mando civil, por que não poderia fazê-lo
aqui?1065

Imagem 105 – José Pessoa e Blanche Mary no baile de formatura da


turma de 1949 da Escola Militar de Resende, 15 dez. 1949.

Fonte: Hemeroteca da Biblioteca Nacional. Revista Vida Doméstica, fev. 1950.

Consoante ao pensamento que expressou à revista O Cruzeiro, na corrida presidencial


de 1950 declarou abertamente seu apoio à candidatura do brigadeiro Eduardo Gomes,
candidato udenista. Em uma carta enviada ao amigo, em abril de 1950, e publicada pela
imprensa carioca, ressaltou que já havia passado a época dos “maus políticos profissionais”.
Afirmou que tinha fé na vitória de Gomes, já que, naquele momento da história do País, todos
os cidadãos íntegros e patriotas formavam um partido dissidente, que clamava pelo respeito à
Constituição e pelo decoro nacional.1066 No entanto, isso não o impediu de felicitar Café Filho

1065
O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 7 jan. 1950, p. 30.
1066
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 21 abr. 1950, p. 3.
674

pela candidatura à vice-presidência na chapa de Getúlio Vargas, o que o fez, primeiramente,


por ser um candidato nordestino, como ele próprio, e, depois, pela atuação “patriótica e
inteligente” que Café Filho vinha fazendo no Parlamento brasileiro.1067
Pessoa envolver-se-ia, ainda, nas questões sociais e políticas que tomaram conta do
Clube Militar. Cabe ressaltar que a questão do petróleo, nos primeiros anos da década de
1950, ainda teve grande importância nas eleições para a presidência do Clube. No pleito de
1950, Pessoa declarou seu apoio à chapa nacionalista, capitaneada pelos generais Estillac Leal
e Horta Barbosa, e que alcançou expressiva vitória. Bastante ativo nas atividades sociais,
ajudou a fundar, em maio, nas dependências do Clube, a Casa da Paraíba, instituição que tinha
como propósito, segundo seu estatuto, constituir, na Capital Federal, um centro de
convergência da colônia paraibana e que cooperaria com o progresso do estado da Paraíba.1068
Com o retorno de Getúlio Vargas ao governo, em 1951, Estillac Leal foi nomeado
ministro da Guerra. Como apontam Lamarão e Montalvão (2010), à frente da pasta, Leal foi
duramente pressionado por alguns dos mais importantes chefes militares da ala nacionalista,
por não rever as transferências que haviam sido impostas pelo ministro da Guerra anterior,
general Canrobert, a diversos membros da diretoria do Clube durante a sua gestão, com o
propósito de neutralizar as suas ações à frente da instituição e, assim, minimizar a influência
dos oficiais nacionalistas dentro do Exército. Segundo os autores, o comportamento de
Estillac gerou uma situação de quase ruptura entre o Clube e a pasta da Guerra.
Em março de 1952 alguns jornais cariocas começaram a veicular a possibilidade de
Estillac retornar à presidência do Clube Militar, o que foi veementemente negado por ele. Ao
contrário do que se afirmava, Leal pugnava por uma chapa única para as eleições daquele ano.
Em uma nota publicada na imprensa, o ministro da Guerra ressaltou que vinha envidando
todos os esforços “na esperança de encontrar um denominador comum, onde o patriotismo, a
boa fé e o espírito de unidade dos militares possam assentar-se no superior objetivo de
apresentar uma chapa única, sem o sacrifício dos postulados nacionais que foram o
patrimônio espiritual da agremiação”.1069 O nome de José Pessoa também chegou a ser
considerado para ocupar a presidência. Em uma declaração feita ao jornal Correio da Manhã,
negou que aceitaria o cargo, que, no seu entendimento, deveria ser “exercido por um general
da ativa e de real prestígio da classe”.1070

1067
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 17 ago. 1950, p. 1.
1068
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 20 jun. 1950, Segundo Caderno, p. 7.
1069
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 8 mar. 1952, Primeira Seção, p. 3.
1070
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 27 jan. 1952, p. 2.
675

Entretanto, os esforços de Leal não foram suficientes para minimizar os atritos com os
oficiais conservadores do Exército. Lamarão e Montalvão (2010) apontam que os atritos entre
a direção do Clube Militar e a ala conservadora dos oficiais do Exército se deveram, em
grande parte, à uma série de publicações polêmicas da Revista do Clube Militar feitas durante
a gestão de Estillac Leal. Entre a posse de Leal e dezembro de 1951, o grupo nacionalista, por
meio do periódico, reafirmou a defesa do monopólio estatal do petróleo, defendeu a interdição
dos recursos minerais brasileiros ao capital estrangeiro e iniciou uma campanha contra a
intervenção norte-americana na Coréia e, principalmente contra a entrada do Brasil no
conflito, possibilidade que vinha sendo veiculada pela imprensa. As publicações em torno
deste último assunto foram alvos de pesadas críticas da ala das Forças Armadas que
defendiam uma maior aproximação do País com os Estados Unidos. A diretoria passou, então,
a ser vista como simpática aos propósitos dos comunistas no Brasil.
Não conseguindo a desejada unificação, Estillac, então demissionário do Ministério da
Guerra, lançou-se, novamente, candidato à presidência, ao lado de Horta Barbosa. Em
oposição à sua candidatura, foi organizado um movimento denominado Cruzada Democrática,
em torno do qual se agrupou a oficialidade conservadora do Exército, sendo indicados como
candidatos à presidência e vice-presidência, respectivamente, os generais Alcides Etchegoyen
e Nélson de Melo. A chapa recebeu o apoio de nomes de peso das Forças Armadas, como
Juarez Távora, Góes Monteiro e o brigadeiro Eduardo Gomes. Para presidentes honorários do
movimento, foram indicados oficiais generais de grande influência dentro do Exército, como
os marechais Espiridião Rosas e Mascarenhas de Moraes, e os generais Canrobert, Zenóbio da
Costa e José Pessoa, que, ao aceitar o encargo, reiterou o seu apoio integral à Cruzada. Em um
telegrama enviado ao diretório central do movimento, em 10 de março, Pessoa disse estar
certo de que “os moços idealistas” que constituíam o cerne do Exército, nas eleições que se
aproximavam, confirmariam os nomes de Etchegoyen e Nelson de Melo na presidência.
Segundo ele, os dois generais certamente fariam o Clube Militar retomar o prestígio e o
conceito como “legítimo representante” da classe militar.1071
Em uma eleição marcada pelas acusações de repressão por parte da corrente
nacionalista, que denunciava espancamentos e prisões de seus cabos eleitorais, sagrou-se
vitoriosa a Cruzada Democrática, com esmagadora vantagem de votos: 7.288 contra 4.489
dados a Estillac. Nos anos seguintes, as ações contra a ala nacionalista dentro do Clube, e no
Exército, teriam continuidade. Em fevereiro de 1954, um grupo de militares assinaria um

1071
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 11 mar. 1952, p. 1; Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 11 mar. 1952,
Primeira Seção, p. 5.
676

documento que ficaria conhecido como Manifesto dos Coronéis. Elaborado pela Cruzada
Democrática, e assinado por inúmeros generais e oficiais superiores, pregava o saneamento
das Forças Armadas e o respeito à hierarquia e à disciplina e denunciava o perigo da
infiltração comunista nos meios militares. Com grande repercussão, o manifesto influenciou
na queda de ministros, como João Goulart, do Trabalho, e Ciro Espírito Santo Cardoso, da
Guerra. (LAMARÃO; MONTALVÃO, 2010)
José Pessoa não explica, em suas memórias, a razão de ter apoiado a candidatura dos
oficiais nacionalistas no pleito de 1950 e, dois anos depois, ter se voltado contra ela, o que é
estranho, já que não demonstra ter tido nenhum tipo de indisposição com o general Estillac
Leal. Pelo contrário, chegou a acompanhá-lo, quando este esteve à frente da pasta da Guerra,
em uma visita feita à AMAN, em abril de 1951, e colaborou na revisão do Plano de Obras do
Exército para aquele ano, um pedido pessoal do ministro.1072 Cabe lembrar, o que já foi
citado, que Leal foi o principal responsável pela mudança do nome da Escola Militar de
Resende para Academia Militar das Agulhas Negras, um antigo sonho de Pessoa.
É de se pensar que uma das causas prováveis da atitude de Pessoa esteja ligada ao
temor que tomou conta da oficialidade das Forças Armadas, de uma aproximação da direção
do Clube Militar com os ideais comunistas. Nelson Werneck Sodré fez parte da diretoria do
Clube, durante a gestão de Estillac Leal, entre 1950 e 1951. Era Diretor Cultural e responsável
pela publicação da Revista do Clube Militar. Em suas memórias, aponta a enxurrada de cartas
e telegramas de protesto que passaram a ser recebidos de militares de todo o País pela direção
e que eram publicadas diariamente na imprensa carioca, em função das polêmicas edições
citadas anteriormente. Segundo ele aponta, entre julho e dezembro de 1950, mais de 700
manifestações de protesto chegaram ao Clube, em função do artigo “Considerações sobre a
Guerra da Coréia”, publicado na edição de julho da revista, sem a indicação da autoria.
(SODRÉ, 1967)
A outra provável causa, também apontada por Sodré (1967, p. 340), era a desconfiança
dos chefes militares em torno de Estillac Leal, que viria a ser o futuro ministro da Guerra de
Vargas. Segundo o autor, Estillac era visto como “homem incerto, de ideologia vaga,
oportunista, capaz de passar ao outro lado, pretendendo apenas tirar proveito de sua eleição
para o Clube Militar, fazendo dela etapa para a conquista das funções de ministro da Guerra”.
Para Sodré, as atitudes de Leal acabaram isolando-o da corrente militar nacionalista, que da
sua imagem procurou desvincular-se, por não querer ser confundida com os “oportunistas” e

1072
Conforme informações em Albuquerque, 1953, Pasta XI, p. 56-57.
677

“demagogos”, chegando a aproximar-se do esquerdismo. Devido às pressões sofridas por essa


corrente, Estillac, então, radicalizou as suas posições e, na medida que radicalizava, perdia o
apoio dos chefes militares.
Sodré (1967, p. 341-342) reconhece que as críticas feitas na Revista do Clube Militar à
participação dos Estados Unidos na Guerra da Coréia foram um erro político da direção do
Clube. Na visão do autor, a esmagadora maioria dos que tomaram a posição de protesto contra
o Clube Militar o fizeram porque estavam convencidos de que a traição e o impatriotismo
estavam instalados dentro da agremiação. Isso é perceptível nas palavras de Pessoa em apoio
à Cruzada Democrática, reproduzidas nos parágrafos acima. No entanto, para Sodré, o erro
maior teria sido dos militares da corrente nacionalista e dos dirigentes esquerdistas em geral,
que se presumiam politizados e que permitiram que a massa de oficiais das Forças Armadas
fosse assustada “com o fantasma de horta do anticomunismo”. Segundo ele, “a sanção da
realidade mostrou quão errado estavam”.
Em janeiro de 1953, valendo-se de um dispositivo legal criado para amparar as
promoções de oficiais e praças que haviam participado de ações de combate durante o levante
comunista de 1935, José Pessoa requereu a sua promoção ao posto de marechal, sendo
promovido no mês seguinte, mesmo estando na reserva.1073 No ano seguinte, acabaria saindo
do seu retiro da vida pública. Atendendo a um chamado do presidente Café Filho, em outubro
de 1954 assumiu a presidência da Comissão de Localização da Nova Capital Federal
(CLNCF), substituindo, na função, o general Caiado de Castro. Criada em junho de 1953, a
CLNCF tinha como objetivo primordial realizar os estudos definitivos destinados à escolha do
sítio e da nova área da nova capital do País, de acordo com o que previa a Lei nº 1.803, de 5
de janeiro daquele mesmo ano. Por meio dessa legislação, o Congresso Nacional autorizava o
poder Executivo a dar início aos estudos para a escolha da nova Capital Federal.
O sonho de interiorização da sede do governo do País, no entanto, não havia surgido
somente naquele momento da década de 1950. Como ressalta Lima (2010, p. 17), a
transferência da capital para um ponto central do território brasileiro sempre esteve
relacionada às tentativas de se representar geograficamente o sentido que se procurou atribuir
à unidade e à identidade nacionais. Segundo a autora, foi no século XIX, ainda no Brasil
Colônia, que surgiram as primeiras ideias de se transferir a sede da Corte para o interior do

1073
Cabe lembrar que a legislação da época, como a de hoje, previa que o posto de marechal somente existiria
em tempo de guerra. No entanto, a Lei nº 1.267, de 9 de dezembro de 1950, previa que os oficiais e praças que
haviam tomado parte, com suas unidades militares, nos combates à revolução comunista de 1935 seriam
promovidos ao posto superior imediato. O benefício atingia inclusive os militares que já se encontravam na
reserva. Como comandou as tropas de Artilharia de Costa, que tomaram parte direta das ações de ataque ao 3º
RI, José Pessoa foi beneficiado pelo dispositivo legal.
678

território, afastando-a da vulnerabilidade do litoral e da confusão de uma cidade voltada ao


comércio, como propôs Veloso Oliveira, conselheiro da Corte Portuguesa, em 1810. Também
naquele início século, o jornalista Hypólito da Costa divulgou, no Correio Braziliense, a
necessidade de o governo da Colônia se dirigir para um ponto central do Brasil. Mais tarde,
no início do Império, a mudança encontrou em José Bonifácio um dos seus principais
defensores, que chegou a sugeri-la durante a Assembleia Constituinte de 1823. Bonifácio
pugnava pela construção de uma nova capital na Comarca de Paracatu, em Minas Gerais,
sugerindo que a mesma fosse chamada de Petrópole ou Brasília. No entanto, foi por meio dos
textos publicados por Francisco Adolpho de Varnhagem, o Visconde de Porto Seguro, que o
imaginário de se instalar a sede do Império no Planalto Central brasileiro ganhou força1074, um
tema sobre o qual, segundo Lima (2010, p. 17), o historiador teria se debruçado por mais de
40 anos. Argumentos como salubridade, interiorização como um foco irradiador de
civilização, integração da Corte com as demais províncias e possibilidade de defesa da sede
do Império, que se perpetuaram pelas décadas seguintes, já eram abordados na sua obra A
questão da capital: marítima ou interior?, publicada em 1877.
Entretanto, seria somente nos anos iniciais da República que a proposta de
transferência da capital do País para o interior ganhou importância política. A primeira
constituição republicana, promulgada em 1891, determinava em seu artigo 3º: “Fica
pertencendo à União, no planalto central da República, uma zona de 14.400 Km2, que será
oportunamente demarcada, para nela estabelecer-se a futura Capital Federal”. A partir daí,
sucessivas comissões de estudos voltadas para a mudança foram formadas: em 1892, sob a
liderança do astrônomo Luiz Cruls; em 1946, tendo à frente o general Djalma Polli Coelho; e
em 1953/1954, sob a presidência do general Caiado de Castro e do marechal José Pessoa,
respectivamente.
Para acatar a decisão da Carta Magna de 1891, uma comissão foi organizada pelo
Ministério da Indústria, Viação e Obras Públicas, para explorar o Planalto Central brasileiro e
demarcar o local da futura capital da República: a Comissão Exploradora do Planalto Central.
Chefiada pelo astrônomo Luiz Cruls, diretor do Observatório Nacional, daí ter ficado
conhecida como a Comissão Cruls, contava entre seus membros com geólogos, botânicos,
astrônomos, farmacêuticos, médicos e militares, somando um total de 22 pessoas. A
Comissão viajou de junho de 1892 a março de 1893, período em que percorreu mais de 4.000

1074
Varnhagen apontava que o local ideal para se erguer uma nova cidade para ser a sede do Império era a região
da confluência das bacias dos rios Amazonas, Prata e São Francisco, onde se encontraria o coração do Brasil.
(LIMA, 2010, p. 17)
679

Km e fez um levantamento topográfico, climatológico, hidrográfico, geológico, da flora e da


fauna da região determinada. Após um período de interrupção de alguns meses, retomou os
trabalhos sob o nome de Comissão de Estudos da Nova Capital da União, que vigorou de
agosto de 1894 a dezembro de 1895. Nesse segundo momento, realizou o mapeamento da
região, utilizando a técnica da triangulação, uma das mais avançadas à época. (LIMA, 2021,
p. 21; VERGARA, 2010, p. 36)
Vergara (2010, p. 37) aponta que uma das maiores preocupações de Cruls, ao
interpretar o texto da Constituição de 1891, foi definir exatamente o que se entendia por
Planalto Central do Brasil, já que o planalto brasileiro, por uma definição altimétrica1075,
abrangia vários estados brasileiros, como o Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Maranhão,
Piauí e Rio Grande do Sul. No entanto, para Cruls era evidente que por “planalto central”
deveria se entender a parte mais central do planalto brasileiro, em relação ao território. Sendo
assim, a parte que caberia à denominação “central” se achava nas proximidades dos Pirineus,
em Goiás, não só por ser a mais próxima do centro do País, mas, também, por se acharem
naquela região as cabeceiras de alguns dos mais caudalosos rios do sistema hidrográfico
brasileiro. A única objeção feita pelo chefe da Comissão à transferência da capital para esta
região era o problema da distância, o que seria facilmente resolvido pela construção de
ferrovias, como fizera os Estados Unidos para ligar os extremos do seu território.
Para delimitar a zona da futura capital, Cruls optou por utilizar o método de
determinação de fronteiras adotado pelos Estados Unidos, à época. Sendo assim, produziu um
quadrilátero, localizado em torno dos 15º aos 16º de latitude Sul e por volta de 47º a 49º de
longitude Oeste. Para ele, utilizar um método irregular como referência, tomando como
referências os sistemas orográficos e hidrográficos da região seria mais demorado e custoso.
A região delimitada ficaria conhecida como “quadrilátero Cruls”. (VERGARA, 2010, p. 39)
Para Vergara (2010, p. 42) os relatórios produzidos pela Comissão Cruls foram
importantes porque compartilhavam informações até então pouco conhecidas de regiões
inexploradas do território brasileiro, como topografia, hidrologia, geologia, botânica,
meteorologia, população, presença de índios, clima, etc. Pode-se afirmar, segundo a autora,
que esses documentos não se dirigiam somente ao Estado, mas visavam, também, uma
opinião pública urbana que desejava mais informações a respeito desse território
desconhecido. Não por acaso, eram recorrentes as publicações de partes desses relatórios nos

1075
Geologicamente, à época, eram considerados planaltos os terrenos que variam de 300 a 1.000 metros de
altitude. Hoje, a definição não estabelece um limite máximo para a altitude. São considerados planaltos as
superfícies planas localizadas no cume de montes ou montanhas, com mais de 300 metros de altura em relação
ao nível do mar.
680

jornais e revistas de grande circulação da época. Nesse sentido, Vergara (2010, p. 43) ressalta
que um dos relatórios mais divulgados foi o do médico higienista da Comissão, Antônio
Martins de Azevedo Pimentel. Foi a partir deste documento que se desenvolveu uma das
principais teses nas quais se apoiavam os defensores da mudança da capital: a questão da
salubridade1076. Para o médico, diferente da zona litorânea, baixa, úmida e quente, o Planalto
Central, por sua altitude, produzia temperaturas mais frescas e solos férteis, o que propiciava a
instalação de uma grande cidade e o bem-estar dos seus habitantes.
No entanto, cerca de dez anos após a Comissão Cruls ter firmado as excelentes
condições de salubridade do Planalto Central, alguns estudos científicos realizados pelos
médicos Arthur Neiva e Belisário Penna apontaram um diagnóstico oposto ao de Pimentel.
Em uma série de viagens científicas promovidas pelo Instituto Oswaldo Cruz nas regiões do
Rio São Francisco e de outras áreas do Nordeste e Centro-Oeste brasileiros, na década de
1910, em apoio às atividades da Inspetoria de Obras contra as Secas, esses pesquisadores
traçaram um quadro dantesco dos sertões brasileiros, inclusive das terras goianas, assoladas
pela malária e pela recém-descoberta doença de Chagas. Este fato não poderia deixar de ter
efeitos sobre a proposta de mudança da capital para o Planalto Central, uma vez que a
imprensa divulgou uma imagem bastante negativa das terras goianas. A salubridade do
Planalto Central e das terras goianas como sítio para a construção da nova capital seria um
ponto permanente de indagação nas discussões sobre a transferência e foi novamente
abordado pelas comissões de estudos criadas nas décadas de 1940 e 1950. (LIMA, 2010, p.
23)
Nos anos subsequentes, a mudança da Capital Federal entrou em compasso de espera.
Durante o período do primeiro governo de Getúlio Vargas, a questão da transferência perdeu
importância política. Voltaria à pauta somente durante a Assembleia Constituinte de 1946, por
iniciativa do ex-presidente Arthur Bernardes, na ocasião deputado pela UDN mineira.
Firmada a nova Carta Magna, esta estabelecia em suas disposições transitórias a mudança da
Capital Federal, novamente para o Planalto Central do País. Também determinava ao
presidente da República a nomeação de uma comissão de técnicos de renomado valor para
realizar os estudos da localização da nova capital. O estudo realizado seria encaminhado ao
Congresso, que deliberaria sobre o tema e, por meio de lei, estabeleceria o início da
delimitação da área escolhida.

1076
Vergara (2010, p. 44) ressalta que o higienismo era uma preocupação constante da República, tanto para
atrair imigrantes europeus, quanto para resolver o problema da insalubridade do Rio de Janeiro, que, segundo a
concepção da época, retardava o desenvolvimento econômico do País.
681

Dois meses após a promulgação da nova Constituição, o presidente Eurico Dutra


nomeou a Comissão de Estudos para a Localização da Nova Capital Federal, liderada pelo
general Djalma Polli Coelho, diretor do Serviço de Geografia do Exército. A Polli Coelho
somou-se um médico sanitarista e nove engenheiros das mais diversas especializações
(agronomia, geologia, meteorologia etc.). Como aponta Pereira (2010, p. 55), a variedade de
especializações abarcadas pelos membros da Comissão demonstrava que, para além dos
aspectos políticos, o problema da localização exata da nova capital envolvia múltiplas facetas,
como clima, salubridade, fertilidade, disponibilidade de recursos naturais e facilidade de
acesso à região.
A Comissão Polli, desde a sua constituição, ficou marcada pelas divergências entre os
seus membros quanto à área a ser escolhida para abrigar a futura capital. Divergências, essas,
que surgiram ainda durante a Assembleia Constituinte, entre os deputados mineiros, goianos e
nordestinos. Enquanto os primeiros inclinavam-se por uma alternativa envolvendo o
Triângulo Mineiro, os últimos cerraram fileiras em torno do planalto goiano. Essa polarização
seria reproduzida no interior da Comissão, desde o início dos seus trabalhos. Enquanto uma
parte dos seus membros valorizavam o sítio no qual se ergueria a cidade, demarcando, assim,
posições mais técnicas, a outra estava mais comprometida com um pensamento geopolítico,
pautado na ideia de posição, no caso, a mais central e interiorizada possível, de modo a gerar
o efeito desejado de propagação da nacionalidade para todo o País. Antepunham-se, assim, as
questões de ordem geográfica com as de ordem demográfica ou econômica. (PEREIRA, 2010,
p. 55-56)
Aos poucos foi consolidando-se uma forte tendência, no interior da Comissão, de não
haver uma limitação dos estudos em torno do Retângulo Cruls. Admitia-se, assim, que outras
áreas do interior brasileiro seriam potencialmente capazes de sediar a nova capital, desde que
incluídas nos limites propostos do que se entendia ser o Planalto Central brasileiro, uma
concepção ainda muito vaga para uma época em o Conselho Nacional de Geografia (CNG)
mal tinha acabado de completar dez anos de existência e, portanto, muito pouco havia feito
em termos de pesquisa do espaço físico brasileiro. Sendo assim, em um primeiro momento,
um trabalho de gabinete foi realizado pela Subcomissão de Estudos Geográficos para
escolher, dentro da vasta região planáltica considerada, as áreas onde seriam realizadas as
inspeções de campo. Para isso, definiu-se como critérios de escolha a densidade demográfica
menor do que 5 hab./Km2, valor médio do Brasil à época, e a altitude inferior a 700 metros. A
partir daí, oito áreas foram selecionadas, todas à sudeste do Planalto Central: Uberaba,
Ituiutaba, Uberlândia, Patos de Minas, Ipameri, Goiânia, Quadrilátero Cruls e Chapada dos
682

Veadeiros. Das oito selecionadas, cinco encontravam-se no Triângulo Mineiro e o Retângulo


Cruls figurava como a penúltima opção. (PEREIRA, 2010, p. 58-59)
O passo seguinte ocorreu entre julho e setembro de 1947. Duas expedições
percorreram cerca de 200.000 Km2 do Triângulo Mineiro e do sul de Goiás, com objetivos
diferentes. Enquanto a primeira, chefiada pelo geógrafo francês Francis Ruellan, preocupou-
se em estudar detalhadamente as condições topográficas, o relevo, o clima, a natureza do solo,
o abastecimento de água e de alimentos, as comunicações e a disponibilidade de materiais de
construção das áreas selecionadas, a segunda, sob o comando do também geógrafo Fábio de
Macedo Soares Guimarães, segundo homem mais importante do CNG, centrou-se na
definição da posição da nova capital, preocupando-se, ao mesmo tempo, em estudar os
espaços compreendidos entre as oito zonas pré-estabelecidas. Após oitenta dias de trabalhos, a
Subcomissão de Geografia apresentou um relatório final, no qual classificou, seguindo os
parâmetros da localização e da geografia política e econômica, as melhores posições para se
erguer a nova capital, com nítida vantagem para aquelas localizadas em Minas Gerais. O
Retângulo Cruls, na ordem de prioridade, figurava em quinto lugar. A área de Uberlândia foi
apontada como a mais qualificada para abrigar a capital, seguida das zonas de Pato de Minas e
Goiânia-Anápolis. (PEREIRA, 2010, p. 59-60)
A proposta foi levada à votação do Plenário da Comissão. Segundo Pereira (2010, p.
61), o Retângulo Cruls, tradicionalmente enraizado no espírito nacional, iria se revelar um
baluarte inexpugnável. Numa versão geograficamente ampliada pelo general Polli, o
quadrilátero original, de 14.400 Km2, foi expandido de modo a formar o Território Federal do
Planalto, com cerca de 52.000 Km2, com o objetivo de colocar a área do novo Distrito Federal
sobre a bacia do Rio Tocantins, dando-lhe acesso à foz do Amazonas. No outro extremo da
Comissão, os membros contrários a uma interiorização exagerada da capital, a ponto de
afastá-la dos centros mais desenvolvidos, agrupavam-se na defesa de uma área na divisa entre
Minas Gerais e Goiás e da criação de um Distrito Federal com dimensões mais modestas, com
cerca de 5.000 Km2, apenas. A decisão final saiu em 21 de julho de 1948. Por um placar
apertado, sete votos a cinco, a Comissão decidiu pela proposta da delimitação em torno do
Retângulo Cruls. Como ressalta o autor, tal como dissera Varnhagen, tal como dissera Cruls,
manteve-se a tradição dos parâmetros de escolha baseados no pensamento geopolítico. No
mês seguinte o relatório da resolução foi enviado à Presidência da república, de onde foi
encaminhada ao Congresso Nacional, em 21 de agosto.
A relatoria da proposta apresentada pela Comissão Polli no Congresso Nacional ficou
a cargo do deputado Eunápio Quirós (PSD-Bahia). No relatório que apresentou em dezembro
683

de 1948, Queirós fez uma apreciação crítica da resolução final da Comissão. Considerou de
pouca significação a função colonizadora prevista para a nova capital, enquanto a sua função
política (consolidar a unidade nacional e manter o esquema federativo) carecia de melhor
fundamentação. Quanto à função geopolítica, criticou duramente a visão calcada na
necessidade imperiosa da mudança, em obediência a um suposto destino histórico.
Considerou, ainda, exageradas as dimensões do Distrito Federal. Sendo assim, o deputado
posicionou-se a favor da proposta vencida em Plenário da Comissão e endossou a preferência
de se construir a nova Capital Federal em Anápolis. O relatório de Queirós suscitou reações
dos diversos grupos regionais da Câmara, o que bloqueou temporariamente o projeto.
Passados cinco anos, os resultados da Comissão Polli foram sancionados, sendo rejeitadas as
conclusões da comissão parlamentar. (PEREIRA, 2010, p. 71-73) Castiglione (2010, p. 94)
vai buscar em Boris Fausto as razões para a longa hibernação do projeto de mudança da
capital no Congresso. A primeira é relativa a pouca prioridade dada a essa questão em função
do cenário político que se desenhou em torno da sucessão presidencial a partir de 1948, no
qual Vargas já aparecia como um polo de atração. A segunda é a pouca, ou nenhuma,
importância que Getúlio dava à transferência da Capital Federal.

Mapa 5 – Área escolhida pela Comissão Polli Coelho para a nova Capital Federal. Ao centro, pontilhado, o
Retângulo Cruls, 1948.

Fonte: Relatório Técnico da Comissão Polli Coelho, v. 1, 1948.


684

Com a Lei nº 1.803, o Poder Executivo ficava encarregado, novamente, de realizar


estudos definitivos para a implantação da nova capital na região delimitada por Polli Coelho.
O entendimento das resoluções tomadas pelas comissões de 1892 e de 1946 é importante
porque, como o próprio José Pessoa afirma, elas serviram-lhe de “base de partida” para a
tarefa que desempenhou à frente da Comissão de Localização, a partir de 1954.1077
A lei delimitava o local e as coordenadas da área a ser estudada: o Planalto Central
brasileiro, em uma região aproximada de 52.000 Km2, compreendida entre os paralelos 15º30’
e 17º Sul e os meridianos 46º30’ e 49º30’ Oeste. A área a ser demarcada para o futuro Distrito
Federal deveria ter aproximadamente 5.000 km2, ser capaz de abrigar uma cidade de 500.000
habitantes e satisfazer às seguintes condições:

a) Clima e salubridade favoráveis;


b) Facilidade de abastecimento de água e energia elétrica;
c) Facilidade de acesso às vias de transporte terrestres e aéreas;
d) Topografia adequada;
e) Solo favorável às edificações e existência de materiais de construção;
f) Proximidade de terras para cultura;
g) Paisagem atraente.1078

A lei apontava, ainda, que estudos definitivos, que deveriam ser concluídos em um
prazo de três anos, seriam realizados para: avaliar as condições de abastecimento de água e
energia elétrica; estabelecer um plano rodo-ferroviário, que deveria ligar a futura capital a
todos os estados; definir as vias de transportes necessárias à efetivação da mudança da capital;
elaborar um plano de desapropriação das áreas necessárias e um plano urbanístico. Um
crédito de Cr$ 20.000.000,00 seria aberto junto ao Ministério de Viação e Obras Públicas para
atender aos encargos criados com os estudos para o estabelecimento da nova capital.1079
Consoante a Lei nº 1.803, uma comissão para a realização dos estudos foi criada, por
meio do Decreto nº 32.976, de 8 de junho de 1953: a Comissão de Localização da Nova
Capital Federal. Sob o comando do general Aguinaldo Caiado de Castro, chefe da Casa
Militar da Presidência da República, à Comissão competia realizar, ou mandar realizar:

a) estudos definitivos sobre as condições do abastecimento de água e energia elétrica


à nova Capital;
b) reconhecimento sobre o estabelecimento do plano rodo-ferroviário, que deverá
ligar a futura Capital Federal a todos os estados, com sua adaptação ao Plano Geral
de Viação Nacional;
c) o estudo definitivo das vias de transporte necessárias à efetivação da mudança da
Capital para o local a ser escolhido;

1077
Nova Metrópole do Brasil – Relatório geral da sua localização, 1958, p. 10. Acervo José Pessoa (CPDOC
FGV). 981.74 P475n.
1078
Lei nº 1.803, de 5 de janeiro de 1953.
1079
Ibidem.
685

d) plano de desapropriação da área do Distrito Federal e de outras necessárias; plano


regional e plano urbanístico da nova Capital;
e) os levantamentos e estudos preliminares exigidos pela mudança do Governo
Federal e pela transferência e instalação do funcionalismo federal na futura
Capital.1080

Toda uma estrutura organizacional foi criada com o propósito de que não houvesse
solução de continuidade nos trabalhos realizados pela CLNCF. Além de um presidente, que
era de livre escolha do chefe do Governo, possuía representantes de todos os ministérios, do
Conselho de Segurança Nacional, do Departamento Administrativo do Serviço Público, do
estado de Goiás, do Serviço Geográfico do Exército e do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE). O exercício das funções constituía-se em serviço nacional relevante e
gratuito. A critério do presidente da Comissão, outras pessoas ou entidades especializadas,
civis e militares, poderiam ser contratadas, quando necessário, e subcomissões técnicas de
trabalho podiam ser criadas, com a finalidade de realizarem serviços de campo, pesquisas,
levantamentos, elaboração de mapas, plantas e desenhos. A data limite dos trabalhos era o dia
31 de dezembro de 1955, quando um relatório final deveria ser entregue ao presidente Café
Filho.1081 Em setembro de 1953, um outro decreto1082 complementaria o anterior, ao definir a
constituição dos órgãos deliberativo e executivo da Comissão e a criação de uma Diretoria
Técnica e de uma Secretaria Administrativa.
Castiglione (2010, p. 94-96) aponta que Caiado de Castro destacou-se à frente da
Comissão pelo pragmatismo com que exerceu as suas funções. Como fiel colaborador de
Getúlio, era preciso não deixar dúvidas ao presidente, e ao Congresso, que a Comissão iria
funcionar. Desde o início, o general teria percebido que pelos métodos convencionais de
levantamento direto no campo não seria possível concluir o prazo da execução dos estudos.
Além disso, seria necessária a mobilização de um enorme contingente de técnicos para a
execução dos serviços previstos. Sendo assim, tomou duas decisões fundamentais para o
andamento dos trabalhos: contratou, ainda em 1953, um serviço de levantamento
aerofotogramétrico junto à empresa Serviços Aerofotogramétricos Cruzeiro do Sul1083, para
recobrir toda a área do futuro Distrito Federal; e, em 1954, contratou a empresa norte-
americana Donald J. Belcher and Associates Inc. para realizar os estudos e a seleção dos cinco

1080
Decreto nº 36.598, de 11 de dezembro de 1954.
1081
Ibidem.
1082
Decreto nº 33.769, de 5 de setembro de 1953.
1083
Segundo Castiglione (2010, p. 96), em 1953, apenas duas empresas ofereciam os serviços de fotografias
aéreas métricas no Brasil: a VASP Aerofotogrametria, em São Paulo, e a Serviços Aerofotogramétricos Cruzeiro
do Sul, no Rio de Janeiro. A utilização da técnica de fotogrametria de mapeamento, à época, era
predominantemente feita pelo Serviço Geográfico do Exército, o que pode ter influenciado a decisão de Caiado.
686

sítios mais adequados à localização da nova capital, com base em uma metodologia que
articulava serviços de campo, fotoanálise e fotointerpretação de fotografias aéreas, um serviço
inovador no contexto da engenharia brasileira à época.
O trabalho contratado junto à Cruzeiro do Sul ficou pronto em janeiro de 1954.
Entretanto, o conjunto de fotos produzidos, por si só, não tinham serventia nenhuma. Daí o
contrato firmado com a Belcher and Associates. A contratação da firma norte-americana se
deu por intermédio da Comissão do Vale do São Francisco, em fevereiro daquele mesmo ano.
Basicamente, a firma se comprometia, entre outras coisas:

Cláusula primeira - ... fazer os estudos de fotoanálise e de fotointerpretação


necessários à seleção dos sítios mais favoráveis para a localização da nova Capital
Federal, abrangendo toda a área delimitada [...] nos termos da Lei nº 1.803, de 5 de
janeiro de 1953. [Quadrilátero Cruls]
Cláusula segunda - ... fazer os levantamentos e planejamentos que se tornarem
indispensáveis à complementação e concretização dos referidos estudos.
Cláusula quarta – Os estudos de fotoanálise e fotointerpretação que se destinam [...]
à seleção dos sítios mais apropriados, do ponto de vista técnico [...] obedecerão às
exigências estabelecidas nos parágrafos 1º e 2º do artigo 1º, da Lei nº 1.803.
[condições de clima, salubridade, solo favorável às edificações, topografia e
paisagem, facilidade de abastecimento de água e energia elétrica etc.]
Cláusula quinta - ... elaboração de mapas básicos, mosaicos e overlays onde serão
representadas, para cada área, as informações essenciais relativas à geologia,
mostrando os tipos e ocorrências de rochas e dos depósitos não consolidados, bem
como à espessura da camada de solo sobre a rocha, além dos elementos
concernentes à drenagem, ao uso da terra e sua classificação, às fontes de águas
superficiais e de subsolo, à localização dos depósitos de materiais de construção, aos
sítios potenciais para aproveitamento hidrelétrico, á localização do aeroporto e ao
traçado das vias de acesso.
Cláusula sexta - ... seleção dos cinco melhores sítios dentro da área total para a
localização da nova Capital Federal [...] cada um com uma área aproximada de
1.000 Km2...
Cláusula sétima – Ao término dos trabalhos [...] apresentarão, além dos mapas
básicos, mosaicos, overlays e relatórios especiais sobre cada um dos sítios
selecionados, um relatório geral, com todos os dados básicos pertinentes aos vários
sítios e acompanhado de modelos em relevo e fotografias oblíquas, permitindo
colocar em confronto os vários atributos de cada sítio e proceder, com o necessário
rigor, à escolha final daquele que apresente melhores condições para a implantação
da nova Capital Federal.1084

O prazo estipulado para a entrega desses trabalhos foi de 10 meses e o valor fixado
para a realização dos estudos deveria ser pago em duas parcelas: uma em moeda norte-
americana, no valor de US$ 350.000,00 e outra em moeda brasileira, no valor de Cr$
6.400.000,00.

Nova Metrópole do Brasil – Relatório geral da sua localização, 1958, p. 40-41. Acervo José Pessoa (CPDOC
1084

FGV). 981.74 P475n.


687

Segundo o major médico Ernesto Silva1085, Secretário da Comissão à época, para a


realização de suas tarefas, a Belcher mobilizou uma vasta equipe de técnicos brasileiros e
norte-americanos. Todo o Retângulo Cruls foi dividido em 18 quadriculas, a partir dos quais
foram preparados os mosaicos aerofotográficos, na escala de 1:50.000. Todos os dados
exigidos pela Lei nº 1.803 foram coletados. As análises dos mosaicos foram realizadas nos
Estados Unidos. Um grupo de especialistas norte-americanos desembarcou no Planalto
Central para realizar as primeiras observações, testes e colher amostragens do terreno. Um
vasto equipamento de campo (reboques, sondas perfuratrizes etc.) foi levado à região
estudada, para o levantamento e exploração da terra. (SILVA, 1971, p. 61-62)
O relatório produzido pela Belcher, entretanto, não seria recebido por Caiado de
Castro. Com o suicídio de Vargas, em agosto de 1954, Caiado de Castro sofreu um forte abalo
emocional, em função da relação de amizade que mantinha com Getúlio, e pediu o
afastamento de todas as suas funções, apesar de ter sido convidado por Café Filho a
permanecer no cargo. A partir de outubro daquele ano, a Comissão de Localização teria um
novo presidente: José Pessoa.
A mudança de chefia mudou também os ânimos da Comissão. Pouco mais de um mês
após ter assumido as suas funções, Pessoa provocou uma reestruturação formal da CLNCF,
que veio na forma de um novo decreto1086. Foi introduzido na estrutura organizacional o
Plenário da Comissão, como órgão deliberativo. Os órgãos executivos e consultivos, assim
como os Serviços Administrativos e a Assessoria Jurídica, passaram a subordinar-se
diretamente ao presidente da Comissão, que também tinha a prerrogativa da escolha dos seus
membros. A CLNCF passou a ser diretamente subordinada ao presidente da República e todas
as nomeações de integrantes passaram a ser realizadas por decreto. As condições do trabalho
também foram alteradas, para que a Lei nº 1.803/53 pudesse ter o seu cumprimento efetivo.
Passou a ser previsto o encaminhamento parcelado dos trabalhos da Comissão ao presidente
da República, uma providência prática, diante das inúmeras demandas previstas pela lei. Se
antes a CLNCF tinha à frente um chefe que primava pelo pragmatismo, agora a liderava
alguém que dominava os processos executados e que primava pela eficácia dos trabalhos. 1087
Pessoa relata que, ao assumir as suas funções, sentiu a falta de a Comissão possuir
uma sede própria. Conseguiu, então, junto à Comissão do Vale do São Francisco, a cessão de

1085
Ernesto Silva relata que foi convidado pessoalmente por José Pessoa para auxiliá-lo na Comissão de
Localização da Nova Capital Federal, em setembro de 1954. Havia sido ajudante-de-ordens de Pessoa em duas
ocasiões: na Inspetoria de Cavalaria e no comando da Zona Militar do Sul. (SILVA, 1971, p. 87)
1086
Decreto nº 36.598, de 11 de dezembro de 1954.
1087
Ibidem.
688

duas salas deste órgão, em sua sede no Rio de Janeiro, onde instalou a direção da CLNCF. De
imediato, elaborou, também, um plano de ação para os trabalhos da Comissão de Localização,
que deveria se assentar nos seguintes pontos básicos:

1 – Consolidação e ampliação dos trabalhos iniciados por meio de medidas


complementares julgadas necessárias;
2 – Articulação, desde logo, da área destinada à nova capital com as vias de
transporte já existentes – ferroviárias, rodoviárias e fluviais – seja por
prolongamento, seja por simples melhora de seu entendimento, seja pelo artifício do
tráfego mútuo;
3 – Previsão de subcomissões de técnicos especializados, tendo em vista: a) a
formulação e a solução dos problemas urbanísticos, demográficos e outros,
condicionados ao tipo de cidade administrativa que se deseja realizar; b) o projeto e
condições de execução das grandes radiais que deverão ligar a nova capital às áreas
essenciais do território nacional, diretamente ou por articulação com as redes viárias
que as sirvam; c) projeto de grande central aérea e sua articulação com as toas
continentais e as do tráfego mundial.1088

Como o próprio José Pessoa afirmou, à época da sua nomeação, a parte política do
problema da mudança da capital já estava resolvida, por meio da Lei nº 1.803/53. Faltava,
entretanto, resolver a questão técnica, que só poderia ser resolvida por técnicos. Para isso,
foram criadas as diversas subcomissões especializadas, que passaram a constituir os
verdadeiros órgãos de estudo e planejamento da Comissão. Segundo Pessoa, o êxito
alcançado no trabalho pelas subcomissões foi imediato, dando solução cabal a todos os temas
que lhes foram propostos, o que confirmou o acerto na medida tomada. Ainda, a fim de
“proteger os interesses nacionais e evitar as tentações e perigos de uma possível ganância
imobiliária” em torno dos terrenos escolhidos para a nova Capital Federal, Pessoa decidiu
pelo sigilo das decisões tomadas pela CLNCF. Temia que a divulgação dessas deliberações
provocasse uma desmedida valorização das terras escolhidas, o que dificultaria a solução da
mudança.1089
Como bem lembra Castiglione, a criação das subcomissões, com seus respectivos
corpos técnicos, tinham uma razão óbvia de ser:

A criação das subcomissões especializadas tem, como consequência mais


importante, o mérito de criar um corpo técnico, formado por pessoas com
competência e experiência nas respectivas áreas, capaz não apenas de formular
e solucionar problemas técnicos, como também de avaliar criticamente o
trabalho que, à época, fazia a Belcher. Sem estas subcomissões, quem avaliaria
então os trabalhos da consultora americana? Parece importante precisar que a
função da Belcher no processo era de assessoria, ou seja, de instrução, com
estudos orientados à definição da localização, da decisão que deveria ser
tomada pelo governo brasileiro. Ao governo caberia, através da CLNCF, apreciar

1088
Nova Metrópole do Brasil – Relatório geral da sua localização, 1958, p. 112. Acervo José Pessoa (CPDOC
FGV). 981.74 P475n.
1089
Idem, p. 11.
689

o relatório de forma crítica e, conscientemente, segundo seus próprios valores e


interesses, decidir finalmente qual seria o sítio de localização mais adequado.
Como fazer isso sem a formação de um corpo deliberativo com conhecimentos
suficientes a uma decisão independente? A percepção de importância das
subcomissões e da necessidade de se ter independência crítica em relação aos
estudos parece ser uma das marcas importantes deixadas pela liderança do
processo pelo marechal José Pessoa. (CASTIGLIONE, 2010, p. 99)

Cabe ressaltar que Pessoa era um entusiasta da mudança da localização da Capital


Federal. Já havia deixado isso claro no discurso de paraninfo que havia produzido para a
declaração de aspirantes da turma de 1949, da AMAN. Na ocasião, alertou a juventude militar
sobre a responsabilidade que teriam diante da solução dos problemas que assolavam o País,
dentre eles a construção da nova capital. Entendia que a solução desse problema secular
exerceria forte influência nos destinos da nacionalidade brasileira, além das vantagens
inegáveis que dela adviriam: “aproximar todos os estados pela ação radial do Governo
Central; acelerar, na direção do altiplano dos sertões brasileiros, a marcha lenta da nossa
civilização [...]; resguardar a nossa capital [...] para ponto menos exposto, sem falar nos
reflexos econômico-financeiros altamente compensadores”. Além disso, Pessoa lembrava que
a localização da nova capital também facilitaria a “complexa solução” de outro problema, que
era aproximar o restante do País da Amazônia, cuja população vivia esquecida da ajuda
material e moral do Governo.1090 Para ele, a mudança da capital era um problema de
geopolítica, alinhando-se, assim, ao pensamento de Polli Coelho. Nas suas palavras: “se a
escolha cuidadosa da localização do sítio da futura capital obedeceu a uma situação local,
topográfica, satisfazendo os dados técnicos necessários [...] a escolha de sua posição com
esmero equivalente, teve significado amplo, transcendente, pois é uma questão de política e
estratégia”1091. Ao assumir a presidência da CLNCF, ressaltou que o fez com “a firme
determinação de colocar a solução do grande problema em tal altura que não lhe fosse mais
permitido estacionar ou recuar em sua já longa caminhada”1092.

1090
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 20 dez. 1949, p. 4.
1091
Nova Metrópole do Brasil – Relatório geral da sua localização, 1958, p. 14. Acervo José Pessoa (CPDOC
FGV). 981.74 P475n.
1092
Idem, p. 10.
690

Imagem 106 – José Pessoa durante os trabalhos da CLNCF (entre 1955 e 1956).

Fonte: Acervo José Pessoa (CPDOC FGV) - JPFOTO070_3.

Para Ernesto Silva, que o assessorou diretamente, a atuação de Pessoa à frente da


Comissão de Localização foi decisiva para a transferência da capital para o Planalto Central.
Segundo Silva (1971, p. 88), as medidas por ele tomadas fixaram de tal modo a ideia e
influenciaram de tal forma a opinião pública, que já não havia mais como se recuar da sua
realização. Inúmeros foram os telegramas e cartas de felicitações recebidos por Pessoa, ao ser
nomeado para a direção da Comissão de Localização, todos exaltando o seu dinamismo e,
sobretudo, o seu patriotismo. Até mesmo o general Polli Coelho enviou-lhe um telegrama. Ao
mesmo tempo em que o cumprimentava, dizia esperar que, na mão de José Pessoa, o
problema da mudança tivesse um andamento condigno. Inúmeras, também, foram as ofertas
de mão-de-obra. Pessoa recebeu várias cartas de engenheiros, arquitetos, urbanistas, ex-
instrutores da Escola Militar, do tempo em que a comandou, e de políticos colocando-se à
disposição para ajudá-lo na empreitada, indicando apadrinhados e dando sugestões. Até
mesmo seus sobrinho Epitácio Cordeiro Pessoa Cavalcanti e Marcelo Cordeiro Pessoa
Cavalcanti, bacharéis em Direito, filhos de seu irmão Joaquim, escreveram-lhe pedindo
trabalho na Assessoria Jurídica da Comissão, o que conseguiram por intermédio do tio.1093
José Pessoa não aborda em sua narrativa memorial a atuação que teve à frente da
Comissão de Localização, já que esta se deu após ter concluído o seu trabalho autobiográfico,

1093
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta I.
691

em 1953. No entanto, condensou em uma obra intitulada Nova Metrópole do Brasil –


Relatório geral da sua localização, editada em 1958, os três relatórios parciais sobre os
trabalhos da nova Capital Federal que apresentou aos presidentes Café Filho e Juscelino
Kubitschek, em 26 de julho e 24 de novembro de 1955 e 1º de setembro de 1956. É sobre o
que narra nesses três relatórios, e os documentos que estão a ele anexados, e sobre as
memórias do major Ernesto Silva que centrar-se-ão a exposição dos fatos que se seguem.
Como aponta Silva (1971, p. 66), em fevereiro de 1955, a empresa Belcher entregou à
Comissão de Localização a primeira parte do relatório sobre os trabalhos que lhe haviam sido
encomendados e que dizia respeito ao levantamento dos cinco sítios mais prováveis à
localização da nova Capital Federal. Logo no seu sumário, o relatório da Belcher apresentava
algumas considerações a respeito da complexidade que se havia enfrentado para a articulação
dos fatores a serem considerados na escolha do sítio mais adequado para a futura cidade:

Dentro do retângulo previamente estabelecido, há poucas diferenças locais tão


significativas que focalizem, automaticamente, a atenção de um determinado sítio ou
sítios. [...] O problema é determinar onde se encontra, dentro da região, a mais
favorável combinação dos fatores a considerar. A configuração do terreno, o tipo de
solo, o tipo e a profundidade da rocha firme, o potencial hidráulico, a altitude, a
possibilidade de abastecimento adequado de água, o micro-clima, a possibilidade de
conexão com rodovias-trono e ferrovias, o aspecto do terreno, acidentes aturais
especiais que possam ser aproveitados para fins recreativos – estes são os fatores
que devem ser levados em conta.1094

O relatório deixava evidente que todos os fatores elencados acima, e que constavam
nas exigências da Lei nº 1.803, deviam ser exaustivamente analisados, a fim de que a seleção
final incorporasse as condições mais vantajosas, já que a construção de uma cidade
representava um investimento de vulto e as complicações econômicas que poderiam advir de
um erro de localização permaneceriam por centenas de ano em sua vida. E citava exemplos de
metrópoles mundiais, cujas edificações, à época, já pagavam o preço por terem sido
construídas sob solos úmidos e moles, como Amsterdam, Cidade do México, Bangkok,
Istambul, Boston e Chicago. 1095
Na apreciação que fez a respeito do trabalho da empresa norte-americana, José Pessoa
afirmou que a Belcher havia terminado a execução do contrato “em plena harmonia, como era
de desejar”. Todos os compromissos contratuais haviam sido cumpridos e um substancioso
trabalho havia sido entregue à Comissão, constante de relatórios, mapas, maquetes e

1094
Nova Metrópole do Brasil – Relatório geral da sua localização, 1958, p. 76. Acervo José Pessoa (CPDOC
FGV). 981.74 P475n.
1095
Ibidem.
692

overlays1096. No entanto, Pessoa entendia que não havia a necessidade imperiosa de ter o
Governo se empenhado em realizar um contrato tão vultoso com uma firma estrangeira, já
que, com os métodos convencionais, o problema dos levantamentos poderia ter sido
resolvido. Ressaltou que o Brasil contava com cartógrafos, geógrafos, engenheiros e institutos
científicos de renomada competência e que eram capazes de rivalizar com os melhores do
estrangeiro. Porém reconheceu que, pelos métodos usuais, não seria possível se cumprir os
prazos previstos.1097
O resultado final dos estudos da firma norte-americana compreendia um mapa geral do
Retângulo Cruls, no qual constava a representação dos cinco sítios de 1.000 Km2, que foram
nominados por cores, a fim não se quebrar o sigilo das suas exatas localizações: Amarelo,
Verde, Azul, Vermelho e Castanho. Na apreciação de cada área constava uma análise
completa sobre: a altitude, os solos para as obras de engenharia, as condições geológicas, o
clima, o planejamento urbano, a drenagem do solo, a proximidade de grandes centros, a
presença de solos para a agricultura, a existência de sítios para reservatórios de água, as fontes
de energia hidrelétrica, a presença de materiais de construção e o aproveitamento
econômico.1098
Silva (1971, p. 71) aponta que tão logo o relatório técnico da Belcher foi entregue,
todos os membros da CLNCF realizaram uma viagem ao Planalto Central, a fim de
verificarem in loco os vários pontos observados pela empresa norte-americana. A inspeção
durou dois dias, com os sítios sendo percorridos a pé e de automóvel pelos integrantes da
Comissão. Somente o sítio Vermelho, devido à sua inacessibilidade, foi percorrido por meio
aéreo. Na entrevista que concedeu ao Programa de História Oral do Arquivo Público do
Distrito Federal, Ernesto Silva narra que o próprio José Pessoa, em sua companhia e do
marechal Mário Travassos, participou das explorações das áreas indicadas no estado de Goiás.
Viajaram apoiados pela Força Aérea, além de examinar in loco os sítios. Percorreram-nos a pé
e de automóvel. Estiveram em Pirapora, Formosa e Planaltina. A principal intenção de Pessoa
era verificar as possibilidades de ligação ferroviária com a futura capital. Ao chegarem em
Planaltina, foram recepcionados pelo governador de Goiás, José Ludovico de Almeida, que os
acompanhou na exploração do sítio Castanho. Ao chegarem ao ponto mais alto da área, com
1.172 metros, Silva conta que todos ficaram maravilhados com o local, especialmente Pessoa.

1096
Termo utilizado para referenciar uma folha translúcida ou transparente colocada sobre um mapa, para
registrar, em consonância com este, informações temáticas adicionais à cartografia básica. (CASTIGLIONE,
2010, p. 101)
1097
Nova Metrópole do Brasil – Relatório geral da sua localização, 1958, p. 112. Acervo José Pessoa (CPDOC
FGV). 981.74 P475n.
1098
Idem, p. 88-102.
693

Não restava dúvida que, na concepção do marechal, o sítio já estava escolhido. (SILVA, 1998,
p. 9-10)

Mapa 6 – Carta geográfica de Goiás com os sítios escolhidos pela empresa Belcher e o Retângulo Cruls
demarcados, 1955.

Fonte: Nova Metrópole do Brasil – Relatório geral da sua localização, 1958. Acervo José Pessoa
(CPDOC FGV). 981.74 P475n.

Imagem 107 – José Pessoa (ao centro, com o binóculo no pescoço) e membros da Comissão de
Localização em visita ao Planalto Central, fev. 1955.

Fonte: Senra, 2010.


694

No retorno ao Rio, José Pessoa designou uma subcomissão, a Subcomissão de Fixação


de Critérios e Normas Técnicas para a Comparação dos Vários Locais e Seleção dos Sítios,
para apresentar ao Plenário da Comissão de Localização um relatório opinando pelo melhor
sítio para a construção da nova capital. Eram membros dessa Subcomissão o general Nelson
de Castro Senna Dias e os engenheiros Paulo de Assis Ribeiro, Fábio Macedo Soares
Guimarães e Salomão Serebrenick. Segundo o autor, logo no início dos trabalhos os três
engenheiros tentaram procrastinar a escolha definitiva. Alegavam ser necessário mais tempo
para a tomada de decisão. Após um mês de trabalhos e nada de concreto realizado, Pessoa, já
aborrecido, nomeou mais três membros para a Subcomissão: os engenheiros Raul Penna
Firme, José de Oliveira Reis e Júlio Reis. Penna Firme passou a ser o relator dos trabalhos.
Como eram homens de sua inteira confiança, contribuiriam para a solução imediata do
problema da escolha.
No início de abril de 1955, Penna Firme apresentou a Pessoa um conjunto de normas
técnicas a serem utilizadas no julgamento do melhor sítio. Essas normas estabeleciam critérios
calcados na Lei nº 1.803 e os pesos a serem atribuídos a cada um:

a) Clima e salubridade favoráveis...................................................peso 20;


b) facilidade de abastecimento de água...........................................peso 15;
c) Facilidade de acesso às vias de transporte terrestre e aéreos......peso 10;
d) Topografia adequada...................................................................peso 15;
e) Solo favorável às edificações........................................................peso 5;
f) Proximidade de terras para cultura................................................peso 5;
g) Paisagem atraente..........................................................................peso 5;
h) Energia elétrica (facilidade)........................................................peso 10;
i) Existência de materiais de construção..........................................peso 10;
j) Facilidade de desapropriação..........................................................peso 5. 1099

Cada membro da Subcomissão fez a sua avaliação dos sítios baseados nesses critérios,
atribuindo-lhes notas e multiplicando-as pelos seus respectivos pesos. Assim, em 13 de abril
de1955, uma reunião foi realizada para se decidir o sítio mais favorável, ficando registrado
em ata que o sítio escolhido era o Castanho. Silva (1971, p. 73) ressalta que o sítio Verde, o
segundo colocado, por ter uma área contígua ao Castanho, acabou sendo incluído nos limites
do Distrito Federal, quando do traçado do perímetro deste. Do relatório da Belcher, era
possível identificar as características do Castanho, que o fizeram o sítio vencedor:

A fisiografia deste sítio, a 25 quilômetros a sudoeste de Planaltina, é inteiramente


diferente da dos outros quatro. Seu detalhe topográfico principal é um domo de
forma triangular definido pelo Córrego Fundo e o Ribeirão Bananal, quando se
juntam para formar o Rio Paranoá, que então corre rumo leste para o Rio São
Bartolomeu. A colina plana entre esses cursos de água alcança uma elevação de

1099
Idem, p. 21.
695

1.200 metros e se estende muitos quilômetros para oeste, além da fronteira do sítio.
Os fundos dos vales estão a mais ou menos 1.000 metros acima do nível do mar.
Este sítio e o sítio Verde, que se justapõe a ele, são, de todos os cinco, os que se
acham a altitudes elevadas.1100

O Rio Paranoá era o grande trunfo do Castanho, por proporcionar: muito boas
condições recreacionais; aproveitamento hidrelétrico, ainda que pequeno; boas condições de
clima, devido à baixa altitude do seu vale, o que promovia a circulação e renovação do ar; e
um excelente potencial de suprimento de água. Por estar localizado em uma extensa planície,
de suave inclinação, o Castanho se prestava ao desenvolvimento de uma grande cidade de
qualquer tipo possível. Possuía o solo de melhor drenagem de todos os cinco, o que
possibilitava um bom aproveitamento para a formação de reservatórios de água. As condições
geológicas eram as melhores possíveis para as obras de engenharia. Do ponto de vista do
transporte, por estar no eixo natural norte-sul, possuía um bom potencial para uma estrada de
ferro. Também era possível se realizar conexões rodoviárias com Formosa, Cristalina e
Anápolis, ligando-se assim ao Sul e ao Oeste do País. A parte econômica era favorável,
devido ao baixo custo das terras. O único senão ficava por conta do baixo potencial agrícola,
devido à baixa fertilidade dos solos, nada, porém, que não pudesse ser resolvido com as
técnicas agrícolas adequadas de fertilização e adaptação de culturas.1101
De posse das informações encaminhadas por Penna Firme, José Pessoa convocou para
o dia 15 de abril uma reunião do Plenário da CLNCF, para a escolha do sítio Castanho. Um a
um os membros da Comissão declararam os seus votos, que foram justificados desde a forma
mais pragmática, como o do engenheiro Macedo Soares, que declarou ter votado no Castanho
porque ele preenchia “as melhores condições para a localização da Capital do País”, até a
mais apaixonada, como foi o caso de José Pessoa, que se fundamentou em uma avaliação
crítica dos relatórios da Belcher e das comissões Cruls e Polli. Por unanimidade, a escolha do
sítio Castanho foi homologada. Nessa mesma sessão plenária, Pessoa sugeriu o batismo da
nova Capital Federal com o nome Vera Cruz, um apelo histórico ao primeiro nome dado ao
País e que representava, segundo ele, a continuidade histórica da Pátria civilizada no decorrer
dos séculos. Os membros da Comissão não aceitaram e não votaram a proposta. Entenderam
que o nome deveria ser escolhido pelo Congresso Nacional ou por votação popular. Decidiu-
se, então, que Pessoa encaminharia a proposta ao presidente Café Filho, juntamente com uma
exposição de motivos. Apesar de tê-lo utilizado durante todo o período em que esteve à frente
da Comissão, o nome proposto por Pessoa nunca foi levado à apreciação do Congresso e

1100
Idem, p. 96.
1101
Idem, p. 97-99.
696

tampouco foi autorizado pelo presidente da República.1102 Anos mais tarde, o Congresso
ressuscitaria o nome proposto por José Bonifácio, em 1823, e batizaria a nova capital com o
nome de Brasília.
No mesmo dia em que a seleção do sítio foi aprovada em sessão plenária, Pessoa
determinou que uma nova subcomissão, a Subcomissão da Demarcação do Território do
Futuro Distrito Federal1103, tomasse as providências necessárias para definir os limites do
futuro Distrito Federal. Apenas onze dias após ter recebido a missão de José Pessoa, a
Subcomissão de Demarcação apresentou o seu relatório. Pesaram na sua decisão os seguintes
aspectos:

1º) Para a delimitação do novo Distrito Federal devem ser adotadas, de preferência,
as divisas naturais para os limites de Este e Oeste e linhas geodésicas, para os de
Norte e de Sul, tornando-se, assim, mais simples os trabalhos futuros de
demarcação; 2º) Escolher para a área do Distrito Federal a que contenha da melhor
forma os requisitos necessários á sua constituição; 3º) Escolhê-la dentro da região
cujas altitudes extremas oscilem entre 800 e 1.200 metros; 4º) A área prevista deve
conter um número não pequeno de rios que a torne rica em água; 5º) Deve permitir
facilidade de meios de transporte e comunicações em geral e de sua articulação com
os respectivos planos nacionais; 6º) deve apresentar condições mais fáceis e
econômicas para a execução do plano de desapropriação.1104

Baseada, então, nos requisitos acima, a Subcomissão encaminhou a sua sugestão de


linhas-limites do novo Distrito Federal:

Sugere, pois, a Subcomissão que seja adotada a seguinte linha-limites, que abranja
área aproximada de 5.850 Km2. O perímetro começa no ponto de latitude 15º30’ S e
longitude 48º12’ W Green. Desse ponto segue para Leste pelo paralelo de 15º30’ S
até encontrar o meridiano de 47º25’ W Green. Daí, por esse meridiano de 47º25’ W
Green., para o Sul, até encontrar o talvegue do córrego Santa Rita, afluente da
margem direita do Rio Preto. Daí pelo talvegue do citado córrego Santa Rita até a
confluência deste com o Rio Preto, logo a jusante da Lagoa Feia. De confluência do
córrego Santa Rita com o Rio Preto, segue pelo talvegue deste último, na direção
Sul, até cruzar o paralelo de 16º03’ S. Daí, pelo paralelo de 16º03’ na direção Oeste
até encontrar o talvegue do Rio Descoberto. Daí para o Norte, pelo talvegue do Rio
Descoberto até encontrar o meridiano de 48º12’ W Green. Daí, para o Norte, pelo
meridiano de 48º12’ W Green. até encontrar o paralelo de 15º30” S, fechando o
perímetro.1105

A agilidade demonstrada pela Subcomissão de Demarcação em definir os limites da


nova Capital deveu-se ao receio de que as informações sobre as delimitações viessem a
público, gerando, assim, movimentos especulativos nessas terras. O próprio José Pessoa foi

1102
Idem, p. 165.
1103
Faziam parte da Subcomissão, segundo consta no relatório apresentado à José Pessoa, o engenheiro Allyrio
H. de Matos e os coronéis engenheiros do Serviço Geográfico do Exército Aureliano Luiz de Farias e Luiz
Eugênio P. de Freitas Abreu.
1104
Idem, p. 64.
1105
Idem, p. 65.
697

incansável em suas recomendações sobre o rigoroso sigilo dos trabalhos da CLNCF. Nenhum
pronunciamento público deveria ser feito por nenhum dos membros da Comissão antes que as
medidas protetivas necessárias fossem adotadas. No seu entender, o sítio escolhido deveria ser
transformado em área de utilidade pública, para fins de desapropriação, o que deveria ser feito
pelo Governo Federal. (SILVA, 1971, p. 80)
Conforme narra Silva (1971, p. 80), um dia após ter recebido o relatório da
Subcomissão de Demarcação, José Pessoa encontrou-se com o presidente Café Filho. Na
reunião, solicitou o apoio do presidente para o encaminhamento ao Congresso da decretação
de utilidade pública da área. Café Filho convocou o Consultor Geral da República para
analisar o caso, porém nenhuma decisão foi tomada. Segundo o autor, em 28 de abril de 1955,
o presidente teria informado Pessoa sobre a impossibilidade de baixar qualquer decreto
declarando de utilidade pública o perímetro do futuro Distrito Federal.
Não conformado, em 30 de abril, com o apoio do Ministério da Aeronáutica, José
Pessoa, acompanhado de Ernesto Silva, viajou para Goiás, a fim de solicitar ao governador
daquele estado o apoio que Café Filho negara. Na tarde daquele dia, em uma reunião
reservada, Pessoa expôs ao governador José Ludovico de Almeida a necessidade premente de
um decreto governamental que declarasse ser de utilidade pública, para fins de
desapropriação, todas as terras situadas dentro do perímetro do futuro Distrito Federal. De
imediato, Ludovico convidou seus assessores diretos para um jantar, no qual também estariam
presentes os desembargadores do Tribunal de Justiça de Goiás, além de outros advogados. A
intenção do governador era reunir-se com essas pessoas após o jantar, para achar uma solução
ao problema levado por Pessoa. Após o término da reunião, já às 3 horas da manhã do dia 1º
de maio, ficou decidido que naquele mesmo dia um decreto seria elaborado e assinado de
surpresa, como de fato ocorreu. Na noite do dia 1º de maio, em uma solenidade no Palácio das
Esmeraldas, o Decreto nº 480, que declarou de utilidade pública a área escolhida e demarcada
pela Comissão de Localização, foi assinado. Por sugestão dos assessores de Ludovico de
Almeida, o documento foi datado de 30 de abril, para evitar contestações da oposição, de ter
sido um decreto assinado em dia de feriado. (SILVA, 1971, p. 80-81)
Dez dias após ter assinado o Decreto nº 480, o governador José Ludovico encaminhou
à Assembleia Legislativa do estado de Goiás um projeto de lei, por meio do qual ficava o
governo daquele estado autorizado a desapropriar a área considerada e, ao mesmo, tempo,
entender-se com o governo federal sobre o destino que seria dado aos bens desapropriados.
Assim, em 11 de maio de 1955 foi assinada a Lei nº 1.071, do governo de Goiás, por meio da
qual ficava o poder Executivo do estado autorizado a, num prazo de cinco anos, realizar as
698

desapropriações estabelecidas no Decreto nº 480. As indenizações dos bens desapropriados


deveriam ser feitas, preferencialmente, por permuta com outros de igual valor, de propriedade
do estado. Nessa mesma data, outro decreto do governo goiano, o Decreto nº 500, foi
assinado, proibindo a alienação das terras devolutas e outras de domínio do estado de Goiás
compreendidas pela área reservada ao novo Distrito Federal.1106 Ficava, desta forma,
garantida a construção da nova Capital Federal, como desejava Pessoa. A colaboração goiana
não ficaria somente no auxílio legal às desapropriações. Em 5 de outubro, o governo do
estado criou a Comissão de Cooperação para a Mudança da Capital Federal, sob a presidência
do médico goiano Dr. Altamiro de Moura Pacheco. A sua finalidade primordial era promover
a mais ampla cooperação do governo do estado com os órgãos federais responsáveis pela
mudança.1107 Segundo Silva (1971, p. 83), essa comissão estadual viria ser, posteriormente, a
grande responsável pelas primeiras e principais desapropriações, realizando importante
trabalho de levantamento e prestando relevante serviço à causa da transferência da capital,
Em 8 de agosto de 1955, José Pessoa encaminhou o seu primeiro relatório, dos três
planejados, ao presidente Café Filho, dando conta dos primeiros trabalhos realizados pela
Comissão de Localização. Ao mesmo tempo em que informava e solicitava ao presidente a
aprovação do sítio escolhido para abrigar o futuro Distrito Federal, pedia a abertura de um
crédito especial junto ao Congresso Nacional de Cr$ 100.000.000,00, para pagar as
indenizações devidas pelo estado de Goiás aos donos das áreas desapropriadas. Como
expunha Pessoa, esse valor seria recuperado em larga margem. A sua sugestão era que o
Governo Federal loteasse a área desapropriada, o que daria, somente na área urbana cerca de
100.000 lotes, e vendesse cada um deles por Cr$ 200.000,00. Assim, o Governo Federal teria
um lucro de Cr$ [Link],00, o que seria suficiente para bancar a construção de todas
as edificações destinadas aos órgãos públicos, hospitais, escolas, serviços de água, esgoto,
telefonia e eletricidade e cerca de 30.000 casas para os funcionários públicos.1108
O presidente Café Filho homologou, por meio do Despacho nº 19.685-55, de 8 de
setembro, a área escolhida pela Comissão de Localização. Na mesma decisão, o presidente
determinou que se desse prosseguimento aos trabalhos de transferência da capital e que o
ministro da Justiça concretizasse as outras solicitações feitas por Pessoa, ou seja, que se
abrisse o crédito necessário às indenizações relativas às desapropriações. Em relação a esse

1106
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta I, docs. 0382, 0383, 0386 e 0388.
1107
Decreto nº 1.258, de 5 de outubro de 1955, do governador de Goiás.
1108
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta I, doc. 0475.
699

último quesito, a Lei Orçamentária Anual da União para o ano de 1956 1109 consignou uma
verba de Cr$ 120.000.000,00 para as despesas com as desapropriações. No entanto, em 17 de
fevereiro de 1956, em um ofício encaminhado ao ministro da Justiça, José Pessoa ainda
solicitava a liberação do crédito previsto em lei para a Comissão, para que fossem feitos os
pagamentos devidos ao estado de Goiás.1110 Da mesma forma, dez dias depois, enviou um
novo ofício ao presidente da República, solicitando que este desse o encaminhamento
decisivo ao problema.1111 A autorização para a aquisição da área demarcada viria somente no
governo de Juscelino Kubitschek, em abril de 1956. O repasse ao governo de Goiás deveria
ser feito em 10 parcelas mensais de Cr$ 12.000.000,00.1112 Aliás, dinheiro sempre foi um
problema para o andamento dos trabalhos da Comissão de Localização. Assim que assumiu a
presidência da Comissão, Pessoa encaminhou um ofício a Café Filho solicitando crédito
suplementar de Cr$ 30.000.000,00 para a continuidade dos trabalhos.1113 Esse crédito nunca
foi colocado à disposição de Pessoa, que, em fevereiro de 1956, já no governo de Juscelino
Kubitschek, lembrava, por meio de uma carta, ao general Nelson de Melo, chefe do Gabinete
Militar da Presidência da República, que a Comissão encontrava-se sem “um só centavo para
as suas necessidades mais prementes”, pois o crédito que deveria ser a ela destinado não havia
sido incluído no orçamento da União.1114
Com a eleição de Juscelino Kubitschek à Presidência da República, no pleito de 1955,
e o afastamento de Café Filho, por motivo de doença, em novembro daquele ano José Pessoa
colocou o seu cargo à disposição do presidente substituto Nereu Ramos, que decidiu mantê-lo
à frente da Comissão de Localização.1115 Tornaria a fazê-lo em fevereiro de 1956, após
Juscelino ter assumido a Presidência, por considerar que a direção da Comissão deveria ser
exercida por alguém da confiança do presidente da República.1116 Este, também não aceitou o
pedido de demissão. Conforme Silva (2010, p. 84-85), antes mesmo da homologação do sítio
Castanho por Café Filho, e da eleição de Juscelino, Pessoa já havia tomado uma série de
providências, a fim de facilitar os futuros trabalhos de construção da Capital Federal. Logo
após a escolha da área que viria a abrigar a nova capital, mandou erguer no ponto mais alto do
sítio uma cruz de madeira, de onde se descortinava o horizonte em todas as direções. Esse
ponto é considerado por muitos historiadores o marco histórico da capital, já que, em 1957,
1109
Lei nº 2.665, de 6 de dezembro de 1955.
1110
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta IV, doc. 0555.
1111
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta I, doc. 0373.
1112
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta V, doc. 0577.
1113
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta I, doc. 0351.
1114
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta IV, doc. 0556.
1115
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta III, doc. 0532.
1116
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta V, doc. 0589.
700

foi a partir dele que foram locadas todas as coordenadas das edificações e monumentos
construídos em Brasília.1117 No entanto, para Pessoa, a pedra fundamental da nova capital era,
na realidade, um marco comemorativo colocado naquela área, em setembro de 1922, a mando
do presidente Epitácio Pessoa, em comemoração ao centenário da independência do Brasil e
para simbolizar que, naquela região, seria erguida a futura capital do País. Também, em maio
de 1955, a pedido de Pessoa, o estado de Goiás construiu uma pista de pouso de 2.700 metros,
de terra, no local da futura cidade. Seguindo-se a indicação dos estudos realizados pela
Belcher, ali foi erguido um rudimentar aeroporto, que atendeu as primeiras viagens realizadas
para a região. Em dezembro, ainda, foi firmado um contrato com a empresa carioca Geofoto,
para a realização de um levantamento aerofotogramétrico, a fim de que fossem produzidas
cartas topográficas do sítio Castanho. Essas cartas, segundo o autor, foram fundamentais para
a construção da cidade e para o desenho do plano piloto, anos mais tarde.
A Comissão chefiada por José Pessoa mudaria de nome no final do ano de 1955. Com
a conclusão da primeira etapa dos trabalhos, atinentes à escolha da área em que seria
construída a nova capital, a antiga CLNCF foi extinta por meio de decreto1118, sendo criada,
no seu lugar, a Comissão de Planejamento da Construção e da Mudança da Capital Federal
(CPCMCF), que passou a desenvolver os seus trabalhos a partir de 9 de dezembro de 1955.
Em termos organizacionais, foi mantida a estrutura da comissão anterior, assim como a
subordinação direta ao presidente da República. Com um prazo de cinco anos para concluir
seus trabalhos, a Comissão deveria realizar:

a) estudos definitivos sobre as condições de abastecimento de água, energia elétrica,


esgoto e telefone;
b) planejamento das vias de transporte e comunicações, que deverão ligar a futura
Capital Federal a todos os estados e territórios, com sua adaptação, no que couber,
ao plano geral de Viação Nacional;
c) plano de utilização da área escolhida para o pavimento de recursos de construção
da Nova Capital e plano urbanístico, inclusive o anteprojeto e projeto da Capital e de
edifícios que constituirão a sede do novo Governo;
d) estudos concretos sobre o estabelecimento de uma corrente imigratória para o
novo Distrito Federal, assim como o planejamento agropecuário;
e) levantamento e estudos exigidos para a mudança do governo e para a
transferência e instalação do funcionalismo federal e autárquico na futura Capital
Federal;
f) elaboração de anteprojeto da legislação necessária ao novo Distrito Federal. 1119

Tão logo a Comissão de Planejamento da Construção foi criada, fiel ao cumprimento


da Lei nº 1.803, Pessoa passou a planejar as tarefas referentes ao estabelecimento das

1117
Esse local, hoje, é conhecido como a Praça do Cruzeiro e ainda abriga a cruz erguida por José Pessoa.
1118
Decreto nº 38.281, de 9 de dezembro de 1955.
1119
Decreto nº 38.281, de 9 de dezembro de 1955.
701

comunicações, ao abastecimento de água e energia elétrica, à colonização, à criação de um


esboço para o plano piloto e à criação de uma guarnição militar para a nova Capital Federal.
Subcomissões de planejamento e execução foram criadas para tudo.1120 Uma das primeiras
providências que tomou foi baixar, em 30 dezembro de 1955, diretrizes para a desapropriação
da área do futuro Distrito Federal. É provável que Pessoa tenha tomado esta providência em
função de um telegrama que recebeu, na mesma data, do governador José Ludovico. Nele, o
Ludovico informava que o estado de Goiá já havia adquirido de forma definitiva a área
destinada à nova Capital Federal e que a escritura a ela referente já havia sido lavrada em
cartório. Sendo assim, o governo do estado encontrava-se em condições de realizar a
transferência do sítio para a União. Dentre as diretrizes, cabe destacar as seguintes:

1 – Todos os terrenos da área do futuro Distrito Federal devem ser relacionados e


desapropriados em conjunto, podendo-se abrir uma exceção para os que estiverem
localizados dentro do sítio da capital;
2 – Os terrenos do sítio da capital devem ser desapropriados com a brevidade
possível, tendo em vista a realização do concurso para o planejamento da cidade,
programado por essa Comissão para o próximo ano;
3 – Por motivos óbvios, seria interessante que fossem mantidas em sigilo as
conversações havidas entre os membros da Comissão de Cooperação [do estado de
Goiás] e os proprietários de terras;
4 – Seria desejável que, em princípio, ao invés da compra, seja proposta aos
proprietários a permuta por terras devolutas pertencentes ao estado de Goiás;
5 – Periodicamente, o presidente da Comissão de Cooperação enviará ao presidente
da CPCMCF a relação completa das áreas desapropriadas, já registradas em cartório,
para a necessária indenização.1121

Na verdade, da análise que se faz dos relatórios produzidos por José Pessoa e da
narrativa de Ernesto Silva, é possível se perceber que, durante todo o ano de 1955, por meio
das suas subcomissões, Pessoa já havia adiantado os estudos e os planejamentos dos diversos
requisitos impostos pela Lei nº 1.803, cabendo, a partir de fevereiro de 1956, apenas
encaminhá-los ao presidente Juscelino para aprovação. Havia, inclusive, preparado um
programa de trabalho para aquele ano corrente, composto das seguintes atividades:

1º - Demarcação das fronteiras do território do futuro Distrito Federal;


2º - Levantamento de cartas, nas escalas de 1:2.000 e 1: 1.000, dos terrenos sobre os
quais vai ser planejada a nova sede do governo;

1120
As seguintes subcomissões foram criadas por Pessoa, tanto para atender os estudos técnicos da Comissão de
Localização como para a Comissão de Construção: Fixação de critérios e normas técnicas para a comparação dos
vários locais e seleção dos sítios; Fiscalização do contrato estabelecido entre o Governo Brasileiro e a firma
Belcher e estudos de foto análise; Planejamento urbanístico; Planejamento da produção agropecuária e
abastecimento; Água, esgoto e saneamento; Comunicações (rodovias e ferrovias); Energia elétrica; Estudos de
demarcação do território do futuro Distrito Federal; Organização da nova localização do futuro Distrito Federal;
Colonização; Utilização, transferência e alienação dos bens federais; Transferência e instalação do Governo
Federal; e Constituição geológica do solo e clima. Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta
VI, doc. 0623.
1121
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta V, docs. 0594 e 0595.
702

3º - Desapropriação da área de 5.850 Km2, destinada ao futuro Distrito Federal;


4º - Planejamento da nova capital e lançamento da pedra fundamental;
5º - Avanço em direção do sítio da nova cidade, com a urgência possível, das vias de
comunicações, já estudadas pela subcomissão técnica, cuja prioridade foi solicitada
ao Governo em exposição de motivos.1122

Definitivamente, o planejamento técnico mais complexo foi executado pela


Subcomissão de Comunicações, elaborado pelos engenheiros Philuvio de Cerqueira
Rodrigues, do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem, e José Gayoso Neves, do
Departamento Nacional de Estradas de Ferro. O plano ferroviário para acesso à nova capital
previa a construção de três vias de comunicação, na seguinte ordem de urgência:

1º. Ligação da Estrada de Ferro Goiás, a partir de Anápolis, ponta dos trilhos, com
160 Km em bitola de 1 metro;
2º. Prolongamento da Estrada de Ferro Central do Brasil, a partir de Pirapora à
futura capital, com 452 Km em bitola de 1,60 metros;
3º. Articulação das linhas da Companhia Paulista das Estradas de Ferro, a partir da
Colômbia.1123

Quanto às rodovias, a necessidade premente apontada por Pessoa era a construção de


uma rota que ligasse a nova capital ao centro do País, ou seja, uma via pavimentada ligando a
nova capital a São Paulo, dos quais os 183 Km ligando-a a Anápolis eram imprescindíveis.
Segundo aponta Silva (1971, p. 90), Pessoa entendia que o problema das rodovias não era o
mais difícil de se resolver. Entretanto, a demanda ferroviária levaria mais tempo para ser
resolvida, já que o tempo de construção era mais longo e o custo era maior. A maior
preocupação do presidente da CPCMCF era, em um primeiro momento, estabelecer as vias
necessárias ao transporte de tudo o que fosse indispensável para a construção da cidade, tanto
em material como em pessoal. Posteriormente, esse plano rodo-ferroviário deveria ser
integrado ao Plano Nacional de Viação.1124

1122
Nova Metrópole do Brasil – Relatório geral da sua localização, 1958, p. 358. Acervo José Pessoa (CPDOC
FGV). 981.74 P475n.
1123
Nova Metrópole do Brasil – Relatório geral da sua localização, 1958, p. 297. Acervo José Pessoa (CPDOC
FGV). 981.74 P475n.
1124
O planejamento técnico rodo-ferroviário da nova Capital Federal pode ser encontrado em Nova Metrópole
do Brasil – Relatório geral da sua localização, 1958, p. 297-353. Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). 981.74
P475n.
703

Mapa 7 – Mapa do Brasil incluindo a nova Capital Federal, com as respectivas distâncias para as
capitais dos estados, elaborado pela Subcomissão de Comunicações, 1955.

Fonte: Nova Metrópole do Brasil – Relatório geral da sua localização, 1958. Acervo José
Pessoa (CPDOC FGV). 981.74 P475n.

Outro trabalho igualmente longo foi o planejamento realizado pela Subcomissão de


Energia Elétrica, para o qual serviu de base os estudos realizados pela Comissão Polli. A
equipe era constituída pelo general João de Saldanha da Gama e pelos engenheiros Ernâni de
Mota Rezende e Francisco de Souza Dias Filho. Ao final dos seus estudos, esses técnicos
chegaram à conclusão de que o consumo médio a ser admitido seria de 1.000 Kwh/habitante,
para a futura Capital Federal, e da metade desse valor para as áreas satélites. Segundo
especificam no relatório que produziram, não haveria nenhum problema para se suprir essa
demanda. Além da cachoeira do Rio Paranoá, que possuía um potencial hidrelétrico de 20.000
Kw, havia, tanto ao norte como ao sul do sítio Castanho, inúmeras reservas, que totalizavam
287.400 Kw, sem levar em conta, ainda, o alto potencial hidrelétrico (mais de 1.000.000 Kw)
do Rio Paranaíba, que se localizava a 350 Km da área onde seria construída a Capital Federal.
Entretanto, para o aproveitamento de todo esse potencial, seria necessário a construção de
704

algumas usinas hidrelétricas, a começar pelo Rio Paranoá, que serviria ao abastecimento dos
trabalhos iniciais. Também foi aventada a possibilidade de se gerar energia por meio de usinas
termelétricas, que seriam abastecidas pelo petróleo produzido no País ou, uma novidade, pela
aplicação da energia atômica, já que as prospecções minerais feitas no Brasil indicavam a
possibilidade de extração de minérios como o urânio e o tório em abundância para a produção
elétrica.1125
Em relação ao plano de abastecimento de água e de esgotos da nova capital, Silva
(1971, p. 89) aponta que havia uma descrença do chefe da subcomissão encarregada de
estudar esse problema, engenheiro Saturnino de Brito Filho1126, quanto ao potencial de
abastecimento de água no local escolhido para a sede da capital. Brito Filho considerava as
bacias hidrográficas próximas a esta área limitadas e criticava o estudo feito pela empresa
norte-americana Belcher, por não ter abordado o problema técnico pertinente ao
abastecimento com águas subterrâneas. Um outro problema por ele apontado foi o possível
“surto de habitações em desordem” junto às vias de comunicação que demandavam à nova
Capital Federal, ou seja, o surgimento de favelas. Sugeriu que, durante a fase de construção da
cidade, esses núcleos não planejados de habitações fossem imediatamente destruídos,
assentando-se os operários em residências populares apropriadas. Caso essa realocação
acontecesse em cidades satélites, como havia previsto a Subcomissão de Urbanização, seria
necessário todo um replanejamento da distribuição de água e de esgotos.1127 Entretanto, como
observa o autor, todo o relatório produzido pelo engenheiro foi feito em gabinete, na sede do
Serviço Geográfico do Exército. Brito Filho somente se convenceria do potencial hidráulico
do sítio Castanho quando visitou o local em companhia do presidente Juscelino, em 1956.
Uma outra preocupação de José Pessoa foi a futura colonização da nova capital da
República. O ato de sua transferência para o Planalto Central carecia, no seu entender, de
inúmeras medidas preliminares, sem as quais a vida dos futuros habitantes se tornaria precária
e cheia de dificuldades. Dentre as providências que deveriam ser tomadas, avultava de
importância a do abastecimento, que somente seria solucionada mediante um complexo
estudo que deveria ser realizado por agrônomos, veterinários e técnicos em cooperativismo.
Além disso, um plano de colonização para os arredores da nova capital deveria ser elaborado.

1125
Nova Metrópole do Brasil – Relatório geral da sua localização, 1958, p. 207-224. Acervo José Pessoa
(CPDOC FGV). 981.74 P475n
1126
Brito Filho foi o responsável pelo projeto do Serviço de Águas da Capital da República, no Rio de Janeiro, e,
segundo relata Silva (1971, p. 89) havia sido convocado por José Pessoa para dar a sua opinião sobre o
abastecimento de água da nova Capital Federal.
1127
Nova Metrópole do Brasil – Relatório geral da sua localização, 1958, p. 200. Acervo José Pessoa (CPDOC
FGV). 981.74 P475n.
705

Entretanto, no seu ponto de vista, a origem dos colonos que seriam alocados na área escolhida
não poderia ser qualquer uma. Em um ofício que encaminhou ao presidente do Instituto
Nacional de Imigração e Colonização (INIC), em dezembro de 1954, no qual pedia um estudo
sobre o assunto, disse estar convencido de que no Planalto Goiano se adaptariam com sucesso
os “bons imigrantes europeus”, principalmente os holandeses, que, “acompanhados de seus
instrumentos agrários e gado leiteiro, formariam [...] uma perfeita indústria de laticínios e
explorariam, com êxito, a terra”. Mesclados com imigrantes nacionais, os holandeses, através
de sua experiência no cultivo da terra, iriam incrementar no Planalto Central chácaras e
granjas modelos que propiciariam farta e barata alimentação aos futuros habitantes da nova
capital. A solicitação que fazia ao presidente do INIC era que esses colonos fossem
direcionados às cidades goianas já dotadas de energia hidrelétrica e próximas ao Retângulo
Cruls, como Formosa, Planaltina, Anápolis, Pirenópolis, Corumbá de Goiás e Cristalina, as
quais poderiam, assim, se transformar em grandes centros de produção.1128
Devido ao seu posicionamento estratégico, a nova Capital Federal não poderia
prescindir de uma guarnição militar. O próprio ministro da Guerra à época, general Henrique
Lott, já havia enviado um ofício a Pessoa solicitando que este não esquecesse de reservar no
novo Distrito Federal áreas destinadas a “aquartelamentos diversos, campos de instrução e
adestramento e à instalação de um campo de manobras de grandes unidades”. Lott se
comprometeu, inclusive, em fornecer as dimensões e as características apropriadas que essas
áreas deveriam apresentar.1129 No estudo que submeteu ao Ministério da Guerra, em junho de
1955, no qual auxiliou-o o seu velho amigo marechal Mário Travassos, Pessoa apresentou as
necessidades mínimas de ordem militar. O seu planejamento foi elaborado a partir de três
premissas: a) a segurança imediata e afastada da sede do Governo; b) a representação do
Governo; e c) a própria representação das Forças Armadas.1130
Do ponto de vista da segurança, foi planejado, para a segurança aproximada da sede
do Governo, uma força militar constituída de unidades de todas as armas terrestres (Infantaria,
Cavalaria, Artilharia e Engenharia), à base de regimentos de Infantaria, de tropas blindadas e
de unidades de Artilharia antiaérea. A segurança afastada seria feita por unidades da Força
Aérea e por tropas aerotransportadas. Quanto à representação do Governo, esta se daria à
exemplo do que já acontecia no Rio de Janeiro, sendo formada por unidades de guarda, como

1128
Idem, p. 239-240.
1129
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta III, doc. 0481.
1130
Nova Metrópole do Brasil – Relatório geral da sua localização, 1958, p. 243. Acervo José Pessoa (CPDOC
FGV). 981.74 P475n.
706

Polícia do Exército, Batalhão de Guardas e Regimento de Cavalaria de Guardas. Para isso,


bastava a simples transferência das unidades para a sede da nova Capital Federal.1131
O planejamento mais complexo ficou por conta das representações das Forças
Armadas, que deveriam privilegiar todos os tipos de tropas e de instalações para as unidades
militares. A proposta de Pessoa constituía-se de:

a) efetivos completos (aproximados dos de guerra), dispondo de equipamentos e


armamento moderno e constantemente atualizado;
b) áreas de treinamento equipadas com material adequado em quantidades
necessárias ao seu perfeito funcionamento, inclusive demonstrações de conjunto;
c) uniformes de tecido e confecção especiais;
d) instalações (quartéis, parques, praças de esporte, campos de parada, etc) conforme
os mais modernos requisitos urbanísticos e técnicos e conforto, individual e
coletivo.1132

A título de estabelecer uma ordem de grandeza para as dimensões das áreas e os


volumes das construções necessárias à instalação da Guarnição Militar da nova Capital
Federal, a proposta de Pessoa recomendava que as instalações dos quartéis, campos de
instrução e base aérea se assemelhassem às existentes nas grandes regiões militares e zonas
aéreas, bem como aquelas existentes na Vila Militar, no Rio de Janeiro. No entanto, ressaltou
que não se tratava de fazer uma transposição pura e simples dos planos de construção, e, sim,
adaptá-los e atualizá-los às novas circunstâncias. Considerou, também a necessidade de uma
guarnição da Marinha de Guerra, constituída de um batalhão de Fuzileiros Navais, ainda que a
nova capital estivesse afastada do mar, para que estivessem integradas, na nova sede do
Governo, todas as Forças Armadas. Por fim, o plano definia critérios para o recrutamento. Os
soldados seriam recrutados, a cada ano, na proporção de 50% por convocação local (região
Centro-Oeste) e 50% por convocação nas demais regiões do País. Já os quadros de oficiais e
sargentos seriam formados em porcentagens adequadas que deveriam abranger, por ordem de
urgência, as regiões Norte e Sul, as regiões Nordeste e Leste e, por fim, a região Centro-
Oeste.1133
Por fim, cabe tratar do plano de urbanização da nova cidade, para a elaboração do qual
foi organizada a Subcomissão de Planejamento Urbanístico. Para compô-la José Pessoa
convidou os engenheiros Raul Penna Firme, Afonso Eduardo Reidy, Stelio de Moares e
Roberto Burle Marx, que segundo Pessoa, prontamente aceitaram o convite e se
comprometeram a colaborar com os estudos sem qualquer tipo de ônus. Diante do

1131
Idem, p. 244.
1132
Idem, p. 244.
1133
Idem, p. 245-246.
707

compromisso, uma grande quantidade de material de desenho e especializado foi comprado e


uma sala nas dependências do Ministério da Justiça foi providenciada para o desenvolvimento
dos trabalhos. No entanto, Pessoa ressalta que na primeira reunião da subcomissão somente
Penna Firme e Oliveira Reis compareceram, obrigando-o a convidar, posteriormente, o
engenheiro Roberto Lacombe para integrá-la.1134
Em uma das primeiras reuniões da equipe chefiada por Penna Firme, foi sugerida a
indicação de um urbanista estrangeiro para a orientação geral dos trabalhos. Pessoa
posicionou-se contra a ideia, por entender que os técnicos brasileiros tinham comprovada
autoridade para assumirem a responsabilidade da execução dos planejamentos da nova
capital. Além do mais, como ele afirmou, seria a primeira oportunidade para que os
engenheiros, que tanto vinham contribuindo para o progresso do País, realizassem, no setor
urbanístico, uma obra de grande envergadura. Mesmo com o posicionamento contrário de
Pessoa, foi aventada, então, a ideia de se trazer ao Rio de Janeiro o renomado arquiteto
francês Le Corbusier, para aconselhar os arquitetos brasileiros incumbidos do projeto.1135
Sendo assim, em maio de 1955, José Pessoa enviou uma carta ao seu amigo Hugo
Gouthier, que exercia a função de delegado do Brasil junto à Organização das Nações Unidas,
em Nova Iorque, pedindo-lhe que intermediasse, a convite do governo brasileiro, a vinda de
Le Corbusier ao Brasil.1136 Gouthier enviou um telegrama a Corbusier, explanando sobre a
proposta de Pessoa. A resposta do arquiteto foi dada por intermédio da embaixada brasileira
na França. Corbusier agradeceu a deferência, mas ressaltou que não poderia deixar o seu
ateliê e os seus negócios para realizar uma viagem de quase turismo ao Brasil. Afirmou que
somente pensaria no assunto a partir de uma proposta concreta do governo brasileiro e, caso,
aceitasse, um contrato deveria ser firmado entre as duas partes, aos moldes do que ele havia
assinado com o governo da Colômbia para a prestação de serviços técnicos de urbanização da
cidade de Bogotá, cuja cópia seguiu anexa à carta da embaixada.1137 A imposição de tal
medida devia-se ao receio que o arquiteto tinha de que suas ideias e conselhos fossem
1138
aproveitados pelos engenheiros brasileiros sem que lhe fosse dado o legítimo crédito.
Corbusier chegou a enviar uma carta diretamente a Pessoa, em junho de 1955, expondo os

1134
Idem, p. 189.
1135
Idem, p. 190.
1136
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta I, doc. 0401.
1137
O serviço de urbanização prestado por Le Corbusier em Bogotá foi contratado pelo governo colombiano ao
preço de 24.150.000 francos, o que daria cerca de Cr$ 1.725.000,00, pelo câmbio oficial da época, segundo os
cálculos feitos por José Pessoa. Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta III, docs. 0417 e
0418.
1138
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta III, docs. 0416 e 0417.
708

motivos do seu receio em aceitar a oferta feita por ele sem que houvesse um acordo formal
entre as partes.1139
O inconformismo de Pessoa com a ideia de se buscar um urbanista estrangeiro para
aconselhar os trabalhos dos engenheiros e arquitetos brasileiros o levou a buscar em arquitetos
brasileiros reconhecidos e em entidades de classe opiniões que ratificassem o seu pensamento
de que todo o planejamento urbano da nova Capital Federal fosse feito com capital intelectual
exclusivamente nacional. Em seu acervo pessoal, é possível encontrar uma troca de cartas
realizada, em janeiro de 1956, com Oscar Niemeyer, um dos arquitetos brasileiros mais
prolíficos à época, e com o professor Lucas Mayernofer, diretor da Faculdade Nacional de
Arquitetura. Nelas fica claro que Pessoa os procurou a fim de expor a sua intenção de entregar
o planejamento da nova capital a técnicos brasileiros e estender-lhes o convite a participarem
da empreitada. Niemeyer colocou-se à disposição de Pessoa, bastando apenas que fosse
estabelecido formalmente o modo como se daria a sua participação. Mayernofer, em nome da
Faculdade, também declarou o seu apoio à ideia de Pessoa, afirmando a inteira confiança que
depositava nos arquitetos brasileiros. E ofereceu, ainda, as instalações da Faculdade, para que
urbanistas notáveis viessem ao Rio de Janeiro para proferirem palestra e conferências obre as
últimas conquistas do urbanismo a nível mundial.1140 Cabe ressaltar que, em agosto de 1955,
mesmo sem a ação direta de Pessoa, o IAB já havia publicado um manifesto endereçado ao
presidente da República, por meio do qual pugnavam pela participação da classe nos
planejamentos da futura capital. Provavelmente, atento a essa iniciativa, Pessoa tenha
conseguido articular, por intermédio de Niemeyer e Mayernofer, a mobilização dos arquitetos
do Rio de Janeiro em prol da nacionalização dos planejamentos. A partir de março de 1956,
começaram a ser veiculadas algumas notícias nos jornais da Capital Federal dando conta das
reuniões realizadas pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) a fim de encontrar uma
solução para os planejamentos da nova capital.1141
No entanto, um ofício enviado ao presidente Juscelino, às vésperas do seu afastamento
definitivo da presidência da CPCMCF, dá a entender que, mesmo contrariado, Pessoa enviou
ao chefe do Governo a questão da contratação de um urbanista estrangeiro. No documento,
ele cobrou de Juscelino uma decisão sobre a linha de ação que o Governo iria seguir para a
solução do plano urbanístico da nova Capital Federal: a contratação de um urbanista
estrangeiro ou aquela que viria a concretizar-se meses depois, isto é, a realização de um

1139
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta III, doc. 0419.
1140
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta IV, docs. 0553 e 0554.
1141
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 27 ago. 1955, p. 12; Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 9 mar. 1956,
Segunda Seção, p. 2; Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 1 jun. 1956, p. 8.
709

concurso de projetos urbanísticos, uma sugestão dada pelo Instituto de Arquitetos do Brasil, e
direcionada apenas para arquitetos e urbanistas nacionais.1142
Apesar de todo o debate estabelecido entre contratar-se ou não um urbanista
estrangeiro para orientar os trabalhos da Submissão de Planejamento Urbanístico, esta não
deixou de apresentar a Pessoa, ainda no ano de 1955, aquele que seria o primeiro esboço da
nova Capital Federal. Apesar de longas, é interessante que sejam apresentadas algumas das
considerações feitas pela Subcomissão a respeito do projeto urbanístico, a fim de que sejam
notadas, guardadas as devidas proporções, as semelhanças com o projeto de Lúcio Costa,
vencedor do concurso nacional do plano-piloto, promovido pela Comissão de Planejamento
da Construção e da Mudança, em setembro de 1956. Para Penna Firme e sua equipe, a cidade
deveria guardar os seguintes aspectos:

- Uma avenida monumental, denominada como referência, avenida da


Independência, medindo 5 quilômetros de extensão por 120 metros de largura,
emoldurada de faixas verdes e edifícios de grande porte arquitetônico, estende-se
desde o parque grandioso do conjunto dos edifícios do Governo centralizado pelo
palácio do Congresso, situado no ponto focal mais elevado do sítio (1.172 m) até
uma grande praça central de circulação, tendo ao centro o edifício do Panteão
Nacional.
Desta praça bifurcam-se duas amplas avenidas, uma em direção à confluência do
Rio Paranoá e outra em direção ao sítio onde se localizarão as unidades militares e,
um terceiro, os campos de pouso suplementares da cidade.
Projetou-se uma “barragem” a jusante daquele rio, que o transforma num lago
ornamental destinado aos esportes náuticos, limitado pelas margens dos Bananal e
Gama...
........................................................................................................................................
Quanto à essência do seu valor urbanístico, a avenida da Independência constitui a
espinha dorsal do partido dominante da metrópole. De ambos os lados desta avenida
circulam duas artérias de tráfego de 60 m de largura, ligadas à rede geral das
avenidas para o descongestionamento... [...] No sentido transversal a essa avenida,
próximo ao conjunto do Governo, cruza uma outra avenida similar, denominada,
como referência, avenida dos Bandeirantes... [...] Notam-se aí, a catedral, os teatros,
os cinemas, os cafés e restaurantes e o edifício da Prefeitura.
Os espaços residenciais são constituídos de grandes quadras de um quilômetro
quadrado de superfície, aproximadamente, subdivididos em loteamentos especiais,
servidos por uma rede de circulação ao abrigo do tráfego intensivo, reservando-se
espaços livres para escolas, jardins, recreação e pequeno comércio. Cada quadra
corresponde a oitocentos lotes (5.000 habitantes).
Haverá quadras desta dimensão destinadas aos funcionários do Governo, às
embaixadas estrangeiras e outras organizações coletivas, cujas edificações não
obedecerão ao regime dos lotes individuais; as edificações serão projetadas em
blocos, formando unidades harmônicas em condomínio, o que permitirá maior
reserva de espaços livres para parques e jardins, que funcionarão como servidão
junto aos edifícios de utilidade comum, como sejam: escolas, igrejas, edifícios
comerciais, etc.1143

1142
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta V, docs. 0598.
Nova Metrópole do Brasil – Relatório geral da sua localização, 1958, p. 190-193. Acervo José Pessoa
1143

(CPDOC FGV). 981.74 P475n.


710

As razões pelas quais os projetos de Penna Firme e Lúcio Costa se assemelham pode
seguir, no futuro, como um novo objeto de pesquisa. Entretanto é óbvio, como bem observa
Câmara (2012, p. 41), que a Avenida Independência de Penna Firme virou o “Eixão” de Lúcio
Costa e que as vias de apoio viraram os “eixinhos”. Isso sem considerar os setores urbanos
separados por funções e a reunião dos três poderes da República em uma só praça.

Imagem 108 – Comparação dos projetos Vera Cruz (esq.) e Brasília (dir.).

Fonte: Senra, 2010.

Apesar de todo o esforço que depreendeu para que se concretizasse o sonho nacional
de se ver, no Planalto Central, erguida a nova Capital Federal, José Pessoa não veria de perto
resultado do seu trabalho. Em 4 de junho de 1956, apresentou o seu pedido de demissão, em
caráter irrevogável, do cargo de presidente da CPCMCF. Em março de 1956 já corriam as
notícias de que Pessoa poderia pedir o seu afastamento da função. O Correio da Manhã1144
apontava a insatisfação do marechal com a pressão exercida por alguns políticos goianos
sobre o presidente Juscelino, para que fosse criada uma autarquia para ultimar os estudos e
tomar as medidas definitivas para a transferência da Capital Federal, como de fato aconteceu,
com a criação da Companhia Urbanizadora da Nova Capital Federal (NOVACAP), em 19 de
setembro de 1956.1145 Silva (1971, p. 92-93), ratifica a informação de que pessoas próximas a
Juscelino começavam a interferir no planejamento da mudança. Aponta, inclusive, uma

1144
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 8 mar. 1956, p. 14.
1145
A NOVACAP foi criada pela Lei nº 2.874, de 19 de setembro de 1956. Ironicamente, esse era o primeiro ato
legal de Juscelino Kubitschek, desde a sua posse, confirmando a transferência da Capital Federal, já que o artigo
1º da lei determinava a mudança.
711

mensagem enviada por Juscelino, em abril de 1956, ao Congresso Nacional, na qual o


presidente afirmava que o programa de execução da construção da nova capital seria levado a
efeito por uma companhia urbanizadora.
Sem se afastar do comportamento moral que lhe foi próprio durante toda a carreira,
Pessoa não aceitava a pressão política para que se deixasse de lado a construção da nova
Capital Federal em bases puramente técnicas. Na sua carta de demissão, lembrou a Juscelino
que já havia, em março de 1956, deixado claro a sua posição quanto “a ideia de transformação
imediata desta Comissão e suas consequências”. Segundo Pessoa, havia pesado, ainda, na sua
decisão uma entrevista concedida por Juscelino, durante uma visita a Campina Grande-PB, na
qual o presidente teria discordado da decisão da Comissão na escolha do sítio Castanho.1146
Castiglione (2010, p. 110) aponta, ainda, um terceiro fator para o pedido de afastamento feito
por Pessoa. Segundo o autor, o marechal divergia de Juscelino quanto ao regime de trabalho
para a execução das obras. Pessoa pretendia que o empreendimento fosse autossustentável e,
devido a isso, entendia que a construção da nova capital não deveria ser realizada em um
curto espaço de tempo, como pretendia o presidente. Por outro lado, Juscelino queria
inaugurá-la ainda durante o seu mandato. Diante de todos esses fatores, não restou a José
Pessoa outra atitude a não ser pedir a sua demissão. No último parágrafo do documento de
demissão fez questão de ressaltar, ainda, ao presidente que a Comissão, apesar de não ter
recebido um único centavo desde o dia 1º de janeiro de 1956, estava sendo entregue com os
serviços e dia e sem uma dívida a saldar. Silva (1998, p. 17) confidencia, inclusive, que
Pessoa não nutria grande simpatia por Juscelino. No pleito eleitoral de 1955, havia feito
campanha e votado em Juarez Távora. Para o lugar de José Pessoa, seria nomeado semanas
mais tarde o próprio Ernesto Silva.
Durante a presidência da CPCMCF, conforme aponta Silva (1998, p. 16), José Pessoa
já não se encontrava muito bem de saúde, estava com muitos problemas de pressão alta. A
partir do dia seguinte à data de 6 de junho de 1956, quando passou interinamente a chefia da
Comissão de Planejamento da Construção para o general Aureliano Luiz de Farias 1147, diretor
do Serviço Geográfico do Exército, definitivamente permaneceu na intimidade do seu lar.
Afastado da vida pública, os jornais já não noticiavam mais com a frequência o seu nome, o
que torna os anos seguintes da vida de Pessoa praticamente uma incógnita.

1146
Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPvp1954.10.01, Pasta V, doc. 0600. Segundo publicações feitas nas
edições dos dias 9 e 12 de junho de 1956, do jornal Diário de Notícias, a entrevista de Juscelino realmente
aconteceu, o que gerou duras críticas por parte da imprensa.
1147
Semanas mais tarde Ernesto Silva assumiria definitivamente as funções de José Pessoa, a convite do
presidente Juscelino Kubitschek.
712

Dentre as poucas notícias veiculadas a respeito de José Pessoa, a partir de junho de


1956, está a sua participação no conselho da Sociedade dos Amigos da Lagoa Rodrigo de
Freitas. Pessoa era morador da Lagoa. Residia no número 74 da rua Professor Abelardo Lobo.
Hoje em dia, este endereço faz esquina com a avenida Borges de Medeiros. Segundo o que
noticiou o jornal Correio da Manhã, a Sociedade, criada em 16 de junho de 1956, com o
apoio do Conselho de Turismo da Confederação Nacional do Comércio, tinha como objetivo
principal “arrancar dos poderes públicos um plano diretor de urbanização e conservação que
sirva como doutrina para a ação municipal na Lagoa”. Figuras ilustres, que moravam no
bairro, compunham a sua diretoria, como o escritor José Lins do Rego, que foi eleito o
primeiro presidente da associação. O prefeito Negrão de Lima, também morador da Lagoa, foi
empossado presidente de honra e além de José Pessoa, outras personalidades, como o ministro
do Supremo Tribunal Federal, Barros Barreto, e associações esportivas e de classe
compunham o conselho a entidade.1148
Em uma entrevista para o jornal, Celso Azambuja, diretor de Relações Públicas da
Sociedade, ressaltou que, quando da sua fundação, pensava-se que todos os trabalhos
preparatórios e planos diretores para a urbanização da Lagoa teriam que começar do nada, o
que exigiria um longo período de pesquisas. No entanto, tal intento não foi necessário graças à
José Pessoa, que possuía todo um planejamento já realizado, uma vez que vinha se dedicando
ao assunto há algum tempo.1149 Pessoa já havia, inclusive, mandado preparar uma planta
arquitetônica da Lagoa Rodrigo de Freitas e do seu entorno, com sugestões daquilo que
pensava ser o mais adequado para a urbanização da área. Ao projeto, do ano de 1949, deu o
nome “Parque da Lagoa”.

1148
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 16 jun. 1956, Segundo Caderno, p. 7.
1149
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 22 jul. 1956, Primeiro Caderno, p. 3.
713

Imagem 109 – Projeto “Parque da Lagoa” elaborado por José Pessoa, 1949.

Fonte: Acervo José Pessoa (CPDOC FGV) - JPFOTO34.

Algumas entrevistas concedidas por Pessoa ao jornal O Globo, ainda na década de


1940, mostram que a falta de urbanização do entorno da Lagoa há tempos o incomodava
bastante. Na edição de 15 de abril de 1942, ao agradecer o título de sócio honorário da
Sociedade Hípica Brasileira1150, com o qual havia sido agraciado, sugeriu a criação de um
caminho arborizado para a prática equestre às margens da lagoa e que interligar-se-ia com
alguns pontos turísticos do maciço da Tijuca, como a Vista Chinesa e a Mesa do Imperador,
através da estrada da Castorina, até chegar ao Clube Itanhangá.1151 Porém o que mais o
incomodava eram as favelas que começavam a surgir nas encostas às margens da lagoa e que
contrastavam, nas suas palavras, com um dos mais “lindos recantos da cidade”. Esse fato,
segundo Pessoa, o inspirava a uma ideia de total transformação daquela área, o que se daria
por meio da criação de um parque paisagista em todo o entorno da lagoa. O parque serviria de
área desportiva e recreativa, aproveitando-se a “beleza exuberante e colorida” da floresta do
Corcovado. Possuiria árvores de todas as espécies nativas brasileiras e contaria, além da já
proposta pista equestre, com quadras para a prática de esportes e uma pista de regatas

1150
A Sociedade Hípica Brasileira havia sido fundada em 1942 e instalou a sua sede na Lagoa. Nasceu da fusão
entre o Centro Hípico Brasileiro, localizado na Praia Vermelha e o Clube Esportivo de Equitação, localizado em
São Cristóvão e do qual José Pessoa era sócio.
1151
O Globo, Rio de Janeiro, 15 abr. 1942, edição Vespertina, p. 3.
714

olímpicas, que seria utilizada pelos clubes náuticos da cidade, os quais construiriam as suas
sedes em torno da lagoa.1152
Na edição do dia 22 de junho de 1945, José Pessoa tornou a abordar a questão das
favelas, sob o pseudônimo de “general X”. Em um longo artigo intitulado “Favelas, bairros
crepusculares da cidade”, em que fez uma descrição detalhada do aspecto degradante e das
mazelas sociais que atingiam as favelas cariocas, as considerou um problema administrativo e
social de uma geração “intoxicada pela megalomania do mando e do egoísmo pessoal” e que
refletia muito bem a maneira com que ainda eram tratados pelo governo os “interesses da
coletividade”. No seu ponto de vista, sem os “requisitos indispensáveis de higiene” e a
“devida fiscalização policial”, as favelas eram “focos permanentes de endemias e autênticas
escolas de latrocínio”. Segundo Pessoa, a todos cabia a tarefa de salvar a população que
morava naquelas aglomerações inabitáveis. E apontou ao governo uma solução para o
problema: a construção de “parques proletários”, semelhantes a “bairros-jardins”, cercados de
pomar, com ruas arborizadas, escolas primárias e profissionalizantes, assistência hospitalar e
maternidade, centros recreativos, transportes e fiscalização policial. A mão de obra a ser
utilizada para a construção desses locais seria a dos próprios moradores das favelas e dos
presos correcionais da cidade.1153
Em 28 de dezembro de 1956, no Clube Militar, José Pessoa foi homenageado em uma
reunião comemorativa do décimo aniversário de formatura da primeira turma de cadetes que
ingressou na Escola Militar de Resende, por ter sido o inspirador daquele estabelecimento de
ensino.1154 Em janeiro de 1959 participaria, ainda, de dois encontros de turmas. O primeiro foi
o de jubileu de ouro da sua turma, de 1909, da Escola de Guerra de Porto Alegre. O segundo
encontro foi o de jubileu de prata da turma de 1934 da Escola Militar do Realengo, a primeira
turma que realizou o curso inteiramente sob o seu comando naquele estabelecimento de
ensino.1155
Provavelmente, a participação nesses dois últimos encontros seriam as duas últimas
aparições em eventos sociais de José Pessoa. No dia 16 de agosto de 1959, faleceu de causas
naturais, a um mês de completar 74 anos de idade. Seu corpo foi velado no Clube Militar, a
casa pela qual tinha tanta admiração, e conduzido por cadetes da Academia Militar das
Agulhas Negras para o cemitério São João Batista, no bairro de Botafogo, onde foi sepultado

1152
O Globo, Rio de Janeiro, 6 set. 1944, edição Vespertina, p. 6.
1153
O Globo, Rio de Janeiro, 22 jun. 1945, edição Vespertina, p. 5.
1154
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 28 dez. 1956, Segundo Caderno, p. 2.
1155
Convites dos encontros das turmas de 1934, da Escola Militar do Realengo e da turma de 1909, da Escola de
Guerra de Porto Alegre. Acervo José Pessoa (CPDOC FGV). JPag1923.12.27.
715

no túmulo 195-A, às 17 horas daquele mesmo dia. O governador de Goiás, José Feliciano
Ferreira, vários ministros de Estado, deputados e senadores, inúmeras autoridades militares e
civis e antigos camaradas do Exército compareceram ao sepultamento para prestar-lhe as
últimas homenagens. O amigo general José Venturelli Sobrinho fez o panegírico de José
Pessoa. Lembrou que havia preparado um acróstico em homenagem à Pessoa, a quem
mostrou, em companhia de Dna. Blanche, em dezembro de 1958. Pessoa pediu à Venturelli
que guardasse a peça literária para ser lida no seu túmulo, um desejo que o amigo cumpria
naquele momento. 1156
Os principais jornais da Capital Federal deram destaque ao falecimento de José
Pessoa. Todos lembraram a sua exitosa carreira e a amizade especial que ele nutria pela
juventude militar, a qual liderou entre 1931 e 1934, no Realengo, e pela qual se empenhou, na
idealização da Academia Militar das Agulhas Negras. Nos meses seguintes ao da sua morte,
várias homenagens lhe foram prestadas. Sua trajetória militar foi lembrada pelos deputados
Meneses Côrtes e Aderbal Jurema e pelo senador paraibano Rui Carneiro, em sessões solenes
da Câmara dos Deputados, em 18 de agosto, e do Senado Federal, em 19 de agosto.1157 Na
sessão do Senado do dia 29 de agosto, Rui Carneiro fez alusão a uma carta do jornalista Paulo
de Oliveira da bancada de imprensa daquela casa legislativa, por meio da qual Oliveira
sugeria a construção de um monumento em homenagem a José Pessoa em Brasília, como
reconhecimento pelos grandes serviços por ele prestados em prol da nova Capital Federal.
Carneiro lembrou que não era da competência do Senado apresentar projeto de abertura de
crédito para a construção de monumentos, mas, afirmou que encaminharia o pedido à bancada
da Paraíba da Câmara dos Deputados.1158 O fato é que o projeto não foi adiante e até hoje, na
história de Brasília, o trabalho profícuo de José Pessoa não é reconhecido.
Na sua coluna de 31 de agosto de O Globo, o jornalista paraibano Luis Pinto lembrou
o admirável soldado e homem público que fora José Pessoa, no seu entender, um dos
“magníficos exemplos de atuação constante nas lamas jovens de boa formação e boa
índole”.1159 Na Academia Militar das Agulhas Negras, em novembro de 1959, o Curso de
Balística instituiu o “prêmio Marechal José Pessoa”, que passou, a partir daquele ano, a ser
concedido aos cadetes do 3º Ano classificados em primeiro e segundo lugares nos exercícios
de tiro do canhão antiaéreo 90 mm. Os primeiros cadetes a recebê-lo foram: Jaime Juraszec e

1156
Informações retiradas do jornal O Globo, Rio de Janeiro, 17 ago. 1959, Edição Matutina, p. 6.
1157
O Globo, Rio de Janeiro, 18 ago. 1959, Edição Matutina, p. 3 e 19 ago. 1959, Edição Matutina, p. 2.
1158
O Globo, Rio de Janeiro, 29 ago. 1959, Edição Matutina, p. 11.
1159
O Globo, Rio de Janeiro, 31 ago. 1959, Edição Matutina, p. 11.
716

Osni Artiga Filho.1160 A cadeira de Balística já não existe mais e, em decorrência disso, o
prêmio deixou de ser concedido. No dia 15 de dezembro, na sua festa de décimo aniversário
de formatura, foi a vez dos oficiais da “turma General José Pessoa”, declarados aspirantes em
1949, homenageá-lo. Na ocasião, com a presença da viúva e dos filhos, um busto de José
Pessoa foi inaugurado na Esplanada General Affonseca, diante do mastro da bandeira
Nacional, para que todo o Corpo de Cadetes pudesse vê-lo, nas formaturas. Uma placa
comemorativa do aniversário da turma foi descerrada por Dna. Blanche Mary. Discursando
em nome da AMAN, o coronel Manuel Cavalcanti Proença ressaltou que, naquela data, José
Pessoa recebia o primeiro penhor da posteridade que havia conquistado, de direito e de
justiça, que iria aumentando ao longo dos anos, tornando a sua memória cada vez mais viva,
até confundir-se com o objeto da sua própria criação.1161

Imagem 110 – Busto de José Pessoa doado AMAN pela turma de 1949, “Turma
General José Pessoa”.

Fonte: foto do autor, 2021.


O busto já não se encontra mais em seu local original. Hodiernamente, está localizado
no hall de entrada do Conjunto Principal II, que faz parte das edificações de ampliação da
AMAN construídas e inauguradas no final da década de 1980, pelo então ministro do Exército
general Leônidas Pires Gonçalves. Foi colocado ali de modo proposital, para que todos
aqueles que visitarem a instituição possam contemplar a figura do seu criador. Abaixo, em
uma placa de bronze a frase que teria sido dita pelo próprio marechal: “É importante sonhar,
mas, o fundamental é transformar o sonho em realidade”.

1160
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 21 nov. 1959, Primeiro Caderno, p. 11.
1161
O Globo, Rio de Janeiro, 16 dez. 1959, Edição Matutina, p. 11.
717

12 CONCLUSÃO

O Brasil é um país em que as intervenções militares na história política se tornaram


frequentes a partir do evento da República. Definir o papel das Forças Armadas e, mais
especificamente, do Exército e de seus personagens na história da Nação, e da Instituição, é
um fantástico desafio e um gratificante trabalho de interpretação. Um desafio porque diversos
autores já expressaram suas opiniões sobre os fatos, construindo teses, definindo hipóteses e
acrescentando respostas relevantes às lacunas que se formaram ao longo da história nacional.
Um gratificante trabalho de interpretação, porque o exercício da pesquisa, através da
abordagem das fontes e da bibliografia, obriga o pesquisador a realizar uma síntese,
contribuindo para o estudo do tema e para a compreensão dos fatos históricos em questão.
A intervenção dos militares na política possibilitou-lhes, como classe, uma
participação mais expressiva na sociedade, trazendo seus problemas para a pauta de
discussões políticas e sociais da Nação. O esforço que se estabeleceu na primeira metade da
República foi pela busca de um Exército forte, verdadeiramente nacional, moderno e capaz de
intervir na política interna e externa. Para que isso acontecesse, é inegável a importância da
participação decisiva de seus chefes militares nas disputas de poder e na construção de
governos ditatoriais, como foi o Estado Novo. Por outro lado, o estudo biográfico desses
personagens é fundamental para mostrar, também, que a adesão do alto comando do Exército
a esses projetos de poder não se deu em sua totalidade. Ao se manterem ao lado da legalidade,
generais como José Pessoa, Valdomiro Castilho e outros tantos, com carreiras consolidadas e
brilhantes, foram afastados compulsoriamente de suas funções ou passaram a ocupar cargos
de pouca relevância no seio da Instituição.
Nesse contexto, este trabalho se propôs a mostrar as trajetórias profissional e de vida
do marechal José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, chefe militar cultuado no panteão das
personalidades do Exército brasileiro, por ter possuído virtudes e portado valores que o
tornaram um dos modelos ideais de soldado e de chefe militar a serem seguidos pelos
integrantes da Instituição. Avesso à política partidária nos quartéis, as ideias defendidas por
Pessoa representam o projeto de Exército derrotado no período pós-Revolução de 1930. Ao
mostrar-se antagônico ao projeto de poder de Getúlio Vargas, Eurico Dutra e Góes Monteiro,
deixou de alcançar os cargos de maior projeção na carreira: o Ministério da Guerra e a chefia
do Estado-Maior do Exército. Sendo assim, o foco da pesquisa esteve não só no resgate da sua
carreira militar, mas também das suas origens familiares e da forma como se posicionou
diante dos cenários político, econômico e social do Exército e da Nação.
718

Como anunciado na Introdução, o fio condutor desta pesquisa esteve atrelado ao


acervo documental do marechal José Pessoa, depositado no CPDOC FGV, especialmente a
sua autobiografia não publicada. Entendeu-se ser esse o melhor caminho a trilhar, porque,
como afirma Dosse (2015, p. 68), as fontes autobiográficas têm uma importância capital, por
darem ao biógrafo a ilusão de penetrar no âmago do personagem e chegar bem perto da sua
intencionalidade. Como bem ressalta o autor, o uso de memórias, confissões ou registros
autobiográficos dá a entender que se está mais próximo da restituição autêntica do passado.
No entanto, a aproximação com a verdade exigiu a confrontação do que foi dito pelo
biografado com outras fontes. Daí ter sido fundamental a busca realizada em outras fontes
primárias e secundárias, como os jornais da época e os relatos memoriais dos personagens
históricos que conviveram com Pessoa.
Sendo assim, em um primeiro momento, com o propósito de se obter um melhor
entendimento do campo, uma pesquisa a respeito do gênero biográfico, e da sua relação com a
História, foi realizada, o que resultou no capítulo inicial desta tese. A partir desse estudo,
chegou-se à conclusão de que, em termos metodológicos, tornar-se-ia mais pertinente o uso de
algumas indicações feitas por Vavy Pacheco Borges (2015) e pelo antropólogo Gilberto
Velho (2013), no tocante à seleção daquilo que seria mais significativo nas trajetórias militar e
de vida de José Pessoa e à relação deste personagem com o contexto em que foram
construídas essas trajetórias.
Os capítulos seguintes desta tese abordaram as relações de parentela e a formação
militar de Pessoa. Paraibano de nascimento, carregava no nome o peso de três fortes
oligarquias do Nordeste brasileiro: os Pessoa, os Cavalcanti e os Albuquerque. Apesar de
ressaltar a linhagem nobre da família paterna, foi o sobrenome da mãe que lhe conferiu o
status social necessário no seio do Exército e da Nação. Assim como havia acontecido com o
seu tio Epitácio Pessoa e com o seu irmão João Pessoa, foi o peso político do sobrenome
materno que lhe possibilitou conquistar e preservar o prestígio ao longo da carreira militar.
Formado nas Escolas de Tática, de Realengo, e de Guerra, de Porto Alegre, acompanhou de
perto as agitações políticas dos anos iniciais da República, sem, entretanto, nelas envolver-se,
o que já demonstrava, desde a sua mocidade, o viés legalista que adotaria durante toda a sua
vida na caserna, uma posição antagônica à prática adotada pela maioria dos alunos desses
seculares institutos de formação militar.
Como oficial subalterno, vivenciou as reformas estruturais e organizacionais pelas
quais passou o Exército na segunda década do Século XX. Na Capital Federal foi subordinado
do tio, coronel José da Silva Pessoa, no 13º Regimento de Cavalaria. Poucos anos mais tarde,
719

transferido para o seu estado natal, participou das ações de combate ao bando do cangaceiro
Antônio Silvino, uma vítima das injustiças sociais e das condições miseráveis do sertão
nordestino, segundo ele, sem, no entanto, desconsiderar os atos de bandoleiragem praticados
por esse personagem da história da Paraíba. Em 1917, desempenhou a função de chefe de
instrução da Escola de Instrução Militar da Faculdade de Direito de São Paulo, a qual
considerou a sua primeira experiência de comando. Na ocasião, acompanhou de perto a
atuação da Liga da Defesa Nacional paulista e da campanha civilista de Olavo Bilac, de quem
se tornou admirador confesso, em prol do serviço militar obrigatório. No ano seguinte, como
membro da Comissão de Estudos de Operações e Aquisição de Material na França, foi um dos
poucos brasileiros que tomou parte dos combates da Primeira Guerra Mundial, ao ser
incorporado voluntariamente no 4º Regimento de Dragões francês. A experiência valeu-lhe
uma promoção por ato de bravura, ao posto de capitão, e uma das mais altas condecorações
do Exército francês, a Cruz de Guerra.
O contato com os carros blindados nos campos de batalha do Flandres belga, uma
novidade da guerra moderna, despertou em Pessoa o interesse pelo emprego dos veículos
motomecanizados, a ponto de ele escrever um livro sobre o tema, o primeiro do gênero
publicado na América do Sul, em 1921. Ainda na França, ao final da Primeira Grande Guerra,
foi encarregado de realizar a análise técnica dos primeiros carros blindados que seriam
adquiridos pelo Exército brasileiro. No retorno ao Brasil, seria encarregado, pelo Ministério
da Guerra, de organizar a primeira unidade militar blindada da Instituição, da qual foi seu
primeiro comandante.
A aversão latente de José Pessoa pela política dentro da caserna manifestou-se com
mais força nas fases em que atingiu os postos de oficial superior e no generalato, apesar de,
ainda como capitão, ter se mostrado totalmente contrário ao movimento tenentista de 1922.
No comando da Escola Militar do Realengo, cargo que assumiu em 1931 e que o colocaria
definitivamente no panteão dos chefes militares cultuados pela oficialidade do Exército,
implementou ampla reforma estrutural e anímica. A criação de símbolos e o resgate do título
de cadete, apagado da história até então pela República, pretendiam, nas suas palavras, a
construção de uma nova aristocracia, não de sangue, mas física e moral. As interferências
políticas no dia a dia da Escola pelo ministro Góes Monteiro, que se tornaria o seu grande
desafeto na Instituição, o levaram a demitir-se do comando, em 1934. No exercício do cargo,
ainda lançou as bases do seu projeto institucional maior: a construção da Escola Militar de
Resende, mais tarde renomeada Academia Militar das Agulhas Negras, cuja construção
acompanhou de longe.
720

A partir de 1937, Pessoa foi levado ao ostracismo institucional, após ter adotado
abertamente uma posição antagônica ao golpe do Estado Novo, que se constituiu, no seu
entender, mais num conluio de políticos e soldados, do que um regime de salvação.
Juntamente com o general Valdomiro Castilho, foi acusado de conspirar contra o Governo,
pelo simples fato de divergir das ideias políticas dos “liberticidas de 37”, como nominava
Vargas, Dutra e Góes Monteiro. Nos últimos anos da carreira, desempenhou, como oficial
general, várias funções afetas à sua posição hierárquica dentro da Força. Porém, nenhuma
delas o aproximou do centro do poder do alto comando do Exército: o Ministério da Guerra e
o Estado-Maior do Exército. Comandou a 9ª Região Militar, no distante Mato Grosso, a
Inspetoria da Arma de Cavalaria e a Zona Militar do Sul, esta a sua última comissão no
serviço militar ativo. Como inspetor de Cavalaria, participou do movimento de generais que
depôs Getúlio Vargas do poder, em 1945. Em 1948 engajou-se na luta pela nacionalização do
petróleo brasileiro e já na reserva, a partir de 1954, no posto de marechal, presidiu a Comissão
de Localização da Nova Capital Federal, sua última “missão” da vida, cujo trabalho profícuo
permitiu a construção de Brasília, no governo de Juscelino Kubitschek. Seguindo a bússola
moral que norteou toda a sua carreira, afastar-se-ia deste cargo devido às interferências
políticas que resultaram na criação da NOVACAP.
Por fim, cabe concluir esta tese ressaltando que, ao defender, durante toda a sua vida
militar, o afastamento da Instituição da política partidária, José Pessoa fez parte, juntamente
com alguns poucos oficiais generais, de um projeto de Exército derrotado no período pós-
Revolução de 1930. No seu entender, somente um Exército nacional com o seu alto comando
renovado e formado por um corpo de oficiais capazes e patriotas, absortos nos seus deveres
profissionais e alheios ao partidarismo político, seria capaz de manter a Nação afastada das
aventuras antidemocráticas pelas quais o País havia passado. À mocidade militar, que tanto
defendeu e da qual trabalhou em prol, competia, segundo ele, a tarefa da renovação pela qual
a Instituição deveria passar, mantendo-se, assim, a honra e o decoro da classe.
Dessa forma, crê-se que esse trabalho de pesquisa tenha contribuído para uma melhor
compreensão do papel do personagem histórico marechal José Pessoa Cavalcanti de
Albuquerque na história do Exército e do País e do contexto das relações de poder
institucionais e políticas no qual estiveram inseridas as suas trajetórias de vida e militar,
principalmente nas décadas de 1930 e 1940.
721

REFERÊNCIAS

1 BIBLIOGRAFIA

ALBUQUERQUE, José Pessoa Cavalcanti de. Os tanks na guerra europeia. Rio de Janeiro:
Albuquerque e Neves, 1921.

_______. Diário de minha vida. Autobiografia não publicada, 1953.

AMAN. Academia Militar. Dois séculos formando oficiais para o Exército (1811-2011). São
Paulo: IPSIS, 2011.

AQUINO, Tasso Villar de. Projeto Memória Marechal José Pessoa. Revista do Clube
Militar. Edição Especial Marechal José Pessoa, Rio de Janeiro, set./out. 1985, p. 13-16.

ARARIPE, Tristão Alencar de. Tasso Fragoso. Um pouco da história do Exército brasileiro.
Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1960.

ARAGÃO, Campos. Cadete do Realengo. Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército, 1959.

ARAÚJO, Rodrigo Nabuco de. Missão Militar Francesa. In.: PAULA, Christiane Jalles de;
LATTMAN-WELTMAN, Fernando. Dicionário histórico-biográfico brasileiro – Pós-1930.
3. ed. Rio de Janeiro: FGV, [Link]ível
em:<[Link]
republica/MISS%C3%83O%20MILITAR%[Link]>. Acesso em: 20 jan. 2021.

ANTHENOR de França Navarro. In.: CPDOC. Dicionário Histórico-biográfico Brasileiro.


Primeira República. Rio de Janeiro: FGV, sem data. Disponível em:<
[Link]
Acesso em: 24 nov. 2020.

AVELAR, Alexandre de Sá. A retomada da biografia histórica: problemas e perspectivas.


Oralidades, n. 2, jul./dez. 2007, p. 45-60.

_______. Escrita da história, escrita biográfica – das possibilidades de sentido. In.: AVELAR,
Alexandre de Sá; SCHIMDT, Benito Bisso. (org.) Grafia de Vida. Reflexões e experiências
com a escrita biográfica. São Paulo: Letra e Voz, 2012.

BANDECCHI, Pedro Brasil. A Liga Nacionalista. São Paulo: Parma, 1980.

BARROS, Fernanda; CARVALHO, Carlos Henrique de. Os exames preparatórios e a


racionalização do ensino secundário de 1854 a 1910. Imagens da Educação, v. 7, n. 3, p. 99-
111, 2017.

BASTOS, Expedito Carlos Estephani. O Brasil na era dos blindados. Renault FT-17 no
Exército brasileiro 1921-1942. Da Cultura, Rio de Janeiro, ano 1, n. 2, jul/dez 2001, p. 40-
46.

BONALUME NETO, Ricardo. A nossa Segunda Guerra. Os brasileiros em combate, 1942-


1945. São Paulo: Contexto, 2021. E-book.
722

BELLINTANI, Adriana Iop. O Exército Brasileiro e a Missão Militar Francesa: instrução,


doutrina, organização, modernidade e profissionalismo (1920-1940). 2009. 700 f. Tese
(Doutorado em História Social) – Universidade de Brasília. Brasília, 2009.

BIBLIOTECA NACIONAL. Panfleto impresso em 1817 contra a tirania real em


Pernambuco, 1817.

_______. Documentos Históricos: Devassa de 1801 em Pernambuco. Rio de Janeiro, 1955,


v. 110, p. 19-23.

BILAC, Olavo. Em marcha! In.: BILAC, Olavo. A defesa nacional (Discursos). Rio de
Janeiro: Liga da Defesa Nacional, 1917.

BLEY, João Punaro. Recordações de uma velha escola (1918-1920). A Defesa Nacional, Rio
de Janeiro, n. 666. p. 3-7, 1976.

BLOCH, Marc. Apologia da história ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Zahar,


2001.

BOPP, Itamar. Resende – Cem anos da cidade. São Paulo: Sangirard, 1978.

BORGES, Vavy Pacheco. O “eu” e o “outro” na relação biográfica. In.: NAXARA, Márcia;
MARSON, Izabel; BREPOHL, Marion. (org.) Figurações do outro. Uberlândia: EDUFU,
2012.

_______. Grandezas e misérias da biografia. In.: PINSKY, Carla Bassanezi. (coord.) Fontes
históricas. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2015.

BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. In.: FERREIRA, Marieta de Moraes; AMADO,


Janaína. (coord.) Usos e abusos da história oral. 8. ed. Rio de Janeiro: FGV, 2006.

BRASIL. Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, 1934.

BRETAS, Marcos Luiz. O general Góes Monteiro: a formulação de um projeto para o


Exército. Militares e Política, Rio de Janeiro, n. 2, jan./jun. 2008, p. 31-61.

BURKE, Peter. A invenção biográfica e o individualismo renascentista. Estudos Históricos,


v. 10, n. 19, 1997, p. 83-97.

CALICCHIO, Vera. Revolta de Princesa. In.: PAULA, Christiane Jalles de; LATTMAN-
WELTMAN, Fernando. Dicionário histórico-biográfico brasileiro – Pós-1930. 3. ed. Rio de
Janeiro: FGV, [Link]ível em:< [Link]
tematico/princesa-revolta-de>. Acesso em: 26 abr. 2020.

CÂMARA, Hiram de Freitas. Marechal José Pessoa. A força de um ideal. Rio de Janeiro:
BIBLIEX, 2011.

_______. Marechal José Pessoa: o ideal alcançado. Revista Da Cultura, Rio de Janeiro, a.
XII, n. 19, jan. 2012, p. 38-49.

_______. O marechal José Pessoa e Brasília. Revista Da Cultura, Rio de Janeiro, a. XII, n.
20, ago. 2012, p. 32-43.
723

_______. Marechal José Pessoa. Entrevista cedida a Rafael Roesler. Resende, 12 mar. 2020.
1 arquivo. Mp3. (120 min). Publicação na íntegra não autorizada pelo entrevistado.

CAMARGO, Aspásia; GOÉS, Walder de. Meio século de combate: diálogo Cordeiro de
Farias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.

CAMPOS, Flammarion Pinto de. Uma atitude-um chefe. Revista do Clube Militar. Edição
Especial Marechal José Pessoa, Rio de Janeiro, set./out. 1985, p. 31-32.

CAPELLA, Leila Maria Corrêa. As malhas de aço no tecido social: a revista A Defesa
Nacional e o serviço militar obrigatório. 1985. 280p. Dissertação (Mestrado em História) -
Universidade Federal Fluminense. Niterói. 1985.

CARLYLE, Thomas. On heroes, hero-worship, and the heroic in history. New Haven:
Yale Press, 2013.

CARVALHO, Estevão Leitão de. Memórias de um soldado legalista. t. I, livros 1 e 2. Rio


de Janeiro: Imprensa do Exército, 1961.

CARVALHO, José Murilo. Forças Armadas e política1930/1945. In.: CPDOC. A revolução


de 30: seminário internacional. Brasília: Universidade de Brasília, 1982. p. 109-187

_______. Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo:
Companhia das Letras, 2002

_______. Forças armadas e política no Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.

CARVALHO, Marcus Joaquim Maciel; CÂMARA, Bruno Augusto Dornelas. Insurreição


Praieira, Almanack Braziliense, n. 8, nov. 2008, p. 5-38.

CASTIGLIONE, Luiz Henrique G. Brasília, codinome Vera Cruz: a comissão engenheira que
fundou as bases da construção da nova capital. In.: SENRA, Nelson de Castro. Org. Veredas
de Brasília: as expedições geográficas em busca de um sonho. Rio de Janeiro: IBGE, 2010.
E-book.

CASTRO, Celso. Inventando tradições no Exército brasileiro: José Pessoa e a reforma da


Escola Militar. In.: Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 7, n. 14, 1994, p. 231-240.

_______. Os militares e a república. Um estudo sobre cultura e ação política. Rio de


Janeiro: Jorge Zahar, 1995.

_______. Entre Caxias e Osório: a criação do culto ao patrono do Exército brasileiro. Estudos
Históricos, Rio de Janeiro, v. 14, n. 25, p. 103-118.

_______. A invenção do Exército brasileiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

_______. A luta pela implantação do serviço militar obrigatório no Brasil. In: CASTRO,
Celso. Exército e nação: estudos sobre a história do Exército Brasileiro. Rio de Janeiro:
FGV, 2012. p. 53-82
724

CASTRO, Celso; ARAÚJO, Juliana Gagliardi de. A revolta da Escola Militar da Praia
Vermelha (1904). In.: CASTRO, Celso. Exército e nação: estudos sobre a história do
Exército Brasileiro. Rio de Janeiro: FGV, 2012. p. 29-52

CERTEAU, Michel de. A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1982.

CHARTIER, Roger. A história hoje: dúvidas, desafios e propostas. Estudos Históricos, v. 7,


n. 13, 1994, p. 97-113.

CIDADE, Francisco de Paula. Marechal Hermes Rodrigues da Fonseca, Revista Militar


Brasileira, jul./dez. 1955.

_______. Cadetes e alunos militares através dos tempos. Rio de janeiro: Biblioteca do
Exército, 1961.

COELHO, Edmundo Campos. Em busca da identidade: o Exército e política na sociedade


brasileira. Rio de Janeiro: Record, 2000.

COSTA, Francisco Augusto Pereira da. Capitães-móres Governadores Loco-Tenentes dos


Donatários de Pernambuco. Revista do Instituto Archeológico e Geographico
Pernambucano, Recife, n. 50, p. 61-63, 1897.

COUTINHO, Lourival. O general Góes depõe. Rio de Janeiro: Coelho Branco, 1955.

CRULS, Luiz. Relatório da Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil.


Brasília: Senado Federal, 2012.

DANTAS, Ney. Resendenses por amor. Rio de Janeiro: Edição do autor, 2013.

DARÓZ, Carlos. O Brasil na Primeira Guerra Mundial. A longa travessia. São Paulo:
Contexto, 2016.

DE LUCA, Tânia Regina. História dos, nos e por meio dos periódicos. In: PINSKY, Carla
Bassanezi. Fontes Históricas. São Paulo: Contexto, 2005.

DEL PRIORE, Mary. Biografia: quando o indivíduo encontra a história. Topoi, v. 10, n. 19,
jun./dez. 2009, p. 7-16.

DOMINGOS NETO, Manuel. Influência estrangeira e luta interna no Exército (1889-1930).


In: ROUQUIÉ, Alain (Org.). Os partidos militares no Brasil. Rio de Janeiro: Record, 1980.

DOSSE, François. O desafio biográfico. Escrever uma vida. 2. ed. São Paulo: EDUSP, 2015.

DUARTE, Paulo G. O Nordeste na II Guerra Mundial: antecedentes e ocupação. Rio de


Janeiro: Record, 1971.

ENGEL, Magali Gouveia. Os intelectuais e a Liga da Defesa Nacional: entre a eugenia e o


sanitarismo? (RJ, 1916-1933). Intellectus, Rio de Janeiro, v. 11, n. 1, 2012.

ESTEVES, Diniz (Org.). Documentos históricos do Estado-Maior do Exército. Brasília:


Estado-Maior do Exército, 1996.
725

EXÉRCITO BRASILEIRO. Ministério da Guerra. Uniformes do Exército Brasileiro. Rio de


Janeiro: Ministério da Guerra, 1922.

FAAP. Visita da família real belga ao Brasil – 1920. São Paulo: FAAP, 2010.

FAGUNDES, Luciana Pessanha. Uma república em festa: a visita dos reis da Bélgica ao
Brasil (1920). 2007. 232 p. Dissertação (Mestrado em História Social) – Universidade Federal
do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro-RJ, 2007.

_______. Participação brasileira na Conferência de Paz de Versalhes. In.: CPDOC.


Dicionário Histórico-biográfico Brasileiro. Primeira República. Rio de Janeiro: FGV, sem
data. Disponível em:< [Link]
republica/PARTICIPA%C3%87%C3%83O%20BRASILEIRA%20NA%20CONFER%C3%8
ANCIA%20DA%20PAZ%20DE%[Link]>. Acesso em: 24 jun. 2020.

FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. 12 ed. v.


2. São Paulo: Globo, 1997.

FERREIRA, Eva Maria Luiz. A participação dos índios kaiowá e guarani como
trabalhadores nos ervais da Companhia Matte Larangeira (1902-1952). 2007. 111p.
Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal da Grande Dourados. Dourados.
2007.

FERREIRA, Marieta de Moraes. Apresentação. In.: AVELAR, Alexandre de Sá; SCHIMDT,


Benito Bisso. (org.) Grafia de Vida. Reflexões e experiências com a escrita biográfica. São
Paulo: Letra e Voz, 2012.

FERREIRA, Marieta de Moraes; PINTO, Surama Conde Sá. A crise dos anos 1920 e a
revolução de 1930. In.: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia de Almeida Neves. O Brasil
republicano – Da proclamação da República à revolução de 1930. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2013.

FORTES, Hugo G. Borges. Canhões cruzados. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2001.

GABAGLIA, Laurita Raja. Epitácio Pessoa (1865-1942). v. I. Coleção Documentos


Brasileiros. Rio de Janeiro: José Olympio, 1951.

GARRIDO, Fernando Antônio Cardoso; MARUJO, Marcelo Pereira. A NAVAMAER e o


esporte no meio militar promovendo formação, conscientização, integração e cultura da paz.
Revista Marítima Brasileira, Rio de Janeiro, v. 133, n. 07/09, jul./set. 2013, p. 137-149.

GINZBURG, Carlo. A micro-história e outros ensaios. São Paulo: DIFEL, 1989.

_______. O queijo e os vermes. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

GOMES, Ângela de Castro. Regionalismo e centralização política (partidos e constituinte


nos anos 30). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

GOMES, Iordan Queiroz. Tradição e política na Paraíba da Primeira República: Antônio


Pessoa e a política local em Umbuzeiro e região (1890-1905). Anais do XVII Encontro
Estadual de História, ANPUH-PB, 2016, p. 982-991.
726

GRATULIANO da Costa Brito. In.: CPDOC. Dicionário Histórico-biográfico Brasileiro.


Primeira República. Rio de Janeiro: FGV, sem data. Disponível em:<
[Link]
Acesso em: 24 nov. 2020.

GRUNENNVALDT, José Tarcisio. A educação militar nos marcos da primeira república:


estudos dos regulamentos do ensino militar (1890-1929). 2005. 285 f. Tese (Doutorado em
História da Educação) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, 2005.

HANSEN, Patrícia Santos. Golpes da memória: usos políticos de Olavo Bilac no século XX.
Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo, n. 6, ago. 2015, p. 122-139.

HISTÓRICO do 4º Regimento de Dragões. Paris: Livraria Chapelot, 1921. Disponível em:<


[Link]
inventaires/ead_ir_consult.php?fam=7&ref=FRSHD_HistoriquesRegimentaires_1GM_01_ea
d>. Acesso em: 18 ago. 2018.

HOMMA, Alfredo Kingo Oyama. A imigração japonesa na Amazônia: sua contribuição ao


desenvlvimento agrícola. 2. ed. rev. ampl. Brasília: Embrapa, 2016.

HORNE, Charles F.; AUSTIN, Walter F. (Org.). Source records of the Great War. v. V.
National Alumni, 1923. Disponível em:<[Link]
uc1.$b742507&view=1up&seq=32>. Acesso em: 15 jun. 2020.

IBANHES, Brigido. Silvino Jacques. O último dos bandoleiros. 8. ed. Curitiba: Brazil
Publishing, 2019. E-book.

IBGE. Sinopse estatística do município de Resende, Rio de Janeiro, 1948.

KELLER, Vilma. Café Filho In.: PAULA, Christiane Jalles de; LATTMAN-WELTMAN,
Fernando. Dicionário histórico-biográfico brasileiro – Pós-1930. 3. ed. Rio de Janeiro:
FGV, [Link]ível em:
<[Link] Acesso em:
15 out. 2020.

KLINGER, Bertoldo. Parada e desfile: duma vida de voluntário do Brasil. Rio de Janeiro: O
Cruzeiro, 1958.

KORNIS, Mônica. Humberto de Alencar de Castello Branco. In.: PAULA, Christiane Jalles
de; LATTMAN-WELTMAN, Fernando. Dicionário histórico-biográfico brasileiro – Pós-
1930. 3. ed. Rio de Janeiro: FGV, [Link]ível
em:<[Link]
castelo-branco>. Acesso em: 15 out. 2020.

LAMARÃO, Sérgio; PINTO, Simone Araújo. Centro de Estudos e Defesa do Petróleo e da


Economia Nacional. In.: PAULA, Christiane Jalles de; LATTMAN-WELTMAN, Fernando.
Dicionário histórico-biográfico brasileiro – Pós-1930. 3. ed. Rio de Janeiro: FGV,
[Link]ível em:<[Link]
militar>. Acesso em: 30 nov. 2020.
727

LAMARÃO, Sérgio; MONTALVÃO, Sérgio. Clube Militar. In.: PAULA, Christiane Jalles
de; LATTMAN-WELTMAN, Fernando. Dicionário histórico-biográfico brasileiro – Pós-
1930. 3. ed. Rio de Janeiro: FGV, [Link]ível em:<
[Link]
petroleo-e-da-economia-nacional-cedpen>. Acesso em: 21 mar. 2020.

LE GOFF, Jacques. A história nova. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

LEJEUNE, Philippe. Je est un autre. Paris: Seuil, 1980.

LESSA, Renato. A invenção republicana. São Paulo: Vértice, 1988.

LEVI, Giovanni. Usos da biografia. In.: FERREIRA, Marieta de Moraes; AMADO, Janaína.
(coord.) Usos e abusos da história oral. 8. ed. Rio de Janeiro: FGV, 2006.

LEVI-MORERIA, Silvia. Ideologia e atuação da Liga Nacionalista de São Paulo (1917 –


1924). Revista de História da USP, São Paulo, n. 116, 1984, p. 67-74.

LEVILLAIN, Philippe. Os protagonistas: da biografia. In.: RÉMOND, Réne. Por uma


história política. 2. ed. Rio de Janeiro: FGV, 2003.

LEVINE, Robert. O regime de Vargas. Os anos críticos 1934-1938. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1980.

LEWIN, Linda. Política e parentela na Paraíba. Um estudo de caso da oligarquia de base


familiar. Rio de Janeiro: Record, 1993.

LIGA DA DEFESA NACIONAL. Estatuto da LDN. In.: TEIXEIRA, J. C. B.; PINHEIRO,


M. E. D.; GIORGIS, L. E. C. História da Liga da Defesa Nacional no Rio Grande do Sul.
Porto Alegre: LDN, 2016.

LIMA, Claudio de Araújo. Plácido de Castro: um caudilho contra o imperialismo. 2. ed. São
Paulo: Edanee, 1952.

LIMA, Nísia Trindade. Brasília: a capital do sertão. In.: SENRA, Nelson de Castro. Org.
Veredas de Brasília: as expedições geográficas em busca de um sonho. Rio de Janeiro:
IBGE, 2010. E-book.

LIMA SOBRINHO, Alexandre José Barbosa. Presença de Alberto Torres (Sua vida e
pensamento). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.

LOBATO, Monteiro. O escândalo do petróleo e ferro. In.: LOBATO, Monteiro. Obras


completas. v. 7. São Paulo: Brasiliense, 1948.

LOBATO FILHO. Escola Preparatória do Realengo. In.: CIDADE, Francisco de Paula.


Cadetes e alunos militares através dos tempos. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército,
1961. p. 90-93

_______. A última noite da escola militar da Praia Vermelha. Rio de Janeiro: BIBLIEX,
1992.
728

LOPEZ, Raimundo Hélio. Honorato Ferreira Cândido Caldas. In.: ABREU, Alzira Alves de
(Coord.). Dicionário histórico-biográfico da Primeira República: 1889-1930. Rio de
Janeiro: CPDOC, 2015.

LORIGA, Sabina. A biografia como problema. In.: REVEL, Jacques. (org.) Jogos de escala.
A experiencia da microanálise. Rio de Janeiro: FGV, 1998.

_______. O pequeno x. Da biografia à história. Belo Horizonte: Autêntica, 2011.

LOURO, João Marcos Macedo. “O cavalo ou o motor”: análise do processo de


motomecanização no Exército Brasileiro (1921-1942).2011. 112 p. Dissertação (Mestrado em
Estudos Estratégicos) - Universidade Federal Fluminense. Niterói. 2011.

MAGALHÃES, J. B. Estudo sobre o patronato do Exército. Revista do IHGB, Rio de


Janeiro, v. 202, jan./mar. 1949, p. 234-251.

MALAN, Alfredo Souto. Uma escolha um destino (vida do general Malan D’Angrogne).
Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1977.

_______. Missão Militar Francesa de instrução juto ao Exército brasileiro. Rio de


Janeiro: BIBLIEX, 1988.

MALCOLM, Janet. A mulher calada. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

MARCUSSO, Marcus Fernandes. A Escola Militar do Realengo e a formação do oficial do


Exército Brasileiro (1904-1929). 2012.226 f. Dissertação (Mestrado em Educação) –
Universidade Federal de São Carlos. São Carlos, 2012.

MARIANO, Serioja. Culturas políticas, administração e redes familiares na paraíba (1825-


1840). Saecolum, João Pessoa, jan./jun. 2011.

MARIZ, Celso. Cidades e homens. João Pessoa: Governo do Estado da Paraíba, 1985.

MARTINS, Luiz Carlos dos Passos. Petróleo e “nacionalismo” no segundo governo Vargas: o
debate em torno da criação da Petrobrás. Historiae, Rio Grande, v. 6, n. 2, fev. 2015, p. 401-
425.

MATOS, Hivana Mara Zaina de. A revista A Cigarra no espaço urbano 1914-1934. Anais do
XIX Encontro Regional de História: poder, violência e exclusão. São Paulo, 8 / 12 set.
2008.

MAUCH, Cláudia. Dizendo-se autoridade: polícia e policiais em Porto Alegre, 1896-1929.


2011. 283 f. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Porto Alegre, 2011.

MAYER, Miguel Jorge. Irineu Joffily. In.: PAULA, Christiane Jalles de; LATTMAN-
WELTMAN, Fernando. Dicionário histórico-biográfico brasileiro – Pós-1930. 3. ed. Rio de
Janeiro: FGV, [Link]ível em:< [Link]
biografico/joffily-irineu>. Acesso em: 14 set. 2020.

_______. Valdomiro Castilho de Lima. In.: PAULA, Christiane Jalles de; LATTMAN-
WELTMAN, Fernando. Dicionário histórico-biográfico brasileiro – Pós-1930. 3. ed. Rio de
729

Janeiro: FGV, [Link]ível em:<[Link]


biografico/valdomiro-castilho-de-lima>. Acesso em: 20 out. 2020.

McCANN, Frank D. Soldados da pátria. São Paulo: BIBLIEX, 2009.

MEDEIROS, Valéria Antonia. Antonio de Sampaio Dória e a modernização do ensino em


São Paulo nas primeiras décadas de século XX. 2005. 358 f. Tese (Doutorado em
Educação) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, 2005.

MELO, Fernando. Epitácio Pessoa: uma biografia. João Pessoa: Idéia, 2005.

MELLO, Evaldo Cabral de. O mito de Veneza no Brasil. In: Um imenso Portugal: história e
historiografia. São Paulo: Editora 34, 2002.

MINISTÉRIO DA GUERRA DA FRANÇA. Os exércitos franceses na Grande Guerra. Paris:


Impressão Nacional, 1923. Disponível em:< [Link]
armees-francaises-dans-la-grande-guerre?mode=desktop>. Acesso em: 13 ago. 2019.

MONTEIRO, Pedro Aurélio de Goés. A revolução de 30 e a finalidade política do


Exército. Rio de Janeiro: Andersen, 1934.

MORAES, João Batista Mascarenhas de. Memórias. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército,
2014.

MORAES, João Quartim de. A esquerda militar no Brasil: da conspiração republicana à


guerrilha dos tenentes. São Paulo: Expressão Popular, 2005. v.1.

MOSHER, Jefrrey Carl. Pernambuco and the construction of the brazilian nation-state
(1831-1850). 265 p. Tese (Doutorado em Filosofia) – Universidade da Flórida, Gainesville,
1996.

MOTTA, Jehovah. Formação do oficial do Exército: currículos e regimes na Academia


Militar, 1810-1944. Rio de Janeiro: BIBLIEX, 2001.

NASCIMENTO, Fernanda de Santos. A revista A Defesa Nacional e o projeto de


modernização do Exército Brasileiro (1931-1937). 2010. 240 p. Dissertação (Mestrado em
História) – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre-RS, 2010.

OLIVEIRA, Deuzimar Matias de. Nas trilhas do cangaceiro Antonio Silvino: tensões,
conflitos e solidariedades na Paraíba (1897-194). 2011. 186 p. Dissertação (Mestrado em
História) – Universidade Federal de Campina Grande, Campina Grande-PB, 2011.

OLIVEIRA, Tiago Siqueira de. A Liga de Defesa Nacional: um projeto de modernização


para o Brasil. 2012. 206 p. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Universidade
Estadual Paulista, Marília-SP, 2012.

PARREIRA, Luiz Eduardo Silva. Forte Coimbra: seus brasões e estandartes. Anais da 1ª
Jornada Cultural de Forte de Coimbra, jul. 2013, p. 24-30. Disponível em:<
[Link] Acesso em: 23 abr. 2021.

PATI, Francisco. O espírito das arcadas. São Paulo: Gráfica São José, 1950. (e-book)
730

PEDROSO, Raul. Cadetes em desfile. Rio de Janeiro: Pongetti, 1969.

PEREGRINO, Umberto. Dimensões do Marechal José Pessoa. Revista do Clube Militar,


Edição Especial Marechal José Pessoa, Rio de Janeiro, set./out. 1985, p. 21-30.

PEREZ, Maria Gloria Nuñez. La biografia em la actual historiografia contemporânea


española. Espaço, Tiempo y Forma, série V, t. 10, 1997.

PENNA, Lincoln de Abreu. Os panfletários da República: a campanha do petróleo na


imprensa nacionalista. Alceu, Rio de Janeiro, v. 4, n. 7, jul./dez. 2003, p. 83-98.

PEREIRA, Sergio Nunes. Na boca do sertão ou integrada ao ecúmeno? Militares, estatísticos,


geógrafos e a localização da nova capital. In.: SENRA, Nelson de Castro. Org. Veredas de
Brasília: as expedições geográficas em busca de um sonho. Rio de Janeiro: IBGE, 2010. E-
book.

PINTO, Genivaldo Gonçalves. Manifestações da cultura militar no espaço educacional


brasileiro na Primeira República: o contexto de Pelotas-RS. 2015. 330 p. Tese (Doutorado
em Educação) – Universidade Federal de Pelotas, Pelotas-RS, 2015.

PINTO, Luiz. Síntese histórica da Paraíba. Rio de Janeiro: Gráfica Ouvidor, 1960.

PIRES, Livia Claro. Intelectuais nas trincheiras: a Liga Brasileira pelos Aliados e o debate
sobre a Primeira Guerra Mundial (1914-1919). 2013. 170 p. Dissertação (Mestrado em
História Política) – Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Rio de janeiro-RJ, 2013.

PLUTARCO. Vidas paralelas. t. V, s.d.

RAMOS, Plínio de Abreu. Newton Estillac Leal. Dicionário Histórico-biográfico


Brasileiro. Rio de Janeiro: FGV, 2010a. Disponível em:
[Link] Acesso
em: 1 fev. 2021.

_______. Pedro Aurélio de Gois Monteiro. Dicionário Histórico-biográfico Brasileiro. Rio


de Janeiro: FGV, 2010b. Disponível em: [Link]
biografico/ pedro-aurelio-de-gois-monteiro. Acesso em: 1 fev. 2021.

RÉMOND, Réne. Uma história presente. In.: ____. Por uma história política. 2. ed. Rio de
Janeiro: FGV, 2003.

REVEL, Jacques. (org.) Jogos de escala. A experiencia da microanálise. Rio de Janeiro:


FGV, 1998.

RIBEIRO, Carlos Alberto Campello. Henrique Lage e a Companhia Nacional de


Navegação Costeira: a história da empresa e sua inserção social (1891-1942). 2007. 337 f.
Tese (Doutorado em História Social) – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de
Janeiro, 2007.

RIBEIRO, Patrícia da Silva. Em luto e luta:construindo a memória da FEB. 2013. 301 f.


Tese (Doutorado em História, Política e Bens Culturais) – Fundação Getúlio Vargas. Rio de
Janeiro, 2013.
731

RODRIGUES, Fernando. Indesejáveis. Instituição, pensamento político e formação


profissional dos oficiais do Exército Brasileiro (1905-1946). Jundiaí: Paco Editorial, 2010.

_______. O posicionamento militar brasileiro durante a Segunda Guerra Mundial:


aproximação com a Alemanha e alinhamento com os Estados Unidos da América (1934-
1942), Revista da Escola Superior de Guerra, v. 27, n. 54, jan./jun. 2012, p. 46-62.

ROESLER, Rafael. O impulso renovador: a atuação da Missão Indígena na Escola


Militar do Realengo (1919-1922). 2015. 170 p. Dissertação (Mestrado em História, Política e
Bens Culturais ) – Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro-RJ, 2015.

ROJAS, Carlos Antonio Aguirre. La biografia como género historiográfico. Algunas


reflexiones sobre sus possibilidades actuales. In.: SCHMIDT, Benito. (org.) O biográfico.
Perspectivas interdisciplinares. Santa Cruz do Sul: EDUNINSC, 2000.

SANTOS, Marco Aurélio Martins. Marechal Aguinaldo Caiado de Castro: um personagem da


história a ser descoberto. In.: SENRA, Nelson de Castro. Org. Veredas de Brasília: as
expedições geográficas em busca de um sonho. Rio de Janeiro: IBGE, 2010. E-book.

SANTOS NETO, Martinho Guedes dos. Os domínios do estado: a interventoria de Anthenor


Navarro e o poder na Paraíba (1930-1932). 2007. 159 p. Dissertação (Mestrado em História) –
Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa-PB, 2007.

SCHMIDT, Benito Bisso. Biografia e regime de historicidades. Métis: História & Culura. v.
2, n. 3, 2003, p. 57-72.

SCHPUN, Monica Raisa. Regionalistas e cosmopolitas: as amigas Olívia Guedes Penteado e


Carlota Pereira de Queiroz. Artlogie, 2011. Disponível em:
<[Link] Acesso em: 26 ago. 2020.

SCHULZE, Frederik. A constituição global da nação brasileira: questões de imigração nos


anos 1930 e 1940. História, Ciência e Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, maio de 2013.
Disponível em:<[Link] Acesso em: 12 mar. 2021.

SENA, Cristovam. Fordlândia: breve relato da presença americana na Amazônia. Cadernos


de História da Ciência, Instituto Butantã, São Paulo, v. IV, jul./dez. 2008, p. 89-108.

SEVCENKO, Nicolau. A revolta da vacina: mentes insanas em corpos rebeldes. São Paulo:
Scipione, 1993.

SILVA, André Felipe Cândido da. Nas trincheiras do front intelectual. Henrique da Rocha
Lima e a Primeira Guerra Mundial no Jornal do Commercio. Varia Historia, Belo Horizonte,
v. 31, n. 57, set/dez 2015, p. 635-671.

SILVA, Carlos André Lopes da. Viagens do encouraçado São Paulo conduzindo os reis
belgas em visita oficial ao Brasil, em 1920. Brasiliana Fotográfica, Rio de Janeiro, 19 set.
2016. Disponível em: <[Link] Acesso em: 12 mar. 2019.

SILVA, Ernesto. História de Brasília. Brasília: Coordenada – Editora de Brasília, 1971.

SILVA, Hélio. 1937 – Todos os golpes se parecem. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1970.
732

SILVEIRA, José Britto da. A Escola do Realengo antes e depois do Gen José Pessoa. Revista
do Clube Militar. Edição Especial Marechal José Pessoa, Rio de Janeiro, set./out. 1985, p.
35-37.

SKIDMORE, Thomas. Brasil: de Getúlio Vargas a Castelo Branco (1930-1964). 7. ed. Paz
e Terra: Rio de Janeiro, 1982.

SODRÉ, Nelson Werneck. Memórias de um soldado. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira,


1967.

SONDHAUS, Lawrence. A Primeira Guerra Mundial. História completa. São Paulo:


Contexto, 2003. Ebook.

SOUZA, Adriana Barreto de. Biografia e escrita da História: reflexões preliminares sobre
relações sociais e poder. Revista Universitária Rural: Série Ciências Humanas, v. 29, n. 1,
jan./jul. 2007, p. 27-36.

STEPAN, Alfred. Os militares na política. São Paulo: Artenova, 1975.

SVARTMAN, Eduardo Munhoz. Guardiões da nação: formação profissional, experiências


compartilhadas e engajamento político dos generais de 1964. 2006. 339p. Tese (Doutorado
em Ciência Política) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre-RS, 2006.

TAKEUSHI, Marcia Yumi. A comunidade nipônica e a legitimação de estigmas: o japonês


caricaturizado. Revista USP, São Paulo, n. 79, set./out. 2008, p. 173-182.

TARASANTCHI, Ruth Sprung. Pintores paisagistas em São Paulo (1890-1920). 1986. 303
p. Tese (Doutorado-Escola de Comunicações a Artes) – Universidade de São Paulo, São
Paulo-SP, 1986.

TAVARES, Francisco Muniz. História da Revolução de Pernambuco em 1817. 5. ed.


Recife: CEPE, 2017.

_______. História e biografia. In.: CARDOSO, Ciro Flamarion; VAINFAS, Ronaldo. Novos
domínios da História. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.

_______. Quando o historiador espia pelo buraco da fechadura: biografia e ética. História, v.
33, n.1, jan./jun. 2014, p. 124-144.

TÁVORA, Juarez. Petróleo para o Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1955.

TRUBILIANO, Carlos Alexandre Barros. No rastro da boiada: pecuária e ocupação do sul do


Mato Grosso (1870-1920). Revista Crítica História, Maceió, a. V, n. 9, jul. 2014, p. 174-
196.

VELHO, Gilberto. Trajetória individual e campo de possibilidades. In.: VIANNA, Hermano;


KUSCHNIR, Karina; CASTRO, Celso. (org.) Um antropólogo na cidade. Ensaios de
antropologia urbana. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

VERGARA, Moema de Rezende. A Comissão Cruls e o projeto de mudança da Capital


Federal na Primeira República. In.: SENRA, Nelson de Castro. Org. Veredas de Brasília: as
expedições geográficas em busca de um sonho. Rio de Janeiro: IBGE, 2010. E-book.
733

VIANA, Claudius Gomes de Aragão. História, memória e patrimônio da Escola Militar do


Realengo. 2010. 176 p. Dissertação (Mestrado em História, Política e Bens Culturais ) –
Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro-RJ, 2010.

VIANA, Marly de Almeida Gomes Viana. Revolucionários de 1935: sonho e realidade. São
Paulo: Expressão Popular, 2007.

VICTOR, Mário. A batalha do petróleo brasileiro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,


1970.

VINHOSA, Francisco Luiz Teixeira. O Brasil e a Primeira Guerra Mundial. Rio de


Janeiro: BIBLIEX, 2015.

WILLMOTT, H. P. Primeira Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

2 PROGRAMAS DE HISTÓRIA ORAL

GEISEL, Ernesto. Ernesto Geisel. Entrevista concedida a Celso Castro e Maria Celina
D’Araújo. Rio de Janeiro, CPDOC FGV, 1993.

LOTT, Henrique Batista Duffles Teixeira. Henrique Teixeira Lott. Entrevista concedida a
Ignez Cordeiro de Farias e Paulo César Farah. Rio de Janeiro, CPDOC FGV, 1978.

SILVA, Ernesto. Depoimento – Programa de História Oral. Brasília, Arquivo Público do


Distrito Federal, 1987.

3 FONTES PRIMÁRIAS

3.1 Acervos

ARQUIVO HISTÓRICO DO EXÉRCITO. Acervo do Gabinete do Ministério da Guerra.

ARQUIVO NACIONAL. Fundo Góes Monteiro.

FGV CPDOC. Acervo Marechal José Pessoa.

3.2 Atas e Boletins Escolares

ARQUIVO HISTÓRICO DO EXÉRCITO. Histórico da Companhia de Carros de Assalto,


1921, 1922.

_______. Boletins Escolares da Escola Militar do Realengo, 1931, 1932, 1933, 1934, 1943.

CLUBE MILITAR. Atas da Presidência, 1944, 1945, 1946.


734

_______. Atas das Sessões Extraordinárias da Comissão de Homenagem, Assistência e


Recepção da FEB, 1945.

_______. Boletins Internos do Clube Militar, 1944, 1945, 1946.

COLÉGIO PEDRO II. Atas dos Exames do 1º Ano do Internato do Ginásio Nacional, 1901,
1902.

3.3 Fés de Ofício

ARQUIVO HISTÓRICO DO EXÉRCITO. Fé de Ofício do Marechal José Pessoa Cavalcanti


de Albuquerque. Rio de Janeiro, 2016.

_______. Fé de Ofício do General Aristarcho Pessoa Cavalcanti de Albuquerque. Rio de


Janeiro, 2018.

_______. Fé de Ofício do General José da Silva Pessoa. Rio de Janeiro, 2018.

3.4 Leis e Decretos Federais (Site da Câmara dos Deputados)

Lei nº 1.143, de 11 de setembro de 1861. Fixa as forças de terra para o ano financeiro de 1862
a 1863.

Lei nº 2.556, de 26 de setembro de 1874. Estabelece o modo e as condições do recrutamento


para o Exército e Armada.

Lei nº 403, de 24 de outubro de 1896. Cria o Estado-Maior do Exército e a Intendência Geral


da Guerra e dá outras providencias.

Lei nº 1.860, de 4 de janeiro de 1908. Regula o alistamento e sorteio militar e reorganiza o


Exército.

Lei Constitucional nº 9, de 28 de fevereiro de 1945. Dá nova redação a artigos da


Constituição.

Decreto-Lei nº 311, de 2 de março de 1938. Dispõe sobre a divisão territorial do País e dá


outras providências.

Decreto-Lei nº 370, de 11 de abril de 1938. Autoriza o Ministério da Agricultura a transferir


terrenos para a jurisdição do Ministério da Guerra.

Decreto-Lei nº 1.735, de 4 de novembro de 1939. Regula o Ensino Militar no Exército.

Decreto-Lei nº 1.828, de 1º de dezembro de 1939. Lei de Promoções.

Decreto-Lei nº 4.393, de 19 de junho de 1942. Autoriza a permuta de imóveis, situados na


cidade de Resende, Estado do Rio de Janeiro.
735

Decreto-Lei nº 4.613, de 25 de agosto de 1942. Institui, como medida de emergência, a


entrega obrigatória ao Governo Federal de todo o carvão nacional e dá outras providências.

Decreto-Lei nº 3.030, de 7 de fevereiro de 1941. Autoriza a aquisição de duas casas e


respectivos terrenos em Resende, cujas áreas se destinam à abertura de uma avenida de acesso
à nova Escola Militar.

Decreto-Lei nº 4.648, de 2 de setembro de 1942. Incorpora ao patrimônio nacional os bens e


direitos das empresas da chamada "Organização Lage" e do espólio de Henrique Lage, e dá
outras providências.

Decreto-Lei nº 5.901, de 21 de outubro de 1943. Dispõe sobre as normas nacionais para a


revisão quinquenal da divisão administrativa e judiciária do país.

Decreto-Lei nº 6.012, de 19 de novembro de 1943. Cria a Escola Militar de Resende e dá


outras providências.

Decreto-Lei nº 6.227, de 24 de janeiro de 1944. Institui o Código Penal Militar.

Decreto-Lei nº 8.063, de 10 de outubro de 1945. Dispõe sobre as eleições para Governadores


e Assembleias Legislativas dos Estados e dá outras providências.

Decreto-Lei nº 9.698, de 2 de setembro de 1946. Aprova o Estatuto dos Militares.

Decreto-Lei nº 9.825, de 10 de setembro de 1946. Regula a questão de adidos militares,


navais e aeronáuticos.

Decreto Legislativo nº 6, de 18 de dezembro de 1935. Emenda à Constituição Federal.

Decreto nº 1.331-A, de 17 de fevereiro de 1854. Aprova o Regulamento para a reforma do


ensino primário e secundário do Município da Côrte.

Decreto nº 1.775, de 2 de julho 1856. Dá Regulamento para o serviço de Extinção dos


incêndios.

Decreto n° 7.666, de 19 de julho de 1880. Reorganiza a Guarda Nacional das comarcas de


Piancó e Misericórdia, da Provincia da Paraíba.

Decreto nº 330, de 12 de abril de 1890. Promulga o regulamento que reorganiza o ensino nas
escolas do Exército.

Decreto nº 958, de 6 de novembro de 1890. Dá regulamento para a Brigada Policial da Capital


Federal.

Decreto nº 981, de 8 de novembro de 1890. Aprova o Regulamento da Instrução Primaria e


Secundaria do Distrito Federal.

Decreto nº 432, de 4 de julho de 1891. Aprova e manda que seja provisoriamente observado o
regulamento para as escolas praticas do Exército.
736

Decreto nº 2.881, de 18 de abril de 1898. Aprova o regulamento para os Institutos militares de


ensino.

Decreto nº 3.189, de 6 de janeiro de 1899. Aprova o regulamento para o Estado-Maior do


Exército.

Decreto nº 3.224, de 10 de março de 1899. Aprova o regulamento do Tiro Nacional.

Decretos nº 3.251, de 8 de abril de 1899. Aprova o regulamento para o Ginásio Nacional.

Decreto nº 3.914, de 26 de janeiro de 1901. Aprova o regulamento para o Ginásio Nacional.

Decreto nº 4.247, de 23 de novembro de 1901. Aprova as instruções para os exames gerais de


preparatórios.

Decreto nº 1.503, de 5 de setembro de 1906. Institui o subsídio de 10:000$ a cada uma das
sociedades que pertencerem à Confederação do Tiro Brasileiro.

Decreto nº 6.464, de 29 de abril de 1907. Aprova, provisoriamente, o regulamento para a


Confederação do Tiro Brasileiro.

Decreto nº 6.947, de 8 de maio de 1908. Aprova o regulamento para execução do alistamento


e sorteio militar estabelecidos pela Lei nº 1.860, de 4 de janeiro de 1908.

Decreto nº 6.971, de 4 de junho de 1908. Organiza as grandes unidades e os quadros dos


oficiais do Exército e dá outras providencias.

Decreto nº 7.053, de 6 de agosto de 1908. Aprova o regulamento das inspeções permanentes


criadas pela Lei nº 1.860, de 4 de janeiro de 1908.

Decreto nº 7.054, de 6 de agosto de 1908. Cria cinco brigadas estratégicas e três de Cavalaria
e manda observar o regulamento dos comandos das referidas Brigadas.

Decreto nº 7.350, de 11 de março de 1909. Aprova o regulamento para a Confederação do


Tiro Brasileiro e os estatutos para as sociedades incorporadas à mesma Confederação.

Decreto nº 7.389, de 29 de abril de 1909. Aprova o regulamento do Estado-Maior do Exército.

Decreto nº 8.083, de 25 de junho de 1910. Aprova o regulamento para a Confederação do Tiro


Brasileiro e os estatutos para as sociedades incorporadas à mesma Confederação.

Decreto nº 3.216, de 3 de janeiro de 1917. Fixa as forças de terra para o exercício de 1917.

Decreto nº 3.361, de 26 de outubro de 1917. Reconhece e proclama o estado de guerra


iniciado pelo Império Alemão contra o Brasil.

Decreto nº 12.708, de 9 de novembro de 1917. Aprova o Regulamento da Diretoria Geral do


Tiro de Guerra.

Decreto nº 12.977, de 24 de abril de 1918. Aprova o regulamento para a Escola Militar.


737

Decreto nº 13.451, de 29 de janeiro de 1919. Estabelece bases para a reorganização do ensino


militar e criação de cursos de Aviação, Veterinária e outros.

Decreto nº 13.574, de 30 de abril de 1919. Aprova o regulamento para a Escola Militar.

Decreto nº 14.130, de 7 de abril de 1920. Aprova o regulamento para a Escola de Estado-


Maior do Exército.

Decreto nº 14.131, de 7 de abril de 1920. Aprova o regulamento para a Escola de


Aperfeiçoamento de Oficiais.

Decreto nº 16.274, de 20 de dezembro de 1923. Aprova o regulamento do Corpo de


Bombeiros do Distrito Federal.

Decreto nº 16.394, de 27 de fevereiro de 1924. Aprova o regulamento para a Escola Militar.

Decreto nº 5.168, de 13 de janeiro de 1927. Cria a arma de Aviação do Exército.

Decreto nº 5.632, de 31 de dezembro de 1928. Dispõe sobre o ensino militar e dá outras


providências.

Decretos nº 18.696, de 11 de abril de 1929. Aprova o regulamento para a Escola de


Aperfeiçoamento de Oficiais.

Decreto nº 18.697, de 11 de abril de 1929. Aprova o regulamento para a Escola de Cavalaria.

Decreto nº 18.713, de 25 de abril de 1929. Aprova o Regulamento da Escola Militar.

Decreto nº 19.022, de 5 de dezembro de 1929. Aprova o Regulamento da Escola de Estado-


Maior.

Decreto nº 19.040, de 19 de dezembro de 1929. Aprova o Regulamento Interno e dos Serviços


Gerais dos Corpos de Tropa do Exército.

Decreto nº 19.374, de 20 de outubro de 1930. Convoca os praças reservistas do Corpo de


Bombeiros do Distrito Federal.

Decreto nº 19.395, de 8 de novembro de 1930. Concede anistia a todos os civis e militares


envolvidos nos movimentos revolucionários ocorridos no País.

Decreto nº 20.307, de 20 de agosto de 1931. Denomina Corpo de Cadetes o Corpo de Alunos


da Escola Militar e dá outras providências.

Decreto nº 20.348, de 29 de agosto de 1931. Institui conselhos consultivos nos Estados, no


Distrito Federal e nos municípios e estabelece normas, sobre a administração local.

Decreto nº 20.438, de 24 de setembro de 1931. Aprova o plano de uniformes do Corpo de


Cadetes da Escola Militar.
738

Decreto nº 20.810, de 17 de dezembro de 1931. Dispõe sobre "habeas-corpus" ou outros


recursos que se relacionem com transgressões disciplinares.

Decreto nº 21.142, de 10 de março de 1932. Cria o regimento escola e dá outras providências.

Decreto nº 21.731, de 15 de agosto de 1932. Considera de utilidade pública a Cruzada


Nacional de Educação, com sede nesta Capital.

Decreto nº 22.609, de 4 de abril de 1933. Modifica o regulamento da Escola Militar.

Decreto nº 22.704, de 11 de maio de 1933. Altera o Regulamento da Escola Militar.

Decreto nº 23.674, de 2 de janeiro de 1934. Dispõe sobre a reversão às fileiras dos capitães e
subalternos e dá outras providências.

Decreto nº 23.994, de 13 de março de 1934. Aprova o Regulamento da Escola Militar.

Decreto nº 24.287, de 24 de maio de 1934. Lei de organização dos quadros e efetivos do


Exército ativo em tempo de paz e outras providências.

Decreto nº 192, de 20 de junho de 1935. Suspende a execução do regulamento aprovado pelo


Decreto n.º 23.994, de 13 de março de 1934.

Decreto nº 305, de 22 de agosto de 1935. Dá a denominação de "Duque de Caxias" ao Forte


do Vigia.

Decreto nº 1.042, de 22 de agosto de 1936. Atribui ao 1º Regimento de Cavalaria Divisionário


a denominação de "Dragões da Independência".

Decreto nº 3.885, de 31 de março de 1939. Aprova o Regulamento Provisório das Inspetorias


de Armas e Serviços.

Decreto nº 5.847, de 22 de junho de 1940. Aprova a segunda parte do Regulamento da Escola


Militar.

Decreto nº 8.335, de 5 de dezembro de 1941. Desapropria, por utilidade pública, imóveis na


cidade de Resende.

Decreto nº 9.203, de 6 de abril de 1942. Declara de utilidade pública a desapropriação de


imóveis na cidade de Resende, Estado do Rio de Janeiro, necessários à construção da Escola
Militar da mesma localidade.

Decreto nº 10.358, de 31 de agosto de 1942. Declara o estado de guerra em todo o território


nacional.

Decreto nº 10.869, de 20 de novembro de 1942. Declara de utilidade pública a desapropriação


de imóveis necessários à nova Escola Militar, em Resende, Estado do Rio de Janeiro.
739

Decreto nº 12.025, de 19 de março de 1943. Desapropria, por utilidade pública, imóveis na


cidade de Resende, Estado do Rio de Janeiro, para serventia da Escola Militar daquela
localidade.

Decreto nº 29.484, de 23 de abril de 1951. Altera o atual nome da "Escola Militar de


Resende" para "Academia Militar das Agulhas Negras".

Decreto nº 32.976, de 8 de junho de 1953. Cria a "Comissão de Localização da Nova Capital


Federal" e dá outras providências.

Decreto nº 33.769, de 5 de setembro de 1953. Altera o Decreto nº 32.976, de 8 de junho de


1953, e dá outras providências.

Decreto nº 36.598, de 11 de dezembro de 1954. Dispõe sobre a Comissão de Localização de


Nova Capital Federal, e dá outras providências.

Decreto nº 38.281, de 9 de dezembro de 1955. Transforma a Comissão de Localização da


Nova Capital Federal em Comissão de Planejamento da Construção e da Mudança da Capital
Federal e dá outras providências.

3.5 Leis e Decretos do Estado de Goiás (Site da Secretaria da Casa Civil do Estado de
Goiás)

Lei nº 1.071, de 11 de maio de 1955, do Estado de Goiás. Autoriza o Poder Executivo a


efetivar a desapropriação prevista pelo Decreto nº 480, de 30 de abril de 1955 e dá outras
providências.

Decreto nº 480, de 30 de abril de 1955, do Governador do Estado de Goiás. Declara de


utilidade pública e de conveniência ao interesse social a área destinada à localização da Nova
Capital Federal.

Decreto nº 500, de 11 de maio de 1955, do Governador do Estado de Goiás. Suspende toda e


qualquer alienação de terrenos devolutos e outras do domínios estadual compreendidas na
área do Novo Distrito Federal.

Decreto nº 1.258, de 5 de outubro de 1955, do Governador do Estado de Goiás. Institui a


Comissão de Cooperação para a mudança da Capital Federal e dá outras providências.

3.6 Leis e Decretos do Estado da Paraíba (Site do INEP - Leis e Regulamentos da


Instrução da Paraíba no Período Imperial e Site da Assembleia Legislativa do Estado da
Paraíba)

Lei nº 11, de 24 de março de 1836, do Presidente da Paraíba do Norte. Cria o Liceu


Paraibano.

Lei nº 671, de 8 de março de 1879, do Presidente da Paraíba do Norte. Cria cadeiras de


instrução primária nas povoações de Brejo da Cruz, nas de Barra de Natuba, Umbuzeiro e
Serra Redonda do Município de Ingá, nas de Cabedelo e Cruz do Espírito Santo, no
Município desta capital e nas de Pilões do Termo D’Areia.
740

Lei nº 178, de 30 de novembro de 1864, do Presidente da Paraíba do Norte. Regula a


instrução primária na Província da Paraíba do Norte.

Lei nº 761, de 7 de dezembro de 1883, do Presidente da Paraíba do Norte. Regula a instrução


pública, primária e secundária, na Província da Paraíba do Norte.

Decreto nº 2.301, de 1 de julho de 1896, do Presidente do Estado da Paraíba do Norte.


Concede ao Liceu Paraibano as vantagens que goza o Ginásio Nacional.

Regulamento nº 36, de 26 de junho de 1886, do Presidente da Paraíba do Norte. Regula a


instrução primária na Província da Paraíba.

3.7 Leis e Decretos do Estado do Rio de Janeiro (Site da Assembleia Legislativa do


Estado do Rio de Janeiro)

Decreto-Lei nº 1.056, de 31 de dezembro de 1943, do Governador do Estado do Rio de


Janeiro. Dá ao quarto distrito de Resende e Vila de Campo Belo o nome de Itatiaia.

3.8 Periódicos

3.8.1 Acervo da Biblioteca do Exército

Revista Nação Armada, 1940.

3.8.2 Acervo da Casa de Cultura Macedo Miranda (Resende-RJ)

A Lyra, Resende, 1931, 1938, 1940, 1941, 1944.


A Opinião, Resende, 1931.

3.8.3 Acervo Digital do Jornal Estado de São Paulo

Estado de São Paulo, São Paulo, 1917, 1920, 1937.

3.8.4 Acervo Digital do Jornal O Globo

O Globo, Rio de Janeiro, 1931, 1942, 1944, 1945, 1948, 1959, 2021.

3.8.5 Arquivo Histórico do Exército

Revista A Defesa Nacional, 1914, 1916, 1917, 1953.

3.8.6 Arquivo Público do Estado de São Paulo

Revista A Cigarra, São Paulo, 1915, 1917.


Revista A Vida Moderna, 1917.
741

3.8.7 Hemeroteca da Biblioteca Nacional

A Nação, Rio de Janeiro, 1935.


A Noite, Rio de Janeiro, 1914, 1920, 1922, 1926, 1931, 1933, 1943, 1937.
A Província, Recife, 1921.
A Razão, Rio de Janeiro, 1920.
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 1918, 1920, 1921, 1926, 1930, 1931, 1932, 1933, 1934,
1935, 1936, 1937, 1938, 1939, 1940, 1941, 1942, 1943, 1944, 1945, 1948, 1949, 1950, 1952,
1955, 1956, 1959.
Correio Paulistano, São Paulo, 1917, 1920, 1922, 1937, 1939.
Diário Carioca, Rio de Janeiro, 1921, 1930, 1931, 1932, 1933, 1937, 1948.
Diário da Noite, Rio de Janeiro, 1933.
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 1930, 1933, 1935, 1937, 1938, 1945, 1948, 1949, 1952,
1956.
Diário de Pernambuco, Recife-PE, edições dos anos de 1902 e 1903.
Gazeta da Notícias, Rio de Janeiro, 1918, 1920, 1921, 1922, 1926.
Gazeta da Parahyba, Cidade da Paraíba, 1889.
Gazeta do Sertão, Campina Grande, 1890.
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1918, 1920, 1921, 1923, 1933, 1935, 1937, 1948, 1949.
Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 1933, 1934, 1935, 1944, 1946.
Jornal do Recife, Recife, 1902, 1903, 1930.
O Imparcial, Rio de Janeiro, 1920, 1926.
O Jornal, Rio de Janeiro, 1921, 1926, 1930, ,1931, 1937, 1948, 1973.
O Malho, Rio de Janeiro, 1918.
O Norte, Paraíba do Norte, 1921.
O Paíz, Rio de Janeiro, 1918, 1920, 1921, 1926, 1930.
O Radical, Rio de Janeiro, 1937.
Revista da Semana, Rio de Janeiro, 1921.
Revista O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 1950.
Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, 1956, 1962.

3.8.8 Imprensa Oficial do Estado da Paraíba

A União, João Pessoa, 1930, 1931, 2020.

3.8.9 Relatórios do Ministro da Guerra (Center for Research Libraries)

Benjamin Constant, 1890.


Bernardo Vasques, 1896.
742

Emygdio Dantas Barreto, 1910.


Eurico Gaspar Dutra, 1936, 1938, 1939.
Fernando Setembrino de Carvalho, 1922, 1923, 1925.
Francisco de Paula Argollo, 1903, 1904, 1905.
Hermes Rodrigues da Fonseca, 1906, 1907, 1908.
J. N. de Medeiros Mallet, 1898, 1901.
João Pandiá Calógeras, 1919, 1921.
João Thomaz Cantuária, 1897.
José Bernardino Bormanno, 1909.
José Caetano de Faria, 1915, 1916.
João Gomes Ribeiro Filho, 1935.
Pedro Aurélio de Góes Monteiro, 1934.
Vespasiano Gonçalves de Albuquerque e Silva, 1912.

3.8.10 Relatórios do Ministro da Justiça e Negócios do Interior (Center for Research


Libraries)

Uladislau Herculano de Freitas, 1913,1914.

3.8.11 Relatório Técnico

COMISSÃO DE ESTUDOS PARA LOCALIZAÇÃO DA CAPITAL FEDERAL. Relatório


Técnico, v. 1, Rio de Janeiro, 1948. Disponível em:<
[Link] Acesso em: 23 ago. 2021.

4 ICONOGRAFIA

4.1 Acervos

ACADEMIA MILITAR DAS AGULHAS NEGRAS. Revista da Escola Militar, 1932, 1933,
1934, 1937, 1938, 1939, 1940, 1945.

ARQUIVO HISTÓRICO DO EXÉRCITO. Comissão Construtora da Vila Militar, 1909.

BIBLIOTECA DO EXÉRCITO. Revista Nação Armada, Rio de Janeiro, jan./mar. 1942.

_______. Acervo do Centro de Instrução de Blindados, Santa Maria, 1921.

_______. Acervo do Colégio Militar de Porto Alegre, Porto Alegre, 1910.

BIBLIOTECA NACIONAL. Coleção Brasiliana Fotográfica, 1910, 1920, 1938.

EXÉRCITO BRASILEIRO. Acervo da 9ª Brigada de Infantaria Motorizada, Rio de Janeiro,


[190-].
743

FGV CPDOC. Acervo José Pessoa, 1914, 1918, 1932, 1934, 1940, 1943, 1945, 1949, 1955,
1958.

_______. Acervo Pedro Ernesto, 1930.

_______. Acervo Antunes Maciel, 1930.

_______. Acervo Cordeiro de Farias, 1930.

_______. Acervo Oswaldo Aranha, 1930.

INSTTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Acervo digital da cidade


de Resende, [193-].

MARINHA DO BRASIL. Acervo digital da Diretoria do Patrimônio Histórico e


Documentação da Marinha, 1920.

MUSEU DA REPÚBLICA. Coleção Cristóvão Barcellos, 1918.

4.2 Livros e Artigos

ALBUQUERQUE, José Pessoa Cavalcanti de. Os tanks na guerra europeia. Rio de Janeiro:
Albuquerque e Neves, 1921.

BASTOS, Expedito Carlos Estephani. O Brasil na era dos blindados. Renault FT-17 no
Exército brasileiro 1921-1942. Da Cultura, Rio de Janeiro, ano 1, n. 2, jul/dez 2001, p. 40-
46.

CÂMARA, Hiram de Freitas. Marechal José Pessoa. A força de um ideal. Rio de Janeiro:
BIBLIEX, 2011.

_______. Marechal José Pessoa: o ideal alcançado. Revista Da Cultura, Rio de Janeiro, a.
XII, n. 19, jan. 2012, p. 38-49.

FERREIRA, Edgardo Pires. A mística do parentesco. Recife: Instituto Arqueológico,


Histórico e Geográfico Pernambucano, 1987.

FAAP. Visita da família real belga ao Brasil – 1920. São Paulo: FAAP, 2010.

PARREIRA, Luiz Eduardo Silva. Forte Coimbra: seus brasões e estandartes. Anais da 1ª
Jornada Cultural de Forte de Coimbra, jul. 2013, p. 24-30. Disponível em:<
[Link] Acesso em: 23 abr. 2021.

4.3 Periódicos

4.3.1 Acervo digital do Arquivo Público do Estado de São Paulo

Revista A Cigarra, São Paulo, 1915, 1917.


Revista A Vida Moderna, 1917.
744

4.3.2 Hemeroteca da Biblioteca Nacional

Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 193, 1939.


Revista da Semana, 1930, 1933, 1938, 1944.
Revista Fon-Fon, Rio de Janeiro, 1930, 1932.
Revista Vida Doméstica, Rio de Janeiro, 1934, 1950.
O Paiz, Rio de Janeiro, 1926.
Jorna do Brasil, Rio de Janeiro, 1941.

4.4 Sites

Academia Militar das Agulhas Negras, Resende, 2020.


Centro de Memória do Realengo, Rio de Janeiro, 2020.
Enciclopédia Itaú Cultural, São Paulo, 2020.
Exército Brasileiro, Brasília, 2013.
Guatuporé, Guatuporé, 2020.
GuiaNet, Rio de Janeiro, 2020.
INEPAC-RJ, Rio de Janeiro, 2020.

Você também pode gostar