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Nightflyers - George R. R. Martin

Este documento é um resumo de um capítulo de um livro de ficção científica. Conta a história de um grupo de acadêmicos que embarcam em uma nave espacial chamada Nightflyer para realizar pesquisas. O mestre da nave, Royd Eris, observa os passageiros constantemente por meio de câmeras e microfones espalhados pela nave.

Enviado por

José Roberto
Direitos autorais
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Nightflyers - George R. R. Martin

Este documento é um resumo de um capítulo de um livro de ficção científica. Conta a história de um grupo de acadêmicos que embarcam em uma nave espacial chamada Nightflyer para realizar pesquisas. O mestre da nave, Royd Eris, observa os passageiros constantemente por meio de câmeras e microfones espalhados pela nave.

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Sumário

Capa
Folha de rosto
Abertura
Night yers
Sobre o autor
Créditos
NIGHTFLYERS
ENQUANTO JESUS DE NAZARÉ MORRIA PENDURADO NA CRUZ, os volcryn passaram a
um ano-padrão de sua agonia, seguindo espaço afora.
Enquanto as Guerras do Fogo assolavam a Terra, os volcryn navegavam perto de
Antigo Poseidon, onde os mares ainda não tinham sido nomeados nem pescados.
Quando o sistema de empuxo estelar já tinha transformado a Federação de Nações
da Terra no Império Federal, os volcryn penetravam nos limites do espaço Hrangan.
Os hrangan nunca caram sabendo. Como nós, eles eram lhos dos pequenos
mundos brilhantes que circulavam seus sóis dispersos, com pouco interesse e ainda
menos conhecimento das coisas que se moviam nos abismos entre eles.
A guerra ardeu por mil anos, e os volcryn a atravessaram, imperceptíveis e
incólumes, seguros em um lugar onde fogo nenhum podia queimar. Mais tarde, o
Império Federal estava arrasado e desaparecido, e os hrangan sumidos na escuridão
do Colapso, mas não cou mais escuro para os volcryn.
Quando Kleronomas guiou sua nave de pesquisa saindo de Avalon, os volcryn
passaram a dez anos-luz dele. Kleronomas descobriu muitas coisas, mas não os
volcryn. Não naquela época, nem quando voltou a Avalon, uma vida mais tarde.
Quando eu era uma criança de três anos, Kleronomas era pó, tão distante e morto
quanto Jesus de Nazaré, e os volcryn passaram perto de Daronne. Naquela
temporada, todos os sensitivos crey caram estranhos e encararam as estrelas com
olhos luminosos e cintilantes.
Quando cresci, os volcryn já tinham navegado para além de Tara, para além até
mesmo do alcance dos crey, e continuavam se afastando.
E agora estou velho e envelhecendo ainda mais, e os volcryn logo vão penetrar o
Véu da Tentação, que pende como uma névoa escura entre as estrelas. E nós
seguimos, seguimos. Pelos abismos escuros aonde ninguém vai, pelo vazio, pelo
silêncio interminável, minha Night yer e eu os perseguimos.

Eles avançaram lentamente pelo tubo transparente que ligava o cais orbital à nave
estelar esperando à frente, usando as mãos para se impulsionarem em meio à falta de
gravidade.
Melantha Jhirl, a única entre eles que não parecia desajeitada e desconfortável na
falta de gravidade, parou um momento e olhou para o globo malhado que era Avalon,
abaixo, uma vastidão grandiosa de jade e âmbar. Ela sorriu e desceu rápido pelo tubo,
ultrapassando seus companheiros com uma graça serena. Eles já haviam embarcado
em naves estelares antes, todos eles, mas nunca assim. A maioria das naves atracava
direto na estação, mas a nave que Karoly d’Branin fretara para sua missão era grande
demais, e com um design muito peculiar. Assomava sobre eles — como três
pequenos ovos lado a lado, com duas esferas maiores abaixo, em ângulos retos, e o
cilindro do tubo de empuxo no meio, com canos conectando tudo. A nave era branca
e austera.
Melantha foi a primeira a passar pela câmara de descompressão. Os outros se
arrastaram um atrás do outro, até todos estarem a bordo — cinco mulheres e quatro
homens, todos estudiosos da Academia, seus históricos tão variados quanto suas
áreas de estudo. O jovem frágil e telepata, ale Lasamer, foi o último a entrar. Ele
olhou ao redor, nervoso, enquanto os outros conversavam e esperavam que o
procedimento de embarque fosse concluído.
— Estamos sendo observados — comentou ele.
A porta exterior se fechara atrás dele, o tubo se soltara, então a porta interna se
abriu, deslizando.
— Bem-vindos à minha Night yer — disse uma voz suave do lado de dentro.
Mas não havia ninguém lá.
Melantha entrou no corredor.
— Olá — disse ela, olhando ao redor, intrigada. Karoly d’Branin a seguiu.
— Olá — respondeu a voz suave. Vinha de um comunicador abaixo de uma tela
escurecida. — Aqui é Royd Eris, mestre da Night yer. É um prazer revê-lo, Karoly, e
co feliz de receber o resto de vocês.
— Onde você está? — perguntou alguém.
— Em meus aposentos, que ocupam metade desta esfera de suporte de vida —
respondeu a voz de Royd Eris, amigavelmente. — A outra metade é composta de
uma sala de estar-biblioteca-cozinha, duas instalações sanitárias, uma cabine dupla e
outra individual, bem pequena. O resto de vocês terá que estender redes nas esferas
de carga, infelizmente. A Night yer foi projetada como nave de carga, não de
passageiros. Contudo, abri todas as passagens e escotilhas adequadas, de modo que
os depósitos têm ar, calor e água. Imaginei que achariam mais confortável assim. Seu
equipamento e sistemas de computador foram estocados nos depósitos, mas ainda há
muito espaço, garanto a vocês. Sugiro que se acomodem e depois se reúnam na sala
para uma refeição.
— Vai se juntar a nós? — perguntou a psíquico-analista, uma mulher resmungona
de rosto estreito e anguloso chamada Agatha Marij-Black.
— De certo modo — respondeu Royd. — De certo modo.
O fantasma apareceu no banquete.
Eles encontraram a sala com facilidade, após terem pendurado suas redes e
arrumado seus pertences pessoais nos dormitórios. Era o maior cômodo daquela
seção da nave. Em uma extremidade, havia uma cozinha totalmente equipada, bem
abastecida de provisões. A extremidade oposta oferecia cadeiras confortáveis, dois
leitores, um tanque holográ co e uma parede de livros, tas e chips de cristal. No
centro, uma mesa comprida posta para dez.
Uma refeição leve e quente os aguardava. Os acadêmicos se serviram e se
acomodaram à mesa, rindo, conversando uns com os outros, mais à vontade agora do
que quando embarcaram.
A rede de gravidade da nave estava operando, o que os deixava mais confortáveis
— o nauseante desconforto de se deslocar sem peso logo foi esquecido.
Finalmente, todos os lugares estavam ocupados, a não ser um, à cabeceira.
O fantasma se materializou ali.
Todas as conversas pararam.
— Olá — disse o espectro, a sombra de um jovem gracioso de olhos claros e
cabelo branco. Vestia roupas fora de moda havia vinte anos — uma camisa azul-
pastel solta bufante nos pulsos, calça branca justa com botas incorporadas. Podiam
ver através dele, e os próprios olhos do fantasma não os enxergavam.
— Um holograma — disse Alys, a baixa e atarracada exotécnica.
— Royd, Royd, eu não entendo — falou D’Branin, olhando para o fantasma. —
O que é isso? Por que nos envia uma projeção? Não vai se juntar a nós em pessoa?
O fantasma deu um sorriso leve e ergueu um braço.
— Meus aposentos são do outro lado daquela parede — respondeu. — Temo que
não haja porta ou escotilha entre as duas metades da esfera. Passo a maior parte do
tempo sozinho, e valorizo minha privacidade. Espero que entendam e respeitem meu
desejo. Ainda assim, serei um an trião gentil. Aqui na sala minha projeção pode se
juntar a vocês. Em outros lugares, caso precisem falar comigo ou queiram algo, é só
usar um comunicador. Agora, por favor, voltem à sua refeição e às suas conversas. Eu
escutarei com prazer. Já faz muito tempo desde que tive passageiros.
Eles tentaram. Mas o fantasma à cabeceira da mesa exercia sua in uência, e a
refeição foi tensa e apressada.

Desde o momento em que a Night yer ativou o sistema de empuxo estelar Royd
observou seus passageiros.
Em poucos dias, a maioria dos acadêmicos tinha se acostumado à voz incorpórea
vinda dos comunicadores e ao espectro holográ co na sala, mas somente Melantha
Jhirl e Karoly d’Branin pareciam realmente à vontade na sua presença. Os outros
cariam ainda mais incomodados se soubessem que Royd estava sempre com eles.
Sempre e em todo lugar, ele observava. Mesmo nas instalações sanitárias Royd tinha
olhos e ouvidos.
Ele os via trabalhar, comer, dormir, copular; escutava as conversas
incansavelmente. Em uma semana, ele os conhecia, todos os nove, e começara a
arrancar seus pequenos segredos indecentes.
A especialista em cibernética, Lommie orne, conversava com seus
computadores e parecia preferir a companhia deles à dos humanos. Era brilhante e
rápida, com um rosto mutável e expressivo e um corpo pequeno, duro e masculino —
a maioria dos outros a achava atraente, mas ela não gostava de ser tocada. Fizera sexo
apenas uma vez, com Melantha Jhirl. Lommie orne vestia camisas de suave metal
trançado e tinha no pulso esquerdo um implante que permitia contato direto com
seus computadores.
O exobiólogo, Rojan Christopheris, era um homem ranzinza e belicoso, um cético
cujo desprezo pelos colegas era mal reprimido, um beberrão solitário. Era alto,
encurvado e feio.
Os dois linguistas, Dannel e Lindran, eram um casal em público, sempre de mãos
dadas e apoiando um ao outro. Quando estavam a sós, porém, tinham discussões
amargas. Lindran possuía uma inteligência cáustica, e gostava de cutucar as feridas
de Dannel, fazendo piadas sobre sua competência pro ssional. Eles faziam sexo com
frequência, os dois, mas não um com o outro.
Agatha Marij-Black, a psíquico-analista, era uma hipocondríaca dada a graves
depressões, o que piorava no espaço apertado da Night yer.
A exotécnica Alys Northwind comia constantemente e nunca se lavava. Suas
unhas curtas estavam sempre cobertas de sujeira preta, e ela usou o mesmo macacão
pelas primeiras duas semanas da viagem, tirando-o apenas para o sexo, e mesmo
assim por breves momentos.
O telepata ale Lasamer era nervoso e temperamental, com medo de todos ao
redor, mas dado a surtos de arrogância, nos quais provocava os companheiros com
pensamentos que roubava de suas mentes.
Royd observava todos, estudava-os, vivia com eles e por intermédio deles. Não
negligenciou ninguém, nem mesmo aqueles que considerava os mais desagradáveis.
Quando a Night yer já estava perdida no uxo constante do empuxo estelar havia
duas semanas, dois de seus passageiros passaram a merecer a maior parte de sua
atenção.
— Acima de tudo, quero saber o porquê deles — dissera-lhe Karoly d’Branin em
uma falsa noite na segunda semana após a partida de Avalon.
O fantasma luminoso de Royd estava sentado perto de D’Branin na sala
escurecida, vendo-o tomar chocolate agridoce. Os outros estavam dormindo. Noite e
dia eram termos sem sentido em uma nave estelar, mas a Night yer mantinha os
ciclos habituais e a maioria dos passageiros os seguia. O velho D’Branin,
administrador, generalista e líder da missão, era a exceção — ele seguia as próprias
horas, preferia trabalhar a dormir, e gostava mais do que tudo de falar sobre sua
obsessão pessoal, os volcryn que caçava.
— O se deles também é importante, Karoly — retrucou Royd. — Tem certeza de
que esses seus alienígenas existem?
— Eu tenho certeza — falou Karoly d’Branin, com uma piscadela. Era um
homem compacto, baixo e magro, cabelo grisalho cor de ferro penteado com cuidado
e uma túnica minuciosamente arrumada, mas a expansividade de seus gestos e seu
habitual entusiasmo agitado contradiziam a aparência sóbria. — Isso é su ciente. Se
todos os outros também tivessem certeza, teríamos uma frota de naves de pesquisa,
em vez de sua pequena Night yer. — Ele bebericou seu chocolate e suspirou
satisfeito. — Você conhece os nor t’alush, Royd?
O nome era estranho, mas Royd só precisou de um momento para consultar o
computador da biblioteca.
— Uma raça alienígena do outro lado do espaço humano, depois dos mundos
fyndii e dos damoosh. Possivelmente lendária.
D’Branin riu.
— Não, não, não! Sua biblioteca está desatualizada, meu amigo, você precisa
complementá-la na próxima vez em que visitar Avalon. Não lendas, não, são bastante
reais, embora muito distantes. Temos poucas informações sobre os nor t’alush, mas
temos certeza de que existem, embora você e eu possamos nunca encontrar um. Eles
foram o começo de tudo.
— Conte-me — pediu Royd. — Estou interessado em seu trabalho, Karoly.
— Eu estava codi cando informações nos computadores da Academia, um pacote
recém-chegado de Dam Tullian depois de vinte anos-padrão em trânsito. Parte dele
era folclore nor t’alush. Eu não tinha ideia de quanto tempo demorara para chegar a
Dam Tullian, ou por qual roteiro viera, mas não importava; o folclore é atemporal de
qualquer modo, e o material era fascinante. Você sabia que meu primeiro diploma foi
em exomitologia?
— Não sabia. Por favor, continue.
— A história dos volcryn estava entre os mitos nor t’alush. Aquilo me assombrou:
uma raça de seres conscientes se deslocando de alguma origem misteriosa no cerne da
galáxia, navegando na direção dos con ns galácticos e, dizia-se, com o objetivo de
rumar para o espaço intergaláctico, ao mesmo tempo sempre se mantendo nas
profundezas interestelares, sem pousar em planetas, raramente chegando a um ano-
luz de uma estrela. — Os olhos cinzentos de D’Branin brilhavam, e enquanto falava
as mãos se lançavam entusiasmadamente para os lados, como se pudessem abraçar a
galáxia. — E tudo isso sem empuxo estelar, Royd, esse era o verdadeiro assombro!
Fazendo isso em naves que se moviam a apenas uma fração da velocidade da luz! Esse
foi o detalhe que me deixou obcecado! Como eles deveriam ser diferentes, os meus
volcryn... Sábios, pacientes, de vida longa e objetivos distantes, sem nada da pressa e
da paixão terríveis que consomem as raças inferiores. Imagine quão antigas devem ser
essas naves volcryn!
— Velhas — concordou Royd. — Karoly, você disse naves. Mais de uma?
— Ah, sim. De acordo com os nor t’alush, uma ou duas apareceram primeiro, nos
limites mais distantes de sua esfera comercial, mas outras se seguiram. Centenas
delas, todas solitárias, movendo-se sozinhas, rumando em frente, sempre em frente.
A direção era sempre a mesma. Durante quinze mil anos-padrão eles se deslocaram
por entre as estrelas nor t’alush, depois começaram a sair dentre elas. O mito dizia
que a última nave volcryn partira havia três mil anos.
— Dezoito mil anos... Os nor t’alush são assim tão velhos?
— Não como viajantes das estrelas, não. — D’Branin sorriu. — Segundo suas
próprias histórias, os nor t’alush são civilizados há apenas cerca de metade desse
período. O que me incomodou durante um tempo. Parecia tornar a história dos
volcryn uma lenda. Uma lenda maravilhosa, é verdade, só que não mais que isso.
“Contudo, não consegui ignorar. Investiguei em meu tempo livre, cruzando outras
cosmologias alienígenas para descobrir se esse mito especí co era partilhado por
alguma raça além dos nor t’alush. Achei que pudesse produzir uma tese. Parecia uma
linha de pesquisa rica.
“Fiquei chocado com o que descobri. Nada dos hrangan, ou das raças escravizadas
pelos hrangan, mas fazia sentido, sabe? Como eles estavam fora do espaço humano,
os volcryn não os alcançariam até depois de passarem pela nossa esfera. Contudo,
quando olhei para dentro, a história dos volcryn estava por toda parte. Ah, Royd, as
histórias, as histórias!”
D’Branin se inclinou para a frente, ansioso.
— Conte — pediu Royd.
— Os fyndii os chamam de iy-wivii, que pode ser traduzido por algo como “horda
do vazio” ou “horda escura”. Cada horda fyndii conta a mesma história, só os
embotados não acreditam. Dizem que as naves são enormes, muito maiores do que
qualquer outra conhecida na história deles, ou na nossa. Belonaves, dizem. Há uma
história de uma horda fyndii perdida, trezentas naves sob rala-fyn, totalmente
destruídas quando encontraram uma iy-wivii. Isso foi há muitos milhares de anos,
claro, então os detalhes não são claros.
“Os damoosh têm uma história diferente, mas a tomam como verdade literal. E
você sabe que eles são a raça mais antiga que já encontramos. As pessoas do abismo, é
como chamam meus volcryn. Histórias adoráveis, Royd, adoráveis! Naves que
parecem grandes cidades escuras, imóveis e silenciosas, movendo-se a um ritmo mais
lento que o do Universo ao redor. Lendas damoosh dizem que os volcryn são
refugiados de uma guerra inimaginável no cerne da galáxia, nos princípios do tempo.
Eles abandonaram os mundos e as estrelas nos quais haviam evoluído, buscando a
verdadeira paz no vazio entre elas.
“Os gethsoid de Aath têm uma história similar, mas na deles tal guerra destruiu
toda a vida em nossa galáxia, e os volcryn são meio que deuses, semeando os mundos
enquanto avançam. Outras raças os veem como mensageiros de deus, ou sombras
saídas do inferno nos alertando para fugir de algum terror que logo emergirá do
cerne.”
— Suas histórias se contradizem, Karoly.
— Sim, sim, claro, mas todas concordam no essencial: os volcryn velejando,
passando por nossos breves impérios e glórias passageiras em suas antigas e eternas
naves subluz. Isso é o que importa! O resto é ostentação, decoração... logo saberemos
a verdade. Conferi o pouco que se sabe sobre as raças que teriam orescido ainda
mais para dentro, para além até dos nor t’alush... Civilizações e povos parcialmente
lendários, como os dan’lai, os ullish e os rohenna’kh... E onde encontrei algo,
encontrei novamente a história dos volcryn.
— A maior de todas as lendas — sugeriu Royd. A grande boca do espectro se
ergueu em um sorriso.
— Exatamente, exatamente. Então, chamei os especialistas do Instituto de Estudo
de Inteligência Não Humana. Pesquisamos por dois anos. Tudo estava lá, nas
bibliotecas, memórias e matrizes da Academia. Ninguém nunca havia procurado
antes, ou se preocupado em reunir.
“Os volcryn têm se movido pelo domínio humano pela maior parte da nossa
história, desde antes da alvorada do voo espacial. Enquanto distorcemos o tecido do
próprio espaço para enganar a relatividade, eles estavam velejando suas grandes naves
bem pelo coração de nossa suposta civilização, passando por nossos mundos mais
populosos, em velocidades subluz grandiosamente lentas, rumo à periferia e à
escuridão entre as galáxias. Maravilhoso, Royd, maravilhoso!”
— Maravilhoso! — concordou Royd.
Karoly d’Branin terminou sua xícara de chocolate com um gole e estendeu a mão
para pegar o braço de Royd, mas ela passou pela luz vazia. Ele pareceu desconcertado
por um momento, antes de começar a rir de si mesmo.
— Ah, meus volcryn. Fico empolgado demais, Royd. Estou tão perto agora. Eles
têm sido minha obsessão há doze anos, e em um mês estarei com eles, verei seu
esplendor com meus próprios olhos cansados. E então, então, se pelo menos
conseguir estabelecer uma comunicação, se pelo menos meu pessoal conseguir chegar
a seres tão grandiosos e estranhos quanto eles, tão diferentes de nós, tenho esperança,
Royd, esperança de que nalmente saberei o porquê disso!
O fantasma de Royd Eris sorriu para ele, e o observou através de olhos
transparentes e calmos.

Os passageiros cam inquietos rápido em uma nave estelar sob empuxo, mais
ainda em uma tão pequena e espartana quanto a Night yer. No nal da segunda
semana, começaram as especulações.
— Quem é esse Royd Eris? — reclamou o exobiólogo Rojan certa noite enquanto
quatro deles jogavam cartas. — Por que ele não aparece? Qual o objetivo de se
manter isolado da gente?
— Pergunte a ele — sugeriu Dannel, o linguista.
— E se ele for alguma espécie de criminoso? — argumentou Christopheris. —
Sabemos alguma coisa sobre ele? Não, claro que não. D’Branin o contratou, e
D’Branin é um velho senil idiota, todos sabemos disso.
— Sua vez — disse Lommie.
Christopheris jogou uma carta na mesa.
— Prejuízo. Vai ter que comprar de novo. — Ele sorriu. — Quanto a Eris, quem
sabe ele não está planejando matar todos nós?
— Por causa de nossa enorme riqueza, sem dúvida — retrucou Lindran, a
linguista. Ela jogou uma carta sobre a que Christopheris descartara. — Ricochete. —
Ela sorriu. Assim como Royd, que observava.

Era bom observar Melantha Jhirl.


Jovem, saudável, ativa, ela tinha uma energia que os outros não alcançavam. Era
grande em todos os sentidos — uma cabeça mais alta que qualquer outro a bordo,
corpo largo, seios grandes, pernas compridas e fortes, músculos que se moviam
suavemente sob uma pele negra como carvão reluzente. Seus apetites também eram
grandes. Ela comia o dobro do que qualquer um de seus colegas, bebia muito sem
jamais parecer embriagada, exercitava-se todos os dias durante horas com
equipamentos que levara a bordo e instalara em um dos depósitos de carga. Na
terceira semana, tinha feito sexo com todos os quatro homens a bordo e com duas
das mulheres. Mesmo na cama, ela sempre era ativa, deixando exausta a maioria dos
parceiros. Royd a observava com um interesse ardente.
— Sou um modelo aperfeiçoado — ela lhe disse uma vez enquanto se exercitava
nas barras paralelas, com o suor brilhando em sua pele nua, o cabelo preto comprido
preso em uma rede.
— Aperfeiçoado? — perguntou Royd. Ele não podia enviar sua projeção para os
depósitos, mas Melantha o convocara pelo comunicador para conversar enquanto se
exercitava, sem saber que ele estaria por lá de qualquer jeito.
Ela interrompeu o exercício, mantendo o corpo erguido e esticado com a força de
seus braços e costas.
— Alterado, capitão — explicou. Ela começara a chamá-lo assim. — Nasci na
elite de Prometheus, lha de dois magos da genética. Aperfeiçoada, capitão. Eu
demando o dobro de energia que você, mas a utilizo inteiramente. Um metabolismo
mais e ciente, um corpo mais forte e durável, uma expectativa de vida uma vez e
meia superior ao do humano normal. Meu povo cometeu alguns erros terríveis
tentando redesenhar radicalmente a humanidade, mas as pequenas melhorias foram
bem-feitas.
Ela retomou os exercícios, movendo-se rápida e facilmente, calada até ter
terminado. Quando encerrou, saltou das barras e cou de pé respirando pesado por
um momento, depois cruzou os braços e inclinou a cabeça, sorrindo.
— Agora você conhece a história da minha vida, capitão. — Ela tirou a rede e
balançou o cabelo.
— Com certeza, há mais para saber — disse a voz pelo comunicador.
Melantha riu.
— Com certeza. Quer ouvir sobre minha deserção para Avalon, os motivos e as
razões, o problema que isso causou para minha família em Prometheus? Ou está
mais interessado no meu trabalho extraordinário sobre exologia cultural? Quer ouvir
sobre isso?
— Talvez em outro momento — disse Royd educadamente. — O que é aquele
cristal que você usa?
Normalmente pendia entre os seios — ela o retirara ao se despir para os
exercícios. Melantha o pegou de volta e o passou pela cabeça, uma pequena joia verde
ornamentada por veios pretos, em uma corrente de prata. Quando a tocou, Melantha
fechou os olhos brevemente, depois os abriu, sorrindo.
— Está viva — disse ela. — Nunca viu uma? Uma joia sussurrante, capitão.
Cristal sonante, gravado psiquicamente para conter uma lembrança, uma sensação. O
toque a traz de volta durante algum tempo.
— Eu conheço o princípio, mas não esse uso. Então, o seu contém uma lembrança
querida? De sua família, talvez?
Melantha pegou uma toalha e começou a enxugar o suor do corpo.
— O meu contém as sensações de uma transa particularmente satisfatória,
capitão. Ela me excita. Ou excitava. Joias sussurrantes se desgastam com o tempo, e
esta não é mais tão poderosa. Mas às vezes... muitas vezes, quando termino de fazer
amor ou um exercício pesado... ela me desperta de novo, como acabou de acontecer.
— Ah... Então ela a deixou excitada? Você vai copular agora?
Melantha sorriu.
— Sei sobre qual parte da minha vida você quer ouvir, capitão. Minha vida
amorosa impetuosa e tumultuada. Bem, não vai conseguir. Pelo menos, não até eu
ouvir a sua história de vida. Entre meus modestos atributos está uma curiosidade
insaciável. Quem é você, capitão? De verdade?
— Alguém tão aperfeiçoado quanto você deveria ser capaz de adivinhar —
retrucou Royd.
Melantha riu e jogou a toalha no comunicador.

Lommie orne passava a maioria dos dias no depósito de carga que eles haviam
de nido como sala dos computadores, instalando o sistema que usariam para
analisar os volcryn. Na metade do tempo a exotécnica Alys Northwind ia dar uma
mão a ela. A especialista em cibernética assoviava enquanto trabalhava. Northwind
obedecia às suas ordens em um silêncio emburrado. Às vezes elas conversavam.
— Eris não é humano — disse Lommie um dia enquanto supervisionava a
instalação de uma tela.
Alys resmungou.
— O quê? — Sua testa se franziu no rosto quadrado e comum. Christopheris e
sua conversa sobre Eris a deixaram nervosa. Ela encaixou outro componente na
posição certa e se virou.
— Ele fala conosco, mas não pode ser visto — explicou Lommie. — Esta nave não
tem tripulação, aparentemente tudo é automatizado, a não ser ele. Por que não seria
totalmente automatizada, então? Eu apostaria que esse Royd Eris é um sistema de
computador muito so sticado, talvez uma verdadeira inteligência arti cial. Mesmo
um programa simples consegue sustentar uma conversa às cegas indistinguível da de
um humano. Aposto que esse computador poderia enganar você quando estiver
pronto e funcionando.
A exotécnica grunhiu e voltou ao trabalho.
— Então por que ngir ser humano?
— Porque a maioria dos sistemas legais não atribui direitos às inteligências
arti ciais — respondeu Lommie. — Uma nave não pode ser dona de si mesma, nem
mesmo em Avalon. A Night yer deve ter medo de ser con scada e desativada. Morte,
Alys... — ela assoviou. — O m da própria consciência e do pensamento consciente.
— Eu trabalho com máquinas todo dia — retrucou Alys, teimosa. — Desligue,
ligue, não faz diferença. Elas não se importam. Por que essa máquina se importaria?
Lommie sorriu.
— Um computador é diferente, Alys. Mente, pensamento, vida, os grandes
sistemas têm tudo isso. — Ela fechou a mão direita sobre o pulso esquerdo, e seu
polegar começou a acariciar preguiçosamente as protuberâncias do seu implante. —
Sensação também. Eu sei. Ninguém quer o m da sensação. Eles não são tão
diferentes de mim e de você, sério.
Alys olhou para trás e balançou a cabeça.
— Sério — repetiu ela com uma voz inexpressiva e incrédula.
Royd escutou e observou, sem sorrir.

ale Lasamer era uma coisinha frágil e jovem — nervoso, sensível, com cabelo
loiro escorrido que chegava aos ombros e olhos azuis aguados. Normalmente se
vestia como um pavão, preferindo camisas rendadas de gola em V e braguilhas que
ainda eram moda entre as classes inferiores de seu mundo natal. Mas, no dia em que
procurou D’Branin em sua pequena cabine particular, Lasamer estava vestido quase
sobriamente, com um macacão cinza austero.
— Posso sentir — disse ele, agarrando D’Branin pelo braço, cravando
dolorosamente seus dedos longos. — Há algo errado, Karoly, há algo muito errado.
Estou começando a car com medo.
As unhas compridas do telepata machucavam, e D’Branin afastou o braço com
força.
— Está me machucando — protestou. — Meu amigo, o que há? Com medo? Do
quê, de quem? Eu não entendo. O que poderia haver aqui para se ter medo?
ale levou as mãos pálidas ao rosto.
— Não sei, não sei — gemeu. — Mas existe, eu sinto. Karoly, estou captando algo.
Você sabe que sou bom, sou mesmo, por isso me escolheu. Ainda agora, quando
cravei as unhas em você, eu senti. Consigo ler você agora, em clarões. Está pensando
que me impressiono com facilidade, que é o con namento, que precisa me acalmar.
— O jovem deu um riso histérico que morreu tão rápido quanto começou. — Não,
você sabe, eu sou bom. Primeira classe, testado, e digo a você que estou com medo.
Eu capto. Sinto. Sonho com isso. Senti enquanto estávamos embarcando, e cou
pior. Alguma coisa perigosa. Alguma coisa instável. E alienígena, Karoly, alienígena!
— Os volcryn!
— Não, impossível. Estamos em empuxo, eles estão a anos-luz. — O riso incerto
surgiu novamente. — Eu não sou assim tão bom, Karoly. Ouvi sua história sobre os
crey, mas sou apenas humano. Não, isso está mais perto. Na nave.
— Um de nós?
— Talvez... — Lasamer esfregou a bochecha, distraído. — Não consigo descobrir.
D’Branin colocou uma das mãos no ombro dele de modo paternal.
— ale, essa sensação poderia ser apenas cansaço? Todos estamos sob estresse. A
inatividade pode ser exaustiva.
— Tire a mão de mim!
D’Branin afastou a mão, rápido.
— Isso é real, e não preciso de você pensando que talvez não devesse ter me
trazido, essa besteira toda — insistiu o telepata. — Sou tão estável quanto qualquer
um nesta... nesta... Como ousa pensar que sou instável? Você deveria dar uma olhada
dentro de alguns dos outros, Christopheris com sua garrafa e suas fantasias sujas,
Dannel doente de medo, Lommie e suas máquinas, com ela é tudo metal, luzes e
circuitos, doentio, eu lhe digo, e Jhirl é arrogante e Agatha choraminga mesmo
quando está sozinha, na própria cabeça, o tempo todo, e Alys é vazia, como uma
vaca. Você, você não toca neles, não vê dentro deles, o que sabe sobre ser estável?
Idiotas, D’Branin, eles lhe deram um bando de idiotas, e sou um dos melhores, então
não comece a achar que não sou estável, que sou insano, está ouvindo? — Os olhos
azuis dele estavam febris. — Está ouvindo?
— Calma, calma, ale, você está se exaltando.
O telepata piscou, e de repente a selvageria sumiu.
— Me exaltando? Sim — disse, olhando ao redor, culpado. — É difícil, Karoly,
mas me escute, você precisa me escutar, estou avisando. Estamos em perigo.
— Vou escutar, mas não posso agir sem informações mais precisas. Você tem que
usar seu talento e me conseguir isso, certo? Você consegue.
ale assentiu.
— Sim. Sim.
Eles conversaram em voz baixa por mais de uma hora, e nalmente o telepata
partiu em paz.
Depois, D’Branin foi procurar a psíquico-analista, que estava deitada em sua rede,
cercada por remédios, reclamando muito de dores.
— Interessante — disse ela depois que D’Branin contou a conversa com ale. —
Também senti alguma coisa, uma sensação de ameaça, muito vaga, difusa. Achei que
era eu, o con namento, o tédio, o modo como me sinto. Meu humor às vezes me trai.
Ele disse alguma coisa mais especí ca?
— Não.
— Vou fazer um esforço para circular, lê-lo, ler os outros, ver o que consigo captar.
Mas se isso é real, ele saberia primeiro. Ele é nível um, e eu, três.
D’Branin assentiu.
— Ele parece muito receptivo. Me contou todo tipo de coisa sobre os outros.
— Não signi ca nada. Às vezes, quando um telepata insiste que está captando
tudo, signi ca que não está captando nada. Ele imagina sentimentos, leituras, para
compensar o que não acontece. Vou car de olho nele, D’Branin. Às vezes um talento
pode desmoronar, mergulhar num tipo de histeria e começar a transmitir em vez de
receber. Num ambiente fechado, isso é muito perigoso.
D’Branin assentiu mais uma vez.
— Claro, claro.
Em outra parte da nave, Royd franziu a testa.

— Você notou a roupa naquele holograma que ele nos envia? — perguntou Rojan
Christopheris a Alys Northwind. Estavam sozinhos em um dos depósitos, reclinados
em um colchão, tentando evitar o ponto molhado. O exobiólogo acendera um tubo
de prazer. Ofereceu à companheira, mas Alys recusou com um gesto. — Uma década
fora de moda, talvez mais. Meu pai usava camisas como aquela quando era menino
em Antigo Poseidon.
— Eris tem um gosto ultrapassado. E daí? Não ligo para o que ele veste. Gosto
dos meus macacões. São confortáveis. Não ligo para o que as pessoas pensam.
— Não mesmo, não é? — Rojan franziu o enorme nariz. Ela não viu o gesto. —
Bem, você não está entendendo. E se aquilo não for Eris de verdade? Uma projeção
pode ser qualquer coisa, pode ser feita do nada. Não acho que aquela seja a
verdadeira aparência dele.
— Não? — Agora a voz dela estava curiosa. Alys rolou e se aninhou sobre o braço
dele, os seios brancos e pesados contra o peito de Rojan.
— E se ele for doente, deformado, tiver vergonha de ser visto como realmente é?
— perguntou Rojan. — Talvez tenha alguma doença. A Peste Lenta pode arrasar
uma pessoa, mas demora décadas para matar, e há outros contágios: manthrax,
neolepra, dissolução, doença de Langamen, muitos deles. A quarentena autoimposta
de Royd pode ser apenas isso. Uma quarentena. Pense nisso.
Alys franziu a testa.
— Toda essa conversa sobre Eris está me deixando nervosa — disse ela.
O exobiólogo sugou seu tubo de prazer e riu.
— Bem-vinda à Night yer. O resto de nós já está assim.

Na quinta semana, Melantha empurrou seu peão para a sexta leira e Royd viu
que era impossível conter e desistiu. Era a oitava vez que ela o vencia em oito dias.
Ela estava sentada de pernas cruzadas no chão da sala, as peças de xadrez diante de si
em frente a uma tela escurecida. Rindo, ela as derrubou.
— Não se sinta mal, Royd — disse ela. — Sou um modelo aperfeiçoado. Estou
sempre três lances à frente.
— Eu deveria ligar no computador. Você nunca saberia.
Seu fantasma se materializou de repente, de pé em frente à tela, e sorriu para ela.
— Eu saberia em três movimentos. Tente.
Eles foram as últimas vítimas da febre do xadrez que tomou conta da Night yer
por mais de uma semana. Inicialmente, fora Rojan quem aparecera com o tabuleiro e
conclamara todos a jogar, mas os outros tinham perdido o interesse quando ale
Lasamer se sentou e derrotou todos, um depois do outro. Tinham certeza de que ele
zera isso lendo suas mentes, mas o telepata estava irritadiço e de péssimo humor, e
ninguém ousou fazer tal acusação. Melantha, contudo, conseguira derrotar ale
sem muito esforço.
— Ele não é tão bom jogador — disse ela a Royd depois — e, se está tentando
arrancar ideias de mim, só está recebendo baboseiras. O modelo aperfeiçoado aqui
conhece algumas disciplinas mentais. Posso me proteger muito bem, obrigada.
Christopheris e alguns dos outros tentaram uma ou duas partidas contra
Melantha, e foram arrasados. Finalmente, Royd perguntou se podia jogar. Apenas
Melantha e Karoly estavam dispostos a enfrentá-lo, e como Karoly mal se lembrava
do movimento das peças, Melantha e Royd se tornaram adversários habituais.
Ambos pareciam desfrutar das partidas, embora Melantha sempre vencesse.
Ela se levantou e foi à cozinha, passando direto pela forma fantasmagórica de
Royd, que ela se recusava peremptoriamente a ngir que era real.
— Os outros dão a volta — queixou-se Royd.
Ela deu de ombros e pegou um bulbo de cerveja no depósito.
— Quando você vai ceder e me deixar atravessar sua parede para uma visita,
capitão? Você não se sente solitário aí? Sexualmente frustrado? Claustrofóbico?
— Naveguei na Night yer minha vida inteira, Melantha. — Sua projeção,
ignorada, se apagou. — Se eu fosse suscetível a claustrofobia, frustração sexual ou
solidão, tal vida teria sido impossível. Com certeza isso é evidente para um modelo
aperfeiçoado como você.
Ela tomou um gole da cerveja e deu seu riso suave e musical.
— Eu ainda vou decifrá-lo, capitão.
— Enquanto isso, me conte mais algumas mentiras sobre a sua vida.
— Já ouviram falar de Júpiter? — perguntou a exotécnica aos outros. Estava
bêbada, balançando-se na rede no depósito de carga.
— Alguma coisa a ver com a Terra — disse Lindran. — O mesmo sistema de
mitos deu origem aos dois nomes, acredito.
— Júpiter é um gigante gasoso no mesmo sistema solar da Antiga Terra —
anunciou Alys em voz alta. — Você não sabia disso, sabia?
— Tenho mais coisas com que ocupar minha cabeça do que essas curiosidades,
Alys — respondeu Lindran.
Alys Northwind deu um sorriso satisfeito.
— Escute, estou falando com você. Eles estavam prestes a explorar Júpiter quando
o sistema de empuxo estelar foi descoberto, ah, muito tempo atrás. Depois disso,
claro, ninguém se incomodou com gigantes gasosos. Só em usar o empuxo e
encontrar mundos habitáveis, se instalar neles, ignorar os cometas, as pedras e os
gigantes gasosos. Há outra estrela a poucos anos-luz de distância, e ela tem mais
planetas habitáveis. Mas havia pessoas que achavam que aqueles Júpiteres podiam ter
vida, sabe? Entende?
— Entendo que você está bêbada — retrucou Lindran.
Christopheris parecia irritado.
— Se há vida inteligente nos gigantes gasosos, não demonstra interesse em sair
deles — cortou ele. — Todas as espécies conscientes que encontramos até agora
tiveram origem em mundos semelhantes à Terra, e a maioria delas respira oxigênio.
A não ser que você esteja sugerindo que os volcryn são de um gigante gasoso...
Alys se sentou e deu um sorriso conspiratório.
— Não os volcryn — disse ela. — Royd Eris. Quebre aquele anteparo dianteiro
na sala e vai ver o metano e a amônia escapando.
Sua mão fez um movimento ondular e sensual no ar, e ela teve espasmos de riso.

O sistema estava instalado e funcionando. A especialista em cibernética Lommie


orne estava sentada no controle principal, uma placa de plástico liso e preto na
qual as imagens fantasmagóricas de uma centena de con gurações de teclado iam e
vinham em hologra as, desaparecendo e mudando mesmo enquanto ela as usava.
Erguiam-se ao seu redor grades cristalinas de informações, leiras de telas e painéis
de leitura nos quais colunas de números avançavam e formas geométricas executavam
grandiosas danças giratórias, colunas escuras de metal contínuo que continham a
mente e a alma de seu sistema. Ela estava sentada alegremente na penumbra,
assoviando enquanto executava vários comandos simples no computador, os dedos se
movendo pelas teclas tremeluzentes com velocidade ofuscante, e o ritmo acelerava.
— Ah — disse uma vez, sorrindo. — Bom.
Chegou então o momento da passagem nal. Lommie empurrou para trás o tecido
metálico de sua manga esquerda, colocou o pulso sob o painel, encontrou os pinos, se
encaixou. Ligação.
Êxtase.
Formas de tinta em mais de dez cores cintilantes se retorceram, fundiram-se e se
separaram nas telas de leitura.
Em um instante, estava encerrado.
Lommie soltou o pulso. O sorriso em seu rosto era suave e satisfeito, mas, além
dele, havia outra expressão, um mínimo sinal de perplexidade. Levou o polegar aos
orifícios de seu equipamento de pulso e viu que estavam quentes ao toque,
formigando. Lommie estremeceu.
O sistema funcionava perfeitamente, equipamento em boa condição, todos os
programas funcionando de acordo com o planejado, conexão com boa engrenagem.
Havia sido um prazer, como sempre. Quando ela se conectava ao sistema era sábia
para além da idade, e poderosa, cheia de luz, eletricidade, e a matéria da vida, fresca,
limpa e excitante ao toque — e nunca sozinha, nunca pequena ou fraca. Era sempre
assim quando estava conectada e se permitia expandir.
Entretanto, daquela vez algo diferente aconteceu. Algo frio a tocara, só por um
momento. Algo muito frio e muito assustador, e ela e o sistema o tinham visto
claramente por um breve momento, e então sumira outra vez.
Lommie balançou a cabeça e expulsou aquele absurdo. Voltou ao trabalho. Depois
de um tempo, começou a assoviar.

Durante a sexta semana, Alys se cortou gravemente enquanto preparava um


lanche. Estava de pé na cozinha, cortando uma carne temperada com uma faca
comprida, quando de repente berrou.
Dannel e Lindran correram até ela e a encontraram olhando horrorizada para a
tábua de cortar à sua frente. A faca decepara a primeira falange do indicador da mão
esquerda, e o sangue se espalhava em jatos irregulares.
— A nave sacudiu — explicou Alys, anestesiada, encarando Dannel. — Vocês não
sentiram o solavanco? Empurrou a faca para o lado.
— Pegue alguma coisa para estancar o sangue — disse Lindran. Dannel olhou ao
redor, em pânico. — Ah, eu mesma faço. — E fez.
A psíquico-analista Agatha Marij-Black deu um tranquilizante a Alys, depois
olhou para os dois linguistas.
— Vocês viram quando aconteceu?
— Ela fez isso a si mesma, com a faca — falou Dannel.
De algum lugar no corredor, veio o som de um riso selvagem e histérico.

— Eu o contive — relatou Agatha a D’Branin mais tarde no mesmo dia. —


Psionine-4. Isso vai reduzir sua receptividade por vários dias, e tenho mais, caso ele
precise.
D’Branin tinha uma expressão perturbada.
— Nós conversamos várias vezes, e vi que ale estava cando cada vez mais
amedrontado, mas ele nunca conseguiu me contar o motivo. Você tinha de apagá-lo?
A psíquico-analista deu de ombros.
— Ele estava quase irracional. Considerando seu nível de talento, se ele cruzasse o
limite poderia arrastar todos nós junto. Você nunca deveria ter trazido um telepata
nível um, D’Branin. Instável demais.
— Precisamos nos comunicar com uma raça alienígena. Lembro a você que essa
não é uma tarefa fácil. Os volcryn serão mais alienígenas do que quaisquer
conscientes que já encontramos. Precisamos de habilidades de nível um para termos
alguma esperança de alcançá-los. E eles têm muito a nos ensinar, minha amiga!
— Belas palavras, mas você pode não ter habilidade alguma, considerando as
condições de seu nível um. Metade do tempo ele ca enrolado em posição fetal em
sua rede, a outra metade está se exibindo e se vangloriando, meio louco de medo. Ele
insiste que estamos todos correndo perigo físico real, mas não sabe por que ou de
quê. O pior é que não posso dizer se ele está sentindo mesmo algo ou se é um grave
surto de paranoia. Está claro que ele apresenta alguns sintomas clássicos de paranoia.
Entre outras coisas, insiste que está sendo observado. Talvez seu quadro não tenha
relação alguma conosco, com os volcryn e seu talento. Não posso ter certeza.
— E quanto aos seus próprios talentos? Você é empática, não? — disse D’Branin.
— Não me ensine meu trabalho — ela rebateu. — Transei com ele semana
passada. Não é possível ter mais proximidade ou melhor a nidade para espionar que
assim. Mesmo nessas condições, não pude ter certeza de nada. A mente dele é um
caos, e seu medo é tão forte que deixou os lençóis fedendo. Também não li nada dos
outros, além das tensões e frustrações comuns. Mas sou apenas uma três, então isso
não signi ca muito. Minhas habilidades são limitadas. Você sabe que não tenho me
sentido bem, D’Branin. Mal consigo respirar nesta nave. O ar me parece denso e
pesado, minha cabeça lateja. Eu deveria car na cama.
— Sim, claro — apressou-se em dizer D’Branin. — Não pretendi criticar. Você
tem feito tudo o que pode em circunstâncias difíceis. Quanto tempo vai demorar
para que ale volte para nós?
Agatha massageou a têmpora, cansada.
— Recomendo mantê-lo contido até o nal da missão, D’Branin. Estou avisando,
um telepata insano ou histérico é perigoso. Aquela coisa com Northwind e a faca
pode ter sido coisa dele, sabe disso. Ele começou a berrar pouco depois, lembre.
Talvez ele a tenha tocado, só por um instante... Ah, é uma hipótese exagerada, mas
possível. A questão é: não vamos correr riscos. Eu tenho psionine-4 su ciente para
mantê-lo anestesiado e funcional até voltarmos a Avalon.
— Mas... Royd vai nos tirar de empuxo logo, e faremos contato com os volcryn.
Precisaremos de ale, de sua mente, seu talento. É vital mantê-lo contido? Não há
outro modo?
Marij-Black fez uma careta.
— Minha outra opção é uma injeção de esperon. Isso o abriria totalmente,
aumentaria sua receptividade psíquica em dez vezes por algumas horas. Então,
espero, ele poderia se concentrar nesse perigo que sente. Exorcizá-lo, caso seja falso, e
lidar com ele, caso seja real. Mas psionine-4 é muito mais seguro. Esperon é uma
droga infernal, com efeitos colaterais devastadores. Aumenta dramaticamente a
pressão sanguínea, às vezes produz hiperventilação ou convulsões, pode provocar
paradas cardíacas. Lasamer é jovem o bastante para que eu não me preocupe com
isso, mas não acho que tenha equilíbrio emocional para lidar com esse tipo de poder.
A psionine-4 pode nos dizer alguma coisa. Se a paranoia dele persistir, saberei que
não tem nada a ver com sua telepatia.
— E se não persistir?
Agatha lançou a ele um sorriso malicioso.
— Se Lasamer car calmo e parar de tagarelar sobre perigo? Bem, isso signi caria
que ele não está mais captando nada. E isso signi caria que havia algo a captar, que
ele estava certo o tempo todo.

No jantar daquela noite, ale estava quieto e distraído, comendo de um modo


ritmado e metódico, com um ar nublado em seus olhos azuis. Depois, pediu licença e
foi direto para a cama, mergulhando em um sono pesado quase imediatamente.
— O que você fez com ele? — perguntou Lommie orne a Marij-Black.
— Apaguei a mente bisbilhoteira dele — respondeu ela.
— Deveria ter feito isso há duas semanas — disse Lindran. — É muito mais fácil
suportá-lo quando está dócil.
D’Branin mal tocou em sua comida.

A falsa noite chegou, e a aparição de Royd se materializou enquanto D’Branin


re etia, sentado com seu chocolate.
— Karoly — disse a aparição —, seria possível conectar o computador que sua
equipe trouxe a bordo com o meu sistema embarcado? Suas histórias dos volcryn me
fascinam, e gostaria de poder estudá-las mais em meu tempo livre. Suponho que os
detalhes de sua investigação estejam arquivados.
— Sim, claro — respondeu D’Branin de modo automático e distraído. — Nosso
sistema está ligado. Conectá-lo ao da Night yer não será um problema. Pedirei a
Lommie para cuidar disso amanhã.
O silêncio pairou pesado no ar. D’Branin bebericou seu chocolate e olhou para a
escuridão, quase ignorando Royd.
— Algo o incomoda — disse Royd depois de um tempo.
— Hum? Ah, sim. — D’Branin ergueu os olhos. — Perdoe-me, meu amigo.
Tenho muita coisa na cabeça.
— Diz respeito a ale Lasamer, não é mesmo?
D’Branin olhou para a gura pálida e luminescente em frente a ele por um longo
tempo antes de assentir.
— Sim. Posso perguntar como sabia disso?
— Sei tudo que acontece na Night yer.
— Você tem nos observado — reagiu D’Branin com gravidade, em tom acusador.
— Então é disso que ale está falando sobre sermos observados... Royd, como
pôde? Espionar é baixo demais para você.
Os olhos transparentes do fantasma não tinham vida, não viam.
— Não conte aos outros — alertou Royd. — Karoly, meu amigo, se posso chamá-
lo assim, tenho meus motivos para observar, motivos que você não precisa saber. Não
lhe desejo mal. Acredite nisso. Você me contratou para levá-lo em segurança aos
volcryn e de volta, e pretendo fazer exatamente isso.
— Você está sendo evasivo, Royd. Por que nos espiona? Vê tudo? É um voyeur,
algum inimigo? Por isso não se mistura a nós? Observar é tudo o que pretende fazer?
— Sua descon ança me magoa, Karoly.
— Você me enganar me magoa. Não vai responder?
— Tenho olhos e ouvidos em toda parte — disse Royd. — Não há onde se
esconder de mim na Night yer. Vejo tudo? Não, nem sempre. Sou apenas humano,
não importando o que seus colegas pensem. Eu durmo. Os monitores permanecem
ligados, mas não há ninguém para observar. Só posso prestar atenção em uma ou
duas cenas ou informações de cada vez. Às vezes, co distraído. Eu olho tudo,
Karoly, mas não vejo tudo.
— Por quê? — D’Branin se serviu de uma nova xícara de chocolate e fez um
esforço para rmar a mão.
— Não tenho de responder a essa pergunta. A Night yer é minha nave.
D’Branin tomou um gole do chocolate, piscou, assentiu para si mesmo.
— Você me perturba, meu amigo. Não me dá escolha. ale disse que estávamos
sendo observados, e agora sei que ele tinha razão. Ele também diz que estamos em
perigo. Algo alienígena, ele diz. Você?
A projeção estava imóvel e silenciosa.
D’Branin soltou um muxoxo.
— Você não responde. Ah, Royd, o que vou fazer? Preciso acreditar nele, então.
Estamos correndo perigo, talvez vindo de você. Vou abortar nossa missão. Leve-nos
de volta a Avalon, Royd. Essa é a minha decisão.
O fantasma deu um sorriso triste.
— Tão perto, Karoly? Logo estaremos saindo de empuxo.
D’Branin soltou um pequeno ruído triste do fundo da garganta.
— Meus volcryn... — Ele suspirou. — Tão perto... Ah, me dói abandoná-los. Mas
não posso fazer diferente, não posso.
— Você pode — respondeu a voz de Royd Eris. — Con e em mim. É tudo o que
peço, Karoly. Acredite em mim quando lhe digo que não tenho intenções sinistras.
ale Lasamer pode falar em perigo, mas ninguém se machucou até agora, não é
mesmo?
— Não... — admitiu d’Branin. — A não ser que se leve em conta Alys se cortando
essa tarde.
— O quê? — reagiu Royd, hesitando brevemente. — Ela se cortou? Eu não vi,
Karoly. Quando isso aconteceu?
— Ah, mais cedo, pouco antes de Lasamer começar a berrar e tagarelar, acredito.
— Entendo. — A voz de Royd estava pensativa. — Eu estava observando
Melantha se exercitar. Conversando com ela. Não reparei. Conte como aconteceu.
D’Branin contou.
— Escute. Con e em mim, Karoly, e lhe darei seus volcryn. Acalme seu pessoal.
Assegure a eles que não sou uma ameaça. E mantenha Lasamer drogado e calmo,
entende? Isso é muito importante. Ele é o problema.
— Agatha recomenda basicamente a mesma coisa.
— Eu sei. Concordo com ela. Você fará o que pedi?
— Não sei. Você di culta as coisas. Não entendo o que há de errado, meu amigo.
Não vai me contar mais?
Royd Eris não respondeu. Seu fantasma esperou.
— Bem, você não responde... — disse D’Branin, por m. — E torna isso muito
difícil. Quando, Royd? Quando veremos meus volcryn?
— Logo. Vamos sair de empuxo em aproximadamente setenta horas.
— Setenta horas. Muito pouco tempo. Voltar não nos daria nada. — Ele
umedeceu os lábios, ergueu a xícara e a descobriu vazia. — Então vamos em frente.
Farei o que pede. Vou con ar em você, manter Lasamer drogado. Não contarei aos
outros sobre sua espionagem. Isso é su ciente? Dê-me meus volcryn. Esperei tanto
tempo!
— Eu sei — disse Royd Eris. — Eu sei.
O fantasma sumiu, e Karoly d’Branin cou sentado sozinho na sala escura.
Tentou encher novamente a xícara, mas sua mão começou a tremer
descontroladamente; ele derramou chocolate nos dedos e largou a xícara, xingando,
pensando, ferido.

O dia seguinte foi de tensão crescente e uma centena de pequenas irritações.


Lindran e Dannel tiveram uma discussão “particular” que foi ouvida por metade da
nave. Um jogo de guerra na sala com três participantes terminou em desastre quando
Christopheris acusou Melantha Jhirl de roubar. Lommie orne reclamou de
di culdades incomuns em conectar seu sistema aos computadores embarcados. Alys
Northwind cou sentada por horas na sala de estar, olhando para o dedo ferido com
uma expressão de ódio ressentido no rosto. Agatha Marij-Black percorreu os
corredores queixando-se de que a nave estava quente demais, que suas articulações
latejavam, que o ar era denso e cheio de fumaça, que a nave era muito fria. Até
mesmo Karoly d’Branin estava desanimado e irritável.
Apenas o telepata parecia contente. Entupido de psionine-4, ale Lasamer
encontrava-se muitas vezes apático e letárgico, mas pelo menos não se encolhia mais
com medo de sombras.
Royd Eris não apareceu, nem por voz nem por projeção holográ ca.
Continuou sumido na hora do jantar. Os acadêmicos comeram, desconfortáveis,
esperando que ele se materializasse a qualquer momento, ocupasse o lugar habitual e
participasse das conversas à mesa. Essa espera ainda não havia sido atendida quando
as jarras de chocolate, chá temperado e café de depois do jantar foram colocadas na
mesa.
— Nosso capitão parece estar ocupado — observou Melantha, recostando na
cadeira e girando uma taça de conhaque.
— Logo estaremos saindo de empuxo — comentou Karoly d’Branin. — Sem
dúvida, há preparativos a fazer.
Em segredo, estava preocupado com a ausência de Royd e imaginava se estariam
sendo observados naquele momento.
Rojan Christopheris pigarreou.
— Já que estamos todos aqui, e ele não, talvez este seja um bom momento para
discutirmos certas coisas. Não me importo se ele está perdendo o jantar. Ele não
come. É um maldito holograma. Que importância isso tem? Talvez não seja
problema, mas precisamos falar sobre isso. Karoly, muitos de nós estão
desconfortáveis com Royd Eris. O que sabe sobre esse homem misterioso, a nal?
— Saber, meu amigo? — começou D’Branin, enchendo mais uma vez a xícara
com o denso chocolate agridoce e bebendo devagar, tentando ganhar tempo para
pensar. — O que há para saber?
— Você deve ter notado que ele nunca desce para se divertir conosco — disse
Lindran secamente. — Antes de fretar esta nave, alguém comentou essa estranheza
dele?
— Eu também gostaria de saber essa resposta — completou Dannel. — Há muito
tráfego indo e vindo por Avalon. Como você escolheu Eris? O que ouviu falar sobre
ele?
— Ouvi falar sobre ele? Muito pouco, devo admitir. Falei com alguns funcionários
do porto e com empresas de frete, mas nenhum deles o conhecia. Ele originalmente
não comercializava fora de Avalon, sabem?
— Muito conveniente — observou Lindran.
— E muito suspeito — acrescentou Dannel.
— Então, de onde ele é? — cobrou Lindran. — Dannel e eu o escutamos com
muita atenção. Ele fala de modo muito neutro, sem sotaque identi cável, sem
idiossincrasias traindo suas origens.
— Às vezes, soa um tanto arcaico — completou Dannel —, e de tempos em
tempos uma de suas frases me produz uma associação. Só que toda vez é uma
associação diferente. Ele é muito viajado.
— Que dedução incrível — comentou Lindran, dando um tapinha na mão dele.
— Comerciantes costumam fazer isso, meu amor. É o que acontece com o dono de
uma nave estelar.
Dannel olhou feio para ela, mas Lindran apenas continuou:
— Mas, falando sério, você sabe alguma coisa sobre ele? De onde vem esta nossa
Night yer?
— Não sei — admitiu D’Branin. — Eu... eu nunca pensei em perguntar.
Os membros da sua equipe de pesquisa se entreolharam, incrédulos.
— Você nunca pensou em perguntar? — reagiu Christopheris. — Como escolheu
esta nave?
— Estava disponível. O conselho administrativo aprovou meu projeto e me deu
pessoal, mas não podia dispor de uma nave da Academia. Também havia restrições
orçamentárias.
Agatha Marij-Black deu uma risada amarga.
— O que D’Branin está dizendo àqueles de vocês que ainda não perceberam é que
a Academia cou contente com os estudos dele sobre exomitologia, com a descoberta
da lenda dos volcryn, mas não tão entusiasmada com seu plano de procurá-los. Então
lhe deram um pequeno orçamento para mantê-lo feliz e produtivo, supondo que essa
pequena missão seria infrutífera, e lhe forneceram pessoas que não fariam falta em
Avalon. — Ela olhou ao redor. — Olhem para vocês. Nenhum de nós havia
trabalhado com D’Branin nos estágios iniciais, mas estávamos todos disponíveis para
esse passeio. E nenhum de nós é um acadêmico de primeira categoria.
— Fale por si mesma — retrucou Melantha Jhirl. — Eu me ofereci como
voluntária para esta missão.
— Não vou discutir — disse a psíquico-analista. — A questão é que a escolha da
Night yer não é um grande mistério. Você só contratou o frete mais barato que
conseguiu encontrar, não foi, D’Branin?
— Algumas das naves disponíveis não consideraram a minha proposta — contou
D’Branin. — Parece estranho, tenho que admitir. E muitos comandantes têm um
medo quase supersticioso de sair de empuxo no espaço interestelar, sem um planeta
por perto. Daqueles que concordaram com as condições, Royd Eris ofereceu os
melhores termos, e estava pronto para partir imediatamente.
— E nós tínhamos que partir imediatamente — disse Lindran. — Do contrário, os
volcryn poderiam escapar. A nal, eles só estão passando por essa região há dez mil
anos, alguns milhares a mais ou a menos.
Alguém riu. D’Branin cou perplexo.
— Amigos, eu sem dúvida poderia ter adiado a partida. Admito que estava
ansioso para encontrar meus volcryn, ver suas naves grandiosas e fazer a eles as
perguntas que têm me assombrado, descobrir o porquê deles. Mas admito também
que um atraso não teria sido um grande problema. Mas por quê? Royd tem sido um
an trião gentil, um bom piloto. Temos sido bem tratados.
— Você se encontrou com ele? — perguntou Alys. — Quando estava fazendo os
preparativos, alguma vez o viu?
— Nós nos falamos várias vezes, mas eu estava em Avalon, e Royd em órbita. Eu
vi seu rosto em minha tela.
— Uma projeção, uma simulação de computador, poderia ser qualquer coisa —
observou Lommie. — Posso mandar meu sistema criar todo tipo de rosto para a sua
tela, Karoly.
— Ninguém nunca viu esse Royd Eris — disse Christopheris. — Ele tem sido um
enigma desde o princípio.
— Nosso an trião deseja que sua privacidade permaneça inviolável — falou
D’Branin.
— Isso é desculpa — acusou Lindran. — O que ele está escondendo?
Melantha riu. Quando todos os olhos se voltaram para ela, Melantha sorriu e
balançou a cabeça.
— O capitão Royd é perfeito, um homem estranho para uma missão estranha.
Ninguém aqui adora um mistério? Estamos voando anos-luz para interceptar uma
hipotética nave estelar alienígena no cerne da galáxia que tem viajado sempre em
frente por mais tempo do que a humanidade tem travado guerras, e vocês estão
aborrecidos porque não podem contar as verrugas no nariz de Royd. — Ela se
curvou sobre a mesa para encher novamente sua taça de conhaque e continuou: —
Minha mãe tinha razão. Os normais são subnormais.
— Talvez devêssemos escutar Melantha — disse Lommie, pensativa. — As
fraquezas e as neuroses de Royd são problema dele, desde que não as imponha a nós.
— Isso me deixa desconfortável — reclamou Dannel fracamente.
— Pelo que sabemos, podemos estar viajando com um criminoso ou um
alienígena — disse Alys.
— Júpiter — murmurou alguém. A exotécnica cou ruborizada, e houve risinhos
por toda a comprida mesa.
Mas ale Lasamer ergueu os olhos furtivamente do seu prato e deu um risinho.
— Um alienígena — disse. Seus olhos azuis se moveram de um lado para outro,
como se tentando escapar. Estavam brilhantes e perturbados.
Marij-Black xingou.
— O efeito da droga está passando — disse rapidamente a D’Branin. — Tenho
que pegar mais na minha cabine.
— Que droga? — questionou Lommie. D’Branin tomara o cuidado de não contar
demais aos outros sobre os delírios de Lasamer, para não aumentar a tensão a bordo.
— O que está acontecendo?
— Perigo — disse Lasamer. Ele se virou para Lommie, sentada ao lado dele, e
agarrou seu antebraço com força, suas compridas unhas pintadas cravando-se no
metal prateado da camisa dela. — Estamos em perigo, estou captando isso. Algo
alienígena, que quer nos afetar. Sangue, vejo sangue. — Ele riu. — Você sente o
gosto, Agatha? Eu quase consigo sentir o gosto do sangue. E essa coisa também pode.
Agatha se levantou.
— Ele não está bem — anunciou ela aos outros. — Eu o tenho contido com
psionine-4, tentando controlar seus delírios. Vou pegar mais.
Ela foi em direção à porta.
— Contido? — reagiu Christopheris, horrorizado. — Ele está nos alertando sobre
algo. Você não ouviu? Quero saber o que é.
— Não psionine-4 — disse Melantha. — Tente esperon.
— Não me ensine meu trabalho, mulher!
— Desculpe — falou Melantha, e deu de ombros levemente. — Mas estou um
passo à sua frente. Esperon pode exorcizar os delírios dele, não?
— Sim, mas...
— E poderia ajudá-lo a se concentrar nessa ameaça que ele alega detectar, certo?
— Eu conheço bem as características do esperon — retrucou Agatha, exasperada.
Melantha sorriu por cima da borda de sua taça de conhaque.
— Tenho certeza que sim. Agora, me escute. Aparentemente vocês estão ansiosos
por causa de Royd. Não suportam não saber o que ele está escondendo. Rojan tem
inventado histórias há semanas e está pronto para acreditar em qualquer uma delas.
Alys está tão nervosa que cortou um pedaço do dedo. Estamos sempre discutindo.
Medos assim não nos ajudarão a trabalhar como uma equipe. Vamos acabar com eles.
É muito fácil. — Ela apontou para ale. — Aqui está um telepata nível um.
Aumente seu poder com esperon e ele será capaz de recitar a história de vida do
capitão para nós até estarmos devidamente entediados com ela. Enquanto isso,
também vai exorcizar os próprios demônios.
— Ele está nos observando — falou o telepata com uma voz baixa e urgente.
— Não — disse D’Branin. — Temos que manter ale contido.
— Karoly — interrompeu Christopheris —, isso já foi longe demais. Vários de
nós estão nervosos, e esse garoto está aterrorizado. Acredito que precisamos encerrar
o mistério de Royd Eris. Desta vez Melantha está certa.
— Não temos esse direito — alegou D’Branin.
— Temos a necessidade — disse Lommie. — Concordo com Melantha.
— Sim — ecoou Alys.
Os dois linguistas concordavam.
D’Branin pensou tristemente em sua promessa a Royd. Eles não lhe davam
escolha. Seus olhos encontraram os de Agatha, e ele suspirou.
— Vá em frente — concluiu ele. — Dê o esperon a ele.
— Ele vai me matar — berrou ale. Ele se levantou de um pulo e, quando
Lommie tentou acalmá-lo colocando uma mão em seu braço, ele pegou uma xícara de
café e jogou no rosto dela. Foram necessários três deles para contê-lo.
— Rápido! — gritou Christopheris, enquanto o telepata lutava.
Agatha estremeceu e saiu da sala.

Quando ela voltou, os outros tinham colocado Lasamer em cima da mesa e o


contido, afastando seu comprido cabelo claro para expor as artérias do pescoço.
Agatha se posicionou ao lado dele.
— Parem com isso — disse Royd. — Não há necessidade.
Seu fantasma surgiu cintilando em sua cadeira vazia na cabeceira da longa mesa de
jantar. A psíquico-analista cou paralisada no ato de inserir uma ampola de esperon
em sua pistola de injeção, e Alys Northwind se assustou e soltou um dos braços de
Lasamer. O cativo não se soltou. Ficou deitado na mesa, respirando pesadamente,
seus olhos azul-claros vítreos xos na projeção de Royd, aterrorizado pela visão de
sua repentina materialização.
Melantha Jhirl ergueu sua taça de conhaque em saudação.
— Buu — disse ela. — Perdeu o jantar, capitão.
— Royd — falou D’Branin —, eu lamento.
O fantasma tou a parede distante sem ver.
— Libertem-no — disse a voz pelos comunicadores. — Eu lhes contarei meus
grandes segredos se minha intimidade os incomoda tanto.
— Ele tem mesmo nos observado — constatou Dannel.
— Estamos escutando — disse Alys, descon ada. — O que você é?
— Gostei de seu palpite sobre os gigantes gasosos — disse Royd. — Infelizmente,
a verdade é menos dramática. Eu sou um Homo sapiens comum de meia-idade.
Sessenta e oito anos-padrão, caso queiram precisão. O holograma diante de vocês é o
verdadeiro Royd Eris, ou era, há alguns anos. Agora sou um pouco mais velho, mas
uso uma simulação de computador para projetar uma aparência mais jovem aos meus
hóspedes.
— Ah é? Então por que o segredo? — indagou Lommie, com o rosto vermelho
onde o café a escaldara.
— Vou começar pela história de minha mãe — respondeu Royd. — A Night yer
era a nave dela, feita sob medida de acordo com seu projeto nos estaleiros de
Newholme. Minha mãe era uma comerciante independente, de sucesso. Ela nascera
escória num mundo chamado Vess, que é muito longe daqui, embora alguns de vocês
tenham ouvido falar dele. Ela ascendeu pelo trabalho, posição após posição, até ter o
próprio comando. Logo fez fortuna pela disposição de aceitar negócios incomuns,
voar fora das principais rotas comerciais, levar sua carga um mês, um ano ou dois
anos além de onde era a entrega habitual. Essas práticas eram mais arriscadas, porém
mais lucrativas do que seguir as rotas comuns. Minha mãe não se preocupava com a
frequência com que ela e suas tripulações voltavam para casa. Suas naves eram sua
casa. Ela se esqueceu de Vess assim que saiu de lá, e raramente visitava o mesmo
mundo duas vezes, se podia evitar.
— Aventureira — comentou Melantha.
— Não — disse Royd. — Sociopata. Minha mãe não gostava de gente, entendem?
Nem um pouco. Suas tripulações não a amavam, e vice-versa. Seu maior sonho era se
libertar totalmente da necessidade de tripulação. Quando cou su cientemente rica,
fez isso. A Night yer foi o resultado. Depois que ela embarcou em Newholme, nunca
mais tocou outro ser humano nem caminhou sobre a superfície de um planeta. Fazia
todos os seus negócios dos compartimentos que agora são meus, por tela ou
transmissão a laser. Vocês a chamariam de insana. E estariam certos. — O fantasma
deu um leve sorriso. — Mas ela teve uma vida interessante, mesmo depois do
isolamento. Os mundos que ela viu, Karoly! As coisas que poderia ter lhe contado
partiriam seu coração, mas você nunca ouvirá. Ela destruiu a maioria dos seus
registros por medo de que outras pessoas pudessem ver alguma utilidade ou ter
prazer com suas experiências depois de sua morte. Ela era assim.
— E você? — perguntou Alys.
— Ela deve ter tocado pelo menos um outro ser humano... — comentou Lindran,
com um sorriso.
— Eu não deveria chamá-la de mãe — corrigiu-se Royd. — Eu sou seu clone
masculino. Após trinta anos sozinha nesta nave, ela cou entediada. Eu deveria ser
seu companheiro e amante. Ela poderia me projetar para ser a diversão perfeita. Mas
não tinha paciência para crianças, e desejo algum de me criar pessoalmente. Após ter
feito a clonagem, fui lacrado em um tanque alimentador, um embrião ligado ao
computador dela. Ele foi meu professor, antes do nascimento e depois. Na verdade,
não tive um nascimento. Muito tempo depois de quando uma criança normal teria
nascido, eu permanecia no tanque, crescendo, aprendendo, devagar, cego, sonhando e
vivendo por intermédio de tubos. Eu seria libertado quando tivesse chegado à
puberdade, quando ela imaginou que seria uma companhia adequada.
— Que horrível — falou D’Branin. — Royd, meu amigo, eu não sabia.
— Lamento, capitão — acrescentou Melantha. — Você teve sua infância roubada.
— Nunca senti falta disso — disse Royd. — Nem dela. Seus planos foram
inúteis, entendem? Ela morreu alguns meses depois da clonagem, quando eu ainda
era um feto no tanque. Mas programara a nave para essa eventualidade. A nave saiu
de empuxo e desligou, cou à deriva no espaço interestelar por onze anos-padrão,
enquanto o computador me... — Ele se interrompeu, sorrindo. — Eu ia dizer
enquanto o computador me transformava num ser humano. Bem, enquanto o
computador fazia de mim o que sou. Foi assim que herdei a Night yer. Quando
nasci, demorei alguns meses para me acostumar com a operação da nave e minhas
origens.
— Fascinante — observou D’Branin.
— Sim — concordou Lindran —, mas isso não explica por que você se mantém
isolado.
— Ah, mas claro que explica — retrucou Melantha. — Capitão, pode explicar
melhor para os modelos menos aperfeiçoados?
— Minha mãe odiava planetas — disse Royd. — Odiava fedores, sujeira e
bactérias, a instabilidade do clima, a existência de outras pessoas. Projetou para nós
um ambiente impecável, o mais estéril possível. Também não gostava de gravidade.
Estava acostumada à falta de peso por anos de serviço a bordo de antigos cargueiros
independentes que não podiam ter grades de gravidade, e preferia assim. Foram essas
as circunstâncias sob as quais nasci e cresci.
“Meu corpo não tem sistema imunológico nem resistência natural a nada. O
contato com qualquer um de vocês me mataria, ou pelo menos me deixaria muito
doente. Meus músculos são fracos, atro ados. A gravidade que a Night yer está
gerando agora é para o seu conforto, não o meu. Para mim, isso é uma agonia. Neste
momento, o meu verdadeiro eu está sentado numa cadeira utuante que sustenta
meu peso. Ainda assim dói, e meus órgãos internos podem estar sofrendo lesões. É
um dos motivos pelos quais não recebo passageiros com frequência.”
— Você partilha a opinião de sua mãe sobre a humanidade? — perguntou Agatha.
— Não. Eu gosto de pessoas. Aceito o que sou, mas não escolhi isso. Experimento
a vida humana da única forma que posso, em segunda mão. Sou um consumidor
voraz de livros, tas, holopeças, cções, dramas e histórias de todos os tipos. Fiz
experiências com pó de sonhos. E com pouca frequência, quando ouso, levo
passageiros. Nesses momentos, mergulho quanto posso na vida deles.
— Se você mantivesse sua nave sem peso o tempo todo, poderia receber mais
viajantes — sugeriu Lommie.
— É verdade — disse Royd com polidez. — Mas descobri que a maioria dos que
nascem em planetas ca tão desconfortável sem peso quanto eu co sob gravidade.
Um comandante que não tem gravidade arti cial, ou que escolhe não utilizá-la, atrai
poucos viajantes. As exceções com frequência passam grande parte da viagem
nauseadas ou drogadas. Não. Também sei que poderia conviver com meus
passageiros se permanecesse em minha cadeira e vestisse um traje ambiental
impermeável. Já z isso. Descobri que reduz minha participação, em vez de aumentá-
la. Eu me torno uma aberração, um aleijado que precisa ser tratado de modo
diferente e mantido à distância. Essas coisas não se adaptam ao meu objetivo. Pre ro
o isolamento. Com a frequência que ouso, estudo os alienígenas que levo como
viajantes.
— Alienígenas? — reagiu Alys, com a voz soando confusa.
— Vocês são todos alienígenas para mim — respondeu Royd.
O silêncio tomou a sala da Night yer.
— Lamento que isso tenha acontecido, meu amigo — disse Karoly d’Branin. —
Não deveríamos ter nos metido em suas questões pessoais.
— “Lamento”... — murmurou Marij-Black. Ela franziu a testa e inseriu a ampola
de esperon na câmara de injeção. — Bem, isso é muito bonito, mas será verdade?
Ainda não temos provas, apenas uma nova história de ninar. O holograma poderia
ter alegado ser uma criatura de Júpiter, um computador ou um falecido criminoso de
guerra. Não temos como con rmar nada do que ele disse. Não... na verdade, temos
um modo. — Ela deu dois passos rápidos até onde ale Lasamer estava deitado na
mesa. — Ele ainda precisa de tratamento e ainda precisamos de con rmação, então
não vejo sentido em parar agora que fomos tão longe. Por que deveríamos viver com
essa ansiedade se podemos acabar com tudo agora?
A mão dela empurrou a cabeça submissa do telepata para o lado. Agatha
encontrou a artéria e pressionou a pistola sobre ela.
— Agatha, você não acha... que talvez devamos esquecer isso, agora que Royd...?
— interrompeu D’Branin.
— NÃO — disse Royd. — Pare. Estou ordenando. Esta é minha nave. Pare, ou...
— Ou o quê?
A arma sibilou, e havia uma marca vermelha no pescoço do telepata quando ela se
afastou.
ale se ergueu até se sentar, apoiado nos cotovelos, e Agatha chegou mais perto.
— ale — disse ela em seu melhor tom pro ssional —, concentre-se em Royd.
Você consegue, sabemos como você é bom. Espere só um momento, o esperon abrirá
todas as portas para você.
Os olhos azuis dele estavam nublados.
— Não está perto o bastante... — murmurou ele. — Um, eu sou um, testado.
Bom, você sabe que sou bom, mas preciso estar perto. — Ele tremeu.
A psíquico-analista colocou um braço ao redor dele, acariciou, estimulou.
— O esperon lhe dará alcance, ale. Sinta, sinta-se cando mais forte. Consegue
sentir? Tudo está cando claro, não está? — A voz dela era um zumbido
tranquilizador. — Consegue ouvir o que estou pensando, sei que consegue, mas não
ligue para isso. Os outros também, deixe-os de lado, todo esse falatório,
pensamentos, desejos, medo. Deixe tudo de lado. Lembra do perigo agora? Lembra?
Vá procurá-lo, ale, procure o perigo. Olhe além daquela parede, diga-nos como é
além dela. Conte sobre Royd. Ele estava dizendo a verdade? Nos conte. Você é bom,
todos sabemos disso, você pode nos contar.
As frases eram quase um encantamento.
Ele se soltou dela e se empertigou sozinho.
— Eu posso sentir — disse ele. Seus olhos de repente caram mais claros. —
Alguma coisa... Minha cabeça dói... Estou com medo!
— Não que com medo — pediu Agatha. — O esperon não faz com que sua
cabeça doa, só deixa você melhor. Estamos todos aqui com você. Nada a temer. —
Ela acariciou a testa dele. — Conte o que vê.
ale Lasamer olhou para o fantasma de Royd com os olhos aterrorizados de um
garotinho, e sua língua passou pelo lábio inferior.
— Ele é...
Então seu crânio explodiu.

Histeria e confusão.
A cabeça do telepata explodira com uma força medonha, cobrindo todos eles com
sangue e pedaços de ossos e carne. Seu corpo se sacudiu loucamente no tampo da
mesa por um longo tempo, sangue jorrando das artérias do pescoço em um riacho
carmim, os membros se retorcendo em uma dança macabra. A cabeça deixara de
existir, mas ele não cava parado.
Agatha, que estava mais perto, largou a pistola de injeção e cou boquiaberta.
Estava encharcada do sangue dele, coberta com pedaços de carne e cérebro. Sob o
olho direito, um comprido fragmento de osso penetrara na pele, e seu próprio sangue
se misturava ao dele. Ela não pareceu notar.
Rojan Christopheris caiu para trás, lutou para se levantar e se encolheu com força
contra a parede.
Dannel berrou, berrou e berrou, até Lindran dar um tapa forte em seu rosto sujo
de sangue e mandar que casse quieto.
Alys caiu de joelhos e começou a murmurar uma prece em uma língua estranha.
D’Branin estava sentado, imóvel, olhando, piscando, com a xícara de chocolate
esquecida na mão.
— Faça alguma coisa — gemeu Lommie. — Alguém faça alguma coisa.
Um dos braços de ale se moveu levemente e tocou nela. Ela deu um berro e se
afastou.
Melantha largou de lado a taça de conhaque.
— Controle-se — ordenou ela. — Ele está morto, não pode machucar você.
Todos olharam para ela, a não ser D’Branin e Agatha, que pareciam paralisados de
choque. A projeção de Royd desaparecera em algum momento, Melantha de repente
se deu conta. Ela começou a dar ordens.
— Dannel, Lindran, Rojan, encontrem um lençol ou algo assim para enrolá-lo, e o
tirem daqui. Alys, você e Lommie tragam água e esponjas. Temos de limpar isso.
Melantha foi até D’Branin enquanto os outros corriam para seguir suas ordens.
— Karoly — disse ela, colocando a mão suavemente em seu ombro. — Você está
bem, Karoly?
Ele ergueu os olhos cinzentos para ela, piscando.
— Eu... sim, sim, estou... Eu disse a ela para não fazer isso, Melantha. Eu disse a
ela.
— Sim, você disse — respondeu Melantha, dando um tapinha tranquilizador nele
e contornando a mesa até Agatha. — Agatha.
A psíquico-analista não reagiu, nem mesmo quando Melantha a sacudiu pelos
ombros. Seus olhos estavam vazios.
— Ela está em choque — anunciou Melantha. Franziu a testa para o caco de osso
que se projetava da bochecha da mulher. Limpando o rosto dela com um
guardanapo, removeu-o com cuidado.
— O que vamos fazer com o corpo? — perguntou Lindran. Tinham encontrado
um lençol e o enrolado. Finalmente parara de se contorcer, embora continuasse a
correr sangue, deixando vermelho o tecido que o escondia.
— Levar para um depósito de carga — sugeriu Rojan.
— Não — falou Melantha —, não é higiênico. Vai apodrecer. — Ela pensou por
um momento. — Vistam-se e levem-no para o tubo de empuxo. Despressurizem e
prendam de algum modo. Rasguem o lençol se for preciso. Naquela seção da nave há
vácuo. Ficará melhor lá.
Christopheris assentiu, e os três partiram, o peso morto do cadáver de Lasamer
entre eles. Melantha se voltou para Agatha, mas apenas por um instante. Lommie,
que limpava o sangue do tampo da mesa com um pedaço de pano, de repente
começou a vomitar. Melantha xingou.
— Alguém a ajude — disse, ordenando.
D’Branin nalmente pareceu se mover. Levantou e tirou o pano encharcado de
sangue da mão de Lommie e a levou de volta à sua cabine.
— Não consigo fazer isso sozinha — gemeu Alys, virando-se, enojada.
— Então, me ajude — disse Melantha. Juntas, ela e Alys em parte conduziram,
em parte carregaram Agatha para fora da sala, a limparam e a despiram, colocando-a
para dormir com uma dose de suas próprias drogas.
Depois, Melantha pegou a pistola de injeção e distribuiu uma rodada. Alys e
Lommie precisaram de tranquilizantes leves; Dannel, de um mais forte.
Três horas se passaram antes que se reencontrassem.

Os sobreviventes se reuniram no maior dos compartimentos de carga, onde três


deles tinham pendurado suas redes. Sete de oito compareceram. Agatha continuava
inconsciente: dormindo, em coma ou choque profundo, nenhum deles tinha certeza.
O restante parecia ter se recuperado, embora seus rostos estivessem pálidos e
cansados. Todos tinham mudado de roupa, até mesmo Alys, que vestira um novo
macacão idêntico ao antigo.
— Eu não entendo — falou D’Branin. — Eu não entendo o que...
— Royd o matou — disse Alys, amarga. — O segredo dele estava em risco, então
ele... simplesmente o despedaçou. Todos vimos.
— Não posso acreditar nisso — argumentou D’Branin com a voz angustiada. —
Não posso. Royd e eu conversamos, conversamos muitas noites enquanto o resto de
vocês estava dormindo. Ele é gentil, curioso, sensível. Um sonhador. E entende a
questão dos volcryn. Não faria tal coisa, não seria capaz.
— A projeção dele se apagou bem rápido quando aconteceu — disse Lindran. —
E você percebe que ele não disse muito desde então.
— O resto de nós também não esteve atipicamente falante — observou Melantha.
— Não sei o que pensar, mas meu impulso é concordar com Karoly. Não temos
provas de que o capitão foi responsável pela morte de ale. Há alguma coisa aqui
que nenhum de nós entende ainda.
— Provas — repetiu Alys com desdém.
— Na verdade — continuou Melantha, imperturbável —, eu nem sequer tenho
certeza de que alguém é responsável. Nada aconteceu até ele receber o esperon. A
culpa poderia ser da droga?
— Que efeito colateral dos infernos — murmurou Lindran.
Rojan Christopheris franziu a testa.
— Não é minha área, mas eu diria que não. O esperon é extremamente forte, com
efeitos colaterais físicos e psíquicos chegando ao extremo, mas não tanto.
— Então o quê? — perguntou Lommie. — O que o matou?
— A arma letal deve ter sido o próprio talento dele, sem dúvida ampliado pela
droga — sugeriu o exobiólogo. — Além de ampliar seu principal poder, sua
sensibilidade telepática, o esperon também pode despertar outros talentos psíquicos
que poderiam estar latentes.
— Como por exemplo? — indagou Lommie.
— Biocontrole. Telecinesia.
Melantha estava à frente dele.
— De qualquer modo, o esperon aumenta a pressão sanguínea. Aumenta ainda
mais a pressão no crânio ao conduzir para o cérebro todo o sangue do corpo. Ao
mesmo tempo reduz a pressão atmosférica ao redor da cabeça, usando telecinesia
para induzir um breve vácuo. Pensem nisso.
Eles pensaram, e nenhum deles gostou.
— Quem faria tal coisa? — perguntou D’Branin. — Isso só pode ser
autoin igido, seu próprio talento descontrolado.
— Ou virado contra ele por um talento superior — comentou Alys, teimosa.
— Nenhum telepata humano tem talento de tal ordem para assumir o controle de
alguém, corpo, mente e alma, mesmo que por um instante.
— Exatamente — retrucou a corpulenta exotécnica. — Nenhum telepata humano.
— Pessoas de gigantes gasosos? — perguntou Lommie em tom de deboche.
Alys a encarou.
— Eu poderia falar sobre sensitivos crey e sugadores de alma githyanki, citar mais
uma dúzia sem esforço, mas não preciso. Vou citar apenas um. Uma mente hrangan.
Era uma ideia perturbadora. Todos caram calados e se remexeram
desconfortavelmente, pensando no vasto poder inimigo de uma mente hrangan
escondida nas câmaras de comando da Night yer, até Melantha romper o feitiço com
um riso debochado.
— Você está com medo de sombras, Alys. O que está sugerindo é ridículo, se
parar para pensar. Espero que isso não seja pedir demais. Vocês deveriam ser
exologistas, todos vocês, especialistas em linguagens alienígenas, psicologia, biologia,
tecnologia. Não estão se comportando de acordo. Nós guerreamos com a Antiga
Hrangan por mil anos, mas nunca nos comunicamos efetivamente com uma mente
hrangan. Se Royd Eris é um hrangan, eles aperfeiçoaram e muito suas habilidades de
diálogo nos séculos desde o Colapso.
Alys ruborizou.
— Você está certa — concordou em seguida. — Estou assustada.
— Amigos — disse D’Branin —, não podemos permitir que nossos atos sejam
determinados por pânico ou histeria. Uma coisa terrível aconteceu. Um de nossos
colegas está morto, e não sabemos por quê. Até sabermos, só podemos seguir em
frente. Não é hora de ações impensadas contra inocentes. Talvez, quando voltarmos
para Avalon, uma investigação nos revele o que aconteceu. O corpo está seguro para
um exame, não está?
— Nós o passamos pela câmara de compressão para o tubo de empuxo — contou
Dannel. — Ficará lá.
— E poderá ser estudado minuciosamente quando retornarmos — disse
D’Branin.
— O que deveria ser imediatamente — observou Alys. — Diga a Eris para dar a
volta na nave!
D’Branin pareceu perturbado.
— Mas os volcryn! Mais uma semana e os conheceremos, se meus números
estiverem corretos. Retornar nos tomaria seis semanas. Não vale uma semana a mais
para saber que eles existem? ale não teria querido que sua morte fosse em vão.
— Antes de morrer, ale estava falando sem parar sobre alienígenas, sobre
perigo — insistiu Alys. — Estamos correndo para encontrar alienígenas. E se eles
forem o perigo? Talvez esses volcryn sejam ainda mais poderosos que uma mente
hrangan, e talvez não queiram ser encontrados, investigados ou observados. E quanto
a isso, Karoly? Já pensou a respeito? Essas suas histórias... Algumas delas não falam
sobre coisas terríveis que acontecem com as raças que encontraram os volcryn?
— Lendas — observou D’Branin. — Superstições.
— Uma horda fyndii inteira desaparece em uma das lendas — comentou Rojan
Christopheris.
— Não podemos dar credibilidade ao medo dos outros — argumentou D’Branin.
— Talvez não haja nada nas histórias, mas você quer arriscar? — continuou Alys.
— Eu não. Para quê? Suas fontes podem ser ccionais, exageradas ou equivocadas,
suas interpretações e seus computadores podem estar errados, ou eles podem ter
mudado de rumo... Os volcryn podem não estar nem a anos-luz de onde vamos
parar.
— Ah — disse Melantha —, entendo. Então não deveríamos ir lá porque eles não
estarão lá, e além disso podem ser perigosos.
D’Branin sorriu e Lindran riu.
— Não é engraçado — protestou Alys, mas não discutiu mais.
— Não, nenhum risco que corramos aumentará signi cativamente durante o
tempo que levaremos para sair de empuxo e procurar pelos volcryn — continuou
Melantha. — De qualquer modo, teremos que parar para reprogramar a viagem de
volta. Além disso, viajamos muito por causa deles, e admito que estou curiosa. — Ela
olhou para cada um deles, mas ninguém disse nada. — Então vamos continuar.
— E Royd? — cobrou Rojan. — O que fazemos em relação a ele?
— O que podemos fazer? — retrucou Dannel.
— Tratar o capitão como antes — disse Melantha, determinada. — Devemos
abrir linhas de comunicação com ele e conversar. Talvez agora possamos resolver
alguns dos mistérios que estão nos incomodando, caso Royd esteja disposto a
discutir as coisas sinceramente.
— Ele deve estar tão chocado e desalentado quanto nós, meus amigos — disse
D’Branin. — Possivelmente teme que o culpemos, que tentemos feri-lo.
— Acho que deveríamos abrir caminho até a seção dele e arrastá-lo esperneando e
berrando — disse Rojan. — Temos as ferramentas. Isso acabaria logo com nossos
medos.
— Isso o mataria — observou Melantha. — Então, ele teria justi cativa para
qualquer coisa que zesse para nos impedir. Ele controla a nave. E poderia fazer
muita coisa caso decidisse que somos seus inimigos. — Ela balançou a cabeça
veementemente. — Não, Rojan, não podemos atacá-lo. Temos de tranquilizá-lo.
Farei isso, caso ninguém mais queira falar com ele.
Ninguém se apresentou como voluntário.
— Tudo bem. Mas não quero nenhum de vocês tentando algum esquema idiota.
Cuidem da vida de vocês. Ajam normalmente.
D’Branin assentia, concordando.
— Vamos tirar Royd e o pobre ale de nossa cabeça, e nos preocupar com nosso
trabalho, com nossos preparativos. Nossos instrumentos de rastreamento devem
estar prontos para ser usados assim que sairmos de empuxo e retornarmos ao espaço
normal, para podermos encontrar nossa presa rapidamente. Temos que revisar tudo
o que sabemos sobre os volcryn.
Ele se virou para os linguistas e começou a discutir algumas das primeiras coisas
que esperava deles, e logo a conversa se voltara para os volcryn, e aos poucos o medo
se dissipou no grupo.
Lommie cou escutando em silêncio, seu polegar distraidamente esfregando o
implante no pulso, mas ninguém notou o olhar pensativo em seus olhos.
Nem mesmo Royd, que observava.

Melantha retornou à sala sozinha.


Alguém apagara as luzes.
— Capitão? — chamou ela, suavemente.
Ele apareceu: pálido, brilhando suavemente, com olhos que não viam. Suas
roupas, nas e ultrapassadas, tinham todos os tons de branco e azul-claro.
— Olá, Melantha — disse a voz suave pelos comunicadores, enquanto o fantasma
formava as mesmas palavras silenciosamente.
— Você ouviu, capitão?
— Sim. — A voz dele soou com um leve toque de surpresa. — Eu ouço e vejo
tudo em minha Night yer, Melantha. Não apenas na sala, e não apenas quando
comunicadores e telas estão ligados. Há quanto tempo você sabe?
— Saber? — Ela sorriu. — Desde que você elogiou a teoria de Alys sobre um
gigante gasoso para explicar o seu mistério. Os comunicadores não estavam ligados
naquela noite. Não havia como você saber. A não ser...
— Nunca cometi um erro antes. Contei a Karoly, mas isso foi intencional.
Lamento. Tenho estado estressado.
— Acredito em você, capitão. Não importa. Eu sou o modelo aperfeiçoado,
lembra? Descon ava há semanas.
Durante um tempo, Royd não disse nada. E então:
— Quando você vai começar a me tranquilizar?
— Estou fazendo isso bem agora. Ainda não está tranquilo?
A aparição deu de ombros fantasmagoricamente.
— Fico contente que você e Karoly não pensem que assassinei aquele homem.
Afora isso, estou com medo. As coisas estão saindo do controle, Melantha. Por que
ela não me escutou? Eu disse a Karoly para mantê-lo contido. Disse a Agatha para
não dar aquela injeção nele. Eu os alertei.
— Eles também estavam com medo — retrucou Melantha. — Com medo de que
você só estivesse tentando assustá-los para proteger algum plano medonho. Não sei.
Em certo sentido foi culpa minha. Fui eu quem sugeriu o esperon. Achei que isso
poderia acalmar ale e nos dizer algo sobre você. Estava curiosa. — Ela franziu a
testa. — Uma curiosidade mortal. Agora, tenho sangue nas mãos.
Os olhos de Melantha estavam se ajustando à escuridão na sala. À luz fraca da
hologra a, ela podia ver a mesa onde acontecera, faixas escuras de sangue que
secavam na superfície em meio a pratos, xícaras e bules frios de chá e chocolate.
Também ouviu pingos fracos, e não sabia se era sangue ou café. Estremeceu.
— Não gosto desse cômodo — confessou ela.
— Caso queira sair, posso estar com você em qualquer lugar.
— Não. Eu carei. Royd, acho que seria melhor se você não estivesse conosco
aonde quer que vamos. Se puder car calado e fora da vista, por assim dizer. Se eu
lhe pedisse, você desligaria seus monitores espalhados pela nave? A não ser na sala,
talvez? Tenho certeza de que isso deixaria os outros se sentindo melhor.
— Eles não sabem.
— Saberão. Você fez aquela observação sobre gigantes gasosos na frente de todos.
Alguns já devem estar perto de descobrir.
— Se eu lhe dissesse que me isolei, você não teria como saber se é verdade.
— Eu poderia con ar em você.
Silêncio. O espectro a encarava.
— Como quiser — disse a voz de Royd nalmente. — Tudo desligado. Agora,
vejo e ouço apenas aqui. Melantha, você tem que me prometer que vai controlá-los.
Sem esquemas secretos ou tentativas de invadir meus aposentos. Consegue fazer
isso?
— Acho que sim.
— Você acredita em minha história?
— Ah... Uma história estranha e assombrosa, capitão. Se for mentira, eu trocaria
mentiras com você a qualquer momento. Você é bom nisso. Se for verdade, então
você é um homem estranho e assombroso.
— É verdade — disse o fantasma em voz baixa. — Melantha...
— Sim?
— Você ca incomodada por eu ter... observado você? Observado quando você
não sabia?
— Um pouco — disse ela. — Mas acho que consigo entender.
— Eu a vi copulando.
Ela sorriu.
— Ah, eu sou boa nisso.
— Eu não saberia dizer. Mas você é boa de ver.
Silêncio. Ela tentou não escutar os pingos leves e constantes à sua direita.
— Sim — disse ela após hesitar longamente.
— Sim? O quê?
— Sim, Royd. Eu faria sexo com você se isso fosse possível.
— Como você sabia o que eu estava pensando?
A voz de Royd de repente soou assustada, cheia de ansiedade e algo parecido com
medo.
— Fácil — disse Melantha, chocada. — Eu sou um modelo aperfeiçoado. Não foi
tão difícil descobrir. Eu lhe disse, lembra? Estou três lances à sua frente.
— Você não é telepata, é?
— Não. Não.
Royd passou um tempo pensativo.
— Acredito que estou tranquilizado — disse por m.
— Que bom.
— Melantha, mais uma coisa. Às vezes, não é sábio estar lances demais à frente.
Você entende?
— Ahn? Não, na verdade não. Você me assusta. Agora me tranquilize. Sua vez,
capitão Royd.
— Do quê?
— O que aconteceu aqui? De verdade?
Royd não disse nada.
— Acho que você sabe alguma coisa, capitão. Você abriu mão de seu segredo para
nos impedir de injetar esperon em Lasamer. Mesmo depois de seu segredo ter sido
revelado, ordenou que não fôssemos em frente. Por quê?
— Esperon é uma droga perigosa — disse Royd.
— Mais que isso, capitão. Está fugindo da conversa. O que matou ale Lasamer?
Ou quem?
— Não fui eu.
— Um de nós? Os volcryn?
Royd não disse nada.
— Há um alienígena a bordo de sua nave, capitão?
Silêncio.
— Nós corremos perigo? Eu corro perigo, capitão? Não estou com medo. Isso faz
de mim uma idiota?
— Eu gosto de pessoas — disse Royd por m. — Quando consigo suportar, gosto
de ter passageiros. Eu os observo, sim. Não é tão terrível. Gosto muito de você e de
Karoly. Não deixarei nada acontecer a vocês.
— O que poderia acontecer?
Royd cou em silêncio.
— E quanto aos outros, Royd? Rojan, Alys, Dannel, Lindran, Lommie? Também
está cuidando deles? Ou apenas de Karoly e de mim?
Nenhuma resposta.
— Você não está muito falante esta noite — observou Melantha.
— Estou sob pressão — respondeu a voz. — E você ca mais segura não sabendo
certas coisas. Vá para a cama, Melantha Jhirl. Já conversamos o su ciente.
— Tudo bem, capitão. — Ela sorriu para o fantasma e ergueu a mão. A mão dele
se ergueu para encontrá-la. Carne escura e quente e brilho claro se tocaram,
fundiram-se, se tornaram um. Melantha se virou para ir. Só quando estava no
corredor, novamente segura à luz, ela começou a tremer.

Falsa meia-noite.
As conversas morreram e, um a um, os acadêmicos foram para a cama. Até mesmo
D’Branin se retirara, seu apetite por chocolate foi abafado pelas lembranças da sala.
Os linguistas tinham feito amor violenta e ruidosamente antes de se entregarem ao
sono, como se para rea rmar sua vida diante da morte horrenda de ale Lasamer.
Rojan ouvira música. Mas agora todos estavam sossegados.
A Night yer estava tomada pelo silêncio.
Na escuridão do maior compartimento de carga, três redes pendiam lado a lado.
Melantha eventualmente se virava no sono, o rosto febril, como se presa em um
pesadelo. Alys dormia de costas, roncando alto, um barulho tranquilizador vindo de
seu sólido peito volumoso.
Lommie continuava acordada, pensando.
Finalmente se levantou e pisou no chão, nua, silenciosa, leve e atenta como um
gato. Vestiu uma calça apertada, passou uma camisa de tecido metálico preto e
mangas largas pela cabeça, prendeu com uma corrente de prata e sacudiu o cabelo
curto. Não calçou botas.
Descalça era mais silenciosa. Seus pés eram pequenos e macios, sem calos.
Foi até a rede do meio e chacoalhou Alys pelos ombros. O ronco parou de repente.
— Ahn? — Ela acordou, aborrecida.
— Venha — sussurrou Lommie. Acenou com a mão.
Alys se levantou pesadamente, piscando, e seguiu a especialista em cibernética,
saindo rumo ao corredor. Estivera dormindo de macacão, o fecho aberto quase até a
virilha. Ela franziu a testa e o fechou.
— Que merda... — murmurou. Estava confusa e infeliz.
— Há um modo de descobrir se a história de Royd é verdadeira — disse Lommie
com cuidado. — Mas Melantha não vai gostar. Quer arriscar?
— O quê? — perguntou Alys. O rosto revelava seu interesse.
— Venha.
Elas se moveram silenciosamente pela nave até a sala dos computadores. O sistema
estava ligado, mas adormecido. Entraram sem fazer barulho. Tudo estava vazio.
Correntes de luz seguiam sedosas por canais cristalinos nas grades de dados,
encontrando-se, juntando-se, separando-se novamente. Rios de pálidos brilhos
multicoloridos cruzavam uma paisagem escura. A câmara estava na penumbra, o
único ruído um zumbido no limite da audição humana, até Lommie se mover,
tocando teclas, acionando interruptores, direcionando as silenciosas correntes
luminescentes. Pouco a pouco a máquina despertou.
— O que você está fazendo? — quis saber Alys.
— Karoly me pediu para conectar nosso sistema à nave — respondeu Lommie
enquanto trabalhava. — Disse que Royd queria estudar as informações sobre os
volcryn. Tudo bem, z isso. Entende o que signi ca?
Sua camisa farfalhava em suaves tons metálicos enquanto ela se movia.
A ansiedade se revelou nos traços achatados da exotécnica Alys Northwind.
— Os sistemas estão interligados!
— Exatamente. Então Royd pode descobrir sobre os volcryn, e nós podemos
descobrir sobre Royd — concluiu ela, franzindo a testa. — Gostaria de saber mais
sobre o equipamento da Night yer, mas acho que consigo encontrar o caminho. É um
sistema bastante so sticado o que D’Branin requisitou.
— Você consegue tomar o controle de Eris?
— Tomar o controle? — Lommie soou confusa. — Você bebeu de novo, Alys?
— Não, estou falando sério. Use seu sistema para penetrar no controle da nave,
subjugue Eris, contradiga suas ordens e faça a Night yer responder a nós aqui
embaixo. Você não se sentiria mais segura se estivéssemos no comando?
— Talvez — confessou Lommie, em dúvida. — Poderia tentar, mas por que fazer
isso?
— Só por garantia. Não precisamos usar essa capacidade. Só a teremos caso surja
uma emergência.
Lommie deu de ombros.
— Emergências e gigantes gasosos. Só quero car em paz em relação a Royd, para
o caso de ele ter algo a ver com a morte de Lasamer.
Ela foi até um painel de leituras, onde seis telas de um metro quadrado se
curvavam ao redor de um controle, e despertou uma delas. Dedos compridos
utuaram pelas teclas holográ cas que surgiam e desapareciam à medida que as
usava, o teclado mudando constantemente. O rosto bonito de Lommie cou
pensativo e sério.
— Entramos — anunciou.
Caracteres começaram a uir por uma tela, brilhos vermelhos em profundezas
vítreas pretas. Em uma segunda tela, surgiu um diagrama da Night yer, que girou e
se partiu ao meio. Suas esferas mudaram de tamanho e perspectiva aos comandos
dos dedos de Lommie, e uma linha de números abaixo dava as especi cações. A
especialista observou e congelou as duas telas.
— Aqui — disse —, eis minha resposta sobre o equipamento. Pode descartar sua
ideia de assumir o controle, a não ser que seu pessoal dos gigantes gasosos ajude. O
sistema da Night yer é maior e mais esperto que o nosso pequeno sistema aqui. Faz
sentido, quando você para pra pensar. A nave é automatizada, a não ser por Royd.
Suas mãos se moveram novamente, e mais duas telas despertaram. Lommie
assoviou e estimulou seu programa de busca com suaves palavras de encorajamento.
— Mas parece que existe um Royd. As con gurações não batem com uma nave-
robô. Merda, eu teria apostado qualquer coisa. — Os caracteres começaram a passar
pela tela mais uma vez; Lommie observando os números. — Há especi cações sobre
suporte de vida, isso pode nos dizer alguma coisa.
Um dedo se moveu e uma tela congelou novamente.
— Nada incomum — disse Alys, desapontada. — Eliminação de resíduos-padrão.
Reciclagem de água. Processador de alimentos, com suplementos proteicos e
vitamínicos estocados. — Ela começou a assoviar. — Tanques de musgo de Renny e
neograma para absorver o gás carbônico. Então é ciclo de oxigênio. Nada de metano
ou amônia. Lamento por isso.
— Vá transar com um computador!
Lommie sorriu.
— Já tentou? — Ela moveu os dedos novamente. — O que mais eu deveria
procurar? Você é a técnica, o que seria revelador? Dê algumas ideias.
— Con ra as especi cações para tanques de criação, equipamento de clonagem,
esse tipo de coisa — sugeriu a exotécnica. — Isso nos dirá se ele estava mentindo.
— Não sei — respondeu Lommie. — Faz muito tempo. Ele poderia ter jogado o
equipamento fora. Não tem uso.
— Encontre o histórico de Royd — falou Alys. — O da mãe dele. Consiga
informações sobre os negócios que zeram, todo o suposto comércio. Deve haver
registros. Livros de contabilidade, lucro e prejuízo, recibos de carga, esse tipo de
coisa. — Sua voz foi cando agitada, e ela agarrou os ombros de Lommie por trás.
— Um diário, um diário de bordo! Deve existir um diário. Encontre!
— Certo.
Lommie assoviou, feliz, à vontade com seu sistema, cavalgando as informações,
curiosa, no controle. Então a tela à sua frente cou vermelho-brilhante e começou a
piscar. Ela sorriu, tocou uma tecla fantasma e o teclado se dissolveu e mudou abaixo
dela. Tentou outro caminho. Três outras telas caram vermelhas e começaram a
piscar. Seu sorriso murchou.
— O que é?
— Segurança — respondeu Lommie. — Devo superar em um segundo. Espere.
Ela mudou o teclado novamente, abriu outro programa de busca, adicionou um
reforço para o caso de ser bloqueado. Outra tela piscou em vermelho. Ela fez sua
máquina mastigar os dados que tinha reunido, enviou outra sonda. Mais vermelho.
Cintilando. Piscando. Claro o bastante para doer os olhos. Todas as telas estavam
vermelhas agora.
— Um bom programa de segurança — disse, com admiração. — O diário é bem
protegido.
— Estamos bloqueadas? — quis saber Alys.
— O tempo de resposta é lento demais — observou Lommie, mordendo o lábio
inferior enquanto pensava. — Há um modo de resolver isso.
Ela sorriu e arregaçou o metal preto e macio de sua manga.
— O que você está fazendo?
— Observe. — Ela en ou o braço sob a bancada, encontrou o pino, conectou. —
Ah — disse Lommie, do fundo da garganta. Os blocos vermelhos piscando sumiram
de suas telas, um depois do outro, enquanto ela mandava sua mente navegar pelo
sistema da Night yer, passando pelos bloqueios. — Nada como deslizar pelo sistema
de segurança de outra pessoa. É como deslizar para um homem.
Entradas de diário passavam por elas em um turbilhão, borradas, rápido demais
para que Alys conseguisse ler. Mas Lommie as lia.
Então cou rígida.
— Ah. — Foi quase um gemido. — Frio.
Ela balançou a cabeça e a sensação sumiu, mas havia um som em seus ouvidos, um
som terrível de alarme.
— Droga, isso vai acordar todo mundo. — Ela ergueu o olhar quando sentiu os
dedos de Alys se cravando em seu ombro, apertando, machucando.
Um painel de aço cinza deslizou quase que em silêncio pelo arco de acesso ao
corredor, cortando o grito de alarme.
— O que foi? — perguntou Lommie.
— Isso aqui é uma escotilha de emergência — disse Alys Northwind com a voz
embotada. Ela conhecia naves estelares. — Ela se fecha onde você está prestes a
carregar ou descarregar no vácuo.
Os olhos das duas foram em direção à enorme escotilha externa acima da cabeça
delas. A escotilha interna estava quase toda aberta e, enquanto observavam, ela se
encaixou com um estalo, e o lacre da porta externa rangeu, agora meio metro aberta,
deslizando, e além dela havia um nada distorcido tão claro que queimou seus olhos.
— Ah — disse Lommie orne enquanto o frio subia por seu braço. Ela parara
de assoviar.

Alarmes soavam por toda parte. Os passageiros começaram a despertar. Melantha


Jhirl pulou da rede e disparou pelo corredor, nua, frenética, alerta. Karoly d’Branin se
levantou, sonolento. Agatha soltou murmúrios em um sono induzido por drogas.
Rojan gritou, alarmado.
À distância, metal se esmagou e rasgou, e um solavanco violento percorreu a nave,
derrubando os linguistas de sua rede, jogando Melantha no chão.
Na área de comando da Night yer havia uma sala esférica com paredes brancas
lisas, com uma esfera menor — um posto de controle suspenso — utuando no
centro. As paredes sempre cavam apagadas quando a nave estava em empuxo; o
lado inferior distorcido e brilhante do espaço-tempo era doloroso de ver.
Mas agora a escuridão despertou na sala, um holoscópio ganhando vida, preto
frio, com estrelas por toda parte, pontos de brilho gelado e imóvel, sem alto ou baixo
nem direção, a esfera de controle utuante o único elemento no mar da noite
simulada.
A Night yer saíra de empuxo.
Melantha se levantou e apertou o botão de um comunicador. Os alarmes ainda
soavam, e era difícil ouvir.
— Capitão, o que está acontecendo? — gritou ela.
— Não sei — respondeu a voz de Royd. — Estou tentando descobrir. Espere.
Melantha esperou. Karoly d’Branin saiu cambaleando para o corredor, piscando e
esfregando os olhos. Rojan chegou logo depois.
— O que é? O que há de errado? — cobrou, mas Melantha balançou a cabeça.
Lindran e Dannel também apareceram logo. Não houve sinal de Agatha, Alys ou
Lommie. Os acadêmicos olharam desconfortavelmente para a escotilha que
bloqueava o depósito de carga três. Melantha pediu a Rojan para investigar. Ele
voltou alguns minutos depois.
— Agatha continua inconsciente — disse ele, gritando a plenos pulmões para ser
ouvido acima dos alarmes. — As drogas continuam fazendo efeito. Mas está se
movendo. Chorando.
— Alys e Lommie?
Rojan deu de ombros.
— Não consigo encontrá-las. Pergunte ao seu amigo.
O comunicador soou quando os alarmes pararam.
— Retornamos ao espaço normal, mas a nave está dani cada — informou a voz
de Royd. — O depósito três, sua sala dos computadores, foi violado enquanto
estávamos em empuxo. Foi rasgado pelo uxo. O computador nos tirou de empuxo
automaticamente, para nossa sorte, ou as forças poderiam ter rasgado minha nave
inteira.
— Royd — disse Melantha —, Alys e Lommie sumiram.
— Parece que seu computador estava sendo usado quando o depósito foi violado
— disse Royd, com cautela. — Imagino que elas estejam mortas, embora não possa
ter certeza. A pedido de Melantha, desativei a maioria dos meus monitores,
mantendo apenas a fonte da sala. Não sei o que aconteceu. Mas esta é uma nave
pequena, e se não estão com vocês, temos de imaginar o pior. — Ele fez uma pausa
breve antes de continuar. — Se serve de consolo, elas morreram rápido e sem dor.
— Você as matou — acusou Rojan, com o rosto vermelho e raivoso. Fez menção
de dizer mais, mas Melantha logo cobriu sua boca com a mão. Os dois linguistas
trocaram um longo olhar signi cativo.
— Sabemos como isso aconteceu, capitão? — perguntou Melantha.
— Sim — respondeu ele, relutante.
O exobiólogo compreendera a dica, e Melantha retirou a mão para deixá-lo
respirar.
— Royd? — estimulou.
— Soa como loucura, Melantha, mas parece que suas colegas abriram a escotilha
de carregamento do depósito. Duvido que tenham feito isso deliberadamente, claro.
Elas estavam usando a interface do sistema para ter acesso aos registros e controles
da Night yer, e destravaram as seguranças.
— Entendo — disse Melantha. — Uma tragédia terrível.
— Sim. Talvez mais terrível do que você pensa. Ainda tenho de descobrir a
extensão dos danos à minha nave.
— Não vamos detê-lo se tem suas obrigações — observou Melantha. — Todos
estamos chocados, e é difícil conversar agora. Investigue as condições de sua nave, e
continuaremos nossa conversa num momento mais adequado. De acordo?
— Sim — respondeu Royd.
Melantha desligou o comunicador. Então, teoricamente, o equipamento estava
desativado — Royd não podia vê-los ou ouvi-los.
— Você acredita nele? — perguntou Rojan.
— Não sei, mas sei que os outros depósitos de carga podem ser abertos
exatamente como aconteceu com o três. Estou transferindo minha rede para uma
cabine. Sugiro que vocês que moram no depósito dois façam o mesmo.
— Esperto — disse Lindran, concordando. — Podemos nos apertar. Não será
confortável, mas duvido que terei o sono dos anjos nos depósitos depois disso.
— Também deveríamos tirar nossos trajes do depósito quatro — sugeriu Dannel.
— Mantê-los à mão. Só por garantia.
— Como queira — disse Melantha. — É possível que todas as escotilhas se abram
simultaneamente. Royd não pode nos culpar por tomarmos precauções. — Ela deu
um sorriso sombrio. — Depois de hoje, ganhamos o direito de agir irracionalmente.
— Não é o momento para suas malditas piadas, Melantha — disse Rojan. Seu
rosto continuava vermelho e a voz estava tomada por medo e raiva. — Três pessoas
estão mortas, Agatha talvez esteja ensandecida ou catatônica, o resto de nós corre
perigo...
— Sim. E ainda não temos ideia do que está acontecendo — lembrou Melantha.
— Royd Eris está nos matando! — berrou Rojan. — Não sei quem ou o que ele é,
não sei se aquela história que nos contou é verdade, e não ligo. Talvez ele seja uma
mente hrangan, o anjo vingador dos volcryn ou o segundo advento de Jesus Cristo.
Que diferença isso faz, porra? Ele está nos matando! — Ele olhou para cada um
deles. — Qualquer um de nós pode ser o próximo. Qualquer um de nós. A não ser...
Temos que fazer planos, fazer alguma coisa, acabar com isso de nitivamente.
— Você entende que não temos como saber se o bom capitão desligou suas fontes
aqui embaixo? — lembrou Melantha gentilmente. — Ele poderia estar nos vendo e
ouvindo agora mesmo. Ele não está, claro. Disse que não estaria, e acredito nele. Mas
só temos sua palavra. Agora, Rojan, você parece não con ar nele. Se é assim, não
pode ter fé em suas promessas. Consequentemente, do seu próprio ponto de vista,
não seria sábio falar essas coisas. — Ela sorriu, maliciosa. — Entende as implicações
do que estou dizendo?
Rojan abriu a boca e a fechou novamente, parecendo um peixe alto e feio. Não
disse nada, mas seus olhos se moveram furtivamente, e o rubor aumentou.
Lindran deu um sorriso fraco.
— Acho que agora ele sacou — disse ela.
— Então, o computador também está perdido — falou D’Branin de repente, em
voz baixa.
Melantha olhou para ele.
— Temo que sim, Karoly.
D’Branin correu os dedos pelo cabelo, como se estivesse parcialmente consciente
de como parecia desmazelado.
— Os volcryn. Como iremos trabalhar sem o computador? — Ele assentiu para si
mesmo. — Tenho uma pequena unidade em minha cabine, um modelo de pulso,
talvez seja su ciente. Terá de ser su ciente, terá. Vou pegar os números com Royd,
descobrir onde paramos. Desculpem-me, amigos. Perdão, mas tenho de ir.
Ele foi embora distraído, falando sozinho.
— Ele não ouviu uma palavra do que dissemos — comentou Dannel, incrédulo.
— Pense em como ele estaria perturbado se todos nós estivéssemos mortos —
acrescentou Lindran. — Então, não teria ninguém para ajudá-lo a procurar os
volcryn.
— Deixem ele pra lá — disse Melantha. — Está tão ferido quanto nós, talvez
mais. Ele demonstra de modo diferente. Suas obsessões são sua defesa.
— Ah. E qual é a nossa defesa?
— Paciência, talvez — respondeu Melantha. — Todos os mortos estavam
tentando revelar o segredo de Royd quando morreram. Nós não tentamos. E aqui
estamos nós debatendo a morte deles.
— Você não acha isso suspeito? — perguntou Lindran.
— Muito. Inclusive tenho um método de testar minha suspeita. Um de nós pode
fazer mais uma tentativa de descobrir se nosso capitão nos disse a verdade. Se ele ou
ela morrer, saberemos. — Melantha deu de ombros. — Me perdoem se não for eu a
tentar. Mas não permitam que eu os impeça caso sintam necessidade. Registrarei os
resultados com interesse. Enquanto isso, sairei do depósito de carga e tentarei dormir
um pouco. — Ela deu meia-volta e saiu, deixando os outros sozinhos.
— Escrota arrogante — comentou Dannel quase descontraidamente depois que
Melantha tinha partido.
— Vocês acham que ele pode nos ouvir? — sussurrou Rojan para os dois
linguistas.
— Cada palavra — disse Lindran, sorrindo do desconforto dele. — Vamos,
Dannel, vamos arrumar uma área segura e voltar para a cama.
Ele concordou.
— Mas temos que fazer alguma coisa — disse Christopheris. — Planos. Defesas.
Lindran lançou a ele um último olhar mortífero e puxou Dannel atrás dela pelo
corredor.

— Melantha? Karoly?
Melantha acordou logo, alerta ao simples sussurro do seu nome, quase totalmente
desperta, e se sentou na cama de solteiro estreita. Apertado ao lado dela, D’Branin
grunhiu e rolou, bocejando.
— Royd? — perguntou ela. — É de manhã?
— Estamos à deriva no espaço interestelar a três anos-luz da estrela mais próxima,
Melantha — respondeu a voz suave vindo das paredes. — Nesse contexto, o termo
manhã não tem signi cado. Mas sim, é de manhã.
Melantha riu.
— Você disse à deriva? Quão ruim são os danos?
— Sérios, mas não perigosos. O depósito três está destruído, pendurado na minha
nave como a metade de um ovo quebrado, mas os danos foram limitados. Os
propulsores propriamente ditos estão intactos, e os computadores da Night yer
parecem não ter sofrido com a destruição do sistema de vocês. Eu temi que isso
pudesse ter acontecido. Ouvi falar de fenômenos como traumas de morte eletrônica.
— Ahn? Royd? — perguntou D’Branin.
Melantha o acariciou afetuosamente.
— Eu te conto depois, Karoly. Volte a dormir. Royd, você está sério. Há algo
mais?
— Estou preocupado com nosso voo de volta, Melantha. Quando eu recolocar a
Night yer em empuxo, o uxo estará atuando direto sobre partes da nave que nunca
foram projetadas para suportá-lo. Nossas con gurações agora estão desalinhadas.
Posso lhe mostrar os cálculos, mas a questão das forças de uxo é vital. A escotilha
no acesso ao depósito três é uma preocupação especial. Fiz algumas simulações, e não
sei se conseguirá suportar a força. Se ela explodir, minha nave inteira será partida ao
meio. Meus motores desligarão sozinhos, e o resto... mesmo que a esfera de suporte
de vida permaneça intacta, estaremos todos mortos.
— Entendo. Há algo que possamos fazer?
— Sim. As áreas expostas podem ser reforçadas. O casco externo é blindado para
suportar as forças de dobra, claro. Poderíamos colocá-lo em posição, um escudo
grosseiro, mas segundo minhas projeções seria su ciente. Se zermos isso
corretamente, também ajudará a corrigir nossas con gurações. Grandes partes do
casco foram arrancadas quando a escotilha abriu, mas ainda estão lá fora, a no
máximo um ou dois quilômetros, e poderiam ser usadas.
Em algum momento, Karoly d’Branin nalmente despertara.
— Minha equipe tem quatro trenós a vácuo — disse ele. — Podemos recuperar
essas peças para você, meu amigo.
— Bom, Karoly, mas essa não é a minha principal preocupação. Minha nave se
autorrepara dentro de certos limites, mas isso supera esses limites numa certa ordem
de grandeza. Terei de fazer isso pessoalmente.
— Você? — reagiu D’Branin, chocado. — Royd, você disse, quero dizer, seus
músculos, sua fraqueza, esse trabalho será demais para você. Podemos fazer isso!
A resposta de Royd foi tolerante.
— Eu sou um aleijado apenas quando estou em campo de gravidade, Karoly. Sem
peso estou em meu elemento, e cortarei o campo de gravidade da Night yer
temporariamente, para tentar juntar forças para o trabalho de reparos. Não, você não
me entendeu. Sou capaz de trabalhar. Tenho as ferramentas, incluindo meu próprio
trenó de carga.
— Acho que sei com o que está preocupado, capitão — disse Melantha.
— Fico contente — disse Royd. — Então, talvez possa responder à minha
pergunta. Se eu sair da segurança de meus aposentos para fazer esse trabalho, você
pode impedir que seus colegas me façam mal?
D’Branin cou chocado.
— Ah, Royd, Royd, como você pode pensar tal coisa? Somos acadêmicos,
cientistas, não... não criminosos, soldados ou... ou animais, somos humanos, como
pode acreditar que o ameaçaríamos ou faríamos mal?
— Humanos — repetiu Royd —, mas alienígenas para mim, descon ados de
mim. Não me dê falsas garantias, Karoly.
Ele começou a gaguejar.
Melantha tomou sua mão e pediu que casse calado.
— Royd. Não vou mentir para você. Você correria perigo. Mas imagino que sua
saída deixe nossos amigos muito felizes. Eles poderão ver que você contou a verdade,
ver que é apenas humano. — Ela sorriu. — Eles veriam isso, não veriam?
— Veriam, mas isso seria su ciente para afastar suas descon anças? Eles
acreditam que sou o responsável pelas mortes dos outros três, não é mesmo?
— Acreditar é uma palavra forte demais. Eles descon am, temem. Estão
assustados, capitão, e com motivo. Eu estou assustada.
— Não mais que eu.
— Eu caria menos assustada se soubesse o que aconteceu. Você vai me contar?
Silêncio.
— Royd, se...
— Eu cometi erros, Melantha — disse Royd gravemente. — Mas não estou
sozinho nisso. Fiz de tudo para impedir a injeção de esperon, e fracassei. Eu poderia
ter salvado Alys e Lommie se as tivesse visto, ouvido, se soubesse o que estavam
fazendo. Mas você me pediu para desligar meus monitores, Melantha. Não posso
ajudar se não posso ver. Por quê? Se você vê três lances à frente, calculou esses
resultados?
Melantha se sentiu brevemente culpada.
— Mea culpa, capitão. Sei disso. Acreditem, sei disso. Mas é difícil ver três lances
à frente quando você não conhece as regras. Diga quais são as regras.
— Eu estou cego e surdo — falou Royd, ignorando-a. — Isso é frustrante. Não
posso ajudar se estiver cego e surdo. Vou ligar novamente os monitores, Melantha.
Lamento se você não aprova. Quero sua aprovação, mas preciso fazer isso de
qualquer jeito. Eu preciso ver.
— Faça isso — disse Melantha, pensativa. — Eu estava errada, capitão. Nunca
deveria ter pedido que casse cego. Não entendi a situação e superestimei minha
capacidade de controlar os outros. Falha minha. Modelos aperfeiçoados com
demasiada frequência acham que podem fazer tudo. — Sua mente estava acelerada e
deixando-a com um princípio de náusea. Ela calculara mal, liderara mal, e havia mais
sangue em suas mãos. — Acho que agora entendo melhor.
— Entende o quê? — perguntou D’Branin, perplexo.
— Você não entende — disse Royd com rmeza. — Não nja que sim, Melantha
Jhirl. Não! Não é sábio nem seguro estar lances demais à frente.
Havia algo perturbador no tom dele.
Melantha também entendia aquilo.
— O quê? — perguntou Karoly. — Não entendo.
— Nem eu. Nem eu, Karoly — repetiu Melantha e o beijou de leve. — Nenhum
de nós entende, não é mesmo?
— Bom — disse Royd.
Ela assentiu e passou o braço ao redor de Karoly.
— Royd, voltando à questão dos reparos, me parece que você tem de fazer esse
trabalho, independentemente de quais promessas eu possa fazer. Você não vai
arriscar sua nave entrando novamente em empuxo nas atuais condições, e a única
outra opção é car à deriva aqui até todos morrermos. Qual escolha temos?
— Eu tenho uma escolha — disse Royd com seriedade mortal. — Eu poderia
matar todos vocês, se esta fosse a única forma de salvar a mim e minha nave.
— Você poderia tentar — retrucou Melantha.
— Vamos parar de falar de morte — pediu D’Branin.
— Tem razão, Karoly — disse Royd. — Não desejo matar nenhum de vocês. Mas
preciso ser protegido.
— Você será — a rmou Melantha. — Karoly pode mandar os outros caçarem
seus fragmentos de casco. Serei sua proteção. Ficarei ao seu lado. Se alguém atacá-lo,
terá de lidar comigo. Não será fácil pra eles. E posso ajudá-lo. O trabalho será feito
três vezes mais rápido.
Royd foi educado.
— Pela minha experiência, a maioria dos nascidos em planetas é desajeitada e se
cansa na gravidade zero. Seria mais e ciente se eu trabalhasse sozinho, embora aceite
alegremente seus serviços de guarda-costas.
— Eu lhe recordo que sou um modelo aperfeiçoado, capitão. Tão boa em
gravidade zero quanto na cama. Vou ajudar.
— Você é teimosa. Então, faça como quiser. Daqui a pouco desligarei a gravidade.
Karoly, vá e prepare seu pessoal. Tirem os trenós de vácuo e se vistam. Sairei da
Night yer em três horas-padrão, após ter me recuperado das dores de sua gravidade.
Quero todos vocês fora da nave antes que eu saia. Essa condição foi entendida?
— Sim — disse Karoly. — Todos com exceção de Agatha. Ela não recuperou a
consciência, amigo, ela não será um problema.
— Não. Eu disse todos vocês, incluindo Agatha. Levem-na para fora com vocês.
— Mas Royd... — protestou D’Branin.
— Você é o capitão — disse Melantha com rmeza. — Será como você
determina. Todos nós do lado de fora. Incluindo Agatha.

Do lado de fora. Era como se um animal enorme tivesse dado uma mordida nas
estrelas.
Melantha esperou em seu trenó perto da Night yer e olhou para as estrelas. Não
era tão diferente ali, nas profundezas do espaço interestelar. As estrelas eram pontos
de luz frios, imóveis, rmes, austeros, de algum modo mais frios e indiferentes que os
mesmos sóis que uma atmosfera fazia dançar e piscar. Apenas a ausência de um
marco a fazia se lembrar de onde estava: nos lugares do meio, onde homens,
mulheres e suas naves não paravam, onde os volcryn navegavam aparelhos
absurdamente antigos. Tentou localizar o sol de Avalon, mas não sabia onde
procurar. As con gurações eram estranhas a ela, que não tinha ideia para onde estava
virada. Atrás, adiante, acima, em todo o redor, os campos de estrelas se estendiam
intermináveis. Ela olhou para baixo, ou o que parecia ser baixo, além de seus pés, do
trenó e da Night yer, esperando ainda mais estrelas alienígenas. E a mordida a atingiu
com uma força quase física.
Melantha lutou contra uma onda de vertigem. Estava suspensa acima de um poço,
uma ampla ssura no Universo, escuro, sem estrelas, vasto.
Vazio.
Então lembrou: o Véu da Tentação. Apenas uma nuvem de gases escuros, nada
especial, poluição galáctica que obscurecia a luz das estrelas na Periferia. Mas assim
tão perto parecia imenso, aterrorizante, e ela teve de desviar os olhos quando
começou a se sentir caindo. Havia um abismo entre ela e a frágil casca branco-
prateada da Night yer, um abismo prestes a engoli-los.
Melantha tocou um dos controles do guidom bifurcado do trenó, dando a volta de
modo que o Véu casse ao seu lado em vez de abaixo. De algum modo, aquilo
pareceu ajudar. Ela se concentrou na Night yer, ignorando aquela alta muralha além.
Era o maior objeto em seu Universo, brilhando em meio à escuridão, desajeitada, sua
esfera de carga dani cada dando a todo o aparelho uma aparência desequilibrada.
Ela podia ver os outros trenós disparando pela escuridão, rastreando os pedaços
perdidos do casco, trazendo-os de volta. A equipe de linguistas trabalhava junta,
como sempre, dividindo um trenó. Rojan estava sozinho, trabalhando em um silêncio
emburrado. Melantha quase tivera de ameaçá-lo com violência física antes que
concordasse em se juntar a eles. Rojan tinha certeza de que aquilo era apenas outra
armadilha, que assim que estivessem do lado de fora a Night yer entraria em empuxo
sem eles, deixando-os para uma morte lenta. Suas descon anças eram in amadas
pela bebida, e havia álcool em seu hálito quando Melantha e Karoly o forçaram a se
vestir. Karoly também tinha um trenó, e uma passageira silenciosa: Agatha, recém-
drogada e dormindo em seu traje de vácuo, seguramente presa. Enquanto seus
colegas trabalhavam, Melantha esperava por Royd Eris, e às vezes conversava com os
outros pelo comunicador. Os dois linguistas, desacostumados à falta de peso,
reclamavam e discutiam muito. Karoly tentava acalmá-los. Rojan pouco dizia, e seus
raros comentários eram penetrantes e cáusticos.
Ainda estava com raiva. Melantha o observou passar por seu campo de visão, uma
gurinha em uma armadura preta e justa, ereta nos controles do trenó.
Finalmente, a escotilha circular no alto da grande esfera mais à frente da Night yer
dilatou e Royd saiu.
Ela o viu se aproximar, curiosa, imaginando sua aparência. Em sua mente havia
imagens contraditórias. Sua voz re nada, culta, formal demais às vezes lembrava a ela
os aristocratas escuros de sua terra natal, Prometheus, os magos que brincavam com
genes humanos e tinham jogos de status barrocos. Em outros momentos, sua
ingenuidade a fazia imaginá-lo como um jovem inexperiente. Seu fantasma era um
jovem magro de aparência cansada, e ele deveria ser consideravelmente mais velho
que aquela sombra pálida, mas Melantha achava difícil ouvir a voz de um velho
quando ele falava.
Ela sentiu um arrepio nervoso quando ele se aproximou. As linhas do seu trenó e
seu traje eram diferentes dos deles, perturbadoramente. Alienígena, ela pensou, e
logo afastou o pensamento. Tais diferenças não signi cavam nada. O trenó de Royd
era grande, uma comprida placa oval com oito braços articulados que se projetavam
de baixo como as pernas de uma aranha metálica. Um laser de corte para trabalho
pesado estava instalado sob os controles, seu focinho se projetando de forma
ameaçadora. Seu traje era muito mais volumoso que os cuidadosos trajes de trabalho
projetados pela Academia que eles vestiam, com uma protuberância entre as
omoplatas que provavelmente era uma fonte de energia e elegantes barbatanas
radiantes sobre ombros e capacete. Isso o fazia parecer corpulento, curvado e
deformado.
No entanto, quando ele se aproximou o su ciente para que Melantha visse seu
rosto, era apenas um rosto.
Branco, muito branco, essa foi a impressão predominante que ela teve: cabelo
branco bem curto, uma barba branca por fazer nas linhas bem esculpidas do maxilar,
sobrancelhas quase invisíveis sob as quais os olhos se moviam inquietos. Os olhos
eram grandes e muito azuis, sua melhor característica. A pele era clara e lisa, mal
tocada pelo tempo.
Ele parecia cansado, ela pensou. E talvez com um pouco de medo.
Royd parou seu trenó perto do dela, em meio às ruínas retorcidas que haviam sido
seu depósito de carga três, e avaliou os danos, os pedaços de entulho utuante que
um dia foram carne, sangue, vidro, metal, plástico. Difícil de distinguir agora, tudo
fundido, queimado e congelado junto.
— Temos bastante trabalho a fazer — comentou ele. — Podemos começar?
— Primeiro, vamos conversar — retrucou ela.
Ela aproximou seu trenó e esticou a mão para ele, mas a distância ainda era grande
demais; a largura das bases dos trenós de vácuo os mantinha separados. Melantha
recuou e se virou, de modo que Royd cou de cabeça para baixo em seu mundo, e ela
de cabeça para baixo no dele. Foi novamente na direção dele, colocando seu trenó
bem acima/embaixo do dele. Suas mãos enluvadas se encontraram, tocaram,
afastaram. Melantha ajustou sua altitude. Seus capacetes se tocaram.
— Agora toquei você — falou Royd, com um tremor na voz. — Nunca toquei
ninguém antes, nunca fui tocado.
— Ah, Royd. Isso não é tocar, não de verdade. Os trajes estão no caminho. Mas eu
vou te tocar. Eu prometo.
— Você não pode. É impossível.
— Descobrirei um modo. Agora desligue seu comunicador. O som se deslocará
pelos nossos capacetes.
Ele piscou, usou os controles de língua, e isso foi feito.
— Agora podemos conversar — disse ela. — Em particular.
— Não gosto disso, Melantha. Isso é óbvio demais. É perigoso.
— Não há outro modo. Royd, eu sei.
— Sim. Eu sabia que sim. Três lances à frente, Melantha. Lembro como você joga
xadrez. Mas este é um jogo mais sério, e você cará mais segura se ngir ignorância.
— Entendo isso, capitão. Sobre outras coisas, tenho menos certeza. Podemos
conversar sobre elas?
— Não. Não me peça isso. Apenas faça o que digo. Vocês estão em perigo, todos
vocês, mas posso protegê-los. Quanto menos você souber, melhor.
Através dos visores transparentes, a expressão dele era sombria.
Ela olhou nos olhos invertidos dele.
— Poderia ser um segundo tripulante, mais alguém escondido em seus aposentos,
mas não acredito nisso. É a nave, não é? Sua nave está nos matando. Não você. Só
que não faz sentido. Você comanda a Night yer. Como ela pode agir de modo
independente? E por quê? Qual o motivo? E como ale Lasamer foi morto? A
questão com Alys e Lommie foi fácil, mas um assassinato psíquico? Uma nave estelar
psíquica? Não consigo aceitar isso. Não pode ser a nave. Mas não pode ser mais
nada. Me ajude, capitão.
Ele piscou, a angústia transparente nos olhos.
— Eu nunca deveria ter aceitado o frete de Karoly, não com um telepata entre
vocês. Era arriscado demais. Mas eu queria ver os volcryn, e ele falou deles de modo
muito comovente... Você já sabe demais, Melantha. Não posso lhe contar mais, ou
caria impotente para protegê-los. A nave está com problemas, isso é tudo que você
precisa saber. Não é seguro forçar demais. Desde que eu esteja nos controles, acho
que posso manter você e os outros ilesos. Con e em mim.
— Con ança é uma via de mão dupla.
Royd ergueu a mão e a empurrou para longe, depois religou o comunicador.
— Chega de fofoca — anunciou. — Temos trabalho a fazer. Venha. Quero ver
quão aperfeiçoada você é.
Na solidão de seu capacete, Melantha xingou baixinho.
Com um pedaço de metal irregular preso abaixo dele na tela magnética do trenó,
Rojan Christopheris navegou de volta à Night yer. Estava observando de longe
quando Royd saiu em seu enorme trenó de trabalho. Estava mais perto quando
Melantha foi até ele, inverteu o trenó e pressionou o visor no de Royd. Christopheris
escutou o diálogo suave dos dois, ouviu Melantha prometer tocar nele, Eris, a coisa, o
assassino. Engoliu sua fúria. Depois, eles o isolaram, isolaram a todos, saíram do
circuito aberto. Mas ela continuou lá, suspensa junto àquele enigma de traje espacial
corcunda, rostos colados como dois amantes se beijando.
Christopheris chegou mais perto, destravou a placa presa, para que fosse na
direção deles.
— Aqui — anunciou. — Vou pegar outro.
Ele desligou seu comunicador e xingou, e seu trenó deslizou ao redor das esferas e
dos tubos da Night yer.
De algum modo, eles estavam juntos naquilo, Royd e Melantha, e talvez o velho
D’Branin também, pensou amargamente. Ela protegera Royd desde o começo,
impedira-os quando poderiam ter agido juntos, descoberto quem ou o que ele era.
Rojan não con ava nela. Sentiu um arrepio ao se lembrar de que tinham ido para
cama juntos. Ela e Royd eram iguais, o que quer que fossem. E agora a pobre Alys
estava morta, aquela idiota da Lommie também, e mesmo aquele maldito telepata,
mas Melantha ainda estava com Royd, contra eles. Rojan Christopheris estava
assustado, com raiva e meio bêbado.
Os outros estavam fora da vista, caçando pedaços rodopiantes de metal
semiderretido. Royd e Melantha estavam prestando atenção um no outro, a nave
abandonada e vulnerável. Aquela era a sua oportunidade. Não espantava que Royd
tivesse insistido que todos saíssem para o vazio antes dele. Do lado de fora, isolado
dos controles da Night yer, ele era apenas um homem. E fraco.
Dando um sorriso no e duro, Christopheris contornou as esferas de carga com
seu trenó, fora da vista, e desapareceu pela abertura do tubo de empuxo. Era um
túnel comprido, todo aberto para o vácuo, salvo da corrosão de uma atmosfera.
Como a maioria das naves estelares, a Night yer tinha um sistema de propulsão
triplo: o campo gravitacional para pouso e decolagem, inútil longe de um poço de
gravidade, os motores nucleares para manobras abaixo da luz no espaço sideral e os
próprios grandes sistemas de empuxo estelar. As luzes de seu trenó piscaram sobre o
anel circular dos motores nucleares e lançaram compridos fachos brilhantes sobre as
laterais dos cilindros fechados de empuxo estelar, os enormes motores que curvavam
o espaço-tempo, embrulhados em teias de metal e cristal.
No nal do túnel, havia uma grande porta circular, de metal reforçado, fechada: a
escotilha principal.
Christopheris pousou o trenó, desmontou — soltando as botas da rede magnética
do trenó com esforço — e foi na direção da escotilha. Aquela era a parte mais difícil,
pensou. O corpo sem cabeça de ale estava preso frouxamente a uma enorme viga
de sustentação junto à escotilha, como um guardião sinistro da passagem. O
exobiólogo teve de olhar para ele enquanto esperava que a escotilha descomprimisse.
Sempre que desviava os olhos, de algum modo acabava se voltando para olhar de
novo. O corpo parecia quase natural, como se nunca tivesse tido uma cabeça.
Christopheris tentou lembrar a aparência de ale, mas os traços não lhe vinham à
mente. Ele se remexeu, desconfortável, e a escotilha se abriu deslizando. Ficou grato
por entrar na câmara para a compressão.
Estava sozinho na Night yer.
Cauteloso, Christopheris manteve o traje, embora tenha desin ado o capacete e
soltado o tecido metálico, agora ácido, que caiu sobre as costas como um capuz.
Podia recolocá-lo rapidamente caso fosse necessário. No depósito de carga quatro,
onde tinham guardado seu equipamento, o exobiólogo encontrou o que estava
procurando: um laser de corte portátil, carregado e pronto. Baixa potência, mas
serviria.
Lento e desajeitado na falta de gravidade, ele se impulsionou pelo corredor até a
sala de estar escura.
Estava gelado lá dentro, o ar frio em suas bochechas. Tentou não reparar.
Encolheu-se junto à porta e deu impulso cruzando a sala, passando acima dos
móveis, que eram todos xos. Enquanto ia em direção ao seu objetivo, algo molhado
e frio tocou seu rosto. Isso o assustou, mas tinha sumido antes que conseguisse
descobrir o que era.
Quando aconteceu novamente, Christopheris apanhou-o e cou nauseado. Ele
havia esquecido. Ninguém tinha limpado a sala ainda. Os... os restos ainda estavam
lá, agora utuando, sangue, carne e pedaços de osso e cérebro. Tudo ao redor dele.
Chegou à parede oposta, deteve-se com os braços, baixou até onde queria ir. O
anteparo. A parede. Não havia passagem visível, mas o metal não podia ser muito
grosso. Além dele, cava a sala de controle, o acesso ao computador, segurança e
poder. Rojan Christopheris não pensava em si mesmo como um homem vingativo.
Não pretendia ferir Royd Eris, não lhe cabia fazer aquilo. Iria assumir o controle da
Night yer, afastar Royd, garantir que o homem permanecesse trancado em seu traje.
Levaria todos de volta sem mais mistério, mais morte. Os árbitros da Academia
poderiam ouvir a história, interrogar Royd e decidir o certo e o errado, culpa ou
inocência, o que deveria ser feito.
O laser de corte emitiu um no feixe de luz escarlate. Christopheris sorriu e o
mirou no anteparo. Era um trabalho lento, mas ele tinha paciência. Não sentiriam
sua falta, calado como estivera, e caso sentissem imaginariam que estava indo atrás de
algum pedaço de entulho. Os reparos de Royd iriam demorar horas, talvez dias, para
ser concluídos. A lâmina brilhante do laser soltou fumaça no ponto em que tocou o
metal. Christopheris se esforçou diligentemente.
Algo se moveu na sua visão periférica, apenas um pequeno brilho, quase invisível.
Um pedaço utuante de cérebro, pensou. Um caco de osso. Um pedaço de carne
ensanguentado, com cabelo ainda pendurado. Coisas horríveis, mas nada com que se
preocupar. Ele era biólogo, estava acostumado a sangue, cérebro e carne. E pior, pior
— ele dissecara muitos alienígenas, cortando queratina e atravessando muco, sacos
alimentares pulsantes fedorentos e espinhos venenosos. Ele vira e tocara de tudo.
Mais uma vez, o movimento chamou sua atenção, provocou-o. Mesmo não
querendo, Christopheris se viu compelido a olhar. Não podia não olhar, de algum
modo, assim como fora incapaz de ignorar o cadáver decapitado perto da escotilha.
Ele olhou.
Era um olho.
Christopheris estremeceu e o laser deslizou bruscamente para um lado, de modo
que teve de se esforçar para levá-lo de volta ao canal que estava abrindo. Seu coração
acelerou. Tentou se acalmar. Nada com o que se assustar. Não havia ninguém em
casa e, se Royd retornasse, ele tinha o laser como arma e estava com o traje caso uma
escotilha explodisse.
Voltou a encarar o olho, afastando o medo. Era apenas um olho, o olho de ale,
azul-claro, ensanguentado mas intacto, o mesmo olho aguado que o garoto tinha
quando vivo, nada sobrenatural. Um pedaço de carne morta, utuando na sala em
meio a outros pedaços de carne morta. Alguém deveria ter limpado a sala, pensou
com raiva. Era indecente deixá-la assim, não era civilizado.
O olho não se moveu. Os outros pedaços horrendos utuavam nas correntes de ar
que cruzavam a sala, mas o olho estava imóvel. Nem sacudia nem girava. Estava xo
nele. Encarando.
Ele se xingou e se concentrou no laser, no corte. Queimara uma linha quase reta
no anteparo por mais ou menos um metro. Começou outra em ângulo reto.
O olho observava friamente. Christopheris percebeu que não conseguia mais
suportar. Ele soltou uma das mãos do laser, esticou-a, pegou o olho e o arremessou
pela sala. O gesto fez com que perdesse o equilíbrio. Tropeçou para trás, o laser
escapando, os braços se agitando como as asas de algum pássaro absurdamente
pesado. Finalmente conseguiu se segurar na beirada de uma mesa e parou.
O laser estava no centro da sala, utuando em meio a jarras de café e pedaços de
restos humanos, ainda disparando, girando devagar. Aquilo não fazia sentido.
Deveria ter parado de disparar quando ele o soltou. Um defeito, pensou
Christopheris, nervoso. Fumaça se erguia de onde a linha na do laser abria uma
trilha no carpete.
Com medo, Christopheris se deu conta de que o laser virava na sua direção.
Ele se ergueu, apoiou a palma das mãos na mesa, se empurrou para fora do
caminho, subindo na direção do teto.
O laser agora girava mais rápido.
Ele se afastou do teto com força, bateu em uma parede, gemeu de dor, ricocheteou
no chão, chutou. O laser girava rápido, caçando-o. Christopheris subiu, se preparou
para outro ricochete no teto. O feixe girou, mas não rápido o su ciente. Ele o pegaria
quando estivesse disparando na outra direção.
Chegou mais perto, esticou a mão e viu o olho. Pairava logo acima do laser.
Encarando.
Rojan Christopheris soltou um pequeno gemido no fundo da garganta, sua mão
hesitou — não muito, mas o su ciente —, e o feixe escarlate girou e subiu.
O toque foi uma carícia leve e quente em seu pescoço.
Mais de uma hora se passou antes que sentissem a falta dele. D’Branin foi o
primeiro a notar sua ausência, chamou-o pelo comunicador e não teve resposta.
Discutiu isso com os outros.
Royd Eris afastou seu trenó da placa de blindagem que tinha acabado de instalar, e
através do capacete Melantha pôde ver as linhas ao redor de sua boca endurecendo.
Foi quando começaram os ruídos.
Um berro agudo de dor e medo, seguido por gemidos e soluços. Sons úmidos e
terríveis, como os de um homem se afogando no próprio sangue. Todos ouviram. Os
sons encheram seus capacetes. E quase claramente em meio à angústia houve algo
que soou como uma palavra.
— Socorro.
— É Rojan — disse uma voz de mulher. Lindran.
— Ele está ferido — acrescentou Dannel. — Está pedindo socorro. Não
conseguem ouvir?
— Onde...? — começou alguém.
— Na nave — falou Lindran. — Ele deve ter voltado à nave.
— Idiota — disse Royd. — Não. Eu alertei...
— Vamos veri car — anunciou Lindran. Dannel largou o fragmento de casco que
estavam levando, o qual saiu rodopiando para longe. O trenó deles apontou para a
Night yer abaixo.
— Parem! — gritou Royd. — Voltarei aos meus aposentos para conferir de lá,
caso queiram, mas não devem entrar na nave. Fiquem fora até que eu libere.
Os sons terríveis continuaram.
— Vá para o inferno — retrucou Lindran pelo canal de comunicação aberto.
D’Branin também tinha colocado o trenó em movimento, apressando-se atrás dos
linguistas, mas estava mais longe, e era um caminho mais longo até a nave.
— Royd, o que quer dizer, temos de ajudar, não percebe? Ele está ferido, escute.
Por favor, meu amigo.
— Não — insistiu Royd. — Pare, Karoly! Se Rojan voltou à nave sozinho, ele
está morto.
— Como sabe disso? — cobrou Dannel. — Você armou isso? Colocou armadilhas
para o caso de desobedecermos?
— Não, me escutem — disse Royd. — Vocês não podem ajudá-lo agora. Só eu
poderia ter ajudado, e ele não me escutou. Con em em mim. Parem. — Sua voz
estava desesperada.
À distância, o trenó de D’Branin desacelerou. O dos linguistas, não.
— Eu diria que já escutamos você demais — respondeu Lindran. Ela quase tinha
de gritar para ser ouvida acima dos ruídos, dos choramingos e gemidos, dos
medonhos sons de sucção, dos pedidos de socorro distorcidos. A agonia enchia o
Universo. — Melantha, mantenha Royd exatamente onde ele está. Iremos com
cuidado, descobriremos o que está acontecendo lá dentro, mas não quero que ele
retorne aos controles. Entendido?
Melantha hesitou. Os sons martelavam seus ouvidos. Era difícil pensar.
Royd virou seu trenó para encará-la, e ela sentiu o peso de seu olhar.
— Impeça-os. Melantha, Karoly, ordenem isso. Eles não me escutam. Eles não
sabem o que estão fazendo! — disse ele, claramente sofrendo.
Melantha tomou sua decisão vendo o rosto dele.
— Volte rápido para dentro, Royd. Faça o que puder. Vou tentar interceptá-los.
— De qual lado você está? — cobrou Lindran.
Royd assentiu para ela à distância, mas Melantha já estava em movimento. Seu
trenó recuou da área de trabalho, congestionada com fragmentos de casco e outros
restos, depois acelerou repentinamente enquanto ela contornava o exterior da
Night yer na direção do tubo de empuxo.
Mas mesmo se aproximando ela sabia que era tarde demais. Os linguistas estavam
muito perto, e já se moviam mais rápido que ela.
— Não! — disse ela, com autoridade no tom. — Rojan está morto.
— Então o fantasma dele está pedindo socorro — retrucou Lindran. — Quando
eles fundiram você, devem ter dani cado os genes da audição, sua escrota.
— A nave não é segura.
— Escrota — foi a única resposta que recebeu.
O trenó de D’Branin os seguiu em vão.
— Amigos, precisam parar, por favor, eu suplico. Vamos conversar sobre isso.
Os sons foram sua única resposta.
— Eu sou seu superior — insistiu ele. — Ordeno que esperem do lado de fora.
Estão me ouvindo? Eu ordeno, invocando a autoridade da Academia de
Conhecimento Humano. Por favor, meus amigos, por favor.
Melantha observou impotente enquanto Lindran e Dannel desapareciam pelo
longo túnel do tubo de empuxo.
Um instante depois ela deteve o próprio trenó perto da boca escura que a
esperava, re etindo se deveria segui-los pela Night yer. Poderia alcançá-los antes que
a escotilha se abrisse.
A voz de Royd, um contraponto rouco aos sons, respondeu à sua pergunta não
feita.
— Fique, Melantha. Não avance mais.
Ela olhou para trás. O trenó de Royd se aproximava.
— O que está fazendo aqui? Royd, use sua escotilha. Você tem de voltar para
dentro!
— Melantha — disse ele calmamente —, não posso. A nave não me obedece. A
escotilha não se abre. A escotilha principal no tubo de empuxo é a única com
controle manual. Estou preso do lado de fora. Não quero você ou Karoly dentro da
nave até que eu possa retornar ao meu posto.
Melantha Jhirl olhou para o cano mergulhado em sombras do tubo de empuxo
abaixo, onde os linguistas haviam desaparecido.
— O que vai...
— Suplique a eles para que voltem, Melantha. Apele. Talvez ainda haja tempo.
Ela tentou. D’Branin também. A distorcida sinfonia de dor e súplicas prosseguiu,
mas eles não conseguiram convencer Dannel ou Lindran.
— Eles desligaram os comunicadores — disse Melantha, furiosa. — Não querem
nos escutar. Ou aquele... aquele som.
O trenó de Royd e o de D’Branin a alcançaram ao mesmo tempo.
— Eu não entendo — falou D’Branin. — Por que você não pode entrar, Royd? O
que está acontecendo?
— É simples, Karoly — respondeu Royd. — Eu estou sendo mantido do lado de
fora até... até...
— Sim? — estimulou Melantha.
— ... até mamãe ter acabado com eles.

Os linguistas deixaram seu trenó de vácuo ao lado do de Christopheris e passaram


pela escotilha de compressão com uma pressa deselegante, mal reparando no soturno
porteiro decapitado.
Do lado de dentro, eles pararam um instante para tirar o capacete.
— Eu ainda o escuto — disse Dannel. Os sons eram fracos dentro da nave.
Lindran assentiu.
— Está vindo da sala. Vamos logo.
Eles avançaram pelo corredor, pulando e se impulsionando, em menos de um
minuto. Os sons caram mais altos e próximos.
— Ele está lá dentro — comentou Lindran quando chegaram à passagem.
— Sim, mas está sozinho? Precisamos de uma arma. E se... Royd devia estar
mentindo. Há mais alguém a bordo. Precisamos nos defender.
Lindran não queria esperar.
— Nós somos dois. Vamos lá! — Ela se lançou pela passagem, chamando por
Rojan.
Estava escuro do lado de dentro. A pouca luz que havia penetrava do corredor pela
porta. Os olhos dela demoraram um momento para se acostumar. Tudo era confuso
— paredes, teto e piso eram iguais, ela não tinha noção de direção.
— Rojan — gritou, nauseada. — Cadê você?
A sala parecia vazia, mas talvez fosse apenas a luz e sua sensação de desconforto.
— Siga o som — sugeriu Dannel.
Ele esperou junto à porta, olhando descon ado ao redor por um minuto, depois
começou a abrir caminho cautelosamente junto a uma parede, tateando.
Como se em resposta ao comentário, os sons de soluços de repente caram mais
altos. Mas uma hora pareciam vir de um canto, depois de outro.
Lindran, impaciente, se lançou através da câmara, procurando. Raspou em uma
parede na área da cozinha, e isso a fez pensar em armas e nos medos de Dannel. Ela
sabia onde os utensílios eram guardados.
— Aqui — disse ela um instante depois, virando-se para ele. — Aqui, peguei uma
faca, isso deve animar você.
Ela a exibiu e raspou em uma bolha de líquido utuante do tamanho do seu
punho. A bolha explodiu e se transformou em cem glóbulos menores. Um passou
perto do seu rosto, e ela o provou. Sangue.
Mas ale estava morto havia muito tempo. O sangue dele já deveria estar seco,
pensou.
— Ah, deus misericordioso... — ouviu Dannel dizer.
— O quê? Você o encontrou?
Dannel estava abrindo caminho de volta à porta, arrastando-se ao longo da parede
como um inseto gigantesco, na direção contrária à que tinha seguido.
— Saia, Lindran — alertou. — Rápido!
— Por quê? — Ela tremia involuntariamente. — Qual é o problema?
— Os gritos. A parede, Lindran, a parede. Os sons.
— O que você está dizendo não faz sentido. Controle-se.
Ele gaguejou.
— Não está vendo? Os sons estão vindo da parede. O comunicador. Falsos.
Simulados.
Dannel chegou à porta e pulou por ela, suspirando de forma audível. Não esperou
por Lindran. Disparou pelo corredor e sumiu, impulsionando-se loucamente com as
mãos, os pés se agitando e chutando atrás de si.
Lindran se preparou e começou a segui-lo.
Os sons vieram da frente dela, da porta.
— Me ajude — disse, na voz de Rojan Christopheris. Ela ouviu gemidos, aquele
terrível engasgo molhado, e parou.
Do lado veio um horrendo chiado mortal.
— Ahhhh — gemeu alto, fazendo um contraponto ao outro ruído. — Me ajude.
— Me ajude, me ajude, me ajude — disse Rojan da escuridão atrás dela.
Tossidos e um gemido fraco soaram sob seus pés.
— Me ajude — disseram todas as vozes em coro. — Me ajude, me ajude, me
ajude.
Gravações, pensou ela, gravações sendo tocadas.
— Me ajude, me ajude, me ajude, me ajude.
Todas as vozes caram mais agudas e altas, as palavras se transformaram em um
berro, e o berro terminou em um engasgo molhado, chiados, soluços e morte. Depois
os sons pararam. Simples assim, desligados.
Lindran pulou, utuou na direção da porta, faca na mão.
Algo escuro e silencioso engatinhou de sob a mesa de jantar e se ergueu para
bloquear sua passagem. Ela o viu por um momento, enquanto emergia entre ela e a
luz. Rojan Christopheris, ainda em seu traje de vácuo, mas sem o capacete. Tinha
algo na mão e o ergueu, apontando para ela. Era um laser, Lindran viu, um simples
laser de corte.
Ela estava indo na direção dele, deslizando, desamparada. Agitou os braços,
tentando parar, mas não conseguiu.
Quando chegou bem perto viu que Rojan tinha uma segunda boca abaixo do
queixo, um comprido talho empretecido que sorria para ela, e pequenas gotículas de
sangue voavam dele, molhadas, enquanto Rojan se movia.
Dannel disparou pelo corredor em um frenesi de medo, ferindo-se ao bater em
paredes e passagens. O pânico e a falta de gravidade o deixavam desajeitado. Ele não
parava de olhar por sobre o ombro enquanto fugia, esperando ver Lindran, mas
aterrorizado com o que poderia ver no lugar dela. Sempre que olhava para trás,
perdia o equilíbrio e tropeçava novamente.
Demorou muito, muito tempo para a escotilha se abrir. Enquanto esperava,
tremendo, seu pulso começou a desacelerar. Os sons tinham diminuído atrás dele, e
não havia sinal de perseguição. Ele se acalmou com esforço. Uma vez dentro da
câmara de descompressão, com a porta interna fechada entre ele e a sala, começou a
se sentir seguro.
De repente, mal conseguia se lembrar de por que cara tão aterrorizado.
Ficou envergonhado. Tinha corrido, abandonado Lindran. E por quê? O que o
assustara tanto? Uma sala vazia? Barulhos vindos das paredes? Uma explicação
racional para isso lhe ocorreu imediatamente. Signi cava que o pobre Rojan estava
em algum outro lugar da nave, só isso, apenas em algum outro lugar, vivo e sentindo
dor, transmitindo sua agonia por um comunicador.
Dannel balançou a cabeça, lamentando. Nunca mais teria paz. Lindran gostava de
provocá-lo. Nunca deixaria que esquecesse. Mas pelo menos ele voltaria e pediria
desculpas. Isso deveria valer alguma coisa. Decidido, estendeu a mão e interrompeu a
descompressão, depois a inverteu. O ar que havia sido parcialmente sugado voltou a
ser injetado na câmara.
Enquanto a porta interna se abria, Dannel sentiu o medo voltar, um instante de
puro terror durante o qual imaginou o que poderia ter saído da sala para esperar por
ele nos corredores da Night yer. Encarou o medo e o afastou. Sentiu-se forte.
Quando saiu, Lindran estava esperando.
Não conseguiu ver nem medo nem desprezo em seus traços curiosamente calmos,
mas avançou na direção dela e ainda assim tentou formular um pedido de perdão.
— Não sei por que eu...
Com graça serena, a mão dela saiu de detrás das costas. A faca subiu brilhando em
um arco mortal, e foi quando Dannel notou o buraco queimado em seu traje, ainda
fumegando, bem entre os seios.

— Sua MÃE? — reagiu Melantha, incrédula, enquanto utuavam desamparados


no vazio além da nave.
— Ela consegue ouvir tudo o que dizemos — disse Royd. — Mas a esta altura
não faz mais diferença. Rojan deve ter feito algo muito idiota, muito ameaçador.
Agora ela está determinada a matar todos vocês.
— Ela, ela, o que você quer dizer? — perguntou D’Branin, confuso. — Royd,
você não nos disse que sua mãe ainda estava viva. Disse que ela morreu antes mesmo
de você nascer.
— Ela morreu, Karoly. Eu não menti para vocês.
— Não. Não acho que tenha mentido — falou Melantha. — Mas também não
nos contou toda a verdade.
— Mamãe está morta, mas seu... seu espírito ainda vive, e anima a minha
Night yer. — Royd suspirou. — Talvez seja mais adequado dizer a Night yer dela.
Meu controle sempre foi tênue, no melhor dos casos.
— Royd, não existem espíritos — comentou D’Branin. — Eles não são reais. Não
há vida após a morte. Meus volcryn são mais reais que qualquer fantasma.
— Eu também não acredito em fantasmas — disse Melantha secamente.
— Então, chamem como quiserem — concedeu Royd. — Meu termo serve tanto
quanto qualquer outro. A realidade não muda de acordo com a terminologia. Minha
mãe, ou alguma parte da minha mãe, vive na nave, e está matando todos vocês, como
já matou outros antes.
— Royd, isso não faz sentido — insistiu D’Branin.
— Quieto, Karoly. Deixe o capitão explicar.
— Sim. A Night yer é muito... muito avançada, vocês sabem. Automatizada, faz
os próprios consertos, é grande. Tinha que ser, para que minha mãe se livrasse da
necessidade de uma tripulação. Foi construída em Newholme, como devem se
lembrar. Eu nunca estive lá, mas pelo que sei a tecnologia é muito so sticada. Avalon
não conseguiria construir uma nave como esta, descon o. Poucos mundos poderiam.
— Qual é o ponto, capitão?
— O ponto... O ponto são os computadores, Melantha. Eles tinham que ser
extraordinários. E são, acreditem, eles são. Núcleos de matrix-cristal, recuperação de
dados por grade de laser, plena projeção sensorial e outras... características.
— Está nos dizendo que a Night yer é uma inteligência arti cial? Lommie
descon ava disso.
— Ela estava errada. Minha nave não é uma inteligência arti cial, não como a
entendo. Mas é algo parecido. Mamãe mandou incluir uma possibilidade de inserção
de personalidade. Ela encheu o cristal central com suas lembranças, seus desejos, suas
idiossincrasias, seus amores e seus... ódios. Por isso ela con ou minha educação ao
computador, entendem? Sabia que iria me criar como ela mesma faria, caso tivesse
paciência. Ela também o programou de alguns outros modos.
— E você não consegue desprogramar, meu amigo? — perguntou D’Branin, com
a voz desesperada.
— Eu tentei, Karoly. Mas não sou bom com sistemas, e os programas são muito
complicados, as máquinas, muito so sticadas. Eu a erradiquei pelo menos três vezes,
só para vê-la ressurgir. Ela é um programa-fantasma, e não consigo rastreá-la. Ela
vem e vai quando quer. Um fantasma, entendem? Suas lembranças e sua
personalidade estão tão interligadas aos programas que controlam a Night yer que
não posso me livrar dela sem destruir o cristal central, eliminando todo o sistema.
Mas isso me deixaria desamparado. Eu nunca conseguiria reprogramar a nave, e sem
os computadores toda ela falharia, motores, suporte de vida, tudo. Eu teria de deixar
a Night yer, e isso me mataria.
— Você deveria ter nos contado, meu amigo — comentou D’Branin. — Em
Avalon, temos muitos especialistas em cibernética, algumas ótimas mentes.
Poderíamos tê-lo ajudado. Poderíamos ter fornecido ajuda de especialistas. Lommie
poderia tê-lo ajudado.
— Karoly, eu tive ajuda de especialistas. Trouxe especialistas a bordo duas vezes.
O primeiro me disse o que acabei de lhes contar, que era impossível sem eliminar
totalmente os programas. A segunda se formara em Newholme. Achava que poderia
conseguir me ajudar. Mamãe a matou.
— Você continua escondendo alguma coisa — acusou Melantha. — Entendo
como seu fantasma cibernético pode abrir e fechar escotilhas à vontade e preparar
outros acidentes assim. Mas como você explica o que ela fez a ale?
— No nal das contas, a culpa é minha — respondeu Royd. — Minha solidão me
levou a um erro terrível. Achei que conseguiria protegê-los, mesmo com um telepata
entre vocês. Eu já transportei outros passageiros em segurança. Eu os observava, os
alertava para atos perigosos. Se mamãe tentasse interferir, eu a impedia direto do
painel de controle central. Isso normalmente funciona. Mas nem sempre. Antes desta
viagem, ela matou cinco vezes, e as três primeiras mortes aconteceram quando eu era
bastante jovem. Foi como descobri sobre ela, sobre sua presença em minha nave.
Aquele grupo também incluía um telepata.
“Eu deveria ter sabido, Karoly. Minha fome de vida condenou todos vocês à morte.
Superestimei minhas habilidades e subestimei o medo que ela sente de exposição. Ela
ataca quando é ameaçada, e telepatas sempre são uma ameaça. Eles a sentem,
entende? Uma presença grande e maligna, me dizem, algo frio, hostil e inumano.”
— Sim... foi o que ale disse sentir — recordou D’Branin. — Um alienígena, ele
tinha certeza.
— Sem dúvida, ela parece alienígena a um telepata acostumado aos contornos
familiares de mentes orgânicas. A nal, o cérebro dela não é humano. O que é, eu não
sei dizer. Um complexo de lembranças cristalizadas, uma rede infernal de programas
interligados, uma mescla de circuitos e espírito. Sim, posso entender por que ela
pareceria alienígena.
— Você ainda não explicou como um programa de computador poderia explodir o
crânio de um homem — cobrou Melantha.
— Você tem a resposta entre seus seios, Melantha.
— Minha joia sussurrante? — disse ela, confusa. Então a sentiu, sob o traje de
vácuo e as roupas, um toque frio, um vago indício de erotismo que a fez estremecer.
Era como se a referência bastasse para dar vida à pedra.
— Eu não tinha conhecimento sobre joias sussurrantes até você me falar da sua,
mas o princípio é o mesmo — explicou Royd. — Gravada psiquicamente, você disse.
Então, sabe que o poder psíquico pode ser estocado. O núcleo central do meu
computador é cristal de ressonância, muitas vezes maior que sua pequena joia. Acho
que mamãe o gravou quando estava morrendo.
— Apenas alguém com percepção extrassensorial consegue gravar uma joia
sussurrante — observou Melantha.
— Vocês nunca perguntaram a razão disso, nenhum de vocês — lembrou Royd.
— Vocês nunca perguntaram por que minha mãe odiava tanto as pessoas. Ela nasceu
com talentos, entendem? Em Avalon, ela poderia ter sido uma nível um, testada,
ensinada e louvada, seu talento estimulado e recompensado. Acho que poderia ter
sido muito famosa. Pode ter sido mais forte que um nível um, mas talvez apenas
depois da morte tenha adquirido tal poder, estando ligada à Night yer.
“Não faz diferença. Ela não nasceu em Avalon. Em Vess, sua capacidade era vista
como uma maldição, algo alienígena e assustador. Então, a curaram disso. Usaram
drogas, eletrochoques e treinamento hipnótico para que casse muito doente sempre
que tentasse usar o seu talento. Também usaram outros métodos menos respeitáveis.
Ela nunca perdeu seu poder, claro, apenas a capacidade de utilizá-lo de maneira
efetiva, controlá-lo com sua mente consciente. Continuou a ser parte dela, reprimido,
errático, fonte de vergonha e dor, brotando com violência em momentos de grande
estresse emocional. E meia década de cuidados institucionais quase a deixou louca.
Não espanta que ela odiasse pessoas.”
— Qual era o talento dela? Telepatia?
— Não. Ah, talvez alguma habilidade rudimentar. Eu li que todos os talentos psi
têm várias habilidades latentes além de sua principal força desenvolvida. Mas minha
mãe não conseguia ler mentes. Tinha alguma empatia, embora sua cura a tenha
pervertido, de modo que as emoções que sentia a deixavam literalmente doente. Mas
sua força maior, o talento que eles demoraram cinco anos para romper e destruir, era
telecinesia.
Melantha xingou.
— Claro que ela odiava gravidade! A telecinesia sem gravidade é...
— Sim — concluiu Royd. — Manter a Night yer sob gravidade me tortura, mas
limita mamãe.
No silêncio que se seguiu a esse comentário, eles olharam para o cilindro escuro do
tubo de empuxo. D’Branin se remexeu em seu trenó, desconfortável.
— Dannel e Lindran não voltaram — comentou ele.
— Provavelmente estão mortos — disse Royd.
— Então, o que faremos? Precisamos planejar. Não podemos car esperando aqui
para sempre.
— A primeira questão é o que eu posso fazer — respondeu Royd. — Vocês viram
que falei espontaneamente. Vocês mereciam saber. Passamos do ponto em que a
ignorância era uma proteção. As coisas foram longe demais. Houve mortes demais, e
vocês testemunharam todas elas. Mamãe não pode permitir que voltem vivos a
Avalon.
— Verdade — concordou Melantha. — Mas o que ela fará com você? Você
mesmo não está seguro, não é, capitão?
— O xis da questão — admitiu Royd. — Você continua três lances à frente,
Melantha. Me pergunto se será su ciente. Seu oponente está quatro à frente nesse
jogo, e a maioria dos seus peões já caiu. Temo que um xeque-mate seja iminente.
— A não ser que eu consiga persuadir o rei do meu oponente a desistir, não é
mesmo?
Ela podia ver o sorriso melancólico de Royd.
— Ela também me mataria se eu escolhesse car do seu lado. Ela não precisa de
mim.
D’Branin demorou a entender a questão.
— Mas... o que mais poderia...
— Meu trenó tem um laser. O de vocês não. Eu poderia matar os dois agora
mesmo, e assim voltar às boas graças da Night yer.
Separados pelos três metros de distância entre seus trenós, os olhos de Melantha
encontraram os de Royd. As mãos dela repousavam relaxadas sobre os controles de
impulso.
— Você pode tentar, capitão. Lembre-se: o modelo aperfeiçoado não é fácil de
matar.
— Eu não a mataria, Melantha Jhirl — disse Royd, sério. — Vivi sessenta e oito
anos-padrão e não vivi absolutamente nada. Estou cansado, e você conta grandiosas
mentiras. Você realmente me tocaria?
— Sim.
— Eu arriscaria muito por esse toque. Mas de certo modo não é risco algum. Se
perdermos, todos morreremos juntos. Se ganharmos, bem, morrerei de qualquer
modo quando destruírem a Night yer, ou viverei como uma aberração em um
hospital orbital, e eu preferiria a morte.
— Construiremos uma nova nave para você, capitão — prometeu Melantha.
— Mentirosa — retrucou Royd. Mas seu tom era alegre. — Não importa. Eu não
tive mesmo uma vida. A morte não me dá medo. Se vencermos, você precisa me falar
novamente sobre os seus volcryn, Karoly. E você, Melantha, precisa jogar xadrez
comigo, descobrir um meio de me tocar, e...
— Transar com você? — concluiu ela, sorrindo.
— Caso queira — respondeu ele em voz baixa. Deu de ombros. — Bem, mamãe
ouviu tudo isso. Sem dúvida, escutará atentamente quaisquer planos que façamos,
portanto não há sentido em fazer um. Agora não há chance alguma de que a
escotilha do controle me receba, já que é ligada direto ao computador da nave. Então,
precisamos seguir os outros pela sala de empuxo, entrar pela escotilha principal e
aproveitar as poucas oportunidades que tenhamos. Se eu conseguir chegar ao meu
controle e restaurar a gravidade talvez possamos vencer. Se não...
Ele foi interrompido por um grunhido baixo.
Por um instante, Melantha pensou que a Night yer estivesse berrando para eles de
novo, e cou surpresa por ser idiota a ponto de tentar a mesma tática duas vezes.
Depois, o grunhido soou mais uma vez, e na traseira do trenó de D’Branin o quarto
membro esquecido do grupo lutou contra as amarras que a prendiam. Ele se
apressou em soltá-la, e Agatha tentou car de pé e quase saiu utuando do trenó, até
que ele segurasse sua mão e a puxasse de volta.
— Você está bem? — perguntou ele. — Consegue me ouvir? Sente dor?
Presos atrás de um visor transparente, olhos assustados passaram rápido de
D’Branin para Melantha e depois para Royd, e então para a Night yer quebrada.
Melantha se perguntou se a mulher tinha enlouquecido, e começava a avisar
D’Branin quando Agatha falou.
— Os volcryn! — foi tudo o que disse. — Ah. Os volcryn!
Ao redor da boca do tubo de empuxo, o anel dos motores nucleares ganhou um
brilho leve. Melantha ouviu Royd inspirar bruscamente. Ela girou com violência o
acelerador do trenó.
— Rápido — gritou Melantha. — A Night yer está se preparando para partir.

A um terço do comprido tubo de empuxo, Royd emparelhou com ela, rígido e


ameaçador em sua grande armadura preta. Lado a lado, eles passaram pelo sistema
de empuxo estelar cilíndrico e pelas teias cibernéticas. À frente, mal iluminada,
estava a escotilha principal e sua horrenda sentinela.
— Quando chegarmos à escotilha, pule para meu trenó — falou Royd. — Quero
permanecer armado e montado, e a câmara não é grande o su ciente para dois.
Melantha arriscou uma rápida espiada para trás.
— Karoly — chamou ela —, onde você está?
— Do lado de fora, meu amor, minha amiga — foi a resposta. — Não posso
entrar. Me perdoem.
— Temos de car juntos!
— Não — contestou D’Branin. — Não, eu não podia arriscar, não quando
estamos tão perto. Seria tão trágico, tão fútil, Melantha. Chegar tão perto e fracassar.
Não me incomodo com a morte, mas preciso vê-los, depois de tantos anos.
— Minha mãe vai mover a nave — interrompeu Royd. — Karoly, você cará para
trás, perdido.
— Vou esperar — insistiu D’Branin. — Meus volcryn vieram, e preciso esperar
por eles.
Então acabou o tempo para conversas, pois estavam quase chegando à escotilha.
Os dois trenós reduziram e pararam, e Royd estendeu a mão e começou a
descompressão enquanto Melantha passava para a traseira do enorme trenó de
trabalho dele. Quando a porta externa se deslocou para o lado, eles deslizaram para a
câmara de compressão.
— Quando a porta interna se abrir, vai começar — avisou Royd, calmo. — Os
móveis permanentes são embutidos, soldados ou aparafusados no lugar, mas as coisas
que sua equipe trouxe a bordo não são. Mamãe usará esses objetos como armas. E
cuidado com portas, câmaras de compressão e qualquer equipamento conectado ao
computador da nave. Preciso avisá-la para não abrir seu traje?
— De modo algum.
Royd baixou um pouco o trenó e suas garras produziram um som metálico ao
tocar no piso da câmara.
A porta interna se abriu com um sibilo, e Royd apertou o acelerador.
Dentro, Dannel e Lindran esperavam, nadando em uma névoa de sangue. Dannel
havia sido cortado da virilha à garganta, e seus intestinos se moviam como um ninho
de pálidas cobras raivosas. Lindran ainda segurava a faca. Eles utuavam juntos,
movendo-se com uma graça que nunca tiveram em vida.
Royd ergueu as garras dianteiras e os empurrou para o lado enquanto avançava.
Dannel ricocheteou em um anteparo, deixando uma grande marca molhada onde
bateu, e mais de suas entranhas deslizou para fora. Lindran perdeu o controle da
faca. Royd passou acelerado por eles, subindo o corredor em meio à nuvem de
sangue.
— Vou vigiar a retaguarda — disse Melantha. Ela se virou e colou as costas nas
dele. Os dois cadáveres já estavam longe. A faca utuava no ar, inútil. Ela começou a
dizer a Royd que estavam bem quando a lâmina de repente mudou de posição e os
seguiu, segura por alguma força invisível.
— Desvie! — gritou ela.
O trenó virou violentamente para um lado. A faca errou por um metro e acertou
um anteparo.
Mas não caiu. Foi na direção deles outra vez.
A sala de estar surgiu à frente. Escura.
— A porta é estreita demais — disse Royd. — Teremos de abandonar...
Enquanto ele falava, o trenó bateu. Royd o cravou na moldura da porta, e o
impacto repentino os desalojou.
Por um momento, Melantha utuou desajeitadamente no corredor, a cabeça
girando, tentando diferenciar alto de baixo. A faca a atacou, cortando traje e ombro
até o osso. Sentiu uma dor lancinante e o uxo quente do sangue.
— Droga! — berrou ela. A faca voltou novamente, espalhando gotículas de
sangue.
Melantha estendeu a mão e a pegou.
Ela murmurou algo em voz baixa e arrancou a lâmina da mão que a estivera
segurando.
Royd recuperara o controle do trenó e parecia determinado a fazer algo. Além
dele, na penumbra da sala, Melantha vislumbrou uma forma semi-humana escura se
erguer.
— Royd! — alertou ela. A coisa ativou o pequeno laser. O feixe acertou Royd no
meio do peito.
Ele apertou o próprio gatilho. O laser de trabalho pesado do trenó despertou, uma
lança de repentino brilho. Ele transformou em cinzas a arma de Christopheris e
destruiu o braço direito e parte do peito. O feixe permaneceu no ar, pulsando, e
fumegou o anteparo distante.
Royd fez alguns ajustes e começou a abrir um buraco.
— Passaremos em cinco minutos ou menos — avisou secamente.
— Você está bem? — perguntou Melantha.
— Não fui ferido. Meu traje é mais resistente que o seu, e o laser dele era um
brinquedo de baixa potência.
Melantha voltou sua atenção para o corredor.
Os linguistas estavam se aproximando, um de cada lado, para pegá-la de duas
direções ao mesmo tempo. Ela exionou os músculos. O ombro latejava e ardia. Fora
isso, sentia-se forte, quase despreocupada.
— Os cadáveres estão vindo atrás de nós novamente — disse ela a Royd. — Vou
pegá-los.
— Tem certeza? Eles são dois.
— Eu sou um modelo aperfeiçoado, e eles estão mortos.
Ela se soltou do trenó e voou na direção de Dannel em uma graciosa trajetória. Ele
ergueu as mãos para barrá-la. Melantha as afastou, curvou um braço para trás e o
ouviu estalar, depois en ou a faca fundo na garganta dele antes de se dar conta de
como era um gesto inútil. Sangue correu do pescoço de Dannel em uma nuvem que
se espalhava, mas ele continuou a atacá-la. Os dentes se fechavam em mordidas
grotescas.
Melantha pegou sua lâmina, agarrou o corpo dele e, com toda a sua considerável
força, o jogou pelo corredor. Ele rolou, girando violentamente, e desapareceu na
névoa do próprio sangue.
Melantha voou na direção oposta, em um giro preguiçoso.
As mãos de Lindran a pegaram por trás.
Unhas rasparam seu visor até começarem a sangrar, deixando tiras vermelhas no
plástico.
Melantha girou para encarar a atacante, agarrou um braço agitado e arremessou a
mulher pelo corredor até se chocar com seu companheiro, que se debatia. A reação a
fez girar como um pião. Melantha estendeu os braços e se deteve, nauseada, tendo
ânsias.
— Acabei — anunciou Royd.
Melantha se virou para ver. Uma abertura fumegante de um metro quadrado fora
feita em uma das paredes da sala. Royd desligou o laser, agarrou as laterais da
moldura da porta e se impulsionou pela passagem.
Uma descarga de som ensurdecedora atravessou a cabeça de Melantha. Ela se
curvou de dor. Sua língua se projetou e desligou o comunicador. Então houve um
silêncio abençoado.
Chovia na sala. Utensílios de cozinha, copos e pratos, pedaços de corpos humanos
atravessavam violentamente o cômodo, e atingiam inofensivamente a gura blindada
de Royd. Melantha — ansiosa para segui-lo — cou para trás, desamparada. Aquela
chuva mortal a faria em pedaços em seu traje de vácuo mais leve e no. Royd chegou
à parede distante e desapareceu para a secreta área de controle da nave. Ela estava
sozinha.
A Night yer deu um solavanco, e uma repentina aceleração criou uma breve
lembrança de gravidade. Melantha foi jogada de lado. Seu ombro ferido bateu
dolorosamente no trenó.
Por todo o corredor, portas se abriam.
Dannel e Lindran voltavam.

A NIGHTFLYER era uma estrela distante iluminada por seus motores nucleares.
Escuridão e frio os envolviam, e abaixo estava o vazio interminável do Véu da
Tentação, mas D’Branin não sentiu medo. Ele se sentiu estranhamente
transformado.
O vazio estava vivo de promessas.
— Eles estão vindo — sussurrou. — Mesmo eu, que não tenho poder psíquico
algum, mesmo eu posso sentir. A história dos crey deve ser verdade, mesmo a anos-
luz eles podem ser sentidos. Maravilhoso!
Agatha parecia pequena e encolhida.
— Os volcryn — murmurou. — Que bem eles podem nos fazer. Sinto dor. A
nave partiu. D’Branin, minha cabeça dói. — Ela fez um pequeno ruído assustado. —
ale disse isso, pouco depois que dei a injeção, antes de... antes de... Você sabe. Ele
disse que sua cabeça doía. Ela dói muito.
— Quieta, Agatha. Não tenha medo. Estou aqui com você. Espere. Pense apenas
no que vamos testemunhar, pense apenas nisso!
— Eu posso senti-los.
D’Branin estava ansioso.
— Então, me conte. Temos nosso pequeno trenó. Devemos ir até eles. Me oriente.
— Sim. Sim. Ah, sim.

A gravidade voltou. Em um átimo, o Universo se tornou quase normal.


Melantha caiu no convés, acomodou-se, rolou e cou de pé com uma rapidez
felina.
Os objetos que estavam utuando pelas portas abertas ao longo do corredor
caíram com estardalhaço.
O sangue se transformou de uma névoa na em uma cobertura viscosa no piso do
corredor.
Os dois cadáveres caíram pesadamente e permaneceram imóveis. Royd falou com
ela pelos comunicadores embutidos nas paredes.
— Consegui! — disse ele.
— Percebi.
— Estou no painel de controle principal. Restaurei a gravidade pelo controle
manual, e estou cortando o maior número possível de funções computadorizadas.
Mas ainda não estamos seguros. Mamãe tentará descobrir um modo de me evitar. Eu
a estou superando por pura força, por assim dizer. Não posso me permitir
negligenciar nada, e se minha atenção falhar mesmo que por um momento...
Melantha, seu traje foi rompido?
— Sim. Cortado no ombro.
— Vista outro. Agora. Acho que a contraprogramação que estou fazendo manterá
as escotilhas fechadas, mas não posso correr riscos.
Melantha já estava disparando pelo corredor na direção do depósito de carga onde
trajes e equipamentos eram guardados.
— Quando tiver trocado o traje, jogue os cadáveres na unidade de conversão de
massa. Você encontrará a escotilha apropriada perto da escotilha da sala de empuxo,
à esquerda dos controles. Também converta quaisquer outros objetos soltos que não
sejam indispensáveis: instrumentos cientí cos, livros, tas, talheres...
— Facas — sugeriu Melantha.
— Com certeza.
— A telecinesia ainda é uma ameaça, capitão?
— Mamãe ca muito mais fraca em um campo gravitacional. Ela tem que lutar
contra isso. Mesmo fortalecida pelo poder da Night yer, só consegue mover um
objeto de cada vez, e só tem uma fração da força de elevação que consegue quando
não há gravidade. Mas o poder dela ainda existe. Também é possível que ela consiga
descobrir um modo de me contornar e corte a gravidade. Daqui, posso restaurá-la
num instante, mas não quero nenhuma provável arma por perto mesmo pelo mais
breve período de tempo.
Melantha chegou à área de carga. Tirou seu traje de vácuo e vestiu outro em
tempo recorde, fazendo uma careta por causa da dor no ombro. Sangrava bastante,
mas ela ignorou. Juntou o traje descartado e duas braçadas de instrumentos e os
jogou na câmara de conversão. Depois, voltou sua atenção para os corpos. Dannel
não foi problema. Lindran engatinhou pelo corredor atrás dela enquanto Melantha
se livrava dele, e se sacudiu fracamente quando foi sua vez, uma desagradável
lembrança de que os poderes da Night yer não tinham sumido totalmente. Melantha
superou com facilidade a luta e a forçou para dentro.
O corpo queimado e arruinado de Christopheris se remexeu e bateu os dentes
para ela, mas Melantha não teve sérios problemas com ele. Enquanto estava
limpando a sala, uma faca de cozinha foi na direção da sua cabeça. Mas vinha
devagar, e Melantha a desviou, recolheu e a adicionou à pilha a ser convertida. Estava
conferindo as cabines, com as drogas e a pistola de injeção abandonadas de Agatha
sob um braço, quando ouviu Royd gritar. Um instante depois, uma força como a de
uma mão gigante envolveu seu peito, apertou-a e empurrou-a, lutando, para o chão.

Algo estava se movendo pelas estrelas.


D’Branin via, fraco e distante, embora ainda não conseguisse discernir os detalhes.
Mas estava lá, era inconfundível, alguma forma vasta que bloqueava uma área da
paisagem estrelada. Estava vindo na direção deles.
Como gostaria que sua equipe estivesse com ele agora, seu computador, seu
telepata, seus especialistas, seus instrumentos.
Colocou mais força no acelerador e disparou para encontrar os volcryn.
Presa ao chão, dolorida, Melantha se arriscou a ligar o comunicador do traje.
Tinha de falar com Royd.
— Você está aí? — perguntou ela. — O que está... acontecendo?
A pressão era medonha e cava cada vez pior. Ela mal conseguia se mover.
A resposta veio dolorosa e lentamente.
— ... me enganou... — conseguiu dizer a voz de Royd. — ... dói... falar.
— Royd...
— ... ela... telecinesia... para... subir... controle... dois... três... mais... alto... no...
painel... só... tenho... de... virar... para... baixo... de... novo... deixe...
Silêncio. Então, quando Melantha estava quase desesperada, a voz de Royd
novamente. Duas palavras.
— Não consigo...
O peito de Melantha parecia carregar dez vezes o próprio peso. Ela podia imaginar
a agonia que Royd devia estar sentindo. Royd, para quem mesmo 1G era algo
doloroso e perigoso. Mesmo se o controle estivesse ao alcance da mão, sabia que a
musculatura fraca dele nunca seria capaz de alcançar.
— Por que ela... iria aumentar a gravidade? Isso... também a enfraquece... não?
— Sim... mas... em... algum... momento... hora... minuto... meu... meu coração...
vai explodir... e... e então... você... sozinha... aí... ela... vai... cortar... gravidade... e
matar... você.
Melantha estendeu a mão dolorosamente e se arrastou pelo corredor.
— Royd... aguente... estou indo...
Ela se arrastou mais um pouco. A caixa de remédios de Agatha ainda estava sob
seu braço, pesada. Ela a largou e começou a empurrar para o lado. Pareceu pesar cem
quilos. Pensou melhor. Em vez disso, levantou a tampa.
Todas as ampolas eram identi cadas. Olhou para elas, procurando adrenalina ou
sintastina, qualquer coisa que pudesse lhe dar a força de que precisava para chegar a
Royd. Encontrou vários estimulantes, escolheu o mais forte e o estava inserindo na
pistola de injeção com uma lentidão desajeitada e sofrida quando seus olhos
encontraram o estoque de esperon.
Melantha não soube por que hesitou. Esperon era apenas uma das várias drogas
psíquicas na caixa, nenhuma das quais lhe ajudariam, mas algo a incomodou, a
lembrou de alguma coisa que não conseguiu identi car. Estava tentando descobrir
quando ouviu o ruído.
— Royd! Sua mãe... ela conseguiria mover... ela não conseguiria mover nada... com
telecinesia... com gravidade tão alta... conseguiria?
— Talvez... se... concentrar... todo o seu... poder... com força... talvez possa... por
quê?
— Porque... — disse Melantha sombriamente. — Porque alguma coisa... alguém...
está passando pela escotilha.
— Não é realmente uma nave, não como achei que seria — estava dizendo
D’Branin. Seu traje, projetado pela Academia, tinha um equipamento de codi cação
embutido, e ele estava gravando seus comentários para a posteridade, estranhamente
seguro na certeza de sua morte iminente. — A escala é difícil de imaginar, difícil de
avaliar. Enorme, enorme. Só tenho meu computador de pulso, sem instrumentos,
não consigo fazer medidas precisas, mas eu diria, ahn, cem quilômetros, talvez até
trezentos de largura. Não é uma massa sólida, claro, de modo algum. É delicada,
imaterial, não uma nave como conhecemos, e também não uma cidade. É... ah,
bonita... É cristal e gaze, viva com suas luzes fracas, uma espécie intrincada de teia de
aranha... e me lembra um pouco as antigas velas espaciais que um dia foram usadas,
nos tempos anteriores ao empuxo, mas essa grandiosa construção não é sólida, não
pode ser movida pela luz. Na verdade, não é de modo algum uma nave. É toda aberta
ao vácuo, não tem cabines lacradas ou esferas com suporte de vida, não que eu possa
ver, a não ser que seja bloqueada da minha linha de visão de algum modo, e não, não
consigo acreditar nisso, é aberta demais, frágil demais. Ela se move bem rápido.
Gostaria de ter instrumentos para medir sua velocidade, mas é su ciente estar aqui.
Estou levando o trenó até ela em ângulo reto, para não car no seu caminho, mas não
posso dizer que vou chegar lá. Ela se move muito mais rápido que nós. Não à
velocidade da luz, não, bem abaixo da velocidade da luz, mas ainda assim mais rápido
que a Night yer e seus motores nucleares, imagino... apenas imagino.
“A nave dos volcryn não tem meio de propulsão visível. Na verdade, co me
perguntando como... Talvez seja uma vela solar, lançada a laser há milênios, agora
rasgada e apodrecida por alguma catástrofe inimaginável, mas não, é simétrica
demais, bonita demais, as teias, os grandes véus cintilantes perto do núcleo, a beleza.
“Eu tenho de descrevê-la, tenho de ser mais preciso, sei disso. É difícil, estou muito
animado. É grande, como disse, quilômetros de largura. Grosseiramente... deixe-me
contar... sim, grosseiramente de forma octogonal. O núcleo, o centro, é uma área
brilhante, uma pequena escuridão cercada por uma área de luz muito maior, mas
apenas a porção escura parece totalmente sólida... As áreas iluminadas são
translúcidas, consigo ver estrelas através delas, embora descoloridas, pendendo para o
roxo. Véus, eu os chamo de véus. Do núcleo e dos véus se projetam oito compridos...
ah, enormemente longos... esporões, mas não a espaços regulares, de modo que não é
um verdadeiro octógono geométrico. Ah, agora vejo melhor, um dos esporões está se
mexendo, muito devagar, os véus estão tremulando... Então, elas são móveis, essas
projeções, e a teia corre de um esporão para o seguinte, dando voltas, mas há...
padrões, padrões estranhos, não é de modo algum a teia simples de uma aranha. Não
consigo identi car uma ordem neles, no traçado das teias, mas estou certo de que há
uma ordem, cujo sentido ainda não foi descoberto.
“Há luzes. Já mencionei as luzes? São mais brilhantes ao redor do núcleo central,
mas em ponto algum são brilhantes demais, um roxo fraco. Portanto, alguma
radiação visível, mas não muita. Gostaria de fazer uma leitura ultravioleta desse
engenho, mas não tenho os instrumentos. As luzes se movem. Os véus parecem
tremular, e luzes correm constantemente para cima e para baixo dos esporões, em
velocidades diferentes, e às vezes outras luzes podem ser vistas cruzando a teia,
movendo-se sobre os padrões. Não sei o que as luzes são. Alguma forma de
comunicação, talvez. Não sei se elas emanam de dentro ou de fora. Eu... ah! Acabou
de haver outra luz. Entre os esporões, um clarão breve, uma estrela cintilando. Agora
já acabou. Foi mais intensa do que as outras, índigo. Eu me sinto muito impotente,
muito ignorante. Mas são tão bonitos os meus volcryn...
“Os mitos, eles... Isso na verdade não parece muito com as lendas, não de verdade.
O tamanho, as luzes. Os volcryn sempre foram relacionados a luzes, mas aqueles
relatos eram tão vagos que podiam signi car qualquer coisa, descrever qualquer
coisa, desde um sistema de propulsão a laser até uma simples iluminação externa. Eu
não tinha como saber que signi cava isso. Ah, que mistério! A nave ainda está longe
demais para que se possa ver outros detalhes. É tão grande que acho que não
caremos fora do seu caminho. Ela parece ter virado na nossa direção, acho, mas
posso estar equivocado e ser apenas uma impressão. Meus instrumentos... Se eu pelo
menos tivesse meus instrumentos. Talvez a área mais escura no centro seja uma nave,
uma cápsula de vida. Os volcryn devem estar dentro dela. Gostaria que minha equipe
estivesse comigo, e ale, pobre ale. Ele era um nível um, poderíamos ter feito
contato, poderíamos ter nos comunicado com eles. As coisas que aprenderíamos! As
coisas que eles já viram! E pensar em como essa nave é velha, quão antiga a raça, há
quanto tempo eles viajam... Isso me enche de assombro. A comunicação seria uma
grande bênção, uma bênção impossível, mas eles são muito diferentes.”
— D’Branin — disse Agatha em voz baixa e urgente. — Consegue sentir?
D’Branin olhou para ela como se a visse pela primeira vez.
— Você consegue senti-los? Você é uma nível três, consegue senti-los agora, com
força?
— Há muito tempo, muito tempo.
— Consegue projetar? Fale com eles, Agatha. Onde eles estão? Na área central?
Na escuridão?
— Sim. — O riso dela foi agudo e histérico, e D’Branin teve que lembrar que ela
era uma mulher muito doente. — Sim, no centro, D’Branin, é de onde vêm os
pulsos. Só que você está errado sobre eles. Não existe “eles”, suas lendas são todas
mentirosas, mentirosas, e eu não caria surpresa se fôssemos os primeiros a ver esses
volcryn, a chegar tão perto. Os outros, aqueles seus alienígenas, eles só sentiram, no
fundo, a distância, sentiram um pouco da natureza dos volcryn em seus sonhos e
suas visões, e inventaram o resto para fazer sentido. Naves, guerras, e uma raça de
viajantes eternos, tudo isso é... tudo...
— Sim? O que quer dizer, Agatha, minha amiga? O que você diz não está fazendo
sentido. Eu não entendo.
— Não, você não entende, não é mesmo? — A voz dela estava gentil agora. —
Você não pode sentir, como eu. Muito claro agora. Deve ser assim que um nível um
sente o tempo todo. Um nível um cheio de esperon.
— O que você sente? O quê?
— Não é eles, Karoly. É isso. Vivo, Karoly, e sem mente, eu lhe garanto.
— Sem mente? Não, você só pode estar enganada, não está lendo corretamente.
Aceito que seja uma única criatura, se você diz, uma única grande e maravilhosa
viajante das estrelas, mas como pode não ter mente? Você a sentiu, a mente, suas
emanações telepáticas. Você, todos os sensitivos crey e todos os outros. Talvez seus
pensamentos sejam alienígenas demais para que você consiga ler.
— Talvez. Mas o que consigo ler não é terrivelmente alienígena. Apenas animal.
Seus pensamentos são lentos, escuros e estranhos, quase não são pensamentos,
fracos. Agitações frias e distantes. O cérebro deve ser enorme, certo, admito isso, mas
não pode se dedicar a pensamentos conscientes.
— O que quer dizer?
— O sistema de propulsão, D’Branin. Você não sente? Os pulsos? Eles ameaçam
arrancar o topo do meu crânio. Não consegue adivinhar o que está impulsionando
seus malditos volcryn através da galáxia? E por que eles evitam os poços
gravitacionais? Não consegue adivinhar como ele está se movendo?
— Não. — Mas mesmo enquanto negava, a compreensão brotou em seu rosto, e
D’Branin desviou os olhos da companheira, voltando a encarar a imensidão dos
volcryn, suas luzes se movendo, seus véus tremulando enquanto avançavam,
cruzando anos-luz, séculos-luz, através dos éons. Quando voltou a olhar para ela,
formou uma única palavra: — Telecinesia.
Ela assentiu.

Melantha lutou para erguer a pistola de injeção e apertá-la contra uma artéria. Ela
soltou um único silvo alto, e a droga correu por seu sistema. Ela se deitou, juntou
forças e tentou pensar. Esperon, esperon, por que aquilo era importante? Tinha
matado ale, feito dele uma vítima de suas habilidades latentes, multiplicara seu
poder e sua vulnerabilidade. Poder psíquico. Tudo se reduzia a poder psíquico.
A porta interna da escotilha se abriu. O cadáver decapitado passou por ela.
Ele se movia com passos arrastados e espasmódicos, antinaturais, sem erguer as
pernas do chão. Andava curvado, parcialmente esmagado pelo próprio peso. Cada
passo era grosseiro e brusco; alguma força terrível literalmente jogava uma perna para
a frente, depois a outra. Ele se movia em câmera lenta, braços rígidos ao lado do
corpo.
No entanto, se movia.
Melantha reuniu sua energia restante e começou a se arrastar para longe dele,
nunca tirando os olhos de seu avanço.
Seus pensamentos giravam, buscando a peça fora do lugar, a solução para o
problema de xadrez, sem encontrar nada.
O cadáver se movia mais rápido do que ela. Clara e visivelmente ele ganhava
terreno.
Melantha tentou se levantar. Ficou de joelhos com um grunhido, o coração
acelerado. Depois um joelho. Tentou se forçar a car de pé, erguer o fardo absurdo
em seus ombros como se levantasse pesos. Ela era forte, disse a si mesma. Era o
modelo aperfeiçoado.
Mas quando colocou todo o peso sobre uma perna seus músculos não a
seguraram. Ela desabou, desajeitadamente, e quando bateu outra vez no chão foi
como se tivesse caído de um prédio. Ouviu um estalo seco e uma pontada de agonia
correu pelo seu braço, o braço bom, o braço que tentara usar para deter sua queda. A
dor em seu ombro era terrível e intensa. Conteve as lágrimas e engasgou com o
próprio grito.
O cadáver estava no meio do corredor. Devia estar caminhando com as pernas
quebradas, ela percebeu. Não importava. Uma força maior que tendões, ossos e
músculos o sustentava.
— Melantha... ouvi você... você... está... Melantha?
— Quieto.
Ela não tinha fôlego para desperdiçar com conversas. Usou toda a disciplina que
havia aprendido, apagou a dor. Agitou as pernas fracamente, as botas procurando
apoio, e se arrastou para a frente com o braço saudável, ignorando a queimação no
ombro.
O cadáver continuava avançando.
Ela se arrastou pelo umbral da sala, passando por baixo do trenó quebrado, na
esperança de que isso atrasasse o cadáver. A coisa que havia sido ale Lasamer
estava um metro atrás dela.
Na escuridão, na sala, onde tudo havia começado, Melantha perdeu as forças.
Seu corpo estremeceu e ela desabou no carpete molhado, e soube que não
avançaria mais.
Do outro lado da porta, o cadáver estava rígido. O trenó começou a sacudir.
Então, com som de metal raspando em metal, o trenó deslizou para trás, movendo-se
em pequenos avanços, sendo arrancado do caminho.
Poderes psíquicos. Melantha quis xingar e chorar. Desejou em vão ter poderes
também, uma arma para explodir o cadáver movido por telecinesia que a perseguia.
Ela era aperfeiçoada, pensou, entrando em desespero, mas não o su ciente. Seus pais
tinham lhe dado todos os dons genéticos que conseguiram, mas poderes psíquicos
estavam fora de alcance. Os genes eram astronomicamente raros, recessivos e...
... e de repente lhe ocorreu.
— Royd — chamou ela, colocando nas palavras toda sua força remanescente.
Estava chorando, molhada, com medo. — O ponteiro... Mova por telecinesia. Royd,
telecinesia!
A resposta dele foi fraca, confusa.
— ... não consigo... eu não... mamãe... só... ela... eu não... não... mamãe...
— Não é sua mãe! — disse ela, desesperada. — Você sempre... diz... mamãe.
Esqueci... esqueci. Não é sua mãe... escute... você é um clone... mesmos genes... você
também tem... poder.
— Não. Nunca... deve ser... ligado ao sexo.
— Não! Não é. Eu sei... Prometheus, Royd... não discuta sobre genes... com
alguém de Prometheus... Gire!
O trenó saltou trinta centímetros e caiu de lado. O caminho estava livre.
O cadáver avançou.
— ... tentando — disse Royd. — Nada... Não consigo!
— Ela criou você. Melhor que... ela... foi criada... pré-natal... mas só foi...
reprimido... Você consegue!
— Eu... não... sei... como.
O cadáver estava acima dela. Parado. Suas mãos de carne pálida tremeram,
tiveram espasmos, lançaram-se para cima. Unhas compridas pintadas.
Transformadas em garras. Começaram a se erguer.
Melantha xingou.
— Royd!
— ... desculpe...
Ela chorou, tremeu e cerrou um punho inútil.
E de repente a gravidade sumiu. Longe, bem longe, ela ouviu Royd gritar e depois
car em silêncio.

— Os clarões estão mais frequentes agora, ou talvez seja apenas por eu estar mais
perto, e consigo vê-los melhor — ditou Karoly d’Branin. — Explosões de índigo e
violeta-escuro, breves e fugazes. Entre a teia. Um campo, acho. Os clarões são
partículas de hidrogênio, a matéria na e etérea do espaço entre as estrelas. Eles
tocam o campo entre a rede, os esporões, e queimam no espectro de luz visível.
Matéria transformada em energia, sim, é o que imagino. Meus volcryn se alimentam.
“Ocupa metade do Universo, e continua vindo. Não escaparemos, ah, que triste.
Agatha se foi, está calada, sangue em seu visor. Eu quase posso ver a área escura,
quase, quase. Tenho uma visão estranha, no centro há um rosto, pequeno, como o de
um rato, sem boca, nariz ou olhos, mas ainda assim de algum modo um rosto, e me
encara. Os véus se movem muito sensualmente. A teia se ergue ao redor de nós.
“Ah, a luz, a luz!”

O cadáver se sacudiu desajeitadamente no ar, as mãos pendendo ácidas à frente.


Melantha, girando na falta de gravidade, de repente cou nauseada. Arrancou o
capacete e lutou contra a ânsia de vômito, preparando-se para o violento ataque da
Night yer.
Mas o corpo de ale utuou, morto e imóvel, e mais nada se moveu na sala
escura. Melantha se recuperou, foi até o cadáver, fraca, e o empurrou, um empurrão
pequeno e hesitante. Ele deslizou pela sala.
— Royd? — chamou, insegura. Não houve resposta.
Ela passou pelo buraco para a câmara de controle.
E encontrou Royd suspenso em seu traje blindado. Ela o sacudiu, mas ele não se
moveu. Tremendo, Melantha estudou seu traje e começou a desmontá-lo. Tocou
nele.
— Royd. Aqui. Sinta, Royd, aqui, eu estou aqui, sinta.
O traje se soltou com facilidade, e ela jogou os pedaços para longe.
— Royd? Royd!
Morto. Morto. O coração dele tinha parado. Ela o socou, pressionou, tentou dar
nova vida a ele a força. Ele não bateu. Morto. Morto.
Melantha se afastou, cega pelas próprias lágrimas, chegou ao controle e olhou para
baixo.
Morto. Morto.
Mas o controle da grade de gravidade estava em zero.
— Melantha — disse uma voz doce vinda das paredes.

Eu tive a alma cristalina da Night yer em minhas mãos. É de um vermelho


profundo e multifacetada, do tamanho da minha cabeça e gelada ao toque. Em suas
profundezas escarlates, duas pequenas centelhas de luz enfumaçada ardem
furiosamente, e às vezes parecem rodopiar.
Engatinhei pelos consoles, abri caminho com cuidado passando por salvaguardas e
redes cibernéticas, sem dani car nada, e coloquei as mãos no grande cristal, sabendo
que é onde ela vive.
E não consigo me forçar a apagá-la. O fantasma de Royd me pediu que não o
zesse.
Na noite passada, conversamos novamente sobre isso, bebendo conhaque e
jogando xadrez na sala. Royd não pode beber, claro, mas ele envia seu espectro para
sorrir para mim, e me diz para onde quer que suas peças se movam.
Pela milésima vez, ele se ofereceu para me levar de volta a Avalon, ou a qualquer
mundo que eu escolha. Desde que eu saia e conclua os consertos que abandonamos
há tantos anos, para que a Night yer possa entrar em empuxo estelar com segurança.
Pela milésima vez, recusei.
Ele agora é mais forte, sem dúvida. Os genes deles são os mesmos, a nal. O poder
deles é o mesmo. Morrendo, ele também encontrou a força para se gravar no grande
cristal. A nave está viva com ambos, e com frequência eles brigam. Às vezes, ela o
supera por um momento, e a Night yer faz coisas bizarras e erráticas. A gravidade
aumenta, diminui ou some. Cobertores se enrolam em minha garganta enquanto
durmo. Objetos disparam de cantos escuros.
Mas esses momentos são menos frequentes ultimamente. Quando acontecem,
Royd a impede, ou eu a impeço. Juntos, a Night yer é nossa.
Royd alega que é su cientemente forte sozinho, que não precisa de mim, que pode
mantê-la sob controle. Fico me perguntando. No tabuleiro de xadrez, eu ainda o
derroto nove a cada dez vezes.
E há outras considerações. Nosso trabalho, por exemplo. Karoly caria orgulhoso.
O volcryn logo penetrará nas névoas do Véu da Tentação, e o seguimos bem de perto.
Estudando, registrando, fazendo tudo o que o velho teria desejado que zéssemos.
Está tudo no computador, e também em ta e papel, caso o sistema um dia seja
apagado. Será interessante ver como o volcryn se sai no Véu. A matéria é muito
densa lá, comparada com a dieta magra de hidrogênio interestelar com a qual a
criatura se alimenta há tantos intermináveis éons.
Tentamos nos comunicar com ela, sem sucesso. Não acredito que tenha
consciência. E recentemente Royd tentou imitar seu comportamento, reunindo toda
a sua energia numa tentativa de mover a Night yer por telecinesia. Estranhamente, às
vezes sua mãe até se junta a ele nesse esforço. Até o momento eles fracassaram, mas
continuaremos tentando.
Assim prossegue nosso trabalho. Sabemos que nossos resultados chegarão à
humanidade. Royd e eu conversamos sobre isso, e temos um plano. Antes de eu
morrer, quando meu momento estiver próximo, vou destruir o cristal central, limpar
os computadores e estabelecerei manualmente um curso para a vizinhança de um
mundo habitado. A Night yer então se transformará em uma verdadeira nave
fantasma. Vai funcionar. Eu tenho todo o tempo de que preciso, e sou um modelo
aperfeiçoado.
Não considero a outra opção, embora signi que muito para mim que Royd
continue a sugerir. Eu sem dúvida poderia concluir os reparos, e talvez Royd possa
controlar a nave sem mim e continuar com o trabalho. Mas isso não é importante.
Eu cometi muitos erros. O esperon, os monitores, meu controle sobre os outros...
Todas essas falhas, o preço pela minha arrogância. O fracasso dói. Quando o toquei,
na primeira e única vez, seu corpo ainda estava quente. Mas ele já tinha partido. Ele
nunca sentiu meu toque. Não consegui cumprir aquela promessa.
Mas posso cumprir a outra.
Não o deixarei sozinho com ela. Nunca.
GEORGE R.R. MARTIN nasceu em 1948, em Nova Jersey, e formou-se
em jornalismo pela Universidade Northwestern, em Evanston. Em 1996,
começou a publicar a série de fantasia As Crônicas de Gelo e Fogo, que se
tornou um best-seller mundial e consagrou o autor como um dos cânones da
literatura fantástica. Atualmente, mora em Santa Fé, Novo México.
Copyright © 1980, 1981 by George R.R. Martin

Copyright das ilustrações © 2018 by David Palumbo

Gra a atualizada segundo o Acordo Ortográ co da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em
2009.

Título original
Night yers

Ilustrações de capa e guardas


Julio Zartos

Ilustrações de miolo
David Palumbo

Revisão
Valquíria Della Pozza
Huendel Viana

ISBN 978-85-5451-401-3

Todos os direitos desta edição reservados à


EDITORA SCHWARCZ S.A.
Praça Floriano, 19, sala 3001 — Cinelândia
20031-050 — Rio de Janeiro — RJ
Telefone: (21) 3993-7510
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