0% acharam este documento útil (0 voto)
370 visualizações418 páginas

Má Reputação: Amor e Amizade

Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
370 visualizações418 páginas

Má Reputação: Amor e Amizade

Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Título original: Bad Reputation

Tradução: Má Reputação
Todos os direitos reservados.© 2024 por Luma
Castello

Revisão: Rafaela Fernanda Alves Bernardo


Diagramação: Rafaela Fernanda Alves Bernardo
Capa e ilustração de capa: Sabrina Alexia Michelin
Cesar
Para você que escolheu essa história: Você é digno do
amor e de todas as coisas boas que possam vir a existir nesse
universo.
Prólogo
Há quatro anos
Aos dezoito anos

Katelyn
— É apenas físico, Katelyn. — ele cerrou a mandíbula
enquanto se levantava da cama procurando suas calças para vesti-
las.
Eu o fitei engolindo em seco as palavras que haviam
acabado de sair de sua boca. A dor física do dia em que eu quebrei
meu braço ao jogar vôlei no colégio não se compara à dor que sinto
agora após essas palavras ecoarem em meus ouvidos.
Mingus continuava se vestindo, suas calças já estavam
abotoadas e ele estava nesse exato momento se agachando para
pegar sua camiseta preta ao lado da cama. Esse foi o momento em
que meu coração se despedaçou.
— Sinto muito. — murmurou. — Você sempre será a minha
garota favorita, mas eu não fui feito para você.
E com essas palavras, ele pegou sua camiseta e seu tênis
nas mãos e passou pela porta. Não sem antes me fitar com seus
olhos cor de céu, olhos que eu jurei que me amavam, olhos que eu
desejava desesperadamente que sentisse o mesmo que eu.
— Sinto muito mesmo. — murmurou cerrando a mandíbula.
Não, Mingus. — pensei. — Eu sinto muito mais.
Ele deixou o quarto e eu ouvi o momento em que deixou o
apartamento também. Mas, estávamos em seu apartamento, eu era
a intrusa ali.
Me levantei segurando todas as emoções que eu sentia dentro de
mim, não iria derramar uma lágrima sequer, não naquele lugar.
Peguei minhas roupas jogadas no chão e comecei me vestir
enquanto observava seu quarto.
Sua cama amassada por nós dois, a luminária caída no chão após
algum movimento nosso, seu edredom preto no chão ao lado da
minha blusa, seu armário com as roupas a amostra porque ele não
teve tempo de fechá-lo desde que chegamos, o móvel ao lado da
cama com seu perfume em cima. — Peguei o frasco. Aquele cheiro
agridoce de hortelã, madeira e cigarro. O seu cheiro. — Respirei
fundo. “É apenas físico”, foi o que ele me respondeu, foi o que ele
confirmou. A culpa era minha. Eu quem tinha perguntado, eu quem
tinha perguntado “você gosta de mim de verdade?”, eu quem queria
ouvir algo de sua boca, eu quem havia começado o nosso fim.
Devolvi o frasco do perfume no local onde estava e vesti minhas
roupas, ainda analisando tudo o que eu já vivi naquele quarto aos
meus dezoito anos, pensando que nunca mais nada disso se
repetiria, porque se ele não correspondia meus sentimentos, o óbvio
era deixá-lo. Deixá-lo de vez, deixá-lo de verdade.
Capítulo 01
Dias atuais
Katelyn
Eu consegui um novo emprego em uma agência de
jornalismo em minha cidade e na próxima segunda-feira eu teria um
jantar de apresentação e negócios com os empresários e
patrocinadores da empresa, estava mega ansiosa, mas nada supera
a ansiedade de ver os rostos orgulhosos dos meus amigos no jantar
que faria hoje em minha casa.
Desde quando nos tornamos “nós”, quando Lily falou que seríamos
melhores amigos até quando o universo permitir, eu me tornei
completamente apegada a eles, como se fossem minhas almas
gêmeas. Nós nos tornamos como uma grande família, nos
formamos no ensino médio juntos e depois cada um seguiu da
maneira que desejavam, começamos cursos nas universidades
locais e sempre estávamos juntos em tudo e meu sentimento por
eles, só foi aumentando, até que eu tive a minha grande tristeza.
Perdi minha avó aos dezenove anos, eu morava com ela
desde os doze, todos, exceto Lily me conheceram quando eu já
morava com ela, por isso não sabem detalhadamente o porquê
deixei a casa dos meus pais, mas quando vovó faleceu, entenderam
que meu pai é apenas um narcisista egocêntrico e rico da cidade —
Quando vovó me deixou, minha vida desmoronou em tantas partes
que nem sei como explicar, quis desistir do meu curso de fotografia
e se não fosse pelos meus amigos, eu não estaria prestes a
começar o meu estágio na próxima semana. Desde que Elizabeth,
minha amada e doce avó partiu, meu pai me procurou duas ou três
vezes para dizer que pediria ao seu advogado para rever o
testamento de minha avó, alegando que eu provavelmente o fraudei
para ficar com sua herança, lembro-me que a primeira vez que ele
me procurou, eu estava sozinha e tudo o que fiz foi rir de desespero
e depois chorar gritando que ele era o pior ser humano de todos os
seres humanos, porque não fazia nem mesmo um mês que vovó
havia partido, mas na segunda vez que ele me procurou, Mingus
estava em meu quarto e o ouviu dizendo blasfêmias sobre mim e
veio com tudo a minha defesa. — Por essas e outras razões, eu o
amava. — Mingus gritou com meu pai e falou que se ele se
aproximasse de mim outra vez não responderia pelos seus atos. E,
essa foi a última vez que meu pai me procurou pessoalmente, foi a
última vez que o vi, porque na terceira vez, ele mandou o advogado
entrar em contato comigo, foi uma semana estressante, mas que no
final, deu tudo certo.
Minha mãe faleceu quando eu tinha apenas nove meses e minha
avó costumava dizer que meu pai era bom antes dela partir, pensa
que o luto o deixou rancoroso, mas eu não vejo como um ser
humano consegue agir por ganância e ser bom, talvez minha avó só
não quisesse aceitar que seu filho era um ser humano horrível, mas
eu já tinha aceitado isso desde a minha infância e estava tudo bem,
na verdade, porque sempre tive minha vovó para suprir a falta dele
ou da minha mãe e claro, eu também tinha o diário de mamãe, que
foi a única coisa que eu trouxe da casa do meu pai quando comecei
morar com minha avó, o diário onde ela contava sobre suas
aventuras e sobre seu amor infinito por mim desde que descobriu
que eu existia dentro dela.
Às vezes, me sentia perdida. — Sem uma lembrança
sequer da minha mãe, sem o amor do meu pai, porque os pequenos
e raros momentos felizes com ele pareciam distantes conforme fui
crescendo, mas aprendi com Elizabeth, minha vovó, que é normal
se sentir perdida, especialmente quando estamos nessa fase de
crescimento onde os sentimentos estão todos confusos e
bagunçados em nosso peito. Meu caminho, minha jornada, pode
parecer confusa e vasta, eu posso até mesmo vacilar inúmeras
vezes e cometer mil e um erros, mas carrego dentro do meu peito a
certeza de que terei meus amigos ao meu lado até o fim e este seria
o meu amor infinito, esta seria a forma de honrar a mulher que me
gerou e me amou incondicionalmente — segundo seu próprio diário
— Essa é a maneira que também honrarei vovó, amando
infinitamente e muito além disso. Construindo meu lar. — A palavra
lar está interligada com moradia, com domicílio familiar e não se
trata de apartamentos, casas grandes, uma ótima cobertura no
melhor hotel da cidade ou nem mesmo qualquer ambiente com
paredes, lar se trata de aconchego, de amor e meu lar sempre foi
onde Elizabeth esteve e após a perder e sentir-me imensamente
perdida, sem um lar, soube que o meu novo lar sempre seria as
memórias que tenho com ela e sempre será onde meus amigos
estiverem. Meu lar, é onde está o meu amor. Lily. Thomas.
Christopher. Sarah. E claro, Mingus. Cada um deles, cada
peculiaridade, cada mania e cada detalhe define a minha moradia, o
meu lar.
Lily. Minha doce e amada melhor amiga desde que me
entendo por gente, a morena de olhos de jabuticaba, meu coração
fora do peito, minha alma gêmea em forma de amiga, aquela que
sabe sobre todos os meus segredos sujos e mesmo assim não me
julga, pelo contrário, me aconselha e sempre que possível me
abraça. Aquela que desde os treze anos é secretamente — e
escancaradamente — apaixonada por Thomas.
Thomas. O crush não tão secreto de Lily, o moreno de um
metro e oitenta e cinco, de olhos de esmeraldas que é
definitivamente o sonho de consumo de todas as garotas em sua
universidade de direito, mas que desde os treze anos só tem olhos
para Lily. O melhor amigo que qualquer um poderia ter, aquele que
enfrenta tempestades e desertos para ajudar qualquer um do nosso
grupo.
Sarah e Christopher. O casal mais fofo desde o colégio, a
definição de que o amor é leve e lindo. Sarah, é a mascotezinha do
grupo, por ser dois meses a mais nova de todos, recebeu esse
apelido carinhoso — do Mingus — Mas que todos nós adotamos,
ela é engraçada, gentil e doce. Christopher, é o bobão do grupo,
aquele que faz piadas horríveis, o pior jogando vídeo game, mas
que daria volta ao mundo para fazer Sarah feliz.
E claro, Mingus. Mingus é o meu amor impossível, aquele
que me apaixonei no colégio, que vivi uma história recheada de
química, paixão e companheirismo. Ele continua sendo o mesmo
garoto carrancudo e mal humorado que conheci há quase dez anos
quando entrou no colégio, continua com suas más reputações e
parece que nem todo o álcool do mundo é o suficiente para ele. —
Vivemos em pé de guerra, porque apesar dele ter destroçado o meu
coração quando disse que o que tínhamos era apenas físico, ainda
somos amigos, mas somos um tipo de amigos que se implicam
muito um com o outro. Digo facilmente que, o meu melhor dom, é
irritar Mingus Carter.

Capítulo 02
Katelyn
— Pensei que não viessem mais! — reclamo abrindo a
porta do meu apartamento para meus amigos entrarem.
— Sarah não decidia se colocava o salto azul ou o nude. —
Christopher deu de ombros.
— E nós ficamos esperando o casal na recepção do prédio.
— Lily explica colocando os braços no meu ombro, para me abraçar.
— Mas eu te trouxe chocolate!
— Obrigada. — retribuo o abraço e me afasto para pegar a
sacola de chocolate de suas mãos. Ela se afasta, entrando. — Vejo
que você escolheu o bom e velho all star preto, Sarah. — olho para
a loira atrás de mim.
— Como sempre. — ela sorri me cumprimentando com um
beijo no rosto. — Não tive paciência para saltos hoje.
Abro um pequeno sorriso. — Christopher entra seguido de
sua namorada, me cumprimentando com um beijo no rosto também
e em seguida, entra Thomas, me abraçando.
— E seu amigo? — murmurei enquanto estávamos
abraçados e vi que não havia mais ninguém ali fora.
— Liguei pra ele no caminho, disse que só passaria comprar
algumas cervejas. — respondeu saindo do abraço. — Logo estará
aqui.
Forcei um sorriso e fechei a porta.
As pizzas haviam chegado há quase trinta minutos e eu
estava irritada, pois elas esfriaram.
— Vamos comer? — perguntei pela terceira vez em menos
de vinte minutos. — Quando ele chegar, ele pega o pedaço dele na
geladeira.
— Tente ligar para ele outra vez, Thommy. — disse Lily.
Me levantei do sofá e caminhei até a copa, para começar
organizar a mesa. — Eu definitivamente não ficaria esperando por
ele. — As meninas me seguiram de imediato e depois de uns cinco
minutos Thomas e Christopher apareceram também.
— Não atendeu. — disse o moreno.
— Deve ter esquecido. — dou de ombros. — Ou encontrou
alguém no caminho.
Minha melhor amiga me olha preocupada, forço um sorriso.
— Estou morta de fome! Vamos comer. — digo.
Pegamos as pizzas e refrigerantes e nos sentamos.
Começamos a conversar sobre o nosso dia.
— Kat, agora conte para nós como está seu coraçãozinho
sobre esse estágio.
Sorri para nossa mascotezinha que estava sentada na
minha frente. Somente ela para fazer uma pergunta desta
grandiosidade parecer fofa.
Contei a eles tudo o que podia dizer e deixei claro sobre
meu nervosismo e ansiedade e fui recebida com uma enxurrada de
comentários e pensamentos positivos.
— Estou tão feliz por você. — a morena sentada ao meu
lado se esquivou até mim e me abraçou. — Você merece tudo isso e
muito mais.
— Com certeza! — sorriu Thomas olhando para nós duas.
Desde pequena eu fui apegada em fotos e seus motivos,
lembro que minha avó sempre dizia que eu costumava sentar na
sala e pegar os velhos álbuns dela e ficar analisando cada fotografia
que continha lá e, questionando tudo. Acho que por essa razão
escolhi fazer o curso de fotografia e a graduação em jornalismo.
Ambos conectados. — Por puro hobby, gosto de sair explorar a
cidade e tirar inúmeras fotos do céu e a natureza que esse universo
nos proporciona, mas por amor ao jornalismo, não vejo a hora de
pegar matérias em que eu possa fazer a diferença na vida de tantos
jovens. Confesso que de todas as matérias que já fiz para a
faculdade, de esportes até matérias cotidianas, a minha favorita foi
sobre qualquer coisa relacionada ao feminismo. Ter voz e poder
trazer calmaria a outras mulheres, certificando-as que não há nada
de errado em ser elas mesmas, me motiva a nunca desistir dessa
profissão até alcançar onde quero chegar.
Sei que de começo, estarei nesta empresa onde irei avaliar
lugares da cidade, mas um dia chegarei a matérias importantes, a
inclusão de mulheres no ramo do esporte, a aceitação fora dos
padrões impostos pela sociedade, ao salário igual e ao fim do
patriarcado.
Percebi que viajei em meus pensamentos quando Lily me
deu um beliscão por debaixo da mesa. — Meus amigos estão todos
rindo e se comunicando entre eles, acho que somente minha melhor
amiga percebeu que eu estava em outro planeta. Comecei a prestar
atenção no papo deles e Chris estava tentando convencer Thomas
de que Velozes e Furiosos quatro (04) era melhor do que o
primeiro.
— Certo, mas teve continuação porque o primeiro bombou.
— Justifica o moreno. — Não tem cabimento você.
Não consegui compreender o que Thomas justificou porque
nesse momento meu peito estremeceu por alguns segundos e uma
pontada veio a acontecer, que fez com que eu soltasse um pequeno
e baixo gemido, trazendo a atenção de todos para mim.
— Você está bem? — Thomas pergunta.
Assinto com a cabeça.
— Kat? — minha melhor amiga toca em meu braço. — Você
ficou até pálida.
— Tive uma sensação, um sentimento estranho, sei lá.
Encarei o moreno ao meu lado e ele entendeu que eu
estava pensando em Mingus, seu melhor amigo, que ainda não
havia aparecido.
Pode parecer ou soar estranho, talvez até bizarro, mas eu
realmente sentia algumas sensações inexplicáveis todas as vezes
em que ele se metia em encrencas. Eu lembro que minha avó
costumava dizer que isso era pela nossa forte ligação, que fomos
predestinados a ficar juntos e por isso eu tinha essas sensações,
mas hoje, analisando de uma forma adulta e madura, penso que é
apenas bobagens adolescente.
— Ele ainda não retornou as minhas mensagens. — disse
Thomas compreendendo o meu olhar. — Mas tenho certeza de que
ele está bem e que logo aparece.
Assinto. Lily acaricia meu braço.
— Logo ele chega. — diz baixinho. — Aquieta esse
coração.
Todos sabem sobre eu e Mingus. Ao contrário dele, nunca
tentei negar ou esconder. Acredito que também dificultou esconder
que algo rolava entre nós após a primeira ou a segunda viagem que
fizemos os seis juntos, porque fizemos barulho. — Altos barulhos.
— Podíamos jogar algo. — a voz do Chris me tirou do
transe. — Você ainda tem o videogame né, Kat?
— Claro que sim! — sorri. — Vamos?
— E essa bagunça aqui? — perguntou Lily olhando para a
mesa.
— Deixe para o Mingus arrumar quando chegar. — Thomas
riu. — Ninguém mandou atrasar.
Ri baixinho e todos me acompanharam no riso.
— Vamos ver o Chris perder então! — disse Sarah nos
fazendo rir. — Desculpe amor, mas você sabe que leva uma surra
até da Kat!
— Isso é fato! — ri. — Vamos jogar que agora fiquei
ansiosa!

— Por que você pausou? — Lily perguntou encarando o


moreno. — Katelyn ia ganhar!
— Acho que ouvi a campainha tocar. — respondeu olhando
em direção à porta.
— Só está fazendo isso por estar perdendo. — Sarah ri.
Segurei o riso porque sei o quanto Thomas odeia perder.
— Não, eu realmente a ouvi tocar. — insistiu ainda
encarando a porta.
Pensei que talvez ele estivesse fazendo isso por estar
perdendo essa partida, mas antes que eu pudesse dizer algo,
ouvimos o som da campainha, o que foi estranho, já que o porteiro
não me avisou nada, mas então deduzi que por não ter sido avisada
de alguém, era provável que fosse o Mingus, já que além das
pessoas presentes ali, ele era o único a ter passe livre para entrar.
— Viu só. — ele disse se gabando por estar certo.
— Provavelmente é o seu amigo atrasado. — falei dando de
ombros.
Levantei-me do sofá e caminhei até a porta já revirando os
olhos por imaginar que ele começaria contar da garota que
provavelmente encontrou antes de vir pra cá, mas quando abri a
porta fiquei trêmula com o que vi.
— Boa noite, senhorita. — disse o homem à minha frente.
— Essa é a residência de Katelyn Campbell?
Notei que meus amigos olharam para a direção da porta
confusos ao ouvir uma voz masculina. Thomas se levantou
rapidamente e veio ao meu lado.
— Sou eu. — respondi engolindo em seco.
Confesso que os ossos do meu corpo estavam tremendo e
a sensação estranha que senti no peito enquanto estávamos na
mesa voltou.
— Aconteceu alguma coisa? — Minha voz saiu trêmula.
— Você conhece Mingus Carter?
— Sim! — engoli em seco outra vez e meu peito foi
estremecido pelo medo. — O que aconteceu? Ele está bem? Onde
ele está?
Thomas aproximou-se por completo, ficando na frente do
homem à minha frente e também segurando minhas mãos.
— Boa noite, senhor. — disse ele. — Meu nome é Thomas
Richard, somos amigos do Mingus, o que aconteceu? Ele está bem?
— Ele está em nossa delegacia. — respondeu o oficial da
polícia olhando para o Thomas. — O Sr. Carter foi levado até a
delegacia e quando questionado quem deveríamos chamar, ele nos
passou o número da senhorita Campbell, mas como a senhorita não
atendia ele nos passou seu endereço.
Todos se levantaram e se aproximaram de nós, mas ainda
não estavam visíveis para o homem.
— O que aconteceu? — Thomas perguntou.
— Apenas precisamos saber se a senhora pode nos
acompanhar até a delegacia. — disse olhando para mim. — O
delegado pode explicar a situação.
— Eu posso. — suspirei, recuperando a fala. — M-mas…
Ele está bem? Realmente bem?
— Ele está bem, senhorita. — respondeu. — Ele poderá ser
livre quando pagar a fiança, mas não quis nos passar nenhum outro
contato se não o seu.
— Está bem. — disse. — E-eu vou apenas pegar minhas
coisas e já estou indo.
— Esperarei pela senhorita lá embaixo. — o policial informa,
virando-se e indo embora.
Thomas fechou a porta e todos olhavam estagnados, a fala
que eu havia recuperado à pouco, já havia se perdido novamente.
Eu estava tremendo.
— O que ele fez? — Lily perguntou.
— Eu não tenho ideia. — Thomas respondeu.
Meu nervosismo era nítido para todos e o de Thomas
também, o que acredito que tenha feito todos ficarem tão nervosos
quanto nós.
— Nós iremos te acompanhar, Kat. — Christopher disse. —
Por sorte ainda não bebemos hoje.
— E-eu vou apenas pegar minha bolsa e minha carteira no
quarto…
— Pode deixar que eu pego para você, amiga! — a morena
disse e eu assenti.
A preocupação me consumia. Mingus já havia feito
inúmeras besteiras nesta vida, já havia me ligado bêbado tantas
vezes, já havia sofrido alguns acidentes e me ligado do hospital,
mas nunca um policial havia batido na minha porta e isso era o que
mais me assustava, porque queria dizer que tudo estava muito
sério, que ele poderia estar gravemente ferido ou que ele poderia ter
ferido outro alguém gravemente e bom, isso apenas iria significar
que eu estive errada por todos esses anos, isso apenas iria
significar que ele não era quem eu sempre acreditei fielmente que
era e essa dúvida, esse medo de vê-lo machucado, esse medo de
nunca mais poder vê-lo ou de até chegar a encontrá-lo mas não
reconhecê-lo por ele se mostrar uma pessoa completamente
diferente daquela que eu costumo amar, me deixava em transe, me
deixava atordoada.
— O que diabos você fez agora? — pensei mais alto do que
poderia imaginar.
Todos me olhavam preocupados comigo, e sei que também
estavam preocupados com o loiro, mas não havia muito que ser dito
em uma situação como essa.
Lily voltou do quarto com minha bolsa e saímos todos para ir até a
delegacia.

Thomas já tinha estacionado o carro e meus amigos já


estavam fora dele, exceto Thomas, que ainda encarava o volante,
com as mãos ao redor apertando-as, para se acalmar, mas
esperava que eu tomasse a atitude de sair do carro, com paciência.
Durante o caminho, meus amigos estavam tentando me
acalmar, mas em um determinado momento, eu pedi que ficassem
em silêncio, pois minha mente estava cansada e extremamente
preocupada.
— Talvez não tenha sido nada grave. — murmurou Thomas,
ainda encarando o volante. — Talvez ele apenas tenha se metido
em alguma briga e a polícia chegou na hora errada.
Forcei um sorriso amigável pra ele. Thomas era como eu,
sempre quando Mingus errava, achávamos uma brecha para
perdoá-lo. Mesmo que ele me dissesse “vá embora”, eu ficava,
mesmo tendo um milhão de motivos para partir, eu ficava. Eu
sempre ficava esperando que ele deixasse essa má reputação de
lado e fosse o cara que sei que no fundo é, o cara que sei que
também é apaixonado por mim.
— Talvez. — murmurei com a voz embargada e meus olhos
marejados.
O moreno ao meu lado me olhou, pela primeira vez desde
que paramos aqui. Ele olhou rapidamente para fora, onde nossos
três amigos nos esperavam e suspirou fundo.
— Eu o amo Katelyn, e nunca desistiria desse cara. —
falou. — Ele é o meu melhor amigo e mesmo que eu entenda o
porquê se tornou como é, eu não posso deixar de ver o que ele faz
com você. Se quiser, você pode ficar aqui e eu entro para resolver
tudo, eu resolvo tudo e coloco ele dentro de um táxi para ir pra casa,
você não precisa vê-lo e não precisa entender…
— Eu vou. — o interrompi. — Foi o meu contato que ele
passou.
— Posso explicar para eles que você não está confortável
com a situação e que…
— Thomas, eu vou. — o interrompi novamente. — Eu
preciso vê-lo, acho que só assim meu coração vai se acalmar.
— Você tem certeza? — assenti. — Ok, mas depois que nós
nos certificarmos que ele está bem, eu vou quebrar a cara dele por
te fazer chorar no meu carro no dia que estávamos comemorando
seu estágio.
Ri baixinho.
— Está pronta para sair do carro? — perguntou e eu
assenti. — Muito bem. — respirou fundo. — Obrigada por não
desistir dele.
— Nunca. — murmurei me permitindo abrir um pequeno
sorriso.
Saindo do carro, meus amigos me olharam com olhares
reconfortantes, mas o policial a nossa frente nos orientou que
apenas eu poderia entrar. Assenti rapidamente meus amigos que
estava tudo bem e segui em frente.
Confesso que nunca pensei que aquelas narrações de livros
de quando a mocinha diz que suas pernas estão trêmulas
pudessem ser reais, mas sinto isso enquanto caminho no corredor
da delegacia.
— Kitkat?
Ouço sua voz como um murmuro e me estremeço de
imediato. A voz ecoou atrás de mim, temi por um breve segundo me
virar e me deparar com algo que eu nunca mais me esqueceria, mas
meu coração ansiava por ele. — Ali está, ali está o garoto que me
leva ver estrelas e pôr do Sol, ali está o garoto que me fode com
tanto amor e depois diz que é apenas físico. — Seu rosto está
vermelho e no canto da sua boca há um machucado que ainda
sangra. Sei que Mingus notou a maneira que eu estou o
observando, com decepção. Engoli em seco aquela cena e
permaneci em silêncio, sem sequer arquear uma sobrancelha ou
esboçar alguma reação, o que provavelmente o deixou preocupado,
porque notou que em mim, naquele momento, havia apenas
decepção.
— Depois de falar com o delegado você pode ir até ele. — o
policial falou e desviei o olhar do loiro. — Após falar com o
delegado, você poderá ir até o seu namorado.
— Ele não é meu namorado. — digo.
— Desculpe, pensei que… — coça a garganta enquanto eu
intercalo meu olhar dele para o loiro logo atrás do homem à minha
frente. — De qualquer maneira, poderá falar com ele após conversar
com o delegado. Ele está esperando a senhorita, naquela sala. —
Apontou para duas salas na frente de onde eu estava. — Pode ir
agora.
— E o Mingus? — perguntei.
— Ficará aqui até a senhorita sair. — disse. — Fique
tranquila, ele está bem.
Assenti e olhei uma outra vez para o loiro antes de me virar
para caminhar até a sala do delegado e ele também me olhava. —
Amava os momentos em que nossos olhares diziam tudo o que não
tínhamos coragem de pronunciar em nossos lábios, exceto neste
momento. Nesse momento, com certeza meu olhar dizia que eu
estava furiosa e triste e o dele… Eu não fazia ideia o que o olhar
dele queria dizer.
Parada na frente da porta do delegado, me atrevo a olhá-lo
mais uma vez e ele me olha. Em meio à bagunça daquela
delegacia, em meio à bagunça dos meus pensamentos e
sentimentos, ele simplesmente me olha e consigo ler em seus lábios
"desculpe por isso, minha menina.”. — Suspiro. — Então era isso o
que seu olhar queria dizer desde o começo, seu olhar queria dizer
que ele havia feito merda, seu olhar dizia que ele sentia muito por
ter estragado a minha noite, seu olhar dizia que ele não tinha
salvação e que eu já deveria saber sobre isso. Droga! Eu realmente
deveria saber sobre isso.
Bati na porta à minha frente e foi instantâneo o momento do
toque ao ouvir “entre”, ele realmente estava esperando por mim.
— Senhorita Campbell? — Assenti. — Venha, sente-se
aqui.
Fechei a porta e me sentei na cadeira à sua frente,
conforme me orientou fazer.
— Queríamos ligar para os pais dele… — foi a primeira
coisa dita pelo homem. — Mas, ele se recusou, disse que preferia
passar a noite aqui a falar com os pais e quando perguntamos se
havia outro alguém para chamar, nos passou seu número.

— Fez bem em me ligar, os pais dele provavelmente estão


ocupados.
— Mas a senhorita vai pagar a fiança? — questionou. —
Digo, não é um valor muito baixo.
— Eu pago. — respondo sem hesitar e pude perceber a
maneira que o homem olhou para mim, como se compreendesse o
porquê de Mingus passar o meu número, como se fosse óbvio que
eu faria tudo por ele.
E eu faria. — penso.
— Certo. Há alguns procedimentos que precisamos...
— Faremos tudo como o senhor ordenar, mas antes só me
explique o motivo dele estar aqui.
O cortei antes que ele terminasse a frase sobre os
procedimentos necessários, porque eu precisava saber o que ele
havia feito, eu precisava saber se ele ainda valia a pena ou não, eu
precisava saber se ele ainda era o meu menino ou um
desconhecido que eu costumava conhecer muito bem.
— Recebemos uma queixa de uma conveniência do posto
de gasolina a uns quilômetros daqui sobre três garotos que estavam
brigando e destruindo todo o local. Uma cliente que estava
chegando ao estabelecimento viu o ocorrido antes de entrar e por
isso se escondeu na parte de fora da conveniência para nos
telefonar, ela estava preocupada com o menino do caixa, por ele
parecer assustado e então meus homens correram para lá.
— Quem eram os outros dois? — perguntei com os olhos
marejados.
— Eu não sei senhorita Campbell. — respondeu com
sinceridade. — Os outros garotos fugiram ao ouvirem as sirenes e o
seu amigo não quis nos informar quem era, eu até mesmo indiquei
que se ele nos falasse quem era, não precisaria arcar com os custos
de tudo sozinho, mas ele não nos informou.
Balancei a cabeça concordando com o que havia sido dito,
como se eu tivesse entendido e nesse momento, a parte
esperançosa que vivia em mim pareceu sumir por um tempo, porque
eu realmente tinha entendido. Mingus tinha arrumado uma confusão
qualquer, em um estabelecimento qualquer, com pessoas aleatórias
e esse era o seu looping eterno. Confusões, confusões e mais
confusões. Porque desde o colégio, essa era a sua vida, porque ele
tinha essa reputação que só parece piorar dia após dia.
— Qual o valor da fiança?
O homem à minha frente me entrega um papel com todas
as informações necessárias.
— Vou providenciar tudo, mas quando eu voltar com o
dinheiro para a fiança e o advogado para acertar tudo, ele ficará
livre? Poderá ir pra casa?
— Sim, mas ele ainda terá que pagar o custo do prejuízo da
conveniência do posto.
— Certo. Posso ir… Resolver as coisas?
— Claro. — abriu um sorriso amigável. — Aguardo a
senhora retornar.

Estou no carro de Thomas, com ele dirigindo até o banco


mais próximo, para eu poder sacar o dinheiro da fiança. — Quando
saí de dentro da sala do delegado, não o vi no corredor, mas o
policial que me acompanhou até onde meus amigos estavam, me
garantiu que ele estava bem. Ao encontrar meus amigos, me
questionaram muitas coisas, mas tudo o que fiz foi dizer que depois
Mingus explicava para eles o que fez e que eu precisava ir ao
banco. Prontamente Thomas se ofereceu a me levar e agora
estamos nós dois em silêncio em seu carro.
— Christopher já chamou o tio dele que é advogado para
nos ajudar. — disse ele. — Já está a caminho da delegacia.
Dou de ombros, tentando parecer indiferente.
— Você o viu? — perguntou e eu assenti. — Está tudo
bem? Digo, ele está… Machucado?
— Um corte nos lábios. — dei de ombros.
Notei que ele agarrou mais o volante.
— E você? Você está bem?
— Aham.
— Katelyn..
— Como é que ele pode ser tão estúpido em se meter em
coisas assim? Como é que ele não pensa nas consequências? E se
algo sério acontecesse, Thomas? E se ele machucasse alguém? Ou
pior, e se ele se machucasse? Ele realmente não faz ideia da merda
do impacto que a vida dele tem sobre as nossas vidas! Ele
realmente não se importa com merda alguma! — minha voz
embarga. — Eu estou tão cansada.. Tão cansada de tentar
consertar as merdas dele, estou tão cansada de tentar ajudar ele e
receber em troca a merda de um “eu não sou bom pra você”, porra!
— Eu sei. — murmurou. — Eu sei que é cansativo… Sei
que é frustrante, mas eu vou conversar com ele e…
— E nada vai mudar. — o cortei. — Nada vai mudar, porque
ele não quer mudar, porque ele é assim! Porque ele não se importa
com nada, nem com ninguém!
— Você está errada, Kat. — murmurou. — Ele apenas não
se importa consigo mesmo, o que torna tudo pior.
Fiquei em silêncio, porque Thomas estava certo. Eu seria
hipócrita em dizer que o Mingus não se preocupava com ninguém,
porque ele sempre fazia o possível e impossível por nós, mesmo
sendo um babaca. — Toda vez que Lily se sentia triste pelas
discussões que costumava ter com sua mãe, ele levava seu
chocolate (snacks) para ela em qualquer rolê. Quando Christopher
estava meio bolado ou preocupado com algo, Mingus insistia em
jogarem juntos e claramente o deixava ganhar. Quando Sarah tinha
suas crises existenciais, ele a ouvia com paciência e sempre a
abraçava dizendo “Você é nossa mascotezinha e sempre estaremos
aqui por você, sabe disso, não sabe?”, e isso parecia ser o
suficiente para fazê-la sorrir, para que ela enxergasse que não
estava sozinha. E Thomas? Quando o Thomas não está legal, ele
move o mundo pelo seu melhor amigo. E com igo não é diferente,
todas as vezes em que me senti mal, em que me senti perdida, ele
fez eu me encontrar, ele me trouxe de volta a vida e me amou com o
seu jeito insuportável de ser.
— Odeio ele. — digo.
Thomas abre um sincero sorriso.
— Sei bem como é. Eu também.
Sentia no fundo do meu coração que ele havia entendido
todo o meu pensamento, ele tinha entendido que eu compreendi
que Mingus era incrível com todos, exceto consigo mesmo.
Foi tudo bem rápido no banco e no caminho de volta para a
delegacia. Ficamos em silêncio o caminho todo, acho que ambos
estávamos cansados e preocupados também. No instante que
cheguei, Christopher me informou que o advogado já tinha cuidado
de tudo e eu fui rapidamente de volta à sala do delegado.
— Senhorita Campbell, o advogado de vocês veio com
prontidão e agiu com tamanha gentileza que conseguimos resolver
tudo rapidamente, até mesmo as papeladas, apenas efetue o
pagamento e o senhor Carter será dispensado. — o delegado falou.
— Que bom. — assenti forçando um sorriso. — Senhor…
— Rodrigues.
— Senhor Rodrigues, posso lhe fazer uma pergunta? —
Ele assentiu sorrindo. — Sabe me dizer se o Mingus foi violento?
O homem à minha frente pareceu surpreso e confuso na
mesma proporção com a minha pergunta.
— Como assim? — perguntou.
— Quando a polícia chegou no local, o senhor disse que os
outros dois fugiram, mas… o que ele fez? Ele foi violento? Ele
tentou revidar algo ou fugir?
— Não, menina. — respondeu levemente e olhando em
meus olhos. — O sr. Carter ficou parado esperando meus homens o
revistarem e o trazerem para cá. Ele não teve nenhuma atitude
violenta, ele não teve atitude alguma para ser sincero e quando
questionado o que teria acontecido ele apenas se calou dizendo que
fez o que achou certo no momento, mas que reconhecia o seu erro.
— Permaneci calada. — Katelyn. — continuou. — Aquele garoto
que está esperando por você, não é uma pessoa ruim.
Levantei meus olhos aos seus.
— Eu já vi muitas coisas em todos os meus anos nesse
ramo, e eu te asseguro que esse garoto não é alguém ruim, mas eu
também já vi muitos homens que se perderam durante batalhas,
durante confrontos, e eu conheço o olhar de um homem assim.
— O que isso quer dizer?
— Esse garoto tem esse olhar e isso significa que ele está
perdendo uma batalha. — Colocou-se em pé. — Tudo certo por
aqui, senhorita. Você e seu amigo estão liberados.

Sai da sala do delegado Rodrigues e vi que Mingus estava


parado há uns dez passos de onde ficava a porta, provavelmente já
estava ciente de que poderia ir embora.
— Katelyn. — murmurou quando me aproximei.
Passei por ele sem olhar.
— Katelyn! Katelyn
— O que? — respondi quase em um grito.
— Eu sinto muito. — murmurou. — De verdade.
— Mingus, eu não quero falar agora.
— Katelyn, eu realmente sinto muito.
— Por que você deu meu número? — Ele me olhou
confuso, tentando entender. — Por que você deu meu número como
contato? Por que não deu o de Thomas? Christopher? Qualquer
um? Por que o meu?
— E-eu… Eu não sei. — engoliu em seco. — Você sempre
foi o meu número de emergência.
— Por que?
— Eu realmente não sei. — murmurou. — Desculpa por ter
feito você passar por isso, eu realmente…
Dei as costas para ele e passei pela porta, encontrando
meus amigos preocupados que suspiraram com alívio ao notarem
que Mingus estava logo atrás de mim.
— Cara! Você está bem? — Thomas passou por mim e foi
direto abraçar seu amigo. — O que aconteceu?
— Podemos ir embora? — perguntei. — Agora.
— A gente se fala depois, irmão. — disse o loiro.
Mesmo de costas para ele, sentia seu olhar em mim.
— Nós todos acabamos vindo no meu carro e…
— Tudo bem Thommy. — respondeu o loiro. — Vou pedir
um Uber até o posto, meu carro ficou lá.
— Eu te acompanho. — Christopher falou. — Depois você
me deixa em casa. Sarah pode pegar o nosso carro e ir pra casa, né
amor?
— Claro. — sorriu a loira. — Levo a Li embora e passo no
Buguer King ainda. Tudo bem por mim.
— Não preciso de babá. — disse o loiro. — Eu posso ir
sozinho.
— Não precisa? — dou de ombros. — Estou indo para o
carro, Thomas.
Comecei andar para o estacionamento.
— Desculpa mesmo galera. — murmurou.
— A gente se fala. — disse Thomas. — Christopher, você…
— Pode deixar. — responde firme.
E esse é o último diálogo que eu escuto, porque comecei
andar rápido para me afastar deles, para finalmente conseguir
respirar.

Capítulo 03
Mingus
Eu vacilei. Esse foi o meu pensamento dentro do uber,
dentro do meu carro levando o Christopher embora, e o meu
pensamento o caminho todo até chegar no meu apartamento. Eu
vacilei. A maneira que a Katelyn me olhou quando chegou na
delegacia provou que eu vacilei como nunca havia vacilado antes.
Eu a fiz sentir tanto medo. O que diabos eu tinha na cabeça?
Me jogo na cama após tirar meu tênis.
— Porra, Mingus! — xingo alto.
Sei que eu não estava errado por defender o garoto que
estava só trabalhando, o que aqueles dois que eu parti para cima
fizeram é muito feio e crime. Não era eu quem deveria ter sido
levado a delegacia nesta noite, eram eles, que cometeram um
crime. Racismo é crime e me emputece que as pessoas ainda se
achem melhores que outras em pleno século XXI só por conta da
cor de sua pele. Mas, mesmo sabendo que eu estava certo em
defendê-lo, mesmo sabendo que eu não errei em socar a cara
daqueles dois imbecis, eu ainda me sinto muito mal pela maneira
que fiz a Katelyn se sentir.
Eu sei, eu sei que ela temeu por mim. Sei que ela ficou
decepcionada e irritada e com razão. Eu sentia tanto, mas estava
envergonhado demais para mandar uma mensagem. Afinal, o que
eu poderia dizer que faria ela entender que eu sentia de verdade por
ter estragado sua noite que deveria ser especial?
Eu sempre ferrava com tudo. Especialmente com ela.
Meu celular que ainda estava no meu bolso vibrou e eu o
peguei imediatamente, não pude evitar o alívio que senti ao ver o
nome dela na tela.
Kitkat: Por favor, não faça mais isso. Nunca mais.
Eu: Posso pedir desculpas novamente ou você iria me
bloquear se eu fizesse isso?
Kitkat: Não vou te bloquear, mas não sei se seu pedido de
desculpas mudaria algo
.
Kitkat: Eu me senti péssima, Mingus. Imagine o que você
sentiria não ter notícia de mim por horas e um policial bater na sua
porta perguntando por mim e te pedindo para o acompanhar.
Kitkat: Eu pensei que algo grave tivesse te acontecido! Eu
pensei que você estava machucado, pensei até que eu nunca mais
iria te ver!
Eu: Desculpa. Eu me sinto uma pessoa horrível só de
imaginar o que você sentiu. Porque eu te juro, se fosse comigo, se
você sumisse por horas e isso acontecesse, se um policial
aparecesse na minha porta, eu surtaria.
Kitkat: Por que você brigou? Com quem você brigou?
Eu: Não é importante, Kitkat…
Kitkat: Não faça mais isso. Por favor. Me promete que você
não vai mais fazer isso.
Eu : Prometer que eu não vou mais brigar?
Kitkat: Isso. Me promete que você vai parar com essa
merda toda, essa merda de má reputação, já deu!
Eu: Não posso, Katelyn…
Eu: Não posso prometer algo que talvez eu não vá cumprir
Eu: Mas eu prometo que nunca mais vou te dar um susto
como esse. Pelo menos, não com a polícia envolvida.
Kitkat: Meu peito inteiro doeu, Mingus.
Eu: Eu sinto muito.
Eu: Eu sinto muito principalmente por ter estragado a sua
noite especial.
Eu: Parabéns pelo trabalho. Você merece o mundo.
Eu: E eu sei que não sou digno de estar nesse seu mundo
particular, ele provavelmente seria mais fácil sem a minha presença.
Kitkat: Mas não seria o meu mundo.
Kitkat: Não sem você
Kitkat: Eu te odeio ainda mais por citar Gossip Girl nesse
momento
Kitkat: Estou brava com você
Eu: Eu sei

Kitkat: E eu te odeio
Eu: Eu sei
Kitkat: E vou ter raiva de você durante a semana inteira
Eu: Eu sei
Kitkat: Obrigada por estar vivo e por estar bem.
Eu: Boa noite, kitkat ;)
Kitkat: boa noite, insuportável.

Era tão difícil não a amar. — Joguei o celular do outro lado


da cama. — Era difícil não querer tê-la em meus braços. Eu a queria
como nunca quis outra coisa na vida, ela era definitivamente o meu
maior desejo, acompanhado do meu maior medo.
Capítulo 04
Katelyn
Tive minha primeira reunião com a equipe que eu começaria
a trabalhar. Foi mais uma apresentação informal em um jantar
chique no qual o RH me forçou a ir dizendo que seria bom conhecê-
los fora do ambiente de trabalho.
Realmente. Consegui ter um ótimo filtro de quem é cada um
deles e definitivamente percebi que eu ainda não estou pronta para
sair do meu mundinho particular, com meus amigos que me
protegem de tudo e de todos, mas talvez isso seja crescer… Sair da
sua zona de conforto, entrar em uma grande empresa e conhecer
pessoas totalmente diferentes de você e mesmo assim, saber que
está dando o melhor de si na convivência e no seu trabalho. Talvez,
apenas talvez, eu consiga dar conta disso tudo.
Passei algumas horas sorrindo para todos à minha volta e
concordando com a maioria do que era dito, as falas que não
concordei apenas me mantive calada com um sorriso nos lábios,
porque Deus me livre de arrumar alguma discórdia no meu “não”
primeiro dia oficial.
Nesse exato momento, estou parada dentro do meu carro
pensando em como eu gostaria que o Mingus estivesse aqui por
perto para que eu pudesse dar os meus “surtinhos de felicidade” —
como ele nomeou. — Gostaria de contar para ele sobre o jantar e
como estou oficialmente me tornando uma adulta e que apesar de
odiar tudo isso, também estou gostando pra caramba. Talvez, em
outra vida, a gente consiga compartilhar momentos assim.
Liguei o carro e coloquei a primeira playlist do meu Spotify.
— Taylor Swift começou, é claro.
— Taylor, querida. — murmuro enquanto dirijo pela cidade.
— Ele realmente é tão alto e bonito pra cacete, ele realmente é tão
mal, mas faz tão bem. — Wildest dreams, eu te abomino!

— O-o que… Mas que droga!


Meu carro morreu. Simplesmente morreu no meio de uma
avenida movimentada e tem uns idiotas buzinando atrás de mim.
— Me ajudem ao invés de criticarem, idiotas! — grito
abaixando o vidro para me ouvirem.
Dois ou três homens me ajudam a encostar e estacionar
onde não iria atrapalhar ninguém, mas sequer perguntaram se
preciso de ajuda e simplesmente seguem suas vidas.
— Seres humanos. — reviro os olhos.
Nunca entendi sobre carros e quem sempre me ajudou com
isso era o Mingus, mas eu tinha a absoluta certeza que nessas
horas ele estava em algum role e eu era orgulhosa demais para ligá-
lo de imediato, principalmente por ter seguro do carro.
Desconectei meu celular do rádio do automóvel e comecei a
buscar o número do seguro, mas a fumaça que começou sair da
frente do carro, chamou minha atenção me fazendo me desesperar
e pegar minha bolsa e correr para fora do carro.
— Alô? Meu nome é Katelyn Annie Campbell e eu faço o
seguro do meu carro com vocês, precisava acionar o reboque
porque ele acabou de morrer na avenida enquanto eu voltava para
casa.
Todas as instruções foram feitas e acredito que eu tenha
esperado por uns trinta minutos para que o reboque chegasse, o
deixei cuidar de tudo e me afastei encostando na parede da calçada
mais próxima, meus pés estavam me matando naquele salto e meu
celular estava com pouca bateria, então evitei ao máximo mexer.
— Senhorita? — o homem se aproximou de mim. — Já
finalizei tudo e agora posso levar o carro. Somente assine aqui e…
— Certo. — forço um sorriso pegando sua prancheta e
caneta. — E o carro reserva?
— Desculpe?
— Para que eu possa voltar pra casa…
— A senhora solicitou?
— Eu precisava solicitar? — questino. — Imaginei que
soubessem..
— Não. — afirma. — É necessário solicitar.
— E eu posso fazer essa solicitação agora ou deveria ter
feito antes de assinar esses papéis?
— Você pode fazer agora, mas acredito que vai demorar
cerca de uma hora ou mais para chegar. — diz. — Aconselho pedir
uma carona ou podemos solicitar o táxi que o seguro garante, mas
com o fluxo que está nesta noite acredito que demore o mesmo
tempo do carro reserva. Talvez a carona seja a melhor ideia.
— Claro. — sorrio fraco.
— Posso ir ou a senhorita quer que eu..
— Pode ir. — dou de ombros com um sorriso gentil. — Eu
ligo para os meus amigos ou peço um uber.
Após ele se afastar e entrar no caminhão onde meu carro
estava rebocado, liguei os dados móveis do celular e entrei no
aplicativo do Uber, mas eu odiava ter que pegar um carro
desconhecido sozinha no meio da noite, então fui até meus contatos
e tentei ligar para a Lily. — Sem sucesso. — Tentei para o Thomas.
— Sem sucesso. — Sarah e Christopher. — Sem sucesso.
— Saco!
E como uma boa stalker, desci a barra de notificações e li
rapidamente que os quatro tinham ido ao cinema.
— Ótimo. — ironizei. — Me sobra o Uber ou o Mingus. O
que poderia ser pior?

E deixando o orgulho de lado pelo simples medo de pegar


um carro desconhecido sozinha a noite e sem ter a certeza de que
eu conseguiria compartilhar minha localização em tempo real com
alguém porque meus amigos estavam ocupados, preferi ligar para o
loiro.
“Kitkat?”
Mordi meu lábio para evitar meu sorriso.
“Oi”
“Aconteceu alguma coisa?”
“Meu celular está com a bateria acabando, acho que tenho
3% e preciso de uma carona porque meu carro morreu. Posso te
mandar a localização? Não consegui falar com a Lily…”
“Me manda a localização, já estou indo” — me cortou. —
“Você está bem?”
“Sim.”
“Ok, estou indo. Já mandou a localização?”
“Vou enviar. Obrigada.”
“Fique em segurança. Logo estou ai.”
Sorri encerrando a ligação e em seguida enviei a
localização por mensagem.
Insuportável: Você está no meio da avenida sozinha????
Por Deus, Katelyn! Que perigo.
Insuportável: Desliga os dados móveis para economizar
bateria e deixe o número da emergência discado por precaução.
Insuportável: Tente ficar em algum lugar da avenida com
luz e por favor, por favor, tome cuidado.
Insuportável: E o que você quis dizer com “meu carro
morreu”??????
Eu o odiava. Odiava sua arrogância e seu sarcasmo.
Odiava seus olhos cor de céu, odiava o fato de ter um e noventa e
dois de altura, porque isso fazia com que os meus um e sessenta e
sete encaixassem perfeitamente em seus braços e abraços. Odiava
sua voz rouca falando comigo por telefone e odiava o efeito que
causava em mim. Eu odiava absolutamente tudo nele, do início ao
fim. Odiava tanto que somente por amá-lo na mesma proporção que
eu o tolerava.
Capítulo 05
Mingus
— Desculpe, querida. — Voltei à sala onde a ruiva que eu
estava pegando estava. — Vou ter que sair.
Eu estava na casa do Matthew, um dos poucos colegas que
tenho além da minha turminha. Eu e Matthew tínhamos o mesmo
gosto para festas e hoje ela estava rolando na mansão dele. Seu pai
era um jogador famoso de futebol e claro que deu uma casa para o
seu primogênito, que sempre fazia ótimas festas aqui.
Elisa, a ruiva que acabei de me desculpar, estava no meu
colo me saciando na hora que meu celular tocou. Não costumo
pegar meu celular quando estou em festas, mas como acabei
personalizando os toques para cada um dos meus amigos, sabia
que era Katelyn e ela nunca, absolutamente nunca, me ligaria uma
hora dessas se não fosse importante.
— O que é isso, gatinho? — murmurou a ruiva. — Nem
tínhamos começado!
— Fica pra próxima. — pisco pegando minha camiseta no
chão. — Matthew. — grito em direção à cozinha. Acho que o vi
entrar lá com uma loira. — Estou indo! Até mais.
Saio rapidamente da casa e caminho até meu carro,
pegando meu celular abrindo a localização que ela me enviou.
— Cacet e , Katelyn! — reclamo. — Vou precisar voar pra
chegar rápido pra você.
Entro no carro e digito algumas mensagens pra ela, que
responde rapidamente com uma série de mensagens.
Kitkat: Vou desligar os dados móveis e estou encostada na
calçada perto do poste de luz.
Kitkat: Vem logo!
Kitkat: Eu te falaria para passar buscar um sorvetinho, mas
talvez demore ainda mais…
Kitkat: Ok, 1% de bateria
Kitkat: Socorro
Kitkat: Espere. O socorro não foi literalmente um socorro,
foi apenas um modo de dizer.
Kitkat: Não precisa vir correndo, tá? Juro que to bem!
Kitkat: Vou desligar aqui. Bjos.
Não consegui evitar sorrir. Eu era doido por essa garota.

Eu já estava na avenida que mostrava na localização, então


reduzi a velocidade para poder avistá-la antecipadamente para
estacionar e claro, meus olhos a encontraram de imediato. —
Maldito olhos que sempre a encontravam. — Estava usando um
vestido elegante e saltos. Era raro vê-la de vestido e salto, ela
costumava adorar usar seus shorts, calças e moletons e claro, seus
belos all star. Mas definitivamente se esforçou para causar uma boa
impressão no jantar de hoje, só não sei porquê se esforçar para
isso, sendo que seria impossível não causar uma boa impressão,
afinal, era ela. Ela conquistaria o mundo um dia e isso, eu tenho a
plena certeza.
Diminuí o volume da música e dei sinal de que eu iria
estacionar para os carros que estavam atrás estarem ciente da
minha mudança de faixa para parar o carro.
Ela me viu. — Tenho a certeza que ela me viu, porque vi
seu sorriso.
— Oi, querida. — abro um sorriso abaixando o vidro. —
Você está radiante.
— Cale a boca. — deu de ombros e caminhou até a porta
do carro. — Obrigada. — diz, ao sentar-se e o silêncio durou exatos
vinte segundos. Os vinte segundos que eu tinha para voltar a dirigir
— Estraguei algo?
Sei que pergunta porque observou que minha camiseta não
está abotoada. — Sei que notou porque faço o mesmo no instante
em que ela entra. Percebo cada mínimo detalhe em seu corpo, em
seu rosto. Sei que está feliz e envergonhada. — Feliz pelo jantar,
envergonhada por ter me ligado. Sei que sente-se minimamente
triste e acredito que seja porque queria poder contar a sua avó onde
chegou. Sei também que usa a pulseira que lhe dei de presente aos
dezessete anos e que possivelmente sente dor no pé porque já
começou a tirar os sapatos. Sei exatamente todos os detalhes
dessa garota, desenhei e mapeei o seu corpo diversas vezes em
minha mente e o toquei centenas de vezes mais.
— Não. — Cocei a garganta tentando disfarçar a ideia de tê-
la novamente em meus braços. — O que aconteceu com o carro?
— Morreu. — deu de ombros e ajeitou-se no banco,
colocando os pés pra cima, agora descalços. Olhei de relance, mas
ela nem se importou. Meu carro já viu muita coisa de nós dois para
que eu me importasse com isso. — Não sei o que aconteceu. —
continuou. — Eu saí do restaurante e estava tudo certo, chegamos
na avenida, ele parou e começou a sair fumaça.
— Fumaça? — arqueei a sobrancelha. — Chamou o
seguro?
— Sim, mas esqueci de pedir a droga do carro reserva.
Enfim, até o próprio moço do reboque falou que era melhor pedir
uma carona do que solicitar o carro reserva nesse horário.
— E então ligou para mim.
— Não. — revirou os olhos contendo um risinho. — Liguei
para Lily, Thomas, Christopher, Sarah…
— Eles foram ao cinema.
— Vi depois. — deu de ombros. — E quando eu vi, liguei
pra você.
— Sou sua última opção? Essa doeu.
— Para de graça. — riu. — Obrigada, de verdade.
Assinto e levo minhas mãos ao rádio, para aumentar o
volume.
— Posso trocar a playlist? — pergunta sem conter seu
sorriso de que sabe que eu deixarei.
Entrego meu celular em suas mãos já desbloqueado pela
digital.
— Todo seu, Kitkat.
Noto de relance que ela mordeu o lábio para conter um
sorriso. Sei o quanto ela diz odiar o apelido que lhe dei aos quinze
anos, mas também sei que no fundo, ela o ama.
— Taylor Swift não! — indago no momento em que “Don’t
blame me” começa tocar.
— Não me culpe. — Diz rindo sozinha de sua própria
piadinha. — Foi o que seu Spotify sugeriu.
— Eu aposto o meu apartamento que a minha conta não
sugeriu isso.
— A partir de agora vai sugerir. — piscou.
E por todo o percurso tive que ficar ouvindo sobre os ex-
namorados que Taylor teve e sinceramente espero que ela faça
terapia e que os cara paguem por tudo o que a fizeram, porque meu
deus! Ela realmente tem uma longa lista de ex-namorados.
— Para chegar no meu apartamento você deveria ter virado
à esquerda. — diz abaixando o volume do rádio. “Cruel Summer”
estava quase terminando de tocar e eu imagino o que diriam as
pessoas que me verem ouvindo Taylor em alto e bom som no meu
cruze sedan preto.
O que me tornei? — penso.
— Mingus? Não vamos para a minha casa?
— Você não queria sorvete? — dou de ombros. — Vou
passar no MC'Donalds
Ela suspira aumentando o volume novamente.
“Lover” começou tocar e eu juro que queria mandar a Taylor
calar a boca porque ela canta tudo o que eu sinto nesse momento.
— Podemos mudar a playlist?
— Nunca peça para tirar Taylor Swift, Mingus! — reclama.
— Nunca.
Não contenho a risada.
— Você é maluca.
Ela sorri cantarolando a música e isso a deixa ainda mais
bonita. Cacete! Katelyn é perfeita até cantando Taylor Swift.

— McFlurry? — pergunto ao chegarmos ao drive-thru


— De Kitkat. — sorri. — Como sempre.
Aí estava. Aí estava o motivo pelo qual a apelidei de
“Kitkat”, ela nunca trocava a sua sobremesa no MC Donald's e
muitos podem pensar que é por ser o seu sorvete favorito, mas ela
me confessou que era pelo nome lembrar o dela.
“E se os deuses do sorvete o fizeram só pra mim?” — Foi o que ela
disse quando perguntei e desde então, ela se tornou KitKat para
mim. Talvez porque eu acredite que o Deus deste universo tenha a
feito para mim.
— Um McFlurry de kitkat, por favor. — Faço o pedido. —
Apenas isso.
— Você não vai pedir nada? — murmurou ao meu lado.
— Pode se direcionar para a próxima cabine para efetuar o
pagamento, obrigada. — a atendente diz.
Dirijo até a próxima cabine.
— Mingus? Você não vai pedir nada pra você?
— Não. — respondo parando o carro e pegando meu cartão
para aproximar da máquina. — Só passei aqui para pegar um
sorvete pra você.
— Obrigada. Pode se direcionar para a próxima cabine para
retirar o seu pedido. — a atendente diz e dou um breve sorriso.
Assim faço.
O sorriso no rosto dela é impagável. Eu compraria todos os
sorvetes do universo para ver esse sorriso em todos os minutos da
minha vida.
— Obrigada. — murmura baixinho enquanto segura o
sorvete que acabei de lhe entregar.
— Parabéns pelo novo trabalho. — digo. — Desculpa ter
estragado a sua noite especial.
— Com a polícia na minha porta? Os meus vizinhos me
olham suspeitos agora! Pensam que fiz algo errado.
Não consigo segurar o riso mesmo mordendo de leve meu
lábio e ela percebe.
— Não ria. — diz, rindo. — Sério!
— Ninguém poderia pensar mal de você, Kitkat.
Ela sorri sem jeito.
— Onde estamos indo agora? — pergunta notando que não
faço o caminho voltando para o seu apartamento.
— No nosso lugar especial. — dou de ombros. — Tente
adivinhar.
— Eu não preciso tentar, eu sei onde é. — diz sorrindo. —
Vamos no lago dos sonhos.
Mordo meu lábio inferior para conter o sorriso grandioso que
se formaria. — Ela está certa. Eu vou levá-la ao lago dos sonhos. O
lago da cidade que anteriormente costumava ser movimentado, mas
que atualmente as pessoas o deixaram de lado. Vou levá-la para ver
as nossas pichações favoritas que estão espalhadas naquele local.
Cada frase nos faz suspirar e refletir sobre tanta coisa. Vou levá-la
para contemplar o céu estrelado e sua lua.
— A playlist seguirá na Taylor. — continuou para quebrar o
silêncio. — Saiba disso.
— Eu não duvidei por um segundo. — dou de ombros.
— Ótimo. — sorriu vitoriosa.
Em poucos minutos chegamos e estacionei o carro. O seu
sorvete já havia terminado, então apenas descemos juntos a
escadaria e paramos em frente a nossa pichação favorita.
— Conexões são raras. — ela leu passando sua mão em
cima da tinta seca há muito tempo. — Eu adoro essa.
— Gosto dela também. — Sou indiferente. — Mas também
gosto daquela. — Aponto para a parede suja à nossa direita, onde
em vermelho brilhante está pintado “somos instantes”. — Acho que
somos viajantes no tempo, instantes feitos de agora.
— Por que pensa isso?
— Sei lá. — dou de ombros. — Apenas penso.
Ela sorri de lado.
— O céu está lindo hoje, impagável todas as sensações que
eu sinto apenas ao observá-lo.
Assenti concordando. Era mesmo impagável todas as
sensações que eu sentia ao observá-la. Seus olhos verdes refletem
na luz do sol, mas também na maldita lua no céu escuro. Não há um
momento em que seus olhos não se sobressaiam em qualquer
ambiente e confesso que o verde é a minha cor favorita desde que
eu a conheci.
Desde que as pessoas que mais supostamente deveriam
me amar quebraram o meu coração, eu me fechei para o mundo e
jurei que nunca mais me tornaria fraco ou que deixaria alguém
entrar no meu mundo, mas essa garota… A garota que estava na
minha frente admirando cada pequena parte desse lago antigo e
mal cuidado da cidade, havia me ganhado desde o primeiro dia.
Helena Riggs e John Carter são meus pais, mas eles nunca
foram de fato, meus pais. John Carter é um famoso empresário e
podre de rico desde qu e explodiu mundialmente com sua em
presa de muito sucesso, por conta de seus inúmeros compromissos
ele nunca teve tempo para seu filho. Filho que nem sequer foi
planejado, porque ele e Helena, minha mãe, famosa modelo na
década de noventa, se conheceram em uma festa e ela teve a
infelicidade de engravidar no auge da sua carreira. Helena pensou
em não prosseguir com a gravidez, conforme já me confessou uma
vez, mas parece que John a convenceu a prosseguir, porque queria
ter um herdeiro. — Odiava ser seu herdeiro. Odiava tudo referente a
eles, porque eu definitivamente não acreditava que coisas boas
poderiam acontecer na minha vida por culpa desses dois. A maioria
das pessoas que me conhecem sabem que eles são meus pais,
mas eu os fiz prometer desde o começo que nunca o citaram em
alguma conversa. Thomas os conheceu de perto e sabe bem que
minha relação com eles não é nada além de tóxica, para todos.
Quando entrei para o colégio onde conheci todos que tenho convívio
hoje, gostei especialmente de Katelyn e seu grupinho, porque eles
não me reconheceram de imediato e para eles eu fui apenas o
garoto loiro que havia acabado de se mudar para um novo colégio
no meio do ano letivo e não o filho de Helena , uma famosa modelo,
ou de John, um grandioso empresário . Claro que, com dois dias no
colégio, todos falaram sobre isso e eles ficaram sabendo. Apesar do
Christopher me pedir um autógrafo da minha mãe , todos eles
continuaram agindo normalmente comigo e por isso, por essa razão,
fora o Thomas que já era meu melhor amigo e um irmão para mim,
eles também se tornaram minha família.
— O que está pensando? — se aproxima. — Parece tão
longe daqui.
— Nada demais. — dou de ombros. — Acho que aqui é
realmente um lugar bom para se pensar.
— Um lugar pensante. — sorri.
— Isso. — concordo sorrindo. — Mas está ficando tarde,
vamos?
— Odeio quando você diz isso. — reclama.
Mordi o lábio para evitar sorrir. — Eu odiava ter que afastá-
la toda vez que estávamos em um bom momento, mas eu odiava
ainda mais as sensações estranhas que ela causava em mim e meu
autocontrole poderia falhar pela pouca iluminação e pelo vestido
incrível que ela usava, mas também havia jurado que jamais, jamais
a tocaria de novo, sem que ela me pedisse com total certeza de que
queria ser tocada e que entendia que entre nós só poderia existir
sexo casual sem sentimentos. Então, afastá-la quando eu ainda
estava em controle sobre esses sentimentos e desejos era o
essencial.
— Vamos, pequena. — murmuro. — Tivemos um dia cheio
hoje.
— Gosto de ficar no lago dos sonhos! — diz cruzando os
braços. — Queria poder ficar até ver o nascer do Sol.
Sorri.
— Quem sabe um dia. — dou de ombros. Não gosto de
fazê-la criar expectativas, porque eu temo que nunca possamos
cumprir certos planos que temos. — Agora vamos.

A deixei em seu apartamento e esperei ela entrar para


partir, agora estou andando a cidade com meu carro pensando em
como eu gostaria de ter ficado com ela no Lago esperando o nascer
do Sol, pensando em como eu gostaria de tê-la em meus braços.
Há quatro anos eu tentei partir, há quatro anos tentei
quebrar seu coração para não destruí-lo no futuro e há quatro anos
eu contei uma mentira boba para que ela se afastasse.
Capítulo 06
Há quatro anos
Aos dezoito anos
Mingus
Eu amava seu cheiro na minha cama e seu corpo colado no
meu. Katelyn não tinha defeitos, seu corpo era perfeito e se
encaixava perfeitamente em mim. O suor estava em nossos corpos,
e eu enxugava sua testa com minha mão esquerda, enquanto a
direita brincava embaixo. Seus gemidos me levavam ao céu. — Eu
sempre estava ao céu ao lado dela.
— Não para. — ela implorava.
Eu sorria e não era nem doido de parar.
— Meu Deus, isso é muito bom. — murmurava. —
Continua.
Nenhuma outra garota com a qual eu já transei me deixava
como ela, nenhuma tinha essa voz de anjo nos meus ouvidos.
Depositei um rápido selinho em seus lábios e desci para
que minha boca brincasse onde minha mão direita estava
brincando. Agora ficaria sério.
— Isso. — gemeu. — Meu Deus. Eu amo isso. — gemeu
outra vez. — Eu amo você.
Meu coração congelou e eu parei de mover minha língua
dentro dela.
Acho que ela percebeu o que acabou de dizer e retraiu por
completo. Com gentileza, subi até ela e dei outro beijo em seus
lábios, dessa vez com mais força do que o primeiro, com culpa do
que eu faria a seguir.
— Eu ferrei tudo? — ela murmurou baixinho enquanto eu
afastava nossos corpos e me sentava na cama.
— Katelyn…
— Você gosta de mim? — perguntou sentando-se também.
Eu estava de costas para ela nesse momento, mas senti no
embargo da sua voz que seus olhos estavam cheios de lágrimas. —
Você gosta de mim de verdade? Porque Mingus, eu sinto que sim.
— É apenas físico, Katelyn. — menti.
Me levantei com o coração acelerado e procurei onde
minhas calças foram parar. Não consegui olhar para trás, mas não
precisei para saber que nossa cama estava amassada por nós dois,
a luminária caída no chão após rirmos de termos feito e meu
edredom preto estava no chão ao lado da blusa roxa dela. Um
rápido pensamento de que todo o meu quarto iria cheirar morangos
com rosas — seu perfume — me ocorreu e eu apenas precisava
correr para longe dali. Para longe da única mulher que conseguiu
mexer comigo depois de passar dezoito anos lutando sobre
qualquer sentimento. Para longe da única mulher que eu poderia
amar, se eu soubesse como fazer tal coisa.
Achei minhas calças e eu estava abotoando-a no momento
em que vi minha camiseta preta também no chão.
Katelyn ainda estava em silêncio, o que quebrava ainda
mais o meu coração.
— Sinto muito. — murmurei. — Você sempre será a minha
garota favorita, mas eu não fui feito para você.
Olhei para ela pela primeira vez desde que ela soltou
aquelas três malditas palavras. Peguei minha camiseta e meu tênis
nas mãos e caminhei até a porta. O silêncio ainda era a resposta
dela e isso estava destruindo-me por completo. Parei na porta e a
olhei.
Na minha cama estava Katelyn Annie Campbell, a única
mulher que eu me interessei, a única que tem o meu coração, a
única que fez eu baixar guardas e criar laços, a garota irritante e
barulhenta que conheci aos treze anos e que beijei pela primeira vez
aos quatorze. Katelyn estava nua na minha cama após termos feito
sexo e eu ter partido seu coração. E eu a deixaria sozinha no meu
apartamento nesse horário, rezando para que ela conseguisse se
recuperar depois disso, rezando para que ela pudesse me perdoar,
mas eu certamente não me perdoaria. Eu havia acabado de quebrar
o coração da única mulher que poderia vir a ser minha salvação, só
para que, no futuro, eu não a destruísse como Helena tem certeza
que eu faria.
— Sinto muito mesmo. — murmurei saindo do quarto.
Você sabe o momento exato em que se quebra um coração
e quando eu passei pela aquela porta, eu pude ouvir dois corações
se quebrando. Um estava inteiro e o outro, sempre sobreviveu
estilhaçado.

Capítulo 07
Katelyn
A semana passou voando. Comecei na empresa na
segunda-feira e fiquei orgulhosa por conseguir falar três palavras
com o meu chefe sem gaguejar na terça-feira, porque no primeiro
dia eu consegui gaguejar no bom dia. Quem. Faz. Isso?
A vida estava uma correria, mas todos os dias eu e meu
grupinho nos falávamos por mensagens em nosso grupo com os
seis, e claro, também havia um grupo só das garotas, como também
havia um só dos garotos. Eu também conversava super no particular
com a Lily. Apesar de Sarah ser uma parte de nós, a ligação minha
e da Lily era surreal de extraordinária.
Nesse momento, eu estava jogada no chão da minha sala,
encarando o teto e pensando se eu realmente estava a fim de ir até
a casa da Thomas ou se eu poderia inventar uma desculpa perfeita
para apenas tomar um banho e dormir. — A vida em uma
universidade não era fácil, mas a vida de um trabalhador onde eu
tinha que cumprir horário e não poderia faltar ou ir embora mais
cedo iria me matar! Eu já podia sentir que a morte estava finalmente
se aproximando.
Peguei meu celular e abri na conversa da minha melhor
amiga, se fosse necessário implorar para me deixarem dormir, eu
imploraria.
Eu: Preciso dormir.

Eu: Por favor, me deixe ficar em casa!


Lily: NEM PENSE NISSO KATELYN ANNIE CAMPBELL!
Eu: Por favoooooooooooooooor
Lily: VOCÊ NÃO PODE ME DEIXAR SOZINHA COM O
THOMAS!
Eu: Sozinha é um exagero, Lily! Sarah, Chris e Mingus
estarão lá.
Lily: Sarah e Chris vão ficar de chameguinho o tempo todo
e o Mingus não vai me apoiar quando o Thomas soltar as
preciosidades dele, eu PRECISO DE VC!
Eu: Meu sono está desregulado, estou com olheiras, com o
cabelo todo zoado e jogada no chão
Lily: Preciso de você. Preciso de você. Preciso de você.
Eu: Olá, aqui é a inteligência artificial e estou lhe enviando
mensagem para dizer que sua melhor amiga acabou de falecer.
Portanto, ela não conseguirá sair de casa hoje à noite.
Lily: Olá Soraya, diga para a minha melhor
amiga (não morta) que eu estarei esperando por ela na casa
do Thomas.
Eu: Soraya?
Lily: Eu jamais falaria “inteligência artificial” então peguei
qualquer nome para nomear a sua. O nome Soraya daria em uma
boa vilã de novela. A IA do meu celular se chama Pétala.
Eu: Tchau, Lily.
Lily : Te espero! Vamos às 20 horas, tá?
Eu: Tchau, Lily.
Lily: AMO VOCÊ

É claro que nesse momento eu estava sentada no sofá da


casa do Thomas segurando um pedaço de pizza de calabresa e
rindo de todas as baboseiras que eles falavam. — Eu amava estar
ao redor deles. Mesmo cansada, exausta e desejando a minha
cama, estar ao lado deles era o meu ponto de paz e felicidade.
— Deveríamos ter pedido as duas pizzas de calabresa. —
reclama Sarah. — Sempre acaba primeiro por ser a melhor do
universo.
— Para de reclamar Sarah. — Mingus diz jogando uma
almofada nela. — Poderíamos jogar, né?
Ao modo que a pergunta ou afirmação saiu da boca do loiro,
os três se levantaram na hora para se preparem para o jogo
sentando-se no chão e, eu e as meninas nos acolhemos no sofá
para poder fofocar.
Contei a elas sobre o estagiário da empresa, que tem me
ajudado muito e que por incrível que pareça, mesmo sendo um
estagiário é respeitado por todos e faz os seus próprios horários.
— Ele é bonito? — Lily perguntou. — Por alguma razão eu
sinto que ele é bonito, porque você está focando muito nisso aí.
— Quem é bonito? — Mingus olhou para nós.
— Atenção na tela, atenção na tela! — Thomas berrou.
— De costas pra TV eu ainda jogo melhor que vocês! —
bufou virando-se para a frente novamente. — Quem é bonito?
— Preste atenção no seu jogo e não na nossa conversa,
Carter! — falei.
— E ai? É bonito? — Sarah perguntou rindo. — Sinto que
você está desconversando.
— Ele é normal. — dei de ombros.
— Defina normal.
— Moreno, olhos verdes, alto, simpático. Normal.
Lily e Sarah começam a rir e cochichar entre elas.
— Não comece. — Dou um leve tapa no ombro de cada
uma. — Ele é apenas o estagiário que está me ajudando. Como eu
ainda fico muito nervosa na presença do meu chefe, ele acaba me
auxiliando nas informações que preciso passar.
— É assim que começa. Pequenas ajudas e gestos gentis.
— Lily sorriu vitoriosamente quando viu o desconforto de Mingus e
apontou ligeiramente escondido para que eu também visse.
Suas costas estavam mais curvadas do que o normal.
— Vejo que logo aumentaremos nosso ciclo de amigos. —
Sarah zomba. — Precisamos arrumar um novo controle para o
videogame, porque logo logo teremos quatro jogando.
— O time está fechado e não será aberto por ninguém. — O
loiro respondeu endireitando suas costas. — Não é, Thomas?
— Se você conseguir salvar essa partida que você mesmo
tá estragando por estar nervoso pelo papo delas, eu prometo que
ninguém além de nós toca nesses controles.
— Missão dada é missão cumprida. — respondeu rindo.
— Incrível o ciúmes que o Mingus tem da Katelyn para no
fim dizer que não sente nada por ela. — Lily disse e eu a chutei. —
Ok, parei.
Ótimo. — pensei. Eu sei que um dia eu realmente irei seguir
em frente, eu realmente conseguirei o deixar para trás e irei me
envolver com uma nova pessoa, mas por enquanto isso está longe
de acontecer, especialmente com um colega de trabalho. Até eu me
curar de tudo o que sinto pelo Mingus, eu ficarei na minha e não
provocá-lo é a melhor opção, porque quando seu ego é afetado, ele
tenta me afetar de volta e isso consiste em muitas noites de choro e,
chorar por ele outra vez, é algo que eu realmente não quero.
— O ciúmes não é da Katelyn e sim do videogame. —
respondeu ele. — E, como ganhei essa partida, ninguém irá tocar
nesses controles.
“Vitória” aparecia grande na tela. Christopher e Thomas
sorriam para a tela e Mingus continuava me encarando. — Seu ego
havia sido afetado? Eu iria receber o troco? As confusões me
matavam.

Após longas partidas, longas bebidas e muita pizza, Sarah


estava quase dormindo no sofá e o Chris decidiu que iriam embora.
Ele iria dar carona para Lily, que era seu caminho e como eu ainda
estava sem carro, perguntei se ele poderia me levar.
— Claro. — respondeu.
— Eu levo a Katelyn. — Mingus apareceu atrás de nós. Sua
voz estava mais grossa do que o normal e ele carregava um saco
de lixo em suas mãos. Eu encarei aquilo sem entender. — Vou tirar
o lixo para o Thomas. — explicou. — Pode deixar que eu levo a
Katelyn, é caminho para mim de qualquer forma.
Lily me olhou aguardando minha resposta sobre isso e
apenas com o olhar eu a tranquilizei. Eu iria com ele. — Chris pegou
Sarah no sofá e os três saíram ao se despedirem de Thomas.
— Você está bem para dirigir? — Thommy perguntou ao
loiro.
— Estou. — assentiu cumprimentando o amigo. — Eu
jamais colocaria a vida dela em risco.
Ambos olharam para mim. Eu estremeci.
— Vamos? — perguntei tentando não ficar ainda mais
constrangida.
— Vamos.
Mingus o abraçou e depois foi a minha vez. — “Não o deixe
falar besteiras” — Foi o que Thomas cochichou em meu ouvido.
Ele estava certo. Entramos no carro, ele colocou sua playlist
e de imediato me perguntou de quem estávamos falando mais cedo
e claro que, eu rebati com uma linda provocação.
— Tá com ciúmes?
— Não posso?
Eu o encarei séria. — Não pode? Não pode o que? Ele
estava com ciúmes?
— Você assume que está com ciúmes?
Seu riso sarcástico se fez presente.
— Do que eu teria ciúmes, Katelyn? — perguntou. E ali
estava. Bem nessa cena e nesse riso sarcástico eu pude sentir seu
ego ferido tentando me ferir. — Se não há nada entre nós, não há
motivos para eu ter ciúmes.
— Concordo. Se não há nada entre nós, não há motivos
para que eu te dê explicações.
E lá estava, o meu coração ferido tentando ferir o seu ego.
Ele riu novamente.
— É o estagiário do seu trabalho? — perguntou.
— Me surpreendo que você tenha vencido o jogo se estava
prestando tanta atenção na minha conversa com as meninas. —
dou de ombros. — E sim, é o estagiário que está me ajudando nesta
semana.
— E como está no trabalho? — perguntou. — Está dando
tudo certo?
Olhei desconfiada. Pensei que talvez ele quisesse descobrir
mais do estagiário, mas dessa vez ele realmente estava me
perguntando para saber.
— Está dando tudo certo, mas eu ainda não consigo
conversar com o meu chefe sem gaguejar. — contei. — É
complicado, na faculdade e nos cursos você não é preparada para
ficar a frente de uma mesa rodeada de cargos superiores ao seu
para expor suas ideias e ouvir muitas vezes rejeição.

— Por quê você pensa que suas ideias seriam rejeitadas? —


perguntou abaixando o volume do rádio.
— Sei lá. — dou de ombros. — Eu sou nova nisso, não será
todas as ideias que serão aceitas.
— Concordo. — respondeu. — Nem todas as ideias serão
aceitas, mas você pode sempre aprimorá-las e fazer com que sejam
aceitas. A faculdade e os cursos podem não ter te preparado para
ficar na frente de uma mesa rodeada de cargos de superiores, mas
o seu dom, seu esforço e sua força de vontade, te fez conquistar
esse trabalho e isso já é motivo o suficiente para você se orgulhar
de onde chegou e reconhecer que tem capacidade para estar na
frente deles em reuniões expondo suas ideias e aceitando
sugestões para melhorá-las até aperfeiçoar tudo.
Um riso escapou dos meus lábios. Lá estava eu, outra vez,
me apaixonando por Mingus Carter. Lá estava eu, outra vez,
ouvindo conselhos sábios de quem tinha uma péssima reputação.
— Como pode ser assim? Tão bom pra mim, e tão ruim ao mesmo
tempo? Tão bom para mim, e tão ruim para si mesmo?
— Por que você está rindo?
— Você realmente sempre me surpreende. — falei.
— De um modo bom?
— Depende do dia. — dou de ombros.
— Hoje?
— De um modo bom. — sorri. — Acho que na próxima
semana irei cobrir alguma história e fazer um rascunho de
publicação.
— Tem ideia do que seja? Qual notícia?
— Provavelmente a mais chata possível. — dei de ombros.
— Algo que terá dois leitores, eu e a Lily.
— Três é garantido. — respondeu. — E eu posso convencer
uns vinte malucos a acessarem a página.
Soltei um riso.
— Mesmo se for sobre algo chato?
— Nada que envolve você é chato o suficiente para que eu
não pare para ver ou ler. — respondeu me encarando.
Ele já havia estacionado na frente do meu prédio. Tirei o
cinto o encarando. Ele estava falando sério.
— Nem mesmo se eu soltar notícias sobre briga de
vizinhos?
— Gosto de fofoca.
— Gatos abandonados?
— Eu procuraria um lar para eles.
— Moda?
— Eu aprenderia a me vestir melhor, embora eu já seja
incrível. — Rimos. — Eu disse, nada que envolve você é chato o
suficiente para mim.
— Taylor Swift?
— Eu já a escuto mesmo. — deu de ombros. — Nada,
Katelyn.
— Os melhores sorvetes da cidade?
— Gosto de aprender.
— Edward Cullen é o melhor vampiro da história do
universo.
— Ok. — soltou um suspiro de derrota. — Esse eu iria pular,
mas pagaria para pessoas lerem.
Caí na gargalhada.
— Obrigada. — olhei em seus olhos. Eu realmente estava
grata. — Pela carona, pela noite, pelos conselhos e por acreditar em
mim.
— Você se lembra, certo? — perguntou olhando em meus
olhos. — Eu sempre vou acreditar em você também.
Capítulo 08
Flashback
(Na formatura)
Katelyn
— Helena realmente não virá?
Thomas se sentou ao meu lado por um breve momento
enquanto ainda não havia de fato começado a cerimônia e ele
estava tão transtornado e bravo quanto eu. Era a nossa formatura
do ensino médio, estávamos prestes a sair do colégio para encarar
a vida real e nenhum parente do Mingus estava ali.
Minha avó e um tio (irmão da minha mãe) estavam ali por
mim, os pais de Thomas estavam ali por ele, a mãe da Lily e seu
primo, os pais de Sarah e os pais de Christopher. Na verdade, toda
a turma tinha alguém sentado esperando para gritar na hora em que
o nome do seu amado familiar fosse chamado, toda a turma tinha
alguém que iria se levantar para receber a rosa como homenagem
deste ciclo encerrado, toda a turma tinha alguém com quem iria
dançar a primeira valsa quando o baile começasse, toda turma tinha
alguém para se emocionar e chorar por mais um ciclo encerrado na
vida de quem ama, exceto o Mingus. — Meu coração se partiu por
ele. Lágrimas até estragaram minha maquiagem quando ele me
disse baixinho “era por isso que eu não queria participar” e eu
pensei que talvez tivesse cometido um erro ao fazê-lo participar da
cerimônia porque embora eu quisesse que ele estivesse com todos
nós nesse momento, embora eu pensasse que ele ficaria feliz, foi
apenas mais um dia em que ele se sentiu solitário.
— Eu a odeio, Thomas. — disse. — Eu a odeio como nunca
odiei ninguém.
— Meu pai se levantará para receber a rosa dele. — disse.
— Na minha vez, minha mãe se levanta. Mingus é como se fosse
realmente um filho para eles, isso não será problema.
— Ótimo. — sorri com dor. — E eu dançarei com ele.
— Tem certeza?
— Meu pai não virá, como vocês sabem. — Sou indiferente
a isso. — Então eu irei me desculpar com o meu tio e dizer que
dançarei com o Mingus.
— Eu posso pedir a minha mãe…
— E você? — pergunt ei e ele se cal ou . — Eu dançarei
com ele.
— É uma pena a Helena perder tudo isso. — diz sem
ânimo. — É uma pena que o Mingus se sinta tão solitário.
— É uma droga tudo isso. — dou de ombros. — Mas
estamos aqui.
— Sempre.
— Oi gente. — Lily se aproxima. — Sarah, Christopher e eu
conversamos com nossos pais, eles vão gritar bastante na vez de
todos e especialmente na vez de Mingus.
— Obrigada, Li. — disse Thomas. — Nós somos a família
dele.
— Sempre. — ela concorda.
— Vou falar com meu tio e minha avó. — Encontro vocês lá
em cima.
— Combinado. — assentiu Thomas.
Andei rapidamente até onde minha avó e meu tio estavam e
me agachei ao lado dela.
— Grite bastante quando for a vez de Mingus, certo? —
falei.
— Pobre garoto! — passou as mãos em meu cabelo e seu
olhar gentil transmitia tristeza. — Seus pais não vieram outra vez?
— Você sabe como é, vovó.
Elizabeth era minha avó, mas acima de tudo, ela era minha
melhor amiga. Eu nunca havia contado com todas as letras o
tamanho amor que sentia por Mingus, embora ela já tivesse me dito
várias vezes sobre entender e compreender o sentimento que eu
sentia por ele, eu sempre brincava que era passageiro e infantil.
— Fique ao lado desta criança, certo? — disse. — Sei que
você também é uma criança machucada pelo seu pai, mas este
menino Mingus não tem amor algum em sua vida e você tem a mim,
então ensine a ele o que aprendeu comigo.
— Eu tentarei. — murmurei me envolvendo em um leve
abraço com ela. — Mas a senhora sabe como ele é teimoso.
— Alguém que nunca conheceu o amor não costuma aceitá-
lo de imediato, minha querida. — disse afastando-se do abraço para
olhar em meus olhos. — Por tudo o que você já me contou e por
tudo o que já ouvi e vi, este garoto nunca se sentiu amado e deve
ser o inferno para ele aceitar que alguém no mundo possa
verdadeiramente o amar, já que nem seus pais fizeram isso.
— Não ter o amor de quem supostamente mais deveria nos
amar, é horrível mesmo.
— Você sabe disso, certo? — eu assenti com lágrimas nos
olhos. — Mas sua mãe te amou incondicionalmente desde que
soube da sua existência, mesmo não se lembrando dela, você se
lembra e sabe o quanto foi amada por ela.
— Sim.
— E eu te amo com toda a minha alma e você pode sentir
isso, não pode?
— Posso.
— E este menino? Quem ele tem?
— Thomas. — falo. — Ele tem o Thomas, Lily, Sarah,
Christopher e eu.
— Então mostrem a ele isto. — limpou as lágrimas que
desciam de meu rosto. — Este garoto nunca teve lar, mas você
pode ensiná-lo que um lar não é o mesmo que uma moradia e sim
onde está o coração dele.
— Eu gostaria que ele tivesse uma Elizabeth na vida dele.
— sorri. — Ele com certeza seria mais feliz.
— Graças a Deus ele tem uma Katelyn. — sorriu de volta.
— Eu gritarei quando chamarem o seu nome e gritarei quando
chamarem o dele, mas por favor, minha querida, não se esqueça
que um coração partido pode quebrar um outro coração.
— Eu sei.
— Não te digo para não se importar ou não o amar, vendo
seus olhos a essa altura do campeonato, seu coração é mais dele
do que de você mesma, mas no primeiro sinal de que seu coração
será estilhaçado por ele, eu não o aceito. Certo?
— Certo. — murmurei. — Não permitirei que meu coração
seja estilhaçado.
— Filha, este menino merece todo o amor do mundo por
nunca tê-lo sentido, mas se ele não te amar de volta, se ele não
fizer você sentir todo o amor do mundo que você também merece,
ele não vale a pena.
— Eu sei. — respiro fundo.
— Ele vale a pena, Katelyn?
Vovó provavelmente já me viu chorando algumas vezes por
ele, mas meu coração não estava estilhaçado, então talvez, neste
momento… Ele valesse a pena.
— Sim.
— Minha menina. — ajeitou meu cabelo. — A bondade em
seu coração é o que mais admiro. Sua forma de amar me encanta.
Obrigada por existir.
— Obrigada você, por existir. — sorri. — Você pode, por
favor, dizer ao tio que eu não dançarei com ele?
Ela riu. — Embora Elizabeth soubesse que hora ou outra
meu coração seria quebrado pelo “menino Mingus” — como ela o
chamava — ela também estava ciente de que naquele momento,
com dezessete anos e uma alma ferida, ele valia a pena.
Claro que, por ser minha avó, ela sempre iria tender mais
para o meu lado e me dar conselhos para abandonar tudo se ficasse
difícil demais, mas ela podia ver que ele era apenas uma criança
machucada, uma criança que eu seria se não tivesse ela em minha
vida.
— Irá dançar com ele? — perguntou e apenas na forma que
a olhei, ela entendeu. — Que seja uma dança linda.

Quando o nome de Mingus foi chamado para receber o


diploma as vozes do ginásio do colégio ecoaram e eu agradeci
mentalmente a todos por isso. — Ele levou a rosa para o homem
que se levantou em sua vez, não era John Carter, não era nenhum
laço sanguíneo, mas era o homem que o acolheu na sua casa
desde pequeno, era o homem quem o ensinou a jogar futebol, era o
homem quem o levou no hospital quando teve apendicite aos dez
anos e, era o pai do seu melhor amigo.
O abraço que o senhor Richards deu nele, era sincero. Era
como se fossem realmente pai e filho e o loiro sorriu ao abraçá-lo,
mas ao fazer o caminho de volta ao seu banco, de costas para as
câmeras e para o público, pude ver seu triste olhar, pude ver sua
mão direita limpar uma lágrima que insistia em se fazer presente. —
Mingus poderia amar os pais de Thomas como eu acreditava que
amava, mas eles não eram seus pais e tudo o que aquela alma
desejava era o abraço que ele nunca havia sentido de seu pai.
Com o último formando da turma retornando ao seu lugar,
fizemos os encerramentos e já nos direcionamos à pista para
darmos início a valsa.
— Senhores e senhores, agora daremos início a abertura da
pista, iniciando com a valsa dos formandos e seus pais e ou
responsáveis. — o locutor falou.
Meu olhar foi até o Mingus, que estava tentando se retirar
de fininho do local e eu fui imediatamente até ele.
— Dance comigo. — falei.
Ele me olhou assustado. — Acho que não imaginou que
alguém estaria o acompanhando com o olhar quando tentou sair da
pista.
— Tá doida? — tentou rir sarcasticamente.
— Meu tio está com o pé machucado e eu gostaria mesmo
de dançar. — menti.
Seus olhos definitivamente procuraram onde meu tio e
minha avó estavam. — graças a Deus ambos estavam sentados.
— Vou mesmo ter que quebrar essa pra você? — perguntou
em tom de brincadeira.
— Por favor.
Ele estendeu a mão para mim.
— Vamos?
Coloquei minha mão em cima da sua e ele me conduziu até
a pista. — Lá estava eu, no meu vestido azul e saltos altos
dançando com o Mingus de smoking preto na pista de danças feita
no meio do ginásio do colégio.
Ele conduzia a dança, a mão esquerda em minha cintura e
a direita em minha mão, mas ele ainda não havia olhado em meus
olhos, talvez porque seus olhos azuis estavam tristes e ele não
queria que ninguém soubesse disso.
— Mingus? — murmurei. Ele focou sua atenção em mim,
mas não me olhou nos olhos. — Você está bem?
— Incrível, e você?
— Mingus. — apertei sua mão.
— Hoje é só mais um dia insignificante em que eles não
estiveram presentes. — deu de ombros. — Nada novo.
— Eu sinto muito. De verdade.
— Não sinta. — respondeu de imediato. — Está tudo bem,
eu estou bem. Estou acostumado com eles não estando presentes
em nada. — suspirou. — Lembra da formatura do ensino
fundamental? Não estavam também.
— E é exatamente por isso que eu sinto muito. — respondi.
— Você não deveria estar acostumado com isso e sinceramente se
existe alguém no mundo que se eu pudesse socar, definitivamente
seria seus pais.
Ele deixou um pequeno riso sair de seus lábios e finalmente
após quase a dança inteira sem me olhar nos olhos, desta vez
olhou.
— Obrigado. — disse me olhando nos olhos e colando mais
os nossos corpos.
— Por escolher seus pais para socar?
— Não. — riu fraco. — Por estar dançando comigo.
— Ah! — suspirei dando de ombros. — Meu tio machucou o
pé e…
— Katelyn. — me interrompeu ainda me olhando nos olhos.
— Sabe que em momento algum acreditei nisso, né?
— Não?
A música acabou. — Todos estavam se abraçando e outra
música lenta começou. Alguns saíram do abraço e voltaram a
dançar, outros saíram da pista e foram se sentar. — Nós estávamos
parados na pista de dança, sua mão esquerda ainda estava em
minha cintura e ainda estávamos com a outra mão entrelaçada
como se estivéssemos dançando, mas nossos corpos estavam
parados. O loiro me olhava. Ele verdadeiramente me olhava nos
olhos como se enxergasse além do que poderia ser visto ali, como
se enxergasse o amor que eu sentia por ele e eu o olhava
enxergando o amor que ele sentia por mim naquele momento.
— Obrigado. — murmurou e me puxou para um abraço. Sua
mão esquerda se manteve firme em minha cintura e sua mão direita
rapidamente passou por lá, mas em seguida ele a levou até a minha
cabeça, acariciando meus cabelos. — Obrigado por ter me
escolhido. Obrigado por ter acreditado em mim. Obrigado por ser
minha amiga. Obrigado por confiar em mim e principalmente
obrigado por não ter desistido de mim.
— Mingus…
— Katelyn. — me interrompeu. — Você é o ser humano com
o coração mais bondoso e a alma mais linda que já conheci nessa
vida. — suspirou me afastando do abraço e ficamos frente a frente.
Gentilmente ele passou sua mão em meu rosto. — Eu sei que sou
todo ferrado, sei que minha reputação não é das melhores e que
enquanto você foi aceita em cinco faculdades por puro mérito e
esforço e eu só fui aceita em uma por conta de quem é os meus
pais, a diferença entre nós dois é gritante e eu jamais seria
minimamente certo para você em qualquer circunstância dessa
vida, mas mesmo assim, mesmo eu sendo péssimo, você continua
me escolhendo e eu só posso te agradecer por isso, por tudo, e
dizer que embora eu seja uma pessoa horrível, eu sempre,
verdadeiramente, tentarei ser bom para você.
— Você não é uma pessoa horrível. — afirmei. —
Desconheço alma mais linda que a sua e não, não tente ir contra o
que eu digo. — O interrompi de me interromper. — Eu sinto isso
sobre você. — continuei. — Seus pais são péssimos pais, mas
você não é uma péssima pessoa e você não está sozinho. Você tem
a mim. Você tem o Thomas, Lily, Sarah e Chris. Você tem todos nós
ao seu lado pra sempre. Nunca se esqueça disso. Eu sempre vou
acreditar em você.
— Eu sempre vou acreditar em você também.
Capítulo 09
Katelyn
O tempo estava passando rápido demais, já havia se
passado um mês.
— Sexta-feira finalmente! Quem topa sairmos daqui e
passamos em algum barzinho?
William, responsável pelas notícias e fotografias de esporte
do site e revista sugeriu um happy hour ao sairmos do trabalho, mas
hoje era realmente um dia muito importante em que eu tinha que
passar com meus amigos e fui basicamente a única do trabalho a se
negar ir com eles, mas jurei que em uma próxima eu iria.
Ty — o estagiário que me ajudou nas minhas primeiras
semanas aqui, que na verdade não era um simples estagiário,
porque eu descobri que ele é o filho do dono da empresa na
semana passada — me enviou mensagens me criticando por não
ter aceitado sair com eles, mas hoje realmente era um dia em que
eu não gostaria de fazer nada, mas que também concordei em estar
com meus amigos.
Ty empresa: Sério que você não vai?
Ty empresa: Vamos só um pouquinho, depois você
encontra seus amigos
Ty empresa: Vai vai vai
Eu: Hoje não vai rolar Ty, mas prometo ir na próxima vez.
Ty empresa: Você sabe que eu vou cobrar por essa
promessa né?
Eu: Pode cobrar! Prometo que na próxima vou.

Nesse mês que passou, acabei me aproximando mais dele


no trabalho. Eu fiz minha primeira reportagem de notícias —
totalmente irrelevante, foi sobre um vereador da cidade andar nos
parques da cidade de bicicleta. — Confesso que senti vergonha em
escrever um artigo sobre isso e principalmente em fotografar este
fato, mas é aquele famoso ditado, manda quem pode e obedece
quem precisa de um salário ou quem tem juízo.
Quando saiu que este seria o meu primeiro tema — e único
até hoje — eu me frustrei demais e o Ty acabou me ajudando com
algumas coisas. Na semana passada, eu desabafei com ele dizendo
que eu não aguentava mais ir trabalhar apenas para ajudar os
outros a corrigirem suas matérias incríveis e ajudar nas edições de
fotografias e inexplicavelmente ganhei uma matéria bacana para
cobrir e entregar daqui a duas semanas. — A matéria é sobre uma
grande universidade da cidade. Eles querem abordar os melhores
cursos, os melhores já graduados da universidade com suas
especificações e trabalhos, abordar a estrutura dos prédios e ao
mesmo tempo incentivar os vestibulares. — Confesso estar ansiosa
para isso.
Foi através desse novo tema que ganhei, que acabei
descobrindo que o Ty é o filho do dono. Eu fui contar a ele toda feliz
que após uma breve (grande) reclamação com ele o universo havia
me escutado e que eu tinha ganhado a minha segunda matéria e
que era uma matéria boa, em que ele acabou soltando uma risada
sincera e dizendo “então o meu pai me ouviu? Que bom!” —
Confesso que eu fiquei pasma e travei, mas após muito surto com
minhas amigas e muitos “pare com isso” dele, venho me
acostumando com a ideia e ele segue sendo a pessoa mais próxima
do trabalho que tenho, um verdadeiro colega de trabalho, que até
sobre meme e fofocas de famosos conversamos e rimos.

— Obrigada e boa noite. — agradeci o uber e desci do


carro.
Estava em frente a casa de Lily, combinamos de nos
encontrarmos aqui hoje para comemorarmos algo que eu nem
sequer gostaria que tivesse comemoração, mas que eles fizeram
questão. — Vejo o carro do Mingus e o de Thomas estacionados
aqui na frente, provavelmente Chris e Sarah vieram com o Thomas
por suas casas serem próximas. Eu decidi vir de uber porque com
certeza irei beber e depois pego carona ou outro uber para ir
embora, mas quando decido beber mais do que três — meu curto
limite — latinhas, opto por não dirigir. Ainda mais agora que meu
carro saiu do mecânico e estava impecável.
— Parabéns! — escuto os gritos em uníssono assim que
pisei na grama do quintal.
Escuto também o estouro de confetes, dois barulhos de
estouro. — Eu havia dito que não queria comemorar meu
aniversário esse ano, mas todos insistiram e após concordar disse
que não queria decorações, mas cá está a casa de Lily com balões
e uma mesa cheia de doces e um lindo bolo azul de estrelas.
— Gente. — digo me aproximando envergonhada. — Eu
disse que não precisava.
Lily veio até mim e me abraçou.
— Feliz aniversário. — disse. — Eu te amo e te desejo tudo
de melhor nesse universo. Que tudo o que desejas, se realizem. Tua
felicidade, é a minha felicidade.
— Eu te amo. — sorri.
Após a Lily, a nossa mascotezinha veio me abraçar.
— Feliz vida! Te amo, te amo. Que você seja muito feliz.
— Te amo! — respondi correspondendo o abraço.
— Feliz aniversário, Kat. — Christopher me abraçou. —
Tudo de bom.
— Obrigada Chris. — sorri.
— Feliz aniversário, coisa linda! — disse Thomas me
levantando pra cima e rodando. — Que todos os seus desejos se
tornem reais e que você seja imensamente feliz.
— Obrigada Thommy. — respondi quando ele me colocou
no chão.
Meu coração acelerou no exato momento em que vi Mingus
jogando no chão o tubo de confete que segurava e caminhando em
passos não tão lentos em minha direção. — Ele foi o primeiro a me
abraçar antes de dizer qualquer coisa. Seu toque arrepiou minha
pele porque ao mesmo tempo em que foi delicado também foi firme.
— Feliz aniversário, Kitkat. — sussurrou. — Eu te desejo as
melhores coisas que possam vir a existir nesse universo, eu desejo
que você possa contemplar muitas luas, noites estreladas,
contemplar o pôr do sol, o nascer do sol, dias nublados e dias
ensolarados. — afastou-se para me encarar nos olhos. — Desejo
que você se lembre que sempre há um sol a ser contemplado, uma
noite estrelada a ser admirada e que você nunca se esqueça que
depois de toda tempestade o arco-íris sempre chega. — se afastou
por completo, mas ainda sem tirar os olhos dos meus. Ele suspirou
fundo. Eu também. Se aproximou novamente. Eu gelei. — Eu te
desejo a porra do mundo inteiro, Katelyn. Feliz aniversário. Seja
feliz.
Um beijo na testa. — Um beijo testa e lágrimas que segurei
para não cair. — Esse momento foi especial. Todos os momentos
com ele eram especiais e eu o odiava por fazer isso.

Comemos, choramos, rimos, jogamos, cantamos parabéns,


bebemos, cantamos no karaokê e foi um bom momento. Não, na
verdade, foi um momento incrível. — Agora estávamos todos
sentados em volta da piscina com nossas bebidas admirando o céu
e sua grandiosidade. Com certeza cada um tinha um pensamento
nesse momento e o meu era unicamente sobre a Elizabeth, sobre
como eu gostaria que ela estivesse aqui, porque para hoje ser
perfeito, só faltou ela.
Desviei meu olhar do céu e notei que Mingus estava me
olhando. — Ele me conhecia tão bem. — Não foram nem cinco
minutos para ele estar sentado colado a mim.
— Eu tenho certeza que ela está muito orgulhosa de você.
— disse.
E essas dez palavras foram o suficiente para fazer meus
olhos se encherem de lágrimas.
— Desculpe, não quis te deixar assim.
— Não peça desculpas, você falou o que eu mais desejava
ouvir hoje.
O silêncio se instalou entre nós. — Na verdade, todos
estavam em silêncio. Chris e Sarah estavam deitados juntos em um
canto, Lily e Thomas um pouco afastados deles e de nós, estavam
sentados juntos e se eles estivessem conversando, estavam falando
baixinho, porque não dava para ouvi-los.
— De todos os dias do ano, o que mais sinto falta dela, é no
meu aniversário. — disse. — Sinto falta de como costumávamos
comemorar.
— Quer me contar sobre?
Eu o olhei nos olhos para verificar se ele realmente estava
interessado em saber ou se havia sugerido por educação, mas seus
olhos pareciam estar sedentos da minha voz, era como se clamasse
para que eu começasse a falar e eu comecei.
— Ela fazia um bolo delicioso de chocolate e me deixava
ajudar a preparar a cobertura. — sorri ao me recordar. — A mesa
sempre era arrumada com muitos doces, todos feitos por ela, é
claro, uma foto da minha mãe costumava ficar também na mesa,
para que eu pudesse senti-la sempre ali, perto de mim. Depois do
parabéns, ela me pedia para dizer três agradecimentos em voz alta,
porque era importante agradecer o que havia acontecido entre
durante um ano de vida e me pedia para pedir por três coisas, era
como se fosse uma troca, gratidão por três coisas e três pedidos
para esse novo ciclo.
— Interessante, nunca havia escutado algo parecido. —
disse realmente envolvido com a história.
— Isso era único, era dela, entende? — disse. — Ela era
única. E após eu finalizar os meus pedidos e finalmente assoprar as
minhas velas, ela dizia todos os anos a mesma frase.
Meus olhos se encheram de lágrimas.
— Qual frase ela dizia, Kitkat?
Eu o olhei com os olhos cheios de lágrimas e ele colocou
sua mão em cima da minha perna, me dando apoio.
— Tudo bem se não quiser falar, eu apenas perguntei
porque…
— “Que você continue com essa alma bondosa como
sempre teve… “ — o interrompi citando a frase que minha avó
sempre dizia. — “Que o amor nunca lhe falte, e que alguém te ame
da maneira que você ama todos ao seu redor. Seja sempre essa
menina. Obrigada por existir.”
— Katelyn, eu…
— Eu realmente sinto falta dela.
Ele me abraçou. E eu chorei.

Após minha mini crise existencial que tenho todos os anos


em meu aniversário, nos levantamos da beira da piscina e entramos
para curtir um pouco mais.
Mais bebida. Mais comida. Mais música.
Eu estava dançando junto das meninas e senti o olhar
malicioso que Carter estava tendo em mim, mas eu também olhava
para ele do mesmo jeito, porque nessa noite, nessa noite eu
realmente queria ser dele outra vez.
— Mingus está me olhando, não está? — murmurei para
Sarah que estava ao meu lado.
— Ele sempre está te olhando.
Não ficávamos há muito tempo. Depois da noite em que ele
me disse que era apenas físico, tudo mudou entre nós. Claro que já
ficamos outras vezes após esse episódio, mas depois disso tudo se
tornou estranho.
Na verdade, tudo começou a mudar após o nosso primeiro
beijo. Sempre tivemos joguinhos um com o outro, especialmente os
jogos de provocação, mas depois que ficamos pela primeira vez, de
pouco a pouco, tudo começou a mudar, mas nada nunca havia sido
tão cruel e complicado como estava sendo nos últimos tempos,
como estava sendo desde que ele me falou que o que rolava entre
nós era apenas algo físico.
A verdade é que tudo isso me revoltou e fez com que eu
mudasse. — Eu não conseguia entender como ele podia dizer que
era apenas físico quando ele me tocava de uma maneira que
ninguém mais tocou? Como ele poderia dizer que é apenas físico
quando me amava e me fazia ser dele de uma maneira que eu não
poderia ser de mais ninguém? Como diabos ele poderia dizer que é
físico, quando seus olhos suplicam pelos meus? — De qualquer
modo, o clima entre nós estava bom nesse momento e eu sei que
minhas mágoas, minhas dúvidas e minha raiva da frase “é apenas
físico” seriam motivos para deixar o clima pesado novamente, e se
tivéssemos uma recaída — como eu gostaria de ter nesse momento
— eu iria trazer tudo de volta a tona, me afastar, o trata mal, tornar o
grupo um saco, porque eu simplesmente ainda não consegui
superá-lo.
— Eu queria a merda de um remember. — deixei escapar
dos meus lábios.
Maldito álcool.
— Katelyn! — Lily que estava ao meu lado me repreendeu
apenas me chamando pelo nome.
— Eu sei que não devo, mas eu realmente queria. —
murmuro.
— Você tem certeza? — perguntou. — Da última vez você
disse que nunca mais se envolveria com ele.
— Eu digo isso desde os dezoito anos. — dou de ombros.
— Uma hora tem que falar pra valer, né?
— Você não nos apoia mais? — pergunto, realmente
sentida com a possibilidade da resposta ser um “não”.
— Não é que eu não apoie… — respondeu, intercalando o
olhar para ele e para mim. — Mas todas as vezes você sai
machucada e ele desesperado atrás de fazer merda para te superar
rápido.
— Você tem um ponto. — dou de ombros. — Ele é um
babaca.
— Não é que ele seja um babaca, é que vocês dois…
— Você está do lado dele? — a interrompi. — Ele é sua
melhor amiga? Ele está fazendo aniversário hoje?
Ela riu e me abraçou.
— Ele é babaca.
— Obrigada. — ri mais do que o esperado. Novamente,
efeito do álcool.
— Quem é babaca? — Perguntou o loiro se aproximando de
nós.
— Oi? — solucei.
E começou. — pensei. — A onda de soluços da Katelyn
quase bêbada porém bem alterada havia dado a largada. Toda vez
que eu bebia mais do que três latinhas e precisava mentir, o soluço
aparecia.
— Eu? — perguntou com aquele maldito sorriso malicioso.
— Claro que não. — solucei. — Por que esse menino tem
que perguntar coisas com esse sorriso no rosto? O que eu fiz pra
merecer isso, universo? É meu aniversário, me dá uma folga dessa
vontade de cometer um erro e recair.
Todos me olhavam incrédulos. Por que estavam me
olhando? Eles podiam ler meu pensamento?
— Queria que essa tentação saísse da minha frente, que
droga. Gostoso. Um erro. Um erro, Katelyn. Se comporta.
Mingus gargalhou.
— Está com vontade de cometer um erro, Kitkat? — ele riu.
— Eu não pensei alto, pensei? Vocês podem ler
pensamentos?
— Katelyn. — Lily segurou minha mão. — Você não estava
pensando, minha amiga.
— Você falou alto. — Sarah diz segurando o riso. —
“Gostoso”
— “Tentação” — Christopher falou rindo.
— Não! — gritei tapando a boca.
— Acho que chega de bebida pra Kat, né? — Thomas disse
se aproximando e tirando o copo da minha mão.
— Thommy. — O olhei. — Eles estão brincando comigo,
né? Eu não pensei nada disso.
— “O que eu fiz para merecer isso, universo?”
Arregalei os olhos e corri para o banheiro mais próximo.

Taquei muita água no rosto, porque embora eu estivesse


consciente e não bêbada — apenas alterada — Eu tinha… O que eu
tinha feito mesmo? Ah! Passado vergonha. Eu pensei alto. Sem
querer. Por culpa do álcool.
— Katelyn, sai desse banheiro. — ouço a voz de Lily atrás
da porta. — Vamos comer bolo. Açúcar tira o álcool do corpo.
— Não quero. — respondi.
— Kitkat, sai do banheiro.
A voz do Mingus.
— Não! Eu moro aqui agora.
Consegui ouvir a sua risada.
— Não ri, idiota. — gritei.
— Kitkat, abra a porta e eu te levo comprar o seu McFlurry.
— Você está tentando me enganar?
— Juro de dedinho.
Capítulo 10
Mingus
Estou estacionado na frente do seu prédio esperando que
ela termine seu McFlurry para ajudá-la subir ao seu apartamento.
— Eu amo sorvete. — disse. — Você quer um pouco?
— Não, obrigado.
Ela parecia feliz e em paz. — Talvez ainda pelo efeito do
álcool, talvez por estar realizada com o sorvete ou, talvez, pelo fato
de ter esquecido que ontem era seu aniversário e que sentia muito a
falta da Elizabeth hoje.
Já era de madrugada, mas ainda havia um grande fluxo de
carros nesta avenida e era apenas o barulho dos carros e da sua
colher raspando o pote do sorvete que eram escutados. Desde que
ela abriu a porta do banheiro e disse “vamos”, do McDonald's até
aqui, o único momento que falou foi agora pouco, dizendo que ama
sorvete e me oferecendo. — Confesso que seu silêncio me
atormentava.
— Você está bem? — pergunto.
Me olhou desconfiada.
— Não estou bêbada. — deu de ombros. — Você sabe que
não estou, certo?
— Certo. — revirei os olhos. Ela estava bêbada sim. — Mas
perguntei se estava bem.
— Estou, ué. — deu de ombros outra vez. — Não estou
bêbada.
— Eu sei, Katelyn. — falei. — Só queria me certificar de que
estava bem.
— Por que?
— O que?
Ela parou de raspar o pote de sorvete e me olhou.
— Te interessa saber se estou bem.
— Porque sim.
— Faria alguma diferença na sua vida se eu estivesse mal?
Você se importaria?
— Você sabe que sim.
— Por que? — repetiu essa maldita pergunta. — Por que
você se importaria? Que diferença faria em sua vida? Por que você
continua interessado se eu estou bem? Por que você continua me
perguntando se eu estou bem?
Permaneci em silêncio. — O que eu poderia dizer? O que
eu deveria dizer? Que é porque somos amigos? Isso seria uma
mentira. Não somos amigos. Eu não queria ser apenas o seu amigo,
mas eu não poderia ser nada além disso.
— Me responde. — Me deu um soco fraco no peito. — Por
que você se importa comigo?
Odiava quando ela bebia. Ela sempre me pedia explicações
que eu não poderia dar.
— Por que você ainda é incrível comigo? Eu já te pedi para
parar de ser incrível, já te pedi para não me comprar sorvete e não
ser legal comigo. Por que você ainda é legal comigo?
— Katelyn…
— Eu não estou bêbada. — disse. — Não me olhe como se
eu estivesse.
— Se você não estivesse bêbada me falaria essas coisas?
— perguntei. — Se você não estivesse bêbada insistiria em
respostas que só vão te magoar?
— Eu te odeio, Mingus. — disse. — Mas eu odeio
especialmente não conseguir odiar você. Não de verdade.
— Eu sei.
— Eu odeio sentir sua falta. Eu odeio sentir falta do seu
toque, do seu beijo, do seu cheiro, do seu corpo no meu. Eu odeio
não ter te superado depois de tantos anos. Eu odeio você não sentir
o mesmo por mim. Eu odeio, odeio, odeio.
Ah, o maldito álcool.
— Tudo bem. — disse. — Tudo bem me odiar.
Katelyn tirou seu cinto.
— Eu não estou bêbada.
— Certo, você não está.
— Eu realmente quero um remember.
Engoli em seco.
— Eu realmente queria sentir seu toque. — se aproximou.
— Katelyn, não faça isso. — Minha voz saiu rouca.
— O que? Você não me deseja? Você não sente
saudades?
— Katelyn… — cocei a garganta. — Que tal eu te levar até
seu apartamento para você dormir?
— Que tal você me levar até o meu apartamento para
aproveitarmos?
— Kat…
— Você realmente não quer?
Nesse momento suas mãos estavam em minha perna.
Subindo e descendo. Tirei meu cinto e me posicionei de lado para
falar sério com ela e tirar suas mãos. Duas vezes eu tentei tirar suas
mãos e falar sério com ela — Mas sua mão foi para o meu peito e
depois para o meu lábio.
— Katelyn, isso realmente não é uma boa ideia…
Ela me beijou. Porra. Ela realmente me beijou. Perdi a
postura de bom moço, perdi meu bom senso. — Puxei sua cintura
contra meu corpo com uma mão e com a outra agarrei seu pescoço.
E dessa vez, eu a beijei.
Eu intensifiquei o beijo que começou calmo e aos poucos se
tornou intenso. Era um beijo desesperado. Desesperado de
saudade. — Ela tocou minha nuca e se afastou brevemente para
respirar, mas nesse breve momento pude ver seus olhos brilhando.
— Voltamos a nos beijar, dessa vez meu corpo foi pra cima do dela,
fazendo-a voltar ao banco do passageiro e eu estar por cima,
beijando-a com toda a saudade que eu senti dos seus lábios, dos
seus toques e de seus beijos.
Katelyn me afastou para respirar. Eu também precisava
respirar. Eu precisava ir embora. Só o beijo já havia sido errado, não
podia prolongar. Ela estava bêbada. Não podia deixar mais nada
acontecer.
— Por favor, vamos lá pra casa. — sussurrou em meu
ouvido. — Meu corpo quer o seu.
Porra, Katelyn. — pensei.
Ajudei ela descer do carro e entrar no elevador. Estava
centrado de que mais nada aconteceria, mas ao entramos no
elevador, ela me agarrou e me deu outro beijo. — Eu retribui. Nos
beijamos no elevador e o caminho todo do corredor até sua casa.
— A senha da porta, Katelyn. — disse a afastando.
— 1909. — respondeu ofegante.
Arqueei a sobrancelha. — Por que sua senha era o meu
aniversário?
Fechei a porta ao entrarmos e ela estava tão próxima que
eu não sei se conseguiria resistir. Segurei seu rosto com as duas
mãos acariciando com cuidado e leveza, ela sorria com os olhinhos
se fechando, estava tão linda. — Acariciei seus lábios entreabertos
e estava pronto para dizer para ela que eu esperaria ela pegar no
sono para ir embora, mas ela fez o meu prazer aumentar e meu
senso partir outra vez ao umedecer seus lábios com a ponta da
língua em um convite silencioso para receber outro beijo. — Me
aproximei e ela respirou profundamente e nós nos beijamos outra
vez. O beijo aconteceu de maneira calma e deliciosa, eu sentia o
sabor do McFlurry e das cervejas que ela havia consumido hoje,
sentia o calor, a doçura e o prazer. Dessa vez, ela intensificou o
beijo, me jogando contra a parede e depois me dando um sinal para
que eu invertesse a posição deixando-a contra a parede. — Assim
fiz. — As mãos dela desenhavam minhas costas em movimentos
delicados, mas o ar se fez necessário e o beijo foi interrompido.
— Vamos para o meu quarto. — disse após morder meu
lábio.
Depositei vários beijinhos no canto de sua boca e também
mordi o seu lábio. Seus olhos estavam fechados, como se ela
estivesse absorvendo todo esse prazer e criando em sua mente as
próximas imagens que aconteceriam em seu quarto.
A peguei no colo, suas pernas se encaixaram na minha
cintura e eu caminhei até seu quarto. — Conhecia bem esse
caminho.
— Kitkat? — a chamei baixinho ao abrir a porta do quarto.
— Sim? — suas mãos estavam ao redor do meu pescoço.
— Vou te colocar no chão agora, está bem? — Ela assinou
e assim eu fiz. — Tudo bem?
— Sim.
— Você está com sono?
— Não, por que?
— Porque acho que você deve dormir agora, Kitkat. —
disse.
— Nós não vamos terminar o que começamos? —
perguntou se aproximando e eu dei um passo para trás. Ela
percebeu. — Você não quer.
Me encarou mudando completamente a sua maneira doce
de olhar, agora me olhava com raiva nos olhos.
— Você não quer, é isso?
— Não é bem assim, Katelyn… — disse.
— Nós vamos transar ou não? — perguntou já sem
paciência.
— Katelyn…
— Sim ou não, Mingus? — me interrompeu. — É só dizer
sim ou não.
— Não, não vamos. — falei ríspido.
— Ok, vá embora. — disse apontando para a porta.
— Katelyn, calma…
— Você não me quer, mas me beijou e….
— Eu quero. — a interrompi. — Porra, tudo o que eu mais
quero é isso. Não existe nada que eu deseje mais do que isso.
— Então porque você disse que não?
— Já foi errado te beijar bêbada, Kitkat. Eu não posso
transar com você assim.
— Eu não estou bêbada.
— Katelyn… Você sabe que está.
— Não estou. — respondeu ríspida. — Você não quer
transar comigo e está inventando desculpas como se eu estivesse
bêbada.
— Katelyn eu te juro que tudo o que eu queria nessa noite
era foder com você, sentir seu corpo e seu toque, mas se eu ceder
aos meus instintos e prazeres, eu nunca me perdoaria. — disse. —
Eu nunca transari a com você bêbada. Eu nunca transaria com
nenhuma garota bêbada, mas especialmente com você.
Ela se jogou na cama.
— Talvez eu esteja um pouco bêbada mesmo.
Eu me aproximei para tirar seus sapatos.
— É? E como você se sente? — perguntei.
— Depois de todo seu sermão me sinto com sono, já
entendi que não vou transar hoje e me arrepender de todo esse
diálogo amanhã.
Eu ri. — Coloquei seus sapatos no chão e a endireitei na
cama, a cobrindo.
— Por que se arrepender? — perguntei.
— Porque eu basicamente deixei claro que queria transar
com você.
— Mas eu também deixei claro que queria transar com
você.
— Mas você é o Mingus Carter, você sempre quer transar
com todo mundo.
— Ei, não é bem assim. — ri. — Você é especial.
— Por que?
Seus olhinhos estavam piscando cada vez mais fortes e sua
voz ficando mais fraca.
— Em. — murmurou. — Por que?
— Porque você é a minha garota favorita.
— Favorita de qual categoria?
— Como assim? — ri da sua pergunta.
— Favorita de onde?
— Da vida. Você é a minha garota favorita.
Ela sorriu com os olhos fechados. — Eu apaguei a luz,
deixando apenas o abajur do móvel ao lado de sua cama acesso.
Me sentei no chão, ao lado de onde ela estava.
Uns cinco minutos se passou em silêncio, até pensei que
ela havia adormecido.
— Mingus. — murmurou com a voz toda embolada de
sono.
— Estou aqui. — respondi.
— Mingus é meu garoto favorito.
Eu ri baixinho.
— Ah, é? — perguntei. — Por que?
Ela se virou na cama se ajeitando — Não tive resposta.

Longas duas horas se passaram e eu ainda estava ali. —


Fiquei com medo que ela passasse mal de madrugada e fiquei duas
horas sentado no chão de seu quarto esperando ela talvez precisar
de mim, mas ela dormiu bem e acredito que não seria agora que iria
acordar para passar mal.
De qualquer modo, me levantei sem fazer barulho, peguei
uma garrafa de água na geladeira e um comprimido para dor de
cabeça e deixei no móvel ao lado da cama, onde também aproveitei
para desligar o abajur. Voltei à sala para ir embora, mas antes
peguei um papel do post it do balcão da cozinha e uma caneta e
deixei um recado colado na geladeira, espero que ela veja ao
acordar.
Antes de ir, fui até seu quarto checar ela só mais uma vez.
— Ainda dormindo. Linda.
— Sinto muito. — murmurei. — Em todos os seus
aniversários a sua avó desejava que o amor lhe encontrasse e que
você fosse amada na mesma intensidade que ama os outros e eu
sinto muito não poder ser essa pessoa. Eu sinto muito não ser digno
do amor. Eu sinto muito não ser digno de alguém como você,
porque se no mundo eu pudesse amar qualquer coisa, se eu
pudesse amar alguém, se eu pudesse ser digno de coisas boas e do
amor, eu escolheria você.
Capítulo 11
Katelyn
— Ai minha cabeça. Dor. Dor. Dor. Água. Quero água.
Taco a mão no móvel ao lado da cama e sinto uma garrafa
de água. Agradeço a Deus por ela e por quem quer que tenha a
deixado aqui.
— Nunca mais beber. — digo. — Vou anotar.
Não sei ao certo quanto tempo fiquei encarando o teto até
criar coragem de levantar para finalmente começar o meu sábado,
mas minha memória só voltou no instante em que eu parei na frente
da geladeira e vi aquele maldito post it.
“Bom dia, raio de sol.
Espero que a ressaca não seja da brava, mas se for, deixei
um analgésico ao lado do seu abajur.
Não se esqueça de almoçar, porque se alimentar bem e
beber bastante água é essencial em momentos assim.
Sim, se você não se lembra eu te trouxe pra casa ontem.
E caso você se lembrar, não fique envergonhada, é difícil
mesmo resistir a tentações né?!? (não me mate, mas eu precisava
te zoar por isso)
Me manda mensagem quando acordar, só para eu ter
certeza de que você está viva.
Se cuida.
Beba água.
Mingus, sua tentação.”

— Nunca. Mais. beber. — pego o post it na mão e volto pro


quarto pegar o celular, me jogando na cama.

Lily: oi
Lily: quando acordar me chama
Lily: oi
Lily: Me conta depois de ontem com o Mingus
Lily: amiga você ainda não acordou?
Eu: bom dia
Eu: Quero morrer
Lily: VOCÊS TRANSARAM?
Eu: Só nos beijamos
Eu: muito
Lily: E como você está?
Eu: com ressaca e ressaca moral
Lily: tadinha da minha amiga
Eu: anota ai
Eu: Nunca mais me deixar beber
Lily: Anotado

Além das mensagens da Lily tinham mensagens dele


também.
Insuportável: Bom dia, raio de sol.
Insuportável: Beba bastante água, se hidrate, tome o
analgésico que deixei no seu quarto e por favor, me manda alguma
coisa quando acordar pra eu saber que tá viva.
Eu: viva
Insuportável: kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Insuportável: Tá bem?
Eu: Tô viva
Insuportável: Quer falar sobre algo de ontem?
Eu: Passo a vez e você?
Insuportável: Posso falar só sobre uma coisa?
Eu: Manda ver
Insuportável: Desculpe ter te beijado quando você estava
bêbada. De verdade, foi irresponsável e horrível da minha parte.
Eu: Tecnicamente eu não estava tão bêbada assim, eu tinha
ciência do que estávamos fazendo e eu quem te beijei primeiro. Não
me peça desculpas por ter me beijado.
Insuportável: Não é pelo fato do beijo em si, mas sim por
você estar bêbada.
Eu: Tá, mas eu tinha ciência do que estávamos fazendo.
Insuportável: De qualquer forma, me perdoa. Se fiz
qualquer coisa contra a sua vontade. Sei que agora que já passou o
momento não justifica nada meus pedidos de desculpas, mas é que
me sinto um bosta por isso.
Eu: Mingus eu estava consciente do que estávamos
fazendo. Eu quem te beijei primeiro. Não é como se você tivesse me
forçado algo ou como se eu não estivesse ciente do que estava
acontecendo, tá? Eu não estava tão bêbada. Eu estava alegre,
alterada, mas não bêbada.
Insuportável:
Eu: Posso despassar a minha vez e dizer algo?
Insuportável: Pode
Eu: Me desculpa ficar insistindo em ter algo com você. Me
desculpa ter te beijado mesmo quando você tinha deixado claro que
não queria nada.
Insuportável: Eu queria. Só não queria nas condições que
você estava.
Eu: Você me entendeu.
Insuportável: Aham.
Eu: E aí? O que a gente faz agora?
Insuportável: Deletar noite passada?
Eu: Sim
Insuportável: Deletando todos os arquivos da memória.
Eu: Deletando todos os arquivos da
memória.
Insuportável: Estamos bem?
Eu: Sim

Não. Não estávamos bem. Eu estava farta desse joguinho


de deletar os arquivos das memórias. Eu havia inventado esse
maldito jogo um ano atrás como desculpa de que eu estava bem
com ignorar o que acontecia entre nós para podermos ser apenas
amigos e a regra essencial para quando houvesse o deletar era que
nunca mais iríamos falar sobre o que foi deletado. — Eu sei,
péssimo jogo. Minha culpa.

O final de semana passou voando e a semana também, e já


era sexta-feira de novo.
Comecei a trabalhar na matéria e confesso que estou
ansiosa e nervosa com meus rascunhos e ideias, mas o Ty está me
dando o maior apoio do mundo e sou grata por ter ele ao meu lado
na empresa.
— Happy hour hoje, bora?
— Oi, Ty. — Acho graça da forma que ele entra todo
esperançoso na sala.
— Bora, bora?
— Não sei não, Ty… — digo. — Eu estou cansada e…
— Na semana passada você não foi conosco, então você
precisa ir hoje. Por favor.
— Mas na semana passada…
— Sem “mas”. — me interrompe. — Você vai sim. Todo
mundo quer que você vá.
— Ok, eu vou. – acabei cedendo porque eu estava ciente
de que eu deveria me enturmar mais com o pessoal do trabalho. —
Mas vou ficar só um pouco, tá?
— Você indo é o suficiente. — sorriu. — Te mando o
endereço por mensagem.
— Combinado.
Ele sorriu vitoriosamente e saiu da sala gritando “Gente, ela
vai” para quem quer que quisesse ouvir. — Confesso que ele
sempre me tira grandes risadas.
Na segunda-feira que passou, quando cheguei aqui eu
estava meio pensativa sobre o que rolou entre eu e Mingus no final
de semana e era nítido em meu rosto a preocupação e confusão
que eu sentia e não passou despercebido para o Ty, que tentou me
animar e até me trouxe chocolates na terça-feira e também na
quarta-feira.
Por fim, além de me ajudar com seu pai, com as matérias,
com o trabalho, ele ainda tentava me animar quando eu estava
preocupada ou triste e, me trazia chocolate. — Eu realmente estava
gostando da sua companhia e amizade. De segunda a sexta nos
falávamos quase o tempo todo e era pura diversão.

— Feliz aniversário atrasado! — falaram em uníssono


enquanto Ty segurava um bolinho em suas mãos com duas velas.
— Faça um pedido. — disse ele se aproximando.
— Como vocês sabiam? — perguntei envergonhada.
Por não gostar muito do meu aniversário, eu nunca comento
a data com ninguém fora os meus amigos e nunca compartilho
publicações em minhas redes sociais.
— Ty viu em seu currículo. — Andrew respondeu. Ele
costumava ser bem próximo do moreno, penso que eram amigos
antes dele começar trabalhar na empresa, porque realmente
aparentavam ter grande intimidade.
— Faça um pedido, Katelyn. — disse o moreno novamente.
Fechei meus olhos e como todos os anos desde quando fiz
treze, repeti o mesmo pedido em meus pensamentos.
“Que quem eu amo seja rodeado de amor e saúde. E que
eu e o Mingus possamos nos acertar de uma vez por todas.”
Assoprei as velas. — Eu nunca tive dois bolos de
aniversário, talvez esse seja o segredo para o pedido se realizar,
porque desde pequena eu nunca consegui me acertar com ele e
peço isso desde que o conheci.
Eu o amei no instante em que o vi. — Sei que é
extremamente clichê dizer isso, mas é a mais pura verdade. Claro
que de imediato não foi o amor que sinto hoje, foi mais uma coisa
infantil de “que gatinho que entrou no colégio” assim como todas se
sentiram sobre ele, mas desde que eu bati meus olhos nos seus, eu
queria que ele fosse meu.
Com o tempo, surgiu o verdadeiro amor. Aquele que eu digo
que é tão bonito e tão doloroso ao mesmo tempo. — Com o passar
dos anos, com o passar das situações vivenciadas juntos, com as
memórias colecionadas, o amor foi se desenvolvendo e se
intensificando. O primeiro abraço, o primeiro beijo, o primeiro toque,
a primeira transa, tudo foi intensificando os meus sentimentos ainda
mais e eu gostaria que amá-lo não fosse tão difícil.
— Katelyn? — A voz de Ty me tirou do transe em meus
pensamentos.
Eu já estava sentada com eles e o garçom estava
esperando eu dizer o que gostaria de beber.
— Um suco de morango, por favor. — disse envergonhada
pela minha falta de atenção.
— Açúcar e gelo?
— Por favor. — sorri.
Assim que o garçom se retirou, as conversas retornaram e
eu estava sorrindo enquanto ouvia duas colegas falarem sobre
maquiagem, porque elas me olhavam como se eu fizesse parte da
conversa também, embora eu não tivesse nada para dizer a elas.
— Ei, Kat. — Ty colocou as mãos em meu braço.
Estávamos sentados lado a lado. — Tenho algo para você.
Ele me entregou uma caixinha preta de jóia e eu arregalei
os olhos na mesma hora.
— Sei que estou uma semana atrasado, mas achei sua cara
e não resisti. — disse. — Feliz aniversário. Acho que você vai
gostar, pelo pouco que notei do seu gosto.
— Ty… Não precisava. — Respondi sem jeito.
Ninguém estava prestando atenção em nós e eu agradeci
mentalmente por isso. Estava ciente de que rolavam burburinhos de
que nossa proximidade era suspeita e eu não gostaria que
houvesse mais motivos para falarem de mim.
Abri a caixa e me surpreendi com a jóia à minha frente. —
Era um colar prata de estrelas, semelhante ao que eu sempre
usava, mas com exceção de que o meu havia apenas uma estrela
de pingente e nesse era como se fosse uma constelação.
— Notei que você sempre usa esse colar de estrela e
imaginei que você gostaria desse. — disse sorrindo.
Deixei minha mão tocar o colar que estava em meu
pescoço. — Ele também tinha sido um presente e ninguém poderia
compreender a importância que esse colar tinha em minha vida.
— Obrigada. — agradeço. — Eu gostei.
— Quer ajuda para trocar os colares?
Não. — pensei. — Eu não vou trocar. Eu não vou tirar o
colar que está em meu pescoço. Por nenhum motivo. Nunca.
— Ou você não quer?
Fiquei desconfortável e com certeza ele notou.
— Eu amei o colar, de verdade. — disse. — Mas este —
toquei novamente na jóia em meu pescoço. — Eu tenho um motivo
de sempre usá-lo.
— Ganhou de alguém importante?
— Sim. — respondi. — Ganhei de alguém importante e
representa alguém importante.
— Entendi. — sorriu. — Sem problemas.
— Katelyn, venha conosco tirar uma foto no banheiro. —
Rafaela (responsável pelo financeiro) me chamou. Eu agradeci tanto
o momento perfeito.
— Claro. — sorri já afastando a cadeira para seguir as
meninas no banheiro. Olhei para Ty como se eu estivesse o
avisando que estava indo com elas por pura educação porque
quebramos o diálogo no meio, mas estava grata por não ter que
explicar ou falar sobre seu presente.
Ganhei esse colar que eu sempre uso exatos um mês após
a partida da minha avó. Eu me lembro de estar em uma imensa
crise existencial no meu apartamento o dia inteiro, sem responder
meus amigos direito e sem ter ido a universidade naquele dia,
realmente um verdadeiro caos, nem meu cabelo eu tinha penteado
e nem tirado o pijama da noite anterior. Me lembro que passei o dia
sem comer, sem fazer nada. Eu tinha ficado deitada o dia inteiro
chorando, chorando e perguntando a quem estivesse disposto a
ouvir se eu sempre sentiria a falta dela dessa maneira, se sempre
iria doer dessa forma e eu estava me sentindo sozinha e desolada,
mas a campainha tocou e eu me recusei a atender de imediato
porque não queria que ninguém me visse dessa maneira e eu
também não queria ver ninguém, mas eu caminhei até a sala e
fiquei alguns metros de distância da porta ouvindo o que ele dizia.
— Era o Mingus.
“Kitkat, abra a porta.” — foi a primeira coisa que ele disse.
“Katelyn, só preciso saber de você está bem”
Aquele dia eu realmente não queria ver ninguém. Nem ele.
“Não vou embora até ver você.”
Ele bateu algumas vezes na porta e eu abafei o choro. —
Eu estava feia, não queria que o Mingus me visse assim. Não ele.
Não o cara que eu mais era a fim.
“Kitkat, eu trouxe um lanchinho, batata frita e o seu sorvete
favorito para você, por favor abra a porta”
Me lembro da sensação. Eu queria abrir, mas também não
queria.
“Eu sinto muito, minha menina.”
Eu também sentia muito.
“Por favor, me deixe estar ao seu lado agora. Por favor, não
fique sozinha em um momento como esse.”
E foi nesse momento em que eu me aproximei da porta
pronta para abri-la, mas suas palavras não pararam por aí.
“Eu prometo que essa dor não vai ser pra sempre, minha
menina. Eu prometo que essa falta absurda que ela está fazendo
será amenizada e você irá se lembrar dos momentos bons e sorrir
com uma doce saudade e não essa saudade que te corrói por
dentro. Eu prometo que vai ficar tudo bem. Katelyn, por favor. Abra
essa porta. Me deixe te abraçar, me deixe estar aqui por você.”
Foi nesse momento que eu o amei ainda mais. Eu não sabia
se era possível amá-lo mais do que o amei nesse momento.
Me lembro de abrir a porta do apartamento e me lembro
também que no exato momento em que nos vimos, ele jogou as
sacolas que tinha nas mãos e me abraçou. — Ali, naquele abraço
eu me acabei de chorar. Ali, naquele abraço, eu me permiti ser frágil
e pequena. Ali, naquele abraço cheio de amor, calor, dor, eu senti
que ele queria que toda dor que eu estava sentindo passasse para
ele, para assim, aliviar o meu coração. Ali, naquele abraço, foi um
encontro de almas. A minha alma ferida, a minha alma machucada e
perdida, encontrou a sua alma perdida e também machucada. Ali,
naquele abraço, nossas almas se encontraram.
Não me recordo em que momento fechamos a porta entre
nós, em que momento nós fomos para o meu quarto e em que
momento eu adormeci em seu colo, mas sei que eu chorei e peguei
no sono com ele acariciando o meu cabelo, e quando acordei — me
recordo que já era de de madrugada. — Ele ainda estava acordado
me observando dormir e disse que tinha algo para mim.
E minha memória desse momento é tão viva que parece
que foi ontem que tudo isso aconteceu. Ele me levou até a sacada e
me pediu para olhar o céu — Logo eu que sempre amei admirar o
céu e suas peculiaridades, estava magoada por ele ter levado a
minha avó. — Mingus me pediu para olhar aquele céu infinito que
tanto amamos e olhar para as estrelas brilhando nele. Ele me
contou uma história. Uma linda história. Uma história sobre como as
pessoas que amamos viram estrelas que seguem nos
acompanhando e cuidando de nós. Me lembro de começar a chorar
outra vez e dele arrancar de seu bolso um colar de prata, com um
único pingente nele, uma estrela.
“Eu poderia te dar uma constelação, porque certamente
você merece as infinitas estrelas existentes nesse céu imenso, mas
eu te entrego essa, ou melhor, eu te devolvo essa. Que você a
carregue sempre com você, e saiba que ela está cuidando de você
e amando você ali de cima. Eu sinto muito que ela tenha partido,
minha menina. Mas ela vive dentro do seu coração e suas
memórias. Elizabeth vive, porque Katelyn vive . Elizabeth era amor.
Katelyn é amor.” — foi o que ele disse.
Atrás do pingente está escrito “Elizabeth vive” porque ela
sempre viverá em mim.
E desde então, eu nunca mais tirei esse colar. E desde
então, desde que nossas almas se conheceram e se tocaram, eu
entendi que nunca mais amaria outra pessoa nessa vida e em
qualquer outra a não ser Mingus Carter. — A minha alma o amou e
não há como amar outra pessoa. Eu pertenço a ele. Desde antes,
mas especialmente após esse dia, eu sou dele. Pra sempre dele.
— Katelyn, gostou das fotos? — Rafaela perguntou
enquanto apontava o celular para meu rosto.
Em todas as fotos eu estou da mesma maneira porque
embora eu estivesse aqui, meus pensamentos foram para outro
lugar, para a pessoa que sempre iam. Mingus.
— Gostei. — digo. — Meninas, tenho que ir embora.
— O que? Por que? — Beatriz, auxiliar do RH me pergunta.
— Preciso mesmo ir. — digo. — Me desculpem e muito
obrigada por hoje.
Saio do banheiro, vou até a mesa e já começo me desculpar
e me despedir de todos. Ty me olha confuso e esperando alguma
explicação, mas como eu explicaria para ele que o seu presente
dessa noite me lembrou que eu pertenço por inteira a outra pessoa
e que preciso vê-lo desesperadamente? — Não se explica.
— Obrigada por hoje. Eu amei. — digo.
Pego a minha comanda que continha apenas um suco de
morango que ficou pela metade e vou até a fila do caixa e enquanto
espero, digito uma mensagem.
Eu: Está na sua casa? Preciso muito falar com você.
Capítulo 12
Mingus
Eu estava bolando meu quarto baseado na noite quando
meu celular recebeu uma mensagem da Katelyn. — Tenho toques
específicos quando se trata dela ou de Thomas. — Eu reconheci o
som da mensagem, mas não deixei de bolar o meu cigarro de
maconha para ver o que ela queria. Ainda não estava tão tarde e ela
provavelmente só queria conversar e hoje, eu verdadeiramente não
queria conversar, especialmente com ela.
Há três horas, Helena, a mulher que me pariu, entrou em
contato comigo para dizer que ia casar. — Confesso que eu
gargalhei durante a ligação quando ela disse que encontrou o amor
da sua vida. Não porque eu acredite nessas paradas, mas sim
porque esse deve ser o seu oitavo amor da vida desse ano. Claro,
após eu gargalhar e dizer “Não, eu passo a vez” sobre o convite
para jantar com ela e seu aparentemente noivo, nós brigamos. O
mesmo de sempre. Nada novo.
“Você é um péssimo filho”, “eu gostaria de não ser sua
mãe”, “eu nunca posso contar com você”, “você é um ser humano
horrível”, “é por isso que você não tem ninguém, porque você não
merece ter alguém sendo tão cruel assim”
Sim, Helena. — penso enquanto reflito sobre as mesmas
frases prontas que escuto desde os dez anos. — Eu realmente sou
cruel, não? Me pergunto com quem aprendi a ser assim.
O novo som eminente no meu celular de notificação não
remete à Katelyn ou Thomas, então eu o pego para verificar após
acender o baseado.
Tyler Collins: Boa meu parceiro. Tá suave?
Tyler era um colega que conheci aos onze anos, por um
grande tempo ele foi o meu drug dealer (traficante), mas acabamos
nos afastando quando algumas coisas feias aconteceram. —
Geralmente nos trombamos em algumas festas que ainda frequento
de vez em quando, mas raramente trocamos mensagens, então
respondo de imediato, pensando que algo pode ter acontecido para
ele me enviar uma mensagem do nada.
Eu: Boa. Tô suave, o que pega?
Tyler Collins: Troquei ideia com o Matthew agora pouco e
ele me disse que esses tempo atrás você colou em uma festa na
casa dele
Tyler Collins: Bora agitar algo, faz um tempão que a gente
não se tromba pra fumar, beber e trocar uma ideia
Eu: Bora. Manda o Matthew agitar algo e me mandar os
detalhes e eu apareço
Tyler Collins: Demorou e pode deixar que eu salvo o rolê
Eu: A da boa?
Tyler Collins: Vai me dizer que você tá só no baseado de
novo?
Eu: Essas outras coisas não são pra mim não
Tyler Collins: Engomadinho. É bom que toda vez que a
gente de junta eu te provo que você tá errado
Eu: Pode crer, marquem aí e a gente vê

Deixei o celular de lado para não responder a Katelyn,


porque eu tinha lido a sua mensagem, mas eu realmente não
poderia lidar com isso, porque meu nervosismo sobre a Helena iria
ser descontado nela e, ela não merecia isso.
Outra coisa que agora estava em minha mente, eram as
mensagens de Tyler. — Eu o conheci aos onze anos no exato
momento em que eu estava sendo expulso de mais um colégio e a
Helena estava na diretoria dizendo ao diretor e aos professores
presentes que odiava me ter como filho e que definitivamente
deveria ter me colocado em um abrigo.
Eu estava do lado de fora da sala, a porta estava
entreaberta, mas sua voz era tão alta que eu conseguia ouvir tudo e
mesmo no momento em que ela saiu da diretoria e percebeu que eu
havia escutado todas as palavras ditas, mesmo nesse momento ela
não se desculpou e apenas disse as malditas palavras que eu mais
odiava na vida “e agora, o que faço com você?” — Eu escutava
essas malditas palavras desde pequeno. Quando ela queria sair e
eu estava ali dependendo dela para viver, ela perguntava o que
deveria fazer comigo. Quando eu ficava doente e ela queria sair,
perguntava o que deveria fazer comigo. Quando era Natal ou a
virada do ano e estava planejando viagens, ela perguntava o que
deveria fazer comigo. — O diretor apareceu e eu me envergonhei.
Não por estar sendo expulso do colégio após socar um aluno na
sala de aula porque ele falou coisas horríveis do meu pai, mas sim
por ele ter escutado tudo o que ouvi. Eu me lembro de sair correndo.
Me lembro que Helena berrava meu nome e outras coisas ruins,
mas quase chegando na divisão do colégio para o campo, ouvi o
diretor dizendo “deixe-o ir, ele escutou tudo o que você disse.” e
entrei no campo com a sensação de que eu nunca mais queria olhar
para a cara daquela mulher.
Me escondi embaixo das escadas. Não queria que ninguém
me encontrasse e certamente não queria voltar para a casa com ela.
Não queria viver. Não dessa maneira. Nunca quis, na verdade. —
Se me recordo bem, foi no meio desse pensamento que Tyler
apareceu e eu nunca me esqueci das suas primeiras palavras para
mim.
“Dia merda?” — Eu fiquei quieto apenas olhando para ele,
porque embora eu fosse terrível como Helena costumava dizer,
nessa época eu ainda costumava ser uma criança amedrontada. —
“Meu nome é Tyler.” — ele continuou. — “Meu dia tem sido uma
merda também. Odeio meu pai.” — E foi essa frase que me
interessou, porque finalmente pensei ter encontrado alguém em
comum. — “Sabe o que me salva em duas assim? Isso aqui. Tome,
experimente.”
E essa foi a primeira vez que eu fumei. — Aos onze anos.
Embaixo da escadaria do campo do colégio que eu havia sido
expulso. Com um desconhecido que eu sabia apenas o nome, mas
que tínhamos sentimentos iguais. Odiávamos os nossos pais.
Após esse dia, mesmo saindo do colégio e iniciando em
outro, eu ainda mantive contato com o Tyler. Passei meu endereço
para ele e todas as tardes ele aparecia em casa para fumarmos. Era
mais fácil em casa, já que Helena nunca estava. Passamos anos
fazendo isso escondido. Fumei o meu primeiro cigarro com ele. A
primeira vez que ingeri álcool também foi com ele. A primeira vez
que fumei um baseado foi ele. E a primeira vez que cheirei cocaína
foi com ele.
Thomas o odiava. Briguei poucas vezes nessa vida com o
meu melhor amigo, mas todas as brigas os motivo envolviam o
Tyler. Há dois anos eu e Thomas tivemos a nossa pior discussão, eu
não me lembro ao certo o que aconteceu porque eu não estava nas
melhores condições, mas eu liguei para ele me buscar e me livrar de
uma furada, mandei a localização e quando ele chegou no local, eu
estava completamente acabado pelo efeito das drogas e bebidas
consumidas naquele dia. Eu não me recordo, mas eu sei que nesse
dia o Thommy me levou para a sua casa, me limpou, me colocou
para dormir e passou a madrugada toda acordado e quando eu
acordei, me fez um café forte e me disse palavras que me fizeram
tremer.
“Você tem que parar com isso. Você tem que parar de
consumir tanta droga e tanto álcool. Você tem que parar de sair com
o merda do Tyler e se meter em furadas. Você tem que parar de
perder a noção. Você pode acabar morto em qualquer beco por aí,
porra!”
Essas não foram as palavras me amedrontaram, porque
nesse momento eu achei que era apenas mais um sermão, mas a
forma leviana que levei essas palavras e respondi sarcasticamente
dizendo “tá, mas e daí se eu morrer?”, o fez chegar no limite e dizer
as reais palavras que eu nunca imaginei que escutaria de Thomas.
“Eu não gosto de você.” — disse. — “Eu não gosto nenhum
pouco de quem você está sendo agora. Eu não te reconheço. Eu
juro que você se parece com o meu melhor amigo, até fala como
ele, mas não é ele. Não pode ser ele. Eu odeio a pessoa que você é
agora. E eu não quero mais contato com você.”
Eu tenho certeza que fiquei pálido nesse momento, porque
eu me lembro da dor que senti ouvindo isso. Dentro de mim, eu
sabia que ele estava tentando me trazer de volta, mas ele era a
única pessoa que me amou e me aceitou desde pequeno, ele era o
único que eu verdadeiramente tinha e escutar isso dele, foi terrível.
“Traz meu melhor amigo de volta, cara.” — ele continuou. —
“Se afasta desse merda do Tyler e volte a ser quem você sempre
foi. Você está acabando comigo, você está sendo péssimo para a
Katelyn, e está sendo horrível consigo mesmo. Eu não aguento mais
permanecer ao seu lado dessa forma. Eu te amo. Você é meu
irmão. Mas se você não mudar a partir de hoje, se você não deixar
essa merda toda, eu não quero mais você na minha vida e eu não
vou mais deixar você estar na vida da Katelyn.”
Ficamos dois dias sem nos falar após esse diálogo e eu dei
o primeiro passo em ligar para ele e dizer “você está certo”, porque
eu sabia que ele estava, mas ele não sabia o porquê eu ainda falava
com o Tyler e então eu contei. — Eu dividi com o Thomas o maior
segredo e maior arrependimento da minha vida. Eu expliquei ao
Thomas que eu não falava e andava ou usava drogas com o Tyler
porque eu gostava disso, mas sim porque eu tinha medo do que ele
poderia fazer.
Tyler matou uma pessoa. — Acidentalmente. Mas matou. —
Eu testemunhei no tribunal que ele estava comigo naquela noite e
que não poderia ser ele o motorista do carro que matou um
trabalhador. Na época, eu realmente pensava que não tinha sido
ele. No dia, ele me fez acreditar que estava com uma garota menor
de idade e que por isso eu precisava ajudá-lo. Nós tínhamos dezoito
anos e eu realmente acreditei nisso. Eu fiz um falso testemunho. E,
eu poderia ser preso por isso. Na verdade, eu deveria ser preso por
isso. Mas quando o Tyler me agradeceu e me entregou um pacote
de dinheiro dizendo “obrigada por me livrar dessa” e eu respondi
que ele não tinha culpa e ele admitiu tudo, absolutamente tudo para
mim, no mesmo instante eu disse que ele deveria se entregar e que
eu pagaria por ter dado um falso testemunho também, mas que era
necessário sermos sinceros, eu me lembro do seu olhar frio —
Mesmo sem efeitos de drogas, eu acho. — Ao dizer que se eu
abrisse a minha boca para qualquer pessoa, quem pagaria por isso
seria o meu melhor amigo.
“Não se atreva a dizer sobre isso para ninguém, Carter. Ou
aquele insuportável do Thomas pagará um alto preço. Eu já matei
um, para matar outro para poder te calar, não me importa.”.
Essas palavras ainda me assombram. — penso. — Eu
contei tudo isso ao Thomas, contei para que ele possa se manter
longe e para que ele possa entender que sempre que o Tyler me
chamar, eu vou até ele, com o único intuito de não deixar mal algum
acontecer com os meus.

Eu tenho muitos problemas, eu nunca tive o amor dos meus


pais, sempre fui um verdadeiro idiota, problemático, péssimo filho,
péssimo amigo, péssimo em tudo. Eu nunca fui digno do amor e
certamente nunca serei, mas eu nunca quis acobertar um acidente.
Eu nunca quis ser cúmplice em algo. Eu nunca quis ser uma pessoa
ruim, embora eu seja. Thomas vive me dizendo que eu não sou
ruim, mas quando o Tyler volta, quando ele reaparece, eu
reconheço que não tenho salvação, eu reconheço que sou mal, que
meu futuro não é no céu.
Bolei meu quinto baseado. Perdido em tudo. Helena. John.
Tyler. Thomas. Katelyn.
No fim, minha mãe sempre esteve certa. Eu causo caos, eu
trago mágoas e problemas. Eu sou uma péssima pessoa.
Capítulo 13
Há muito tempo
Mingus
— Some da minha frente. — Helena gritou. — Seu pai não
te quer e eu não sei o que eu devo fazer com você. Você foi um
erro. Você é um erro. Eu deveria ter abortado você. Estúpido John!
Por que você me convenceu a parir esse infeliz?
— Acho engraçado quando você fala sozinha. Meu pai não
aparece há um ano e você ainda fala citando o nome dele como se
estivesse aquele.
— Eu não suporto ouvir a sua voz. — disse. — Quem você
pensa que é que pode ser sarcástico comigo? Quantos anos você
pensa que tem para que possa me responder?
Me mantive em silêncio. — O surto estava durando há trinta
minutos e tudo isso porque ela encontrou duas garrafas de bebida
embaixo da minha cama. Não era como se ela fosse um exemplo, a
casa vivia cheia de bebidas espalhadas por aí e agora mesmo,
mediante a todos os gritos, eu poderia sentir o cheiro do conhaque
que ela bebeu.
— Você foi erro. — repetiu. — Na sexta-feira passada você
chegou às cinco da manhã. No sábado você não voltou pra casa.
Hoje eu encontro bebidas e um cigarro debaixo da sua cama. Você
tem doze anos, garoto. Doze.
— Eu tenho treze. — a corrigi. — E como você sabe sobre o
horário que voltei para casa ou sobre eu não ter voltado? Você não
estava aqui.
— Não interessa. Eu estava viajando com meus amigos
para finalmente respirar e ser feliz porque isso é impossível com
você aqui. Você só me dá dor de cabeça, garoto. Você é péssimo no
colégio, suas notas são humilhantes, você só sabe arrumar
confusão, não consegue ser gentil e educado com meus amigos,
não se veste bem e não permite que eu te vista, não quer ficar com
a droga do seu pai para me dar um sossego, é sem educação e
agora bebe e fuma? — passou as mãos pelos cabelos. — Eu não te
quero mais.
Minhas notas não eram tão ruins. — pensei. — Tirando
matemática que eu realmente tinha muita dificuldade, minha média
era 8 pra cima.
— Eu vou embora então. — afirmei. — Eu não preciso de
você.
— E você vai pra onde? — riu. — Com seu pai que nunca
se importou com você? Com a sua avó paterna que te viu duas
vezes na vida? Em? Quem você vai procurar? Você não tem
ninguém.
— O Thomas! Eu vou morar com o Thomas! — gritei. — Os
pais deles me aceitariam. Eles sempre me aceitaram quando você
gritava e me fazia sair.
— Perfeito. — riu. — Você vai morar com eles para destruir
a família deles também. E depois? Qual a próxima família que você
vai destruir?
— O que? — arregalei meus olhos. Eu não conseguia
compreender o que ela estava dizendo, só conseguia ter a certeza
de que meu coração estava doendo.
— Você é a própria destruição. Tudo o que toca, destrói.
Todos que se aproximam, você machuca. Tudo o que rela, toca,
quebra. — Disse olhando nos meus olhos e se aproximando. Ela
segurou minhas duas mãos. — Essas mãos só servem para quebrar
e destruir coisas. — As soltou e apontou para a minha cabeça com
apenas uma de suas mãos. — Aqui não tem inteligência. Aqui, não
tem bondade. Você é ruim. — desceu a mesma mão para o meu
coração. — E aqui, é inútil. Não merece ser amado. Nunca será
amado. Porque, porque você não é digno do amor.
— Você está doente. — Me afastei. — Você é doente,
Helena.
— A culpa é sua. Eu só me tornei isso depois que você
destruiu minha vida. Se você não tivesse aparecido, eu seria uma
modelo famosa agora, eu estaria em um navio conhecendo o mundo
e não dentro de uma casa horrível com uma criança mimada ao
meu lado.
— Eu odeio você. — Disse. — Eu odeio você.
— Eu te odeio mais. Você tirou a minha carreira e o meu
homem da minha vida. John foi embora por sua culpa. Ele não
soube te amar, mas soube amar o bebê de outra mulher.
— Talvez você fosse a desprezível da história, mãe.
Essas foram as últimas palavras que eu disse antes de
bater a porta e sair daquela casa apenas com a minha roupa do
corpo. E eu tinha a certeza que nunca mais voltaria ali.
Me faltava o ar e tudo o que eu queria era sumir,
desaparecer. Pensamentos negativos apareceram em minha mente,
mas eu saí na rua e avistei Thomas, em pé, na frente da cerca da
casa de Helena, esperando por mim.
Motivos para não se matar: Thomas já perdeu um irmão. —
pensei. — Ele não aguentaria perder outro.
Capítulo 14
Katelyn
Estou dando voltas e voltas pela cidade desde que deixei o
bar, esperando que Mingus me responda ou ao menos me diga que
não quer me ver. — Já se passaram duas horas e as minhas
inseguranças começaram a aparecer, porque talvez ele não esteja
me respondendo porque está com outra garota.
Mingus sempre estava rodeado de garotas. Todas as vezes
em que saímos para festas quando éramos mais jovens, ele era
sempre o primeiro a estar cercado por garotas. — Eu detestava
essas festas. Detestava quando todos queriam sair e escolhiam
uma festa para ir, porque eu sabia que de duas uma, ou todo fim de
noite eu iria chorando para a casa porque perdi a conta de quantas
meninas ele trocou ideia e acabou ficando ou, eu acabaria nua em
uma cama de motel tendo a melhor transa da minha vida com o
único cara que já gostei, mas que não quer nada além de sexo.
Quando tivemos a nossa briga épica, aquela em que ele
disse que era apenas físico, eu me afastei dele e da galera por mais
ou menos três meses. Claro que eu conversava por mensagem,
aparecia vez ou outra quando algo era marcado, mas era bem
diferente, eu estava diferente. Levou cerca de seis ou sete meses
para eu voltar a conversar com ele sem ser comprimentos de “oi e
tchau”. E, levou cerca de mais oito meses para eu estar mais uma
vez nua em uma cama com ele. — Totalizando mais de um ano de
afastamento. Mais de um ano sem sentir o seu toque, mas
acabamos transando após uma viagem que fizemos os seis juntos.
Eu me lembro perfeitamente de como a viagem foi
planejada e que eu jurei a mim mesma que não me envolveria com
o Mingus nessa viagem, mas na segunda noite, eu já estava aos
beijos com ele em alto mar dentro daquele maldito (e lindo) navio.
Na terceira noite, transamos após uma festa incrível. Na quarta
noite, transamos após uma noite de jogos com nossos amigos. Na
quinta noite, transamos após um jantar. Na sexta noite, fomos em
uma outra festa da cidade em que estávamos e eu ouvi o
Christopher dizer que ele ficou com uma loira e em conclusão à
isso, discutimos na festa, eu saí de lá para ir embora sozinha, mas
ele me seguiu e eu despejei árduas palavras para ele.
“Você transou três noites seguidas comigo e não poderia
esperar eu ir embora dessa maldita festa para ficar com alguém?
Como você acha que eu me sinto sabendo que você apenas me
usa? Como você acha que me sinto em não significar nada para
você? Porra, Mingus! Ano passado eu jurei que nunca mais deixaria
você encostar um dedo sequer em mim, ano passado eu jurei que
tudo entre nós teria estava encerrado no segundo em você me disse
que era apenas físico, mas você continua voltando. Eu te dei um
gelo de meses e você continuava me olhando como antes. Eu te dei
um gelo de meses e você continuava me enviando lanches e
chocolates na faculdade porque não queria que eu deixasse passar
refeições por estar estudando demais. Eu tentei te esquecer e você
nunca deixou. Você nunca deixou eu te esquecer. Você é tão tão tão
ruim pra mim e fodidamente tão bom na mesma proporção que eu
simplesmente não consigo sentir raiva de você. Agora mesmo, você
beijou alguém naquela festa e a deixou sozinha para correr atrás de
mim. Eu não quero que você venha atrás de mim. Se você não me
quer, não da forma que eu te quero, pare de vir atrás de mim, pare
de se importar, pare de ser legal comigo.”
Estávamos em uma calçada desconhecida, em uma cidade
desconhecida, no meio da madrugada, olhando um para o outro. —
Eu me lembro que ele permaneceu em silêncio o tempo todo
enquanto eu despejava essas palavras.
Era a sexta noite da viagem, iríamos embora no dia
seguinte, iríamos voltar para nossa cidade e nossas vidas voltariam
ao normal. Faculdade, estágio, trabalho, ele saindo todas as noites,
eu vendo garotas da cidade inteira falando sobre ele no Twitter, ele
bebendo e usando drogas, fazendo ser real a sua má reputação.
Mas, ao mesmo tempo, me ligando para saber como eu estava
fazendo entregar comidas e chocolates no meu intervalo da
faculdade com bilhetes como “não fique sem comer”, “não pule
refeições”, ou aparecendo na saída da minha última aula para me
levar embora, porque eu ainda não me sentia confortável em dirigir
a noite. — Mas, é claro que depois de tudo isso, depois do seu
silêncio, ele apenas se aproximou alguns passos de mim com seu
maldito sorriso tentador e soltou as palavras que eu mais odiava e
mais amava em minha vida.
“Você é a minha garota favorita, querida. ” — malditas
palavras. — “Que tal ser minha hoje e eu serei seu, e amanhã
vemos o que dá? ”
Reconheço que deveria ter negado. Reconheço que até
pensei em negar. Mas ele era tão bom na função de ser meu e eu
era tão boa na função de ser dele, que chegamos no seu quarto de
hotel já ofegantes de toda a aventura do caminho. — Ele tirou
minhas roupas, eu tirei as suas e caímos na cama, com ele por cima
de mim. E na sexta noite da viagem, eu fui dele e ele foi meu. E
claro, após essa viagem ferrar com meu orgulho, voltamos a ter
momentos assim em nossa cidade outra vez. Toda vez que eu
queria, eu lhe mandava uma mensagem. Toda vez que ele queria,
ele me provocava e eu cedia. Nossa química funcionava bem.
Nosso sexo funcionava bem. Nossa amizade funcionava bem, mas
eu queria mais. — Eu não queria que ele fosse meu apenas por
algumas horas em um quarto de motel ou em nossos apartamentos.
Eu não queria que ele continuasse saindo por aí, beijando e
transando com outras meninas. Eu não queria ser dele, só na cama.
Não queria que ele fosse meu, só na hora do sexo. Eu queria ter ele
em todos os momentos. Eu gostaria de dizer a forma que eu me
sentia. Eu gostaria de sermos algo. Mas não esse algo confuso e
complicado em que eu tenho que esconder meus sentimentos.
E o ciclo sem fim teve novamente um início. Um diálogo
pesado após uma transa. Ele dizendo que eu era sua garota
favorita, mas que ele não foi feito para mim. Eu falando que então
tudo acabaria ali. Meses separados. Provocações. Meninas na vida
dele. Meninos na minha vida. Uma recaída. Várias recaídas. Sexos.
Momentos bons. Briga. Reconciliação. Um diálogo pesado após
uma transa. Ele afirmando que sou sua garota favorita, mas que não
foi feito para mim. Eu colocando outro ponto final. Meses separados.
Provocações. Meninas. Meninos. Recaída. — Era um ciclo sem fim.
Sempre foi. E então, em mais uma recaída, enquanto estávamos na
cama nos divertindo o jogo “deletando todos os arquivos da
memória” foi criado por mim, com a única regra de nunca mais
conversamos sobre essa recaída, porque assim, — Na minha
cabeça — Nós iríamos aproveitar o momento juntos e não iríamos
mais discutir e eu não iria mais me magoar. — Grande erro.
Inocência a minha.
Toda vez que tínhamos uma recaída, eu ia embora
magoada. Toda vez que eu sentia o calor do seu corpo no meu, toda
vez que eu sentia seu toque e seus beijos e carícias, eu criava
esperanças. — Falsas esperanças. — E no final de tudo, eu
percebia que a realidade nunca iria mudar. Afinal, eu era apenas a
sua garota favorita, mas ele não era o certo para mim.
Mesmo tentando deletar as memórias, elas nunca saíram de
mim. Pelo contrário, eu era assombrada por todas as noites em que
fui amada pelo garoto que eu amava. Eu era assombrada por
nossas boas memórias e fingia estar bem, quando tudo o que eu
queria era falar sobre isso, mas não podia.

“Alô?”
Sua voz parecia distante. — Decidi ligar para o Mingus
porque eu estava inquieta e seu silêncio realmente me incomodou
nessa noite. Passei quase uma hora indo contra esse sentimento de
fazer uma ligação, mas no fim, se eu não ligasse, não conseguiria
dormir.
“Aconteceu alguma coisa?” — perguntou. — “Está
realmente tarde.”
“Você não me respondeu.” — Respondi e pude ouvi-lo
suspirar. — “Está tudo bem?”
“Sim”
“Por que não me respondeu?”
“Foi mal”
“Certo. Mas qual o motivo do vácuo?”
Ele ficou em silêncio.
“Dia ruim?” — perguntei.
“Vida ruim”
“Quer falar sobre isso?”
“Helena vai se casar”
Senti uma pontada no peito ao escutar isso.
“E como você está?”
“Honestamente?” — riu. — “Chapado.”
“Mingus…”
“Mas é engraçado.” — me cortou. — “Nem cinco baseados
fo ram o suficiente para eu esquecer dessa mulher. Ela me
expulsou de casa aos treze anos, pediu perdão logo depois mas não
se mostrou nada arrependida, nunca esteve presente na minha vida,
não foi em minhas formaturas, não foi no hospital quando sofri um
acidente que se não fosse por você e Thomas eu realmente não
teria companhia no hospital e ajuda, não me liga pra nada, não me
visita, mas toda vez que encontra um novo homem faz questão que
eu conheça. Como isso é possível? O que eu deveria fazer? Eu não
quero ir em um jantar e fingir que ela é uma mulher perfeita, uma
mãe perfeita e que eu sou um bom filho. Eu não quero mentir para
um homem que ela acabou de conhecer e já diz amar quando nunca
disse que me amava. Mas, como sempre, ela não consegue
compreender como eu me sinto, não consegue entender o quão
ridículo é me ligar somente para me dar essa notícia e exigir que eu
participe de um jantar e claro, ao ouvir o meu não, já começou me
atacar me lembrando de tudo o que eu sei que sou.”
Sua voz estava diferente. Pelo sono ou por lágrimas, não
sei.
“Aonde você está?” — perguntei.
“Eu sei que sou um péssimo filho, sei que sou uma pessoa
horrível e que não sou digno de coisas boas, mas porque ela tem
que me lembrar disso todas as vezes que nos falamos? A gente
nunca teve um diálogo bom. A gente nunca teve um diálogo sem
que ela jogasse tudo isso na minha cara. Eu estou tão cansado.”
“Aonde você está?”
“Parado em uma avenida qualquer.” — respirou fundo. —
“Foi mal te encher com essas coisas. Foi por isso que não respondi
a mensagem, eu não queria ser um chato e dramático”
“Vamos no lago dos Sonhos?” — perguntei.
“Eu passo.”
“Por favor”
“Não, Katelyn.”
Eu queria estar ao lado dele agora. Queria abraçá-lo e dizer
que ele era sim digno do amor, queria dizer que eu odiava a Helena
e que ela era louca e mentirosa. Queria dizer a ele que eu estava ali
e que eu sempre estaria ali, bem do lado dele.
“Não quero te deixar sozinho”
“Estou bem.” — respondeu. — “Ainda tenho muita erva e
seda aqui comigo.”
“Mingus…”
“Sério.” — me cortou. — “Não vai rolar. Não quero que me
veja assim, não quero te ver chapado, não quero te ver nessa bad
porque eu posso dizer muita coisa e você não merece ficar ouvindo
minhas reclamações”
“Eu quero estar ao seu lado, Mingus.”
“Mas eu não quero estar ao seu lado agora, Katelyn.” — Eu
estremeci ao ouvir essas palavras. — “Não quero que me veja como
estou, não quero parecer uma criança mimada e frágil. Não quero
dividir esses problemas com você e te magoar no final das contas.
Eu sou um péssimo amigo, sou uma péssima companhia e nesse
momento sou ainda pior.”
Ele queria se afastar. Não de mim, mas de todos. Ele estava
se isolando. Outra vez.
“Me passe agora a sua localização.”
“Katelyn…”
“Me passe a merda da sua localização ou eu entrarei em
contato com a Helena nesse momento para xingar ela até o nascer
do Sol.”
“Eu não quero que você me veja…”
“Eu não acredito em você.” — o interrompi. — “Eu
realmente não acredito que você queira estar sozinho nesse
momento. Você não tem que sentir vergonha de compartilhar seus
sentimentos ou um momento de fragilidade comigo, você não tem
que segurar tudo isso sozinho, porque você não está sozinho, eu
estou aqui e eu vou te apoiar, Mingus. Então me passe a sua
localização que eu vou até você. Me passe a sua localização e eu
vou te levar um big MC do jeito que você ama, porque quando eu
estive em momentos ruins, você estava ao meu lado, então me
deixe estar ao seu lado também, por favor.”
“Aonde você está?” — ele perguntou.
“Eu estava andando pela cidade antes de te ligar, mas voltei
para casa e estou dentro do carro no estacionamento do prédio.
Mas, eu vou até você.”
“Posso ir até aí ao invés de disso? Posso ir no seu
apartamento?”
“Você prefere isso?”
“Sim”
“Estou te esperando.”

Ele estava aqui há um tempo. Eu o abracei no momento em


que ele entrou pela porta e ele se encaixou em mim, como se
estivesse realmente disposto a mostrar sua fragilidade naquele
momento. Ficamos cerca de vinte minutos na mesma posição, ele
estava todo encurvado para se encaixar em mim, visto que eu sou
bem mais baixa que ele, mas pareceu não se importar. Eu
acariciava seus cabelos. — Passados os vinte minutos, ele se
afastou devagar, endireitando a coluna e me olhando nos olhos pela
primeira vez desde que chegou.
— Obrigado. — murmurou. — Esse abraço… Era tudo o
que eu precisava.
Eu assenti olhando-o com ternura, peguei em sua mão e o
levei até o sofá.
— Quer algo para beber ou comer? — Perguntei após nos
sentarmos. Ele negou com a cabeça.
O silêncio se fez presente outra vez. Ele estava sentado
com a postura correta, encarava o chão da sala com pensamentos
distantes. — Me aproximei com cautela, mas no segundo em que
ele percebeu o meu movimento, ao invés de se afastar, abriu os
braços para que desta vez eu me encaixasse nele. Assim fiz.
— Detesto ver você assim. — murmurei.
— Amanhã estarei melhor.
— Vou orar para isso. — disse.
— Só de ter vindo aqui… Já me sinto um pouco melhor.
— Eu sinto muito, Mingus. — disse. — Eu realmente sinto
muito.
— Eu sei. — acariciou meu cabelo. — Mas fique tranquila.
As coisas que Helena me diz sempre me abalam apenas no dia em
que as escuto, amanhã é um novo dia, e eu vou aproveitá-lo.
Afundei meu rosto em seu peito. O silêncio apareceu outra
vez, mas nessa vez eu não gostaria de quebrá-lo, porque eu sei
bem o que ele quis dizer com “vou aproveitá-lo”, e era justamente
isso que eu odiava, era justamente isso que me destruía por dentro,
porque ele vai atrás de bebidas, drogas e mulheres. E eu ficarei
aqui, mais uma vez eu ficarei aqui pensando que eu gostaria de ser
seu porto seguro, gostaria de ser quem ele poderia confiar. Porque
eu ficarei aqui, desejando que ele fique sóbrio e que não procure por
uma mulher. Porque eu ficarei aqui, presa em momentos e
lembranças de nós dois, com a esperança de que talvez um dia ele
mude, com a esperança de que um dia talvez ele me ame de volta.
Mingus foi embora por volta das seis da manhã. Não
trocamos nenhuma palavra até ele se despedir me agradecendo e
me abraçando, mas ficamos todo o tempo abraçados no sofá. — Às
vezes o silêncio é a única coisa que precisamos quando estamos
mal.
Depois que ele saiu do apartamento, arrumei algumas
coisas e agora estou entrando no banho.
Enquanto a água quente está caindo pelas minhas costas,
meu único pensamento é ele. — Eu saí do bar com meus colegas
de trabalho decidida a dizer sobre meus sentimentos por ele e para
conversarmos sobre nós, sobre essa química e sobre as recaídas
que sempre temos por alguma razão, mas após ver sua fragilidade
com o contato repentino da Helena, acho melhor atrasar essa
conversa até ele se recuperar totalmente disso. Mas, ao mesmo
tempo em que eu penso em não conversar agora, também penso
que enquanto isso, ele estará saindo por aí, bebendo, saindo com
outras e eu criando uma talvez falsa esperança de que ele possa
ser diferente dessa vez. Se por um milagre ele puder me amar, se
por um milagre a gente estiver destinado a ficar juntos, eu realmente
esperaria o tempo que fosse necessário.
Capítulo 15
Mingus
Passei o sábado inteiro dormindo após chegar da casa da
Katelyn e de noite inventei de ir a uma festa aleatória que fiquei
sabendo enquanto navegava pelas redes sociais.
Tomei um belo banho quente, penteei meu cabelo e
coloquei minha calça preta, uma camiseta vinho, minha jaqueta de
couro e um tênis preto. — Há quem diga que eu estava perfeito para
transar essa noite. E estava prestes a fazer isso com a ruiva que
estava ao meu lado, no banco de passageiro do meu carro,
enquanto eu dirigia até o motel mais próximo.
Acabei a conhecendo nesta festa. No minuto em que entrei
e fui até o bar, a avistei dançando livremente na pista e arrisquei
chegar nela. — Deu certo. Ela está no meu carro agora após vários
e loucos beijos naquela pista de dança.
— Suas tatuagens e correntes passam um ar de mistério.
Adoro isso. — ela diz enquanto alisava minha coxa.
— Tanto faz. — deu de ombros.
— Adorei sua postura má. — sorriu maliciosamente.
— É, dizem que eu tenho uma má reputação.
— Eu a amarei.
— Não diga isso. — Tirei sua mão do meu corpo. — Não
diga a palavra com A.
— Amor?
— Exato.
— Por que não?
— Eu não sou digno dessa palavra.
— Como assim?
Não respondi. Na verdade, me perdi em pensamentos de
tudo o que a Helena sempre me disse desde que eu me entendo por
gente e em tudo o que eu já havia confirmado por experiência
própria de que infelizmente era verdade. — Eu realmente não era
digno do amor e destruía tudo e todos que estavam à minha volta.
Katelyn, era a prova viva disso. Quantas vezes eu já havia feito essa
garota chorar? Tantas. Eu me envergonho disso.
Dirigi o caminho todo até o motel em repleto silêncio e ela
não colocou mais as mãos em mim, mas quando parei na entrada
do motel, antes de avançar com o carro, olhei para ela.
— Para que fique claro, para mim não existe isso de amor, é
apenas sexo. — disse. — Você quer que eu te leve embora?
— Por que eu iria querer ir embora?
— Talvez você esteja procurando algo que eu não posso
fornecer e eu não quero que pense que tem que fazer algo que
talvez não queira ou possa se arrepender.
— Você acha que eu frequento essas boates procurando
por amor, Mingus? — riu. — Eu procuro boas noites na cama,
apenas isso.
— Você tem certeza?
— Você é realmente diferente do que dizem por aí. — disse
me encarando.
Ela me observava atenta, como se estivesse realmente
surpresa, como se tivesse descoberto algo naqueles poucos
minutos ao meu lado.
— O que dizem por aí? — perguntei curioso.
— Já ouvi muito sobre Mingus Carter. — diz sorrindo. —
Dizem que você é um dos melhores na cidade de cama, mas que
tem uma má reputação e não é uma boa pessoa.
— E você acha que sou uma boa pessoa? — ri
maliciosamente. — Você realmente não me conhece.
— Você está parado na frente do motel esperando eu
decidir se quero ou não transar com você. Se você fosse ruim, faria
isso?
— Qualquer pessoa que faça diferente do que fiz não tem
índole e nem caráter. Eu posso ter uma má reputação, mas ainda
tenho meu caráter.
— Isso faz de você uma boa pessoa. — deu de ombros. —
Mas agora, por favor, me dê a diversão que todas falam que você é
bom.
— Com prazer. — sorri maliciosamente.
Avancei com o carro e pedi o melhor quarto dali, com
hidromassagem porque ideias fluíam quando eu conseguia
descansar meu corpo no pós sexo, antes de fazer outra vez. E claro,
fazer na água era muito bom também.

— Podemos ter um replay ou com você não tem essa? —


perguntou quando parei na frente da sua casa.
Seus cabelos estavam molhados do banho que tomamos,
seu rosto sem maquiagem alguma nessas horas e seu vestido com
um botão estourado. — Minha culpa. — Mas continuava uma
tremenda gata.
— Pode ser. — Sou indiferente. — Não prometo nada.
Ela riu, ajeitando-se para sair do carro.
— Odeio assumir isso para alguém egocêntrico como você,
mas você realmente é bom no que faz cara. — Disse antes de abrir
a porta. — As pessoas com quem conversei não estavam erradas
ao dizerem que você é um dos poucos caras dessa cidade que além
de gato e gostoso, sabe trabalhar bem e satisfazer uma mulher.
Ela desceu do carro.
— Você anotou meu número, quando quiser é só me
mandar uma mensagem.
— Pode deixar. — respondo. — Boa noite, querida.
Dirijo até meu apartamento ouvindo um som e pensando
nessa noite. Eu saí e me diverti momentaneamente, mas agora que
estou sozinho, os sentimentos voltam a me atormentar.
Entro em casa, tiro minhas roupas e entro no chuveiro.
A água quente caindo pelas minhas costas, traz à minha
memória a imagem da Katelyn deitada em mim da madrugada
passada. — Isso tem acontecido muito ultimamente. — Hoje
enquanto eu estava com aquela garota, a Katelyn veio a minha
mente um milhão de vezes. Até mesmo enquanto eu estava
transando com outra, ela estava em minha mente. Agora, enquanto
tomo esse banho, ela continua na minha mente. Eu gostaria de tirá-
la dos meus pensamentos, gostaria de afastar qualquer coisa que
envolvesse ela da minha vida, porque Helena não errou quando
disse que eu poderia destruir todos a minha volta e eu nunca me
perdoaria se eu a destruísse.
Ontem, enquanto ela estava encaixada em meu peito e o
silêncio absoluto entre nós, porque ela apenas estava me
certificando que está ao meu lado mesmo quando eu não consigo
dizer o que sinto ou expor em palavras todo esse nó do meu peito,
eu sentia seu cheiro — De flores — E algo parecido com a
esperança rondava meu coração e minha mente. Na verdade, toda
vez que eu estou com ela, eu penso que posso ser salvo dessa
escuridão e percorrer um bom caminho, eu penso que vale a pena
deixar tudo o que fui até hoje para ser uma pessoa melhor para ela.
Quando estou ao lado de Katelyn, desejo ser uma pessoa melhor.
Às vezes, brevemente, quando estou ao lado dela, sinto que
eu poderia amá-la, mas como uma grande nuvem carregada de
tempestade as lembranças das palavras de Helena me cercam. —
Eu cresci ouvindo que o amor nos torna fraco, que o amor é uma
fraqueza e se o amor é o que eu sentia por John Carter e Helena
Riggs, eu não quero sentir nunca mais.
Minha mãe disse que eu não sou digno do amor, e eu
agradeço por isso. Não quero amar ninguém. Não quero sentir isso.
Minha mente me ferra toda vez, porque enquanto afirmo
isso com toda a certeza do mundo, também não deixo de pensar
que talvez a Katelyn, eu gostaria de amar.
— Não. — me repreendo. — O amor é uma fraqueza. E
mesmo se eu a amasse, ela jamais poderia me amar, porque não
sou digno disso.
“Você nunca será amado.” — Escutei isso em meio aos
berros dela uma vez.
Quando uma mãe diz isso ao seu filho adolescente na fase
mais terrível de seu crescimento, o que o filho deve fazer? É, eu
acreditei e agarrei como minha mais profunda verdade. Deduzi que
não poderia ser amado por ela, por John, e por todos que estavam à
minha volta. As palavras mais árduas que já ouvi em toda minha
vida foram ditas pela mulher que supostamente mais deveria me
amar em todo universo e naquela maldita noite — Eu estava na
casa de Thomas porque ela havia me expulsado de casa. Aos treze
anos. Ela chegou berrando na casa dos pais de Thomas e após eu
decidir conversar com ela, ela me disse que eu nunca seria amado.
Valeu mãe, já entendi isso. — Mas não parou por aí, naquela noite,
eu também ouvi novamente a história de como eu ferrei com sua
carreira e com seu corpo depois que ela me teve, porque a gravidez
muda o corpo de uma mulher, especialmente de alguém tão nova
como ela era na época. Também ouvi ela dizer como meu
nascimento fez com que John se afastasse de casa, como se um
pobre bebê tivesse culpa de ter vindo ao mundo e do seu pai deixá-
los sozinhos em uma grande casa. Ouvi ela dizer sobre como tudo o
que eu tocava eu simplesmente quebrava desde pequeno, e a vi
afirmar que isso variava tanto de objetos pessoais quanto de
sentimentos e por fim, a ouvi ligar para o John e ambos no viva voz
diziam como eu nunca seria digno de algo bom, como eu nunca
poderia ser bom ou ao menos semelhante à qualquer coisa que eles
possam ter imaginado. John dizia que ficou sabendo mais uma vez
que fui expulso de outro colégio, ele não quis ouvir os meus
motivos, muito menos Helena, eles não quiseram saber o que eu fiz
ou o que deixei de fazer para isso, não entendiam o que eu
passava, não ouviam o que eu dizia e então, ambos me disseram
que eu não era digno do amor. Ele também estava bravo por eu
estar na casa de Thomas, mas não disse nada sobre sua ex mulher
ter me colocado na rua. Brigou sobre as bebidas que ela encontrou,
mas não perguntou porque eu bebia. Mas, como se eles já não
tivessem me ferrado o suficiente, Helena terminou a ligação com
aquele homem e saiu do quarto para discutir com a mãe de
Thomas, disse que ela quem deixava eu ser mal criado.
Aquele dia foi o fim de tudo para mim, se antes eu não
queria chamá-la de mãe, a partir daquele dia era simplesmente
impossível. Ela queria me levar embora da casa deles, disse várias
vezes “eu sou a mãe dele, você já perdeu seu outro filho, não queira
roubar o meu” e eu sei que isso quebrou o coração deles e somente
por essa razão eu decidi ir embora com ela nesse dia, porque eu
não suportava o que ela estava fazendo com os pais de Thomas,
lembrando eles do pior tormento da vida deles, a perda do Gabriel.
— Eu voltei pra casa com ela nesse dia. Arrasado. Eu queria sumir.
Eu queria morrer. Eu pensei que o Thomas nunca mais olharia na
minha cara depois da minha mãe gritar com a sua mãe e dizer
coisas tão horríveis. Cheguei na casa daquela mulher acabado.
Pensando em várias coisas, em coisas ruins, e quando acessei o
computador para procurar passagens para fugir de casa e dessa
cidade, chegou um e-mail de Thomas para mim, um e-mail que eu
guardo até hoje.

De: thommyrichard@[Link]
Para: mcarterxx@[Link]
Assunto: Leia isso antes de qualquer coisa.
Cara, volte pra cá amanhã. Pegue o que
precisa aí dessa casa e volte pra cá amanhã.
Minha mãe queria ir hoje atrás de você, mas
deixei ela se acalmar e expliquei que amanhã sem
falta você viria.
Me desculpe por ter deixado a Helena entrar.
Me desculpe por ter deixado ela te ferir outra
vez. Sou um péssimo amigo por isso.
Meus pais também querem te pedir desculpas
por não terem protegido você.
Por favor, não ligue para o que Helena
disse. Minha mãe diz que ela deve estar doente,
cara. Ela diz muitas coisas sem sentido.
Você é meu irmão. Sei que não é de sangue,
mas é meu irmão. Eu preciso de você. Minha mãe e
meu pai te amam. Te amam desde que te conheceram.
Eu te amo. Você é a porra do meu melhor amigo e eu
preciso de você na minha vida pra sempre. Então
amanhã cedo estarei indo aí te buscar. Qualquer
coisa a gente fala com o John. Eu faço meu pai
ligar pra ele, porque ele é mais razoável que a
Helena e explicamos que você vai passar um tempo
aqui em casa, alguns anos, sei lá. Até a gente ter
idade o suficiente para morarmos sozinhos. Mas
você é meu irmão. Eu preciso de você.
Amanhã vou te buscar.
Tenta dormir um pouco.
Ah! Vou comprar salgadinhos para nós.
Tchau.

O Thomas não sabe o quanto eu chorei com esse e-mail.


Ele não sabe o quanto eu pedi desculpas ao Gabriel nessa noite
pela Helena ter falado sobre ele. O Thommy não sabe como ele me
salvou de fazer merda tantas vezes simplesmente por existir e me
apoiar.
Mas, embora eu seja extremamente grato por esse e-mail,
por sua amizade, pela sua família, por todo carinho e amor que sei
que recebi deles, as palavras de Helena foram cravadas em meu
peito e só de pensar em tentar ser feliz, em tentar amar alguém ou
de ser amado de verdade, meu peito dói e meu estômago
embrulha.
A escuridão que habita em mim, não permite que eu seja
feliz. E é por essa razão que eu me cerco de bebidas, drogas e
mulheres. Porque essa droga dessa má reputação, permite que eu
seja momentaneamente alegre.
Capítulo 16
Katelyn
Dois meses já haviam se passado desde que eu quis
conversar com o Mingus, mas Helena havia o atormentado. — Eu
ainda não consegui conversar com ele, porque como já tinha
imaginado, ele surtou após a rápida aparição de sua mãe e segue
fazendo tudo o que pode para fingir que não está nem aí com o
mundo. Ele se afastou de todos, faz dois meses que não comparece
em nossas sociais e mal responde nosso grupo e, quando
responde, diz que já tem uma festa ou algum compromisso. — Isso
era normal quando Helena ou John apareciam. Toda vez que um
deles entrava em contato com o loiro, ele tinha seus surtos que
costumavam durar um pouco menos do que esse tem durado, por
isso, desta vez eu realmente estou preocupada. Thomas me diz que
esse será como todas as outras vezes, que quando ele se sentir
razoavelmente bem para esquecer o que foi dito pela mulher, voltará
ao normal conosco e abandonará tudo isso que faz quando se sente
extremamente irritado e magoado. Mas, por alguma estranha razão,
continuo sentindo que dessa vez há algo diferente. Talvez na forma
fria em que ele vem falando até comigo, talvez porque dois meses
foi o máximo para seus surtos, ou talvez porque de fato, algo seria
diferente dessa vez.
No trabalho, eu havia apresentado o segundo projeto.
Houve mais leitores do que o esperado e eu realmente não sei o
motivo disso, mas foi bom aos olhos do meu supervisor e do dono
da empresa. Eles me elogiaram e disseram estar trabalhando em
um próximo tema para mim, mas por enquanto sigo ajudando nas
edições como estava fazendo anteriormente. — Após a publicação
deste trabalho, Ty me convidou para jantar e eu aceitei, porque ele
realmente me ajudou muito nesse projeto, mas durante o jantar, ele
se confessou para mim. — Fiquei surpresa ao saber que o herdeiro
da empresa onde eu trabalhava estavam a fim de mim, mas meu
coração pertence apenas ao Mingus e se havia algo em que eu
tinha a certeza com toda a minha vida, além de que para sempre
meu coração seria do loiro, era de que se envolver com alguém do
trabalho, era extremamente complicado. — O rejeitei. Com toda
cautela e delicadeza do mundo, mas o rejeitei. Ele pareceu
entender, porque isso rolou há duas semanas e seguimos bons
amigos aqui dentro da empresa. Hoje o dia estava demorando para
passar. Talvez porque eu já tenha feito tudo o que eu tinha para
fazer, ou talvez porque hoje era um dia de saudades. Se Elizabeth
estivesse viva, completaria mais um ano de vida hoje e,
definitivamente, após eu chegar em casa teria um bolo de chocolate
para cantarmos parabéns, mas não porque era o seu favorito ou
porque gostava de comemorar seu aniversário e sim porque era o
meu favorito e até em seu aniversário ela gostaria de me agradar. —
Eu já estava acostumada a sentir a falta de Elizabeth, mas em dias
especiais, a saudade se transformava em um aperto no peito e
lágrimas que insistiam em descer a qualquer momento do meu
rosto.
Aproveitei que estava tranquila e sem trabalho urgente para fazer e
busquei uma foto ao lado dela, em que eu estava basicamente
deitada em seu colo no sofá do nosso apartamento e postei em
minhas redes sociais com a legenda “Feliz aniversário, te amo para
todo sempre.”, e após isso continuei navegando nas redes sociais.

Me permiti sair do trabalho quinze minutos mais cedo hoje,


porque eu tenho horas a tirar. — Acabei de chegar no meu
apartamento e durante o caminho eu tive a brilhante ideia de ir no
lago dos Sonhos a noite para admirar as estrelas e conversar um
pouco com os céus, dizer a saudades que sinto da minha avó e
dizer sobre como eu e Mingus estamos distantes outra vez. Talvez,
o céu poderia me dar uma resposta sobre isso tudo.
Fiquei dando uma ordem no meu apartamento até
escurecer, entrei no chuveiro para tomar um rápido banho, me
arrumei e nesse momento estou ouvindo Taylor Swift a caminho do
lado dos Sonhos.

— Te amo Taylor, te amo. — digo rindo.


No rádio agora toca “Back to december” e eu amo essa
música com toda a minha alma. Na verdade, acho que não tem uma
música que eu não ame.
Me aproximando da entrada do lago, procuro uma vaga perto o
suficiente para que eu não tenha que andar muito depois quando
voltar, porque certamente será tarde da noite quando eu decidir
voltar para casa. Hoje, por ser uma quarta-feira, não estava tão
movimentado, apenas algumas pessoas caminhando em sua volta,
mas quanto a isso sem problemas, porque eu iria descer suas
escadarias e me sentar na grama, bem próximo ao lado, como eu
fazia todas as vezes. — E assim fiz, não sem antes claro,
contemplar minhas pichações favoritas.

Me deitei na grama, e fiquei olhando para o céu. — Que hoje estava


estrelado. — O quão imenso pode ser o céu? O quão lindo ele pode
ser? E quantas coisas misteriosas pode haver sobre ele? Ou
melhor, não seria ele, um grande mistério?
Talvez seja por isso que me encanta tanto. Por sua imensidão e por
seu lado misterioso.
Fechei meus olhos brevemente para fazer uma oração.
Obrigada por ter existido. — penso ao final da oração. —
Obrigada por ter permitido que eu fosse sua neta.
Ainda com os olhos fechados, senti uma pequena lágrima
no canto do meu olho direito. — Felicidade? Emoção? Tristeza ou
saudades? Não sei. Mas sei que nesse momento fui interrompida
pelo toque do meu celular.

“Alô?” — atendo sem conferir quem era.


“Aonde você está?”
Reconheço a voz. Era Mingus. — Abro os olhos e me
levanto com pressa, ficando apenas sentada na grama.
“O que aconteceu?” — perguntou.
Não nos falávamos direito há dois meses, então essa
ligação deveria ter alguma razão especial.
“Nada.” — Responde. — “Aonde você está?”
“Lago dos Sonhos” — respondo sem pensar. — “Por que?”
“Estou indo”
Antes que eu pudesse questionar o porquê ele viria até
aqui, ou negar, ou dizer qualquer coisa, ele encerrou a ligação e a
confusão tomou conta de mim outra vez. — Dois meses afastados,
para em uma noite qualquer, ele me ligar e me dizer que está vindo
até mim.
Respirei fundo. — Eu o amava. Eu o amei desde o primeiro
momento e nunca tentei esconder isso, nem mesmo dele. Eu o
amava da maneira mais verdadeira e altruísta que se pode amar
outro ser humano, eu o amava cada dia mais e mais e eu gostaria
muito que não fosse tão difícil amá-lo.
Amá-lo era estar ciente de que ele sempre iria partir e essa
parte me destruía, porque embora eu o amasse o suficiente para o
deixar livre para partir quando sentisse a necessidade de se afastar
de tudo e de todos, ainda assim eu ficava destruída no final.
Costumo dizer que temos momentos lindos e colecionamos uma
linda memória juntos e logo depois, vem uma tempestade. Era como
se ele fosse o sol escaldante antes de um belo tornado, e também
fosse o tornado que arrastava tudo sem pensar nas consequências.
Nos momentos em que ele é meu Sol, eu sinto que não
conseguiria viver sem ele — e também optei por não viver sem. —
Mas nos momentos em que ele se tornava esse tornado, cheio de
fúria, eu sinto que viveria melhor se não o tivesse na minha vida.
Mas, também não consigo abrir mão. É novamente, o maldito ciclo
sem fim.
Um ciclo que eu gostaria e precisaria que acabasse para
parar de sofrer tanto, mas que na mesma proporção eu quero — e
talvez precise — que continue.
— Ei.
Sinto uma mão tocar levemente em meu ombro me tirando
de meus pensamentos. Era ele. Lindo, mesmo sob aquela pouca
iluminação.
— Oi. — disse.
Ele me deu um sorriso e perguntou se podia se sentar ao
meu lado, correspondi o sorriso e respondi “claro.”. — Assim ele
fez. E a sua pouca aproximação após dois meses longe fez com que
meu coração voltasse a bater mais forte. Eu era uma boba, sempre
recaindo a ele, mesmo após meses sendo ignorada e excluída de
sua vida.
— Aconteceu algo para você vir até aqui? — perguntei,
olhando para o céu e não para ele.
— Não. — respondeu. — Só quis vir.
— Para o lago dos Sonhos?
— Para onde você estivesse.
Estremeci. Eu sentia tanta falta dele, mas também estava
frustrada pelo tempo longe.
— O que aconteceu? — perguntei desconfiada.
— Nada.
— Você literalmente ficou dois meses ignorando tudo e
todos e agora voltou do nada me ligando e vindo até aqui. — disse.
— Alguma coisa aconteceu.
Ele ficou em silêncio por um instante, mas sua próxima
frase me fez entender tudo.
— Você está bem? — perguntou.
Claro. A foto que postei com Elizabeth. Ele viu.
— Ah, isso. — ri fraco. — É pelo dia de hoje que me
procurou? — perguntei e obtive silêncio como resposta, então
continuei. — Você ficou longe por dois meses, não precisa aparecer
agora por pena, eu realmente estou bem.
— Você sabe que não sinto pena. — afirmou rispidamente.
— É até ridículo pensar isso.
— Por que? — dou de ombros e o olho pela primeira vez. —
Por que é ridículo pensar que você sente pena de mim depois de
aparecer hoje após nos ignorar por dois meses? — respirei fundo.
— Você sumiu, Mingus. Não apareceu em nada que marcamos,
falava raramente em nosso grupo, até mesmo Thomas estava sem
te ver todo esse tempo, mas você continuava postando fotos em
festas, continuava voltando de madrugada ou logo no amanhecer
para sua casa, continuava saindo e vivendo por aí, só não com a
gente, era como se todo o resto fosse importante para você, menos
nós. Então me diz, por qual razão eu não deveria achar que o que
você sente por mim é pena?
— Porque não há absolutamente nada nessa vida que seja
mais importante do que você.
— O-o que? — gaguejei.
— Eu me afastei porque estava perdido em pensamentos
sobre toda a merda que é a minha vida. Eu me afastei para não
trazer vocês no meio dessa merda de escuridão da qual enfrento
quando coisas envolvendo a Helena e o John acontecem. Eu me
afastei para não ferir vocês com minha ignorância em momentos
ruins. Me afastei porque vocês cinco são as únicas coisas que
realmente importam na minha vida, especialmente você e o
Thomas. Então porra, me desculpa ser um fodido que precisa se
afastar quando o mundo desmorona para não levar vocês na minha
ruína, desculpa ser tão problemático ao ponto de pensar que eu
estar longe de vocês é o melhor que posso fazer. — despejou as
palavras em um tom quase agressivo. — Mas caralho, Katelyn. —
Continuou. — Por você, apenas por você, eu acabo cedendo todo
esse turbilhão de pensamentos e você ainda acha que sinto pena?
Ainda acha que é por pena? Eu enfrentei meus pensamentos mais
horríveis para poder estar aqui ao seu lado, porque eu sei que você
precisava de mim hoje. Eu sei que sou egoísta pra caralho e não
costumo pensar no efeito que minhas ações causam em todos
vocês, mas eu renunciaria a tudo por você.
Por que? — pensei. — Por que? Por que essa diferença
comigo? Por que você renunciaria a tudo por mim? Por que por mim
você enfrenta o que diz ser um turbilhão de pensamentos horríveis?
O que você sente por mim para que faça isso por mim e apenas por
mim?
— Por que? — perguntei.
— Porque você é a minha garota favorita, Katelyn. —
respondeu finalmente diminuindo seu tom de voz. — E sempre vai
ser.
— O que isso significa, Mingus? — perguntei.
Eu realmente não fazia ideia do contexto dessa frase em
uma situação como essa. Sei que em outro contexto, isso significa
que sou sua favorita no sexo, mas e nesse contexto? O que
supostamente isso deveria significar?
— Que sempre vai ser você. — respondeu. — Que todas as
vezes em que eu fizer ou desejar fazer algo bom nessa vida, vai ser
por você. Que todas as vezes em que eu tentar ser bom, será por
você. Significa que se o mundo estivesse acabando, eu ainda
tentaria arrumar um jeito para te salvar, mesmo quando eu mesmo
já não tivesse mais salvação.
Isso foi o suficiente para eu chorar. — Se isso não era amor,
o que seria o amor?
Como pode alguém com tanto amor dentro de si, não
acreditar que pode ser amado? Como é possível que alguém com
tamanho coração, não se ache digno do amor? O quão destruído
ele foi para achar que não consegue amar, sendo que todas essas
atitudes refletem o amor? O que eu deveria fazer para que ele
acreditasse que é amado e que também sabe exatamente como
amar, porque hoje, nesse momento, é assim que me sinto, amada.
Amada por Mingus Carter.
Meu silêncio fez ele ficar inquieto, mas eu não sabia o que dizer,
porque a única coisa que eu gostaria de dizer era que eu o amava,
então optei pelo caminho mais fácil, porque dizer essas palavras iria
fazer com que ele se afastasse, então tudo o que fiz, foi me
aproximar e o abraçar. — Com toda a força que a minha alma
desejava, com todo o amor que eu carregava.
Ele suspirou aliviado, e correspondeu o abraço.

— Então, como você verdadeiramente está? — perguntou no meu


ouvido ainda abraçado. — Hoje foi um dia difícil?
— Difícil não, mas foi um dia de muita saudades.
Se afastou do abraço, mas ainda mantinha suas mãos em
meus ombros. Me olhou com cautela e ternura.
— Quer falar sobre isso? — perguntou.
— Acho que não. — respondo. — Eu realmente me sinto
bem, não sei explicar, é como se hoje fosse uma saudade boa, não
tão dolorosa, sabe?
— Entendo. — assentiu. — Lembrança dos momentos
bons.
— Exatamente. — respondo. — Se ela ainda estivesse aqui
hoje seria um dia em que iríamos comer muito bolo de chocolate,
falar mal dos nossos familiares e rir muito.
— Seria uma ótima noite.
— Seria. — sorri ao concordar. — Você se lembra dela,
certo? Ela era incrível.
— Claro que eu me lembro. — disse. — Já levei muita
bronca e puxão de orelha da senhora Elizabeth, mas também já me
senti muito querido e acolhido por ela também.
— Ela adorava você.
Exceto quando você me fazia chorar.
— E eu adorava ela também. — sorriu.
O admiro sorrir. — Ele estava olhando para o céu com um
belo sorriso em seus lábios. Quem o visse dessa maneira, pensaria
em como havia tanta leveza em seu peito, mas eu o conhecia o
suficiente para saber o tamanho tormento que habitava em seu peito
mesmo quando parecia estar pleno.
— Mingus?
— Sim? — olhou para mim.
— Posso te pedir uma coisa?
— Qualquer coisa, querida.
— Me abrace. Me abrace e não me solte até o nascer do
Sol.
Ele riu sem jeito.
— Vamos virar a noite aqui?
— Se possível. — dou de ombros. — Eu não me importaria.
— E o seu trabalho amanhã?
— Eu não me importaria. — repito.
Eu só queria poder ficar ao seu lado. — penso.
— Faremos o seguinte: ficaremos aqui até às onze e depois
vou te seguir até seu apartamento para garantir que você chegue
em segurança.
— Até às onze é muito pouco tempo. — murmurei pegando
meu celular para checar o horário. — Teríamos apenas duas horas
para ficarmos aqui.
— Amanhã você trabalha. — diz. — Hoje ficamos até às
onze e outro dia assistiremos o pôr do Sol.
— E se você sumir de novo? Por isso eu queria ver hoje,
porque você está comigo.
— Sexta-feira veremos o pôr do Sol. — garantiu. — Eu juro.
— De dedinho?
— De dedinho.
Cruzamos nossos dedos mindinho com a promessa de que
voltaríamos aqui daqui dois dias. — Esse lugar era nosso, de
qualquer forma. Já passamos tantas noites e madrugadas aqui, já
compartilhamos tantos segredos e beijos, já contemplamos o céu,
as estrelas, a lua, as pichações. Era o nosso lago dos sonhos, onde
tudo nele poderia se tornar real.
— Me abrace. — falei.
— Sim senhora. — riu se aproximando.
Ele me aconchegou em seu peito e eu pude jurar que seus
batimentos cardíacos estavam rápidos demais, mas, talvez fossem
os meus e então me calei, apenas aproveitando o momento.
— Obrigada por estar aqui hoje. — murmurei.
— Significou o mundo para mim.
Mingus beijou minha testa no momento em que terminou
essa frase. Fechei meus olhos no nosso contato físico e acredito
que eu tenha demorado um certo tempo para abri-los, talvez por
medo de ser um sonho, talvez por medo dele não estar mais lá
quando eu abrisse — mesmo enquanto eu ainda sentia suas mãos
em meu corpo. — Ou talvez apenas porque eu queria continuar
curtindo o momento, colecionando aquela memória, que com
certeza seria uma das minhas favoritas ao lado dele.
Quando abri meus olhos, ele me olhava sorrindo.
— Você fica tão linda sem jeito.
— Você realmente se importa comigo, não?
— Mais do que qualquer coisa nesse mundo. — disse, sem
hesitar. — Você ainda tinha dúvidas
Eu soltei uma baixa gargalhada, o suficiente para fazê-lo
arquear a sobrancelha e me olhar confuso.
— O que é engraçado?
— Nós dois. — respondi. — Nós vivemos em uma
montanha russa improvável de se adivinhar em qual posição
estamos ou para qual iremos a seguir, mas eu realmente sinto que
você sempre estará aqui quando eu precisar.
Ele segurou o meu rosto com suas duas mãos e acariciou
minha pele. — Seu toque, suas carícias, eu ansiava por isso.
— Acredite em minhas palavras, Katelyn. — disse. — Eu já
quebrei muitas promessas em minha vida, mas a promessa que te
fiz que eu sempre estaria ao seu lado quando precisasse é uma que
eu pretendo manter.
— Eu realmente acredito nisso. — falei. — Mas e quando o
assunto é você? Você irá permitir que eu fique ao seu lado quando
precisar?
Ele se mexeu desconfortável. Os segundos de silêncio
estressantes tomaram conta do ambiente.
— Desculpe. — murmurei.
— Tudo bem. — sorriu fraco. — Não posso prometer nada,
mas há um tempo atrás, quando eu realmente precisei de alguém,
fui até você.
— E depois desapareceu por dois meses.
— Mas fui até você. — disse. — Foi um passo importante.
— Foi, eu só gostaria que você não tivesse sumido no
instante seguinte.
Ele deu de ombros.
— Vamos aproveitar nossas duas horas restantes aqui. —
falou. — Sem brigas.
— Não se esqueça que você prometeu que sexta estaria
aqui.
— Estarei. — disse. — Não quebrarei essa promessa.
— Então tá.
Ficamos as próximas duas horas conversando sobre todos
os assuntos existentes, desde a possível existência de alienígenas
até sobre a vida atual do pessoal que estudou no mesmo colégio
que nós. — Durante essas duas horas estávamos deitados na
grama, bom, ele estava, porque eu estava deitada em seu peito.
Uma de suas mãos segurava minhas costas e a outra acariciava
meu cabelo. E eu queria que o tempo parasse. Se eu tivesse um
super poder, definitivamente seria congelar o tempo, porque eu o
congelaria nesse momento. Pra sempre ficarmos ali. Eu deitada em
seu peito, suas mãos no meu corpo, sua respiração em mim, seu
sorriso bobo e espontâneo por cada piada boba que fazíamos.
Amor. Momentos de amor.
Capítulo 17
Mingus
Katelyn e eu tínhamos um combinado para hoje a noite e
não tínhamos dito aos nossos amigos, mas Thomas começou fazer
um mega drama sobre estar com saudades dos seis juntos e que
queria todos em sua casa hoje às nove da noite e eu realmente não
sei que desculpas eu e ela poderíamos dar a não ser contar a
verdade, mas então ela me enviou uma mensagem dizendo que
poderíamos ir para lá às nove e depois na volta, pegaria carona
comigo e então, fazer a nossa parada no nosso lugar até o nascer
do sol. — Eu concordei, é claro, até porque também estava com
saudade dos meus amigos.
A noite foi gostosa. Comemos pizza, tomamos algumas
cervejas e jogamos muito.
Quando o relógio marcava duas da manhã, Sarah chamou
Christopher para ir embora e eu aproveitei para ser a nossa deixa
também.
Ofereci carona para a Katelyn, — que havia ido de uber
para tudo dar certo com nosso plano — Como se nada disso fosse
programado mas pelo sorriso que Lily nos entregou, eu soube de
imediato que nossa ida para o lago dos sonhos não era um segredo
para ela. — Enfim, melhores amigas contam tudo uma para a outra.
Nos despedimos de Thomas e saímos para fora com
nossos amigos. Chris daria uma carona para a Lily e o carro deles
estava do lado oposto de onde o meu estava, então nos
despedimos ali e eu e Katelyn fomos até a rua ao lado, onde meu
carro estava.
— Você realmente aproveitou a noite, Campbell. — falei.
— Usando meu sobrenome? — arqueou a sobrancelha. —
O que foi?
— Não sei quantas latinhas bebeu hoje.
— Não muitas. — deu de ombros. — Mas notei que Mingus
Carter só tomou uma. Por que? Greve de álcool?
Eu ri de sua infantilidade fofa.
— Eu não podia beber hoje.
— Por que?
— Quem te levaria ao lago dos sonhos em segurança se eu
enchesse a cara?
Ela riu baixinho e tampou sua boca com a mão.
— O que foi? — perguntei rindo de sua reação
extremamente fofa.
— Você se importa comigo. — parou no meio da rua. —
Tipo de verdade mesmo.
Revirei meus olhos parando uns cinco passos à frente.
Olhei para ela e seu rosto estava todo vermelhinho do frio ou do
álcool. Sorri.
— E você fica lindo sorrindo.
— E você parece que bebeu demais. — dei quatro passos
na sua direção.
— E você está perto demais.
— Estou? — murmurei.
— Não o suficiente. — Ela deu um passo à frente. O passo
que faltava para estarmos quase colados. — Isso. Assim. — disse.
— Mas porque parece que nunca é o suficiente?
— Katelyn…
Ela colocou suas mãos — frias — Em meu rosto e fechei
meus olhos por uma fração de segundos. Era inevitável, eu amava a
sensação que seu corpo trazia ao meu corpo.
Abri meus olhos e acariciei sua bochecha. Notei que meu
toque estremeceu sua pele.
— Katelyn. — sussurrei perto de seu ouvido. — Vou te levar
para casa.
— O combinado era o lago dos sonhos. — diz. — Nós
vamos ao lago dos sonhos e eu não quero que essa noite acabe,
que essa sensação acabe.
— Que sensação?
— De que você sente o mesmo que eu.
Me abraçou. Sua força nesse momento foi imaginável, era
uma força como se o mundo fosse acabar amanhã e talvez acabe
de fato, e por essa razão eu correspondi seu abraço na mesma
intensidade. A abracei com saudades, a abracei com dor, a abracei
como se não fosse possível viver sem ela — e eu realmente não
imaginava minha vida sem Katelyn Annie Campbell presente. — A
abracei como se eu precisasse do seu abraço para viver e talvez eu
realmente precise.
— Você está bem? — perguntei quando ela fechou seus
olhos.
Após minha pergunta, ela abriu seus olhos devagar e sorriu
me olhando nos olhos. — Meu peito doeu. Doeu porque eu estava
perdidamente encantando por essa garota. E eu a desejava mais do
que qualquer coisa. Eu a desejava mais do que desejei qualquer
coisa nesse planeta. Eu queria sentir seu corpo no meu. Eu queria
que ela fosse minha. E, eu queria ser dela.
Capítulo 18
Katelyn
— E você parece que bebeu demais. — deu quatro passos
na minha direção.
— E você está perto demais.
— Estou? — murmurou.
— Não o suficiente. — me aproximei. — Isso. Assim. Mas
porque parece que nunca é o suficiente?
— Katelyn…
Levei minhas mãos ao seu rosto e o vi fechar os olhos por
pequenas frações de segundos. Ele me ama. Eu sinto que ele me
ama e não é o álcool me dizendo isso, é o meu coração, é a minha
mente, é todos os momentos que temos um ao lado do outro.
Mingus colocou sua mão direita em meu rosto acariciando
minha bochecha. Estremeci. Seu toque, sua voz rouca sussurrando
o meu nome, a noite estrelada acima de nós dois, o álcool em meu
corpo, eu me sentia em outra dimensão.
— Katelyn. — disse perto de meu ouvido. — Vou te levar
para casa.
— O combinado era o lago dos sonhos. — falei. — Nós
vamos ao lago dos sonhos e eu não quero que essa noite acabe,
que essa sensação acabe.
— Que sensação?
— De que você sente o mesmo que eu.
O abracei.
O abracei com toda a força existente em meu ser, o abracei
como se o mundo pudesse acabar amanhã, porque se acabasse, eu
não me arrependeria desse momento. Eu o abracei da maneira mais
verdadeira que se pode abraçar outro ser humano, o abracei com
amor, com saudades, com ternura, com medo, o abracei como se eu
não pudesse suportar viver sem ele, porque talvez eu não suporte,
porque talvez eu precise dele para viver como preciso de ar para
respirar, ou às vezes é apenas as cervejas que tomei fazendo efeito.
Eu não sei. Minha cabeça girava, eu estava zonza. Senti como se
estivéssemos rodando em trezentos e sessenta graus, mas meus
pés estavam no chão, eu estava no chão, Mingus estava ao meu
lado e meus braços estavam em sua cintura. — Por que meus
braços estavam em sua cintura? Por que eu precisava tanto dele?
Por que eu me sentia em paz nos seus braços? E sobretudo, porque
ele não me expulsou dali? Por que ele me deixava ficar em seus
braços? Ele me queria em seus braços também?
Fechei meus olhos.
— Você está bem? — sua voz saiu doce, com um tom de
preocupação.
Abri meus olhos e sorri para o loiro à minha frente.
— Estou. — murmurei o apertando mais no abraço. — Me
deixa morar nesse abraço?
— Ele é todo seu. — suspirou correspondendo à maneira
que eu o apertei. — Sempre foi.
— Sempre será?
— Sempre. — beijou minha testa. — Mas me diga, o que
está passando na sua linda cabecinha?
Ri sem jeito, eu realmente não poderia responder essa
pergunta.
Por onde eu começaria? Eu tinha saudades do sabor dos
seus lábios nos meus, eu estava morrendo com a sensação da sua
respiração em meu pescoço, as mãos fortes em torno do meu corpo
me deixavam com vontade de gritar perguntando como ele poderia
dizer que não me amava quando todas as circunstâncias me
levavam a crer que eu era amada, além disso, que eu era venerada
por ele. Mas hoje eu realmente não estava bêbada, então eu não
conseguiria entrar nesse quesito.
— Apenas pensando que eu quero ir no lago dos sonhos. —
digo sorrindo. — Vamos?
Estávamos sentados na grama, ao descermos do carro
estava ventando e como vim sem nenhuma blusa de frio, Mingus
pegou sua jaqueta de couro que estava no carro e me entregou, eu
a coloquei em meu corpo e nós caminhamos até o local onde
estávamos sentados.
— Diga, minha Katelyn. Do que quer conversar?
“Minha Katelyn”. — suspirei.
— Estou ansiosa para ver o Sol acordar. — disse.
— O Sol está dormindo? — perguntou tentando segurar o
riso.
— Sim, ele esteve acordado por todo o dia e foi descansar.
— Você fica tão bonitinha quando diz coisas assim.
Mordi meu lábio tentando conter o riso, mas foi inevitável.
Na verdade, nós dois caímos na gargalhada. Ele abriu os braços
para que eu pudesse me deitar em seu peito e assim que fiz,
passou os braços sobre mim.
— Você não está com frio? — perguntei.
O vento parecia intensificar cada vez mais.
— Não. E você?
— Com sua jaqueta e com o calor do seu corpo, não.
Ele sorriu.
— Mingus?
— Sim?
— O que você mais gosta em mim?
— Tudo. — nem pensou para responder. — Desde os seus
olhos de esmeralda, até seus dedinhos tortos do pé.
Sorri.
— E você? — perguntou. — Gosta de algo em mim?
— Desde os seus olhos de céu até seus pés gigantes. —
respondi. — Ah! Isso inclui sua pintinha embaixo do olho esquerdo.
Eu realmente gosto dela.
— Também gosto da sua pintinha ao lado direito da
bochecha.
— Você sabe onde eu tenho uma pintinha? — ri.
— Eu mapeei você por inteira em minha mente. —
respondeu. — Cada pequeno ou grande detalhe do seu corpo, eu
conheço.
— Porque eu fui sua.
— E eu fui seu. — disse, com a voz rouca. — E hoje, eu
adoraria ser seu outra vez.
Seus olhos brilharam mais do que as estrelas no céu. —
Nessa noite eu o tinha e sobretudo, eu o queria.
Me ajeitei, ficando frente a frente dele e, antes que ele
pudesse tentar se defender, hesitar, dizer que só brincou, provocou,
ou pensar em qualquer maldita coisa, eu o beijei.
O beijo começou lento, como duas crianças aprendendo a
beijar, estávamos como dois bobos descobrindo um novo universo,
mas depois foi se intensificando, como duas pessoas apaixonadas,
como se estivéssemos apaixonados um pelo outro. — Garanto que
eu estava, mas não poderia dizer o mesmo sobre ele, porque eu
nunca entendia o que ele sentia e penso que talvez eu nunca vá
entender. — Nos beijávamos como se o mundo fosse acabar daqui
alguns minutos, e eu não precisava de mais nada além desses
braços em meu corpo e meus lábios nos seus.
— Vamos para sua casa. — falei.
— E o nascer do sol?
— Que se dane isso. — respondi sem hesitar. — Apenas
me faça sua.
— Você tem certeza? — afastou nossos corpos e me olhou
nos olhos. — Absoluta certeza?
Eu assenti sem pensar.
— Diga. Eu preciso ouvir você dizer, eu preciso ter a certeza
de que você realmente quer.
— Eu quero você. — digo firme. — Desesperadamente.
Seu sorriso torto e malicioso apareceu. Ele se levantou
trazendo-me em pé junto dele e agarrou em minha mão para
andarmos até o carro.

Chegamos em seu apartamento e confesso que estranhei


nosso bom comportamento no corredor e no elevador, mas no
instante em que pisamos dentro de sua sala, joguei minhas mãos ao
redor de seu pescoço e o beijei outra vez.
— Você não pode me deixar começar nenhuma vez sequer?
– brinca, se afastando do beijo para me pegar no colo.
Fomos nos beijando até o seu quarto e ele me deitou em
sua cama — Foi até o móvel e pegou um pacote de camisinha e
voltou jogando seu corpo em cima do meu, me beijando com força.
Eu retribui o beijo e lancei minhas mãos em suas costas, subindo
sua camiseta e o arranhando ao mesmo tempo. — Nos afastamos
relutando para ele tirar sua camisa e eu me sentei para ele tirar
minha blusa e continuou abrindo meu sutiã com uma única mão.
Pressionei minha boca em seu peito e sua pele estava
quente sob meu lábio, mas sinto que nós dois estamos pegando
fogo nesse momento.
Num piscar de olhos, ele me deitou novamente e está por
cima de mim, e estamos nos beijando outra vez. Mingus envolveu
meu peito com sua forte mão e desceu seus lábios até meu seio, o
chupando com força. — Penso que vi estrelas ao soltar um gemido
abafado. Eu estava tentando me conter, ainda estávamos no
começo. — Em seguida, ele passa para o outro seio, dando a
mesma devida atenção e tratamento e então começa a descer
trilhando um caminho de beijos por todo o meu corpo.
— Aqui é meu. — beijou e continuou descendo. — Essa
parte também é minha. — beijou e desceu mais um pouco. — Está
também. — depositou outro beijo.
Mingus estava marcando cada parte do meu corpo como
sua e de fato, era. Isso me deu ainda mais tesão. O meu olhar o
acompanhou desabotoar meu zíper e beijar minha virilha.
Ele subiu seu olhar ao meu e sorriu maliciosamente e voltou
pra cima, à posição inicial, onde ele beijou outra vez e entrelaçou
nossas mãos com força. — O beijo era intenso, me tirou alguns
gemidos e também me deixou sem fôlego, ao ponto que precisei
respirar.
— Como isso é bom. — disse, ofegante.
Mingus levou minha mão até sua calça para eu fazer o
serviço de tirá-la e assim fiz. Peguei em seu membro duro, e sorri.
Adorava saber que eu tinha o poder de deixá-lo assim.
O loiro não deixou eu brincar muito, estava sedento para
entrar em mim, então ele se colocou entre minhas pernas e beijou
minhas coxas. Começou lamber por todo o caminho até o clitóris e
seus dedos entrelaçarem meu cabelo, entregando o prazer da forma
que gostava. — Gemi e ele sorriu, me entregando exatamente o que
eu estava esperando. — Lambidas suaves, beijos carinhosos e meu
primeiro orgasmo estava chegando, mas ele percebe e não me
deixa terminar.
— Quero estar dentro de você quando acontecer. — diz.
Mingus pega a camisinha que já estava na cama e a coloca
rapidamente para não perdermos o clima. — Ele volta para mim, e
eu estou tão molhada que ele entra até o fim com o primeiro
movimento, preenchendo o meu corpo ao máximo. Mingus começa
devagar, mas logo o ritmo lento se acelera me fazendo gemer.
— Isso. — gemi. — Mais forte.
Ele atende meu pedido e posso sentir o clímax chegando.
Deslizo as unhas pelas costas dele com força e o vejo sorrir. —
Estamos conectados, no mesmo nível. Mexo o meu quadril para ir
mais rápido, e chegamos ao clímax juntos. Ele desaba ao meu lado
e estou tão cansada quanto ele, respiração ofegante depois do
orgasmo, mas fico por cima dele e nos beijamos freneticamente. —
Me afasto para respirar. Sorrindo, ele se inclina para cima e me beija
outra vez, não posso evitar e correspondo. Meu corpo está em
chamas. Desço minha mão até seu pau e a pele macia desliza
facilmente sobre a minha pegada. — Ele estava gostando disso,
gostava de sentir prazer, mas também gostava de me dar prazer e
por isso, enfiou seu dedo médio em mim me fazendo gemer.
Estamos ambos ofegantes outra vez, ele me beija de novo e
desta vez nossas línguas e nossas mãos estão ocupados. Seu
polegar pressiona meu clitóris enquanto seu dedo médio passeia
por mim e eu sigo acariciando seu pau apertando a cabeça grossa
em cada movimento. Sinto que estou novamente chegando ao
clímax e saio do beijo para respirar, eu esqueci que precisava
respirar.
É isso. Cheguei ao clímax outra vez. Ele também.
Dessa vez, eu quem desabei na cama. Estava ofegante e
cansada. Ele também.
— Isso. foi. incrível. – disse.
— Foi. — ri. —
O orgasmo de hoje foi mil vezes mais intenso do que todos
os que eu já tive. — penso. — Tudo hoje foi diferente, o sexo com o
Mingus sempre foi bom, mas hoje superou qualquer coisa.
Capítulo 19
Mingus
Depois do melhor sexo da minha vida, estávamos deitados
em minha cama aconchegados e, diga-se de passagem, que eu não
me importaria de viver desse jeito por toda minha vida. — O silêncio
não era estranho ou constrangedor, era pacífico e eu estava
fazendo carinho em seu cabelo e nós estávamos apenas
aproveitando a companhia um do outro. Eu estava apenas
aproveitando o momento em que conseguia tê-la em meus braços,
eu estava matando a saudades de nós. E, ali, depois do sexo,
depois de deitar ao seu lado e ainda querer permanecer aqui,
depois de não me sentir estranho e não passar pela minha cabeça
em fugir, eu reconheci que o que sinto por ela é amor. — Sou
completamente apaixonado por essa garota e reconheço que
mesmo que o inverno chegue, mesmo que haja as mais bravas
tempestades no céu, ou que dez, vinte, cinquenta anos se passem,
eu ainda a amarei, porque eu reconheço, nesse instante, que este
amor está além de tudo já visto, está além do meu corpo, além do
meu coração, está gravado em minha alma e em todas as vidas eu
a amarei, porque a minha alma pertence à ela. Daqui a cem anos,
quando minha alma encontrar a sua no mundo espiritual, eu a
reconhecerei e a amarei.
Nesse instante, notei que ela adormeceu envolvida pelo
meu corpo, pelos meus braços. Meu peito estava apertado.
Reconhecer que o que sentia por ela era amor, tornava ainda tudo
mais difícil, porque emocionalmente eu não poderia deixá-la e
deveria confessar os meus sentimentos e parar com esse tormento
que comecei há anos, mas pela razão, eu deveria deixá-la partir,
porque eu a amo e sei que não seria capaz de fazê-la feliz. Sorrio
olhando-a dormir. Eu não poderia confessar meu amor, mas se os
olhos falassem, como dizem que falam, Katelyn já estava ciente de
que eu era completamente apaixonado por ela.
— Eu sinto muito. — murmurei. — Sinto muito por não ser o
cara certo para a sua vida, sinto muito por não ter consertado o que
há de tão errado dentro de mim para poder te entregar tudo o que
você merece e sinto muito por não dizer que não é físico, sinto muito
por não dizer que é, sempre foi e sempre será amor. — suspirei. —
Mas minha menina, se eu confessar a você o que sinto, se eu te
dizer que é recíproco, que eu te amo com toda a minha alma, você
nunca iria embora e isso te levaria à destruição, porque eu estou
fadado a cair. Eu não posso te levar para a minha escuridão,
Katelyn. — respiro fundo. — Se você ficasse ao meu lado, cedo ou
tarde a ruína iria te atingir, porque este é o meu destino, esta é a
maldição que Helena e John puseram sobre mim. Tudo aquilo que
eu desejo, tudo o que eu possa vir a me importar, ou amar, está
sujeito a cair. Apenas um de nós pode ser infeliz, e esse sou eu.
Respiro fundo e me demoro para soltar o ar, porque é no
momento em que reconheço o meu amor por ela — finalmente —
que também reconheço que preciso, de verdade, sem mais rodeios,
a deixar ir.
Talvez eu seja uma pessoa ruim no final das contas. Talvez
toda essa marra e má reputação que criei sejam verdadeiras. Talvez
eu passe o resto da minha vida de bar em bar, criando ainda mais
uma má reputação, talvez eu passe a vida sozinho e talvez — ou
com certeza — eu seja amaldiçoado, mas enquanto tenho Katelyn
em meus braços, enquanto sinto seu corpo sob o meu e sinto o
cheiro de seu perfume, sinto que eu poderia parar com toda essa
merda, sinto que eu poderia ser alguém melhor para ela e por ela.
— A questão é que sentir e conseguir são coisas distintas e desde
pequeno escutei minha mãe dizer que eu não era digno do amor e
que meu pai tinha me deixado porque eu era difícil de ser amado e
acabei assumindo isso como a maior verdade da minha vida, se
algum dia pedissem para eu me definir em poucas palavras, eu
poderia tranquilamente dizer “Oi, sou Mingus Carter e não sou digno
do amor”, porque era como se isso fosse a minha definição desde
que me entendo por gente e por essa razão, eu sempre me afasto
quando as coisas ficam sérias ou sentimentais.
Helena disse certa vez que o amor é uma fraqueza, mas ao lado de
Katelyn eu sempre me senti mais forte do que sou, o que me leva a
crer e essa teoria é errônea, mas por outro lado eu reconheço que
sou vulnerável quando o assunto é ela. Talvez, essa seja a fraqueza
do amor, ele nos torna vulneráveis. E quando estamos vulneráveis,
podemos nos quebrar com mais facilidade. Eu confesso que em
toda a minha vida nunca me senti por inteiro, mas se perguntassem
o momento exato em que fui quebrado ou melhor, estilhaçado, eu
diria que foi quando ouvi aquelas quatro malditas palavras. —
“Você. Nunca. Será. Amado.” — Se o amor é ser vulnerável e se ser
vulnerável era estar propenso a ser quebrado, estilhaçado, eu não
poderia amá-la e ela também não poderia me amar, porque embora
eu não quisesse que esse fosse o meu destino, a maldição pela
qual eu teria que pagar por algum pecado da vida passada, ou só
pelo pecado de ter nascido e atrapalhado a vida de Helena, eu
poderia ser a destruição de tudo e de todos, mas eu jamais, em
hipótese alguma, seria a destruição dela. Eu preferiria morrer do que
a destruir. Eu daria a minha vida para que ela não sofresse nenhum
arranhão, nenhum dado. Apenas um de nós estava fadado à ruína.
Se maldições realmente existem, se o destino realmente é traçado,
apenas o meu seria infeliz. O dela não. Nunca.
A olhei. — Linda. Linda em meus braços enquanto dorme.
— Infelizmente eu terei que partir o seu coração outra vez.
— Partirei seu coração pela última vez, meu amor. —
murmurei. — Doí como um inferno ter que fazer isso, mas eu prefiro
partir o seu coração do que ser a causa da sua destruição.
Acariciei seus cabelos e senti uma lágrima escorrer. Limpo
de imediato e abro um leve riso pensando no que ela diria nesse
momento “Mingus Carter chorou por mim?”, “Posso contar pra geral
que você chorou por mim?” — Com certeza ela diria isso, com
certeza ela riria disso. Sim, Katelyn. — penso. — Eu chorei por
você. Você não imagina tudo o que eu faria por você, mas não sou
corajoso o suficiente para ficar.
A questão é que talvez eu não seja digno do amor porque
não sou capaz de aceitá-lo em minha vida. Não sou digno do amor
porque sou covarde demais para lutar contra meus próprios
demônios internos.
Com toda cautela do mundo para não acordá-la afastei seu
corpo do meu, deixando sua cabeça no travesseiro e me retirei da
cama. Meu peito inquieto, apertado, estremecido, porque amanhã
eu iria acabar com tudo. Amanhã, eu iria partir o seu coração pela
última vez e dilacerar o meu para toda a eternidade.
CAPÍTULO 20
Katelyn
Acordei em sua cama e ele não estava ao meu lado, tive um
rápido dejavu com a noite em que ele me disse que tudo era apenas
físico, porque assim como naquele dia eu fiquei sozinha em seu
apartamento, parecia que agora seria o mesmo. — Tentei afastar
esses pensamentos porque ele provavelmente só estava em outro
cômodo. Ele não teria me deixado sozinha, não outra vez.
Embora eu acreditasse que ele estaria ali, talvez preparando um
café, talvez comendo, talvez assistindo na sala, meu peito estava
apertado, como se já estivesse aguardando algo ruim.
Desci da cama, peguei sua camisa no chão e a vesti. Meus
passos estavam lentos, porque a cada curto passo que eu dava,
meu coração estremecia, era como se eu soubesse que estava
caminhando para uma decepção, mas esperando por uma vitória.
Suspirei fundo quando consegui avistá-lo no sofá enquanto
ainda estava no corredor, mas meu coração acelerou por ver sua
feição, ele estava tudo, menos feliz.
— Mingus? — murmurei entrando na sala.
Ele olhou para cima, ele olhou para mim e eu juro que vi
seus olhos cheios de lágrimas, mas ao me aproximar ainda mais,
não estavam mais ali.
— Aconteceu algo? — perguntei.
— Dormiu bem? — perguntou ele. — Conseguiu
descansar?
Algo estranho estava acontecendo. Ele parecia inquieto.
— Você dormiu? — perguntei.
— Sente-se aqui, por favor.
Vi seu esforço ao tentar sorrir fraco, e soube nesse exato
momento que as próximas palavras que ele dissesse iriam me
destruir.
Me sentei ao seu lado, nossos corpos estavam frente a frente.
— Diz. — falei. — O que agora?
— Eu sinto muito. — diz olhando em meus olhos e por
alguma razão eu sabia que essas seriam suas primeiras palavras,
porque eu vi em seu olhar quando me sentei que ele iria me deixar.
— Você realmente não imagina o quanto eu verdadeiramente sinto
muito.
Permaneci em silêncio, olhando para ele. Tão lindo. Tão
vulnerável nesse momento, porque seus olhos também estavam
como os meus, cheios de lágrimas, desesperadas para caírem.
— Você sempre será a minha garota favorita, mas eu não
fui feito para você. — continuou. — Eu nunca me neguei a nada que
eu quisesse, eu nunca me neguei a prazeres da vida, nunca me
neguei a ficar com alguém que eu desejo e acredite você eu desejo
mais do que qualquer coisa nesse mundo, na verdade, eu nunca
desejei alguém como desejo você. Ontem a noite, foi o melhor sexo
da minha vida, na verdade, todas as vezes em que foi com você,
foram os melhore e eu poderia ser um filho da puta e continuar
seguindo com esse ciclo vicioso que temos, eu poderia dizer
“deletar os arquivos das memórias” e não falarmos sobre o que
aconteceu ontem, porque eu gostaria de continuar transando com
você. — suspirou. — Mas você é pura demais, Katelyn. É
necessário parar, é necessário parar agora enquanto eu ainda
posso parar, eu preciso dizer não aos meus prazeres, aos meus
desejos, porque eu não posso ferir e estilhaçar o seu coração. Eu
não vou te destruir.
Fechei meus olhos para tentar impedir as lágrimas de cair
pelo meu rosto, mas elas estavam desesperadas para isso e foi
inevitável. Elas não começaram apenas a cair, elas começaram a
jorrar. Mingus aproximou-se e começou a passar as suas mãos para
limpá-las, ele limpava toda maldita lágrima que estava prestes a cair
da mesma maneira que eu gostaria de poder limpar sua alma.
— É necessária muita coragem para admitir isso. — disse.
— Então se puder, abra seus olhos agora e olhe para mim. — abri
meus olhos e ele estava tão próximos, seus olhos vermelhos,
provavelmente de segurar as lágrimas. — Sempre foi recíproco,
Katelyn. O impacto dessa frase foi implacável. — Mas eu
simplesmente não me perdoaria por quebrar você. — continuou. —
Vamos parar. Vamos encerrar tudo.
— Penso que fomos amaldiçoados. — murmurei entre as
lágrimas.
— Uma maldição só será uma maldição se nos permitirmos
ser amaldiçoados por ela. — murmurou de volta. — E se realmente
somos amaldiçoados, que seja eu o único a carregar o fardo de não
ter uma boa vida. Eu te liberto da maldição agora.
— Eu não quero ser liberta. — murmuro. — Eu não quero
parar por aqui, eu não quero encerrar nada. — limpo a garganta. —
Você acabou de me dizer que é recíproco, então porque não
ficamos juntos? Fique comigo. Fique ao meu lado.
— Não posso. Eu realmente não posso.
— Por que?
— Eu sou fadado a cair, Katelyn. — diz. — Eu te levaria à
ruína, hora ou outra eu destruiria você e se isso não for o suficiente
para você acreditar que devo partir, pense que eu poderia te deixar
hora ou outra, porque eu sempre faço isso, eu sempre desapareço e
você merece alguém que fique, você merece alguém que não seja
confuso, você merece alguém que te ame incondicionalmente como
você deve ser amada, você merece alguém que seja digno do seu
amor e isso, eu nunca poderei ser.
Tanto amor era derramado naquele momento, nas palavras
que ele escolheu usar com cautela, em nossa troca de olhares,
tanto amor derramava dos nossos corações e de nossas almas,
tanto amor que poderia preencher todo o seu apartamento.
— Às vezes me questiono como é que você não se enxerga
digno do amor. — falo. — Você pensa tanto em mim, faz de tudo por
mim e mesmo assim acha que não é digno disso. Eu queria que
você se enxergasse da maneira que eu te enxergo, porque acredite,
você é feito de amor.
— Não sou, querida. — disse sorrindo fraco. Seu sorriso era
carregado de uma profunda dor. — O tempo todo eu tenho uma fúria
dentro de mim, o tempo todo penso em alguma coisa ruim e sou
extremamente confuso, como se essa raiva estivesse fervendo
dentro de mim, ao ponto de explodir. Como pode alguém que vive
desta maneira ser feito de amor? Como pode alguém que vive com
esse fardo ser amado ou amar alguém?
— Como pode alguém com um coração tão bondoso como
o seu não se achar digno do amor? — digo. — Como pode se
afastar sempre que existe a possibilidade de ser feliz?
— Porque talvez eu não a mereça. — respondeu de
imediato. — Mas, preciso ser honesto em dizer que se eu pudesse
ser feliz, se em um cenário de vida completamente diferente eu
pudesse ser feliz, eu não tenho dúvidas de que seria com você.
— Me responda uma coisa. — digo. — Não é apenas físico,
é? — o olhei no fundo dos olhos.

Ele abriu um breve e doloroso sorriso olhando para mim. —


Eu tinha que perguntar. Acredito que toda a nossa história se
baseava nisso, como se esse fosse o grande e fodido prólogo de
nossas vidas, àquela maldita introdução que nos levou a esse ciclo
vicioso.
— Não é apenas físico, né? — repeti a pergunta.
— Nunca foi. — disse sem desviar o olhar. — E eu sei que
você sabe disso há muito tempo.
— Mas eu precisava ouvir.
— Então eu irei repetir para que você possa apagar da sua
memória aquelas malditas palavras que eu disse naquela noite,
porque eu sempre detestei mentir para você, mas naquele dia eu
menti. — disse. — Katelyn, quando você me perguntou se havia
ferrado com tudo eu desejei te abraçar e dizer que você nunca
deveria repetir uma frase como esta, porque eu passei minha
infância toda me questionando se eu havia ferrado com tudo em
cada situação com meus pais e isso acaba com a mente de
qualquer um, mas novamente eu me acovardei e fiquei paralisado e
só consegui afastar os nossos corpos porque eu estava com medo
do que eu poderia dizer, porque eu estava assustado com o que
senti quando você disse que me amava, assustado porque eu nunca
tinha me sentido dessa forma antes, e quando eu pensei que
poderia dizer algo, minha voz falhou e você perguntou se eu
gostava de você e disse sentir que sim e caralho, é claro que você
sentia que sim, porque tudo em mim era sobre você, meu mundo
girava em torno de você, então é claro que eu gostava, mas eu
estava certo de que eu nunca poderia me apaixonar, me aproximar
ou amar ninguém, porque eu sempre tive a consciência de que eu
destruiria essa pessoa e a única rota de fuga que encontrei para
isso foi mentir para você, porque se eu me calasse você entenderia
que eu realmente gostava, e eu não queria que você pensasse isso,
porque quando você confessou os seus sentimentos por mim, todos
os ossos exaustos do meu corpo tremeram com o pensamento de
que o seu amor por mim poderia um dia ser o motivo da sua ruína,
então eu menti. Eu disse que era físico, quando claramente não era.
Nunca foi físico. Desde o primeiro beijo, desde a primeira transa,
desde a primeira vez que meus olhos encontraram os seus, não era
físico. — respirou fundo. — Eu me arrependo de ter lhe dito isso,
porque sei que ali eu parti o seu coração, mas eu não me arrependo
de ter me afastado, Katelyn. Na verdade, me arrependo de ter
voltado tantas e tantas vezes, me arrependo de ter te provocado
tantas e tantas vezes, porque eu deveria ter me mantido longe, eu
deveria ter sido cauteloso sobre seu coração e se desde aquela
época eu não tivesse mais aparecido na sua vida causando
confusões, você poderia já ter me superado e não seria tão difícil
como será agora.
Não era físico. — respiro de alívio pela primeira vez desde
que acordei. Mas logo percebo que isso não muda nada, logo
percebo que ele está decidido a se afastar e que não existe nada
nesse universo que eu possa fazer para mudar sua decisão.
— Gostaria que tudo fosse diferente. — digo. — Eu apenas
queria que esse amor não fosse tão difícil assim. Por que precisa
ser tão difícil, Mingus?
— Porque eu não fui feito para você, querida. —
respondeu.
— Pare de dizer isso! — gritei. — Por favor, apenas pare
com essa merda toda e vamos voltar ao normal, vamos deletar os
arquivos da memória dessa noite e ver o nascer do sol na próxima
semana, sair com nossos amigos, beber alguma coisa gostosa e
jogar videogame.
Ele me analisava sorrindo fraco enquanto eu falava, não me
interrompeu uma só vez, mas seus olhos deixavam claro que íamos
nos afastar e dessa vez, era diferente de todas as outras, porque
meu peito doía muito mais, como se eu realmente sentisse que
dessa vez era para a vida toda.
— Eu sei que você está machucada. — disse. — Eu sei que
eu parti o seu coração outra vez, mas eu te prometo que tudo isso
vai passar eventualmente. — respirou fundo. — Kitkat, você é a
mulher mais incrível que eu conheço e certamente não existe
ninguém como você em todo o universo, você é a personificação de
bondade e eu sei que o que está sentindo agora, hora ou outra irá
melhorar e sei especialmente que eu não tenho o direito de dizer o
que vou dizer, se quiser me odiar, pode me odiar, mas eu espero
que você encontre alguém. Eu desejo que essa pessoa te leve para
ver as noites estreladas, espero que esse alguém espere o sol
acordar ao seu lado para que você possa contemplar isso, espero
que você seja amada, respeitada, valorizada e desejada, torço para
que nunca se permita aceitar menos do que merece, então por
favor, nunca aceite menos do que você nasceu para ter. Você é uma
mulher independente, e está no caminho certo.
Cala a boca. — pensei. — Por favor, fique quieto. — Eram
os meus pensamentos.
— Não diga coisas como se eu fosse amar outra pessoa,
porque eu nunca poderia fazer isso. O meu amor, é seu. Eu sou
sua.

— Peço a Deus que você ame. — diz. — Peço a Deus que


você possa amar outra pessoa.
— Não peça isso a Ele, seu idiota! — grito. — Peça que
você possa me amar, peça que você possa ser curado de toda essa
angústia que sente aí dentro, peça que você possa se sentir digno
do amor, peça que você possa ser feliz!
— Eu não tenho mais salvação, Katelyn. Mas sei que se a
felicidade pudesse me encontrar, certamente seria com você.
— Eu não vou te deixar ir.
— Você vai. — disse. — Você precisa deixar.
— Eu não quero.
— Por favor. — ele disse. — Eu suplico.
— É nítido que você também irá sofrer, então pra que se
afastar, pra que parar com o que temos? Voltemos a ser como
antes, então. — digo. — Cada um com sua vida, mas amigos.
Vamos tentar deixar o sexo e momentos íntimos de lado e se vier
acontecer, iremos deletar as memórias como estamos fazendo a
anos, mas não retire a sua amizade, seu cuidado de mim.
— Você nunca vai me superar se continuarmos iguais.
— Eu não quero te superar.
— Katelyn! — me repreende. — Eu nunca ficaria na sua
vida, eu nunca iria te amar, eu nunca iria te respeitar como você
merece ser respeitada, eu nunca seria bom para você e nunca,
absolutamente nunca iria deixar minha má reputação de lado, eu iria
continuar saindo por ai, bebendo, me drogando, saindo com outras
meninas, então porque você me quer na sua vida? Pra que você
quer alguém fracassado como eu? Chega de quebrar seu coração.
Chega de chorar e sofrer por mim. Chega. Já deu.
— Não diz isso. — digo em soluços. — Não diga isso. Você
acabou de dizer que não é físico, você acabou de me dar
esperanças e…
— Eu disse que não era físico, Katelyn. — me cortou. —
Mas eu nunca te dei esperanças, porque entre nós dois, não vai
rolar.
— Mingus…
— Eu sinto muito, mas é o melhor para nós.
A ira tomou conta de mim.
— Porra, você não tem o direito de agir como se soubesse o
que é o melhor para mim, você não tem direito de dizer que para
não me destruir vai se afastar, já te ocorreu a ideia de que talvez eu
queira correr o risco? Já te ocorreu a ideia de que talvez eu aceite
seus termos?
— Por Deus, Katelyn! — aumenta seu tom de voz. — Eu
jamais deixaria você se submeter a isso. Você é pura, inocente, boa.
Você é extraordinária e merece o melhor.
— Você não faz sentido algum. — grito outra vez. — Meu
Deus, suas palavras não fazem sentido algum.
— Eu sinto muito.
— Não sinta. Não sinta muito e não seja bom para mim. —
disse. — Não me procure nos meus dias ruins, não tente me animar
quando eu estiver triste, não me compre chocolates, não me dê
sorrisos reconfortantes e não me abrace intensamente. — às
malditas lágrimas não cessavam. — Não me chame pelo apelido
que me deu, não me busque nos lugares, não se preocupe quando
eu estiver doente, não me ligue aleatoriamente para perguntar como
eu estou e não fique perto apenas por ficar. Seja cruel. Seja ruim.
Me faça te odiar, me faça algo tão absurdo que eu não poderei
nunca mais desejar estar ao seu lado. Apenas seja um filha da puta
para que eu realmente possa te deixar ir, porque se você continuar
se desculpando, se você continuar dizendo que eu sou sua garota
favorita, sempre existirá esperança em meu ser e eu preciso perdê-
la para realmente te deixar ir. Seja cruel. Seja quem você diz tanto
ser.

Me levantei.
— Você quer que eu te esqueça? Ótimo, darei o meu
melhor pra isso. — disse. — Você quer que eu seja feliz? Ótimo, eu
serei. Mas Mingus, preciso que você preste muita atenção no que
eu vou dizer agora: se eu sair por aquela porta, se você permitir que
eu saia, eu nunca mais voltarei para você.
Ele permaneceu em silêncio. — Rio de nervoso enquanto as
lágrimas continuam descendo pelo meu rosto. Me virei para ele e
caminhei até o seu quarto para pegar minhas coisas. Sua cama
estava lá, toda desfeita pela bagunça que causamos ontem
enquanto nos amávamos, minhas roupas no chão, seu porta retrato
com uma foto de nós seis no móvel do lado da cama estava caído,
provavelmente fomos nós e ali eu despedacei. — Eu tenho certeza
de que ele poderia ouvir meu choro, porque eu não conseguia
controlar, tudo em mim estava sentindo dor, eu chorava
desesperadamente enquanto me despedaçava naquele quarto,
naquele quarto que ontem mesmo foi testemunha do nosso amor.
Como ele poderia desistir de nós? Como ele poderia me dizer para
amar outra pessoa? Como ele poderia dizer que se ficasse na
minha vida não me respeitaria? Como ele pode ser tão bom e tão
ruim ao mesmo tempo?
CAPÍTULO 21
Mingus

— Katelyn! — a repreendo. — Eu nunca ficaria na sua vida, eu


nunca iria te amar, eu nunca iria te respeitar como você merece ser
respeitada, eu nunca seria bom para você e nunca, absolutamente
nunca iria deixar minha má reputação de lado, eu iria continuar
saindo por ai, bebendo, me drogando, saindo com outras meninas,
então porque você me quer na sua vida? Pra que você quer alguém
fracassado como eu? Chega de quebrar seu coração. Chega de
chorar e sofrer por mim. Chega. Já deu.
Todas essas palavras árduas saindo da minha boca não são
minhas. Onde estão meus sentimentos? Eu não sinto essas coisas.
Sinto como se essas palavras viessem de outra pessoa. Onde está
o meu verdadeiro eu? Estou perdido e isso me mata por dentro.
— Não diz isso. — diz em soluços. — Não diga isso. Você
acabou de dizer que não é físico, você acabou de me dar
esperanças e…
— Eu disse que não era físico, Katelyn. — a interrompi. —
Mas eu nunca te dei esperanças, porque entre nós dois, não vai
rolar.
— Mingus…
— Eu sinto muito, mas é o melhor para nós.
Estou assistindo tudo dentro de mim ser quebrado neste
exato momento, estou assistindo eu partir o coração da única garota
que já amei e que poderia amar nessa vida, mas eu apenas estou
sentado assistindo tudo isso. Estou com medo de viver e também
estou com medo de morrer, como se eu estivesse preso em uma
caixa que eu mesmo me tranquei.
— Porra, você não tem o direito de agir como se soubesse o
que é o melhor para mim, você não tem direito de dizer que para
não me destruir vai se afastar, já te ocorreu a ideia de que talvez eu
queira correr o risco? Já te ocorreu a ideia de que talvez eu aceite
seus termos?
— Por Deus, Katelyn! — aumentei meu tom de voz. — Eu
jamais deixaria você se submeter a isso. Você é pura, inocente, boa.
Você é extraordinária e merece o melhor.
— Você não faz sentido algum. — gritou outra vez. — Meu
Deus, suas palavras não fazem sentido algum.
Eu sei. Eu também não me entendo. Estou perdido e isso
me mata. Quando eu me tornei tão covarde? Quando eu me tornei
tão frio? Quando eu me tornei tão envergonhado? Onde está a
pessoa que eu conheço? Devo ter perdido toda a minha fé.
— Eu sinto muito. — digo.
— Não sinta. Não sinta muito e não seja bom para mim. —
disse. — Não me procure nos meus dias ruins, não tente me animar
quando eu estiver triste, não me compre chocolates, não me dê
sorrisos reconfortantes e não me abrace intensamente. — Suas
lágrimas continuavam a cair e eu sentia que poderia morrer a
qualquer momento com tamanha dor que estava causando a ela. —
Não me chame pelo apelido que me deu, não me busque nos
lugares, não se preocupe quando eu estiver doente, não me ligue
aleatoriamente para perguntar como eu estou e não fique perto
apenas por ficar. Seja cruel. Seja ruim. Me faça te odiar, me faça
algo tão absurdo que eu não poderei nunca mais desejar estar ao
seu lado. Apenas seja um filha da puta para que eu realmente possa
te deixar ir, porque se você continuar se desculpando, se você
continuar dizendo que eu sou sua garota favorita, sempre existirá
esperança em meu ser e eu preciso perdê-la para realmente te
deixar ir. Seja cruel. Seja quem você diz tanto ser.

Ela se levantou.
— Você quer que eu te esqueça? Ótimo, darei o meu
melhor pra isso. — disse. — Você quer que eu seja feliz? Ótimo, eu
serei. Mas Mingus, preciso que você preste muita atenção no que
eu vou dizer agora: se eu sair por aquela porta, se você permitir que
eu saia, eu nunca mais voltarei para você.
E eu fiquei ali. Eu estava paralisado na sala. — Podia ouvir
o seu choro desesperado e continuava paralisado. Meu corpo não
atendia aos meus pedidos para correr até lá, era como se eu
estivesse dormente.
Sei que não fiz nenhum sentido nas minhas palavras, mas
tudo o que eu havia ensaiado para dizer não saiu como esperado.
Eu não ia confessar meus sentimentos à ela, mas não achei justo
partir sem que ela soubesse que sempre foi recíproco, porque ela
poderia se sentir usada e eu nunca a usei, na verdade, creio que
nessa história confusa e trágica entre nós dois eu a tenha amado
mais do que ela me ama, não sei, porque não sei até onde vão seus
sentimentos por mim, mas sei que os meus por ela, vão além dessa
vida, eu estaria disposto a morrer por ela e a matar também, eu
estaria disposto a tudo, eu sacrificaria um povo inteiro para salvá-la
e se o sacrifício tivesse que ser a minha vida, faria sem hesitar.
Seu choro se intensificou e eu a ouvia perfeitamente, isso
conseguia acabar ainda mais comigo, porque tudo o que eu queria
era correr até ela, abraçá-la, senti-la, e remover essa dor do seu
peito, mas eu não podia, eu não poderia correr até ela, eu não
poderia ir até ela nunca mais.
Foram duas horas ouvindo-a chorar. Duas horas em pé no
corredor próximo ao quarto. Eu também chorei. Chorei em silêncio e
há quem diga que esse é o pior choro.
Eu estava tão perto e desejava tanto abraçá-la, mas eu tinha que
ser firme o bastante para ela.

Ouvi a porta do meu quarto se abrindo e endireitei minhas


costas. Ela caminhou pelo corredor, vestia suas próprias roupas e
seu cabelo estava amarrado em um coque. Passou por mim, mas
não me olhou.
Quando chegou na sala, pude ver que ela hesitou em
continuar a caminhar, seu corpo enrijeceu.
— Nós poderíamos ter tido tudo. — disse, ainda de costas
para mim. — Eu poderia te provar que és digno do amor, nós
poderíamos mandar embora toda essa escuridão que habita no seu
coração, poderíamos ter interrompido esse final catastrófico,
poderíamos ter terminado com essa maldição e definitivamente
poderíamos ter sido felizes, digo mais, extremamente felizes. Eu sei
que você me ama. E eu te amo, com toda a minha alma machucada
e ferida, eu te amo. Você, com toda a sua alma estilhaçada me ama
de volta e nós realmente poderíamos ter tido tudo, mas você optou
por ser covarde. Eu nunca vou te perdoar por ter optado por ser um
covarde, Mingus.
Continuei em silêncio, digerindo aquelas palavras.
— Não darei nem mais um passo até você. — continuou. —
Está doendo, está doendo como um inferno, mas eu me tornarei
forte. Assim que eu sair por aquela porta, não volte para mim, não
volte nunca mais.
Começou a caminhar até a porta. O meu grande amor
estava prestes a sair do meu apartamento e da minha vida. Eu não
sei como será a minha vida após esse momento, eu não sei como
será nós seis juntos novamente, ou se eu terei coragem de aparecer
porque eu provavelmente causaria ainda mais dor por ela.
O grande amor da minha vida estava me deixando, porque eu pedi.

— Que pena. — ela murmurou. — Seríamos uma linda história de


amor se tivesse dado certo.
— A mais linda história.
Essas foram as únicas palavras que consegui dizer. Fechei
meus olhos no exato momento em que ouvi a batida da porta.
Era o fim.
CAPÍTULO 22
Katelyn
Dois meses não são o suficiente para fazer um coração se
curar. Eu ainda estava quebrada, ainda chorava quase todas as
noites e ainda acordava todas as manhãs desejando uma
mensagem, uma ligação, um pedido de desculpas. — Dois meses
não me fizeram esquecer sua confissão e sua covardia. Dois meses
não me fizeram nem sequer amenizar esse sofrimento, porque
todos os dias a dor era igual, porque todos os dias a dor era árdua e
cruel.
Em dois meses nada mudou e tudo mudou ao mesmo
tempo. Desde aquele dia não o vejo e também não vi mais Thomas
e Christopher porque não marcamos mais nada, não tinha clima
para isso. As meninas, vinham todos os finais de semana em casa,
traziam lanches e chocolates, porque eu realmente estava magoada
ao ponto de não querer sair de casa. Em dois malditos meses eu
nem sequer ouvi a voz dele, mas não a esqueci, porque
constantemente podia ouvir em meus pensamentos ele dizer “desde
o primeiro beijo, desde a primeira transa, desde a primeira vez que
meus olhos encontraram os seus, não era físico.”. — Sua covardia
me deixava furiosa. Se não era físico, tinha sentimento, então
porque ele não enfrentou tudo para ficarmos juntos? Eu realmente
não me importaria em ser destruída se eu pudesse amá-lo.
Dois meses não foram o suficiente para eu ficar bem e
talvez, a vida inteira não fosse tempo o suficiente.
A vida parecia normal, na verdade, tudo estava normal. Eu
acordava cedo, ia para o trabalho, participava de conversas, sorria,
dava risada e às vezes quando era bem engraçado, eu gargalhava.
Eu almoçava, fazia o meu café da tarde, me envolvia em assuntos
do serviço ou assuntos fora dele, mexia nas minhas redes sociais,
dirigia, escutava músicas, via minhas amigas nos finais de semanas.
A vida realmente parecia normal, porque eu interagia com pessoas,
falava com minhas amigas todos os dias, sorria, ouvia piadas, fazia
piadas, gargalhava, chorava, me emocionava, sentia raiva, ficava
triste, conversava sobre os mais diversos assuntos com qualquer
um do trabalho. Eu tinha que seguir vivendo, porque um dos piores
fatos em ser adulto é nunca poder parar tudo, abandonar o trabalho,
a casa, os estudos, os amigos ou o que for até superar suas dores.
Então, a vida parecia normal. Ela seguiu normalmente dia após dia,
mesmo com meu coração estilhaçado, o novo dia ainda surgia.
Mesmo que eu passasse a madrugada inteira triste, eu ainda
conseguia acordar, colocar a melhor roupa e fazer uma ótima
maquiagem. Mesmo que eu tivesse que correr para o banheiro da
empresa quando meus pensamentos inundam minha mente e meus
olhos se enchem de lágrimas, eu ainda contava piadas. Mesmo
quando eu soluçava de chorar até dormir, eu ainda postava fotos em
minhas redes sociais. Mesmo quando parecia cruel demais seguir
em frente, a vida ainda seguia. E eu também.

— Você não deveria passar essa sexta-feira com o


Christopher? — perguntei assim que Sarah entrou.
Sarah chegou no meu apartamento sem avisar. Faziam
exatos vinte minutos que eu tinha chego do trabalho e ela
simplesmente me telefonou dizendo que estava chegando com
macarrão instantâneo para fazermos juntas e que Lily viria mais
tarde, porque tinha marcado de fazer a sobrancelha, por isso
atrasou.
— Essa sexta-feira é das garotas. — disse me entregando
as sacolas. — Sabor tomate, seu favorito.
Sorri agradecendo.
— Se importa de esperar que eu tome banho? – perguntei.
— Claro que não. — sorriu. — Fico assistindo aqui na sala,
pode ficar tranquila.
— Ok. — sorri. — Chris realmente não ficou chateado desta
sexta-feira não ser de vocês?
— Ele vai jogar a noite inteira, acha mesmo que vai sentir
minha falta? — riu. — Fique tranquila, hoje é mais uma das noites
das garotas.
Eu sorri outra vez antes de sair do cômodo.
Tinha medo deles brigarem por minha causa, porque é claro
que eu adorava ter minhas amigas ao meu lado nos fins de semana,
mas elas também precisavam do tempo delas para fazerem as
coisas delas, especialmente Sarah, que tinha um namorado.
Enquanto a água do chuveiro caia sob minhas costas, meu
pensamento foi até aquele maldito dia outra vez.
“Eu nunca ficaria na sua vida, eu nunca iria te amar” — foi o
que ele disse. — Como ele pôde dizer isso sendo que eu sempre
conseguia sentir o seu amor? Sendo que nenhum outro homem me
amou como ele fez? — “Pra que você quer alguém fracassado como
eu? Chega de quebrar seu coração. Chega de chorar e sofrer por
mim. Chega. Já deu.” — ele disse também, como se fosse fácil
deixar de chorar, como se fosse fácil partir.
Aqui estava eu, dois meses depois de tudo isso ter
acontecido, chorando debaixo do chuveiro enquanto minha amiga
estava na sala me esperando para tentar me animar e isso estava
acontecendo regularmente. Sarah e Lily estavam motivadas a me
ajudarem superá-lo, esquecê-lo, mas nem nos meus sonhos eu
conseguia deixá-lo ir, eu sentia por elas, porque seus esforços
realmente pareciam ser em vão.

— Esse filme me faz chorar todas as vezes. — disse Lily,


limpando as lágrimas.
— Não sei porque escolhemos um filme tão triste. — disse
Sarah.
— Porque é lindo. — falei.
Desde que saí do banho, Sarah e eu ficamos preparando
nosso macarrão instantâneo e aguardando a Lily, que chegou pouco
minutos depois e então decidimos ver um filme e eu escolhi o meu
favorito. Lindo, mas triste. Assim como a vida.
— Eu entendo a Emma. — digo. — Principalmente na parte
em que ela diz que quer o melhor amigo de volta porque sem ele
nada é bom e nada está certo.
Mingus era meu melhor amigo. Embora a nossa amizade
fosse semelhante a uma montanha russa com tantos altos e baixos,
era sempre para ele que eu recorria quando os dias eram difíceis.
Era o abraço dele quem me confortava e eram suas palavras que
me deixavam em paz. E eu sentia a sua falta. Eu sentia sua falta
loucamente.
Meus olhos marejaram.
— Nada ainda? — Lily perguntou.
Elas nunca me perguntavam diretamente sobre ele, porque
eu havia pedido para tentarmos não falar desse assunto, mas vire e
mexe uma pergunta era feita nas entrelinhas. Nesse momento, por
exemplo, ela havia me perguntado se algo aconteceu. Se ele me
ligou, mandou mensagem, apareceu, deu sinal de vida.
— Não. — respondi. — Melhor assim. Só me sinto triste por
nós seis estarmos distantes.
— Logo, quando as coisas se acalmarem, a gente marca
algo. — Sarah disse.
— Já se passaram dois meses e eu ainda não suporto a
ideia de ver ele, de estar no mesmo ambiente. — falei. — Ele está
silenciado em tudo e eu simplesmente não consigo conversar no
nosso grupo quando ele está falando. Não sei se conseguirei fazer
algo.
— Tudo no seu tempo. — a loira disse. — Não precisamos
marcar nada com pressa, se demorar mais dois, três ou cinco
meses, está tudo bem.
E se eu nunca superar? — Penso. — E se eu nunca
conseguir deixar de amá-lo? E se todas as vezes que eu pensar
sobre nós, sobre o que poderíamos ter sido eu ficar dessa forma?
Emotiva, chorona, triste. E se pelo resto das nossas vidas eu não
conseguir encará-lo?
— No tempo certo, tudo vai se encaixando. — Lily falou.
— É. — disse. — Eventualmente vai ficar tudo bem.
Eu sorri. Eu sorri para elas porque a vida parecia normal. Eu
sorri para concordar com algo que eu não acreditava. De maneira
alguma.
CAPÍTULO 23
Mingus
— Meu casaco? — franzi a sobrancelha olhando-a.
— Espere para ver o que tem embaixo dele. — sorri
maliciosamente estendendo sua mão para mim.
Mordi meu lábio inferior e segurei em suas mãos
delicadamente.
— Entre. — me puxou para dentro.
Em silêncio ainda segurando a sua mão, entrei até a sala de
sua casa e ela continuou sem dizer nada, apenas me encarando. —
Fiquei desconfortável por um instante e soltei um riso envergonhado
baixinho.
— Você fica lindo quando sorri. — disse soltando minhas
mãos.
— Obrigado. — respondeu.
— Acho que vai querer o seu casaco de volta. — disse
tirando o casaco de seu corpo.
Nos conhecemos em uma festa na quarta-feira desta
semana. Lá nós trocamos alguns beijos e nossos telefones para
terminarmos o que começamos.
Ela usava apenas uma lingerie vermelha e eu a olhei com
malícia sorrindo, entendi o seu recado e passei a admirar seu
corpo.
— Posso? — perguntei e ela assentiu.
— Eu confesso que não me lembrava do casaco. —
murmurei em seu ouvido. — Mas eu me lembro onde paramos na
quarta-feira.
— Então continue de onde paramos. — depositou um beijo
no meu pescoço.
— Ótimo. — mordi o pescoço dela. — Me mostre o
caminho.

Após chegarmos ao clímax, sai de cima dela ofegante e me


deitei ao seu lado para descansar brevemente, mas ela se
aproximou me abraçando de lado.
— Desculpe. — disse, tocando gentilmente em sua mão e
tirando de mim.
— Não podemos nos abraçar após a transa? — perguntou.
— Não gosto. — respondi firme. — Porque vocês podem
pensar que vai rolar sentimento e isso jamais rolaria.
— Oh, por favor! — ela riu. — Todos que conhecem Mingus
Carter sabem bem que ele não se envolve. É apenas físico, não?
Engoli em seco. Aquela frase me estremeceu, e não pela
garota à minha frente ou pelas outras garotas que eu já havia
propagado esta frase de ser apenas físico, mas sim por ter dito a
uma única pessoa.
Há dois meses eu estava vivendo e cultivando ainda mais
uma má reputação, mas há dois meses eu não conseguia abraçar
outra garota ou até mesmo elogiar. Eu transava, mas apenas por
transar, porque nem tesão eu sentia. Era como se meu corpo
estivesse lá, mas minha alma não.
— Fico contente que você saiba como isso funciona.
Ela sorriu maliciosamente, como se quisesse uma segunda
rodada, mas eu não queria. Infelizmente eu não conseguia
aproveitar muito tempo mais, porque meus pensamentos sempre
partiam para a Katelyn e por nossa história, nossas boas memórias
e pelas mulheres à minha frente, eu sempre me recusava transar
com elas enquanto pensava em Katelyn.
Me levantei e comecei me vestir. Ela me olhou.
— Não me olhe assim. — dou de ombros subindo o zíper da
minha calça.
— Você é bom no que faz, Mingus. — mordeu seu lábio. —
Mas sinto que não teremos um replay, estou certa?
— Está. — falei.
— Que pena. — sorriu. — Deixa que eu te acompanho até a
porta.
— Não precisa, sei o caminho. — digo. — Obrigado…
Droga. Esqueci seu nome.
— Nina. — ela ri.
Provavelmente estava acostumada com garotos como eu,
porque também já tinha se envolvido com Matthew alguns meses
antes. Sorrio sem graça.
— Pegarei meu casaco. — anunciei e sai do quarto.
Pode ser horrível da minha parte tratar uma garota que
acabei de transar assim, mas eu não queria que ela me
acompanhasse até a porta, porque quando isso acontece,
geralmente nos despedimos com um beijo e há dois meses eu evito
contatos. Apenas um beijo e uma preliminar antes do sexo e depois,
apenas sexo.
Eu não queria criar conexões ou emoções com nenhum
outro ser humano, claro que não tinha medo de acabar me
apegando à alguma delas, porque isso nunca aconteceria, já que
meu coração pertence a Katelyn, mas eu simplesmente não queria e
também nem conseguia.
Todo o meu ser pertence a outra mulher e eu não queria
que nenhuma outra tivesse acesso às partes que eram dela, como
minha bondade, meu lado companheiro ou meu lado romântico.
Dois meses haviam se passado desde a minha dura
conversa com a Katelyn e eu sentia sua falta como nunca pensei
que fosse possível sentir. Às vezes me pego lembrando de que ela
me chamou de covarde e reconheço que sou. Eu acovardei e não
tive coragem de lutar contra essa escuridão que habita em mim,
mas mesmo ainda sinto que essa foi a melhor decisão, porque eu
não poderia arrastá-la para a lama, eu não poderia correr o risco de
ser aquele que a destruiria, porque na verdade, ninguém jamais a
destruirá. Eu continuarei a amando, mas farei isso em silêncio
Nesse momento eu estava no meu carro, vagando a cidade
enquanto fumava meu cigarro de maconha. A vida parecia igual.
Nada tinha mudado drasticamente. O jornal ainda passava todos os
dias, eu ainda comparecia na empresa do John algumas vezes na
semana, ainda trocava mensagens com Thomas e Christopher,
voltei a sair mais com Matthew e até esbarrei Tyler em algumas
festas, eu continuava bebendo e usando drogas, eu continuava
ficando com outras mulheres, continuava odiando a Helena e
detestando o John, eu continuava sendo uma péssima pessoa com
uma má reputação.
A vida não tinha mudado. Longe disso.
Há dois meses, quando conversamos e ela deixou meu
apartamento, seu cheiro permaneceu ali por algumas semanas, mas
depois disso tudo voltou ao — quase — normal.
Embora a vida fosse a mesma, embora os dias passassem
exatamente iguais, um vazio ainda mais estava em meu peito e eu
sabia desde o início que era causado pela falta que Katelyn me
fazia, mas eu tentava preenchê-lo da mesma forma que tentei a vida
toda preencher o vazio ocasionados pela falta de Helena e John.
Com drogas. Com bebidas. Com mulheres. — Eu já sabia que não
iria conseguir preencher, mas era engraçado, porque continuava
tentando.
Nem todo álcool do mundo era o suficiente, mas eu continuo
tentando.
Hora ou outra eu mataria essa saudade, ou ela me mataria
antes, não sei. Mas hora ou outra, ela certamente iria acabar.
CAPÍTULO 24
Katelyn
— Parabéns! É um ótimo tema. — diz sorrindo sentando-se
em minha mesa.
Ty estava sentado em minha mesa. Havíamos acabado de
sair de uma reunião no qual seu pai me entregou um novo tema
para trabalhar. Eu deveria fazer uma crítica sobre os locais culturais
da cidade que estavam abandonados pela prefeitura, e isso
precisaria conter fotos e imagens ilustrativas e um ótimo texto.
Odiava às segundas-feiras, mas essa estava ótima.
— Já tem ideia do primeiro local que quer visitar? —
pergunta.
Na reunião ficou decidido que ele iria ser aquele que me
ajudaria, pois eu iria precisar visitar alguns pontos da cidade para
fotografar e também para analisar o contexto ao todo, para somente
assim poder escrever sobre isto.
— Acho que sim. — digo. Havia o lago dos Sonhos, eu
gostaria de dizer sobre o abandono que a prefeitura fez para esse
lindo ambiente, mas não sei se eu queria ir lá. — Não sei. Preciso
pensar.
— Tudo bem, me avise quando quiser visitar algo. — disse.
— Eu te levarei.
— Certo. — sorri.
Ty saiu da sala, mas não sem antes me dar um lindo
sorriso. — Ele era um bom menino, estava sempre feliz e era
terrivelmente alegre o tempo todo, e confesso que às vezes, em
dias ruins, sua constante alegria me deixava irritada, mas também
confesso que boa parte de eu ainda sobreviver esse trabalho e os
dias maus, era por sua companhia diariamente de segunda a sexta-
feira.
Na terça-feira à tarde, eu tomei a decisão de que iria ao lago
dos Sonhos fotografá-lo como um dos lugares que a prefeitura
abandonou os cuidados e avisei Ty para se preparar para irmos logo
cedo no dia seguinte e bom, era o dia seguinte e ele já estava
pronto, estava na minha frente com seu sorriso caótico, como se
estivesse esperando por uma boa diversão hoje.
— Diga-me o lugar que te levarei. — disse.
— Pensei em um lago que eu costumava frequentar, que
infelizmente foi mais um local que a prefeitura esqueceu. — Digo. —
É um espaço ótimo, tem muitas árvores, um lago gostoso,
pichações e definitivamente seria um ótimo lugar para caminhar ou
passar um tempo com a família e amigos.
— A parte das pichações é algo legal ou banal que o
pessoal foi sem noção? — perguntou.
As pichações não foram obra da prefeitura, mas eu as
amava. Eu as amava porque parte delas diziam o que eu sentia e as
outras eu tinha contemplado ao lado dele. Tenho foto de todas elas
e mesmo se um dia a prefeitura vier a escondê-las quando decidir
pintar novamente, eu ainda me lembraria do dia em que as
fotografei e de todas as noites e madrugadas que a contemplei ao
lado de Mingus. — E outra vez, aleatoriamente, levei meu
pensamento a ele. Tudo sempre me levava a ele. Era maçante e
estressante sentir tanto, mas eu o amava. E talvez o amor fosse
maçante ou talvez ele tenha feito o nosso amor ser dessa maneira.
— Não foram feitas sob autorização. — digo. — Mas é a
beleza do lugar.
— Já me sinto ansioso para conhecer esse lugar. — disse.
— Mas antes eu realmente preciso de um café.
— Certo. Pode ir tomar o seu café e eu vou me preparando,
quando estiver pronto, me avise e eu vou até o carro.
— Não foi bem isso que eu quis dizer.
O olhei confusa.
— Nós dois vamos tomar um café antes de ir. — disse.
Tenho certeza que minha vergonha foi nítida porque ele apenas
ficou me olhando e soltou uma leve risada. — Você topa?
— Eu já tomei café antes de sair de casa. — disse.
— Faça-me companhia então.
Ty tinha um belo sorriso que iria me influenciar facilmente,
especialmente por estar carente e triste e por essa razão eu hesitei
antes de responder pensando se eu deveria ou não ir tomar um café
da manhã com o filho do meu chefe.
Estávamos como dois bons amigos, mas eu sempre via uma
segunda intenção em suas gracinhas e perguntas. Acredito que
nesse momento eu deveria começar a procurar por defeitos nele,
porque até agora ele estava sendo exatamente um ótimo
companheiro de trabalho e um ótimo amigo e, em um momento
como o qual eu estava enfrentando — carência e tristeza após o
término do que nunca nem sequer foi um relacionamento — era
difícil estar todos os dias ao lado de alguém simpático, educado,
bonito e com um corpo realmente malhado.

— E então? — pergunta.
Eu tinha medo de que ele acabasse confundindo a nossa
relação, porque nada iria acontecer entre nós a não ser uma relação
profissional, mas realmente se havia algo para ser esclarecido entre
nós, eu decidi ignorar esse fato por agora, ao menos até entender
se realmente há dúvidas em sua mente.

— Ok. — dou de ombros para parecer indiferente. E eu


realmente me sentia indiferente.
— Vamos a minha cafeteria favorita! Sei que você vai amar.
Sorri.
— Vamos?
— Sim.
Reuni minhas coisas para o trabalho. Minha câmera,
caderno de anotação e tablet em uma bolsa que eu sempre
carregava e peguei minha garrafa d’água para levar. Saímos juntos
da empresa em direção ao estacionamento, onde o carro estava e
logo partimos.
O caminho até sua cafeteria favorita foi um verdadeiro
silêncio. Trocamos algumas — poucas — palavras apenas sobre o
trabalho, mas também foi um curto caminho, porque o local não era
longe da empresa.
Ambiente aconchegante e com uma decoração puxada ao
rústico. Realmente gostei e infelizmente meu pensamento foi até o
Mingus, porque certamente ele gostaria desse lugar, já que amava
café mais do que qualquer coisa, mas repreendi meu pensamento
de imediato.
— Podemos nos sentar ali? — apontou para uma mesa com
sofá. — É o meu lugar favorito.
— Podemos sim. — sorri.
Em um breve momento de animação, Ty segurou em
minhas mãos como se quisesse me levar até a mesa, mas fiquei
paralisada com seu toque e ele provavelmente notou, já que soltou
minha mão rapidamente e se desculpou com um riso sem graça,
provavelmente envergonhado.
Após esse rápido momento constrangedor, eu o segui até a
sua mesa e nos sentamos.
— Quer dar uma olhada no cardápio? — perguntou. — Há
muitas coisas legais.
— Eu realmente tomei café antes de sair de casa. —
respondo.
Ele me olhou por um momento, mas eu não estava
mentindo.
Enquanto Ty escolhia o que iria comer, eu estava mexendo
em minhas redes sociais e pensando se eu realmente deveria ir com
ele até o lago dos Sonhos. Algo em mim dizia para não ir, porque
aquele era o meu lugar com o Mingus e eu realmente não queria
voltar lá para não sentir saudades dele e também não queria
colecionar memórias com outra pessoa ali.
O moreno fez o seu pedido e quando a garçonete que nos
atendeu se afastou, ele voltou seu olhar para mim, me deixando
constrangida. Bloqueei o celular e o olhei de volta.
— Meu pai está contente com o seu trabalho. — disse. —
Me contou que dependendo de como for esse trabalho envolvendo
uma crítica sobre a prefeitura da cidade, ele vai começar a passar
mais coisas importantes para você.
Sorri sem graça.
— Me sinto nervosa só de imaginar. — digo.
— Não fique. — sorriu. — Você é incrível em suas fotos e
principalmente em seus textos. Creio que logo terá um espaço
somente seu nas revistas e nos sites.
— Deus queira que sim. — ri. — E você? Por que trabalha
na empresa?
— Um dia será minha, aí meu pai fica me enchendo a
cabeça para aprender a administrar, mas me disse que eu deveria
começar debaixo, acompanhar reportagens, aprender como fazê-las
e somente depois de passar por tudo isso, subir até a
administração, depois até a gestão e depois ser CEO.
— E você gosta disso?
— Quer a verdade? — perguntou e eu assenti. — Odeio
isso tudo. Odeio a empresa.
Era engraçado que na minha frente estava um milionário
com o patrimônio que seu pai carregava, provavelmente único
herdeiro de uma das maiores empresas da cidade deste ramo e ele
havia acabado de me confessar que odiava a empresa.
— Já disse isso para o seu pai? — perguntei.
— Jamais. — riu. — A empresa é como se fosse o seu filho
mais velho, eu sou apenas o caçula que ele gosta, mas a empresa,
ele idolatra.
Senti pena.
— Mas o que você realmente gosta? O que você gostaria
de ser? Com o que gostaria de estudar?
— Nunca pensei sobre isso. — riu. — Minha vida está
formada desde que eu nasci, ela foi totalmente escrita pelo meu pai
e depois que minha mãe faleceu, quando eu ainda era criança, eu
nem sequer tive o direito de discutir sobre concordar ou não com o
meu futuro, então nunca pensei sobre o que eu poderia ser, se eu
pudesse escolher.
Meu peito estremeceu. Senti pena outra vez. Também
compaixão.
— Entendo . — disse. — E sinto muito pela sua mãe, eu
não sabia.
— Tranquilo. Não me lembro dela.
Sua voz era fria. Talvez isso fosse algo que ainda o afetava,
porque embora eu também não me lembrasse da minha mãe, era
algo que me doía. Mas a forma fria que Ty falou, parecia que não se
importava, ou talvez era uma forma de evitar falar sobre algo que
tanto o machucava.
— E o que você gosta de fazer no tempo livre? — perguntei
tentando criar qualquer outro assunto, mas me arrependo no
instante em que vi seu sorriso se formar. Ele pensou que
poderíamos deixar os conteúdos de trabalho de lado. Droga. Eu dei
essa abertura.
— Gosto de sair. — respondeu. — Definitivamente sair é o
meu hobby favorito. E você? O que gosta de fazer?
O seu pedido chegou. Ele agradeceu a moça e pegou sua
xícara de café.
— O que você realmente gosta de fazer além de fotografar?
Qual você diria que é o seu programa favorito a se fazer no tempo
livre? — perguntou após tomar um gole de seu café.
— Eu gosto de ler, assistir e sair com os meus amigos.
Ty me observava com atenção.
— Você sai bastante com seus amigos? — perguntou.
— Sim! — sorri. — Nós seis somos praticamente
inseparáveis.
No momento estávamos distantes, por circunstâncias do
que Mingus havia decidido sobre nós, mas ainda assim, esse era o
meu programa favorito, ainda assim eu sempre diria que somos
inseparáveis. Os cinco eram o meu lar. Até Mingus, até após o
nosso término de algo que nunca tivemos de fato, ainda era o meu
lar. Eles sempre seriam.
— Isso é legal. — disse. — Não tenho muitos amigos. Na
verdade, não tenho amigos, mas quem sabe um dia eu não possa
fazer parte do grupinho. — riu.
— Tipo o Mike? Ser o sétimo friend?
O moreno franziu o nariz olhando confuso e eu percebi que
ele não entendeu a referência da série Friends.
Como é que ele nunca viu essa série? — pensei.
— Esquece. — dei de ombros.
Conversamos por cerca de vinte minutos até ele finalizar
seu café e se levantar para ir pagar a conta.
Eu fiquei nervosa. Isso significa que teríamos que ir ao lago
dos sonhos em seguida.
Será que eu deveria mudar o local? — pensei.
Mas eu realmente gostaria de dar visibilidade ao lago dos
sonhos, gostaria que ele fosse cuidado e amado.
— Pronto. — voltou à mesa sorrindo. — Para onde vamos?
Aquele lugar sempre seria meu e do Mingus e se eu não
posso cuidar do nosso amor, eu posso cuidar desse lago. Eu
mostraria ele ao mundo e o faria ser cuidado e amado. Eu iria fazer
ele ser selado e faria o mundo enxergá-lo como ele de fato é, um
lugar mágico.
— Vamos a um lago da cidade. — eu disse. — Vou
dirigindo.
— Sim senhora. — riu me entregando a chave do carro.

— Que lugar lindo. — disse Ty. — Parece abandonado, mas


ainda assim segue lindo.
Havia tantas paisagens lindas de se ver em um único
ambiente, o sol e o horizonte. Havia a natureza, repleta de árvores
imensas, lindas e únicas. Os pássaros, um lindo encontro das águas
limpas do lago com o Sol, e quando era o horário do Sol se pôr,
causava um pleno reflexo e ali, naquele pequeno grande lugar,
havia histórias, havia amores correspondidos, amores negados,
corações quebrados, partidos, havia tragédia, dores, mas acima de
tudo havia amor e histórias para ainda serem vividas, por isso era
necessário o reparo, cuidado e zelo com esse lugar.
Eu estava perdida em meus pensamentos, porque era
engraçado só imaginar que quase todas essas árvores que estariam
presentes em minhas fotografias esse lago com as águas clarinhas,
por tantas vezes testemunharam o meu amor e do Mingus florescer
como as mais belas flores que apareciam na primavera.
Sempre pensei que o Mingus era como as estações do ano,
porque ele é como um eterno inverno de tão frio e calculista que
pode chegar a ser, mas também é como um belo outono escaldante,
que sabia como aquecer o meu coração nos momentos certos. Ele
também era como uma primavera que floresce amor onde quer que
vá, mesmo sem querer e mesmo sem entender. Também era verão,
como o forte sol que reflete sua luz interior. E eu gostaria de não
transformar tudo para ser sobre ele, eu gostaria de não pensar, não
querer, não sentir, mas tudo era sobre ele. Eu amava cada estação
que Mingus pudesse ter e embora nesse momento estivéssemos
passando pelo seu mais terrível inverno e talvez fiquemos nele para
sempre, eu ainda o amava e o Lago dos Sonhos era um dos
motivos para eu tanto amá-lo, e vir aqui hoje realmente foi uma
péssima escolha, porque há dois meses eu tento esquecer e focar
em tudo de ruim que já nos aconteceu e em tudo de pior que ele já
me falou, mas o lago dos sonhos me lembra o porquê é ele e o
porquê sempre será ele.
Eu dei esse nome ao ambiente por acreditar que esse local
era mágico e que todas as árvores aqui presentes, sejam pequenas
ou grandes, tinham a sua magia. As minhas melhores recordações,
eram de algumas noites de lua cheia quando eu não estava me
sentindo bem após a perda da minha avó e Mingus me trazia até
aqui, também trazia minhas comidas e doces favoritos e aqui
ficávamos por horas e horas. Às vezes, eu até mesmo fazia fotos do
pôr do Sol ou da lua.
Mingus também já veio até aqui quando tinha momentos ruins,
nunca me confessou, mas sei que já chorou sozinho aqui, porque
ele era assim. Ele não se achava digno do amor e por isso pensava
que devia sofrer sozinho, quando tudo o que eu mais queria era
provar que eu estava ao seu lado. Sempre.
— Katelyn? — sinto seu toque em meu ombro e somente
assim saio dos meus pensamentos. — Está tudo bem?
— Sim. — sorrio fracamente.
Outra vez tinha me perdido em pensamentos. Pensamentos
sobre o Mingus.
— Desculpe. — falei. — Eu me perco em pensamentos
quando venho ao Lago dos Sonhos.
— Lago dos sonhos? — pareceu confuso.
— Apenas um nome que eu dei a este lugar. — dei de
ombros, fingindo indiferença.
— Por que?
— Apenas. — dei de ombros outra vez.
Ninguém entenderia o porquê desse nome, ninguém
compreenderia que aquele lugar era mágico em minha história e de
Mingus, ninguém entenderia que aquelas árvores, aquele lago, e
tudo que ali tinha, contemplaram o nosso amor incontáveis vezes.
Mas, o Mingus sabia e, isso bastava.
— É realmente bonito aqui, até posso entender que seja um
sonho. — ele disse sorrindo.
Permaneci em silêncio, porque sei que ele queria me
agradar concordando com o nome, mas ele jamais entenderia o
verdadeiro significado, por isso o silêncio.
Comecei andar tirando algumas fotografias, porque embora esse
fosse um ambiente único com tantas paisagens, seu mato estava
alto e havia muitos lixos jogados por ali. Sei que a população tem
muita responsabilidade com um ambiente, especialmente sobre os
lixos jogados, mas se a prefeitura fosse ativa na área da cultura e
cuidasse melhor dos ambientes, poderíamos evitar muitas coisas. —
Fotografei tudo. Cada lindo detalhe e cada local onde a sujeira
apagava a beleza dali. Fotografei a beira do lago repleto de copos
descartáveis e plásticos de alimentos, fotografei as únicas duas
lixeiras quebradas e o quão cheias elas estavam. Porque talvez com
mais dessas e claro, em bom estado, as pessoas começassem a de
fato jogar o lixo no lixo.
— Não vai tirar foto das pichações? — perguntou Ty.
Eu as amava. — pensei. — Elas refletem eu e Mingus, não
queria ter que fazer uma crítica a isso, porque seria contra o que eu
mais acreditava, mas reconheço que elas foram feitas sem a
autorização, trazendo isso a categoria de vandalismo, infelizmente.
Mas, talvez eu possa colocar isso de uma maneira diferente em
minha matéria, não sei. Penso que eu poderia abrir os olhos da
população para essa cultura incrível também. A arte de rua,
conhecida hoje como arte urbana ou street art, não tem muito o seu
valor, mas é através desses grafites que os jovens e quem quer que
as faça, conseguem se expressar e sobretudo, trazer para todo o
público um ótimo jeito de compreender de alguma ação. O grafite é
uma maneira de expressar sentimentos, manifestar opiniões, e
claro, ele traz a acessibilidade, visibilidade e contemplação de uma
arte que antes não eram valorizadas. — Ótimo. Eu já tinha em
mente o que dizer, mas eu não iria tirar novas fotos, eu usaria as
mesmas que tirei quando Mingus estava ao meu lado, porque
usando-as eu iria conseguir me expressar ainda mais ao digitar essa
matéria.
— Já tenho fotos dessa parte. — disse.
— Costuma vir aqui no lago dos sonhos então? —
perguntou.
Meu coração se estremeceu ao ouvir outro homem dizer
esse nome. “Lago dos Sonhos”. Isso era algo meu e de Mingus, eu
não deveria ter dito a ele.
— Sim. — disse. — Eu gosto daqui.
— E costuma vir sozinha? — perguntou. — Ou
acompanhada?
— Vamos focar nas fotos, Ty? — disse, quebrando o
assunto.
— Ok, ok. — riu.
— Olhe essas. — falei me aproximando para mostrar
algumas fotografias que tirei. — O que acha?
— Vejo que você tem um talento incrível. — respondeu. —
Ficaram incríveis.
Mostrei as fotos do local ao todo, àquelas que virão primeiro
no artigo, para identificarem como um lindo lugar para se passar um
tempo com a família e amigos, porque somente após descrever
sobre ser um bom lugar, virá as fotos do abandono e as críticas.
— É fácil ficar incrível quando a vista ajuda. — sorri — Não
és essa a mais bela vista que já viu?
— Sim! A mais bela vista. — me olhou atentamente.
Eu senti a sua intenção. Desviei o olhar para baixo.
— As fotos ficaram realmente boas. — continuou. — Cada
pequeno detalhe é lindo.
Sua fala ainda tinha uma segunda intenção, era notório.
— Foque nas fotos, Ty. — disse.
— Desculpe. É difícil focar quando tem algo tão mais
incrível à minha frente.
Foi uma ótima jogada. — penso. — Teria me atingido, se
eu não conhecesse o Mingus. Todos os tipos de cantadas baratas e
situações que ele poderia usar a seu favor, ele já tinha feito comigo.
Eu conhecia bem todos os tipos de diálogos plausíveis que um
homem poderia usar para ganhar uma transa, na verdade, um dia,
Mingus me ensinou sobre isso. Ele listou os mais utilizados entre os
homens e me disse para nunca cair nesse papinho, a não ser que
eu realmente quisesse apenas transar. — Não era o caso aqui.
Embora Ty fosse lindo, ele ainda era o filho do meu chefe, ele ainda
trabalhava comigo e eu teria que o ver todos os dias. Eu nunca
ficaria com um cara que trabalha no mesmo local que eu.

O resto do dia passou tranquilo. Quando encerrei as fotos


no Lago dos Sonhos voltamos para a empresa, e eu comecei a
editar as fotos e tinha muito o que trabalhar nelas e também na
matéria que eu iria escrever. Na verdade, até comecei algumas
pesquisas nas redes sociais, pesquisei o nome original do lago e li
todos os comentários que faziam sobre ele. Alguns gostavam do
ambiente de paz e outros diziam que o lugar trazia bichos por conta
da falta de manutenção dos matos. Anotei tudo isso na minha
agenda e várias ideias para a matéria começaram a aparecer e fui
anotando todas.
O fim do dia foi cansativo e ainda estávamos na quarta-feira, eu
tinha mais dois dias de muito trabalho pela frente até conseguir
descansar na sexta-feira à noite e no sábado eu pretendia ficar
jogada na minha cama.
Viva a vida adulta.
Capítulo 25
Mingus
Levei um super esporro do Thomas por estar saindo
novamente em uma quarta-feira, mas ele não entendia que eu
precisava estar na rua. Ficar em casa era difícil demais. Ficar em
casa me lembrava a Katelyn, me lembrava o que poderíamos ter
sido, me lembrava do seu choro por horas no meu quarto enquanto
eu estava parado no corredor como um covarde que nem sequer foi
abraçar a mulher que ama. Estar no meu apartamento era a última
coisa que eu queria. Além de aquele lugar sempre me lembrar de
John, porque ele me deu esse apartamento como se eu pudesse
perdoá-lo pelos anos distantes, agora também me lembrava que
esse era o local onde eu deixei a Katelyn escapar dos meus braços,
ou melhor, onde eu soltei os seus braços.
Eu já estava na portaria da festa, e nessa noite eu
realmente precisava beber até esquecer esses malditos
pensamentos que me assombravam e também havia combinado
com Tyler que hoje pegaria a maconha da boa com ele, porque eu
estava tentando manter uma boa relação entre nós, mas essa parte
eu realmente não contei ao Thomas e agora entendo aquela famosa
Trend em uma rede social onde diz que para saber se estamos
fazendo algo errado é apenas necessário pensar se contamos isso
ao nosso melhor amigo ou se hesitamos e sim, tudo o que eu não
conto ou hesito contar ao Thomas é errado, e isso certamente era.
Eu deveria me afastar de pessoas como Tyler Collins, mas há dois
meses venho me aproximando outra vez dele e mesmo
reconhecendo que isso é grandemente errado, sigo fazendo,
justamente porque me sinto sem rumo.

— Oi!
Ouço uma voz e um toque no ombro. Eu estava de costas,
mas consegui ver pelo espelho do bar o homem moreno e alto atrás
de mim com um sorriso. — Tyler Collins.
Virei também com um sorriso o cumprimentando.
— Você trouxe? perguntei.
— E alguma vez eu já errei com você?
O moreno entrega o pacote para mim.
— Valeu Tyler! — respondi guardando o pacote no bolso da
jaqueta que eu usava. — Você vai ficar?
— Não, só vim para te entregar à mercadoria e entregar
para uma galera que também pediu. — respondeu. — Tenho
entrega em outros lugares também, mas depois vou pra casa, estou
cansado.
— E o que você fez hoje? — ri.
— Respeita minha história. — me deu um leve soco no
ombro. — Não fiz nada demais, mas fiquei o dia todo ao lado de
uma gatinha que meu Deus. Estou quase perdendo o controle com
ela.
Apesar da venda de drogas e de seus erros no passado,
Tyler tinha outro grande defeito. A forma que falava de mulheres.
— Perdendo o controle? — pergunto. — Como assim?
Ele ri maliciosamente.
— Ela tá fazendo jogo duro. — respondeu. — Mas já me
liguei que ela me quer, e você sabe, eu adoro um desafio.
— Entendi. — dei de ombros. — Se ela realmente quiser,
vai fundo, cara. Mas, se ela não quiser, não force algo, mano.
— Qual foi, Mingus? Tá achando que eu sou o que?
O que você realmente é. — penso.
— Só um conselho, meu parceiro. — digo.
— Se orienta, Mingus. — deu de ombros. — Eu espero a
transferência do valor da maconha.
Ele não gostou do que eu disse. Era como se eu o
ofendesse, mas eu o conhecia. Da mesma forma que ele poderia
vender drogas e pagar de bom moço por aí, da mesma forma que
ele poderia criar um acidente e alguém morrer por isso enquanto ele
estava dirigindo bêbado, e mesmo assim sua consciência não pesar
e ele nem sequer cumprir por uma pena porque criou falsos
testemunhos — eu — ele também poderia tentar forçar uma garota
a ficar com ele. Mas eu espero que eu esteja errado. Eu oro a Deus
e ao universo para que eu esteja errado.
— Pode deixar. — respondo.
Tyler se afastou o suficiente para eu finalmente conseguir
respirar. Era estranho. Eu realmente queria me afastar dele, eu
realmente temia ele, por tudo o que fiz no passado por conta da sua
pessoa, por toda droga que já consumi e por ele simplesmente ser
alguém barra pesada. — Seu pai era rico. Ele nunca me disse ao
certo o que o seu pai fazia, mas eu desconfio que ele não saiba
sobre seu filho vender drogas para quase toda a cidade, mas apesar
disso, ele sabe que seu filho tem uma má reputação e sempre paga
para acobertar os erros dele — sejam acidentes, vandalismo, ou até
mesmo homicídio culposo. O dinheiro que seu pai tinha, realmente o
salvou de muita coisa.
Embora John — o homem que concedeu o sêmen para eu nascer
— também tivesse uma empresa e fosse rico, ele nunca me livrou
de encrencas. Pelo contrário, paguei meu primeiro serviço
comunitário quando eu era menor e fui pego por vandalismo. Helena
ligou de imediato a John Carter, mas ele se recusou a pagar para
me livrar dessa e disse que eu só aprenderia se passasse pela
correção. Ele estava certo. Aprendi muitas coisas com o serviço
comunitário e nunca mais cheguei a cometer tal delito. O mesmo
quando eu sofri um acidente porque estava embriagado. Eles não
me visitaram no hospital — e eu realmente me machuquei dessa
vez e isso é apenas só mais uma coisa que está na minha longa
lista de traumas com pais. — mas, eu estava errado. Eu estava
embriagado e bati com o carro em uma loja de esquina. Tive que
pagar o custo da loja — foi com isso que comecei a frequentar a
empresa de John. Talvez ele tenha me obrigado a isso para ter um
herdeiro naquele local, já que ele quase nunca vem para a cidade,
ou talvez ele realmente quis me ensinar valores e todo o discurso
que fez através de uma ligação. — Eu paguei com meu salário os
prejuízos, além de ajudar a mão de obra para a reconstrução do
muro. Também fui condenado a pagar cestas básicas para alguns
locais da cidade e faço isso até hoje, mesmo após a pena já ter se
encerrado. Porque são lugares que realmente precisam.
O Tyler pode ter o seu pai presente, mas o fato dele passar a mão
no filho o acobertando de coisas grandes, tenha o feito ser assim. E,
mesmo que eu reconheça que ele é o tipo de pessoa que eu devo
me manter longe, eu acabo sempre próximo.
Talvez eu seja como ele. Talvez eu seja como Tyler Collins e
apenas pense que sou diferente, não sei. Porque não vejo outra
razão para que eu continue próximo de alguém como ele, já que sei
exatamente como ele é. Talvez a minha reputação seja como a dele.
Não sei. Mas uma coisa era certa, eu sabia que deveria me afastar
dele e quando eu não estava nos meus surtos revoltado com a vida,
eu conseguia, mas quando eu estava na escuridão, perdido, sem
rumo, apenas necessitando de bebidas, drogas e com uma fúria
dentro do meu peito, com um aperto e uma imensa solidão, eu me
aproximava. Porque éramos iguais. Duas crianças que se
encontraram quando tudo estava uma merda, dois adolescentes que
cresceram com ódio dos pais e hoje, dois adultos problemáticos
com uma má reputação.
Caminhei até a área de fumantes, peguei o pacote em
minha jaqueta e comecei a bolar o meu primeiro baseado do dia. —
Hoje eu não tinha ido para a empresa do John. Na verdade, eu mal
estava indo lá há um tempo. Eu estava sem paciência para lidar
com papéis como se eu me importasse com toda aquela merda. Sua
empresa era uma imobiliária conhecida na cidade “Carter Imóveis”,
mas eu realmente não tinha vontade alguma de ficar trancado
dentro de um escritório com engenheiros, advogados e
administradores. O tempo todo eles diziam como John era um ótimo
empreendedor e eu tinha vontade de vomitar, porque ele pode ser
um ótimo profissional que construiu do zero uma imobiliária famosa
na cidade, mas era um péssimo pai e bom, isso deveria dizer mais
sobre ele, não?
O homem — meu pai — já havia sido avisado sobre minhas
faltas constantes, porque o próprio Nilton — diretor e seu braço
direito na empresa — me contou que o avisou, mas até o momento
eu não recebi nenhuma reclamação e nenhuma mensagem de
preocupação, perguntando o porquê estou deixando de ir na
empresa. Se bem que, eu sempre fazia isso. Eu sempre deixava de
ir, eu não aparecia quando deveria e ia somente quando queria, mas
nunca recebi uma mensagem. Tudo bem, eu também não recebo
mensagens no meu aniversário, também não recebi na minha
formatura, também não recebi quando consegui convencer uma
empresa a fazer parceria conosco. Eu estava acostumado com isso.
Eu não recebia mensagens de John Carter há muito tempo. Me
assustaria se ele ainda tivesse o meu número.
Enquanto fumo um baseado na área de fumantes daquela
festa, encaro o céu noturno. As estrelas ali presente e uma vasta
escuridão, sinto a solidão do meu ser. Eu estou sozinho. Mesmo que
eu esteja rodeado de pessoas, mesmo que um pouco mais no canto
tenha algumas pessoas também fumando, e mesmo que Matthew
esteja por aí no mesmo lugar que eu, eu estou sozinho. Eu “sou”
sozinho. Sempre fui. Nunca tive Helena e John na minha vida e isso
me quebrou de tantas formas que eu simplesmente não consigo
manter ninguém comigo.

Eu tinha pego uma garrafa de whisky, e estou tomando-a


sozinho bolando meu segundo baseado. Talvez eu devesse parar,
talvez eu devesse ir pra casa, talvez eu devesse ligar para a Katelyn
e dizer como sinto saudades. — Queria poder ligar, queria poder
dizer como me sinto péssimo e perdido sem ela ao meu lado, mas
eu não posso, eu não posso voltar para a vida dela quando quiser,
porque eu sei que não posso dar um futuro para ela, sei que não
ficaria e partiria a qualquer momento e ela não merece isso.
Eu odiava quem eu era. Eu odiava me olhar no espelho. Eu odiava
até a minha sombra.
E a garrafa de whisky estava na metade. O álcool me
consumia ou eu o consumia? Não sei. Eu era péssimo, eu estava
destruído ou melhor, nunca estive inteiro.
Talvez eu devesse ir para casa. Talvez eu devesse ir
embora. Mas eu pedi minha outra garrafa de whisky.
CAPÍTULO 26
Katelyn
Eram duas da manhã quando meu telefone tocou. Acordei
assustada com o toque porque era dia de semana e eu havia pego
no sono já faziam horas.
“Insuportável” — apontava na tela.
Eu me estremeci por inteira e cocei meus olhos para ter
certeza do que estava vendo. Talvez eu estivesse sonhando. Talvez
eu fosse acordar daqui a pouco, principalmente por ter esse
pensamento. — O telefone continuou tocando. Eu atendi. Repleta
de medo.
“Alô?” — murmurei.
Eu ainda pensava que era um sonho.
“Kitkat!” — sua voz era animada e embaralhada.
Estava bêbado. — Um barulho estrondoso estava no fundo
da ligação.
“Onde você está?” — pergunto.
“Em uma festa.” — respondeu. — “Sem você. E sem meus
melhores amigos. Porque eu ferrei com tudo.”
“Mingus, é quinta-feira de madrugada. Vá pra casa.”
“Não quero.”
Houve um longo silêncio. Eu não tinha o que dizer, ou
melhor, não queria dizer nada. Foram dois meses e alguns dias de
eterno silêncio para ele simplesmente me ligar bêbado no meio de
uma madrugada aleatória? Sua voz trazia arrepios para minha alma,
porque eu sentia tanta falta dela e agora eu estava ouvindo-a e nem
podia gritar que sentia a sua falta porque eu tinha que me manter
firme para não recair de um lugar que eu nem sequer conseguia sair
por completo.
“Odeio aquele apartamento muito mais agora.” — continuou.
— “Toda vez que estou lá, me lembro que te deixei ir.”
Não. Isso não é justo comigo. Não depois de tantas noites
de claro chorando por ele, não depois de tanta dor que senti.
“Eu fui um covarde mesmo. Na verdade, sou um covarde.
Eu sou uma pessoa ruim e eu nem deveria estar te ligando agora,
mas eu sinto tanto a sua falta que… “
“Você está certo.” — o interrompi. — “Você não deveria
estar me ligando. Eu preciso dormir para ir trabalhar amanhã. Boa
noite”
Eu estava relutante para desligar, porque estava
preocupada, mas meu orgulho ferido não queria permanecer na
ligação, mas após um longo suspiro antes de tirar o telefone do
ouvido para desligar, ouvi sua voz dizer o meu nome e voltei o
aparelho no meu ouvido para escutar o que ele tinha a dizer.
“Katelyn.” — sua voz soou calma pela primeira vez. —
“Você não tem ideia do quanto eu sinto muito. De todas as merdas
que já fiz na vida, que foram muitas, a que mais me arrependo é de
ter te deixado sair do meu apartamento naquele maldito dia. Sei que
sou um filha da puta de estar te ligando agora, porque nada mudou
dentro de mim, na verdade, eu apenas piorei, mas eu realmente
gostaria que você soubesse que eu sinto muito e que eu sinto a sua
falta, sinto falta de sermos amigos, sinto falta de nós seis juntos,
sinto falta até do seus péssimos filmes e porra, eu sinto a sua falta
todos os dias. Eu não conseguia me lembrar da sua voz e após
duas garrafas de whisky tomei coragem para te ligar porque eu só
gostaria de saber se você está bem, porque eu me preocupo com
você todos os dias, porque eu simplesmente não consigo continuar
a minha vida sem saber se você está bem. Não podemos ser
amigos? Você não pode me encarar? Você não pode estar no
mesmo ambiente que eu? É doloroso? Porque eu entendo se for.
Para mim é mais doloroso não ter você na minha vida, mas eu
entendo se para você for cruel demais sermos amigos. Me desculpe
te ligar. Me desculpe te deixar confusa. Me desculpe por ser
confuso. Eu estava com saudades. Você sente saudades?”
Ele ficou em silêncio e eu também. Eu também estava
chorando.
“Queria poder consertar o que tem de errado comigo.” —
continuou. — “Queria que a luz derrotasse essa escuridão. Queria
poder ser consertado, porque eu juro que se eu pudesse te amaria
direito.”
“Vá para casa.” — murmurei.
“Você é minha casa.”
“Não faça isso comigo.” — falei. — “Não volte para me
confundir, não volte para me atormentar. Eu levei muito tempo para
deixar de chorar todas as noites por você e não é nenhum pouco
justo, você voltar como se nada tivesse acontecido, você voltar
como se pudesse me quebrar de novo e depois me deixar outra vez.
Não me deixe confusa, Mingus. Não faça isso.”
“Desculpe.”
“Vá para casa.”
Ele não me respondeu.
“Você consegue ir para casa, Mingus?” — perguntei.
Não houve respostas novamente.
“Você consegue dirigir?”
“Sim.” — disse.
“Você tem certeza?”
“Não se preocupe comigo, Katelyn. Eu já errei em te ligar,
eu não queria trazer confusão para você, eu apenas sentia
saudades. Me desculpe. Me desculpa mesmo. Eu sou horrível. Meu
Deus! Onde eu estava com a cabeça para te ligar? Desculpe.
Desculpa.”
A ligação se encerrou. — Droga, Mingus!
Abri minhas redes sociais e acessei o seu perfil que estava
silenciado para ver se havia postado algo marcando o local onde
estava e, lá estava uma foto da bebida com a localização.

Consegui entrar no local porque disse que vim buscar


Mingus Carter. Creio que ele era conhecido por aqui.
Eram quase três da manhã, não tinham muitas pessoas,
mas fui direto na área de fumantes porque se eu ainda o conhecia
como penso que conheço, ele estaria fumando seu baseado após
nossa ligação.
Touché. — Penso ao vê-lo.
— Mingus? — o chamei.
Ele virou a sua cabeça até mim e parecia que estava vendo
uma miragem, porque seu sorriso se estendeu de orelha em orelha.
— Não sabia que no quinto baseado eu tinha o poder de ver
você. — disse. — Saudades de você.
Sua voz era rouca e suave. Mesmo um tanto embaralhada
pela quantidade de álcool, estava suave. Eu ignorei o arrepio que
minha pele sentiu com a sua última frase, e caminhei até ele.
— Eu vim para te levar para casa. — falei. — Vamos?
Ele me olhou desconfiado. Acho que ainda não havia
percebido que eu realmente estava ali.
Estendi minha mão. Seu toque frio me arrepiou. — Embora
bêbado, ele estava lindo. Usava sua jaqueta, uma calça jeans preta
e um tênis que eu havia escolhido para ele comprar.
— Você realmente vai me levar pra casa? — perguntou e eu
assenti.
Na manhã quando acordasse ele poderia se preocupar em
buscar seu carro, mas nesse instante ele iria embora comigo.
— Como funciona aqui? Você paga suas bebidas antes de
consumir ou eu tenho que acertar as contas? — pergunto e ele me
olha confuso. Revirei meus olhos. — Esquece. Vamos.
Ele começou a me acompanhar, estávamos de mãos dadas.
No caminho achei uma garçonete e tirei minha dúvida, eles
pagavam antes do consumo, então eu poderia ir embora porque
tudo já estava certo.
Ajudei Mingus entrar no carro e coloquei o cinto de
segurança nele.
Desde sua ligação não houve um momento que o meu
coração se aquietou, se eu pensava que estava perto de esquecê-
lo, essa noite me garantiu que eu nunca poderia tirar ele do meu
coração.
— Vamos no Lago dos Sonhos? — ele perguntou.
Permaneci em silêncio. — Até no meu sonho você vai ficar brava
comigo? Você deveria conversar comigo no meu sonho! E daí que
eu fui covarde? E daí que eu te deixei ir mesmo quando todo o meu
corpo te desejava e toda minha alma te amava? No meu sonho você
não pode ficar brava! Pelo menos aqui.
Meus olhos marejaram. Droga. Eu não deveria ter vindo. Eu
deveria ter ligado para o Thomas. Mas eu também sentia saudades.
Eu queria vê-lo. Eu era uma fraude, porque havia dito anteriormente
que jamais o perdoaria e que jamais voltaria para ele, mas eu
voltaria. Eu voltaria até mesmo agora. — Se ele estivesse sóbrio.
— Eu te prometo, Katelyn. — continuou. — Eu nunca quis
fazer você sofrer. O meu passado tem um gosto amargo há anos e
eu sempre escutei que o amor é apenas uma fraqueza, então me
baseei nisso a vida inteira. Eu fui frio, egocêntrico, implacável. Eu
gostaria de ser bom, por todas as vezes em que não consegui. Eu
sei que causei feridas e lágrimas em muitas pessoas, sei que fiz
muitas coisas ruins por todos esses anos, desacreditei de coisas
inocentes, fiz pessoas sangrarem, e chutei todas as esperanças
para longe, mas eu simplesmente não consigo ser bom, eu
simplesmente não consigo consertar quem eu sou.
Eu dirigia em meio às lágrimas, não consegui evitar. Cada
palavra pronunciada por Mingus cortava o meu coração de tal
maneira que eu jamais conseguiria explicar. Eu queria dizer que o
amava, queria dizer que estaria sempre aqui, queria dizer que eu o
perdoava por tudo o que me fez passar e queria dizer que acima de
tudo, eu o compreendia. Mas me mantive em silêncio, eu me calei.
Talvez por ainda estar muito magoada, ou talvez por medo. Acho
que nós dois somos covardes no final das contas.

A parte mais difícil já tinha passado. Sofri para conseguir


carregá-lo até o elevador e depois até seu apartamento, mas já
estávamos dentro. Na verdade, nesse momento eu tinha acabado
de jogá-lo ou melhor, colocá-lo na cama e estava tirando seu tênis.
Ele continuava resmungando. Continuava dizendo coisas
tristes. Às lágrimas continuavam aqui. O amor continua aqui.
“Você ficará comigo nessa noite?” — foi o que ele
murmurou. — Engoli em seco e me questionei o que no mundo
Deus esperava que eu fizesse nesse momento, porque eu estava na
frente da única pessoa que já amei, da única pessoa que eu tinha a
certeza de que iria amar por toda a minha vida e tudo o que eu mais
queria era permanecer com ele por essa noite e todas as outras que
viriam, mas eu também havia prometido a mim mesma que não iria
mais voltar para ele, porque eu já havia lhe dito, e dito para minhas
melhores amigas, e para mim mesma que eu não perdoaria a sua
covardia, mas se nós dois somos covardes, eu poderia perdoar? Ou
de manhã ele se esqueceria disso tudo? O que no mundo eu
deveria fazer?
— Você ficará comigo? — murmurou outra vez.
— Eu preciso trabalhar daqui a pouco. — respondi. — Não
posso ficar.
— Não quero ouvir o barulho da porta com você saindo por
ela outra vez. — disse.
— Já está ciente que não é um sonho? — pergunto.
Ele concorda com a cabeça.
— Fique até eu dormir. Por favor. Eu prometo não te
incomodar mais.
— Ok.
Me sentei na beira da cama, esperando que ele pegasse no
sono. Provavelmente não demoraria, já que ele estava bêbado.
— Vamos conversar.
— Sobre o que quer conversar?
— Você tem algum sonho? — ele perguntou.
— Acho que todos têm algum sonho, afinal.
— Qual o seu?
— Qual o seu? — volto sua pergunta. — Sempre tive
curiosidade em saber sobre isso.
— Paradoxo. — disse. — Meu sonho é como uma
proposição que contraria os princípios básicos.
— O que?
— Viver ou morrer. — diz. — Eu queria poder viver, mas
verdadeiramente. Eu venho apenas sobrevivendo desde que era
muito novo, então eu gostaria de poder viver em plenitude, sem
sentir essa fúria e essa dor que sinto sem nem sequer compreendê-
la, eu gostaria de poder descarregar tudo de ruim que há em mim e
enfim, viver. Ou, morrer. Porque assim, a dor findaria. Acho que é
uma contradição, mas ainda assim com a mesma resolução. O fim
de todos os sentimentos e pensamentos ruins. Só queria que isso
tudo parasse, sabe? Só queria isso.
— O que você exatamente está sentindo agora, Mingus? —
pergunto realmente preocupada.
— Eu estou pensando que eu sinto muito, estou pensando
que eu deveria pedir desculpas.
— Pedir desculpas sobre o que? Me diga sobre o que você
sente muito.
— Me desculpe ser todo errado. — disse.
— Está tudo bem.
— Me desculpe por estar quebrado.
— Está tudo bem.
— Me desculpe por ter essa má reputação.
— Está tudo bem.

— Me desculpe por não ser digno do amor.


— Está tudo bem.
— Me desculpe por não ser o suficiente.
Todas as vezes em que ele pediu desculpas por algo, eu o
assegurei que estava tudo bem.

"Me desculpe te machucar", "me desculpe ser um péssimo


amigo", "me desculpe não conseguir ficar", "me desculpe não poder
te amar", "me desculpe ser horrível", "me desculpe por te confundir",
"me desculpe por te quebrar", "me desculpe por desistido de nós",
"me desculpe por não conseguir ser quem você merece", "me
desculpe por estar quebrado.", "me desculpe por ter te ligado", "me
desculpe por ser assim", "me desculpe por ser eu". Eu disse, todas
as vezes, que estava tudo bem, mas não estava. Ele estava tão
quebrado. Eu sempre soube que o seu coração tinha muitas
marcas, mas hoje eu estava presenciando. Ele estava com a cabeça
em meu colo, chorando desesperadamente enquanto pedia
desculpas por tudo.
— Desculpa por existir.
Não diga isso. — pensei. Mas seria sem fundamento algum
corrigi-lo nesse momento no qual o álcool dava voz a sua
consciência.
— Eu queria não existir. — continuou. — Seria mais fácil.
Para o John, Helena, Thomas e para você. Eu realmente gostaria de
deixar de existir e parar de fazer vocês sofrerem.
Não. Meu mundo não seria o meu mundo sem você. O
mundo de Thomas não seria o mundo dele sem você.
— Por que eu tive que nascer? — continuava.
Suas lágrimas pareciam não ter fim.
Ele estava como uma criança de cinco anos após cair e se
machucar.
— Eu estraguei a carreira da Helena. Eu estraguei a vida de
John. Eu só dou preocupação para Thomas e, eu só sei te fazer
chorar. Seria tão mais fácil se eu só pudesse deixar de existir. Eu
não estou pedindo muito, só peço para parar isso tudo. Sabe, tem
dias que não consigo respirar. É sufocante respirar. Eu só queria
deixar de existir. Isso, aqui dentro, me consome tanto. Eu queria
tanto ser amado. Eu queria mesmo sentir o que é o amor. Eu queria
ser digno disso. Eu queria ser diferente. Eu queria que o John
tivesse me ensinado a jogar bola, eu gostaria que Helena tivesse
me abraçado alguma vez. Queria poder comer a comida da Helena
e dizer para meus colegas que minha mãe fez um jantar para mim.
Queria ter ido às suas apresentações e vibrado como filho, queria
que ela tivesse ido às minhas e vibrado como mãe, queria que ela
tivesse me acolhido quando o John se esqueceu de mim e não me
culpado por ter o afastado dela. Queria que o John tivesse me
procurado no meu aniversário de nove anos e em todos os
aniversários depois desse. Queria que o John não tivesse me dado
esse apartamento, mas sim me convidado para morar com ele e
fazer parte da vida dele. Eu não iria, porque não deixaria vocês, mas
eu gostaria de ter recebido um convite, assim ele demonstraria que
se importa e não que fez algo só por fazer.
Sua voz rouca estava cheia de dor. Eu podia sentir suas
lágrimas molhando minha calça.
— Eu gostaria de ter ido ver jogos com ele, eu até torceria
para o time que ele quisesse. — continuou. — Eu gostaria de
receber uma mensagem, qualquer uma, até uma bronca, eu gostaria
de me lembrar do som da voz dele, eu gostaria de me lembrar de
sua fisionomia sem ser por uma foto.
Que dor. Que dor que eu estava sentindo. Pela primeira vez
eu estava o vendo de fato, quebrantado em minha presença. Ali,
deitado em meu colo, não era o Mingus que eu conhecia, frio, mas
sim um menino de dez anos, quebrado e machucado pelos pais. Ou,
um garotinho ainda mais novo, destruído por quem supostamente
mais devia amá-lo.
— Eu gostaria de ser digno do amor, assim eu poderia amar
você. — continuou. — Por que eu nasci tão errado? Qual foi o meu
pecado? Eu realmente gostaria de ser digno do amor para que eu
pudesse te amar. Eu juro que eu faria isso certo.
Reconheço que nada vai mudar entre nós, reconheço que
após esse momento eu irei voltar a chorar de saudades e voltarei a
ficar confusa. Reconheço que após isso, uma mínima esperança vai
ser criada em meu peito e reconheço que eu possivelmente nunca
iria superar Mingus Carter, mas neste momento, embora eu
estivesse tentando pegar pedaço por pedaço do meu coração
estilhaçado por ele e voltasse à estaca zero após esse movimento,
eu me permiti. — Comecei a acariciar seus cabelos.
— Quando tudo estiver muito difícil, lembre-se desse
momento comigo. — falei. — O melhor que posso fazer é te
prometer que eu sempre vou te amar.
Talvez eu esteja destinada a ser aquela que o amará para
sempre, talvez eu seja a sua salvação e ele certamente a minha
destruição — como sempre disse. — talvez meu coração possa se
curar em um futuro distante, talvez eu possa encontrar o amor
eventualmente, talvez Mingus possa procurar por ajuda e se curar
dessa escuridão absurda e voltar para mim, talvez eu espere para
sempre, talvez eu siga em frente, talvez sejamos amaldiçoados. A
única certeza que eu tinha nesse momento, enquanto suas lágrimas
molhavam minha calça, suas palavras saiam em tom de desespero
e meu coração pulsava tão forte como nunca, era de que eu
certamente iria regredir. A luta imbatível que vivi por dois meses
tentando ser forte, irá voltar do inicio, o coração estilhaçado e o
choro de agonia, iriam voltar. Eu regressei. Eu voltei para onde jurei
não voltar. Mas a verdade é que eu voltaria outras mil vezes, a
verdade é que eu poderia partir novecentas vezes, ele poderia me
mandar embora por outras mil vezes, eu voltaria duas mil.
Talvez eu queira ser destruída. Desde que ele esteja ao
meu lado.

Mingus pegou no sono quase perto das quatro e cinquenta


da manhã. Eu continuei em seu apartamento, porque eu não
poderia ir embora dessa maneira, eu não poderia deixá-lo aqui após
tudo o que ele me disse.
Ao amanhecer, perto das sete horas, enviei uma mensagem breve
ao RH da empresa dizendo que eu iria chegar mais tarde hoje, mas
que eu compensaria o horário, esperei o relógio apontar nove horas,
preparei um forte café e fui acordá-lo.
— Mingus, acorde. — digo sentando-me à beira da cama.
Ele se mexeu na cama resmungando, mas eu continuei o
chamando até que ele abriu os olhos e me viu. — Pareceu
assustado, fechou seus olhos com força e depois os abriu outra vez,
esfregando-o, me olhou de novo.
— Katelyn? — Me olhava confuso. — O que você está
fazendo aqui?
— Levante-se e beba este café, nós precisamos conversar.
Eu segurava uma xícara em minhas mãos com o forte café
que havia passado há pouco tempo, ainda estava pelando. —
Mingus pareceu relutante no começo, mas viu meu olhar severo e
assim fez.
No momento em que se sentou, eu entreguei o café e
esperei que tomasse três ou quatro goles para que eu pudesse
começar a falar.
— Se lembra de algo? — perguntei.
— Não. — respondeu envergonhado. — E-eu não…— ele
se calou e abaixou sua cabeça.
— Você o que? — perguntei. — O que você quer saber?
— Eu não te forcei a nada, certo? — perguntou com os
olhos assustados.
— Nós não transamos. — respondo de imediato, soube no
instante em que seus olhos azuis se tornaram cinzentos de medo
que essa era dúvida.
Seu alto suspiro demonstrava que ele estava um pouco
mais calmo agora.
— Então o que eu fiz? Por que você está aqui?
Engraçado. — penso. — Eu sabia que ele não iria se
lembrar da noite passada, mas ainda era doloroso saber que ele
não se recordava que eu fiquei a madrugada inteira ao seu lado.
— Você me ligou. — falei. — Estava bêbado e disse ter
saudades.
Ele tomou outro gole de café.
— Você se sente assim quando está sóbrio ou só quando
está sob efeito de drogas e álcool?
Outro gole de café. Ele estava evitando contato físico e
evitando conversar.
Eu ri.
— Inacreditável. — disse. — Fiquei a madrugada toda
cuidando de você e não ganho nem sequer uma resposta do que te
pergunto?
— Desculpe. — murmurou. — Ainda estou tentando
processar o que aconteceu ontem.
— Mingus, eu deveria estar no meu trabalho, tirei algumas
horas para podermos ter essa conversa, então ao menos uma vez
na vida, seja corajoso e me olhe nos olhos e diga o que diabos você
quer.
— Katelyn..
— Eu te ouvi ontem, Mingus. — o cortei. — Eu prestei
atenção em cada palavra que você disse e de verdade, eu consigo
compreender o que você sente, eu consigo compreender que você
tem muita coisa na sua cabeça, eu consigo entender que a Helena e
o John são pessoas horríveis e que eles fizeram isso com você,
consigo entender que você pensa que é a destruição de tudo à sua
volta e consigo entender que você não se sente digno do amor
porque foi assim que seus pais fizeram você se sentir.
Ele continuava com a cabeça abaixada.
— Eu entendo que você não queira existir. — continuei. —
Eu entendo que o seu sonho seja viver e não apenas sobreviver,
entendo que você queira viver livre de toda essa angústia e fúria
que tem dentro do peito ou morrer, para que essa dor possa
finalmente te deixar. Porque sério, eu posso apenas imaginar a dor
que você é obrigado a conviver a vida inteira. Eu realmente ouvi
tudo o que você me falou. Eu realmente, realmente, sinto muito. Se
eu pudesse ter algum poder definitivamente seria tirar do seu
coração todas essas marcas e todo esse peso.
— Katelyn…
— Me deixe terminar. — o interrompi outra vez. — Eu
passei a madrugada inteira acordada pensando que talvez eu esteja
destinada a te amar por toda a minha vida e em todas as vidas que
vierem após essa. Eu passei a madrugada toda pensando que
talvez eu seja a sua salvação, que talvez o seu coração possa ser
livre de tudo isso e que podemos fazer dar certo. Eu passei a
madrugada inteira pensando que talvez eu pudesse te esperar por
toda a minha vida e que o amor que eu sei que você sente por mim
é mais forte do que todas as suas cicatrizes e Mingus, eu juro, eu
até mesmo vi a felicidade bem de perto. A pequena gota de
felicidade que eu poderia nomear como “esperança” foi vislumbrada
por mim nessa madrugada durante muitos pensamentos, porque
tudo o que eu conquistei nesses dois meses que estivemos longe,
eu perdi ao atender sua ligação. — respirei. — Eu fiquei um mês
chorando todos os dias antes de dormir, eu me senti insuficiente, eu
precisei te silenciar das minhas redes sociais porque eu enlouquecia
só de imaginar que você estava com garotas diferentes em cada
festa que estava, porque parecia que eu não fui o suficiente para te
fazer ficar. Eu sentia saudades e não podia correr até você, eu tinha
novidades e não podia compartilhar, eu tinha momentos ruins e não
podia te dizer e isso me frustrava tanto, porque você costumava ser
o único que me deixava feliz, porque nenhuma outra pessoa no
mundo fingia ser uma caixinha de música que rodava e rodava para
me fazer rir, exceto você. Você sempre disse que não foi feito para
mim, mas isso é uma loucura, porque você era realmente perfeito
para mim. Eu sentia falta do seu toque, do seu olhar no meu, do seu
cheiro, da sua voz, das suas mensagens. Eu sentia falta de nós
dois. Eu passei um mês chorando por não me sentir o suficiente por
você e por sentir saudades feito uma idiota. No mês seguinte,
passei a te desprezar. Você foi um covarde. Eu odiava você, mas
depois o ódio passou e eu voltei a sentir saudades, mas era menor
o sentimento, sabe? Era controlável, eu podia dormir que passava,
eu podia ver séries que ocupavam minha mente, eu podia encontrar
minhas amigas e ficar sem falar de você por horas, mas sempre
acabava falando um pouco, mas eu realmente comecei a melhorar,
ao menos, não chorava mais todas as noites. Foram tempos difíceis,
mas eu consegui passar dia após dia e estava melhorando e então,
você me ligou de madrugada e porra, Mingus! Eu sabia que eu iria
voltar à estaca zero, mas eu conclui que voltaria outras mil vezes,
mas a verdade é que eu não quero isso.
Parei de falar para respirar e ele olhou para mim. Acho que
com dúvida se eu havia terminado ou apenas por olhar, não sei.
Continuei em silêncio, para ver se ele diria algo.
— O que você não quer? — perguntou.
— Ficar nessa agonia por toda a vida. — falei. — Estou
certa de que eu esperaria por você, estou certa de que podemos ser
felizes, mas eu não posso tentar sozinha, não posso tentar sozinha,
então, Mingus, se você sente minha falta como falou a madrugada
inteira que sentia, tenha coragem e fique comigo. Eu te quero com
todos os seus traumas, com todas suas cicatrizes e com todos os
seus medos e com toda a sua má reputação. Eu te quero assim. Eu
estou pronta para lidar com todas as consequências.
Ele engoliu em seco.
— Mas eu também já passei por um “fim” doloroso de nós
dois antes. Várias vezes. — continuei. — E sei que consigo superar
e tentarei ainda mais forte não retornar mais para você. Estou certa
de que te esperaria para sempre, mas irei implorar para que você
exclua meu número, implorarei para que me bloqueie e talvez até
estrague nós seis por uns meses, porque seria difícil te ver e não te
ter.
Novamente ele engoliu em seco.
— Não estou pedindo para ficarmos juntos agora. —
continuei outra vez. — Eu apenas preciso saber se existe a
possibilidade de você pensar em nós, se existe essa esperança em
você como existe em mim, porque Mingus, se você dizer que existe,
se você dizer que no futuro nós dois podemos fazer funcionar, se
você dizer que uma hora você conseguirá ficar ao meu lado, eu
prometo que irei te esperar. Mas, se não houver essa esperança, se
não houver uma esperança nem que seja para daqui dez ou vinte
anos, eu preciso que você me diga, porque embora eu queira te
esperar a vida inteira, eu não poderei fazer isso se do seu lado não
houver esperança alguma.
— Não há.
CAPÍTULO 27
Mingus
A última vez que vi Katelyn foi na manhã seguinte da
madrugada em que ela me trouxe bêbado para casa, há exatos três
meses.
No momento em que eu disse que não havia esperança em
um futuro entre nós dois, ela sorriu educadamente — como sempre
foi — mas seus olhos estavam cheios de lágrimas e então ela se
levantou da minha casa e me disse uma frase que nunca mais saiu
da minha cabeça.
“Eu te amo e eu sei que eu sempre vou amar, mas eu
encerro aqui.”
Ela falou sério dessa vez. Fui excluído de suas redes
sociais e tive meu número bloqueado. Ela não saiu do grupo com
nossos amigos, mas o silenciou e nunca mais conversou por lá.
Uma matéria sobre o lago dos Sonhos saiu escrito por ela
para o seu trabalho, sobre uma crítica pela falta de manutenção da
prefeitura da cidade por lugares culturais, mas o que me chamou a
atenção foi que ela deu ênfase que aquele local era repleto de
histórias que já se encerraram e outras que ainda estavam em
andamento. Eu gostaria de saber qual dessas era a nossa, mas
certamente a que se findou.
Na mesma manhã em que ela saiu do meu apartamento, eu
vi que além de ter ligado para ela também havia enviado
mensagens à Helena e John. — Anotei para nunca mais beber
whisky na vida. — Eu havia dito muitas coisas banais para os dois e
também palavrões. Aquela manhã foi uma merda.
Eu estava de ressaca. Havia perdido Katelyn outra vez. E
ainda estava ouvindo merda dos dois responsáveis pela minha
condição atual.
No primeiro mês, eu continuei sendo o mesmo babaca que
sempre fui. Continuei conhecendo novas mulheres, continuei saindo
com Matthew e encontrando Tyler, continuei sendo um otário sem
consideração alguma pelo meu próximo e, discuti várias vezes com
o Thomas.
Ele sempre ia até o meu apartamento para tentar me dar
conselhos, mas eu realmente não ligava para o que ele dizia. Em
algumas noites, Christopher se juntava conosco para jogarmos
vídeo game, mas eu sempre sentia que estava sendo julgado por
eles por ter estragado o nosso grupo e, eu realmente havia feito
isso.
Me lembro de pensar “mais uma coisa para sua lista de
coisas que destruí, Helena” todas as vezes que os dois vinham ao
meu apartamento e então, comecei a cortar a vinda, não porque eu
não os queria, mas sim porque eu me sentia principalmente
arrasado com o que causei a nós.
No segundo mês, eu estava perdido. Eu nem me lembro
como cheguei em casa muitas noites e nas manhãs seguintes ficava
sabendo que era o Thomas quem me ajudava e então, o Thomas
tomou a pior e talvez a melhor decisão que poderia ter tomado na
vida. Ele entrou em contato com o John.
“Eu não quero mais olhar na sua cara”, “você morreu para
mim” — foram as coisas que eu disse para o meu melhor amigo ao
ficar sabendo disso.
John Carter, o pai do ano, veio até meu apartamento. Eu
não me recordo a última vez que o vi, mas ele certamente parece
mais velho.
Nós realmente brigamos todos os dias que ele esteve na
cidade e eu realmente não consigo acreditar o quão difícil é
conversar com esse homem. Ele me acusou de ser um filho ingrato
e um filho ruim, eu me lembro que durante essas acusações eu
comecei a gargalhar e disse que ele não tinha direito algum de me
dizer tais palavras porque ele sequer nunca foi meu pai e após isso,
eu tive uma grande revelação.
“Você nunca permitiu que eu fosse o seu pai” — ele disse.
“Você nunca tentou.” — respondi de volta.
“Você me pediu para ir embora. Você quis me afastar. O que
eu deveria fazer?”
E foi nesse momento em que eu vi que John estava tão
perdido quanto eu.
“Como assim?” — eu me lembro de perguntar. — “O que
você está dizendo, John?”
“Helena me disse. Ela me disse que você me odiava e
queria que eu me afastasse. Ela me disse que você não me queria
por perto. Ela me disse que eu te machucava.”
Eu me lembro de o encarar confuso, com os olhos
marejados e completamente sem acreditar no que havia acabado de
ouvir.
“O que você disse?” — foram as únicas palavras que
consegui dizer.
Sentia meu coração doer. O ar até me faltou. — Ele quer
dizer que Helena nos afastou?
“Eu realmente não estou entendendo.” — disse.
John me olhou com cautela nesse momento e penso que
sua ficha caiu.
Helena nos afastou.
“Você nunca disse isso, certo?” — perguntou. — “Você
nunca quis me afastar? Você nunca ficou triste por eu te ligar
desejando parabéns? Você nunca pediu para que eu parasse de te
visitar? Você nunca me pediu para não falar com você? Você
realmente nunca me odiou?”
“Por que uma criança de oito anos odiaria o seu pai?” —
Acho que esse foi o momento em que eu comecei a chorar. — “Eu
nunca… Eu nunca disse nada disso. Você disse. Você disse que
não me queria. Você disse que não queria ser pai. Você disse que
eu te atrapalhava na sua cidade. Você disse que não tinha tempo.”
“Eu nunca… Mingus!” — ele se aproximou. — “Eu
realmente nunca disse nada disso. Eu sentia a sua falta todos os
dias. Eu queria ligar todas noite. Eu queria te colocar para dormir e
te ensinar a jogar futebol. Eu queria te dar presentes e te abraçar,
eu passei minha vida inteira tentando entender o que eu te fiz, eu
passei minha vida inteira tentando te dar conforto, apartamento, um
emprego, para que você pudesse me perdoar por algo que eu não
fazia ideia que eu tinha feito, porque você me odiava, eu… eu senti
a sua falta todos esses anos.”
“Você sentiu a minha falta?” — foi a única coisa que eu
ouvi.
Me lembro que meu peito doía como nunca antes.
“Sim!”
“Por que?”
“Porque você é meu filho! E eu não sabia o que eu tinha te
feito, eu fiquei perdido quando a sua mãe me contou que você não
me queria mais na sua vida e eu não sabia o que fazer. Eu escolhi
respeitar a sua decisão, mas eu senti sua falta todos os dias.
Quando eu estava preparando meu casamento, eu te convidei para
entrar comigo até o altar e quando você negou…”
“Você não me convidou.”
“Sim, eu convidei. Eu enviei o convite. Sua mãe me
respondeu que você rasgou. Me enviou as fotos.”
“Eu não recebi o convite.”
“O que?” — ele pareceu tão chocado quanto eu.
“Você não liga desde os meus nove anos. Você não me
manda mensagens. Você não vem me ver. Você nunca me mandou
mensagens preocupado, nem mesmo quando eu sofria acidentes ou
causava por aí, a única coisa que já fez foi me fazer pagar serviços
comunitários quando eu cometia algum delito. Você não me
parabenizou nem pela minha formatura do colégio e nem quando
passei na universidade.”
“Você não queria contato.”
“Eu nunca disse isso.” — foi meu primeiro grito daquela
noite. — “O que está acontecendo? Você está dizendo que sentia a
minha falta, você disse que eu quem cortei o contato, você está
dizendo que queria ligar todas as noites, você está dizendo que
queria me ensinar a jogar futebol, você está dizendo que queria me
abraçar e eu nunca, eu nunca senti o teu abraço, John. O que isso
significa? Por que você diz que queria e por que você não fez? Eu…
Eu não entendo.”
“Helena me disse…”
Esse foi o momento em que eu explodi. Minhas lágrimas,
minha voz, meu corpo, tudo reagiu tragicamente. Me lembro de
chorar, gritar, esmurrar a parede. Acho que o assustei. Mas ele não
foi embora.
Eu gritava sobre toda a dor que eu sentia, eu gritava sobre
ele nunca ter sido presente, gritava sobre todas as vezes que ele
não me quis em sua casa, sobre todas as vezes que ele concordou
que eu era uma pessoa difícil de lidar, sobre todas as vezes em que
eu não me senti querido ou amado por conta da sua ausência, eu
gritava por todas as vezes em que pensei ser uma criança difícil por
conta que ele me deixou, eu gritei por todos os aniversários em que
eu assoprei a maldita vela do bolo que a família de Thomas fazia
para que eu pudesse ter uma família normal. Eu gritei por toda vez
que eu quis ele ao meu lado, eu gritei por todas as vezes que eu
senti sua falta mesmo que eu nem sequer tenha conhecido a sua
presença. Eu gritei por todas as vezes que eu não fui o suficiente
para ele. Eu esmurrei a parede por todas as vezes que ele não
apareceu, mesmo quando eu fazia coisas ridículas para chamar a
sua atenção. Eu esmurrei a parede porque nada no mundo poderia
me fazer ficar bem outra vez. Eu gritei e chorei por sua ausência ter
me transformado nisso. Eu gritei, chorei e esmurrei a parede por
não ser digno do amor.
Me lembro de sentar no chão com minha mão direita
sangrando e me lembro que ele se aproximou com calma, talvez
conferindo se era seguro se aproximar nesse momento e se sentou
ao meu lado.
“Nós perdemos tudo” — eu disse. — “Nós perdemos tudo
por mentiras da Helena? Você realmente sentiu a minha falta? Você
realmente me queria? Você realmente quis ser meu pai? Você
nunca quis que Helena abortasse? Você realmente, realmente não
está mentindo?”
“Mingus, eu não tinha ideia…”
“Eu realmente me odeio porque eu nunca senti o seu amor
ou o de Helena. Na verdade, eu sempre pensei que eu tinha algum
problema, porque vocês não me amavam. Eu tenho uma raiva
dentro de mim porque eu nunca me senti o suficiente e eu me odeio,
eu me odeio tanto que eu realmente, realmente gostaria de morrer,
John.”
“Não diga isso. Por favor, não diga isso.”
“Eu vivo em dor. Eu nunca fui feliz. Eu nunca aprendi a amar
alguém, eu nunca aprendi a ser bom, eu nunca fui bom e agora
você diz que sentiu minha falta e que me queria em sua vida? O que
eu devo fazer? Eu acredito em você? Eu não posso, porque você
concordou com a Helena quando ela disse que eu destruía tudo e
todos, você concordou que eu não era digno do amor.”
“Não, Mingus. Eu nunca disse nada disso. Como você pode
pensar que você destrói coisas? Como você pode pensar que não é
digno do amor?”
“Porque eu ouvi isso por toda a minha vida.”
“Da sua mãe?”
“Sim, Helena me dizia todos os dias. Helena me contou que
você foi embora porque não me queria em sua vida, e eu sei que
sou uma pessoa difícil, mas eu realmente tentei mudar, tantas
vezes. Eu sinto muito. Eu sinto muito por ser assim, John. Eu queria
muito ser um filho bom, eu queria muito que vocês pudessem me
amar, eu queria muito dar orgulho para vocês, ser perfeito, sair de
acordo com o plano, mas eu não consegui, eu sou todo errado. Eu
preciso de conserto.”
“Oh, querido. O que no mundo eu e Helena fizemos com
você?”
“Querido”. Eu memorizei sua voz dizendo essa palavra.
Porque foi a primeira vez que ouvi algo bom.
“Eu não tinha ideia.” — continuou.
Me recordo que nesse momento eu estava pedindo
incontáveis desculpas. Porque eu ainda pensava que a culpa era
minha.
“Não peça desculpas.” — ele dizia. — “Eu e Helena temos
que te pedir desculpas. Acho que a vida inteira ainda seria pouco
tempo para reparar o que fizemos a você. Meu Deus! Eu realmente
sinto muito.”
John chorou. John Carter chorou. Sentado no chão do meu
apartamento, ele chorou.
E, após muita coisa acontecer. — John discutiu feio com
Helena, eu não quis vê-la ou escutá-la, mas ele me contou que ela
foi diagnosticada com depressão pós parto após o meu nascimento
e escondeu isso de todos, inclusive dele. Ela parou com os
tratamentos e a doença apenas agravou, levando ao caso de uma
psicose pós-parto, onde ela deveria ter sido internada para fazer um
tratamento e ficar boa, mas ao invés disso, ela escondeu de todos e
tentou ficar bem por conta própria. Em suma conclusão, ela não
conseguiu ficar bem. Na verdade, John me contou que ela
desenvolveu outros problemas psicológicos e pela primeira vez na
vida eu não senti ódio por ela, mas sim pena. Se eu soubesse a sua
verdadeira condição, talvez eu não tivesse ido embora de casa,
talvez eu tivesse ajudado, feito ela se tratar, talvez eu tivesse sido
um bom filho.
John também me contou que as crises sempre apareciam
por um longo tempo e depois sumia, que era por essa razão que ela
era tão instável sobre todas as coisas. Eu senti pena, empatia e
compaixão, mas ainda não estava pronto para vê-la.
Após todos esses fatos, eu me reconciliei com Thomas e
entramos no começo desse mês, o terceiro mês desde que eu e
Katelyn nos afastamos.
Helena telefonava para John todos os dias querendo
conversar comigo, porque ele ainda estava na cidade tentando
convencê-la a retomar os tratamentos, mas eu ainda não estava
confortável com isso. Na verdade, a compaixão sempre aparecia e
ia embora dos meus pensamentos, porque mesmo quando eu
queria perdoá-la por tudo, eu ainda me sentia quebrado, meus
sentimentos não tinham mudado e eu sentia raiva. Raiva dela não
ter sido corajosa o suficiente para cuidar de si mesma e me manter
por perto. — Foi aí. Nesse exato momento, eu entendi a Katelyn.
Eu estava sendo como a Helena.
“John, diga a Helena que eu falarei com ela quando ela
retomar os tratamentos.” — foi o que eu disse a ele quando percebi
que a sua covardia era como a minha.
Medo. Medo de nunca dar conta.
Helena era uma alma quebrada. John era uma alma
quebrada. Eu era uma alma quebrada.
“Sabe a pergunta que me fez outro dia? Sobre ir para a sua
cidade? Eu realmente gostaria.” — disse ao John.
O terceiro mês se fechou com a minha viagem até a cidade
onde John mora. Eu avisei apenas Thomas e desliguei meu celular,
fazendo John mantê-lo com ele, para que eu não o ligasse durante
esse tempo aqui, porque eu tinha vindo com um único propósito. Eu
iria me curar.
Se Helena conseguisse recomeçar agora, eu também
poderia. Se John e eu estamos tentando após anos, eu poderia
melhorar.
“Eu quero procurar por ajuda. Eu não quero mais sentir
essas coisas que sinto, John. Eu não quero mais pensar que vou
destruir tudo.” — foi a primeira coisa que eu disse ao chegar na sua
cidade.
Hoje, faço minha quinta sessão de terapia. Ela pensa em
me encaminhar ao psiquiatra, porque talvez eu precise de um
remédio para me auxiliar em crises e a pegar no sono, estou
ansioso pela melhora.
Sinto falta da Katelyn todos os dias, mas fiz Thomas me
prometer que não iria contar a ela o porquê eu vim para essa
cidade. Não quero que ela crie esperanças, porque não sei se isso
resultará em algo, ainda me sinto como antes, mas talvez seja por
ser recente, mas de qualquer forma, não quero que ela tenha
esperanças ou deixe de viver para me esperar. Se eu conseguir
sobreviver à isso, se eu conseguir melhorar e ser alguém melhor, eu
irei procurar por ela ciente de que posso ouvir um não, até mesmo
ciente de que ela deveria me dizer um não depois de tudo isso, mas
se eu conseguir me sentir digno de ser quem ela merece, se eu
conseguir amá-la e entender que ela me ama, eu voltarei e pedirei
mil perdões, eu me humilharei e irei esperar que nosso destino não
seja cruel como sempre pensei — e ainda penso que é. — Mas
como ainda não sei se posso mudar, como não sei se há uma cura
ou esperança para mim, prefiro que ela continue sem saber de nada
e continue vivendo, porque ela merece encontrar alguém e, se não
formos destinados, eu terei um amor unilateral. Está tudo bem,
desde que ela fique bem.
CAPÍTULO 28
Katelyn
Três meses sem contato. Um mês de pura angústia. Saber
que ele estava na cidade de seu pai com o homem me deixava
realmente aterrorizada porque em todos os instantes eu pensava
em como poderia estar a relação deles, mas também me repreendia
porque não era da minha conta. — Thomas me contou que ele
viajou porque disse que eu deveria saber, mas não questionei
motivos e não disse nada a ele, apenas orei aos céus para que
Mingus esteja bem e que tudo dê certo para ele, mas na semana
passada, acabei bebendo um pouco a mais que o normal com meus
amigos — porque agora que Mingus não estava, estávamos nos
encontrando de novo — e acabei fazendo algumas perguntas ao
Thommy.
“Ele está bem?”, “por que ele foi?”, “ele vai voltar?”, “ele
está sentindo nossa falta?”, “eu ainda sinto a falta dele”.
Sim, eu odeio o efeito do álcool.
Não me lembro das respostas que tive nesse dia, mas na
manhã seguinte Thomas me enviou algumas mensagens dizendo
que ele estava bem, que foi apenas por ir, que voltaria
eventualmente e que estava sem celular, mas que com certeza
estava sentindo nossa falta. Lembro que pensei que ele era um
mentiroso, que ele não deveria estar sentindo nossa falta e que
deveria estar amando uma nova cidade, com novas garotas. — Era
o que eu queria acreditar, porque assim, podia sentir raiva dele e
não saudades.
No trabalho, eu seguia crescendo cada vez mais. Estava
contente. E claro, Ty sempre me auxiliando.
Hoje era quinta-feira e combinamos de ir em um happy hour
após o trabalho. Estávamos prestes a sair para bater o cartão e Ty
entrou em minha sala sem pedir licença — como sempre fazia.
— Você está linda. — disse ele.
— Oi para você também, Ty. — sorri envergonhada.
— Continua linda.
— Ninguém fica linda após um dia inteiro de trabalho.
— Você é uma exceção! — riu. — Vamos?
— Você não toma jeito, não? — ri. — Vamos.
Há um mês fizemos um happy hour em um bar qualquer e
jogamos verdade ou desafio, na vez de Ty ele escolheu verdade e
perguntaram se ele era a fim de alguém presente na mesa e ele
disse “Sim, eu estou louco pela Katelyn”, desde então tenho tentado
me manter um pouco longe, porque tenho medo onde isso pode
chegar. — Por ele ser bonito e também pela minha carência.

A noite foi uma delícia. Eu gostava de estar com meus


colegas de trabalho, era legal poder me divertir com que eu mais
passava tempo no meu dia, e também era muito legal também os
conhecer cada vez mais fora do ambiente da empresa.
Nos despedimos no estacionamento e eu estava indo até
onde estacionei quando Ty me chamou.
— Quer dar uma volta? — perguntou.
— Amanhã trabalhamos. — respondi. — Já está tarde.
— E amanhã? Quer dar uma volta amanhã?
Era a sétima vez que ele me convidava para sair. Sétima
vez em três meses.
— Você não toma jeito, não? — ri.
— Prometo tomar quando você me dizer “sim”.
Eu acho que a única caipirinha que tomei estava fazendo
efeito ou talvez eu ainda esteja magoada e queira fazer algo para
compensar essa raiva.
— Sim. — respondi.
Eu enlouqueci.
— Sim para o quê? — perguntou. — Você topa em sair
comigo amanhã?
Sim, eu realmente estava louca.
— Sim.
Seu sorriso pareceu malicioso e eu hesitei por um momento
ao me lembrar de Mingus, mas ele estava distante há três meses e
nem em nossa cidade estava, então qual era o problema em sair
com outra pessoa? Qual era o problema em me envolver com outro
alguém quando eu tinha a absoluta certeza de ele fazia o mesmo?
— Vou te levar para um jantar. — disse. — Eu te busco em
sua casa.
Ele parecia extremamente animado.
— Combinado. — sorri.
Nos despedimos e eu fui até o meu carro com a sensação
de estar cometendo um erro neste exato momento, mas ignorando
esse sentimento.

Ty me enviou uma mensagem dizendo que já estava na


frente do prédio esperando por mim. Quando desci ele estava
encostado em seu carro me observando e então, se aproximou
levando em minha mão delicadamente e me levou até seu carro,
abriu a porta para que eu entrasse e antes de fechá-la sorriu me
olhando e disse “você está linda”. — Eu gostaria de ter sentido algo,
uma borboleta em meu estômago, uma felicidade incontrolável, uma
mínima adoração, mas eu não senti nada. Apenas sorri
envergonhada.
Ainda no carro, estávamos enfrentando um pouco de
trânsito e ele ainda não havia puxado nenhum assunto, apenas
colocou uma música para tocar e deixou a playlist rodando.
Eu não estava desconfortável, mas também não estava
confortável. Acho que sentia falta dos mil e um assuntos que eu
costumava ter com o Mingus. Virei meu rosto para a rua, a lua
estava tão linda e meus pensamentos outra vez me traíram, me
levando até o loiro. — Eu gostaria de saber como ele estava, o que
estaria fazendo nessas horas e como está seu relacionamento com
John. Nunca imaginei que ele iria até a cidade do mais velho, nunca
imaginei que isso pudesse acontecer e principalmente nunca pensei
que eu estaria longe dele quando algo tão importante acontecesse.
Minha vontade quando fiquei sabendo que John estava na cidade
era correr até ele e o abraçar para nunca mais soltar, mas eu não
pude. Thomas também não me contou quando aconteceu, acabou
contando para todos somente na noite em que Mingus já estava no
aeroporto para sair da cidade com seu pai. — Meu coração se
quebrou um pouquinho ao descobrir isso. Fiquei com medo dele não
voltar, fiquei com medo de como ele estava se sentindo, mas
Thomas nos garantiu que ele estava bem e que voltaria. — E então,
tive raiva. Raiva dele não comunicar nada disso para mim, mas me
lembrei que eu quem o bloqueou. Talvez eu devesse desbloqueá-lo.
Ou não. Talvez eu devesse parar de pensar nele enquanto estou no
carro de outro homem.
Ao estacionar no estacionamento do restaurante, Ty me
pediu para esperar que ele iria abrir a minha porta e eu apenas
concordei. Descemos e a mesa quinze estava reservada para nós.
— Vinho? — me perguntou no instante em que sentamos.
— Sim. — dei um sorriso educado.
Ty estava vestido com o mesmo estilo de que ia trabalhar.
Camisa social de manga comprida, calça jeans preta e usava um
tênis de marca, mas por conta do calor que estava fazendo dentro
do restaurante, ele subiu a manga de sua camiseta revelando uma
pequena parte de uma tatuagem. — Em todo o tempo no escritório,
eu ainda não tinha visto. — Olhei para a parte à mostra, parecia o
início de uma bússola.
— Achou interessante? — perguntou quando notou que eu
estava observando. — É no braço inteiro. Um relógio romano e
rosas.
— Algum significado? — perguntei.
— As rosas não. — deu de ombros. — O relógio romano é
que o tempo não volta e nunca para.
— Você tem mais tatuagens?
— Tenho um navio pirata na panturrilha.
— Algum significado?
— Liberdade.
Abri um sorriso. Ty sempre demonstrou ser um ótimo cara e
além de tudo isso também era atraente. Eu gostaria de conseguir
ficar a fim dele, eu gostaria de conseguir me interessar por outro
alguém.
O vinho que ele pediu havia chego e era suave e doce,
perfeito. Perfeito e fácil de me embebedar.
Agora estávamos olhando o cardápio e tudo era chique
demais aos meus olhos, porque todos meus pratos favoritos se
baseavam em fast food ou na macarronada dos meus amigos, do
qual eu sentia falta. — Até mesmo estava com saudades do
macarrão instantâneo que Mingus fazia de madrugada quando
estávamos com fome após vários filmes e jogos. — Escolhi um
prato e Ty escolheu igual, talvez para me agradar ou de fato
tínhamos o mesmo gosto. O garçom se retirou da mesa e Ty voltou
seus olhos para mim.
— Já faz um tempo desde que nos conhecemos e sinto que
sei tão pouco sobre você. — disse.
— E o que você gostaria de saber? — perguntei e tomei um
gole do vinho. — Pergunte o que quiser.
Ele sorriu e pude sentir seu olhar cair em meus lábios.
— Qual seu livro favorito? — perguntou e eu soltei uma
risada sincera. — O que foi?
— Essa é realmente a sua pergunta?
Ele deu de ombros.
— Está bem. Meu livro favorito atualmente é “O lado feio do
amor” de Colleen Hoover. E o seu?
— Não leio. — riu. — Sobre o que fala esse livro?
— Literalmente nos mostra o lado feio do amor. — digo. —
O quanto dói, o quanto destrói.
Li esse livro com Mingus. Ele estava ao meu lado enquanto
iniciei a leitura e também leu algumas páginas para mim. Páginas
que fez com que nós nos lembrássemos de nós mesmos. Leu
também as últimas páginas — para si mesmo — E me disse que
quando eu terminasse de ler era para contar tudo para ele. Eu
contei. Contei cada detalhe desse livro e ele me ouviu com tanta
atenção que me fazia dar ainda mais detalhes, porque parecia que
ele realmente estava interessado. Nunca mais consegui contar a
alguém sobre um livro como foi ele.
— Parece interessante. — disse. — Talvez eu comece a ler
livros. O que gosta de fazer no seu tempo livre? Sem pensar em
trabalhos.
— Depende do dia. — respondi. — Assistir, ler, sair com
meus amigos, jogar.
— Você parece ter uma vibe calma.
Ri.
— Talvez. — dei de ombros. — E você? Tem uma vibe
calma?
Ele riu.
— Depende do que você considera calmo.
Nosso pedido chegou. — Comemos ainda em conversas
sobre nossas vidas fora da empresa e confesso que a visão de
“Senhor perfeitinho” que eu tinha dele começou a mudar com alguns
deslizes em suas respostas. Era como se ele se esforçasse para ser
alguém que pensou que eu pudesse gostar.
Continuei esperta com os pequenos detalhes que ele estava
deixando passar, como dizer que era caseiro e não gostava de
beber, mas depois contar de quando ficou muito louco em um
evento e teve que ir carregado para casa.
Terminamos de comer. Os pratos foram recolhidos e ele
pediu outro vinho. Talvez eu já estivesse alta de álcool nesse
instante, ou eu apenas queria que ele fosse sincero comigo.
— Qual é a sua, Ty? — perguntei.
— Como assim?
— É notável que você não é o “senhor perfeitinho” que tenta
demonstrar ser.
— Não sou?
— Você não sabe nada sobre livros de romance e
especialmente não sabe nada sobre os filmes lançados, como já
conversamos algumas vezes, mas me disse sobre adorar ir ao
cinema no seu tempo livre. Me lembro também de dizer que não
costuma sair e beber, mas contou-me há pouco uma história de
quando precisou ser carregado de uma festa por estar bêbado. Você
também me disse que não fuma, mas eu posso jurar que já senti
esse aroma em você. — o encarei. — Então, qual é a sua?
Estava familiarizada com isso.

— Então você descobriu que eu não sou nenhum príncipe


encantado. — disse.
Ele parecia decepcionado.
— Nunca pensei que fosse. — falei. — Não acredito em
contos de fadas. Mas, por que isso? Qual seu objetivo? Sair
comigo? Conseguiu esse jantar.
— Eu não tenho nenhum objetivo. — respondeu. — Eu
apenas queria ser uma pessoa boa para você, como um príncipe
deveria tratar uma princesa.
Deixei escapar uma boa risada.
— Príncipes e princesas existem somente em ficção. Diga-
me, quem é realmente você?
Abriu um sorriso malicioso em seus lábios olhando-me
como se me desejasse
— Meu nome é Tyler Collins e eu não sou um bom rapaz.
— Eles nunca são. — dei de ombros debochando. — Não
acho que você seja ruim, mas pra que esse personagem?
— Apenas sendo o que meu pai quer que eu seja. — deu
de ombros. — O Tyler que usa gravatas, ternos, roupa social até
fora da empresa, o garoto que se interessa pela empresa e leva
uma bela moça para jantar no restaurante mais caro da cidade.
— E quem é você de verdade? Ou, quem você quer ser?
— Eu não tenho a menor ideia. — deu de ombros. — Eu só
queria que meu pai entendesse que minhas tatuagens, as festas
que vou ou os lugares onde costumo ir comer, não justificam quem
sou, apenas um gosto meu.
Senti pena, mas também foi a primeira vez que fiquei
inteiramente interessada nos assuntos.
— E você já disse isso para ele?
— Oh, por favor. — riu. — Meu pai é Daniel Collins.
O encarei confusa.
— Meu pai nunca me entenderia, Katelyn. — continuou ele.
— Ele é um empresário, só liga para números crescentes em sua
conta bancária e ter um filho como eu realmente sou é como uma
vergonha para ele e todo seu império construído desde a
adolescência.
— Ele parece querer compreender você.
— Só na frente dos outros. — deu de ombros. — Meu pai
nunca soube o que é me amar e desde que minha mãe faleceu,
temos sido só eu e ele e, eu preciso jogar conforme suas regras.
O homem à minha frente estava ao meu lado todos os dias
úteis de manhã até o período da tarde e eu nunca tinha percebido
sobre como ele era uma pessoa quebrada pelos problemas com seu
pai. Talvez eu estivesse ocupada demais com meus próprios
problemas que não enxergava ninguém à minha frente.
Enquanto Ty estava dizendo sobre como não tem um bom
relacionamento com seu pai, acabei me lembrando de Mingus,
porque a fala de ambos era semelhante. — Não que eu esteja
fazendo uma comparação entre ambos ou que eu tenha alguma
intenção no moreno a minha frente, mas era como se eu pudesse
dizer que eles eram parecidos. Ao menos na dor.
— Entendi todo o seu ponto. — disse quando ele se calou.
— Mas eu quero conhecer o verdadeiro Tyler. Posso?
Eu realmente gostaria que ele pudesse se sentir à vontade
comigo, sem fingimentos.
— Você pode não gostar dele. — disse.
— Eu prefiro honestidade do que qualquer outra coisa.
— E se você não gostar do meu verdadeiro eu?
— Eu prefiro você de verdade do que um personagem
criado para exibição de shows na frente do seu pai.
— Você é diferente. — me olhou nos olhos.
— Como assim?
— Não sei explicar, mas desde a primeira vez que te vi
soube que valia a pena.
— Como assim? — arqueei o cenho.
— O que você acha?
— Ty, eu realmente quero conhecer você de verdade, sem
esse personagem que te sobrecarrega, mas somos apenas colegas
de trabalho, não confunda as coisas. — falei.
— Você vai me dizer que não se sentiu nenhum pouco
atraída por mim?
Não. Na verdade, sim. Não sei. Depende. — pensei.
— Na verdade eu estava em um relacionamento complicado
e…
— Oh, então você estava em um relacionamento há pouco
tempo? — me cortou. — Quando nos conhecemos?
— É complicado.
— Alguém feriu seu coração?
— Como eu disse, é complicado. — dei de ombros.
— Ok. Mas, você merece alguém que saiba o seu valor e
que permaneça ao seu lado por todos os dias.
— E deixe-me adivinhar, você poderia ser esse alguém? —
ironizei encarando-o.
— Talvez com o tempo você me deixe ser.
— A gente trabalha juntos. — falei. — E você é o filho do
meu chefe.
— Mas não é esse o enredo das melhores comédias
românticas?
Ri.
— Acho que você não sabe nada sobre as comédias
românticas.
— Não, eu realmente não sei. — riu. — Mas eu posso
assisti-las com você.
— Tyler…
— Ok, parei. — riu. — Quer mais vinho?
— Acho que para mim deu. — respondi. — Já estou no
limite, mais uma taça eu certamente ficarei bêbada.
Ele sorriu.
— Então vou pedir a conta. — disse.
— Certo.
— Katelyn?
— Sim?
— Posso te fazer apenas mais uma pergunta antes de
irmos?
Eu assenti.
— Nós realmente não temos chance? Digo, eu não tenho
chance alguma com você?
Isso não é justo. — Penso. — Porque eu deveria tomar uma
decisão de “sim ou não” nesse instante se nem mesmo sei o que eu
posso desejar amanhã?
Eu gostaria de me envolver com nova pessoa, gostaria de
ver se consigo superar o Mingus e encontrar alguém bom, como ele
mesmo desejou que eu pudesse encontrar, mas acho que eu ainda
não estou pronta para isso porque tudo em mim ainda ama tudo de
Mingus. — Agora mesmo, passei uma noite adorável ao lado de um
homem lindo e que certamente faria tudo por mim e para me
agradar nesse encontro, mas meu pensamento o tempo todo está
em Mingus.
“Será que ele está bem?”, “ele iria gostar deste vinho”, “se
ele soubesse que estou jantando com outro homem, ficaria com
ciúmes?”, “será que ele está com outra garota agora?”,” como está a
relação dele com o John? Por que ele foi para lá?”
Meu pensamento ainda pertencia a ele, assim como o meu
coração.

— Eu não posso te responder isso. — murmurei.


— Por que?
— Não acha um pouco injusto que eu tenha que decidir
sobre isso em poucos minutos?
— Como assim?
— Você me perguntou algo sério e a resposta que eu venha
a dizer pode mudar absolutamente tudo. Meu trabalho, nossa
construção de amizade, minha vida particular. Então, não acha
injusto que eu tenha que responder sem ao menos pensar direito
sobre?
— Então meu pai é um dos nossos problemas?
— Também. — respondi. — Ele é o dono da empresa onde
estou e ser mulher no ramo de negócios não é tão fácil quanto você
provavelmente acha que é. Eu seria chamada de tantas coisas
dentro da empresa, iriam me olhar torto, com raiva e com certeza
diriam que cheguei onde estou por estar transando com o filho do
chefe.
— Podemos esconder todo esse lance da empresa.
— Não é só a empresa, Tyler. — disse. — Eu disse mais
cedo que saí de um relacionamento e tudo está bem complicado
aqui dentro, não sei se eu gostaria de ficar com outro alguém agora,
mesmo que você seja incrível.
— Você ainda ama essa pessoa?
— Eu nunca deixarei de amar. — respondi.
Ele me encarou confuso, como se quisesse saber o porquê
não estávamos juntos então.
— Mas nós não fomos feitos para durar. — continuei.
— Todo aquele lance do amor da sua vida e o amor pra sua
vida.
— A questão é que o amor da minha vida e o amor para
minha vida são a mesma pessoa, mas não há nada que possa ser
feito nesse momento.
Ele pareceu ficar confuso por alguns segundos, mas em
seguida abriu um sorriso que me deixou confusa.
— Se não há nada que possa ser feito nesse momento,
porque hesitar sobre uma diversão? — perguntou. — Podemos ser
apenas uma diversão. Prometo que nada irá mudar no trabalho.
— Eu não sou assim.
— Sim, você é diferente. — estendeu sua mão para as
minhas. — Eu notei isso desde o primeiro dia e talvez isso tenha
feito com que eu ficasse intrigado sobre você. Eu quis te conhecer,
quis ficar com você e ainda quero. Eu não me importo em esperar.
Como isso pode ser apenas diversão? — Penso. — Como
isso não influenciará na empresa?
— Eu realmente estou disposto a dar uma chance para esse
lance ser sério, mas não me importo se formos apenas uma boa
diversão.
— Eu preciso resolver conflitos internos antes de me
envolver com outra pessoa, seja sério ou apenas para diversão.
— Eu estarei aqui.
— Que você reconheça que eu não disse que nós dois
podemos rolar eventualmente, eu apenas falei que no momento não
vai acontecer nada com ninguém.
— Mas notei que também não disse um “não.”.
Realmente. Acho que eu tinha curiosidade sobre ele.
Principalmente depois de hoje. Eu vi que Tyler poderia ser um
problema, por todo seu histórico com seu pai e, aparentemente,
problemas me atraiam.

Desde o jantar com Tyler nos aproximamos ainda mais. E


essas semanas que se passaram provou isso. Acho que o fato de
conviver todos os dias úteis ao lado dele me fez criar uma confiança
e amizade com o mesmo e às vezes eu acabava correspondendo o
flerte.
Eu estava há quase quatro meses sem contato algum com
Mingus e ele ainda estava na cidade do seu pai, incomunicável.
Thomas havia reclamado sobre isso no grupo ontem a noite, que
não conseguia falar com ele desde que ele saiu da cidade, mas
também nos garantiu que enviou uma mensagem ao John e que o
mais velho informou que estava tudo bem.
“Tudo bem” como? — pensei — O que John achava que era
estar tudo bem? Por que Mingus estava sem celular? Por que ele foi
para a cidade do pai? Por que ele estava incomunicável? Ele estava
saindo? Estava se metendo em confusões? Ele discute com seu
pai? Ele chora ou se sente sozinho? Ele precisa de mim? Ele
precisa de Thomas? Como ele realmente está? — Eu demonstrei
estar preocupada ontem e por isso Thommy enviou uma mensagem
ao John, mas mesmo o homem dizendo que o loiro estava bem, os
meus pensamentos nunca me deixaram, nem mesmo agora que eu
estava na casa de outro homem.
Estávamos sentados no chão de sua sala, a caixa de pizza
à minha frente e a terceira garrafa de vinho praticamente vazia.
— Eu estou cansada. — murmurei.
Eu não estava sóbria, porque se estivesse jamais começaria
a falar com Tyler sobre o meu amor unilateral.
— Ele simplesmente desapareceu. — falei. — Sinto a sua
falta todos os dias, achei que com o tempo fosse amenizar, mas só
piora. Eu gostaria de dizer a ele que ainda não o superei e gostaria
de dizer que eu vou esperar o tempo que for necessário, mas me
dói saber que ele não conseguiu ficar ao meu lado, me dói saber
que o nosso amor, que o meu amor, não foi o suficiente.
— Qualquer homem que deixe passar a chance de ficar
com você é um completo idiota, de verdade.
Sorri. — Ty me deixava intrigada.
Poderia ser o álcool, mas ele sempre demonstrava ser tão
bom comigo.
Virei o vinho que estava na taça.
— Talvez você deva verificar se realmente não consegue
esquecê-lo. — disse se aproximando.
Não. — pensei.
— Eu quero você. — disse sorrindo de canto. — Agora.
Eu não estava sóbria.
— Que tal fazermos um teste para ver se você não pode
esquecer esse cara que foi um babaca com você?
— Eu bebi demais. — falei.
— Você quer mais? — disse, enchendo minha taça. —
Tenho mais duas garrafas, pode aproveitar.
Eu tomei um gole. Talvez eu também o quisesse. Talvez eu
também estivesse curiosa para descobrir se eu poderia deixar
Mingus de lado após transar com outro cara.
— O que mais você pode me dizer sobre esse cara? Você
quer que eu bata nele? — perguntou.
Eu ri. Ty era um bom amigo.
— Se ele estivesse na cidade eu te levaria até a casa dele.
— disse.
— Qual o nome desse babaca? Vou adicionar ele na minha
lista negra
Ri outra vez.
— Você é um bom amigo. — falei.
— Quando quero. — respondeu.
Provavelmente irei me arrepender do que farei a seguir, mas
a quantidade de vinho que tomei nessa noite me deixou corajosa o
suficiente para tal atitude. Virei o restante do vinho da taça e me
aproximei e o olhei nos olhos.
— Quero você também. — falei. — Agora.
— Ótimo. — sorriu malicioso e se levantou. — Vamos.
— Aonde vamos? — respondi pegando a mão que
estendeu para mim.
— Você conhecerá meu quarto.
Minha cabeça latejava e meus olhos não queriam se abrir.
— Sinais de ressaca.
Me forcei a abrir os olhos e o local onde eu estava era
desconhecido. Olhei para o lado e ali estava Tyler, semi nu.
— Não. — deixei escapar de meus lábios.
Levantei a coberta e vi que também estava seminua. Eu
havia transado com ele? Eu realmente transei com o filho do meu
chefe?
O pânico tomou conta de mim e me faltou o ar.
Eu não conseguia me lembrar ao certo da noite passada,
me lembro que tomei muitas taças de vinho, mas não consigo me
lembrar de como chegamos nisso. Minhas mãos estavam trêmulas.
Calma, respire. — pensei.
Me levantei com cautela e comecei a vestir minhas roupas.
Tyler continuava imóvel.
— E eu queria chorar. — Caminhei para fora do quarto, para
ir embora. Ao passar pela sala, encontrei meu casaco, minha bolsa,
meus sapatos e vi várias garrafas de vinho em cima da mesa. —
Quis ainda mais cair no choro. Eu havia transado com Ty e nem
sequer me lembrava. Eu tinha feito sexo com alguém que não fosse
o Mingus e tudo o que eu queria agora era correr até o apartamento
dele assustada por ter acordado na cama de outro homem. Eu
nunca quis acordar na cama de outro homem.
Saí de sua casa carregando minhas coisas nas mãos e
entrei descalça em meu carro. — Eu dirigi até aqui na noite
passada. — Dei partida no carro e andei cerca de cinco minutos
segurando o choro, o suficiente para me afastar de sua rua e então,
parei em uma rua qualquer e comecei a chorar.
Conforme o choro foi fluindo, alguns flashes da noite
passada foram aparecendo.
Eu realmente quis transar com ele ontem. — pensei. — Mas
eu não deveria. Digo, eu disse que queria porque ele me atrai, mas
eu estava carente e bêbada. Foi um erro. Eu realmente cometi um
erro. Não acredito que cai nessa. Nós trabalhamos juntos, como eu
supostamente devo encará-lo na segunda-feira? Eu continuarei
vendo-o de segunda a sexta e para piorar seu pai é o meu chefe.
Tyler me atrai desde sempre, mas eu disse a mim mesma
que jamais ficaria com ele justamente por ser filho do meu chefe e
por eu ter que vê-lo todos os dias úteis, mas eu não apenas o beijei
como transei com ele e nem me lembro com clareza como foi. Meu
Deus! Por que essas coisas acontecem comigo?
Mingus. — não fui capaz de impedir o pensamento. — Além
de todo o problema da empresa e da minha vergonha, eu também
tinha transando com um homem que não era Mingus. Eu passei a
noite com outro enquanto eu nem sequer sei como o loiro está. Isso
faz de mim uma pessoa ruim? Eu deveria estar preocupada com o
meu amigo, certo? Porque além dele ser o cara que amo, ele
também é meu amigo, mas eu não fiz nada para tentar entender o
porquê ele saiu da cidade, eu não fiz nada para saber o porquê ele
está incomunicável, eu nem sequer o desbloqueei ainda e decidi
passar essa noite com outro homem enquanto ele pode estar
passando por aflições com seu pai.
Estou magoada e com raiva de Mingus, mas eu não estava
preparada para transar com outro cara. Eu sinto falta do Mingus. Me
sinto uma péssima amiga.
Por que eu não fui atrás dele quando soube do John estar
na cidade? Eu fui tão covarde quanto o julguei ser.
Eu fui egoísta. Sei que estávamos distantes, sei que eu
tinha dado um basta no que acontecia entre nós para pararmos com
o ciclo vicioso, mas eu o deixei sozinho no momento em que
provavelmente mais precisou de mim.
John veio para a cidade e eu ignorei essa informação. Na
verdade, fiquei preocupada, fiquei apreensiva, orei e chorei por
medo de tudo o que isso poderia causar, mas eu fui covarde e não
fui até o meu menino, quando mesmo cheio de medos e traumas,
ele sempre veio até mim. Eu fui pior que ele. Eu fui pior porque tudo
o que ele não conseguia fazer era permanecer ao meu lado para
sempre por conta do medo de me destruir, mas eu nem sequer tive
coragem de me aproximar outra vez dele mesmo ciente do quanto
ele deveria precisar.
Eu fui a pior. Mingus sempre se aproximava quando eu tinha
um momento ruim, sempre se fez presente em dias cruéis e eu não.
Mingus sempre moveu tudo o que estava ao seu alcance para me
deixar bem e eu permaneci paralisada quando ele estava mal.
Meu ego fez eu me afastar.
Meu ego me fez ser cruel com o meu melhor amigo.
Minha raiva me fez esquecer que antes de ser o amor da
minha vida, ele é o meu melhor amigo.
Eu fui uma amiga ruim e só percebi isso após transar com
outro homem.
Voltei a dirigir. Eu precisava ir para a minha casa, eu
precisava tomar um banho e eu definitivamente precisava falar com
Lily e Sarah.
CAPÍTULO 29
Mingus
Há três meses eu fui embora do meu apartamento, e há
quase seis meses foi meu último contato com a Katelyn, mas tudo
permanece igual. O meu apartamento — que eu havia acabado de
retornar. — E o meu sentimento por ela.
Fiquei três meses na cidade de John fazendo um
acompanhamento com minha terapeuta e com meu psiquiatra. —
Eu iria continuar a terapia online e ainda estava precisando de
remédios para me auxiliar a dormir, mas a dosagem hoje já era
menor. Até mesmo meu médico disse que eu melhorei mais rápido
do que o comum, mas ele não entendia a necessidade que eu tinha
de voltar o quanto antes para reconquistar a minha garota favorita.
John estava de volta comigo. — Eu ainda não conseguia o
chamar de pai ou lidar de maneira carinhosa e afetiva com ele, mas
era a primeira vez que eu o tinha em minha vida e embora eu
temesse não tê-lo mais todos os dias porque eu estava pronto para
ser abandonado, eu ainda achava estranho tê-lo aqui, mas a
doutora Isabela diz que é normal eu me sentir estranho e feliz por
tê-lo aqui e me sentir com medo dele ir embora. Confesso que fui
surpreendido positivamente por ele, porque todos os dias ele me
dizia que não iria me deixar, acho que foi alguma técnica que a Dra.
Isabela ensinou, porque ele também começou a fazer terapia, foi
necessário porque no começo não conseguimos conversar sem
brigar, ou melhor, eu não conseguia. Ainda era tudo bem doloroso
para mim e foi necessário quase um mês inteiro de terapia para eu
entender que toda minha raiva não deveria ser descontada em
qualquer diálogo que eu tivesse com ele, porque até mesmo quando
ele me desejava “bom dia” eu estourava. — Sua nova família foi
bacana comigo, me trataram bem e sua esposa me tratou com
carinho. Na verdade, nas primeiras semanas lá era difícil de
acreditar que ela se levantava e também preparava para mim o café
da manhã, tanto que em uma manhã qualquer ela me perguntou
qual era o meu cereal favorito e no dia seguinte ele estava sob a
mesa.
Acolhimento. — Foi algo que eu trabalhei para aceitar,
porque como não sou acostumado a ser acolhido, especialmente
pelos meus pais, eu costumo negar. A adaptação demorou para
acontecer e ainda não está concluída, mas melhoramos.
O mesmo serve com tudo o que é desconhecido para mim.
Acolhimento. Diálogo. Compreensão. Tristeza. Amor.
Eu teria que me adaptar a todos esses sentimentos. A
caminhada seria longa, mas pela primeira vez eu me sentia ansioso
sobre algo ou talvez, esperançoso.
Acabei de ligar o meu celular, após três meses desligado.
Tantas mensagens.
Thomas, Christopher, grupo de nós seis, Lily, Sarah,
Matthew, Tyler, várias garotas, grupos aleatórios, Katelyn, Helena.
Thomas dizia ter saudades, dizia estar preocupado, contava
coisas aleatórias do seu dia a dia, contava sobre as pontuações nos
jogos e sobre querer me ver desesperadamente. — Sorri em cada
mensagem que li e apenas enviei um “voltei irmão.”.
Christopher brigou por eu não mandar nada para ele
avisando que iria sair da cidade, disse ter saudades e me contou
também sobre suas pontuações diárias nos jogos. — Também sorri
em cada mensagem e envie “você continua horrível no jogo,
prometo te ensinar em breve.
As mensagens no grupo de nós seis, não abri.
Lily enviou curtas mensagens dizendo que eu deveria voltar
logo, porque mesmo sendo chato eu fazia falta e eu respondi com
um “prometo te levar chocolate”.
Sarah enviou mensagens fofas como era de sua
personalidade e disse ter saudades, respondi com um “oi
mascotinha, saudades.”
Matthew tinha enviado inúmeros convites de festas e
mensagens perguntando o porquê eu sumi, apenas visualizei as
mensagens e não enviei nada.
Tyler enviou mensagens perguntando se eu iria querer
alguma mercadoria porque estava fazendo as distribuições e
também enviou mensagens aleatórias convidando para festas e
perguntando o porquê eu estava sumido, apenas visualizei.
Grupos aleatórios, garotas aleatórias, eu ignorei todos.
E então, cheguei nas duas que fizeram meu coração
estremecer. De um lado, a mulher que me fez acreditar que eu
nunca seria amado e do outro, a mulher que me fez desejar ser
amado.
[Helena: Preciso falar com você, Mingus. Seu pai diz que
você não quer contato no momento, mas eu tenho certeza de que
ele está tentando se vingar de mim, então me ligue assim que ver
essa mensagem. ]
[Helena: Eu retomei os tratamentos como você me pediu,
quando vai conversar comigo? ]
[Helena: Eu preciso do seu perdão. ]
[Helena: Seu pai me disse que logo você irá retornar para a
cidade, acha que podemos nos ver? ]
[Helena: Eu sinto muito. Eu não tinha ideia do caos que
trouxe para você. Seu pai e eu conversamos. Eu errei. Me perdoa.
Por favor, fale comigo. ]
[Helena: Eu estou cansada de você. Eu quero falar com
você, me atende. ]

Respirei fundo olhando aquelas mensagens e tentei fazer o


que a doutora Isabela me ensinou por diversas vezes enquanto eu
estava em sua sala. — Puxar o ar pelo nariz por 4 segundos,
segurar o ar nos pulmões por 2 segundos e finalmente soltar o ar
pela boca durante 6 segundos. — Fiz uma, duas, três e quatro
vezes. O sentimento ainda estava aqui, a angústia ainda estava
aqui. Acho que eu nunca ficarei bem quando se trata de Helena.
Acho que eu nunca conseguirei alcançar a verdadeira felicidade.
Puxar o ar pelo nariz. Um, dois, três, quatro. Segurar o ar
nos pulmões. Um, dois. Soltar o ar. Um, dois, três, quatro, cinco,
seis.
[Eu: Oi Helena. Voltei para a cidade, mas só vou conversar
com você quando eu estiver preparado para isso, por favor, respeite.
Entrarei em contato. Espero que esteja bem. Até mais .]
A doutora Isabela estaria orgulhosa de mim agora? —
pensei. — Consegui não agir pela fúria ou pela dor que existe em
mim, fiz a respiração conforme ela me ensinou para me ajudar a
manter a calma e também tive responsabilidade afetiva em
respondê-la, mas deixei claro meus limites e que eu preciso de
tempo. Espero que ela saiba me respeitar, porque sinto que ainda
não estou pronto para encontrá-la. Se algumas mensagens me
fizeram revirar o estômago, só de imaginar vê-la me faz querer
sumir outra vez.
Saio de sua conversa e clico na da Katelyn.
[ KitKat: Desculpe levar tanto tempo para te desbloquear e
enviar uma mensagem. Desculpe ser egoísta e covarde. Me
desculpe por ter te julgado como covarde por não permanecer ao
meu lado sendo que fui tão covarde quanto quando não consegui ir
até você quando precisou. Como está aí? Como está sua relação
com o John? O que no mundo aconteceu para você decidir ir com
ele? Ou melhor, por quê ele veio pro seu apartamento? Por quê
você foi com ele? Você realmente quis ir ou ele te forçou? Como
você está? Por quê você está incomunicável? Eu sei que eu deveria
ter ido até você enquanto estava aqui na cidade ainda, sei que essa
mensagem é tardia e sei que fui uma péssima amiga. Me perdoa.
Eu sou covarde demais para ir até você. Sinto muito. ]
[KitKat: Acho que estou quebrada. ]
[KitKat: Sinto sua falta. Falta do meu melhor amigo. Falta
do cara que perceberia que estou tendo uma semana ruim e me
traria chocolates. Me sinto culpada por não ter ido até você, mas
também me sinto paralisada porque eu não consigo ir até você. É
assim que você se sente sobre nós dois, né? Paralisado porque não
consegue permanecer aqui e culpado porque gostaria de ficar. Acho
que agora eu te entendo. Acho que eu finalmente te entendo. Me
desculpe ter dito que eu nunca te perdoaria por ser um covarde. Me
desculpe por ser covarde. Me desculpe por ter dito palavras cruéis.
Me desculpe por não ter ido até você quando o John estava na
cidade. ]
[KitKat: Sinto tanto a sua falta que isso me assusta. Eu
sinto sua falta desesperadamente. Fico todos os dias preocupada
com você, penso se você está bem, se você está brigando com o
John ou o que está acontecendo na sua vida. Eu gostaria de saber o
que está acontecendo, onde você está, o que você está pensando e
se há algo que posso fazer para lhe ajudar. ]
[KitKat: Eu tentei seguir em frente, Mingus. Eu tentei.
Porra, eu até transei com outro homem e me desculpa te contar isso
assim, mas eu sempre fico sabendo de suas histórias com outras
garotas e bom, foi apenas sexo, porque eu não sinto nada com
outras pessoas, eu não consigo sentir nada por mais ninguém,
porque ninguém é como você. ]
[KitKat: É apenas você, Mingus. Então volte para mim.
Agora. Volte pra mim. ]
[KitKat: Porque eu prefiro a minha vida com você do que
sem ter você. Até a dor consegue ser doce ao seu lado. Eu lutarei
por nós. Eu te farei entender que somos feitos um para o outro. ]
[KitKat: Fique bem. Fique feliz. Eu sinto sua falta
desesperadamente. ]

Eu soube que a amava há muito tempo, mas só reconheci


isso há pouco tempo quando ela adormeceu em meus braços. Acho
que me apaixonei pela Katelyn ainda no ensino fundamental, e
soube que era amor talvez no ensino médio, mas reconhecer isso
foi um árduo trabalho, porque eu não queria sentir e me recusava a
sentir, fazendo com que o sentimento ficasse afogado dentro do
meu ser.
Foi um misto de sentimentos ao ler essas mensagens. Sorri
de saudades, senti o profundo desejo de correr até ela para abraçá-
la e dizer que ela não é covarde, porque eu odiei o fato de que ela
tenha se sentido assim, também fiquei enciumado e com raiva por
ela ter dito que transou com outro homem e comecei a imaginar
quem poderia ter sido e até quis ignorar todas as outras mensagens
e perguntar somente isso para iniciar uma briga da qual eu não tinha
direito algum de começar.
Katelyn foi um dos tópicos importantes na terapia.
Conversei muito sobre ela e sobre meus sentimentos, contei sobre a
forma que tenho medo de ser sua destruição e sobre a forma que
temo fazê-la sofrer, contei que por isso fujo das responsabilidades
sem me importar com as consequências, contei que me sinto
pequeno perante a alguém como ela e contei sobre nossas últimas
conversas. Contei que eu a deixei partir, na verdade, que eu
basicamente a expulsei da minha vida e que mesmo ela dizendo
que estava pronta para me esperar, eu a fiz partir. Eu também falei
que não queria que ela me esperasse porque eu nunca vi
esperanças para mim e, tudo a Dra. Isabela me perguntou o que eu
sentia naquele momento.
“Eu quero voltar para ela. Eu quero enfrentar meus
demônios internos e voltar para a Katelyn” — foi o que eu respondi.
— “Eu quero ser digno do seu amor.”
Durante as longas sessões de terapia constantes em que eu
fazia, fui descobrindo várias coisas sobre mim e também sobre meu
sentimento pela Katelyn. Aparentemente da mesma forma que eu
sabia que tinha um efeito imenso sobre ela, ela também tinha sobre
mim. Decisões tomadas, sentimentos, razões, emoções, muita coisa
já foi definida somente por conta dela e por ela.
Foi um longo caminho, uma longa jornada e embora eu
ainda não tenha alta, e embora eu ainda conviva com os meus
medos e traumas e, embora eu ainda não seja capaz de encarar a
Helena, eu queria a Katelyn. Na minha vida. Para ficar.
Independente do tempo que o para sempre durar, porque descobri
que ele é relativo, mas eu faria qualquer coisa para durar a vida
toda, porque eu não pretendo partir, nunca mais.
Eu finalmente concluí que somos ambos destruidores e
salvadores um do outro.
Quando sai da cidade descobri algo espetacular, é
realmente um grande e incrível alívio ter um lugar para o qual voltar
e o meu lugar não é esse apartamento que eu detestei por tantos
anos, não é as festas que fui, não é essa cidade e nem o Lago dos
Sonhos, o lugar onde é um alívio voltar para mim, é os braços de
Katelyn. Ela é meu lar.
[Eu: Oi, eu voltei. Podemos nos ver? ]

Esperei por duas horas pela resposta de Katelyn se


poderíamos nos encontrar e como a resposta não veio decidi dar
continuidade em tudo o que eu deveria fazer agora que voltei.
A primeira coisa que eu iria fazer seria me livrar de tudo o
que não queria mais em minha vida e, isso começava pelo Tyler. —
Eu tinha comigo alguns itens dele, uma jaqueta que ele esqueceu
em uma festa e seu dichavador que me deixou usar na última vez
que nos vimos. Pensei em mandar uma mensagem pedindo para
ele vir até aqui buscar, mas eu tinha seu endereço salvo em nossa
conversa e seria mais rápido eu ir até lá e só deixar rápido as coisas
sem entrar com a desculpa de que estava com pressa para outro
compromisso.
Entrei no meu carro — o qual senti muitas saudades. —
Coloquei o endereço copiado no aplicativo e segui caminho.
Quando o aplicativo me disse que eu havia chego ao meu
destino, peguei os itens nas mãos e bati na porta. Pude ouvir uma
alta risada de dentro da casa e um som um pouco alto também.
Aguardei ser atendido, até que a porta se abriu fazendo o
meu coração quase parar de bater.
— M-Mingus? — sua voz saiu falha.
Em minha frente estava Katelyn. — Ela usava uma camiseta
branca masculina e seu cabelo estava preso em um coque. — Seu
rosto empalideceu no momento em que me viu e creio que o meu
também.
Não havia pensamento positivo ou regra de respiração que
fossem o suficiente para deter a minha fúria nesse momento. Eu
não piscava. Estava paralisado tentando compreender o porquê
dela estar aqui.
— Ei, Mingus! — Tyler se juntou ao lado da Katelyn.
— O que você está fazendo aqui? — perguntei encarando-
a.
— E-ele é…
— Ei, ei. — Ele a cortou. — Vocês dois se conhecem?
Ela se manteve em silêncio apenas me encarando e eu a
encarava de volta.
— O que você está fazendo aqui? — perguntei outra vez.
— Nós trabalhamos juntos. — murmurou.
— Vocês se conhecem? — perguntou Tyler outra vez.
— Esse é o filho do seu chefe? — perguntei. A observei da
cabeça aos pés. A camiseta masculina em seu corpo me deu um
arrepio. — Aquela mensagem foi sobre ele?
Não. Não podia ser. Katelyn não poderia estar se
envolvendo com ele. — Não preciso de uma resposta para entender
que ele é o homem que ela se envolveu e talvez ainda esteja se
envolvendo.
Eu encaro a camiseta outra vez.
— Estamos trabalhando. — disse ela a fim de tentar tirar
qualquer ideia que já estava em minha cabeça. — O pessoal do
escritório está ali dentro também. — continuou. — Derrubei
refrigerante na minha camiseta e o Tyler me emprestou essa.
Nesse momento, o cara ao lado de Katelyn mudou sua
feição. O sorriso que estava em seus lábios sumiram no instante em
que Katelyn me deu uma explicação da qual eu não havia pedido,
mas que no fundo ele soube que teria algum motivo. Ele fechou a
cara e me encarou.
— O que veio fazer aqui, Carter?
Tyler chamou pelo sobrenome e Katelyn pareceu perder a
palidez de seu rosto e me olhou com uma expressão confusa, talvez
tivesse a mesma pergunta que ele.
— Como vocês se conhecem? — ela perguntou.
— Nos conhecemos em algumas festas da vida. — Tyler
omite a pior parte. A parte de que ele era o meu traficante.
— Eu não fazia ideia. — murmurou ainda com os olhos nos
meus.
Definitivamente não era esse reencontro que eu tinha em
mente.
— Vocês dois se conhecem de onde?
— Somos… — há uma pausa. Há uma breve pausa na fala
dela que me faz pensar que talvez eu ainda possa respirar outra
vez. — Amigos.
Queria tirá-la daqui. Queria segurar em seus braços e sair
correndo dessa casa. Queria correr o mais longe possível de Tyler e
dizer para ela nunca mais se aproximar. Queria abraçá-la para
protegê-la desse homem a nossa frente. — Me embrulhava o
estômago imaginar que ele colocou suas mãos nela. Me dava ânsia
imaginar que eles estavam juntos.
— Você ainda não me disse o que veio fazer aqui, Carter. —
disse ele. — Poderia nos dar licença, Kat?
“Kat.” — Que intimidade era essa?
Ela pareceu não se sentir confortável em deixar nossa
presença, mas assentiu em concordância.
Tyler não era bobo e sempre pegava as coisas no ar.
Percebeu que entre eu e Katelyn não era só amizade e no momento
em que ela entrou de volta na sua casa, ele abriu um sorriso
malicioso e cochichou para mim.
— Gostosa né?
Eu cerrei meu punho e fechei meus olhos por um breve
instante, o suficiente para ouvir sua risada.
— Vejo que são próximos.
— Não mexa com ela. — digo.
— O que eu estou fazendo? — ironiza. — Eu e ela somos
amigos. Já transamos mesmo, não há mais nada que eu queira
fazer. Claro, a não ser foder com ela outra vez.
Dei um passo a frente, com o punho cerrado.
— Eu nunca bati de frente com você antes, Tyler. — falei. —
Mas não se atreva a mexer com ela que eu acabo com a sua vida.
Ele gargalhou me encarando.
— Eu não te conheci ontem, Mingus. Eu sei que você não
consegue tocar nem em uma mosca, quem dirá alguém.
— Não, Tyler. Você não me conhece quando se trata dos
meus. Então eu vou dizer apenas mais uma vez, fique longe dela.
— É você? — perguntou. — O cara que ela gosta? O cara
que ela vai esperar por toda a vida?
C-como…? Eles eram tão amigos ao ponto dela contar a ele
sobre isso?
— Meu Deus! — riu. — Não acredito que o cara que ela
tanto me falava era justamente você. Chega ser cômico.
— Apenas se afaste dela.
— Confesso que eu consegui o que queria quando
transamos, mas agora que sei você é o culpado da transa ter
demorado meses para acontecer porque ela sentia a sua falta como
louca, eu sinto que deveria investir nela. — me provocou. — Talvez
dessa vez não seja necessário tantas garrafas de vinho para ela ir
ao meu quarto comigo.
Garrafas de vinho? — pensei. — Ele a embebedou para
conseguir dormir com ela?
— O que você disse? — perguntei. — Você a embebedou
para transar com ela?
— Foi com o consentimento dela.
— Você a embebedou, Tyler?
— Eu não a forcei a beber, só coloquei as garrafas na mesa,
mas nunca coloquei nada em sua boca, ela bebeu porque quis. E
quer saber? O sexo foi ótimo! Eu deveria ter comprado mais
garrafas, assim quem sabe duraria a noite inteira. Eu deveria na
verdade embebedar ela agora.
É isso. Desculpa Dra. Isabela. Desculpe três meses de
terapia constante. Desculpa evolução do espírito e evolução da
minha pessoa. E principalmente desculpa consequências futuras.
Eu o soquei.
CAPÍTULO 30
Katelyn
Cerca de quase dois meses se passaram desde a primeira
— e única — vez que transei com Tyler. Naquele dia fui embora da
sua casa arrasada, chorei no caminho, chorei em casa, chorei com
minhas amigas. Eu estava realmente arrasada e não conseguia
entender o porquê, mas enquanto conversava com minhas amigas
eu entendi que o motivo pelo qual eu estava tão péssima era o
Mingus.
Todo meu ser estava preocupado com ele, todos os meus
ossos cansados e exaustos de lugar contra o que eu sentia sentia
sua falta e estava preocupado em como ele poderia estar e mesmo
assim eu me permiti dormir com outro homem pelo efeito do álcool e
também para tentar não sentir mais nada pelo loiro, mas tudo o que
eu conclui é que eu não queria mais ninguém. Eu era dele. Eu
sempre fui dele.
Conversei com Ty naquele mesmo dia, no período da noite
e expliquei que o que aconteceu não poderia se repetir outra vez,
mas que eu esperava que nada mudasse entre nós. As duas
primeiras semanas no trabalho após o nosso sexo foi estranho,
estávamos receosos de falar um com o outro, mas tudo voltou ao
normal com o tempo. Acho que fomos maduros ao lidar com isso. —
Quando me acertei com Tyler e as coisas voltaram ao normal no
trabalho, consegui finalmente respirar em paz e pensar qual seria o
meu próximo passo, e eu não tinha dúvidas de que certamente seria
sobre o Mingus. — E foi. O desbloqueei e enviei algumas
mensagens dizendo exatamente o que eu gostaria de dizer, pedi
desculpas por ser uma péssima amiga, porque era dessa forma que
eu me sentia, contei a ele que estive com outro alguém porque eu
queria ser honesta com ele e disse, com todas as letras que eu
sentia a sua falta desesperadamente e que eu iria esperar por ele,
porque o mundo era um lugar horrível sem ele.
Nesses malditos meses sem ele, eu tinha compreendido
que até mesmo a dor poderia ser suportável e doce ao seu lado e
eu lutaria por nós. Essa é a minha decisão final. Eu lutaria por nós.
Até meu último fôlego, eu lutaria por nós.
Passei dias aguardando seu retorno, semanas. Todos os
dias abria sua conversa e a mensagem nem sequer tinha chegado a
ele. Eu me preocupava todos os dias e também orava para que ele
ficasse bem, para que ele fosse feliz e principalmente para que ele
voltasse para mim. A oração me trouxe esperança e calma. Eu
acreditei que tudo ficaria bem no momento em que ele voltasse para
a cidade, eu acreditei que ele seria meu e eu seria dele
independente do que o destino escolheu para nós, porque o nosso
amor venceria qualquer coisa. — Mas, minha fé foi abalada no
segundo que o vi.
Eu imaginei nosso reencontro de várias maneiras. Imaginei
que eu iria correr para abraçá-lo, imaginei que eu iria chorar,
imaginei que nós iríamos rir de nervoso, imaginei e ensaiei o que eu
iria dizer, mas eu não imaginei que iria encontrá-lo quando eu
estivesse usando a camiseta de outro homem e na casa dele.
— M-Mingus? — Minha voz falhou.
Em minha frente estava Mingus. — Ele carregava uma
jaqueta em seus braços e um outro item. Usava uma camiseta
marrom e um shorts preto. Seu cabelo parecia um pouco maior
desde a última vez que o vi e sua barba estava por fazer. — Meu
rosto empalideceu no momento em que eu o vi e o dele também.
Eu não conseguia pensar em nada, apenas no fato de que
esse não foi o reencontro que eu esperava para nós. Eu nem sequer
sabia que ele tinha voltado. Eu não chequei meu telefone hoje
porque estava ocupada com o trabalho que estávamos fazendo.
Será que ele sabia que eu estava aqui e veio por mim? Mas eu não
dei o endereço a nenhum dos nossos amigos. Mas por quê ele está
aqui?
— Ei, Mingus! — Tyler parou ao meu lado.
Eles se conheciam.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou me
encarando.
— E-ele é… — minha voz falhou.
— Ei, ei. — o moreno me cortou. — Vocês dois se
conhecem?
Eu não conseguia falar. Esse definitivamente não era o
reencontro que eu planejei. Eu não me preparei para isso. Continuei
o encarando.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou outra vez.
— Nós trabalhamos juntos. — murmurei.
— Vocês se conhecem? — perguntou Tyler outra vez.
— Esse é o filho do seu chefe? — perguntou Mingus.
Notei que ele me olhou da cabeça aos pés e permiti
observar a mim mesma também por um breve instante. Eu vestia a
camiseta de Tyler porque derrubei refrigerante na minha camisa e a
molhei por completo. Meu cabelo estava bagunçado porque eu
estava cansada de tanto trabalhar.
— Aquela mensagem foi sobre ele? — continuou.
Droga. Eu contei a ele que transei com outro homem por
mensagem.
Por que eu contei pra ele que transei com alguém? E como eu
deveria negar sendo que a mensagem foi realmente sobre Tyler?
Mas isso era um mal entendido. Eu não estava aqui porque estamos
nos envolvendo, eu realmente estava aqui para trabalhar, mas não
posso negar a mensagem. Ele continuou encarando a camiseta.
— Estamos trabalhando. — disse tentando tirar qualquer
ideia que estivesse em sua cabeça. — O pessoal do escritório está
ali dentro também. — continuei. — Derrubei refrigerante na minha
camiseta e o Tyler me emprestou essa.
— O que veio fazer aqui, Carter? — perguntou Ty.
Mingus não sabia que eu estava aqui. Meus amigos sabiam,
mas não tem como ele ter vindo por mim porque ninguém sabia o
endereço daqui e Tyler o conhece. — Como eles se conhecem?
— Como vocês se conhecem? — perguntei.
— Nos conhecemos em algumas festas da vida. — o
moreno ao meu lado respondeu.
— Eu não fazia ideia. — murmurei ainda encarando Mingus.
Eu sentia tanto a sua falta. Queria abraçá-lo. Queria
perguntar se ele estava bem.
— Vocês dois se conhecem de onde? — perguntou Tyler.
— Somos… — Faço uma breve pausa antes de responder
essa pergunta, porque eu também me questiono neste momento o
que somos. — Amigos.
— Você ainda não me disse o que veio fazer aqui, Carter. —
disse ele. — Poderia nos dar licença, Kat?
Não. — pensei. — Eu não quero tirar Mingus da minha
vista, eu não me sinto confortável em me afastar. Passei tanto
tempo sem vê-lo que eu não posso simplesmente sair da sua frente
agora.
Assenti — relutante. — E voltei para dentro da casa. Queria
ficar próxima para ouvir o que falariam, mas isso seria totalmente
errado, então apenas entrei até onde a galera continuava
trabalhando.
— Tudo bem? — perguntou Rafaela.
— Tudo sim. — forcei um sorriso.
Me sentei no sofá ao lado da Rafa, estávamos fazendo uma
análise para o próximo projeto que deveríamos trabalhar e nos
reunimos no Tyler para colocar nossas ideias no papel e ver quais
seriam mais viáveis. A presença da Rafaela era importante aqui,
porque como ela cuidava do financeiro poderia nos auxiliar até que
ponto poderíamos gastar do orçamento da empresa para criar um
cenário perfeito para a próxima reportagem. — Eles estavam, mas
eu não conseguia focar. A todo instante eu olhava para fora, a todo
instante meu corpo queria se levantar e ir até lá.
— Tá tudo bem mesmo? — murmurou. — Onde está o
Tyler?
— Lá fora. — respondi. — Está tudo bem.
Eu esperava que estivesse, mas nem sete minutos se
passaram após eu deixá-los sozinhos um estrondo veio de fora.
— O que é isso? — perguntaram.
Meu coração já estava acelerado no momento em que todos
se levantaram e correram até a porta principal. Eu demorei dois ou
três segundos para processar e seguí-los, mas minha visão foi a
mesma que a deles. — A boca de Tyler ensanguentada, ele estava
caído sobre a lixeira que também estava caída no chão, muito
provavelmente este foi o barulho que ouvimos. Olhei para o loiro em
pé. Ele também parecia ter um corte na boca. A jaqueta que antes
Mingus segurava estava no chão, o item também. — O que no
mundo estava acontecendo?
Lucas (do marketing), Amanda e Monique (jornalistas)
correram até Tyler para o ajudar a se levantar. Rafaela permaneceu
ao meu lado olhando confusa para os dois, acredito que estava
como eu, se perguntando o que estava acontecendo ali.
— O que está acontecendo aqui? — gritou Lucas após
ajudar Tyler a se levantar.
Tyler estava apoiado em Monique e o Lucas começou a se
aproximar de Mingus.
— Quem é você? — seu tom de voz era alto.
Os olhos de Mingus estavam em mim.
— Quem é você? — repetiu.
Lucas era alto e forte. Sua voz estava alterada pela raiva.
— Lucas, deixe isso pra lá. — disse Tyler. — Esse garoto
não vale a pena.
Mingus ainda me olhava, esperando qualquer reação, mas
eu estava paralisada.
— Por quê vocês brigaram? — perguntou Amanda. — O
que aconteceu? Olha como você está, Tyler.
O moreno colocou a mão em sua boca para sentir o sangue
e olhou para Mingus.
— Realmente, não vale a pena. — repetiu, encarando o
loiro.
— Por quê você não diz na frente dos seus amigos o que
me disse, Tyler? — disse.
A voz de Mingus era diferente. Não era a voz doce que
sempre foi comigo e nem a voz triste que eu também conhecia e
nem sequer era a voz decepcionada ou assustada como foi há
pouco, mas era uma voz grossa, como se ele estivesse sendo
movido por raiva.
— Você tem certeza que quer que eu repita o que eu disse?
— disse rindo. — Eu direi com prazer, mas você tem certeza disso?
Mingus perdeu a paciência e tentou correr até o Tyler,
provavelmente para agredi-lo outra vez. Lucas o segurou e eu agi
involuntariamente e corri até ele.
Não imaginei que após longos meses distantes o nosso
primeiro abraço seria para evitar uma briga, mas eu passei por
Lucas e joguei meus braços em volta de sua cintura.
— Pare. — pedi. — Por favor, pare.
Ele ainda não tinha me abraçado de volta, apenas eu
segurava no seu corpo, suas mãos continuavam abaixadas. —
Lucas se afastou um pouco de nós, olhando confuso, na verdade,
eu podia sentir que todos estavam confusos.
— Por favor. — murmurei outra vez.
Senti sua respiração se acalmar aos poucos e então ele
finalmente voltou seu olhar para mim.
— Por favor. — falei.
Mingus fechou seus olhos e respirou fundo. — Um, dois,
três, quatro, cinco. — Ele me envolveu em seus braços.
Como eu sentia saudades desse toque, saudades das suas
fortes mãos em mim, do arrepio que o meu corpo sempre dava
quando estava em contato com o seu. Saudades do calor do seu
corpo. Saudades dele. Saudades de nós.
— Ué Carter, você não quer que eu fale? — disse Tyler. —
Você tem medo que eu fale?
Tyler estava o provocando, era notório isso.
— Vamos embora. — eu disse.
— Quer que eu conte pra todos que está aqui? — o moreno
continuava. — Quer que eu diga como foi bom?
Eu entendi. — Fechei meus olhos por um instante. Isso era
sobre mim. — A respiração de Mingus voltou a ficar agitada, ele
estava perdendo a paciência.
— Hein? — o moreno continuava. — Quer que eu diga que
me senti no céu?
Não. Eu não ia permitir que ele fizesse isso.
Saí dos braços de Mingus e me virei de frente para onde
Tyler estava, o fuzilei com o olhar.
— Por quê você ainda está falando, Tyler? — Minha voz
saiu alta. — Fica quieto.
Dei um passo a frente para me aproximar do moreno, mas
Mingus segurou em meu braço.
— Vamos embora. — disse.
— Eu preciso pegar minhas coisas. — falei.
Senti ele hesitar. Não queria que eu entrasse na casa de
Tyler outra vez. — Se eu havia entendido certo, o moreno realmente
tinha sido um idiota ao tentar dizer a todos aqui presentes que nós
transamos apenas para provocar Mingus.
Olhei para Lucas, como em um pedido silencioso para que
ele não deixasse esses dois se enfrentarem novamente e caminhei
até dentro da casa de Tyler, peguei meu notebook, minha bolsa e
minha camisa molhada. Não demorou nem cinco minutos e saí
novamente. Ainda estavam todos na mesma posição.
— Você ficará bem? — perguntou Rafa quando me
aproximei.
— Sim. — sorri fracamente.
Passei por todos, incluindo Tyler e fui até o loiro.
— Podemos ir. — falei.
— Pegou todas as suas coisas? — perguntou e eu assenti.
Demos as costas para a casa e estávamos caminhando até
o carro do Mingus — calhou que hoje eu vim de uber. — e, eu
realmente pensei que poderíamos chegar no carro em paz, mas
creio que eu me enganei com Tyler, porque vendo a maneira que ele
estava provocando o loiro, ele parecia uma outra pessoa.
— Vejo que você realmente se importa com ela. — gritou o
moreno. — Espero que seja sábio.
Eu não entendi o que ele quis dizer com isso, mas pela
maneira que Mingus olhou para trás pronto para voltar até lá e
terminar o que havia começado — se não fosse por eu o segurar.
— Creio que não é algo bom.

Por que o Tyler está agindo dessa maneira?


— Vamos. — murmurei.

O silêncio era ensurdecedor. Estávamos dentro de seu carro


há cerca de dez minutos e ainda nenhuma palavra havia sido
trocada. Eu estava aflita.
Tanta saudade jorrava em meu peito, tantas palavras que passei
noites ensaiando, tudo havia sido perdido. Eu gostaria que nosso
reencontro fosse diferente.
A respiração de Mingus estava agitada, ele estava nervoso. Queria
poder tocar em suas mãos para que ele se acalmasse, mas temia
que o meu toque piorasse tudo.
Ele estacionou o carro em uma rua qualquer, mas ainda
estava sem dizer nada. Eu olhava fixamente para a frente e dava
alguns olhares de relance para ele.
O que estava em seus pensamentos?
Abri o porta-luvas do carro e peguei o kit de primeiros
socorros que sempre o fazia colocar no carro. — Entreguei um
pedaço de algodão para ele limpar sua ferida. Ele pegou sem me
olhar.
— Você está saindo com ele? — perguntou pressionando o
algodão na ferida.
Sua voz era aguda e trêmula na mesma proporção. Olhei
para ele.
— Não. — respondi engolindo em seco.
Ele me olhou pela primeira vez desde que entramos no
carro.
— Não? — perguntou, dessa vez olhando para mim.
— Não. — afirmei olhando em seus olhos.
Aqueles olhos que refletiam tamanha luz inexplicável.
Aqueles olhos que senti tanta falta.
— Era realmente sobre trabalho. — continuei.
— Ele é o cara que você transou, certo?
Permaneci em silêncio.
— Você queria? — perguntou. Eu o olhei confusa. — Digo,
você quis transar com ele? Ele não te forçou a nada, certo?
— Ele não me forçou.
— Você tem certeza disso? — perguntou.
— Por quê ele me forçaria, Mingus? — perguntei. —
Aconteceu apenas uma vez. Ele se tornou muito meu amigo de um
tempo pra cá por conta da nossa convivência no trabalho e acabou
acontecendo por engano, porque eu estava bêbada e carente e…
— Você estava bêbada. — me interrompeu.
Mingus passou as mãos pelo rosto e pelo seu cabelo,
visivelmente nervoso. Depositou o algodão sujo de seu sangue
dentro do lixo do carro. — Sua ferida tinha sido limpa.
— Eu estava consciente. — digo. — Foi por isso que vocês
brigaram? Ele estava tentando te provocar por conta que nós dois
transamos? O que ele te disse? O que você disse a ele? Por que
você foi a casa dele? Por que você nunca me contou que vocês dois
se conheciam?
Eu realmente estava confusa.
— Eu não sabia que ele era o filho seu chefe! — respondeu.
— Eu não tinha ideia que era ele. Acredite em mim, eu diria sobre
ele para você se eu soubesse.
— Por que esse tom? — questionei.
Ele falava estranho, agia estranho.
— Eu sei que temos muita coisa para conversar. —
começou. — Não estou fugindo da conversa que precisamos ter, e
pela primeira vez não estou fugindo das minhas responsabilidades,
mas eu preciso te pedir apenas uma coisa agora.
— O que?
— Se afaste dele. — disse. — Largue o trabalho, bloqueie
em redes sociais, faça o que for necessário, mas se afaste dele.
— Como assim? — perguntei pasma.
Não acredito que Mingus quer que eu abandone tudo por
conta de uma transa sem significado.
— É a única coisa que eu te peço. — disse.
— Você está louco? Eu não posso deixar meu trabalho! Eu
finalmente estou feliz pela primeira vez na vida, fazendo algo que
amo e você simplesmente quer que eu saia do trabalho porque eu
me envolvi sem sentimento algum com um cara de lá? Você é
inacreditável.
— Eu não me importo se você transou com ele ou não,
Katelyn! — disse. — Não me importo que você tenha transado com
o escritório inteiro, na verdade. Mas perto do Tyler você não pode
ficar.
— Por quê? Me dê uma razão para isso. Uma boa razão.
— Porque ele não é uma boa pessoa.
Eu ri.
— Você costumava dizer o mesmo sobre si mesmo.
— Eu estou falando sério, Katelyn.
— Por que ele não é uma boa pessoa?
— Apenas confie em mim.
— Isso soa como machismo. — digo. — Você realmente
não mudou nada?
Percebo que isso o machuca.
— Por favor, confie em mim.
— Então me diga a verdade. Por que você perdeu a
paciência com ele? Por que você bateu nele? Por que você foi lá?
De onde vocês se conhecem e qual a razão que você quer que eu
saia do meu trabalho?
— Eu não posso dizer.
— Então como quer que eu confie em você? Como eu
supostamente sairia de um trabalho que gosto sem razão?
— Você acertou em algo, Katelyn. — disse me fazendo
encará-lo confusa. — Da mesma forma em que eu dizia que não era
uma boa pessoa, disse que ele não é e, ele realmente não é. Você
tinha perguntado de onde eu o conhecia e bom, ele era uma das
companhias com a qual eu andava quando fazia merda. Sabe, as
merdas que você odiava? Então, ele fazia ao meu lado.
— E isso é motivo para eu sair do trabalho? — pergunto. —
Eu não estou me relacionando com ele, posso apenas lidar como
colega de trabalho e tudo ficará bem.
— Não, não ficará! — aumentou sua voz. — Ele sabe que
você é importante pra mim, ele sabe que eu faria qualquer coisa por
você e com certeza vai fazer algo sobre isso.
— O que? Fazer o que?
— Por Deus, Katelyn! — gritou. — O cara te embebedou de
vinho até conseguir transar com você, me disse claramente que
gostaria que acontecesse outra vez, quis me provocar para eu brigar
com ele outra vez usando você. Ele é uma péssima pessoa! Eu não
quero você perto dele.
Meus olhos marejaram. Eu simplesmente não conseguia
acreditar que o nosso reencontro foi assim. Passei tanto tempo
planejando o que eu ia dizer, passei tantos dias desejando estar em
seus braços outra vez, tanto ansiei para tê-lo de volta e o fazer ficar
e olha onde estamos. — No meio de uma rua qualquer, ele nervoso,
gritando, com os olhos cinzentos de ódio, com a respiração
ofegante.
Talvez a felicidade não possa nos atingir. Acho que somos
realmente amaldiçoados.
Deixei uma lágrima escorrer.
— Por quê você está chorando?
Amá-lo sempre foi como um jogo perdido, naqueles que
você sabe bem em qual fase não conseguirá avançar, mas mesmo
assim insiste em jogar todos os dias para ver se por algum milagre
pode ser diferente.
Eu queria viver o nosso amor. Passei muito tempo tentando
deixá-lo ir e nos últimos meses tudo o que eu queria era que ele
voltasse para que eu pudesse provar que podemos sim lutar contra
o destino, mas ao ver a maneira que nos reencontramos, a maneira
que nem sequer dizemos nada um ao outro e já estamos discutindo,
penso que somos fadados a cair.
— Por que você está chorando, Katelyn? — repetiu.
Porque você não mudou. Porque eu não mudei. Porque
somos amaldiçoados.
Ele tirou seu cinto de segurança e se aproximou.
— KitKat? — murmurou chamando pelo meu apelido.
Ainda está dia, mas o céu da cidade parece mais escuro. Eu
estou com minha cabeça abaixada, mas basta eu sentir o seu olhar
para mim para o meu corpo estremecer.
Talvez eu seja a sua destruição e ele seja a minha. —
penso. — Mas com o seu olhar em mim eu penso que devemos
apenas esquecer tudo e nos amar.
Eu certamente estarei a salvo em seus braços e ele estará a
salvo nos meus. E mesmo que o nosso reencontro tenha acontecido
de maneira quase trágica, mesmo sem ter certeza do que aconteceu
no tempo em que ficamos longes, mesmo pensando que ele talvez
não tenha mudado, mesmo pensando que talvez ele ainda não seja
capaz de permanecer ao meu lado, eu ainda correria para ele e faria
de tudo para tirar toda a sua dor, porque eu o amava e por incrível
que pareça senti falta até de momentos como esse, porque até
mesmo a dor poderia ser doce contando que ele estivesse ao meu
lado.
— Katelyn? Você está me preocupando.
— Eu senti a sua falta. — murmurei ainda de cabeça baixa.
— Como pode eu ter sentido falta até mesmo de gritar e brigar com
você?
Ele riu fraco.
— O que é engraçado? — perguntei, dessa vez olhando
para ele.
— Eu senti falta de tudo também. — disse. — Senti falta da
sua voz, do seu cheiro, do seu toque, do seu corpo, do seus beijos,
dos gritos, das brigas, dos sorvetes, das comidas, dos filmes chatos,
das músicas da Taylor no meu carro, de você no meu carro, do seu
corpo colado ao meu, da forma que eu me sentia ao seu lado.
— Que forma você se sentia ao meu lado? — perguntei.
— Vivo.
Chorei outra vez.
— Você é a razão pela qual eu passei acreditar em
milagres, Katelyn.
Minha respiração ficou ofegante, e a dele parecia estar
também.
— Meu mundo sempre foi complicado e eu tinha a exata
certeza de que o amor não havia sido feito para mim, mas você
virou tudo de cabeça pra baixo.— continuou. — Foi aterrorizante,
Katelyn. Eu não sabia quem eu era, porque desde que eu nasci eu
tinha o entendimento que esses sentimentos eram histórias que não
foram feitas para alguém como eu, ouvi da minha própria mãe que
eu nunca seria amado por não ser digno disso e que eu era a
destruição de todos aqueles que eu chegava perto. — respirou
fundo. — Era aterrorizante para mim tudo o que eu sentia por você.
Eu não queria sentir, eu achava que não poderia sentir, mas a
verdade é que você ressignificou o amor para mim.
Ele se aproximou um pouco mais e colocou suas mãos em
meu rosto. — Suas mãos estavam frias, provavelmente pelo
nervoso. Ele limpava as lágrimas que insistiam em cair.

Eu estava sonhando?
— Você é a minha personificação do amor.
Deve ser um sonho. — Fechei meus olhos por um breve
momento e estava hesitando em abrir porque pensei que iria
acordar na minha cama, mas ainda sentia seu toque em meu rosto.
Era real? Ele estava aqui e estava me dizendo tais palavras? O que
aconteceria a seguir?
Abri meus olhos lentamente. Ali estava. Ali estava Mingus
Carter, o grande amor da minha vida.
— Você está realmente aqui, certo? — perguntei.
Ele riu esfregando minha bochecha.
— Estou.
— E você realmente disse o que eu ouvi? — perguntei.
Meus olhos estavam nos seus.
— Aham.
— E o que isso quer dizer?
— O que você acha? — abriu um sorriso.
— Eu não sei. — respondi. — Às vezes posso jurar que
você sente o mesmo que eu, vendo o seu olhar sincero e repleto de
amor, sinto que sente o mesmo. Mas, eu não sei o que aconteceu
nesse tempo em que ficamos longe, antes você estava decidido a
nunca permanecer ao meu lado, que eu até mesmo tentei desistir de
nós dois e eu verdadeiramente não sei o que aconteceu nesse meio
tempo e não sei o que está em sua cabeça. Na verdade, não sei se
estou sozinha nessa, se tudo o que vejo e sinto sobre nós é um
delírio, uma ilusão ou se você realmente, realmente sente algo,
mesmo que minimamente, mesmo que não seja amor. — respirei. —
Então me diga, o que você quis dizer com isso?
Mingus removeu meu cinto de segurança nesse momento.
Se aproximou um pouco mais e a mão direita que estava em minha
bochecha correu para a minha minha cintura, a esquerda foi até a
minha orelha. — Fechei meus olhos. — Inclinando minha cabeça
para trás, ele me beijou.
Esse certamente seria um beijo mortal. Enquanto
estávamos nos beijando eu pude sentir todo o amor depositado
através desse beijo. O amor é o único sentimento poderoso o
suficiente ao ponto de causar uma dor tão profunda e singular e ao
mesmo tempo tamanha felicidade e desejo. — O amor nos traz o
doce prazer e também uma tortura, como se paradoxalmente nos
faz a certeza de que ele nos salva ou nos destroí.
Eu espero ser salva. Eu espero salvá-lo.
O beijo estava repleto de dor, cheio de saudades e
carregado de amor e intensidade. Nos afastamos para respirar e eu
abri meus olhos, Mingus estava com um sorriso nos lábios..
— Você me beijou como se me amasse.
— Eu sempre fui um péssimo ator. — disse. Eu continuei
olhando-o, estava confusa. — Não sei atuar. Não sei beijar como se
eu te amasse.
O silêncio pairou. — Ele estava confessando seu amor?
— Eu te amo, Katelyn.
Certamente foi um beijo mortal.
CAPÍTULO 31
Mingus
Eu jamais contaria a Katelyn quem verdadeiramente era
Tyler Collins, eu iria protegê-la a todo custo e se eu tivesse que
parecer idiota ao pedir que ela saia do trabalho, eu certamente não
me importaria.
Katelyn estava tão perto de mim que eu tive que controlar
todos os meus instintos para não abraçá-la e por isso tentei ser
firme e me posicionar friamente sobre Tyler e o sobre o trabalho,
mas no momento em que a vi chorar tudo mudou. — Perguntei o
motivo por duas vezes e ela não me respondeu, a chamei pelo
apelido que eu tinha colocado e não tive respostas. Meu peito
apertou. Eu tinha a machucado outra vez? Eu tinha ferrado com
tudo? Eu sequer cheguei e já consegui destruí-la?
— Eu senti a sua falta. — murmurou. — Como pode eu ter
sentido falta até mesmo de gritar e brigar com você?
Me senti aliviado. Esbocei uma risada.
Eu não havia estragado nada, ela apenas sentia minha falta tanto
quanto eu sentia a dela. Eu não tinha ferrado com tudo e podia
respirar aliviado.
— O que é engraçado? — perguntou me olhando.
— Eu senti falta de tudo também. — falei.. — Senti falta da
sua voz, do seu cheiro, do seu toque, do seu corpo, do seus beijos,
dos gritos, das brigas, dos sorvetes, das comidas, dos filmes chatos,
das músicas da Taylor no meu carro, de você no meu carro, do seu
corpo colado ao meu, da forma que eu me sentia ao seu lado.
— Que forma você se sentia ao lado? — perguntou.
— Vivo.
Lágrimas caíram de seus olhos outra vez. Eu queria puxá-la
para perto, eu queria limpar essas malditas lágrimas e dizer que eu
voltei e que voltei para ficar. Eu queria que ela pudesse sentir o
tamanho amor que estava dentro do meu peito.
— Você é a razão pela qual eu passei acreditar em
milagres, Katelyn.
Disse sem hesitar porque essa era a maior verdade da
minha vida. Katelyn era a grande salvadora da minha vida, porque
foi por ela que eu continuei e é por ela que eu serei alguém bom.
— Meu mundo sempre foi complicado e eu tinha a exata
certeza de que o amor não havia sido feito para mim, mas você
virou tudo de cabeça pra baixo.— continuei. — Foi aterrorizante,
Katelyn. Eu não sabia quem eu era, porque desde que eu nasci eu
tinha o entendimento que esses sentimentos eram histórias que não
foram feitas para alguém como eu, ouvi da minha própria mãe que
eu nunca seria amado por não ser digno disso e que eu era a
destruição de todos aqueles que eu chegava perto. — parei para
respirar. — Era aterrorizante para mim tudo o que eu sentia por
você. Eu não queria sentir, eu achava que não poderia sentir, mas a
verdade é que você ressignificou o amor para mim.
Me aproximei um pouco mais e coloquei minhas mãos em
seu rosto limpando as lágrimas que ousavam cair. — Eu esperava
que fossem lágrimas de felicidade ou de alívio, porque se
dependesse de mim daqui pra frente Katelyn seria apenas feliz. Eu
me certificaria disso.
— Você é a minha personificação do amor.
Ela é. Ela realmente é.
Katelyn fechou seus olhos por um momento e eu continuei
acariciando seu rosto com todo o amor que habitava em mim.
Eu a amava. Eu a amava como um louco. — Ela abriu seus
olhos lentamente e ali estava. Ali estava a garota que eu sempre
amei, ali estava Katelyn Annie Campbell, aquela que me tirou da
escuridão, aquela que me fez querer ser alguém bom, aquela que
me fez ter coragem de viver e não apenas sobreviver.
— Você está realmente aqui, certo? — perguntou.
Sua voz era doce. Eu ri esfregando sua bochecha para
provar que eu estava aqui. — Daqui para frente eu estaria para
sempre. Eu ainda não estava curado, mas eu nunca mais a deixaria,
porque reconheci através da terapia que até mesmo alguém como
eu merece uma chance para ser feliz e a felicidade é a Katelyn.
— Estou.
— E você realmente disse o que eu ouvi?
— Aham.
— E o que isso quer dizer?
— O que você acha? — abri um sorriso.
Isso significa que eu te amo. Isso significa que eu vou
continuar me tratando até ser bom o suficiente para você. Isso
significa que eu estou de volta, pra sempre. Isso significa que cada
osso cansado, assustado e solitário do meu corpo pertence a você.
Isso significa que se você me aceitar de volta, eu serei seu. Por toda
a eternidade. Meu corpo, meu coração e minha alma são seus.
— Eu não sei. — respondeu. — Às vezes posso jurar que
você sente o mesmo que eu, vendo o seu olhar sincero e repleto de
amor, sinto que sente o mesmo. Mas, eu não sei o que aconteceu
nesse tempo em que ficamos longe, antes você estava decidido a
nunca permanecer ao meu lado, que eu até mesmo tentei desistir de
nós dois e eu verdadeiramente não sei o que aconteceu nesse meio
tempo e não sei o que está em sua cabeça. Na verdade, não sei se
estou sozinha nessa, se tudo o que vejo e sinto sobre nós é um
delírio, uma ilusão ou se você realmente, realmente sente algo,
mesmo que minimamente, mesmo que não seja amor. Então me
diga, o que você quis dizer com isso?
Que não restem dúvidas então. — Pensei. — Me aproximei
um pouco mais e tirei seu cinto de segurança. Levei uma mão até
sua cintura e a outra até sua orelha. Ela me olhou como se quisesse
um beijo e logo fechou os olhos, então senti sua permissão para
isso. A beijei.
Eu a desejo ardentemente. No momento em que a puxei pra
perto e a beijei, assumo que revelo meus sentimentos profundos.
Estou apaixonado.
Esse amor é único e raro. É um sentimento que nunca
imaginei sentir, mas que faz com que eu me sinta vivo e feliz. — e
eu nunca quis viver e nunca fui feliz antes.
A sensação que eu sentia com esse beijo era algo novo.
Algo que eu nunca havia sentido antes, otimismo. Apesar das
incertezas, eu sentia esperança. Eu a amava e esse beijo era a
prova de que ela ainda me amava, porque estava repleto de
saudades, dor e amor.
A dor e o amor andaram lado a lado por um longo caminho
em nossa história, mas a partir de hoje eu nunca mais permitiria que
ela sofresse e eu certamente irei trabalhar para não a fazer sofrer.
Nos afastamos para respirar e eu continuei olhando-a com
um sorriso em meus lábios.
Eu estava pronto. Dessa vez, eu não iria ser covarde. Dessa
vez, eu faria como a Dra. Isabela me ensinou e enfrentaria qualquer
medo que eu tivesse dentro de mim para ser honesto com o que eu
sinto.
— Você me beijou como se me amasse. — disse.
— Eu sempre fui um péssimo ator. — falei e ela continuou
me olhando. — Não sei atuar. Não sei beijar como se eu te amasse.
Toda a minha vida se resumia a esse momento. Toda
angústia, medo, incerteza, confusão, caos, ansiedade que senti por
toda a minha vida se resumiram a esse momento. Helena me fez
acreditar que eu nunca seria amado e que eu nunca seria capaz de
amar alguém. Helena me fez acreditar que eu era a destruição de
todos à minha volta. Helena me fez acreditar que não existia um
futuro para mim. Helena me fez pensar que a felicidade era algo
distante e que eu nunca a alcançaria. Helena me quebrou. Ela
destruiu o meu coração.
Eu sou uma alma quebrada, amedrontada e assustada.
Parte de mim é alguém que nunca se permitiu sentir o verdadeiro
amor, é um garoto com medo amuado em um canto, porque teme
que no momento em que decidir confessar seus sentimentos à
alguém fique sozinho por não poder ser amado de volta. Essa
mesma parte é alguém que se sente pequeno e inferior, é alguém
que nunca foi feliz e nunca pensou que coisas boas pudessem
acontecer, é alguém que certamente destruiria pessoas com a frieza
que seu coração assumiu, mas há uma outra parte.
A outra parte pensa que o amor é a salvação. Anseia por
felicidade. Essa outra parte conheceu uma garota destemida que
nunca teve medo de dizer em sua cara “você é um covarde”, e essa
mesma parte desejou ser alguém melhor para essa garota e
enfrenta seu inferno pessoal quase todos os dias para se fazer
melhor para ela. Essa outra parte foi salva por alguém que o amou
por completo.
Mas, ela não está livre do medo, porque eu ainda me sentia
amedrontado, mas também estava certo de que se eu pudesse ser
feliz, de que se a vida pudesse me recompensar por tudo de mal
que já me aconteceu, seria me permitindo amá-la. Eu estava pronto
para isso. Pronto para confessar esse sentimento, pronto para
permanecer ao seu lado, pronto para reconhecer que o mundo era
horrível sem ela.
Eu estava pronto para ser digno do amor.
— Eu te amo, Katelyn.
O maior acerto da minha vida.
Seus olhos estavam cheios de lágrimas e ela não parecia
acreditar no que eu acabei de dizer, então eu repeti.
— Eu te amo. — falei. — Eu sempre amei.
Se o amor é uma escolha, eu prometo sempre o escolher
daqui em diante porque Helena errou quando disse que o amor era
uma fraqueza, porque tudo o que sinto sobre isso é o exato oposto.
O meu sentimento pela Katelyn tem tamanha força que me
transformou e alinhou a minha vida. Sei que esse sentimento é uma
jornada de altos e baixos, sei que eu ainda não estou exatamente
curado e que levará anos para me curar por completo e talvez, eu
sempre tenha certas inseguranças dentro do meu ser, mas ainda
assim eu escolheria o amor, ainda assim, eu escolherei a Katelyn,
independentemente do que possa vir no futuro, eu sempre vou a
escolher nessa vida e em todas as outras que vierem, porque estou
certo de que minha alma pertence a ela para toda a eternidade.
— Você ama? — murmurou baixinho com lágrimas caindo.
— Eu sempre amei. — limpei as lágrimas do seu rosto. —
Me desculpe ter demorado tanto tempo para confessar meus
sentimentos, me desculpe ter te feito chorar incontáveis vezes, mas
eu prometo, se você me aceitar de volta eu farei de tudo para que
você nunca mais derrame uma lágrima, eu farei de tudo para que a
gente encontre a felicidade, juntos.
— Juntos?
— Juntos. — sorri olhando-a.
Katelyn estava como uma criança emocionada após ganhar
algo que pediu por muito tempo. Seus olhinhos estavam cheios de
lágrimas e amor, era transbordante.
— Você vai ficar? Pra sempre?
Sua voz era doce e baixa. Eu gostaria de guardar esse
momento em minha memória para sempre, porque ela estava sendo
tão inocente, pura, delicada e fofa. Eu não sabia que poderia me
apaixonar por ela ainda mais, mas a forma que ela estava me
olhando após eu ter confessado os meus sentimentos me fazia
amá-la ainda mais.
— Eu vou. — afirmei. — Para sempre.
Ela sorriu em lágrimas e me abraçou. Seu abraço era forte e
delicado ao mesmo tempo. Seus braços carregavam todo o amor
que existia nessa superfície e carregava também todo o peso que
eu depositei em seus ombros por tantos anos.
— Eu te amo. — disse outra vez. — Me desculpe ter
demorado tanto, me desculpe por quebrar o seu coração, me
desculpe por partir sem avisar, me desculpe por ter feito você
pensar que é uma péssima amiga, porque você não é. Me desculpe
por ter desaparecido por meses e ficar incomunicável, me desculpe
por não ter ligado, me desculpe por ter gritado agora pouco, me
desculpe pelo nosso reencontro ter sido dessa maneira, me
desculpe por falar grosseiramente agora pouco e me desculpe por
ter dado sinais de que eu não mudei, porque eu mudei. — falei.
Ela se afastou do abraço e me olhou.
— Desde que eu fui para a cidade do John, eu comecei a
fazer terapia e passei também com o psiquiatra para ele me receitar
remédios para me ajudar a dormir e lidar com a ansiedade. —
continuei. — Tenho muito o que descobrir ainda sobre mim mesmo,
mas estou certo de que não tenho mais vontade de desistir de tudo,
mesmo que eu tenha falhado hoje e agido pela minha ira, mesmo
que eu tenha talvez voltado duas casas para trás do meu próprio
tratamento, eu estou certo de que eu posso melhor cada dia mais e
mais e ser justamente alguém digno do seu amor.
Katelyn levou suas mãos ao meu rosto e começou acariciá-
lo.
— Eu e John fomos enganados pela Helena. — falei. Ela
me olhou confusa. — Ainda é difícil para mim falar sobre isso, mas
em um breve resumo para que você possa estar ciente, ela inventou
muitas mentiras para ele e para mim. Eu tento não a culpar, porque
hoje sei que ela estava doente, mas ainda assim eu a culpo por não
ter tentado melhorar por mim e foi essa a razão que me fez querer
ser alguém melhor por você, porque era justamente o que eu
esperava que Helena tivesse feito por amor a mim, mas não fez. —
respirei fundo. — KitKat, é realmente muito difícil dar o primeiro
passo para procurar ajuda. Eu pensei que seria como a Helena e
que eu também não conseguiria, pensei que nosso amor nunca iria
dar certo porque eu estava sendo covarde e não conseguia pedir
por ajuda mesmo quando meu peito implorava por isso. Mas então,
em um dia qualquer, eu fui.
— E como foi? — perguntou me olhando nos olhos e ainda
acariciando meu rosto.
— Foi definitivamente a caminhada mais longa que eu já
tive. Do estacionamento onde deixei o carro até o seu consultório eu
quis desistir em cada passo que eu dava, eu até ri sozinho
pensando que isso era perda de tempo porque eu jamais iria contar
o que se passava dentro da minha cabeça a uma estranha, já que
nem mesmo eu sabia o que se passava aqui dentro.
— E então?
— No primeiro dia ela me perguntou coisas básicas. Onde
eu estudei, quantos anos eu tinha, qual o nome do meu pai, minha
mãe, eu contei que não era da cidade, ela me perguntou onde eu
morava, contei sobre a cidade, contei sobre vocês cinco e listei o
nome de um por um, contei sobre Thomas ser o meu melhor amigo
e sobre você ser você. — falei. — E então, a conversa começou a
se desenrolar e no segundo dia que eu voltei lá, conversamos um
pouco mais e, na quinta sessão, eu chorei.
— Por que?
— Porque eu falei sobre John. — disse. — Eu contei que
sua esposa preparava o café da manhã para mim e que eu não
sabia o que fazer sobre isso, porque eu nunca tive isso antes e ela
me perguntou o que eu gostaria de fazer e eu respondi que gostaria
de comer aquele café preparado especialmente para mim sentado à
mesa com eles, como se eu pudesse pertencer a família, como se
eu pudesse ser amado, como se eu pudesse ser filho de John
Carter e como se ele pudesse ser o meu pai. E eu chorei, na frente
de uma estranha, porque eu senti que era uma criança novamente,
aquela criança que ficava esperando ele voltar pra casa todas as
noites, aquela criança que ficava esperando uma ligação ou uma
mensagem que nunca chegou, e que eu tinha o conhecimento que
nunca veio por motivos absurdos.
Senti meus olhos queimarem e quando percebi, eu estava
chorando.
— E então? — enxugou minha lágrima. — O que aconteceu
a seguir?
— Na manhã seguinte eu me sentei à mesa. — murmurei.
— E em todas as manhãs seguintes também.
Katelyn sorriu.
— E como foi? — perguntou com um sorriso de amor nos
lábios.
— Eu me senti aliviado. — suspirei. — Pela primeira em
muito tempo. E então, eu continuei indo na terapia, continuei
fazendo os exercícios que ela me passava, continuei anotando
minhas reações sobre cada fato que acontecia no meu dia a dia. O
segundo choro na frente da doutora Isabela veio quando falei da
Helena. Foi nesse momento em que a doutora me revelou que eu já
tive ataques de pânico, mas que não soube compreender que era
isso quando aconteceu. A Helena é o fato mais complicado de toda
a minha vida e a Isabela já me falou que temos muito trabalho pela
frente, mas por conta de todas as sessões que falei sobre ela eu
consegui separar o fato do que eu realmente sou e do que Helena
sempre me falou que eu era. Ela dizia tudo aquilo porque estava
doente e novamente, eu ainda tento não culpá-la pelas coisas que
fez em crises, mas é um processo complicado desvincular essa
culpa e essa raiva que senti a minha vida toda da pessoa que ela é.
Porque eu sempre acabo pensando que se ela tivesse tentando
melhorar, que se ela tivesse seguido o tratamento pela depressão
pós parto quando nasci, não teríamos chegado a como estamos
hoje, ela nem mesmo teria desencadeado tantos outros transtornos
psicológicos como o John disse que parece que desencadeou, eu
ainda acabo pensando que se ela me amasse, teria procurado por
ajuda, ainda a culpo por não ter feito, sabe? Então esse processo é
um pouco complicado e longo, é algo que me deixa ainda frustrado
e com gatilhos para algumas crises, mas algo que também
reconheço que consigo lidar, até mesmo me senti orgulhoso de mim
há pouco tempo, porque li as mensagens de Helena e quase surtei,
mas respirei várias vezes e consegui apenas deixar para outro
momento, porque eu compreendo agora que nem tudo pode ser
ingerido no ato, às vezes eu preciso de um tempo um pouco maior
para lidar com tal coisa.
Ela continuava me olhando com atenção.
— E então tivemos o motivo do meu terceiro choro com a
doutora Isabela. — falei olhando em seus olhos.
Como eu senti saudades.
— E qual foi?
— Eu estava sentindo a sua falta. — falei. —
Desesperadamente.
— E eu a sua. — respondeu. — E como foi essa sessão?
— Contei sobre a minha covardia em te amar por temer te
destruir. — disse. — Contei sobre todos os mais belos sentimentos
que eu tinha dentro do meu ser por você e ela me ouviu
atentamente e me perguntou o que eu gostaria de fazer daqui para
frente, sabendo que eu já estava tentando separar a pessoa que eu
realmente era da pessoa que eu acreditei ser por anos.
— E então?
— Você sabe o que eu respondi?
Katelyn balançou a cabeça como “não” e eu a trouxe para
mais perto de mim e roubei um selinho. Ela sorriu.
— “Eu quero amá-la.” — repeti o que disse naquele dia para
a Dra. Isabela. — Essa foi a minha resposta para ela. Naquele
momento, eu estava pronto para a transformação, eu estava pronto
para enfrentar a realidade e ser corajoso pela primeira vez na minha
vida, mesmo quando tudo ainda parecia estar desmoronando. Eu
estava pronto para mudanças significativas, porque o mundo era
muito pior sem você, era uma situação insustentável e eu precisava
desesperadamente de você, porque eu apenas queria te amar.
Ela quem roubou um selinho agora.
— Eu serei bom, Katelyn. — continuei. — Por todas as
vezes que não fui, por você e pelo Thomas.
— Mingus?
— Sim?
— Obrigada por não ter desistido.
— De nós?
— De você. — disse. — Obrigada por ter feito essa
caminhada árdua do estacionamento ao consultório dela. Obrigada
por ter voltado à segunda sessão, obrigada por ter forças para
continuar, obrigada por ter se sentado à mesa com John, obrigada
por ter falado sobre Helena, obrigada por ter falado sobre mim.
Obrigada por não ter desistido. — suspirou. — Mingus Carter é o
amor da minha vida e eu não suportaria perder ele. Obrigada por
não ter desistido.
Ela colocou suas mãos em meu rosto e sorriu.
— Eu te amo. Sempre amei e sempre vou amar.
— Você é o meu milagre. — falei. — Ainda me questiono
como um coração como o seu pode amar um coração como o meu.
— Você é digno de amor, Mingus. Você sempre foi. —
respondeu. — O seu coração é puro, é bom e é definitivamente
lindo. Mesmo que você ainda não sinta isso com toda a certeza,
olhe nos meus olhos nesse momento e saiba que você sempre foi
digno, saiba que você não deve ter medo de ser amado, porque eu
te amei desde o início e te amarei pelo infinito. Eu nunca desisti de
nós, posso ter dito várias vezes palavras árduas, mas eu nunca
desisti de nós, não de verdade. Porque desistir de nós era como
desistir de mim mesma, porque você é parte de mim.
— Obrigado por não ter desistido de nós. — falei. — Agora,
eu tenho mais certeza do que nunca de que o nosso amor
transcende o tempo e o espaço e eu prometo que nunca o deixarei
morrer. Nossas almas certamente estão conectadas de maneira
espiritual nesta e em todas as vidas que já tivemos e podemos ter,
porque eu sei que temos uma ligação predestinada e enraizada.
Nosso amor é sem limites e sem fim, não pode ser tocado ou
desafiado por ninguém. — penso em Tyler. — Eu me certificarei que
nada aconteça com o nosso amor e com você, tenho total
disposição para fazer qualquer coisa por você.
— Eu te amo nessa vida e além dela. — disse sorrindo.
Nós nos beijamos outra vez. Eu amava beijá-la, amava
sentí-la, amava tocá-la, amava seu cheiro. Eu a amava por
completo.
— Agora vamos embora, por favor. — falei. — Quero que
você tire essa camiseta o quanto antes do seu corpo.
Ela riu envergonhada. — Eu não falaria mais sobre Tyler
hoje, mas esse difícil diálogo iria ocorrer amanhã ou o mais rápido
possível.
A levei até o seu prédio e não tinha a pretensão de subir,
porque queria me encontrar com Thomas antes de anoitecer, pois
tínhamos muito o que conversar, mas seu olhar me pedindo para
ficar um pouco mais me convenceu em dois segundos a subir.
Seu apartamento não havia mudado nada.
— Não mudou nada. — falei.
— No meu quarto também não. — disse, sorrindo.
Katelyn se aproximou de mim com um sorriso malicioso em
seu rosto e eu soube o porquê ela quis que eu subisse.
— Eu realmente senti saudades. — murmurou. — E você
quer que eu tire essa camiseta, certo? — Ela tirou a camiseta
jogando-a no chão. — Prometo devolver a ele.
— Jogue no lixo. — falei. — Ou eu mesmo devolvo a ele.
— O que você preferir. — sorriu se aproximando.
Ela agarrou uma das minhas mãos e me levou ao seu
quarto. — Definitivamente esse caminho era o meu favorito.
— Aqui estamos. — suspirou. — Só nós dois.
Sua proximidade é excitante. Ela tira o resto de roupas que
usava ficando seminua em minha frente, mordendo o seu lábio.
— Katelyn… — dou risada. Minha voz saiu em um tom
grave, cheia de desejo.
Acho que eu sempre vou desejá-la nessa imensidão. Quero
beijá-la, quero ter o seu corpo no meu, quero torná-la minha outra
vez e dessa vez, para sempre.
— Eu realmente senti a sua falta. — murmura.
Os seus lábios ligeiramente entreabertos, eu contenho um
gemido.
Como ela faz isso? — penso. — Como me faz perder o
controle com um olhar? Eu estava acostumado a ter o controle das
coisas, mas fico bobo com ela.
Me aproximo um pouco mais e sinto-a estremecer ao meu
lado.
— Eu senti a sua falta também. — murmurei de volta. —
Loucamente.
Passo o braço em torno de sua cintura e a puxo para perto.
— Seu corpo se encaixa perfeitamente debaixo do meu braço.
— Realmente feitos um para o outro. — digo, fazendo-a rir.
— Eu sempre soube. — sorriu.
Lanço um olhar penetrante para ela, que cora, seu rosto
adquirindo um adorável tom claro de rosa. — Katelyn passa suas
mãos sobre minhas costas chegando ao final de minha camiseta e a
tira de meu corpo, jogando-a longe e desce suas mãos até minha
calça e também as tira. — Eu sorrio por isso.
— Hoje é sobre o que? — perguntei. — Paciente ou intenso
como nossa saudades?
— Intenso, por favor.
Sorri maliciosamente.
Eu a empurrei na cama e meu corpo ficou por cima.
Comecei a beijá-la e em questão de segundos os beijos se tornaram
mais longos, mais intensos e cheios de amor. — Os beijos se
intensificaram e me deixaram sem fôlego. Eu a levantei para
desabotoar o seu sutiã e brinquei com seus peitos.
Certamente o universo não criou um amor tão lindo para
não ser aproveitado. Era bom senti-la outra vez, eu estava em
êxtase.
Envolvi seu peito em minhas mãos e desci meu lábio até
seu seio, os chupando com força e ela continuava arranhando
minhas costas e tentando abafar os seus gemidos de prazer. Me
afastei de seu corpo e voltei a boca em seus lábios, depositando um
beijo rápido e rindo de sua tentativa falha de tentar não gemer e eu
certamente iria provocá-la agora para ver até quando ela
conseguiria aguentar. — Voltei a chupar o seu peito com força e
intensidade e depois passei a descer meus lábios trilhando um
caminho de beijos por todo o seu corpo. — Ela estava arrepiada.
— Senti saudades dessa parte. — falei e continuei
descendo. — E saudades dessa parte. — continuei descendo. —
Dessa também.
Eu marquei cada parte do seu corpo, porque senti falta de
todas essas partes. Pude notar que isso a excitou e por essa razão
continuei por alguns segundos a mais.
Agarrei a tira de sua calcinha e olhei para cima, ela estava
de olhos fechados e sorrindo, sabia o que viria a seguir. — Beijei
sua virilha.
— Saudades. — murmurei.
Ela soltou uma risada sincera.
Me coloquei entre duas pernas e continuei depositando
beijos — eu deveria marcar todo o seu corpo. — Quando cheguei
em suas coxas, comecei voltar para cima, mas ao invés de beijos
foram lambidas até o clitóris e então subi minha mão direita até o
seu cabelo, enrolando-o em minha mão e puxando com força como
ela adorava. Ela gemeu e isso foi o suficiente para me dar mais
desejo de entrar nela logo.
Duas, três, quatro linguadas e ela ficou molhada.
— Estou pronta. — ela murmura.
Katelyn está tão molhada que eu entro com facilidade no
primeiro movimento. Começo devagar para dar um tempo do nosso
corpo entrar no ritmo, mas logo ela pede para eu ir mais forte e eu
atendo o seu pedido. Posso sentir o clímax chegando enquanto ela
desliga as unhas pelas minhas costas e começa a rebolar mais
rápido. A vejo sorrir. Eu também estou sorrindo. Realmente temos
uma conexão.
— Isso é tão bom. Meu. Deus. Eu. Amo. Isso. — ela
murmura em meio a gemidos. — Eu amo você.
Eu tive um déjà vu da noite em que eu disse que era
apenas físico e meu peito estremeceu por alguns segundos ao ter
essa recordação, mas dessa vez seria diferente.
— Eu amo você. — respondi enquanto cavalgava dentro
dela. Entrelacei nossas mãos e beijei sua boca. — Eu amo você.
Chegamos ao clímax juntos. Desabo na cama ao seu lado,
nossas respirações estão ofegantes depois do orgasmo, mas ela
sobe em cima de mim e me beija intensamente. — Pouco tempo
depois ela se afasta para respirar e sorrindo eu me inclino para
frente para beijá-la outra vez. Meu corpo estava em chamas
novamente. Ela desce sua mão até meu pau e começa a bater uma
pra mim. Eu gostava disso. Gostava de sentir prazer, mas também
gostava de dar prazer à ela, porque eu amava ver seus olhos
revirando para mim de puro prazer, então enfiei meu dedo médio
nela e a fiz gemer com força.
Estamos ofegantes outra vez, eu a beijo de novo e dessa
vez nossas línguas e mãos estão ocupados. Eu pressiono seu
clitóris enquanto passeio por ela e ela segue acariciando meu pau e
o apertando em cada movimento. Sinto que estou chegando no
clímax outra vez e ela também.
Respiro. Ela também. Clímax.
Dessa vez, ela quem desaba na cama.
— Eu realmente senti sua falta.
— E eu a sua.
Viramos de frente um para o outro e ficamos nos olhando
por alguns longos minutos. Eu estava sorrindo e ela também. —
Meu sorriso favorito. — Ela se aproximou e se encaixou em meu
peito.
— Eu estou tão feliz. — disse. — Tão tão feliz.
Acariciei seus cabelos.
— Eu também. — digo. — Eu nunca pensei que pudesse
sentir algo como isso, nunca pensei que pudesse ser tão feliz.
Seu amor ressignificou toda a minha existência.
— Você realmente vai ficar para sempre, certo? —
perguntou.
Apertei ainda mais meu braço à sua volta, como garantia de
que eu não iria mais soltá-la.
— Não vou soltá-la nunca mais. — disse em seu ouvido. —
Você me trouxe de volta pra casa.
— Você é meu lar.
— E você o meu. — a beijei.
Ficamos abraçados por muito tempo e eu notei pela janela
de seu quarto que já estava para escurecer e fiquei um tanto
inquieto, porque eu ainda queria me encontrar com Thomas.
Ela notou minha inquietação.
— O que foi? — perguntou ficando de frente para mim.
Olhei para a janela outra vez.
— Algum lugar para ir? — perguntou.
Seus olhinhos pareceram cheios de preocupação. Talvez se
recordou de todas as vezes em que eu fui embora logo após
transarmos e esse sentimento de insegurança era algo que eu
precisava lidar muito bem, porque eu reconheço que a feri muito.
— Queria ver o Thomas. — digo. — Eu ainda não vi e nem
telefonei.
— Fui a primeira pessoa que você viu?
— Eu mandei uma mensagem a todos, inclusive para você
também, mas como não tive um retorno seu, que era a primeira
pessoa que eu gostaria de ver e conversar, decidi entregar algumas
coisas ao Tyler que estava em minha casa para assim não ter mais
vínculos com ele.
Ela levantou o cenho, curiosa.
— Por que não quer mais vínculos com o Tyler? Sério, o
que aconteceu?
Eu não queria falar sobre isso. Não hoje.
— Podemos deixar essa conversa para amanhã? —
pergunto.
Observo a forma curiosa e confusa que ela me olha, mas
antes de conversarmos sobre isso eu teria que falar com Thomas e
pedir conselhos para não ser irracional.
— Por favor. — insisto.
— Está bem. — suspira em redenção. — Mas você vai
embora agora? Não pode ficar um pouco mais?
Seus olhos brilhavam.
— Eu realmente preciso me encontrar com o Thomas.
— E se você não voltar?
Lá estava. Lá estava o medo e a insegurança. Eu me
certificarei de nunca mais deixá-la sentir isso. — A puxei para mais
perto e depositei um selinho em seus lábios.
— Eu sempre voltarei. — digo e a beijo outra vez.
— E se eu acordar desse sonho? — murmurou.
— Eu te farei sonhar outra vez. — respondi.
— Não vamos nunca mais nos separar?
— Ficaremos juntos. — falei. — Nessa e em qualquer outra
vida.
Ela abriu um doce sorriso.
Eu compreendia sua insegurança e seus medos, porque vivi
com esses sentimentos por toda a minha vida quando algo
razoavelmente bom ou algo bom acontecia, era como se nosso
subconsciente falasse que algo ruim aconteceria a seguir, mas
mesmo que minha mente também estivesse com essa sensação, eu
não deixaria meus demônios internos falarem mais alto do que o
amor que eu sentia e que era recíproco.
— Então eu vou lá, ok? — digo roubando mais um beijo
dela. — E que tal você programar algo para agora a noite com todos
nós? Estou com saudades da galera e com certeza você quer contar
as meninas que estamos juntos.
Os olhos de Katelyn brilharam outra vez.
— Estamos juntos? — perguntou com um sorriso bobo nos
lábios.
— Estamos. — respondi.
Dessa vez ela quem me beijou.
— O que você pensou em fazer com todos? — perguntou.
— Algo como nos velhos tempos?
— Isso. — respondi. — Meu apartamento ainda está uma
bagunça, acha que podemos fazer aqui?
— Claro. — sorriu. — Podemos pedir algumas pizzas, pegar
algumas cervejas e ver filmes ou só conversar.
— Como nos velhos tempos. — disse sorrindo. — E assim
você dizer às meninas que estamos juntos.
— Com certeza conversaremos pessoalmente também, mas
eu não vou aguentar esperar. Você saindo por aquela porta para se
encontrar com o Thomas, eu ligarei para elas.
Eu ri.
— Certo. — falei. — Diga a elas que estou com saudades.
— Traga chocolate para elas e para mim. — disse.
Eu a beijei outra vez.
— Combinado. — sorri. — Eu compro as cervejas então.
Pode ser?
— Pode.
Me levantei relutante porque estávamos tão aconchegados,
tão encaixados. Não me lembro a última vez que me senti tão feliz e
tão em paz como hoje. Mas, eu tinha que conversar com Thomas e
pedir desculpas pessoalmente pelas palavras árduas que falei
quando ele chamou o John.
— Mingus? — chamou por mim enquanto eu estava
vestindo minha calça.
— Sim? — voltei meu olhar para ela.
— Você realmente voltará, certo?
Sorri fraco. Eu entendia seus pensamentos porque eu
nunca voltei anteriormente. Terminei de abotoar minha calça e me
aproximei dela, olhei em seus olhos.
— Eu volto. — disse e a beijei. — Eu te amo.
Ela soltou um longo suspiro e sorriu.
— Estarei te esperando.
Sorri de volta.
Voltei a me afastar e agachei para pegar o restante das
minhas coisas que estavam no chão.
— Estou indo, querida. — disse parando na frente da porta
e olhando para ela. — Eu volto já já.
— Estarei te esperando. — disse sorrindo.
Quando me virei a porta e dei um passo ela disse “eu
também te amo” e eu não poderia ignorar isso, soltei meu tênis é
minha camiseta que estava em minhas mãos e voltei à ela.
A beijei intensamente. — Paramos para respirar e ela
estava sorrindo.
— Você precisa encontrar com o Thomas. — disse. — E eu
preciso ligar para as meninas.
— Então me acompanhe até a porta. — disse e a beijei
outra vez.
— Estou sem roupa. — falou rindo.
— E qual o problema? — ri. — Eu já vi tudo, querida.
Ela riu.
— Se enrole na coberta, se preferir. — falei.
Katelyn se levantou e foi até seu armário. — Eu estava
observando seu corpo nu em minha frente e posso jurar que não
existe ninguém mais lindo do que essa garota. — Ela pegou uma
camisa grande e colocou em seu corpo, cobrindo minha linda vista.
— Vista a sua camiseta também. — disse.
Assim eu fiz. — Estiquei minha mão para ela, que me olhou
com os olhos brilhando.
E como ela permaneceu parada apenas me olhando, fui até
ela e segurei em sua mão.
— Me acompanhe. — falei.
Andamos do seu quarto até a sala, eu segurava meu tênis
em minha mão esquerda e em minha mão direita eu segurava a
mão de Katelyn. — eu nunca mais me permitiria soltar essas mãos.
— Ao chegarmos na sala, a camiseta de Tyler ainda estava no
chão.
Eu encarei a camiseta por um tempo, ela notou e por isso
forcei um sorriso.
— Não significou nada para mim. — ela disse.
Demorei um tempo para entender o que estava querendo
dizer, mas então me lembrei que ela e Tyler de envolveram. —
Engoli em seco.
— Realmente não significou nada para mim.
— Eu sei. — forcei um sorriso.
Soltei nossas mãos e passei a mão em seu cabelo e em seu
rosto. Acariciando.
— Conversaremos sobre isso amanhã, mas não fique com
isso na cabeça, por favor. — digo. — Porque eu te prometo que isso
é completamente irrelevante para mim. Foi antes de estarmos
juntos, foi quando nem estávamos nos falando. Eu sei que não
significou nada para você.
Esperava que para ele também não tivesse significado
nada. — Agachei e peguei a camiseta do chão.
— Eu devolvo isso, certo? — Ela assentiu. — E se ele te
ligar, não atenda. Se ele enviar alguma mensagem, não responda.
Fale comigo primeiro, por favor.
Ela assentiu outra vez. — Dei um rápido beijo em sua boca
e um beijo doce e demorado em sua testa.
— Agora conte para as meninas e diga a Lily que ela estava
certa.
— Sobre o que? — riu.
— Eu realmente sempre te amei.

Terminei de pegar minhas coisas no apartamento de


Katelyn, a beijei mais uma vez, coloquei meu tênis e sai. — Agora
estou sentado no carro esperando o Thomas me responder se eu
posso ir até a sua casa, mas como não tenho paciência decido
ligar.
“Alô”
“Posso ir aí?”
“Estou te esperando”
“Chego em vinte minutos”
E passados exatos vinte minutos eu estava na frente de sua
casa. — Completamente nervoso. Apertei a campainha e ele
destravou o portão me mandando entrar.
Quando entrei, Thomas já estava esperando por mim com
um sorriso em seus lábios e de braços abertos para me abraçar e
confesso que ao ver meu melhor amigo me aguardando dessa
maneira mesmo quando disse duras palavras a ele antes de
desaparecer, me fez entender o porquê ele era o meu melhor. —
Mesmo quando minha vida estava de cabeça pra baixo, mesmo
quando eu me esquecia quem eu realmente era e o que
verdadeiramente importava, ele ainda estava aqui. De braços
abertos, esperando por mim.
Abaixei minha cabeça envergonhado e ele veio até mim e
me abraçou.
— Como você está? — perguntou. — Senti a sua falta.
— Oi. — murmurei.
— Senti sua falta. — repetiu e se afastou do abraço.
Thomas estava segurando em meus ombros e me olhando
de cima para baixo, como se estivesse analisando algo.
— Ótimo. — disse. — Parece o meu melhor amigo. — abriu
um sorriso. — Bem vindo de volta, irmão.
— Você pode me perdoar? — perguntei.
“Eu não quero mais olhar na sua casa”, “você morreu para
mim”. — Essas árduas palavras voltaram à minha memória. Por que
eu havia dito isso? Por que eu tinha que ser tão cruel?
— Te perdoei no exato momento em que falou tudo aquilo,
cara. — disse. — Eu senti sua falta.
— Eu sou um péssimo amigo.
— Não é. — disse. — Todos irmãos brigam, todos irmãos
dizem coisas cruéis, todos os irmãos saem de casa, o importante é
sempre voltar.
— Significa o mundo para mim ter você na minha vida. —
falei.
Thomas era o meu melhor amigo. Ele havia ressignificado
para mim o significado de “família” e eu nunca escondi isso de
ninguém, ele era a única pessoa que eu respeitava mais do que
qualquer coisa, era como se a palavra dele fosse lei para mim, mas
sempre que eu estava em algum surto aleatório, eu acabava
esquecendo disso e desagradava ele através de atitudes ou
palavras. — Eu entendo que ele chamou o John porque eu estava
irreconhecível, entendo que a maneira que ele agiu seria a mesma
forma que eu agiria por ele, porque ele é meu melhor amigo e eu
faria qualquer coisa para salvá-lo, mas eu entendo isso agora. No
dia, eu não entendi. No dia, eu disse que ele estava morto para
mim. Que tipo de melhor amigo diz algo assim?

— Me desculpa. — digo. — De verdade.


— Está bem. — ele diz, sorrindo. — Eu te perdoo.
Era como se um fardo estivesse saindo do meu peito nesse
momento. Todas as minhas más decisões seriam jogadas no lixo e
eu iria refazer minha vida a partir desse momento.
— Você me perdoa também? — perguntou. — Eu sei que
eu não deveria ter me metido, mas eu realmente estava assustado
com a pessoa que você estava sendo.
— Você não tem que me pedir perdão por nada. — digo. —
Você me salvou.
Ele sorriu aliviado. — Acho que nós dois estávamos
preocupados com esse reencontro. Acho que nós dois estávamos
feridos.
Engraçado pensar em como irmãos podem se ferir
grandiosamente em certas situações da vida e cômico pensar que
em outras situações, os irmãos são aqueles que nos salvam.
Engraçado quando acontece ambos na mesma situação. Naquele
dia em que Thomas chamou por John, eu me senti traído pelo meu
próprio irmão, me senti até um tanto abandonado, porque pensei
que para ele era difícil lidar comigo e ele preferiu recorrer ao meu
pai biológico e me senti ferido por esse ato, mas após um tempo na
cidade de John, após a terapia, após o meu tratamento, vejo que
essa atitude que Thommy tomou foi a minha salvação.
— Se estiver confortável, me conte tudo. — disse. — Se
não estiver confortável, vamos apenas jogar um videogame para eu
te vencer, porque andei treinando.
Eu sorri. Verdadeiramente.
— Estou confortável. — falei. — Mas a história é longa.
— Tenho toda a minha vida para te ouvir.
— Não há nada mais importante? — brinquei.
Thomas me olhou sério e sorriu voltando suas mãos em
meus ombros.
— Mais importante que você? — perguntou. — Não há.
Senti a sinceridade em seu olhar. Senti a sinceridade do seu
coração. — Balancei a cabeça em concordância com o que ele
estava dizendo.

O que no mundo é mais importante para nós do que aqueles que


amamos, certo?
Nós nos sentamos em sua sala e eu comecei a contar tudo
desde o começo. Desde o primeiro diálogo que tive com John,
desde o momento em que descobri que Helena tinha inventado
muitas coisas e também contei sobre Helena estar doente e ter
abandonado o tratamento. Falei que ainda não estava pronto para
vê-la, mas que eu sei que hora ou outra terei que enfrentá-la para
conseguir continuar com essa cura interna que eu estava no
processo. Contei sobre a terapia, sobre as sessões, sobre o
primeiro, segundo e terceiro choro. Falei sobre a dificuldade em
procurar ajuda, sobre a constante vontade de desistir por achar que
não está acontecendo nada de diferente e falei sobre os
sentimentos que aprendi a separar. — Quem eu realmente sou e
quem eu acreditei que era por um tempo. — Contei que eu sou
digno do amor, mas acreditei por muito tempo que não era e que
ainda há algumas dúvidas em meu ser, mas que eu estava disposto
a lutar contra elas. E, por fim, contei sobre Katelyn.
Eu disse que a amava, que a amo há muito tempo, mas que eu
tinha medo.
— Mas eu lutarei contra meus medos e a farei feliz. Esse é
o novo propósito da minha vida. — digo.
— E quando você vai conversar com ela? — perguntou com
um sorriso nos lábios.
— Então. — ri coçando a nuca.
— Vocês já conversaram?
— Estamos juntos. — digo.
Provavelmente meu sorriso estava de orelha a orelha.
Thomas estava sorrindo também, eu posso até dizer que ele talvez
esteja emocionado.
— Finalmente — suspirou. — Finalmente você se permitiu
ser amado e amá-la, finalmente você é o meu melhor amigo outra
vez.
— Agora você pode ser feliz também. — digo e ele me olha
estranho. — Eu sei que você nunca tentou com a Lily porque
passava muito tempo preocupado comigo, eu sei que o propósito da
sua vida era cuidar de mim, Thomas. Mas, eu posso cuidar de mim
mesmo agora em diante, eu posso ser alguém melhor e posso
cuidar de você também.
— O que você quer dizer?
— Quero dizer que nada nesse mundo pode ser capaz de
separar eu e a Katelyn agora que eu voltei. — digo. — Quero dizer
que eu não sinto mais vontade de morrer, quero dizer que eu estou
em um processo de cura e que você pode seguir a sua vida sem se
preocupar comigo. Quero dizer que você pode confessar os seus
sentimentos pela Lily sem medo do que isso possa acontecer ao
nosso grupo, porque você é o ser humano mais incrível do universo
e eu tenho certeza que vai saber lidar com qualquer coisa e que
nada vai separar o nosso grupo. Quero te dizer que pode parar de
se preocupar comigo, quero dizer que eu não vou a lugar nenhum,
quero dizer que eu ficarei ao seu lado até sermos velhos
insuportáveis que acordam cedo sem razão alguma para isso, quero
dizer que eu sou o seu irmão que o universo concedeu e eu sei que
te dei trabalho desde que nos conhecemos, sei que você viveu a
vida com medo que eu te deixasse, sei que muitas vezes minhas
más decisões te paralisaram por medo de me perder como perdeu o
Gabriel. — notei seu olho se encher de lágrima no momento em que
citei o nome do seu falecido irmão. — Mas eu te prometo Thomas,
eu nunca vou te deixar, eu serei alguém melhor, eu continuarei
cuidando da minha saúde mental, eu continuarei aqui ao seu lado,
ao lado da Katelyn e de todo o nosso grupo, porque vocês são o
meu lar.
Olhei em seus olhos, que estavam marejados.
— Então agora você pode finalmente se desprender dessa
necessidade absurda de ser meu guardião e pode ser feliz com a
garota que você ama.
— Amo? — riu.
— Ama. — digo. — E você sabe que ama.
Ele balançou a cabeça. — Todos estavam cientes de que
Thomas era completamente apaixonado por Lily. Até mesmo ela
estava ciente dos sentimentos do moreno para com ela, mas
também reconhecia que ele não iria dar um passo à frente porque
vivia preocupado comigo e não tinha tempo para pensar em si
próprio. Eu gostaria de mudar isso. Eu gostaria que ele fosse feliz.
Eu gostaria de vê-lo feliz.
— Eu tenho certeza que o Gabriel trouxe você para mim. —
disse.
— “O anjo o fez para mim.” — disse, relembrando uma frase
de uma série que já assistimos juntos.
Thomas era exatamente isso para mim. Aquele feito para
mim, aquele que seria minha salvação, aquele por qual eu não
hesitaria jamais em dar a vida.
Ele sorriu.
— Eu e Lily estamos saindo. — confessou.
— Espere! — Aumento minha voz. — Você me fez fazer
todo esse discurso para contar que já estão saindo?
Ele caiu na gargalhada.
— Faz duas semanas que aconteceu. — continuou.
— Katelyn sabe? Ela não me contou!
— Ela ainda não sabe. — disse. — Nós falamos que não
iríamos contar para vocês por conta da situação em que se
encontravam.
— Você me contou. — digo.
— Mas você e Katelyn não estão na mesma situação de
antes. Tenho certeza que nessas horas a Katelyn já contou para a
Lily sobre vocês e a Li já contou sobre nós dois.
— Puta que pariu cara. — digo. — E como foi? Me conte
todos os detalhes!
— Detalhes? — ele riu. — Você tem certeza?
— Ok, dizer para contar sobre todos foi um exagero. — ri.
— Mas me conte como foi.
— Foi em um dia em que eu estava triste…
— Por que você estava triste? — o interrompi.
— Por conta do meu melhor amigo. — disse, me olhando.
— Ok, culpa minha. Desculpa. — fingi um sorriso. —
Continue.
— Eu enviei uma mensagem para ela dizendo que eu
realmente estava preocupado com você e comecei a beber um
whisky que tinha aqui.
— Por que você tinha um whisky?
— Porque você me deu. — disse. — Você vai parar de me
interromper?
— Desculpe. — ri.
Thomas me contou detalhadamente — em partes. — Sobre
como ela e Lily começaram a ficar juntos. Confesso que eu deveria
receber um prémio, porque sinto que foi pela minha existência que
isso aconteceu, mas também reconheço que foi pelo mesmo motivo
que isso tardou a acontecer, então nem me vangloriei por ter sido a
razão.
Ele estava feliz. Verdadeiramente feliz. Eu não o via tão feliz assim
desde quando o deixei ganhar seis partidas seguidas de mim no
videogame quando tínhamos dezesseis anos. Sua felicidade me
deixava feliz. — A doutora Isabela disse que isso era bonito. Ficar
feliz quando nossos amigos estão felizes, ficar tristes quando estão
tristes, nos preocupar quando se preocupam. Esse era o significado
de uma boa amizade.
Eu ainda precisava contar a ele sobre o Tyler, sobre ele ser
o filho do chefe de Katelyn, sobre eles terem se envolvido, mas nem
mesmo eu ainda sabia o que fazer sobre isso, eu ainda estava com
a maldita camiseta de Tyler dentro do meu carro e ainda precisava ir
até lá devolver e dizer para ele nunca mais se aproximar da minha
garota, mas como eu faria isso se eles trabalham juntos e a
segunda-feira já estava próxima? — Talvez eu deva deixar o hoje
passar e me preocupar com isso amanhã. Hoje seria o reencontro
com meus amigos, o primeiro dia em que oficialmente estaria de
casal com a Katelyn, o primeiro dia em que eu os veria após
reconhecer que não vivo sem eles, porque o amor de cada um não
me fez mais fraco e sim, me trouxe de volta à vida.
— Vamos nos reunir na Katelyn hoje. — digo.
Antes que Thomas pudesse responder qualquer coisa seu
telefone começa a tocar. Seu sorriso deixa claro que é Lily.
“Alô?” — ele diz, atendendo a ligação. — “Sim, ele está
comigo. Ok, vou colocar no viva voz. Pronto.”
“Mingus?”
“E ai, baixinha.” — digo, segurando o riso.
“Acabei de desligar a ligação com a Katelyn.” — diz.
“Estávamos eu e Sarah conversando com ela e ela nos contou
sobre você.”
O silêncio pairou.
“Eu estou com o Thomas.”
“Eu contei a ele, amor.” — ele disse, me fazendo segurar o
riso pelo apelido.
Eles já estavam nessa fase? — pensei.
“Por que? Dizemos que não íamos contar!” — perguntou
incrédula. Era como se ela não tivesse acabado de me dizer
exatamente o que disse que não iam contar.
“Você contou a Katelyn e Sarah hoje, não?”
“Sim”
“Então estamos quites.” — disse Thomas e eu ri. —
“Espera. Na verdade não, ainda não contei ao Chris”
“OK, depois você liga pra ele e conta.” — diz. — “Mingus.”
“Sim, baixinha?”
“Não machuque minha amiga.”
“Lily…” — Thomas parecia que iria repreendê-la.
“Eu não vou.” — respondi interrompendo o que quer que
Thomas fosse dizer.
“Você promete?”
“Prometo.”
“Eu acredito no amor de vocês dois.” — diz. — “Eu sempre
soube que você a ama incondicionalmente e estou orgulhosa.
Obrigada por ter voltado para ela, por ter voltado para o Thommy e
por ter voltado para nós.”
“Eu ainda farei vocês se orgulharem ainda mais” —
respondi.
“Nunca mais desapareça.” — disse. — “E qualquer coisa
que precisar, pode contar comigo.”
“Você sentiu minha falta?” — brinquei.
“Nenhum um pouco.” — disse rindo. — “Obrigada por voltar.
Obrigada por não ter desistido. E, bem vindo de volta.”
“Obrigado, cunhadinha.”
“Adorei.” — ela riu. — “Nós nos vemos mais tarde na
Katelyn. Amor, você passa me buscar?”
“Sim senhora”
“Ai amor” — imitei a voz dela por pirraça.
“Engraçado que agora eu também posso te zoar, Mingus.”
— ela disse.
“Eu não chamei ninguém de amor.” — ri.
“Mas chamou de querida”.
“Vocês mulheres realmente contam tudo para as melhores
amigas né?.”
“Sempre” — ela disse em tom vitoriosa.
Thomas estava sorrindo. Era bom vê-lo feliz.
“Tchau Lily” — falei rindo.
“Tchau chato e tchau amor.”
“Tchau amor.” — respondeu o moreno com o maior sorriso
bobo em seus lábios.
Engraçado que eu também estava sorrindo, porque o que
eu mais queria nesse universo era ver os meus felizes.

Eu ainda precisava pedir um conselho a Thomas sobre o que fazer


e o que falar para Katelyn sobre o Tyler, mas ele estava tão feliz que
eu não me atrevia a dizer, eu não me atrevi a acarretá-lo de
preocupações comigo outra vez. — Mas, eu certamente demonstrei
em minha fisionomia os meus pensamentos.
— O que foi? — perguntou. — Por que essa cara?
Nada passa despercebido por ele.
— Qual o problema, Mingus?
— Sabe quem é o filho do chefe da Katelyn?
— Quem?
— Tyler. — digo engolindo em seco. — Tyler Collins.
Seus olhos estavam arregalados.
— Seu traficante?
Balancei a cabeça em concordância.
— Ela também se envolveu com ele. Brevemente.
— Ela sabe? — perguntou. — Espere. Você tem certeza?
Ela sempre comentou sobre esse cara ser incrível e…
— Eu tenho certeza. — o interrompi.
— Como? E desde quando você sabe disso?
— Eu soube hoje.
— Mas você tem certeza?
— Encontrei a Katelyn na casa dele.
— O que? — perguntou abismado. — Espere. Por que você
foi na casa dele? Mingus, você ainda…
— Fui devolver umas coisas que estavam em casa e dei de
cara com a Katelyn. Grande reencontro. — ironizei.
— Eles trabalham juntos. Eles se envolveram. Tyler não
presta. O que você vai fazer? Você já contou a ela, certo?
— Não. E não vou.
— Como assim? Você precisa contar para ela. Ela precisa
sair desse trabalho, precisa se afastar desse cara e não continuar
convivendo com ele e, se você não contar, ela nunca deixaria o
trabalho. — diz. — Que droga! Ela gosta tanto de lá, ela tem
crescido tanto.
— Como posso dizer isso para ela, Thomas? Eu sei que ela
precisa sair de lá, eu estou morrendo de medo do que ele possa
fazer, porque ele já tentou me provocar, inclusive até dei um soco
nele e…
— Vocês brigaram? Mingus! — me repreendeu. — Isso só
vai piorar a situação. Você se lembra quem é Tyler, certo?
— Sim! Eu sei. Mas ele a embebedou, Thomas.
— Para o que? — perguntou e apenas com meu olhar,
entendeu. — Isso é crime.
— Ela disse que também queria e que estava consciente,
mas ele me provocou dizendo que iria embebedá-la de novo e eu
não aguentei.
— Eu vou quebrar a cara desse filha da puta.
— Não, você não vai. — digo. — Eu vou arrumar um jeito.
Eu farei a Kat sair do emprego de alguma forma.
— Você precisa contar.
— Eu não posso. — digo. — Eu não poderia ter dito nada
para você também, morro de medo que Tyler desconfie que você
sabe de qualquer coisa sobre ele, imagina se ela souber. Não. Não
posso deixar isso acontecer. E se ela correr risco? Não.
— Ela corre risco continuando naquela empresa e vendo-o
todos os dias, Mingus.
— Eu não posso contar. — afirmo. — Você sabe de tudo,
Thomas. Você sabe sobre as ameaças que ele me fez, você sabe
sobre as coisas que eu sei e sobre as coisas que fiz. Eu não posso
contar e correr o risco da Katelyn, de você, de todos vocês estar em
perigo.
Ficou difícil respirar. — “Não se atreva a dizer sobre isso
para ninguém, Carter. Ou aquele insuportável do Thomas pagará
um alto preço. Eu já matei um, para matar outro para poder te calar,
não me importa.” — A ameaça que ele me fez anos atrás estava de
volta em minha mente.
— Se acalme. — disse Thomas. — Você está nervoso.
— Eu estou desesperado. Desde o momento em que a vi na
casa dele eu sigo desesperado. Eu disse a ela para deixar o
emprego e ela fica me perguntando razões para qual eu detesto
tanto o Tyler, como eu poderia dizer algo razoável, Thomas? Como
eu poderia proteger ela? Você, e a todos?
— Nós daremos um jeito, eu pensarei em algo e nós
daremos um jeito.
— Tantos pensamentos já vieram até mim, Thomas. — digo.
— Sempre que penso que tudo ficará bem, algo pior acontece. Eu
temo nunca conseguir sair dessa sensação de que algo pior sempre
acontecerá. Estou melhor, claro que estou, consigo assumir o que
sinto pela Katelyn, consigo estar ao lado dela e não pretendo sair,
mas ainda assim estou com medo. Com muito medo.
— Nós daremos um jeito. — repetiu. — Eu estou aqui e eu
prometo que vou arrumar um jeito para sairmos dessa juntos.
— Eu não quero que nada de ruim aconteça por más
decisões que tomei antigamente, Thomas. Eu não quero continuar
sendo um fardo para a vida de todos vocês. Eu juro que melhorei,
eu prometo que continuarei melhorando.
— Você não é um fardo. — disse. — Você sabe disso, não
sabe?
Eu assenti.
— Ótimo. — sorriu fraco. — Você confia em mim, não
confia?
— Com todo meu ser.
— Eu darei um jeito. Eu pensarei em algo.
— O que faço nesse meio tempo? Como enrolar a Katelyn?
— Apenas faça o que o seu coração sentir. — disse. — Se
você sentir que deve contar, conte, tem o meu total apoio. Se quiser
inventar uma história absurda, eu o apoiarei também. O que você
decidir, estou aqui.
— Você ainda acha que eu devo contar, né?
— Acho. — respondeu. — Mas eu respeitarei sua escolha.
Eu também gostaria de contar. — penso. — Mas acho que
meu medo irá me paralisar.
— Obrigado. — forço um sorriso.
— Sempre nós.
— Sempre nós. — respondo.

Comprei chocolates e as cervejas da noite. Já estávamos


na Katelyn por horas e descobrimos que a Lily nunca escondeu
delas que estava com Thomas, na verdade contou por mensagem
ainda na casa dele que eles se beijaram. — Segundo a Sarah, ela
enviou uma mensagem no grupo das três dizendo “ACONTECEU. A
GENTE SE BEIJOU. AINDA AQUI, DEPOIS CONTO TUDO” e, por
conta dessa mensagem ter sido enviada logo após o fato e antes do
combinado, ela apenas conversou com as meninas para fingirem
que não sabiam de nada. — O que me surpreendeu na verdade foi
a Katelyn não ter me contado, mas acho que realmente uma melhor
amiga é mais importante do que um amor. Não a julgo.
A noite foi realmente boa, eu sentia falta de casa — Deles.
— e eu me senti bem em poder ser eu mesmo, ainda receoso com
algumas coisas, mas feliz em estar ali, feliz em ter a minha garota
favorita em meus braços durante a noite toda e, especialmente feliz
em poder me despedir de todos os nossos amigos na porta do
apartamento da mulher que eu amo e ficar ali com ela.
Estávamos só nós dois. Era duas da manhã e muitas
cervejas estavam em nosso organismo, pensei que talvez fôssemos
ter uma noite quente com muito sexo durante a madrugada, mas
tudo o que a Katelyn fez após tomarmos banho — separadamente
— foi me chamar para deitar de conchinha com ela. Nunca pensei
que eu fosse amar conchinha, mas sendo com ela, eu amava.
Ficamos deitados, por longos minutos em completo silêncio.
— Seu cabelo ainda estava um pouco molhado do banho, mas eu
não me importava de sentí-lo em mim.
— Mingus?
— Sim?
— Eu amo você.
Nossos corpos estavam colados na conchinha perfeita,
nossas respirações ficaram ofegantes após essa confissão, porque
era notório que sempre ficaremos nervosos ao confessarmos nosso
amor porque foi uma grande luta para chegarmos até esse
momento, e era visivelmente nítido a necessidade que
precisávamos um do outro.
A apertei com mais força.
— Eu amo você. — respondi.
— Você sabe que eu te conheço como ninguém, certo? —
perguntou. Me mantive quieto, esperando o que estava por vir nessa
conversa. — Eu sei desde antes que você está preocupado com
algo e cheguei a pensar que fosse sobre Thomas, mas vocês se
resolveram e tudo estava ótimo entre nós seis, então eu te pergunto
agora… O que está passando na sua cabecinha?
Tyler. — pensei. — Apenas o fato de que você se envolveu
com a única pessoa que eu imploraria para nunca se envolver.
— Não estou pensando em nada. — minto.
— Mingus? Eu te conheço.
— Por favor, querida. — digo. — Falemos sobre isso
amanhã, pode ser?
— Não, não pode. — falou. — Eu quero resolver tudo hoje,
eu não quero pensar que amanhã talvez você me deixe.
Meu peito apertou. — Ela ainda estava insegura.
— Querida, não tem nada a ver com isso. — falei. — Eu te
prometi ficar, certo? Eu ficarei.
— Mas você está estranho. — disse. — Está tudo bem e de
repente você fica sério, pensativo e eu temo que isso seja algum
sinal de dúvida, algum sinal de que você possa voltar atrás.
— Não é. Eu prometo.
— Então sobre o que é? — perguntou. — Sobre o que é?
Não é sobre nós? Não é sobre Thomas? É sobre o que?
— Katelyn…
— É sobre Tyler?
Novamente, nunca soube disfarçar. Meu olhar entrega tudo.
Engoli em seco.
— Acertei. — disse, virando-se de frente para mim. —
Mingus, eu já disse antes mas direi outra vez, não significou nada
para mim.
Me mantive quieto.
— Hoje somos apenas amigos e…
— Vocês não são amigos. — a interrompi.
Era por isso que eu não queria conversar agora. Eu não
conseguiria ficar quieto, eu não conseguiria ignorar o fato de que ele
é perigoso e, eu nunca iria permitir que ela ficasse nesse trabalho.
— Nós trabalhamos juntos e temos uma relação bacana e…
— Katelyn, não. — a interrompi outra vez. — Você não deve
se aproximar dele. Nunca mais.
— Por que você está tão sério? — perguntou analisando
cada detalhe do meu rosto.
Eu estava sério porque meu peito ardia de medo.
— Me conte o que diabos está acontecendo. O que
acontece entre vocês dois? Por que eu não posso me aproximar
dele? De onde você o conhece?
— Apenas confie em mim. — digo.
— O que você está me escondendo, Mingus?
— Katelyn..
— Eu não deixarei o meu trabalho, eu não deixarei o
contato com ele, até que você me diga a verdade.
— Eu apenas não quero que você trabalhe com quem já
transou. — minto.
Ela parece acreditar nos primeiros segundos em que falei,
mas realmente ela me conhece bem o suficiente.
— Você não é assim. — diz. — Não é isso. Me diz a
verdade logo. Por que você está tão nervoso sobre isso? Por que
devo deixar meu trabalho? Por que você perdeu a paciência com ele
e o socou? Por que você quer que eu deixe meu trabalho?
— Não faça isso, Katelyn. — falei. — Por favor.
— Me diz a verdade.
— Não.
— Você nunca esconde coisas de mim, Mingus. — diz. — O
que no mundo acontece entre vocês dois para que você não possa
me dizer o que tá acontecendo? Não me deixe no escuro, ou eu
terei que perguntar diretamente a ele.
— Não. — aumentei minha voz. — Não fale com ele. Ele te
mandou mensagem ou te ligou nesse meio tempo?
— Eu não responderei a nada até você me dizer o que está
acontecendo.
Droga Katelyn! Por que você tem que ser tão teimosa? —
pensei.
— Tyler é o meu traficante. — disse engolindo em seco.
— O que?
Sua reação foi um tanto peculiar. Pareceu confusa e triste,
mas não surpresa.
— Ele vende drogas? — perguntou. — Mas pra que? Seu
pai tem tanto dinheiro.
— Ele está nesse meio apenas por diversão. — digo.
— Me conte tudo.

— Então me prometa que você não terá mais contato com ele.
— Não posso prometer isso, tem a empresa no meio e meu
trabalho e..
— Então não posso contar mais nada. — joguei sujo. —
Desculpe.
— Me conte.
— Não antes de você me prometer.
— Eu preciso saber das coisas para tomar minha decisão
final. — ela jogou ainda mais sujo.
— Desculpe, meus termos. — falei. — Você vai prometer?
— Eu terei que sair do trabalho? — perguntou, seu
semblante estava triste.
— Isso inclui não ter mais contato com ele.
— Eu não posso prometer, Mingus.
— Então não contarei nada.
— Eu gosto do meu trabalho e o pai dele é alguém diferente
dele…
— Não. — falei. — O pai dele é tão ruim quanto.
— Por favor, me conte.
— O Tyler não é uma boa pessoa como você pode pensar
ou como ele mesmo dá a entender que é. — falei. — Existem
milhões de fato para isso, e além de todos os fatos, ele é o meu
fornecedor de drogas.
— Foi assim que se conheceram?
— Nos conhecemos há muitos anos. — respondi. — Eu o
conheci no colégio e o Tyler foi o garoto que me apresentou esse
mundo, quando nos conhecemos ele rapidamente me ofereceu um
cigarro e eu aceitei, porque estava frustrado com a Helena e eu e
ele acabamos virando amigos nesse momento confuso da minha
vida.
— E o Thomas?
— O que tem ele?
— Aonde ele estava nisso?
— No lugar de sempre, mas eu ainda relutava contra essa
irmandade que criamos e por isso acabei passando uma boa parte
dessa fase andando com o Tyler e me enfiando em confusões. Mas,
o Thomas nunca gostou dele, na verdade, sempre me dizia para eu
me afastar, e claro que eu não o escutei, porque eu vivia
erroneamente e acabei começando a frequentar as mesmas festas
que ele e o chamando às vezes para comprar algo.
— E hoje você foi na casa dele para…
— Devolver as coisas dele que estavam comigo. — a corto.
— Eu não quero mais contato, não quero mais esse mundo, mas eu
fiquei tão assustado ao te ver ali dentro, meu coração simplesmente
parou por alguns segundo e eu posso jurar que tudo o que eu queria
fazer era te arrancar dali.
— Por que você não me contou antes? Por que você me
deixou ir até a empresa do pai dele e…
— Eu não sabia. — a cortei outra vez. — Eu juro por Deus
que eu não sabia que o pai dele era o dono da empresa onde você
iria entrar, se eu soubesse eu teria te avisado, eu teria feito algo, eu
teria te impedido, eu teria feito qualquer coisa para que você não se
envolvesse com ele e sua família…
— Você não sabia? — arqueou a sobrancelha. — Mas você
conhece o Tyler desde a época do colégio, deveria saber sobre o
seu pai ter uma empresa.
— Eu conheço o Tyler, não a sua família. — falei. — Ele
sempre se recusou a falar sobre seu pai, nunca me contou sobre o
ramo que era a empresa de sua família e eu nunca vi seu pai ou
qualquer um que seja de sua família. Eu sei que o Tyler tem
dinheiro, eu vi ele fazer muita coisa com o poder aquisitivo que tem,
vi ele se safar de coisas que não deveria ter se safado só por ter
grana, mas eu nunca soube de onde vinha, até pesquisei para tentar
localizar a fonte, mas nunca encontrei. Na verdade, sempre acreditei
fielmente que a empresa que o Tyler sempre se vangloriou do pai
ter, é uma empresa fantasma para lavagem de dinheiro, porque
sinto que há muita maldade entre os dois, muita ganância.
— Até no seu pai? — perguntou.
— Eu acredito que sim. — respondi. — Mas eu realmente
não quero te envolver nisso.
— Acho que já estou envolvida o suficiente, não? —
ironizou. — Eu trabalho nessa empresa e me envolvi com o Tyler,
não tem como eu não estar envolvida em algo se claramente já
estou, Mingus.
— Katelyn..
— Você tem certeza de que a empresa é uma lavagem de
dinheiro? — me cortou. — Os números são ótimos e temos um bom
retorno.
— Eu não tenho provas disso, mas eu sinto que é como se
ele tivesse criado personagens para ser um empresário para
esconder o que acontece por trás e acabou dando sorte nesse
ramo.
— Você acha que ele está envolvido com drogas também?
— Tyler é um distribuidor dos grandes. — falei. — Eu tenho
certeza que o seu pai está ciente disso, impossível não estar. Esse
senhor sabe o que seu filho faz e inclusive já pagou fianças para
tirá-lo da cadeia em alguns casos graves. Forçar o garoto a
trabalhar na empresa é apenas para dar uma boa impressão e
passar a imagem de que não estão envolvidos em tanta merda por
aí.
— Você não tem certeza se ele sabe que Tyler está
envolvido com drogas, então no que ele poderia mexer?
— Eu tenho certeza que o seu pai está envolvido com as
drogas, Katelyn. — digo. — Mas eu suspeito de outras coisas.
— Que coisas? O que mais você acha?
— Tráfico de armas.
— Por que você acha isso?
— Por apenas… Razões. — dou de ombros. — Não vamos
entrar nesses detalhes.
Eu tenho certeza que o pai de Ty está envolvido com tráfico
de drogas e também tráfico de armas na cidade, porque uma vez,
sob muito efeito de álcool o moreno me mostrou a sua arma e disse
que o seu “velho” quem trouxe para ele, até contou que tinha outras
em casa que o seu pai acabava lhe entregando para que ele.
Por isso eu tinha a exata certeza que seu pai era um dos grandes
da cidade. Envolvido com coisas pesadas.
Katelyn parecia assustada. Completamente assustada. Eu a
trouxe para mais perto.
— Tem mais alguma coisa? — perguntou olhando em meus
olhos.
Devo contar tudo? Devo ser sincero sobre todas?
— Não esconda nada de mim. — disse.
— Está bem.
Contei sobre quase tudo. — Contei sobre as ameaças que
ele me fez, contei sobre as drogas que comprei e o ajudei a
distribuir pela cidade, contei sobre o que ele me disse mais cedo e a
razão pela qual eu perdi a paciência e parti para cima dele. Contei
sobre os acidentes em que se envolveu, contei sobre suas más
atitudes com garotas, contei sobre tudo. — Ou quase tudo. Eu
escondi sobre o meu maior medo, escondi sobre o acidente que eu
fiz falso testemunho para ajudá-lo, escondi que fui covarde de
encarar a verdade e me entregar ao juiz para que ele pudesse pagar
pelo o que fez, escondi que ele ameaçou a vida do meu melhor
amigo para me manter em silêncio.
Eu estava literalmente uma pilha de nervos. Não queria ter
contado nada, não queria ter dito sobre o tráfico, sobre o seu pai ou
sobre qualquer merda que envolvesse o Tyler, mas eu não posso
deixá-la continuar naquela empresa, eu não posso permitir que ela
fique perto dele, porque eu sei que ele é capaz de qualquer coisa.
— Então por favor, por favor, saia daquela empresa, não
volte nunca mais pra lá, nem para buscar as suas coisas, porque
podemos pedir que alguém as entregue para você, podemos ir
buscar no estacionamento, eu vou com você e…
Ela me abraçou. O abraço durou tempo o suficiente para
que eu sentisse suas lágrimas sobre meu corpo. — Por que ela
estava chorando?
— O que foi, querida?
— Eu realmente gostei de Tyler, como um amigo. —
murmurou. — Realmente pensei que fôssemos amigos.
Engoli em seco.
— Eu sei que pode parecer um absurdo, mas nós éramos
bons colegas, bons amigos. — continuou. — Não estou dizendo
sobre o nosso curto envolvimento, porque isso me dá arrepios
agora. Mas, eu realmente acreditei que ele fosse bom.
Sempre fui alguém destemido. Costumo dizer que minha má
reputação nunca me deixou temer ninguém, nem mesmo meus
genitores, mas era diferente com Tyler. Sua existência fria e maluca
me deixava com arrepios, eu vivia constantemente com medo
quando algo se tratava desse garoto. Thomas sempre dizia que era
porque eu sabia que tinha feito algo errado — o falso testemunho —
e que era a minha consciência que me deixava culpado e intrigado,
mas eu verdadeiramente penso que o que me dá arrepios é saber
que mesmo após matar um civil inocente, Tyler continuou sua vida
como se nunca tivesse feito nada de errado e se esquivou de pagar
o mínimo para isso.
A família do senhor que ele fatalmente tirou a vida no
acidente é pobre, precisa de ajuda e assistência e ele nunca os
ajudou. Que tipo de ser humano lúcido é ele? Que tipo de alma é
essa?
A forma como ele me disse certa vez que já havia matado
alguém e que para matar outro não precisava de muito, a forma
ameaçadora que ele diz, a forma fria… Eu acredito que ele é capaz
disso. Eu sinto que ele é capaz de destruir o mundo para conseguir
o que quer e, é por essa exata razão que mesmo eu, Mingus Carter,
que nunca temi nada nem ninguém, sentia calafrios ao se tratar de
Tyler Collins.
Eu estava em pânico. Em pânico porque além de tudo, Katelyn
realmente estava infeliz com o que eu havia acabado de contar.
— Eu sinto muito. — murmurei.
Seus olhos estavam marejados.
— Não entendo porque estou tão triste. — disse. — Mas me
sinto triste.
— Tudo bem, KitKat. — falei forçando um sorriso.
— Sinto que fiz amizade com uma farsa. — continuou. — E
o que eu faço agora? Eu gosto do meu trabalho. Eu gosto da
empresa. Eu gosto das pessoas. E todas aquelas pessoas lá? Eles
sabem? Não devem saber. O que eu faço?
— Você sai da empresa. — falei.
— E todos lá?
— Deixe-os lá. Desde que eles não saibam sobre Tyler e
sobre o seu pai, nada acontecerá com eles.
— Não podemos deixar uma empresa fantasma em pé. —
disse. — Eu sou jornalista, como posso..
— Não. — a interrompi. — Você não vai investigar eles,
você não vai se meter nisso, você não vai fazer nada que envolva
essa família.
— É o meu trabalho.
— Não, Katelyn. — aumentei minha voz. — O seu trabalho
agora é apenas sair do meio dos Collins.
— Se a empresa é uma empresa fantasma, precisamos
provar e fechá-la. — disse. — Se eles estão envolvidos com coisas
erradas, eu preciso mostrar isso ao mundo para que eles possam
pagar pelo…
— Não. — aumentei ainda mais a minha voz. — Você não
vai.
— Eu não posso abrir mão disso, Mingus! — se levantou. —
É o meu trabalho, eu preciso expor eles para que possam pagar
pelos erros que fazem. Traficar drogas, traficar armas, abrir uma
empresa fantasma…
Eu me levantei também. Meu peito estava doendo.
— Você não vai se meter nisso. — digo, dessa vez um
pouco mais calmo. — Você não tem permissão para isso. Eles são
perigosos e…
— Mingus, eu não vou…
— Não! — gritei. — Eu já disse que não. Se você continuar
insistindo sobre isso, nós vamos brigar feio.
E brigamos.
A briga parecia não ter fim. Eu dizia que ela não iria se
meter nisso, eu dizia que ela não tinha permissão para se envolver
com isso e ela dizia que quando se formou jurou que assumiria o
seu compromisso com a verdade, com a informação de empenhar
todos os seus atos, palavras e esforços para o conhecimento de
uma nação consciente e não sei mais o que. Continuamos brigando
e eu me levantei para ir embora por duas vezes, mas ela não
permitiu que eu fosse.
Foram quase duas horas de briga, nós quase terminamos o
que havíamos começado hoje e tudo isso porque eu estava
tentando protegê-la de algo e, acabou que ela cedeu. — Tive que
apelar e dizer que se ela estivesse com a intenção de investigar
essa história eu iria deixá-la e mudar para a cidade de John.
Confesso que eu não deveria ter usado a sua insegurança sobre
nós dois para parar-lá, mas eu estava desesperado.
Grandes atos são feitos sob o desespero, mas é necessário estar
disposto a enfrentar os impactos que isso resultará. Eu aguentaria
qualquer impacto para deixá-la em segurança.
Tive enfim a sua promessa de que ela não iria se envolver
nisso e finalmente voltamos a ficar em paz e agora ela estava
dormindo em meus braços.
— Minha doce menina. — suspirei acariciando seus
cabelos. — Você é a coisa mais preciosa de todo esse universo e eu
não posso arriscar te perder. Eu sei que você está certa em tudo o
que me falou, sei que deveríamos mesmo acabar com essa
empresa fantasma e essa família maldita que não tem
absolutamente nenhuma compaixão e já destruiu a vida de uma boa
família e nem sequer se preocupam em ajudá-los, mas eu não
suportaria te envolver nisso. Eu fui envolvido involuntariamente e me
sinto culpado e quebrado sobre isso até hoje, tão culpado que
nunca nem consegui falar sobre isso na terapia, porque é como se
essa verdade que eu escondo, fosse o maior arrependimento da
minha vida, porque me sinto cúmplice. — respiro fundo. — Eu estou
arrasado. Estou arrasado porque sei que você se sente triste, estou
arrasado porque sei que você se sentirá impotente sobre esse caso,
estou arrasado porque sinto que falhei constantemente em tentar te
proteger. Eu deveria saber que Tyler Collins era o filho do seu chefe,
eu deveria ter estudado a empresa em que entrou trabalhar, eu
deveria ter visto quem era as pessoas que você estava conhecendo
e andando por aí, eu deveria ter protegido você de se aproximar de
alguém como ele.
Meus olhos marejaram.
— Eu me atrasei. — continuei. — Me atrasei para procurar
ajuda, para conseguir voltar, para conseguir permanecer ao seu lado
e por essa razão você o conheceu, você se aproximou, é minha
culpa. Eu deveria ter cuidado de você. Eu sinto muito, minha
menina, eu sinto muito. — suspirei. — Eu prometo que acharei um
jeito de lidar com eles, eu te prometo que você achará um bom
emprego, nem que eu tenha que falar com a Helena para ela te
recomendar os contatos que tem, eu prometo que tudo vai ficar bem
desde que você cumpra a promessa que fez a mim, desde que você
não se envolva.

Katelyn pediu demissão na segunda-feira. Enviou um e-mail


ao RH e quando questionada disse que tinha recebido uma nova
proposta e disse que pagaria o aviso porque não poderia cumprir
por ter que começar na nova empresa. Suas coisas foram
empacotadas e buscamos na casa de Rafaela, sua colega de
trabalho.
Tyler mandou inúmeras mensagens e fez muitas ligações para ela,
que recusou todas e acabou bloqueando seu número. — Confesso
que ela ter bloqueado ele fez com que eu me sentisse mais calmo,
até hoje a noite.
Demorou uma semana desde a demissão de Katelyn para
que ele aparecesse me ligasse. Acho que demorou um tempo para
processar que talvez tenha sido minha culpa ela ter saído da
empresa. — Pensei em não atender, mas meu medo dele fazer algo
pessoalmente para Katelyn, Thomas ou qualquer um dos meus
amigos era maior do que o medo de falar ao telefone com ele.
“Alô” — atendi.
“Foi você, não foi? Mingus eu te avisei que se você…”
“Do que você tá falando?” — o cortei.
Tentei manter minha voz séria e alta.
“Não se faça de bobo, eu sei que foi você quem falou merda
de mim para a Katelyn e a fez sair da empresa.”
“Eu não contei nada”
“Você está brincando com fogo, Carter.” — disse ele, me
fazendo engolir em seco.
“Eu não falei nada para ninguém.”
“Fica esperto, Carter. Você fica tão preocupado com aquele
seu melhor amigo e com essa garota, que eu de você, não sairia de
perto deles. Afinal, você sabe que eu tenho muitos amigos por aí,
né? Eu ficaria esperto se fosse você. ”
A ligação se encerrou.
O que eu supostamente deveria fazer agora? Eu estava
paralisado de medo.
Pensei em telefonar para a Katelyn e ir até ela, mas hoje era
a noite das garotas na casa da Lily e ela provavelmente estava se
arrumando para isso ou já estaria a caminho e eu apenas a deixaria
nervosa se eu ligasse. Então, liguei para Thomas.
“Oi irmão. Ia mesmo te ligar, como as meninas vão se ver
hoje e é sexta-feira que tal você vir aqui? Vou chamar o Chris
também”
“Tyler ameaçou a Katelyn” — foi a primeira coisa que eu
disse.
“Onde você está?” — pude sentir o peso de sua voz e sua
respiração.
“Meu apartamento.”
“Estou indo.”
Thomas não demorou trinta minutos para estar aqui. Eu
continuava paralisado de medo, estagnado no mesmo lugar desde
que a ligação com Tyler se encerrou.
Repeti as palavras que ele havia me dito no telefone para o meu
melhor amigo e vi que seu olhar escureceu de medo.
— O que eu faço? — perguntei. — O que eu devo fazer
agora?
— Você acha que ele realmente faria algo?
— Eu não sei. — desabei no sofá. — Mas eu não duvido. O
que eu faço? O que eu devo fazer?
Há muito tempo eu não me sentia tão desesperado como
agora. Há muito tempo eu não sentia meu peito doer como hoje.
Talvez eu não conseguisse passar por isso de forma madura, talvez
eu não conseguisse respirar.
— Em primeiro lugar, se acalme. — disse Thomas, tentando
manter a calma. — Não sabemos se ele realmente fará algo, às
vezes ele só jogou essa para te amedrontar. Ele ficou uma semana
sem dizer nada, porque apareceu logo agora?
— Eu fico sentado esperando? Eu fico quieto? Eu digo
algo? Eu faço algo?
— Você redobra a atenção. — diz. — Você não vai ficar
sentado esperando, mas não vai correr atrás do problema. Nós
vamos redobrar a atenção, vamos acompanhar as meninas em
todos os lugares e vamos pedir que elas sempre compartilhem as
localizações conosco.
— Eu não vou contar para a Katelyn. Não posso contar para
ela porque ela não ficaria quieta e…
— Tudo bem. — me cortou. — Não precisamos contar as
meninas, vamos apenas redobrar nossa atenção e dizer que
estamos pedindo as localizações por precaução.
— Katelyn não é boba.
— Eu sei que não, mas ela sabe que você estava com
medo, você pode alegar isso e não dizer que esse lunático te
ameaçou.
— Thomas, eu juro que se esse cara encostar a mão na
Katelyn, eu não hesitarei em…
— Ele não vai. — me cortou outra vez. — Ele não vai
encostar a mão nela.
Foi um árduo processo para me acalmar. Na verdade, essa
foi a primeira vez que de maneira alguma eu me acalmava e tive
que entrar em contato com a doutora Isabela.
Thomas ligou para ela, conversamos cerca de trinta minutos
por ligação e aos poucos eu fui me acalmando. Eu não disse o que
de fato estava me preocupando, porque isso era demais para o
momento, mas contei que estava preocupado que algo pudesse
acontecer à Katelyn e com o passar dos minutos, fui me acalmando.
Quando desligamos, Thomas estava ao meu lado com uma lata de
refrigerante e um pacote de salgadinho. — Ele assaltou minha
geladeira.
— Falei com a Lily, as meninas já estão lá e elas não vão
sair, apenas assistir um filme e vão dormir juntas hoje. Combinei de
amanhã irmos buscar elas para almoçarmos fora. — disse,
entregando os itens para mim. — Acabei de chamar o Christopher
para vir aqui jogar, acho que podemos passar a noite aqui também,
você tem bastante refrigerante e bastante salgadinhos.
— John comprou. — dei de ombros.
— Ele foi embora quando?
— Na segunda-feira. — respondi. — Eu passei o final de
semana na Katelyn e quando cheguei domingo à noite aqui ele já
estava com as malas prontas. Disse que precisava voltar para casa
e que já tinha visto o essencial na empresa, até me pediu para voltar
a trabalhar lá quando eu quisesse, que estaria ansioso por isso, mas
eu disse que iria pensar. Ele também me garantiu que voltaria daqui
quinze dias, colocou na cabeça que deve vir a cada quinze dias
para me ver.
— E Helena?
— Ainda não consegui. — murmurei. — Ainda não consegui
encará-la.
— Tudo bem, tudo no seu tempo. — sorriu.
Acho que eu estava mais calmo. Gostaria que a vida fosse
tranquila, gostaria de sempre estar ao redor de todos os meus
amigos e cercado de felicidade. A felicidade caía bem para mim,
mas eu ainda sentia que ela era momentânea, eu ainda sentia que
ela era incapaz de durar.
Isabela costuma dizer que tenho essas sensações de que algo ruim
acontecerá em seguida porque tive uma infância difícil, mas eu
certamente penso que é porque minha vida, por mais que eu tente
mudar e melhorar, foi fadada à destruição desde que nasci.
CAPÍTULO 32
Katelyn
Estávamos em paz. Uma semana após eu pedir demissão
da empresa, Mingus ficou viciado em me pedir localização em
tempo real e se eu demorasse para respondê-lo por cerca de vinte
minutos, me ligava para que pudesse se certificar de que eu estava
bem. Ele me garantiu que nada aconteceu, que estava apenas
preocupado, mas eu o conhecia o suficiente para saber que com
certeza Tyler havia lhe enviado alguma mensagem, já que para
mim, ele enviou diversas até ser bloqueado.
Passou um mês desde que encerrei minhas atividades na
empresa dos Collins e passamos esses dias em repleta paz e
harmonia, mesmo tendo que o atender e compartilhar minha
localização. Voltamos a fazer nossos programas habituais que é nos
encontrar com nossos amigos e também começamos a fazer coisas
de casais. — Cinema, jantares, assistir filmes agarradinhos. Eu
verdadeiramente estava vivendo um sonho com ele e eu esperava
que essa paz nunca terminasse.
Durante esse tempo, conheci John. Ele veio pra cá na semana
passada e a doutora Isabela disse ao Mingus que seria interessante
eu o conhecer e assim, fiz.
Ele é um homem comum, como todos os outros, seu olhar para o
loiro demonstra amor e afeto, mas eu ainda tinha um pé atrás com
ele por ter se calado por tantos anos e feito o meu menino sofrer. —
Confesso que no dia em que o conheci, senti um pouco de ciúmes,
na verdade, não sei se a palavra “ciúmes” está certa, porque eu
apenas fiquei um pouco triste de não ter o meu pai presente em
minha vida, sei que sou bem resolvida com isso porque tive
Elizabeth, mas às vezes, em momentos sensíveis eu penso que
gostaria de tê-lo em minha vida e quando esses momentos
(geralmente na TPM) passam, volta a ficar tudo bem. Acho que isso
acaba sendo normal para alguém que nunca teve um pai presente.
Sentir saudades de algo que nunca teve e ao mesmo tempo estar
bem sem ter isso.
Mingus e eu estávamos bem. Surpreendentemente bem.
Vivíamos grudadinhos e cheios de amor. Lily e Thomas também.
Sarah e Christopher, nem se fala! Outro dia até brincamos sobre
quem de nós se casaria primeiro ou teriam filhos primeiro, claro que
apostamos todas nossas fichas em Sarah e Chris, porque Lily e
Thommy estão vivendo uma lua de mel. — assim como eu e
Mingus, mas eu me sentia culpada. Me sentia culpada por mentir
sobre uma coisa, me sentia culpada porque desfiz uma promessa.
Cerca de oito dias atrás me encontrei com a Rafaela que
trabalhou comigo na empresa dos Collins e contei que eu gostaria
de investigar a empresa porque eu tinha algumas dúvidas. Eu senti
que poderia confiar nela e por essa razão ela trouxe Laura, sua
namorada, para me
ajudar. Laura era formada em tecnologia e íamos tentar
acessar os e-mails e mensagens que Daniel e seu filho Tyler,
recebiam. — Eu informei que isso poderia ser perigoso, mas a Rafa
diz que sentia algo estranho na empresa e topou. Isso é um segredo
que não contei nem para a Lily, porque o Mingus jamais poderia
sonhar que eu desfiz nossa promessa e estava investigando-os.
— O que quer fazer depois de ver o pôr do Sol? — o loiro
me cutucou.
Estávamos sentados na grama do lago dos Sonhos. — Um
dos meus momentos favoritos em casal era justamente esse.
— Comer. — digo sorrindo. — Estou com fome.
— E qual será nosso cardápio de hoje?
— Pizza de frango com catupiry. — respondi sorrindo. — Eu
imploro!
Ele sorriu passando sua mão delicadamente sobre meus
cabelos.
— Você quem manda, querida. — disse com um sorriso nos
lábios.
Eu o puxei em um beijo.
Contemplar o pôr do Sol sempre foi uma das minhas coisas
favoritas da vida, eu costumava fazer isso de casa juntamente com
Elizabeth e quando a perdi não via mais a beleza que costumava
ver no céu e isso me entristecia, porque além de sempre gostar
disso, era também a nova casa da mulher que eu mais amei na
vida, minha avó. Mas, eu simplesmente não conseguia admirá-lo
com a mesma preciosidade de antes, mas Mingus trouxe isso de
volta para mim. Ele costuma dizer que eu fui aquela que
ressignificou o amor para ele, bom, para mim, ele é aquele que
ressignificou a beleza de tudo outra vez.
Estamos com nossos fones sem fio conectados em seu
celular e começou tocar uma música que eu amava. — I get to love
you (Ruelle).
Me aproximei um pouco mais dele.
— Eu quero dançar essa música com você um dia. —
murmurei.
— Por que não agora? — perguntou sorrindo.
Mingus se levantou e esticou a mão para que eu me
apoiasse nele e me levantasse também.
— O que está fazendo? — ri enquanto segurava em sua
mão para me levantar.
— Katelyn Annie Campbell, me concede essa dança?
— Você está doido? — rio nervosa. — Está lotado de
pessoas.
— Que todos sejam nossas testemunhas. — deu de
ombros.
— Você tem certeza de que não se importa? — perguntei
sem jeito.
Sempre pensei que Mingus nunca faria qualquer ato de
demonstração de afeto em público, mas me puxar para uma dança
no meio do lago dos Sonhos repleto de pessoas, era uma
demonstração.
— Agora eu só me importo em tê-la em meus braços. —
disse.
Iniciando a música outra vez, ele me agarrou pela cintura e
me puxou para perto. Começamos a dançar conforme a melodia, e
eu estava olhando para os seus olhos azuis, era como se o céu
refletisse neles, não pela cor, mas pela paz e tranquilidade que eu
sentia nesse momento, pelo amor que eu sentia em cada passo e
pela iluminação do sol que batia em nós fazendo-o parecer ainda
mais bonito.
Eu sentia ele completamente rendido à esse momento, cada passo,
cada movimento, nossas almas estavam presentes, nossas almas
sedentas de amor, do nosso amor.
Tudo estava perfeito. Essa música havia se encaixado
perfeitamente para esse momento, para o nosso amor, porque eu
certamente seria para sempre dele. — nesse momento eu
acreditava fielmente que Deus, os céus e o universo planejaram
nosso amor.

A música estava no fim e então, minha frase favorita tocou. Nos


exatos três minutos e doze segundos da canção.
“Dizem que o amor é uma jornada
Prometo que eu nunca irei embora
Quando estiver tudo muito difícil
Lembre-se deste momento comigo”
Nossa jornada não foi nada fácil, mas eu diria que foi épica
e eu certamente nunca iria embora e por toda a minha existência me
lembraria desse momento. Nós dois, dançando no lago dos Sonhos,
com pessoas desconhecidas como nossas testemunhas e o céu.
A música terminou, mas nossos corpos ainda estavam
colados e se movendo. Mingus estava com os braços em volta de
mim, ele conduziu à dança e ainda nos conduzia agora, notei que
ele estava observando meu olhar.
— Me pergunto onde estão seus pensamentos agora. —
murmurou.
— Em você. — respondi. — Meus pensamentos sempre
estiveram em você.
Mingus sorriu.
— E no que está pensando?
— Em como sou grata por você estar aqui, em como sou
grata por você ter lutado contra tudo o que passava em sua
cabecinha e, estou pensando que você é digno do amor.
Seus olhinhos brilharam.
— Como é possível tamanha felicidade dentro de mim? —
perguntou olhando em meus olhos. — Eu nunca pensei que sentiria
algo tão bom como isso.
— Eu sempre sonhei com esse dia. — digo.
— Katelyn Annie Campbell sonhava comigo? — perguntou
rindo.
— Pior que sim. — ri de volta. — Sonhava demais.
— Me sinto honrado. — riu.
— E você? — perguntei. — Sonhava comigo?
— Sempre. — respondeu sorrindo. — Eu sempre acreditei
que o destino estava por trás da nossa história, porque tamanho
amor era o que nos unia. Mas, eu apenas me sentia confuso se
éramos destinados a ficar juntos eventualmente ou amaldiçoados
para apenas desejar um ao outro por toda nossa vida e não
ficarmos juntos. Na verdade, eu sempre pensei que fosse a segunda
opção, porque nunca tive esperanças sobre ser alguém que você
poderia amar ou que poderia amar um coração como o seu.
— E você é o único. — digo. — Eu tenho a certeza de que
o meu coração escolheu você há muito tempo, nossas almas
certamente se reconheceram nessa vida porque eu sinto que eu te
amei em outras vidas e eu sei que te amarei em todas que vier.
Ele estava emocionado. E eu também.
— Não acredito que lutei tanto tempo contra esse
sentimento. — disse. — Eu sinto muito por ter demorado tanto. Eu
sinto muito por ter desistido de nós tantas vezes quando você não
desistiu nunca.
Eu sorri. — Nesse momento, nossos corpos pararam de se
mover como em um movimento de dança. Estávamos apenas
parados bem próximos e nos olhando com amor.
— Eu não mudaria absolutamente nada em toda a nossa
história se isso significasse que estaríamos bem aqui, nesse
momento. — falei. — Obrigada por ter sido corajoso e ter desafiado
seus próprios medos internos apenas por mim.
— Eu faria qualquer coisa por você. — respondeu.
— E eu por você. — falei. — Nem acredito que a vida pode
ser tão feliz assim.
— Felicidade é você.
— Felicidade é nós dois.

Dois meses de tranquilidade se passaram. Mingus e eu


estamos vivendo uma lua de mel estendida. Não brigamos, não
discutimos e não nos desgrudamos — exceto no horário em que ele
começou a trabalhar de período integral na empresa de John, que
ainda vem o visitar a cada quinze dias e sobre Helena... Mingus
ainda não conseguiu vê-la ou falar com ela. A doutora Isabela diz
que cada um tem um tempo para lidar com o seu processo de dor e
que para ele foi nitidamente muito complicado descobrir que sua
mãe além de ter dito todas aquelas palavras árduas que destruíram
sua infância e sua vida, também foi a pessoa que afastou seu pai de
sua vida e, embora ele reconhecesse o fato de que tudo o que
aconteceu foi por conta de sua doença, ainda era difícil não culpá-la
por tudo o que isso proporcionou em sua vida.
Mingus sempre se recusava a falar por muito tempo sobre isso, até
mesmo na terapia se esquivava sobre o assunto “Helena” e focava
em outras coisas, mas em algumas conversas que tivemos sobre
isso, ele me dizia que estava tentando perdoá-la, mas que sempre
que pensava que poderia ir até ela para conversar, sua cabeça o
sabotava e ele pensava que ela ao menos deveria ter procurado por
ajuda por amor a ele e que se não fez isso, é porque não o ama. —
Sempre tento o aconselhar da maneira que posso, mas confio que a
doutora Isabela esteja fazendo um ótimo progresso com o meu
menino, porque eu o sinto mil vezes mais maduro e mais consciente
de quem és do que quando voltou e principalmente muito mais do
que antes de iniciar seu tratamento.
Seu remédio para dormir havia sido diminuído a dosagem, costumo
brincar que é porque estávamos dormindo muitos dias juntos e eu
era o seu verdadeiro remédio, mas quando falamos sério eu digo
que tudo isso é mérito dele por estar realmente empenhado em
melhorar, mas ao mesmo tempo ele também tem medo de ficar sem
o remédio porque diz temer voltar ao que era, mas eu sempre digo a
mesma frase para ele: “Há dias e dias, mas não há regressão.”.
Acho que ele entendeu isso, eu espero que ele tenha entendido.
Nesses dois meses estamos mais próximos, mais
conectados e mais apaixonados. Nunca pensei que fosse possível o
amar ainda mais, mas a cada dia que passo ao seu lado me
apaixono um pouco mais. — Conheci um lado de Mingus nesses
sessenta dias que nunca pensei que existia. Um lado fofo, carinhoso
e completamente apaixonante. Eu me acostumei acordar ao seu
lado quase todos os dias, me acostumei a ser ainda mais mimada e
receber café da manhã na cama com direitos a bilhetes escrito a
mão ou a ter meus batons estragados porque ele deixa escrito “eu
te amo” no espelho do banheiro após tomar um banho. Acostumei a
ter o calor do seu corpo no meu a noite, acostumei a ver filmes que
eu achava idiotas e ruins porque ele gosta, acostumei a receber
mensagens como “não esqueça de almoçar” ou “não esqueça seu
remédio” durante um dia corrido, acostumei a contar sobre meus
planos e vê-lo ficar empolgado comigo, acostumei contar sobre um
livro que li e ele querer saber ainda mais do assunto do que eu,
acostumei contar algo que penso ser bobo e banal e ele me dar toda
a sua atenção para isso, acostumei compartilhar vinte e quatro
horas do meu dia com ele e por fim, acostumei a ser amada por ele
de uma maneira que qualquer garota deveria ser amada pelo seu
parceiro.
O meu amor cresceu. A cada dia crescia ainda mais, mas
eu ainda estava mentindo para ele. Hoje faz exatos três meses que
eu pedi demissão da empresa dos Collins. Eu já estava em um novo
trabalho, há cinco semanas comecei trabalhar em uma empresa da
cidade onde Mingus fez questão de investigar antes de me deixar
ingressar no meio corporativo para ver se não tinha nada a ver com
os Collins, e após ele verificar que não, comecei a trabalhar como
auxiliar de escritório — fora da minha área de jornalismo ou
fotografias, mas era o que tinha para o momento. — Antes de
começar aqui, Mingus tentou me levar para a empresa de seu pai,
mas eu realmente não queria confundir nossa relação com algo
profissional, então fiquei parada até encontrar este em que estou e
confesso estar gostando, mesmo não sendo a área especializada
em que estudei. Mas, hoje eu recebi uma mensagem da Rafaela
dizendo que a Laura, sua namorada, encontrou um email estranho
que chegou para Daniel, falando sobre descarregamento de um
caminhão em uma área não muito movimentada de nossa cidade.
Aparentemente essa descarga aconteceria daqui duas
semanas. Pedi para elas continuarem controlando os emails
recebidos e enviados e agendei em meu celular um lembrete para
me lembrar dessa descarga e do endereço, porque se esse
caminhão fosse descarregar drogas ou armas, eu poderia conseguir
alguma coisa pegando no ato e, com fotografias eu poderia fazer
uma denuncia anônima e eles seriam investigados e
consequentemente descobertos de toda sujeira.
Rafaela me contou que Tyler não estava aparecendo na
empresa há duas semanas, que ouviu boatos de que ele tinha
deixado a cidade, mas que não tinha certeza alguma disso. Por fim,
eu ainda esperava que ele pudesse estar fora da cidade, eu ainda
esperava que ele pudesse se livrar de toda essa merda que se
enfiou. — Quando Mingus me contou sobre as coisas, eu realmente
fiquei triste. Fiquei triste porque me enganei e me senti usada, fiquei
triste porque talvez o Tyler seja apenas um garoto com um pai cruel
e que não teve outra visão de vida e por isso foi para esse caminho,
porque era o que conhecia. Mas, eu jamais poderia compartilhar
esses pensamentos com Mingus, porque isso poderia ser uma
grande briga entre nós, porque ele parecia sempre assustado
quando o nome de Tyler era citado sobre qualquer coisa e parecia
acreditar que o mesmo pudesse ser completamente ruim ao ponto
de fazer algo contra nós. Eu não acreditava nisso. Ou, tentava não
acreditar. Era realmente difícil para mim acreditar que alguém no
mundo poderia ser tão cruel como Mingus pensava que ele era,
especialmente alguém com quem já convivi e compartilhei
momentos.

“Estou chegando” — Foi a mensagem que recebi de Mingus


há poucos minutos.

Não tínhamos combinado nos ver hoje a noite, eu iria ao shopping


com as meninas porque a Lily precisava de um vestido novo para
um jantar na casa dos pais de Thomas, mas um pouco antes dessa
mensagem ele me ligou perguntando se eu poderia me atrasar um
pouquinho para conversarmos e confesso que fiquei preocupada
dele ter descoberto que sigo investigando a empresa de Collins,
mas não tinha como ele saber sobre isso, porque não via meu
celular e nem meus emails para achar algo, então tentei me
tranquilizar, porque talvez ele esteja só com saudades.
A campainha tocou e eu fui com um sorriso nos lábios
atender e pronta para receber um abraço, mas tudo o que recebi foi
um sorriso rápido e forçado.
Ele descobriu? — pensei.
Fechei a porta atrás de nós quando ele entrou e o segui até
a sala. Eu já estava aflita.
— O que foi? — perguntei. — O que aconteceu?
Eu já estava esperando o pior.
— Desculpa por atrapalhar o seu encontro com as meninas.
— disse.
— O que aconteceu? — perguntei outra vez.
Mingus não disse nada, apenas me entregou o seu celular
aberto em mensagens. — Confesso que meu peito se aliviou
quando leu “Helena” no nome das mensagens. Ao menos não
deveria ser sobre o Tyler ou sobre eu ainda estar atrás de provas
para colocar Daniel Collins na cadeia.
Comecei a ler as mensagens.
“Eu preciso falar com você.”
“Eu preciso te ver nem que seja por uma última vez”
“Por favor, filho.”
“Eu estou em tratamento há tantos meses. Você me
prometeu que viria me ver quando eu voltasse ao tratamento.”
“Eu não quero começar uma nova briga, Mingus. Venha me
ver”
“Por que você é tão ruim? Por que você não me responde?
Por que você se tornou alguém tão frio e insensível?”
“Hoje eu realmente odeio você.”
Enquanto eu lia as mensagens enviadas de Helena, meu
peito foi doendo. Nunca entendi o porquê o universo entregava tais
dores ao Mingus, nunca entendi o porquê sua vida era tão pesada
que não poderia ter uma felicidade completa porque algo sempre
acontecia. Estávamos bem agora, verdadeiramente bem, por que
Helena aparecia para deixá-lo dessa forma? Seu olhar estava
devastado. Eu sei que ele estava sentindo dor. Eu sei que doeu
cada mensagem, sei que foi desesperador porque esse era o
sentimento que ele sempre disse sentir por Helena, mas conforme
fui descendo as conversas eu vi uma resposta.
“Ok. Vou amanhã cedo.” — foi a única coisa que ele enviou.
Existiam mensagens dela de cinco dias seguidos e essa
mensagem dele era a última da conversa, enviada pouco antes dele
me ligar. Eu encarei aquela mensagem e a li cerca de dez vezes e
então, olhei para ele.
— Mingus?
Ele me deu outro sorriso fraco, mas seus olhos estavam
apavorados.
— Você vai? — perguntei dando um passo à frente, me
aproximando. — Como você está?
— Eu vou. — murmurou. — Eu preciso ir.
Me aproximei um pouco mais e o envolvi em um abraço que
foi correspondido no mesmo instante.
— Como você está?
— Assustado, desesperado, apavorado? — riu fraco. —
Tudo isso e um pouco mais.
O apertei.
— Você quer que eu vá com você? Eu vou.
Ali estava. O primeiro sorriso verdadeiro que vi nele desde
que chegou. Ele me beijou rapidamente.
— Eu te amo. — disse sorrindo. — Mas acho que preciso
fazer isso sozinho.
— Você conversou com a Dra. Isabela?
— Sim. Eu liguei para ela um pouco antes de te ligar.
— E como foi?
— Eu tenho a ciência de que devo conversar com a Helena.
Contarei para o John amanhã pela manhã também.
— Estou orgulhosa.
Eu realmente estava. — penso. — Eu sabia o peso que isso
tem para ele, eu reconhecia a forma que ele deveria estar confuso e
assustado.
— Passe a noite aqui. — falei. — Vou avisar as meninas
que não poderei ir e as ajudarei por mensagem mesmo e…
— Eu te amo. — disse, após me interromper e em seguida
me beijou. — Mas hoje é o seu dia com as meninas, você não
trocará para ficar comigo.
— Mingus..
— Vou jogar com os meninos. — me interrompeu outra vez.
— E depois quando você chegar do shopping eu venho aqui. Pode
ser?
— Dessa maneira, pode. — sorri e o beijei. — Você promete
voltar? Quero dormir ao seu lado essa noite.
— Eu prometo. — me apertou outra vez.
— Eu amo você. — falei.
— Você está linda. — murmurou no meu ouvido.
Eu já estava pronta para ir ao shopping, porque ele me ligou
meio que em cima da hora para dizer que estava vindo, então eu
vestia um vestido preto que ele especialmente adorava e estava
maquiada.
— Quer que eu te leve? — perguntou. — Eu passo te
buscar quando saírem e já venho direto pra cá.
Certamente meus olhos se iluminaram, porque vi a forma
boba que ele sorriu e passou a mão sobre eles delicadamente.
— Ok. — concordei sorrindo.
Peguei a minha bolsa e descemos pelo elevador. Nossas
mãos estavam entrelaçadas por todo o caminho até o carro e eu
sentia o amor pesar entre nós. Eu o amava tanto que gostaria de
poder tirar toda essa preocupação de seu peito, eu o amava tanto
que faria qualquer coisa por ele.
Dentro do carro, minha playlist estava tocando. — Eu amava que ele
sempre cedia para mim. — Quando estacionou no shopping, relutei
em descer, porque eu sabia que o seu coração estava aflito e eu
gostaria de estar ao seu lado.
— Se divirta com suas amigas. — ele falou. — Eu estarei te
esperando, tá?
Helena e John sempre seriam o ponto fraco dele e eu
gostaria sempre de demonstrar a ele que independente de qualquer
coisa, eu sempre estaria aqui e sempre o amaria.
— Você tem certeza? — perguntei.
Ele assentiu sorrindo.
— Obrigado por tudo, minha Katelyn Annie Campbell.
Não evitei o sorriso.
— Sua. — murmurei próximo ao seu lábio.
Mingus abriu um largo sorriso e me beijou. Me beijou como
se toda a sua vida dependesse desse beijo e talvez dependesse,
talvez esse fosse um marco para nós, talvez no dia de amanhã tudo
fosse mudar.
— Me ligue para vir te buscar, certo? — murmurou.
Eu assenti. Desci do carro ainda relutante e encontrei
minhas amigas na loja em que combinamos delas me esperarem.
Escolhemos dez vestidos para Lily provar e claro, ela
preferiu o preto. — Neutra, delicada, mas sensual.
— Está linda. — disse sorrindo vendo-a.
— Nada exagerado? — perguntou.
— Claro que não! — disse Sarah. — Você está linda.
— Thomas vai babar por você. — brinquei.
Amava estar com elas. Amava a nossa amizade. Acho que
nenhuma delas tem a noção de todas as vezes em que me
salvaram. A amizade dessas duas trouxe um colorido inimaginável
para a minha vida e reconheço que em uma preposição como “se
eu existo o meu amor por elas existe” em uma contraposição seria
fácil dizer que se eu não gostasse mais delas, não seria eu, porque
meu mundo inteiro é formado por elas, Mingus, Thomas e
Christopher.
— Levarei esse. — disse a morena.
— Vai arrasar. — disse Sarah. — Agora, após você pagar,
podemos comer algo? Estou com fome!
— Podemos. — falei. — Também estou com fome.
Fomos comer no lugar favorito de Sarah, para agradá-la.
Subway.
Comemos, fofocamos, rimos e fizemos planos de futuras viagens
que faríamos com os garotos, foi uma noite relativamente gostosa e
como costumamos dizer, foi uma “noite das meninas”. Quando
pensamos em ir embora, enviei uma mensagem ao Mingus para vir
me buscar e ele me pediu apenas vinte minutos para encerrar a
partida que estavam e então, fomos tomar um sorvete.
— E como está com o Mingus, amiga? — perguntou Sarah.
— Ainda estou em lua de mel. — brinquei. Elas riram e eu
também. — Estamos bem. Nunca fui tão feliz.
Elas sorriam.
Continuamos fofocando enquanto tomávamos nosso
sorvete e então Mingus me avisou que tinha chegado.
— O querido chegou? — Lily perguntou rindo quando ouviu
a notificação do meu telefone.
— Sim. — ri.
Como elas tinham vindo com seus carros, iriam embora
sozinhas. Por ainda estar razoavelmente cedo, Lily ainda dirigia
nesse horário e ia para a casa de Thomas e Sarah iria para casa se
encontrar com Thomas.
— Me avisem quando chegarem. — falei.
Nós nos despedimos e fui até o encontro de Mingus. —
Entrei em seu carro e ele abriu um curto sorriso para mim e eu o
beijei para cumprimentá-lo.
— Senti sua falta. — falei.
Odiava cafonice, mas não me importava em ser cafona com
ele.
Seu cabelo estava molhado, provavelmente tomou um
banho rápido antes de vir me buscar.
— E eu a sua. — respondeu. — Vamos?
— Vamos.
Ao chegarmos em casa, eu tomei um rápido banho
enquanto ele ficou esperando por mim na cama. Ao terminar meu
banho, me troquei ainda no banheiro e fui até o quarto, mas notei
que ele estava mais quieto, provavelmente pensativo para o dia de
amanhã.
— Eu adoro quando você usa minhas camisetas de pijama.
— falou sorrindo ao me ver.
— Eu adoro ter seu cheiro em mim. — falei, deitando-me ao
seu lado. — Como você está?
— Estou bem. — suspirou fundo. — Ou, tentando ficar bem.
Ele me puxou para mais perto.
— Mas tê-la comigo é o suficiente. — disse. —
Definitivamente recarrega minhas energias.
Sorri feito uma boba.
— Então recarregue. — falei o abraçando. — Estou aqui.
— Eu sei.
Ficamos em silêncio por muito tempo, talvez por horas.
Estávamos apenas abraçados, recarregando. Acho que ele estava
quase pegando no sono quando eu o chamei.
— Mingus?
— Hum? — murmurou.
— Eu acredito em você. — falei. — Quando amanhecer e
você for até a Helena, diga o que o seu coração sempre quis dizer.
Diga o que o pequeno Mingus nunca falou, o que você sempre
escondeu na profundidade de sua alma e não se envergonhe de
forma alguma se as lágrimas rolarem. Você é o ser humano mais
forte que conheço e estou certa de que tomou a decisão correta ao
decidir ir até ela. Mas, por favor, por favor, se Helena dizer qualquer
coisa que possa ferir o seu coração, se lembre de sua condição, se
lembre que eu estarei aqui esperando por você, se lembre que eu
preciso que você volte para mim, que você volte inteiro. — respirei
fundo. — Você é amado e eu preciso que se lembre disso se algo
que Helena dizer fazer com que você não se sinta, porque acredite,
você é, você é amado, você é digno do amor e eu te amo mais do
que a mim mesmo. Seja forte e corajoso, meu menino, meu Mingus
Carter. E, eu estarei esperando por você em casa, eu estarei
esperando por você. Eu te amo e você é digno do amor. Eu acredito
em você. Minha alma reconheceu a sua. Se algo acontecer, apenas
me diga onde estará e eu irei até você, eu sempre irei até você. Eu
sempre te encontrarei.
Senti sua respiração mudar. Ele estava chorando. Eu vejo
as lágrimas caindo e então o abraço com toda a minha força.
— Eu sempre irei até você. — falei.
Limpo suas lágrimas com delicadeza.
— Eu amo você. Com toda a minha alma.
Noto um sorriso fraco em seus lábios.
— Eu te amo. — diz. — Minha alma reconheceu a sua. Eu
certamente te amei em vidas passadas e te amarei em todas que
ainda vierem. Eu sou seu, minha alma pertence somente a você e
ao nosso amor. — colocou suas mãos em meu rosto e começou
acariciá-lo. — Minha menina. Minha Katelyn. Meu amor. Meu único
amor.
— Sua.
Suas palavras eram doces, seu toque era gentil e delicado,
mas seus olhos pareciam estar em luta. — pensei. — Uma luta para
superar o medo dessa conversa que teria amanhã com a Helena,
uma luta para tentar superar o seu passado e as dores que ainda
definitivamente o assombram. Eu tinha medo que a vulnerabilidade
que sentia sobre esse assunto falasse mais alto do que qualquer
coisa, eu tinha medo de que ele continuasse a viver dessa forma,
rodeado de uma intensa tristeza e dessa incerteza emocional.
E, eu estava pedindo a Deus que o meu menino conseguisse ter
uma boa conversa com a mãe, eu estava desejando ao universo
que tudo ficasse bem, mas uma sensação de incômodo me deixava
desconfortável, uma sensação de que algo ruim aconteceria. Eu
orava a Deus para que não fosse sobre isso, eu orava para que
fosse apenas uma intuição boba por preocupação e não uma
premonição. — Eu estava orando para tudo ficar bem.
CAPÍTULO 33
Mingus
Katelyn me preparou um café da manhã e queria me
acompanhar até a casa de Helena, disse que esperaria por mim lá
fora, mas eu realmente não quis isso, porque não sei a forma que
sairia dali. — Mas, apenas o seu amor e cuidado já bastaram para
me dar força e coragem hoje. Eu não queria desistir desse passo
que tomei, muito menos hesitar e acabar magoando-a mais uma vez
porque não fui corajoso o suficiente para enfrentar algo que não
deveria ser difícil (conversar com a própria mãe), mas confesso que
agora parado em frente a casa onde um dia eu pensei que pudesse
ser o meu lar, meu peito estava apertado e às lembranças ruins
voltaram à minha memória.
A primeira lembrança que veio até mim, foi na manhã do
meu aniversário de onze anos, fui acordado pela Helena abrindo
minhas cortinas pretas que ficavam em meu quarto e acendendo a
luz para me desejar parabéns e quando eu entendi que ela estava
ali para me dar um feliz aniversário era como se esse fosse o
melhor dia do universo para mim, porque além disso ela segurava
uma panqueca com uma vela simples nas mãos e sorria para mim.
Eu, ingenuamente sendo apenas uma criança, pensei que ela quem
tinha preparado tudo isso para mim e fiquei tão feliz ao imaginar isso
e me lembro até hoje a sensação boa que senti em meu peito e a
forma que a abracei sorrindo, mas no segundo seguinte, ela me
disse que eu deveria agradecer a moça que trabalhava em casa,
porque foi ela quem se recordou do meu aniversário.
O que uma criança de onze anos deveria sentir quando algo
assim acontece? — penso.
Por que minha própria mãe não se lembrava do meu
aniversário? Por que ela não se importava? E, mais importante, por
que isso doeu tanto? Por que ainda era algo que estava doendo?
Penso que talvez esse tenha sido o exato momento em que cheguei
a conclusão que o amor era algo doloroso, aos onze anos, porque
eu costumava amar John e eu costumava amar a Helena, mas meu
coração foi quebrado e estilhaçado de todas as formas possíveis
pelos dois.
Helena nunca esteve presente. — Ela nunca esteve
presente nas apresentações do colégio, ela nunca foi ao hospital
quando eu me machucava ou ficava doente, quando eu era
pequeno e quebrei o braço aos sete anos, fiquei com a funcionária
que trabalhava em casa, quando aos dezoito bati o carro, ela
também não foi no hospital me visitar. Também não foi na minha
formatura do colégio, também não me deu parabéns quando ganhei
um concurso de redação e meu nome saiu no jornal da cidade. Pelo
contrário, recebia apenas brigas e discussões pelas coisas que eu
fazia de errado. Reconheço que fiz muitas mais coisas erradas do
que certo, mas eu também nunca recebi um elogio.
Nenhuma lembrança com Helena era boa e o que poderia
ser bom por segundos acabava sendo transformado em uma nova
dor, como no meu aniversário de onze anos.
Eu tinha medo que isso acontecesse agora. Eu tinha medo
de ferrar com tudo, tinha medo de não entender sua condição
psicológica e tinha medo do que ela poderia me dizer. Mas, penso
que o meu maior medo é o que eu poderia dizer.
Quem sou eu hoje? O pequeno Mingus que foi muito
magoado e tem muitas dores em seu peito ou o Mingus revoltado?
Quem Helena quer que eu seja? Quem eu quero ser?
Engoli em seco e desci do carro. — Independente de quem
eu seja hoje ou de quem eu deva ser, eu tenho que encarar, eu
tenho que ter esse diálogo para finalmente me desprender de coisas
que ainda não consigo ser liberto.
— Vamos lá, Mingus. — penso alto. — Não deve ser tão
difícil assim para com sua própria mãe ou ao menos não deveria ser
difícil.
Apertei a campainha. No mesmo instante em que ouvi sua
voz gritar lá de dentro “só um minuto” o meu peito doeu.
Como é possível ser tão difícil?
— Oi Mingus. — disse, quando abriu a porta. — Entre.
Meu corpo teve calafrios ao dar o primeiro passo. Eu não
entrava naquela casa há muito tempo.
Eu estava na sala e parecia que tudo permanecia igual. Os
móveis eram novos, mas semelhantes aos de quando morei aqui. A
frieza do ambiente ainda existia ou talvez a frieza irradiava de nós.
— Obrigada por ter vindo, eu realmente esperei muito
tempo. Você tinha prometido vir após eu voltar aos tratamentos para
conversarmos, porque tenho certeza que o John deve ter feito a
minha caveira a você e eu preciso dizer que…
— Helena. — a interrompi. Eu sinceramente não queria
ouvir ela falar sobre o John. — Eu sei que pode ser pedir muito, mas
eu preciso que você me escute.
Ela me encarou séria, provavelmente não gostou que eu a
cortei, mas ficou em silêncio apenas me olhando e esperando eu
começar a falar.
— Eu nem posso acreditar como é difícil conversar com
você. — comecei. — Deveria ser algo tão fácil, tão natural, mas ao
invés disso, eu sinto como se algo estivesse sendo enfiado em meu
peito, como se eu tivesse sendo baleado, eu não sei.
Ela deu um pequeno riso. — Por que no mundo ela riria
nesse momento?
— Helena, por que você nunca se importou comigo? —
perguntei. — Por que você nunca me amou? Por que eu nunca fui o
suficiente para você?
Meus olhos marejaram. Malditos sentimentos. Malditas
lágrimas.
— O que você está dizendo? — perguntou. — Eu posso ter
os meus defeitos, mas eu não fui tão cruel como você insinua que
eu seja. Eu tinha a certeza de que o John ia te colocar contra mim.
Ela nunca ia mudar. — pensei. — Antigamente eu
costumava pensar que nem todo álcool ou toda droga do mundo
seriam o suficiente para mim e hoje penso que nem todo esforço
que eu fizer e até mesmo o esforço que Helena fizer seria o
suficiente para tudo dar certo entre nós. Penso que essa ferida
jamais poderá ser curada.
— John te envenenou contra mim. — continuou. — Ele me
ligou falando tantas coisas que como você acha que eu deveria
saber se você nunca conversou comigo sobre nada?
— Então a culpa é minha? — ri de nervoso. — Eu venho
tentando conversar com você há anos, Helena! Venho tentando
dizer o que sinto há anos, mas você só escuta o que quer escutar.
Ela desviou o olhar do meu. Nós nunca seríamos capazes
de ter uma conversa decente, e embora eu soubesse o seu
diagnóstico, embora eu soubesse que eu não deveria ser cruel ou
agressivo em minhas falas, ao menos uma vez ela teria que assumir
suas responsabilidades.
— Você sempre foi tão ingrato, você sempre…
Gargalhei alto. De nervoso. Ela parou de falar no instante
em que eu comecei a rir e mesmo que eu estivesse tentando manter
minha razão e estabilidade, ela seria capaz de me deixar instável
em segundos.
— Debochado. — continuou. — Ingrato, e ainda quer falar
sobre mim? Você é igual ao seu pai.
— Todos esses anos. — comecei. — Todos esses malditos
anos pensei que o problema fosse eu, realmente pensei que fosse
ingrato como você mesmo está dizendo agora, eu pensei que eu
fosse egoísta, sem noção, incapaz de ser amado e me culpei por
não ser um filho perfeito, me culpei por nunca ter dado motivos para
que vocês se orgulhasse de mim, sentia ódio de quem eu era e
idealizava o dia em que ouviria você ou o John dizer “bom trabalho,
filho.”, “tenho orgulho de você, filho.”, ou qualquer maldita coisa boa
para mim, mas não. — respirei fundo, olhando-a nos olhos —
Helena, eu me fechei para o amor, eu me fechei para todas as
coisas boas, porque pensei que não merecesse isso, porque eu era
incapaz, porque você fez com que eu pensasse isso, porque você
fez com que eu acreditasse nisso.
Lágrimas. Malditas lágrimas. E eu nem sequer faço questão
de tentar esconder, porque dessa vez eu me permitiria sentir tudo o
que eu precisava sentir.
Eu não tinha culpa de nada. Eu não errei. Eu era uma
criança, apenas uma criança.
— Eu passei a vida toda procurando por erros que não
cometi, passei a vida toda buscando motivos para não ter sido
amado por vocês, mas eu entendi que o erro não foi meu.
— O que você quer dizer com isso? — perguntou.
Sua frieza me deixava assustado. Eu estava aos prantos em
sua frente e ela nem sequer tinha os olhos marejados.
Essa mulher realmente era a minha genitora? Sua condição
psicológica a deixava assim ou eu realmente não tinha importância
para ela?
— O que você é? — murmurei. — Por que você é tão fria?
Por que você não se importa?
— Quem disse que eu não me importo? Quem disse que eu
quero ser assim?
— Se você se importa, se você não quer ser dessa maneira,
então porque me disse tantas vezes que eu não era digno do
amor?
A pergunta saiu como um tiro. — Eu não planejei entrar
nesse quesito, porque de todos os meus traumas do passado, esse
era o que mais me assombrava, isso foi o que mais me marcou.
Helena me olhou completamente confusa.
— Eu disse isso? — sua voz saiu rouca.
Primeira vez que ela aparentou estar nervosa desde que eu
entrei por aquela porta.
— Eu nunca disse isso. — disse, engolindo em seco.
Eu entendi. — respirei fundo. — Eu me dei conta nesse
exato momento que ela não se lembrava de já ter me falado isso
tantas vezes, eu me dei conta de que todas aquelas palavras que
estilhaçaram o meu coração e quase me levaram a completa
destruição não eram lembradas por ela.
— Você não se lembra. — falei.
Estava olhando incrédulo para a mulher à minha frente.
Como ela não se lembrava se tudo o que me dizia me matava por
dentro dia após dia?
Concluí que Helena era minha genitora, àquela que me matou
lentamente desde o meu nascimento. Minha mãe, mas também
minha assassina.
— Claro que você não se lembra. — falei e ri de nervoso
outra vez. — Você nunca se lembrou do meu aniversário, nunca se
lembrou de me buscar no horário certo ou de me alimentar quando
eu era pequeno e necessitava de sua ajuda para isso, nunca se
lembrou de ir à escola em reuniões e mesmo quando estava em
dias supostamente bons, porque aparecia com novos namorados,
saia com amigos, não se lembrava que tinha um filho, então me
desculpe, eu fui idiota em pensar que você se lembraria de tudo o
que já me falou um dia, na verdade, me surpreende você não ter
esquecido o meu nome.
A razão que se foda. — penso. — Helena que se foda.
— Acho engraçado que o nome dos seus namorados
mensais você não se esqueceu, mas tudo bem. — dou de ombros.
— Talvez a importância deles seja maior que a minha, talvez
qualquer maldita coisa desse mundo seja mais importante que eu.
— Você passou tempo demais com o John. — disse.
— Inacreditável. — digo. — Vá se foder, Helena.
Helena pareceu estremecer nesse momento, mas eu não
me importei. Foda-se sua condição, foda-se se eu regredir no
tratamento, foda-se se eu a magoar, foda-se se eu sair daqui
arrasado. Ela pensa que eu sou egoísta? Eu serei egoísta. Ela
pensa que sou ingrato? Eu serei ingrato. Ela quer um filho ruim? Ela
terá um filho ruim.
— “Eu deveria ter abortado você.” — citei uma frase dita por
ela mesma. — “Você foi um erro.”, “você atrapalhou a minha vida”,
“você é destruição”, “você destrói tudo o que toca.”, “você nunca
será amado”, “eu simplesmente não consigo gostar de você”. — ela
me encarava. — “Você nunca será digno do amor.”. Será que isso
refresca sua memória? Quando eu saí de casa, você ao menos
chorou? Você ao menos sentiu minha falta de verdade? Ou para
você é um alívio eu não estar presente?

— Eu falei tudo isso? — sua voz saiu em murmuro.


Novas lágrimas. Não minhas, de Helena.
— Eu realmente sinto muito..
— Não diga isso se não sentir de verdade. — a cortei. —
Porque eu sei que realmente sou considerado um erro para você,
sei que meu nascimento destruiu a sua carreira e sei que você
nunca me quis e tudo bem, eu apenas vim até aqui para te pedir
para parar. Pare de fingir se importar, parede de fingir que quer uma
vida ao meu lado, pare de me machucar ainda mais. Eu odeio você.
Eu odeio você.
Lágrimas. Minhas lágrimas, e dela também.
Talvez não seja fácil para alguém que te gerou por nove
meses ouvir essas palavras, mas também não foi fácil para eu
admitir esse sentimento. O quão mais destruído eu precisaria ser
para ela me deixar em paz? O quão destruído eu estava? Ela me
destruía e eu também era a sua destruição.
Talvez eu a tenha destruído quando nasci, mas ela vem me
destruindo desde esse exato momento.

— Você não está falando sério. — murmurou. — Você não me


odeia.
— Olhe nos meus olhos e diga se estou mentindo, Helena.
— Você não pode me odiar. — disse. — Mingus, eu sou sua
mãe.
Mãe? — penso comigo mesmo. — Engraçado essa palavra
sair da boca dela.
— Helena. — digo. — Eu só quero que você saiba que o
motivo que me fez vir até aqui hoje é apenas para nos libertar. Me
libertar dessa escuridão que ainda habita dentro de mim por conta
de tudo o que já senti por sua causa e te libertar dessa culpa que
parece estar sentindo desde que o John te ligou, se liberte dessa
culpa. Você não precisa ser a minha mãe, se não quiser. Pode
continuar sendo apenas a minha genitora. Não precisamos ter
contato, não precisamos nos falar e nem sequer precisamos ter os
nossos números de telefone. Podemos seguir em frente e
eventualmente ficaremos melhores, seremos pessoas melhores.
— Mingus, não tente me destruir com suas palavras duras,
não tente me ameaçar como se você pudesse sair da minha vida.
Você é meu filho, temos uma ligação eterna, mesmo que eu tenha
sido uma mãe ruim, eu e você somos até o fim de nossas vidas.
Não tente destruir isso.
Eu ri. Porque outra vez ela tentou jogar responsabilidades
para mim.
— Novamente você tentando jogar na minha cara que sou
eu quem está tentando destruir as coisas. — respondo. — Eu me
pergunto o porquê é tão difícil para você assumir a
responsabilidade. Você é a adulta aqui, Helena. Você é quem
destrói tudo, não eu.
— Eu? — me encarou. — Quem destruiu sua oportunidade
em vários colégios? Fui eu? Quem destruiu nossa estrutura familiar
quando decidiu que era bom o suficiente para morar sozinho? Fui
eu? Quem tentou tanto chamar a atenção do seu próprio pai que
quase o fez perder a empresa? Fui eu? Quem foi egoísta por toda a
sua vida que nem sequer compareceu ao velório de sua avó? Eu te
respondo, Mingus. Não fui eu, foi você.
Não há diálogo. Não dá para conversar com Helena. Nunca
iríamos nos resolver.
Eu verdadeiramente compreendia que ela tinha um diagnóstico, eu
realmente deveria tentar um pouco mais, mas eu não conseguia, eu
não poderia.
Minhas lembranças voltavam a todo instante. Ela citou os
colégios que fui expulso, mas todas as expulsões foram para
defender ela e John de coisas ruins que meus colegas diziam, ela
me falou sobre eu ter saído de casa, mas era um inferno
permanecer aqui, ela falou sobre quase fazer o meu pai perder a
empresa porque quando tive que pagar serviço comunitário uma
reportagem sobre o filho da empresa dele saiu na matéria e isso foi
a morte para todos. Ela também falou sobre eu ter sido egoísta e
não ter ido no velório de sua mãe, minha avó, mas ela não me
avisou sobre isso e, eu nem conhecia a velha, porque Helena nunca
me levou até lá, porque Helena nunca se importou com nada.
Ela nunca mudaria. E, eu entendia isso agora. Às vezes
acontece. Não é porque sou seu filho e porque ela é a minha
genitora que devemos ter uma relação, se me machuca, se me faz
querer morrer, se fere minha existência, e se me coloca em posição
de duvidar de mim mesmo, não há laços sanguíneos que me faça
permanecer em sua presença.
— Diga alguma coisa. — ela falou. — Você sempre foi um
péssimo filho.
Algum sentimento que eu nem sabia que ainda tinha vivo
dentro de mim por ela morreu nesse instante. Impossível de
ressuscitar. Inviável de acontecer algo bom.
Lágrimas caíam dos meus olhos, meu peito doía como
nunca. Ela tinha conseguido me ferir outra vez. Mas, essa seria a
última vez.
— Ótimo, Helena. — respondi secando as lágrimas. — Eu
espero que você possa ser feliz porque nesse momento, eu te
liberto.
— O que você está falando?
— Eu te liberto. — repeti. — Você não precisa pensar em
mim como um filho e eu não pensarei em você como minha mãe. A
partir desse momento, eu serei uma criança que você gerou e você
será apenas a minha genitora. Eu te liberto desse tormento de
pensar que é mãe e você me liberta desse tormento de ser seu
filho.
Ela engoliu em seco.
— Você está sendo injusto. — disse. — Eu tenho um
diagnóstico e…
Seu celular começou a tocar. Ela encarou o visor do
aparelho por alguns segundos e virou a tela para mim.

“John”.
Por que ele estava ligando para ela? — Helena atendeu a
ligação e colocou no viva voz.
“Mingus está com você?” — foi a primeira coisa que o
homem disse.
— Bom dia para você também, John. — ela disse,
totalmente irônica.
— Estou aqui. — falei.
Senti sua respiração aliviar.
— O que você quer, John? — perguntou Helena. — Eu e
Mingus estamos no meio de uma conversa importante.
— Eu não tenho mais nada a dizer. — digo. — Na verdade,
eu estava indo embora.
— Mas você ainda vai me ouvir. — falou. — Você não pode
vir até aqui e dizer tais coisas, você não pode pedir para eu sair da
sua vida, dizer que eu não quero ser sua mãe e que a partir de
agora serei apenas sua genitora.
“Helena, pare.” — A voz de John soou alta. — “Nós dois
silenciamos esse garoto por muito tempo, se ele tem algo a dizer,
deixe-o falar e se ele já disse tudo o que queria, deixe-o ir embora.”
Acho que sorri. John estava me defendendo?
— Vocês combinaram isso. — disse. — Com certeza
fizeram um complô contra mim.
Eu a odiava. Meu Deus como eu a odiava.
— Por Deus, Helena! — aumentei minha voz. — Olhe tudo
o que você causou entre nós, porque você não pode ser normal?
Claramente você me afastou de John, você inventou tantas coisas,
você me afastou dele e de você e mesmo nesse momento em que
eu te disse tantas coisas você continua me culpando por coisas que
claramente não são minha culpa e mesmo quando eu te falei para
me libertar e te libertei, você continua me machucando. Até quando
vamos nos destruir, Helena?
— Eu nunca fiz vocês se afastarem. — disse.
“Helena, você fez.” — disse John. — “Nós já conversamos
sobre isso e eu compreendi que você estava muito doente na época
e também estava com raiva de mim por ter saído da cidade, mas o
que você fez para mim e para essa criança…”
— Você me deixou sozinha com ele. — gritou. — Você me
deixou sozinha com uma criança que eu nem sequer desejava. Eu
tinha medo de quebrá-lo! Você me deixou sozinha, John. E, eu
estava apavorada pela minha nova vida, minha mãe não quis me
ajudar, você foi embora e eu fiquei com uma criança em minhas
mãos e eu não fazia ideia do que fazer com ele ou de como cuidar.
— respirou fundo. — Eu tinha tanto medo de te machucar, medo de
acabar quebrando você, porque você era tão frágil, tão pequeno, tão
perfeito que eu simplesmente não sabia se conseguiria ser uma boa
mãe, um bom exemplo para você e, eu tive tanto medo de errar, de
não saber cuidar de você da maneira correta, da maneira que você
deveria ser cuidado e então quando pedi ajuda aos meus pais, eles
me disseram para me livrar de você porque você destruiu a minha
vida.
Eu comecei a chorar outra vez. Helena também.
— E eu destruí a sua vida, Helena? — perguntei.
“Mingus, não pense…”
— Eu pensei que sim. — respondeu em lágrimas.
— E ainda pensa dessa maneira. — falei.
— Eu penso.
“Helena, pelo amor de Deus.” — a voz de John soou um
tanto abafada.
Helena olhava em meus olhos e eu nos dela. Que dor. Que
dor que eu estava sentindo.
— Você quer a verdade? — ela perguntou e eu assenti. —
Eu não suportava te ver, eu não suportava ouvir o seu resmungo e o
seu choro, mas ao mesmo tempo em que eu estava disposta a dar
um fim na sua vida, eu tinha medo de nunca mais te ver, porque
você era a coisa mais perfeita e frágil desse mundo. Eu tinha pavor
de você, mas eu queria estar perto. Toda vez que eu te olhava eu
ouvia as malditas palavras da sua vó e pensava que você tinha
acabado com a minha vida, mas toda vez que eu estava longe, meu
peito doía porque eu sei que você precisaria de mim. Eu estava
apavorada, eu ainda estou apavorada, porque eu ainda não sei
quem você é para mim, Mingus.
— Como assim? — minha voz quase saiu em um murmuro.
— Como assim não sabe quem eu sou para você?
— Eu não sei se você realmente é a minha destruição ou
minha salvação.
Engoli em seco e me mantive parado ou quase paralisado
apenas olhando para ela.
— Eu te odiei com todas as forças que existiam em mim. —
ela continuou. — Mas eu também te amei com a mesma força. Eu
estava assustada, apavorada. Acho que você nunca poderá
entender, porque talvez nunca tenha sentido um medo como o medo
que eu sentia e ainda sinto sobre você. Amar e odiar alguém é
perigoso demais. Você é a minha destruição ou minha salvação?
Eu não sei o que eu era para a sua vida, mas certamente
Helena era a minha destruição.
— Não sou a sua salvação. — falei. — Mas se sou a sua
destruição nós estamos quites. — respirei fundo tentando me
acalmar e tentando impedir as lágrimas de continuarem descendo
dos meus olhos, mas isso parecia impossível nesse momento. —
Helena, toda vez que eu fazia algo minimamente errado, mesmo
quando eu tinha cem acertos… Você não demorava para apontar os
meus erros e eu nem sequer podia chorar porque você dizia que
isso era fraqueza e que eu seria fraco. Eu era forçado a fingir a
droga de um sorriso, eu era forçado a esconder meus sentimentos e
fui forçado a acreditar que eu nunca seria digno do amor por
palavras que você me dizia. Então sim, Helena. Eu já senti um medo
como você acabou de descrever, eu passei toda a minha maldita
vida sentindo medo.
“Mingus, querido…”
— Agora não, John. — o interrompi. — Helena, você
deveria saber o peso que era para mim ter uma mãe como você e
um pai como John. Você deveria saber o peso que era para mim
não ter o amor de vocês ou até mesmo um olhar carinhoso, você
deveria saber os traumas que isso me causou. Você disse que sua
mãe falou que eu fui a sua destruição, bom, adivinhe, você foi a
minha. É inacreditavelmente doloroso pensar em você e estar aqui
agora. Por sua culpa, eu não consegui respirar direito por uma boa
parte da minha vida. Por sua culpa, eu nem sequer desejava viver.
Minha vida estava vazia. Você me destruiu.
Meus pensamentos não estavam mais confusos. Helena
tinha sua alma machucada e machucou a minha por não estar
curada. Feridas causadas em mim, foram feitas por feridas nunca
cicatrizadas nela. Esse ciclo terminaria agora. Nenhum de nós
continuaria se machucando.
— Você me perdoa?
Eu nunca imaginei ouvir essas três palavras de Helena.
Nunca planejei o que faria a seguir, porque nunca pensei que
chegaríamos em uma parte como essa.

Poderia eu não a perdoar? Poderia perdoar? O que é o


perdão, no final das contas? Esquecer? Deixar pra lá? Porque se for
isso, não sei se poderia ou, se eu realmente queria.
— Pelo o que exatamente você me pede perdão, Helena?
— Por tudo. — disse. — Por ter odiado você, por ter dias e
momentos em que eu ainda odeie. Por não ter te amado direito, por
ter falado tantas coisas ruins, por ter te afastado de John e
principalmente por ter destruído você.
— Vamos nos dar um tempo. — falei. — Eu sei que
inevitavelmente eu acabarei te perdoando, seria hipócrita em dizer
que isso nunca acontecerá, mas o perdão é um processo em que
definitivamente será necessária muita terapia e, se um dia, eu me
sentir confortável e preparado para talvez tentar uma relação com
você, eu te procurarei.
— Eu continuarei com meu tratamento. Eu vou melhorar.
— Eu te desejo o melhor, Helena. — forcei um sorriso. —
Eu vou indo agora. Fique bem e tome seus remédios, Helena.
— Eu vou esperar você me procurar. Eu vou melhorar e vou
ficar esperando por você.
Eu não posso prometer que virei até você. — penso, mas
apenas forcei outro sorriso para ela.
— John, estou indo. — falei.
“Ok. Eu conversarei com Helena agora.”
— Por que? — ela perguntou.
Seu tom de voz já era outro com ele. Agressivo. Ela
realmente mudava a cada segundo.
Eu caminhei para fora daquela casa, mas antes de sair pela
porta dei uma última olhada, porque talvez essa fosse a última vez
que eu pisaria aqui.
Nesse instante, dentro de mim há uma guerra. Meu coração
parece estar sangrando, porque eu sei que o melhor e mais
razoável para minha vida é não ter Helena nela por um tempo,
porque ela ainda sente ódio por mim e eu ainda sinto ódio por ela e
nós só iríamos nos destruir mais e mais e, confesso que desde que
cheguei aqui senti que eu estava ao ponto de me afundar e eu não
queria me submergir por causa da Helena, não de novo, não depois
que eu consegui voltar a nadar, não depois que eu consegui
encontrar uma saída. Então, mesmo com meu coração doendo,
mesmo sabendo que um de seus novos diagnósticos era a
bipolaridade, primeiro eu tinha que cuidar de mim e, se um dia essa
guerra se findar, se um dia esse ódio que eu sinto por ela sumir, se
um dia toda essa ira e toda essa escuridão me deixar, eu a
procurarei e serei seu filho e, permitirei que ela seja minha mãe,
mas até eu não me salvar, eu não posso permanecer em um lugar
que me destrói, mesmo que esse lugar seja uma pessoa e mesmo
que essa pessoa seja a minha própria mãe.
“Você é a minha destruição ou minha salvação?”
Ela me perguntou. E eu queria ter dito que não poderia ser
a sua salvação porque nem mesmo eu ainda estava salvo. Eu
queria ter dito que ela tinha que se salvar sozinha, mas se por um
milagre eu me salvar, eu voltarei para buscá-la. Um dia. Se eu tiver
essa chance. Quem sabe.

Eu estava no lago dos sonhos. Fiquei tão atordoado ao sair


da casa de Helena que apenas me dei conta que dirigi até aqui
quando estacionei o carro.
Peguei meu celular na mão e desci do carro. Andei por alguns
longos minutos até encontrar uma sombra confortável para me
sentar. — Vi minhas mensagens. Algumas de Thomas, outras de
John e apenas uma da Katelyn.
“Eu amo você. Com toda minha alma.”
Isso era a única coisa que eu precisava. Isso era o
suficiente. — Liguei para ela, que me atendeu no primeiro toque.
“Oi.”

“Oi querida.”
“Você está bem?”
Hesitei. — Eu estava bem? Certamente não. Eu ficaria bem
algum dia? Orava que sim.
“Sinto muito.”
“Pelo o que?” — perguntei.
“Acho que não foi fácil.”
“Helena disse que ainda me odeia, mas que também me
ama.” — falei. — “Eu a entendo, porque sinto o mesmo.”
Ela permaneceu em silêncio.
“Eu pedi um tempo.” — continuei. — “Talvez, quando meu
coração estiver curado, eu possa voltar para reencontrá-la, mas
hoje, eu tomei uma decisão egoísta e pedi um tempo.”
“Não foi uma decisão egoísta. Foi uma decisão sábia.
Ambos estão magoados, machucados e feridos. É melhor um tempo
do que continuar nesse ciclo vicioso de se machucarem ainda mais.”
“Você não acha que sou egoísta?” — perguntei.
“Nunca. Você fez o certo. Estou orgulhosa. A doutora
Isabela certamente também ficará orgulhosa.”
“Eu chorei na frente dela, Katelyn. Eu não queria ter feito
isso, mas fiz. Pela primeira vez na minha vida.”
“Tudo bem. Está tudo bem demonstrar seus sentimentos.
Você não é fraco porque fez isso, pelo contrário, você se torna mais
forte cada vez que consegue encarar seus próprios medos. Você foi
corajoso, meu menino.”
Em questão de segundos tudo poderia ficar bem ao ouvir a
voz de Katelyn. Impressionante.
“Onde você está agora?” — ela perguntou.
“Lago dos sonhos.” — respondi. — “Nem sei porque vim
aqui, mas quando me dei conta já estava aqui.”
“Quer que eu…”
“Acho que preciso de um tempo sozinho.” — a interrompi. —
“Pensar um pouco. Mas, logo eu voltarei para você.”
“Você promete?”
“Prometo.”
“Eu amo você. Com toda minha alma.”
“Eu te amo mais.”
A ligação encerrou.
Concentrei minha atenção no lago, porque eu estava tão
próximo que conseguia ver o meu reflexo nas águas. Em um breve
momento, minha atenção se desviou para uma família ao meu lado
brincando de bola com seu filho, o pequeno garotinho jogava a bola
para uma menina ainda menor do que ele, provavelmente sua irmã
mais nova, deveria o garoto ter cerca de nove anos e a menina com
uma fita vermelha em seus cabelos não teria mais do que seis anos
e nesse momento meu coração apertou. Talvez, fosse o pequeno
Mingus que ainda existia dentro de mim que sentiu esse aperto,
talvez, foi a minha decisão que me fez sentir isso. Eu nunca viveria
isso.

A garotinha deixou a bola escapar e parou no meu pé.


— Com licença, moço. — a voz mais doce que eu já ouvi. —
Minha bola.
Ri da maneira que ela apontou para a bola parada em meu
pé, mas em seguida peguei em minhas mãos e entreguei para ela
que sorriu em agradecimento e correu até seus pais segurando a
bola nas mãos. — Sorri vendo-a correr até eles e também soube
que isso era outra coisa que eu nunca pude e nunca poderia fazer.

Poucos minutos depois de sair ao pegar a bola de volta e correr aos


seus pais, ela voltou.
— Você está triste? — perguntou ela se aproximando de
mim.
— Você não deveria falar com estranhos. — falei.
— Mamãe disse que quando as pessoas estão tristes
devemos tentar alegrá-los.
— Mas só se a sua mamãe estiver por perto.
— Ela está. — apontou para a mulher, ela acenou para mim
e parecia que estava me pedindo desculpas por sua filha ter vindo
até mim. — Viu só? Mamãe deixou.
Eu ri.
— Você está triste? — repetiu a pergunta. — Teve um dia
ruim?
— Acho que uma vida. — murmurei.
— Eu tive dias ruins também.
Ela tinha minha atenção agora.
— Por que? — perguntei.
— Meu papai não está bem.
— O que ele tem?
— Mamãe disse que ele tem umas células ruins no
“esfomago” e que é por isso que ele não pode comer os bolos que
eu ajudo ela a fazer.
Câncer. — pensei.
— Eu sinto muito.
— Está tudo bem, mamãe disse que ele ficará bem desde
que a gente acredite.
— Desde que acredite?
— Aham. — sorriu vitoriosa. — A mamãe sempre disse que
nossos pensamentos e palavras tem poder e que quando
desejamos algo de todo o nosso coração, se realiza e eu sei que é
verdade porque uma vez eu queria muito uma Barbie e desejei de
todo coração e eu ganhei de Natal do Papai Noel, então eu sei que
o meu papai vai ficar bem porque eu acredito nisso e porque ele é
cercado de amor.
Eu sorri.
— Quão sortudo é seu pai por ser cercado de amor e você
também, porque certamente eles te amam muito. — falei.
— Amam! Papai diz que tenho sorte de ter amor, mas eu
sei que todos nós temos essa sorte. — disse sorrindo. — Você
também tem.
— Tenho? — perguntei.
Inocente. Eu não tive a mesma sorte.
— Esse lago foi construído por amor e então você está em
um lugar cercado de amor.
— Cercado por amor?
— Papai me contou que cada árvore plantada é porque
alguém as amou e cuidou delas com gentileza e que o lago ser tão
clarinho assim é porquê alguém o amou e o preservou, por isso não
podemos jogar no chão algum lixo, e onde quer que a gente vá
estaremos cercados de amor. Como na escolinha, quando a
Manuela ficou sabendo que o meu papai estava doente do
“esfomago”, me levou uma receita da vovó dela para ele se curar e
conseguir comer, e quando eu contei pra mamãe ela me disse que a
Manuela agiu por amor.
— E quem é Manuela? — perguntei completamente
encantado com a inocência dela.
— Minha melhor amiga, der! — disse, me fazendo rir. — Eu
conto tudo pra ela e sempre brincamos com nossas bonecas em
casa e, teve uma vez que a avó dela nos trouxe aqui para a gente
plantar uma arvorezinha, e a Manu disse que quando meu papai
ficar bom a árvore iria ser grande e olha o tamanho que ela já está
— apontou para uma pequena árvore bem próxima de onde
estávamos que não deveria medir nem sequer cinquenta
centímetros. — Então eu sei que meu papai vai ficar bom logo
porque eu plantei com amor.
Sorri.
— Você é realmente uma garotinha muito doce e amorosa.
— falei.
— Você pelo menos está melhor?
— Estou sim. Estou feliz por você estar cercada de amor e
ter os seus pais presentes.
— Nem sempre, moço. Desde que o papai ficou ruim ele e a
mamãe passam muito tempo no lugar que o ajuda melhorar.
— E você fica com quem?
— Com a Manu.
— Claro, com a Manu. — sorri.
— Sim, porque ela é minha família também.
Ri sem jeito. Àquela garotinha começou a me contar que
sua mãe lhe disse que a família não é alguém que necessariamente
tem ligações sanguíneas conosco, mas sim quem nos acolhe, nos
aceita, nos ama e permanece ao nosso lado e que por essa razão
Manuela era a sua melhor amiga. Ela também me contou sobre o
seu melhor amigo ser o seu irmão, que estava jogando bola com ela
até agora pouco.
— Por isso a Manuela e o Rychard são meus melhores
amigos. Eles me aceitam como sou e sempre que sinto vontade de
chorar me abraçam. — disse.
— Que bom que você tem eles. — falei abrindo um sorriso,
um verdadeiro sorriso dessa vez.
— Legal! — se animou. — Você está sorrindo, você não
está mais tristinho!
— Você realmente é um ser humano iluminado. — falei. —
Obrigado.
— Eu tenho que ir agora. — falou. — Fique bem,
amiguinho.
— Tudo bem, querida. — falei. — E, eu estarei pedindo para
o papai do céu cuidar do seu papai.
Ela sorriu.
— Ele tem cuidado e o amor fará ele se curar. Eu só
preciso acreditar, como a mamãe falou. — disse.
Antes que eu pudesse dizer qualquer outra palavra, ela saiu
correndo para a sua mãe, que estava de braços abertos esperando
por ela, e antes de as perder de vista, gritei perguntando o nome
dela e posso jurar que ao seu grito revelando seu nome ecoou tudo.
“Hope.”
Claro que o seu nome seria esperança. Não pude deixar de
sorrir e mesmo com tudo o que aconteceu há pouco, com Helena,
mesmo com toda minha alma assustada com o meu futuro e
preocupada se um dia eu poderei superar tudo isso, eu seguirei em
paz com a minha decisão.
Senti alguém tocar o meu ombro e quando me virei, vi
Thomas.
— Oi. — disse, sentando-se ao meu lado.
— O que está fazendo aqui?
— Katelyn. — deu de ombros. — Ela me contou que você
estava aqui e que viu a Helena agora pela manhã.
— Claro, a Katelyn. — ri.
— Como foi? Como foi com a Helena?
— Você sabe. — dei de ombros. — Me senti péssimo. Me
senti culpado, tive pensamentos ruins, disse coisas ruins, ouvi
coisas ruins, mas foi esclarecedor.
— O que ela disse?
— Que me odeia e que me ama. — falei rindo de nervoso.
— Mas eu a entendo. Eu sinto o mesmo.
— Eu sinto muito. — falou. — Eu sei que você passou toda
a sua vida enchendo sua cabeça de paranoia de que você era ruim,
de que essa reputação que construiu desde o colégio fazia juz ao
que você era. Que você era mesmo esse garoto que poderia ser a
destruição de quem se aproximava por tudo o que ouviu da Helena
e eu te conheço o suficiente para saber que não deve ter sido fácil
ouví-la dizer que te odeia, mesmo que você sinta o mesmo, e eu
sinto muito.
— Está tudo bem. — tentei parecer estar bem.
Eu não estava bem. Não mesmo. Eu me sentia triste e
culpado.
— Você não consegue mentir para mim. — falou. — Eu te
conheço como ninguém. Fui eu quem estava ao seu lado na noite
em que chorou porque o cachorro do seu vizinho que você
costumava brincar e alimentar sempre que voltava do colégio
morreu. Fui eu quem vi você levar frutas todas as manhãs para o
senhor da casa amarela na rua do colégio, porque sabia que ele
tinha perdido a esposa recentemente e queria o deixar melhor e
Mingus, fui eu quem vi você assumir o roubo do tênis do menino no
sétimo ano porque sabia que quem havia roubado não tinha sapatos
para ir ao colégio. Então, não pense que pode mentir para mim,
porque eu te conheço. — respirou fundo. — Eu sei que você chorou
até dormir no seu aniversário quando descobriu que sua mãe só
lembrou da data porque a funcionária de sua casa lembrou ela, eu
sei que você viveu anos esperando uma mensagem de John e que
ter descoberto que ele também sentia a sua falta fez reviver algo
dentro de você naquele dia, fui eu que estava ao seu lado em
momentos de crise, então não minta para mim. Eu conheço você, eu
conheço você melhor do que você mesmo porque eu sei que você
está triste pra caralho, mas Mingus, desde o dia em que eu te
conheci, desde o dia em que eu te perguntei se queria ser o meu
amigo, eu sempre acreditei em você. E no dia que você me ajudou
sobre o meu irmão…
Sua voz saiu falha.
— Thomas?
— Você me salvou. — concluiu. — Você me deu algo que
eu achei que nunca recuperaria, porque além de ser meu irmão,
você foi o meu lar.
— Lar. — murmurei.
— Então por favor, por favor, não se afunde em seus
próprios sentimentos outra vez.
— Eu não vou. — falei, com firmeza. — Eu estou triste,
como você sabe, mas eu sei que isso é algo que vai passar
eventualmente. Eu não vou desistir de procurar ajuda, eu não vou
desistir de enfrentar meus traumas. Pedi um tempo para Helena e
se um dia eu conseguir ser curado de tudo isso que ela ainda me
causa, eu irei procurar por ela e ficar ao seu lado, mas por agora, eu
cuidarei de mim e ficarei ao redor da minha família, aquela que
sempre me apoiou, aquela que tem você como base.
— Você é minha família. — disse. — E quando você pensar
em ir visitá-la outra vez, quando sentir vontade disso ou achar que
precisa, eu vou com você.
Eu sorri.
— Seu irmão definitivamente está muito orgulhoso de você.
— murmurei.
— Agradeço a ele todas as noites por você existir. — falou.
Ficamos conversando por mais alguns minutos, até que
decidimos ir embora porque o tempo parecia ter mudado. Agradeci
meu irmão pela conversa de hoje e combinamos de nos ver logo
para jogarmos juntos e derrotar o Chris.
Entrei no carro e pensei que talvez Katelyn pudesse estar com
fome, então liguei para ver se ela gostaria que eu pegasse algo.
Me atendeu no primeiro toque.
“Aqui.” — essa foi a maneira que ela me atendeu.
Eu sorri feito um bobo.
“Você sempre está aqui, não é mesmo?”
“Sempre.” — respondeu. — “E sempre estarei.”
“Eu sei. O mesmo aqui.”
“Ótimo. Está vindo pra casa?”
“Estou. Quer algo para comer?”
“Quero!”
“O que?”
“Me surpreenda.” — riu.
“Está bem, farei meu melhor.”
“Já estou ansiosa.”
“Até daqui a pouco, querida.”
“Até daqui a pouco, amor.” — disse.
“Até daqui a pouco o que?” — perguntei rindo.
“Amor.” — murmurou. — “Posso te chamar assim, né?”
“Me questiono por quanto tempo desejei ouvir isso.” —
respondi rindo. — “Eu te amo.”
“Eu amo mais.”

Fui buscar seu combo favorito do McDonald 's, e também


passei no mercado para pegar seus chocolates favoritos e acabei
comprando mais algumas coisas que sei que ela gosta.
Antes de descer do carro, enviei uma mensagem que havia
chegado, para ela me ajudar com todas as sacolas na mão e com
seu combo.
— Você é o melhor. — falou ao ver tudo o que eu trouxe. —
Te amo.
— Mimadinha. — brinquei. — Cadê meu beijo?
— Aqui. — ela depositou um doce beijo em meus lábios. —
Quando descermos todas essas sacolas, eu te darei um abraço
digno.
— Combinado.
Entramos em casa e arrumamos todas as coisas na cozinha
em seu devido lugar e então, ao estarmos os dois com as mãos
livres, ela me puxou para perto e me abraçou.
— Estou orgulhosa. Amo você. — falou.
— Obrigado. — respondi correspondendo o abraço e
apertando ainda mais. — Por tudo.
— Quer conversar sobre?
— Estou bem. — falei. — Obrigado por ter falado com o
Thomas.
Ela sorriu.
— Ao menos te ajudou?
— Você conhece o Thomas?
— Ele é a melhor pessoa desse universo. — Disse e eu
arqueei a sobrancelha tentando segurar a risada. — Opa! — ela riu.
— Depois de você, claro.
Rimos. Eu a beijei.
— É tão bom tê-la em meus braços.
— É tão bom estar nos teus braços. — falou e dessa vez,
ela quem me beijou.
O beijo começou a se intensificar. Eu empurrei os itens no
balcão para o lado e a puxei para cima pela cintura e a coloquei
sentada ali. Ela abriu suas pernas para eu me encaixar entre elas e
sorriu para mim. Voltamos a nos beijar.
— Eu amo você. — falou quando paramos de nos beijar
para respirar. — Obrigada por voltar para mim.
— Eu sempre voltarei. — falei. — Eu pertenço a você.
— E eu sou sua.
— Minha.
Abri meus braços e ela entendeu o significado. Ela se jogou
no meu colo e fomos até o seu, ou melhor, nosso quarto. A coloquei
delicadamente na cama.
— O lanche vai esfriar. — falou.
— Você se importa? — perguntei olhando nos olhos.
Ela me analisou por completo.
— Não mesmo. — falou.
Eu precisava dela. E, eu sei que ela percebeu que nesse
momento eu precisava dela. No final, o relacionamento era isso.
Ceder um pelo outro, entender, compreender, respeitar. Ainda que
eu não tenha dito nada, ela entendeu que nesse momento eu só
precisava ficar quieto e me sentir amado por ela. Me deitei e ela se
virou para ficar de frente para mim. Comecei a acariciar seu rosto e
ela me olhava como se o mundo fosse acabar no próximo segundo
e, eu não me importaria se acabasse, porque eu morreria feliz por
admirar a mais linda vista de todas no meu último minuto de vida.
Eu a amava, mais do que qualquer coisa e, ao seu lado, eu
certamente poderia ser feliz.
— Você é tudo o que eu sempre quis. — falei.
Ela sorriu. E dessa vez, ela quem começou a fazer carícias
em meu rosto, com seu toque de amor.
— Sei que tomei a decisão certa, mas ainda dói.
— Eu sei. — ela disse.
Comecei a contar sobre hoje. Comecei a desabafar cada
pensamento e sentimento que tive. Eu estava por completo com ela,
porque conseguia dizer cada coisa que passava em minha mente e
ela me ouvia com atenção.
— Você é tão forte. — disse, quando eu finalizei. — E, eu
estou aqui.
— Não me sinto forte.
— Você é. — disse. — Você é a pessoa mais forte que
conheço e eu amo você, Mingus. Com toda a minha alma. Eu te
amo e cada batida do meu coração é sua.
Cada batida do meu coração também é sua, Katelyn. —
pensei. — Para sempre.
CAPÍTULO 34
Katelyn
Duas semanas realmente passam muito rápido. — Hoje
seria o dia que a mercadoria da empresa do Collins chegaria a
cidade e eu tive que mentir outra vez para o Mingus. Falei que ia me
encontrar com a Rafaela para conversarmos e colocarmos o papo
em dia, mas a verdade era que eu e ela iríamos até o local do e-mail
para descobrir o que eles estavam fazendo.
O horário enviado por email já estava próximo, eu e Rafaela
já estávamos no local, escondidas. Eu segurava minha câmera e ela
o celular no gravador para podermos gravar tudo o que
acontecesse.
Um caminhão chegou e duas pessoas — dois homens,
fortes e encapuzados — desceram do caminhão, mas ao abrir a
carreta nossa visão de quem poderia chegar logo após foi
bloqueada.
— Precisamos mudar de lugar. — murmurei.
Rafaela concordou e então começamos a andar devagar e
com cautela, mas senti meu celular vibrar no bolso da minha calça.
O peguei rapidamente para ver quem era e era Mingus.
Não posso te atender, amor. — pensei. — Eu estava
mentindo para ele e estava em uma situação delicada. Devolvi meu
celular no bolso e continuei seguindo a Rafa para tentarmos achar
um lugar que fosse nos favorecer em todos os ângulos. Meu celular
vibrava desesperadamente.
Talvez eu deva mandar uma mensagem para que ele não se
preocupe? — pensei.
Parei novamente de andar e peguei meu celular. Dessa vez,
existiam algumas mensagens.
“Onde você está?”
“Katelyn Annie Campbell”
“Eu não posso acreditar que você é tão estúpida assim.”
“Por que você continua indo atrás dos Collins?”
“Pelo amor de Deus, me atende. Me responde.”
“Onde você está????????”
Como ele sabe que estou aqui? — pensei. — Como ele..
Uma nova mensagem chegou.
“Ele sabe que você está aí. Me mande sua localização em
tempo real e saia daí o mais depressa que você conseguir.”
— Rafa. — a chamei. Meu corpo pareceu paralisar. —
Precisamos ir. Eles sabem que estamos aqui.
Ela arregalou os olhos.
— Como assim? — perguntou.
— E-eu não sei. — falei. — Vamos.
Começamos a andar mais rápido e depois de nos
afastarmos um bom tanto, começamos a correr. Quando entramos
no carro, eu finalmente me lembrei de respirar.
— O que aconteceu? — ela perguntou.
Eu liguei o carro e sai dali o mais rápido possível e meu
telefone começou a tocar outra vez. Atendi a ligação pelo Bluetooth
do carro.
“Onde você está?” — sua voz estava tão ofegante que
parecia que ele estava correndo tanto quanto nós acabamos de
correr. — “Onde você está, Katelyn?” — aumentou sua voz.
“No carro. Estou entrando na pista” — respondi.
“Puta que pariu!” — Pareceu que o palavrão foi mais para
ele mesmo do que para mim. — “Venha para minha casa.”
“Eu preciso deixar a Rafaela na casa dela e…”
“Vem direto.” — me cortou. — “Eu estou voltando para o
meu apartamento e estarei te esperando. Nós chamamos um uber
para ela depois.”
“Mingus…”
“Venha direto.” — me cortou.
Ele desligou a ligação.
Sua voz na última frase dita estava séria.
— O que aconteceu? Como eles descobriram?
— Eu não sei. — respondi.
— Mingus te avisou?
— Sim, me mandou uma mensagem. — digo.
Nunca havia dirigido tão rápido como hoje. Em questão de
vinte minutos ou vinte e cinco minutos no máximo, eu já estava
subindo o elevador para o apartamento de Mingus, com ele ao meu
lado.
Assim que eu cheguei, ele estava esperando por nós lá fora
e esperamos o uber da Rafaela chegar, mas ele ainda não tinha
olhado para mim e nem falado comigo. No elevador até a sua casa
também ficou em silêncio, até entrarmos e ele explodir.
— O que você tinha na cabeça de me esconder algo assim,
Katelyn? — falou. — Você sabe o perigo que correu? Você sabe na
merda que se enfiou? Meu Deus! Você me prometeu que não faria
nada. Você me prometeu.
Eu não conseguia encará-lo.
— Por que você fez isso? — continuou. Sua voz ainda era
séria. — Por que você não me contou? O que você tinha na
cabeça?
Permaneci em silêncio.
— Diga alguma coisa! — aumentou sua voz.
— Eu sinto muito. — murmurei.
Finalmente olhei para ele. Seu olhar estava transformado,
era como se estivesse cercado de raiva e decepção.
— Como você descobriu? — perguntei. — Como eles
sabem que estávamos lá?
— Tyler me enviou uma mensagem. — disse. — Uma foto
sua lá. Katelyn, pelo amor de Deus. Por que você entrou nisso?
— Tyler voltou para a cidade?
— Será que ele realmente saiu? — perguntou. — Você
realmente não consegue acreditar que ele seria capaz de tudo,
certo?
Eu não acreditava. Não mesmo.
— Você prometeu não se envolver, Katelyn. — falou. E
agora a sua voz pareceu decepcionada. — Por que?
— Porque eu preciso fazer o certo. — falei. — Porque eu
não posso simplesmente deixar isso passar.
— Você pode. — falou, dando um passo em minha direção.
— Você não pode mais fazer nada. Encerra toda essa merda.
— Mingus, eu não…
— O Tyler sabe de tudo, Katelyn. — me cortou. — E seu pai
também. Pelo amor de Deus, eu estou te implorando. Encerre tudo.
— C-como? — minha voz falhou. — Como eles sabem?
— Ele nunca saiu da cidade e ele continuou de olho em
nós. — disse. — Eu não me atentei a isso e eu não me liguei de que
você estava investigando eles e agora ele sabe de tudo e está com
raiva de você. Katelyn, por favor, pare com tudo. Envie uma
mensagem para a Rafaela e diga que tudo acabou.
— Estávamos tão perto. — me lamentei. — Se eu tivesse
pego qualquer imagem de hoje, porque certamente era contrabando
de drogas ou armas aquele caminhão.
— Pare. — falou. — Tyler está ameaçando a sua vida e
você segue falando sobre isso. Por Deus, pare.
Meu corpo estremeceu.
— Ele ameaçou fazer algo comigo? — perguntei.
Mingus não se atreveu a responder e eu entendi. Tyler tinha
realmente ameaçado fazer algo comigo para ele, por isso seu
nervosismo, por isso seu silêncio ensurdecedor quando cheguei, por
isso seu desespero.
— Você pode me ouvir ao menos uma vez na vida, Katelyn?
— perguntou.
Eu estava com a sensação de que ele iria dizer algo ruim a
seguir.
— A razão pela qual Helena disse diversas vezes que o
amor era uma fraqueza e que eu não deveria amar, eu entendi
claramente agora. — falou. — Quando recebi a mensagem de Tyler
com uma foto sua em um lugar desconhecido, eu paralisei. Eu
nunca senti tanto medo como naquele momento, Katelyn e eu
simplesmente não posso arriscar te perder.
Sua respiração ficou ofegante. Parecia que ele não
conseguia continuar, ou não queria.
— Precisamos parar agora. — disse, respirando fundo. —
Eu preciso parar agora.
— Parar? — minha voz falhou e meus olhos marejaram. —
Parar com que?
— Nós dois. — falou. — Precisamos parar nesse momento.
— O que você está falando, Mingus? Eu não estou
entendendo.
Meu peito doeu.
— Eu estou terminando com você. — disse, friamente.
Não. — pensei. — Você não está.
— O-o que? — minha voz saiu em um murmuro.
Ele deu um passo para trás.
— Eu sinto muito. — falou.
— Tyler pediu para você fazer isso, certo?
Mingus ficou em silêncio.
— Essa foi a sua condição para me deixar sair de lá? —
perguntei. Mil e uma teorias estavam em minha mente. — Ele está
te ameaçando a terminar?
— Não. — falou. — Estou terminando porque eu não quero
ser aquele que te levará a destruição. Eu não quero te envolver
nessa merda toda.
— Você está mentindo. — dei um passo para frente, me
aproximando. — Eu te conheço.
— Pare.
— Ele te ameaçou, certo?
— Por favor, pare de ser tão teimosa.
— Se você não me dizer a verdade, amanhã eu voltarei
naquele lugar. — falei.
Acho que ele iria gritar comigo pela maneira que olhou
quando falei, mas se controlou. Mingus respirou fundo e olhou nos
meus olhos, quase suplicando que eu o ouvisse.
— Por favor, vamos fazer o que ele mandou até que eu
tenha uma ideia do que fazer.
— Então ele te ameaçou. — conclui. — Nós não vamos nos
afastar. Eu me recuso a me afastar, a terminar ou o que for que ele
tenha dito.
— Nós vamos. — aumentou sua voz. — Nós vamos nos
afastar até eu pensar no que fazer.
— Isso é ridículo. — reclamei. — Somos seres humanos
livres e com direitos de poder fazer o que quisermos da nossa vida.
Não cometemos nenhum crime. Ele não pode nos ameaçar assim.
— Você tem noção do perigo que correu hoje, Katelyn?
Porque penso que não tem. — falou. — Pelo menos nesse
momento, me escute. Para não te machucar, eu preciso me afastar.
— Não.
— Pare de teimosia! — gritou. — Por favor, colabore comigo
para que não aconteça nada ruim. Por favor, eu te imploro.
— Eu não concordo.
— Katelyn, eu estou te implorando. — sua voz saiu falha. —
Por favor, não seja teimosa, por favor, não torne ainda mais difícil.
— Eu não quero me afastar.
— Nem eu! — disse. — Mas é necessário ficarmos só um
pouco longe, só um tempinho, só até eu conseguir dar um jeito nisso
tudo.
— E como você vai fazer isso? O que você vai fazer? — Me
preocupo. — Se ele realmente me ameaçou, se ele é realmente
como você diz ser, você também corre risco.
— Eu prometo, nada vai acontecer. — falou. — Mas você
precisa parar com tudo isso e não vir atrás de mim. Se eu te
procurar primeiro, me afaste. Até tudo isso terminar.
— Eu não quero. — falei. — Eu tenho um pressentimento
ruim. Por favor, não vamos nos afastar.
Ele deu um passo à frente. Nossos corpos estavam
colados.
— Eu prometo que será rápido. — disse.
Mingus começou a acariciar meu cabelo.
— Mas você precisa me prometer que vai parar com essa
investigação. Você precisa me prometer que não vai esconder mais
nada de mim e me prometer que vai ficar quietinha, apenas me
aguardando retornar pra casa.
— Eu não gosto disso. — falei. — Eu realmente não sinto
algo bom.
Ele beijou minha testa. — Eu fechei meus olhos e lágrimas
caíram.
— Eu tenho um plano. — falou. — Vai dar tudo certo.
Encerre tudo o que você começou e não faça mais nada. Eu
prometo que tudo será resolvido o quanto antes e eu voltarei. —
passou as mãos em meu rosto limpando as lágrimas. — Enquanto
isso, para todos, nós terminamos. Ok?
Eu realmente tinha um pressentimento ruim sobre tudo
isso.
— Ok, Katelyn? — insistiu.
Eu assenti.
— Ótimo. — suspirou. — Você não pode quebrar esse
acordo. Então, preciso que você prometa.
Mingus estendeu seu dedinho para selarmos a promessa.
— Eu prometo. — entrelacei nossos dedos.
Ele deu um sorriso fraco e me abraçou. — Durante o abraço
escaldante e promessas de que tudo ficaria bem, Mingus olhou em
meus olhos e eu pude sentir o tamanho do amor que ele estava
sentindo nesse momento. Era o mesmo que eu sentia.
— Eu amo você. — falei.
— Sempre foi recíproco.
Meu peito doeu.
— Você promete que não correrá risco?
— Eu prometo. — sorriu depositando um beijo rápido em
meus lábios. — Mas para isso, você precisa cumprir a promessa,
certo?
Assenti.
— Ótimo. — sorriu fraco. — Eu vou embora daqui e avisarei
ao Tyler que terminamos, então daqui em diante, não entre em
contato comigo. Quando tudo terminar eu avisarei pessoalmente.
— Qual é o seu plano? — perguntei. — Você disse que
tinha um.
Mingus respirou fundo. Ele não tinha plano algum. Eu o
conhecia o suficiente para reconhecer isso em seu olhar.
— Eu te procurarei quando tudo terminar. — falou.

Há duas semanas eu e Mingus fingimos um término porque


Tyler havia nos ameaçado. No mesmo instante em que Mingus saiu
do meu apartamento eu enviei uma mensagem à Rafaela
encerrando toda a investigação que estávamos fazendo. Reconheço
que talvez estávamos perto de pegar algo, mas se continuar com
isso trouxesse problemas ao Mingus eu preferia parar com tudo.
Durante esses quatorze dias distantes, evitamos trocar
mensagens e ligações, e eu sentia falta dele como um inferno, mas
dessa vez eu realmente não pensava em voltar atrás da minha
promessa ou tomar qualquer atitude precipitada, porque eu
realmente temia que algo pudesse acontecer.
Nesse momento, eu estava saindo do estacionamento do
supermercado porque vim fazer a minha despesa do mês, já que o
armário e a geladeira estavam vazios. Andei cerca de 2 quilômetros
do mercado e senti o volante pesar. Acionei a seta para encostar e
quando desci do carro vi o pneu murcho.
— Ótimo. — pensei. — Toda minha compra no meu porta
malas e o pneu murcha.
Voltei para dentro do carro para tirar as chaves do contato,
ativar o pisca alerta e pegar meu celular. Eu ia tentar entrar em
contato com o seguro ou qualquer borracheiro. O que viesse mais
rápido.
Estava vasculhando os meus contatos buscando quem
poderia me ajudar e fui tocada em meu ombro. Pensei que fosse
alguém para me ajudar, visto que eu estava no meio de uma
avenida que poderia estar sem movimento nesse horário, mas ainda
era no meio da rua.
Me virei para pedir ajuda e contar que o pneu estava
murcho, e o homem musculoso que usava uma máscara levou suas
mãos até minha boca com um pano.
Droga. — pensei. Isso não era ajuda. Isso era algo de Tyler.
Só podia ser.
Quando me dei conta do que estava acontecendo, tentei
lutar contra ele batendo minhas mãos e meus pés de qualquer modo
que pudesse me livrar disso, mas tudo escureceu em questões de
segundos.

Eu estava sonolenta e minha cabeça doía. Tentei me


levantar quando abri meus olhos sem conseguir reconhecer o lugar
que eu estava, mas notei que minhas mãos estavam amarradas e
minha boca amordaçada. — Eu estava apavorada.
Não sei ao certo há quanto tempo estou aqui e há quanto
tempo acordei, mas venho conversando comigo mesma para tentar
manter a calma, dizendo que alguém apareceria para contar o que
estava acontecendo e que tudo ficaria eventualmente bem, mas o
meu coração quase saiu pela boca com o choque ao ver homens
mascarados entrando. Eles conversaram entre eles. Eram
grosseiros e eu não reconheci a voz de ninguém e meu peito
começou a doer. Fechei meus olhos e fiz minha oração. Orei para
que eu fosse encontrada. Orei para que Mingus estivesse bem, orei
para que isso fosse só um pesadelo do qual eu iria acordar logo
logo. — Mas então, reconheci uma voz. A voz de Tyler.
— Quanto tempo, princesa.
Estremeci. Abri meus olhos e ele estava em minha frente
com um olhar assustador. A sua voz era arrogante e seus olhos
eram frios.
Ele deu um passo à frente. Meu corpo estava rígido e
embora eu estivesse amarrada pelas mãos, meus pés estavam
livres, e eu os contorcia inquietos por medo. — Tyler me colocou
sentada e abriu um sorriso sarcástico para mim. Suas mãos se
aproximaram do meu pescoço. Meu estômago embrulhou. Eu
estava indefesa. Sozinha.
— Meu pai não gostou de saber que você estava nos
investigando. — disse, descendo suas mãos para segurar meus
ombros. — Tentei convencê-lo em não fazer nada, mas quando
pensamos que vocês haviam parado com essa merda toda, o seu
namoradinho estava apenas tentando ganhar um tempo para
descobrir mais sobre nós e tentar nos prender. Coitado.
Mingus ainda estava investigando? — pensei.
Tyler soltou uma gargalhada e me empurrou para trás,
soltando sua mão de mim. Acho que bati em alguma viga.
— Ajeite ela. — disse Tyler.
Um homem mascarado seguiu as ordens dele e a corda que
antes estava apenas na minha mão foi passada nesse pilar onde eu
tinha batido há pouco tempo. — Eu estava amarrada ali.
— Pelo jeito que me olhou, deve estar preocupada com o
seu querido. — zombou. — Podem entrar.
Ele gritou. O eco que o ambiente produziu arrepiou o meu
corpo ainda mais. Vi a silhueta de três pessoas, reconheci que eram
homens pela estatura do corpo, temi que fosse o Mingus, mas
segundos depois, reconheci a pessoa do meio. — Thomas. — Ele
estava amarrado nas mãos, amordaçado e com sangue escorrendo
de sua cabeça e lábios.
Me debati no local onde eu estava.
Thomas foi levado quase ao meu lado. Seu olhar estava
assustado. Se ele estava aqui, onde estava Mingus?
— Está preocupada? — perguntou Tyler se aproximando. —
Se você me disser que aceita ficar comigo, que aceita fugir comigo e
deixar todos para trás, eu cancelo tudo, princesa.
Ele estava louco. Eu não acreditava em Mingus quando me
disse que ele era um lunático, mas o que estava acontecendo aqui?
Que merda é essa?
— Se bem que, meu pai me mataria se eu deixasse vocês
vivos. — concluiu. — Ele já me mandou fazer o serviço para ele,
preciso dar orgulho. — deu de ombros. — Uma pena. Entra o
próximo!
Não. — pensei.
John. John era o próximo. John estava quase como
Thomas, também amarrado pelas mãos e amordaçado, mas sua
cabeça parecia mais que machucada. Por que o John estava aqui?
O que diabos é isso?
Se for um sonho, por favor, me acorde agora. — pensava.
— Por favor.
Tentei falar, mas eu estava amordaçada. Então comecei a
bater meus pés para que prestassem atenção em mim.
— Quer falar alguma coisa, amor? — Tyler riu. — Não é o
seu momento agora.
Outra pessoa entrou. Eu não conseguia decifrar quem era
pela pouca iluminação. Parecia ser baixa. Parecia ser mulher.
Lily. — Ela não tinha ferimentos à mostra, estava
amordaçada e com as mãos amarradas, e seu rosto completamente
assustado. Queria poder correr até ela. Queria entender o que
estava acontecendo.
— Um, dois, três, quatro. — Tyler apontou para cada um de
nós, contando. — Katelyn, Thomas, essa que estava junto que nem
sei quem é, e o querido papai John. — disse. — Faltou a mãe
problemática do nosso meninão, né? Quem mais eu poderia usar
para atingi-lo?
Meus amigos e John também foram amarrados como eu.
Tentei olhar para eles, na esperança de descobrir qualquer coisa,
mas tudo o que recebi foi seus olhares assustados.
Isso não era um sonho, certo?
— Vocês estão prontos para o show? — Tyler falou
gargalhando.
Eu estava apavorada. Mas, se eu pensei que havia
conhecido o medo antes desse momento, eu estava totalmente
errada. — Mingus foi jogado entre nós. — Se eu pensei que já tinha
sentido medo antes desse momento, eu estava imensamente
errada. O medo me cercou ao vê-lo ali. Eu comecei a tremer.
Mingus estava com as mãos amarradas como todos nós,
Tyler o segurava pelos ombros e no momento em que ele me viu,
ele tentou correr até mim, mas o moreno o impediu, jogando-o para
longe. Eu virei meu rosto, eu não podia ver isso, mas ao mesmo
tempo, eu precisava ver, eu precisava fazer algo. Olhei para frente
novamente, e lá estava ele, se colocando em pé. — Mingus nunca
desistiria de tentar nos salvar e isso me fazia sentir ainda mais
medo.
Comecei a chorar. Eu tentava olhar para ele a todo custo,
para que ele me olhasse nos olhos e compreendesse que mesmo
amedrontada eu estava bem e que ele poderia agir com calma, que
ele deveria agir com calma, porque havia muitas pessoas ali e ele
não podia agir por impulso. — Respirei com dificuldade pela
mordaça em minha boca. — Nossos olhares se cruzaram. Ele sorriu
brevemente para mim. Seu sorriso estava cheio de dor, mas ele
faria qualquer coisa para tentar me tranquilizar.
— Bem vindo ao jogo, Mingus! — disse Tyler pegando-o
pelo ombro outra vez. — Desculpe não ter encontrado a sua mamãe
problemática para trazer aqui também, legal que até mesmo em
momentos assim ela se ausenta né? — riu feito um lunático. —
Bom, hoje ela teve sorte. Porque no jogo de hoje você escolherá um
deles para morrer.
A voz de Tyler ecoava perfeitamente nítida mesmo do outro
lado do cômodo e eu pude notar no seu semblante que ele não
blefou ao pronunciar aquelas palavras.
— O que você está falando, Tyler? — a voz dele saiu falha,
preocupada.
— Bem vindo ao jogo. — Não via seu rosto, mas eu sabia
que ele estava sorrindo no momento.
Mingus olhou para mim novamente, fechei meus olhos
deixando outra lágrima rolar.
— Por que você está fazendo isso? — perguntou deixando
de me olhar. — Você só pode estar brincando.
— Eu pareço estar brincando?
Meu corpo inteiro estremeceu no segundo em que Tyler
tirou uma arma de seu bolso, mostrando-a para o loiro.
Eu quis gritar e até tentei. Comecei a me debater e junto de
mim, Thomas e Lily também. Demorou um pouco, mas John
também começou. Os homens que estavam ali, vieram até a nossa
frente e com um olhar ameaçador fizeram com que nós parássemos
com qualquer atitude que poderíamos vir a pensar em fazer.
Concentrei meu olhar em Mingus, seus ombros estavam tensos e
seus olhos refletiam medo.
— Você não pode estar falando sério. — murmurou
encarando o revólver nas mãos do moreno.
— Certa vez meu pai me contou uma história sobre alguns
amigos que traíram um homem poderoso em um palácio e quando
eu o questionei o que o homem poderoso fez aos amigos que o
traíram, ele apenas sorriu dizendo-me que o poderoso criou um
jogo. — Tyler virou-se para nós ainda segurando no ombro de
Mingus. — Serei bonzinho e você poderá escolher quem não sairá
vivo daqui hoje ou, eu posso ser cruel como o homem da história do
meu pai e perder algumas munições, acertando em todos. Você
escolhe.
— Eu não traí você. — Mingus falou. — Eu mantive a minha
promessa. Eu não contei nada a ninguém, eu terminei com a
Katelyn e fiz tudo conforme você pediu.
Tyler gargalhou.
— Você realmente acha que eu não fui atrás das coisas,
Carter? Você realmente acha que não descobri o seu plano com
esses dois — apontou para Thomas e John. — Para denunciarem
eu e meu pai? Você pediu para a Katelyn parar a investigação
porque temeu a mensagem que te mandei aquele dia, mas você
continuou! Você continua a todo tempo querendo me derrubar,
querendo me destruir.
— Eu nunca…
— Para de mentir! — gritou. — Pare de achar que eu sou
idiota! Pare de mentir, pare de tentar fingir qualquer maldita coisa. —
falou. — Você só foi naqueles malditos julgamentos porque te forcei
a ir, você nunca teve a intenção de ser meu amigo, mas eu não me
importava com isso porque eu sabia o quanto a sua mente era
fodida em relação a tudo e jurava que um dia você seria o meu
aliado, porque cara, você estava no caminho certo, mas você me
traiu e o pior de tudo é que você me traiu por conta de uma garota,
uma garota qualquer. Você investigou meu pai, Mingus! Você tem
noção onde se meteu?
Ele riu. Tyler parecia conturbado. Em alguns momentos
parecia com medo de seus próprios atos e em outros parecia se
divertir com eles.
— Não tente bancar o fiel agora. — falou. — Você traiu a
minha confiança, traiu meus segredos e terá que pagar por isso.
Escolha alguém para morrer essa noite.
Mingus estava paralisado. Percebi de longe que sua
respiração estava ofegante e voltei a bater minhas mãos na viga
que as prendia chamando atenção de todos para mim.
— Tire a mordaça dela. — Tyler ordenou.
O homem à minha frente, sem delicadeza alguma veio até
mim e tirou o pano da minha boca. — Respirei melhor assim que
aquilo desceu para o meu pescoço e encarei o Tyler firmemente.
— Quer falar alguma coisa, princesa?
Aquela pergunta me levou ao momento em que ele
aproximou-se de mim e disse que se eu topasse ir embora com ele,
tudo isso seria encerrado. — respirei fundo, passando a olhar para o
Mingus.
Como eu poderia dizer que iria embora com ele e deixar os
meus aqui? Como eu poderia deixá-los aqui? Eu não poderia fazer
isso, mas se ele concordasse em deixá-los ir, se ele concordasse
em ficar somente comigo.
— Por favor. — implorei. — Deixe-os ir.
Mingus me olhou confuso.
— Eu fico. — murmurei. — Você queria isso, certo? Então,
eu fico.
— Não. — Mingus deu um grito desesperado. — Tyler, não
escute ela.
Collins riu.
— Oh, Katelyn. — disse o moreno, olhando friamente em
meus olhos. — Você deveria ter aceitado essa proposta logo
quando a fiz, agora não tem mais volta, princesa.
Olhei para o Mingus. Eu pude jurar que ele concordou com
a cabeça quando tomei essa iniciativa, posso jurar que ele gostou
da minha atitude, como se ele quisesse que eu continuasse com
diálogos que não levassem Tyler a loucura total e nos fizesse
ganhar tempo. Posso estar enganada, mas penso que o olhar de
Mingus para mim era isso. Era que eu continuasse dizendo qualquer
coisa a fim de tentar ganhar tempo até alguém pensar em algum
plano, ganhar tempo até ele conseguir nos salvar.
— E o que eu posso fazer então? — perguntei ao Tyler, mas
ainda olhava para MIngus, para ter certeza de que eu estava agindo
conforme ele queria. Ele assentiu com a cabeça, me trazendo a
confirmação que eu precisava. Eu tinha que ganhar tempo. — Eu
faço qualquer coisa, Ty. Apenas me diga, o que eu posso fazer para
todos saírem bem daqui.
— Você fará qualquer coisa? — perguntou com um sorriso
malicioso nos lábios. Eu senti nojo. — Você tem certeza?
— Apenas os deixe ir e eu farei qualquer coisa. — falei.
Thomas começou a bater suas mãos contra a viga,
chamando a atenção de todos, inclusive de Tyler. — Penso que isso
foi combinado com Mingus.
— Tire a mordaça dele. — Falou, sem paciência. Assim que
os homens fizeram, ele voltou seu olhar ao meu amigo. — O que
você quer?
Penso que Thomas não sabia ao certo o que dizer, porque
ficou algum tempo em silêncio, até o homem ao lado o dar um leve
chute para que ele falasse.
— Por que você está fazendo isso, Tyler? — perguntou.
— E eu preciso de motivos? — revirou seus olhos. —
Mingus Carter me traiu e ainda por cima vocês investigaram a
empresa do meu pai. Vocês mexeram com as pessoas erradas,
simplesmente isso.
O foco dos capangas estavam em Thomas, que continuava
batendo boca com Tyler e questionando-o sobre tudo. O moreno
continuava a segurar com força no ombro de Mingus, mas não tinha
sua atenção nele, porque estava discutindo com Thomas, e o loiro
me olhou rapidamente e então eu notei que ele estava tentando
desamarrar as cordas que estavam em suas mãos, a única coisa
que eu precisava fazer é não deixar Tyler perceber isso.
— Seu pai realmente mandou você fazer isso? — Thomas
perguntou. — Ou esse showzinho foi ideia sua?
— Meu pai queria o modo mais rápido. — falou. — Apenas
um tiro e acabou, mas eu gosto de pensar grande, gosto de um
grande show. — sorriu.
Ele estava doente. Meu Deus.
— Você está doente. — falei. Eu não sabia mais como
chamar a sua atenção ou como poderia tirar ele de perto de Mingus,
então apelei. — Eu não acredito que me envolvi com alguém como
você.
Tyler me encarou. — Como ele ainda não tinha percebido
que estamos enrolando? E mais importante, porque estamos
enrolando? Mingus chamou a polícia? Como eles me encontraram
aqui? Como eles foram pegos por Tyler? Como John caiu nessa?
Olhei para Lily. — Ela parecia ainda mais assustada.
Olhei para o John. — Seus olhos piscavam forte, talvez com fortes
dores na cabeça.
Mingus tinha um plano?
— Que nojo. — continuei. Eu esperava que Mingus tivesse
um plano.
Collins me fuzilou com o olhar. Mexi no seu ego. — Ele
começou andar até mim e deixou Mingus para trás, sem ninguém
próximo e, antes que ele chegasse perto o suficiente, o meu amor
piscou para mim.
— Acho que ouvi carros. — disse. — Tem certeza que
ninguém nos acharia aqui?
Sua voz soou irônica, como se ele quisesse realmente
mexer com a cabeça de Tyler, que no mesmo segundo virou-se para
ele.
— O que você fez? — perguntou em um grito.
— Achou mesmo que ninguém procuraria por nós?
Ele estava blefando, eu pude perceber.
— Vá. — disse Tyler aos homens que estavam ali. —
Verifiquem toda a redondeza.
— Todos nós, senhor? — um homem ruivo perguntou.
Tyler assentiu.
— Eles estão amarrados, eu tenho tudo sobre controle.
Entendi o blefe.
Mingus havia conseguido se soltar, mas sabia que nunca
conseguiria vencer Tyler se todos aqueles homens estivessem ali.
— Pensei que seria um bom momento para voltar a tentar distraí-lo
para que ele não voltasse sua atenção ao Mingus e fosse pego em
surpresa. Esperei o último homem sair.
— Você não pensou nesse plano direito, pensou? —
provoquei.
Ele virou-se para mim novamente e antes de encará-lo pude
ver o esboço do sorriso de Mingus em seu rosto.
— Eu criei esse plano, como pode dizer que não pensei
direito?
Esse era seu ponto fraco. Falhar.
— Bem, você falhou. — respondi encarando fixamente seus
olhos.
— Como posso ter falhado?
Dei de ombros, mas ainda com um olhar provocador.
— Eu apenas posso dizer que você falhou.
Um passo à frente. Ele estava tão próximo. — Minhas mãos
podiam estar amarradas, mas minhas pernas estavam livres e
quando vi que Mingus estava sorrateiramente se aproximando, não
pensei duas vezes em chutá-lo com toda a minha força. Tyler
cambaleou para trás, surpreso com a minha atitude e logo foi
atingido por Mingus. — O primeiro ato do loiro, foi jogar o revólver
que ainda estava nas mãos de Tyler para o outro lado do cômodo, o
que já me fez respirar um pouco mais aliviada. O primeiro soco veio
em seguida, ele acertou em cheio o lado esquerdo do moreno, que
resmungou algumas palavras que eu nem sequer pude entender e,
ao tentar revidar, Mingus esquivou-se e o acertou em cheio na
barriga, fazendo-o cair de joelhos no chão.
Acho que esse era o ponto que o Mingus queria chegar,
porque no momento em que Tyler caiu de joelhos, ele o acertou
novamente perto da nuca, fazendo-o cair por completo no chão. Não
tive nem tempo de pensar em nada, apenas corri meus olhos para
onde o loiro correu e vi que ele estava desamarrando Thomas.
— Você está bem? — sua voz baixa, mas não tanto, porque
eu podia ouví-la e também estava aflita.
Thommy assentiu.
— Ótimo. Me ajude a desamarrar os outros.
A primeira pessoa para quem Thomas correu foi a Lily e
Mingus correu para mim.
— Você está bem? — murmurou.
Balancei a cabeça, com os olhos cheios de lágrimas.
— Me desculpe, me desculpe. — murmurava.
Mingus me desamarrou e voltou para a minha frente.
— Eu sinto muito. — murmurou outra vez, mas dessa vez,
olhando para mim. — Você está bem? — Passou as mãos em meu
rosto.
Desci meus olhos em meus pulsos, que doíam. Vi a
marcação da corda. Mingus desceu suas mãos até meus pulsos e
os acariciou. Levantei meu olhar, para olhá-lo, para dizer que estava
tudo bem, mas vi Tyler, em pé, atrás.
Eu tinha os olhos sobre meus pulsos, que estavam com
uma marcação da corda e quando os levei ao rosto de Mingus, vi a
sombra de Tyler por trás.
— Cuidado! — gritei.
Eu demorei para reagir, eu demorei para ver. Tyler o agarrou
e o arremessou para longe.
Thomas correu para cima do moreno e os dois começaram
a brigar.Não vi ao certo em que momento a Lily veio próximo de
mim, para soltar o John, mas quando o vi correr até o centro da
briga, Lily estava bem próximo de mim.
— Você está bem? — ela murmurou para mim ao entrelaçar
nossas mãos.
Apenas assenti com a cabeça apertando firme sua mão,
para que ela não ousasse soltar.
Voltando meu olhar na briga, John estava no chão e Mingus
ajudava-o a se levantar. Thomas havia acabado de acertar um soco
em Tyler, que caiu novamente de joelhos no chão. O loiro e o mais
velho se juntaram ao lado de Thomas, pude ver que o Mingus
murmurou algo, mas não consegui entender o que.
— Acabou a brincadeira! — Tyler gritou virando-se para
eles com certa dificuldade. — Acabou!
Lily grunhiu e logo murmurou algo sobre Deus, olhei para
ela confusa. — Como ela poderia pensar que os três sairiam
perdendo? Eram três contra um. Mingus era bom de briga.
Voltei meu olhar para eles e então entendi o porquê do
grunhido ou da breve oração. Tyler segurava o revólver.
Não. — me desesperei. — Meu estômago embrulhou e eu
quis ir até lá, até mesmo tentei correr para eles, mas a Lily apertou a
minha mão ainda mais forte, me impedindo de me mover. Os três
começaram a dar pequenos passos para trás e Tyler mantinha o
revólver na mira de Mingus.
— Por favor. — pediu John.
— Escolha um. — Tyler falou.
Ele parecia ainda mais frio do que antes.
— O que? — A voz de Mingus falhou.
— Escolha um. — repetiu friamente.
— Um o que? — engoliu em seco.
— Não me faça perder a paciência. — disse.
Sua mão direita segurava o revólver apontado para Mingus
e sua mão esquerda estava em sua barriga, provavelmente sentindo
as dores dos socos que levou. Seus lábios estavam cortados e
havia sangue escorrendo, mas ainda assim, ele mantinha-se frio e
pronto para tirar uma vida.
— Rápido Carter! — gritou.
Levei um susto com seu grito. Meu corpo pareceu saltar e
um pequeno gritinho saiu dos meus lábios. Tyler me olhou.
— Poderia ser ela. — disse.
Apertei a mão de Lily com toda a força que eu tinha, eu
estava apavorada e ela também.
— Não. — Mingus gritou.
— Então escolha. — voltou seu olhar para ele.
Meu coração parecia explodir. — Tyler deu um passo à
frente e colocou o revólver na testa dele.
— Não! — dessa vez eu gritei.
Foi por impulso. Foi sem pensar. E, foi algo que assustou
todos, mas ao menos deu tempo de Mingus agir. Quando minha voz
ecoou na sala, Tyler me olhou e por essa razão, o loiro conseguiu
dar um chute na barriga do outro e quando ele cambaleou para trás,
Mingus pegou o revólver de suas mãos e agora era ele que
apontava a arma para Tyler, mas o moreno não pareceu temer, até
mesmo esboçou um sorriso irônico.
— Por quê você está sorrindo?
— Você nunca atiraria em mim. — falou.
— Não tenha tanta certeza.
— Você não se importaria de matar alguém?
— Você não.
Tyler gargalhou e olhou para mim. Ele parecia estar
gostando disso.
— Esse é o homem que você deseja? — perguntou. — Um
sanguinário?
Mingus se contorceu. Ele não me olhou, acredito que por
medo do que Tyler pudesse fazer. John e Thomas permaneciam um
passo atrás de Mingus, imóveis.
— Ele não é um sanguinário. — respondi.
— Você tem certeza? — riu irônico. — Nesse momento
você diz que ele não é um sanguinário, mas ele está apontando
uma arma para mim.
Percebi que o loiro hesitou nesse momento.
Não hesite. — pensei.
— Você ainda o escolheria se ele fosse um assassino? —
continuou — Você ainda o amaria se ele fosse um monstro?
Lily apertou minha mão. — Eu estava tremendo e notei que
Thomas e John olharam para mim.
— Cala essa maldita boca. — Mingus gritou.
— O que? — gritou de volta. — A verdade te assusta? —
riu.
Meu corpo tremia. Meu corpo estava cansado e assustado.
— Eu amaria. — Minha voz saiu baixa, pelo medo que
corroía todo meu ser, mas eu esperava que tivesse sido alto o
suficiente para que ele me ouvisse. — Eu o amaria de qualquer
maneira.
Pude ver que os olhos de Mingus encontraram os meus.
Ambos perdidos. Ambos sentindo uma angústia sem fim.
— Se você quer provar para o Mingus que ele não é bom,
que ele não é amado, você chamou as pessoas erradas para
estarem aqui. — disse Thomas.
— Será? — debochou. — O querido John concorda com
isso? Concorda que o seu filho não foi um erro? Queria que a
querida Helena estivesse aqui, porque certamente ela diria que foi
um erro. Que ele é um erro.
O ponto fraco de Mingus.
— Você está errado. — John falou, dando um passo à
frente, ficando ao lado de Mingus e pegando a arma de sua mão,
ainda deixando-a apontada para Tyler. — Eu amo o meu filho e ele é
um bom homem e provavelmente não teria coragem de puxar esse
gatilho, como você mesmo disse, mas eu não sou como ele.
Notei a maneira que Mingus olhou assustado para o seu
pai. A feição de John era fria, como se ele realmente estivesse
disposto a isso.
— Filho, Thomas, peguem as cordas. — disse.
— Será civilizado? — Tyler zombou.
John apenas ordenou novamente para os meninos correrem
perto das vigas para pegar as cordas o mais rápido possível. Meu
olho acompanhou Mingus, mas ele não olhou para mim em nenhum
momento, mesmo assim eu mantinha meus olhos fixos nele, tão
fixos que não vi o que estava acontecendo logo a frente, apenas
ouvi o som mais estrondoso que já ouvi na vida e me assustei. Meu
corpo inteiro estremeceu. — Um tiro. Um grito.
— PAI!
A voz de Mingus gritando “pai” ecoou em meu ouvido. Vi
sua silhueta correr até o homem, que estava imóvel no chão. Não vi
como aconteceu, mas acredito que Tyler tenha o atacado e em
alguma rápida disputa enquanto os meninos pegavam as cordas,
ele havia pego o revólver e atirou na perna de John.
Minha respiração estava ofegante. Eu mal conseguia
respirar, na verdade. Lily também.
— Pai? — murmurou, ao lado do homem que estava
gemendo no chão.
Thomas ainda mantinha-se paralisado ao lado de uma viga.
— Pai. — murmurava desesperadamente ao lado do
homem. — Pai, você está bem?
Tyler estava parado com um sorriso nos lábios saboreando
aquele momento, eu quis tanto correr até ele para me vingar, quis
gritar, mas não consegui. Estava paralisada. Eu não conseguia me
mover.
— Do que você me chamou? — perguntou o mais velho em
um murmurou repleto de dor. — Você me chamou de pai.
— Você está bem. — disse o loiro, mais para si mesmo do
que para o seu pai.
Mingus levantou seu olhar para Tyler, que estava na frente
de ambos. — O que você fez? — perguntou, se levantando e
ficando frente a frente com ele.
— Eu te disse para escolher.
— Eu não vou escolher porcaria nenhuma! — gritou. —
Você está doente.
Sem hesitar o moreno levantou sua mão que segurava o
revólver em direção reta, acompanhei com meu olhar, ele tinha
Thomas na mira.
— Escolha. — disse, e por um ou dois segundos de
hesitação de Mingus foram o suficiente para o barulho ensurdecedor
acontecer de novo.
— Thommy! — Lily gritou.
Tyler atirou na perna de Thomas, que caiu no chão. Lily
soltou minha mão e correu até ele. Eu estava paralisada.
— Pare. — Mingus murmurava enquanto encarava Thomas
no chão. — Por favor, pare.
— Eu disse para você escolher. — falou.
— E-eu…
Mais uma vez ele hesitou.
— Se você não escolher, eu irei na Katelyn.
Engoli em seco.
— Não! — Mingus gritou. — Por favor, não.
— Escolha! — Tyler gritou ainda mais alto.
— Eu. — colocou-se na frente dele.
Tyler nem tentou disfarçar o sorriso que esboçou. Dando um
passo à frente, encostou a arma no peito do Mingus.
Não. — gritei internamente. — Alguma coragem que eu nem
sequer sabia que existia nasceu em mim. Eu corri até eles.
— Volte! — Mingus gritou. — Volte!
— Fique comigo, deixe eles partirem. — eu dizia
desesperada.
Estávamos desesperados.
— Volte! — gritou ainda mais alto.
Tentei me aproximar ainda mais dando um curto passo até
eles.
— Katelyn! — gritou. — Volte.
— Por favor, Tyler. — implorei. — Eu te traí. Eu comecei
essa investigação.
Ele virou seu rosto para mim e não parecia mais estar
curtindo esse show, na verdade parecia com raiva. — Mingus estava
apavorado.
— Ela está mentindo. — disse o loiro, desesperado. — Eu
que comecei tudo isso.
— Ele está mentindo, você sabe. — falei. — Eu fui aquela
que começou tudo isso e você sabe. Eu investiguei vocês, eu
acessei os e-mails…
— Não. — Mingus falou.
Seu corpo tomou a frente do meu. O curto espaço entre nós
me fez arrepiar. Ele estava suando e tremendo ao mesmo tempo.
Eu conseguia ouvir o choro de Lily e os grunhidos de dor de John e
Thomas.
— Por favor. — murmurei, ainda atrás de Mingus. — Se for
para atirar em alguém, que seja eu.
— Fique quieta. — ele falou.
Tyler riu. Ele tinha voltado a se divertir com isso. Penso que
o nosso desespero era o que ele gostava.
— Você é o protagonista do jogo, Carter. — falou. — Você
escolhe.
— Eu. — não hesitou.
Tyler sorriu. — Seu próximo movimento foi tão rápido que
pareceu durar um piscar de olhos, eu apenas ouvi o disparo e isso
foi o suficiente para me fazer perder as forças e cair no chão. Eu
não fui baleada, mas senti como se tivesse sido ao pensar que o
disparo foi em Mingus, mas ele se agachou para me ver.
— Ele atirou em você? — perguntou.
Era notório o seu desespero. Mingus mal conseguia
respirar.
— K-Katelyn? Você está bem? Katelyn?
Ouvi a gargalhada abafada de Tyler e um grunhido ainda
mais forte. Segui o segundo som com meu olhar enquanto Mingus
ainda me perguntava se eu estava bem.
— John. — murmurei.
Mingus seguiu meu olhar. John havia entrado em nossa
frente. John havia levado mais um tiro. Ele correu para o seu pai.
— John. — murmurou. — Oh.
Olhei para onde ele foi, vi que ele tentava pressionar o
ferimento em seu peito.
— Pai? — murmurava. — Por favor, fique comigo.
Me arrastei devagar para onde eles estavam, com cautela
para que Tyler não fizesse nada, mas acredito que ele estava
curtindo o momento. Olhei brevemente para onde estavam Lily e
Thomas. — Ela havia amarrado sua jaqueta na perna dele para
pressionar o ferimento e ambos olhavam para mim, assustados e
tristes.
— Fique comigo, fique comigo. — pude ouvir com mais
clareza enquanto me aproximava.
O tiro foi certeiro no peito. Conforme me aproximava,
percebia que estava difícil para ele respirar e, parecia que de sua
boca saia um pequeno murmúrio, como se ele quisesse dizer o
nome do filho.
— Min....
— Estou aqui, estou aqui.
— M-meu filho. — sua voz estava falha. — E-eu
realmente…
— Sh, não fale. — pediu. — Você precisa guardar energias.
— M-me perdoe. — murmurou com a pouca força que ainda
tinha.
— Fique comigo.
Ele começou a tossir, e de seus lábios começou a sair
sangue. — Acho que John estava morrendo ou perdendo as forças
pela quantidade de sangue que estava perdendo. Me apressei para
ir até eles, mas fui puxada para trás por Tyler em um movimento
brusco.
— Não. — murmurou para mim.
Acho que ele não queria que Mingus ouvisse que eu estava
em seus braços. — Eu gemi e no mesmo segundo senti algo gelado
parar em minhas costas.
— Não diga nada, ou você quem levará o próximo tiro. —
murmurou em meu ouvido.
Corri meus olhos aos meus amigos, eles me olhavam
espantados.
— John?
Ouvir a voz falha de Mingus me fez olhar para ele outra vez.
Eu queria poder ir até ele. Eu queria fazer algo para salvar o John,
para salvar a todos nós.
— Por favor, olhe para mim. — murmurava. — Fique
comigo.
Olhei para o mais velho, ele parecia ter muita dificuldade em
continuar respirando, mas ainda tentava dizer algo.
— Não diga nada, pai. — Mingus dizia. — Por favor, guarde
suas energias.
— O perdoe. — A voz fraca de Thommy ecoou naquele
ambiente.
Eu estremeci.
— Perdoe-o, irmão. — falou novamente.
Mingus não tirou seus olhos de seu pai.
— Eu te perdoo. — engoliu em seco. — Eu já te perdoei há
muito tempo, pai.
Eu estava chorando. Na verdade, além de Tyler não penso
em uma pessoa que não chorava no momento. Mingus debruçou-se
sobre o pai, estava chorando. Despedaçado. Desesperado.
— Eu te amo, pai. — murmurava. — Me desculpe, me
desculpe. Eu te amo, pai e agora que eu finalmente tenho você, por
favor, por favor, não me deixe.
John falava com pouca força, mas entre sua voz falha e o
soluço de Mingus, deu para entender o que ela falou.
“Você é digno do amor. Sempre foi. Eu te amo.”
Acho que seus olhos se fecharam neste momento, porque
os murmúrios do ambiente ou choros foram transformados em
berros. De Mingus.
— O quão difícil é perder alguém que ama? — a voz de
Tyler ecoou.
Me arrepiei. Eu estava tão perdida sofrendo a dor de
Mingus, que me esqueci que estava nas mãos dele.
— Mingus. — murmurei.
Ainda debruçado sobre o John ele soluçava, estava imóvel.
Eu não sabia se John ainda respirava. Eu não sabia se nós ainda
poderíamos sair vivos daqui.
— Mingus. — murmurei novamente.
Com sua respiração ofegante, ele virou seu rosto para mim.
— Tentei dar um sorriso forçado, como que tentando demonstrar
suporte e amor, mas como eu deveria fazer isso se John estava
desacordado na sua frente? Como eu deveria tentar demonstrar
apoio se uma arma estava em minhas costas? — Notei que Tyler
sorriu ao ver a feição destruída no rosto do loiro. Meus olhos
estavam cheios de lágrimas, eu estava tão assustada e tão
preocupada. Eu mal conseguia respirar.
— Deixe-os ir. — suspirou cansado. — Por favor.
— Por favor, Tyler. — murmurei.
Tyler soltou-me e no mesmo instante Mingus se levantou
rapidamente e me puxou para ele.
— Eu sinto muito, eu sinto muito. — murmurei.
— Sh. — passou seu dedão pelo meu rosto com delicadeza.
Ele tremia mais do que eu. — Ficará tudo bem.
Ele estava arrasado, destruído e ainda assim, tentava cuidar
de mim.
— Estou assustada. — o apertei com força em um abraço.
— Ficará tudo bem, eu prometo.
— Eu não teria tanta certeza. — respondeu Tyler, sorrindo
debochadamente.
— Só os deixe ir.
Mingus me passou para trás de seu corpo. Suas mãos
ainda estavam nas minhas e notei que na palma de suas mãos
havia muito sangue, sangue de seu pai. Estremeci com isso e me
permiti olhar por um breve momento para trás, para onde John
estava. — Acho que ele ainda respira. Fracamente. Talvez
pudéssemos salvá-lo. Talvez pudéssemos fazer algo. — Dei uma
olhada para Lily e Thomas. Talvez eles pudessem se arrastar até ele
e tentar estancar o sangue.
— Só os deixe ir. — Mingus falou.
Sua voz estava arrasada. Ele não tinha mais forças.
— Por favor. — pediu. — Você quer que eu me ajoelhe?
Você quer que eu implore? Apenas os deixe ir. Deixe o John e o
Thomas irem à um hospital. Deixe as garotas irem. Eu fico. Você
pode fazer o que quiser comigo, apenas os deixe ir. Eu imploro.
Não. Eu nunca o deixaria ficar. Eu nunca partiria sem ele.
Antes que o Tyler pudesse dar mais uma resposta irônica e
debochada, o som de uma sirene começou a ecoar.
— O que você fez? — perguntou com raiva.
— Você realmente achou que eu não iria fazer nada? —
Mingus falou. — Você realmente achou que quando você
sequestrou a Katelyn eu não iria entrar em contato com a polícia?
Você realmente pensa que eu sou tão idiota assim, Tyler? Você é
idiota. Desde a mensagem que me enviou dizendo que estava com
ela, eu estou sendo rastreado e grampeado pela polícia. Eles sabem
de tudo. Eles sabem de você e do seu pai, eles sabem essa merda
toda. Acabou, Tyler! Você perdeu.
Olhei brevemente para Lily, ela demonstrou um alívio.
Thommy estava muito pálido, mas seu ferimento não parecia tão
grave.
— O jogo só para quando eu digo. — sorriu
Tyler levantou seu braço já apertando o gatilho. Um barulho
ensurdecedor. Eu fui para o chão. Meu corpo inteiro doeu.
— Não! — era a voz de Thomas. Ele não tinha forças e
ainda assim gritou.
Eu fui para o chão porque o Mingus caiu em cima de mim.
Uma mancha vermelha parecia crescer rapidamente em sua
camiseta branca.
— M-mingus? — balbuciei.
Seus olhos estavam abertos, fixos em mim, eu tentava
entender o que ele estava dizendo apenas com os lábios, sem emitir
voz alguma, mas o som ao meu redor me impedia de concentrar-
me.
Ouvi um som alto, com rigidez, como um estouro e em
seguida, tiros. — Pensei que todos nós seríamos mortos, pensei
que meu fim havia chegado. Não quis olhar, eu sabia que nesse
momento meus amigos estariam mortos, John estaria morto. Eu
apenas tentei focar no Mingus, apenas tentei arrancar aquela dor
dele. — Me ajeitei e coloquei sua cabeça em meu colo. Pressionei
sua ferida, o que o fez gemer.
— Sinto muito. — murmurei.
Ele piscava os olhos devagar e respirava com dificuldade.
Eu estava chorando. Meu peito estava doendo. Todo o meu
corpo estava doendo. Uma mão tocou em meu ombro, assustei-me
com a possibilidade de ser Tyler. — Fechei meus olhos ainda com
as mãos sobre Mingus.
— Moça, você está bem?
Uma voz irreconhecível.
— Um homem com um ferimento no peito! — a mesma voz
gritou. — Traz a maca.
Eu estava atordoada.
— Uma garota em estado de choque.
A voz ecoava tão longe, que pensei que seria impossível a
pessoa estar perto. Virei-me para ver o que estava acontecendo, um
homem alto e moreno estava próximo a mim, olhou em meus olhos
e começou perguntar algo, mas eu não conseguia ouvir, sua voz
parecia abafada, olhei por toda a sala, John não estava mais ali,
alguém levava Thomas em uma maca e Lily o acompanhava. —
Onde estaria Tyler? — Olhei para o outro lado, a minha visão estava
turva, mas pude ver seu corpo estirado no chão.
— E-ele…— gaguejei.
Tyler estava morto?
— K-Kat.. — reconheci sua voz falha.
O olhei. — Ele estava tão fraco, tão frágil. Perdia muito
sangue. Tentei me concentrar, tentei respirar com mais calma, para
poder passar tranquilidade para ele.
— Eu sinto muito. — murmurou.
— Não é culpa sua. — assegurei, engolindo em seco.
— Tragam mais uma maca! Rápido! — o homem gritou.
Me permiti olhar brevemente para ele e com a visão mais
clara, vi seu uniforme. Ele era policial.
— Estamos salvos. — disse, permitindo abrir um pequeno
sorriso olhando para Mingus. — John e Thomas ficarão bem. Você
ficará bem. Nós ficaremos bem.
Mingus se esforçou para levantar sua mão até a minha e
quando notei o ato, o ajudei.
— Estou aqui. — murmurei. — Ficarei aqui até você ficar
bom.
— Q-quando… — começou.
— Sh, guarde energias.
Doía como um inferno. Eu nunca imaginei que eu pudesse
sentir tamanha dor.
— Quando eu disse que você…. — continuou mesmo sem
forças. — você... era minha personificação do que é amor…
— Mingus, por favor. — implorei. — Guarde as suas
energias, nós conversaremos mais tarde.
— Meu coração há muito tempo é seu e… — tossiu. — Eu
sinto que sempre será.
— Mingus…
— Katelyn. — me interrompeu com dificuldade. — Você é
minha personificação de amor, porque tudo em mim ama tudo em
você e eu não quero morrer sem que você saiba disso.
— Você não vai morrer. — murmurei. — Você ficará bem.
Ok? Você não vai me deixar. Você prometeu que não ia me deixar.
Você prometeu que íamos ser felizes. Você não pode quebrar a sua
promessa. Você prometeu, Mingus. Você ficará bem.
Eu estava soluçando. Eu estava soluçando. Eu não
conseguia respirar.
— Eu te amo. — tossiu sangue.
— Por favor. — gritei. — Fique comigo.
— Com toda a minha alma. — continuou. — Que minha
alma renasça e… encontre a sua outra vez.
— Fique comigo. Fique comigo.
Eu continuava soluçando e chorando. Chorando e
soluçando. Eu não conseguia respirar. Eu repetia incansavelmente
“fique comigo.”, mas ele fechou os seus olhos.
Continuei gritando e berrando. Pedi a Deus por um milagre.
Pedia para que ele abrisse seus olhos e acho que alguém me ouviu.
Seus olhos se abriram. Rapidamente. Talvez por um milagre. Ele
levou sua mão em meu rosto. — Como ele ainda tinha forças? E
mais importante, por que ele estava gastando sua energia?
Mingus limpou minha lágrima. Eu enxergava embaçado
pelas lágrimas, mas acho que o vi sorrir. Por que ele sorriu? O que
estava acontecendo?
Sua mão caiu.
— Abra os olhos. — eu gritava. — Mingus abra os olhos. Eu
não te permito me deixar. Eu não permito você me deixar!
Nesse instante, minha mão foi tirada do corpo de Mingus
quando uma mulher de branco se aproximou. Ela colocou uma
máscara de oxigênio nele, e o homem que havia tocado em meu
ombro há pouco tempo me agarrou e começou a me levar para fora.
Meus pés se mexiam, eu não sabia como, porque eu estava
paralisada por dentro. Eu continuava olhando para trás, eu
continuava buscando o Mingus e acho que eu gritava porque o
homem que me segurava dizia em todo momento “ela está em
choque”, “ela está em choque”.
Eu estava do lado de fora. Muitas viaturas policiais estavam
ali. Acho que vi o Christopher. Acho que vi até Helena ali. Não sei.
— Pulso caindo! Pulso caindo!
Ouvi uma voz. Olhei para trás, seguindo a voz e a maca que
traziam até a ambulância à frente era a de Mingus.
— Prepare o desfibrilador. — a de branco gritava.
— O-que? — uma voz familiar. — MINGUS!
Era Helena. Ela estava ali. Ela estava gritando.
Minha visão falhou. Minha respiração também falhou. Senti
meu corpo pesar. Senti minha cabeça doer. Meu corpo inteiro
estava doendo. Meu coração estava estilhaçado. Eu caí. Ninguém
me segurou. Eu chorava. Soluçava.
Não. Não. Não. Não.
Eu não conseguia respirar. Eu não conseguia enxergar mais
nada. Tudo ficou longe. As vozes. Os gritos. Eu só esperava vê-lo
outra vez. Eu só esperava acordar desse pesadelo.
Que minha alma reencontre a dele. Que minha alma
reconheça a sua. Que nossas almas possam se amar em paz.
Tudo ficou preto.
CAPÍTULO 35
Mingus
Agora foi a minha vez de mentir. Eu pedi para a Katelyn
encerrar as investigações que estava fazendo escondido de mim
quando Tyler a ameaçou para mim, porque eu nunca havia sentido
tanto medo na vida como senti quando recebi sua fotografia em um
local desconhecido. Tyler me ameaçou. Eu deveria terminar com ela
e sair da cidade. Mas claro, não fiz nenhum dos dois. Eu fingi
terminar o relacionamento e nem sequer quis fingir a segunda parte,
pelo contrário, pedi para o John vir a cidade e, no dia seguinte ele
estava aqui e então, eu contei para ele sobre tudo.
Contei sobre o falso testemunho que cometi, contei sobre as
ameaças recebidas, contei sobre comprar drogas com o mais velho
e suspeitar que a empresa de seu pai é uma grande lavagem de
dinheiro. Contei sobre achar que ele é grande no tráfico e também
sobre o tráfico de armas. — John pareceu ficar assustado. Eu queria
pedir desculpas por não ser o filho perfeito, queria pedir desculpas
por ter me envolvido em uma merda como essa. Mas esse não era
um momento de pedir desculpas, esse era um momento onde
precisávamos agir, porque o Tyler nunca me deixaria em paz,
porque ele nunca deixaria Katelyn em paz.
“O que devemos fazer?” — foi o que perguntei.
E, como todo bom adulto consciente, John sugeriu
procurarmos a ajuda da polícia, o que me causou uma boa risada de
nervoso, porque certamente Daniel Collins, pai de Tyler, tinha
amigos na delegacia que jamais o deixaria ser investigado.
“Eu também tenho amigos.” — foi o que ele respondeu.
Essa foi a razão que comecei a mentir para a Katelyn.
Desde o nosso falso término, há duas semanas, estou investigando
os Collins com a ajuda de John, Thomas e polícia. — John me fez
ser sincero e contar tudo. Então, eu assumi que dei um falso
testemunho perante ao juiz em um julgamento, sem saber que ele
era de fato culpado, mas que também fui ameaçado a fazer tal
coisa. Contei algumas ameaças que ocorreram, contei que pegava
droga com Tyler para consumo, o que acredito não ser crime e
também contei que costumava andar com ele quando mais novo.
Como a denúncia sobre os Collins eram graves, os amigos do meu
pai, investigadores, promotores e policiais pediram para
aguardarmos sobre o meu julgamento por ter cometido um crime
(falso testemunho), e esse caso também foi desarquivado para uma
nova perícia.
Estávamos no pé dos Collins. Meu celular estava
grampeado pela polícia, porque qualquer mensagem de Tyler eles
iriam ver, por isso eu tentava evitar conversar com a Katelyn.
Nesse exato momento, nós estávamos saindo da casa de
Luiz, um investigador que estava nos ajudando muito. Thomas e
John estavam comigo, quando o celular do Thommy começou
tocar.
— É a Lily. — falou.
Ele atendeu a ligação.
— Oi, amor. — perguntou. — Ok. Calma. Não estou
conseguindo te entender. Calma. Fale devagar.
Ele pareceu tenso.
— O que foi? — murmurei.
— Vou te colocar no viva voz.
“Você está com o Mingus? Katelyn está com vocês? Onde
vocês estão? Eu não consegui contato com ela e ela compartilhou a
sua localização atual comigo, mas faz uns trinta minutos que ela
está parada no mesmo lugar. Eu tentei ligar umas vinte vezes e ela
não me atendeu. Vocês estão com ela?”
— O-Que? — A minha voz falhou.
Peguei meu celular e liguei para ela.
Um toque, dois toques, três toques, quatro, cinco, seis, sete.
“Sua chamada está sendo encaminhada para a caixa
postal. Estará sujeita a cobrança após o sinal.”
— Lily, compartilhe a localização da Katelyn conosco,
agora.
— O que está acontecendo? — John perguntou.
Eu não tinha tempo para explicações.

— Lily, me envie agora a localização.


“Ok. Eu também vou pra lá.
— Não. — Thomas falou. — Fique na sua casa. Não saia
daí.
“Eu vou.”
— A localização, Lily. Agora! — aumentei minha voz.
Recebi a mensagem. O seu celular marcava estar próximo
de um supermercado que ela costumava fazer compras. Comecei
andar desesperadamente. Eu precisava chegar até o meu carro. Os
dois me seguiam. Sem dizer nada. Sabíamos que algo estava
errado.
Meu corpo inteiro irradiava uma corrente de tremor. Eu
estava preocupado, amedrontado. Sentia o meu coração quase
saltar pela boca e ouvia John e Thomas dizer para eu tentar manter
a calma. Mas porra, como eu iria manter a calma se eu não fazia
ideia de onde Katelyn estava? Como eu iria manter a calma se um
lunático podia estar atrás de nós? Atrás dela?
Entramos no carro. John quis dirigir. Thomas foi atrás. Eu
nem sei como entrei no banco do passageiro.
Tentei ligar mais uma vez para ela. Sete toques. Caixa
postal.
— E-eu… — minha começou a falhar e minha respiração
também.
— Mingus, por favor. Se acalme. — Thomas falou.
— Compartilhei nossa localização com meus amigos. Se for
qualquer coisa com os Collins, eles nos ajudarão.
Liguei outra vez. Caixa postal.
Minhas pernas estavam moles. Eu tentava relaxar os meus
ombros e mexer os dedos das mãos como a doutora Isabela havia
me ensinado quando eu estivesse prestes a ter um ataque de
pânico, mas não estava dando certo. Eu nem sequer conseguia
respirar, quem dirá trabalhar nisso.
Meu olhar ficou no chão do carro. Minha cabeça estava
ruim. Tentei focar em qualquer outra coisa, tentei fechar e abrir
meus punhos. Minha respiração falhava.
— Mingus, eu preciso que você fique comigo. Eu preciso
que você fique com a gente.
Olhei de relance para o lado. John mexia no celular.
— Estou acompanhando a localização. — respondeu.
Eu tinha enviado a localização pra ele? Não me lembrava.
Meu peito estava apertado.
— John, está acompanhando a localização que te enviei?
— perguntou Thomas. — Lily me encaminhou.
Foi ele. Eu realmente não tinha feito isso.
Liguei mais uma vez. Caixa postal. Outra vez.
— Droga! — acho que gritei. — Atende essa merda. Por
favor.
Um, dois, três. Eu não conseguia respirar direito.
— Mingus.
A voz parecia distante.
— Eu preciso de você. — alguém dizia. — Por favor, eu
preciso que você se concentre em sua respiração e fique comigo,
preciso da sua ajuda. Precisamos da sua ajuda.
Eu fitava o assoalho do carro. Meu peito ardia. Era possível
o peito arder?
— Mingus, você está me ouvindo? Fique comigo.
— E-eu… Eu n-não consigo respirar…
Estava impossível.
— Hey, hey… — senti uma mão em meu ombro. — Me
acompanhe, respire comigo.
Respire e inspire. Respire e inspire.
Eu tentei acompanhá-lo, mas meus lábios tremiam.
— Isso, continue. — dizia.
Acho que por todo percurso foi assim. John dirigindo,
Thomas tentando me tranquilizar e eu tentando sobreviver às
crises.
No momento em que John estacionou, eu fui tentar sair do
carro sozinho e meu passo falhou.
— Mingus! — ouvi a voz de Lily se aproximar. Ela já estava
ali.
Thomas me ajudou a sair do carro.
— Onde ela está? — perguntei. Ofegante. Mal respirava.
— E-eu não sei. — Lily respondeu.
Sua carteira, sua chave e seu celular estavam jogados no
banco de passageiro. O pneu furado. Peguei seu celular em minhas
mãos trêmulas.
John deu a volta no carro, observando tudo. Eu estava
paralisado, penso que se eu desse mais um passo, cairia. Não tinha
forças.
— Ligue para o Tyler.
— O que? — perguntou Thomas, encarando John. — Você
está louco?
— Se ele está realmente envolvido nisso, ele atenderá. —
continuou. — Se ele está mesmo atrás disso tudo, ele tem algum
objetivo. Seu celular está grampeado e há permissões específicas
feitas pela polícia para rastreadores. Usaremos isso a nosso favor.
— John tem razão. — Thomas falou.
— Eu estou apavorado. — murmurei.
Eu liguei. No primeiro toque, ele me atendeu.
“Estava esperando sua ligação.” — falou. — “Saudades da
princesa?”
— Katelyn está bem? — perguntei. — Onde você está?
“Venha me ver.” — falou. — “Mande o seu querido pai andar
rápido, se quiser que ela fique viva. Sem polícia. Meus homens
estão por toda a parte e se alguma polícia chegar junto com vocês,
eu não hesitarei em matá-la.”
— Por favor, não faça nada.
“Venha até mim. Meus homens seguirão vocês para se
verificarem de que não farão nada e que a polícia não está atrás.
Venha rápido, Carter.”
A ligação se encerrou.
Nas mensagens do meu celular chegou um endereço. A
localização era rural. Um galão no meio de uma estrada de terra.
Dois homens dentro de uma caminhonete ao outro lado da
rua acenaram para nós.
— Eles podem ter ouvido sobre o rastreador? — Thomas
murmurou.
— Não. — disse John. — Vamos confiar nos investigadores.
Eles sabem como fazer.
Entramos no carro. Dessa vez estávamos nós três e Lily. Eu
me odiava por tê-la colocado no meio disso tudo. E esperava que
Thomas não me odiasse também.
John começou a dirigir e percebemos que duas
caminhonetes nos seguiam atrás e no decorrer de um percurso,
havia outras duas à nossa frente.
O celular de John começou tocar. Ele atendeu e falou
brevemente cerca de sete palavras.
“Certo. Entendi. Ok. Combinado. Não se atrasem.”
Fiquei inquieto. Estava tudo bem? Como eles iriam se
camuflar para nada acontecer com a Katelyn? — John notou minha
inquietação. Colocou sua mão em minha perna.
— Fique calmo. Precisamos ganhar tempo. A polícia não
poderá nos acompanhar de imediato porque eles perceberão. E,
com certeza Daniel está envolvido nisso e deixou alguém de
prontidão na delegacia se acaso sair alguma viatura. — falou. —
Eles tem um plano. Uma denúncia falsa. Assim, viaturas irão sair de
lá para nos ajudar. Mas irá demorar um pouco, porque eles podem
perceber no caminho. Lembrem-se de ganhar tempo. Precisamos
ganhar tempo.
Ganhar tempo. — Eu tentava gravar em minha mente.
Vinte ou trinta minutos, chegamos. — O local era isolado da
cidade e da via rural. Estávamos literalmente no meio do nada.
Muitos homens estavam ali fora. Vi Tyler.
O local parecia um galpão. — Talvez eles guardassem
armas ou drogas aqui.
Descemos do carro e os seus homens nos cercaram. Dois
para cada um. Injusto, como sempre. — Eu estava morrendo de
medo, mas mantive minha cabeça erguida o encarando.
Apenas ganhar tempo. — pensei.
Tyler deu sinal com a mão para os homens e isso foi o
suficiente para eles nos agarrarem. Lily gemeu. Thomas tentou se
soltar para ajudá-la, mas levou um soco. John tentou se soltar para
ajudá-lo, mas também levou um soco.
— Não revidem. — pedi. — Por favor.
Eu não aguentaria vê-los se machucando e Tyler era um
psicopata e não se importaria em machucá-los.
— Onde está a Katelyn? — perguntei.
Ele riu, se aproximando de mim.
— No meu tempo, garotão. — falou, rindo. — Isso será
divertido. Bem vindo ao jogo.

Seus homens covardes agrediram Thomas e John antes de


levá-los para dentro. Eu tentei revi d ar, mesmo sendo aquele que
pediu para não fazerem isso, mas dois me seguraram. Eles tiveram
suas mãos amarradas e sua boca amordaçada. Ninguém tocou na
Lily — graças a Deus. — Mas ela também foi amarrada e
amordaçada. Eu era o único que estava somente amarrado.
Tyler me levou para dentro. Ele me segurava pelos ombros
e eu queria poder me soltar e arrebentar a sua cara, mas vi Katelyn.
— Ela estava assustada e apavorada. Tentei correr até ela, mas fui
impedido e jogado para longe. Filho da puta.
Usei toda a minha força para ficar de pé outra vez. Apenas
minhas mãos estavam amarradas, por isso consegui.
Nossos olhos se cruzaram. Ela estava chorando. Abri um
sorriso forçado para ela, mesmo repleto de dor e medo, eu queria
que ela se sentisse calma e segura. Eu faria de tudo para tirá-la
daqui, para tirar todos daqui.
— Bem vindo ao jogo, Mingus! — disse Tyler me pegando
pelo ombro outra vez. — Desculpe não ter encontrado a sua mamãe
problemática para a trazer aqui também, legal que até mesmo em
momentos assim ela se ausenta né? — riu feito um louco. — Bom,
hoje ela teve sorte. Porque no jogo de hoje você escolherá um deles
para morrer.
Eu engoli em seco.
— O que você está falando, Tyler? — perguntei.
— Bem vindo ao jogo. — falou, sorrindo.
Olhei para Katelyn outra vez, no exato momento em que ela
fechou seus olhos e deixou outra lágrima rolar.
— Por que você está fazendo isso? — perguntei desviando
o olhar. — Você só pode estar brincando.
— Eu pareço estar brincando?
Tyler tirou uma arma do seu bolso.
Eu engoli seco. Meu corpo inteiro tremia.
Preciso ganhar tempo. — pensei. Eu consigo isso. Eu posso
conseguir.
Nesse instante, Katelyn começou a debater suas mãos
amarradas no pilar. Thomas e Lily também. E depois, John. Os
homens que estavam ali foram até a frente de cada um deles e eles
pararam.
— Você não pode estar falando sério. — murmurei
encarando o revólver.
— Certa vez meu pai me contou uma história sobre alguns
amigos que traíram um homem poderoso em um palácio e quando
eu o questionei o que o homem poderoso fez aos amigos que o
traíram, ele apenas sorriu dizendo-me que o poderoso criou um
jogo. — Tyler virou-se para eles ainda me segurando pelo ombro. —
Serei bonzinho e você poderá escolher quem não sairá vivo daqui
hoje ou, eu posso ser cruel como o homem da história do meu pai e
perder algumas munições, acertando em todos. Você escolhe.
— Eu não traí você. — falei. — Eu mantive a minha
promessa. Eu não contei nada a ninguém, eu terminei com a
Katelyn e fiz tudo conforme você pediu.
Tyler gargalhou. — Ele era doente.
— Você realmente acha que eu não fui atrás das coisas,
Carter? Você realmente acha que não descobriu o seu plano com
esses dois — apontou para Thomas e John. — Para denunciarem
eu e meu pai? Você pediu para a Katelyn parar a investigação
porque temeu a mensagem que te mandei aquele dia, mas você
continuou! Você continua a todo tempo querendo me derrubar,
querendo me destruir.
— Eu nunca…
— Para de mentir! — gritou. — Pare de achar que eu sou
idiota! Pare de mentir, pare de tentar fingir qualquer maldita coisa. —
falou. — Você só foi naqueles malditos julgamentos porque te forcei
a ir, você nunca teve a intenção de ser meu amigo, mas eu não me
importava com isso porque eu sabia o quanto a sua mente era
fodida em relação a tudo e jurava que um dia você seria o meu
aliado, porque cara, você estava no caminho certo, mas você me
traiu e o pior de tudo é que você me traiu por conta de uma garota,
uma garota qualquer. Você investigou meu pai, Mingus! Você tem
noção onde se meteu?
Ele riu. Ele certamente estava doente.
— Não tente bancar o fiel agora. — falou. — Você traiu a
minha confiança, traiu meus segredos e terá que pagar por isso.
Escolha alguém para morrer essa noite.
Eu estava paralisado. Minha respiração ficou ofegante. Eu
não conseguia dizer nada, eu não conseguia reagir.
Katelyn voltou a bater suas mãos no pilar. Certeza que
percebeu que eu fiquei estagnado.
— Tire a mordaça dela. — Tyler ordenou.
O homem à sua frente, fez. Notei que ela encarou o Tyler.
Queria correr até ela.
— Quer falar alguma coisa, princesa?
Senti nojo. Eu queria acabar com ele. Eu acabaria com ele.
— Por favor. — ela falou. — Deixe-os ir.
Eu não estava entendendo. Olhei confuso.
— Eu fico. — Ouvi seu murmuro.. — Você queria isso,
certo? Então, eu fico.
Meu corpo inteiro estremeceu.
— Não. — Gritei, desesperado. — Tyler, não escute ela.
Collins riu.
— Oh, Katelyn. — disse o moreno, olhando para ela. —
Você deveria ter aceitado essa proposta logo quando a fiz, agora
não tem mais volta, princesa.
Katelyn me olhou. Eu fiquei assustado com essa ideia, mas
ela conseguiu a atenção dele e, era isso que precisávamos. Ganhar
tempo. Apenas precisamos ganhar tempo para que a polícia
conseguisse chegar e assim, ficaríamos bem.
— E o que eu posso fazer então? — perguntou ela, olhando
para mim. Assenti com a cabeça para tentar confirmar a ela que era
exatamente isso que eu precisava. Enrolar. Ganhar tempo. — Eu
faço qualquer coisa, Ty. Apenas me diga, o que eu posso fazer para
todos saírem bem daqui.
— Você fará qualquer coisa? — perguntou com um sorriso
malicioso nos lábios. Eu quis socar a cara dele. — Você tem
certeza?
— Apenas os deixe ir e eu farei qualquer coisa. — falou.
Olhei para o Thomas, dei um sinal com a cabeça para que
ele tentasse ganhar tempo também. Ele sabe o plano, sabe que
precisamos disso, então deveria fazer algo. — Ele começou a bater
suas mãos contra a viga, chamando a atenção de todos.
— Tire a mordaça dele. — Tyler falou, sem paciência. — O
que você quer?
— Por que você está fazendo isso, Tyler? — perguntou.
— E eu preciso de motivos? Mingus Carter me traiu e ainda
por cima vocês investigaram a empresa do meu pai. Vocês
mexeram com as pessoas erradas, simplesmente isso.
Thommy continuou batendo boca com Tyler e os seus
capangas estavam com o foco nele, mas mesmo assim me
segurava com força pelo ombro. Olhei rapidamente para Katelyn
para tentar tranquilizá-la, mas estava certo de que nós dois
estávamos apavorados.
Eu estava tentando desamarrar as cordas que estavam em minhas
mãos, mas eu precisava que eles continuassem enrolando, Tyler
não poderia desconfiar.
— Seu pai realmente mandou você fazer isso? — Thomas
perguntou. — Ou esse showzinho foi ideia sua?
— Meu pai queria o modo mais rápido. — falou. — Apenas
um tiro e acabou, mas eu gosto de pensar grande, gosto de um
grande show. — sorriu.
Seu sorriso deixava claro que ele era um psicopata.
— Você está doente. — Katelyn falou. — Eu não acredito
que me envolvi com alguém como você.
Tyler a encarou. Meu corpo inteiro estremeceu outra vez.
Precisávamos ganhar tempo, mas eu não podia arriscar que alguém
se machucasse.
— Que nojo. — continuou ela.
Eu precisava de um plano. Qualquer plano.
Sentia que a corda em meus pulsos estavam quase se
soltando, eu precisava só um pouco mais de força, só mais um
pouco e eu conseguiria.
Nesse instante, Tyler começou andar até a Katelyn e eu
coloquei toda a minha força para me soltar. — As cordas cederam.
Era só passar minhas mãos por elas, fácil. — Pisquei para Katelyn,
para ela me acompanhar.

— Acho que ouvi carros. — falei. — Tem certeza que


ninguém nos acharia aqui?
Eu queria provocá-lo, queria que ele acreditasse nesse blefe
para mandar todos os seus capangas para longe. Assim, a polícia
realmente poderia chegar e nós ganharíamos tempo.
— O que você fez? — perguntou em um grito virando-se
para mim.
— Achou mesmo que ninguém procuraria por nós? —
provoquei.
— Vá. — disse Tyler aos homens que estavam ali. —
Verifiquem toda a redondeza.
— Todos nós, senhor? — um homem perguntou.
Tyler assentiu. — Consegui o que eu queria.
— Eles estão amarrados, eu tenho tudo sobre controle.
Katelyn parece ter entendido meu propósito e no momento
em que o último homem saiu, ela começou provocá-lo.
— Você não pensou nesse plano direito, pensou?
Ele se virou para Katelyn outra vez e eu sorri para ela.
— Eu criei esse plano, como pode dizer que não pensei
direito?
— Bem, você falhou. — ela falou.
— Como posso ter falhado?
— Eu apenas posso dizer que você falhou.
Ele deu um passo na direção dela. Tirei as cordas das
minhas mãos e comecei me aproximar sorrateiramente. Quando eu
estava perto o bastante, Katelyn o chutou. Enquanto ainda
cambaleava para trás pelo chuto que tomou, ele pareceu surpreso
ao me ver e eu atingi. Agarrei o revólver que ainda estava em sua
mão e joguei para o outro lado do galpão e o primeiro soco veio em
seguida, não deixei me atingir, desviei de seus ataques e o acertei
em cheio na barriga. — Se esse mundo de má reputação me
ensinou algo, foi como lutar.
Tyler caiu de joelhos no chão e dessa vez eu o acertei na
nuca e então seu corpo todo caiu.
Isso nos faz ganhar um tempo. — pensei.
Queria desesperadamente correr até a Katelyn e até todos,
mas em primeiro lugar fui até Thomas, porque assim, ele poderia
me ajudar a desamarrar os outros.
— Você está bem? — perguntei aflito.
Thommy assentiu.
— Ótimo. Me ajude a desamarrar os outros.
Thomas correu para um lado e eu para o outro. Fui até
Katelyn.
— Você está bem? — murmurei.
Eu estava em suas costas. Desamarrando-a.
— Me desculpe, me desculpe. — murmurei.
Ao terminar de desamarrar, fiquei a sua frente.
— Eu sinto muito. — murmurei outra vez olhando em seus
olhos, que estavam cheios de lágrimas. — Você está bem?
Passei minhas mãos em seu rosto. Eu estava realmente
preocupado. Notei que seu olhar desceu até seus pulsos e vi a
marca das cordas. Levei minhas mãos até seus pulsos e acariciei.
Eu poderia matar o Tyler pela raiva que eu estava. Eu poderia
queimar o mundo inteiro se alguém a fizesse mal.
— Cuidado! — gritou.
No mesmo segundo que a Katelyn gritou, senti a mão
pesada de Tyler em mim. Não fui capaz de reagir. Ele me
arremessou para longe.
Nesse momento Thomas correu para cima dele e começaram a
brigar. Eu me levantei e me juntei a eles, John apareceu logo
depois. — Penso que John estava com fortes dores pelo
machucado em sua cabeça, porque parecia fraco e foi ao chão com
um único golpe de Tyler. Eu o ajudei a se levantar. Thomas acertou
um soco no moreno, que caiu novamente de joelhos no chão. Penso
que poderíamos ganhar isso, penso que poderíamos resistir até a
polícia chegar, mas meu olhar cai no objeto ao lado de Tyler. — A
infeliz desgraça que acompanhava minha vida se fez presente até
nesse momento. O azar me acompanhava. Tínhamos tudo para
vencer, éramos três contra um, mas eu era azarado, a minha vida
era desafortunada e Tyler caiu ao lado do revólver.
— Se protejam. — murmurei.
— Acabou a brincadeira! — Tyler gritou virando-se para nós
com certa dificuldade. — Acabou!
Comecei a dar passos para trás e eles me acompanharam.
Tyler apontava para mim
— Por favor. — pediu John.
— Escolha um. — Tyler falou.
— O que? — Minha voz falhou.
Ele parecia atordoado.
— Escolha um. — repetiu friamente.
— Um o que? — engoli em seco.
— Não me faça perder a paciência. — disse.
Tyler estava disposto a tirar uma vida. — Ele já tinha tirado
uma vida antes e nunca hesitou sobre o pensamento em tirar outra.
Ele era capaz disso.
O revólver estava apontado para mim, mas ele parecia sentir dores.
Talvez eu pudesse enrolar um pouco mais. Talvez os capangas não
voltaram porque a operação policial estava rolando lá fora. Talvez ao
menos uma vez na vida, eu fosse afortunado. Talvez, a desgraça
havia me deixado e eu teria sorte. Talvez. Talvez todos nós
conseguiríamos sair daqui. Vivos.
— Rápido Carter! — gritou.

Me mantive em silêncio. Ele estava no auge da loucura,


talvez até drogado. Como eu iria enrolar? O que eu deveria fazer?
— Poderia ser ela. — disse.
Tyler se virou para Katelyn.
— Não. — gritei.
— Então escolha. — olhou para mim.
Ele deu um passo à frente. Seu revólver estava na minha
testa.
— Não! — Katelyn gritou.
Não faça isso. Não grite. — pensei. — Mas o seu grito fez
Tyler hesitar e me olhar, o que me deu tempo de agir. Notei há
pouco que ele sentia dores na barriga, então chutei exatamente lá, o
que fez com ele cambalear para trás. Tirei a arma de suas mãos e
agora, era eu quem apontava para ele.
Ele abriu um sorriso. Que lunático.
— Por quê você está sorrindo?
Minhas mãos pareciam querer tremer.
— Você nunca atiraria em mim. — falou.
— Não tenha tanta certeza.
— Você não se importaria de matar alguém?
— Você não.
Tyler gargalhou. Virou sua cabeça para Katelyn.

— Esse é o homem que você deseja? — perguntou para


ela. — Um sanguinário?
Estremeci. Não consegui olhar para ela, porque eu sei que
se eu o matasse deixaria de ser digno do seu amor, mas olha tudo o
que ele está fazendo, olha onde sua loucura nos levou. Se fosse
para salvar os meus, eu faria. Eu mataria Tyler Collins. Ou, tentaria.
Minhas mãos estavam trêmulas. Queria me sentir confiante. Queria
apenas ganhar tempo, mas eu estava apavorado.
— Ele não é um sanguinário. — respondeu.
Sua voz estava com medo, mas também era doce. Talvez
por mim. Talvez por mim ela se esforçou a dizer. Até que ponto ia o
nosso amor? Eu estava disposto a destruir o mundo por ela, mas
também estava disposto a dar a minha vida.
— Você tem certeza? — riu irônico. — Nesse momento
você diz que ele não é um sanguinário, mas ele está apontando
uma arma para mim.
Hesitei. Eu não tinha medo de fazer esse mundo queimar
como um inferno, mas eu temia que Katelyn me assistisse fazendo
isso. Aos olhos do mundo eu não me importava de ser ruim, mas
aos seus olhos, eu jamais suportaria não ser nada além de bom.
— Você ainda o escolheria se ele fosse um assassino? —
continuou — Você ainda o amaria se ele fosse um monstro?
— Cala essa maldita boca. — Mingus gritei.
Ele queria me desestabilizar. E o pior, estava conseguindo.
— O que? — gritou de volta. — A verdade te assusta? —
riu.
Eu estava cansado. Eu estava realmente cansado.

— Eu amaria. — A voz de Katelyn saiu baixa. Meus olhos


se encontraram com os dela. — Eu o amaria de qualquer maneira.
Que angústia. Que dor.
— Se você quer provar para o Mingus que ele não é bom,
que ele não é amado, você chamou as pessoas erradas para
estarem aqui. — disse Thomas.
— Será? — debochou. — O querido John concorda com
isso? Concorda que o seu filho não foi um erro? Queria que a
querida Helena estivesse aqui, porque certamente ela diria que foi
um erro. Que ele é um erro.
Engoli em seco. Tyler sabia como me atingir. Havíamos sido
próximos quando menores e, infelizmente quando somos mais
novos tendemos a confiar em pessoas que não merecem a nossa
confiança.
— Você está errado. — John falou, dando um passo à
frente, ficando ao meu lado.
John pegou o revólver que estava na minha mão. Sem
hesitar e sem deixar de mirá-lo para Tyler. Na verdade, ele estava
mais firme do que eu.
— Eu amo o meu filho e ele é um bom homem e
provavelmente não teria coragem de puxar esse gatilho, como você
mesmo disse, mas eu não sou como ele.
“Eu amo o meu filho.” — Ele estava confessando o seu
amor na frente de todos. Ele realmente me amava? Ele realmente
se importava comigo, certo?
Mas eu estava assustado. Até que ponto vai o amor?
Não quero que John se torne um assassino, não quero que ele faça
algo do qual iria se arrepender, mas ele parecia disposto a finalizar
isso.
— Filho, Thomas, peguem as cordas. — disse.
— Será civilizado? — Tyler zombou.
Engoli em seco. John apenas ordenou novamente para
pegarmos as cordas o mais rápido possível e assim eu fiz. Desejei
olhar para a Katelyn, mas não me atrevi. Peguei as duas cordas que
estavam perto de uma viga e Thomas estava em outra, pegando as
cordas também. Quando me virei para frente, para correr de volta a
eles, Tyler estava erguendo sua perna para chutar o braço de John
que estava estendido e segurava a arma. Não deu tempo de reagir.
Não consegui gritar. Apenas soltei as malditas cordas e corri até
eles. — O maior barulho que já ouvi. O pior som. O mais alto som
que já ouvi. Um tiro.
— PAI! — gritei.
Corri até ele, que havia caído no chão. Imóvel.
Por que ele estava imóvel? O tiro foi na perna. Isso poderia ser
muito cruel?
— Pai? — murmurei.
Ele gemia no chão. A dor deveria ser imensa. Queria que eu
pudesse tirar essa dor dele. Queria poder tirar todos nós daqui. —
Cadê a maldita polícia? Cadê a merda dos investigadores? Não
estávamos aqui tempo o suficiente? Ou eles não apareceriam? E os
capangas? Onde foram? Por que não voltaram? Que merda estava
acontecendo lá fora? Precisamos de ajuda. Precisamos de uma
ambulância.
— Pai. — murmurava, desesperadamente. — Pai, você está
bem?
— Do que você me chamou? — um murmúrio com dor saiu
de seus lábios. — Você me chamou de pai.
— Você está bem. — falei.
O alívio que meu coração sentiu quando ouvi sua voz foi
instantâneo. E então, a raiva tomou conta de mim. Levantei meu
olhar para Tyler, que parecia encantado com a situação. Parecia que
ele gostava de assistir o meu desespero.
— O que você fez? — perguntei me levantando e ficando
frente a frente com ele.
— Eu te disse para escolher.
— Eu não vou escolher porcaria nenhuma! — gritei. — Você
está doente.
Ele estava louco. Isso deveria ser doença. A raiva estava
tomando conta de mim, mas eu ainda seguia assustado demais. Até
quando eu tenho que ganhar tempo? Ou ninguém virá nos ajudar?
Estamos fadados à destruição, certo? Eu fiz isso com todos. Eu os
trouxe até aqui.
Tyler levantou a mão que segurava o revólver em direção
reta. Acompanhei com o meu olhar. Thomas estava na mira.
— Escolha. — disse, e por um ou dois segundos de
hesitação foram o suficiente para o barulho ensurdecedor acontecer
de novo.
— Thommy! — Lily gritou.
Pânico. Era isso o que eu sentia nesse momento. Olhei para
o meu melhor amigo. O tiro também havia sido em sua perna, mas
ele caiu no chão. Lily correu até ele.
Acontece que Helena não estava tão errada nas coisas que
me dizia. Eu realmente podia levar todos à minha volta à
destruição.
— Pare. — murmurei enquanto encarava o meu melhor
amigo no chão. — Por favor, pare.
— Eu disse para você escolher. — falou.
— E-eu…
Mais uma vez eu hesitei. Por que eu estava hesitando? Por
que eu era um covarde?
— Se você não escolher, eu irei na Katelyn.
— Não! — gritei. — Por favor, não.
— Escolha! — Tyler gritou ainda mais alto.
Eu jamais poderia fazer uma escolha como essa. Ele estava
louco, doente. Mas, se eu tivesse que escolher alguém, esse
alguém seria eu. Eu estava disposto a dar a minha vida por todos
aqueles que eu amava.
— Eu. — me coloquei em sua frente.
Dando um passo à frente e com um sorriso no rosto, ele
encostou a arma no meu peito.
Vi de relance a Katelyn correndo até nós.
— Volte! — gritei — Volte!
Eu estava desesperado.
— Fique comigo, deixe eles partirem. — ela dizia.
— Volte! — gritei outra vez, um pouco mais alto.
Ela ainda tentava se aproximar. Eu estava apavorado. Por
que ela tinha que ser tão teimosa? Por que ela tinha que ser tão
corajosa?
— Katelyn! — gritei. — Volte.
— Por favor, Tyler. Eu te traí. Eu comecei essa
investigação.
Não. Não. Não. — pensei. — Meu peito doía. Todos os
ossos assustados e cansados do meu corpo imploraram para que
ela pudesse parar.
Tyler a olhou.
— Ela está mentindo. — falei. — Eu que comecei tudo isso.
— Ele está mentindo, você sabe. — disse. — Eu fui aquela
que começou tudo isso e você sabe. Eu investiguei vocês, eu
acessei os e-mails…

— Não. — falei.
Meu corpo tomou a frente do corpo dela, que estava
próxima de nós. Eu tremia e suava como nunca.
— Por favor. — murmurou. — Se for para atirar em alguém,
que seja eu.
— Fique quieta. — falei.
Tyler riu. Ele estava se divertindo com isso.
— Você é o protagonista do jogo, Carter. — falou. — Você
escolhe.
— Eu. — não hesitei.
Ele sorriu e seu movimento foi tão rápido. A arma apontada
para nós. Eu senti meu corpo ir para trás. Ouvi o barulho
estrondoso. Um tiro. Não pegou em mim. Katelyn caiu no chão.
Por que ela caiu no chão? O que empurrou o meu corpo?
Em quem ele atirou? Que merda é essa? Cadê a polícia? Me faltou
ar.
Me agachei tenso. Eu orava a Deus que o tiro não tivesse
pego nela. Eu orava a Deus que Tyler tivesse errado.
— Ele atirou em você? — perguntei.
Eu não conseguia respirar.
— K-Katelyn? Você está bem? Katelyn?
Ouvi uma gargalhada abafada, sabia que era de Tyler. E
então ouvi um grunhido de dor. Katelyn não me respondia, mas não
via sangue saindo dela.

— John. — a voz de Katelyn murmurou.


Segui seu olhar. John bateu no meu corpo. John entrou na
minha frente. John levou outro tiro. Meu corpo respondeu sozinho.
Corri até ele.
— John. — murmurei. — Oh.
Coloquei a mão sobre o sangue.
— Pai? — murmurei outra vez. — Por favor, fique comigo.
Fique comigo, fique comigo.
O tiro foi no peito. Ele parecia estar com dificuldade para
respirar. Minhas mãos tentavam estancar o sangue. Eu estava
falhando miseravelmente nisso. Eu não conseguia estancar o
sangue, eu não conseguia salvá-lo, eu não conseguia salvar
ninguém.
— Min....
Ele tentava dizer o meu nome.
— Estou aqui, estou aqui.
— M-meu filho. — sua voz estava falha. — E-eu
realmente…
— Sh, não fale. — implorei. — Você precisa guardar
energias.
— M-me perdoe. — murmurou com a pouca força que ainda
tinha.
— Fique comigo.
Meu pai começou a tossir, e de seus lábios começou a sair
sangue. — Não. Não. Não. Meu pai estava perdendo suas forças,
ele estava ficando cada vez mais fraco. Eu precisava de ajuda. Por
que a polícia ainda não chegou? Eu realmente não poderia salvar
ninguém? Eu realmente os trouxe para a destruição?
— John? — chamei por ele.
Seus olhos piscavam fortemente.
— Por favor, pai… Olhe para mim. — murmurei. — Fique
comigo.
Eu não poderia perdê-lo. Não agora. Não agora que eu o
tinha. Por favor, Deus. Não. — orava.
— Não diga nada, pai. — disse ao notar seu mínimo
esforço. — Por favor, guarde suas energias.
— O perdoe. — A voz fraca de Thommy ecoou naquele
ambiente.
Eu estremeci.
— Perdoe-o, irmão. — falou novamente.
Ele não pode morrer. Ele não vai. Não. — Eu estava
chorando. Não sei desde quando, não sei quando começou, mas eu
soluçava. Tudo em mim resultava a dor.
— Eu te perdoo. — engoli em seco. — Eu já te perdoei há
muito tempo, pai.
Me debrucei nele. Eu estava desesperado. Queria que fosse
eu no lugar dele. O universo seria muito cruel comigo se o levasse,
principalmente agora, que eu finalmente o tinha em minha vida. Eu
estava despedaçado.
— Eu te amo, pai. — murmurei.
Essa foi a primeira vez que disse isso.
— Me desculpe, me desculpe. Eu te amo, pai e agora que
eu finalmente tenho você, por favor, por favor, não me deixe.
Entre meus soluços, meu pai tirou forças para falar.
— Você é digno do amor. Sempre foi. Eu te amo.
Seus olhos se fecharam. Por que seus olhos se fecharam?
Eu gritei. Mas eu não sei o que gritei. Eu estava com dor.
Era como se o tiro tivesse pego em mim porque meu peito doía
como um inferno.
— O quão difícil é perder alguém que ama? — a voz de
Tyler ecoou.
Eu o mataria. Eu não iria hesitar.
— Mingus.
Escutei um murmúrio. Acho que era a voz de Katelyn.
Tyler estava com ela. Eu não tinha mais forças. Eu não
poderia mais lutar. Meu pai estava desacordado ao meu lado,
provavelmente não resistiria aos ferimentos e a ajuda não chegava.
A ajuda nem sequer viria. Eu não tinha mais esperanças.
— Deixe-os ir. — falei, cansado. — Por favor.
— Por favor, Tyler. — Katelyn murmurou.
Tyler soltou suas mãos dela e eu me levantei.
— Eu sinto muito, eu sinto muito. — murmurou para mim
quando me aproximei.
Eu quem devia te pedir perdão. — pensei. — Eu trouxe
todos vocês para isso. Eu sou a verdadeira destruição.
— Sh. — passei meu dedo em seu rosto com delicadeza.
Ela estava chorando. Ela estava assustada. Eu tremia. Eu queria
dar forças, mas eu estava com tanto medo.. — Ficará tudo bem. —
falei.
Até meu último suspiro de vida cuidarei dela.
— Estou assustada. — ela me abraçou.
— Ficará tudo bem, eu prometo.
Eu não poderia cumprir essa promessa. Porque nesse
momento, após meu pai e Thomas ser baleado, após ela estar
apavorada, só existia uma saída para o dia de hoje. Ou eu iria matar
Tyler Collins ou ele me mataria.
— Eu não teria tanta certeza. — respondeu Tyler.
— Só os deixe ir.
A passei para trás do meu corpo. Suas mãos agarradas nas
minhas. Eu provavelmente sujava com o sangue de John. Sangue
do meu pai. Ele ainda respirava quando o deixei, mas nenhuma
esperança habita em mim. Eu estava arrasado.
— Só os deixe ir. — falei outra vez. — Por favor. Você quer
que eu me ajoelhe? Você quer que eu implore? Apenas os deixe ir.
Deixe o John e o Thomas irem à um hospital. Deixe as garotas irem.
Eu fico. Você pode fazer o que quiser comigo, apenas os deixe ir. Eu
imploro.
Um som. Uma sirene. A ajuda havia chego. Meu pai poderia
viver. Nós poderíamos ser salvos. — Acho que respirei aliviado, mas
eu nem sequer sabia como ainda respirava.
— O que você fez? — perguntou com raiva.
— Você realmente achou que eu não iria fazer nada? Você
realmente achou que quando você sequestrou a Katelyn eu não iria
entrar em contato com a polícia? Você realmente pensa que eu sou
tão idiota assim, Tyler? Você é idiota. Desde a mensagem que me
enviou dizendo para eu terminar com ela, eu estou sendo rastreado
e grampeado pela polícia. Eles sabem de tudo. Eles sabem de você
e do seu pai, eles sabem essa merda toda. Acabou, Tyler! Você
perdeu.
Tentei bancar o fodão, porque a sirene me despertou uma
curta esperança e eu só precisava ganhar mais um pouquinho de
tempo, talvez dois minutos ou três.
Mas uma vida poderia ser destruída em dois segundos, então
quantas poderiam ser destruídas em dois minutos?
— O jogo só para quando eu digo.
Realmente. Dois segundos é o suficiente para destruir uma
vida.
Um tiro. Meu corpo caiu.
— Não! — alguém gritou.
— M-mingus? — Katelyn estava no chão.
Acho que a derrubei. Meus olhos estavam abertos, fixos
nela, mas a dor era insuportável.
Penso que muita coisa estava acontecendo ao meu redor.
Ouvia estouro, grito, tiros. Que não sejam os meus. — pensei. —
Que Deus tenha misericórdia.
Katelyn pressionou minha ferida. Gemi de dor.
— Sinto muito. — murmurou.
A respiração estava difícil. Todo o meu corpo estava
doendo.
Vi a silhueta de alguém.
Ouvi vozes. Quem eram? É a polícia? John ficará bem?
Salvem ele, por favor.
— K-Kat.. — tentei falar. — Eu sinto muito. — murmurou.
Eu estava fadado a cair. Não queria que todos tivessem
caído comigo.
— Não é culpa sua. — disse. — Estamos salvos. — disse e
abriu um pequeno sorriso. — John e Thomas ficarão bem. Você
ficará bem. Nós ficaremos bem.
Tentei levar minha mão até o seu rosto. Eu queria tocá-la,
eu queria poder tocá-la. Ela me ajudou.
— Estou aqui. — murmurou. — Ficarei aqui até você ficar
bom.
— Q-quando… — começou.
— Sh, guarde energias.
— Quando eu disse que você…. — continuei mesmo sem
forças. — Você... era minha personificação do que é amor…
— Mingus, por favor. — implorou. — Guarde as suas
energias, nós conversaremos mais tarde.
— Meu coração há muito tempo é seu e… — Tossi. Acho
que sangue saiu dos meus lábios, porque o gosto era horrível. —
Eu sinto que sempre será.
— Mingus…
Sangue jorrava da minha boca. Katelyn havia colocado
minha cabeça em seu colo e estava debruçada em meu peito aos
prantos pedindo que eu não a abandonasse. Eu gostaria de
responder, eu gostaria de poder falar, mas eu não conseguia.
Eu sentia uma dor absurda. Eu tossia sangue. Eu conseguia
perceber a minha respirando se findando e eu só gostaria de poder
dizer a ela para não chorar, eu só gostaria de poder dizer para ela
não sofrer, mas minha voz não saia.
Meu peito doía como um inferno. As mãos de Katelyn em
uma tentativa de estancar o sangue estavam encharcadas
— K-Katelyn. — mais sangue escorria pelos meus lábios. —
Você é minha personificação de amor, porque tudo em mim ama
tudo em você e eu não quero morrer sem que você saiba disso.
— Você não vai morrer. — murmurou. — Você ficará bem.
Ok? Você não vai me deixar. Você prometeu que não ia me deixar.
Você prometeu que íamos ser felizes. Você não pode quebrar a sua
promessa. Você prometeu, Mingus. Você ficará bem.
Nesse momento eu pude sentir uma queimação por todo o
meu corpo. Eu não tinha muito tempo. Lágrimas começaram a cair
de meus olhos, minha vista embaçou, mas eu ainda conseguia vê-
la. Poder ver a Katelyn era como o meu último milagre concedido.
Eu só precisava olhar para ela para estar em paz.
— Eu te amo. — eu tossi outra vez.
Mais sangue. O choro de Katelyn se intensificou. Ela repetia
“fique comigo, fique comigo”.
Eu gostaria de ficar.
— Por favor. — gritou. — Fique comigo.
Meus olhos pesaram. Eu não conseguia deixá-los abertos,
mas eu queria vê-la. Eu precisava.
— Com toda a minha alma. — continuei. — Que minha alma
renasça e… encontre a sua outra vez.
Minhas forças estavam se esgotando.
— Fique comigo. Fique comigo.
A dor intensa parecia ter sido amenizada, porque eu não
estava sentindo mais nada, eu não sentia mais o gosto amargo de
sangue em meus lábios, eu não sentia mais as mãos de Katelyn em
mim e não conseguia mais enxergá-la. Meus olhos não estavam
fechados, não por completo, mas eu não conseguia mais vê-la.
Ouvia vozes ao meu redor, mas não conseguia entender o que
falavam, ouvia desesperos e choros, mas não conseguia decifrar
quem era.
Meus olhos se fecharam.
A dor não estava mais ali. Eu não tinha mais forças.
Respirar era difícil. Tentei abrir meus olhos, porque eu queria ver a
Katelyn.
Se eu morrer neste instante, peço a Deus um último
milagre. Peço que eu possa vê-la. Peço que eu possa ter um último
suspiro para abrir meus olhos e vê-la olhando para mim. E meus
olhos se abriram. Fracamente. E ela estava ali. Seus olhos
marejados. Seu rosto e suas mãos cobertas com meu sangue. Mas
ela estava linda. — Acho que sorri.
Sem quase conseguir respirar, sem ter forças e
reconhecendo que este era o meu último milagre concebido, levei
minha mão até seu rosto para limpar sua lágrima.
Ali estava. A minha garota favorita. Ela sempre será a minha
garota favorita. Eu estaria pronto para morrer por ela mil vezes. Que
minha alma renasça e a encontre. Que eu possa amá-la em uma
outra vida.
Senti minha mão perder a força e ela caiu. Meus olhos se
fecharam. Eu não conseguia ouvir mais nada, mas eu sentia que
gritos aconteciam ao meu redor.
Se a paz nos encontra antes da morte eu não sei, mas
nesse momento tudo era calmaria. Sem dor. Sem enxergar e ouvir
nada. Meu único pensamento estava em Katelyn. Que ela fosse
feliz. Que ela não chorasse. Minha voz interior foi ficando cada vez
mais longe, mais distante até que... Se calou.
[fim].
EPÍLOGO
Katelyn
Eu não imaginava que uma alma pudesse ser destruída em
diversas partes, até a minha ser.
Mingus Carter é o grande amor da minha vida e eu estava
certa de que em vidas passadas também fomos apaixonados um
pelo outro e eu o pertencia. A minha alma pertencia a ele e assim
seria até que nossas vidas se findassem, até que esse mundo
terminasse e confesso que pensei que o mundo terminaria naquela
noite, confesso que quando acordei no hospital em um quarto e vi
apenas a Sarah com seu rosto inchado de chorar, eu desejei que o
meu mundo terminasse, porque minha alma estava destruída.
A dor da perda era imensurável, e definitivamente eterna,
porque todo o meu ser iria sentir para sempre. Eu não queria
continuar vivendo se o Mingus não estivesse ao meu lado. Eu não
queria.
Na minha visão o meu mundo tinha terminado no momento
em que o vi fechar os olhos para mim. A esperança desapareceu e
eu simplesmente não poderia viver nesse mundo horrível.
Minha alma ansiava a sua, minha alma queria encontrar a
dele.
“Ele precisa de um transplante do coração.” — Foram as
primeiras palavras da Sarah para mim.
E nesse momento, eu recuperei a minha fé.
A alma abatida, cansada e estilhaçada que habitava em
meu peito, recuperou a fé. Porque embora sua situação fosse
crítica, embora ele tenha pensado a vida toda que estava fadado a
destruição, eu tinha que acreditar.
Árdua foi a batalha para esse transplante. O doador teve um
acidente vascular cerebral irreversível e seu coração era apto para
Mingus, mas ele tinha câncer no estômago e embora as condições
de seu coração eram boas, os médicos tinham mil e um critérios
sobre a compatibilidade e qualidade do órgão. Foi necessário tantas
coisas que eu nem sequer entendo sobre, mas foi visto sobre o
comprometimento significativo do órgão devido ao câncer, foi visto
se não havia metástase e então, quando o meu menino lutava
bravamente para a cumprir a sua promessa de voltar para casa, de
voltar para mim, a decisão final foi a aceitação do transplante.
Tudo isso aconteceu há cinco anos. Mas ainda sinto o gosto
amargo do desespero em minha boca quando me lembro.
John sobreviveu. Thomas se recuperou. Mingus — suspirei.
— Ele não apenas sobreviveu, mas ele viveu.
A recuperação foi dolorosa, foi lenta, foi difícil. Quando nos
encontramos com a família do doador após ele melhorar e sair do
hospital, Mingus contou que conheceu aquela família no lago dos
Sonhos e contou que conversou com a pequena, filha mais nova do
casal.
“É o destino” — eu falei. E eu me lembro que ele chorou
muito. O pai da garotinha que ele conheceu certa vez foi quem o
salvou, foi quem o deixou voltar para mim.
Hoje, cinco anos após o ocorrido, cinco anos da morte de
Tyler, cinco anos da prisão de Daniel Collins e da queda de sua
empresa, eu posso dizer com a total certeza de que estamos bem.
Ele cumpriu toda sua pena de reclusão por falso testemunho em
regime aberto e continua até hoje contribuindo para ajudar a família
do homem que Tyler tirou a vida. Começou a trabalhar na empresa
do pai e voltou a cursar direito. Eu, estou aos poucos conseguindo
um espaço no ramo do jornalismo com meu próprio site. Rafaela e
Laura são minhas sócias e alugamos um pequeno espaço no centro
da cidade para o trabalho. Confesso que estou empolgada, porque
há dois anos temos muito acesso em nossas redes sociais e muitas
pessoas gostam do nosso trabalho.
Helena e Mingus ainda estão tentando uma conexão, mas
John e ele seguem sendo pai e filho. Thomas pediu a Lily em
casamento. Christopher e Sarah estão casados há um ano e cinco
meses.
Eu e Mingus vivemos bem. Ele ainda tem consultas a cada
quinze dias com a doutora Isabela e só não teve alta porque ele
decidiu não ter, disse que gosta de poder ainda ter o
acompanhamento dela mesmo que virtualmente, porque tem medo
de que possa regredir. Eu estou certa de que ele jamais iria regredir.
Seu esforço pela melhora era notório. Até mesmo no hospital, recém
operado, todos falaram sobre a sua força de vontade.
Hoje, Mingus estava esperando por mim no altar. Eu estou
vestida de branco em um lindo vestido. — Há também uma vida
sendo gerada dentro de mim. Uma vida que descobrimos há pouco
que é uma garotinha.
“Hope” — foi o nome que ele escolheu e eu amei.
Esperança. A esperança de sermos dignos do amor. A
esperança de acreditarmos em nós mesmos. A esperança de
encontrarmos o nosso lar nas pessoas que amamos. A esperança
de dias melhores. A esperança de vida. A esperança após a
destruição. A mais difícil de existir, mas a que salva vidas.
Minha alma pertence a Mingus Carter e sua alma pertence a
mim.
A partir de hoje, não serei mais Katelyn Annie Campbell e
passarei a ser Katelyn Annie Campbell Carter.
Assinarei esse sobrenome com orgulho, porque minha alma
o reconheceu nesta vida também.
O famoso “felizes para sempre” pode não acontecer em
todas as histórias, mas porra, eu estou feliz pra caralho ao lado do
amor da minha vida nesse altar.
Dentro de mim, carrego — literalmente — A nossa
esperança de que isso seja eterno.
Ainda bem que minha alma reconheceu a sua.
— Ela sempre será a minha garota favorita. — Ele leu seus
votos. — Nossas almas se reconheceram.
Meu lar. Meu melhor amigo. Meu amor de todas as vidas.
Meu Mingus. Meu marido. Pai da minha filha.
Esse era o meu cenário perfeito. Esse é o meu felizes para
sempre.
AGRADECIMENTOS
A ideia desse livro surgiu há muitos anos e exatamente em
2015 a sua primeira versão como fanfic foi publicada em uma rede
social e, em 2019 eu reescrevi a história novamente a publicando
em outra rede social. Após o impacto positivo do público, decidi que
talvez ela rendesse um bom livro e comecei a transformação no
início de 2020.
Seu processo de escrita demorou mais do que eu esperava,
mas confesso que hoje entendo que foi o tempo necessário para
que eu, sua escritora, passasse por um processo de cura.
Durante quatro anos, tentei diversas vezes escrever e
reescrever essa história, mas nunca parecia boa o suficiente e eu
demorei para entender que o motivo pelo qual eu não conseguia dar
continuidade nessa transformação era porque eu ainda estava
focada naquela Luma de 2015 que criou essa história. Eu queria
que aqueles sentimentos vivessem na história, mas como isso seria
possível se eles nem sequer vivem em mim?
A história teve uma base, um contexto, um motivo sólido,
inspirações e como todo bom escritor, teve muito de mim e de todas
aqueles que eu amo em cada linha.
Bad Reputation é minha criação, é algo que dediquei todo
meu amor e tempo, mas também é uma história onde a grande
maioria dos personagens tem um pouquinho dos meus e embora
seja minha criação, não existiria sem eles.
Em primeiro lugar, começo com aqueles que são minha
base, aqueles que além de ser em meu sangue, certamente
estariam dispostos a enfrentar o mundo só para me verem sorrir.
José Luiz, Sônia, William, Nilton, Cláudio, Rychard,
Rafaella, Manuela e Marcelina, agradeço por cada momento em que
me incentivaram e acreditaram em mim. Cada um de vocês citados
acima fizeram de mim a mulher que sou hoje e tudo isso, é por
vocês.
Sara Guedes, meu raio de sol. Você é aquela que está
presente nessa história desde que o contexto foi criado e sabe o
tamanho do meu amor por esses personagens. Você acompanhou
todo processo de desenvolvimento quando ele ainda era uma
simples fanfic baseada em um casal que criamos e amamos,
também acompanhou todo processo doloroso e gratificante para se
tornar um livro. Você lia quase todo o material enquanto eu ainda o
escrevia e não apenas fez disso um livro melhor, mas me manteve
centrada em escrevê-lo, às vezes apenas para agradá-la e outras
vezes fazia-me entender que esse era o meu mundo, mesmo
quando eu queria estar em qualquer outro lugar ao invés da tela do
computador/celular. Isso aqui, definitivamente é para você. Você
sempre será o Mingus da minha Katelyn.
Rafaela Alves, minha pessoa. Obrigada por ter insistindo
tantas vezes para que eu escrevesse essa história. Obrigada por ter
lido cada capítulo e dito sua opinião sobre ele. Obrigada por ter
demonstrado a sua empolgação e ansiedade por cada novo capítulo
ou trecho que eu te mostrava, isso me motivou a seguir quando eu
pensava que nunca mais iria conseguir escrevê-lo. Obrigada,
especialmente por me fazer lembrar que esse livro não é sobre
nenhuma outra pessoa, exceto sobre mim mesma. Obrigada por
não me deixar desistir. Obrigada por me ouvir contando sobre a
mesma coisa um milhão de vezes. Obrigada por partilhar esse
sonho comigo. Na verdade, se esse sonho está se tornando real, se
esse sonho puder se tornar real, verdadeiramente foi por você e pra
você. Você não tem ideia das incontáveis vezes em que me salvou.
Você não tem ideia da dimensão da minha gratidão e do meu amor.
“Esse eu fiz pra minha amiga se orgulhar”.
Isabela Bortolucci, minha Isamin. Você chegou na minha
vida no momento mais caótico dela e trouxe tanta paz e tanta
determinação que me inspirou a voltar a fazer o que eu amo. Cada
mensagem de incentivo, cada mensagem de ansiedade querendo
conhecer esse mundo rapidamente, me deram gás para não desistir
dessa escrita. Você não tem ideia de quantas vezes me salvou. Eu
sou grata, e sei que não há outro alguém para ser tão especial
quanto se pode ser especial, apenas você. Esse é pra você, Isamin.
Para os meus “apocalípticos”, vocês estão em todas as
linhas. Meu lar é onde vocês estiverem.
Sabrina Alexia, você provavelmente vai me odiar por usar
esse nome, mas você sabe, eu sempre adorei te chamar dessa
maneira. Como eu poderia te agradecer por tudo o que me fez? Em
primeiro lugar, você foi excepcionalmente generosa ao permitir que
eu usasse sua arte nesse livro e terá minha eterna gratidão, não
somente por isso, mas especialmente por sua amizade e
encorajamento nos momentos certos, por mostrar dicas de como
construir um texto e especialmente por estudar como publicar um
livro somente para poder me ajudar.
Monique Peres, agradeço por seus encorajamentos
pacientes e incansáveis de me fazer voltar a escrever todas as
vezes em que eu hesitava ou pensava em desistir. Você confiou que
eu era capaz, embora meu subconsciente dissesse que não e talvez
você não saiba, mas cada pequeno puxão de orelha que me dava,
era essencial para que eu voltasse a ativa e terminasse este livro.
Obrigada por ter me mostrado que eu tinha asas prontas para voar e
que eu só precisava focar um pouco mais, que tudo daria certo.
Você é parte dessa história maluca e eu sou imensamente grata.
Amanda Stocco, agradeço por seus encorajamentos e por
todas as vezes em que me ouviu dizer que eu iria desistir dessa
história e depois me ouvia dizer que eu iria dar mais uma chance.
Agradeço por ter lido várias e várias versões do mesmo capítulo
porque nunca me permitiu desistir. Agradeço por acreditar que eu
conseguiria. É, eu consegui. Obrigada. Você faz parte disso.
Jullie Cavalcante, não sei se você vai ler o livro já que você
o cancelou após sua rápida revisão e decidiu que não iria mais
sofrer por isso, mas espero que você veja os agradecimentos,
porque boa parte dessa história existe por sua causa. Você me fez
começar a reescrever essa história em 2019 e se não fosse você ter
me obrigado a isso, eu realmente não estaria aqui. Espero que você
goste e não sofra, afinal, você sempre saberá o contexto final antes
mesmo dele ser escrito por mim, porque eu adoro dividir isso com
você e ouvir suas críticas construtivas.
Rayssa Mamede e Gabriela Hasselstron, a dedicatória a
vocês é especialmente juntas, porque é assim que me sinto nessa
amizade, que estamos sempre juntas, independe de onde ou do
porquê. Eu agradeço vocês por sempre terem acreditado em mim e
terem acompanhado minhas histórias desde 2016, eu
verdadeiramente escrevia naquela época com a motivação de vocês
e até hoje, isso não mudou.
Eu gostaria de agradecer meus professores, Maíra Ferreira
e Vinicius Manduca, que sempre acreditaram em mim e me
encorajaram a fazer o mesmo. Me faltariam palavras sobre esses
dois, mas eu imploro a qualquer leitor que possa encontrar
professores como Maíra e Manduca são, eles realmente ensinam
mais do que está no currículo e são grandes amigos dentro e fora
da sala de aula, sempre incentivando e acreditando em seus alunos.
Finalmente, Rafaela Midena, Mickael Alexandre, Giovanna
Caroline, Beatriz Corcioli, Lucas Vale, Aline Fernanda, as “fav”,
Stephane Lira, Bárbara Letícia, vocês são verdadeiros amigos que
nunca duvidaram da minha capacidade e me ensinaram a acreditar
em mim mesma.. Vocês definitivamente foram fenomenais para
esse processo.
Há outras pessoas que ajudaram nesse processo que serei
imensamente grata por toda a eternidade. Obrigada por terem feito
isso possível, obrigada por acreditarem que eu conseguiria e, para
aquele grande amor que me inspirou nessa história, saiba que essa
história não é sobre você, nem sobre nós, mas é sobre mim. Você
me ensinou sobre o amor e com isso eu aprendi a me amar.
Para Katelyn e Mingus, vocês me deram asas.
Para você leitor: Que vocês tenham sentido todas as
emoções possíveis e imagináveis através deste livro, que em
algumas partes tenham se identificado, mas que, sobretudo,
reconheçam que vocês são dignos do amor. Que vocês encontrem o
lar de vocês uns nos outros e vivam o amor.
E para você, Bad Reputation, sempre serás minha favorita.
Viver é um ato de coragem, porque apenas sobreviver
seria bem mais fácil. Que vocês vivam e não apenas
sobrevivam. ⭐
SOBRE A AUTORA
Luma Castello, nascida em Jaú, interior de São Paulo, é uma
alma que escreve textos e histórias desde os 10 anos de idade.
Para ela, a escrita é o local onde encontra paz e um senso de
pertencimento.
"Bad Reputation" marca a estreia de Luma como autora
publicada. A história, que teve origem como uma fanfic no wattpad
criada aos 15 anos de idade, finalmente ganhou vida como um livro
completo quase uma década depois. Para Luma, essa jornada foi a
realização de um sonho de longa data e uma prova do poder da
perseverança e da paixão pela escrita.
Quando não está escrevendo, Luma pode ser encontrada
explorando sua criatividade em outras formas de arte, lendo livros
de romance, assistindo séries, doramas e filmes, comendo doces ou
saindo com seus amigos e familiares.

Você também pode gostar