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Estrutura e Funções do Ministério Público em Moçambique

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Abdul Amid

Cheila da Isa
Celeste Jerónimo
Delfa Cláudia
Écla da Costa
Laércia Choize
Naira Simbine

O Ministério Público

Licenciatura em Direito

Universidade Save
Maxixe

1
2023
Abdul Amid
Cheila da Isa
Celeste Jerónimo
Delfa Cláudia
Écla da Costa
Laércia Choize
Naira Simbine

O Ministério Público

Docente։ Ma. Leonardo Macuácua

Universidade Save

2
Maxixe
2023

INDICE

3
INTRODUÇÃO
No presente trabalho,

OBJECTIVOS
Objectivo Geral։

 Fornecer uma visão abrangente e aprofundada sobre a Instituição do Ministério


Público.

Objectivos Específicos։

 Analisar a atuação do Ministério em Moçambique ꓼ


 Conheçer e descrever as funções, competências e a estrutura do sistema de
justiça ꓼ
 Compreender a evolução histórica do Ministério Público Moçambicano.

Metodologia

O procedimento metodologico utilizado para a elaboracao deste trabalho, tomouse como


base a revisao bibliografica que consiste na leitura de varias obras.

Importa referenciar que conforme se appresenta o tema O Ministerio publico, o


trabalho constitui um estudo de caso de tipo qualitativo.

4
1. O MINISTÉRIO PÚBLICO

1. 2. Definição e Natureza

A constituicao da republica de Moçambique avança com a seguinte definição de


ministério Público։ O ministério Público compreende a respectiva magistratura, a
Procuradoria-Geral da República e os orgãos subordinados(Art. 234° de CRM).

Eis uma definicao constitucional que só se compreende na plenitude a partir da


distincao entre duas aceções do Ministério Publico։

 O Ministerio Publico com carreira, com um conjunto de Magistrados, como


cada um deles com as suas competncias particulares ꓼ
 O Ministerio Publico constituição, dotada de orgaos proprios que lhe imputam
certas decisoes em correspondencia as competencias que colectivamente lhe
são cometidadas (GOUVEIA ꓼ 2015։ 524).

2. FUNÇÕES DO MINISTÉRIO
 Ao Ministério Público são constitucionalmente deferidas diversas atribuições,
uma vez que lhe compete “…representar o Estado junto dos tribunais e
defender os interesses que a lei determina, controlar a legalidade, os prazos das
detenções, dirigir a instrução preparatória dos processos-crime, exercer a ação
penal e assegurar a defesa jurídica dos menores, ausentes e incapazes”
(GOUVEIA ꓼ 2015։ 525).

Em síntese, são quatro os temas fundamentais que animam a atividade levada a cabo
pelo Ministério Público:

 o exercício da ação penal;


 a proteção dos desvalidos;
 o patrocínio dos interesses do Estado;

5
 a defesa da juridicidade.
 Foi acertada a opção que a CRM fez no sentido de não incluir o Ministério
Público no Título IX, respeitante aos Tribunais. A correção dessa opção assenta
na conclusão de que o Ministério Público, apesar de intervir em processos
judiciais, sendo um ator judicial, não é titular do poder jurisdicional, nem
sequer integra o elenco dos órgãos de soberania judiciais. As competências que
lhe estão constitucional e legalmente atribuídas são extremamente relevantes,
mas a decisão sobre o destino das suas promoções e pretensões é sempre
tomado pelos tribunais, de que são titulares dos magistrados judiciais
(GOUVEIA ꓼ 2015։ 525).

3. OS MAGISTRADOS DO MINISTÉRIO PÚBLICO


A situação funcional dos magistrados do Ministério Público está constitucionalmente
definida em termos paralelos à dos magistrados judiciais, ainda que com menor
densidade regulativa (GOUVEIA ꓼ 2015։ 525).

As competências gestionárias e disciplinares dos magistrados do Ministério Público são


atribuídas ao Conselho Superior da Magistratura do Ministério Público. São abundantes
as normas legais sobre o estatuto dos magistrados do Ministério Público, que em grande
medida se concentram na Parte II da LOMP (GOUVEIA ꓼ 2015։ 525).

No entanto, a magistratura do Ministério Público também tem regras diversas das que se
aplicam aos magistrados judiciais: “No exercício das suas funções, os magistrados e
agentes do Ministério Público estão sujeitos aos critérios de legalidade, objetividade,
isenção e exclusiva sujeição às diretivas e ordens previstas na lei”. O ponto central é o
facto de aqui não vigorar o princípio da independência, apenas o princípio da
autonomia, porque pode haver a sujeição do Ministério Público a orientações
legislativas e administrativas dos poderes públicos, respetivamente da Assembleia da
República e do Governo: “O Ministério Público goza de estatuto próprio e de
autonomia, nos termos da lei”. Por outra parte, ao invés do que sucede com os
magistrados judiciais, os magistrados do Ministério Público são hierarquizados: “O
Ministério Público constitui uma magistratura hierarquicamente organizada,
subordinada ao Procurador-Geral da República” (GOUVEIA ꓼ 2015։ 526).

6
Nas escassas normas constitucionais sobre a carreira dos magistrados do Ministério
Público, cumpre evidenciar o que se dispõe a respeito da categoria de topo, os
Procuradores-Gerais Adjuntos. A estes cabe a representação do Ministério Público nos
tribunais superiores, o Tribunal Supremo e o Tribunal Administrativo. É também sobre
esta categoria de magistrados do Ministério Público que o texto constitucional fixa
critérios próprios de seleção: “…são nomeados pelo Presidente da República, sob
proposta do Conselho Superior da Magistratura do Ministério Público, após concurso
público de avaliação curricular, aberto a cidadãos nacionais de reputado mérito,
licenciados em Direito, no pleno gozo dos seus direitos civis e políticos, que tenham, à
data do concurso, idade igual ou superior a trinta e cinco anos e que tenham exercido,
pelo menos durante dez anos, a atividade forense ou de docência em Direito”
(GOUVEIA ꓼ 2015։ 526).

A LOMP vem a ser mais explícita, referindo as seguintes categorias da carreira do


Ministério Público:

 Procurador-Geral Adjunto;
 Procurador da República Principal;
 Procurador da República de 1ª;
 Procurador da República de 2ª ꓼ
 Procurador da República de 3ª.

4. ORGANIZAÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO

4. 1. Procuradoria-Geral da República
 I. Nos termos constitucionais, a “Procuradoria-Geral da República é o órgão
superior do Ministério Público, com a orgânica, composição e competências
definidas na lei” (Art. 236 da CRM, nᵒ1 ).

A LOMP, mais completa, prevê os seguintes órgãos do Ministério Público:

 Procuradoria-Geral da República;
 Sub-Procuradoria-Geral da República;

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 Gabinete Central de Combate à Corrupção;
 Procuradoria de Província;
 Gabinete Provincial de Combate à Corrupção; e
 Procuradoria de Distrito.

II. A estrutura da Procuradoria-Geral da República é composta por diversas


instâncias:

 Conselho Coordenador da Procuradoria-Geral da República;


 Conselho Técnico; e
 Conselho Consultivo.

III. A Procuradoria-Geral da República tem ainda os seguintes dirigentes


constitucionalmente definidos:

 Procurador-Geral da República;
 Vice-Procurador-Geral da República.

Ambos “…são nomeados, por um período de cinco anos, pelo Presidente da República
de entre licenciados em Direito, que hajam exercido, pelo menos durante dez anos,
atividade profissional na magistratura ou em qualquer outra atividade forense ou de
docência em Direito… ” (Art. 238 da CRM, nᵒ1).

A importância das suas funções comprova-se por um regime de maior estabilidade dos
seus mandatos, os quais não podem cessar senão nos seguintes casos:

 renúncia;
 exoneração;
 demissão;
 aposentação compulsiva em consequência de processo disciplinar ou criminal;
 aceitação de lugar ou cargo incompatível com o exercício das suas funções.

IV. O Procurador-Geral da República, como responsável máximo, tem deveres


acrescidos no tocante à sua atividade:

 “O Procurador-Geral da República responde perante o Chefe do Estado”1069;

8
 “O Procurador-Geral da República presta informação anual à Assembleia da
República”.

4. 2. Conselho Superior da Magistratura do Ministério Público


I. O Conselho Superior da Magistratura do Ministério Público “…é o órgão de gestão e
disciplina do Ministério Público” (Art. 237 da CRM, nᵒ2).

Segundo o texto constitucional, este órgão integra a Procuradoria-Geral da República e


dele fazem parte “…membros eleitos pela Assembleia da República e membros de entre
si eleitos pelos magistrados do Ministério Público”.

II. A LOMP veio depois concretizar a sua composição, dele fazendo parte:

 Procurador-Geral da República;
 Vice-Procurador-Geral da República;
 dois Procuradores-Gerais Adjuntos e quatro Procuradores da República, sendo
um por cada categoria; e
 cinco personalidades de reconhecido mérito, eleitas pela Assembleia da
República.

III. Na ausência de outras indicações constitucionais, é no estatuto do Ministério


Público que se pode encontrar as suas competências fundamentais:

 pronunciar-se sobre a nomeação, exoneração e demissão dos Procuradores-


Gerais Adjuntos – nomear, colocar, transferir, promover, exonerar, apreciar o
mérito profissional, aposentar, exercer a ação disciplinar e praticar atos de
idêntica natureza respeitantes aos magistrados do Ministério Público;
 propor ao Procurador-Geral da República a realização de inquéritos e
sindicâncias às Procuradorias da República dos diferentes níveis;
 aprovar a proposta do seu diploma específico
 aprovar a proposta do orçamento anual;
 deliberar sobre a aposentação dos magistrados do Ministério Público quando
revelem diminuição das suas faculdades físicas ou intelectuais;
 aprovar o plano anual das inspeções ordinárias.

9
5. EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO MINISTÉRIO PÚBLICO EM
MOÇAMBIQUE

5.1. Reconstrução do Sistema Judiciário (1974 á 1978)


O governo saído da independência de Moçambique, ao perfilhar um modelo de
desenvolvimento socialista, propunha-se obviamente a uma ruptura total com o sistema
colonial português. Esta opção ficou inequívoca, desde logo, na Constituição de 1975,
ao definir como objectivos fundamentais, nomeadamente, a eliminação das estruturas
de opressão e exploração coloniais e tradicionais e da mentalidade que lhes está
subjacente, a extensão e reforço do poder popular democrático, a edificação de uma
economia independente e a promoção do progresso cultural e social, a edificação da
democracia popular e a construção das bases material e ideológica da sociedade
socialista (CRISTIANO ꓼ PEDROSO, 2008։ 213).

Procurando dar continuidade às experiências políticas das zonas libertadas, a Frente de


Libertação de Moçambique (Frelimo) pressupunha que o rumo ao socialismo, a
construção de uma sociedade sem classes, livre da “exploração do homem pelo
homem”, exigia um processo de transformação radical da sociedade, isto é, a destruição
de todas as formas de expressão do colonialismo (CRISTIANO ꓼ PEDROSO, 2008։
213).

Neste contexto, o poder judiciário assumiria um papel fundamental para a concretização


dos objectivos a que o Estado se propunha, tendo sido emitidas orientações políticas
importantes. Nas quatro normas dedicadas aos tribunais judiciais, consagrava os
seguintes princípios: da reserva da função judicial para os tribunais; da legalidade; da
independência dos juízes e obediência à lei no exercício das suas funções; e da
supremacia do Tribunal Popular Supremo. A única norma dedicada ao Ministério
Público determinava que competia a esta magistratura a representação do Estado junto
dos tribunAis e que o Procurador-Geral da República respondia perante a Assembleia da
Popular (CRISTIANO ꓼ PEDROSO, 2008։ 214).

A primeira revisão constitucional (1978) não introduziu alterações substanciais ao


capítulo sobre organização judiciária. Para além de preservar os princípios que
vigoravam na versão originária, acrescentou os seguintes: da supremacia da Assembleia
Popular, passando também os tribunais a responder perante aquele órgão (art. 70.º); e da

10
prevenção e educação no cumprimento da lei. Quanto ao Ministério Público, por um
lado, estabeleceu o princípio da organização hierárquica subordinada ao
ProcuradorGeral da República e, por outro lado, acrescentou que compete ao Ministério
Público a representação do Estado nos tribunais e a defesa da legalidade e a fiscalização
no cumprimento das leis. Este constituiu o quadro constitucional que estabeleceu as
bases mínimas para a posterior aprovação das leis da organização judiciária e do
Estatuto Orgânico da Procuradoria-Geral da República. Assim, a organização e o
funcionamento das magistraturas foram ajustados a outros princípios estruturantes do
Estado moçambicano, nomeadamente da unidade de poderes, do centralismo
democrático e da dupla subordinação de poderes. Por isso, apesar de haver uma
separação funcional de poderes, o partido definia a linha ideológica e de actuação dos
órgãos do Estado, incluindo dos tribunais e das procuradorias. Esta realidade
condicionou o modelo de organização judiciária e, particularmente, a estrutura funcional
que o Ministério Público viria a adoptar (CRISTIANO ꓼ PEDROSO, 2008։ 214).

Nesta fase, havia uma relativa indefinição quanto às funções que se estenderiam para o
Ministério Público no quadro da nova legalidade (revolucionária) e num contexto de
urgência para assegurar e promover o acesso dos cidadãos à justiça. Por exemplo, com a
proibição do exercício privado da advocacia e dos serviços de consultoria, foi criado o
Serviço Nacional de Consulta e Assistência Jurídica (SNCAJ), que funcionaria na
dependência da Procuradoria-Geral da República, com o objectivo de prestar assistência
jurídica gratuita as cidadãos.10 Contudo, esta instituição não chegou a funcionar. Muito
posteriormente (em 1986), foi criado o Instituto Nacional de Assistência Jurídica,
subordinado ao Ministério da Justiça, que visava cumprir os objectivos inicialmente
previstos para o SNCAJ. Este movimento obrigou a encontrar soluções rápidas e
exequíveis para assegurar o funcionamento das instituições, ao mesmo tempo que se
procurava responder aos novos imperativos constitucionais e aos desafios da
democracia popular (CHRISTIE, 1996; EGERO, 1992; HANLON, 1984; TRINDADE,
2003).

Assim, para as magistraturas judicial e do Ministério Público foram recrutados


“cidadãos que, embora desprovidos de qualificação adequada, se identificavam com o
projecto político e social definido para um país, tinham alguma formação académica e
revelavam qualidades de ponderação e bom senso” (TRINDADE, 2003: 103).

11
5. 2. Sistema de Justiça Popular (1978-1990)
Esta fase de evolução do sistema judiciário moçambicano foi sobretudo de
concretização das linhas políticas para a implementação de um sistema de justiça
popular. Foi, assim, aprovada a primeira lei da organização judiciária,12 a lei dos
tribunais populares, que estabelecia os princípios gerais de funcionamento dos órgãos de
administração da justiça, fixava as competências dos tribunais e determinava o âmbito
de actuação do Ministério Público. A mesma lei também reproduzia a regra
constitucional sobre a organização hierárquica do Ministério Público e a sua
subordinação ao Procurador-Geral da República (CRISTIANO ꓼ PEDROSO, 2008։
215).

O que conferia carácter “popular” ao sistema de justiça moçambicano era, não só a


preocupação de conformar a actividade judiciária (procedimentos, estrutura e conteúdos
das decisões) ao objectivo de construção de uma “democracia popular”, como também a
própria composição dos tribunais. Em todos os escalões os tribunais eram colegiais,
prevendo a participação de juízes sem formação técnico-jurídica (eleitos pelas
Assembleias Populares), ao lado de juízes profissionais. Na base do sistema, os
tribunais populares de localidade (ou de bairro, nos centro urbanos) eram compostos
exclusivamente por juízes eleitos que, quando não fosse possível a reconciliação das
partes, julgavam “de acordo com o bom senso e com a justiça e tendo em conta os
princípios que presidem à construção da sociedade socialista”. Seguindo a Constituição,
a lei da organização judiciária previa a existência de representantes do Ministério
Público junto de todos os tribunais, excepto, obviamente, na base do sistema onde as
exigências de construção de uma justiça de proximidade (baseada na oralidade,
desburocratizada, célere, permeável culturalmente, etc.) desaconselhavam a colocação
de magistrados profissionais e o recurso à dogmática e técnica jurídicas na resolução
dos conflitos (CRISTIANO ꓼ PEDROSO, 2008։ 215֊216).

5. 3. Organização Judiciária do Estado de Direito (1990-2004)


Em 1987 foi formalmente introduzido em Moçambique o Programa de Reabilitação
Económica (PRE), em consequência da adesão aos programas de reajustamento
estrutural preconizados pelo Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial. O PRE
obedece ao mesmo leque de medidas implementados noutros países “em
desenvolvimento”, no âmbito do processo de “transição democrática”. No plano

12
económico, essas medidas podem ser agregadas em três componentes, que constituem,
aliás, os três pilares do chamado Consenso de Washington nos anos 80 e 90: austeridade
orçamental, privatizações e liberalização dos mercados. No plano político, a adesão aos
programas de reajustamento estrutural implicou a introdução da democracia liberal e a
reestruturação dos órgãos do Estado. Estas reformas foram consagradas na Constituição
de 1990 que alargou o regime dos direitos e liberdades fundamentais individuais e
colectivos, marcou a passagem de um regime monopartidário e de orientação socialista
para uma democracia multipartidária, institucionalizou a economia de mercado e
acolheu a separação de poderes (CRISTIANO ꓼ PEDROSO, 2008։ 219).

Estas transformações constitucionais exigiram o redimensionamento do sistema de


justiça, adequando os seus objectivos e a estrutura orgânica ao novo contexto político.
Os tribunais passaram a ser considerados instrumentos fundamentais para a manutenção
da paz social, para o fortalecimento da democracia e para acomodar um novo
enquadramento jurídico de desenvolvimento que incorpore as trocas comerciais, os
movimentos financeiros e o investimento. Foram introduzidos os seguintes princípios e
regras relativas aos tribunais judiciais pela Constituição de 1990: os tribunais como
órgãos de soberania; a autonomia dos tribunais em relação aos poderes executivo e
legislativo; a independência dos juízes no exercício das suas funções, devendo
obediência à lei e à Constituição; os tribunais como garante do reforço da legalidade e
dos direitos e liberdades dos cidadãos; os tribunais cumprem uma função educativa dos
cidadãos no cumprimento voluntário e consciente das leis, estabelecendo uma justa e
harmoniosa convivência social; as decisões dos tribunais são de cumprimento
obrigatório e prevalecem sobre as outras autoridades; os juízes gozam de garantias de
imparcialidade, irresponsabilidade e inamovibilidade; os tribunais, quando julgam em
primeira instância, são colegiais, envolvendo a participação de juízes eleitos nas
decisões sobre matéria de facto. No que respeita ao Ministério Público, a nova
Constituição não foi para além da reafirmação dos princípios da organização hierárquica
da magistratura e dos princípios funcionais da legalidade, da objectividade e da isenção
(que já constavam na anterior Constituição e no Estatuto Orgânico da Procuradoria-
Geral da República, como vimos), remetendo para a lei ordinária a concretização dos
princípios. A direcção dos tribunais judiciais passou a ser da exclusiva responsabilidade
do Tribunal Supremo e do Conselho Judicial (CRISTIANO ꓼ PEDROSO, 2008։ 220).

13
Os tribunais judiciais passaram também a ter um órgão próprio de disciplina, o
Conselho Superior da Magistratura Judicial. Por seu turno, a Procuradoria-Geral da
República assumiu a direcção da magistratura do Ministério Público, não obstante o
facto de continuar o regime de nomeação do Procuradoria-Geral da República e dos
Procuradores-Gerais Adjuntos por parte do Presidente da República. Por conseguinte,
foi aprovado o Estatuto dos Magistrados Judiciais e a nova Lei Orgânica dos Tribunais
Judiciais. Esta lei deixou de fazer qualquer referência ao Ministério Público e afastou do
sistema os tribunais de localidade ou de bairro que, como vimos, constituíam a base da
pirâmide judicial. A hierarquia dos tribunais judiciais passou a ser a seguinte, a partir do
topo: Tribunal Supremo, tribunais judiciais de província e tribunais judiciais de distrito
(na base). Continuou a vigorar o princípio da coincidência entre a divisão judicial e a
divisão administrativa. Como afirmámos, apesar das transformações constitucionais e
da reestruturação ocorrida nos tribunais judiciais, o Estatuto Orgânico de 1989
continuou a fixar as bases de organização e funcionamento do Ministério Público
moçambicano. De modo semelhante, porque não dispunha até 2007 de estatuto próprio,
aos magistrados do Ministério Público continuava a aplicar-se o Estatuto dos
magistrados judiciais (CRISTIANO ꓼ PEDROSO, 2008։ 220˗221).

5.4. A Revisão Constitucional de 2004 e a Proposta de Lei Orgânica do Ministério Público

A revisão constitucional de 2004 é fruto de pressões dos partidos da oposição, com


vista a um maior equilíbrio na distribuição do poder. A revisão ocorreu, basicamente,
num duplo sentido. Por um lado, atribui dignidade constitucional a determinados órgãos
(Conselho Superior da Comunicação Social, Conselho de Estado, Conselho Nacional de
Defesa e Segurança, Conselho Superior da Magistratura Judicial, Conselho Superior da
Magistratura do Ministério Público, Conselho Superior da Magistratura Judicial
Administrativa e Provedor de Justiça) e redefine as respectivas composições, de modo a
salvaguardar nos mesmos uma representação proporcional das forças políticas com
assento da Assembleia da República. Por outro lado, cria órgãos locais do Estado
(assembleias provinciais e distritais), assegurando que em todas as circunscrições
administrativas haja órgãos representativos do povo (CRISTIANO ꓼ PEDROSO, 2008։
221).

Esta “concessão” do Governo da Frelimo foi feita em troca do compromisso político


(ainda que não apresentados publicamente como tal) de salvaguarda da soberania

14
nacional, da paz, da unidade e da integridade nacional. A Constituição passou, assim, a
considerar a unidade nacional, a promoção de uma sociedade plural, a tolerância e
cultura de paz como objectivos fundamentais do Estado, ao mesmo tempo que afirma
expressamente que é “vedado aos partidos políticos preconizar ou recorrer à violência
armada para alterar a ordem política e social do país” e que “todos os actos visando
atentar contra a unidade nacional, prejudicar a harmonia social, criar origem étnica,
lugar de nascimento, religião, grau de instrução, posição social, condição física ou
mental, estado civil dos pais, profissão ou opção política, são punidos nos termos da lei
(CRISTIANO ꓼ PEDROSO, 2008։ 221).

Por imposição constitucional, a lei prevê a existência de um órgão de gestão e de


disciplina: o Conselho Superior da Magistratura do Ministério Público, constituído pelo
Procurador-Geral da República, Vice-Procurador Geral da República, dois
Procuradores-Gerais Adjuntos, quatro Procuradores da República e cinco
personalidades eleitas pela Assembleia da República (CRISTIANO ꓼ PEDROSO, 2008։
2022).

15
CONCLUSÃO
Em suma,

16
17
18
Referências Bibliográficas։
CHRISTIE, Iain (1996), Samora, Uma biografia, Maputo։ Ndjira.

DIAS, Joao ꓼ AZEVEDO, Rodrigo( ), O Papel do Ministério Público։ Estudo


comparado dos países Latino֊Americanos, Almedina.

EGERO,Bertil (1992), Moçambique. Os primeiros dez anos da democracia, Maputo։


Arquivo historico de Mocambique (Estudos 8 ).

GOUVEIA, Jorge (2015), Direito Constitucional de Mocambique, Lisboa ̸ Maputo։


Asprint.

HANLON, Joseph (1984), Mozambique։ The revolution under fire, London։ Zed
Books.

Procuradoria˗Geral da República(2006), Informação anual do Procurador˗Geral da


República a Assembleia da República, Maputo.

TRINDADE, João Carlos ꓼ (2003), Rupturas e continuidades nos processos políticos e


jurídicos.

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