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Introdução à Teologia Patrística

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TEOLOGIA PATRÍSTICA

AULA 1

Prof. Heitor Alexandre Trevisani Lipinski


CONVERSA INICIAL

A teologia e a filosofia Patrística nascem em um período em que o mundo


cristão necessitava de respostas para questionamentos que surgiam em todos
os aspectos da vida e dos sacramentos.
A Patrística é formulada com o auxílio de diversos religiosos, em especial
os bispos, sucessores dos apóstolos, nos primeiros séculos da história da Igreja,
e o objetivo principal é combater heresias, o paganismo e a descrença, utilizando
preceitos católicos como argumentos de defesa. Esse pensamento teve forte
influência da filosofia grega.
Nessas próximas páginas, iremos discutir sobre a origem, as causas e o
início da literatura Patrística, evidenciando quais preceitos e caminhos ela
orientou para a construção da Igreja tal como a percebemos hoje.

TEMA 1 – NOÇÃO DE PATRÍSTICA

Figura 1 – Santo Agostinho

Crédito: Gift of The Ahmanson Foundation/[Link].


Quando falamos em Patrística, o primeiro nome que nos vêm à mente é
o de Agostinho, Bispo de Hipona e doutor da Igreja. Mas vamos procurar
entender que essa escola foi muito além de apenas um filósofo.
A nova fé, assim como vemos no Novo Testamento, era composta por
uma doutrina simples, cuja constituição se pautava em regras de conduta moral
e na crença de que a salvação estava no exemplo de sacrifício de Cristo. Assim,
podemos perceber que ela não era fundamentada em uma filosofia; não havia
um conjunto de ideias produzidas e racionalizadas em um todo lógico. Estava
mais para uma religião de revelação do que uma filosofia.
No entanto, a Igreja servia também como contraponto, ou contestadora
do sistema imperial vigente, vivendo um constante conflito com o senhorio
romano, precisando desenvolver um sistema de defesa, algo que servisse de
instrumento de argumentação para salvaguardar a fé cristã. O conteúdo para
fundamentar o cristianismo veio daquilo que servia como contraponto da
contestação: a filosofia grega.
De certa maneira, podemos entender que essa busca na filosofia grega
de justificativas para os preceitos cristãos foi uma maneira de conciliar as
verdades reveladas com as ideias filosóficas. Como são pensamentos dos
primeiros padres da Igreja, chamou-se de filosofia Patrística.
Os primeiros padres procuraram elaborar parcialmente alguns problemas
apologéticos e teológicos, ou seja, buscaram tecer elogios ao cristianismo, na
tentativa de mostrar o cristianismo como uma doutrina que caminha em paralelo
com as verdades racionais do pensamento helênico, cuja relevância estava no
respeito que as autoridades romanas tinham por ela. São Justino (século II),
Clemente de Alexandria (século II e III) e Orígenes (século III) procuraram nesse
caminho revestir o cristianismo de elementos gregos.
Essa utilização da doutrina da Igreja com a filosofia grega não foi bem
aceita por todos os membros cristãos da época, pois haviam os apologistas
latinos que defendiam uma originalidade da revelação cristã, que era fundada
nos preceitos da fé e não poderia ser explicada pela razão.
De certa maneira, muitos séculos irão se passar até se comprovar que o
pensar racional não é totalmente compatível com a verdade da revelação. Mas,
nos primeiros séculos do cristianismo, veremos que a filosofia serviu à teologia,
formando uma filosofia cristã.
TEMA 2 – O CONCEITO DE PADRE DA IGREJA

Quando falamos em padres da Igreja, pensamos logo no nosso pároco ou


vigário, que atua pastoralmente como orientador espiritual e da vida em
comunidade, pois temos a imagem que nos é mais próxima, e todos temos
aqueles padres que marcam nossa história, seja por um momento de amparo
que recebemos ou um sacramento que ficará para toda a vida e cujo ministro
eclesial nos permitiu a graça de receber. No entanto, o conceito de padre da
Igreja nos remete a outro estado de seu significado, algo ainda mais ancestral.
Ao nos referirmos à expressão Padres da Igreja, estamos evocando os
primeiros padres, ou os orientadores mais antigos, chamados de pais da Igreja
porque foram os orientadores do início do cristianismo. Para que sejam
considerados assim, é necessário que tenham vida santa, em especial
desenvolvendo a caridade, a doutrina ortodoxa, ou seja, retidão com os preceitos
católicos, terem a aprovação eclesial, ou seja, terem sido ordenados por um
bispo, e preservar a antiguidade da Igreja, formulando doutrinas que sejam úteis
à vida dos fiéis católicos.
Tendo em vista as discussões que se sobrepõem ao sacerdócio na
atualidade, e sobre a aparente carência vivida sobre a doutrina de norteamento
da igreja pelos padres, o Papa Bento XVI, em sua audiência geral de 7 de março
de 2007, nos diz:

[...] permanece no povo um sólido substrato espiritual, que se


manifesta entre outros, na atenção dedicada aos organismos da vida
cristã, na necessidade íntima de Deus, na redescoberta do valor da
oração, na estima pelo sacerdote zeloso e pelo seu ministério. Além
disso, sente-se por parte dos fiéis leigos e de grupos de compromisso
apostólico, uma exigência mais sentida de tensão para a santidade,
medida alta da vida cristã. (Bento XVI, 2007)

Em seguida, na mesma audiência, Bento XVI relata sobre São Clemente


Romano, e mostra a preocupação e a intervenção do santo nos hábitos da igreja
que ainda engatinhava em seu primeiro século de história.

A intervenção de Clemente [...] era solicitada pelos graves problemas


em que se encontrava a Igreja de Corinto: de facto, os presbíteros da
comunidade tinham sido depostos por alguns jovens contestadores. A
lamentável vicissitude é recordada, mais uma vez, por santo Irineu, que
escreve: “Sob Clemente, tendo surgido um contraste não pequeno
entre os irmãos de Corinto, a Igreja de Roma enviou aos Coríntios uma
carta importantíssima para os reconciliar na paz, renovar a sua fé e
anunciar a tradição, que há pouco tempo tinha recebido dos Apóstolos”
(Adv. haer. 3, 3, 3). Portanto, poderíamos dizer que esta carta constitui
o primeiro exercício do Primado romano depois da morte de São Pedro.
A carta de Clemente retoma temas queridos a São Paulo, que
escrevera duas grandes cartas aos Coríntios, em particular a dialética
teológica, perenemente atual, entre indicativo da salvação
e imperativo do compromisso moral. (Bento XVI, 2007)

Observamos com a narração do Sumo Pontífice em 2007 que os padres


da Igreja tinham compromisso com a formulação de uma doutrina e, ao mesmo
tempo, em trazer respostas para os inúmeros questionamentos que se
apresentavam aos fiéis da época. Devemos lembrar que tanto o Império Romano
como a Grécia, locais de evangelização dos apóstolos e dos primeiros líderes da
Igreja, eram locais cuja crença era politeísta, e a sombra dos mitos, lendas,
histórias narradas por gerações e cuja crença era enraizada na sociedade era
ao mesmo tempo de fácil penetração pela novidade cristã e alvo de inúmeras
questões, cuja fé deveria provar ser a verdadeira salvação.
Não obstante, a formulação de uma filosofia imersa na teologia cristã era
a resposta buscada pelos padres, que traziam a justificativa da fé pela
racionalidade grega.

TEMA 3 – AS ORIGENS E CAUSAS DA LITERATURA PATRÍSTICA

O início do cristianismo teve como suporte a Bíblia, sendo seu único


documento de referência e análise. Temos que perceber que o Novo Testamento
vai demorar para ser escrito e compilado. Dessa forma, os herdeiros dessa
tradição bíblica, os padres, buscavam as Escrituras para comentar em suas
homilias e sermões. Santo Ambrósio, bispo de Milão, por exemplo, se dedicou a
um estudo sistemático da Bíblia, iniciado para a preparação em sua ordenação
episcopal e que se tornou missão em sua vida.
Nesses primeiros anos, os padres faziam o processo de leitura e
meditação da Palavra como uma oração pessoal, e as reflexões obtidas desse
processo de interiorização daquilo que era lido eram passadas para o rito
litúrgico, no momento da homilia ou sermão, pois era a pregação bem-sucedida,
ou seja, que promovesse o exame de consciência dos fiéis ouvintes, que garantia
mais conversões de almas para o cristianismo. Nessa concepção, era preciso
falar com Deus antes de se falar Dele.
Essas pregações poderiam levar horas, dependendo do tema que era
proposto na liturgia do dia, por isso passaram a escrever a reflexão para servir
de base no discurso, muitas vezes lido. Esses escritos eram preciosos para o
cristianismo, pois revelavam momentos que a Igreja enfrentava, e começaram a
desenvolver a filologia, um estudo de toda a documentação antiga produzida
pelos pregadores no intuito de compilar e interpretar esses escritos, tomando
assim a referência desse passado inicial da Igreja para fundamentar a defesa da
fé em detrimento do gnosticismo e contestadores que porventura viessem a
interpelar a doutrina transmitida.
Os textos sagrados eram o principal apoio dos primeiros cristãos, seja
para discutir polêmicas ou para justificar os dogmas e comportamentos morais,
sobretudo quando são tratados temas de impasse teológico. Agostinho de
Hipona revela ter se pautado nas Escrituras para explicar a Trindade.
Nos primeiros séculos da história da Igreja, houve inúmeras dificuldades
em relação às contestações da doutrina e às perseguições do Império Romano,
e muito por conta dessa situação floresceu a apologética em duas vertentes
distintas. Uma delas era de diálogo com o que se apresentava diferente, a outra
era crítica do paganismo.
Vítimas de preconceitos, os cristãos eram acusados de ateísmo ao ponto
do filósofo pagão Celso dizer: “por que vós, cristãos, não tendes altares, nem
estátuas, nem templos?” (Orígenes, 2004, p. 17). A indagação era uma forma de
pressionar os fiéis, colocando-os em confusão com a própria crença. Os Padres,
por sua vez, trataram de explicitar a fé em categorias filosóficas daquelas
correntes do tempo, como platonismo, estoicismo e neoplatonismo.

TEMA 4 – AS LÍNGUAS

A teologia Patrística é feita com base nos escritos de tudo aquilo que se
demonstrava relevante para as comunidades cristãs formadas no início da
disseminação da doutrina da Igreja. No entanto, a maioria dos fiéis vinha de
classes populares menos favorecidas e, por consequência, era também maior o
número de analfabetos. Desse modo, para que fossem transcritas as homilias,
pregações, debates e informações, estas vinham daqueles que possuíam mais
privilégios e cujo letramento era mais desenvolvido.
Havia na época dois idiomas oficiais no Império Romano: grego e latim;
distintos, mas conhecidos em todo domínio dos imperadores. Tal importância
dos idiomas se revela até hoje na Santa Missa, quando, apesar do rito latino,
algumas palavras estão em grego, como o caso do ato penitencial, em que se
diz “Kyrie eleison”. O livro Orthodox Worship (Adoração Ortodoxa) descreve o
significado da frase:

A palavra piedade em inglês (mercy) é a tradução da palavra grega


“eleos”. Essa palavra tem a mesma raiz da palavra grega para o óleo,
ou mais precisamente, óleo de oliva – uma substância que era
amplamente utilizada como agente calmante para hematomas e
pequenas feridas […] A palavra hebraica que também é traduzida
como “eleos” e piedade é “hesed”, cujo significado é “amor firme”. As
palavras gregas para “Senhor, tem piedade” são “Kyrie, eleison”, que
significam: “Senhor, acalma-me, consola-me, tira minha dor,
mostra-me o seu amor firme”. Assim, a piedade não se refere tanto à
justiça ou à absolvição, mas à infinita bondade amorosa de Deus e sua
compaixão por seus filhos sofredores! É nesse sentido que rezamos
“Senhor, tende piedade”, com grande frequência ao longo da Divina
Liturgia. (Wilians; Anstall, 2019, p. 212)

O importante é destacar que os dois idiomas foram responsáveis pela


compilação de documentos que tratam do início da era cristã, ainda que, adotado
o latim como oficial na Igreja Romana, é no grego que encontramos a maioria
dos escritos, inclusive os evangelhos. A tradução de São Jerônimo, entre os
séculos IV e V, traz para o latim toda uma história de fé que se encontrava em
hebraico e grego.

Figura 2 – São Jerônimo, tradutor da bíblia

Crédito: Dulwich Picture Gallery/[Link].


TEMA 5 – A LITERATURA PATRÍSTICA

A literatura Patrística, como já falamos, é aquela que se refere aos escritos


dos Padres da Igreja cristã. A própria palavra patrística, do grego patristikos,
significa relativo aos pais, e contabiliza toda a produção desde o século I ao VIII.
Podemos dizer que ela está entre a composição do Novo Testamento e a
escolástica medieval, e faz referência ao modo de pensar helênico e romano,
por isso percebemos um vocabulário greco-latino. Nesse primeiro período, a
Igreja precisava lançar as bases de sua doutrina, ainda que se pautasse no
Antigo Testamento. Na formulação do Novo, era preciso definir toda a sua
distinção em relação ao judaísmo, e é aí que entra essa literatura, para justificar
e refletir sobre cristologia e a trindade.
Apesar de aparentemente os escritores do Oriente e Ocidente estarem
em consonância, é perceptível algumas distinções teológicas: enquanto no
Oriente havia a mistura da teologia bíblica com as ideias platônicas, no Ocidente
prevalecia a tradição teológica grega, com certa interpretação jurídica das
escrituras, até o surgimento de uma interpretação latina mais sofisticada.
Esses escritos são divididos em três momentos: pré-Niceia, no qual estão
os escritos dos Padres Apostólicos, a apologética e a anti-herética. Os principais
nomes incluem Clemente de Alexandria, Cipriano, Irineu, Justino Mártir,
Orígenes e Tertuliano.
O período entre os anos de 325 a 451, que compreende o intervalo entre
os concílios de Nicéia e Calcedônia, é considerado a idade do ouro, com Eusébio
de Cesareia, Atanásio e Cirilo de Alexandria, Basílio, o Grade, Gregório de
Nazianzo e de Nissa, João Crisóstomo e Teodoro de Mopsuéstia. Na linha latina,
destacaram-se Hilário de Poitiers, Ambrósio, Jerônimo e Agostinho. Encerra o
período patrístico com Gregório I e João Damasceno, do Ocidente e Oriente
respectivamente.
Figura 3 – Eusébio de Cesareia relata em seus escritos a história da Igreja no
seu início

Crédito: CC/DP.

NA PRÁTICA

Os pais da Igreja nascente trazem não apenas as tradições que foram


repassadas pelos séculos de história do cristianismo, mas também
fundamentam o modo de se estabelecer culturalmente do catolicismo.
Dessa maneira, procure entre os escritos primitivos quais as
preocupações primeiras do cristianismo, o que era combatido como heresia,
apostasia e quais as análises feitas para encontrar respostas. Tente perceber se
essas explicações eram com base nas Escrituras e em discussões dos concílios,
ou se eram parte de uma reflexão interiorizada em oração, como a preparação
homilética.

FINALIZANDO

A Patrística nasce da necessidade de se criar um repertório de escritos


que pudessem servir como consulta para a posteridade. Pensando que,
inspirados pelo Espírito Santo, os pais Igreja pregavam os ensinamentos da
interpretação que recebiam da Palavra, era importante registrar e documentar.
Assim, aqueles cujos letramento e conhecimento educacional eram mais
avançados tomavam a tradição oral para perpetuá-la.
Também não foram apenas essas as intenções desses escritores, pois
era preciso combater os ataques ideológicos causados tanto pelo Império
Romano quanto pelo judaísmo, que viam no cristianismo nascente um ateísmo
e uma negação da existência divina do criador.
São esses escritos que chegaram até nós e que nos fornecem não apenas
com informações teológicas, mas também históricas, filosóficas e sociológicas,
de um período primitivo da nova era iniciada com o nascimento de Cristo.
REFERÊNCIAS

BENTO XVI. Audiência Geral. Vaticano. Disponível em:


<[Link]
xvi/pt/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20070307.html>. Acesso em:
16 set. 2020.

ORÍGENES. Contra Celso. Trad. São Paulo: Paulus, 2004.

WILLIAMS, B.; ANSTALL, H. Orthodox worship: a living continuity with the


synagogue, the temple, and the early church. Ancient Faith Publishing, 2019.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
TEOLOGIA PATRÍSTICA 
AULA 1 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Heitor Alexandre Trevisani Lipinski
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A teologia e a filosofia Patrística nascem em um período em que o mundo 
cristão necessitava de respostas
Quando falamos em Patrística, o primeiro nome que nos vêm à mente é 
o de Agostinho, Bispo de Hipona e doutor da Igreja. Ma
TEMA 2 – O CONCEITO DE PADRE DA IGREJA 
Quando falamos em padres da Igreja, pensamos logo no nosso pároco ou 
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(Adv. haer. 3, 3, 3). Portanto, poderíamos dizer que esta carta constitui 
o primeiro exercício do Primado romano depois da
de base no discurso, muitas vezes lido. Esses escritos eram preciosos para o 
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algumas palavras estão em grego, como o caso do ato penitencial, em que se 
diz “Kyrie eleison”. O livro Orthodox Worship (
TEMA 5 – A LITERATURA PATRÍSTICA 
A literatura Patrística, como já falamos, é aquela que se refere aos escritos 
dos Padres
Figura 3 – Eusébio de Cesareia relata em seus escritos a história da Igreja no 
seu início 
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NA PRÁTICA 
Os
inspirados pelo Espírito Santo, os pais Igreja pregavam os ensinamentos da 
interpretação que recebiam da Palavra, era impo

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