Fisiologia do Sistema Sensorial,
Neurossensorial e Funções
Hemisféricas
PROIBIDA A REPRODUÇÃO TOTAL OU PARCIAL, SEM AUTORIZAÇÃO.
Lei nº 9610/98 – Lei de Direitos Autorais
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Introdução
No século XIX, o biólogo alemão Johannes Müller formulou a lei que viria a ser chamada de
Lei das Energias Nervosas Específicas. De acordo com esta lei, a consciência do mundo
externo é dependente de receptores específicos, que por sua vez transformam os
estímulos externos em determinada energia nervosa. Esta energia nervosa é conduzida
até o córtex cerebral, que por fim, é capaz de produzir a experiência consciente dos
estímulos.
Apesar de antiga e genérica quando comparada ao que já se sabe atualmente, a visão
sobre a fisiologia do sistema sensorial de Johannes Müller ainda está de acordo com a
concepção atual. De fato, todos os sistemas sensoriais são compostos por receptores
específicos que transformam seu sinal em impulsos nervosos, e, por fim, são processados
no sistema nervoso central. Em específico, a transformação dos estímulos físicos ou
químicos no ambiente em impulsos nervosos é chamada de transdução, e corresponde a
uma etapa fundamental da fisiologia sensorial.
As sensações nos seres humanos podem ser divididas em cinco sentidos: paladar, olfato,
visão, audição e tato. Como esperado, cada um destes sentidos apresenta características
específicas que os capacitam à transdução do sinal, e em última instância, permite o
processamento de cada sentido de maneira distinta no sistema nervoso (Kandel et al.,
2014). A seguir será apresentado como se dá a percepção de todos os sentidos do sistema
sensorial.
Sistemas sensoriais
O primeiro sentido a ser descrito, o tato, pode ser compreendido a partir dos
mecanorreceptores. Os mecanorreceptores são células especializadas na captura de
movimentos mecânicos e distribuídas por toda a pele. Podemos encontrar quatro tipos de
mecanorreceptores na pele: o corpúsculo de Pacini, as terminações de Ruffini, os
corpúsculos de Meissner e os discos de Merkel. Com estes diferentes tipos de
mecanorreceptores podemos identificar estímulos mecânicos intensos ou fracos,
profundos ou superficiais (Bear, 2017).
Já a sensação do olfato ocorre dentro da cavidade nasal, em específico no epitélio
olfatório, composto por células receptoras olfatórias. Estas células são capazes de realizar
a transdução dos odores, que então enviam o sinal para o nervo olfatório, seguido pelo
bulbo olfatório, e, por fim, para o cérebro (Lent, 2022).
Interligado ao olfato na sensação de prazer ao degustar um alimento, o paladar, ou
gustação, ocorre a partir da atividade de células gustatórias presentes na língua, que nos
possibilitam a identificação de cinco sabores básicos: azedo ou ácido, amargo, doce,
salgado, e umami; este último está relacionado à identificação do quão saboroso o
alimento é, ou seja, a intensidade do sabor (Lent, 2022).
Em relação à visão, nos seres humanos o olho funciona como uma espécie de câmara
fotográfica que projeta as imagens para o seu fundo, a retina. Nesta estrutura, existem
células especializadas na captura de luz, os chamados fotorreceptores do tipo bastonetes,
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e células especializadas na percepção das cores, os fotorreceptores do tipo cone (Purves
et al. 2005).
Por fim, em relação à audição, as ondas sonoras passam por diversas estruturas do
ouvido até chegar à cóclea, que possui células especializadas na transdução dos estímulos
sonoros (Purves et al., 2005).
Figura 1 - Sistema sensorial
Fonte: [Link]
Processamento sensorial
O processamento sensorial de cada sentido ocorre a partir de um conjunto de estruturas
específicas do sistema nervoso central. Contudo, a atividade de algumas estruturas é
comum a todos os sistemas sensoriais. Dentre as estruturas recorrentemente usadas para
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qualquer processamento sensorial, pode-se citar o tálamo e o córtex cerebral (Kandel et
al., 2014).
Segundo Kandel et al. (2014, p. 393), "a informação sensorial é definida como a atividade
neural originada da estimulação de células receptoras em partes específicas do corpo", o
que inclui os cinco sentidos clássicos, mas também outras modalidades de percepção
reconhecidas mais recentemente pelos cientistas.
Funções hemisféricas
A percepção dos sentidos pode envolver outras funções cognitivas, como é o caso da
linguagem que está intimamente relacionado ao reconhecimento de sons. Neste caso,
logo após a descoberta de centros cerebrais relacionados a fala majoritariamente
localizados no lado esquerdo, a comunidade científica fundou o conceito de dominância
hemisférica, que ao longo dos anos deu origem a concepção de funções hemisféricas.
As funções hemisféricas são funções cognitivas que eram consideradas exclusivas ao lado
esquerdo ou direito do cérebro. Contudo, atualmente, este conceito é considerado
ultrapassado. O que se observa de fato no cérebro é a especialização hemisférica, ou
seja, um dos hemisférios é majoritariamente encarregado de uma função, mas isso não
significa que o outro hemisfério não participa da atividade.
Nesta concepção, pode-se indicar que o hemisfério esquerdo é tipicamente relacionado
a funções mais específicas, como cálculos matemáticos e identificação de pessoas,
enquanto o hemisfério direito desempenha funções mais globais, como compreensão
musical e categorias de objetos. Contudo, ainda assim não se sabe quais são as causas
para essas diferenças hemisféricas. É notável que existe uma assimetria neuroanatômica
entre os hemisférios, o que poderia estar relacionado à especialização da linguagem por
exemplo; entretanto, a especialização hemisférica ainda é alvo de intenso debate (Lent,
2022).
Assim, a concepção de funções hemisféricas demonstra que a especialização ocorre, mas
não de forma exclusiva, desafiando a ideia de que as funções são estritamente ligadas a
um hemisfério. Portanto, a complexidade da percepção sensorial e sua relação com o
cérebro continua sendo um campo de pesquisa em evolução.
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Referências
BEAR, Mark F. Neurociências: Desvendando o sistema Nervoso. 4. ed. Porto Alegre:
Artmed, 2017.
FICHMAN, Helenice Chartchat. Neuropsicologia Clínica. Santana de Parnaíba: Manole,
2021.
KANDEL, Eric R. et al. Princípios de Neurociências. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
LENT, Robert. Cem Bilhões de Neurônios? Conceitos Fundamentais de
Neurociência. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora Atheneu, 2022.
PURVES, Dale et al. Neurociências. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2005.