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INTERSEXUALIDADE: A MUTILAÇÃO CIRÚRGICA DE RECÉM-
NASCIDOS E CRIANÇAS FRENTE AOS DIREITOS HUMANOS
INTERSEXUALITY: THE SURGICAL MUTILATION OF NEWBORNS
AND CHILDREN IN FRONT OF HUMAN RIGHTS
Fabrício Veiga Costa1
Regina Cândido Lima e Silva Santos2
RESUMO
O objetivo geral da pesquisa é a investigação do fenômeno na intersexualidade e a prática da
mutilação cirúrgica de recém-nascidos e crianças como conduta contrária aos direitos
humanos. A escolha do tema se justifica em razão de sua relevância teórica, prática e
atualidade, especialmente no que atine a naturalização do binarismo, ocorrida a partir da
violação dos direitos à liberdade, autodeterminação, vida, saúde, autonomia e dignidade de
sujeitos intersexuais, frente à decisão unilateral de seus genitores em realizar cirurgia de
mutilação sexual por orientação médica. Os intersexuais nascem com características
biológicas que dificultam o seu enquadramento em um dos estereótipos de gênero (feminino
ou masculino). Em razão disso, são submetidos, em tenra idade, a cirurgias de
“normalização” dos corpos, que têm sido duramente questionadas por serem medicamente
supérfluas e corporalmente mutiladoras. A pesquisa é predominantemente bibliográfica e
documental e as metodologias adotadas foram a dedutiva e a crítico-dialética. O estudo
conduziu à conclusão de que, sob a perspectiva do Direito Internacional dos Direitos
Humanos, as intervenções cirúrgicas de “normalização” de sexo são verdadeiras práticas
1
Professor do programa de pós-graduação stricto sensu em proteção dos direitos fundamentais da Universidade
de Itaúna-MG, pós-doutor em Edução pela UFMG; Pós-doutoramente em Psicologia pela PUC-Minas; Doutor e
Mestre em Direito Processual pela PCU-Minas. Email: fvcufu@[Link]
2
Oficial de Registro de Títulos e Documentos e Civil das Pessoas Jurídicas da Comarca de Ouro Branco/MG.
Pós-graduada em Direito Público pela Universidade Cândido Mendes (RJ). Mestranda em “Proteção dos
Direitos Fundamentais” pela Fundação Universidade de Itaúna/MG. Email: fvcufu@[Link]
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discriminatórias e devem ser proibidas em todos os Estados. Além de prejudicarem o livre
desenvolvimento da personalidade, tais cirurgias, indubitavelmente, violam direitos humanos,
só podendo ser admitidas quando o intersexual tiver atingido estágio adequado de
desenvolvimento e puder manifestar o seu consentimento, livre, prévio e informado.
Palavras-Chave: Intersexualidade. Cirurgia de “normalização” de sexo. Direitos Humanos.
ABSTRACT
The general objective of the research is the investigation of the phenomenon in intersexuality
and the practice of surgical mutilation of newborns and children as a conduct contrary to
human rights. The choice of the theme is justified due to its theoretical, practical and current
relevance, especially with regard to the naturalization of binarism, which occurred from the
violation of the rights to freedom, self-determination, life, health, autonomy and dignity of
intersex subjects, facing the unilateral decision of its parents to perform sexual mutilation
surgery under medical guidance. Intersexuals are born with biological characteristics that
make it difficult to fit into one of the gender stereotypes (female or male). As a result, they
undergo, at a young age, surgeries to “normalize” the bodies, which have been harshly
questioned for being medically superfluous and bodily mutilating. The research is
predominantly bibliographic and documentary and the methodologies adopted were
deductive and critical-dialectic. The study led to the conclusion that, from the perspective of
international human rights law, surgical interventions to “normalize” sex are true
discriminatory practices and should be prohibited in all states. In addition to damaging the
free development of the personality, such surgeries undoubtedly violate human rights, and
can only be admitted when the intersexual has reached an appropriate stage of development
and can express their free, prior and informed consent.
Keywords: Intersexuality. Sex normalization surgery. Human Rights.
1. INTRODUÇÃO
O objetivo geral da presente pesquisa é a investigação do fenômeno social da
intersexualidade, delimitando-se o objeto de análise na problemática jurídica da mutilação
cirúrgica de recém-nascidos, no contexto dos direitos humanos. Para isso, foi necessário
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compreender cientificamente os fundamentos hábeis ao entendimento crítico da
intersexualidade, diante do contexto binário-anatômico utilizado como critério para definir e
categorizar a sexualidade das pessoas. A categorização de corpos a partir da genitália é o
referencial utilizado para definir homens e mulheres na modernidade e, considerando que o
intersexual rompe com essa moldura pelo fato de nascer simultaneamente com ambos órgãos
sexuais (pênis e vagina), é submetido, quando recém-nascido, a cirurgia de mutilação sexual
para corrigir o que se considera deformidade genital. A problemática jurídica levantada
encontra-se no debate sobre a legitimidade jurídica de realização dessa cirurgia por decisão
dos pais, retirando-se do sujeito a liberdade de escolha em realizar ou não o referido
procedimento cirúrgico quando tiver assim capacidade civil para se autodeterminar. Além
disso, problematiza-se se tal prática médica constitui ou não afronta (violação) aos direitos
humanos pertencentes ao recém-nascido, corolário do princípio da dignidade da pessoa
humana.
A escolha do tema se justifica especificamente em razão de sua evidente
relevância social, política e jurídica, haja vista tratar-se de assunto atual e que merece ser
academicamente debatido, como forma de esclarecer cientificamente as questões a ele
pertinentes.
Consolidou-se na humanidade a crença de que o ser humano, para ser
reconhecido como tal, deve ser enquadrado em um dos estereótipos de gênero: feminino ou
masculino. Há pessoas que nascem, contudo, com características biológicas que destoam da
tipificação binária, considerada normal, e que, por isso, sofrem discriminação e são relegadas
à invisibilidade. Trata-se dos intersexuais, indivíduos que apresentam variações naturais de
caracteres sexuais, incluindo cromossomos, gônadas, hormônios e/ou órgãos genitais, que
dificultam a sua identificação como totalmente feminino ou masculino. Na realidade, a
cirurgia mutiladora realizada nos sujeitos intersexuais ocorre porque são considerados
pessoas que destoam da categorização biológico-evolucionista clássica de corpos humanos,
que se dá a partir da genitália: homem é o sujeito que tem pênis e mulher a pessoa que tem
vagina.
Os intersexuais – representados pelo “I” da sigla LGBTI+ (adotada atualmente
pela Organização das Nações Unidas) – são geralmente submetidos, quando ainda bebês, ou
durante a primeira infância, a intervenções cirúrgicas de “normalização” de sexo,
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inteiramente questionáveis. Desde a década de 90, quando um grupo de pessoas intersexuais
e seus familiares se uniram nos Estados Unidos, formando a Sociedade Intersexual Norte
Americana (ISNA), essas cirurgias têm sido severamente criticadas e a intersexualidade
passou a inspirar debates públicos, fato esse que enaltece a relevância do debate acadêmico
da temática proposta.
A prática das cirurgias de “normalização” de sexo em pessoas intersexuais pode
representar grave violação de direitos humanos. O objetivo do trabalho é, justamente, analisar
a conformidade desses procedimentos cirúrgicos com os direitos humanos, em especial, o
direito à saúde, à integridade física e psíquica e à autodeterminação. A hipótese que se aventa
é a de que tais intervenções cirúrgicas, além de prejudicarem o livre desenvolvimento da
personalidade, violam os direitos dos intersexuais à saúde, à integridade física e psíquica, à
identidade, à liberdade, à igualdade e à autodeterminação, ofendendo, inexoravelmente, a sua
dignidade.
A escolha do tema se justifica pela necessidade de estimular o diálogo teórico a
respeito de matéria tão sensível, haja vista que os intersexuais são simplesmente
desconsiderados pela sociedade, pairando nos cenários político, social, acadêmico e científico
uma completa ignorância acerca da intersexualidade. E, como se não bastassem as violações
de direitos humanos sofridas desde o seu nascimento, os intersexuais ainda têm que suportar
a estigmatização imposta por estruturas sociais que reproduzem as premissas fundadas na
sexualidade categorizada pela genitália de cada sujeito. Almeja-se, verdadeiramente, que o
trabalho possa contribuir para a modificação dessa realidade, especialmente no que atine ao
entendimento crítico-científico de temática tão relevante para a sociedade civil.
A pesquisa desenvolvida é predominantemente bibliográfica e documental. As
metodologias adotadas foram a dedutiva e a crítico-dialética. Dedutiva, porque parte-se de
certas premissas para que sejam formuladas conclusões acerca dos fatos abordados. Crítico-
dialética, porque a exposição estimula o diálogo teórico, rejeitando a reverberação acrítica de
opiniões, compreensões e conhecimentos já consolidados sobre o assunto. Na delimitação do
objeto de pesquisa levantou-se a seguinte pergunta problema: a imposição da cirurgia de
mutilação sexual aos sujeitos intersexuais constitui afronta aos direitos humanos,
especialmente ao direito à vida, liberdade, saúde e autodeterminação?
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A exposição está dividida em três capítulos. No primeiro capítulo, será
apresentado o tema da intersexualidade, seu conceito e suas especificidades, com o propósito
de se construir uma correta compreensão acerca dos estados intersexuais. No segundo
capítulo, será estudada a questão da mutilação cirúrgica dos intersexuais, com enfoque nos
recém-nascidos, abordando-se quais cirurgias são realizadas nessas pessoas e quais são os
seus riscos e as consequências, a fim de que se adquira maior conhecimento fático para a
análise jurídica do tema-problema. No terceiro capítulo, será enfrentada a controvérsia sobre
a conformidade das cirurgias de “normalização” de sexo com os direitos humanos, momento
em que será desenvolvido um breve panorama sobre o tratamento internacional dispensado
atualmente à intersexualidade, bem como serão examinados os fundamentos pelos quais, à
luz do Direito Internacional dos Direitos Humanos, pode-se dizer que as intervenções
cirúrgicas realizadas em recém-nascidos intersexuais violam direitos humanos. Com este
trabalho, pretende-se propiciar à sociedade e aos membros da comunidade jurídica uma
conclusão lúcida a respeito da temática ora debatida.
2. A INTERSEXUALIDADE
A intersexualidade é um fenômeno social através do qual pessoas nascem
simultaneamente com órgãos sexuais masculinos (pênis) e femininos (vagina) ou
características genéticas distintas daquelas pressupostamente adotadas pela medicina,
destoando das premissas binário-sexistas de categorização de corpos humanos a partir da
genitália ou de parâmetros cromossómicos. Por não se enquadrarem no modelo de
sexualidade desenhado e imposto pela modernidade, tais sujeitos, além de terem que conviver
com a segregação social, são submetidos a procedimentos de adequação sexual (cirurgia de
mutilação sexual), com o condão de aderirem a parâmetros de normalidade impostos como
condição a sua visibilidade.
O termo “intersexual” designa a pessoa que nasce com qualquer variação natural
de caracteres sexuais, incluindo cromossomos, gônadas, hormônios e/ou órgãos genitais, que
dificulta o seu enquadramento em um dos estereótipos de gênero (feminino ou masculino).
Essa variação pode envolver ambiguidade genital, modificação na anatomia reprodutiva,
alterações nos cromossomos sexuais (eles não serão XX para mulher e XY para homem) e
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características de dimorfismo sexual relacionadas ao aspecto da face, ao formato de partes do
corpo, à voz, à existência de pelos, entre outras características.
Há casos em que as pessoas nascem com mosaicos genéticos, como XXY3. Há
outros casos em que os órgãos genitais do indivíduo se identificam com o sexo feminino ou
masculino, mas não são representativos daquilo que é considerado ideal (clitóris grandes e
pênis pequenos são chamados de “femininos masculinizados” ou “masculinos
feminilizados”). Há, também, pessoas que nascem com todas as características hormonais e
genéticas do sexo feminino – mulher com cromossomos XX, com útero e ovários –, mas sem
vagina (PINO, 2007), e ainda, aquelas que nascem, simultaneamente, com ovários e
testículos.
Um dos tipos mais comuns de intersexualidade é a Síndrome da Insensibilidade
Androgênica ou Síndrome de Morris, condição caracterizada pela incapacidade parcial ou
total das células de responderem aos andrógenos, como a testosterona. Essa insensibilidade
aos andrógenos, em indivíduos geneticamente masculinos, prejudica ou impede o
desenvolvimento de pênis no feto, bem como o desenvolvimento de características sexuais
secundárias na puberdade, mas não prejudica o desenvolvimento de características sexuais
femininas. A pessoa apresenta, então, as características físicas de uma mulher, mas os seus
códigos genéticos são de homem (PINO, 2007).
Também é uma condição habitual da intersexualidade a Hiperplasia Congênita da
Suprarrenal, que consiste em um grupo de disfunções metabólicas caracterizadas pelo
crescimento exagerado e estimulação crônica do córtex da glândula suprarrenal, provocados
por mutações no gene da enzima 21-hidroxilase, que resultam na produção demasiada de
andrógenos ainda na vida intrauterina. Em indivíduos do sexo feminino4, isso causa uma
masculinização da genitália externa e aumento do clitóris, podendo, ainda, provocar
pilificação corporal típica do sexo masculino, o aparecimento precoce de pelos pubianos,
ausência de menstruação e engrossamento da voz (PINO, 2007).
3
Uma alteração no cariótipo 47, XXY, é a causa da Síndrome de Klinefelter (SK), que é uma condição genética
em que um homem nasce com cópia extra do cromossomo X. Trata-se de uma das principais causas de
esterilidade no sexo masculino.
4
Indivíduos do sexo masculino também podem apresentar essa condição genética, mas, por possuírem genitália
externa normal, o diagnóstico pode não ser feito na primeira infância. Em ambos os casos – indivíduos do sexo
masculino e feminino –, o excesso de hormônios leva a uma maturação esquelética prematura, que provoca
baixa estatura.
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As características biológicas e genéticas suportadas pelos intersexuais evidenciam
que tais sujeitos destoam dos padrões ditos normais para o entendimento e a compreensão da
sexualidade humana. Diz-se isso porque a moldura moderna de sexualidade funda-se na
categorização de corpos humanos a partir de premissas vistas muitas vezes como absolutas:
homem é o sujeito com pênis e cromossomos XY; mulher é a pessoa com vagina e
cromossomos XX. Quem não se enquadra nessa moldura previamente imposta, nascendo de
outro modo, como é o caso dos intersexuais, não pode ser segregado pelos critérios impostos
pelas ciências. É nesse contexto propositivo que fica evidente a relevância da temática
levantada, já que a medicina e a ciência jurídica devem encontrar meios de definir e
compreender o tema de modo a assegurar a dignidade humana, autodeterminação, liberdade e
proteção do direito fundamental à saúde.
Estima-se que, entre o homem e a mulher, existem mais de 40 estados
intersexuais (NAÇÕES UNIDAS, 2017), embora não seja objetivo do trabalho tratar
detalhadamente de todos eles. O que merece destaque é o fato de que, segundo estudos
coletados pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, entre 0,05%
a 1,7% da população mundial nasce com características intersexuais (NAÇÕES UNIDAS,
2017). Isso significa que, se levada em consideração a maior porcentagem, o número de
intersexuais no mundo ultrapassa os 130 milhões5. A intersexualidade não é, pois, tão rara
como se imagina. A verdade é que pouco, ou quase nada, se sabe sobre o assunto sob o ponto
de vista científico, especialmente no que atine a abordagem no contexto dos direitos
humanos.
É por desconhecimento e desinformação que a intersexualidade é frequentemente
associada ao hermafroditismo, assumindo conotação quase mítica, tornando tais sujeitos
invisíveis pelas estruturas sociais que reproduzem tais mitos e ideologias acerca do tema em
questão. Segundo a Mitologia, o “terceiro sexo” – o hermafrodita – surgiu na Grécia, quando
Salmacis, uma náiade6, se apaixonou por Hermafrodito (filho de Hermes e de Afrodite) e, por
5
Os dados indicam a prevalência na Espanha, que registra, por ano, o nascimento de 250 pessoas com tais
características (AYUSO, 2016).
6
As náiades, na mitologia grega, eram ninfas aquáticas que tinham o dom da cura e da profecia e exerciam
certos controles sobre a água. Assemelhavam-se às sereias e, com a voz igualmente bela, elas viviam em fontes
e nascentes. Deixavam as pessoas beberem dessas águas, mas não permitiam que se banhassem nelas, e puniam
os infratores com amnésia, doenças e até com a morte.
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não ter sido correspondida, pediu aos deuses a fusão dos dois corpos, o que foi atendido7. Os
intersexuais não são hermafroditas, notadamente porque não são, ao mesmo tempo, homem e
mulher. O mito e o tabu distorcem a realidade. Intersexuais são indivíduos que apresentam
características sexuais que dificultam a sua identificação como totalmente feminino ou
masculino. Os termos hermafroditismo e pseudo-hermafroditismo se revelam, portanto,
inadequados e estigmatizantes, causando constrangimento aos intersexuais (PINO, 2007).
Esse impasse provocado pela nomenclatura já foi objeto de discussão da
comunidade médica, quando um grupo de cinquenta especialistas, incluindo membros da
Lawson Wilkins Pediatric Endocrine Society (LWPES) e da European Society for Paediatric
Endocrinology (ESPE) – principais organizadoras do evento –, se reuniu em Chicago,
Estados Unidos, no final de 2005, com o intuito de atualização científica sobre a
intersexualidade e estabelecimento de protocolos gerais e compartilháveis a respeito da
prática médica. Como resultado dessa reunião, foi elaborado um documento, intitulado
“Consenso de Chicago”, publicado em agosto de 2006, no qual foi proposta a utilização da
expressão “Distúrbios do Desenvolvimento Sexual” para designação da intersexualidade. De
acordo com esse documento, as palavras “intersexual”, “pseudo-hermafroditismo”,
“hermafroditismo”, “reversão sexual” e as etiquetas diagnósticas baseadas no gênero são
particularmente controversos, porque são percebidos pelos pacientes como especialmente
pejorativos e podem ser confusos, tanto para os profissionais quanto para os pais
(MACHADO, 2008).
As premissas acima apresentadas evidenciam a utilização da medicina como a
ciência que continua trabalhando a sexualidade na perspectiva taxonômica, classificando
corpos e estabelecendo padrões de normalidade, critérios esses utilizados para segregar
aqueles sujeitos que não aderem a essa moldura, tal como se vê com relação aos intersexuais.
Embora se reconheça que o Consenso de Chicago pontuou questões interessantes
a respeito da terminologia utilizada para se fazer referência à intersexualidade, é preciso
considerar que é discutível a elaboração de vocábulos mais “técnicos”, partilhados por um
7
Segundo o mito, Hermafrodito estava nos bosques da Cária, perto de Halicarnasso (atual Bodrum, na Turquia),
quando encontrou Salmacis, uma náiade, em sua humilde casa amarela, que ficava situada numa lagoa. Tomada
de luxúria ante a beleza do jovem, ela tentou seduzi-lo, mas foi rejeitada. Quando pensou que ela havia ido
embora, Hermafrodito despiu-se e entrou nas águas vazias do lago. Salmacis, então, saiu de trás de uma árvore e
mergulhou, enlaçando o moço e beijando-o violentamente. Enquanto ele lutava por desvencilhar-se, ela invocou
aos deuses para nunca mais separá-los. Seu desejo foi concedido e seus corpos se misturaram.
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público restrito, para a explicação de qualquer fenômeno. Quanto mais técnica a linguagem,
menos acessível se torna à compreensão dos leigos. Nesse caso específico, a linguagem
técnica acaba negando a intersexualidade, com reiteração do discurso binário. Isso porque, se
a pessoa nasceu com um “distúrbio do desenvolvimento sexual”, ela possui apenas um
desequilíbrio contornável pela ciência médica. Por outro lado, se ela é “intersexual”, significa
que nasceu com uma corporalidade transgressora da lógica binária, por não ser homem nem
mulher, o que confronta as leis naturais e o padrão corporal socialmente aceito (OLIVEIRA,
2015). Por essas razões, há quem sustente que o Consenso de Chicago foi, na realidade, uma
reação à visibilidade que o movimento político intersexual começou a ganhar em todo o
mundo (MACHADO, 2008).
Certo é que, ao contrário do termo “hermafrodita”, que possui uma conotação
pejorativa, a terminologia “intersexual” tem boa aceitação8 e é adotada internacionalmente
por ativistas políticos e pela própria Organização das Nações Unidas (ONU). Por outro lado,
o tratamento da intersexualidade como patologia ainda vem sendo alvo de questionamentos,
haja vista que a patologização constitui claramente em um meio de segregar aqueles sujeitos
que não aderem ao modelo binário-sexista de sexualidade definida pressupostamente pela
biologia (ditadura cromossômica) e genitália dos sujeitos.
Importante ressaltar que atualmente a intersexualidade é categorizada como
doença pela Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados
com a Saúde – Décima Revisão (CID-10)9, que é organizada e publicada pela Organização
Mundial da Saúde (OMS). Está inserida, basicamente, no Capítulo XVII, que trata sobre
“malformações congênitas, deformidades e anomalias cromossômicas (Q00-Q99)”, tendo
sido estabelecido o código Q-56 para “sexo indeterminado e pseudo-hermafroditismo”10. A
8
Algumas pessoas preferem o termo “intergênero” ao termo “intersexual”. Intergênero é a pessoa que, por suas
características sexuais, se situa “entre os gêneros” feminino e masculino. A justificativa é o fato de que intersexo
não é um terceiro sexo, como alguns insistem em considerá-lo. No Canadá, na Austrália e na Nova Zelândia, por
exemplo, o “intersexo” é considerado uma terceira opção de sexo biológico para fins de registro civil.
9
CID; em inglês: International Statistical Classification of Diseases and Related Health Problems, ICD. A CID
é revista periodicamente e encontra-se na sua décima edição (CID-10), a qual foi desenvolvida em 1993, mas
sofreu atualizações anuais e trianuais, publicadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A CID-11 foi
lançada em 18 de junho de 2018, tendo sido apresentada durante a Assembleia Mundial da Saúde, em maio de
2019, para adoção dos Estados-membros. Essa nova versão da CID deve entrar em vigor em 1º de janeiro de
2022.
10
A CID-11 traz algumas modificações em relação à CID-10, mas nada significativo no que se refere à
intersexualidade. A transexualidade, por sua vez, que antes era categorizada como “transtorno mental”, foi
inserida no capítulo sobre “condições relacionadas à saúde sexual”, tendo sido classificada como “incongruência
de gênero”.
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grande controvérsia que se instaura em relação a essa classificação gira em torno do fato de
que a intersexualidade não é uma doença, mas uma condição de não conformidade física com
os critérios culturalmente definidos de normalidade corporal (CABRAL, 2003).
O uso de termos patologizantes para referência às pessoas intersexuais tem o
poder de reforçar o estigma social e a incompreensão acerca da intersexualidade. Além disso,
o tratamento dela como doença induz as pessoas ao entendimento de que as cirurgias de
“normalização” de sexo são indispensáveis e medicamente justificáveis. Patologizar tal
fenômeno constitui um meio de segregar sujeitos, estigmantizando sua condição sob a
justificativa de inadequação aos modelos de sexualidade aprioristicamente estabelecidos.
Enquanto as famílias e a sociedade tomarem por verdadeiro que tais cirurgias preservam a
saúde da criança, não conseguirão assimilar que elas, na verdade, consubstanciam
procedimentos desnecessários e mutiladores, de consequências irreversíveis.
3. A MUTILAÇÃO CIRÚRGICA DE RECÉM-NASCIDOS INTERSEXUAIS
O estudo das razões que levam pais de crianças recém-nascidas intersexuais a
realizarem a cirurgia de mutilação sexual, com o objetivo de corrigir o que denominam
deformidade sexual, constitui temática de relevante debate no contexto do objeto de pesquisa
proposta, especialmente porque tal cirurgia demonstra simbolicamente a reprodução de
estruturas sociais que segregam sujeitos que não aderem ao padrão de sexualidade fundado
em máximas generalizantes, tornando invisíveis as minorias sexuais e patologizando os
sujeitos que não se enquadram nas referidas premissas.
A anatomia intersexo nem sempre é visível desde o nascimento, podendo se
manifestar apenas na puberdade – a exemplo da Síndrome de Klinefelter, que está
relacionada ao desenvolvimento de caracteres sexuais secundários e não à existência de
genitália ambígua – ou passar despercebida até a fase adulta, quando a pessoa se depara, por
exemplo, com um diagnóstico de infertilidade. No entanto, o cenário mais comum é a
identificação da intersexualidade nos primeiros instantes de vida.
Logo que o bebê nasce e é reconhecido como intersexual, os médicos já advertem
a sua família sobre a necessidade de realização da cirurgia de “conformação” sexual
fenotípica aos padrões binários, que, em geral, é realizada em recém-nascidos ou nos dois
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primeiros anos de vida da criança. As intervenções cirúrgicas são indicadas para a definição
de um hipotético sexo verdadeiro para o intersexual, corrigindo-se a sua “malformação” com
procedimentos como a labioplastia11, a vaginoplastia12, a gonadectomia13, a clitoridectomia14,
a reparação de hipospádia15, a faloplastia16, entre outros. As cirurgias de “normalização” de
sexo são tidas como imperativamente urgentes, em virtude da teoria biomédica segundo a
qual a identidade de gênero já está definitivamente concluída, na maioria das pessoas, até,
aproximadamente, os 36 meses de vida (OLIVEIRA, 2019). O objetivo dessas cirurgias é,
supostamente, a preservação da saúde e do bem-estar psicossocial da criança, razão pela qual
são compreendidas como um dever moral dos pais em relação ao filho. A recusa dos pais é
encarada pela comunidade médica como um verdadeiro ato de irresponsabilidade,
especialmente diante da existência de todo o aparato tecnológico necessário à realização dos
procedimentos.
O encaixe da criança em um dos gêneros social e medicamente aceitos não é
apresentado só como uma necessidade social, mas também como uma exigência legal, dado o
prazo que a legislação impõe para registro do recém-nascido. Em alguns lugares, a escolha
dos pais por um dos sexos tem que ser praticamente imediata. A Lei espanhola, por exemplo,
obriga que o registro do recém-nascido seja feito, com indicação do sexo da criança, em um
prazo de 72 horas (AYUSO, 2016). Instaura-se, então, uma corrida contra o tempo para que,
no prazo estabelecido, a equipe médica estude as características sexuais preponderantes do
bebê e os pais decidam qual gênero desejam lhe atribuir. No contexto brasileiro, a Lei nº.
6.015/73 (BRASIL, 1973) dispõe, em seu artigo 50, que todo nascimento que ocorrer no
território nacional deverá ser dado a registro, em regra, dentro do prazo de quinze dias17.
11
Labioplastia ou Ninfoplastia é o procedimento cirúrgico utilizado para redução dos pequenos lábios vaginais.
12
A vaginoplastia é o procedimento cirúrgico de reconstituição da anatomia vulvo-vaginal.
13
Gonadectomia é a remoção do ovário ou dos testículos.
14
Clitoridectomia é a remoção parcial ou total do clitóris.
15
Hipospádia é um “defeito” congênito do pênis que resulta em desenvolvimento incompleto da uretra anterior,
do corpo cavernoso e do prepúcio. Com hipospádia, a abertura da uretra se desenvolve na parte inferior do
pênis. Normalmente, a abertura está na ponta.
16
Faloplastia é a cirurgia de reconstrução peniana. Na maioria das vezes, objetiva aumentar as dimensões do
pênis.
17
Ineditamente, a Corregedoria-Geral de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, através do Provimento
016/2019-CGJ, passou a permitir que os Cartórios de Registro Civil do estado dispensem a definição do sexo e
do nome do recém-nascido diagnosticado com “Anomalias de Diferenciação Sexual (ADS)”. O Registrador
deverá lançar o sexo no registro de nascimento como ignorado, conforme constatação médica lançada na
Declaração de Nascido Vivo – DNV. Assim que definido o sexo da criança, o registro deste e do nome poderão
ser retificados diretamente perante o ofício de registro do nascimento, independentemente de autorização
judicial.
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Diante dessa narrativa, muitas são as questões que se levantam. A primeira é que
as cirurgias de “normalização” de sexo – que, às vezes, demandam inúmeros procedimentos –
e as intervenções hormonais, muitas vezes prolongadas no tempo, geram consequências
irreversíveis para a saúde, física e psíquica, e para a capacidade reprodutiva da pessoa,
podendo também acarretar limitações corporais (como a falta de sensibilidade genital). Em
segundo lugar, essas cirurgias não são garantia de que o desenvolvimento da personalidade
do intersexual se dará em conformidade com o sexo biológico escolhido no momento da
“adequação” do corpo. Em outras palavras, o intersexual, em sua adolescência, pode se
identificar com o gênero contrário àquele que lhe foi atribuído cirurgicamente, e, não sendo
confirmada a escolha feita por pais e médicos, podem emergir vários transtornos psicológicos
e frustrações. A terceira situação que merece destaque é o fato de que, no momento dos
procedimentos cirúrgicos, a criança não tem o mínimo discernimento sobre o que está
acontecendo com o seu corpo e, na maioria das vezes, não recebe qualquer informação – ou
recebe informação enganosa – sobre as intervenções pelas quais passou na sua infância. O
intersexual não tem, portanto, a garantia de consentimento informado antes das cirurgias que
definem não somente o seu gênero e sexo biológico, mas também a forma de seu corpo. Por
fim, a realização dessas cirurgias “corretivas” como forma de adequação do corpo do
intersexual ao padrão socialmente aceito e culturalmente internalizado como normal revela
uma prática nitidamente discriminatória, porque visa, em essência, a manutenção do
binarismo, sobretudo quando se considera que “as recomendações para o pós-operatório
sempre apontavam para o esquecimento da intersexualidade” (OLIVEIRA, 2015, p. 86).
Foi por essas razões que teve início, nos anos 90, um movimento de contestação
às cirurgias de “adequação” realizadas em intersexuais. A partir do ativismo político e da
propagação dos direitos humanos, foram levados a público os testemunhos de muitas pessoas
que foram submetidas, ainda na infância, às cirurgias “retificadoras” ou “normalizadoras”, o
que deu ensejo a pesquisas e discussões de ordem médica, antropológica, sociológica e
psicológica. Percebeu-se que bebês e crianças experimentavam, em todos os lugares do
mundo, intervenções cirúrgicas involuntárias ou forçadas, com total desrespeito aos direitos
humanos. Com o passar dos anos, a prática dessas cirurgias já era criticada por vários órgãos,
entidades internacionais e organizações não-governamentais, entre eles a Organização das
Nações Unidas (ONU), principalmente através do seu Alto Comissariado para os Direitos
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Humanos, e a Organização Internacional dos Intersexuais (OII), que foi fundada em 2003, no
Canadá18 (OLIVEIRA, 2015).
Em 2016, causou grande repercussão um caso julgado pela Corte de Justiça
Australiana (Carla vs. Austrália19). Os pais de uma criança intersexual, conhecida como
“Carla”, de cinco anos de idade à época, solicitaram uma autorização judicial para que a
menina pudesse ser submetida a procedimentos médicos, incluindo uma gonadectomia
(remoção das gônadas masculinas), para a “normalização” de seu sexo. A criança nasceu,
em 2010, com um “distúrbio de desenvolvimento sexual”, descrito, em termos médicos,
como “deficiência da 17β-hidroxiesteroide desidrogenase”. Carla veio ao mundo com código
genético masculino, mas tinha uma exposição mínima intrauterina aos andrógenos
(insensibilidade aos andrógenos). Como essa exposição é necessária para o desenvolvimento
da genitália masculina, a aparência externa dela era de uma criança do sexo feminino, mas
com gônadas masculinas. Os pais decidiram, então, criar Carla como menina e precisavam da
aquiescência da Corte para que os procedimentos necessários ao seu “tratamento” fossem
realizados. A argumentação apresentada indicava que os pais e os especialistas médicos
concordavam que, para que a criança pudesse ter uma vida saudável, precisava ser submetida
a tais procedimentos.
A Corte da Austrália, fundamentando sua decisão “no melhor interesse da
criança”, que, segundo os pais, se identificava com o gênero feminino, e no fato de que o
tratamento médico proposto estava dentro dos limites permitidos da autoridade parental,
concedeu autorização para a realização dos procedimentos necessários à “adequação” sexual
da criança. Ocorre que as intervenções cirúrgicas propostas não seriam garantia de que Carla,
na puberdade, se identificaria, realmente, com o gênero feminino, porque a identidade de
gênero não é pressupostamente definida por parâmetros genético, visto que a construção do
gênero é reflexo de questões culturais e sociais (o “ser homem” ou o “ser mulher” é uma
construção psicossocial que ocorre no âmbito da subjetividade habitada de cada pessoa).
Ademais, as cirurgias provocariam modificações corporais irreversíveis na criança, com
18
A Organização Internacional dos Intersexuais (OII) é uma organização não-governamental, que foi fundada
em 2003, em Quebec, no Canadá, por Curtis Hinkle. Seu principal objetivo é a congregação de pessoas
intersexuais e estudiosos do assunto de todo o mundo para o debate dos problemas e das necessidades das
pessoas com qualquer grau de intersexualidade, com o intuito de promover mais notoriedade à causa, assim
como o aprimoramento de tratamentos na área de saúde. A OII possui ramificações na Argentina, na Austrália,
na Bélgica, no Brasil, na Espanha, nos Estados Unidos, na França, na Grã-Bretanha, na Índia e na Suíça.
19
Vide: [Link] Acesso em: 18 jul. 2019.
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consequências para a sua saúde física e psíquica, estando aí incluída a perda da capacidade
reprodutiva (Carla tornou-se infértil).
À vista disso, em 11 de julho de 2017, em resposta a um pedido conjunto de
quase 50 organizações não-governamentais, o Conselho Econômico e Social das Nações
Unidas (ECOSOC), através de seu Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais
(CESCR), examinando o quinto relatório periódico da Austrália (E/C.12/AUS/5), externou a
sua preocupação a respeito da submissão de crianças nascidas com variações intersexuais a
cirurgias e intervenções médicas precoces, antes de elas estarem em condições de dar o seu
consentimento pleno e informado (ECOSOC, 2017). Um ano depois, em julho de 2018, o
Comitê das Nações Unidas para a Eliminação da Discriminação contra as Mulheres
(CEDAW), emitindo observações conclusivas sobre o oitavo relatório periódico da Austrália
(CEDAW/C/AUS/8), expressou a sua inquietude acerca de práticas nocivas como a
realização de intervenções medicamente desnecessárias em bebês e crianças intersexuais,
antes que eles tenham idade para manifestarem o seu consentimento livre, prévio e
informado. Nesta ocasião, o Comitê recomendou ao Estado da Austrália que estabelecesse
disposições legislativas claras que proibissem expressamente a realização de intervenções
cirúrgicas e outros procedimentos médicos desnecessários em meninos e meninas
intersexuais, antes de eles alcançarem a idade mínima de livre consentimento (NAÇÕES
UNIDAS, 2018).
Percebe-se, então, que as intervenções cirúrgicas de “normalização” de sexo
passaram a ser duramente questionadas, mormente por defensores dos direitos humanos.
Essas cirurgias têm, de fato, o condão de violar uma série de direitos humanos, não só por
provocarem danos à saúde dos intersexuais, mas também por não respeitarem a sua natureza.
A “verdade” médica aniquila a intersexualidade na primeira oportunidade em que lhe é
possível fazê-lo, quando o correto seria conceder autonomia ao intersexual para decidir o que
fazer com o seu próprio corpo, no tempo oportuno.
4. A VIOLAÇÃO DE DIREITOS HUMANOS ÍNSITA NAS CIRURGIAS DE
“NORMALIZAÇÃO” DE SEXO.
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A problemática envolvendo a violação de direitos humanos no contexto da
realização da cirurgia de “correção sexual” e adequação fenotípica de pessoas intersexuais
constitui relevante abordagem no contexto da presente pesquisa. Submeter crianças
intersexuais à mutilação cirúrgica, além de constituir evidente afronta a sua dignidade
humana e direito fundamental à saúde, materializa verdadeira violação do direito à liberdade
e autodeterminação, visto que a decisão quanto à construção da identidade de gênero e
possível correção nos órgãos sexuais deverá se dar de forma livre a autônoma pelo próprio
sujeito na fase adulta, não pelos seus genitores ainda na infância. As cirurgias de
“normalização” de sexo são intervenções médicas supérfluas, porque são realizadas,
essencialmente, com propósitos estéticos. Na imensa maioria dos casos, os bebês e crianças
intersexuais não estão correndo qualquer perigo de vida. A preocupação central dos médicos
é a adequação do sexo da criança ao padrão socialmente aceito, e não a alegada preservação
de sua saúde psicossocial. A saúde do intersexual é, na verdade, ameaçada por essas
cirurgias.
Como visto, os intersexuais são submetidos a essas intervenções cirúrgicas em
idade muito tenra, quando ainda não têm o menor discernimento sobre o que está
acontecendo com o seu corpo. Por decisão de outras pessoas, sua vida e sua corporalidade são
marcadas para sempre, de forma irreversível, quando se deveria permitir ao intersexual a
autodeterminação. Se, nos termos da Declaração Universal de Direitos Humanos (NAÇÕES
UNIDAS, 1948), os intersexuais nascem livres e iguais em dignidade e em direitos, merecem
ser tratados como seres autônomos e invioláveis.
De fato, os três princípios fundantes dos direitos humanos contemporâneos, à luz
da Declaração Universal de 1948, são: o princípio da inviolabilidade da pessoa, cujo
significado traduz a ideia de que não é possível impor sacrifícios a um indivíduo sob o
pretexto de que tais sacrifícios resultarão em benefício a outra pessoa; o princípio da
autonomia da pessoa, segundo o qual toda pessoa é livre para a realização de qualquer
conduta, desde que os seus atos não prejudiquem terceiros; e o princípio da dignidade da
pessoa, que é o verdadeiro núcleo-fonte de todos os demais direitos fundamentais do cidadão,
por meio do qual todas as pessoas devem ser tratadas e julgadas de acordo com os seus atos, e
não em relação a outras propriedades suas não alcançáveis por eles (MAZZUOLI, 2019).
Sendo invioláveis, aos intersexuais não podem ser impostos sacrifícios, sob o pretexto de que
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esses sacrifícios trarão benefícios a outras pessoas, sejam elas os seus familiares, os médicos
ou a sociedade, aos quais a manutenção do binarismo de gênero pode interessar. Outrossim,
como pessoas autônomas, eles são livres para a realização de qualquer conduta e para a
tomada de quaisquer decisões, relativas ao seu corpo ou a outros aspectos da vida, desde que
os seus atos não prejudiquem terceiros. E, para a materialização da dignidade da pessoa, a
natureza dos intersexuais deve ser respeitada, não sendo tolerável qualquer discriminação.
Institucionalizar a cirurgia de mutilação sexual de crianças intersexuais, além de
constituir afronta direta do princípio da dignidade humana, representa simbolicamente um
modo de endossar a doutrina do binarismo, adotada aprioristicamente pelas estruturas sociais
de dominação. O intersexual é o sujeito que transgride a lógica binária e, por isso, é
patologizado, perdendo a autonomia quanto ao seu corpo. Submete-se a imposições que o
levam a aderir a um modelo de sexualidade fundado em máximas generalizantes,
responsáveis por obscurecer a diversidade sexual e as diversas formas plurais existentes para
que cada sujeito possa se autodeterminar livremente na construção de um modo individual de
viver, que nem sempre condiz com os parâmetros preestabelecidos.
A intersexualidade não retira dos intersexuais a condição de pessoa. Deveria ser
dispensável afirmar isso, mas a realidade mostra o contrário. Os intersexuais continuam
sendo alvo de discriminação. Desde sempre, reitere-se, foram condenados à invisibilidade,
por transgredirem com os seus corpos aquilo que se considera ser a “normalidade”, como se
os valores humanos se concretizassem apenas na perspectiva binária. A era dos direitos
deveria inaugurar uma nova ordem de coisas, mas os velhos problemas permanecem.
As cirurgias de “normalização” de sexo consubstanciam uma prática
discriminatória camuflada no discurso médico, ressaltando-se que a lógica patologizante
serve de fundamento para a mutilação de pessoas. Sendo portadores de “anormalidades”, de
“distúrbios do desenvolvimento sexual”, os intersexuais são, involuntária ou forçosamente,
expostos a procedimentos cirúrgicos que podem implicar dor, perda da capacidade
reprodutiva, perda de partes do corpo, necessidade de sujeição a reiterados procedimentos
cirúrgicos e a intervenções hormonais prolongadas no tempo, modificações anatômicas
definitivas, perda de sensibilidade corporal e cicatrizes, no corpo e na alma.
A “normalização” de sexo nunca normaliza, mas faz o oposto, criando um status
permanente de violação de direitos humanos e desumanidade (CABRAL, 2009). E, se
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considerarmos que as intervenções cirúrgicas, geradoras de consequências tão graves ao
intersexual, são realizadas sem o consentimento pleno, livre e informado da pessoa que
sofrerá as suas consequências – e, às vezes, sem o consentimento devidamente informado
daqueles que autorizaram a sua realização, os quais são movidos por recomendações médicas
que proclamam urgência –, torna-se simples a compreensão de que o Direito Internacional
dos Direitos Humanos precisa entrar em cena. A afirmação da inviolabilidade, da autonomia
e da dignidade dos intersexuais se dá por meio da enunciação de seus direitos humanos. Não
por acaso têm sido formuladas justas demandas pelo reconhecimento desses direitos, em
todos os lugares e contextos sociais.
Na defesa dos direitos humanos dos intersexuais, destacam-se o direito à saúde, à
liberdade, à igualdade, à identidade, à integridade física e psíquica, à autonomia corporal, ao
livre desenvolvimento da personalidade e à autodeterminação. Todos esses direitos são
defendidos por aqueles que têm se articulado contra os procedimentos médicos forçados, que
são realizados ainda durante a primeira infância do intersexual. Com efeito, o intersexual tem
direito à saúde e à integridade física e psíquica, o que significa dizer que procedimentos
médicos que lhe causem qualquer modificação corporal permanente só devem ser admitidos
quando forem consentidos. Ele também tem o direito de conceber sua identidade com os seus
autênticos atributos físicos, psíquicos e morais, reconhecendo-se em um corpo sobre o qual
ele tenha autonomia e identificação. Ao intersexual deve ser garantido o direito de
desenvolver-se livremente, construindo a sua personalidade sem ingerências alheias
prejudiciais e indesejadas, devendo ser respeitada a sua autodeterminação. E ainda, o
intersexual é um igual em dignidade e direitos, devendo ser coibida qualquer prática
discriminatória que ofenda o seu direito de ser tratado com igual consideração e respeito.
A temática ora apresentada relaciona-se intimamente com o tema abordado na
Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos (UNESCO, 2005), que tutela
direitos e garantias relevantíssimos para os intersexuais, sobretudo no que concerne à sua
autonomia para a tomada de decisões e à necessidade de seu consentimento prévio, livre,
esclarecido e informado acerca de qualquer intervenção médica que lhe diga respeito. Os
princípios da autonomia privada, beneficência e não-maleficência regem a sistemática
científica proposta pela Bioética, que privilegia o direito conferido a cada sujeito de se
autodeterminar conforme sua liberdade de escolha. No caso específico dos sujeitos
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intersexuais, verifica-se que a realização forçada da cirurgia de mutilação sexual, decidida
muitas vezes pelos genitores da criança, mediante orientação médica, constitui um meio claro
de suprimir a liberdade de escolha do sujeito de se autodeterminar, além de obrigá-lo a se
submeter a intervenção cirúrgica em seu corpo sem qualquer consentimento informado,
mesmo ciente de que suportará os efeitos dessa cirurgia ao longo de toda a vida. Por isso, é
importante ressaltar:
Artigo 3º – Dignidade Humana e Direitos Humano
a) A dignidade humana, os direitos humanos e as liberdades fundamentais devem
ser respeitados em sua totalidade.
b) Os interesses e o bem-estar do indivíduo devem ter prioridade sobre o interesse
exclusivo da ciência ou da sociedade. [...].
Artigo 5º – Autonomia e Responsabilidade Individual
Deve ser respeitada a autonomia dos indivíduos para tomar decisões, quando
possam ser responsáveis por essas decisões e respeitem a autonomia dos demais.
Devem ser tomadas medidas especiais para proteger direitos e interesses dos
indivíduos não capazes de exercer autonomia.
Artigo 6º – Consentimento
a) Qualquer intervenção médica preventiva, diagnóstica e terapêutica só deve ser
realizada com o consentimento prévio, livre e esclarecido do indivíduo envolvido,
baseado em informação adequada. O consentimento deve, quando apropriado, ser
manifesto e poder ser retirado pelo indivíduo envolvido a qualquer momento e por
qualquer razão, sem acarretar desvantagem ou preconceito. [...].
Artigo 8º – Respeito pela Vulnerabilidade Humana e pela Integridade Individual
A vulnerabilidade humana deve ser levada em consideração na aplicação e no
avanço do conhecimento científico, das práticas médicas e de tecnologias
associadas. Indivíduos e grupos de vulnerabilidade específica devem ser protegidos
e a integridade individual de cada um deve ser respeitada.
Artigo 11 – Não-Discriminação e Não-Estigmatização
Nenhum indivíduo ou grupo deve ser discriminado ou estigmatizado por qualquer
razão, o que constitui violação à dignidade humana, aos direitos humanos e
liberdades fundamentais (BRASIL, Declaração Universal sobre Bioética e
Direitos Humanos, 2005).
O princípio da não-discriminação é corolário da dignidade humana, igualdade e
liberdade conferida aos sujeitos de construírem sua identidade de gênero e orientação sexual
para além das premissas impostas e naturalizadas pelo binarismo. Ou seja, a sexualidade
humana não pode ser pressupostamente definida pela genitália do sujeito, até porque, a
construção da condição de homem e mulher, sob a perspectiva da doutrina de gênero, é
reflexo de proposições socioculturais que se dão no âmbito da subjetividade habitada de cada
pessoa. Categorizar sexualmente os sujeitos a partir de premissas genotípicas e fenotípicas
constitui verdadeira afronta ao direito fundamental de liberdade e autodeterminação, além de
atentar contra a dignidade humana do sujeito.
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Acerca do princípio da não-discriminação, a Comissão Interamericana de Direitos
Humanos (CIDH), em relatório que trata sobre o reconhecimento dos direitos das pessoas
LGBTI nas Américas, publicado em 22 de maio de 2019, registrou o seguinte:
O princípio da não-discriminação é um dos pilares de qualquer sistema
democrático, sendo uma das bases fundamentais do sistema de proteção dos direitos
humanos instituído pela Organização dos Estados Americanos. De fato, a não-
discriminação, a igualdade perante a lei, o direito à vida e à integridade pessoal são
princípios fundantes do Sistema Regional e Universal de Direitos Humanos, com
deveres jurídicos que se revestem de especial importância para as pessoas lésbicas,
gays, bissexuais, transexuais e intersexuais (doravante “LGBTI”) nas Américas.
Esses princípios e obrigações estão compreendidos nos instrumentos internacionais
de direitos humanos do Sistema Interamericano (doravante “Sistema
Interamericano” ou “SIDH”), que buscam a igualdade, autonomia, identidade e
dignidade de toda pessoa, e fazem referência ao dever de todos os Estados de atuar
com a devida diligência para prevenir, investigar, reprimir e reparar toda violação
aos direitos humanos. Com efeito, conforme a jurisprudência da Corte
Interamericana de Direitos Humanos (doravante “a Corte” ou “a Corte
Interamericana”), “na atual etapa de evolução do Direito Internacional, o princípio
fundamental de igualdade e não-discriminação ingressou no domínio de jus cogens.
Sobre ele descansa o andaime jurídico de ordem pública nacional e internacional,
permeando todo o ordenamento jurídico. [...]. Já se afirmou que a garantia de
igualdade e não-discriminação que oferecem as normas internacionais de direitos
humanos se aplica a todas as pessoas, independentemente de sua orientação sexual e
de sua identidade de gênero ou “outra condição”. A CIDH considera que na
expressão “outra condição” também está incluída a diversidade corporal,
comumente associada às pessoas intersexuais (OEA, 2018, p. 25-28).
No mesmo relatório referido acima, a Comissão Interamericana de Direitos
Humanos (CIDH) asseverou, especificamente sobre as pessoas intersexuais, que, desde 2013,
a Assembleia Geral da Organização dos Estados Americanos solicitou aos Estados que lhes
fossem oferecidas uma proteção adequada, bem como que fossem implementadas as políticas
e procedimentos necessários para garantir que as práticas médicas estivessem em
conformidade com as normas aplicáveis de direitos humanos. Também constou do
documento que, em seu Relatório sobre Violência contra Pessoas Lésbicas, Gays, Bissexuais,
Transexuais e Intersexuais na América (2015), a Comissão havia recomendado que os
Estados membros da OEA revisassem as práticas e protocolos médicos vigentes que
estabelecessem a realização de intervenções médicas desnecessárias em crianças intersexuais
sem o seu consentimento prévio, livre e informado, e que tais cirurgias deveriam ser adiadas
até que a pessoa se tornasse capaz de outorgar o seu consentimento prévio, livre e informado,
e ainda, que, caso a decisão fosse pela não submissão a essas cirurgias, isso deveria ser
respeitado. Na mesma oportunidade, a CIDH reiterou o seu compromisso de colaborar com
os Estados da região em busca de soluções para os problemas identificados em relação às
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pessoas LGBTI+. E, com esse espírito, a Comissão formulou as seguintes recomendações aos
Estados membros da OEA acerca especificamente dos intersexuais:
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos finaliza este relatório fazendo
recomendações a fim de promover um diálogo fluido com os Estados da região,
com o objetivo de avançar na proteção integral das pessoas LGBTI nas Américas,
através da consolidação da garantia, do reconhecimento e da promoção dos direitos
dessas pessoas. [...].
8. Adotar e fazer cumprir medidas eficazes para prevenir e punir a discriminação
contra as pessoas LGBTI ou aquelas percebidas como tais no setor da saúde. [...].
b. Proibir qualquer intervenção médica desnecessária em crianças intersexuais
que seja realizada sem o seu consentimento livre, prévio e informado. [...].
15. Adotar as medidas necessárias para prevenir a tortura, tratamentos cruéis,
desumanos ou degradantes por parte de agentes públicos ou daqueles que estejam
atuando em nome do Estado, em espaços públicos e de privação de liberdade, bem
como todas as formas de abuso policial, incluindo a adoção de protocolos e
diretrizes direcionados aos agentes encarregados da aplicação da lei, assim como
treinamento e conscientização sobre direitos humanos, orientações sexuais e
identidades de gênero não normativas, corpos diversos e direitos das pessoas
LGBTI. [...]
a. Considerar como tortura as intervenções médicas desnecessárias em
crianças intersexuais que sejam realizadas sem o seu consentimento livre,
prévio e informado. [...]. (OEA, 2018, p. 135-140 – grifo nosso)
A partir das proposições ora apresentadas, verifica-se que a realização
compulsória da cirurgia de mutilação sexual em crianças intersexuais, por determinação
médica e consentimento dos seus genitores, constitui expressa violação dos direitos humanos.
A ofensa ao direito de liberdade de escolha e autodeterminação acarreta aos intersexuais a
obrigatoriedade de se submeterem a procedimentos médico-terapêuticos sem o seu
consentimento prévio, sujeitando-os aos efeitos decorrentes dessas cirurgias ao longo de toda
a vida. Viola-se, também, o direito fundamental à saúde e a dignidade humana, por se tratar
de procedimento invasivo, mutilador, com direta alteração corporal, além dos reflexos
causados no sistema reprodutivo e nas questões hormonais. Robustece-se a discriminação,
marginalização e invisibilidade desses sujeitos, naturalizando as premissas binário-sexistas
que impõe um modelo de sexualidade definido aprioristicamente a partir das características
genotípicas e fenotípicas do sujeito, ou seja, a condição humana do homem e da mulher,
nessa perspectiva teórica, é definida pela genitália. Parâmetros socioculturais como critério
para a construção da identidade de gênero são renegados pela doutrina do binarismo, que
ainda utiliza de critérios médicos e biológicos para categorizar corpos no âmbito da
sexualidade humana.
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No mesmo sentido, a Campanha das Nações Unidas intitulada “Livres e Iguais”,
coordenada globalmente pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos
Humanos (ACNUDH), estabelece as medidas que os Estados devem adotar para a proteção
efetiva dos direitos humanos das pessoas intersexuais:
Os Estados devem: 1. Proibir procedimentos médicos e cirurgias desnecessárias
sobre características sexuais de crianças intersex, proteger sua integridade física e
respeitar sua autonomia; 2. Assegurar-se de que as pessoas intersex e suas famílias
recebam aconselhamento e apoio adequados, incluindo de seus pares; 3. Proibir
discriminação baseada nos traços, características ou status intersex, incluindo na
educação, nos cuidados de saúde, no emprego, nos esportes e no acesso a serviços
públicos, e enfrentar essa discriminação através de iniciativas antidiscriminatórias
adequadas; 4. Garantir que as violações de direitos das quais são vítimas as pessoas
intersex sejam investigadas e seus supostos perpetradores processados, e que as
vítimas de tais violações tenham acesso a recursos efetivos, incluindo reparação e
compensação; 5. Organismos nacionais de direitos humanos devem pesquisar e
monitorar a situação de direitos humanos de pessoas intersex; 6. Adotar leis que
simplifiquem os procedimentos para alteração dos marcadores de sexo nas certidões
de nascimento e demais documentos oficiais de pessoas intersex; 7. Promover
formação para os profissionais de saúde sobre as necessidades de saúde e direitos
humanos das pessoas intersex e sobre o aconselhamento e a atenção a ser dirigida às
famílias de crianças intersex, respeitando a autonomia da pessoa intersex, sua
integridade física e suas características sexuais; 8. Assegurar que membros do
judiciário, oficiais da imigração, agentes de segurança pública, profissionais da
saúde, da educação, entre outros trabalhadores, sejam treinados para respeitar e
promover tratamento igualitário para pessoas intersex; 9. Garantir que pessoas e
organizações intersex sejam consultadas e participem da elaboração de pesquisas,
legislação e políticas que impactem seus direitos. (NAÇÕES UNIDAS, Livres e
Iguais)
Observa-se que as obrigações legais dos Estados quanto à proteção dos direitos
humanos das pessoas LGBTQI+ estão bem estabelecidas no Direito Internacional dos
Direitos Humanos, pois está fundamentado na Declaração Universal de Direitos Humanos e
em Tratados Internacionais posteriores que discorrem sobre o tema. Todas as pessoas,
independentemente de sexo, orientação sexual, identidade de gênero ou anatomia corporal
têm direito de gozar da proteção assegurada pelos Sistemas Internacional e Regionais de
Direitos Humanos. Reconhecer a igualdade de gênero, proibir cirurgias mutiladoras aos
sujeitos intersexuais, garantir a autodeterminação e liberdade de escolha dos intersexuais,
adotar medidas para prevenir e reprimir atos discriminatórios, planejar e executar políticas
públicas de inclusão e igualdade das pessoas intersexuais, como meio de desconstruir as
estruturas que naturalizam a exclusão e marginalidade desses sujeitos, constituem alguns
meios hábeis de assegurar a implementação das premissas dos direitos humanos trazidas por
tratados e declarações internacionais.
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As pessoas intersexuais, em particular, têm direito de serem respeitadas em sua
natureza, não podendo ser involuntária e forçadamente submetidas a intervenções cirúrgicas
desnecessárias e corporalmente mutiladoras, que são condenadas pelo Direito Internacional
dos Direitos Humanos. Esses procedimentos cirúrgicos representam grave violação de
direitos humanos e, conforme defendido pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos
(OEA, 2018), podem ser considerados prática análoga à tortura. Alguns avanços já foram
alcançados, a exemplo da legislação adotada pela Austrália, em 2013, que proibiu
especificamente a discriminação com base no status sexual20. No mesmo sentido, a Ilha de
Malta, em 2015, através da Lei sobre Identidade de Gênero, Expressão de Gênero e
Características Sexuais, proibiu cirurgias e tratamento de características sexuais de menores
de idade sem o seu consentimento prévio e informado (NAÇÕES UNIDAS, 2017). A
Comunidade de Madri, por sua vez, incorporou recentemente em sua Normativa de
Identidade e Expressão de Gênero e Igualdade Social duas das demandas de muitas
organizações que atuam em defesa dos direitos humanos dos intersexuais: a despatologização
e a proibição da cirurgia externa por motivos que não estejam relacionados a risco para a
saúde (AYUSO, 2016). Nada obstante, há ainda muito a ser feito.
Equiparar a compulsoriedade da cirurgia de mutilação sexual de crianças intersex,
imposta pelos seus genitores a partir de orientações médicas, à prática de tortura, representa
um dos mais importantes avanços no enfrentamento da referida temática no âmbito
internacional dos direitos humanos. A apropriação do corpo da criança intersexual, pelos pais
e equipe médica, além de representar verdadeira afronta à dignidade humana, constitui-se em
medida que simbolicamente coisifica esses sujeitos, retirando-lhes a liberdade de escolha e
autodeterminação para, assim, manter as estruturas sociais de dominação, que privilegiam um
modelo de sexualidade fundado em premissas fenotípicas e genotípicas, ignorando-se as
proposições socioculturais como parâmetro para a construção da identidade de gênero para
além do binarismo.
De todo modo, os primeiros passos foram dados em direção da proteção dos
direitos humanos dos intersexuais. Falta agora modificar-se a crença de que o ser humano
somente se concretiza na perspectiva binária, com desconsideração a qualquer outra forma de
corporalidade, rompendo-se com a ditadura dos corpos imposta pela modernidade. Os
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O Senado australiano também promoveu uma investigação oficial sobre a esterilização involuntária ou
coercitiva das pessoas intersexuais.
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intersexuais merecem consideração e absoluto respeito, devendo ser resgatados da
invisibilidade. Nos termos defendidos por Flávia Piovesan no prefácio da obra “A reinvenção
dos direitos humanos”, de Joaquín Herrera Flores (2009, p. 15):
[...] as exclusões, as discriminações, as desigualdades, as intolerâncias e as
injustiças são um construído histórico, a ser urgentemente desconstruído. [...]. Há
que se enfrentar essas amarras, mutiladoras do protagonismo, da cidadania e da
dignidade de seres humanos. A ética dos direitos humanos é a ética que vê no outro
um ser merecedor de igual consideração e profundo respeito, dotado do direito de
apropriar-se e desenvolver as potencialidades humanas de forma livre, autônoma e
plena. É a ética orientada pela afirmação da dignidade e pela prevenção ao
sofrimento humano
Sob a perspectiva do Direito Internacional dos Direitos Humanos, as cirurgias de
“normalização” de sexo violam direitos humanos, consubstanciando verdadeiras práticas
discriminatórias, que devem ser proibidas em todos os Estados. Além de prejudicarem o livre
desenvolvimento da personalidade, essas intervenções cirúrgicas ferem os direitos à saúde, à
integridade física, à integridade psíquica, à liberdade, à identidade, à autonomia corporal e à
autodeterminação dos intersexuais. Essas são as razões pelas quais tais intervenções só
podem ser admitidas quando o indivíduo tiver atingido estágio adequado de desenvolvimento,
tornando-se capaz de manifestar o seu consentimento livre, prévio e informado.
5. CONCLUSÃO
A intersexualidade é um fenômeno social através do qual pessoas são
geneticamente concebidas fora dos padrões binários de sexualidade impostos pela
modernidade. Ou seja, os intersexuais são sujeitos que nascem com a exteriorização de
ambos órgãos sexuais (pênis e vagina) ou possuem alterações cromossômicas que deixam de
reproduzir o modelo genético instituído, de que homem é o sujeito com pênis e cromossomo
XY e mulher pessoa com vagina e padrão cromossômico XX. Esse modelo genético-
evolucionista foi utilizado pela medicina como critério para a categorização de corpos
humanos a partir da doutrina denominada binarismo. A partir das proposições binário-
sexistas, cada pessoa terá sua sexualidade geneticamente preestabelecida, naturalizando-se
máximas generalizantes de que o homem e a mulher são produtos de juízos apriorísticos:
homem é o sujeito que tem pênis e mulher a pessoa que possui vagina. Dessa forma,
ignoram-se as premissas psicossociais, tendo em vista que a condição do homem e da mulher,
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na perspectiva da identidade de gênero, é reflexo da liberdade e autodeterminação que cada
pessoa tem de construir sua subjetividade habitada, a partir de seus valores e desejos.
O intersexual rompe com o binarismo ao nascer geneticamente diferente dos
padrões estabelecidos e, por isso, tem sua condição patologizada. A patologização, além de
constituir evidente instrumento de marginalização e segregação da pessoa intersexual, é a
justificativa utilizada pelas ciências médicas para a realização da cirurgia de mutilação e/ou
readequação sexual segundo os moldes binários existentes. Da mesma forma que a medicina,
o a ciência do Direito também contribui significativamente para a vulnerabilidade desses
sujeitos, tendo em vista que a legislação existente também adota os parâmetros binários, ao
estabelecer a subdivisão sexual entre homens e mulheres a partir da genitália.
A presente pesquisa problematizou a questão da cirurgia de mutilação sexual
realizada em crianças intersexuais, correlacionando o debate proposto com os direitos
humanos. A partir das proposições teóricas apresentadas, pode-se afirmar que tal mutilação
cirúrgica constitui verdadeira afronta aos direitos humanos, especialmente no que atine a
violação dos direitos à vida, liberdade, autodeterminação, saúde e dignidade humana.
Submeter compulsoriamente a criança intersexual a cirurgia, sob a justificativa de busca da
normalização sexual, além de constituir violação dos direitos mencionados, representa a
manutenção das estruturas simbólicas de dominação, responsável pela coisificação desses
sujeitos.
Os conceitos de normalidade e anormalidade são muito mais políticos e culturais
que biológicos ou naturais. Significa dizer que quem dita as normas sobre o que é normal ou
anormal não é a natureza, mas sim as pessoas, a cultura construída por um povo. Nesse
sentido, pode-se afirmar que os intersexuais não são portadores de nenhuma anormalidade.
Eles simplesmente nascem com características sexuais diferentes daquelas que a maioria
apresenta, as quais consubstanciam variações naturais do corpo humano. O que acontece é
que a intersexualidade desorganiza as bases da sociedade legitimada por critérios científicos
(OLIVEIRA, 2015), e, por isso, é tratada como patologia.
Por serem diferentes, os intersexuais são repelidos e descritos como portadores de
“distúrbios do desenvolvimento sexual”, restando para a lógica médica, como acertada
alternativa, a conformação de seus corpos à “normalidade”, ao padrão socialmente aceito. É
assim que a (ir)racionalidade patologizante passa a servir de supedâneo para a mutilação
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cirúrgica de recém-nascidos e crianças. O discurso médico, na verdade, camufla uma prática
discriminatória, mas, mesmo assim, as cirurgias de “normalização” de sexo tornaram-se uma
prática comum. Os intersexuais são submetidos, logo nos primeiros dias de vida, ou na
primeira infância, a procedimentos cirúrgicos que envolvem a remoção de partes do corpo e
modificações anatômicas irreversíveis, que podem provocar dor, infertilidade, perda de
sensibilidade corporal, sujeição inevitável a outras cirurgias e tratamentos médicos, entre
outras consequências.
Afrontas múltiplas de direitos humanos são intrínsecas às intervenções cirúrgicas
de “normalização” de sexo. Elas têm a capacidade de ferir o direito à saúde, à integridade
física e psíquica, à liberdade, à igualdade, à identidade, à autonomia corporal, à
autodeterminação e ao livre desenvolvimento da personalidade do intersexual, operando-se,
inexoravelmente, a ofensa a sua dignidade. Ao contrário, portanto, do que se apregoa, tais
intervenções cirúrgicas não protegem o direito à saúde e não têm caráter humanitário.
Submeter recém-nascidos e crianças, que não podem manifestar o seu
consentimento livre, prévio e informado, a procedimentos médicos que violam os seus corpos
é, definitivamente, intolerável. E nada garante que, no futuro, a escolha feita por pais e
médicos acerca da “conformação” sexual da criança com um dos padrões sexuais coincidirá
com a identidade de gênero desenvolvida por ela própria ao longo dos anos. O interesse da
família e da sociedade em “livrar” o indivíduo do estigma social que acompanha a
intersexualidade não pode justificar intervenções cirúrgicas desnecessárias, mutiladoras e
profundamente aviltantes.
A incondicional proteção aos recém-nascidos e crianças – que estão na condição
peculiar de pessoas em desenvolvimento – exige, em primeiro lugar, o respeito à sua
natureza. O intersexual tem o direito de crescer e amadurecer livremente, até que, alcançando
o estágio adequado de desenvolvimento, possa tomar decisões sobre o seu corpo, mormente
aquelas que importam modificações irreversíveis. Até esse momento, os pais devem educar a
criança conforme a sua natureza, isto é, sem nenhum papel de gênero ou ideologias que
venham a comprometer o exercício de sua liberdade individual.
Os órgãos e entidades internacionais de proteção dos direitos humanos e a
militância intersexual têm se manifestado no sentido de que as cirurgias de “normalização”
de sexo em bebês e crianças intersexuais são, de fato, medicamente supérfluas e violadoras de
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direitos humanos, especialmente por serem realizadas sem a sua aquiescência (livre, prévia e
informada) e com desrespeito à sua autonomia. Esses são os motivos pelos quais os Estados
devem reprimir todas as legislações, regulamentações e práticas que admitam qualquer forma
de intervenção médica involuntária ou forçada em recém-nascidos e crianças intersexuais,
exceto quando existente a mais absoluta necessidade de proteção da sua vida.
É mister, pelos motivos expostos, que as práticas médicas adotadas em relação à
intersexualidade sejam revistas, implementando-se medidas concretas para a eliminação da
mutilação cirúrgica de crianças e recém-nascidos. Certo é que a proteção dos direitos
humanos dos intersexuais depende da conjugação dos esforços internacionais, devendo ser
colocados à disposição desses indivíduos e de suas famílias todos os recursos necessários
para a sua tutela integral.
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Submetido em 20.02.2020
Aceito em 10.01.2021
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