A ARTE DE VIVER EPICTETO
O APELO DA ALMA
A principal tarefa da filosofia é responder ao apelo da alma. É procurar compreender o sentido de nossas
dores e medos e, assim, nos libertar da sua influência. A filosofia exerce atração sobre nós quando chegamos
ao fim de nossas forças. A sensação persistente de que algo não está certo em nossas vidas e o desejo
intenso de recuperar o equilíbrio e o bem-estar anteriores não nos abandonam. O medo da morte e da
solidão, as perturbações a respeito de amor e sexo e a impotência diante da nossa raiva e de nossas ambições
desmesuradas levam-nos a formular as primeiras perguntas filosóficas sinceras. É verdade: não há nenhum
sentido aparente e óbvio para nossa vida. A crueldade, a injustiça, o desconforto físico, as doenças, os
aborrecimentos e transtornos, grandes e pequenos, são fatos comuns de todos os dias. Então, o que fazer a
respeito? Como podemos viver vidas dignas, apesar da dor e do sofrimento no mundo exterior e da
instabilidade de nossas emoções? Como deixar de sucumbir a uma insensibilidade desesperadora e, como
um animal de carga, apenas aguentar o tédio e a carga das responsabilidades indesejadas? Quando a alma
grita seu apelo, é sinal de que chegamos a um estágio necessário e maduro de reflexão sobre nós mesmos.
O segredo é não ficar bloqueado nesse ponto, perturbado, torcendo as mãos, mas ir em frente decidido a
curar a própria vida. O que a filosofia nos pede é uma opção pela coragem. Seu remédio é expor, sem
hesitar, inflexível e obstinadamente, as premissas falsas e enganadoras nas quais baseamos nossas vidas
e nossa identidade.
O VERDADEIRO PROPÓSITO DA FILOSOFIA
A verdadeira filosofia não envolve rituais exóticos, liturgias misteriosas ou crenças originais. Também não
se resume a teorias e análises abstratas. A verdadeira filosofia é, evidentemente, o amor à sabedoria. É a
arte de viver bem a vida. Como tal, precisa ser resgatada dos gurus religiosos e filósofos profissionais para
não se deixar explorar como um culto esotérico, ou um conjunto de técnicas intelectuais desconexas, ou
um jogo de quebra-cabeça que sirva apenas para exibir sua inteligência. A filosofia é destinada a todos e só
é praticada de modo autêntico por aqueles que a associam à ação no mundo, visando a uma vida melhor
para todos. O propósito da filosofia é iluminar os caminhos de nossa alma que foram contaminados por
convicções infundadas, desejos descontrolados, preferências e opções de vida questionáveis que não são
dignas de nós. O principal antídoto a tudo isso é um autoexame minucioso aplicado com bondade. Além
de erradicar as doenças da alma, a vida de sabedoria também pretende despertar-nos de nossa apatia e
introduzir-nos no caminho de uma vida ativa e alegre. A habilidade no uso da lógica e do debate e o
desenvolvimento da capacidade de definir as coisas com seus nomes certos são alguns dos instrumentos
que a filosofia nos oferece para alcançar a clareza de visão e a tranquilidade interior que constituem a
felicidade verdadeira. Essa felicidade, que é a nossa meta, deve ser corretamente entendida. A felicidade
costuma ser confundida com prazer ou lazer experimentados passivamente. Este conceito de felicidade só
é bom até certo ponto. O único e precioso objetivo de todos os nossos esforços é uma vida em expansão no
caminho da plenitude. A verdadeira felicidade é um verbo. É o desempenho contínuo, dinâmico e
permanente de atos de valor. A vida em expansão, cuja base é a intenção de buscar a virtude, é algo que
improvisamos continuamente, que construímos a cada momento. Ao fazê-lo, nossa alma amadurece. Nossa
vida tem utilidade para nós mesmos e para as pessoas que tocamos. Nós nos tornamos filósofos para
distinguir o que é realmente verdadeiro do que é meramente o resultado acidental do raciocínio incorreto,
das avaliações erradas adquiridas de modo imprudente, dos ensinamentos bem-intencionados mas
equivocados de pais e professores e da aculturação que absorvemos sem refletir. Para aliviar o sofrimento
de nossa alma, precisamos nos entregar a uma introspecção disciplinada, na qual realizamos exercícios
mentais para fortalecer nossa capacidade de descobrir quais são as convicções e os hábitos sadios e quais
são os prejudiciais causados pela negligência.
O PRIMEIRO PASSO
O primeiro passo para viver com sabedoria é renunciar à vaidade. Reconheça a insanidade no sabichão
inquieto cuja mente agitada está sempre especulando a respeito de suas impressões estereotipadas sobre os
acontecimentos ou sobre as pessoas, esforçando-se para encaixar as experiências do momento em categorias
previamente estabelecidas: "Ah, sim, isso aqui é exatamente assim ou assado". Contemple o mundo com
um novo frescor - como ele é, como foi criado -, com os olhos de um principiante, de um recém-chegado.
Saber que você não sabe e estar disposto a admitir isto sem desculpas nem acanhamento é ser forte de
verdade e preparar o terreno para aprender e progredir em qualquer atividade. Os mais sábios reconhecem
os limites naturais de nossa capacidade de conhecimento e têm a coragem de preservar sua ingenuidade.
Compreendem que todos nós sabemos muito pouco sobre qualquer coisa. Não existe qualquer
conhecimento conclusivo, definitivo, sobre coisa alguma. Os sábios não confundem informações ou dados,
por mais prodigiosos ou bem apresentados que sejam, com conhecimento abrangente ou sabedoria
transcendente. Fazem, com enorme frequência, comentários como "Humm" ou "É mesmo?". Quando
percebemos como de fato sabemos pouco, nos iludimos com menos facilidade por pessoas muito falantes,
envolventes ou demagogas, e direcionamos melhor nossa curiosidade. Pois a curiosidade viva e ativa é um
elemento característico de uma vida em expansão. A arrogância é a máscara mais banal da covardia. Mais
grave ainda: é o maior empecilho para uma vida florescente. A clareza de pensamento e a presunção não
podem coexistir logicamente. A humanidade não tem uma hierarquia social inerente a ela, apesar das
aparências. Toda pessoa neste mundo é importante. Se você realmente quer ter paz de espírito e bons
resultados para seus esforços, deixe a presunção de lado. A presunção é como um portão de ferro: não
permite a entrada de novos conhecimentos, a expansão de possibilidades nem as ideias construtivas. Ceder
ao orgulho excessivo dos próprios conhecimentos, capacidade ou experiências, procurando alcançar mais
poder ou autoridade do que o devido, é fatal. O amor-próprio exagerado não só faz os outros se afastarem,
pois é insuportável ter um tolo arrogante por perto, como também leva à complacência, impedindo
mudanças de rumo mais sadias. A pessoa fica sempre girando em círculos pelos mesmos lugares
conhecidos, cai sempre na mesma teia pegajosa. Nada de extraordinário ou prazeroso acontece. Pare de
tagarelar como uma matraca. Observe o que está realmente acontecendo, não só o que você pensa estar
acontecendo, ou gostaria que estivesse acontecendo. Olhe e escute bem o que se passa à sua volta. Para
fazer bem qualquer coisa, você precisa ter a humildade de tropeçar aqui e ali, de seguir seu faro, de se
perder de vez em quando, de cometer erros elementares. Tenha a coragem de tentar realizar alguma tarefa
encarando a possibilidade de realizá-la mal. As vidas medíocres são marcadas pelo temor de não parecer
capaz ao tentar algo de novo. As novas experiências servem para aprofundar nossas vidas e promover o
avanço para níveis de competência mais altos e não para serem usadas pelos presunçosos como suporte de
seus pontos de vista e conclusões previamente determinadas. Os conhecimentos importantes e a orientação
pessoal estão onde menos se espera. Se você deseja encontrá-los, reconhecê-los e beneficiar-se deles
quando vierem, trate de não se encher de empáfia e orgulho desmedidos. O legítimo sentimento de
satisfação por se alcançar um objetivo meritório e difícil de conquistar não deve ser confundido com
arrogância, que se caracteriza pela preocupação excessiva consigo mesmo e a falta de interesse pelos
sentimentos ou assuntos dos outros.
DA AUTO-SUFICIÊNCIA
Não é por meio de técnicas que se consegue ter uma vida florescente. Ninguém pode tapear a si mesmo
usando truques para viver uma vida bem vivida. Também não adiantam coisas do tipo "cinco regras
práticas" ou os dogmas prescritos por alguma figura carismática. Ter uma vida em expansão depende da
nossa resposta, da melhor maneira que pudermos, àquilo que cabe exclusivamente a nós. Viver uma vida
extraordinária significa elevar nossa estatura moral cultivando nosso caráter. Os despreparados ficam
ruminando sobre o que acontece em suas vidas. Desperdiçam um tempo precioso lamentando-se ou
desejando que as circunstâncias fossem diferentes: "Se ao menos eu vivesse em uma casa melhor, ou em
uma cidade melhor, tivesse outro marido, um emprego mais interessante, mais tempo pra mim..." Os
moralmente preparados, em vez de se ressentirem ou se esquivarem de sua verdadeira situação e de seus
deveres, sentem-se gratos por eles e entregam-se inteiramente aos seus deveres para com a família, amigos,
vizinhos e trabalho. Quando sucumbimos aos queixumes, diminuímos nossas possibilidades. A
supervalorização do dinheiro, da posição social e da competição envenena nossos relacionamentos pessoais.
Não podemos ter uma vida florescente enquanto não moderarmos nossos desejos e constatarmos como eles
são superficiais e passageiros.