Viver por viver.
A vida humana é tecida de prosa e de poesia. A poesia não é apenas uma
variedade de literatura, é também um modo de viver na participação, o amor, a
festa, a embriaguez, a dança, o canto, que efetivamente transfiguram a vida
prosaica feita de tarefas práticas, utilitárias, técnicas. De resto, todo ser humano
fala duas linguagens a partir de sua língua. A primeira denota, objetiviza, funda-se
na lógica; a segunda fala antes através da conotação, tenta traduzir as emoções e
os sentimentos, permite à alma exprimir-se. Do mesmo modo, há em nós dois
estados freqüentemente separados, o estado primeiro ou prosaico, que
corresponde às atividades racionais/empíricas, e o estado justamente dito
"segundo", que é o estado poético, mas também a música, a dança, a festa, a
alegria, o amor, e que culmina em êxtase. É no estado poético que o estado
segundo torna-se primeiro.
Fernando Pessoa dizia que em cada um de nós há dois seres: o primeiro, o
verdadeiro, é o de seus devaneios, de seus sonhos, que nasce na infância e
prossegue por toda a vida, e o segundo, o falso, é o de suas aparências, de seus
discursos e de seus atos.
A civilização ocidental moderna separou prosa e poesia. Rarefez e em parte
esvaziou as festas em proveito do lazer noção-sacoIa, que cada um preenche
como puder. A vida de trabalho e a vida econômica foram invadidas pela prosa
(lógica do ganho, da rentabilidade, etc.); a poesia refugiou-se na vida privada, de
lazer e de férias, e teve seus desenvolvimentos próprios com os amores, os jogos,
os esportes, os filmes e, evidentemente, a literatura e a poesia propriamente ditas'.
Hoje, neste fim de milênio, a hiperprosa se estendeu, com a invasão da lógica
da máquina artificial em todos os setores da vida, à hipertrofia do mundo
tecnoburocrático, ao alastramento do tempo cronometrizado, sobrecarregado e
estressado em detrimento do tempo natural de cada um.
A política do desenvolvimento, no sentido em que a entendemos, e que
comporta dentro dela a idéia de meta-desenvolvimento, requer a plena
consciência das necessidades poéticas do ser humano. Nessas condições, a
invasão da hiperprosa requer uma contra-ofensiva poderosa de poesia.
A relação com a Terra e com o viver é estética e, mais ainda, amorosa, às
vezes extática. Como não vacilar de êxtase quando de repente uma enorme Lua
surge com assombro no horizonte da noite que nasce? Como não chegar quase a
desfalecer ao contemplar o vôo das andorinhas? Como não auscultar o desejo?
Temos necessidade vital de prosa, já que as atividades práticas, prosaicas,
nos fazem sobreviver. Mas com freqüência, no reino animal, as atividades do
sobreviver (buscar o alimento, a presa, defender-se contra os perigos, as
agressões) devoram o viver, isto é, o gozar. Hoje, na Terra, os humanos passam
grande parte de seu viver a sobreviver.
Precisamos trabalhar para que o estado segundo se tome primeiro. É preciso
tentar viver não apenas para sobreviver, mas também para viver. Viver
poeticamente é viver por viver.
MORIN, Edgar e KERN, Anne B. Terra-Pátria. Porto Alegre: Sulina, 1996.