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Tensões Sociais na Redemocratização Brasileira

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História do

Brasil República:
Consolidação e
Tensões sociais
Material Teórico
“Anos 80: A Redemocratização do Brasil”

Responsável pelo Conteúdo:


Prof. Dr. Edgar Silva Gomes

Revisão Textual:
Profa. Esp. Márcia Ota
“Anos 80: A Redemocratização do Brasil”

• Introdução
• Ernesto Geisel: a fase sístole-diástole do regime
• O Ocaso da Ditadura Sob as Esporas do Ditador Batista Figueiro
• Linha - Dura volta a atacar
• Considerações Finais: Diretas Já

Estudar os movimentos político-sociais e as instituições que colaboraram


para a redemocratização do país: OAB, Igrejas, Partidos Políticos.

Nesta Unidade, vamos aprender um pouco mais sobre um importante tema da História do
Brasil República, “Anos 80: A Redemocratização do Brasil”.
Então, procure ler, com atenção, o conteúdo disponibilizado e o material complementar.
Não Esqueça! A leitura é um momento oportuno para registrar suas dúvidas; por isso, não
deixe de registrá-las e transmiti-las ao professor-tutor.
Além disso, para que a sua aprendizagem ocorra num ambiente mais interativo possível,
na pasta de atividades, você também encontrará as atividades de Avaliação, uma Atividade
Reflexiva e a videoaula. Cada material disponibilizado é mais um elemento para seu
aprendizado, por favor, estude todos com atenção!

5
Unidade: “Anos 80: A Redemocratização do Brasil”

Contextualização

Vídeos:
Filme: Bate Frente Brasil (1982).
Roteiro de Roberto Farias. Argumento de Reginaldo Farias e Paulo Mendonça.
Dirigido por Roberto Farias. Estrelando Reginaldo Faria, Natália do Valle, Antônio
Fagundes & Elizabeth Savalla.
[Link]

Sinopse:
Em 1970, o Brasil inteiro torce e vibra com a seleção de futebol no México, enquanto
prisioneiros políticos são torturados nos porões da ditadura militar e inocentes são vítimas
desta violência. Todos estes acontecimentos são vistos pela ótica de uma família quando um
dos seus integrantes, um pacato trabalhador da classe média, é confundido com um ativista
político e “desaparece”.

Gênero: Drama
Elenco:
Reginaldo Faria: Jofre Godói
Carlos Zara: Barreto
Antônio Fagundes: Miguel Godói
Natália do Vale: Marta Godói
Elizabeth Savalla: Mariana
Cláudio Marzo: Sarmento
Neuza Amaral

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Introdução

Rememorando os anos mais duros da ditadura, o caldeirão político estava fervendo, estava
no poder o ditador Costa e Silva que enfrentou no inicio de seu governo uma forte oposição
à ditadura e o cerceamento das liberdades individuais, que se tornariam muito mais duras
e repressivas com a edição do AI-5. Em seu governo surgiu a Frente Ampla, que abrigou
diversos políticos de distintas matizes ideológicas, de Carlos Lacerda a JK e Jango, foi criada a
Frente Ampla, dirigida por Lacerda, esta frente apoiava o retorno da democracia, a escolha do
presidente através das eleições diretas, a formação de uma Assembleia Constituinte, a Carta
de 1967 era moldada pelos ditadores e não contemplava os anseios da sociedade, e pedia
também o perdão por crimes políticos. Houve durante o ano de 1968 muitas manifestações, a
Frente Ampla foi proibida de existir e a ditadura entrou na sua fase mais dura conhecida como
Anos de Chumbo.

Em 1968 a morte do estudante do ensino secundário Edson


Luís, em um confronto com a polícia militar, provocou
uma reação em massa dos estudantes, que anunciaram
uma paralisação estudantil de âmbito nacional, ocorreram
várias reuniões políticas e manifestações públicas, das
quais fizeram parte várias esferas sociais. A fase mais crítica
para o governo deu-se com a passeata dos cem mil, ato
ocorrido no Rio de Janeiro, a tensão política aumentou e
Passeata dos Cem Mil – Rio de Janeiro 1968 no mês de abril o governo coibiu a Frente Ampla.
Fonte: Jornal do Brasil/Wikimedia Commons

Os ditadores conseguiram dar um golpe no golpe, o ditador Artur da Costa e Silva, pai
do AI-5, adoeceu e precisou se afastar do governo (1969), o substituto natural seria seu vice-
presidente, o politico e advogado mineiro, Pedro Aleixo, mas para prosseguir na linha-dura
implantada por Costa e Silva, os ditadores deram um golpe dentro do golpe e impediram
a posse de seu vice-presidente. A “legalidade” veio através de uma emenda constitucional,
prática comum na ditadura.
Na oposição tínhamos: estudantes organizados na UNE, e os comunistas, principalmente do
PCB; colocados na ilegalidade, se rearticularam, para formar os grupos guerrilheiros, como: a
ALN, Ação Libertadora Nacional; VPR, Vanguarda Popular Revolucionária; MR-8, Movimento
Revolucionário 8 de outubro; que lutavam de forma radical pela volta da democracia no país;
durante o governo escolhido pela junta militar(do ditador Médici), as ações guerrilheiras foram
sendo [Link] grupos que permaneceram na oposição foram sendo esmagados,
ou pela linha-dura das Forças Armadas ou pelo Terrorismo de Estado, ou seja, o grupo que
detinha o poder utilizou de força desproporcional para aniquilar os opositores; assumiu Geisel,
um ditador “fora” do circulo linha-dura.

7
Unidade: “Anos 80: A Redemocratização do Brasil”

Terrorismo de Estado – O Tiro Saiu Pela Culatra: “Duas


bombas explodiram no Riocentro quando era realizado um
show em homenagem ao 1º de Maio, com a participação
de vários cantores de música popular brasileira. Os
passageiros do Puma eram o Sargento Guilherme Pereira
do Rosário, que morreu na hora, e o capitão Wilson Luís
Chaves Machado, que ficou gravemente ferido. O carro
estava cheio de explosivos e ficou parcialmente destruído.
Os policiais encontraram e recolheram partes dos corpos
Passeata dos Cem Mil – Rio de Janeiro 1968 dos seus ocupantes em pontos distantes mais de 50 metros
Fonte: Correio do Brasil/Wikimedia Commons do carro”.

A distensão política que permitiu a redemocratização do Brasil nos anos oitenta do século
XX começou a ser forjada na década de 1970 com a chegada ao poder do ditador Ernesto
Geisel no ano de 1974. Favorável a abertura política e pertencente ao núcleo político do
ex-ditador Castelo Branco, foi chefe da casa civil de desse governo mantendo-o afastado da
chamada “linha dura” do regime, Geisel foi também presidente da Petrobrás, e era considerado
ótimo administrador, além de ser membro permanente da Escola Superior de Guerra.
Houve avanços e recuos durante o governo de Geisel que gostava de manter a distensão
politica sob seu controle, mas também porque recebia assedio da linha-dura das Forças
Armadas, o intuito de Geisel e da linha-dura era controlar o acesso da oposição ao poder, ela
deveria de ser lenta e gradual, “assim, a abertura foi lenta, gradual e insegura, pois a linha-dura
se manteve como uma continua ameaça de retrocesso até o fim do governo Figueiredo”, na
década de 1980.1
Neste contexto retorna a cena política o general Golbery do Couto e Silva, um dos principais
articuladores da teoria da doutrina de segurança nacional, formulada na década de 1950
pelos militares da ESG e um dos criadores do Serviço Nacional de Informação. Afastado da
vida política desde a eleição do ditador Costa e Silva (1968-1973), para a presidência da
República, Golbery estava atuando como executivo da multinacional Dow Chemical no país,
Golbery retornou em março de 1974 para colaborar com Geisel na distensão política, ponta
de lança para a abertura política e redemocratização do Brasil, ocupando o cargo de Chefe da
Casa Civil nos governos dos ditadores Geisel e Figueiredo.
Começava também a haver desgaste do governo militar, a oposição driblava a dureza
do regime e dava as caras, instituições como a Igreja Católica e a OAB já pressionavam e
denunciavam os abusos da linha-dura das Forças Armadas. Havia um claro confronto entre
a Igreja e o Estado, a governo começou então a estabelecer linhas de dialogo com estas e
outras instituições aonde o principal objetivo foi o de acabar com as prisões arbitrárias e as
torturas que começavam a ser denunciadas pelas autoridades eclesiásticas e civis. A repressão
à sociedade causou um enorme desgaste ao governo comandado pelas Forças Armadas desde
o Golpe de 1964, começava assim uma esperança de retorno à democracia no país.

1 FAUSTO, Boris. História do Brasil. 10 ed. São Paulo: Edusp, 2002, p. 490

8
Ernesto Geisel: a fase sístole-diástole do regime

Enquanto o governo de Geisel enfrentava um embate com os militares da linha-dura do


regime, a cena que se desenhava parecia de distensão política em médio prazo, para quem
sofria as perseguições da ditadura fica difícil mensurar o que é curto ou médio prazo para se
relaxar um regime de terror, mas na cena do dia-a-dia a população muitas vezes nem percebia
o que se passava nos porões da ditadura, e uma dessas sinalizações de abertura estava no fato
de que o governo, “permitiu que as eleições legislativas (1974) se realizassem em um clima de
relativa liberdade, com acesso dos partidos ao rádio e à televisão, esperava-se um triunfo fácil
da Arena (...) mas os resultados eleitorais surpreenderam o governo”.

A imagem figurada que esta sendo usada no subtítulo desta unidade é uma alusão aos
movimentos cardíacos de “abertura” e “fechamento” das artérias, ou seja, com Geisel
o regime ora se distendia, ora voltava a endurecer. Os movimentos cardíacos: Sístole e
Diástole:A contração ventricular é conhecida como sístole e nela ocorre o esvaziamento
dos ventrículos. O relaxamento ventricular é conhecido como diástole e é nessa fase que os
ventrículos recebem sangue dos átrios. A contração ventricular força, então, a passagem
de sangue para as artérias: pulmonar e aorta, cujas válvulas semilunares (três membranas
em forma de meia lua) se abrem para permitir a passagem de sangue. Uma vez no interior
desses vasos, o retorno do sangue (refluxo) para os ventrículos a partir das artérias aorta e
pulmonar é evitado pelo súbito fechamento dessas mesmas válvulas.

Com a surpresa de novembro de 1974 nas urnas, aonde o MDB conquistou dezesseis das
vinte e duas vagas para o Senado, apesar de a Arena ter obtido apenas seis vagas, a ala governista
continuou com a maioria das vagas porque o senado foi renovado parcialmente, o sinal de alerta
foi aceso. Para a Câmara dos Deputados a Arena saiu vencedora e obteve duzentos e quadro vagas
contra 160 do MDB, as eleições marcaram a posição de avanço do MDB no cenário nacional,
pois obteve grandes vitórias nos centros urbanos mais importantes do país,em São Paulo e no
Rio de Janeiro nas eleições para o Senado foram responsáveis por aproximadamente 70%
dos votos da oposição, “a negação das liberdades era profundamente sentida pelos chamados
formadores de opinião, e a miragem do milagre econômico começava a se dissipar (...) no curso
de 1975, Geisel combinou medidas liberalizantes com medidas repressivas”2.

2 FAUSTO, Boris. História do Brasil. 10 ed. São Paulo: Edusp, 2002, p. 491.

9
Unidade: “Anos 80: A Redemocratização do Brasil”

No governo do ditador Geisel, o Ministério da Justiça foi comandado por Rui Falcão,
enquanto afrouxava a censura sobre o jornal “O Estado de São Paulo” de propriedade da
família Mesquita, tradicional aliada da direita, a perseguição contra o PCB de Prestes não tinha
trégua, a acusação era a de que o partido estava trabalhando à surdina pela vitória do MDB
nas eleições legislativas; na esteira desses acontecimentos outros jornais aproveitaram para
apertar o cerco ao governo denunciando a grave situação político-social do país. Apesar de a
guerrilha ter sido desarticulada e seus maiores lideres presos ou exilados, os ditadores sentiam
cheiro de comunista, os “subversivos”, por toda parte, a prática da tortura e o desaparecimento
dos adversários do regime persistiram com Geisel no poder.
Houve casos em que a repressão a certos jornais foi mais dura, o jornal “O São Paulo”
periódico semanal oficioso da arquidiocese de São Paulo, comandada pelo “inimigo” do
regime, o cardeal D. Paulo Evaristo Arns, acusado de padre comunista, teve artigos censurados
até os últimos anos da ditadura. No ano de 1977 o semanário da arquidiocese tinha como
diretor, o jornalista Ewaldo Dantas Ferreira, que acusou os órgãos censores de discriminadores,
pois segundo o jornalista, enquanto algumas matérias eram publicadas por outros órgãos da
imprensa, o semanário continuava sendo censurado. Esta atitude foi classificada por Ferreira
da seguinte forma, “o que estamos sofrendo em O São Paulo não é mais censura, é um ato
de provocação, de covardia, pois matérias que já foram publicadas por outros órgãos da
imprensa estão sendo vetada no jornal da Igreja3”.
A igreja paulistana estava atenta à atuação dos ditadores e não se cansava de denunciar as
arbitrariedades contra seus bispos, padres, fiéis e população em geral por todo o país, no ano
de 1977, foi realizado um Ato, o “Ato da Penha”, em defesa de vários religiosos, em especial
de D. Pedro Casaldaglia, bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia, ameaçado de expulsão
do país, este bispo era um tenaz defensor dos direitos humanos e estava sendo acusado pelos
militares de ser comunista e subversivo, assim como D. Paulo,que era um dos alvos prediletos
dos ditadores que deixaram registros inflamados contra o bispo nos Arquivos do CISA - Centro
de Informações da Aeronáutica, pois não se conformavam com a “intromissão” da igreja que
lutava para denunciar e enfraquecer as perseguições dos militares contra seus opositores,

(...) não será fácil, sem morrer muita gente. Mas o dia em que o
Partido Comunista conseguir sair vitorioso no Brasil, o primeiro a
merecer uma estátua em praça pública não será Carlos Prestes,
mas o ilustre cardeal de São Paulo, dom Evaristo Arns, que se
especializou em provocar o regime e em apoiar tudo aquilo que
sirva de instrumento contra ele (...). Faz muito tempo que sua
atividade é política. A serviço das esquerdas, que são o maior
inimigo do regime brasileiro (...), as declarações de dom Evaristo
são um primor de gaiatice (...); o que um bispo deve fazer é
comportar-se com dignidade, para evitar que um generalo chame
de subversivo (...) Se um bispo não pode dizer é bom em cavalaria,
do mesmo modo não pode se meter em política (...). Sob pena
de comprometer sua verdadeira missão sacerdotal (...) o general
Euclydes Figueiredo falou com base, conhecedor do problema de
agitação de sua área por parte de religiosos4.

3 GOMES, Edgar da Silva. A perseguição à Imprensa Católica. in, Souza, Ney (Org.). Catolicismo em São Paulo. São Paulo: Paulinas, 2004, p. 537.
4 AESP, Deops n. 50-D-26-5708-5710, Relatório Mensal de Informações n. 3/78 CISA.

10
Muito se fala dos guerrilheiros comunistas, classificados pelos ditadores como terroristas,
mas não podemos nos esquecer do Terrorismo de Estado que atuou durante o regime para
intimidar seus adversários. A Igreja Católica e a Ordem dos Advogados do Brasil passaram
da atitude complacente com o Golpe de 1964 para o enfrentamento aberto e corajoso contra
a ditadura civil-empresarial-militar brasileira,foram muitos os advogados que denunciaram os
horrores da tortura com o apoio da OAB, mas a ousadia de quem enfrentava os ditadores não
ficava no esquecimento.O regime se manteve por tanto tempo à base do terror, no dia 27 de
agosto de 1980, os opositores do regime tiveram mais uma prova disti, por meio de uma carta
bomba a secretaria Lyra Monteiro da Silva, foi assassinada na sede do Conselho Federal da
OAB no Rio de Janeiro,

Brasília, 27/08/2009 – O presidente nacional


da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Cezar
Britto, lembrou hoje (27), por meio de nota
divulgada à advocacia, os 29 anos da morte de
Lyda Monteiro da Silva, secretária do Conselho
Federal da OAB que faleceu, após abrir uma
carta-bomba produzida nos porões da ditadura
e destinada à Presidência da entidade, à época
sediada no Rio de Janeiro. Na nota, Britto afirma
que a funcionária foi vitima fatal de ataques do
período da ditadura militar e ressalta que sua
morte serviu de emblema e motivação à advocacia
brasileira “para tornar aquela luta – contra o
regime militar – irreversível e vitoriosa” (...) o
país ficou chocado, mas não se intimidou, “foi
ao contrário, momento decisivo para redobrar
o vigor na luta nacional pela redemocratiza-ção,
que tinha na OAB sua principal trincheira”.
[Link]

O cardeal D. Paulo fundou no ano de 1972 a Comissão de Justiça e Paz de São Paulo,
preocupado com as práticas abusivas de violação dos direitos dos cidadãos por parte dos
ditadores, essa comissão se confunde com o desenvolvimento dos direitos humanos no Brasil
na década de 1970, seu principal objetivo foi desestimular por parte do regimeas prisões
ilegais e as torturas. A comissão era presidida pelo advogado Dalmo Dallari (1975), quando
fez seu estatuto, a comissão era constantemente acusada de subversiva pelos [Link]
tomou esta atitude para evitar que a comissão fosse acusada de atuação clandestina, já que não
tinha nenhum estatuto que oficializava sua existência formal.

Para entender as relações de dialogo e tensão entre as Forças


Armadas e o catolicismo leia: “SERBIN, Kenneth P. Diálogos na
Sombra: bispos e militares, tortura e justiça social na ditadura.
São Paulo: Cia. das Letras, 2001.

11
Unidade: “Anos 80: A Redemocratização do Brasil”

Após o registro, o advogado foi convocado pela Policia Federal, para explicar o que era
“aquela organização subversiva, Comissão Justiça e Paz”, o delegado foi surpreendido com
o estatuto devidamente registrado. A “Comissão Justiça e Paz” apoiou diversas iniciativa
político-sociais, “participou ativamente dos trabalhos do Plenário Pró-Participação Popular
na Constituinte Federal, bem como na mobilização pela constituinte estadual, tendo apoiado
alguns seminários sobre o assunto5” , esta comissão teve o apoio e apoiou iniciativas da OAB
contra a ditadura.
No inicio do governo do ditador Geisel, principalmente após as eleições de novembro
(1974), o regime se sentiu fragilizado pelo avanço da oposição, a perseguição se intensificou,
e foi num desses delírios dos ditadores que o jornalista Vladimir Herzog foi morto, convocado
para comparecer ao DOI-CODI de São Paulo, o diretor de jornalismo da TV Cultura, suspeito
de ligações com o PCB, foi torturado e morto, mas o regime divulgou a informação, desmentida
recentemente, de que Herzog havia se enforcado na cela em que estava preso, foi divulgada
uma foto do “enforcamento” desmascarado, sobretudo com as investigações das “Comissões
da Verdade” que vem revelando inúmeros casos de mortos e desaparecidos durante a ditadura
(1964-1985).
Este caso de tortura seguido de morte provocou muita comoção na sociedade paulistana,
bispos reunidos em Itaici para uma conferência denunciaram o caso e foram apoiados pela
OAB que se colocou à disposição da viúva de Herzog, Clarice, para entrar com uma ação
responsabilizando o estado pela morte do jornalista. Uma celebração ecumênica presidida
pelo cardeal D. Paulo, na Catedral da Sé, foi acompanhada por uma multidão, entre os
celebrantes do ato estava o rabino Sobel e um pastor protestante. O coronel Erasmo Dias,
Secretário de Segurança de São Paulo e linha-dura tentou bloquear o acesso das pessoas ao
ato, o que provocou um grande tumultuo no centro da cidade.
Outro assassinato nas mesmas circunstâncias de Herzog ocorreu no ano de 1976 com o
metalúrgico Manuel Fiel Filho, o governo estava descontente com a situação, para Geisel, o
comandante do II Exército, Ednardo D’Ávila Melo, era omisso com o que estava acontecendo
no DOI-CODI e foi substituído pelo general Dilermando Gomes Monteiro para minimizar a
tensão e estabelecer um diálogo com a sociedade; as torturas cessaram, apesar de persistirem
as violências e as perseguições contra a população, sob o comando de Erasmo Dias, houve
uma violenta invasão da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1977), para acabar
com uma reunião de alunos que tentavam reorganizar a UNE.
Nas eleições municipais (1976), a oposição despontava novamente como favorita,
consequentemente apontando para nova derrota do partido governista, para evitar novo
fiasco, o Ministro da Justiça teve a “brilhante” ideia de modificar a lei que dava acesso aos
candidatos à televisão e ao rádio, a Lei batizada de Lei Falcão, “nas eleições municipais, os
partidos poderiam apresentar no rádio e na televisão apenas o nome, número e currículo dos
candidatos e uma fotografia destes no caso da televisão6” , com isso a divulgação de ideias,
que alavancou a vitória do MDB no legislativo, estava proibida, mesmo assim a oposição saiu
vitoriosa em cinquenta e nove das cem maiores cidades brasileiras.
O ditador “linha-branda”, Ernesto Geisel, continuava insatisfeito com as seguidas derrotas
dos governistas nas eleições, pois não conseguiu a maioria de dois terços para aprovação
5 SOUZA, Ney. Comissão Justiça e Paz. in, Souza, Ney (Org.). Catolicismo em São Paulo. São Paulo: Paulinas, 2004, p. 551.
6 FAUSTO, Boris. História do Brasil. 10 ed. São Paulo: Edusp, 2002, p. 493.

12
das alterações na constituição pretendidas pelo seu governo, houve uma crise entre o poder
Executivo e o Congresso, o presidente decretou recesso no Congresso para fazer emendas na
constituição e baixar decretos-leis, esta atitude truculenta do governo Geisel ficou conhecida
como “pacote de abril”.
Entre as leis do “pacote de abril” estava a invenção do senador biônico, artificio utilizado pelo
governo para que o MDB nunca atingisse a maioria no Congresso Nacional, para concretizar
mais essa manipulação do governo, a “eleição” do senador biônico era realizada por um colégio
eleitoral de forma indireta, o que tornava praticamente impossível uma vitória da oposição.
Outro artificio criado pelo governo foi mudar o critério de representação proporcional para as
eleições para a Câmara dos Deputados para favorecer o nordeste que tinha, reduto conservador
que favorecia os governistas. A lei Falcão foi ampliada para o legislativo federal e municipal e
aumento o mandato do presidente em um ano, passando de cinco para seis anos.
Dando continuidade a política do “morde e assopra” o governo do ditador Geisel programou
encontros (1978), com os líderes de partidos políticos e instituições da sociedade civil no
intuito de encaminhar as discussões para a restauração das liberdades civis. Foram convidados
os representantes da CNBB, da ABI, do MDB e da OAB, a grande conquista tramada nestes
encontros foi a aprovação da emenda constitucional n.11 que revogava o AI-5, incorporado
na constituição no ano de 1968, esta medida entrou em vigor em janeiro de 1979,

A partir dessa data o Executivo já não poderia declarar o


Congresso em recesso, privar os cidadãos de seus direitos
políticos. O direito de requerer habeas corpus foi também
restaurado em sua plenitude (...) criou ao lado da figura já
existente do estado de sítio as chamadas “salvaguardas”,
pelas quais o poder Executivo poderia decretar o estado de
emergência e medidas de emergência (...) para resta-belecer
a ordem pública e a paz social em locais determinados,
atingidos por calamidades ou graves perturbações. Essas
restrições levaram o MDB a abster-se na votação da emenda.
FAUSTO, Boris. História do Brasil. 10 ed. São Paulo: Edusp, 2002, p. 494.

Essas medidas foram restaurando de forma gradual as liberdades individuais e coletivas à


partir do ano de 1979, os cidadãos puderam se reunir e se manifestar com certa liberdade, a
imprensa começou a divulgar fatos político-sociais antes censurados pelos ditadores. O MDB
era a voz dos cidadãos descontentes com os rumos das políticas econômicas e sociais do
governo, o partido alcançou resultados expressivos nas eleições legislativas (1978), apesar das
restrições impostas pela “Lei Falcão”. Entre os apoiadores do partido estavam: os sindicalistas;
os estudantes; a Igreja, representada principalmente pelas Comunidades Eclesiais de base
(CEB’s); e os advogados representando a OAB;o MDB alcançou 189 vagas contra 231 da
Arena no Senado devido às manipulações do governo na lei eleitoral.
As críticas à concentração de poderes nas mãos dos ditadores e a autonomia política que
lhes eram conferidas desde o golpe, somados ainda à crise econômica que estava batendo as
portas do país, vão reforçar a necessidade da abertura política que se desenhava no horizonte
desde que Geisel assumiu o poder, o regime apesar de impopular nos grandes centros era

13
Unidade: “Anos 80: A Redemocratização do Brasil”

“aceito” nas periferias que sonhavam com a chegada do milagre econômico nas regiões onde
as desigualdades sociais eram profundas, e onde políticos governistas se aproveitavam desta
situação para aprofundar o velho clientelismo.
A oposição força uma abertura, em 1973, além de Geisel, o MDB ousou sair com um
candidato, sem chance de vencer, mas de qualquer forma era um sinal de enfrentamento claro
pela abertura democrática, Ulysses Guimarães e Barbosa Lima Sobrinho não estavam só, o
núcleo governista também desafiou a candidatura Geisel, com o nome do general Adalberto
Pereira dos Santos pela Arena, este “racha” interno não foi o pior dos cenários, estava por vir
algo muito maior para desestabilizar os ditadores,

Um imprevisto maior viria de outras latitudes. Em outubro


de 1973, no quadro de mais uma guerra árabe-israelense,
os países árabes exportadores de petróleo resolveram
suspender as entregas. Houve pânico nos mercados. Os
preços dispararam, quadriplicando de valor. Instaurou-se uma
crise de caráter mundial. Na época, o Brasil só produzia uma
fração pequena do que consumia. O que fazer? Abandonar
o II PND? O novo presidente resolveu mantê-lo (...). Para
financiar os investimentos, o Estado brasileiro recorreu
a emprésti-mos e a capitais internacionais. A conjuntura
favoreceu o país: os países árabes, abarrotados de dólares,
os petrodólares, lançaram-se nos mercados internacionais,
assegurando disponibilidade de recursos.
REIS, Daniel Aarão. A Vida Política. In, Modernização, Ditadura e Democracia 1964-2010. v. 5. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014, p. 98.

O II Plano Nacional Desenvolvimento (PND), foi pra frente, os árabes investiram no país,
mas a dívida externa só fazia crescer, mesmo assim o plano foi levado adiante na expectativa
de que o PND II fosse resolver diversos problemas do país, era necessário deixar para trás a
sina de país exportador de matéria prima para ser produtor de manufaturados. Outro campo
deficiente a ser atacado pelo projeto desenvolvimentista, “o problema energético era evidente,
pois propunha-se o avanço na pesquisa de petróleo, o programa nuclear, a substituição parcial
da gasolina pelo álcool, a construção de hidrelétricas, cujo exemplo mais expressivo foi a de
Itaipu7”.
Ao acelerar os projetos de crescimento o pano de fundo indicava uma preocupação política,
pois se os ditadores freassem o crescimento e surgisse uma grave crise econômica, esta crise
recairia principalmente sobre os trabalhadores, com isso a oposição que já vinha crescendo
poderia se tornar incontrolável e os custos políticos seriam muito mais pesados para o regime.
Mas, não foram somente os “subversivos” que pressionaram o Estado neste contexto, para
desenvolver o parque industrial brasileiro, os empresários queriam um peso menor do Estado
na economia, mas a rigor quem sustentou o desenvolvimento do país nos anos de chumbo
foram empresas como: Petrobrás, Eletrobrás, Embratel, CSN, os recursos do BNDE estavam
canalizados para incentivar o crescimento, mas segundo Boris Fausto, o PND II sofreu os
azares da recessão internacional e a elevação das taxas de juros que aumentaram a dívida
externa brasileira.
7 FAUSTO, Boris. História do Brasil. 10 ed. São Paulo: Edusp, 2002, p. 496.

14
Os militares foram enterrando o país em uma imensa dívida externa, no final do ano de
1978 o país devia 43,5 bilhões de dólares, o dobro da dívida herdada do último governo,
mas no frigir dos ovos, até que os resultados econômicos do governo Geisel foram bastante
satisfatórios, entre 1974-1978 o país cresceu 4,2% per capita, enquanto a inflação atingiu a
média de 37,9%, continuava a mesma formula herdada dos últimos governos democráticos
que focavam no crescimento do país sem controle da inflação. O perigo estava na oferta
de mercadorias a baixos custos produzidas pelas empresas estatais e na rolagem da divida
externa, precisando fazer novos empréstimos para o pagamento dos juros sem saldar o valor
principal, outro agravante que surgiu no horizonte, a divida interna se elevou muito acima do
que se arrecadava para seu pagamento.
Os salários corroídos pela inflação causava agitação nos meios operários, apesar de reprimidos
pelos ditadores, os sindicatos se mantiveram dentro da legalidade, inclusive os sindicatos dos
trabalhadores agrícolas como o Contag, que passaram a ter vida própria, diferente do período
populista que antecedeu a ditadura, onde os pelegos ajudaram a desarticular as reivindicações
trabalhistas. Um atrativo para o aumento dos sindicatos rurais e da sindicalização dos
trabalhadores agrícolas foi o incentivo dado pelos programas de previdência social via sindicatos,
por todo país havia confederações de trabalhadores rurais. Outra instituição que incentivou a
organização trabalhista foi à igreja Católica através da Comissão Pastoral da Terra, sem intenção,
o assistencialismo governamental fez surgir um movimento social forte e organizado.
O mundo rural começava a despertar a atenção pela sua organização, no ano de 1979
houve uma greve dos cortadores de cana de Pernambuco, no mundo urbano a novidade ficou
por conta dos sindicatos não operários como, por exemplo, os sanitaristas, os bancários, os
médicos, os professores entre outros, “a organização sindical dessas categorias correspondeu a
uma mudança de caráter das profissões, em que os profissionais autônomos – chamado de liberal
– deu crescente lugar ao assalariado com diploma8” , em relação ao sindicalismo tradicional o
eixo de maior organização migrou dos antigos sindicatos de empresas públicas para a indústria
metalúrgica, em especial a automobilística situadas no ABC paulista. No governo Geisel esta
organização atingiu seu ápice e pressionou o governo com seguidas greves.
O Sindicato dos metalúrgicos de Diadema e São Bernardo, ao tomarem ciência de uma perda
salarial de mais de 30% - após o governo admitir a manipulação nos índices de correção salarial
nos anos de 1973-1974 - fizeram campanha para que houvesse a reposição salarial que não
veio, com isso foram deflagradas as grandes greves do ABC paulista nos anos de 1978-1979
reunindo milhares e milhares de trabalhadores liderados pelo metalúrgico Lula, futuro presidente
da República, as reuniões aconteceram em São Bernardo do Campo, no estádio da Vila Euclides.
As greves do ABC atingiram outras categorias de trabalhadores para pressionar o governo,
existe uma estimativa que mais de 3 milhões de trabalhadores cruzaram os braços reivindicando
seus direitos por todo o país, “houve 27 paralisações de metalúrgicos que abrangeram 958
mil operários; ao mesmo tempo, ocorreram vinte greves de professores que reuniram 766 mil
assalariados (...) as greves tinham por objetivo um amplo leque de reivindicações”9, entre as
quais podemos citar em primeiro lugar o aumento salarial, com reposição das perda ocorridas
pela manipulação dos índices de correção salarial; liberdades democráticas; reconhecimento
das comissões de fábricas; garantia de emprego.
O sindicalismo do ABC nasceu e se afirmou como um sindicato de elevada organização
política sem ligações com a esquerda tradicional, e independente em relações ao Estado.
Abaixo as imagens Lula nas greves do ABC na década de 1970.
8 FAUSTO, Boris. História do Brasil. 10 ed. São Paulo: Edusp, 2002, p. 498.
9 FAUSTO, Boris. História do Brasil. 10 ed. São Paulo: Edusp, 2002, p. 500

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Unidade: “Anos 80: A Redemocratização do Brasil”

Fonte : [Link] Fonte: Agência PT

O Ocaso da Ditadura Sob as Esporas do Ditador Batista Figueiredo

Eleito presidente pelo Colégio Eleitoral no dia 14 de Outubro de 1978, o general Figueiredo
foi o ultimo ditador militar que o Golpe de 1964 instalou no país com o apoio de empresários
e políticos de direita, representados principalmente pela UDN, mais um mineiro civil ocupou
o cargo de vice-presidente, desta vez a função coube ao ex-governador mineiro Aureliano
Chaves. Ao assumir a presidência, o general confirmou a intenção de continuar a abertura
política iniciado no governo de seu antecessor, o general Geisel. Concorreu ao cargo de
presidente pelo MDB o general Euler Bentes Monteiro, tendo como vice na chapa o senador
gaúcho Paulo Brossard.
O general linha-dura e ministro do Exército, Sylvio Frota, lançou sua própria candidaturano
ano de 1977 e passou a atacar o general Geisel, como não poderia deixar de ser, o militar
linha-dura acusava o presidente de ser condescendente com os subversivos, o general Frota foi
substituído no ministério e caiu no ostracismo, mas como ele havia outros membros das Forças
Armadas que estavam preocupados com a abertura democrática, havia muitos cadáveres
escondidos nos porões da Ditadura, mas somente na segunda década do século XXI é que o
Brasil começa a remexer no passado para trazer à luz barbáries do regime,

Ao assumirem o comando do Estado, os chefes militaresnão


hesitaram, ao longo dos anos, em mutilar o Congresso
Nacionale o Judiciário: 281 parlamentares foram cassados,
e três ministros do Supremo Tribunal Federal, aposentados
[Link] governantes militares fizeram questão
de submeterà sua dominação absoluta, durante as duas
décadas do regime,o conjunto dos integrantes do poder civil,
como uma espéciede desforra pela longa série de frustrações
políticas por eles,homens de farda, sofridas desde o final do
século XIX. É precisoreconhecer que a grande maioria dos
agentes públicos, poupadospela repressão instaurada após o
golpe, colaborou desonrosamenteno funcionamento deste.
COMPARATO, Fabio Konder. Compreensão Histórica do Regime Empresarial-Militar Brasileiro, São
Leopoldo (RS), Unisinos, Cadernos IHU Ideias, ano 12, n. 205, v. 12, 2014, 18.

16
O presidente Figueiredo parecia ser o nome mais indicado para fazer essa transição, “lenta
e gradual” iniciada com Geisel, o general foi chefe do gabinete Militar do ditador Médici e chefe
do SNI no governo Geisel, o presidente deveria continuar neutralizando os generais linha-
dura, o embate entre os partidários da abertura já na década de 1980 e os generais temerosos
com a abertura continuavamnos bastidores, mas este problema era um dos menores para um
general que comando um órgão de repressão no governo anterior o SNI, a crise econômica
que estava se aprofundando era o maior rival do governo que se iniciava.
O maior problema estava no acirramento dos movimentos sociais com a crise econômica
batendo as portas da década de 1980. Caso as reivindicações passassem dos limites tolerados
pelos generais linha-dura poderia haver insistência no recurso da repressão por parte do
governo. A crise econômica não deu trela, mas a política não se baseia única e exclusivamente
em balanço econômico favorável/desfavorável, a abertura deveria prosseguir seu curso, e foi
o que aconteceu, os militares radicais foram sendo isolados pelo processo de democratização,
se a abertura estivesse atrelada ao desempenho da economia, ela teria naufragado.
Quando Figueiredo assumiu o governo, o ministro da Fazenda era obanqueiro e economista
Mario Henrique Simonsen, mantido por pouco tempo, assumiu o ministério do Planejamento,
sendo substituído pelo político e economista Antônio Delfim Netto, com uma curta incursão
deste último no ministério da Agricultura, após seu retorno da embaixada da França, Delfim
finalmente assumiu a Fazenda. Como no ditado popular, o mar não estava para peixe, outra
crise econômica assolava a América Latina, desta vez o estopim foi o aumento da taxa de juros
do Federal Reserve (FED), o Banco Central americano, presidido por Paul Volcker, o Brasil
precisou recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI) diversas vezes durante o governo de
Figueiredo para sanar problemas de insolvência,

A tentativa de Simonsen de impor uma politica de restrições


sofreu oposição de vários setores. Dentre eles, destacavam-se
os empresários nacionais, que se beneficiavam do crescimento
da inflação, e muitos componentes do próprio governo
interessados em ter condições de gastar e mostrar realizações.
Em agosto de 1979 (...) Delfim assumiu o cargo, prestigiado
como o homem do “milagre”. Agora, porém a situação era
outra, tanto no plano interno como no internacional.
FAUSTO, Boris. História do Brasil. 10 ed. São Paulo: Edusp, 2002, p. 502.

Com o sonho de retomada do milagre econômico sepultado já no final de 1980 e com


recessão nos anos seguintes 1981-1983, o país teve o pior resultado do PIB desde sua
implantação no ano de 1947, o ministro da Fazenda adotou um planejamento econômico
bastante conservador, parece pleonasmo falar isso em tempo de ditadura, mas a verdade é
que a economia dos ditadores foi bastante liberal durante o milagre econômico. A crise foi tão
grave que o declínio da renda e o desemprego foram comparáveis à situação vivida pelo país
com os reflexos da Crise de 1929 dos americanos.
No México foi declarada a moratória da dívida externa no ano de 1982 e o Brasil precisou
recorrer ao FMI em 1983, o arroxo foi imprescindível para o Fundo Monetário liberar verba
para o país, ajustes internos e prazos menores para pagamento da dívida estavam entre as
exigências. Em 1984 o Brasil melhorou sua balança comercial e o país voltou a crescer, porém
a inflação bateu a casa dos 223% neste mesmo ano, “no inicio de 1985, quando Figueiredo
deixou o governo, a situação financeira era de temporário alívio e o país voltara a crescer10”.
10 FAUSTO, Boris. História do Brasil. 10 ed. São Paulo: Edusp, 2002, p. 504.1

17
Unidade: “Anos 80: A Redemocratização do Brasil”

A Linha-Dura volta a atacar

Disposto a manter a agenda de abertura, o general Figueiredo encarregou um dos teóricos


do movimento político-militar que implantou a Ditadura no país, o general Golbery do Couto
e Silva, que a partir de 1974 trabalhou incansavelmente pela abertura política, e combateu os
generais linha-dura. Golbery teve o auxilio do ministro da Justiça Petrônio Portela, membro
da Arena, havia estabelecido uma ponte de diálogo entre o governo e a sociedade durante o
governo Geisel.
A oposição estava exigindo do governo a Anistia Política para os opositores do regime que
estavam exilados, mas Figueiredo, numa manobra politica, tomou para o governo a “missão”
de elaborar uma lei de anistia que favorecia os militares da linha-dura que haviam instalado no
país um regime de terror com as torturas, mortes e desaparecimento de opositores do regime,
para Konder, “Tudo parecia encaminhar-se para a ‘distensão lenta, graduale segura’, como
pregava Golbery, não fora o fato de restar irresolvida a questão das atrocidadescometidas
pelos agentes militares e policiais, no quadrodo terrorismo de Estado11”.
A Lei de Anistia aprovada em agosto (1979) trouxe de volta à cena política brasileira
os militantes de esquerda que foram perseguidos, torturados e exilados pelo regime, mas
também livrou a “cara” de militares e policiais dos órgãos de repressão do governo que
praticaram inúmeras violências, inclusive contra inocentes, pois garantia a lei que “crimes de
qualquer natureza relacionados com crimes políticos ou praticados por motivação politica”
seriam beneficiados pela Anistia. Nem sendo favorecida pela anistia a linha-dura, das Forças
Armadas, deixou de se incomodar com os “subversivos”, colocando em risco a abertura,
continuou praticando atos terroristas, o “invisível” terrorismo de Estado,

O processo de abertura continuou a ser perturbado no governo


figueiredo pela ação da linha-dura. Bombas explodiram em
jornais da oposição e na Câmara Municipal do Rio de Janeiro.
Uma carta-bomba, enviada ao presidente da OAB, estourou
na sede da entidade, matando sua secretária. Figuras da
Igreja ou ligadas à Igreja, como o bispo de Nova Iguaçu, Dom
Adriano Hypólito e o jurista Dalmo Dallari, foram vitimas de
sequestros. Os atos criminosos culminaram com a tentativa
de explodir bombas no centro de convenções do Riocentro,
a 30 de abril de 1981.
FAUSTO, Boris. História do Brasil. 10 ed. São Paulo: Edusp, 2002, p. 505.

No mesmo ano da criação da Lei da Anistia o governo fez outra manobra política tentando
enfraquecer a oposição, em dezembro de 1979 foi aprovada uma lei modificando a Lei Eleitoral
de 1965; era a “Nova Lei Orgânica dos Partidos”, com a criação desta lei os partidos existentes
foram extintos e criou-se a obrigatoriedade da palavra “partido” no nome das organizações
partidárias. A Arena, partido governista, travestiu-se em Partido Democrático Social, PDS, e
o MDB tornou-se o PMDB, Partido do Movimento Democrático Nacional.
11 COMPARATO, Fabio Konder. Compreensão Histórica do Regime Empresarial-Militar Brasileiro, São Leopoldo (RS), Unisinos, Cadernos
IHU Ideias, ano 12, n. 205, v. 12, 2014, 21.

18
Na medida em que a abertura politica foi se confirmando, as diferenças entre os políticos
que estavam aglomerados em apenas duas siglas – Arena e MDB – foi ganhando relevância
e com isso novos partidos foram criados, surgiram daí o Partido dos Trabalhadores (PT);
Leonel Brizola da esquerda trabalhista fundou o Partido Democrático Trabalhista (PDT); aberto
aos arranjos políticos ressurgiu no cenário político o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB); a
burguesia “democrática” se avessa a grandes mudanças sociais se aninhou com Tancredo
Neves e Magalhães Pinto no Partido Popular (PP), este partido teve vida curta, pois nas
eleições de 1982 se incorporou definitivamente ao PMDB.
Nas eleições de 1982 o governo Figueiredo fez outra manobra política para desarticular
a oposição, usou o artificio do “voto vinculado” que era nada mais nada menos do que
impossibilidade de votar em candidatos de siglas diferentes em uma eleição. Já bastante minado
pelo pluripartidarismo, o PMDB estava enfraquecido diante do partido governista, o PDS, que
obteve a maioria das vagas nas duas casas: Senado e Câmara dos Deputados, mas ganhou o
governo em importantes estados como São Paulo, com Franco Montoro; Minas Gerais, com
Tancredo Neves; no Paraná com José Richa; no Rio de Janeiro levou Leonel Brizola com o
PDT; o PDS venceu em diversos estados, entre eles Pernambuco e Rio Grande do Sul.
O entusiasmo com a abertura política não se confirmou nas eleições para presidente da
República, ainda cismado com a força dos movimentos sociais e sindicais, o ultimo ditador
do país conseguiu jogar a responsabilidade da escolha do presidente nas mãos do Colégio
Eleitoral, mais fácil de manipular do que uma campanha eleitoral envolvendo todos os partidos
e a liberdade de escolha nas mãos da população. O candidato governista pelo PDS foi Paulo
Maluf que derrotou candidatos mais prováveis do que ele para conseguir a indicação como,
por exemplo, o vice-presidente Aureliano Chaves e o ministro do Interior Mário Andreazza.
Contrariado com a escolha, Aureliano Chaves fez oposição à candidatura de Paulo Maluf e
criou o Partido da Frente Liberal (PFL) que passou a apoiar Tancredo Neves, candidato do PMDB,
a escolha do vice-presidente coube ao PFL que indicou José Sarney para vice-presidência,
politico que já tinha transitado pela UDN, Arena e PDS, com toda essa volatilidade Sarney
era visto com desconfiança dentro do PMDB, mas apoiado do PFL foi aceito, esta escolha
praticamente forçada alçou Sarney à presidência do Brasil com a morte de Tancredo Neves
que não chegou a assumir o cargo no ano de [Link] por um processo complicado
imposto pelo governo a oposição finalmente chegava ao poder em 15 de janeiro de 1985.

19
Unidade: “Anos 80: A Redemocratização do Brasil”

Considerações Finais: Diretas Já

O Partido dos Trabalhadores, capitaneado por


Luís Inácio da Silva, absteve-se de votar nas
eleições (1985) para presidente da República
em sinal de protesto contra a imposição do voto
indireto através de um Colégio Eleitoral; três de
seus deputados não seguiram as diretrizes do
partido e votaram em Tancredo Neves do PMDB.
A razão do boicote comando por Lula tinha razão
de ser. O PT assumiu como prioridade do partido
fazer uma campanha pelas eleições diretas para
presidente da República, o PMDB resolveu fazer
Fonte: Agência Brasil
a mesma reivindicação e fez um pequeno comício
na cidade de Goiânia.

A campanha foi das maiores mobilizações realizadas no país até então, era a campanha
pelo direito de votar em presidente da República nas eleições que ocorreriam no ano de 1985,
era a campanha “Direta Já” iniciada no ano de 1983, e assumida por vários partidos políticos,
entidades da sociedade civil; apoiada por personalidades do mundo artístico-intelectual. Em
novembro de 1983 foi realizado o primeiro grande comício em São Paulo e contou com o
apoio do PT, PMDB, PDT, CUT, Conclat entre outras organizações e sindicatos; o político do
PMDB, Ulysses Guimarães o “Senhor Diretas” era um dos grandes destaques desta campanha
pelas eleições diretas.
No inicio de 1984 um grande comício em Curitiba reuniu representantes políticos da
oposição, dos sindicatos e dos artistas, a partir deste dia a grande maioria da população
brasileira abraçou a causa das “Diretas Já”.O que empolgava nesta campanha era a liberdade
de expressão que havia sido reprimida por tantos anos, a população estava bastante
esperançosa em alcançar o objetivo que ecoava por todo o país: as eleições livres e diretas.
Porém a ala governista no congresso, com maioria dos votos para aprovar ou rejeitar emendas
constitucionais, não compactuava com a euforia vista nas ruas. A emenda constitucional,
conhecida como “Emenda Dante de Oliveira” foi rejeitada e a população teve que esperar até
1989 para eleger um presidente da república,

20
Mesmo com a rejeição, a emenda das Diretas Já foi essencial
para unir a população e vozes de diferentes opiniões políticas
por um ideal comum, a volta da democracia por meio das
eleições. As manifestações das Diretas concluíram o processo
de enfraquecimento da ditadura. Após a derrota da emenda,
as eleições indiretas pelo Colégio Eleitoral consagraram o
candidato da oposição, o civil Tancredo Neves em 1985. O
candidato apoiado pelos militares, o atual deputado federal
Paulo Maluf (PP-SP), foi derrotado. Tancredo acabou não
assumindo a Presidência, ele adoeceu e morreu sem tomar
posse. O vice de Tancredo, José Sarney, assumiu o cargo.
Foi no seu governo que as eleições voltaram a ser diretas
(período de transição democrática). Com a Constituição de
1988, conhecida como Constituição Cidadã, finalmente veio
o retorno da democracia.
[Link]
[Link]

21
Unidade: “Anos 80: A Redemocratização do Brasil”

Material Complementar

Vídeos:
Neste Link da Câmara dos Deputados, você terá acesso a uma História em Quadrinho, Depoimentos, Fotos e
Reportagens sobre o movimento “Diretas Já”,
Boa “Viagem”.
[Link]

Memória e Contexto: Diretas já - 1/3


Rede TVT
[Link]

Memória e Contexto: Diretas já - 2/3


Rede TVT
[Link]

Memória e Contexto: Diretas já - 3/3


Rede TVT
[Link]

30 anos das “Diretas Já” - Palavra Cruzada


[Link]

22
Referências

Básica:
FAUSTO, Boris. História Geral da Civilização Brasileira: O Brasil Republicano: Estrutura de
Poder. 6. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997.
NOVAIS, Fernando A. História da Vida Privada no Brasil: República: da Belle Époque a Era
do Radio. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
SKIDMORE, Thomas E. Brasil: De Castelo a Tancredo,1964-1985. 8. ed. Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 2004.

Complementar:
CARVALHO, L. M. Mulheres Que Foram à Luta Armada. São Paulo: Globo, 1998.
PAES, M. H. S. A Década de 60: Rebeldia, Contestação e Repressão Política. 4. ed. São
Paulo: Ática, 2004.
RAMOS, J. M. O. Cinema, Estado e Lutas Culturais: Anos 50, 60, 70. Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 1983.
RIDENTI, M. (Org.). História do Marxismo no Brasil: Partidos e Organizações dos Anos 20
Aos 60. Campinas: Unicamp, 2002.
SADER, E. S. Movimentos Sociais na Transição Democrática. São Paulo: Cortez, 1987.

Bibliografia Complementar da Unidade


Livros, Teses, Dissertações, Revistas, Sites, Arquivos, Artigos Anais.
COMPARATO, Fabio Konder. Compreensão Histórica do Regime Empresarial-Militar
Brasileiro, São Leopoldo (RS), Unisinos, Cadernos IHU Ideias, ano 12, n. 205, v. 12, 2014.
FAUSTO, Boris. História do Brasil. 10 ed. São Paulo: Edusp, 2002.
GOMES, Edgar da Silva. A perseguição à Imprensa Católica. in, Souza, Ney (Org.). Catolicismo
em São Paulo. São Paulo: Paulinas, 2004.
REIS, Daniel Aarão. A Vida Política. In, Modernização, Ditadura e Democracia 1964-2010. v.
5. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.
SOUZA, Ney. Comissão Justiça e Paz. in, Souza, Ney (Org.). Catolicismo em São Paulo. São
Paulo: Paulinas, [Link], Deops n. 50-D-26-5708-5710, Relatório Mensal de Informações
n. 3/78 CISA.
[Link]

23
[Link] [Link]
conteudos/FisiologiaAnimal/[Link]
[Link]
irreversivel-e-vitoriosa
[Link]
REJEITADA,-EMENDA-DAS-DIRETAS-FOI-ESSENCIAL-PARA-VOLTA-DA-DEMOCRACIA.
html
Anotações

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