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Psicopatologia e Transtorno Obsessivo-Compulsivo

A psicopatologia se desenvolveu como disciplina autônoma entre a psicologia e a psiquiatria, estudando desvios qualitativos e quantitativos da normalidade mental. Ao longo do tempo, a psicopatologia evoluiu de uma abordagem baseada em causas orgânicas para descrições sintomáticas, influenciada por avanços científicos e manuais como o DSM.

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Psicopatologia e Transtorno Obsessivo-Compulsivo

A psicopatologia se desenvolveu como disciplina autônoma entre a psicologia e a psiquiatria, estudando desvios qualitativos e quantitativos da normalidade mental. Ao longo do tempo, a psicopatologia evoluiu de uma abordagem baseada em causas orgânicas para descrições sintomáticas, influenciada por avanços científicos e manuais como o DSM.

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A psicopatologia se caracteriza como uma disciplina autônoma, situada na interlocução da psicologia

e da psiquiatria, na medida em que toma como objeto de estudo não apenas desvios quantitativos da
normalidade, mas também alterações qualitativas complexas da mente, que requerem um diálogo
com a medicina. A psicopatologia guarda diferenças significativas em relação à psiquiatria. A primeira
se encarrega de estudar a anormalidade das manifestações psíquicas, na forma de conceitos. Já a
psiquiatria, concerne à lida com o enfermo psíquico, ou seja, com o caso clínico concretamente,
realizando diagnósticos e encaminhando tratamentos, seja na forma medicamentosa, ou
psicoterapêutica.

Em síntese, o saber psicopatológico é o campo de investigação do sofrimento psíquico que se


expressa na interseção da prática da psicologia e da psiquiatria (Nobre de Melo, 1981). A
psicopatologia teve início com os trabalhos do médico alienista francês, discípulo de Philippe Pinel,
Jean E. D. Esquirol (1772-1840), considerado o fundador da disciplina (Paim, 1993). Antes dos
trabalhos de Pinel e Esquirol, a loucura era atribuída a causas hipotéticas, relacionadas a lesões
cerebrais (Pessotti, 2006). A partir da rigorosa observação do comportamento dos pacientes,
protagonizada por Esquirol (1838), a psicopatologia procurou classificar as sintomatologias das
chamadas doenças mentais em quadros nosológicos cada vez mais específicos, de acordo com suas
formas clínicas. São elas: a Idiotia, a Demência, a Mania e as Monomanias. Posteriormente,
concentrando suas pesquisas no mesmo modelo anatomopatológico da medicina em geral, a
psicopatologia novamente se encarregou de encontrar as causas das doenças mentais – causas essas
atribuídas a lesões orgânicas localizadas no cérebro, com base nos trabalhos dos chamados
freniatras. Com esses estudos, a psicopatologia caracterizou-se como uma disciplina científica de base
positivista e organicista. No entanto, ocorreu que, com exceção das doenças de origem infecciosa,
como a sífilis, não foi possível identificar as lesões cerebrais que se determinassem como causas da
maior parte das doenças mentais. Na ausência dessas comprovações, a psicopatologia voltou a se
caracterizar por suas descrições sintomatológicas. Como exemplo, Pessotti (2006) citou os trabalhos
de Kraepelin como sendo de natureza basicamente sintomatológica, a partir da qual esse estudioso
procurou e marcar as características clínicas das doenças. Ainda que Kraepelin (1921) mantivesse,
como foco, os quadros clínicos das doenças, acreditava que os sintomas eram expressões
provenientes de distúrbios cerebrais. A psicopatologia sofreu, ao longo de seu constante
desenvolvimento, diversas influências do campo científico, tanto da corrente positivista, como da
fenomenológica e da organicista. Aos poucos, porém, em virtude do espaço cada vez mais
sedimentado dos avanços tecnológicos expressos pela neurociência, foi se legitimando de forma cada
vez mais empírica e pragmática. No entanto, como ainda não foram totalmente comprovadas as
relações entre a lesão neurológica e a sintomatologia apresentada pelo paciente, predomina na
atuação psiquiátrica o enquadre das doenças mentais pela sintomatologia apresentada. Uma prova
da existência de tantos estudos e divulgação dos manuais que descrevem a sintomatologia dos
diferentes transtornos é a constante ampliação e modificação do Manual de diagnóstico e estatística
dos transtornos mentais (DSM). O fato é que o DSM é considerado, atualmente, referência oficial
para a consulta e diagnóstico de tais transtornos. O DSM, em suas primeiras versões, apresentava
tanto as descrições fenomenológicas influenciadas pelo trabalho de Karl Jaspers, como também uma
forte aproximação com a corrente psicanalítica em seu caráter interpretativo. A marca descritiva e a
interpretativa apareciam na designação nominal dos transtornos e em suas fundamentações. Na
quarta edição do DSM, houve um claro afastamento, tanto da dimensão compreensiva da
fenomenologia, quanto da dimensão interpretativa da psicanálise, ou de qualquer tentativa de
fundamentação teórica, passando a predominar a mera descrição sintomatológica e, portanto,
universal, das alterações psíquicas, enquadradas em diversas categorias diagnósticas. Na recém-
lançada quinta edição, mais categorias diagnósticas foram adicionadas. A transformação sofrida ao
longo das décadas de existência do DSM pode ser considerada uma tentativa de acolher, cada vez
mais, uma linguagem universal e não comprometida com interpretações teóricas. Um sistema
baseado em sintomas permite que todos os psiquiatras de diferentes orientações teóricas possam
reconhecer as características das desordens mentais. Entretanto, com a preocupação do DSM em
manter uma linguagem a teórica, ocorreu uma redução à catalogação de sintomas e aproximação,
cada vez mais marcante, com a fundamentação biológica, em razão dos avanços nas pesquisas
científicas. Estas caminham na direção das desregulagens neuronais como causas das desordens
mentais e, consequentemente, favorecem o império do tratamento farmacológico (Pessotti, 2006).
Conforme apontado, a tendência a naturalizar a loucura, reduzindo-a ao biológico, mais
especificamente a fatores genéticos, remonta de uma fase inicial dos estudos sobre o assunto. Desde
então, os sofrimentos psíquicos passaram a receber o estatuto de doença mental, configurando-se
como objetos de estudo do campo da psicopatologia. A fim de esclarecer o modo como essa
transformação da análise sobre as doenças mentais aconteceu, demonstrou-se, neste trabalho, como
os comportamentos e características físicas foram elencados, até o que atualmente se encontra nos
manuais de diagnósticos com a denominação de Transtorno obsessivo compulsivo (TOC).

Transtorno obsessivo-compulsivo: gênese e sintomatologia

As ideias obsessivas, – caracterizadas como invasivas e acompanhadas de Psicopatologia


Fenomenológica Contemporânea, 2017;6(1):52-71 comportamentos compulsivos, eram descritas, até
o século XVIII, como sendo de ordem das possessões demoníacas, marca da forte influência religiosa,
característica daquele período histórico (Gentil, Lotufo-Neto & Bernik, 1997). Com as transformações
das forças político-econômicas do ocidente, em torno do século XIX, pouco a pouco a loucura,
outrora associada a fenômenos religiosos, ou mesmo artísticos, foi adquirindo estatuto de doença,
passando a ser objeto de estudo e tratamentos médicos (Foucault, 1978). Com relação à obsessão,
Rudinesco e Plon (1998) afirmaram que o termo foi introduzido, pela primeira vez, por Jules Falret
(1824-1902), médico alienista francês, para designar o acometimento de ideias patológicas
indesejadas nos indivíduos. Segundo Black e Grant (2015), o transtorno obsessivo compulsivo, como
síndrome diagnóstica, foi descrito, inicialmente, na primeira metade do século XIX, por Esquirol, por
meio do conceito de monomanias. Em sua obra fundamental Des maladies mentales, publicada em
1838, Esquirol criou o conceito de monomanias para designar alterações focais do psiquismo na
esfera cognitiva ou volitiva. As monomanias, consideradas insanidades parciais, foram divididas em
três categorias: intelectuais, afetivas e instintivas. Esquiro (1838) descreveu como esses pacientes
ruminavam incessantemente um mesmo tema. Tavares (2000), ao pesquisar sobre os
comportamentos impulsivos, relatou que as monomanias instintivas podiam ser consideradas a
primeira tentativa de descrição nosológica dos comportamentos do espectro impulsivo-compulsivo,
uma vez que eram caracterizadas como uma irresistível tendência para ações patológicas, em que o
paciente sente um impulso que a razão e a vontade não são capazes de coibir. Posteriormente a
Esquirol, Kraepelin (1921), em 1915, reuniu síndromes, como cleptomania, oniomania e piromania,
sob o nome de impulsos mórbidos, caracterizadas pela impossibilidade do domínio de determinadas
ações, nas quais o paciente se vê impulsionado por motivos internos. Foi em 1905 que Freud
(1905/1996) introduziu o elemento psíquico na base de seus estudos sobre as psicopatologias. Em
Três ensaios sobre a sexualidade, introduziu, de forma mais consolidada, a noção de neurose
obsessiva. Tal noção, segundo ele, indicava a presença de ideias obsessivas, vivenciadas como
indesejáveis e acompanhadas de atos compulsivos. A neurose obsessiva estava correlacionada aos
mecanismos de defesa e à fixação em fases primitivas do desenvolvimento da sexualidade (Rudinesco
& Plon, 1998). Cabe lembrar que, devido à aproximação da psicopatologia com a psicanálise, o termo
neurose obsessivo, oriundo da teoria psicanalítica de Freud, foi utilizado por muito tempo nos
manuais de psicopatologia, para nomear o quadro hoje conhecido como Transtorno obsessivo
compulsivo. Essa breve exposição sobre como o Transtorno obsessivo-compulsivos se estabeleceu,
procurou demonstrar as primeiras tentativas de se formular um enquadramento conciso a respeito
desse comportamento. Conforme já mencionado, os manuais de diagnóstico de doenças mentais
foram, pouco a pouco, se afastando da preocupação em fundamentar tais doenças e, portanto, se
distanciando tanto da terminologia, quanto da fundamentação psicanalítica nas quais estiveram
apoiados inicialmente. Atualmente, no DSM V, as descrições dos comportamentos obsessivos e
compulsivos aparecem como alterações de algumas categorias diagnósticas distintas. São elas: o
próprio Transtorno obsessivo-compulsivo; os transtornos alimentares – especificamente a compulsão
alimentar ou bulimia nervosa; os transtornos relacionados ao uso de substâncias; os transtornos de
ansiedade; os transtornos depressivos e o transtorno de controle dos impulsos. Este último
apresenta-se desdobrado nas seguintes síndromes: transtorno explosivo intermitente, cleptomania,
piromania, jogo patológico, tricotilomania e transtorno de controle dos impulsos sem outras
especificações, que inclui, por exemplo, a compra compulsiva. É, no entanto, no próprio Transtorno
obsessivo compulsivo que a obsessão e a compulsão aparecem descritas no DSM, como que
caracterizando a peculiaridade de tal transtorno. Diferentemente do que ocorre nos demais
transtornos citados, em que o ato compulsivo aparece de forma isolada, ou seja, sem obsessão. É
importante ressaltar que, na atual e última versão do DSM, o TOC não faz mais parte dos transtornos
de ansiedade, como na versão anterior. Segundo Black e Grant (2015), a diferença fundamental para
o critério de diagnóstico do TOC, com relação aos comportamentos obsessivos e compulsivos é a
conjugação desses dois elementos, de forma a eliminar um sentimento tomado como negativo, tal
como o temor por contaminação, por exemplo. Neste caso, o ato de lavar as mãos repetidas vezes
ocorre para anular a ideia temerosa de sofrer uma contaminação. Ou seja, existindo pensamentos
obsessivos, os atos compulsivos acontecem como forma de reduzir a ansiedade provocada pela
invasão e persistência dessas ideias e tais comportamentos não visam gratificação, mas sim o alívio
do sofrimento. Os critérios de diagnóstico do TOC são, então, apontados no DSM V, em primeiro
lugar, pela presença de ambos os comportamentos: obsessões e compulsões, sendo que as obsessões
são descritas como pensamentos, impulsos ou imagens recorrentes e persistentes, que em algum
momento, durante a perturbação, são experimentados como intrusivos e indesejados e que, na
maioria dos indivíduos, causam acentuada ansiedade e consequente sofrimento. Já os
comportamentos compulsivos, são descritos no DSM V como comportamentos repetitivos ([Link]. lavar
as mãos, organizar, verificar), ou atos mentais ([Link]. orar, contar ou repetir palavras em silêncio) que
o indivíduo se sente compelido a executar, em resposta a um pensamento obsessivo, ou de acordo
com regras que devem ser rigidamente aplicadas. O segundo critério consiste em examinar se os atos
repetitivos tomam tempo ou causam sofrimento na vida do indivíduo. O terceiro critério diz respeito
à ausência de efeitos fisiológicos provocados pelo uso de certas substâncias, por exemplo. O quarto e
último critério se refere ao fato de que os comportamentos não estejam associados a outros
transtornos primários. No que tange aos encaminhamentos do tratamento psiquiátrico, o TOC, na
maioria das vezes, é tratado por meio farmacológico, principalmente antidepressivos e ansiolíticos,
com o objetivo de diminuir e administrar a ansiedade do paciente. Com os avanços da neurociência,
direcionada às descobertas do funcionamento cerebral, as medicações farmacológicas se apresentam
como meio para alterar a desregulagem identificada nas características das desordens cerebrais.
Associada à intervenção farmacológica, a terapia cognitivo-comportamental tem se apresentado
como via hegemônica de tratamento psicoterapêutico, que, com suas técnicas específicas, procura
alterar os pensamentos e comportamentos dos pacientes. A partir dessa exposição, pudemos
acompanhar como a psicopatologia trata, em suas investigações, a caracterização sintomatológica de
um dado comportamento, apontando para a sua anormalidade e denominação. Amparada no mesmo
modelo de sua disciplina mãe – a medicina – a tarefa da psiquiatria se dirige ao diagnóstico e à
prescrição. Sua fundamentação se encontra, de forma hegemônica, apoiada nos modelos
organicistas, sinalizando um retorno ao movimento de seu surgimento, há mais de um século,
quando a loucura passou a ser associada à noção de doença e fundamentada pelo organicismo. Em
psicopatologia, pode-se proceder a partir de um reducionismo das doenças mentais ao orgânico, ou
de uma preponderância do psíquico sobre o somático. Seja com uma ou outra dessas duas
estratégias de lida com a psicopatologia e com a prática psiquiátrica, mantém-se a noção de
consciência em uma ordem material, que se encontra em uma interioridade e contraposta ao mundo,
ou seja, ao exterior. Essa visão da doença mental é dicotômica, uma vez que polariza homem e
mundo. É mecanicista, já que a doença ocorre por mecanismos internos, pelos quais se dá o
funcionamento do indivíduo, e reducionista, na medida em que toda a doença mental fica
caracterizada pelo funcionamento do organismo. Este estudo mostra, também, por meio de uma
análise fenomenológica das vivências –um modo distinto daquele com que a psicopatologia, em seu
caráter disciplinar, vem apresentando a doença mental - a postura da psicopatologia e da psiquiatria
que pretende retomar a experiência em sua originalidade, ou seja, antes de qualquer redução ao
biológico. A psiquiatria com bases na fenomenologia de Husserl, tal como desenvolvida por
diferentes psiquiatras, dentre eles Ellenberger (1958), Minkowski (1968), Binswanger (1987) e
Gebsattel (1969), traçou um caminho diferente do que hoje se estabelece. Esses psiquiatras tiveram
uma formação na qual predominava a explicação biologizante para as doenças mentais, mas, na
tentativa de sair do modelo médico, viram na fenomenologia uma possibilidade de cogitar as
expressões bizarras do homem como existenciais, escapando da redução ao elemento orgânico.

A presença da fenomenologia na psicopatologia e na psiquiatria

Antes de iniciar a apresentação da apropriação da concepção fenomenológica da consciência


intencional pelos psiquiatras fenomenólogos, convém esclarecer sobre os dois grandes métodos que
são utilizados, quando se pretende pensar os transtornos psíquicos. São eles: o explicativo e o
compreensivo. Segundo Dilthey (2000), o primeiro se constitui em um recurso das ciências naturais; o
segundo, das ciências humanas. No método explicativo, a ênfase pode recair no biológico, buscando-
se a etiologia e os mecanismos fisiopatológicos. Se a base for da ordem do psíquico, a averiguação
ocorre nas experiências infantis como origem dos traumas atuais, ou, ainda, nos fatores ambientais
que condicionam o comportamento do indivíduo. No método compreensivo, recorre-se à
fenomenologia, com o propósito de buscar o sentido da vivência do homem transtornado. A proposta
fenomenológica, em psiquiatria, visa romper com o paradigma mecanicista, abarcando o homem em
sua totalidade e, rompendo com o dualismo, define o eu como algo da ordem de uma total e radical
indeterminação. A psiquiatria fenomenológica surgiu no início do século XX, como um movimento de
insatisfação com o modelo reducionista da psicopatologia tradicional, na qual os sofrimentos
existenciais eram associados à noção de doença orgânica e seu aporte era basicamente descritivo e
sintomatológico. Foi Jaspers (1913/1987), em sua grande obra que versa sobre o tema psicopatologia,
que introduziu na psiquiatria o método fenomenológico descritivo, que consiste em captar,
empaticamente, e apreender as experiências mórbidas daquele que sofre por diferentes transtornos
psíquicos. Ele propôs que, através das definições fenomenológicas e por meio da compreensão
subjetiva do médico, se procedesse à descrição das queixas daquele que sofre, mantendo-se fiel à
forma como tais descrições se apresentam, como expressão das experiências subjetivas. Por fim,
introduziu a importância de uma dimensão compreensiva na tarefa da psiquiatria, em complemento
à dimensão explicativa. A postura descritiva na psiquiatria destaca a relevância em se averiguar a
psicopatologia atendo-se às modificações na forma como se dá a comunicação do indivíduo. Afirmou
Jaspers (1913/1987) que nos processos psicopatológicos a comunicação do paciente se agrava e se
complica, impedindo que o sentido seja claro. Isso acontece no plano afetivo, intelectual e com a
própria linguística. Por isso, deve o psiquiatra ficar atento às possibilidades de comunicação com o
outro, de modo a poder observar as representações existenciais do paciente. A partir de então,
outros estudiosos do psiquismo assumiriam uma postura fenomenológica ante as expressões
humanas, Estas expressões passaram a ser compreendidas tomando a consciência como fluxo
temporal e espacial, logo, não mais substancializada nem interiorizada. Passou a importar, na lida do
psiquiatra com o paciente, o modo como este vivenciava o espaço e o tempo. Assim foi que
Ellenberger (1958), Minkowski (1968), Binswanger (1987), Gebsattel (1969), dentre outros, passaram
a compreender o modo bizarro do homem vivenciar o mundo. Ellenberger foi um persistente
estudioso do tema, trazendo a publicação dos estudos de psiquiatria fenomenológica. Minkowski
estudou e investigou o modo como aqueles que, acometidos por uma tristeza profunda,
experienciavam o tempo. Binswanger insistiu que o que caracterizava as manias e as melancolias era
a vivência do tempo e do espaço, mas foi Gebsattel (1969) o estudioso que mais se ateve àquilo que
denominou de vivência anancástica. No Brasil, a tentativa de trazer ao público a psicopatologia
fenomenológica, diferenciando-a das demais, já foi elaborada por outros estudiosos do tema. Feijoo
(1998) apresentou a possibilidade de acompanhar a vivência maníaca, por meio das diferentes etapas
da psicopatologia fenomenológica, tal como classificada por Ellenberger (1958). Moreira e Bloc
(2012) assinalaram essa diferença, mostrando como, no transtorno bipolar, o que estava em jogo era
a vivência do tempo. Leite e Moreira (2009) apresentaram uma interpretação da depressão mediante
uma perspectiva fenomenológica em Tellenbach e Tatossian. Santos (2013) teceu considerações sobre
a angústia e a culpa presentes no transtorno obsessivo-compulsivo. Para tanto, apoiou seus
argumentos em Kierkegaard, Heidegger e Merleau-Ponty. Neto e Messas (2016) mostraram a
diferença entre um diagnóstico de esquizofrenia pelo modelo operacional e pelo modelo
fenomenológico, esclarecendo que tal diferença afeta, também, o tratamento.

A vivência anancástica: método construtivo-genético

O termo anancástica foi introduzido por Donath, em 1896 (citado por Gebsatell, 1969), referindo-se
tanto às fobias, como às obsessões. Anancástica é uma palavra derivada do grego anankástica, em
que ananke significa força, obsessão e fatalidade. A vivência anancástica foi objeto de estudo de
Gebsattel, que procurou fazer uma investigação antropológica existencial do mundo dos compulsivos,
para alcançar o significado da vivência anancástica fracassada. A vivência anancástica fracassada
significa tomar a existência como se esta estivesse arrastada pelo destino, em seu caráter de
inevitabilidade e, portanto, pela impossibilidade de fugir de si próprio. Gebsattel (1969) denominou
esse transtorno primário de atitude anancástica fracassada e acreditava que essa vivência possuía
uma natureza fóbica. Gebsattel (1969) considerou que, para compreender a enfermidade psíquica, o
método descritivo de Jaspers era insuficiente, no que dizia respeito ao conhecimento das estruturas
subjetivas do paciente. Por isso, em seus estudos sobre psicopatologia, com base no método
construtivo-genético, passou a considerar a concordância ontológica dos sintomas biológicos e
anímicos. Assinalou a importância de se investigar, por meio de uma análise estrutural, as conexões e
inter-relações entre os dados observados e os estados de consciência, pressupondouma unidade
fundamental no estado de consciência do indivíduo, partindo em busca de um denominador comum,
ou seja, da gênese. Gebsattel, assim, passou a investigar a relação entre as perturbações biológicas e
psíquicas do doente, na sua clínica psiquiátrica, chegando àconclusão de que o transtorno básico é a
experiência do tempo presente em diferentes transtornos psicopatológicos, atendo-se ao estudo dos
comportamentos obsessivo-compulsivos. Em seus estudos sobre a psicopatologia da vivência
anancástica, Gebsattel concluiu que, para alcançar este diagnóstico, era necessária a presença da
tríade que compõe a espinha dorsal dessa vivência: obsessão, angústia e compulsão.A vivência da
obsessão se refere a um fenômeno alheio ao eu, em que este se comporta como espectador. A
experiência se torna perturbadora e o paciente atua no sentido de suprimi-la, daí caracterizar-se pela
luta, pela ruminação. A obsessão possui uma peculiar estrutura dialética que nunca acaba, suspende
se, mas inicia novamente. Trata-se de um transtorno da vontade, que, como tal, nasce no eu, mas
este eu não a domina. Não é que o sujeito não queira dominar sua obsessão, senão que ele não
pode. A angústia se mostra como temor angustiado, que se expressa pelo medo de que, uma

vez não cumprindo os rituais, algo aconteça. Gebsattel referiu-se à angústia em dois níveis diferentes:
angústia secundária e angústia primária.A angústia secundária é reativa. Primeiramente, o paciente
acredita que algo irá acontecer, ao deixar de realizar seus rituais e isso o obriga a realizá-los. A
angústia secundária se apresenta pela crença de que algo só acontecerá se os rituais falharem. A
angústia se transforma na experiência esmagadora, que inicia com pequenas coisas até formar uma
cadeia que aprisiona. Desse círculo vicioso entre a angústia primária e a secundária resulta a
dificuldade de parar, daí a compulsão por não poder finalizar, uma vez que permanece a dúvida e a
necessidade de assegurar-se. A incerteza sobre a realização exata do ato leva a pessoa àfragmentação
da ação, pois toda a atenção é dirigida aos movimentos, que necessitam ser controlados e
comprovados, em sua exatidão. Por isso, são tantas e tantas vezes repetidos. Qualquer desatenção ou
deslize destrói o efeito do ato, sendo obrigatório reiniciá-lo. A repetição pode se dar apenas pelo
pensamento, na forma de ruminações e de recapitulações.A compulsão se dá através da ação
fragmentada, pela necessidade de exatidão. Assim, ocorre uma luta incessante para alcançar a
perfeição dos atos, perfeição esta que escapa constantemente. Daí a perturbação, momento em que
a perfeição exterior não inclui, simultaneamente, o processo interior de devir, impedindo a sua
expansão no tempo, e a autorrealização do próprio [Link] Gebsattel (1969) que se trata de um
transtorno provocado pela necessidade de segurança, acentuado pela incerteza que paralisa,
seguindo-se, então, o fracasso, pela impossibilidade de confiar em si mesmo. Compreende-se,
portanto, a grande angústia que acomete o paciente e, ainda segundo Gebsattel, é esta angústia que
se transforma em um comportamento anancástico. A angústia, portanto, deixa transparecer um
transtorno mais básico: na perturbação do sujeito nas suas relações com o mundo, surge o fenômeno
fóbico.A angústia que se apresenta na síndrome anancástica se distingue da angústia nas fobias
puras.A dúvida presente no comportamento anancástico se compõe de dois elementos: dúvida e
ação. Esta vivência se estrutura a partir de uma dúvida e uma reação contra essadúvida basal, em
caráter permanente. Muitas vezes, essas pessoas se referem aos pensamentos que induzem à dúvida
e à consequente necessidade de verificaçã[Link] sendo, a vivência anancástica diz respeito ao que,
atualmente, os manuais denominam Transtorno obsessivo-compulsivo. A atitude anancástica se
fundamenta na tentativa da resolução acirrada daquilo que parece ilógico, mas, ao mesmo tempo,
precisa ser verificado. Parece mesmo que a dupla natureza implícita na síndrome obsessivo-
compulsiva é uma constatação da presença da dúvida, que se apresenta, ao mesmo tempo em que a
luta contra ela se pronuncia. Disse Gebsattel (1969) que aparecem em tensão elementos que se
referem à determinação e ao acaso; à temporalidade e à eternização; à liberdade e à
repressã[Link] (1969) aludiu à dupla natureza da atitude anancástica, pela presença de um
“psiquismo perturbado”, geralmente, pela fobia anancástica, que se expressa por atitudes de repúdio
e obsessão, pela angústia do nojo, ou pelo medo de contaminações e, ainda, pela angústia da culpa e
dos escrúpulos religiosos. A pessoa reage a essas ideias por meio de seu “psiquismo defensivo”, que
se dá por atos compulsivos. A vivência anancástica se expressa através de uma insegurança crônica,
de uma experiência de tempo sem devir e pela incapacidade de agir.A insegurança crônica pelo lado
pático e cognitivo-volitivo responde ao duplo aspecto da síndrome de coerção ao “psiquismo
perturbador” e ao “psiquismo defensivo”. Oindivíduo sente-se ameaçado por uma deformação que
anula sua pessoa. Ele se vê impulsionado a buscar um apoio que se encontraria na pureza absoluta,
na limpeza absoluta, na bondade absoluta, na exatidão, na veracidade, na justiça absoluta, que são
evocadas contra o poder deformador e desordenador, aparecendo na forma de pedantismo,
programação, puritanismo, rigor, fanatismo. Defendeu Gebsattel que, em termos de ação, esse
paciente faz o que não pretende fazer e não pode fazer o que pretende. Daí a denominação de
transtorno da capacidade de agir – construir. Essa dificuldade aparece quando o paciente quer
empreender algo novo, bem como completar o que iniciou, mas não consegue, na medida em que há
uma ruptura entre a ação e a realização. Ele avança para o futuro – pelo fluxo da vida – porém, não
executa objetivamente a ação. Por isso, depois de realizada a ação, a execução é posta em dúvida,
surgindo, então, a impossibilidade de confiar em [Link] vivência anancástica, há um bloqueio do devir
e uma tentativa de eternização do presente. É uma enfermidade da vivência temporal, em que o
existente tenta resolver o paradoxo do tempo. Sabe-se temporal, porém, quer-se eterno. Acredita
que, pelo seu caráter de controle, pode escolher a sua permanência temporal, mas, ao mesmo
tempo, por se perceber no fluxo temporal, tem consciência de sua temporalidade. Daí a tentativa
fracassada de fixar o tempo. Novamente, neste paradoxo, reside o malogro.A prática psiquiátrica em
uma base fenomenológica, tal como desenvolvida por Gebsattel, passou a ater-se, no que diz respeito
à vivência anancástica, ao modo como acomunicação se apresenta no discurso do paciente, ou seja,
minucioso e repetitivo, uma vez que o paciente precisa ter certeza de que todos os detalhes daquilo
que ele vivencia estão sendo fielmente repassados. Esta preocupação vem acompanhada de extrema
ansiedade, pela necessidade de exatidão. Na linguagem, o indivíduo mostra a confusão que envolve o
ato de pensar, que transparece na sua comunicação da experiência. O pensamento obsessivo se
evidencia com toda força e a dúvida se apresenta constantemente nas questões trazidas pelo
paciente. A pessoa acometida dessa vivência sabe o quanto é ilógica, mas não consegue deixar de
pensar. Devido à confusão proveniente da proliferação de ideias e pensamentos ocorre, muitas vezes,
a fuga de ideias. Outra situação que frequentemente aparece nos relatos desse paciente é a culpa –
culpa esta, muitas vezes, totalmente ilógica, mas que o deixa tenso e apreensivo. Infelizmente,
Gebsattel não se referiu a como se dava a sua intervenção clínica nessas situaçõ[Link] os
esclarecimentos das duas perspectivas em psicopatologia, ou seja, a disciplinar e a fenomenológica,
surgem outras questões: não estariam as duas perspectivas dizendo a mesma coisa? Em que elas
diferem?

Transtorno obsessivo-compulsivo e vivência anancástica: divergências e convergências

Tanto na perspectiva da psicopatologia como disciplina científica com base em um modelo


explicativo, quanto na perspectiva fenomenológica em um modelo compreensivo, o que está em
questão é o modo como ambas as perspectivas se apropriam da concepção deconsciência. Na
psicopatologia científica, a consciência é tomada como algo da ordem de uma interioridade e
substancializada, seja constituída por uma matriz biológica ou psíquica. Na psicopatologia
fenomenológica, a consciência é compreendida como transcendência e é apreendida como fluxo
temporal, portanto, não substancializada. Com relação ao denominado Transtorno obsessivo-
compulsivo, pode-se pensar que a perspectiva fenomenológica, em psicopatologia, se edifica a partir
de um posicionamento crítico à redução das experiências humanas ao aspecto biológico e,
consequentemente, ao modelo sintomatológico de compreensão do modo de ser do homem. Isso
ocorre justamente pelo fato da fenomenologia tratar das psicopatologias como algo que se dá na
vivência temporal e espacial, logo transcendente e não [Link], se a consciência é percebida
pela fenomenologia como uma síntese de vivências temporais que, como tais, ocorrem na
copertença homem-mundo, não há como considerar essas vivências por uma relação de causalidade,
não se pode afirmar que algo acontece primeiro, originando outro acontecimento. Este modo de
entender a consciência difere totalmente daquele que trabalha com a redução à interioridade –
espaço onde se desdobram as relações de causalidade -, colocando-a como posicionadora de mundo.
Daí é que surgem osmodelos dicotômicos de interpretação das situações do homem, tais como
interno/externo; orgânico/psíquico; biológico/social. Na compreensão fenomenológica da
consciência como fluxo espaço-temporal, é que se dá a cooriginalidade com o mundo e a experiência
passa a ser compreendida como uma unidade totalizadora. A chamada vivência anancástica,
fenomenologicamente compreendida, passa a ser apreendida a partir da unidade existencial entre
psíquico e biológico e, por isso,Gebsattel (1969) afirmou que é a vivência do tempo que contorna a
experiência obsessivo-compulsiva, deixando clara a tentativa de fundamentação do sofrimento que
não seja meramente descritiva, nem sintomatológica. É no devir existencial que a possibilidade dos
sofrimentos existenciais é entendida de modo mais fundamental. Constata-se, portanto, que a
principal contribuição do pensamento fenomenológicoaos estudos em psicopatologia é, justamente,
o empenho em se compreender a consciência para além de uma visão fragmentada entre homem e
mundo.A partir das breves exemplificações dos trabalhos dos autores citados, observou-se a
preocupação em não reduzir os sofrimentos existenciais a categorias aprioristicamente concedidas,
bem como em não recorrer a métodos explicativos, visando encontrar uma determinada causalidade
mecânica no processo dos ditos adoecimentos psíquicos. Constatamos, por outro lado, que os
estudiosos da psicopatologia fenomenológica,embora tenham considerado a unicidade homem-
mundo, não levaram em conta o horizonte histórico de constituição de sentidos. Ou seja,
consideraram o espaço e o tempo como determinações da consciência, mas não como algo que se
constitui de acordo com as determinações de um tempo historicamente constituí[Link]
(1913/1987) buscou, ainda, uma integração da fenomenologia compreensiva e descritiva com as
explicações determinísticas das doenças mentais. Gebsattel (1969), ao conceber os transtornos
psíquicos como alterações da dimensão temporal da existência,pareceu desconsiderar, ainda, o
caráter histórico-hermenêutico, isto é, as condições historiais nas quais o homem, desde sempre,
está lançado. Neste sentido, embora atribuindo os sofrimentos existenciais ao devir temporal próprio
da existência humana, assim como às alterações nas formas de estar no mundo, tais pensamentos
mostram-se ainda articulados às alterações presentes no próprio indivíduo, sem acenar para as
condições de possibilidades históricas. Ambas as concepções se mantêm na perspectiva da
subjetividade. Propõe-se, portanto, que outros estudos em psicopatologia retornem para antes das
perspectivas disciplinares e fenomenológicas, para que possam, então, se aproximar daquilo que, por
ser marca de nosso tempo, provocam as expressões compulsivas (Heidegger, 1954/2012). Para tanto,
é necessário apropriar-se do pensamento filosófico de Heidegger,pois, embora este tenha sido viés
de inspiração para muitos dos autores da psicopatologia fenomenológica, eles, aparentemente, têm
desconsiderado o existencial ser-no-mundo(Heidegger, 1927/2003)Faz-se pertinente apontar para
estudos que já pretenderam proferir considerações sobre o modo como as psicopatologias se
constituem historicamente com base no pensamento tardio de Heidegger. Dentre esses estudos, cita-
se Feijoo e Lessa (2015), que mostraram de que modo a fenomenologia e a hermenêutica podem
ampliar o leque de possibilidades de interpretação dos fenômenos humanos ditos psicopatológicos.

Considerações finais

Neste estudo, optou-se pela consciência como elemento de diferenciação de ambas as perspectivas
em psicopatologia. A importância de se marcar as duas posições em psicopatologia ocorre pelo fato
de que ao se apreciar diferentes modos de desenvolver uma questão, mais se torna possível libertar-
se de noções que se estabeleceram como verdades naturalmente [Link] relação ao fato de que,
tanto a psicopatologia disciplinar, quanto a fenomenológica estariam na mesma dinâmica, apenas
com roupagens diferentes, pôde-seconcluir que o modo como cada uma dessas perspectivas
compreende a consciência para construir suas teorias e práticas é marcante e decisivo, em termos de
encaminhamento e de tratamento das psicopatologias. Na primeira perspectiva, há redução da
compreensão dessas expressões do homem ao biológico e a um consequente quadro
sintomatológico, cujo tratamento acontece em termos de medicação e correção do comportamento.
Na segunda perspectiva, a preocupação centra-se em não deixar que se obscureça a dimensão
existencial Neste segundo entendimento, ou seja, fenomenológico, considera-se que a redução da
compreensão dessas expressões do homem ao biológico e, consequentemente a um quadro
sintomatológico, acaba por obscurecer a dimensão existencial da experiência humana, deixando que
o paciente se esqueça do seu caráter de liberdade. A conquista da dimensão existencial e a
consequente liberdade do homem é a proposta de uma clínica psicológica com bases
fenomenológicas.

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