Ondas e Marés: Fundamentos e Análise
Ondas e Marés: Fundamentos e Análise
Olga Sato∗
Departamento de Oceanografia Física, Química e Geológica
Instituto Oceanográfico - Universidade De São Paulo
São Paulo, SP
28 de agosto de 2023
Sumário
1 Introdução: As ondas no oceano 3
1.1 Ondas geradas pelo vento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8
1.2 Altura significativa da onda e inclinação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9
1.3 Equações básicas do movimento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13
2 A Equação da Onda 19
2.1 A onda senoidal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22
2.2 Exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26
6 Marés 121
6.1 Forças geradoras da maré . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 122
6.2 Teorias sobre as marés . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 125
6.2.1 Teoria de maré de equilíbrio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 126
6.2.2 Teorica dinâmica da maré . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 131
6.3 Equações do movimento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 135
6.4 Análise de Marés . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 138
6.4.1 Análise de Fourier . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 139
6.4.2 Análise Harmônica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 140
6.4.3 Método dos Mínimos Quadrados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 141
6.5 Exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 147
1 Introdução: As ondas no oceano
A oceanografia dinâmica pode ser definida como a parte da Oceanografia Física que se preocupa
com a descrição, entendimento e quantificação das respostas do oceano às suas forçantes externas.
Da mesma forma, também trata das forças internas que agem diretamente sobre o interior do oce-
ano ou daquelas que surgem devido à ação das forçantes externas. Em teoria, as forças que agem
sobre um elemento de volume podem ser classificadas como de linha, de superfície ou de corpo.
Aplicando–se a teoria sobre a superfície dos oceanos, as forçantes são basicamente meteorológicas
que podem ser classificadas em sua origem como provenientes do:
• Gradiente de pressão atmosférica;
• Tensão de cisalhamento do vento;
• Forças de empuxo devido à variação de densidade das camadas superiores causadas por
radiação, evaporação ou precipitação.
No fundo do oceano e nas margens continentais, a ocorrência localizada de perturbações sísmicas
intermitentes forçam essas regiões do oceano. Todo o fundo do oceano está sujeito à oscilações
de pequena escala e de baixa frequência devido à maré da terra sólida. De uma maneira geral, o
interior do oceano sofre a ação das forças de corpo devido à:
• Gravidade;
• Rotação;
• Maré;
• Forças não conservativas como a fricção turbulenta.
Por sua própria natureza, a ação da maioria dessas forças é dependente do tempo. Desta forma,
não é impróprio esperar que a resposta do oceano seja também em função do tempo. Além disso,
como essas forças cobrem uma larga gama de frequências, as respostas do oceano também serão
numa larga variedade de frequências. O espectro das frequências se estendem desde movimen-
tos ondulatórios associados à ondas capilares com períodos menores que 1 segundo, até ondas
planetárias de baixa frequência com períodos chegando até alguns anos.
A onda é a forma mais básica de todos os fenômenos físicos. As ondas são resultantes de uma
combinação entre forças restauradoras que tendem a trazer o sistema de volta ao seu estado inicial
de repouso e da inércia que o faz ultrapassar a posição que se encontrava quando em repouso. Uma
definição de ondas que seja simples porém genérica o suficiente para ser considerada útil pode ser
a seguinte: A onda é um sinal que se propaga, tipicamente se movendo numa taxa distinta ao
do movimento do meio, (Pedlosky 2003).
As ondas são o meio pelo qual uma informação é transmitida entre dois pontos no tempo e
no espaço, sem que ocorra a movimentação do meio entre esses dois pontos. A energia e a fase
da perturbação se propagam durante o movimento da onda, mas o deslocamento da matéria é
geralmente pequeno. Por motivo de simplificação, as ondas serão estudadas idealizando–se os
oceanos como um sistema linear e sem dissipação de energia mecânica.
3
Uma boa representação das ondas na superfície do oceano pode ser uma função senoidal
simples, conforme ilustrado na Figura 1.
Apresentamos aqui algumas definições importantes para o tratamento de uma onda senoi-
dal:
• Uma onda transfere uma perturbação entre uma região de um meio a outro (e.g., a perturba-
4
ção gerada por uma pedra jogada num lado do lago é transmitida para todo o lago em forma
de ondinhas.)
1. A progressão da onda;
2. O deslocamento das partículas (água) que descrevem um circular no plano vertical e paralela
à direção da onda em torno de uma posição de equilíbrio. Nesse caso, as partículas sentem
uma força que a fazem deslocar e uma força restauradora de volta à sua posição de repouso.
u
1.
c
Essa aproximação é equivalente à consideração que costumamos chamar de “linearização” da
descrição matemática de uma onda. Isso significa que quando estamos estudando algum tipo de
movimento, as perturbações são fracas e podem ser consideradas muito pequenas e portanto seu
efeito pode ser ignorado no movimento. Isso facilita seu tratamento matemático, pois podemos
eliminar termos complicados da equação. Em outras palavras, isso significa que os termos que
são expressos por produtos dessas perturbações, ou seja os termos não lineares e que são menores
ainda, podem ser desprezados nas equações que governam o movimento no fluido. Isto engloba
quase todos os fenômenos ondulatórios encontrados no oceano.
A consideração de um sistema não dissipativo implica que as ondas não são amortecidas
quando a duração da onda é muito maior que seu período. A maior parte das ondas no oceano
são suficientemente longas de forma que suas propriedades podem ser descritas pela teoria não–
dissipativa. Uma das grandes vantagens em se adotar um modelo de onda linear é que a maioria
dos modos da onda podem ser desacoplados e classificados e estudados independentemente.
5
No oceano real, as ondas interagem entre si, com o fluxo médio e com sua estrutura estrati-
ficada. As ondas crescem devido à ação das forças externas ou através de processos internos de
instabilidade, e elas decaem por causa do atrito turbulento ou molecular e difusão.
Existem cinco tipos de ondas oceânicas:
Esses cinco tipos de ondas geralmente ocorrem simultaneamente com as cinco forças restau-
radoras agindo também ao mesmo tempo, gerando outros tipos mais complexos de oscilações.
A importância relativa de cada força restauradora especificamente depende das propriedades do
meio, da geometria local e da frequência e comprimento de ondas das oscilações. Todos esses
tipos de ondas não são apenas produtos de combinações matemáticas teóricas, uma vez que elas
são comprovadamente existentes nos oceanos conforme mostram os dados observados em muitos
trabalhos encontrados na literatura.
As ondas mais conhecidas pelo público em geral e as mais extensivamente estudadas são as
ondas de gravidade curtas geradas pelo vento. Essas ondas são aquelas relacionadas com enjoo
em navio, erosão das praias e pela escavação natural dos rochedos formando maravilhosas paisa-
gens ao longo das costas. Existem outras ondas que, embora não sejam tão evidentes quanto essas,
têm um importante papel na dinâmica oceânica. Vamos descrevê-las analisando o seu espectro de
energia. O espectro de energia é uma forma de relacionar a potência de um determinado tipo de
onda em função de sua frequência ou período.
6
Figura 2: Ilustração esquemática do espectro de energia da variabilidade oceânica, mostrando os diferentes
tipos de ondas que ocorrem no oceano.
As ondas de superfície são aquelas que se propagam como oscilações na superfície livre do
oceano. Elas ocupam uma faixa bem larga de comprimentos de onda e frequências, conforme pode
ser observado na Figura 2. Nesta figura, da esquerda para direita, ou seja, de períodos mais curtos
para mais longos temos primeiramente as ondas capilares que são dominadas pelo efeito da tensão
superficial. Em seguida, temos uma faixa dominda pelas ondas de gravidade, primeiramente
aquelas geradas pela ação do vento, as ondas curtas com períodos de 1s e depois os marulhos
(swell) que são ondulações com períodos de 10s e geralmente são provenientes de regiões distantes.
As próximas são as ondas longas de gravidade que surgem em resposta à forçantes meteorológicas
e por terremotos. As marés são um outro tipo de onda forçada pela gravidade. Para períodos muito
longos, a ação da gravidade perde em importância relativa para o efeito diferencial da rotação da
Terra e as ondas de superfície se tornam ondas planetárias que se manifestam como sistemas de
correntes de larga–escala que ondulam muito lentamente.
Embora não estejam representadas na Figura 2, o interior do oceano também apresenta oscila-
ções como as que observamos na superfície do oceano. Observações no campo de temperatura e
salinidade de trabalhos encontrados na literatura indicam a atividade de ondas internas no oceano.
7
1.1 Ondas geradas pelo vento
Quando o vento sopra sobre a superfície do oceano, ondas de superfície são geradas por transfe-
rência de momento do vento, indo do ar para a água. Essa é uma das formas pelas quais ocorre a
interação entre o oceano e a atmosfera. Como discutido anteriormente, uma onda real no oceano
pode ser composta por diversas componentes de ondas com diferentes períodos e alturas. Dessa
forma, a medida de ondas no oceano não é uma tarefa fácil.
Para entender como as ondas se desenvolvem, devemos considerar quatro fatores:
1. A velocidade do vento;
3. Duração do vento;
4. Profundidade da água.
Ou seja, para uma determinada velocidade do vento, se a profundidade, pista e duração forem
suficientemente grandes, as ondas do mar alcançarão o que chamamos de um campo plenamente
desenvolvido. Isto significa que as ondas não conseguem crescer mais e a altura e o comprimento
da ondas alcançaram o seu potencial máximo. Esse estado poderá ser atingido quando o vento
soprar por um longo tempo, empiricamente isso deve ocorrer em ≈ 10000 períodos, numa área
bem grande, ≈ 5000 comprimentos de onda.
O gráfico na Figura 3 mostra o espectro de Pierson e Moskovitz (Pierson Jr and Moskowitz
1964) para um campo plenamente desenvolvido.
Figura 3: Espectro de energia da onda para um campo plenamente desenvolvido no mar sob a ação de
diferentes magnitudes da velocidade do vento, de acordo com Pierson e Moskovitz (1964).
8
O processo de geração de ondas pelo vento passa por pelo menos três estágios:
2. Em seguida, o vento age sobre essas ondas pequenas e por processos de interação fazem
com que elas cresçam. Isso ocorre porque a ação do vento sobre uma onda causa diferenças
de pressão ao longo do perfil da onda fazendo com que elas cresçam. Esse processo é um
processo instável pois quanto maior a onda, maior a diferença de pressão e mais rapidamente
a onda cresce. Essa instabilidade faz com que a onda cresça exponencialmente.
3. Finalmente, as ondas começam a interagir entre elas. A interação transfere a energia das
ondas mais curtas para ondas com frequências um pouco menores que as do pico do espectro.
Eventualmente, isso faz com que as ondas se propaguem até mais rapidamente que o próprio
vento que as gerou.
Figura 4: Altura significativa das ondas em escala global estimada através de dados de altímetros do AVISO.
Esse parâmetro é estimado através da análise da forma e da intensidade do sinal do radar refletido na su-
perfície do mar (eco do radar). Fonte: [Link]
data/aviso-significant-wave-height
9
Para muitas aplicações na pesquisa relacionada com ondas é necessário escolher uma altura que
onda que caracteriza um determinado estado do oceano. Para isso, foi definido o conceito de altura
significativa da onda, H1/3 , que era definida como a altura média das ondas da terça parte com as
maiores ondas que ocorrem numa determinada região para um determinado período. Atualmente
o conceito de altura significativa da onda é representada por 3 vezes o desvio padrão, ou seja 3σ.
Podemos encontrar um máximo na altura da onda nesses registros, Hmax . A previsão de Hmax para
um dado período é uma informação muito importante para o planejamento de estruturas como
barreiras, cais e plataformas de perfuração. A Figura 4 mostra uma previsão do campo de ondas
nos oceanos globais determinada a partir de dados de altímetros do AVISO.
Além da altura absoluta das ondas, um outro parâmetro que interessa principalmente para quem
navega é a inclinação da onda que pode ser estimada da relação entre altura e comprimento de onda
η/λ. A maioria das ondas geradas pelo vento tem uma inclinação da ordem de 0,03 a 0,06. Ondas
muito inclinadas apresentam problemas para os navios mas felizmente, é muito raro ter ondas com
inclinações maiores que 0,1. Em geral, a inclinação diminui conforme aumenta o comprimento de
onda.
10
Exercícios
1. A velocidade de fase da luz (onda eletromagnética) é 300.000 km/s. A frequência das trans-
missões de rádio na faixa de FM varia entre 87,5 MHz e 108 MHz. Qual é o de comprimento
de onda? Resp.: Entre 34,3 m e 2,8 m.
3. Considere duas ondas com a mesma amplitude mas com diferentes inclinações. Qual das
duas se propaga mais rapidamente? Justifique.
4. Um onda senoidal se propaga num meio. Se o tempo para um determinado ponto se mover de
sua posição de deslocamento máximo até zero é 0,17s, determine a) o período, b) frequência,
c) se o comprimento de onda é 1,4m, qual é a velocidade da onda?
8. O modelo linear de onda considera que cada partícula na onda se move muito aproximada-
mente com a velocidade de fase da onda na sua direção de propagação. Verdadeiro ou falso.
Explique.
Obs.: Diga explicitamente se a afirmação inteira é verdadeira ou falsa e explique coerente-
mente.
11
∂η
(e) Calcule ∂x .
10. Considere que a crista de uma onda com comprimento de onda L = 624 m e frequência
ω = 0, 05 s−1 se propaga e passa por um ponto fixo P.
(b) Qual a amplitude num segundo ponto, Q, que está 312 m de P no sentido de propagação
da onda:
i. quando a amplitude em P é zero?
12
1.3 Equações básicas do movimento
Estudos sobre a dinâmica do oceano geralmente são baseados em descrições matemáticas inde-
pendentes do tempo de movimentos de uma camada fina de líquido estratificado (com variação de
densidade) sobre a superfície da Terra em rotação. Esses movimentos são governados pelas leis
de conservação de massa e momento, uma equação do estado e leis da termodinâmica. A descri-
ção preferencialmente utilizada é a Euleriana em que a velocidade total ~u, pressão p, densidade
ρ, temperatura potencial θ e salinidade S são tratados em função do vetor posição ~r, medido no
sentido para fora em relação ao centro da Terra, e tempo t. As posições são referenciadas num
sistema de coordenadas cartesianas em rotação uniforme com a Terra com velocidade angular ~Ω,
cuja magnitude é dada por:
Ω = |~Ω| = 7, 29 · 10−5 rad/s.
A velocidade ~u nesse sistema de referencial em rotação está relacionada com a velocidade
inercial (não girante) u~in pela equação:
u~in = ~u + ~Ω ×~r.
Se R denota o raio médio da Terra, medido a partir do centro até a superfície livre do oceano
sem perturbação, e z denota a distância vertical do oceano parado, no sentido para cima, então:
r = |~r| = R + z. (1.1)
∂ρ ~
+ ∇ · (ρ~u) = 0, (1.2)
∂t
que é a forma diferencial da equação da conservação de massa. Essa mesma equação pode ser
reescrita como:
Dρ
+ ρ~∇ ·~u = 0, (1.3)
Dt
onde
D ∂
= +~u · ~∇
Dt ∂t
denota a derivada seguindo o movimento, ou seja, a variação total é composta pela variação local
mais a componente advectiva.
A conservação do momento é expressa por:
D~u
ρ + ρ 2 ~Ω ×~u = ρ[~g − ~Ω × (~Ω ×~r)] − ~∇p + ~F, (1.4)
Dt
onde:
13
• ~F representa a soma de todas as outras forças por unidade de volume que agem sobre o
fluido, incluindo as forças de maré, bem como as moleculares e as forças de fricção.
A magnitude da razão entre o termo da aceleração centrífuga, ρ~Ω × (~Ω ×~r) e a aceleração
da gravidade, ρ~g, é menor que 3 · 10−3 para todo o oceano e portanto o termo ρ~Ω × (~Ω ×~r)
será desprezado, e os efeitos da rotação no oceano se manisfestarão somente através do termo
de Coriolis, ρ2~Ω ×~u.
O termo D~u/Dt é definido como:
D~u ∂~u
= + (~u · ~∇)~u. (1.5)
Dt ∂t
Vale lembrar que o termo ~u · ~∇~u só é válido quando se utiliza o sistema de coordenadas cartesianas.
A forma vetorial que independe das coordenadas, e portanto válido para qualquer sistema é dado
por:
1
(~u · ~∇)~u = (~∇ ×~u) ×~u + ~∇(~u ·~u). (1.6)
2
A densidade da água do mar é dada pela equação de estado que tem a seguinte forma:
Esta relação é não–linear em p, θ e S e não tem uma forma analítica simples. A forma da equação
é estabelecida através de ajuste de polinômios para uma faixa restrita de valores de θ e S.
Para fechar o sistema de equações (1.3), (1.4) e (1.7) para as sete incógnitas do problema:
~u, p, ρ, θ, S (onde ~u tem três componentes), é necessário ainda mais duas equações, as de θ e S.
A conservação da energia interna é dada por:
D
(ρcv θ) = ~∇ · (kT ~∇θ) + QT , (1.8)
Dt
onde cv representa o calor específico a volume constante, kT é a condutividade térmica e QT repre-
senta todas as fontes e sorvedouros de calor do sistema. Em particular, QT inclui o aquecimento
devido à compressão e resfriamento devido à expansão do elemento de volume, o calor produzido
mecanicamente devido ao cisalhamento entre as camadas do oceano e todas as fontes de calor na
superfície como o aquecimento solar, resfriamento por evaporação, fluxo de calor sensível para a
atmosfera e a radiação de ondas longas para o espaço.
A conservação de sal pode ser expressa por uma equação análoga:
DS ~
= ∇ · (KS~∇S) + QS , (1.9)
Dt
onde KS denota o coefficiente de difusão molecular do sal e QS inclui todas as fontes e sorvedouros
de sal como por exemplo o derretimento e formação de gelo, precipitação e evaporação.
As ondas que podem se propagar no interior do oceano podem ser classificadas em duas ca-
tegorias: as ondas de alta frequência que surgem devido à pequena compressibilidade da água do
mar, e aquelas de mais baixa frequência, entre elas as ondas internas, inerciais e planetárias.
14
A propagação das ondas sonoras no oceano é governada por uma equação linear de onda com
velocidade de fase de c ≈ 1, 5 · 103 m/s. As ondas acústicas geralmente ocupam uma banda de
frequências entre 1 Hz e 100 kHz. Portanto, o período das ondas acústicas fica na faixa entre T =
1 a 10−5 s, e o comprimento de onda entre alguns quilômetros até 1 cm. Por outro lado, as ondas in-
ternas, inerciais e planetárias podem ter períodos variando desde minutos à meses, correspondendo
a comprimentos de onda variando desde dezenas de metros a centenas de quilômetros.
As curvas de dispersão, que são curvas que relacionam a distribuição das ondas no plano
período–comprimento de onda (veremos isso mais tarde), mostram que as ondas acústicas estão
muito separadas das outras ondas. Desta forma, somente uma interação muito pequena pode ser
esperada entre estas categorias de ondas.
Podemos então filtrar as ondas acústicas das equações que governam o movimento assumindo–
se um modelo de oceano incompressível. Assumiremos ainda que o oceano é um sistema não
difusivo, i.e., KT = 0 = KS , onde KT = kT /ρcv é a difusividade térmica. De acordo com essas
suposições, não há compressão nem difusão, e consequentemente a densidade não pode mudar ao
longo de seu caminho:
Dρ
= 0. (1.10)
Dt
Isso faz com que a equação da continuidade se reduza à:
~∇ ·~u = 0. (1.11)
15
onde ~n é o vetor normal ao contorno. Essa condição automaticamente garante que o fluxo de
propriedades conservativas como temperatura potencial e salinidade através do contorno é zero.
Condições de contorno material: Essas condições se aplicam para uma superfície não–sólida,
como a superfície livre ou a interface entre fluidos. Na superfície do oceano com perturbação,
z = η(x, y,t), deve haver continuidade nas forças e deslocamentos aplicadas sobre ela. Dessa con-
sideração, duas condições devem ser satisfeitas num contorno não–sólido:
2. Por definição, nenhuma partícula no fluido pode atravessar esse contorno e portanto uma
partícula no contorno, deve permanecer no contorno.
D
(z − η) = 0 → z = η. (1.14)
Dt
Como Dz/Dt = w, esta segunda condição pode ser escrita como:
Dη
w= → z = η, (1.15)
Dt
onde w é a componente vertical da velocidade.
16
Exercícios
1. Dê exemplos de forças de linha, de superfície e de corpo.
∂ρ ~
+ ∇ · (ρ~u) = 0.
∂t
Partindo dessa equação, mostre que uma outra forma de escrevê–la é:
Dρ
+ ρ~∇ ·~u = 0.
Dt
D~u
ρ = − ~∇p + µ∇2~u + ρ~g + ρ~Ω × (~Ω ×~r) − 2ρ~Ω ×~u (1.16)
Dt |{z} | {z } | {z } | {z }
2 3 5
|{z} 4
1
Responda:
• Por que pode-se desprezar o termo da aceleração advectiva no estudo das ondas? Des-
creva a simplificação considerada.
17
6. Escreva a equação de Euler para o movimento. Qual são as diferenças entre a equação de
Euler e de Navier–Stokes?
7. Partindo da equação da conservação de massa expressa na forma 1.2, chegue na equation 1.3.
9. Considere a superfície livre do oceano deformada pela passagem de ondas forçadas pelo
vento, cuja altura é z = η. Que condições de contorno devem ser respeitadas nessa superfí-
cie? Explique.
10. Qual a condição de contorno para um fluxo numa região bloqueada por uma parede sólida
orientada perpendicularmente ao eixo x. Expresse essa condição matematicamente e não só
em palavras.
18
2 A Equação da Onda
Na seção anterior assumimos que as ondas estudadas no oceano são idealizadas para um sistema
linear. O uso da teoria linear, para ondas de qualquer tipo, significa que consideramos as per-
turbações causadas pelas ondas pequenas, cujo produto pode ser desprezado nas equações
do movimento do fluido. Como visto nos cursos de Oceanografia Dinâmica, o produto dessas
pequenas quantidades ocorre por exemplo no termo de aceleração do elemento de fluido:
∂~u
+~u · ∇~u (2.1)
∂t
onde ~u é o vetor velocidade. Essa expressão é importante para aquelas situações onde a inércia é
importante, o que se aplica a praticamente todas os tipos de ondas no fluido. O termo linear ∂~u/∂t
representa a variação local de ~u num ponto fixo, enquanto que o termo não–linear ~u · ∇~u descreve
como a velocidade do elemento de fluido varia por causa da variação de sua posição no espaço.
Este termo é conhecido como a variação advectiva da velocidade e envolve o produto do gradiente
espacial de ~u com a componente de ~u. Este termo é desprezado na teoria linear.
Antes de entrarmos no mérito sobre que forçantes físicas geram quais tipos de ondas e que
termos são importantes nas equações que governam o movimento do fluido, vamos examinar algu-
mas feições básicas sobre o movimento ondulatório. Vamos primeiramente entender a equação da
onda.
Muitas equações de ondas não–dispersivas (veremos mais tarde o que isso significa) de pequena
amplitude e portanto descritas dentro da teoria linear, obedecem a seguinte equação:
∂2 η
= c2 ∇2 η, (2.2)
∂t 2
onde η é qualquer tipo de perturbação, por exemplo o deslocamento da superfície livre de um
líquido, variação da densidade num meio compressível, ou a vibração de uma corda ou membrana
e c é uma constante. Matematicamente, essa é uma equação diferencial parcial linear hiperbólica.
Ondas que se propagam somente na direção x podem ser descritas como:
∂2 η 2
2∂ η
= c . (2.3)
∂t 2 ∂x2
Uma solução geral pode ser escrita usando um método desenvolvido por D’Alembert, que é
dada pela seguinte equação:
η(x,t) = f (x − ct) + g(x + ct). (2.4)
onde f e g são funções arbitrárias.
Para entender como essa solução foi derivada, considere a posição de dois pontos localizados
no eixo-x que podem descritas da seguinte forma:
a ≡ x − ct b ≡ x + ct,
então:
a+b −a + b
x= t= .
2 2c
19
Calculando as derivadas parciais, temos:
∂x 1 ∂x 1 ∂t 1 ∂t 1
= , = , =− , = .
∂a 2 ∂b 2 ∂a 2c ∂b 2c
Vamos escrever explicitamente a derivada de η e utilizar as derivadas acima na expressão:
∂η ∂η ∂x ∂η ∂t 1 ∂η 1 ∂η
= + = −
∂a ∂x ∂a ∂t ∂a 2 ∂x c ∂t
e
∂η ∂η ∂x ∂η ∂t 1 ∂η 1 ∂η
= + = + .
∂b ∂x ∂b ∂t ∂b 2 ∂x c ∂t
∂η ∂η ∂η
= + ,
∂x ∂a ∂b
e
∂η ∂η ∂η
=c − + .
∂t ∂a ∂b
1 ∂2 η 1 ∂ ∂η
∂ ∂η ∂ ∂η ∂x ∂ ∂η ∂t
= + = − ,
∂a ∂x ∂x ∂x ∂a ∂t ∂x ∂a 2 ∂x2 c ∂t ∂x
1 ∂2 η 1 ∂ ∂η
∂ ∂η ∂ ∂η ∂x ∂ ∂η ∂t
= + = + .
∂b ∂x ∂x ∂x ∂b ∂t ∂x ∂b 2 ∂x2 c ∂t ∂x
Do lado direito, temos:
∂2 η ∂2 η
∂ ∂η ∂η
+ = +
∂a ∂a ∂b ∂a2 ∂a∂b
∂2 η ∂2 η
∂ ∂η ∂η
+ = +
∂b ∂a ∂b ∂b2 ∂a∂b
Ou seja:
1 ∂2 η 1 ∂ ∂η ∂2 η ∂2 η
− = + , (2.5)
2 ∂x2 c ∂t ∂x ∂a2 ∂a∂b
1 ∂2 η 1 ∂ ∂η ∂2 η ∂2 η
+ = + (2.6)
2 ∂x2 c ∂t ∂x ∂b2 ∂a∂b
∂2 η ∂2 η ∂2 η ∂2 η
= + 2 + (2.7)
∂x2 ∂a2 ∂a∂b ∂b2
20
Fazendo o mesmo procedimento analogamente para t, teremos como resultado:
∂2 η
2
∂2 η ∂2 η
2 ∂ η
= c −2 + (2.8)
∂t 2 ∂a2 ∂a∂b ∂b2
∂2 η
= 0. (2.9)
∂a∂b
A solução da equação (2.9) pode ser obtida a partir de argumentos baseados em uma inspeção
cuidadosa desta equação. Qualquer função de a e b cuja derivada cruzada é zero, na diferenciação
parcial de a, deve gerar uma função de a somente, de forma que na diferenciaça parcial em relação
à b, seja zero. O mesmo argumento é válido se começarmos com b.
A função mais genérica que obedece ao argumento anterior é:
Essa é a solução geral da equação de onda (2.3) que combina duas soluções. Vamos examinar a
primeira parte:
η = f (x − ct), (2.12)
onde f é uma função arbitrária representando um onda plana que se propaga na direção x. Essa
onda é longitudinal pois o seu campo de velocidade ~u = (u, v, w):
u = f 0 (x − ct), v = w = 0, (2.13)
21
Figura 6: Ilustração esquemática do deslocamente de uma perturbação em dois tempos distintos. Fonte:
Kundu (2002).
Como mostrada anteriormente, a equação (2.12) não é a única solução da equação de onda
(2.3) que depende de duas variáveis, x e t. A outra solução é:
que representa uma onda plana que se propaga na direção negativa de x. O seu campo de velocidade
satisfaz à:
u = g0 (x + ct), v = w = 0. (2.15)
A solução geral da equação da onda (2.3) é dada pela soma das equações (2.12) e (2.14):
A equação (2.16) é conhecida como a solução de d’Alembert, que teoriza que qualquer função da
combinação (x ± ct) é também solução da equação de onda. Isso pode ser verificado a partir da
substituição da equação (2.16) na equação (2.3).
Que informações são fornecidas pela solução da equação da onda (2.16)? Primeiramente, que
c deve ter uma dimensão. Qual? Se x tem unidades de comprimento (L) e t de tempo, T , para que
o argumento (x ± ct) faça sentido, c deve ter unidades de velocidade, LT −1 .
f e g podem ser qualquer tipo de função, mas como a equação (2.16) deve ser solução de
equação (2.3), ela deve ser duas vezes diferenciável em relação à x e t.
22
O argumento 2π(x − ct)/λ é a fase da onda. Os pontos da onda que têm os mesmos valores,
têm a fase constante, por exemplo, todos os pontos que caem sobre as cristas da onda. η varia entre
±a, a amplitude da onda. O parâmetro λ é conhecido como comprimento de onda pois o valor de
η em (2.17) é o mesmo para x = ±λ. Ao invés de λ é mais comum utilizarmos o número de onda
definido como:
2π
k≡ , (2.18)
λ
que é o número completo de ondas numa unidade de distância. Este parâmetro pode ser pensado
como uma ”frequência espacial” (rad/m). A equação (2.17) pode ser reescrita como:
O período T deve ser o tempo para que uma onda propague um comprimento de onda:
λ
T= . (2.20)
c
O número de oscilações num ponto por unidade de tempo é a frequência, dada por:
1
ν= . (2.21)
T
Claramente c = λν. E portanto:
ω = 2πν = kc (2.22)
é a frequência circular, também conhecida como a ”frequência radiana” pois é a taxa de mudança
de fase (em radianos) por unidade de tempo. A velocidade de propagação da onda está relacionada
com k e ω por:
ω
c= (2.23)
k
que é chamado de velocidade de fase pois é a taxa pela qual a fase da onda (crista ou cavado) se
propaga. Mais tarde veremos que a velocidade de fase da onda não é a velocidade de propagação
de um grupo de ondas.
Em termos de ω e k, a onda da equação (2.17) pode ser reescrita como:
Até agora consideramos somente ondas que se propagam na direção x. Para uma onda senoidal
tridimensional, podemos generalizar equação (2.24) como:
~ ·~x − ωt),
η = a sin (kx + ly + mz − ωt) = a sin(K (2.25)
~ = (k, l, m) é um vetor conhecido como o vetor número de onda cuja magnitude é dada por
onde K
K 2 = k2 + l 2 + m2 . É fácil de mostrar que o comprimento de onda em equação (2.25) é:
2π
λ= , (2.26)
K
23
Figura 7: Onda se propagando no plano xy. Na parte superior é mostrado como a contribuição das compo-
nentes da velocidade de fase nas duas direções são adicionadas para dar a resultante c, paralela à direção de
propagação da onda.
que está ilustrado na Figure 7 em duas dimensões. A magnitude da velocidade de fase é c = ω/K
~ Podemos então escrever a velocidade de fase como um vetor:
e a direção de propagação é K.
~
ω K
~c = , (2.27)
K K
~
onde K/K ~
representa o vetor unitário na direção K.
Da Figura 7 se torna também claro que a velocidade de fase, ou seja, a velocidade de propaga-
ção das linhas de fase constante, nas três direções cartesianas são:
ω ω ω
cx = , cy = , cz = . (2.28)
k l m
As equações acima mostram que cada uma das componentes da velocidade de fase, cx , cy , e cz é
maior que a resultante c = ω/K. Claramente, as componentes do vetor velocidade de fase ~c não
obedecem a regra da adição de vetores. O método para se obter ~c das componentes cx e cy é mos-
trado no topo da Figura 7. Essa peculiaridade na regra da adição da velocidade de fase se reflete
no fato que as linhas de fase parecem se propagar mais rapidamente nas direções x e y e não na
direção de propagação da onda. Observe que se a linha das cristas deve se propagar constante-
mente, a distância percorrida ao longo do eixo x e y é maior para um mesmo tempo, portanto a
velocidade de fase deve ser maior nas componentes do que em relação à direção de propagação da
onda. Veremos mais tarde que as componentes da velocidade de grupo ~cg , diferentemente do que
acontece com a velocidade de fase, obedecem à regra da adição de vetores.
24
Até o momento, assumimos a existência das ondas por si só, sem a presença de um fluxo
~ então a velocidade de fase
médio. Se sobrepusermos as ondas sobre um campo de fluxo médio U,
observada será:
~
~co =~c + U. (2.29)
~ e utilizando a equa-
Fazendo o produto escalar da equação acima pelo vetor número de onda K
ção (2.27), teremos:
~ =~c · K
~co · K ~ +U
~ · K.
~
Manipulando–a:
~ · K,
ωo = ω + U ~ (2.30)
onde ωo é a frequência observada num determinado ponto e ω é a frequência intrínseca medida
por um observador se movendo com o fluxo médio. Aqui se torna aparente que a frequência da
onda é modificada por uma quantidade U ~ ·K
~ devido ao fluxo médio. Essa variação é conhecida
como efeito Doppler, uma mudança na frequência da onda por causa do movimento relativo entre
o observador e a fonte da onda. A equação (2.30) fica mais fácil de entender se considerarmos uma
situação em que a frequência intrínseca ω é zero e que o fluxo médio tenha uma peridiocidade na
direção x de comprimento de onda 2π/k. Se este padrão senoidal é traduzido na direção x numa
~ então a frequência observada num ponto fixo será ωo = Uk.
velocidade U,
25
2.2 Exercícios
1. Explique com suas próprias palavras o que significa linearização de uma equação que go-
verna o movimento. Para que isso serve?
3. Mostre que y = ym sin(kx − ωt) pode ser escrita nessas outras formas alternativas:
4. A variação da superfície do oceano devido à passagem de uma onda pode ser expressa pela
seguinte equação:
η = Asin(k x − ω t),
onde k = 2π 2π
L e ω = T e L e T são o comprimento de onda e o período, respectivamente.
Assuma os seguintes valores: A = 0.3 m, L = 10 m e T = 10 s.
5. A maioria das ondas não–dispersivas de pequena amplitude obedecem uma equação diferen-
cial parcial do tipo hiperbólica descrita pela equação abaixo:
∂2 η
2
= c2 ∇2 η.
∂t
Reescreva essa equação de ondas se o movimento for unidimensional e na direção x. Expli-
que o que é c e qual a sua unidade através de análise dimensional.
26
6. Suponha que o campo da altura da superfície do mar η é descrito pela função:
η1 = A sin k (x − ct),
7. Mostre que o seguinte campo também é solução da equação de onda: η2 = A sin k (x + ct).
onde f e g são funções arbitrárias. Suponha que a forma inicial de onda é descrita como
ψ(x, 0) = e−x e que o perfil de velocidade inicial é:
∂ψ
(x, 0) = sin x.
∂t
Utilize estas condições para determinar a solução específica desta equação de onda, ou seja,
ψ(x,t).
27
3 Ondas de Gravidade de Superfície
Nesta parte do curso iremos discutir sobre ondas de gravidade que se propagam sobre a superfície
livre de um oceano com profundidade uniforme H. Essa profundidade pode ser grande ou pequena
em relação ao comprimento de onda λ dessas ondas, gerando assim soluções distintas para cada
caso.
Como já vimos discutindo desde o começo do curso, assumimos que a onda é uma pequena
perturbação sobre a superfície. Ou seja, a amplitude a da onda é pequena quando comparada com
λ e também comparada com a profundidade da camada de líquido no oceano. Ou seja, a/λ 1 e
a/H 1.
Essas condições são muito importantes para que possamos linearizar as equações do problema.
Outras suposições que devemos levar em consideração:
1. A frequência das ondas é maior que a frequência de Coriolis, e portanto as ondas não são
afetadas pela rotação da terra;
2. Efeitos de tensão superficial são desprezíveis (na água este efeito só é importante para com-
primentos de onda menores que 7 cm);
3. Assume–se que a viscosidade do fluido é pequena de forma que os efeitos viscosos estão
confinados em camadas limite e não afetam significantemente a propagação de ondas;
4. O movimento é gerado a partir do repouso, como por exemplo no caso da ação do vento ou
uma pedra caindo na superfície da água.
28
Figura 8: Esquema da onda de superfície no oceano de profundidade uniforme.
A coordenada vertical z é medida em relação à superfície livre sem perturbação e aponta para
cima. O deslocamento da superfície livre é η(x,t). Como o movimento é irrotacional, podemos
definir um potencial de velocidade φ como:
∂φ ∂φ
u≡ w≡ . (3.1)
∂x ∂z
Substituindo–os na equação da continuidade (1.11):
∂u ∂w
+ = 0, (3.2)
∂x ∂z
teremos a equação de Laplace:
∂2 φ ∂2 φ
+ = 0. (3.3)
∂x2 ∂z2
A equação de Laplace não tem uma solução oscilatória. É a condição de contorno na superfície,
onde a força restauradora age, que permite a solução com propagação de ondas. Vamos examinar
as condições de contorno.
As condições de contorno devem ser satisfeitas na superfície livre e no fundo do oceano. A
condição no fundo é que a velocidade normal deve ser nula, para que nao haja fluxo atravessando
o fundo do oceano, ou seja:
∂φ
w= = 0 → z = −H. (3.4)
∂z
Na superfície livre, a condição de contorno cinemática diz que uma partícula do fluido nunca
deve deixar a superfície, ou seja:
Dη
= wη → z = η, (3.5)
Dt
onde D/Dt = ∂/∂t + u(∂/∂x) e wη é a componente vertical do fluido na superfície. Podemos então
reescrever essa mesma condição da seguinte forma:
∂η ∂η ∂φ
+u = . (3.6)
∂t ∂x z=η ∂z z=η
29
Para ondas de pequena amplitude, ambas u e η são pequenas. Então, o termo quadrático
u(∂η/∂x) é uma ordem de magnitude menor que os outros termos da equação anterior. Podemos
simplificá–la para:
∂η ∂φ
= . (3.7)
∂t ∂z z=η
Podemos simplificar essa relação ainda mais argumentando que o lado direito da equação pode
ser determinada em z = 0 ao invés da superfície livre, uma vez que a altura da onda é pequena
conforme a suposição inicial do problema. Para obter essa simplificação, expandimos ∂φ/∂z em
série de Taylor.
1 1 (x − a) (x − a)2
= + + + ...
(1 − x) (1 − a) (1 − a)2 (1 − a)3
1 1
cos x = cos a − sin a(x − a) − cos a(x − a)2 + sin a(x − a)3 + ...
2 6
Agora é a sua vez. Expanda as funções sin x, ex e ln x.
Voltemos ao nosso caso da condição de contorno na superfície, equação 3.7, onde queremos
mostrar se podemos aproximar z = η para z = 0. Fazendo a expansão em série de Taylor em torno
de z = 0, teremos:
∂φ ∂φ ∂2 φ ∂φ
= + η 2 + ... ' . (3.8)
∂z z=η ∂z z=0 ∂z ∂z z=0
Em primeira ordem, ∂φ/∂z pode ser dado por:
∂η ∂φ
= → z = 0. (3.9)
∂t ∂z
Além da condição cinemática na superfície, existe ainda a condição dinâmica que diz que a
pressão logo abaixo da superfície livre deve ser igual à pressão ambiente, desprezando–se a tensão
superficial. Assumindo que a pressão ambiente é nula, a condição é:
p = 0 → z = η. (3.10)
Como feito anteriormente, essa condição será simplificada para o caso de ondas de pequena
30
amplitude. Como o movimento é irrotacional, a equação de Bernoulli é válida:
∂φ ρ 2
ρ + (u + w2 ) + p + ρgz = F(t). (3.11)
∂t |2 {z } |{z} |{z}
pressão pressão hi-
|{z}
pressão pressão devido
total drostática
devido à energia ciné-
à onda tica
A função F(t) pode ser absorvida em ∂φ/∂t redefinindo–se φ. Desprezando os termos não–lineares
(u2 + w2 ) para ondas de pequena amplitude, a forma linear da equação de Bernoulli se torna:
∂φ p
+ + gz = 0. (3.12)
∂t ρ
Substituindo–a na condição de contorno de superfície (3.10) temos:
∂φ
+ gη = 0 → z = η. (3.13)
∂t
Como anteriormente, para ondas de pequena amplitude, o termo ∂φ/∂t pode ser determinado para
z = 0 ao invés de z = η, dando:
∂φ
= −gη → z = 0. (3.14)
∂t
∂2 φ ∂2 φ
+ =0 (3.15)
∂x2 ∂z2
sujeita a seguintes condições de contorno:
∂φ
= 0 → z = −H, (3.16)
∂z
∂φ ∂η
= → z = 0, (3.17)
∂z ∂t
e
∂φ
= −gη → z = 0. (3.18)
∂t
Para resolver este problema, vamos assumir a solução mais simples que é da forma senoidal
com o número de onda k e frequência ω em que:
Uma motivação para se assumir ondas em formas senoidais é que na prática, pequenas per-
turbações na água tendem a tomar uma forma senoidal logo após a sua formação (a menos que a
31
camada de água seja muito rasa). Um segundo motivo, e mais conveniente, é que qualquer per-
turbação arbitrária pode ser decomposta em várias componentes senoidais através da análise de
Fourier, e a resposta do sistema para uma pequena perturbação arbitrária é a soma das respostas de
várias componentes senoidais.
Podemos observar que como η na equação (3.19) depende de (kx − ωt), as condições (3.17)
e (3.18) mostram que φ também deve ser função de seno de (kx − ωt). Para resolver essa equação,
consideramos uma solução obtida através de separação de variáveis da equação de Laplace, ou
seja:
φ = F(z) sin(kx − ωt), (3.20)
onde F(z) e ω(k) devem ser determinados.
Substituindo a equação (3.20) na equação de Laplace (3.3), temos:
d2F
− k2 F = 0 (3.21)
dz2
cuja solução geral é:
F(z) = A ekz + B e−kz . (3.22)
A potencial de velocidade incluindo F(z) explicitamente é então:
Antes de aplicarmos a condição (3.17) na forma linearizada, vamos explorar o que aconte-
ceria se aplicassemos em z = η. Da equação (3.23) temos:
∂φ
= k(A ekη − B −kη ) sin(kx − ωt), (3.25)
∂z z=η
Aqui podemos ver que ekη ' e−kη ' 1 se kη 1 é válido para pequenas inclinações da super-
fície livre. Isto é o que efetivamente estamos considerando quando aplicamos as condições de
contorno (3.17) e (3.18) para z = 0 ao invés de z = η, que foi justificado anteriormente através
da expansão em série de Taylor.
k (A − B) = aω. (3.26)
32
As funções hiperbólicas podem ser definidas como funções exponenciais que são mais
fáceis de serem manipuladas matematicamente:
aω cosh k (z + H)
φ= sin (kx − ωt), (3.27)
k sinh kH
e portanto as componentes da velocidade são:
cosh k (z + H)
u = aω cos (kx − ωt),
sinh kH
sinh k (z + H)
w = aω sin (kx − ωt), (3.28)
sinh kH
A equação de Laplace foi resolvida utilizando–se somente a condição cinemática. Este é um
procedimento típico para fluxos irrotacionais. A substituição das equaçãoes (3.19) e (3.27) na
condição (3.18) teremos:
p
ω = gk tanh kH. (3.29)
A relação expressa em (3.29), onde ω é função de k é conhecida como a relação de dispersão
pois expressa a natureza do processo dispersivo. O termo dispersão é proveniente da óptica que
significa que a luz pode ser separada em diferentes cores pois a velocidade da luz num meio
depende do comprimento de onda.
A velocidade de fase c = ω/k está relacionada com o tamanho da onda pela relação:
r r
g gλ 2πH
c = tanh kH = tanh (3.30)
k 2π λ
Esta relação mostra que a velocidade de propagação de uma componente da onda depende do
seu número de onda. As ondas cuja velocidade c é função do número de onda k são chamadas de
dispersivas pois as ondas com diferentes comprimentos se propagam com velocidades diferentes
e portanto se dispersam ou se separam. Isto significa que ondas de diferentes comprimentos de
onda, geradas na mesma região, irão se propagar com velocidades diferentes e se dispersar.
O efeito da dispersão no oceano pode ser observado quando ocorre uma tempestade em algum
local distante. Como as ondas mais longas (com k pequeno) se propagam mais rapidamente, essas
são as primeiras a chegar e podem até preceder as ondas de comprimento menor geradas pela
mesma tempestade em até 1 a 2 dias. O fato de que ondas de diferentes comprimentos se separam e
chegam em tempos diferentes explica por que os marulhos (“swell”) são tão regulares comparados
com as ondas produzidas localmente pelo vento.
33
3.3 Variação da pressão devido ao movimento da onda
É possível medir os parâmetros de uma onda através de sensores de pressão colocados no fundo
do oceano ou em alguma outra profundidade mais conveniente. Para tanto, seria necessário então
saber o quão fundo as flutuações no campo da pressão relacionadas com a passagem da onda
penetram na coluna d’água. Para determinarmos a pressão, recorreremos à equação linearizada de
Bernoulli:
∂φ p
+ + gz = 0. (3.31)
∂t ρ
A pressão pode ser decomposta em componentes hidrostástica e uma perturbação p0 , ou seja :
p = p0 − ρgz, (3.32)
p0 (x, −H,t) 1
0
= (3.36)
p (x, 0,t) cosh(kH)
Resposta: Comprimento de onda λ = 4200 m.
34
Figura 9: Órbita de uma partícula de fluido em torno de uma posição média centrada em (x0 , z0 ).
Na descrição Lagrangiana, podemos utilizar essa posição média como referência para identifi-
car a partícula e escrever ξ(x0 , z0 ,t) e ζ(x0 , z0 ,t). As componentes da velocidade para essa situação
é dada por:
∂ξ
u=
∂t
∂ζ
w= (3.37)
∂t
Para ondas de amplitude pequena, a variação da posição da partícula também deve ser pequena
e portanto a velocidade da partícula deve ser aproximadamente igual à velocidade do fluido em
torno de sua posição média (x0 , z0 ) para cada instante, e descrita pelas equações (3.28) aplicadas
em (3.37). Isto gera as seguintes relações:
∂ξ cosh k (z0 + H)
= aω cos (kx0 − ωt),
∂t sinh kH
∂ζ sinh k (z0 + H)
= aω sin (kx0 − ωt).
∂t sinh kH
Integrando–as no tempo obtemos o deslocamento:
cosh k (z0 + H)
ξ = −a sin (kx0 − ωt),
sinh kH
sinh k (z0 + H)
ζ=a cos (kx0 − ωt). (3.38)
sinh kH
35
Podemos eliminar (k x0 − ω t) utilizando a relação trigonométrica sin2 x + cos2 x = 1:
ξ2 ζ2
2 + = 1, (3.39)
sinh k(z0 + H) 2
cosh k(z0 + H)
a a
sinh kH sinh kH
Figura 10: Órbita das partícula na coluna d’água durante a passagem de uma onda no caso de um oceano
(a) profundo e (b) raso.
36
Exercício prático: Vamos verificar através de um exercício gráfico, a órbita de uma partí-
cula que obedece às equações de trajetórias anteriores. Abaixo segue um exemplo de programa
em Matlab ou Octave que estima o deslocamento da partícula em torno de sua posiçãoo ini-
cial, (x0, z0), e faz gráficos de sua variação no tempo e trajetória. Obviamente esse exercício
pode ser feito manualmente, mas a utilização de um programa facilitará muito a obtenção do
resultado final.
Simplesmente copie as linhas abaixo numa arquivo, utilizando um editor de texto (e.g.
gedite) (não use MSWord), e salve-o como orbita.m, por exemplo. Abra uma janela no Matlab
ou Octave e simplesmente digite orbita.
Teste o programa para diferentes valores de H, zo e λ. Algumas sugestões: use H = 2 ou
H = 2000. Varie os valores de z0 de acordo com o H escolhido.
% Este programa pode ser utilizado para determinar a trajetoria de uma particula
% na coluna d água em resposta à passagem de uma onda na superfície.
% O modelo é desenvolvido para um fluxo irrotacional e portanto parte da solução
% da equação de Laplace.
% O programa simula o deslocamento de uma partícula que está localizada num ponto
% (x0,z0) que se move para a posição em (x0+xi, z0+zeta) devido à passagem.
% de uma onda de gravidade de superfície.
% O objetivo deste exercicio é descobrir como as
% variáveis do oceano e da onda modificam a resposta das particulas
% na coluna em relação à passagem da onda na superfície.
%
% Vamos atribuir valores para algumas variáveis fixas do problema.
% Duas janelas serão abertas para mostrar a variação das componentes
% do deslocamento em função do tempo e a trajetória da partícula.
37
% Plotando as componentes zonal e meridional e a trajetória
subplot(3,1,1);plot(t,xi)
ylabel(’xi’)
hold on
subplot(3,1,2);plot(t,zeta)
ylabel(’zeta’)
xlabel(’tempo’)
hold on
subplot(3,1,3);plot(xi+x0,zeta+z0)
axis(’equal’,’tight’)
xlabel(’xi’)
ylabel(’zeta’)
hold on
38
3.5 Aproximação de águas profundas e águas rasas
A análise feita na seção anterior, sobre a órbita das partículas, é aplicável para qualquer magnitude
de λ em relação à profundidade da coluna d’água H. Simplificações interessantes podem ser
obtidas se utilizarmos as condições que consideram um oceano de águas rasas, H/λ 1, ou um
oceano de águas profundas, H/λ 1, em relação ao comprimento de onda da onda em questão.
A expressão para a velocidade de fase é dada pela equação 3.30:
s
gλ 2πH
c = tanh (3.40)
2π λ
Vamos agora ver como fica essa equação se utilizarmos as condições acima.
Primeiramente, vamos ver como são os gráficos das funções hiperbólicas, uma vez que tanh é
utilizada na expressão da relação de dispersão, Figure 11.
Através do gráfico, podemos notar que a função tanh x tende a 1, conforme se varia o valor
de x, ou seja tanh x → 1 para x → ∞. Podemos ver também que não precisamos avançar tanto no
39
valor de x para que essa função chegue no seu valor limite. Vamos fazer algumas estimativas dessa
função:
x tanh (x)
1.0 0.7616
1.5 0.9051
1.75 0.9414
2.0 0.9640
3.0 0.9951
4.0 0.9993
5.0 0.9999
Ou seja, podemos fazer a aproximação H/λ 1 na equação (3.30) e assumirmos que o termo
com a tanh é igual a 1 sem estarmos cometendo um erro muito grande nessa suposição. De fato,
se tomarmos x = 1.75, ou seja, 2πH/λ = 1.75, veremos que se H > 0.28λ, a aproximação para
águas profundas já é válida, com uma precisão de 3% no cálculo da velocidade de fase (compare a
velocidade de fase aproximada com aquela calculada exatamente usando a equação 3.30).
Ao fazermos a aproximação, considerando que tanh(kH) = 1, a velocidade de fase e a relação
de dispersão para este caso se tornam:
r r
gλ g
c ≈ = , (3.41)
2π k
e
p
ω = gk. (3.42)
O que essas equações expressam é que na aproximação de águas profundas, a velocidade de
fase de uma onda é função do seu comprimento de onda: quanto maior o comprimentode onda,
mais rápida a onda. As ondas nesse caso são classificadas como ondas de águas profundas. De-
vido à relação entre a profundidade e o comprimento de ondas, essas ondas também são conhecidas
como ondas curtas de gravidade.
Não existe uma definição categórica de quanto deve ser a razão entre profundidade e com-
primento de onda para ser considerada ondas de águas profundas. Para o nosso exemplo, se a
profundidade for maior que 28% do comprimento de onda, já podemos considerar a aproximação,
e estaremos cometendo um erro de 3% na medida. Pond and Pickard (1989) consideram para essa
aproximação, uma relação de H > λ/2 se permitir um erro de 5% na medida.
A equação (3.41) mostra ainda uma característica interessante sobre essas ondas: quanto mais
longas forem as ondas no oceano fundo mais rápido elas se propagam. Ou seja, são consideradas
dispersivas.
As relações entre o comprimento de onda e velocidade de fase na aproximação de águas pro-
fundas em função do período se torna muito útil na prática, pois podemos determinar os parâmetros
40
da onda em sua região de origem, ou seja em águas profundas, observando e medindo o período
das ondas que chegam na praia. Pode ser observado na prática que o período de uma onda T (ou a
frequência ω) não muda quando ela passa de uma região profunda para uma mais rasa, por exem-
plo quando se aproxima de uma praia. Ao observar ondas que chegam na praia, você verá que
muitas propriedades das ondas podem mudar: comprimento, altura, direção, velocidade - menos o
período (ou a frequência). Ou seja, T é independente da profundidade da água (e isso corresponde
ao que observamos na natureza), e portanto podemos escrever que:
cd c cr 1
= = = (3.43)
λd λ λr T
onde cd e cr são as velocidade de fase de ondas de gravidade de superfície em águas profundas e ra-
sas, respectivamente. Então, se substituirmos a parte referente às águas profundas na equação 3.43
em 3.41, temos:
g cd T g
c2d ≈ = cd , (3.44)
2π ω
que dividido por cd , dá:
g Tg
cd = = . (3.45)
ω 2π
Podemos concluir então que para águas profundas, a velocidade de fase é função do período ou da
frequência.
Exercício: Utilizando a aproximação de águas profundas, derive uma relação entre o com-
primento de onda λd em função do período T .
Solução: Partindo da equação 3.41, substituir cd = λd /T , o que dá:
2π λ2d
L≈ .
g T2
O período dominante das ondas de gravidade de superfície geradas pelo vento é de ≈ 10 s, que
a partir da relação de dispersão (3.29) podemos estimar que o comprimento de onda dominante de
≈ 150 m. A profundidade típica da plataforma continental é ≈ 100 m e no oceano aberto é ≈ 4 km.
Podemos constatar que as ondas dominantes no oceano, mesmo sobre a plataforma continental, se
comportam como ondas de águas profundas e não sentem o efeito do fundo do oceano até chegarem
perto da praia. Isto já não é verdade para ondas de gravidade geradas por marés ou terremotos, pois
elas têm comprimentos de onda de centenas de quilômetros.
Na seção anterior mostramos que a órbita das partículas em ondas de gravidade de pequena
amplitude descrevem elipses, equação (3.39). Para o caso da aproximação de águas profundas,
41
kH 1, os semi–eixos da elipse se tornam iguais a a ekz :
cosh k(z + H) sinh k(z + H)
' ' ekz
sinh kH sinh kH
(Para demonstrar essa relação, escreva as funções hiperbólicas em termos de exponenciais.)
Portanto, na aproximação para ondas de águas profundas, as órbitas podem ser descritas por:
Para águas profundas, a variação de pressão devido à presença de uma onda decai exponencial-
mente com a profundidade, chegando a 4% da magnitude de superfície numa profundidade de λ/2.
Um sensor colocado no fundo não consegue detectar as ondas de gravidade cujo comprimento de
onda for menor que duas vezes a profundidade da camada de água. Estes sensores agem como
“filtros de passa baixa”, mantendo as ondas mais longas e eliminando as mais curtas. Sensores
colocados no fundo podem ser utilizados para detectar tsunamis e marés, porém as ondas geradas
por vento ou marulhos não aparecerão nos registros.
Com o auxílio novamente da Figura 11, podemos ver que tanh (x) ' x quando x → 0. Para H/λ
1, temos que:
2πH 2πH
tanh ' .
λ λ
de forma que a velocidade de fase na equação (3.30) se simplifica para:
p
c = g H. (3.49)
42
Para que a aproximação tenha um precisão de pelo menos 3% no cálculo da velocidade de fase, se
H < 0.07λ.
As ondas de superfície neste caso são denominadas de ondas de águas rasas se a profundidade
do oceano for < 7% do comprimento de onda. Note que a definição de águas rasas é então pro-
veniente de uma relação entre a profundidade do oceano e o comprimento de onda da onda que
se propaga na superfície. Analogamente ao que foi proposto para as ondas de águas profundas,
as ondas de águas rasas são também conhecidas como ondas longas de gravidade. Não obstante,
a profundidade da água deve ser realmente rasa para que as ondas se comportem como ondas de
águas rasas. Isso é consistente com a discussão de que ondas de águas profundas não necessaria-
mente precisam se propagar em um oceano tão fundo para que o efeito do fundo não seja sentido.
Contrariamente com o que foi visto nas ondas de águas profundas, a velocidade de fase das on-
das de águas rasas, equação (3.49), é independente do comprimento de onda e aumenta com a
profundidade.
Para determinar a órbita das partículas das ondas de águas rasas, substituiremos as seguintes
aproximações na equação (3.38):
cosh k(z + H) ' 1
sinh k(z + h) ' k(z + H)
sinh kH ' kH
Desta forma, a variação na posição da partícula da equação (3.38) será:
a
ξ = − sin(kx − ωt)
kH
z
ζ = a 1+ cos(kx − ωt).
H
Essas equações representam elipses achatadas, Figura 10b, com o semi–eixo maior que é inde-
pendente da profundidade, a/kH, e o semi–eixo menor, a(1 + z/H), que decresce linearmente até
zero no fundo do oceano. As velocidades são dadas por:
∂ξ aω
u = = cos(kx − ωt)
∂t kH
∂ζ z
w = = aω 1 + sin(kx − ωt).
∂t H
onde podemos notar que a componente vertical é muito menor que a componente horizontal.
Essa é uma consequência muito importante da aproximação de águas rasas. As velocidades na
camada tendem a ser basicamente horizontais.
As variações da pressão a partir de um estado sem perturbação pode ser obtido da equa-
ção (3.35):
p0 = ρ g a cos(kx − ωt) = ρ g η, (3.50)
onde a equação (3.19) foi utilizada para expressar a pressão em termos de variação da altura da
superfície.
43
A equação 3.50 mostra que a variação da pressão é independente da profundidade e se iguala
à pressão hidrostática causada pela variação da altura da superfície devido à passagem da onda.
Ou seja, o campo de pressão para o caso de ondas de águas rasas é completamente hidrostático.
As acelerações verticais do fluxo na vertical são desprezíveis pois o campo das velocidades ver-
ticais é pequeno. Por essas razões, as ondas de águas rasas são também conhecidas como ondas
hidrostáticas. Sensores de pressão colocados no fundo do oceano conseguem detectar essas ondas.
3.6 Dispersão
A relação entre ω e k, ou equivalentemente entre comprimento de onda e período, é chamado de re-
lação de dispersão. Como vimos anteriormente, a sua dedução procede diretamente da solução das
equações do movimento, Seção 3.2. A relação de dispersão para ondas de gravidade de superfície
é:
p
ω = gk tanh kH. (3.51)
Para entender melhor essa equação, mostramos no gráfico abaixo como varia a velocidade de
fase em função da profundidade H para alguns comprimentos de onda, de 10 m até 1 km, Figura 12.
Do lado esquerdo do gráfico podemos observar uma variação linear, que corresponde à região do
√
campo de ondas onde a aproximação de águas rasas, c = gH, parece ser apropriada.
Figura 12: Velocidade de fase em função da profundidade para vários comprimentos de onda. Fonte: Pond
e Pickard (1983).
Vamos ver como varia a velocidade de uma onda cujo comprimento de onda é 200 m. Até
uma profundidade de 10 m, onde H = λ/20, a onda acompanha a linha reta inclinada, seguindo a
equação para águas rasas. A partir dessa profundidade, a velocidade se curva até atingir um valor
44
constante de c = 17.7m.s−1 em ≈ 100 m, ou seja, H = λ/2. Estes limites são aproximados mas
mostram que as aproximações são adequadas para determinar a relação de dispersão das ondas de
gravidade de superfície. Essas aproximações são feitas para simplificar a resolução matemática
das equações envolvidas, preservando o aspecto físico do problema.
Um ponto interessante a se notar a respeito das ondas de águas profundas, ou as ondas curtas,
é que sua velocidade de fase depende do comprimento de onda e portanto do período. Por este
motivo são chamadas de dispersivas. Este termo se refere à separação das ondas em relação à sua
posição ao longo da direção de propagação, e não separação na direção, embora isso possa ocorrer
também.
Para as ondas curtas, a velocidade das ondas mais longas é maior do que as mais curtas. Isto
pode ser claramente constatado na Figura 12. Consequentemente, se ondas de diferentes compri-
mentos de onda são geradas simultaneamente, as mais longas se propagarão na frente das mais
curtas e serão detectadas primeiro num ponto distante. Além disso, as ondas mais curtas tendem a
perder energia mais rápido por atrito devido à fricção e desaparecem antes que as mais longas. Por
isso, elas tendem a não se propagar grandes distâncias.
p = −g ρ z + p0 (3.54)
∂u ∂v ∂w
+ + = 0, (3.55)
∂x ∂y ∂z
∂u ∂p ∂v ∂p
ρ =− , ρ =− ,
∂t ∂x ∂t ∂y
e
∂w ∂p
ρ = − − ρg. (3.56)
∂t ∂z
45
Substituindo a equação da pressão para expressarmos em função da pressão da onda, temos:
∂u ∂p0 ∂v ∂p0
ρ =− , ρ =− ,
∂t ∂x ∂t ∂y
e
∂w ∂p0
ρ =− . (3.57)
∂t ∂z
A pressão no oceano satisfaz a equação hidrostática:
∂p
= −ρ g. (3.58)
∂z
Vamos mostrar que essa condição pode conduzir a simplificações no tratamento das equações
que resultam no mesmo que quando aplicamos o limite de k H → 0 nas soluções mais gerais das
ondas de gravidade de superfície que deduzimos anteriormente.
Para um fluido homogeneo, a equação (3.58) implica que as perturbações na pressão satisfazem
à:
∂p0
=0 (3.59)
∂z
e a condição de contorno na superfície:
p0 = ρ g η. (3.60)
∂u ∂η
= −g , (3.61)
∂t ∂x
e
∂v ∂η
= −g . (3.62)
∂t ∂y
Como podemos ver, a variação temporal das correntes não dependem da profundidade. Isto
simplifica a equação da continuidade que agora pode ser integrada em relação à profundidade,
utilizando as condições equação (3.16) e (3.17). O resultado é:
∂η ∂u ∂v
+H + =0 (3.63)
∂t ∂x ∂y
A quantidade (∂u/∂x + ∂v/∂y) é chamada de divergência horizontal pois mostra a divergência dos
termos horizontais da velocidade. Essa expressão mostra que a divergência horizontal, represen-
tada pela convergência (acúmulo) ou divergência (dispersão) de massa, deverá estar associada à
uma variação da altura da superfície, pois a massa do sistema deve ser conservada.
46
Figura 13: Fluxo de massa para uma coluna de fluido de área δxδy para quando as componentes
horizontais da velocidade u e v são independentes da profundidade.
∂ρu(H + η)
δxδy .
∂x
Fazendo o mesmo para os outros dois lados e igualando o fluxo líquido que entra no ele-
mento de volume (∂ρ(H + η)/∂t) (representado por uma variação da altura do elemento de
volume) com a taxa de variação total de massa ρ(H + η)δxδy temos:
Podemos reduzir a equação (3.63) para uma variável dependente η somente que pode ser obtida
usando as equações da continuidade e do momento. O resultado é:
∂2 η
∂ ∂η ∂ ∂η
= gH + gH . (3.66)
∂t 2 ∂x ∂x ∂y ∂y
47
No caso particular de profundidade constante, podemos ainda escrever:
∂2 η
2
∂2 η
2 ∂ η
=c + ≡ c2 ∇2 η (3.67)
∂t 2 ∂x2 ∂y2
onde c2 = g H que é exatamente a velocidade de fase deduzida para a aproximação de águas rasas,
equação (3.49). Esta equação mostra que a aproximação hidrostática conduz ao mesmo resultado
que a aproximação de ondas longas.
k1 − k2 k1 + k2
∆k = k =
2 2
e
ω1 − ω2 ω1 + ω2
∆ω = ω =
2 2
Então podemos escrever:
A equação (3.68) mostra uma combinação de ondas, uma onda de frequência maior (cos(kx −
ωt) cuja amplitude é modificada por um termo de frequência menor, (cos(∆kx − ∆ωt), Figura 14.
48
Figura 14: Elevação da superfície para um grupo de ondas composto por duas ondas senoidais simples.
Esta figura foi elaborada para t = 0 e ∆k/k = 1/20, e representa um ciclo completo do envelope
cos(∆kx − ∆ωt), cuja amplitude sai de zero, passa por uma região com uma soma de amplitudes
de η1 e η2 e volta novamente a zero num “comprimento do grupo” de π/∆k.
Podemos observar que para um tempo fixo, ao ir de zero até chegar ao próximo zero do en-
velope, ∆kx varia de π de forma que o que chamamos de “comprimento do grupo” é π/∆k. Da
mesma forma, se fizermos a análise para um ponto fixo, ∆ωt varia π entre dois zeros consecutivos
do envelope, e vemos que o “período do grupo” é π/∆ω.
Definimos uma velocidade de grupo, cg , que é a velocidade que o grupo de ondas se propaga,
baseado na relação “comprimento do grupo/período do grupo”, i.e., cg = ∆ω/∆k. No limite em
que ∆ω e ∆k → 0 a velocidade de grupo cg = dω/dk que pode ser estimada através da equação 3.29.
Calculando a derivada, podemos mostrar que:
c 2kH
cg = 1+ (3.69)
2 sinh 2kH
Se aplicarmos as simplificações feitas anteriormente para ondas longas (águas rasas) e curtas
(águas profundas) teremos:
49
máximo de energia irá de x1 até x2 na velocidade ditada pela velocidade de grupo. Esta é portanto
a velocidade que a energia se propaga também.
Por suas características, o vetor velocidade de grupo, c~g , apresenta informações mais impor-
tantes sobre a onda do que a velocidade de fase, ~c. A velocidade de grupo aponta a direção para
onde as ondas se propagam. No caso de ondas de gravidade de superfície, c~g e ~c vão para a mesma
direção. Porém para o caso de ondas internas e a maioria das ondas planetárias, elas apontam em
direções diferentes.
ρga2 ρgh2
E = = (3.70)
2 8
Para calcular a quantidade de energia associada a uma onda, devemos começar considerando
a energia potencial de uma onda progressiva nos moldes da equação (3.19). A energia potencial
de uma onda equivale ao trabalho necessário para deformar a superfície do mar para um perfil de
onda. A energia potencial depende somente da variação da superfície e não tem conexão com o
movimento da água que ocorre abaixo da superfície. Então, a energia potencial devido à onda deve
ser igual à diferença da energia potencial do sistema com a perturbação e o estado de repouco.
Como a energia potencial de um elemento de fluido por unidade de comprimento é ρgz dx dz, a
energia potencial de uma onda por unidade de área horizontal é:
Z λZ η Z λZ 0
ρg ρg
Ep = z dz dx − z dz dx,
λ 0 −H λ 0 −H
Z λZ η
ρg
Ep = z dz dx.
λ 0 0
Ou seja:
ρg λ 2
Z
Ep = η dx (3.71)
2λ 0
Essa é a energia potencial por unidade de área, considerando a área horizontal de uma onda de
comprimento λ e largura unitária na direção y. A densidade do fluido foi considerada constante.
Se introduzirmos a definição da onda conforme a equação (3.19) na equação (3.71) e sabendo
que λ = 2π/k, temos:
ρ g a2 2π/k 2
Z
Ep = cos (kx − ω t)k dx. (3.72)
4π 0
50
Para resolver a integral de cos2 x, usar a identidade trigonométrica:
1
cos2 α = (1 + cos2α).
2
Então, teremos: Z 2π/k
1
Z
2
cos kx dx = (1 + cos 2kx) dx
0 2
Z 2π/k 2π/k
2 1 1 π
cos kx dx = x + sin 2kx = .
0 2 2k 0 k
Substituindo na equação (3.72), teremos:
ρ g a2
Ep = . (3.73)
4
A determinação da energia cinética pode ser mais facilmente feita para o caso de ondas em
águas profundas. Por definição, a energia cinética depende do quadrado da velocidade (V):
1 2 ρ 2
ρV = (u + w2 ).
2 2
Desta forma, a energia cinética por unidade de área é dada por:
1
Z λZ η
ρ
Ec = (u2 + w2 ) dx dz. (3.74)
λ 0 −H 2
As velocidades na aproximação de águas profundas são descritas pelas equações (3.46) e
(3.47). Substituindo e fatorando teremos:
1
Z λZ η
ρ 2 2 2kz
Ec = a ω e [cos2 (kx − ω t) + sin2 (kx − ω t)] dx dz.
λ 0 −H 2
como sin2 α + cos2 α ≡ 1 e ainda considerando que a densidade é constante, temos o seguinte:
ρ a2 ω2 k
Z 2π/k Z η
Ec = e2kz dx dz.
4π 0 −H
Integrando:
ρ a2 ω2 2kη
Ec = (e − e−2kH ).
4k
No limite de águas profundas, H → ∞, e−2kH → 0 e Ec se torna:
ρ g a2 2kη
Ec = e .
4
51
Utilizando a suposição de oscilações de pequena amplitude, 2kη 1, então, e2kη ≈ 1 e finalmente
temos:
ρ g a2
Ec = . (3.75)
4
A determinação da energia cinética para águas intermediárias e rasas pode ser feita através deste
método. Porém, as integrais serão mais complicadas.
A energia total de uma onda será a soma das componentes potencial e cinética que será obtida
através da adição das equações (3.73) e (3.75):
ρ g a2
E = E p + Ec = (3.76)
2
Podemos observar que a energia da onda é igualmente dividida entre energia cinética e po-
tencial. Isso mostra que o princípio de equipartição de energia é válida em sistemas dinâmicos
conservativos que são sujeitas à oscilações de pequena magnitude e sem a influência da rotação da
terra.
Como numa onda senoidal a amplitude é a metade da altura total da onda (h), temos então:
1
E = ρ g h2 [J.m−2 ] (3.77)
8
Figura 15: Esquema de refração de onda de gravidade de superfície na aproximação de águas rasas ao
se aproximar da costa através de uma praia inclinada. As linhas unindo as cristas das ondas tendem a se
aproximar pararelas à costa.
Vamos assumir que as ondas se propagam em direção à costa, vindo de uma região de oceano
profundo, originalmente com as cristas inclinadas em relação à linha da costa. Ao chegarem mais
52
próximas à costa, as ondas começam a sentir o efeito do fundo e ao atingirem uma profundidade
apropriada, elas se tornam ondas de águas rasas. A frequência dessas ondas não mudam ao longo
√
do seu caminho, porém a velocidade de propagação, c = gH e o comprimento de onda, λ, se
tornam menores. Consequentemente, as linhas das cristas que são perpendiculares em relação à
direção local de c tendem a se tornar paralelas à costa. Este é o motivo pelo qual as ondas que
chegam em direção à praia sempre parecem que suas cristas estão alinhadas com a linha da costa.
Um exemplo interessante de refração de onda ocorre quando uma onda de águas profundas cu-
jas cristas sejam alinhadas se aproximam a uma ilha, Figura 16. Assume–se que as águas profundas
se tornam mais rasas próximo à ilha, e os contornos de profundidade são círculos concêntricos ao
redor da ilha. A Figura 16 mostra que as ondas sempre chegam em direção à ilha, mesmo na região
de “sombra” marcada com a letra A.
Figura 16: Refração de onda de gravidade de superfície ao se aproximar de uma ilha. As linhas das cristas
são mostradas como linhas contínuas. As linhas sempre “chegam” em direção à ilha, mesmo no ponto A.
Fonte: Kundu (2002).
53
3.11 Exercícios:
1. Determine a velocidade de fase de uma onda de gravidade de superfície se a profundidade
do oceano for maior que a metade do seu comprimento de onda.
(a) Se o período de uma onda for 15 s, com que velocidade ela se propaga em águas
profundas?
(b) Qual a velocidade de uma onda cujo comprimento de onda é 400 m que se propaga em
águas profundas?
(c) Qual a velocidade das ondas dos itens anteriores se elas estivessem em uma região com
15 m de profundidade?
5. Durante a aula, utilizamos um gráfico animado para mostrar a propagação de duas ondas
superpostas:
a(x,t) = A cos(k1 x − ω1t) + A cos(k2 x − ω2t) (3.78)
Na animação pudemos observar que quando utilizamos os valores k1 = 1, 9 m−1 , k2 =
2, 1 m−1 , ω1 = 2, 1 s−1 e ω2 = 1, 9 s−1 , as ondas com comprimento menor se propagam
para a direita, enquanto que o envelope de ondas se move em direção oposta. Deduza a
expressão e determine o valor numérico das seguintes variáveis:
54
(d) cg : a velocidade do envelope de ondas.
(c) Derive a forma linearizada das condições de contorno que esta perturbação deve obe-
decer na superfície, z = 0, e no fundo, z = −H.
(d) Uma perturbação pode se manifestar na forma de uma onda progressiva ou uma onda
estacionária. A onda progressiva pode ser expressa pela seguinte equação:
η = ηo cos(kx + ly − ω t)
∂2 R(z)
− K 2 R(z) = 0
∂z2
onde K 2 = k2 + l 2 .
(e) Resolva a equação de Laplace do item anterior e mostre que a função R(z) deve ser na
forma de soma de funções exponenciais ou hiperbólicas.
(f) Utilize a condição de contorno em z = −H, mostre que ∂p0 /∂z = 0 nesta profundidade,
e determine uma das constantes da solução de R(z).
55
(g) Utilize uma das condição de contorno em z = 0 e mostre que a solução de p0 é:
7. Considere uma onda de gravidade que se propaga na superfície livre do oceano na direção
negativa de x, ou seja, para a esquerda, cuja altura é definida pela seguinte equação:
cosh k (z + H)
u = −aω cos (kx + ωt),
sinh kH
sinh k (z + H)
w = −aω sin (kx + ωt).
sinh kH
Dη
= wη para z = η.
Dt
Assuma as suposições necessárias para linearizarmos essa condição e mostre que podemos
simplificá-la para a seguinte expressão:
∂η ∂φ
= para z = 0.
∂t ∂z
9. Um velho lobo do mar reconta as aventuras dos seus áureos tempos de navegação. Segundo
ele, numa noite de tempestade no meio do Atlântico, observou uma onda com comprimento
de onda de uns poucos metros passar por seu navio de 51 m de comprimento em menos de
3 s. Você acreditaria na história dele? Justifique a sua resposta com argumentos baseados
em conceitos aprendidos no curso. Considere todas as possibilidades.
56
10. Uma partícula no estado de repouso encontra-se no ponto (x0 , z0 ). Durante a passagem de
uma onda que se propaga no sentido de x positivo, a posição dessa partícula é sujeita a uma
variação de forma que a coordenada do ponto passa a ser (x0 + ξ, z0 + ζ), onde ξ e ζ são
dados por:
cosh[k(z0 + H)]
ξ = −a sin(kx0 − ωt)
sinh(kH)
sinh[k(z0 + H)]
ζ=a cos(kx0 − ωt)
sinh(kH)
(b) A partir das equações para ξ e ζ obtidas no item a, escreva a equação do movimento
das partículas sob a aproximação de águas rasas. Qual a forma da órbita das partículas?
Qual dos semi-eixos é dependente da profundidade? Como é a variação deste entre a
superfície e o fundo? (Sugestão: construa o gráfico do movimento das partículas a
partir do exercício 4 da seção 3.4 da apostila para z0 = 0, z0 = −H/2 e z0 = −H.)
(c) A partir das equações para ξ e ζ obtidas no item a, escreva as equações para as veloci-
dades zonal e vertical sabendo que:
∂ξ ∂ζ
u= e w= .
∂t ∂t
Qual das velocidades (u ou w) é maior? Qual a consequência dessa diferença?
cosh[k(z0 + H)]
p0 = ρga cos(kx − ωt).
cosh(kH)
A partir dos gráficos obtidos no item a, reescreva a equação para p0 sob a aproximação
de águas rasas. Existe dependência da perturbação da pressão com a profundidade?
Qual a implicância física disso?
11. Mostre que para ondas de gravidade de superfície para um oceano homogêneo, invíscido e
sem rotação, a energia das ondas obedece ao princípio de equipartição de energia, para 1
comprimento de onda.
57
4 Ondas Internas
Até aqui desenvolvemos a teoria sobre ondas que se propagam sobre a superfície livre de um fluido.
Essas ondas são as que ocorrem na interface entre o oceano e a atmosfera. Mas as ondas também
podem se desenvolver em superfície de interface entre dois líquidos imiscíveis de diferentes den-
sidades ou mesmo entre camadas como aquelas observadas no interior do oceano. Estas ondas são
conhecidas como ondas internas porque a diferença na densidade é justamente o que impulsiona
uma força restauradora baseada na gravidade ou pressão hidrostática (causada pela gravidade), se
o fluido for deslocado verticalmente. Regiões onde apresentam grandes gradientes de densidade
no oceano podem ser por exemplo:
Figura 17: Imagem de ondas internas no oceano medidas em quatro frequências acústicas. Fonte: Contri-
butions of the turbulence field and zooplankton to acoustic backscattering by an internal wave, Stanton et al.
([Link]
58
Para entender a propagação de ondas internas, vamos partir de situações idealizadas e mais
simples para depois passarmos para o caso mais complexo como o de um fluido continuamente
estratificado. Primeiramente, vamos considerar os casos de ondas na interface de dois fluidos
homogêneos, ou seja, um fluido menos denso ρ1 sobre um fluido de densidade maior ρ2 , Figura 18.
u1, w1, φ1
u2, w2, φ2
Figura 18: Esquema ilustrativo de ondas internas se propagando na interface entre dois líquidos com
profundidade infinita. Fonte: Kundu (2002).
Obviamente, pela similaridade com o caso de ondas de superfície, podemos inferir neste ponto
que os movimentos não ficam limitados somente na interface mas podem se estender através da
água, para cima e para baixo. No caso anterior de ondas de gravidade de superfície, a densidade
do ar era tão pequena comparada com a da água que ela pode ser ignorada. Por isso a densidade
do ar não aparece nas equações das ondas que estudamos até o momento. Já para o caso das ondas
internas, a densidade dos dois fluidos considerados são aproximadamente iguais.
59
ela será:
ζ = ℜa ei(kx−ωt) ,
√
onde ℜ significa “a parte real de” e i = −1. Comumente omitimos o símbolo ℜ e escrevemos
simplesmente:
ζ = a ei(kx−ωt) . (4.1)
Devemos então lembrar que estamos utilizamos somente a parte real da equação. Estaremos “car-
regando” uma parte imaginária juntamente com a equações do problema que não tem significado
físico nenhum. A grande vantagem desta notação é que simplifica muito a solução das equações,
uma vez que a diferenciação de exponenciais é muito mais fácil do que a de funções trigonométri-
cas.
No presente caso, teremos que resolver as equações de Laplace, equação 3.3, para ambas as
camadas, que devem respeitar as condições de continuidade de p e w na interface. As equações
são:
∂2 φ1 ∂2 φ1
+ 2 = 0.
∂x2 ∂z
∂2 φ2 ∂2 φ2
+ 2 = 0, (4.2)
∂x2 ∂z
que devem obedecer as seguintes condições de contorno:
φ1 → 0 z→∞ (4.3)
φ2 → 0 z → −∞ (4.4)
∂φ1 ∂φ2 ∂ζ
= = z=0 (4.5)
∂z ∂z ∂t
∂φ1 ∂φ2
ρ1 + ρ1 gζ = ρ2 + ρ2 gζ z = 0 (4.6)
∂t ∂t
A equação 4.5 considera que a velocidade vertical em ambos os lados do fluido é devido à variação
da profundidade da interface. A equação 4.6 considera que a pressão deve obedecer a continuidade
através da interface, logo a relação é obtida pela equação de Bernoulli.
Como foi feita para as ondas de superfície livre, as condições de contorno são linearizadas e
aplicadas em z = 0 ao invés de z = ζ. Semelhantemente ao que foi feito para as equações das ondas
de gravidade de superfície, a solução geral para as ondas internas poderá ser:
60
Utilizando as duas condições, as soluções gerais para as equações em (4.2) devem ser da forma:
φ1 = A e−kz ei(kx−ωt) ,
φ2 = B ekz ei(kx−ωt) . (4.7)
Então, para a equação de φ1 , a solução só depende de e−kz pois ekz não é permitido no fluido
superior onde z é positivo e portanto este termo iria para o infinito. Analogamente, a solução
proporcional à e−kz não é permitido no fluido inferior. As constantes A e B podem ser complexas.
Como na seção 3.2, as constantes são determinadas a partir da condição cinemática (4.5),
dando:
iωa
A = −B = .
k
Temos então:
iω a −kz i(kx−ωt)
φ1 = e e ,
k
iω a kz i(kx−ωt)
φ2 =− e e . (4.8)
k
E a condição de contorno dinâmica, 4.6, dá a relação de dispersão:
s
ρ2 − ρ1 p
ω = gk = ε gk, (4.9)
ρ2 + ρ1
Problema: Demonstrar que a energia cinética média por unidade de área de ondas internas
que se propagam na interface entre duas camadas infinitas de fluido é dada pela equação (4.10).
61
Solução: Considere duas camadas infinitas de densidade ρ1 e ρ2 onde ρ1 < ρ2 . Os po-
tenciais de velocidade são dados pelas equações em (4.8) e a relação de dispersão é dada pela
equação (4.9).
A expressão geral da energia cinética da onda depende das componentes da velocidade das
partículas devido à passagem da perturbação, dada por:
ρ
Ec = (u2 + w2 ) (4.11)
2
Como são duas camadas, devemos determinar a contribuição de cada uma delas. Calcu-
lando a energia para cada camada por comprimento de onda por uma área unitária, e integrando
para todo o domínio temos:
Z Z ∞ Z 0
1 λ ρ1 2 2 ρ2 2 2
Ec = (u1 + w1 ) + (u2 + w2 ) dx dz. (4.12)
λ 0 0 2 −∞ 2
∂φ1
u1 = = −ω a e−kz ei (kx−ω t) ;
∂x
∂φ1
w1 = = −i ω a e−kz ei (kx−ω t) ;
∂z
62
A exponencial em questão está elevado ao quadrado. Convém lembrar em usar somente a
parte real do número complexo, ou seja:
ℜeiθ = cos θ
e2 iθ = eiθ · eiθ = cos2 θ.
Que conveniente que a integral que devemos calcular é o famoso cos2 x, que já apareceu em
outras ocasiões, equação (3.72). Usando o mesmo truque trigonométrico, podemos escrever a
integral acima como:
2π 2π 2π
1 1 sin 2(kx − ωt) k
Z Z
k k π
cos2 (kx − ωt) dx = (1 + cos 2(kx − ωt)) dx = x+ = .
0 2 0 2 2k 0 k
ω2 a2
Ec =
(ρ1 + ρ2).
4k
Usando a relação de dispersão para ondas internas entre camadas infinitas, equação (4.9):
ρ2 − ρ1 a2
Ec = g k (ρ1 + ρ2 )
ρ2 + ρ1 4 k
Ou:
g a2 (ρ2 − ρ1 )
Ec = , (4.13)
4
conforme queriamos demonstrar.
63
A energia potencial pode ser calculada determinando–se a taxa de trabalho realizado na defor-
mação de uma superfície plana para um superfície na forma de uma onda. A Figura 19 mostra
que essa deformação envolve a transferência da coluna A de densidade ρ2 para a posiçao B e uma
simultânea transferência da coluna B de densidade ρ1 para a posição A em meio comprimento de
onda. O trabalho deve ser realizado para um comprimento de onda inteiro, então devemos incluir
o movimento complementar, ou seja, de B para A.
Figura 19: Cálculo da energia potencial para um fluido de duas camadas. O trabalho realizado para trans-
ferir o elemento A para B é igual ao peso de A vezes o deslocamento vertical do seu centro de gravidade.
Fonte: Kundu (2002).
A energia potencial por unidade de área horizontal é:
1 1
Z λ/2 Z λ/2
2
Ep = ρ2 gζ dx − ρ1 gζ2 dx
λ 0 λ 0
g(ρ2 − ρ1 ) 1
Z λ/2
= ζ2 dx = (ρ2 − ρ1 )ga2 .
λ 0 4
Vamos demonstrar como chegar na expressão da energia potencial de uma onda interna?
g(ρ2 − ρ1 )
Z λ/2
Ep = ζ2 dx
λ 0
g(ρ2 − ρ1 )
Z λ/2
Ep = a2 cos2 (kx − ωt) dx
λ 0
g(ρ2 − ρ1 ) 2
Ep = a . (4.14)
4
∂φ2
u2 = = ωaekz ei(kx−ωt)
∂x
que mostram que as velocidades nas duas camadas são opostas, Figura 18. Portanto, na interface
entre as duas camadas há uma descontinuidade na velocidade tangencial.
A existência de ondas internas em oceano com descontinuidade na densidade explica um fenô-
meno interessante nos fiordes da Noruega. Percebia–se que os navios eram sujeitos à fortes forças
de arrasto ao entrar nesses fiordes. Bjerknes, um oceanógrafo norueguês, explicou que isso era
causado por ondas internas na interface das camadas geradas pelo próprio movimento do navio,
Figura 20.
Figura 20: O fenômeno conhecido como “água morta” (do inglês dead water) nos fiordes Noruegueses.
Problema: Prove que se uma mesma quantidade de energia for fornecida para gerar ondas
de gravidade de superfície ou ondas de gravidade interna, a amplitude das ondas internas será
muito maior que as de superfície.
A energia total para ondas de gravidade de superfície é dada por:
1
ES = ρ g η2
2
onde ρ é a densidade da camada de água, ηo é a amplitude de uma onda de gravidade de
superfície definida por:
η = ηo ei(kx−ωt) .
A energia total na interface entre duas camadas infinitas é:
1
EI = (ρ2 − ρ1 )gζ2o
2
65
e
ζ = ζo ei(kx−ωt) .
Supondo que uma mesma quantidade de energia é fornecida para gerar ambas as ondas,
temos:
1 1
ρ g η2 = (ρ2 − ρ1 )gζ2o .
2 2
Podemos tirar a seguinte relação:
ρ2 − ρ1
η2o = ζ2o
ρ
Isso implica que: r
ηo ρ2 − ρ1
= .
ζo ρ
Como no oceano ρ2 − ρ1 ρ, temos então que ζo ηo .
66
z=0
u1, w1, φ1
z=-H
u2, w2, φ2
∂2 φ1 ∂2 φ1
+ 2 =0
∂x2 ∂z
∂2 φ2 ∂2 φ2
+ 2 =0
∂x2 ∂z
Para este caso, as condições de contorno são:
φ2 → 0 z → −∞ (4.16)
∂φ1 ∂η
= z=0 (4.17)
∂z ∂t
∂φ1
+ gη = 0 z = 0 (4.18)
∂t
∂φ1 ∂φ2 ∂ζ
= = z = −H (4.19)
∂z ∂z ∂t
∂φ1 ∂φ2
ρ1 + ρ1 gζ = ρ2 + ρ2 gζ z = −H (4.20)
∂t ∂t
Assumimos novamente que as oscilações da superfície livre são da forma:
η = a ei(kx−ωt) (4.21)
67
e as da interface:
ζ = b ei(kx−ωt) (4.22)
Como anteriormente, tomaremos somente a parte real da equação. Cabe aqui observar que se
a for real, devemos considerar b complexo, caso as ondas da superfície e da interface estejam fora
de fase. Os potenciais de velocidade devem ser então:
A equação (4.24) deve satisfazer (4.16). As condições (4.17), (4.18) e (4.19) são utilizadas
para determinar as constantes em termos da amplitude:
ia ω g
A = − + (4.25)
2 k ω
ia ω g
B = − (4.26)
2 k ω
ia ω g
ia ω g
C = − + − − e2kH (4.27)
2 k ω 2 k ω
a gk a gk
b = 1 + 2 e−kH + 1 − 2 ekH (4.28)
2 ω 2 ω
Substituindo na equação (4.20) poderemos determinar a relação de dispersão ω(k). Após algu-
mas manipulações algébricas, teremos a seguinte expressão:
2 2
ω ω
−1 [ρ1 sinh kH + ρ2 cosh kH] − (ρ2 − ρ1 ) sinh kH = 0 (4.29)
gk gk
Esta equação tem duas soluções que serão discutidas abaixo.
Uma possível solução da equação 4.29 é:
ω2 = gk
que se reduz ao mesmo caso que uma onda de gravidade de superfície para aproximação de águas
profundas. Para este caso a equação 4.28 se reduz à:
b = a e−kH
que mostra que existe uma relação direta entre a amplitude da superfície e a da interface, porém
reduzida por um fator e−kH . Além disso, essa equação mostra que o movimento das superfícies
estão em fase. Conforme indicado acima, esta solução se assemelha ao caso de ondas de superfície
para oceano profundo, só que neste caso, o movimento decai com e−kz em relação à superfície
livre. Este modo é conhecido como modo barotrópico porque as superfície na vertical se movem
juntamente, com as superfícies de pressão e densidade constante se coincidindo.
A outra raiz da equação (4.29) é:
gk(ρ2 − ρ1 )sinh kH
ω2 = (4.30)
ρ2 cosh kH + ρ1 sinh kH
68
que se reduz à equação (4.9) se kH → ∞. Substituindo (4.30) em (4.28) podemos mostrar após
algumas manipulações que:
ρ2 − ρ1
η = −ζ e−kH (4.31)
ρ1
mostrando que η e ζ têm sinais opostos e que o deslocamento da interface é muito maior que o
deslocamento da superfície livre se a diferença entre as densidades for pequena. Este modo é co-
nhecido como modo baroclinico ou interno porque as superfícies de pressão e densidade constante
não coincidem na vertical. Pode ser mostrado que o sinal da velocidade horizontal u troca de sinal
através da interface.
Este caso demonstra que a diferença de densidade é capaz de gerar um movimento não baro-
trópico no fluido. No caso estudado na seção anterior, o resultado mostra que para o caso de duas
camadas infinitas, sem a existência de uma superfície livre, somente o modo baroclínico pode se
desenvolver, não o barotrópico.
ρ2 ω2 kH ρ2 g kH
g −kH gk −kH kH gk kH
+ e − e = (ρ2 − ρ1 ) e + 2e +e − 2e .
2k 2 2 ω ω
69
Reagrupando os termos convenientemente:
ω2
(ρ1 sinh kH + ρ1 cosh kH) − (ρ1 sinh kH + ρ2 cosh kH)+
gk
gk
−(ρ2 − ρ1 )sinh kH + (ρ2 − ρ1 ) sinh kH = 0
ω2
Colocando os termos comuns em evidência:
2
ω gk
− 1 (ρ1 sinh kH + ρ2 cosh kH) − (ρ2 − ρ1 )sinh kH 1 − 2 = 0
gk ω
ω2
Multiplicando tudo por gk :
ω2
2 2
ω ω
−1 (ρ1 sinh kH + ρ2 cosh kH) − (ρ2 − ρ1 )sinh kH −1 = 0
gk gk gk
Ou ainda:
2 2
ω ω
−1 (ρ1 sinh kH + ρ2 cosh kH) − (ρ2 − ρ1 )sinh kH = 0 → CQD.
gk gk
4.3 Ondas na interface entre uma camada rasa e uma de profundidade infi-
nita
Uma simplificação muito comumente utilizada para fenômenos envolvendo a dinâmica do fluido
geofísico de larga–escala é assumir que o comprimento de onda das ondas em questão são muito
maiores que a profundidade da camada superior. Por exemplo, suponha que a camada superior do
oceano seja de 50 m pois abaixo dessa profundidade existe um gradiente forte de densidade. Nesse
70
caso, podemos assumir que H = 50 m e estaremos interessados em ondas cujo comprimento de
ondas seja muito maior. A aproximação kH 1 é conhecida como aproximação de águas rasas
ou de ondas longas.
Usando as aproximações:
sinh kH ' kH
cosh kH ' 1
a relação de dispersão (4.30), que corresponde ao modo baroclínico, se reduz à:
2 k2 gH (ρ2 − ρ1 )
ω = . (4.32)
ρ2
A velocidade de fase da interface é:
p
c = g0 H, (4.33)
onde:
0 ρ2 − ρ1
g = g (4.34)
ρ2
é conhecida como gravidade reduzida.
A equação (4.33) é semelhante à velocidade de fase para ondas de gravidade de superfície para
√
um oceano de águas rasas e homogêneo de profundidade H, equação (3.49), i.e., c = gH a menos
p
de um fator (ρ2 − ρ1 )/ρ2 . Isto comprova que as ondas internas são mais lentas que as ondas de
superfície. Usando a aproximação para águas rasas, a equação (4.31) se reduz à:
ρ2 − ρ1
η = −ζ . (4.35)
ρ1
Na seção3.5.2 mostramos que a utilização da aproximação para águas rasas nas equações de
ondas de gravidade de superfície é equivalente à aproximação hidrostática. O resultado daquela
aproximação resulta em velocidade horizontal independente da profundidade e a pressão devido à
passagem da onda é igual à pressão hidrostática, equação (3.50). Esta conclusão também é válida
para ondas que se propagam em interfaces. O fato de que u é independente de z pode ser constatada
pela equação (4.23) que na aproximação para águas rasas, ekz ' e−kz ' 1.
Para mostrar que a pressão é hidrostática, a perturbação de pressão na camada superior é deter-
minada também a partir da equação de Bernoulli (equação (3.31)) e equação (4.23), o que dá:
∂φ1
p0 = −ρ1 = iρ1 ω(A + B) ei(kx−ωt) = ρ1 gη. (4.36)
∂t
onde as constantes determinadas em (4.25) e (4.26) foram utilizadas. Isso mostra que p0 é inde-
pendente da profundidade e se equilibra com a variação da pressão hidrostática devido ao desloca-
mento da superfície livre.
71
4.4 Sumário das ondas de interface
Resumindo o que foi visto até o momento em relação às ondas que se propagam na interface de
duas camadas de fluido, estudamos os seguintes casos:
1. Camadas infinitas: no caso em que profundidade das duas camadas é infinita, somente o
√
modo baroclínico pode se desenvolver. A relação de dispersão da onda é dada por ω = ε gk.
2. Camada superior com profundidade finita sobre camada infinita: Ambos os modos, o baro-
trópico e o baroclínico, podem existir. No modo barotrópico, η e ζ estão em fase e o fluxo
decresce exponencialmente a partir da superfície livre. No modo baroclínico, η e ζ estão
fora de fase, a direção da velocidade horizontal troca na interface, e o movimento decresce
exponencialmente a partir da interface.
3. Camada superior rasa sobre camada infinita: Aproximação de águas rasas ou ondas longas
aplicada na camada superior do item acima. Os dois modos ainda continuam a existir. No
√
modo baroclínico, a velocidade de fase na interface é c = g0 H, e a velocidade do fluido na
camada superior é quase horizontal e independente da profundidade e a pressão é hidrostá-
tica.
4. Se as duas camadas forem rasas em relação ao comprimento de onda, o fluxo é hidrostático
nas duas camadas. Este caso é conhecido como a aproximação de águas rasas ou ondas
longas para um fluido de duas camadas. No modo barotrópico, o campo de velocidades ho-
rizontais terão uma descontinuidade na interface que desaparece no limite de Boussinesq,
(ρ2 − ρ1 )/ρ1 1. Nesse limite, as velocidades horizontais serão independentes da pro-
fundidade para a coluna inteira do fluido, Figura 22. No modo baroclínico, as velocidades
horizontais serão em sentidos opostos, mas independentes da profundidade em cada uma
delas.
Barotrópico Baroclínico
Figura 22: Esquema ilustrativo dos dois modos de propagação de ondas internas na interface de duas
camadas na aproximação de águas rasas no limite de Boussinesq. Fonte: Kundu (2002).
72
4.5 Exercícios:
1. Considere a interface entre duas camadas infinitas no oceano, de densidades ρ1 e ρ2 , que
sofre uma perturbação num determinado momento e esta se propaga como uma onda de
gravidade descrita como ζ = a ei(kx−ωt) .
(a) Quais são as condições de contorno nesse oceano para que permita a propagação dessa
onda de interface?
(b) A partir das condições de contorno, determinou–se que os potenciais de velocidade
são:
iω a −kz i(kx−ωt)
φ1 = e e ,
k
iω a kz i(kx−ωt)
φ2 =− e e . (4.37)
k
Determine a velocidade de fase dessas ondas.
2. Considere um oceano de duas camadas cujas profundidades são muito menores que o com-
primento de onda das ondas que nelas se propagam. A camada superior tem profundidade
H1 , densidade ρ1 , a camada inferior, profundidade H2 e densidade ρ2 e H1 + H2 = H é a
profundidade total do oceano. Considere a origem na superfície. Responda as questões a
seguir.
3. Determinar a propagação de ondas num oceano de duas camadas infinitas. A camada su-
perior tem densidade ρ1 e a inferior ρ2 e estão numa situação estável. Considere o oceano
invíscido, homogêneo e sem rotação. A interface dessas camadas será sujeita à pequenas
perturbações que se propagarão para cima e para baixo.
73
(b) Defina uma função genérica para os potenciais de velocidade (φ) e escreva a equação
de Laplace em função de φ para as duas camadas.
(c) Defina uma expressão para as oscilações na interface ζ entre as duas camadas. Quais
são as condições de contorno cinemática e dinâmica?
(d) Determine a relação de dispersão da onda que se propaga na interface das duas cama-
das.
(e) Mostre que a relação de dispersão das ondas de interface deduzidas no item anterior re-
duz ao caso de ondas de gravidade de superfície para aproximação de águas profundas.
(f) Mostre que as velocidades horizontais das ondas na interface entre uma camada e outra
são opostas.
(a) Escreva as condições de contorno para que essas ondas existam no oceano descrito em
função do potencial de velocidade definidos para cada camada;
(c) As soluções neste caso ainda permitem os mesmos modos discutidos no item anterior?
Se sim, qual a diferença?
74
6. Considere ondas de gravidade nas três configurações de oceanos sem limites laterais e foca-
das no plano xz:
(i) Oceano homogêneo (ρ) com superfície livre (η) e de profundidade arbitrária H;
(ii) Oceano de duas camadas com densidades ρ1 e ρ2 , ambas rasas (H1 e H2 ) em relação ao
comprimento de onda e com alturas η e ζ, da superfície e da interface respectivamente;
(iii) Oceano de três camadas, ρ1 , ρ2 e ρ3 : a primeira rasa (H1 ) e com superfície livre η, a in-
termediária de profundidade finita H2 e altura da interface ζ1 e a terceira com interface
ζ2 e profundidade infinita.
(a) Quais são as equações de onda que devem ser resolvidas no interior do oceano em cada
caso?
(b) As condições de contorno de superfície são as mesmas nos três casos. Defina-as e faça
a distinção entre cinemática e dinâmica.
(c) Escreva as condições de contorno de fundo para os 3 casos. Elas são cinemáticas e
dinâmicas?
(d) Quais são as condições de contorno da interface entre as duas camadas do caso ii? Faça
a distinção entre a cinemática e a dinâmica.
(e) Quais são as condições de contorno da interface entre as duas camadas superiores do
caso iii? Faça a distinção entre a cinemática e a dinâmica.
(f) Quais são as condições de contorno da interface entre as duas camadas inferiores do
caso iii? Faça a distinção entre a cinemática e a dinâmica.
7. A relação de dispersão para ondas de gravidade que se propagam na interface entre camadas
no oceano é dada pela seguinte expressão:
2 2
ω ω
−1 [ρ1 sinh kH + ρ2 cosh kH] − (ρ2 − ρ1 ) sinh kH = 0. (4.38)
gk gk
onde ρ1 < ρ2 e H é a profundidade da camada superior.
(a) Note que essa expressão admite duas soluções. Deduza a relação de dispersão e a
velocidade de fase para a solução baroclínica no caso em que o comprimento dessas
ondas é longa quando comparada com a profundidade da camada superior e a camada
inferior é muito profunda. Responda e justifique se essas ondas são dispersivas ou
não–dispersivas.
75
(b) O caso descrito no item acima pode ser uma boa aproximação do que acontece em
regiões costeiras próximas à descarga de rios ou na picnoclina abaixo da camada de
mistura em oceano aberto. Usando valores típicos de S1 = 0 (água doce), S2 = 30
(oceano), T1 = T2 = 10◦ C e H= 5 m para águas costeiras, enquanto que S1 = S2 = 35 e
T1 = 25 ◦ C, T2 =20 ◦ C e H = 50 m em oceano aberto, calcule a gravidade reduzida e a
velocidade de fase das ondas de gravidade de interface para a região costeira e para o
oceano aberto. Compare numericamente esses valores com as respectivas velocidades
de fase das ondas de gravidade de superfície.
8. Um oceano de duas camadas tem a seguinte configuração: camada superior com profundi-
dade h1 e densidade ρ1 , e a inferior h2 e densidade ρ2 , onde ρ1 < ρ2 . A relação de dispersão
para propagação de ondas na interface é dada por:
2
2 (ρ2 − ρ1 )gk
ω − gk tanh k(h1 + h2 ) ω − = 0,
ρ2 cotanh kh2 + ρ1 cotanh kh1
(a) Explique o que representa a primeira raiz fisicamente, ou seja, a do lado esquerdo da
expressão. Que tipo de ondas são essas?
76
(b) Determine a relação de dispersão e razão entre as velocidades de fase e da grupo (c/cg ),
para a segunda raiz se as duas camadas forem profundas em relação às perturbações que
se propagam na sua interface.
77
4.6 Fluido continuamente estratificado
Até o momento estudamos os casos envolvendo o ajuste de um fluido de densidade uniforme
à gravidade ou um sistema que consiste de dois fluidos imiscíveis, cada um com a densidade
uniforme. Voltamos a nossa atenção especificamente para os movimentos horizontais de larga
escala comparados com o movimento vertical. Esse foi o caso da aproximação de águas rasas onde
o fluido se torna hidrostático. Nesta parte do curso o foco será um fluido mais próximo de um
oceano real, onde a coluna d’água é continuamente estratificada, ou seja, um fluido cuja densidade
varia continuamente com a profundidade.
O fluido em questão terá sua densidade dependente somente da entropia e de sua composição, i.
e., ρ depende somente da temperatura potencial θ e da concentração de seus constituintes, por
exemplo, a salinidade (S). Portanto, para um valor fixo de θ e S, ρ é independente da pressão:
O movimento do fluido será considerado isentrópico e sem mudança de fase, de modo que θ e S
são constantes para um elemento material. Ou seja:
Dρ ∂ρ Dθ ∂ρ DS
≡ + = 0. (4.40)
Dt ∂θ Dt ∂S Dt
Fisicamente isso significa que ρ é constante para um elemento material porque θ e S são cons-
tantes e ρ depende somente de θ e S. Esses fluidos são conhecidos como incompressíveis e por
causa da equação (4.40), a equação da continuidade que é expressa por:
1 Dρ ~
+ ∇ ·~u = 0 (4.41)
ρ Dt
por ser substituída pela sua forma incompressível:
∂u ∂v ∂w
+ + = 0. (4.42)
∂x ∂y ∂z
Isso não quer dizer que a densidade é considerada constante ao longo da direção do movimento,
mas simplesmente que na equação da continuidade a magnitude de ρ−1 (Dρ/Dt) é pequena em
comparação com a magnitude do gradiente da velocidade. Se consideramos um fluido sujeito à
pressão cujo efeito seja pequeno, então as variações na densidade podem vir das flutuações no
campo da temperatura, por exemplo no caso de convecção térmica. Nesse caso, a aproximação
de Boussinesq é válida quando as variações da temperatura no fluxo forem pequenas. A equação
Dρ
Dt = 0 não é uma expressão da conservação de massa mas da incompressibilidade do fluido. A
conservação de massa é expressa por ~∇ ·~u = 0 na aproximação Boussinesq.
A equação total do momento é dada pela equação de Navier–Stokes para um fluido incompres-
sível:
D~u
ρ = −~∇p + ρ~g + µ∇2~u. (4.43)
Dt
78
Para analisarmos como um fluido responde à uma pequena perturbação, inicialmente necessitamos
definir o que é o sistema sem perturbações, ou seja, um estado básico. Consideremos que esse
estado básico está em balanço hidrostático de modo que ρ10 ddzp̄ = − ρρ̄0 g, onde ρ0 é uma densidade
de referência. Para tanto, consideramos que o movimento pode ser decomposto em uma parte
sem perturbação e a outra devido à pertubação. Ou seja, a pressão é dada por p = p̄(z) + p0 e
¯ + ρ0 . Para visualizar essa decomposição, imagine que o sinal é
a densidade é dada por ρ = ρ(z)
composto por uma média sobre a qual uma pequena flutuação é sobreposta. Ao aplicarmos essa
decomposição na equação do momento e utilizando a relação hidrostática, temos:
D~u
ρ = −~∇p0 + ρ0~g + µ∇2~u. (4.44)
Dt
Dividindo por ρ0 , temos:
ρ0 D~u ρ0
1
1+ = − ~∇p0 + ~g + ν∇2~u. (4.45)
ρ0 Dt ρ0 ρ0
onde ν = µ/ρ0 . Observe que a razão ρ0 /ρ0 aparece no termo inercial e no termo do empuxo. Para
valores pequenos de ρ0 /ρ0 , as variações na densidade causam pequenas correções no termo inercial
e podem ser desprezadas, ou seja, ρ0 /ρ0 1. Entretanto, o ρ0 /ρ0 no termo do empuxo não pode
ser desprezado. Por exemplo, o termo do empuxo é importante em casos de variações na densidade
devido à aquecimento que geram um movimento convectivo. Nesse caso, a magnitude de gρ0 /ρ0
deve será da mesma ordem da aceleração vertical ∂w/∂t ou o termo viscoso µ∇2 w. Conclui–se
então que as variações da densidade são desprezíveis na equação do momento, exceto quando o ρ
é multiplicado por g. Ou seja, a densidade é considerada constante exceto na compomente vertical
do movimento.
Essas considerações na equação da continuidade e do momento constituem a aproximação
conhecida como a aproximação de Boussinesq. As componentes da equação do movimento em
termos da variação total, escritas em função de p e ρ, sob a aproximação de Boussinesq, para um
sistema sem o efeito da rotação, ou seja, quando a frequência do movimento é muito maior que a
frequência de Coriolis, são:
Du 1 ∂p
= − + ν∇2 u, (4.46)
Dt ρ0 ∂x
Dv 1 ∂p
= − + ν∇2 v, (4.47)
Dt ρ0 ∂y
Dw 1 ∂p ρg
= − − + ν∇2 w, (4.48)
Dt ρ0 ∂z ρ0
79
4.6.2 Equações do movimento para um fluido continuamente estratificado
∂u 1 ∂p
= − , (4.49)
∂t ρ0 ∂x
∂v 1 ∂p
= − , (4.50)
∂t ρ0 ∂y
∂w 1 ∂p ρg
= − − , (4.51)
∂t ρ0 ∂z ρ0
que juntamente com as equações (4.40) e (4.42) fecham o conjunto de equações que governam o
movimento. Nessas equações, ρ0 é uma densidade de referência constante.
Como o estado básico do fluido é hidrostático, temos que:
1 ∂ p̄ ρ̄g
0=− − . (4.52)
ρ0 ∂z ρ0
Note que o fluido é incompressível, mas na determinação dos movimentos, devemos considerar
que o fluxo básico é hidrostático.
Com o desenvolver do movimento, as variações da pressão e densidade são prescritas por:
p = p̄(z) + p0 (4.53)
0
ρ = ρ̄(z) + ρ (4.54)
Dρ ∂ ∂ ∂ ∂
= (ρ̄ + ρ0 ) + u (ρ̄ + ρ0 ) + v (ρ̄ + ρ0 ) + w (ρ̄ + ρ0 ) = 0 (4.55)
Dt ∂t ∂x ∂y ∂z
Os termos ∂ρ̄/∂t = ∂ρ̄/∂x = ∂ρ̄/∂y = 0. Os termos não lineares, u∂ρ0 /∂x, v∂ρ0 /∂y e w∂ρ0 /∂z
são desprezíveis para movimentos de pequenas amplitudes. A parte linear wdρ/dz é importante e
deve ser mantida. Então a equação da densidade (4.54) se reduz à:
∂ρ0 d ρ̄
+w =0 (4.56)
∂t dz
Fisicamente essa equação diz que perturbações na densidade num ponto são geradas pela advecção
vertical da distribuição de densidade básica do meio. Introduzindo a definição:
g d ρ̄
N2 ≡ − (4.57)
ρ0 dz
onde N(z) é conhecida como a frequência de Brunt–Väisälä e tem unidades de rad s−1 . Como a
80
substituição de (4.57) nas equações do movimento em função das perturbações temos:
∂u 1 ∂p0
= − , (4.58)
∂t ρ0 ∂x
∂v 1 ∂p0
= − , (4.59)
∂t ρ0 ∂y
∂w 1 ∂p0 ρ0 g
= − − , (4.60)
∂t ρ0 ∂z ρ0
∂ρ0 N 2 ρ0
− w = 0 (4.61)
∂t g
∂u ∂v ∂w
+ + = 0. (4.62)
∂x ∂y ∂z
Ao compararmos as equações que envolvem as perturbações na densidade e pressão verifica-
mos que são idênticas às equações da variação total de ρ e p.
A equação da velocidade vertical w é útil na derivação dos movimentos em um fluido continu-
amente estratificado. Para isso, tomar a derivada temporal da equação da continuidade e usar as
equação do movimento em u e v:
∂ ∂u ∂v ∂w
+ + =0
∂t ∂x ∂y ∂z
∂ ∂u ∂ ∂v ∂ ∂w
+ + =0
∂x ∂t ∂y ∂t ∂z ∂t
1 ∂p0 1 ∂p0
∂ ∂ ∂ ∂w
− + − + =0
∂x ρ0 ∂x ∂y ρ0 ∂y ∂z ∂t
Reescrevendo:
1 2 0 ∂ ∂w
∇H p = (4.63)
ρ0 ∂z ∂t
onde ∇2H ≡ ∂2 /∂x2 + ∂2 /∂y2 é o operador horizontal Laplaciano. Observe que essa equação en-
volve a perturbação na pressão e a velocidade vertical. Vamos tentar encontrar uma outra equação
que relacione essas duas variáveis e combinando–as, devemos obter uma equação em função da
velocidade vertical somente. Combinando as equações (4.60) e ( 4.61) podemos chegar numa outra
expressão que envolva a perturbação na pressão e velocidade vertical.
ρ0 ∂w 1 ∂p0
ρ0 = − −
g ∂t g ∂z
Agora é só substituir na equação 4.61:
ρ0 ∂w 1 ∂p0 N 2 ρ0
∂
− − − w = 0.
∂t g ∂t g ∂z g
81
Aplicando a derivada temporal nos termos entre colchetes, temos:
ρ0 ∂2 w 1 ∂ ∂p0 N 2 ρ0
+ + w = 0.
g ∂t 2 g ∂t ∂z g
1 ∂ ∂p0 ∂2 w
= − 2 − N 2 w. (4.64)
ρ0 ∂t ∂z ∂t
1 ∂ ∂p0
2
2 2 ∂ w 2
∇H = ∇H − 2 − N w .
ρ0 ∂t ∂z ∂t
2
∂ ∂ 1 2 0 2 ∂ w 2
∇ p = ∇H − 2 − N w .
∂t ∂z ρ0 H ∂t
Substituindo a equação (4.63) no lado esquerdo temos:
2
∂ ∂ ∂ ∂w 2 ∂ w 2
= −∇H +N w .
∂t ∂z ∂t ∂z ∂t 2
∂2 ∂2 w ∂2 ∂2 w ∂2 w
=− 2 + 2 − N 2 ∇2H w,
∂t 2 ∂z2 ∂t ∂x2 ∂y
∂2 2
∇ w + N 2 ∇2H w = 0, (4.65)
∂t 2
onde ∇2 ≡ ∂2 /∂x2 + ∂2 /∂y2 + ∂2 /∂z2 = ∇2H + ∂2 /∂z2 é o operador Laplaciano em 3D. Essa
equação de w será utilizada para determinar a relação de dispersão das ondas de gravidade
interna para um fluido continuamente estratificado.
82
qualquer direção, ou seja, em qualquer ângulo em relação à vertical. Nesse caso, a direção do
vetor número de onda é importante. Portanto, o número de onda, velocidade de fase e velocidade
de grupo não podem mais ser tratados como escalares.
Considere o caso em que a frequência de Brunt–Väisälä seja constante em todo o fluido. A
velocidade vertical que satisfaz a equação (4.65) pode ser descrita da forma:
~
w = w0 ei(kx+ly+mz−ωt) = w0 ei(K·~x−ωt) (4.66)
onde K~ = (k, l, m) é o vetor número de onda com as componentes k, l e m nas três direções car-
tesianas. No caso das ondas internas para um fluido continuamente estratificado a direção da
propagação da onda é importante. A propagação na direção horizontal deve ser diferente do que
ocorre na vertical pois nessa última direção a aceleração da gravidade influi. Portanto, as ondas são
anisotrópicas e a frequência é função das três componentes do número de onda. Podemos assumir
que horizontalmente as ondas são ainda são isotrópicas pois não há uma distinção da propagação
nas direções horizontais.
Substituindo a equação (4.66) na equação de onda (4.65) teremos a relação de dispersão (veja
exercício):
2 (k2 + l 2 )
ω = 2 2 2
N 2. (4.67)
k +l +m
Como o denominador é sempre maior que o numerador, as ondas internas podem ter qualquer
frequência entre 0 e N.
A frequência das ondas (ω) é usualmente medida em radianos por segundo. Lembrando que a
relação entre a frequência angular ([ω] = rad s−1 ) e a frequência “ordinária” ([ν] = Hz) (onde 1 Hz
=1 s−1 ) é ν = ω/2π, ou seja: 2π rad/s = 1 Hz.
Para simplificar a discussão, consideremos que a onda se propaga no plano xz. Não há perda
de generalização pois o meio é horizontalmente isotrópico. Consideremos que l = 0, ou seja, o
movimento não varia na direção y. Temos então:
kN kN
ω= √ = . (4.68)
2
k +m 2 K
ω = Ncosθ, (4.69)
83
Figura 24: Sistema de coordenadas para o espaço do número de ondas para expressar a relação de dispersão.
Fonte: Gill (1982).
A frequência da onda interna num fluido estratificado depende somente da direção do
vetor número de onda e não da magnitude do número de onda. Essa é uma grande diferença
em relação às ondas de gravidade de superfície e de interface, onde a frequência depende somente
da magnitude. A frequência só pode variar entre 0 < ω < N, mostrando a importância da frequência
de Brunt–Väisälä; N é a máxima frequência das ondas internas num fluido estratificado.
Para analisar o movimento de uma partícula numa onda interna num meio incompressível,
vamos descrever a sua velocidade:
u = u0 ei(kx+ly+mz−ωt) (4.70)
lembrando que ~ix ,~iy e ~iz são os versores nas direções x, y e z (estou usando essa notação para não
confundir com os vetores número de onda). Em termos dos vetores totais, a equação anterior pode
84
ser escrita como:
~ ·~u = 0
K (4.71)
mostrando que o movimento da partícula é perpendicular ao vetor número de onda, Figura 25.
Note que somente duas condições foram utilizadas para deduzir esse resultado: equação da con-
tinuidade incompressível e o comportamento trigonométrico em todas as direções espaciais. Por-
tanto, esse resultado só é válido para sistemas de ondas que atendem as essas duas condições.
Essas ondas são conhecidas também como ondas transversais porque o fluido se move paralela-
mente a linhas de fase constante. Ondas de gravidade de superfície e de interface não apresentam
essa propriedade pois seu campo varia exponencialmente com a vertical.
Podemos interpretar o θ na relação de dispersão da equação (4.69) como o ângulo entre a
direção da partícula e a direção vertical, Figura 25. A frequência máxima, ω = N, ocorre quando
θ = 0, ou seja, quando a partícula se move verticalmente, para cima e para baixo. Isso corresponde
para o caso quando m = 0, mostrando que o movimento é independente da coordenada z. Nesse
caso, o movimento resultante consiste em uma série de colunas verticais oscilando na frequência
N e o fluxo variando na direção horizontal somente.
Figura 25: Esquema ilustrativo de ondas internas se propagando na interface entre dois líquidos com pro-
fundidade infinita. Fonte: Kundu (2002).
As variáveis p0 , ρ0 , u0 e v0 para a onda da equação (4.66) podem ser deduzidas das equações
do movimento. A relação entre essas variáveis é conhecida como relações de polarização. A
perturbação na pressão é determinada a partir da equação (4.63):
ωmρ0 w0 i(kx+ly+mz−ωt)
p0 = − e , (4.72)
k2 + l 2
85
e a perturbação na densidade:
iN 2 ρ0 w0 i(kx+ly+mz−ωt)
ρ0 = − e . (4.73)
ωg
Podemos mostrar que:
∂p0 m2
=− 2 2 gρ0 . (4.74)
∂z k + l + m2
E as componentes das velocidades horizontais pode ser deduzidas a partir das equações do
momento, (4.58) e 4.59), dando:
k k 0
u = − mw0 ei(kx+ly+mz−ωt) =
p, (4.75)
k2 + l 2 ωρ0
l l 0
v = − 2 2 mw0 ei(kx+ly+mz−ωt) = p. (4.76)
k +l ωρ0
Essas relações entre pressão e velocidades podem ser úteis para determinar os parâmetros das ondas
a partir de observações feitas em um ponto fixo. Por exemplo, se as componentes horizontais da
velocidade e a perturbação na pressão são medidas para uma onda progressiva, a componente
horizontal do vetor número de onda pode ser deteminada pelas relações (4.75) e (4.76).
No caso das ondas de gravidade de superfície ou de interface vimos que a velocidade de fase
e a velocidade de grupo são na mesma direção, porém podem ter magnitudes diferentes. Isto por
que as propagação das ondas de gravidade são isotrópicas. No caso de ondas internas num fluido
continuamente estratificado essa conclusão não é válida pois essas ondas são anisotrópicas. Será
mostrado que essas velocidades são perpendiculares entre si. Tomando a definição de cg = dω/dk
nas três dimensões temos:
∂ω~ ∂ω~ ∂ω~
~cg = ix + iy + iz , (4.77)
∂k ∂l ∂m
Se orientarmos os eixos de forma que as ondas propaguem no plano xz ou seja, no vetor número
~ l = 0. Derivando e substituindo na equação (4.68), temos:
de onda K,
Nm ~
~cg = (mix − k~iz ). (4.78)
K3
e a velocidade de fase é:
ωK ~ ω
c= = 2 (k~ix + m~iz ), (4.79)
KK K
~
onde o vetor K/K representa o vetor unitário na direção de K.~ Combinando essas duas últimas
equações podemos ver que:
c~g ·~c = 0 (4.80)
mostrando que os vetores velocidade de fase e de grupo são perpendiculares. Podemos notar ainda
que as componentes horizontas de ~c e c~g são na mesma direção enquanto que as componentes ver-
ticais são em direções opostas. Geometricamente, esses vetores formam os lados de um triângulo
retângulo, cuja hipotenusa é horizontal, Figura 26.
86
Figura 26: Orientação das velocidades de fase e de grupo de ondas internas. Fonte: Kundu (2002).
Podemos concluir que quando a velocidade de fase tiver uma propagação para cima, a veloci-
dade de grupo terá uma componente para baixo e vice–versa. Para ver isso, analise a sequência da
propagação das ondas na Figura 27.
Figura 27: Propagação de ondas internas com velocidade de fase para baixo e velocidade de grupo para
cima. As imagens foram tomadas nos tempos 28, 118, 208 e 298 (no canto superior esquerdo). Siga a linha
vermelha para acompanhar a fase e siga a posição do grupo para ver a velocidade de grupo.
A velocidade de grupo tem o mesmo significado usual: é a velocidade que a energia é pro-
pagada pelas ondas. Se tivermos uma fonte oscilatória com frequência ω, então a energia será
emanada radialmente acompanhando quatro direções, orientado num ângulo θ em relação à verti-
cal, onde cosθ = ω/N. Isso pode ser verificado em experimentos no laboratório, (veja os filmes).
87
Para as ondas internas, as superfícies frequência constante no espaço do número de onda são
cones onde θ = constante, conforme mostrada na Figura 28).
Figura 28: Para ondas internas sem rotação as superfícies de ω constante no espaço de número de onda são
cones, cujos contornos tem valor ω/N. A velocidade de grupo é perpendicular ao cone na direção de valores
crescentes de frequência (setas perpendiculares à longo do cone. Fonte: Gill (1982).
Observe a Figura 29 que mostra a propagação de ondas internas gerada na região da termoclina
junto a plataforma. Observe a estratificação do oceano através da distribuição das isopicnais. A
velocidade ao longo da plataforma mostra uma propagação para baixo.
Figura 29: Simulação de ondas internas próxima a uma feição topográfica. As linhas re-
presentam as isopicnais e a cor, a componente da velocidade ao longo da plataforma. Fonte:
[Link]
88
4.7 Exercícios:
1. Faça a derivada temporal da equação da continuidade e combine–a com as equações do movi-
mento horizontal para deduzir a equação 4.63. Em seguida, utilize a componente vertical do
movimento, equação 4.60 e a equação da densidade, equação 4.61, e deduza a equação 4.65,
a equação de onda para um oceano continuamente estratificado em função da velocidade
vertical.
2. Deduza a relação de dispersão para o caso de ondas internas num fluido continuamente
estratificado substituindo uma função da velocidade vertical definida como:
w = w0 ei(kx+ly+mz−ωt)
na equação 4.65. Discuta e mostre graficamente que a frequência dessas ondas só pode variar
entre 0 e N 2 .
3. Ondas internas são geradas numa região costeira por oscilação de maré M2 (12.42h). Se a
frequência de Brunt–Väisälä é de 1×10−4 s−1 , quais são os possíveis ângulos que a energia
pode se propagar em relação à horizontal?
4. Considere ondas internas num fluido continuamente estratificado com frequência de Brunt–
Väisälä N = 0, 02 s−1 e densidade média de 800kg m−3 . Qual a direção das ondas se a
frequência de oscilação é ω = 0, 01 s−1 ?
(k2 + l 2 )N 2
ω2 = ,
(k2 + l 2 + m2 )
(b) Um aparato foi construído para produzir ondas internas num fluido continuamente es-
tratificado, como aquele que foi apresentado em forma de filme em classe, composto
por uma cuba de base retangular e uma agitador instalado à meia altura. A cuba tem as
89
seguintes dimensões: 10 cm de largura, 20 cm de comprimento e 30 cm de altura. O
agitador oscila com frequência ω = 0,64 s−1 . Observa–se que as cristas se propagam
numa direção formando um ângulo de 27◦ com a horizontal.
i. Desenhe sobre o eixo cartesiano os vetores que mostram i) a direção da velocidade
de fase; ii) a direção da velocidade de grupo e iii) a direção do movimento das
partículas. Indique claramente os ângulos de cada vetor com os eixos.
ii. Qual deve ser a densidade aproximada da água próxima à superfície e do fundo do
tanque? Assuma a densidade de referência de 1020 kg m−3 no meio da cuba.
90
5 Ondas Influenciadas pela Rotação
A dinâmica do fluido geofísico (DFG), área da dinâmica dos fluidos que comumente nos referimos
como GFD (do inglês Geophysical Fluid Dynamics), envolve o estudo de processos da atmosfera
e do oceano. As duas características que distinguem DFG de outras sub–áreas da dinâmica de
fluidos são a influência da rotação da terra e da estratificação vertical da densidade do meio nos
movimentos do fluido, seja a água ou o ar.
As ondas de gravidade com as quais estamos mais familiarizados são aquelas que observamos
diretamente na superfície do mar ou em experimentos em tanques de ondas. Embora facilmente
visualizadas no dia–a–dia, essas ondas são muito pouco afetadas pelo efeito da rotação da Terra
pois elas ocorrem numa escala muito pequena. Isso significa que, comparativamente, a frequência
desses movimentos é muito maior do que a frequência f associada aos efeitos de rotação (ω f).
Por isso, é natural que a dinâmica de fluidos comece explorando os casos mais simples, aqueles que
envolvam o ajustamento do fluido à gravidade num sistema sem rotação. Foi exatamente isso que
estudamos nas seções anteriores deste manuscrito: ondas de gravidade de superfície e internas para
um sistema não–girante. Entretanto, para se entender a dinâmica dos processos de larga–escala na
atmosfera e no oceano é essencial entender como o ajustamento do fluido ocorre sob os efeitos da
rotação pois é justamente nessa escala que a rotação realmente domina.
No caso em que o movimento é influenciado pela rotação da Terra, podemos esperar duas
classes de ondas:
1. Ondas de gravidade cuja frequência é ω > f . Ao cessar o efeito da rotação, essas ondas se
tornam ondas de gravidade ordinárias. As ondas de Poincaré são um exemplo dessa classe
de ondas.
2. Ondas planetárias ou ondas de Rossby cuja frequência é ω f . A força de restauração
dessas ondas é a variação do parâmetro de Coriolis com a latitude.
Existe ainda um tipo especial de ondas que surgem quando contornos laterais são introduzidos
ao longo do seu caminho. Essas são conhecidas como ondas de Kelvin.
Antes de partirmos para a teoria sobre essas ondas propriamente ditas, precisamos definir um
conjunto de equações do movimento que representem as premissas básicas dos fenômenos que
iremos estudar. Tanto o oceano como a atmosfera são consideradas como camadas finas sobre uma
esfera, onde a escala de profundidade do fluido corresponde a uns poucos quilômetros, e a escala
horizontal é da ordem de centenas ou até milhares de quilômetros. Isto significa que as velocidades
verticais do fluido são muito menores que as horizontais, de forma que as trajetórias dos elementos
de volume no fluido são muito rasas. Simplificações importantes nas equações do movimento são
feitas quando restringimos os movimentos em camadas rasas.
91
5.1 Equações do movimento para aproximação de águas rasas
Vamos retomar o caso das ondas de superfície para um oceano homogêneo de águas rasas cuja
profundidade é H. Se considerarmos que as ondas tem comprimento de onda λ H, então as
velocidades verticais se tornam muito menores que as horizontais, conforme foi demonstrado na
seção 3.5.2. Nesse caso, as acelerações verticais ∂w/∂t se tornam desprezíveis na equação do
momento vertical e a pressão se torna somente a hidrostática. Foi demonstrado também que a
velocidade horizontal não depende da profundidade. Quando o efeito da rotação da Terra é in-
cluído, veremos que a velocidade horizontal ainda continua independende da profundidade, porém
as partículas tendem a realizar movimentos elípticos na horizontal.
Considere uma camada de fluido de espessura H, sobre um fundo horizontal plano (i. e., H é
constante) como na Figura 30.
Note que a coordenada z é orientada para cima e sua origem é colocada no fundo do oceano e
η é o deslocamento da superfície livre. A pressão hidrostática numa profundidade z é dada por:
p = ρg(H + η − z).
Isso quer dizer que a pressão é proporcional ao peso da coluna de água que está acima de um
ponto localizado numa profundidade z. A partir dessa relação, podemos determinar o gradiente
horizontal de pressão:
∂p ∂η ∂p ∂η
= ρg , = ρg . (5.1)
∂x ∂x ∂y ∂y
Lembre que H é constante. Observe que essas componentes são independentes de z. Como elas
são parte das equações do movimento, isso quer dizer que o movimento horizontal também será
independente de z. Ou seja, u e v não serão função da profundidade.
Vamos considerar agora a equação da continuidade:
∂u ∂v ∂w
+ + = 0.
∂x ∂y ∂z
Como ∂u/∂x e ∂v/∂y são independentes de z, a equação da continuidade requer que w varie
linearmente com z, indo de zero no fundo até o valor máximo na superfície livre. Integrando
92
verticalmente na coluna d’água de z = 0 até z = H + η, e notando que u e v são independentes de
z, obtemos:
∂u ∂v
(H + η) + (H + η) + w(η) − w(0) = 0, (5.2)
∂x ∂y
onde w(η) é a velocidade vertical na superfície e w(0) = 0 é a velocidade vertical no fundo. Note
que a velocidade da superfície é só em função de η pois H é constante. A velocidade na superfície
é dada por:
Dη ∂η ∂η ∂η
w(η) = = +u +v .
Dt ∂t ∂x ∂y
A equação da continuidade (5.2) então pode ser reescrita como:
∂u ∂v ∂η ∂η ∂η
(H + η) + (H + η) + +u +v = 0.
∂x ∂y ∂t ∂x ∂y
Rearranjando:
∂η ∂ ∂
+ [u(H + η)] + [v(H + η)] = 0. (5.3)
∂t ∂x ∂y
A interpretação física desta equação é que o divergente do transporte horizontal está ligado ao
rebaixamento da superfície livre. Para ondas de amplitude pequena, os termos quadráticos não
lineares podem ser desprezados quando comparados com os termos lineares e portanto o termo do
divergente se reduz à H~∇ ·~u.
D ∂ ∂ ∂
w(H + η) = (H + η) = (H + η) + u (H + η) + v (H + η).
Dt ∂t ∂x ∂y
Como H é constante, na equação acima ficamos somente com:
∂η ∂η ∂η
+u +v = w(η).
∂t ∂x ∂y
93
Estas equações são utilizadas para se estudar vários tipos de ondas de gravidade. Note que se
considerarmos que o movimento não é afetado pela rotação, voltamos ao caso visto na seção 3.7.
A solução de û e v̂, as amplitudes das compoentes da velocidades, deve ser feita usando equa-
ções (5.5) e (5.6):
gη̂
û = (ωk + i f l), (5.8)
ω2 − f 2
gη̂
v̂ = (−i f k + ωl)
ω2 − f 2
Podemos expressar a solução geral para as componentes da velocidade como:
gη̂
u = (ωk + i f l) ei(kx+ly−ωt) (5.9)
ω2 − f 2
gη̂
v = (−i f k + ωl) ei(kx+ly−ωt) . (5.10)
ω2 − f 2
Substituindo as amplitudes das velocidades na equação 5.7, obteremos:
ω2 − f 2 = g H (k2 + l 2 ). (5.11)
94
primeiramente resolvidas por Kelvin. A nomenclatura ondas de Poincaré é geralmente utilizada
para descrever ondas de gravidade rotacional que se propagam em canais.
Um gráfico da equação (5.12) é mostrada na Figura 31.
Para saber se um determinado movimento é afetado pela rotação comumente comparamos sua
escala espacial com uma escala espacial mínima mas que já inclui o efeito da rotação. Essa escala
é definida como o raio de deformação de Rossby (R) ou simplesmente raio de deformação:
√
gH
R= , (5.13)
f
onde H é a profundidade do oceano, e f é o parâmetro de Coriolis. No numerador temos nada
menos do que a velocidade de fase de ondas de gravidade de superfície na aproximação de águas
rasas. Fisicamente estamos tentando endender em que escala que um movimento originalmente
√
não afetado rotação ( gH) começa a sentir a rotação (f). A unidade de R tem dimensão espacial
(m). O raio de deformação envolve a velocidade na aproximação de águas rasas pois estamos
considerando um oceano em que o movimento horizontal é dominante sobre o vertical.
2 2 2 f2 1
ω = f + g H K = gH( + K 2 ) = gH( 2 + K 2 ), (5.14)
gH R
Usando essas expressões podemos entender o que acontece com as ondas para alguns limi-
tes interessantes.
• Se ω = f : Calma! Esse caso vai ser visto mais adiante. Trata–se do movimento inercial.
Nesse caso, veja que não tem onda pois não tem número de onda. Como nem a gravidade
e nem a profundidade são zero, implica que o número de onda é zero.
95
• Se ω f : Isso implica que o segundo termo (gHK 2 ) torna–se dominante, ou seja, ω2 =
gHK 2 . Você já viu essa relação de dispersão anteriormente? Ondas de gravidade de
superfície na aproximação de águas rasas cuja frequência é muito maior que a inercial,
ou seja, não afetadas pela rotação. Observe que no gráfico da relação de dispersão,
Figura 31, essas frequências são relativas à região onde a relação entre ω e K se torna
linear.
A velocidade de fase dessa onda pode ser deduzida, como fizemos para outras ondas:
r
ω f 2 + gHK 2
c= = . (5.15)
K K2
Como podemos ver, essas ondas são dispersivas exceto para ω f (ou K 2 R−2 ) quando a
√
equação (5.12) se torna ω2 ' gHK 2 de modo que a velocidade de propagação é ω/K = gH.
O limite para altas frequências concorda com o que foi visto em ondas de gravidade de superfície
para sistemas que não são afetadas pelas forças de Coriolis, ou seja, para f = 0.
Um exemplo de ondas de Poincaré internas observadas no Lago Michigan, EUA, é mostrada
na Figura 32. O movimento da termoclina, indicado em sombreado, mostra as variações devido à
passagem da onda. Podemos perceber que a oscilação da termoclina não é perfeitamente senoidal.
Isto ocorre porque há uma superposição de movimentos, mas o período dominante da onda é de
17h.
96
Figura 32: Observação das correntes e da estrutura termal da camada superior de 30 m do Lago Michigan.
As setas indicam a direção e a velocidade da corrente e a porção hachurada indica a termoclina (isotermas
entre 10◦ C e 15◦ C. Os diagramas mostrados nos painéis superior e inferior estão espaçados em 17 horas,
que é o período dominante desse movimento. O período inercial local é de 17,5h. Note a estrutura de duas
camadas em ambos, temperatura e corrente, e a rotação anticiclônica dos vetores de velocidade no tempo.
Fonte: Gill (1982).
A simetria na relação de dispersao na equação (5.12) em relação aos números de onda horizontais
k e l significa que as direções x e y não são afetadas diferentemente pelo campo de onda. Essa
isotropia horizontal é resultado da suposição que f é constante. (Mais tarde iremos ver que as ondas
de Rossby cuja relação de dispersão depende do efeito β, não são horizontalmente isotrópicos).
Como não depende da direção, para simplificar o tratamento matemático, vamos orientar o
eixo-x ao longo do vetor número de onda e usar l = 0, de modo que o campo de onda não varie ao
longo do eixo-y. Para encontrar a órbita das partículas, é conveniente trabalhar com quantidades
97
reais. Iremos descrever o deslocamento da superfície como:
onde η̂ é real. As componentes da velocidade podem ser obtidas multiplicando (5.9) por ei(kx−ωt)
e tomando a parte real dos dois lados:
ωη̂
u = cos(kx − ωt) (5.17)
kH
f η̂
v = sin(kx − ωt) (5.18)
kH
Para determinar a trajetória da partícula, tomemos x = 0 e consideremos três valores de tempo que
correspondem à ωt = 0, π/2 e π. Os valores de u e v das equações em (5.18) mostram que o vetor
velocidade gira no sentido horário no hemisfério Norte em trajetórias elípticas, Figura 33.
Figura 33: Órbita de uma partícula numa onda longa de gravidade rotacional (onda de Poincaré). As
componentes da velocidade correpondendo a ωt = 0, π/2 e π estão indicadas. Fonte: Kundu e Cohen
(2002).
A trajetória elíptica é esperada porque a força de Coriolis faz com que o termo f u gere um
∂v/∂t na equação do movimento (5.4). Nessas equações a componente ∂η/∂y = 0 pois orientamos
o movimento da onda na direção-x. As partículas são constantemente defletidas para direita devido
à força de Coriolis, o que resulta em órbitas elípticas. As elipses tem uma razão de eixos de
ω/ f e o eixo maior está orientado na direção de propagação da onda. As elipses ficam mais
estreitas conforme a razão ω/ f aumenta, ou seja, ω aumenta em relação à f , de forma que a órbita
das partículas se torna retilínea como no caso das ondas de gravidade sem o efeito da rotação.
No entanto, a altura da superfície de uma onda de gravidade rotacional não é diferente de uma
onda de gravidade ordinária, ou seja, oscilatória na direção de propagação e invariante na direção
perpendicular.
98
Observe na Figura 34 uma simulação mostrando a altura da superfície do fluido num canal
respondendo à passagem de ondas de Poincaré. Podemos ver regiões com cristas (linha cheia) e
cavados (pontilhada). Podemos notar que os padrões não são circulares, mas sim alongadas. Isso
ocorre devido à escolha da relação entre ω e f. Pela Figura 33, vimos que a escala zonal é maior
que a meridional. Isso ocorre também na Figura 34 (veja a escala dos eixos da simulação).
Figura 34: Resultado de simulação por modelo numérico mostrando a elevação da altura da superfície num
canal devido a passagem de ondas de Poincaré. Fonte: Pedlosky (2003).
• Ondas mais curtas são como ondas de gravidade para um sistema sem rotação;
• O balanço de forças na direção paralela às cristas e cavados é a aceleração dada pela força
de Coriolis devido à velocidade na direção que a onda se move.
99
5.2.2 Movimento inercial
Quando examinamos o espectro de frequências das ondas no oceano, os picos mais comumentes
observados são os das várias frequências de marés. Também observa–se um pico na frequência
inercial, f . Neste limite, as ondas de Poincaré se tornam oscilações inerciais.
Considere o limite ω → f quando a órbita das trajetórias se torna circular. A relação de disper-
são, (5.12) que K → 0, indicando uma uniformidade do campo de fluxo. A equação (5.7) mostra
que η̂ tende a zero neste limite, de forma que os gradientes horizontais de pressão desaparecem
neste limite. Pelas equações em (5.18), ∂u/∂x = ∂v/∂y = 0, então pela equação da continuidade,
w = 0. Lembre que pela continuidade, ∂w/∂z = 0, mas como w = 0 no fundo e não pode apresen-
tar variação na vertical, então w = 0 na coluna toda. Isso quer dizer que as partículas se movem
horizontalmente, com cada camada desacoplada das camadas inferior e superior. Uma constatação
dessa teoria pode ser observada na Figura 35. A figura mostra a trajetória de derivadores de super-
fície no Pacífico Norte. Os derivadores essencialmente mostram as correntes de superfície, uma
vez que são levadas por elas. Nessa região, provavelmente o vento era desprezível. Desta forma, a
corrente é forçada somente pelo movimento inercial. Veja que os círculos inerciais são anticiclô-
nicos que com o tempo foram se tornando cada vez menores devido a ação das forças turbulentas,
ou seja, o atrito.
Figura 35: Trajetórias de derivadores de superfície no Pacífico. Fonte: van Meurs (1998).
100
rotação mas não tem gradiente de pressão horizontal:
∂u
− fv = 0 (5.19)
∂t
∂v
+ f u = 0.
∂t
A solução destas equações é da forma:
101
5.3 Ondas de Kelvin
Nesta seção vamos considerar o caso das ondas de gravidade que se propagam paralelamente à
uma parede. Por efeito da rotação da terra, ondas que se propagam nas proximidades de uma
parede vertical podem ser aprisionadas por esse contorno físico, Figura 36. Devido à forçantes,
essas ondas possuem amplitude máxima próxima à parede que decai conforme se afasta.
Nas regiões costeiras, as marés são frequentemente na forma de ondas de Kelvin com frequên-
cia semi–diurna. As marés são forçadas por mudanças periódicas na atração gravitacional da lua
e do sol. Essas ondas se propagam ao longo das bordas das bacias oceânicas. Adicionalmente,
tempestades cujas perturbações são difratadas (desviadas) por barreiras verticais ou espalhadas
por linhas irregulares da costa são também uma fonte de geração dessas ondas. Elas também po-
dem ser geradas num ponto longe da costa que sofre uma variação brusca ou aperiódica, como um
terremoto.
Vamos considerar uma onda se propaga ao longo da parede. Para simplificar, assumiremos que
a onda se propaga ao longo de uma parede alinhada sobre o eixo-x. A presença do contorno lateral
requer que o fluxo perpendicular à sua direção seja zero, pois a onda não pode atravessar ou sair
pela parede. Ou seja, v = 0. A onda de Kelvin é uma onda aprisionada na costa, cuja velocidade
transversal à costa é zero em todo o domínio, de modo que ela só pode se deslocar ao longo da
costa. Portanto, na presença de uma onda de gravidade sob o efeito da rotação, a componente f u
está em balanço geostrófico, ou seja, a equação do momento na direção y, equação (5.4) se torna:
∂η
f u = −g . (5.22)
∂y
De acordo com a equação geostrófica, no hemisfério sul (HS) a onda deve se propagar com a
parede à sua esquerda, como é representada na Figura 37. Para entender como varia a velocidade
do fluido devido a passagem da onda, vamos analisar a elevação da superfície do mar, como já fi-
zemos anteriormente para ondas de gravidade de superfície sem rotação. Observamos que naquela
situação, a velocidade do fluido sob a crista acompanha a direção da velocidade de fase da onda,
e sob o cavado, o contrário. Nessa figura, a onda deve se propagar para “dentro do papel”. Sob
102
a crista, a superfície decresce conforme y dimimui (perceba que eixo-y aponta para a esquerda),
o que gera um ∂η/∂y > 0. Como f < 0 no HS, a velocidade da fluido será no sentido positivo,
ou para leste, u > 0, na direcao da propagação da onda. Sob o cavado, ∂η/∂y < 0, o que resulta
em u < 0, Figura 37. Neste caso, como o onda se propaga deixando a parede do lado esquerdo, a
velocidade do fluido sob o cavado é para oeste. Sob as cristas, a velocidade do fluido é na direção
da onda, para o leste, enquanto que sob os cavados, a velocidade do fluido é na direção contrária.
Figura 37: Elevação da superfície de uma onda de Kelvin que se propaga na direção “entrando no papel”
no hemisfério sul. Adaptado de Kundu e Cohen (2002).
As equações de águas rasas são o ponto de partida para resolver o movimento das ondas de
Kelvin, lembrando que a costa está linhada com o eixo-x:
∂η ∂u
+H = 0
∂t ∂x
∂u ∂η
= −g , (5.23)
∂t ∂x
∂η
f u = −g
∂y
Assumindo uma solução na forma:
103
Substituindo nas equações (5.23) teremos:
η̂ [ω2 − gHk2 ] = 0
√
A solução não–trivial é só possível se ω = ±k gH que produz a seguinte velocidade:
p
c = gH (5.27)
que demonstra que a velocidade é não dispersiva pois não varia com o número de onda.
Note: A velocidade de propagação da onda de Kelvin é idêntica à das ondas de gravidade de
superfície. Sua equação de dispersão é linear conforme mostrada na Figura 31.
Para determinar η, combinar equações (5.24) e (5.26) para eliminar û, produzindo:
d η̂ f
± η=0 (5.28)
dy c
A solução que decai ao se afastar da costa é:
η̂ = η0 e− f y/c (5.29)
Demonstração: Mostre que a solução da equação diferencial (5.28) é dada pela equa-
ção (5.29).
Partindo da equação (5.28), usando a versão positiva, podemos rearranjar seus termos da
seguinte forma:
d η̂ f
= − dy
η̂ c
Integrando essa equação, podemos determinar o η̂:
f
lnη̂ = − y + constante
c
Calculando a exponencial dos dois lados:
f
η̂ = η0 e− c y
Se utilizarmos a versão negativa da equação 5.28, a solução não será da forma que a altura
diminui com o aumento de y.
104
Portanto, a inclinação da superfície do mar e o campo de velocidade para a onda de Kelvin é:
105
Para entender como a variação de f com a latitude gera oscilações, é necessário levar em
consideração a conservação de vorticidade potencial:
D ζ+ f
=0 (5.32)
Dt h
onde ζ ≡ ∂v/∂x − ∂u/∂y é a vorticidade relativa e f é a vorticidade planetária. A soma (ζ + f )
é a vorticidade absoluta.
Figura 38: Conservação de vorticidade potencial para uma coluna de fluido em rotação. Ilus-
tração: cortesia de Paulo Polito.
Para auxiliar na análise dessa conservação, podemos avaliar dois elementos de Q de cada
vez:
106
Figura 39: Três situações para a análise da conservação da vorticidade potencial, onde: f é
constante, h é constante e ζ é constante. Ilustração: cortesia de Paulo Polito.
107
Figura 40: Ilustração da distribuição de linhas materiais no plano horizontal para um oceano sem perturba-
ção (tracejada) e quando sujeita à perturbações devido à tensão de cisalhamento do vento (τ) (linha contínua)
no hemisfério Norte. Os círculos vermelhos representam bombeamento de Ekman positivo (para cima) e os
azuis, negativos. Cortesia: Paulo Polito.
Suponha que num determinado momento, esse oceano seja sujeito à forçantes devido ao vento
de forma que se desenvolve um movimento conforme mostrado na Figura 40 ou 41. Essa configu-
ração pode ocorrer por exemplo em regiões de convergência e/ou divergência oceânica devido ao
transporte de Ekman. Sob essas regiões, impulsionado pelo rotacional da tensão de cisalhamento
do vento (∇ × τ), ocorrerão movimentos verticais no oceano conhecidos como bombeamento de
Ekman:
∇×τ
w= . (5.33)
ρ f0
No hemisfério Sul, a região onde ∇ × τ > 0, o bombeamento será negativo (w<0) pois o f<0.
Essa velocidade vertical “empurrará” desde a base da camada de Ekman até a termoclina para
baixo, fazendo com que a camada superior fique mais espessa, ou seja, w ⇒ H1 ↑. Em primeira
ordem, para que a vorticidade potencial seja conservada, se H1 ↑ então f ↑, portanto a partícula
vai em direção ao pólo (Sul). Analogamente no hemisfério Norte, a região de ∇ × τ < 0 também
tem bombeamento de Ekman negativo pois o f>0. Como resultado da conservação da vorticidade
potencial, o fluido também terá que ir em direção ao pólo, desta vez para o Norte.
108
Ao ser deslocada, por inércia essa partícula passa do seu ponto de equilíbrio e fica com um ex-
cesso de vorticidade planetária f, conforme mostra a Figura 42. Em segunda ordem, para conservar
vorticidade potencial Q = Hf1+ζ
+η , a partícula gira com ζ < 0 e adquire η > 0. Ou seja, se f ↑, ζ ↓,
η ↑.
Figura 42: Ilustração do deslocamento meridional das partículas devido à variação da espessura da camada
do oceano por causa do bombeamento de Ekman. Cortesia: Paulo Polito.
Observe o que acontece com as partículas que estão na região da crista: a vorticidade relativa
negativa ζ < 0 vai mover a linha de η > 0 para o sul e para oeste, Figura 43. No cavado, ζ > 0
move a linha de η < 0 para o norte e oeste. Ou seja, ocorrerá um movimento resultante que será
para oeste. Essas ondas são conhecidas como ondas de Rossby. Em suma, o balanço principal do
oceano é geostrófico, porém a propagação de η para oeste é um efeito quase–gestrófico secundário
que ocorre para conservar a vorticidade potencial das partículas sobre o fluido em rotação. A
ordem de grandeza da velocidade de fase dessas ondas é de O[1-10][Link]−1 .
Figura 43: Ilustração do deslocamento zonal das partículas devido a vorticidade relativa em resposta à
variação da vorticidade planetária para conservar a vorticidade potencial. Cortesia: Paulo Polito.
f = 2Ω sinϕ.
109
Se a coordenada y do eixo de referência for direcionada para o norte e medida a partir de uma
latitude φ0 de referência, por exemplo a latitude do meio da onda em questão, podemos definir
ϕ = ϕ0 + y/a, onde a é o raio da terra. Considerando que y/a é pequeno em comparação a ϕ,
podemos expandir o parâmetro de Coriolis em série de Taylor como:
y
f = 2Ω sinϕ + 2Ω cos ϕ0 + ... (5.34)
a
Utilizando–se somente os dois primeiros termos da expansão, teremos:
f = f0 + β y (5.35)
• Termos grandes: f0 , g e H.
• Termos pequenos: ∂ e β.
∂t
Portanto, o movimento dominante é o geostrófico no plano f , porém sujeita à pequenos ajustes.
Observe também que o termo temporal deve ser mantido pois as ondas só existem ondas se houver
dependência temporal. O modelo geostrófico não é uma função do tempo por isso dizemos que é
uma ferramenta diagnóstica do movimento. Por outro lado, o movimento quase–geostrófico que
tem dependência temporal é prognóstico.
110
Numa primeira aproximação, os termos grandes dominam e portanto podemos escrever as
componentes geostróficas da velocidade:
g ∂η
u ' − (5.40)
f0 ∂y
g ∂η
v ' (5.41)
f0 ∂x
Substituindo u e v nos termos pequenos das equações (5.37) e (5.38), teremos:
g ∂η g ∂2 η βg ∂η
u=− − 2 + 2y (5.42)
f0 ∂y f0 ∂x∂t f0 ∂y
e
g ∂η g ∂2 η βg ∂η
v= − 2 − 2y (5.43)
f0 ∂x f0 ∂y∂t f0 ∂x
Substituindo–se as velocidades quase–geostróficas na equação da continuidade temos:
∂η ∂ ∂η
− R2 ∇2 η − βR2 =0 (5.44)
∂t ∂t ∂x
ou como é comumente expressa:
∂2 η ∂2 η f02
∂ ∂η
2
+ 2 − 2 η +β =0 (5.45)
∂t ∂x ∂y c ∂x
√
onde R = fgH 0
, ou ainda R = fc0 , que é conhecido como raio de deformação de Rossby. A equa-
ção (5.45) é conhecida como a forma quase–geostrófica da equação linearizada da vorticidade que
governa os movimentos de larga–escala. Deduzimos essa equação manipulando diretamente as
equações do movimento e da continuidade, mas poderiamos tê–la deduzida a partir da linealiza-
ção da equação da conservação da vorticidade potential (ver a dedução alternativa no (Kundu and
Cohen 2002)). Essa equação se parece com uma equação de onda. Portanto, podemos tentar uma
solução oscilatória da forma:
η = η0 ei(kx + ly − ωt)
onde η0 é a amplitude, k e l são os números de onda e ω é a frequência.
Substituindo a equação de η na equação da vorticidade (5.45) podemos determinar a relação
de dispersão para as ondas de Rossby:
k βk
ω = −βR2 =− (5.46)
1 + R2 (k2 + l 2 ) k2 + l 2 + f02 /c2
Observe que essa relação de dispersão é assimétrica em relação a k e l, o que implica que o
movimento da onda é não isotrópico na horizontal; isso já era esperado devido ao efeito β.
Consideremos ω para valores positivos somente, então os sinais de k e l servirão para deter-
minar a direção de propagação da fase. Podemos fazer algumas considerações sobre as ondas
analisando a equação (5.46). Se a correção β não for feita, ou seja, β = 0, voltaremos para o caso
111
do plano f , e não teremos as ondas de Rossby pois a frequência se torna nula. Para os casos em
que as ondas existem, podemos ainda comparar o comprimento de onda característico com o raio
de deformação e mostrar que a frequência das ondas de Rossby é muito pequena. Se definirmos
L(≈ 1/kx ≈ 1/ky ) como uma medida do comprimento de onda, teremos dois casos: L <≈ R ou
L >≈ R:
Figura 44: Relação de dispersão das ondas de Rossby da frequência em função do número de onda k e l = 0,
(gráfico superior) com regiões de velocidade de grupo positivo e negativo. No painel inferior, relação de
112
dispersão visto de cima, no espaço das componentes do número de onda. As setas perpendiculares indicam
a direção da velocidade de grupo. Fonte: Kundu e Cohen (2002).
A relação de dispersão ω(k, l) a partir da equação (5.46) pode ser mostrada como uma super-
fície, tomando k e l ao longo do eixo horizontal e ω ao longo do eixo vertical. A seção desta
superfície ao longo de l = 0 é indicada no painel superior da Figura 44. Os contornos de ω são
circunferências pois a relação de dispersão pode ser escrita como:
β 2 2
2
f2
β
k+ +l = − 02 .
2ω 2ω c
Figura 45: Relação de dispersão das ondas de Rossby em 3D onde nos eixos horizontais estão representadas
as componentes do número de onda e no eixo vertical, a frequência. Cortesia: Paulo Polito.
ω −βR2
c px = = (5.47)
k 1 + R2 (k2 + l 2 )
ω −βR2 (k/l)
c py = = (5.48)
l 1 + R2 (k2 + l 2 )
Observe que a componente zonal da velocidade de fase é sempre negativa, o que implica
que estas ondas vão sempre para oeste. O sinal da componente meridional não é determinado
pois pode ser postitivo ou negativo e portanto a onda pode ter uma componente tanto para o norte
113
como para o para o sul. Em suma, as ondas de Rossby só podem se propagar para o noroeste, oeste
ou sudoeste. Especificamente as ondas de Rossby muito longas, ou seja, ambos 1/kx e 1/ky muito
maiores que R, a velocidade de propagação se reduz à:
c = −βR2 .
Isto significa que estas ondas só podem se propagar para oeste e esta é sua máxima velocidade
permitida.
A velocidade de grupo, que é a velocidade pela qual a energia da onda se propaga, é definida
∂ω ∂ω ˆ
como o vetor c~g = ( î, j) e representa o gradiente da função ω no plano dos números de onda
∂k ∂l
(kx , ky ), Figura 46. As componentes são:
Usando β = 2 × 10−11 m−1 s−1 , um típico valor de c ' 2m/s e um valor típico para latitudes
médias de f0 ' 10−4 s−1 , estima–se que cx ' 10−2 m/s. Com uma velocidade tão baixa, as ondas
de Rossby podem levar anos para atravessar o oceano em latitudes médias. As ondas de Rossby no
oceano são mais importantes em baixas latitudes, onde elas são mais rápidas. Note que a relação
de dispersão (5.46) não é válida numa faixa próxima do equador, pois nessa região a geostrofia não
pode ser definida.
114
Figura 46: Relação de dispersão das ondas de Rossby no espaço das componentes do número de onda.
Cortesia: Paulo Polito.
5.6 Exercícios:
1. Considere um oceano formado por uma camada de água de profundidade H sobre um fundo
plano. Assuma que a coordenada vertical é apontada para cima e fixa no fundo. O oceano
é perturbado gerando um deslocamento η da superfície livre. Considere o oceano invíscido.
Responda as questões abaixo:
(a) Escreva a equação da pressão num ponto z medido em relação ao fundo causada pela
variação da altura da superfície devido à passagem da onda, se o fluido está em balanço
hidrostático;
115
(c) Escreva as equações do movimento horizontal linearizadas para ondas cuja frequência
é comparável com o parâmetro de Coriolis em função da variação da altura da onda;
(d) Deduza a equação da continuidade para a aproximação de águas rasas. Discuta que
nesse caso, o divergente do transporte horizontal é responsável pelo afundamento da
superfície livre.
Dica: Integre a equação da continuidade na vertical entre z = 0 até z=H + η e escreva
em função da velocidade vertical.
2. A partir das equações de movimento de águas rasas quando o efeito da rotação da terra
seja comparável com o parâmetro de Coriolis, mostre que a relação de dispersão é dada por
ω2 − f 2 = gHK 2 , onde H é a profundidade e K é o número de onda total. Discuta se essas
ondas são dispersivas ou não. Que ondas são essas? Plote a relação de dispersão.
4. As equações das velocidades zonal e meridional para esta onda de Poincaré são dadas por:
ωη̂
u= cos(kx − ωt)
kH
f η̂
v= sin(kx − ωt)
kH
Escreva a equação da órbita dos vetores velocidade. Qual a forma geométrica? Quais os
semi-eixos maior e menor? Há diferença nas trajetórias de u e v se esta mesma onda se
propagar no hemisfério Norte?
116
6. Desenhe a trajetória definida pelos vetores velocidade u e w. Considerando que esta onda
de Poincaré se propaga no hemisfério Sul, desenhe o sentido da deflexão da trajetória nos
pontos mais alto e mais baixo desta.
9. Escreva as equações de águas rasas para um oceano em rotação que permita a propagação
de ondas de Kelvin ao longo de uma costa alinhada com o eixo-y. Determine a relação de
dispersão para as ondas de Kelvin que se propagam ao longo dessa costa. Qual a direção
dessas ondas no hemisfério Sul. Determine o raio de deformação de Rossby para ondas que
se propagam na região costeira de São Paulo.
10. No equador o parâmetro de Coriolis é zero, f = 0. Desta forma, para se estudar processos
dinâmicos tropicais é usual escrever:
f = β0 y,
117
(a) Determine a relação de dispersão dessa onda zonal. Dica: escreva as equações de onda
para a velocidade e altura e as substitua nas equações do movimento e a da continui-
dade.
(b) Qual a velocidade de propagação da onda e para que direção ela se propaga próximo
ao equador? Que ondas são essas?
(c) Esta onda fica aprisionada próximo ao equador. Determine a equação da elevação da
altura (η) em função de y. Dica: Resolva a equação diferencial da altura obtida através
das equações que governam o movimento.
11. As equações que governam o movimento para um oceano de águas rasas para um oceano de
profundidade constante H e limitado por uma costa alinhada com o eixo-x são as seguintes:
∂η ∂u
+H = 0 (5.54)
∂t ∂x
∂u ∂η
= −g ,
∂t ∂x
∂u
f u = −g
∂y
Assuma que a solução destas equações possam ser expressas como:
Responda:
(a) Qual é a relação de dispersão dessas ondas? Que ondas são essas? Plote a relação de
dispersão.
(d) As ondas geradas nesse caso são ondas aprisionadas na costa pois elas tem a maior
amplitude próximo à costa e decai conforme se afasta da costa. Determine a partir das
equações qual é a escala de decaimento dessas ondas.
12. Uma tempestade atingiu a região de Santa Catarina e causou uma maré meteorológica nas
proximidades de Florianópolis. Essa perturbação se afasta dessa região como uma onda de
Kelvin. Responda:
118
(a) A perturbação é gerada pelo empilhamento de água contra a costa. Qual a direção e
sentido do vento que causaria esse fenômeno?
(c) Considerando que a profundidade média da região costeira é de 50 m, essa onda poderá
ser detectada no Rio de Janeiro ou em Rio Grande (RG). Depois de quanto tempo?
13. Considere ondas de Rossby de propagação zonal num oceano de profundidade H, para o
caso onde o comprimento de onda é maior que o raio de deformação de Rossby, λ c/ f .
Determine a velocidade de fase, a velocidade de grupo e o período para duas ondas cujos
comprimentos de onda são λ = 1000 km e λ = 300 km. Qual a direção de propagação dessas
βk
ondas? Qual é mais rápida? Elas são dispersivas ou não? Dado: ω = − 2 2 ,
k + l + f02 /c2
β = 2 × 10−11 m−1 s−1 , f = 10−4 s−1 , H = 5000m.
15. Considere agora um fluido com vorticidade relativa nula no plano β que se desloca de uma
região onde | f | = | f1 | para uma região onde | f | = | f2 |. Sabendo que | f2 | < | f1 | e que a
profundidade é constante, para que a vorticidade potencial se conserve, deve haver geração
de vorticidade relativa. Se este fluido estiver no hemisfério Sul, a vorticidade relativa gerada
será ciclônica ou anticiclônica? E se o fluido estiver no hemisfério Norte?
16. A força restauradora das ondas de Rossby é a conservação da vorticidade potencial. Qual a
condição necessária para a existência das ondas de Rossby num oceano homogêneo, invís-
cido e de fundo plano? Se a Terra fosse cilíndrica, haveria ondas de Rossby, de Kelvin e de
Poincaré? Explique. Sabendo que a relação de dispersão das ondas de Rossby é dada por:
βk
ω=− ,
k2 + l 2 + R−2
119
√
gH
onde R = f0 , se a condição necessária não fosse satisfeita, qual seria o valor de ω?
18. A partir da relação de dispersão das ondas de Rossby dadas no item (c), calcule as velocida-
des de fase zonal (c px ) e meridional (c py ) e as velocidades de grupo zonal (cgx ) e meridional
(cgy ). Faça as aproximações de ondas longas e ondas curtas para c px e cgx assumindo l = 0.
Quais os sentidos das velocidades de fase e de grupo para as duas aproximações? Elas são
dispersivas ou não dispersivas? Por que as ondas de Rossby são anisotrópicas horizontal-
mente?
k βk
ω = −βR2 =− (5.55)
1 + R2 (k2 + l 2 ) k2 + l 2 + f02 /c2
onde R é o raio de deformação de Rossby. Derive uma expressão para a componente zonal da
velocidade de fase e para a velocidade de grupo no caso de ondas longas. Elas são dispersivas
ou não–dispersivas? Explique.
120
6 Marés
“A maré é uma distorção no formato de um corpo induzido pela atração gravitacional de um outro
objeto em sua proximidade.”
Essa definição claramente relaciona as marés como resultado da gravitação; os efeitos da rota-
ção não são mencionados. Por outro lado, poderíamos argumentar que a rotação por si só poderia
gerar distorções na superfície da Terra, dando–lhe um formato oblongo, caracterizado por um “ca-
lombo” na região equatorial. Somente devido à rotação, a superfície pode se elevar até 23 km
(0,4%) acima do nível que teria se não estivesse girando em torno de seu eixo. Isto não é um efeito
de maré. Nem tampouco é devido à atração gravitacional de uma massa externa ou apresenta vari-
ações periódicas sincronizadas com uma força externa gravitacional. De fato, é sobre este formato
de referência que medimos a variação da superfície causada pelas marés.
Em teoria, os fluidos são atraídos por todos os campos gravitacionais que atuam sobre eles.
Entretanto na prática, com exceção à própria gravidade da Terra, somente o Sol e a Lua têm in-
fluência fortes o suficiente para induzir variações perceptíveis no oceano. A resposta observada
na Terra em relação à interação com estes dois corpos celestes é dada na forma de uma sequência
muito complexa de movimentos de maré que variam em fase, frequência e amplitude. As forçantes
mais importantes de maré têm frequências que variam desde aproximadamente duas vezes ao dia
até duas vezes ao ano.
As marés influenciam a profundidade do oceano e produzem correntes, o que tornam a previsão
das marés uma questão importante para a navegação. Pelo fato de influenciar o nível do mar, as
marés influenciam o habitat dos organismos que vivem em zonas intermarés. Além disso, as marés
podem forçar correntes que interagem com o fundo do oceano produzindo turbulência que tende
a promover mistura das camadas mais fundas. Se estas correntes de maré forem suficientemente
intensas, podem prevenir a estratificação da camada. Por causa disso, existem regiões no oceano
que são permanentemente misturadas por efeito da maré. Existem espécies que utilizam de área de
forte mistura por maré para se reproduzirem.
Em condições onde a mistura de maré é menos intensa e a coluna d’água se torna estratifi-
cada, a interação das correntes de maré e a topografia de fundo pode levar à formação de ondas
internas na termoclina durante o período da maré. Estas ondas se propagam para as regiões mais
rasas, perdem energia e decaem, porém ao mesmo tempo promovem mistura vertical e redistribui-
ção de nutrientes, sendo assim importantes na produção fitoplanctônica. Por vezes, essas ondas
internas chegam a produzir ondas solitárias que podem influenciar na distribuição de organismos
zooplanctônicos e larvas de peixes.
As correntes de marés ao se moverem para dentro e para fora de bancos rasos, interagem com
a topografia de fundo e geram corrrentes unidirecionais que formam giros em torno desses bancos.
A combinação de águas misturadas pela maré no topo desses bancos e os giros em torno de sua
periferia podem prover condições particularmente apropriadas para o desenvolvimento de ovos e
larvas de peixes.
Esses são alguns aspectos que tornam o entendimento das marés importante não só pela sua
121
influência na dinâmica dos oceanos mas também devido ao seu impacto no aspecto biológico.
Fazendo o mesmo cálculo para a Lua, cuja distância em relação à Terra é Dl = 3, 84 × 108 m,
teremos:
GMl 6, 674−11 N(m/kg)2 7, 3477 × 1022 kg
al = = = 3, 39 × 10−5 N kg−1 .
D2l (3, 84 × 108 m)2
122
está em rotação. Lembre, que a maré é uma deformação que é sobreposta à superfície de equilíbrio
da Terra, aquela que já está deformada devido ao movimento de rotação.
Por simplicidade, vamos considerar que o sistema é composto somente pela Terra e pela Lua;
ignoremos o Sol. No sistema inercial, a força que mantem a Lua girando em torno da Terra é a
gravitacional. A Lua e a Terra estão em queda livre em direção ao centro de massa do sistema que
fica em algum ponto dentro da Terra. (A Terra e a Lua não "caem"em direção a esse ponto pois o
momento angular devido a rotação é o suficiente para equilibrá-los numa órbita circular.)
Vamos entender como ocorrem as diferenças na atração gravitacional considerando distintos
pontos sobre a Terra. Para simplificar, vamos assumir que a Terra é coberta por oceano de profun-
didade uniforme e sem continentes. Considere que R é o raio da Terra cujo centro fica no ponto
O. Considere ainda dois pontos sobre a superfície: C que fica mais proxímo à Lua e F, no ponto
mais distante em relação à Lua, do lado oposto de C, Figura 47. Como a atração gravitacional
depende do quadrado da distância, Lua “puxa” o ponto C mais fortemente por unidade de massa
do que o ponto O, que por sua vez é mais forte do que o ponto F. Em relação ao centro da Terra,
a aceleração do ponto C será a + ∆a e o ponto F, a − ∆a. Tomando–se 1 kg de massa no centro O,
podemos calcular a sua aceleração em direção à Lua:
GMl
a= . (6.1)
D2l
Calculando a aceleração gravitacional causada pela Lua no ponto C, teremos:
GMl
aC = .
(Dl − R)2
Essa é a aceleração da Terra como um todo, em queda livre em direção ao centro de massa do
sistema Terra–Lua, e é determinada pela atração gravitacional da Lua aplicada no centro da Terra.
Existe uma diferença de aceleração efetiva em relação à Lua, ∆al , de um objeto sobre o ponto C, e
um no ponto O:
2 Dl R − R2
1 1
∆al = GMl − = GM l 2 .
(Dl − R)2 D2l Dl (Dl − R)2
Como R é pequeno comparado com Dl , podemos simplificar a equação acima para:
2 Dl R constante
∆al = G Ml = = 1, 103 × 10−6 N kg−1 . (6.2)
D4l D3l
Ou seja, a diferença da aceleração gravitacional entre esses dois é aproximadamente proporcional
ao cubo da distância do corpo que está sendo atraído. Isto significa que se a Lua estive na
metade da atual distância, as acelerações da maré seria oito vezes mais intensas. Essa é a força
responsável pela elevação da superfície do mar devido à maré do lado mais próximo à Lua.
Se fizermos esse cálculo para o ponto F, deduziremos a mesma diferença de aceleração con-
forme mostrada na equação (6.2). Para tanto, considerar que o ponto F está numa distância Dl + R
da Lua. Este exercício pode ser aplicado em qualquer ponto na Terra, inclusive no seu interior.
Através destes cálculos mostramos que tudo na Terra está sendo atraído em direção à Lua, porém
com intensidades diferentes.
123
Do ponto de vista de um observador na Terra, ou seja, no referencial da Terra, o ponto C estaria
acelerado em direção à Lua com ∆al , o ponto O estaria parado em relação à ele, e o ponto F,
estaria acelerado em direção contrária à Lua, com aceleração −∆al . Se não fosse pela atração
gravitacional da própria Terra, o planeta poderia ser “desintegrado”. Como resultado da atração
da Lua, nos pontos C e F o observador “sentirá” uma aceleração relativa de g − ∆al apontada
em direção do centro da Terra. Este é exatamente o motivo pelo qual se explica a existência da
elevação da superfície do mar do lado oposto à da Lua.
O resultado da ação destas forças é o movimento da água em direção aos pontos C e F, que
num estado de equilíbrio geram um elipsóide de revolução com dois “calombos” apontados na
direção e oposto à Lua. Esta configuração é conhecida como a maré de equilíbrio. Obviamente,
as setas apresentadas na Figura 47 são exageradas para facilitar a visualização e compreensão.
(Vale lembrar que só conseguimos perceber essas protuberâncias na altura do mar porque a Terra
é sólida. Se a Terra fosse maleável, o fundo dos oceanos se deformaria juntamente com a água
devido as forças da maré.)
Figura 47: Diagrama mostrando as forças geradoras da maré em diversos pontos sobre a Terra. A Lua está
à direita da figura.
Em outros pontos, como E ou G, devemos levar em conta que como a Lua está a uma distância
finita da Terra, as linhas de força que passam por eles não são paralelas a linha que sai de O. Desta
forma, ao fazermos uma decomposição de vetores, verificaremos que haverá uma componente
proporcional à sinα apontada para o centro da Terra, onde o ângulo α é medido entre a linha que
liga os centros da Lua e da Terra e a linha entre E e o centro da Lua, de forma que tanα = R/Dl .
Portanto, a aceleração em E e G será proporcional à g + ∆al /2, apontada para o centro da Terra.
Neste ponto, vale lembrar que toda a dedução das forças geradoras da maré são feitas consi-
derando um sistema inercial, sem aceleração. A rotação do sistema Terra–Lua não foi levada em
consideração e mesmo assim as forças de maré são geradas. O que prova a hipótese inicial que as
marés são resultado da atração gravitacional, e não rotação.
124
Existe uma explicação alternativa sobre a física das marés que inclui uma “aparente” força
centrífuga na Terra devido à rotação do sistema Terra–Lua em torno do seu centro de massa.
Por causa da relação de massas da Terra e da Lua, esse centro de massa está localizado a
aproximadamente 1600 km abaixo da superfície da Terra. A Terra realiza um movimento de
translação em torno deste centro, mas sem rotação. Imagine o movimento circular de uma
frigideira nas mãos de um cozinheiro. Em relação a um referencial inercial, todos os pontos na
Terra apresentam uma aceleração a0 cuja magnitude e direção são os mesmos. Todos os pontos
descrevem um círculo de mesmo raio e portanto apresentam a mesma velocidade angular em
torno deste centro de massa.
A força centrífuga é a mesma para qualquer ponto na Terra e por isso não pode contribuir
para as forças de maré. Entretanto, essa força centrífuga uniforme é igual à força gravita-
cional (Terra–Lua) que age no centro da Terra, porém com direção contrária. Desta forma,
subtraindo–se essa força gravitacional do centro da Terra das forças de gravidade local, ou
seja, da força gravitacional da Lua, como fizemos acima para determinar as forças geradoras
da maré, tem o mesmo efeito que adicionar uma força centrífuga uniforme, como alguns textos
na literatura afirmam. Embora as duas explicações pareçam diferentes, eles levam ao mesmo
resultado.
Devemos compreender que no final as duas explicações devem ser satisfatórias para se
entender o movimento da maré pois o problema é o mesmo. A diferença é que essa segunda
explicação inclui uma força fictícia: a força centrífuga. Essa força deve ser introduzida para ex-
plicar o movimento que está sendo analisado dentro de um sistema de referência não–inercial.
A única forma de explicar como surge o elipsóide de revolução nesse sistema seria uma força
fictícia que equilíbra a atração gravitacional. Na realidade essa força não existe, é fictícia e
sendo assim, não existe uma forçante real que esteja gerando esse movimento.
Podemos fazer cálculos análogos em relação ao Sol considerando somente a Terra e o Sol, onde
a Terra está em queda livre em direção ao Sol.
2 Ds R constante
∆as = G Ms = = 5, 052 × 10−7 N kg−1 . (6.3)
D4s D3s
A atração gravitacional do Sol é 178 vezes mais forte que a da Lua. Como a força da maré
é proporcional ao inverso do cubo da distância, a relação de distâncias é Ds /Dl ' 390. Então, a
atração do Sol é somente 178/390 = 0,46 da atração pela Lua, ou seja ∆as = 0, 46∆al . Podemos
analisar também pelas equação (6.2) e (6.3). Como ∆al /(∆al + ∆as ) = 69%, podemos ver que a
Lua domina no mecanismo de maré.
125
6.2.1 Teoria de maré de equilíbrio
Esta teoria também é conhecida como a teoria estática das marés e foi introduzido por Newton
para investigar a resposta oceânica à forças geradoras da maré. Na teoria de equilíbrio, assume–se
que a Terra inteira é coberta de água de profundidade e densidade uniforme. Toda as deduções
acima foram feitas sob a suposição dessa teoria. Num tempo suficiente longo, o equilíbrio será
estabelecido quando as forças de pressão hidrostática que resultam da inclinação da superfície em
relação às superfícies geopotenciais se equilibram às forças geradoras da maré, Figura 48.
Figura 48: Do lado esquerdo é apresentada a magnitude relativa das forças geradas da maré em vários
pontos sobre a Terra. Na direita, a deformação da superfície do mar devido à maré, mostrada de forma
exagerada. Em ambos casos, a Lua está na direção do equador terrestre.
Dentro dessa teoria, como resultado das forças geradoras da maré, observaremos a forma elip-
sóide da superfície dos oceanos, com o eixo maior sempre apontado para a Lua. Esta superfície
de equilíbrio tem a mesma energia potencial, ou seja, é equipotencial. Com a rotação da Terra,
uma sequência de duas marés altas, que coincidem com a posição da Lua ou Sol no seu zenite ou
nadir, e duas baixas são observadas para cada dia lunar, exceto nas regiões próximas a E e G. Esta
teoria explica a natureza das marés semidiurnas e as diferenças na altura do mar em altas ou baixas
sucessivas.
Como resultado das forças atrativas, a maré de equilíbrio gera duas marés altas e duas baixas
por dia lunar, Figura 49. Esta é conhecida como a constituinte da maré lunar semidiurna. Seu
período é de 12,42 h e denotada como M2 , Tabela 6.2.1. A constituinte principal da maré lunar
diurna, K1 , tem um período de 23,93h.
126
Figura 49: Diagrama para a maré lunar semidiurna. Fonte: Brown e Open University Team (1997).
O dia lunar dura 24,84h, e portanto maior que o dia solar. Para entendermos qual a relação
entre o dia solar e o lunar, vamos examinar a Figura 50. Considere um observador na Terra na
posição X quando a lua estiver exatamente acima. Após 24 horas, o ponto X estará exatamente na
mesma posição. Enquanto isso, a Lua se moveu na sua órbita em volta da Terra, de modo que para
ter a Lua exatamente acima da posição X, são necessários 50 min adicionais. O sistema Lua–Terra
gira em torno do seu centro de massa com um período de 27,32 dias.
Exercícios:
127
1. Usando o valor de 40,000km para a circunferência da Terra e um período de 24h50m,
para um dia lunar, calcule a velocidade dos bojos da maré em relação à superfície ao
longo do equador, para que eles acompanhem o movimento da Lua e por conseguinte
mantenham a maré de equilíbrio.
Solução: A velocidade deve ser:
40 × 106 m
V= = 1611km h−1 = 448m s−1 .
24.83h
2. Para permitirmos que os bojos da maré se propaguem como ondas num oceano de águas
rasas com a velocidade determinada acima, qual deveria ser a profundidade do oceano?
√
Solução: A velocidade de fase de uma onda em águas rasas é dada por c = gH, onde
g é a aceleração da gravidade e H é a profundidade. Para o caso da velocidade da onda
de maré de equilíbrio, c = 448m s−1 , a profundidade deveria ser:
c2
H= = 20, 480m.
g
Ou seja, o oceano deveria ter ≈ 20km de profundidade.
Na Figura 49 também está representado o fato que o equador da Terra não está alinhado com a
posição da Lua, representado como o ângulo da declinação da Lua, (Brown and Open University.
Oceanography Course Team 1997). Isso significa que a linha que une o centro da Terra à Lua faz
um ângulo que pode variar de zero a 28.5◦ , para cada lado do plano equatorial. Para um observador
na Terra, o efeito da declinação faz com que a Lua atravesse o céu em diferentes altitudes durante
o período de 27.3 dias da Lua em torno da Terra. Isso é semelhante ao efeito aparente de vermos
uma variação da trajetória do Sol durante o ano, sendo mais baixo nos invernos e mais alto nos
verões. Devido à declinação da Lua, a órbita da Lua, e portanto os bojos, são inclinados em relação
ao equador da Terra. Desta forma, as duas altas ao longo do dia lunar não são iguais dos dois lados
da Terra. Isto é conhecido como a desigualdade diurna da maré lunar semidiurna.
Os principais períodos de interesse para a maré são o do dia (2π/Ω), mês lunar (2π/Ωm =
27, 321 dias) e o ano tropical (2π/Ωy = 365,242 dias). Na prática, a frequência:
Ωl = Ω − Ωm + Ωy
128
Os períodos dominantes de maré podem ser classificados em três grupos: semidiurno, diurno e de
longo período (14, 28, 180 dias, etc.)
O formato da bacia é um fator marcante na determinação do sinal da maré num local específico,
que pode ser predominantemente semidiurno, diurno ou uma mistura dos dois, Figura 51.
129
Figura 51: Série temporal para os três tipos principais de maré: semidiurna, mista e diurna. Os dados estão
referenciados em relação ao nível médio do mar. Fonte: NOS tidal datum.
As marés devido ao Sol também devem ser consideradas. Por exemplo, a maré S2 , com período
de 12 h, é uma outra componente semidiurna importante.
Quando o Sol, a Terra e a Lua estão alinhados, como ocorre na Lua nova e Lua cheia, as forças
de maré do Sol e da Lua estão na mesma direção e causam marés altas maiores que a média, e
marés baixas mais baixas que a média. Estas marés mais fortes são chamadas de marés de sizígia.
Enquanto que nas Luas crescente e minguante, a força de maré da Lua está na direção perpendicular
a do Sol. Isto faz com que em média as marés seja menores. Estas são conhecidas como marés
de quadratura, Figura 52. O período de rotação do sistema Terra–Lua é de 27.3 dias. Porém o
ciclo completo de maré, incluindo os eventos de sizígia e quadratura, leva 29.5 dias. Isto por que a
Lua leva 27.3 dias para orbitar completamente a Terra, porém como o sistema Terra–Lua também
orbita em volta do Sol, é necessário um tempo extra de 2.2 dias para que a Terra e a Lua voltem
exatamente para a mesma posição. A analogia é a mesma para se explicar o porquê da diferença
130
entre o dia solar e lunar.
Figura 52: Esquema ilustrativo para a maré de sizígia e maré de quadratura, olhando do ponto de vista
do polo Norte. Duas elipses sólidas representam o contorno da Terra elástica causada pelas forças de maré
produzido pela atração devido à Lua durante a sizígia (Lua nova ou cheia) e quadradura (quarto crescente
ou minguante). As elipses pontilhadas com contornos menores representam a deformação devido à atração
pelo Sol.
O problema da teoria estática é que ela só consegue prever marés lunares de apenas 0,55 m e
0,24 para marés solares, que combinados dariam um máximo de 0,79 m de variação total. Entre-
tanto, as marés observadas nos oceanos reais são muito maiores. Além disso, essa teoria falha na
previsão das respostas de outros constituintes, Tabela 6.2.1.
Até então levamos em consideração o modelo de maré de equilíbrio baseada nas primeiras ex-
plicações dadas por Newton a respeito das marés semidiurnas. Ele tinha conhecimento sobre as
diferenças entre a maré de equilíbrio prevista e as observadas, mas não foi muito adiante para
resolver esse problema.
Nesse modelo, somente o movimento relativo entre a Lua e Terra são considerados, a Terra é
uma esfera sem rotação coberta por um oceano de profundidade uniforme e estático, ou seja, sem
correntes. A força geradora da maré é resultado do gradiente de força de atração gravitacional
entre a Terra e a Lua que gera as duas protuberâncias no oceano. Considerando que a Terra tem
um movimento de rotação, os pontos sobre a Terra apresentam marés semidiurnas. Essa maré é
conhecida como a maré de equilíbrio.
A teoria de equilíbrio prevê marés semidiurnas em todos os pontos do planeta com uma peri-
odicidade de 12h25m. Esse tempo significa que no equador a Lua passa com uma velocidade de
131
aproximadamente ≈ 450 m s−1 . Essa velocidade é devido ao efeito combinado da rotação da Terra
e do movimento da Lua ou do Sol em relação à Terra. Ou seja, os ”calombos” da maré devem
se propagar com essa velocidade. Essa periodicidade não é observada na prática. Logo a seguir
veremos que a velocidade de propagação da maré é limitada pela profundidade dos oceanos.
A teoria de equilíbrio tem uma limitada aplicação prática, mas suas previsões são corretas para
prever a ocorrência das marés de sizígia e de quadratura, as diferenças de amplitude entre elas e a
desigualdade da amplitude da maré devido à declinação da Lua.
Existem algumas razões pelas quais as marés reais não se comportam com as marés de equilí-
brio:
• A Terra gira em torno do seu eixo muito rapidamente de forma que a inércia da água e
as forças de fricção no fundo dificultam a maré de equilíbrio se manter juntamente com o
movimento da Lua. Então, existe um atraso entre a resposta do oceano e as forças geradoras
da maré. O atraso da maré faz com que a maré alta chegue algumas horas depois da passagem
da Lua a pino no céu. Esse atraso diminui com a latitude.
• Fora do equador, todo movimento de larga escala sobre a influência da força de Coriolis.
De acordo ainda com a teoria de equilíbrio, a altura total da maré deveria ser entre 20 e 50 cm,
entretanto as variações são muito maiores. Então o que há de errado na teoria de equilíbrio? Essa
teoria não leva em consideração que o oceano é formado por bacias de formatos irregulares e que
as protuberâncias da maré sofrem fricção ao se moverem através das bacias e que a própria água
tem inércia uma vez que esteja em movimento.
Uma teoria completa da maré deve levar em consideração a resposta oceânica às variações
temporais das forças geradoras de maré. A teoria dinâmica foi desenvolvidas por cientistas e ma-
temáticos como Bernoulli, Euler e Laplace, 100 anos após a teoria de equilíbrio vislumbrada por
Newton. Na teoria dinâmica, a Terra inteira ainda é considerada coberta de água numa profun-
didade uniforme mas as forças atrativas agora enxergam os bojos da maré como ondas de marés.
Essas forças são capazes de gerar ondas com períodos correspondentes à constituintes da maré, ou
seja, ondas forçadas. Esta teoria prevê um aumento nas amplitudes do estado–estacionário quando
132
as forças geram variações próximas ao período natural de oscilações do sistema. A aceleração de
Coriolis e a aceleração vertical da partícula são desprezíveis.
Essa onda de maré tem uma altura relativamente pequena, de aproximadamente 50 cm em
oceano aberto, e um comprimento de onda muito longo, de 20000 km, ou seja, meia circunferência
da Terra. Isso faz que a profundidade média dos oceanos, 4000 m seja muito, muito menor que o
comprimento da onda da maré. Então, a onda de maré é uma onda de gravidade de superfície de
águas rasas em todo lugar e interage continuamente com o fundo do oceano. A velocidade de fase
√
de uma onda de gravidade longa é ditada por c = gH onde H é profundidade do oceano. Nesse
caso, a velocidade da onda de maré é limitada a 200m s−1 . Sendo uma onda de águas rasas, a onda
de maré sente o fundo, desacelera, se eleva e as vezes pode quebrar. Além disso, a onda de maré
reflete, refrata e interefe com outras ondas.
Suponha que uma onda com comprimento de onda muito longo (L) seja introduzida numa
bacia retangular de profundidade uniforme D. A onda avança através da bacia, reflete na borda e
se propaga de volta através da bacia. Dado um tempo suficiente, uma onda regular irá interagir
com a refletida e gerar uma onda estacionária. Nessa configuração, ocorrerá regiões onde o nível
do mar não se alterará, conhecidas como linhas nodais, e opostamente, onde as variações devido
à onda serão máximas, nas linhas antinodais. Pontos nodais, também conhecidos como pontos
anfidrômicos ocorrem perto do centro da bacia, Figura 53.
Figura 53: Esquema ilustrativo para formação de pontos anfidrômicos numa bacia retangular no hemisfério
Norte. ([Link]
133
o lentamente de um lado para o outro, como mostra a Figura 54.
Figura 54: Experimento com tanque para mostrar a formação de uma linha nodal devido à oscilação
do líquido.
Realizando esse movimento de forma cuidadosa, logo poderemos fazer com que o líquido
oscile de um lado para o outro, até que a altura do mesmo atinja um nível máximo de um lado
e mínimo do outro. (Se exagerar no movimento, a água espirrará para fora. Vamos manter
o experimento o controlado, sem derramar.) Aproximadamente no meio do tanque haverá a
formação de uma linha estacionária que separa os dois lados do tanque onde a onda sobe e
desce. Temos a formação da linha nodal e na borda lateral do tanque o nível da água varia
entre o mínimo e o máximo. Note que a forma do tanque é importante na determinação dessa
linha. Nesse caso, o efeito da rotação não é importante.
Além de considerar o efeito de entrada e saída da água numa bacia, devemos considerar
desvio no movimento devido à ação da aceleração de Coriolis, Figura 55. No exemplo, a água
entra na bacia pelo lado sul. Enquanto em movimento, a onda é desviada para a direita no
hemisfério Norte, o que faz com que haja um empilhamento da água do lado direito da bacia
na maré enchente. Na maré cheia, a parte norte da bacia terá o nível máximo de água. Na
saída a água da bacia, na maré vazante, a rotação da Terra faz com que o empilhamento ocorra
do lado esquerdo da bacia. Desta forma, a combinação de oscilação devido à maré e a força
de Coriolis, faz com as ondas de maré se propaguem em volta da bacia, criando–se um ponto
nodal no meio da bacia.
134
Figura 55: Esquema para ilustrar a combinação da entrada e saída de água numa bacia retangular
juntamente com o efeito da aceleração de Coriolis no hemisfério Norte..
135
das marés um problema muito complexo: i) o tempo que essas ondas levam para se propagar em
torno do planeta é comparável ao período de rotação da Terra e ii) os oceanos tem um formato
complicado.
Para resolver o problema do movimento das marés, podemos tratar as forças gravitacionais
como gradientes de potencial. A distribuição do potencial gerador de maré, ΦT , sobre a superfície
pode ser expresso como uma expansão de séries em harmônicos esféricos cujos coeficientes podem
ser expandidos em séries de Fourier com frequência que são combinações lineares das frequências
básicas do sistema solar.
As equações do movimento quando incluimos as forças geradoras de maré, tem um adicional
por unidade de massa −~∇ΦT :
D~V 1
+ 2~Ω × ~V = − ~∇p −~g − ~∇ΦT , (6.4)
Dt ρ
136
da capacidade computacional atual, as soluções são mais completas e mostram a variação da altura
da maré como apresentada na Figura 56
Figura 56: Amplitude da maré M2. A linhas representam os pontos que estão em fase. As setas indicam o
sentido de propagação da fase da onda de maré.
Podemos dizer que atualmente as marés em oceano aberto estão resolvidas com um alto grau
de precisão. Isso pode ser comprovado por exemplo na utilização de dados de altura da superfície
medidos por satélites altimétricos. Variáveis relevantes para o estudo da dinâmica e termodinâmica
dos oceanos podem ser obtidas a partir da medida das variações da altura da superfície, como por
exemplo a altura dinâmica, correntes geostróficas e calor armazenado nos oceanos. No entanto,
para que possamos isolar somente o efeito dinâmico, devemos remover a influência da maré ba-
rotrópica, além de aplicarmos outras correções atmosférias, (Polito 2005). Os modelos de maré
em oceano aberto atuais são utilizados para tal correção e removem muito bem o sinal da maré
nos dados de altura. O mesmo não ocorre para marés em regiões próximas à costa. Na prática,
regiões mais rasas que 1000 m de profundidade apresentam problemas na remoção da maré em
dados altimétricos quando utilizamos o modelo global. Nesses casos, medidas diretas de maré e
uma modelagem numérica local devem ser considerados para as correções desses dados.
137
6.4 Análise de Marés
Dados de registros de marés são obtidos através de marégrafos instalados na costa, gerando séries
temporais como no exemplo da Figura 57.
Figura 57: Registro de dados de maré em Ponta da Armação, Niteroi, RJ. Fonte:
[Link]
Podemos observar que as séries temporais longas são compostas por combinações lineares de
componentes periódicos ou quase periódicos sobrepostos à tendências de longo termo e ruidos
randômicos de alta frequência. As componentes periódicas são assumidas como tendo amplitudes
e fases que são constantes ou pelo menos que variem muito devagar ao longo de todo o registro.
As tendências podem incluir desde uma deriva muito lenta das características dos sensores ou uma
componente associada à variabilidade de longo–termo, por exemplo climática, que não pode ser
resolvida pela série temporal. O ruído de alta frequência inclui flutuações dos sensores e da eletrô-
138
nica mas também pode estar relacionado com os processos físicos oceânicos como turbulência de
pequena escala.
O objetivo de se analisar uma série temporal no campo das frequências é separar as componentes
das oscilações periódicas do que são flutuações randômicas e não periódicas. A análise de Fourier
é um dos métodos mais comumente utilizados para identificar essas componentes periódicas em
dados oceanográficos.
A premissa básica da análise de Fourier é que qualquer série temporal de comprimento finito
e de repetições infinitas, y(t), definida num período entre 0 e T pode ser reproduzida como uma
soma linear de senos e cossenos, ou série de Fourier da forma:
139
Figura 58: Amostragem discreta de um sinal contínuo y(t). O intervalo de amostragem é ∆t e a frequência
fundamental é f1 = 1/T onde T = N∆T é o comprimento total da série e N =40. O sinal y(t) eha a some do
primeiro, segundo e do sexto harmônico. Fonte: Emery e Thomson (2001).
Numa análise de Fourier padrão, as amplitudes de Fourier são determinadas em pontos igualmente
espaçados no intervalo das frequências determinados como múltiplos inteiros da frequência fun-
damental, f1 . Ou seja, para as frequências f1 , 2 f1 , 3 f1 , ..., fN , onde fN é a frequência de Nyquist.
A análise de Fourier pode ser utilizada para se determinar a composição espectral de uma série
temporal. Entretanto, ela não é muito útil na análise de um a série que apresenta frequências
pré–determinadas. No caso da análise de série de maré, não há a necessidade de se procurar por
frequências que não seja aquelas determinadas pelas forças astronômicas. E ainda, gostaríamos de
determinar todas as amplitudes e fases de um maior número de frequências possíveis utilizando–se
a menor série temporal de dados possível. Para esses casos, podemos utilizar uma técnica conhe-
140
cida como análise harmônica onde o usuário especifica as frequências que gostaria de examinar e
aplica técnicas de ajuste por mínimos quadrados para determinar as diversas componentes.
A análise harmônica foi inicialmente desenvolvida visando a análise de marés mas pode ser
aplicada para análise de séries com períodos anual ou semi–anual ou qualquer outra oscilação
cíclica. A hierarquia dos harmônicos do sinal da maré são dominados pelos movimentos diurnos e
semi–diurnos, seguidos por oscilações de 15 dias, mensal, semi–anual e anual. Neste curso iremos
abordar o método dos mínimos quadrados para determinar as diversas componentes da maré.
O método dos mínimos quadrados é uma técnica utilizada para se fazer o melhor ajuste de uma fun-
ção num conjunto de dados. Para melhor entender o método, vamos utilizar um exemplo prático,
no caso, uma série temporal de medidas de temperatura da superfície do mar, Figura 59.
Aparentemente observamos que a temperatura tem uma tendência de aumento com o tempo.
Poderíamos fazer ajuste de uma reta nesse conjunto de dados e determinar qual seria essa tendência.
Desta forma, o objetivo é desenvolver um modelo que represente a distribuição média dos dados,
acompanhando esse tendência linear. Podemos especificar as seguintes variáveis:
xi : tempo, i = 1, · · · , N
yi : temperatura medida
yi = ybi + εi onde
εi : erro do ajuste
141
Nesse modelo, assumimos que podemos determinar uma expressão para a temperatura mode-
lada, ybi e que o ajuste está sujeito a um erro εi . O modelo escolhido é o linear, desta forma:
ybi = b0 + b1 xi
onde
b0 : coeficiente linear
b1 : coeficiente angular
A questão a ser respondida é: Qual é o melhor valor de b0 e b1 ? Poderíamos ter uma infinidade
de soluções, como as propostas na Figura 60:
Figura 60: Ajustes de reta aos dados de temperatura da superfície do mar em função do tempo, em ◦ C.
O melhor b0 e b1 é aquele que minimiza a média de |εi | ou de ε2i , onde εi é o erro envolvido em
cada ponto em relação ao modelo adotado, Figura 61. Podemos calcular a somatória dos erros em
cada ponto como:
1 N
ε2i = ∑ ε2i .
N i=1
N
Como N é constante, basta minimizarmos Se = ∑ ε2i .
i=1
142
Figura 61: A regressão linear pelo método dos mínimos quadrados leva em consideração o quadrado da
diferença entre o valores medido e o ajustado. A somatória da contribuição dessas diferenças deve ser
minimizada.
N
Podemos combinar yi = ybi + εi e ybi = b0 + b1 xi para obter ε = yi − b0 − b1 xi . Como Se = ∑ ε2i ,
i=1
temos então que:
N
Se = ∑ (yi − b0 − b1 xi )2
i=1
∂Se ∂Se
Para minimizar Se em relação a b0 e b1 , devemos estimar ∂b0
= 0 e ∂b 1
=0
Vamos calcular as derivadas:
!
N N N N
∂Se
= 0 ⇒ −2 ∑ yi − Nb0 − b1 ∑ xi = 0 ⇒ b0 N + b1 ∑ xi = ∑ yi (6.9)
∂b0 i=1 i=1 i=1 i=1
e
!
N N N N
∂Se
∂b1
= 0 ⇒ −2 ∑ xiyi − b0 ∑ xi − b1 ∑ xi2 = 0 ⇒ b0 ∑ xi + b1
i=1 i=1 i=1 i=1
(6.10)
Observe que temos duas incógnitas e N equações. Esse problema pode ser definido através
da solução das várias equações. Na verdade, dizemos que o problema esta superdefinido, pois
tem muito mais equações do que incógnitas. Podemos utilizar uma forma esperta de resolver esse
problema se pensarmos em termos de solução de matrizes. Por um momento, vamos esquecer
dessas equações e definir algumas matrizes que logo mais tarde vão fazer sentido.
Vamos definir três matrizes, X, Y e B tais que:
1 x1 y1 !
. . . b0
X = .. .. Y = .. B=
b1
1 xN yN
143
Observe o resultado de X 0 X, a multiplicação da transposta de X (trocar linha por coluna) com
X:
N
! 1 x1 N ∑ xi
1 ··· 1 .. ..
X 0X = =
. . N i=1
N
x1 · · · xN 2
1 xN ∑ xi ∑ xi
i=1 i=1
N N
b0 N + b1 ∑ xi = ∑ yi (6.11)
i=1 i=1
N N N
b0 ∑ xi + b1 ∑ xi2 = ∑ xiyi (6.12)
i=1 i=1 i=1
(X 0 X)B = (X 0Y ) (6.13)
B = (X 0 X)−1 (X 0Y ) (6.14)
é a que minimiza o erro Se . Quando inseridos em ybi = b0 + b1 xi resultam na reta ajustada. Esta reta
passa por (x̄, ȳ), Figura 62.
144
Figura 62: Ajustes de reta aos dados de temperatura da superfície do mar em função do tempo, em ◦ C,
através do método dos mínimos quadrados.
Figura 63: Ajustes linear pelo método dos mínimos quadrados em funções oscilatórias no tempo.
2π 2π
[b
yi ] = b0 + b1 xi + b2 sin( xi ) + b3 cos( xi ).
T T
q
Note que a amplitude é b22 + b23 e a fase é arctan( bb23 ).
Esse método nos traz mais próximo de onde queremos chegar que é a modelagem de dados
de maré de forma que possamos separar as componentes astronômicas que são bem determinadas.
As principais componentes da maré são apresentadas na Tabela 6.2.1. Os principais são: M2 =
12.4206 h, S2 = 12.0000 h, K1 = 23.9344 h, etc. Utilizando o método descrito anterior, podemos
definir uma função ybi como:
2π 2π 2π 2π
ybi = b1 sin( xi ) + b2 cos( xi ) + b3 sin( xi ) + b4 cos( xi ) + · · · (6.15)
M2 M2 S2 S2
e na mesma notação que anteriormente, podemos definir uma matriz X que contém as componentes
oscilatórias cujas fases são definidas pelas fases dos períodos da maré:
2π 2π 2π 2π
X = [sin( xi ) cos( xi ) sin( xi ) cos( xi ) · · · ] (6.16)
M2 M2 S2 S2
145
Podemos aplicar B = (X 0 X)−1 (X 0Y ) na análise de dados maregráficos, como feito num exemplo
prático em Fernando de Noronha, Figura 64.
Figura 64: Resultado do ajuste das principais componentes da maré em dados de maré em Fernando
de Noronha. No painel da esquerda são mostrados os dados originais medidos (azul) juntamente com a
somatória dos 11 principais harmônicos modelados pelo método dos mínimos quadrados (vermelho). A
linha verde mostra a diferença entre o medido e o modelado. à direita é mostrada uma ampliação de uma
parte da série temporal. Dados obtidos no site [Link] dentro do projeto GLOSS-Brasil.
A análise harmônica permite separar as diversas oscilações que compõe o sinal de maré através
do método dos mínimos quadrados. Quanto maior o número de componentes, ou seja, de períodos
das componentes da maré que serão definidos na matriz X, mais precisa será a modelagem do sinal
total. Na Figura 64, o painel da esquerda mostra o sinal original em azul sobreposto ao modelado,
linha vermelha. Podemos ver que distinção entre as duas curvas é mínima. A função de ybi nesse
exemplo foi calculada a partir dos 11 principais componentes de maré definidos na Tabela 6.2.1. A
curva verde sobreposta às outras curvas é o resíduo do ajuste, ou seja, sinal total menos a modelada.
Isso mostra que o erro associado ao ajuste não é significante.
O capítulo sobre métodos de mínimos quadrados e análise harmônica foi baseado em notas de
curso ”Analise de Dados em Oceanografia Fisica”, IOF257, do Prof. Paulo Polito. Informações
mais detalhadas sobre esse e outros métodos pode ser encontradas em (Emery and Thomson 2001).
146
6.5 Exercícios
1. Quando ocorrem as maiores amplitudes da maré em oceano aberto?
3. Qual seria o período da maré mais forte se a rotação da terra fosse de 36 horas mas o movi-
mento orbital entre a terra e a lua fosse o mesmo?
4. Imagine que a Terra não girasse em torno do seu eixo e a lua não executasse o movimento
de translação em torno da Terra, mas a atração gravitacional entre elas ainda fosse a mesma
(de alguma forma se mantivessem em suas posições no espaço), ainda assim teríamos as
deformações devido à maré lunar previstos pela teoria da maré de equilíbrio? Se não, por
que? Se sim, como seriam as marés em relação ao que temos na situação presente?
5. Qual a diferença de atração gravitacional devido à Lua entre dois pontos localizados na linha
que intercepta a Lua e o centro da Terra e que estão sobre a superfície do planeta? Qual a
diferença devido à atração do Sol nesses mesmos pontos? Qual é maior?
6. A análise harmônica é uma técnica utilizada para decompor uma série temporal de altura
da nível do mar medido através de um marégrafo em diversos sinais senoidais. Esses sinais
apresentam frequências características ditadas pela influência da atração gravitacional entre
a Terra, a Lua e o sol. Responda:
(b) Quais são os quatro sinais mais importantes encontrados na decomposição dessa série
através da análise harmônica? Quais são os períodos desses sinais?
(d) O que são as teorias de equilíbrio e dinâmica de maré? Qual a diferença entre elas?
(e) Suponha que a Terra não tivesse Lua. Comparado com o que temos hoje, como ficariam
as marés em termos de frequência, amplitude e fase?
147
8. Qual a profundidade que os oceanos deveriam ter para que a maré pudesse ser considerada
como uma onda de gravidade de superfície de águas rasas? Utilize a velocidade determinada
na questão anterior.
Referências
Brown, J. and Open University. Oceanography Course Team, 1997:. Waves, tides and shallow-
water processes. Butterworth-Heinemann and Milton Keynes [England]: The Open Uni-
versity.
Emery, W. and R. Thomson, 2001:. Data analysis methods in physical oceanography. Elsevier
Science Ltd.
Kundu, P. K. and I. M. Cohen, 2002:. Fluid Mechanics (2nd ed.). Academic Press, 730 pp.
Pedlosky, J., 2003:. Waves in the ocean and atmosphere: introduction to wave dynamics. Sprin-
ger Verlag.
Pierson Jr, W. and L. Moskowitz, 1964:. A proposed spectral form for fully developed wind seas
based on the similarity theory of SA Kitaigorodskii. J. Geophys. Res. 69(24), 5181–5190.
Polito, P. S., 2005:. Utilização de dados de altímetro em oceanografia. Oficina de Textos.
Pond, S. and G. L. Pickard, 1989:. Introductory Dynamical Oceanography (2 ed.). Pergamon
Press, 329 pp.
148