HEBRAICO INSTRUMENTAL
AULA 1
Profª Janieyre Scabio Cadamuro Damico
CONVERSA INICIAL
Seja bem-vindo(a)! Durante o curso, vamos explorar a descrição dos
idiomas semíticos, os detalhes da língua hebraica, sua abrangência pelo mundo,
a estrutura gramatical do idioma e seus aspectos importantes para a
interpretação bíblica.
O hebraico é uma das muitas línguas que compõem o universo dos
idiomas semíticos. Antes de falarmos especificamente do hebraico, vamos
entender um pouco esse grupo de línguas.
Durante esta aula, buscaremos responder algumas questões bem
específicas. São elas:
• o que são as línguas semíticas?
• qual é a sua origem?
• quais são suas principais características?
Venha comigo nessa jornada para desvendar os mistérios de um idioma
muito diferente daquele que estamos acostumados a utilizar em nosso dia a dia.
TEMA 1 – OS IDIOMAS SEMÍTICOS
A denominação línguas semíticas tem sido utilizada para se referir às
línguas que surgiram na região do Oriente Médio, que vai da Palestina até a
Mesopotâmia, desde 2000 a.C. Perceba que esse é um universo de línguas que
surgiram num tempo muito anterior ao nosso.
Tal denominação possui relação com o personagem da Bíblia Sem, nome
esse na tradução para o português, pois em hebraico o nome se pronunciaria
Shen = שם.
ֵ De acordo com Gênesis 10: 21-31, Sem é um dos filhos de Noé (que
em hebraico se chama No’ah = )נחe teria sido o ancestral dos povos de origem
semita. O nome de Sem é citado também no Novo Testamento, no evangelho
de Lucas 3: 36, quando a genealogia de Yeshua (Jesus) é contada.
As línguas semíticas se originam do nome Sem, pois os descendentes do
filho de Noé foram os responsáveis pelo nascimento de cada uma dessas
línguas. Atualmente, os estudiosos reconhecem que em torno de 70 línguas ou
dialetos compõem o que conhecemos como semíticas. Essas línguas possuem
vários detalhes em comum, como a morfologia, a fonologia, a sintaxe e o
vocabulário. Outra característica comum entre elas é o alfabeto, composto por
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24 letras, ou melhor, consoantes. Esse é um alfabeto estritamente consonantal,
não existindo vogais nas línguas semíticas.
Merece ser destacada outra curiosidade aqui. Nós, que utilizamos as
línguas ocidentais, escrevemos da esquerda para a direita, mas no caso das
línguas semíticas, escreve- se da direita para a esquerda. Além disso, as línguas
semíticas possuem as raízes verbais compostas por três consoantes ou
“radicais”, de onde vem o termo raiz consonantal. Essas raízes são utilizadas na
formação das palavras, e isso distingue o universo da língua semítica das línguas
de base ocidental, como o português, por exemplo.
Para falar sobre a sintaxe semítica, vamos utilizar o primeiro versículo da
Bíblia que diz: “No princípio, criou Deus os céus e a Terra”. Perceba que, na
língua semítica, coloca-se o verbo antes do sujeito, e a tradução para o
português foi fiel a ela. Veja a seguir essa frase:
אשׁית
ִ בְּ ֵר בָּ ָרא ֱ�הים
ִ א שּׁמַ יִם אֵ ת
ָ ַה וְאֵ ת הָ אָ ֶרץ
HAARETS VEET ET HÁ;SHAMAYM ELOHYM BARA BERESHYT
A terra e os céus Deus criou No princípio
*Lembre-se de que, nas linguagens semíticas, escrevemos da direita para a esquerda.
Visualizando a escrita dessa frase, fica fácil entender que na construção
hebraica e semítica, o verbo, que nesse caso é criou, vem antes do sujeito que
é Deus. É preciso estar atento a esse detalhe, porque quando lemos a Bíblia,
podemos até pensar que existe algum erro no texto, quando na verdade é uma
característica da sintaxe da língua.
Para facilitar o estudo dos idiomas semíticos, eles foram classificados de
acordo com a região em que surgiram. Sendo assim, podemos dividi-los em três
grandes grupos:
• Grupo nordeste ou norte-oriental: engloba o acádico, o assírio e o
babilônico. Muito provavelmente, você já ouviu falar no Código de
Hamurabi, então saiba que ele é originário justamente dessa região, tendo
sido escrito em acádico.
• Grupo sudoeste: constituído pelo árabe, etíope, sabeu e mineu.
• Grupo noroeste ou norte-ocidental: compreende o hebraico, hebraico
samaritano, aramaico, siríaco, ugarítico, fenício, canaanita, moabita,
edomita, púnico e nabateu.
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Note que o idioma hebraico é irmão do aramaico, por isso, eles têm muitas
características em comum.
Dentro das 70 línguas e dialetos que os estudiosos afirmam que compõem
as semíticas, muitas delas já não existem. Há muitos séculos que, por exemplo,
não se produzem textos no idioma ugarítico, proveniente da cidade de Ugarite,
na Síria. Não existem livros sendo vendidos em babilônio ou fenício porque
essas línguas também não existem mais.
Por outro lado, outras línguas semíticas continuam em pleno uso, por
exemplo, o árabe que é falado por mais de 150 milhões de pessoas. No Oriente
Médio, existe até mesmo uma comunidade de 300 pessoas que falam o
aramaico ainda hoje. Mas, para nós, neste momento, o importante é o hebraico,
uma língua que já foi dada como extinta, mas que na verdade nunca morreu. Ela
ressurgiu e é falada por um universo de mais de seis milhões de pessoas no
mundo, sendo a língua oficial do Estado de Israel.
TEMA 2 – MARCOS HISTÓRICOS DA LINGUA HEBRAICA
Assim como todas as línguas, o hebraico também passou por um
processo evolutivo. Afinal, todo idioma é um fenômeno cultural. Ao sofrer
influências externas, a língua vai se modificando de acordo com a história.
Vejamos, agora, o processo evolutivo pelo qual o hebraico passou, lembrando
que sua história começa dois milênios antes de Cristo.
2.1 Primeira fase: hebraico arcaico ou paleo-hebraico
É a primeira forma conhecida da língua hebraica, iniciando no século XIII
até século X A.C. Especialistas dizem que na bíblia hebraica, alguns textos
pertencem a esse período, por exemplo, Gênesis 49, Êxodos 15 e Juízes 5, com
o Cântico de Débora. Eles fazem essa classificação de acordo com o
vocabulário. No português, a grafia da palavra farmácia já foi pharmácia. Então,
ao ler um texto em que a palavra aparece escrita com ph, pode-se ter uma ideia
da época em que ele foi escrito, e é dessa maneira que eles conseguem fazer
essa afirmação.
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2.2 Segunda fase: pré-exílico
Data do século X até o século VI a.C. Essa fase acontece antes do exílio
sofrido pelo povo hebreu no século VI a.C. O exílio babilônico é um marco na
nação de Israel. Antes dele, o povo tinha algumas características, como a forma
de viver e a língua, que as circunstâncias do exílio modificaram completamente.
A evolução do hebraico, que vai do arcaico até o pré-exílico marca o período da
monarquia unida, passa pela divisão do reino de Israel em reino do Norte e reino
do Sul até chegar ao exílio no século VI a.C.
São exemplos de textos da bíblia hebraica do período do pré-exílico o livro
do profeta Amós, o de Oséias e de Isaías. Esses exemplos são importantes para
que possamos entender que a bíblia hebraica é composta por textos que
remontam a períodos distintos da história de Israel, mostrando um hebraico
diferente, de acordo com o período histórico que está envolvido.
2.3 Terceira fase: pós-exílico
Vai do século VI até o século II a.C. Esse hebraico tem características
muito peculiares porque Israel, depois de ser capturada pelos babilônios e tendo
que viver no exílio, acaba sofrendo influência da língua falada na Babilônia.
Nessa época, o aramaico era a língua do comércio e da diplomacia, basicamente
o que o inglês é para nós nos dias de hoje. Sendo a língua um fenômeno cultural,
o hebraico sofre então a influência do aramaico, inclusive, com acréscimos em
seu vocabulário, configurando uma forma distinta da língua. Exemplos de textos
dessa fase são os livros do profeta Ageu, de Malaquias e das Crônicas I e II.
O hebraico que vamos estudar nesse curso é exatamente este, o do pós-
exílico, porque é o utilizado hoje na bíblia hebraica, de alfabeto quadrático.
É importante notar que no processo evolutivo, marcado pela história e
influenciado por diferentes línguas que o hebraico tem contato, percebe-se
claramente a mudança de vocabulário, de morfologia e sintaxe da língua.
2.4 Primeira fase: Hirbet Qumran
Período entre o século II a.C. até o século II d.C. Esse hebraico tem muitas
diferenças para o do pós-exílico, por isso, vale a pena conhecê-lo. Os textos
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hebraicos caracterizados como de Hirbet Qumran são os que compõem o acervo
dos chamados manuscritos do Mar Morto.
Esses textos surgiram de forma muito interessante nesses 400 anos.
Havia uma comunidade judaica que morava no deserto da Judéia. Eles tinham
se separado da comunidade de Jerusalém porque discordavam do sacerdócio
do santuário. Essas pessoas viviam um judaísmo completamente separado e
produziram muita literatura própria, além de cópias dos documentos sagrados.
Ao descobrirem que os romanos iriam invadir e destruir sua comunidade, eles
esconderam seus documentos em grutas, de forma que um dia pudessem ser
resgatados. Assim como os romanos tinham feito com Jerusalém, essa
comunidade também foi completamente destruída. Somente em 1948, quase
2000 anos mais tarde, quando a cabra de um beduíno se desgarrou e ele, para
encontrá-la, jogou uma pedra dentro da gruta que acidentalmente bateu num
jarro, é que todo esse acervo foi descoberto.
2.5 Quinta fase: rabínico
Data do século II até o século X d.C. É o hebraico do Talmud, uma coleção
de comentários de rabinos sobre a bíblia judaica.
2.6 Sexta fase: medieval
Do século X até o século XV. Caracterizado por textos de filósofos e
poetas judeus. Um dos principais intelectuais da época foi Maimônides, que
escrevia desde medicina até filosofia e tem como uma das principais obras O
guia dos perplexos.
2.7 Segunda fase: hebraico moderno
Do século XVI até hoje.
Analisando as fases da língua hebraica, vemos que ela passou por um
longo processo evolutivo. Diga-se de passagem, foi um processo doloroso para
seu povo, que passou por muitas contingências históricas.
No século III a.C., o hebraico já não era a língua corrente na nação de
Israel, sendo o aramaico a língua falada na palestina, pelos judeus. O hebraico
permaneceu como língua litúrgica utilizada apenas no templo e na literatura. Por
isso, quando Jesus esteve na Terra, ele falou o aramaico, e não o hebraico. Esse
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domínio do aramaico como língua comum vai até o período helenístico, quando
a expansão de Alexandre, o Grande, leva o grego a ser o idioma oficial em todo
o mundo mediterrâneo.
Com o movimento sionista no século XIX, o hebraico ressurgiu e hoje é a
língua falada no Estado de Israel. O movimento sionista fez ressurgir a língua
hebraica, ajudando os judeus a despertarem em toda a diáspora, ou seja, todos
os judeus que estavam fora da terra de Israel eram incentivados a voltar a Sião.
O hebraico moderno pertence ao subgrupo das línguas cananeias, do
grande grupo das línguas semíticas. Na Bíblia, no livro de Isaias, o hebraico é
chamado de língua de Canaã, justamente porque surge naquela extensão
geográfica.
O termo hebraico, provavelmente, vem do nome do personagem Héber,
que está mencionado no livro de Gênesis 10: 21. A palavra Héber tem as três
raízes ( )עברque dão origem ao termo ibriy, ou seja, o hebreu, ou descendente
de Eber.
O personagem Abraão é chamado de o hebreu em Gênesis 14: 13.
“Abraão, o hebreu” é traduzido como “Abraão, o que atravessou (o rio)”. Veja
que interessante: o termo hebreu tem raízes também no verbo LaAvor, que é o
verbo atravessar. Abraão é chamado de o hebreu porque sai de ur dos caldeus,
atravessa os rios Tigre e Eufrates, e peregrina até chegar a Canaã.
O cântico de Débora, em Juízes 5, é considerado o mais antigo
documento conhecido em hebraico. Ele data de antes do ano 1000 a.C.
A destruição do templo e do cativeiro babilônico, no século VI a.C.,
marcaram o declínio do hebraico como língua falada. No entanto, ela nunca
deixou de ser uma língua escrita. Ela assimilou influências do cananeu, do
acadiano e do aramaico, e ainda um grande número de palavras sumérias,
latinas e persas. O uso da língua falada diminuiu vertiginosamente do século IX
até o século XVIII, mas no período medieval, ela continuou a evoluir em várias
direções. Esse período assistiu à aquisição de cerca de três mil termos
científicos, filológicos e filosóficos.
Perceba como é equivocada a ideia de que o hebraico tenha estagnado
com a destruição do templo em 70 d.C.. Ela apenas deixou de ser falada, mas
houve uma intensa atividade literária durante a diáspora.
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O hebraico bíblico forneceu grande parte de seu vocabulário para o
hebraico moderno. De cada 1.000 palavras usadas no hebraico moderno, 800
procedem do hebraico bíblico, num significativo percentual de 80%.
O hebraico, após quase 2000 anos sem ser falado, tornou-se novamente
uma língua viva e atualmente é o idioma oficial do Estado de Israel. Esse
fenômeno é único entre as nações e foi fundamental para a reconstrução da
identidade da nação de Israel.
NA PRÁTICA
Estudar hebraico é fundamental para o estudante de teologia, porque
mesmo tendo em mãos o texto bíblico em português, é preciso ter claro que ele
foi originalmente escrito em outra língua. No caso do Velho Testamento, temos
uma pequena parte escrita em aramaico, mas a grande maioria dos textos foi
redigida em hebraico. No caso no Novo Testamento, ele foi escrito em grego.
Quando estudamos o texto escrito em hebraico, podemos compreender
as mensagens e os significados que são perdidos durante a tradução, como
fizemos quando analisamos a frase “Abraão, o hebreu”. Ao ler a frase em
português, é impossível entender o significado de hebreu como aquele que
atravessa. Ao ler o texto em hebraico, temos acesso a um tipo de conhecimento
que não teríamos de outra forma. Por isso, estudar essa língua nos permite
entender o texto da forma que o autor pensou.
Como já comentamos, o hebraico que vamos estudar é o do pré-exílico,
com alfabeto quadrático, consonantal e de radicais. A partir dos verbos, os
substantivos vão sendo formados. Esses detalhes fazem com que a leitura do
texto sagrado seja muito mais detalhada quando feita em sua língua original.
FINALIZANDO
Vamos agora fazer uma síntese do que vimos nesta aula, destacando os
pontos que você pode se aprofundar.
Assim como as outras línguas, o hebraico passou por mudanças ao longo
do tempo. Vimos que o formato original da língua é o hebraico arcaico ou paleo-
hebraico, que vai do século XIII até século X a.C.
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A fase seguinte é o hebraico pré-exílico, que vai do século X até o século
VI a.C.. Depois, temos o hebraico pós-exílico, que compreende do século VI até
século II a.C.
Temos, então, o hebraico Hirbet Qumran, do século II a.C. até o século II
d.C. O hebraico rabínico surge no século II e vai até o século X d.C.
O hebraico Medieval compreende o século X até o século XV. Atualmente,
temos o hebraico moderno, que nasce no século XVI até os dias de hoje. Ao
visitar Jerusalém ou a terra de Israel, você poderá ver e ouvir a língua dos
profetas sendo falada atualmente.
Sugerimos que você observe atentamente a literatura das referências
bibliográficas desta aula. Utilize esses livros para aprofundar seus
conhecimentos.
O livro de Berezin trabalha os princípios elementares da gramática
hebraica. O livro de Chown é interessante porque adiciona ao hebraico bíblico o
hebraico moderno. Renato Gusso nos ensina como fazer uma exegese do texto
bíblico, um estudo pormenorizado. Já Paulo Mendes escreveu um dos primeiros
livros sobre hebraico.
Para aprofundar-se no hebraico bíblico, olhe com carinho para o livro de
Ross, que tem apoio na internet para resolver os exercícios, além de áudios que
ajudam com a pronúncia das palavras.
Um livro sobre a gramática elementar é o das autoras Vita e Akti. Elas
trabalham inclusive o alfabeto hebraico, sendo bem prático e introdutório.
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REFERÊNCIAS
BEREZIN, R. Iniciação ao hebraico. São Paulo: Humanitas, 2004.
CHOWN, G. Gramática hebraica. Rio de Janeiro: CPAD, 2002.
GUSSO, A. R. Gramática instrumental do hebraico: passo a passo. São
Paulo: Vida Nova, 2005.
MENDES, P. Noções de hebraico bíblico. São Paulo: Vida Nova, 2008.
ROSS, A. P. Gramática do hebraico bíblico: para iniciantes. São Paulo: Vida,
2001.
VITA, R.; AKTl, T. Noções básicas de hebraico. São Paulo: Hagnos, 2004.
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