Considerações sobre precipitação, relevo e solos e análise do potencial de expansão agrícola da região Norte de Moçambique
Lucrêncio Silvestre Macarringue, Edson Eyji Sano, Joselisa Maria Chaves, Edson Luis Bolfe
CONSIDERAÇÕES SOBRE PRECIPITAÇÃO, RELEVO E SOLOS E ANÁLISE DO POTENCIAL
DE EXPANSÃO AGRÍCOLA DA REGIÃO NORTE DE MOÇAMBIQUE
Considerations about the rainfall, topography and soils and the analysis of potential of agricultural
expansion in the Northern Mozambique region
Lucrêncio Silvestre Macarringue
Universidade Estadual de Feira de Santana - UEFS, Feira de Santana, Bahia, Brasil
Instituto de Formação em Administração de Terras e Cartografia – INFATEC, Maputo, Moçambique
lusimac@[Link]
Edson Eyji Sano
Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa, Planaltina, Distrito Federal, Brasil
[Link]@[Link]
Joselisa Maria Chaves
Universidade Estadual de Feira de Santana - UEFS, Feira de Santana, Bahia, Brasil
joselisa@[Link]
Edson Luis Bolfe
Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa, Planaltina, Distrito Federal, Brasil
Universidade Estadual de Campinas - Unicamp, Campinas, Brasil
[Link]@[Link]
Artigo recebido em 29/10/2015 e aceito para publicação em 18/02/2017
RESUMO: Em 2009, foi implementado um programa de cooperação trilateral entre Moçambique, Brasil e Japão (ProSA-
VANA) na região norte de Moçambique (Corredor de Nacala). Os objetivos desse estudo foram: caracterizar a
precipitação, o relevo e os solos dessa região; e analisar o potencial de expansão agrícola com base no modelo
adotado para o Cerrado. Os materiais básicos incluíram dados de: precipitação, derivados do Tropical Rainfall
Measuring Mission (TRMM); topografia, obtidos pelo Shuttle Radar Topography Mission (SRTM); e textura
de solos, obtidos da literatura, os quais foram comparados com os do Oeste da Bahia. Os critérios adotados
para analisar o potencial de expansão agrícola no Corredor de Nacala foram: declividade ≤ 12% e textura
argilosa ou média de solos. Aproximadamente 82%, 94% e 71% da área de estudo moçambicana apresentaram
precipitação média anual > 1.000 mm, declividade ≤ 12% e solos com textura argilosa ou média, respectiva-
mente. As áreas favoráveis à expansão agrícola no Corredor de Nacala totalizaram 4,6 milhões de hectares.
A ocupação agrícola dessas áreas potenciais deve levar em consideração outros aspectos como poluição dos
recursos hídricos pelos fertilizantes químicos, melhoria do índice de desenvolvimento humano da população
local e legislação que regulamenta o uso e ocupação de terras em Moçambique.
Palavras-chave: Fronteira Agrícola; Geotecnologias; Modelagem Espacial; Savana Tropical.
ABSTRACT: In 2009, it was implemented a trilateral cooperation program among Mozambique, Brazil and Japan called
ProSAVANA in the northern region of Mozambique (Nacala Corridor). The objectives of this study are:
to characterize the conditions of precipitation, topography and soils of this region; and to analyze the
potential of this region for agricultural expansion, based on the model used for the Brazilian Cerrado. The
DOI: [Link]
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basic materials were the rainfall data derived from the Tropical Rainfall Measuring Mission (TRMM),
the digital elevation model obtained by the Shuttle Radar Topography Mission (SRTM) and the soil
texture data obtained from literature. Criteria used to identify potential areas of agricultural expansion
in the Nacala Corridor were: slope ≤ 12%; and clayey or clay loamy soil textures. Approximately 82%,
94% and 71% of the study area presented rainfall >1,000 mm, slope ≤ 12% and clayey or clay loamy
soil textures, respectively. The potential area for agricultural expansion in the Nacala corridor was ~ 4.6
million hectares. However, intensive agricultural occupation of this area needs to consider other aspects
such as water pollution by chemical fertilizers, improvement of the human development index of local
people and government regulations regarding the land use and land occupation in Mozambique.
Keywords: Agricultural Frontier; Geotechnology; Spatial Modeling; Tropical Savanna.
INTRODUÇÃO nutricional (MOÇAMBIQUE, 2015). Essa iniciativa
conta com três componentes principais (CHICAVA et
Moçambique, com mais de 80 milhões de al., 2013b): melhoria nas capacidades de pesquisa e
hectares, possui extensas áreas cobertas pelo bioma extensão em agricultura, particularmente do Instituto
Miombo (~ 55 milhões de hectares), cuja cobertura de Investigação Agrária de Moçambique (IIAM); im-
vegetal é característica de savanas tropicais. A maioria plementação de um projeto-piloto agroindustrial com
das atividades agrícolas nesse bioma concentra-se participação de pequenos produtores e comerciantes;
no período chuvoso que geralmente se inicia no mês e concepção de um plano-mestre agroindustrial no
de outubro e possui duração de seis meses. Cerca de Corredor de Nacala, com desenvolvimento regional
80% da força de trabalho de Moçambique estão en- de infraestrutura e mercado consumidor. Um dos
volvidos com agricultura, a maioria com baixo nível principais desafios do ProSAVANA é contornar as
tecnológico. Esse fato favoreceu a criação, em 2009, críticas e receios da população local no sentido de
de um Programa de Cooperação Triangular entre que a iniciativa só irá beneficiar setores privados e
Japão, Brasil e Moçambique para o desenvolvimento membros dos partidos políticos no poder.
da agricultura das savanas tropicais de Moçambique A ascendência do Brasil no mercado interna-
(ProSAVANA), à luz da experiência do Programa de cional de alimentos é creditada à expansão agrícola no
Cooperação Nipo-Brasileira para Desenvolvimento bioma Cerrado (THE ECONOMIST, 2013). A cober-
dos Cerrados (PRODECER), desenvolvido em área tura vegetal do Cerrado também é típica de savanas
de Cerrado brasileiro (YOSHII, 2000). O memorando tropicais. O modelo de expansão agrícola utilizado na
de entendimento do ProSAVANA foi oficialmente região do Cerrado brasileiro é baseado na topografia
assinado entre os três países envolvidos em setembro plana, que facilita o uso intensivo de máquinas agrí-
de 2009 (CHICAVA et al., 2013a). colas, e balanço hídrico positivo no período chuvoso
O ProSAVANA tem, como objetivo geral, pro- (OLIVEIRA et al., 2014), que permite a implantação
mover o desenvolvimento agrário rural e regional, com da agricultura de sequeiro. No Brasil, a baixa fertili-
foco na melhoria das condições de vida dos produtores dade de solos, notadamente de nitrogênio, fósforo e
familiares do Corredor de Nacala, um dos três corredo- potássio e a elevada acidez dos solos do Cerrado têm
res de desenvolvimento existentes no país. O programa sido contornadas com o uso de fertilizantes químicos,
tem ainda, como base, as pesquisas, experiências e calagem e adoção de sementes mais adaptadas a essas
tecnologias do Brasil e do Japão desenvolvidas para deficiências (LOPES, 1996; RADA, 2013). Os solos
áreas de savanas tropicais. Os países envolvidos nesta profundos e friáveis também favorecem a agricultura
cooperação enfatizam que essa iniciativa visa princi- mecanizada.
palmente apoiar os pequenos e médios agricultores Um retrato típico desse modelo de produção
a alcançarem uma melhoria das suas condições de agrícola no Cerrado é o Oeste do estado da Bahia
vida por meio do aumento da produção e produti- (BRANNSTROM et al., 2008; MENKE et al., 2009;
vidade agrícola e também da segurança alimentar e SANO et al., 2011). A ocupação do Oeste da Bahia in-
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tensificou-se a partir da década de 1980 e foi facilitada de transporte (rodoviário, ferroviário e fluvial) e com
por políticas públicas voltadas ao subsídio de compra centros de beneficiamento e processamento industrial
de terras pelos agricultores a preços e juros reduzidos que viabilizam o escoamento de mercadorias (BA-
e pela viabilização de acordos como o Programa de TISTELLA e BOLFE, 2010). O Corredor de Nacala
Cooperação Nipo-Brasileira para o Desenvolvimento está compreendido entre as coordenadas 13º 03’ 09”
Agrícola dos Cerrados (PRODECER). O aporte de e 16º 17’ 55” de latitude sul e entre 34º 47’ 42” e 40º
recursos financeiros para o desenvolvimento de pes- 28’ 41” de longitude leste e possui uma extensão de
quisas agropecuárias no Cerrado por parte da Agência 6,5 milhões de hectares (Figura 1). A região engloba
de Cooperação Internacional do Japão (JICA) foi outro os distritos de Nampula-Rapale, Malema, Ribáuè,
fator preponderante (Ross, 2005). Considerados como Murrupula, Meconta, Muecate, Mogovolas Monapo,
“espaços vazios” e “espaços marginais” do estado até na província de Nampula; Mandimba, Cuamba, Ngau-
o início da década de 1980 (SANTOS, 2008), o Oeste ma, Lichinga na província de Niassa; e Guruè e Alto
da Bahia, em 2013, contribuiu com 41% da área total Molocué, na província de Zambézia.
ocupada com culturas anuais e perenes no estado O Corredor de Nacala localiza-se no bioma
(IBGE, 2013). Miombo e é nessa região que o governo de Moçam-
Atualmente, as paisagens que envolvem as bique pretende implementar o programa de expansão
savanas tropicais do Brasil e de Moçambique podem agrícola conhecido como ProSAVANA. Trata-se de
ser comparadas de forma apropriada em função da uma região de clima tropical úmido com duas estações
existência de bases de dados espaciais consistentes distintas: uma chuvosa e quente que normalmente se
e globais, obtidos por plataformas orbitais. Dentre inicia em outubro e termina em abril e outra amena e
esses dados, incluem-se os obtidos pelo programa seca, compreendida entre maio e setembro A precipita-
Tropical Rainfall Measuring Mission (TRMM), que ção média anual na região pode variar de 800 a 1.800
fornece estimativas diárias de precipitação nas regiões mm (MUCHANGOS, 1999; MAE, 2005; BOLFE
intertropicais do planeta desde 1997 (SIMPSON et al., et al., 2011). Segundo Batistella e Bolfe (2010), os
1996; KUMMEROW et al., 2000; HUFFMAN et al., produtos agrícolas mais importantes dessa região são
2007), além dos modelos digitais de elevação obtidos de subsistência, principalmente milho e mandioca.
pela missão denominada Shuttle Radar Topography Esse corredor ocupa uma posição de destaque no país
Mission (SRTM) (VAN ZYL, 2001; FARR et al., por causa do escoamento de minérios, notadamente,
2007). Este estudo objetivou, em uma primeira etapa, carvão, cobre, titânico e areia pelo porto de Nacala,
comparar o regime de chuvas, o relevo e a textura de localizado na província de Nampula.
solos do norte de Moçambique e do Oeste da Bahia A vegetação do bioma Miombo pode ser di-
e, em uma segunda etapa, mapear as áreas potenciais vidida em três tipos: Miombo denso, constituído por
à expansão agrícola na região moçambicana com árvores de 15 a 22 metros de altura, ocorre em zonas
base no modelo de expansão agrícola adotado para o com altitudes superiores a 1.000 m e precipitação ao
Cerrado brasileiro. redor de 1.200 - 1.800 mm/ano; Miombo médio, for-
mado por espécies arbóreas com altura média de 10 a
MATERIAIS E MÉTODOS 15 m, ocorre em zonas com altitudes acima dos 500 m
e precipitação entre 900 e 1.400 mm/ano; e Miombo
Esse estudo considerou duas áreas de estudo pobre, que corresponde a florestas abertas (espécies
representativas de savanas tropicais e localizadas em arbóres com altura média de 7 a 12 m, ocorre em zonas
latitudes próximas: o Corredor de Nacala, no norte de com altitude entre 50 - 800 m e regime de chuva entre
Moçambique e o Oeste da Bahia no Brasil, no nordeste 800 - 900 mm/ano (MUCHANGOS, 1999).
brasileiro. O Corredor de Nacala se estende desde o
distrito de Nacala a leste até o limite com o Malawi e
Zâmbia a oeste. Por corredor, entende-se como sendo
regiões ou pólos conectados por diferentes sistemas
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Figura 1 - Localização das áreas de estudo no norte de Moçambique (Corredor de Nacala) (a) e no Oeste da
Bahia (b).
Fonte: Org. dos Autores.
A região denominada nesse estudo de Oeste (chapadões) e a precipitação média anual é superior a
da Bahia é formada pelos municípios de Formosa do 1.000 mm (por exemplo, município de São Desidério,
Rio Preto, Santa Rita de Cassia, Riachão das Neves, precipitação média anual = 1.182 mm) (SEI, 1999). A
Luís Eduardo Magalhães, Barreiras, São Desidério, agricultura encontra-se em expansão desde o início da
Correntina, Jaborandi e Cocos. Com um total de 8,6 década de 1980 (MENKE et al., 2009; SANO et al.,
milhões de hectares, essa região encontra-se com- 2011; FLORES et al., 2012; SANTOS et al., 2012).
preendida entre as seguintes coordenadas: 10º 06’ 29” Os seus principais produtos agrícolas são a soja, o
e 15º 15’ 53” de latitude sul; e entre 46º 37’ 01” e 44º milho, o algodão e o café irrigado.
06’ 31” de longitude oeste, estendendo-se em toda a Os materiais básicos utilizados nesse estudo
faixa norte-sul do extremo oeste da Bahia. incluíram dados orbitais provenientes das missões
Essa região também apresenta duas estações TRMM e SRTM e do banco de dados digitais dispo-
climáticas distintas, uma quente e chuvosa e outra níveis no IIAM e na Empresa Brasileira de Pesquisa
amena e seca (Aw na classificação de Köppen, clima Agropecuária (Embrapa). Nesse banco de dados,
tropical continental) (BATISTELLA et al., 2002; foram extraídas as informações sobre solos e áreas
TERRA e COELHO, 2005). O Oeste da Bahia perten- de proteção permanente. Foram selecionados 10 anos
cente ao bioma Cerrado, é formado por um mosaico de dados mensais do TRMM (produto 3B43; versão
de formações campestres, savânicas e florestais (RI- 7; período de 2002-2011) (NASA, 2015), obtidos da
BEIRO e WALTER, 2008). Os terrenos são planos página eletrônica do Goddard Earth Sciences Data
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and Information Services Center (GES DISC), com Tipo 2: (% argila + silte) entre 15 a 35%; textura média
resolução espacial de 0,25º (± 25 km de resolução (franco-arenosa e franco-argilo-arenosa); susceptibi-
espacial) e unidade de medida em [Link]-1. lidade à erosão moderada; e capacidade de retenção
Inicialmente, procedeu-se a rotação das ima- de água moderada; e Tipo 3: (% argila + silte) > 35%;
gens do TRMM, pois, em seu formato original, os textura argilosa; susceptibilidade à erosão baixa; e
dados apresentam problemas de orientação cardeal capacidade de retenção de água elevada.
(NASA, 2014). Posteriormente, fez-se o recorte das No mapeamento de áreas favoráveis à ex-
áreas de estudo e as operações aritméticas que con- pansão agrícola na área moçambicana, foram con-
sistiram em cálculos da precipitação média mensal siderados os seguintes critérios: declividade ≤ 12%
acumulada ao longo dos 10 anos. Foram considerados, (relevos planos e suave-ondulados que possuem
nesses cálculos, 114 pixels para o Oeste da Bahia e 88 baixo impedimento à mecanização; CHIARINI e
pixels para o Corredor de Nacala, cobrindo áreas de DONZELLI, 1973); e solos dos Tipos 2 ou 3. Áreas
71.250 km² e 55.000 km², respectivamente. de proteção permanente, segundo a Lei 19/97 de 1 de
Os dados do SRTM foram obtidos no formato outubro de 1997 e 10/99 de 7 de julho de 1999, ou
geotiff, projeção geográfica, datum horizontal WGS- seja, parques, reservas e faixa de 30 metros ao longo
84, datum vertical EGM96 e resolução espacial de 90 das margens dos rios, foram ainda excluídos do refe-
metros. As precisões nominais vertical e horizontal são rido mapeamento. Dados de precipitação não foram
de 16 m e 20 m, respectivamente (Rabus et al., 2003). incluídos no mapeamento em questão, por causa da
As imagens foram mosaicadas e recortadas para as indisponibilidade de dados de evapotranspiração e
áreas de estudo por meio do aplicativo ArcMap 10.1. também porque o cálculo da necessidade de água das
Em seguida, foram gerados os mapas hipsométrico e plantas depende das características culturais de cada
de declividade. O mapa de declividade foi reclassifi- cultura agrícola e cada variedade.
cado em seis classes (DE BIASI, 1992; EMBRAPA,
1999): Classe A, relevo plano (declividade < 3%); RESULTADOS E DISCUSSÃO
Classe B, relevo suave ondulado (declividade entre 3
a 8%); Classe C, relevo moderadamente ondulado (8 As séries temporais mensais de precipitação
- 12%); Classe D, relevo ondulado (12 - 20%); Classe nas duas áreas de estudo (Figura 2) evidenciam a pre-
E, relevo forte ondulado (20 -45%) e Classe F, relevo sença da acentuada sazonalidade climática. O período
montanhoso ou escarpado (> 45%). chuvoso tem início no mês de outubro, estendendo-se
Quanto aos dados de solos, foi considerada a até o final do mês de março. No Corredor de Nacala,
textura, que foi agrupada em três categorias quanto à notam-se baixas condições de precipitação na estação
sua capacidade de retenção de água, conforme reco- chuvosa para os anos de 2006, 2007, 2008 e 2011. A
mendações do modelo de zoneamento agrícola e risco precipitação média anual das duas regiões não apre-
climático do Ministério da Agricultura, Pecuária e senta diferença acentuada (Corredor de Nacala: 1.033
Abastecimento do Brasil (ASSAD et al., 2008; MAPA, mm; Oeste da Bahia: 1.119 mm), porém, a variação
2008; REATTO et al., 2008): Tipo 1: (% argila + sil- em torno dessa média no Corredor de Nacala é quase
te) < 15%; textura arenosa; susceptibilidade à erosão o dobro da variação no Oeste da Bahia: 405 mm e 203
elevada; e capacidade de retenção de água reduzida; mm, respectivamente.
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Figura 2 - Série temporal de precipitação média mensal no Corredor de Nacala e no Oeste da Bahia no período de
2002 a 2011.
Fonte: Org. dos Autores.
Regra geral, a precipitação no período seco é chuvas: 65% em relação à média (1.119 mm).
maior no Corredor de Nacala (Figura 3a). As chuvas As distribuições espaciais de precipitação nas
dessa região nos meses de julho, agosto e setembro duas áreas de estudo são mostradas nas Figuras 4a e
foram superiores a 34 mm, enquanto no Oeste da Bahia, 4b. No Corredor de Nacala, as precipitações mais altas
nos meses de junho, julho e agosto, foram inferiores a 4 concentram-se mais na sua porção NO, especialmente
mm. Por outro lado, a quantidade de chuva no período nos distritos de Ngauma, Cuamba e Malema. Cinquen-
chuvoso é maior no Oeste da Bahia. Com relação à ta e um por cento (51%) do corredor possui condições
precipitação média anual (Figura 3b), não houve ten- de precipitação média anual entre 1.000 mm e 1.100
dência de aumento ou diminuição das chuvas durante mm. Quanto ao Oeste da Bahia, as precipitações
o período analisado. No Corredor de Nacala, os anos médias anuais mais altas localizam-se na sua porção
de 2004 e 2011 foram atípicos em relação à média do ocidental, notadamente nos municípios de Luís Edu-
período (1.033 mm). Em 2004, choveu 86% acima ardo Magalhães e São Desidério. Quarenta e oito por
da média; em 2011, 59% abaixo da média. No Oeste cento (48%) dessa área de estudo apresentou regime
da Bahia, 2007 foi o ano com a menor quantidade de anual de chuvas no intervalo de 1.100 a 1.200 mm.
Figura 3 - Precipitação média mensal (a) e anual (b) no Corredor de Nacala e no Oeste da Bahia no período
de 2002 a 2011.
Fonte: Org. dos Autores.
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Figura 4 - Distribuição espacial da precipitação média anual no Corredor de Nacala (a) e no Oeste da Bahia
(b), baseado em dados do período de 2002 a 2011.
Fonte: Org. dos Autores.
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A topografia apresenta contrastes marcantes (500 a 1.000 m) na área central e ocidental, além de
entre as duas áreas de estudo. A região do Corredor algumas serras e montanhas (acima de 1.000 m) na
de Nacala apresenta maior variação altimétrica (24 a parte central e ocidental. Planalto é a forma de relevo
2.400 m) em relação ao Oeste da Bahia (421 a 1.200 predominante nesta área. Em outras palavras, o relevo
m) (Figura 5). De acordo com as formas de relevo do Corredor de Nacala é caracterizado por uma zona
propostas por Muchangos (1999) para Moçambique, de platôs na porção ocidental, decrescendo em degraus
é possível observar o predomínio de planícies (altitu- pouco movimentados em direção leste até atingir o
de até 200 m) na parte costeira, a leste do corredor, e nível do mar na porção oriental (BOLFE et al., 2011).
predomínio de planaltos (200 a 500 m) e altiplanaltos
Figura 5 - Mapas altimétricos do Corredor de Nacala (a) e do Oeste da Bahia (b)
Fonte: Org. dos Autores.
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No Oeste da Bahia, a topografia é menos aci- ao chamado Planalto Ocidental (BATISTELLA et al.,
dentada, com destaque para um relevo mais elevado e 2002). Essas áreas são consideradas impróprias para
plano na porção oeste, conhecido como Chapadão ou agricultura por causa da dificuldade de mecanização.
Chapadas de São Francisco e que foram formadas sobre Ambas as regiões são dominadas por terrenos
as rochas sedimentares areníticas da Formação Urucuia. planos com declividades de até 3% (~ 67% para Corre-
As principais áreas de culturas agrícolas do Oeste da dor de Nacala e ~ 70% para Oeste da Bahia) (Figura 6).
Bahia concentram-se nesse chapadão. As chapadas Essa característica favorece a expansão agrícola, pois os
são circundadas por escarpas relacionadas com pro- níveis de erosão nesta classe de declividade são relati-
cessos morfogenéticos de intemperismo e com relevo vamente reduzidos, facilitando a prática da agricultura
movimentado (IBGE, 2009). Trata-se das depressões mecanizada. Aproximadamente 94% do Corredor de
da margem esquerda do São Francisco que dá início Nacala apresenta declividade inferior a 12%.
Figura 6 - Mapa de declividade do Corredor de Nacala (a) e do Oeste da Bahia (b)
Fonte: Org. dos Autores.
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Os dados de textura mostram-se similares (ASSAD et al., 2008), pode se considerar que 76% de
entre as duas áreas de estudo (Figura 7). Tanto a área toda área do Corredor de Nacala, representadas pelas
do Corredor de Nacala bem como do Oeste da Bahia texturas argilosa e média, isto é, com alta capacidade
apresentam predomínio da variável textural média, de retenção de água, apresentam baixo risco para o
ocupando 53% e 66% da área moçambicana e bra- desenvolvimento das culturas agrícolas. Para o Oeste
sileira, respectivamente. De acordo com o modelo da Bahia, a porcentagem é de 70%.
de zoneamento agrícola de risco climático do MAPA
Figura 7 - Mapa de textura de solos do Corredor de Nacala (A) e do Oeste da Bahia (B).
Fonte: IIAM (1972).
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Na Figura 8, é apresentado o mapa de áreas derando a Lei de Terras moçambicana (Lei 19/97 de
favoráveis à expansão da fronteira agrícola no Corredor 1 de outubro de 1997) e o Decreto n.º 66/98 de 8 de
de Nacala. Nesse mapa, foram excluídas aproximada- dezembro de 1998 que regulamentou a referida lei,
mente 56 mil hectares de áreas de proteção permanente, estabelecendo os princípios básicos para o acesso e
além das áreas de reservas florestais de Mecuburi, Ma- a segurança de posse da terra, tanto dos camponeses
capué e Ribáuè, avaliadas em torno de 58 mil hectares. moçambicanos quanto dos investidores nacionais e
Somadas, as duas áreas de exclusão correspondem a ~ estrangeiros. Da mesma forma, há que se considerar
1% da área de estudo. Foram excluídas ainda 6% do ainda a Lei de Florestas e Fauna Bravia (Lei 10/99
corredor que apresentaram declividades superiores a de 7 de julho de 1999) e o correspondente Decreto
12%. Desse modo, aproximadamente 71% da área to- n.º 12/2002 de 6 de junho de 2002 que regulamentou
tal do Corredor de Nacala (~ 4.6 milhões de hectares) a referida lei, estabelecendo os princípios e normas
apresentam áreas favoráveis à expansão agrícola. básicas sobre a proteção, conservação e utilização
Apesar desse elevado potencial de ocupação sustentável dos recursos florestais e faunísticos. A
agrícola do Corredor de Nacala, ressalta-se que o Lei de Ordenamento Territorial (Lei 19/2007 de 18 de
processo de expansão envolve outras variáveis sociais julho de 2007) é outro instrumento a ser considerado
e ambientais, as quais devem ser analisadas consi- nas políticas de expansão agrícola na região.
Figura 8 - Distribuição de áreas potenciais à expansão agrícola na região do Corredor de Nacala.
(Faltou a fonte)
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CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS
Esse estudo demonstrou que, no Corredor ASSAD, E. D.; MARIN, F. R.; PINTO, H. S.; ZULLO
de Nacala, predominam precipitação média anual Jr., J. Zoneamento agrícola de riscos climáticos do
superior a 1.000 mm, topografia relativamente plana Brasil: base teórica, pesquisa e desenvolvimento.
(declividade ≤ 12%) e solos com textura argilosa ou Informe Agropecuário, v. 29, p. 47-60, 2008.
média. Baseado no modelo adotado para o Cerrado
brasileiro, aproximadamente ¾ da área possui con- BATISTELLA, M.; BOLFE, E. L. Paralelos: Corre-
dições favoráveis para a expansão da agricultura, dor de Nacala. Campinas: Embrapa Monitoramento
portanto, bastante satisfatório para o cumprimento por Satélite, 2010.
dos objetivos traçados no ProSAVANA. Entretanto,
ressalva-se que esse processo de expansão deve en- BATISTELLA, M.; GUIMARÃES, M.; MIRANDA,
volver outras variáveis sociais, ambientais e legais, E. E.; VIEIRA, H. R.; VALLADARES, G. S.; MAN-
não consideradas nesse trabalho. GABEIRA, J. A. C.; ASSIS, M. C. Monitoramento
Tratando-se de uma iniciativa inovadora para da expansão agropecuária na região oeste da Bahia.
a realidade moçambicana, encoraja-se maior envolvi- Campinas: Embrapa Monitoramento por Satélite, 2002
mento da população e da comunidade acadêmica para (Documentos, 20).
que direcionem maior atenção a esse programa com
vistas a evitar impactos indesejados que não foram BOLFE, E. L.; BATISTELLA, M.; RONQUIM, C.
previstos quando da implementação do programa C.; HOLLER, W. A.; MARTINHO, P. R. R.; MACIA,
homólogo na região do Cerrado. Acredita-se que a C. J.; MAFALACUSSER, J. Base de dados geográ-
expansão do cenário agrícola local deve considerar o ficos do “Corredor de Nacala”, Moçambique. In:
fortalecimento da agricultura familiar que é praticada SIMPÓSIO BRASILEIRO DE SENSORIAMENTO
pela maioria da força produtiva moçambicana. Existe REMOTO, 15. Curitiba, PR. Anais... São José dos
um grande desconforto por parte da maioria campone- Campos: Inpe, p. 3995-4002, 2011.
sa e da sociedade civil em geral, pois elas se sentem
excluídas do processo de decisão o qual não pode ser BRANNSTROM, C.; JEPSON, W.; FILIPPI, A. M.;
renegado por força de lei. Portanto, qualquer proposta REDO, D.; XU, Z.; GANESH, S. Land change in the
de expansão agrícola nessa região deve considerar o Brazilian savanna (Cerrado), 1986-2002: comparative
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pesquisadores Liana O. Anderson e Flávio Ponzoni, Z. Chinese and Brazilian cooperation with African
pelas valiosas discussões. agriculture: the case of Mozambique. Future Agricul-
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