Comércio Eletrônico em Moçambique: Legislação e Segurança
Comércio Eletrônico em Moçambique: Legislação e Segurança
Resumo
Este artigo analisa o quadro legislativo e regulamentar que rege os negócios electrónicos em
Moçambique, com foco na Lei de Comércio Electrónico (Lei nº 03/2017) e outros instrumentos
legais relevantes. Além disso, explora a intersecção entre o Direito Digital e o Direito do
Consumidor no contexto das transacções electrónicas, considerando aspectos como protecção de
dados pessoais, responsabilidade dos fornecedores e direitos dos consumidores. O estudo destaca
a importância da conscientização sobre segurança cibernética e inclusão digital para promover
um ambiente propício ao crescimento e à sustentabilidade dos negócios electrónicos em
Moçambique
Abrstract
This article analyzes the legislative and regulatory framework that governs electronic business
in Mozambique, focusing on the Electronic Commerce Law (Law nº 03/2017) and other
relevant legal instruments. Furthermore, it explores the intersection between Digital Law and
Consumer Law in the context of electronic transactions, considering aspects such as personal
data protection, supplier responsibility and consumer rights. The study highlights the
importance of raising awareness about cybersecurity and digital inclusion to promote an
environment conducive to the growth and sustainability of electronic businesses in
Mozambique
1
De Sousa , Celso Gastão, Estudante do curso de Direito, na Universidade Rovuma.
1
Keyword: Legal regime for electronic commerce. Consumer and seller protection. Consumer
Protection Code. Vulnerability. E-commerce. Security. Trust.
Introdução
Objectivos Gerais:
Objectivos Específicos:
Compreender quais são as leis que regem regime jurídico do comércio electrónico em
Moçambique;
Entender como é tratado o comercial electrónico;
Reflectir em torno do comercial electrónico;
Compreender a consequência jurídica originados comercial electrónico;
Metodologia aplicada:
No que toca aos aspectos metodológicos, temos várias formas de aplicação, temos quanto ao
método, quanto a abordagem, quanto aos procedimentos, quanto aos objectivos, respectivamente,
e que nós passaremos a descrever:
Quanto à natureza ou abordagem, as pesquisas científicas podem ser classificadas em dois tipos
básicos: qualitativa e quantitativa, no que toca à abordagem, usada foi a pesquisa qualitativa
pois, os dados foram trabalhados procurando seu alcance a abordagem de perspectiva
qualitativa.3
2
LAKATOS, Eva Maria; MARCONI, Mariana, Metodologia científica, editora atlas, 2003, p. 86.
3
GIL, António Carlos, Métodos e Técnicas de Pesquisa Social, São Paulo: Atlas, 1989, pág. 29.
2
Essencial referir que quanto aos procedimentos, foi realizada a técnica de recolha de dados do
tipo bibliográfico, e Web gráfico4 abrangendo toda a bibliografia já tornada pública em relação
ao tema de estudo.
Quanto aos objectivos, elegemos a pesquisa descritivo, uma vez que procuramos descrever como
são o regime jurídico dos contratos electrónicos em Moçambique;
Em Moçambique, o regime jurídico dos negócios electrónicos é regido principalmente pela Lei
nº 03/2017, de 09 de Janeiro de 2017, também conhecida como Lei de Comércio Electrónico.
Esta lei estabelece disposições relativas aos contratos electrónicos, comunicações electrónicas,
assinaturas electrónicas, protecção de dados pessoais e responsabilidade dos prestadores de
serviços electrónicos. Ela visa regular e promover a segurança e a confiança nas transacções
comerciais realizadas através de meios electrónicos em Moçambique.
Além da Lei de Comércio Electrónico, outros instrumentos legais também podem ser relevantes
para o regime jurídico dos negócios electrónicos em Moçambique, como leis relacionadas à
protecção do consumidor, propriedade intelectual, crimes cibernéticos e regulamentos
específicos emitidos pelas autoridades competentes. É importante que empresas e indivíduos
envolvidos em negócios electrónicos estejam familiarizados não apenas com a Lei de Comércio
Electrónico, mas também com toda a legislação pertinente para garantir conformidade e
segurança nas suas operações online.
Além da legislação, a prática dos negócios electrónicos em Moçambique também pode ser
influenciada por padrões internacionais, acordos comerciais e políticas governamentais
relacionadas à tecnologia da informação e comunicação. É importante considerar o contexto
regulatório e comercial.
3
a viabilidade dos negócios online no país. Além disso, a conscientização e a educação sobre
segurança cibernética e protecção de dados são fundamentais para garantir a confiança dos
consumidores e o sucesso dos negócios electrónicos em Moçambique.
Sem, nunca, nos olvidarmos da Convenção da União Africana sobre Cibersegurança e Protecção
de Dados Pessoais (doravante “CUACPDP”), ratificada pelo Estado moçambicano através da
Resolução n.º 5/2019, é insofismável que a Lei de Transacções Electrónicas (doravante “LTE”) –
4
Lei n.º 3/2017 – consubstancia-se no “centro normativo nevrálgico” regulador do comércio
electrónico, que, nos termos do respectivo glossário, é definido como sendo «a actividade
económica ao abrigo da qual uma pessoa oferece ou garante através de um meio electrónico a
prestação de bens e/ou serviços», sendo que “meio electrónico”, sob a égide do sobredito
glossário, é «todo o meio tecnológico usado para a obtenção de dados no formato analógico ou
digital, seu processamento, armazenamento, transmissão bem como a sua apresentação».
Merece realce que, paralelamente à definição que nos é trazida pelo glossário indexado à LTE, a
CUACPDP, que também possui um capítulo específico que versa sobre a mesma matéria, traz
uma definição corporizada por um conteúdo diferente, sem, no entanto, se opor àquela, definindo
o comércio electrónico como sendo o «acto de oferta, compra ou fornecimento de bens e serviços
através de sistemas de computadores e redes de telecomunicações tais como a internet ou
qualquer outra rede através de meios electrónicos, dispositivos ópticos ou similares para a troca
de informações à distancia».
5
A resposta, neste particular caso de aparente confronto – que, definitivamente, não chega a sê-lo
deverá ser inequivocamente negativa, pois, ao se compulsarem microscopicamente os dois
capítulos, infere-se, sem dificuldades acrescidas, que a “nova lei” não versa de forma contrária à
“velha”, mas, sim, com recurso a enunciações semântico-linguísticas diferentes, traz, na
essência, um conteúdo similar, não prevalecendo, por isso, a regra segundo à qual “lei nova
revoga lei velha”, pois este postulado só prevalece se a “lei nova” versar num sentido antagónico
comparativamente ao estabelecido na “lei velha”.
Ainda que o estabelecimento virtual não seja objecto de definição na LTE, podemos, através de
um raciocínio lógico-interpretativo desenhar as componentes conducentes à sua definição, a
partir dos elementos que nos são fornecidos no artigo 44 da LTE.
Com efeito, o artigo 44 da LTE, consagra que os contratos relativos ao comércio electrónico
celebrados entre empresas comerciais e os consumidores devem fornecer informação precisa,
suficiente, clara e de acesso fácil para permitir a identificação das partes contratantes. Conforme
se denota meridionalmente, a norma acima reproduzida considera imprescindível que o
consumidor tenha, à sua mercê e ao seu dispor, todos os elementos identificativos das empresas
que desempenham o comércio electrónico, com as quais celebrará contratos conducentes a
adquirir bens e/ou solicitar serviços. A norma enfatiza que os elementos daquelas empresas
devem ser precisa, clara, suficientemente identificados e identificáveis ou de fácil acesso.
De entre os elementos mais sonantes de que aquela lei faz depender os obrigatórios requisitos em
que se desenvolverá a actividade subordinada ao comércio electrónico, destacam-se os seguintes:
designação da firma sob a qual a actividade da empresa comercial é desenvolvida; principal
endereço físico para o exercício da actividade, endereço de página de internet, endereço de
correio electrónico, número de telefone ou outra forma de contacto; se uma das partes for uma
entidade legal, o seu número de registo, os nomes dos seus representantes e o local de registo.
Bem vistas as coisas, esses elementos encimados coincidem, com as necessárias adaptações
(diminuições e aumentações), com a definição legal de estabelecimento comercial ínsita no
artigo 42 do Código Comercial, tida como complexo de bens ç direitos organizados para o
exercícios eficiente da actividade empresarial, por empresário individual ou sociedade
empresarial, sendo que, ao abrigo do disposto no artigo 19 do mesmo Código, constituem
obrigações especiais dos empresários comerciais adoptar uma firma, escriturar em ordem as
6
operações ligadas ao exercício da sua empresa; fazer inscrever na entidade competente os actos
sujeitos ao registo comercial; prestar contas.
Assim, depois de este exercício lucrativo, podemos afirmar que o estabelecimento virtual
consiste num site acessado virtualmente – por intermédio da internet – pelos clientes, através do
“nome de domínio” (que inicia com a popular expressão cibernética “mz”) no qual os
empresários do comércio electrónico exercem sua actividade, assumindo facetas equiparáveis
com as exercidas com os estabelecimentos “reais” (presenciais e físicos, em contraposição aos
virtuais), tais sejam, difusão da actividade, emissão de publicidade, com o fim último de realizar,
a partir desse espaço virtual, a venda dos seus bens e/ou prestação dos seus serviços.
Parafraseando as muito bem conseguidas palavras de Pierre Levy (sic): «virtualização não é uma
desrealização (a transformação de uma realidade num conjunto de possíveis), mas uma mutação
de identidade, um deslocamento do centro de gravidade ontológico do obje[c]to considerado». O
mesmo insigne autor traz-nos uma delapidar conceituação, ao advertir-nos sabiamente que (sic):
«é virtual toda entidade “desterritorialização”»
A título meramente exemplificativo, tal como se sucede no mundo real (em contraposição ao
mundo digital), onde, ao abrigo do n.º 1 do artigo 26 do Decreto 27/22016, que aprova o
Regulamento da Lei de Defesa do Consumidor, o consumidor pode, ao abrigo do seu “direito de
retractação”, «desistir do contrato no prazo de sete dias úteis a contar da data da sua assinatura
ou do acto de recepção, do produto ou serviço, devendo para o efeito, devolver o produto ou
serviço nas condições em que o recebeu de forma a não prejudicar o fornecedor, que deve aceitá-
lo sem reservas», de igual modo, no mundo digital, ao abrigo do n.º 1 do artigo 46 da LTE, o
consumidor goza do privilégio do “período de arrefecimento” e do “direito de livre
cancelamento” sendo-lhe atribuído o «direito de cancelar a transacção electrónica ou qualquer
7
contrato com lela relacionado, sem obrigação de fundamentar, devendo suportar apenas os custos
de devolução dos bens pelo fornecimento de bens dentro de um período de sete dias após
recepção dos bens ou pelo fornecimento de serviços dentro de um período de sete dias após a
data de conclusão do acordo».
Direito do Consumidor
8
Dificilmente encontrar-se-á uma área do Direito que diga respeito à generalidade das pessoas,
quer psicofísicas quer colectivas, como a do Consumidor, na medida em que os aspectos que este
ramo do Direito visa regular – as chamadas relações jurídicas de consumo – invadem a esfera de
todos, quer consciente quer inconscientemente, o que o torna dotado de plurivalência situacional.
Como sói dizer-se: “no final do dia, somos todos consumidores”. Por um lado, os
fabricantes/produtores/construtores/distribuidores/fornecedores estabelecem relações com os
consumidores que constituem os destinatários das respectivas actividades [em regra, comerciais],
mas, por outro, aqueles também são autênticos consumidores em múltiplas situações dos
respectivos quotidianos vivenciais, agudizando a qualificação que, no parágrafo precedente,
imputamos a este especial ramo do Direito, que faz parte da vida de toda a panóplia de cidadãos
do mundo terráqueo.
O leitor não encontrará menção expressa ao Direito Digital nem na Lei de Defesa do
Consumidor (Lei n.º 22/2009) e muito menos no respectivo Regulamento (aprovado pelo
Decreto n.º 27/2016), mas, conforme explicitamos na “Parte I” respeitante a esta “série”, é no
campo prático das relações que se desencadeiam e se desenvolvem entre as pessoas
(singulares/colectivas), em ambientes digitais, através do uso dos meios de informação e/ou das
TIC’s, acrescida da necessidade de se regularem tais relações, que emerge o Direito Digital,
sendo que, se essas relações disserem respeito ao âmbito de aplicação da Lei de Defesa do
Consumidor, nos termos definidos no respectivo artigo 3, capta-se a incidência, quer subjectiva
quer objectiva, do Direito Digital nas relações jurídicas de consumo.
Com efeito, o n.º 1 do artigo 3 da Lei de Defesa do Consumidor estabelece que «a presente lei
aplica-se a todas as pessoas singulares e colectivas, públicas e privadas, que habitualmente
desenvolvem actividades de produção, fabrico, importação, construção, distribuição ou
comercialização de bens ou serviços a consumidores, mediante cobrança de um preço». O n.º 2
do mesmo artigo estende o âmbito de aplicação a «organismos, fornecedoras, prestadoras e
transmissoras de bens, serviços e direitos, nomeadamente, da Administração Pública, autarquias
locais, empresas de capitais públicos ou detidos maioritariamente pelo Estado e empresas
concessionárias de serviços públicos». Chama-se a atenção que o conceito de “consumidor” vem
definido no glossário do retro citado diploma legal e o alcance de “capitais públicos ou detidos
9
maioritariamente pelo Estado” vem expressamente disposto na alínea b) do n.º 2 do artigo 50 da
Lei n.º 3/2018 (Lei que estabelece os princípios e regras aplicáveis ao Sector Empresarial do
Estado).
Do que se disse acima, infere-se que sempre que as relações jurídicas de consumo (as mantidas
por todas as pessoas singulares e colectivas, públicas e privadas, que habitualmente desenvolvem
actividades de produção, fabrico, importação, construção, distribuição ou comercialização de
bens ou serviços a consumidores, mediante cobrança de um preço) forem mantidas no “ambiente
digital”, cujo conceito definimos na “Parte I”, através dos meios de informação e/ou TIC’s,
temos, em regra, estabelecida a incidência do Direito Digital no Direito do Consumidor.
10
Com efeito, a Lei de Transacções Electrónicas, que reserva um “diminuto” capítulo próprio
destinado à protecção do consumidor, e como corolário do reconhecimento de que, apesar de
algumas matérias destinadas à defesa dos interesses e direitos dos consumidores já estarem
previstas na Lei de Defesa do Consumidor e respectivo Regulamento, as relações jurídicas de
consumo que se desencadeiam e se desenvolvem no mundo digital serem caracterizados por
peculiaridades típicas desse meio, consagra que os contratos relativos ao comércio electrónico
celebrados entre empresas comerciais e os consumidores devem fornecer informação precisa,
suficiente, clara e de acesso fácil para permitir a identificação das partes contratantes (art. 44 da
Lei de Transacções Electrónicas), sendo que “comercio electrónico” é, nos termos definidos no
respectivo glossário, actividade económica ao abrigo da qual uma pessoa oferece ou garante
através de um meio electrónico, a prestação de bens e/ou serviços, merecendo, ainda realce que
“meios electrónicos” são todos os meios tecnológicos usados para a obtenção de dados no
formato analógico ou digital, seu processamento, armazenamento, transmissão, bem como a sua
apresentação.
Não nos esqueçamos que nos referimos a transacções electrónicas (ocorridas no mundo digital,
com particular enfoque para a internet) e, como tal, é imprescindível que o consumidor tenha, à
sua mercê e ao seu dispor, todos os elementos identificativos das empresas com as quais
celebrará contratos conducentes a adquirir bens e/ou solicitar serviços. Este aspecto ganha
relevância subida, porquanto, se esses elementos não estiverem precisa, clara, suficientemente
identificados e identificáveis ou não forem de fácil acesso, o risco de ocorrência de, por exemplo,
burlas e outros tipos de fraudes, é de uma verosimilhança iminente. Exemplos do que se disse
atrás não faltam; muito pelo contrário, são de verificação quotidiana, quer na avultada compra de
viaturas ou mesmo na aquisição de uma mera peça de roupa.
A mesma Lei, como forma de proteger o consumidor nas relações emergentes no mundo digital,
plasma o direito do consumidor a livre resolução do contrato, concedendo ao consumidor a
faculdade de cancelar a transacção (compra de bens ou benefício de serviços pela internet) num
período de 14 dias úteis após da recepção dos bens ou serviços, se tais contratos não estiverem
em consonância com as obrigatórias normas conducentes ao dever que os fornecedores possuem
11
de colocar o consumidor claro e suficientemente informado sobre todos os aspectos fulcrais
inerentes quer à empresa quer ao negócio que lhe dá causa.
A Lei das Telecomunicações, ciente desse argumento muitas vezes usado pelas empresas de
telefonia móvel, visando conferir segurança e integridade das redes e disponibilidade dos
serviços, estabeleceu no artigo precedentemente citado, a obrigação daquelas empresas
garantirem que todos os meios destinados a estabelecer segurança para o consumidor sejam
observados, sob pena de aquelas empresas incorrerem no dever de ressarcir os consumidores
pelos prejuízos que os causam (arts. 562, 564 e 566 do Código Civil), devido, muitas vezes a
negligência patente nas suas acções/omissões, negligência essa que é, pelas mesmas empresas,
escamoteada e camuflada com recurso ao argumento de ocorrência de caso fortuito ou força
maior, quando, na verdade, impunha-se às aludidas empresas, observar todos os deveres de
cuidado para que o consumidor/cliente não saísse lesado.
12
Conforme se pôde verificar supra, com os exemplos carreados, é vasta a incidência do Direito
Digital nas relações jurídicas de consumo, como também é largamente vislumbrável a
preocupação do Estado moçambicano em acompanhar a evolução das TIC’s, manifestada pela
aprovação de normas, de vária índole, incidentes sobre as relações jurídicas de consumo, quando
brotadas no ambiente digital.
O regime jurídico que fixa a disciplina a que está sujeita a protecção de dados no ordenamento
jurídico moçambicano foi introduzida por intermédio da Resolução n.º 5/2019, de 20 de Junho,
que ratifica a Convenção da União Africana sobre Cibersegurança e Protecção de Dados Pessoais
(doravante “CUACPDP”), Convenção adoptada pela 23.ª sessão ordinária da cimeira dos chefes
de Estado e de Governo da União Africana, a 27 de Junho de 2014, em Malabo, Guiné
Equatorial.
Da mesma forma que o Direito Digital surge da necessidade que o próprio Direito “sentiu” de
acompanhar a evolução das TIC’s, presciente que, dessa evolução, e tendo em conta o carácter
sofisticado das TIC’s, ocasionam-se problemas peculiares que reclamam também por soluções
peculiares, diferentes daquelas [soluções] encontráveis no mundo real [em oposição ao mundo
virtual], objectivando, como finalidade, tutelar as relações que se desencadeiam entre as pessoas
em ambientes digitais, através do uso das TIC’s, a reformulação das normas relativas à protecção
de dados pessoais (em ambientes digitais), foram, por impulso decisivo da União Europeia,
ocasionadas devido a observância de grandes casos de vazamento de dados e utilização e
comércio de informações pessoais, o que culminou, após sucessivas revisões ao longo do tempo,
com a adopção da Directiva 2016/679 – General Data Protection Regulation (GDPR) –, que
obrigou empresas de todo mundo – onde se incluem monstros elefantícios como o Facebook e o
Google – a mudar a forma como colectam, armazenam, processam e tratam dados e foi ainda
responsável pelo despoletamento de uma série de reformas legislativas sobre o tema em todo o
mundo.
[1] Lei n.º 3/2017, que estabelece os princípios e o regime jurídico das transacções electrónicas
em geral, do comércio e governo eletrónico em particular, visando garantir a protecção e
utilização das TICs.
13
Aprovada através da Resolução n.º 17/2018, cujo glossário define “Sociedade da Informação”
como sendo «aquela em que o modo de desenvolvimento social e económico, baseia-se na
informação como meio de criação de conhecimento, para a produção de riqueza e bem-estar de
vida dos cidadãos. Para tal o acesso às TIC’s é condição essencial».
A silhueta do Direito Digital tanto se pode fazer notar de uma forma fulgurantemente incisiva,
como nalguns dos diplomas acima citados, como também de forma residual, conforme se extrai,
por ex., do disposto no n.º 1 do art. 84 do novíssimo Código de Execução das Penas, aprovado
pela Lei n.º 26/2019, que dilucida que «o director do estabelecimento penitenciário pode, a título
excepcional, autorizar o recluso a utilizar qualquer outro meio técnico de comunicação existente
no estabelecimento penitenciário, nomeadamente correio electrónico e telecópia, em situações
pessoais ou profissionais particularmente relevantes ou urgentes, sendo controlado o respectivo
conteúdo». O Direito Digital deambula ainda pelo controle das “transferências electrónicas” ao
aconchego do art. 15 da Lei n.º 14/2013 (Lei de Branqueamento de Capitais), marca presença no
art. 29 da Lei n.º 5/2018 (Regime Jurídico de Prevenção, Repressão e Combate ao Terrorismo),
bem como se faz sentir notoriamente no art. 12 da Lei n.º 2/2018 (altera a Lei que cria o
Gabinete de Informação Financeira de Moçambique) e constitui um dos mecanismos mais
efusivos de articulação entre Moçambique e demais Estados soberanos no âmbito da troca de
informação sobre detidos/suspeitos/arguidos relativamente aos quais se impõe a respectiva
extradição, de Moçambique para outros Estados e vice-versa, como se ilustra no art. 23 da Lei n.º
21/2019 (aprova os Princípios e Procedimentos de Cooperação Jurídica e Judiciaria Internacional
em matéria Penal) nos termos do qual, os Estados podem «utilizar na transmissão dos pedidos
[de informação] os meios telemáticos adequados, desde que estejam garantidas a autenticidade e
a confidencialidade do pedido e a fiabilidade dos dados transmitidos».
14
O n.º 1 do artigo 3 da Lei de Defesa do Consumidor estabelece que «a presente lei aplica-se a
todas as pessoas singulares e colectivas, públicas e privadas, que habitualmente desenvolvem
actividades de produção, fabrico, importação, construção, distribuição ou comercialização de
bens ou serviços a consumidores, mediante cobrança de um preço». O n.º 2 do mesmo artigo
estende o âmbito de aplicação a «organismos, fornecedoras, prestadoras e transmissoras de bens,
serviços e direitos, nomeadamente, da Administração Pública, autarquias locais, empresas de
capitais públicos ou detidos maioritariamente pelo Estado e empresas concessionárias de
serviços públicos». Chama-se a atenção que o conceito de “consumidor” vem definido no
glossário do retro citado diploma legal e o alcance de “capitais públicos ou detidos
maioritariamente pelo Estado” vem expressamente disposto na alínea b) do n.º 2 do artigo 50 da
Lei n.º 3/2018 (Lei que estabelece os princípios e regras aplicáveis ao Sector Empresarial do
Estado).
A mesma Lei, como forma de proteger o consumidor nas relações emergentes no mundo digital,
plasma o direito do consumidor a livre resolução do contrato, concedendo ao consumidor a
faculdade de cancelar a transacção (compra de bens ou benefício de serviços pela internet) num
período de 14 dias úteis após da recepção dos bens ou serviços, se tais contratos não estiverem
em consonância com as obrigatórias normas conducentes ao dever que os fornecedores possuem
de colocar o consumidor clara e suficientemente informado sobre todos os aspectos fulcrais
inerentes quer à empresa quer ao negócio que lhe dá causa. Cônscio da complexidade do
manuseamento dos meios tecnológicos/digitais, a Lei sobre a qual se detém as presentes sílabas,
estatui ainda que o empresário comercial deve fornecer ao consumidor um mecanismo seguro de
pagamento e informação acerca do nível de segurança que o referido mecanismo confere (n.º 2
15
do artigo 45), sendo que aquele empresário é responsável por quaisquer danos sofridos pelo
consumidor devido a falta de cumprimento do disposto no mencionado artigo.
A Lei das Telecomunicações determina, num capítulo cuja epígrafe é “Qualidade do Serviço e
Protecção do Consumidor”, que os operadores de telecomunicações devem adoptar as medidas
necessárias para garantir a segurança e a integridade do funcionamento das respectivas redes e
serviços e assegurar sempre que possível alternativas para a sua disponibilidade em situações de
emergência e de casos fortuitos ou de força maior (art. 42 da Lei das Telecomunicações). É
comum, no âmbito do uso dos serviços telemáticos, verificar-se a ocorrência de situações lesivas
aos direitos do consumidor, sem que estes sejam ressarcidos dos prejuízos que lhes são causados,
com o recurso ao leviano argumento de caso de força maior. A Lei das Telecomunicações, ciente
desse argumento muitas vezes usado pelas empresas de telefonia móvel, visando conferir
segurança e integridade das redes e disponibilidade dos serviços, estabeleceu no artigo
precedentemente citado, a obrigação daquelas empresas garantirem que todos os meios
destinados a estabelecer segurança para o consumidor sejam observados, sob pena de aquelas
empresas incorrerem no dever de ressarcir os consumidores pelos prejuízos que os causam (arts.
562, 564 e 566 do Código Civil), devido, muitas vezes a negligência patente nas suas
acções/omissões, negligência essa que é, pelas mesmas empresas, escamoteada e camuflada com
recurso ao argumento de ocorrência de caso fortuito ou força maior, quando, na verdade,
impunha-se às aludidas empresas, observar todos os deveres de cuidado para que o
consumidor/cliente não saísse lesado.
Salienta-se que, a despeito da predita Convenção ter sido adoptada em 2014, é curial realçar-se
que só a partir da respectiva ratificação pela Assembleia da República, em 2019, por intermédio
da Resolução n.º 5/2019, é que ela entrou em vigor em Moçambique, na medida em que, nos
termos do n.º 1 do artigo 18 da Constituição da República, «os tratados e acordos internacionais,
validamente aprovados e ratificados, vigoram na ordem jurídica moçambicana após a sua
publicação oficial e enquanto vincularem internacionalmente o Estado de Moçambique».
16
compromissos existentes entre os Estados-membros da União Africana no plano sub-regional,
regional, internacional, com vista a construção da Sociedade da Informação)
No caso do comércio electrónico, o licenciamento pode ser necessário para garantir a segurança
dos consumidores, a protecção dos dados pessoais, o pagamento de impostos e a conformidade
com normas específicas do sector. No entanto, impor o licenciamento para todos os vendedores
online pode ser desafiador em termos de implementação e fiscalização, especialmente
considerando o grande número de pequenos vendedores e empreendedores que operam na
internet.
Além do licenciamento, outras medidas podem ser implementadas para garantir a segurança e a
confiança no comércio electrónico. Isso inclui a adopção de políticas claras de protecção ao
consumidor, a implementação de medidas de segurança cibernética para proteger os dados
pessoais dos clientes, a promoção da transparência nas transacções e a garantia de que os
vendedores cumpram as leis tributárias locais.
17
desonestas. O estabelecimento de mecanismos eficazes de resolução de disputas também é
fundamental para lidar com problemas que possam surgir durante as transacções online.
Falta de equipamento tecnológico adequado para os profissionais de justiça criminal bem como a
falta de pessoal qualificado em matéria de criminalidade informática.
18
Conclusão
Chegando a este ponto, no que concerne ao objectivo geral do Artigo, conclui que existem vários
quadro legislativo regulamentar com objectivo de reger comércio electrónico em Moçambique a
título de exemplo 03/2017, de 09 de Janeiro de 2017, de 1 de agosto - Lei de Comércio
Electrónico de Moçambique.
Quanto aos objectivos específicos, primeiro conclui que Em Moçambique, a Lei nº 03/2017,
conhecida como Lei de Comércio Electrónico, é o principal marco legal para os negócios
electrónicos. Esta legislação aborda aspectos como contratos, comunicações e assinaturas
electrónicas, além de protecção de dados e responsabilidade dos provedores de serviços online,
com o objectivo de promover a segurança e confiança nas transacções electrónicas. Além disso,
outras leis relacionadas à protecção do consumidor, propriedade intelectual e crimes cibernéticos,
juntamente com regulamentos específicos, também são relevantes. A prática dos negócios
electrónicos é influenciada por padrões internacionais, acordos comerciais e políticas
governamentais, tornando crucial considerar o contexto regulatório e comercial ao operar nesse
sector.
19
A ordem de inquietações variadas que o Comércio Electrónico suscita reconduz-se, em primeira
e última análise, a um concepção e exigência de Confiança, fulcral para motivar a participação
individual e estadual num mercado cada vez mais global.
Uma das faces visíveis desta realidade, enquanto beneficiados e afectados por aquelas
potencialidades e riscos, são os consumidores, que intervém no Comércio Electrónico, dotados –
de uma forma generalizada – de menor capacidade económica e negocial e menor preparação
técnica, o que Comércio e Consumo Electrónico – algumas considerações jurídicas justifica um
especial ênfase de protecção e incremento de confiança por parte das instituições nacionais,
comunitárias e internacionais.
Por outro lado, também no plano das empresas que comerciam na Internet se fazem sentir as
incertezas perante um mercado inexplorado, o que, para além de limitar a sua competitividade
empresarial, se repercute colateralmente no nível de confiança dos consumidores.
Albert Einstein
20
Referencia Bibliográficas
21
Benjamin. Marques-e-Bessa manual-de-direito-do-consumidor.
Contratos à Distância : uma fase na evolução da defesa do consumidor na sociedade da
informação?. In MONTEIRO, António Pinto (dir.) – Estudos de Direito do Consumidor -
nº 4. Coimbra : Centro de Direito do Consumo da FDUC, 2002. ISBN 972-98463-3-2. p.
165-180.
SALGARELLI, Kelly Cristina. Direito do Consumidor no Comércio Electrónico: Uma
Abordagem Sobre Confiança e Boa-fé. São Paulo: Ícone, 2010.
SALGARELLI, Kelly Cristina. Direito do Consumidor no Comércio Eletrônico: Uma
Abordagem Sobre Confiança e Boa-fé. São Paulo: Ícone, 2010.
VANCIM, Adriano Roberto; MATIOLI, Jefferson Luiz. Direito & Internet: Contrato
Eletrônico e Responsabilidade Civil na Web. São Paulo: Lemos & Cruz, 2011.
WIELEWICKI, Luís. Contratos e internet: contornos de uma breve análise. In: SILVA
JUNIOR, Ronaldo Lemos da; WAISBERG, Ivo (orgs.). Comércio eletrônico. São Paulo:
Revista dos Tribunais, 2001.
FORGIONI, Paula A. Apontamentos sobre Aspectos Jurídicos do E-commerce.
Revista de Administração de Empresas: São Paulo, v. 40, n. 4, p. 70-83, out./dez.
2000.
22