Políticas de saúde e medicina tradicional em Lourenço Marques
(Moçambique 1940-1975)
Carolina Maíra Gomes Morais∗
Resumo
Ao longo do período colonial em Moçambique (1885-1974), os investimentos em
saúde por parte do governo português foram esparsos e em geral para atender a demanda dos
colonos portugueses, mas aos poucos formaram de uma rede de saúde pública em
Moçambique colonial. Lourenço Marques por ser a capital, e concentrar a maior parte dos
colonos, recebia maior parte das atenções. O fato de o investimento colonial da saúde ser
diminuto não implica em afirmar que o sistema de saúde colonial soube conviver com as
demais práticas de saúde já existentes em Lourenço Marques. Pretendemos aqui mostrar que o
sistema de saúde implementado pelo governo colonial português contribuiu para a
inferiorização das práticas populares de saúde em Lourenço Marques, renegando-as como
conhecimento legítimo.
Palavras chaves: medicina tradicional, políticas de saúde, colonialismo.
Abstract
Throughout the colonial period in Mozambique (1885-1974), investments in health by
the Portuguese government were sparse and generally to meet the demands of the Portuguese
colonists, but gradually formed a network of public health in colonial Mozambique. Lourenco
Marques as the capital, and focus most of the settlers, received most attention. The fact that
the colonial health investment was tiny does not mean to say that the colonial health system
learned to live with the other health practices existing in Lourenco Marques. We intend to
show here that the health system implemented by the Portuguese colonial government
∗
Carolina Morais é mestranda no Programa de Pós Graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de
Oswaldo Cruz/Fiocruz, participante do programa de bolsas Capes.
E-mail: carolina_mgm@[Link]
contributed to the inferiority of the popular health practices in Lourenco Marques, denying
them as legitimate knowledge.
Key words: traditional medicine, health policies, colonialism.
Falam-me de progresso, de ‘realizações’, de doenças
curadas, de níveis de vida elevados acima de si próprios.
Eu, eu falo de sociedades esvaziadas de si próprias, de
culturas espezinhadas, de instituições minadas, de terras
confiscadas, de religiões assassinadas, de magnificência
artística aniquiladas, de extraordinárias possibilidades
suprimidas. Aime Césaire (Apud: Santos: 2005, p.27)
A ocupação portuguesa no território posteriormente denominado como Lourenço
Marques (atual Maputo) iniciou-se em 1782, com a construção de um presídio. Em 1876,
Lourenço Marques é elevada ao estatuto de vila. A partir daí foram realizados um conjunto de
obras públicas e planos urbanos que resultaram na expulsão da população local do centro da
cidade, e revelou o interesse da administração colonial, missionários, comerciantes em se
apropriar daquele espaço. Assim em 1887, Lourenço Marques tornou-se a capital de
Moçambique.
O desenvolvimento de Lourenço Marques como cidade esteve em grande medida
relacionado com a industrialização sul-africana, como ressalta Malyn Newiit, a cidade de
Lourenço Marques fez parte de uma densa rede ferroviária e comercial que a integrava no
circuito do consumo sul-africano. Aos poucos Lourenço Marques atraiu um conjunto de
pessoas interessadas nas possibilidades econômicas oferecidas pela cidade. Tais agentes
trabalharam para edificação de uma malha urbana, e equiparam a cidade de elementos que a
definiam como um centro urbano. No sentido econômico e comercial a cidade possuía, nas
primeiras décadas, sedes das principais empresas presentes em Moçambique. No ponto de
vista da vida sócio-cultural, Lourenço Marques também foi equipada com espaços de
sociabilidade à moda europeia, como cafés, teatro, associações, entre outros.
Junto ao centro urbano de Lourenço Marques desenvolveu-se o subúrbio. Assim, a
cidade de Lourenço Marques se desenvolveu, entre a baixa(o centro urbano) e a alta(o
subúrbio), ou, entre a cidade de cimento(o centro urbano) e a cidade de caniço(o subúrbio).
Entender o desenvolvimento de Lourenço Marques e mesmo sua estratificação social é
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importante para perceber como o Estado colonial português se relacionou com as práticas
populares de cura neste espaço.
O aumento de número de colonos portugueses em Moçambique esteve intimamente
relacionado com os investimentos em infra-estrutura realizados pelo governo colonial. Na
década de 1940 que Moçambique passou a receber maior número de portugueses em seu
território. De acordo com o Anuário Estatístico de 1973, a população europeia em
Moçambique passa de 17.842 em 1928 para 27.438 em 1940. Este número triplica em 1960
chegando a 97.245 europeus, dentre os quais podemos supor que a maioria eram portugueses.
Mesmo tendo um desenvolvimento interno diferenciado, resultando numa cidade de
cimento e outra cidade de caniço, Lourenço Marques durante, o período colonial, teve um
desenvolvimento urbano bem acima do encontrado no restante da colônia de Moçambique.
Por isto, Malyn Newiit afirma que o padrão de desenvolvimento em Moçambique foi variado,
sendo sul de Moçambique privilegiado.
Neste contexto de aumento do número de colonos e investimentos coloniais em
infra-estrutura coloca-se as políticas de saúde implementadas pela administração colonial.
Com o intuito de propagar a ideologia colonial, ocorriam na metrópole congressos e
exposições coloniais.(PAULO: 1999, p.308) Através de um documento preparado para a 1ª
Exposição Colonial Portuguesa, datado de 1934 podemos perceber como se davam as ações e
legislações sobre saúde pública em Moçambique. Não podemos, entretanto, tomar o
documento como uma realidade em si, de fato tal folheto servia também para fazer
propaganda da colônia de Moçambique entre possíveis colonos portugueses. No entanto tal
documento serve como importante instrumento para dar uma visão geral do que era a saúde
colonial na década de 1930, ou aquilo que pretensamente o governo colonial esperava que
fosse.
De acordo com o folheto Colônia de Moçambique: Saúde e Higiene, publicado em
1934, Moçambique era dividida em oito delegações de saúde, que correspondiam as divisões
administrativas da colônia. Tais delegações de saúde estavam divididas em subdelegações:
postos sanitários de primeira classe, que ficavam a cargo de enfermeiros europeus e postos
sanitários de segunda classe, sob a responsabilidade de enfermeiros indígenas. Além disto,
cada sede distrital possuía um hospital. Os delegados e subdelegados responsáveis pelas
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delegações e subdelegações de saúde produziam alguns documentos que eram enviados para o
governo-geral das colônias. Apresentado a administração do sistema de saúde da colônia, o
folheto passa a relatar as formas de combate às doenças previstas no Regulamento Geral dos
Serviços de Saúde da Colônia. Tal regulamento afirma que “Organização sanitária forma uma
rede que permite prestar assistência médica e sanitária.” (FONTE: Colônia de Moçambique:
Serviços de Saúde e Higiene:1934, p.7)
Outras formas de combate as doenças também são descritas no Regulamento Geral dos
Serviços de Saúde da Colônia, como as brigada sanitárias que eram “constituídas pelo pessoal
de polícia sanitária para fazer cumprir as normas determinadas no Regulamento dos Serviços
Sanitários da Colônia.”( FONTE: Colônia de Moçambique: Serviços de Saúde e Higiene:1934, p.19)
Tais brigadas eram reforçadas pela legislação que visava o intercâmbio ente os comandos
militares e serviços de saúde, demonstrado que o uso da força militar não estava descartado
nas ações das Brigadas Sanitárias:
Portaria nº 700, de 15 de dezembro de 1917, publicada no Boletim Oficial, nº 51, de
22 do mesmo mês, determinando várias procedências para que entre a Direção dos
Serviços de Saúde, a administração das circunscrições, comandos militares e
edilidades se estabeleçam a mais prefeita concordância de atribuições e mútuo
auxílio. (FONTE: Colônia de Moçambique: Serviços de Saúde e Higiene:1934,
p.42)
Também dentre as políticas de saúde implementadas em Lourenço Marques esteve a
instituição do passaporte sanitário que segundo o regulamento “foi instituído a
obrigatoriedade do passaporte sanitário área todas as pessoas, de qualquer raça ou
nacionalidade, que precisassem de transitar entre a áreas infestadas e áreas indemnes.”
(FONTE: Colônia de Moçambique: Serviços de Saúde e Higiene:1934, p.21)
Assim, de acordo com Malyn Newiit na década de 1940, podemos falar de um
departamento de saúde que “em 1940, empregava 78 médico, 166 enfermeiros de diversos
graus e 102 enfermeiros africanos. Além disso havia médicos a exercer clínica privada.”(
NEWIIT:1997, p.413) Este departamento de saúde recebeu outros investimentos e
modificações ao longo do período colonial até 1975, quando se deu a independência de
Moçambique. No fim do período colonial, de acordo com Malyn Newiit, forma-se uma rede
de serviços de saúde com 395 unidades hospitalares e maternidades, mas com apenas 400
médicos ao todo e nenhuma escola de medicina para a sua formação, tendo estes que
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estudarem no exterior. (NEWIIT:1997, p.413) Segundo a historiadora Maria Paula Meneses, o
não investimento em escolas de medicina na colônia foi uma forma de o Estado colonial
controlar e delimitar o saber considerado oficial:
Para o Estado, hoje, tal como ontem, a delimitação do que é saber e magia, do que
é considerado oficial e do que não o é, é feita em função de práticas normalizadoras
que este mesmo Estado controla. Numa perspectiva de legitimação racional que se
impõe com o sistema colonial, só quem estudou nos centros formalizados de saber é
que está autorizado a praticar medicina. (MENESES:2005, p. 447)
A própria delimitação entre a medicina oficial e a medicina não oficial deve ser
ressaltada e analisada aqui. Para analisar a relação entre tais políticas de saúde e os
conhecimentos sobre saúde já existentes em Lourenço Marques optamos pela designação de
medicina tradicional, ao invés de curandeirismo. A nomeação curandeiro remete a uma
desqualificação das práticas, associando estes a feiticeiros, dito de outra forma, o processo de
negação do saber da medicina tradicional passou pela identificação da imagem do
nyàngà(médico tradicional) com a do feiticeiro.
As definições gerais realizadas pela administração colonial colocam a oposição entre
medicina e magia como a oposição entre medicina oficial e medicina tradicional. A medicina
oficial, de base científica européia, seria responsável por curar, por lidar com os problemas
que afligem o físico das pessoas, enquanto a medicina tradicional seria apenas uma crendice
do sistema religioso dos povos moçambicanos, desqualificando-a na possibilidade de tratar do
corpo, do físico. Como analisa Maria Paula Meneses:
A dicotomia ofical⁄não-oficial é definida pelo Estado, sendo este quem estabelece,
pelo direito, no seio da multiplicidade do pluralismo terapêutico presente em
Moçambique, uma distinção mais ou menos explícita entre o que é legal e o que é
ilícito, senão mesmo ilegal. No caso da medicina, tudo o que é reconhecido como
medicina oficial é alvo de apoio por parte do Estado. Toda medicina que não é
reconhecida como “estatal” é tolerada, mas continua sendo mais frequentemente
ignorada, porque pouco permeável a imposições e controle por parte da
biomedicina. .(MENESES: 2005, 430)
O saber local torna-se diante do Estado colonial, um saber subalterno, ou até mesmo
uma não-saber, pois não é o oficial, reconhecido como legítimo e propagado através do
serviço de saúde da colônia. Ao analisarmos os saberes locais de cura como parte da cultura
popular em Lourenço Marques, cabe ressaltar que partimos do entendimento que a cultura
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popular não é algo completamente autônomo, nem complemente heterogêneo. A cultura
popular é um campo de permanente disputa como definido por Stuart Hall “Quero afirmar o
contrário, que não existe uma ‘cultura popular’ íntegra, autêntica e autônoma, situada fora do
campo de forças das relações de poder e de dominações culturais.” (HALL: 2003, p.238) Desta
forma a cultura popular não existe de maneira isolada, e sim dentro de um contexto,
atravessada por disputas do poder. As práticas populares de cura que aqui tencionamos
estudar não devem ser limitadas aos conceitos de militância ou cooptação, mas como um jogo
de forças dentro do campo de disputas que se coloca no período colonial em Moçambique.
É preciso ressaltar que as diferentes práticas de cura são obtidas a partir das diferentes
interpretações e concepções acerca do conceito de saúde. Segundo entrevistas realizadas por
Maria Paula Meneses na década de 1990, que remetem ao período colonial, as populações em
Moçambique possuíam um conceito de saúde diferente do conceito português. Enquanto na
saúde na medicina oficial era tratar do físico do indivíduo; saúde para os Moçambicanos era
uma complexa relação entre corpo e espírito do indivíduo e sociedade envolvente. Na
medicina tradicional eram consideradas doenças a tuberculose, a malária, a sarna, e também
conflitos conjugais, azar, entre outros. A tarefa do médico tradicional seria portanto:
O nyàngà cuida do corpo, sara as feridas, elimina os padecimentos do organismo
utilizando os conhecimentos que tem sobre a natureza, e, em simultâneo, trata as
perturbações da cabeça e do espírito, causada pelos desajustes socioeconômicos,
por traumas profissionais. (MENESES:2005, p. 443)
Na medida em que a medicina oficial baseava-se em outros pressupostos na concepção
de saúde e doença, considerava-se a função no nyàngà um atraso civilizacional, um mostra de
que as populações Moçambicanas eram primitivas e uma justificativa para o empreendimento
colonial português como maneira de integrar tais populações à civilização como afirma um
dos ideólogos do colonialismo português Pedro de Sousa Santos:
Para atingir, pois, uma das principais finalidades cristãs e civilizadoras da ação
missionária, há essencialmente que se modificar a estrutura mental do indígena,
ministrar-lhe, a par dos sãos princípios religiosos que desbravam o seu espírito e o
preparam para aperfeiçoamento ulterior, a semente dos conceitos morais da nossa
organização social, dando-lhe tempo para germinar e medrar.(Santos: 1953, p. 42)
Ao designar os conhecimentos locais como práticas não civilizadas, ou não legítimas,
o governo colonial inferiorizou as práticas populares de saúde existentes em Lourenço
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Marques, e por vezes se apropriou dos conhecimentos sobre ervas medicinais, no entanto, sem
reconhecer tais práticas como conhecimentos válidos. O processo de colonização portuguesa
em Moçambique foi marcado por esta subalternização das práticas dos médicos tradicionais, e
a emergência e conflitos entre medicina oficial e medicina tradicional estão postos ainda hoje
em território moçambicano:
Em Moçambique, a procura de uma definição de “medicina tradicional”, para além
da diversidade e da heterogeneidade das práticas terapêuticas, está inscrita na
ordem social resultante do processo de colonização do próprio saber – o que
constitui estas práticas em objeto é simplesmente a negação do reconhecimento pelo
Estado e seus organismos. Esta abordagem implica a criação do “outro” pelo não-
saber, pela sua inclusão no mundo natural e exclusão do mundo
civilizado.(MENESES:2005, p.432)
O acesso dos chamados indígenas aos serviços de saúde foi durante todo o período
colonial cerceado por questões raciais e sociais, o que implica afirmar que o acesso destes
africanos aos serviços de saúde coloniais foi bastante precário. Mas o não reconhecimento,
pelo Estado colonial, de práticas populares de cura como saber legítimo também foi um fator
que marcou as políticas de saúde. Boaventura Santos afirma que a negação da diversidade é
inerente ao colonialismo. No entanto é importante pensar que finda a administração colonial
em 1975, Lourenço Marques, agora Maputo, ainda é palco do conflito entre medicina oficial e
tradicional, devido ao não reconhecimento das ações dos nyànà como prática medicinal
legítima.
Ainda que por vezes a ciência moderna atribua a si própria o direito de arrogar o que é
conhecimento válido, destacamos a importância de reconhecer e analisar os conhecimentos
chamados locais, buscando perceber a diversidade epistemológica presente num mesmo
espaço e tempo. Não negamos que a ciência ocidental proporcionou conhecimentos
relevantes, inclusive na própria área da medicina, para as populações em Moçambique. No
entanto sob o argumento da necessidade e imposição do conhecimento ocidental como o
único legítimo, atores em nome da ciência ocidental provocaram epistemicídios: “os
epistemicídios que foram perpetrados, em nome da visão científica do mundo, contra outros
modos de conhecimento, com o consequente desperdício e destruição de muita da experiência
cognitiva humana.” (SANTOS:2005, p.25) É preciso portanto observar a história da ciência
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não somente a partir dos benefícios proporcionados, mas também das suas outras
consequências para a sociedade.
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