O DAS QUINAS
Um aviso, para quem quer enfrentar e compreender o significado do sofrimento, da
luta, porque é de luta e de sofrimento que Pessoa fala em Mensagem. Avisa que nada
é dado sem que algo seja tirado. Quando os deuses dão a glória, tiram a felicidade. Os
felizes, mesmo de modo passageiro, ignoram que a felicidade é boa, mas também é
momentânea, enquanto o sofrimento, para aquele que luta, é por vezes eterno,
sempre presente. Os felizes são assim abençoados, mas são passageiros,
inconsequentes.
Devemos ter cuidado com o que desejamos. Devemos nunca desejar mais do que nos
está destinado. Querer sempre mais é adiar, não aceitar o destino.
Pessoa equipara a luta dos portugueses aos sacrifícios de Cristo ao tornar-se homem. A
glória do Salvador veio também através de grande sofrimento, além da própria dor.
Não se pode exigir menos a quem segue a sua palavra e a sua missão. Estes obstáculos
são postos para filtrar os corajosos.
VIRIATO- Figura mítica da história de Portugal, foi um chefe militar da tribo dos
Lusitanos, que congregou sob o seu poder grandes territórios no centro da Península
Ibérica, resistindo com imenso fulgor aos invasores Romanos.
A importância dada aos mitos, é atenuada, mas continua presente. Viriato, sendo já um
homem, é “menos mito” do que Ulisses, mas continua a ser mito, porque pouco se
sabe da sua história.
Viriato vive sempre, porque mito. E o seu mito, a sua vida, reencarna constantemente,
num ciclo infinito, que influencia as sucessivas gerações de portugueses. Viriato
influencia decisivamente o ímpeto da nação que nasce, que existe ainda antes de ter
território, em conceito de liberdade.
O mito de Viriato é como a manhã para o dia. O mito, quando o novo dia, não é ainda
nada, mas apenas um começo. O mito é tudo, mas só em potência, ainda sem
acontecer.
CONDE D. HENRIQUE- Pai do primeiro rei de Portugal, e por isso considerado o
fundador da monarquia do nosso país.
O início nunca é por obra da vontade humana, mas sim de uma outra vontade maior. D.
Henrique não poderia planear as ações que se seguiram, e por isso, Deus foi o agente
desse plano, a que D. Henrique assistiu sem que soubesse a que iam levar as suas
ações no futuro. O plano era a formação de Portugal.
A espada é símbolo de guerra e de mudança. Toda a mudança é trazida por conflito,
seja conflito pelas armas, ou conflito entre o futuro e o presente. Quando D. Henrique
tem a espada nas mãos e não sabe o que fazer com ela, significa que D. Henrique traz a
mudança, mas sem o saber, porque o agente dessa mudança não é ele, mas uma
vontade que o ultrapassa (Deus).
A mudança ocorre sem que D. Henrique se possa considerar o agente dessa mudança.
D. TAREJA-
D. AFONSO HENRIQUES- primeiro rei de Portugal
Para Pessoa D. Afonso Henriques é o pai da nação. Foi cavaleiro, um homem de armas,
mas também de nobreza e de gestos certos e decididos, que defendia as coisas
superiores a ele mesmo, seja as leis de Cristo ou as do seu reino. É essa atitude que
Pessoa reclama ser de novo necessária. É necessário recordar esse exemplo de
coragem e de nobres ideais, recordar o espírito de abnegação por coisas maiores do
que só os homens e a sua ambição pessoal.
Pessoa exorta novamente para que o exemplo deste rei sirva para impedir que novos
inimigos vençam. Se esses vencem, é essa vitoria numa “hora errada” que não devia
acontecer. A espada (mudança) deve ser trazida como bênção, isto é, como remédio e
solene proclamação de uma nobreza que ainda não está esquecida.
D. DUARTE, REI DE PORTUGAL- reinado curto e tortuoso, rei sensível, educado,
amante de cultura e de letras que foi forçado a governar pelo Destino.
As circunstâncias infelizes que rodearam o reinado de D. Duarte justificam a maneira
triste usada por Pessoa para descrever D. Duarte. Este, foi considerado rei,
provavelmente contra os seus intentes e vocação, o dever deu sentido à vida dele,
depois das desgraças que o assolaram. Mesmo na tristeza o rei foi alguém de grande
seriedade, mesmo que sentisse profundamente que não era essa a sua vocação.
Estava destinado para outra coisa, mas uma missão superior chamou-os, contra o seu
destino.
D. FERNANDO, INFANTE DE PORTUGAL- membro da ínclita geração.
A espada é confiada a D. Fernando, para que aja em nome de Deus, na sua justiça e na
sua mudança. Foi D. Fernando a fazer a guerra da mudança e da nobreza. Para essa
missão, D. Fernando foi consagrado “seu”, o seu Destino foi dado a Deus, para que ele
provesse de o preencher.
Pessoa faz-nos imaginar D. Fernando armado cavaleiro por Deus, mas com as mãos
imateriais daquele sobre os seus ombros e o seu olhar nos seus olhos. Não é de
estranhar que D. Fernando, sofra silencioso, porque uma “febre de Além” o consome e
alimente. Ele sabe sofrer por um querer grandeza que o ultrapassa.
D. Fernando não só resignado ao seu futuro, mas ciente dele, ciente da sua suprema
importância.
Ele caminha, enquanto a luz do gládio que lhe deu Deus, ilumina a sua face.
D. PEDRO, REGENTE DE PORTUGAL- membro da ínclita geração
Descrição de D. Pedro. Culto, honesto e dedicado. É também alguém que vê para além
dos ganhos imediatos, que planeia o futuro e não quer apenas enriquecer. “dúplice
dono” de “dever e de ser”. Alguém íntegro na sua vida e nos seus atos, que tem a
teoria e a prática do que é justo e bom.
A sorte protege os audazes, mas não protegeu D. Pedro, porque não era um homem
de procurar apenas a sorte, logo não era protegido por ela. Foi sempre o mesmo e por
isso a sua memória pode perdurar imaculada, como mito e como mártir.
D. JOÃO, INFANTE DE PORTUGAL- membro da ínclita geração, não foi rei nem regente
Pessoa diz que a alma de D. João tinha o caminho toldado, impedido, pelos caminhos
dos seus irmãos. Ficou assim a sua alma inutilmente eleita, sem que pudesse dar tudo
o que poderia dar.
D. João é triste porque sente que o português é sempre um homem de extremos, não
podendo ter tudo, prefere ter nada.
NUN’ ÁLVARES PEREIRA- nobre cavaleiro que protegeu a eleição de D. João I e derrotou
os castelhanos.
Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando.
Faz que o ar alto perca
Seu azul negro e brando
Mas que espada é que, erguida,
Faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
Que o Rei Artur te deu.
Esperança consumada,
S. Portugal em ser,
Ergue a luz da tua espada
Para a estrada se ver!