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Memórias em Azul: Reflexões da Infância

O documento é um relato autobiográfico que descreve memórias de infância em tons de azul e sépia, passando por momentos no carro, jardim de infância e uma cena traumática na escola. Termina refletindo sobre como seguir em frente.
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Memórias em Azul: Reflexões da Infância

O documento é um relato autobiográfico que descreve memórias de infância em tons de azul e sépia, passando por momentos no carro, jardim de infância e uma cena traumática na escola. Termina refletindo sobre como seguir em frente.
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Tudo parecia ter no instante lembrado um tom de azul sépia.

Era como se a vida naquele


momento fosse uma foto antiga em movimento, ou um filme velho fazendo grande esforço para se
desenrolar num aparelho poeirento de VHS. As cores eram tonais. Os sons, não. Uma música lenta e
preguiçosa tocava dentro de sua alma, enquanto recostava a pequenina cabeça na janela do carro. O
banco de trás era o lugar onde esse filme passava em sua mente, enquanto olhava para fora, para as
mensagens em neon e luzes da cidade. Para a velocidade do carro em movimento, e o descompasso da
vida tentando acelerar lá fora, cada um seguindo sua trilha naquele fulgor displicente e desordenado de
pessoas vivendo cada uma em seu pequeno mundo. Tudo muito azul.
No banco do motorista sentava-se um adulto, conduzindo o motor ronronante que ressoava dos
pés a cabeça, num balançar quase relaxante. As sinaleiras ora deixavam o carro passar, ora o prendiam
em seu lugar em um ritmo quase musical, quase sinfônico. Se fosse possível em algum lugar do
universo, que uma vida fosse sinfonia e que essa sinfonia fosse tocada por motores, luzes, neons e
pessoas em movimento, aquele era o lugar. A sinfonia que percorria a cabeça do pequeno tinha um
sentido tão azul quanto sua percepção infantil era capaz de captar.
O sono vinha, mas poderia ser vencido com um pouco de esforço. As noticias pairando dos alto-
falantes do carro poderiam fazer mais sentido se fossem compreensíveis, mas ainda que não fizessem
sentido, deixavam um eco estranhamente gostoso naquele pequeno mundo azul. Quando foi que o
universo ficou tão bucólico para uma alma tão jovem, tão inexperiente? Não havia nada tão belo quanto
a sensação dos sonhos batendo a porta, convidando delicadamente para o descanso com o corpo
desconjuntado, esparramado sobre o banquinho de criança posto especialmente para ele naquele fundo
de carro ronronante e confortável. Até mesmo o cheiro de citronela amenizada para manter o interior do
carro cheiroso compunha algumas notas para o movimento sinfônico ali presenciado.
O que poderia haver de errado? Somente o sono era capaz de descrever, para um vivo, o que era
a morte. Alguns dizem que o sono é pequena morte experimentada por uma noite. Chamam a morte de
“sono eterno”. Aqueles que morrem aguardam num aconchegante sono profundo até que a morte acabe.
Até que chegue a vida eterna. Vida eterna, inclusive, sempre fez o pequeno pensar que estaria sempre
acordado, fazendo alguma coisa mais interessante do que dormir quando chegasse o pós morte.
Bocejava, já deixando claro quem seria o vencedor daquela batalha. A pequena morte estava
perto, como sempre… Recapitular o dia era o seu esforço hercúleo, já que o crepitar de vida lá fora
pela janela tornava ainda mais difícil e confuso saber o que exatamente tinha se passado naquele longo
período entre o nascente e o poente. Já era noite. O adulto percebia o que se passava, e mudava a
estação de rádio, procurando uma de musica tranquila para ninar. Mas nada poderia ser mais intenso do
que uma vida em fotos sépia, o movimento arrastado da película buscando tradução num aparelho
rudimentar e gasto. Mecanicamente falando, lembrava um VHS. Mas não era. Era a memória humana,
tardiamente lembrando da introspecção mais longínqua registrada, fazendo trilha sonora à partir do
cotidiano. Fazendo cenas à partir de lembranças. Fazendo filme à partir da vida, vivida.
O tempo que escorre por entre os dedos como areia, faria seu salto em alguns instantes. Fosse
mesmo a vida uma fita velha, esse seria o momento em que o botão de acelerar as imagens é
pressionado. Você pode ouvir o som se acelerar e apequenar, ficar rudemente agudo e cortante nas
pontas, nas arestas falhas da imagem passando corrida na tela. As datas são imprecisas para a memória,
assim como a exata textura do tempo, as nuances do momento real. Entre o real e a lembrança há todo
um processo de ressignificação e fluência que o momento em si não contempla. É o retorno da
memória, a recapitulação do momento experimentado que tonaliza em azul e transforma sons em
sinfonias.
O salto temporal da memória levava a um jardim. Jardim sem flores, pra ser sincero. A criança
sonolenta se encontrava agora plenamente acordada, entre outros pequenos. Não, não havia nenhum
cheiro de primavera, nem abrir de flores, nem a terra molhada verdejada por folhas, como se esperaria
de um jardim. Eram umas paredes finas pintadas de cores vivas, com personagens alegóricos que
desafiavam toda a lógica: animais humanizados mas ao mesmo tempo exagerados, muito além da
realidade. Eram daqueles que se vê na televisão. Eram muito engraçados naquela época. Haviam outros
pequenos lá, haviam brinquedos, havia giz e papel, as mochilinhas nas cadeiras, um adulto por sala. E
todo dia se repetiam palavras, e lições, e letras, e coisas que se deveria aprender para ser um dia grande.
Jardim de infância, onde as crianças eram as plantas e o conhecimento era água, adubo, sol,
nutrição. Essa parte, na fita velha e emperrada da memória, já não tinha o tom azulado nem a
musicalidade da lembrança anterior. Aqui, tudo se agitava não lá fora, mas desde dentro. Interações
com os outros mundos, alienígenas, entre uma lição e outra, ditavam a passagem do tempo. O ritmo era
percussivo, e o pequeno não conseguia parar por um minuto sequer. Cadeira alguma era capaz de
contê-lo. O azul dava lugar à um verde esparso, mais maduro a cada dia. Muita coisa ao mesmo tempo
passava pela fita, em uma colagem quase lisérgica de imagens que agora passavam do sépia para o
polaroide. Aqui tudo era novidade que se repetia em frenesi, sem parar, até amanhã.
E o amanhã chegou. As velhas fitas estavam datadas, seu fio de filme escuro dentro da capsula
plástica com as duas bobinas haviam morrido de vez. Rebobinar as memórias, gastando assim a
qualidade, era coisa passada. Tudo daqui em diante ficaria nitidamente registrado no espelho redondo e
compacto de termoplástico policarbonato metalizado. Acessar qualquer cena era mais fácil agora, tudo
ficava compartimentado em menus acessíveis e imediatos. Já sabia ler, escrever, entender o mundo. Já
era capaz de entender a felicidade e a tristeza, a dor e o prazer. Na transição entre as mídias, ocorreu o
primeiro corte que fazia do pequeno um autor, e não mais apenas um expectador daquela coisa estranha
e fluida compreendida como vida. Ainda na transição de tonalidades, na ultima rotação da fita, a pior
cena aconteceu. Ele não compreendia o que estava passando, não saberia precisar o dia ou a ocasião
exata. Entrava no banheiro da escola para urinar, mochilinha nas costas, as mãos cansadas de tanto
copiar aquilo que a professora escrevia no famigerado quadro-negro. Um outro garoto empurrou a
porta de sua cabine, entrincheirou-se pela fresta, bateu em sua cabeça. Ia apanhar, mais uma vez, do
mesmo menino de sempre. De uma turma um ano mais velha. Ficou calado e com medo, como sempre
ficava perto desse maldito garoto. O moleque o empurrou, fez bater a cabeça na parede, segurou seu
braço numa torção dolorosa que fazia seu pequeno corpo se arquear de dor. Aproveitando a calça
abaixada, o desgraçado do outro garoto descarrilhou ainda mais sua roupa intima, tirou o próprio órgão
para fora. Fez coisas indizíveis ali com ele, que envergonhado e incapaz de reagir de qualquer forma,
por medo ou simplesmente pela incompreensão daquele capitulo que, inadvertidamente, não poderia
ficar permanente entre as imagens da fita.
Ele mesmo abriu a fita, com tesoura nas mãos. Retirou a bobina, olhou no que parecia ser o
negativo de um filmete mal registrado de uma gravação inadequada feita em canal chiado, e cortou.
Recolocou na fita o que conseguiu após o corte, mal feito. Um arremedo de desespero e falta de
entendimento técnico. Mas, para sua sorte, a nova mídia que batia a porta poderia resolver aquela
memoria, tão perversa e mal resolvida...
O sono vinha como no banco do carro. Mas agora, já não caberia mais no seu banquinho, nem
poderia mais ser chamado de “pequenino”. Agora, não era mais o mundo lá fora que parecia agitado e
cheio de ritmos, cheiros e novidades, como era quando as coisas ainda eram azuis. Tampouco eram
interessantes e coloridas, novas, cheias de exploração e experiências prontas para serem degustadas
pelo jovial paladar curioso de quando tudo é verde. Dor, agora, era algo real. As cores ficavam
cinzentas, desbotadas lá fora. Ali dentro, sim, ali é que estava agora a origem de todas as cenas
possíveis para serem registradas na retícula de policarbonato. Dormir é morrer até o dia seguinte. O
sono e a morte são irmãos. Mas era a realidade, provada na compreensão do dia a dia, do cotidiano que
se revelava a cada instante longe de qualquer sala escura de tratamento de negativos, o real terrível.
Não a morte. E era na realidade, vivida um dia após o outro, onde realmente os pesadelos se
desenhavam em suas formas mais obscenas. Cada dia mais, a morte parecia ser preferível...

Fios e cabos se escorriam de maneira estoica entre dois postes, com o céu cheio de nuvens
cumprindo o papel de pano de fundo para aquele cenário observado. Dois pássaros marrons estavam
empoleirados entre os fios, conversando em seu dialeto de canção de passarinho. Ofuscados pelo
barulho diário de carros, buzinas, a correria cotidiana da vida que fervilhava no entardecer mais comum
possível, no dia mais genérico. Como todos os outros dias antes, como tantos outros dias depois. Mas
apesar de todo o caos cacofônico, os passarinhos se recusavam a calar. Sua conversa parecia muito boa.
Como podemos seguir daqui? Algo precisa ser feito, algo precisa ser escrito. Alguma coisa
precisa acontecer daqui em diante...

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