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Coelho Maldito: A Maldição em Contos

Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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BoRA CHUNG

Coelho maldito

TRADUÇÃo
Hyo Jeong Sung

ALEAGU RA
Chung
Copright © 2017. 2023 by Bora
publicada em 2017.
Adição coeana original foi
Ortognifico da Lingua Portuguesa de 000.
Grtia atalizada soqundo oAondo
2000.
Bnasil em
qr cw Cm rior no
Iradução de Literatura da Corsi
Este liro é publicado com o apoio do Instituto de
(1Korea).
Tirale eriginal
4E7(Cursed Bunny)
Cana
Mariana Metidieri

lustração de capa
Ing Le
Preparação
Giu Alonso

Revisáo
Huendel Viana
Marise Leal

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cIr)


(Camara Brasileira do Livro, sP, Brasil)
Chung, Bora
Coelho maldito / Bora Chung ; tradução Hyo Jeong
Sung. ed. Rio de Janeiro : Alfaguara, 2024.
Tiulo original : E7| (Cursed Bunny).
ISBN 978-85-s652-199-6
I. Ficção sul-coreanai. Tirulo.
23-173349
Indice parz catalogo sistemáico:
CDD-895.73
1. Hcçáo : Literarura
sul-coreana 895-73
Gbde Maria Dizs - Bibliotecária
CRB-8/9427

Todos os direitos desta edição


EDITORA SCHWARCZ S.A. reservados à
Przça Floriano, 19, sala 30o1
20031-05oRio de Janeiro -Cinelândia
RJ
Teetone (21) 3993-7510
[Link]
[Link]
finsgmcom/editora_alfaguara
[Link]
aieOmlalfazuarabr
Sumário

Coclho maldito 7

A cabeça 29

Dedos gélidos 45
Menorreia 61
Adeus, meu amor 87
A armadilha 105
Cicatriz 121
Lar, doce lar 165
O senhor do vento e da areia 191
Reencontro 209
Coelho maldito

"Tudo que é usado em maldiçáo deve ser bonito", era o que


omeu avôsempre dizia.

Oabajur éuma graça, tem o formato de um coelho sen


tado ao péde uma árvore. A parte da árvore náo éassim táo
caprichada, mas o coelho obviamente foi feito com muita
dedicaçáo. Étodo branco, com apenas os olhos e as pontas
das orelhas edo rabo pretos. Apesar da rigidez do material, a
aciez dos lábios rosados e a leveza da pelagem estáoali, mi
nuciosamente representadas. Quando aceso, o abajur ilumina
o coelho por inteiro, dando a impressão de que, pelo menos
naquele momento, o animal éde verdade e vai começar a ba
lançar as orelhas e a mexer o nariz a qualquer instante.
Todo objeto tem a própria história. Esse abajur náo foge à
regra, principalmente porque também foi usado para rogar uma
praga. Sentado na sua poltrona ao lado do abajur, meu avôconta
ereconta essa história que eu já tinha ouvido inúmeras vezes.

Oabajur tinha sido feito para um amigo.


Não se deve produzir nem usar objetos de maldição para
interesses pessoais. Essa era a regra da minha familia, que vi
nha produzindo esse tipo de objeto havia geraçóes. O coelho
tinha sido a única exceçáo.

7
-A família do meu amigo tinha um alambigue.
Meu avô sempre começa assim e continua Com a mesmna
pergunta:
Você sabeoque é um alambique?
Eu sabia, sim, Porque játinha ouvido essa história inú-
explicando.
meras vezes. Mas meu avÙ continua sem esperar
a resposta.
¼o que as pessoas atualmente chamam de fábrica da
destilados. Era amaior da regiáo. FHoje em dia, náo se veem mais
alambiques daquele tamanho funcionando como empresa fami.
liar. Erauma fábrica grande,toda a vizinhança trabalhava ali
Naquela época, ser dono de um alambique significava ser uma
das famílias mais respeitadas da regiáo.
Meu avônão sabia explicar como ele,vindo de uma linha
gem produtora de objetos de maldiçáo, eo filho dessa gente
táo rica se tornaram amigos. Ele vivia dizendo que não sabia.
Oficialmente, a família do meu avô, ou seja, a minha, era de
ferreiros. Quando necessário, fabricávamos ce consertávamos
ferramentas de agricultura ou de uso diáio. Mas todos da re
giáo, até mesmo as crianças, sabiam qual era nossa verdadeira
profissão.
Chamados gentilmente de xamás nos dias de hoje, os bru
,benzedeiros ou defunteiros na época pertenciam todos àà
mais baixa classe social. Náo que eu seja a favor da estratifica
çáo social, mas só para explicar como as coisas funcionavam
naqueles tempos. Sóque nem mesmo a essa classe mais baixa
a família do meu avô, ou melhor, a minha família
pertencia.
Primeiro porque nâo éramos procurados pelo povo para exe
cutar cerimônias xamânicas nem para ler o futuro, Nem com a
morte, desagradável, porém inevitável, estávamos ligados, pois
n¥o éramos procurados para funerais ou velórios. Trabalháva
moscom algo ligado ao xamanismo, mas ninguém ousava dizer

8
dessa gente que
em voz alta qual era a verdadeira ocupação de ferragens.
oficialmente consertava ferramentas em suaua loja
palavras. Além
Era dificil definir o nosso trabalho em poucas
conosco eram
disso, diziam as más línguas que os que mexiam
utilizar
amaldiçoados.E claro que tínhamos a regra de nunca como
náo havia
objetos de maldiçáo para fins pessoais, mas
mesmo se soubessem,
os moradores da região saberem dissoe,
família era
nada mudaria. Tudo isso para dizer que a minha
evitada a todo custo.
Segundo meu avô, seu amigo parecia não ligar para essas
redondezas, nem
coisas. Nem para os rumores que corriam pelas
horroriza
para os fuxicos, nem parao olhar ao mesmno tempo
incomodava
do e inquiridor dos vizinhos. Esse amigo não se
com nada disso. Para o filho do dono do alambique, todas as
crianças da sua idade, nascidas e crescidas na regiáo, náo im
portava a profissáo dos pais, eram suas amigas, e, por iss0, não
havia motivo para manter distância de ninguém. Sendo aceito
comoamigo pelo filho dessa família rica e influente da região,
ponceio
Seeal
poucoa pouco, meu avô passou a ser aceitopelas outras crian
ças também.
Os pais deleeram boas pessoas e muito esclarecidos
dizia meu avô. Não destratavam ninguém só porque
tinham dinheiro e poder. Sempre cumprimentaram os vizi
nhos com gentileza e humildade, esempre foram os primei
ros a arregaçar as mangas para ajudar, fosse em momentos de
alegria ou de dor.
Além disso, levando em consideraçáo os critérios atuais, os
pais do amigo do meu avô eram também ótimos gestores, já
que abandonaram o modelo de negócios da época, que con
sistia em vender seus produtos apenas para a populaçáo local,
e passaram a padronizar e modernizar o processo de produçáo,
expandindo as vendas para outras regióes e, por fim, para todo
como todo mundo
o país. Cofn a guerra, se refugiaram no sul
inclusive o alambique. em
ao voltarem, encontraram a regiáo,
contrário: moc.
ruínas. Mas isso nãoos desanimou. Muito pelo
determinados a usar aquela
traram mais garra do que nunca,
processo
oportunidade para recomeçar do zero com O novo
de produçáo modernoe padronizado.
Compartilhando os pensamentos dos pais, o amigo do
munda
meu avÙ também se dedicou com toda a seriedade do
àempreitada.
Como ele seria o próximo dono do negócio, a gente
achou que era mais do que lógico ele estudar administracáo.
mas não. Ele decidiu fazer engenharia. Dizia que, mesmo
com a produção em grande escala, descobriria uma forma de
manter o sabor da bebida de arroz igual ao da época em que
sedestilava artesanalmente. Era um mnenino, recém-formado
no colegial, mas muito ambicioso, dizendo que ia conquistar
Opaís com o sabor da bebida da famnilia.
O
que freou sua ambiçáo foi uma nova política de abasteci
mento agrícola do governo, cujo objetivo principal era atingir
aautossuficiência em arroz. Assim, foi proibido o uso do pro
duto na fermentaçáo de certos tipos de bebida alcoólica. Essa
política pôs fim ao modo tradicional de produçáo de bebidas
feitas com arroz, fermento natural e água, fazendo surgir em
seu lugar uma bebida barata feita com álcool etílico, que do
minou o mercado. Aadição de água e saborizantes artificiais
era indispensável para transtormar essa mistura
asquerosa em
algo que pudesse ser engolido.
Oamigo do meu avôse sentiu derrotado. Mas náo desistiu,
porque ainda era o filho de uma família deexcelência em be
bidas tradicionais herdada por gerações e também
porque se
considerava especialista no assunto. Resolveu, entáo, aceitar a
política do govern0, concordando que o arroz era, de fato, um
10
recurso relevante pafa a nação eque a alimentaçáo do povo
alcoóli
era mais importante do que a produçáo de bebidas
reproduziroautêntico
cas. Começou a procurar um meio de
sabor da bebida tradicional levando em conta os costumes da
fabricaçáoartesanal, como a proporção ideal dos ingredientes,
oteor alcoólico, a temperatura da fermentaçáo e destilação,
sem deixar de obedecerà ordem governamental.
Sempre que chega nessa parte, meu avô faz uma pausa
para aumentaro suspense.
Eo que vocêacha que vai acontecer depois? ele
olha para mim epergunta. Você acha queesse meu amigo
conseguiu encontrar a fórmula ideal ou não?
Ouvi essa história tantas vezes. Jásei qual éa resposta. hepenigo.
Fomula
Mas, comosempre, balanço a cabeça para dizer que não. naratvo.
Ele conseguiu, sim. Era um rapaz muito inteligente e trgunvc
sagaz diz meu avôcom um sorriso cheio de amargura. Cónto o
Mas acabou falindo.
iouada
intecoq.
Oamigo do meu avòqueria apenasdesenvolver uma bebi
da mais saborosa e saudável. No entanto, não fazia ideia de
que vivia numa época em que contatos com pessoas influen
tes do governo, presentes caros, troca de favores ouaté even
tuais propinas por baixo do panoeram mais importantes do
que aqualidade do produto ou técnicas de produção ideais.
Além disso, havia uma empresa, muito maior do que a do
amigo do meu avô e com inúmeros contatos políticos e formas
de agradá-los, de olho nesse novo mercado de bebidas alcoó
licas. Atal empresa anunciava esse líquido, mera mistura de
álcool, água e adoçante, como sendo "o preferido do povo
e osabor da tradiçáo". Ao mesmo tempo que os executivos
publicavam anúncios na mídia impressa, boatos mentirosos
11
o amigo do meu avó misturava slos 1
eram espalhados de que
cegueifa, deficiência e.
industrial na bebida, o que causava
excesso.
morte quando consumida em
deorrey As vendas despencaram. Afábrica teve que ser fechada Por

mais que desmentissem os boatos, as pessoas não acreditavam.


tomara bebida em frente
Oamigo do meu avôse dispôsa
nenhuma emissora lhe deu ouvidos. Sem oa-.
câmeras, mas
de jornais,rádios ou emissoras de televisão, náo
havia ieito
Tampouco
de transmitir sua posiçáo, pois náo havia internet.
adiantava levar o caso à Justiça porque, sem tecnologias para
existem agOr
gravar ligações ou salvar mensagens como as que
náo havia maneira de descobrir como os boatos se espalhavam
juiz decidiu que não havia provas de difamação ou danos
morais, eo amigo do meu avô acabou com dividas enormes.
náo só pela empresa, mas também por causa das tramitacões
judiciais. Aos trintae poucos anos, deixou um bilhete pedindo
desculpas àfamília ese enforcou. Seu corpo foi encontrado
pela esposa, que desmaiou diversas vezes durante o velório e
que, não muito depois do funeral, seguiu o mesmo caminho
irreversível do marido. Parentes que viviam no exterior leva
ram os filhos do casal, órfãos assim de repente, e nunca mais
ninguém ouviu falar deles.
Aempresa falida, a fábrica etodas as instalaçóes foram
vendidasa um preço baixíssinmo para a concorrente que tinha
espalhado os falsos boatos sobre uso de álcool industrial. As
sim, a fórmula para a produção da bebida, desenvolvida com
a dedicaçáo de uma vida inteira, também acabou nas mãos da
concorrente, que a trancou no fundo de um cofre para sempre.
-Nofundo de um cofre? Por quê? eu tinha pergun
tado, com toda a inocência do mundo, na primeira vez em
que ouvi a história,

12
Oque aquela empresa perversa queria era ganhar
muito dinheiro vendendo a bebida barata deles, sem interesse
nenhum em desenvolver produtos de qualidade - explicava
o meu avô. Jáque eles náo estavam preocupados em me
Ihorar a fórmula, nenhuma outra empresa podiater acesso a
ela, para evitar aconcorrência.
Eassim a versáo moderna da receita tradicional de geraçóes
de produtores de bebida tinha sido mantida na escuridáo, à
força.

> Foi por isso que meu avô fabricou o coelho maldito.
O
que háde erradoem querer vender bebidas alcoó
licas de qualidade? Qual éo problema em náo ter contato
com pessoas influentes? E errado náo ter dinheiro para agradar
esses poderosos? Isso é motivo para destruírem uma família
inteira?- Meu avôbalança a cabeça. Ele era uma pessoa
tão bo¡, táo alegre, tão dedicada... Um bom marido e um
bom amigo...
Mesmo tendo repetido dezenas de vezes a mesma histó
ria, quando chega nessa parte meu avô sempre fica com a voz
trêmula e os olhos vermelhos.
Eles simplesmente destruíram vidas e toda uma famí
lia... Isso é coisa que se faça? peSon.
Infelizmente, sempre háquem faça as coisas que náo se dcia de
fazem. Eera graças a esse fato que meu avô, meu pai e agora
eu vivemos da renda que vem da fabricação de objetos para j N801
maldiçáo.
Mas eunão digo nada. Apenas continuo ouyindo a bistória \00 sna
que meuavô já repetiu incontáveis vezes.

13
amaldiçoada devetocar no objeto. Essa éa chave
Apessoa maldiçãoetambém a parte nais dif.
hora de lançar uma
na
mobilizou toda gente, próxima ou distante para
cil. Meu avÕ que conhecia alguém que
uma pessoa
conseguirocontato de da responsável nel
trabalhava numa das empresas parceiras
amigo. Entáo, pediu que entregasse pessoal.
morte de seu concorrente. Meu ad
de coelho ao dono da
mente o abajur coelho, para que a
interruptor nas costas do
tinha posto um faria com .
acariciar o animal como se
luz fosse acesa ao
coelho de verdade.
O conhecidodo conhecido que trabalhava na empresa par
usando luvas, como
ceira fez o que foi pedido edemonstrou,
da concorrente
ligar e desligar o abajur na frente do dono
presente
Explicou também que seu chete tinha trazido aquele
Enquanto isso, o dono
em uma de suas viagens ao exterior.
assinando uns
assentia com a cabeça, indiferente e distraído,
documentos. Depois de atender àumtelefonema transferido
pela secretária, saiu apressado, dizendo que tinha um encontro
Com um parlamentar. coee do poereg
Oconhecido doconhecido que trabalhava na empresa
parceira náo teve opçáo a náo ser deixar o abajur na sala do
dono da concorrente. Ao sair, implorouàsecretária, na an
tessala, que não deixasse ninguém além do dono tocar no
abajur de coelho. Mas, como esse pedido vinha de um mero
funcionário de uma empresa parceira, a secretária se mostrou
táo indiferente quanto ochefe, concordando com a cabeça, e
logo voltou a se concentrar na revista que estava lendo.
Ao saberoque tinha acontecido, meu avô suspirou e re
solveu mudar um pouco a maldiçáo.
Estando o coelho maldito na casa ou no escritório do dono
da concorrente, ele pensou,
sou, seu
seu plano estava longe de ser um
fracasso total.

14
Depois de ter passado uma tarde inteira abandonado na
mesa do dono da empresa, algum funcionário levou ocoelho
para o depósito antes do fim do expediente. Naquela noite,
coelho começou a roer os papéis que estavam ali: caixas de
papeláo, jornais amassados que protegiam outros objetos,
pilhas de documentos antigos, livros-caixa largados háanos.
Durante a noite toda, o coelho roeu o que encontrava pela
frente naquele depósítosem ser perturbado.

Na manhádo dia seguinte, quando o zelador abriu a por


ta do depósito, encontrou restos de papel mastigado e cocô
de coelhoespalhados por tudo quanto era lado. Começou a
limpar o local, resmungando que deviamn ser ratos e que estava
na hora de botar veneno ali.

Ocoelho continuou largado no canto do depósito, roen


do papéis noite após noite. De vez em quando, o zelador e os
funcionários do plantão noturno davam uma passada por ali
com uma lanterna na mão, mas ninguém fazia mais do que
olhar pela janelinha da porta por um momento enquanto o
coelho roía o que via pela frente. Depois de roer tudo que era
papel, ele passou a roer madeira.

O zelador viuuma coisa branca no depósito, parecida com


uma bola de algodão, que desapareceu quando ele se aproxi
mou; achou que tinha sido simplesmente levada pelo vento.
Nodia seguinte, aquela bola branca tinha se multiplicado por
15
cinco ou scis por dia. De longe, viu
dois ou três, e depois para
parecidas com coelhos. Imas
as bolinhas saltitarem e as achou bichosne
Como era impossível explicar a presença daqueles
costase resolve.
as
depósito de uma fåbrica de destilados deu
mais no assunto. Ele tinha que abriro depáci
não pensar
ajudar a carregar os caminhões quelevariam as caixas de bebida
nem o zelador, nem os funcionários.
para as filiais. Ninguém
nem oS motorIStas viu os coelhos brancos com orelhinhas.e
escondido entre ossengradados.
rabinhos pretos que tinham se

Não demorou muito para que começassem a encontrar


cocozinhos
tudo que era papel e madeira roído e montes de
dondos espalhados em todos os depósitos, nas filiais eaté nos
pontos de vendas. Ratoeiras e veneno náo adiantaram de nada
nem gatos resolveram o problema. Pelo tamanhoe formato
dos cocôs espalhados no cháo, alguém chegou a comentar que
eram grandes demais para serem de ratos e que pareciam mais
ser de coelhos. O comentário veio deímà auxiliar de contas
que tinha um sobrinho que criava coelhos para um trabalho
na escola e tinha chegado a alimentar os animaizinhos algumas
vezes. Mas,como ninguém viu coelhos em lugar nenhum, e
como a auxiliar de contas eraapenas ùma funcionáia que
ajudava a organizar a contabilidade e fazia café enquanto náo
se casava e deixava a empresa, nem de longe uma especialista
em coelhos, seu comentário foi ignorado.
sutlezo da demonstresfo de coms
oy dos truhres,
Declarou-se uma verdadeira guerra contra os ratos, e to
dos os funcionáios, tanto da sede quanto das filiais, foram
obrigadosa participar. Chegaram até a encontrar um número
razoável deles, eos depósitos ficaram de fato muito mais lim
16
manhá
pos às custas do sacrificio dòs funcionários. Mas, na
de
seguinte, voltaram a encontrar papéis roídos e o cháocheio
cocozinhos, um pouco maiores que os de ratos, rolando feito
grãos de feijo.

Como todos os papéis continuavam sendo roidos, aempre


sa decidiu levar para os escritórios os documentos importantes,
comoantigos livros-caixa e plantas da construçáo e ampliaçáo
da fäbrica. XMas ninguém percebeu que os coelhos brancos, cot
as pontas das orelhas e do rabo pretas, invisíveis à luz do dia,
foram levados junto com nos documentosy/ rodo unnfe de.

Começaram asurgir pela vizinhançaboatos de que a des


tilaria estava infestada de ratos. Como tantos moradores da
regiáo eram funcionários da empresa, fosse da sede ou das
filiais, zeladores dos depósitos ou trabalhadores da fábrica,
não havia como impedir os rumores.
Em uma das filiais, o responsável pelo depósito foi demi
tido como uma ameaça e, em outra, todos os trabalhadores
foram advertidos para que não espalhassem boatos. O funcio
nário demitido, que sustentava uma máe idosa incapacitada,
três filhos pequenos ecinco irmáos mais novos, foi pego pelo
vigia noturno enquanto tentava tocar fogo no depósito depois
de ter pulado o muro com um galão de gasolina. Enquanto isso,
na região da filial que tentara manter os empregados calados,
ojornal local publicou um editorial de página inteira falando
sobre agravidade dos problemas causados por ratos na higiene
dos alimentos.

17
depósitos tinha
A questão dos "ratos" nosdepósitos tinha se espalhado pela
resolves
região, impossível de ser controlada. A empresa cntão
organizar um evento de degustação, jáque náo era mais pos
sível abafar os boatos ameaçando os empregados. Decidiram
convidar todos os funcionários, suas famílias, a vizinhanca e
região
mais importante, as pessoas influentes e poderosas da
seriam abertas
para uma ocasiáo em que as portas da empresa
grandes quantidades de bebida seriamn oferecidas para mostrar
que não havia problemas relacionados à higiene ou àqualidade
de produtos, além de deixar clara a preocupação da empresa
para com o desenvolvimento da região.
O
evento ocorreu no pátio da sede. O dono compareceu pes- '
soalmente, junto com ofilho (gue era ovice-presidente) eo neto
pequeno. Entediado com os longos discursos da cerimÑnia, a
Conversa regada a bebida alcoólica dos adultos e a música alta
da banda, o menininhocomeçou a passear sozinho pela fábri
ca. Quando a nora do dono da empresa percebeu sua ausência,
Começoua procurar o garoto e o encontrou sentado de cócoras
em frente à porta aberta do depósito. Quando questionou o
que cstava fazendo ali, ele respondeu: "Estou brincando com
os coelhos". Ela perguntou onde os coelhos estavan, e o meni
ninho a puxoupela máo para dentro do depósito. Em seguida,
apontou para o abajur em formato de coelho no altode um
armáio de metal todo empoeirado num cantoeimplorOu para
ficar com ele.
A máe respondeu que teria que perguntar ao avô, porque
era uma coisa da empresa, logo esqueceu o assunto enquanto
arrastava o menino pela máo de volta para a festa. Mas ele náo
esqueceu. Oavô, um tanto embriagado, ao ouviro pedido
do neto que queria ficar com algo que estava no depósito,
respondeu queclaro, sem dar muita atenção, e voltou a beber
com os adultos importantes)

18
Oevento foi um sucesso. Todos os convidados beberam
àvontade até altas horas da madrugada. A nora do dono ten
tou aguentar o máximo que podia, mas voltou para casa mais
cedo porque o filho tinha começado a reclamar de cansaço.
No carro, o menino trazia em seus braços o abajur de coelho
empoeirado.

Após oevento, conseguiram conter os rumores sobre os


ratos". Eo abajur de coelho, a origem de todo aquele pro
blema, foi levado do depósito para a casa do filho do dono.
Mas os coelhos do depósito da sede, das fliais e dos pontos
de venda não sumiram. Os que tinham sido levados dos de
pósitos para os escritórios também não. Os coelhos seguiram
se proliferando e continuaram roendo vorazmente tudo que
viam pela frente. calle 2mdielora. o e a .
À
noite, dentro de gavetas e gabinetes de metal, todo tipo er
de documento pedidos, contratos, relatórios de vendas,
papéis da contabilidade era mastigado, roído erasgado em
pedacinhos minúsculos.
Mesmo depois de guardarem os documentos mais impor
tantes no cofre, cheques, dinheiro em espécie e notas promis
sórias, tudo isso também começou a se desfazer.

Enquanto a empresa vivia uma verdadeira guerra às pestes,


transferindo para o pátio todos os seus pertences e mobíilia,
incluindo as coisas que eram guardadas no cofre, para serenm
dedetizados por especialistas,o neto do dono fazia suas lições
de casa na escrivaninha e, ànoite, dormia na cama, sempre ao

19
abajur. O menino gostava muito da luminária cor
lado do
doc 9
coelho sentadoao pé de uma árvore, e se vangloriava diante
um presente
amiguinhos dizendo com orgulho que tinha sidoencostava
menino no
trazido do estrangeiro parao seu avô. O
coelho árias vezes ao dia, acariciando suas Ccostas para ligar
ou desligar a luz.
Na casa do filhodo dono, o coelho parou de roer papel.
Ele começou a roer outra coisa.

Oneto do dono estava no último ano da escola


primária.
um menino
Apesar de ser um tanto miúdo para a idade, era
forte e saudável. Segundo am·e, o único problema era que
os amigos,
ele gostava demais de sair para jogar bola com
deixando os deveres da escola de lado. Tirando isso, era uma
criança boazinha e inteligente.
Ninguém deu muita importåncia quando ele começou a
esquecer de levar as liçóes e o material para a escola. Como era
oneto do dono da fábrica de bebidase sempre tinha sido um
bom aluno, a professora, em vez de castigá-lo, tentou conver
sar com ele. Mas, quando começou a esquecer inclusive que
tinha lição de casa e a responder com desrespeito à professora,
ela ligou para a máe do menino.
- Por favor considere que as crianças entram na puberda
de cada vez mais cedo, eisso pode causar mudanças no humor
explicou a professora, e a máe concordou em prestar malS
atençáo às atitudes do filho,
Quase no fim das férias, o menino comecou a ficar obce
cadopor comida. Insistia que não tinha comido mesmnologo
esconder
após as refeiçóes, roubava comida da geladeira para
encontrava e levava
no quarto e ficava histérico quando a máe era coisa
de volta para a cozinha. A família achava que aquilo

20
de criança em fase de crescimento e procurou servir alimen
tos de melhor qualidade eem maior quantidade, mas nada
adiantava: a obsessão por comida, a desconfiança e a histeria
do menino não paravam de aumentar.
No primeirodia de aula depois das férias, o menino se
perdeu no caminho de volta para casa. Era o mesmopercurso
de todos os dias havia seis anos,uma caminhada de dez,no
máximo quinze minutos.
Uma vizinha levou o garoto para casa depois de encontrá
-lo sentado no meio da rua, confuso, após longas horas pe
rambulando perdido a0 redor da escola. Omenino fedia. A
vizinha avisou, toda sem jeito,que o menino parecia ter su

jado as calças e se afastou com passos apressados, sem esperar


a mãe, chocada, voltar a si e agradecer.

Ospais levaram o menino ao médico. A clínica de pedia


ado bairro recomendou que ele fosse encaminhado para
um hospital maior. Nem no hospital universitáio da cidade
mais próxima, porém, a família obteve respostas satisfatórias,
já que era uma época em que nág havia psiquiatria pediátrica
nem ressonância magnética. No entant0, ao notar que o ga
roto urinava sentado na cadeira, balançava ocorpo murmu
rando coisas sem nexo e tinha os olhos desfocados, o médico
recomendou que o levassem a um psiquiatra. Derrubando a
cadeira, opai do menino se levantou bruscamente e gritou,
Com o rosto todo vermelho:
Você está insinuando que o meu filho está louco?
Soltou as piores injúrías contra o médico largou a mulher
que tentava acalmá-lo e foi embora, levando o filho nos bra
ços. A esposa pediu desculpas com os olhos cheios de lágrimas
antes de correr atrás do marido e do filho.
21
estado
Depois da consulta no hospital universitário, o
menino piorou depressa. Ele jánão reconhecia mais os pais, fazia
direito e não parava
xixi e cocÔ nas calças, não conseguia andar
conseguisse mais
de murmurar coisas sem sentido, embora nao
o dia todo deitado na ca
se comunicar. Apesar de passar
olhando para oteto com os olhos distantes e resImungando.
meninonão largava oabajur de coelho, que agora não ficava
O menino passava
mais na escrivaninha, mas ao lado da cama.
frequência paro
o dia olhando para o teto, virando o rosto com
verificar que a luminária continuava ali, o que parecia acalmáo
Quando qualquer outra pessoa tocava no abajur, ele demons
trava inquietação e histeria.
Adormecido, o menino mexia o nariz e a boca igual a um
coelho, e, por vezes, as orelhas também, mas nenhum adulto
ao redor percebia. Em seus sonhos, se via sentado ao pé de
uma árvore, ao lado de um coelho fofo, todo branco, só com
as pontas das orelhas e do rabo pretas, muito feliz em roer o
própriocérebro. Quanto mais roía, menor o mundo do meni
no ia ficando, até que, finalmente, nunca mais conseguiu sair
daquele local junto do coelho ao pé da árvore. Aquela altura,
o menino já náo entendia mais nada, exceto sua alegria por
estar ao lado do amiguinho peludo.

Enquanto o neto do dono morria aos poucOs deitado na


quela cama ao lado do abajur de coelho, o tempo passou, unn
novo governo assumiu opoder e o mundo mudou. Os podero
sos e influentes, os mesmos que ajudaram o dono da
empresa
a monopolizar o mercado com aquela bebida barata, perderam
opoder eos cargos. E, pela primeira vez desde a sua criaçao,
a empresa foi submetida a uma inspeção fiscal.

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Àquela altura, os coelhos invisíveis já tinham roído todos
OS registros financeiros, comerciais e contábeis, além de me
1orandoserelatórios. Cada declarac¥o de faturamento, cada
comprovante de pagamento de impostos estava destroçado,
ilegível e irreconhecível.
Agora os coelhos começavam a devorar também os papéis
de parede dos escritórios e deixavam marcas de dentes nas
portas e paredes. lodos os documentos importantes viraram
lixo, e os prédios da sede e algumas filiais começaram a apre
sentar marcas visíveis. O declínio começava a ficar evidente
também aos olhos dos funcionáios.
O dono da empresa, porém, se recusava,a reconhecer os
fatos.

Oneto do dono passou um bocado de tempo deitado,


com os olhos distantes, fixos no teto, respirando e nada mais.
Certo dia, parou de respirar. lerde y Peida - esteu Umtuo
Depois do funeral, o pai se trancou no quarto do meninoe
chorou por muito tempo. Sentado na cama, chorou, repetindo
em voz alta o nome do filho e acariciando o abajur de coelho.

Os fiscais da receita concluíram que a destilaria deveria


pagar náo apenas os impostos até então evitados de maneira
maliciosa mas também os jápagos, além de juros sobre o total.
Por mais que a empresa tentasse comprovar os pagamentos já
efetuados, não havia nenhum documento apresentável.
Ao saber da notícia de que todos os registros e papéis da
empresa haviam desaparecido, os devedores começaram a di
zer que náo havia nada a pagare os credores começaram a
cobrar a quitação imediata das dívidas. O dono ficou furioso.
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uma caderneta
Então foiaté um cofre secreto onde guardava
da
com a lista de todos os bens e dívidas a pagar e a receber
destruída
companhia. Encontrou-a toda rasgada e mastigada,
transformada em uma massa de papel inútil.
tombar com um
A essa altura, o esperado seria o dono
Mas o coelhomaldito não era
AVC e nunca mais se recuperar.
tão generoso.
dono. No momento enm
Quem desmoronou foi oflho do
cama. ond
para descer da
que botou o pé dieito no cháo
chamando pelo
tinha adormecido depois de chorar por horas
o braco
falecido ilho, quebrou o tornozelo. Ao cair, estendeusofrendo
acabou
esquerdo na tentativa de proteger a cabeça e
três fraturas expostas e uma fissura no braço.
Oflhodo dono era um homem forte e ainda não chegara
se machucado
aos quarenta anos. Desde criança, nunca havia
qualquer
gravemente, muito menos sofrido uma fratura de
tipo.
Enquanto se recuperava da cirurgia que implantou pinos
de metal em seu braço, com a perna direita e o braço esquer
do engessados, a empresa seguia despencando em velocidade
assustadora. O dono sequer conseguiu visitar o flho no hos
pital pois, ao mesm0 tempo que perseguia os devedores, fugia
os credores. Ansioso, o filho do dono perguntava à mulher
sobre asituaçáo da destilaria e, decidindo que não podia fi
car ali deitado enquanto a empresa vinha abaixo, resolveu se
levantarefazer o que pudesse para ajudar. No momento em
que pós o pé esquerdo no chão,o tornozelo se quebrou. Ele
caiu, batendo a bacia, que também se partiu.
A cirurgia durou nove horas. Quando finalmente termi
nou, o filho do dono foi levado de volta para a sala de recu
peraçáo, onde permaneceu sedado, apenas mexendo a boca e
o nariz como um coelho.

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reloio (pom dnkuuey reloço~ hussenoz
Ocoelho seguiu roendo.
Foi só no dia em que a empresa declarou falência que o
dono foi visitar, pela primeira vez, ofilho no hospítaf: Estava
dormindo sedado, todo enfaixado feito uma múmia.
A primeira coisa que murmurou ao acordar da anestesia
foi que havia um coelho na sua cama. No início, ninguém o
levou a sério. O ava roendo
filho do dono dizia que o coelho estava
a manta que o cobria. Mais uma vez, ninguém deu ouvidos.
Em seguida, gritando que o coelho tinha começadoa morder
oseu pé, ele tentou se levantar. Assustada, a esposa chamou as
enfermeiras, que correram para segurar opaciente. O filho do
dono reagiu violentamente, gritando coisas incompreensíveis
sobre [Link]ês mulheres o contiveram: as duas enfermeiras
seguraram um braço cada ea esposaoabraçou pelo tronco.
Foi assim queele sofreu uma fratura no braço direito e ficou
com duas costelas quebradas.
Sempre que acordava, o filho do dono gritava histerica
mente sobre coelhos e, quando tentavam acalmá-lo, sempre
acabava com mais ossos quebrados. Bastava encostar nele que
algo quebrava, atémesmo quando ele batia a mão na cabeceira
da cama ou se mexia. O único jeito era mantê-lo sedado até que
se recuperasse por completo.
Odono olhou para o rosto do filho adormecido, todo
enfaixado e preso naquele pesadelo insano edesesperado. Já
tinha perdido o neto tão querido, eo único filho e herdeiro
estava assim, inv¥lido. A empresa, arruinada, deixava apenas
dívidas. Não sabia se daria conta de pagar os impostos, mul
tas, as dívidas e as contas do hospital. Seria uma tragédia ele
Ser preso por sonegação. E náo havia como tirar o filhodo
hospital, pois qualquer coisa acabava em uma fratura.

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Meu avô para de contar a história e olha para o abajur. o
coelho ao péda árvore é fofo, com a pelagen toda branca a
apenas as pontas das orelhas e do rabo pretas. Apesar da rigidez
do material, dáa impressão de estar coberto por uma pelagem
macia e leve, mexendo as orelhas e a boca.
pergunto.
Eo que aconteceu depois?
E claro que eu sei muito bem o que
aconteceece depois,
mesma história, Maic d.
porque jáouvi dezenas de vezes a
perguntas previsíveis em momentos de pausa também
que entre mim
previsíveis, esses incrementos sáo um acordo tácito
e meu avÑ.
Todos morreram ele responde. -Ofilho do dono
acabou morrendo no hospital, eodono pulou do alto do pré
dio da empresa um dia depois do enterro do fllho.
Dizendo isso, meu avô acaricia as orelhas e a cabeça do
coelho num movimento quase mecânico.
Ocoelho mexe as pontas pretas das orelhas.

Náo se deve produzir Ou usar objetos de maldiçáo para,


fins [Link] regra tem seus motivos.
Um ditado japonês diz que lançar uma maldiçáo sempre
resulta em dois rúmuBos: quem amaldiçoa outra pessoa tam
bém acaba morrendo.
Seráque, no caso do meu avô, devo dizer que resulta em
três túmålos? O dono da empresa, o filho eo neto, toos.
mortos/E até hoje ninguém sabe onde está o túmulo do meu
avô, Ele saiu um dia qualquer e nunca mais voltou.
Bom,na verdade voltou sim.
Nas noites em que as nuvens cobrem a lua, ou nas noites
em que a chuva ét¥o pesada que obscurece até a luz dos postes;

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nas noites escuras e silenciosas em que as luzes, naturais ou
artificiais, perdem a força, meu avô sempre aparece na pol
trona ao lado da jancla, acende o abajur de coelho e começa
essa mesma história contada e recontada dezenas de vezes.
Seráessa a maldição do meu avôB
Ou será uma bênção?

-Jáé tarde ele diz. Você precisa acordar cedopara


aescola amanh.
Náotenho mais idade para irà escola. Ninguém nessa casa
ainda estuda. Mas sempre respondo gentilmente:
Sim, vovÕ. Boa noite.
E, sem conseguir me controlar, Ihe dou um beijo na bo
checha enrugada.
Jápensei em perguntar onde e como ele morreu, o que
aconteceu com o seu corpo e onde foi enterrado. Muitas ve
zes, aliás. Mas sempreque essa vontade me sobe atéa ponta
da língua, eu me seguro e engulo.
A partir do momento em que recuperar a memória e se
der conta dos fatos, meu avÓ não virámais para casa. Ou pior,
ele pode ficar perturbado com as minhas perguntas e nunca
mais voltar, e ficaremos assim para sempre: ele sem suas lem
branças e eu sem minhas respostas. Não conseguiria suportar
se isso acontecesse.
Então não digo nada. Em silêncio, venho para o quarto
e fecho a
porta.
Mas não a fecho completamente. Entrevejo meu avÑ senta
do na poltrona e o abajur de coelho em todaa sua formosura.
Isso me acalma.

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bonito" , era 0
"Tudo gue usado em maldição deve ser
dizia. Os negócios da família .O
que omeu avÓsempre
renderam tanto como hoje.
que eu
Levando minha vida desse jeito, éprovável que acl
eu acabe
meu avô: aparecendo nas noites sem lua, na poltron
como
prenderá eternaments
sala junto com o objeto, âncora que me
morte.
neste mundo entre a vida e a
Mas, quando eu estiver na poltrona ao lado da janela. nã
histórias.
haveráfilhos ou netos para ouvir essas
Em meioa esses pensamentos, Techo a porta do quarto e
total.
me vejo sozinho na cscuridão doentio.
E meu único consolo nesse mundo

imeo norocps nonreols

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