CONFIDÊNCIAS
Sabes? Por vezes, quando o Sol se levanta, levanto-me também e saio. Caminho
devagar, respirando o ar lavado e fresco da manhã, e vou saboreando amoras roxas e
suculentas.
Há dias, debaixo duma pedra, descobri bichos-de-conta que, ao verem a luz do dia,
se enrolaram, ainda ensonados. Talvez assustados com a minha presença, enrolaram-se
tanto que pareciam contas pretas.
Coloquei alguns na palma da mão. Primeiro, receosos, continuaram fechados sobre si
próprios, depois, vendo que nada acontecia, começaram a desenrolar-se e a caminhar…
Devolvi-os à terra, e eles regressaram ao esconderijo sobre o qual voltei a colocar a
pedra.
Uma joaninha pousou no meu braço, tão delicada, tão frágil, tão linda. Descansava
de um voo prolongado. Depois, sacudiu as asas e partiu…
Mais adiante, um caracol caminhava, indolente e majestoso, deixando um rasto na
verdura das folhas por onde passava.
Durante estes passeios, as flores acordam e dão-me os bons-dias, alegres e
perfumadas. E eu vou caminhando e sorrindo a tanta beleza e a tanta serenidade!
De longe, a brisa traz o aroma adocicado dos pinhais…
Respiro fundo. Respiro o próprio Sol, a terna luminosidade das coisas. Caminho
devagar… O prado é um tapete fofo e verde. (…)
Por vezes, com algumas flores, faço uma grinalda que coloco sobre os cabelos e os
trabalhadores do campo, ao verem-me passar, sorrindo e fitando-os com os meus
serenos olhos azuis, cumprimentam-me e dizem:
– Parece uma fada!
Eu não sou vaidosa, mas gosto de os ouvir.
Antes de regressar, colho algumas flores para minha mãe, formando com elas um
matizado ramo, onde sobressaem o vermelho das papoilas por entre o branco e o
amarelo dos malmequeres.
Em troca, recebo um beijo carinhoso.
Subo ao meu quarto e, enquanto descanso, leio. Os livros são os meus melhores
amigos. Dão-me muito, sem nada pedirem em troca. Instruem-me, cultivam-me,
divertem-me. Levam-me a lugares longínquos no tempo e no espaço. Podem fazer-me
rir ou chorar. Ler é um prazer!
Já te falei do meu gosto pelo campo e pela leitura. Agora outra confidência: também
aprecio a praia. De manhã cedo, gosto de caminhar sobre a areia molhada que ainda
ninguém pisou e onde apenas se veem marcadas as patas das gaivotas. Gosto de nadar
quando o mar está calmo e de boiar, descontraída, olhando a beleza azul do céu. (…)
Nesses momentos, sinto-me contagiada pela poesia que me envolve e o meu olhar
segue as gaivotas sonolentas, cortando o espaço vagarosamente, para se dirigirem ao
rochedo mais alto, donde olham preguiçosamente a imensidão.
Minha mãe, ao ler os meus textos, diz:
– Vamos ter uma escritora na família!
Quem sabe?
Tua Joana
Renata Gil, Na Quinta dos Sabugueiros, Gailivro, 2007 (com supressões)
Antoine de Saint-Exupéry, O Principezinho (adapt.)