0 notas0% acharam este documento útil (0 voto) 16 visualizações4 páginasSaga
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu,
reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF ou leia on-line no Scribd
“Saga”, Sophia de Mello Breyner Andresen in Historias da Terra e do Mar
‘O mar do Norte, verde e cinzento, rodeava Vig, a ilha, ¢ as espumas varriam os rochedos escuros.
Havia nesse comego de tarde um vaivém incessante de aves maritimas, as Aguas engrossavam devagar, as
nuvens empurradas pelo vento sul acorriam ¢ Hans viu que se estava formando a tempestade. Mas ele nio
temia a tempestade e, com 0s fatos inchados de vento, caminhou até ao extremo do promontério.
O voo das gaivotas era cada vez mais inquieto ¢ apertado, 0 impeto © 0 tumult cada vex mais
violentos ¢ os longinquos espagos escureciam. A tempestade, como ura boa orquestra, afinava os seus
instrumentos.
Hans concentrava 0 seu espirito para a exaltagdo erescente do grande edntico maritimo. Tudo nele
va atento como quando escutava 0 eintico do érgao da igreja luterana, na igreja a
apaixonada e fria.
Para resistir ao vento, estendcu-se ao comprido no extremo do promontério. Dali via de frente o
inchar da ondulagao cada vez mais densa como se as aguas se fossem tornando mais pesadas.
Agora as gaivotas recolhiam a terra. So a proceléria abria rente @ vaga o voo duro. A dircita, as |
longas ervas transparentes, dobradas pelo vento, estendiam no chio © caule fino. Nuvens sombrias
enrolavam os angis enormes ¢, sob uma estranha luz, simultancamente sombria ¢ cintilante, 0s espagos se
transfiguravam. De repente, comegou a chover,
‘A familia de Hans morava, no interior da ilha. Ali, o rumor maritimo s6 em dias de temporal, através
da floresta longingua, se ouvia.
Mas ele vinha muitas vezes até & pequena vila costeira ¢, esgueirando-se pelas ruelas, caminhava ao
longo do cais, ao lado de botes € veleiros, atravessava a praia € subia ao extremo do promontério. Ali, no
respirar da vaga, ouvia o respirar indecifrado da sua propria paixdo,
Nesse dia, quando ao cair da noite entrou em casa, Hans curvou a cabega, Pois aos catorze anos jd
linha quase a altura de um homem e, em Vig, as portas de entrada so baixas,
A familia de Hans morava, no interior dailha. Ali, o rumor martimo s6 em dias de temporal, através
da floresta longingua, se ouvia.
‘Mas cle vinha muitas vezes até pequena vila costeirae, esgucirando-se pelas ruclas, caminhava 20
longo do eais, a0 Tado de botes e veleios, atravessava a praia ¢ subia ao extremo do promontério. Ali, m0
respirar da vaga, ouvia o respirar indccffado da sua propria painio,
Nese dia, quando ao cair da noite entrou em casa, Hans curvou a cabeca. Pois aos catorze anos jé
tinha quase a altura de um homem e, em Vig, as portas de entrada so baixas.
Assim é desde o tempo antigo das guerras quando os invasores que ocupavam a ilha penetravam nas
casas de cabera erguida mas exigiam que a gente da ilha se curvasse para os saudar. Entio, os homens de
‘Vig baixaram o lintel das suas portas para obrigarem o vencedor a baixar a cabeca.
Soren, pai de Hans, era um homem alto, magro, com os olhos cor de porcelana azul, 0s tragos secos €
belas mos sensiveis que mais tarde, durante geragbes, os seus descendentes herdaram. Nele, como na izteja
luterana, hava algo de austero e solene, apaixonado ¢ frio. A casa e 4 familia imprimia uma inominada lei
de silencio e reserva onde o espirivo de cada um concentrava a sua forga. De certa forma Soren reconhecia ©
risco que corria: sabia que € no silencio que se escuta o tumulto, & no silencio que o desafio se concentra
Mas ele impunha a si mesmo e aos outros uma disciplina de responsabilidade e de escolha dentro da qual
cada um ficava terivelinente livre. Havia porém algo de tacilumo e ansioso em Siren: ele pensava lalvez
que a intezridade humana, mesmo a mais perfita, nada podia contra o destino. Do dever eumprido, da
liberdade assumida, no esperava sucesso nem prosperidade, nem mesmo paz
(0s seus iemios mais novos - Gustav ¢ Niels - finham morrido no naufrigio de um veleiro que the
perlencia, Siren sabia que © seu bareo era um bom barco onde ele proprio inspecionara com minicta cada
cabo ¢ cada tibua, sabia que 0s seus jovens irmios eram perfeitos homens do mar e hibil ¢ competente 0
capitio a quem tudo entregara. No entanto, o navio naufragou quando a exper
cexatamente a forga ¢ a proximidade do temporal
Mal a noticia do nauftigio foi confirmada pelo carguciro inglés que dois dias depois recothers 30
largo 0s destrogos do veleito desmantelado - 0 mastro partido, as boas, o bote virado ~ Séren vendeu os seus
bareos ¢ comprou terras no interior da iTha. Dizia-se mesmo que nunca mais olhara o mar. Dizia-se mesmo
que nesse da tinha chicoteado o mar.
No entanto Hans suspirava ¢ nas longas noites de Invemo procurava ouvir, quando o vento soprava
do sul, entre 0 sussurrar dos abetos, 0 distante, adivinhado, rumor da rebentaco. Carrezado de imaginacBes
queria ser, como 0s seus tis e avés, marinheiro, Nao para navegar apenas entre as ilhas e as costas do Norte,
seguindo nas ondas frias os cardumes de peixe. Queria navegur para o Sul. Imaginava as grandes soliddes do
‘oceano, 0 surgir solene dos promontérios, as praias onde baloigam coqueitos € onde chegs até ao mar a
respiracio dos desertos. Imaginava as ilhas de coral azul gue so como os olhos azuis do mar. Imaginava 0
‘umulto, o calor, o cheito 2 eanela e laranja das terras meridionais
tera, solene,
a eo cileulo no mediram‘Queria ser um daqucles homens que a bordo do scu barco viviam rente ao maravilhamento © 20
pavor, um daqueles homens de andar baloigado, com a cara queimada por mil séis, a roupa desbotada e rija
de sal, 0 corpo direito como um mastro, os ombros largos de remar © o peito dilatado pela respiragio dos
temporais. Um daqueles homens cuja auséncia era sonhada ¢ cujo regresso, mais navio ao longe se avistava,
faria acorrer ao cais as mulheres ¢ as criangas de Vig ¢ a historia que cles contavam era repetida © contada
de boca em boca, de geracdo em geracdo, como se cada um a tivesse vivido.
‘Sdren ¢ Maria jantavam com os filhos, Hans e Cristina, em redor do circulo luminoso da Kimpada. La
fora as madciras da jancla batiam, através da floresta arfava o rumor marinho da tempestade. Por entre as
agulhas dos pinhciros ¢ os ramos das bétulas perpassavam ccos, sibiléincias, gritos ¢, contra o céu baixo de
nuvens, ressoava 0 longinguo tumulto da rebentagio.
~ Sdren, que noticias ouviste hoje na vila? ~ perguntou Maria.
~ Mis noticias. O Elseneur devia ter entrado a barra a meio da tarde mas, a0 pér-do-sol, ainda no se
avistava. Vio scr obrigados a passar o temporal c a noite no mar.
E um bom barco ~ disse Hans que conhecia o Elseneur palmo a palmo. -
muito mar.
~ Deus os guarde - murmurou Maria. Pois 0 Elsencur era o melhor navio de Vig ¢ a sua tripulagdo era
formada por gente da ilha, homens jovens que ela conhecia desde 0 bergo, ou velhos lobos-do-mar que &
conheciam desde a propria inffncia. Porém, nessa noite, enquanto Hans dormia, o Elscneur naufragou contra
0s rochedos negros das falésias.
"Nenhum homem sc salvou. O vento espalhou os gritas no clamor da escuridio selvagem, a forga das
bragadas desfez-se nos redemoinhos, a gua tapou as bocas. Nem os que treparam aos mastros sc salvaram,
rem os que se meteram nos botes, nem os que nadaram para terra. O mar quebrou tibua por tabua 0 easco,
6 mastros, os botes ¢ os marinheiros foram rolados entre a pedra e a vaga.
Estas foram as noticias que as criadas de manha trouxcram do mercado.
[Nesse dia, d noite, depois do jantar, quando a mulher ¢ a filha se levantaram da mesa,
‘Soren continuou sentado e disse a Hans:
- Fica.
‘Hans apoiou-se ao grande armério de madeira lavrada, fora do circulo da luz da limpada, semioculto
na penumbra. Lé fora continuava o mau tempo ¢ a ventania sacudia as portadas fechadas.
= Senta-te - ordenow Siren,
‘Hans avangando, entrou no cfrculo da luz, ¢ sentou-se em frente de Séren ¢ fitou o branco da toalha,
‘Quando o vento parava, ouvia-sc um tilintar de loiga no interior da casa
|Um instante passou, pesado como um longo: tempo. Finalmente Sdren falou:
= Hoje escrevi para Copenhague. No fim deste Verio vais para Id estudar. Escolhe 0 que queres
f um navio que aguenta
estudar.
= Quero ser marinheiro - respondcu Hans.
- Nao. Escolhe outra coisa. Podes estudar leis ou medicina ou engenharia.
~ Queto ser capitio de um navio
Sdren poisou as mos sobre a mesa sob a luz branca ¢ dircia da lampada, Hans mais uma vez viu
como elas eram belas, belas ¢ penetradas de dominio em sua austera ¢ contida paixio. No entanto, nesse
momento, tremiam um pouco ¢ Siren apertava-as uma contra a outra enquanto Falava.
- Ouye - disse cle, ~ Esta manhi fii ao lugar do naufrigio, & Ponta do Norte, Fui acompanhar Knud
que ia cm busca do corpo dos scus dois filhos. O mar ja tinha atirado muitos dos corpos para a praia. Mas
estavam quase todos completamente desfigurados de tanto terem sido batidos contra os rochedos da falési
A praia estava cheia de gente. Cada um procurava os scus mortos. Knud s6 pide reconhecer os filhos pelo
ancl de prata que ambos usavam no tcreciro dedo da mio dircita. Dissc: «Maldito scja 0 mary. Nao his de
ser marinheiro, Hans. Escolhe outro oficio. Nao quero amaldigoar 0 mundo onde nasei nem acusar 0 Deus
que me criou. Muda de ideias. Promete-me que nunca seris homem do mar. Dé-me a tua palavra.
Hans fitou a toalha. Baixo c devagar, respondeu:
- Niio posso.
Séren apertou uma contra a outra as mios, levantou-se em siléncio ¢ sain sem fechar a porta. Sob os
sous passos ouviram-se gemer 0s degraus da escada. Depois, no interior da casa, soou 0 tilintar da loiga ©
subiu um riso de mulher. Hans estava de pé na penumbra, encostado ao armério de madeira lavrada.Li fora o vento fazia ressoar todas as suas harpas.
Em Agosto, chegou a Vig, vindo da Norucga, um carguciro inglés que se chamava Angus © scguia
para o Sul. O capitio cra um homem de barba ruiva ¢ aspcto terrivel que navegara até aos mares da China.
Foi no Angus que Hans fugiu de Vig, alistado como grumcte.
‘Navegaram primciro com bom tempo ¢ 0 velciro corria esticado no vento. Unido ao balanco, Hans,
cenquanto lavava 0 convés, polia os metais ou cnrolava os cabos, aspirava a vecméncia da vasta respiracio
‘maritima. Os scus ouvidos escutavam a forga viva do navio que galgando a onda recncontrava 0 equilibrio
sobre 0 desequilibrio das aguas.
Depois atravessaram as tcmpestades da Biscaia. Ali a vaga media dex metros © a agua tomara-se
espessa, pesada ¢ brutal em scu cinzento metilico. Todas as madciras gemiam como se fosscm despedagar-
ssc € sentia-se a tensio dos cabos repuxados. As ondas varriam 0 convés ¢ 0 navio, ora erguido na crista da
‘vaga ont caindo pesadamentc, parccia a cada instante tocar 0 scu ponto de rutura ¢ desmantclamento. Mas
Hans sentia a clasticidade do barco, a sua procisio de extremo a extremo ¢ o equilibrio que, entre vaga ¢
contra-vaga, nio se rompia. Mais tarde os navios de Hans nunca naufragaram.
Contornaram a terra, navegaram para o Sul ¢, a0 cair de uma tarde, penctraram sob 0 arco das
gaivotas, na barra estreita de um rio esverdcado ¢ turvo, flutuante de margens entre as margens cavadas. A
esquerda, subindo a vertente, erguia-se 0 casario branco, amarclo ¢ vermelho, misturado com os escuros
‘Na luz vermetha do poente:a cidade parecia carregada de memérias, insondavelmente antiga, foérica
© magnetizada, com todos os vidros das suas janclas cintilando. Animava-a uma veeméncia indistinta que
aqui ¢ além aflorava em ecos, rumores, perpassar de vultos, gritos longinquos e perdidos, reflexo de Iuzes
sobre 0 rio,
Hans amou desde primeiro momento a respiracio rouca da cidade, o colorido intenso ¢ sombrio, 0
rvoredo murmurante ¢ espesso, o verde espelhado do rio. Na estrada que corria junto as margens viam-se
bois enfeitados ¢ vermelhos, puxando carros de madcira que chiavam sob o peso de pipas, pedra c arcias.
© navio demorou-sc varios dias no cais, carregando ¢ descarregando. Na véspera da partida entre
Hans ¢ o capitio levantou-se uma furiosa querela.
Hans estava de pé no cais, vestide com uma pele de urso branco que [Link] por. No centro de um
circulo, de marinheiros, que batiam palmas para marcar o ritmo, dangava ¢ ria sacudindo uma pandeircta.
Juntava-se gente. Como se se tratasse de um circ ambulante um grumete tirara 0 barrete © estendia-o 30s
‘espectadores que comegavam a langar mocdas. A tarde corria sobre © rio.
Foi esta cena que 0 capitio viu quando, de sibito, irrompeu no convés. A sua barba vermetha
brithava de fitria. Hans, sozinho, no meio do circulo vazio, [Link] um sorriso calmo o rosto irado que
© fitava. Houve um pesado silencio.
= Despe isso - gritou 0 capitio. - Aqui no é um circo.
Hans, devagar, com um sorriso petulante, despiu a pele do urso ¢ estendeu-a 2 outro grumete,
dizendo: - Toma, meu pajem, leva 0 meu manto.
E apele, sem que nenhum brago sc estendesse para a reocber, cai mole no chio.
= Aqui no é um teatro - disse 0 capitio, olhando Hans na cara.
Hans sustcntou o olhar ¢ o scu sorriso tomou-se duro ¢ tcimoso.
~ Apanha a pele - ondcnou o capitio. - E vai para bordo, tu ¢ os outros, todos para bord.
‘No porio 0 capitio chicoteou Hans em frente dos homens calados. No fim disse-Ihe:
~ Agora aprendeste a ter juizo.Hans amou desde 0 primeiro momento a respirago rouca da cidade, 0 colorido intenso ¢ sombrio, 0
arvoredo murmurante © espesso, o verde espelhado do rio. Na estrada que corria junto 4s margens viam-se
bois enfeitados e vermelhos, puxando carros de madeira que chiavam sob o peso de pipas, pedra e arcias.
© navio demorou-se varios dias no cais, carregando ¢ descarregando. Na véspera da partida entre
Hans ¢ 0 capitio levantou-se uma furiosa querela.
Hans estava de pé no eais, vestido com uma pele de urso braneo que encontrara no porio. No centro de um
cireulo, de marinheiros, que batiam palmas para marcar o ritmo, dancava e ria sacudindo uma pandeireta.
Juntava-se gente. Como se se tratasse de um cireo ambulante um grumete tirara o barrete ¢ estendia-o aos
espectadores que comecavam a langar moedas. A tarde corria sobre o rio.
Foi esta cena que o capitio viu quando, de sibito, irrompeu no convés. A sua barba vermelha
brithava de firia. Hans, sozinho, no meio do circulo vazio, suportou com um sorriso calmo o rosto irado que
6 fitava, Houve um pesado silencio.
~ Despe isso - gritou o capitio. - Aqui nio é um circo.
Hans, devagar, com um sorriso petulante, despiu a pele do urso e estendeu-a 2 outro grumete,
izendo: - Toma, meu pajem, leva o meu manto.
a pele, sem que nenhum brago se estendesse para a receber, caiu mole no chio.
Aqui nio é um teatro - disse 0 capitio, olhando Hans na cara.
Hans sustentou o othar ¢ 0 seu sorriso tornou-se duro ¢ teimos
~ Apanha a pele - ordenou o capitio. - E vai para bordo, tu ¢ os outros, todos para bordo.
No porio © capitio chicoteou Hans em frente dos homens calados. No fim disse-the:
= Agora aprendeste a ter juizo.
Mas nessa madrugada, em segredo, Hans abandonou 0 navio. Caminhou a0 acaso na cidade
desconhecida, perdido no som das palavras estrangeiras, perdido na diferenca dos sons, da luz, dos rostos €
dos cheiros, carregando o seu pequeno saco, procurando nas ruas 0 lado da sombra. Através de grades de
ferro pintadas de verde, espreitou o interior sussurrante de insondaveis jardins onde sob enormes arvoredos
se abriam trémulos junquilhos. Parou em frente dos ourives para olhar as montras, 4 porta das adegas
respirou a frescura sombria ¢ o cheiro do vinho entornado. Caminhou ao longo do rio, na margem onde as
mulheres, descalgas, carregavam cestos de arcia enquanto outras discutiam, aos magotes, cortando com
grandes brados ¢ largos gestos o ar liso da manha. Penetrou nas igrejas de azulejo ¢ talha que nao eram
claras e frias como as igrejas do seu pais, mas doiradas e sombrias, numa penumbra trémula de velas onde
negrumes ¢ brilhos, animavam 0 rosto das imagens que num incerto sorriso pareciam reconhecé-lo. Dormiu