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Dança Mapiko: Ritual e Cultura Makonde

O documento descreve os rituais de iniciação masculina e feminina Mapiko entre o povo Makonde, incluindo a dança Mapiko, as máscaras usadas e seu significado cultural e simbólico.
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Dança Mapiko: Ritual e Cultura Makonde

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António Henrique Rodrigues Roseiro

SÍMBOLOS E PRÁTICAS CULTURAIS DOS MAKONDE

O Mapiko e a iniciação ritual

O Mapiko é um complexo de crenças e de actividades, que estão compreendidas nos rituais de


iniciação masculina. O Mapiko visa não só integrar socialmente os adolescentes Makonde, como
também estabelecer o equilíbrio das relações entre mulheres e homens. A iniciação constitui,
antes de mais, um ensinamento progressivo destinado a familiarizar o jovem com as
transformações do seu próprio corpo, chegado à maturidade e depois com o significado das
tradições e forma de estar do povo. O Mapiko é realmente o elemento aglutinador da cultura
Makonde.

A dança do Mapiko é uma das mais conhecidas manifestações dos Makonde pelo seu significado
cultural e artístico, pelo contexto musical e gestual, e porque envolve normalmente toda a
comunidade. O momento mais alto nos rituais iniciáticos dá-se no fim do período de reclusão dos
rapazes (Mwali wa kulikumbi), quando estes enfrentam a figura do lipiko. É durante o Likumbi
(iniciação) que são revelados aos jovens os segredos do Mapiko. Na véspera da saída dos rapazes,
estes deverão enfrentar o Chipito (exame final) a fim de conhecerem estes segredos. As raparigas
(Mwali wa n´gande) irão viver a cerimónia do Nkamango e, por fim, a dança do Lingundunbwe.

O Mapiko assume-se como o somatório de diversos actos, todos eles com uma simbologia
reservada aos rapazes e raparigas, instruídos, mantidos e dirigidos por adultos que, naturalmente,
já foram iniciados. Tem todas as características de um ritual secreto iniciático, e constitui a mais
elevada relevância nas cerimónias públicas do seu povo.

O Mapiko é de facto, a festa mais importante da cultura Makonde, símbolo vivo de um espírito
humano, masculino ou feminino, utilizado pelos homens e pelas mulheres para dominar pelo
medo, contribuindo não só para integrar as crianças no grupo dos adultos, como ajudar a
estabelecer o equilíbrio entre o universo masculino e feminino. O Mapiko não visa apenas
integrar socialmente os adolescentes, é muito mais que isso, é uma festa da passagem da
puberdade para a vida adulta. O seu cerimonial possui também carácter religioso e está
relacionado com os costumes dos antepassados, com os espíritos bons e maus, com a luta entre o
bem e o mal.

Os rituais de iniciaçã o sã o cerimó nias (actos, provas) que solenemente e aos olhos de todos,
introduzem o adolescente na vida comunitá ria, social e simbó lica do grupo, da comunidade.
Ele passará a ser adulto, mas antes terá de mostrar a sua coragem, perseverança e sentido
de responsabilidade. Assim, a passagem para o mundo dos adultos é facilitada pela
organizaçã o de uma série de rituais em que os adolescentes se confrontam com situaçõ es
inesperadas, no sentido de porem à prova a sua coragem, a sua astú cia, os seus limites.
Segundo Bourdieu é o habitus que determina a forma de relacionamento das pessoas entre
si e como elas reagem frente a este sistema de dominaçã o: é durante estes rituais, que se
transmitem aos adolescentes todos os elementos da cultura masculina. Esses segredos
estã o contidos no ritual da dança do Mapiko, a dança de má scaras que tem como funçã o
essencial intimidar as mulheres.

O lipico (singular de Mapiko) é o nome designativo da má scara ou do mascarado. As


má scaras Mapiko dividem-se em dois tipos: faciais ou tipo elmo. Estã o intimamente ligadas
à dança com o mesmo nome. A má scara permite ao homem representar a sua condiçã o de
ser e nã o ser. Esta tem um significado religioso e cerimonial, ligado ao ritual de iniciaçã o
masculina, sendo ela pró pria, parte do ritual. É a partir do significado do ritual Mapiko, que
o artista Makonde recria na arte, os diferentes espíritos, usando uma rica simbologia ao seu
dispor (MKAIMA, 1999).

As má scaras lipiko sã o esculpidas em madeiras leves de á rvores como o ntene e o nkango,


tem os olhos, a boca e o nariz salientes. Sã o trabalhadas em grandes planos com um entalhe
delicado, policromada com as cores ocre, almagre e cinzento, retiradas de produtos
naturais. A decoraçã o normalmente é enriquecida com bocados de cabelo e outros
materiais. Na confecçã o das má scaras, contam também os pormenores de acabamento. As
má scaras devem ser suficientemente aberrantes, para causar o impacto desejado, mas por
outro lado devem evidenciar uma composiçã o equilibrada, do ponto de vista da beleza e da
estética.

As má scaras sã o normalmente antropomó rficas. Actualmente encontram-se má scaras com


figuras de animais, mas os mais antigos referem que no passado seria apenas representada
a figura humana. Esta má scara é usada na dança do Mapiko por rapazes recém-iniciados, ou
por homens experientes, durante as cerimó nias pró prias dos rituais da puberdade,
masculino e feminino.

As má scaras produzidas pelo povo Makonde, como em quase todos os povos do mundo sã o
utilizadas ou como uma fantasia ou representaçã o do imaginá rio má gico, místico ou de
identificaçã o simbó lica.

As má scaras tipo elmo usadas nas danças do Mapiko e nos rituais de iniciaçã o representam
muitas vezes retratos de criaturas sociais, figuras da sua sociedade, animais ou gentes do
imaginá rio ou de diferentes contextos.

As má scaras mais antigas, com formas grotescas e aberrantes, contém, no entanto, um tipo
de beleza tradicional, de acordo com a estética ou representaçã o de um padrã o de beleza
que só os artistas Makonde sabem reproduzir. Reproduzem o que lhes vai na alma e no
sentido critíco-social ou que julgam representar os espíritos bons dos antepassados e os
espíritos das trevas.
A casa onde se guardam as má scaras no Mpolo designa-se por Likuta, (palhota). Quando,
dias depois, acaba o ritual do Mapiko, as má scaras, representam um todo, porque que o
espírito representado na obra é o mesmo que se encontra na alma do artista. Nã o há duas
má scaras iguais, nem existem os mesmos padrõ es a caracterizá -las, ou se existem, numa
aná lise mais cuidada, verificam-se sensíveis as diferenças.

As má scaras sã o muito frá geis e partem-se com muita facilidade, nas mais apreciadas pela
populaçã o, existe um cuidado maior na sua preservaçã o. Normalmente as má scaras quando
estã o fora de uso sã o guardadas no Mpolo ou queimadas.

A má scara é o veículo que possibilita o contacto do humano com o mundo dos mortos, e
através de rituais expressos inicia-se uma simbiose má scara/dança/homem que exprime a
sua mensagem, na representaçã o do ritmo frenético e de um completo paroxismo, onde a
má scara é o naijale (mapiko teatral e có mico) cuja gestualidade mímica pretende
aterrorizar os presentes, na representaçã o dum likola (espíritos dos antepassados). Estes
passos sã o apenas perceptíveis para os locais. Assim, quando se assiste a esta dança,
tentamos descortinar o que está por trá s da expressã o mímica/gestual.

As má scaras femininas distinguem-se por nã o serem terríficas e trazerem, em geral,


adornos nas orelhas, nos lá bios e no nariz; as suas expressõ es sã o suaves e desanuviadas.
Sã o usadas principalmente durante a dança de Lingundumbwe. Esta dança é uma versã o
feminina do Mapiko, onde figura principal é a mulher. É habitual que a dança seja executada
por uma rapariga adolescente, capaz de executar os movimentos com maior destreza e
vigor.

Para além de má scaras de madeira, a bailarina de Lingundumbwe pode trazer na cabeça


uma capulana, que a cobre apenas da testa à nuca. Para permitir uma boa respiraçã o e
visã o, o rosto é tapado com uma capulana transparente. Na encenaçã o, a bailarina segura
nas mã os um ou dois lenços e um pequeno machado ou enxada. Na falta destes objectos, ela
pode ter na mã o uma vara simples (DIAS, 1964; WEULE, 2000).

A má scara feminina Chitengamato é usada nas vésperas de saída das raparigas iniciadas
(Nkamango). Esta cerimó nia é efectuada ao sá bado saindo as raparigas no domingo. Apó s a
sua utilizaçã o as má scaras, como já foi dito, sã o habitualmente destruídas.

O Mapiko como forma de arte

O Mapiko é em si pró prio um acontecimento complexo. É arte, é dança, é teatro, é mú sica, é


expressã o corporal, é tradiçã o. O Mapiko extravasa… mais do que a pró pria má scara, mais
do que a pró pria a dança, mais do que um ritual. De facto o Mapiko é o acontecimento mais
importante deste povo invulgar, possuindo uma aura de mistério e segredo.
O Mapiko é como um jogo interactivo, pelo uso e preparaçã o das má scaras. O dançarino ao
vestir na pele a má scara, incorpora o seu espírito. O Mapiko consiste numa representaçã o
de vá rios espíritos personalizados e encarnados na pró pria má scara. Com efeito, tanto as
mulheres como os jovens nã o iniciados acreditam que é um espírito e nã o um homem que
está debaixo da má scara (ISRAEL, 2005). O lípico, singular de mapiko, é o nome designativo
da má scara ou do mascarado, palavra que só costuma ser usada quando referida à má scara
de madeira, ou ao pró prio mascarado, tomado em si mesmo, e nã o como símbolo da força
transcendental que o Mapiko representa.

O dançarino está completamente tapado com uma complexa indumentá ria que lhe esconde,
totalmente, a sua identidade. A má scara de madeira cobre-lhe a cabeça e o pescoço, e tem
uma ú nica abertura, a boca da figura representada, por onde o mascarado vê e respira,
tendo assim um campo visual muito limitado e uma fraca capacidade de oxigenaçã o,
tornando a sua actuaçã o ainda mais difícil. Tem uma indumentá ria estranha, imprecisa e
sempre diferente, a vestir-lhe o corpo.

Estes trajes sã o compostos por cinco peças de diferentes tecidos, ajustadas, por uma corda,
ao corpo do jovem iniciado. A cobrir-lhe as costas e o peito tem uma malha, em corda que
sustenta vá rios chocalhos, os quais no decorrer da dança, provocam barulho. (os guizos
(Dinjunga) suspensos ajudam, pelo som, a marcar melhor o ritmo). As pernas sã o tapadas
por uma cobertura que se pode assemelhar as meias e que vai desde os pés até à coxa. O
lipiko, apenas pode ter a descoberto, os braços e os pés (ISRAEL, 2006).

Segundo a tradiçã o dos Makonde, o lipiko era um lihoka (defunto) que surgia da terra
quando era invocado pelas vozes humanas e pelos tambores. Quando aparecia na aldeia
provocava medo nas mulheres e crianças, porque nã o percebiam de que o lipiko era um
elemento da comunidade, dado que este estava coberto com má scara panos e dançava longe
do centro da aldeia.

Durante o Mapiko a actividade é intensa, e a actuaçã o dos dançarinos é sempre esperada


com ansiedade, por adultos e crianças, possuindo essa dança em toda a sua plenitude
cénica, intenso cará cter de aglutinaçã o social. Em cada ritual desta dança há vá rios
dançarinos que ora dançam isolados, ora em conjunto. Os cantadores têm também a
oportunidade de exibir-se e sã o numerosos entre os rapazes e os homens.

Os Tambores do Mapiko

O Mapiko é acompanhado por 5 tambores diferentes e todos devem estar presentes para a
realizaçã o desta dança, já que cada um tem a sua funçã o. Os tambores representam um
papel fundamental durante o ritual. O corpo dos tambores pode ser em forma de cá lice, em
forma de almofariz, de espigã o, com pé em ameia e ainda

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