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ATUALIDADE LEON TROTSKY Literatura e Revolucio Tradugéo e apresentagio de Moniz Banperra ZAHAR EDITORES RIO DE JANEIRO Capiruto V A ESCOLA DE POESIA FORMALISTA E O MARXISMO Sem contar ag fracas ressonancias dos sistemas ideolégi- cos anteriores & Revolugio, a tinica teorla que se opde 20 marxismo na Rassia soviética, estes vltimos anos, € a da esco- Ja formalista da arte, Eis um paradoxo. O formalismo esta- va estreitamente ligado ao futurismo russ. Mas, quando éste, politicamente, capitulou diante do comunismo, 0 forma- lismo manifestou com téda a férca sua oposicfio tedrica a0 marxismo. Victor Chklovsky representa, 20 mesmo tempo, 0 tebtico do futurismo e 0 chefe da escola formalista. A atte, segundo 2 sua teoria, sempre se encontra em obras de formas puras, que se bastam a si mesmas, e ésse fato o futurismo reconhe- eu pela primeira vez. O futurismo é entio a primeiza arte consciente da histéria, e a escola formalista é a primeira es~ cola de arte cientifica. Gracas aos esforgos de Chklovsky = ¢ éste no € 0 seu menor méritol ~ a teoria da arte e, em parte, a propria arte ergueram-se, enfim, do estagio da alqui- ‘la para o da quimica, © arauto da escola formalist, o pr\- ‘meiro quimico da arte, dé de passagem alguns tapas amiga veis nos futuristas conciliadores, que procuram uma ponte para @ Revolug&o e tentam encontra-la na concep¢ao materialista da histéria, Tal ponte nfo se torna necessiria: o futurismo basta-se inteiramente a si mesmo. 144, Larmnarona © Revorveio Ha duas razées pelas quais precisamos deter-nos ante a escola formalista, Em primeiro lugar, por ela mesma: a des- peito do caréter superficial da teoria formalista da arte, cer- ta parte do trabalho de pesquisa dos seus adeptos &, real- mente, itil. A outra razdo 6 o Futurismo: embora no tenham fundamento as pretensées dos futuristas de possuirem 0 mono- polio da sepresentago da nova arte, nfo se pode exclui-los do processo que prepara a arte de amanha Que @ a escola formalista? Tal como é atualmente representada por Chklovsky, Jie munsky, Jacobson e outros, ela ngo passa de insélito abérto. Essa escola, proclamando que a esséncia da poesia esta na forma, reduz a sua tarefa a uma anélise, essencialmente des- critiva e semi-estatistica, da etimologia e da sintaxe dos poe- mas, & contagem de vogais, consoantes, silabas e epitetos que se repetem, O trabalho, que os formalisias no temem deno- minar cléncia formal de poesia ou poética, € indiscutivelmen- te necessirio e stil, com a condigdo de que se deve considerar © seu caréter parcial, subsidiacio e preparatério, Pode tor- nar-se um elemento essencial da técnica poética e das regras do olicio, Assim como € stil ao poeta ou ao esctitor, em ge- ral, preparar listas de sinénimos, aumenté-las, para expandit © seu teclado verbal, é-Ihe verdadeizamente ttil, indispensé vel, medit uma palavre néo s6 conforme a sua significagdo intrinsecs, mas também conforme o seu valor actistico, pois é antes de tudo, pela ociistica que se transmite a outrem essa palavra, Os métodos do formalismo, mantidos dentro de Ii- mites razoaveis, podem ajudar a esclarecer as particulatidades artisticas e psicolégicas da forma (sua economia, set. movi- mento, seus contrastes, sett hiperbolismo etc.) Bisses métodos, por sua vez, podem abrir ao artiste um caminho — um dos caminhos ~ para a percepcao do mundo e facilitar a desco- berta das relagées de dependéncia entre um artista ou de toda a escola artistica eo melo social. Na medida em gue trata- mos de uma escola contemporanea, viva, e que continua a desenvolver-se, € necessétio, na idade de transi¢o em que vivemos, testacla por meio da prova social e revelar suas rai- zes de classe. Nao s6 0 leitor, mas a propria escola poderé, désse modo, orlentar-se, isto €, conhecer-se, purificar-se € di- rigit-se, A ‘A Escoza pe PorstA ForMautsra & 0 MARXISM 145 Os formalistas, porém, recusam-se a admitir que seus mé- todos néo possuem outro valor a no ser como acessério, utilitario e téenico, semelhante ao da estatistica para asiCién- cias Sociais, ou da micrasedpia para as Ciéneias Riolégicag E vaio muito mais longe: a arte da elogiiéncio, para éles, en- contra seu acabamento na palavra, como as artes plisticas na cér, Um poema é uma combinagéo de sons; uma pintura € uma combinagéo de manchas coloridas, E as leis da arte sfo as dessas combinagées. O critério social e psicol6gico, que, para nés, dé um sentido ao trabalho mictoscépico € es- tatistico sobre a matéria verbal, &, para os formalistas, ape- nas alquimia. “A arte sempre foi independente da vida, e sua cor nunca refletiu a cér da bandeira que flutua sabre a fortaleza da cl- dade" (Chklovsky). "O ajustamento A expressiio, A massa verbal, ¢ 0 tinico momento essencial da poesia” (R. Jacobson, em A Poesia Russa de Hoje). “Desde o instante em que existe uma nova forma, existe um contefido n6vo. Assim a forma determina 0 conteido” (Kruchenikh). “A poesia € 0 arranjo da palavra, vélldo em si ou, como diz Khlebnikov, auiénomo” (Jacobson) etc. Os futuristas italianos, certamente, buscaram na palavra um instrumento de expresso para o século da locomotiva, da hélice, da eletricidade, do radio etc. Buscavam, em outros térmos, nova forma para’o névo conteddo da vida. Mas, a0 gue parece, “era uma reforma no campo da narrativa, e nfo no campo da linguagem postica” (Jacobson). ‘Tudo ocorre de modo diferente no futurismo russo; éle leva as Gltimas con- seqiiéacias “o ajustamento A massa yerbal”, A forma, para 0 fututismo russo, determina o conteddo. Jacobson, certamente, se vé obrigado a admitir que “uma série de novos métodos poéticos encontra a sua aplicagéo (?) no urbanismo” (na cultura urbana), Eis, aqui, entretanto a sua conclusio: “Daf, os poemas urbanistes de Maiakovsky e de Khlebnikov.” Ein outras palavras: nfo foi a cultura ur- bana gue, apés impressionar o lho e o ouvido do poeta ou reeducé-los, the inspirou uma nova forma, novas imagens, novos epitetos, novo ritmo, mas, 20 contrario, fol a forma que, nascida espontaneamente (de modo auténomo), obrigou © poeta a buscar um material epropriado e assim 0 empurrou 146 Larmnarona © Revorvgio na direc’o da cidade! O desenvolvimento da massa verbal Passou, arbitzatiamente, da Odisséia & Navem de Calgas: @ tocha, a vela, a lampada elétrica nio seryem para nadal Basta formular, claramente, ésse ponto de vista para que a sua inconsisténcia pueril salte aos olhos. Jacobson, todavia, fenta insistit: responde, antecipadamente, que no mesmo Maia. kovsky se encontra um verso como: “Deixai as cidades, es- tapidos humanos.” E 0 teérico da escola formalista raciocina profundamente: “O que é isto? Uma contradicao logiea? Mui tos atribuem ao poeta os pensamentos expressos nas suas obras. Incriminar um poeta pelas idéias e sentimentos € tao absurdo como o comportamento do pablico medieval que ba- tia no ator que desempenhara o papel de Judas.” assim por diante, B evidente que um ginasiano muito dotado escreveu tudo 4sso com a mais visivel e auténoma intengio “de cravar a Pena no nosso professor de Literatura, notério pedante” Bsses atrevidos inovadores, tio hébeis para cravat ima pens, ‘se mostram, porém, incapazes de usé-la para um correto trabe- Iho te6rico, Néo é dificil prova-lo, O futurismo, sem davida, sentiy as sugestdes da cidade, do bonde, da eletricidade, do telégrafo, do automével, da hlice, do cabaré notueno (especialmente do cabaré noturno), ‘bem antes de encontrar @ sua nova forma. O urbanismo (a cultura urbana) instalara-se, profundamente, no subconsclen- te do futurismo. Os epitetos, a etimologia, a sintaxe e o ritmo do futurismo s6 representam uma tentativa de dar forma ar- tistica a0 névo espirito das cidades que se apossou da cons- ciéncia. E, quando Maiakovsky exclama: “Deixai as cidades, estipidos humanos”, é o grito de um citadino, de um homem utbanizado até a medula dos ossos, & fora de cidade, allés, que éle se mostra mais clara e visivelmente citadino, isto & quando deixa a cidade... paza ir & sua casa de campo. Nfo se trata aqui de incriminar (essa palavta vem como um fio de cabelo na sopa) um poeta pelas idéias e pelos sentimen tos que éle exprime, S6.a maneira pela qual éle os exprime € gue, seguramente, faz do poeta um poeta. Mas, afinal de contas, o poeta, na linguagem da escola que adotou ou que #le mesmo criou, executa as tarefas que se situam fora de si. E isso € verdade mesmo se éle se limita 20 circulo estreito ‘A Wscouk ox Ponsta Foratista x © Manxisxco 147 do lirismo: seu amor pessoal e sua prépria morte. As nuangas individuais da forma poética, evidentemente, cotrespondem & composigio do espirito individual, mas, ao mesmo tempo, aco- modam-se na limitagio € na rotine, tanto no doiniuio dos sen- timentos como no modo de exprimi-los. Uma nova forma ar- tistica, apreciada no seu amplo sentido histérico, nasce em resposta a novas necessidades. Pode-se dizer, tomando-se co- mo exemplo a poesia lirica, que, entre a psicologia do sexo um poema s6bre © amor, se insere um sistema complexo de mecanismos psiquicos de transmissdo, nos quais entram ele- mentos individuais, hereditatios e sociais. O fundamento here- ditario, isto & © fundamento sexual do homem, muda lentas mente, As formas sociais do amor transformam-se rapida- mente. Elas afetam a superestrutura psiquica do amor, pro- duzem novas nuancas e novas entonagées, novas buscas espiri- tuais, a necessidade de n6vo vocabulatio, ¢ assim novas exi- gencias & poesia, O poeta s6 pode encontrar material de cria- so no seu meio social e transmite os noves impulsos da vida através de sua prépria consciéncia artistica. A linguagem, modificada ¢ complicada pelas condicées urbanos, da ao poeta nova matéria verbal, stigere ou facilita novas combinagées de palavras para a formulacio postica de novos pensamentos ou de novos sentimentos, que tentam atravessar a concha esciira do subconsciente. Se nfo houvesse mudangas na psicologia, produzidas pelas transformagées do meio social, néo existiria movimento na arte: os povos continuariam, de getagio em gerocio, satisfeitos com a poesia da Biblia ou a dos gregos antigos. Mas o filésofo do formalismo pula sobre nés e diz que se trata de uma nova forma “no campo da narrativa e néo no campo da linguagem postica”. At estamos fulminados! Se is so pode agradar-vos, entéo sim, a poesia € narrativa, mas de grande estilo, As querelas sdbre arte pura e arte dirigida iscompem en- tre liberais © populistas, las a0 nos afeiam. A dioléica materialista esta acima disso: para ela, a arte, do ponto de vista do processo histérico objetive, é sempre um servo so- cial, historicamente utilitério. Encontra 0 ritmo da palavra necessério para exprimir humores obscuros e vagos, aproxima © pensamento do seatimento, ou opée um ao outro, entiquece 148 Larmmaruna © Revorueio 8 experféncia espiritual do individuo e da coletividade, apura © sentimento, torna-o mais flexivel, mais sensivel, dé-lhe mais Xessonfncla, ‘aumenta o volume do pensomento, gragns & acumilagao de wma experiénela, que ultrepasca a cacala pes soal, ediica o individuo, o grupo social, a classe e a nacao. E nao importa de modo algum se, numa determinada situacio, ela aparece sob a bandeira da arte pura ou de uma arte aber. tamente tendenciosa, A arte tendenciosa, no desenvolvimen- to social da Rissia, representou a bandeira da intelligentsia que buscava ligar-se co povo. Impotente, esmagada pelo tra- sismo, privada de meio cultural, procurando apoio nas cama- das inferiores da sociedade, a intelligentsia esforgava-se para provar ao povo que pensava como éle, s6 vivia para éle e 0 amava fertivelmente, Assim como os populistes que iam ao povo estavam prontos a privar-se do temo limpo, do pente da escova de dentes, a intelligentsia estava disposta a sactil car na sua arte as sutilezas da forma para exprimis, mais di- rela € esponténeamente, os softimentos e as esperangas dos optimidos. A arte pute, pelo contrézio, constitaiu a bandeira natural da burguesta ascendente, que néo podia apresentat-se, abertamente, como burguesia e que, 20 mesmo tempo, se es- forsava para manter a intelligentsia a seu servic, © ponto de vista marxista esté muito distante dessas tendéacias, que foram histéricamente necessérias, mas estio histaricamente stt~ peradas. © marxismio, permanecendo no plane da investiga- séo cientifica, procura, com a mesma seguranga, as raizes 50- ciais da arte pura como também as da arte tendenciosa. Néo incrimina de forma alguma o poeta pelos pensamentos e pelos sentimentos que tle exprime, mas levanta questées de sigaifi- cado muito mais profundo, A que ordens de sentimentos uma forma dada de obra de arte corresponde em tédas as suas particularidades? A que condig6es sociais se devem tais Pensamentos e sentimentos? Que lugar ocupam no desenvol- vimento histérico de uma sociedade e de uma classe? E ainda: Quais os elementos da heranca literdria que participam da elaboragio da nova forma? Sob a influéncia de que impulsos hist6ricos os novos complexos de sentimentos e de pensamen- fos romperam a concha que os separava da esfera da conscién- sia poética? A busca pode tornar-se mais complicada, mais detalhada, mais individualizada, mas ela teré como idéia fun- el A Tscots px Porsia Foromusza 5 0 Marxiswo 149 damental © papel subsidiério que a arte desempenha no pro- cesso social. Cada classe. na questo da arte, tem a sua politica, va~ siavel com 0 tempo, isto 6, um sistema proprio segundo © qual apresentaré suas exigénclas a arte: as cértes de Mecenas dos grandes senhores,* 0 j6go automatica da oferta e da pro- cura completado pelos complexos procedimentos das influén-

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