Febre Reumática
OBJETIVOS camadas do coração: pericárdio, miocárdio ou
endocárdio (inclusive nas valvas).
Estudar a etiofisiopatogênese e resposta imunológica na
febre reumática.
Entender as manifestações clínicas e complicações na
febre reumática.
Compreender as valvopatias.
ETIOFISIOPATOGÊNESE
É uma doença inflamatória aguda, multissistêmica,
mediada pelo sistema imunológico, que ocorre após
infecção por estreptococos b-hemolíticos do grupo A
(geralmente após uma faringite). - Aspecto microscópico de um nódulo de Aschoff; há necrose
A FR está associada a inflamações de todas as partes central associada a uma coleção circunscrita de células
do coração, mas a inflamação e a cicatrização das inflamatórias mononucleares, que incluem alguns macrófagos
valvas produzem as características clínicas mais ativados com nucléolos proeminentes e cromatina central ondulada
importantes. (cromatina em lagarta) (setas).
Após essa inflamação acontecem problemas valvares
crônicos, que acarretam disfunção cardíaca irreversível RESPOSTA IMUNOLÓGICA
e, em alguns casos, causam insuficiência cardíaca fatal
depois de alguns anos. A infecção por S. pyogenes causa a ativação do sistema
imune na tentativa de eliminar o patógeno agressor.
PATOGENIA Nessa ativação, são recrutados linfócitos B (imunidade
adquirida humoral), que se transformam em plasmócitos
A febre reumática aguda é uma reação de e produzem, então, anticorpos contra o microorganismo
hipersensibilidade classicamente atribuída a anticorpos em questão.
contra moléculas dos estreptococos do grupo A que
- Os anticorpos são proteínas e, portanto, não conseguem
também reagem de modo cruzado com antígenos do
diferenciar antígenos próprios de antígenos estranhos.
hospedeiro.
- Porque isso ocorre? Os anticorpos dirigidos contra a Os anticorpos produzidos (anticorpos
proteína M de algumas cepas dos estreptococos têm antiestreptocócicos) atacam a bactéria para o qual foram
reatividade cruzada com os antígenos glicoproteicos do especificamente criados, mas também atacam algumas
coração, das articulações e de outros tecidos, produzindo células do próprio organismo, denominada reação
uma reação autoimune por um fenômeno conhecido como cruzada.
mimetismo molecular. o Porque isso acontece? Os antígenos são
semelhantes e os anticorpos se ligam em ambos.
Já que a bactéria S. pyogenes faz mimetismo molecular
O atraso característico de 2-3 semanas até o início dos com células do organismo que estão tecido cardíaco
sintomas após a infecção é explicado como sendo o (valvas potencialmente), articulações, SNC, tecido
tempo necessário para a produção da resposta imune: celular subcutâneo.
não há estreptococos nas lesões. Os anticorpos antiestreptocócicos, então, reagem
Apenas a pequena minoria de pacientes infectados cruzadamente com autoantígenos e desencadeiam
desenvolve febre reumática (aprox. 3%), é provável que respostas inflamatórias pela ativação do sistema
haja suscetibilidade genética que influencia o complemento e mediadas por citocinas (interferona-
desenvolvimento das respostas imunes cruzadas. gama e fator de necrose tumoral-alfa).
IMPORTANTE: a bactéria que é atacada pelo organismo
MORFOLOGIA continua no local da infecção, mas os anticorpos ao
passarem por outras regiões do corpo onde existem
A febre reumática aguda é caracterizada por focos células próprias com características semelhantes,
inflamatórios isolados em diferentes tecidos. também atacam esses locais (ex. coração, que possui
Nódulos de Aschoff: miosina cardíaca, que faz o mimetismo com a proteína M
o São lesões inflamatórias encontradas no miocárdio e da bactéria).
são consideradas o patognomônicos (sinal ou
sintoma específico de uma doença) da febre
reumática.
o Consistem em acúmulos de linfócitos, plasmócitos
dispersos e macrófagos volumosos ativados (células
de Anitschkow).
Durante a febre reumática aguda, os nódulos de Aschoff
podem ser encontrados em qualquer uma das três
COMPLICAÇÕES - ESTENOSE E A REGURGITAÇÃO VALVAR
- PANCARDITE (inflamação generalizada do pericárdio, São as complicações mais importantes da DCR.
miocárdio e válvulas cardíacas).
VALVAS
O pericárdio exibe um exsudato fibrinoso, que
geralmente desaparece sem deixar sequelas. A valva atrioventricular esquerda (mitral) sozinha está
O envolvimento do miocárdio — miocardite — manifesta- afetada em 70% dos casos.
se na forma de nódulos de Aschoff dispersos no interior A valva atrioventricular esquerda e a valva da aorta
do tecido conjuntivo intersticial. estão comprometidas em 25% dos casos.
O envolvimento valvar resulta em necrose fibrinoide e A valva atrioventricular direita (tricúspide) é afetada com
deposição de fibrina ao longo das linhas de fechamento menor frequência (e com menor gravidade).
que formam vegetações de 1-2 mm — verrugas — que A valva do tronco pulmonar quase sempre escapa da
perturbam pouco o funcionamento do coração. lesão.
ESTENOSE MITRAL
Na estenose mitral intensa, o átrio esquerdo dilata-se
progressivamente por causa da sobrecarga de pressão,
o que precipita a fibrilação atrial.
A combinação de dilatação e fibrilação é um substrato
fértil para a trombose, e a formação de trombos murais
grandes é comum.
A congestão venosa passiva de longa duração provoca
- Vegetações pequenas (verrugas) são visíveis ao longo da linha de alterações no parênquima e nos vasos pulmonares que
fechamento das válvulas da valva atrioventricular esquerda (setas). são típicas da insuficiência cardíaca esquerda.
Episódios prévios de valvite reumática causaram espessamento Com o tempo, essas alterações levam à hipertrofia e à
fibroso e fusão das cordas tendíneas. falência do ventrículo direito.
- CARDIOPATIA REUMÁTICA CRÔNICA MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS
Caracterizada pela organização da inflamação aguda e - FASE AGUDA: inclui história de uma infecção
pela subsequente cicatrização. estreptocócica desencadeante e acometimento subsequente
Os nódulos de Aschoff são substituídos por cicatrizes dos componentes do tecido conjuntivo do coração, dos
fibrosas, de modo que essas lesões raramente são vasos sanguíneos, das articulações e das estruturas
vistas na cardiopatia reumática crônica. subcutâneas.
As válvulas das valvas tornam-se espessadas e
retraídas de modo permanente. - FASE CRONICA: caracteriza-se por deformidade
irreversível das valvas cardíacas e é uma causa comum de
- Classicamente, a valva atrioventricular esquerda (mitral) estenose da valva mitral. A CR crônica geralmente não se
exibe espessamento das válvulas, fusão e encurtamento desenvolve antes de no mínimo 10 anos.
das comissuras e espessamento e fusão das cordas
tendíneas. O exame microscópico revela Sintomas constitucionais: representado principalmente
neovascularização e fibrose difusa que destrói a pela febre, mas também anorexia e mal-estar (não são
arquitetura normal das válvulas. específicos para FR).
Sinais e sintomas cardíacos: cardite é a apresentação
mais incidente. É bem comum a existência de sopros,
pericardite e insuficiência cardíaca, sendo essa última
resultante da possível lesão valvar.
- Estenose mitral com Sinais na pele: Marcado principalmente pelo eritema
espessamento fibroso difuso e
deformação das válvulas da
marginade serpiginoso e de nódulos subcutâneos
valva, fusão das comissuras próximos as articulações.
(setas) e espessamento e Sinais articulares: Principalmente pela poliartrite,
encurtamento das cordas podendo haver ou não artralgia.
tendíneas. Sinal neurológico: Marcado pela coreia de Sydenham.
ARTRITE
Comum em 75% dos pacientes com FR, é um processo
inflamatório das articulações, sendo acompanhada pelo
inchaço, calor, eritema, limitação dos movimentos e
outros.
- Presença neovascularização Na maioria dos casos, acomete as articulações maiores,
inflamatória.
especialmente joelhos e tornozelos, embora menos
frequentemente possa afetar punhos, cotovelos, ombros
e quadris.
A artrite quase sempre é migratória, ou seja, afeta uma
articulação e depois outras (poliartrite).
CARDITE base, interferindo no circuito motor do paciente, que
apresenta esses movimentos involuntários.
A FR causa um acometimento do endocárdio e das
estruturas valvares.
Durante o estágio inflamatório agudo da doença, as
valvas as estruturas valvares tornam-se eritematosas e
inflamadas e formam-se pequenas lesões vegetativas
nas válvulas.
Aos poucos, as alterações inflamatórias agudas levam à
formação de tecidos cicatriciais fibróticos, que tendem a
contrair e causar deformidades das válvulas e
encurtamento da cordoalha tendíneas.
NÓDULOS SUBCUTANEOS DIAGNÓSTICO DE FEBRE REUMÁTICA
São duros, indolores e livremente móveis e, em geral, Anticorpo contra Estreptolisina O (toxina bacteriana).
aparecem nas superfícies extensoras das articulações Nomes: ASLO, ASO, AEO ou da antiestreptolina O.
do punho, cotovelo, tornozelo e joelho, com dimensões
variando entre 0,5 a 2 cm de diâmetro. - O anticorpo começa a se elevar após1 semana de infecção
A investigação desses nódulos no paciente é feito pela pelo Streptococcus e atinge o seu pico ao redor da 5° a 6°
palpação principalmente, por conta da dificuldade em semana, época em que o paciente já desenvolveu sintomas
encontra-lo somente por meio da inspeção. de febre reumática.
- Caso o resultado do teste seja positivo, não significa que
existe FR, mas sim que pode surgir o desenvolvimento
dessa patologia caso exista alguma predisposição genética,
uma vez que é uma doença autoimune.
- Um tratamento bem feito da infecção pelo Streptococcus,
pode diminuir significativamente o risco de FR.
VALVOPATIAS
A disfunção das valvas cardíacas pode ser causada por
ERITEMA MARGINADO fatores diversos, como anomalias congênitas,
traumatismo, lesão isquêmica, distúrbios degenerativos
São áreas maculosas com formato geográfico, e inflamação.
localizadas mais comumente no tronco ou nas Todas as quatro valvas cardíacas podem ser afetadas
superfícies internas do braço e da coxa, mas nunca na por alguma doença, porém as valvas mitral e aórtica são
face. acometidas mais comumente.
Essas lesões aparecem nos estágios iniciais de um Os distúrbios das valvas pulmonar e tricúspide não são
episódio de FR e tendem a ocorrer com os nódulos comuns, em razão da pressão baixa no lado direito do
subcutâneos e também com cardite. coração.
O eritema marginado é transitório e desaparece ao longo Os efeitos da cardiopatia valvar na função cardíaca
da evolução da doença. estão relacionados com as alterações do fluxo
sanguíneo através da valva e o aumento resultante da
demanda imposta ao coração.
ESTENOSE VALVAR: quando ocorre estreitamento do
orifício valvar, de modo que as válvulas não se abram
adequadamente. Isso aumenta a resistência ao fluxo de
sangue pela valva, transformando o fluxo laminar
normalmente suave em fluxo turbulento menos eficiente
INSUFICIÊNCIA VLAVAR: as válvulas não se fechem
normalmente, a valva incompetente ou regurgitante
COREIA DE SYDENHAM viabiliza o fluxo retrógrado quando a valva deveria estar
fechada.
É a manifestação neurológica central da FR e ocorre
mais comumente nas meninas, raramente depois da
idade de 20 anos.
Em geral, a criança é irritável, chora facilmente, começa
a caminhar desajeitadamente e deixa os objetos caírem.
Os movimentos coreiformes são movimentos
espasmódicos espontâneos, rápidos e involuntários, que
interferem com as atividades voluntárias. Caretas faciais
são comuns e até mesmo a fala pode ser afetada.
A fisiopatologia dessa manifestação consiste na ação
autoimune de anticorpos na ação autoimune de
anticorpos que se ligam a neurônios dos núcleos da
ESTENOSE DA VALVA MITRAL
Consiste na abertura parcial dessa valva durante a
diástole com distensão do átrio esquerdo e redução do
enchimento do VE, sendo causada, na maioria dos
casos, por FR.
É um distúrbio progressivo e contínuo ao longo de toda a
vida, caracterizada pela evolução lenta e estável nos
primeiros anos e aceleração progressiva nos anos finais.
Caracteriza-se por substituição dos tecidos valvares por
elementos fibrosos com aumento da rigidez e fusão das
válvulas.
À medida que a resistência ao fluxo pela valva mitral
aumenta, o átrio esquerdo dilata e a pressão atrial - Prolapso da valva mitral. A visão da valva mitral na perspectiva do
esquerda aumenta e é transmitida ao sistema venoso átrio esquerdo revela válvulas deformadas e redundantes, que
abaúlam para dentro da cavidade atrial esquerda.
pulmonar e causa congestão pulmonar.
ESTENOSE DA VALVA AÓRTICA
Causa o aumento da resistência à ejeção do sangue do VE
para dentro da aorta.
As causas mais comuns são malformações valvares congênitas
e calcificação adquirida da valva aórtica tricúspide normal.
Como a estenose aórtica desenvolve-se gradativamente, o VE
tem tempo de adaptar-se. Com a elevação da pressão sistólica
em consequência da obstrução, a parede do ventrículo
esquerdo torna-se mais, mas o volume normal da câmara
ventricular é mantido.
- Se trata de uma valvulite reumática crônica, nessa imagem mostra
válvulas rígidas, espessadas e fundidas com orifício estreito,
produzindo o aspecto típico de “boca de peixe” associado à
estenose mitral reumática.
REGURGITAÇÃO DA VALVA MITRAL
Caracteriza-se por fechamento parcial da valva mitral
com divisão do volume ejetado pelo ventrículo esquerdo
entre o fluxo sanguíneo anterógrado que avança para
dentro da aorta e o fluxo sanguíneo retrógrado que volta
para dentro do átrio esquerdo durante a sístole. REGURGITAÇÃO DA VALVA AÓRTICA
As alterações hemodinâmicas associadas à regurgitação
mitral crônica ocorrem mais lentamente, viabilizando a É resultado da incompetência valvar, que possibilita ao
ativação dos mecanismos compensatórios. fluxo sanguíneo refluir para dentro do VE durante.
O aumento do volume associado à regurgitação mitral é Consequentemente, o VE precisa aumentar o volume
relativamente bem tolerado e alguns pacientes com este ejetado para incluir o sangue que entra dos pulmões e
distúrbio continuam assintomáticos por muitos anos. também o que reflui pela valva regurgitante.
O grau de dilatação do ventrículo esquerdo reflete a A regurgitação aórtica pode ser causada por distúrbios
gravidade da regurgitação. que provocam fibrose das válvulas, ou ampliação do
orifício valvar até que as válvulas não possam mais se
encontrar.
Existem várias causas de regurgitação aórtica, inclusive
FR, dilatação idiopática da aorta, anomalias congênitas,
EI e síndrome de Marfan.
PROLAPSO DA VALVA MITRAL
As alterações patológicas incluem degeneração
mixedematosa (mucinosa) das válvulas mitrais,
tornandoas maiores e flácidas, razão pela qual sofrem
prolapso ou abaúlam para dentro do átrio esquerdo
durante a sístole.