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Nina Rosa: A Chegada da Prima

A família Servane recebe friamente Nina Rosa, sua prima órfã. Apesar da hostilidade, Nina demonstra coragem e presença de espírito. Ela surpreende os primos com sua beleza e inteligência, embora eles tentem intimidá-la. Geraldo fica especialmente irritado com a ousadia de Nina em perguntar seu nome.

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Lucia Valle
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Nina Rosa: A Chegada da Prima

A família Servane recebe friamente Nina Rosa, sua prima órfã. Apesar da hostilidade, Nina demonstra coragem e presença de espírito. Ela surpreende os primos com sua beleza e inteligência, embora eles tentem intimidá-la. Geraldo fica especialmente irritado com a ousadia de Nina em perguntar seu nome.

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Nina Rosa

Nina Rosa

Guy Wirta
Autor: Guy Wirta
Cover design: Lucia Shaw
Título original: Ninon Rose.
BIBLIOTECA DAS MOÇAS
Volume 4
Traduçã o de PEPITA DE LEÃ O
9ª Ediçã o
Revisã o: Lucia Shaw
Primeira Parte

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CAPÍTULO 1

Muito elegante no traje de festa, Geraldo de Servane entrou na sala cor


de ouro e lilá s, onde estavam a mã e e a irmã : ambas silenciosas, as
frontes assinaladas por uma mesma ruga ansiosa, que à mais velha
dava ar quase impertinente, e à outra fisionomia dura e impenetrá vel.
Isto desagradou a Geraldo, que murmurou, irô nico:
— Pode-se saber o motivo?
— De quê? perguntou a moça, asperamente.
— Oh... dessa tristeza.
— Nã o estamos tristes: meditamos!
— E essa meditaçã o tem por objeto a prima loura ou morena, feia ou
bonita, que chegará daqui a pouco pelo trem das cinco e quarenta?
— Cale-se, Geraldo, disse a duquesa de Servane, impacientada; por
que fala levianamente num assunto que nos é a todos tã o penoso?
— É a lei da necessidade! Nã o podíamos deixar de acolher em casa
essa criança sem família.
— Ela podia ter uma dama de companhia; é rica, replicou Teresa,
duramente.
— Afeiçã o nã o se compra!
— Oh! se é de afeiçã o que ela precisa, garanto-lhe, Geraldo, que nã o a
encontrará aqui! Seu pai nã o era mais que um primo germano nosso,
que, casando-se com aquela filha de comerciante enriquecido, rompeu
sem dificuldade esse frá gil liame de família, que nã o lhe contesto, oh!
nã o!... Pelo que esse título lhe valerá a ela aqui...
Mesmo depois de calada, ainda a voz da moça ressoava na sala; e suas
palavras pareciam ter abalado os coraçõ es demais altivos da mã e e do
irmã o. Seguiu-se momento de silêncio: Teresa tinha tal maneira de
erguer a bela cabeça morena, de dizer palavras duras com certa
lentidã o desdenhosa, que tocava mais que a có lera.
Nisto, entrou o pai, e ela lhe foi ao encontro, inclinando um pouco o
porte de rainha, para se deixar beijar:
— Nã o é verdade, papai, que o senhor me aprova? Nã o ouvira ele a
conversaçã o precedente; mas, ao entrar, vira Teresa de pé, fremente,
os olhos muito negros... Entã o, adivinhara tudo... E aprovou. Leu-lhe a
filha nos olhos e triunfou.

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— Essa pequena suportará boas aqui! Que fará diante de nossos ares
pouco carinhosos? Confessemo-lo...
— Ora, disse secamente o duque; minha pupila é sem dú vida uma
pensionistazinha muito tímida, a quem inspiraremos muito respeito.
— E que nã o terá remédio senã o se submeter a esse regime... ou
partir!
Estava esgotado o assunto: Teresa retomou o bordado; a mã e fechou
os olhos, cansada, apoiando ao encosto da poltrona brasonada a
cabeça loura ainda admirá vel, talvez endurecida pelos supercílios
alongados a lá pis, mas branda, felizmente, pelo desenho delicado dos
lá bios.
De comum acordo, para fugir a uma segunda conversaçã o tã o penosa
como a primeira, o duque e o filho passaram ao terraço.
Nã o se pareciam os dois homens: os cabelos do duque estavam
completamente grisalhos; o rosto escanhoado e anguloso; os lá bios
delgados. O marquês tinha a fronte alta, e o ar à s vezes autoritá rio do
pai, mas herdara da mã e os olhos de um azul profundo, que, sob o
império da có lera, ficavam quase negros; os traços regulares,
suavizados ainda por fino bigode castanho, as maneiras a um tempo
altivas e sedutoras, que faziam dele o homem mais encantador, que
toda Paris disputava, tanto por causa do nome, como pela reputaçã o
de desportista consumado.
Em Servane também era ele admirado. Alguns contudo o temiam: o
camponês que nã o tem, por toda riqueza, senã o seu coraçã o e suas
mã os, detesta facilmente aquele que ignora o trabalho e parece
incapaz de amar. Tê-lo-iam adivinhado Geraldo e Teresa, quando,
muito altivos, passeavam na vila?... Talvez, pois acentuavam ainda
mais a desdenhosa indiferença pelos que esperavam deles a palavra
que sabe calmar as má goas ou o encorajamento que alivia o trabalho
rude da terra.
— Eis o automó vel! disse de repente o duque, entrando
precipitadamente na sala.
Nã o querendo ir sozinho acolher a viajante, Geraldo voltou também à
penumbra luminosa da sala lilá s e ouro. A duquesa, ergueu-se, quase
trêmula. Entã o, indiferente. Teresa disse:
— Que ar de parada! Parece que esperamos uma princesa!
Estas poucas palavras amá veis tiveram o dom de restituir o sangue-
frio a todos. Aparentando indiferença, Geraldo encostou-se à chaminé:
mas um observador atento poderia ver que os olhos azuis se tornaram

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negros; o duque sentou-se em frente da mulher, que achou melhor
assumir ar mais desdenhoso; Teresa tivera a dignidade de nã o se
incomodar ao anú ncio do automó vel; assim, contentou-se em abrir
um volume qualquer, a fim de mostrar bem à prima desconhecida ser
ela uma estrangeira que ignoravam, e que queriam sempre ignorar!
E quando a criada anunciou, abrindo a porta: "A senhorita Servane...",
nã o houve movimento na linda sala! Foi este o acolhimento afetuoso
de que zombara há pouco Teresa, e que sem dú vida ia gelar de dor a
descendente dos Servane, ao franquear, pela primeira vez, o limiar do
castelo ancestral.
A moça, que a criada anunciara, deu alguns passos na sala. Trajava
vestido de viagem, discretamente elegante; ao lado da majestosa
Teresa, pareceria pequena, mas era graciosa e bem proporcionada.
Sem se desconcertar com tã o triste acolhimento, colocou sem
cerimô nia o chapéu sobre o mó vel mais pró ximo; os olhos altivos que
a fitavam viram uma cabecinha de fada, cabelos rebeldes, de um louro
dourado, flutuando ao redor do rosto branco e ró seo, de perfil puro;
boca pequenina como cereja, e sobretudo, oh! sobretudo: dois grandes
olhos negros, pontilhados de ouro, verdadeiros olhos de oriental, a
olharem, admirados, o estranho espetá culo que se lhes oferecia!
Em vã o a duquesa procurava no delicado rosto um traço qualquer,
que traísse a origem plebeia da mã e. Nã o havia como negar: em todo o
seu exterior, desde a bela fronte até o delicado pezinho, era a
desconhecida uma verdadeira Servane, uma patrícia pequenina, que
nem mesmo olhos prevenidos podiam deixar de admirar.
— Creio que nó s a intimidamos agora, pensou Teresa, a primeira a
voltar a si da surpresa.
Mas foi logo quebrantada a sua fé no pró prio poder pessoal. A criança
também recobrara a presença de espírito. Teresa viu os lá bios se
adelgaçarem imperceptivelmente num meio sorriso malicioso; depois,
a prega severa tornou a vincar a boca ró sea.
Menos clarividente que a filha, segura de haver pelo menos
aterrorizado a intrusa, a duquesa ergueu-se com majestade e, achando
que o silêncio já durara bastante, dignou-se a dizer desdenhosamente:
— Sou a duquesa de Servane!
Outros teriam perdido todo o aprumo diante desta entrada no
assunto; a priminha, porém, nã o pareceu de modo algum
desconcertada. Adiantou-se dois passos para se pô r bem em face da
agradá vel parenta e, com ar câ ndido, que Geraldo achou terrivelmente

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impertinente, fixou a nobre duquesa da cabeça aos pés; depois,
girando nos calcanhares, achou-se cara a cara com o duque:
— E o senhor, quem é?
Furioso, o duque respondeu, num grunhido.
— Eu o adivinhara, disse suavemente a travessa... E a senhorita,
quem...
— Sou Teresa de Servane, interrompeu. a moça, com profunda
surpresa dos primos, tirou depressa o véu espesso, que lhe
dissimulava o rosto.
O olhar negro, destinado a fulminar a linda cabeça, nã o pareceu
produzir efeito. Imperturbá vel, ia a menina continuar seu
interrogató rio, quando se deteve de repente diante da terrível
catadura de Geraldo. Nã o que isso a tivesse assustado... oh! nã o. Era
preciso outra coisa, sem dú vida, para aterrar aquela corajosa
criaturinha; mas é sempre divertido observar um senhor muito
irritado interiormente, contido apenas pela obrigató ria cortesia de
homem de sociedade. Julgou que nunca a prima ousaria repetir a
impertinente pergunta diante de primo tã o assustador.
No entanto, a vozinha ergueu-se ainda uma vez, muito clara, no
silêncio ameaçador de tempestade:
— E o senhor, quem é?
Um raio, caindo aos pés do jovem marquês, nã o produziria mais efeito.
Franziu o sobrolho e Teresa, sempre pronta a salvaguardar a preciosa
"dignidade" em perigo, achou prudente provocar uma digressã o:
A criada vai conduzi-la ao quarto. Jantamos à s 7 horas... precisas.
E frisou o adjetivo, para fazer uma ordem da indicaçã o obrigató ria;
era também uma despedida feita polidamente. A moça compreendeu-
o e deu um passo para a porta. Este movimento de retirada arrancou a
duquesa de sua estupefaçã o indignada; com um gesto imperioso,
chamou a prima:
— Nã o se dignou dizer-nos o seu nome, senhorita. Teremos nó s a
honra de sabê-lo?
A contragosto, Geraldo prestou ouvido atento à resposta. A fadazinha
nã o devia trazer o nome de todo mundo. Seu desejo instintivo de
diletante nã o foi iludido.
— Chamo-me Nina Rosa, disse a voz cristalina de entonaçõ es um
pouco cantantes.
— Nina! Mas isso nã o é nome! gritou a duquesa, estouvadamente.

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— A senhora se esquece, minha prima, de que minha bisavó se
chamava assim, e de que este nome, repetido muitas vezes em nossa
genealogia, parece bem apropriado para uma Servane?
— Como se esqueceu disso, minha mã e, murmurou Geraldo, baixinho.
Satisfeita com o efeito produzido, Nina Rosa retomara o chapéu e o
véu.
— Você me chamará "minha tia", disse a duquesa, tomando resoluçã o
repentina; e dirá "Teresa" à minha filha. Aos olhos da sociedade, é
melhor assim. Quanto a meu filho, ele lhe dirá o que prefere.
A pequena impertinência estava ainda muito viva no espírito de
Geraldo para que nã o procurasse vingar-se dela. Como Nina esperava
a expressã o do seu desejo, já com a mã o no trinco da porta, disse
inclinando-se cerimoniosamente, furioso contra si mesmo por
sacrificar à sua dignidade ultrajada o prazer de pronunciar o nome
encantador:
— Minha prima... será como você quiser! Escarninha, exagerando a
inclinaçã o do jovem
marquês:
— Compreendo, meu primo, disse ela. E fugiu, numa risada.

CAPÍTULO 2

Jaime e Joã o de Servane foram criados juntos em castelo de seus


antepassados. Amava o duque ao sobrinho
tanto como ao filho e as duas crianças cresceram uma ao lado da
outra, afeiçoando-se muito, posto que de caracteres bem diferentes. O
filho do duque era frio, autoritá rio, tardo em amar, pronto em odiar;
Joã o era um sonhador e, mais, um entusiasta; ignorava o ó dio, amava
ardentemente, entregando-se todo inteiro. Desgraçadamente, a
educaçã o que o duque deu aos dois serviu para entreter e aumentar as
falhas de suas qualidades, ao passo que estas ú ltimas ficavam na
sombra: Jaime tornou-se um moço insensível aos males alheios,
egoísta e sombrio. Joã o tinha teimosias terríveis de vendeano e, muito
embriagado de ideal, teve com o primo as primeiras discussõ es.
A religiã o teria podido melhorar estes dois caracteres. Mas
infelizmente o duque nã o cria. Atingido no coraçã o pela morte

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prematura da mulher e de dois filhos, que sucumbiram a uma
epidemia, tinha-se afastado para sempre d'Aquele que, ú nico, pode
curar feridas tã o profundas! Fora o primeiro, na nobre linhagem dos
Servane, a faltar ao dever de cristã o; parecia ter renegado os heró is da
Vendéia, seus antepassados, que, à frente de seus camponeses,
marchavam para a morte com a imagem do Sagrado Coraçã o sobre o
peito!
Aos vinte e oito anos, Jaime enamorou-se de uma moça que encontrou
nos salõ es de Paris. O amor parecia abrandar-lhe o cará ter; foi bom
marido, e quando, um ano mais tarde, se inclinou sobre o primeiro
filho, teve para ele palavras muito ternas, que lhe conquistaram de
novo o coraçã o de Joã o. Este fazia o pequenino Geraldo chamá -lo "meu
tio" e, quando Teresa veio ao mundo, três anos depois, o duque e a
duquesa pediram-lhe que fosse seu padrinho.
Alguns meses mais tarde, toda a família instalou-se em Paris. A jovem
duquesa, muito afetuosa para o marido, boa para os filhos, divertia-se
à s vezes em tiranizar aquele que ela chamava rindo "seu cunhado";
Joã o, entusiasmado pela beleza da prima, dobrava-se a todos os seus
caprichos. Naquele ano, assaltou-a repentina paixã o pelas
antiguidades preciosas... e custosas.
De bom grado o moço percorreu os quarteirõ es mais pró prios para
lhe fornecerem o que procurava. Uma manhã , julgou ter descoberto o
melhor antiquá rio da capital. Foi recebido por um nobre velho de
longas barbas brancas, que, com o desembaraço de grande senhor, o
conduziu à s magníficas galerias, onde, em desordem pitoresca, Joã o
viu coisas maravilhosas; tudo isso aparecia numa luz roxa, ró sea,
verde, vinda da abó bada de vidros coloridos que coroava a peça
central, onde convergiam as galerias.
No meio de todos estes ouros mareados, dos marfins amarelados, na
cintilaçã o dos estofos preciosos, havia uma mulher vestida de branco,
curvada sobre um bastidor antigo, bordando com os finos dedinhos
flores matizadas sobre cetim azul.
O antiquá rio disse simplesmente a Joã o:
— Minha filha Rosela!
O marquês saudou profundamente a moça, que levantou um instante
os olhos enquanto uma onda ró sea lhe coloria as faces.
O primo do duque guardou só para si o segredo desta apariçã o. A
duquesa nem soube das riquezas contidas naquele palá cio das "Mil e

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uma noites". No fim de um mês, Joã o era noivo de Rosela Valnoy e
alguns dias mais tarde participava-o ao primo.
Desencadeou assim no duque uma có lera incrível; mas nã o cedeu:
Rosela era de boa família tã o rica como ele, cristã e pintada de
qualidades encantadoras! ... Rosela seria sua mulher. Nã o tinha título,
é verdade!... Esse título, Joã o lhe daria!
Daí a dois meses, a filha do antiquá rio era marquesa de Servane.
Foram felizes porque se amavam, e, ao pé da mulher e no berço da
filha, Joã o se esqueceu dos rancores do duque; e padeceu menos com
o exílio, longe do castelo de Servane, daí por diante fechado para ele.
O jovem casal instalara-se nos arredores de Rennes, em linda vila
pertencente ao antiquá rio. Este veio para junto deles, quando nasceu
Nina Rosa, a fim de fugir, como eles pró prios, daquela Paris, onde cada
inverno lhes traria o eco das festas do palá cio de Servane. Sua
felicidade durou doze anos. Joã o morreu em um acidente de montaria.
A frá gil Rosela nã o pô de suportar a horrível desgraça; morreu um ano
mais tarde, recomendando ao pai a pobre filhinha.
Viveu Nina Rosa com o avô longe do mundo, ignorando-o e nã o
desejando conhecê-lo. Quando o velho sentiu que as forças lhe
diminuíam, chamou a mulher de um de seus amigos e pediu-lhe que
velasse pela menina quando ele já nã o vivesse. Morreu um mês
depois; Nina tinha quinze anos. Deixou a linda vila, aonde fora tã o
amada; mas encontrou também muita afeiçã o no castelo de Breval.
Sem filhos, os castelõ es acolheram-na como uma filha, e o senhor de
Breval deu os passos necessá rios para ser nomeado tutor em
substituiçã o do avô . Julgava naturalmente que o duque de Servane nã o
queria outra coisa, senã o se desonerar de um título que de direito lhe
pertencia, visto como seu rancor nã o se havia jamais desmentido.
Iludia-se! Numa carta friamente polida, o duque agradecia aos
senhores de Breval, e declarava manter seus direitos de tutor; em
consequência disso, a menina de Servane iria para um internato de
Rennes, até os dezoito anos, para vir em seguida habitar o castelo que
seu pai desertara. Davam-lhe, entretanto, toda a liberdade de passar
as férias no castelo de Breval; desejavam os Servane travar
conhecimento com essa parenta o mais tarde possível.
Esta resposta indignou os senhores de Breval, mas, como Nina tinha
alma viril, mostraram-lhe a carta.

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— Obedecerei, disse ela simplesmente. Se Deus me quer lá daqui a
três anos, é que tenho sem dú vida muito bem a fazer. Mamã e
converteu o papai... Quem sabe se nã o os converterei?
Todos os anos, Nina Rosa passava as férias no castelo. Amimavam-na
como a uma pequena rainha, e ela soube retribuir. Foi ternamente
afetuosa, alegrando a casa com seus risos e cantares, à s vezes travessa
como um nené, e aceitando as reprimendas com arzinho
desconsolado, que fazia com que lhe perdoassem sempre.
Acabava de sair do internato, e pensava gozar ainda dois meses de
férias no castelo de Breval, quando, na noite do seu aniversá rio, apó s
uma louca corrida no parque com seu pseudotutor, foi chamada pelo
duque de Servane. Tinha ainda os lá bios cheios de risos; o toucado,
erguido nesse dia pela primeira vez, desenrolava-se a meio sobre o
alvo pescoço, retido apenas pela coroa de flores com que, por inocente
brincadeira, a ornara o velho amigo; e eis que agora as lá grimas
sulcam as faces pá lidas, cavadas havia pouco de covinhas. As
mã ozinhas crispavam-se nervosas sobre as frescas flores que lhe
enchiam os braços. Foi um curto desfalecimento. Nina Rosa reagiu
bem depressa e, correndo para a senhora de Breval, em impulso
afetuoso:
— Nã o chore, madrinha, murmurou-lhe ao ouvido; farei bem à queles
que tanto mal fizeram a meu pai!
... E foi todo o ressentimento do seu coraçã o.

CAPÍTULO 3

Dez minutos antes da hora do jantar, Nina Rosa pô s-se à procura de


um criado. Como Teresa se esquecera do seu dever de dona-de-casa,
força lhe era prover a isso e achar a sala de jantar. Uma criada da
regiã o parecia esperá -la ao pé da grande escadaria de honra, pois
ergueu vivamente a cabeça ao leve rumor que fez Nina ao descer. Era
uma mulher muito velha, cujos bandó s brancos mal apareciam sob a
coifa vendeana. Juntou as mã os, ao ver a moça, como em êxtase, diante
de uma apariçã o.
É que era encantadora essa criança que descia os largos degraus
cobertos de veludo pú rpura; o leve vestido de seda pompadour,
adornado de filó vaporoso, tornava-a infinitamente delicada; algumas

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rosas presas sobre o veludo negro do cinto e nos cabelos
negligentemente amarrados sobre a nuca: aquelas rosas ainda frescas,
que a madrinha lhe dera à partida, e que agora desabrochavam de
novo. Tivera o cuidado de, ao chegar, mergulhá -las na á gua, a fim de
guardarem por muito tempo o perfume de Breval.
Teresa, maldosamente, nã o dissera à prima que jantavam sempre em
traje de noite; mas, para lhe evitar algum sarcasmo da parte dos
parentes, a maternal senhora de Breval preparara Nina para a vida
excessivamente mundana que iria levar agora.
Meio ató nita pela admiraçã o que provocava. Nina parou. Depois,
iluminada por luz repentina, desceu como pé de vento os ú ltimos
degraus, em lindo ruge-ruge de sedas.
— Você é Marianik, a ama do papai? disse ela. Falou-me de você tantas
vezes! Amava-a muito... Eu também, Marianik, eu a estimo.
Comovida, a velha tomou as mã ozinhas estendidas para ela:
— Oh, minha menina! A senhora é uma verdadeira Servane! Parece-se
com o sr. Joã o.
Depois, sú bito, como espantada de ter falado tã o alto:
— Venha comigo, vou indicar-lhe a sala de jantar. É bom que nã o nos
vejam a entender-nos tã o bem! Isso nos traria mau resultado, minha
pequena!... Desculpe-me. Penso falar com uma das minhas!
— Eu o sou também, disse Nina gentilmente; você é um pouco minha
avó .
A velha, que precedia Nina nos grandes corredores, parou de repente:
— Escute, murmurou com ar de sibila, eu lhe predigo que um dia
todos eles lhe farã o todas as vontades!...
— Até o bravio marquês?
A vendeana estendeu a mã o:
— Ele primeiro, disse muito séria.
A prediçã o era tã o extraordiná ria, que cavou dois sulcos nas faces de
Nina. Ela nã o via "o senhor meu primo" a seus joelhos. Estalou-lhe nos
lá bios o riso que nã o pô de sopitar.
— Psiu! disse a velha; a sala de jantar é depois destes dois salõ es, o
criado está à porta... Um porteiro do palá cio de Paris, que nã o gosta da
criadagem de Servane... Adeus!...
— Espere, Marianik, espere!
E vivamente retendo a velha por uma aba do avental de rendas:
-? A que horas é a missa aqui? A criada empalideceu de emoçã o:
— Entã o o sr. Joã o ia à missa?

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— Ia, sim, mamã e converteu-o... Diga depressa, a que horas?
— Sete horas; é cedo demais para a menina, pobre pequena! A essa
hora, todos dormem ainda, salvo o moço marquês, que sai algumas
vezes a cavalo: mas a senhora tratará de lhe escapar!... E depois disse
ainda, tornando a se aproximar, se lhe recusarem, resista! Todos nó s,
os antigos servidores, temos resistido... Eles quiseram impedir-nos de
ir à nossa igreja; fomos, mesmo assim, e nã o ousaram dizer mais
nada... O banco dos senhores está vazio há tanto tempo!
— Nã o o estará mais agora, disse altivamente Nina Rosa, deixando a
tenaz vendeana.
No primeiro salã o, encontrou um grande criado, que se julgou
obrigado a anunciá -la.
Hesitou um instante antes de dar o nome.
— Afinal, pensou, este título era de meu pai; nã o vejo por que me
privar dele!
E friamente disse:
— A marquesa de Servane.
O servidor abriu a porta do segundo salã o, com açodamento que lhe
desagradou, e a voz solene anunciou:
— A marquesa de Servane!
Houve um movimento de admiraçã o no grupo que, trajado a rigor,
parecia conspirar ao fundo do salã o. Sem olhar para a pequenina
marquesa, que sorria maliciosamente, Geraldo encaminhou-se ao
criado estupefato:
— Para o futuro, nã o dê mais esse título à senhorita, disse ele, muito
irritado.
Ao começo do jantar, nenhuma palavra foi dirigida à pobre menina; o
duque e o filho discutiam alguma questã o política; Teresa e a mã e
entretinham-se acerca de suas relaçõ es e transparecia, das suas
palavras, que amavam loucamente Paris, onde a família passava os
invernos.
Nina Rosa escutava pacientemente este palavró rio: nã o se lembrava,
em toda a vida, de ter estado tanto tempo sem falar. Assim, aproveitou
o primeiro momento de silêncio para dizer tranquilamente:
— A propó sito, minha tia, quebrei alguma coisa no meu quarto.
— Nã o há duas horas que chegou e já achou meio de...
— Nã o é necessá rio um quarto de hora para se quebrar uma perna,
minha tia, e até a cabeça!
— Chega de brincadeiras... Que foi que você quebrou?

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— O busto de um velho grego ou romano que me dardejava olhares
furiosos, como os seus, "senhor meu primo", e que assentava sobre
uma coluna mais alta que minha humilde pessoa... coluna que teve a
desastrada ideia de se achar no meu caminho.
Teresa saiu do seu mutismo para se enfurecer contra a impertinente:
— E você nã o podia prestar atençã o? Era visível, parece-me, essa
coluna!
— Nã o para mim, que tinha os olhos fechados.
— Você tinha os olhos...
— ...Fechados, perfeitamente!
— Entã o você perdeu a cabeça! gritou Geraldo, esquecendo-se da
presença dos criados.
— Se você quiser ver a presença desse objeto sobre minhas espá duas,
ficará tranquilo, "senhor meu primo".
— Mas nã o se explicará , enfim? disse o duque, surdamente.
— De boa vontade! disse Nina Rosa, cada vez mais calma, ao passo que
fazia ferver o sangue aos outros.
Apó s uma pausa, continuou:
— Foi assim: tive medo que a tapeçaria do meu
quarto me causasse uma comoçã o cerebral.
— É que há lá pá ssaros fantá sticos, serpentes. dragõ es medonhos:
tudo aquilo se agita, se remexe sobre um fundo cor de mostarda... Ora,
nã o gosto de mostarda!
Sentiu a duquesa um tremor e Nina pensou que a mostarda lhe
chegara ao nariz.
— Será preciso lembrar-lhe a presença dos criados? Nã o se
envergonha ao pensar que suas palavras serã o repetidas na cozinha?
— Oh! parece-me que a mostarda ali estará no seu lugar.
Desta vez, julgou a travessa que iam mandá -la embora; assim, achou
prudente dirigir as baterias para outro ponto.
Vira a tia corar à s suas palavras; nem todos os quartos do castelo
eram cor de mostarda; havia-os lilases, ró seos à pompadour, etc. O
tapeceiro de Paris, chamado seis meses antes, recebera ordem de
modernizar todas as peças. Foram modernizadas, e com o maior luxo;
um ú nico quarto nã o sofreu mudança, o mais feio, aquele que
sobretudo mais carecia dela! Fechara-o a duquesa a chave e dissera
que os operá rios nada tinham a fazer ali. Era o quarto que reservava à
filha de Rosela Valnoy e devia substituir o lindo ninho branco e rosa
que lhe preparavam sempre no castelo de Breval.

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— Meu tio, perguntou de repente Nina, faça-me o obséquio de dizer a
que horas poderei ir à missa amanhã ?
— Nó s aqui nunca vamos à missa, minha sobrinha.
— É esse o seu grande erro, meu tio.
— E você também nã o irá !
— Acredita isso, meu tio?
Como Nina continuava a comer com um ar câ ndido, o duque pensou
que ela nã o compreendera. — Isto é uma ordem que lhe dou, Nina
Rosa.
— Nã o duvidei disso nem um instante, meu tio. Até o fim do jantar, a
traquinas guardou silêncio
prudente, julgando sem dú vida que primos e primas deviam ter a
paciência esgotada.
Antes de se retirar para o quarto, foi-lhes dar gentilmente as boas-
noites. Ninguém lhe respondeu. Entã o, pérfida pontada no coraçã o fez
subirem as lá grimas aos olhos da criança. Era a primeira noite na sua
vida que ninguém a beijara nem a amimara com essas palavras pueris,
que dizem tanta coisa ao coraçã o da juventude. Mas logo, chamando a
si toda a energia, recalcou as lá grimas e, risonha, com terno gesto
dirigido aos retratos dos avó s, que guarneciam a sala:
— Boa noite, avó s, disse ela.
E, imitando uma vozinha avelhantada, respondeu a si mesma:
— Boa noite, minha netinha!...

CAPÍTULO 4

No dia seguinte, à s oito horas, começava Nina Rosa alegremente seu


almoço. Tinha já ido à missa; todo mundo dormia ainda; nã o lhe
aparecera no horizonte o primo. Assim gozava em paz o seu primeiro
rasgo de audá cia.
Ia o criado ficar para servi-la, mas despediu-o, alegando que
costumava servir-se por suas mã os.
Desembaraçada do importuno, deitara o chocolate fazendo-o
espumar, para divertir-se, quando a porta se abriu violentamente:
apareceu o marquês Geraldo, em traje de montar, o chicote ainda na
mã o, tã o pá lido de có lera, que Nina perguntou a si mesma se aquele
instrumento nã o era destinada a punir-lhe a desobediência.

17
Avançou alguns passos para se achar em face da mesinha de Nina
Rosa, que cortava cuidadosamente o pã o dourado em fatias delgadas.
— Foi à missa hoje, minha prima? perguntou ele, duramente.
— Sim, meu primo!
— E ousou infringir a ordem formal de meu pai?
— Sim, meu primo!
— Sabe você que é uma verdadeira revoltada?
— Nã o o imaginava, meu primo!
— Oh! Mas isto!... Você já acabou?
— De almoçar? Nã o, meu primo, apenas comecei.. O desembaraço de
Nina sufocou a tal ponto Geraldo, que o deixou sem palavras.
Tendo acabado de se divertir com o pã o, a menina puxou a
manteigueira e pô s-se a fazer pequeninas fatias, dignas de figurar em
mesa de boneca.
Estava em meio da operaçã o, quando levantou a cabeça:
— Oh! você ainda está aí, senhor meu primo? Ainda nã o almoçou?
Sente-se aqui na minha frente; o chocolate ainda está quente, vou
fazer-lhe lindas fatiazinhas, como as minhas... Mas entã o! Aonde vai
você?
Nã o podendo mais conter-se diante daquela criança mais forte que
ele, Geraldo de Servane, pela primeira vez, batera em retirada!
Apó s a cena que lhe oferecera o primo, Nina Rosa esperava ser
chamada à presença do duque. Isso nã o demorou. Pelas dez horas,
veio um criado informá -la de que o tutor a chamava. Dirigiu-se para o
gabinete do castelo, vasta e solene peça muito ensombrada por
espessos panejamentos, que dissimulavam as janelas até aos três
quartos; Nina teve um arrepio involuntá rio. Era feita de tal modo para
a luz, a loura marquesinha!
Estava o duque sentado diante de elegante secretá ria Império; em pé,
a seu lado, mantinha-se Geraldo, em atitude pouco tranquilizadora
para Nina.
— Uma cena de tribunal, pensou a moça para nã o perder a coragem.
O duque voltou-se a meio;
— Sente-se, peço-lhe, disse glacialmente.
A moça obedeceu e, com ar dó cil, tomou a primeira cadeira que
encontrou, a mais afastada do duque.
— Dispenso-me de qualificar seu procedimento desta manhã , menina,
continuou ele naquele tom frio, que contrastava singularmente com os

18
arrebatamentos do filho; mas digo-lhe uma coisa: é que você se
esqueceu da obediência que uma pupila deve ao tutor!
Nina ergueu para o duque o claro olhar.
— E nã o há outra coisa de que o senhor mesmo se esqueceu, meu tio?
— E qual é ela, se faz favor?
— Que um Servane nã o deve jamais faltar ao seu dever?
Geraldo saltou:
— Meu pai faltou!... Você ousa...
De pé agora, toda vibrante, ela replicou:
— E repito-o: faltou ao seu dever! E nã o sou só eu quem o diz,
continuou, exaltando-se; sã o todos os seus antepassados, meu tio,
todos, todos!... O senhor nã o acredita mais em Deus; eles creram com
toda a força da sua alma!... Seus filhos nã o conheceram jamais as
doçuras da religiã o; os deles reuniram-se para a oraçã o na capela, da
qual o senhor fez uma biblioteca!... Eles eram verdadeiramente felizes,
porque o eram em Deus! E o senhor, meu tio, é também feliz?
A voz de Nina Rosa se abrandara; sentia-se nela a piedade misturada
de ternura instintiva, o que perturbou o duque e o filho.
Contudo, o orgulhoso Geraldo recomeçou:
— Em que se intromete você, minha prima? Na verdade, assenta-lhe
bem repreender-nos! Você defende uma causa que nã o é a sua.
-. Engana-se: toda causa cristã é a minha causa.
— A de nossa nobreza nã o o é mais!
— Por quê? Por que em minhas veias um sangue plebeu se misturou
ao vosso sangue azul? No entanto, é o sangue de minha mã e que vale
mais; é o sangue cristã o que lhe falta, senhor, e que todos os seus
antepassados tinham! Aí está por que, dos cinco descendentes da
minha família, a ú nica que é uma verdadeira Servane sou eu!... Negue-
o!... Se os seus avó s voltassem, a quem iriam eles estender a mã o, ao
senhor ou a mim?
Nunca ninguém falara assim aos orgulhosos castelõ es! Pela primeira
vez, alguém lhes fazia frente, de modo tal que, interiormente, se
confessavam vencidos, e esse alguém era uma moça, uma criança!... A
filha de Rosela Valnoy!
— Vá embora! bradou Geraldo... Vá embora! Ela obedeceu, mas sem
deixar de olhar para os
dois homens, ambos igualmente transtornados. Aos recuos, ganhou a
porta e, antes de sair, apenas disse:

19
— Eu nã o queria magoá -lo, meu tio; desejava tanto que todos fossem
felizes!
A moça já chegara ao quarto e os dois homens ainda nã o haviam
voltado a si da surpresa.
Ao almoço, a duquesa observou que seria talvez tempo de apresentar
Nina Rosa aos castelõ es dos arredores.
— Por quê? perguntou a jovem inocentemente... A senhora quer casar-
me, minha tia?
— Agradeceria infinitamente, se guardasse suas reflexõ es só para si, e
faço muito empenho em que
você se comporte muito bem durante as visitas... Talvez nunca as
tenha feito? acabou a duquesa com ironia.
— De que planeta me julga entã o caída, minha tia?
— Nã o se sabe!... Com a educaçã o que você recebeu...
— Fique tranquila, minha tia; em cada um de seus salõ es se poderá
dizer de mim: "Aí está uma verdadeira Servane!", o que se nã o pode
dizer de todo o mundo, nã o é, senhor meu primo?
A recordaçã o da cena da manhã trouxe violento rubor à face de
Geraldo; o duque felizmente nã o ouvira.
Decidiu a duquesa que tomariam o automó vel; Teresa notou que o
carro era muito melhor para visitas, mas, querendo acabar o mais
depressa possível as apresentaçõ es de Nina, a mã e nã o mudou de
ideia.
Duas horas depois, a esplêndida limusine deixava o parque. O tempo
estava soberbo e a marquesinha sentiu que a tia obrigasse o chofer a
fazer sessenta, quando havia pelos caminhos tã o lindas flores para
colher e nas folhagens pá ssaros tã o lindos para escutar.
O duque ficara no castelo. À ú ltima hora, Geraldo resolveu
acompanhar as três senhoras, de modo que Nina teve um vizinho de
frente pouco agradá vel. Tinha ele o ar arrogante dos maus dias;
notou-o a moça, e por isso mesmo sentiu um desejo furioso de
contrariá -lo. Nã o achou, porém, ocasiã o durante a primeira parte do
trajeto, porque o moço se encerrou em mutismo muito descortês para
com a jovem prima, pensou Nina maliciosamente. Era indesculpá vel,
pois a priminha em questã o trazia encantador vestido de pongée rosa
todo pregueado; chapelinho apropriado sombreava-lhe o rosto
pequenino, e ramo de urze rosada emergia do conjunto vaporoso,
misturando-se graciosamente à espuma dourada do cabelo. Toda de
branco, evitando a fantasia para fazer valer ainda mais sua beleza

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clá ssica, Teresa parecia uma deusa, muito atraente, sim, mas muito
fria.
— Como pode ela dormir, como os simples mortais? pensou Nina...
Quem sabe? talvez deixe sua bela dignidade com as pantufas, ao pé do
leito.
A primeira morada, onde a moça entrou, agradou-lhe imediatamente:
era um antigo castelo, como o de Servane, mas que tivera o espírito de
ficar no interior como era no exterior: era assim que Nina tinha
sonhado o solar de seus antepassados. Foram introduzidos por velho
criado, que pediu os nomes estendendo um pouco a orelha, o que fez a
moça pensar que era surdo. Entraram primeiro a duquesa e Teresa:
Geraldo afastou-se para deixar passar Nina, mas esta se recusou:
— Entre, murmurou ela; você vai fazer-me perder a entrada: minha
severa tia nã o me perdoaria por isso!
Enfadado, Geraldo deu o nome ao criado, que levou um minuto para
compreender a palavra mal articulada. Maliciosamente, aproveitou-o
Nina. Antes de o criado ter tempo de abrir a boca, murmurou muito
depressa, mas de modo a ser compreendida.
— A senhora marquesa de Servane.
Com voz de estentor digna de um surdo, ele anunciou:
— O senhor marquês e a senhora marquesa de Servane!
Geraldo, furioso, voltou-se:
— Que ridícula brincadeira é essa?
Foi Nina quem respondeu, muito serena:
— Tranquilize-se, meu caro marquês; divorciar-nos-emos à saída.
A bela Teresa e sua mã e tinham-se voltado vivamente; seus rostos
irritados deram sérios temores a Nina,, mas ambas souberam conter-
se e guardar para mais tarde a expressã o de sua indignaçã o.
A aparência quase hostil das castelã s de Servane nã o escapou à dona
da casa, que teve o espírito de transformar a histó ria em
cumprimentos dirigidos aos esposos improvisados.
— Pois nã o fica a gente tentada a unir tã o belos jovens? Os
descendentes dos Servane fazem honra
aos seus antepassados, nã o acha, minha cara amiga? Que prazer para
Geraldo acompanhar assim três lindas mulheres!...
O destro cumprimento teve a felicidade de serenar a duquesa de
Servane: era-lhe agradá vel ouvir comparar seu outono à primavera da
filha e de Nina.

21
A titular atraíra a marquesinha para seu lado no divã ; a moça mal
reteve o desejo, que sentia desde o começo, de abraçar a velha
senhora: achava-lhe ares da senhora de Breval, e por pouco lhe teria
pedido para a beijar.
— Mas esta criança é encantadora! disse a velha dama entusiasmada.
É preciso trazer-me muitas vezes, ouviu, Iolanda?... Bernardo volta
daqui a um mês e quero que conheça esta marquesinha tã o deliciosa;
verdadeiro Greuze, nã o é, Geraldo?
Este inclinou polidamente a cabeça em sinal de aquiescência e Nina
divertiu-se com o seu ar carrancudo.
No momento da partida, a dona da casa disse baixinho a Geraldo,
enquanto este lhe beijava a mã o:
— Desculpe meu velho servidor, Geraldo: ele substitui hoje José e
quase nã o conhece os castelõ es dos arredores.
— Oh! está desculpado, minha senhora!
— Confesse que ele teve gosto, insinuou finamente a velha dama.
— Confesso tudo o que a senhora quiser, replicou o marquês,
polidamente.
Foi Nina a ú ltima a despedir-se da castelã . Entã o, enquanto os outros
desciam os degraus do patim, pousou a velha senhora ambas as mã os
nos ombros da sua nova amiguinha e, olhando profundamente as
pupilas magníficas:
— Pequena, murmurou devagarinho, o cura de Servane disse-me que
o banco senhoril já nã o estava vazio esta manhã ... Seja valente!... Você
pode fazer muito bem!
Embaixo, retiniu a voz de Teresa:
— Entã o, Nina Rosa, estamos à sua espera!
A interpelada desceu o mais depressa que pô de; as abas do chapéu
batiam como duas asas.
Mal começara a andar o automó vel e já Teresa desabafava:
— Nunca vi menina tã o mal-educada como você, Nina Rosa!
— Você me envergonha! bradava a duquesa. Contida por muito
tempo, a có lera de Geraldo nã o
podia esperar mais para estalar. Ralhou com Nina o mais possível,
advogando a causa da mã e e da irmã . Escutou-o a prima, um pouco
assustada. Nã o se julgava tã o culpada.
— Mas que fiz eu? protestou.

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— Uma caçoada tola, minha prima! Negará você que disse a palavra
"senhora" ao criado? Parecera-me ouvi-lo e o que se deu depois
confirmou minhas suspeitas.
— Nã o nego nada, senhor meu primo; confesse por sua vez que me saí
muito bem.
— Que arrogâ ncia! disse "Teresa. Nã o há o que a desconcerte!
— Felizmente, disse Nina; senã o, há muito tempo estaria eu em mil
pedaços!
As outras visitas foram feitas sem incidente. Em todas as salas
concordavam em achar Nina encantadora: uma verdadeira Servane!
De volta a casa, contaram ao duque a "brincadeira tola" de Nina, com
exageros de arrepiar os cabelos.
-— Dir-se-ia que desonrei para sempre minha augusta família,
pensava a menina... Se soubessem o que me disse a senhora de
Mervys!
O duque parecia muito encolerizado:
— Você é uma criança mal-educada, Nina Rosa; nã o tem tato algum, e
é a criatura mais importuna que jamais encontrei.
De pé no meio do salã o, Nina escutara serenamente estas amá veis
palavras. Quando o tio parou por falta de expressõ es, juntou os
dedinhos ainda enluvados e, com voz magoada, que mal ocultava o
louco desejo de rir:
— E dizer-se, meu tio, que todos os seus castelõ es me proclamaram
"uma verdadeira Servane"! Quã o cego é entã o o mundo para ver
qualidades onde a clarividência de um tutor nã o viu senã o defeitos!

CAPÍTULO 5

Havia quinze dias que Nina Rosa estava no castelo de Servane e nã o se


desmentira um só instante a disposiçã o hostil da família. Queriam
ignorá -la, e para isso evitavam-lhe a companhia. Passava assim a moça
a maior parte do dia na igreja ou a visitar os pobres e, depois dessas
visitas caridosas, fazia longos passeios no bosque vizinho. Nos
primeiros dias, acompanhou-a Marianik. Soube-o a duquesa e
observou asperamente a Nina que a vendeana nã o era privativa de
sua pessoa. Deu-o a menina por sabido e continuou sozinha seus
passeios quotidianos.

23
Foi Geraldo o primeiro a inquietar-se com o desamparo moral em que
deixavam, aquela descendente dos Bervane. Apontou-lhe um remorso
no coraçã o orgulhoso, mas muito reto; achou que o rancor da mã e ia
longe demais e disse-lhe:
— Nã o tem receio, minha mã e, de deixar Nina Rosa vaguear assim
todo dia?
— Ora! o lugar é seguro.
— Haverá lugar seguro em nosso século, minha mã e?
— Que pode temer essa inocente? perguntou Teresa, sarcá stica.
— A inocente de quem escarnece ignora a prudência... por isso
mesmo!
Sentia-se, porém, a duquesa tã o feliz em mostrar seu desprezo por
Nina que esqueceu depressa as inquietaçõ es do filho.
Nã o as esqueceu ele, contudo, e, naquele dia, ao montar a cavalo, teve
certa apreensã o e mandou chamar Marianik. Apresentou-se logo a
velha admirada de que precisassem dela.
— Sabe onde está a srta. Nina? perguntou Geraldo sem preâ mbulos.
Marianik disse intencionalmente:
— As senhoras partiram de carro e deixaram-na aqui... Entã o, que
quer o senhor marquês? A criança saiu... Um dia acontece-lhe alguma
desgraça, com certeza!
Sob os dedos crispados, o chicote dobrou-se.
— Cale-se, nã o faça prediçõ es ridículas... E para que lado foi ela?
A velha teve uma hesitaçã o, que nã o escapou ao marquês.
— Nã o tenha medo, Marianik, disse quase docemente; se vou procurá -
la, nã o é para ralhar.
— Nesse caso... Está no bosquedo... ou na Clareira do Cavaleiro... o
senhor marquês sabe?
— Sei! disse apressadamente, dando volta ao cavalo.
Cinco minutos depois, galopava através dos campos; chegou logo ao
bosquedo e, afrouxando a marcha do animal, esforçou-se por
distinguir nos caminhos verdejantes a mancha clara do leve vestido.
Nada viu... Sabendo que era perto a clareira, cujo vã o luminoso já
avistava, amarrou o cavalo a uma á rvore e foi andando
apressadamente para aquele lado. Ia alcançar o fim, quando retiniu
uma voz irritada. Tomado de pressentimento, o moço ganhou a
clareira em poucos passos e soltou um grito involuntá rio, ao
compreender que aqueles clamores de có lera se dirigiam a Nina Rosa.

24
Lívida até os lá bios, a menina fizera um movimento para fugir; o
homem que a insultava pegou-a por um braço e levantou o cajado.
— Socorro, Geraldo! gritou ela ao reconhecer o primo.
Este já tinha saltado. Com uma das mã os puxou-a a si e com a outra
envolveu o homem com uma chicotada que lhe traçou no rosto um
sulco vermelho. Enquanto o homem fugia, urrando de dor, Geraldo
fazia Nina Rosa sentar-se. Cada vez mais pá lida ela obedeceu sem uma
palavra. Seu olhar agora era vago.
Geraldo assustou-se:
— Nina Rosa... Nã o tenha medo... Agora estou aqui com você... Vamos,
Nina, fale!... Que
tem?
Entã o; como se nã o esperasse senã o uma, palavra para chorar, a
pobre menina escondeu o rosto pá lido nas mã os e pô s-se a soluçar
nervosamente. Corriam-lhe as lá grimas por entre os dedinhos.
Geraldo via-as brilharem sobre o braço branco e depois irem perder-
se no filó das mangas.
— Nina Rosa, sossegue, suplicou ele, inclinando para ela o alto porte.
Ergueu-se, o rosto angustiado:
— Nã o foi tanto o medo que me fez chorar, gaguejou ela.
— Que foi, entã o? perguntou Geraldo maquinalmente.
— É que, veja você, senti um desamparo tã o grande... Até aqui, queria
levar tudo rindo, para nã o pensar em medir a extensã o da minha
desgraça... Mas, agora há pouco, quando aquele homem se ergueu
diante de mim... e me vi só no bosque... senti que nã o era senã o uma
abandonada, uma pobre de que ninguém faz caso.
— No entanto, Nina, eu vim, com o pressentimento de que você podia
padecer com este desamparo.
— E eu lhe agradeço tanto!... Se nã o fosse você, eu estaria morta!... Oh!
como estava só !... Nunca, o compreendi como naquela hora! E,
contudo, tenho a impressã o de que mamã e, do alto do céu, velava por
mim; porque foi um milagre que você chegasse a tempo! Estou
desamparada há quinze dias, prosseguiu com a voz branda, como se
os lá bios nã o pudessem mais guardar as palavras retidas há tanto
tempo; você nã o pode saber o que padeço!
Muito pá lido, o marquês ouvia o que lhe parecia a sua condenaçã o.
— Tenho sido tã o amimada! Por três vezes a morte me arrebatou
seres bem caros, é verdade! Mas apó s cada luto achava-me como que
envolvida em afeiçã o mais intensa; foi por isso que, ao passar, a

25
desgraça nã o me deixou quebrada... Quando meu tutor me chamou... a
princípio tive medo, mas depois disse comigo que nã o podiam deixar
de me amar!
— Os fatos provaram-lhe o contrá rio!... Nina Rosa, peço-lhe perdã o
por todos.
O jovem marquês pusera um joelho em terra e, vendo-o nessa posiçã o,
a pequena sorriu através das lá grimas: nã o lhe predissera Marianik
que Geraldo seria o primeiro vencido?
— Perdoo-lhe, senhor meu primo, disse ela, caçoando.
— Oh! esse nome nã o, peço-lhe! Assinemos hoje a paz com os nossos
verdadeiros nomes. Quer, minha prima?
— Quero, sim, Geraldo.
— Obrigado, Nina Rosa.
E o sorriso juvenil restituiu-lhe enfim à s faces a cor rosada.
— Como estou contente agora! Nã o ser mais uma abandonada! Ter
um amigo... Pois você quer ser meu amigo, nã o é, Geraldo? perguntou
com um resto de inquietaçã o.
— Amigo... sempre! disse ele gravemente, estendendo-lhe a mã o.
Depô s nela a sua, sorrindo. Depois, com rá pido gesto ergueu os
cabelos soltos, torceu-os negligentemente sobre a nuca e, passando as
fitas do chapéu no punho, levantou-se de um salto e tomou o braço do
primo.
— Deixemos este lugar selvagem; terminou o drama.
— E terminou de modo feliz!
— Muito feliz! graças a você.
— É aqui a Clareira do Cavaleiro; sabia-o?
— Ignorava-o há pouco, replicou ela maliciosa, mas sei agora... porque
o cavaleiro se mostrou.
— Permite que o cavaleiro vá buscar o seu cavalo, que infelizmente
nã o tem as asas de ouro da lenda?
— De boa vontade.
Geraldo desamarrou o cavalo e, mantendo-o pela rédea, voltou ao pé
de Nina. Juntos deixaram o bosque e tomaram, a estrada do castelo.
— Se minha tia nos visse juntos! disse de repente Nina, com pequeno
recuo.
— Nã o tenha receio: estarã o fora toda a tarde, ela e Teresa... Mas
quem é aquele homem que lhe falava? Está agora bastante calma para
dizer?
— Pois nã o, é Bertel.

26
— Esse bêbado, que bate na mulher e nos filhos! Como o conhece?
— Vou muitas vezes ver a mulher dele; ela se tinha ferido, eu a tratei...
e, depois, há lá toda uma ninhada para lavar!
— E você entra lá , Nina?
Nina inclinou a cabeça para considerar melhor o primo:
— Cuidado, Geraldo, você está tornando a ficar distraído.
Ele riu, desarmado:
— E é assim que lhe agradece o esposo e pai! Bonita maneira, nã o há
dú vida!... Na volta, avisarei a
polícia.
— E encerrá -lo-ã o na prisã o de Savernay! Geraldo, peço-lhe, deixe o
homem. Tudo recairá sobre a mulher e os filhos; é algumas vezes um
tanto rude com eles, mas ganha, ainda assim, bastante dinheiro.
— Veremos isso depois. E ele lhe dizia...
— Insultos... porque eu ia à sua casa e ele nã o queria que lá fosse
uma... Espere, Geraldo, esqueci-me da palavra... Ah, sim, uma
"cabotine"1! Que é uma "cabotine", Geraldo?
E os belos olhos, aumentados ainda pela admiraçã o, encaravam-no
enquanto ela esperava curiosamente a explicaçã o.
O moço sorriu sem querer, e encolheu os ombros:
— É palavra que nada significa, e que você deve esquecer, disse
Geraldo.
Sem intençã o, ela replicou:
— Esqueço-me sempre do mal que me fazem.
— E o bem, esquece-o igualmente? perguntou Geraldo, perturbado
por aquela palavra.
— Nunca! respondeu Nina Rosa, gravemente.
— Entã o ela se recordará deste dia, pensou o marquês, tranquilizado.

CAPÍTULO 6

No dia seguinte, ao voltar da missa, Nina encontrou o primo no


vestíbulo. Trocaram um bom-dia amistoso e ela compreendeu que o
feio "senhor meu primo" estava completamente morto.

1
Cabotine: partidá ria dos padres, clerical, carola. (N. do T.)

27
— Procurava-a justamente, Nina Rosa, disse o marquês; falei a meu
pai ontem à noite. De hoje em diante, Marianik estará à sua disposiçã o
para os seus passeios; em outras ocasiõ es, minha mã e e Teresa far-
lhe-ã o companhia, e, para mim será um prazer ser o seu serviçal
cavalheiro.
— Oh, Geraldo! como você é bom... E como lhe poderei agradecer?
— Nã o há que agradecer. Nã o faço senã o o meu dever... meu dever,
que desconheci por tanto tempo, ao qual suas lá grimas me chamaram
de novo.
— Silêncio, Geraldo, isso é o passado, nã o falemos mais dele!
Nina nã o viu sua tia nem Teresa antes do almoço.
À mesa, percebeu que a duquesa lhe falava menos duramente, e
Teresa dignou-se a dizer algumas palavras, no seu tom glacial.
Quando passaram ao salã o para tomar café, a moça perguntou-lhe,
sem interesse algum:
— Quer ir conosco hoje à tarde? Vamos até ao Vale Rosa... mas, na
verdade, você nã o há de saber montar...
— Perdã o: monto muito bem, e sinto muito ter deixado Djella no
castelo de Breval.
Geraldo aproximou-se:
— Nã o se aborreça por isso, Nina Rosa, terá outra vez seu cavalo, pois
ele pode fazer a viagem. As estrebarias de Servane sã o bastante
espaçosas para alojá -lo. .. Nã o é, meu pai?
— Sem dú vida, meu filho, respondeu o duque, a um gesto do marquês.
A duquesa apertou os lá bios, em sinal de reprovaçã o, mas Nina nã o se
deu conta disso. Geraldo, a parte forte da família, nã o era seu aliado?
— Minhas lá grimas enterneceram-no, pensou a marquesinha; ora, nã o
posso estar sempre a chorar para os desarmar a todos! Chorar muito
tempo nã o está no meu temperamento.
— Visto como seu cavalo nã o está aqui, nã o tem mais que escolher um
com os conselhos de John... Nã o é, meu pai? disse Geraldo,
prosseguindo na sua ideia.
— Sem dú vida, repetiu o duque, com o ar menos amá vel do mundo.
Nina fez, pois, à tarde, um ó timo passeio: Teresa e a mã e tiveram de
confessar que a desprezada prima montava admiravelmente. O tempo
era tã o agradá vel, o campo tã o alegre, que Nina nem deu fé do
mutismo das companheiras. Lamentou, contudo, a ausência do primo,
que ficara no castelo, a fazer companhia ao duque.

28
O caminho era estreito: tendo as outras impelido os cavalos adiante de
Nina, notou ela o porte airoso da duquesa, e cismou consigo:
— Como parece jovem! Ninguém julgaria que é a mulher de meu tio,
que parece pai dela. . . nã o gosto dos pares desiguais... Se casar, nã o
será com um homem muito idoso: é mais ló gico envelhecer ao mesmo
tempo! . . . Meu tio estará pregado à poltrona pelo reumatismo,
enquanto minha tia ainda sentirá veleidades de andar nos salõ es! O
coitado!!!
Uma exclamaçã o da tia interrompeu-lhe de sú bito o curso das
reflexõ es filosó ficas:
— Bernardo de Mervys, já de volta! gritou ela.
O caminho fazia uma volta para entroncar na estrada.
A princípio, Nina nada viu; depois, chegando também ao cotovelo,
avistou um cavalheiro que se apeava rapidamente para beijar a mã o
de sua tia e de Teresa. Era um moço alto, de olhos muito azuis e muito
doces. Esses olhos fixaram de repente Nina e sua franqueza agradou
imediatamente à moça.
— Nina Rosa de Servane, apresentou a duquesa contra a vontade.
— Adivinhara-o, disse amavelmente o moço; minha mã e falou-me da
pequena Nina.
Teresa compreendeu toda a admiraçã o que Nina causava naquele
momento. No traje de amazona, de cor verde sombria, que fazia
ressaltar a beleza loura da moça, sob o raio de sol dourado da
cabeleira, era mais encantadora ainda que de costume.
Vendo o moço montar de novo, com intençã o evidente de travar
conhecimento com Nina Rosa, disse Teresa, imperiosamente:
— Entã o, Bernardo, venha aqui a meu lado; venha falar-me de Paris,
aquela cara Paris que o monopoliza quase todo o ano, senhor artista ...
E pode-se saber se você merece cumprimentos?
— Nã o creio, Teresa, pois nã o exponho no Salã o este ano. Minha cara
mã e está um tanto só há dois
anos: ficarei com ela em setembro e outubro e levá -la-ei a Paris no
inverno.
A duquesa, desejosa de ouvir falar de sua Paris, aproveitou a largura
da estrada para emparelhar a -montaria com a de Bernardo. Achou-se
Nina ainda isolada! Apercebendo-se, o moço mortificou-se:
— Srta. Nina, disse, voltando-se, nunca lamentei mais do que hoje a
pouca largura desta estrada!
— Nã o se inquiete, senhor; a solidã o em nada me incomoda.

29
— Você poderia achar uma resposta mais delicada! disse Teresa
friamente.
— Se o deseja, de bom grado, disse Nina, e, imperturbá vel, dirigindo-
se a Bernardo: — Nã o se inquiete... Quando estiver fatigada de estar
só , irei comunicar a John minhas impressõ es sobre a natureza.
E com a ponta do chicote, mostrava o criado que, a distâ ncia
respeitosa, seguia os passeantes.
Advertido por sua mã e da sagacidade de Nina, teve Bernardo o maior
trabalho em reter o louco desejo de rir que o acometeu, vendo o ar
escandalizado de Teresa e da mã e.
— Nã o dê atençã o a esta menina, Bernardo; passa todo o tempo a
dizer impertinências.
por delicadeza, e também para evitar a Nina Rosa um aborrecimento,
reteve o moço a resposta que lhe acudira prontamente aos lá bios.
Quando, de volta a casa, contaram a Geraldo o encontro, seu olhar
procurou imediatamente a prima. perdida nas almofadas luxuosas do
divã , atormentava ela com o chicote o gatinho da tia.
— Entã o, Nina Rosa, perguntou quase imperiosamente, o que achou
de Bernardo de Mervys?
— Oh! encantador!... encantador!... Geraldo, acho-o muito delicado,
acabou ela, nã o sem malícia.
Altiva, murmurava Teresa:
— Nã o dirá ele o mesmo de você!
— Acredita-o? Se você nã o o tivesse paralisado com a sua presença
solene, aposto que teria rido loucamente ... Perguntar-lhe-ei na
pró xima vez.
— Peço-lhe que nã o se esqueça das conveniências.
— Que conveniências?... Nã o é conveniente perguntar isso a
Bernardo?
— Bernardo! Ela o chama Bernardo!... disse Teresa, com dificuldade.
— Vamos, nada de discussã o, interveio Geraldo, já aborrecido por esta
cena. Vocês ambas pecaram por excesso. Que Teresa seja mais
indulgente e Nina, Rosa...
Levantou o nariz enfadoso:
— E que Nina Rosa...
— Que Nina Rosa compreenda que já nã o é um nené, mas uma moça
de dezoito anos...
— E um mês!

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— Perdoo-lhe os meses. Os anos serã o um peso suficiente para que
sua razã o se torne...
— Mais razoá vel, acabou Nina, tranquilamente.
— E desarrazoe menos.
Teresa, que desprendia o véu diante do espelho, riu escarninhamente:
— Oh! o senhor meu irmã o está hoje em veia de amabilidade!
Nã o acabara, e já lhe pousava no ombro a mã o de Geraldo. No espelho,
encontrou-lhe o olhar endurecido.
— Teresa, disse secamente, espero que o meu exemplo baste e que
nã o terei de empregar outros meios.
Era uma advertência; compreendeu-o a moça. Posto que a ninguém
temesse, nunca a orgulhosa Teresa ousara arrostar o irmã o.
Pequenina, dobrava o pai ao menor de seus caprichos; o marquês,
esse, nã o cedia à imperiosa criança e, aos dez anos, como aos vinte,
Teresa submetia-se à autoridade de Geraldo, sem um murmú rio e até
sem ressentimento. Amava aquele irmã o sá bio e elegante que "Toda
Paris" admirava. Sentia, orgulhosa, prazer em atravessar a capital no
automó vel particular do jovem marquês. Quantas mulheres, vendo-a
ao lado de Geraldo, nã o a invejavam!
Grata ao primo por havê-la defendido, nã o deixou Nina o salã o sem
lhe dirigir o mais gentil dos seus sorrisos. E ele ficou contente.
No dia seguinte, recebeu a duquesa um convite da sra. de Mervys.
Esperava a fidalga que nenhum dos membros da família de Servane
deixasse de comparecer ao jantar muito íntimo com que celebrava a
volta do filho.
— Nã o irei, resmungava já o duque; sinto meu reumatismo desde
manhã .
— A sra. de Mervys nã o o convida para um baile, disse acremente a
compassiva esposa; você pode bem ir.
— Que vestido vai levar, minha mã e? perguntou a calma Teresa, para
mostrar que a decisã o do pai nã o perturbava a da mã e.
— Ora, o meu "verde pá lido"... parece-me que à luz da noite ele é
preferível. Que lhe parece, Jaime?
— Ora! Na sua idade, isso nã o tem muita importâ ncia, respondeu
pouco cortesmente o marido.
-? Esquece-se de que nã o tenho a sua idade!
— É verdade! Perdoe-me... Este reumatismo... Veja você!...
Nina considerava a cena, muito admirada. Nã o conhecera casal, além
de seus pais, senã o o dos Breval, que se entendiam à s mil maravilhas.

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— Verdade é, pensava, que eles têm quase a mesma idade;
envelhecem juntos, terã o o reumatismo juntos; entã o, se a
enfermidade lhes arrancar alguns gemidos, ao menos gemerã o em
duo, e nã o em discordâ ncia, como aqui.
Geraldo acercara-se do pai:
— Nã o se inquiete, meu pai, ficarei com o senhor.
Mas, do outro lado da poltrona, Nina Rosa pendeu A linda cabeça:
— Nã o, decidiu ela; eu é que ficarei com meu tio; Geraldo ainda nã o
viu seu camarada... Eu já fui apresentada a ele. e como, ao parecer de
certas pessoas, nã o valho nada, ou muito pouco, será melhor abster-
me de me exibir pela segunda vez.
Comoveu-se o duque ao impulso generoso de Nina, mas logo lhe
voltou o ar carrancudo:
— Vá divertir-se, menina; você é uma borboleta, que necessita de
luzes; na quinta-feira, desejo ficar só ... Vocês irã o todos a Mervys!

CAPÍTULO 7

De pé diante do espelho, Nina Rosa acabava de vestir-se. Com um


toque leve da fina mã ozinha, reerguia aqui ou ali uma prega do filó
meio amassada, ou dissimulava na vaporosa cabeleira os cachos
dourados que se obstinavam em lhe aureolar a fronte, dando-lhe ar
muito juvenil, que ela nã o queria apresentar naquela noite.
— Teresa está sempre tã o impecá vel, com seus cabelos sabiamente
ondulados, sonhava ela, que eu bem desejava disciplinar também
todos estes cachinhos... Pedirei a Geraldo seu cosmético.
Apó s um ú ltimo olhar ao espelho, concluiu, com suspiro de pena:
— Esta nuvem de filó branco fica-me muito bem, mas faltam as
flores... Enfim, as rosas do parque nã o me pertencem, só me resta
resignar-me a isso.
Uma hora antes, ouvira a duquesa dar ordens à camareira a respeito
das flores que deviam adornar seu vestuá rio e o da filha, mas nã o se

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tratou de Mina, e a menina sentira-o, nã o que fosse faceira, mas
porque amava as flores — "suas amigas as flores", como dizia muitas
vezes.
E eis que a criada entra de repente, trazendo preciosamente entre os
dedos duas rosas vermelhas, admirá veis. Tinha a fâ mula um ar de
triunfo e regozijava-se com o prazer que ia causar, porque se afeiçoara
depressa à nova ama.
— Oh, Lisa! disse Nina extasiada; julga você que eu as possa levar?
— Mas sem dú vida, senhorita; aquele que me pediu para lhe trazer é
senhor aqui.
A pequena fada branca perturbou-se um pouco.
— Nã o foi... Geraldo?
— Sim, senhorita, foi ele!... Encontrei-o no vestíbulo no momento em
que passava um criado, levando lindas flores para as senhoras;
perguntou-me entã o: "A senhorita Nina tem flores, nã o é?" e apressei-
me em dizer que se tinham esquecido da senhora...
— Oh! Lisa!
— Ora essa! Pois se é verdade... Entã o, perguntou-me que vestido
levava hoje a senhorita e, cinco minutos depois, entregava-me o
jardineiro estas flores.
— As que eu teria escolhido! murmurou Nina encantada, fixando com
suas pró prias mã os uma das rosas no filó vaporoso do corpete.
Depois, enquanto a criada prendia a outra flor no ouro dos cabelos,
fazendo-a descair um pouco sobre o pescoço nacarado, perguntou:
— Minha tia e Teresa já estã o prontas?
— Prontas? Ah! A senhora ainda nã o as conhece! Daqui a uma hora,
sim! Se a senhora soubesse o que passam neste momento as
camareiras daquelas senhoras, teria piedade delas! Há sempre o que
descoser, refazer um ponto aqui, uma prega ali. Se o senhor marquês
nã o acabasse por subir em pessoa para as ativar, aposto que ainda lá
ficariam mais duas horas! Nina assustou-se:
— Devia ter-me dito isso antes de me vestir! Que? vou fazer, durante
uma hora, metida nestes filó s?
— A senhorita pode descer ao salã o. Há lá um piano...
— Isso nã o me adianta muito, pois ninguém me convida a tocar nele,
pensou consigo. E, alto, vendo
a criada aborrecida: — Nã o se inquiete, Lisa; acharei meio de me
ocupar, sem destruir a sua obra-prima... Quando minha tia descer,
você virá adornar-me.

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Estava vazio o salã o lilá s e, apesar das suas sá bias resoluçõ es de nã o
tocar antes que lhe pedissem, Nina foi direito ao instrumento, abriu-o
e roçou as teclas de marfim. A tentaçã o era forte demais! E afinal,
ninguém a ouvia: os quartos dos primos ficavam na outra extremidade
do castelo; segura de nã o ser surpreendida, pois o duque se recolhia
cedo aos aposentos, decidiu-se depressa.
Tocou um acorde com arzinho de desafio, calcando a fundo o pedal
forte com o pezinho calçado de cetim branco: e, apó s um prelú dio
fantasista, entoou, de repente, a Sérénate à Ninon. Parecia interrogar-
se a si mesma; mas havia na voz uma vaga zombaria, como se os lá bios
rissem de tudo o que o poeta dizia à Nina desconhecida... Nina Rosa,
essa, tinha ainda muito tempo de amar!... Era tã o nova... Bastavam-lhe
a mocidade e a beleza... Também, como zombava da inquietaçã o do
poeta!
Cantava estes dois versos da segunda copla:
"Por um amor, daria Até meu ú ltimo dia..."
quando se interrompeu com a habitual mobilidade:
— Ora, que ideia! exclamou alto. O amor nã o me faria dar o menor de
meus dias, pela boa razã o de que nã o conheço esse belo sentimento.
E pô s-se a rir alegremente, num riso de criança que ignora a vida. De
repente, expirou-lhe o riso nos lá bios. Executando uma viravolta no
tamborete, achara-se face a face com Geraldo, sentado tranquilamente
em uma poltrona em frente ao piano.
— Oh! mas isto! disse meia risonha, meio aborrecida.
— Oh! mas isto! repetiu o moço como um eco.
— Você é um indiscreto!
— Por quê? A Sérénade à Ninon nã o me é desconhecida... Só se quer
falar da profissã o de fé que fez... um tanto alto.
Já nã o se lembrava do que dissera; corou, temendo ter dito alguma
tolice. Desviou destramente a conversa:
— Geraldo, agradeço-lhe as rosas... Foi tã o gentil em ter pensado
nisso...
— Ora, nã o me era difícil, parece.
— Foi a intençã o que me deu prazer, murmurou Nina Rosa baixinho.
Depois, muito depressa, perguntou:
— Nã o irá minha tia ficar zangada, ao saber que toquei?
— E por que, nã o me dirá você? Desejo que toque até a hora de partir,
compreendeu, Nina Rosa?

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— Compreendo muito bem, mas com uma condiçã o: você se mudará
dessa cadeira para se instalar mais longe... Porque me intimida.
Docilmente Geraldo obedeceu e a marquesinha, satisfeita, deu-lhe um
gentil concerto de meia hora. Tocou com brio que maravilhou o
marquês. Coisa extraordiná ria, a entrada da duquesa, que tanto
receava, nã o a perturbou absolutamente. Como continuava a tocar, a
tia, revoltada um instante pela audá cia, atravessou a sala com tanta
vivacidade, que Geraldo se ergueu, pronto a defender Nina.
— Com permissã o de quem toca você aqui, menina?
Sem se perturbar, a pequena olhou para a tia, com o ar câ ndido que
tinha o dom de exasperar e, de repente, sem uma pausa, começou a
Marselhesa.
Tã o inesperado era o canto republicano naquele domínio
essencialmente aristocrata, que a duquesa teve que esperar um
momento para recuperar a palavra. Geraldo, em quem o patriotismo
sobrelevava a política, sorria, mas sua mã e estava indignada:
— Nina, disse ela, pare imediatamente! Continuava a menina a tocar o
hino nacional tã o tranquilamente, como se a tia estivesse a cem léguas
dali.
Entã o, exasperada, abaixou-se a nobre duquesa para tomar a sobrinha
por um braço, para a pô r fora da sala. Geraldo fez um movimento para
intervir, mas entravam as criadas por uma porta, enquanto Nina
quase caía nos braços de Lisa, que vinha pela outra, o que felizmente
pô s fim à cena. Deixou-se Nina serenamente enfeitar, vigiando com o
canto do olho a tia, que falava baixo a Teresa, pouco se lhe dando de
fazer esperar as criadas. Contava, sem dú vida, a "audá cia daquela
pequena", porque um olhar negro cruzou de repente o de Nina.
Suportou-o esta sem se perturbar, dizendo apenas, com a sua voz
inocente:
— Tia, creio que a senhora nã o viu suas camareiras... Talvez lhe falte
alguma coisa... Nesse caso, Lisa poderá ir buscá -la.
E sem esperar resposta, que certamente nã o teria, passou para o
vestíbulo, onde Geraldo a seguiu.
— Você nã o é prudente, Nina, disse ele seriamente.
— Oh! Geraldo, você diz isso agora; mas riu, que eu bem o vi! Era
verdade; o moço nã o insistiu.
Foi silencioso o trajeto no automó vel tendo cada qual suas razõ es para
estar calado. Desenrolaram-se as línguas à chegada. Amavelmente

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recebidos pela sra. de Mervys, acharam já cheio de gente o imenso
salã o.
— É a isto que chamam um jantar íntimo' pensou Nina.
E, um pouco atordoada, deixou-se conduzir à direita e à esquerda, pela
amá vel tia, que, para a ocasiã o, assumira um ar quase maternal. Ouviu
Nina muita exclamaçã o admirativa; recebeu multidã o de
cumprimentos e, ao terminar a volta do salã o, teve de confessar a si
pró pria que nã o retivera nome algum. Acabou de aturdi-la Teresa,
segredando-lhe por duas vezes ao ouvido:
— Nã o faça tolices, nã o fale demais.
Recuperou a pobre menina o sangue-frio no momento de passar à sala
de jantar, porque foi Bernardo quem lhe veio oferecer o braço. Os
bons olhos azuis tiveram o dom de acalmá -la e, quando se achou à
mesa entre o seu cavalheiro e um velho senhor muito calvo, serenara
completamente.
— Nã o repare, Ber... sr. Bernardo, se pareço ter caído das nuvens, mas
nã o esperava encontrar tanta gente!
— E agora, está habituada? perguntou o moço gentilmente.
— Oh! decerto! Nã o me assusta por tã o pouco! Quando souber que
nã o tenho medo de minha tia, há de fazer ideia elevada da minha
coragem.
— Muito elevada! respondeu Bernardo, que a custo retinha o riso,
enquanto o velho senhor, um tanto embaraçado, escutava sem
compreender.
— É que ela é assombrosa, minha tia, sabe? Nã o posso pô r em prá tica
nenhuma de minhas ideias, sem a escandalizar.
— É que suas ideias serã o talvez, elas mesmas, um tanto assombrosas,
corrigiu benevolamente o visconde de Mervys.
— Mas de modo algum... Olhe, enquanto a esperava hoje no salã o,
antes de sairmos, tocava piano. Entra minha tia, começo a Marselhesa;
era a ocasiã o, nã o é? Pois bem; acreditará que minha tia me pô s fora
da sala, porque eu recusava a calar-me? Ora, ou a gente é bom
patriota, ou nã o é, nã o acha o senhor? perguntou Nina, voltando-se,
inadvertidamente, para o lado do vizinho desconhecido.
— Certamente, senhorita, respondeu o velho, cada vez mais
estupefato.
E mais espantado ainda ficou ao ouvir Nina falar, como da coisa mais
natural deste mundo, dos miserá veis casebres que visitava todas as
manhã s.

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— Tenho até invadido seus domínios, sr. Bernardo, acrescentou ela.
Mas espero que sua mã e me perdoará .
— Que diz! Ela lhe agradecerá , ao contrá rio, por socorrer assim os
nossos pobres.
— Oh! socorrer! O senhor bem sabe, disse mais baixo, que meu tio nã o
me aprova e que o demonstra dando-me muito pouco dinheiro.
Bernardo disse, involuntariamente:
— Ao chegar aqui, a senhorita tinha dezoito anos... e muitos
aborrecimentos. Como nã o pensou na sua emancipaçã o? Teria podido
ficar, assim, com a sra. de Breval, que tanto a estima!
Uma lá grima brilhou nos olhos da menina:
— Pensei nisso, sim, disse com voz mal segura; mas julguei também
que ninguém em Servane acreditava em Deus e que havia ali, talvez,
muito bem a fazer para lhe ganhar almas.
Bernardo estava profundamente comovido:
— Tem razã o, srta. Nina, disse em tom firme: Deus a abençoará !
— Se soubesse como é bom ouvi-lo falar assim... disse a moça, apó s
um momento de silêncio; em Servane ninguém me fala em Deus, e
padeço tanto com isso que à s vezes até choro!
Depois, vendo que a sua pró pria emoçã o ganhava também o moço,
murmurou muito depressa e sorrindo:
-? Ora, aqui estamos nó s a filosofar sobre a dureza dos coraçõ es em
geral e sobre a minha família em particular. Mudemos de assunto,
porque meu vizinho vai dormir, e eu teria seu sono intempestivo a
pesar-me na consciência.
Terminado o jantar, as senhoras passaram para o salã o e os homens
para o gabinete de fumar.
Nina ficou muito tempo sem tornar a ver Bernardo.
Ouviu pacientemente meia dú zia de moças casadouras, que deixavam
uma apó s outra a saia de mamã e, ou para recitar alguma vaga poesia
com ar sentimental, ou para martirizar o pobre piano, habituado à s
mã os delicadas da fidalga.
Sobressaltou-se, vendo de repente Bernardo, que se inclinava diante
dela.
— Senhorita, manda-me minha mã e pedir-lhe que nos cante alguma
coisa.
— Mas nã o sei nada! Nã o sei nada! defendeu-se Nina Rosa, espantada,
à ideia de a classificarem entre as meninas casadouras que já se
haviam exibido.

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Geraldo, porém, surgia já de um grupo vizinho, muito divertido com a
mímica expressiva da linda Ninazinha! E acudiu rindo:
— Nã o acredite, Bernardo, e peça-lhe a Sérénade à Ninon:
— Esse canto nã o é para a minha voz, replicou a
moça, cada vez mais agitada.
Nã o pô de, porém, recusar mais tempo. Com ar resignado, tomou o
braço do visconde de Mervys e deixou-se conduzir ao piano. Uma
jovem muito elegante que acabava de lacrimejar uma elegia, ofereceu-
se para acompanhá -la; Nina agradeceu com ar pouco amá vel:
— Toco de cor... obrigada! disse ela, suspendendo o tamborete com
uma volta da mã o.
Enquanto tirava as luvas, Bernardo pediu-lhe:
— Autoriza-me a ficar perto do piano, para reconduzi-la ao seu lugar
daqui a pouco, srta. Nina?
Já preludiando, murmurou, risonha.
-? Com prazer... para voltar as pá ginas da mú sica ausente.
Cantou a Sérénade como a cantara já no salã o lilá s, com arzinho
zombeteiro, quase céptico... Mas eis que de repente percebe no painel
brilhante do instrumento a silhueta de Bernardo um pouco inclinada...
e pareceu a Nina Rosa que o poeta, desta vez, nã o falara em vã o!

CAPÍTULO 8

Nina Rosa aproximou o cavalo do talude, e saltou rá pida; depois,


segurando no braço a cauda da amazona procurou com os olhos um
lugar propício para amarrar a montaria.
Soltou um grito, ao descobrir Bernardo de Mervys, recostado a um
carvalho, olhando sonhador para a paisagem de outono. À exclamaçã o
dela voltou a cabeça e pareceu muito surpreendido de vê-la sem
criado.
Percebendo-o, disse-lhe ela meio constrangida:

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— Nã o acuse minha família de me abandonar. Ignoram em casa que
estou aqui... Nã o o disse nem mesmo a Geraldo, que me proibiria de
vir.
— Oh! Entã o a senhora desobedece? disse ele gravemente.
— Nã o me repreenda antes de saber aonde vou.
— Nã o ousaria interrogá -la!
Em poucas palavras, contou-lhe ela a cena do bosque; depois
acrescentou:
— Geraldo nã o perseguiu esse homem porque eu lhe pedi; mas sei
que, em caso de reincidência, ele o fará prender imediatamente...
Contou-me Marianik que Bertel foi vítima de um acidente: um barrote
partiu-lhe a perna. Fizeram-lhe a amputaçã o no hospital de Savernay,
mas ele nã o quis ficar lá ... Pensou que lhe atentavam contra a
liberdade. Trouxeram-no anteontem à casa, num automó vel. O senhor
compreende que angú stias terã o passado a mulher e os filhinhos...
— O que compreendo principalmente, srta. Nina Rosa, é que a senhora
é muito imprudente, tornando a aparecer diante desse homem!
— No entanto, nã o quereria decerto que eu aqui viesse com Geraldo,
pois bem conhece a serenidade de meu primo em tais condiçõ es!
— Seja, mas se me permite, acompanhá -la-ei... Meu criado está lá ,
atrá s daquela cerca, com os cavalos; vou confiar-lhe o seu e segui-la-ei
até a casa de Bertel.
Sem bem saber por que, Nina submeteu-se e, quando Bernardo
reapareceu, disse-lhe:
— O senhor nã o entrará logo na segunda peça, onde está Bertel,
porque a sua apariçã o talvez estrague tudo!
— Prometo-lhe... Mas que quer a senhora empreender?
— Oh! simplesmente consolar aquele pobre homem da perda da sua
perna; oferecer-lhe um bom médico, amigo de Geraldo, a quem o
recomendei, e, sobretudo, dizer-lhe que me esqueci completamente de
que me quis espancar!
Dizia tudo isso tã o brandamente, que Bernardo Olhou para ela,
admirado.
— E se esse homem a insultar?
— Ah! isso nã o faz mal, replicou ingenuamente; nã o compreendo o
que ele me diz!
— Felizmente! resmungou Bernardo.
Estavam diante da habitaçã o de Bertel. Uma cabana muito estragada e
de aspecto pouco atraente.

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Sem dú vida a pobre Nina tinha algum receio, porque, antes de bater,
fez um grande sinal da cruz.
— Nã o vá lá , interveio Bernardo, muito comovido.
— Oh! senhor! O pobre homem é tã o desgraçado!! disse Nina,
esquecendo-se de que aquele pobre homem quase a matara em um
bosque.
Veio uma mulher abrir. Tinha o rosto devastado e os traços duros dos
que padecem com resignaçã o.
à vista de Nina Rosa iluminou-se-lhe o semblante:
— Ah! é a senhora... Entre depressa! Nunca tive tanta necessidade do
raio de sol que é a menina... Há dois dias que esta casa é um inferno!
Nã o fossem os pequenos e a gente o plantava aí... mas as crianças, nã o
faltam, por desgraça!
Eles, os filhos, com efeito, nã o faltavam: Bernardo viu meia dú zia de
cabeças desgrenhadas surgirem de todos os cantos da sala, enquanto
o caçula soltava berros no berço de vime.
— Como pode esta linda criança voltar a tal pocilga? pensou o moço,
admirado e comovido.
Mais se admirou ainda ao ouvir Nina Rosa dizer arrojadamente à
desgraçada mulher:
— Leve-me junto a seu marido; preciso de lhe falar.
Fez um gesto quase suplicante para impedir a moça de executar seu
generoso intento; mas um sinal enérgico de Nina mostrou-lhe que
persistia na ideia. Contentou-se entã o com segui-la até a porta, e foi
quando imperiosamente disse à mulher de Bertel:
— Deixe a porta aberta... Esta moça nã o deve ficar sozinha...
Ela lhe obedeceu e Bernardo viu um homem de fisionomia selvagem,
estendido sobre o leito ordiná rio, e que soltava de espaço a espaço
surdos gemidos. Voltou à primeira peça para embalar o pequerrucho
que berrava cada vez mais... Nina julgou-se só .
— Bertel, disse ela, curvando-se um pouco sobre o homem que
procurava reconhecê-la; "vim dizer-lhe que me esqueci
completamente do que se passou na Clareira do Cavaleiro... Se deseja
alguma coisa, diga-me, que a trarei...
Reconheceu-a o homem de repente e fez um movimento rá pido.
— Ah! é a senhora? disse com voz rude. E veio ver se estou em estado
de ir para a prisã o de Savernay?
— Engana-se, meu amigo. A polícia nã o foi avisada, nem o será ...
Todos os dias virá vê-lo um médico, mandado por mim; quanto aos

40
medicamentos, pode tomá -los sem se preocupar com o pagamento.
Tudo farei para que o marquês lhe dê um lugar de guarda nas suas
terras.
— O marquês... É um "aristo" que nã o se importa comigo, resmungou
o doente, contente de poder dirigir a sua có lera contra alguém.
— Engana-se, Bertel; tenha esperança. Farei tudo para que você se
saia depressa e bem desta má situaçã o. Aqui está para a dieta da
convalescença... Adeus; voltarei.
Depois de ter deposto a bolsa sobre o leito de Bertel, Nina, um tanto
pá lida, saiu do quarto. Cercaram-na a mulher e a sua criançada;
recusou os agradecimentos, mas aceitou as carícias das mã ozínhas
mal lavadas.
Enquanto voltavam para onde estavam os cavalos, nã o falaram; mas,
ao ajudá -la a montar, disse-lhe o moço, simplesmente:
— Quero completar a sua obra, srta. Nina, De hoje em diante,
encarrego-me dos Bertel, e pedirei a minha mã e que vele também por
eles.
— Oh! obrigada, murmurou a menina, muito comovida; sou pobre
demais, bem sabe, para representar
de fada... Meu tio me dá tã o pouco dinheiro...
Com gracioso sinal de adeus, deu volta ao cavalo e logo desapareceu
aos olhos de Bernardo. Nina voltou a galope ao castelo; tomara-lhe a
escapada mais tempo do que pensava e temia chegar depois de
Geraldo, que fora a Savernay de carro e devia voltar pelas seis horas.
Seus receios eram fundados: à entrada do parque, Geraldo percorria a
estrada, com ar de quem espera há muito tempo.
Pensou em fazer uma volta para entrar, mas o
marquês já a vira, pois parou de repente a olhá -la. — Ora, afinal, ele
nã o irá me comer, pensou ela.
E, resolutamente, fingindo nã o ver o primo, continuou seu tempo de
galope, passando por ele e nã o parando senã o diante do portã o.
— Nã o me explicará você... disse o moço, chegando ao pé dela.
Mas o criado abria o portã o e Nina entrou, direita como uma pequena
rainha, no domínio de seus antepassados. Geraldo ajudou-a a apear-
se; com arzinho ingênuo, pô s ela sobre a mã o estendida a ponta da
botina e agilmente saltou em terra, dando as rédeas ao criado.
Enquanto o servo ia por um lado, arrastava Nina o primo para o outro,
em direçã o à habitaçã o: — Dizia você?... perguntou ela, com seu ar
inocente.

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— Pedia que me explicasse esta saída sem criado.
Muito resumidamente, a moça narrou sua visita
a Bertel.
Geraldo parou de repente:
— Você foi à casa daquele homem, você foi lá ... E para lhe falar! Se ao
menos me tivesse pedido que a acompanhasse...
— Muito obrigada! Um "aristo" como você lá dentro! replicou Nina,
encantada de empregar o enérgico termo de Bertel.
— "Aristo"!... Onde foi você achar essa palavra? Você merece ser
repreendida, afirmo-lhe! Ir à casa daquele homem, e sozinha!...
Nina disse alegremente:
— Eu nã o estava só ... acompanhou-me um cavalheiro.
Geraldo olhou para ela sem compreender.
— Bernardo de Mervys estava comigo, explicou tranquilamente.
— Ah! disse o marquês, ele estava com você... e encontraram-se antes
dessa visita?
Um pouco admirada da insistência do primo, contou-lhe Nina tudo o
que se passara; mas, sem o notar ela mesma, omitiu as ú ltimas
palavras trocadas.
— E acha, conveniente ir, você, Nina Rosa de Servane, fazer visitas em
companhia de um moço?
Respondeu ela imediatamente:
— Você nã o é precisamente um velho, você, Geraldo de Servane, que
se ofereceu para me acompanhar.
Sem responder, o marquês mordeu os lá bios, de despeito.
Subia ela agora o patamar, no passinho saltitante, ainda infantil, e ele
a seguiu maquinalmente até a estufa, onde estavam postas as mesas
para o chá .
— Morro de fome, disse ela, desabotoando as luvas. Chame, faça favor.
Obedeceu-lhe, enquanto ela tirava o chapeuzinho, olhando-o
maliciosamente, com o canto dos olhos.
Quando voltava para junto dela, viu-a introduzir os dedos finos nos
cabelos, para afofar as madeixas de ouro; fazia-o sem faceirice, por
há bito. Instalou-se depois comodamente diante de uma mesa,
dizendo:
— Escute, Geraldo; descontentei-o, concordo, e se nã o estivesse com
tanta fome, tornava a calçar as luvas, para pedir-lhe desculpas.
— Nã o quero desculpas... mas o que desejo é que você nã o vá jamais
sozinha em...

42
— Mas eu nã o estava só ! Disse-lhe que Bernardo.
— Pois bem! Aí está o que me aborrece, disse o marquês quase
violentamente.
— E eu a julgar que era isso justamente o que o iria tranquilizar...
Confesso, Geraldo, que nã o compreendo... Que mal fazia que
Bernardo...
— Ainda!... Está bem, Nina, que lhe baste saber que a quero sempre
acompanhada, para nã o ter que colher pessoas no caminho para lhe
servirem, intempestivamente, de guarda de corpo.
Entrava o criado com o chá . Segundo seu costume, Nina dispensou-o;
encheu duas minú sculas xícaras da China, e chamou o primo
docemente:
— Venha, Geraldo, senã o pensarei que você voltou a ser o feio
resmungã o da minha chegada.
Nem foi preciso mais para serenar o marquês; sorrindo, tomou a
cadeira que ela lhe designava.
— É verdade, andei mal, confesso, e agora 'você nã o me quererá mais
bem...
Cortando o bolinho dourado, Nina respondeu:
— Engana-se, Geraldo... Olhe para a natureza: quando sobrevêm uma
tempestade, perturba-a toda; lastima a gente o campo inundado, as
flores a escorrer á gua; mas, quando reaparece o sol, tudo é mais
verde, mais brilhante, e dizemos: "É muito mais belo que antes da
tormenta!" Nã o pensou assim muitas vezes?
— É verdade... e agradeço-lhe a comparaçã o.
— Tanto melhor... Assim nã o será mais mau. Nenhum sinal de
descontentamento restava já , de
fato, no rosto de Geraldo. Seu primeiro ciú me afogara-se na pequenina
xícara de chá , que lhe ofertaram uns dedos de fada.

CAPÍTULO 9

Junto da alta janela, bordava a fidalga, curvada sobre um bastidor que


servira sem dú vida a todas as castelã s de Mervys, a julgar pela sua
antiguidade.
De pé a seu lado, Bernardo tamborilava nos vidros, furioso contra a
chuva diluviana que inundava os campos.

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— Meu pobre filho, está de novo prisioneiro no solar... Em Paris você
nã o conhece os inconvenientes da tempestade... A nã o ser seus
passeios, Mervys nã o lhe pode oferecer distraçõ es agradá veis.
— Nã o se inquiete, mamã e, disse o moço, voltando-se. Se eu o
quisesse, poderia muito bem me distrair, tornando a pegar nos meus
pincéis.
A velha senhora olhou insistentemente para o filho:
— Parece-me que se aborrece! Perturbou-se o moço, sem o querer.
Entã o, perguntou-lhe a mã e, baixinho:
— Meu filhinho tem um segredo?
— Creio que nã o, mamã e...
Tomou-lhe ela o braço, forçando-o a inclinar-se, para melhor o ver.
— Fala a verdade?
Muito simplesmente, sem baixar os olhos, Bernardo murmurou:
— Sim, mamã e, porque isso já nã o é um segredo para a senhora, que
lê em meu coraçã o...
— Você ama... disse baixinho a fidalga.
— Amo-a, mamã e.
— Nina?
Com gesto lento, o visconde tocou com o dedo a meada cor da aurora,
que sua mã e tinha nos dedos:
— ... Rosa!... acabou ele num sopro. Estava feita a confissã o. Seguiu-se
o silêncio.
Há destas coisas, que dizem, e que sã o tã o sagradas, que nã o se lhes
pode acrescentar uma só palavra sem lhes romper todo o encanto.
Mã e e filho calaram-se; ele, todo perdido em seu sonho, ela, bordando,
lentamente, com a visã o muito suave de uma criança loura que se
curvara para ela a trançar as sedas brilhantes suspensas do bastidor...
E eis que, para completar o sonho, se afasta a cortina, uma branca
mã ozinha soergueu a meio o veludo espesso: lá estava Nina, que ria a
contemplá -los...
Foi a sra. de Mervys a primeira a descer das regiõ es etéreas, onde a
fizera subir o amor nascente do filho.
— Nina Rosa! você aqui! exclamou, indo vivamente ao encontro da
visita.
— Sou eu, sim, senhora, e peço-lhe desculpas de entrar em sua casa
como num moinho... Nã o encontrei criado para me introduzir.

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— Há festa na vila pró xima e foram todos para lá , exceto o velho casal,
que nã o quis expor-se a este dilú vio... Como já nã o está você molhada?
Mas... nã o está ninguém doente em Servane, espero-o?...
Nina desatou a rir:
— Descanse, minha senhora, sã o todos muito... maus para
adoecerem!... Quando eu era pequena, se me viam sossegada,
inquietavam-se pela minha saú de... Oh! O sr. Bernardo está aí... Nã o
conto entã o a minha escapada, porque iria forçá -lo a fazer uma voz
grossa como a do Ogre com o Pequeno Polegar... Sem mais cerimô nia,
Nina tirara o chapéu e o
sacudiu para fazê-lo secar. Bateu de um lado e de outro seu vestidinho
de cambraia bordado e só quando acabou a operaçã o se dignou a
dizer:
— Enfim, vou contar-lhe assim mesmo... Estou tã o habituada a ser
ralhada, que uma censura a mais nã o me incomoda.
Divertida, a fidalga obrigou-a a tomar uma poltrona, onde sua
minú scula pessoa se perdeu toda, e, assentando-se a seu lado,
prometeu-lhe que Bernardo nã o seria demasiado severo. Este, ainda
emocionado com a precedente confissã o, sentou-se defronte do
bastidor abandonado e, para se mostrar calmo, pô s-se a balançá -lo.
Nina começou resolutamente:
— Foi assim: Vim sozinha, de auto... Ou antes, fugi... depois, perdi-me,
de verdade... e enfim descobri a sua casa, para me consolar da minha
má fortuna.
O bastidor sofreu tal encontrã o, que algumas meadas vieram cair
sobre o tapete, quase aos pés de Nina.
— Olá , disse esta, zombeteira! O sr. Bernardo faz tapeçaria... Meus
cumprimentos... A mim, nunca me puderam manter dez minutos
diante do aparelho que o senhor maltrata!
— Eu esperava suas explicaçõ es, senhorita.
— Ah! Muito bem!... Direi, pois, que na ausência de Geraldo, que está
em Savernay com meu tio, tive uma discussã o com minha tia e Teresa.
Está vamos prontas para sair de automó vel. O chofer punha o motor
em marcha e eu esperava pacientemente a ambas, que falavam baixo
no terraço, olhando-me com ar esquisito. Pus-me imediatamente de
sobreaviso, no que nã o fiz mal, asseguro-lhe, pois Teresa me chamou
de repente, com a voz dos dias maus; precipitei-me, e, sem me dignar
subir até onde estavam, levantei o nariz e perguntei: "Que quer você?"
Minha amá vel prima curvou-se sobre a balaustrada e anunciou-me

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tranquilamente: "Minha mã e prefere nã o a levar; você ficará aqui".
"Mas", disse eu, aturdida de ver tanto desplante, "ao almoço meu tio e
Geraldo disseram desejar que eu fosse com vocês". "É possível, mas
minha mã e resolveu outra coisa." E como minha tia me gritava, em
tom de soprano agudo e diante do criado: "Entre, menina, e nã o
discuta!" eu nã o disse nem uma nem duas... saltei no automó vel vazio
e, arrancando, gritei: "A mulher deve obedecer a seu marido, minha
tia!" E parti... e perdi-me! E aqui estou... Agora, censurem Nina Rosa, se
tiverem coragem!
A fidalga e o filho tinham mais vontade de rir do que de ralhar; já Nina
se calara e ainda eles a observavam benevolamente, espiando a
repetiçã o dos gestos
gentis e dos trejeitos com que fizera a narraçã o. Enfim, acariciando a
cabeça loura curvada para
ela, a sra. de Mervys disse:
— Minha pequena, ninguém a censurará ; mas é muito prudente
tranquilizar seus parentes, que devem estar bem inquietos!
— Duvido muito disso, senhora. Bernardo levantara-se com presteza:
— O melhor, mamã e, seria ir eu de carro a Servane e voltar a toda a
velocidade. Isso me permitiria fazer à srta. Nina Rosa as honras do
nosso solar, quando estivesse de volta.
— Nã o, meu filho, respondeu docemente a fidalga; sua ideia nã o é a
melhor, porque, conservando aqui Nina Rosa, só lhe poderíamos atrair
dissabores... Veja, minha menina, continuou ela, tomando as brancas
mã os entre as suas; é preciso ser muito paciente com suas primas e
evitar de tomar a ofensiva, como fez hoje.
— Oh! suspirou Nina, lamurienta... É tã o divertido dar-lhes o troco!
— Sim, mas esse procedimento irritará a duquesa e Teresa. Nã o há
maior vitó ria do que a de vencermo-nos a nó s mesmos. Só entã o nos é
permitido aspirar à vitó ria sobre outrem.
— Vejo, minha senhora, que seu pequeno sermã o prepara uma grande
censura.
— A censura vem de Bernardo.
— De Bernardo! Ah! isso nã o me admira, suspirou Nina, deixando cair
os braços, desanimada... Pois bem, diga depressa, senhor, acrescentou
ela, com ar de desafio.
Bernardo sorriu divertido com o tom belicoso.

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— Teresa nã o lhe perdoa o fazer-se chamar marquesa de Servane, e
posso garantir-lhe que nada obterá dela antes de renunciar a este
título de empréstimo.
O olhar de Nina exprimiu a mais profunda admiraçã o.
— Mas eu julgava ter direito a ele, pois que papai era marquês.
— Uma moça nã o usa título... Admira-me que a tenham deixado na
ignorâ ncia disso.
— Foi meu avô Valnoy que me educou... Como poderia ele saber essas
coisas... disse Nina, enquanto os olhos exprimiam censura
entristecida.
— Perdoe-me; sou um desastrado! Mas queria simplesmente prestar-
lhe serviço, por um conselho de amigo.
— Que eu aceito... Entretanto, pode explicar-me por que Teresa se faz
chamar "condessa"?
— Por orgulho ridículo, bradou Bernardo duramente.
Mais suavemente, disse a fidalga.
— Teresa é orgulhosa... Considera toda a vila de Servane como
domínio seu e, para se impor aos camponeses, orna-se com um título
que nã o ostentaria em Paris, mas que serve aqui para satisfazer-lhe a
necessidade de dominaçã o... Quanto a você, cara menina, fique
somente Nina Rosa... a Nina Rosa humilde e doce, que firma toda a sua
nobreza, toda a sua realeza no título inalterá vel de cristã .
— A senhora tem toda a razã o... ficarei a pequena Nina Rosa para
todos... e seguirei... tanto quanto possível... seus bons conselhos, e os
nã o menos bons do senhor visconde.
— Entã o tudo vai bem!... Irei agora vestir-me; nó s ambos levaremos
nossa amiguinha a Servane e trataremos de amainar o acolhimento
que lhe vai ser feito... Enquanto me esperam, Bernardo, leve nossa
pequena santa Rosa à capela.
— Oh! senhora, disse Nina Rosa rindo, nã o tenho jeito de santa...
Minha tia dizia ontem a Geraldo: "Concordo com você em que esta
pequena nã o é má ; mas nã o passa de um nenê com um coraçã o de
borboleta".
Bernardo e a mã e puseram-se a rir.
— O nenê, ainda vá , continuou Nina; há alguns tã o gentis... Mas o
coraçã o de borboleta... Nã o suspeitava que minha tia tivesse feito
estudo tã o profundo de psicologia! Disse-lhe, naturalmente.

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— Sim, naturalmente, nã o o duvidamos, falou o visconde, muito
divertido. Vamos, senhorita; por uma vez, seja obediente... Siga-me à
capela, como minha mã e lhe pede.
— Com todo o prazer... será para mim um prazer!
Como Nina ia tornar a pô r o chapéu, advertiu-a a fidalga, colocando-
lhe sobre a cabeça a mantilha de rendas negras, que lhe servia
habitualmente para ir à capela. Ficava-lhe bem o toucado; contrastava
admiravelmente com os cabelos de ouro e com a deslumbrante alvura
do vestido. Toda a minú scula pessoa de Nina estava transformada.
Havia qualquer coisa naquele exterior resplandecente como uma nota
grave, que lhe dava ainda mais beleza.
Isso mesmo, dizia Bernardo consigo, enquanto penetrava com Nina na
capela. Ajoelharam-se um ao pé do outro e oraram.
Passara a tempestade. Através do vitral, filtraram de repente os raios
do sol vitorioso... Ao longe ouvia-se ainda o ronco do trovã o. Talvez
houvesse tormenta nos arredores..", chuva... um céu sombrio... Mas
sobre as duas juvenis criaturas, que oravam, todo o sol parecia ter
concentrado suas riquezas, tomando, ao vitral resplandecente, safiras,
esmeraldas e rubis, para nimbá -los de luz.
Nina parecia ter acabado sua prece; olhou para Bernardo e viu que
seus lá bios ainda se moviam. Teve entã o a visã o da felicidade, que
Deus, porventura, lhe preparava... Ser a mulher de Bernardo; possuir a
mesma fé; amarem-se em Deus... viver sempre naquele meio cristã o,
para sempre vibrarem em uníssono!
Terminada a oraçã o, Bernardo fez com ela a volta
da capela; mostrou-lhe os quadros, as esculturas; com ela desceu à
cripta, dando-lhe os nomes de todos que dormiam sob os má rmores
brasonados... Ela escutava sem ouvir... olhava sem ver... Nina
sonhava!... Nina amava!... De tudo o que a cercava, nã o via senã o
Bernardo... Bernardo, que cria no seu Deus, que orava como ela, que
amava o que ela amava... Era o seu primeiro amor; gozava-o como
coisa muito preciosa, que nã o tivemos tempo de desejar; e que de
repente a Providência nos põ e nas mã os. À volta, quase nã o falou; mas
trazia tanta luz nos olhos, que a fidalga o notou e disse-lhe rindo:
— Ora, aqui estã o olhos onde nã o há tempestade!
— Tem razã o, mamã e, apoiou o visconde; podemos acusá -los de nos
terem furtado o sol.
E Nina meio sorrindo:

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— Nã o tenha receio, senhor; seu sol ser-lhe-á restituído, e ainda
centuplicado...
— Assim o espero... replicou Bernardo, que empalidecera um pouco.

CAPÍTULO 10

Sentada diante do toucador, Nina Rosa desfazia o penteado para a


noite. Refletia-lhe o espelho a imagem de um pequenino rosto feliz, de
dois grandes olhos que brilhavam como estrelas nas olheiras
azuladas; porque há alegrias fortes demais, que fatigam, sobretudo
quando sã o inesperadas. Sabia agora que a felicidade estava ao seu
alcance; sorria de prazer, traçando as ondas douradas do cabelo.
Quando as duas tranças louras repousaram sobre o tecido suave do
penteador, olhou ainda uma vez para o rosto de criança no espelho,
como para gozar melhor da sua aparência feliz; depois, riu
devagarinho, batendo as mã os.
— Boa noite, feliz Nina, disse baixinho. Nesse instante, abriu-se a
porta e entrou Lisa.
— Que há ? perguntou rapidamente... Você bem sabe que nã o preciso
de ninguém para me vestir.
— Desculpe-me, senhorita... Se ousei entrar assim no seu quarto, é
porque temo alguma coisa.
Nina levantou-se, inquieta:
— Mas que há , Lisa?
— A srta. Teresa despediu do quarto suas camareiras. Estava muito
pá lida, disseram-me elas, e confessou que nã o se sentia bem,
proibindo-as de falar isso... A mim, naturalmente, contaram, e como o
quarto da srta. Teresa fica tã o pró ximo do seu, achei prudente adverti-
la, para o caso em que seja preciso... Havia nos olhos da serva alguma
curiosidade; percebeu-o Nina, e replicou despreocupadamente:
— Está bem, vou ver minha prima... Pode descer, Lisa.
Quando se assegurou de que a criada estava embaixo, Nina abriu
devagar a porta, passou sem ruído "pelo corredor e foi bater à porta
do gabinete de Teresa, peça de refinado luxo, que precedia o quarto.
Ouviu um "entre" pouco convidativo, mas Nina jamais recuava.
Resolutamente, abriu a porta e avançou até ao meio do gabinete.
Teresa estava de pé, como pessoa que acaba de ser surpreendida, e, ao
ver a prima, soltou um leve grito, que abafou nos lá bios. A longa

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cabeleira negra ondulava quase até a barra do penteador branco,
aumentando-lhe singularmente a estatura. Na peça vizinha, viu Nina o
vestido de noite da prima atirado sem cuidado sobre o leito; em uma
taça brilhavam joias, preciosidades que os estojos pareciam esperar,
abertos sobre a mesa.
Piedosamente comovida ante a incrível desordem que suspeitava em
Teresa, Nina perguntou:
— Teresa... diga-me, o que tem?...
Com seu ar de imperatriz, a moça aprumou-se:
— Que tenho!... Pouco lhe importa!
Houve um silêncio penoso para a impulsiva Nina; conteve-se, porém,
e, muito meiga, mas animosamente tomando à força a bela mã o da
prima:
— Teresa você tem uma má goa; quero conhecê-la, talvez possa aliviá -
la.
Por um instante, a moça olhou para a criança quase agarrada a ela; no
seu espírito altaneiro, fazia-se um trabalho, rá pido e fulminante:
aliviar sua dor! Mas sim; esta pequena detestada podia fazê-lo... Seria
o instrumento; era fina... tinha espírito... Sim, mas pedir auxílio,
abaixar-se à confissã o!... Oh! que importava a Teresa... Seu amor
primeiro, o orgulho depois.
Deixou-se cair sobre o divã , as mã os abandonadas nos joelhos. Entã o
Nina compreendeu que ela ia falar; sem olhar a prima, puxou um
banquinho para junto dela e, silenciosa, sentou-se.
— Nina Rosa. disse a moça com voz branda, que impressionou a
menina, você sabe o que é amor?
Com um gesto casto, cruzou Nina Rosa as mã os sobre o peito:
— Sim... respondeu, num sopro, e sem erguer os olhos.
A voz de Teresa tornou-se quase metá lica ao dizer:
— E sabe você o que é nã o ser amada por aquele a quem se ama?
Houve nos belos olhos abaixados uma flama de felicidade, que Teresa
nã o viu.
— Nã o... murmurou Nina Rosa, para abafar da voz o triunfo.
— Pois bem! Sei-o eu, continuou ardentemente a moça. E toda a
minha felicidade está nesse amor... Se o perco, morro... Oh! Nina! Só
você pode...
— Eu!
— Sim, você! Seria o melhor advogado da minha causa porque você
poderia falar a língua que eu nã o sei falar...

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— Que língua? disse Nina maquinalmente surpreendida.
— A língua dos cristã os... Você poderia tocar aquele coraçã o que me
ignora, porque nã o sei vibrar como ele... Você diria dessas palavras
que nã o me ensinaram...
— Teresa, explique-se; nã o a compreendo, disse Nina, que fixava
sempre as flores do tapete.
— Você nã o compreende... é preciso entã o que
lhe diga?
— O nome dele, respondeu simplesmente a jovem.
Teresa hesitou; depois, pouco a pouco, inclinou-se para a cabeça loura
e seus lá bios murmuraram:
— Bernardo de Mervys...
Pareceu a Nina que ia cair. Todo o sangue lhe afluiu ao coraçã o; as
flores do tapete dançavam-lhe diante dos olhos e as mã os crispavam-
se na lã fina do vestido.
— Meu Deus!... disse ela baixinho.
— Por que nã o me diz nada? perguntou Teresa, suspeitosa.
— É que... você me surpreendeu...
— Por quê? perguntou violentamente a jovem condessa. Nã o sou
digna dele?...
E como a criança calava, sem forças, continuou,
tremente:
— Mas responda, responda, vamos! Entã o, revoltou-se todo o amor de
Nina:
— Ele é cristã o... e você nã o crê, disse ela.
— Mas crerei, porque ele crê e eu o amo! gritou Teresa com ardor...
Farei o que ele quiser... Diga, Nina, você falará por mim... Você sabe
melhor do que eu o que é preciso dizer para vencê-lo... Você falará ,
nã o é?
— Sim, sim, eu falarei... Vamos, Teresa, serene;
tudo se arranjará ...
— Promete trabalhar para a minha felicidade? Agindo
maquinalmente, na sua grande dor, a pequena respondeu:
— Sim, sim... Vamos, deite-se agora.
— E você refletirá , no que eu lhe disse? Frio suor cobriu a estreita
fronte branca:
— Refletirei... sim, balbuciou Nina Rosa saindo do gabinete.
Agora, diante do leito, fixa um olhar sem vida no crucifixo pendurado
à parede. Compreendia que um sacrifício imenso lhe era pedido...

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Bernardo devia ser o marido de Teresa... Era preciso, para a salvaçã o
daquela alma orgulhosa.
— Oh! nã o, meu Deus; isso nã o! gritou ela, lançando-se sobre o leito
para ocultar a cabeça no travesseiro e abafar os soluços.
— Nã o queria ouvir a voz que falava alto na sua consciência tã o reta.
— Nã o posso, suspirou ainda... E depois, passados os primeiros anos, o
entusiasmo de Teresa cairá ; assim nã o vale a pena sacrificar-me. Sim...
mas seus filhos teriam sido batizados; entã o, mesmo que ela voltasse à
indiferença primitiva, teria sempre uma família cristã , filhos que
seguiram o exemplo do pai. E, além disso, o amor de Teresa teria sido
bastante profundo para vencer seu imenso orgulho.
A seu pesar, Nina pensava que, uma vez na boa via, Teresa nela
persistiria, retida pelo amor do marido e a influência dos filhos.
— Nã o, nã o, repetia, nã o posso!... Nã o tenho força suficiente para
abafar assim meu primeiro amor... e seria desleal amar Bernardo
casado.
Mas bem sabia ela que a pequena alma leal, que Deus lhe dera, saberia
cumprir o sacrifício em toda a plenitude.
Ergueu-se e pô s-se a andar no quarto, para serenar a perturbaçã o.
— Nã o posso!... Seria horrível demais! Se ele nã o me amasse... Mas
ama-me também!
A esta ideia, riu, mas seu riso soava falso:
— Mas é verdade, ele me ama... Posso bem falar-lhe... de Teresa... É
inú til o sacrifício!
Os olhos nublados pelas lá grimas encontram outra vez o crucifixo. O
sacrifício podia ser consumado, se Nina deixasse ignorar o seu amor!
— Oh! nã o, isso nã o!... isso me mataria!
E, qual avezinha ferida, a criança abateu-se de joelhos contra a cama.
Na sua pobre cabeça, as ideias agitavam-se, sinuosas; visõ es se lhe
apresentavam ao espírito: via, de um lado, Teresa desesperada,
afastando-se para sempre de Deus, esposando um ateu; do outro a
prima convertida, esposa amante, deleitada pela maternidade cristã ...
atraindo a seu lar submisso a Deus os descendentes infiéis dos nobres
senhores de Servane...
Quanto tempo ficou ali, prostrada ao pé do leito? Nã o o poderia dizer;
mas, naquela meia inconsciência, a obra divina cumpria-se. A pobre
Nina já nã o se defendia: baixinho, implorava o socorro do céu...
Um arrepio arrancou-a ao torpor; como autô mato acabou de se
preparar; mas, antes de se deitar, ajoelhou-se sobre a cama, como

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quando era pequenina. Olhou um momento para o crucifixo, sem
coragem de pronunciar palavra; depois, em doloroso esforço,
pronunciou seu fiat de cristã o... Estava consumado o sacrifício...
Muito tempo esteve de olhos abertos na obscuridade, sem um soluço,
sem uma lá grima. Mas Deus nã o permitiu que a vigília a torturasse,
porque adormeceu enfim num sono tranquilo.
CAPÍTULO 11

Era uma maravilhosa manhã de setembro; no ar vagavam frescos


perfumes de flores orvalhadas, os ú ltimos odores de um estio que se
recusava a morrer. Dir-se-ia que, constrangida a envelhecer, lançava a
natureza ao inverno um supremo desafio, alinhando-se, ainda uma
vez, com todas as suas riquezas.
E na luz pá lida do sol, na harmoniosa decoraçã o
de verdura e frescor, Nina parou, os braços carregados de flores: os
raios de ouro caíam-lhe sobre a cabeça loura. No seu vestido de
musselina branca, parecia diá fana, quase imaterial. Olhava para as
flores, mas nã o lhes sorria. Ouvia os pá ssaros, mas nã o lhes casavam
aos gorjeios os trinados da sua voz cristalina. Tudo era belo, tudo era
alegre, e a criança, parada no meio do caminho, nã o o notava! E eis
que uma cançã o sobe no ar; uma voz jovem dizia:
"Oh! Nina, Nina, que fazes da vida?"
A moça empalideceu atrozmente quando viu diante de si Bernardo de
Mervys; descaíram-lhe os braços sem força e a colheita florida juncou
a estrada.
Num rá pido movimento, achou-se o moço a seus pés para recolhê-las.
Entã o, Nina docemente disse:
— Nã o, deixe-as, senhor...
— Deixá -las morrer, no viço da mocidade, seria um crime!
— Deixe-as, repetiu ela quase imperiosamente. Mais vale para elas
morrer neste quadro poético, do que no luxo vulgar de um salã o.
Calou-se um momento, para tomar posse de si mesma, invocando
baixinho o anjo da guarda, e foi num tom quase natural que
perguntou:
— Que é que o traz tã o cedo a Servane? Premedita arrastar-nos a
todos em alguma cavalgada maluca?
— Nã o tenho essa insensata ideia...
— Entã o, vem ver Geraldo, para se perderem ambos na poeira
venerá vel dos pergaminhos de nossos antepassados ... Saiba que

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invadem os domínios dos ratos, que têm um gosto extraordiná rio
pelos alfarrá bios.
E ria alegremente; mas, sob os dedos, a renda do vestido se
despedaçava aos poucos.
— Nã o vim por Geraldo, nem pelo passeio, nem pelos manuscritos...
— Entã o, replicou, com uma calma que a si pró pria espantou, devo
crer que veio ou por Teresa ou... por minha humilde pessoa.
— É a ú ltima a melhor hipó tese.
Ela riu ainda e, curvando-se vivamente para tirar o escaravelho
dourado que se embaraçara nas rendas:
— ó timo! E pode-se saber o que espera de mim? Uma corrida de
automó vel? Uma partida de bilhar?... Uma partida de bola no
vestíbulo?...
— Nina Rosa! murmurou gravemente Bernardo; para outra coisa, e
devo explicar-me, porque, se
obtive permissã o de minha mã e para vê-la a só s, prometi-lhe nã o
abusar dela!... Nina Rosa, quer ser
minha mulher?
Pá lida e sem forças, a criança recuou, sem responder uma palavra.
— Nina, gritou Bernardo dolorosamente, ter-me-ia enganado?
Quis tomar-lhe a mã o, mas ela o deteve com um gesto:
— Sr. Bernardo, perdoe-me causar-lhe um desgosto...
Nã o pô de acabar!
O visconde nã o ousava compreender; recuou ele também e, com a voz
estrangulada, perguntou:
— A senhorita nã o me ama?... A boca pequenina ficou fechada.
— Oh! meu Deus, suspirou ele... e eu que pensava...
E como ela nada dizia, com uma luz dolorosa no fundo dos olhos,
pensou que sentisse apenas a piedade instintiva da mulher que vê
padecer, e reanimou-se:
— Perdoe-me, também, balbuciou; esqueça minhas palavras.
— Sim, murmurou ela, muito calma, esquecerei... nã o quero que... esta
entrevista o afaste de Servane... Isso me penalizaria muito... O senhor é
meu grande amigo... Fica sendo um irmã o mais velho.
— Nã o voltarei aqui! disse ele rudemente.
— Sim, sim, é preciso... Por que se dirigiu a mim em vez de... de falar a
uma outra aqui mesmo?
— Teresa, minha mulher... uma pagã !...

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— Faria dela uma cristã ; porque ela o ama, e com verdadeiro amor,
que a salvaria... se o senhor quisesse...
— Por que me diz isso? perguntou ele, desconfiado.
— Porque tenho o egoísmo de pensar que é o melhor meio de o tornar
a trazer e conservá -lo bom amigo dos de Servane... E depois,
continuou, mais serena, pense como cristã o; nã o estamos no mundo
para satisfazer nossas paixõ es e nem mesmo... nossos amores... Nã o
fomos criados senã o para a gló ria de Deus. Nã o é da sua vontade que
eu seja sua mulher; Ele tem outros desígnios a seu respeito... Veja
minha família: nã o tem religiã o alguma; casando com... Teresa, pode
fundar, naquele lar, um lar cristã o, e salvá -los a todos! Teresa nã o
tinha senã o um defeito: seu orgulho, que destruía tudo nela... O amor
venceu esse defeito... Se, todavia, há uma resposta a esse amor...
— E acredita que eu queira esse amor, quando sonhara...
— Refletirá , Bernardo, pedirá a Deus que lhe diga onde está a sua
vontade.
— Julga consolar-me falando-me de Teresa... e aquela que eu amo...
— Silêncio!... disse Nina, pousando o dedinho trémulo sobre os lá bios.
E, arrastando Bernardo para a saída do parque, disse:
— Escute-me, e nã o me interrompa... Antes de decidir qualquer coisa,
antes mesmo de refletir, afaste-se de mim... Partiremos para Paris
dentro de oito dias. Pretextarei uma dor de cabeça para nã o ir lá
despedir-me ... Nã o volte a Paris este inverno; fique em Servane com
sua mã e... escrever-lhe-ei como a um irmã o mais velho, porque talvez
tenha necessidade de conselhos, eu que me verei toda perdida,
naquela Paris inconstante!
— Por que nã o se dirigirá a minha mã e?
— Porque o suspeito de querer romper a velha amizade que existe há
tanto tempo entre nossas famílias, e quero impedi-lo a todo custo!
Empenho-me também em empreender a conversã o de Teresa, e sei
que é muito bom cristã o para se desinteressar daquela alma... Além
disso, conhece-a melhor do que eu: eram amigos de infâ ncia.
— O que me obriga, talvez, a desposá -la?
— Vamos, Bernardo, disse-lhe que nada decidisse na crise que
atravessa.
Atingiam o limite do parque e o moço parou repentinamente:
— Acredita que meu desgosto seja uma crise? Preciso recordar-lhe
que há dores que nada pode curar?

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— Para aquele que nã o crê em Deus... sim! Mas para você, Bernardo,
para você que sabe que nosso fim nã o é exclusivamente o amor, esta
dor nã o pode e nã o deve aniquilar assim todo o seu ser: é um dever
reagir contra ela, para ter a força de cumprir... o que Deus quiser!...
Ele amargamente disse:
— Para você, é fá cil falar assim: eu amo, e você... Ela estremeceu toda.
— E eu?...
— Você nã o me ama!... E continuou, sem olhar:
— Teríamos sido felizes... ambos cristã os, vivendo tranquilos no
solar... com minha mã e... Mamã e, que a ama já como filha!
— Cale-se, Bernardo, peço-lhe... Deus nã o o quer; submetamos...
submeta-se!
— Nã o posso!
— Mas deve fazê-lo!
E como o via tã o revoltado, teve medo de deixá -lo partir assim.
— Bernardo, murmurou gravemente; vê aquele calvá rio, lá à beira do
caminho?
— Sim, disse ele, sem compreender.
— Pois bem! Nã o quero que parta assim desesperado, e apelo para os
seus sentimentos de cristã o...
Bernardo, olhe bem para aquela cruz... Bernardo quer repetir comigo
a oraçã o que vou pronunciar?
— Sim...
— Meu Deus, começou Nina, branca como uma morta.
Meu, Deus — repetiu ele.
Esta Ú ltima palavra, unindo aquelas duas almas na mesma sú plica,
afastava-as contudo para todo o sempre. Compreenderam-no e, sem
uma palavra, afastaram-se um do outro. Esboçaram um gesto para
estenderem as mã os, mas seus dedos nã o se tocaram.
Muito depressa, e sem se voltar, Bernardo de Mervys transpô s o
portã o e ganhou a estrada.
Dissimulada por uma moita florida, seguiu-o Nina Rosa com o olhar,
muito tempo. E, quando ele desapareceu na volta do caminho, caiu
sobre a relva como morta, sem um grito...
Depressa, porém, produziu-se a reaçã o. Soluços cruéis sublevaram-lhe
o peito; onda de lá grimas inundou-lhe o pobre rosto exangue,
acalmando a ardência das faces. E como os cabelos de ouro se tinham
desprendido, deixou que o manto ondulado a envolvesse toda, como
para melhor ocultar à natureza em festa o espetá culo da sua dor.

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Era uma maravilhosa manhã de setembro. Havia no ar fresco
perfumes de flores orvalhadas; ú ltimos odores de um estio, que se
recusava a morrer.

SEGUNDA PARTE

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CAPÍTULO 1

— Srta. Nina Rosa, desta vez, paga prenda!...


— E por que, se faz favor, cavalheiro?
— Já por duas vezes nos deixou, obrigando-nos assim a interromper o
jogo.
A moça ria alegremente, ao retomar o seu lugar ao lado do oficial.
— O senhor dá alguma importâ ncia a este jogo...
— Dou-a sobretudo à s respostas...
— Porque é curioso... No fundo, o senhor se importa bem pouco com
as suas duas perguntas: Que é felicidade?... Que é o amor?... Só o que
há , é que o senhor e os seus semelhantes sã o muito curiosos.
Perdã o, reclamaram vá rias vozes masculinas;
curiosidade e mulher sã o a mesma coisa!
Nina Rosa continuou, impassível:
Tã o curiosos, que o sr. d'Arbreuze olhava há
pouco por cima do meu ombro para melhor saber o que eu pensava da
felicidade...
— Oh! senhorita!...
— Vi muito-bem, nã o negue...
Riram-se alto as moças e o partido masculino gritou, para se vingar:
— E a prenda! A srta. Nina Rosa tem uma prenda a pagar!
Uma prenda que nã o pagarei... Ou, antes,
que pagarei a meu modo; tenho um segredo... uma notícia a dar-lhes, e
nada direi antes que me relevem a puniçã o injusta...
O olhar profundo procurou outro olhar, e os longos cílios fizeram um
sinal imperceptível.
Recostada na cadeira, Teresa fixou um momento a prima e uma chama
rosada subiu-lhe à s faces.
— Está levantada a puniçã o, disseram em coro os moços.

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Nina Rosa fez um gesto de compaixã o:
— E acusaram as mulheres de serem curiosas!... Pois bem! Nada direi.
Ergueram-se tais protestos, que da sala vizinha vieram reclamaçõ es.
— Nã o ralhem, nã o tornaremos a gritar, disse Nina.
— Espero que nã o, disse uma voz acrimoniosa, em que ela logo
reconheceu sua tia.
Fez-se curto silêncio; entã o, Nina anunciou alegremente:
— Bernardo de Mervys chega daqui a três dias!
— Diziam-no preso no solar por todo o inverno; parece que Paris tem
para ele atraçõ es inesperadas.
— Parece! disse Nina lentamente, olhando para Teresa e sorrindo.
— Mais um excelente patinador! E que divertido! ... Temos todas as
felicidades juntas...
— Sim, todas, murmurou a moça, muito pá lida.
— Parece fatigada, senhorita, disse de repente o tenente d'Arbreuze.
Ela disse, caçoando:
— Sã o tantas perguntas que me fatigam o cérebro! Vamos,
continuemos o jogo... ou serei ainda responsá vel pelas interrupçõ es,
íamos ler as respostas... se é que as nã o leram já ... por indiscriçã o.
— Oh! senhorita!
Nesse momento, afastou-se a cortina que separava as duas salas e
entrou Geraldo. Causou ele grande alarido, mormente, no grupo
feminino; mas a duquesa nã o reclamou: o marquês de Servane tinha
todos os direitos.
— Peço-lhes que me perdoem a demora: fui retido na embaixada de
Inglaterra, onde renovei conhecimento com um de meus antigos
parceiros de jogo de Londres, que está adido há oito dias.
— Devia tê-lo trazido, disse Nina; talvez soubesse o que é a felicidade
e o amor.
— Nã o vejo bem a relaçã o... Apressaram-se a explicar o jogo a Geraldo
e Nina encarregou-o de ler todas as respostas.
— É melhor assim, disse ela com, seu costumado desassombro,
porque todos os senhores trapacearam para reconhecer as caligrafias
no momento da leitura.
Geraldo disse, rindo:
— Mas eu reconhecerei também certas caligrafias.
— Oh! você nã o faz mal; é discreto.

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O jovem marquês tratou de obedecer; deram-lhe lugar diante da
mesa; empenhavam-se as moças em chamar-lhe a atençã o, mas
parecia que nem as via se agitarem!
Nina Rosa chegara-se para Teresa e, sentando-se a seu lado, tomara-
lhe uma das mã os; curvando-se como para melhor contemplar as
pérolas dos anéis, murmurou baixinho:
— Bem cedo haverá neste dedinho um anel que valerá mais que todos
os outros do mundo.
No mesmo tom, Teresa perguntou:
— Oh! Nina Rosa, você o espera, verdadeiramente,?
— Estou certa disso.
E, tremendo de repente, com um frio de angú stia que lhe atravessava
todo o ser, a jovem abraçou-se a Teresa. Vestidas ambas de branco,
adornadas das mesmas rosas purpurinas, pareciam duas irmã s
resplandecentes de diversa beleza.
De vez em quando, olhava-as o marquês, como se procurasse resolver
um problema; depois recomeçava a leitura com comentá rios
espirituosos, que causavam no salã o risadas cristalinas.
— Olá ! disse ele de repente; aqui está uma coisa que transtorna
muitas opiniõ es. Primeiro: "A felicidade é uma bolha de sabã o que
rebenta quando a vamos atingir". Em seguida, noutro papel: "A
felicidade é um tesouro que buscamos por longo tempo e que
achamos enfim onde nã o o procuramos".
— Que devemos pensar dos autores destas duas respostas, senhor
marquês? perguntou um mocinho imberbe, mais indiscreto que os
demais.
— Essas palavras ocultam tanta coisa... murmurou sonhadoramente
uma das moças.
Mas Geraldo reconhecera no primeiro a letra de Nina, e no outro a de
sua irmã . O problema tornava-se mais complicado; também, recusou-
se claramente a explicá -los aos outros.
Era tã o séria a pergunta seguinte, que reinou silêncio na sala durante
alguns minutos. O marquês recusara delicadamente o lá pis que lhe
apresentara a vizinha. Contentou-se em seguir os diversos gestos dos
moços, muitos dos quais achavam muito difícil, ao que parecia,
explicar o que era o amor. Mas imobilizou-se-lhe o olhar sobre o
papelinho que Nina dobrava com tanta força, que os finos dedos
imprimiam nele leves pregas. Perfidamente, seguiu o bilhete nas suas

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evoluçõ es sobre o tapete e, quando veio a hora da leitura, como por
acaso, tomou somente um, escusando-se de fazer a leitura dos outros.
— Nã o me deixem afô nico hoje, peço-lhes. Fizeram-me prometer um
duo com a srta. d'Arston.
Achava-se ausente aquela jovem; puseram-se logo a murmurar dela:
— Nã o a supunha musicista, disse a vizinha de Geraldo. Como deve
aborrecê-lo, marquês, acompanhá -la com aqueles cabelos tingidos, os
dentes tã o compridos, é verdadeiramente ridícula!
Nina Rosa disse, ingenuamente:
— Geraldo nã o a verá ; ele nunca olha para as moças.
Ouviram-se risos abafados; custou muito ao marquês guardar o sério,
e sua vizinha tornou-se cor de pú rpura, lançando um olhar
desconfiado a Nina.
— Garanto-lhe que jamais se ocupa delas, continuou esta; tem muitas
outras coisas a fazer.
Desta vez, riram todos francamente, exceto a interlocutora de Nina.
— Vamos lá , Nina Rosa, ralhou o marquês, divertido; nã o me queira
denegrir assim aos olhos destas moças!
— Oh! senhor, disse perversamente a vizinha; nó s nã o acreditamos
em nada disso! Nã o ignoramos que o senhor sabe distinguir as moças
de raça das que nã o o sã o... completamente.
Compreenderam todos a alusã o e sentiram-se constrangidos, porque
gostavam muito de Nina. Geraldo Empalidecera e seu olhar era agora
negro. A princípio um tanto admirada do ataque que nã o esperava,
Nina recompô s-se logo. Viu os rostos mortificados e, diante dela, o
olhar duro do primo. Disse entã o, tranquilamente:
— E quando as tiver distinguido, as moças de raça, que fará , Geraldo,
delas? Nã o pode se casar com todas...
Retrucou-lhe a outra acirradamente:
— A senhorita ri de tudo!
Com voz contida, Geraldo murmurou:
— Felizmente!
— E se lêssemos agora os papéis? Seria melhor que discutir sobre as
moças de raça, propô s Nina.
Todos obedeceram rindo e, quando chegou a vez do marquês, este
hesitou um instante; depois leu, lentamente:
— O amor é uma coisa encantadora e dolorosa, feita de sorrisos e de
lá grimas amargas.
Teresa disse, nitidamente:

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— Quem escreveu isso conheceu nã o só os sorrisos, mas também as
lá grimas do amor!
— Nã o julgava possuir sob meu teto um coraçã ozinho tã o maltratado
pelo amor!... acrescentou o marquês. E seu olhar fixou Nina um
momento.
Sentindo que ele lhe queria perscrutar a alma até ao fundo, Nina Rosa
baixou as pá lpebras e Geraldo nada mais viu do que a dupla fila de
cílios sedosos, batendo sobre as faces, agora purpurinas.
— Tem um segredo... e eu o saberei! pensou o moço ardentemente,
metendo no bolso do colete o papel revelador.
-. Por que me olhou ele assim? perguntava consigo, de seu lado, Nina
Rosa, um pouco inquieta.

CAPÍTULO 2

Bernardo ia chegar... Iluminada a giorno, a sala estava florida como


para um baile.
Muito majestosa, fazia a duquesa as ú ltimas recomendaçõ es à filha:
— Seja amá vel, ouve? Nã o tome grandes ares... Sabe que isso lhe
desagrada... e também, disse mais baixo, nã o mofe de suas crenças...
Teresa teve um gesto vivo:
— Descanse, mamã e; nã o escarnecerei mais delas...
E seu olhar ardente procurou Nina Rosa que dispunha flores em uma
cantoneira.
Voltando-se lentamente, a pequena sorriu para a prima com ar
entendido, que escapou à tia.
Como esta se retirasse a dar algumas ordens aos criados, as duas
moças se aproximaram uma da outra.
— Creio, Nina, que me será necessá rio advertir desde já minha mã e do
que se passou há três meses sem ela o saber.
— Esperemos que Bernardo se tenha declarado... Será para nó s um
aliado poderoso.
— É verdade... Nina, como poderei jamais pagar-lhe minha dívida?
— Ficando sempre fervente cristã ...
— Quando penso que, há três meses, a despeito das festas e dos
prazeres, você nã o perde de vista a minha felicidade... Quantas cartas
tem escrito a Bernardo para lhe comunicar meus progressos na vida...
Confesse agora que fazia isso com o fim de interessá -lo pela minha

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alma... Ele nã o me amava em Servane... estou certa disso... Diga-me,
Nina: pensa você que amava entã o a outra?
— Oh! A ciumenta, que está pronta a desconfiar do noivo!
— Noivo!... Você vai muito depressa! Nina disse baixinho:
— Ocultei um ramalhete todo branco lá , detrá s das laranjeiras... É que
tenho a certeza de certo noivado íntimo hoje...
Houve silêncio: uma saboreava a felicidade; a outra padecia em
segredo.
Teresa jamais estivera tã o bela, no seu vestido de seda branca, velado
de filó prateado. Tudo nela era imaculado, desde o sapatinho até as
flores nevadas dos cabelos.
Na esteira daquela rainha triunfante, evoluía a mais encantadora
donzela de honra que se possa sonhar. Toda vestida de crepe da China
lilá s, coroada de violetas de Parma, produzia Nina Rosa estranho
contraste com Teresa. Até no voluntá rio apagamento era atraente e
conservava seu sainete de beleza muito fina e muito patrícia.
E eis que de repente a porta se abre, mostrando aos que chegam as
moças enlaçadas; entrou a duquesa, precedendo Bernardo e o
marquês. Teresa, sempre tã o senhora de si, quedou imó vel, sem uma
palavra.
Indo direita a Bernardo, disse-lhe baixinho Nina Rosa:
— É , sim... para ela, nã o é?
Inclinou ele a cabeça, cerrando a mã ozinha fria que a moça lhe
apresentava. Entã o, tomando-o pela mã o, conduziu-o Nina Rosa à
frente da prima:
— Teresa... murmurou ela. Aqui está Bernardo, seu... noivo...
E, num sopro apenas, voltando-se para o visconde:
— Meu irmã o Bernardo, aqui está sua noiva! Uniram eles as mã os,
enquanto Nina voltava de
um salto para junto da tia.
— Que cerimô nia é esta? disse a duquesa, furiosa por nã o ter sido a
principal autora.
— Mas, minha tia, agradeça-me: acabo de fazer o noivado daqueles
dois tolos, que nã o abriam a boca nem mesmo para se
cumprimentarem!... Naquele andar, arriscá vamos a nã o ter boda este
ano!
— Isso era comigo, menina; no que se intrometeu você!...
Fitando Nina com olhar perscrutador, interveio Geraldo:
— Vejamos, mamã e, nã o ralhe hoje... Nã o está realizado seu sonho?

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Sem dú vida, conveio nisso a duquesa, porque os olhos se lhe
abrandaram. E quando Bernardo e Teresa foram para ela, seu rosto
nã o refletia já senã o uma felicidade completa; e abraçou-os a ambos,
louvando-se bem alto o haverem preparado de longa data aquela feliz
uniã o.
Nina entregou a Bernardo o ramalhete todo branco; assim, o primeiro
liame florido dos dois noivos foi aquele ramo imaculado, que dedinhos
trêmulos tinham tecido, nessa manhã , em sua intençã o.
Nã o sendo o noivado oficial, abstiveram-se de qualquer alusã o diante
dos criados. À mesa, Nina ficou ao lado do visconde e foi-lhe preciso
conversar, rir e exagerar mesmo suas travessuras, para apagar os
ú ltimos acanhamentos de Bernardo a seu respeito. Mostrou-se tã o
infantil, fazendo-se ralhar continuamente pela tia, que, a seu pesar, o
visconde pensava:
— Na verdade ela nã o era feita para mim... É pueril demais... Eu seria
muito austero para ela!
Ao fim do jantar, falava-lhe ele de Teresa, sem o menor
constrangimento:
— Deixe-me agradecer-lhe por me trazer ao corrente de tudo... Se
soubesse quanto eu desejava a luz para aquela alma!... Quando você
me anunciou que o seu orgulho triunfara das ú ltimas dificuldades que
ela imaginava nunca poder vencer... Quando soube, sobretudo, que
tinham comungado juntas... Oh! Nina, se soubesse a minha alegria!
Tinha orado tanto como você por esta alma... E ela dará uma boa
cristã , porque tem um cará ter bem temperado, quase viril.
— Ela o ama, é o principal, disse Nina francamente; e seu amor saberá
preservá -la de voltar a ser indiferente.
— E é tã o séria, também... nã o é mais uma criança.
Dissera isto estouvadamente; arrependeu-se ao ver Nina empalidecer.
— Perdoe-me, disse logo. Nã o queria referir-me a você... Aos dezoito
anos, pode-se ser muito séria.
Sacudindo a cabeça coroada de violetas, ela riu:
— ... Eu nã o o creio... Sei muito bem que nã o sou senã o um nené, e que
ficarei sempre assim... Lamente meu futuro marido, você que desfruta
egoisticamente um amor forte e sério.
Pensou o visconde que ela brincava e seu riso tranquilizou-o.
No salã o, procurou Teresa e instalou-se com ela em pequeno
esconderijo de verdura, que Nina lhes designou:

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— Vã o arrulhar para ali, cochichou-lhes ela; nã o há probabilidades de
minha tia... estarã o tranquilos.
Entã o, como ansiasse por este momento para pô r fim ao seu suplício,
dirigiu-se à duquesa:
— Dá -me licença que me retire, minha tia? Sinto-me um pouco
fatigada...
— Mas sem dú vida!... Boa noite...
Na sua sede de afeiçã o, fez a pobre menina um movimento instintivo
para estender a fronte à tia. Esta nem viu o gesto; Geraldo, porém,
estendeu vivamente a mã o à prima:
— Boa noite, Nina Rosa, durma bem!
— Durmo sempre bem... obrigada! disse, deixando a sala. Desculpe-me
com os felizes noivos... Estou
tã o cansada... Boa noite!
Havia já um momento que saíra Nina, e contudo o olhar do marquês
fitava sempre a porta. De repente, quando a mã e se reunia aos noivos,,
saídos enfim do esconderijo, tomou sú bita resoluçã o e por sua vez
saiu da sala.
Onde estava Nina? No quarto? No quarto? Sem saber porque,
duvidava-o! Sabia que a moça tinha marcada predileçã o por um
gabinete que servia outrora de orató rio à s duquesas de Servane. Ia
muita vez dizer ali as oraçõ es da noite, como para santificar de novo o
aposento, e reparar a indiferença quase ultrajante dos ú ltimos
descendentes.
Abriu devagarinho a porta. A peça estava em completa escuridã o. Ia
retirar-se, quando percebeu soluços abafados. Bruscamente, virou o
interruptor, reteve entã o um grito: de joelhos diante do divã , estava
Nina, os braços, dobrados sobre o montã o de almofadas sedosas,
ocultavam-lhe a meio a cabeça loura; os soluços sublevavam-lhe as
espá duas: chorava sem revolta, com o abandono de uma pobre
criatura que perdeu toda a energia, e nã o via a luz amena dos globos
ró seos; e o primo, de pé a seu lado, contemplando-a comovidamente.
Geraldo compreendera tudo!
— Nina!
Ergueu a cabeça, espantada a princípio, e os olhos pestanejaram um
instante sob a luz inesperada. Reconheceu depois Geraldo: viu que ele
adivinhara tudo; nã o se moveu; ficou de joelhos, as mã os apoiadas ao
divã .
— Nina! disse Geraldo. Por que fez isso?

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— Porque Deus o queria...
— Nina... Perdoe-me, mas você amava Bernardo?
— Sim...
— E ele a pediu...
— Sim... interrompeu ela; mas nã o me fale mais nisso! Estou tã o
cansada, oh! tã o cansada...
O marquês obrigou-a a sentar-se:
— Minha pobre pequena, você está cansada, porque padeceu
sozinha...
Sentou-se a seu lado, dizendo-lhe:
— Minha Nininha, nã o sou entã o o seu grande amigo? ... Prometeu-me
ter sempre confiança em mim... Adivinhei tudo; agora, por que se cala?
Falar lhe traria alívio.
Entã o, com toda a simplicidade, aceitando o amparo que Deus lhe
enviava, confessou o sacrifício feito, falou da conversã o de Teresa, das
cartas que escrevia a Bernardo, do ú ltimo esforço daquela noite, o
esforço que a despedaçara!
— Teresa acredita, pois, no seu Deus? disse Geraldo abruptamente.
— Nã o fica zangado por isso? diga...
— Nã o... você teve razã o.
Por um momento, ela esqueceu a pró pria dor:
— Posso entã o crer... que um dia você fará como ela, Geraldo?
— Nã o me fale disso, por favor! Depois, baixinho, perguntou ainda:
— Diz que esse esforço lhe quebrou as forças... Ama entã o ainda
Bernardo?
— Nã o mais como outrora...
— Como é que o ama entã o? insistiu ele.
— Amo-o agora como se pode amar a alguém a quem se amou muito.
Você compreende que, de três meses para cá , tive tempo de me
habituar a amá -lo menos. Deus me ajudou; choro hoje mais por
cansaço moral que de dor... Choro, nã o pelo seu amor, mas
pela minha felicidade...
— Você será feliz mais tarde, juro-lhe! disse o marquês, com ardor.
Nina Rosa sacudiu a cabeça:
— Nã o quero mais amar, nunca mais! Geraldo empalideceu.
— Diz você que nã o quer,.. A vontade poderá alguma coisa contra o
amor?
— Farei o que Deus quiser! disse ela, com voz fraca.

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— E agora, Nina Rosa, é preciso que seja razoá vel e vá deitar-se, sem
pensar em nada mais... Seu segredo fica bem guardado e servirá para
fortificar nossa... amizade... Venha, tome meu braço, vou levá -la lá para
cima.
Ela obedeceu docilmente e, ao se separarem no corredor, murmurou
baixinho:
— Obrigada, Geraldo! Minha má goa já nã o é tã o pesada!...
— Bem sei... Porque a partilho.
E falava verdade: a dor de Nina tornara-se a sua, desde que soubera,
com certeza, que aquele coraçã ozinho jamais batera por ele!

CAPÍTULO 3

Com ímpeto, entrou Bernardo na biblioteca, onde Nina, trepada a um


escabelo, remexia tranquilamente os volumes do tio.
— Diga-me, Nina, disse o moço surpreendido: Geraldo deu-lhe licença
de ler tudo o que está nesta biblioteca?
— Tranquilize-se, Bernardo, replicou a moça com dignidade; meu
sá bio primo designou-me uma prateleira, onde tudo é para mim... Mas
nã o é para me pregar sermã o que vem cá hoje?
Sentara-se no ú ltimo degrau da imensa escada e, com o queixo nas
mã os, fixava Bernardo com olhar protetor.
Tomando a cadeira que ela lhe designara, disse em resposta:
— Você vai quebrar o pescoço.
— Nã o é capaz... Veio por causa de Teresa? Lamento-o, porque sua
noiva fugiu...
Surpreso e inquieto, ergueu o visconde os supercílios.
... Até a casa Doucet... terminou maliciosamente Nina.
— E a sessã o vai durar...
— Uma hora! A menos que nã o sejam duas...
— Você é animadora...
— E você é delicado... Como!.. Está na companhia de uma amá vel
moça, que se digna de abaixar o olhar das sublimes alturas onde paira,

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para vê-lo, e nã o está contente... Falem-me em noivos, nã o há nada
mais resmungã o sobre a terra!... Depois das tias, naturalmente.
— Por falar em "tia", a duquesa nã o recebeu resposta do marido?
— Nada, e, no fundo, aprovo meu tio, sabe?
— Nã o compreendo...
— Escute, disse Nina, escorregando, para maior segurança, a outro
degrau da escada; acho que meu tio tem razã o. Você sabe que ele está
há um mês nos banhos, por causa da saú de; quinze dias depois de ele
partir, minha tia sabe que vai haver um baile de má scaras nã o sei
onde. Geraldo estava ausente; logo, nã o tinha ela quem acompanhasse
as duas; que fez ela? Telegrafa a meu tio, dizendo: "Volte, presença
indispensá vel". Vem o coitado a toda a pressa, imaginando que uma de
nó s sucumbiu; e é para se achar em frente do traje de má scara de
minha tia, com a perspectiva de assistir à "indispensá vel" festa!
Confesse que nã o era má a farsa! Assim o julgou meu tio, porque na
mesma noite tornou a tomar o trem, deixando minha tia furiosa, a se
lamentar no meio de seus filó s e suas lentejoulas.
Bernardo riu com prazer da má sorte da futura sogra", enquanto Nina
continuava:
— Com a melhor intençã o, apressa-se minha tia a telegrafar apó s o
noivado, chamando meu tio; mas teve a desastrada ideia de
acrescentar: "presença indispensá vel"! Sabe a histó ria do pastorzinho
que grita:
"um lobo! um lobo!" para enganar as pessoas, e que chama em vã o
quando vem o lobo de verdade, nã o? Pois bem! minha tia fez como ele
agora... Meu tio nã o vem.
— E quando virá ele? Queria-o oficial, este noivado e Teresa também,
é claro!...
— "Ele-virá -pela-Pá scoa!" cantarolou Nina Rosa, balançando-se sobre
a escada.
Depois, endireitando-se, disse com serenidade:
— Expliquei — oh! muito delicadamente... — a minha tia, que ela
fizera como o pastor da histó ria; escreveu entã o uma carta.
— Quando?
— Há dois dias... Teremos a resposta hoje, a menos que nã o a traga ele
em pessoa.
— Acredita-o, na verdade, Nina?
— Estou certa disso: ama tanto Teresa!...
— ... E à esposa, Nina?

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— Hum... No meu parecer, nã o tem lá muito jeito disso!
Calaram-se. Bernardo parecia absorto e hesitante. Afinal, perguntou:
— Eles nã o se entendem sempre muito bem, nã o é, Nina Rosa?
E, como ela hesitava em responder, acrescentou, gravemente:
— Pergunto-lhe porque isso me é permitido na minha situaçã o
presente... Nã o posso indagar isso de Teresa: é uma questã o de
delicadeza.
— Evidentemente... Olhe, Bernardo, o grande mal de meus tios é haver
entre eles tamanha diferença de idade... Ora, este mal, infelizmente, é
irrepará vel. Correm um atrá s do outro, mas nã o se alcançarã o
jamais!...
— E os outros males?
— Dançaria minha tia durante vinte e quatro horas e desafio meu tio a
subir duas vezes seguidas a escada de honra!
— Depois?
— Mas... no moral, como no físico, sã o os gostos de minha tia muito
jovens, e meu tio tem gostos de velho... Minha tia quer sair, meu tio
quer estar dentro de casa... E, além de tudo isto, nem um á tomo de
religiã o! Vã o lá falar de devotamento a minha tia, e a meu tio de
tolerâ ncia. Cada um de seu lado quer viver à lei da vontade! Nada há a
fazer!
Com ar de lá stima, Bernardo murmurou:
— Felizmente há Teresa!
— Mas, meu amigo, o casamento é isto: é preciso aceitar sogro e sogra.
Tinha a menina um rosto tã o grave, que, esquecendo as pró prias
preocupaçõ es, Bernardo se pô s a rir. Quando se levantava para
despedir-se, a porta abriu-se de sú bito, aparecendo Teresa em traje de
passeio.
— Que bom encontrá -lo aqui, Bernardo! disse alegremente;
reconheci-lhe a voz, ao passar no saguã o.
— E o vestido? perguntou Nina.
— Nã o escolhi... Preciso dos conselhos de Bernardo; quero comprar o
que for do seu gosto.
— Edificante... disse Nina, com ar extá tico... Pois bem! Leve consigo o
seu Bernardo! Isso andará mais ligeiro assim!
— Como você vai depressa, Nina! Sabe que o noivado nã o é ainda
oficial...
— Entã o, nã o dou mais conselhos; esgotei tudo o que me restava.
Arranjem-se.

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E rapidamente desceu da escada, derrubando meia dú zia de livros,
que, ao cair, fizeram tremendo ruído, o que a divertiu muito!
Quando ela desaparecia no vestíbulo, ouviram um momento os
tacõ ezinhos, batendo em cadência nas lajes; depois Bernardo disse,
sorrindo:
— Como é criança!
E, convidando Teresa a sentar perto dele, murmurou:
— Conversemos um pouco, sim? Falando de amor, Bernardo e Teresa
esqueceram-se da criança que os unira.
Sem parecer ver sequer a dupla fila de criados, atravessou o duque o
vestíbulo. No primeiro salã o, beijou Teresa, à s pressas, apertou a mã o
de Nina Rosa, e logo inquiriu da mulher. Teresa corou sem responder;
mas a prima disse tranquilamente:
— Minha tia ainda nã o saiu do quarto; creio que pouco dormiu esta
noite.
— Bem, respondeu secamente o duque.
Deixou que o criado o desembaraçasse da peliça e, com uma palavra,
deteve o movimento das moças:
— Nã o, irei sozinho ao quarto da duquesa.
Subiu com dificuldade a escada; chegando ao patamar, parou,
ofegante; depois, foi direito ao quarto da mulher, bateu à porta e
abriu-a logo.
Estava a duquesa sentada diante do toucador, terminava a primeira
camareira o complicado edifício de seus cabelos, enquanto outra
preparava as joias sobre uma mesinha.
— É você, Daisy? disse a duquesa, sem se voltar. Achou enfim a
pérola?...
Avançou o duque alguns passos, e o espelho refletiu-lhe a imagem.
— Ah! Assustou-me, Jaime! Que ideia também de chegar sem avisar!
Como o penteado estava terminado, despediu com uma palavra
imperiosa as camareiras e, sem deixar seu lugar, voltou-se para o
marido:
— Estimo muito que se tenha dignado! responder ao meu segundo
apelo.
— Nã o devia, com efeito, fazer caso algum dele: você merecia essa
liçã o; mas sou menos duro do que pensa.
Arranjando os cabelos diante do espelho, ela chacoteou:
— Que marido modelo!
— Nã o me leve ao extremo, peço-lhe!

70
— Causou um desgosto à sua filha...
— Oh! sei que nã o foi isso o que mais a feriu; as festas dos esponsais
causavam-lhe mais impaciência do que a felicidade da filha.
— Acusa-me de nã o a amar tanto como você?
— Nã o sei... Mas, lembro-me de uma jovem mã e que se recusava a
beijar os filhos antes do baile, porque lhe poderiam amarrotar as
rendas...
— Tem o rancor arraigado!
— É sua a culpa!
Ela encolheu os ombros, foi à mesinha e pô s os anéis. Assim curvada
contra a luz, adelgaçada pelo Vestido caseiro de flanela ró sea, parecia
tã o jovem que, despeitado, o duque franziu as sobrancelhas. Quisera
ficar de pé para melhor a dominar; mas as dores reumá ticas
tornaram-se-lhe tã o agudas, que se viu obrigado a sentar-se.
-É necessá rio, contudo, que eu volte aos banhos;
bem vê, Iolanda, que estou longe da cura!...
Percebo-o, com efeito...
— E se você quisesse... seria tã o feliz se a tivesse comigo...
— Nos banhos, eu!... bradou ela. Mas nã o estou doente!
— Também se vai lá por distraçã o; encontraria muita gente... E,
depois, a mulher deve seguir o marido.
Disse estas ú ltimas palavras surdamente, um tanto inquieto do efeito
que iriam produzir. Zombeteira, ela exclamou:
— Prega-me como na igreja... Essas palavras, para mim, nã o têm mais
sentido... Nã o sou cristã ...
Logo ao começo do casamento, cria ainda em alguma coisa; mas você
escarneceu tanto de meu resto de fé... E lembra-se agora de reacender
esse fogo que se extinguiu!...
E ria, sempre, com ar escarninho.
— Cale-se!... gritou o duque, fora de si.
Nisto, bateram devagarinho à porta e uma voz cristalina perguntou:
— Meu tio, minha tia, nã o sabem que Bernardo está lá embaixo?...
Nossos dois noivos têm pressa de ver ratificada sua uniã o.
Entreolharam-se, serenados de repente: a ativa Nina Rosa tinha, ainda
uma vez, conjurado a tormenta!

CAPÍTULO 4

71
Os esponsais foram celebrados em uma série de festas ininterruptas,
que fatigaram nã o pouco o duque. Depois começaram, para a parte
feminina, corridas diá rias à s lojas. A princípio, recusara-se a duquesa
a levar Nina Rosa, mas fê-la mudar de ideia um olhar do filho, e a
pequena acompanhou por toda a parte a tia e a prima, dando alguns
conselhos nã o despidos de justeza.
— Veja, minha tia, este tecido: assentará perfeitamente à Teresa...
Minha tia, a senhora escolhe como para uma. menina e nã o para a
senhora de Mervys: este lilá s irá melhor para a ocasiã o... O ró seo, veja,
usa-se antes do casamento.
— E por que, fará favor de dizer-me?
— Mas... porque o ró seo é a cor da felicidade!
— O que quer dizer que o casamento faz desgraçados!
— Hum! tanto quanto tenho podido julgar, minha tia!
— Você é uma impertinente!
— Tenho o defeito de ser ló gica!
A chegada de um vendedor interrompia felizmente estes coló quios
agridoces, que se suspendiam, à s mais das vezes, com vantagem para
Nina Rosa.
Uma tarde, quis o marquês reunir-se ao trio, em casa do costureiro.
Como a duquesa e Teresa estavam muito ocupadas com a escolha,
Nina Rosa e Geraldo ficaram juntos.
— Que pensa você, Nina, desta agitaçã o que precede o casamento?
— Penso que é ter muito trabalho por uma coisa que nã o vale a pena.
— É o casamento, que você qualifica de "coisa"?
— Sem dú vida.
— Oh! Oh! Atribuía-lhe ideias mais alegres... Vejamos, Nina, creio que
você se casará um dia...
Rispidamente, replicou-lhe ela:
— Deixe-me tranquila; nã o me casarei!
E voltou-lhe as costas. Infelizmente, a tia ouvira a ú ltima frase;
aproveitou a ocasiã o para humilhar Nina Rosa:
— Quando a gente é bem-educada, nã o fala alto nas lojas, sobretudo
para responder a Geraldo dessa maneira!
— Acharã o minha maneira de falar muito natural, se pensarem que
Geraldo é meu marido, disse Nina severamente.
Indignada, murmurou a duquesa:
— E acharã o natural a sua impertinência para comigo?

72
— Perfeitamente, minha tia, se a tomarem por minha sogra.
Só a presença de Geraldo salvou Nina de uma cena
terrível.
Chegada a hora da escolha dos chapéus, foi outra histó ria: o que
agradava a Nina parecia imediatamente um horror aos olhos da tia;
mas, sob a calma aparência, a pequena resistia.
— Veja este, senhorita, vamos experimentá -lo? Mal estava o chapéu
posto, recomeçava a duquesa
suas exclamaçõ es:
— Assenta-lhe muito mal!... Deixa-a velha!
Empalidece-a! etc...
— Que engraçado! dizia Nina Rosa, muito tranquila; e eu que me vejo
tã o gentil debaixo dele, nã o acha, Geraldo?
— Que você é gentil?
— Nã o... que ele me fica bem.
— Muito bem, Nina Rosa, maravilhosamente! Nã o ousava a duquesa
irritar-se contra o filho, e ele, compreendendo que a prima tinha
necessidade de reforço nessas ocasiõ es, houve-se sempre de modo a
acompanhá -la quando se tratou de escolher os vestidos para o dia do
casamento.
Muito conscientemente, serviu-se a duquesa em primeiro lugar. Uma
tarde, enfim, pronunciou com ar protetor:
— Esta semana ocupar-nos-emos de Nina.
Nã o deixou o marquês de segui-las pontualmente.
Começou a amá vel tia por advertir Nina, em casa do costureiro, de que
nã o devia escolher as cores que reservara para seus vestidos.
— E pode-se saber, minha tia, que matizes escolheu?
Investigou a duquesa com o olhar o rostinho erguido para ela, vendo
se descobria nele algum sinal de motejo; mas foi em vã o.
— Vejamos, há o vestido da cerimô nia: lilá s; o vestido de festa: verde
pá lido; o trajo do dia seguinte: cor-de-rosa... Ah! esquecia-me! o
vestido para o contrato: azul pá lido e branco.
— Assim, minha tia, só tenho que me vestir de cores respeitá veis:
ameixa, morango, oliva, cereja, groselha, damasco... Acho, minha tia,
que para o meio do inverno estas cores quase que nã o sã o de cor
local...
Atrá s da mã e, Geraldo e Teresa sorriam, divertidos; mas concertaram-
se com um olhar; enquanto a condessa arrastava Nina para lhe
mostrar um vestido, trocou o marquês em voz baixa algumas palavras

73
breves com a mã e. Certamente, eram palavras bem ponderosas,
porque a duquesa, chamando Nina Rosa, disse-lhe:
— Sacrifico-lhe o ró seo, o azul e o branco, porque velarei meus
vestidos de renda de Chantilly ou de filó ; espero que me será grata por
esta mudança.
Muito meiga, olhando para Geraldo, disse Nina
Rosa:
— Já lhe sou grata, num grau infinito!
E esta frase dirigia-se mais ao marquês do que à
mã e.
Ficou resolvido que, para a cerimô nia, a jovem dama de honra trajaria
vestido cor-de-rosa; foi Geraldo
que deu a ideia:
— Pois que serei seu cavalheiro, creio que me será
permitido emitir um desejo...
— Certamente!
-. Pois bem! Queria-a cor-de-rosa... Nina Rosa, toda cor-de-rosa! Isso
combina, veja!
Escolheu-se para Nina, em vista disso, um delicioso vestido de cetim
ró seo: cruzava sobre o peito, fechando com um ramo de rosas, um
cabeçã o à Maria Antonieta. Pequenas guirlandas corriam ao longo da
saia. perdendo-se nas leves pregas... Além disso, Nina devia levar
chapéu todo cor-de-rosa, de abas muito flexíveis, abaixadas aos lados
por uma fita de veludo negro: amarrada sobre o pescoço branco, essa
fita faria valer o puro oval do rosto pequenino.
— É perfeito! disse Geraldo, quando lhe foi permitido contemplar a
obra-prima.
— Nã o está mal, disse acremente a duquesa. Teresa curvou-se para a
priminha:
— Serei orgulhosa da minha Nina Rosa cor-de-rosa! murmurou ela
baixinho.
E a jovem ficou contente, nã o só do vestido, mas também de se sentir
amada por Geraldo e pela condessa.
Tinha tã o poucas satisfaçõ es, a pobre Nina Rosa! Outros cuidados
tinham vindo aumentar os que já a inquietavam: na véspera, ao passar
pelo gabinete do tio, ouvira um clamor de vozes que a espantou e a
obrigou a parar subitamente no corredor. Com quem falava ele? Sabia,
por experiência, que, quando saía da sua frieza natural, tinha terríveis
repentes de có lera que até a provocante duquesa aprendera a temer.

74
Só Geraldo podia entã o serená -lo; mas Geraldo nã o estava sempre
perto... Geraldo nã o tinha a clarividência de Nina Rosa... Ela tremeu,
vendo abrir-se a porta do gabinete! Era a duquesa quem de lá saía,
lívida, o olhar duro; nem viu Nina aterrada e, enquanto se afastava em
grande farfalhar de seda, a pequena ouviu distintamente estas
palavras:
— Ah! ele quer fazer de senhor comigo! Veremos se o conseguirá !
Que queria ela dizer? Nina o perguntava a si pró pria! Veio-lhe a ideia
de falar disso a Geraldo; depois, pensou que talvez nã o fosse bom
informá -lo da desinteligência que reinava entre os pais. Na
convivência, durante os repastos, ninguém se apercebia de nada. Nã o
passavam por esposos muito ternos! Deviam ter perdido de vista, há
muito tempo, a lua-de-mel que lhes dourara o primeiro amor, porque
este astro caprichoso pouco se importa de deixar os coraçõ es em
embaraços! Apenas começou ele seu curso, e já brinca a cabra-cega
nas nuvens com os primeiros desacordos, e, quando se cansa desse
brinquedo, vai-se para outros céus mais límpidos... que esperam
também outras nuvens!
Nada, pois, na posiçã o dos dois esposos podia dar lugar a inquietaçã o.
Mas Nina, que ouvira aquilo, via o que outros nã o viam. Falando à
mulher, o duque nã o a olhava; tinha ela, na conversaçã o, daqueles
subentendidos que só Nina compreendia, falso sorriso. Nesses
momentos, o duque a encarava e seus olhares cruzavam-se como duas
lâ minas.
— Meu Deus! suspirava entã o Nina Rosa na sua linguagem figurada;
que eles se reamem! Na verdade, já nã o tenho forças para tratar de
reconciliá -los!
CAPÍTULO 5

Era a véspera do casamento; muito excitada, a duquesa ia e vinha na


vasta morada, dando ordens a torto e a direito, agitando-se muito, sob
o pretexto de ajudar; o resultado era que tapeceiros, decoradores,
criados, todos perdiam completamente o tino, obedecendo sempre à s
avessas.
— Nã o darei conta disto! gritou ela enfim, desanimada.
— Nem nó s! pensavam in petto os infelizes servidores, transtornados.
— Vou chamar Nina Rosa, disse consigo; ela é desembaraçada, e
dirigirá toda esta gente rapidamente.

75
Para nã o interromper as camareiras, dignou-se subir em pessoa ao
quarto de Nina. Abriu ruidosamente a porta e parou estupefata: Nina e
Teresa estavam ajoelhadas diante da Virgem que enfeitava a lareira.
Ao ruído da porta, ergueram-se, sem pressa, mais surpreendidas que
assustadas; compreendera a duquesa, porque disse com violência:
— Teresa, explique-se!... Que significa?
Erguendo-se um pouco, disse somente a moça:
— Minha mã e! Eu sou cristã ! Soltou a duquesa um grito abafado.
— Você... Você, Teresa de Servane?
E avançando rapidamente para Nina Rosa:
— É ela a culpada disto!... Ela, a intrigante!... Ela, a filha de Rosela
Valnoy!
— Tem razã o, minha tia, sou a causa de tudo!
— Também você deverá sair daqui, ouviu? Eu a expulso! Vá -se
embora... Mas, vá !
Era tã o grande a exaltaçã o da duquesa, que a jovem perdeu a presença
de espírito. Maquinalmente, a passos lentos, ganhou a porta... Mas
alguém surgia no limiar, alguém que a reconduziu até ao meio do
quarto com autoridade, e a duquesa serenou de repente,
reconhecendo Geraldo.
— Minha mã e, disse ele friamente, tenha a bondade de me explicar o
que se passou!
Em termos veementes narrou a duquesa a rá pida cena; depois,
esperou a sentença do filho. Nã o falou ele imediatamente, e o silêncio
inesperado a inquietou; por fim, disse, um tanto iró nico:
— Refletiu a senhora, minha mã e, que Nina Rosa lhe prestou nisso um
grande serviço?
— E qual? peço-lhe que me diga.
— Pode a senhora estar certa disso; Jamais Bernardo de Mervys teria
esposado uma mulher sem religiã o, ainda que ela tivesse o brasã o dos
Servane.
— Que sabe você disso?
— Teresa mesmo pode confirmá -lo.
— Oh! sim, minha mã e, acredite-o! murmurou Teresa, chegando-se
para ela. Sem Nina, eu nã o seria tã o venturosa... Mamã e, abrace-me... é
o meu ú ltimo dia!...
E arrastando a mã e, enternecida à ideia, da pró xima partida:
— Venha comigo, mamã e, estejamos juntas ainda para encerrarmos
alegremente minha vida de moça...

76
A voz de Nina fez-se ouvir entã o:
— Minha tia, a senhora tinha vindo buscar-me por causa dos
preparativos; eu já vou lá com Geraldo!
Quando descia a grande escada, disse de repente, parando um
momento para se pô r ao nível do primo:
— Você é bom, Geraldo!... Bom demais para nã o crer em Deus um dia!
— Um orgulhoso como eu nã o muda!
— Contudo, Teresa mudou! E no orgulho, vocês sã o bem irmã os,
confesse!
— Nina Rosa, apressemo-nos! Minha mã e conta conosco! disse
Geraldo, sombrio.
Retomara a voz grossa; ela entã o se pô s a descer muito depressa,
dizendo:
— Fujamos! o senhor marquês está de mau humor!
E bastou isto para fazer rir Geraldo. Muito docilmente, seguiu por toda
parte Nina Rosa, que se aproveitou para o ajudar bastante. O altaneiro
marquês, que jamais olhava para um operá rio, transmitia quase
docemente as ordens da pequena soberana, e os criados olhavam com
veneraçã o a criatura tã o jovem, que evoluía ligeiramente nos salõ es e
que tã o bem soubera mudar o grande senhor que todos temiam e
poucos amavam.
Nina Rosa nunca assistira a um casamento; estava, pois, muito
excitada no dia seguinte: Para ela, as horas passavam rá pidas demais.
Quisera ficar em contemplaçã o diante de Teresa, ao menos durante
uma hora. Mas Bernardo se impacientara; a duquesa empurrava tudo
para andar mais depressa, e como Nina ficara um tanto perturbada à
entrada do salã o, arrastara-a Geraldo no seu automó vel fazendo-lhe
tantas recomendaçõ es para a coleta, que a coitadinha nã o lhe guardou
uma só palavra! Ficou petrificada, à entrada da igreja, avistando as
pessoas assentadas nas cadeiras.
— Oh! Geraldo! Vamo-nos embora, peço-lhe! O marquês nã o era do
mesmo parecer, e a fadazinha ró sea teve de atravessar a nave sob o
fogo dos olhares. Até entã o, a ideia do seu heroico sacrifício nã o lhe
voltara mais ao espírito. Na agitaçã o dos preparativos para o
casamento e daquela manhã solene, quase nem tivera tempo de
pensar; quando se calaram os ó rgã os e o padre falou, Nina Rosa sentiu
a angú stia invadi-la e fechou os olhos. Tinha a dolorosa ilusã o de que a
voz grave se elevava para ela, que o vestido rosado empalidecia até ao
branco, que um leve filó substituía o lindo chapéu.

77
Como padecia a jovem! Depois, chegando o momento da uniã o, quis
ver e, num esforço sobre-humano, seguiu cada minú cia da cerimô nia
simbó lica: Bernardo curvou-se um pouco e pô s o anel no dedo de
Teresa. Viu a jovem a cintilaçã o do ouro; pareceu-lhe que tudo andava
à roda, e, para nã o cair, assentou-se. Geraldo olhou-a e admirou-se da
sua palidez.
— Nina Rosa, murmurou baixinho, nã o fique aqui... É muito cruel! Vou
levá -la a casa; direi que se sentiu mal.
— Nã o, disse ela; está acabado!
Sim, seu sonho de amor estava acabado! Nada mais lhe restava do
primeiro idílio. No íntimo do coraçã o, renovou a Deus seu sacrifício,
pedindo-lhe forças para esquecer, e, quando Geraldo lhe estendeu a
bolsa de cetim, já tinha recobrado a posse de si mesma. Amá vel e
graciosa, foi de fila em fila, e ninguém adivinhou o que ocultava o
sorriso de Nina Rosa. Ao almoço foi estonteante de alegria, e
respondeu desembaraçadamente aos moços que lhe passavam ao pé,
e chegou até a replicar a um deles:
— Acha bonito meu vestido?... Nã o é a mim que deve felicitar: é à
minha tia: ela havia mobilizado todas as cores claras e nã o restava
mais nada senã o as do arco-íris... Entã o...
Mas parou de repente, sob o olhar terrível que cruzou o seu.
— Nina! chamou a duquesa duramente.
A mocinha precipitou-se, e com o ar mais inocente:
— Nã o lhe passaram os sorvetes, minha tia?... Nã o se incomode, eu
vou ver isso.
Abria a duquesa a boca para responder, mas já a fadazinha ró sea tinha
voado, deixando-a indignada.
À noite, ao jantar, toda vestida de azul-celeste, coroada de miosó tis,
causou, ainda mais admiraçã o. Procurava-lhe a tia motivo de queixa e
isso era difícil, porque Nina evitava sempre o ataque e tomava,
olhando para ela, um ar tã o câ ndido, que a duquesa chegou a duvidar
um momento da compreensã o de sua pseudo-sobrinha.
— Representará ela uma comédia? perguntava de si consigo; ou
zomba de mim?...
No começo da reuniã o no cú mulo da exasperaçã o, chamou Nina a um
canto e disse-lhe, sem preâ mbulo:
— Você é muito nova para assistir a esta festa; ficaria cansada: suba
para seu quarto...
Nina olhou para a tia, assustada:

78
— A senhora disse, minha tia?... Perdã o, mas nã o compreendi bem... Se
a senhora quisesse repetir...
A duquesa repetiu secamente a frase.
— Ah! muito bem! Compreendi! disse Nina tranquilamente. A senhora
me convida, pois, minha tia, a recolher-me.
— Convido-a sobretudo a ser delicada!
— A senhora receia, minha tia, que eu me canse...
— Certamente, vamos, obedeça... Suba!
Olhou ainda Nina para a tia; depois, voltando ao seu ar natural, disse:
— Pois bem, minha tia, descanse! Sou muito infatigá vel e vou dar-lhe
uma prova brilhante disso hoje!
E deslizou lesta para um grupo de moças, a quem começava a
inquietar a sua ausência. Força foi à tia capitular; ainda tentou, em
vã o, chamar o duque em seu auxílio. À s primeiras palavras, replicou
ele no tom amá vel em que falava sempre à mulher:
— Você perdeu o tino, Iolanda; mandar aquela jovem deitar-se em vez
de dançar, sob o pretexto de fadiga! Posso afiançar-lhe que haverá
outros pés cansados, antes daqueles pezinhos de dezoito anos!
Era direta a alusã o; corando de despeito, acabou a duquesa por
abandonar o projeto. Os pezinhos puderam agitar-se quanto
quiseram, dando o mais perfeito desmentido à s previsõ es da sra. de
Servane.
Suspeitaria Geraldo alguma coisa? Sempre é verdade que, na primeira
ocasiã o que se apresentou, perguntou a Nina:
— Queria minha mã e proibir-lhe esta festa? Nã o o negue... adivinhei o
que ela preparava.
— É verdade... confessou Nina... E sabe você por quê, Geraldo?
Perturbou-se o marquês e por pouco nã o perdeu a serenidade.
— Talvez seja porque devo marcar o cotilhã o com você... Nã o é o meu
lugar, nã o acha?
— Nã o é o seu lugar! Ora essa!... Nã o se inquiete com isto. Você
marcará o cotilhã o, porque eu decidi que assim seja, e ninguém tem o
direito de a impedir disso.
— Mas nã o diga nada à sua mã e, sobretudo... Prometa-me, Geraldo.
Prometo, sobretudo, defendê-la, e nunca permitir que a façam
padecer.
— Obrigada, disse ela somente.
Quando iam para a copa, ela disse, designando uma moça muito
elegante, que voltava ao salã o:

79
— Creio, Geraldo, que minha tia preferia vê-lo conduzir Beatriz no
cotilhã o. Sem dú vida quer que você case com ela.
Sorrindo, divertido com a simplicidade daquela jovem, disse o
marquês:
— Talvez!
— E você a ama?
— Eu... nem um pouco!
— Tem razã o, Geraldo, disse Nina Rosa com gravidade de avó ; esta
moça nã o é a mulher que lhe convém.
E ele, inclinando-se, muito sério:
— Agradeço-lhe o conselho... Posso contar com você para me
descobrir "a mulher que me convém", minha muito experiente prima?
— Sim, sim, Geraldo; verei isso.
-? Muito obrigado, respondeu o marquês, que tinha a maior
dificuldade em conservar a seriedade.
Pelas duas horas, ouviu Nina o ruído do automó vel, que partia debaixo
das janelas; espreitava havia um momento, num canto mais sossegado
do salã o, sabendo que era a hora da partida. Enquanto riam e
dançavam, ali ficou imó vel, perdida na musselina das cortinas, a fronte
colada aos vidros frios, olhando para as luzes dos faró is na noite;
depois, sem que nem ela mesma o notasse, duas lá grimas lhe rolaram
sobre as faces ardentes... Foi tudo!... O marido de Teresa nã o era mais
nada para Nina Rosa; risonha, voltou para a luz brilhante dos salõ es, a
fim de aceitar o cavalheiro que se apresentasse e dançar até ao
alvorecer, quase descoradas sob o toucador de miosó tis!

CAPÍTULO 6

Voltava a senhora duquesa do rinque de patinaçã o no seu carro


forrado de seda clara... Sentia-se a senhora duquesa feliz,
infinitamente feliz; patinara toda a tarde e dali a pouco iria vestir-se
para o baile de má scaras, esse famoso baile onde nã o devia aparecer,
pois que seu marido lhe dissera: "Proíbo-a!..." Mas iria, mesmo assim;
queria mostrar que nã o aceitava senhor, e o vestido que devia
transformá -la em "Noite Estrelada" chegaria dali a pouco. Doce
satisfaçã o, com efeito, a de desobedecer ao marido; saboreava-a
baixinho, bem envolvida nas peliças, olhando as mimosas que
tremulavam nos vasinhos de cristal.

80
Ainda ria sob o veuzinho ao penetrar no vestíbulo e, uma vez no
gabinete, perguntou alegremente à camareira:
— Entã o, veio o vestido?
— Sim, senhora...
Tendo-o encomendado à ú ltima hora, temia um
atraso... Vamos, Daisy! onde o meteu você?... Quero vê-lo!
— É que... senhora duquesa...
Entã o? que há ? Por que está você com esse ar
consternado?... Nã o saiu bom?... Nã o haverá baile?... Explique-se,
vamos!
Vou dizer-lhe... É na verdade minha a
culpa... Eu estava no vestíbulo quando chegou a caixa; tomei-a
imediatamente das mã os do criado de quarto do senhor duque; mas
ele a retomou logo, e, antes que eu pudesse alcançá -lo, entrava no
gabinete do senhor, dizendo:
O senhor duque entregará isto à senhora; nã o se inquiete.
Lançando as peliças sobre uma poltrona, disse a duquesa
violentamente:
— E nã o soube você retomar a caixa?
Entrar no gabinete do senhor duque?... Nunca ousaria eu!
— Fez mal, disse a duquesa, contendo-se; mas isso nã o tem
importâ ncia... Sem dú vida o duque queria ver meu vestido... Pode
descer. Tocarei quando quiser vestir-me.
Achando-se só , tirou o vestido de passeio, vestiu um roupã o japonês
que desagradava particularmente ao marido, e, no seu passo de
rainha, que Teresa lhe herdara, ganhou o térreo e penetrou no quarto
do duque. Estava ele sentado diante do fogo, olhando
melancolicamente para as chamas da lareira que dançavam sobre as
achas; as pernas doentes e meio estendidas estavam envoltas numa
grossa coberta, apesar do calor abafador que ali reinava; e, quando a
mulher entrou lentamente, estremeceu, como se ela trouxesse consigo
o vento glacial de fora.
— Feche bem a porta, peço-lhe, pediu ele num gemido... Baixe o
reposteiro... O ar entra por toda a parte aqui...
Preocupada com outra coisa, obedeceu, sem nem pensar que
obedecia.
— Jaime, disse ela, muito direita, de pé diante dele; você tem aqui uma
caixa que me pertence... Quero-a.
— Lamento-o infinitamente, mas nã o a levará .

81
— Diz que nã o a levarei?
— Nã o, Iolanda!... Se lhe recusei este baile, nã o foi sem razã o: a sra.
Dirsnof recebe nos seus salõ es uma sociedade cosmopolita, que você
nã o quereria ver nos seus. Muita gente aproveita-se do título de
estrangeiro para enganar os outros e para se insinuar nas suas
relaçõ es.
— Geraldo podia acompanhar-me...
— Perdã o, nã o o permitiria; além disso, seu filho é sério bastante para
desprezar aquela gente! Aceitando-lhe o convite, julgar-se-ia
rebaixado.
— Mas você, Jaime... Isso lhe é possível! Você vive a consultar
alfarrá bios com o príncipe! Todos sabem que sã o íntimos e minha
presença, entã o, pareceria natural.
— Eu!... exclamou o duque, apontando para as pernas; nã o vê em que
estado estou?...
— Entã o, Jaime, restitua-me meu vestido... Desejo simplesmente vê-lo.
— Nã o, Iolanda... Conheço-a; seria muito tentada a desobedecer-me, e
faço empenho absoluto em que nã o vá a esse baile: tenho minhas
razõ es para isso!
— A razã o de contrariar sua mulher, disse, já arrebatada, a duquesa.
Encolhendo os ombros, fixou ele de novo as chamas saltitantes, como
para melhor mostrar que a conversa terminara.
Ela, porém, nã o entendeu assim. Violenta, desta vez, repetiu:
— Quero o meu vestido; ouve? Eu o quero!
Nã o ergueu o duque os olhos, nem fez gesto algum.
Entã o, como ela se encolerizava cada vez mais, ele ergueu a mã o para
a chaminé e apertou com o dedo um botã o de marfim.
— Vai entrar meu criado, disse friamente: se quer que ele a encontre
aqui nesse estado...
Quis ela ainda esmagá -lo pela ú ltima vez com uma palavra:
— Pensa você triunfar, mas esquece-se de que a lei autoriza o
divó rcio!
O duque deu um salto:
— Nã o o autoriza Deus! replicou ele, com a fronte molhada de suor
frio!
Teve ela entã o um riso, que o gelou:
— Nó s nã o cremos em Deus e você traz a sua lei à frente... Nã o me
ensinou a obedecer senã o ao Estado e a você mesmo... A lei permite o
divó rcio... Se eu me valer dela. nada terá a censurar-me.

82
E rindo de novo, abriu bruscamente a porta e saiu do quarto.
— Meu Deus, pensou o duque, ela tem razã o; nã o seria assim, se eu
possuísse a fé dos meus antepassados... O divó rcio... E ousou falar em
divó rcio!... — Pedro, disse ao criado que entrava nesse momento;
padeço muito para ir ao jantar: que me sirvam no quarto.
Por seu lado, pretextou a duquesa uma enxaqueca, de modo que Nina
e Geraldo jantaram sozinhos; isso os divertiu muito, e a moça,
segundo seu costume, nã o deixou de comentar:
— Creio, Geraldo, que seria preferível nã o nos termos vestido tã o...
lindamente. O traje de noite nã o deveria ser de rigor nestas ocasiõ es...
E todo este cerimonial para o serviço de duas juventudes como nó s, é
um pouco... ridículo.
— Duas juventudes!... Você se esquece de meus vinte e cinco anos!
disse o marquês, ferido na sua dignidade.
-. Oh! é verdade!... você tem vinte e cinco anos. Isso dá sete anos mais
do que eu! Nunca poderia se casar com você, Geraldo... se eu tivesse
tido tal ideia!
— E por quê? perguntou o moço, cujo rosto se ensombrara à ú ltima
frase.
— Porque uma diferença muito grande de idade traz à s vezes...
dissabores.
Dissera esta palavra sem querer, porque a língua afiada de Lisa lhe
relatara os ecos da ú ltima cena conjugal.
— Sei a que alude, murmurou Geraldo em voz baixa; mas a sua
comparaçã o nã o é justa: sabe exatamente a diferença de idade que
existe entre meu pai e minha mã e?
— Oito anos, talvez?
— Nã o, Nina; meu pai tinha vinte e nove anos quando se casou; minha
mã e tinha apenas dezesseis.
— Pensava que meu pai tinha a mesma idade que o seu.
— Nã o, era mais novo quatro ou cinco anos. Apó s um silêncio,
perguntou o marquês:
— Sete anos já nã o lhe parecem agora uma diferença extraordiná ria?
— Nã o... mas escute-me, Geraldo: nã o case com uma menina de
dezesseis anos... Porque você seria muito infeliz.
Desta vez o tom grave de Nina nã o fez sorrir a Geraldo: a visã o do
pobre duque apresentava-se-lhes com muita insistência ao espírito, e
a mesma piedade lhes invadira os coraçõ es.

83
Na manhã seguinte, voltava Nina Rosa da igreja e ia subir ao quarto,
quando Geraldo a alcançou ao pé da escada. Vinha tã o pá lido, que a
menina teve o pressentimento do que lhe ia anunciar.
— Nina Rosa, suplicou ele, venha ao quarto de meu pai; sou impotente
para serená -lo... Venha depressa...
— Oh! Geraldo... Ela?...
E parou, espantada do pró prio pensamento!
— Partiu muito cedo com suas criadas... disse ele violentamente. Meu
pai, pela primeira vez, impusera-lhe a sua vontade. Entã o... ela quis
mostrar que era livre.
— Oh, meu Deus! suspirou a pobre menina, que jamais ouvira falar de
tais coisas.
Seguiu, contudo, Geraldo; mas, quando viu o duque, nã o pô de reter as
lá grimas. Em um assomo de ternura, deixou-se cair de joelhos, perto
da poltrona onde estava ele abatido, e tomando docemente a mã o
emagrecida:
— Tio Jaime!... nã o desanime... Ela voltará , o senhor verá !...
Retirou a mã o, mas olhou-a sem có lera, dizendo:
— Vá embora...
E apertando a cabeça com as mã os:
— Oh! que fazer?... que fazer? repetiu nervosamente.
— Onde está ela? perguntou Nina, baixinho a Geraldo.
— No seu palacete particular, herança de sua mã e... Ela ia lá , algumas
vezes, passar um mês, quando meu pai viajava.
— Mas entã o nada está perdido, meu tio. Aos olhos de todo mundo,
minha tia foi fazer uma pequena estaçã o no seu palá cio. A partida de
Teresa fará crer numa tristeza que ela quer distrair.
Sim... e se, lá , ela fala de divó rcio à sociedade
que frequentará , como aqui, se vai ao teatro ou ao baile... depressa
farã o um julgamento; e, quando a palavra divó rcio tiver corrido de
boca em boca, nã o voltará atrá s, que é altiva demais para isso!
Sempre ajoelhada, Nina Rosa tornou a pegar nas mã os do duque:
— Nada disso acontecerá , meu tio. Minha tia nã o ficará sozinha... Ao
meio-dia estarei com ela, e prometo-lhe tudo fazer para lhe guardar e
mesmo para lhe restituir. Deus me dará forças para isso.
— Mas, disse o marquês, minha mã e nã o a aceitará junto dela...
— Uma palavra sua lhe lembrará que nã o poderei ficar aqui sem ela,
pois nã o tenho governante.

84
Pouco a pouco, apagava-se o desespero do rosto do duque. Cada
palavra de Nina parecia acalmar-lhe a superexcitaçã o doentia.
— Crê você que isso se pode dar? balbuciou ele... Faria isso, ou diz só
para me ver serenar?
— Nã o, tio Jaime... parto já , se assim o quiser... Lisa seguir-me-á mais
tarde com as bagagens; dir-lhe-ei que minha tia conta instalar o novo
casal no palá cio de Forges, à volta de sua viagem, e que vamos ambas
presidir aos trabalhos.
— Oh! obrigado, Nininha... obrigado... murmurou o duque, recobrando
a esperança. Perdoe-me ter ignorado tanto tempo toda a nobreza do
seu coraçã o!
E, atraindo a si a cabeça loura, beijou Nina na fronte.
Meia hora depois, a moça despedia-se de Geraldo. À porta, esperava-a
o automó vel.
— Refletiu bem, Nina Rosa? perguntou o moço... Você deixa a casa que
ama para ir para minha mã e, que lhe fará a vida dura... Lealmente,
devo preveni-la de que minha mã e raramente cede, e que pode bem
ser que nunca mais volte. Você sabe também que o castelo de Breval
lhe está sempre aberto.
— Sei tudo isso... disse ela resolutamente. Mas meu dever é ir ter com
minha tia... e quero cumpri-lo.
— Nã o acredite, Nina, que eu a deixaria partir, se a companhia de
minha mã e lhe pudesse ser prejudicial: julgo-a incapaz de proceder
mal... Em todo caso, velarei por você... Onde poderei encontrá -la todos
os dias?
— Tenho minhas liçõ es de dicçã o, de mú sica, os cursos de dança, de
pintura, e as conferências literá rias, aonde minha tia nunca vai! Farei
um pequeno mapa, e assim poderemos comunicar-nos... Adeus!
E, beijando a mã ozinha que ela lhe estendia, ele disse muito pá lido:
— Até a vista...
Duas lá grimas correram pelas faces de Nina Rosa; tremularam um
instante na rede do veuzinho, e foram perder-se na peliça.
Depois que ela partira, e que ele já nã o ouvia mais o ruído do veículo,
reviu Geraldo em espírito as lagrimazinhas, e guardou-lhe sempre a
recordaçã o, como de coisa muito preciosa que ela, enfim, lhe dera.

CAPÍTULO 7

85
Habitava Nina Rosa o palá cio de Forges há uma semana, e força lhe
era confessar que Geraldo nã o errara ao lhe predizer maus dias. Fez a
pobre menina a experiência, mas ainda assim nã o perdeu a coragem.
— Cumprirei minha promessa, dizia consigo; mas, para ter alguma
influência em minha tia, é preciso primeiro fazer-me amar por ela.
Ora, quer seja eu angélica ou terrível, silenciosa ou tagarela, tenho
sempre o dom de lhe desagradar; e parece-me que os negó cios de meu
tio estã o cada vez mais embrulhados!
Pela primeira vez, duvidava do resultado e, triste, mas nã o
desanimada, orava cada manhã com mais fervor, a tudo disposta, para
conquistar o coraçã o da tia. A ocasiã o estava mais pró xima do que ela
supunha. Uma noite, em que ambas saíam de um concerto, viram o
chauffer a olhar o motor com inquietaçã o.
— Que há ? perguntou a duquesa, vendo-o aproximar para lhe abrir a
portinhola. O motor acaba de sofrer um desastre e o criado foi
prevenir o cocheiro para vir com o carro.
foi há muito tempo? perguntou a duquesa, que nã o gostava nada de
esperar.
— Foi há cinco minutos, senhora duquesa.
— Cinco minutos! Mas entã o teremos de esperar muito tempo! Talvez
você possa andar!...
— Oh! minha tia! tenhamos paciência um momento! O Melhor para
nó s será esperar neste quarteirã o bem frequentado, do que nos
vermos de repente imobilizados em uma rua deserta.
A só ideia de contrariar Nina Rosa decidiu a boa tia a dar o sinal de
partida...
— Vamos assim mesmo, disse imperiosamente ao chofer.
Este sabia que nada mais tinha a fazer senã o obedecer. Lentamente, o
carro moveu-se e engolfou-se na noite.
— Ouve, minha tia, o ruído do motor?... Nã o iremos longe...
— Nã o se faça de criança, se lhe parece... Baixinho, disse a jovem:
— Se estivéssemos ainda no palá cio de Servane, isso iria depressa: o
automó vel de Geraldo viria em nosso socorro.
— Socorro! Socorro!... Aí estã o grandes palavras: dir-se-ia que
estamos em perigo de morte!
Sem saber por que, Nina tinha medo: nas suas saídas à noite,
acompanhava-as sempre Geraldo e, para a jovem, a presença do
marquês era uma segurança: nem uma só vez pensara em tremer,

86
quando voltavam no carro aquecido, com Geraldo e Bernardo, que
conversavam alegres.
De repente, para o automó vel. Declara o chofer que nã o é possível ir
adiante.
— Estamos perto do palá cio? perguntou a duquesa.
— Oh! sim, senhora duquesa: a pé nã o sã o mais de cinco minutos...
— Fiquemos aqui, minha tia! suplicou Nina; nã o vamos a pé! Seria
imprudência! Meu tio dizia sempre que é preciso nã o...
— Ah! seu tio o dizia... Muito bem, minha bela criança! Sabe muito
bem que nunca sou da mesma opiniã o dele! Queira descer, peço-lhe.
— Oh! minha tia, fiquemos! Suplico-lhe...
— Nã o me compreendeu? perguntou asperamente a duquesa, que já
tinha descido para o passeio.
— Entã o, José virá conosco!
— Nã o preciso de ordens: José ficará ao pé do automó vel. Desça!
— Pois bem! Nã o desço! disse a moça, revoltada de tanta tirania; fico
aqui!
— Irei sozinha, entã o!
Lembrou-se Nina da promessa que fizera ao tio, de guardar sempre a
tia: de um salto, desceu do veículo e reuniu-se à duquesa.
Pouco habituadas a estas corridas noturnas, caminharam a princípio
silenciosamente; depois, erguendo os olhos para a tia, Nina Rosa viu, à
luz de um revérbero, faiscarem-lhe os diamantes das orelhas e do
pescoço.
— Minha tia, suplicou ela baixinho, erga a peliça; essas pedras que
brilham podem atrair a atençã o.
Com um riso mudo, afastou a duquesa ainda mais a gola; mas nã o
terminou o gesto: na penumbra, um homem saltou sobre ela, de mã o
estendida. Um choque do lado o fez cambalear; tentou, por instante,
aferrar-se aos braços nervosos que o tinham empurrado, mas era
tarde! deslizou-lhe o pé, e ele caiu, soltando uma praga horrível.
— Socorro! gritou Nina, que sentia alguma coisa morna a escorrer-lhe
do braço.
Vinha alguém correndo: era o chofer que as seguia a distâ ncia! Vendo-
o, o agressor ergueu-se de um salto e fugiu. Nã o durara a terrível cena
dois minutos.
— Estou ferida, disse Nina com uma vozinha quebrada.
E, sem um grito, desmaiou nos braços que lhe estendia a duquesa,
transida de pavor.

87
Geraldo lia tranquilamente seu jornal, enquanto almoçava. Nina Rosa
já nã o estava lá para a reuniã o amistosa da manhã e o marquês
esforçava-se por esquecer-se da solidã o. Sú bito, soltou um grito e,
levantando-se, recuou tã o bruscamente a cadeira, que esta foi bater
violentamente noutro mó vel. Ao rumor, apareceu um lacaio.
— Meu criado de quarto que suba imediatamente, disse ele com a voz
alterada. Tenho um encontro apressado.
Um quarto de hora depois, saltava no automó vel, dizendo ao chofer:
— Palá cio de Forges... E depressa, sobretudo! Depois tirando do bolso
o jornal revelador, releu o
entrelinhado, causa da sua extrema agitaçã o. O título principalmente
parecia impresso no seu espírito: Um atentado contra a duquesa de
Servane. A moça que a acompanhava foi ferida com uma facada.
— É Nina Rosa! Nã o há dú vida, repetia ele desorientado... E ela está
talvez... Oh! nã o... seria espantoso demais!... Nã o poderei perdoar a
minha mã e tê-la obrigado a nos deixar.
Estava Lisa no vestíbulo, quando ele chegou; viu os olhos
avermelhados da moça e, perdendo o tino, gritou:
— Está tudo acabado? Está morta?
— Fique o senhor marquês descansado! A senhorita nã o está em
perigo. Tem uma ferida no braço, mas pouco profunda.
— Nã o posso vê-la?
— Certamente, senhor marquês; a senhorita Nina quis levantar-se à s
8 horas, dizendo que padecia demais na cama; mas nã o pô de deixar o
divã .
— Onde está ela?
— No gabinete da senhora duquesa.
-? Se minha mã e me quisesse receber na antecâ mara, dir-me-ia se
posso ver a senhorita. Anuncie-me entã o... Eu subo com você.
Quando mã e e filho se encontraram, houve um momento de silêncio.
Ele se inclinou apenas, como o faria para uma desconhecida; ela se
empertigou um pouco, a fim de nã o trair a emoçã o. Depois perguntou,
mostrando com um gesto a porta do gabinete:
— Você veio...
— Vim por causa dela... Por causa de Nina Rosa!...
— Duvidá -lo-ia eu? disse ela, ferina.
Foi até à porta de comunicaçã o e abriu-a toda.
— Nina Rosa, murmurou, com voz que o marquês achou muito
branda: aqui está meu filho muito inquieto, que vem vê-la.

88
Geraldo avançou açodado; viu um rostinho muito pá lido, os belos
olhos sombreados pelas olheiras, e sobretudo um braço delicado, em
tipoia, o braço direito, o que se agitava tã o bem no tênis...
— Oh! Nina... balbuciou aterrado.
— E entã o, o que é? Você faz uma cara como se fosse para enterro...
Nã o comprou a coroa, espero-o.,. Vamos, sente-se aí, perto do divã , e
conversemos... Mas nã o de mim, se faz favor.
— De quem posso tratar, entã o?... Como!... você esteve a dois dedos da
morte...
— Oh! dois dedos!...
— E ainda brinca!
— Nã o quereria que eu chorasse! Bastam, para o caso, os seus
gemidos. E depois, sabe... Nã o tenho o direito de conversar, mesmo
para responder a Vossa Majestade...
— Padece ainda muito, entã o, Nina Rosa?
— Nã o, nada... mas se o doutor constata febre, proibirá que me mova.
Falava assim, porque via que a presença do marquês era muito penosa
à sua mã e: falava-lhe de um modo tã o ríspido mal a olhando, que Nina
padecia por ela, sabendo quanto amava o filho.
— Explique-me, pois, minha mã e, como foi que. Nina interrompeu o
primo sem cerimô nia:
— Aí está um delegado de polícia!... E podíamos nó s ficar
indefinidamente à espera do criado?
— Podiam ficar no automó vel...
— Estava frio o aquecedor, apanharíamos um defluxo... E depois,
vamos, Geraldo... você me irrita inutilmente... Dou-lhe ainda cinco
minutos.
— Cinco minutos!
— Sim, porque se eu nã o sarar depressa, nã o poderei ir aos meus
cursos, e você sabe quanto eles me interessam!
Compreendendo a alusã o, o moço nã o insistiu. Contudo, restava-lhe
uma ú ltima suspeita, e prometeu a si pró prio fazer falar a mã e,
quando se achasse a só s com ela. Adivinhou-lhe a menina a intençã o e,
quando ele se levantou para despedir-se dela, disse docemente à
duquesa:
— Minha tia, arranje-me o travesseiro, sim? Obedeceu a duquesa
imediatamente: enquanto
erguia com precauçã o a pequenina cabeça, voltou Geraldo atrá s para
pedir-lhe que o acompanhasse, mas o olhar de Nina o deteve: com um

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terno gesto, a jovem cercou com o braço vá lido o pescoço da duquesa,
dizendo com a voz fatigada:
— Eu e minha tia nos amamos muito agora... Deixe-nos juntas... Até a
vista, Geraldo.
E o senhor marquês se foi embora, sem se encolerizar, porque lhe
pedira um olhar de criança.

CAPÍTULO 8

Quando Geraldo penetrou na antecâ mara da senhorita Diná Sourzy,


houve agitaçã o no grupo das pacatas mamã es. Cumprimentou sem
olhar para ninguém em particular, para nã o ter de reconhecer e
conversar; e, no seu andar altivo, atravessou a sala tã o
tranquilamente, como se estivesse só . Chegando ao pé da cortina que
separa do salã o a antecâ mara, a prudente distâ ncia das mamã es
loquazes, resolveu-se tomar uma cadeira para esperar em paz a saída
de Nina Rosa.
Do salã o chegavam vozes ritmadas; o contralto da professora
dominando os outros timbres mais jovens, e Geraldo esforçou-se por
distinguir a voz clara da prima. Em vã o... Impacientou-se entã o... Do
seu canto, encaravam-no sempre as mamã es, conspirando sem dú vida
contra sua solidã o; só o temor deste sítio moveu o marquês a abreviar
a liçã o de Nina Rosa. Levantou-se e, com gesto despreocupado do
homem que se sabe senhor em toda parte, afastou a cortina,
procurando a prima com o olhar imperioso.
Algumas moças estavam sentadas, tagarelando entre si, sem cuidado
pela sua preciosa dicçã o; outras de pé, mais atentas, pareciam
suspensas dos lá bios da professora, e Mlle. Dina Sourzy, muito
majestosa num traje excêntrico, declamava tragicamente:
"Oh! dizei-me, barrocas, regatos e silvedos, Ramos cheios de ninhos,
grutas, selvas amigas..."
Causou a entrada do marquês um nú mero incalculá vel de pontos de
suspensã o... A recitante deixou cair os longos braços magros,
habituados desde tenra idade à s mais diversas evoluçõ es; e Geraldo
perguntou aos seus botõ es se iriam aparecer também os vales e as
montanhas. Uma vozinha, muito impertinente, encarregou-se de
informá -lo: Sem ser rogada, ousava Nina Rosa completar os versos
começados pela professora:

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"Ireis um dia a outros dizer vossos segredos? Ireis um dia a outros
cantar vossas cantigas?"
Era tã o escarninho o tom, e a nobre Mlle. Sourzy parecia tã o
surpreendida, que o marquês mal pô de reprimir um sorriso.
— A srta. de Servane, tenha a bondade, pediu ele com uma saudaçã o
cortês, dirigida à professora.
Com um tremor na voz, respondeu esta:
— Creio, senhor marquês, que presta grande serviço à senhorita Nina
Rosa, abreviando-lhe a liçã o.
— E por que, minha senhora?
Cerrando ternamente a mã o de Nina, disse a antiga trá gica:
— Porque a senhorita nã o gosta muito da poesia.
— Defeito que lhe será facilmente perdoado, replicou friamente o
moço.
E, tornando a saudá -la, saiu do salã o com a prima.
À apariçã o de Geraldo, tinham-se agitado as moças, como suas
mamã es; houve até mais cochichos, mais relâ mpagos nos olhos. Uma
delas murmurou baixinho:
— É de uma sorte, esta pequena!...
— Bem bom para ela, disse Madalena d'Arbreuze, que gostava de
Nina; é tã o gentil, esta menina, e sem um grã o de vaidade... o que é
raro!
Na antecâ mara, os primos pareciam tagarelar também.
-. Entã o, Nina Rosa, você nã o gosta da poesia?
-. Da poesia, sim... sim... Mas das choradeiras de Mlle. Sourzy... mil
vezes nã o!... Minha tia insiste nestas ridículas liçõ es... E você, Geraldo?
— Oh! suprimi-las-ia de bom grado! Suas sessõ es em casa desta...
cabotine desagradam-me soberanamente.
— Que engraçado!... disse Nina ingenuamente; você a chama pelo
nome que Bertel me deu na floresta!
— Perdã o, Bertel nã o a chamou de cabotine.
— Que foi, entã o?
— Qualificou-a de cabotine, o que nã o é a mesma coisa.
— Ah! uma letra apenas... Confesso, Geraldo, que se nã o agrado à
minha professora, é porque nã o faço muitos gestos, os gestos trá gicos,
você sabe... nã o posso agitar o braço; senã o lhe teria mostrado...
— Nã o é necessá rio... E esse braço, vai cada vez melhor, agora?
— Vai até perfeitamente bem! Se ainda está na tipoia, é para
tranquilizar minha tia.

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— Vejo que minha mã e aprendeu a amá -la... graças a você, ela escapou
a um interrogató rio o outro dia.
— Você sabe, Geraldo, disse Nina gravemente, que devemos sempre
respeitar nossa mã e... mesmo quando ela nã o tem razã o... Deus assim
o quer!
— Criança! disse ele, sem se zangar.
— Tenho razã o, Geraldo!... Porque, sabe, nã o é enfurecendo-se que
você abrandará minha tia... ao contrá rio, estragaria tudo com seus...
ares.
— Obrigado.
— Nã o se agaste, murmurou ela sorrindo... Compreende que é preciso
nã o destruir o que me deu tanto trabalho para fazer.
— Pobre Nininha! disse ele comovido.
— Nã o me lamente! Deu-me Deus a despreocupaçã o no meio mesmo
das dificuldades: bem vê que rio sempre!
— Mas desconfio que chora algumas vezes... à noite.
— À s vezes, quando me sinto moralmente fatigada demais. A nã o ser
para meus cursos, nã o deixo o rastro de minha tia, e você sabe que ela
dificilmente fica no mesmo lugar!
— Tem ela ido ao teatro, depois que você veio?
— Nem uma só vez... Falou nisso uma noite; disse entã o que a
acompanharia, porque, sem ela, tinha medo de ficar no palá cio. Ora,
sabe que tenho má cabeça, e como a peça nã o era para mim, nã o
ousou arrastar-me até lá ... Em troca, recebe muito.
— E agradam-lhe as suas visitas?
— Assim, assim... Há contudo um senhor que muito desejaria ver na
lua!
— Como se chama?
O Dr. Werner... Ele tem teorias!... Ora,
Geraldo, prefiro dizer-lhe: torna-me louca!
— A tal ponto!... disse ele, caçoando.
— Sim... Nã o pode ir lá sem fazer um discurso... E desgraçadamente
sabe prender as pessoas com belas frases... Só eu permaneço
invulnerá vel. Estamos em constante guerra.
— Mas, Nina Rosa, conheço esse sujeito! Nó s o recebíamos algumas
vezes... oh! muito raramente, porque desagradava a meu pai. Saindo
daqui, corro à sua casa e verá já com quem tem de se avir!
É isso, disse Nina com um gesto magoado; irrite-se também... Estrague
minha obra e acabe de me desanimar.

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Julgando ver lá grimas nos olhos dela, imediatamente Geraldo serenou.
— Perdoe-me, Nina Rosa! Nã o irei à casa daquele senhor... mas
prometa comunicar-me tudo... se nã o, nã o ficarei tranquilo a seu
respeito.
— Dir-lhe-ei tudo, sim, Geraldo... Escute, continuou já acalmada, a srta.
Beatriz declama para você.
O marquês prestou ouvido: um tanto abafados pelo reposteiro,
chegavam-lhe alguns versos:
"Estrela, aonde vais tu na noite luminosa? Buscas oculto leito dos
canaviais em meio? Aonde vais tu, tã o bela, nesta hora silenciosa, qual
pérola cair do mar no frio seio?"
— Beatriz gosta muito dos versos de Musset... Nas horas...
sentimentais de sua mocidade, apresenta sempre aqueles.
— Por quê?... Está ela em uma dessas horas?
— Mas sim, disse a menina, pois que você está aí! Sem responder à
ingênua palavra, Geraldo riu.
Depois disse:
— Nã o vejo sua criada... Creio que você nã o veio sozinha?
— Lisa acompanhou-me e virá buscar-me daqui a pouco.
— E que faz agora?
— Passeia, disse Nina muito tranquila.
— Muito bem! E você aqui sozinha!... Vou arranjá -la, a sua Lisa!
— Ora vamos, Geraldo, você nã o é delicado!
— Isso me é bem indiferente!
E, furioso, pô s-se a martelar o tapete com o tacã o. No salã o vizinho,
trá gica, declamava a voz:
"Eu amo as noites belas, amo as noites serenas..."
— E você, Geraldo? que é que você ama? perguntou ingenuamente
Nina.
— Nada, replicou o moço, sombrio.
— É muito triste! disse ela, lú gubre.
Riram entã o ambos, e quando apareceu Lisa, Geraldo esqueceu-se
completamente de "arranjá -la".
Uma vez a só s com a camareira, disse a moça apenas, gravemente:
— O senhor marquês ficou descontente com a sua ausência, Lisa; para
outra vez, trate de abreviar seu passeio.
Muito aborrecida, prometeu a criada nã o abandonar mais a jovem.
Ao voltar, Nina Rosa encontrou a tia fora de si:

93
— Está aí seu tio, disse a duquesa; quer ver-me e diz que nã o sai do
salã o... Sei que me vai fazer uma cena; só você pode evitar!
— Eu, minha tia!
— Sim, você... Nã o me vai recusar isto, minha Ninazinha... Peço-lhe!
Tirou o chapéu e o manto e desceu ao salã o.
— Meu tio, perguntou ela, que quer o senhor? Estava o duque de pé, e
em tal superexcitaçã o, que
se esquecera das suas dores:
— Já durou demais a comédia; venho buscar minha mulher...
— Mais outro que vai levantar poeira!... disse Nina de si consigo.
E em voz alta:
— Mas, meu tio, seu ato vai estragar tudo... Quanto mais o senhor
ordenar, mais resistirá minha tia... É preciso ir devagar.
— Devagar!... Bem sabe você que nã o sei ir devagar.
— Pois é por isso que estou aqui, meu tio! Faço, com auxílio de Deus, o
que o senhor nã o quer fazer; por que vir embrulhar tudo? Eu e minha
tia nos entendemos bem agora. É já um começo... E vem o senhor fazer
barulho... Eu estava tã o contente de ter obtido algum resultado...
— Escute, Nina Rosa, disse o duque aproximando-se; se vim, foi
porque soube que o Dr. Werner vem muitas vezes aqui.
— Ah! é isso o que o incomoda, meu tio? Fique tranquilo... Acharei
meio de pô r fora esse senhor.
— E se voltar?
— Nã o voltará !... Tirar-lhe-ei a vontade!
— Como o fará você, Nina Rosa?
— É segredo, disse a moça, impelindo docemente o tio para a porta... E
quando o tiver conseguido, saberá o resultado por Geraldo.
Agora arrastava o duque:
— Meu tiozinho, tenha confiança, tudo irá bem... se o senhor nã o
voltar cá ... Lembre-se de que poderia ter estragado tudo...
— É verdade, confessou o pobre duque, humildemente.
E, ao despedir-se de Nina Rosa, murmurou-lhe baixinho:
— Nã o case, filhinha, ou, se o fizer, nã o queira um marido mais idoso
que você!... Eu era velho demais para ela, você vê...
— Ela é jovem demais para ele, disse Nina Rosa, suspirando... E é um
pouco tarde para o perceberem!

94
CAPÍTULO 9

O doutor falava; e quando o sr. Werner falava, seria crime abrir a


boca! Assim, calavam-se todos na sala: as moças, um pouco
aborrecidas, suspendiam as conversas; algumas escutavam sem
compreender, outras, mais espertas, admiravam-se das teorias
emitidas na sua presença... Aquele homem, que insultava suas puras
crenças, as ofendia profundamente, sem que contudo achassem uma
só palavra para protestar. Os homens, esses, aprovavam com o olhar,
ou impacientavam-se com as frases retumbantes do doutor, segundo
suas convicçõ es ou seus desgostos domésticos... Indiferente na
aparência, escutava a duquesa, com os olhos meio baixados, sem
perder uma palavra.
Prometia ser longo o discurso e, de vez em quando, para dar mais
valor à s palavras, o doutor levantava-se da poltrona, gesticulava um
instante e, contente do efeito produzido, tornava a cair sobre os fofos
coxins do assento. Muito perto do orador, acariciando o cã ozinho da
tia, Nina parecia cochilar.
— O divó rcio, vejam, é uma lei indispensá vel; porquanto, se nã o fosse
ele, quantas infelizes ficariam acorrentadas por toda a vida a seres
indignos delas, enquanto passavam a seu lado coraçõ es devotados,
capazes de lhes dar felicidade.
Pela terceira vez, levantara-se o doutor: vivamente, pronta como o
raio, pegou Nina Rosa no cã ozinho adormecido, despertou-o com um
piparote e colocou-o no assento vazio, tendo o cuidado de acomodá -lo
contra o encosto, para evitar um esmagamento fatal; depois, pareceu
adormecer de novo.
Dita com vigor a ú ltima palavra, deixou-se o doutor cair, ofegante, na
poltrona... Nã o por muito tempo; porque um concerto de latidos
furiosos, de gritos, de risos o obrigou a saltar. Quis correr, mas
perseguiu-o o cã ozinho, mordiscando-lhe a barra da calça; Nina Rosa
gritava a toda força: — Dicky! Dicky! Aqui, Dicky! Os homens, felizes
de se poderem vingar, faziam ruído pelo prazer de assustar ainda
mais a vítima, e a mocidade, contida por muito tempo, explodia em
loucas risadas e exclamaçõ es diversas.
E foi grande a algazarra no luxuoso salã o egípcio da duquesa.
Resolveu-se enfim Nina Rosa a prender o cú mplice; mostravam-se os
homens meio penalizados, meio irô nicos; as moças apelaram para o

95
auxílio das bolsinhas de seda e dos lenços bordados, para abafar o
riso, que se tornara contagioso; e o sr. Werner lá ficou plantado no
meio da sala, ainda meio assustado, os cabelos revoltos, e uma barra
da calça despedaçada, caindo-lhe desgraciosamente sobre o tacã o!
Nada pode abater mais o prestígio de um homem do que um momento
de ridículo; fez essa experiência, naquela noite, o sr. Werner: aqueles
que, momentos antes, estavam subjugados por suas grandes frases,
agora já nã o viam, no precedente discurso, senã o uma brincadeira
estú pida, indigna de consideraçã o. No entanto, o orador tivera dessas
palavras pérfidas, que se imprimem no espírito e cuja recordaçã o é
funesta; deixara em coraçõ es desiludidos uma influência para o
futuro... Mas tudo isso estava esquecido...
Jamais voltaria ao pensamento uma palavra ouvida, sem que a
acompanhasse também a lembrança da ridícula posiçã o do orador;
jamais se falaria das teorias do Dr. Werner, sem evocar a cena do
cã ozinho... E o mal nã o penetraria no fundo das almas, graças a uma
travessura engenhosa de moça.
Por um momento, olhou a duquesa desdenhosamente para aquele
cujas palavras tanto admirava, sem contudo lhe demonstrar, e que
acabava de descer tã o baixo na sua estima de impecá vel dama de
sociedade.
— Sr. Werner, disse ela com o ar mais majestoso, e que fazia parecer
ainda mais ridículo o personagem em questã o, permitindo-lhe que se
retire: exige-o o estado lamentá vel em que se acha... Mas, agradeço-lhe
nã o ter esmagado completamente meu cã o, porque o aprecio muito...
Boa noite, sr. Werner.
— Boa noite, sr. Werner, disseram todos em coro.
E, como um eco, cantarolou a vozinha da inocente Nina:
— Boa noite, sr. Werner!
Na tarde do dia seguinte, conhecia o duque de Servane a deserçã o do
inimigo: Geraldo soubera o fato por Nina Rosa, as minú cias pela srta.
d'Arbreuze, e nã o se demorou em relatar tudo ao pai.
Quis o duque ver Nina Rosa; acompanhou o filho ao curso de
literatura e, quando saiu da sala, seguida da criada carregada de
livros, a marquesinha ficou muito admirada de ver o tio ao lado de
Geraldo.
— Minha filha, quis vir eu mesmo agradecer-lhe o que fez... Graças a
você, tenho um cuidado de menos!
— É o começo, meu tio; os outros terã o a mesma sorte.

96
— Acredita-o?
— Tenho a certeza disso... se o senhor quiser ser paciente!
— Sê-lo-ei... Mas padeço tanto, moral e fisicamente. Mal posso
caminhar! Foi preciso que Geraldo me amparasse para chegar até esta
sala.
— E apoiar-se-á em mim para ir até o automó vel! Quer, meu tio?
— Eu nã o quereria quebrar esta florzinha!
— Sou forte, nã o tenha receio, disse a moça, endireitando-se
altivamente.
E como o duque sorria, irô nico, Geraldo interveio arrebatado:
— Sim! Ela é forte! Mais forte do que o senhor
imagina!
Olhou para o rostinho, que vira tã o pá lido, e curvando-se, perguntou-
lhe baixinho:
— Há ainda má goa, à noite?
Pondo-se entre o duque e o primo, para servir de apoio ao tio,
respondeu:
— Está acabado!... Veio o esquecimento... Depois, em voz alta,
sustentando pacientemente o duque:
— Cuidado, meu tio, há um degrau!
— Entã o, perguntou Geraldo... O coraçã ozinho está liberto?
Corou pela primeira vez, e, sem olhar para ele, respondeu num
murmú rio:
— Sim!... Eu o creio!
Quase em voz alta, Geraldo exclamou triunfante:
— Que felicidade!...
Sem querer, ela o fitou, procurando compreendê-lo; depois, de novo
se lhe rosaram as faces. Mais atenta ainda, voltou-lhe as costas para
ajudar o tio na descida difícil da escada. À sua passagem, paravam
todos, a olhar para a pequena Nina, e admiravam-se de ver os dois
altaneiros descendentes dos Servane tã o moderados pela frá gil
criança. Enterneciam-se os pais; as moças enciumavam-se do que
chamavam "os privilégios de Nina Rosa", chamando-a baixinho de
"feiticeira". A jovem, porém, nada via, nada ouvia. Naturalmente boa,
nã o suspeitava que pudesse ser mal julgada; como nã o era fá tua,
imaginava que todos os olhares convergiam para o sedutor marquês, e
atravessou o vestíbulo sem reparar nos que a cercavam. Contudo,
atraiu-lhe a atençã o uma saudaçã o profunda, e um rumor de sabre fê-
la voltar-se maquinalmente. Respondeu com leve inclinaçã o de cabeça

97
ao tenente d'Arbreuze, e sorriu a Madalena, que se apoiava ao braço
do oficial. Também Geraldo viu, mas um pouco tarde: julgou que o
sorriso se dirigia a ambos; e Nina, ingenuamente, confirmou esta
suspeita, sussurrando-lhe ao ouvido, enquanto o criado instalava o
duque no auto:
— O tenente d'Arbreuze pediu-me em casamento...
— Animal!...
— Que diz você? perguntou a menina, que nã o compreendera.
— Digo que será um marido encantador para outras, nã o para você.
Brilhou-lhe a malícia nos belos olhos, ao responder:
— Contudo... meu coraçã o está liberto!
Nã o lhe retrucou Geraldo, mas perguntou ao pai: -APOSSO deixá -lo um
instante, meu pai? Vou acompanhar Nina ao carro... Volto num
momento.
— Sim, Geraldo, posso esperar... disse o duque. Vá procurar sua luz...
Quanto a mim... a minha está extinta há muito tempo!
Como filho obediente, nã o lhe fez repetir o marquês segunda vez: foi
para Nina Rosa, que já subira ao carro; vendo o primo, a jovem saltou
ao passeio para deixar à respeitosa distâ ncia os ouvidos exercitados
dos criados:
— Entã o, que lhe respondeu? perguntou Geraldo, carrancudo.
— Respondeu... a quem? disse ela, intrigada.
— Mas a d'Arbreuze!
— Nada... Minha tia quer que eu reflita. E que lhe vai responder?
Apertou ela os lá bios para nã o rir; depois, muito séria:
— Nã o sei... vou refletir!
— Pois bem! Reflita! gritou o marquês, com os supercílios franzidos...
Você tem razã o, mil vezes razã o!... E pode bem refletir ao menos três
anos antes de desposar um... uma...
O temor de uma pergunta tolheu Geraldo de pronunciar os
qualificativos que o teriam aliviado.
— Um...? Uma...? perguntou Nina Rosa, curiosa. Completamente
furioso, acabou o marquês:
— Um imbecil... Uma nulidade!... Vamos, meu pai me espera... entre,
depressa!
Subiu, descontente do tom do primo. Quando o automó vel se movia,
baixou vivamente o vidro e, curvando para fora o lindo rosto rosado,
aureolado de ouro, gritou-lhe:
— Pois sabe? Está muito mau hoje... nã o lhe quero mais bem!

98
E, recostando-se nas almofadas, desatou em risadas alegres e sonoras.

CAPÍTULO 10

Nos primeiros dias de maio voltava a Paris o novo casal. Desejaria


Bernardo instalar a mulher em casa da sra. de Mervys; mas uma carta
de Nina Rosa o fez mudar de ideia. Com a maior delicadeza,
participava-lhe a moça a situaçã o dos pais de Teresa: a partida da
duquesa tivera por pretexto a instalaçã o do casal; que pensariam, se o
visconde e a mulher nã o fossem para o palá cio de Forges?
"Esta penitência, escrevia Nina, nã o será longa; no pró ximo mês, meu
tio trocará Paris por uma praia, por ordem do doutor, e acharei o meio
de orientar a escolha de minha tia para o mesmo lado: Serã o entã o
livres como o ar, livres sobretudo da sua insuportá vel prima."
Os recém-casados foram, pois, provisoriamente, para o palá cio de
Forges. Bernardo passava os dias à procura de um "ninho" digno da
bela Teresa. Enquanto isso, esforçava-se a moça para trazer a mã e à
razã o.
Nada quis ouvir a duquesa, que lhe respondia com ar autoritá rio:
-. Minha cara filha, você nada em límpido azul e imagina que nã o há
entre nó s senã o uma rusga de namorados. Ele nã o cederá , e você me
conhece bastante para saber que nã o admito censor... Entã o, para que
se mete nisto? Guarde seus conselhos para mais tarde... quando
estiver no meu caso.
— Graças a Deus, posso assegurar-lhe, mamã e, que eu e Bernardo
estamos unidos para toda a vida e nada nos poderá jamais separar.
De entã o por diante, nã o usou Teresa dizer mais nada; compreendia,
aliá s, que as resoluçõ es maternas se afirmariam na resistência que
encontrassem, e tomou o partido de calar-se. Nina mesmo o
aconselhara:
— Proceda como de costume, sem querer dar liçõ es a sua mã e; o
procedimento de um casal cristã o talvez exerça nela boa influência.
De fato quando estava em companhia de Bernardo e Teresa, estudava
a duquesa curiosamente a mudança que se operara na filha...
Adivinhava que se amavam com amor mais forte e mais sério do que o
que a unia outrora ao duque de Servane; e compreendia melhor entã o
a digna resposta de Teresa:

99
— Nada nos poderá jamais separar!
Nina Rosa tornara a ver Bernardo sem nenhuma emoçã o: nã o
empalidecia como antigamente, quando o via ao lado de Teresa; sorria
à sua felicidade, e Geraldo, que o percebia, sentia-se muito feliz com
isso.
Naquela tarde, repousava a duquesa no quarto, acabrunhada por uma
enxaqueca, que qualificara de "atroz"; Teresa e Nina Rosa bordavam
no jardim, em silêncio, porque o mesmo cuidado lhes ocupava o
pensamento. Arrancou-as à meditaçã o a entrada ruidosa de Bernardo.
Seguia-o o cunhado, divertindo-se ao ver-lhe a cara consternada.
— Está acabado, gritou o visconde, desisto!
— De Teresa? perguntou Nina, maliciosamente.
— De achar qualquer palá cio... Nã o há nada nesta Paris!... Nada! nada!
— Há Teresa... e é muito!
-? É isso! Zangue-se ainda por cima! Estou tã o desesperado!...
E caiu numa poltrona, pondo-se a enxugar a fronte, com furor.
— Visitei primeiro uma encantadora vila. com um jardim soberbo;
mas só havia três salas... Que se vai fazer com três salas?
— Mas, disse Nina Rosa rindo; de quantas precisa, meu pobre
Bernardo?
— Pelo menos de sete!...
— Sete! Para um homem moderado como você... Se fosse para minha
tia, ainda vá ...
— Oh! Nina! Se visse essas salas!... Do tamanho de lenços... Visitei
depois um palá cio... respeitá vel, esse... tã o respeitá vel que está quase
em ruínas! Entã o, como nesta semana, vi vinte e três palá cios e vilas
para alugar ou vender, perdi a cabeça no vigésimo terceiro, e aqui
estou absolutamente desesperado.
— Mas é horroroso! disse Nina com comiseraçã o. Pobre Teresa!... Um
marido sem cabeça! Talvez seja preciso procurar nas coisas achadas...
Muito calma, enquanto enfiava a agulha, disse Teresa:
— Meu pobre Bernardo! Receio muito que tenha sido exigente demais.
— Exigente! nã o... Mas quero que tenha um quadro digno de você...
Um palá cio como este, por exemplo.
— É luxuoso demais para nó s, disse a moça.
— Nã o, Teresa, você está habituada a este luxo; empenho-me muito
em que torne a encontrá -lo em minha casa.
Nina abandonou o bordado, pasma.

100
— Como fala bem, este jovem marido! disse ela, com ar tã o engraçado
que todos riram.
O jovem marido lançou-lhe um olhar sombrio e veio para junto da
mulher, ao pé da vidraça. Para nã o os perturbar, levantou-se Nina
Rosa também, reunindo seus apetrechos de trabalho:
— Esperem! Mudo-me... Venha comigo, Geraldo! Vamos instalar-nos
do outro lado. Você verá , será gentil...
Encolheu-se na cadeira de balanço, embalando-se com delícia; Geraldo
contentou-se com uma simples cadeira de junco, achando que tudo
era confortá vel, na companhia da prima.
— Nã o poderei ficar muito tempo, Nina Rosa; se Bernardo nã o me
tivesse arrastado, nã o teria vindo até aqui... Nã o tenho nenhum
empenho em me encontrar com minha mã e!...
— Ela nã o descerá : tem uma enxaqueca horrorosa! Entã o você fica?
— Se me permite... Ela disse, maliciosa:
— Nã o vejo inconveniente... se está de bom humor.
— Estou, sim!... Nina?...
— Geraldo?...
— Respondeu ao sr. d'Arbreuze?
— Mas sim... E recusei-me muito delicadamente.
— Ah! tanto melhor!
A confissã o fê-la corar um pouco, e durante um momento nã o falaram:
cismadora, Nina Rosa abandonara o bordado; a mã ozinha caía sobre a
beira da cadeira e, no balanço cadenciado, tocava na passagem as
folhas brilhantes das plantas exó ticas; ao fundo dos nichos de verdura,
as fontes murmuravam nas bacias de má rmore rosado, unindo-se ao
leve sussurrar da conversa do amoroso casal.
— Aqueles se amam, disse Nina Rosa, pensando alto... Simbolizam a
poesia; nó s, a prosa!
— A prosa! reclamou Geraldo, quase encolerizado; e por quê?
— Fale mais baixo! Você vai romper o encanto desta hora... Os que nã o
têm amor personificam a prosa; os namorados, a poesia!... Eu nã o
tenho amor, bem o sabe... E você também nã o o tem...
— Nã o o tenho! gritou ele violentamente, levantando-se. Julga que nã o
o tenha?
Perturbada com o arrebatamento do primo, murmurou Nina:
— Eu pensava... eu julgava...
Subitamente serenado, ao vê-la temerosa, sentou-se outra vez,
dizendo:

101
— É verdade! você nã o o sabia.
E calou-se um momento, perguntando consigo se ia enfim falar;
deteve-o o medo de uma cruel decepçã o, e disse apenas:
— A você, minha amiguinha, posso bem confessar que há muito tempo
abandonei a prosa.
— Ah! pensei que nã o poderia aliar tã o grande altivez ao amor...
— Obrigado!
— Nã o digo isso para o irritar, mas pensava que um noivo devia
parecer um pouco...
— Nebuloso!... E quem lhe disse que sou noivo? Posso muito bem ter
um amor infeliz... Você é ainda criança, nã o conhece a vida e seus
padecimentos.
-. Oh! Geraldo! murmurou ela dolorosamente.
— Perdã o!... Tinha-me esquecido da triste experiência que fez...
Perdoar-me-á , Nina Rosa?
-? Sim, disse ela docemente; porque você nã o me queria magoar...
Vamos, Geraldo, tem um desgosto? Diga-me! Você sabia consolar-me
nas horas dolorosas; quero, por minha vez, aliviar suas má goas.
— Você nã o pode...
— Está bem certo disso? interrogou ela, fixando no primo os belos
olhos límpidos.
O marquês voltou a cabeça sem responder.
— Aquela a quem você ama... sabe-o?
— Nã o!
— Mas é preciso dizer-lhe, gritou ela, impetuosa, imprimindo à
cadeira enérgico balanço.
Tesoura, dedal, bordado, tudo se espalhou sobre o tapete de cores
brilhantes. Geraldo quis apanhar os miú dos objetos.
— Deixe, disse ela imperiosamente, e diga-me o nome dessa moça...
Irei dizer-lhe que você a ama: fique certo de que ela ficará contente.
— Por que o diz?
— Mas... porque... nã o sei! disse toda corada, percebendo que o
sentimento que queria emprestar a outra existia, sem o suspeitar, no
fundo do seu coraçã o. Queira apanhar meu trabalho, pediu
docemente, sem olhar para o primo... Nã o o quero reter mais tempo,
porque minha tia vai descer para o chá .
Geraldo obedeceu e entregou-lhe um a um os objetos abandonados.
Nina pregou lentamente a agulha no fino linho, e pô s no lugar o
minú sculo dedal de ouro e a tesourinha. De pé diante dela, observava-

102
lhe o marquês o trabalho, seguindo maquinalmente o vaivém dos
dedos finos. Quando acabou de arranjar tudo em lindo cofrezinho
juntando os dedos sobre a tampa trabalhada, perguntou a moça,
erguendo os olhos para o primo:
— Vai embora?
— Tenho de ir, pois que você o quer... Ela disse, séria:
— Quero-o, porque é mais razoá vel!
— Mais razoá vel... acredita-o, Nina?
— Sim, Geraldo... porque nã o estou no palá cio de Forges para pensar
em mim! Fiz a meu tio uma promessa, que cumprirei!... Nã o me desvie
do meu caminho!
— É rude esse caminho: por que se meteu nele?
— Porque Deus o queria!... Até a vista, Geraldo! E levantou-se, sú bito,
sacudindo a emoçã o que a
tomava.
— Entã o, perguntou ele com voz trêmula, nã o quer saber o nome
daquela a quem amo?
— Nã o... hoje nã o!... Vá , Geraldo! Tomando-lhe a mã o, insistiu ele
ainda:
— Você queria aliviar a minha dor... Peço-lhe uma palavra, uma só
palavra para me consolar... Depois, ir-me-ei embora...
Hesitou; mas, furtando-se de repente, disse já a alguns passos de
distâ ncia:
— Aquela a quem você ama, Geraldo... nã o o ignora mais.
E, num farfalhar de sedas elegantes, amarrotadas, Nina Rosa
desapareceu.

103
TERCEIRA PARTE

CAPÍTULO 1

O sol no ocaso espargia clarõ es de fogo nos vitrais do cassino e tintas


rosadas no má rmore dos terraços; um ar mais fresco sucedia enfim à
ardente temperatura da tarde. A multidã o, que se refugiara nos salõ es

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ensombrados, voltava agora aos jardins, em grupos silenciosos,
porque à noitinha tudo parece mais belo.
Recostada à balaustrada de pedra que domina o mar, Nina mirava as
miú das vagas que se agitavam contra o dique. Nã o se lhe via senã o um
leve cacho, tremendo na aba de filó bordado do chapeuzinho; mas a
areia gemeu, traindo a presença de um passeante. Entã o, sem
abandonar a posiçã o sonhadora, a pequena Nina disse simplesmente,
voltando o rostinho radiante:
— Boa tarde, Geraldo!
— Boa tarde, Nina Rosa! Eu a fiz esperar?
— Nã o, nada; vim mais cedo de propó sito: a hora é tã o bela!
— Para sonhar? perguntou ele, vendo-a retornar à posiçã o meditativa.
Sem o olhar, toda velada pelo grande chapéu branco, disse Nina:
— Para sonhar?... Oh! nã o! Para orar...
— Orar! Estava a orar quando cheguei? perguntou com um riso
céptico.
Com esquisita simplicidade, respondeu a jovem:
— Dizia minha oraçã o da noite... Que quer você, Geraldo? nã o posso
escolher: toda tarde, estou na vila com minha tia, no tênis, no cassino.
Somente à tardinha, enquanto sua mã e está no toucador com as
camareiras, tenho um momento de liberdade; venho entã o aqui para
orar e para encontrá -lo.
— Nã o poderia escolher outro lugar, que nã o fosse o jardim do
cassino?
— A vila fica tã o perto... e nã o quero afastar-me dela: daqui, se vejo
alguém bater, precipito-me e chego a tempo, para formar o trio com a
visita.
— Pobre Nina! Admiro-lhe o devotamento mas nã o posso aprovar!...
Se esta comédia durar vinte anos, ficará você entã o de guarda vinte
anos?
— Sim!
— E ficará solteirona, continuou ele, julgando assustá -la com esta
palavra terrível.
— E ficarei solteirona, sim, Geraldo!
Olhou-a, adivinhando o que lhe ocultava o chapeuzinho: o delicado
ró seo das faces, o brilho dos olhos magníficos, a auréola de ouro dos
cabelos, tudo quanto, tã o jovem e tã o puro, dela emanava e o
encantava.
— Interrompi entã o a sua oraçã o?

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— Nã o! Já a terminara; mas, admirar a obra de Deus é também orar.
Erguera-se e, com os dedos ainda unidos para a prece, contemplava
extasiada o quadro que se oferecia ao seu olhar de cristã e de artista.
Via agora Geraldo os traços radiosos, o olhar profundo, e admirou a
pureza daquela jovem que sabia orar ali, a dois passos do cassino, tã o
perto daquelas mulheres que perdiam dinheiro e reputaçã o nos salõ es
luxuosos, ou na embriaguez dos jogos da Sala Mourisca.
A meia voz, tornou ela a dizer:
— É tã o bela a hora...
— Sim, é bela a hora!
— Você diz isso de maneira engraçada, Geraldo! Dir-se-ia que nã o
quer admirar o que lhe agrada tanto, eu o sei!
Voltara para ele o rosto e, encontrando-lhe o olhar interrogató rio,
disse Geraldo surpreendido:
— Você nã o compreende, e no entanto...
— Nã o compreendo, nã o, Geraldo; porque admiro sem pensamento
reservado, e todo mundo pode ler nos meus olhos que acho, hoje, o
céu encantador, e a cançã o das vagas mais deliciosa ainda. Você
parece lutar contra a admiraçã o! Por que, Geraldo?
O marquês olhou um momento para Nina Rosa, hesitando em confiar,
pela primeira vez, alguma coisa do seu pensamento e de suas lutas
íntimas à quela jovem; mas os olhos que pareciam esperar eram tã o
puros, que nã o vacilou mais em falar:
— Quando admiro um quadro, associo o autor à obra-prima, e minha
admiraçã o alcança sobretudo o ser que possui o talento e que soube
encantar meus olhos pela harmonia das cores, pela expressã o dos
assuntos... Ora, o quadro na natureza nã o é assinado, e eu me censuro
por admirar o quadro, porque é prestar homenagem a um autor
suposto... ao seu Deus.
Nina levantou as mã os na altura dos lá bios do moço:
— Meu Deus que é o seu... oh! Geraldo, você bem sabe que Ele existe:
tudo lhe grita e seu orgulho se recusa a ouvir... Geraldo, nã o se vá
embora, escute-me!
Tomara-lhe o braço para retê-lo e, ardente, repetiu:
— Ele existe... Veja, Geraldo, este céu magnífico, estas flores, esta
extensã o d'á gua azul infinita como o pensamento... E isto se fez por si
só ?
— Nã o creio em Deus!

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— Mas reflita, Geraldo... Considere todas as inteligências do mundo,
todos os talentos, todas as concepçõ es geniais do homem...
— Nã o creio!
De vibrante que estava tornou-se ela agora muito meiga:
— E o coraçã o, Geraldo! o coraçã o das mã es, das esposas, de todos os
que padecem, de todos os... que amam; coraçõ es de crianças, de
mulheres, de moças, esta coisa tã o íntima que parece parte do nosso
ser, e que é nó s mesmos; este grande tesouro oculto que vocês
chamam "coraçã o" e que é a nossa alma... Geraldo!... este coraçã o que
encerra nossas alegrias, nossas magoas e... nossos amores, este
coraçã o se fez por si só ? O moço empalidecera; desprendeu-se com
aspecto sombrio:
— Deixe-me... Poderia dizer-lhe coisas duras... e nã o o quero, hoje!
Afastou-se Nina alguns passos, voltando-se de vez em quando
timidamente para vê-lo.
Geraldo encostou-se no lugar que Nina acabava de deixar e as frases
que ela pronunciara martelavam-lhe o cérebro, ao passo que o seu
desejo era esquecê-las.
Falara-lhe de coraçã o, e ele pensava que aquele coraçã ozinho de ouro
era obra-prima suficiente para convencer o seu cepticismo. Quando
chegara a Servane, julgara-a a princípio uma criança insuportá vel;
mais tarde, reconciliado com ela, ria dos seus caprichos e momices,
que o divertiam como manhas de menina espirituosa e travessa. Mas
quando conheceu o heroico sacrifício de Nina Rosa; quando a viu
devotar-se a todos, pronta a tudo abandonar pela felicidade dos tios,
compreendeu que havia naquela criança alguma coisa mais além do
espírito, um coraçã o que ignorava por tanto tempo e que se descobria
agora numa irradiaçã o que o deslumbrava... E aquele coraçã ozinho,
aquela alma, como dizia ela, se teria feito por si só ?... Mas nã o era
possível!... Para que uma criança pudesse cumprir desses heroísmos
ocultos, era preciso que um Ser supremo houvesse posto nela uma
força e uma coragem que sua infâ ncia amimada nã o lhe teria podido
dar... Entã o?... Para nã o ter mais que pensar, que lutar, voltou o
marquês para perto de Nina Rosa; percebendo, no olhar altivo, que
mais valia nada dizer de suas caras crenças, pediu gentilmente:
— Nã o me faça uma cara assim tã o feia... Nã o tenho senã o dois
minutos para estar com você.
Ele se sobressaltou:
— Dois minutos! mas eu mal cheguei...

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— Esquece-se do seu amuo...
— Eu me amuei?
— Decerto!... Mas nã o lhe quero mal por isso! Eu o... amo... tanto, que
nã o posso deixar de lhe dizer... suas verdades. Você sabia, nã o é,
Geraldo, que eu lhe tinha... amizade.
Amargamente ele respondeu:
— Amizade, sim, eu o sabia!
De medo de uma confissã o, ela nã o reclamou contra o tom da voz;
mas, ao deixarem ambos o terraço, disse-lhe:
— Os amigos devem compreender-se entre si, e você nã o me
compreendeu hoje... Isto virá com o tempo, nã o é, Geraldo?
— Nã o sei!
— Diga sim, meu amigo!...
Tã o idealizada a viu no crepú sculo lilá s, que, sem o querer, repetiu:
— Sim... minha amiga!
E baixinho, indo embora, disse, voltando-se para vê-la ainda uma vez:
— Sim... minha noiva!

CAPÍTULO 2

Indolentemente reclinada no divã atravancado de almofadas, a


duquesa de Servane, segundo sua pró pria expressã o, aborrecia-se de
morte. Estava no quinto cigarro turco e a fumaça perfumada, subindo
e espalhando-se pela sala acanhada, começava a sufocar Nina Rosa,
que bordava diligentemente ao lado da tia. Lembrou-se, de repente, a
senhora de Servane, de que a sobrinha podia nã o gostar tanto como
ela dos cigarros orientais:
— Este cheiro parece aborrecê-la, Nina Rosa? Tranquilamente, ela
confessou:
— Aprecio mais um charuto de verdadeiro tabaco, como os que
fumam Geraldo e meu tio.
— Mas suponho que você nã o me queira ver fumar um charuto?
— As espanholas os fumam, minha tia.
— Isso nã o tem graça. . . a moda turca é mais bonita. Este divã , essas
tapeçarias brilhantes, sobretudo esta caçoila, tudo isto é encantador!
Contemplou a moça desdenhosamente a tripeça de bronze e a voluta
azul que subia lentamente para o teto.

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— Isso depende dos gostos ... e dos olfatos! ... A mistura de flores e de
tabaco fantasista é muito pouco agradá vel. . . E depois, minha tia, esta
caçoila, posta num salã o, para o gozo de uma criatura, parece-me um
pouco. . . a homenagem sacrílega prestada ao bezerro de ouro.
— Obrigada pelo "bezerro de ouro"!
— Perdoe-me, minha tia, a comparaçã o veio sem eu o sentir: este
costume é muito pagã o. . . sobretudo para uma duquesa de Servane.
Acabara baixinho, mas a tia a ouvira; repentinamente confundida
diante daquela criança que a julgava, atirou fora o cigarro e soergueu-
se nos coxins.
— Bem desejava ir ao cassino; mas nã o posso por causa desse
advogado que deve vir. Por que me faz ele esperar?
— Luís XIV também teve de esperar, minha tia!
— ? Poupe-me as suas comparaçõ es! ... E no entanto prometera vir à s
6 horas!
— Luís XIV?
— Você está insuportá vel hoje, Nina! Vamos, chame Daisy ... ou antes,
nã o disse ela, vendo a caçoila que agora a incomodava, vá você mesma
perguntar se o advogado nã o veio.
A independente Nina Rosa obedeceu imediatamente.
Quando a porta se fechou, a duquesa foi à tripeça e extinguiu o fogo,
murmurando entre dentes:
— Esta garota me vai dando leis, sem o parecer!
A "garota" navegava naquele momento pelos corredores à procura de
um criado. Nã o encontrou o que buscava, mas ouviu ruído de vozes no
vestíbulo.
Entrava o advogado, precedido do criado: Nina fez sinal a este para se
retirar e ficou só em face do visitante, um tanto surpreendido do
acolhimento que lhe era feito.
Era um homenzinho seco, de bigodes grisalhos, que nã o devia ver
muito bem, apesar dos ó culos empoleirados sobre o nariz burboniano.
Nunca vira a duquesa; mas um de seus confrades a pintara como uma
mulher ainda muito jovem e muito linda. Entreviu o pobre míope um
reflexo de cabelos louros, um pescoço branco, um vestido caseiro
ornado de rendas, um ramo de rosas purpurinas na cintura esbelta;
disse consigo que sem dú vida haveria rugas que nã o via, carmim e
bistre no belo rosto, mas o conjunto nã o lhe deixou dú vidas.
Com grande estupefaçã o de Nina Rosa, inclinou-se profundamente.

109
— Senhora duquesa, tenho grande honra em saudá -la... Sou o Dr.
Rolliers, de Saint Maur!
— Muito bem! replicou a menina com soberba serenidade; tenha a
bondade de entrar aqui. Estaremos melhor para conversar.
Precedeu-o no gabinete particular da duquesa: peça forrada de cetim
negro florido de crisâ ntemos lilases; as cortinas reproduziam a
mesma decoraçã o original, mas um tanto fú nebre, dizia Nina. Nos
â ngulos, está tuas de deusas romanas, como manchas brilhantes,
refletiam-se indiferentemente nos numerosos espelhos da sala. Nem
um quadro na parede, nem uma alfaia sobre uma estante, mas
somente as quatro está tuas brancas e os espelhos refletores,
estabelecendo o desejado contraste com a tapeçaria sombria.
Ao entrar, o dr. Rolliers quase se inclinou polidamente diante de
Vesta; mas apercebeu-se a tempo do seu erro, e um pouco estonteado
de ver tantos advogados a se agitarem nos mú ltiplos espelhos, tomou
maquinalmente a cadeira que Nina lhe mostrou, pô s a pasta sobre a
mesa e aprestou-se para tirar dela muitos papéis.
Sentou-se a moça em frente dele e a situaçã o pareceu-lhe tã o có mica,
que teve de se curvar para arranjar as flores do cinto, a fim de ocultar
o riso que a custo lhe morria nos lá bios.
O homem foi o primeiro a erguer a cabeça: Nina continuava a dispor
as rosas na cintura, com os gestos pueris que a caracterizavam. De si
consigo, pensava o advogado:
Dizia-me o dr. David que o duque casara com uma mulher muito
menos idosa que ele... Ela é ainda mais jovem do que eu esperava.
Por fim, a moça ergueu os olhos e disse pausadamente, como convém
a uma duquesa e a uma mã e de família.
— Vinha por causa do divó rcio, Dr. Rolliers?
— Sem dú vida, senhora duquesa! Estou em condiçõ es de dar os
esclarecimentos que a senhora deseja... O negó cio, começado agora,
estaria terminado dentro de três meses.
— Sem dú vida; mas encontrarei dificuldades, porque o duque se
oporá .
— Nesse caso, ser-lhe-á necessá rio entender-se com o advogado.
Nina era ingénua, mas nã o lhe faltava finura, e sabia sempre recorrer a
certos subterfú gios. Disse indignada:
— Entender-me com o advogado! Quer dizer que terei de contar a
respeito do duque coisas má s, verdadeiras ou falsas, para dizer que
ele nã o tem razã o! Para lhe atribuir faltas!

110
— Mas, minha senhora, se o duque se opõ e, é preciso falar das suas
faltas.
-? Faltas!... continuou Nina Rosa, esquecendo-se do seu papel de
esposa infeliz... Faltas! acredita que ele tenha cometido faltas, meu...
meu marido... Se ele se impacienta algumas vezes é por ser doente...
Mas nã o deseja senã o amor... e sempre amou sua mulher... sempre!
— Entã o, senhora, tornou secamente o advogado, nã o sei para que
vim aqui.
— Nem eu, replicou a pequena à meia voz. Tornando a meter os
papéis na pasta, continuou o advogado:
— Devo adiar o negó cio para mais tarde, senhora duquesa?
— Parece-me melhor.
— No pé em que... estã o as coisas, creio que o divó rcio nã o se impõ e.
— Sou do seu parecer... Para as despesas da sua vinda aqui e da
consulta, queira o senhor dirigir-se a meu filho, o marquês Geraldo,
que se ocupa atualmente dos meus negó cios.
— Oh! senhora duquesa! Nã o aceito nada: muito honrado por ter
podido conversar com a senhora um quarto de hora.
Levantara-se e, inclinando-se, beijou a mã o da cliente, que se
submeteu de boa vontade ao cerimonial. Depois, num tom imperioso:
— Que a palavra divó rcio nã o seja pronunciada em Paris, peço-lhe...
Tenho refletido e prefiro de muito a reconciliaçã o.
— É menos oneroso.
— Perfeitamente, caro dr. Rolliers!... Aí está o criado para o
acompanhar... Boa noite, senhor.
E, complacentemente, a senhora... duquesa deixou o senhor advogado.

CAPÍTULO 3

A sra. de Servane ficou furiosa por ter esperado em vã o o advogado.


Quis a princípio escrever-lhe, para lhe dizer o que pensava da sua
incorreçã o; lembrou-lhe Nina que era muito mais digno nã o reclamar,
e a tia, pela primeira vez, foi do seu parecer.
— Contudo, disse-lhe um dia ao jantar, tenho necessidade de um
advogado... e de um advogado de Paris.
— Mas, visto que o dr. David era seu advogado em Paris, por que nã o o
consultar?

111
— É o advogado de meu marido e nã o me quero dirigir a ele para os
conselhos que tenho a pedir.
Nina Rosa disse lentamente:
— Quem sabe se eu lhe poderia dar esses conselhos, minha tia?
Tinha um ar inocente, que a duquesa imaginou que ela nem sabia o
que dizia.
— Você nã o pode, respondeu; e, aborrecida pela ú ltima contrariedade,
acrescentou: Quando estiver de volta a Paris, irei procurar esse
advogado para lhe perguntar se foi pago por meu marido para nã o
atender ao meu chamado.
— O coitado é incapaz disso!
— Como o sabe você?
— Mas, minha tia, disse a moça tranquilamente; é o homem mais
pacífico que jamais encontrei... Conversamos naquele dia e está vamos
de perfeito acordo!
— Que dia?
— Quarta-feira, quando a senhora o esperava... em vã o! Tomou-me
pela senhora... mas nã o enxergava nada, a senhora sabe, minha tia.
Entã o, para poupá -la a descida, pois eu a vira tã o fatigada, recostada
no divã , eu o fiz entrar no seu gabinete; debatemos o assunto, e como
me tomava pela senhora, levei-o facilmente à conclusã o mais
favorá vel.
Vira já Nina Rosa a duquesa encolerizada, mas nunca com aquela
palidez que mais lhe escurecia os olhos azuis, agora negros: tudo nela
traía a exasperaçã o; contudo, o orgulho fê-la conter-se diante dos
criados.
E foi só quando se achavam no salã o, o criado, a um sinal da duquesa,
tinha saído, apó s ter servido o café, que Nina compreendeu que ia
rebentar a tempestade, mais violenta ainda porque fora contida.
A duquesa, que, em má hora para Nina, se sentara ao pé dela
agarrando-lhe o pulso, disse-lhe indignada:
— Ousou você fazer-se passar por mim... e despedir o advogado!
Intrometer-se em assunto que lhe nã o dizia respeito!
— Minha tia, replicou serenamente Nina, nã o cometi nenhuma
indiscriçã o, porque eu adivinhara tudo!
E, muito fraca, contou-lhe a conversaçã o com o advogado. Nã o se
acalmou com isso a duquesa: mal acabava Nina, e a tia, no auge da
exasperaçã o, gritava:

112
— Mas no que foi você interferir?... No quê?... Esse advogado vai dizer
em Paris que tornei atrá s com a minha decisã o!
— Nã o era ela conhecida em Paris, minha tia.
— Perdã o... eu tinha escrito a uma de minhas amigas encarregando-a
de participá -lo à s suas relaçõ es.
— Oh! minha tia! sinto-me bem feliz por ter detido a sua propaganda!
— Impertinente!
Levantara-se, e, febril, ia e vinha na sala.
-. Toda Paris o sabe a esta hora! Pareço ter cedido a meu marido...
Rirã o de mim.
Sempre calma, bebendo seu café aos golinhos, disse Nina:
— Rirã o ainda mais, se a senhora tornar a falar de divó rcio... Mais
vale, minha tia, ficar por aí e, sem advogado de ó culos, reconciliar-se
simplesmente com meu tio que nã o pede outra coisa.
— Engana-se, menina! Minha vontade será feita.. Você brincou
comigo; suportará as consequências... A questã o do divó rcio nã o será
abandonada, e todo mundo conhecerá a asneira que você fez.
— E todo o mundo dirá : "Que cara nã o fez a duquesa! Aí está uma peça
bem pregada!"
A esta ideia, de que alguém poderia ridicularizar sua digna majestade,
a duquesa tremeu.
— Cale-se! gritou, curvando-se para Nina; já nã o sei o que faço...
Miserá vel, que me estraga todo o meu trabalho!
Felizmente, a mesinha a separava da tia; a um gesto mais vivo desta,
ela observou:
— Cuidado, a senhora vai derramar seu café!
— Importuna! replicou a duquesa.
E, rá pida como o relâ mpago, tomou o braço que a menina estendera
instintivamente.
Ao grito doloroso de Nina, largou-a imediatamente, e aplacou-se-lhe a
có lera, vendo o gesto da sobrinha; lívida, a jovem erguia a valenciana
da manga, descobrindo traços vermelhos e uma linha violá cea que se
tumeficava na base: era a cicatriz sensível de uma facada.
— Nina! perdã o... eu nã o lhe queria fazer mal! disse a duquesa,
sentando-se junto dela e apertando-a ao peito; perdoe-me! Você, que
me salvou a vida! Fui ingrata... Mas sou tã o infeliz!
— É a senhora mesma, minha tia, quem trabalha para a sua
infelicidade; deixe esses negó cios de advogados para Paris; nã o

113
estrague sua estada aqui, ocupando-se de papelada... Espere nossa
volta a Paris... Diga, minha tia, prometa-me esperar.
E como a duquesa nada dizia, quebrantada pelo pesar da violência que
cometera e pelo desejo de tornar a encontrar a paz, a moça prosseguiu
com voz persuasiva e terna:
— Goze deste belo céu de Monte Carlo, desta flora maravilhosa, que
Deus criou para nos encantar; vivamos tranquilamente, só nó s ambas,
longe de todos os advogados, que a fariam empalidecer sobre o
có digo, e lhe perturbariam o repouso... Deixemos isso para Paris...
para o outono... para o inverno...
— Para o outono... para o inverno... repetiu a duquesa; pareceria que
abdico!
— Mas nã o!... dirã o que a senhora é uma tia deliciosa, esquecendo-se
completamente de si para nã o perturbar a estaçã o da sua pequena
Nina Rosa... Dirã o que quer guardá -la ainda ao pé de si... porque a
senhora bem sabe, minha tia, que uma vez decidida a horrível coisa,
está acabando... seremos separadas... Entã o, diga, quer esperar?
E cingiu-lhe o pescoço com os frá geis braços.
— Receio que essas palavras nã o sejam antes ditadas por suas
convicçõ es cristã s que pelo coraçã o...
— Sem dú vida, minha fé grita, bem alto, que a ajude a renunciar a esse
projeto; mas meu coraçã o também o pede...
— Contudo, você ama a Geraldo e a seu tio mais do que a mim!
— Nã o os amo do mesmo modo... Eles nã o podem substituir a mã e que
me falta... A sra. de Breval era boa, mas nã o teve filhos... Esse coraçã o
de mã e verdadeira, a senhora o possui... É por isso que lhe peço me dê
uma parcela dele... Diga! Nã o se negue a ser um pouco minha mã e, ao
menos durante estes três meses... Mamã e o pede do alto do céu, eu lhe
suplico!
A sra. de Servane olhou para o rosto, tã o pró ximo do seu: Nina Rosa
parecia tã o pequenina, tã o criança, assim tã o perto dela, que teve
piedade da sua tristeza; e num impulso, cerrando-a mais nos braços,
disse, beijando-a ternamente:
— Nininha! Serei sua mã e durante estes três meses, e Monte Carlo nã o
verá meu advogado!
Depois, inquieta com o ar febril de Nina, aconselhou-a a deitar-se.
Quando a jovem já estava recolhida no alvo leito, veio a duquesa, pela
primeira vez, ao pé dela, e apercebeu-se de que a febre subia; tinha o
braço fora da cama, e a manga de cambraia, erguida, deixava ver

114
traços de uma inflamaçã o que já nã o podia suportar contatos. Com
desvelo infinito, aplicou compressas sobre o braço magoado por ela e
atou-o delicadamente. A menina gemeu baixinho, e, no delírio
inconsciente, chamou:
— Mamã e!
Comovida, curvou-se a duquesa sobre o rosto crispado, perdido na
onda de ouro dos cabelos; afastou devagarinho as madeixas e beijou a
fronte em suor. Distenderam-se, entã o, os traços; um sorriso
entreabriu os lá bios cerrados e Nina balbuciou no seu sono:
— Eu bem sabia, mamã e, que a senhora viria!

CAPÍTULO 4

Era tal a febre de Nina Rosa no dia seguinte, que a duquesa mandou
chamar o doutor, assustada... Prescreveu ele repouso completo.
— Repouso de espírito, sobretudo, acrescentou, dirigindo-se à sra. de
Servane; parece-me que esta cabecinha trabalha muito.
— Oh! retrucou a duquesa, motejando; trabalhar! Minha sobrinha
nunca queimou as pestanas sobre os livros.
— A reflexã o é um trabalho, minha senhora; e a contínua tensã o de
espírito fatiga excessivamente o cérebro.
— Nina Rosa nã o tem preocupaçã o alguma, e esta febre é a
consequência evidente de uma cicatriz mal fechada.
Por delicadeza, o doutor nã o insistiu, mas estava seguro do
diagnó stico.
Nã o deixou a duquesa a cabeceira de Nina em toda a manhã ,
prometendo-lhe, ao descer, voltar logo apó s o almoço. No fim de uma
hora, disse a moça à camareira:
— Lisa, minha tia nã o tarda a voltar; você ainda nã o almoçou e nã o
quero que espere mais. Terminado o seu almoço, vá ter com Daisy: sei
que há trabalho apressado para minha tia.
— Mas... a senhora vai ficar só ...
— Nã o será por muito tempo: minha tia vai subir... Vamos, obedeça-
me, Lisa!
Submeteu-se a criada de boa vontade: a srta. Nina Rosa dava ordens
tã o gentilmente...
O grande silêncio de um quarto de doente foi cortado de ruídos
abafados, subindo do primeiro piso; um raio de sol brincava nas

115
facetas do espelho de Veneza, fazendo faiscar pérolas numa taça; por
muito tempo divertiu-se Nina em considerar estes jogos de luz através
dos longos cílios abaixados; depois, fatigada de tã o grande atençã o,
fechou os olhos. Nã o vindo o sono, começou a achar que sua tia se
demorava ao almoço. Para enganar a impaciência, releu as cartas
vindas de manhã ; havia uma do sr. de Breval, prometendo-lhe uma
visita para o outono; outra de uma amiga de Paris, dizendo-lhe que
ficara contente de saber que a sra. de Servane renunciara ao divó rcio.
— É preciso queimar a carta, disse consigo: porque se minha tia a
acha, será outra cena!
Um cartã ozinho perfumado convidava-a para uma reuniã o musical e
outro, para uma excursã o a Mô naco: visitariam o castelo do príncipe, e
isso sem mentor, o que seria muito divertido!
— Sim, pensou Nina Rosa; nã o haverá senã o mocidade: Maud,
Sylvette, Dosia e Olga, Cecília e aqueles loucos de Ned e Jack!... sem
contar o suplemento de bagagem, como diz Geraldo... Eu!... eu nã o irei!
Nã o devo ir divertir-me onde minha tia nã o me pode acompanhar,
porque prometi guardá -la... Oh! é duro algumas vezes!... Parece que
tenho uma cadeia que me amarra, e contudo nada faço para me livrar
dela! Deus me tem auxiliado tanto e estou tã o contente de padecer por
Ele!...
Cansada do esforço que fizera, Nina tornou a cair sobre o travesseiro...
Por que nã o subia a tia?... Certamente ia chegar... Pareceu-lhe ouvir
passos no corredor. Abria-se a porta... mas nã o era senã o sonho;
porque Nina, sem o querer, adormecera. Quando despertou, uma hora
mais tarde, sua primeira ideia foi que a tia nã o tinha... voltado... e de
repente assaltou-a um louco temor; a duquesa saíra... a duquesa
estava no Cassino!
Seu pressentimento tornara-se tã o agudo, que Nina nem pensou em
interrogar as criadas. Apesar da febre, na superexcitaçã o nervosa que
a sustentava, levantou-se, cambaleando e chegou a vestir-se. Cobriu-
se com um manto de lã branca, para acalmar os arrepios que a
agitavam, e pô s um veuzinho espesso, para nã o ser reconhecida.
Depois, apelando para toda a sua energia, deslizou pelos corredores,
ganhou o térreo e alcançou a porta, sem ter encontrado criados. Mas,
nos degraus do patamar o pequeno criado se aquecia ao sol, com a
beatitude de uma criatura que nada tem a se censurar. Nina curvou-se
para ele, sacudindo-o, e perguntou-lhe:
— A senhora duquesa saiu?

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Mal desperto, pensando que era uma visita, respondeu sonolento:
— Saiu... depois do almoço... para o lado do Cassino.
Nã o a enganara o pressentimento. Toda trêmula mas a cabeça em
fogo, dirigiu-se para aquele cassino detestado, que tanto atraía a tia.
Chegou lá sem forças e teve de parar um momento no terraço. Depois,
rígida a poder de esforço, entrou e penetrou na sala de Trinta e
Quarenta, onde julgava encontrar a tia. Procurou-a febrilmente na
primeira mesa; depois na segunda: a duquesa lá nã o estava!... A um
senhor muito correto, que passava, perguntou entã o com voz trêmula:
— Perdã o, senhor, procuro alguém... Nã o há outra sala de jogo no
Cassino?
Com piedade involuntá ria na voz, respondeu o estrangeiro:
— Sim, minha senhora, no primeiro andar, a Sala Mourisca... A
senhora permite?
— Nã o, obrigada! replicou Nina, vivamente; eu hei de achar... E subiu
penosamente a escada.
Era a Sala Mourisca mais iluminada que a de baixo, recebendo a luz do
alto, através do vitral. Avistou a tia: a duquesa estava de pé, como
quem se vai afastar; contudo, o movimento de retirada esboçado
parecia nã o querer acabar-se, porque ela se conservava inclinada, os
olhos pregados nas moedas de ouro que lhe iam escapar. Mordia com
raiva os lá bios vermelhos, tentando embora guardar atitude digna, o
que a tornava trá gica. Empalideceu horrivelmente, e Nina
compreendeu que perdera. Entã o, espantada, a pobre jovem se
esforçou por chegar até a tia; conseguiu pegar-lhe na renda da manga
e, com risco de a despedaçar, crispou nela os dedos finos, lançando um
grito de angú stia:
— Nã o jogue mais!... Venha... Venha depressa. Compreenderia a sra. de
Servane o sentido destas palavras? Com gesto rá pido, que Nina nã o
pô de prever, tirou do braço o bracelete e lançou-o sobre o tapete, com
um riso amargo. Depois, como alucinada, deixou-se arrastar por Nina.
Seguia-as um homem que as alcançou à saída. Curvando-se
obsequiosamente diante da duquesa, murmurou:
— Amanhã ... à mesma hora... o vencimento!
Quando Nina chegou com a tia ao seu quarto, assistiu a uma cena de
desespero que a espantou: Aquela mulher tã o altiva, tã o glacial,
atirou-se sobre o divã , gemendo, chorando, invectivando alguém que
Nina nã o conhecia, e chamando seu marido e Geraldo, suplicando-lhes
que a livrassem de desonra. Enfim, esgotada pela pró pria violência,

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reergueu-se, pô s maquinalmente ordem aos cabelos e ali ficou
prostrada com o olhar vago.
— Minha tia, disse Nina, ajoelhada ao pé do divã ; diga o que foi que a
senhora... o que lhe aconteceu. Nã o é preciso desesperar-se antes de
saber se... o mal é repará vel.
— Nã o é repará vel, disse a duquesa violentamente, saindo do seu
torpor... minhas joias mais preciosas nã o bastariam para isso!
— Mas, minha tia, a sua riqueza é imensa!
— Isso me adianta muito... Você bem sabe que tenho de recorrer
sempre a meu marido, pois que nã o foi ainda decretada a separaçã o
de bens... Para se vingar, recusar-me-á a soma, e uma dívida de jogo,
sabe-o muito bem, nunca se adia.
— Aquele senhor... que cruzou conosco à saída, quererá talvez esperar
um pouco?
— Nã o esperará ... Regozija-se de me ver desonrada! ... Nã o o conhece,
Nina! É o nosso maior inimigo; odeia a nobreza... A princípio, nã o o
reconhecera e nã o desconfiei! Como jogava pela primeira vez, deixei-
me arrastar, e ele, pouco a pouco, me impeliu à perda... o miserá vel!...
Estou desonrada!...
Levantou-se arrebatadamente e, como louca, andava de um lado para
outro na sala.
— Nina! Salve-me... Impeça meu marido de se vingar... Vá lá , suplique,
diga o que quiser... mas salve-me! salve-me!
E tornou a cair chorando sobre o divã .
Entã o, quase desfalecendo, a jovem aproximou-se:
— Tia, disse docemente, nã o chore mais; vou à Vila Trianon e, com o
auxílio de Deus, convencerei meu tio a socorrê-la.
Nã o despira o manto e lá se foi de novo, a pé, sob o sol ardente.
Toda perdida no seu desespero, nã o se lembrara a duquesa de que a
sobrinha, naquela mesma manhã , ardia em febre no leito.

CAPÍTULO 5

Entrou Nina no quarto do tio sem ser anunciada: ficou um momento


no limiar, hesitante e assustada do motivo que a trouxera. Sentado ao
pé da janela aberta, o duque falava a Geraldo, que compulsava papéis.
Ao ruído da porta, voltaram-se e soltaram a mesma exclamaçã o:
— Nina Rosa... Você aqui?... E Geraldo ajuntou:

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— Lisa disse-nos que você estava de cama com febre, desde ontem.
— É verdade, disse ela com a voz fraca, avançando, toda pequenina, na
claridade ró sea do poente... Mas levantei-me esta tarde.
— Por quê? perguntou o duque desconfiado; você nã o se aguenta de
pé... A mã o está ardendo!
Retirou vivamente a mã ozinha e sem a estender a Geraldo, sentou-se
na poltrona que ele lhe ofereceu.
— Eu vim... disse penosamente... para falar-lhe de minha tia — ou
antes, venho de sua parte para lhe pedir... suplicar...
Parou subitamente, percebendo que Geraldo escutava com atençã o:
podia condenar a mã e diante do filho? Lançou um olhar suplicante ao
primo, que fez logo um movimento para sair; deteve-o, porém,
imediatamente, um gesto do pai:
— Fique, Geraldo!... Quero que ouça tudo! Obedeceu o moço, mas
sentou-se discretamente
diante da secretá ria Império, para continuar seu trabalho.
— Meu tio, lembra-se de que, ao deixar o palá cio de Servane, lhe
prometi guardar minha tia?... Até aqui, cumpri minha tarefa: em Paris,
em Trouville, em Monte Carlo eu a segui por toda a parte e posso
assegurar-lhe de que tem sido sempre irrepreensível.
O duque disse, sarcá stico:
— Oh! oh! este panegírico serve de contrapeso a alguma má peça da
irrepreensível esposa?
— Meu tio! suplicou Nina, crispando nos braços da poltrona as mã os
ú midas.
— Continue, continue... sou todo ouvidos!
— Entã o, disse a pobre jovem... Estive doente, e minha tia me tratou
com devotamento de mã e... Depois, como tinha ficado toda a manhã
no quarto, quis que ela descesse: sozinha, embaixo, aborrecia-se, isso
se compreende. Entã o, saiu um pouco, foi ao Cassino.
— Ah! ao Cassino! Chegamos ao ponto! disse o duque, cá ustico,
soerguendo-se na cadeira... Peço-lhe que me deixe continuar essa
interessante narraçã o: a senhora duquesa, aborrecida de estar só ,
deixou-se arrastar-se ao jogo.. Oh! um nada... dois luíses!... No segundo
ato, arriscou vinte... etc. Pode dizer-me, minha sobrinha, quanto
custou a comédia?
— Meu tio! repetiu a jovem, magoada por vê-lo tã o frio e tã o mau.
Geraldo, esse, nã o pô de conter sua natural violência:
-? Ela ousou jogar!... E tem uma dívida! gritou ele.

119
— Oh! Geraldo, você também! disse a moça numa queixa.
Teve ele vergonha do que fizera, vendo todo o heroísmo de Nina, e
fingiu voltar ao trabalho, com gestos nervosos, que lhe traíam a
irritaçã o.
Nina levantou-se e, tirando à s pressas o véu e o chapéu, foi até a janela
para se reanimar ao ar puro da tarde. Entre aqueles dois homens
encolerizados, sentia faltar-lhe a coragem.
Impaciente, perguntou o duque:
— Agora, que você embelezou a histó ria, vai falar claramente?
— O senhor compreendeu, meu tio, nada tenho a repetir: minha tia
perdeu por culpa minha, porque a deixei sozinha, e pede-lhe que
tenha a bondade de lhe dar a soma precisa.
— Quanto?
— Nã o me disse!
Perpassou nos olhos do duque um clarã o: um rictus mau adelgaçou-
lhe ainda mais os lá bios.
— Sim... compreendo... disse lentamente. Entã o, sua tia quer essa
soma?
— Sim, meu tio, respondeu Nina, ganhando esperança.
— Pois sim! Tê-la-á ...
— Oh! obrigada, obrigada! disse a moça, nã o ousando crer no que
ouvia.
Geraldo voltou a meio a cabeça e olhou para o duque:
— O senhor é cruel, meu pai! disse ele... E, assim, nã o atinge senã o a
inocentes.
O duque se desdisse bem depressa:
— Quero dizer, disse com a voz monó tona, quero dizer que minha
mulher terá essa soma depois de amanhã .
-. Mas, meu tio, é amanhã que minha tia precisa dela... O senhor bem
sabe que dívida de jogo se paga em vinte e quatro horas.
— Eu o sei... murmurou lentamente o duque. Entã o, Nina Rosa
compreendeu: o duque de Servane tinha na mã o o meio de se vingar e
nã o o queria deixar escapar.
— Meu tio! disse cheia de indignaçã o... O senhor nã o tem direito... Nã o
lhe disse tudo: quem emprestou a minha tia e quer ser pago sem
delongas é o sr. Frabert... o seu pior inimigo!... Ele a reconheceu... E só
o senhor pode salvá -la da desonra! Oh! meu tio! Diga que o fará !...
O duque olhou para ela ajoelhada ao pé da poltrona, sentiu-se
fraquejar por um curto instante; mas, de repente, sob a luz, o ouro dos

120
cabelos pareceu faiscar... Reviu a "outra" que, muito loura ainda,
zombava dos seus cabelos brancos. E ia poder vingar-se dela... E
aquela jovem queria impedi-lo!
Entã o, louco de có lera, repeliu Nina Rosa:
— Vá -se embora!... Sinto-me muito feliz em puni-la!
— Meu tio, nã o me despeça! Escute-me! Peço-lhe hoje, pela primeira
vez, alguma coisa... Velei sobre minha tia; soube guardar-lhe seu
coraçã o... com o auxílio de Deus, impedi os advogados de chegarem
até ela e o divó rcio está bem afastado. Meu tio, sua recusa é a
desgraça, nã o somente para ela, mas para o senhor... a desgraça para
Geraldo, para Teresa...
— A vingança vale todas as felicidades! Ah! você nã o sabe o que é
sofrer o desprezo de uma mulher! Porque ela me desprezou!... Tinha
para comigo daqueles sorrisos ferinos, que me teriam feito gritar de
dor... Jamais ficou a meu lado quando eu padecia. Quantas vezes se
lamentou de ter unido seu destino ao meu!... Lia-lhe nos olhos esse
desgosto... E nem ela teria baixado as pá lpebras para ocultá -lo de
mim!...
Desesperada, Nina disse:
— Ela o ama! Ela o ama! Se o senhor o quisesse, ela voltaria!
E debruçando-se sobre a poltrona, a moça continuou insistente, como
se quisesse deter novas queixas nos lá bios do tio:
— Ela voltaria... O senhor veria como tem mudado, porque tem
padecido... Virá para perto do senhor, tã o perto como eu estou agora...
de joelhos como eu... O senhor ler-lhe-á nos olhos que tem saudades,
que o ama, e que nunca cessou de amá -lo! Dir-lhe-á aquelas coisas
muito doces que eu ignoro ainda... e que ela sabe também por que as
disse já : essas palavras que lhe virã o aos lá bios, uma a uma, serã o
para o senhor o despertar do passado, e nã o poderá , meu tio, nã o
poderá repelir sem piedade aquela que tanto amou, e que terá
conservado tã o bem as palavras outrora pronunciadas.
O duque passou a mã o pela fronte ú mida:
— Você se engana, disse violentamente; ela nã o diria isso.
— Ela diria... asseguro-lhe... Chame-a para perto de si...
— Agora nã o a quero mais!
— Diz isso, mas, no fundo da alma, pensa que seria bom tê-la junto de
si... Ela arranjaria este travesseiro mal posto, que o incomoda... Ela lhe
poria esta coberta, para calmar os tremores de frio...

121
Docemente, quase sem fazer gestos, a jovem, enquanto falava,
repunha o travesseiro e cobria os membros hirtos... Tinha o duque a
ilusã o de que era "ela" quem agia; fechou os olhos e, sem o querer,
entregou-se ao seu sonho. Ainda assim murmurou:
— Ela nã o faria isso!
— Faria; detesta a vida que leva, e Deus a castigou o bastante para que
nã o torne a ela... Surpreendi-a à noite, no balcã o do salã o, olhando
avidamente para alguém que passava, e esboçando um gesto, como
para chamar.
— E era?...
— Era o senhor, meu tio... Sim, era o senhor... Ela o ama, mais do que
outrora, talvez! E se jogou, foi para se aturdir, para ver se enchia o
vá cuo que a sua ausência lhe fez na vida e que nã o conseguia
preencher. Nã o espera senã o um sinal seu... uma palavra para voltar, e
aqui estará , no meu lugar, muito perto do senhor... E o senhor se
esquecerá do seu mal, quando ela estiver aqui para tratá -lo...
A princípio vibrante, a voz de Nina Rosa enfraquecia estranhamente;
depois, extinguiu-se num suspiro, e ouviu-se o rumor de uma queda
sobre o tapete. Geraldo, com grito terrível, saltou até a poltrona do
pai; este, espantado, viu o pequenino corpo, vestido de branco,
estendido sem vida sobre o soalho.
— Está morta! gritou ele, e é por minha culpa!
O marquês tocou a campainha, chamando as camareiras, e voltou para
erguer Nina; deteve-o o pai com um gesto e, levantando-se
penosamente, tomou a jovem nos braços e a depô s na sua poltrona.
— Meu pai, gritou Geraldo, louco de afliçã o: que devo fazer?
O duque voltou-se para ele e, aprumando-se em toda a estatura:
— Vá ter com ela e dizer-lhe que venha: sua dívida será paga amanhã .

CAPÍTULO 6

Nina Rosa estivera muito doente; o doutor receara febre cerebral;


mas, tendo voltado a calma à cabecinha fatigada, todo o perigo foi,
felizmente, conjurado. Pô de a mocinha enfim sorrir aos tios. Via-os
reunidos, e nã o bastava isso para curá -la? Sabia bem que nem tudo
estava feito; mas prometia a si pró pria acabar de vez a reconciliaçã o,
durante a convalescença.

122
Quando o doutor lhe permitiu que descansasse no divã , foi uma
verdadeira festa na Vila Trianon: o duque e a duquesa, sem se terem
consultado, floriram à s mil maravilhas o salã ozinho Luís XV, para
onde Nina foi conduzida e, coisa estranha, os ramalhetes dele iam o
melhor possível com os da duquesa! Quando trouxeram à
convalescente seu leve repasto, despediram o criado e, como em tá cito
acordo, serviram à jovem, que ria sob os cachos tendo uma luz
maravilhosa no fundo dos olhos. Nã o erguia os cabelos, porque tinha
ainda a pobre cabeça dolorida, e as mechas rebeldes escapavam-se à
vontade das tranças pouco cerradas, coroando-a com um toucado
infantil e encantador. Toda perdida no penteador de seda azul, ornado
de rendas macias, tinha um arzinho cansado, que a tornava ainda mais
tocante.
Enquanto comia, os tios olhavam-na e admiravam-na. Eram, pela
primeira vez, do mesmo parecer! Nina Rosa estava linda, muito linda;
mas Nina Rosa tinha sobretudo um coraçã ozinho de ouro, que ambos
nã o tinham jamais sabido apreciar.
Estava o duque sentado à direita do divã ; sua mulher à esquerda; Nina
Rosa pensou que era ela o traço de uniã o e que pouco faltava para que
fossem completamente reunidos. Calculou consigo a largura que os
separava: o divã tinha um metro de largura... Mais talvez... Um metro e
vinte e cinco. Nã o mais que um metro e vinte e cinco para os
reconciliar... De repente, ao servir Nina Rosa, tomaram ambos ao
mesmo tempo
uma taça de cristal e, quando a moça olhou para o licor dourado que
lhe ia restaurar as forças juvenis, murmurou in peita:
— Nã o mais que a largura da taça a franquear... Estã o sobre a margem,
um de cada lado; mas porque têm má cabeça, nem um nem outro quer
ceder! Ora! ajudarei um pouco o mergulho, e como sabem nadar nã o
haverá grande dano!
Quando Nina acabava de almoçar, vieram prevenir os tios de que os
chamavam ao salã o.
— Pois vá , minha tia, e o senhor também, meu tio! disse Nina agitada.
Contar-me-ã o depois a visita... Pedro, o senhor marquês está no
quarto?
— Nã o, senhorita; foi ao jantar de lorde Armanty; mas disse-me que
voltaria cedo.
— Está bem, obrigada.

123
Uma vez só , segura de nã o ser incomodada, a traquinas atirou por
terra cobertas, travesseiros, almofadas e, deixando o divã , correu à
sacada, aspirou o perfume das flores, ergueu as cortinas, sorriu ao céu
azul, à natureza em festa e, sem mais cerimó nia, abriu a porta e foi-se!
Estava cansada de viver encerrada a jovem Nina Rosa; de permanecer
estendida como uma paralítica; se ele pensava, aquele bom médico,
que se iria eternizar na convalescença...
— Nã o gosto de "fermatas"! concluiu ela. Está acabado, acabado!...
Toca-se francamente o "acorde" e fecha-se o instrumento...
Foi direito ao gabinete de Geraldo, subiu ao escabelo para tomar um
livro na biblioteca. A princípio, tomada de tontura, fechou os olhos;
depois, prudente, consultou o nome dos autores.
— Tenho que me despachar, dizia consigo; meus tios vã o voltar ao
salã ozinho... Mas agora penso! Para eles, é preciso que eu esteja
sempre convalescente... senã o minha tia falaria em voltar para a Vila
Ateniense... Eis-me condenada a ficar amarrada sobre aquele horrível
divã até que se reconciliem...
"Meu Deus! creio que é o mais duro sacrifício que me tendes jamais
pedido! O que meus pobres pés vã o reclamar... Enfim, é preciso... nem
sempre é alegre ser um traço de uniã o!..."
Assim monologando, examinava a moça os livros, impacientando-se
por nã o encontrar nada a seu gosto, quando de repente se
sobressaltou, ouvindo pronunciar seu nome. Voltou-se e viu Geraldo,
em traje de cerimó nia, os braços cruzados, o ar carregado:
imediatamente compreendeu que ia premiá -la com uma cena, e, para
prevenir a tempestade, gritou, ocultando o rosto risonho sob os
braços dobrados:
— Nã o me ralhe, nã o me ralhe!... Estou doente!
— Parece-o, na verdade, disse ele, muito frio, descalçando
apressadamente as luvas. Como! continuou descontente, o doutor
interdiz toda a fadiga e você ousa deixar o divã !
— Nã o cometi crime algum!
— Você desobedeceu... Isso em detrimento de sua saú de... Faça-me o
obséquio de descer e voltar ao salã o... E depois, que tirou você dessa
biblioteca, quem lhe permitiu mexer aí?
Ela disse com ar lamentoso, deixando o perigoso posto:
— Vê-se bem que você viu um montã o de lindas mulheres em casa de
lorde Armanty: depois delas, as coitadinhas das "Nina Rosa" nã o
valem mais nada!

124
Malgrado o seu descontentamento, ele sorriu do tom lamuriento:
— Quem lhe disse que encontrei um montã o de lindas mulheres em
casa de lorde Armanty?
— Seu mau humor!... E depois, eu as vi no Cassino. O pobre lorde nã o
pode dar um passo sem as ter imediatamente nas pegadas. E nã o é só
ele que devemos lamentar: você tem também todo um séquito,
Geraldo; um marquês! pois entã o!... E que marquês! ... Sabe você que
nã o tem mais que dizer uma palavra e terá uma esplêndida
marquesa!... Maud Lyston é grande, majestosa; tem ares de imperatriz
com seu perfil de camafeu e seu penteado à grega... Ela estava lá ,
Geraldo?
A pergunta fora feita num tom algo inquieto, e Geraldo sentiu prazer
em verificá -lo.
— Estava, sim, disse apressadamente... Mas, peço-lhe, volte para o
salã o... Sua escapada lhe valeu um rosto todo desfeito.
— É verdade, estou um pouco atordoada; contei demais com as
minhas forças!... Quer você levar-me?
Ofereceu-lhe o braço cerimoniosamente e conduziu ao salã o a jovem
dos cachos louros. Também ele admirou o penteado infantil, que a
fazia tã o nené... Oh! que lhe importava a estatura imponente de Maud
Lyston! ... Agora nã o gostava mais senã o da jovem, aquela que nã o
perdeu o encanto dos quinze anos mas alia à delicadeza de uma
"mulher-criança", como dizia Dickens, uma força de alma que nã o
possuía a pobre esposa pequenina de David Copperfield.
Instalada no divã , sentiu Nina um maligno prazer em se fazer servir
por Geraldo: por ordem sua, ele ergueu os travesseiros e as almofadas,
e procurava ainda na cabecinha um meio de o arreliar, quando o
marquês, impacientado, tomou uma cadeira, sentou-se
deliberadamente, e assegurou que se nã o deixava enganar pelas
malícias de Nina Rosa!
Ria ela ao perguntar-lhe:
— Como voltou tã o depressa desse jantar?... Pedro disse-me que você
voltaria cedo; mas nã o o esperava agora!
— Tive a prova disso!... Se voltei, é que estava inquieto por sua causa.
— Encarreguei-me de sossegá -lo, disse ela comovida. Entã o, você
voltou por mim?
— Por você!
— E Miss Maud que estava lá ?

125
— Parece! Já nã o lhe disse, replicou ele. outra vez impaciente... Você
bem sabe que nã o tenho gosto algum pelos portes de imperatriz, os
perfis de camafeus, e todo esse grego e esse romano que você dá a
Miss Lyston!
— Nã o, eu nã o sabia.
— Voltei por você unicamente! Nã o aprecio senã o os cabelos
cacheados, arranjados sem nenhuma arte; os rostos pequenos e os
olhos bem abertos, que refletem uma alma generosa; toda a beleza
feminina... para mim, está em você, Nina, e eu quero dizer-lhe.
— Geraldo, cale-se!
— Calar-me por quê? Tenho esperado demais, parece-me! Você já nã o
tem o dever a me opor... Meus pais, agora, estã o reunidos. Acabou a
sua tarefa...
— Nã o, Geraldo, nã o acabou!
E detendo, com um gesto, as objeçõ es do marquês: -? Com toda a
franqueza pode você afirmar-me que meus tios estã o reconciliados?
Há de novo entre eles um liame de amor suficiente para prevenir nova
separaçã o? Peço-lhe que espere ainda... Esqueçamo-nos de nó s para
pensar neles... e nã o diga nada, Geraldo.
— Deixe-me ao menos reclamar uma promessa!
— Nã o, nada!... Tenha confiança na sua Nininha... e a felicidade virá
um dia.
— Mas por que obstinar-se nesse mutismo? Por que nã o me dizer
essas palavras que espero há tanto tempo?... Confessei-lhe meu amor...
Nininha, você nã o tem nada que responder a isso?
— Nã o, Geraldo.
— Por quê? perguntou ele, quase violento.
— Porque uma palavra entre nó s seria um liame...
— E esse liame, nã o o quer você?
— Nã o, Geraldo! eu quero ser livre para nã o ter nada a quebrar, se
tiver de ficar ao pé de meus tios.
— Crê, entã o, que sua presença bastará para fazer-lhes renascer a
chama? Você tem ilusõ es, vejo-o bem!
Nina cerrou convulsivamente as mã os ardentes: -. Geraldo, você é
mau!... Sei que minha presença entre eles impedirá a separaçã o, o
divó rcio... um fim desgraçado para meu tio, um segundo casamento
para minha tia!...
— E eu?... Isso pouco lhe importa, nã o é? Nã o receia entã o nada por
mim?

126
— Nã o, Geraldo... Porque há em você um começo de fé, e é muito reto
para se voltar agora da luz.
— Nã o, nã o! Eu nã o creio! Criança louca, cale-se! Ela se aprumou nos
travesseiros e, tomando à força as mã os do primo:
— Geraldo! olhe para mim!... A luz se faz em você?... Nã o pode mentir
à quela a quem ama!... Responda!
Baixinho, vencido pela sua primeira palavra terna, ele disse:
— Sim...
— E você estuda, procura?
— Sim.
— Por isso é que vai a Paris? Para ver Bernardo, nã o é? Para que ele o
apresente a um teó logo?... Responda, Geraldo.
— Sim, sim, deixe-me, Nina! Você me tortura!
E correu para a porta e ia sair, quando ela chamou ternamente:
— Meu amigo!...
Apesar de sua revolta, voltou-se: curvada para fora do divã , as tranças
de ouro acariciando o veludo sombrio, ela sorria gentilmente e punha
todo o seu amor nos olhos, como se quisesse assim dar um supremo
encorajamento ao neó fito:
— Meu amigo, você me tornou hoje bem feliz!... Amigos, teremos a
mesma fé para fortificar o nosso amor. Meu pensamento o seguirá em
suas lutas, e orarei por você.
Sem dizer palavra, ele voltou para ela, tomou entre as suas as
mã ozinhas franzinas e, em um impulso desesperado, nelas depô s seu
primeiro beijo de amor!

CAPÍTULO 7

— Entã o, doutor, compreendeu-me?... e guardar-me-á segredo?


— Sim, sim, senhorita! está prometido! A partir de hoje, a senhora é
uma moça incapaz de pô r um pé adiante do outro... Nã o é isso que
devo dizer à senhora sua tia?
Nina riu alegremente:
— Oh! nã o, doutor! Nã o vá contar essa histó ria... Primeiro, seria
mentir! Nã o lhe peço senã o uma coisa: proíba-me as mudanças e os
passeios...
— Mas vai ficar anêmica com esse regime!

127
— Nã o, nã o!... Quando estiver só , caminharei muito depressa no
quarto... À noite, sempre que for possível, irei dar uma volta.
— Hum!... fez o doutor, a quem a volta à noite nã o agradava senã o a
meio.
— Entã o, é sim, nã o é? Pense lá , continuou a jovem com as lá grimas
nos olhos, pense que uma só palavra sua pode destruir meu trabalho.
Se o senhor fala em passeios, minha tia me tornará a levar sem
demora para a Vila... e meu tio ficará só ... Doutor, o que confiei à sua
lealdade bem lhe mostra que a minha presença é necessá ria aqui, e
que talvez nã o falte mais de um mês de paciência para chegar à
reconciliaçã o.
— Senhorita, disse o velho médico, mais comovido do que queria
mostrar: quero aceitar a cumplicidade; mas desejo que esta
combinaçã o seja conhecida de terceiro, porque tenho a
responsabilidade de sua saú de, e essa imobilidade voluntá ria pode
prejudicá -la grandemente.
— Pois bem! replicou Nina, apó s curta hesitaçã o; fale nisso ao
marquês; mas, explique-lhe bem que está absolutamente decidido, e
que lhe "proíbo" calcar as rodas do carro.
— A senhorita proíbe!... replicou o doutor, divertido com a palavra
imperiosa dirigida ao altivo marquês ... E acredita que o senhor seu
primo obedecerá ?
— Agora ele me obedece sempre, disse Nina Rosa, ingenuamente...
Ao voltar à noite, ficou a duquesa muito surpreendida de tornar a
encontrar Nina recostada no divã !
— Nã o lhe permitirá o doutor que saísse? A pequena respondeu, com
ar tristonho:
— Nada de saídas, nada de passeios!...
— Está louco, o tal doutor! gritou a duquesa.
Fitou Nina com olhar ensombrado, depois, encolhendo os ombros,
acrescentou;
— Negó cio para alguns dias, sem dú vida! Mas espero que você assista
aos jantares.
— Sim, sim, minha tia!... A senhora me instalará numa poltrona para
as refeiçõ es... Vai ver como será divertido!
Quando a duquesa a deixou para ir vestir-se, Nina soltou um suspiro
fundo:
— Meu Deus! Terei a coragem de continuar isto por muito tempo?
Sonhara tanto com a minha convalescença! ... com os primeiros passos

128
no jardim, pelo braço de Geraldo... com os passeios à beira d'á gua, sob
o sol, e com estas flores! E ele, ele, que tenho repelido para ir ao
sacrifício; hoje, tenho sede de felicidade... Estou cansada de me
esquecer de mim mesma. Queria deixar meus tios fugir a este quarto
de doente, ir para Geraldo; dizer-lhe tudo o que meu coraçã o tem
ocultado, ser enfim sua noiva... Oh! Deus, por que escolher criatura
frá gil para tantos sacrifícios? Vede, nã o posso mais... Nã o fiz já
bastante?... Bernardo, Teresa... meu tio, minha tia... Tenho-me imolado
por cada um deles... Eu, que nã o conhecia senã o carícias e beijos. Há
muito tempo que sou forte.., está acabado... A felicidade, a ternura...
tudo isso está tã o perto de mim!... Exaltada, a pobrezinha ergueu-se de
repente nas almofadas. Pela janela aberta acabava de avistar o
marquês, que voltava à Vila no seu andar negligente.
Entã o, fora de si, ergueu-se mais para chamar o primo: mas diante dos
olhos passou-lhe a visã o do Cristo padecendo, d'Aquele que era
sozinho para chorar... e que ela amava de todo o coraçã o! Num grande
soluço, tornou a cair para trá s, apertando as duas mã os sobre os
lá bios, para nã o gritar de dor.
De baixo, julgara o marquês avistar a cabecinha loura: gritou alegre:
— Nina Rosa!... Nina Rosa!...
Entã o, para fugir à tentaçã o de responder, sentindo-se ainda tã o fraca,
sepultou a cabeça nos braços, e a voz de Geraldo nã o foi mais que um
murmú rio abafado, depressa extinto.
Tendo de vestir-se para o jantar, ele nã o veio logo ao salã o. Contra seu
costume, desceu a duquesa primeiro. Viu-a Nina Rosa aparecer, toda
vestida de verde-pá lido, orquídeas na cintura e nos cabelos; trazia
duas rosas brancas, admirá veis, e disse a Nina, mostrando-as:
— Veja, isto é para você; deu-me há pouco Geraldo: notou que você
ontem nã o tinha flores...
— Oh! como eu nã o assistia à s refeiçõ es da noite, isso nã o tinha
importâ ncia!
— Sim, mas assiste agora e, como se veste de cerimó nia, é justo que
traga flores.
Varrendo o solo com sua cauda majestosa, num ruído que irritava
Nina, veio ao pé do divã e, com extremo cuidado, colocou uma rosa
nos cabelos, penteados como outrora; depois, tomando a outra flor,
pregou-a na musselina do corpete, olhou-a por um instante e
finalmente colocou-a também nos cabelos de ouro, bem ao lado da
outra.

129
— Ficam melhor assim, e ressaltam muito bem no toucado
maravilhoso que a natureza lhe deu... Meus cabelos têm um pouco
esse tom raro; mas, ai de mim! perdê-lo-ã o bem cedo!
Instintivamente, olhou a moça para a tia; é verdade que era ainda
jovem sob os cabelos louros; talvez houvesse entre eles alguns fios
brancos, mas eram tã o bem dissimulados, que Nina jamais os vira.
Veio sentar-se junto a Nina Rosa, e enlaçando-a com os braços:
— Pequena... começou ela hesitante.
— Minha tia!...
— Tenho um segredo... um belo segredo! Só eu o conheço e vou contá -
lo.
Comovida, sem saber por que, a moça fitou o belo rosto curvado para
ela. A duquesa estava pá lida, e os belos olhos refletiam tal felicidade,
que a perturbaçã o de Nina aumentou.
— Teresa escreveu-me... Escreveu também a meu marido, mas ele
ainda nã o leu a carta; nã o lê senã o à noite o correio da tarde... Entã o,
Nina, fui a primeira a saber... Sabe você o quê?
Nina murmurou, com uma ternura inexprimível:
— Vai chegar um nenezinho...
— Sim, disse a duquesa comovida; dentro de alguns meses terei um
neto.
— Ou uma neta, minha tia.
— Como sou feliz, Nina... Se você soubesse que felicidade se
experimenta à ideia de ser avó !
Sem querer, a menina notou:
— A senhora será uma avó muito moça!
— Pouco me importa isso!... Quisera estar já no mês de abril...
— Meu tio vai ficar tã o contente... arriscou Nina. Ensombrou-se a
fronte da duquesa.
— Vai dizer-lhe, a senhora mesma, minha tia... Será tã o gentil!...
— Sabê-lo-á pela carta, ainda hoje.
— Ora vamos, minha tia! Nã o me faça supor que vai guardar silêncio...
Que doçura para a senhora anunciar-lhe a nova; falar-lhe, primeiro
que ninguém, desse pequenino de Teresa!
— É verdade!... Contudo, pareceria que dou o primeiro passo; você
sabe que ele nã o me dirige a palavra senã o por delicadeza e que
parece nem saber que existo!
— Porque nã o lhe segue os olhares: quando a senhora entra, por
detrá s do jornal, que nã o lê, ele lhe examina o traje e lhe segue todos

130
os movimentos; poderia dizer que flores trazia todos os dias e as joias
que usava... Tia, tenho aqui uma coisa, entre as folhas deste livro, uma
flor que achei... Reconhece-a?
Curvou-se a duquesa rá pida sobre o volume que Nina Rosa abria:
reconheceu a rosa que trazia na véspera à noite e que a camareira nã o
mais encontrara nos seus cabelos.
-. É a de ontem!... Onde a achou?
-. Na pasta de meu tio; procurando papéis, Geraldo deixou-a cair sem o
perceber, e eu me apoderei dela depressa.
A sra. de Servane tomou a flor entre os dedos, hesitou um momento, e
disse:
— Quer dar-me esta rosa?
— Mas certamente, minha tia, replicou a moça, esforçando-se por
conservar a serenidade. É muito natural que a senhora queira guardar
a lembrança desta hora, em que soube das esperanças de Teresa.
— A propó sito, disse a duquesa: minha filha me diz uma coisa
estranha: seu tio devia ser o padrinho, e a sra. de Mervys madrinha.
Ora, esta recusa, para ceder seu direito, adivinha a quem, Nina Rosa?
— À senhora, minha tia?
— Nã o! A sra. de Mervys cede seu direito a... Nina Rosa!
— A mim! bradou a jovem, estupefata.
— A você! ela o deseja muito, dizendo que isso lhe é devido mais que a
ela.
Em um relance, reviu Nina Rosa o olhar profundo da velha amiga...
Voltou-lhe ao espírito a frase enigmá tica que lhe dissera à partida de
Paris:
— Nina Rosa, minha amiguinha... Apesar de tudo, sou sua mamã e!
E, curvando-se para a jovem, beijara-a, traçando-lhe sobre a fronte o
sinal da cruz.
A princípio, Nina nada suspeitara; mas agora compreendia que há
coisas que nã o se podem ocultar aos olhos das mã es amantes, e a
compensaçã o delicada, que lhe era dada, comoveu-a até o fundo do
coraçã o. Recusar, parecia-lhe uma injú ria à bondade da fidalga;
aceitar, era fazer-lhe compreender que, acolhendo sua atençã o, a
pequena Nina Rosa queria provar-lhe que a dor estava completamente
extinta.
Com grande admiraçã o da duquesa, disse, pois, docemente:
— Aceito o oferecimento da sra. de Mervys; se a senhora o consente,
serei madrinha...

131
— E que nome dará você ao nenê?
Corou, porque lhe vinha aos lá bios, instintivamente o de sua mã e.
— Nã o sei ainda... Teresa escolherá .
— Ela já escolheu, disse logo a duquesa. A moça empalideceu.
— Ah! Já ?... E que nome, minha tia?
A duquesa fez gesto carinhoso, como para acalmar a emoçã o de Nina:
— Chamar-se-á Rosela ou Joã o, disse baixinho.
E aqueles nomes, pronunciados pela altiva Iolanda de Servane, eram a
reconciliaçã o com a filha do antiquá rio.
— Mamã e!... murmurou Nina Rosa com êxtase. Quando o duque e
Geraldo entraram, acharam tia
e sobrinha abraçadas e sorridentes.
— Vá ... cochichou Nina... Diga a meu tio... Trêmula de comoçã o, foi a
sra. de Servane para o
marido, as mã os estendidas:
— Jaime!... disse ela, mal segura a voz... Jaime!... na primavera, você
será avô !
Teve ele um sobressalto de alegria, e, esquecendo-se de que a mulher
nã o era em casa senã o estranha, atraiu-a aos braços e beijou-a. Foi um
primeiro movimento, que nã o pareceu lamentar, porque afastou logo,
docemente, a duquesa, olhando-a com ternura.
Ela voltou para perto de Nina para ajudá -la a deixar a poltrona, e a
menina sussurrou-lhe ao ouvido:
— Bem vê que ele ainda a ama!... Tia Iolanda, foi um beijo de
namorado que lhe deram hoje!...
E, risonha, tomou o braço do primo, deixando a tia muito embaraçada
diante do marido.
— Quer conduzir-me à sala de jantar? perguntou quase timidamente.
Ele sorriu e, inclinando-se, ofereceu-lhe o braço.

CAPÍTULO 8

O baile chegava ao auge, nos salõ es da Vila Trianon: sob as ondas de


luz, as joias das mulheres faiscavam; os trajes e as flores tinham
reflexos de magia e os fatos negros dos homens faziam ressaltar ainda
mais toda a claridade dos cetins e das musselinas, que os uniformes
manchavam aqui e ali de notas vivas e variadas.

132
A pequenina rainha da festa, coitada, olhava melancolicamente a gama
de cores a se agitar sob seus olhares. A seu pedido, dava-se um baile, e
a Sra. de Servane nã o desconfiara de que, consentindo nessa festa,
proclamava bem alto a sua reconciliaçã o com o duque. Dissera Nina
Rosa consigo que esse baile mudaria a opiniã o pú blica: se os duques
davam uma festa, claro é que nã o havia divó rcio; a vida voltaria a ser o
que antes era e acabavam-se as maledicências!...
Como desejaria dançar, a pobre Nina! Se ao menos a tia lhe houvesse
permitido uma poltrona! Mas nã o; impiedosa, e muito prudente,
mandara transportar o divã para o salã o, e era preciso à irrequieta
mocinha uma dose de paciência pouco comum para nã o se furtar
à quele suplício, arremessando longe a colcha de cetim branco, as
almofadas luxuosas e, correndo para Geraldo, pedir-lhe uma valsa.
Contudo, nã o estava isolada, e tinha corte plená ria no seu cantinho de
verdura; moços e moças revezavam-se para tagarelar com ela, que
bem depressa lhes dizia:
— Vã o dançar... Vocês ardem de desejo!...
E ficava, entã o, com as gentes graves, conversando de política, bolsa,
negó cios, sem nada perder do encanto nem da graça saltitante.
Nina trajava vestido de cetim branco meio velado por uma tú nica de
filó , bordado de borboletas prateadas; dois desses leves insetos,
presos aos ombros, estremeciam ao menor de seus movimentos e
pareciam prestes a voar.
— Sã o como eu, pensava ela: liga-as um nada, e este nada é bem
poderoso!
Tirou-a desses tristes pensamentos a chegada de uma personagem
que esperava com impaciência. Malgrado as reclamaçõ es da família,
tinha querido convidar o célebre dr. Werner, e este, perguntando-se
que façanha praticara para tornar a entrar em graça, deixou Paris uma
bela manhã com o precioso convite na carteira.
Sem notar o acolhimento indiferente do duque e da duquesa,
precipitou-se para Nina Rosa, a quem julgava dever o convite.
— Oh! senhorita! gritou com ardor, quã o feliz me sinto em tornar a vê-
la!
— É certo? disse Nina, com incrível serenidade, dando-lhe a mã o a
beijar.
Depois, sem transiçã o, perguntou:
— Viu como minha tia está linda esta noite? O dr. Werner teve um
gesto de êxtase:

133
— Oh! senhorita; encantadora!... Soberba! A jovem continuou, com ar
suave:
— E meu tio! viu meu tio, dr. Werner? Sobressaltou-se o doutor:
— Ah! nã o, é curioso!... mas nã o o vi!
— O senhor apertou-lhe a mã o, ao chegar...
— É possível... É possível!... Nã o dei atençã o.
— Se o senhor soubesse como ele também acha minha tia
encantadora, soberba!...
— Nã o o duvido!
— Eles se entendem tã o bem... Verdadeiro casal de namorados!
— Ah!
— Sua pequena separaçã o acendeu-lhes nos coraçõ es uma chama!
Mais do que uma chama!... Um incêndio, dr. Werner!
— Ah! no entanto, eu pensava... Dizia-se... que estavam tratando do
divó rcio...
— "Se" é um grande mentiroso; nã o o sabia, dr. Werner? Se se falou de
separaçã o, posso assegurar-lhe de que minha tia nã o viu jamais um
advogado... Houve entre eles uma duvidazinha de nada, briga de
namorados, somente. Entã o!...
A decepçã o do doutor era muito viva, para que ele nã o apanhasse o
termo, exagerado no seu entender:
— Oh! namorados, disse ele, zombeteiro... Na sua idade!...
— Nã o há idade para o amor! replicou Nina Rosa, sentenciosa.
— Que sabe disso a senhora, que nã o é casada? O tom da obsequiosa
personagem tornava-se acerbo.
— Pois bem! E o senhor?... respondeu Nina no mesmo tom.
— Perdã o!... Tenho a experiência da vida!
— Eu também... Os polichinelos têm, por todo o mundo, quantidade de
irmã os gêmeos, que nem sempre sabem ocultar seus barbantes... o
que tem contribuído para me tornar desconfiada... Sim, tenho
experiência, dr. Werner, mais experiência do que o senhor julga...
Ele empalideceu um pouco; depois, esforçando-se por sorrir:
— Oh! a senhorita fala por enigmas e renuncio a compreender...
Queira escusar-me, se me retiro, porque devo tomar o trem da manhã .
Quando ele lhe beijava a mã o, ela disse baixinho, mas com singular
energia:
— Conto com o senhor, para fazer sustar esses ruídos de divó rcio que
"se" faz correr em Paris... ou, entã o, ver-me-ei forçada a advertir o
duque e Geraldo dessas intemperanças de língua. Seja prudente, dr.

134
Werner; porque, em ocasiõ es tais, o marquês de Servane nã o brinca...
e o procurador da Repú blica também nã o!
Cinco minutos mais tarde, o dr. Werner retomava seu sobretudo no
vestiá rio, sob o olhar surpreendido dos criados.
Admirado da sú bita partida do rival, veio o duque, rindo, perguntar à
sobrinha:
— Entã o, você põ e meus convidados porta fora?
— Pois nã o, meu tio!... Aquele senhor precisava de uma liçã o e eu a dei
sem cerimô nia.
— Ao menos, prometa-me que nã o mais o encontrarei no meu
caminho.
— Fique tranquilo, meu tio! O doutor desapareceu para sempre do seu
horizonte, e nã o ouvirá mais falar dele... Vamos, meu tiozinho, deixe
um momento esse ar de senhor da casa e faça-me companhia um
instante...
Condescendente, sentou-se o duque no divã e olhou com afeto para a
querida fadazinha, que transformava todos quantos se lhe
aproximavam.
— Como você está gentil hoje, Nina Rosa!
— Acha isso? disse ela com altivez.
— Mereceu bem seu título de rainha!
— Engana-se, meu tio, ou antes, o senhor me engana: no seu coraçã o,
a rainha que o senhor proclamou esta noite nã o sou eu!
Ele disse, carrancudo:
— E quem é entã o?
Instintivamente, e antes que ele tivesse podido defender-se, o olhar foi
em busca de um vestido lilá s, recoberto de lentejoulas negras; uma
cabeleira loura, que se nimbava ao passar sob os lustres, e uma coroa
rara, obra-prima de ourivesaria, que se lembrava de ter pago um
preço elevado na rua da Paz; nã o longe dele, conversava a duquesa
com lorde d'Alston; perdera as maneiras um tanto faceiras que lhe
desagradavam outrora; nã o lhe restava do passado mais que o porte
de rainha e o andar algo majestoso demais. Notou-o o marido e, como
Nina nã o respondera, deixando-o entregue à sua contemplaçã o,
murmurou:
— Sua tia está melhor que dantes... Só lhe censuro aquele ar de
imperatriz!
— Meu Deus! ela tem quase o direito de tê-lo, meu tio, aquele ar! Eram
duquesas como ela as irmã s de Napoleã o... e, contudo, seu título nã o

135
era senã o título noviço; e o da minha tia é antigo e puro como toda a
Vendéia.
— As duquesas de Servane jamais foram altivas; sua bisavó , no Natal,
servia por suas pró prias mã os os vassalos mais humildes... Você se
parece estranhamente com a duquesa Nina! Quem sabe!... Talvez a
duquesa Nina volte a residir na Servane; mas, se nã o me engano, essa
Nina será Rosa...
A moça corou e, para desviar a conversa, disse muito docemente:
— É certo que minha tia tem um ar altivo quando fala a estranhos;
mas muitos maridos, no seu lugar, estariam encantados... O senhor
mesmo, antigamente, acusava-a de prodigalizar seus sorrisos... Agora,
nã o é mais assim; mas, se o senhor seu marido chega há uma mudança
de decoraçã o: todos os sorrisos que ela nã o esbanjou lhe sã o
prodigalizados gratuitamente, e sem que esse senhor ingrato pense
em agradecer por eles... Confesse, feio tio, que é bem amimado desde
algum tempo!
— Nina, você vê com olhos prevenidos!...
— Nã o, nã o, vejo o que é!... Amam-no e quer convencer-se do
contrá rio! Eu, por mim, posso assegurar-lhe nã o somente que ela o
ama, como também o senhor o sabe!
— Eu? mas eu nã o sei de nada... Nã o tenho provas.
— Meu tio, o senhor mente!... Minha indelicadeza excita-o? Tanto
melhor!... suas provas sã o legiã o e o senhor seria bem tolo se se
obstinasse.
— Observo-lhe, minha sobrinha, que você raia pela impertinência, e
que se intromete no que me diz respeito pessoalmente.
— É bem possível, meu tio; mas rogo-lhe que me escute: o senhor tem
diante de si uma pobre criança que julga bem doente, pois que ela nã o
pode sair deste divã ... Pois bem! esta criança nã o está mais impotente
que a pequena Silvete, que o senhor vê girar lá , ao braço de Ned Barn.
— Nã o compreendo...
— O senhor julga-me doente e nã o estou, eis aí tudo, disse ela
francamente.
Completamente desnorteado, o duque perguntou:
— Que interesse tem você em representar esta comédia, incompatível
com a sua natureza?
— Se eu estivesse em estado de poder caminhar minha tia teria
querido talvez voltar para casa... Eu, doente, ela se via forçada a ficar
aqui... O senhor compreende?...

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— Sim... continue, se lhe apraz.
— Entã o, resolvi estar doente e há oito dias fico aqui prisioneira,
enquanto lá fora o belo sol e as flores me gritam: "Nã o vens, Nina
Rosa?"
— Como! disse o duque, a voz mudada; você, tã o ativa, minha filhinha,
você pô de ficar estendida sobre esse sofá !... Hoje, enquanto seus
pezinhos estremecem de impaciência, aceita esta exibiçã o penosa que
minha mulher lhe impõ e?... Por ela... Por mim!... você fez isso?...
— Eu fiz isso, sim... e estou pronta a fazê-lo até que um dos dois tenha
falado!... Esse momento virá bem cedo... Nã o o negue!... As palavras
estã o já prontas nos seus lá bios e nos dela... O medo de ser repelida
detém minha tia; o senhor, meu tio, o senhor se obstina por...
orgulho!...
— E se ela me impõ e silêncio, com, um daqueles gestos altivos, que me
magoavam outrora... Se ela se volta para nã o ouvir as palavras que
meus lá bios prepararam... Pobre Nininha de coraçã o de ouro, que nem
suspeita os amargos rancores da vida!
— Pobre tio Jaime! grande orgulhoso, que nã o quer acreditar que
ainda o amam!
— Psiu, pequena! As crianças nã o falam de amor...
— Entã o, meu tio, vá ter com minha tia, que acaba de passar ao balcã o,
à sua procura, sem dú vida; e fale-lhe de amor, pois que sã o gente
grande e podem falar nisso... Vá , meu tiozinho... Vá , esperam-no...
Pá lido como um morto, o duque levantou-se e dirigiu-se para a sacada,
dissimulada por laranjeiras.
Nina Rosa, os dedos juntos, ergueu-se nas almofadas. Viu-os
desaparecer na verdura; entã o murmurou, toda nervosa de emoçã o:
— Obrigada, meu Deus! Nina Rosa está curada!
A duquesa ouviu o rumor de folhas pisadas; viu uma sombra alongar-
se sobre a balaustrada e tocar na mã o que ela apoiava ali. Sem temor,
voltou-se; iluminou-lhe subitamente o rosto um raio de luz, que
filtrava entre os ramos. Estendeu as mã os:
— Jaime! murmurou ela, Jaime! Perdã o...
Ele tomou entre os seus os dedos enluvados, como para melhor
aceitar o perdã o, a abrandar-lhe a amargura do pedido:
— Iolanda, disse ele, esqueço-me de tudo, salvo de que você foi
bastante humilde para falar primeiro. Nã o poderia mais duvidar do
seu amor, pois que ele é assaz potente para lhe vencer o orgulho.
— Jaime! repetiu ela.

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— Entã o toda a nossa discó rdia está acabada?
— Tudo!
— E minha muito jovem esposa aceita seu velho marido?
Num impulso sincero, ela disse:
— Nã o diga isso, Jaime! Você nã o é velho!...
Ele riu, contente da exclamaçã o, mas as laranjeiras estremeceram de
repente: no claro-escuro brilharam subitamente duas borboletas de
prata e uma cabeleira de ouro. Viva e leve, a pequena Nina Rosa surgiu
ao pé deles:
— E os convidados!... Plantam-se lá , ao que parece! disse ela.
— Ah! é verdade! Esquecera-me deles! exclamou o duque.
E a duquesa, estupefata, bradou, tomando Nina Rosa pela tú nica de
rendas:
— Você aqui! Mas você nã o pode sair do seu divã !
— Eu, minha tia!... Acreditá -lo-á a senhora? É admirá vel, mas o amor
me curou!...

CAPÍTULO 9

No dia seguinte, à s 11 horas, eram quatro pessoas bem felizes as que


se reuniam para o almoço. Os rostos estavam repousados e radiosos e
amontoaram-se projetos sobre projetos e para fugir o mais cedo
possível de Monte Carlo.
— Vamos a Fréjus, propô s o duque.
— A Paris, disse a duquesa.
— À lua, encareceu Nina Rosa, gravemente.
— À lua-de-mel... sim, sim, é isso! Boa ideia, gritou alegremente o
marquês.
— Eu nã o disse isso, corrigiu Nina, indignada, lançando ao primo
olhar terrível: você é tolo, Geraldo!
E voltando-se para a tia:
— Vamos a Paris, para o inverno, ou antes, tomemos Bernardo e
Teresa na passagem; é melhor que o nenê nasça em Servane. Faremos
arranjar a ala direita do castelo para o jovem casal.
— E a esquerda para o casal velho, disse o duque, sorrindo para a
mulher.
— Entã o, meu tio, quem habitará o corpo do edifício?
— Ora... o herdeiro e sua mulher, minha sobrinha!

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— Geraldo ficará solteirã o! respondeu Nina, chacoteando.
— E Nina Rosa solteirona! disse ele.
— Entã o, disse a duquesa, divertida: daremos uma metade ao
solteirã o e a outra à solteirona.
Nina riu baixinho, olhando para o prato, a fim de nã o ver os olhos
interrogadores de Geraldo.
— É isso... Agradeço-lhe, minha tia... Entã o podemos fazer as malas
para Paris e em seguida para Servane?
— Pois nã o, pequena! Somente, demoraremos alguns dias em Paris.
— Certamente! Se ficam em Paris, eu gostaria bem de ir passar
algumas horas em Breval. Há tanto tempo nã o vejo meus amigos,
acabou Nina, a modo de escusa.
— E quem poderia levá -la?
— Geraldo, minha tia!... Nã o é verdade que quer acompanhar-me,
Geraldo?
— Eu nã o desejo mais nada... somente... As terríveis conveniências...
— Oh! Pois que sou uma solteirona... E depois, Lisa irá ; em traje de
passeio, ela representa bem de aia. Diga que consente, minha tia; nó s
iremos de automó vel.
— Veremos isso... Quando se tem um palminho de cara como esse,
minha sobrinha, nã o se corre pelas estradas com um moço, mesmo
que seja um solteirã o!
Terminado o almoço, passaram ao terraço para tomar o café. Duas
vezes tentou Geraldo sentar-se perto de Nina; mas esta, brincando, se
esquivava sempre. Acabou por instalar-se sobre a larga balaustrada
de pedra e, apoiada à bacia de má rmore, deixou que as flores lhe
acariciassem os cabelos e os ombros, puxando-as por instantes sobre
o rosto, para dissimulá -lo aos olhares do primo,
Nã o ousou este ir ter logo com ela; mas, apó s algumas baforadas do
charuto, veio no seu passo descuidado, sob o pretexto de admirar um
açafate.
Como ela nã o falava e as rosas continuavam a se balançar feito cortina
diante de seus olhos, disse ele enfadado:
— Há aranhas nessas flores, você sabe! -. Ah! eu nã o tenho medo das
aranhas.
— E se continua a se balançar assim, perde o equilíbrio e quebra o
pescoço.
— Ao menos, você estará num camarote da frente para o drama:
quase tenho vontade de fazê-lo pagar adiantado.

139
Ele fumava com tanto furor, que sob as rosas Nina tossiu.
— Oh! perdã o, disse, atirando fora o charuto; eu nã o estava aqui!
— Longe? Pode-se saber?
— No castelo... Pensava na castelã que levarei para lá um dia!
Com inconsciente faceirice, ela perguntou:
— É bela, a dama de seus pensamentos?
— Encantadora... e, muito ró sea!
— Ela sabe que você a ama? -? Nã o lhe disse ainda!
— Por quê?
— Ela me proibiu e eu nã o quis desobedecer... Esperou um momento,
para melhor apanhar o
murmú rio que se elevava detrá s das rosas.
— Contudo, eu esperava que um dia a interdiçã o fosse suspensa...
— A interdiçã o está suspensa! Fale, meu amigo! Ele nada mais via nela
senã o as mechas douradas, que se entrelaçavam à s rosas e o azul-
pá lido do vestido.
— Nina Rosa... disse baixinho... eu a amo!
— Meu amigo, respondeu ela... Eu o amo!
— Para sempre? perguntou Geraldo.
— Para toda a vida!...
— Venha! disse ele, afastando as rosas.
Os cabelos de ouro misturavam-se aos ramos; deu-lhe trabalho o
desembaraçá -los.
— Veja: as flores querem guardar-me!
Ele sorriu e, tomando-lhe a mã o, desceu com ela os degraus da escada
semicircular. Longe da habitaçã o, pararam.
— Nina Rosa, disse o moço gravemente, eu quisera dizer-lhe hoje que
sua fé é a minha; nã o o posso ainda. Eis aí porque lhe peço seis meses
para me tornar digno de você. Dentro de poucos dias, partirei para
Roma e irei encontrá -la em Servane na primavera. Uma vez mais, terá
um sacrifício a cumprir, mas conheço-lhe a alma generosa; por isso,
nã o receio pedir-lhe.
— Tem razã o, Geraldo! Que a luz se faça em você, é todo o meu
desejo... Ainda nã o crê, e, contudo, quando me falou lá no terraço,
entre nó s ambos estava Deus, e ele ratificava nossa uniã o... Aí está por
que nã o tive medo de lhe dizer meu amor!... Aí está por que aceito de
todo o coraçã o ser um dia sua mulher, uma mulherzinha pequenina,
nã o é, Geraldo?

140
— Com um coraçã o muito grande!... Nina Rosa, olhe como sã o belas
estas flores; como é belo o céu... Nina Rosa, minha pequena bem-
amada, sã o os nossos esponsais...
Ela repetiu:
— Nossos esponsais...
E o coraçã ozinho recomeçou a bater com as pancadas felizes de
outrora, quando ela ria alegremente pelo braço do avô , quando
perseguia seu velho amigo no parque de Breval, os cabelos louros
coroados de flores.
— Geraldo, Geraldo!... murmurou... é possível que eu seja tã o feliz!
Tenho padecido tanto há um ano!
— Mas agora é preciso esquecer tudo, deixar na sombra esse
momento doloroso de sua juventude e guardar a recordaçã o do bem
que fez ao redor de si.
— Esquecerei isso também, Geraldo; porque o bem que fiz foi Deus
quem o cumpriu em mim e nã o devo ter orgulho dele!... Meu amigo,
nã o serei recompensada quando você participar da minha fé?
— Eu a amarei tanto que você será sempre feliz...
— Voltemos à Vila, tenhamos piedade de meus tios, que nos esperam.
O duque e a mulher tinham tornado a sentar-se no terraço e
conversavam muito naturalmente.
-? Lindo tempo! disse Nina Rosa, subindo a escada.
— Encantador! replicou o duque... Vocês nã o passearam muito.
— Nã o, disse Geraldo, que ardia por falar; mas o bastante para...
— Para colher flores, acabou Nina, com ar inocente.
Recostada na cadeira de junco, a duquesa olhou ternamente para o
filho.
— Geraldo! chamou ela.
Ele se curvou e, pela primeira vez na presença de Nina, beijou
afetuosamente a fronte lisa.
— Mamã e!...
— E você, meu rapaz, também colheu flores?
— Colhi só uma... mas é uma rosa!
— E essa rosa... onde está , entã o?
De sú bito, previu o marquês nova fuga de Nina Rosa, e sem saber
como, viu-se ela arrastada por mã o firme e achou-se nos braços da tia.
Foi um quadro encantador, aquelas duas cabeças louras confundidas,
e um delicioso arrulho de palavras ternas, pró prias à s emoçõ es
femininas.

141
— Oh! a sonsinha! disse o duque, com a voz subitamente
enrouquecida. Ser-me-á permitido também cumprimentar a noivinha?
Nina foi imediatamente para o tio e, quando lhe estendeu a fronte, ele
murmurou, só para ela:
— Geraldo pagará a minha dívida...
Ela o compreendeu mas, com um gesto, pediu-lhe silêncio; depois,
voltou a abraçar-se à tia, nessa necessidade instintiva que têm as
mulheres de se aproximarem umas das outras nas horas de amor ou
de dor, para que suas almas melhor se comuniquem.
No dia seguinte, partiu Geraldo para Paris; voltou dois dias depois e, a
instantes pedidos seus, Nina Rosa teve de escolher o anel.
— Está muito apressado, disse a travessa noivinha; já que o jantar de
esponsais será em Paris, por que nã o esperar?
Porque estou impaciente por vê-la acorrentada.
— Oh! o terrível senhor!... Enfim, obedeço. Escolheu sem hesitaçã o e
Geraldo enfiou-lhe no
dedo o anel simbó lico, onde só faiscavam diamantes maravilhosos.
— Gosto destes brilhantes, murmurou ela, tã o puros!... Parecem gotas
de orvalho... Teresa me escreveu! Regozija-se com a minha felicidade e
Bernardo preveniu de nossa volta os criados do palá cio; ocupou-se até
da decoraçã o das salas para o jantar de esponsais... Mais um homem
apressado!
— Ele tem razã o! disse Geraldo... É preciso enviar os convites o mais
cedo possível. Escreveu à sra. de Breval, Nina?
Nã o, Geraldo, pois pensei que, se você fosse um
noivo gentil e amá vel, me levaria à casa dela para que os convidasse
de viva voz.
— Bem o desejo, Nina Rosa! No dia seguinte à nossa chegada a Paris,
levá -la-ei a surpreendê-los.
E as conveniências! As conveniências! murmurou a duquesa.
Vamos, disse o duque; isso é muito fá cil de fazer,
pois o noivado será oficial amanhã .
Obrigada, meu tio! O senhor é gentil...
No cú mulo da felicidade, começou Nina Rosa os preparativos da
partida: ajudava-a Lisa, tã o excitada como a senhorita. Quando
deixavam Monte Carlo, a moça suspendeu-se ao braço de Geraldo
mostrando-lhe ao longe a Vila Ateniense, disse-lhe:
— Se você soubesse quantas vezes o chamei lá longe, enquanto o
dever me obrigava a permanecer ao lado de minha tia e todo o meu

142
coraçã o estava perto de você... Um dia mesmo, eu o vi passar de longe
e chorei muito tempo, muito tempo... estava sozinha... minha tia tinha
ido ao Cassino...
— Nina Rosa, minha bem-amada, nã o pense mais no passado... Amo-a
tanto...

CAPÍTULO 10

Na estrada de Rennes corria o automó vel a toda a velocidade,


levantando uma nuvem de poeira intensa.
— Nã o sente muito calor, Nina Rosa? perguntou o marquês, baixando
um vidro.
-. Um pouco, mas o ar me fará bem... Creio que o calor nã o molesta
quase o seu chofer e a minha criada... entendem-se como um casal de
rolas e aposto que trocam neste momento suas promessas.
— Esperemos que o seu himeneu nã o nos lance em algum fosso.
— Esperemos!... Estou zangada com minha tia por nos ter imposto
chofer e criada de quarto. Teríamos tanto prazer em guiar, cada um
por sua vez...
— Obrigado! Você nã o põ e a mã o no volante senã o para fazer
imprudências.
— É tã o divertido fazê-las, sobretudo quando você se incomoda e faz
uma voz grossa para me assustar...
— Você nunca parece tã o impertinente como nesses momentos!
— Diga de uma vez que nã o valho nada!
— Nã o grande coisa, pelo menos...
— Entã o, por que se casa com esta "nã o grande coisa"?
Nã o pô de Geraldo conservar o sério por mais tempo.
— Insuportá vel Nina Rosa! Nã o é possível vencê-la! Fica sempre com a
ú ltima palavra!
— Felizmente para mim; assim, poderei pregar-lhe a peça... mais
tarde... você sabe... quando brigarmos.
— Oh! Nina Rosa! gritou o marquês com indignaçã o. Você nã o supõ e
que, daqui a alguns anos, poderemos brigar!
— Sim, suponho-o...
Está muito impaciente; acabarei por me zangar.
— Nã o faça isso... O calor já é grande, sem que lhe junte você o fogo da
sua indignaçã o... E depois, nã o tome esse ar de Barba Azul; assustaria

143
seus velhos amigos... Que boa surpresa vamos fazer-lhes!... Vã o achar-
me mudada... Tenho crescido, Geraldo, desde um ano?
— Parece descida de algum quadro Luís XVI, disse Geraldo... Nã o ter
eu gibã o bordado e punhos de rendas, em vez deste traje moderno,
que tã o pouco me favorece!
— Ora! o contraste tem seus encantos... Olhe, Geraldo... lá longe é
Breval!...
Corara intensamente, na sua comoçã o, tomou-lhe a mã o.
— Veja este riacho... Meu velho amigo vinha aí pescar; e quando
estava bem acomodado, com todo o seu arsenal ao alcance da mã o,
escondia-me atrá s das moitas, e atirava pedrinhas perto da boia...
Aquilo fazia "floc" na á gua, a rolha estremecia, e o sr. de Breval gritava
energicamente: "Esperem, garotos atrevidos, vou puxar-lhes as
orelhas!" E quando voltava ao meio-dia, eu corria para ele, e, como
marota que era, depois de ter escutado bem sua histó ria de garoto,
dizia-lhe gentilmente, erguendo meus brincos: "Puxe, entã o... Sou o
garoto das pedras".
— Você nã o mudou, disse Geraldo, contente.
— Oh! nã o... mas nã o me lembrarei de apresentar minha orelha,
porque certo senhor teria talvez o poder de encompridá -la.
— Faz-me mais severo do que sou!... A moça curvou-se vivamente
para fora:
— Lá está o castelo! murmurou comovida. Diga ao chofer que pare,
Geraldo, e que vá para a garagem com Lisa. Quanto a nó s, evitaremos a
entrada grande e passaremos pela portinhola de serviço para
surpreender meus amigos.
Alguns minutos mais tarde, penetravam na habitaçã o. Imobilizaram-
se na primeira sala, ouvindo passos.
— Aí vêm eles, disse Nina Rosa excitada. Esconda-se, Geraldo, lá na
estufa; você verá tudo dali.
Tirou rapidamente o chapéu e aproximou-se da janela; lá estava um
bastidor, o seu, no mesmo estado em que o deixara; as sedas, sobre
uma almofada, pareciam esperá -la e a agulha estava ainda enfiada...
Era o instrumento de tortura, diante do qual se sentava à s vezes para
agradar à sra. de Breval; mas, à s vezes, fingia somente trabalhar e
dizia a seus velhos amigos:
— Tenham piedade da pobrezinha da Penélope...
E a frase fazia sempre o mesmo efeito: riam do ar dolente da menina e
ela aproveitava para plantar lá o bastidor e corria a fazer-se amimar.

144
Bem iluminada por um raio de sol, a linda cabeça loura inclinada tinha
sobressaltos de riso contido; a seda pá lida ia e vinha sem nunca se
fixar e o bastidor balançava-se ironicamente.
Entã o, no momento em que a porta se escancarava diante de dois
velhos melancó licos, ouvia-se uma voz fatigada dizer lentamente:
— Tenham piedade da pobrezinha da Penélope! Viram a criança loura
curvada sobre o bastidor e
soltaram ambos um grito. Esse grito teve eco. Derrubando tudo, a
fadazinha do ano anterior corria para eles e entregava-se como uma
criança aos braços que se estendiam para a receber...
— Nina Rosa!... minha pequena... Oh! que surpresa!...
— Madrinha... Padrinho... Sim, sim, sou eu... Nã o me esperavam ver?
— Julgá vamos que estivesse em Monte Carlo... Vamos, afaste-se um
pouco, para vermos...
A moça afastou-se dois passos e este movimento a pô s bem na luz do
sol.
— Oh! fez apenas a velha dama, deslumbrada.
— Hum! fez o marido, com ar de entendido. Entã o ambos se
entreolharam.
— Como está transformada!... mais mulher... É estranho! Há nela
alguma coisa que nó s nã o conhecíamos...
E a sra. de Breval aproximou-se de Nina.
— Eu sei, disse o marido, esclarecido por uma luz repentina; sei o que
pode transformar assim uma menina!
— Ora qual! como pode você saber?
Veio o velho castelã o, a seu turno, para perto de Nina Rosa, e
pousando a mã o sobre a cabeça loura:
— Pequena, murmurou ele, é o amor que a torna tã o bela!...
E como a madrinha esperava, inquieta:
— Sim, disse Nina baixinho, é o amor; vim convidá -los para as festas
de meus esponsais.
— Noiva! noiva! Você, minha pequena! Ao menos escolheu bem? Ele
saberá amá -la como tem sido sempre amada?
— Como é, entã o, que tenho sido amada? perguntou ela, divertida.
— Mas, minha pequena, amada como uma criança, como um nené que
toda a vida terá necessidade de carícias e de proteçã o... como uma
traquinas, que terá de ser perdoada muita vez... amada como uma
pobre coisinha, para quem serã o duros muita vez os choques da vida;
como uma cristã , ignorante do mal, tendo necessidade de mã o firme e

145
terna para guiá -la nas horas difíceis... Criança, esse noivo... esse eleito
do seu coraçã o, sabê-la-á amar assim?
— Sim, madrinha, gritou Nina, toda vibrante: sim, ele o saberá !
E, correndo à estufa, voltou com Geraldo, suspendendo-se ao seu
braço, com tocante confiança.
— Meu noivo, o marquês Geraldo de Servane! disse ternamente. Ele
conhece bem a pobre coisinha traquinas que temem ver padecer;
amar-me-á toda a vida, sempre... Amar-me-á , como eu o amo, isto é...
Interrompeu-se de repente, contente de arreliar Geraldo e continuou
a apresentaçã o com um ar solene:
— Geraldo... o sr. e a sra. de Breval.
— Agora, vã o tomar chá , disse esta, que voltava primeiro a ideias mais
prá ticas.
— Aceito para Nina Rosa, minha senhora, e nã o para mim, porque
raramente merendo; mas sua afilhada fará honra ao lanche.
— Bem, disse a pequena, enfadada; agora, censura meu apetite!
— Eu, nem por sombras! Ao contrá rio, regozijo-me de a ver trincar
bolinhos.
— Oh! sim, nã o é? A gente tem prazer em olhar para ela! Se o senhor a
tivesse visto, aos quinze anos, comer suas fatias de doces de frutas!...
Aí está , pequena, quer doces? Ana Maria fê-los maravilhosos!
Nina nã o pedia outra coisa; e foi logo acomodada diante de uma
mesinha coberta de cambraia bordada e florida de rosas; num prato se
ostentavam os bolinhos dourados de que falara Geraldo e numa taça
de cristal tremulava a geleia de groselhas e framboesas.
O casal de Breval sentara-se ao lado de Nina Rosa.
Geraldo, por condescendência, petiscava um biscoito.
— Nina Rosa, lembra-se de quando você arreliava Ana Maria,
perturbando-a nas suas operaçõ es culiná rias?
— Um dia, até deitou sal no creme!
— E todo mundo me repreendeu bastante, tanto que me pus a
chorar... o que fez com que todo mundo depressa se pusesse a me
beijar.
— E as pedras que você atirava ao regato? Mas, mudando de assunto,
declarou Nina:
-. Iremos ver a Vila; à volta quero mostrar a Geraldo a casa onde nasci.
— Vocês nã o voltam hoje? disse a senhora.

146
— Ai de mim! Sim, madrinha: Geraldo tem um amigo em Rennes, e
quero tornar a ver meu internato; passarei lá a noite... Vejamos,
console-se! Tornar-nos-emos a ver daqui a poucos dias.
— É verdade! Entã o, fale ainda, que eu a ouça! Talvez nã o a possa ter
mais comigo, tanto como hoje!
— Sim, fale ainda! repetiu o sr. de Breval.
E, simplesmente, recomeçaram suas perguntas à jovem, enquanto
esta, sempre conversando, enviava de vez em quando um sorriso ao
auditor atento.
A festa terminava. Pouco a pouco os convidados deixavam o salã o.
Rarefaziam-se os grupos, e as mamã es, completamente despertas,
chamavam as filhas recalcitrantes, que suplicavam ainda uma valsa.
Foi em vã o! Dentro em pouco, nã o restavam mais na sala do baile
senã o o duque e a duquesa, com Geraldo e Nina, que conversavam
baixinho.
O marquês partia dentro de uma hora; queria abreviar as coisas, pois
sabia que a sua partida ia fazer padecer.
Quando os pais saíam, foi dizer-lhes adeus. Depois voltou para Nina
Rosa; ela estava de pé no imenso salã o, cheio ainda há pouco de tanta
alegria: acessó rios do cotilhã o arrastavam-se pelo chã o; flores
fanavam-se no vã o de uma almofada: flores brilhantes caídas de
alguma cabeleira loura ou castanha...
Depois da alegria louca e embriagante, era o vá cuo e o melancó lico
silêncio que deixa apó s si o prazer, e esta impressã o penosa penetrou
profundamente os dois noivos.
Ela repetiu:
— É a hora!...
Ele olhou para a pequena Nina, toda vestida de filó ró seo e, vendo-a
empalidecer, julgou que ia perder a coragem.
— Se você nã o pode... diga uma palavra e eu ficarei.
— Nã o, Geraldo, é preciso partir: é o seu dever... Casado, pai de
família, você nã o teria vagar para se instruir, para achar a luz; agora
tem o espírito ainda livre.
— Mas meu coraçã o nã o é mais!
— Por isso me retiro dele, para que Deus seja o Senhor de todo o seu
ser... Seis meses nã o é muito tempo ao pé da eternidade... Faço o
sacrifício deles a Deus, para que você se torne cristã o.
— Partir para Roma! Partir... Longe de você durante seis meses... Nina
Rosa, tenho medo de perder a coragem.

147
Ela sacudiu a emoçã o, para nã o pensar senã o no noivo:
— Geraldo, você quer ser digno de uma cristã ; entã o, é preciso
procurar a luz.
— Minha luz está em você!
— É esse o erro que o levaria à treva! Aí está por que se deve afastar
durante o grande trabalho que se faz na sua alma... Que sou eu? Uma
criatura, e se você procura luz no seu amor humano, posso jurar-lhe,
eu, que no entanto o amo, que jamais aí a encontrará ... Só Deus é a luz,
e você compreenderá isso, lá em Roma, longe de tudo o que lhe pode
perturbar a alma... Parta, Geraldo, sou eu, Nina Rosa, sua noiva quem
lhe pede!...
Ele a viu transfigurada! Lembrou-se de todos os sacrifícios que ela
havia feito, sem uma queixa e sem um desfalecimento... Resolvidas à s
primeiras imolaçõ es, aproximou-se dela vivamente, apertou-a contra
o peito e beijou-a apressadamente; depois, fugiu sem a olhar, para nã o
ser tentado a voltar...
Nina ouviu os passos se afastarem e seu coraçã o apertou-se tanto, que
as lá grimas lhe subiram aos olhos. Maquinalmente, procurou os
objetos fú teis que juncavam o solo; entre seus dedos, tiniram guizos...
apanhou folhas de mú sicas esparsas, e a á ria de uma valsa veio-lhe ao
espírito; tomou as flores pisadas, acariciou-as com os dedos: logo se
dispersaram as pétalas. E ela pensou:
entreguei tudo! Sacrifiquei-me por meu tio, minha tia, Teresa, e esta
noite por Geraldo... Meu Deus! Nã o me pedireis mais sacrifícios... Já
imolei tudo.
Mas, entre seus dedos, tremulava o coraçã o amarelo da rosa
desfolhada!
— É verdade! murmurou ela; resta-lhe o coraçã o... Enquanto o
coraçã o bate, ele pode sempre dar... Meu Deus! Quando vó s o
quiserdes, entã o!
Mas, malgrado a valentia, a pobre noivinha nã o pô de reter um soluço:
docemente, reunindo-se nas dobras leves do filó , as lá grimas
deslizaram até ao coraçã o da rosa desfolhada, e ali se engastaram com
reflexos de pérolas preciosas.

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EPÍLOGO

Estendida numa rede, a loura cabeça recostada nos braços cruzados,


Nina Rosa olhava para a abó bada de verdura e procurava o céu nas
frestas da folhagem brilhante.
— Nina sonha! disse rindo a viscondessa de Mervys.
-. Nã o, nã o sonho!... Eu pensava estar alegre demais para uma noiva
abandonada!
— Oh! abandonada! disse a sra. Servane... Geraldo quer surpreendê-la,
é isso!
— Creio que esse belo senhor está lá fascinado por alguma morena
italiana.
— Bernardo, nã o diga tolices! Você bem sabe que Geraldo está a esta
hora na fronteira!
— Alguma Mireille de cabelos de ouro lhe barrará o caminho: é ainda
mais grave!

149
— Vamos, Bernardo, deixe dessas caçoadas. Nã o vê que agita a pobre
Nina Rosa?
O visconde largou o jornal e aproximou-se da mulher:
— Se Rosela estivesse aqui, eu estaria tranquilo.
— A ama irá trazê-la, quando ela acordar; dormia tã o bem, que nã o
lhe quis perturbar o sono.
Na rede, Nina Rosa erguera-se um pouco e olhava para a extremidade
da aleia.
— Lá vem ela! disse de repente. Com admirá vel elasticidade, deixou-
se cair ao solo e correu ao encontro da afilhada.
— Nã o quer ficar quieta, disse a inglesa; nã o posso acalmá -la.
— Deixe-me pegá -la e nã o chorará mais.
Nina Rosa pegou jeitosamente no pacotinho de rendas, balançando-o
nos braços e pô s-se a murmurar-lhe uma porçã o de coisas gentis, com
aquela voz cantante, que tinha sempre o poder de aquietar a afilhada.
Esta, com efeito, calou-se e seus belos olhos azuis fitaram o lindo rosto
curvado para ela e os cabelos de ouro, que um raio de sol tornava
luminosos.
Entã o, Rosela sorriu para Nina Rosa, e a ama, admirada, assegurou
que a moça tinha todos os privilégios.
— Mas nã o, trata-se apenas de interessar esta pequena voluntariosa.
— E de ter cabelos de ouro e uma beleza radiosa... sussurrou
Bernardo ao ouvido da mulher. A peruca amarela e o carã o de Milrede
parece que nã o agradam a sua filha.
Sorriu a viscondessa, olhando-o com terna censura; depô s o bordado
nos joelhos da mã e e tomou a filha dos braços de Nina Rosa.
— Vejam! disse esta, triunfante. Eu a acalmei!
— Oh! disse Bernardo, presunçosamente; a mim, basta aparecer para
que ela se cale!
E para provar que tinha razã o, curvou-se vivamente para a filha: a
pequena, vendo de repente interpor-se entre ela e o belo rosto de sua
mã e a cara inesperada do pai, soltou gritos lancinantes e teve Teresa
grande trabalho para sossegá -la.
-? Aí está , disse Nina, a vitó ria do sexo feio!
Furioso com o mau êxito, e ferido em seu amor-pró prio paterno,
voltou-se Bernardo para a moça; mas esta nã o esperava a resposta
para fugir. Empurrando os tios que riam, indulgentes, meteu-se pela
aleia, perseguida por Bernardo, e, para despistá -lo, lançou-se no
primeiro maciço que encontrou. Entã o, abafou um grito de espanto! Lá

150
estava já alguém, que a cerrou nos braços; alguém, que julgava ainda
na fronteira italiana, ou na Provença e que, da ramada, espreitava
havia um momento a linda cena de família.
— Geraldo!... Geraldo... balbuciava ela, ainda trémula de espanto e de
emoçã o.
— Nina Rosa, minha Nina Rosa!... Quis surpreendê-la e tê-la para mim
só à hora da volta... Tenho tanto que lhe dizer...
Os ramos prendiam-se aos cabelos de Nina Rosa, o musgo era
escorregadiço e as folhinhas indiscretas interpunham-se entre eles,
riram ambos da sua singular situaçã o e, como crianças que gazeteiam
a escola, recearam ser descobertos. Mas, sob a latada, estavam todos
muito sossegados e Bernardo voltava dizendo:
— Perdi-a de vista! Nã o sei onde se escondeu!
— Nã o a procure, aconselhou a mulher; é o melhor meio de fazê-la
voltar.
Descansados, Geraldo e a noiva abriram uma passagem na moita:
alcançaram, enfim, um caminho afastado, cheio de frescura e de
perfumes primaveris. Nina Rosa sentou-se na rampa florida; porque
tinha medo das palavras que ele ia pronunciar.
Adivinhando-lhe a angú stia, sentou-se a seu lado e disse, pegando nos
dedos finos que esmagavam as violetas:
— Nina Rosa, nã o ousa perguntar o resultado de minha viagem?
— Nã o... Nã o ouso!...
— Nina Rosa, olhe para mim...
Ela obedeceu e leu-lhe no olhar reto o que queria saber.
— Você crê em Deus? disse, vibrante.
— Creio!... Sua fé é agora a minha fé! Lutei; padeci; mas Deus teve
piedade de mim. Um dia, no tú mulo do seu apó stolo, ele me venceu...
Nina, é um convertido que está diante de você!
Ela balbuciou!
— Oh! Geraldo!
E os olhos encheram-se-lhe de lá grimas; mas eram lá grimas de
alegria!
— Entã o, continuou, ainda trêmula a voz, posso agora amá -lo sem
constrangimento; agora, posso dizer-lhe.
Ele se curvou ternamente para ela.
— Diga-me, pois, que o pode.
— Geraldo, amo-o, para sempre!

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A marquesa de Servane olhou ainda para a multidã o de convidados
que se agitavam sobre a relva. À luz das lanternas multicores, chegou
a reconhecer Teresa e Bernardo; com a ponta dos dedos, enviou-lhes
um beijo. Seu tio ia e vinha, procurando-a, evidentemente; ela repetiu
o gesto afetuoso e fugiu na sombra compacta das grandes á rvores.
Uma ú ltima vez, quis contemplar o solar de seus antepassados:
entrara ali como pá ria; hoje ali reinava, esposa feliz e amada!
Olhou longamente para as janelas do quartinho onde dormia a
pequenina Rosela e o terraço onde se reunia a família todos os dias.
Alguém descia apressado os degraus: reconheceu Geraldo e adiantou-
se. Ele viu a esbelta silhueta branca e a longa cauda, que ela nem
pensava em soerguer.
— Nina Rosa! chamou.
Sim, ela estava pronta... Pronta à obediência, ao devotamento, aos
padecimentos da vida... Ele o compreendeu na submissã o da sua voz,
nas duas mã os estendidas, num gesto de abnegaçã o.
— É hora, Nina Rosa. Minha mã e a espera, lá em cima!
Ela lhe tomou o braço e com ele subiu os degraus do terraço. Uma
ú ltima vez, envolveram com o olhar o canto do parque brilhante de
luzes, as girâ ndolas que corriam na verdura, e os arredores mais
sombrios, onde se desenhavam vagamente os vestidos claros das
damas.
— Como está escuro aqui! murmurou Nina, olhando para o terraço.
— Nã o, está claro, murmurou o marquês. Seus cetins brancos põ em
luz até no mais profundo do meu coraçã o! A noite de minha vida pode
ser escura, terei sempre a estrela toda branca, toda pura, que Deus me
deu... Você nã o vem?...
Ela se voltou para ele, despertada por esta palavra inesperada de
amor, e ternamente apoiada ao marido, Nina Rosa atravessou,
sorridente, o limiar do solar paterno.

FIM

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