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Fenomenologia e Existencialismo na Psicologia

Contribuições de Husserl: "pai da Fenomenologia"...........................12 Fenomenologia: desvendando o conceito.................................................................... 12 Epoché..................................................................................................................................................... 15 A Fenomenologia e sua importância para a Psicologia...................................... 21

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Fenomenologia e Existencialismo na Psicologia

Contribuições de Husserl: "pai da Fenomenologia"...........................12 Fenomenologia: desvendando o conceito.................................................................... 12 Epoché..................................................................................................................................................... 15 A Fenomenologia e sua importância para a Psicologia...................................... 21

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Fundamentos

da Psicologia
Humanista
Unidade 1
Introdução às Correntes Filosóficas da
Fenomenologia e do Existencialismo
Diretor Executivo
DAVID LIRA STEPHEN BARROS
Gerente Editorial
CRISTIANE SILVEIRA CESAR DE OLIVEIRA
Projeto Gráfico
TIAGO DA ROCHA
Autoria
SHEILA MARIA PRADO SOMA
JÉSSICA DE ASSIS SILVA
FABIO PEREIRA SOMA
AUTORIA
Sheila Maria Prado Soma
Sou psicóloga há 22 anos, com mestrado e doutorado pela
Universidade Federal de São Carlos. Tenho experiência em Psicologia
Clínica e docência no ensino superior, além disso, venho trabalhando
durante todo esse tempo com a formação de profissionais nessa área e
também com produção de conteúdos e pesquisas. Psicologia é a minha
paixão e, transmitir minha experiência profissional e de vida àqueles que
estão em formação é um dos focos do meu trabalho. Por esse motivo,
fui convidada pela Editora Telesapiens a integrar seu elenco de autores
independentes. Estou muito feliz em estar com você nesta fase de muito
estudo e trabalho. Conte comigo! Vamos juntos!

Jéssica de Assis Silva


Sou formada em Psicologia pela Universidade Federal do Pará,
com mestrado em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos e
doutorado em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (USP).
Adicionalmente, sou especialista em Terapia Comportamental e Cognitiva
pela USP sendo docente em cursos de graduação e especialização.
Desse modo, gostaria de dividir um pouco dessa experiência com você!
Estou muito feliz em poder fornecer suporte a você nesta etapa de sua
formação!

Fabio Pereira Soma


Sou formado em Filosofia e Pedagogia e também mestre em
Filosofia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Conto com uma
experiência técnico-profissional na área de Educação de mais de 12 anos.
Sou apaixonado pelo que faço e adoro transmitir minha experiência de
vida àqueles que estão iniciando em suas profissões. Estou muito feliz em
poder ajudar você nesta fase de muito estudo e trabalho. Conte comigo!
ICONOGRÁFICOS
Olá. Esses ícones irão aparecer em sua trilha de aprendizagem toda vez
que:

OBJETIVO: DEFINIÇÃO:
para o início do houver necessidade
desenvolvimento de de se apresentar um
uma nova compe- novo conceito;
tência;

NOTA: IMPORTANTE:
quando forem as observações
necessários obser- escritas tiveram que
vações ou comple- ser priorizadas para
mentações para o você;
seu conhecimento;
EXPLICANDO VOCÊ SABIA?
MELHOR: curiosidades e
algo precisa ser indagações lúdicas
melhor explicado ou sobre o tema em
detalhado; estudo, se forem
necessárias;
SAIBA MAIS: REFLITA:
textos, referências se houver a neces-
bibliográficas e links sidade de chamar a
para aprofundamen- atenção sobre algo
to do seu conheci- a ser refletido ou dis-
mento; cutido sobre;
ACESSE: RESUMINDO:
se for preciso aces- quando for preciso
sar um ou mais sites se fazer um resumo
para fazer download, acumulativo das últi-
assistir vídeos, ler mas abordagens;
textos, ouvir podcast;
ATIVIDADES: TESTANDO:
quando alguma quando o desen-
atividade de au- volvimento de uma
toaprendizagem for competência for
aplicada; concluído e questões
forem explicadas;
SUMÁRIO
Contribuições de Husserl: “pai da Fenomenologia”.....................12

Fenomenologia: desvendando o conceito.................................................................... 12

Epoché..................................................................................................................................................... 15

A questão do transcender para Husserl...................................................... 17

A Fenomenologia e sua importância para a Psicologia...................................... 21

Fenomenologia de Martim Heidegger................................................23

Compreendendo o pensamento de Heidegger........................................................23

O sentido do ser.............................................................................................................26

Dasein: o Ser-aí...................................................................................................................................28

A Fenomenologia para Heidegger.................................................................. 30

O pensamento existencialista.................................................................33

Raízes do Existencialismo..........................................................................................................33

A visão de Homem no Existencialismo.........................................................34

A questão dá ética no Existencialismo........................................................ 36

Principais nomes do Existencialismo............................................................................... 38

Søren Kierkegaard (1813-1855)........................................................................... 38

Friedrich Nietzsche (1844–1900)....................................................................... 39

Jean-Paul Sartre (1905–1980).............................................................................. 40

Simone de Beauvoir (1908–1986)...................................................................... 41

Albert Camus (1913–1960).......................................................................................42


Existencialismo de Merleau-Ponty e Sartre......................................44

Quem foi Sartre?...............................................................................................................................44

Biografia...............................................................................................................................44

O Existencialismo em Sartre................................................................................ 46

Quem foi Merleau-Ponty?......................................................................................................... 50

O Existencialismo em Ponty..................................................................................52
Fundamentos da Psicologia Humanista 9

01
UNIDADE
10 Fundamentos da Psicologia Humanista

INTRODUÇÃO
Você sabia que a Fenomenologia e o Existencialismo constituem em
base filosófica da Psicologia Humanista? E que o Humanismo é uma das
correntes mais importantes da Psicologia? Os humanistas compreendem
os indivíduos como um todo, sem deixar de considerar a sua singularidade.
Seu desenvolvimento se deu a partir de psicólogos e estudiosos que
encontravam limitações nas teorias psicanalítica e behaviorista, rejeitando
seus pressupostos (considerados por eles como deterministas).

Chamada de “terceira força” da Psicologia, o Humanismo surgiu na


década de 1950 e tem suas bases ancoradas na teoria de Edmund Husserl:
a Fenomenologia e, posteriormente, abarcando também os conceitos do
Existencialismo. Parece complexo não é mesmo? Mas você vai entender
tudinho ao longo desta unidade. Vamos?
Fundamentos da Psicologia Humanista 11

OBJETIVOS
Olá. Seja muito bem-vinda (o). Nosso propósito é auxiliar você no
desenvolvimento das seguintes objetivos de aprendizagem até o término
desta etapa de estudos:

1. Definir as contribuições de Husserl para o desenvolvimento da


Fenomenologia e sua importância para o estudo das ciências
humanas;

2. Definir as contribuições da fenomenologia de Martin Heidgegger


para a compreensão do ser aí;

3. Definir o pensamento existencialista para a compreensão do ser


humano em seu todo;

4. Identificar o existencialismo em Ponty e Sartre.

Então? Preparado para uma viagem sem volta rumo ao conhecimento?


Ao trabalho!
12 Fundamentos da Psicologia Humanista

Contribuições de Husserl: “pai da


Fenomenologia”

OBJETIVO:

Ao término deste capítulo, você será capaz de entender


como a Fenomenologia de Husserl contribuiu de forma
importante para o desenvolvimento da Ciência da Psicologia,
em especial a Humanista. Compreender as bases teóricas
da Psicologia Humanista é de fundamental importância
para no futuro como psicólogos, para não incorrermos em
erros conceituais na aplicação das teorias aos diversos
contextos em que a Psicologia atua. Motivados? Vamos
juntos desenvolver essa competência!

Fenomenologia: desvendando o conceito


A Fenomenologia estuda a experiência dos homens e a forma como
o mundo se apresenta a todo ser humano por meio da experiência. Para
entender o conceito de Fenomenologia, é preciso inicialmente distinguir
duas questões importantes: a atitude natural e a atitude fenomenológica.
A atitude natural é a nossa postura original, ou seja, aquilo que é padrão
para nós. A atitude fenomenológica é quando fazemos uma reflexão
sobre nossos padrões, sobre a atitude natural. É somente pela atitude
fenomenológica que realizamos análises filosóficas. A Fenomenologia
é uma Ciência que estuda a verdade sobre o mundo e as coisas, nos
afastando do nosso envolvimento racional e nos levando em direção à
compreensão do mundo que nos cerca (SILVA et al., 2006).

Pensando na etimologia da palavra, de maneira geral, Fenomeno-


logia significa o estudo dos fenômenos, isto é, como eles são percebidos,
pensados e falados, ela vai mostrar que o mundo é o fenômeno que pre-
cisa ser descortinado para ser compreendido (SILVA et al., 2006). Pode ser
definida também como o estudo da experiência ou consciência. De forma
literal, a Fenomenologia estuda os fenômenos: como as coisas aparentam
ser ou como surgem em nossa experiência ou as maneiras como as ex-
Fundamentos da Psicologia Humanista 13

perimentamos. Sendo assim, os significados que as coisas têm para nós,


para a nossa experiência individual (SILVA et al., 2006).

A Fenomenologia de Husserl

Surgida na Alemanha, a Fenomenologia recebeu influências


da Filosofia, especialmente de Platão, de Descartes e de Brentano. Os
fenomenologistas clássicos mais famosos foram Husserl, Heidegger,
Sartre e Merleau-Ponty. Nesses quatro pensadores, podemos encontrar
diferentes compreensões de Fenomenologia, métodos e resultados.
Figura 1 - Edmund Husserl, principal nome da Fenomenologia

Fonte: Creative Commons

A figura 1 apresenta uma imagem de Edmund Husserl (1859-1938).


Nascido em Prossnitz (na República Tcheca). Husserl estudou Matemática
nas Universidades de Leipzig e de Berlim, e na Universidade de Viena
foi influenciado pelo psicólogo Franz Brentano. Em seu primeiro trabalho,
Philosophie der Arithmetik (1891), procurou derivar conceitos aritméticos
a partir de princípios psicológicos afirmando que as Leis lógicas, eram
necessárias e, portanto, não podiam ser vistas como generalizações
14 Fundamentos da Psicologia Humanista

empíricas. Assim, tentou construir uma lógica “pura” lidando com os


conceitos comuns a todas as Ciências, propondo, dessa maneira, uma
abordagem fenomenológica.

Para Husserl a Fenomenologia influencia o campo das Ciências até


mesmo atualmente, contudo, compreender sua extensão e profundidade
é um desafio. Sua obra teve seu ponto alto na década de 20, porém,
começou a ser divulgada antes da Primeira Guerra Mundial e foi inspiração
para outras teorias, como a Ontologia Existencial e a Ética de Valores
(ZILES, 2007).

Husserl pensou e estruturou um sistema complexo de Filosofia,


partindo da Lógica para a Filosofia da Linguagem, Ontologia (teoria dos
universais e partes do todo), posteriormente, para a teoria Fenomenológica
da Intencionalidade, culminando na teoria Fenomenológica de
Conhecimento, e, por fim, se concentrou na própria Fenomenologia
(SILVA et al., 2006). Husserl definiu a Fenomenologia como “a Ciência da
essência da consciência”, cujo centro seria a intencionalidade, na primeira
pessoa. Dessa forma, pode-se dizer que a Fenomenologia é o estudo da
consciência, isto é, a experiência consciente vivenciada do ponto de vista
da primeira pessoa (SILVA et al., 2006; SMITH, 2018; ZILES, 2007).
Para Husserl, a fenomenologia é uma descrição da
estrutura específica do fenômeno (fluxo imanente de
vivências que constitui a consciência) e, como estrutura
da consciência enquanto consciência, ou seja, como
condição de possibilidade do conhecimento, o é na
medida em que ela, enquanto consciência transcendental,
constitui as significações e na medida em que conhecer
é pura e simplesmente apreender (no plano empírico) ou
constituir (no plano transcendental) os significados naturais
e espirituais. (ZILES, 2007, p. 218)

Na Fenomenologia, estuda-se diferentes maneiras da vivência na


forma como a vivenciamos, partindo da perspectiva do sujeito que a vive
ou a realiza. Assim, é possível caracterizar experiências como ver, ouvir,
imaginar, pensar, sentir, desejar e agir. Analisar um determinado tipo de
experiência por meio da Fenomenologia vai demonstrar as maneiras pelas
quais cada pessoa pode experimentar essa forma de atividade consciente,
ou seja, nossos tipos individuais de experiência é a sua intencionalidade,
Fundamentos da Psicologia Humanista 15

a consciência de ou sobre algo que é experimentado. A maneira como


vejo, conceituo ou entendo o objeto com o qual estou lidando define o
significado desse objeto em minha experiência atual. Da mesma forma, a
Fenomenologia apresenta um estudo do significado em um sentido mais
amplo que inclui mais do que o que possível se expressar (SMITH, 2018).

Epoché
Husserl apresentou a Fenomenologia com uma virada
transcendental, isto é, o estudioso assumiu o ponto de vista kantiano
de “idealismo transcendental”, ou seja, aquele que procura condições
de possibilidade de conhecimento ou de consciência em geral, se
afastando de qualquer realidade para além dos fenômenos. Mas a virada
transcendental de Husserl também envolveu sua descoberta do método
da Epoché (da noção dos céticos gregos de se abster de acreditar), como
representado a seguir (SMITH, 2018).
Figura 2 - Epoché, Fenomenologia Husserliana

Fonte: Elaborado pelos autores (2021).


16 Fundamentos da Psicologia Humanista

A figura 2 apresenta um esquema do que seria o Epoché de


acordo com a Filosofia Husserliana. Segundo seu posicionamento,
devemos praticar a Fenomenologia, ou seja, colocar entre parênteses
a questão da existência do mundo natural ao qual estamos inseridos.
Assim, é importante voltar nossos olhos para a estrutura de nossa própria
experiência consciente. Nosso primeiro resultado é a observação de que
cada ato consciente é uma consciência de algo, isto é, intencional ou
direcionado a algo (SMITH, 2018).
O primeiro passo do método fenomenológico consiste
em abster-se da atitude natural, colocando o mundo
entre parênteses (epoqué). Isso não significa negar sua
existência, mas metodicamente renunciar ao seu uso. Ao
analisar, após essa redução fenomenológica, a corrente
de vivências puras que permanecem, constata que a
consciência é consciência de algo. Esse algo chama
de fenômeno. (ZILES, 2007, p. 218)

Para compreender esse complexo conceito observe a figura 3 e o


exemplo a seguir.
Figura 3 - Pessoa observando a árvore

Fonte: Creative Commons


Fundamentos da Psicologia Humanista 17

EXEMPLO: na figura 3, uma pessoa observa uma árvore. Considere


sua experiência visual em que ela vê uma árvore do outro lado da cerca. Na
reflexão fenomenológica, ela não precisa se preocupar se a árvore existe:
sua experiência é de uma árvore. No entanto, precisamos nos preocupar
com o significado ou a intenção do objeto. Ela vê uma árvore comum, não
uma árvore de maçãs. Vê aquele objeto como uma árvore comum, com
uma determinada forma, com folhas, tronco etc. Assim, entre parênteses
a própria árvore, voltemos nossa atenção para a sua experiência da árvore
e, especificamente, para o conteúdo ou significado da sua experiência.
Husserl denomina essa árvore como percebida de noema ou sentido
noemático da experiência (SMITH, 2018).

A ideia é que, uma vez que você desapegue de se perguntar o que


algo realmente é, você terá a liberdade necessária para estudar como
sua aparência está relacionada com o que você pensa que é. Trata-se
de uma mudança de atenção. Isso é relevante para a introspecção na
medida em que há uma distinção crucial entre o que está acontecendo
na consciência, e o que notamos a respeito. A Epoché Husserliana é um
meio de tomar consciência de processos conscientes que costumam
passar despercebidos. Portanto, se você praticar Epoché, não significa
que você genuinamente cria os aspectos da consciência dos quais se
torna consciente, mas sim que você desloca sua atenção em direção a
eles (SMITH, 2018).

A questão do transcender para Husserl


De acordo com Husserl, quando você pratica Epoché, pode
perceber que experimenta as coisas tridimensionalmente. Tomemos
como exemplo a famosa estátua de Tom Jobim no Rio de Janeiro, observe
a figura 4 para compreender a questão do transcender para Husserl
conforme escreve Smith (2018).
18 Fundamentos da Psicologia Humanista

Figura 4 - Estátua de Tom Jobim na praia de Ipanema no Rio de Janeiro

Fonte: Creative Commons

Ao observar a estátua, a qualquer momento, apenas um dos muitos


lados dela aparecem para você. Para onde quer que você se mova, sempre
haverá um lado invisível, bem como em outras distâncias das quais você
pode experimentar a estátua de Tom. Se você já a viu anteriormente, terá
uma expectativa mais definida e detalhada de sua aparência. Mas, mesmo
assim, uma impressão real do lado de trás atual está faltando. Sem que
você saiba, alguém pode ter passado tinta vermelha na parte de trás, de
modo que sua memória dela seria diferente de seu estado atual.

Essa possível diferença entre a sua expectativa do lado de trás da


estátua e a do seu lado de trás real é um indicativo de outra diferença. Na
consciência, você obviamente tem uma maneira de lembrar e antecipar
características da estátua de Tom - mas a estátua real pode ser diferente.
A maneira como você aprende sobre a estátua real ser diferente da sua
expectativa é através do lado que realmente aparece. Portanto, três
“componentes” estão envolvidos na percepção da estátua: (1) o lado
Fundamentos da Psicologia Humanista 19

que aparece atualmente, (2) como você pensa que é e (3) a estátua real
(SMITH, 2018).

Em princípio, o que você pensa que a estátua é pode estar em plena


correspondência com a estátua real. Experimentar a estátua de todos os
lados e distâncias simultaneamente, no entanto, é impossível. Você só
pode experimentar um lado, e esse lado nunca abrange tudo o que há para
experimentar sobre a estátua de Tom naquele momento. Nesse sentido,
uma experiência completa da estátua de Tom é impossível, enquanto
uma parcial é possível. A impossibilidade de experimentar uma coisa de
todos os lados é um dos motivos pelos quais Husserl disse que uma coisa
sempre transcende (excede) o que dela é dado em uma experiência real.

Pensando no significado geral da palavra “transcendente”, podemos


observar de acordo com a figura 5.
Figura 5 - Etimologia da palavra transcendente

Fonte: Elaborado pelos autores (2021).

Para a Filosofia, “transcendente” significa ultrapassar os limites,


nesse caso, o do conhecimento. Para Husserl são dois significados
para “transcendente”. O primeiro significado se refere ao fato de que a
experiência real de uma coisa sempre carece de impressões dela.
Essas impressões ausentes, no entanto, podem, em princípio, tornar-se
conscientes (embora não todas simultaneamente). O segundo significado
se refere a características das quais temos consciência, mas que em si não
são características da consciência. A causalidade mecânica, por exemplo,
é aplicável a uma pedra, mas não à percepção da pedra. É necessário,
20 Fundamentos da Psicologia Humanista

portanto, distinguir entre a “percepção de uma pedra” como objeto


consciente e a “pedra real” como entidade física, que é transcendente no
segundo sentido (SMITH, 2018).

Husserl chama o objeto consciente que experimentamos quando


percebemos objetos transcendentes como uma pedra de “noema”. Ele
escolhe uma árvore para ilustrar isso. A árvore como objeto transcendente
ou coisa física pertencente à natureza pode queimar-se, ser decomposta
em seus elementos químicos. A árvore como o noema não pode queimar,
não possui elementos químicos, forças, propriedades reais (SILVA et al.,
2006; SMITH, 2018; ZILES, 2007).

A noese são os atos pelos quais a consciência visa um certo objeto


de uma certa maneira, e o conteúdo ou significado desses objetos
visados é o noema. No nível transcendental, as noeses são os atos do
sujeito constituinte que criam os noemas enquanto puras idealidades
ou significações. As noeses empíricas são passivas, porque visam uma
significação preexistente; a noese transcendental é ativa, porque constitui
as próprias significações ideais (ZILES, 2007, p. 217).

Os dois significados de “transcendente” implicam que também


existem dois significados de “imanente”. O sentido de “imanente” já
introduzido refere-se ao fato de que em um dado momento no tempo,
apenas algumas das características de um objeto se dão em experiência.
No entanto, de certa forma, essas características ausentes são vividas,
mesmo que não se entreguem à experiência. Pois, você assume que o
objeto tem essas características, embora elas estejam ausentes no que
diz respeito às impressões atuais (SMITH, 2018).

Você pode, por exemplo, tomar consciência da cor que acha que a
parte de trás de um objeto tem e descrevê-la como espera que seja. Na
verdade, sem tais suposições sobre os aspectos ausentes de um objeto
físico, ele não poderia ser experimentado de forma alguma. Por que se
você gira um objeto, você se torna ciente de novos aspectos do mesmo
objeto, mas esses aspectos precisam de uma concepção desse objeto
que os antecipe ou pelo menos deixe espaço para eles.
Fundamentos da Psicologia Humanista 21

A Fenomenologia e sua importância para a


Psicologia
Como vimos até o momento, a Fenomenologia Husserliana trouxe
um status de Ciência para o estudo dos fenômenos. Sua intenção era tornar
a Filosofia uma Ciência com base sólida e rigor científico, uma Ciência
positiva. Na construção de sua teoria, Husserl apresenta a Fenomenologia
como rigorosa, por vez difícil de entender, porém, sua teoria buscou uma
noção precisa e aprofundada dos fenômenos. Husserl, em suas obras,
fez várias referências à Psicologia, buscando um estudo da consciência
psíquica a partir do método da Fenomenologia Transcendental.

A intenção de Husserl era descrever e compreender como os


fenômenos se apresentam, e as várias formas de apresentação dos
mesmos, como um método de pesquisa dos fenômenos psicológicos,
uma ponte entre a Filosofia e a prática clínica em Psicologia, ele buscava
uma maneira de descrever, de uma forma mais rigorosa as experiências
psíquicas, uma Ciência da subjetividade psíquica (ORENGO et al., 2020).

Husserl e, posteriormente, outros teóricos (ORENGO et al., 2020),


buscaram na Fenomenologia, toda a base para desenvolver a chamada
Psicologia Fenomenológica. Porém, a Fenomenologia Husserliana, como
já abordado anteriormente, foi muito criticada por seu excesso de rigidez,
e a Psicologia Fenomenológica foi dando espaço para outras formas de
compreender a Fenomenologia, constituindo assim, novas abordagens
psicológicas, as chamadas abordagens humanistas fenomenológicas-
existencial tal qual conhecemos atualmente.
22 Fundamentos da Psicologia Humanista

RESUMINDO:

E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu tudinho


mesmo? Agora, só para termos certeza de que você
realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo,
vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido
que o maior nome da Fenomenologia é Edmund Husserl.
Para ele, a Fenomenologia é um método científico
rigoroso que propõe a compreensão dos fenômenos de
forma completa e transcendental, ou seja, compreender
os fenômenos como eles aparecem, como pensamos
que eles são e como eles realmente são. Ele propõe que
nos desapeguemos das coisas como elas realmente
são e que tenhamos a liberdade necessária para nos
perguntarmos como os fenômenos estão relacionados
com o que pensamos sobre eles, uma mudança no
nosso foco de atenção sobre as coisas que vivenciamos.
Tal mudança de foco foi um fator determinante para a
relação da Fenomenologia com a Psicologia, contribuindo
de forma essencial para o desenvolvimento da Ciência
Psicológica Humanista. E agora que você já aprendeu que
a Fenomenologia é a base para a Psicologia Humanista,
tenho certeza de que deu mais um passo importante para
aprimorar sua formação em Psicologia.
Fundamentos da Psicologia Humanista 23

Fenomenologia de Martim Heidegger

OBJETIVO:

Ao término deste capítulo, você será capaz de entender


como a Fenomenologia de Husserl contribuiu de forma
importante para o desenvolvimento da Ciência da
Psicologia, em especial a Humanista. Compreender as
bases teóricas da Psicologia Humanista é de fundamental
relevância para no futuro, como psicólogos, não incorrermos
em erros conceituais na aplicação das teorias aos diversos
contextos em que a Psicologia atua. Motivados? Vamos
juntos desenvolver essa competência!

Compreendendo o pensamento de Heidegger


Martin Heidegger (1889-1976) (figura 6) foi um filósofo alemão
cujo trabalho é associado à Fenomenologia e ao Existencialismo. Suas
ideias exerceram influência no desenvolvimento da Filosofia europeia
contemporânea e tiveram um impacto muito além da Filosofia, por
exemplo, nas teorias da Arquitetura, da Crítica Literária, da Teologia,
da Psicoterapia e das Ciências Cognitivas. As obras de Heidegger são
consideradas contribuições críticas para a história da Filosofia. Seu
trabalho está consistentemente a serviço de uma formulação de “como”
pensar, isto é, o método rigoroso e poderoso da Fenomenologia.
24 Fundamentos da Psicologia Humanista

Figura 6 - Heidegger

Fonte: Creative Commons

A Filosofia de Heidegger começou quando ele leu Brentano e


Aristóteles com o objetivo de compreender o que une todos os modos
possíveis de Ser. Estudou também Kant, Kierkegaard, Nietzsche e,
talvez o mais importante de todos os pensadores para seus estudos
subsequentes: Husserl (WHEELER, 2020). Em 1915, Husserl assumiu
um cargo em Freiburg e em 1919 Heidegger tornou-se seu assistente,
posteriormente, quando Husserl se aposentou, Heidegger assumiu seu
cargo, nessa época ele escreveu a sua principal obra intitulada Ser e
Tempo (1927). Tal obra foi marcante para os estudos de Heidegger, o marco
inicial da Filosofia contemporânea na Europa que deu a ele visibilidade
intelectual e status de filósofo (ANTISSERI; REALE 2003).
Fundamentos da Psicologia Humanista 25

SAIBA MAIS:

Franz Bretano foi a grande inspiração de Heidegger para


a Filosofia científica. Ele foi um fiel discípulo ortodoxo de
Bretano, porém em um determinado momento começou a
ter dúvidas sobre os conceitos do mestre, que foi descrito
em sua obra A Logische Untersuchungen. Essa obra foi
considerada um marco, pois convenceu Heidegger a
seguir uma direção divergente de Bretano, questionando
e repensando as noções de intencionalidade propostas
por ele, propondo um novo princípio de consciência. Quer
saber um pouco mais sobre as contribuições de Bretano
para a Psicologia? Basta acessar o texto clicando aqui.

Em 1933, Heidegger ingressou no Partido Nazista e também foi eleito


reitor da Universidade de Freiburg. Nessa época ele alinhou a Educação
universitária com o programa político de Hitler. Até sua renúncia como
reitor em 1934, Heidegger fez discursos públicos em que as imagens e
os símbolos nazistas, bem como as declarações de apoio a Hitler, eram
pano de fundo para suas falas. É possível também observar tal apoio na
linguagem filosófica em sua obra Ser e Tempo (ANTISSERI; REALE 2003;
WHEELER, 2020).
. Figura 7 - Nazismo

Fonte: Creative Commons


26 Fundamentos da Psicologia Humanista

SAIBA MAIS:

O Nazismo (figura 7) foi um movimento político totalitário


liderado por Adolf Hitler, ele era o chefe do Partido Nazista
na Alemanha. Caracterizado pelo extremo nacionalismo e
pelo governo ditatorial, o nazismo compartilhava ainda
elementos do fascismo italiano. O nazismo não era
exclusivamente extremo em suas ideias, mas também, e
principalmente, em sua prática. Foi um movimento anti-
intelectual e ateórico, que enfatizava a vontade do ditador
Hitler que era tido como a única fonte de inspiração
de uma nação, assim como ressaltava uma visão de
aniquilação a todos aqueles que eram considerados os
inimigos do “Ariano”, esse era o único objetivo da política
nazista (FAUSTO, 1998). Para saber mais, acesse o link
clicando aqui.

Heidegger, a partir de 1934, se distanciou cada vez mais da política


nazista, mas não deixou o partido. Depois da guerra, no entanto, um comitê
contra o nazismo em uma Universidade em Freiburg passou a investigar
Heidegger e ele foi proibido de lecionar, voltando a essa atividade apenas
em 1949. Um ano depois foi nomeado professor emérito (ANTISSERI;
REALE 2003; WHEELER, 2020).

Depois de Ser e Tempo, pode-se perceber uma mudança na


Filosofia de Heidegger, conhecida como “a virada” (die Kehre) (WHEELER,
2020). Caracterizada não como uma virada em seu próprio pensamento,
mas principalmente como uma virada no ser, cujos elementos centrais
são indicados por muitos comentaristas como a segunda maior obra de
Heidegger, Contributions to Philosophy (From Enowning) (WHEELER, 2020).

O sentido do ser
Ser e tempo (figura 8) é um livro longo e complexo, o tema central
nessa obra é a relação de Heidegger com a Fenomenologia Transcendental
de Husserl: a noção Husserliana de Ontologia Formal (o estudo das
categorias que descrevem objetos de qualquer espécie, por meio de
nossos julgamentos e percepções), terá se transformado em Ontologia
Fundamentos da Psicologia Humanista 27

Fundamental (uma busca neo-aristotélica do que une e possibilita


nossos variados e diversos sentidos do que é para ser); a Consciência
Transcendental de Husserl (o ego pensante irredutível ou sujeito que
torna possível a investigação objetiva), terá sido transfigurada no Dasein
(o ser inerentemente social que já opera com uma compreensão pré-
teórica das estruturas que tornam possíveis modos particulares de ser);
e a Intencionalidade Husserliana (uma consciência de objetos) substituída
pelo conceito de Cuidado ou Ser-aí (WHEELER, 2020).
Figura 8 - Livro mais importante de Heidegger: Ser e Tempo

Fonte: Creative Commons

Uma das preocupações de Heidegger foi com a questão do


significado do “ser”. Sua primeira formulação dessa questão aos dezessete
anos era: se o que é predicado em significados múltiplos, então qual é
o seu significado fundamental? O que significa ser? A questão do ser,
sem resposta naquela época, tornou-se a principal questão de sua
obra Ser e Tempo vinte anos depois. Examinando a longa história do
significado atribuído a “ser”, Heidegger observou que na tradição filosófica
geralmente se pressupõe que o ser é ao mesmo tempo o conceito
mais universal, o conceito indefinível em termos de outros conceitos e
o conceito autoevidente. Em suma, é um conceito que é quase sempre
dado como certo. No entanto, Heidegger afirma que, embora pareçamos
compreender o ser, ainda precisamos reafirmar a questão do significado
do ser (WHEELER, 2020).
28 Fundamentos da Psicologia Humanista

De acordo com o método de Filosofia que ele emprega em seu


tratado fundamental, antes de tentar dar uma resposta à questão do ser
em geral, Heidegger se propõe a responder a questão do ser de um tipo
particular de entidade, que é o ser humano, o “ser aí”, que ele chama de
Dasein. As descrições fenomenológicas do estar-no-mundo do Dasein,
especialmente a cotidianidade do Dasein e a sua determinação em
relação à morte, atraíram muitos leitores com interesses relacionados
à Filosofia Existencial, Teologia e Literatura. Os conceitos básicos como
temporalidade, compreensão, historicidade, repetição e existência
autêntica ou inautêntica foram transportados e explorados em suas obras
posteriores (WHEELER, 2020).

Dasein: o Ser-aí
Em alemão, a palavra “Dasein” significa vida, existência. É um
substantivo frequentemente usado para demonstrar a existência de
qualquer entidade. Contudo, Heidegger divide a palavra em seus
componentes “Da” e “Sein” e confere a ela um significado único relacionando
à sua resposta à pergunta “quem é o ser humano?”, relacionando-a
com a questão do ser. Conforme mostra a figura 9, a palavra Dasein foi
desmembrada por Heidegger em que “Da” significa lugar (aí) e “Sein”,
significa ser (CERBONE, 2013).
Figura 9 - Nomenclatura da palavra Dasein

Fonte: Elaborado pelos autores (2021).

O Dasein é quem nós somos, o que nos difere de todos os outros


seres porque surge de seu próprio ser.
O homem, portanto, é o ente que se propõe a pergunta
sobre o sentido do ser. Por isso, a proposição correta do
problema do sentido do ser requer explicitação preliminar
daquele ente que se propõe a pergunta sobre o sentido
do ser: e esse ente que nós mesmos já somos sempre e
que tem, entre outras possibilidades de ser, a de buscar,
Fundamentos da Psicologia Humanista 29

nós o indicamos com o termo Ser-aí (Dasein). (ANTISSERI;


REALE 2003, p. 583)

Para Heidegger o Dasein de Ser e Tempo tem uma característica


temporal, ou seja, apresenta uma estrutura ontológica tripla: existência,
lançamento e queda, pela qual o ser do Dasein é definido, conforme
aponta a figura 10.
Figura 10 - Estrutura temporal do Dasein

Fonte: Elaborado pelos autores (2021).

A questão da temporalidade do Dasein tem relação com o futuro, o


passado e o presente, como apontado na figura 10, porém não se trata de
um tempo cronológico, é uma temporalidade de movimento.

EXEMPLO: o “voltar” às possibilidades que foram é o passado,


no momento do lançamento, e a sua projeção no movimento “vir para”
seria o futuro no momento da existência, em que ambos se dão no “estar
com outros”, ou seja, o presente no momento da queda, proporcionando
a unidade original do futuro, do passado e do presente que constitui a
temporalidade autêntica. Assim, ele se encaminha para o futuro sempre
voltando ao seu passado; o passado que não é apenas passado, mas que
ainda existe como tendo sido. (SOUBA, 2014).

Dessa forma, a repetição das possibilidades da existência, daquilo


que já foi, constitui o fenômeno da história original, aquela que tem suas
raízes na temporalidade. Para Heidegger, não é a consciência pura que
constitui originalmente cada um de nós, mas o ponto de partida da
Filosofia para ele não é a consciência, mas sim o Dasein (SOUBA, 2014).
30 Fundamentos da Psicologia Humanista

A Fenomenologia para Heidegger


A Fenomenologia em Heidegger recebe um novo significado. Ele o
concebe de forma mais ampla e etimológica do que Husserl, que aplica
o termo “fenomenologia” a toda uma Filosofia, e Heidegger utiliza para
designar um método. Visto que em Ser e Tempo a Filosofia é descrita
como “ontologia” e tem o ser como seu tema, ela não pode adotar seu
método de nenhuma das Ciências atuais. Para Heidegger, o método da
Ontologia é a Fenomenologia (WHEELER, 2020).

Cabe aqui trazer uma definição de Ontologia. Conforme aponta a


figura 11, Ontologia significa a Ciência que estuda o ser. Ponto importante
na Fenomenologia de Heidegger.
Figura 11 - Origem da palavra ontologia

Fonte: Elaborado pelos autores (2021).

A Fenomenologia seria a forma de acesso que se tornará o


tema da Ontologia. O ser deve ser compreendido por meio do método
fenomenológico, portanto, para Heidegger a “redução fenomenológica” é
necessária (WHEELER, 2020).

Deve-se dirigir a si mesmo para uma entidade, mas de tal forma


que seu ser seja trazido à tona, assim, é o Dasein que Heidegger entende
como a entidade particular para acessar o ser. Consequentemente, como
o componente básico de sua Fenomenologia, Heidegger adota a redução
fenomenológica Husserliana, mas lhe dá um significado completamente
diferente (WHEELER, 2020).

Isto posto, Heidegger não baseia sua Filosofia na consciência


tal como Husserl. Para ele, a atitude fenomenológica ou teórica
da consciência, é apenas um modo possível daquilo que é mais
fundamental, a saber, o ser do Dasein. Embora concorde com Husserl
Fundamentos da Psicologia Humanista 31

que a constituição transcendental do mundo não pode ser desvelada por


explicações naturalísticas ou físicas, a seu ver não é uma análise descritiva
da consciência que leva a esse fim, mas a análise do Dasein.
Figura 12 - Resumindo o Dasein

Fonte: Elaborado pelos autores (2021).

De acordo com ao figura 12, o Dasein seria o ser impulsionado


para o mundo para construir sua existência, o ser-aí, o ser no mundo.
Por fim, a Fenomenologia para Heidegger não é uma análise descritiva
e independente da consciência. É um método de acesso ao ser, a
Filosofia é uma Ontologia fenomenológica que parte da análise do Dasein
(WHEELER, 2020).
32 Fundamentos da Psicologia Humanista

RESUMINDO:

Ufa! Chegamos ao fim de mais um capítulo. E para ter certeza


que você conseguiu aprender tudo o que vimos até aqui,
vou fazer um resumo. Você deve ter aprendido que Martin
Heidegger foi discípulo de Husserl, um filósofo Alemão que
é considerado o pai da Fenomenologia. Assim como seu
mestre, Heidegger acredita que a Fenomenologia é um
método científico rigoroso, porém diverge dele no que diz
respeito à compreensão do ser. O cerne da Fenomenologia
de Heidegger é a compreensão do ser, mas não qualquer
ser, o Ser-aí, ou Dasein. Esse importante filósofo entendia
o Dasein como sendo nós mesmos, cada um de nós em
sua essência, um diferente do outro, seres em constante
movimento, passado, presente e futuro constituindo uma
história real. Sua Fenomenologia tem o Ser como seu tema
central, e forma junto com Husserl, uma importante base
para a Ciência da Psicologia. Bom, agora você já sabe
tudo sobre a Fenomenologia de Heidegger, então está
mais preparado para seguir com seus estudos rumo à sua
formação em Psicologia.
Fundamentos da Psicologia Humanista 33

O pensamento existencialista

OBJETIVO:

Ao final deste capítulo esperamos que você possa definir


o pensamento existencialista para a compreensão do
ser humano em seu todo, bem como as contribuições
do Existencialismo no desenvolvimento das abordagens
psicológicas com base humanista, além de poder aplicar
seus conceitos em sua prática profissional. E então? Vamos?

Raízes do Existencialismo
O Existencialismo tornou-se um movimento cultural que floresceu
na Europa nas décadas de 1940 e 1950 com Soren Kierkegaard e Friedrich
Nietzsche como precursores do movimento. O Existencialismo foi tanto
um fenômeno literário quanto filosófico, o que sugere que é apenas esse
movimento cultural passado, em vez de uma posição filosófica identificável.
Contudo, o Existencialismo é a teoria ética de que devemos tratar a
liberdade no âmago da existência humana como intrinsecamente valiosa e
a base de todos os outros valores. Se seguirmos essa definição, podemos
reconhecer as fissuras dentro do que é chamado de “existencialismo”
no sentido expansivo e também ver como o Existencialismo pode
fundamentar contribuições para a Psicologia Social, Filosofia da mente,
Filosofia moral, Teoria Cultural e Psicoterapia.

O Existencialismo é um padrão de influência intergeracional, no


qual figuras posteriores leram e se apropriaram do trabalho de figuras
anteriores. O que anima essa tradição (exemplificada aqui por Kierkegaard,
Heidegger e Sartre) é a sua luta contra a religião e o fato de que a escrita
de existencialistas, mesmo os chamados “ateus”, “parece religiosa para
seus leitores”. Curiosamente, qualquer uma das posições leva ao mesmo
lugar: a ideia de autenticidade pessoal está no centro do pensamento
existencial (CROWELL, 2020).
34 Fundamentos da Psicologia Humanista

A abordagem fenomenológica deu forma filosófica ao insight


existencial básico de que pensar sobre a existência humana requer novas
categorias não encontradas no repertório conceitual do pensamento
antigo ou moderno; os seres humanos não podem ser entendidos nem
como substâncias com propriedades fixas, nem como sujeitos interagindo
com um mundo de objetos (CROWELL, 2020). Crowell (2020) afirma ainda
que do ponto de vista existencial, para entender o que é um ser humano,
não basta saber todas as verdades que a Ciência natural - incluindo a
Ciência da Psicologia - poderia nos dizer. O dualista que sustenta que os
seres humanos são compostos de substâncias independentes - “mente” e
“corpo” - não está em melhor situação a esse respeito do que o fisicalista
que sustenta que a existência humana pode ser adequadamente explicada
em termos dos constituintes físicos fundamentais do universo.

O Existencialismo não nega a validade das categorias básicas


da Física, Biologia, Psicologia e outras Ciências. Afirma apenas que os
seres humanos não podem ser totalmente compreendidos em termos
deles. Tampouco se pode obter tal entendimento complementando
nosso quadro científico com um quadro moral. Categorias de teoria
moral, como intenção, culpa, responsabilidade, caráter, dever, virtude
e semelhantes capturam aspectos importantes da condição humana,
mas nem o pensamento moral (regido pelas normas do bom e do certo),
nem o pensamento científico (regido pela norma da verdade) é suficiente
(CROWELL, 2020).

A visão de Homem no Existencialismo


O Existencialismo é a Filosofia da existência que surgiu na Europa
após a Primeira Guerra Mundial, expandindo-se nas duas décadas
subsequentes à Segunda Guerra, sendo um reflexo da Europa do Pós-
guerra: uma Europa dilacerada por regimes totalitários. Um tempo de crise
do romantismo, idealismo, positivismo e marxismo. Sua visão de homem
é de um homem dilacerado, porém singular (ANTISSERI; REALE 2003).
Dessa forma, “a existência é indedutível e a realidade não se identifica
com, nem se reduz à racionalidade” (ANTISSERI; REALE 2003, p. 594).
Fundamentos da Psicologia Humanista 35

Existem três outros pontos básicos do pensamento existencialista


(além da não identificação com a realidade): Centralidade da existência,
Transcendência do ser e a possibilidade como descrito na figura 13.
Figura 13 - Pontos básicos do pensamento Existencialista

Fonte: Elaborado pelos autores com base em Antisseri e Reale (2003).

Mas então, como podemos definir o conceito de existência?

A primeira coisa a ser considerara é que a existência é constitutiva


do sujeito que filosofa e, consequentemente, o único sujeito que filosofa é
o homem: sendo assim, a existência é exclusividade do homem, já que o
homem é o único sujeito a filosofar. Adicionalmente a existência é modo de
ser finito e é possibilidade, isto é, um poder ser (ANTISSERI; REALE 2003).

Para entender melhor o conceito de existência descrito anteriormente,


vamos considerar a figura 14 e o exemplo logo em seguida:
Figura 14 - Ser ou não ser

Fonte: Creative Commons


36 Fundamentos da Psicologia Humanista

EXEMPLO: a figura 14 apresenta uma releitura da famosa frase de


Hamlet (Shakespeare), muito usada para trazer uma reflexão filosófica
sobre o sentido do ser, e é pano de fundo para ilustrar o pensamento
existencialista de que uma pedra vai ser sempre uma pedra, assim como
um cachorro vai ser sempre um cachorro ou uma cadeira será sempre
uma cadeira. As coisas e os animais são o que são e vão continuar sendo
assim. Contudo, somente o homem pode ser o que ele decidir ser, sua
existência é poder ser o que quiser (CROWELL, 2020).

A questão dá ética no Existencialismo


Por várias razões, a questão da Ética no Existencialismo é um tanto
problemática. Na verdade, muitos filósofos descartariam a própria noção
de uma Ética Existencialista. Como escola, o Existencialismo é geralmente
avesso à todas as formas de moralidade tradicional e sistemas éticos
abstratos.

Se alguém entende a ética como referindo-se a um conjunto


sistemático de máximas universais, leis ou princípios que se destinam
a governar a ação, então o Existencialismo não tem ética porque todos
os pensadores existencialistas negam expressamente a possibilidade
de justificar adequadamente a ação com base em princípios racionais
ou discursivos argumentos (STEWART, 2012). Por essa razão, não é
de surpreender que alguns dos principais teóricos do movimento
existencialista, como Heidegger e Merleau-Ponty, apesar de seus
trabalhos prolíficos e, na verdade, variados, nunca tenham escrito uma
ética existencialista.

Para Stewart (2012), o principal problema envolvido em explicar ou


reconstruir uma Ética do Existencialismo está no foco crítico ou negativo dos
principais pensadores existencialistas. Por que moralidades sistemáticas e
religiões organizadas são vistas pelos existencialistas como os obstáculos
no caminho de uma realização autêntica da liberdade humana, a última
coisa que os existencialistas desejam fazer é inventar outro sistema moral
no sentido tradicional. Por esse motivo, os pensadores existencialistas
costumam descrever suas posições em termos negativos ou privativos.
Fundamentos da Psicologia Humanista 37

Os existencialistas negam caracteristicamente a validade de


estruturas supostamente abrangentes, objetivas ou pré-existentes que
podem emprestar significado antecedente à experiência humana. Em si
mesma, a experiência humana é radicalmente sem sentido, e adquire
significado e valor apenas por meio de atos subjetivistas de escolha e
de decisão. À primeira vista, isso não pareceria deixar muito material para
trabalhar na construção de uma ética positiva (STEWART, 2012).

Discussões existencialistas de ética podem ser consideradas


metaéticas porque, em vez de oferecer uma doutrina ética positiva,
fornecem reflexões gerais sobre a própria natureza da ética e a situação
moral do indivíduo no mundo. Stewart (2012) afirma, que assim como os
existencialistas rejeitaram o conteúdo da teorização ética abstrata, também
rejeitaram a sua forma discursiva. Por essa razão, muitos dos insights dos
existencialistas sobre a ética não são encontrados em tratados filosóficos
abstratos, mas sim em romances, peças e contos. As obras literárias de
Dostoiévski, Camus e Sartre são ricas em situações de importância ética e
personagens presos em dilemas éticos ilustrativos.

Na medida em que se possa falar com sentido de uma Ética do


Existencialismo, então esse empreendimento compreenderia dois
momentos relacionados, um negativo e outro positivo como mostra o
quadro 1.
Quadro 1 - Comparativo entre os momentos negativos e positivos da ética existencialista

Fonte: Elaborado pelos autores (2021).

Assim, conforme aponta Stewart (2012), a vida autêntica seria


reservada apenas para o herói existencial, aquela criatura quase mítica que
pode de alguma forma afirmar a falta de sentido da existência humana, e
deleitar-se com a liberdade que lhe foi concedida pela “morte de Deus”
ou pelo colapso de todas as fundações ou pontos estáveis de referência.
38 Fundamentos da Psicologia Humanista

O Existencialismo é frequentemente associado a questões


fundamentais da finitude da existência humana, como morte, alienação,
sofrimento e ansiedade. As rápidas mudanças na vida humana desde o
século XIX, acompanhadas pelas ações violentas em nossa própria época,
tornaram necessárias as reflexões sobre esses assuntos (STEWART, 2012).

Podemos destacar mudanças importantes e radicais acontecidas


nos últimos dois séculos:

a. Recessão da igreja e da religião.

b. Avanço das Ciências naturais.

c. Avanços da Ciência e da Tecnologia.

Tais mudanças vieram atestar a veracidade da Ciência e


simultaneamente atestar a falsidade da crença religiosa, que o método
científico crítico e autocorretivo reduz a mera superstição, característica de
épocas passadas e indigna de consideração posterior (STEWART, 2012).

O Existencialismo também se caracteriza por um retorno ao


indivíduo, que pode ser visto como uma reação natural ao surgimento da
cultura de massa e ao anonimato da sociedade moderna. A transferência
das formas tradicionais de vida comunitária para a moderna sociedade
de massas relegou, de inúmeras maneiras, o indivíduo a uma posição
marginal. Fora dessa situação, o Existencialismo aparece como uma
tentativa de falar pelo indivíduo e por seu poder de autodeterminação livre,
quando tudo em seu mundo parece negar até mesmo essa possibilidade
(STEWART, 2012). Isso deve ser suficiente como uma caracterização
geral do Existencialismo e do conjunto de questões éticas que pretende
abordar. Devemos agora nos voltar para os pensadores individuais e para
o papel do Existencialismo na tradição do pensamento ético em geral.

Principais nomes do Existencialismo


Søren Kierkegaard (1813-1855)
Kierkegaard jamais ocupou um cargo acadêmico, porém era uma
pessoa que estudava e escrevia muito. Foi considerado o fundador do
Fundamentos da Psicologia Humanista 39

Existencialismo, especialmente o Existencialismo Cristão (ANTISSERI;


REALE 2003).
Figura 15 - Søren Kierkegaard

Fonte: Creative Commons

Suas principais contribuições para o Existencialismo foram a análise


da experiência religiosa e a primeira análise desenvolvida sobre os muitos
conceitos existenciais, por exemplo: absurdo, angústia, autenticidade,
e a responsabilidade que você carrega quando faz as suas escolhas,
bem como a importância do irracional para a vida dos seres humanos
(ANTISSERI; REALE 2003).

Friedrich Nietzsche (1844–1900)


Nietzsche era filho de um ministro luterano, porém acabou
rompendo com a igreja, tornando-se um dos seus mais atuantes
críticos. É, juntamente com Kierkegaard, considerado uns dos pais do
Existencialismo (ANTISSERI; REALE 2003).
40 Fundamentos da Psicologia Humanista

Figura 16 - Friedrich Nietzsche

Fonte: Creative Commons

Sua principal contribuição foi anunciar a morte de Deus, e mudar


o projeto dos homens de buscar valor e significado para criar valor
e significado, retornando assim, a filosofia para suas raízes gregas
(ANTISSERI; REALE 2003).

Jean-Paul Sartre (1905–1980)


Sartre foi o aluno mais célebre de Heidegger e o principal
existencialista francês. Filósofo, romancista, dramaturgo e ativista político,
Sartre viveu o engajamento no mundo e a liberdade de ser (ANTISSERI;
REALE 2003).
Fundamentos da Psicologia Humanista 41

Figura 17 – Jean-Paul Sartre

Fonte: Creative Commons

Suas principais contribuições foram: popularizar o Existencialismo, em


que a existência precede a essência, além de desenvolver o Existencialismo
como uma Filosofia de liberdade (ANTISSERI; REALE 2003).

Simone de Beauvoir (1908–1986)


Simone de Beauvoir era tida por alguns como um mero porta-voz de
Sartre, porém, foi uma pensadora brilhante por seus próprios méritos e fez
contribuições significativas para a Literatura, feminismo e Existencialismo
(ANTISSERI; REALE 2003).

Entre suas principais contribuições para o Existencialismo estão ainda


o desenvolvimento de uma sofisticada ética existencial e fundamentação
do feminismo moderno (ANTISSERI; REALE 2003).
42 Fundamentos da Psicologia Humanista

Figura 18 – Simone de Beauvoir

Fonte: Creative Commons

Albert Camus (1913–1960)


Albert Camus é considerado como a consciência do Existencialismo.
Um homem compassivo, calmo, sua Filosofia era centrada no que ele
considerava a maior injustiça do universo, ou seja, a morte. Ironicamente,
ele morreu relativamente jovem (ANTISSERI; REALE 2003).
Figura 19 – Albert Camus

Fonte: Creative Commons


Fundamentos da Psicologia Humanista 43

Entre suas principais contribuições para o Existencialismo estão:


escrever o maior e mais acessível de todos os romances existenciais, O
Estranho; desenvolver o Existencialismo como uma Filosofia do absurdo;
infundir a Filosofia existencial com compaixão e humanidade genuína
(ANTISSERI; REALE 2003).

RESUMINDO:

Vejam só, terminamos este capítulo. Espero que você


tenha gostado e tenha aprendido tudinho. Agora, só
para termos certeza de que você realmente entendeu
o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo
o que vimos. Você aprendeu sobre o Existencialismo,
que é uma importante corrente filosófica e também uma
relevante teoria que sustenta a Psicologia, especialmente,
as de base humanista. Surgida na Europa no século XX, o
Existencialismo é entendido como a humanidade, o ser
homem, aquele que pode ser o que ele quiser em sua
existência. Tal teoria também marca o distanciamento da
religião e a proximidade com a Ciência. Teve como seu
fundador o filósofo Kierkegaard. Há também outros nomes
importantes que contribuíram para a sua expansão, como
Heidegger, Sartre e Simone de Beauvoir. Agora que já
passamos por todo o capítulo e você aprendeu muitas
coisas sobre o Existencialismo, deve saber que ele é uma
base relevante para as Psicologias Humanistas tal qual
conhecemos hoje, portanto, tudo o que você aprendeu
até aqui te ajudará a aprimorar sua concepção de homem,
muito importante para a profissão do psicólogo.
44 Fundamentos da Psicologia Humanista

Existencialismo de Merleau-Ponty e Sartre

OBJETIVO:

O objetivo deste capítulo é que você seja capaz de


identificar o Existencialismo em Ponty e Sartre, importantes
teóricos que formam uma das bases da Psicologia
Humanista. Motivados? Vamos juntos aprender sobre o
Existencialismo?

Quem foi Sartre?


Biografia
Jean-Paul Sartre (1905-1980) era filho único de Jean-Baptiste
Sartre e Anne-Marie Schweitzer, nasceu em Paris no ano de 1905. Seu
pai, um oficial da marinha, morreu quando Sartre era bebê, e esse foi um
marco importante em sua vida. Seu pai morreu no ano de 1906, quando
então, mudou-se com a mãe para a casa dos avós maternos. Estudou
em renomadas escolas e se interessou pela Filosofia na juventude, após
ler o ensaio de Henri Bergson Tempo e Livre Arbítrio. Fez doutorado em
Filosofia em Paris pela École Normale Supérieure, onde estudou as ideias
de Kant, Hegel, Kierkegaard, Husserl e Heidegger, sendo principalmente
influenciado pelos estudos de Heidegger (ANTISSERI; REALE 2003;
FLYNN, 2013).

Na década de 1930, conheceu Simone de Beauvoir, uma então


estudante da renomada Sorbonne, que mais tarde tornara-se uma
importante escritora feminista.
Fundamentos da Psicologia Humanista 45

Figura 20 – Sartre e Simone de Beauvoir

Fonte: Creative Commons

Sartre e Simone foram companheiros durante toda a vida, e juntos


foram responsáveis por desafiar costumes e expectativas culturais de
sua época, bem como suas origens burguesas. Seus conflitos e desafios
foram o fio condutor de suas carreiras na Filosofia. Nessa mesma década,
Sartre serviu o exército francês e esteve prisioneiro das tropas alemãs,
sendo libertado em 1941. Sartre era um intelectual politizado, foi ativista
e politicamente engajado, um grande defensor da esquerda francesa
(ANTISSERI; REALE 2003; FLYNN, 2013).
Quadro 2 - Linha do tempo da atividade filosófica e política de Sartre
46 Fundamentos da Psicologia Humanista

Fonte: Elaborado pelos autores (2021).

Sartre viveu com poucas posses, um modo de vida simples, sempre


engajado em causas humanitárias e políticas. Seu estado de saúde piorou
muito a partir da década de 1970 quando ficou praticamente cego. Morreu
em Paris em 15 de abril de 1980 de edema pulmonar, já Simone morreu
seis anos depois e foi enterrada na mesma sepultura de Sartre (ANTISSERI;
REALE 2003; FLYNN, 2013).

SAIBA MAIS:

Que tal aprender um pouco mais sobre as contribuições de


Sartre para a Psicologia Clínica? O texto de Scheider (2008)
traz uma importante reflexão sobre a Fenomenologia de
Sartre e sobre o método biográfico criado por ele como
uma contribuição para a Psicologia Clínica. Para saber mais
clique aqui.

O Existencialismo em Sartre
O tema central em todos os escritos de Sartre, bem como em suas
visões éticas, é a liberdade humana. Como Kierkegaard, Sartre dá ênfase
a escolha do indivíduo, desde que ela seja independente de argumentos
Fundamentos da Psicologia Humanista 47

racionais ou da razão discursiva. Com seu famoso slogan, ‘‘a existência


precede a essência’’, ele nega as afirmações tradicionais de que existe
algum tipo de natureza humana que poderia determinar o indivíduo. Ao
contrário, para Sartre, os seres humanos não têm essência predeterminada;
em vez disso, eles simplesmente existem (STEWART, 2012).

Como apontou Stewart (2012), é responsabilidade do indivíduo criar


sua própria essência por meio de suas ações. Os seres humanos são
essencialmente definidos por seus atos, ou, como diz Sartre, o homem
é a soma total de suas ações, ou seja, a virtude ética central é aceitar
essa liberdade e levar a vida estando ciente de suas escolhas livres,
assim como assumindo a responsabilidade por suas consequências.
O fato ontológico da liberdade radical que Sartre anuncia é libertador e
aterrorizante (STEWART, 2012).

EXEMPLO: sartre diz: ‘’ O homem está condenado a ser livre ‘’, mas
ele quer dizer que a liberdade não é algo que podemos saudar com
alegria irrestrita, mas é quase como uma sentença de prisão, quando
estamos condenados a algo nós enfrentamos com incerteza e angústia,
isto é, a responsabilidade de ser livre torna-se algo aterrorizante porque
cada indivíduo sozinho deve suportar todo o peso da responsabilidade
por sua própria vida (STEWART, 2012).

Os seres humanos criam muitos mecanismos por meio dos quais


tentam negar o fato da liberdade a si mesmos e, assim, fogem da
responsabilidade de sua escolha moral. Sartre chama essa negação de
“má-fé” e explica duas formas que essa negação assume.
48 Fundamentos da Psicologia Humanista

Quadro 3 - A questão da má-fé para Sartre

Fonte: Elaborado pelos autores com base em Stewart (2012).

Na questão da fuga para a facticidade esquece-se que já fez


certas escolhas e já definiu certas prioridades, de modo que fazer uma
coisa é mais importante do que fazer outra. Isso é de má-fé porque o
que era originalmente uma escolha é mais tarde retratado como um fato
fixo fora do controle do indivíduo. De acordo com esta versão de má-fé,
alguém tenta escapar de sua liberdade tornando-se um fato ou uma coisa
(STEWART, 2012).

Na fuga para a transcendência o indivíduo se retrata não como


agindo de má-fé, mas sim como um herói, porque no futuro, ele afirma,
realizará atos heroicos. Para Sartre, essa é uma tentativa de escapar
da responsabilidade e das escolhas livres do passado apelando para
um futuro indeterminado. Nessa versão de má-fé, a pessoa escapa da
liberdade fugindo para o futuro transcendente (STEWART, 2012).

A teoria da responsabilidade de Sartre é muitas vezes considerada


radical, o que levou a muitos mal-entendidos e críticas de seus pontos
de vista. Ele diz, por exemplo, em referência à sua própria experiência na
Segunda Guerra Mundial, que não há vítimas inocentes na guerra, mas, ao
contrário, que todos são, em certo sentido, responsáveis por
​​ ela.
Fundamentos da Psicologia Humanista 49

Figura 21 – Aparatos usados na Segunda Guerra Mundial

Fonte: Creative Commons

O que ele quer dizer que “todos são um pouco responsáveis pela
guerra”? Para Sartre, as lideranças das nações são responsáveis por ela,
contudo, ele afirma que cada um pode escolher viver a guerra como
membro da resistência ou como informante do inimigo, mas de qualquer
forma a pessoa está livre. É com essa liberdade que escolhemos o
que a guerra significará para nós como indivíduos, e como iremos vivê-
la e experimentá-la. Por esse motivo, suas posições são tidas como
controversas e radicais, porém foram revistas e abandonadas por ele
posteriormente (STEWART, 2012).

SAIBA MAIS:

A questão da responsabilidade para Sartre permeia toda


a sua obra e seus estudos, contudo ele jamais escreveu
um livro ou aprofundou especificamente sobre o assunto.
Porém, compreender essa questão é um ponto fundamental
para entender sua teoria. Então que tal aprofundar um
pouco o assunto clicando aqui?
50 Fundamentos da Psicologia Humanista

Quem foi Merleau-Ponty?


Maurice Merleau-Ponty nasceu em 14 de março de 1908. Estudou
Filosofia na Ecole Normale Supérieure em 1930, e rapidamente se tornou
um dos principais franceses filósofos do período durante e, imediatamente,
após a Segunda Guerra Mundial, onde também serviu na infantaria.
Além de ser catedrático de Psicologia Iinfantil na Sorbonne em 1949, ele
foi o mais jovem catedrático de Filosofia no College de France quando
recebeu essa posição em 1952. Ele continuou a cumprir essa função até
sua morte prematura em 1961, e antes disso foi também um importante
contribuidor para a influente revista política, literária e filosófica que foi Les
Temps Modernes (ANTISSERI; REALE 2003).
Figura 22 – Merleau-Ponty

Fonte: Creative Commons

O quadro 4 apresenta uma linha do tempo das principais publicações


de Merleau-Ponty.
Fundamentos da Psicologia Humanista 51

Quadro 4 - Principais publicações de Ponty

Fonte: Elaborado pelos autores (2021).

Junto com Sartre, ele foi frequentemente associado ao


Existencialismo do movimento filosófico, embora nunca tenha proposto
exatamente os mesmos relatos extremos de liberdade, responsabilidade
angustiada e relações conflitantes com os outros, pelos quais o
Existencialismo se tornou famoso e notório. Na verdade, ele passou
grande parte de sua carreira contestando e reformulando muitas das
posições de Sartre, incluindo uma crítica sustentada do que ele via como
a Ontologia Dualista e Cartesiana de Sartre (ANTISSERI; REALE 2003).
52 Fundamentos da Psicologia Humanista

O Existencialismo em Ponty
Sua Filosofia recebeu influências pela obra de Husserl, sua
Fenomenologia estava preocupada em refutar o que ele via como as
tendências gêmeas da Filosofia Ocidental, a relação entre sujeito e objeto,
self e mundo, entre vários outros dualismos (ANTISSERI; REALE 2003).

Ele argumenta ainda que o significado do corpo, ou do corpo-


sujeito, é muitas vezes subestimado pela tradição filosófica que tem
uma tendência a considerar o corpo simplesmente como um objeto que
uma mente transcendente ordena para desempenhar funções variadas
(ANTISSERI; REALE 2003).
Figura 23 – Papa João Paulo II

Fonte: Creative Commons

EXEMPLO: a figura 23 mostra o papa João Paulo II, vamos usar


sua figura para compreendermos melhor a questão do corpo em Ponty.
Quando questionado se pensava em se aposentar por motivo de doença
e/ou pelo avanço da idade, o papa João Paulo II confirmou que sim e
lamentou o fato de seu corpo não ser mais um instrumento dócil, mas sim
uma gaiola. O trabalho de Ponty é frequentemente associado à ideia da
“primazia da percepção”, embora, em vez de rejeitar as formas científicas
e analíticas de conhecer o mundo, Merleau-Ponty simplesmente quis
argumentar que tal conhecimento é sempre derivado em relação às
Fundamentos da Psicologia Humanista 53

exigências mais práticas de exposição do corpo ao mundo (ANTISSERI;


REALE 2003).

Para ele, o sujeito é sempre um corpo e esse corpo sempre no


mundo (ser-no-mundo). Isso quer dizer que a nossa natureza é existencial,
transcendente no tempo e no espaço, e nosso ser-no-mundo impõe
limites a nossa liberdade. Uma vez que nosso corpo busca o equilíbrio,
como um corpo mortal está impedido de tê-lo de forma perpétua (nossa
finitude).

Para Ponty, todo homem é um ser livre e não existe nada que tenha
o poder de anular sua liberdade, contudo, ele entende a liberdade como
condicionada, ou seja, pelo presente (mundo em que se vive) e pelo
passado (que se viveu) (ANTISSERI; REALE 2003). Para ele a compreensão
do mundo e do homem se dá por meio das relações demonstradas na
figura 24.
Figura 24 – O cerne da teoria de Ponty

Fonte: Elaborado pelos autores (2021).

Para ele nós escolhemos nosso mundo e o mundo nos escolhe,


somos uma estrutura psicológica e histórica, e por esse motivo a liberdade
se insere dentro da nossa realidade e está condicionada a ela (ANTISSERI;
REALE 2003).
54 Fundamentos da Psicologia Humanista

SAIBA MAIS:

Merleau-Ponty trouxe muitas contribuições para a


Psicologia, especialmente em sua tese de doutorado
de 1945, em que ele escreveu sobre “Fenomenologia da
Percepção”. Nessa tese ele propõe uma metodologia para
a compreensão dos seres humanos por meio do corpo-
sujeito que já vimos aqui neste capítulo. Para entender um
pouco mais sobre o assunto, que tal dar uma lida no texto
de Maria Cremasco (2009) clicando aqui.

RESUMINDO:

Então vamos lá, aprendeu tudo o que foi apresentado neste


capítulo? E então? Gostou do que lhe mostramos? Agora,
só para termos certeza de que você realmente entendeu o
tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que
vimos. Você deve ter entendido que o Existencialismo de
Sartre tem um grito por liberdade, porém ele também afirma
que a liberdade tem um preço, que são as consequências
dos seus atos. Sartre foi um importante filósofo, também
considerado como o pai do Existencialismo e sua ação
nesse campo não se deu apenas nas questões filosóficas,
ele também teve uma grande interferência e engajamento
político em sua época. Em outro momento do capítulo,
vimos a importância de Merleau-Ponty, um filósofo que
direcionou seus estudos a partir das concepções de
Sartre, mas continuou seu caminho com uma menor
rigidez do que seu antecessor. O mais relevante, porém, é
que o Existencialismo é a maior ponte para as Psicologias
Humanistas, e Ponty teve um importantíssimo papel nesse
desenvolvimento. Que bom que chegamos até aqui, tenho
certeza de que foi dado mais um passo importante para
aprimorar sua formação em Psicologia.
Fundamentos da Psicologia Humanista 55

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