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CARTA

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CARTA 130: A PROBA (Sobre a oragao) INTRODUCAO 1. Ocasido e data da obra A respeito da destinataria, leia-se 0 que foi dito sobre a familia de Proba, na introducao. A nobre matrona Proba, comovida pela passagem do capitulo 8 da carta aos Romanos: “Nao sabemos © que pedir como convém” (Rm 8,26), apresentou a Agostinho o seguinte pedido: “Escreva-me alguma coisa sobre a maneira de orar a Deus e sobre as coisas que eu devo pedir na oraco”. A longa resposta é esta magnifica carta, datada de fins de 411 ou inicio de 412. 2. Apreciacdo da carta Constitui esta carta a Proba obra-prima de direcio, cheia de tato e elevacdo. E certamente a mais citada dentre as epistolas da autoria do bispo de Hipona, se nao for a mais bela. Muitas vezes foi considerada como o tratado de santo Agostinho sobre a oracdo, em geral. Entretanto, parece que — quio preciosa seja — o seu contetido fica propositadamente circunscrito a problematica e a situagao da destinataria: uma vitiva piedosa e rica. Infelizmente, nao encontramos ai nenhum pormenor especial sobre a vida de oracao dos simples fi¢is da- quele tempo. A carta 130 é constituida de 16 capitulos e 31 itens ou miimeros. Integra os tratados de edificagéo, e do grupo de cartas dirigidas a mulheres. 3. Sintese do contevido A essa “primeira dama” de Roma, Agostinho mos- tra que sua qualidade de crist faz dela uma desolata, conforme o sentido paulino: vere vidua et desolata. Isso apesar de viver em meio a numerosa companhia, abundancia de bens materiais, consideragao aos olhos do mundo, ser rica e de alta nobreza. Se bem que em. nada parega desolata — desamparada, sua condicao de peregrina neste mundo assim a torna. E esse 0 es- tado normal do cristao: a nostalgia dos bens eternos (2.4.5). A sua preocupacio com a oragio é grande graca de Deus, que também chama os ricos a seu reino (1,2). Agostinho toca, com profunda delicadeza, o con- selho do desapego evangélico. Manda tomar cuidado com a satide, mas sem se deixar apegar a abundancia, porque “a vitiva que sé busca 0 prazer, mesmo se vive, ja esta morta” (1Tm 5,6). Nao podemos contar em total seguranga com nada neste mundo, nem mesmo com os amigos. E Agos- tinho sempre foi muito sensivel ao bem da amizade! Ainda aqui, no capitulo 2,4, é dele esta expressdo muito citada: “Qualquer que seja a sua situacio, o hhomem nao pode considerar a vida amiga, se nao tiver outro como amigo” (cf. ainda o cap. 6,13). No capitulo 4, 0 santo doutor responde de modo direto & pergunta solicitada: O que pedir na oragao? — diz ele de modo incisivo: Pede a vida feliz, isto 6, a vida bem-aventurada. O que vem a ser a vida feliz? Consistira em viver conforme a prépria vontade ou capricho? Nao, por certo. Apés varias inquirigées sobre o que poderia vir a ser a vida feliz, ele con- clui que para isso nao ha necessidade de abundancia de bens, bastando o suficiente, em vista de ganhar a bem-aventuranga. O mais indicado € repetir com o salmista: “Uma sé coisa peso a Deus e a procuro: ha- bitar na sua casa to- dos os dias de minha vida, para gozar a dogura do Senhor e meditar no seutemplo” (SI 27,4). (Carta 130,8,15.) Rezar é antes de tudo excitar em nés sentimentos de fé, esperanga e amor (8,16.17; 9,18; 16,29). Para tal, ndo é preciso apresentar a Deus quantidade de palavras, pois Deus sabe do que necessitamos. Re- zemos muito com o corag4o! Ele quer que purifique- mos e tornemos mais profundos os desejos da vida bem-aventurada. Assim seremos capazes de receber 0 que ele mesmo quer nos dar. De fato, é imensamente grande o dom que Deus deseja nos comunicar. Nés, porém, ainda somos pequeninos e acanhados para recebé-lo. Pegamos que nosso coragao seja dilatado (8,17). Agostinho convida a usar de oracdo vocal, em horas determinadas, nao com o fim de lembrar a Deus as nossas necessidades, mas para melhor nos convencer de nossa pobreza (9,18). Desconfiemos das longas preces que cansam a aten- so. Antes, imitemos os monges do Egito que rezam por meio de invocagées curtas e repetidas (10,20). Deixemos, por vezes, os labios em repouso e a boca fechada, para fazer falar as lagrimas de nossos olhos e os desejos silenciosos de nossos coracées (10,19). A verdadeira stiplica é grito vindo do coracao. Contudo, nao é censuravel nem inutil rezar lon- gamente, quando temos essa possibilidade. Isto é, quando o cumprimento das acdes necessarias nao é lJesado. Mas rezar longamente nao é rezar com mui- tas palavras. Uma coisa é discurso longo, outra grande amor. O exemplo das oracées de Jesus é apresentado (10,19). © santo doutor oferece, em seguida, bela explica- Gdo dos sete pedidos do pai-nosso, aos quais aplica a vida bem-aventurada (11,21). Assinala, depois, como todas as outras oragées, inclusive as dos livros sapien- ciais, podem se reduzir a esses sete pedidos (12,22). Também da exemplos de oragées que nao sao conve- nientes (12,23). O jejum, mas sobretudo as esmolas ajudam a ora- go. Jejuando e socorrendo os pobres, como que pro- curamos com as méos 0 Deus impalpavel (13,24). No capitulo 14,25.26, ele explica a passagem da carta aos Romanos: “Nao sabemos o que havemos de pedir” (Rm 8,26). Diz ele que isso se refere ao que nés néo gostamos de receber: as provagées. E essas tribulagées, entretanto, nos sao benfazejas. Sao Paulo fez essa experiéncia. Podemos pedir com paciéncia e resignagao para sermos libertados das provagées. Se formos atendidos, nao vamos nos envaidecer por isso. Se, ao contrario, nao o formos, nao nos desencoraje- mos. Digamos com Jesus: “Nao 0 que eu quero, mas 0 que tu queres, Pai” (14,25.26). Nés, cristaos, rezamos numa espécie de “douta ig- norancia”. E porque o Espirito Santo intercede por nés, com gemidos inenarraveis. E ele que nos leva a rezar, inspirando-nos o desejo dos grandes bens ainda por nés desconhecidos (15,28). Agostinho termina essa longa carta lembrando a Proba as suas duas companheiras: as Anas menciona- das na Biblia. Ambas se dedicaram A oragao sem des- falecimento (16,29). £ comovente o apelo final: Ora como pobre, mesmo se és riquissima! (16,30). E eis 0 Ultimo e sincero voto: Rezai também por mim! (16,31). TEXTO A Proba, piedosa serva de Deus, Agostinho, bispo, servidor de Cristo e dos servidores de Cristo, saudacao no Senhor dos senhores. CAPITULO 1 Prélogo: motivos da carta 1. Recordo que pediste e eu te prometi que em tua in- tengo haveria de escrever algo sobre a oracgao. Agora, esse Deus a quem oramos concede-me o tempo e a oportunidade. Venho pagar minha divida e pér-me a servico de teu piedoso desejo, na caridade de Cristo. Nao posso exprimir, por meio de palavras, a alegria que me causou o teu pedido. Nele reconheci quanto te preocupas com téo importante assunto. © que de melhor pode te proporcionar a viuvez do que te dar a ocasiao de oragao constante, dia e noite? Eis o conselho do Apéstolo, assim expresso: “Aquela que é verdadeiramente vita, nha, pée a sua confianca em Deus, e persevera em sti- plicas e oragées dia e noite” (1Tm 5,5). Poderia causar admiragaéo — sendo tu, neste mundo, nobre, rica, mae de numerosa familia e vitiva nao desamparada — que essa preocupacao de orar tenha chegado a ocupar e a dominar 0 teu coracdo. Tal nao se explica sendo por teres compreendido sabi- amente que neste mundo e nesta vida, nao ha real se- guranga para pessoa alguma. Confiar na oragdo, néo nas riquezas 2. Aquele que infundiu em ti esse pensamento reali- zou, sem dtivida, contigo, o mesmo que com os seus discipulos. Ficaram estes entristecidos — n4o por si mesmos, mas pelo género humano em geral — e des- providos de esperanga pela salvagao dos homens, ao ouvirem ser mais facil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus. O Senhor fez-Ihes, entdo, admiravel e mui mise- ricordiosa promessa, ao responder que para Deus era fAcil o que aos homens é impossivel (Mt 19,24-26). Assim, aquele, para quem é€ facil fazer entrar um rico no reino dos céus, te inspirou esta piedosa soli- citude sobre a qual te decidiste a consultar-me: como convém orar. Enquanto estava Jesus nesta terra, garantiu ao rico Zaqueu o reino dos céus (Le 19,9). Depois de ressusci- tado e glorificado na ascensio, fez com que muitos ho- mens ricos desdenhassem este século, enviando-Ihes © Espirito Santo. Tornou-os ainda mais ricos, pondo fim & cobiga que tinham de riquezas. Como te preocuparias com orar a Deus se nio ti- vesses esperancga nele? E como esperarias nele, se confiasses na incerteza das riquezas? Se assim fosse, desprezarias o preceito muito salutar do Apéstolo que diz: “Aos ricos deste mundo, exorto-os que n&o sejam orgulhosos, nem deponham sua esperanga na instabi- lidade da riqueza, mas em Deus, que nos prové tudo com abundancia para que nos alegremos. Que eles facam o bem, se enriquegcam com boas obras, sejam prédigos, capazes de partilhar. Estardo, assim, acu- mulando para si mesmos belo tesouro para o futuro, a fim de obterem a verdadeira vida” (1Tm 6,17-19). CAPITULO 2 Considera-te desolada 3. Deves, pois, pelo amor da verdadeira vida, conside- rar-te desolada neste século, seja qual for a felicidade que te envolva. Em comparacio com aquela vida ver- dadeira, esta — ainda que muito amada — nem me- rece o nome de vida, por mais alegre e prédiga seja. Também é verdadeiro o consolo que o Senhor pro- mete pelo profeta, dizendo: “Eu lhe darei consolag4o verdadeira, paz sobre paz” (Is 57,18.19 — versio da Setenta). Sem esse consolo, em todos os outros conso- los terrenos mais se encontra desolacdo que consolo. As riquezas, 0 brilho das honras e as demais vai- dades com as quais os mortais se julgam felizes — por nao conhecerem a verdadeira felicidade — nada trazem de seguro. Pois, que consolo podem trazer, quando para essas pessoas é mais importante a osten- tagaio do que o necessdrio? Quando os bens adquiri dos atormentam mais pelo temor de os perder, do que pelo prazer de os possuir? Com tais bens os homens n4o se tornam bons. Os que chegam a se tornar bons, na verdade, é pelo bom. uso que deles fazem. E isso é 0 que torna esses bens algo de bom. O verdadeiro consolo n&o se acha neles mesmos, e sim na verdadeira vida. E necessario, pois, que o homem se torne bem-aventurado, ao mesmo tempo que se torna bom. Inseguranca até nas amizades 4. Parece que os homens bons recebem nesta vida nao pequenos consolos. Se a pobreza aperta, se o luto entristece, se a dor corporal atormenta, se o desterro oprime, se qualquer calamidade angustia, existem, contudo, outros homens bons, que nao sé sabem se alegrar com os que se alegram, mas também cho- rar com os que choram (Rm 12,15). Ha pessoas que sabem falar e solidarizar-se amavelmente. Suavizam muito os pesares, aliviam as sobrecargas, ajudam a su- perar as adversidades. E 0 Espirito Santo que as torna boas e age nelas e por elas. Por outro lado, acontece que, mesmo se as riquezas stio abundantes, que nenhuma orfandade suceda, que haja satide corporal e moradia segura na propria paé- tria, nela se encontram também homens perversos em quem ninguém deve confiar, e sim temer. Deles é preciso superar a fraude, o dolo, a ira e as discérdias e traigdes. E acaso isso tudo ndo converte em amargas e duras todas as riquezas? Havera algo de alegre e doce messas coisas? Qualquer seja sua situagao, o homem néo pode con- siderar a vida amiga, se ndo tiver outro como amigo. Mas quem podera encontrar tal amigo, em cujas in- tengdes e conduta possa ter total seguranga nesta vida? Assim como ninguém é conhecido tao bem por outra pessoa, como se conhece a si mesmo, tampouco ninguém conhece a si mesmo a ponto de estar seguro de sua prépria conduta no dia seguinte. Portanto, ainda que muitos homens sejam confia- veis por suas boas obras, e outros muitos alegrem a seus pr6ximos com sua boa conduta, ha também ou- tros que nos entristecem com seu mau procedimento. Por essa ignorancia e incerteza da intengdo humana, o Apéstolo nos admoesta, com justeza, a que nao jul- guemos “prematuramente, antes que venha o Senhor. Ele pora as claras 0 que esta oculto nas trevas e mani- festara os designios dos coracées. Entaéo cada um rece- berd de Deus 0 louvor que lhe for devido” (1Cor 4,5). Nossa condicado humana de soliddo 5. Considera-te desolada nas trevas deste mundo, nas quais peregrinamos para o Senhor. Enquanto cami- nha pela fé e nao pela viséo (2Cor 5,6-7), a alma crista deve considerar-se desolada, e nao cessar de orar. Apreende das divinas e santas Escrituras a diri- gir a elas a vista da fé “como a uma luz que brilha em lugar escuro, até que raie o dia e surja a estrela d’alva em nossos coragées” (2Pd 1,19). Essa luz é como fonte inefavel de esplendor, reluzindo nas trevas de modo tal que as trevas nado chegam a envolvé-la. Para vé- la, temos de limpar os nossos coracées pela fé, pois: “Bem-aventurados os puros de coragdo porque verao a Deus” (Mt 5,8). E ainda: “Sabemos que, por ocasido desta manifestacdo, seremos semelhantes a ele, por- que o veremos tal como ele €” (1Jo 3,2). Apés a morte haverd, entao, a verdadeira vida, o verdadeiro consolo depois da desolac&o. Aquela vida arrancaré a nossa alma da morte, e aquele consolo en- xugard as lagrimas de nossos olhos. Ai nao havera ten- tagdo alguma, conforme diz o salmo: “Livrard meus pés da queda”. Jé que nao haverd tentacao, tampouco haverd stplicas, porque ai ndo cabe a esperanga de bens prometidos, s6 o gozo dos bens contemplados. Por isso, 0 salmista, prossegue, dizendo: “Agradecei 0 Senhor na regido dos vivos”, onde entao estaremos, e no no deserto dos mortos onde agora estamos. Diz 0 Apéstolo: “Pois morrestes e a vossa vida esta escon- dida com Cristo em Deus: quando Cristo, que é anossa vida, se manifestar, entéo vés também com ele sereis manifestados em gléria” (Cl 3,3-4). Essa é a verdadeira vida que os ricos devem con- quistar com suas boas obras, conforme apreenderam. Isso seja para ti verdadeira consolacao. Uma vitva desolada, ainda que tenha muitos filhos e netos e dirija sua casa na piedade, procurando que todos os seus ponham a esperanga em Deus, tem que dizer em sua oracgdo: “Minha alma tem sede de ti, minha carne te deseja com ardor, como terra seca, es- gotada, sem 4gua” (SI 63,2). Viste que esta vida é vida moribunda, por mais consolos humanos que a rodeiem, por muitos compa- nheiros de caminhada que se tenha, por toda abun- dancia de bens que acumule. Bem sabes quao incertas s&o todas essas coisas que deleitam. E em compara- Gao coma felicidade prometida, que poderiam ser elas senao incertezas? O verdadeiro consolo, sé na vida eterna 6. Digo-te isto porque solicitaste minhas palavras a respeito da ora¢o. Tu, que és vitiva rica e nobre, mae de familia numerosa. Convido-te a que te sintas de- solada no meio de todos os que contigo permanecem. nesta vida. Eles te atendem porque ainda nao alcan- gaste aquela vida na qual se encontra 0 verdadeiro e certo consolo. Naquela vida bem-aventurada cumprir-se-4 o que esté escrito na profecia: “Sacia-nos com teu amor pela manhi e alegres exultaremos nossos dias todos. Ale- gra-nos pelos dias em que nos castigaste e os anos em que vimos a desgraga” (SI 90,14-15). CAPITULO 3 O que deve buscar a verdadeira viiiva 7. Antes de chegar essa consola¢Ao, por muita felici- dade de bens temporais que desfrutes, lembra-te de que és desolada, a fim de persistires dia e noite na ora- Gao. O Apéstolo nao atribui isso a qualquer vittva, mas “aquela que é verdadeiramente vitiva, que permanece sozinha, que pée sua confianga em Deus e persevera em stplicas e oracées dia e noite” (1Tm 5,5). Evita, contudo, com grande cautela o que se segue: “Mas a vitiva que sé busca prazer, mesmo se vive, ja esta mor- ta” (1Tm 5,6). © homem, em geral, trata dos interesses que ama © aos quais apetece como algo importante. Com eles se julga feliz. Por isso, a Escritura diz a respeito dos ricos: “Quando vossa riqueza prospera, ndo ponhais nela 0 vosso cora¢ao” (S1 62,11). Isso mesmo eu te digo a respeito dos deleites: se so copiosos, nao apegues teu coracao a eles. Ndo te estimes em demasia por- que os deleites exuberam, porque te inundam, porque fluem como de generosa fonte de felicidade terrena. Concede-Ihes menos apreso e mesmo, pouco caso. Nada busques com eles, sendo a perfeita satide corpo- ral. Essa nao é condendvel, por causa das obrigacées impostas pela vida, antes que este corpo mortal se revista de imortalidade (1Cor 15,54). Isso 60 mesmo que dizer se revista ele da verdadeira, perfeita e perpé- tua sade. Essa que nao vai decaindo com as enfermi- dades terrenas, ainda que tenha de ser reparada com prazeres corruptiveis; mas a satide que ha de se man- ter na seguranga do céu e viver na incorruptibilidade eterna. Pois o Apéstolo disse: “Nao procureis satisfa- zer os desejos da carne” (Rm 13,14). Temos de cuidar da carne, mas sé para as necessidades da satide. O mesmo Paulo diz também: “Pois ninguém jamais quis mal a sua propria carne” (Ef 5,29). A Timéteo, ao que parece, um excessivo mortificador de seu corpo, ele admoesta a que beba: “Toma um pouco de vinho por causa de teu est6mago e de tuas freqiientes fraque- zas” (1Tm 5,23). A vitiva que vivendo esté morta... 8. Se a vitiva vive nos deleites, isto é, se convive com eles, e a eles se apega com prazer no corasio, vivendo esté morta. Por isso, muitos santos e santas evitaram os deleites deste mundo, de todos os modos. Distribuiram pelas maos dos pobres essa mesma ri- queza que é como a mie dos deleites. Passaram- ma com maior seguranga para os tesouros do céu. Quanto a ti, se nao a repartes porque te vés ligada por obrigacées de familia, bem sabes que contas has de dar dela a Deus. Ninguém sabe o que se passa no homem a ndo ser o espirito do homem que nele esta (2Cor 5,11). “Por conseguinte, n4o julgueis prematu- ramente, antes que venha o Senhor. Ele pora as claras © que esta oculto nas trevas, e manifestara os desig- nios dos coragées. Ent&éo, cada um recebera de Deus 0 louvor que the for devido” (1Cor 4,5). Se os deleites afluem, cabe & tua solicitude, como vitiva, nado apegar neles 0 coracao, para que nao se cor- rompa e morra ai esse coragao que deve estar voltado para o alto, para viver. Conta-te no numero daqueles sobre os quais esta escrito: “Que vosso coragdo viva para sempre” (S1 22,27). CAPITULO 4 O que pedir na oracdo 9. JA ouviste quem deves ser, ao orar. Agora, escuta 0 que has de pedir na oraco. Foi justamente esse 0 obje- tivo principal de tua consulta. Ficaste impressionada com 0 que diz 0 Apéstolo: “Nao sabemos o que pedir como convém” (Rm 8,26). Receias que possa causar-te maior prejuizo 0 orar como nado convém, do que nao orar. Posso to dizer em poucas palavras: pede a vida bem- aventurada! Todos os homens querem possuir vida feliz, pois mesmo os que vivem mal nao viveriam desse modo, se nao acreditassem que assim sao, ou que podem vir a ser felizes. Que outra coisa te convém pedir se nao o que bons e maus procuram adquirir, ainda que somente os bons o consigam? caPiTULO 5 Serd feliz quem faz tudo o que quer? 10. Talvez me perguntes aqui 0 que seja essa vida fe- liz.47 Nessa questdo se tém empenhado 0 esforco e 0 6cio de muitos filésofos, os quais tanto menos a pude- ram explicar, quanto menos honraram a Fonte dessa vida e deixaram de lhe render gragas. Primeiramente, considera se temos de concordar com os que dizem ser feliz quem vive conforme a pré: pria vontade. Livre-nos Deus de pensar que tal seja verdade. Pois 0 que aconteceria se alguém quisesse viver de modo iniquo? Nao demonstrara ser tanto mais miseravel, quanto maior facilidade tiver o seu capricho para o mal? Com muita razdo opuseram-se a essa opiniado, mesmo os que filosofaram, sem adorar a Deus. Um deles, Cicero, em Horténcio, varao muito elogiiente, disse: “Outros que nao sao fildsofos, mas que esto dispostos a discutir, afirmam que sao felizes os que vive como querem. E isso falsidade, porque querer 0 que nao é correto é misérrimo. Sentir falta de algo muito desejado nao é tao triste quanto obter o que nao convém”. O que pensas disso? Essas palavras nao te parecem ter sido ditas pela mesma Verdade, por meio de sim- ples homem? Podemos afirmar neste caso o que 0 Apéstolo disse de certo poeta cretense (Epiménides, de Cnossos, séc. VI a.C.), ao aprovar uma frase dele: “Esse testemunho € verdadeiro” (Tt 1,13). Os pedidos legitimos 11. E feliz quem tem tudo quanto quer e nao deseja nada de mal. Assim sendo, procura agora 0 que em. geral desejam as pessoas, quando nao querem nada de mal. Um quer casar; outro, livre do matriménio, prefere passar sua viuvez na continéncia; outro renuncia a toda uniao carnal, mesmo no matriménio. Vé-se que nisso tudo, alguns desejos sio melhores do que outros, mas podemos dizer que nenhum deles tem por objetivo algo impréprio. Desse quilate so: de- sejar ter filhos — 0 que é fruto das bodas; ou o desejar que seus filhos gozem de vida e satide. Porque os viu- vos, ainda que esquecam seu matriménio anterior e ja nao desejem ter filhos, aspiram a que se conservem, incélumes os que ja os tiveram. De tais preocupacées esta certamente livre a virgin- dade perfeita. Contudo, todas as pessoas possuem os seus préximos, seus queridos e queridas, aos quais de- sejam satide temporal, de modo conveniente. Entretanto, obtida essa satide para sie para aqueles a quem amam, os homens podem ja se considerar ple- namente felizes? Eis ai exemplos do que poderiam de- sejar convenientemente. Mas embora possuam tudo o que ha de melhor e muito util e nobre, ainda assim, estao longe da vida feliz. CAPITULO 6 Desejar apenas o suficiente para viver de modo conveni: ente 12. Agrada-te que, além da satide temporal, os fiéis desejem para si e para os seus honras e dignidade? Esta certo se esses bens nao forem desejados por si mesmos, mas para a utilidade dos que vivem sob os seus cuidados. E bom desejé-los. Nao o seria, porém, se fosse por va ostentac&o, por pompa supérflua ou por vaidade nociva. Pode-se desejar para si e para os seus o suficiente — © que for necessario para viver. Disso fala o Apéstolo: “A piedade é, de fato, grande fonte de lucro, mas para quem sabe se contentar. Pois nés nada trouxemos para o mundo, nem coisa alguma dele podemos levar. Se, pois, temos alimento e vestuario, contentemo-nos com isso. Ora, os que querem se enriquecer caem em tentagao e cilada, e em muitos desejos insensatos e perniciosos que mergulham os homens na ruina e na perdic&o. Porque a raiz de todos os males é 0 amor ao dinheiro, por cujo desenfreado desejo alguns se afas- tam da fé, ea simesmos se afligem com multiplos tor- mentos” (1Tm 6,6-10). Quem deseja o suficiente, e nada mais que isso, nada de impréprio deseja. Se assim ndo for, deseja o que nado convém. Desejava 0 certo, e para isso orava quem rogava: “Nao me dés nem riqueza e nem pobreza, concede-me © necessario e suficiente, para que nao seja saciado e te renegue, dizendo: Quem me vé? Nao seja eu neces- sitado e roube e blasfeme o nome de meu Deus” (Pr 30,8-9 — versdo itdlica). De modo claro, vés que tal suficiéncia n4o é desejada por ela mesma, mas para manter a satide do corpo € para uma condicdo decente da pessoa humana: de- coro oportuno em vista daqueles com quem se con- vive honesta e civilmente. Os bens apeteciveis da satide e da amizade 13. De todas essas coisas, séo pois desejaveis por si mesmas: a conservagdo da satide e a amizade. Ao Ppasso que a abundancia de meios necessdrios A vida ndo pode ser apetecida por si mesma. Sé quando de- sejada, com medida, em vista dos dois bens acima mencionados. A conservagao da satide relaciona-se com a propria vida: coma sanidade e integridade da almae do corpo. A amizade, por sua vez, nao deve ser contida em estreitos limites. Ela ha de abracar a todos, pois que todos tém direito a nosso amor e caridade. Ainda que tendamos com mais facilidade a uns do que a outros, a dilecaio se estenda até a nossos inimigos. Temos a obrigacao de orar por eles. Isso é 0 mesmo que dizer que ndo existe ninguém que ndo tenha direito a nosso amor. Se nao for por amor reciproco, ao menos sejaem razdo da natureza comum que une todos os homens entre si. Na verdade, a amizade que mais nos deleita éa que é retribuida com afeicao pura e santa. Se pos- suimos tais amigos, é preciso rezar para os conservar. Se, porém, no os possuimos, é preciso orar para os conseguir. CAPITULO 7 O melhor pedido: a vida bem-aventurada 14. Sera isso tudo? Serdo essas coisas o que constituio sumo da vida feliz? Acaso a realidade nos sugere algo mais que tenha de ser preferido? Na verdade, a suficiéncia e mesmo a incolumidade da satide — a propria ou a dos amigos, enquanto tem- poral devem ser postergadas em face da vida eterna. O corpo pode estar sadio, mas nao 0 espirito — seo eterno nao for anteposto ao temporal. Isso porque nao se consegue utilidade temporal nesta vida, se nado se negocia em merecimentos para a vida eterna. Logo, n&4o ha dtivida de que todas as coisas que podem ser desejadas de modo titil e conveniente, o devem ser em funcio daquela vida, na qual se vive com Deus e de Deus. Nos nos amamos a nés mesmos, quando amamosa Deus. E seguimos o segundo mandamento — amando de verdade o nosso proximo como a nés mesmos, de modo cabal, quando, na medida de nossas possibili- dades, nés os levamos a semelhante amor para com Deus. E que a Deus nés 0 amamos por ele mesmo, e a nds mesmos e ao préximo por amor a ele. Pelo que, ainda que assim vivamos, nao nos consi- deremos ja certos da vida bem-aventurada, como se nada mais tivéssemos que pedir. Como, pois, ja vive- riamos na bem-aventuranga, quando nos falta ainda possuir o unico bem, pelo qual somente podemos viver bem? CAPITULO 8 Despertemos nosso desejo da vida bem-aventurada 15. Por que nos dispersamos entre muitas coisas e, temendo rezar de modo pouco conveniente, indaga- mos © que pedir, em vez de dizer com o salmo: “Uma s6 coisa peco ao Senhor e a procuro: é habitar na casa do Senhor todos os dias de minha vida, para contem- plar as delicias do Senhor e meditar no seu templo” (SI 27,4)? Pois ai os dias nao vém e v4o, o fim de um nao é o inicio de outro. Todos ao mesmo tempo nao tém fim, ai onde nem a prépria vida, a que pertencem estes dias, tem fim. Para alcangarmos essa vida feliz, a verdadeira Vida nos ensinou a orar. Nao com multiplicidade de pala- vras, como se — quanto mais loquazes fossemos — mais nos atenderia; mas rogamos aquele que conhece — conforme suas mesmas palavras — o que nos é ne- cessario, antes mesmo de Ihe pedirmos (Mt 6,7-8). Pode alguém estranhar por que motivo assim disp6s aquele que j4 de antemAo conhece nossa neces- sidade, antes de lhe pedirmos. Esta dito: “Para mos- trar a necessidade de orar sempre, sem jamais esmo- recer” (Le 18,1), o Senhor trouxe o exemplo de certa vitiva. A forca de rogos, ela se fez escutar por um juiz iniquo que nao se deixava mover nem pela justia, nem pela misericérdia, mas que entretanto se sentiu interpelado pelo cansaco. Por ai somos admoestados de que o Senhor Deus, justo e misericordioso, mais se- guramente nos escutara se orarmos sem interrup¢ao, visto que nem mesmo um juiz iniquo e impio péde re- sistir 4 continua insisténcia da viuva. Também ele nos pés ante a vista quao afavel e de bom grado realizaré os bons desejos dos que sabem perdoar os pecados alheios, quando essa vitiva do evangelho, que aspirava a justiga, chegou ao que ape- tecia (Lc 18,1-8). De modo semelhante, o amigo que, vindo de viagem nada encontrou sobre a mesa, e levou seu hospedeiro a ir buscar trés pées emprestados na cada de outro amigo, quem sabe nesses trés pies nao esteja sim- bolizada a Trindade em uma sé substAncia? O que hospedava o viajante encontrou o vizinho ja deitado com todos os filhos. Despertou-o, porém, chamando- © com a maior insisténcia e incémodo, para que Ihe desse 0 alimento desejado. E teve o amigo de lhe dar, mais para se livrar da insisténcia do que como ato de benevoléncia. Esse exemplo nos foi dado para que en- tendamos que, se quem esta dormindo e é despertado contra a sua vontade por um pedinte inoportuno, vé- se obrigado a atendé-lo, com muito maior benigni dade nos satisfard aquele que nao pode dormir e até é quem nos desperta para que venhamos a Ihe pedir fa- vores (Lc 11,5-8). Pedir com fé, esperanca e amor 16. Por isso esta dito: “Pedi e vos sera dado; buscai e achareis; batei e vos sera aberto. Pois todo o que pede, recebe; o que busca, acha; e ao que bate, se abrird. Quem de vos, sendo pai, se o filho lhe pedir um peixe, em vez do peixe Ihe dara uma serpente? Ou ainda, se pedir um ovo, lhe dara um escorpido? Ora, se vés, que sois maus, sabeis dar boas dadivas aos vossos filhos, quanto mais 0 Pai do céu dard o Espirito Santo aos que 0 pedirem” (Le 11,9-13). Trés virtudes so ai recomendadas pelo Apéstolo: a primeira é a fé, simbolizada pelo peixe. Isso, quer por motivo da 4gua do batismo, quer porque a fé se man- tém integra nas flutuacdes deste século. Ao peixe é oposta a serpente. Foi ela que, com venenosa fraude, persuadiu a que se negasse a fé em Deus. A segunda virtude é a esperanca, simbolizada pelo ovo. Isso porque a vida futura do pinto ainda nao é, mas sera. Nao se vé, contudo é esperada. Assim tam- bém a esperanca nado se vé, mas se espera. A espe- ranga que se vé, j4 ndo é esperanga (Rm 8,24). Ao ovo é oposto ao escorpido, porque quem espera na vida eterna esquece-se do que ficou atras, fica parado e tende sé ao que vem pela frente. Para ele é pernicioso olhar para tras. Ao contrario, no escorpido, o que se avista é essa parte posterior, venenosa e em forma de aguilhio. ‘A terceira virtude é a caridade simbolizada pelo pao. “A maior delas é a caridade” (1Cor 13,13). Assim tam- bém, o pao supera por sua utilidade a todos os demais alimentos. Ao pio se opée a pedra, porque os coragées endurecidos recusam a caridade. Ainda que esses simbolos possam ter outra inter- pretacdo mais conveniente, ndo ha dtivida de que aquele que sabe dar boas dadivas a seus filhos nos im- pele a pedir, buscar e chamar. Tanto mais receberemos quanto maior for nossa fé, es- peranca e amor 17. Deus pode mover nosso Animo para isso. Ele o faz, embora saiba do que necessitamos antes de pedir-Ihe. Pode alguém estranhar por que assim dispés aquele que de antem4o conhece todas as nossas necessida- des. Temos de entender que o intuito de nosso Senhor e Deus ndo é ser informado sobre nossa vontade — que nao pode ignorar — mas despertar pelas oracées nosso desejo. Isso nos tornar4 capazes de receber 0 que se prepara para nos dar — o que é imensamente grande. Nés somos, porém, pequenos e estreitos de- mais para recebé-lo. Por isso, dizem-nos: “Dilatai- vos; n3o aceiteis levar o jugo com os infigis” (2Cor 6,13-14). Eo que é tao imensamente grande (“os olhos n&o 0 viram”, porque n4o é cor; “nem os ouvidos ouviram”, porque nfo é som; “nem subiu ao coracao do homem?” [1Cor 2,9] j4 que € 0 coragio do homem que deve subir para 14), nés o recebemos com tanto maior capacidade quanto mais fielmente cremos, es- peramos com mais firmeza e mais ardentemente de- sejamos. CAPITULO 9 Rezar também com palavras, na perseveranca 18. Por conseguinte, ora com fé, na esperanga; e com amor ora pelos desejos incessantes. Contudo, em certas horas e tempos, também reze- mos a Deus com palavras, para nos exortar a nds mesmos, mediante esses simbolos; avaliar nosso pro- gresso nos desejos e para nos estimular com maior ve- eméncia a aumentéa-los. O resultado sera tanto maior quanto mais ardente o sentimento com que se espera. Por esta raz4o, também aquelas palavras do Apéstolo: “Orai sem cessar” (1Ts 5,17), que querem elas signifi- car a nado ser: desejai sem cessar a vida feliz e eterna € nenhuma outra, recebida daquele que é 0 tinico a poder da-la? Desejemos sempre a vida feliz que vem do Senhor Deus e assim oraremos sempre. Todavia, por causa de cuidados e interesses outros, que de certo modo arrefecem o desejo, concentremos em horas determi- nadas 0 espirito para orar; as palavras da oragdo nos ajudam a manter a atenc&o no que desejamos, para nao acontecer que — tendo comegado a se arrefecer — nao se esfrie completamente e se extinga de todo, se no for solicitado com freqiiéncia. Por isso as palavras do Apéstolo: “Apresentai a Deus todas as vossas necessidades” (F1 4,6) nio devem ser entendidas no sentido de que Deus os conhece antes de existirem, mas: em nosso favor sejam conhecidos junto de Deus por sua tolerancia, nao junto dos ho- mens pela jactancia. Poderia também ser interpretado assim: nossos pe- didos manifestam-se aos anjos que estao na presenga de Deus, para que eles de certo modo os apresentem, a Deus e consultem-no a respeito deles. Sabendo os anjos o que deve ser realizado por decisao divina, aconselham anés e nos sugerem de modo claro ou ve- lado. Lemos que foi um anjo que disse a um homem: “Quando fazieis oragio, era eu quem apresentava vos- sas stplicas diante da gléria do Senhor” (Tb 12,12). capiruLo 10 Rezemos longamente com o coragéo 19. Sendo assim, se se tem o tempo de orar longa- mente — sem que sejam prejudicadas as outras agdes boas enecessarias, nao é isso mau nem inutil, embora, como disse, também nelas sempre se deva orar pelo desejo. Segundo o parecer de alguns, também nao é orar com palavras em demasia, fazé-lo por muito tempo. Uma coisa é a palavra em excesso, outra a constAncia do afeto. Pois do préprio Senhor se escre- veu que passava as noites em oragao (Mt 6,7; Le 6,12), e que orava demoradamente (Le 22,43). E nisto, o que fazia a no ser dar-nos 0 exemplo, ele que no tempo éo. intercessor oportuno junto ao Pai, o eterno acolhedor? Rezemos com jaculatérias 20. Conta-se que os monges no Egito fazem freqiien- tes oracgSes, mas brevissimas e, por assim dizer, lan- cadas de stibito, para que a intencio — aplicada com. toda a vigilancia e tao necesséria ao orante — ndo venha a dissipar-se e afrouxar pela excessiva demora. Ensinam ao mesmo tempo com clareza que, se a aten- gdo ndo consegue permanecer desperta, ndo se deve deixa-la enfraquecer; mas, em caso contrario, nao se ha de corta-la. Nao haja, pois, na oragdo muitas palavras, mas nao falte muita stplica, se a inten¢gdo continuar ardente. Porque falar demais ao orar é empregar palavras su- pérfluas em coisa necessdria. Porém, rogar muito — com freqiiente e piedoso clamor do coragao — é bater A porta daquele a quem imploramos. Nesta questdo, trata-se mais de gemidos do que de palavras, mais de chorar do que de falar. Porque ele pde nossas “1a- grimas diante de si” e “nosso gemido nao passa desa- percebido”, Aquele que tudo criou pela Palavra e nao precisa das palavras humanas. CAPITULO 11 A oragao dominical: norma de toda prece 21. Temos necessidade de palavras para incitar-nos e ponderarmos 0 que pedir, e ndo com a intengdo de da- lo a saber ao Senhor ou a comové-lo. Quando, pois, dizemos: “Santificado seja o teu no- me” (Mt 6,9; Lc 11,2), exortamo-nos a desejar que seu nome, imutavelmente santo, seja também conside- rado santo pelos homens, isto é, nao desprezado; o que é de proveito para os homens nAo para Deus. E ao dizermos: “Venha o teu reino”, que — queira- mos ou nio, viré sem falta —, acendemos o desejo deste reino; que venha para nés e nele meresamos reinar. Ao dizermos: “Faga-se a tua vontade assim na terra como no céu”, pedimos-lIhe conceder-nos esta obedi- éncia, de sorte que se faca em nés sua vontade do mesmo modo como ¢ feita no céu, por seus anjos. Dizemos: “O pao nosso de cada dia da-nos hoje”. Pela palavra “hoje”, se entende este nosso tempo. Com a mengio da parte principal, indicando 0 todo pela pa- lavra “pio”, pedimos o que nos basta, ou o sacramento dos figis, necess4rio agora. N&o, porém, para a felici- dade deste tempo, mas para alcancgarmos a felicidade eterna. Dizendo: “Perdoa-nos as nossas dividas, assim como, nés perdoamos a nossos devedores”, tomamos cons- ciéncia do que pedimos e do que temos de fazer para merecer obté-lo. Ao dizer: “Nao nos leves & tentagao”, advertimo-nos a pedir que nao acontega que — privados de seu auxi- lio em alguma tenta¢3o— iludidos, consintamos nela, ou cedamos perturbados. Dizer: “Livra-nos do mal” nos leva a pensar que ainda nao estamos naquele bem em que n&o pade- ceremos mal algum. E este tiltimo pedido da oracdo dominical é tao amplo que o crist&o, em qualquer tri- bulacdio em que se veja, por ele pode gemer, nele der- ramar lagrimas, dele comegar, nele demorar-se e nele terminar a oragao. £ preciso guardar em nossa meméria, por meio des- sas palavras, as realidades mesmas. CAPITULO 12 As oracées biblicas reduzem-se ao pai-nosso 22. Pois quaisquer outras palavras que dissermos — as quais o afeto, precedendo-as, as faz nascer para tornd-las mais claras, ou, seguindo-as, as medita para fazé-las crescer — nao dirao nada que nao se encontre nesta oragd&o dominical, se orarmos como convém. Quem disser algo que nao possa ser contido nesta prece evangélica, sua oracdo, embora nio ilicita, é car- nal; contudo, n&o sei como no ser ilicita, uma vez que somente de modo espiritual devem orar os renascidos do Espirito. Quem diz, por exemplo: “sé glorificado em todos os povos, assim como foste glorificado em nés” (Eclo 36,4) e “Sejam reconhecidos figis os teus profetas”,

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