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CARTA 130: A PROBA
(Sobre a oragao)
INTRODUCAO
1. Ocasido e data da obra
A respeito da destinataria, leia-se 0 que foi dito
sobre a familia de Proba, na introducao.
A nobre matrona Proba, comovida pela passagem
do capitulo 8 da carta aos Romanos: “Nao sabemos
© que pedir como convém” (Rm 8,26), apresentou
a Agostinho o seguinte pedido: “Escreva-me alguma
coisa sobre a maneira de orar a Deus e sobre as coisas
que eu devo pedir na oraco”. A longa resposta é esta
magnifica carta, datada de fins de 411 ou inicio de
412.
2. Apreciacdo da carta
Constitui esta carta a Proba obra-prima de direcio,
cheia de tato e elevacdo. E certamente a mais citada
dentre as epistolas da autoria do bispo de Hipona, se
nao for a mais bela.
Muitas vezes foi considerada como o tratado de
santo Agostinho sobre a oracdo, em geral. Entretanto,
parece que — quio preciosa seja — o seu contetido
fica propositadamente circunscrito a problematica e
a situagao da destinataria: uma vitiva piedosa e rica.
Infelizmente, nao encontramos ai nenhum pormenor
especial sobre a vida de oracao dos simples fi¢is da-
quele tempo.
A carta 130 é constituida de 16 capitulos e 31 itens
ou miimeros. Integra os tratados de edificagéo, e do
grupo de cartas dirigidas a mulheres.
3. Sintese do contevido
A essa “primeira dama” de Roma, Agostinho mos-
tra que sua qualidade de crist faz dela uma desolata,
conforme o sentido paulino: vere vidua et desolata.
Isso apesar de viver em meio a numerosa companhia,
abundancia de bens materiais, consideragao aos olhos
do mundo, ser rica e de alta nobreza. Se bem que em.
nada parega desolata — desamparada, sua condicao
de peregrina neste mundo assim a torna. E esse 0 es-tado normal do cristao: a nostalgia dos bens eternos
(2.4.5).
A sua preocupacio com a oragio é grande graca de
Deus, que também chama os ricos a seu reino (1,2).
Agostinho toca, com profunda delicadeza, o con-
selho do desapego evangélico. Manda tomar cuidado
com a satide, mas sem se deixar apegar a abundancia,
porque “a vitiva que sé busca 0 prazer, mesmo se vive,
ja esta morta” (1Tm 5,6).
Nao podemos contar em total seguranga com nada
neste mundo, nem mesmo com os amigos. E Agos-
tinho sempre foi muito sensivel ao bem da amizade!
Ainda aqui, no capitulo 2,4, é dele esta expressdo
muito citada: “Qualquer que seja a sua situacio, o
hhomem nao pode considerar a vida amiga, se nao
tiver outro como amigo” (cf. ainda o cap. 6,13).
No capitulo 4, 0 santo doutor responde de modo
direto & pergunta solicitada: O que pedir na oragao?
— diz ele de modo incisivo: Pede a vida feliz, isto
6, a vida bem-aventurada. O que vem a ser a vida
feliz? Consistira em viver conforme a prépria vontade
ou capricho? Nao, por certo. Apés varias inquirigées
sobre o que poderia vir a ser a vida feliz, ele con-
clui que para isso nao ha necessidade de abundancia
de bens, bastando o suficiente, em vista de ganhar
a bem-aventuranga. O mais indicado € repetir com o
salmista: “Uma sé coisa peso a Deus e a procuro: ha-
bitar na sua casa to- dos os dias de minha vida, para
gozar a dogura do Senhor e meditar no seutemplo” (SI
27,4). (Carta 130,8,15.)
Rezar é antes de tudo excitar em nés sentimentos de
fé, esperanga e amor (8,16.17; 9,18; 16,29).
Para tal, ndo é preciso apresentar a Deus quantidade
de palavras, pois Deus sabe do que necessitamos. Re-
zemos muito com o corag4o! Ele quer que purifique-
mos e tornemos mais profundos os desejos da vida
bem-aventurada. Assim seremos capazes de receber 0
que ele mesmo quer nos dar. De fato, é imensamente
grande o dom que Deus deseja nos comunicar. Nés,
porém, ainda somos pequeninos e acanhados para
recebé-lo. Pegamos que nosso coragao seja dilatado
(8,17).Agostinho convida a usar de oracdo vocal, em horas
determinadas, nao com o fim de lembrar a Deus as
nossas necessidades, mas para melhor nos convencer
de nossa pobreza (9,18).
Desconfiemos das longas preces que cansam a aten-
so. Antes, imitemos os monges do Egito que rezam
por meio de invocagées curtas e repetidas (10,20).
Deixemos, por vezes, os labios em repouso e a boca
fechada, para fazer falar as lagrimas de nossos olhos
e os desejos silenciosos de nossos coracées (10,19). A
verdadeira stiplica é grito vindo do coracao.
Contudo, nao é censuravel nem inutil rezar lon-
gamente, quando temos essa possibilidade. Isto é,
quando o cumprimento das acdes necessarias nao é
lJesado. Mas rezar longamente nao é rezar com mui-
tas palavras. Uma coisa é discurso longo, outra grande
amor. O exemplo das oracées de Jesus é apresentado
(10,19).
© santo doutor oferece, em seguida, bela explica-
Gdo dos sete pedidos do pai-nosso, aos quais aplica a
vida bem-aventurada (11,21). Assinala, depois, como
todas as outras oragées, inclusive as dos livros sapien-
ciais, podem se reduzir a esses sete pedidos (12,22).
Também da exemplos de oragées que nao sao conve-
nientes (12,23).
O jejum, mas sobretudo as esmolas ajudam a ora-
go. Jejuando e socorrendo os pobres, como que pro-
curamos com as méos 0 Deus impalpavel (13,24).
No capitulo 14,25.26, ele explica a passagem da
carta aos Romanos: “Nao sabemos o que havemos de
pedir” (Rm 8,26). Diz ele que isso se refere ao que
nés néo gostamos de receber: as provagées. E essas
tribulagées, entretanto, nos sao benfazejas. Sao Paulo
fez essa experiéncia. Podemos pedir com paciéncia e
resignagao para sermos libertados das provagées. Se
formos atendidos, nao vamos nos envaidecer por isso.
Se, ao contrario, nao o formos, nao nos desencoraje-
mos. Digamos com Jesus: “Nao 0 que eu quero, mas 0
que tu queres, Pai” (14,25.26).
Nés, cristaos, rezamos numa espécie de “douta ig-
norancia”. E porque o Espirito Santo intercede por
nés, com gemidos inenarraveis. E ele que nos leva arezar, inspirando-nos o desejo dos grandes bens ainda
por nés desconhecidos (15,28).
Agostinho termina essa longa carta lembrando a
Proba as suas duas companheiras: as Anas menciona-
das na Biblia. Ambas se dedicaram A oragao sem des-
falecimento (16,29).
£ comovente o apelo final: Ora como pobre, mesmo
se és riquissima! (16,30).
E eis 0 Ultimo e sincero voto: Rezai também por
mim! (16,31).
TEXTO
A Proba, piedosa serva de Deus,
Agostinho, bispo,
servidor de Cristo e dos servidores de Cristo,
saudacao no Senhor dos senhores.
CAPITULO 1
Prélogo: motivos da carta
1. Recordo que pediste e eu te prometi que em tua in-
tengo haveria de escrever algo sobre a oracgao.
Agora, esse Deus a quem oramos concede-me o
tempo e a oportunidade. Venho pagar minha divida e
pér-me a servico de teu piedoso desejo, na caridade de
Cristo.
Nao posso exprimir, por meio de palavras, a alegria
que me causou o teu pedido. Nele reconheci quanto te
preocupas com téo importante assunto.
© que de melhor pode te proporcionar a viuvez do
que te dar a ocasiao de oragao constante, dia e noite?
Eis o conselho do Apéstolo, assim expresso: “Aquela
que é verdadeiramente vita,
nha, pée a sua confianca em Deus, e persevera em sti-
plicas e oragées dia e noite” (1Tm 5,5).
Poderia causar admiragaéo — sendo tu, neste
mundo, nobre, rica, mae de numerosa familia e vitiva
nao desamparada — que essa preocupacao de orar
tenha chegado a ocupar e a dominar 0 teu coracdo.
Tal nao se explica sendo por teres compreendido sabi-
amente que neste mundo e nesta vida, nao ha real se-
guranga para pessoa alguma.
Confiar na oragdo, néo nas riquezas2. Aquele que infundiu em ti esse pensamento reali-
zou, sem dtivida, contigo, o mesmo que com os seus
discipulos. Ficaram estes entristecidos — n4o por si
mesmos, mas pelo género humano em geral — e des-
providos de esperanga pela salvagao dos homens, ao
ouvirem ser mais facil um camelo passar pelo buraco
de uma agulha do que um rico entrar no reino dos
céus. O Senhor fez-Ihes, entdo, admiravel e mui mise-
ricordiosa promessa, ao responder que para Deus era
fAcil o que aos homens é impossivel (Mt 19,24-26).
Assim, aquele, para quem é€ facil fazer entrar um
rico no reino dos céus, te inspirou esta piedosa soli-
citude sobre a qual te decidiste a consultar-me: como
convém orar.
Enquanto estava Jesus nesta terra, garantiu ao rico
Zaqueu o reino dos céus (Le 19,9). Depois de ressusci-
tado e glorificado na ascensio, fez com que muitos ho-
mens ricos desdenhassem este século, enviando-Ihes
© Espirito Santo. Tornou-os ainda mais ricos, pondo
fim & cobiga que tinham de riquezas.
Como te preocuparias com orar a Deus se nio ti-
vesses esperancga nele? E como esperarias nele, se
confiasses na incerteza das riquezas? Se assim fosse,
desprezarias o preceito muito salutar do Apéstolo que
diz: “Aos ricos deste mundo, exorto-os que n&o sejam
orgulhosos, nem deponham sua esperanga na instabi-
lidade da riqueza, mas em Deus, que nos prové tudo
com abundancia para que nos alegremos. Que eles
facam o bem, se enriquegcam com boas obras, sejam
prédigos, capazes de partilhar. Estardo, assim, acu-
mulando para si mesmos belo tesouro para o futuro, a
fim de obterem a verdadeira vida” (1Tm 6,17-19).
CAPITULO 2
Considera-te desolada
3. Deves, pois, pelo amor da verdadeira vida, conside-
rar-te desolada neste século, seja qual for a felicidade
que te envolva. Em comparacio com aquela vida ver-
dadeira, esta — ainda que muito amada — nem me-
rece o nome de vida, por mais alegre e prédiga seja.
Também é verdadeiro o consolo que o Senhor pro-
mete pelo profeta, dizendo: “Eu lhe darei consolag4o
verdadeira, paz sobre paz” (Is 57,18.19 — versio daSetenta). Sem esse consolo, em todos os outros conso-
los terrenos mais se encontra desolacdo que consolo.
As riquezas, 0 brilho das honras e as demais vai-
dades com as quais os mortais se julgam felizes —
por nao conhecerem a verdadeira felicidade — nada
trazem de seguro. Pois, que consolo podem trazer,
quando para essas pessoas é mais importante a osten-
tagaio do que o necessdrio? Quando os bens adquiri
dos atormentam mais pelo temor de os perder, do que
pelo prazer de os possuir?
Com tais bens os homens n4o se tornam bons. Os
que chegam a se tornar bons, na verdade, é pelo bom.
uso que deles fazem. E isso é 0 que torna esses bens
algo de bom. O verdadeiro consolo n&o se acha neles
mesmos, e sim na verdadeira vida. E necessario, pois,
que o homem se torne bem-aventurado, ao mesmo
tempo que se torna bom.
Inseguranca até nas amizades
4. Parece que os homens bons recebem nesta vida
nao pequenos consolos. Se a pobreza aperta, se o luto
entristece, se a dor corporal atormenta, se o desterro
oprime, se qualquer calamidade angustia, existem,
contudo, outros homens bons, que nao sé sabem se
alegrar com os que se alegram, mas também cho-
rar com os que choram (Rm 12,15). Ha pessoas que
sabem falar e solidarizar-se amavelmente. Suavizam
muito os pesares, aliviam as sobrecargas, ajudam a su-
perar as adversidades. E 0 Espirito Santo que as torna
boas e age nelas e por elas.
Por outro lado, acontece que, mesmo se as riquezas
stio abundantes, que nenhuma orfandade suceda, que
haja satide corporal e moradia segura na propria paé-
tria, nela se encontram também homens perversos
em quem ninguém deve confiar, e sim temer. Deles é
preciso superar a fraude, o dolo, a ira e as discérdias e
traigdes. E acaso isso tudo ndo converte em amargas e
duras todas as riquezas? Havera algo de alegre e doce
messas coisas?
Qualquer seja sua situagao, o homem néo pode con-
siderar a vida amiga, se ndo tiver outro como amigo.
Mas quem podera encontrar tal amigo, em cujas in-
tengdes e conduta possa ter total seguranga nesta
vida? Assim como ninguém é conhecido tao bem poroutra pessoa, como se conhece a si mesmo, tampouco
ninguém conhece a si mesmo a ponto de estar seguro
de sua prépria conduta no dia seguinte.
Portanto, ainda que muitos homens sejam confia-
veis por suas boas obras, e outros muitos alegrem a
seus pr6ximos com sua boa conduta, ha também ou-
tros que nos entristecem com seu mau procedimento.
Por essa ignorancia e incerteza da intengdo humana,
o Apéstolo nos admoesta, com justeza, a que nao jul-
guemos “prematuramente, antes que venha o Senhor.
Ele pora as claras 0 que esta oculto nas trevas e mani-
festara os designios dos coracées. Entaéo cada um rece-
berd de Deus 0 louvor que lhe for devido” (1Cor 4,5).
Nossa condicado humana de soliddo
5. Considera-te desolada nas trevas deste mundo, nas
quais peregrinamos para o Senhor. Enquanto cami-
nha pela fé e nao pela viséo (2Cor 5,6-7), a alma
crista deve considerar-se desolada, e nao cessar de
orar. Apreende das divinas e santas Escrituras a diri-
gir a elas a vista da fé “como a uma luz que brilha em
lugar escuro, até que raie o dia e surja a estrela d’alva
em nossos coragées” (2Pd 1,19). Essa luz é como fonte
inefavel de esplendor, reluzindo nas trevas de modo
tal que as trevas nado chegam a envolvé-la. Para vé-
la, temos de limpar os nossos coracées pela fé, pois:
“Bem-aventurados os puros de coragdo porque verao
a Deus” (Mt 5,8). E ainda: “Sabemos que, por ocasido
desta manifestacdo, seremos semelhantes a ele, por-
que o veremos tal como ele €” (1Jo 3,2).
Apés a morte haverd, entao, a verdadeira vida, o
verdadeiro consolo depois da desolac&o. Aquela vida
arrancaré a nossa alma da morte, e aquele consolo en-
xugard as lagrimas de nossos olhos. Ai nao havera ten-
tagdo alguma, conforme diz o salmo: “Livrard meus
pés da queda”. Jé que nao haverd tentacao, tampouco
haverd stplicas, porque ai ndo cabe a esperanga de
bens prometidos, s6 o gozo dos bens contemplados.
Por isso, 0 salmista, prossegue, dizendo: “Agradecei 0
Senhor na regido dos vivos”, onde entao estaremos, e
no no deserto dos mortos onde agora estamos. Diz
0 Apéstolo: “Pois morrestes e a vossa vida esta escon-
dida com Cristo em Deus: quando Cristo, que é anossavida, se manifestar, entéo vés também com ele sereis
manifestados em gléria” (Cl 3,3-4).
Essa é a verdadeira vida que os ricos devem con-
quistar com suas boas obras, conforme apreenderam.
Isso seja para ti verdadeira consolacao.
Uma vitva desolada, ainda que tenha muitos filhos
e netos e dirija sua casa na piedade, procurando que
todos os seus ponham a esperanga em Deus, tem que
dizer em sua oracgdo: “Minha alma tem sede de ti,
minha carne te deseja com ardor, como terra seca, es-
gotada, sem 4gua” (SI 63,2).
Viste que esta vida é vida moribunda, por mais
consolos humanos que a rodeiem, por muitos compa-
nheiros de caminhada que se tenha, por toda abun-
dancia de bens que acumule. Bem sabes quao incertas
s&o todas essas coisas que deleitam. E em compara-
Gao coma felicidade prometida, que poderiam ser elas
senao incertezas?
O verdadeiro consolo, sé na vida eterna
6. Digo-te isto porque solicitaste minhas palavras a
respeito da ora¢o. Tu, que és vitiva rica e nobre, mae
de familia numerosa. Convido-te a que te sintas de-
solada no meio de todos os que contigo permanecem.
nesta vida. Eles te atendem porque ainda nao alcan-
gaste aquela vida na qual se encontra 0 verdadeiro e
certo consolo.
Naquela vida bem-aventurada cumprir-se-4 o que
esté escrito na profecia: “Sacia-nos com teu amor pela
manhi e alegres exultaremos nossos dias todos. Ale-
gra-nos pelos dias em que nos castigaste e os anos em
que vimos a desgraga” (SI 90,14-15).
CAPITULO 3
O que deve buscar a verdadeira viiiva
7. Antes de chegar essa consola¢Ao, por muita felici-
dade de bens temporais que desfrutes, lembra-te de
que és desolada, a fim de persistires dia e noite na ora-
Gao. O Apéstolo nao atribui isso a qualquer vittva, mas
“aquela que é verdadeiramente vitiva, que permanece
sozinha, que pée sua confianga em Deus e persevera
em stplicas e oracées dia e noite” (1Tm 5,5). Evita,
contudo, com grande cautela o que se segue: “Mas avitiva que sé busca prazer, mesmo se vive, ja esta mor-
ta” (1Tm 5,6).
© homem, em geral, trata dos interesses que ama
© aos quais apetece como algo importante. Com eles
se julga feliz. Por isso, a Escritura diz a respeito dos
ricos: “Quando vossa riqueza prospera, ndo ponhais
nela 0 vosso cora¢ao” (S1 62,11). Isso mesmo eu te digo
a respeito dos deleites: se so copiosos, nao apegues
teu coracao a eles. Ndo te estimes em demasia por-
que os deleites exuberam, porque te inundam, porque
fluem como de generosa fonte de felicidade terrena.
Concede-Ihes menos apreso e mesmo, pouco caso.
Nada busques com eles, sendo a perfeita satide corpo-
ral. Essa nao é condendvel, por causa das obrigacées
impostas pela vida, antes que este corpo mortal se
revista de imortalidade (1Cor 15,54). Isso 60 mesmo
que dizer se revista ele da verdadeira, perfeita e perpé-
tua sade. Essa que nao vai decaindo com as enfermi-
dades terrenas, ainda que tenha de ser reparada com
prazeres corruptiveis; mas a satide que ha de se man-
ter na seguranga do céu e viver na incorruptibilidade
eterna. Pois o Apéstolo disse: “Nao procureis satisfa-
zer os desejos da carne” (Rm 13,14). Temos de cuidar
da carne, mas sé para as necessidades da satide. O
mesmo Paulo diz também: “Pois ninguém jamais quis
mal a sua propria carne” (Ef 5,29). A Timéteo, ao que
parece, um excessivo mortificador de seu corpo, ele
admoesta a que beba: “Toma um pouco de vinho por
causa de teu est6mago e de tuas freqiientes fraque-
zas” (1Tm 5,23).
A vitiva que vivendo esté morta...
8. Se a vitiva vive nos deleites, isto é, se convive
com eles, e a eles se apega com prazer no corasio,
vivendo esté morta. Por isso, muitos santos e santas
evitaram os deleites deste mundo, de todos os modos.
Distribuiram pelas maos dos pobres essa mesma ri-
queza que é como a mie dos deleites. Passaram-
ma com maior seguranga para os tesouros do céu.
Quanto a ti, se nao a repartes porque te vés ligada
por obrigacées de familia, bem sabes que contas has
de dar dela a Deus. Ninguém sabe o que se passa no
homem a ndo ser o espirito do homem que nele esta
(2Cor 5,11). “Por conseguinte, n4o julgueis prematu-ramente, antes que venha o Senhor. Ele pora as claras
© que esta oculto nas trevas, e manifestara os desig-
nios dos coragées. Ent&éo, cada um recebera de Deus 0
louvor que the for devido” (1Cor 4,5).
Se os deleites afluem, cabe & tua solicitude, como
vitiva, nado apegar neles 0 coracao, para que nao se cor-
rompa e morra ai esse coragao que deve estar voltado
para o alto, para viver. Conta-te no numero daqueles
sobre os quais esta escrito: “Que vosso coragdo viva
para sempre” (S1 22,27).
CAPITULO 4
O que pedir na oracdo
9. JA ouviste quem deves ser, ao orar. Agora, escuta 0
que has de pedir na oraco. Foi justamente esse 0 obje-
tivo principal de tua consulta. Ficaste impressionada
com 0 que diz 0 Apéstolo: “Nao sabemos o que pedir
como convém” (Rm 8,26). Receias que possa causar-te
maior prejuizo 0 orar como nado convém, do que nao
orar.
Posso to dizer em poucas palavras: pede a vida bem-
aventurada! Todos os homens querem possuir vida
feliz, pois mesmo os que vivem mal nao viveriam
desse modo, se nao acreditassem que assim sao, ou
que podem vir a ser felizes.
Que outra coisa te convém pedir se nao o que bons e
maus procuram adquirir, ainda que somente os bons
o consigam?
caPiTULO 5
Serd feliz quem faz tudo o que quer?
10. Talvez me perguntes aqui 0 que seja essa vida fe-
liz.47 Nessa questdo se tém empenhado 0 esforco e 0
6cio de muitos filésofos, os quais tanto menos a pude-
ram explicar, quanto menos honraram a Fonte dessa
vida e deixaram de lhe render gragas.
Primeiramente, considera se temos de concordar
com os que dizem ser feliz quem vive conforme a pré:
pria vontade. Livre-nos Deus de pensar que tal seja
verdade. Pois 0 que aconteceria se alguém quisesse
viver de modo iniquo? Nao demonstrara ser tanto
mais miseravel, quanto maior facilidade tiver o seucapricho para o mal? Com muita razdo opuseram-se a
essa opiniado, mesmo os que filosofaram, sem adorar
a Deus. Um deles, Cicero, em Horténcio, varao muito
elogiiente, disse: “Outros que nao sao fildsofos, mas
que esto dispostos a discutir, afirmam que sao felizes
os que vive como querem. E isso falsidade, porque
querer 0 que nao é correto é misérrimo. Sentir falta
de algo muito desejado nao é tao triste quanto obter o
que nao convém”.
O que pensas disso? Essas palavras nao te parecem
ter sido ditas pela mesma Verdade, por meio de sim-
ples homem? Podemos afirmar neste caso o que 0
Apéstolo disse de certo poeta cretense (Epiménides,
de Cnossos, séc. VI a.C.), ao aprovar uma frase dele:
“Esse testemunho € verdadeiro” (Tt 1,13).
Os pedidos legitimos
11. E feliz quem tem tudo quanto quer e nao deseja
nada de mal. Assim sendo, procura agora 0 que em.
geral desejam as pessoas, quando nao querem nada de
mal.
Um quer casar; outro, livre do matriménio, prefere
passar sua viuvez na continéncia; outro renuncia a
toda uniao carnal, mesmo no matriménio.
Vé-se que nisso tudo, alguns desejos sio melhores
do que outros, mas podemos dizer que nenhum deles
tem por objetivo algo impréprio. Desse quilate so: de-
sejar ter filhos — 0 que é fruto das bodas; ou o desejar
que seus filhos gozem de vida e satide. Porque os viu-
vos, ainda que esquecam seu matriménio anterior e
ja nao desejem ter filhos, aspiram a que se conservem,
incélumes os que ja os tiveram.
De tais preocupacées esta certamente livre a virgin-
dade perfeita. Contudo, todas as pessoas possuem os
seus préximos, seus queridos e queridas, aos quais de-
sejam satide temporal, de modo conveniente.
Entretanto, obtida essa satide para sie para aqueles
a quem amam, os homens podem ja se considerar ple-
namente felizes? Eis ai exemplos do que poderiam de-
sejar convenientemente. Mas embora possuam tudo o
que ha de melhor e muito util e nobre, ainda assim,
estao longe da vida feliz.
CAPITULO 6Desejar apenas o suficiente para viver de modo conveni:
ente
12. Agrada-te que, além da satide temporal, os fiéis
desejem para si e para os seus honras e dignidade?
Esta certo se esses bens nao forem desejados por si
mesmos, mas para a utilidade dos que vivem sob os
seus cuidados. E bom desejé-los. Nao o seria, porém,
se fosse por va ostentac&o, por pompa supérflua ou
por vaidade nociva.
Pode-se desejar para si e para os seus o suficiente —
© que for necessario para viver. Disso fala o Apéstolo:
“A piedade é, de fato, grande fonte de lucro, mas para
quem sabe se contentar. Pois nés nada trouxemos
para o mundo, nem coisa alguma dele podemos levar.
Se, pois, temos alimento e vestuario, contentemo-nos
com isso. Ora, os que querem se enriquecer caem em
tentagao e cilada, e em muitos desejos insensatos e
perniciosos que mergulham os homens na ruina e na
perdic&o. Porque a raiz de todos os males é 0 amor ao
dinheiro, por cujo desenfreado desejo alguns se afas-
tam da fé, ea simesmos se afligem com multiplos tor-
mentos” (1Tm 6,6-10).
Quem deseja o suficiente, e nada mais que isso,
nada de impréprio deseja. Se assim ndo for, deseja o
que nado convém.
Desejava 0 certo, e para isso orava quem rogava:
“Nao me dés nem riqueza e nem pobreza, concede-me
© necessario e suficiente, para que nao seja saciado e
te renegue, dizendo: Quem me vé? Nao seja eu neces-
sitado e roube e blasfeme o nome de meu Deus” (Pr
30,8-9 — versdo itdlica).
De modo claro, vés que tal suficiéncia n4o é desejada
por ela mesma, mas para manter a satide do corpo
€ para uma condicdo decente da pessoa humana: de-
coro oportuno em vista daqueles com quem se con-
vive honesta e civilmente.
Os bens apeteciveis da satide e da amizade
13. De todas essas coisas, séo pois desejaveis por si
mesmas: a conservagdo da satide e a amizade. Ao
Ppasso que a abundancia de meios necessdrios A vida
ndo pode ser apetecida por si mesma. Sé quando de-sejada, com medida, em vista dos dois bens acima
mencionados.
A conservagao da satide relaciona-se com a propria
vida: coma sanidade e integridade da almae do corpo.
A amizade, por sua vez, nao deve ser contida em
estreitos limites. Ela ha de abracar a todos, pois que
todos tém direito a nosso amor e caridade. Ainda que
tendamos com mais facilidade a uns do que a outros,
a dilecaio se estenda até a nossos inimigos. Temos a
obrigacao de orar por eles. Isso é 0 mesmo que dizer
que ndo existe ninguém que ndo tenha direito a nosso
amor. Se nao for por amor reciproco, ao menos sejaem
razdo da natureza comum que une todos os homens
entre si. Na verdade, a amizade que mais nos deleita
éa que é retribuida com afeicao pura e santa. Se pos-
suimos tais amigos, é preciso rezar para os conservar.
Se, porém, no os possuimos, é preciso orar para os
conseguir.
CAPITULO 7
O melhor pedido: a vida bem-aventurada
14. Sera isso tudo? Serdo essas coisas o que constituio
sumo da vida feliz? Acaso a realidade nos sugere algo
mais que tenha de ser preferido?
Na verdade, a suficiéncia e mesmo a incolumidade
da satide — a propria ou a dos amigos, enquanto tem-
poral devem ser postergadas em face da vida eterna.
O corpo pode estar sadio, mas nao 0 espirito — seo
eterno nao for anteposto ao temporal. Isso porque nao
se consegue utilidade temporal nesta vida, se nado se
negocia em merecimentos para a vida eterna.
Logo, n&4o ha dtivida de que todas as coisas que
podem ser desejadas de modo titil e conveniente, o
devem ser em funcio daquela vida, na qual se vive
com Deus e de Deus.
Nos nos amamos a nés mesmos, quando amamosa
Deus. E seguimos o segundo mandamento — amando
de verdade o nosso proximo como a nés mesmos, de
modo cabal, quando, na medida de nossas possibili-
dades, nés os levamos a semelhante amor para com
Deus. E que a Deus nés 0 amamos por ele mesmo, e a
nds mesmos e ao préximo por amor a ele.Pelo que, ainda que assim vivamos, nao nos consi-
deremos ja certos da vida bem-aventurada, como se
nada mais tivéssemos que pedir. Como, pois, ja vive-
riamos na bem-aventuranga, quando nos falta ainda
possuir o unico bem, pelo qual somente podemos
viver bem?
CAPITULO 8
Despertemos nosso desejo da vida bem-aventurada
15. Por que nos dispersamos entre muitas coisas e,
temendo rezar de modo pouco conveniente, indaga-
mos © que pedir, em vez de dizer com o salmo: “Uma
s6 coisa peco ao Senhor e a procuro: é habitar na casa
do Senhor todos os dias de minha vida, para contem-
plar as delicias do Senhor e meditar no seu templo” (SI
27,4)? Pois ai os dias nao vém e v4o, o fim de um nao é
o inicio de outro. Todos ao mesmo tempo nao tém fim,
ai onde nem a prépria vida, a que pertencem estes
dias, tem fim.
Para alcangarmos essa vida feliz, a verdadeira Vida
nos ensinou a orar. Nao com multiplicidade de pala-
vras, como se — quanto mais loquazes fossemos —
mais nos atenderia; mas rogamos aquele que conhece
— conforme suas mesmas palavras — o que nos é ne-
cessario, antes mesmo de Ihe pedirmos (Mt 6,7-8).
Pode alguém estranhar por que motivo assim
disp6s aquele que j4 de antemAo conhece nossa neces-
sidade, antes de lhe pedirmos. Esta dito: “Para mos-
trar a necessidade de orar sempre, sem jamais esmo-
recer” (Le 18,1), o Senhor trouxe o exemplo de certa
vitiva. A forca de rogos, ela se fez escutar por um juiz
iniquo que nao se deixava mover nem pela justia,
nem pela misericérdia, mas que entretanto se sentiu
interpelado pelo cansaco. Por ai somos admoestados
de que o Senhor Deus, justo e misericordioso, mais se-
guramente nos escutara se orarmos sem interrup¢ao,
visto que nem mesmo um juiz iniquo e impio péde re-
sistir 4 continua insisténcia da viuva.
Também ele nos pés ante a vista quao afavel e de
bom grado realizaré os bons desejos dos que sabem
perdoar os pecados alheios, quando essa vitiva do
evangelho, que aspirava a justiga, chegou ao que ape-
tecia (Lc 18,1-8).De modo semelhante, o amigo que, vindo de viagem
nada encontrou sobre a mesa, e levou seu hospedeiro
a ir buscar trés pées emprestados na cada de outro
amigo, quem sabe nesses trés pies nao esteja sim-
bolizada a Trindade em uma sé substAncia? O que
hospedava o viajante encontrou o vizinho ja deitado
com todos os filhos. Despertou-o, porém, chamando-
© com a maior insisténcia e incémodo, para que Ihe
desse 0 alimento desejado. E teve o amigo de lhe dar,
mais para se livrar da insisténcia do que como ato de
benevoléncia. Esse exemplo nos foi dado para que en-
tendamos que, se quem esta dormindo e é despertado
contra a sua vontade por um pedinte inoportuno, vé-
se obrigado a atendé-lo, com muito maior benigni
dade nos satisfard aquele que nao pode dormir e até é
quem nos desperta para que venhamos a Ihe pedir fa-
vores (Lc 11,5-8).
Pedir com fé, esperanca e amor
16. Por isso esta dito: “Pedi e vos sera dado; buscai e
achareis; batei e vos sera aberto. Pois todo o que pede,
recebe; o que busca, acha; e ao que bate, se abrird.
Quem de vos, sendo pai, se o filho lhe pedir um peixe,
em vez do peixe Ihe dara uma serpente? Ou ainda, se
pedir um ovo, lhe dara um escorpido? Ora, se vés, que
sois maus, sabeis dar boas dadivas aos vossos filhos,
quanto mais 0 Pai do céu dard o Espirito Santo aos que
0 pedirem” (Le 11,9-13).
Trés virtudes so ai recomendadas pelo Apéstolo: a
primeira é a fé, simbolizada pelo peixe. Isso, quer por
motivo da 4gua do batismo, quer porque a fé se man-
tém integra nas flutuacdes deste século. Ao peixe é
oposta a serpente. Foi ela que, com venenosa fraude,
persuadiu a que se negasse a fé em Deus.
A segunda virtude é a esperanca, simbolizada pelo
ovo. Isso porque a vida futura do pinto ainda nao é,
mas sera. Nao se vé, contudo é esperada. Assim tam-
bém a esperanca nado se vé, mas se espera. A espe-
ranga que se vé, j4 ndo é esperanga (Rm 8,24). Ao ovo
é oposto ao escorpido, porque quem espera na vida
eterna esquece-se do que ficou atras, fica parado e
tende sé ao que vem pela frente. Para ele é pernicioso
olhar para tras. Ao contrario, no escorpido, o que seavista é essa parte posterior, venenosa e em forma de
aguilhio.
‘A terceira virtude é a caridade simbolizada pelo pao.
“A maior delas é a caridade” (1Cor 13,13). Assim tam-
bém, o pao supera por sua utilidade a todos os demais
alimentos. Ao pio se opée a pedra, porque os coragées
endurecidos recusam a caridade.
Ainda que esses simbolos possam ter outra inter-
pretacdo mais conveniente, ndo ha dtivida de que
aquele que sabe dar boas dadivas a seus filhos nos im-
pele a pedir, buscar e chamar.
Tanto mais receberemos quanto maior for nossa fé, es-
peranca e amor
17. Deus pode mover nosso Animo para isso. Ele o faz,
embora saiba do que necessitamos antes de pedir-Ihe.
Pode alguém estranhar por que assim dispés aquele
que de antem4o conhece todas as nossas necessida-
des. Temos de entender que o intuito de nosso Senhor
e Deus ndo é ser informado sobre nossa vontade —
que nao pode ignorar — mas despertar pelas oracées
nosso desejo. Isso nos tornar4 capazes de receber 0
que se prepara para nos dar — o que é imensamente
grande. Nés somos, porém, pequenos e estreitos de-
mais para recebé-lo. Por isso, dizem-nos: “Dilatai-
vos; n3o aceiteis levar o jugo com os infigis” (2Cor
6,13-14). Eo que é tao imensamente grande (“os olhos
n&o 0 viram”, porque n4o é cor; “nem os ouvidos
ouviram”, porque nfo é som; “nem subiu ao coracao
do homem?” [1Cor 2,9] j4 que € 0 coragio do homem
que deve subir para 14), nés o recebemos com tanto
maior capacidade quanto mais fielmente cremos, es-
peramos com mais firmeza e mais ardentemente de-
sejamos.
CAPITULO 9
Rezar também com palavras, na perseveranca
18. Por conseguinte, ora com fé, na esperanga; e com
amor ora pelos desejos incessantes.
Contudo, em certas horas e tempos, também reze-
mos a Deus com palavras, para nos exortar a nds
mesmos, mediante esses simbolos; avaliar nosso pro-
gresso nos desejos e para nos estimular com maior ve-eméncia a aumentéa-los. O resultado sera tanto maior
quanto mais ardente o sentimento com que se espera.
Por esta raz4o, também aquelas palavras do Apéstolo:
“Orai sem cessar” (1Ts 5,17), que querem elas signifi-
car a nado ser: desejai sem cessar a vida feliz e eterna
€ nenhuma outra, recebida daquele que é 0 tinico a
poder da-la?
Desejemos sempre a vida feliz que vem do Senhor
Deus e assim oraremos sempre. Todavia, por causa
de cuidados e interesses outros, que de certo modo
arrefecem o desejo, concentremos em horas determi-
nadas 0 espirito para orar; as palavras da oragdo nos
ajudam a manter a atenc&o no que desejamos, para
nao acontecer que — tendo comegado a se arrefecer —
nao se esfrie completamente e se extinga de todo, se
no for solicitado com freqiiéncia.
Por isso as palavras do Apéstolo: “Apresentai a Deus
todas as vossas necessidades” (F1 4,6) nio devem ser
entendidas no sentido de que Deus os conhece antes
de existirem, mas: em nosso favor sejam conhecidos
junto de Deus por sua tolerancia, nao junto dos ho-
mens pela jactancia.
Poderia também ser interpretado assim: nossos pe-
didos manifestam-se aos anjos que estao na presenga
de Deus, para que eles de certo modo os apresentem,
a Deus e consultem-no a respeito deles. Sabendo os
anjos o que deve ser realizado por decisao divina,
aconselham anés e nos sugerem de modo claro ou ve-
lado. Lemos que foi um anjo que disse a um homem:
“Quando fazieis oragio, era eu quem apresentava vos-
sas stplicas diante da gléria do Senhor” (Tb 12,12).
capiruLo 10
Rezemos longamente com o coragéo
19. Sendo assim, se se tem o tempo de orar longa-
mente — sem que sejam prejudicadas as outras agdes
boas enecessarias, nao é isso mau nem inutil, embora,
como disse, também nelas sempre se deva orar pelo
desejo. Segundo o parecer de alguns, também nao
é orar com palavras em demasia, fazé-lo por muito
tempo. Uma coisa é a palavra em excesso, outra a
constAncia do afeto. Pois do préprio Senhor se escre-
veu que passava as noites em oragao (Mt 6,7; Le 6,12),e que orava demoradamente (Le 22,43). E nisto, o que
fazia a no ser dar-nos 0 exemplo, ele que no tempo éo.
intercessor oportuno junto ao Pai, o eterno acolhedor?
Rezemos com jaculatérias
20. Conta-se que os monges no Egito fazem freqiien-
tes oracgSes, mas brevissimas e, por assim dizer, lan-
cadas de stibito, para que a intencio — aplicada com.
toda a vigilancia e tao necesséria ao orante — ndo
venha a dissipar-se e afrouxar pela excessiva demora.
Ensinam ao mesmo tempo com clareza que, se a aten-
gdo ndo consegue permanecer desperta, ndo se deve
deixa-la enfraquecer; mas, em caso contrario, nao se
ha de corta-la.
Nao haja, pois, na oragdo muitas palavras, mas nao
falte muita stplica, se a inten¢gdo continuar ardente.
Porque falar demais ao orar é empregar palavras su-
pérfluas em coisa necessdria. Porém, rogar muito —
com freqiiente e piedoso clamor do coragao — é bater
A porta daquele a quem imploramos. Nesta questdo,
trata-se mais de gemidos do que de palavras, mais
de chorar do que de falar. Porque ele pde nossas “1a-
grimas diante de si” e “nosso gemido nao passa desa-
percebido”, Aquele que tudo criou pela Palavra e nao
precisa das palavras humanas.
CAPITULO 11
A oragao dominical: norma de toda prece
21. Temos necessidade de palavras para incitar-nos e
ponderarmos 0 que pedir, e ndo com a intengdo de da-
lo a saber ao Senhor ou a comové-lo.
Quando, pois, dizemos: “Santificado seja o teu no-
me” (Mt 6,9; Lc 11,2), exortamo-nos a desejar que seu
nome, imutavelmente santo, seja também conside-
rado santo pelos homens, isto é, nao desprezado; o que
é de proveito para os homens nAo para Deus.
E ao dizermos: “Venha o teu reino”, que — queira-
mos ou nio, viré sem falta —, acendemos o desejo
deste reino; que venha para nés e nele meresamos
reinar.
Ao dizermos: “Faga-se a tua vontade assim na terra
como no céu”, pedimos-lIhe conceder-nos esta obedi-éncia, de sorte que se faca em nés sua vontade do
mesmo modo como ¢ feita no céu, por seus anjos.
Dizemos: “O pao nosso de cada dia da-nos hoje”. Pela
palavra “hoje”, se entende este nosso tempo. Com a
mengio da parte principal, indicando 0 todo pela pa-
lavra “pio”, pedimos o que nos basta, ou o sacramento
dos figis, necess4rio agora. N&o, porém, para a felici-
dade deste tempo, mas para alcancgarmos a felicidade
eterna.
Dizendo: “Perdoa-nos as nossas dividas, assim como,
nés perdoamos a nossos devedores”, tomamos cons-
ciéncia do que pedimos e do que temos de fazer para
merecer obté-lo.
Ao dizer: “Nao nos leves & tentagao”, advertimo-nos
a pedir que nao acontega que — privados de seu auxi-
lio em alguma tenta¢3o— iludidos, consintamos nela,
ou cedamos perturbados.
Dizer: “Livra-nos do mal” nos leva a pensar que
ainda nao estamos naquele bem em que n&o pade-
ceremos mal algum. E este tiltimo pedido da oracdo
dominical é tao amplo que o crist&o, em qualquer tri-
bulacdio em que se veja, por ele pode gemer, nele der-
ramar lagrimas, dele comegar, nele demorar-se e nele
terminar a oragao.
£ preciso guardar em nossa meméria, por meio des-
sas palavras, as realidades mesmas.
CAPITULO 12
As oracées biblicas reduzem-se ao pai-nosso
22. Pois quaisquer outras palavras que dissermos —
as quais o afeto, precedendo-as, as faz nascer para
tornd-las mais claras, ou, seguindo-as, as medita para
fazé-las crescer — nao dirao nada que nao se encontre
nesta oragd&o dominical, se orarmos como convém.
Quem disser algo que nao possa ser contido nesta
prece evangélica, sua oracdo, embora nio ilicita, é car-
nal; contudo, n&o sei como no ser ilicita, uma vez que
somente de modo espiritual devem orar os renascidos
do Espirito.
Quem diz, por exemplo: “sé glorificado em todos
os povos, assim como foste glorificado em nés” (Eclo
36,4) e “Sejam reconhecidos figis os teus profetas”,