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Relações e Estruturas Numéricas

Este documento apresenta conceitos matemáticos básicos como números naturais, inteiros, racionais e reais, relações binárias e de equivalência, funções e ordenação. Aborda também definições axiomáticas dos números naturais e reais.
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Relações e Estruturas Numéricas

Este documento apresenta conceitos matemáticos básicos como números naturais, inteiros, racionais e reais, relações binárias e de equivalência, funções e ordenação. Aborda também definições axiomáticas dos números naturais e reais.
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Dos números naturais aos números reais

Lisa Santos e Fernando Miranda

Departamento de Matemática e Aplicações


Universidade do Minho

5 e 19 de Fevereiro de 2011
Relações binárias

Definição
Sejam X e Y conjuntos. Um subconjunto ρ de X × Y diz-se uma
relação binária de X em Y .

Notação
Escreve-se frequentemente xρ y em vez de (x, y) ∈ ρ e lê-se x está
em relação ρ com y.
Uma relação binária de X em X diz-se uma relação binária em X.

Exemplos
1. X = {a, b, c}, Y = {x, y}, ρ = {(a, x), (b, x), (c, x)};
2. X = {habitantes de Braga}, ρ é a relação “ser filho de”;
3. X = N, ρ = {(n, n + 1) : n ∈ N} (isto é, ρ é a relação de
“passagem ao sucessor”).
Relações de equivalência

Definição
Uma relação binária ρ em X diz-se:
I reflexiva se ∀ x ∈ X xρ x;
I simétrica se xρ y ⇒ yρ x;
I transitiva se xρ y e yρ z ⇒ xρ z.
Uma relação binária que satisfaça as três propriedades acima diz-se
uma relação de equivalência.

Notação
Sejam X um conjunto, ρ uma relação de equivalência em X e
x ∈ X. Então

[x] = {y ∈ X : xρ y} é a classe de equivalência de x.


Relações de equivalência
Exemplo
1. Seja X um conjunto. Defina-se
xρ y ⇔ x = y Relação de igualdade;

[x] = {x}.

2. Seja X um conjunto. Defina-se


∀x, y ∈ X xρ y Relação universal;

[x] = X.

3. Em N defina-se
xρ y ⇔ x e y têm a mesma paridade;

[1] = {2n − 1 : n ∈ N}, [2] = {2n : n ∈ N}.


Relações de equivalência

Definição
O conjunto das classes de equivalência de uma relação de
equivalência definida num conjunto X denota-se por

X/ρ = [x] : x ∈ X ,

e designa-se por conjunto quociente de X pela relação ρ.


Relações de ordem

Definição
Seja X um conjunto. Uma relação binária ≤ em X diz-se:
- antissimétrica se, dados x, y ∈ X, x ≤ y e y ≤ x ⇒ x = y;
- de ordem parcial se for reflexiva, antissimétrica e transitiva;
- dicotómica se, ∀x, y ∈ X x ≤ y ou y ≤ x;
- de ordem total se for uma relação de ordem parcial dicotómica.

No que se segue, x < y significa x ≤ y e x 6= y.


Funções

Definição
Uma função f é uma relação binária de um conjunto A num
conjunto B, verificando:
I ∀a ∈ A ∃b ∈ B (a, b) ∈ f – totalmente definida;
I (a, b) ∈ f e (a, b0 ) ∈ f ⇒ b = b0 – bem definida.


Exemplo
Sejam A = {a, b, c} e B = {x, y, z, w}.
1. f = {(a, x), (b, x)} não é uma função de A em B porque é
uma relação binária que não é totalmente definida;
2. f = {(a, x), (a, y), (b, z), (c, z)} não é uma função de A em B
porque é uma relação binária que não é bem definida.
Funções

Dada uma função f de A em B, usualmente denotamos (a, b) ∈ f


por b = f (a) e representamos a função por

f: A → B
a 7→ f (a).

Nota
São bem conhecidas as definições de função injetiva, sobrejetiva,
bijetiva, composição de funções e função inversa.

Definição
Seja f : A → B função, A1 ⊆ A e B1 ⊆ B. Define-se:
I f (A1 ) = {f (x) : x ∈ A1 } Imagem de A1 por f ;
I f −1 (B1 ) = {x ∈ A : f (x) ∈ B1 } Imagem recı́proca de B1 por f .
Funções

Definição
Dada uma função f : A → B, pode definir-se uma relação de
equivalência em A, a relação núcleo de f , do seguinte modo:

a Ef a0 ⇔ f (a) = f (a0 ).

Em geral, se ρ é uma relação de equivalência em A, define-se a


função projeção do seguinte modo:

π : A → A/ρ
a 7→ [a].
Funções

Teorema

f
A B I f :A→B
I π : A → A/Ef
I ψ : A/Ef → B tal que ψ([a]) = f (a)
π
I O diagrama comuta, i.e., ψ ◦ π = f
ψ
I Além disso, ψ é injetiva
I Se f for sobrejetiva, ψ é bijetiva
A/Ef
Os números reais

Duas abordagens possı́veis:

I Definição axiomática J
Existe um corpo ordenado completo, R, chamado corpo dos
números reais

J Método construtivo I

N ,→ Z ,→ Q ,→ R

Nota
Usaremos o sı́mbolo R para representar, de forma indistinta, o
conjunto dos números reais e a estrutura algébrica formada por
esse conjunto munido de duas operações e uma relação de ordem.
Axiomas de corpo
Axiomas de corpo
Consideremos o conjunto R munido de duas operações binárias,
a adição + : R × R −→ R e a multiplicação · : R × R −→ R,
verificando as propriedades seguintes:
A1 ∀ x, y ∈ R x+y =y+x
A2 ∀ x, y, z ∈ R x + (y + z) = (x + y) + z
A3 ∃ 0 ∈ R ∀ x ∈ R 0+x=x
A4 ∀ x ∈ R ∃ y ∈ R x+y =0
A5 ∀ x, y ∈ R x·y =y·x
A6 ∀ x, y, z ∈ R x · (y · z) = (x · y) · z
A7 ∃ 1 ∈ R \ {0} ∀ x ∈ R \ {0} 1·x=x
A8 ∀ x ∈ R \ {0} ∃ y ∈ R x·y =1
A9 ∀ x, y, z ∈ R x · (y + z) = x · y + x · z
Estes axiomas conferem a (R, +, ·) uma estrutura que se designa
de corpo.
Axiomas de ordem

Axiomas de ordem
Existe um subconjunto de R, que representamos por R+ , e que
designamos como conjunto dos números positivos, que verifica os
axiomas seguintes:
A10 ∀ x, y ∈ R+ x + y ∈ R+ e x · y ∈ R+
A11 ∀ x ∈ R, verifica-se uma e uma só das três situações seguintes:

x = 0, x ∈ R+ , −x ∈ R+

O conjunto dos números reais está agora munido de uma estrutura


de corpo ordenado.
Ordem em R

Definição
Dados x e y em R, diz-se que x é menor do que y e escreve-se
x < y se y − x ∈ R+ .
Define-se também a relação menor ou igual, ≤, da forma natural:

x≤y se x=y ou x < y.

A relação de ordem definida em R permite-nos introduzir as


noções de majorante, minorante, supremo e ı́nfimo de um
subconjunto de R.
Definição
Sejam X ⊆ R e a ∈ R. Diz-se que a é
I majorante de X se ∀ x ∈ X x ≤ a;
I minorante de X se ∀ x ∈ X a ≤ x;
I máximo de X se a é majorante de X e a ∈ X.
Representa-se a = max X;
I mı́nimo de X se a é minorante de X e a ∈ X. Representa-se
a = min X.

Definição
Um conjunto X ⊆ R diz-se majorado ou limitado
superiormente, respectivamente minorado ou limitado
inferiormente, se possui algum majorante, respectivamente
minorante. Se X é simultaneamente majorado e minorado diz-se
limitado.
Definição
Seja X um subconjunto de R. Um elemento a ∈ R diz-se
supremo de X e representa-se a = sup X, se verifica as duas
condições seguintes:
1. ∀ x ∈ X x≤a (a é majorante de X);
2. se b ∈ R é tal que ∀ x ∈ X, x ≤ b, então a ≤ b (a é o
menor dos majorantes).

Definição
Seja X um subconjunto de R. Um elemento a ∈ R diz-se ı́nfimo
de X e representa-se a = inf X, se verifica as duas condições
seguintes:
1. ∀ x ∈ X a≤x (a é minorante de X);
2. se b ∈ R é tal que ∀ x ∈ X, b ≤ x, então b ≤ a (a é o
maior dos minorantes).
Axioma do supremo

Axioma do supremo ou da completude


A12 Todo o subconjunto majorado de R tem supremo.
I Resolvido o problema da existência subsiste o problema da
unicidade.
I Existirá um e um só corpo ordenado completo?
I Definindo R de forma axiomática, a natureza dos objetos que
formam o conjunto dos números reais não é relevante. O que
importa são, de facto, as relações entre esses objetos.
I Nesta perspectiva, admitindo a existência de dois corpos
ordenados completos, R e K, existe uma forma de identificar
os elementos de R e de K, uma bijeção f : R −→ K, que
torna os dois corpos indistinguı́veis, do ponto de vista das
propriedades dos corpos ordenados e completos.
I f diz-se um isomorfismo entre R e K.
Os números naturais

Aceitemos que os números naturais são os elementos de um


conjunto N, em que se supõe definidas duas relações binárias
I relação de igualdade x = y,
I relação de sucessor y = suc x,
verificando os seguintes axiomas (de Peano):
P1 1 ∈ N;
P2 ∀ x ∈ N ∃ y ∈ N y = suc x;
P3 ∀ x, y ∈ N suc x = suc y ⇔ x = y;
P4 ∀ x ∈ N 1 6= suc x;
P5 Se M ⊆ N, 1 ∈ M , x ∈ M implica que suc x ∈ M , então
M = N (Princı́pio de indução finita).
Os números naturais

I Suponhamos que queremos demonstrar uma proposição p(x),


para todo o x ∈ N.
Definimos M = {x ∈ N : p(x)}.
Verificamos que
I 1 ∈ M;
I x ∈ M ⇒ suc x ∈ M (diz-se que M é hereditário);
Conclui-se, usando P5, que M = N, isto é, p(x) é verificada
por todo o x ∈ N.
I 1 é o único elemento de N que não é sucessor de algum outro.
Definamos M = {x ∈ N : ∃ y ∈ N x = suc y} ∪ {1}.
Como 1 ∈ M e M é hereditário, M = N.
I Podemos então denotar

suc 1 = 2, suc 2 = 3, suc 3 = 4, . . . e N = {1, 2, 3, 4, . . .}.


A aritmética de N

I Define-se em N a operação de adição


(
a + 1 = suc a
a + suc b = suc(a + b), ∀ a, b ∈ N;

I Define-se em N a operação de multiplicação


(
a·1=a
a · suc b = a · b + a, ∀ a, b ∈ N.

Ambas as operações são comutativas e associativas.


A ordem em N

Podemos definir em N uma relação de ordem

a ≤ b ⇔ a = b ou ∃ c ∈ N a + c = b.

Então a equação a + x = b tem solução se e só se a < b.


I A solução x desta equação é denotada por b − a;
I A ordem definida acima é total;
I ≤ é uma boa ordem (isto é, todo o subconjunto de N tem
primeiro elemento);
I se a, b, c, d ∈ N são tais que a ≤ c e b ≤ d então a + b ≤ c + d.
Os números inteiros
Observe-se que, dados a, b ∈ N tais que a < b então, se x = b − a
também x = (b + c) − (a + c), para todo o c ∈ N.

Defina-se, em N × N a relação de equivalência

(a, b)ρ(a0 , b0 ) ⇔ a + b0 = a0 + b.

Quando a < b e a0 < b0 , dizer que (a, b)ρ(a0 , b0 ) é equivalente a


dizer que b − a = b0 − a0 , isto é, b − a e b0 − a0 são soluções, em N,
da equação a + x = b.

A cada classe de equivalência [(a, b)] da relação acima chamamos


número inteiro.

O conjunto dos números inteiros é

Z = N × N/ρ.
A aritmética de Z

Define-se em Z a adição

[(a, b)] + [(c, d)] = [(a + c, b + d)],

e a multiplicação

[(a, b)] · [(c, d)] = [(a · d + b · c, a · c + b · d)],

I o elemento zero de (Z, +) é [(1, 1)];


I o elemento um de (Z \ {0}, ·) é [(1, 2)].
I a inclusão natural de N em Z é

i: N → Z
n 7→ [(1, n + 1)].
A ordem em Z

Definimos, em Z, a relação de ordem

[(a, b)] ≤ [(c, d)] ⇔ b + c ≤N a + d.

Z+ = [(a, b)] ∈ Z : [(1, 1)] < [(a, b)]



Inteiros positivos.

Z− = [(a, b)] ∈ Z : [(a, b)] < [(1, 1)]



Inteiros negativos.

Nota
I [(a, b)] ∈ Z+ ⇔ a <N b;
I [(a, b)] ∈ Z− ⇔ b <N a.
A interpretação de Z

Denotando
[(a, a)] = 0,

[(a, b)] = b − a, se a < b,

[(a, b)] = −(a − b), se b < a,

podemos interpretar Z como o conjunto

Z = {. . . , −3, −2, −1, 0, 1, 2, 3, . . .},

em que a soma, a multiplicação e a ordem são transportadas nesta


identificação.

Além disso, se a, b, c, d ∈ Z são tais que a ≤ c e b ≤ d então


a + b ≤ c + d e, se 0 < a e 0 < b, então 0 < a · b.
Os números racionais
Dados m ∈ Z e n ∈ Z \ {0}, a equação n · x = m é solúvel em Z
se e só se n divide m (que denotamos por n|m) e a solução x
desta equação é denotada por m
n.

Vamos então ampliar (Z, +, ·, ≤), obtendo um corpo ordenado


onde a equação acima é sempre solúvel.

Defina-se, em Z × Z \ {0}, a relação de equivalência

(m, n)ρ(m0 , n0 ) ⇔ m · n0 = m0 · n.

Quando n|m e n0 |m0 , dizer que (m, n)ρ(m0 , n0 ) é equivalente a


m0
dizer que m
n = n0 .

A cada classe de equivalência [(m, n)] da relação acima chamamos


número racional e será designada por mn.
Os números racionais

O conjunto dos números racionais é

Q = Z × Z \ {0}/ρ.

Observando que

m m0
[(m, n)] = [(m0 , n0 )] ⇔ = 0
n n
então nm o
Q= : m ∈ Z, n ∈ Z \ {0} .
n
A aritmética e a ordem em Q

Define-se a adição em Q por

m m0 m · n0 + n · m0
+ 0 = ,
n n n · n0
e a multiplicação por

m m0 m · m0
· 0 = .
n n n · n0

Define-se em Q a relação de ordem

m m0
≤ 0 ⇔ m · n0 ≤ m0 · n.
n n
A aritmética e a ordem em Q
Nota
I A ordem em Q é total;
I (Q, +, · , ≤) é um corpo ordenado (isto é, satisfaz os axiomas
A1–A11);
I Q não é completo, isto é, há subconjuntos de Q, majorados,
que não têm supremo, como, por exemplo,

1 n
 
1+ n :n∈N ;

I Z está incluı́do em Q,

Z → Q
n
n 7→ 1,

e esta inclusão preserva as operações e a ordem.


A unicidade de Q

Definição
Dois corpos ordenados (A , +, · , ≤) e (B, ⊕, , ) são isomorfos
se existir uma função f : A → B tal que:
I f é bijetiva;
I ∀ a, b ∈ A f (a + b) = f (a) ⊕ f (b);
I ∀ a, b ∈ A f (a · b) = f (a) f (b);
I ∀ a, b ∈ A a ≤ b ⇒ f (a)  f (b).

Teorema
Todo o corpo ordenado contém uma parte isomorfa a (Q, +, · , ≤).

O corpo dos números racionais (Q, +, · , ≤) é o corpo mı́nimo


entre todos os corpos ordenados.
A ordem em Q é densa e arquimediana
Definição
Uma ordem, ≤, em A diz-se densa se

∀a, b ∈ A, a < b ∃c ∈ A : a < c < b.

Nota
A ordem em Q é densa.

a+b
a < b ∈ Q, a< < b.
2

Entre dois números racionais distintos existe uma infinidade de


números racionais.

Proposição
A ordem em Q é arquimediana, i.e., dados dois números racionais
positivos a e b existe n ∈ N tal que na ≥ b.
Distância em Q
Definição
Dado x ∈ Q, |x| = max{x, −x} designa o módulo ou valor
absoluto de x.

O valor absoluto permite definir o conceito de distância em Q.


Dados x, y ∈ Q, a distância entre x e y é dada por |x − y|.

Proposição
Dados x, y ∈ Q, tem-se que:
I |x| = | − x| ≥ 0;
I |x| = 0 se e só se x = 0;
I |x + y| ≤ |x| + |y|;
I ||x| − |y|| ≤ |x − y|;
I |xy| = |x||y|.
“Buracos” em Q
Não existe solução, em Q, para a equação x2 = 2.
O conjunto dos números racionais tem “lacunas” no sentido que se
esclarece a seguir.
Definição
Um par (X, Y ), X, Y ⊆ Q, é um corte em Q se:
I X ∪ Y = Q, X ∩ Y = ∅, X 6= ∅ e Y 6= ∅;
I se x ∈ X e y ∈ Y então x < y;
I X não tem máximo.

Exemplo
Consideremos os conjuntos
X = {x ∈ Q : x ≤ 0 ou x2 < 2} e Y = {x ∈ Q : x > 0 e x2 ≥ 2}.
O par (X, Y ) é um corte em Q. Não existe qualquer número
racional que separa os conjuntos X e Y .
Neste sentido dizemos que existe uma “lacuna” em Q.
Sucessões de Cauchy em Q
Definição
Uma função a : N −→ Q diz-se uma sucessão em Q.
Dado n ∈ N é vulgar representar a imagem de n pela sucessão a,
a(n), por an .
Usualmente representa-se a sucessão a : N −→ Q por (an )n ∈ N.

Proposição
Se (X, Y ) é um corte em Q, existem sucessões, (xn )n e (yn )n , tais
que, para cada n ∈ N:
I x n ∈ X e yn ∈ Y ;
I yn − xn < n1 ;
1
I ∀m ≥ n |xn − xm | < n e |yn − ym | < n1 .

As sucessões (xn )n e (yn )n nestas condições permitem-nos


aproximar, tanto quanto se quiser, a “lacuna” referida no exemplo
anterior.
Sucessões de Cauchy

Definição
Uma sucessão (xn )n em Q diz-se limitada se existir a ∈ Q tal que
|xn | < a, ∀n ∈ N.

Definição
Uma sucessão (xn )n em Q diz-se sucessão de Cauchy se

∀ε > 0 ∃p ∈ N ∀n, m > p |xn − xm | < ε.

Nota
As sucessões referidas na proposição anterior são sucessões de
Cauchy.
Propriedades das sucessões de Cauchy

Proposição
Toda a sucessão de Cauchy é limitada.

Proposição
Se (xn )n e (yn )n são sucessões de Cauchy então (xn + yn )n e
(xn yn )n são sucessões de Cauchy.
Sucessões convergentes
Definição
Diz-se que uma sucessão (xn )n é convergente para x se

∀ε > 0 ∃p ∈ N ∀n > p |xn − x| < ε.

Proposição
Uma sucessão diz-se convergente se existir algum x para o qual a
sucessão converge.

Proposição
O limite de uma sucessão convergente é único.

Notação
Designa-se por infinitésimo toda a sucessão convergente para zero.
Propriedades das sucessões convergentes

Proposição
Toda a sucessão convergente é sucessão de Cauchy.

Nota
Existem sucessões de Cauchy não convergentes.

Proposição
Se (xn )n e (yn )n são sucessões convergentes para x e y,
respectivamente, então:
I (xn + yn )n converge para x + y;
I (xn yn )n converge para xy.
Proposição
Se (xn )n é uma sucessão de Cauchy mas não é um infinitésimo
então existe uma sucessão de Cauchy (yn )n tal que (xn yn )n é
convergente para um.

Definição
Uma sucessão (xn )n diz-se positiva se existirem ε > 0 e p ∈ N tais
que xn > ε para todo o n > p.

Proposição
Se (xn )n é uma sucessão de Cauchy então verifica-se exactamente
uma das seguintes situações:
I (xn )n é um infinitésimo;
I (xn )n é positiva;
I (−xn )n é positiva.
Os números reais
Considere-se o conjunto de todas as sucessões de Cauchy em Q e
representemos esse conjunto por S .
S = {sucessões de Cauchy em Q}.

Considere-se em S a relação binária ρ tal que


(xn )n ρ (yn )n ⇔ (xn − yn )n é um infinitésimo.

Proposição
A relação binária ρ é uma relação de equivalência.

Definição
I Se (xn )n ∈ S chama-se número real à classe de equivalência
de (xn )n , [(xn )n ].
I O conjunto dos números reais, R, é o conjunto quociente
S /ρ.
A aritmética de R

Define-se em R a adição

[(xn )n ] + [(yn )n ] = [(xn + yn )n ]

e a multiplicação

[(xn )n ] · [(yn )n ] = [(xn yn )n ].

Facilmente se conclui que a comutatividade da adição e da


multiplicação e a distributividade da multiplicação relativamente à
adição resultam, de forma imediata, das propriedades da adição e
multiplicação em Q.
A aritmética de R

I O elemento zero de (R, +) é [(0)n ].

I O simétrico de [(xn )n ] ∈ R é [(−xn )n ].

I O elemento um de (R, ·) é [(1)n ].

I O inverso de [(xn )n ] ∈ R \ {[(0)n ]} existe?

Proposição
hR, +, ·i é um corpo.
Ordem em R

Proposição
Se (xn )n , (yn )n ∈ S são tais que (xn )n ρ (yn )n , então (xn )n é
uma sucessão positiva se e só se (yn )n é uma sucessão positiva.

Definição
Seja R+ = ξ ∈ R : ∀(xn )n ∈ ξ, (xn )n é uma sucessão positiva .


Proposição
R+ é um conjunto de elementos positivos para R.

Definição
Dados ξ, η ∈ R, escrevemos ξ < η quando η − ξ ∈ R+ .

Proposição
hR, +, ·, ≤i é um corpo ordenado.
Imersão de Q em R

Proposição
A função Q −→ R é uma inclusão de Q em R que
x 7−→ [(x)n ]
preserva a adição, a multiplicação e a ordem.

Nota
Dado ξ ∈ R, define-se |ξ| = max{ξ, −ξ}. As propridedades do
valor absoluto referidas em Q são verdadeiras em R.

Exercı́cio
I Se (xn )n ∈ S então [(xn )n ] = [(|xn |)n ].

I Para todo o número real positivo existe um número racional


positivo menor do que ele.
R é completo

Toda a sucessão de Cauchy em Q é convergente em R.

Mais precisamente:

Proposição
Se (xn )n ∈ S então (xn )n converge, em R, para [(xn )n ].

Como consequência desta proposição tem-se que:


I Qualquer vizinhança de um número racional contém um
número racional;
I Entre dois números reais distintos existe um (logo uma
infinidade) de números racionais, i.e., Q é denso em R;
I R é arquimediano.
R é completo

Proposição
Se (ξn )n é uma sucessão de Cauchy em R, (ξn )n é convergente.

Exercı́cio
Mostre que um corpo ordenado é completo se e só se toda a
successão de Cauchy é convergente.

Proposição
R é um corpo ordenado completo.

Nota
Todo o corpo ordenado e completo é isomorofo a R.

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