Lobolo em Chongoene: Transformações Sociais
Lobolo em Chongoene: Transformações Sociais
Maputo, 2023
Percepções e experiências sociais do lobolo na actualidade: um estudo de Chongoene/Nhacutse, na
província de Gaza.
Autora
___________________________________
(Saugina Ângelo Macuácua Bié)
Maputo, 2023
Declaração
Declaro que este relatório de pesquisa é original. Que o mesmo é fruto da minha investigação
pessoal, estando indicadas ao longo do trabalho e nas referências as fontes de informação por mim
utilizadas para a sua elaboração. Declaro ainda que o presente trabalho nunca foi apresentado
anteriormente, na íntegra ou parcialmente, para a obtenção de qualquer grau académico.
Assinatura
___________________________________
i
Dedicatória
ii
Agradecimentos
Agradeço a todos que directa ou indiretamente ajudaram a tornar possível a realização deste
trabalho. Em especial a minha supervisora Dr.ª Sónia Seuane que não mediu esforços para tornar
este trabalho numa realidade e pela disponibilidade, compreensão, as intervenções imediatas e
paciência depositada durante a produção deste trabalho, meu muito obrigada.
Aos meus colegas do curso de Antropologia (2018), em especial: Aurélio Oliveira, Moisés André,
Yuri Chissano, Esaú Ndimba e Adelaide Valdete que sempre estiveram presentes na minha vida
estudantil. Igualmente aos meus colegas do serviço, aos meus amigos todos, meu muito obrigada.
Ao meu estimado esposo que tem sido a inspiração, especialmente para o meu empenho
académico, por ter acreditado e por nunca ter medido esforços para que nunca me faltasse nada
relacionado a minha vida académica. Aos meus filhos: Eduardo Bié, Lucinda Bié, Thompson Bié,
Tcherneko Bié que sempre constituíram a minha razão em querer ser alguém cada vez melhor.
MUITÍSSIMO OBRIGADA!
iii
Siglas
iv
Glossário
v
Resumo
Esta monografia consistiu na tentativa de olhar para o lobolo enquanto um factor de transformação
e mudança nas vivências sociais. Esta pesquisa teve um especial enfoque em analisar perceções e
significados atribuídos à prática do lobolo no contexto actual no distrito de Chongoene/Nhacutse
na província de Gaza.
vi
Índice
Declaração........................................................................................................................................ i
Dedicatória ...................................................................................................................................... ii
Siglas .............................................................................................................................................. iv
Glossário ......................................................................................................................................... v
Resumo .......................................................................................................................................... vi
I. Introducao .................................................................................................................................... 1
O presente trabalho consiste num relatório de pesquisa científica que foi efectuada
no âmbito do curso de Licenciatura em Antropologia para obtenção do grau de licenciatura, na Universidade
Eduardo Mondlane, Faculdade de Letras e Ciências Sociais. Tem como tema Percepções e experiências
sociais do lobolo na actualidade: um estudo de Chongoene/Nhacutse, na província de Gaza. Portanto, teve
como foco principal analisar o processo de transformação e mudança social do lobolo no contexto actual.
O lobolo passou por vários momentos históricos e levamos como pressupostos as mudanças
trazidas por esses vários momentos históricos como factores de mudança locais, ao olharmos o
lobolo como foco de representações de mudanças locais entendemos que ele institui o sistema de
parentesco e nos apresenta desta forma, um conjunto complexo de normas, de práticas e de padrões
de comportamento entre os parentes. A pesquisa empírica mostrou-nos que as representações de
mudanças observadas pelos diversos atores sociais locais, estão diretamente ligadas as alterações
que se têm vindo a operar no ethos da sociedade tsonga em Chongoene/Nhacutse.
Neste caso, apesar de inúmeros factores discutidos ao longo do texto, que concorrem para o seu
abandono, esta prática devido a sua relevância simbólica para as famílias continua viva e forte,
pois constitui uma imposição familiar, existe esta imposição da família sobre o indivíduo, pelo
facto do lobolo ter esta componente tradicional que vai passando de geração em geração em forma
de legado cultural, onde o seu abandono pressupõe uma ruptura com o passado, um desprezo da
nossa história, perda de identidade cultural e a sociedade não quer se sentir a trair a sua história e
os seus antepassados. Portanto, o lobolo é importante dentro do seu contexto de produção.
Numa visão permeada por óculos antropológicos mostramos também, como é que se fazia esta
cerimônia, que actores e que implicações sociais tinha no dia-a-dia das populações Tsongas
1
(Changanas), o que significava o lobolo no passado, que ameaças o lobolo sofreu ao longo dos
anos, e do Porque mesmo com todas as ameaças sofridas as pessoas ainda procuram realizar o
lobolo.
Com base na diversa bibliografia consultada, mostramos como é que os ventos e eventos da história
tais como a ocupação europeia (colonialismo), as missões religiosas e o trabalho migratório
influenciaram esta transformação crucial no sistema de casamento e parentesco dos tsongas.
Portanto, relativamente a base teórica e analítica deste trabalho, resultou da soma de vários textos
e estudos de Antropologia, Sociologia e História que versam sobre o lobolo nas sociedades
tsongas, com maior destaque para Granjo (2005), Junod (1996), Bagnol (2008) e Radicliffe-Brown
(Sd). A soma desta multidisciplinaridade supracitada estudos deve-se a necessidade dinâmica da
temática.
1.1. Problema
O lobolo tanto no passado assim como actualmente constitui um costume matrimonial em que o
grupo do noivo levava uma compensação a outro grupo, o da noiva, para restabelecer o equilíbrio
entre as famílias que compõem o clã. O noivo e o seu grupo adquiriam um novo membro (mulher)
e, neste sentido o outro grupo pedia uma compensação para se reconstituir pela perda de um
membro no agregado familiar. Segundo Junod (1996), somente esta concepção coletiva explica
este fato. Deste modo à mulher lobolada, ainda que conservasse o seu xivongo, (apelido) nome do
seu clã paterno, tornava-se propriedade da família do marido, ou seja, propriedade coletiva de um
grupo (Mussane 2009: 56).
As formas de prestação do lobolo foram variando ao longo do tempo. Com base nos relatos do
Junod (1996), vimos que elas começaram com a entrega de 40 ou 50 enxadas por parte da família
do noivo à família da noiva. Passou-se para o período em que as prestações eram feitas através de
Libras Esterlinas, que inicia com a industrialização em Kimberley e Johannesburg, que se manteve
com o “pagamento” por cabeças de gado. Olhando para as perspectivas acima, vimos que hoje as
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prestações incluem roupas, alianças, bengalas, dinheiro e outros objectos. Esta é a parte física deste
ritual.
Estudos como de Mussane (2009) sobre “A kuna n’kinga: o lobolo como foco das representações
locais de mudança social” mostra que, com o tempo, houve mudanças que constituíram em
ameaças nas formas de compensação no lobolo. Estas mudanças estão relacionadas com o aumento
e as formas dos valores materiais que ao longo do tempo foram sendo introduzidas na prática deste
fenômeno social.
Tirando a ameaça relativa barreira legislativa imposta pela FRELIMO no projeto de Lei da
Família, feito em Moçambique em 1978, é recorrente estar em discussão o papel da mulher na
sociedade. Dessa forma, o projeto prevê que o casamento não pode ser um negócio e nem um
sistema de trocas materiais, deixando claro então que o Estado irá combater essas práticas, Mate
(2014) afirma que também houve ameaças religiosas, e enfatiza dizendo que, ignorando os valores
sócio-culturais da sociedade moçambicana, solidificados ao longo de gerações, durante alguns
cultos e reuniões de grupos, bispos, pastores, obreiros e líderes dos grupos têm estado a apelar para
que os crentes não pautem pela via do lobolo nos seus relacionamentos conjugais, alegando dentre
outros aspectos, que a Bíblia Sagrada não aborda esta questão e, portanto, o lobolo não é obra de
Deus, somente o casamento “oficial”, fazendo menção ao casamento civil e religioso, é que são
obra do Criador. No entanto, estas mudanças, não parecem ter alterado o estatuto do lobolo, ou
seja, não parecem ter tido um efeito no valor e no estatuto do lobolo. Todavia, o nosso maior
interesse é procurar explicar a esférica simbólica do lobolo.
O lobolo não é uma prática rural, nem é praticada em função do status social ou que não seja
praticada pelos crentes religiosos, Bagnol (2008) discute a prática contemporânea do lobolo no
contexto urbano do sul de Moçambique como forma de fazer face a estudos anteriores que
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associam o lobolo a população camponesa rural e analfabeta. Apesar das transformações e ameaças
que o lobolo vem sofrendo ao longo dos tempos, ele ainda desempenha, dentro das cidades e no
meio rural, um papel social de regulador e garante da estabilidade conjugal, familiar e social dos
indivíduos em sociedade, assim defende Bagnol (2008) e tantos outros autores, dentro das suas
perspectivas de abordagem.
Para as transformações da prática actual do lobolo, Granjo (2005:45) aponta o uso de “notas
grandes”, no pagamento do lobolo, como “uma inovação que acaba, de facto, por enfraquecer um
pouco a habitual retórica cênica da cerimônia, que tende a enfatizar a dificuldade em reunir a soma
exigida, soma que dessa maneira é valorizada, valorizando com isso a noiva. É importante realçar
que esta valorização se refere, sobretudo, a dimensão simbólica onde o prestígio e a honra da
mulher (e das famílias envolvidas) é, permanentemente, negociada.
Apesar da IV congresso da OMM ter sido um marco importante para a reintegração do lobolo e a
sua grande importância que tem na região sul de Moçambique conforme declara Santana (2009),
no dia-a-dia ouve-se explicações divergentes no tocante a percepções e representações sociais do
lobolo, onde é considerado de grande importância. Em alguns casos ainda é conotado como “venda
da mulher”. Tal como se referiu Da Costa (2005: 207:208) “o lobolo é visto como um acto
condenável através do qual as mulheres são compradas e vendidas, simultaneamente como algo
positivo que sanciona e dá estabilidade as uniões”.
É importante realçar que a razão desencadeou essa pesquisa foi a necessidade de reflectir sobre
uma forma de compensação matrimonial encontrada em Moçambique, tendo em conta os diversos
momentos pelos quais este passou, e às diversas explicações e significados a ele atribuídos. Neste
estudo, procuramos compreender de que forma as percepções e representações sociais podem
explicar a perpetuação do lobolo no contexto de mudanças e transformações sociais actuais?
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1.2.2 Objectivos específicos
1.3 Justificativa
A segunda razão é compreender o dinamismo por detrás da prática do lobolo na atualidade, visto
que para compreender o processo de percepção dos indivíduos em relação ao lobolo permitirá
construir um panorama mais científico sobre as transformações que esta prática sofreu durantes os
diferentes períodos.
Acreditamos que, este trabalho possa contribuir com subsídios teóricos para explicar o lugar do
lobolo na organização social e a sua importância no contexto de Chongoene. Tendo em conta que
o mesmo aborda um tema recorrente, uma prática que é secular, mas que é ainda actual nos nossos
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dias. Embora seja um assunto relativamente debatido acreditamos que nos actualiza no debate
sobre a prática do lobolo e traz-nos elementos da realidade empírica o que nos permitem identificar
e visualizar aspectos da mudança e de continuidade.
O trabalho é constituído por cinco capítulos, sendo o presente capítulo introdutório o primeiro
onde fazemos uma breve apresentação do tema e abordando sobre a problemática, os objectivos
do estudo, justificativa, revisão de literatura.
No quarto capítulo discutimos o papel e a importância do lobolo nas construções sociais enquanto
um factor de estratificação e estabelecimento de categorização e estatuto social. Neste capítulo
iremos destacar as crenças sociais sobre o lobolo bem como o valor que os actores sociais atribuem
a esta prática, analisamos as incidências da prática do lobolo no contexto actual no distrito de
Chongoene/Nhacutse na província de Gaza, e a sua interface. Neste contexto analisamos as
diferentes facetas do lobolo actual e as principais transformações ocorridas até ao momento do
estudo e no último capítulo, trazemos as ilações da pesquisa.
A luz da revisão da literatura, podemos dizer que o lobolo é objecto tradicional da Antropologia e
está ligado aos estudos do parentesco e de acordo com Revierè (1975) o parentesco se define como
um conjunto de laços que unem geneticamente (filiação, descendência) ou voluntariamente
(aliança, pacto de sangue), um determinado número de indivíduo. Salienta que muitos destes
estudos tiveram lugar entre os anos 1920 e 1970, e centrando-se sobre a terminologia do
parentesco, aliança matrimonial, casamentos e filiação.
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Por sua vez, Lévi-Strauss (1982) no seu estudo “As Estruturas Elementares do Parentesco” assume
que os sistemas de parentesco e as regras de casamento e de filiação formam um conjunto
coordenado cuja função é assegurar a permanência do grupo social, entrecruzando, à maneira de
um tecido, as relações consanguíneas e as fundadas na aliança.
O parentesco oferece um meio de ordenar os indivíduos segundo certas regras; a organização social
fornece outro, as estratificações sociais ou econômicas, um terceiro. Todas estas estruturas de
ordem podem ser, elas mesmas, ordenadas, com a condição de revelar que relações as unem, e de
que maneira elas reagem umas sobre as outras do ponto de vista sincrônico” (Lévi-Strauss
1982:356)
Desta forma, para Bagnol (2008), o lobolo e as instituições afins de compensação matrimonial são
hoje um tema quase tradicional em antropologia, tendo merecido diferentes interpretações por
parte dos antropólogos clássicos. Em Moçambique existe uma literatura significativa sobre o
lobolo. Contudo estes estudos, não abordam as percepções e representações sociais que se tem em
relação ao lobolo.
De acordo com Fernando (1996: 24) na prática do lobolo em diferentes períodos foram valorizados
vários objectos: no período pré-colonial “... A compensação baseou-se na oferta de sementes que
simbolizava a fertilidade”; “em esteiras e objectos de vimes, em tempos remotos em que o branco
não tinha ainda aparecido” Junod (1996: 254); “depois enxada, gado, libras de ouro e actualmente
concentra-se mais em bens e dinheiro ao vivo” (Fernando, 1996: 25).
Por outro lado, Bagnol (2008) e Fernando (1996) tomam em consideração o papel da instituição,
mostrando que em Moçambique, o lobolo constitui uma prática importante, principalmente para a
zona sul do país. Isto deve-se ao facto do lobolo permitir estabelecer uma comunicação entre os
vivos e os seus antepassados e o restabelecimento da harmonia social. O lobolo inscreve o
indivíduo numa rede de relações de parentesco e de aliança tanto com os vivos assim como nos
mortos, para além de que dá segurança a criança e a protecção da mulher no lar.
Enquanto para Granjo (2005) na actualidade existem diferentes formas de reapropriação da prática
do lobolo, visto que esta instituição adquiriu uma variedade de novos significados, mas manteve
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sua relação com a ancestralidade, aspecto fundamental para o entendimento da sua sobrevivência
até os dias actuais.
As diferentes abordagens identificadas na literatura sobre o lobolo podem ser agrupadas, de acordo
com as suas tendências: a primeira que pode ser considerada é instrumentalista, empregue por
Cipire (1996) no estudo do casamento patrilinear na zona sul de Moçambique, onde constatou que
na origem do lobolo está o valor que em África é dado à mulher.
Em segundo lugar, temos a visão historicista empregue por Santana (2009) que dá conta das
transformações ocorridos nos significados e nas representações sociais e às críticas do lobolo em
Moçambique. Para esta autora:
“Para alguns o lobolo era visto como uma forma de legitimar o casamento e uma
prática inofensiva; para outros significava uma compra da mulher com fins de
procriação e trabalho gratuito, devendo ser extinto mediante um processo de
educação. O lobolo era importante para a administração colonial porque a sua
realização implicava a posse de várias cabeças de gado por esposa. E, na caderneta
de cada trabalhador, era obrigatório constar o número de esposas que possuía”
(ibid: 2009: 87).
Por último, podemos considerar a existência de uma abordagem economicista empregue por Torre
do Vale (2002) e Junod (1996) que olha para o lobolo como uma transação comercial, na qual a
mulher é comparada como objectos de venda. Para estes autores a mulher pode ser comprada pelos
bois, enxadas ou outros objectos simbólicos.
Torre do Vale (2002: 4) considera ainda que “o lobolo, representa a transmissão do trabalho da
mulher, da casa do pai para a casa do marido. Na cultura africana, isso é uma prova de que o noivo
tem alto apreço pela noiva. Quanto mais preparada, prendada, estudada, maior é o valor”. Para este
autor, o lobolo tem como objectivo negar à mulher o controle sobre os direitos de propriedade.
Palha (2006) também vê o lobolo como sendo uma prática que tem um significado negativo nas
relações sociais entre homens e mulheres, o seu significado contribui positivamente na
estruturação de poderes que sustentam a contínua subalternidade feminina.
Posição contrária, a esta encontra-se no documento redigido pela Liga dos Direitos Humanos, onde
trata “dos direitos de mulher em Moçambique”. Aqui refere-se a nova lei da família que estabelece
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uma total igualdade de género perante a lei, casamento, divórcios, guarda das crianças, bem como
a divisão de bens no casamento.
A literatura mostra que o lobolo é realizado mais para os antepassados. Neste trabalho, dá-se ênfase
as pessoas que presenciam o lobolo. Uma vez que elas consideram-se protagonistas da realização
do lobolo, e se beneficiam dos bens matérias. Face às situações acima descritas, no que tange às
percepções e experiências e representações do lobolo, percebe-se que as abordagens identificadas
divergem quanto aos significados do lobolo, o que dificulta a compreensão sobre a perpetuação
desta prática. O que resulta na minha inquietação para tentar compreender o que contribui para a
sua contínua prática pela sociedade.
Para o autor o lobolo enquadra-se dentro de um sistema de créditos matrimonial, ou seja, o valor
recebido pela saída da mulher, da casa dos seus pais, por via do lobolo, é aplicado na aquisição de
uma mulher de outra família, igualmente por meio do lobolo, fechando desse modo a lacuna
anteriormente deixada. Trata-se aqui de uma troca indirecta de mulheres e de serviços. Feliciano
(1989) entende que o lobolo também simboliza a fecundidade da mulher que é medida não apenas
pelo número de filhos que esta virá a ter mas acima de tudo pela saúde destes e pelo desempenho
nas tarefas de casa e na produção agrícola. Refere ainda que a não fecundidade da mulher pode lhe
incorrer a acusação de feitiçaria, pondo em causa essa união o que pode, igualmente, ditar a
devolução desta mulher e dos bens ofertados, e a realização de um outro lobolo. Para este
investigador o lobolo não associa apenas dois aliados, mas todo um sistema, o que revela que as
alianças não são apenas uma questão matrimonial, mas também são uma questão de reprodução
social. O lobolo funciona como uma instituição reguladora de conflitos entre grupos aliados, por
este facto é acompanhada de discussões, injurias e combate.
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2.1. Compensação matrimonial
Por outro lado, Radcliffe-Brown (1974) sustenta, tal como Junod (idem), que a prestação entregue
pelo grupo familiar do noivo ao grupo familiar da noiva como compensação matrimonial envolve
bens financeiros, materiais e outros, mas provoca desequilíbrio no grupo familiar da noiva devido
à saída da noiva para a família do noivo pois, segundo o autor, o lobolo resulta na passagem da
mulher à família do esposo, desligando-se parcialmente da sua família (cf. Radcliffe-Brown 1974).
Apesar das distinções que nos referimos anteriormente entre Junod (1996) e Radcliffe-Brown
(1974), os dois autores são consensuais ao sustentarem que a compensação matrimonial refere-se
aos valores monetários e outros bens materiais entregues pelo grupo familiar do noivo ao grupo
familiar da noiva, como instrumentos usados na oficialização da união conjugal tanto, entre os
parceiros, bem como entre os grupos familiares dos cônjuges no lobolo.
Entretanto, no nosso estudo de campo, constatamos algumas divergências atinente a forma como
a compensação matrimonial é concebida, havendo quatro (04) grupos com posições antagônicas.
O primeiro defende a ideia segundo a qual, o dinheiro e bens materiais entregues no lobolo
representam o sacrifício demonstrado pelo noivo na obtenção de um bem valioso (noiva). O
segundo, apoia-se na ideia da legitimação da manutenção da descendência patrilinear. O terceiro,
defende ser o meio usado na aquisição do poder pelo noivo, sobre a noiva e, passando este, a
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ostentar estatuto de liderança na sua família. O último, apega-se à ideia de instrumentos usados na
compra da mulher.
Segundo Pires (2000) no sistema patrilinear, os homens herdam do pai os bens e os títulos
honoríficos. Só se reconhecem como parentes os que o são pela linha paterna, não podendo os
eventuais contactos com a família materna atingir de qualquer forma a sua pertença ao grupo do
respectivo pai.
Em semelhante tipo de organização, a família nuclear dilui-se no seio de estruturas mais vastas.
Os indivíduos definem a sua descendência a partir de um ascendente comum, afastado cinco ou
seis gerações, e formam uma linhagem (estirpe) cujos membros partilham o nome e certos direitos
(v.g. sobre o gado e sobre terrenos indivisos). Quer a propriedade seja já da própria estirpe, quer
tenha sido adquirida originariamente por um dos seus membros, não pode dispor-se dela sem o
consentimento de todos os outros membros (ibid: 626).
A consciência colectiva deste grupo tem a sua sustentação em cerimónias e ritos que unem tão
estreitamente os respectivos membros que a entreajuda chega a manifestar-se em partilha de
responsabilidades no caso de crime (ibid).
Mas podemos encontrar, definido do lado materno segundo Pires (2000) um outro sistema de
linhagem, a que se tem chamado matrilinear: cada indivíduo pertence à família da mãe, o que
significa, em concreto, que o homem não pode transmitir os seus bens e os seus títulos honoríficos
aos seus filhos varões, mas sim aos varões mais próximos da linha materna, designadamente um
tio ou um primo. Os seus próprios filhos, que não pertencem à estirpe, não poderão suceder-lhe
mas receberão, em contrapartida, a herança dos seus tios maternos. o sistema matrilinear não se
identifica com o de matriarcado, já que não confere às mulheres o poder de direcção e
superintendência dos negócios, nem qualquer autoridade política. Apenas diz respeito às regras de
transmissão dos bens.
Este sistema linhageiro mostra-nos que a pratica do lobolo é fortemente influenciada pela
constituição familiar e as heranças linhageira, tomando em consideração que a forma de
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transmissão de herança ira ditar o como o lobolo irá ser praticada e principalmente os constituintes
da família que estarão em frente da cerimónia.
2.3. Família
Segundo Pires (2000) A palavra família conduz-nos primariamente à ideia de grupo constituído
pelo pai, pela mãe e pelos seus filhos: unidade social a que se tem visto chamar família conjugal,
família elementar ou família nuclear e que sempre foi uma realidade na quase generalidade das
civilizações do mundo, malgrado, em algumas delas, ao papel do pai ou do marido menos notório
que o da mãe, no plano biológico, relativamente aos filhos não ser atribuída praticamente qualquer
importância.
Na perspectiva de Gomes (1995:121) a família é a menor unidade social ligada por laços de
consanguinidade, afinidade e adopção. Na família pode-se discernir várias instituições familiares
que são, universalmente, conhecidas embora em cada sociedade elas assumam formas diferentes.
A tendência da família humana sempre foi de romper os limites biológicos criadas, por exemplo,
pelo relacionamento sexual e pela reprodução social como a adopção do parentesco fictício. Em
diversas sociedades é comum estabelecer-se o parentesco através da linha materna (Gomes
1995:35). Pode então ocorrer que o tio materno e não o pai biológico, seja o verdadeiro chefe de
família.
Por extensão, nenhuma diferença significativa se estabelece entre filho de um irmão da mãe e o
filho de um irmão do pai. Segundo Radcliffe-Brown (1982) em Montenegro pelo contrário, para
tomar uma outra língua europeia, deparamos com um sistema diferente. O irmão do pai é chamado
stric e a sua mulher é strina, enquanto o irmão da mãe é ujak e a sua mulher ujna, e as relações
sociais de um homem em face das suas espécies de tios denotam diferenças vincadas.
Entretanto, com base na literatura e na realidade constatada no campo, nos definiríamos a família
como uma construção, que é estabelecida nas vivencias e relações sociais em comunidade, essas
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relações podem ser caracterizadas como conflitiva ou harmónica, porem, exercem uma ordem de
manutenção social, pois, na pratica de lobolo concebe-se a ideia de família enquanto imbricada de
múltiplos factores multifuncionais, por isso a cerimónia de lobolo serve como selo de união que
firma uma nova constituição de família.
2.4. Instituição Social
De acordo com autor, a instituição que se chama lobolo junta em si a legitimação conjugal, o
controlo e regulação da descendência, a dignificação das partes envolvidas e a domesticação do
aleatório através da acção dos antepassados (Granjo 2005). Tem o espaço e a capacidade de se
assumir, através das representações que lhe estão associadas, como instrumento para a superação
de problemas inovadores. Para Granjo (idem), no contexto estudado, não existe nenhuma outra
melhor forma de casamento melhor que o lobolo.
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III. O Contexto Histórico do lobolo em Moçambique
Segundo autores como Junod (1996) e Fernando (1996) a prática do lobolo remota dos tempos
antes do colonialismo chegar em África. De forma particular, o estudo feito por Bagnol (2008)
indica que em Moçambique a prática do lobolo estava geralmente relacionada com a população
camponesa rural e analfabeta e era comumente apresentada como transação monetária entre as
parentelas envolvidas, o que se considerava como “venda da mulher”.
Bagnol (2008) após ter acompanhado vários rituais relacionados com o lobolo, na Cidade de
Maputo, chegou a conclusão de que o lobolo é essencialmente um acto que estabelece uma relação
entre o casal, as famílias e os antepassados. Esta investigadora repisa a figura dos antepassados e
destaca o seu papel na legitimidade e estabilidade das relações conjugais e no garante da harmonia
social. Com base na literatura antropológica analisada como de Granjo (2005) e Bagnol (2008) nos
dá e a entender que o lobolo para além de ser um valor de compensação, cela a união conjugal
entre um homem e uma mulher, as duas famílias e os antepassados.
Na perspectiva de Mussane (2009) afirma que observando os seus momentos iniciais, antes da
extensão da modernidade através da colonização europeia, no estádio coletivo da sociedade
Moçambicana, este costume fortificava a família patriarcal, o direito do pai; dificultava a
dissolução do casamento porque a mulher não podia abandonar definitivamente o marido sem que
o seu grupo restituísse o valor do lobolo. A cerimônia da união matrimonial tinha duas partes: a
festa do lobolo, ou seja, a parte relacionada com o pagamento da compensação matrimonial, que
se fazia na aldeia da noiva; e o kulhoma, chegada da noiva a aldeia do noivo.
Com a chegada da FRELIMO o lobolo passou a ser visto como uma prática proibida, neste
contexto Mussane (2009) afirma que com a tomada do poder pela FRELIMO em 1975, houve uma
intenção de ruptura com o lobolo e outras práticas sócio-culturais veiculadas em decretos de lei.
Welch (1982) por sua vez, afirma que essa intenção resultou em fracasso porque muitas as famílias
continuaram a praticar o lobolo e a valorizá-lo, em detrimento do casamento civil e isso assiste-se
ainda nos dias de hoje, devido a carga simbólico/cultural que o lobolo representa no seu contexto
de produção.
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Porém, Bagnol (2008), Torre do Vale (2002) e Santana (2009), observam que depois da
Independência Nacional (em 1975), o lobolo foi alvo de crítica por parte do governo da FRELIMO,
que definiu estratégias que visava erradicar o que considerava valores atrasados da sociedade
tradicional, incluindo o lobolo.
Por outro lado, com interesses distintos ligados à construção da nação moçambicana eram
entendidos não somente como uma herança do poder colonial, mas também como foco do
retrocesso à necessidade de um progresso baseado na ideologia marxista adotada pela FRELIMO.
No fundo esta postura política de hostilidade insere, igualmente, a complexa relação entre a
modernidade e a tradição. Determinadas práticas são definidas como tradicionais e, nesse sentido,
um sinônimo de “atraso” face às opções políticas assumidas como modernas (idem).
Para os autores acima referenciados, nesta época, o governo da FRELIMO apoiado numa ideia
desenvolvimentista e no projecto de Lei da Família considerava que o lobolo tinha consequência
directa no atraso, ignorância, submissão da mulher, cujas causas eram apontadas: o enriquecimento
dos pais às custas do suor das filhas; privação da emancipação da mulher; dependência
participativa da mulher em relação ao homem, colocando-a numa situação de “venda” e “compra”
com fins de procriação e trabalho gratuito”. As mulheres eram vistas como objecto de transacção
comercial, razão pela qual o lobolo tinha que ser extinto imediatamente (Bagnol, Brigitte 2008).
Como o desafio era de se eliminar a prática do lobolo, o combate contra os valores considerados
atrasados passou a figurar uma missão prioritária para as elites políticas locais. Com a estratégia
normativa estatuída pelo governo da FRELIMO no combate a prática do lobolo, alguns pais
estavam contra o combate do lobolo, o que fazia com que se praticasse clandestinamente em
reivindicação dos seus direitos costumeiros, porque segundo Welch (1982), lobolo é sobretudo um
costume, e os costumes não podem ser abolidos por via de decretos de lei. De acordo com Santana
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(2009) a IV Conferência da OMM (Organização da Mulher Moçambicana) realizada em 1984, foi
um marco importante para a reintegração do lobolo, dado que foi admitido como uma das formas
de casamento, uma vez constatado que a sua prática atingia a maioria das famílias e que era por
meio dele que a nova união conjugal se legitimava perante o público.
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IV. Metodologia
No presente capítulo damos a conhecer o contexto em que a pesquisa foi realizada, as técnicas e
instrumentos de recolha de informação usados na pesquisa de campo e o tipo de informação as
mesmas possibilitaram obter. Apresentamos, também os desafios encontrados no decurso da
pesquisa e as formas pelas quais foram superados.
Esta pesquisa foi realizada em três fases: a primeira fase ocorreu entre os meses de Março e Maio
do ano 2022 e consistiu em pesquisa exploratória, revisão de literatura e elaboração da proposta
de pesquisa. A segunda fase da pesquisa decorreu entre mês de Dezembro e Fevereiro do ano 2023
e consistiu na realização da pesquisa de campo. A terceira e última realizou-se entre Fevereiro de
2023 a Março do presente ano, que consistiu na análise dos dados.
A comunicação com os informantes da pesquisa foi feita em língua portuguesa e combinada com
a língua xi-changana. Para esta pesquisa privilegiou-se os seguintes perfis de interlocutores: os
habitantes do distrito acima mencionado, desde membros das comunidades, líderes religiosos,
líderes comunitários, funcionários de serviços conservatórios e activistas de organizações que
lutam pelos direitos das mulheres por forma a perceber a complexidade desta prática dentre os
diferentes bairros do distrito. Por último, acompanhamos uma cerimónia de lobolo no mesmo
distrito, facto que possibilitou a observação participante e directa.
17
4.2. Técnicas usadas na pesquisa de campo
Segundo Marconi e Lakatos (2003) a entrevista é vantajosa na medida em que pode ser utilizada
com todos segmentos da população (analfabetos e letrados); permite o entrevistador repetir ou
esclarecer perguntas, formular de maneira diferente, especificar algum significado, como garantia
de estar sendo compreendido e dá oportunidade para a obtenção de dados que não se encontram
em fontes documentais e que sejam relevantes e significativos.
Tal como já havia se adiantado acima, a observação participante foi feita através de uma cerimónia
de lobolo que teria participado naquela localidade, casal este que por intermédio de um processo
de negociação aceitou e permitiu que acompanhasse a cerimónia desde a sua preparação até ao dia
é que se consumou o lobolo. Acompanhou-se o dia-a-dia deste casal e pude acompanhar de perto
as incidências e elementos que configuram a prática do lobolo na actualidade.
18
Mas antes em avançar neste ponto, é importante descrever as condições que estiveram por detrás
do processo de imersão e que de alguma forma influenciaram na pesquisa e nos resultados aqui
trazidos. Esta forma de proceder Magnani (2002) denomina de “olhar etnográfico: de perto e de
dentro”. Ao conciliar essas duas técnicas foi possível descrever o modo como os indivíduos
percebem e experienciam o lobolo actualmente.
A chegada ao Distrito de Chongoene localidade de Nhacutse foi marcada por nervosismo e receio,
ao chegar no local de pesquisa hospedei-me em casa do meu irmão mais velho, mesmo o contexto
já me sendo familiar por conta das visitas que tenho feito ao meu irmão, ao voltar na qualidade de
pesquisadora, passei por um processo de estranhamento, pois mesmo tendo o plano de trabalho de
campo, fiquei desorientada pois não sabia por onde começar.
Então, meu irmão usou da sua influência local para marcar encontro com alguns líderes
comunitários e pastores locais para a entrevista. Entrevistas essas que foram marcadas para uma
sexta-feira da semana de 2 de fevereiro de 2023. Portanto, sendo que tinha três dias antes do dia
marcado para as entrevistas, optei numa estratégia mais reservada do que abordagem directa a
comunidade. No entanto, decidi fazer o reconhecimento do local, olhando e interpretando as
acções, comportamentos, atitudes e a relação por forma a preparar o processo de imersão à aquela
comunidade.
No primeiro dia de pesquisa (03/02/2023) constatei um ambiente bastante agitado, marcado por
diversos trabalhos domésticos dentre os indivíduos daquela comunidade, na qual o maior destaque
era para as mulheres, quanto aos homens não se envolvia muito nos trabalhos domésticos,
acordavam e se diria ao trabalho em grupos de cinco. Foi nesta altura que decidi-me juntar ao
grupo de mulheres para acarretar a água, foi neste contexto que conheci a Alice de 31 anos,
interlocutora esta que eu viria a acompanhar e a participar na sua cerimónia de lobolo. No entanto,
voluntarie-me para que a ajudasse no processo de organização, e esta prontamente aceitou e disse
que iria conversar com o seu pretendente para alertá-lo da minha presença na cerimónia de lobolo
que viria a decorrer no dia (11/02/2023).
19
semana produzia um relatório de pesquisa de campo contendo reflexões da pesquisa realizada ao
longo da semana e elaborava o plano para a semana a seguir.
A experiência de pesquisa de campo foi marcada por desafios, facto esse que nos fez perceber que
a negociação é o primeiro estágio na pesquisa, pós permite estabelecer os procedimentos,
parâmetros, ética, comprometimento com os prazos e potenciais resultados. Madden (2010),
aconselha que o etnógrafo deve ter domínio como: a linguagem, as expressões físicas e faciais
socialmente aceitáveis e tolerável, tendo os domínios destes elementos, o etnógrafo pode estar
munido de ferramentas que poderão permitir maior interacção e socialização com os grupos ou os
sujeitos de pesquisa.
20
V. Localização geográfica
Figura 1: Mapa de enquadramento geográfico do distrito de Chongoene - (Por: Varsil Cossa &
Stela Gujamo, em 2020).
Neste capítulo iremos destacar as crenças sociais sobre o lobolo bem como o valor que os actores
sociais atribuem a esta prática.
21
nível social, económico, político e religioso, porém, como já referiu Granjo (2005) o seu valor
simbólico e cultural nunca foi posto em causa.
Apesar das transformações que o lobolo vem sofrendo ao longo dos tempos, ele ainda
desempenha, dentro das cidades e no meio rural, um papel social de regulador e garante da
estabilidade conjugal, familiar e social dos indivíduos em sociedade, assim defende Bagnol (2008)
e tantos outros autores, dentro das suas perspectivas de abordagem.
Neste contexto os indivíduos são socializados a pensarem o lobolo como uma máquina de
organização social e que a sua recusa é a razão de uma série de infortúnios no meio conjugal, que
se traduzem em problemas físicos, mentais e espirituais das crianças nascidos dessa relação, que
depois se transformam em discussões e troca de acusações entre o casal as famílias
Num outro momento, Novela2 contando sobre a história de lobolo que experienciou, declarou o
seguinte:
1
Líder religioso, entrevistado no dia 6/12/2022 em Nhancutse, as 10h.
2
Líder comunitário, entrevistado no dia 6/12/2022 em Nhancutse, as 11h.
22
cerimónia de lobolo no momento e que por uma questão financeira,
bastava que ele se apresentasse e desse o anel de noivado que estava tudo
bem.
Chegado o dia da cerimónia ele veio com a família nas condições que mãe
já tinha dito e isso gerou um grande problema na família. Nós os tios
exigimos que se criasse urgentemente certas condições e que eles
procurassem dinheiro e os familiares tiveram que contribuir na hora
algum valor em dinheiro para a realização da cerimónia...”
O trecho acima demonstra uma imposição da família sobre indivíduo, sendo o lobolo uma
cerimónia de união entre as famílias e ter esta componente tradicional e reguladora que vai
passando de geração em geração em forma de legado cultural, onde o seu abandono significaria
uma ruptura com o passado, um desprezo da nossa história, perda de identidade cultural e a
sociedade não quer se sentir a trair a sua história e os seus antepassados porque deles ainda depende
no presente, como refere Granjo (2005) quando destaca o papel das famílias e dos antepassados,
dando mais ênfase aos antepassados ao referir que estes é que comem o lobolo, ou seja, o lobolo é
mesmo para agradar os nossos ancestrais.
Neste capítulo concluímos que o lobolo é importante dentro do seu contexto de produção, como já
fez menção Granjo (2005) o lobolo não tem, e ainda esta por vir um rival a altura capaz de o
substituir. Esta prática está incorporada dentro do seu contexto de produção e as tentativas de
ruptura com esta instituição resultarão em fracasso, porque esta mesma sociedade, de forma
consciente ou inconsciente, acredita que o lobolo desempenha múltiplas funções dentre as quais a
de garantir a coesão social, a estabilidade conjugal e a harmonia familiar, Bagnol (2008).
Seguindo a lógica de Junod (1996) referiu que a festa do lobolo é toda cerimónia relacionada com
o pagamento do lobolo que se faz na aldeia da noiva. Esse estudo foi desenvolvido a quase uma
centena de anos no ceio da comunidade tsonga do sul do Save, onde Junod viveu e vivenciou os
factos.
23
Estas abordagens acima desaguam na ideia de lobolo como uma forma de compensação que incide
sobre alvos determinados. Em Jeffreyes o lobolo incide sobre as crianças e, para Radcliffe-Brown
recai na mulher. Para Cipire (1992) lobolo é a troca de serviços entre as famílias do noivo e da
noiva, e consiste na observância das regras tradicionais sobre o casamento.
Por seu turno Granjo (2005) vem dizer que lobolo é uma relação mútua entre duas pessoas e um
grupo de parentes. Esta conclusão foi tomada após o acompanhamento de uma cerimónia de lobolo
num dos bairros periféricos da cidade de Maputo, onde desenvolveu o seu trabalho de campo e por
fim colheu as experiências dos participantes.
Relativamente a experiência, a família da noiva tinha que se preparar para receber o grupo de
pessoas que iriam levar o lobolo e competia a ela preparar a comida para a cerimónia do lobolo e
que competia aos familiares do noivo trazer a bebida da festa. Mas é importante dizer que a
cerimônia da união matrimonial tinha duas partes: a festa do lobolo, ou seja, a parte relacionada
com o pagamento da compensação matrimonial, que se fazia na aldeia da noiva; e o kulhoma,
chegada da noiva a aldeia do noivo, eu somente pude acompanhar a primeira parte.
A família do noivo, Macamo, vivem na cidade de Xai-xai. A cerimônia teve lugar em Janeiro de
2023 na casa do pai da noiva em Chongoene/Nhacutse. Para nossa presença no evento, solicitamos
antecipadamente à tia da noiva. Quando chegamos, pedimos aos nossos diversos informantes que
nos avisassem caso tivessem informação sobre a realização do lobolo. Foi assim que chegamos a
esta cerimônia.
Quando chegamos a casa da noiva ainda haviam poucas pessoas. Entre os presentes estavam dois
idosos, que mais tarde soubemos que eram da Igreja Presbiteriana, a congregação religiosa
frequentada pela família há pelo menos duas gerações, alguns tios e algumas tias. A pouca presença
de pessoas para este acto intrigou-nos no início, mas associamos o facto ao dia, pois se tratava de
uma sexta-feira.
Como tem sido habitual nos últimos tempos em Gaza, às famílias realizam as cerimônias de lobolo
às sextas-feiras nas vésperas dos casamentos religiosos e civis, que geralmente se realizam aos
sábados. Foi o caso do lobolo da Eugenia Maibaze.
24
Antes de início da cerimônia, conversamos com o senhor Joel Maibaze3, um dos tios mais velhos
do pai. Ele foi à casa do irmão na noite do dia anterior porque tinha que se juntar aos outros irmãos
para fazerem os últimos preparativos das cerimônias que iam ter lugar nos dias seguintes.
Nessa breve conversa quisemos saber o que aconteceria e o que é que se tinha feito antes. Ele nos
disse que como manda a tradição, nas primeiras horas da manhã, na alvorada, tinham feito o ritual
de kupalha, que se trata de uma invocação aos espíritos dos antepassados. É uma cerimônia em
que se apela a bênção e proteção dos espíritos dos antepassados. No campo, ela é feita no
ghandzelo, uma árvore especialmente escolhida como altar da casa.
Segundo Maibaze, nesse ritual informaram aos antepassados que a filha seria lobolada e pedida
em casamento pela família do Macamo. Este ritual é feito em quase todas as cerimônias familiares.
Chegamos a casa dos Maibaze por volta das 11 horas da manhã, mas a cerimônia só teve início
por volta das 16 horas. Mais tarde contaram-nos que a demora se deveu aos noivos que ainda não
tinham completado as coisas que serviriam para o lobolo. No tempo em que estávamos a espera
do grupo que viria da casa do noivo para lobolar, o noivo ainda estava no mercado tentando
completar as oferendas (roupa do pai, roupa da mãe, roupa da avó, bebidas cerimoniais) que os
seus familiares levariam para a casa da noiva.
No meio da impaciência e do murmúrio pela demora, eis que chega a delegação dos familiares do
Felisberto Macamo para fazer o lobolo. Entre eles estava um tio, irmão do pai do noivo,
acompanhado pela esposa, um amigo e vizinho da família do noivo e uma prima do noivo. Quando
chegaram eram aproximadamente 15:50 minutos.
Um grupo de senhoras foi à porta de casa receber os visitantes entoando, canções que ressaltavam
o valor do nascimento e do casamento. O atraso já estava consumado. A delegação da família do
noivo entrou dentro de casa e foi dirigida para sala. Os homens sentaram-se nas cadeiras e as
mulheres nas esteiras, junto às malas. Seguidamente, as famílias se reuniram, mas antes houve um
momento para dzungulisar dzanva, uma forma tradicional de cumprimentar em que se relata a
situação geral da família no atinente a saúde, doença e outros aspetos considerados importantes.
No Sul de Moçambique, entre os tsongas é uma forma tradicional de saudar as pessoas, sejam elas
familiares diretos ou não.
3
Entrevistado 9/12/2022 as 13h.
25
A delegação dos Macamo foi apresentada pelo tio do noivo. Pela parte dos anfitriões, coube ao
Maibaze mais velho da família a apresentação dos restantes membros da sua família. Sem demoras,
o grupo do noivado foi retirando da malinha e das pastas o conteúdo que trazia para o lobolo. Fora
já estavam as caixas de cerveja e de refrigerantes e as duas garrafas de vinho, tinto e branco.
O tio do noivo, entregou à lista ao Maibaze para que se fizesse o acompanhado e conferência dos
artigos. Ajoelhada na esteira, a prima do noivo começou a colocar cada artigo encima das esteiras
previamente estendidas no meio da sala. À volta estavam os assistentes serenos e atentos a cada
pormenor do que ali se passava.
Da esquerda para a direita foi pondo os seguintes artigos: roupa para o pai, composta por um fato,
uma camisa, uma gravata, um par de calças, um par de sapatos, um par de meias, um cinto e uma
bengala. Ao lado, foi colocando a roupa da mãe composta por uma blusa, um casaquinho, uma
saia, um par de sapatos, um par de meias de rede, brincos, lenços e 5 capulanas.
Depois foram colocadas as oferendas para a avó materna da noiva composta por uma blusa, duas
capulanas e um frasquinho de rapé. Seguiram-se os artigos para o avô paterno, compostas por
camisa, garrafa de vinho branco e um frasquinho de rapé.
Por cima das roupas foram colocados 3700 Meticais de lobolo e mais algum montante em moedas
para outras despesas inerentes a cerimônia. No fim, a prima do noivo tirou da mala a roupa da
noiva composta por um casaquinho, uma saia, um par meias compridas, um par de sapatos, um fio
de ouro, roupa interior, brincos de ouro e anel de ouro.
Os dois mestres de cerimônia fizeram a conferência dos artigos em função da lista previamente
elaborada e enviada pela família Maibaze. Esta lista é elaborada pela família da noiva no período
em que se começam a construir os passos para o lobolo. É enviada a casa do noivo com muita
antecedência a fim de permitir que ele se prepare e reúna os artigos nela contidos. Conclui-se que
estava tudo completo. As senhoras entoaram mais canções enquanto a noiva, que não a vimos
durante o tempo em que esperávamos os Macamo, se prepara para se dirigir a sala onde se iria
realizar a cerimônia.
Quando chegou, ajoelhou-se em frente ao tio que a perguntou: “Conheces estas pessoas que nos
vieram visitar?” E ela respondeu: “sim, as conheço”. O tio voltou a perguntar; “Podemos recebê-
las?” E ela respondeu: “Sim, podem recebê-las”.
26
Perguntaram-na se podiam receber as coisas e ela respondeu positivamente dando assim a anuência
ao acto. É ela que deve aceitar receber a visita, porque apesar de ter havido conversações
preliminares entre as duas famílias, é ela que lida com eles há mais tempo na companhia do seu
noivo. Naquele momento “só ela os conhecia”. Desta forma, o acordo entre as duas famílias estava
selado.
Seguiu-se um discurso do tio da noiva no qual além de explicar as causas daquela cerimônia falou
da importância do casamento na vida dos jovens. Religioso acérrimo foi misturando o seu discurso
com passagens bíblicas para enaltecer a importância da cerimônia. A fase que se seguiria era a
mais espetacular do evento. Muitas pessoas que se encontravam do lado de fora da sala onde
decorria a reunião, inclusive àquelas senhoras que até àquela hora se ocupavam pelos assuntos da
cozinha, se aproximaram para assistir a entrega dos artigos.
Na presença de todos, a noiva pegou numa nota de 100 meticais, ajoelhou-se a frente dos pais e
entregou-a a mãe. O tio, irmão da mãe retirou uma nota, cumprindo os preceitos tradicionais da
cerimônia.
Seguiu-se a fase de trocar de roupa. A noiva saiu com a prima do noivo, mas antes os visitantes
pagaram 10 meticais. A tia tirou 20 meticais e saiu com a mãe da noiva e o vizinho da família
Macamo tirou outros 20 meticais e saiu com o senhor Maibaze, neste caso, o pai da noiva. O
dinheiro acima somava 50 meticais e serviu para pagar a deslocação da noiva e dos pais para a
troca de roupa.
A mãe da noiva regressou com o novo traje e amararam-na uma garrafa de vinho nas costas, como
se estivesse para transportar um bebé. A garrafa representa a sua filha, noiva que era loboloda.
Depois amarraram outra capulana por cima para “protegerem a bebe” das intempéries do ambiente.
Minutos depois voltou o pai da noiva com o novo terno exibindo a sua bengala.
Seguiram-se os cantos e conversas entre as pessoas que assistiam a cerimônia. Toda a gente
cantava e sorria contente, batendo palmas. As duas famílias se felicitaram longamente. Os pais
mereceram atenção especial dos presentes e foram felicitados com abraços e beijinhos de muitas
pessoas que testemunhavam o lobolo da sua filha.
27
Esta é uma das passagens mais interessantes da cerimônia na minha perspectiva. As pessoas
dançam, cantam, lançam piadas, dramatizam o nascimento, simulam choros de bebe, simulam
mulheres com dores de parto, enfim, reconstituem-se cenas alegóricas ao dia-a-dia de uma mãe.
A tia da noiva recebeu a capulana, a blusa e o frasco de rapé em representação da avó paterna. Foi
felicitada e abraçou a sobrinha. O tio recebeu os trajes e o outro frasco de rapé em representação
do avô materno.
Depois da refeição a delegação dos Macamo se despediu e partiu. Era necessário recuperar o tempo
perdido, pois o dia seguinte seria para o casamento civil e religioso.
Neste quinto capítulo analisa-se e descreve-se as diversas perceções colhidas junto aos
entrevistados sobre as transformações que a prática e a cerimónia do lobolo sofreu nos últimos
anos e como que o lobolo é entendido nos dias que correm. No mesmo capítulo, além das narrativas
analisa-se também a interface desta prática face as percepções religiosas.
Tal como havia se enunciado outrora, o presente estudo mostra que, com o tempo, houve mudanças
nas formas de compensação matrimonial praticada no sul de Moçambique. Estas mudanças estão
relacionadas com o aumento e as formas dos valores materiais que ao longo do tempo foram sendo
introduzidas na prática deste fenômeno social. No entanto, estas mudanças, não parecem ter
alterado o estatuto e o valor do lobolo.
Segundo as nossas pesquisas, as mudanças do lobolo ocorreram por diversos factores, desde o
impacto do colonialismo e as guerras (as dispersões demográficas, o êxodo rural e urbano, as
28
imposições legislativas etc.), as negociações intrafamiliares, o desenvolvimento que a
modernidade trouxe e até o capitalismo tem impacto para essa prática. Mas quero reiterar que o
nosso objectivo não é fazer uma exploração profunda dos factores que desencadearam essas
mudanças, mas sim, olhar as percepções que os indivíduos constroem com base nas suas vivências
e relações desta prática.
“Hoje em dia os jovens chegam na sua casa e pede a lista de lobolo e esta
lista ele só leva e descarta. Enquanto nos nossos tempos quando a mulher
fosse ao lar e surgisse alguns problemas de saúde, de nascer filho ou
outros o marido vinha para casa da mulher e explicava a situação e a
família da mulher dizia que eles não podiam phahlar (invocar aos
espíritos) porque não conheciam ele, você apenas veio roubar nossa filha
é por isso que os espíritos estão à procura dela. Então era dai que o
homem começava a se movimentar para procurar meios para poder
chegar a casa da mulher para ter acesso a esse ritual de phahlar no caso
de problemas.”
Num outro momento, encontramos a perceção sobre as mudanças socioecónomicas do lobolo, e o
nosso entrevistado declarou o seguinte:
Houve uma grande mudança, mudança essa ligada aos custos do lobolo
porque antigamente lobolo ás vezes exigiam 100mt, 200mt ou outra coisa
que não fosse de um custo elevado, mas actualmente existe lobolos de
50.000mt que até exigem festa na conta de lobolante. Em detrimento do
lobolo antigo que era tido como aceitação das famílias e hoje em dia o
lobolo tende a ser kuessemusse (festas).
Novela5 declarou que actualmente existe um liberalismo e tolerância nociva por parte dos pais no
estímulo a prática do lobolo:
O que estragou o lobolo dos dias actuais é a forma como os pais lidam
com os filhos, antigamente nós eramos obrigados a respeitar a moça e
fazer o lobolo, enquanto agora, os pais toleram namoriscos e muitas das
vezes os rapazes só brincam com a filha e depois não assumem a
responsabilidade e assistimos desgraças nas famílias, é isso que está a
tirar o valor do lobolo, devemos conscientizar os jovens a importância
desta prática para as suas vidas.
4
Residente De Nhancutse, entrevistado no dia 9/12/2022, pelas 10h.
55
Líder religioso, entrevistado no dia 8/12/2022 em Nhancutse, as 11h.
.
29
E continuou dizendo o seguinte:
A nossa presença nesta cerimónia de lobolo já diz tudo, estamos aqui para
fazermos a nossa parte, a nossa igreja nunca estaria contra aquilo que
agrega mais valor para as relações sociais, é a mensagem que temos
passado tanto para os nossos fiéis assim como para outras congregações
religiosas “se o lobolo faz bem e traz coesão para a sociedade, então
porque ficar contra?”
Na generalidade, vimos que a percepção de mudança está diretamente ligada a um sentimento de
alteração das instituições sociais. Uma instituição social é a norma de comportamento estabelecido
que é reconhecido por um certo grupo ou classe social ao qual pertence (Radcliffe-Brown
1973:22).
30
Durante as conversas com os nossos entrevistados, pudemos perceber que os ritos tiveram uma
grande importância na sociedade tradicional tsonga, pois determinavam os valores morais e
culturais de muitas gerações. Na percepção dos actores locais, a transformação social e a supressão
drástica destes ritos, iniciada com a colonização até os nossos dias, levaram a nova geração a
perder a sua referência moral, sociocultural e religiosa. Neste contexto, Mussane (2009) afirma
que O lobolo instituía um conjunto complexo de normas, de práticas e de padrões do
comportamento entre parentes. Estabelecia a relação social e a relação moral que deviam existir
entre as pessoas e as normas de comportamento que se refletiam em toda a comunidade. É a
alteração nas relações morais e no comportamento a ele relacionados que é entendido como parte
das causas de mudança social nesta comunidade.
Com tudo, as perceções acima demostram que desde sempre o lobolo foi sofrendo algumas
transformações, em função de mudanças a nível social, económico, político e religioso, porém,
como já referiu Granjo (2005) o seu valor simbólico e cultural nunca foi posto em causa. Pode-se
concluir que seja qual for o valor que a “transação” do lobolo represente, do ponto de vista
antropológico deve-se reconhecer que a sua maior peculiaridade está no seu valor simbólico como
fenômeno cultural.
31
VI. Conclusão
Esta pesquisa consistiu na tentativa de olhar para o lobolo enquanto um factor de transformação e
mudança nas vivências socias, esta pesquisa teve um especial enfoque especial em analisar
perceções e significados atribuídos à prática do lobolo no contexto actual no distrito de
Chongoene/Nhacutse na província de Gaza.
Para este estudo, olhamos o lobolo, como fenômeno social total, para analisar e interpretar as
mudanças na sociedade Changana, como diz Mauss (1974): o fato social total deve ser apreendido
de uma experiência concreta; numa sociedade localizada no tempo e no espaço. Tivemos o auxílio
da perspectiva de Granjo (2005) na qual olha o lobolo como uma prática essencialmente que
estabelece uma relação entre o casal, as famílias e os antepassados.
Tomando em conta os diversos momentos pelos quais este passou, e às diversas explicações e
significados a ele atribuídos, procuramos compreender de que forma as percepções e
representações sociais podem explicar a perpetuação do lobolo no contexto de mudanças e
transformações sociais, tendo em conta que as acções das pessoas têm sido orientadas pelas
percepções que se têm sobre um determinado fenómeno.
O estudo mostrou-nos que o peso da mudança é mais simbólico, ou seja, cultural do que material,
pois a troca das enxadas pelo gado e deste pelas libras esterlinas ou pelo Metical foi sempre
equivalente. Não é ao nível de objetos físicos que esta instituição mudou, mas ao nível do seu
significado. E esta mudança vem se refletindo na sociedade, sobretudo no período posterior a
independência, período que como mostramos no Capítulo 2, o peso da tradição foi preterido.
Na nossa pesquisa empírica, observamos ainda que o papel outrora desempenhado pelos anciãos
da família passou a ser desempenhado pelos anciãos da igreja. Na família os anciãos eram vistos
como depositários da tradição, as “bibliotecas” da família, são eles que quando morrem se
“transformam” em deuses da família e sempre foram fonte de referência para a educação das novas
gerações.
32
Face a literatura consultada e a realidade constatada, relativamente a continua perpetuação do
lobolo na actualidade independentemente dos vários factores que concorrem e concorrerão para o
seu abandono, como afirma Granjo (2005) o lobolo está acima de todas as formas de instituição
matrimonial e por mais que se passem os tempos, mudam-se os hábitos o lobolo estará lá,
indestrutivo, desempenhando o seu papel. O lobolo vai para além das adaptações culturais e das
considerações financeiras, ele se reproduz por si, é como se fosse a essência de si mesmo, através
de uma base inconsciente.
33
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35