Governo do Estado do Rio Grande do Norte
Secretaria Estadual de Educação e da Cultura – SEEC
UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE – UERN
Curso: Letras Língua Portuguesa
Disciplina: Literatura Portuguesa III
Docente: Profa. Maria Aparecida da Costa
Discentes: Leonardo da Conceição
Luana Tainara Feitosa da Silva
Maria Cleane de Souza Santos
Pedro Raimundo da Silva Neto
Thalia Fernanda de Oliveira Silva
Caim José Saramago
"Que diabo de Deus é esse que para enaltecer
Abel despreza Caim"?
(José Saramago)
Seguindo o niilismo e o relativismo éticos europeus e americanos dominantes,
o romance português hoje, em geral:
a) Não visa ensinar nada a ninguém (não é culturalmente moralista; não é
socialmente proselitista);
b) Não apresenta situações dramáticas exemplares como modelo de acção para o
leitor (os autores não possuem uma doutrina filosófica enformadora dos seus textos);
c) Não sacraliza nenhum Deus;
d) Não denuncia nenhum demônio;
e) Não ostenta nenhuma bandeira nem combate outra adversa.
(REAL, 2012, p. 53)
Do que se trata o Romance?
O romance "Caim" de José Saramago, é uma ficção baseada nos
acontecimentos dos primeiros livros da Bíblia, desde o princípio do
Jardim do Éden ao dilúvio, em que o protagonista Caim, após matar seu
irmão Abel, devido a injustiça que se estabeleceu entre eles quando iam
ofertar a deus o fruto do seu trabalho. Como castigo, Caim iria penar
pelo mundo, sem um destino concreto e presenciar muitas crueldades
que deus ordena e julga seu povo, o que fará ele questionar esse
comportamento que o deus do povo tem.
O papel feminino no Romance
Eva
Está lá "aquele querubim de sentinela à porta
com a sua espada de fogo, não é um anjo
qualquer, de segunda ou terceira categoria, sem
peso nem autoridade, mas um querubim dos
autênticos, como quererás tu que ele vá
desobedecer às ordens que o senhor lhe deu,
esta foi a sensata pergunta, Não sei, e não vou
saber enquanto não o intentar, E se não
conseguires, Se não conseguir, não terei perdido
mais que os passos para lá e para cá, e as
palavras que lhe disser, respondeu ela,” (P.22)
“Estava surpreendida consigo mesma, com a liberdade com
que tinha respondido ao marido, sem temor, sem ter de
escolher as palavras, dizendo simplesmente o que, na sua
opinião, o caso justificava. Era como se dentro de si
habitasse uma outra mulher, com nula dependência do
senhor ou de um esposo por ele designado, uma fêmea que
decidira, finalmente, fazer uso total da língua e da
linguagem que o dito senhor, por assim dizer, lhe havia
metido pela boca abaixo”. (p.23)
O jardim do éden já está perto, vêem-se
distintamente as copas das árvores mais altas. Eva
caminha mais lentamente que antes, e não é
porque se sinta cansada. Adão, se aqui estivesse,
de certeza se riria dela, Tão valente, tão valente, e
afinal vais aí cheia de medo. Sim, tinha medo,
medo de falhar, medo de não ter palavras
suficientes para convencer o guarda, chegou
mesmo a dizer em voz baixa, tal era o seu
desânimo, Se eu fosse homem seria mais fácil”.
(P.23-24)
O papel feminino no Romance
Lilith
“A cidade, por assim dizer, ainda não tem nome, uns
chamam-lhe de uma forma, outros de outra, de toda a
maneira estes sítios são conhecidos por terra de Nod, Já o
sabia, disse-mo um velho que encontrei ao chegar, Um velho
com duas ovelhas atadas por um baraço, perguntou o
olheiro, Sim, Aparece por aí às vezes, mas não vive cá, E o
senhor daqui, é quem, O senhor é senhora e o seu nome é
Lilith, Não tem marido, perguntou Caim, Creio ter ouvido
dizer que se chama Noah, mas ela é quem governa o
rebanho, disse o olheiro,” (P. 49)
“Regressaram ao palácio, desta vez pela parte edificada
anterior à ampliação em curso, e aí viram num balcão uma
mulher vestida com tudo o que devia ser o luxo do tempo e
essa mulher, que à distância já parecera belíssima, olhava-
os como absorta, como se não desse por eles, Quem é,
perguntou Caim, É Lilith, a dona do palácio e da cidade,
oxalá não ponha os olhos em ti, oxalá, Porquê, Contam-se
coisas, Que coisas, Diz-se que é bruxa, capaz de
endoidecer um homem com os seus feitiços,”
“Lilith lançou ao homem um olhar apreciador, pareceu
gostar do que viu e finalmente disse, Estarás sempre
nesta antecâmara, de dia e de noite, tens ali o teu
catre e um banco para te sentares, serás, até que eu
mude de ideias, o meu porteiro, impedirás a entrada de
qualquer pessoa, seja quem for, no meu quarto, salvo
as escravas que o vêm limpar e arrumar, Seja quem for,
senhora, perguntou Caim sem aparente intenção, Vejo
que és ágil de cabeça, se estás a pensar no meu
marido, sim, também esse não está autorizado a entrar,
mas ele já o sabe, não tens que lho dizer”, (56-57)
A questão da homossexualidade
“É possível, sim, e não será apenas Sodoma, será também Gomorra e
duas ou três outras cidades da planície, onde os costumes sexuais se
relaxaram por igual, os homens com os homens e as mulheres postas de
parte,” (P. 94)
Deus e Caim
“Um dia Caim pediu ao irmão que o
acompanhasse a um vale próximo onde
era voz corrente que se acoitava uma
raposa e ali, com as suas próprias mãos,
o matou a golpes de uma queixada de
jumento que havia escondido antes num
silvado, portanto com aleivosa
premeditação”. (P.33 - 34)
Que fizeste com o teu irmão, perguntou, e Caim
respondeu com outra pergunta, Era eu o guarda-
costas de meu irmão, Mataste-o, Assim é, mas o
primeiro culpado és tu, eu daria a vida pela vida
dele se tu não tivesses destruído a minha [...]
bastaria que por um momento abandonasses a
soberba da infalibilidade que partilhas com
todos os outros deuses, bastaria que por um
momento fosses realmente misericordioso, que
aceitasses a minha oferenda com humildade, só
porque não deverias atrever-te a recusá-la”
(P.34)
“Se o senhor, que, segundo se diz, tudo
sabe e tudo pode, tivesse feito sumir dali
a queixada de burro, eu não teria
matado Abel, e agora podíamos estar os
dois à porta da casa a ver a chuva cair,
e Abel reconheceria que realmente o
senhor havia feito mal em não aceitar o
único que eu tinha para lhe oferecer” (P.
40)
“Teria de chegar o dia em que alguém te colocaria
perante a tua verdadeira face, Então a nova
humanidade que eu tinha anunciado, Houve uma,
não haverá outra e ninguém dará pela falta, Caim
és, e malvado, infame matador do teu próprio irmão,
Não tão malvado e infame como tu, lembra-te das
crianças de Sodoma. Houve um grande silêncio.
Depois Caim disse, Agora já podes matar-me, Não
posso, palavra de deus não volta atrás, morrerás da
tua natural morte na terra abandonada e as aves de
rapina virão devorar-te a carne, Sim, depois de tu
primeiro me haveres devorado o espírito.” (P.172)
Afinal, quem é o vilão dentro do Romance: Deus ou Caim?
Referências
REAL, Miguel. O romance Português Contemporâneo 1950-2010. 2 ed. Portugal: Editorial
Caminho, 2012;
SARAMAGO, J. Caim. 2 ed. São Paulo: Companhia das letras, 2017.